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Clélia

Romano, DMA
Astrologia Tradicional
Na Prática
Editora
Clelia Maria Virginia Robortella Romano
2015
ÍNDICE GERAL
Indice de Figuras
Prefácio
Nota da Autora
Capítulo 1º
Temperamento
Capítulo 2º
A delineação da personalidade e da alma do nativo
O Almutem Figuris
Abordagem Helenística da Alma
Capítulo 3º
Partes Árabes, Outro tipo de Linguagem
Lots Herméticos apresentados por Paulo de Alexandria
Outras Fórmulas de Lots
Capítulo 4º
Natureza e significado dos Planetas na literatura
Medieval e Helenística
Natureza e significado de Saturno
Natureza e Significado de Júpiter
Natureza e Significado de Marte
Natureza e Significado do Sol
Natureza e Significado de Vênus
Natureza e Significado de Mercúrio
Naturez e Significado da Lua
Capítulo 5º
Técnica Geral de Delineação
Distribuição dos Planetas na carta
Forma de Delineação Geral
Regras Gerais para Delinear uma Casa
Os Aspectos.
Capítulo 6º
O método de Triplicidades de Andarzagar
Capítulo 7º
A Longevidade do Nativo
As quatro differentia
Como encontrar o hyleg
Método Ptolomaico
Método Árabe-Medieval
Exemplificação e Discussão
Observações e Exceções
O Anareta ou o Planeta Destruidor
Conclusão
Capítulo 8º
O Ascendente- Motivação Primária
Capítulo 9º
Significador Financeiro
A detalhada técnica de Bonatti
Quando o Nativo obterá Substância
Exemplo do Uso da Técnica
Capítulo 10º
Os irmãos, viagens e comunicações
Outras Considerações Sobre Irmãos
Capítulo 11
Os pais e a família
A Casa Mundana referente à Mãe
A Profissão do Pai e da Mãe
A Quantidade de Vida do Pai e da Mãe
A Harmonia Entre Pais e Filhos
Capítulo 12
Os Filhos
Exemplificação
Delineação do número de Crianças
Se os filhos serão homens ou mulheres
Quando os Filhos são Prometidos
Valor dos Filhos Para o Nativo
Capítulo 13
Empregados e sua utilidade, os animais domésticos
As doenças do nativo
Casa 6 e os Talentos do Nativo
Capítulo 14
Casamento, Parcerias e Inimigos Declarados
A contribuição de Vettius Valens
A contribuição Árabe-Medieval
O método para investigar o casamento masculino e o feminino
Observações sobre o Casamento Maculino
Sobre o ato sexual do nativo
O tipo de mulher que o nativo terá
Sobre o Casamento da Mulher
Que tipo de Marido a Nativa Terá
As Diferenças entre o Casamento Feminino e Masculino
Capítulo 15
A morte, as heranças e os bens de terceiros
A Qualidade da Morte
O 40º dia da Lua
Capítulo 16
Deus, religião, estudos, sonhos, profecias e viagens
Capítulo 17
Significador Profissional
Capítulo 18
O suporte, as esperanças e os amigos
As Esperanças
As Amizades
Capítulo 19
Inimigos ocultos e restrições de toda espécie
Capítulo 20
Fama e Eminência na Carta
Julgamento pelos Senhores da Triplicidade do luminar da Seita
Parte da Fortuna no Julgamento da Eminência
Local da Exaltação da Carta
Doryphorya ou Dasturyya
Estrelas
Os Vários Graus de Eminência e a Escravidão
Capítulo 21
Abordagem Psicológica na Astrologia Tradicional- A Felicidade na Carta
Bibliografia de apoio
ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1A - O Uno
Figura 1 B- Dividão do Dia e da Noite
Figura 1 C- Divisão do Quadrantes
Figura 1 D -Esquema do Quaternário
Figura 2 A- Adolph Hitler
Figura 2 B- Tabela para mensuração do Temperamento de Adolph Hitler
Figura 3 A- Exemplo Almutem Figuris
Figura 3 B- Tabela para Cálculo do Almutem Figuris
Figura 4- Esquema do Quaternário
Figura 5- Exemplo Forma de Delineação Geral
Figura 6- Exemplo Delineação nº2
Figura 7- Aspectos Dextros e Sinistros
Figura 8 A- Tabela de Anderzagar para Natividades diurnas
Figura 8 B- Tabela de Anderzagar para Natividades Noturnas
Figura 9- Nato Chico Xavier-
Figura 10- Nato Willian Anderson
Figura 11 A- Nata Rebeca Cassidy
Figura 11 B- Nata Rebeca Cassidy-Carta em formato Tradicional.
Figura 11C- Tabela para Cáculo do Almudebit
Figura 11 D- Carta morte de Rebeca Cassidy
Figura 12 – Nato Edouard M Castro
Figura 13- Exemplificação Longevidade nº1
Figura 14- Tabela Anos dos Planetas.
Figura 15- Exemplificação Longevidade nº2
Figura 16-Nata Princesa Diana
Figura 17 A- Tabela Anareta de Princesa Diana
Figura 17 B- Tabela 2 Anareta de Princesa Diana.
Figura 18A- Exemplo Motivação Primária.
Figura 18 B - Carta Quadrada Parte do Espirito, Parte da Fé e Parte do Hyleg
Figura 19 -Tabela de Dignidades Essenciais
Figura 20- Carta exemplo Significador Financeiro
Figura 21- Nato Exemplo delineação de irmãos
Figura 22 A - Nato Pai Desconhecido
Figura 22 B - Tabela Almuten do Pai
Figura 22 C -Tabela Almuten da Mãe
Figura 23- Nato Alexis Czarevitch
Figura 24- –Nato sem Filhos nº1
Figura 25- Nato sem filhos nº2
Figura 26- –Nata 6 filhos nº 1.
Figura 27- Nata 6 filhos.nº2
Figura 28- Nata Betty White
Figura 29 -Nata Whitney Houston.
Figura 30- Nata Viciada em Cocaina.
Figura 31- Nato Jogador Compulsivo
Figura 32 A- Nata problemas ósseos
Figura 32 B- Nato tumor cerebral
Figura 33- Nata Prostituta
Figura 34- Nato Lord Byron
Figura 35A- Nato atividade sexual
Figura 35B- Tabela Almutem Casamento Masculino.
Figura 36- Nata atividade sexual.
Figura 37- Nato Morte Suave
Figura 38 A- Nato Louis Riel Enforcamento
Figura 38 B -Anareta Louis Riel
Figura 38 C -Carta do 40º dia da Lua
Figura 39 -Nato viagens de negócios
Figura 40- Nato Paul Foster Case-.
Figura 41- Nato Chay Blith-
Figura 42 -Nata sem profissão
Figura 43- Nato Paul Foster Case
Figura 44- Nata Parte da Vitória
Figura 45 A- Nata Muitas Amizades.
Figura 45 B-Tabela Almuten sobre amizades
Figura 46A- Nata Inimigos Ocultos
Figura 46 B- Tabela Almuten Inimigos Ocultos
Figura 47 -Nata Queen of France Margherite I
Figura 48- Exemplo de Dorifória de Antigonus de Nicea
Figura 49- Nato Bill Clinton
Figura 50- Nato Pelé
Figura 51- Nata Clélia Romano
PREFÁCIO

D
iferentemente de meu primeiro livro, “Fundamentos da Astrologia Tradicional”,
lançado em 2010, meu objetivo agora foi abandonar a visão geral em prol do
aprofundamento da técnica de delineação de cada tópico da carta.
A leitura do primeiro livro continua importante, pois lá foram abordadas noções gerais
que não serão repetidas agora. De fato, muito do presente livro se apóia naqueles
fundamentos, sobre os quais desdobramentos e novas técnicas serão apresentados.
A delineação correta é extremamente valiosa, pois fornece base sólida aos passos
seguintes ligados à predição.
Os astrólogos medievais distinguem as duas coisas, delineação e previsão, mas muitas
vezes ambas se entrelaçam. Por exemplo, se delinearmos uma natividade concluindo que o
nativo possui grande potencial financeiro, de certa forma isto já é uma predição. No
entanto, só através de outras técnicas específicas pode-se saber quando algo vai suceder e
assim localizar um evento dentro da linha do tempo para determinado nativo.
Este livro apresenta principalmente as técnicas medievais de delineação, mas elas
serão entremeadas de noções aprendidas na filosofia e astrologia helenística.
Além disso, achei importante introduzir minha própria visão crítica sobre pontos que
não se sustentam ou que se repetem tradicionalmente de forma mecânica pela força do
hábito ou amor à tradição: são necessárias indagações mais profundas. Posso dizer que
uma das tarefas mais exigentes durante o tempo que dediquei a este livro foi justamente
apresentar minha opinião em assunto de tanta responsabilidade, sem cair em modernismos
vazios ou invencionices sem base e sem bons motivos.
Durante a época medieval a sociedade não era incentivada à argumentação. Mesmo a
elite intelectual estava inserida dentro de uma men-talidade que não dava margem à
criatividade que porventura ameaçasse os conceitos da Igreja. Especular sobre o
sobrenatural, como por exemplo, os daemons da astrologia helenística,assim como a
relação da astrologia com a magia, seria considerado heresia e poderia causar sérios
inconvenientes ao astrólogo.
Talvez essa seja a razão de encontrarmos conceitos astrológicos medievais mecânicos
e pouco críticos.
Já a astrologia helenística que não sofreu essas limitações, sendo ampla e exercitando
a cada momento o pensamento dialético, em certos momentos perde-se mais nas perguntas
do que nas respostas, revelando-se por vezes criptica, misteriosa, feita por e para iniciados,
carecendo da clara sistematização e do pragmatismo que a astrologia medieval nos
apresenta.
Historicamente a astrologia helenística foi contemporânea ao Império Romano e durou
até cerca de 900 DC. Suas origens datam de algumas centenas de anos antes. Foi
fortemente influenciada pela cultura egípcia e pela filosofia grega, embora Robert Schmidt
tenha chegado à conclusão que a filosofia grega é que se apoiou na cosmologia e na
relação entre os astros para se desenvolver e não o contrário, e esta é certamente uma
hipótese fascinante.
Durante o Império Romano esta astrologia foi difundida em língua grega, a língua dos
cultos e literatos. Quando o Império Romano caiu, a astrologia helenística sobreviveu no
mundo oriental, especialmente no Império Bizantino.
Já com a ascensão do Islã a astrologia Medieval estabeleceu-se como um sistema,
tendo recebido grande influência persa.
Sabe-se que os persas eram entusiastas da astrologia. Eles devem ter desenvolvido sua
propria tradição a partir do que herdaram dos mesopotamios e dos gregos. Porém, quando
os árabes tomaram o poder quase toda literatura sassanida zoroástrica foi destruída,mas
muitos dos grandes astrologos árabes eram persas e mantiveram oralmente o que tinham
aprendido.
A astrologia que ensinavam era diferente da indiana e da grega. Trabalhavam com
orbes para os planetas, com os grandes ciclos de Júpiter e Saturno e com todo o elaborado
sitema de frustração, translação de luz, corte da luz, etc.
A astrologia Medieval utilizou tais ensinamentos, mas também se nutriu
abundantemente de fontes helenísticas: a valorização dos ângulos da carta, a utilização de
várias dignidades além do domicílio dos planetas, as triplicidades (chamados trigons em
grego) e as profecções, uma importante medida de predição, tudo isso tem origem na
astrologia de língua grega.
Absorvendo todas estas influências a astrologia Medieval enriqueceu-se sobremaneira.
Nesta obra tentarei apresentar tanto a sistematização própria da astrologia Medieval
como a mais filosófica visão helenística.
Quanto aos autores, apoiei-me na bibliografia citada ao final deste volume e
recomendo ao leitor especialmente os trabalhos de Vettius Valens, Antiochus, Hephaistio,
Paulo de Alexandria, Masha´allah, Abu Mashar, Abu Ali ( Aboali) antes do século X de
nossa era, IbnEzra (sec. XII) e Guido Bonatti (sec. XIII) cujo Livro de Astronomia é um
dos mais compreensivos tratados sobre a matéria da época medieval. Com o passar dos
séculos houve mais alguns desenvolvimentos com Morin, Johanes Kepler e W. Lilly
(século XVII).
Em torno de 1700 a longa tradição astrológica foi seriamente prejudicada, começando
a ser retomada só em meados do século passado com Olivia Barclay na Inglaterra e Robert
Zoller nos Estados Unidos.
NOTA DA AUTORA

O
autor é resultado de seus estudos e de sua experiência técnica e exitencial.
Durante o tempo em que me dediquei a escrever este livro recebi influências
importantes no que diz respei-to ao pensamento astrológico helenístico. Daí que
não pude me furtar a complementar alguns textos e técnicas medievais com certo pensar
filosófico que não pertence a elas e sim à cosmologia de Platão, a Anthiocus, Porfirius,
Rhetorius, Vettius Valens, etc. Penso que o estudante da Arte só tem a ganhar com isso,
pois alguns conceitos são esclarecidos e ampliados quando se estuda a astrologia
helenística.
Por outro lado, nem tudo foi explicado minuciosamente, pois o que se espera do
estudante é que, incentivado pelo gosto da matéria, dedique seus pensamentos a tentar
desenvolvê-la e tornar inteligível o que a prin-cípio parece obscuro.
Há passagens muito herméticas em diversos autores tradicionais, especialmente
helenísticos, uma vez que o principal objetivo de cada obra, muitas vezes sequer escrita
por seu autor, mas por seus discipulos, era fomentar o pensamento e a dialética. Isto é
válido para o Timeu de Platão, para a obra de Antiochus e Vettius Valens.
Muitas vezes o leitor encontrará afirmações que parecem absolutas. Por exemplo:
quando Saturno estiver em Áries o nativo verá a morte de irmãos. Ora, Marte é o
significador universal de irmãos e Saturno é o significador universal da destruição, mas
para afirmar esse tipo de coisa é preciso ver se Saturno ou Marte regem o tópico dos
irmãos. Há afirmações nos livros tradicionais que parecem uma receita pronta, mas os
autores nem sempre esclarecem que o resultado final só ocorre se os planetas regerem
aqueles tópicos.
A matéria aqui tratada é árdua e o leitor se defrontará inúmeras vezes com a
expressão:“-não é um livro de receitas”. Pois bem, é verdade: não há receitas prontas. A
relação entre autor e leitor é uma relação comensal: os dois se alimentam juntos. O autor,
de um lado, doa o que sabe em determinado momento de sua vida e isto o realiza porque
seus leitores se desenvolvem, crescem e evoluem. No entanto, a digestão mental como a
físiológica é feita solitariamente e individualmente.
Quero crer que apresento aqui algo importante e util. Resta esperar que cada um de
vocês faça sua parte, sem pressa ou imediatismo porque a matéria requer sedimentação e
tempo.
O que posso garantir é que seguindo os princípios que lhes apresento, mais cedo ou
mais tarde serão capazes de dar vida a uma carta astrológica: saberão quem é o nativo e o
conhecerão em profundidade.
Outro ponto a esclarecer é a metodologia que adotei no livro. Existem muitos capítulos
introdutórios como preâmbulos, a ponto de começarmos a análise do Ascendente somente
no Capítulo 8.
Não foi possível ser mais concisa sob pena de gerar certa desordem.
Por exemplo, era importante introduzir um capítulo anterior à análise da primeira casa,
o qual versou sobre o Temperamento. A seguir, a visão psicológica do nativo também era
importante e ela foi introduzida através do Almutem Figuris, uma técnica que geralmente
se apresenta no final.
Além disso, o frequente uso das Partes Árabes que iremos adotar reportou-me ao
âmago do sentido delas e à filosofia hermética e platônica. O uso das Partes na astrologia
Medieval nunca me pareceu justificável, pois há fórmulas iguais sendo usadas para
sentidos diferentes e, além dis-so, existe um número muito grande de partes, a ponto de
emaranhar a delineação e confundir mais do que esclarecer.
Não posso dizer que tenha chegado a uma certeza absoluta e imutável sobre o sentido
das Partes, mas é possível que minhas ideias sobre as mesmas, inspiradas em fontes
filosóficas, estejam mais perto do que é correto.
Foi preciso, então, escrever um capítulo somente com o intuito de ex-plicar a maneira
como as Partes serão usadas neste livro e por que diferi neste ponto do ensinamento
medieval.
Peço a paciência do leitor nos primeiros capítulos, pois sua apresenta-ção nesta ordem
foi necessária para que pudesse seguir adiante sem mais delongas.
Por fim, confidencio que o presente livro demandou enorme esforço e dedicação
visando estar à altura da responsabilidade que assunto tão complexo demanda.
Além disso, eu mesma mudei e tive que adaptar capítulos inteiros a novos pontos de
vista. Isto, por mais desesperador que fosse, levou-me a aprender um pouco mais. No final
o resultado parece muito mais profundo e espiritual.
Espero que seja útil a vocês.
Clélia Romano
Fevereiro,2013
1º CAPÍTULO
O ESTUDO DO
TEMPERAMENTO

E
sta é uma matéria importante que se relaciona à compleição e à primeira casa ou
Ascendente. Tal estudo mostra a saúde do corpo pelo balanceamento correto das
qualidades primitivas e por exten-são mostra também algumas predisposições da
personalidade e determinadas aptidões.
Para entenderem em que se baseia tal estudo e qual seu alicerce filo-sófico começarei
fazendo uma pequena digressão.
Digamos que o princípio original, o Uno do qual tudo emana, no dizer de Plotino, um
filósofo neoplatônico, seja um ponto sem lugar fixo no espaço.
Correndo o risco de ser simplista quanto a ideias filosóficas em prol do didatismo,
imaginemos que este ponto fosse ampliado e teríamos a figura abaixo:

Figura 1A
Imaginem que tal ponto fosse banhado pela escuridão e que então a luz se tenha feito.
Com a luz criou-se o dia e a noite.1
Figura 1B
O dia é quente e masculino e a noite é fria e feminina.
A seguir as águas, úmidas e dispersas e a terra, seca e contraída, foram separadas e
obtemos o seguinte desenho:

Figura 1C
Esta é a base para identificação das 4 qualidades, quente, fria, seca e úmida. A essa
base foram correlacionados os quatro temperamentos, as quatro idades do homem, as
quatro fases da Lua, as quatro partes dos dias, as quatro estações, os quatro elementos (
água, terra, fogo e ar), os quatro signos cardeais, as quatro direções, os quatro tipos de
ventos2, os quatro ângulos, os quatro quadrantes, etc.
Figura 1D
Na figura 1D o primeiro quarto superior do círculo é quente e úmido tendo, portanto
relação com a manhã, a Primavera e os signos de Áries, Touro e Gêmeos. Tem relação
também com a infância, com a dispersão e com o temperamento sanguíneo. Seu fluido é o
sangue.
O segundo quarto do círculo é quente e seco, tendo, portan-to relação com o meio dia,
o Verão e os signos de Câncer, Leão e Virgem: corresponde à maturidade, à época em que
construímos nossos objetivos, pois este quarto tem foco e objetividade. É relacionado com
o temperamento colérico e seu fluido é a bile amarela.
O terceiro quarto é frio e seco tendo relação com a tarde, o outono e os signos de
Libra, Escorpião e Sagitário: corresponde à velhice, quando é construída uma casca para
proteger o fruto, tanto que o outono representa o fruto dentro da casca. Tem relação com o
temperamento melancólico e seu fluido é a bile negra.
O quarto pedaço restante é frio e úmido, tendo relação com a madrugada e os signos
de Capricórnio, Aquário e Peixes: corresponde à morte, a estar sob a terra como as
sementes largadas pelos frutos da esta-ção anterior. Aqui cabe a frase: águas paradas
correm profundas, pois por baixo da terra há grande atividade que prepara a nova vida que
brotará na Primavera. Tem relação com o temperamento fleumático e seu fluido é a
fleuma, ou catarro.
O que há de mais importante na investigação do temperamento é levar as estações em
conta e de forma correta.
Portanto os temperamentos são:
Colérico – Quente e seco
Melancólico – Frio e seco
Fleumático – Frio e úmido
Sanguíneo – Quente e úmido
Seguem algumas palavras- chave para os temperamentos:
Colérico - Qualidade quente e seca: Vontade forte, ambição, irascível, fisicamente
bem definido, robusto, brigão, vingativo, inoportuno, arrogante, ousado,
imprudente, engenhoso, sedutor, tirano, otimista, inesgotável, agressivo,
afirmativo, gosta de comandar, impaciente, odeia detalhes, exige demasiado e dá
demasiado, extremista, gosta de reconhecimento público, muito inquieto,
excessivo, brincalhão, mordaz, nervoso e astuto.
Sanguíneo - Qualidade quente e úmida: sociável, amigável, não se mantêm no
mesmo lugar por muito tempo, fisicamente bem proporcionado, alegre, generoso,
dedicado, afável, pacificador, honesto, modesto, religioso, superficial, distraído,
otimista, fiel, liberal, cortês, misericordioso e confiável.
Melancólico - Qualidade fria e seca: detalhista, ponderado, lógico, tendências
depressivas, fisicamente magros, estatura média, prudente, lento a resolver
assuntos, fraudulento, teimoso, invejoso, duvidoso, triste, temeroso, insubordinado,
inexorável, ambicioso, taciturno, antissocial, analítico, pessimista, conhecedor,
estudioso, desconfiado e solitário.
Fleumático - Qualidade fria e úmida: emoção controlada, mas de sentimentos
fortes, fisicamente cheios e baixos, covarde, indolente, dedicado, inconstante,
linguarudo, preguiçoso, contemplativo, reservado, tímido, resignado, lento,
profundo estudioso, caseiro, hesitante, invejoso, mesquinho, egocêntrico,
envergonhados, ganancioso e sóbrio.
Alguns astrólogos imaginam que no hemisfério sul deva-se inverter e usar Libra como
início da Primavera e não Áries. Em primeiro lugar tal divisão advém da filosofia
platônica e não se baseia na lógica cartesiana. Em segundo lugar tal construção foi
realizada baseada em semelhanças céu-terra no hemisfério norte, berço da astrologia
ocidental. Os filósofos-astrólogos viviam no hemisfério norte e não na Patagônia.
Tudo que aprendemos em astrologia vem da experiência do hemisfério norte, desde a
Babilônia, passando pelas contruções cosmofilosóficas do platonismo, estoicismo, da
astrologia helenística em geral e em seguida dos árabe-medievais e europeus.
Para o levantamento do ponto do Ascendente foi claramente indicado que devemos
levar em conta a latitude e a longitude da carta, mas nada foi dito quanto aos
temperamentos no sentido de usarmos as estações de acordo com o local onde o nativo
vivie ao nascer. O simbolismo das estações repousa na vivência dos povos europeus e,
mais do que a estação física do ano estamos falando em arquétipos que devem ser
respeitados sempre que a astrologia ocidental for usada, mesmo se o nativo viver na
Antártida.
Platão fala das formas universais e em sua cosmogonia a adoção do zodíaco tropical
foi incentivada justamente pela ideia de um zodíaco perfeito e imutável como as formas
primordiais. De fato, a precessão dos equinócios, que nos daria o zero de Áries
retroagindo no tempo era considerada uma imperfeição.
Portanto, a busca da forma perfeita se materializou na ideia do zodíaco tropical, que
não muda nunca e se baseia em princípios mais elevados, fixos e imutáveis.
Esta é a validade filosófica de manter, da mesma forma, a ideia de estações imutáveis
em seu significado astrológico.
A partir de agora fornecerei uma tabela de como devem ser consideradas as qualidades
e os elementos, a fim de podermos calcular o temperamento.
NATUREZA ELEMENTAR DOS PLANETAS, DE ACORDO COM A
MAIORIA DAS FONTES TRADICIONAIS:
Saturno: Frio e Seco
Júpiter: Quente e Úmido
Marte: Quente e Seco
Sol: Quente e Seco
Vênus: Fria e Úmida inclina-se ao temperado
Mercúrio: Frio e Seco inclina-se ao temperado
Lua: Fria e Úmida, muda de acordo com sua estação para com o
Sol( vide abaixo)
NATUREZA DA LUA DE ACORDO COM SUAS FASES
Primeiro Quarto Crescente ( 0º a 90º): Quente e Úmida
Segundo Quarto Crescente ( 90º a 180º): Quente e Seca
Primeiro Quarto Minguante ( 180º a 90º): Fria e Seca
Segundo Quarto Minguante ( 90º a 0º): Fria e Úmida
NATUREZA DOS SIGNOS POR TRIPLICIDADE:
Áries, Leão e Sagitário: Quente e Seco (colérico)
Touro, Virgem e Capricórnio: Frio e Seco ( melancólico)
Gêmeos, Libra e Aquário: Quente e Úmido (sanguíneo)
Câncer, Escorpião e Peixes: Frio e Úmido ( fleumático)
NATUREZA DO SOL DE ACORDO COM AS ESTAÇÕES DO ANO
(NO HEMISFÉRIO NORTE)
Primavera: Áries, Touro e Gêmeos ( Quente e Úmida)
Verão: Câncer, Leão e Virgem (Quente e Seco)
Outono: Libra, Escorpião e Sagitário (Frio e Úmido)
Inverno: Capricórnio, Aquário e Peixes ( Frio e Seco)
NODOS:
O Nodo Norte é associado a Júpiter (Quente e Úmido) e o Nodo Sul a Saturno (Frio e
Seco).
A seguir veremos uma carta de exemplo:

Figura 2a
Há muitas vertentes no que diz respeito ao cálculo do temperamento. Considerei os
estudos de Robert Zoller3·, Lee Lehman 4, John Frawley5,e Dorian G. Greenbaum6 e
W.Lilly7 e este foi um dos mais difíceis capítulos a escrever, se não o mais difícil. Acabei
achegando-me ao último mestre, pois foi seu estudo o que mais se aproximou de minha
experiência com clientes, familiares e amigos. Desenhei a tabela que se verá em seguida e,
pelo menos no atual estágio de meu conhecimento, é a tabela que recomendo ser usada.
Figura 2b
Mostrarei como foram contadas as qualidades do temperamento.
1. O signo Ascendente é Libra, que é quente e úmido.
2. O signo do regente do Ascendente é Touro que é frio e seco.
3. Não há planetas na primeira casa. Se houvessem, recomendo usar sua natureza
elementar própria, a menos que seja o Sol.
4. Mercúrio faz aspecto com o Ascendente e Mercúrio tende para o frio e seco.
Considerei que o Sol está conjunto ao Descendente ou pelo menos na Casa 7.
Tecnicamente ele está em signo inconjunto ao Ascendente, logo pensei que não
deveria considerar o signo do Sol, mas apenas sua natureza elementar, cujo raio é de
15º, portan-to atingindo como planeta a oposição com o Ascendente. Desta forma,
lancei a qualidade do Sol, quente e seco, ao invés de frio e seco, a qualidade de
Touro. De qualquer forma, como se verá, isto pesa pouco na pesagem final, dando
um ponto a mais para o quen-te e uma a menos para o frio. A coluna de frio ficaria
com 6 pontos e a coluna com quente ficaria com 8 pontos. O temperamento me-
lancólico ainda predominaria.
5. O signo da Lua é Capricórnio, frio e seco.
6. A fase da Lua é fria e seca.
7. O signo do regente da Lua, Saturno, é quente e seco, Leão.
8. Os seguintes planetas fazem aspecto com a Lua: Sol, Marte e Vênus, que
transmitem a luz de seus signos. Todos estão em Touro logo temos tres pontos para
frio e seco.
9. O planeta que faz conjunção com a Lua é Júpiter, cuja natureza é quente e úmida.
10. A estação do ano do Sol é Primavera (Touro), quente e úmido.
11. O signo do regente da carta, que é Vênus, Touro, é frio e seco.
12. A natureza de Vênus é fria e úmida.
No caso em apreço o nativo é principalmente Melancólico, pois predomina o frio e o
seco, com subtonalidade sanguínea.
Dentro desta moldura o nativo viverá os acidentes de sua vida, encarando as coisas de
forma ponderada, lógica, fria, sendo lento para resolver os assuntos, portando-se de forma
inexorável, teimosa, insubordinada, desconfiada, ambiciosa, antissocial, etc.
O temperamento deve ser usado como uma baliza para entender o tipo de reação do
nativo. É um estudo essencial que tem sido negligenciado, em parte por exigir muita
atenção a detalhes, e, além disso, porque as opiniões dos estudiosos variam, o que ajuda a
confundir.
Esta técnica e as que serão ensinadas a seguir fornecem uma base para sabermos o que
é imutável na vida do nativo.
1. Esta seria a dualidade que em Platão também é equivalente ao Mesmo versus o Outro. Mais tarde ele compara o
Mesmo com o círculo equatorial e o Outro com a ecliptica, o movimento primário sendo o Mesmo e o secundário o
Outro.
2. Antes de Vettius Valens, embora em sua obra ainda encontremos resquíscios deste uso, as triplicidades de água,
terra, fogo e ar, não eram identificadas com elementos, mas com ventos, que ajudariam as embarcações a seguir seu
destino ou não. Vide Antiochus, “Definitions and Foundations”, Editora Tares.
3. DMA Course, New Library, lição 23, pag. 13.

4. Classical astrology for Modern Living, Lee Lehman.

5. The Real Astrology Applied, pag. 121.

6. Temperament - Astrology’s Forgotten Key.

7. Astrologia Cristã, Biblioteca Sadalsuud.


8. Neste caso usar a estação em que se encontra.
2º CAPÍTULO
A DELINEAÇÃO DA
PERSONALIDADE E DA
ALMA DO NATIVO

G
eralmente a tradição antiga aproximava-se do tópico psicológico de uma carta
atentando para as faculdades mentais do nativo (manifestando-se como
honestidade, inteligência e bom senso) e verificando se estavam em harmonia
com as emoções. Na astrologia antiga e medieval, a primeira qualidade era vista como
própria de Mercúrio (racional) enquanto que à Lua cabiam as emoções e os aspectos mais
instintivos. Se os dois planetas estivessem em boas condições e em bom aspecto, o nativo
seria alegre, inteligente, calmo e honesto. Mas se estivessem aflitos, com maus aspectos
ou não aspectados, o nativo seria instável emocionalmente.
As autoridades diferem ligeiramente em seus procedimentos. Ptolomeu usa Mercúrio e
Lua; Abu Ali usa somente Mercúrio; Schoener usa Mercúrio e Lua, além de seus
dispositores; Lilly enfatiza Mercúrio mais do que a Lua.
O regente da hora de nascimento também acrescenta atributos à personalidade do
nativo.
Dependendo da posição por signo e casa de Mercúrio e Lua, seus dispositores e os
aspectos que recebem, julga-se a alma do nativo e sua inteligência.
Uma abordagem que revela maior riqueza requer duas técnicas especiais: a técnica
para a descoberta do Almutem Figuris e uma técnica mais moderna, a descoberta da
Motivação Primária.
O Almutem Figuris é um planeta especial que tem a maior força na carta inteira.
Almutem vem da palavra árabe Mubtazz, e significa vencedor. Há como que uma
competição entre os planetas da carta e aquele com maiores qualidades, em posições mais
privilegiadas quanto a local, seita, dignidade essencial, com dignidade nos locais mais
importantes da carta, é eleito como sendo o mais forte: ele é o Almuten da Figura, isto é
da carta.
É usual em astrologia Medieval calcularmos o almuten de diversos pontos para
encontrar o significador de um tópico ou tema, e vamos fazer uso desta técnica inúmeras
vezes no decorrer do livro.
Mas o Almutem Figuris é algo especial, por ser ele é o planeta mais forte de toda carta,
uma espécie de coringa que serve de parâmetro em certas delineações por falta de um
significador.1
Ele revela uma espécie de daemon planetário do nativo e tem mais relação com o lado
espiritual do que com o material, dando testemunho do grupo espiritual ao qual o nativo
pertence.
Platão sugeriu em seu diálogo Fedro que, antes da encarnação terrena a alma de cada
indivíduo estaria a serviço e seguindo um dos deuses, que ele representou como um
derivado de divindades planetárias celestes. De acordo com o seu mito, essa associação
com um deus particular se manifesta na vida em termos de certas necessidades e atitudes.
No entanto, ainda segundo Platão, em nossa ignorância e escuridão terrena,
desconhecemos a fonte de tais atitudes.
De acordo com esse autor cada alma tinha uma estrela, resta saber qual é a de cada um
de nós.
Esta procura se reflete no cálculo do Almutem Figuris, um planeta poderoso na figura
natal, cujo espírito ou anjo atua como ligação especial do nativo para com o divino. O
Almutem Figuris é uma delineação astrológica espiritual, semelhante, mas não igual, ao
Senhor da Genitura de Lilly.
O Almutem Figuris, assim como o Senhor da Genitura de Lilly, dá sinais dos
pensamentos do nativo, suas crenças e caráter.
A iluminação espiritual pode exigir a abertura de nosso coração e consciência para
esse planeta em particular a fim de usá-lo para acessar o Divino.
Esta é uma função que muitos astrólogos modernos atribuem ao signo solar, o que é
um empobrecimento, pois permanece na superfície da carta.
Ocorre que durante séculos a noção de Platão de uma alma imortal imaterial, distinta
de um mundo material foi compartilhada por uma minoria.
A maioria dos filósofos e médicos da antiguidade foram bastante materialistas e
acreditavam que a composição química de uma pessoa, isto é de seu corpo, predispusesse
o nativo a ter certas doenças, determinados traços de personalidade e qualidades
emocionais. Daí adveio a valorização e detalhamento do temperamento, estudado em
capítulo anterior, que tinha muita importância para valorizar os aspectos físicos e doenças
típicas de cada um, inclusive as características mentais e doenças da alma.
Na verdade essa é também a visão que inspirou a revolução científica. As doenças,
físicas ou mentais, passaram a ser vistas como doenças químicas: não se procura com
seriedade investigar os traços de alma que levam a elas.
Na astrologia Medieval, muito mais prática e menos espiritual que a Helenística tal
visão materialista manifestou-se em duas áreas. Primeiro, através da investigação do
temperamento:
Para o astrólogo medieval, a Casa Um e o Ascendente mostram o corpo e a saúde
física, e, por extensão, a disposição para certos comportamentos ou personalidade.
Levando em conta o Ascendente, suas qualidades primitivas, seu regente, seu almuten,
além dos planetas em aspecto com ele, e outros testemunhos, verificaríamos se essas
qualidades são quente, frio, úmido ou seco, cujas combinações fornecem os quatro
temperamentos e fluidos do corpo.2
O ALMUTEM FIGURIS
Em segundo lugar, os astrólogos medievais procuravam um significador planetário
especial, o Almutem Figuris, que conferisse certas características físicas e também o
caráter: se fosse Saturno, o corpo do nativo e personalidade seriam saturninas. Se fosse
Mercúrio, as características seriam mercuriais, se Vênus, o nativo teria características
venusianas, etc.
Na realidade quer vejamos tal Almutem através de uma vertente espiritualista ou não,
o fato é que ele tem grande importância, daí o fato de apresentar-lhes este estudo logo no
segundo capítulo do livro.
Para descobrir tal planeta usa-se pontuar todos os planetas na carta, de acordo com o
nível de importância dado por suas dignidade e posição. O que tiver mais pontos é o que
tem mais força e é o Almutem Figuris.
Como se trata de uma espécie de eleição, vamos somar os pontos que cada planeta
ganha.
A astrologia Medieval pontua com 5 pontos um planeta em seu domicílio, com 4
pontos um planeta em sua exaltação, com 3 se em sua triplicidade, com dois pontos se
estiver em seus confins ( ou termos) e se estiver em sua face o planeta recebe 1 ponto.
Tal sistema não era usado pela astrologia Helenística, embora eles também
procurassem o senhor da carta.
O sistema de pontuação teve inspiração em Ptolomeu que sugeriu que se procurasse o
planeta predominante em um determinado assunto, contando um ponto por cada posição
importante.
Os astrólogos que o sucederam desvirtuaram a questão, pontuando planetas com
determinados escores de acordo com sua dignidade por signo e mais tarde até por casa. A
meu ver essa é uma maneira extremamente mecanicista de trabalhar, exigindo pouco do
senso crítico do astrólogo, e sua utilidade, a meu ver, repousa no fato de ser uma forma
prática do estudante e mesmo o astrólogo formado ter uma primeira noção do poder dos
planetas na carta.
Os autores helenísticos verificavam os senhores dos luminares, do Ascendente, da
Casa 10, seus regentes, se estavam angulares e em regência, exaltação ou confins (isto é,
termos). Não usavam as triplicidades ou trigons. Mas qualitativamente era valorizado se o
planeta estivesse em sua própria carruagem, isto é sua triplicidade.3
Já os autores medievais provavelmente inspirados em Dorotheus que obtinha todas as
respostas através dos senhores das triplicidades, as usaram como parte de seu arsenal
técnico, inclusive para encontrar o Almutem Figuris. Fornecerei uma carta de exemplo
para demonstrar a técnica, junto à tabela a ser preenchida:
Figura 3A
Preenchendo a Tabela:
Figura 3 B
Verificamos que devem ser considerados todos os planetas e seus respectivos locais ou
casas, a Parte da Fortuna, o Ascendente, a SAN ( Syzygi Ante Nativitaten) e os regentes
do dia e da hora.
Para preencher a tabela acima4 façam uso da Figura 16, mais adiante, onde é mostrada
a pontuação de cada dignidade.
1- O Sol está em 12º de Escorpião, onde Marte tem 5 pontos pela regência, Vênus,
Lua e Marte têm 3 pontos cada um pela triplicidade, Mercúrio tem 2 pontos pelo
termo e o Sol tem 1 ponto pela face.
2- O mesmo procedimento foi realizado com a Lua, o Ascendente, a Parte da
Fortuna e a SAN, respectivamente.
3- O dia e a hora também recebem pontos: o planeta do dia, Lua, recebeu 7 pontos e
o planeta da hora do nascimento, Júpiter, recebeu 6 pontos.
4- A posição dos planetas por casa também é valorizada numericamente. Um
planeta na Casa 1, recebe doze pontos, na Casa 2,recebe seis pontos, na Casa 3, tres
pontos, na Casa 4 recebe nove pontos, na Casa 5 recebe sete pontos, na Casa 6
recebe um ponto, na Casa 7, recebe dez pontos, na Casa 8 recebe 4 pontos, na Casa
9, cinco pontos, na Casa 10, onze pontos, na Casa 11 recebe 8 pontos e na Casa 12
recebe dois pontos.
5- A seguir cada coluna é somada.
No caso de nosso exemplo o Almutem Figuris é Marte, o que produz pessoas que
lutam e guerreiam por natureza. Faz nativos combativos, prontos para a ação e tendendo a
rupturas.
Marte está no signo de Sagitário, um signo de fogo, e o regente do signo está em
Câncer na Casa 9, exaltado, porém retrógrado, na casa da religião.
Os ideais religiosos se utilizam da Casa 3 para se manifestar e como Marte está nesta
casa podemos dizer que a nativa combate especialmente pela fé e ideais espirituais.
Uma vez que Marte é o regente de Escorpião, onde está o signo Ascendente, além de
muitos planetas a nativa se realiza através da Casa 3, irmãos e comunicações.
Em outras palavras, o Almutem Figuris sendo Marte e Marte estando em Sagitário, o
Ascendente, os planetas aí localizados, a Casa 3 e a Casa 9 participam da configuração.
O Almutem Figuris tem expressão a nível espiritual e auxilia no desenho final da
pessoa do nativo. Neste caso a nativa corajosamente se dispõe a atos valorosos para ser
uma criatura do Senhor, visto que Júpiter na Casa 9 é o dispositor de Marte. Ela disse:-
“Custe o que custar, quero que o Senhor faça de mim uma criatura Sua”.
Vamos agora averiguar o que nos dizem a Lua e Mercúrio, os dois planetas
tradicionalmente capazes de qualificar o tipo de “alma”.
A Lua encontra-se em Escorpião no Ascendente falando de uma vida anímica bastante
importante, sujeita a restrições e decepções que provocam efeitos daninhos no corpo
físico, o Ascendente ( Lua quadratura Saturno).
Mercúrio, o planeta do intelecto também está no Ascendente, casa aonde tem seu
jubilo: isto fala de inteligência e facilidade de comunicação. Mercúrio faz trigono com
Júpiter em exaltação o que atribui à mente da nativa capacidade de expressar-se em áreas
que requerem sabedoria e visão ampla da vida. Estando Mercúrio e Lua no mesmo signo
temos um testemunho a favor de coerência mental e estabilidade.
ABORDAGEM HELENÍSTICA DA ALMA
A astrologia como a conhecemos surgiu em meio a escola platônica.
Platão e seus discípulos acreditavam na reencarnação e embora a astrologia helenística
não defenda qualquer tipo de religião ela baseou-se fortemente na filosofia platônica.
A leitura dos autores helenísticos nos leva á valorização da SAN ( syzygy ante
nativitatem), isto é, a conjunção ou prevenção, a Lua Nova ou Cheia antes do nascimento.
Sendo o Sol o princípio espiritual e a Lua o princípio corpóreo, esta união entre o pai (com
o qual o Sol é comparado) e a mãe (a Lua) seria um ponto importante referente à alma do
nativo.
Outro ponto, que não causa surpresa ser levado em conta para o conhecimento da alma
é o Ascendente e seu regente.
Além destes, os astrólogos helenistas davam importância à Parte do Espírito, pois ela é
a ação do nativo.
O regente dos pontos acima citados, isto é o que estivesse mais forte, dando-se um
ponto para cada força, era o regente da figura e ele também tinha uma conotação
espiritual, representando uma deidade ou força planetária espiritual da qual o nativo
tivesse emanado e para a qual retornaria. Aqui encontramos os primórdios do Almutem
Figuris dos autores medievais.
É preciso prática e principalmente ganhar familiaridade com a linguagem dos planetas
para estar à vontade com a enorme gama de características de cada pessoa.
É comum encontramos traços contraditórios: por exemplo, imagine-se um nativo com
a SAN em Virgem, a Parte do Espírito em Gêmeos, o Ascendente em Libra, Vênus em
Áries, nascido na hora planetária do Sol, no dia de Júpiter e cujo Almutem Figuris é
Saturno.
Trata-se hipoteticamente de uma alma com tendências solares fortes, (pois mesmo
Vênus tem o Sol como regente de exaltação), mas cujo anjo é sombrio, provocando uma
sensação de desajuste e vergonha íntima, isto é se opondo dramaticamente ao Sol. Como
há características aéreas ( o Ascendente e a Parte do Espírito) e a SAN está em Virgem, o
nativo hipotético seria curioso e metódico e a tônica mercurial poderia aliviar a dicotomia
básica através do conhecimento. Claro que apresentei uma forma tosca de analise, mas,
sem duvida mostra desafios entre princípios de luz e de escuridão.

1. Mais tarde voltaremos a este assunto.

2. Vide Capitulo 1º.

3. As triplicidades só foram usadas na astrologia Helenística para avaliação da eminência da carta, uma técnica
específica, portanto. Neste caso somente as triplicidades do luminar da seita eram consideradas.
4. Em Utilitários no site www.astrologiahumana.com há uma tabela em branco que pode ser impressa.
3º CAPÍTULO
PARTES ÁRABES – OUTRO TIPO DE
LINGUAGEM

A
partir de agora começaremos a usar as chamadas Partes Árabes de cada casa
delineada, mas antes de prosseguir temos que chegar a um entendimento sobre
como calculá-las, defini-las e valorizá-las, a fim de usá-las corretamente na
delineação.
Já abordamos este tópico em outra obra1, mas vamos aprofundar nosso entendimento
sobre o que elas representam dentro da carta.
Tudo que virá a seguir é em grande parte novo e se apoia em novas elaborações
baseadas na filosofia da construção dos Lots e em seminários do Prof. Robert Schmidt.
A visão medieval difere da helenística no que diz respeito a Lots ou Partes.Além dos
autores medievais terem aumentado exponencialmente a quantidade dessas partes, como
as chamaram, deram à mesma fórmula vários nomes diferentes e muitas vezes
incompatíveis. Fica-se com a impressão que a astrologia Medieval preocupou-se pouco
com a fonte e o significado profundo dos lots em sua função mediadora como mensageiros
ou anjos: em outras palavras daemons servindo de ponte entre as divindades planetárias e
o homem.
Várias perguntas devem ser respondias quanto a estas Partes: - quais os princípios que
subjazem à sua construção, que importância elas tem, se são menos ou mais relevantes que
os planetas, se devemos levá-las em consideração na construção de almutens, por que
devemos usá-las e finalmente se substituem o significado dos planetas.
Este capítulo é o resultado de conclusões a que cheguei inspirada pelos ensinamentos
da filosofia grega. Tais conclusões serão apenas parcialmente reveladas em parte porque
escapam do escopo do presente livro. Por outro lado ainda não estou absolutamente segura
de haver dominado este intrincado assunto. O tempo, a experiência e a sedimentação
acontecem aos poucos, e um novo trabalho sobre tais lots logo estará a caminho.
A partir deste momento tratarei do aspecto filosófico e espiritual da astrologia e, por
assim dizer, usarei mais Júpiter e menos Mercúrio.
Para começar é preciso estar ciente que existe uma razão subjacente à construção de
cada Parte ou Lot (na designação helenística), e descobrir tal motivo é assunto
extremamente importante.
Os Lots não são simples fórmulas aritméticas descobertas por amor ao número ou à
adivinhação: eles se baseiam em conceitos filosóficos subjacentes ao significado
especialmente dos luminares e do Ascendente.
Os lots possuem também íntima relação com a seita da carta, isto é se tratamos com
uma natividade noturna ou diurna.
Os Lots foram chamados “Partes” na astrologia Medieval, e tal terminologia não tem
fundamento, visto que os Lots são muito mais antigos que a astrologia árabe e não
significam “Partes” de coisa alguma. A palavra Lot invoca noções tais como a de lançar
dados ou tirar a sorte para determinar qual a chance de ocorrer um evento futuro.
Kleiros (Lot) foi usado de duas maneiras, desde o tempo de Homero: um Lot que é
lançado e um pedaço de terra, um Loteamento.
Lots eram pequenos pedaços de pedra atirados dentro de um escudo, cada um
representando, tipicamente, um dos soldados. Tais pedras eram sacudidas e uma a uma
eram arbitrariamente retiradas, até que restasse o numero suficiente para identificar uma
tropa de combate, ou apenas dois homens: - os que realizariam certa tarefa importante e às
vezes arriscada.
No contexto astrológico significa algo lançado a partir de um ponto na carta,
normalmente o signo Ascendente. O Lot representa um tópico (que é outro sentido da
palavra kleiros) na vida humana e esse tópico tem sentido similar a uma casa mundana.
A responsabilidade por esse tópico é alocada ao regente do signo onde o Lot é
encontrado. No entanto, diferentemente do que ocorre entre planetas e signos, o regente do
signo onde está um Lot não é reponsável por aquilo que sucede: seu trabalho é o de lidar
com o que já ocorreu por força do próprio lot!
Por exemplo, se uma pessoa é assaltada a responsabilidade não é dela. O lot pode ter
colaborado para isso e não seu regente. No entanto, cabe à pessoa reagir e isto é muito
pessoal, pois depende do local onde está o regente do Lot: ela pode reagir atacando, pode
chorar, pode ceder, enfim, há um leque de opções. Pois repetindo, este leque de opções de
ação é fruto do planeta que rege o Lot.
Paulo de Alexandria escreveu em seu “Assuntos Introdutórios”2 sobre os sete Lots
herméticos referindo-os ao livro de Hermes Trimegisto, o Panaretus, onde eles foram
descritos.
Panaretus era o Livro das Virtudes: Pan-Aretus.3 Tais Lots também foram
apresentados em Manilius4, que escreveu nos primeiros anos de nossa era. No entanto ele
se baseou em fontes mais antigas, como Hermes e Nechepso, o que é sinônimo de
astrologia egípcia, a qual por sua vez sofreu influências babilônicas.
Os Lots baseados no Ascendente e em cada planeta representam dimensões muito
mais individuais e pessoais do que os planetas. Os planetas em nossa carta são uma
vicissitude cósmica, enquanto que os Lots são algo muito mais específico de cada
natividade, pois mudam rapidamente de lugar, basta mudar o Ascendente e a Lua,
tornando cada carta extremamente peculiar e única. Os Lots são o subproduto de
posicionamentos chave da carta, isto é os três pontos fundamentais: Ascendente, Sol e
Lua.
Os Lots herméticos são formados por três planetas envolvendo os dois luminares e um
dos 5 planetas.
No que diz respeito à interpretação astrológica o cálculo apropriado de um dos cinco
Lots Herméticos transfere a relação que um planeta tem com os luminares para o
Ascendente, criando assim uma simetria importante.
Os planetas têm uma espécie de encontro simbólico e acidental no local em que o Lot
cai. Suponha que uma pessoa deva dinheiro à outra e no caminho a encontre justo quando
cada uma estava cuidando de outros assuntos. Esse encontro tem o sentido do encontro
dos planetas num determinado signo, fazendo um Lot. É um tipo de encontro acidental
que ocorre devido a eflúvios aparentemente misteriosos.
Portanto os Lots herméticos são causas que contribuem para os assuntos aos quais
eles estão associados. Somente o Lot do Espírito tem ação em si: é o regente da ação do
nativo. Os Lots construídos sem a participação do Espírito e sim com a participação da
Parte da Fortuna, são causas acessórias e contribuem para o resultado final de certo tópico,
mas são passivos e representam algo que sucede ao nativo.
Os planetas têm inúmeros significados, enquanto que os Lots são bem específicos
como, por exemplo, o Lot dos filhos, do casamento, das viagens, do roubo, da acusação,
etc.
É como se representassem uma manifestação mais abaixo que a dos planetas no
sentido de um caminho descendente, portanto entendo que eles sejam mais mundanos e
menos divinos que as forças planetárias.
Muitos astrólogos helenistas olhavam os planetas como divindades ou então como
espaços consagrados para uma divindade. A divindade era chamada Theos (de onde vem a
palavra Deus), mas quando queriam se referir ao poder ou domínio de uma divindade ao
invés de sua pessoa encarnada usavam a palavra daemon que às vezes era traduzida como
espírito.
Quando tais daemon são personificados eles se tornam espíritos ou daemons que nos
fazem agir ou que nos acontecem, independente dos planetas.
A eficácia de um Lot ocorre através da causa eficiente real de eventos no mundo
humano, por isso eles representam o mais mundano na hierarquia de acontecimentos. Por
exemplo, se você é despedido de seu emprego, seu chefe é a causa de seu desemprego. Se
você cai doente resfriado, a causa é um vírus, se você é roubado o ladrão é a causa de sua
perda. Os Lots são responsáveis por eventos criados pela força da matéria, da necessidade,
de acordo com a Fortuna ou Sorte (embora o Lot da Fortuna não signifique que os eventos
sejam aleatórios).
Os Lots são poderes ou daemons de divindades planetárias, distintas de suas pessoas,
são seus espíritos operando no mundo sublunar, pelo menos a tradição hermética os
explica desta forma.
É importante saber que tais poderes não estão localizados no mesmo local que os
planetas físicos no zodíaco.
Talvez no mundo grego os planetas observáveis fossem o santuário das divindades,
onde tais divindades poderiam fazer uma aparição. Já um Lot significa um poder que é
igual em seu efeito à soberania ou domínio de um planeta, mas em sentido muito mais
específico.
Os eventos acorrem na matéria de acordo com a lei natural, ananké, o que não
significa que não sejam daemons, forças espirituais, uma vez que os Lots levam em conta
nada mais nada menos que os luminares, o Ascendente servindo como uma espécie de
intermediário.5
Os Lots, no entanto, podem causar efeitos de acordo com os planetas que os aspectam.
Numa perspectiva prática o sistema de Lots é gerado tomando-se um planeta em
relação a cada um dos outros. Isto representa a distribuição dos múltiplos significados
daquele planeta em diferentes locais na carta. Então o estudo desta soberania dos planetas
manifestada no mundo prático pode ser estudada separadamente. De fato, o Lot
relacionado a certo planeta estará em signo diferente, portanto planetas diferentes, que são
os regentes desses signos, especialmente por domicílio e exaltação, exercem poder
planetário através dos Lots que “regem”.6
O Ascendente, que geralmente entra na construção do Lot, julga e resolve as
diferenças entre os dois planetas que entram na construção do Lot.
Este é um assunto fascinante que merece um livro à parte, mas cabe por enquanto
apenas sinalizar a importância deste estudo, que ficará para outra oportunidade.
LOTS HERMÉTICOS APRESENTADOS POR PAULO DE
ALEXANDRIA
O Lot da Fortuna ou o Lot da Lua
Nascimentos diurnos: Ascendente + Lua - Sol
Nascimentos noturnos: Ascendente + Sol - Lua
Este é o mais importante dos Lots. Na obra de Paulo, assim como em Vettius Valens, em
sua Antologia, a Lua refere-se ao corpo e o Lot da Fortuna refere-se a tudo que acontece e
sobre o qual não temos controle.
Existem ações relacionadas ao Lot da Fortuna, mas elas são uma reação. Como exemplo,
podemos citar o fato de alguém necessitar sobreviver e então arrumar um trabalho como
atendente em uma rede de lanchonetes.
Lot do Espírito ou Lot do Sol
Nascimentos diurnos: Ascendente + Sol-Lua
Nascimentos noturnos: Ascendente + Lua-Sol
Este é o segundo mais importante e por ser o Lot do Sol refere-se à ação, à alma e à
inteligência. Podemos dizer que este Lot relaciona-se com tudo que nos desperta para a
ação.
Podemos de maneira simplista dizer que o Lot do Espírito age por impulsos interiores e o
Lot da Fortuna por causas exteriores. Já acreditei que o Lot do Espírito tinha relação com
o livre arbítrio e a Fortuna com o destino, mas hoje penso que ambos não são livres, pois
obedecem a um principio maior que seria algo como a causa ultima ou o caminho pré-
escolhido pela alma antes de encarnar.
Valens nos diz que o Lot do Espírito significa Helios, o Sol, porque é como o Sol que
anima à ação. Então o Lot do Espírito é tudo que em nosso mundo interno ou externo nos
acorde para a ação.
Lot da Necessidade: (baseado em Mercúrio)
De acordo com Paulus7 “necessidade significa constrangimentos, restrições, submissões,
lutas e guerras, fazer inimigos, ódios, condenações e todas as outras coisas restritivas que
acontecem aos homens como resultado de seu nascimento”
Este Lot está ligado a opressões, contenções, brigas e ódio.
Natividades diurnas: Ascendente + Fortuna - Mercúrio
Natividades noturnas: Ascendente + Mercúrio - Fortuna
É um Lot baseado na Parte da Fortuna, portanto refere-se a algo que nos ocorre e sobre o
qual não temos poder.8
Valens e Firmicus empregam um método completamente diferente de cál-culo deste Lot,
não envolvendo Mercúrio, mas sim a distância entre o Lot da Fortuna e o Lot do Espírito9.
É o mesmo Lot usado por Bonatti com o nome de Parte da Pobreza e do Intelecto
Medíocre.
Natividades diurnas: Ascendente +Fortuna-Espírito
Natividades noturnas: Ascendente +Espírito-Fortuna
Há muita discussão sobre esse Lot e os estudiosos acreditam que Mercú rio não entraria de
fato em sua construção. Tal Lot é o resultado da ação do mundo dos elementos sobre o que
seria ideal, o resultado da matéria corrompendo a perfeição: enfim, representaria o
trabalho de ananké, uma espécie de destino que recebemos por estarmos incorporados à
matéria. Neste caso, é possível que Mercúrio tenha sido introduzido para que o sistema de
lots usasse os 5 planetas.
Lot de Eros
Natividades diurnas: Ascendente + Vênus - Espírito
Natividades noturnas: Ascendente + Espírito - Vênus
Este Lot tem relação com tudo que desejamos: não apenas amor e sexo, mas tudo que
desperta em nós a ânsia de agir para satisfazer um desejo.
Por ser um Lot que utiliza a Parte do Espírito pressupõe uma ação. Aqui também Valens,
Firmicus e Masha´allha10 apresentam formulas di-ferentes:
Natividade diurna: Ascendente + Espírito –Fortuna.
Natividades noturnas: Ascendente +Fortuna – Espírito
Bonatti usa esta úlltima fórmula para a Parte do Amor e da Concórdia.
Lot da Coragem ou de Marte:
Natividades diurnas: Ascendente + Fortuna - Marte
Natividades noturnas: Ascendente + Marte - Fortuna
Tal Lot representa a causa contributiva a gerar insolência, traição e malda de, tramas e
vilanias na vida do nativo.
Segundo o que se deuz da leitura dos autores helenísticos ( bem apontado por que Robert
Schmidt) os Lots construídos a partir da Fortuna sistematicamente representam algo que
sucede para o nativo e ele reage por pura necessidade de sobrevivência, não sendo como a
ação que surge de dentro para foraque é o que ocorre com os Lots construídos a partir do
Espírito.
Lot da Vitória ou de Júpiter:
Natividades diurnas: Ascendente + Júpiter - Espírito
Natividades noturnas: Ascendente + Espírito - Júpiter
Este Lot relaciona-se com a realização do nativo, com a esperança e a fé que possui, a
qual, se não sofrer o testemunho de maléficos é um poderoso gatilho para ação. O que
mais nos leva a agir se não a esperança? Através da posição desta Parte podemos saber se
o nativo será feliz em suas empresas, se seu otimismo e iniciativa para projetar-se darão
bons frutos.
Lot de Nêmesis ou de Saturno:
Para Natividades diurnas: Ascendente + Fortuna - Saturno
Para Natividades noturnas: Ascendente + Saturno - Fortuna
Segundo Paulus o Lot de Saturno relaciona-se a tudo que pode abater o nativo, como
riscos, perdas e decepções, além das causas ocultas. Saturno, diferente de Marte, quase
não age, por isso o que ocorre é identificado com o oculto. As agressões de Marte são
abertas enquanto que as de Saturno são mascaradas, Marte explode, Saturno implode e
decepciona. Significa ser expulso, enganado, as perdas, o luto e a tristeza, assim como a
qualidade da morte.
Este Lot inexplicavelmente é chamado pelos autores medievais de Parte dos que Sobem
Subitamente.
É difícil imaginar como um Lot que usa Saturno e a Fortuna em sua configuração possa
promover algo tão positivo como “subir” e ainda “subita-mente”, sendo Saturno um
planeta tão lento. Saturno é o mais decepcio-nante dos planetas, o mais maléfico, ainda
mais porque ele não aparece como tal, ele reina sobre todo tipo de máscara, inclusive a
maquiagem, enfeita-se se for preciso e engana corroendo e minando qualquer funda-ção:
tem efeito totalmente desmoralizante, corruptível e aterrorizante.
O fato de a morte ser pintada da cor negra, a mesma de Saturno, que também participa do
Lot da Morte, associa esse planeta ao drama.
No trabalho de Paulo de Alexandria o Lot da Fortuna é associado ao corpo enquanto
que o Lot do Espírito está associado à alma e inteligência.
Como se vê na distinção entre os Lots desde o mais importante, o Lot da Fortuna, o
raciocínio é sempre determinado por tomar o luminar da seita e contar a distância até o
luminar que não pertence à seita.
Observamos que os dois Lots associados a planetas benéficos, o Lot de Eros ( Vênus)
e o Lot da Vitória (Júpiter) significam atributos positivos. Eros está associado a desejos e
amizades que nos levam a agir deliberadamente e o Lot da Vitória é o Lot da fé, da
esperança, parceria e realização. Os dois Lots positivos usam em sua construção a Lot do
Espírito, isto é tem a característica de nous, a luz, o Sol.
Já os Lots associados a Mercúrio e aos dois maléficos, isto é o Lot da Necessidade,
(Mercúrio), o Lot da Coragem ( Marte) e o de Nêmesis (Saturno), representam coisas que
tem a característica da Lua, que é ligada à matéria e a tudo que sucede sem que tenhamos
condições de evitar.
Uma vez que Hermes foi um dos míticos fundadores da tradição helenística
astrológica podemos pensar que os 7 Lots herméticos compreendem os Lots arquetípicos
originais inclusive anteriores a ela.11
Ora, os Lots indicam um tipo de experiência que o nativo pode ter, mas também são
associados a estados da mente, maneiras de agir, impulsos e condições psicológicas.
Curiosamente, a tradição posterior medieval como nos apresenta Abu Ma’shar e
Bonatti, parece ter usado uma mistura de tradições muito diferentes. Por exemplo,
baseiam-se em Valens para os cálculos de Eros e Necessidade e em Paulus para os
cálculos dos Lots da Coragem, Vitória e Nêmeses.12
O presente livro não se propõe a apresentar uma delineação psicológica através da
análise por posição e regência das Partes Árabes, mas acredito que elas representam uma
boa maneira de se avaliar a dimensão psicológica e a estatura espiritual do nativo. Isto é
importante quando não se sabe de que forma ele viverá certos fatos da vida previstos na
conformação de sua carta.
Estudos mais aprofundados sobre o assunto ficarão para uma próxima vez. Seria
fascinante delinear os tópicos psicológicos e prevê-los, além de saber de antemão de que
forma o nativo enfrentará o efeito que os planetas sinalizam nos diversos tópicos de sua
vida, ou saber se ele será capaz de ultrapassá-los, negá-los, portar-se de forma otimista ou
derrotista, ser capaz de enfrentar o que teme ou portar-se covardemente e afinal descobrir
se determinada carta realizará seu potencial ou não.
OUTRAS FÓRMULAS DE LOTS
Agora serão apresentadas as outras fórmulas de Lots que usaremos neste livro, sendo
que alguns aparecem repetidos, iguais aos que já vimos, mas com seus nomes medievais.
Quando à expressão “inverte-se”, signi-fica que a formula é revertida para natividades
noturnas.
Parte do Hyleg ou Rota da vida: Esse Lot é bastante antigo e já em Vettius Valens
encontramos reminiscências dele.
Asc +Lua- SAN (não se inverte),
Parte da vida
Asc +Saturno -–Júpiter
Parte da Fé:
Asc +Merc- Lua (inverte-se).
Parte dos Filhos: de acordo com Dorotheus.
Asc +Saturno- Júpiter (inverte-se).
Parte da Morte: (Thanatos) de acordo com Dorotheus e todos os autores:
Saturno+8º signo do Sol -Lua ( não se inverte).
Destruidor (anairetehs) de acordo com Rhetorius e todos os autores:
Asc +Regente do Asc -Lua (inverte-se).
Exaltação (hupsoma) de acordo com todos:
Nasc. Diurno: Asc+19º Áries-Sol
Nasc. Noturno Asc+3º Touro- Lua
Parte do Pai : Dorotheus e Paulus.
Asc + Saturno -Sol (inverte-se).
Parte dos Machucados, Saúde, Doenças, de acordo com Dorotheus. Firmicus e todos os
outros.
Asc +Marte-–Saturno ( inverte-se).
Parte do Casamento para o homem: de acordo com Paulus:
Asc +Vênus - Saturno ( não se inverte).
Parte do Casamento para a mulher de acordo com Paulus.
Asc + Saturno- Venus13
Parte da Mãe de acordo com todos:
Asc +Lua-Vênus (inverte-se).
Parte dos Irmãos: de acordo com Dorotheus, Valens e Firmicus:
Asc +Saturno-Júpiter (inverte-se).
Parte dos Escravos, segundo Hephaistio e todos:
Asc +Lua- Mercúrio (inverte-se).
Parte do Sustento ( Parte da Substância) de acordo com Dorotheus.
Asc +2ª Casa - Regente da 2ª (não se inverte).
Nêmesis, corresponde ao Lot de Saturno.
Asc + Fortuna - Saturno (inverte-se)
Parte da Vitória ou da Bem-Aventurança:
Asc + Jupiter- Espírito (inverte-se)
Parte da Coragem ou da Ousadia, corresponde ao Lot da Coragem:
Asc + Fortuna - Marte (inverte-se)
Eros ou Parte do Amor e da Concórdia:
Asc + Espírito - Fortuna (inverte-se)
Parte da Necessidade ou da Pobreza e Intelecto Medíocre, nome medieval que
corresponde ao Lot da Necessidade de Valens e Firmicus.
Asc + Fortuna - Espírito (inverte-se)

1. Veja “Fundamentos da Astrologia Tradicional”, Clélia Romano

2. Paulus Alexandrinus, “Introductory Matters” tradução do grego para o inglês por Robert Schmidt.

3. A palavra Ares, que está no meio refere-se ao planeta que chamamos Marte. Virtude em grego é traduzida como
(aretí) isto é Ares, o Marte que conhecemos. A razão desta equi-valência repousa no fato de que a virtude marcial
representa ser capaz de enfrentar uma situação mesmo contra a vontade. A virtude não é assassinar o inimigo, mas é
muito mais dar o tiro de misericórdia em algo ou alguém que amamos. A coragem como virtude é agir corretamente,
permaneçer lutando mesmo que a vontade seja ceder.Veremos que existe um dos Lots chamado Lot da Coragem e que
é construído tendo Marte como planeta.
4. Manilius, Marcus “ Os Astrológicos ou a Ciência Sagrada do Céu”, tradução do francês para o português de Maria
Antonia da Costa Lobo, editora Artenova, 1974.
5. Existem outros eventos, porém que acontecem pela necessidade ou causas eficientes em conformidade com os mais
altos princípios planetários. E então estariam ligados aos planetas.
6. Muito embora não tenham poder de causalidade e sim de manejar o que foi causado ouagir, no caso do Lot do
Espírito, de acordo com causas internas ao nativo tais como desejos ou o que o motiva.
7. Paulus Alexandrinus. Introduction to Astrology 378 A.D. © 1993 Robert Schmidt, editora Project Hindsight,
Publicado por The Golden Hind Press, pag. 48.
8. No entanto sempre se poderá reagir mas tal reação é constrita, obrigada, não se age por opção mas por ser forçado a
tomar determinada atitude. Esse tipo de ação é característico do Lots que usam a Parte da Fortuna em sua fórmulação.
9. Veja Valens, Antologia, ed. Project Hindsight, Livro 4, cap. 25: 13 e 16 e Firmicus, Livro Mathesis, 6, Ch. 32: 45-
46.
10. Book of Aristotle,3.12.33, Persian Nativities, traduzido por Benjamin Dykes, PHD.

11. Para antigas referências a Hermes como o fundador da tradição astrológica veja Firmicus Maternus em seu
prefácio ao Livro lV
12. Ver Abu Ma’shar, a abreviação da Introdução à Astrologia, trans. Charles Burnett, Keiji Yamamoto, e Michio
Yano, EJ Brill, Leiden e Nova Iorque, 1994, Ch. 6: 6-11. Abu Ma’shar é seguido de perto por Bonatti. Embora Bonatti
fale sobre não querer apresentar a “diversidade das opiniões dos antigos” ele costuma citar fontes como “Hermes,
Vettius [Valens ], [e] Abu Ma’shar.”
13. Valens apresenta uma fórmula diferente.A formula que ele oferece para o homem é ASC+Venus - Sol ( não se
inverte) e para as mulheres é ASC +Marte-Lua. Vale à pena testar.
4º CAPÍTULO
NATUREZA E SIGNIFICADO DOS
PLANETAS

D
iferentemente das partes, os planetas condensam inúmeros sig-nificados que estão
muito longe de serem atributos estanques, tal qual um livro de receitas. Os
planetas aparecem nos livros seguidos de uma série de palavras chave, mas são
muito mais que elas.
Os planetas levam o nome derivado de deuses e deusas e de acordo com o que se lê no
Epinomas, atribuído a Platão, tais nomes seriam uma nomenclatura provisória, como um
apelido em consideração à sua natureza divina. Isso se observa claramente no primeiro
livro da Antologia de Vettius Valens, quando ele descreve a estrela (planeta) de Vênus,
isto é atribuída a Vênus. O mesmo ocorre com os outros quatro planetas: a estrela de
Marte, a estrela de Júpiter, a estrela de Saturno. Os luminares são os únicos a serem
chamados pelo nome próprio e não relacionado a uma divindade.
Esta é uma questão intrincada, outra que mereceria um tratamento específico que foge
ao objetivo deste livro.
Os planetas (em grego planes ou errantes para diferenciar das estrelas fixas que
ocupam a oitava esfera) eram encarregados de enviar sinais e pelo seu movimento,
segundo o Timeu, ensinavam aos homens o número e a marcar o tempo. Eles não eram
descritos em si mesmos, mas sim em seus efeitos. A exceção era quanto ao Sol e Lua,
chamados em letra maiúscula HELIOS E SELENE, os quais tinham essência e ato em si
mesmos.
Por que associaram os corpos celestes à deidades? Em parte para manter o que era
feito na Mesopotâmia, mas também para indicar que quando se fala na estrela de Ares
(Marte) ou na estrela de Hermes (Mercúrio), por exemplo, o pronome possessivo
diferencia a estrela ( isto é o planeta) da deidade, indicando que o planeta foi consagrado a
ela, o que lhe confere também uma qualidade divina.
É bom ter em mente que o Ser de um planeta está além de sua corporeidade e não pode
ser descrito em sua essência (palavra que vem de “Esse”, Ser), mas somente em seus
fenômenos. Marte, por exemplo, tem um Ser que não é o ser físico, nem se descreve por
ser um planeta de cor vermelha a tantos quilômetros de distancia da terra.
Esse Ser é a mais intima e imutável individualidade de cada planeta, aquilo que alguns
chamam de espírito ou alma, o nous, que está ligado a uma fonte misteriosa e mágica que
lhe confere vida.
Este mesmo “esse” existe em cada ser animado ou objeto. Há uma correspondência ou
simpatia entre tudo que existe. Daí que os planetas se relacionam entre si correspondendo
a nossas emoções e aos atos que realizamos ou nos acontecem.
O Ser essencial de cada coisa é impossível de definir e como dizia Kant na Critica da
Razão Pura, pelo racional não alcançaremos o “noumeno”, ou nous só o fenômeno, a
aparência.
Ptolomeu, embora contemporâneo de Vetius Valens e, como este, um autor que viveu
no Egito helenista, tinha uma visão diferente da astrologia de sua época.
É difícil saber se Ptolomeu era um astrólogo. Alguns chegam a pensar que seu
Tetrabiblos foi escrito por encomenda, pois o livro ficou fora do olhar público por
trezentos anos. Como Ptolomeu fazia parte da Biblioteca de Alexandria ele certamente
teve acesso a fontes previlegiadas, mas, por outro lado, o Tetrabiblos não apresenta carta
natal alguma, enquanto que na obra de Vettius Valens há dezenas. Daí pesar alguma
suspeita sobre Ptolomeu ter sido um astrólogo. Como foi dito, ele tratou a astrologia de
forma diferente dos autores de sua época, possuindo uma visão muito mais racionalista
comparada a de seus conteporâneos.
Seus críticos dizem que mesmo como astrônomo ele não era tão bom como se
apresentou, visto que muito do que apresentou com rol de estrelas era uma cópia.
Segundo a visão de Holden, Ptolomeu forneceu um apanhado desviado da astrologia
de seu tempo e era mais um homem culto e sensato do que um verdadeiro conhecedor de
astrologia. Diz este autor que a maior contribuição de Ptolomeu foi a de ter adotado o
zodíaco tropical, herança que passou para os astrólogos árabes.
Martin Gansten em seu livro sobre direções primárias1 diz que devemos a Ptolomeu
unicamente o interesse em tais direções, as quais ele calculou de maneira simples e
efetiva, muito perto das direções placidianas.
Mas, o zodíaco tropical não foi inventado por Ptolomeu. Ele era usado pela
cosmologia platônica por representar a imutabilidade necessária e ideal enquanto que o
zodíaco sideral não era estático, mas mudava de acordo com a precessão dos equinócios.
Ptolomeu teve uma abordagem racional e “cientifica”, no sentido que entendemos
ciência em nossos dias, usando a noção de causalidade.
Quando falava de um planeta explicava sua ação de modo físico.
Por exemplo, no Tetrabiblos Livro 1- 2 ele diz que a predição é possível na seguinte
base:
“O Sol, juntamente como o ambiente ( atmosfera) está sempre de alguma forma
afetando tudo na terra, não apenas por mudanças que acompanham as estações do ano
para realizar a geração de animais, a produção de plantas, o fluido dos corpos, mas
também por suas revoluções diárias fornecendo calor, umidade, secura e frio em ordem
irregular e em correspondência com suas posições relativas ao zênite”
Por esta passagem nota-se que ele explicou a ação dos celestiais sobre o mundo
sublunar de forma muito semelhante à mentalidade cartesiana, a qual tem mais facilidade
em aceitar que a Lua influencia as marés e a todos os seres mexendo com os líquidos
corpóreos, isto é, por um motivo físico.
Não é esse o caso. A influência planetária não se dá de forma física, mas de forma
simpática, como se todo o conjunto interagisse coesamente em qualquer qualidade da
matéria ou da alma.
A Lua e os planetas dão sinais do pensamento de Deus2, que se manifesta físicamente
na posição dos astros com suas respectivas qualidades, correspondentes a cada um de nós.
Tais ideias podem parecer espúrias à nossa mentalidade pós Revolução Científica, mas
o fato é que a astrologia está muito mais perto do esoterismo do que do pensamento
cartesiano. Aliás, se o último tivesse qualquer utilidade astrológica, chegaria a dizer (
como escutei de um douto senhor) que estando Saturno mais distante da terra sua
influência astrológica é bem menor que a da Lua.
Além disso, rigorosamente falando, os planetas não são a causa de acontecimento
algum. Eles são apenas um ponto de referência e um sinal para descrevermos, dependendo
de como se configuram entre si, os acontecimentos que tenham qualidade similar a eles na
terra.
A humanidade deve muito aos céus, pois a ordem observada lá em cima ajudou a
estabalecer conceitos básicos de pensamento.
A relação entre o tipo de sucesso que ocorre na vida da humanidade e de todas as
coisas terrenas segue a par e passo com as relações dos planetas entre si. Física e
mentalmente temos correspondências planetárias, isto é todos os planetas estão dentro de
nós mesmos, como diz o filósofo Avicena.
Em outras palavras, entendo que certo princípio rege os planetas e se origina ao nível
de uma Inteligência Universal sendo que a carta natal opera dentro do individuo através do
céu microcósmico, que espelha e reage às influências planetárias, pois sua Inteligência
comunica-se com sua contraparte terrena. O UNO compreende a tudo e todos. Tal
divindade maior é responsável pelo cosmos e se opõe ao caos.
Muitos de nós nos aproximamos da astrologia por ela ser a mais sistemática das
ciências ocultas, aquela que aparentemente é a mais baseada em fatos mecânicos. No
entanto, os princípios dela são imbuídos de conceitos que se situam mais perto da magia e
da alquimia do que da ciência.
A maneira como os astros atuam pode ser descoberta pela experiência, mas a mecânica
desse enlace simpático é um mistério, assim como a vida também é um mistério e um
verdadeiro ato mágico.
Para os egípcios da mais remota antiguidade o cosmos era um teatro para a interação
da vida e da morte sendo que o deus da magia criava a vida. Eles praticavam uma
astrologia da alma e a vida era uma viagem em direção às estrelas.
Já os babilônios eram menos espirituais: utilizavam “ omens” para dar indicações úteis
ao rei. Por exemplo, se o planeta “X” aparecer ao nascente haverá chuva, se a
configuração “Y” ocorrer não haverá boa colheita, etc.
Correndo o risco de simplificar exageradamente, a visão astrológica árabe-medieval
está mais próxima dos babilônios em sua praticidade e resultados e a astrologia helenística
está mais perto de visão egípcia.
Uma vez que este capítulo versa sobre os planetas e tendo já deixado claro que
qualquer categorização recai em uma simplificação excessiva, fornecerei agora a descrição
parcial da maneira de ação correspondente a cada planeta, sabendo de antemão que
qualquer lista é incompleta e que a descrição mais encobre do que revela.
Tenha o leitor em mente que quando falar em atributos ou características estarei me
referindo à correspondência e equivalência do planeta com aspectos visíveis.
Tais descrições constam das obras de autores tradicionais árabe-medievais como Abu
Mashar, Alchabitius e Bonatti. As descrições encontradas em Vettius Valens também serão
apresentadas como contraponto da visão helenística que muito pode acrescentar ao
entendimento introduzindo outra visão, mais antiga, do que os planetas representam.
Preferi apresentar a visão de Vettius Valens à de Ptolomeu, pois com certeza o
primeiro era um astrólogo praticante, mas desejo esclarecer que à parte desvios evidentes
na obra de Ptolomeu existe nela conceitos válidos e valiosos: o difícil é separar o joio do
trigo.
Algo mais a ser dito neste capítulo é que a descoberta moderna de planetas além de
Saturno pode ter grande significado, mas por enquanto, dentro da sistemática astrológica
tradicional, eles não têm espaço nem lugar. A astrologia como foi praticada por cerca de
2000 anos sistematizou-se de forma auto-explicativa do ponto de vista especialmente
filosófico, sendo impossível no atual estágio, quando ainda se está em vias de conhecer a
tradição, permitir que nossa mente divague para conceitos alheios. No entanto, em algum
momento futuro, devemos abrigar os pla-netas além de Saturno dentro da chamada
astrologia tradicional. O que não se pode é, como fazem os astrólogos modernos, diante de
qualquer carta procurar pelos planetas novos sem conhecer a fundo o significado dos 7
planetas tradicionais.
Vou agora abordar o significado de cada planeta:
NATUREZA E SIGNIFICADO DE SATURNO
Abu Mashar diz que Saturno é o inexorável, o poder limitante e retardatário sobre a
vida, seu crescimento e associações.
Corresponde a atividades que envolvem umidade, águas, rios, agricultura, trabalho
manual; dependendo de estar muito bem posicionado e de configurações específicas
significa riqueza e confiança no discurso, profundidade de pensamento. Significa
avarentos, homens pobres, ódio, artifício, esperteza, perfídia, pouco companheirismo,
todas as atividades do mal, derrotas, prisão, estoques, velhice, lentidão, deliberação,
inteligência, obstinação, medo, mágoas, tristezas, dificuldades, desgraça, os mortos,
heranças, avós, pais, irmãos mais velhos e eunucos.
Alchabitius diz que Saturno é um planeta masculino, diurno, produtor de frieza
excessiva, sendo o significador de pais e antepassados e de todos os antecedentes que são
sinalizados pela quarta casa, mas isso é mais por acidente do que por natureza. Por
natureza, ele significa a pessoa ou o corpo do nativo, já que a primeira coisa que acontece
a um homem é receber um corpo. Saturno é o significador de coisas antigas e pesadas,
dado seu movimento lento e pesado.
O corpo do nativo que o possui como significador da natividade é pesado, sua marcha
não vai ser fácil, não andará facilmente ou aprenderá a nadar ou fazer coisas que mostrem
leveza do corpo.
Bonatti diz que Saturno está no primeiro círculo dos planetas e é o primeiro planeta na
ordem deles e é aquele a quem todos os outros seguem e ele não segue nenhum. É também
o primeiro que exerce a sua operação na concepção após a queda do sêmen no útero,
quando pela contração une a matéria a partir da qual a coisa concebida (feto) é formada.
Se estiver dignificado significa a profundidade da ciência e dos conselhos.
Das profissões significa coisas antigas e laboriosas, coisas pesadas e preciosas,
profissões aquáticas ou aquelas coisas que são feitas próximo às águas, tais como pontes,
navios e similares e a produção da água para cultivo da terra, a saber, campos e plantações
de árvores. Também se relaciona a edifícios e casas, especialmente casas religiosas. Se não
estiver dignificado significa coisas antigas e ruins, uso de enxadas, escavações de buracos
em lugares fétidos, carregar pedras e cimento sobre os ombros.
Quem o possui como significador tem dificuldades no trabalho e a pobreza o leva a
comer comida fétida. Relaciona-se à navegação, que dependendo da dignidade de Saturno,
poderá levar o nativo a ser um marinheiro vil ou aqueles que enriquecem por ela.
E se Saturno estiver mal essencialmente o nativo será indiscreto, triste, miserável,
suspeitoso, instigante do mal. E se for de bom esse significa coisas antigas e duradouras,
como heranças que chegam de outros lugares e especialmente dos mortos, propriedades
que são adquiridas por meio lícito ao invés de ações ilegais.
Das idades ele significa a velhice. Segundo Ptolomeu ele age a partir dos 68 anos até a
morte.
Quanto a enfermidades, significa epilepsia ou doenças que provocam quedas. Também
doenças fleumáticas e melancólicas, especialmente doenças incuráveis, tais como lepra,
fístulas profundas que ulceram a pele e deixam cicatrizes.
Significa aprisionamento longo.
Bonatti diz também: “E se Saturno for significador único no nascimento de alguém
porque nenhum outro está conectado com ele, a vocação natural do nativo será para
trabalhar com peles e para fazer trabalhos a partir delas.”.
E ele significa roupas pretas e aqueles que a usam, como muitos religiosos. Dos
metais, ele significa chumbo e ferro.
Masha´allah diz que, em relação a figuras de homens, Saturno significa” um homem
entre o preto e o amarelo, um homem pesado que volta seus olhos para a terra, quando
anda. Pequenos olhos, pele seca, nervoso.”
A quantidade de seu orbe é de 9 graus.
A característica de extrema secura de Saturno leva à separação e distinção sendo que o
frio anula ou diminui a atividade e união. Isto pode criar depressão e uma falta de
compreensão de outras perspectivas. O frio e o seco, embora contra a vida, permitem a
concentração de moléculas (ideais) e a secura lhes dá forma estruturada.
A descrição de Valens sobre a natureza de Saturno é a seguinte: os que nascem sob
essa estrela são preocupados com ninharias, acabam sem honra, solitários, são
decepcionados e decepcionam. Saturno tem aparência fingida, é dado ao teatro
(desempenha personagens), vestidos de negro, sofrem contidamente, são dados à
navegação, trabalham ao lado da água. Relacionam-se a ele a depressão, inação, auto-
punições, constrição, etc. Também dá sinais dos que trabalham com a terra, porque
Saturno tem autoridade sobre ela. Como trabalho, Saturno produz fiscais, coletores de
impostos e trabalhos em atividades forçadas. Pode gerar ótima reputação e posição,
administradores dos negócios alheios e das crianças dos outros. É um planeta singular, não
é dado à multidão e não tem nada de seu. Dor, mágoa, decepção, luto, são palavras chaves
para Saturno. Saturno faz cair para frente, pois não tem capacidade de enxergar a verdade
e tem ligação com a ignorância.
Portanto, de forma alguma Saturno tem a ver com a sabedoria em astrologia
Helenística.
NATUREZA E SIGNIFICADO DE JÚPITER
Abu Mashar diz que Júpiter é um benéfico e sua natureza é quente e úmida, moderada,
levando à capacidade para criar unidade e adicionar. Indica a alma que alimenta a vida,
filhos, netos, embriões, sábios, juízes entre os homens, a explicação dos sonhos,
confiança, verdade, virtude, religião, piedade, boa fama, tolerância, zelo; vitória, nobreza,
conquistas, os reis, grandes homens, apetite para a riqueza, sorte, doação de esmolas,
generosidade, ajuda, amor por edifícios e residências magníficas, brincadeiras, muito sexo.
Bonatti diz no Tratado 3, “Alchabitius disse que Júpiter é uma fortuna, masculino,
diurno e o significador natural da substância porque a substância está de acordo com o
que acontece ao nativo depois de seu nascimento e, porque o necessário acontece em
primeiro lugar, portanto Júpiter é o segundo planeta na ordem dos planetas e é o primeiro
depois daquele[Saturno]”.
“E, semelhantemente, Júpiter é o segundo planeta a exercer a sua operação na
criança concebida, isto é, contribuindo para seu espírito e vida. E seus efeitos são de
acordo com sua natureza, o calor e a umidade, o temperado, o aéreo e o sanguíneo.”
“E de profissões ele tem aquelas que dizem respeito à lei e ao julgar justa e
honestamente. E ele deve ser considerado promotor da paz e da concórdia em seu meio
quando alguns grupos estão discutindo ou brigando. Sempre se esforça pelo bem. E ele
significa abundância de substância. E das negociações (ele significa) aquelas que
acontecem sem que ninguém seja enganado. E ele significa alma, vida, felicidade, religião
e verdade, a paciência e tudo que é bom em cada preceito, bonito e precioso, e tudo o que
diz respeito à honestidade. E significa a abundância do amor sensual.”“E das
enfermidades ele significa tudo o que for aumentado no sangue na medida em que esse
aumento não seja além da medida, de modo que ele não extermina a natureza nem por
escaldá-la nem por transformá-la”.
“E é o planeta da sabedoria, do intelecto e do uso do bem. Se Júpiter estiver bem
disposto, for oriental e em um ângulo, o nativo terá boas qualidades, benigno, ele irá
honrar os idosos e será um conselheiro lúcido, aquele que ajuda o indigente, de boa fama,
aquele que ama os seus amigos e de bom intelecto.”
“Mas se Júpiter for infeliz, como Ptolomeu dá testemunho, o nativo será um homem
ignorante no agir beneficamente, voltando-se para operações diabólicas. Ele estará ansioso
por aparentar santidade. Ele irá às casas de oração querendo voluntariamente ficar
solitário, tanto em criptas e lugares cavernosos, e ele vai prever o futuro e não vai amar
ninguém e ele não terá amigos, vai abominar crianças e fugir da conversação humana, e
também não vai ele querer ser honrado por ninguém. Ele será um infiel, ninguém será
capaz de confiar nele, e ele será até mau, fraco, aloucado, trabalhoso e de julgamento
depravado”.
E em relação à qualidade da alma significa modéstia, generosidade e justiça.
Seu orbe é de 9 graus.
Das idades, segundo Ptolomeu ele rege por 12 anos, dos 57 anos até os 68 anos.
Vettius Valens diz que Júpiter gera crianças, amizades com grandes homens,
abundância, gastos, ótimos presentes, governos, soberania, heranças, irmandade, perda de
limites, liberdade. No corpo rege as panturrilhas e os pés por pertencerem ao atleta
comprometido numa corrida. Como partes internas, Júpiter tem autoridade sobre o sêmem,
útero, fígado e as partes do lado direito. Ele é da seita diurna, cinza e branco são sua cores.
NATUREZA E SIGNIFICADO DE MARTE
Abu Mashar diz que Marte é um maléfico. Sua natureza é quente e seca, bile amarela e
sabor amargo. Indica poder, juventude, incêndios, fogo, tudo o que acontece de forma
inesperada, cavaleiros, comandantes, assuntos militares, injustiça, opressão, guerra,
assassinato, roubo, soberba, castigo, espancamento, prisão, dificuldades, fugitivos,
controvérsia, inconstância, obstinação, pressa, loucura, linguajar obsceno, impiedade,
mentira, calúnia, falta de vergonha, viagens, ausência de casa, adultério, indulgência em
fazer amor, o corte do feto no útero, aborto, irmãos do meio, a gestão de animais de
montaria, a escavação de túmulos, a crucificação dos mortos, e os metais que o fogo
derrete como ouro, prata e ferro.
Alchabitius e Bonatti dizem que Marte é um planeta masculino3, noturno, maléfico,
seco, colérico, de gosto amargo, e, naturalmente, é o significador dos irmãos, porque os
irmãos são o terceiro acidente que ocorre ao nativo depois de seu nascimento. E Marte é o
planeta terceiro na ordem dos planetas e é o terceiro também que trabalha na operação
sobre a concepção, ou seja, trabalhando no feto através do sangue e avermelhando-o.
E é o significador da peregrinação, porque muitas são viagens longas e incômodas e
males podem acontecer aos peregrinos tais como roubos e maldades que são comparados
ao significado de Marte.
O calor excessivo de Marte cria perturbação e raiva. O calor e a secura criam
distinções por ideologias que podem promover animosidades e a separação.
Marte tem regência sobre a juventude de 42 aos 56 anos. E das profissões ele rege as
que se exercem pelo fogo e ferro, com martelos para bater ferro, homens que trabalham
em fornalhas, padeiros, executores, barbeiros, etc.
Vettius Valens diz que Marte significa violência, guerra, rapina, gritos, insolência e
adultério. Leva embora os pertences, leva a perdas em geral, banimento, separação dos
pais, prisão, ruína das mulheres, aborto, ato sexual, casamento, perda de coisas boas,
mentiras, situações sem esperança, situações de antagonismo público, prostituição pública,
execução pública, ladrões violentos, piratas, pilhagem, ruptura com amigos, raiva,
combates, reprovações, inimigos, ações na justiça. Ele faz assassinos violentos, provoca
cortes e hemorragia, ataques de febre, ulcerações, pústulas, inflamações, aprisionamento,
torturas, perjúrio, andanças errantes, vilões, aqueles que ganham através do fogo ou ferro,
artífices, trabalhadores em material duro.
Ele faz líderes, generais, guerreiros, traz supremacia, masculinidade, rege a caça, a
queda de alturas ou de quadrúpedes, pouca visão, apoplexia. Tem autoridade no corpo
sobre a cabeça, as costas e os genitais; das partes internas tem autoridade sobre o sangue,
dutos espermáticos, bile, excreção de fezes, partes posteriores, andar para trás, cair sobre
as próprias costas. Relaciona-se ao que é árduo e severo. É da seita noturna, vermelho
como cor, picante como gosto.
Seu orbe é de 7 graus.
NATUREZA E SIGNIFICADO DO SOL
Para Abu Mashar o Sol é um benéfico, sua natureza é quente e seca. Indica a alma
animal, luz, brilho, intelecto, conhecimento, inteligência, conquista, maestria. Indica
juízes, reis, líderes, nobreza, comunidade com os homens, riqueza, eloquência, limpeza,
julgamento, religião, poder sobre homens maus, vida futura, pais, irmãos do meio. Diz ele:
“Ele traz boa sorte, traz má sorte, ele levanta de uma só vez, em outro momento traz para
baixo”.
Alchabitius diz que o Sol é um planeta masculino, benéfico por aspecto, mas maléfico
por conjunção corporal. Sua natureza é quente e seca. É o significador natural do pai, se a
natividade é diurna. E isto é porque a Casa 4 significa os pais e o Sol é o quarto planeta a
partir de Saturno.
Seguindo a ordem decrescente dos planetas temos: Saturno, Júpiter, Marte, Sol. E é
também o quarto planeta que exerce a sua operação na concepção, ou seja, trabalhando no
feto por seu calor natural ou dando-lhe espírito, os membros corretos, a alma vital e os
traços da face. E o pai é a coisa que o nativo ama mais do que outras coisas e mais do que
aos irmãos.
Bonatti diz que o Sol significa luz, esplendor, beleza, inteligência e fé. Significa
soberania (todos lhe prestam reverências), magnatas e grandes homens. E isso é porque ele
está no meio de todos, como um rei e os outros estão próximos a ele, alguns de um lado,
outros de outro lado, nomeadamente os superiores à direita e os inferiores à esquerda (há
um paralelo com a posição caldaica dos planetas).
E ele tem poder sobre todos os planetas, porque ele os queima. Além disso, seu
movimento é quase uniforme e não é alterado, mas sempre normal, mantendo ano após
ano o mesmo passo. E seu movimento excede a nobreza de qualquer outro planeta: ele não
se torna retrógrado, como os outros.
Significa também aqueles que sabem usar e jogar dardos, lanças, caça e o
envenenemento das setas para matar os animais.
Dos remédios representa os purgantes para limpar o corpo das enfermidades, aquelas
ligadas aos elementos quente e seco.
Significa substância (riqueza) e ouro puro. E Alchabitius disse que significa riqueza de
todo tipo. Das qualidades da alma é ligado à sublimidade, sutileza,honestidade,
generosidade, glória e amplitude de visão.
Segundo Ptolomeu quanto às idades do homem rege dos 23 aos 41 anos de idade.
Vettius Valens diz que o Sol é aquele que tudo vê, sendo como fogo e a luz da mente, o
órgão de percepção da alma. É significante para a criação de ofícios reais, hegemonia,
mente, sabedoria prática, forma externa, movimento, aumento de fortuna, registros
públicos, ação, liderança popular, julgamento, pai, profissão, amizade, pessoas de alta
reputação, honras da imagem, estátuas e esfinges, coroas oficiais. Das partes do corpo tem
autoridade sobre a cabeça, órgãos sensoriais, olho direito, costelas, movimento respiratório
ou sensorial, tendões. Tem autoridade sobre a essência do ouro, dos frutos, trigo e cevada.
É da seita diurna, tem o amarelo limão como cor, e como gosto, tudo o que é forte.
NATUREZA E SIGNIFICADO DE VÊNUS
Abu Mashar diz que Vênus é um benéfico, de natureza fria e úmida, moderadamente
fleumática. Indica mulheres, mães, irmãs mais novas, limpeza, roupas, jóias, ouro, prata,
felicidade, serenidade, cavalheirismo, orgulho, amor pelo entretenimento, riso, luxo,
arrogância, adornos, dança, alegria, tocar instrumentos de sopro, mover cordas de guitarra,
músicas, perfumes, jogos de gamão e xadrez, ociosidade, falta de princípios morais, as
crianças do adultério, prostitutas, bebidas alcoólicas, muito sexo, lesbianismo,
generosidade, beleza, fraqueza de alma, feminilidade, lentidão, flerte, paixão, arranjo das
guirlandas, o uso de coroas, casas de devoção religiosa, adesão à religião e às práticas
piedosas.
Bonatti em seu Tratado lll diz sobre Vênus:
“Alchabitius e Albumasar dizem que Vênus é um planeta benéfico, feminino, noturno.
Ela significa mulheres e esposas. E, diz Alchabitius, se a seita da carta é diurna, ela
significa a mãe. Vênus é significadora natural das crianças porque as crianças são
sinalizadas pela quinta casa e Vênus é o quinto planeta a partir de Saturno. Também ela é
o quinto planeta a dar ao feto o sexo da criança, preencher o nariz e as sobrancelhas e
fazer o arranjo de toda a face.”
“E como Vênus é o planeta do prazer e alegria, a Casa 5 é atribuída às crianças e as
significa, porque elas são um acidente que gera alegria e nelas o nativo se deleita.”
Bonatti diz que se Vênus encontra-se de forma afortunada na carta o nativo terá uma
vida suave e será amado pelas mulheres e, além disso, vai fornicar muito.
Vênus tem natureza fria e úmida, mas moderadamente.
Da idade de um homem ela significa especialmente a adolescência e a juventude dos
15 aos 22 anos. De profissões, os instrumentos musicais, jogos de azar, damas e dados.
Seu orbe é de 7 graus.
Vettius Valens diz que Vênus é desejo e amor erótico e é significadora de mães e amas.
É dada a ritos religiosos, ginástica, uso de ornamentos dourados em que se deleita e
coroas, alegria, amizade, aquisição de bens supérfluos e de ornamentos, reconciliações
para o bem, casamentos, artes purificadoras, fazer musica, doces melodias, beleza da
forma, pinturas, combinação e variedade de cores, tintura roxa e artes aromáticas,
presentes, recibos, risadas, festividades, oficina de esmeraldas e pedras preciosas,
trabalhos em marfim, aqueles que tecem fios de ouro ou se adornam com ouro, cortadores
de cabelo, aqueles que amam a limpeza e adoram brincar. Superintendentes de mercados,
de pesos e medidas, pequenos negócios ou oficinas. Fornece vantagem vindas de mulheres
ou parentes reais e busca uma reputação excelente. Sobre as partes do corpo tem
autoridade sobre o pescoço, face, lábios, olfato e as partes dianteiras do corpo dos pés até
a cabeça, sobre o intercurso genital e, das partes internas, tem autoridade sobre os
pulmões. Também indica a nutrição de outrem. Tem autoridade sobre pedras preciosas e
ornamentos multicoloridos e sobre o óleo das frutas. Pertence à seita noturna, como cor é a
branca e como gosto, a gordura.
Sendo úmida tende a unir as pessoas.
NATUREZA E SIGNIFICADO DE MERCÚRIO
Abu Mashar diz que Mercúrio inclina sua natureza para com os planetas e signos com
os quais se mistura. É bom com os bons e mau com os maus. Indica jovens, irmãos mais
novos, o amor por servos e servas, a divindade, a revelação dos profetas, confiabilidade,
intelecto, comunicação de boatos, as várias ciências: cálculo, topografia, geometria,
astrologia, agouros através de pássaros, feitiçaria, retórica, poesia, a arte de escrever,
antologias poéticas; pouca alegria, corrupções pela riqueza, comércio, dar e receber,
astúcia, malícia,burla, paciência, amizade com quem é gentil.
Alchabitius diz que Mercúrio é um planeta masculino, diurno, que inclina sua natureza
para o planeta e signo ao qual está ligado, de modo que se ele estiver associado a um
benéfico, ele efetuará o bem e se estiver associado a um maléfico, ele efetuará o mal, e se
ele estiver associado a um planeta masculino, ele é chamado de masculino e se ele estiver
associado a um feminino ele é feminino, da mesma forma diurno ou noturno.
Ben Ragel diz que Mercúrio é quente e seco. Já Lilly diz que sua natureza é fria e seca
moderadamente e a seguir diz que com os bons é bom e com os maus é mau. Mas também
afirma que quanto a elementos ele relaciona-se à água e quanto aos humores é misto.
Ibn Ezra diz que Mercúrio é temperado e transforma-se conforme aquele com quem se
encontra, pois adapta sua qualidade à de qualquer das estrelas e signos em que se encontre.
A sua natureza é um pouco fria e seca.
Mercúrio sob o ponto de vista de gênero é considerado neutro e diz Ebenezer Sibly
que às vezes ele resseca e outras vezes umidifica4.
Rhetorius diz que a natureza de Mercúrio é às vezes úmida e às vezes seca.
Rege a geometria, retórica e ciência de transações comerciais e de como tornar as
coisas lucrativas. Significa filosofia, augúrio, escrituras, provérbios e aritmética.
Significa também os irmãos mais novos.
Bonatti diz que “O homem mercurial ama mais as amantes do que as esposas e
livremente se une a elas. E Mercúrio significa valorização e pensamento sobre o amor de
Deus, e isto está em sua consciência, embora alguns sejam lascivos e pratiquem coisas
ilícitas. Ele tem boa fé e devotamente passa seu tempo nos templos e em outros santuários
das igrejas. Ele terá inclinação católica.”
Segundo Ptolomeu rege a idade dos 5 anos aos 14 anos. Seu orbe é de 7 graus.
Vettius Valens diz que Mercúrio significa a educação das crianças, irmãos, cartas,
oratória, contar, geometria, declamação, observação minuciosa, versatilidade. Ele faz
construtores de templos, escultores, médicos, escritores, advogados, oradores, filósofos,
arquitetos, músicos, adivinhos, sacrificadores para oferendas, os que são metódicos, os
que atuam ou cantam, que ganham a vida pela exibição e, além disso, pela fraude, errantes
e confusos (de acordo com o movimento planetário confuso de Mercúrio), astrólogos e os
que adquirem fama por feitos maravilhosos. Desde que é capaz de variedade de métodos,
fornece um ou outro de acordo com o signo em que está. Significa irregularidades na
fortuna e desvio de objetivos. Das partes do corpo tem autoridade sobre as mãos, ombros,
dedos, articulações, barriga, ouvidos, traquéia, intestino grosso, língua. Rege o cobre e
tudo que é cunhado (moedas ou notas).
Outros autores helenísticos conferem a Mercúrio a regência sobre a ginástica e a
competição esportiva.
De maneira geral na astrologia helenística, que dava grande importân-cia à seita
dominante, se Mercúrio nascesse antes do Sol ele era considerado diurno e masculino para
aquela carta, e vice- versa. Muitos astrólogos tradicionais tem adotado essa ideia
NATUREZA E SIGNIFICADO DA LUA
Abu Mashar diz que a Lua tem natureza fria e úmida, fleumática, moderada, tendo
calor acidental em sua luz, porque reflete a luz do Sol. Indica alegria, beleza, louvor, o
início de todas as atividades; reis, boa sorte, jurisprudência, religião, muita consideração
nas coisas, premonição, a ciência de terras e águas e a sua quantidade, contabilidade, as
mulheres nobres, o casamento, a educação das crianças e suas condições; mães, tias
maternas, amas de leite, irmãs mais velhas; mensageiros, o correio, rumores, fugitivos,
fraqueza do intelecto; mentiras e calunia, um amigo que revela seu segredo, as transações
e o trabalho com alimentos.
Bonatti confirma o testemunho acima e acrescenta que a Lua é a significadora da mãe
se a natividade for noturna.
A Lua significa a infância, os primeiros quatro anos de vida, por causa de suas rápidas
mudanças.
Das profissões ela rege comandos, as obras de águas e terras. Se ela tiver dignidade na
Casa 4 ela significa prata e boa fortuna na agricultura. Também significa religião.
Das doenças ela significa epilepsia, contorções da face e aquelas que levam à paralisia
especialmente da língua, lábios e olhos. Ela significa agitação dos membros como em
algumas doenças causadas pelo frio e umidade e que ocorrem nos fleumáticos.
E ela significa a qualida da alma: se ela estiver ligada a um bom planeta será boa, se a um
planeta mau,será má.
Seu orbe é de 12 graus.
A Lua tem relação com a popularidade e é um planeta benéfico.
Vettius Valens diz que a Lua foi gerada pela reflexão da luz do sol, possuindo uma luz
de segunda linha. Por isso ela significa o corpo, a mãe, o alimento, a concepção. Significa
deusa, viver junto ou casar-se legalmente, amas, irmãos mais velhos, manutenção da casa,
propriedade, fortuna, cidade, reunião de multidões, recibos, despesas, lar, navios, viver
fora do país, vagar.
Das partes do corpo tem autoridade sobre o olho esquerdo, estômago, seios, bexiga,
membranas, medula. Tem autoridade sobre o vidro e a prata. Sua cor é verde e o sabor é
salgado.

1. Gansten, Martin, “ Primary Directions” edit. The Wessex Astrologer

2. Na verdade Platão achava que as formas ( ideais) eram separadas da matéria pois os elementos se rebelavam à
ordem, e os planetas ou entidades que representam foram chamados a tomar conta da vida na terra oferecendo algum
principio de ordem e número.
3. Ibn Ezra é o único autor que diz que Marte é feminino. No entanto ele confirma que se trata de planeta noturno.

4. Ebenezer Sibly,” An Illustration of the Celestial Science”,, Kessinger Publishing.


5º CAPÍTULO
A DELINEAÇÃO DA CARTA-
CONSIDERAÇÕES GERAIS

Q
uando uma carta nos é apresentada estamos diante de uma enormidade de fatores
a levar em consideração: planetas, casas, aspectos, potencialmente toda a história
da vida do nativo. Como colocar tudo sistematicamente no espaço e no tempo?
A astrologia tradicional traz um grande auxilio por ser muito sistemática e protocolar:
ela fornece instrumentos para que a analise parta de uma casa e não se desvie dela até
esgotá-la. Pouco a pouco a teia da vida do nativo se descortina ante nossos olhos.
Como uma primeira aproximação, verifique onde estão os planetas benéficos e onde
estão os maléficos. Você verá as áreas mais difíceis e mais fáceis da vida do nativo.
Verifique também onde estão os planetas em queda e detrimento: são áreas potenciais de
problemas, a menos que sejam ajudados por outros planetas ou por estrelas fixas.
Para o necessário aprofundamento da análise de qualquer casa o astrólogo necessita
identificar os planetas que se relacionam fortemente àquele tópico. Tais planetas passam a
se chamar significadores do assunto representado pela casa, como por exemplo, família,
dinheiro, filhos ou qualquer outra área da vida.
Em outras palavras: os significadores, como o próprio nome diz,são os planetas que
representam um tópico da vida, seja por sua posição na carta ou por regência.
Deve-se ter em mente que a carta se refere ao nativo sob o ponto de vista interno e
externo. Os planetas em determinadas casas representam áreas da vida a serem vividas de
certa forma, pessoas agindo de certa maneira na vida do nativo e também suas sensações
internas.
Os planetas que aspectam o signo Ascendente, seus principais regentes (domicílio e
exaltação), o Sol e a Lua podem descrever também o nativo. Mas é preciso ter em mente
que a astrologia medieval é preditiva e vê na carta um palco onde personagens e
circunstâncias interagem com o nativo e com seu mundo interno.
Por exemplo, o significador do casamento vai se referir ao parceiro/ a do nativo. Se
percebermos que o significador se encontra em mau estado podemos esperar um mau
casamento, um companheiro/a que é deficiente em algum aspecto, por vezes doente, de
classe inferior ao nativo, etc.
No trabalho de delineação estaremos lidando intimamente com o sig-nificado das
Casas, por isso, uma vez que já abordamos no último capítulo o significado dos planetas,
resta-nos falar, mesmo que brevemente, das chamadas casas terrestres, as quais descrevem
tópicos da vida. Cada casa será bastante aprofundada nos próximos capítulos do livro.
A Primeira Casa é aquela que ascende no começo do horizonte Leste. Ela denota a
vida, o corpo, o início de todas as ações e os pensamentos da mente. Da idade de uma
pessoa ela representa o início da vida e das estações, ela representa a primavera.
A Segunda Casa denota dinheiro e posses, o alimento que traz sustento ao corpo e, em
um duelo, os padrinhos do nativo, isto é seu suporte.
A Terceira Casa denota irmãos, irmãs, parentes, o conhecimento, a transmissão de
ideias, as comunicações, conselhos, cartas e rumores, e—mail, internet, viagens ligadas à
parentela.
A Quarta Casa denota os pais e também as propriedade imobilizadas, a casa, as terras,
casas e campos, tesouros escondidos e todas as coisas escondidas, assim como o final de
qualquer matéria. Ela representa o Nor-te e o inverno.
A Quinta Casa denota as crianças e o prazer, assim como banquetes e festas. Segundo
alguns autores representa os embaixadores e os emissários1, e por ser a Segunda Casa a
partir da quarta, representa o dinheiro das terras e dos imóveis do nativo ou o dinheiro dos
pais.
A Sexta Casa indica doenças físicas ou psíquicas (inclusive vícios), machucados,
escravos e empregados, trabalho duro, pequenos animais.
Robert Zoller diz que a sexta casa atualmente significa também a habilidade do nativo
para realizar as coisas que antes eram atribuídas aos escravos. A meu ver em alguns casos
isto faz sentido.
A Sétima Casa indica mulheres e relações sexuais, disputas e lutas, inclusive legais,
guerra, estar ante um julgamento, ladrões e também a parceria por amor ou interesse de
negócios. Representa os inimigos declarados e por ser uma casa oposta ao Ascendente
pode significar a morte em alguns casos específicos e sempre se outros testemunhos
apontarem para tal.
A Oitava Casa significa morte, herança dos que morreram, o dinheiro dos outros,
como dos bancos ou do parceiro, mas não do governo, empréstimos concedidos ao nativo,
separação, medo, dor e perda. Diferentemente do conceito astrológico moderno esta casa
não se relaciona a assuntos sexuais.
A Nona Casa denota viagens em busca de algo maravilhoso e mítico, todos aqueles
que são removidos de uma posição elevada, a filosofia, as leis, a religião e adoração a
Deus, emissários, sonhos, juramentos, adivinhação e auguro. Representa também a
preparação para o exercício da Casa Dez.
A Décima Casa significa ação no mundo, inclusive profissional. Para alguns autores a
mãe, o governo (autoridade), a reputação, o rei e o juiz. Muitas vezes pode ser vista como
o objetivo a ser atingido.
A Décima Primeira Casa denota honra e graça, bom nome, esperança, amigos que
apoiam o que o nativo realiza, profissionalmente ou não, os mecenas, os ministros do rei,
o dinheiro do governo e seus administradores.
A Décima Segunda Casa denota tristeza, inimigos ocultos, pobreza, restrição, ciúme,
ódio, medo, vigilância, fraude, prisão, cativeiro, todas as desgraças e aflições, animais que
servem para montar [ou puxar veículos], assim como o que ocorreu ao nativo antes do
nascimento.
As casas terrestres também se relacionam cada uma com um planeta. Esta ordem
obedece à ordem caldaica dos planetas e não tem nada a ver com os signos. Já falamos
brevemente sobre esse assunto no capítulo anterior ao descrever os diversos significados
dos planetas, mas não é demais repetir.
Saturno tem relação com a primeira casa, pois Saturno representa o último planeta
antes da esfera celeste imutável, o primeiro a ter relação com o mundo das formas
terrestres e o signo ascendente é o formato de corpo que a alma utiliza para poder viver na
matéria, quando então se limita. Segundo a filosofia platônica, a alma constrói um corpo
que se relacione a ela e possibilite viver o destino que escolheu.
A Segunda Casa se relaciona a Júpiter porque Júpiter provê o apoio para a primeira
casa, por dar condições de vida ao nativo.
A Terceira Casa se relaciona a Marte que na ordem caldaica é o planeta seguinte.
Marte representa os irmãos, pois são eles os responsáveis pelos primeiros desgastes e lutas
do nativo.
A Quarta Casa de relaciona ao Sol, porque o Sol é o princípio masculino, representado
pela figura do pai.
A Quinta Casa se relaciona a Vênus e representa o prazer, divertimentos, as festas e as
crianças, pois trazem alegria.
A Sexta Casa se relaciona a Mercúrio, que é o sexto acidente2 que ocorre ao nativo,
isto é ele tem que lidar com as doenças que limitam seu corpo, os desgastes, os
empregados ou servos.
A Sétima Casa se relaciona à Lua. A Lua tem relação com a Sétima Casa por motivos
filosóficos profundos que não será possível explicar no momento. Tais motivos não foram
entendidos na astrologia Medieval, que afirma que a Casa 7 tem relações com a Lua por
ser esta a casa das mulheres do nativo. É possível que assim funcionasse na cultura
islâmica, mas os verdadeiros motivos filosóficos de tal conexão são bastante anteriores à
astrologia Medieval e provêm de outras bases.
Como a Lua representa o último planeta em ordem caldaica, a Setima Casa também
representa a morte.
A Oitava Casa se relaciona novamente a Saturno, a morte, ou estar morto. A Nona
Casa se relaciona a Júpiter, os estudos que preparam para a profissão, a Décima Casa se
relaciona a Marte, a luta e a briga para vencer e obter um lugar no mundo, a Casa Onze se
relaciona ao Sol, os patronos e mecenas que apoiam as ações da Casa 10. Já a Casa 12 se
relaciona a Vênus indicando talvez que muitos prazeres são ocultos e realizam-se de
maneira invisível.
Devemos agora rever a capacidade de ação de cada casa. Segundo fontes antigas não
apenas as casa angulares, mas as pós-ascensionais ou sucedentes conduzem à ação.
Quantificar o poder de ação de cada casa é um desenvolvimento posterior e recomendo
que se use ao invés de “capaz ou incapaz de ação,”forte ou fraca,”um conceito diferente.
Senão vejamos: quando tiramos uma foto focalizamos o objetivo pri—meiro, nosso
centro, o foco, o mais importante objeto a ser fotografado. Tal centro seria correlato a cada
ângulo que corresponde ao movimento da eclíptica, Leste, Oeste, Norte e Sul. Digamos
que vamos fotografar uma pessoa importante: ao lado dela estão os mais íntimos, no caso
de um governador, seus apoios políticos e conselheiros. Mais distantes estão as pessoas
que não se relacionam diretamente ao governador e, se a foto ocorrer em um restaurante,
mesmo o garçom ao fundo pode aparecer nela. Nosso foco fotográfico é o governador e as
pessoas mais chegadas a ele, mas isso não significa que o garçom não tenha uma função
importante: apenas, não é uma função central no que diz respeito ao governador.
Da mesma forma, diremos que os ângulos e os signos completos onde estão eles
situados, assim como os planetas sobre eles, estão no epicentro da carta. As casas e
planetas pós-ascensionais agem intensamente voltados para a sustentação da casa anterior.
Já os planetas localizados em casas cadentes ou declinando agem inteiramente, mas não se
relacionam ao centro da vida do nativo.
A DISTRIBUIÇÃO DOS PLANETAS NA CARTA
Pela distribuição dos planetas na carta o astrólogo terá uma ideia geral de onde se
encontram dificuldades. Elas estão exatamente no signo e casa onde se encontram os
maléficos. Já as facilidades são vistas nos signos e casas onde se encontram os benéficos.
Recordando o que vimos no Capítulo 1 sobre Temperamento:

Figura 4
Se os planetas benéficos e maléficos estiverem entre zero de Áries e zero de Câncer,
podem-se prever sucessos positivos ou negativos no início da vida do nativo, até seu
amadurecimento. Sua fase adulta pode ser prevista pelos planetas que estiverem de zero de
Câncer a zero de Libra. Sua terceira idade em signos de zero de Libra a zero de
Capricórnio e a senilidade pelos planetas em signos de zero de Capricórnio a zero de
Áries.
As estações primaveris, outonais, invernais ou estivais, alem de darem as
características temperamentais, indicam, portanto quando os acontecimentos surgirão: a
primavera marcando a primeira parte da vida, o verão a segunda, o outono a terceira e o
inverno a quarta. No entanto, esta é apenas uma etapa da previsão: seria muito simples e
confortável que tudo se resumisse a olhar os planetas em cada quadrante, mas infelizmente
as coisas não são tão simples.
No entanto, mesmo não sendo um mandamento em si mesma, tal técnica fornece
subsídios interessantes.
Vejamos um exemplo:

Figura 5
Nesta carta observamos que há:
Dois planetas em Capricórnio- que representa a parte senil da vida.
Um planeta em Aquário- que representa a parte senil da vida.
Dois planetas em Peixes- que representa a parte senil da vida.
Um planeta em Sagitário- que representa a parte final da vida
Um planeta em Escorpião- que representa a parte final da vida
Diremos então que o maior número de acontecimentos importantes na vida da nativa
ocorreram na parte final de sua vida e um pouco antes de sua morte, o que foi a mais pura
e cristalina verdade, visto que sucederam após a terceira idade e a nativa faleceu quando
estava gozando de grande prestígio profissional.
Muitos planetas em uma das estações enfatiza aquela parte da vida.
Como já dissemos, observaremos também onde estão os planetas maléficos,assim
como os benéficos, indicando cada um dificuldades e facilidades na vida do nativo.
No caso presente vemos que as dificuldades ocorrem na Casa 12, que já de por si é
uma casa difícil e, além disso, em Peixes, um signo de inverno.
As facilidades ocorrem na Casa 10, onde está Júpiter e na Casa 9, onde está Vênus,
enfatizando o preparo profissional e a profissão em si.
O Sol é um benéfico quando em aspecto, mas um maléfico quando em conjunção. No
caso, Mercúrio está combusto e retrógrado, em signo onde não tem dignidade, portanto
atua mais para o mal. A Lua de maneira geral é um benéfico, embora haja opiniões de
autores que consideram a Lua benéfica quando se afasta 15º da conjunção do Sol (Lua
Nova) até chegar à Cheia ou Completa e é considerada maléfica da oposição até a nova
conjunção. No caso em pauta a Lua está em casa difícil e em sua queda, portanto está
aflita. Além disso, está decrescendo em luz (em seu último quarto) o que a torna fria e
úmida. Isto fala a respeito de dificuldades relativas à Casa 8, angustias, temores, morte
difícil e dolorosa além de outros significados que veremos a seguir quando estudarmos a
delineação das casas.
Como se vê, neste nível já é possível nos aproximarmos de uma pequena e geral
delineação e predição dos tempos favoráveis e desfavoráveis ao nativo, suas dificuldades e
facilidades, assim como os períodos importantes de sua vida.
FORMA DE DELINEAÇÃO GERAL
Para que tenhamos uma ideia precisa do sentido astrológico da carta e atingir o nível
de delineação como se vê em Abu Ali al Khayat temos que ter duas regras em mente, que
podem parecer contraditórias à primeira vista:
1. Posição é mais importante que regência
2. O mal e o bom de uma casa dependem do regente da casa
O caso é que um planeta posicionado em uma casa vai buscar como material para se
manifestar aquele oferecido pelo signo e casa que rege e manifesta o resultado na casa em
que está.
Já se a casa não tem nenhum planeta ela fornecerá o material que vai se manifestar na
casa onde seu regente está.
Esta noção é crucial e se fundamenta na filosofia aristotélica de causa e efeito. O
planeta manifesta o efeito e o signo que ele rege manifesta a causa ou o assunto que criou
o efeito.
O astrólogo que aprender em profundidade tal jogo de relações entre o planeta e o
signo que rege, adaptando-o aos assuntos mundanos, isto é às casas, estará apto a fazer
qualquer delineação, respondendo às perguntas básicas de certo assunto, descrevendo o
que ocorre naquele tópico, qual a experiência que a casa proporciona e por que
determinada coisa ocorre.
Ora, cada casa tem seu regente e este regente pode estar na própria casa ou em outra
casa.
A partir daí temos a experiência vivida através da casa. Isto quer dizer: como é a
experiência? Boa, ruim, prazeirosa, frustradora? Tudo isso depende do estado celestial e
mundano dos planetas presentes ou que tem regência sobre a casa. Por exemplo, o Sol em
Leão na Casa 10 mostra que o nativo terá uma profissão influente, se estiver na Casa 7 que
seu companheiro/a será poderoso, etc. Mas se o Sol em Leão estiver cadente não ajuda
muito o nativo, mesmo estando em Leão. Portanto temos que combinar dignidade
essencial e acidental.
A seguir podemos verificar em que outras casas contribuem para a casa estudada:
como o fazem e por quê. Por exemplo, se o regente da primeira casa está na sétima
dizemos que ele usa o material do nativo, a pessoa do nativo, para gerar a parceria, mas o
resultado final será de acordo com a posição essencial deste planeta.3
No entanto, se o contrário ocorrer, isto é se o regente da Casa 7 estiver na primeira
casa, diremos que a Casa 7, a parceria é usada para os assuntos da Casa 1, o nativo, seu
bem estar físico e tudo que a Casa 1 significa. Da mesma forma se o regente da Casa 3
estiver na Casa 12, diremos que inimigos ocultos fazem uso dos irmãos, parentela,
comunicações para se manifestarem na vida do nativo. Já se o regente da Casa 12 estiver
na Casa 3, diremos que os irmãos do nativo são inimigos ocultos.
Da mesma forma, se o regente da Casa 6 estiver na Casa 3, por que a Casa 6 é uma
casa de doenças e a Casa 3 é uma casa cadente, indicará que os irmãos são doentes, fracos
e sem expressão social.
Em outras palavras: uma vez que o planeta usa a matéria do signo que rege, se um
planeta estiver na Casa 3 e reger a Casa 6 os irmãos manifestam condições de sexta casa.
Claro está que a carta precisa ser vista como um todo, avaliando-se se o planeta é um
benéfico ou maléfico, se está em bom estado essencial ou não. Quanto pior o estado
essencial do planeta mais corrompido será o assunto que rege.
Aonde se expressam as pessoas e os tópicos dessa casa? -–esta é a nossa próxima
questão.
Isto vai depender dos regentes da casa, sua natureza, estado e aspectos. Se o regente da
primeira está na sétima casa e é, por exemplo, Saturno em Câncer podemos dizer que o/a
companheiro/a, as sociedades, os inimigos declarados são difíceis, tem problemas, são
mesquinhos, implicantes, não gostam do nativo da mesma forma que Saturno não gosta do
lugar que está, e fazem uso da pessoa do nativo( seu Ascendente) para seus próprios fins.
Neste momento é perceptível que os planetas da carta descrevem situ-ações que o
nativo enfrenta independente de si mesmo, tipos de pessoas que encontra em diversas
áreas da vida.
Como se pode observar nos aproximamos de uma astrologia em que os fatos e pessoas
da vida do nativo aparecem como que obedecendo a um padrão contido em sua carta. O
interno e o externo são maneiras de olhar para a mesma coisa. Em nosso exemplo acima
não apenas o nativo terá um mau casamento pois seus parceiros tornam sua vida difícil e
tem problemas, mas isto reflete também o mundo interno do nativo que só funciona nesta
configuração, isto é procurando pessoas que sejam cheias de problemas, difíceis, etc.
Por exemplo, se Vênus como significador universal do amor e do casa-mento estiver
em Virgem na sexta casa dificilmente, a não ser que outros benéficos compensem o fato, o
nativo terá um casamento ou parceria razoável, pois Vênus está cadente por casa e em sua
queda. As pessoas a aparecer na vida do nativo para parceria serão subordinados
(geralmente significadores cadentes falam de pessoas cadentes, com dificuldades) de baixa
qualidade essencial e cuja posição é comparável a de empregados do nativo. E o nativo
também manifesta descontentamento e vergonha de seus parceiros.
No exemplo que citei de Saturno em Câncer na casa das parcerias, não apenas os
parceiros usam os recursos do nativo, mas o nativo, cujo Ascendente é, como se vê,
Capricórnio não aprecia devidamente a parceria, pois seu regente não se satisfaz no signo
em que está.
Todos os fatores e tipos de relações da vida do nativo estão configurados desde seu
momento de nascimento, mas é uma questão pertencente às técnicas preditivas quando
tais fatos sucederão, o que depende das várias direções dos significadores. O que nos
importa, por enquanto, é saber qual é o significador que devemos dirigir. Sem uma correta
delineação não pode haver uma correta predição.
O que chamamos de livre arbítrio tem muito pouco de liberdade, pois podemos
determinar o tipo de ação que o nativo será capaz de realizar, a qual depende de vários
fatores, tais como a época da vida em que os fatos vão ocorrer (isto é as direções), se
haverão então benéficos prestando testemunho, se existe harmonia entre Lua, o emocional,
e Mercúrio, o racional, se a situação da Parte do Espírito é favorável, como tal parte se
configura com seu regente e se recebe influência de outros planetas.
Fazendo uma digressão, a questão do livre arbítrio foi proposta dentro de uma tradição
judaico cristã, é fundamentada na noção de pecado e não deveria sequer ser levantada pela
astrologia. Não sabemos o que se passa antes do nascimento e por que certa natividade
apresenta determinados pontos nodais, mas a questão a ser levantada versaria por esta
linha: isto é, por que nascemos em um país e não em outro, em uma família abastada ou
pobre, em um país onde a pobreza impera ou em outro onde qualquer família tem direito a
seguro saúde e escola, etc. A partir do momento em que nascemos, estamos circunscritos a
certo espaço, ao tempo de evolução da regência de cada planeta e, se soubermos avaliar, a
história da vida inteira já foi escrita. Nós levamos a vida, o que quer dizer que a vida é
independente e ocorre: cabe a nós observar a paisagem que se mantém monotonamente
igual por anos até que mude drasticamente.
Se escapamos da morte por um apêndice supurado devido ao artifício da ciência tal
fato já era esperado quando nascemos em certa sociedade tecnológica ao invés de no meio
da selva. A novidade só pode se manifestar de forma limitada e dentro da abrangência do
simbolismo dos significadores. Da mesma forma o astrólogo consegue prever dentro dos
limites do simbolismo, o qual é uma condensação de significados abrindo para um leque
fatual muito grande e impossível de precisar de forma absoluta.
Além disso, há acontecimentos na vida do nativo que dependem de daemons, um
“acaso” que tem mais a ver com as Partes relacionadas a cada assunto dependentes de
causas fisicas mais do que de planetas. A elasticidade dos fatos relaciona-se, também a
uma grande conjugação de fatores que leva em conta outros destinos vinculados ao nativo
e a sincronicidade é ampla o suficiente para que envolva todos os personagens
relacionados em uma trama, afim de que possam manifestar—se no tempo e espaço
material preciso.
Assim, na delineação podemos confundir se o nativo vai dar início a um estudo
hermético ou embarcará para uma viagem à India, pois ambos são assuntos de Júpiter e
Mercúrio, ambos referem-se à Casa 3 e à Casa 9.
Mas, uma árvore que cai sobre o nativo, derrubada pelo carro dirigido por outrem ou o
encontro em certa transversal do tempo de dois destinos pode obedecer a leis fisicas,
ananke, e não às leis planetárias.
Pode-se falar ainda mais sobre o assunto de cada casa, como, por exemplo, quais
outras influências ela sofre, além de seu regente?
Digamos que haja planetas na casa. Então devemos nos perguntar que casas estes
planetas regem, se eles são aspectados e por quem e que casas são regidas pelos planetas
que os aspectam. O mesmo deve ser feito pelo planeta regente da casa: é ele aspectado?
Por quem?
Logo se vê que a tarefa de um astrólogo não é rápida ou fácil. Finalmente e
praticamente contida nas outras perguntas: que outras
áreas da vida são manifestadas através desta casa? Neste caso devemos olhar que casas
são regidas por planeta ou planetas em determinada casa, se são aspectados, que casas são
regidas pelo regente da casa, etc. Suponha que Saturno esteja na Casa 7 e reja a Casa 9 e a
Casa 10. Saturno realiza as sociedades e o casamento através de pessoas ligadas ao
estrangeiro, à profissão, ao governo ou a entidades religiosas.
A relação de um signo com o planeta que o rege é muito mais próxima que com o
planeta que ocorre de estar nele. Este planeta que o rege é o que faz a mediação entre o
signo celestial e nosso mundo para que realize seu significado e sentido, pois os signos
estão por assim dizer, inseridos em uma esfera à qual não temos acesso a não ser pelos
planetas que os representam. Os signos fazem parte da oitava esfera que era considerada
imutável e divina, a esfera das constelações e estrelas.
No entanto, de forma óbvia o planeta na casa se manifesta claramente mostrando seu
vinculo e relação com ela, mesmo que com o tempo o regente se mostre muito mais
influente.4
Portanto, a princípio posição é mais importante que regência, mas a motivação final de
uma casa depende da condição de seu regente.
Nem sempre há planetas em uma casa a ser investigada e teremos que delineá-la
através de seu regente ou de seus regentes, mas se houver um planeta na casa, devemos
começar a delineação por ele. Esta é uma regra fundamental.
Deve-se ter sempre em mente, e nunca é demais salientar, que os planetas em uma
casa ou o regente dela só produzem o efeito esperado na medida em que estiverem fortes
especialmente por casa, mas a manutenção do efeito se dá pela boa condição essencial. De
fato, na produção de efeitos a posição por casa e a angularidade são mais importantes, mas
a continuidade e o desfecho final dependem da boa condição essencial do significador.
Supondo que a Casa 2 caia em Virgem e tenha Marte nela. Se Mercúrio estiver
cadente, Marte terá mais influência sobre a casa, pois está em sua triplicidade. O contrario
ocorre se o planeta estiver cadente em uma casa e o regente estiver angular: neste caso, o
regente terá mais importância para a casa.5 Um planeta fraco somado a um regente
cadente prognosticam insuficientes recursos para a casa.
REGRAS GERAIS PARA DELINEAR UMA CASA
1. Observar se a casa tem como cúspide um signo masculino ou feminino. Os signos
femininos recebem influências e os ativos buscam oportunidades.
2. Observar planetas na casa. Se houverem maléficos a tendência é para uma
experiência difícil na casa, a menos que sejam ajudados por benéficos por aspecto
ou regência ou se estiverem domiciliados. Se houver mais de um, aquele mais perto
da cúspide é mais importante, mas se o regente do signo da cúspide se encontrar lá,
ele tem preferência como o mais importante. A posição longitudinal tem a ver com
os acontecimentos no tempo. Os planetas de longitude menor mostram seus efeitos
antes que os de longitude maior.
3. Quando se tratar de uma casa angular é preciso ver que planetas a aspectam, pois
os planetas são sempre agentes e enviam influências à casa de acordo com o signo,
casa e poder que possuem, mas mesmo os planetas que estiverem em casas cadentes
e fizeram aspecto com casas angulares levam a elas sua influência.
4. Se não houver planetas na casa ou ela não for angular, depois de observar a
natureza do signo, se é masculino ou feminino, observe em que casa estão os
regentes do signo. Use o mais forte deles, mas se todos estiverem fortes, prefira os
regentes por domicílio e exaltação. Fazer o almutem da cúspide é valido e
importante, mas em meu entender tem mais serventia para casas angulares, pois
dependendo do método de divisão de casas a cúspide das casas não angulares pode
cair em signo diferente, ou mudar pelo menos termo e face. Os regentes da casa por
domicílio, exaltação e triplicidade mostrarão por sua determinação local se os
assuntos da casa serão realizados e como o serão. Isto dependerá da natureza do
principal regente, seu estado essencial e local. Usa-se especialmente o que estiver
mais forte na carta e a questão de seita neste caso conta pontos.
5. Veja o significador natural ao qual a casa está relacionada. Por exemplo, a Casa 2
se relaciona a Júpiter, significador universal da riqueza, a Casa 3 a Mercúrio,
regente universal dos papeis, etc.
6. Calcule as Partes Árabes referentes à casa e observe seu regente. Duas
considerações são importantes quanto a essas partes: se estão angulares ou
sucedentes e se seu regente é capaz de fazer um aspecto ptolomaico com elas por
signo.
Isto tudo que foi descrito deve ser feito de tal forma que se saiba a quê cada planeta se
refere e este estudo deve preceder qualquer tentativa de predizer alguma coisa.
Um último esclarecimento: prefira como planeta mais forte aquele que tiver um
significado análogo ao da casa, dê preferência ao regente por domicílio, mas se ele estiver
mal e o regente de exaltação estiver bem, prefira-o6. Se os regentes de exaltação e
domicílio estiverem mal configurados, mas os regentes da triplicidade estiverem bem, eles
ainda podem trazer algum sucesso para a casa. Alguns autores dizem que tal sucesso será
mais certo se o regente da triplicidade referente à seita da carta estiver bem configurado7.
Leve em consideração as recepções, pois se o regente estiver aflito por um maléfico,
mas houver recepção ele pode levar a efeito os assuntos da casa, ainda que com desafios.
Refira-se a Figura 6, já citada no exemplo do Capítulo 2º:

Vamos delinear a Casa 2, a substância da nativa. Mais tarde veremos como encontrar o
significador financeiro, uma técnica especial. Por ora, apenas faremos uso de uma
delineação simples.
O regente de domicílio da Casa 2 é Júpiter que está exaltado, mas cadente e
retrógrado. Ele se refere aos estudos, à religião, às viagens. Tem ele capacidade de suprir
os tópicos da Casa 2? Muito pouco, especialmente por estar cadente.8 Nenhum planeta se
exalta a 2º de Sagitário, logo vamos aos regentes de triplicidade da casa: Júpiter, Sol e
Saturno. Júpiter está fraco por posição, mas em sua exaltação, o Sol está no signo
Ascendente, logo está forte por posição e Saturno está em Leão, em uma casa proveitosa,
mas está em detrimento, isto é com pouca dignidade essencial.
Até aqui, visto o Sol estar em melhor posição, diremos que a nativa ga-nha dinheiro
pelo brilho de sua própria pessoa, visto o Sol estar no Ascen-dente. Saturno, outro
responsável pelas finanças é regido pelo Sol, e este último está em um ângulo. Portanto,
Saturno e o Sol são corresponsáveis pelas finanças. O Sol é regido por Marte que está na
Casa 3, os irmãos e a parentela. Marte faz aspecto de trigono com Saturno, que por sua
vez é regente da Casa 4 e Casa 5. Neste caso, diremos que as finanças podem vir da
família, do pai e de seus imóveis.
Observe-se que Saturno está na Casa 8 a partir da Casa 4: isto aponta para heranças
vindas dos familiares mortos, especialmente imóveis.
Esta análise poderia ir mais longe se estivessemos estudando o signifi-cador
financeiro, quando teríamos condições de avaliar inclusive a quan-tidade de riqueza ou
pobreza do nativo.
OS ASPECTOS
Após delinear qualquer casa o astrólogo deverá saber: O que ocorre naquela casa, por
que ocorre, e qual o resultado final. Observe-se que pouco se falou de aspectos. Em
astrologia os planetas são substantivos, o signo em que se encontram são adjetivos e os
aspectos representam informações adicionais.
Por exemplo, Marte (briga) nos domínios de Vênus( mulheres), significa litígio, sexo e
tudo que Marte significa, com mulheres. Se houver um aspecto com Saturno, por exemplo,
pode haver envolvimento com o pai.
O aspecto, portanto, anexa um novo sujeito à situação, outro planeta em outro signo,
amigo ou inimigo.
Um trigono e especialmente com recepção9 torna a situação mais confortável.
Vamos agora examinar o que significa quando um planeta “aspecta” o outro. A palavra
aspecto vem de aspicere, em latim “olhar”.
Muito antes de a visão ser explicada pela física, os filósofos gregos achavam que a
mesma tinha a ver com a luz, trazida geralmente pelo Sol. Mas no ato de olhar, o olho
também dardejava raios de fogo os quais iam de encontro à claridade do objeto. O objeto
enviava de volta sua luz e isto permitiria que ele fosse visto.
O objeto sem luz fosse ela fornecida pelo Sol ou por outra fonte, não poderia ser visto,
pois os raios de fogo saindo do olhar não conseguem encontrar de volta os raios de um
objeto sem luz (por exemplo, no escuro). O objeto, que por sua vez receberia o dardejar do
olho e enviaria suas caracteristicas de volta não o faz se não tiver luz. Sem isso não se
produziria a visão.
Filosoficamente isto tem muita importância, pois mostra que só é visível o que tem
afinidade e a visão de algo é um ato de claridade e comunhão em que dois objetos
participam cada qual com sua própria luz, sendo um deles o próprio olho e o outro o
objeto iluminado. Há duas direções de fogo, uma saindo de nossos olhos e outra de volta
do objeto para nós. Como nosso fogo é como o fogo do Sol, olho e objeto tem isso em
comum. Na escuridão, porque o nosso olhar é diferente da escuridão, pois nosso olhar é
nossa luz enviada, a visão não se processa.
Ver significa reciprocidade e isto é bastante interessante para a doutrina dos aspectos e
dos signos inconjuntos.
Exemplificando: Gêmeos não pode ver nenhum planeta ou signo que não seja de sua
semelhança elementar ou modo. Assim Gêmeos não pode ver Touro, porque Touro é fixo
e é um signo de terra, mas pode ver Áries, porque Aries é quente como Gêmeos. Pode ver
Peixes porque ambos são duplos e Aquário porque os dois são signos de ar, isto é quentes
e úmidos, fazendo parte se sua triplicidade. Capricórnio não pode ser visto porque é de
natureza elementar diferente e não comparte o mesmo modo, sendo cardeal. Sagitário ao
invés, tem semelhança com Gêmeos à medida em que é quente e faz parte dos signos
duplos. Escorpião não pode ser visto porque é frio e úmido, além de ser fixo. Libra faz
parte de sua triplicidade aérea, logo estão em trigono. Virgem pode ser visto também
porque ambos são signo bicorpóreos, embora não compartilhe com Gêmeos de nenhuma
qualidade elementar. Leão, embora fixo, compartilha com Gêmeos da qualidade quente,
então pode ser visto. Já Câncer é um signo cardeal, frio e úmido, portanto Gêmeos e
Câncer não se vêm, pois não tem nada em comum.
Pode-se fazer o mesmo raciocínio com qualquer outro signo. O importante é guardar a
lição: algo só é visto se for semelhante em algum ponto. Daí que, quando envelhecemos
passamos a ser menos “ vistos” pelos jovens: não há luz de um dos lados, portanto, sem
retorno ou reali-mentação, não há contemplação ou visão. Por isso, o sábio é geralmente
invisível: por que é raro encontrar outro. O mesmo não ocorre com a beleza: somos
cercados de beleza e devemos dar graças à vida por isso.
Sempre que se falar em aspectos planetários deve-se levar em conta se um planeta que
se aplica ao outro vai completar seu aspecto antes que ambos abandonem o signo. No caso
do mais rápido, se entrar em retrogradação por exemplo, pode impedir o aspecto. Já o
mais lento, se estiver muito próximo ao final do signo, impede que o aspecto atinja a
perfeição porque muda de signo e o que se espera suceder não sucede.
Quando um planeta mais rápido se aproximar de outro mais lento, mas ainda estiver
fora de orbe os dois planetas começam como que a bradar sua intenção. Digamos que seja
uma quadratura. Isto recorda certos filmes antigos de faroeste, em que índios e brancos se
defrontavam cada um de uma colina, ambos lançando brados de guerra, uns agitando
lanças, outros pistolas, bradando gritos de ódio e destruição. A intenção é a guerra, mas
ambos ou um deles pode simplesmente desistir da luta e voltar para casa.
Se o aspecto grau por grau não acontecer, o que é esperado não ocorre: tudo não
passou de uma intenção.
Somente as efemérides podem elucidar este ponto importantíssimo.
Já quando os planetas estão dentro do orbe os fatos ocorrem, as intenções se
transformam em atos.
Sempre que falarmos em aspecto temos que levar em conta que um planeta que entra
em aspecto com outro tem algo a dizer a ele, positivo ou negativo, ele dá um testemunho.
Para saber a qualidade do testemunho temos que levar em consideração se o aspecto é
amistoso ou destrutivo, se há recepção, se ocorre entre planetas benéficos ou maléficos,
etc.
Em uma carta natal usamos orbes, criação medieval bastante interessante, visto que a
astrologia helenística usava um orbe de três graus apenas, o que tornava raro aspectos ou
conjunções aspectuais em uma carta. A astrologia Medieval adaptou a quantidade de graus
dependendo do planeta; os mais visíveis tem um orbe maior. Então digamos que em uma
carta natal a Lua esteja a 10 graus e Saturno a 28: o orbe da Lua chega a 12 graus e a de
Saturno chega a 9 graus. Logo, embora Saturno tenha algo a testemunhar sobre a Lua e a
Lua sobre Saturno, pois o aspecto irá ocorrer no futuro, os dois não se com-prometem um
com o outro. Estão muito distantes.
Em Atiochus10 à pagina 139 vemos que há signos e aspectos dextros e sinistros.
Os aspectos feitos de acordo com o movimento primário são dextros e mais fortes, os
outros, feitos na direção dos signos, são sinistros e menos poderosos.
Os aspectos partem de um ponto: o momento que ocorreu a conjunção do planeta mais
rápido com o mais lento. A partir daí o planeta mais rápido afasta-se do mais lento e faz
com ele um sextil sinistro, uma quadratura sinistra, um trigono sinistro e finalmente uma
oposição. Nestes aspectos o passo do planeta pelo zodíaco é em direção contrária ao
movimento primário, portanto o planeta não se eleva no horizonte Leste. Daí dizermos que
seu passo é para baixo da terra. Esses aspectos tem menos força que os que vamos
descrever em seguida.
Depois da oposição o planeta rápido muda de lado e começa a aproximar-se do mais
pesado, seu centro. Os aspectos passam a se chamar dextros e são mais fortes, pois o
movimento zodiacal do planeta concorre com o movimento primário.
Observe-se a seguinte figura:
Figura 7
O ponto de vista focalizado aqui não tem o ser humano como centro da ação: trata-se
da relação entre signos e planetas entre si.
A doutrina dos aspectos tem base bastante sutil e muito se pode especular a respeito
para entender a razão de dois nativos apresentarem os mesmos aspectos com os mesmos
planetas e os resultados serem diferentes mantidos iguais os outros parametros.
Não se preocupem se nem tudo foi compreendido: essas configurações baseiam-se em
doutrinas extremamente complexas. Elas serão objeto de explanações futuras em próximos
trabalhos.
1. No caso a quarta casa seria a terra ou país de onde vem o embaixador ou emissário.

2. Chamamos de acidente os fatos que ocorrem na vida do nativo: podem ser positivos ou negativos.

3. Podemos ir mais longe: o regente da casa onde o planeta está será responsável pelo resultado final.

4. Em astrologia horária a regência é mais importante que o planeta na casa, pelo menos é o que se observa nos
tratados de astrologia horária.
5. No entanto, devemos começar a delineação sempre pelo planeta que estiver na Casa.

6. Quando digo “bem” ou mal” refiro-me sempre ao estado celestial e mundano.

7. Isto é em cartas diurnas o primeiro regente da triplicidade e em cartas noturnas o segundo regente da triplicidade.

8. A retrogradação não é tão grave como a cadência.

9. Leia sobre recepção em “Masha´allahh Sobre Recepção”, tradução do latim Clélia Romano, Edição do Autor.

10. “Definitions and Foundations”, translation Robert Schmidt, Ed. Tares


6º CAPÍTULO
O MÉTODO DE TRIPLICIADES DE
ANDARZAGAR,
RELATADO POR AL QBISI

A
técnica aqui apresentada seria mais oportuna ao se tratar de previsões, mas como
trata também do significado das casas de acordo com seus regentes de triplicidade,
decidi expô-la neste livro cujo escopo é a delineação.
Como já disse, Dorotheus foi o primeiro autor helenístico a usar as triplicidades dos
planetas para dar sinais dos assuntos. Os outros autores anteriores a ele, sem exceção,
usaram somente as triplicidades do luminar da seita e como parte de uma técnica
específica: avaliar a eminência da carta.
Além disso, a astrologia helenística pré Dorotheus não dividia a vida em três fases,
mas em duas, cuja fronteira não era clara: o primeiro senhor da triplicidade, dependendo
se a natividade fosse diurna ou noturna regia a primeira metade da vida e a o segundo
senhor, a segunda metade da vida. O terceiro senhor da triplicidade agia durante a vida
inteira como participante junto aos outros dois.
Baseados certamente em Dorotheus, os autores a partir dele utilizaram extensivamente
os senhores da triplicidade de cada casa e os usavam como dando sinais de três partes da
vida.1
De acordo com o Prof. Pingree, al-Andarzaghar viveu no período sassanida (224-637
DC):
“Um astrólogo persa do período sassanida além de Buzurjmihr a quem autores árabes
frequentemente se referem, é claro, embora Zaradusht e Jamasp fossem mais antigos, foi
al-Andarzaghar, isto é, o assessor (do Pahlavi handarzgar), um estudioso chamado
Zadanfarrukh.”2
Sua obra foi perdida e o que sabemos dele é através de Alchabitius.
Existem vários significados associados a cada casa e, consequentemente, as
informações sobre diferentes temas devem ser frequentemente extraídas dos mesmos
significadores planetários. Isto pode causar algum problema. Por exemplo, como delinear
cada um dos irmãos? É verdade que se pode empregar uma segunda gama de
significadores: cada um deles pode ser representado por planetas com associação natural
com o tema ou algum lot. Estas ultimas soluções foram amplamente empregadas na época
helenística, mas talvez al-Andarzaghar, que aparentemente viveu entre Buzurjmihr (século
VI) e Masha’allah (século VIII), achou que um novo sistema deveria ser desenvolvido.
Não estou certa da validade e veracidade dos conceitos de al-Andarzaghar, mas
certamente é preciso conhece-lo, pois muitos astrólogos do período medieval usaram sua
técnica para a interpretação de cada casa em diversos períodos de vida.
Para usar a técnica é necessário observar se a natividade é diurna ou noturna, pois se
for diurna o primeiro terço da vida será regido pelo primeiro senhor da triplicidade, o
segundo terço pelo segundo e o último terço pelo terceiro. O oposto acontece se a
natividade for noturna quando iniciaremos pelo segundo regente da triplicidade, a seguir
usaremos o primeiro e finalmente o regente participante para a terceira parte da vida.
Geralmente, cada regente da triplicidade de uma cúspide relacionase a um período de
tempo de aproximadamente 1/3 da vida, isto é entre 25 e 30 anos.
Suponhamos um nascimento noturno e que estejamos delineando a terceira casa:
Gêmeos aparece em sua cúspide. Neste caso tomaremos Mercúrio que é o segundo regente
da triplicidade de ar, observaremos seu estado na carta e descreveremos como será a
relação com irmãos mais velhos, pequenos estudos e viagens na primeira parte da vida do
nativo. Para a segunda parte da vida usaremos Saturno, e delinearemos o assunto dos
irmãos do meio de acordo com o significado universal de Saturno e das condições deste
planeta na carta e afinal, para a terceira parte da vida usaremos Júpiter para saber da
relação e situação com os irmãos mais novos.3
Mas o método de Andarzagar é mais complexo. Cada regente da triplicidade significa
também uma situação diferente nas três etapas da vida. Digamos que um dos regentes da
triplicidade não esteja bem posicionado: ele será significador de um fato descrito na tabela
abaixo e circunscrito a uma das etapas da vida do nativo.
Portanto, há um significado específico e fixo para cada terço da vida e que depende do
significado universal do planeta, do estado do planeta na carta, dos aspectos que recebe,
etc.
Segundo Bonatti que diz estar baseado em Alchabitius:
Casa 1: O primeiro regente da triplicidade significa vida e prazeres do nativo, tanto na
primeira como na segunda e terceira parte da vida.
Casa 2: Substância nos três períodos da vida.
Casa 3: Irmãos mais novos na primeira parte da vida; irmãos do meio, na segunda parte
da vida e irmãos mais velhos e o que sucede a eles na terceira parte da vida.
Casa 4: Pais na primeira metade da vida, cidade e terras na segunda metade da vida, fim
das coisas e prisões na terceira metade da vida.
Casa 5: Crianças na primeira parte da vida, diversões na segunda parte da vida e
diplomatas na terceira parte da vida.
Casa 6: Enfermidades e restabelecimento na primeira parte da vida, empregados e sua
honestidade para com o nativo na segunda parte da vida, a utilidade do que eles realizam
na terceira parte da vida.
Casa 7: Mulheres na primeira parte da vida, brigas e litígios na segunda parte da vida,
associações na terceira parte da vida.
Casa 8: Morte na primeira parte da vida, coisas antigas na segunda parte da vida, o que se
herda dos mortos na terceira parte da vida.
Casa 9: Viagens e o que ocorre nelas na primeira parte da vida, fé e religião na segunda
parte da vida, sabedoria, sonhos e profecias na terceira parte da vida.
Casa 10: Trabalho e subida de posição na primeira parte da vida, comando e coragem para
executar a carreira na segunda parte da vida, sua estabilidade e durabilidade na terceira
parte da vida.
Casa 11: Fé na primeira parte da vida, amigos na segunda parte da vida, a utilidade e
sucesso do que se espera dos amigos na terceira parte da vida.
Casa 12: Inimigos na primeira parte da vida, trabalho na segunda parte da vida, animais e
rebanhos na terceira parte da vida. Também diz a respeito de prisões e encarceramento.
Segue a tabela para este tipo de delineação:

Figura 8A

Figura 8B
Já Alchabitius diz:4
Quanto à Casa 1:
“O primeiro regente da triplicidade da seita indica a vida e a natureza do nativo, os seus
prazeres e desejos, o que gosta e desgosta, e o que ele obtém de bom e de mau no início da
sua vida.”
“O segundo regente da triplicidade da seita indica vida, corpo, força e o meio da vida.”
“O regente da triplicidade participante indica o que os primeiros dois regentes significam e
o fim da vida, perto da morte.”
Quanto à Casa 2
“O primeiro regente da triplicidade da seita concede bens no início da vida.”
“O segundo regente da triplicidade da seita concede bens no meio da vida.” “O regente da
triplicidade participante concede bens no fim da vida.”
Quanto à Casa 3
“O primeiro regente da triplicidade da seita significa os irmãos maisvelhos.”“O segundo
regente da triplicidade da seita significa os irmãos do meio.”
“O regente da triplicidade participante significa os irmãos mais novos, e as suas condições
estão de acordo com a posição dos regentes.”
Quanto à Casa 4
“O primeiro regente da triplicidade da seita significa os pais.”
“O segundo regente da triplicidade da seita significa países e terras.”
“O regente da triplicidade participante significa o final das coisas e prisões.”
Quanto à casa 5
“O primeiro regente da triplicidade da seita significa crianças e vida.”
“O segundo regente da triplicidade da seita significa prazeres.”
“O regente da triplicidade participante significa mensageiros.”
Quanto à Casa 6
“O primeiro regente da triplicidade da seita significa doenças e a recuperação das
aflições.”
“O segundo regente da triplicidade da seita significa escravos brancos e negros.”
“O regente da triplicidade participante significa o que se recebe dos escravos, a sua
importância e as suas acções.”
Quanto à Casa 7
“O primeiro regente da triplicidade da seita significa esposas.”
“O segundo regente da triplicidade da seita significa controvérsias.”
“O regente da triplicidade participante significa negócios (contratos).”
Quanto à Casa 8
“O primeiro regente da triplicidade da seita significa morte.”
“O segundo regente da triplicidade da seita significa coisas antigas.”
“O regente da triplicidade participante significa heranças.”
Quanto à Casa 9
“O primeiro regente da triplicidade da seita significa viagens e seus objectivos.”
“O segundo regente da triplicidade da seita significa religião e práticas religiosas, a
eminência que se obtém nelas e a forma que a eminência toma.”
“O regente da triplicidade participante é significador de ciência, visões, estrelas
(astrologia) e presságios,a verdade e falsidade nisto.”
Quanto à Casa 10
“O primeiro regente da triplicidade da seita significa governadores, honra e altos níveis.”
“O segundo regente da triplicidade da seita significa fama e bravura( no que acima foi
mencionado).”
“O regente da triplicidade participante significa estabilidade e continuidade.”
Quanto à Casa 11
“O primeiro regente da triplicidade da seita significa esperança.”
“O segundo regente da triplicidade da seita significa amigos.”
“O regente da triplicidade participante significa a utilidade dos amigos.”
Quanto à Casa 12
“O primeiro regente da triplicidade da seita significa inimigos.”
“O segundo regente da triplicidade da seita significa desgraça.”
“O regente da triplicidade participante significa montaria e animais domésticos.”
Por exemplo, na seguinte carta:
Figura 9
Vamos delinear a Casa 4, cujo regente é Marte:
Trata-se de uma natividade noturna. Na primeira parte da vida Júpiter vai ter a
regência, pois ele é o senhor da triplicidade noturna de fogo. Júpiter é um benéfico na
Casa 9, mas está retrógrado e cadente. Logo dizemos que os pais (estamos delineando a
Casa4) não tinham sificientes recursos na primeira parte da vida.
O segundo planeta que dá testemunho da Casa 4 na segunda parte da vida é o Sol, o
segundo regente da triplicidade noturna. O Sol está cadente, porém está essencialmente
dignificado, logo ele pode suprir moderadamente os assuntos que dizem respeito a terras.
Se usarmos sig-nos completos o Sol está angular, mas Saturno está mais perto da cúspide.
Na terceira parte da vida, Saturno tem a regência: Saturno está angular, forte por casa,
mas está em sua queda, logo a terceira parte da vida refe-rente ao final das coisas e prisões
significa que serão muitas, pois Saturno tem dignidades na Casa 12(onde está a Lua), no
Ascendente e na Casa 2.
Continuando nosso exercício vamos pesquisar a Casa 2. Estando a cúspide no signo de
Aquário, na terceira parte da vida vemos que a regência é de Júpiter, um benéfico na Casa
9 e isto nos leva a dizer que as finanças são medianas nesta época, por causa da cadência
de Júpiter, mas são relacionadas com a Casa 9. A Casa 9, na terceira parte da vida, como
descreve Alchabitius sobre a técnica de Al- Andarzagar:”«O regente da tri-plicidade
participante[ da Casa 9, na terceira parte da vida] é significador de ciência, visões, estrelas
(astrologia) e presságios,a verdade e falsidade nisto.»
Ora, Júpiter está na casa de Vênus, logo podemos ver a correlação entre visões,
religião e presságios, com a Casa 2.
Ora, que método devemos previlegiar? O método geral de delineação de acordo com
Abu Ali, descrito no capítulo anterior, ou este de Andarzaghar?
A astrologia medieval usa os dois: o método geral (regente da casa, regente por
exaltação e o almuten) e os regentes por triplicidade de cada casa.
Se formos delinear a Casa 4 usando os dois métodos o resultado seria o seguinte:
Começaríamos por observar Saturno na quarta casa, visto que posição é mais
importante que regência. Ora, ele tem regência sobre a Casa 12, a Casa 1 e a Casa 2.
Diremos que as limitações, doenças, constrições, o eu do nativo e suas finanças se
realizam especialmente na Casa 4, a família e mais intensamente na terceira parte da vida,
pois segundo Andarzagar, Saturno regeria este último terço da vida. Além disso, podemos
dizer que Sol exaltado em Áries (almuten da Casa 4) está na Casa 3 por divisão,
mostrando que a família se relaciona ao tópico de comunicações, irmãos e parentela. Para
finalizar devo analisar o fato de que o Sol, almutem da Casa 4,5 rege Leão, a Casa 8.
Desta forma prossigo dizendo que na terceira parte da vida o nativo deu dinheiro aos
irmãos, porque o Sol, regente da Casa 8, o dinheiro obtido das consultorias, está na Casa
3/4. Por que na terceira parte da vida? Porque o significado da Casa 8 na terceira parte da
vida é heranças, segundo Andarzagar.
Interromperei o exercício neste ponto. Este tipo de análise é bastante metódica,
detalhista e praticamente infindável. Não admira que seguindo tal método tenhamos
exemplos de delineações imensas, verdadeiros livros, como a que o leitor pode observar
em meu site.6
Tal tipo de análise tem validade e revela muita coisa que permaneceria oculta sem ela.
Apenas, para o dia a dia, tornar a delineação de cada casa um trabalho tão filigrânico
elevaria muito o custo de uma consulta natal, além de que nem sempre o nativo está
interessado em tantos detalhes que podem inclusive confundir por dar testemunhos às
vezes contraditórios. Outra coisa que observo e que me desperta desconfiança com o
método de Andarzagar é que nenhuma casa prevê, por exemplo, a morte na ter-ceira parte
da vida, quando é comum que ela ocorra, ou os irmãos mais velhos na segunda parte da
vida. Por essa razão, o método de Andarzagar é subsidiário e deve ser sempre
complementado com o método geral de delineação. (vide Nota)






NOTA: O leitor deve se referir a meu artigo contido no site www.astrologiahumana.com,
denominado O Metodo de Triplicidades de Andarzagar Segundo Al Qbisi para obter
nova perspectiva sobre o tema.
1. Minha experiência tem demonstrado que é útil dividir a vida em três partes, de acordo com Dorotheus, cada uma
regida por uma planeta da triplicidade, dependendo da seita.
2. A Astrologia Clássica e Bizantina na Persia Sassanida, David Pingree, Dumbarton Oaks Papers, vol. 43. (1989)
p.235)
3. Estou seguindo Alchabitius, uma vez que Bonatti entendeu a Casa 3 de forma inversa.

4. Qabῑsῑ, Abu-’s-Saqr ‘Abd-al-‘Azῑz Ibn-‘Uῑmῑn al-:Liber introductorius, Venedig1491.07.26.Utilizei a versão


digitalizada do livro original, uma vez que há contradições entre a citação de Bonatti e Alchabitius no que se refere à
ordenação dos senhores da triplicidade com respeito à Casa 3. Alchabitius diz: quanto aos irmãos: “Et dicit Anduzgaz
dominus triplicitates tertie domus primus significat frates maiores. Secundus mediocres. Tertius minores, etc. “ pag.
119 .Portanto, devemos seguir Alchabitius.
5. O resultado final de uma casa depende de seu regente.

6. Veja no site www.astrologiahumana.com, em Artigos, “Natividade Delineada por Astrólogo do século IX”
7º CAPÍTULO
A LONGEVIDADE DO NATIVO- SE UMA
CRIANÇA PODE VIR A SER CRIADA E
QUANTO O NATIVO VIVERÁ

V
amos entrar em uma questão complexa que exigirá do leitor paciência, muito
estudo e dedicação.
Os autores antigos devotaram largos capítulos e grande interesse nessa
matéria, isto é saber se o nascituro tinha condições de viver, uma vez que até o início da
idade moderna e do desenvolvimento tecnológico não era certo se uma criança viveria o
suficiente para ver a morte dos pais.
Alguns astrólogos atuais acreditam que os antigos não disseram tudo que sabiam sobre
o assunto, daí a dificuldade do mesmo, mas o que parece é que mesmo o astrólogo bem
treinado só consegue prever a quantidade de anos de vida do nativo de forma aproximada,
assim como sucede em muitas outras previsões astrológicas.
Há que se levar em consideração fatores que sequer antevemos, tais como o local em
que o nativo vive, a época histórica em que nasceu, etc.
Além disso, existe uma carta coletiva que se sobrepõe à individual, como ocorre no
caso de grandes tragédias, quedas de aviões, maremotos, etc. que acabam matando nativos
cujas cartas prometiam muito mais anos de vida.
Tal ideia relativista é válida para qualquer delineação.
No entanto, na maioria das vezes é possível prever a longevidade de forma bastante
próxima à real desde que se leve em consideração a carta como um todo e, além das regras
fornecidas neste capítulo, se utilize outras, especialmente as direções primárias. Uma
direção destrutiva contra pontos importantes da carta pode matar sem que o nativo tenha
atingido os anos de vida fornecidos pelo estudo meticuloso da longevidade. Bonatti,
porém, não pensa assim: ele crê que o nativo escapará se ainda não tiver atingido os anos
previstos.
Os autores medievais desenvolveram um sistema muitíssimo válido para mensurar a
vitalidade ou sua falta em uma natividade, mas o estudante da Arte deve conhecer o tipo
de raciocínio que existe por trás dos aforismos e considerações e que tal sistema não é um
livro de receitas, embora se mensure a força de alguns significadores.
As técnicas aqui explanadas chegam à intimidade da carta astrológica e, se não medem
com exatidão a quantidade de anos, ou se alguns nativos débeis chegam à idade adulta em
nossos dias, especialmente em conseqüência do desenvolvimento da medicina, a
fragilidade se permeará por áreas aparentemente distantes da falta ou decréscimo de
vitalidade, fazendo deles pessoas inadequadas para diversas áreas da vida e
consequentemente pessoas infelizes.
Os mesmos fatores que tornam um nativo propenso a acidentar-se, perder membros,
tornar-se desabilitado para o exercício de assuntos vitais da existência tais como estudar,
desenvolver uma profissão, ser capaz de manter-se, constituir família, engajar-se enfim na
sociedade, repousam nas configurações que os antigos tanto valorizavam como pontos
essenciais de vitalidade.
Para entender a razão de algumas pessoas terem vidas muito difíceis e infelizes, não se
realizando pessoalmente, sofrendo limitações importantes, padecendo de doenças que as
cerceiam durante a maior parte da existência, é preciso penetrar na configuração vital da
carta, isto é verificar a posição dos luminares, dos maléficos em relação aos benéficos, da
cadência dos planetas, especialmente das luzes ou de sua proximidade aos maléficos. Tudo
isto configura a debilidade da natividade. Existe uma amálgama que, embora não
inviabilize a vida biológica nos dias de hoje, inviabiliza a realização humana em sua
plenitude.
AS QUATRO “DIFFERENTIA”
Os antigos desenvolveram um estudo sobre a quantidade de anos de vida em função
principalmente da descoberta do ponto vital na carta.
As natividades sob o ponto de vista de vitalidade foram divididas em quatro tipos ou
diferenças chamadas em latim “differentia”.
A quantidade de horas, meses e anos de vida de um nativo aumenta a partir das
condições próprias dos luminares na carta e de pontos chamados hylegíacos ou vitais que
são além do Sol e da Lua, a Parte da Fortuna, o Ascendente e a SAN (Scyggy Ante
Nativitatem), isto é a Lua Nova ou Lua Cheia antes do nascimento.
As três primeiras “differentia” pertencem a pessoas que vivem pouco: as duas
primeiras englobam desde as crianças que nascem com graves defeitos congênitos
impossibilitando a vida e a própria nutrição, até aquelas que vivem meses, sendo que a
terceira diferença refere-se às que vivem até o máximo de 12 anos.
Esses nativos não possuem um ponto vital forte, seja um luminar ou a Parte da Fortuna
ou a SAN, ponto este chamado Hylaj ou Hyleg em árabe ou Apheta em grego. Os dois
nomes são traduzidos como “liberador”, porque são eles os pontos a serem dirigidos por
direções primárias até encontrar um maléfico, caso em que a vida seria cortada.
Bonatti enumera muitos pontos a serem considerados nessas cartas e Robert Zoller1
oferece uma tabela a ser preenchida em casos das primeiras differentia.
Os autores tradicionais qualificavam a primeira differenttia como aquela em que o
nativo não chegava a provar alimento. Aqui cabiam os abortos, aos natimortos, os
deformados e absolutamente incapazes de sobreviver sequer por dias. Deve-se procurar o
planeta que é mais forte em diversos pontos e a forma mais fácil para evitar que algo passe
despercebido é preenchendo uma tabela que nos levará a um planeta ou mais de um que
seja o almutem das posições vitais. Se encontrarmos um só e ele estiver cadente dos
angulos ou não aspectando o Ascendente e um dos maléficos estiver no mesmo grau que
ele, impedindo-o, ou o grau do Ascendente estiver impedido por ter um maléfico nele,
especialmente sem dignidade, ou um maléfico aspectando-o por quadratura ou oposição, a
criança morrerá sem provar alimento. Pode-se dizer o mesmo se o grau dos luminares
estiver impedido.
Na segunda differentia a mesma tabela deve ser feita em busca do almuten, que
Bonatti chama de almudebit (como será explicado mais tarde). Se ele estiver cadente e um
maléfico estiver no comando dele e houver alguma distância entre o maléfico e este
planeta, significa que o nativo poderá provar algum alimento e viverá até que o almuten
chegue ao maléfico, ou vice-versa, através de uma conjunção por corpo ou por aspecto.
Diz Bonatti que isto pode se dar em dias, anos e meses: se o maléfico estiver em signo
fixo e angular podem ser anos, se em signo cardeal e sucedente, meses, se em casa cadente
e signo mutável menos tempo, dias.2
Na terceira differentia o senhor do Ascendente, os luminares e seus regentes estão
livres de impedimento, isto é, retrogradação, combustão, aspecto com maléficos, mas eles
estão cadentes. Isto significa que a criança vai viver certo tempo, será alimentada, mas não
viverá muito e chegará no máximo até os 12 anos de idade.
Nestas três primeiras diferenças observamos que:
1-Nenhum luminar é hyleg.
2-Muitos planetas estão cadentes, particularmente os regentes do signo Ascendente por
regência, exaltação, triplicidade, termo e face.
3-Os benéficos estão mais fracos que os maléficos.
4-Os dispositores dos luminares estão cadentes.
5-Os luminares são aflitos por maléficos.
6-Os regentes da triplicidade dos luminares estão cadentes ou aflitos.
7-O almuten ou o planeta vitorioso em relação aos pontos vitais é cadente ou aspectado
por um maléfico.
O astrólogo deve observar cada carta não apenas por divisão, mas por signos
completos. Além disso, deve avaliar se uma ou mais estrelas estão presentes sob os pontos
hylegíacos aliviando ou piorando o quadro.
Para estrelas deve-se usar a órbita máxima de 1 grau.
Se as condições acima forem apresentadas indicam uma vida curta.
Os autores tradicionais advertiam que se suspendesse julgamento em tais casos até que
o nativo completasse doze anos, isto é dando o tempo devido para que cada ano passasse
por cada signo da carta a partir do signo Ascendente3.
Tal advertência significava que o astrólogo evitava julgar as minúcias de uma carta,
tais como estudos, casamento, profissão do nativo, se ainda não soubesse se este teria
condições de chegar aos doze anos de vida.
Nos dias de hoje se levanta a possibilidade de crianças pertencentes a uma das três
differentia viver além dos 12 anos se tiver sorte e contar com o apoio da medicina e com o
rigoroso suporte dos pais, especialmente em nosso país em que o sistema de atendimento
médico oferecido pelo governo é deficitário.
Soubessem os antigos astrólogos ou não a quantidade real de vida do nativo, o fato é
que se trata de matéria profunda, que requer grande maturidade astrológica, muita
experiência e principalmente a noção de que os sinais nem sempre correspondem à morte
precoce, mas podem, dependendo de certos fatores, não levar à morte, mas a um tipo de
vida limitado e adverso.
Já no caso de encontrarmos um hyleg, especialmente um luminar, vemos que o nativo
pertence à quarta differentia, isto é tem condições essenciais de viver até a idade adulta ou
além dela, podendo inclusive chegar à velhice.
COMO ENCONTRAR O HYLEG
Geralmente, para saber em que diferença se enquadra um nativo temos que procurar
por um hyleg, o ponto vital. Como distingui-lo?
Há duas formas de procedimento. Uma segue Ptolomeu e a outra segue os autores
árabes.
Recomendo usar ambas.
Da mesma forma recomendo o uso de casas dinâmicas e signos completos nesta
avaliação.
MÉTODO DE PTOLOMEU
Em seu Tetrabiblos, livro III, Ptolomeu diz que existem cinco lugares especiais para
que os luminares sejam considerados liberadores, apheta ou hyleg:
- A 10ª Casa
- O Ascendente (5º acima e 25º abaixo)
- A 11ª Casa
-A 9ª Casa
-A 7ª Casa
Em natividade diurna dá-se preferência ao Sol como Hyleg. Se ele não estiver nas
casas acima, buscamos a Lua, que, se também não puder ser o apheta nos leva a procurar o
planeta com maior numero de dignidades no lugar do Sol, no lugar da última SAN e no
Ascendente. Se ele tiver a soma de 3 dignidades ele será o hyleg4.
Se não encontrarmos nenhum planeta com estas características nomearemos o grau do
Ascendente como hyleg em nascimentos conjuncionais (quando a última lunação foi uma
Lua Nova) e a Parte da Fortuna quando a última lunação foi prevencional (Lua Cheia).
Nos nascimentos noturnos parte-se da Lua, e se ela não for adequada, tomamos o Sol,
e se ele não for apto, tomamos o planeta com 3 dignidades no lugar da Lua ou no ponto
onde ocorreu a SAN prevencional, ou na Parte da Fortuna. Se não encontrarmos um
planeta nestas condições elege-se o ponto da cúspide do Ascendente se o nascimento for
conjuncional, e a Parte da Fortuna, se prevencional.
Se o regente da figura ( o Almutem Figuris) estiver melhor colocado que os dois
luminares e tiver dignidade nas duas seitas ( por exemplo Marte, se o Ascendente for
Áries, tem dignidade no Ascendente e na Casa 8, Escorpião), ele deve ser escolhido como
apheta.
Ptolomeu não usava a dignidade de face, sendo que a quinta dignidade atribuída por
ele era a de aspecto.
Quanto à pontuação, cada dignidade valia um ponto.
MÉTODO ÁRABE- MEDIEVAL
A diferença entre a técnica medieval e a ptolomaica é que Ptolomeu só aceitava um
hyleg acima do céu. Além disso, ele não exigia que, para tornar-se hyleg, um planeta ou
ponto da carta tivesse um alchocodem ou Kadkuda.
Já o método árabe-medieval considera que um ponto não pode ser hyleg se não tiver
aspecto com o alchocodem. O que é alchocodem? Ele é sempre um dos regentes do Hyleg
e aqui face também conta, sendo que aspectar o hyleg é imprescindível. Não existe hyleg
sem alchocodem5.
No entanto, se o planeta tiver muitas dignidades no lugar do hyleg e aspecta-lo apenas
por signo, ele pode ter preferência em relação a outro que esteja dentro do orbe, mas com
menos dignidade.
O Sol quando em Leão e Áries não precisa necessariamente de Alchocodem: ele pode
ser hyleg e alchocodem, desde que não esteja cadente. O mesmo ocorre com a Lua em
Touro e Câncer.
De maneira geral um luminar cadente (com exceção da Lua na Casa 3, onde tem jubilo
e do Sol na Casa 9, onde tem jubilo) ou um ponto cadente não pode ser hyleg. O hyleg
deve ser angular ou sucedente.
A Lua sob os raios também não pode ser hyleg.
Quanto ao alchocodem, ele pode ser cadente e retrógrado, mas não pode ser um
planeta combusto. Antonius de Montulmo que escreveu longamente sobre o assunto, diz
que em sua experiência, o alchocodem sendo retrógrado em detrimento ou cadência, não o
impedem, mas diminuem em um quinto os anos prometidos.
Tendo em mente tais recomendações e partindo do princípio que o hyleg tem que ter
um alchocodem para poder ser eleito, segue o protocolo para nosso trabalho6:
Natividade Diurna:
1-Tome o Sol se ele estiver na Casa 1 ou 5 graus antes da cúspide, ou se estiver na Casa 11
ou na Casa 10, em signo masculino ou feminino.
2- Se o Sol estiver na 7ª, 8ª e 9ª Casas tome-o somente se estiver em signo masculino (para
compensar o fato de que este é um quadrante feminino).
Se o Sol não for aceitável verifique a Lua:
1-Ela pode estar no Ascendente, 2ª Casa, 3ª, 7ª e 8ª (alguns autores aceitam que também
na nona), não importa se em signo masculino ou feminino, por serem quadrantes
femininos como a Lua.
2-Se estiver a 5º antes da 1ª Casa, na 10ª, na 11ª, na 4ª, na 5ª e 7ª a Lua só é aceitável em
signo feminino, para compensar o fato de que esses quadrantes são masculinos.
Natividade Noturna:
1-Tome a Lua se estiver na 1ª, 2ª, 3ª. 7ª e 8ª Casas, tanto faz se estiver em signo masculino
ou feminino, pois esses são quadrantes femininos.
2-Se ela estiver a 5º antes do Ascendente, na 10ª, na 11ª, na 4ª e na 7ª deve estar em signo
feminino, caso contrário não será aceita.
Se a Lua não puder ser o hyleg verifica-se o Sol:
1-Ele pode estar 5º antes da cúspide da Casa 7, na Casa 4 ou na Casa 5, tanto faz se em
signo masculino ou feminino, pois este é um quadrante masculino.
2-Se o Sol estiver no Ascendente antes de 5 graus (ou no próprio Ascendente) ou na Casa
2, ele tem possibilidade de ser hyleg se estiver em signo masculino ( para compensar o
fato de estar em um quadrante feminino).
De maneira geral Umar Al Tabari e Bonatti se inclinam para admitir signos femininos
para natividades femininas e masculinos para natividades masculinas ao invés de
quadrantes masculinos combinando com o Sol e femininos combinando com a Lua. 7
Se o Sol e a Lua não estiverem aptos para ser hyleg tome para as natividades
prevencionais a Parte da Fortuna e para as conjuncionais o Ascendente.
Da mesma forma e em último lugar verifique a posição da SAN. Ela também não pode
ser cadente para se candidatar a ser hyleg.
Se dois planetas aspectarem o hyleg, o que tiver mais dignidade será eleito
alchocodem. Tal dignidade é conferida dependendo da posição zodiacal ( angularidade),
posição em relação ao Sol, estar cazimi ou estar saindo fora dos raios do Sol ou na
segunda estação, ( uma questão que faz o planeta ter condições de aparecer matutino), de
ter boa relação com o Sol, oriental a ele, se um dos superiores (Marte, Júpiter e Saturno)8
ou posição em relação à Lua, isto é sendo ocidental a ela, se um dos inferiores, e
finalmente posição por hemisfério ( estar em sua própria seita) e em hayz.9
Segundo Antonius de Montulmo, concordando com Ben Ragel, a SAN e a POF só
podem ser tomadas como hyleg se aspectadas por seu regente de domicílio ou de
exaltação. Abu Ali Al Khayat aceita que o aspecto possa ser feito até pelo regente do
termo, mas não considera face, pois a dignidade é muito fraca.
Se não encontramos o hyleg nos luminares, na POF, na SAN e no Ascendente,
encontre o Almutem Figuris. Se este planeta estiver em lugar hylegíaco, ele pode ser
usado como hyleg, segundo Ali Ben Ragel, mesmo que ele não tenha um alchocodem.
Alchabitius, por exemplo, diz que depois do Hyleg e do Alchocodem, o almuten
sobre as posições vitais pode ser tomado paralelamente dando também testemunho da
duração de vida e que alguns o tomam como substituto do hyleg e do alchocodem. Esta
ideia pode ter sido a raiz da noção de almudebit de Bonatti, que veremos a seguir.
Para encontrar este almuten Alchabitius trabalha com as posições do Sol, Lua,
Ascendente, POF e SAN.
Já Ibn Ezra faz um cálculo muito mais complexo para chegar ao Almutem Figuris e o
que vimos no Capítulo 2º é mais próximo ao método dele.
Se após tais procedimentos não se encontrar um planeta como hyleg o nativo terá vida
curta.
EXEMPLIFICAÇÃO E DISCUSSÃO
Veremos a seguir algumas cartas de crianças pertencentes à primeira diferença.

Figura 10
A Figura 10 pertence a uma criança anencéfala. Verificamos que os luminares são
cadentes e Marte, regente deles e da SAN, encontra-se também cadente e em conjunção
exata com Saturno. Além disso, tratandose de natividade diurna, o Sol, luminar da seita
está na Casa 12, conjunto ao Nodo Sul, assim como a Lua, que está em sua depressão.
Esta criança é categorizada entre os nascimentos monstruosos.
Observe-se que Júpiter está domiciliado na cúspide do Ascendente, um benéfico
angular. Isto só mostra que não podemos nos aproximar de qualquer natividade sem seguir
um protocolo rígido. Uma visão superficial poderia aconselhar no sentido de que o nativo
viveria.
O caso seguinte também é de 1ªdiferença e a criança viveu por meia hora.
Figura 11A
Figura 11B
A tabela 11C foi elaborada por mim e contém os pontos vitais a serem ponderados no
caso de haver suspeita de tratar-se de uma natividade pertencente a uma das diferenças.
Levei em consideração os pontos relevantes usados por Guido Bonatti e acrescentei a
opinião de Abu Ali Al Khayat. A tabela que apresento pode ser encontrada no site
www.astrologiahumana.com, dentro de Utilitários e se propõe a colocar de modo gráfico
as ideias de Bonatti sobre o conceito ao qual deu o nome de almudebit.
O Almudebit é um planeta que é como um hyleg de segunda ou até terceira linha. Mais
tarde será possível ter a noção bastante clara dessa diferença. Quando o hyleg não é
encontrado é bastante válido fazer essa tabela que nos direciona para os pontos vitais da
carta e a pondera de maneira exaustiva, até chegar a um almuten que é o planeta com mais
força para levar a vida adiante.
Tal procedimento é muito útil em casos de terceira diferença, isto é quando a criança
chega a provar alimento e até a viver por algum tempo ou anos, mas não ultrapassa os
doze anos. A descoberta do almudebit nos direcionará em nossas avaliações e delineações
relativas a fases perigosas anuais e mensais.
A carta de Rebeca apresenta várias oposições à vida: o Sol está caden-te por divisão
embora seu regente, Mercúrio, esteja angular mas junto ao Nodo Sul, recebendo uma
oposição de Saturno retrógrado, em detrimento. Mercúrio também é regente da Parte da
Fortuna.
A Lua está excelentemente posicionada por signo, em quadrante feminino e signo
feminino, mas encontra-se na Casa 8, a casa da morte, opondo-se a seu regente por
exaltação, Júpiter, o qual está em Capricórnio, casa de Saturno e sua depressão. Há três
planetas na Casa 8, um deles, Marte, regente do Ascendente, em sua queda, ao qual a Lua
se aplica.
Obviamente a carta fala de poucas esperanças, mas para exemplificar preenchi a tabela
do almudebit, comprovando que a Lua é o planeta com maiores condições de levar a vida
adiante, não estivesse ela se aproximando de Marte.
Refira-se à Figura 11C na página seguinte.
A tabela exige grande atenção. Cada planeta deve ser julgado na posição que ocupa na
carta. Por exemplo: quando é pedido :“Posição do Sol”, é preciso ver as dignidades do Sol
na carta e soma-las nas devidas colunas. Quando é pedido: “Regente da triplicidade de
Vênus”, não é Vênus que deve ser contada, mas sim o primeiro regente da triplicidade do
signo onde está Vênus na carta e além disso, observar que trata-se de um nascimento
diurno, portanto somos direcionados para o Sol que é o primeiro regente da triplicidade de
Leão.
Mercúrio poderia, segundo alguns autores, Bonatti inclusive, ser considerado diurno
por estar em signo masculino, mas tenho me inclinado a considerá-lo diurno quando se
levanta antes do Sol, o que não ocorre nesta carta.
Figura 11c
Esta criança viveu meia hora. Quando as direções levaram Sagitário ao Ascendente, o
corpo fisico passou à esfera de Júpiter em queda e no signo de um maléfico mal
posicionado. Ao mesmo tempo, tal maléfico, Saturno, ocupou o grau exato do IC. O Sol
tornou-se cadente por signos completos e por quadrantes.
Vale observar que Algol, estrela extremamente perigosa, está no ângulo Oeste na carta
natal, opondo-se ao signo Ascendente.
Abaixo está o desenho da carta para a hora da morte.
Figura 11D
É difícil diferenciar as duas primeiras differentia. O que observamos nos casos acima é
que o primeiro caso é mais desesperador que o segundo. Vemos que no caso da nativa
Rebeca a Lua não era cadente, estava domiciliada, aspectava o Ascendente e o Sol estava
perto da Parte da Fortuna, mas por pouco tempo, visto que a Lua se aplicava a Marte na
Casa 8. Marte é o regente do Ascendente e estava na Casa 8, mas havia algum espaço de
manobra, mais tempo para lutar pela vida. No primeiro caso, todos os planetas são
cadentes e à exceção de Júpiter no Ascendente, estão todos os aflitos. Mas Júpiter é o
regente da Casa 4 que significa o final das coisas.
De maneira geral devemos observar de perto o Sol e a Lua, seus regentes por
domicílio, o regente do Ascendente e da POF e se algum desses apresentar boa condição
essencial ou estiver angular, o que é muito importante, podemos ter esperanças de vida.
Por vezes não encontramos um candidato sequer em posição forte e neste caso a vida
tem pouca chance de prosseguir.
Nos casos das três primeiras differentia não há hyleg, é o que dizem os autores. No
entanto, em minha experiência verifiquei que a terceira diferença pode ter um hyleg,
inclusive um luminar, mas há observações qualitativas da carta como um todo que não
favorecem a continuidade da vida.
Com certeza, os casos de terceira diferença são os mais difíceis de avaliar.
Segue o exemplo de um caso de terceira diferença, uma criança de sexo masculino que
foi diagnosticada com câncer aos três anos de idade e viveu até os oito anos. Demonstrou
um desenvolvimento espiritual acima do normal, preparou seu próprio funeral e avisou os
pais que pretendia voltar, mas não como uma criança doente. Segue sua carta.

Figura 12
Verificamos aqui que o Sol está na Casa 11, e poderia ser eleito hyleg porque Saturno,
seu regente por triplicidade o aspecta.
Embora não se leia em lugar algum, um hyleg sitiado por dois maléficos não deveria
ser aceito, pois tal situação é talvez mais perigosa que a cadência. Neste caso o Sol se
separou de Marte e vai em direção a Saturno, planeta na Casa 8. Nenhum planeta interpõe
seus raios para impedir tal aflição.
Como diz o protocolo para cartas diurnas:
Se o Sol não for aceitável verifica-se a Lua, quer pode estar no Ascendente, 2ª Casa,
3ª, 7ª e 8ª (alguns autores aceitam que também na nona), não importa se em signo
masculino ou feminino, por serem quadrantes femininos.
A Lua está na Casa 3 e o Sol a aspecta, sendo ele seu regente de triplicidade. Segundo
a tradição esta carta teria um hyleg, a Lua, e um alchocodem, o Sol, que lhe daria os
menores anos, que são dezenove, conforme veremos adiante. Tais anos podem ser
diminuidos se o alchocodem for aspectado por um maléfico. E ele o é: na verdade é
aspectado por dois maléficos. Mais adiante fornecerei a explicação de como adicionar ou
diminuir anos, mas adianto que neste caso os anos seriam diminuídos e muito: o Sol
ficaria devendo anos a Saturno e Marte.
Além disso, Saturno neste caso tem muita importância, pois ele é o almuten do
Ascendente e de Vênus, planeta no Ascendente, rege a Parte da Fortuna e é o almuten da
carta. E Saturno está configurado para a morte, aspectando o doador de anos, o Sol.
O ponto aqui é mostrar que esta criança que morreu aos 8 anos possuia um hyleg,
embora de péssima categoria. Viveu oito anos porque o Sol estava em casa sucedente e
benéfica e era de excelente qualidade essencial.
Com isso vemos que os autores tradicionais ensinaram as regras, mas não as exceções,
que são puramente qualitativas e variam de carta para carta.
Muitas cartas passarão ante nossos olhos e não despertarão suspeitas, como a carta
acima. É preciso treino nesta matéria e muita experiência. Não julgar apressadamente é a
melhor norma a ser adotada.
Como disse de início, a quantidade de vida é um tema que requer olhos atentos e muita
prática para conseguir predizer com relativa exatidão assunto tão intrincado.
Algo que temos que levar em conta é que afinal não se pode apoiar totalmente nos
anos de vida dados pelo alchocodem, pois um aspecto estreito dele com um maléfico
derruba os anos dados por ele.
É possível também que, se não ocorrer direção alguma nos anos de vida previstos pelo
alchocodem seus anos podem ser ultrapassados: por isso damos uma margem de erro de 5
anos para mais ou menos, seguindo a opinião de Robert Zoller.
Se o que se espera é uma ciência exata a astrologia está longe disso. Mas ela nos
oferece sinais importantes apontando em direções inequívocas. É possível distinguir
claramente pela carta se há sinais claros de vitalidade ou de falta dela, se a vida corre
perigo ou não. Ainda assim, em alguns casos ficaremos indecisos. Nenhuma análise
profunda é feita de maneira rápida: sempre exige do astrólogo tempo e dedicação.
A 4º DIFFERENTIA
À 4ª differentia pertencem aqueles em cujas cartas notamos que está presente boa parte
das seguintes configurações:
O regente do signo Ascendente, os luminares e seus regentes, os regentes da
triplicidade do Ascendente, os regentes dos ângulos, Júpiter e Vênus e seus dispositores,
os planetas diurnos em figura diurna, ou noturnos, numa figura noturna, a Parte da Fortuna
e seus regentes, o regente da Syzygi, assim com o almuten desses lugares estão livres de
aflição.
A diferença entre a 3º e a 4º differentia reside no fato que na 4º diffe-rentia o regente
do signo Ascendente e dos luminares não estão cadentes e sim angulares ou sucedentes e o
nativo tem um Hyleg e um Kadkuda.
Neste caso, o estudante não precisará preencher uma tabela de Almudebit, o almuten
dos pontos vitais e que deve ser preenchida para as differentia 1, 2 e 3, a fim de avaliarmos
quando o almudebit será atingido por más direções.
A Figura 13 mostra uma nativa pertencente à quarta diferença. Houve dificuldades no
parto, visto que nasceu com o cordão enrolado no pescoço, quase asfixiada, mas
sobreviveu e está hoje com mais de 60 anos.
Figura 13
Sendo a natividade noturna, a Lua é o primeiro candidato a hyleg. Por signos
completos está na Casa 4 e por divisão na terceira casa, onde tem seu jubilo. O fato de a
Lua estar no grau exato de sua depressão desperta logo de início certa apreensão. Por grau
ela é aspectada por um de seus regentes de triplicidade, Vênus, mas a recepção é mais
negativa que positiva, visto que Vênus tem seu detrimento em Escorpião, embora tenha
triplicidade. A Lua não parece um hyleg confiável: está cadente por divisão, embora em
júbilo, com condição essencial muito má. O correto é verificar a condição de outros hyleg
potenciais.
Nosso protocolo diz:
“Se a Lua não puder ser o hyleg verifica-se o Sol:
1-Ele pode estar 5º antes da cúspide da Casa 7, na Casa 4 ou na Casa 5, tanto faz se em
signo masculino ou feminino (este é um quadrante masculino).“
Passemos ao Sol, portanto. O Sol está em casa afortunada, a Casa 5. Ele faz aspecto
com seu regente de triplicidade, Saturno, que está na Casa 2. Podemos aceitar esse
testemunho e tomar o Sol como hyleg. Mas o Sol também está aflito, sitiado por dois
maléficos, afastando-se de Saturno e aplicando-se a Marte. Neste ponto esta natividade
tem similaridades com a que foi apresentada anteriormente. Seguiremos adiante em busca
de outro ponto que possa ser o hyleg.
A Parte da Fortuna está sucedente e é aspectada por sua regente, Vênus.
Escolhe-se, portanto, a Parte da Fortuna como o hyleg “oficial”, mas oficiosamente
Lua, Sol e Ascendente, além da SAN, que está a 13º de Gêmeos, participam como pontos
sensíveis da carta. Especialmente o Sol e a Lua por estarem aflitos, quando forem
estimulados por direções afetarão a saude ou a vida da nativa.
O que está claro é que a nativa sobreviveu ao parto, Saturno (a constrição e o
sufocamento), na garganta (Vênus no signo de saturno, sendo o alchocodem) e faz parte da
quarta diferença, pois ela tem um hyleg, a Fortuna e um alchocodem, Vênus.
Detenho-me por aqui, sublinhando que esses pontos onde estão situados possíveis
hyleg e possíveis alchocoden devem ser levados em consideração, pois quando por
direções, profecções, firdárias e revoluções solares qualquer um deles for atingido, haverá
uma ameaça à vida.
De tudo que foi dito se depreende que a descoberta do hyleg é o maior passo a ser
dado em relação à delineação da longevidade. Necessita muita ponderação, paciência,
espírito investigativo, conhecimento e prática.
Geralmente o alchocodem nos dá uma estimativa do número de anos. Como ele é um
dos regentes do hyleg e deve aspecta-lo trabalha-se com orbes estreitas e da-se preferência
a aspectos aplicativos, embora que nessa seara não haja regra fixa.
Os luminares são nossa primeira escolha para encontrar o hyleg e pode-se aceitar
como alchocodem um planeta que tenha triplicidade ou termo no lugar do luminar.10 Mas
se o caso for de tomar a Parte da Fortuna, a SAN ou o Ascendente como hyleg é preciso
ser mais exigente e procurar por um alchocodem que os receba por domicílio ou exaltação.
No entanto, isto também não é um mandamento: o melhor é avaliar a carta como um
todo.
O alchocodem é responsável por fornecer uma estimativa dos anos de vida, como já
foi dito.
A regra é que se o alchocodem for um planeta domiciliado e angular dará seus maiores
anos. Se for um planeta sucedente em bom estado cósmico, os seus anos médios, se estiver
em mau estado cósmico dará seus meses na quantidade dos anos médios e um planeta
cadente em bom estado cósmico dará seus menores anos, mas estando em mau estado
cósmico dará apenas meses ou mesmo dias.
Quadraturas, oposições e conjunções do alchocodem com maléficos ou vice-versa
tiram os anos menores deste maléfico do suposto alchocodem. Se o aspecto for de trigono
e houver recepção os anos menores do planeta podem ser doados ao alchocodem, segundo
Umar al Thabari. Aspectos de trigono ou conjunções com benéficos e especialmente se
houver recepção acrescentam os menores anos do benéfico. O mesmo ocorre se o
alchocodem fizer aspecto com o Sol ou a Lua ( se estes não forem hyleg): se for um
aspecto de trigono os menores anos são acrescentados, a menos que a posição dos
luminares seja ruim ou o aspecto seja de quadratura sem recepção, quando então o luminar
não tira e nem dá anos ao alchocodem.
A Cauda do Dragão a 12º do alchocodem tira ¼ dos anos do alcho-codem.
A seguinte tabela fornece os anos planetários. A razão para justificar a número de anos
planetários já foi abordada em outro livro e peço ao leitor que se reporte a ele:11
Figura 14
O alchocodem é o planeta que tem mais dignidades (ou mais importantes dignidades,
como exaltação e domicílio) no local do hyleg.
Se dois planetas forem candidatos, prefere-se o que estiver mais angular. Se os dois
planetas forem angulares escolhe-se o que estiver mais perto da cúspide.
Se ainda assim restarem dúvidas o planeta mais perto do Sol, desde que não esteja
combusto, deve ser preferido.
Se um planeta tiver só uma dignidade, mas estiver num lugar melhor prefira-ao outro
que tenha mais dignidades, mas esteja em pior local.
Refiram-se novamente à Figura 13.
Encontramos a Parte da Fortuna na Casa 2, uma casa útil, em trigono com seu regente
por domicílio. Logo, escolhemos a Parte da Fortuna como hyleg e Vênus como
alchocodem.
Vênus está cadente por quadrantes, mas por signos completos está na Casa 7.
Ela tem dignidade de termo e face em Aquário, mas por não estar exatamente
angular12ou domiciliada fornece seus anos médios: 45. Ora, Vênus está conjunta a Júpiter,
e este lhe dá seus anos menores por ser um benéfico e pelo fato de que a comjunção entre
benéficos é uma bonifica-ção, mas ele está cadente, logo não pode dar além dos anos
menores, isto é, ele dá a Vênus mais 12 anos. Vênus faz uma quadratura com a Lua, com
má recepção: a Lua está fraca e cadente, logo ela não dá e nem tira anos.
Chegamos assim aos 57 anos pela minha conta e aos 58 seguindo a regra de
Montulmo.
Aos 61 anos a nativa foi hospitalizada inconsciente, sem respiração e foi praticamente
desenganada, pemanecendo inconsciente e sedada, submetendo-se a hemodiálise e a toda
parafernalia necessária para mante-la viva. O tratamento surtiu efeito massomente
parcialmente e a nativa não tem condições de levar vida normal, vivendo acamada com
condições pulmonares graves.
Descoberto o alchocodem, avaliamos quantos anos de vida aproximadamente o nativo
vai viver. Se durante este espaço e tempo o hyleg ou o alchocodem chegar a um maléfico
por direção, quadratura ou oposição, ou se chegarem à Cauda do Dragão, a vida pode ser
interrompida, a menos que um benéfico faça aspecto com o doador de anos ou com o
hyleg, caso em que a vida será poupada.
Segundo Bonatti, porém, se um maléfico aspectar desafiadoramente o hyleg e o
alchocodem em data muito distante dos anos dados pelo alchocodem o nativo passará por
perigos, mas não morrerá.
A seguir, vamos nos referir à carta ao lado:

Figura 15
Veremos mais um exemplo de como proceder para encontrar o hyleg e o alchocodem.
A natividade é noturna, logo começamos pela Lua que se encontra em seu detrimento.
Nosso protocolo diz:
“Em natividade noturna:
1-Tome a Lua se estiver na 1ª, 2ª, 3ª. 7ª e 8ª Casas, tanto faz se estiver em signo masculino
ou feminino.”
Ora a Lua faz aspecto com Saturno que tem regência de termo na posição da Lua, logo
Saturno seria o alchocodem.
Como ele não tem dignidade essencial, mas está em casa sucedente e benéfica ele tem
condição de dar seus anos médios: 43 anos e seis meses.
Saturno faz uma quadratura com Mercúrio que o recebe por termo. A recepção não é
mutua e trata-se de uma quadratura. Mas Mercúrio está angular, entrando em fase13, em
jubilo e por isso acrescenta a Saturno seus anos menores, isto é 20 anos.
Saturno também é aspectado por Marte através de um trigono. Marte está nos termos
de Saturno e Saturno está nos termos e face de Marte, logo há recepção mutua. Desta
forma, Marte pode acrescentar anos a Saturno, mas somente seus menores anos, por estar
declinando dos ângu-los. Acrescentamos então 20 anos. Chegamos a 43,5+20+20= 83
anos e meio.
A nativa faleceu um mês após completar 80 anos.
Percebe-se que, embora sendo generosa na doação de anos de Saturno, baseei-me mais
na condição sucedente e no tipo de casa benéfica que ele ocupava, sendo disposto pelo Sol
no Ascendente, do que na letra fria da lei, isto é, no que lemos a alguns parágrafos atrás:
“A regra é que se o alchocodem for um planeta domiciliado e angular dará seus maiores
anos. Se for um planeta sucedente em bom estado cósmico, os seus anos médios, se estiver
em mau estado cósmico dará seus meses na quantidade dos anos médios”.
Não segui a regra, mas não aconselho que se faça isso sem antes pen-sar muito.
Acreditei no potencial de vida da carta porque o Sol e a Lua estavam no Ascendente,
regidos por Marte, que por sua vez tinha Júpiter como dis-positor em casa benéfica e
exaltado. Júpiter era o dispositor final dos dois luminares e do Ascendente. Além disso, a
Lua, o hyleg, tem Marte como doriphoro14 e está conjunta a Toliman, uma estrela
benéfica.
Se tivesse dado os anos menores a Saturno, conforme ensinam os mes-tres, teria
chegado a uma expectativa de vida de 70 anos. De fato ela viveu 10 anos a mais o que
mostra que minha ideia foi correta, mas con-fesso que as direções ( um estudo que
faremos posteriormente) ajudaram—me a optar por uma expectativa de vida maior.
Nunca sabemos com certeza, temos que ter a humildade de reconhecer.
ALGUMAS OBSERVAÇÕES E EXCEÇÕES
Antonius de Montulmo15 cita Ben Ragel afirmando que se um luminar estiver num
lugar hylegiaco e não se encontrar alcochodem ele pode ser hyleg e alchocodem, mesmo
não estando em Áries ou Touro. Também diz este autor que, segundo o mesmo Ben Ragel,
se um luminar for aspectado por um dos regentes por antiscia, o planeta que aspecta é o
hyleg e seu regente o alchocodem.
Masha´allhah aceita que o senhor da hora aspecte o hyleg e torne-se o alchocodem.
Se houver um planeta na Casa 1 ou na Casa 10, 3 graus antes ou 5 depois da cúspide
faça-o participante, junto com o hyleg, segundo recomenda Bonatti.
O ANARETA OU PLANETA DESTRUIDOR
Já vimos que o alchocodem indica aproximadamente os anos de vida. Recapitulando:
os planetas que ele aspecta somam-lhe anos menores se forem benéficos, dependendo de
serem cardeais e do tipo de aspecto assim como da recepção.
Aspectos de quadratura sem recepção com benéficos não somam nem tiram nada.
Aspectos de quadratura com maléficos tiram-lhe os anos menores do maléfico. Aspectos
de trigono com maléficos com recepção segundo alguns autores somam os anos menores.
Cabe-nos agora falar especificamente do anareta, que funciona como o oposto do
almudebit. Trata-se de um planeta que tem mais dignidades nos lugares mortais: o planeta
que é configurado para a morte, enfim. Nem sempre ele é um maléfico, embora os
maléficos sejam sempre os principais suspeitos.
Bonatti e Abu Ali são as principais autoridades no assunto, embora Montulmo seja
muito ponderado e meticuloso.
Em questões de morte Bonatti diz para observar o signo da oitava casa, seu regente, o
regente da Parte da Morte (Saturno + Cúspide da Casa 8 –- Lua), o oitavo signo a partir do
Sol em nascimentos diurnos e o oitavo signo a partir da Lua em nascimentos noturnos,
assim como o local onde se encontram tais regentes.
Já Abu Ali dá importância ao regente da Casa 7 e valoriza muito o regente da
triplicidade da Casa 4. A Parte da Morte e seu regente, assim como sua situação por casa
são valorizados por ambos.
Unifiquei as ideias de ambos e elaborei uma tabela, a ser preenchida no intuito de
verificar o planeta com mais dignidades em pontos anaréticos.
É preciso atentar quando realizarem o cálculo da Parte da Morte, pois ela leva em
consideração a cúspide da Casa 8 e esta cúspide pode variar em graus dependendo da
divisão de casas escolhida. Desta forma, ela pode dar pequenas ou grandes variações na
quantidade final.
Se ela chegar a mudar de signo, é preciso fazer duas tabelas, cada uma com a Parte da
Morte num signo diferente.
Raramente isso fará grande diferença no computo geral, pois frequentemente há um
planeta que aponta invicto como anareta.
Eis a tabela que deve ser preenchida16 utilizando a carta da Princesa Diana como
exemplo.
Figura 16

Figura 17A
Figura 17 B
A carta calculada por Placidus (figura 17A) fornece a Parte da Morte para 2º34’ de
Câncer, mas por Alchabitius a Parte da Morte vai para 29º e 26’ de Gêmeos.
Logo, preencho outra tabela (figura 17B) com o valor encontrado.
Ocorre que pelo diferente tipo de divisão de casas, Placidus ou Alchabitius, a Parte da
Morte aparece em signo diferente o que acabou por resultar em grande diferença no
cômputo geral.
Isto demonstra como estamos pisando em terreno frágil.
Tenho razões para crer que usando Placidus e a Parte da Morte em Câncer obtemos
resultado mais acurado e consistente com o momento da morte da nativa. Mas, além de
tais motivos necessitarem maior investigação, não caberia citá-los aqui, pois fazem parte
do módulo de previsões que abordarei em outro livro.
Quanto ao hyleg desta carta, o Sol está descartado, pois nenhum planeta que tenha
dignidade em seu grau o aspecta. Passamos à Lua que também é descartada pelo mesmo
motivo. Observe-se que a Lua está junto ao Nodo Sul, um mau prognóstico, ainda mais
sendo a Lua um luminar que rege o Sol.
Nosso próximo passo, como a natividade ocorreu após a Lua Cheia, é pesquisar a
Parte da Fortuna. Encontra-se ela em Leão, recebendo a oposição de Júpiter. Júpiter tem
dignidade de triplicidade em Leão, mas conforme Ben Ragel e Montulmo afirmam, não se
recomenda o uso de dignidades menores que domicílio e exaltação quando não
estivermos escolhendo os luminares como hyleg.
Resta-nos verificar o ponto do Ascendente e por último a SAN. Nenhum regente do
Ascendente aspecta o Ascendente, logo temos que descartá-lo. Quanto à SAN a 6º de
Capricórnio, na segunda casa, pode ser aceita com hyleg por estar em casa sucedente e seu
regente por exaltação, Marte, a aspectar.
Logo, o hyleg é a SAN e Marte é o alchocodem, dando-lhe os anos médios por estar
sucedente17, 40 anos. Como por signos inteiros Marte estaria cadente na Casa 9, isto é sua
posição sucedente não é completa, os quarenta anos não serão doados integralmente. De
fato, a princesa Diana morreu dois meses após completar os 36 anos de idade.
De que nos serviu conhecer o anareta?
Serviu para que observemos Saturno de perto, a cada ano, através das técnicas de
direção, Revoluções Solares, etc. Por exemplo, só para citar algo interessante, Saturno
estava em Áries que é a Casa 4, no ano da morte da nativa.
Além disso, observe-se quantos graus existem entre o Ascendente e Saturno. Fazendo
uma simples conta de aritmética e dando aproximadamente um grau a cada ano temos 11º
30’ até que o Ascendente atinja Capricórnio e mais 27 graus para chegar a Saturno. Se
transformarmos isto em anos, temos exatamente 38 anos e meio. Esta é uma conta
aproximada cujo ensejo é demonstrar que a quantidade de anos para o anareta chegar ao
Ascendente (que é um ponto vital) ou vice-versa e o tempo de vida previsto pelo
alchocodem são bastante similares no cas.
Precisamos do anareta para saber qual planeta devemos dirigir como promissor nas
direções primárias, qual planeta devemos observar nas pro-fecções e firdárias, assim como
nas Revoluções Solares. Enfim, o anareta é um importante significador.
Agora temos em mãos os instrumentos principais de delineação: sabemos os pontos
vitais, os pontos mais nevrálgicos da carta e podemos especular quando nossos clientes,
nossos amigos e parentes enfrentarão o maior drama da vida humana: a morte.
O raciocínio usado nesta ténica de delineação é prototípico de qualquer delineação
medieval. Ele é usado mais ou menos extensamente quando nos referirmos a qualquer
assunto das doze casas.
No entanto, a delineação da vida é sempre mais dramática, pois é um assunto que gera
muita ansiedade, sendo a morte um fato incontestável cuja previsão exige conhecimento
de toda doutrina astrológica, a qual é poderosamente testada nesta área.
Além de delinear da forma exposta é imprescindível que o astrólogo tenha poder de
julgamento, bom senso, e só pratique esse tipo de previsão de forma circunspecta e sem
alarde.
Raramente nossos clientes querem saber a data de sua morte e nós mesmos evitaremos
muito sofrimento não usando a Arte em nosso “suposto” benefício: os resultados podem
ser psicologicamente devastadores e muitas vezes contaminados pela arrogância humana
ante os atos de Deus.
CONCLUSÃO
Natividades de primeira, segunda e terceira differentia são o resultado de complexas
configurações.
Podemos achar um mubtazz ou almuten que as traduza em um planeta com mais força
no sentido vital ou destruidor e ele pode ser a quintessência da configuração complexa
analisada. O almuten é um ponto que, se atingido por um maléfico, pode causar a morte,
independente dos anos do alchocoden ou kadukhudhah. O mesmo ocorre se o Hyleg,
atingir o Nodo Sul, se opuser à Lua ou fizer quadratura com ela. Quanto aos anos do
alchocodem, eles podem ser ultrapassados se na época direções favoráveis ocorrerem por
parte de benéficos.
Vemos até aqui que a previsão de longevidade é incerta, pois qualquer ponto vital,
atingido por uma direção maléfica pode matar, desde que um benéfico não ocorra ao
mesmo tempo enviando seus raios ao “apheta”.
A vida é incerta e sutil, os significadores dela podem e frequentemente são mais de um
só.
Além disso, uma carta está sempre inserida num contexto que é a fa-mília, o grupo
social do nativo e o país em que se vive .
No entanto, nem a medicina e nem o nível sócio econômico protegerá contra as mortes
acidentais ou criminosas. Uma carta com planetas cadentes colocará o nativo em situação
muito mais frágil e inconsciente em relação aos perigos que corre, não sendo ele capaz
então de evitalos, ficando sujeito a sucessos que frequentemente colocam sua vida em
risco, por falta de percebe-los a tempo.
Como diz o aforismo de Hipócrates: “A arte é longa, a vida breve, a ocasião fugitiva, a
experiência falaz, o juízo dificultoso”.
Nada é mais verdadeiro, especialmente no estudo da longevidade.

1. “Tools & Techniques of Ancient Astrology” by Robert Zoller, ed. New Library, London

2. Esta idéia de tempo em Bonatti difere das ideias de Masha´allahh: um planeta angular é mais rápido em seus
efeitos, segundo este autor.
3. Com uma profecção, um tipo de técnica preditiva. Como temos doze signos, e cada signo vale um ano, levaria doze
anos para retornar ao signo de partida, o Ascendente.
4. Ptolomeu não atribuia pontos diversos a cada tipo de dignidade. Ele dava um ponto a cada uma, mas é possivel que
baseados nele, os astrologos medievais introduziram a técnica de contar pontos proporcionais a cada dignidade e criar
almutens.
5. Mais tarde veremos que há exceções à regra.

6. É praxe considerar que qualquer planeta que esteja a 5 graus antes de uma casa pertença a ela.

7. Mais tarde veremos que essas minúcias não são tão importantes, valendo mais o fato de um luminar não ser cadente
e ser aspectado por um dos regentes.
8. Tal posição evita a combustão.

9. Hays significa estar na parte correta da carta correspondendo à seita e em signo do mesmo gênero.

10. A dignidade de face, porém, isoladamente, deve ser desconsiderada por ser muito fraca.

11. Fundamentos da Astrologia Tradicional, edição do autor, Clélia Romano, DMA

12. Neste caso Montulmo conta o quanto de angularidade ela tem: soma os anos menores com os maiores e vê quanto
falta para a Vênus ocupar o ângulo. No caso, faltaria 12º, pois ela já caminhou 15º. Os anos maiores de Vênus são 82
e os menores são 8. A metade, ou pouco mais, daria 46 anos, muito próximo dos anos médios que avaliei (veja a
seguir).
13. Este é um conceito helenístico que repousa na idéia que, quando um planeta está em vias de escapar dos raios do
Sol ele tem sua maior eficácia. Meu companheiro Alan White, hoje falecido, gastou dias para me convencer que a
idéia procede. Isto se passou em 2007 em Cumberland: devo a ele meu reconhecimento.
14. Vide capítulo 20.

15. On The Judgements of Nativities, Antonius de Montulmo, pag 34, livro 1. Arhat Editora

16. Esta tabela está pronta para download no site www.astrologiahumana.com/utilitarios

17. Observe-se que aqui também a conta só chega à realidade factual se levarmos em consideração a posição do
planeta por casa e não sua condição essencial.
8º CAPÍTULO
DELINEAÇÃO DO
ASCENDENTE
A MOTIVAÇÃO
PRIMÁRIA

A
s delineações do Ascendente e da primeira casa são de primordial importância e
por aí se deve iniciar o trabalho.
A partir de agora exporei uma técnica moderna que me foi ensinada por meu
professor Robert Zoller. A teoria da Motivação Primária tem um cunho psicológico e é das
coisas mais efetivas e indubitáveis na delineação. Robert Zoller relata que aprendeu a
técnica com Zoltan Mason, professor dele em Nova York na metade do século passado.
Ela não é descrita nos livros tradicionais, mas nada há nela que antagonize os preceitos
clássicos e de certa forma inclusive ela os organiza de maneira funcional, sendo muito útil
na descrição da mais básica intenção do nativo para encontrar a felicidade e a auto-
realização.
Por sua incontestável valia achei necessário descreve-la neste livro.
1.
De início verifica-se em que signo cai o Ascendente. Mesmo que seja nos últimos
graus deve ser considerado o signo que aparece a Leste.
De posse dessa informação tenha em mente que existem quatro tipos de pessoas que
correspondem aos quatro elementos, dois são masculinos e dois femininos. Como
sabemos, o fogo e o ar são masculinos e a terra e a água são femininos.
As pessoas que tem o signo Ascendente em signos masculinos vão em busca de
oportunidades, mas se o Ascendente aparece em signos femininos os nativos esperam por
algo que lhes traga o que necessitam.
Entre os signos de masculinos aqueles que são do elemento fogo vão em busca de
liberdade de ação, poder e liderança. Já os signos de ar vão em busca do conhecimento.
Entre os signos femininos, os signos de terra precisam de segurança material . Os
signos de água precisam de segurança afetiva.
Tais palavras, ou seja, ir em busca versus necessitar diferenciam os signos
masculinos dos femininos, por isso são palavras chave.
Além disso, deve-se ter em mente que os signos cardeais iniciam as coisas, são
centrífugos, os signos fixos são centrípetos, concentram as coisas e são aquisitivos; os
signos mutáveis ou duplos agem ora de uma forma ora de outra.
Áries, Câncer, Libra e Capricórnio são signos cardeais e iniciam as coisas. Embora
Câncer e Capricórnio sejam signos cardeais e possam dar a aparência de tomar a
iniciativa, eles funcionam melhor, por serem femi-ninos, em ambientes sistematizados por
outrem.
Já se encontrarmos signos fixos deve-se acrescentar suas respectivas tendências de
concentrar as coisas: Touro entesoura aos bens materiais, Leão, as honras e Aquário o
conhecimento.
Os signos duplos agem ora de uma forma ora de outra, como foi dito.
Esta é uma chave importante que fornece de imediato o que é inegociável durante a
vida toda do nativo.
A segunda coisa a fazer é verificar se há planetas no Ascendente, na 1ª casa ou
aspectando o Ascendente. Esses planetas podem modificar a Motivação Primária
acrescentando suas naturezas e a determinação local, isto é o sentido da casa em que estão
posicionados. No entanto, apesar de contribuírem, eles realmente não mudam a natureza
da Motivação Primária.
Por exemplo, se existir um signo de fogo no Ascendente o nativo busca liderança,
independentemente de que planetas o aspectem, ou se a Lua está conjunta ao Ascendente.
Esta motivação básica é imediatamente reconhecida pelo nativo, e tem a característica
de ser algo de extrema importância.Além disso é algo que o acompanhará durante toda sua
trajetória de vida.
Vejamos um exemplo:

Figura 18A
Figura 18 B
No exemplo temos Áries no Ascendente e observamos que Vênus na Casa 9 faz um
trigono com o Ascendente. Vênus torna o nativo mais aprazível, sociável, amável,
adiciona estas qualidades ao signo Ascenden-te, ainda mais que há um trigono, isto é
Ascendente e Vênus participam da mesma triplicidade de fogo. Planetas que aspectam o
signo Ascendente são poderes que a pessoa pode usar no mundo. Neste caso o que é
adicionado à Motivação Primária é o fato de Vênus estar na Casa 9, então podemos
esperar que assuntos relacionados a esta Casa, isto é o aspecto espiritual, o amor às
viagens e estudos serão acrescentados. Mas, acima de tudo, o que é inegociável é sua
Motivação Primária de fogo, no caso o desejo de liberdade de ação, reconhecimento e
liderança.
O astrólogo deve ser certeiro e focado nesta catalogação sem confun-di-la com
subprodutos da Motivação Primária
Se encontrarmos muitos planetas fazendo aspecto ao signo Ascendente estaremos
diante de uma personalidade complexa e por vezes contraditória. O melhor a fazer é
utilizar somente os planetas que estiverem em orbe mais estreita.
A principal (ou a primeira) motivação é sempre coerente e presente em toda a vida do
nativo.
Temos que ter cuidado para não confundir a aparência de uma pessoa com o que ela
realmente busca, ou seja, sua Motivação Primária (a causa fundamental, a razão por que o
nativo faz todas as coisas que faz).
Paralelamente ao estudo da Motivação Primária há Partes que dão indicações
importantes sobre o nativo. São elas a: Parte do Hyleg1, a Parte do Espírito, e às vezes
também a Parte da Fé2.
Os autores medievais usavam também a Parte da Vida3, mas não tenho experiência
para afirmar ou contradizer sua validade.Visto ela ser usada com a mesma fórmula que a
Parte dos Irmãos, não me parece fazer muito sentido.
A Parte do Hyleg contribui para a rota que a vida do nativo seguirá. Neste caso a Parte
do Espírito, a ação do nativo, assim como a Parte da Fé estão em Gêmeos na Casa 3. A
Parte do Hyleg está na Casa 6 se usarmos signos completos e em Virgem, um signo de
terra. Há indicações de que fatos pertencentes à Casa 3 e à Casa 6 contribuem para a
personalidade. Ambas são regidas por Mercúrio. Então os irmãos, a aprendizagem e
saúde, são a trilha do caminho de vida da nativa.
Vemos por aí que o mais certo é a nativa utilizar a Casa 9 mais como uma área de
aprendizagem do que como religiosidade. Não se trata de pessoa com ênfase nos aspectos
espirituais, que seriam encontrados se, por exemplo, a Parte do Espírito, Hyleg ou Parte da
Fé estivessem na nona casa, ou alguma delas fosse regida por Júpiter angular, dignificado
ou na própria Casa 9.
É importante repetir que quando olhamos para a primeira casa vamos descobrir o que
será importante para o nativo durante toda sua vida.
Em primeiro lugar deve-se começar por obter a compreensão essencial sobre as forças
impulsoras vitais e traçar todas as outras coisas a partir disso e só disso. Desta forma se
evitam os erros.
Por exemplo, como astrólogos não podemos apenas entrar em um jar-dim e ver que o
lugar é bonito. O astrólogo olha mais além e entende que o que ele vê é algo que foi criado
por um nativo (ou um grupo de nativos, um país) e pode então perguntar “por quê?” - ou
seja, qual a principal motivação que levou à construção daquele belo jardim. Em alguns
casos pode ser que se limite à pessoa que deseja criar algo para impressionar os outros,
assim receberá crédito e posição. Em outros casos o que se vê é o jardim de alguém que
deseja cultivar plantas e árvores para acolher animais silvestres e pássaros e protegê-los.
Outros podem estar criando um jardim que sirva como um lugar para produzir frutos que
podem ser comercializados, e outros ainda estão querendo abrigar varias espécies de flora
e cataloga-las e estuda-las.
O que estou tentando dizer é que não se deve deixar enganar pela aparência, mas sim
olhar para a motivação que cria tais coisas e entender que essas motivações são diferentes
de pessoa para pessoa. O astrólogo pode descobrir qual é essa Motivação Primária, desde
que olhe para o Ascendente e para a primeira casa logo de início.
Devemos investigar a seguir quais os meios que o nativo usará para satisfazer sua
Motivação Primária e se serão efetivos ou não.
Para isso temos que saber quais os regentes do Ascendente por domicílio, exaltação,
triplicidade, termo e face para que verifiquemos se estão em casas cardeais, sucedentes ou
cadentes, pois as primeiras realizam, as segundas realizam também, mas as terceiras são
muito fracas para realizar o assunto da casa que regem, a menos que obtenham suporte
externo. Além disso, temos que verificar se a condição essencial desses planetas é boa.
Os autores medievais procuram o almuten da casa, isto é qual o planeta que tem mais
dignidade naquele grau do signo Ascendente. Ele pode estar em melhor posição que os
outros regentes. 4
Através da tabela abaixo vamos descobrir os regentes e o almuten do Ascendente:

Figura 19
No caso de exemplo, como o Ascendente é Áries, o regente do domi-cílio é Marte, o
regente da exaltação é o Sol, da triplicidade são: Sol, Júpiter e Saturno; do termo (a 21
graus) é Marte e da Face é Vênus. Portanto, de acordo com a pontuação medieval diremos
que:
Marte tem 5 pontos da regência mais 2 do termo, Sol tem 4 pontos da exaltação mais 3
da triplicidade, Júpiter tem 3 pontos da triplicidade, e Vênus tem 1 ponto da face.5
Marte e Sol estão empatados, ambos têm 7 pontos. Neste caso qual dos dois
escolheremos? O que estiver em melhor posição. Observando Marte vemos que
aparentemente está na casa 11, uma casa forte e bem aventurada, mas ele está
efetivamente no 12º signo, a casa do Mau Espírito.
Logo, ele não tem condições para satisfazer a Motivação Primária de liberdade e
liderança. O Sol, nosso outro candidato, encontra-se na Casa 9, uma casa cadente, com
pouca força para realizar a Motivação Primária. Mas o Sol tem jubilo nesta casa, e a Casa
9, embora cadente, é a melhor das casas cadentes: portanto, ao menos em parte, ele
satisfaz a Motivação Primária. Além disso, por signos completos ele está na Casa 10. A
nativa se prepará para destacar-se no exercício profissional e realizar nele sua motivação
de liderança e destaque. No entanto, seu objetivo será realizado apenas em parte, pois o
Sol está cadente.
Vamos agora observar se algum dos regentes da triplicidade está mais bem colocado.
Saturno está na 12ª casa, logo deve ser descartado, o Sol já foi considerado, portanto resta-
nos Júpiter. Júpiter está angular e na Casa 10, a casa das ações e da profissão.
Encontra-se em Aquário, signo masculino, em natividade diurna, estando, portanto em
hays, o que é uma bonificação extra. Por signos inteiros está na décima primeira casa onde
tem júbilo. Podemos dizer, uma vez que Júpiter é relacionado ao que é correto, confiável,
verdadeiro e virtuoso, que a nativa obtém através de sua profissão, relacionada a tais
assuntos a liderança e o poder de ação para os quais é motivada.
Resta-nos investigar Vênus, regente do decanato. O decanato é bastante fraco, mas
aqui, como Vênus aspecta o signo Ascendente, podemos dizer que Vênus não só anexa
qualidades à Motivação Primária, como também é um poder a mais da nativa, ou seja o
poder de ser política e cordial a fim de liderar.
Verificamos também que o apecto racional da nativa mostrado por Mercúrio é
pragmático e objetivo, mas as emoções, dadas pela Lua são intensas e pelo fato da Lua
estar em queda e em casa difícil, podemos afirmar que tais emoções são de maneira geral
fonte de sofrimento. A al-ma da nativa vive em guerra entre emoções profundas e um lado
mental pragmático.
Falta descobrir o temperamento do nativo, o que não faremos no momento, mas
descoberto o temperamento, a rota de vida, a Parte do Espírito, o tipo de alma, dada pela
Lua, o tipo de raciocínio, dado por Mercúrio e a Motivação Primária, teremos delineado a
primeira casa e saberemos bastante do nativo. Isto servirá de base para qualquer outra
delineação referente a outros assuntos.
Por que foi importante descobrir que Júpiter tem mais condições que o Sol para atingir
a Motivação Primária? A razão é que, se não se souber disso, não será possível procurar os
significadores corretos quando formos fazer uma predição. Agora sei que sempre que
Júpiter aparecer posso esperar sucessos profissionais que satisfarão o anseio de liderança
da nativa. Neste caso pode parecer óbvio, porque Júpiter é um benéfico, mas se em lugar
dele fosse Mercúrio ou Marte o mesmo seria dito.
Usando-se o método descrito acima se pode saber o que motiva o nativo, se e quando
ele vai atingir o que busca.
Todas as casas angulares devem ser delineadas desta forma, através dos planetas
contidos nelas assim como de todos os outros planetas que as regem e aspectam, inclusive
seu almuten.
As cúspides das casas não angulares não devem ser levadas em conta, pois tais casas
são “flutuantes” de acordo com a técnica de divisão usada.
Também, pela mesma razão, não uso fazer o almuten das casas não angulares, visto
que a divisão de casas pode deslocá-las a ponto de mudar o resultado de nosso cálculo.
Como regra geral, devem-se analisar os planetas por casa, mas sem esquecer-se de
manter os olhos em signos completos. É muito frequente um planeta funcionar para duas
casas se ele estiver por signos completos na casa seguinte, mas por divisão na casa
anterior.
1. ASC+Lua-SAN
2. ASC+Mercúrio-Lua( inverte-se). A Parte da Fé é uma parte de Casa 9, mas a uso na delineação da primeira casa
porque a informação sobre se o nativo é ligado à religiaão ou não diz muito nas delineações de outras casas.
3. Asc +Saturno –Júpiter

4. Fazer o almuten às vezes é redundante, pois se vamos examinar cada um dos regentes do signo Ascendente e
verificar qual deles está em posição mais forte para realizar a Motivação Primária, é óbvio que um deles será o
almuten do Ascendente.
5. A maneira de construir tais tabelas e quantifica-las foi descrita no livro Fundamentos Da Astrologia Tradicional, por
Clélia Romano, Edição do Autor, 2011.
9º CAPÍTULO
A CASA 2 E A DELINEAÇÃO DO
SIGNIFICADOR FINANCEIRO

A
técnica geral para delinear a substância do nativo se encontra descrita em diversos
autores árabe-medievais.
Umar Al Tabari e Abu Ali recomendam olhar a Casa 2, planetas que estiverem
nela, seu regente, a Parte da Substância, a Parte da Fortuna, seus regentes e também
Júpiter, significador universal da substância.
Observavam o almuten desses pontos e verificavam a condição dele: se estava livre de
impedimentos, afortunado e forte prognosticava um bom desempenho financeiro para o
nativo.
Bonatti levava em consideração também a maneira como o almuten se comportava em
relação ao regente do Ascendente: se estava junto a ele corporalmente, se o aspecto era de
amizade, se havia recepção ou não. E então julgava o assunto de acordo com tais
testemunhos.
Abu Ali levava em consideração também os senhores da triplicidade do signo da
segunda casa, isto é o primeiro senhor, no caso de natividade diurna e o segundo, no caso
de natividade noturna. Se o planeta estivesse angular, afortunado e forte significaria que o
nativo gozaria de riqueza durante toda sua vida.
As casas angulares são as seguintes, em ordem de força: Casa 1, Casa 10, Casa 7 e
Casa 4.
Se o planeta senhor da triplicidade estivesse distante da cúspide mais do que 15 graus
diminuiria o grau da prosperidade.
Ben Ragel1 dava importância às estrelas favoráveis de primeira e segunda magnitude,
se estivessem na cúspide dos ângulos ou no grau do Sol para nascimentos diurnos ou da
Lua para nascimentos noturnos. Nesse caso segundo ele, o nativo seria rico.
Ele também olhava para o primeiro ou segundo regente da triplicidade (se em caso de
nascimentos diurnos ou noturnos): se tal planeta estivesse em bom estado zodiacal, nos
ângulos, rápido e no seu termo, recebido pelo regente de domicílio da Casa 2 ou pelo
regente do termo da Casa 2 e os planetas lhe dessem luz e poder (isto é fizessem aspecto)
significaria que o nativo seria rico e gozaria de bem estar. Se tal regente estivesse em mau
estado e cadente significaria o contrário.
Se o segundo regente da triplicidade estivesse bem e tivesse poder, recebendo os
aspectos convenientes, o nativo também seria rico, desfrutaria de suas posses e faria bem a
todos que se unissem a ele.
Se estivesse em situação contrária teria uma vida de privações, seria muito pobre e
humilde, pediria o sustento a outrem e passaria fome a maior parte do tempo.
Se o terceiro regente da triplicidade estivesse em boas condições o nativo seria leal e
constante e falariam bem dele e seus negócios seriam limpos. Mas se estivesse
desafortunado o nativo seria mal visto, conhecido como traidor e farsante, desleal e
mentiroso, alguém que não dá e não recebe.
Diz também Ben Ragel que se o regente da Casa 2 recebesse aspectos de muitos
planetas o nativo ganharia dinheiro de várias fontes.
Como se vê, era usual dentre os autores árabes o uso dos senhores da triplicidade. No
entanto, tal uso não repousa na astrologia helenística, que, à exceção de Dorotheus,
considerava o uso de triplicidades apenas no estudo da eminência do nativo e mesmo
assim consideravam tão somente os senhores da triplicidade do luminar da seita, Sol ou
Lua.
O senhor participante da triplicidade ajudaria os outros dois em todos os momentos e
não, como os autores árabes passaram a entender, somente no terceiro período da vida.
Certamente repousa em Dorotheus tal uso das triplicidades na astrologia Medieval.
Podemos usar os métodos de Abu Ali e Umar e também o de Bonatti, que em parte
engloba a técnica geral: quanto mais indicativos de riqueza, mais certeza teremos em
nosso julgamento sobre e fortuna do nativo e quanto menos, julgaremos que chegará à
pobreza: há uma escala.
A DETALHADA TÉCNICA DE MEDIEVAL COMO DESCRITA POR
BONATTI PARA ENCONTRAR O SIGNIFICADOR FINANCEIRO
Bonatti 2 trata o asssunto de forma regrada, tendo se baseado em Abul Ali, Umar al
Tabari e Ptolomeu.
Apresento de forma sistemática um protocolo semelhante ao que usamos para chegar
ao hyleg em nosso estudo sobre longevidade.
O protocolo a seguir nos apresentará um planeta ou ponto como sendo o Significador
Financeiro do nativo.
Vamos definir primeiro o que queremos dizer com “significador” de um assunto.
Bonatti nos diz que o significador é o almuten da casa, isto é aquele planeta que tem mais
dignidades naquela cúspide, e que nem sempre é o regente por domicílio.
No entanto, na prática se o almuten estiver declinando ou se estiver muito fraco
zodiacalmente falando, deve ser descartado em prol do planeta que seja o regente do
domicílio da cúspide, ou regente por exaltação, triplicidade, termo ou mesmo face, se
algum desses tiver mais força para realizar os tópicos da casa.
Em primeiro lugar é importante que usemos a divisão de casas Alchabitius Semi Arc,
pois Bonatti baseou-se muito em Alchabitius3. Como vamos tratar de tópicos relacionados
à Casa 2, temos que encontrar a Parte da Substância que é calculada pela distancia entre o
regente da Casa 2 e a cúspide desta casa, e tal distância é somada ao Ascendente. Ora, se
não usarmos uma divisão de casas padrão poderemos encontrar diferenças no cálculo da
Parte da Substância. A Parte da Substância é assim calculada: Asc. + Cúspide da Casa 2 -
Regente da Casa 2.
Diferentemente do que faz geralmente, quando se trata de delinear o Significador
Financeiro Bonatti não leva em muita consideração os planetas presentes na casa.
Há dois pontos principais no método. Em primeiro lugar o Significador Financeiro não
pode estar aflito. Em segundo lugar, pesquisa-se primeiro se o potencial Significador
Financeiro é aspectado por um de seus regentes.
Bonatti também adverte que o potencial Significador Financeiro não esteja cadente,
mas como lidamos com uma pirâmide de riqueza que vai do topo até a base, vamos
encontrar desde pessoas que são muito ricas até aquelas que vivem na miséria. Como a
cadência é uma debilidade podemos encontrar significadores cadentes no final de nossa
lista de preferências e eles se referirão às pessoas que vivem miseravelmente. Estas
também tem um Significador Financeiro, porém pobre. Por outro lado, algumas casas
cadentes podem ser produtivas. Por exemplo, alguém pode ganhar dinheiro através de seus
empregados, ou através de pessoas mantidas enclausuradas, como é o caso de policiais e
guardas de prisão. Neste caso o planeta cadente é auxiliado por outro ou faz aspecto com a
Parte da Fortuna ou com a Parte da Substância.
Temos algumas regras, mas elas devem ser usadas dentro do contexto da carta: temos
que pesar fatores vários e, como esta é uma técnica especial, ela só funcionará
adequadamente em mãos de astrólogos suficientemente treinados e habituados a lidar com
a questão da delineação geral e seus fundamentos. Além disso, requer-se do astrólogo boa
capacidade de ver a carta como um todo e nisto basear seu julgamento. A astrologia é uma
arte e embora tenhamos regras, a visão do todo é essencial.
Segundo Bonatti:
1. Comece observando onde está a Parte da Fortuna, pois ela é a parte principal
referente à Casa 2. Verifique todos os seus regentes e seu almuten4, seu estado
zodiacal e mundano. Se um de seus regentes estiver em bom estado celestial ou
mundano, especialmente na mesma casa em que a POF, ou se aspectar a POF o
nativo será muito rico. Se o almuten for aspectado pelo regente do Ascendente ou
se uma das fortunas (sem estarem impedidas) se aplicarem ao almuten, a
substância será acrescida em mais a metade(especialmente se for um trigono ou
sextil, e ainda mais se houver recepção) . Se for o regente da exaltação que se
aplicar ao almuten ou o da triplicidade, termo ou face, o bem vai
progressivamente diminuindo, levando em conta que os aspectos por quadratura e
oposição fornecem menos.
2. Se nenhum regente da POF e nem o seu almuten estiver forte e afortunado e
aspectando-a, a POF deve ser descartada como Significador Financeiro e
passaremos a observar a Parte da Substância, verificando se seus regentes e seu
almuten estão bem posicionados. Se isto não ocorrer passe à etapa seguinte.
3. Observe então a Casa 2, seu regente e os planetas que estejam nela, se houver. Se
um dos benéficos, especialmente Júpiter. estiver na Casa 2 ou aspectando o
regente da Casa 2 por trigono ou sextil, o nativo vai adquirir muita substância.
Em ordem de importância temos Júpiter, Sol, Lua e Vênus. Um luminar fora de
seita diminui sua potencialidade e um planeta aflito deve ser descartado.
4. Caso não tivermos encontrado o Significador Financeiro até então devemos levar
em consideração Júpiter que é o significador universal da substância. Verifique se
ele está na Casa 2 ou no Ascendente. Mas se Júpiter estiver aflito ele não pode ser
o Significador Financeiro 5.
5. Se Júpiter estiver impedido e a natividade for diurna observe o Sol: se ele estiver
em um bom local em relação ao Ascendente e livre de aflição, ele significa
grande riqueza. Em natividades noturnas observe a Lua: se ela estiver na segunda
casa, afortunada e forte ela significará grande riqueza, mas não tão grande como o
Sol.
6. Encontre um almuten do grau onde estiver o almuten6 da Parte da Fortuna ou da
Parte da Substância e faça dele um significador se ele servir para isso, o que ainda
trará bastante substância, mas menos que a Lua.
7. Se tal planeta não servir, olhe para o planeta em cujo domicílio a Lua está. Se ele
estiver na Casa 2 ou nos ângulos ou em outro local favorável, livre de
impedimentos, ele trará substância, mas menos que o almuten acima.
8. Se este planeta não servir para significar a substância do nativo observe se existe
um planeta na Casa 2: se ele estiver forte e sem impedimentos significa a
substância do nativo, mas é mais fraco que o nível acima.
9. Observe a seguir se o regente do Ascendente e o da Casa 4 é o mesmo planeta.
Neste caso, se tal planeta estiver livre de aflições ele pode ser significador da
substância do nativo, caso contrário, não.
10. Observe os regentes da triplicidade da Casa 2: o diurno, o noturno e o
participante. Cada um deles rege um terço da vida. Se os três estiverem aflitos
passe adiante.
11. Em figuras diurnas tome os regentes da triplicidade do Sol e em natividades
noturnas os da Lua. Se estiverem aflitos siga adiante.
12. A seguir tome os regentes da triplicidade do Ascendente. Se estiverem aflitos
passe adiante.
13. Observe o regente da Parte da Fortuna: se ele estiver na Casa 2 ou em um bom
lugar em relação ao Ascendente e livre, tome-o como significador: caso contrário,
não.
14. Veja se o Sol está conjunto ao MC, a 5º da cúspide dentro da Casa 10 ou a 2º
declinando em direção à Casa 9, com a Lua aplicando-se a ele pela esquerda,
fazendo um trigono ou sextil e ao mesmo tempo se o regente da Casa 2 está em
seu próprio signo ou exaltação, aplicando-se ao regente do Ascendente por
conjunção, trigono ou sextil. Se isto ocorrer o nativo terá grande fortuna.
15. Quando os planetas citados não são significadores da substância do nativo e nem
o Sol está na Casa 10, verifique se tais planetas aspectam algum outro, ou qual
deles está mais elevado e em conjunção com o almuten da Casa 2. Tais planetas e
especialmente o mais poderoso é o significador da riqueza do nativo, embora
muito menos poderoso que o regente do signo da Parte da Substância.
16. Se ainda assim não conseguir identificar o Significador Financeiro, tome o
almuten de todos os planetas ou qualquer um deles que esteja mais forte, sempre
levando em conta o estado zodiacal e mundano, e tome-o como Significador
Financeiro, que neste caso será muito fraco.
17. Se todos estes estiverem aflitos tome os senhores da exaltação. Se estiverem
impedidos, tome o senhor dos termos, se estiverem impedidos os senhores das
triplicidades, se também estiverem impedidos o regente das faces e julgue através
deles.
Observação:
Estas inúmeras regras nos levarão frequentemente ao mesmo planeta, uma vez que
temos apenas sete deles. Muitas regras vão se mostrar redundantes. É importante notar que
vamos descendendo na quantidade de substância. É raro encontrar uma configuração de
firtuna incalculável, assim como também é raro termos que chegar a patamares de
miséria..
É importante saber que a melhor classe de Significador Financeiro é dada quando o
significador é a Parte da Fortuna ou a Parte da Substância, sendo elas angulares ou
sucedentes ao menos por signos completos ou por divisão sendo aspectadas por seu
regente por domicílio e em orbe estreito.
Quanto aos maléficos, mesmo com boa disposição, não combinam muito com finanças
como os benéficos. Caso se encontre um maléfico na Casa 2 ou se um planeta estiver aí
recebendo os raios de um maléfico que não tem dignidade lá, sem a presença de aspecto
de planetas afortunados é muito danoso para as finanças.
Tendo chegado ao planeta ou parte que é o Significador Financeiro podemos saber a
quantidade de riqueza do nativo, se muita ou pouca.
Agora vamos investigar a partir de onde o nativo obtém substância.
Segundo Bonatti isto é dado pela casa onde está o Significador Financeiro e o almuten
da casa onde ele está.
Neste momento deve-se usar a já apresentada significação das casas para saber o
tópico da vida de onde o nativo obtém suas finanças.
Quanto ao método usado para adquirir substância observe se o Significador Financeiro
é uma Parte e neste caso use seu regente, um planeta7. Se for um planeta guie-se pelas
seguintes instruções:
Saturno em boa condição: O nativo adquire substância por trabalhos árduos ou de
grandes edificações.
Júpiter: O nativo adquire substância a partir de cargos responsáveis, mas é um peso
que carrega, deveres extraordinários, como ser um juiz ou administrar palácios e também
por coisas comuns.
Marte: O nativo obterá substância produzindo guerras e porque regerá cidades e ele se
ligará a coisas que possa controlar.
Sol: O nativo encontra riqueza pela descoberta de ouro puro ou por coisas que não se
pensou antes ou por coisas vendidas por preço baixo. Se o Sol estiver na Casa 4 ele
encontrará tesouros enterrados.
Vênus: O nativo ganha dinheiro através de mulheres ou como um resultado de
presentes que deu.
Mercúrio: O nativo ganha dinheiro através de mercadorias e comércio ou pela ciência.
Lua: O nativo ganha dinheiro pela descoberta de prata ou por viagens, navegações ou
mercadorias.
Algo interessante a observar é que na aquisição da riqueza há modos lícitos e ilícitos,
então veremos que basicamente planetas zodiacalmente bem posicionados, afortunados,
fortes e ligados a benéficos usam métodos lícitos e legais.
Marte, porém, mesmo afortunado vai considerar usar tanto os métodos lícitos como os
ilícitos e tenderá a extorquir sempre que possível e quando não afortunado, cadente,
retrógrado e em detrimento pode chegar a derramar sangue, causar incêndios, e olhará os
fins e não os meios.
Já Júpiter que é um benéfico tende a se comportar de maneira lícita e legal, mas se
estiver aflito pode considerar a maneira ilícita.
O Sol, se afortunado e ligado a benéficos atua de maneira lícita e tende a obter fama,
mas se estiver impedido e desafortunado, cadente, ligado a maléficos não vai se
incomodar de usar meios ilícitos e ilegais. Além de tudo ele saberá como esconder seus
crimes de maneira que ninguém os veja dado seu poder de combustão e de ofuscar pela
claridade.
Vênus, se dasafortunada, vai tender a usar de usurpação e mentiras.
A Lua e Mercúrio variam, dependendo de com qual planeta estão configurados: seus
métodos são lícitos quando ligados a benéficos e ilícitos quando ligados a maléficos.
QUANDO O NATIVO ADQUIRIRÁ SUBSTÂNCIA
Neste caso usaremos os senhores da triplicidade da segunda casa. Se o nativo tiver
nascido de dia o primeiro senhor da triplicidade dará notícias de como será a vida
financeira na primeira parte da vida, o segundo na segunda parte e o terceiro na terceira
parte da vida. Se o nativo tiver nascido à noite usaremos o segundo senhor da triplicidade
da segunda casa para dar testemunho da primeira metade da vida, o primeiro para a
segunda metade e o terceiro para a terceira metade da vida.
Sempre os planetas significarão algo de acordo com sua natureza universal, (por
exemplo, se são maléficos ou benéficos, se tem correlação com um determinado assunto),
sua natureza celestial, isto é se estão em suas dignidades, e suas condições mundanas, isto
é se estão angulares, sucedentes ou declinantes.
EXEMPLO DO USO DA TÉCNICA
Figura 20
Iniciaremos com a Parte da Fortuna em Aquário como potencial Significador
Financeiro. Tal parte é regida por Saturno e Saturno a aspecta. Já via a Pater da Fortuna
ser asepctada por Saturno em posição celestial péssima e gerar bons resultados quando um
benéfico prestasse testemunho. Aqui Júpiter faz uma quadratura com orbe bem estreita:
mas Júpiter está combusto. logo ele está impedido, bloqueado de fazer qualquer bem.
A oposição de um maléfico não garante muita riqueza e, além disso, Saturno, o regente
e almuten da Parte da Fortuna está em detrimento na Casa 2.
Bonatti nos diz que um significador aflito deve ser descartado.
Como Aquário não tem regente de exaltação passamos a averiguar os regentes da
triplicidade da Parte de Fortuna: são eles Saturno, Mercúrio e Júpiter. Mercúrio, regente da
triplicidade noturna está cadente, retrógrado e em detrimento, Saturno está em detrimento
e Júpiter está combusto em quadratura com Saturno, embora aspecte a Parte.
Portanto, a Parte da Fortuna não é o Significador Financeiro, razão pela qual
tentaremos a Parte da Substância, que está em 23ºe31’ de Libra e cujos regentes são Vênus
por domicílio, Saturno por exaltação, e por triplicidade, tratando-se de carta noturna,
Mercúrio, Saturno e Júpiter. Os últimos já foram descartados anteriormente, resta-no
verificar Vênus. Ora, Vênus não faz qualquer aspecto à parte. Logo, devemos descartar a
Parte da Substância.
O passo 3 é verificar se Júpiter encontra-se afortunado: não é o caso, ele está combusto
e peregrino, aflito por Saturno.
O 4º passo é olhar a Lua, pois se trata de uma natividade noturna. A Lua está em sua
triplicidade na melhor das casas cadentes, pois faz trigono com o signo Ascendente. A Lua
faz parte da seita dominante, planeta noturno acima do céu e em signo feminino, o que
configura a dignidade de hayz. Ela faz um trigono a Marte, seu regente de triplicidade, que
está domiciliado e em própria triplicidade.
Além disso, Marte está em uma casa sucedente, sendo, portanto um planeta com
validade. Por isso tudo, escolhemos a Lua como Significador Financeiro da nativa.
Ora, a Lua é uma das regentes da Casa 2 e o almutem da Casa 2, o que vem reforçar
sua escolha como Significador Financeiro.
Descemos 4 níveis de riqueza para chegar à Lua: isto significa que a nativa não é rica,
mas também não faz parte dos mais desafortunados. No entanto, o patamar é um pouco
mais baixo, pois a Lua na Casa 9 está em casa oposta a seu jubilo e cadente, mesmo que a
Casa 9 seja uma casa positiva. A Lua não tem muita força para agir.
De que forma a nativa obtem substância? Vimos que quando o Significador Financeiro
é a Lua o nativo ganha dinheiro pela descoberta de prata ou por viagens, navegações ou
mercadorias, além de ir e vir, pois a Lua é instável.
Como a Lua se encontra na Casa 9 e no signo de Júpiter, podemos imaginar que
também a religião, o esoterismo, a magia e os estudos da astrologia tenham alguma
participação nos ganhos da nativa.
A nativa lida com esoterismo e também vende diversos itens para con-sumo feminino.
O método usado para adquirir substância é um método lunar, isto é ocorre através de
figuras femininas e também pela popularidade, pois a Lua tem relação com o povo. Além
disso, dado o fato da Lua estar no domicílio de Júpiter e em sua triplicidade, mostra que a
nativa ganha seu dinheiro ( ainda que pouco), de maneira lícita.
De fato, esta é a verdade.
A Lua se liga a Marte, planeta na Casa 5, que é uma casa bastante habitada. Não posso
ser muito clara com esta carta, mas a nativa ganha tam-bém com os prazeres, presentes e
diversão. Marte, por ser um maléfico, mesmo dignificado, considera o uso de métodos
ilícitos. No signo de Mar-te está a Parte do Espírito e a Parte do Hyleg, o propósito de vida
da nativa.
Concluímos que a nativa dedica-se a assuntos de Casa 9 para ganhar seu sustento,
auxiliada por situações de divertimento e lazer que também contribuem para ele.
Como Marte é o regente da Casa 10, a profissão, conclui-se também que a nativa
realiza sua profissão a partir da casa onde está Marte, a Casa 5, e fazendo uso da Casa 9.
Vamos aprender a delinear o Significador Profissional em capítulo adiante. Ele deve
ser sempre estudado junto ao Significador Financeiro, pois até aqui esta delineação pode
pertencer a uma artista, a uma astróloga, a uma pessoa que viaja para ganhar a vida ou que
promove festas. Por enquanto não é possível saber mais do que o que avaliei.
Resta saber em que momento da vida tais coisas sucedem. Os senhores da triplicidade
da Casa 2, sendo a carta noturna, são Marte para a primeira parte da vida, Vênus para a
segunda parte da vida e Lua para a terceira.
A época em a nativa gozou de situação financeira melhor foi durante a primeira parte
da vida, visto Marte estar domiciliado. Isto ocorreu devido à condição especial da nativa
junto ao pai que tinha recursos naquela época. De fato Marte é regente do dinheiro do pai.
A segunda metade da vida regida por Vênus peregrina e retrógrada colocou a nativa em
posição de dependência para obter condições de sobrevivência. Foi uma época insegura e
tensa. A última parte da vida, regida pela Lua, mostra uma si-tuação bastante preocupante
e instável com as finanças, embora figuras femininas possam vir a ser de auxílio à nativa.
Esta nativa teve sua carta analisada diversas vezes e escutou sempre que ganharia
dinheiro em jogos de loteria, por causa de Jupiter e Sol conjuntos na Casa 5. Nada disso
ocorreu porque o primeiro esta aflito e o significador financeiro cabe a outro planeta.
1. El Libro Complido, Ali Bem Ragel, Ed. Indigo, pag 395.

2. “Book of Astronomy”, traduzido do latim para o inglês por Benjamin Dykes, Tratado V -Vol. II, pag. 1196 em
diante.
3. Pessoalmente, uso o sistema que me forneça menos casas interceptadas, seja Pácidus ou Alchabitius Semi Arc. No
estudo presente usarei sempre Alchabitius pois era a divisão que Bonatti adotava e o método exposto baseia-se em
suas lições.
4. Estou descrevendo o método de Bonatti e a maneira como foi usado pelos astrólogos medievais. No entanto,
considero atualmente que procurar o almuten de uma parte não faz sentido. Afinal uma Parte, como vimos, é o
encontro simbólico de dois planetas em determinado signo. O grau em que tal encontro ocorre não tem o valor de um
planeta. A Parte tem um significado preciso e funciona como um daemon que age de acordo com principios mundanos
específicos. Embora o aspecto de um planeta à Parte, especialmente um aspecto estreito, seja importante é
especialmente importante que a parte não seja cadente e seja aspectada por seus regentes de domicílio ou exaltação,
não porque ele dão testemunho de como ela age, mas porque eles cuidarão do assunto para o qual ela contribuiu para
causar.
5. Note-se que, conforme vamos descartando possibilidades vamos também decrescendo o nível de fortuna do nativo

6. Pode parecer estranho, mas é o que diz o texto.

7. Esta é a instrução de Bonatti. Em minha opinião o local da Parte e não o local de seu regente é o método usado.
10º CAPÍTULO
A CASA 3 E OS IRMÃOS DO NATIVO, AS
VIAGENS, COMUNICAÇÕES E ESTUDOS.

V
ou me limitar aqui a abordar a questão dos irmãos e como prever o
desenvolvimento desse tópico na carta.
A Casa 3 faz parte da tríade familiar, funcionando como uma preparação à
família nuclear, representada pela Casa 4. A Casa 5 completa a tríade e como todas as
casas sucedentes, serve de suporte à Casa 4.
É esta a casa da parentela e está também relacionada a viagens em âmbito familiar e
por motivações familiares. Também relaciona-se de maneira geral a comunicações verbais
e escritas, virtuais ou não. É uma casa a ser consultada quando queremos saber sobre os
estudos do nativo, pois estes pressupõe escrita e transmissão de informações.
Como disse, neste livro a ênfase será dada à delineação dos irmãos do nativo.
Analisa-se tal tópico de acordo com o método de delineação geral.
Observa-se se há planetas na Casa 31, se tais planetas são benéficos ou maléficos e se
seus regentes de exaltação e triplicidade estão bem configurados. Também se observa
Marte, que é o regente natural dos irmãos por serem eles as primeiras pessoas com quem
se entra em atrito.
Se houverem benéficos na casa fala-se da boa condição dos irmãos e sua prosperidade.
Se houverem maléficos, ainda mais sem dignidade, diz-se o contrário. Se planetas na casa
ou seus regentes forem aspectados por benéficos ou maléficos tal fato também terá algo a
dizer sobre os irmãos. Abu Ali diz que se houver um planeta peregrino ou maléfico na
casa dos irmãos é testemunho de escassez de irmãos, assim como se Marte estiver
entrando em combustão.
Se o signo da Casa 3 for fértil ( Câncer, Escorpião ou Peixes) ou se o regente da
terceira casa estiver em signo fértil pensa-se em mais de um irmão. Da mesma forma se
analisará se Marte estiver em signo profícuo e a Lua não estiver num signo estéril.
Se o signo da Casa 3 for comum (Áries, Câncer, Libra e Capricórnio) e seu regente
estiver em signo comum, significa que o nativo terá irmãos somente por parte de pai ou
por parte de mãe.
Verifique também se a maioria dos testemunhos aparece em signos masculinos ou
femininos, pois isto falará a respeito de irmãos homens ou mulheres.
Analise se o regente ou almuten do Ascendente e o regente da Casa 3 são planetas que
combinam entre si, se estão em aspecto e se tal aspecto é favorável. Isto dirá de uma
relação afetuosa ou hostil com os irmãos.
Para saber quem será superior, o nativo ou seus irmãos compare a dignidade do
almuten do Ascendente com o almuten da Casa 3.
Umar al Tabari2 diz para olhar para os senhores da triplicidade de Marte, pois o
primeiro deles falará da condição dos irmãos mais velhos, o segundo dos do meio e a
terceiro dos mais jovens.
Quanto à questão sobre qual dos irmãos sobreviverá e qual morrerá Umar adverte que
se atente aos planetas existentes entre o MC e o Ascendente, porque se houver um planeta
neste quadrante significa a existência de crianças que nasceram antes do nativo; se houver
planeta ou planetas entre o Ascendente e o Nadir, significa as crianças que vieram depois
do nativo: se o planeta ou planetas forem benéficos as crianças terão duração, caso
contrário morrerão.
Vejamos o exemplo a seguir:

Figura 21
O nativo acima teve irmãos apenas por parte de mãe. A mãe teve um filho que nasceu
após o nascimento do nativo, representado por Saturno no quadrante entre Ascendente e
Nadir. Marte em signo profíquo trouxe 5 irmãos e por estar na Casa 3 por quadrantes e
retrógrado, mostra certa instabilidade no assunto e o caráter marcial deles. Também vemos
pela quadratura que Marte faz com o Ascendente e a Lua, significadora universal da mãe
em nascimentos diurnos, que os irmãos causaram muitos dissabores para o nativo e para a
mãe.
Quanto à comparação entre o nativo e seus irmãos vemos que a cúspide da Casa 3 é
regida por Vênus, em detrimento, enquanto o nativo tem o Ascendente regido pelo Sol em
exaltação. O almuten da Casa 3 é Saturno, peregrino, na Casa 2 do nativo. Vemos aqui
dois pontos: o nativo é superior aos irmãos e o tópico dos irmãos é vinculado à Casa 2, as
finanças do nativo.
A maior parte dos testemunhos referentes a irmãos aponta para planetas masculinos:
Marte é masculino, Saturno é masculino, mas Vênus é feminina. O numero de
testemunhos masculinos é maior e de fato o nativo teve 3 irmãos mais velhos, sendo um
deles mulher, e um irmão mais novo, um homem, portanto teve 4 irmãos do sexo feminino
e uma irmã.
Abu Ali diz 3 para olhar para os senhores da triplicidade do Ascendente. Se eles
estiverem no próprio Ascendente o nativo será o primeiro filho de sua mãe, se estiver no
Meio do Céu ele será o 10º filho ou o primeiro, se estiver na Casa 4 ele será o quarto, se
na Casa 7 ele será o primeiro de sete.
No caso presente não se aplica: o regente da triplicidade do Ascendente é o Sol, na
Casa 9, e o nativo foi o quarto filho de sua mãe.
Diz também Abu Ali que se o regente da Casa 3 estiver combusto ou entrando em
combustão significa poucos irmãos, seu detrimento e destruição, e ainda mais, se a Lua
estiver se separando de Saturno (em natividades noturnas ou de Marte em natividades
diurnas), e Saturno ou Marte estiverem em um ângulo.
No caso de exemplo a Lua está se separando de Marte em natividade diurna, e de fato
os irmãos tiveram uma vida detrimental e delinquencial, trazendo muitos desgostos à mãe
e ao nativo que durante certo tempo fez parceria com um deles, sofrendo um desfalque
financeiro (Marte quadratura Ascendente e Júpiter).
Abu Ali diz também que a Lua se separando de planetas em regência ou exaltação,
significa irmãos mais velhos importantes, o que não se verificou no caso em pauta. O
nativo foi mais importante que seus irmãos. Diz também este autor que se Lua se aplicar a
planetas em regência ou exaltação significa a importância do nativo e dos que vierem
depois dele.
Em nosso exemplo a Lua se aplica a Júpiter, e o nativo foi o único filho que amparou a
mãe até a morte e o único que prosperou.
Ainda segundo Abu Ali4 Marte e também Mercúrio significam irmãos. Se eles
estiverem em bom aspecto na carta, mostra amizade entre os irmãos, se estiverem em
quadratura e oposição, grande hostilidade.
Vemos que Mercúrio está em sua queda e detrimento, portanto há mais indicações do
detrimento dos irmãos e de sua índole malévola (Marte cadente e retrógrado).
OUTRAS CONSIDERAÇÕES SOBRE IRMÃOS
Se o regente da triplicidade do Ascendente estiver abaixo da terra, observe se há um
mau planeta entre ele e o Ascendente: se houver, representará um irmão mais velho.
Sol e Saturno significam os irmãos mais velhos, Júpiter e Marte os do meio, Mercúrio
os irmãos mais novos e Vênus as irmãs mais novas.
Se o regente da Casa 3 se aplicar a uma fortuna significa que a fortuna representa a
exaltação dos irmãos, se aplicar-se a uma infortuna em seu descenso, ou planeta cadente,
significa que os irmãos são de baixa qualidade e se mesclam com pessoas de baixa classe.
Se a Cabeça do Dragão estiver na casa 3, os irmãos serão muito superiores ao nativo.
Se estiver a Cauda, significa que o nativo será mais afortunado que seus irmãos.
De resto não existe uma técnica específica para delinear a Casa 3 e o assunto dos
irmãos do nativo. É preciso seguir o método geral de delineação, como foi visto no
Capítulo 5.
1. Bonatti diz para olhar para o terceiro signo a partir do Ascendente, o que parece ser o uso de signos completos.

2. “Umar Al Tabari, Three Books On Nativities, pag.53, trad.e edição Benjamin Dykes.

3. On The Judgments of Nativity, pag 266, Persian nativities, trad.e edição Benjamin Dykes,

4. Idem acima, pag269


CAPÍTULO 11
A CASA 4, OS PAIS, FAMÍLIA, TERRAS E O
FINAL DAS COISAS.

U
mar Al Tabari diz que para saber sobre os pais do nativo deve-se olhar para o
quarto signo a partir do Ascendente, seu regente, o almuten sobre estes lugares,
planetas na Casa 4 e o significador universal do pai (o Sol para natividades
diurnas e Saturno para natividades noturnas). Para saber sobre a vida do pai dirige-se para
as infortunas a Parte do Pai1, o Sol e o grau da Casa 4.
Bonatti diz para achar o almuten de todos estes pontos e o que estiver mais forte deve
ser utilizado para saber do pai. Por ultimo, de acordo com Bonatti, olha-se se há planetas
na Casa 4.2
Sabe-se por este planeta se a vida do pai será longa ou curta, e especialmente se o
nativo é o primeiro filho e qual tipo de pai o nativo tem.
O planeta mais forte é o que estiver num ângulo3, não distante mais que 5 graus antes
da cúspide e nem 3 graus depois dela, a seguir o que estiver em casa sucedente. Dignidade
essencial conta, mas a angularidade é o fator mais importante na produção de efeitos para
o nativo.
Se a quarto signo estiver aflito4 e for o domicílio do Sol ou exaltação do Sol é mau
para o pai, se for o da Lua, isto é Touro ou Câncer é mau para a mãe, mostrando sua
fraqueza e servidão.
Se o Sol e a Lua estiverem em signos cardeais mostram que o pai e a mãe não tem o
mesmo nível, que um deles tem posição inferior. Leve em consideração também a
cadência antes de se pronunciar sobre o assunto.
Masha´allah, influenciado por Dorotheus, leva também em consideração os senhores
da triplicidade da quarta casa na investigação dos pais. Vejam o exemplo da Figura 22A :
Figura 22 A

Figura 22 B
Observa-se neste caso que o pai tem como almuten Marte, um maléfico com condição
essencial boa (ele tem muita dignidade no local que está), mas debilitado pela
retrogradação, subtraindo suas benesses. De fato o pai afastou-se da mãe antes do
nascimento do nativo que jamais o conheceu.
No entanto, por quadrantes, mundanamente Marte está cadente na Casa 3. Neste caso
podemos dizer que o pai não teve uma presença marcante na vida do nativo, visto que ele
teve o poder de gera-lo, mas não de lhe transmitar mais que sua herança genética, que
igualo no caso à dignidade essencial.
O que sucede com os planetas cadentes é que, ou eles representam pessoas inferiores
ou aquelas que não estão no centro da ação. Este Marte descreve a situação de um pai
ausente. O Sol, significador universal do pai em natividades diurnas, também está cadente,
embora exaltado. A mesma temática se repete: o pai não faz parte das coisas que revolvem
ao redor do nativo.
Observe-se que Marte faz uma quadratura fechada com Júpiter, o regente da Parte do
Pai (vide figura acima) e com a Lua, significador universal da mãe.
Conclui-se que o pai é fonte geradora de muito sofrimento para o nativo e para com
seus princípios éticos (Júpiter no Ascendente e Sol na Casa de Deus, a Casa 9).
A Lua se opõe ao Ascendente e é regida por Saturno peregrino na Casa 2 o que mostra
também que as necessidades financeiras da mãe são mais uma fonte de tensão familiar
para o nativo.
O nativo convivia na mesma casa com o marido da mãe, que não era seu pai biológico.
A Casa 4 é a casa dos tesouros escondidos, é uma casa subterrânea, e podemos supor que o
pai biológico era superior ao pai com quem convivia na casa, mas tal tesouro nunca foi
descoberto pelo caráter retrógrado e cadente de Marte. O nativo soube que seu verdadeiro
pai era outro, pertencendo a família muito respeitada e rica, mas o nativo jamais o
conheceu.
Esta carta é especialmente importante para mostrar a validade de trabalharmos com
quadrantes e com signos inteiros ao mesmo tempo, pois Marte, embora por signos inteiros
esteja na quarta casa, está retrogradando e pelo movimento primário também está se
afastando da quarta casa e perdendo pelo movimento primário a importância que teve
quando da geração da criança.
É um bom momento de relembrar as lições de delineação do Capítulo 5: onde se
encontrarem os maléficos encontra-se raiva, desgastes e eventos desafortunados: tais
eventos, na carta acima, ocorreram tanto entre os irmãos como dentro da esfera familiar:
Casas 3 e 4.
Observe-se também a relação de Marte com a Lua e como a Lua não obtém nada a não
ser o desprezo de Marte: de fato, na posição de Marte a Lua tem sua depressão.
Usa-se os regentes da triplicidade do Sol para natividades diurnas e de Saturno para
natividades noturnas quando se quer saber sobre a posição do pai. No caso de nosso
exemplo, uma natividade diurna, o primeiro regente da triplicidade é o Sol, que está
cadente, mas exaltado e em jubilo. A condição da família na infância era boa, mas não
excelente. A seguir julgaremos através de Júpiter, o segundo senhor da triplicidade do Sol.
Júpiter está no ângulo Leste e em sua própria triplicidade e seita e diremos que no meio da
vida a família tem uma condição melhor do que na primeira fase da vida. Nesta fase o
nativo tinha se casado e criado sua própria família. Na terceira parte da vida usaremos
Saturno, e vemos que está peregrino e retrógrado na Casa 2. O nativo na terceira parte da
vida terá problemas familiares importantes. Como Saturno está configurado para a Casa 2
o problema financeiro tomará a frente.
Para Masha´allhah e Abu Ali a mãe também é representada pela quarta casa. Segundo
Masha´allah investiga-se sobre ela usando o quarto signo após o Ascendente, seu regente,
e em nascimentos diurnos Vênus, sendo que em nascimentos noturnos a Lua e para ambos
o Lot da Mãe5 e seus regentes.
No mapa acima citado a Parte da Mãe para nascimento diurno está a 12º52’ de
Gêmeos.
Farei o almuten levando em consideração os dados citados acima:

Figura 22 C
O que mais chama a atenção entre as duas tabelas6 22 B e 22 C é que houve uma
significativa diminuição da força do Sol para a mãe em prol do aumento de Mercúrio, que
sequer figurava na tabela do pai.
O que isto nos diz? Nada muito claro, mas à primeira vista Mercúrio está em queda e
detrimento, em uma casa difícil, enquanto o Sol está em exaltação. Qualquer comparação
entre a mãe e o pai colocaria o pai como brilahnte e a mãe como uma pessoa com
faculdades mentais baixas, se lembrarmos que Mercúrio apontava para o intelecto em
astrologia Medieval.
Verificamos que mãe e pai possuem lotes em posições opostas, sendo que o lote do pai
é regido por Júpiter no Ascendente e o da mãe por Mercúrio que está em queda e
detrimento na Casa 8.
De maneira geral observa-se se Júpiter ou Sol aspectam a Casa 4 por um bom aspecto:
isto é positivo para a posição do pai e para sua fortuna. O mesmo ocorre se Vênus ou Lua
aspectam a quarta casa por um bom aspecto, em relação à posição da mãe.
No caso presente a Casa 4 é aspectada pela Lua e por Júpiter através de uma
quadratura e por Mercúrio, regente do Lot da Mãe, por um trigono, mas Mercúrio não tem
muito a doar à família, pois sua posição essencial e mundana não é boa. Podemos prever
somente ansiedades no que diz respeito à família.
A CASA MUNDANA CORRESPONDENTE À MÃE
Bonatti usa a Casa 10 para a mãe, mas o faz por considera-la a mulher do pai, isto é
usa casas derivadas. A opinião de Bonatti merece todo respeito, mas não vejo razão para
usar casas derivadas quando a tradição fornece subsídios abundantes para delinear a mãe
pela Casa 4. Além disso, a mãe é uma figura relativamente importante na vida do nativo e
não se pode considerá-la um apêndice do pai. Ela é inclusive um acidente que ocorre ao
nativo antes do pai, visto que mesmo em tempos antigos era mais provável que a criança
conhecesse a mãe do que o pai.
Bonatti não é o único a usar a Casa 10 para a mãe do nativo, fruto provávelmente da
sociedade patriarcalista. Mas, a astrologia deve adaptar seus significados à época em que o
ser humano que a pratica está vivendo.
A Casa 10 originalmente na astrologia helenística era considerada a casa da praxis, do
que fazemos. Ela era ligada aos filhos, pois ter filhos é importante e requer um ato, para os
dois sexos.
No entanto, se pensarmos na gestação como um trabalho feminino, e como os
primeiros cuidados com a criança, incluindo o aleitamento, exigem bastante a presença da
mãe, podemos dizer que a mãe “aparece mais”, é mais visível logo de imediato como
relacionada ao bebê.
Este sentido torna a escolha da Casa 10 para a mãe um pouco mais viável, mas o
argumento é fraco e forçado. A tradição helenística usa a Casa 10 para todo tipo de ato,
inclusive ter filhos, e a Casa 10 se referiria aos filhos que o nativo faz e não à mãe do
nativo.
Em suma, tal expediente de usar a Casa 10 para investigar a mãe não é necessário e
adveio de uma corrupção do texto de Ptolomeu.
Ele, Ptolomeu, no livro IV, diz que ”aquilo que diz respeito a crianças da mesma mãe
são mais naturalmente descobertos a partir do signo do local materno, isto é, a partir do
local contendo Afrodite durante o dia e a Lua durante a noite. Isto porque este signo e o
seguinte representam os filhos da mãe, que vem a ser o mesmo que o local referente aos
irmãos da prole.”
Diz Robert Schmidt em uma anotação:7 “Em outras palavras o local de crianças da
mãe do nativo é o 10º signo a partir do signo de Aphrodite ou da Lua, em um sistema de
casas derivadas: o local da mãe não é a Casa 10 natal, que é o local dos filhos do
nativo.”8
De fato, usando nosso tema de exemplo, a Casa 10 a partir da Vênus é Capricórnio,
que define por seu regente os filhos da mesma mãe, irmãos do nativo: Saturno, o regente,
está peregrino e retrógrado, portanto os filhos da mesma mãe, isto é os irmãos do nativo
não eram de grande valia.
Para saber da mãe dentro da mais pura tradição usa-se Vênus e Lua e para saber do
pai, Sol e Saturno.9
Por exemplo, é possível saber que a mãe de nosso nativo de estudo tinha uma condição
financeira difícil, pois Vênus está em detrimento na Casa 8, dependendo do dinheiro dos
outros enquanto que o Sol está exaltado, o que mostra que o pai do nativo estava em
posição superior.
Verifica-se que pai e mãe, Vênus e Sol estão no mesmo signo, mas Vê-nus acaba de
perder a dignidade que tinha em Peixes, encaminha-se em direção ao Sol, mas não o
alcança.
DA PROFISSÃO DOS PAIS
Segundo Masha´allahh em O Livro de Aristóteles, a Lua Nova ante rior ao nascimento
fala da profissão do pai e a Lua Cheia da profissão da mãe. Neste caso a Syzygi é
prevencional e aparece na Casa 3, das comunicações, dos irmãos a da parentela: a mãe
parece estar com a fa-mília ou cuidando dos irmãos do nativo. Como a Lua prevencional
está em Libra a 13 graus, oposta a Vênus, podemos dizer que a mãe interes-sa-se por sua
aparência e beleza assim como com relacionamentos e todas as coisas que Vênus
significa. Já a profissão do pai, tendo ocorrido a conjunção anti nativitatem a 29º de
Peixes, junto a Mercúrio, sendo Peixes a Casa 8 da natividade, parece indicar ofício em
que se lida com dinheiro dos outros, tendo características jupiterianas, visto que Peixes é
regido por Júpiter.
Interessantemente, o pai com quem o nativo conviveu, o marido da mãe, era contador
e nascido no signo de Sagitário. Quanto ao pai verdadeiro o nativo nada sabe informar, a
não ser que era pessoa de alto nível.
DA QUANTIDADE DE VIDA DOS PAIS
Segundo Masha´allah, quanto à quantidade de vida do pai e da mãe, temos que olhar
para o regente do Lot da Mãe e para o regente do Lot do Pai e comparar a qualidade de
ambos e quando vão encontrar uma infortuna por direções.
Valens comparava o Sol versus a Lua ou Vênus em suas relações com os maléficos e
benéficos. Este estudo costuma trazer resultados bastante exatos e responder qual dos pais
viverá mais.
Muitas outras noções podem ser obtidas sem necessidade de usar a Casa 10.
Podemos inclusive saber se o nativo receberá heranças da mãe ou do pai sem usar a
Casa 10, que nada tem a ver com o assunto. Estou limitada à questão de espaço, desta
forma não abordarei em minúcia a imensa quantidade de técnicas tradicionais que podem
ser usadas para investiga-ção das casas.
Também o lar, as propriedades imobilizadas e terras da família são re-presentadas pela
Casa 4. No caso em pauta, a família originalmente rica ( Marte em domicílio), tende a
perder seu poderio financeiro pois Marte torna-se cadente.
DA HARMONIA ENTRE PAIS E FILHOS
Mencionarei para finalizar como saber se haverá estima entre pais e filhos.
Muito se pode saber investigando em que termos estão os significado-res do pai e da
mãe. Se estiverem em termos dos maléficos ou recebendo a influência dos maléficos
haverá inimizade. Se a triplicidade do Sol ou da Lua for representada por planetas que
enviam raios de inimizade ao Ascendente ou a seu regente, isto também fala a favor de
inimizade. O contrário ocorre se forem representados por planetas benéficos, da mesma
seita que o Ascendente e que enviem raios benéficos ao Sol, Lua, Ascendente ou seus
regentes.
Verifica-se se o almuten do Ascendente e o da Casa 4 fazem aspecto cordial ou, caso
contrário, se existe recepção.
Desta forma se verá se existe afinidade entre os pais e filhos.
A seguir, veremos a carta de Alexander Czarevithch, filho de Pedro o Grande, Czar da
Russia e Alexandra, Czarina. O pai suspeitou de um complô feito pelo filho contra ele
para tomar o trono, mandou torturálo. O rapaz faleceu devido aos ferimentos.
O ato brutal e a natividade do jovem príncipe ilustram de forma exagerada a inimizade
e servem como paradigma para este estudo.

Figura 23
Trata-se de um caso extremo de antagonismo. Observa-se que a natividade é noturna,
tendo a Lua como significador universal da mãe e Saturno como significador universal do
pai. A Casa 4 está em Capricórnio, regida por Saturno que faz conjunção com a Lua, esta
em sua depressão. O almuten da Casa 4 é Marte, que está na Casa 8, a casa da morte: o
regente da Casa 8 é Júpiter, que está combusto na Casa 6, onde tambem está Mercúrio em
queda e detrimento, regendo a Casa 12, o cativeiro.
Podemos dizer que pai e mãe estavam em acordo contra a vida do filho. Ambos estão
em signo regido por Marte, em oposição a Marte natal, na Casa 8.
A Parte da Fortuna é regida por Saturno e a Parte do Pai e da mãe estão no mesmo
signo que ela. O Ascendente tem Saturno como almuten. A Lua e Saturno estão na Casa
10 do Lot do Pai e da Mãe, assim como da Parte da Fortuna.
O filho literalmente tinha a vida nas mãos dos pais, se lembrarmos que a Parte da
Fortuna pode muito bem ser o Hyleg neste caso.
Abu Ali diz que a posição do Sol em natividade diurna e da Lua em noturna significa a
situação dos pais na época do nascimento do nativo e os regentes de seus domicílios
significam aquilo que dirá respeito aos pais no futuro. Ora, neste caso teríamos que olhar a
Lua, que está na Casa 2, das finanças do nativo: esta é a situação quando o nativo nasceu.
Seus pais regiam sua Fortuna, o lot principal da Casa 2. O futuro do nativo foi disposto
pelo regente da Lua, Marte na Casa 8.
1. ASC+Saturno-Sol ( inverte-se), Se Saturno estiver sob os raios substitua-o por Júpiter.

2. De acordo com Robert Zoller, inspirado em Morin de Villefranche, um planeta estando presente na casa tem
prioridade nos sucessos que ocorrem na casa. Mas, no final, o regente do signo,isto é o dispositor do planeta, é que
dará indicações sobre o resultado da casa.
3. Neste momento claramente as instruções são para que se use quadrantes. O próprio Bonatti parece fazer uso de
ambos os métodos, quadrantes e signos completos.
4. Isto é se seus regentes o estiverem.

5. ASC+Lua-Vênus (nascimento diurno); ASC+Vênus- Lua (nascimento noturno).

6. Esse é definitivamente um ponto a favor da construção delas!

7. Hephaistio de Thebas, Apotelesmatics Book II- Project Hindsight

8. Em astrologia Helenística a Casa 10 era o local da praxis e dos filhos, como já foi explanado.

9. Além das Partes da Mãe e do Pai, que contribuem para se saber de cada uma das figuras parentais.
CAPÍTULO 12
A CASA 5 E A DELINEAÇÃO DOS FILHOS

A
maior parte dos autores aconselha a não se predizer o numero de filhos, pois é
fácil cair em erro. O importante é saber se o nativo terá filhos ou não e se os tiver
se serão muitos ou poucos.
Devemos procurar um significador, isto é um planeta e, como frequentemente
acontece, vamos encontrar mais do que um.
Desta vez não vamos construir um almuten, mas levar em conta algumas casas que são
indicativas de filhos. Tais casas são a Casa 1, a Casa 11, a Casa 10, a Casa 7 e a Casa 5.
Deve-se também verificar os planetas da triplicidade de Júpiter, um planeta relacionado à
fertilidade, onde se encontram, se em signos férteis, estéreis ou medianamente férteis e por
quais planetas estão sendo aspectados.
Planetas ou a Parte dos Filhos nas casas acima produzem filhos.
Os planetas que são produtivos de filhos são Júpiter, Lua, Mercúrio, Vênus, o regente
da Casa 5, a POF e a Parte dos Filhos e seus regentes. A Parte dos Filhos em natividades
diurnas é calculada tomando-se a distancia de Júpiter a Saturno e somando-se ao
Ascendente (Asc.+Saturno-Júpiter) e em natividades noturnas tomamos a distancia de
Saturno até Júpiter e a projetamos a partir do Ascendente (Asc.+Júpiter-Saturno).
Mercúrio é indicador de pessoas mais jovens, mas ele pode ser perigoso se estiver
junto ao Sol, Marte e Saturno, pois nesse caso ele nega filhos.
Marte se estiver nas casas indicativas de filhos, pode trazer abortamento e cirurgias.
Saturno traz bloqueios, obstrução, pouco esperma ou impotência por parte do homem
e por parte da mãe pode trazer problemas esqueléticos, que dificultam o parto ou pouca
dilatação.
O Sol nega filhos por causa de seu calor. Saturno e Marte por sua vez trazem várias
complicações e por causa disso também negam crianças.
EXEMPLIFICAÇÃO
Figura 24
Este nativo não teve filhos. Observe-se que Virgem ascende, um signo estéril, e o
único planeta em casa produtiva para filhos neste caso é o Sol. A Parte dos Filhos está em
Escorpião e seu regente, Marte, um maléfico, está em signo fértil e na Casa 11, porém
combusto. A Parte da Fortuna está em casa produtiva de filhos, mas o regente está em
signo quase estéril e na Casa 12, uma casa não produtiva de filhos.
A Parte dos Filhos está cadente e aspectada por Vênus na Casa 12 em queda e em
signo estéril. Júpiter, um dos principais significadores de filhos, está cadente em casa
maléfica.
Neste caso, os indicadores pesam mais fortemente em direção de um prognóstico de“
poucos filhos”.
A seguir, mais uma carta de um nativo sem filhos:
Figura 25
O Sol e a Lua estão na Casa 10 uma casa produtora de filhos, mas a Lua está combusta
e em detrimento e os luminares estão aflitos por Marte, planeta no Ascendente. Júpiter,
significador de filhos, está cadente e Mercúrio, embora na Casa 10, está retrógrado. A
Parte dos Filhos está em Gêmeos, signo considerado esteril, em casa cadente, sem receber
o testemunho de seu regente. A quinta casa está em signo estéril e seu regente se aplica a
Marte. Vênus está em casa cadente e conjunta a Saturno. Este nativo não teve nenhum
filho.
É importante o estado zodiacal dos significadores, isto é se os planetas, partes e seus
regentes estiverem afortunados e fortes, não impedidos por maléficos, tal situação
produzirá filhos. Se, ao contrário, estiverem desafortunados e impedidos dizem a favor de
não produzir filhos. No primeiro caso o nativo vai ter muito filhos e no ultimo ele não vai
ter filho algum1.
Existem situações intermediarias: se os significadores estiverem na maior parte
afortunados, mas alguns derem testemunho contrário, isso diminui o numero de filhos. Da
mesma forma, se a maior parte dos significadores estiver aflita, mas houver alguns
indícios positivos é possível que o nativo tenha poucos filhos ou apenas um.
Observe não apenas se os planetas indicadores de filhos aparecem em casas
produtivas, mas se estão em signos férteis, quase férteis, quase estéreis ou estéreis, em que
signo estão, se estão em aspecto com algum planeta, se o aspecto é com planetas
afortunados, se há recepção ou não.
Atenção se requer também no sentido de verificar em que signos os maléficos que
negam filhos aparecem, no caso Marte e Saturno. Também o Sol é importante, pois ele
também nega filhos.
Se os maléficos aparecerem em signo frutífero, como por exemplo, Peixes, em casa
frutífera, por exemplo, a Casa 10, eles podem produzir um filho, mas geralmente com vida
breve e existência atormentada.
Se um planeta que significa crianças aparecer em signos estéreis como Gêmeos, Leão
e Virgem, ele não vai produzir crianças, mas se aparecer em casas produtoras de filhos o
nativo pode ter ao menos um filho, ainda mais se for aspectado por benéficos. Mesmo um
planeta maléfico pode produzir crianças se estiver numa casa e signo apontando para
crianças. O problema é que, como qualquer maléfico, traz muitas dificuldades para a mãe
e para a criança.
Abu Bakr2 cita alguns aforismos que impedem filhos. Diz ele que se Júpiter e o Sol
estiverem na sétima casa o nativo vai ter poucos filhos ou não vai ter filhos
definitivamente. Também, se o regente da Casa 5 estiver em signo estéril ou estiver em
queda ou em conjunção com planeta maléfico é um indicador de negação de filhos. Além
disso, afirma o autor que se Júpiter e Marte fizerem aspecto por quadratura ou oposição e
Júpiter estiver com uma infortuna o nativo fica impedido de gerar filhos. Se Vênus estiver
com Saturno também diminui a fertilidade e os filhos não serão de boa qualidade. Diz ele
que a Lua em Libra e em Áries é indicativa de esterilidade.
A carta seguinte pertence a uma nativa que teve 6 filhos:
Figura 26
Na carta acima a Parte dos Filhos, assim como o Sol e o regente do Ascendente estão
em signos férteis. Há planetas na Casa 5, cuja cúspide está em Câncer, inclusive Mercúrio
e Vênus3. Júpiter faz aspecto com a Parte da Fortuna. Sempre que se encontrar Vênus na
Casa 5 é certo que o nativo terá filhos. Neste caso, também a Lua, produtora de filhos, está
em casa propícia, a Casa 11. Embora a Lua esteja em detrimento, ela está em sua seita e
em signo feminino, o que eleva muito sua condição.
A seguir mais uma carta de fertilidade:
Figura 27
A Parte dos Filhos está em signo estéril, mas o seu regente está em signo fértil e em
casa produtora de filhos. O regente da Casa 5 e da Fortuna é também Mercúrio, em
Escorpião, signo fértil. A Lua está em signo fértil em quadratura com seu regente
domiciliado: Júpiter na verdade está na Casa 4 derivada da Parte dos Filhos. Vemos que os
testemunhos são abundantes no sentido de fertilidade.
***
Observe-se a diferença entre a posição medieval e a moderna, que olha somente para a
quinta casa na previsão dos filhos, o que é uma exagerada simplificação. A questão é
muito mais ampla e complexa.
As regras acima, falando sobre abundância de filhos ou poucos filhos devem ser
tomadas relativamente à cultura em que o nativo vive. Da mesma forma que a longevidade
pode ser estendida em conseqüência do progresso atual da ciência, fruto de uma sociedade
diferente daquela em que viveram os sábios que nos legaram suas observações, nossa
sociedade não costuma mais ter famílias com número de filhos muito grande. Embora
ainda existam famílias com 10 filhos ou até mais, a norma é que se tenha mo máximos
três, e geralmente dois ou um. Portanto o aspecto sociocultural deve ser levado em conta,
visto que o mapa individual insere-se na carta do coletivo.
DELINEAÇÃO DO NUMERO DE CRIANÇAS
Aqui valem algumas considerações de Bonatti:
1. Observe se os planetas ou partes produtivos de crianças, isto é Júpiter, Vênus,
Lua, Mercúrio, o regente da Casa 5, Parte da Fortuna, Parte dos Filhos, ou se seus
regentes estão nas Casas 1, 11, 10, 7 ou 5 ou se os planetas que negam filhos isto
é Sol, Marte e Saturno estão nessas mesmas casas. Se algum dos planetas
significando filhos estiver nestas casas, afortunados, aspectados por benéficos por
um trigono ou um sextil com ou sem recepção ou até quadratura com recepção,
sem duvida o nativo terá filhos, a menos que os significadores estejam a um
minuto de distancia de uma estrela fixa da natureza de Marte e Saturno.
2. Se estes significadores estiverem fracos, o nativo vai ter poucos filhos.
3. Se nenhum dos significadores tais como Júpiter, Vênus, Mercúrio, Lua ou o
regente da Casa 5 estiver nestas casas frutíferas e a POF e a Parte dos Filhos
estiver nelas, aspectada por um maléfico, o nativo não terá filhos, a menos que
tais partes recebam um trigono benéfico com recepção4 ou uma conjunção com
uma estrela fixa da natureza de Vênus, Lua e Júpiter que faça conjunção a menos
de 1 minuto e desde que não seja em signo estéril.5
4. Mercúrio depende da natureza do planeta com o qual está configurado.
Ibn Ezra em seu “Livro Sobre Natividades” observa que Al Kindi diz para atentar para
o local de Júpiter, a quinta casa e seu regente e o regente da quinta hora a partir da
natividade, assim como a Parte dos Filhos e fazer um almuten sobre esses lugares. Se tal
planeta aspectar o Ascendente o nativo terá filhos, caso contrário, não. Ibn Ezra diz no
mesmo livro que também Enoch advertia que se atentasse para a quinta hora.
SE OS FILHOS SERÃO HOMENS OU MULHERES
Observa-se se a quinta casa e a Parte dos Filhos a que gênero de signo pertencem. A
seguir observa-se o regente da quinta casa e o regente da Parte dos Filhos. Se concordarem
em gênero, os filhos serão de um só sexo. Um signo feminino com um regente masculino
significa que haverá filhos dos dois sexos, e vice-versa.
QUANDO OS FILHOS SÃO PROMETIDOS
Se os significadores forem encontrados orientais, isto é se elevando no horizonte Leste
(no Ascendente) antes do Sol, significa que os filhos ocorrerão em qualquer idade, mas
especialmente na juventude.
Ao contrário, se estiverem ocidentais, virão depois da juventude.
Se o almuten da Casa 5 ou Júpiter ou o regente da casa no qual o almuten se encontrar
for oriental, ou a Parte dos Filhos estiver no Ascendente significa filhos na juventude. Mas
se esses planetas forem matutinos e aparecerem três signos antes do Sol, ou se a Parte dos
Filhos estiver na Casa10 significa crianças na idade madura, às vezes até um pouco mais
tarde. Se estiverem ocidentais ou a Parte dos Filhos estiver na Casa 7 ou na Casa 4 o
nativo terá filhos na velhice.
Abu Ali diz que devemos observar se os planetas pertencentes à triplicidade de Júpiter
estão em ângulos, o que significa grande número de crianças. Se estiverem sucedentes
dignificados, sem impedimento de maléficos, também significam numero razoável de
filhos, mas se estiverem cadentes ou impedidos pelos maléficos ou combustos significam
poucas crianças e de baixa condição.
Outros autores medievais recomendam que para encontrar o significador se faça um
almuten do planeta que tiver mais dignidades nas seguintes casas: Casa 1, 11, 10, 7 e 5 e
também da posição de qualquer planeta que estiver nessas casas, assim como da Parte da
Fortuna e da Parte dos Filhos, seus regentes e o regente da Casa 5.
O planeta mais forte pode estar em qualquer parte da carta, e tal almuten servirá para
verificar em qual parte da vida o nativo terá filhos.
Abu Ali diz que se tal planeta estiver na Casa 10/11 será na juventude, se estiver na
Casa 5, Casa 8 ou Casa 9, na meia idade e se estiver na Casa 4 ou 7 será no final da vida.
VALOR DOS FILHOS PARA O NATIVO
Umar Al Tabari diz que se encontrarmos o almuten da casa dos filhos ou das casas
prometendo filhos em conformidade com o Ascendente as crianças serão justas, boas e
amarão seus pais, mas se o significador dos filhos entrar em conflito com o significador do
Ascendente as crianças vão ser ameaças para seus pais. Se o significador dos filhos
impedir a Lua eles vão oprimir a mãe.
Abu Ali diz que se Júpiter e Mercúrio estiverem em seus signos de domicílio ou
exaltação, nos ângulos ou em casas sucedentes e os senhores da triplicidade deles
estiverem em bons locais a partir do Ascendente, sem estarem impedidos, mas afortunados
e fortes, grande número de filhos é esperado. Alegria e coisas boas virão a partir deles, tais
como conversação e aptidões.
O mesmo ocorre com a Parte dos Filhos quando estiver bem disposta, angular ou
sucedente.
Já se a Parte dos Filhos e os regentes da triplicidade de Júpiter e Mercúrio estiverem
em sua maioria cadentes o nativo terá poucos filhos e sua vida é breve.
1. Evita-se desenganar o cliente, e nesses casos aconselha-se a predizer que poucos filhos são prometidos.

2. Persian Nativities II, Umar Al Thabari and Abu Bakr, traduzido para o inglês por Benjamin Dykes, PHD

3. Costumo valorizar bastante o fato do Nodo Norte estar em determinada casa, como potencializando os efeitos dela.

4. Isto é, se a Parte for aspectada por seu regente.

5. Os signos férteis e inférteis são objeto de polêmica. Dorotheus diz que Gêmeos, Leão, Virgem, Capricórnio, o
princípio de Touro, o meio de Libra, Áries e Sagitário são estereis, o que é uma quantidade exagerada. O mais comum
é considerar-se Gêmeos, Leão e Virgem com estéreis, Touro, Libra, Sagitário e Aquário como moderadamente férteis,
Áries e Capricórnio como pouco férteis e Peixes, Câncer e Escorpião como muito férteis.
CAPÍTULO 13
CASA 6 E OS EMPREGADOS,
ENFERMIDADES, ANIMAIS QUE NÃO
SÃO MONTADOS.
EMPREGADOS E SUA UTILIDADE E ANIMAIS DOMÉSTICOS

C
om respeito à Casa 6 os autores medievais aconselham a atentar para o regente da
casa, para Mercúrio e para a Lua. Deve-se observar se Mercúrio está oriental ao
Sol ou se está no Ascendente, assim como se ele acaso se relaciona com Júpiter
por bons aspectos ou não.
Mercúrio em signo fixo, retrógrado ou sob os raios ou então unido a maléficos é
indicativo de má experiência com empregados, se o resto da carta levar à mesma
impressão. O mesmo se dirá se o Nodo Sul estiver na Casa 6, quando significará
empregados escassos e desapontamentos vindos da parte deles.1
Se um dos luminares ou um benéfico estiver na Casa 6 ou 12, significará que o nativo
terá bons empregados e se beneficiará com eles. Da mesma forma se o regente por
domicílio da Casa 6 estiver afortunado, em aspecto favorável com Mercúrio ou em bom
local a partir do Ascendente ou estiver em seu próprio signo. Esses são sinais de que o a
nativo terá muitos empregados e haverá proveito a partir deles.
Entre os animais compreendidos nesta casa estão gatos, cachorros, porcos,
passarinhos, cabras e todos os animais que não são montados.
Segundo Bonatti o planeta Marte e sua situação na carta terão influência sobre esse
assunto.
Tradicionalmente, desde a época helenística Marte era associado com a caça. Bonatti
diz que se Marte estiver em Áries, Capricórnio ou no Ascendente, na Casa 10 ou até na
Casa 6 e for aspectado por Júpiter ou pelo Sol através de um trigono ou sextil, o nativo
será afortunado tendo uma multidão desses animais que lhe serão muito úteis.
Tive acesso a algumas natividades pertencentes a quem possui animais domésticos em
quantidade, seja por gostar seja por ser parte de sua profissão e verifiquei que Marte e
Júpiter efetivamente estavam configurados com a Casa 6. Pode ocorrer de Marte reger ou
estar na Casa 6 ou de entrar em configuração com Júpiter de alguma forma, mesmo
nenhum deles estando angular. Mas na questão do apego aos pequenos animais ainda há
muito a desvendar.
Veja o seguinte exemplo de uma atriz americana que tem um gato e dois cães e está
levantando fundos para uma Fundação para Animais de Estimação. Escreveu um livro
sobre o assunto:
Figura 28
O Sol e Vênus estão na Casa 6 em trigono com a Lua na Casa 2. Júpiter aspecta
Vênus, está na Casa 3 dos escritos e em posição superior a ela, sendo que Vênus o recebe
por domicílio.
Mercúrio na Casa 6 faz aspecto com Marte domiciliado angular, uma quadratura, e se
aplica a Júpiter e a Saturno por um trigono.
Vemos, portanto que a Casa 6 está bastante habitada e movimentada e, além disso,
estabelece relações com a Casa 3.

AS DOENÇAS DO NATIVO2
As doenças devem ser vistas pela carta como um todo. A saúde do nativo tem relação
com sua vitalidade e ser saudável depende muito de um bom hyleg. Mas, podemos fazer
algumas considerações especiais quanto à sexta casa, visto que há pessoas com doenças
crônicas que não chegam ao ponto de gravidade de ameaça à vida.
Abu Bakr diz que se a Lua estiver na Casa 6 aspectada por infortunas e as fortunas não
a aspectarem é sinal de doenças crônicas. Se o senhor da sexta casa estiver no Ascendente
e este for um signo cardeal e as fortunas estiverem cadentes, o nativo vai ter doenças
crônicas. Se Marte estiver em Libra sem aspecto de Júpiter também significa doenças
crônicas. Se o signo da Casa 6 estiver impedido por infortunas3 isto também significa
doenças.
Se Marte aspectar o regente da Casa 6 as doenças serão pelo calor, se Júpiter o fizer
serão pelo calor e umidade, Se Mercúrio for o regente da sexta casa as doenças podem ser
na língua ou na escuta e se a Lua a reger, os genitais e as partes baixas serão afetados.
Geralmente os planetas acima do céu mostram doenças conhecidas e vice-versa, planetas
abaixo do céu mostram doenças desconhecidas.
A cegueira tem a ver com Sol e Lua, especialmente se estiverem entre duas infortunas
(mal tratamento). Se a Lua estiver decrescendo em luz e aspectar Marte por mau aspecto
ou se o Sol ou seu regente for desafortunado significa problema nos olhos. Marte na sexta
casa e o Ascendente em signo cardeal, se as infortunas estiverem aspectando Marte,
significa cegueira. Marte combusto tem relação com má visão.
Se a Lua Cheia encontrar-se com Marte na sexta casa é sinal de surdez. Se Mercúrio
for senhor da sexta casa e estiver em mal local a partir do Ascendente e Saturno aspecta-lo
ou aspectar a sexta casa por quadratura o nativo será surdo.4
Se Mercúrio for o regente da sexta casa e estiver no Ascendente o nativo terá
dificuldade de fala, ainda mais se estiver em signo mudo: Câncer, Escorpião ou Peixes.
Se Júpiter estiver na sexta casa desafortunado traz problemas ao fígado ou doenças na
face, as rosáceas. Se Júpiter estiver retrógrado e peregrino, regendo a sexta casa e estiver
em aspecto com uma infortuna ou estiver no domicílio ou termo de uma infortuna o nativo
pode ter vermelhidão na face, cicatriz ou abcesso.
Se Vênus aspectar o regente da Casa 6 ou estiver na Casa 6 o nativo terá doenças
renais ou de partes privadas por intercurso sexual excessivo.
Da mesma forma se ela estiver em má posição zodiacal, combusta ou peregrina, em
aspecto com maléficos e reger casas maléficas ou o Ascendente: tais circunstâncias podem
levar o nativo a vícios como forma de obter prazer. São prazeres que geram doenças ou
são doentios, como todos os vícios, inclusive o uso de drogas.
Se o nativo tiver ênfase de Mercúrio na sexta casa e Mercúrio entrar em configuração
com maléficos, especialmente Saturno, encontramos nativos viciados em jogo ou que
fazem do jogo sua maneira de viver. Qualquer planeta na sexta casa deve ser investigado
de perto, pois dadas as necessárias configurações ele pode levar o nativo a problemas de
saúde físicos ou mentais.
A sexta casa é uma casa difícil de analisar e delinear. Na verdade ela se refere, por ser
uma casa maléfica, a muitos dissabores, doenças físicas e mentais que podem relacionar-se
umas com as outras.
Os vícios e as doenças mentais também podem ser vistas pela sexta casa.
Veremos a carta de Withney Houston, que sabemos ter sido viciada em drogas.
Figura 29
Observamos que Vênus está na sexta casa peregrina e combusta. Além disso, Vênus é
regente da Casa 8 e exalta-se no Ascendente.
O Sol dignificado na Casa 6 fala de boa saúde. O que depõe contra ela é Vênus,
combusta e regendo a Casa 8.
A seguir outro exemplo de nativa que sofre de psicose maníaco-depressiva e é viciada
em cocaína:
Figura 30
Aqui observamos dois planetas benéficos na sexta casa, mas no domicílio de Saturno.
E Saturno faz quadratura com o Sol. O Sol está sitiado entre Saturno e Marte, coisa muito
grave especialmente quando sucede a um luminar. Os dois planetas que regem a Casa 8
por regência e exaltação estão na Casa 6. O luminar da seita, a Lua, está no grau justo de
sua depressão.
Quanto a enfermidades físicas, a nativa teve hepatite (Júpiter na Casa 6) e em
consequência do fumo sofre de enfisema pulmonar, sendo que os pulmões também são
regidos por Júpiter.
Quanto à doença mental que tem é explicada pela presença de dois benéficos
conjuntos em quadratura com a Lua e dois maléficos conjuntos em quadratura com o Sol.
Nem sempre se encontra uma natividade em que o problema mental aparece com tanta
clareza!
Veremos a seguir a carta de um jogador compulsivo:
Figura 31
A Lua está na Casa 6 e rege o Ascendente. Por sua vez seu dispositor está na Casa 12,
casa das limitações e constrições, junto a Marte, um planeta de impulso e que rege a sexta
casa, o Sol e Mercúrio.
O assunto que diz respeito às enfermidades da alma foi estudado pelos autores
medievais que afirmavam que Mercúrio daria indícios do intelecto e a Lua das emoções.
Ora, Mecúrio nesta natividade está poderoso por casa, mas combusto e regido por Marte
que está na Casa 12. A Lua na Casa 6 se opõe a Marte e Júpiter. Portanto tanto Lua como
Marte são coerentes no sentido de agir e não de pensar. Segundo Ptolomeu a Lua e o
Ascendente regem o corpo e os regentes da Lua e do Ascendente regem a alma. No caso a
Lua oposição Júpiter, casas seis e doze, fornecem também uma boa idéia do que se passa.
Tendo exposto que a Casa 6 se refere também a doenças psíquicas com a ressalva de
que toda e qualquer delineação deve levar em consideração a carta inteira, vamos agora
ver o que os autores têm a dizer sobre as doenças físicas.
Em primeiro lugar as doenças são relacionadas aos humores, um tópico estudado no
capítulo sobre temperamento e que deriva das qualidades essenciais relacionadas aos
planetas.
O temperamento melancólico e fleumático tem mais relação com tumores enquanto
que os sanguíneos e coléricos geralmente pendem para os transtornos ligados ao coração e
às apoplexias.
Como não somos médicos, é bom lembrar que esse tipo de diagnóstico cabe a eles,
uma vez que a matéria médica desenvolveu-se imensamente desde que Hipócrates tornou-
se referência para a cura das doenças.
Mesmo assim há certos planetas que estão bastante relacionados a certas doenças,
como Vênus às doenças sexuais e relacionadas ao prazer, assim como aos rins, Júpiter aos
pulmões, Sol ao coração, Saturno aos ossos, dentes e pele. Tais planetas se estiverem
fortes na carta, podem causar doenças próprias de sua natureza, mesmo estando em bom
estado zodiacal.
Nem sempre encontraremos indicações das doenças somente pela análise da Casa 6,
mas devemos observar a carta como um todo: desde o tipo de temperamento até a
verificação de planetas angulares, em quais signos se encontram, visto terem grande
poder, podendo afetar o corpo do nativo de forma negativa.
Existem muitos aforismos, como, por exemplo, se Marte estiver num ângulo de terra e
o Sol aspecta-lo o nativo será louco, se Mercúrio estiver no Ascendente e Marte aspecta-lo
ou se a Lua se juntar a Saturno no Ascendente e Mercúrio aspecta-la, também haverá
problemas, etc.
No entanto, os diversos casos que estudei não comprovam tais aforismos. O que se
percebe mais claramente é o sofrimento psicólogico, como quando os planetas pessoais
estão em queda ou detrimento em signos regidos por maléficos também em má situação.
É muito difícil dizer se certo nativo tem um transtorno psiquátrico grave ou apenas um
sofrimento psíquico. Tenho algumas hipóteses, mas elas precisam de maiores estudos e
confirmações ulteriores. Tais hipóteses me levaram a valorizar muito a Parte dos
Machucados e das Doenças: tal parte costuma aparecer em lugares chave: ou
incrementando uma oposição, ou conjunta a um planeta em péssimo estado, ou a um
maléfico debilitado e estes são os casos de transtornos graves. Mas por enquanto tomem
estas palavras como conjecturas preliminares.
A Parte da Fortuna se relaciona a doenças físicas, mais que emocionais.
Veremos a seguir uma serie de exemplos de cartas apresentando doenças importantes e
sua relação com a chamada Parte das Doenças e Machucados, a fim de verificar sua
utilidade. Refiram-se à Figura 32A:
Figura 32A
Utilizamos a Parte dos Machucados, Saúde e Doenças, de acordo com Dorotheus,
Firmicus e todos os outros.
Por tratar-se de natividade noturna usamos Asc + Saturno- Marte.
Encontramos a Parte junto à Lua, no signo de Mercúrio, que de fato faz uma
quadratura a Virgem. Mas Mercúrio está bem essencialmente, angular e conjunto a um
benéfico. A Lua está em signo feminino e acima do céu o que, por tratar-se de natividade
noturna, a coloca em posição vantajosa, isto é em hayz. Além disso, está em uma casa
benéfica, a Casa 11.
Podemos, depois de saber do que se trata, justificar a posição da Parte dos
Machucados e Doenças dizendo que a nativa tem as articulações fracas e que seus
problemas são articulares e não ósseos. Como Mercúrio se refere a comunicações em
sentido universal talvez ele possa ter um efeito sobre as articulações. Mas é difícil
entender um efeito tão daninho e especialmente explicar o grave problema dentário, que
ocasionou enormes danos à imagem da nativa quando ainda jovem.
Nossos olhos saltam à procura de Saturno, também dignificado em seu domicílio
diurno, portanto fora de sua seita, mas conjunto ao maléfico Nodo Sul, que lhe suga toda
capacidade de agir de maneira produtiva e o induz à negatividade. Tudo que Saturno
domiciliado poderia fornecer de bom lhe é retirado pelo Nodo Sul.
Neste caso a Parte falhou ao justificar ou apontar para a doença, perfeitamente
explicada sem seu uso.
Na figura 32 B, veremos um segundo exemplo:

Figura 32 B
Neste caso, a Parte recebe o testemunho de Mercúrio, seu regente. O nativo padecia de
um tumor benigno. Foi feita a cirurgia e o nativo salvou-se. A Parte dos Machucados deu
uma contribuição no sentido de um desenlace positivo, visto que seu regente estava em
posição de cuidar do assunto, pois enxergava a Parte. No entanto, tal cuidado foi realizado
via Marte, regente de Mercúrio, representando o ferro e a cirurgia. Marte está angular e faz
aspecto com o Ascendente. Neste caso, Marte teve pelo menos dois papéis: causar a
doença por reger a cabeça e levar a informação do problema ao nativo, visto que está em
fronte a ele.
Nosso terceiro exemplo é de um nativo que sofreu diversas intervenções cardíacas
desde 2004: Bill Clinton.
Figura 32C
Em 2 de Setembro de 2004, enquanto fazia campanha para Kerry, Clinton teve um
episódio de angina. A angiografia revelou várias doenças coronarianas. Ele passou por
uma bem sucedida cirurgia de revascularização do miocárdio em 6 de Setembro de 2004.
A equipe médica afirmou que, se não tivesse tido a cirurgia, provavelmente ele teria
sofrido um ataque cardíaco fulminante dentro de poucos meses.
Marte a 6º27’ está conjunto ao Ascendente. Está em detrimento e aflige Vênus,
senhora do Ascendente, embora ela já esteja se afastando da conjunção com o maléfico e
aproximando-se do benéfico Júpiter.
Há muitos planetas em Leão e Marte faz aspecto com dois deles: Saturno e Mercúrio.
Saturno, almuten do Ascendente, está em detrimento e aspecta Marte, também em
detrimento, no Ascendente.
O coração é regido pelo Sol que neste caso está em seu domicílio em casa favorável.
Observa-se que a Casa 6 e a Parte dos Machucados são regidas por Júpiter. Júpiter está em
sextil praticamente exato com o Sol.
A parte das Doenças faz sextil com Marte e trigono com Mercúrio e Saturno em Leão.
O ex-presidente adoeceu em campanha, relacionada com a Casa 3, e Marte e Saturno
foram acionados. O nativo tomou consciência e foi salvo.
Concluindo, devemos usar a Parte dos Machucados e Doenças, mas sempre, como as
outras Partes, ela é uma das peças do quebra-cabeça, sendo capaz de fornecer pistas
interessantes, mas sempre em conjunto com o resto da delineação.
A CASA 6 COMO REPRESENTANTE DOS TALENTOS DO NATIVO
Como um aparte ao estudo da Casa 6, vale informar que Robert Zoller, um pioneiro na
revivescência da tradição medieval, pensa que a Casa 6 tem a ver com certos talentos do
nativo.
Ele se baseia no fato que, com o final da escravidão, cabe a cada um realizar o trabalho
que outrora era atribuído aos escravos, tais como, por exemplo, saber cozinhar, lavar,
passar, trocar uma tomada, etc. Diz ele que os senhores recebiam cumprimentos pelos
trabalhos realizados pelos escravos, sendo o talento deles embutido nas qualidades de seus
donos. Portanto, sob pena de não merecerem seu sustento, os escravos desempenhavam
funções que requeriam habilidades, embora raramente fossem alfabetizados. Daí Robert
Zoller achar que o nativo desenvolve certas habilidades por falta de quem as realize para si
hoje em dia. Ainda mais porque a Casa 6 está em trigono com a Casa 10, ele acredita que
tais habilidades podem ajudar o nativo na profissão, assunto de Casa 10. Esta é uma visão
moderna e não sei até que ponto corresponde aos fatos.
A Casa 6 é cadente e já por isso mostra um enfraquecimento estrutural para qualquer
coisa que seja central ao nativo. Se há o desenvolvimento de habilidades e nesse ponto
concordo que haja, são as habilidades para fatos cotidianos tais como preparar a comida,
mas não ser um “ chef” reconhecido, lavar, passar e tantas outras atividades do dia a dia
que não trazem reconhecimento ou uma verdadeira carreira, a menos que o regente da
Casa 10 se encontre na Casa 6.
Não creio que a capacidade de executar tarefas outrora executadas por pessoas simples
possa de per se tornar-se uma carreira e uma profissão, mas como veremos mais tarde, ao
estudar a delineação do mister do nativo, a Casa 6 pode ser observada, embora só em
último lugar. Portanto, Zoller não fugiu da tradição com suas observações, visto que
podemos usar planetas nela se não encontrarmos nada em posição mais afortunada na
carta depois de usarmos o protocolo em busca do Significador Profissional.
Os talentos que levam à profissão são descobertos por casas angulares e a menos que
um planeta na sexta casa se ligue a outro que seja angular e haja recepção, as habilidades
de sexta casa não prometem muita realização pessoal e provavelmente funcionem mais
como um trabalho mecânico.
A sexta casa é uma casa difícil e só há uma pior que ela: a Casa 12. Portanto há dez
casas melhores do que a Casa 6. Quem trabalha com as “habilidades” da sexta casa pode
estar fazendo um trabalho semelhante ao trabalho escravo, um trabalho sem
reconhecimento.
No entanto, sempre é preciso ver a carta como um todo, pois se a Fortuna estiver nesta
casa junto a seu regente o caso muda de figura.
1. Abu Ali usa o Lot dos Escravos, mas há contradição sobre reverte-lo ou não em nascimentos noturnos. Por esta
razão não o usarei neste tópico.
2. Aconselho a leitura de W. Lilly, Astrologia Cristã, edição em português Biblioteca Sadalsuud onde se encontram as
diversas doenças próprias de cada planeta.
3. Provavelmente refere-se a seus regentes.

4. Minhas pesquisas com cartas do Astrodatabank não confirmou tais aforismos sobre a surdez. Sobre problemas de
visão encontrei Marte e Lua em quadratura, Marte regendo o Ascendente e na Casa12, no Ascendente dignificado ou
não e em aspecto com Saturno, este dignificado ou não, Marte regendo a Casa 6 e em más posições, etc.
CAPÍTULO 14
A CASA 7 E O CASAMENTO, PARCERIAS
E INIMIGOS DECLARADOS.

Q
uando chegamos à Casa 7, o que primeiro deve nos ocorrer é que se trata de mais
uma casa angular: uma das quatro dobradiças por onde coisas importantes da
carta revolvem, especialmente se aqui tivermos planetas.
A Casa 7 se opõe ao Ascendente e é lá que o Sol se põe no horizonte Oeste. Por isso
no longínquo passado astrológico era considerada a casa da morte. Na trajetória humana
sobre a terra partimos do conhecido, do útero da mãe, do berço, em direção ao que cada
vez se torna mais desconhecido. O que nos espera após essa jornada é chegar à sétima
casa, a casa da Lua em ordem caldaica, não desta vez por representar as mulheres, mas por
representar a noite, o ignoto.
Quando Platão nos fala de formas primordiais, uma delas é o Mesmo versus o Outro. A
Casa 7 é a casa mais afastada do Ascendente (o Mesmo), e por isso é ligada ao que é
pouco familiar, o Outro.
Refere-se esta casa às parcerias, aos litígios, aos inimigos declarados.
Ela engloba o casamento e todas as formas de relacionamentos pessoais. A união com
algo tão díspar deve ter certamente uma explicação metafisica.
Da mesma forma, o movimento diário que carrega toda a abóbada celeste em direção a
Leste, chamado por Platão o Círculo do Mesmo, e pelos astrólogos de Movimento
Primário, une-se ao círculo contrário, o Zodiacal, por onde caminham os planetas em
direção oposta ao movimento primário, realizando o Círculo do Outro.
Parece que os opostos devem andar juntos por motivos que não se conhece. Talvez se
busque no ato do amor tornar familiar a estranheza, tornar íntimo o desconhecido? Afinal
a Casa 7 se relaciona tanto ao amor como ao ódio, o cônjuge, namorado ou amante,
parceiros e sócios e também os que se revelam inimigos declarados.
De fato, todos os inimigos que forem identificados como tal pertencem a esta casa.
Se a Casa 12 adverte sobre inimigos secretos que operam de forma clandestina,
quando sua existência é conhecida eles são representados pela Casa 7, que significa forças
opostas a nós, aqueles que nos enfrentam abertamente.
Nesta casa cabem as parcerias que fazemos com nossos médicos, advogados,
astrólogos e outros profissionais que não sejam nossos empregados e que são contratados
para unirem forças a nós com um objetivo determinado.
Tais profissionais não cabem na Casa 9, como pensam alguns astrólogos, pois a tarefa
deles não é a de serem oráculos ou mestres e gurus, mas apenas peritos que colocam à
disposição do nativo seus talentos.
Esta casa também representa os clientes, aqueles que fazem com o nativo uma parceria
e o contratam para determinado trabalho. Da mesma forma representa os maridos e
esposas que nos escolhem como parceiros deles.
A forma geral de delineação destes assuntos segue os princípios vistos no Capitulo 5
do presente volume.
No entanto vale adentrarmos em especificidades sobre o casamento e a parceria
amorosa, visto que a astrologia tradicional seja Helenística ou Medieval sempre deu
grande importância ao tópico casamento.
Dos planetas, como se pode imaginar, especialmente Vênus tem muita relação na
predição e na felicidade do casamento.
A seguir veremos uma série de observações de Bonatti, Abu Ali al Khayat e Umar al
Thabari, representando o pensamento medieval e em contrapartida as de Vettius Valens,
como representante da astrologia Helenística.
A CONTRIBUIÇÃO DE VETTIUS VALENS
Se iniciarmos por Vettius Valens perceberemos que a maior parte das considerações
serviam mais para homens do que para mulheres. Mas algumas outras tinham serventia
para os dois sexos e algumas eram específicas para natividades femininas.
O pensamento astrológico moderno acredita que a Casa 5 ou até a Casa 8 é
responsável pela sexualidade, vista como prazer ou transformação. Mas a Casa 8 não tem
nada a ver com sexo ou transformação: ela representa a morte e o tipo de morte, ou se
quisermos, usando casas derivadas e fazendo da Casa 7 a primeira casa, a Casa 8 será o
dinheiro da parceria ou de nossos clientes, ou mesmo dos mortos, de maneira geral. Por
essa razão a Casa 8 tem a ver com heranças. Já a Casa 5 é relacionada a crianças ou festas,
ou até, por ser a segunda a partir da quarta casa, a propriedade dos pais e o resultado
financeiro dos imóveis do nativo.
É a Casa 7 que tem a ver com o outro, parceiros, namorados ou namoradas.
Em qualquer delineação é preciso buscar uma configuração, isto é a relação entre dois,
três e quatro planetas em seus signos e casas. Um planeta isoladamente não diz muita
coisa sobre o nativo.
Vettius Valens diz que para saber do casamento e das predileções sexuais é necessário
considerar onde Vênus está situada e por quais planetas é regida. Quando ela estiver em
signos cardeais ou se relacionar com signos bicorpóreos temos sinais de poligamia e
promiscuidade, especialmente se Mercúrio estiver conjunto a Vênus e muito mais se
Marte prestar testemunho.
Os signos masculinos buscam o intercurso sexual mais ativamente que os femininos e
são mais bem sucedidos neste assunto. Se o regente de Vênus estiver na Casa 12 ou algum
mau planeta aspectar Vênus ou se ela estiver mal situada, isto traz infortúnio à união. Se
um maléfico prestar testemunho a Vênus e especialmente a seu regente pode também
ocorrer de representar a morte da esposa. Porém, se o maléfico estiver bem situado
significa heranças por parte da mulher.
Se Saturno aspectar Vênus enquanto ela estiver no ocaso (na Casa 7) isto traz falta de
casamento ou aponta para casamentos difíceis de lidar. Se Vênus estiver no signo de
Saturno ou em seus termos ou se Saturno se opuser a ela e Marte ou Júpiter não estiverem
presentes na configuração, pode significar viuvez e falta de intercurso sexual.
Sempre que Saturno se opuser a Vênus em cartas femininas ou masculinas significa
casamento com alguém ferido, doente ou estéril.
Se Saturno estiver culminando e oposto a Vênus isto confere a um homem uma mulher
que é de baixa estirpe.
De maneira geral, sempre que Saturno estiver elevado sobre Vênus, especialmente na
Casa 10 a partir dela, ou estiver oposto a ela, ou quando ele for o regente dela, é sinal de
esfriamento do casamento, ainda mais se Mercúrio prestar testemunho.
Saturno aspectando Vênus de um ângulo ou casa sucedente torna os nativos
vergonhosos, lascivos, dados a inovações e os que têm intercurso com indignos ou com
empregados de baixo nível, o que os tornará alijados do grupo, a menos que algum planeta
intervenha cortando a aflição, pois se Júpiter intervier muito da irregularidade será
escondida.
Também pode acontecer de terem intercurso com mulheres superiores e de seu próprio
nível, mas estéreis ou vagarosas para conceber. O mesmo ocorre para natividades
femininas.
Vênus na Casa 7 e Saturno na Casa 4 ( isto é quando Saturno está na Casa 10 a partir
de Vênus)trazem casamentos com pessoas mal nascidas e causam tristeza. Mas se
tivermos Vênus configurada com Saturno ou sendo regida por ele, sendo ela superior a
ele, com Júpiter entrando na configuração, os nativos terão intercurso com pessoas mais
velhas e também com superiores. O mesmo ocorre para mulheres.
De maneira geral Saturno corrompe as relações e fere tudo que é valioso.
Seguem várias observações de Vettius Valens, muitas delas compartilhadas por outros
autores helenísticos.
Quando Lua e Vênus estiverem angulares no mesmo signo há intercurso com irmãs e
irmãos, especialmente se Júpiter e Marte entrarem na configuração.
Lua e Vênus em oposição geram pessoas ciumentas e quando Marte presta testemunho
a tensão é maior. Lua e Vênus em trigono em suas próprias casas (por exemplo, Lua em
Câncer e Vênus em Peixes), especialmente num ângulo, causam casamento com parentes
e especialmente quando Marte e Júpiter prestam testemunho. Se Vênus e Lua estão na
Casa 4 ou se estão opostas, levam ao casamento com parentes.
Mas se Vênus estiver exaltada e testemunhada por Júpiter o nativo terá um bom
casamento, desde que os dois planetas estejam em ângulos.
Em geral Júpiter aspectando Vênus ou conjunto a ela faz aqueles que são felizes no
casamento e tem benefícios com mulheres e o mesmo ocorre às mulheres em relação aos
homens. Neste caso, mesmo que Vênus esteja aflita nem tudo se perde.
Se Mercúrio também figurar nesta disposição o nativo será efetivo e pontual, prudente
e interessante, mas inconstante na questão do casamento.
Se Vênus estiver angular especialmente no Ascendente ou na Casa 10 não aflita por
Saturno ela provê bons casamentos, e se for testemunhada por Júpiter o casamento resiste
contra aflições. Quando Vênus ocupa a Casa 11 e Júpiter está na casa 10 a partir dela, isto
é na Casa 8 ela traz um bom casamento, mas causa a dor da morte do parceiro.1
Se Vênus e Saturno ocuparem a Casa 12 e Júpiter não prestar testemunho o nativo será
mal casado ou viúvo, lidando com abandono e morte. E se Marte prestar testemunho o
nativo cumprirá pena por adultério.
Quando a Lua está sob os raios, é mau sinal para a felicidade no casamento. Marte
junto a Mercúrio faz adúlteros e leva à prostituição publica e lascívia, com conseqüências
piores se Saturno entrar na configuração, tanto para mulheres como para homens.
Se Marte e Vênus estiverem sob os raios os nativos têm amores clandestinos e
secretos, visto que o Sol com sua claridade impede que Marte e Vênus sejam vistos. E se
eles estiverem orientais, isto é nascendo antes do Sol, seu segredo se tornará aparente, e
ainda mais se Mercúrio entrar na configuração. Mas se Júpiter prestar testemunho o nativo
será salvo.
Se Marte e Vênus estiverem em oposição causam o que foi descrito, mas mais
intensamente em relação a separações, desprazeres, ciúmes e raiva e produzem mais
enredos e perigos. Se Mercúrio entrar na configuração ele leva a inovações pecaminosas e
pode envolver personagens servis ou crianças. Os nativos serão adúlteros e promíscuos
notórios.
Júpiter estando presente na configuração acima produz o que foi descrito, mas
imperceptivelmente. Se Marte se configurar a Vênus de forma agradável, uma relação que
começou como adultério se transforma em casamento ( portanto não impede o adultério).
Sempre que Mercúrio der seu testemunho à Vênus, ela estando oriental e Saturno não
se ligando a ela ou ao regente dela podemos falar em ligações com virgens e donzelas2.
E se Marte entrar na configuração o mesmo ocorre e se Júpiter, com mais honra. Em geral
sempre que Mercúrio presta testemunho a Vênus o nativo se envolve e se liga com
donzelas e subordinadas. Isto é válido para homens e mulheres.
Se Saturno se unir a Vênus e Júpiter, o nativo se liga a mulheres superiores e
poderosas, o mesmo ocorrendo para mulheres. Já se Saturno se opuser a Vênus a união
será com pessoas velhas e estéreis.3
Valens diz que Mercúrio e Marte em recepção4 com Vênus tornam o casamento mais
firme e harmonioso, e se Saturno e Júpiter estiverem presentes tornam o casamento mais
sólido.5
Para uma natividade masculina se Vênus for oriental o nativo predomina sobre as
mulheres, mas se ela estiver sob os raios do Sol ele se tornará subordinado. O reverso
ocorre em natividades femininas.6
Para o nativo de sexo masculino observe-se se a Lua está junto a Marte, caso em que o
nativo se casará com uma mulher que tem um passado. Mas se Sol e Júpiter prestarem
testemunho o casamento será feliz.
Valens calcula o Lot ou Parte do Casamento de Júpiter até Vênus e a mesma
quantidade a partir do Ascendente, mas em natividades noturnas o contrário. Portanto é
um cálculo diferente daquele que é atribuído a Hermes e que consta de Paulus.
Na visão de Valens o Lot teria a seguinte fórmula:
Para natividades diurnas: Asc+Vênus- Júpiter.
Para natividades noturnas: Asc+ Júpiter-Vênus.
O local oposto a esta parte seria para Valens indicativo de adultério.
Veremos um tema a titulo de exemplo.

Figura 33
Trata-se de uma prostituta americana que trabalhava como acompanhante em um
serviço que oferecia “as melhores garotas”. Ela chegou a ter sua própria agência, mas foi
descoberta e cumpriu pena.
Vou traduzir ao pé da letra os comentários de Valens para permitir ao leitor compará-
los à presente carta e verificar como as observações daquele autor mostram-se bastante
acuradas dois mil anos depois.
Ele diz à pagina 9 do Livro 27: “ E se Vênus for o regente ( do Lot da Fortuna)
enquanto Mercúrio ocupar o local relativo ao casamento, e Saturno prestar testemunho a
eles, vão se tornar promíscuos ou vão ocupar um bordel.”
Ora, na figura acima o Lot do Casamento está a 24º35’ de Virgem8. O Lot é regido por
Mercúrio e a Casa 7, embora não ocupada por Mercúrio é regida por ele, e ele, por sua
vez, está no Ascendente.
Saturno em Câncer faz uma quadratura a Vênus por grau e Mercúrio o faz por signo.
Marte está conjunto a Saturno e participa da configuração: Mercúrio, Vênus e Marte são
indicações de prostituição pública. O fato de Saturno reger a Casa 12 leva ao
aprisionamento.
Valens oferece também uma segunda forma de avaliar o casamento, através de lotes ou
partes construídas de forma diferente, e ele chama a esta segunda fórmula “indicador do
casamento”.
Diz ele: “Para homens calcula-se o intervalo entre o Sol e Vênus, somando essa
quantidade ao Ascendente. Para mulheres, o intervalo da Lua até Marte e somando o
resultado obtido ao Ascendente”.
A razão deste “indicador” é bastante interessante e demonstra que qualquer norma em
astrologia tradicional baseia-se em um raciocínio astrológico e não vem por intuição ou
através do amor ao cálculo.
Ocorre que Vênus e Marte são destruidores dos luminares, uma vez que o Sol se exalta
em Áries e tem seu detrimento em Libra, signo de Vênus. Já a Lua se exalta em Touro e
tem sua depressão em Escorpião, regido por Marte.
Portanto, Vênus se opõe à luz diurna e por isso é usada no lot masculino (mesmo
porque diurno e masculino frequentemente são considerados duas facetas da mesma
qualidade) 9 e Marte se opõe à luz noturna e por isso é usado no lot feminino. Além disso,
pese-se que a oposição é a marca registrada da sétima casa.
Entendo, portanto que há uma razão para que sejam usados Marte e Vênus na
construção deste segundo “indicador do casamento”.
A partir de então, diz Valens, para julgar a felicidade e legalidade de um casamento é
preciso verificar se o lot que descrevemos configura-se de forma harmoniosa com o Lot
do Espírito (que é solar) para o homem, e com o Lot da Fortuna (que é lunar) para a
mulher.
Se muitos planetas prestarem testemunho a este indicador do casamento ou estiverem
junto a ele haverá poligamia, mas se os planetas estiverem ligados com a Lua e Júpiter
prestar testemunho, o casal estará legalmente unido.
Se, ao invés de Júpiter, o testemunho for de Saturno, o casal será separado pela morte
ou o casamento será resultado de orfandade ou ainda engendrado por tutores. Mas se
Júpiter, por sua vez, der testemunho a Saturno, há legalidade e por vezes uma
descendência nobre.
No entanto se, ao invés de Júpiter, Saturno receber testemunho de Mercúrio e Marte a
parceira será mutilada ou estéril.
Se a Lua estiver com Vênus, ou Vênus estiver junto a esse indicador do casamento, o
homem se relacionará com mulher lasciva, podendo haver brigas, mas também felicidade
para o casal.10
Tendo falado aqui de maneira geral, Valens parte para assinalar a importância do Lot
do Espírito para os homens e do Lot da Fortuna para as mulheres em relação ao assunto de
relacionamento. As mulheres relacionam-se mais ao Lot da Fortuna no que diz respeito à
maternidade e coisas do corpo, porque a Fortuna tem relação com a Lua.
Assim é necessário examinar o Lot da Fortuna e o do Espírito, suas quadraturas e
oposições, assim como seus regentes e senhores e ver se são benéficos ou maléficos, se
pertencem à mesma seita da carta ou não. Leva-se também em conta a relação deles com o
indicador do casamento.
De maneira geral, Valens examina tanto os relacionamentos masculinos como os
femininos, mas dá mais ênfase aos masculinos.
No entanto ele faz algumas afirmações especificamente relacionadas a natividades
femininas. Assim, se o Lot da Fortuna tiver relação com a Lua e Mercúrio, a mulher se
casará com um escravo ou um escravo liberto. Tal afirmação deve-se ao fato de que tanto
a Lua como Mercúrio ligam-se mais ao povo e ao que é publico. São planetas que se
“misturam” à massa.
Se Júpiter (um significador de filhos) prestar testemunho a essa configuração ( Lua,
Mercúrio, Lot da Fortuna) e estiver no local dos filhos ( e das crianças, a quinta casa) e
Saturno também, a mulher se acasalará com uma criança ou com alguém que tenha a
posição de uma criança.
Se a Lua tiver regência sobre o Lot da Fortuna e Saturno for o indicador do casamento,
ela odiará o marido e seguirá infeliz ao seu lado.11 Mas se, ao invés de Saturno, for Marte
o significador do casamento, este casamento será instável e resultado de estupro.
Se Vênus reger o Lot da Fortuna e o Sol estiver presente junto ao Lot com Saturno
prestando testemunho, ela se deitará com pais ou padrastos.12
Mas se o Sol ocupar o Lot do Pai13 a mulher se casará com alguém tão velho como o
pai.
Se Vênus reger o Lot da Fortuna e Mercúrio a sétima casa e Saturno prestar
testemunho a eles, a mulher será promíscua ou viverá num bordel. Se Júpiter estiver
ausente viverá sua vida vergonhosamente e com muito sofrimento.
Em resumo, se Vênus fizer aspecto com Marte e com Saturno há problemas nas
relações. Se Saturno intervier e especialmente com Mercúrio, o problema aumenta de
gravidade e publicidade. O testemunho de Júpiter sempre ameniza a situação. O Sol ou
Lua entrando na configuração introduz nela as figuras de pai e mãe.
Este apanhado das observações de Valens mostra um tipo de raciocínio baseado no
significado dos planetas em geral. Assim temos planetas públicos que aceitam pessoas
inferiores para relacionar-se (no caso especialmente Mercúrio, mas a Lua também tem
essa característica), planetas que corrompem os desejos, como Saturno, planetas que
trazem violência e prostituição pública, no caso Marte, sendo Júpiter o único planeta que
ameniza o resultado.
O que Valens apresenta como se fosse um livro de receitas deve ser entendido dentro
de cada carta. Os significadores citados por ele podem dar resultados diferentes se
estiverem em signos onde tem regência ou se estiverem aflitos. Desta forma esses “
aforismos” são apenas lembretes para que se estude determinada configuração: ela pode
ou não resultar no que Valens e outros autores sugeriram, a depender de sua condição
celeste e mundana.
Há muita verdade nestas observações e se soubermos entende-las em profundidade
veremos que nada mudou muito desde 2000 anos atrás.
Chama a atenção a familiaridade com que os diversos assuntos sexuais são tratados e a
maneira franca, descritiva e objetiva.
Não escapam as relações inter-raciais, com serviçais, com pessoas muito mais velhas e
outras muito mais novas, o incesto, estupro, o homossexualismo e a promiscuidade.
Veremos agora mais uma carta ilustrativa.
Carta natal de Lord Byron:

Figura 34
Trata-se de nobre inglês, um dos maiores poetas românticos em língua inglesa. Foi
criado pela mãe errática após a morte do pai aos três anos de idade. Ficou famoso tanto
pelos dotes literários como pela vida libertina. Teve relações incestuosas com a meia-irmã
e sabe-se que manteve relações com sua enfermeira aos 9 anos de idade, assim como teve
relacionamentos homossexuais.
Analisando a carta acima de acordo com os ensinamentos de Valens vemos que Vênus
está conjunta a Saturno, tendendo à cadência. Mercúrio faz oposição a Marte no
Ascendente. Júpiter presta testemunho a Vênus, mas ele está em casa maléfica, em seu
detrimento e retrógrado. Mercúrio, disposto por Saturno, se opõe a Marte em queda, no
Ascendente e se aplica a uma oposição com a Lua.
As configurações Vênus/Saturno, Marte/Mercúrio, Mercúrio/Lua, citadas por Vettius
estão presentes. Como Júpiter não tem força, o nativo foi exilado da Inglaterra por causa
de variadíssimos escândalos, mas especialmente por sua ligação incestuosa com a meia-
irmã.
A parte “indicadora” do Casamento, Asc+Sol-Vênus está a 27º10’ de Câncer, sobre a
Lua. Aqui vemos uma ligação entre casamento e família.
Se calcularmos o lot do casamento segundo a primeira formula de Valens, em uma
natividade diurna, Asc + Vênus- Júpiter, chegaremos a 12º de Peixes, que é a Casa 10,
fazendo quadratura com Júpiter na Casa 12, trigono com Marte no Ascendente e sextil
com Mercúrio. Daí sua vida sexual ser pública e notória.
Lord Byron morreu de sífilis em consequência de sua vida sexual fora de medida,
internado em um sanatório e completamente insano. Mercúrio em Capricórnio na Casa 7
trouxe inúmeros parceiros e a publicidade do fato, Vênus e Saturno trouxeram as inúmeras
perversões, Júpiter estava muito fraco por casa e signo para servir de auxilio e Marte
aspectava Mercúrio, Vênus e Saturno.
No caso, Mercúrio não apenas foi um dos causadores da promiscuidade por sugerir
“ideias inovadoras” e configurar-se a Marte e Lua, como também ajudou a tornar a
promiscuidade pública e conhecida, tendo o nativo que afastar-se e sofrer humilhações por
causa dela.
A CONTRIBUIÇÃO ÁRABE-MEDIEVAL AO ESTUDO DO
CASAMENTO
Quando estudamos a técnica medieval para prever o casamento, devemos ter em mente
o fator sócio cultural da época.
A Europa era pagã, e nela habitavam os celtas, anglo-saxões, franceses e as tribos
germânicas. O casamento civil não existia para o povo. Raramente alguém conhecia seus
avós e às vezes não se conhecia sequer os pais. A família como conhecemos hoje só
existia entre os aristocratas e a incipiente burguesia, que para passar adiante seu poder e
terras, fazia do casamento um arranjo e uma parceria mutua na qual os filhos eram gerados
para continuar e expandir os negócios da família. Os casamentos eram arranjados muito
antes dos noivos terem idade para formalizar uma união carnal. A mulher tinha um papel
inferior ao do homem, mas se formos estudar a sociedade da época havia muito pouco
lugar para o individualismo, mesmo para o homem.
A Igreja Católica tentou instituir o casamento como sacramento, mas o povo não tinha
condição sócia econômica sequer para pagar pelo casamento civil.
Os usos e costumes valiam mais que qualquer contrato e em certa cultura da época
medieval uma mulher era considerada casada com um homem se levasse as chaves dele
costumeiramente em seu próprio cinto. Devolver uma mulher à família impunha ao
homem um determinado pagamento, como uma indenização.
Quem consultava o astrólogo não era este homem do povo e sim a aristocracia e a
burguesia que se formava a partir do século XII. Esses queriam saber se encontrariam um
parceiro/a de acordo, se a mulher seria fértil ou estragada, se aceitaria o ato sexual com o
prazer adequado, se não seria ela masculina e ele feminino, se estariam os futuros
parceiros aptos ou não para controlar seus apetites sexuais ou se fornicariam com os
servos, etc.
Quando se lê as observações e condições para a previsão do casamento dos autores
medievais nós, como sociedade individualista, tendemos a coloca-las de lado e dizer que
elas não servem em nossa cultura. Por vezes parecem inclusive risíveis.
No entanto, convido-os a analisar seus mapas de estudo sob o prisma que será
apresentado e verão como são oportunas as antigas asserções: por trás dos ideais banhados
de civilidade o ser humano e o casamento não mudaram muito e nos bastidores dos ideais
românticos jazem as mesmas necessidades medievais, pois elas são humanas e o
casamento é nada mais nada menos que um contrato visando levar adiante alguma forma
de parceria capaz de aumentar ou pelo menos gerenciar melhor o patrimônio dos pares ou
da família, gerar filhos e permitir-lhes um mínimo de desenvolvimento, além de garantir a
um grupo de pessoas pertencente a um clã alguma proteção grupal contra estranhos mal
intencionados.
Ao descrever o método usado pelos autores medievais ve-se que existe uma forma
diferente para delinear o casamento do homem e o da mulher. A princípio isso pode
parecer discriminativo, mas tem uma razão profunda, conforme explicitarei mais tarde.
O MÉTODO PARA INVESTIGAR O CASAMENTO - MASCULINO E
O FEMININO
No caso de nativos de sexo masculino considere a sétima casa, seu regente e os
planetas que estejam na sétima casa, a Lua e Vênus assim como a Parte do Casamento14.
Observe em que casa tal parte cai e o planeta que a rege. Tal parte dará um testemunho a
mais, numa dimensão diferente. Embora os autores medievais costumem fazer um almuten
sobre todos esses pontos e Bonatti também faça um almuten dos ângulos, sou de opinião
que não faz sentido fazer um almuten de uma parte, visto que se trata de um lugar virtual,
profundamente mundano, ao contrário dos planetas, e que age não apenas naquele grau,
mas provavelmente no signo inteiro. Da mesma forma, o almuten de uma casa só se
justifica se tomarmos signos completos, caso contrário seremos reféns do método de
divisão de casas.
No entanto, é interessante considerar se a parte cai em casas cadentes, sucedentes ou
cardeais e se seu regente está forte essencialmente e topicamente e se aspecta a parte.
O astrólogo moderno observa se há aspecto entre o regente da Casa 1 e o da Casa 7
para ver se haverá casamento. Veremos adiante que tal fato apenas indica inclinação para
ter intercurso sexual.
O casamento é medido especialmente pela situação de Vênus, (para ambos os sexos,
mas especialmente para homens), da Lua, assim como do regente da Parte do Casamento.
Veja que aspectos Vênus e Lua recebem e também observe se os luminares estão em
trigono, o que é favorável para a continuidade do casamento para os dois sexos.
É importante verificar se certos significadores estão juntos por antiscia, uma
observação válida em qualquer carta, bastante valorizada por W. Lilly.
Se não houver aspecto entre os regentes das duas casas, isto é do Ascendente e da Casa
7, mas houver um planeta que transmita a luz de um dos regentes para o outro, também
podemos esperar interesse no intercurso sexual.
OBSERVAÇÕES SOBRE O CASAMENTO MASCULINO
Bonatti diz que se o signo da Casa 7 for Câncer, Escorpião ou Peixes ou se houver
uma conjunção entre os senhores desses signos ou do almuten deles com o senhor da Casa
1 ou com seu almuten significa que o nativo terá grande numero de esposas ou de
mulheres.
No caso dos homens, os autores medievais dão muita importância especialmente a
Vênus e à Lua. Se esses dois planetas entrarem na configuração com os senhores da
sétima casa e da primeira casa ou se o almuten da posição de Vênus e da Lua o fizer, é
importante na produção de casamento.
Bonatti diz que se Vênus estiver num ângulo ou sucedente e os senhores de sua
triplicidade estiveram afortunados e orientais significa um casamento na juventude e que
o nativo terá felicidade com mulheres Da mesma forma, se a Lua estiver aumentando em
luz até ficar cheia também é positivo, mas não tanto quanto a situação de Vênus.
Mantidas as mesmas premissas o oposto é verdadeiro: se Vênus estiver cadente,
combusta, retrógrada unida a maléficos e os senhores da triplicidade do signo em que ela
está estiverem impedidos e localizados entre o Ascendente, a Casa 4 ou entre a sétima e
a décima casas15 ou a Lua estiver diminuindo em luz, significa que o casamento do nativo
vai tardar e ele se casará na maturidade com uma mulher pequena e velha e será
desafortunado em questão de mulheres.
Se Vênus estiver livre, afortunada e forte em lugares angulares ou sucedentes, mas os
senhores do signo em que ela está estiverem impedidos significa um bom casamento com
mulher decente e apropriada, mas o sucesso não é duradouro16. Já se Vênus estiver
impedida, mas seus regentes estiverem livres significa que o nativo contrai casamento com
mulher não apropriada e desagradável, mas advirão coisas positivas e ele será feliz com
ela.
Abu Ali diz que se Vênus estiver em bom estado ajuda no casamento tanto de homens
quanto de mulheres.
Umar al Tabari diz que se Vênus e Lua estiverem em quadratura ou oposição é um
impedimento para o casamento. Se tais planetas estiverem em signos duplos significa que
o nativo contrairá matrimonio com mais de uma mulher.
SOBRE O ATO SEXUAL DO NATIVO
Bonatti diz para verificar se Vênus está em Áries ou Escorpião e se Marte está em
Touro ou Libra porque isto significará atividade sexual excessiva que pode causar
dificuldade para o nativo e destruição de seus negócios. Mas se 1-Vênus estiver em
Capricórnio ou Aquário e Saturno estiver em Touro ou Libra (Touro e Libra são signos
regidos por Vênus), isto é Vênus sendo disposta por maléfico ou um maléfico no signo de
Vênus, especificamente sendo Saturno o maléfico em pauta; 2- se Saturno estiver em
Gêmeos ou Virgem e Mercúrio estiver em Touro ou Libra, isto é se Saturno estiver em
signos de Mercúrio o qual, por sua vez, seria regido por Vênus17; 3- se Vênus e Mercúrio
estiverem em Capricórnio ou Aquário e estiverem ao mesmo tempo aplicando-se a um
aspecto, significa que o nativo pratica sodomia e que se deleita mais com homens que com
mulheres.18 Mas se Vênus estiver em seu domicílio ou exaltação isto elevará a mulher
para o homem e a mulher o dominará. Se ela estiver em sua triplicidade, o mesmo
sucederá, mas em menor grau.
Segundo Umar Al Tabari os signos de sexo corrompido são Áries, Leão, Libra e
Capricórnio19, e se Vênus, Sol e a Parte do Casamento cair nestes signos o nativo será
muito sexual e praticará sexo de forma louca e suja, sendo ainda mais intenso se Vênus
estiver em aspecto a Marte em Áries, Escorpião ou Capricórnio, e mais intensamente
ainda quando Vênus estiver em signo masculino, porque então Vênus será viciada.
Se o nativo for do sexo feminino e Vênus, mantida a configuração acima, estiver em
signo feminino, será insaciável e se tornará uma prostituta, mas se Vênus estiver num
signo masculino a nativa será inclinada ao lesbianismo e gostará de desempenhar o papel
masculino com o homem.
O TIPO DE MULHER QUE O NATIVO TERÁ
Umar Al Thabari diz que quando Mercúrio20 é almuten sobre Vênus e Lua, ou almuten
da Casa 7 e da Parte do Casamento, o nativo se deleitará com rapazes jovens e buscará
seduzi-los.
Se a Lua se unir a benéficos, ou for recebida e ela mesma for de bom esse, o nativo se
casará com uma mulher boa, conveniente e útil. Se a Lua se unir a maléficos, espera-se o
contrário.
Se a Lua se unir a Saturno por sextil ou trigono, significa que a mulher será
trabalhadora e inflexível, mas se o aspecto for uma quadratura, espera-se uma mulher do
povo e suja.
Se a Lua se unir a Marte significa que a mulher vai ser tosca de conhecimentos,
teimosa, pobre de entendimento e instável. Se Marte for de boa condição essencial o mal é
diminuído, mas se ele for de mau esse ela será uma fornicadora.
Se a Lua se unir a Júpiter e este estiver livre de impedimentos, a esposa será boa,
agradável, sábia, conseguindo dispor dos empregados da casa com propriedade.
Se a Lua se unir a Vênus a mulher será feliz e bela.21 Mas se Vênus estiver aflita o
significado será menos positivo.
Se a Lua estiver unida a Mercúrio a esposa será estudada e inteligente.
Umar ibn al-Tabarî diz que se Vênus estiver em signos de Saturno e Saturno a aspectar
a partir de posição superior ou quando Saturno é almuten da casa do casamento e o
regente da Casa 7 não aspecta a Casa 7 e o regente da Lua não aspecta a Lua, e também o
senhor da Parte do Casamento não aspecta a parte e nem o regente de Vênus, o nativo não
apreciará o sexo e nem se casará.
Se a Lua estiver combusta e fazendo oposição ou quadratura a Saturno, caso Júpiter
não os aspectar e nem houver recepção envolvendo o aspecto, o nativo não aceitará
esposa.
Diz também Umar que se o Almuten do Ascendente, da Lua, do Sol e da Parte da
Fortuna, da conjunção ou prevenção que precede o nascimento e muitos dos planetas
forem femininos o nativo será efeminado. E se planetas masculinos regerem esses locais e
a natividade for feminina a nativa será viril.
Quanto à Parte do Casamento, se ela e seu regente estiverem nos ângulos, em aspecto
com benéficos, significa que o nativo terá um bom casamento. Mas se a Parte estiver
cadente e seu regente estiver em boa posição, ou ao contrário, o regente estiver angular e a
Parte cadente a previsão é bem mais modesta. Se tanto a Parte como seu regente estiverem
em mau estado, cadentes e aspectados por maléficos, o casamento será realizado com
pessoa vil. Se muitos planetas aspectarem a Parte prevê-se muitos casamentos, se forem
benéficos em bom estado, casamentos frutíferos. Se a Parte for aspectada por maléficos ou
benéficos em mau estado, o nativo ainda se casará com muitas mulheres, mas elas serão
viciosas e inúteis.
De maneira geral, para o casamento masculino dá-se importância ao regente da Casa 7,
seu regente e seu almuten, o planeta encontrado nela, à Parte do Casamento e a Vênus e
Lua: se esses significadores ou os que tiverem mais dignidade estiverem angulares e em
boas condições essenciais, não retrógrados ou combustos e se aplicarem ao regente do
Ascendente, é previsto um bom casamento.
Mas se o senhor do Ascendente se aplicar ao senhor da Casa 7, significa apenas que o
nativo busca o sexo. Se for ao contrario, isto é se o senhor da Casa 7 se aplicar ao senhor
do Ascendente, significa que o nativo é procurado para sexo.
Repetindo parcialmente o que já foi dito, se Vênus estiver cadente ou combusta e os
senhores da triplicidade em locais desvantajosos ou aspectados por maléficos significa
casamento tardio e dificuldades no assunto. Se Vênus estiver angular, livre dos maléficos,
mas os senhores de sua triplicidade em má posição por casa ou essencialmente, significa
um casamento adequado, mas problemas advindos dele. O contrario ocorre se Vênus
estiver cadente e os senhores de sua triplicidade em bons lugares; um casamento mau, mas
com vantagens advindas dele.
Dada a importância de Vênus, falarei sobre sua presença nos diversos signos:
Vênus no signo de Saturno prevê mulheres mais velhas; em Gêmeos ou Virgem, mulheres
de classe baixa ou empregadas. Se Vênus estiver em Touro, Libra ou Peixes em um ângulo
ou sucedente, sem sofrer aflições, combustão, retrogradação e conjunção ou aspecto com
maléficos, o casamento será afortunado.
Se Vênus estiver no domicílio de Júpiter fala a favor de um bom casamento.22
Se Júpiter estiver no domicílio de Vênus, fala de um casamento com mulher nobre e se
Vênus estiver no signo do Sol, o casamento com alguém aparentado ou da redondeza.
Se Vênus estiver no domicílio de Marte falaremos de um mal prognóstico para o
casamento.
Se Vênus estiver no signo da Lua fala-se de casamento com uma mulher não adequada.
Se Vênus for oriental fala da ousadia da mulher sobre o homem, com uma multidão de
amor e alegria. Se Vênus for ocidental ou em sua depressão fala sobre pouco amor entre o
nativo e a esposa, especialmente se Vênus não for aspectada por Júpiter.
Se Vênus estiver retrógrada haverá dificuldades e se estiver combusta, o casamento será
com mulher doente ou será um casamento em segredo.
Se o signo da Casa 7 for fixo haverá só um casamento, se for mutável, vários e se for
comum, dois.
SOBRE O CASAMENTO DAS MULHERES
Segundo Bonatti23 se Vênus está unida ao mesmo tempo com Júpiter e Mercúrio
significará que a nativa é humilde e modesta em sua maneira de ter atividade sexual e que
a realiza de maneira limpa24.
Se Vênus se ligar a Mercúrio ou a Saturno significa que a nativa vai se inclinar facilmente
à experiência sexual, mas com remorso e tentando omitir o fato.
Mas se Vênus se unir somente a Marte, tanto homens como mulheres vão agir
sexualmente em abundância.
Se, no entanto, Júpiter os aspectar e Marte estiver combusto, a nativa terá muito desejo
sexual e livre e alegremente se entregará a qualquer homem, mesmo a empregados.
Se Vênus estiver sob os raios do Sol junto com Marte ela se deitará com seu senhor e com
outros nobres, especialmente se Marte e Vênus estiverem em signos e quadrantes
femininos.
Se Saturno estiver participando da configuração a mulher será horrível e selvagem: se
Saturno for oriental ela vai desejar o adultério e ter encontros a sós.
Quanto à mulher devemos observar especialmente o signo do Sol, Marte e Vênus.
QUE TIPO DE MARIDO A NATIVA TERÁ
De maneira geral Bonatti segue Ptolomeu dizendo que o caráter do marido e sua
situação são vistos pela qualidade do Sol e pelos planetas que o aspectam e da mesma
forma através dos planetas que aspectam Vênus.
Se o Sol se unir a Saturno por um trigono ou sextil o marido será sábio, honesto e justo e
com muito trabalho.
Se com Júpiter o marido será magnânimo, humilde, gentil e com bom julgamento.
Se com Vênus, o marido será decente, honesto e belo.
Se com Mercúrio será letrado e culto.
Mas tudo depende da situação desses planetas na carta.
AS DIFERENÇAS ENTRE CASAMENTO MASCULINO E FEMININO
Robert Zoller, em seu curso para o Diploma em Astrologia Medieval, aponta que para
o casamento masculino devemos construir um almuten entre as posições da casa 7, do
regente desta casa, da Parte do Casamento Masculino, de Vênus e da Lua.
Já para a mulher, este mesmo autor, levando em conta a citação de Bonatti ( que por
sua vez baseou-se em Ptolomeu) afirma que se deve levar em conta somente o Sol, os
aspectos que recebe, sua posição por casa, se aspecta maléficos por trigono ou quadraturas
e oposições, se há recepção ou não.
Vênus tem importância tanto para o casamento masculino como feminino.
Sou partidária de usar a Parte do Casamento de acordo com Hermes, mas deve-se ter
cautela para construir um almuten com ela, pois cada autor nos fornece um cálculo para a
Parte do Casamento.
Firmicus, Dorotheus e Paulus, por exemplo, aceitam:
Para o casamento msculino: Asc+Vênus-Saturno e para o casamento feminino
Asc+Saturno-Vênus.
Mas, Paulus não inverte a formula para natividades noturnas enquanto que Firmicus e
Dorotheus o fazem.
Vettius Valens aponta duas formulas como vimos acima e em sua Antologia ele aponta
uma terceira fórmula.
Nos casos que estudei verifiquei que fazer um almuten para descobrir o significador do
casamento masculino fornece uma boa diretriz para a delineação. Mesmo assim prefiro
não usar a Parte do Casamento na construção da tabela por causa das dúvidas sobre sua
construção.
Já no caso do casamento e da sexualidade feminina tal almuten, exatamente como
defende Zoller (baseado em Bonatti e em Ptolomeu), o almuten não se mostrou sensível e
a análise da posição do Sol e de Vênus foi muito mais esclarecedora.
Exemplificação:
Figura 35a
Vamos calcular o almuten do casamento masculino, levando em conta a Casa 7, seu
regente, a Lua e Vênus.

Figura 35b
Vemos que Vênus é o planeta com mais dignidade em assuntos amorosos nesta carta.
Vênus está junto ao Sol o que nos fala que estas relações são muitas vezes realizadas
às escondidas, visto Vênus estar combusta.
Vênus encontra-se na Casa 125 em exaltação, logo supomos que o casamento do nativo
será legal com mulher bela e limpa, o que de fato ocorreu.
No entanto, Vênus a partir de um signo prolífico faz trigono com Marte em Câncer, o
que aumenta o apetite sexual e uma quadratura com Saturno, o que corrompe Vênus e o
desejo. Júpiter, regente de Vênus, está na Casa 12, no signo de Saturno. Júpiter entrando
na configuração ameniza o resultado, mas mesmo assim Júpiter e Vênus são os dois
planetas sexuais por excelência, e Vênus é muito menos seletiva. Já a Lua, conjunta a
Júpiter é um planeta das massas e da diversidade, de pluralidade e de gosto popular:
estando conjunta a Júpiter, ambos na Casa 12, confirmam muitas e variadas aventuras
sexuais às escondidas.
Embora o nativo seja sedutor e tenha uma aparência limpa e brilhante por causa tanto
de Vênus como do Sol na primeira casa, por trás desta aparência Saturno é quem dá as
cartas, visto que Vênus e Sol são regidos por Júpiter, que está cadente na Casa 12 e é,
assim como a Lua, disposto por Saturno.
Vimos que a configuração de Júpiter, Lua, Vênus e Saturno traz abundância de
ligações sexuais, escondidas e não escondidas.
O nativo teve um só casamento, muito tenso por causa das suas inúmeras infidelidades
publicas, por seu comportamento sexual sem limites, inclusive vexatório. A esposa nutria
grande rancor pelo marido e o ambiente matrimonial era amargo.
A Parte do Casamento segundo Hermes está em 10º58’ de Escorpião na Casa 10.
Marte a observa de sua depressão, na Casa 5. Marte não pode ajudar muito, pois está fraco
por signo, mas o que parece é que o casamento do nativo passa por muitos desgastes, uma
vez que está em signo regido por Marte, um planeta de confrontos.
O nativo fez sociedade com irmãos, regidos por Marte. A Parte do Casamento em
Escorpião fala muito também dessas sociedades, onde o clima era de rivalidade e disputa.
Como se vê, a astrologia Medieval nos serviu de guia para analisar com precisão o tipo
de casamento do nativo, mostrando que sem suas técnicas andaríamos às escuras.
Refiram-se agora à seguinte carta, de uma jovem nativa:
Figura 36
No caso, vamos considerar o Sol e Vênus.
O Sol está em regência e júbilo na Casa 9. A nativa vai ao encontro de parceiros
nobres, mas o regente do Ascendente, Saturno, embora domiciliado, está retrógrado e
cadente, opondo-se ao Sol. Isto nos fala de dificuldades profundas de relacionamento com
o homem, pois Sol e Saturno se opõe e têm propósitos contrários.
Na Casa 7 temos a Lua domiciliada e Vênus. Chama a atenção o fato de a Lua estar
angular na casa do assunto em pauta e em seu próprio domicílio, em quadratura com
Marte, um indicador do casamento feminino. A Lua é um planeta das massas e a nativa
não é seletiva em sua busca sexual e afetiva, tendo como parceiros pessoas que encontra
na rua indo para a escola, sem nenhuma preocupação com idade, cor ou raça. Os planetas
femininos estão em melhor situação e a nativa tem certa indefinição sexual, já tendo
namorado meninas.
Mas o Sol em signo masculino aponta para um caminho heterossexual, isto é para a
busca de um homem, provavelmente portador de alguma dificuldade porque o Sol está
aflito pela oposição de Saturno em signo cadente.
A Parte do Casamento de acordo com Hermes está a 14º46 de Leão, cadente e regida
pelo Sol, o que praticamente confirma o que estivemos falando, isto é a inclinação
heterossexual vence.
A diferente forma de analisar e valorizar os pontos chave em cartas masculinas e
femininas explica porque gêmeos de sexos diferentes terão casamentos diferentes, pois no
caso de natividades masculinas leva-se em conta Vênus e Lua e no caso da mulher é
essencial levar o Sol em consideração, não apenas Vênus.

1. A Casa 8 é referente a posses que o nativo herda após a morte do/a companheiro/a.

2. Isto porque Vênus era descrita como ligada a ritos sagrados e limpeza, ao contrário de Saturno, sempre relacionada
à sujeira e corrupção.
3. Observa-se que Saturno só pode entrar na configuração se Júpiter também entrar, caso contrário, trará corrupção e
perda.
4. Chama-se recepção o fato de um planeta aspectar o outro estando no domicílio e exaltação do primeiro. A recepção
fortalece um planeta quase tanto quanto a dignidade de domicílio. Segundo outros a bonificação só ocorre se os
planetas estiverem fortes essencialmente.
5. A ideia de estabilidade vem de um fato astronômico: Saturno e Júpiter são mais estáveis em suas relações com o
Sol, enquanto que os demais planetas fazem múltiplas estações, retrogradações e aplicações com o Sol.
6. Vettius ligava a orientalidade com a masculinidade e o domínio.

7. Vettius Valens, “Anthologia” tradução Robert Schmidt, edição Project Hindsight.

8. Usei a fórmula Asc+Júpiter-Vênus.

9. Embora Marte seja um planeta noturno mas masculino.

10. Provavelmente porque uma mulher lasciva pode fazer seu marido mais feliz do que uma mulher pudica.

11. Talvez porque Lua e Saturno rejam signos opostos, ou em outras palavras a Lua tem seu detrimento no signo de
Saturno e Saturno o tem o signo da Lua..
12. Saturno representa o pai em natividades noturnas e o Sol o representa em natividades diurnas.

13. Vide Cap.11º: o calculo da Parte do Pai em natividades diurnas é Asc+Saturno-Sol e em natividades noturnas é
Asc +Sol-Saturno.
14. A parte do Casamento do Homem será usada de acordo com Hermes, isto é a distancia de Saturno até Vênus ( não
se reverte) e o resultado é somado ao ASC( numericamente, Asc+Vênus-Saturno). Já a Parte do Casamento para
Mulheres é Asc+Saturno-Vênus (não se reverte para natividades noturnas).
15. Estes são quadrantes femininos, menos ativos.

16. O bom ou mal de uma casa depende em ultima análise do regente da casa.

17. Neste caso Vênus é o planeta dispositor final de Saturno.

18. Bonatti fala de uma configuração.

19. Signos onde Saturno tem regência e exaltação ou queda e detrimento.

20. Lembrar que Mercúrio rege as crianças e jovens.

21. Observe-se como em astrologia Medieval a posição dos planetas e suas configurações falam muito de pessoas que
o nativo encontrará.
22. Não se deve esquecer de ver o estado do planeta por casa: se estiver em casa cadente Vênus não terá poder,mesmo
domiciliada.
23. Book of Astronomy, pag.1303

24. Desde fontes helenísticas a limpeza é característica de Vênus.


25. Segundo Ptolomeu um planeta a 5 graus antes do Ascendente até 25 graus após é considerado na primeira casa por
divisão.
CAPÍTULO 15
A CASA 8, A MORTE, AS HERANÇAS E OS
BENS DE TERCEIROS.

A
Casa 8, como as casas seis, doze e dois, é uma casa que não faz aspecto com o
Ascendente. Tais signos são chamados inconjuntos e tal classificação diz respeito
ao Ascendente.
Mas a Casa 8, diferentemente da Casa 6 e da Casa 12, mesmo tendo a morte como
principal significado, é considerada de utilidade1 por se tratar de casa sucedente, isto é ela
apoia a casa anterior. Desta forma pode representar os ganhos obtidos da parceria, da
consultoria e dos mortos. Também tem significação para quem trabalha com o dinheiro ou
com os recursos alheios. A existência de planetas na Casa 8 ou possuir seus regentes bem
configurados pode trazer benefícios ao nativo. No entanto tais planetas configuram-se para
a significação ampla da casa e quanto à morte indicam no melhor dos casos um tipo de
morte mais leve e menos sofrida.
Tradicionalmente a Casa 8 nada tem a ver com sexo ou transformação, como entende a
astrologia moderna.
No presente capítulo vamos focalizar especialmente a morte, sua qualidade e maneira
de suceder, mas devemos ter em mente que benéficos bem configurados nesta casa
representam também grandes posses a partir de parcerias.
A QUALIDADE DA MORTE
Para saber a qualidade da morte do nativo devemos observar vários pontos da carta:
1- O Ascendente.
2- Os regentes da Casa 8.
3- Segundo Abu Ali os regentes de triplicidade do quarto ângulo. Ele usa signos
inteiros.2 Já Bonatti dá preferência a quadrantes.
Dorotheus diz que o primeiro regente da triplicidade da quarta casa dá sinais sobre a
morte e o segundo sobre doenças crônicas. Se encontrarmos tais regentes em signos de
Marte e Saturno é um mau sinal.
Já se encontrarmos a maioria deles em boa condição celeste, não retrógrados, não
combustos, em signos de benéficos ou recebendo aspectos de benéficos, dizemos que o
nativo terá morte mais suave e em sua própria cama. Abu Ali diz também que um
maléfico peregrino ou ocupando a Casa 8 é um grande impedimento.
5-Também é importante que se olhe para a Parte da Morte, que é calculada da Lua até
a Oitava Casa ( use para a oitava casa zero graus do oitavo signo a partir do Ascendente)
e essa distancia é projetada a partir de Saturno.( Saturno +8ª signo-Lua). O regente desta
parte tem influência em assuntos sobre a morte: portanto verifique sua situação celeste e
por casa, assim como com quais planetas está configurado.
Recomendo que neste caso a cúspide da Casa 8 seja usada por signos completos.
Tentei em minhas cartas experimentais usar signos completos e quadrantes e testei ambos.
A posição da parte chegava a ter diferença de um signo. Fui adiante e percebi que a morte
dos casos em pauta tinha mais relação com a parte obtida usando a cúspide da Casa 8 por
signos completos. Geralmente a parte mostra, conforme a casa em que cai, circunstâncias
muito específicas relacionada à morte: surpresa, negação, ocultamento da doença.
6- Considere-se o planeta ou planetas influentes como destruidores da vida. Verifique
como se configuram em relação aos maléficos e benéficos e em que signo e casa eles
estão.
Reporte-se o leitor ao estudo da longevidade no Capítulo 7 deste livro e à tabela
relacionada à força dos planetas como potenciais destruidores.
O uso das qualidades primitivas dos signos também nos auxilia bastante na
investigação do tipo de morte.
Se a Casa 8 está em signo seco ou úmido, frio ou quente, também dá sinais da morte
causada por tais agentes. Localizar o regente da Casa 8 e verificar em que tipo de signo se
encontra é importante: ele informa bastante sobre doenças secas ou úmidas.
Os astrólogos medievais estavam muito interessados em saber também se a morte seria
por causas naturais ou por meio de ação de inimigos ou acidentes, se ocorreria em casa ou
na rua e mesmo em locais estrangeiros e finalmente se seria uma morte suave ou difícil.
Os antigos falam de alguns tipos de morte que não são comuns nos dias de hoje, tais
como em duelo ou enforcamento, mas embora os meios de morrer tenham mudado, o
espírito continua o mesmo: temos assaltantes, quedas de avião que nos reportam a
configurações astrológicas tais como “cair de grandes alturas”, que nos reportam por sua
vez a Saturno como significador, visto ser ele o mais alto dos planetas ou a Marte, por este
último ter relação com o Meio do Céu ou o lugar do pico. Temos os acidentes de carro que
aniquilam vidas e os ferimentos por tiro, ambos associados a Marte, pois o ferro entraria
como agente.
Os meios mudam, a fachada é diferente, mas essencialmente morremos hoje de causas
semelhantes ao passado.
Algo a levar em conta é se os maléficos na carta estão mais elevados que os benéficos.
Para verificar se um planeta está elevado em relação ao outro temos que ter em mente a
relação dos dois e não a relação da carta que desenhamos. Para julgar se um planeta está
elevado em relação ao outro se faz de cada planeta um ponto de partida: por exemplo, se
Vênus está em Áries na Casa 7 e Saturno está em Câncer na Casa 10, Vênus está mais
elevada que Saturno. Vice-versa ocorre se Saturno estiver em Capricórnio. A elevação
obedece à ordem dos signos.
Isto explica porque certas quadraturas com os mesmos planetas interferem em um dos
planetas mais que no outro ou operam de forma tão diferente e menos dramática em
algumas cartas: é o ponto de vista da relação dos planetas entre si, isto é como estão
configurados um ao outro é o que se deve levar em conta.3
Abu Ali diz que se um benéfico estiver na Casa 8 ou junto com o senhor da Casa 8, ou
na Casa 4, ou com o regente da Casa 4, podemos esperar uma morte suave. Ocorre ao
contrário se tratar-se de maléfico.
A seguir trarei algumas observações feitas por Masha´allah em seu Livro de
Aristóteles4. Masha´allah é um dos primeiros autores árabes importantes, que viveu antes
de Abu Ali (que foi seu discípulo) e de Abu Mashar. Sua visão astrológica repousa em
bases persas e helenísticas importantes tais como se verá na misteriosa observação sobre
os chamados “dias da Lua”. Há uma doutrina que aparece desde antigos autores
helenísticos até Vettius Valens que também a menciona, dando importância para a previsão
sobre alguns tópicos a partir do terceiro, sétimo e quadragésimo dia da Lua. Tal teoria não
é explicada em detalhe em lugar algum, mas o que sugere é que se monte uma carta para o
terceiro, para o sétimo e para o quadragésimo dia da Lua após o nascimento. No caso de
mortes violentas investiga-se o 40º dia da Lua. Além disso, deve-se verificar se o regente
da Casa 8, a Lua ou o regente do Ascendente não estão em signos violentos ou perto de
estrelas violentas, ou em maus aspectos com maléficos, pois se tal ocorrer o nativo terá
uma morte violenta. Se Saturno ou Marte tiverem dignidades na Casa 8, o julgamento
anterior se confirma.
A respeito do tipo de morte, se ela é publica ou escondida, se acontece em viagem ou
por acidente, depende de algumas observações:
1. Observar o regente da Casa 8. Qual sua natureza, em que casa está e como os
maléficos se configuram a ele.
2. Avaliar os regentes da triplicidade da Casa 4. Em que casa e tipo de signo eles
estão situados e que planetas os estão aspectando.
3. Calcular o Lot da Morte.
4. Observar o regente da sétima casa e especialmente o termo que rege a cúspide da
Casa 7 e em que signo está esse planeta e quais aspectos faz ou recebe.
5. Verificar se a Lua está sitiada por maléficos e qual a qualidade do signo em que
ela está.
6. Verificar qual o regente da oposição ou conjunção que ocorreu antes do
nascimento.
7. Levar em consideração a Parte da Fortuna e seu regente e verificar em que local
da carta se situa.
8. Observar se as infortunas estão em aspecto com o signo Ascendente ou com o
regente da Lua.
9. Observar o 40º dia da Lua após o nascimento e verificar se há maléficos
observando o local da Lua.5
10. Observar Marte e Saturno: se estão nos ângulos e com quais planetas se
relacionam.
11. A qualidade do signo da Casa 8.
Se a Cabeça do Dragão estiver na Casa 8, aspectada por Mercúrio, Marte ou Saturno, o
nativo terá um tipo de morte excêntrica, sendo batido na cabeça ou cegado pelo ferro. Se a
Cabeça do Dragão estiver na Casa 8 com Vênus, Júpiter ou Marte é sinal de uma morte
rápida.
Se aos 40 dias da natividade a Lua estiver se aplicando a infortunas também
acontecerá uma morte violenta.
Dorotheus diz que se o primeiro regente da triplicidade da quarta casa estiver na Casa
7 ou na Casa 4 ( provavelmente em má condição) o nativo morrerá sozinho e
desconhecido. Se o segundo regente da triplicidade estiver na Casa 7 ele vai ter uma
doença crônica.
Rhetorius diz que se o primeiro regente da triplicidade da Casa 4 estiver mal aspectado
pelos maléficos, sem benéficos prestando testemunho, o nativo morrerá violentamente.6
Veremos dois casos de exemplo:

Figura 37
O quarto signo a partir do Ascendente é Escorpião, que pertence à triplicidade de água.
Tratando-se de uma natividade diurna, o primeiro regente da triplicidade de água é Vênus.
A cúspide da Casa 8 é Peixes, signo no qual Vênus tem exaltação. O segundo regente da
triplicidade de água é Marte, que está em signo de fogo, no Ascendente. A Lua participa
dos dois, rege a Casa 12 e está nela presente, junto ao Nodo Sul.
Vênus como regente de exaltação da Casa 8 faz uma quadratura com Saturno, que está
configurado para a Casa 12.
A Casa 8 está em signo de água, mas seus regentes, Júpiter e Vênus, estão em signo de
fogo, em conjunção.
O nativo padeceu de vários problemas, teve no início da adolescência um apêndice
supurado e foi salvo por uma cirurgia de emergência realizada sem anestesia em sua
própria residência. Tinha problemas de tireoide, colesterol elevado causado por
hipotireoidismo, diversos problemas de coluna e hérnias de disco, e aos 60 anos descobriu
estar com câncer de próstrata.
A próstrata é base do desempenho erétil e orgásmico masculino e Marte no
Ascendente é responsável por grande atividade sexual. Marte é o segundo regente da
triplicidade da Casa 8 e rege os planetas que lá estão, Vênus e Júpiter. Como a cúspide da
Casa 8 está em Peixes, que é um signo de água, isto aponta para que a corrupção se dê
pela umidade. Ao nativo foi prescrito um medicamento para deter o câncer que podemos
atribuir a Vênus por ter relação com o feminino e por ser um veneno: o estrogênio. A ideia
era diminuir o nível de testosterona. Ocorre que Vênus tem grande autoridade na Casa 4 e
na Casa 8, Peixes, e está na própria Casa 8, que rege por exaltação. Logo, Vênus é
configurada para a morte: o nativo começou a criar coágulos pelo uso do estrógeno e um
deles provocou uma embolia pulmonar que o matou.
Como Vênus faz uma quadratura com Saturno sua doença foi longa. Mas, Vênus que é
benéfica por natureza, embora em detrimento, recebia a bônus da conjunção com Júpiter.
O fim foi abrupto e indolor, causado por uma um coágulo que obstruiu a passagem do
sangue (Marte/ sangue, Saturno/ obstrução) no sistema cardio (Sol oposto ao Ascendente
em signo de Saturno) respiratório ( Júpiter na Casa 8 é regente dos pulmões).
Vênus rege, segundo Coley, os testículos e os orgãos que levam à capacidade de gerar.
Ela representa o início do problema e os dispositores dela, Marte e Sol, o
desenvolvimento.
Revisando, o nativo faleceu por causa do excesso de hormônios para conter o câncer.
Ora, Júpiter rege os pulmões e o Sol, dispositor final de Marte está na Casa 7, regendo o
coração. Como já vimos, Vênus tem muita relação com a morte, pois tem dignidade na
Casa 4 e na Casa 8, além de estar na Casa 8.
A morte do nativo ocorreu de forma fácil e benigna, rápida e indolor, como atestam os
benéficos na Casa 8. Além disso, corroborando os fatos, a Parte da Morte se encontra a
5º11’ de Peixes, regida por Júpiter e na carta montada para o 40º dia da Lua ela estava em
Sagitário, não sendo afligida por maléficos: daí ter ocorrido morte natural.
Veremos agora outro caso:
Figura 38 A
Louis Riel nasceu no Canadá e lutou pelos direitos dos indígenas, mas ao mesmo
tempo misturou à sua luta altruísta motivos políticos visando o poder pessoal.
Imigrou para os Estados Unidos e começou a instigar esta minoria contra o governo.
Foi preso, sentenciado e morto por enforcamento.
Vamos analisar a morte deste nativo: sem uma minuciosa análise dificilmente
preveríamos tal final de vida. A Casa 8 é regida pela Lua e por Júpiter como regente de
exaltação. O último está domiciliado, embora retrógrado e em casa crítica para assuntos de
vida por representar o final das coisas. Mas a Casa 4 também rege os pais e a família. No
entanto, há mais uma observação a ser feita: Júpiter é o regente do Ascendente e a Lua é o
regente da Casa 8. Essa conjunção que geralmente é uma bonificação pode representar um
alerta quando os dois planetas regem tópicos que se estiverem juntos tendem a aniquilar
um ao outro.
Nenhum maléfico se configura ao regente da Casa 8, logo vamos adiante para analisar
os regentes da triplicidade da Casa 4.7
Os regentes da triplicidade de Peixes, como signo de água, em natividade diurna são
Vênus, Marte e Lua como participante.
Vênus está muito mal colocada: cadente e em depressão. Por quadrantes Marte está
angular e em detrimento, no signo de Vênus. Marte rege também a Parte da Fortuna e se
opõe a ela por signo ( assim como Mercúrio). Finalmente a Lua como regente da
triplicidade participante rege a Casa 8 e está junto a Júpiter, regente do Ascendente e
regente de exaltação da Casa 8. Lua e Júpiter opõe-se a Vênus.
A SAN ocorreu em Libra, sendo seu regente Vênus.
A Parte da Morte encontra-se em Touro, seja qual for o sistema de casas usado. A parte
é regida e asepctada por Vênus, cadente e em sua depressão e afora Vênus recebe vários
aspectos: quadratura de Saturno e sextil de Lua/ Júpiter.
As duas infortunas aspectam o grau do Ascendente: Marte, a partir da Casa 10 e
Saturno, a partir da Casa 3.
Pesquisaremos agora o planeta destruidor de acordo com a tabela fornecida no capítulo
7º sobre longevidade.

Figura 38 B
Não usei o oitavo signo a partir da Lua por tratar-se de natividade diurna, mas fiz uma
concessão a Abu Ali, usando a Casa 7.
Vênus tem a maior pontuação nos locais perigosos para a vida e ela é a regente da
Casa 10, de Marte e de Mercúrio.
Como Vênus tem autoridade sobre a garganta, Mercúrio sobre a comunicação e Marte
relaciona-se às agressões: estes tópicos são relacionados. O material que Marte e Mercúrio
usam com bastante energia por estarem cardeais levam a um final relacionado à pobreza
da dispositora dos dois, Vênus. Além disso, Vênus é o planeta destruidor e está na casa
dos estrangeiros. Este é um caso típico em que viagens e relocações podem ser destrutivas.
Vênus tem Mercúrio como almuten, portanto podemos atribuir a Mercúrio o
desenvolvimento da situação em terra estrangeira.
Mercúrio rege a Casa 7, os inimigos declarados, e a delineação correta seria a
seguinte: os inimigos declarados utilizam Mercúrio, as palavras ditas e ações (Casa 10) do
nativo para levar a cabo sua intenção destrutiva. Na Casa 7 também está o Nodo Sul, fonte
de inesgotável desdita.
O 40º DIA DA LUA
Observei o quadragésimo dia da Lua, simplesmente adiantando a carta para quarenta
dias após e mantendo o mesmo horário. Neste sentido, o levantamento da carta tem um
intuito experimental, já que é um ensinamento do qual não se possui exemplo algum e que
ficou perdido na antiguidade.
Como era usado para prever mortes violentas pensei que poderia ser instrutivo
apresentar aqui uma tentativa de uso desta técnica. 8
Creio que a carta que verão a seguir é compatível com os fatos.

Figura 38C
Observe-se que a Lua, regente da Casa 7 aparece no oitavo signo e em oposição a
Saturno. Marte em conjunção a Vênus está no décimo signo, mas na Casa 9 por divisão.
Vênus prepara-se para sair de Libra, signo que rege, para entrar em seu detrimento,
ocupando o exato local que o Sol ocupava na carta natal. O Sol, luminar da seita, aparece
conjunto ao Nodo Norte, em conjunção com o Ascendente natal.
Não sabemos se nesta técnica a carta inteira era analisado ou apenas a posição de Lua,
o que parece mais provável. De qualquer forma, o fato da Lua aparecer na oitava casa
oposta a Saturno é uma dupla aflição.
Em todo caso, por amor à Arte, vou delinear o que vejo: a Lua está aflita, assim como
o regente da Casa 4, Vênus, nos termos de Marte e conjunta a ele. O Sol, regente da Casa
8, está junto ao Nodo Norte, o que é um ponto de alerta, pois os nodos são pontos críticos
no sentido em que são pontos onde ocorrem eclipses.
Na natividade natal, por trás da força destrutiva de Marte em detrimento e angular há
Vênus em queda e por trás dela Mercúrio e os inimigos declarados. Na carta que fizemos
para o 40º dia da Lua, Mercúrio aparece na Casa 12 em detrimento, no signo de Júpiter,
regente do Ascendente natal.
Concluindo, a intenção deste capítulo foi a de demonstrar que, seguindo as normas
oferecidas, percebemos o padrão da morte, se é pública ou não, se é violenta, etc.
Não se deve esquecer jamais, e isto é um refrão, que qualquer casa deve ser estudada
no contexto da carta inteira.

1. Por alguns. Outros dizem que mesmo bons planetas nela não levam a nada de produtivo.

2. Observe-se que tenho tido cuidado em não me referir ao Meio do Céu, preferindo chamar de Casa 10. Da mesma
forma aqui, o quarto ângulo ou quarta casa nem sempre é o mesmo que o IC. Por signos inteiros o panorama pode ser
bastante diferente, pois o MC nem sempre é a Casa 10 e o IC nem sempre é a Casa 4.
3. Este é o resultado de certas observações de Robert Schmidt quando considera certas passagens de sua última
tradução de excertos de Antiochus, Porfirius, etc em “Definitions and Foundations”.
4. Persian Nativities, Book I, Masha´allah, Book of Aristotle, editado e traduzido para o inglês por Benjamim Dykes,
PHD
5. Trarei no mapa de exemplo o cálculo deste dia na perspectiva de avaliar a morte do nativo de exemplo.

6. Este livro não tenciona ser um tratado, de forma que os interessados poderão consultar a bibliografia que
providenciei ao final para obter mais informações sobre o assunto.
7. Refiro-me ao quarto signo.

8. Neste caso contei, como é hábito em autores como Vettius Valens, o dia do nascimento como dia um. Usei o
módulo de avançar dia a dia, presente em softwares como Janus e Solar Fire.
CAPÍTULO 16
A CASA 9, DEUS, RELIGIÃO, VIAGENS,
ESTUDOS, SONHOS E PROFECIAS

A
Casa 9, onde o Sol tem sua alegria, faz parte da tríade que compreende as Casas 9,
10 e 11. É uma casa em declínio sob o ponto de vista das direções primárias, mas
na direção zodiacal, uma vez que vem antes da Casa 10, ela prepara para a casa
seguinte que, como veremos, é a profissão e a carreira do nativo.
O significado da Casa 9 era primordialmente relacionado a profecias, orientação
através de estudos profundos ou através de oráculos e tinha também relação com viagens
de peregrinação, geralmente para consultar oráculos. O parecer obtido orientava a
“praksis”, isto é a ação, assuntos de Casa 10.
Práxis é o processo pelo qual uma teoria, lição ou habilidade é executada ou praticada.
Vem da palavra prasseim, passar através, transmitir, que abriga uma idéia de movimento.
Mesmo as viagens eram motivadas para obter tal orientação ( do oráculo), por isso a Casa
9 relaciona-se com viagens1.
Desta forma a prática e a orientação necessária para que se realize um mister passa
pela Casa 9.
Quanto à distância, pouco importa. O que realmente conta é o motivo.
Portanto o que realizamos na Casa 10 depende do aconselhamento, do conhecimento
que se tem ou recebeu, viajando ou transitando, longe ou perto, encontrando-o nos
oráculos ou nos estudos adequados para tal.
Na época do predomínio cultural árabe, a sociedade deixou de ser democrática para ter
um monarca absoluto e o sentido da Casa 9 passou a ser representativo dos religiosos, uma
questão à parte em relação ao reinado, não mais servindo de base ao rei. O monarca
transmitia o cargo a seus descendentes e o que importava era a linhagem real e não o fato
de estar ou não preparado e orientado para reinar.
Dai que em astrologia medieval a Casa 9 representa a religião e o clero, poderes
paralelos mas não superiores ao monarca. O sentido de viagens permaneceu,
especialmente quando ligadas a peregrinações.
A Casa 3 também significa viagens e o que a diferencia neste particular da Casa 9 é o
fato de que as viagens de Casa 3 são ligadas ao âmbito das motivações familiares, pois a
Casa 3, 4 e 5 fazem parte da tríade familiar.
Daí que viajar para lugares onde estão familiares ou para visita-los ficou sendo um
tópico de Casa 3, mesmo se a viagem for à China, enquanto que viajar para ver maravilhas
e aprender ficou sendo representado pela casa oposta, a Casa 9, mesmo que o
deslocamento espacial seja limitado ou inexistente, como é o caso,por exemplo, da
aprendizagem virtual.
Modernamente a Casa 9 tem o sentido de universidade, pois lá é fornecida a base para
a profissão e lá se aprendem as matérias que levam à sabedoria. Mas a sociedade está
mudando e pode-se estudar dentro de casa, através da internet matérias de Casa 9.
A Casa 9, assim como a Casa 3, devem ser investigadas quando queremos saber sobre
a profissão do nativo pois se os primeiros estudos e a formação universitária não forem
prometidos na carta natal, seus regentes estando aflitos, não podemos prever uma
profissão ligada ao conhecimento.
Um nativo pode ter ênfase na Casa 9 e não viajar, mas ir em busca do conhecimento e
da sabedoria: para diferenciar uma coisa da outra devemos usar as Partes da Fé, do
Espírito, Mercúrio e os regentes da Casa 9. Por fim verificar por quais planetas são
aspectados.
Veremos agora o que dizem os autores clásssicos sobre a Casa 9 à medida que ela se
relaciona a viagens.
Em Hephaistio e também em Ptolomeu, que parecem se basear em fontes mais antigas,
vemos que para saber a respeito de viagens distantes olha-se para os luminares em relação
aos ângulos, mas especialmente para a Lua: se declinam dos ângulos ou estão na Casa 7
apontam para viagens na vida do nativo. A razão disto é que a Casa 7 é a casa mais
distante do Ascendente, menos familiar.
E quando Marte está na Casa 9, isto é declinando da Casa 10, o local do pico, ou
quando está na Casa 7 também conduz a viagens, especialmente quando faz quadratura
aos luminares. Se os benéficos prestarem testemunho as viagens serão proveitosas e a
volta não terá impedimentos. Além disso, se os benéficos estiverem relacionados ao
assunto, as viagens serão um deleite, e se Mercúrio entrar na configuração serão ainda
melhores e trarão presentes.
Hephaistio diz também para examinar os ingressos, isto é Revoluções Solares, no caso
de viagens. Aconselha também a observar os senhores da triplicidade do luminar da seita:
se estiver em local apropriado não levará a viagens, mas se estiver em lugares alheios,
sim, o fará.2
Diversas considerações foram tecidas em torno do tema viagens pelos autores
medievais relacionando-as a Casa 9, isto é se seriam proveitosas, úteis, perigosas ou não,
assim como se o nativo viajaria muito ou nunca em sua existência.
Muito marcante e presente é a relação de Marte no que diz respeito a viagens. Marte
instiga a elas, provoca-as, mas se em más configurações (como, por exemplo, se estiver
em mau aspecto com o regente da Casa 9 ou presente na Casa 9 ou mesmo na Casa 10) as
viagens serão infrutíferas e desastrosas.
Ptolomeu já citava Marte como importante no assunto viagens, fazendo também
referência à Lua em casas cadentes como indicativos das mesmas. Já os autores medievais
dão preferência à posição da Lua na própria Casa 9 ou na Casa 7, neste ponto seguindo a
tradição helenística que dava à Casa 7, como uma de suas atribuições, os significados
lunares e os de viagens para longe do ambiente conhecido.
De maneira geral, para os autores medievais, se não houver aspectos do regente da
Casa 9 com o Ascendente, Júpiter ou Marte o nativo não viajará e as viagens não farão
parte de seu trabalho. Já se a Parte da Fortuna se configurar à Casa 9, por sua presença na
casa ou porque seu regente rege também a Fortuna e a aspecta, podemos contar com
viagens distantes fazendo parte da vida e do ganha pão do nativo.
A razão de Marte ser ligado a viagens é que viagens são assuntos que podem sujeitar o
nativo a acidentes próprios de Marte. Antigamente o viajante poderia sofrer uma
emboscada e ser roubado e morto durante o trajeto. Hoje em dia isso se passa de forma
diferente, mas também sucedem desafios: perda de voos, cancelamentos, problema na
entrada em países, perda de bagagem ou roubo de documentos e cartões de crédito, etc.
Portante Marte terá sempre importância na delineação de viagens.
Se Júpiter estiver bem colocado, reger a Casa 9, ou a a Casa 9 for angular à Parte da
Fortuna, isso pode significar divertimento em viagens e proveitos.
Os autores medievais também fazem um almuten para saber sobre essa casa,
construindo-o através da Parte das Viagens3 ou da Peregrinação, o regente do domicílio
dela, Marte, o regente do domicílio da Casa 9 e o regente do planeta que estiver na Casa 9.
A partir desse almuten verificam como tal planeta se comporta em relação ao signo
Ascendente.
De maneira geral, se uma tabela de almuten levar em consideração Partes, aconselho,
se quiserem usa-las, a considerar o signo em que caem, seu regente por domicílio,
exaltação e triplicidade, sem levar em conta o termo e a face.4
Abu Ali, seguindo a antiga e misteriosa técnica dos dias da Lua, à qual já nos
referimos no capítulo passado, aconselha5 a olhar para a Lua no terceiro dia da natividade
: se ela se aplicar a Marte ou estiver em seu domicílio ou termo significa muitas
peregrinações e viagens. E se o senhor do Ascendente for contrário ao Ascendente ou o
senhor do domicílio da Lua for contrário à Lua ou o senhor do Ascendente estiver em sua
depressão significa que o nativo vai ganhar a vida em regiões estrangeiras.6
No entanto, outros autores pensam que se a Lua ou o senhor do domicílio da Lua
estiver na Casa 7 o nativo vai gostar de viajar, da mesma maneira que se o senhor do
Ascendente estiver na Casa 9 ou o senhor da Casa 9 estiver no Ascendente.
Vejam a seguinte carta:
Figura 39
Este nativo viajou durante cerca de 25 anos como parte de sua profissão e única
maneira de ganhar seu sustento. Observamos a posição de Marte angular e em detrimento,
Júpiter regente da Casa 9 na Casa 2, junto a Saturno e a Lua, em quadratura com ambos,
sendo recebida por Saturno na Casa 10, da profissão. A Parte da Fortuna está na Casa 4 e é
regida pela Lua. A profissão deste nativo era exercida junto à figura paterna, o que explica
a Fortuna na Casa 4 e a Lua na Casa 10.
Nota-se como a configuração observada pelos antigos é válida, mesmo que não
encontremos exatamente o que está nos livros. O importante é que a idéia que tais autores
passaram adiante é coerente e visível.
O outro assunto sobre o qual a Casa 9 dá testemunho é sobre a fé do nativo e seu
conhecimento.
Bonatti faz duas conjecturas importantes. Como sabemos, o Sol tem sua alegria na
Casa 9, mas sua presença lá não garante religiosidade. Diz ele que em questão religiosa
temos que levar em consideração a Parte da Fé7, em que casa se situa, qual a condição de
seu regente e se este faz bons aspectos com a Casa 9 e com Júpiter.
Da mesma forma, se a Parte da Fé aparecer na primeira casa, mostra um nativo
propenso à religiosidade.
Também, se a Parte do Espírito estiver na Casa 9 ou regida por planeta na Casa 9, ou
ambos forem regidos por Mercúrio, é uma indicação não apenas de viagens como de
religiosidade. Por esse caminho podemos pesquisar a alma e a fé do nativo. Tais
configurações, dependendo dos planetas e signos envolvidos relacionam-se a pessoas que
recebem auguros, tem sonhos proféticos ou intuições a nível espiritual.8
Sempre dependendo da configuração antes exposta, isto é Mercúrio, Parte do Espírito
e Parte da Fé, se chegarmos a conclusão que o nativo é religioso e na Casa 9 estiver
Saturno, Bonatti nos fala de uma religião individualista e que o nativo considera sua fé
melhor que a dos outros, tratando-se de pessoas que vestem o negro. Já se Júpiter estiver
na Casa 9, encontra-se mais equanimidade. Vênus, por ser relacionada aos ritos e cânticos
religiosos, estando na Casa 9 indica uma religião na qual o ritual tem muita importância
para o nativo. Quando Mercúrio está na Casa 9, a espiritualidade tem alguma base nos
números e cálculos, como é o caso da astrologia. Se for a Lua, trata-se de uma religião de
massas.
Como dissemos ao início é interessante observar se o nativo recebeu a devida
formação para ter uma boa carreira, uma frutífera Casa 10. Abu Ali e Bonatti dizem para
observar se Mercúrio está na Casa 9 em Gêmeos, Câncer ou Virgem, com a Lua ou com a
Parte da Fé ou do Espírito.
Se Júpiter estiver em configuração com Mercúrio, com a Lua e com a Casa 9 pode
levar a um conhecimento muito profundo e criar profetas, conselheiros muito úteis em
suas orientações e muito confiáveis.
Segundo Abu Bakr se o Nodo Norte e a Parte da Fé estiverem na Casa 9 em Gêmeos e
Júpiter estiver no Ascendente, com certeza aquela pessoa será profunda em seu
conhecimento e seguirá a astrologia.
Embora a nona casa não seja a alegria da Lua, Abu Ali diz que se o signo da Casa 9
for regido por Júpiter e a Lua ali estiver, significa que o nativo será um sábio astrônomo e
anunciador de coisas e da mesma forma se Mercúrio reger a Casa 9 ou se uma estrela da
natureza de Mercúrio estiver na Casa 9.
Também é importante verificar se a Parte da Fé está conjunta a algum planeta.
Segundo autores medievais, se ela estiver com Saturno, vai significar que o nativo se
perguntará sobre coisas sutis e vai ser um investigador delas, será grave, dirá coisas
profundas9. Se estiver com Júpiter: um observador da lei, vai ter boa fé e vai oferecer
palavras honestas. Se estiver com Marte, má fé, más opiniões e uma mente vergonhosa. Se
estiver com o Sol e ele for de boa condição, o nativo vai dizer a verdade e esta lhe virá
clara e sem necessidade de estudo. Se estiver com Vênus significa boa vontade e o amor
por jogos, ritos que podem levar ao ritual religioso. Se for com Mercúrio significa a
ciência dos números, da medida e das mercadorias. Se com a Lua, indica a abundância da
mente.
Umar Al Tabari diz que se Mercúrio for o regente da nona casa e tiver relações com o
Ascendente o nativo pode ganhar conhecimento e substância pelo conhecimento,
especialmente se Mercúrio estiver afortunado e oriental: se for ocidental isso nem sempre
acontece.
Os autores medievais também preconizam que se use os regentes da triplicidade da
Parte da Fé para saber em que parte da vida a pessoa encontrará sua fé. Assim o primeiro
regente da triplicidade daria testemunho do primeiro terço da vida, o segundo do segundo
terço e o terceiro do final da vida.
Em síntese: observe Mercúrio e veja como ele está disposto, pois ele, nos diz Bonatti,
é o significador universal da mente.
Se o regente da Parte da Fé estiver forte e sem impedimentos e a Casa 3, a Casa 9 e
seus senhores estiverem também livres de impedimento ( retrogradação, aspecto com
maléficos, combustos ou cadentes) isto significa que o nativo terá fé e conhecimento
robustos e será eminente por seu conhecimento.
Observe agora as seguintes cartas:

Figura 40
Paul Foster Case foi um líder espiritual e famoso ocultista, especialista em Tarô e I
Ching, fundador e líder de sociedades importantes no campo do ocultismo. Era altamente
dotado intelectualmente.
Observe que a Parte da Fé e do Espírito estão na Casa 7 em Gêmeos, estando a Parte
do Espírito junto a Saturno. A presença das partes em Gêmeos, angulares, estando seu
regente angular domiciliado e exaltado em Virgem e aspectando a Parte do Espírito,
mostra que Mercúrio tem condições de lidar com o que leva o nativo a agir, que é
justamente a profissão e a parceria, tópicos regidos por Mercúrio. A presença de Saturno
conjunto a Parte do Espírito revela um bloqueio na ação, uma delonga, um postergar.
O regente do Espírito e da Fé estão na Casa 10, a carreira. Júpiter, regente do
Ascendente está na Casa 9 junto a Vênus.
Vênus na Casa 9 fala a favor de rituais, e Case ensinava magia, mas especialmente a
magia sexual, assunto também relacionado a Vênus,10 e o fato criou certo desconforto na
sociedade oculta que ele dirigia e foi razão de sua ruptura com ela.
Um outro exemplo temos na Figura 41:

Figura 41
Chay Blyth foi um aventureiro escocês que desafiou o mar e chamou atenção pública
dando a volta ao mundo sozinho em um bote.
Observe-se que Marte está na Casa 3 e é regente da Casa 10 por exaltação. O regente
da Casa 10 está no Ascendente, Saturno, o que mostra que a profissão usa as condições
físicas do nativo para ser exercida. Júpiter na Casa 12, do isolamento, faz um sextil com
Marte na Casa 3 e Marte recebe Júpiter em seu domicílio. Sendo Júpiter o regente da Casa
9 e vendo que Marte faz uso dele, pecebemos que o nativo era destinado à solidão durante
viagens difíceis ( Marte na Casa 3) e a realizar sua profissão com seus próprios recursos
físicos ( Casa 1) .
A Parte do Espírito está na Casa 4, regida pela Lua na Casa 5, onde está também a
Parte da Fé. Nada disso nos leva a pensar em espiritualidade, mas sim em outros
significados da Casa 9, relativos a viagens. Observe-se também que Marte rege a Casa 7.
1. Geralmente era preciso viajar mas também alguns mandavam um emissário em seu lugar. Frequentemente eram
viagens curtas para os parâmetros atuais.
2. As viagens eram consideradas perigosas e sem qualquer relação com o que hoje em dia consideramos turismo.

3. Al Biruni, Ibn Erzra e Leopold dão a seguinte formula; Asc.+ Cusp.da 9- Regente da Nove para nascimentos
diurnos e noturnos. Firmicus Maternus dá uma formula diferente.
4.Isto é usar a Parte como signo completo. No entanto, se for considerar que a parte é aspectada vale mais um aspecto
estreito e um aspecto por signo é desprezível.
5. Em Hephaistio encontramos a mesma ideia. Hephaistio of Thebes, Apotelesmatics, Book 2, Project Hindsight,
Greek Track, page 75.
6. Percebe-se como é considerada uma infortuna estar fora de sua terra e de seu habitual.

7. Asc.+Merc-Lua para nascimentos diurnos e Asc.+Lua- Mercúrio, para nascimentos noturnos.

8. Neste sentido Mercúrio estaria agindo como psicopompo, comunicador o mundo celestial e o terreno.

9. Tais observações são interessantes, pois em astrologia helenística Saturno representa a ignorância. No entanto ele é
o mais lento dos planetas e tal lentidão pode significar o tempo a ser dispensado em assuntos que necessitam paciência
e pouca mobilidade.
10. Observe-se que Vênus é aspectada por Saturno, vide Capítulo 14.
CAPÍTULO 17
A CASA 10 E O SIGNIFICADOR
PROFISSIONAL

D
izer a priori qual será a profissão do nativo não é tarefa fácil, no entanto muitos
clientes nos vem perguntar do assunto querendo respostas para si mesmos ou para
seus filhos.
Portanto, ainda que a tarefa não seja fácil, descobrir o Significador Profissional é de
suma importância dominar esta arte.
A presente lição deve ser estudada junto à lição sobre a Fama e Eminência, que
abordaremos no último capítulo do livro, e à lição sobre Significador Financeiro. O leitor
logo verá o porquê.
Os ensinamentos contidos aqui devem ser usados apenas como guias e devem ser
bastante praticados e observados antes de se tornarem uma ferramenta apropriada.
As profissões de hoje são numerosas, muitas são mutações de outras e às vezes é
difícil fazer uma distinção entre elas. Por isso os problemas do astrólogo são grandes e é
necessária uma avaliação cuidadosa.
Não é tarefa fácil diferenciar um arquiteto de um decorador desde que os dois
trabalham com construções. Geralmente Vênus é mais proeminente em cartas de nativos
que são desenhistas de interiores do que em arquitetos, mas isso em si mesmo não é um
guia e às vezes encontram-se pintores dentro da categoria de construtores e operários de
obras ao lado de engenheiros.
O melhor a fazer é falar ao cliente em linhas gerais, por exemplo, quando não se
souber diferenciar é melhor dizer: sua carta é relacionada com negócios de construção.
Isto cobre desde demolição, carpintaria, eletricidade, encanamento, arquitetos, azulejistas.
Também existem muitas pessoas que trabalham com dinheiro, às vezes são financistas
profissionais e às vezes simples caixas de banco; não é fácil distinguir o banqueiro e o
bancário. Por isso referi-me à necessidade de relacionar o estudo da Casa 10 à eminência
do nativo e a quanta substância a natividade promete.
Mesmo quando determinamos uma categoria nos defrontamos com uma necessidade
de distinção ulterior.
Outra coisa a levar em conta é que hoje em dia muda-se de carreira mais facilmente do
que nossos antepassados o faziam. Pode-se trabalhar de acordo com o que o vento sopra e,
numa época de economia instável, podem-se ter várias profissões ou empregos para
sobreviver, ou mudar de profissão apenas porque a outra é mais rentável. Pode-se ser
psicólogo, por exemplo, e em outro período trabalhar como vendedor de ornamentos,
astrólogo, etc. O processo de delinear a profissão não é uma coisa absoluta e hoje em dia é
mais difícil do que na época medieval delinear este tópico, pois então as pessoas
permaneciam na mesma profissão a vida toda, exceto em tempos de calamidade pública
como guerras e pragas.
Também como astrólogos por vezes é preciso lidar com o fato de pessoas quererem
mudar de profissão e necessitarem de ajuda para isso.
A delineação medieval da profissão que será abordada revela uma habilidade do
nativo que é um pano de fundo para a vida inteira. Nem sempre se pode dar vazão a esse
talento; pode haver períodos em que se faça outro tipo de coisa, mas o talento, o mister,
vai sempre buscar uma expressão.
Atualmente, portanto, do ponto de vista moderno, vemos a profissão diferentemente,
mas temos que adotar o ponto de vista medieval que nos dirá qual é exatamente a função
que tem mais relação com a carta do nativo.
Se ele tiver que mudar, se adaptar, isto terá uma explicação; mas geralmente cada
pessoa nasce com um tipo de profissão ou trabalho para o qual tem facilidade, mesmo que
a economia de hoje a force a mudar e buscar outras oportunidades.
Ainda existem aqueles que permanecem no mesmo trabalho por 40 anos, outros
mudam ligeiramente dentro do mesmo campo e outros mudam totalmente, por isso o papel
do astrólogo é mostrar uma lista de habilidades, que é expressão de um ou outro planeta.
Se esses planetas estão em determinados locais na figura natal eles são os significadores
profissionais, mostram o talento que o nativo vai usar na sua profissão, não importa o
título que ele dê. Quando o nativo faz uma mudança radical de um campo para outro é
possível prever, mas essa é uma matéria de predição e não lidaremos com ela agora.
Tratarei agora de abordar a maneira de delinear o tipo de profissão que aparece na
carta natal à maneira medieval que é bem diferente da simplificação que ocorreu a partir
do século XIX na astrologia.
Modernamente basta delinear o regente do MC e verificar se planetas fazem aspecto a
ele para falar da profissão, quando em verdade este é um assunto muito mais complexo.
Delinear o regente da Casa 10 e os planetas que o aspectam é apenas parte de uma das
técnicas, uma segunda escolha. Firmicus diz que a Casa 5 e a Casa 11 podem indicar a
profissão se Vênus estiver nelas, mas outros autores não concordam com ele e têm outra
técnica para descobrir a profissão, a técnica que seguirei daqui em diante.
Bonatti dá atenção principalmente ao signo Ascendente por ser a casa mais importante
da carta, mas também porque pelo Ascendente pode-se perceber se o nativo terá o corpo
correspondente para certo trabalho. Por exemplo, um guerreiro ou um carregador de peso,
deve mostrar um Ascendente de compleição necessária para o exercício de tais tarefas.
Tudo está ligado: o temperamento, a motivação primária, até chegarmos à profissão. A
carta deve ser lida em conjunto para apontar em direção à maneira que o nativo vai se
expressar profissionalmente.
Temos que determinar se a conformação do corpo do nativo é masculina, feminina ou
neutra, se seu temperamento é mental, emotivo, vital, por exemplo, mas não vamos lidar
com esses aspectos aqui, apenas lembrar que eles fornecem indicações importantes.
A Casa 10 dá também indicação da mãe, segundo alguns autores, mas isto não é
intrínseco ao significado da Casa 10 e sim devido à técnica de casas derivadas. Neste
capítulo vamos focalizar especialmente a profissão do nativo, seu trabalho, seus deveres e
sua força e poder para realizar feitos e ações no mundo.
Bonatti nos diz para usar o Ascendente em primeiro lugar: se houver um planeta nele
este deve ser usado como significador da profissão do nativo. Se não houver planetas na
primeira casa, olhar para a Casa 10 e se lá houver um planeta ele deve ser considerado em
relação à profissão do nativo.
Se não encontrarmos planetas na Casa 1 ou na Casa 10, olhamos para a quarta casa e
para a sétima. Planetas na Casa 7 significam que o nativo tem varias pequenas profissões
ou se emprega de vez em quando, e não como algo contínuo. A Casa 4 é considerada mais
forte que a sétima se estivermos procurando o significador profissional.
Portanto se tivermos planetas em ângulos eles podem ser avaliados para a escolha da
profissão do nativo.
Bonatti diz que se não houver planetas nestes quatro ângulos devemos fazer um
almuten desses ângulos e ver se o planeta encontrado tem dignidade na Casa 10 como
senhor do domicílio, da exaltação, triplicidade ou termo.
É importante que estes significadores sejam orientais a partir do Sol e ocidentais em
relação à Lua. Isto os fortalece, mas se tal fato não ocorrer, não impede que um planeta
seja o significador profissional, apenas mostra que é mais fraco.
O próximo passo, caso não se tenha encontrado um planeta até agora é observar a qual
planeta a Lua irá primeiramente se aplicar após a SAN, se a natividade for diurna e, se a
natividade for noturna, o planeta que primeiro vai se unir à POF.
Observe também qual planeta está saindo dos raios do Sol, mas distante dele não mais
do que 20º, especialmente se esse planeta for Marte, Mercúrio ou Vênus.
Observe se este planeta ou qualquer um que estiver nos ângulos faz aspecto com a
Lua.
Esta lista inicial aponta para o fato de que há varias posições que indicam um planeta
como significador profissional e se encontrarmos um planeta com duas dessas condições
ele será o significador profissional.
Revisando o que se deve considerar:
1. Planeta na Casa 1 ou 10 ou em um dos ângulos (use signos completos, de acordo
com Bonatti).
2. Se o planeta é oriental ao Sol e aspectar a Lua tem preferência.
3. Se esse planeta for o primeiro a fazer aspecto com a SAN em natividade diurna
ou à POF em natividade noturna.
4. Se um planeta estiver saindo dos raios do Sol, não mais distante do que 20º.
5. Se um planeta for oriental ao Sol sendo diurno, ou ocidental à Lua sendo noturno.
Se encontrarmos um planeta com uma só dessas condições devemos considerá-lo e
delinear a profissão do nativo a partir dele, especialmente se ele for Mercúrio, Vênus ou
Marte e se tiver alguma dignidade na Casa 10. A dignidade de face ou decanato é muito
fraca e não é usada.
Se for um dos três planetas mencionados e estiver em aspecto com o Sol e a Lua ou,
mais fortemente, se houver recepção intervindo, significa que o nativo vai ter uma
profissão e um trabalho, vai realiza-lo com utilidade e facilidade, rendendo-lhe este
suficientes recursos financeiros.
Se tivermos mais de um significador profissional, vamos preferir o que tiver mais
dignidade no lugar em que está.
Se não encontrarmos nenhum planeta nessas condições e a natividade for diurna deve-
se usar o planeta em aspecto com o Sol e se a natividade for noturna, o planeta em aspecto
com a Lua. Se a Lua não estiver ligada a nenhum planeta o significador vai ser buscado
através dos planetas de quem a Lua se separou mais recentemente ou a partir do senhor do
domicílio em que a POF está ou a partir daquele que estiver melhor disposto.
Se o planeta que resultou de todo este estudo estiver afortunado, em boa condição e
ainda mais se Mercúrio o aspectar de forma amistosa, significa que o nativo será bom em
sua profissão, versado na ciência dos números e trabalhará escrevendo ou em trabalhos
mecânicos, tendo um bom intelecto e progresso em sua vida profissional. Se Saturno
estiver fazendo aspecto agradável ao planeta encontrado e for de boa condição e bem
disposto significa que o nativo pode se beneficiar em terras e plantações e se Saturno
aspecta-lo a partir da décima casa significa que o nativo vai se elevar a grandes regências
e responsabilidades, mas com muito trabalho duro.
Se Júpiter fizer aspecto a esse planeta ou se houver recepção significa que o nativo
será honesto e sábio, ou um escritor, e vai se elevar e conviver com príncipes, reis e
grandes homens.
Se Marte aspectar esse significador ou se for ele mesmo o significador indica que o
nativo é propenso à medicina e cirurgia, mas também à teologia e vai ter uma mente que
vai se aplicar sem dificuldade a essas coisas, vai ser inteligente e engenhoso.
Abu Ali diz1 que se o Sol aspecta-lo e estiver com ele em um signo de forma a não
queima-lo significa que o nativo terá uma grande profissão e subirá a grande altura.
Se Vênus aspecta-lo ou for significador profissional indica que o nativo vai se ligar às
mulheres dos reis e nobres e vai ter poder entre eles a partir delas.
Se Mercúrio testemunhar o significador, o nativo vai ser capaz de conhecimento e
escreverá bem, sendo bom em números e troca de mercadorias.
Se a Lua aspecta-lo significa que o conhecimento do nativo e a fortuna serão
conquistados rapidamente, desde que esta esteja dignificada.
Mas se um dos maléficos aspecta-lo significa trabalho e esforço na profissão. Se for
Marte a aspectar por maus aspectos ou se Marte estiver no Ascendente ou na Casa10 e a
natividade for diurna significa que o nativo vai incorrer em perigo por causa de sua
profissão e ele pode ser preso por causa dela ou pode ser sentenciado.
Se Saturno estiver mal posicionado na Casa1 ou na Casa 10 e a natividade for noturna
significa que o nativo vai ser limitado e aguilhoado ou encarcerado ou enforcado e
torturado.
Na prática os três significadores que levam a profissões são Mercúrio, Marte e Vênus.
Segundo Masha´allah, no Livro de Aristóteles,2 temos que observar o Ascendente,
pois uma pessoa cega vai ficar privada de ter uma profissão. Além disso, devemos prestar
atenção a alguns pontos importantes para deslindar a profissão do nativo:
1. Vênus, Mercúrio e Marte são importantes porque eles regem ofícios.
2. A aplicação da Lua Nova ou Plena antes da natividade a um desses três planetas
deve ser considerada.
3. A orientalidade ou ocidentalidade dos três planetas.
4. A local da Parte do Trabalho.3
5. A natureza dos signos nos quais os três planetas estão.
6. Considerar os ângulos e planetas neles: Ascendente, Casa 10, Casa 7 e Casa 4.
7. Considerar os signos após os ângulos e também o sexto signo, no que Abu Bakr
concorda, ambos baseados em Paulo de Alexandria e Rethorius.
Ptolomeu, Dorotheus e Hephaistio priorizavam a Casa 10, a Casa 4, a Casa 1 e o local
do Lote da Fortuna e verificavam se Mercúrio, Vênus ou Marte estavam em um desses
lugares. Se isso não sucedesse, recomendavam olhar se um dos três estava perto da Lua, se
não do Sol e se ainda assim não encontrassemos nenhum, advertiam a observar a sexta
casa4 e finalmente a segunda5.
Enfim, desde os princípios da astrologia a verificação da profissão do nativo levava
em conta Vênus, Mercúrio e Marte, seus domicílios e termos, se eram orientais ou
ocidentais, se eram aspectados por benéficos ou maléficos e se o Lot do Trabalho e seu
regente se configurava a Vênus, Mercúrio e Marte.
Se Vênus, Mercúrio e Marte não fizessem aspecto nem com o signo Ascendente e nem
com o MC o nativo não teria habilidade ou profissão.
Masha´allah considerava Júpiter e Saturno como significadores profissionais, também.
As maiores glórias seriam advindas do posicionamento nos ângulos e da orientalidade ou
ocidentalidade do planeta.
Os planetas benéficos apontam para sorte e riqueza e os maléficos ameaçam com
pobreza e desgastes.
Já Abu Bakr 6diz aproximadamente o seguinte, que traduzirei livremente; “Os antigos
não admitem o domínio sobre a profissão de outros que não os 3 planetas (Vênus,
Mercúrio e Marte) e com razão, pois Saturno, Júpiter, o Sol e a Lua não significam
profissões sem a parceria7desses planetas.” O Sol por que significa realeza e reis, altas
autoridades que tem escravos e comerciantes abaixo deles, eles mesmos não precisam
cuidar disso. Já Saturno é o mestre da preguiça, da avareza, do peso, da loucura e da
tristeza e por isso se Saturno for peregrino na natividade, sem um bom aspecto dos 3
planetas que significam profissões ou se ele aspectar os três que significam profissões, o
nativo vai sofrer injurias e ser reprovado por causa de sua profissão e ele vai procurar o
descanso não para o seu bem, mas por causa de sua miséria e, se algum planeta ajudar
Saturno por aspecto e poder, o nativo ainda pode trabalhar a terra, encher canais, enterrar
os mortos e mudar de lugar para lugar ou trabalhar em campos e vinícolas como escravo e
miserável ou fazendo comércio disso. Já Júpiter é o senhor da religião e da oração e
portanto se ele for peregrino e desafortunado em uma natividade, sem a ajuda dos outros
que significam profissões, o nativo será libertado das coisas seculares e vai mediar aquelas
coisas que estão entre os homens e Deus e vai deixar o mundo para trás e vai ter uma vida
pobre. A Lua é a senhora da fraqueza, da rapidez, de pouco intelecto e baixa resposta e seu
grande trabalho é ir e vir de cá para lá e se a Lua estiver mal disposta em uma natividade o
nativo vai se mover sem bons frutos, e se ela estiver forte significa carregar bagagem e
coisas pesadas e trabalhar com as mãos. Além disso, indica aqueles que trazem discórdia
entre os outros por fazerem mexericos. Ela significa trabalho com as mãos e os pés e isso
de acordo com a recepção e o aspecto com os outros três planetas.”
Portanto, Júpiter, Sol, Lua e Saturno não são indicadores de profissões em si, cada qual
por uma razão, mas podem dar à profissão do nativo uma característica especial na medida
em que aspectarem o significador profissional e estiverem em bom ou mau estado,
afortunados ou não, ou se houver recepção.
Além disso, se chegarmos a um deles, isto é Saturno, Júpiter, Sol ou Lua através da
tabela de almuten dos ângulos deve-se verificar se Marte, Vênus ou Mercúrio está no
signo do almuten, pois ele será o significador profissional.
Descobrir o significador profissional pode ser uma das tarefas mais difíceis em
astrologia. Podemos nos enganar muitas vezes, pois se o significador, por exemplo, Marte,
que representa os guerreiros, estiver junto a uma estrela da natureza de Mercúrio, o nativo
pode guerrear com palavras. O mesmo se Marte estiver em signo de água e for aspectado
por Mercúrio.
Abu Bakr segue Rethorius e Paulus quando diz para procurar o significador
profissional nos quatro ângulos, nas casas sucedentes e no sexto signo e olhar para os
regentes desses lugares.
Além disso, observar o Lot da Fortuna8 e seu regente, a orientalidade da Lua ou sua
ocidentalidade depois de sete dias do nascimento.9
Ver também se existe um planeta que signifique profissão em seu próprio domicílio o
que fala a respeito de uma excelente profissão. Conforme a qualidade do significador vai
diminuindo a potencialidade da profissão.
Caso se encontre Mercúrio, Marte ou Vênus em seus domicílios e em casas condutoras
de negócios pode-se dizer ao nativo que ele vai ter uma alta profissão; se estiver no
domicílio e termo, ainda maior; se na sua exaltação será famoso e renomado em sua
profissão; se estiver retrógrado subtrai-se metade de sua benesse; se retrógrado e peregrino
retira-se ¾, se estiver também combusto, subtraia toda profissão porque o nativo não vai
obter nada dela.
O trabalho do nativo será de acordo com a natureza do signo em que está o
significador profissional e de acordo com o signo que esse significador rege. Se ele não
tiver dignidade no signo em que está junte a esse significador a natureza do planeta que o
rege.
Então, se o significador for afortunado no domicílio de Júpiter significa alta profissão,
se no domicílio de Saturno, sem ser aspectado por uma fortuna, significa ser miserável; se
estiver afortunado no domicílio de Marte a profissão vai ser exercida com energia e
talento, alegria e contentamento; se estiver afortunado no domicílio do Sol significa
príncipes e honra, se no domicílio da Lua, mostra uma profissão que vai ser realizada com
sua própria inteligência e habilidade. Se o significador da profissão estiver afortunado no
Ascendente ou nos 5 graus anteriores à cúspide o nativo será afortunado na profissão e
juntará fortuna. Se o significador estiver afortunado10 na segunda casa seu trabalho será
elevado. Se estiver na Casa 12, porém, mesmo afortunado por signo, preocupações e
malícia estarão presentes.
Se o significador for desafortunado e estiver em lugar forte o nativo terá desprazer no
seu trabalho de acordo com a quantidade de força desse planeta e de acordo com a
bondade ou malícia do local em que estiver. Se tal significador estiver em sua depressão
isso dará ao nativo muito trabalho e pouca riqueza, a menos que seja disposto por um
planeta em boa condição. Se ele tiver alguma dignidade nesse lugar a profissão é mediana.
Se tal significador estiver em sua depressão ou peregrino o nativo não dará atenção a seu
trabalho.
Com as fortunas aspectando o significador profissional a carreira é estimada e o nativo
vai persistir nela. Mas se as infortunas, especialmente Saturno, o aspectarem isso dará ao
nativo uma profissão com dores e sérios trabalhos, e o nativo vai terminar por deixa-la
para trás. Se Marte aspectar o significador profissional pode trazer infâmia, mas também
uma grande mente. No entanto, se Marte estiver desafortunado a profissão é pouco útil e o
nativo acabará por abandona-la.
Como dissemos anteriormente, além de olhar o Ascendente para ver se o nativo tem
condições para determinado trabalho, é importante observar a terceira casa ou a nona para
saber se houve uma quebra na educação do nativo, isto é se sua educação foi levada a
termo, caso em que se espera uma dimensão profissional maior. De fato, se Marte for, por
exemplo, o significador profissional, pode resultar em um engenheiro ou em um operário
de construções dependendo da qualidade da Casa 3 e da Casa 9. Além disso, depende da
eminência da carta.
Resumindo: se o significador não foi encontrado nos ângulos, especialmente no
Ascendente, observa-se se há um planeta no mesmo signo do Sol desde que não esteja
combusto ou sob os raios. Numa natividade noturna observa-se o planeta ao qual a Lua se
aplica imediatamente depois da conjunção ou prevenção antes do nascimento (SAN).
Também nota-se um planeta no mesmo signo que a Lua, quando ela se separou dele ou vai
se aplicar a ele, tanto faz. Esse planeta pode ser o significador profissional. Em
natividades diurnas nota-se um planeta no mesmo signo que o Sol, não combusto.
Em natividades noturnas observe o planeta que aspecte a POF por conjunção ou
aspecto, especialmente se for um dos três significadores de profissões.
Às vezes temos um planeta só como significador, mas podem-se ter dois ou três. Nesse
caso, deve-se fazer uma hierarquia entre eles, para ver qual tem mais dignidades. Sempre
se deve dar preferência aos planetas que tenham honra nos ângulos, especialmente na Casa
10 e na Casa 1.
Como segundo passo deve-se observar qual planeta está aspectando esse significador,
pois o planeta contribui com sua própria natureza.
Por exemplo, se o significador for Mercúrio e ele estiver ligado a Marte isso pode
fazer um médico ou cirurgião, mas depende da estatura da natividade e do signo onde
estão ambos, assim como da condição mundana e essencial dos dois planetas.
A contribuição dos signos é a ultima coisa a ser tratada: segundo Bonatti, os signos
humanos ajudam o nativo na aquisição de todas as profissões, os de quatro patas levam a
pessoa a ser um comerciante de metais, um vendedor, ficar envolvido com a construção e
negócios que usam cargas, tratores, etc. Os signos equinociais e solsticiais conduzem a
varias interpretações da geometria. Os signos aquáticos relacionam-se a pescadores,
marinheiros e coletores de sal. Touro, Capricórnio e Câncer, segundo Ptolomeu, são
associados à adivinhação de vários tipos. Se um maléfico aflige o significador profissional
ele acarreta destruição ou pelo menos adversidade para o nativo. Se os dois maléficos
afligirem o significador profissional ou estiverem mais elevados que ele, isso traz severa
dificuldade na profissão. O ideal é que o significador profissional não seja aspectado por
maléficos.
Já se os benéficos o aspectarem o nativo vai gozar de uma existência abençoada no
que diz respeito à profissão.
Somos capazes de dizer se o nativo terá ou não uma profissão pela interferência dos
maléficos sobre o significador profissional.
Saiba-se que Marte é o significador profissional dos guerreiros, que nos tempos de paz
eram construtores e que atualmente relacionam-se aos engenheiros e equivalentes.
Mercúrio é relacionado às profissões que usam a escrita e o número, os escribas,
podendo ser advogados, professores de língua, escritores, tradutores, etc.
Vênus relaciona-se aos artesãos, os que trabalham com as mãos, tais como bordado,
costura, desenho, pintura, beleza, etc
Há algumas profissões que se relacionam diretamente com o corpo: manequim,
boxeador, atleta, e neste caso a Parte da Fortuna ou seu regente tem grande ênfase, pois a
Parte da Fortuna é relacionada ao corpo, sendo o Ascendente lunar. Estes são casos em
que podemos não encontrar bons testemunhos das casas três e nove, pois não é necessária
uma aprendizagem convencional em colégios ou universidades, mas uma Parte da Fortuna
relacionada a tópicos ou planetas que tenham relação com tais profissões que usam o
físico do nativo.
Alguns exemplos serão trazidos para mostrar a técnica. Vamos no referir à figura
seguinte:
Figura 42
Acima, vemos uma carta em que nenhum planeta que conduz à profissão está angular.
A Lua está combusta e o único planeta distante do Sol sem estar combusto é Marte, mas
ele não está em casa condutora de negócios. Marte está na Casa 12 opondo-se a Saturno.
Mercúrio também está na Casa 12 por signos completos.11
Vênus está na Casa 2 em exaltação e ela tem dignidade de regência na Casa 4 e de
triplicidade na Casa 10, embora ali também ela tenha seu detrimento.
A carta é diurna, mas a Lua não se aplica a nenhum planeta profissional depois da
SAN.
A nativa não exerceu profissão alguma durante sua vida, mas quando necessitou de
recursos financeiros apelou para a revenda de moda feminina em sua residência (Vênus é
regente da Casa 4, o lar e rege acessórios femininos). Tal atividade durou pouco tempo e
não trouxe lucro.
Vamos agora nos referir à figura 43.
Figura 43
Já vimos esta carta anteriormente.
Refere-se ao ocultista americano e fundador da escola de ocultismo, os Construtores
da Adytum (BOTA). Case foi autor de vários livros, como “O Livro de Tokens” e outro
sobre a ordem rosacruciana. Foi muito bem sucedido, particularmente por um curso de
correspondência sobre Tarô. Sua mãe era professora, o pai era chefe bibliotecário da
biblioteca da cidade.
Case literalmente nasceu na biblioteca, e tinha insaciável sede de conhecimento.
Aprendeu a ler muito pequeno e exibiu talento musical excepcional. Ele começou a treinar
piano e órgão quando tinha três anos. Mais tarde foi organista de igreja, quando tinha nove
anos. Aos sete anos ele começou a se corresponder com Rudyard Kipling sobre o suas
experiências em quarta dimensão. Kipling verificou que estes eram estados reais, e logo
descobriu que ele era capaz de manipular conscientemente os seus sonhos. Foi em um
evento beneficente que Case conheceu o ocultista Claude Bragdon. Uma questão de
Bragdon sobre as origens do jogo de cartas estimulou Case em sua busca para descobrir
origens e aplicações do Tarô.
Ele passou anos fazendo uma extensa pesquisa e estudo sobre meditação e as imagens
arquetípicas dos Arcanos Maiores. Ele descreveu sua absorção nesta tarefa como sendo
«guiada» por uma voz interior e suas descobertas sobre o Tarô foram publicados antes de
ele completar 21 anos. Seu trabalho extenso e profundo permitiu que fosse convidado a
ingressar na ordem Golden Dawn. Era considerado um experiente ocultista e deu
ensinamentos sobre magia sexual. Suas ideias provocaram seu afastamento: “Fui guiado a
ser removido do lugar alto ao qual eu nunca verdadeiramente aspirei. O alivio é grande”.
Logo depois ele formou uma escola ocultista própria, a Escola de Sabedoria Eterna,
que falhou anos depois. Abandonando seus esforços artísticos e sua carreira como músico,
ele então se mudou para Los Angeles. Case foi iniciado na Maçonaria em 1926.
Observamos que este nativo de alta inteligência tinha Mercúrio domiciliado e exaltado
no décimo signo, o que nos fala de uma carreira como escriba. Mas, como chegar a
identifica-lo como ocultista e alguém ligado à arte com quando desenhou as figuras de
tarô? Vemos que o Ascendente é Sagitário, e que Júpiter encontra-se na Casa 9 em
conjunção com Vênus, daí a influência jupiteriana sobre os escritos do nativo. Júpiter está
em Leão, em sua triplicidade e em conjunção a Vênus. Vênus não lhe poderia dar uma
profissão visto estar cadente. Júpiter não é um planeta a dar profissões, mas é o regente do
domicílio da Lua, que está angular em signo onde Vênus se exalta, nomeadamente em
Peixes. Daí que Vênus proporcionou a dimensão artística, o desenho e a música, inclusive
religiosa, como convêm à Vênus/Júpiter na nona casa. Saturno faz aspecto com Mercúrio:
uma quadratura, mas Mercúrio recebe Saturno por domicílio.
Saturno está forte por casa e é senhor da triplicidade e do termo em Gêmeos. Rege, por
sua vez, a Casa 11 por exaltação, o suporte profissional, a Casa 2 e Casa 3. Júpiter e Vênus
estão em sextil com Saturno, o que nos diz que houve chance de longos estudos em
matérias ligadas à sabedoria e à arte, inclusive a música.
Portanto, a presente carta fala de uma natividade afortunada sob o ponto de vista
profissional. Mas a quadratura de Mercúrio/Saturno e Saturno/ Lua cobrou seu preço,
trazendo a queda de lugares altos por motivos de Casa 712. Observa-se que planetas,
especialmente Júpiter, regente do Ascendente, na Casa 9 falam de religião, mas neste caso
não podemos imaginar uma religião onde o nativo se submetesse a códigos ditados
externamente. Deve-se recordar que a motivação primária em fogo quer liderar e impor
seu “eu” ao mundo.
Como o faz? Através da religião, mas desde que tome a frente, pois a liderança e a
assertividade é a marca dos signos de fogo.

1. Em “Persian Nativities”, traduzido por Benjamin Dykes, Vol. I, página 56.

2. idem nota 1.

3. Também chamada Parte do Reinado é construída de Mercúrio até Marte de dia e o resultado somado ao Ascendente
(ASC+Marte-Mercúrio) e de Marte até Mercúrio em natividades noturnas e o resultado somado ao Ascendente
(ASC+Mercúrio-Marte).
4. Como foi comentado anteriormente, Robert Zoller acredita que a sexta casa atualmente representa certas
habilidades do nativo, outrora realizadas pelos escravos.
5. Hephaistio of Thebes: Apotelesmatics, 2.19, tradução Robert Schmidt, Tetrabiblos, livro lV item 3, tradução Robert
Schmidt, ambos editados por Robert Hand, The Golden Hind Press; Rhetorius The Egyptian, tradução J. Holden, cap.
82-83, Carmen Astrologicum, tradução, James Pingree, fragmento 2C.
6. “Persian Nativities”, traduzido por Benjamin Dykes, vol.II, pag. 295
7. O negrito é meu.

8. O Lote da Fortuna é usado não apenas por ser um potencial significador financeiro, mas ele também dá indicações
do trabalho que o nativo faz não por inclinação de alma, mas apenas para ganhar o pão da sobrevivência.
9. Novamente a misteriosa doutrina dos dias da Lua, agora usando o sétimo dia. De maneira geral a orientalidade de
um planeta é considerada mais util do que sua ocidentalidade, mas não sei se em relação à Lua o mesmo prevalece.
10. Isto é se seu dispositor estiver na Casa 2. Daqui para frente estamos falando sempre no dispositor do significador
profissional, Mercúrio, Vênus ou Marte.
11. Usa-se para esta técnica signos completos.

12. Vimos, quando estudamos as parcerias que Lua e Vênus são relacionadas ao casamento masculino.
CAPÍTULO 18
A CASA 11 – O SUPORTE, AS
ESPERANÇAS E OS AMIGOS

C
onsiderada afortunada, nesta casa Júpiter tem seu jubilo. É uma casa que aponta
para filhos, provavelmente porque Júpiter, relacionado a ela, é um planeta
frutífero. A Casa 11 segue-se à Casa 10 segundo a ordem de direção zodiacal e
sob o ponto de vista da rotação da terra, isto é do movimento primário, ela se eleva em
direção ao pico, portanto ela representa tudo que almejamos como realização, o futuro.
Por ser uma casa sucedente serve de suporte à anterior e representa os amigos que
apoiam o nativo em sua posição, os partidos que apoiam o presidente ou aquilo que traz
sustentação à praksis isto é à ação do nativo.
O rei, o juiz, o presidente são representados por esta casa, assim como a profissão do
nativo.
É uma casa positiva em si, ainda mais se seu regente for de boa condição e estiver
cardinal ou sucedente, testemunhado por bons planetas. A literatura astrológica fala pouco
das chamadas “ esperanças” representadas pela Casa 11 e alguns autores mais antigos
simplesmente não citam esse sentido como pertencente à casa. Mas as esperanças tem
relação com o futuro e o futuro de nossa praksis depende em grande parte do apoio
recebido, seja de correligionários e partidos, seja de pessoas que acreditam que nossos atos
são úteis e válidos.
Qualquer ato, especialmente ligado a nosso mister, à profissão, pressupõe que teve a
intenção e a expectativa de sucesso como motivação. Portanto, nossas esperanças cabem
perfeitamente no sentido da Casa 11, como aquela parte do céu que se tornará a Casa
10.Ninguém inicia uma empresa se não acreditar que dará certo, sem estar otimista.
Portanto é perfeitamente válido dizer que, dependendo do regente desta casa, de como se
configura por signo, casa e aspectos, será julgado se nosso otimismo (esperanças)
procedem ou são fadadas ao insucesso. Grande parte de nosso sucesso depende de nossa
formação, a base, isto é da Casa 9, outro tanto de nossas habilidades e talentos inatos e
outra parte ainda depende do suporte recebido. Desta forma, temos que avaliar também se
o nativo terá amigos, que tipo de amigos e se o apoiarão.
Interessantemente, mesmo que Júpiter tenha seu jubilo nesta casa, para saber dos
amigos do nativo e da amizade em geral Vênus é que deve ser investigada, uma vez que
Vênus tem um caráter muito mais pessoal do que Júpiter.
AS ESPERANÇAS
Primeiramente, para saber das esperanças, utilizaremos o chamado Lot da Vitória: tal
lote é construído em natividades diurnas pela distância entre Júpiter e a Parte do Espírito e
o resultado é somado ao Ascendente. Inverte-se para natividades noturnas. Assim,
aritmeticamente temos para nascimentos diurnos: Ascendente+ Júpiter – Espírito e para
nascimentos noturnos: Ascendente+ Espírito - Júpiter. Este lote utiliza a Parte do Espírito
e é um dos sete lotes herméticos: ele é justamente o lote de Júpiter. Todos os lotes que
utilizam a Parte do Espírito partem do pressuposto “ação” por parte do nativo. Já os que
utilizam a Parte da Fortuna, como a Fortuna é algo que nos acontece e que não
controlamos, tem como pressuposto que o nativo nada fez para que lhe sucedesse
determinado evento afortunado ou desafortunado.
Por exemplo, na seguinte natividade:

Figura 44
Embora o Lot da Vitória seja regido por Saturno que sequer o aspecta, a Lua, regente
da Casa 10 e de Saturno, aspecta a parte e, se considerarmos a orbe da Lua como sendo de
12º ela ainda envia a Saturno sua luz, ou pelo conceito helenístico seu testemunho.
Através da Lua e de sua regência sobre a posição de Saturno ele tem notícias da Parte da
Vitória, assim como da Parte da Fortuna, pois as duas estão juntas.
A nativa é confiante e esperançosa, pois a Parte faz aspecto com Júpiter no
Ascendente.
No entanto, como recebe notícias de seu regente Saturno através da Lua, contrabalança
a esperança com certo pessimismo, e o resultado é um balanceamento das duas qualidades.
AS AMIZADES
Falarei agora sobre o item das amizades, outro assunto importante da Casa 11. Em
Hephaistio1 lemos à página 71 “ Sobre as disposições de amizade ou seu oposto: umas são
ótimas e duradouras, simpatias, inimizades, amizades ocasionais, abruptamente
interrompidas.”
Para saber sobre as amizades ele adverte a estudar os locais de mais autoridade,
fazendo uma sinastria entre o nativo e quem quer que seja que se apresente como amigo,
inimigo ou apenas conhecido. Ptolomeu em seu Tetrabiblos apresenta a mesma ideia.
Nesta sinastria averigua-se o local do signo ascendente e o local do Lot da Fortuna. Se
tais pontos nas duas natividades caírem juntos há grandes e duradouras amizades. Se
fizerem oposições, grandes inimizades são esperadas. Se fizerem trigono ainda há
amizade, mas não tão grande como se as partes estivessem juntas. E se fizerem quadratura
as inimizades são grandes, mas menores que na oposição.
Ptolomeu, Hephaistio e Bonatti descrevem três tipos de amizade e inimizade. Há o tipo
baseado no amor ou desamor, o baseado na necessidade e o baseado no prazer e dor.
Quando os luminares de duas pessoas estão em locais similares a amizade é por
preferência mutua. Quando é a Parte da Fortuna, a amizade se baseia no proveito de
ambos e quando é o Ascendente os dois se unem pelo prazer ou dor. O contrário ocorre
quando há inimizade.
Além disso, temos que observar se estas configurações recebem testemunhos de
benéficos ou maléficos para ter uma ideia clara do que se passa.
Os planetas presentes na Casa 11 são muito importantes e inclinam a natividade em
direção ao significado universal deles, tanto positivos, se estiverem em sua própria seita e
domiciliados, quanto negativos se estiverem fora de sua seita, em sua depressão ou
detrimento, ainda mais se forem maléficos.
Dorotheus recomenda olhar os senhores da triplicidade da Casa 11, para averiguar a
situação dos amigos e o sucesso da Casa 11. Tal tradição foi seguida pelos autores
medievais.
De maneira geral, segundo as palavras de Abu Ali Al Khayat 2- “ Decidimos a
condição dos amigos pela 11ª casa e seu regente, pelos planetas presentes nela, a partir
de Vênus e a partir da Parte dos Amigos3. Se a maioria deles forem fortunas significa que
o nativo terá muitos amigos e companheiros, especialmente se houver aplicação entre o
regente da Casa 11 e o regente do Ascendente. E se encontrarmos fortunas na Casa 11 ou
fazendo quadratura ou oposição a ela significa que o nativo terá muitos amigos e
associados e eles serão afortunados. E se encontrar planetas maléficos nela ou em
quadratura ou oposição a ela significa poucos amigos e associados e que seus bens são
escassos”
Na seguinte carta temos um exemplo de uma nativa que possui grande quantidade de
amigos.
Figura 45 A
Bonatti adverte que se faça um almuten dos seguintes pontos:
1. Cúspide da Casa 11
2. Regente da Casa 11
3. Planetas na casa 11
4. Parte dos Amigos
5. Vênus
6. Regente de Vênus
7. O luminar da seita
8. O regente do luminar da seita
Figura 45 B
Continuo não usando termo e face para Partes. No caso, considerei a cúspide da Casa
11 como signos completos, não computando termo e face, por motivos relacionados à
divisão de casas, conforme expus em outros capítulos. Vale observar que no presente caso
foi usado o método de divisão de casas de Placidus, mas, se usarmos Alchabitius, a
cúspide da Casa 11, usada para calculat o almuten iria para Capricórnio e não Aquário, o
que redundaria em uma pesagem totalmente diferente, visto que Capricórnio tem regentes
de triplicidade diferentes daqueles de Aquário. Mas, fica à escolha do astrólogo a
deliberação deste assunto.
Como se pode observar o regente da Casa 11, Saturno está conjunto à Parte dos
Amigos e, uma vez que Saturno está angular, ele tem poder de ação. A Parte dos Amigos e
Saturno fazem sextil com o Sol, regente de exaltação do Ascendente. Saturno, regente da
Casa 11, também recebe o trigono de Júpiter domiciliado, porém retrógrado e em casa não
proveitosa. No entanto, Júpiter recebe Saturno po exaltação.
Por estar Saturno e a Parte em signo fértil e aspectar um planeta como Júpiter em
signo fértil também, sendo a configuração em signos femininos, diremos que os amigos da
nativa são abundantes e predominantemente do sexo feminino.
Os regentes da triplicidade da Casa 11 para uma natividade noturna são Mercúrio,
Saturno e Júpiter. Mercúrio está angular e em sua triplicidade, Saturno está em detrimento
e angular conjunto à Parte dos Amigos e Júpiter está domiciliado, embora cadente e
retrógrado.
A condição essencial de Saturno é pobre e a condição de Júpiter deixa a desejar, mas
Mercúrio está hígido. O resultado disso é que a nativa tem poucas amigas com boa
condição socioeconômica e a maioria é de pessoas que carregam problemas de uma
espécie ou de outra.
Mesmo assim, as amizades são de grande valia especialmente sob o ponto de vista
profissional: geralmente indicam à nativa bons empregos. De fato, Saturno, conjunto à
Parte, rege a Casa 10 e a Casa 11. No entanto, os empregos da nativa, embora inicialmente
bons, não perduram e mostram-se cheios de problemas, pois Saturno é de má qualidade.
Ocorre também de alguns chefes se tornarem amigos, isto é passarem para a Casa 11
ou Casa7, parceiros de sociedade, ou de alguns amigos se tornarem chefes ( Mercúrio é o
primeiro regente da triplicidade da Casa 11, está em signo masculino e angular, mas nasce
depois do Sol, e neste ponto é feminino).4
A tabela acima mostra que é forte a presença de Mercúrio como o planeta com mais
dignidades nos assuntos referentes à Casa 11 e, estando ele angular, vemos que as
amizades são assunto importante na vida da nativa e que dizem respeito a ela diretamente.
Estando Mercúrio angular e em sua triplicidade eleva o tópico referente a amizades.
A delineação astrológica é mais baseada em configurações do que em números frios,
mas tal quantificação funcionou como um suporte interessante.
Afinal, é importante citar a diferenciação que Bonatti faz, baseado em Ptolomeu, assim
como Hephaistio o fez, entre os tipos de amizade, conforme já foi citado. Elas podem ser
de três tipos: por causa da harmonia espiritual entre dois nativos, por causa do proveito de
ambos ou por terem eles em comum prazeres e dores.
O primeiro tipo ocorre quando o Sol e a Lua estão na posição da Lua ou do Sol do
outro, ou quando os luminares estão em trigono ou sextil, e mais fortemente se houver
recepção. Neste caso a amizade é durável e profunda.
No caso de proveito mutuo a Parte da Fortuna está em conjunção com a do outro ou
em sua triplicidade, ou ambas estão em trigono ou sextil. Cada um faz dinheiro com o
outro, como os mercadores, ou quando há troca de favores. Este tipo de amizade termina
quando termina o interesse.
O terceiro tipo ocorre quando o Ascendente de um está conjunto ao do outro, ou em
aspecto harmonioso com o do outro e os benéficos aspectam o signo da natividade de cada
um, estando os maléficos completamente inconjuntos.
Bonatti diz também que se o almutem da natividade de cada um aspectar o do outro
por aspectos harmoniosos ambos serão amigos.
1. Hephaistio of Thebes, “Apotelesmatics Book lll” traduzido por Robert Schmidt, editora The Golden Hind Press.

2. Abu´ Ali Al- Khayat: The Judgements of Nativities, James H. Holden, AFA

3. Dorotheus, Abu Mashar, Al Biruni e Bonatti usam a seguinte formula: Asc.+Mercúrio –Lua.

4. Mercúrio é duplo, esteja onde estiver.


CAPÍTULO 19
A CASA 12, OS INIMIGOS OCULTOS E
RESTRIÇÕES DE TODA ESPÉCIE

A
Casa 12 é também chamada do Mau Espírito. Significa tudo que se relaciona a
inimigos, dificuldades, limitações, constrições, tristeza, inimigos ocultos, e
diziam, os grandes animais. Além disso, pode indicar o que ocorre antes da hora
do parto, tanto para a mãe como para o nascituro, pois este signo se eleva a Leste antes da
expulsão do feto.
Os autores nos dizem que para saber desses assuntos devemos observar a Casa 12 e
seu regente, a Parte dos Inimigos1, seu regente, os planetas presentes na Casa 12 e também
Saturno, significador universal das limitações e tristezas.
Se houver aspectos entre o Ascendente e um desses significadores ou entre o almuten
do Ascendente e o almuten resultante da observação acima, o nativo lidará com inimigos
ocultos. Tanto pior será se o aspecto for desarmonioso ou se ocorrer entre maléficos ou se
o maléfico estiver mais forte por posição que os benéficos e, ainda pior, se o maléfico tiver
força acidental, mas não tiver boa condição essencial. Isto significa que os inimigos
ocultos são maus e triunfarão sobre o nativo.
Se o oposto ocorrer, isto é se o representante do Ascendente for mais forte que os
planetas significadores de assuntos da Casa 12, o nativo triunfará sobre seus inimigos e os
verá destruídos.
A Casa 12 funciona na escuridão: pouco se fala dela e aparentemente ela tem pouca
atividade. Mesmo os benéficos nela não fazem bem para o nativo, a menos que o regente
do Ascendente, seu almuten ou a Parte da Fortuna façam aspecto com esse benéfico.
A Casa 12 é o local onde Saturno tem seu jubilo. Isto significa que sua disposição
natural é relacionada aos assuntos de Casa 12. Robert Zoller diz que o jubilo de Saturno na
Casa 12 significa que a legria dele não é a alegria do nativo.
Mas se tal planeta ou o almuten da Casa 12 fizer aspecto com algum planeta bem
colocado e houver recepção o mal é neutralizado.
A Casa 12 em si é maléfica porque não aspecta o Ascendente, isto é o Ascendente não
vê o que se passa nela. Daí seus inimigos lhe serem ocultos. Além disso, é uma casa
cadente, o que mostra que o tipo de assunto que lá se passa acontece sem que o nativo
tome parte diretamente como causador dos acontecimentos. Ela não serve de suporte a
nenhuma casa angular, tal como ocorre com a Casa 2 e 8, que são produtivas por ser serem
sucedentes. As casas 6 e 12 são improdutivas e maléficas, sendo a Casa 12 a pior das duas
pois a Casa 6 aspecta a Casa 10.
Os acidentes de Casa 12 não revolvem em torno do nativo e não são visíveis para ele.
É um ponto cego em sua vida.
As doenças crônicas que levam a hospitalizações constantes e restringem a vida,
ocorrem quando há ênfase nesta casa ou se Saturno estiver na Casa 6 ou 12 em má
situação e às vezes também com dignidade essencial.
Bonatti diz que quando Saturno aparece na Casa 12 os inimigos ocultos se vestem de
negro, são da Igreja ou judeus.
Diz ele também que se o Sol estiver na Casa 12 e seu almuten dignificado em um
ângulo o nativo será perseguido por reis e nobres.
Se for Marte, será perseguido por homens belicosos, do mal, que falam coisas nefastas
e se comprazem na guerra.
Se Mercúrio estiver nesta casa terá como inimigos ocultos literatos, jovens, escritores
ou algo parecido.
Mesmo os benéficos, segundo Bonatti, parecem não trazer boa fortuna quando na Casa
12. Diz ele que se Júpiter estiver nesta casa o mal virá do clero ou de pessoa com
conhecimentos e se Vênus aí estiver o mal virá de homens efeminados ou mulheres.
Vênus nesta casa pode significar amores clandestinos.
No entanto, deve-se observar se os planetas estão configurados angulares com a Parte
da Fortuna ou com a décima primeira casa a partir da Fortuna que é o local da aquisição.
Se assim for, os planetas funcionam como benéficos, e existem muitos casos a provar isto,
tais como, por exemplo, Ian Scott Anderson e Robert J. Abel.2 Ambos tinham Saturno em
conjunção ao Sol na Casa 12.
Portanto, é preciso investigar cada carta a fundo: não existem livros de receita em
matéria de astrologia.
Veremos dois exemplos:
Figura 46 A
Elaborei em forma de tabela os pontos acima a serem valorizados no que diz respeito a
inimigos ocultos:

Figura 46 B
No caso acima vemos que a Parte dos Inimigos aparece no Ascendente, em conjunção
praticamente exata: mas a presença de Júpiter, ainda que retrógrado, ameniza a malícia do
aspecto.
Mercúrio é o planeta com mais força negativa para a significação dos inimigos
ocultos, como se vê na tabela que construí com as regras fornecidas pelos autores
tradicionais.
Mercúrio está combusto e retrógrado, no signo de Marte (que está mal essencialmente,
mas com força acidental), tende à cadência, mas por signos inteiros está angular.
O que podemos dizer dos inimigos ocultos nesta natividade? São eles perigosos paras
o nativo? Em primeiro lugar, um planeta combusto como Mercúrio conduz seus assuntos
por trás dos bastidores. Temos uma casa oculta, a doze, e inimigos ocultos também em
posição oculta para fazer o mal à nativa. Mercúrio é o significador universal de idéias e
comunicação, o que sugere que os inimigos ocultos sejam partidários de idéias filosóficas
(Mercúrio rege a Casa 9) diferentes das do nativo. Nesta linha também a Parte dos
Inimigos junto a Júpiter e ao Ascendente indicam situações semelhantes. Os desgastes
causados por assuntos de Casa 12 refletem-se no corpo físico da nativa, mas inimigos
ocultos não podem fazer grande mal à nativa, pois Júpiter no Ascendente é um escudo
protetor pelo menos no que diz respeito ao corpo.
Tais inimigos são pessoas de posição inferior à nativa, pois Mercúrio é peregrino e
cadente. Como ocupa a Casa 6 por divisão, podem tais inimigos ter ligação com
empregados e, desde que o regente de Mercúrio, Marte, está no signo de Câncer,
especialmente empregados domésticos ou da família.
De fato, a nativa teve, (em meio a ótimos empregados regidos pelo Sol e outros cuja
malícia foi mitigada por Vênus conjunta a Mercúrio), outros que furtaram seus bens
durante anos sem que ela percebesse de onde vinha o dano.
Uma vez que Marte, regente de Mercúrio, está angular e rege a Casa 7, o mal causado
por trás dos bastidores termina por chegar ao conhecimento da nativa como oposição
declarada. Portanto, os inimigos ocultos tornam-se visíveis com o tempo (é interessante
lembrar que o resultado de um planeta depende de seu dispositor) e a nativa tem condições
de enfrenta-los às claras.
Veremos agora um caso histórico. Trata-se de uma rainha que foi envenenada
provavelmente por alguém do clero.
Figura 47
Marguerite I foi considerada uma precursora da Renascença. Escritora e literata,
deixou uma obra controversa por mostrar os hábitos da corte sem censura, misturados à
religiosidade.
Quase foi presa na juventude como bruxa, mas as acusações foram retiradas. Figura
muito influente em sua época, teve seu final de vida envolto em mistério. Praticamente
exilada, ela colaborou para este mistério. De seu “ retiro” queimou inúmeras cartas que
recebia. Nas que enviava, revelava seu estado de crescente intoxicação. Foi sendo
envenenada aos poucos, provavelmente pelo bispado da região onde se refugiara quando a
questão religiosa tornou-se critica.3
Encontramos em sua natividade a Parte do Inimigos a 12º57’ do signo de Áries na
Casa 2 por divisão e na Casa 3 por signos inteiros. Seu regente é Marte, que está no
mesmo signo, portanto ela tinha conhecimento do que se passava, visto Marte fazer
aspecto com o Ascendente. Marte em Áries enfrenta a adversidade corajosamente e não se
protege. A terceira casa é relacionada com o que se escreve e fala e a rainha escrevia de
forma a causar desconforto na sociedade religiosa da época.
A oitava casa é regida por Mercúrio, o que confirma a suposição de morte por motivos
mercuriais.
O regente da Casa 12 está dignificado, mas manifesta-se no Ascendente. A rainha
conseguiu escapar de seus perseguidores uma vez, mas no final acabou sendo isolada e
assassinada, uma vez que Marte é também o regente de exaltação da casa 12 e senhor da
Casa 9, os religiosos. Saturno rege a Casa 12 e faz uma ligação entre a vida, o Ascendente,
e os inimigos ocultos vestidos de negro, como os clérigos da época.

1. Pars inimicorum: Asc.+Marte- Saturno, não se inverte. Tal parte é igual ao Lot da Acusação, mas este último é
invertido em natividade noturna.
2. Acesse pela internet http://www.astro.com/astro-databank/Main_Page para ver a história e tema dessas duas pessoas
com importantes planetas na Casa 12, ambos apresentando configuração com a Parte da Fortuna.
3. “Marguerite de Navarre (1492-1549): Mãe do Renascimento”,by Patricia Francis Cholakian por Patricia Francis
Cholakian
CAPÍTULO 20
FAMA E EMINÊNCIA NA CARTA

V
ettius Valens ensina a iniciar a delineação de qualquer natividade pela análise da
eminência. O motivo é que o astrólogo dará um peso maior ou menor a cada
elemento de delineação dependendo de descobrir se o nativo pertence a uma
posição mais ou menos elevada na sociedade.
Um pobre pescador que depende do mar para seu alimento de cada dia, ou, ao invés
disso, o dono de uma companhia de navios tem em comum o fato de trabalharem com
assuntos ligados ao oceano e à agua, mas o peso e a estatura da natividade são totalmente
diferentes.
Nem sempre basta averiguar a Casa 3 e a Casa 9 em busca de quem teve melhor
instrução, pois existem casos em que pessoas incultas ocupam importantes papéis na
sociedade. O professor de literatura da escola pode ter uma excelente Casa 3, tão boa
quanto a do dono da escola, mas a posição de ambos é diferente. Tudo isso depende da
correta avaliação da eminência da natividade.
Também dizia Valens que em natividades de alta posição os maléficos eram cadentes e
os benéficos angulares, como no caso dos tiranos, quando a maldade era direcionada ao
povo e não à figura do nativo.
Não acredito que maléficos cadentes possam deixar de fazer mal ao nativo. As casas
cadentes não ocupam o epicentro da vida ou da consciência, mas possuir Saturno ou Marte
em casas inconjuntas ao Ascendente não faz nenhum bem, uma vez que as coisas
desafortunadas ocorrem sem que o nativo se aperceba e quando os problemas irrompem
pode ser tarde demais.
No entanto, julgar a eminência da carta é primordial para que o astrólogo se situe e
saiba de antemão a que nível deve avaliar cada tópico.
A questão da eminência e fama é praticamente algo à parte da delineação das casas e
deve ser julgado colocando-se uma espécie de óculos para que se enxergue a ela e só a ela.
Para ver o que pode levar um nativo à eminência ou à decadência social e mesmo à
escravidão temos que seguir um protocolo de investigação.
Muitas cartas de personalidades eminentes mostram sinais de infortunio, mas temos
que observar qual o predomínio dos bons e maus aspectos, em que área ocorrem os
problemas e se inviabilizam a eminência da carta.
São raras as cartas que não mostram algum aspecto negativo, mesmo em pessoas
eminentes.
Devemos ter em mente ao julgar a eminência que ela e a fama nem sempre vem juntas
e que nenhuma delas é garantia de felicidade pessoal.
Frequentemente as cartas eminentes mostram pessoas muito abastadas e que se tornam
alvo da midia por causa disso ou vice-versa. No entanto, não estamos investigando o bem-
estar pessoal ou o que chamamos felicidade, tópico que é bastante complexo e assunto do
próximo capítulo.
Deve-se também observar que artistas famosos, como, por exemplo, os artistas de
cinema, podem ter algum sinal de eminência, mas a eminência tratada pelos autores
antigos era a capacidade de influenciar a massa não com algum modismo passageiro, mas
realmente influir no destino de pelo menos uma parte da sociedade, como ocorre com
alguns líderes políticos, científicos, religiosos, alguns artistas e atletas que marcaram
gerações, etc.
Há vários detalhes e técnicas que devem ser usados para julgar eminência. Vamos a
eles e no final mostrarei três cartas que exemplificam a técnica.
JULGAMENTO DA EMINÊNCIA PELOS SENHORES DA
TRIPLICIDADE DO LUMINAR DA SEITA
Os autores helenísticos julgavam a eminência basicamente pelos senhores da
triplicidade do luminar da seita.
Se o Sol aparece acima do horizonte, trata-se de uma carta diurna e deve-se verificar
os senhores da triplicidade do Sol. A referência é sempre o signo em que o luminar da
seita se encontra na carta. Por exemplo, se o Sol estiver em Virgem, os senhores da
triplicidade são Vênus, Lua e Marte.
Se a carta for noturna, isto é se o Sol estiver abaixo do horizonte, devemos levar em
conta a triplicidade do signo onde se encontra a Lua.
Se os senhores da triplicidade estiverem angulares ou pelo menos dois deles estiverem,
é um ponto a favor de eminência na carta.
A PARTE DA FORTUNA NO JULGAMENTO DA EMINÊNCIA
A segunda coisa a observar é a Parte da Fortuna, que se refere a tudo que sucede ao
nativo, positivo ou negativo, dependendo da posição da Parte.
É um ponto a favor da eminência se a Parte da Fortuna for angular, mas se ela estiver
no mesmo signo que um maléfico e não for o domicílio dele, a Fortuna do nativo dá
margem a eventos bastante desafortunados. Por exemplo, se a Parte estiver em Touro e
Saturno também.
Se a Fortuna não estiver angular, como ela inicia um segundo horóscopo, é importante
que os planetas estejam angulares em relação a ela, que seja aspectada pelo seu regente ou
pelos benéficos e luminares, especialmente os da seita. A Casa 11 da Fortuna, chamado o
local da Aquisição também é importante e planetas na Casa 11 da Fortuna trazem muitos
ganhos ao nativo de acordo com sua natureza e posição essencial.
O LOCAL DA EXALTAÇÃO DA CARTA
Em terceiro lugar é preciso verificar onde se encontra a Exaltação da carta. A fórmula
para calcular-se a Exaltação difere para cartas diurnas e noturnas.
Para cartas diurnas calcula-se a distancia do Sol até 19º de Áries, ponto exato em que o
Sol se exalta, e soma-se o resultado ao Ascendente. Isto significa numericamente: Asc+19º
de Áries-Sol.
Em cartas noturnas, verifica-se a distância entre a Lua e 3º de Touro e soma-se esse
resultado ao Ascendente: Asc+3º Touro-Lua.
DORYPHORYA OU DASTURYYA
Em quarto lugar existe uma doutrina que vem desde os babilônios referindo-se a
planetas “guarda costas” ou dorifóros dos luminares.
Esta teoria é por vezes confusa e exige muito detalhe. Abordarei o assunto através da
compilação feita por Robert Schmidt no livro que intitulou “Definitions and Foundations”,
que considera fragmentos importantes das obras de Antiochus, Porfirius, Retorius e
Hephaistio. Por último trarei a opinião de Ptolomeu.
Segundo os primeiros autores existem três tipos de dorifória.
No primeiro tipo, os luminares devem estar em seus proprios domicílios ou exaltações
e em um ângulo. O planeta que oferece a proteção tem que ter ascendido antes do luminar,
fazer aspecto com ele e estar em sua própria regência ou exaltação. Se o planeta que
oferece a proteção for a favor da seita da natividade é melhor. É dito que neste tipo de
dorifória também a oposição pode ser considerada. Por exemplo, o Sol está em Leão
angular e Júpiter o aspecta a partir de Sagitário, ou a Lua está em Touro e Vênus está em
Peixes. No caso da oposição: o Sol está em Leão e Saturno em Aquário.
O segundo tipo é quando um planeta da seita faz aspecto com um luminar que esteja
no Ascendente ou na Casa 10, mesmo que não em seu domicílio, desde que o planeta que
proteja o Sol tenha se elevado no horizonte primeiro que ele, e o que protege a Lua, vá se
pôr depois dela. As dorifórias por trigonos são melhores do que as por quadratura e
oposição e as por sextil são fracas.
O terceiro tipo de dorifória ocorre por proximidade e não por aspecto. Os luminares
devem estar no Ascendente ou na Casa 10 e um planeta de sua seita deve estar, no caso do
Sol, a 15º de distância, ascendendo antes dele e no caso da Lua a 7º de distância, se pondo
depois dela. Neste caso é possível haver dorifória de seita contrária, e inclusive o Sol
servir de doriforo para a Lua e a Lua para o Sol, mas para um planeta de seita diferente
poder representar esse papel ele deve ser um benéfico. Tanto o Sol como a Lua podem ser
doriforos de seus próprios planetas de seita.
Ptolomeu tem outra ideia sobre as dorifórias. No Tetrabiblos, livro IV.3, ele exige que
os dois luminaresa sejam masculinos e ao menos um deles esteja angular, especialmente o
luminar da seita, e possua os cinco planetas restantes, no caso do Sol orientais a ele e no
caso da Lua ocidentais a ela.
A explicação clássica é que os dorifóros, isto é os guarda costas, existem para o Sol e
para a Lua, os quais devem preferencialmente estar em ângulos. Uma dorifória consistente
tem os luminares em signos masculinos.
Os dorifóros do Sol são planetas masculinos, isto é Júpiter e Saturno e também
Mercúrio se for oriental, que estejam distantes do Sol e levantem-se no horizonte Leste
antes dele, sem estarem combustos.
Os dorifóros da Lua, ao contrário, são planetas de sua seita, Vênus, Marte e Mercúrio,
se forem ocidentaias ao Sol, que mergulhem no Oeste depois da Lua, isto é estejam em
signos zodiacais anteriores aos da Lua.
A idéia pictórica seria que o rei fosse antecedido por um séquito que avisa de sua
chegada e o protege com o corpo e a Lua, como a rainha, fosse seguida por sua corte. Nos
dois casos os planetas não podem estar sob os raios.
AS ESTRELAS
A quinta coisa a ser verificada é se existe uma estrela de primeira ou segunda grandeza
afiançando fama ou atributos importantes no Ascendente ou no Meio Céu.1 Deve-se
recordar de só levar em conta estrelas que estejam a um máximo de 1º de distância desses
ângulos e que estejam no mesmo hemisfério em que o nativo nasceu.
OS VÁRIOS GRAUS DE EMINÊNCIA E A ESCRAVIDÃO
Sinais de infortúnio e até de escravidão, assim como de rebaixamento social são vistos
em cartas em que os luminares são cadentes, os benéficos também, os maléficos são
angulares, aspectando um ou ambos os luminares: se os dois maléficos aspectarem dois
luminares cadentes a vida é uma verdadeira tragédia (se é que há vida). O quadro se torna
pior quando o maléfico, considerando a ordem dos signos estiver em signo anterior ao
luminar e o aspecto for de quadratura.
O que é preciso ter em mente é que a carta ideal, possuidora de todas as condições de
eminência é algo muito raro.
Robert Zoller costumava dizer que o Sol abaixo dos céus corta a fama pela metade. É
verdade que nascer de dia é melhor que nascer à noite2, mas há muitas personalidades
eminentes com cartas noturnas.
Veremos as opiniões de Ptolomeu:
Ele discorre sobre a fama usando primariamente o Sol e a Casa 10 como significadores
gerais dela e delineia os obstáculos e infortúnios pela condição e relação dos luminares
com benéficos e maléficos.
Ptolomeu faz uso dos planetas em posição de dorifóros ou atendentes e diz que se os
dois luminares estiverem em signos masculinos ou se dois deles ou ao menos um for
angular, e particularmente se o luminar da seita for atendido pelos cinco planetas,
matutinos em relaçâo ao Sol e vespertinos em relação à Lua, a criança será rei. E se os
planetas atendentes forem também angulares ou fizerem aspecto com o Meio do Céu, a
criança continuará a ser grande, poderosa e regente do mundo e será ainda mais afortunada
se os planetas atendentes estiverem em aspecto com o Meio do Céu.
Mas, se só o Sol estiver em signo masculino e a Lua em signo feminino e só um dos
luminares estiver angular os nativos serão apenas governadores, senhores da vida ou
morte.
E se os doriforos não estiverem em um ângulo ou não fizerem aspecto com um ângulo,
os nativos serão simplesmente grandes e pertencerão a uma camada que usará coroas
religiosas ou aqueles superintendentes de um comando militar, mas não os principais.
E se os luminares não forem angulares e os planetas atendentes o forem ou estiverem
configurados com os ângulos, o nativo não será alguém de primeira linhagem, mas será
líder politico com uma expectativa modesta, referindo-se a seu sustento.
No entanto, se os planetas atendentes não estiverem associados com os ângulos, as
ações do nativo serão pouco visíveis e sem desenvolvimento. E finalmente se tornarão
abjetos e infelizes em sua fortuna sempre que os luminares não forem angulares ou em
signo masculino e nem houver benéficos como atendentes.
Tal exame geral da posição do nativo vai do aumento à diminuição, do máximo ao
mínimo: há uma escala. Assim existem muitas condições intermediárias entre tais graus,
dependendo também de quem são os regentes dos atendentes. Pois quando tais doriforos
forem compostos de planetas da mesma seita ou benéficos, há uma melhoria na condição
geral. Mas quando forem compostos por planetas de seita contrária ou por maléficos, um
caráter mais subordinado e precário é esperado.
Hephaistio de Tebas em consonância com Anthiocus, Porfirius e Retorius, em seu
livro Apotelesmatico3, Livro ll, capitulo 18 dá um exemplo atribuído a Antigonos de
Niceia:

Figura 48
Diz Hephaistio que o nativo era filho adotivo de certo imperador e se tornou
imperador ele mesmo, em seu 42º ano. Era sábio e educado, foi honrado como um deus
com coroas em recintos sagrados.
A razão como este autor justifica este sucesso é que ele se tornou imperador porque os
dois luminares estavam no Ascendente em signo masculino e especialmente porque a Lua
estava a favor da seita, sendo o luminar do tempo. Ela se aplicava também a Júpiter que
estava prestes a fazer uma aparição matinal. Isto significa que, embora Júpiter estivesse
combusto no dia do nascimento, após sete dias do nascimento o Sol teria se afastado o
suficiente para não afetar Júpiter e este apareceria na manhã a Leste antes do Sol.4
Os doriforos desses luminares estavam bem situados: Saturno em Capricórnio,
Mercúrio (neste caso um planeta diurno) e Júpiter servindo ao Sol e Vênus e Marte, em
signos de sua triplicidade servindo à Lua, como planetas noturnos. Vênus está exaltada e
Saturno domiciliado. Marte está em seus próprios termos.
E mais, o Sol serve de atendente a Lua estando nos graus em frente a ela. E a Lua está
prestes a se aplicar a uma das estrelas fixas a 20º (provavelmente o autor se referia a
Achernar.) De fato a carta acima obedece à maioria dos preceitos ensinados.
Vamos ver agora a carta de um presidente dos Estados Unidos da América, Bill
Clinton.

Figura 49
Utilizam-se signos completos para tal estudo, mas a presente carta e a próxima não
trarão problemas, visto que as casas não são interceptadas.
O Sol é o luminar diurno e ele se encontra em Leão, cuja triplicidade de fogo é Sol,
Júpiter e Saturno. O Sol está sucedente e em regência, Júpiter está no Ascendente e
Saturno está na Casa 11, mas em detrimento.
A Parte da Fortuna está cadente na Casa 9, mas na Casa 11 dela está a Lua em Touro,
exaltada.
Na Casa 11 radical está o Sol, Mercúrio e Saturno. Mercúrio, regente da Fortuna está
configurado para a casa onde está a Fortuna, logo Mercúrio, na casa do apoio profissional
ajuda o nativo a aproveitar as oportunidades que surgem. Mercúrio rege também a Casa
12, das coisas escusas e escondidas e elas se manifestam de forma mercurial. O apoio
politico e estratégico (Mercúrio) fez muito pela boa sorte do ex- presidente.
Agora vamos calcular o Ponto de Eminência da carta: Asc. (5º29 de Libra)+ 19º de
Áries –Sol (26ºde Leão) e chegamos a 28º29’ de Touro, na Casa 8, no mesmo signo da
Lua. Ora a Lua é regente do Meio do Céu, o que é significativo.
Vejamos agora a questão das dorifórias.
Nenhum dos luminares está angular e a Lua está em signo feminino, embora ambos
estejam dignificados e em casas proveitosas.
Marte e Vênus poderiam ser doriforos da Lua. Vênus inclusive a recebe por domicílio.
Já o Sol, segundo o terceiro tipo de dorifória conta com a ajuda de Saturno e Mercúrio.
Mesmo assim, Bill Clinton ocuparia uma posição bastante humilde no que diz respeito
às dorifórias visto que nenhum dos luminares está angular.
Repito a forma como ele seria enquadrado na pirâmide de Ptolomeu: E se os luminares
não forem angulares e os planetas atendentes o forem ou estiverem configurados com os
ângulos, o nativo não será alguém de primeira linhagem, mas será líder politico com uma
expectativa modesta, referindo-se a seu sustento.
Por último, analisando as estrelas não encontramos nenhuma estrela de primeira
grandeza junto ao Ascendente e ao Meio do Céu, mas o regente de exaltação do Meio do
Céu, Júpiter, está no Ascendente e é um benéfico, em sua própria triplicidade, embora
contrário à seita, por estar abaixo dos céus em natividade diurna, mas conjunto com duas
estrelas de primeira grandeza: Arcturus, a 0º16’, da natureza de Marte e Júpiter, associado
com fama e honra, indicando um espírito empreendedor e pioneiro; e Spica, a 0º7’ que é
considerada uma indicação de sucesso e está associada ao amor pelas artes e ciências.
Spica traz honra, fama, tratamento preferencial e riqueza.
Existem cartas de nativos que alcançaram alto nível e cujas vidas influenciaram
multidões que nem de longe chegam a fazer parte do que os antigos chamariam uma carta
eminente.
Robert Zoller aponta em seu “DMA´s Course” a carta de Adolph Hitler, cujos
luminares não são angulares, os dois estão em signos femininos, e se usássemos um
protocolo mais rígido para considerarmos dorifórias não encontraríamos nenhuma. E, no
entanto, ele foi uma importante peça que influiu nos destinos de muitos povos de forma
dramática, marcando negativamente o século XX.
Zoller sobre este ponto diz que há momentos em que os céus se abrem para deixar
passar os piores.
Todas essas considerações me inclinam a pensar que nem tudo o que não está escrito
no mapa natal é sumariamente negado: muito vai depender dos tempos em que o nativo
nasceu, pois o coletivo tem mais peso que o individual.
O ponto aqui é que, assim como a longevidade, quando se nasce em determinada
sociedade e determinada época, uma carta com poucas perspectivas de vitalidade pode
sobreviver e um nativo com poucos sinais de eminência, pode tornar-se famoso.
No entanto, as regras dadas acima na grande maioria das vezes são poderosos
indicativos de eminência e se mostram bastante confiáveis.
Vejam a seguir:

Figura 50
Trata-se de um nascimento noturno, portanto a Lua é o luminar da seita, encontrando-
se em signo masculino e na Casa 10. O Sol está em signo masculino mas não está angular.
Os senhores da triplicidade da Lua para um nascimento noturno são Mercúrio, Saturno
e Júpiter.
Mercúrio está cadente, Saturno e Júpiter também.
Passemos à Parte da Fortuna. Ela encontra-se em Capricórnio, na Casa 5, uma casa
afortunada. Seu regente, Saturno, aspecta a Parte por um trigono e seu regente de
exaltação, Marte, a aspecta também, encontrando-se na Casa 10 da Fortuna. Mercúrio,
regente da Casa 10 e da Lua está na Casa 11 da Fortuna, falando em riqueza pela
profissão. Já vimos que em pessoas que usam o corpo em seu trabalho a Parte da Fortuna
tem grande importância.
A Exaltação está a 20° de Câncer, na Casa 11 e no signo da Lua, planeta da seita,
muito bem colocada no MC.
A eminência da natividade começa a aparecer e a carta a ganhar vida.
Vejamos agora se há planetas doriforos: Vênus imediatamente aparece como doriforo
da Lua. Ela está angular, tem força de ação, embora em sua depressão. Marte, da mesma
seita da Lua, também aspecta a Lua. Logo, Pelé tem dois doriforos pelas regras antigas. É
verdade que Vênus não tem dignidade essencial, mas isto não parecia importar muito na
questão das dorifórias. Já Marte não está angular, mas aspecta o MC, e Mercúrio se pôe
após a Lua, embora não esteja angular.
Diz Ptolomeu: “se os dois luminares estiverem em signos masculinos ou se dois deles
ou ao menos um for angular, e particularmente se o luminar da seita for atendido pelos
cinco planetas, matutinos em relaçâo ao Sol e vespertinos em relação à Lua, a criança
será rei. E se os planetas atendentes forem também angulares ou fizerem aspecto com o
Meio do Céu, a criança continuará a ser grande, poderosa e regente do mundo, etc..”
Pelé, interessantemente é chamado de rei e mesmo tendo abandonado o futebol desde
1970, jogando pela última vez em 1974, até hoje é admirado e chamdo o rei Pelé.
Quanto às estrelas, Rigel está em conjunção com o Meio do Céu, sendo ela uma estrela
que brilha no Hemisfério Sul possuindo a natureza de Saturno e Júpiter, sendo associada à
fama, riqueza e honras perenes: uma estrela afortunada.
1. Não estou certa se a ideia de Diana Rosemberg estava correta e estrelas não visíveis do Hemisfério Sul também
tenham influência sobre a carta. Em todo caso, para não errar dou mais ênfase a estrelas que sejam visíveis do
hemisfério onde nasceu o nativo.
2. Em minha opinião porque a Firdaria, uma das técnicas preditivas medievais, inicia-se pelo Sol e a seguir Vênus em
natividades dirunas e nas noturnas, Lua e a seguir Saturno. O começo de vida é mais difícil nas natividades noturnas.
3. “Apotelesmatics”, tradução Robert Schmidt, edição Golden Hind Press.

4. Em astrologia helenística não se considera combusto um planeta se após sete dias após o nascimento ele tiver saído
da combustão.
CAPÍTULO 21
A questão da Felicidade na Carta

E
ste é o último capítulo do livro.
Todas as técnicas que foram abordadas e ensinadas tem o ser humano como seu
maior interesse. Por isso, só poderia finalizar este livro abordando a questão mais
importante e complexa da natureza humana: a felicidade.
Ela existe? Pode ser alcançada?
Vamos ver o que os povos antigos entendiam por felicidade.
Acreditava-se que a felicidade era algo objetivamente definível e avaliável e que
diferentes seres na terra tem necessidades específicas: uma planta, por exemplo, precisa de
luz e água e então podemos dizer que tem condição de ser “feliz” se os receber, tanto que
floresce e dá frutos. Quanto aos seres humanos, se suas necessidades e potencialidades
forem atendidas, existe também condições de desenvolvimento e alegria.
As pessoas infelizes são as que são impedidas de realizar de alguma forma seus
próprios papéis, funções e habilidades na vida. Os filósofos discordavam sobre exatamente
que tipo de potenciais precisariam se realizados para haver felicidade. Alguns,
principalmente baseados em Aristóteles, pensavam que posição, dinheiro e bens materiais
seriam suficientes ou mesmo fundamentais para a felicidade. Desta forma, uma pessoa
sem teto e anônima não poderia ser feliz, enquanto que pessoas de sucesso e com
suficientes recursos financeiros teriam condições de alcançar a felicidade.
Já outros filósofos, como os estóicos, diziam que se pode ser feliz “no trono ou na
cadeia”.
É bem verdade que estamos tratando de casos extremos, mas pobreza e riqueza em si
não têm efeito sobre a felicidade.
Se alguém realiza algo que o motiva, de maneira geral essa pessoa é feliz porque faz o
que gosta, o que está destinado a fazer, o que o emociona e gratifica, sendo que é
impossivel imaginar-se realizando outro tipo de coisa. E essa pessoa é feliz porque sente
prazer subjetivo no que faz, mesmo que às vezes tenha um sentimento negativo.
Os estóicos romanos diziam que vivemos como pessoas de uma posição especial e
com determinadas tarefas e responsabilidades que nos trazem fama ou não, mas que,
mesmo a nível humilde, todos temos um papel a desempenhar em função de nossos
próprios talentos ou habilidades.
Tais talentos são vistos na delineação medieval do significador profissional, quando se
encontra um planeta que pode dizer o que o nativo nasceu para fazer, aquilo em que ele é
realmente bom.1
Além disso, o próprio conhecimento sobre o mundo,valores, emoções, pessoas e como
lidar com tudo isso, facilitam a ocorrência da felicidade.
Não é suficiente simplesmente fazer a coisa certa ou ter os produtos certos
convencionais: ser feliz também supõe ter a atitude certa para com o que possuimos.
Alguém que se aborrece por coisas pequenas não consegue ser feliz como alguém que
não dá importância às coisas triviais.
Também a animosidade prejudica o estado de felicidade. Para os estói-cos, emoções
negativas como raiva eram sinais patológicos e mostravam que os valores tinham sido
corrompidos.
Saber disso pode melhorar a vida, mesmo sem melhorar as circunstâncias exteriores.
Um psicólogo do passado teria perguntado: Qual é a posição do cliente? Será que ele
ou ela tem amigos, e de que tipo? Que tipo de equilíbrio existe entre suas emoções/
apetites e as faculdades racionais? Será que o nativo tem bens convencionais como
dinheiro e saúde? Que valores tem essa pessoa e como suas crenças ou suas reações
emocionais afetam sua capacidade de lidar com a vida?
A felicidade para os antigos exigia certos tipos de conhecimento sobre o mundo em
que vivemos, os valores e o estado de espírito corretos, o conhecimento de si mesmos e de
como nos encaixamos na idéia que temos do mundo, além de certas posses convencionais.
Pode-se saber se o nativo será feliz através de sua carta natal, se será feliz a vida
inteira, se passará por fases de infelicidade e se terá condições ou não de superá-las. Pode-
se também saber se tratamos com uma natividade propensa a todo tido de infortúnio mas
que pode através da sabedoria conseguir equilíbrio e aprender a conviver bem consigo e
com o mundo.
O aconselhamento do astrólogo deve focalizar exatamente quem é o nativo, certificar-
se de que ele esteja ciente de disso para conseguir viver melhor. Na astrologia Medieval há
vários protocolos para analisar a felicidade na figura natal. Ter benéficos fortes e
luminares não aflitos, maléficos fracos, etc. é um indicador geral de felicidade.
Se os benéficos e os luminares são fracos e estão declinando dos ângulos, enquanto os
maléficos são mais fortes, as áreas centrais da vida são cheias de luta e dificuldade. Os
protocolos das diferenças também dão sinal da capacidade de realização pessoal do nativo,
pois mesmo que a vida biológica seja mantida, a vida psicológica não atinge jamais sua
plenitude nas primeiras diferenttia.
O estudo dos antigos continua neste ponto muito válido e atual, pois a fonte de vida
sendo pujante na natividade, esta tem base estrutural para suportar e transcender os
revezes ou acidentes existenciais.
De maneira geral observa-se duas áreas:
A Casa 1 mostra o corpo e sua saúde e portanto algumas disposições e talentos.
Delineando o temperamento usamos as qualidades primitivas do signo Ascendente, seu
regente ou almuten e os planetas que o aspectam. Pesando tais qualidade chegamos ao
temperamento do nativo, isto é se ele é sanguíneo, melancólico, colérico ou fleumático e
aí já temos uma idéia de sua maneira de ser, de como ele reage, se é mais social, tristonho,
alegre, frio ou raivoso.
Além disso, Ptolomeu e Schoener procuravam pelo dispositor de Mercúrio e da Lua,
Abu Ali pelo regente do signo Ascendente e Lilly pelo significador das maneiras.2
Na astrologia Medieval, esta delineação tende a ser feita a partir de Mercúrio
(racional) e da Lua (emoções, irracional). No 2º Capítulo estudamos isso e lá expus o que
os autores pensavam sobre tal assunto, relatando as diferentes opiniões.
Um dos atributos humanos é a racionalidade: normalmente, na antiga tradição
(excluindo os estóicos), isto significava ter faculdades racionais fortes (manifestando-se
como honestidade, inteligência e bom julgamento) em harmonia com as emoções.
Mas note-se que até aqui temos somente um índice de equilíbrio mental do nativo e
não a riqueza e qualidade da personalidade. Para tal as autoridades consideravam também
o papel de um significador planetário especial, o Almutem Figuris. Platão sugeriu em seu
diálogo Fedro que antes da encarnação da alma cada indivíduo estava a serviço ou
seguindo um dos deuses, enunciado como um planeta derivado da procissão de divindades
dos céus.
De acordo com este mito, a associação com um deus particular se manifesta na vida
humana em termos de certas necessidades e atitudes, mas na nossa escuridão e ignorância
terrena desconhecemos muitas vezes a fonte destas atitudes.
A mesma ideia é refletida no cálculo e delineação do Almutem Figuris, um planeta
poderoso na figura natal cujo espírito ou anjo atua como conexão especial do nativo para
com o Divino. O Almutem Figuris afeta os pensamentos do nativo, crenças e caráter. A
iluminação espiritual pode exigir que abramos nossos olhos para esse planeta em
particular.
Também as Partes Árabes nos dão idéia de quem é o nativo, se tem fé, se tem
otimismo, se tem inimigos poderosos, se é briguento, se é falante e social, se a familia, o
casamento ou os amigos o apoiam, enfim, as partes ou lots também apresentam claramente
quem é o nativo a nivel bem mundano.
Se formos pintar um retrato ideal da pessoa feliz estaríamos olhando para alguém que
tem alguns obstáculos, uma mente equilibrada e inteligente, com uma vida emocional
benevolente, que cumpre suas próprias funções e responsabilidades sociais com sucesso,
atende às suas habilidades especiais e tem boa saúde. Além disso, se tal natividade for
banhada por algum princípio de ordem espiritual tal fato certamente contribui para a
felicidade.
Combinando técnicas astrológicas podemos ter centenas de tipologias psicológicas, e
só para exemplificar: uma pessoa pode pertencer a um nivel sócio-econômico muito baixo
(visto pelos luminares cadentes e sem dignidade, aflitos por maléficos, vide estudo da
eminência na carta), ter um nível de resposta colérica (temperamento), possuir grande
talento para arte (Vênus como significador profissional), ter uma mau equilibrio entre os
apetites e a razão (Mercúrio-Lua) e uma tendência a rupturas (Marte como Almutem
Figuris).
Ora, estes atributos fazem claramente parte de uma delineação astro-psicológica e
podemos dizer que esta pessoa dificilmente é feliz: não porque ganha pouco, mas por
causa dessa amálgama infeliz de personalidade.
Além de tudo, para seguir com a análise da felicidade, que é uma análise psicológica,
temos que examinar a Motivação Primária, uma técnica moderna, da qual tratamos nos
primeiros capítulos. Não atingi-la ou não conseguir realiza-la porque os regentes do
Ascendente estão em pobre situação zodiacal e mundana é a receita certa para a
infelicidade.
Como vimos, a Motivação Primária de um nativo é a necessidade última ou o interesse
que move sua vida na terra. De acordo com o entendimento convencional de felicidade,
todos precisam de dinheiro, amigos, uma mente equilibrada, etc. para ser feliz.
Mas as pessoas também têm necessidades que são específicas e a delineação da
Motivação Primária ajuda o astrólogo a dizer qual a imprescindível necessidade do nativo.
Dependendo do local onde se encontra o regente do Ascendente podemos dizer em que
casa mundana o nativo satisfaz (ou não) sua necessidade primordial, o que significa saber
se ele é ou será uma pessoa feliz.
Portanto a astrologia tradicional não é indiferente à psicologia do nativo. Ao contrário,
ela tem condições de avaliar a personalidade e o caráter, sendo que a delineação da
Motivação Primária é de especial utilidade no aconselhamento psicológico, pois é
evidente que um nativo será infeliz se não conseguir realizar através do regente do
Ascendente sua necessidade primordial.
O astrólogo tradicional pode observar ao nativo que há outros rumos para satisfazer tal
motivação primordial, sugerindo caminhos abertos pelos senhores da triplicidade do signo
Ascendente, de seu termo e até de sua face.
Mostrarei como exemplo uma natividade com pouco potencial para a felicidade.
Figura 51
O temperamento divide-se entre fleumático e sanguíneo, os dois com pontuação
igual.3 Logo temos uma mistura de qualidades sociáveis e empáticas, otimistas, generosas,
liberais e confiáveis junto a outras mais difíceis como contemplação, passividade,
emoções controladas, resignação, lentidão, estudo, fechamento, preguiça, ressentimentos.
sentimentos profundos, depressão.
A Lua encontra-se em Escorpião, portanto em sua depressão: as emoções são
profundas e sofridas. Mercúrio, o lado intelectual, é pobre, peregrino, ofuscado pelo Sol.
No entanto, tanto a Lua como Mercúrio são regidos por Marte e neste ponto eles tem tanto
em comum como se estivessem no mesmo signo. Em última análise a Lua é o dispositor
final da personalidade do nativo, porque Marte tem recepção mútua com a Lua, daí que
prevaleça o cuidado, a maternidade, a imaginação. Mas, Mercúrio e Lua são consistentes
isto é, os apetites e o intelecto buscam a mesma coisa e há equilíbrio.
O Almutem Figuris é Saturno, que está junto a Marte. Júpiter no Ascendente em
trigono com a Parte de Júpiter ou da Vitória em mutua recepção com Saturno por
exaltação ameniza o potencial depressivo, especialmente quando Júpiter rege
determinados períodos da vida. Nessas épocas ele afasta totalmente qualquer depressão.
Câncer é um signo de sentimentos, muito preocupado com a nutrição e a maternidade:
a nativa é impulsionada a lutar para nutrir os menos afortunados ou necessitados. Como
Saturno é regido por exaltação por Júpiter que está no Ascendente, apesar ou por causa da
dor psicológica pessoal a nativa consegue “ver” outras pessoas em situação pior e seu lado
sanguíneo aparece.
Outras vezes, ela se sente com poucos recursos para ajudar e age de forma defensiva e
evasiva ( Saturno como Almutem Figuris).
A Motivação Primária é a busca do conhecimento e da liberdade de expressão. Vênus,
regente de Libra, está na Casa 7 por signos inteiros. Está saindo da combustão, portanto no
seu ápice de atividade e força, mas está em detrimento em Áries, e Marte, seu regente, está
no Meio Céu em Câncer. Portanto, prevemos muita sedução e oportunidades, mas
qualquer parceria que ocorrer, onde a nativa buscará a liberdade de expressão e
conhecimento( que é a motivação básica do signo de ar ascendendo), não perdurará,
porque Vênus e seu dispositor, Marte, são de má qualidade e não mantém o que é
conquistado. Logo há ruptura e dor pelo caminho.
Saturno faz quadratura a Vênus, um sinal típico de desprazer e depressão. Além disso,
Saturno está em detrimento, aumentando sua maldade.
A nativa poderia procurar a realização profissional como forma de satisfazer a
Motivação Primária, uma vez que Saturno é o regente de exaltação do Ascendente e seria
o próximo candidato a realiza-la. Saturno, além de sua própria característica tristonha,
desmotivadora e lenta, também terminou por corromper posições duramente conquistadas,
por causa de seu detrimento, e a nativa abandonou a carreira para a qual se formou,
Psicologia, um caminho de ajuda ao próximo.
Os senhores da triplicidade do Ascendente em Libra, são respectivamente Mercúrio,
que está perto de Vênus em Áries, retrógrado e combusto, Saturno, e Júpiter.
Ora, Júpiter e Saturno estão em recepção mutua por exaltação, pois Saturno está em
Câncer, onde Júpiter tem exaltação e Júpiter está em Libra onde Saturno se exalta.
Lidar com o conhecimento ( signo de ar ascendendo) de coisas antigas difíceis e
árduas (Saturno) e com a sabedoria ( Júpiter) acabou por ser o que tornou a nativa feliz e
motivada, e isto ocorreu na terceira parte de sua vida, quando Júpiter, o regente da
triplicidade participante passou a vigorar como regente do Ascendente e a nativa abraçou a
astrologia antiga formando-se em astrologia Medieval.
Além disso, apontando na direção espiritual, temos a Parte do Espírito na Casa 9, junto
ao Nodo Norte e à Parte da Fé. A Parte do Hyleg está em Sagitário, em sextil a Júpiter.
Vênus estando em conjunção com Alpheratz, estrela da natureza de Vênus, indica
oportunidades de boa fortuna, dinheiro, honras, amor e liberdade, e de fato ajudou a nativa
a realizar a Motivação Primária através de parcerias por mais tempo do que se poderia
esperar com planetas em posições tão críticas.
Outra estrela, Rigel Kentaurus ou Toliman está em conjunção estreita com a Lua e esta
é uma estrela cujo sentido se relaciona a Quíron, o centauro astrólogo e adivinho que era
conhecido por sua sabedoria, um exímio curador a partir de sua própria ferida incurável.
Com este tipo de arsenal de conhecimento, o astrólogo medieval pode analisar uma
carta sob o ponto de vista psicológico e da felicidade possível para o nativo.
Pode sugerir uma solução e trabalhar junto ao cliente, apontando alternativas
produtivas, cursos de ação e experiências que vão ajudar seu cliente a viver melhor,
conhecer-se mais e alcançar também um dimensão espiritual própria.
Em resumo, a astrologia Medieval tem interêsse e instrumentos sofisticados para saber
com que tipo de pessoa está lidando, que tipo de temperamento apresenta, o que busca e
em que tópicos pode encontrar aquilo que nasceu para viver e atingir sua realização no
mundo.

1. Ver Ptolomeu “A qualidade de Ação”, Tet. IV.4, ou W. Lilly quando fala da delineação profissional em seu livro
sobre natividades em Astrologia Cristã.
2. Lilly, Ptolomeu e Schoener não aceitam que os luminares sejam significadores, enquanto que Abu Ali os aceita.

3. Foi usada a técnica exposta no Capítulo 1.


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