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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 56.154 - PR (2015/0020400-9)

RELATOR : MINISTRO JOEL ILAN PACIORNIK


RECORRENTE : LB
ADVOGADO : RAPHAEL TAQUES PILATTI - PR038604
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ
EMENTA

RECURSO EM HABEAS CORPUS . ESTUPRO DE


VULNERÁVEL COMISSIVO POR OMISSÃO (ART. 217-A C/C ART 13
DO CP) E CRIME AMBIENTAL (ART. 56 DA LEI Nº 9.605/1998).
TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. EXCEPCIONALIDADE.
AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. INOCORRÊNCIA. ACUSADA
RESPONSÁVEL LEGAL PELA VIGILÂNCIA E PROTEÇÃO DAS
VÍTIMAS NA QUALIDADE DE DIRETORA DA APAE.
DEMONSTRAÇÃO DE INDÍCIOS SUFICIENTES DE OMISSÃO
DOLOSA E DE POSSIBILIDADE DE IMPEDIR O RESULTADO.
ANÁLISE FÁTICO PROBATÓRIA INCABÍVEL NA VIA ESTREITA DO
WRIT. ALEGAÇÃO DE INÉPCIA DA INICIAL. INOCORRÊNCIA.
LOCAL E TEMPO DOS FATOS SUFICIENTEMENTE DELIMITADOS
NA DENÚNCIA. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL QUANTO AO
CRIME AMBIENTAL. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. RECURSO
DESPROVIDO.
1. Em razão da excepcionalidade do trancamento da
ação penal, tal medida somente se verifica possível quando ficar
demonstrado – de plano e sem necessidade de dilação probatória – a
total ausência de indícios de autoria e prova da materialidade delitiva,
a atipicidade da conduta ou a existência de alguma causa de extinção
da punibilidade. É certa, ainda, a possibilidade de trancamento da
persecução penal nos casos em que a denúncia for inepta, não
atendendo o que dispõe o art. 41 do Código de Processo Penal, o que
não impede a propositura de nova ação desde que suprida a
irregularidade.
2. No caso concreto não se identifica qualquer óbice ao
exercício do direito de ampla defesa, uma vez que a denúncia, de
forma objetiva, imputa à paciente conduta omissiva dolosa penalmente
relevante por não ter impedido a prática de estupros de vulneráveis
ocorridos na Associação de Pais e Amigos de Excepcionais – APAE
do município de Castro, quando podia e devia evitar referidos delitos,
na qualidade de responsável legal pela vigilância e proteção dos
alunos que frequentavam a entidade. A imputação é clara e não obsta
o exercício da ampla defesa, atendendo aos requisitos do 41 do CPP e
13 do Código Penal – CP.
3. Há indícios suficientes de omissão dolosa e de
possibilidade de impedir o resultado que autorizam o recebimento da
denúncia. Isto porque, a denúncia se fez acompanhar de depoimento
de professores segundo os quais já haviam alertado a diretora da
APAE, ora recorrente, sobre a prática dos crimes sexuais dentro da
instituição, todavia ela teria afirmado que "fatos dessa natureza não
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eram motivos de preocupação, pois meninos não iriam engravidar."
4. O local dos fatos está bem definido – dentro da APAE
do município de Castro e no lixão existente nas suas adjacências –
tendo ensejado, inclusive, a denúncia da recorrente pela prática de
crime ambiental.
5. Em se tratando de crime de estupro de vulnerável
praticado por longo decurso de tempo, a denúncia que ao menos
delimita o período delitivo, ainda que extenso, atende aos requisitos do
art. 41 do CPP, conforme jurisprudência desta Corte Superior. No caso
concreto, a inicial acusatória afirma claramente que os estupros de
vulneráveis foram praticados em período compreendido entre a data
de matricula de cada vítima na APAE e o ano de 2012. Precedentes.
6. O mandamus não é via adequada à análise do dolo na
omissão ou da impossibilidade de a paciente impedir o resultado. A
análise do elemento subjetivo do tipo demandaria revolvimento
fático-probatória incabível no procedimento célere do habeas corpus.
Precedentes.
7. No que diz respeito ao crime descrito no art. 56 da Lei
nº 9.605/1998, o Tribunal Estadual não se pronunciou sobre a
denúncia. Nesse contexto, em que o acórdão impugnado foi silente
quanto à imputação do crime ambiental, é defeso ao Superior Tribunal
de Justiça analisar a denúncia relativamente a este tópico, sob pena
de se incidir em indevida supressão de instância.
Recurso ordinário em habeas corpus desprovido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima


indicadas, acordam os Ministros da Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça,
por unanimidade, negar provimento ao recurso.
Os Srs. Ministros Felix Fischer, Jorge Mussi, Reynaldo Soares da
Fonseca e Ribeiro Dantas votaram com o Sr. Ministro Relator.

Brasília (DF), 21 de fevereiro de 2017(Data do Julgamento).

MINISTRO JOEL ILAN PACIORNIK


Relator

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RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 56.154 - PR (2015/0020400-9)
RELATOR : MINISTRO JOEL ILAN PACIORNIK
RECORRENTE : L B
ADVOGADO : RAPHAEL TAQUES PILATTI - PR038604
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ

RELATÓRIO

O EXMO. SR. MINISTRO JOEL ILAN PACIORNIK (RELATOR):

Cuida-se de recurso ordinário em habeas corpus , com pedido liminar,


interposto por L B, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do
Paraná no julgamento do HC n. 1.233.533-0.
Infere-se dos autos que a recorrente foi denunciada pela prática, em
tese, dos delitos tipificados no artigo 217-A (estupro de vulnerável) do Código Penal
CP e do art. 56 da Lei nº 9.605/1998 (armazenar e ter em depósito produto ou
substância tóxica, perigosa ou nociva à saúde humana ou ao meio ambiente, em
desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou nos regulamentos).
Irresignada, a defesa impetrou writ perante o Tribunal de origem, o
qual denegou a ordem em acórdão assim ementado :

HABEAS CORPUS – ESTUPRO DE VULNERÁVEL –


TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL – ALEGADA INÉPCIA DA
DENÚNCIA – IMPOSSIBILIDADE – INICIAL ACUSATÓRIA QUE
PREENCHE OS REQUISITOS DO ARTIGO 41, DO CPP – ORDEM
DENEGADA. (fl. 424)

No presente recurso, a recorrente alega, em síntese, que a denúncia


não contém narrativa do suposto ato criminoso, não aponta a data dos fatos e qual
seria a suposta conduta omissiva praticada pela paciente. Sustenta, ainda, que o
Tribunal a quo apresentou frágil argumentação de que há conveniência e
necessidade no prosseguimento da ação penal. Ressalta que não possui
antecedentes criminais e que não existe qualquer indício de que tenha praticado
conduta criminosa.
Pugna, assim, pelo provimento do recurso, a fim que seja concedida a
ordem de habeas corpus que objetiva, em síntese, o trancamento da ação penal.
Foram apresentadas contrarrazões às fls. 252/258.

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O recurso foi recebido pelo Tribunal a quo (fls. 436).
O Ministério Público Federal opinou pelo desprovimento do recurso no
parecer de fls. 453/456.
Em contato telefônico com a Vara Criminal de Castro, a serventia
informou que a ação penal referente ao crime de estupro de vulnerável encontra-se
suspensa, aguardando término de incidente de sanidade mental do corréu.
Informou, ainda, que houve desmembramento do feito, para se apurar o crime
ambiental, tendo havido suspensão condicional do processo, com fulcro no art. 89
da Lei n. 9.099/96, com previsão de término do período depurador para 1/9/2017.
É o relatório.

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VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO JOEL ILAN PACIORNIK (RELATOR):

Conforme relatado, busca-se, no presente recurso, o trancamento de


ação penal, sob a alegação de inépcia de denúncia.
Esta Corte Superior pacificou o entendimento segundo o qual, em
razão da excepcionalidade do trancamento da ação penal, tal medida somente se
verifica possível quando ficar demonstrado – de plano e sem necessidade de
dilação probatória – a total ausência de indícios de autoria e prova da materialidade
delitiva, a atipicidade da conduta ou a existência de alguma causa de extinção da
punibilidade. É certa, ainda, a possibilidade de trancamento da persecução penal
nos casos em que a denúncia for inepta, não atendendo o que dispõe o art. 41 do
Código de Processo Penal, o que não impede a propositura de nova ação desde
que suprida a irregularidade.
No caso dos autos, a recorrente foi acusada de, na qualidade de
diretora da APAE, praticar estupro de vulnerável, mediante conduta omissiva, na
medida em que, de forma dolosa, foi conivente com a prática de abusos sexuais
pelo corréu I D S contra vítimas portadoras de doença mental moderada, que
estavam abrigadas naquela instituição sob responsabilidade da paciente.
Para melhor compreensão do caso, transcrevo os fatos descritos na
denúncia, in verbis (fls. 17/21):

1º Fato

Em data não especificada nos autos, mas certo que


quando a vítima foi matriculada e iniciou seus estudos na APAE até o
ano de 2012, na Associação de Pais e Amigos de Excepcionais de
Castro - APAE, localizada na Rua Benjamin Constante, nº 280, Centro,
nesta Cidade e Comarca de Castro/PR, o denunciado I D S, com
vontade livre e consciente, ciente da licitude e reprovabilidade da
conduta, por diversas vezes, e sempre com a finalidade de satisfazer a
sua concupiscência, e sempre diante da omissão dolosa da
denunciada L B, a qual tinha pleno conhecimento dos fatos (conforme
narrado no 4º fato), praticou ato libidinoso diverso da conjunção
carnal com a vítima L C R, portador de deficiência mental moderada
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(cf. Parecer de psiquiatria de fls. 484-IC), não tendo, portanto o
discernimento para a prática do ato, tendo o denunciado, para tanto,
mantido relações sexuais com a vítima, fazendo com que L C
introduzisse o seu pênis no anus do denunciado.

De acordo com os autos, o denunciado presenteava a


vítima com objetos encontrados no "lixão" da APE e após o convidava
para ir até o barracão do referido local, em horário de almoço, sendo
que lá praticava os fatos narrados acima.

2º Fato

Em data não especificada nos autos, mas certo que


quando a vítima foi matriculada e iniciou seus estudos na APAE até o
ano de 2012, na Associação de Pais e Amigos de Excepcionais de
Castro - APAE, localizada na Rua Benjamin Constante, nº 280, Centro,
nesta Cidade e Comarca de Castro/PR, o denunciado I D S, com
vontade livre e consciente, ciente da licitude e reprovabilidade da
conduta, por diversas vezes, e sempre com a finalidade de satisfazer a
sua concupiscência, e sempre diante da omissão dolosa da
denunciada L B, a qual tinha pleno conhecimento dos fatos (conforme
narrado no 4º fato), praticou ato libidinoso diverso da conjunção
carnal com a vítima F E M, portador de deficiência mental (e ex aluno
da APAE e apresenta comprometimento de fala – cf declaração de fls.
272-IC) não tendo, portanto, discernimento para a prática do ato, tendo
o denunciado, para tanto, acariciado o pênis da vítima.

De acordo com os autos, o denunciado convidou a vítima


para ir até o barracão da APAE e lá lhe agarrou, sendo que lá lhe
agarrou, sendo que lhe abraçou, passou a mão no peito da vítima, em
sua barriga e finalmente, acariciou seu pênis.

3º Fato

Em data não especificada nos autos, mas certo que


quando a vítima foi matriculada e iniciou seus estudos na APAE até o
ano de 2012, na Associação de Pais e Amigos de Excepcionais de
Castro - APAE, localizada na Rua Benjamin Constante, nº 280, Centro,
nesta Cidade e Comarca de Castro/PR, o denunciado I D S, com
vontade livre e consciente, ciente da licitude e reprovabilidade da
conduta, por diversas vezes, e sempre com a finalidade de satisfazer a
sua concupiscência, e sempre diante da omissão dolosa da
denunciada L B, a qual tinha pleno conhecimento dos fatos (conforme
narrado no 4º fato), praticou ato libidinoso diverso da conjunção
carnal com a vítima D M D Q, portador de deficiência mental (e ex
aluno da APAE e possui dificuldade de aprendizado - CF declaração
de fls. 650-IC), não tendo, portanto, o discernimento para a prática de
ato, tendo o denunciado, para tanto, mantido relações sexuais com a
vítima fazendo com que D introduzisse o seu pênis no anus do
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denunciado.

De acordo com os autos, o denunciado convidava a


vítima para ir até o barracão da APAE e lá praticava o ato descrito
acima.

4º Fato

Com relação aos fatos ocorridos e, descritos acima, a


denunciada L B é coautora, por omissão dolosa, uma vez que, na
qualidade de Diretora da APAE, tinha por lei, obrigação de cuidado e
proteção das vítimas, contudo, deixou-as a mercê do denunciado I D
S, sendo que nenhum momento interferiu, inclusive, tendo proferido
aos professores que a procuraram a seguinte frase: "fatos dessa
natureza não eram motivos de preocupação, pois meninos não iriam
engravidar " (cf. Declarações de fls. 236/238-IC)

A omissão da denunciada L B é dolosa e, portanto,


penalmente relevante (art. 13, § 2º, CP), uvez [sic] que mesmo
diante dos relatos dos professores e do pedido de providencia a
respeito dos abusos sexuais praticados pelo denunciado contra
os alunos, ela omitiu-se, quando na verdade deveria e poderia ter
agido para evitar os resultados.

Além disso, a denunciada L era pessoa que efetivamente


administrava os valores e bens pertencentes ao denunciado I,
inclusive, tendo o acolhido na instituição, proporcionando a sua
moradia e alimentação no interior da APAE, mesmo tendo ele uma
curadora, a pessoa de D M D S (cf. termo de compromisso de curadora
de fls. 361-C), a qual, contudo, era apenas "no papel", tendo entregue
a responsabilidade de I a denunciada a pedido desta.

5º Fato

Em data não precisada nos autos, mas certo que desde a


década de 1990 até o ano início de 2013, na associação de Pais e
Amigos dos Excepcionais de Castro - APAE, localizada na Rua
Benjamin Constante, nº 280, Centro, nesta cidade e Comarca de
Castro/PR, a denunciada L B, agindo voluntariamente e ciente da
ilicitude de sua conduta, armazenou e tinha em depósito produto ou
substância tóxica, perigosa e nociva à saúde humana e ao meio
ambiente sem licença ou autorização dos órgãos ambientais
competentes, em desacordo com as exigências estabelecidas em leis
ou nos seus regulamentos (cf. Relatório de vistoria técnica do Instituto
Ambiental do Paraná de fls. 212/213), consistentes em resíduos
sólidos urbanos, que além de ficarem a céu aberto, muitas das vezes
vem com restos de alimentos orgânicos, que por ação direta das águas
pluviais, geram churumes que ficam empossados no pátio junto à
instituição, trazendo mau cheiro, disponibilizando a atração de vetores
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(ratos, baratas, insetos, etc), sem contar com os resíduos de classe "1"
– hidrocarbonetos e lampadas fluorescentes, ete. – que deveriam ser
direcionados a aterros especializados a essa categoria de resíduos,
por possuir metais pesados.

Assim agindo, incorreram os denunciados I D S e L B nas


sanções do artigo 217-A, § 1º, do Código Penal (por diversas vezes)
todos na forma do artigo 71 do Código Penal e, ainda, a denunciada L
B nas sanções do artigo 56 da Lei nº 9.605/1998 (5º fato).

Como se vê, a denúncia afirma que a denunciada praticou o crime de


estupro de vulnerável na modalidade omissiva, prevista no art. 13 do CP, cujo teor
segue transcrito:

Art. 13 – O resultado, de que depende a existência do


crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se
causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido.

(omissis)

Relevância da Omissão
§ 2º a omissão é penalmente relevante quando o
omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir
incumbe a quem:

a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou


vigilância.
b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir
o resultado;
c) com seu comportamento anterior, criou o risco da
ocorrência do resultado.

Na espécie, conforme a inicial acusatória, a ora recorrente tinha por lei


obrigação de cuidado ou vigilância em relação a todos os internos, inclusive do
corréu. Segundo a denúncia, sua omissão foi dolosa, conforme depoimentos de
professores que instruíram a exordial. Segundo o Ministério Público Estadual, a
paciente podia ter agido para evitar os resultados, quais sejam, os crimes de
estupro de vulneráveis imputados ao corréu I D S.
Destarte, entendo que a denúncia ofertada pelo Parquet estadual
permite o livre exercício do direito de ampla defesa e do contraditório, na medida em
que descreve a conduta comissiva por omissão imputada à recorrente, demostrando
indícios suficientes de autoria, prova da materialidade e efetuando uma descrição
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fática que possibilita a adequação típica do crime omissivo impróprio, atendendo
aos requisitos do art. 41 do CPP.
Com efeito, há indícios suficientes de omissão dolosa e de
possibilidade de impedir o resultado que autorizam o recebimento da denúncia. Isto
porque, a denúncia se fez acompanhar de depoimento de professores segundo os
quais já haviam alertado a diretora da APAE, ora recorrente, sobre a prática dos
crimes sexuais dentro da instituição, todavia ela teria afirmado que "fatos dessa
natureza não eram motivos de preocupação, pois meninos não iriam engravidar."
A imputação descrita na denúncia é suficiente para deflagrar a ação
penal, permitindo o livre exercício do direito de ampla defesa e do contraditório, na
medida em que descreve a conduta omissiva imputada à recorrente bem como as
circunstâncias descritas no artigo 13 do CP.
Registre-se, ainda, que o local dos fatos está bem definido – dentro da
APAE do município de Castro e no lixão existente nas suas adjacências – tendo
ensejado, inclusive, a denúncia da recorrente pela prática de crime ambiental.
Quanto à circunstância temporal dos delitos, nos crimes sexuais
praticados contra vulneráveis é comum e aceitável a impossibilidade de a denúncia
precisar a data dos fatos, sendo suficiente a identificação do período no qual os
delitos teriam ocorrido, como procedeu o Ministério Público Estadual.
No caso concreto, a inicial acusatória afirma claramente que os
estupros de vulneráveis foram praticados em período compreendido entre a data de
matricula de cada vítima na APAE e o ano de de 2012.
A respeito da delimitação temporal dos fatos delituosos, trago os
seguintes julgados do Superior Tribunal de Justiça, que restaram assim ementados:

RECURSO ESPECIAL. PENAL. ESTUPRO DE


VULNERÁVEL. INÉPCIA DA DENÚNCIA. INEXISTÊNCIA.
ABSOLVIÇÃO, ILICITUDE DAS PROVAS E FLAGRANTE
PREPARADO. REEXAME DE PROVAS. NECESSIDADE. SÚMULA
N. 7 DO STJ. PENA-BASE. CULPABILIDADE E CIRCUNSTÂNCIAS.
MOTIVAÇÃO IDÔNEA. CONSEQUÊNCIAS. AUSÊNCIA DE
FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA. CONTINUAÇÃO DELITIVA.
FRAÇÃO. FREQUÊNCIA DOS ATOS COMPROVADA.
MANUTENÇÃO. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E,
NESTA EXTENSÃO, PARCIALMENTE PROVIDO. DEFERIDO
PEDIDO DE EXECUÇÃO IMEDIATA DA PENA.
1. Conforme reiterada jurisprudência desta Corte
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Superior, o trancamento da ação penal (rectius, do processo), por ser
medida excepcional, somente é cabível quando ficarem
demonstradas, de maneira inequívoca e a um primeiro olhar, a
atipicidade da conduta, a absoluta falta de provas da materialidade do
crime e de indícios de autoria ou a existência de causa extintiva da
punibilidade, situações estas que não constato caracterizadas na
espécie.
2. O Juiz, ao sentenciar, narrou todos os fatos,
consoante expostos na denúncia, e salientou não detectar
"nenhuma incerteza na peça inquisitória quanto à delimitação
temporal dos fatos, visto que foi claramente descrito que os
crimes sexuais ocorreram no período compreendido entre 4 de
janeiro de 2006 e a data da prisão em flagrante do acusado,
ocorrida em 7 de novembro de 2007".
3. A acusação formalizada pelo Ministério Público
preenche os requisitos do art. 41 do Código de Processo Penal,
pois, além da existência da prova do crime e de indícios
suficientes de sua autoria, discriminou os fatos, em tese,
praticados pelo recorrente, com todas as circunstâncias até então
conhecidas, de forma a permitir o contraditório e a ampla defesa,
não havendo prejuízo na ausência de especificação minuciosa
das datas e do número de vezes que os fatos se deram.
4. A prolação de sentença condenatória esvai a análise
do pretendido reconhecimento de inépcia da denúncia. Isso porque,
se, após toda a análise do conjunto fático-probatório amealhado aos
autos ao longo da instrução criminal, já houve um pronunciamento
sobre o próprio mérito da persecução penal (denotando, ipso facto, a
plena aptidão da inicial acusatória), não há mais sentido em se
analisar eventual inépcia da denúncia.
5. A instância antecedente apontou a existência de
provas suficientes da autoria, da materialidade e da continuidade
delitivas, com base, principalmente, nos depoimentos das duas
vítimas, que estão em consonância o que disseram as testemunhas
de acusação.
6. Para considerar o pedido de absolvição do recorrente,
seria necessário o revolvimento de todo o conjunto fático-probatório
produzido nos autos, providência que, conforme cediço, é incabível na
via do recurso especial, consoante o enunciado na Súmula n. 7 do
STJ, in verbis: "A pretensão de simples reexame de prova não enseja
recurso especial". Igual conclusão se adota em relação às provas
apontadas como ilícitas, derivadas do suposto flagrante preparado.
7. O fato de haver o acusado ludibriado as vítimas,
aproveitando-se, inclusive, da sua hipossuficiência financeira e
psicológica, configura justificativa suficiente para a majoração da pena
pela vetorial culpabilidade.
8. As ofendidas afirmaram que "não gostavam de ser
tocadas pelo acusado, além do que foram assediadas por meio de
presentes, mimos e gratificações para que consentissem na prática de
atos libidinosos", elementos que justificam a elevação da
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reprimenda-base pelas circunstâncias e que não configuram bis in
idem, especialmente pela menção de repúdio expresso por parte das
pequenas vítimas e pelo meio ardiloso com que o ora agravante as
atraía para sua residência.
9. É ilegítima a manutenção do aumento da pena-base no
tocante à vetorial consequências, porquanto o juiz apenas fez uma
suposição vaga acerca de eventuais danos psicológicos ou distúrbio
comportamental que teriam sofrido as ofendidas, a partir do evento
criminoso.
10. Diante da nítida frequência com que os fatos foram
praticados - durante quase dois anos -, não houve violação do art. 71
do Código Penal (continuidade delitiva) na elevação de 2/3 da
reprimenda.
11. Recurso parcialmente conhecido e, nesta extensão,
parcialmente provido, para reduzir a pena para 12 anos, 2 meses e 20
dias de reclusão. Deferido o pedido de execução imediata da pena
feito pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios. (REsp
1638106/DF, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA
TURMA, julgado em 01/12/2016, DJe 13/12/2016)

PROCESSUAL PENAL E PENAL. HABEAS CORPUS


SUBSTITUTIVO DE RECURSO. ESTUPRO DE VULNERÁVEL.
DOSIMETRIA. DISCRICIONARIEDADE RELATIVA. CONTINUIDADE
DELITIVA ESPECÍFICA. VIOLÊNCIA PRESUMIDA.
IMPOSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE COMETIMENTO DE CRIME
COM VIOLÊNCIA REAL. QUANTUM EXASPERAÇÃO DA
CONTINUIDADE DELITIVA SIMPLES EM ESTUPRO DE
VULNERÁVEL. IMPRECISÃO DO NÚMERO DE CRIMES.
REITERAÇÃO POR PERÍODO DE 6 MESES CONTRA DUAS
VÍTIMAS VULNERÁVEIS. FRAÇÃO DE AUMENTO DE 2/3.
PROPORCIONALIDADE. WRIT NÃO CONHECIDO. ORDEM
CONCEDDIA DE OFÍCIO.
1. Esta Corte e o Supremo Tribunal Federal pacificaram
orientação no sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo
do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não
conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência
de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado.
2. O Código Penal não estabelece critérios objetivos para
a fixação da pena; confere ao juiz relativa discricionariedade. Não
demonstrado o abuso no seu exercício, impor-se-á a denegação de
habeas corpus se nele a parte objetivar a "mera substituição do
juízo subjetivo externado em decisão fundamentada, dentro dos
parâmetros cominados pela lei" (STJ, AgRg no HC 267.159/ES, Rel.
Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, QUINTA TURMA,
julgado em 24/09/2013). Precedentes.
3. O crime continuado é benefício penal, modalidade de
concurso de crimes, que, por ficção legal, consagra unidade incindível
entre os crimes parcelares que o formam, para fins específicos de
aplicação da pena. Para a sua aplicação, a norma extraída do art. 71,
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caput, do Código Penal exige, concomitantemente, três requisitos
objetivos: I) pluralidade de condutas; II) pluralidade de crime da
mesma espécie; III) condições semelhantes de tempo lugar, maneira
de execução e outras semelhantes (conexão temporal, espacial,
modal e ocasional); IV) e, por fim, adotando a teoria objetivo-subjetiva
ou mista, a doutrina e jurisprudência inferiram implicitamente da norma
um requisito da unidade de desígnios na prática dos crimes em
continuidade delitiva, exigindo-se, pois, que haja um liame entre os
crimes, apto a evidenciar de imediato terem sido os crimes
subsequentes continuação do primeiro, isto é, os crimes parcelares
devem resultar de um plano previamente elaborado pelo agente.
4. No que tange à continuidade delitiva específica,
descrita no art. 71, parágrafo único, do Código Penal, além daqueles
exigidos para aplicação do benefício penal da continuidade delitiva
simples, são concomitantemente requisitos da modalidade
específica que os crimes praticados: I) sejam dolosos; II) realizados
contra vítimas diferentes; e III) cometidos com violência ou grave
ameaça à pessoa.
5. Os crimes de estupro de vulnerável, consistentes em
conjunção carnal e outros atos libidinosos, foram, de fato, praticados
contra duas vítimas, contudo, com violência presumida, motivo pelo
qual não deve incidir a regra da continuidade delitiva específica. Isso
porque, a violência de que trata a continuidade delitiva especial (art.
71, parágrafo único, do Código Penal) é real, sendo inviável aplicar
limites mais gravosos do benefício penal da continuidade delitiva
com base, exclusivamente, na ficção jurídica de violência do
legislador utilizada para criar o tipo penal de estupro de vulnerável,
se efetivamente a conjunção carnal ou ato libidinoso executado
contra vulnerável foi desprovido de qualquer violência real, como no
caso em tela.
6. A exasperação da pena do crime de maior pena,
realizado em continuidade delitiva, será determinada, basicamente,
pelo número de infrações penais cometidas, parâmetro este que
especificará no caso concreto a fração de aumento, dentro do
intervalo legal de 1/6 a 2/3. Nesse diapasão esta Corte Superior de
Justiça possui o entendimento consolidado de que, em se tratando
de aumento de pena referente à continuidade delitiva, aplica-se a
fração de aumento de 1/6 pela prática de 2 infrações; 1/5, para 3
infrações; 1/4 para 4 infrações; 1/3 para 5 infrações; 1/2 para 6
infrações e 2/3 para 7 ou mais infrações.
7. Entrementes, em especial nos crimes sexuais
envolvendo vulneráveis, torna-se bastante complexa a prova do
exato número de crimes cometidos. O contexto apresentado nos
autos, evidencia que o paciente mantinha relações sexuais com
as duas vulneráveis, por incontáveis vezes, por um período de
6 meses, sendo impossível precisar a quantidade e conjunções
carnais ou atos libidinosos praticados, imprecisão esta que não
deve levar o aumento da pena ao patamar mínimo, diante da
patente desproporcionalidade e vulneração da individualização
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da pena. Por conseguinte, nesse contexto, a exasperação da pena
na fração máxima de 2/3 pela continuidade delitiva é de rigor.
8. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida de
ofício para fazer incidir o benefício penal da continuidade delitiva
simples, na fração de 2/3, e estabelecer a pena de 13 (treze) anos e 4
(quatro) meses de reclusão, ficando mantido, no mais, o teor do
decreto condenatório. (HC 232.709/SP, Rel. Ministro RIBEIRO
DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 25/10/2016, DJe 09/11/2016).

Como se vê – em se tratando de crime de estupro de vulnerável


praticado por longo decurso de tempo – a denúncia que ao menos delimita o
período delitivo, ainda que longo, atende aos requisitos do art. 41 do CPP, conforme
jurisprudência desta Corte Superior.
Ademais, o Tribunal de origem, de forma pertinente, observa que o writ
é via inadequada para se aferir a existência de dolo na conduta, porque a análise do
elemento subjetivo do tipo demandaria o análise fático-probatória incabível no
procedimento célere do habeas corpus.
Com efeito, para que os vícios da denúncia sejam aptos a ensejar o
trancamento da ação penal, por inépcia ou falta de justa causa, devem ser aferíveis
ao primeiro contato – sem esforço interpretativo – sob pena de se realizar um
julgamento antecipado do mérito, sem instrução probatória realizada sob o crivo do
contraditório. Por essa razão o mandamus não é adequado à análise do dolo na
omissão ou da impossibilidade de a paciente impedir o resultado.
Sobre a inadequação da análise aprofundada das provas para o
reconhecimento de ausência de justa causa, confiram-se os seguintes julgados,
cujas ementas seguem transcritas:

RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS.


ESTUPRO DE VULNERÁVEL. FALTA DE JUSTA CAUSA.
NECESSIDADE DE DILAÇÃO PROBATÓRIA. VIA INADEQUADA.
ACÓRDÃO OBJURGADO EM CONSONÂNCIA COM A
JURISPRUDÊNCIA DESTE SODALÍCIO. INSURGÊNCIA
DESPROVIDA.
1. Em sede de habeas corpus somente deve ser
obstada a ação penal se restar demonstrada, de forma
indubitável, a atipicidade da conduta, a ocorrência de
circunstância extintiva da punibilidade e a ausência de indícios de
autoria ou de prova da materialidade do delito.
2. Estando a decisão impugnada em total
consonância com o entendimento jurisprudencial firmado por
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Superior Tribunal de Justiça
este Sodalício, não há que se falar em trancamento da ação
penal, pois, de uma superficial análise dos elementos probatórios
contidos no presente inconformismo, não se vislumbra estarem
presentes quaisquer das hipóteses que autorizam a
interrupção prematura da persecução criminal por esta via, já
que a alegada ausência de provas de que o recorrente teria
praticado os crimes descritos na denúncia demandaria profundo
revolvimento do conjunto probatório.
3. Não há qualquer ilegalidade no fato de a acusação
referente aos crimes contra a dignidade sexual estar lastreada no
depoimento prestado pela ofendida em sede policial, já que tais
ilícitos geralmente são praticados à clandestinidade, sem a
presença de testemunhas, e muitas vezes sem deixar rastros
materiais, motivo pelo qual a palavra da vítima possui especial
relevância.
4. Ainda que a autoridade policial não tenha intimado
para depor a tia da menor supostamente abusada, como indicado pelo
réu, o certo é que tal fato não tem o condão de macular a ação penal,
pois o órgão ministerial pode oferecer denúncia com base em
quaisquer elementos de informação, sendo certo que eventuais
vícios no curso do procedimento inquisitorial não contaminam o
processo judicial, além do que a referida testemunha poderá ser
ouvida no curso da instrução processual.
5. Recurso desprovido. (RHC 67.435/PI, Rel. Ministro
JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 05/04/2016, DJe
13/04/2016)

PROCESSUAL PENAL. RECURSO ORDINÁRIO EM


HABEAS CORPUS. ESTUPRO DE VULNERÁVEL TRANCAMENTO
DA AÇÃO PENAL EM VIRTUDE DE AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA.
IMPOSSIBILIDADE. REVOLVIMENTO DA MATÉRIA
FÁTICO-PROBATÓRIA. RECURSO DESPROVIDO.
I - A jurisprudência do excelso Supremo Tribunal Federal,
bem como desta eg. Corte, há muito já se firmou no sentido de que o
trancamento da ação penal por meio do habeas corpus é medida
excepcional, que somente deve ser adotada quando houver
inequívoca comprovação da atipicidade da conduta, da incidência de
causa de extinção da punibilidade ou da ausência de indícios de
autoria ou de prova sobre a materialidade do delito, o que não ocorre
no caso (precedentes do STF e do STJ).
II - A denúncia deve vir acompanhada com o mínimo
embasamento probatório, ou seja, com lastro probatório mínimo apto a
demonstrar, ainda que de modo indiciário, a efetiva realização do ilícito
penal por parte do denunciado. Em outros termos, é imperiosa
existência de um suporte legitimador que revele de modo satisfatório e
consistente, a materialidade do fato delituoso e a existência de indícios
suficientes de autoria do crime, a respaldar a acusação, de modo a
tornar esta plausível. Não se revela admissível a imputação penal
destituída de base empírica idônea o que implica a ausência de justa
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causa a autorizar a instauração da persecutio criminis in iudicio.
III - Não se pode discutir a ausência de justa causa
para a propositura da ação penal, em sede de habeas corpus, se
necessário um minucioso exame do conjunto fático-probatório em
que sucedeu a infração (precedentes). Na hipótese, há, com os
dados existentes até aqui, o mínimo de elementos que autorizam
o prosseguimento da ação penal, sendo por demais prematura a
pretensão de seu trancamento, por alegada negativa de autoria
(precedentes do STF e do STJ).
Recurso ordinário desprovido. (RHC 61.496/PI, Rel.
Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 15/09/2015,
DJe 01/10/2015)

No que diz respeito ao crime ambiental descrito no art. 56 da Lei nº


9.605/1998, o Tribunal Estadual não se pronunciou sobre a denúncia. O acórdão
limitou-se a informar que houve de desmembramento do feito. Nesse contexto, em
que o acórdão impugnado foi silente quanto à imputação do crime ambiental, é
defeso ao Superior Tribunal de Justiça analisar a denúncia relativamente a este
tópico, sob pena de se incidir em indevida supressão de instância.
Assim, não se identifica qualquer óbice ao exercício do direito de
ampla defesa, uma vez que a denúncia, de forma objetiva, imputa à paciente
conduta omissiva dolosa penalmente relevante por não ter impedido a prática de
estupros de vulneráveis ocorridos na APAE do município de Castro, quando podia e
devia evitar referidos delitos, na qualidade de responsável legal pela vigilância e
proteção dos alunos que frequentavam a entidade. Nesse contexto, a imputação é
clara e não obsta o exercício da ampla defesa, atendendo aos requisitos do art. 41
do CPP.
Ante o exposto, voto no sentido de negar provimento ao presente
recurso em habeas corpus.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO
QUINTA TURMA

Número Registro: 2015/0020400-9 PROCESSO ELETRÔNICO RHC 56.154 / PR


MATÉRIA CRIMINAL

Números Origem: 00215452320148160000 12335330


EM MESA JULGADO: 21/02/2017
SEGREDO DE JUSTIÇA
Relator
Exmo. Sr. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro FELIX FISCHER
Subprocuradora-Geral da República
Exma. Sra. Dra. ELIZETA MARIA DE PAIVA RAMOS
Secretário
Me. MARCELO PEREIRA CRUVINEL
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : LB
ADVOGADO : RAPHAEL TAQUES PILATTI - PR038604
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ
CORRÉU : I DOS S
ASSUNTO: DIREITO PENAL - Crimes contra a Dignidade Sexual - Estupro de vulnerável

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUINTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"A Turma, por unanimidade, negou provimento ao recurso."
Os Srs. Ministros Felix Fischer, Jorge Mussi, Reynaldo Soares da Fonseca e Ribeiro
Dantas votaram com o Sr. Ministro Relator.

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