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APRESENTAÇÃO

Seja bem-vindo. Estamos iniciando nossos trabalhos e, nos próximos meses, ficaremos
constantemente em contato. A distância será apenas aparente, pois estaremos, na verdade, liga-
dos através da tecnologia que a modernidade nos proporciona. Nós, enquanto seres pensantes e
bem informados, não podemos abrir mão das inovações que o século XXI nos apresenta.
Imagine-se fazendo uma viagem de turismo pela cidade em que você mora. Você já co-
nhece tudo, já viu tudo que qualquer guia local possa lhe mostrar. Que novidades poderão exis-
tir em locais que a gente percorre diariamente? Em prédios que a gente viu construir? Em ruas
das quais se conhece cada buraco?
Experimente fazer tal viagem sem essa idéia preconcebida e você verá coisas que nunca
viu, se apaixonará por paisagens que nunca antes havia observado. Em sua própria cidade. Verá
ângulos novos de paisagens. Paisagens há muito conhecidas.
Convidamos você a fazer uma viagem de observação pelo mundo da economia. Essa via-
gem não será muito diferente do que viajar por sua própria cidade. Afinal, todos nós lemos,
ouvimos, vivemos o dia-a-dia e nos sentimos envolvidos por economia.
Nossa incursão por essa ciência pretende ser a mais aprazível possível. Não pretende esta
disciplina ser um curso de alta especialização, mas um aprendizado novo sobre aquilo que já
vivemos, mas às vezes não temos tempo de observar. Na verdade, talvez nunca tenhamos para-
do para pensar que, ao viver e conviver com nossos amigos, com nossa família, nossos negó-
cios, estejamos sendo protagonistas de algo que também é ciência.
A disciplina à qual você está sendo apresentado tem o objetivo de mostrar informações e
instrumentos para que você possa mais facilmente identificar os fatos econômicos e compreen-
der o funcionamento das economias de mercado, do ponto de vista da Ciência Econômica. Ao
seu final, espera-se que você, além de ter gosto pelos temas econômicos, possa melhor compre-
ender os principais aspectos da realidade econômica e conhecer os mercados de bens e de servi-
ços, de trabalho, monetário e cambial, internacional e saber relacionar essa teoria à sua área de
interesse e de atuação profissional.

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APRESENTAÇÃO DOS PROFESSORES

Erico Michels é mestre em gestão de negócios pela Universidad de Ciencias Empresariales y


Sociales (UCES-Argentina) e bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS). É professor nos cursos de Ciências Econômicas e Superiores de
Tecnologia em Gestão da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Ney Oliveira está cursando doutorado pela Universitat de les Iles Balears (UIB-Espanha) é es-
pecialista em Administração de Marketing pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNI-
SINOS) e bacharel em Ciências Econômicas pela UNISINOS. É professor nos cursos de Ciên-
cias Econômicas e Superiores de Tecnologia em Gestão da Universidade Luterana do Brasil
(ULBRA).

Sandro Wollenhaupt é mestre em Administração pela Universidade Fernando Pessoa de Portu-


gal/Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI e bacharel em Ciências Econômicas pela Uni-
versidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). É professor nos cursos de Ciências Econômi-
cas e Superiores de Tecnologia em Gestão da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

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CAPÍTULO 1
1 FUNDAMENTOS DA CIÊNCIA ECONÔMICA

Este capítulo tem como objetivo apresentar a compreensão das características básicas da
ciência econômica, destacando o seu objeto de estudo, além de mostrar uma breve retrospectiva
dos principais pensadores da economia.
Sugere-se que o aluno utilize este material estudando os temas na ordem proposta, uma
vez que estes são apresentados do mais simples ao mais complexo, com vista à construção gra-
dual de seu conhecimento.

1.1 CONCEITO, OBJETO E MÉTODO DA CIÊNCIA ECONÔMICA


Etimologicamente, a palavra economia vem do grego oikos (casa) e nomos (norma, lei).
Seria a “administração da casa”, que pode ser generalizada como “administração da coisa públi-
ca”. Economia pode ser definida como a ciência social que estuda a maneira pela qual os ho-
mens decidem empregar recursos escassos, a fim de produzir diferentes bens e serviços e aten-
der às necessidades de consumo.
Assim, é uma ciência social, já que objetiva atender às necessidades humanas. Mas de-
pende de restrições físicas, devido à escassez de recursos ou de fatores de produção (mão-de-
obra, capital, terra, matéria-prima). Pode-se dizer que o objeto de estudo da ciência econômica é
a questão da escassez, ou seja, como ‘‘economizar’’ recursos.
A escassez surge devido às necessidades humanas ilimitadas e à restrição física de recur-
sos. Afinal, o crescimento populacional renova as necessidades biológicas; o contínuo desejo de
elevação do padrão de vida e a evolução tecnológica fazem com que surjam “novas” necessida-
des (computador, freezer, DVD, automóvel). Nenhum país, pobre ou rico, dispõe de todos os
recursos produtivos para satisfazer às necessidades da população. O Japão, por exemplo, precisa
importar a maior parte das matérias-primas que utiliza.
Se não houvesse escassez de recursos, ou seja, se todos os bens fossem abundantes (bens
livres), não haveria necessidade de estudarmos questões como inflação, crescimento econômico,
deficit no balanço de pagamentos, desemprego. Esses problemas simplesmente não existiriam
(e, obviamente, nem a necessidade de estudar economia).
Todas as sociedades (sejam economias de mercado, sejam centralizadas) são obrigadas a
fazer opções, escolhas entre alternativas, uma vez que os recursos não são abundantes. Elas são

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obrigadas a fazer escolhas sobre O QUE E QUANTO, COMO E PARA QUEM (que são os problemas
econômicos fundamentais de toda e qualque economia) produzir:
 O que e quanto produzir – A sociedade deve decidir se produz mais bens de consu-
mo ou bens de capital ou, como num exemplo clássico: quer produzir mais canhões
ou mais manteiga? Em que quantidade? Os recursos devem ser dirigidos para a pro-
dução de mais bens de consumo ou de bens de capital? No fundo, trata-se de uma de-
cisão que extrapola a esfera puramente econômica. Em economias de mercado, o que
e quanto produzir é sinalizado pelos consumidores (o que é chamado de “soberania
do consumidor”). Em economias planificadas ou centralizadas, tipo chinesa, cubana
e, até recentemente, soviética, a decisão é tomada por um Órgão Central de Planeja-
mento.
 Como produzir – Trata-se de uma questão de eficiência produtiva: serão utilizados
métodos de produção de capital intensivos? Ou de mão-de-obra intensivos? Ou de
terra intensivos? Isso depende da disponibilidade de recursos de cada país.
 Para quem produzir – A sociedade deve decidir quais os setores que serão benefici-
ados na distribuição do produto: trabalhadores, capitalistas ou proprietários da terra?
Agricultura ou indústria? Mercado interno ou mercado externo? Região Sul ou Nor-
te? Ou seja, trata-se de decidir como será distribuída a renda gerada pela atividade
econômica.
Uma das áreas da economia que busca analisar as melhores formas de responder a essas
perguntas é a teoria macroeconômica. A macroeconomia trata da evolução da economia como
um todo, analisando a determinação e o comportamento dos grandes agregados, como renda e
produto nacionais, investimento, poupança e consumo agregados, nível geral de preços, empre-
go e desemprego, estoque de moeda e taxas de juros, balanço de pagamentos e taxa de câmbio.
Ao estudar e procurar relacionar os grandes agregados, a macroeconomia negligencia o
comportamento das unidades econômicas individuais, tais como famílias e firmas, fixação de
preços nos mercados específicos, efeitos de oligopólios em mercados individuais etc. Essas são
preocupações da microeconomia. A macroeconomia trata os mercados de forma global. Por
exemplo: no mercado de bens e serviços, agrega produtos agrícolas, industriais e serviços de
transporte; no mercado de trabalho, não se preocupa com diferenças na qualificação, sexo, ida-
de, origem da força de trabalho.
O custo dessa abstração é que os pormenores omitidos são, muitas vezes, importantes.Por
exemplo, quando tomamos apenas o nível da taxa de juros, não são destacadas devidamente as
diferenças entre os vários tipos de aplicações financeiras.
A abstração, porém, tem a vantagem de permitir estabelecer relações entre grandes agre-
gados e proporcionar melhor compreensão de algumas das interações mais relevantes da eco-
nomia, que se estabelecem entre os mercados de bens e serviços, de trabalho e de ativos finan-
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ceiros e não-financeiros.
Entretanto, apesar do aparente contraste, não há um conflito básico entre a micro e a ma-
croeconomia, dado que o conjunto da economia é a soma de seus mercados individuais. A dife-
rença é primordialmente uma questão de ênfase, de enfoque. Ao estudar a determinação de pre-
ços numa única indústria, na microeconomia, consideram-se constantes os preços das outras
indústrias (a hipótese de coeteris paribus). Na macroeconomia, estuda-se o nível geral de pre-
ços, ignorando as mudanças de preços relativos de bens das diferentes indústrias.
A teoria macroeconômica propriamente dita preocupa-se mais com questões conjunturais,
de curto prazo. Especificamente, preocupa-se com a questão do desemprego (entendido como a
diferença entre a produção efetivamente realizada e a produção potencial da economia, quando
todos os recursos estejam totalmente empregados) e com a estabilizacão do nível geral de pre-
ços.
A parte da teoria econômica que estuda o comportamento dos grandes agregados ao longo
do tempo é denominada teoria do crescimento econômico1. Seu enfoque é um pouco diferencia-
do, preocupando-se com questões como progresso tecnológico e política industrial, que envol-
vem políticas de longo prazo.

1.1.1 Método na ciência econômica


Quanto ao método em economia, três aspectos devem ser levados em consideração:
 como a análise dos fenômenos decorrentes do comportamento humano é complexa,
a economia utiliza hipóteses simplificadoras para explicar os fenômenos que anali-
sa;
 a ciência econômica preferencialmente relaciona duas variáveis para explicar um fa-
to econômico (por exemplo: a relação existente entre o preço e o consumo de um
bem);
 freqüentemente você se deparará com a chamada análise marginal. Diferente do
que o nome possa sugerir, essa forma de analisar os fatos econômicos busca rela-
cionar as variáveis segundo o seu incremento (crescimento, aumento) relacionado a
um aumento unitário de outra variável. Por exemplo: quanto aumentará o custo total
de uma empresa se aumentar a produção em uma unidade de produto? Esse será o
custo marginal da produção daquela unidade a mais. É cedo para aprofundar esse
tema. Retornaremos a ele mais adiante, em nossa viagem, recém-iniciada.
Ainda sobre a metodologia própria da ciência econômica e sobre os seus métodos de in-
vestigação, é necessário distinguir dois grandes compartimentos da economia: a economia posi-
tiva e a economia normativa.
A ECONOMIA POSITIVA se ocupa de analisar os atos e fatos sociais tais quais eles ocor-
rem, sem utilizar juízos de valor. Na prática, a economia positiva estuda os fatos sociais, obser-
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va-os sistematicamente (segundo metodologia própria das ciências sociais) e dessa análise e
descrição cientificamente elaborada são formulados os princípios gerais, as leis da economia, as
teorias e os modelos econômicos. Se deduzem ou são induzidas as teorias econômicas, os prin-
cípios econômicos, as leis da economia, os modelos econômicos. Com certeza você já ouviu
falar muitas vezes de duas leis da economia: a Lei da Oferta e a Lei da Procura. Essas são duas
entre outras tantas leis e princípios que compõem a economia positiva. Todas as leis, princípios,
modelos e teorias necessitam permanentemente ser analisados e confrontados com a realidade,
para verificação de sua validade e atualização.
Por outro lado, a ECONOMIA NORMATIVA se ocupa de utilizar princípios, leis e teorias
para produzir modificações e propor um direcionamento ao curso natural da economia: são as
políticas econômicas. A economia normativa está fortemente vinculada à política, à ideologia e
ao sistema de valores.
Exemplificando: as políticas econômicas sempre buscarão alcançar um objetivo social
específico: debelar a inflação, melhor distribuir a renda, desenvolver uma região ou todo o país,
promover o crescimento ou o desenvolvimento de um setor da economia.
Podemos resumir os compartimentos da economia no quadro 1, a seguir:

Quadro 1: Síntese dos compartimentos da economia.

1. Análise dos fatos do dia-a-dia com a metodologia das ciências sociais;


ECONOMIA
2. Criação da teoria econômica;
POSITIVA
3. Análise econômica.

1. Proposição de políticas econômicas;


ECONOMIA
2. Avaliação dos resultados do ponto de vista político vigente.
NORMATIVA

1.2 SÍNTESE DO PENSAMENTO ECONÔMICO

A história do pensamento econômico pode ser analisada desde as correntes filosóficas da


Idade Antiga, como ocorreu na Grécia e em Roma, até as idéias contemporâneas modernas.
Nessa evolução, apareceram idéias e sistemas conflitantes, que iam do liberalismo total
até o intervencionismo completo. Mas notava-se um objetivo essencial, a construção de uma
ciência que pudesse ajudar os homens na solução de um problema econômico fundamental: a
conciliação entre escassez de recursos e necessidades crescentes.

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1.2.1 Fisiocracia
Tratava-se de uma doutrina da ordem natural – o universo era regido por leis naturais,
imutáveis e universais desejadas pela providência divina para a felicidade dos homens. Os fisio-
cratas, ao acreditarem em uma ordem natural que regula os fenômenos econômicos, aceitavam
que a vida econômica se organiza e reorganiza de modo automático, com suas próprias forças, e,
portanto, negavam a intervenção do estado na economia.
Com os fisiocratas, é iniciado o desenvolvimento das explicações para os fenômenos eco-
nômicos. Para eles, somente a terra e tudo que viesse da natureza era considerados fatores eco-
nômicos produtivos. As atividades agrícolas e extrativas eram dadas como economicamente
produtivas – o produto líquido decorria da terra e sobre ele produzia-se um excedente da riqueza
criada sobre a riqueza consumida. Pode-se dizer que a fisiocracia foi uma doutrina organicista e
naturalista, que recebeu influência do racionalismo do século XVIII. Muitos consideram as teo-
rias de Quesnay2 meras extensões da doutrina escolástica, embora não deixem de reconhecer a
natureza científica e analítica de sua obra. Em Quesnay, se formulam os princípios da filosofia
social utilitarista (hedonismo), que se destaca com o quadro econômico, uma representação
simplificada do fluxo de despesas e dos bens entre as diferentes classes sociais. Nessa época,
surgem as máquinas e, com elas, o sistema industrial capitalista.

1.2.2 Escola clássica


De cunho liberal, desenvolveu-se entre o fim do século XVIII e o início do século IX. O
marco inicial está relacionado a Adam Smith e David Ricardo. Para esses autores, as leis natu-
rais da vida econômica têm como princípio regulador a livre concorrência exercida pelos agen-
tes econômicos. Concorrência que leva à divisão do trabalho, alavancando a produção, enquanto
a natureza seria o fator originário. O corpo analítico da escola clássica tem quatro princípios
dominantes: liberdade de empresa, existência da propriedade privada, liberdade de conjunto e
liberdade de troca. Nesse princípio repousa e se fundamenta a lei da oferta de mercado.

Adam Smith (1723-1790)


Torna-se o apologista da nascente classe industrial e oponente aos privilé-
gios e proteção concedidos pelo Estado no mercantilismo. Não acreditava na “or-
dem natural” dos negócios. Confiava no egoísmo natural dos homens e na har-
monia de seus interesses. Afirmava que todo esforço individual na procura do
melhor leva naturalmente à preferência pelo emprego mais vantajoso para a soci-
edade. Adam Smith enfatizava o mercado como regulador da divisão do trabalho,
faz a distinção entre valor de uso e valor de troca e admite que só neste último há
interesse econômico. O valor, para Smith, era distinto do preço; o trabalho era a
medida do valor. Analisou a distribuição da renda entre salário, lucro e renda da

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terra. Smith acreditava que a concorrência levaria ao desenvolvimento econômico
e que os benefícios dele decorrentes seriam partilhados por todos.

Thomas Robert Malthus (1766-1834)


Com destaque na terminologia teórica e por ter colocado a economia em
sólidas bases empíricas, Malthus ficou famoso com a Lei da População. Mostrou,
através dessa lei, que a população fora de controle cresce a taxas geométricas, en-
quanto os meios de subsistência crescem a taxas aritméticas. Seu pessimismo é
criticado por não ter vislumbrado o progresso técnico e as técnicas de controle de
natalidade.

David Ricardo (1772-1823)


Mais formal que Smith e Malthus, David Ricardo construiu um sistema
abstrato cujas conclusões decorrem dos axiomas. Foi esse autor desenvolveu um
importante estudo sobre a renda diferencial da terra e sobre o futuro do sistema
capitalista. O ouro passou a ter significado importante na política econômica. No
início, a Espanha detinha a liderança da posse do ouro. Os demais países, não tão
bem-sucedidos nesse aspecto, procuravam uma compensação através de políticas
econômicas que tornassem seus balanços de pagamento favoráveis, para que, des-
se modo, por meio dos excedentes ou superavits, comprassem o ouro espanhol.
Foi assim que floresceu uma indústria altamente regulamentada de bens exportá-
veis que podia garantir, também, a demanda interna.
Esse pensamento econômico existiu entre 1450 e 1750, constituindo-se em
um regime de nacionalismo econômico, vale repetir, com centralização da ques-
tão da riqueza como fim principal do Estado. Ele emerge de um processo crescen-
te de urbanização, do surgimento das cidades e, portanto, da ampliação espacial
do comércio. Operam-se grandes transformações sociais, econômicas e políticas:
 intelectuais: renascimento artístico;
 religiosas: reforma de Calvino e dos anglo-saxões, dando grande ênfase
ao individualismo; o trabalho era enaltecido, o juro era aceito e o lucro
encorajado;
 políticas: aparecimento do Estado moderno;
 geográficas: grandes descobertas – Cabral, Colombo, Magalhães e ou-
tros navegadores;
 econômicas: todos os conceitos referentes ao balanço comercial, às im-
portações e à exportações de bens, bem como as transações com ouro e
prata e todos os conceitos econômicos ligados às transações externas –
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seguro, frete, política de preços, deslocamento da importância econômi-
ca do Mediterrâneo, regulamentação disciplinadora da indústria e do
comércio para propiciar aos países um saldo positivo no balanço de pa-
gamento.

1.2.3 Escola socialista – Karl Marx (1818-1883)


O socialismo constituiu um movimento de reação contra os males do liberalismo, princi-
palmente pela consideração do trabalho como uma mercadoria e, portanto, sujeito às leis do
mercado. Os socialistas pretendiam substituir a ordem social baseada na liberdade individual, na
propriedade privada e na liberdade contratual por uma outra ordem, fundamentada na proprie-
dade coletivizada dos meios de produção. Essa escola pretendia corrigir as desigualdades eco-
nômicas, dentro de formulações igualitárias, em função das necessidades comuns. Os movimen-
tos e as teorias socialistas que se opuseram ao individualismo e desenvolveram-se com doutri-
nas e programas de reformas bem diferentes. Podemos destacar as seguintes correntes:

Socialismo de cátedra (1872)


Apareceu na Alemanha. Essa vertente do socialismo pretendia, mesmo
conservando a propriedade privada, regular a distribuição de riqueza e promover
reformas de caráter econômico e social. O Estado entraria como cooperador, e
não como absorvente, como se pretendia, no quadro geral do socialismo.

Socialismo científico, histórico ou marxismo


Deve-se a Karl Marx a fundação do socialismo científico, que se tornou a
mais importante corrente socialista. Marx se opôs aos processos analíticos clássi-
cos, bem como às suas conclusões; criticou Malthus com base nos diversos está-
gios e modos de produção. Sua análise considera o significado da dinâmica inter-
na do processo histórico e as suas leis econômicas peculiares. Marx alterou a aná-
lise de valor, embora tenha se servido dos componentes teóricos da teoria do va-
lor do trabalho de David Ricardo. Foi com Marx que apareceram os conceitos:
mais-valia, capital variável, capital constante, exército de reserva. Analisou, tam-
bém, o processo de decrescimento da taxa de lucro decorrente da acumulação do
capital, da distribuição da renda e das crises do sistema capitalista. Dada sua im-
portância, vejamos quais foram as bases filosóficas e a interpretação dos concei-
tos econômicos dessa abordagem teórica socialista:
 Bases filosóficas do socialismo científico
Marx partiu das idéias de Hegel, servindo-se do conceito de mo-
vimento dialético, que vai da tese à antítese (negação da tese) e
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que, num terceiro termo, chega, pelo choque recíproco dos dois
primeiros, à síntese (negação da negação). Recusa o idealismo de
Hegel – “não é a consciência que determina a vida, mas a vida que
determina a consciência”. É pelo homem que se explica a história,
este se apresenta como uma vítima – a teoria da alienação, em que
o homem projetou para fora de si a melhor parte de si mesmo e fez
Deus.
É necessário, dizia Marx, que o homem retome para si o que
lhe pertence. O trabalhador aliena sua própria substância no pro-
duto que realiza e do qual o empregador se apropria. Desse modo,
o produto é o homem desintegrado. É preciso proceder à reinte-
gração. Marx estuda o homem total e faz dele o rei do universo,
como negação de toda transcendência.

 Materialismo histórico e a luta de classes


Marx distingue na história a INFRA-ESTRUTURA, que é a técnica, as
condições materiais de produção, a realidade econômica, e a SUPER-
ESTRUTURA, que é a idéia, a cultura, o direito, a moral, a religião. A
superestrutura comanda a infra-estrutura. As formas jurídicas da so-
ciedade são sucessivas e necessariamente dirigidas pela evolução
material das técnicas. A técnica de uma época concede a uma classe
social uma posição vantajosa e à outra classe uma situação desvanta-
josa. Isso significa que há sempre uma classe dominante e uma clas-
se dominada. O poder é da classe dominante, mas apenas provisori-
amente, pois o processo dialético da negação a levará, um dia, ao
desterro. Essa é a ilustração da ideologia do senhor e do escravo, dos
capitalistas e dos proletários.

 O valor do trabalho e a mais-valia


É a teoria das mercadorias, isto é, dos objetos produzidos pelo
trabalho para a venda:
– o valor das coisas é determinado pela quantidade de trabalho
de qualidade média necessária para produzi-las;
– o valor da força de trabalho é determinado pela quantidade de
trabalho necessária para produzir alimentos e outras coisas ne-
cessárias à subsistência do operário, durante uma jornada de
seis horas de trabalho:
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a) o empregador pagará ao operário um salário corres-
pondente a essas seis horas de trabalho para ter o di-
reito de utilizá-las no processo de produção, mas o
empregador fará o operário trabalhar mais de seis
horas, durante oito horas, por exemplo;
b) venderá as mercadorias produzidas pelo trabalhador
a um preço equivalente a oito horas de trabalho;
c) o operário forneceu duas horas de trabalho não-
pagas, que são apropriadas pelo empregador, consti-
tuindo um produto líquido que Karl Marx denomi-
nou de mais-valia;
d) essa mais-valia constitui a exploração capitalista; o
proletariado recebe um salário menor que o valor das
mercadorias produzidas; esse salário é insuficiente
para comprá-las;
e) considerando ser a classe trabalhadora o mais impor-
tante conjunto de consumidores, apareceriam, inevi-
tavelmente, as crises de superprodução ou de sub-
consumo.

 Proletarização e a tese catastrófica da subversão


Segundo as idéias de Marx, o avanço do capitalismo provocará a
transformação fatal que o arruinará; nesse processo, o número de
proletários crescerá continuamente, e as empresas se tornarão cada
vez maiores e menos numerosas. No momento em que todos se tor-
narem proletários, a luta de classes chegará ao fim. A revolução se
realizaria por si mesma. Marx aconselhava não só que se ficasse à
espera do desenlace, como concitava a que os trabalhadores se ante-
cipassem, o que é atestado pelo seu brado: “proletários de todos os
países, uni-vos”.
Marx estruturou, assim, as bases do pensamento socialista do
século XIX. Foi um revolucionário, e sua obra O Capital promoveu
um grande impacto e enormes modificações na ordem econômica de
várias nações. Por exemplo, a legislação trabalhista e os sindicatos,
entre outros, foram contribuições pós-marxistas.

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1.2.4 Escola Marginalista ou Neoclássica
A partir de 1870 até 1929, a análise econômica seria enriquecida com o desenvolvimento
da teoria do marginalismo ou neoclassicismo. Esse conjunto de estudos procurou integrar a teo-
ria do valor à teoria dos custos de produção realizada pelos clássicos. Desenvolveu a explicação
da alocação dos recursos com o auxílio da análise marginal e ofereceu argumentos para o enten-
dimento da formação dos preços dos fatores de produção e dos bens econômicos finais. Con-
forme a análise do marginalismo, o homem econômico é racional, isto é, suas ações são inten-
cionais e sistemáticas; é calculador e está empenhado em comparar seus gastos marginais com
seus respectivos benefícios.

1.2.5 Escola Keynesiana ou Revolução Keynesiana


John Maynard Keynes (1883-1946) é o expoente máximo do pensamento econômico que
revolucionou todo o conteúdo teórico dessa ciência. A análise de Keynes voltou-se, principal-
mente, para problemas da estabilidade a curto prazo; nesse sentido, procurou determinar as cau-
sas das flutuações econômicas dadas pelos níveis da renda nacional e do emprego nos países
industrializados. Para levar avante esse objetivo, passou a considerar os grandes agregados no
curto prazo, procurando contestar a condenação marxista do capitalismo. Dizia que um capita-
lismo não-regulado, sem intervenção, mostra-se incompatível com a manutenção do pleno em-
prego e da estabilidade econômica.
Keynes integrou os setores reais (de gasto) ao setor monetário, analisou a taxa de juro
(determinada pela oferta de moeda e pela preferência pela liquidez); analisou o consumo e a
poupança, ambos dependentes da renda, os efeitos multiplicadores do investimento no nível da
renda nacional; atribuiu papel ativo à política fiscal – de gastos e de impostos, defendendo a
adoção de uma política deficitária do governo como um meio seguro para tirar o sistema eco-
nômico da depressão a curto prazo; mas era contrário aos controles monetários, pois não consi-
derava a moeda um instrumento ativo. Na época de Keynes, dizia-se que a economia estava em
recessão porque as rendas eram insuficientes para comprar a produção nacional.
A análise de Keynes é criticada por ser parcial e não geral, como alegava na sua obra Te-
oria geral do emprego, do juro e da moeda, pois limitava-se, ali, à análise o subemprego de
curto prazo, faltando integrar sua análise à complexidade da microeconomia; além disso, não
aplicou sua teoria à explicação do funcionamento das economias dos países menos desenvolvi-
dos.
Mas não se pode negar o papel importante dos estudos de Keynes no desenvolvimento da
aferição e da medida das atividades econômicas em seu conjunto, de modo agregado – como as
contas nacionais ou contabilidade nacional; e na explicação para os modelos agregados e suas
verificações empíricas através da econometria, que faz a interação entre a teoria econômica, a
matemática e a estatística.

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Contribuições contemporâneas
Após os trabalhos de Keynes, houve um intenso desenvolvimento de estudos e a análise
de assuntos ligados à renda, ao emprego e à moeda. São exemplos o modelo do multiplicador
atribuído a Paul A. Samuelson; o modelo da taxa de juros de John R. Hicks; as hipóteses de
renda permanente de Milton Friedman; a interação entre a micro e a macroeconomia, a teoria
neoclássica moderna das expectativas racionais e os aprofundamentos nas teorias dinâmicas de
longo prazo realizados por Joan Robinson, Roy F. Harrod, Evsey Domar, John Hícks, Nicholas
Kaldor, Kenneth Arrow, Samuelson, Solow e muitos outros.
Na evolução sucinta dessas contribuições, convém alertar que o intervencionismo na eco-
nomia, proposto por Keynes, tinha sentido restrito e não pode ser entendido da mesma maneira
que o dirigismo estatal e generalizado adotado nos países do bloco socialista soviético – o Esta-
do é apenas complementador, e nunca substituto da iniciativa privada.
Em síntese, as teorias desenvolvidas durante o século XVIII cuidaram da explicação da
formação da riqueza; as do século XIX da distribuição da riqueza e, modernamente, estão se
desenvolvendo teorias com um duplo objetivo: de um lado explicar as flutuações da atividade
econômica, seu desenvolvimento dentro de um quadro de estabilidade e, de outro, investigar a
repartição da riqueza ou o problema de eqüidade.

Considerações sobre este capítulo.

Este capítulo explicou o que é a Economia como Ciência, seu objeto de estudo, os seus
problemas econômicos fundamentais, seu método de abordagem da realidade e uma síntese do
pensamento econômico. Se você compreendeu tais conceitos, está preparado para continuar seu
estudo.

A teoria econômica representa um só corpo de conhecimento, mas, como os objetivos


e métodos de abordagem podem diferir, de acordo com a área de interesse de estudo, costuma-
se dividi-la da forma a seguir:
 Microeconomia: estuda o comporamento de consumidores e produtores e o mer-
cado no qual ineragem. Preocupa-se com a determinação dos preços e quantidades
em mercados específicos;
 Macroeconomia: estuda a determinação e o comportamento dos grandes agrega-
dos, como o PIB, consumo Nacional, investimento agregado, exportação e nível
geral de preços, com o objetivo de delinear um política econômica. Tem um enfo-

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que conjuntural, isto é, preocupa-se com a resolução de questões como inflação e
desemprego, em curto prazo;
 Desenvolvimento Econômico: estuda modelos de desenvovimento que levem à
elevação do padrão de vida (bem-estar) da coletividade. Trata de questões estrutu-
rais, de longo prazo (crescimento da renda per capita, distribuição de renda, evolu-
ção tecnológica);
 Economia Internacional: estuda as relações de troca entre países (transações de
bens e serviços e transações monetárias). Trata da determinação da taxa de câmbio,
do comércio exterior e das relações financeiras internacionais.

Atividades
1. Quando surge a escassez, segundo a ótica econômica?
2. Por que a economia é uma ciência social?
3. Quais são as diferenças entre a economia positiva e a economia normativa?
4. Que diferenças podemos observar entre a teoria econômica clássica (Adam Smith e David
Ricardo) e a teoria de Karl Marx?

Referencias Comentadas
Como obra mais importante deste capítulo recomendamos o livro História do pensa-
mento econômico, de Hunt, por ser uma obra que aborda a história do pensamento econômico
desde o período antigo até os dias de hoke. Consideramos fundamental sua leitura devido à a-
bordagem histórica sob a ótica econômica tratada pelo autor.

Referências
HUNT, E. K. História do pensamento econômico. Petrópolis: Vozes, 2005.
MANKIW, N. G. Introdução à Economia. Princípios de Micro e Macroeconomia. Rio de Janei-
ro: Campus, 1999.
MOCHON F. & TROSTER, R. L. Introdução à Economia. São Paulo: Makron Books, 2002.
O’ SULLIVAN, SHEFFRIN & NISHIJIMA. Introdução à Economia. São Paulo: Pretice Hall.
2004.
PASSOS, C. R. M.; NOGAMI, O. Princípios de Economia. 4. ed. São Paulo: Pioneira Thom-
son Learning, 2003.
ROSSETTI, J. P. Introdução à Economia. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

14
VASCONCELLOS, Marco A. & GARCIA, MANUEL E. Fundamentos de Economia. São
Paulo: Saraiva, 2004.

WESSELS, W. J. Economia. São Paulo: Saraiva, 2003.

15
CAPÍTULO 2

2 A DEMANDA, A OFERTA, O MERCADO E AS SUAS ESTRUTURAS

Este capítulo tem como objetivo a compreensão do comportamento da demanda e da ofer-


ta e de como esses agentes realizam suas trocas no mercado, sob o enfoque da teoria econômica.
Sugere-se que o aluno utilize esse material estudando os temas na ordem proposta, uma
vez que são apresentados do mais simples ao mais complexo, com vista à construção gradual de
seu conhecimento.

2.1 DEMANDA, OFERTA E O EQUILÍBRIO DE MERCADO

Demanda
Demanda ou procura é a quantidade de bens(1) ou serviços(1) que os agentes econômicos(2)
estariam dispostos(3) e aptos(3) a consumir num determinado momento, num determinado merca-
do(4) por diferentes fatores determinantes.
(1) Bens: podem ser estocados;
(2) Agentes econômicos: famílias, empresas e governo;
(3) Requisitos básicos da demanda:
 Dispostos: ter vontade, querer;
 Aptos: ter aptidão de compra; poder comprar. Se esses dois requisitos estiverem pre-
sentes (disposição e aptidão), temos uma demanda REAL ou EFETIVA. Se, no máximo,
um desses requisitos estiver presente, temos, então, uma demanda POTENCIAL (pode
não haver nenhum desses requisitos).
(4) Num determinado momento, num determinado mercado: em cada momento, nossas
vontades mudam nosso comportamento.

Fatores determinantes da demanda


1. Preço do próprio bem/serviço.
2. Preço de outros bens/serviços.
3. Gosto.
4. Preferência.
5. Renda.
16
6. Número de consumidores.

Lei da demanda
“As quantidades demandadas serão tanto maior, quanto menores forem os preços, ou vi-
ce-verso”.Quanto mais caro, menos se compra.

Oferta
Oferta é a quantidade de bens e serviços que um ou mais agentes econômicos estariam
habilitados e interessados em colocar num certo momento, num certo mercado, por diferentes
fatores determinantes.

Fatores determinantes da oferta


1. O preço do próprio bem.
2. Tecnologia.
3. Impostos.
4. Taxa de juros.
5. Fatores da natureza (é tudo aquilo que pode ocorrer em termos climáticos).

Lei da oferta
Quanto maior for o preço de um bem, maior será a quantidade ofertada desse bem. Do
mesmo modo, quanto menor for o preço de um bem, menor será a quantidade ofertada. Em ou-
tras palavras, há uma relação direta entre o preço de um bem e a quantidade ofertada.

2.2 O MERCADO E AS SUAS ESTRUTURAS


Nossa leitura buscará, agora, o entendimento de algo que parece complicado, mas que é o
aspecto da economia que mais interfere em nossa vida diária: o funcionamento do mercado. E o
que é o mercado? Rossetti1 afirma que “em sua acepção primitiva, a palavra mercado dizia res-
peito a um lugar determinado onde os agentes econômicos realizavam suas transações”. Para
Passos e Nogami2 (1999), mercado “é um local ou contexto em que compradores (o lado da
demanda) e vendedores (o lado da oferta) de bens, serviços ou recursos estabelecem contato e
realizam transações”. É nesse mercado que funcionam as duas leis mais conhecidas da Ciência
Econômica: a lei da procura e a lei da oferta. É também no mercado que se formam os preços
dos bens e dos serviços, que utilizamos para viver e satisfazer as nossas necessidades.

17
2.2.1 Formação de preços
Preço é a expressão monetária do valor de bens e serviços que utilizamos para satisfazer
às nossas necessidades. Existe, na teoria econômica uma distinção entre preço de mercado ou
simplesmente preço e preço natural ou apenas valor. O que determina o preço não é o que de-
termina o valor. A explicação do valor de troca das mercadorias tem duas grandes correntes
dentro da Ciência Econômica: a teoria clássica do valor-trabalho e a teoria neoclássica do valor-
utilidade. Essa disputa teórica em torno da determinação do valor entrou na história do pensa-
mento econômico e se manteve por um longo período. Quem apresentou uma solução para o
problema foi um economista inglês deste século, Alfred Marshall3. De acordo com Marshall, o
valor de troca é determinado, a curto prazo, subjetivamente pela utilidade e escassez relativa
(pelo lado da demanda) e, a longo prazo, objetivamente pelos custos de produção (pelo lado da
oferta). Depois disso, os debates acerca da origem do valor foram deixados de lado, pouco tem
sido discutido sobre o assunto.
Os preços de mercado oscilam conforme as variações da oferta e da procura (demanda é
sinônimo de procura, e passaremos a utilizar indistintamente uma ou outra denominação). Nas
economias de mercado, o papel dos preços é de orientar a alocação (direcionamento) dos recur-
sos de produção, funcionando como um indicador ou índice de escassez. Os preços são um me-
canismo de orientação das atividades econômicas; isto é, dos fluxos da produção e da renda. E,
nesse sentido, os preços podem ser também definidos como um índice de conversão de um fluxo
real (de bens e de serviços) em nominal (de valores monetários).

2.2.2 Importância do mercado no sistema econômico


O mercado, através do sistema de preços(1), aloca os escassos recursos(3) para produzir
uma certa quantidade de bens ou serviços, que correspondem a um nível de satisfação das ne-
cessidades das pessoas – o nível ou padrão de vida(2).
(1) Sistema de preços: é o conjunto de preços dos bens, serviços e fatores de produção de um
sistema de preços.
(2) Padrão de vida: é o nível de satisfação alcançado pelas pessoas que fazem parte de um
sistema econômico, quando consomem os bens e serviços por ele produzidos.
(3) Alocação de recursos: é a forma como os fatores de produção são organizados pelo merca-
do, para que produzam bens e serviços que atendam às necessidades das pessoas.

2.2.3 Equilíbrio de mercado


Quando se fala em equilíbrio, a noção intuitiva que nos vem imediatamente à cabeça é de
um balanceamento de forças. Quando se transfere essa noção de equilíbrio para a análise do
mercado, o balanceamento de forças ocorre entre as forças básicas do mercado, quais sejam, a

18
oferta e a procura. Dessa forma, pode-se dizer que o mercado está em equilíbrio quando o preço
pelo qual os vendedores pretendem vender uma quantidade do produto é exatamente igual ao
preço pelo qual os compradores pretendem comprar essa mesma quantidade do produto. Colo-
cando em um gráfico (Figura 1) a representação das curvas de oferta e de procura, podemos
visualizar o equilíbrio de mercado. Esse equilíbrio é definido pelo ponto A, determinado pela
interseção das duas curvas.
Figura 1 – Gráfico do equilíbrio de mercado

Preço

A Oferta

Demanda

Q Quantidade

Fonte: adaptado de GARCIA e VASCONCELLOS,2004.

2.2.3 ESTRUTURAS DE MERCADO


Fundamentalmente, as diferentes estruturas de mercado estão condicionadas por três vari-
áveis principais:
 número de firmas produtoras que atuam no mercado;
 diferenciação do produto ou serviço;
 existência ou não de barreiras à entrada de novas empresas.
As estruturas de mercado classificam-se basicamente em: concorrência perfeita, monopó-
lio, oligopólio e concorrência monopolística. Vejamos a seguir as características de cada uma
delas.

2.2.3.1 Concorrência pura ou concorrência perfeita


É um mercado com vários vendedores e compradores, de forma que cada agente isolado não
tem condições de afetar o preço de mercado.
O produto é idêntico em todas as empresas (produto homogêneo). Não há diferenças de emba-
lagem e qualidade.
Mercado sem barreiras à entrada e saída, tanto de compradores, como de vendedores.
Princípio da racionalidade. Os empresários sempre maximizam a sua satisfação.Ou seja, os
agentes atuam racionalmente (é o chamado princípio da racionalidade ou do homo economi-
cus)..

19
Transparência de mercado. Consumidores e vendedores têm acesso a toda informação, relevan-
te, sem custos, isto é, conhecem os preços, a qualidade e os custos.

2.2.3.2 Monopólio
Uma única empresa produz um produto sem substitutos próximos.
Existem barreiras à entrada de firmas concorrentes.
O produto ou o serviço não é homogêneo. Não há possibilidade de ser substituído por outros.

2.2.3.4 Oligopólio
O pequeno número de empresas no setor.
Os bens são substitutos perfeitos entre si.
O consumidor sabe perfeitamente quem produziu.
Existem barreiras à entrada e à saída de novas firmas.

2.2.3.5 Concorrência monopolística


Muitas empresas produzindo dado bem ou serviço.
Cada empresa produz um produto diferenciado, mas com substitutos próximos. A diferenciação
nos produtos pode se dá via:
 características físicas, como por exemplo a composição química;
 promoção de vendas, propaganda, atendimento, brindes;
 manutenção;
 embalagem.
Cada empresa tem um relativo poder sobre os preços, dado que os produtos ou serviços são
diferenciados.

ESTRUTURA OBJETIVO DA NÚMERO DE TIPO ACESSO DE


 
EMPRESA FIRMAS DE NOVAS
PRODUTO EMPRESAS
AO MERCADO

Concorrência Maximização Infinitas Homogêneo Não existem


Perfeita de lucros barreiras

Monopólio Maximização Uma Único Existem


 
de lucros barreiras

Concorrência Maximização Muitas Diferenciado Não existem


Monopolística de lucros barreiras

20
Oligopólio Maximização Poucas Homogêneo Existem
 
de lucros dominam um ou barreiras
mercado Diferenciado
Quadro 1– Resumo das estruturas de mercado
Fonte: adaptado de ROSSETTI.

2.2.4 Outras formas de organização das empresas no mercado

Cartel
Associação entre empresas do mesmo ramo de produção com objetivo de dominar o merca-
do e disciplinar a concorrência.
As partes entram em acordo sobre o preço, que é uniformizado geralmente em nível alto, e
quotas de produção são fixadas para as empresas membros. No seu sentido pleno, os cartéis
começaram na Alemanha no século XIX e tiveram seu apogeu no período entre as guerras mun-
diais. Os cartéis prejudicam a econimia por impedir o acesso do consumidor à livre-
concorrência e por beneficiar empresas não-rentáveis. Tendem a durar pouco devido ao conflito
de interesses.

Dumping
Prática comercial que consiste em vender um produto ou serviço por um preço irreal para e-
liminar a concorrência e conquistar a clientela.Proibida por lei, pode ser aplicada tanto no mer-
cado interno quanto no externo. No primeiro caso, o dumping concretiza-se quando um produto
ou serviço é vendido abaixo do seu preço de custo, contrariando em tese um dos princípios fun-
damentais do capitalismo, que é a busca do lucro.A única forma de obter mlucro é cobrar preço
acima do custo de produção. No mercado externo, pratica-se o dumping ao se vender um produ-
to por preço inferior ao cobrado para os consumidores do país de origem.

Holding
Forma de organização de empresas que surge depois dos trustes serem postos na ilegalida-
de. Consiste no agrupamento de grandes sociedades anônimas. Sociedade anônima é uma desig-
nação dada às empresas que abrem seu capital e emitem ações que são negociadas em Bolsa de
Valores. Nesse caso, a maioria das ações de cada uma delas é controlada por uma única empre-
sa, a holding. A ação das holdings no mercado é semelhante a dos trustes. Uma holding geral-
mente é formada para facilitar o controlr das atividades em um setor. Se ela tiver empresas que
atuem nos diversos setores de um mercado como o da produção de eletrodomésticos, por exem-
plo, abocanha gordas fatias desse mercado e adquire condições de dominar seu funcionamento.

21
Joint venture
É uma associação de empresas não-definitiva e com fins lucrativos,para explorar determina-
do(s) negócio(s), sem que nenhuma delas perca sua personalidade jurídica. Difere da sociedade
comercial (partnership), porque se relaciona a um único projeto cuja associação é dissolvida
automaticamente após seu término. Um exemplo típico de joint venture seria a transação entre o
proprietário de um terreno de excelente localização e uma empresa de construção civil, interes-
sada em levantar um prédio sobre o local.

Monopsônio
Situação de mercado em que há apenas um comprador de um produto, geralmente maté-
ria-prima. Modelo raro de mercado, em que as condições de mercado são determinadas pelo
comprador, mesmo que haja vários vendedores. Normalmente representado por estatais. Ex.: é o
caso da empresa que se instala em uma determinada cidade do interior e, por ser a única, torna-
se demandante exclusiva da mão-de-obra local e das cidades próximas, conseqüentemente fixa
os salários em patamares baixos.

Oligopsônio
Tipo de estrutura de mercado em que poucas empresas, de grande porte, são compradoras
de determinados produtos, geralmente matéria-prima ou produtos primários. Representado pelas
indústrias alimentícias e seus fornecedores. Exemplo: em cada cidade existem dois ou três que
adquirem a maior parte do leite de inúmeros produtores rurais locais.

Truste
Uma das formas mais agressivas de controle oligopolístico de mercado é aquela denomi-
nada truste (termo proveniente da palavra inglesa trust, que significa confiar, depositar confian-
ça em). O truste consiste num acordo entre diversas empresas que passam a ser administradas
por uma nova empresa ou grupo financeiro. Essa nova empresa ou grupo passa a ter controle
absoluto sobre as empresas anteriores, que perdem sua independência e parte de sua autonomia
administrativa. Dessa forma, o truste passa a ser o único produtor e vendedor de um determina-
do bem no mercado, eliminando progressivamente os demais concorrentes, absorvendo-os ou
incorporando-os e, assim, controlando totalmente o preço do bem ou bens que produz. Embora
o Estado imponha severas leis para impedir a formação de trustes, eles continuam operando e se
expandindo através de várias manobras.

Considerações sobre este capítulol

22
Neste capítulo, vimos como a oferta e a demanda determimam os preços, a importância
do mercado para o sistema econômico e as características das estruturas concorrenciais nas
quais as empresas competem entre si. Se você compreendeu tais conceitos, está preparado para
continuar seu estudo.
Nos Estados Unidos, existe uma discussão permanente entre duas agências federais no
que se refere a assentos de segurança para crianças em aviões. Desde 1979, o National Trans-
portation Safety Board (Conselho Nacional de Segurança nos Transportes) recomendou que os
assentos fossem obrigatórios, enquanto a Federal Aviation Administration (Administração Fede-
ral de Aviação) se valeu de sua autoridade de regulação para impedir essa norma. O congresso
americano deverá resolver esse impasse.
A lição desse exemplo é que os consumidores (demanda) respondem às mudanças nos
preços. Um aumento no preço do bem (passagem aérea) faz alguns consumidores buscarem um
bem substituto (passagem de ônibus), levando a economia (mercado) a alguns resultados inespe-
rados.
Fonte: OREGONIAN, 1997, p. A20.
As referências bibliográficas ao final deste livro apresentam capítulos interessantes para
aprofundar o tema desenvolvido. Se você quiser mais, recomendamos o site da Fundação de
Economia e Estatística do Rio Grande do Sul - FEE (http://www. fee.tche.br ), o do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (http://www.ibge.gov.br ) e do Instituto de Pesqui-
sas Econômicas Aplicadas - IPEA (http://www.ipea.gov.br).

Atividades
1. Quais são os requisitos básicos da demanda?
2. Qual a importância do mercado para o sistema econômico?
3. As diferentes estruturas de mercado estão condicionadas por três variáveis principais. Quais
são elas?
4. Diferencie monopsônio e oligopsônio.
5. O preço unitário do pão francês (de 50 gramas) é de R$ 0,20 qualquer que seja a demanda
em uma padaria. Qual o gráfico desta função?
6. Uma doceria produz um tipo de bolo de tal forma que sua função de oferta diária é de P = 10
+ 0,2Q. Pergunta-se:
a) Qual o preço para que a oferta seja de 20 bolos diários?
b) Se o preço unitário for de R$ 15,00, Qual a oferta diária?
c) Se afunção de demanda diária por esses bolos for P = 30 - 1,8Q, Qual o
preço de equilíbrio?

23
Referências
CARAVALHO, Luiz Carlos P. Microeconomia Introdutória: para Cursos de Administração e
Contabilidade. São Paulo: Atlas, 2000.

CASTRO, A. B. de; LESSA, C. F. Introdução à Economia: uma abordagem estruturalista.


Rio de Janeiro: FORENSE UNIVERSITÁRIA, 1992.
EQUIPE DE PROFESSORES DA USP. PINHO, Diva B. & VASCONCELOS, Marco A. S de
(Organizadores.). Manual de Economia. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

MANKIW, N. G. Introdução à Economia. Princípios de Micro e Macroeconomia. Rio de Janei-


ro: Campus, 1999.

MOCHON F. & TROSTER, R. L. Introdução à Economia. São Paulo: Makron Books, 2002.

O’ SULLIVAN, SHEFFRIN & NISHIJIMA. Introdução à Economia. São Paulo: Prentice Hall.
2004.

PASSOS, C. R. M.; NOGAMI, O. Princípios de Economia. 4. ed. São Paulo: Pioneira Thom-
son Learning, 2003.
ROSSETTI, J. P. Introdução à Economia. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

SALVATORI, Dominick. Microeconomia. São Paulo. Atlas 1986.


SANDRONI,Paulo. Novo Dicionário de Economia. São Paulo: Best Seller, 1994.
VASCONCELLOS, Marco A. & GARCIA, MANUEL E. Fundamentos de Economia. São
Paulo: Saraiva, 2004.

WESSELS, W. J. Economia. São Paulo: Saraiva, 2003.

CAPÍTULO 3
3 TEORIA DA PRODUÇÃO E DOS CUSTOS DE PRODUÇÃO

Este capítulo tem como finalidade analisar as principais variáveis que devem ser levadas
em consideração para a produção de bens e serviços. O que iremos analisar é o comportamento

24
da empresa quando ela desenvolve sua atividade produtiva, sob o enfoque de sua produção (em
termos de unidades físicas) e de seus respectivos custos (em termos monetários).

3.1 TEORIA DA PRODUÇÃO


Uma empresa é a unidade básica de produção em um sistema econômico. Ela contrata re-
cursos produtivos, transforma-os em bens e serviços e os coloca ou à disposição de outras em-
presas, no caso de bens intermediários; ou à disposição dos consumidores, no caso de bens de
consumo.
Dessa forma podemos definir produção: é o processo pelo qual uma firma transforma os
fatores de produção adquiridos em produtos ou serviços para a venda no mercado. A firma
compra fatores de produção (matérias-primas e insumos), combina-os segundo um processo de
produção escolhido, e vende o produto final no mercado. A produção pode ser classificada co-
mo:
 produção de bens econômicos (alimentos, remédios, máquinas);
 produção de serviços (transporte, diversão etc.).
O processo de produção pode ser ou de mão-de-obra intensivo, de capital intensivo ou
terra intensivo, dependendo do fator de produção utilizado em maior quantidade, relativamente
aos demais.
A escolha do processo de produção depende de sua eficiência. A eficiência pode ser:
 eficiência técnica: Entre dois ou mais processos de produção, é aquele que permite
produzir uma mesma quantidade de produto, utilizando menor quantidade física de fato-
res de produção;
 eficiência econômica: Entre dois ou mais processos de produção, é aquele que permite
produzir uma mesma quantidade de produto, com menor custo de produção.
Se especificarmos as diversas quantidades de cada fator que a empresa utiliza para alcan-
çar determinadas quantidades de produto, teremos a função de produção. Ao analisar uma fun-
ção de produção, verificaremos que, ao aumentar ou diminuir a quantidade produzida de um
determinado produto (variar a produção), a quantidade utilizada de alguns fatores não muda
(máquinas, instalações, ferramentas, administração), enquanto a quantidade utilizada de outros
fatores muda proporcionalmente à produção (matéria-prima, mão-de-obra). Os primeiros são os
fatores de produção fixos (cujas quantidades não mudam) e os segundos são os fatores de pro-
dução variáveis (cujas quantidades mudam).
À medida que se aumenta a quantidade de utilização de um fator variável, aumenta a
quantidade de produto total que se obtém. A partir dessa afirmação, podemos concluir dois con-
ceitos importantes: a PRODUTIVIDADE MÉDIA e a PRODUTIVIDADE MARGINAL do fator variá-
vel. Produtividade média do fator variável é o quociente da quantidade total produzida pela
quantidade utilizada do fator variável. Produtividade marginal do fator variável é a variação do
25
produto total decorrente da variação de uma unidade no fator variável. Para que servem esses
conceitos, na prática? Servem para saber se cada fator (insumo) que se utiliza na produção está
trazendo um resultado (produtividade média) satisfatório. Servem para saber se o último fator
utilizado (produtividade marginal) também está produzindo resultado satisfatório, para o produ-
to específico que analisamos.
Quando se aumenta a quantidade de utilização de um fator variável, aumenta a quantida-
de de produto total que se obtém, mas não de maneira uniforme e permanente. Isso se deve à
LEI DOS RENDIMENTOS DECRESCENTES. A lei dos rendimentos decrescentes pode ser assim
explicada: mantendo-se inalterada a quantidade de fatores fixos e incrementando um fator vari-
ável em iguais quantidades, a quantidade de produto total obtido aumentará, mas a partir de
certo ponto os acréscimos no produto total serão cada vez menores. Se insistirmos no incremen-
to do fator variável, o produto – após alcançar um valor máximo – poderá até decrescer. A Ta-
bela 1 ilustra os conceitos apresentados anteriormente.

Tabela 1 – Produção de trigo com apenas um fator de produção variável (mão-de-obra)

Terra Mão-de-obra Produção total Produção média Produtividade


da mão-de-obra marginal da mão-
(fator fixo em (fator váriável (em toneladas) de-obra (em
hectares) em milhares de 3 (em toneladas) toneladas)
1 trabalhadores) (4) = (3) : (2) (5) = Variação em (3)
2 Variação em (2)

10 1 6 6,0 6
10 2 14 7,0 8
10 3 24 8,0 10
10 4 32 8,0 8
10 5 38 7,6 6
10 6 42 7,0 4
10 7 44 6,2 2
10 8 44 5,4 0
10 9 42 4,6 -2
Fonte: Vasconcellos, 2007

3.2 TEORIA DOS CUSTOS DE PRODUÇÃO


O objetivo básico de uma firma é a maximização de seus resultados para a realização e
continuidade de sua atividade produtiva. Assim sendo, procurará sempre obter a máxima produ-
ção possível em face da utilização de certa combinação de fatores.
A otimização dos resultados da firma poderá ser obtida quando for possível alcançar um
dos dois objetivos seguintes:

26
a) maximizar a produção para um dado custo total ou b) minimizar o custo total para um
dado nível de produção. Em qualquer uma das situações, a firma estará maximizando ou otimi-
zando seus resultados.

3.2.1 Custos totais de produção


Conhecidos os preços dos fatores, é sempre possível determinar um custo total de produ-
ção ótimo para cada nível de produção. Assim, define-se custo total das despesas realizadas pela
firma com a utilização da combinação mais econômica dos fatores, por meio da qual é obtida
uma determinada quantidade do produto.
Os custos totais de produção (CT) são divididos em custos variáveis totais (CVT). A fór-
mula do Custo Total é CT = CFT + CVT onde:
Custos fixos totais (CFT) – correspondem à parcela dos custos totais que independem
da produção. São decorrentes dos gastos com os fatores de produção fixo. Por exemplo: alu-
guéis, iluminação etc. Na contabilidade empresarial são também chamados de custos indiretos;
Custos variáveis totais (CVT) - é a parcela dos custos totais que depende da produção
e por isso muda com a variação do volume de produção. Por exemplo: folha de pagamentos,
gastos com meterias-primas etc. Na contabilidade empresarial, são chamados de custos diretos.

Tabela 2 – Custos de produção (em valores monetários)

QUANTI- CUSTO CUSTO CUSTO CUSTO CUSTO


DADE
FIXO VARIÁVEL TOTAL MÉDIO MARGINAL
PRODUZI-
DA

0 100 0 100,00 - -

10 100 50,00 150,00 15,00 5,00

20 100 80,00 180,00 9,00 3,00

30 100 100,00 200,00 6,67 2,00

40 100 110,00 210,00 5,25 1,00

50 100 130,00 230,00 3,83 2,00

60 100 160,00 260,00 4,33 3,00

70 100 200,00 300,00 4,28 4,00

80 100 250,00 350,00 4,37 5,00


Fonte: ROSSETTI, 2003.

27
Além do conceito de custo total temos também o CUSTO MÉDIO, que é o quociente do cus-
to total pela quantidade total produzida e o CUSTO MARGINAL que é a variação do custo total
decorrente da variação de uma unidade na produção. Esses conceitos podem ser observados na
Tabela 2.
Como calculamos:
1. Os custos fixos e variáveis são enunciados do problema (são os resultados da ob-
servação do processo produtivo);
2. O custo total é a soma do custo fixo e do custo variável;
3. O custo médio é divisão do custo total pela respectiva quantidade produzida;
4. Custo marginal = dividindo a diferença de custo total pela diferença da quanti-
dade produzida, a cada intervalo de produção. (Exemplo: ao produzir 40 unidades
de produto, o custo total foi de R$ 210,00; ao produzir 50 unidades, o custo total
foi de R$ 230,00; assim CMg = (230,00 – 210,00) / (50 – 40) = 20,00 / 10 = 2,00.)
Como uma empresa terá lucro máximo? Ela terá lucro sempre que vender uma unidade de
produto a um preço unitário maior que o seu custo unitário de produção. Enquanto houver esse
lucro, a empresa poderá prosseguir aumentando sua produção e vendas, mesmo que seus custos
médios e marginais estejam crescendo. O lucro total será máximo quando o acréscimo de custo
de uma unidade adicional produzida fro igual ao acréscimo de receita que decorre da venda
desta mesma unidade. Antes disso, o volume dos lucros ainda pode aumentar, não sendo, por-
tanto máximo, pois os custos estão crescendo menos do que as receitas e, depois disso, ovolume
mais do que as receitas. Enfim, a maximização dos lucros ocorre quando a receita marginal é
igual ao custo marginal.
Na teoria da produção, a análise dos custos de produção é também dividido em curto e
longo prazos:
custos totais de curto prazo: São caracterizados pelo fato de serem composto por parce-
las de custos fixos e de custos variáveis.
custos totais de longo prazo: São formados unicamente por custos variáveis.Ou seja, em
longo prazo não existem fatores fixos.

Diferenças entre a visão econômica e a visão contábil – financeira dos custos


de produção
Existem muitas diferenças entre a ótica utilizada pelos economistas e a utilizada
nas empresas, por contadores e administradores. Em linhas gerais, pode-se dizer que a
visão econômica é mais genérica, olhando mais para o mercado (ambiente externo da

28
empresa), enquanto na visão ótica contábil-financeira a preocupação centra-se mais no
detalhamento dos gastos da empresa específica.
As principais diferenças estão nos seguintes conceitos:
. custos de oportunidade e custos contábeis;
. externalidades.

Custos de oportunidades versus custos contábeis


Os custos contábeis são os custos como normalmente são conhecidos na contabi-
lidade privada, ou seja, são custos explícitos, que envolvem um dispêndio monetário. É
o gasto efetivo da empresa, na compra ou aluguel de insumos.
Os custos de oportunidade são custos implícitos, que não envolvem desembolso
monetário. Representam os valores dos insumos que pertencem à empresa e são usados
no processo produtivo. Esses valores são estimados a partir do que poderia ser ganho no
melhor uso alternativo.

3.2.2 Externalidades
As externalidades podem ser definidas como alterações de custos e benefícios para a so-
ciedade derivadas da produção de empresas, ou também como as alterações de custos e receitas
da empresa devidas a fatores externos.
Uma externalidade positiva é quando uma unidade econômica cria benefícios para outras,
sem receber pagamentos por isso. Por exemplo: uma empresa treina a mão de obra, que acaba,
após o treinamento, transferindo-se para outra empresa; beleza do jardim do vizinho, que valori-
za dua casa; uma nova estrada; os comerciantes de uma mesmo ramo que se localizam na mes-
ma região.
Temos externalidades negativas (ou deseconomia externa), quando uma unidade econô-
mica cria custos para outras, sem pagar por isso.Por exemplo, poluição e congestionamento
caudados por automóveis, caminhões e ôibus; uma indústria que polui um rio e impõe custos a
atividades pesqueiras.

Questões para Reflexão


A) Qualquer unidade produtora, ao produzir bens e serviços, tem custos com a utiliza-
ção de fatores, insumos ou matérias-primas. Ao vender esses bens ou serviços, a empresa obterá
um certo volume de receitas. A diferença entre os custos e as receitas se denomina LUCRO ECO-
NÔMICO .

29
B) A função de produção de uma empresa é a relação das quantidades fixas e variáveis
de fatores que são utilizados no decorrer do processo produtivo. Sabe-se que as empresas possu-
em diferentes produtividades. A produtividade varia de acordo com a eficiência econômica e
deve ser entendida como a relação entre a quantidade produzida de um determinado bem e o
fator utilizado. A lei dos rendimentos decrescentes indica que o aumento na utilização de um
fator de produção implica em acréscimos cada vez menores nos rendimentos gerados por essa
mesma produção. Isso decorre precisamente da produtividade do fator, que diminui enquanto
aumenta a sua utilização e, conseqüentemente, a sua escassez, sendo os últimos menos produti-
vos.

Quadro 2 – Resumo dos conceitos vistos nesse capítulo

TERMO CONCEITO

Função de produção P = f(aFP1 + bFP2 + + ... + zFPn)

Produtividade média Pme = (produção total) / (quantidade de fator variável)

Produtividade marginal Pmg = (acréscimo de produto total) / (acréscimo de fator variável)

Custo total CT = custo fixo (CFT) + custo variável (CVT)

Custo médio Cme = (custo total) / (quantidade produzida)

Custo marginal Cmg = (acréscimo de custo total) / (acréscimo da quantidade pro-


duzida)

Receita total RT = preço de venda x quantidade vendida ou quantidade produ-


zida

Lucro total LT = RT (receita total) – CT (custo total)

Considerações sobre este capítulol

A teoria da produção e dos custos de produção é fundamental para a administração de em-


presas e para o entendimento do comportamento do produtor, no mercado. Essa teoria permite
analisar a formação do custo dos bens e serviços, cujo valor final viabiliza ou inviabiliza a per-
manência do produtor no mercado do produto.
Para o administrador, a análise da composição dos custos proporciona a possibilidade de in-
terferir no processo produtivo no sentido de minimizá-lo e tornar o produto mais competitivo.
Pindyck, R.S, & Rubinfeld, D. L. Microeconomia. Trad. Eleutério Prado. São Paulo: Pearson
Prentice Hall, 2006. Manual completo, apresenta os conceitos básicos e aprofunda todos os as-
pectos importantes do estudo da microeconomia: mercado e preços; produtores, consumidores e

30
mercados competitivos; estrutura de mercado e estratégia competitiva; informação, falhas de
mercado e o papel do governo. Uma série de exercícios e questões para revisão completa cada
capítulo, tornando mais compreensível a teoria.

Pequenas ou grandes, todas as empresas têm que, diariamente, tomar decisões sobre a
produção, que envolve custos, podendo resultar em lucro ou prejuízo. Não é novidade que me-
tade das pequenas novas empresas não chega a completar o primeiro ano de existência. Mesmo
entre as grandes, muitas não sobrevivem. Basta dar dois exemplos: das 100 maiores empresas
norte-americanas existentes em 1917, apenas 20 ainda estão em atividade; no Brasil, das 500
maiores empresas em 1975, somente 150 continuam com seus negócios atualmente. Todas as
empresas, independentemente de seu tamanho, têm que decidir o que produzir, quanto produzir,
como produzir e também como distribuir (logística, canais de distribuição, estratégia mercado-
lógica e assim por diante).
Fonte: MENDES, 2004, p. 77.

Atividades
1. Uma fábrica de sapatos masculinos apresenta a seguinte estrutura de recursos físicos. Deter-
mine a produtividade média da mão-de-obra e a produtividade marginal da mesma.

Capacidade de Mão-de-obra Produção total Produtividade Produtividade


média da mão-de- marginal da mão-
produção diária (fator variável de (em pares de sapa-
obra de-obra
trabalhadores) tos)
(5) = variação em
2 3
1 (3)
(4) = (3) : (2)
Variação em
(2)
300 10 80
300 15 95
300 20 115
300 25 132
300 30 129
300 35 108
300 40 97

31
2. Uma fábrica de implementos agrícolas apresenta a seguinte estrutura de custos para a produ-
ção de diferentes quantidades de produto:

Quantidade Preço de Custo fixo Custo


(R$)
produzida/mês venda (R$) variável (R$)
20 50.000,00 308.000,00 150.000,00
30 42.000,00 308.000,00 170.000,00
40 39.000,00 308.000,00 190.000,00
50 36.000,00 308.000,00 210.000,00
60 33.000,00 308.000,00 230.000,00

Determine o custo total, o custo médio, o custo marginal, a receita total e o lucro total em cada
nível de produção.

Referências

CARAVALHO, Luiz Carlos P. Microeconomia Introdutória: para Cursos de Administração e


Contabilidade. São Paulo: Atlas, 2000.

CASTRO, A. B. de; LESSA, C. F. Introdução à Economia: uma abordagem estruturalista.


Rio de Janeiro: FORENSE UNIVERSITÁRIA, 1992.

EQUIPE DE PROFESSORES DA USP. PINHO, Diva B. & VASCONCELOS, Marco A. S de


(Organizadores.). Manual de Economia. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

MANKIW, N. G. Introdução à Economia. Princípios de Micro e Macroeconomia. Rio de Janei-


ro: Campus, 1999.

MOCHON F. & TROSTER, R. L. Introdução à Economia. São Paulo: Makron Books, 2002.

O’ SULLIVAN, SHEFFRIN & NISHIJIMA. Introdução à Economia. São Paulo: Prentice Hall.
2004.

PASSOS, C. R. M.; NOGAMI, O. Princípios de Economia. 4. ed. São Paulo: Pioneira Thom-
son Learning, 2003.
ROSSETTI, J. P. Introdução à Economia. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

SALVATORI, Dominick. Microeconomia. São Paulo. Atlas 1986.


SANDRONI,Paulo. Novo Dicionário de Economia. São Paulo: Best Seller, 1994.

32
VASCONCELLOS, M. A. S. Manual de Economia: equipe de professores da USP. São Paulo:
Saraiva, 2007.

SANDRONI,Paulo. Novo Dicionário de Economia. São Paulo: Best Seller, 1994.

33
CAPÍTULO 4
4 MACROECONOMIA

Ao final deste capítulo o aluno deverá saber:


 analisar as metas de política macroeconômica;
 identificar os instrumentos da política macroeconômica;
 descrever a estrutura de análise da macroeconomia;
 identificar as principais medidas da atividade econômica propostas pela Contabilidade
Nacional.

4.1 FUNDAMENTOS DE MACROECONOMIA


Como está nossa viagem? Esperamos que você esteja reconhecendo sua empresa, seu
banco, suas decisões econômicas nesse “passeio” pela economia. Esperamos que você esteja
conseguindo relacionar sua rotina diária com os aspectos teóricos que já repassamos juntos. Até
agora procuramos observar as relações entre os agentes (atores) econômicos: as necessidades
humanas, a limitada disponibilidade de recursos (fatores de produção) para satisfazê-las, o pro-
cesso produtivo, a demanda, a oferta e a formação dos preços no mercado. Agora iremos abrir
um pouco o leque de nossa observação. Procuraremos analisar as políticas econômicas gover-
namentais, o comportamento da economia como um todo, o bem-estar que as pessoas almejam
como resultado da atividade econômica. Vejamos alguns conceitos básicos. Enquanto a teoria
microeconômica explica a composição e a alocação da produção total, a teoria macroeconômica
busca explicar as flutuações do nível de atividade econômica, do nível da produção global. O
termo micro indica apenas a decomposição de variáveis macroeconômicas, como consumo,
poupança e o investimento.
A macroeconomia estuda a economia como um todo, analisando a determinação e o com-
portamento de grandes agregados, tais como: renda e produto nacionais, nível geral de preços,
emprego e desemprego, estoque de moeda e taxas de juros, balança de pagamentos e taxa de
câmbio.
Ao estudar e procurar relacionar os grandes agregados, a macroeconomia negligencia o
comportamento das unidades econômicas individuais e de mercados específicos, essas são preo-
cupações da microeconomia.Entretanto, embora exista um aparente contraste, não há um confli-
to entre a micro e a macroeconomia, uma vez que o conjunto da economia é a soma de seus
mercados individuais. A diferença é primordialmente uma questão de ênfase, de enfoque. Ao
estudar a determinação de preços em uma indústria, na microeconomia consideram-se constan-

34
tes os preços das outras indústrias. Na macroeconomia estuda-se a nível geral de preços, igno-
rando-se a mudança de preços relativa dos bens das diferentes indústrias.
A Teoria Macroeconômica propriamente dita preocupa-se mais com aspectos de curto
prazo. Especialemente, preocupa-se com questões como desemprego, que aparece sempre a
economia está trabalhando abaixo de seu máximo de produção, e com as implicações sobre os
vários mercados quando se alcança a estabilização do nível geral de preços. A parte da Teoria
Econômica que estuda questões de longo prazo é denominada Teoria do Crescimento Econômi-
co.
Na tentativa de se determinar como os preços e as quantidades são estabelecidos, desen-
volveram-se dois métodos de análise básicos:

 abordagem de equilíbrio parcial: analisa um determinado mercado sem considerar os


efeitos que esse mercado pode ocasionar sobre os demais mercados existentes na e-
conomia;
 abordagem de equilíbrio geral: acredita-se que tudo depende de tudo e, assim, se qui-
séssemos determinar como são formados os preços dos bens, deveríamos listar todos
os bens que são produzidos pela economia e todos os diferentes tipos de insumos que
são utilizados.

Formatados: Marcadores e
4.1.1 Metas de política macroeconômica numeração
Alto nível de emprego – desde a Revolução Industrial, em fins do século XVIII, até o
início do século XX, o mundo econômico parece ter funcionado sobre o pensamento li-
beral, que acreditava que os mercados, sem interferência do Estado, conduziriam a Eco-
nomia ao pleno emprego de seus recursos, como se, guiados por uma “mão invisível”,
determinariam os preços e a produção de equilíbrio, e, desse modo, nenhum problema
surgiria no mercado de trabalho. Entretanto, a evolução da economia mundial trouxe em
seu bojo novas variáveis, como o surgimento de sindicatos de trabalhadores, os grupos
econômicos e o desenvolvimento de mercado de capitais e do comércio internacional,
de sorte a complicar e trazer incertezas sobre o funcionamento da economia. A ausência
de políticas econômicas levou à quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929, e uma crise
de desemprego atingiu todos os países do mundo ocidental nos anos seguintes. Com a
contribuição de Keynes, fincaram-se as bases da moderna Teoria Econômica, e da inter-
venção do Estado na economia de mercado, que nos passa qual grau de intervenção do
Estado na economia e em que medida ele deve ser produtor de bens e serviços. A cor-
rente dos economistas liberais (hoje neoliberais) prega a saída do governo da produção
de bens e serviços.
Estabilidade de preços – define-se inflação como um amento contínuo e generalizado
35
no nível geral de preços. Por que a inflação é um problema? Primeiramente, porque a
inflação acarreta distorções, principalmente sobre a distribuição de renda, sobre as ex-
pectativas dos agentes econômicos e sobre o balanço de pagamentos. É importante sali-
entar que, enquanto nos países industrializados o problema central é o desemprego, nos
países em via de desenvolvimento, o foco mais importante de análise é o da inflação.
Esse tema é de difícil abordagem, dado que as causas da inflação diferem entre países
(deve-se levar em contas, por exemplo, o estágio de desenvolvimento e a estrutura dos
mercados), e em um dado país, diferem no tempo.
Distribuição eqüitativa da renda – a economia brasileira cresceu razoavelmente entre
o fim dos anos 60 e a maior parte da década de 70. Apesar disso, verificou-se uma dis-
paridade muito acentuada de nível de renda, tanto a nível pessoal quanto a nível regio-
nal. Isso fere, evidentemente, o sentido de equidade ou justiça. No Brasil, os críticosa do
“milagre” argumentavam que havia piorado a concentração de renda no país, nos anos
1967-1973 devido a uma política deliberada do governo, baseada em crescer primeiro
para depois distribuir (chamada Teoria do Bolo). A posição oficial era de que um certo
aumento na concentração de renda seria inerente ao próprio desenvolvimento capitalis-
ta, dadas as transformações estruturais que ocorrem (êxodo rural, com trabalhadores de
baixa qualificação, aumento da proporção de jovens etc.). Nesses processo gera-se uma
demanda por mão-de-obra qualificada, a qual por ser escassa, obtém ganho extra. Assim
o fator educacional seria a principal causa da piora distributiva.
Crescimento econômico – se existem desemprego e capacidade ociosa, pode-se au-
mentar o produto nacional através de políticas econômicas que estimulem a atividade
produtiva. Mas, feito isso, há um limite à quantidade que se pode produzir com os re-
cursos disponíveis. Aumentar o produto além desse limite exigirá:
. um aumento nos recursos disponíveis;
. ou um avanço tecnológico (melhoria tecnológica, novas maneiras de organizar a
produção, qualificação da mão-de-obra).
Quando falamos em crescimento econômico, estamos pensando no crescimento da ren-
da nacional per capita ou seja, colocar a disposição da coletividade uma quantidade de
mercadorias e serviços que sujere o crescimento populacional. A renda per capita é
considerada um razoável indicador – o da população, embora apresente falha (os países
árabes têm as maiores rendas per capita, mas não o melhor padrão de vida do mundo).

4.1.2 Instrumentos de política macroeconômica


A política macroeconômica envolve a atuação do governo sobre a capacidade produtiva e
as despesas planejadas, com objetivo de permitir que a econimia opere a pleno emprego, com
baixas taxas de inflação e uma distribuição justa de renda.

36
Os principais instrumentos para atingir tais objetivos são:
 a POLÍTICA FISCAL diz respeito ao orçamento dos diversos níveis de governo (federal, esta-
duais e municipais), ou seja:são os gastos e as receitas dos governos. É um poderoso ins-
trumento de política macroeconômica, se considerarmos que no Brasil a carga fiscal (soma
de todos os orçamentos governamentais) representa mais do que um terço de tudo o que se
produz no País;
 a POLÍTICA MONETÁRIA refere-se ao controle do governo sobre a oferta monetária, ou
seja, sobre a quantidade de moeda e de títulos públicos em circulação no mercado;
 a POLÍTICA CAMBIAL diz respeito ao controle e à utilização de instrumentos para esta-
bilização da taxa de câmbio, enquanto as políticas de relações econômicas externas re-
ferem-se ao comércio internacional, ao incentivo às exportações e ao controle das im-
portações do País;
 as POLÍTICAS DE RENDAS referem-se à intervenção do governo na formação da renda
dos agentes econômicos. Intervenção que favorecerá ou não determinados proprietários
de fatores de produção em detrimentos de outros (mão-de-obra, capital, recursos natu-
rais e capacidade empresarial).

4.1.3 Estrutura de análise macroeconômica


Tradicionalmente, a estrutura básica do modelo macroeconômico compõe-se de cinco
mercados.
 Mercado de bens e serviços – para tentar responder como se tem comportado o nível
de atividades, efetua-se uma agregação de todos os bens produzidos pela economia du-
rante um certo período de tempo e define-se o chamado Produto Nacional. A demanda
agregada depende fundamentalmente da evolução da demanda dos quatro grandes seto-
res ou agentes macroeconômicos: consumidores, empresas, governo e setor externo;
 Mercado de trabalho – também representa uma agregação de todos os tipos de traba-
lhos existentes na economia. Nesse mercado, determinamos como se estabelecem a taxa
salarial e o nível de emprego;
 Mercado monetário – consiste no fato de que todas as transações da economia são efe-
tuadas através da utilização de moeda. Nesse mercado supomos a existência de uma
demanda de moeda (em função da necessidade de transações dos agentes econômicos,
ou seja, da necessidade de liquidez) e uma oferta de moeda, determinada pelo Banco
Central e atuação dos bancos comerciais. A demanda e a oferta de moeda determinam a
taxa de juros;
 Mercado de títulos – consiste de agentes econômicos superavitários e agentes deficitá-
rios. Agentes superavitários são aqueles que possuem um nível de gastos inferior a seu

37
volume de renda, assim podem efetuar empréstimos para os agentes econômicos
deficitários;
 Mercado de divisas – Como o mercado mantém transações com o resto do mundo, e-
xistem mercados de divisas ou moeda estrangeira. A oferta de divisas depende das ex-
portações e da entrada de capitais financeiros, enquanto a demanda de divisas é deter-
minado pelo volume de importações e de saída de capital financeiro.
4.2 Contabilidade Nacional
Contabilidade nacional é o registro contábil da atividade produtiva de um país, em um
dado período de tempo (geralmente um ano). No Brasil, até 1986, a Fundação Getúlio Vargas
(FGV) realizava a contabilização das contas nacionais, segundo metodologia das Nações Uni-
das. A partir de 1986, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realiza essa tarefa.

4.2.1 Conceitos básicos


Valor adicionado – É a soma dos preços dos bens e serviços finais produzidos em uma
economia em certo período. Representa a diferença entre o valor das vendas e o valor de insu-
mos e matérias-primas utilizadas no processo de produção. Isso significa que não são computa-
das no valor adicionado os bens intermediários (insumos e matérias-primas) utilizados pelas
empresas.
Produto nacional – É a medida dos valores adicionados pelas empresas aos bens elabo-
rados e aos serviços prestados, em toda a economia nacional.
Renda nacional – É a soma das remunerações pagas aos fatores de produção utilizados
pelas empresas. Representa a soma dos pagamentos de salário, juros, aluguel/arrendamento e
lucros no País, em dado período de tempo.

4.2.2 As principais medidas da atividade econômica


Entre as variáveis macroeconômicas mais significativas estão o valor bruto da produção,
o produto interno bruto, a renda nacional etc., cujos conceitos estão enunciados a seguir.
O VALOR BRUTO DA PRODUÇÃO (VBP) é a soma dos preços de bens e serviços produzi-
dos numa economia em determinado período – preços X quantidades produzidas. Posto que no
VBP não há distinção entre “bens intermediários” e “bens finais”, essa medida superestima o
valor da produção social, ao contabilizar o valor dos bens intermediários tantas vezes quanto
estes entrarem na elaboração do produto final.
Os BENS INTERMEDIÁRIOS são aqueles destinados à utilização intermediária, que entram
na composição de outros bens, enquanto os bens de utilização final se destinam ao consumo
final e desaparecem com a sua utilização. Exemplos: o pão é bem de utilização final; a farinha,
que foi utilizada na produção do pão, é um bem intermediário.
O PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB) é a soma dos preços dos bens e serviços finais pro-
38
duzidos numa economia em certo período – preços X quantidades produzidas. Equação funda-
mental do produto:
Produto interno bruto = consumo + investimento + exportações - importações
A RENDA NACIONAL (RN) é a soma das remunerações de fatores empregados nas ativi-
dades produtivas, inclusive os fluxos de pagamentos aos fatores de propriedade de não-
residentes no país, tais como salários, lucros, juros, dividendos, aluguéis e royalties pela utiliza-
ção de uma marca ou tecnologia.
A DEMANDA INTERNA BRUTA (DIB) é a soma dos gastos em consumo interno dos seto-
res público (governo) e privado (empresas e famílias) e das despesas de investimento interno
bruto fixo das empresas e da variação dos estoques.
A DEMANDA FINAL TOTAL inclui os gastos em consumo e em investimento, além das ex-
portações (vendas ao exterior) realizadas pelo país no período.
A OFERTA FINAL TOTAL (OFT) é a soma do produto interno bruto da economia e das
importações (compras ao exterior) no período. A oferta final total representa a disponibilidade
bruta total da economia em determinado período.

4.2.3 As precauções na elaboração do cálculo do produto


As principais precauções que devem ser observadas na elaboração do cálculo do produto
são:
 evitar a “dupla contagem” das mercadorias. Medir o valor agregado pelas empre-
sas aos bens elaborados e aos serviços prestados, somando-se assim apenas o va-
lor dos bens de utilização final;
 desconsiderar as variações que os preços sofrem devido à inflação. Quer dizer, o
valor do produto deve ser medido em termos reais. Enquanto o produto real mede
o valor do produto a preços constantes, ou deflacionado, o produto nominal mede
o valor do produto a preços correntes, ou inflacionado. Para tanto, deve-se utilizar
aqui os “números índices”, para deflacionar e/ou inflacionar duas séries estatísti-
cas, de preços e quantidades, que permite obter as medidas real e nominal do
produto. Observação: “deflacionar” o produto significa transformar valores no-
minais, ou a preços correntes, em valores reais, ou a preços constantes, enquanto
“inflacionar” o produto significa transformar valores reais, ou a preços constan-
tes, em valores nominais, ou a preços correntes. Para inflacionar e/ou deflacionar
o valor do produto, utilizam-se os números índices de Laspeyres (IPC) e Paasche
(deflator da renda), um superestimando os preços e o outro as quantidades.
 desconsiderar as transações de mercadorias produzidas em exercícios anteriores
que, mesmo não tendo sido vendidas ou mantidas em estoques, já foram conside-
radas na elaboração do cálculo do produto antecedente. Neste caso, aplica-se o
39
conceito de investimento e o valor dos estoques é contabilizado acrescentando-se
ou diminuindo-se ao valor do investimento interno bruto fixo das empresas, tendo
em vista o acréscimo ou decréscimo dos estoques no período em consideração.
Também devem ser desconsideradas as transferências do governo ao setor priva-
do da economia, pois são transações não-produtivas.

Considerações sobre este capítulo

A macroeconomia proporciona ao gestor público os instrumentos para analisar os cenários


econômicos e propor medidas para maximizar o bem-estar momentâneo dos cidadãos e das
empresas (curto prazo) e para incentivar o crescimento e o desenvolvimento da economia (longo
prazo). O entendimento dos fundamentos macroeconômicos e de suas aplicações (metas e polí-
ticas) é uma das melhores maneiras de entender as medidas econômicas adotadas pelos gover-
nos em suas políticas que afetam o dia-a-dia dos cidadãos: taxas de juros, câmbio, impostos,
investimentos públicos.

Sachs, J.D. & Larrain, F. B. Macroleconomia – em uma Economia Global. Trad. Sara R. Ge-
danke. São Paulo: Makron Books, 2000. Livro que aborda teoria macroeconômica associada aos
aspectos internacionais e à economia global. Contempla os conceitos básicos da macroeconomi-
a, aprofunda as variáveis importantes do estudo macroeconômico, como: determinação do pro-
duto, investimento, poupança, setor governamental, economia monetária, câmbio, inflação,
crescimento e mercados financeiros.

A teoria básica da política econômica foi estudada sistematicamente pela primeira vez
no início da década de 1950, pelo economista holandês Jan Tinbergen, o primeiro a ganhar
o Prêmio Nobel de Economia, em 1969. Dado que essa teoria procura conceituar como a au-
toridade econômica deve agir, seu caráter é normativo. Ele delineou cuidadosamente os pas-
sos cruciais da formulação ótima de política. Em primeiro lugar, a autoridade precisa espe-
cificar as metas da política econômica, geralmente em termos da função do bem-estar social
que está tentando maximizar. Com base nessa função, identificam-se os objetivos que se
quer atingir. Em segundo lugar, é preciso especificar os instrumentos de política que este-
jam disponíveis para atingir as metas. Em terceiro lugar, é preciso ter um modelo da eco-

40
nomia que relacione os instrumentos com as metas para que se possa escolher o valor ótimo
dos instrumentos políticos.
Fonte: JEFFREY e LARAIN, 1995.

Atividades
1. Estabeleça um paralelo entre microeconomia e macroeconomia. De que se ocupam os estudos
macroeconômicos?
2. O que são políticas macroeconômicas e quais são seus principais objetivos?
3. Quais são os principais instrumentos de política econômica?
4. Cite e comente quatro medidas de políticas macroeconômicas adequadas ao combate à infla-
ção.
5. Pesquise, em sites da internet, o PIB do Brasil, da Argentina e de algum outro país que lhe
chame a atenção, em um período de dois anos recentes. Pesquise, para os mesmos países, a po-
pulação residente e calcule o PIB per capita (PIB dividido pela população respectiva). Analise
os resultados e comente-os. Observe que, para poder comparar variáveis de países diferentes,
deve-se utilizar a mesma moeda, de preferência o dólar norte-americano (US$).

Referências
BAER, W. A. Economia Brasileira. São Paulo: Nobel, 1995.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Disponível em: http://www.bc.gov.br. Acesso em: 06.jul.07.

CASTRO, A. B. de; LESSA, C. F. Introdução à Economia: uma abordagem estruturalista.


Rio de Janeiro: FORENSE UNIVERSITÁRIA, 1992.
EQUIPE DE PROFESSORES DA USP. PINHO, Diva B. & VASCONCELOS, Marco A. S de
(Organizadores.). Manual de Economia. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

FORTUNA, E. Mercado financeiro: produtos e serviços. 15. ed. Rio de Janeiro: Qualitymark,
2003.

HUNT, E. K. História do pensamento econômico. Petrópolis: Vozes, 2005.

41
MANKIW, N. G. Introdução à Economia. Princípios de Micro e Macroeconomia. Rio de Janei-
ro: Campus, 1999.

MOCHON F. & TROSTER, R. L. Introdução à Economia. São Paulo: Makron Books, 2002.

O’ SULLIVAN, SHEFFRIN & NISHIJIMA. Introdução à Economia. São Paulo: Prentice Hall.
2004.

PASSOS, C. R. M.; NOGAMI, O. Princípios de Economia. 4. ed. São Paulo: Pioneira Thom-
son Learning, 2003.

ROSSETTI, J. P. Introdução à Economia. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

SANDRONI,Paulo. Novo Dicionário de Economia. São Paulo: Best Seller, 1994.

SINGER, Paul. Aprender Economia. São Paulo: Contexto, 1998.

VASCONCELLOS, Marco A. & GARCIA, MANUEL E. Fundamentos de Economia. São


Paulo: Saraiva, 2004.

WESSELS, W. J. Economia. São Paulo: Saraiva, 2003.

CAPÍTULO 5

5 INTRODUÇÃO À ECONOMIA MONETÁRIA

Este capítulo tem a finalidade de levar você a conhecer o papel da moeda em um sistema
econômico, os principais conceitos, os agregados monetários e as inter-relações entre oferta e
demanda de moeda.

5.1 MOEDA – CONCEITOS, FUNÇÕES E SUA CIRCULAÇÃO NA ECONOMIA


A moeda é um objeto de aceitação geral, utilizado na troca de bens e serviços. Sua aceita-
ção é garantida por lei.

5.1.1 FUNÇÕES DA MOEDA


As principais funções da moeda são:

 Meio ou instrumento de troca – Em um sistema econômico baseado na especialização e


divisão do trabalho, é imprescindível que exista um instrumento que facilite as trocas de

42
mercadorias. Se não houvesse esse instrumento, as trocas teriam de ser diretas (economia de
trocas), trocando-se bens com bens. Isso exigiria DUPLA COINCIDÊNCIA DE DESEJOS (um
criador de galinhas que desejasse comprar roupas deveria encontrar um alfaiate que desejas-
se comer galinhas). Ademais, ocorreria um problema de INDIVISIBILIDADE (se um fabrican-
te de canoas quisesse tomar um cafezinho, como ele faria?). Acrescente-se que se perderia
muito TEMPO para viabilizar essas trocas diretas. A moeda permite que as trocas sejam indi-
retas e supera essas dificuldades.
 Unidade de medida (ou unidade de conta) – A moeda serve para comparar e agregar o
valor de mercadorias diferentes: podemos somar um caminhão com uma bola de futebol.
Ela serve como medida do valor de troca das mercadorias, sendo que o PREÇO DE UM BEM é
a expressão monetária do valor de troca desse bem: se uma maçã vale $ 500,00 e uma bana-
na $ 50,00, uma maçã pode ser trocada por dez bananas;
 Reserva de valor – A moeda representa um direito que seu possuidor tem sobre outras
mercadorias. Ela pode ser guardada para uso posterior, pelo que serve como reserva de va-
lor. A moeda serve de reserva de valor para uma pessoa, mas não para a sociedade como um
todo (falácia ou sofisma da composição): o que vale para o indivíduo não vale para a socie-
dade, pois o que determina a riqueza de um país é a sua produção global, e não o montante
de moeda existente.
No passado, toda moeda, ou papel-moeda, era lastreada em ouro (MOEDA LASTREADA).
Com o desenvolvimento do comércio internacional, não foi mais possível fazer a conversão de
moeda em ouro. Hoje, temos a MOEDA FIDUCIÁRIA (de fidúcia, confiança), sem lastro, e sua
aceitação é garantida por lei. Com a passagem do padrão ouro para a moeda fiduciária, a moeda
não é mais função do estoque de ouro, o que dá às autoridades monetárias maior capacidade de
afetar a quantidade de moeda, de acordo com as necessidades do país.

5.1.2 Oferta de moeda


A oferta da moeda é sinônimo de meios de pagamento, que representa o estoque de moe-
da disponível para uso da coletividade (setor privado não bancário) a qualquer momento. Obje-
tiva-se, com esse conceito, medir a liquidez do setor privado produtivo, excetuando-se o setor
bancário.
O saldo dos meios de pagamento é composto pelo saldo da moeda em poder do público
(PP) mais o saldo dos depósitos a vista (DV): M = PP + DV
O saldo de moeda em poder do público (ou moeda manual) é obtido em se retirando da
moeda emitida o caixa das autoridades monetárias e o caixa dos bancos comerciais:
Moeda emitida
menos caixa das autoridades monetárias
= moeda em circulação (ou meio circulante)
43
menos caixa dos bancos comerciais
= moeda em poder do público
Os depósitos à vista ou em conta corrente também são chamados de moeda escritural,
moeda bancária ou, ainda, moeda contábil, já que podem ser movimentados por simples conta-
bilização bancária. Representam cerca de 75 % do total de meios de pagamento. O dinheiro com
os bancos (no caixa) e com o governo não é considerado meio de pagamento, porque esse con-
ceito visa medir liquidez do setor produtivo privado.
Na verdade, existem, na literatura econômica, várias formas de conceituar moeda. O con-
ceito mais utilizado é o que acabamos de definir e é chamado de M1, que é o total de moeda que
não rende juros e é de liquidez imediata (moeda com o público, mais depósitos à vista). Mas,
dependendo do objetivo, são utilizados os conceitos de M2, M3 e M4, que incluem ativos finan-
ceiros que rendem juros e são de alta liquidez (embora não imediata):
M2 = M1 + títulos públicos federais, estaduais e municipais em poder do público, fundos
do mercado monetário (fundos de aplicações financeiras e de renda fixa de curto prazo, e depó-
sitos especiais remunerados);
M3 = M2 + depósitos em cadernetas de poupança;
M4 = M3 + depósitos a prazo e títulos privados (letras de câmbio e imobiliárias).
Esses ativos que rendem juros são também chamados de haveres não monetários ou qua-
se-moeda, sendo que M1 são chamados de haveres monetários.
Em processos inflacionários, a relação entre M1 e M4 costuma diminuir, pois as pessoas
procuram ficar com pouca moeda que não rende juros (M1) e utilizá-la em aplicações financei-
ras. Isso é chamado de desmonetização. Quando a inflação diminui, a relação entre M1 e M4
aumenta (monetização).
Posto isto, o conceito de moeda utilizado é o tradicional (M1). Deve ser esclarecido que
cheque não é considerado moeda e que depósitos à vista não é o mesmo que caixa dos bancos
comerciais.
O cheque é apenas uma ordem de transferência. Se uma pessoa saca seu dinheiro no ban-
co, não diminui os meios de pagamento, pois apenas transfere depósitos à vista para moeda com
o público. No caso de um depósito em cheque, apenas transferiu depósitos à vista de uma conta
para outra.
Os depósitos à vista não devem ser confundidos com o caixa dos bancos comerciais. Em-
bora contabilmente um depósito em dinheiro aumente, em um primeiro momento, o caixa dos
bancos, o banco utilizará os recursos em seu caixa para outras transações, o que diferencia os
saldos das duas contas.

5.1.3 "Criação" e "destruição" de moeda


Ocorre criação ou destruição de moeda quando se altera o saldo dos meios de pagamento,

44
no conceito M1 (moeda com o público + depósitos à vista). Corresponde a uma queda ou au-
mento da oferta de moeda disponível.
Exemplos:
Formatados: Marcadores e
a) Banco Central troca dólares dos exportadores por reais: criação de moeda (ou de meios numeração
de pagamento);
b) Banco Central vende dólares aos importadores, recebendo reais em troca: destruição de
moeda;
c) Empréstimo dos bancos comerciais ao setor privado: criação de moeda;
d) Resgate de um empréstimo bancário: destruição de moeda;
e) Depósito à vista: apenas transfere moeda do público para depósitos à vista; não há cria-
ção nem destruição de moeda;
f) Saque através de cheque: como vimos, trata-se apenas de uma transferência de moeda
escritural para moeda em poder do público;
g) Uma pessoa que efetua um depósito a longo prazo destrói moeda, pois depósito a prazo
não é considerado meio de pagamento no conceito M1.
A oferta de moeda pode ser dividida em oferta de moeda pelo Banco Central e oferta de
moeda pelos bancos comerciais. Deve-se observar que os intermediários financeiros do tipo
banco de investimentos, sociedades de crédito e financiamento, chamados de intermediários
financeiros não bancários, não são autorizados a manter depósitos e apenas transferem dinheiro
dos emprestadores para os tomadores, não criando moeda. Os bancos comerciais, por sua vez,
têm carta-patente, o que lhes permite manter depósitos do público e emprestar uma quantia su-
perior às suas reservas monetárias (ou seja, pode emprestar parte de suas obrigações, que são os
depósitos à vista).

5.1.3 Oferta de moeda pelo Banco Central


O objetivo do Banco Central é regular a moeda e o crédito em níveis compatíveis com o
crescimento do produto, ou seja, manter a liquidez do sistema econômico.
Formatados: Marcadores e
a) Banco emissor: É o responsável e tem o monopólio das emissões moeda; numeração
b) Banco dos bancos: É o órgão em que os bancos depositam seus fundos e transferem
fundos de um banco para outro (pela câmara de compensação de cheques). Além disso, o Banco
Central também empresta aos bancos (redesconto bancário);
c) Banco do governo: É o canal que o governo tem para implementar a política monetária.
Grande parte dos fundos do governo é depositada no Banco Central. De outra parte, quando o
governo necessita de recursos, ele normalmente emite títulos (obrigações) e os vende ao público
via Banco Central;
d) Banco depositário das reservas inernacionais;

45
No Brasil, devido à estrutura híbrida do Banco Central, uma parte das suas funções é exe-
cutada pelo Banco do Brasil. Assim, a câmara de compensação de cheques fica no Banco do
Brasil. Além disso, o Banco Central não recebe depósitos do governo, e sim o Banco do Brasil.
No fundo, o Banco Central é um órgão normativo (sujeito ao Conselho Monetário Nacional) e o
Banco do Brasil é um órgão executivo. O Banco do Brasil, além de executar essas funções,
também funciona como típico banco comercial, o que gerou alguns problemas de controle de
política monetária no Brasil.

Instrumentos de política monetária

A principal função do Banco Central é controlar a oferta de moeda. Para tanto, ele dispõe
dos seguintes instrumentos de política monetária:

a) emissões – o Banco Central tem o monopólio das emissões. O Banco Central deve co-
locar em circulação o volume de notas e moedas metálicas necessárias ao bom desem-
penho da economia;
b) reservas obrigatórias dos bancos comerciais (empréstimo compulsório) – os bancos
guardam certa parcela de seus depósitos no Banco Central para atender ao seu movi-
mento de caixa e à compensação de cheques. Essa é a conta de reservas ou depósitos
voluntários. Mas o Banco Central obriga os bancos comerciais a reter uma parcela dos
depósitos como depósitos obrigatórios, que não poderão ser utilizados pelos bancos pa-
ra empréstimos ou outras aplicações. Em média, no Brasil, essas reservas têm represen-
tado cerca de 50% a 60% dos depósitos à vista. Evidentemente, essas reservas repre-
sentam importante instrumento de política monetária: um aumento dessa taxa de reser-
vas representará uma diminuição dos meios de pagamento, dado que os bancos empres-
tarão menos ao público (eles criarão menos moeda, como veremos mais adiante);
c) operações de mercado aberto – essas operações consistem em vendas ou compras, por
parte do Banco Central, de títulos governamentais no mercado de capitais. Quando o
governo vende esses títulos ao público, por meio do Banco Central, ele “enxuga” moe-
da do sistema; quando recompra esses títulos o dinheiro dado em troca do título repre-
senta um aumento dos meios de pagamento. Em muitos países, é o mais importante ins-
trumento; no Brasil, sua utilização é relativamente recente (início dos anos 70), e os tí-
tulos utilizados mudaram ao longo do tempo. Atualmente, os principais títulos utiliza-
dos são BBC (Bônus do Banco Central), de curto prazo, e NTN ( Nota do Tesouro Na-
cional), de prazo mais longo;
d) política de redescontos – o Banco central também é o banco dos descontos e inclusive
empresta aos bancos. São dois os tipos de redescontos: o redesconto de liquidez e o re-
desconto especial. O redesconto de liquidez, ou normal, visa apenas a socorrer os ban-
cos quando de eventual saldo negativo na conta de depósitos voluntários. O redesconto
especial ou seletivo é aquele utilizado pelas autoridades monetárias para incentivar al-
guns setores específicos da economia; ou seja, o Banco Central abre uma linha de cré-
dito aos bancos comerciais, desde que esses utilizem essa verba adicional em setores
específicos (por exemplo, para a compra de fertilizantes, para exportação etc.). O Ban-
co Central cobra uma taxa de juros do redesconto. Evidentemente, se essa taxa for bai-
xa e o montante de redesconto elevado, representa um estímulo ao aumento de emprés-
timos por parte dos bancos comerciais, que poderão repassá-los ao setor privado, au-
mentando o volume de meios de pagamentos;
e) regulamentação e controle do crédito – embora os instrumentos anteriores tenham efei-
tos mais diretos sobre a oferta de moeda, o Banco Central também afeta o sistema fi-
nanceiro via regulamentação e controle do crédito, que se dá através da política de ju-

46
ros, controle de prazos, regras para financiamento aos consumidores (por exemplo, a
exigência de que os bancos finaciem no máximo 70% da compra de automóveis).

5.1.4 Oferta de moeda pelos bancos comerciais


Os bancos comerciais também podem alterar a oferta de moeda, pelo fato de terem uma
carta-patente que lhes permite emprestar mais do que têm em depósitos. A utilização generali-
zada de cheques faz com que a maior parte do volume de moeda do sistema permaneça no sis-
tema bancário, gerando o chamado float, sendo que apenas uma pequena parcela desse total é
representado por saques de numerário. Dessa forma, apesar de não poder emitir moeda, o banco
comercial cria meios de pagamento pelo fato de poder fazer promessas de pagamento com os
recursos depositados pelos seus clientes. Como veremos a seguir, isso cria um mecanismo mul-
tiplicador dos saldos monetários.

5.1.5 Mecanismo multiplicador da oferta de moeda


O sistema bancário pode criar moeda num valor múltiplo de uma injeção monetária inici-
al. Vejamos como isso ocorre, através de um exemplo.
Suponha que existe um único banco na economia, a razão dos depósitos que os bancos
devem manter como reservas compulsórias é 20 %, e o depósito inicial nesse banco é de R$
100,00. Destes R$ 100,00, destina R$ 20,00 para reservas e empresta R$ 80,00. Esses R$ 80,00
retomam ao banco na forma de novo depósito; desses, R$ 16,00 viram reservas e R$ 64,00 são
reemprestados. Estes voltam como depósito e reinicia-se o ciclo. Percebe-se que os R$ 100,00
iniciais de depósitos multiplicaram-se, gerando uma seqüência de depósitos nos valores: R$
80,00; R$ 64,00; R$ 51,20; R$ 40,96... Essa seqüência constitui uma progressão geométrica
decrescente de razão 0,8, que corresponde à fração livre dos depósitos bancários, isto é, o depó-
sito adicional menos as reservas que devem ser compostas (um menos a porcentagem de reser-
vas obrigatórias: 1 - 0,2 = 0,8).
Para avaliarmos o total de depósitos do banco a partir do depósito inicial, basta realizar-
mos a soma dos termos da progressão geométrica com razão menor que 1.
S.P.G. = a1/1 - q
onde: S.P.G. = soma dos termos de uma progressão geométrica
a1 = primeiro termo da progressão geométrica
q = razão da P.G.
Note-se que, no exemplo acima, teríamos:
D = R$ 100,00/1 - 0,8 = R$ 500,00.
Ou seja, um depósito inicial de R$ 100,00 gerou um total de depósitos no banco de R$
500,00, isto é, foi multiplicado por 5. Como (1 - 0,8) é exatamente a parcela de reservas com-
47
pulsórias exigidas pelo Bacen, isto é, 0,2 (20%) notamos que o MULTIPLICADOR BANCÁRIO
CORRESPONDE AO INVERSO DA TAXA DE RESERVAS. Assim, quanto menor o recolhimento com-
pulsório, maior o poder de multiplicação dos bancos; portanto, a determinação do nível de depó-
sitos compulsórios dos bancos é uma forma de o Bacen controlar a oferta de moeda bancária.
O valor do multiplicador depende também, além da taxa de reservas dos bancos, da TAXA
DE RETENÇÃO DO PÚBLICO , que é a razão entre a moeda que fica em mãos do público (e não
depositada nos bancos) e o saldo dos depósitos à vista. Se o público, por algum motivo, decide
aumentar a quantidade de moeda em seu poder e deixar menos moeda nos bancos, diminui a
capacidade de os bancos emprestarem e, portanto, o volume de meios de pagamento. Ou seja, os
bancos terão menos dinheiro para aplicar em empréstimos.
Existem vários tipos de multiplicadores monetários. Por exemplo: temos o multiplicador
de depósitos que se refere ao aumento múltiplo dos meios de pagamento, derivado de um au-
mento nos depósitos a vista. O multiplicador mais geral, entretanto, é o chamado multiplicador
da base monetária.
Por BASE MONETÁRIA entende-se o total de moeda com o público (PP) mais as reservas
dos bancos comerciais, isto é:
B = PP + R
Essas reservas são o caixa dos bancos comerciais, os depósitos voluntários e os depósitos
obrigatórios. Assim, a base monetária consiste em todo o montante de moeda em mãos do setor
privado, inclusive bancos. A base monetária representa o estoque de moeda primária, também
chamada MOEDA DE ALTA POTÊNCIA (HIGH POWER MONEY), ou ainda, PASSIVO MONETÁRIO DAS
AUTORIDADES MONETÁRIAS.

Por um mecanismo de multiplicação, via empréstimos bancários, essa moeda primária dá


origem ao total de meios de pagamento. Existe uma relação bastante estável e previsível entre
base monetária e meios de pagamentos, assim:
M = m ou M = mB
B
Sendo M o saldo dos meios de pagamento, B a base monetária e m o multiplicador
da base monetária. Assim, a diferença entre M e B, dada pela diferença entre o total de
depósitos DV e o total de reservas R, é o montante de empréstimos bancários.
Vamos discriminar um pouco mais os parâmetros que afetam a expansão ou a contração
monetária da economia e chegar à formula de multiplicador, a partir desses parâmetros.
Por definição:
M = PP + DV (1)
B = PP + R (2)
sendo: PP = saldo da moeda em poder do público
DV = saldo dos depósitos a vista dos bancos comerciais

48
R = saldo das reservas dos bancos comerciais
Dividindo (1) por (2) e depois dividindo tanto numerador como o denominador por DV,
vem:
PP + DV
M = PP + DV = DV DV (3)
B PP + R PP + R
DV DV

c = PP = TAXA DE RETENÇÃO DO PÚBLICO, que é a relação entre a moeda


DV com o público e os depósitos a vista.
R = R = TAXA DE RESERVAS BANCÁRIAS, que é o total de encaixes e
DV reservas em relação aos depósitos a vista.
A expressão (3) pode ser assim reescrita:

M=c+1 ou M = 1 + c B
B c+r c+r

sendo: m = 1 + c
c+r

Dessa forma, as expansões e contrações dos meios de pagamento dependem de três parâ-
metros básicos:
Formatados: Marcadores e
a) de variações na base monetária B (maior B, maior M); numeração
b) de variações na taxa de retenção do público c (maior c, menor m e, portanto, menor M);
c) de variações na taxa de reservas bancárias r (maior r, menor m e, portanto, menor M).
Deve ser observado que as políticas monetárias não têm muito efeito sobre a taxa de re-
tenção do público, pelo menos a curto prazo, dado que é um parâmetro que depende de hábitos
da coletividade, como o uso de cartões de crédito. A atuação maior das autoridades dá-se sobre
a taxa de reservas bancárias e sobre a base monetária.

5.1.6 Demanda de moeda


Nesta parte, estamos interessados em saber os motivos que fazem com que as pessoas re-
tenham moeda, guardem moeda pela moeda, em vez de aplicá-la, por exemplo, em títulos ou
imóveis, que proporcionam rendimentos. Se existem essas possibilidades, por que se retém mo-
eda que não rende nada (conceito M1)? Para tanto, precisamos de uma teoria de demanda de
moeda.
Existem três motivos para demandar moeda, isto é, para reter encaixes monetários:

49
 motivo transação;
 motivo precaução;
 motivo especulação (ou portfolio).
Os motivos transação e precaução já tinham sido levantados na teoria clássica, enquanto o
motivo especulação (portfolio) foi colocado por Keynes. Discutamos essas razões para manter
moeda.

Demanda de moeda por motivo de transação


As pessoas retêm moeda para efetuar pagamentos que vencem antes da data de re-
cebimento de sua renda, ou seja, para fazer face à diferença de datas entre os recebimen-
tos e os gastos diários com alimentação, transporte etc. Claramente, a demanda de moeda
por transação depende do nível de renda: quando a renda aumenta, os gastos também au-
mentam, e os saldos de moeda mantidos para harmonizar esses fluxos também devem
aumentar.

Demanda de moeda por motivo de precaução


A segunda razão para empresas e indivíduos reterem (demandarem) moeda é a in-
certeza quanto às datas de recebimentos e pagamentos. Pagamentos inesperados, ou rece-
bimentos atrasados fazem com que as pessoas retenham uma parcela de moeda como pre-
caução. Claramente, esses saldos monetários (encaixes monetários) de segurança ou pre-
caução devem depender da renda do indivíduo ou da empresa. Quanto maior a empresa
ou mais rica a pessoa, maior a necessidade de moeda para precaução.

Demanda de moeda por motivo de especulação (ou motivo portfolio)


Keynes deu uma nova dimensão à moeda ao colocá-la também como uma forma de
riqueza, de patrimônio. Segundo Keynes, as pessoas demandam moeda não apenas para
especulação. A moeda não apresenta rendimentos, mas também não apresenta riscos, es-
pecialmente quando a inflação é baixa. As pessoas, para reduzir os riscos, podem diversi-
ficar sua carteira de títulos (seu portfolio) em vários títulos e aplicações, inclusive guar-
dando certa quantidade de moeda. Dessa forma, essa quantidade de moeda também de-
penderá da rentabilidade dos títulos, ou seja, da taxa de juros. Do ponto de vista de quem
retém moeda, a taxa de juros representa o rendimento que esse indivíduo teria, se com-
prasse títulos. Ou seja, para quem empresta ou aplica, é um rendimento; para quem toma
emprestado, é um custo. Dessa forma, pode-se estabelecer uma relação entre demanda de
moeda por especulação e a taxa de juros de mercado. É de se esperar que essa relação seja
50
inversa: quanto maior a taxa de juros os agentes reterão, menos moeda (que não rende ju-
ros) terão em seu poder. Assim, quanto maior a taxa de juros, maior a compra de títulos e
menor a demanda de moeda para especulação. Todas essas operações ocorrem dentro de
um ambiente chamado sistema financeiro nacional. É o que descreveremos mais adiante.

Considerações sobre este capítulo

Neste capítulo constatamos a importância dos aspectos monetários no dia-a-dia de qual-


quer economia, explorando as funções, características da unidade monetária bem como a sua
circulação dentro de um sistema econômico, o fenômeno da sua existência é importante face a
inviabilidade do retorna ao escambo ou às mercadorias moedas.
Também examinamos questões relacionadas à produção e o impacto do meio circulante
para a promoção de desenvolvimento de um país.Se você compreendeu os fundamentos aqui
desenvolvidos, está apto a seguir a diante em sua leitura.
As referências bibliográficas ao final deste livro apresentam capítulos interessantes
como o livro sobre o sistema financeiro nacional de Armando Mellagi Filho. São Paulo:Atlas
2003 onde autor apresenta o seu funcionamento suas subdivisões bem como as instituições que
o formam outra obra interessante é a introdução a economia de Jose Paschoal Rossetti. São Pau-
lo: Atlas, 2000. onde é dedicado capítulo exclusivo sobre as moeda, seu surgimento, funções e
características. Para você aprofundar seus conhecimentos sobre este tema, pode realizar estudos
sobre o meio circulante no Brasil. Recomendamos o site do Banco Central do Brasil
(http://www.bc.gov.br). Há outras referencias interessantes sobre este tema nas bibliografias que
desenvolvem o tema “ Economia Monetária”

Atividades
1. Quais as funções da moeda?
2. As pessoas demandam moeda por três razões. Quais são elas?
3. Descreva o processo de criação e destruição de moeda.
4. Para controle o volume de moeda em circulação na economia, os governos implementam a
chamada política monetária. Que ferramentas compõem a política monetária?

Referências
ASSAF NETO, Alexandre. Mercado Financeiro. São Paulo: Atlas, 2003.

51
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Disponível em: http://www.bc.gov.br. Acesso em: 06.jul.07.

CASTRO, A. B. de; LESSA, C. F. Introdução à Economia: uma abordagem estruturalista.


Rio de Janeiro: FORENSE UNIVERSITÁRIA, 1992.

EQUIPE DE PROFESSORES DA USP. PINHO, Diva B. & VASCONCELOS, Marco A. S de


(Organizadores.). Manual de Economia. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

FORTUNA, E. Mercado financeiro: produtos e serviços. 15. ed. Rio de Janeiro: Qualitymark,
2003.

LOPES, João do C; ROSSETI, José P. Economia Monetária. São Paulo: Atlas, 2002.

MANKIW, N. G. Introdução à Economia. Princípios de Micro e Macroeconomia. Rio de Janei-


ro: Campus, 1999.

MELLAGI, A. F.; ISHIKAWA, S. Mercado financeiro e de capitais. 2. ed. São Paulo: Atlas,
2003.

MOCHON F. & TROSTER, R. L. Introdução à Economia. São Paulo: Makron Books, 2002.

O’ SULLIVAN, SHEFFRIN & NISHIJIMA. Introdução à Economia. São Paulo: Prentice Hall.
2004.

PASSOS, C. R. M.; NOGAMI, O. Princípios de Economia. 4. ed. São Paulo: Pioneira Thom-
son Learning, 2003.
ROSSETTI, J. P. Introdução à Economia. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

SILVA, José Pereira. Gestão e Análise de Risco de Crédito. São Paulo: Atlas, 2003.

VASCONCELLOS, Marco A. & GARCIA, MANUEL E. Fundamentos de Economia. São


Paulo: Saraiva, 2004.

WESSELS, W. J. Economia. São Paulo: Saraiva, 2003.

52
CAPÍTULO 6

6 INFLAÇÃO E SEUS REFLEXOS NA ECONOMIA

Ao final da leitura deste capítulo, você será capaz de:


 diferenciar os conceitos de inflação e deflação;
 identificar os efeitos da inflação sobre a economia;
 relacionar as suas causas e as políticas antiinflacionárias;
 realizar o cálculo da inflação;
 descrever os principais índices de inflação do Brasil.

6.1 INFLAÇÃO
A inflação pode ser conceituada como um aumento contínuo e generalizado no nível geral
de preços. Ou seja, os movimentos inflacionários são dinâmicos e não podem ser confundidos
com altas esporádicas de preços. Devem também ser generalizados, porque a maioria dos preços
deve se elevar conjuntamente.

6.1.1 Distorções provocadas por altas taxas de inflação


Ao discutir o problema da inflação, deve ser observado que muitos economistas
não crêem que as distorções provocadas por uma inflação suave sejam sérias, mas há
poucas dúvidas de que níveis elevados de inflação produzirão conseqüências desas-
trosas. Os principais efeitos provocados por esse fenômeno são:
 Efeito sobre a distribuição de renda – Uma das distorções mais sérias pro-
vocadas pela inflação diz a respeito à redução do poder aquisitivo das classes
que dependem de rendimentos fixos, que possuem prazos legais de reajuste.
Nesse caso, estão os assalariados que, com o passar do tempo, vão ficando
com seus orçamentos cada vez mais reduzidos, até a chegada de um novo re-
ajuste. Os que mais perdem são os trabalhadores de baixa renda, que não têm
condições de manter alguma aplicação financeira, pois tudo o que ganham
gastam com sua subsistência. Percebe-se que a inflação é um imposto sobre
os mais pobres. Os que auferem renda de aluguel também têm perda de ren-
dimento real, ao longo do processo inflacionário, mas estes são compensados
pela valorização de seus imóveis, que costuma caminhar à frente das taxas de
inflação. Os proprietários de bens de raiz praticamente nada sofrem, já que su-
as propriedades normalmente são valorizadas no mesmo ritmo em que deterio-
53
ra o valor do dinheiro. Nesta categoria também estão os empresários, que têm
mais condições de repassar os aumentos de custos provocados pela inflação,
garantindo assim a manutenção de seus lucros, e o próprio governo, via corre-
ção de impostos e preços e tarifas públicas;

 Efeito sobre o balanço de pagamentos – Elevadas taxas de inflação, em ní-


veis superiores ao aumento de preços internacionais, encarecem o produto na-
cional relativamente ao produzido externamente. Assim, provocam estímulo às
importações e desestimulo às exportações, diminuindo o saldo da balança co-
mercial exportações menos importaçõe). Esse fato costuma provocar um círcu-
lo vicioso, se o país estiver enfrentando um deficit cambial. Nessas condições,
as autoridades, na tentativa de minimizar o deficit, são obrigadas a permitir
desvalorizações cambiais, as quais depreciando a moeda nacional, podem es-
timular a colocação de nossos produtos no exterior, desestimulando as impor-
tações. Entretanto, as importações essenciais, das quais muitos muitos países
não podem prescindir, tais como petróleo e derivados, fertilizantes, equipamen-
tos sem similar nacinal, tornar-se-ão imediatamente mais caras pressionando
os custos de produção dos setores que utilizam mais largamente produtos im-
portados.. Ocorre, então, uma nova elevação de preços, devido ao repasse do
aumento dos custos aos preços dos produtos finais, recomeçando o processo.

 Efeito sobre as expectativas – Outra distorção provocada por elevadas taxas


de inflação prende-se à formação das expectativas sobre o futuro. Particular-
mente, o setor empresarial é bastante sensível a esse tipo de situação, dada a
instabilidade e a imprevisibilidade de seus lucros. O empresário fica num com-
passo de espera enquanto a situação perdurar e dificilmente tomará iniciativas
no sentido de aumentar seus investimentos na expansão da capacidade produ-
tiva. Assim, a própria capacidade de produção futura e, conseqüentemente, o
nível de emprego é afetado pelo processo inflacionário.

 Efeito sobre o mercado de capitais – Tendo em vista o fato de que, num pro-
cesso inflacionário intenso, o valor da moeda deteriora-se rapidamente, ocorre
desestímulo à aplicação de recursos no mercado de capitais financeiros. As a-
plicações em cadernetas de poupança, títulos, devem sofrer retração. Por outro
lado, a inflação estimula a aplicação de recursos em bens de “raiz”, como ter-
ras e imóveis, que costumam valorizar durante o processo inflacionário. No
Brasil, essa distorção foi bastante minimizada pela instituição do mecanismo da
54
correção monetária, pelo qual os papéis públicos, bem como as cadernetas de
poupança, passaram a ser reajustados por um índice que reflete aproximada-
mente o crescimento da inflação. Embora alguns possam ganhar com a infla-
ção a curto prazo, pode-se dizer que, a longo prazo, quase ninguém ganha
com ela, porque seu processo desarticula todo o sistema econômico. Assim, a
inflação onera principalmente os trabalhadores, ao corroer seus salários, é evi-
dente que, com o empobrecimento dos trabalhadores, as empresas vão vender
menos e o governo arrecadará menos1. Uma vez discutidas as distorções pro-
vocadas por elevadas taxas de inflação, cabe analisar mais detidamente os fa-
tores que a provocam.

6.1.2 Causas da inflação


Para propósito de análise, é útil classificarmos a inflação de acordo com seus fatores cau-
sais. Nesse sentido, a literatura econômica costuma distinguir a inflação provocada pelo excesso
de demanda agregada (inflação de demanda) da inflação causada por elevação de custos (infla-
ção de custos).

Inflação de demanda
A inflação de demanda, considerada o tipo mais “classico” de inflação, diz respeito
ao excesso de demanda agregada em relação à produção disponível de bens e serviços. In-
tuitivamente, ela pode ser entendida como “dinheiro demais à procura de poucos bens”.
Parece claro que a probabilidade de inflação de demanda aumenta quanto mais a
economia estiver próxima do pleno emprego de recursos. Afinal, se houver desemprego
em larga escala na economia, é de se esperar que um aumento de demanda agregada deva
corresponder a um aumento na produção de bens e serviços, pela maior utilização de re-
cursos antes desempregados, sem que necessariamente ocorra aumento generalizado de
preços. Quanto mais nos aproximamos do pleno emprego, mais se reduz a possibilidade
de expansão rápida da produção, e a repercussão maior deve refletir sobre os preços.
Como esse tipo de inflação está associado ao excesso de demanda agregada e tendo
em vista que, a curto prazo, a demanda é mais sensível a alterações de política econômica
que a oferta agregada (cujos ajustes normalmente se dão a prazos relativamente longos), a
política preconizada para combatê-la assenta-se em instrumentos que provocam redução
da procura agregada por bens e serviços.

Inflação de custos

55
A inflação de custos pode ser associada a uma inflação tipicamente de oferta. O ní-
vel de demanda permanece o mesmo, mas os custos de certos insumos importantes au-
mentam e eles são repassados aos preços finais dos produtos. A sua natureza geral é a se-
guinte: o preço de um bem ou um serviço tende a ser bastante relacionado a seus custos
de produção. Se o último aumenta, mais cedo ou mais tarde o preço do bem provavelmen-
te aumentará. Uma razão freqüente para um aumento de custos seria os aumentos salari-
ais. Um aumento das taxas de salários, entretanto, não necessariamente significa que os
custos de produzir um bem aumentaram. Se a produtividade da mão-de-obra empregada
aumenta na mesma proporção dos salários reais médios, os custos unitários por unidade
de produto não são afetados. Por exemplo: se os salários reais aumentam 10% e o produto
por trabalhador aumenta na mesma proporção, o produto aumentou tanto quanto os salá-
rios. Os custos salariais por unidade de produto permaneceram os mesmos. Nesse sentido,
não há necessidade de aumentar os preços unitários dos produtos quando expandir a pro-
dução porque os custos por unidade produzida não aumentaram.
O aumento da taxa de salários provoca inflação, se existir alguma causa autônoma.
Por exemplo: se sindicatos com mais poder de barganha são capazes de forçar um aumen-
to de salários em níveis acima dos índices de produtividade, os custos de produzir bens e
serviços aumentam. Se os preços de produtos finais seguem os custos de produção, resul-
ta uma inflação impulsionada pelos custos de produção (no caso, pelo aumento de salá-
rios).
A inflação de custos também está associada ao fato de que algumas empresas com
elevado poder de monopólio ou oligopólio têm condições de elevar seus lucros acima da
elevação dos custos de produção.
A estagflação ocorre quando há paralelamente taxas significativas de inflação
e recessão econômica, com desemprego. Isso pode ser devido ao fato de que, em períodos
de queda de atividade produtiva, as firmas com poder oligopolístico têm condições de
manter suas margens de lucros sobre custos (ou mark up), ao aumentar os preços de seu
produto.
Dessa forma, o que caracteriza, na realidade, a expressão inflação de custos é o
aumento de preços devido a pressões autônomas. Em parte, essas pressões são causadas
pela circunstância de que alguns grupos econômicos, como sindicatos e empresas oligo-
polistas, têm suficiente poder de barganha para forçarem aumentos de sua participação na
renda nacional.
A inflação de custos também pode ser causada por aumentos autônomos nos preços
de matérias-primas básicas, os chamados choques de matérias-primas (crise do petróleo,
choques agrícolas). Normalmente, a política usual, no caso de inflação de custos, é o con-
trole direto de preços, o que pode ocorrer tanto através de uma política salarial mais rígi-

56
da, maior fiscalização sobre os lucros auferidos pelos grupos oligopolistas como pelo
controle ou tabelamento de preços dos produtos.

Outras causas: inflação inercial, inflação de expectativas e corrente estruturalista


Além dos fatores tradicionalmente considerados como os principais causadores do
processo inflacionário, no Brasil tem-se associado esse processo também à inércia infla-
cionária, e às expectativas de inflação futura.
De acordo com a VISÃO INERCIALISTA, os mecanismos de indexação formal (con-
tratos, aluguéis, salários) e informal (reajustes de preços no comércio, indústria, tarifas
públicas) provocam a perpetuação das taxas de inflação anteriores, que são sempre repas-
sadas aos preços correntes. Ademais, mesmo sem terem apresentado aumentos significa-
tivos de seus custos, muitos setores simplesmente elevam os preços de bens e serviços pe-
la inflação geral do país, divulgada pelas instituições de pesquisa. Por essa razão, nos pla-
nos antiinflacionários adotados depois de 1986 no Brasil, as autoridades adotaram o con-
gelamento de preços e salários para tentar eliminar a chamada memória inflacionária, ou
seja, desindexar a economia. Outro recurso foi a troca da unidade monetária, onde duran-
te algum tempo coexistiram uma moeda inflacionada (como o cruzeiro real) e uma moeda
teoricamente sem inflação (como o real), indexada ao dólar ou a uma cesta de moedas es-
trangeiras.
A INFLAÇÃO DE EXPECTATIVAS estaria associada aos aumentos de preços provo-
cados pelas expectativas dos agentes de que a inflação futura tende a crescer, e eles pro-
curam resguardar suas margens de lucro. No Brasil, esse fator tem sido muito presente
antes de mudanças de governo, com os empresários se precavendo contra eventuais con-
gelamentos de preços e salários, que tem sido uma estratégia freqüente nos planos pós-86
(chamados de choques heterodoxos).
Na América Latina, a partir dos anos 1950, ganhou destaque uma corrente que
pressupõe que a inflação no continente estaria associada estreitamente a tensões de cus-
tos, causados por deficiências na estrutura econômica. É a CORRENTE ESTRUTURALISTA.
A inflação seria explicada principalmente pela estrutura agrária, estrutura oligopolista de
mercado e estrutura do comércio internacional. A agricultura não responderia ao cresci-
mento da demanda de alimentos, devido à existência de latifúndios pouco preocupados
com questões de produtividade. Isso levaria ao aumento de preços dos alimentos. Por ou-
tro lado, grandes oligopólios têm condições de sempre manter suas margens de lucro, re-
passando todos os aumentos de custos a seus preços. Finalmente, a inflação seria provo-
cada pelas desvalorizações cambiais que os países subdesenvolvidos são obrigados a
promover, para compensar o deficit crônico da balança comercial, gerado pela deteriora-

57
ção dos termos de troca no comércio internacional, contra esses países, por exportarem
produtos primários e importarem produtos manufaturados.
No fundo, segundo essa visão, as causas da inflação estão associadas aos CONFLI-
TOS DISTRIBUTIVOS, que se resumem na tentativa dos agentes manterem ou aumentarem
sua posição na distribuição do "bolo" econômico: empresários defendendo suas margens
de lucro, trabalhadores tentando manter seus salários e o governo mantendo sua parcela
através de impostos, preços e tarifas públicas, além de poder emitir moeda a qualquer
momento.

Deflação
As notícias referentes à economia muitas vezes usam a palavra deflação. Para grande par-
te da população, o termo pode gerar dúvidas porque poucas vezes há explicações sobre o seu
significado. Deflação é o oposto de inflação, que significa o aumento geral de preços. Se algum
dos índices que medem o custo de vida sobe, pode-se dizer que houve inflação no período. Se os
preços caem, houve deflação.
O que determina a inflação e a deflação é a média geral de preços e não de um produto
isolado. Se apenas o preço do pão francês sobe ou desce durante um período, isso não pode ser
chamado de inflação ou deflação. Houve apenas uma redução ou aumento no valor do produto.
Mas, atenção: a deflação só é registrada quando há estabilidade nos preços, o que não significa
necessariamente que a economia esteja próspera.
No caso da economia brasileira, a deflação está geralmente relacionada à queda da ativi-
dade econômica, que é refletida na perda de poder aquisitivo da população. Para evitar a falên-
cia, a queda de preços é a única alternativa encontrada pelas empresas para garantirem a venda
de seus estoques.
É a variação negativa dos preços da economia. Significa a produção e o consumo decres-
centes de bens e serviços produzidos num país. Constante, conduz à diminuição e ao agrava-
mento do padrão de vida das pessoas e à recessão.

6.1.3 A inflação no Brasil


De acordo com Vasconcellos (2004), as escolas de teoria econômica no Brasil sempre es-
tiveram integradas a outros centros de estudo de economia no mundo inteiro. Todavia, tivemos
alguns aspectos de teoria econômica com aplicações práticas que foram muito estudadas aqui,
principalmente sobre a questão da inflação. Podemos citar como exemplo a visão inercialista da
inflação ou o processo de industrialização. O maior destaque, sem dúvida, foi o debate entre
estruturalistas e monetaristas, principalmente nos anos 60.
Costuma-se associar a corrente estruturalista à Comissão Econômica para a América La-
tina (CEPAL), influenciada pelas idéias do economista argentino Raul Prebisch, e a corrente

58
monetarista à política preconizada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), baseada, em
grande parte, nas idéias de Milton Friedman3, da Universidade de Chicago.
Como dissemos, o diagnóstico estruturalista para o processo inflacionário em países sub-
desenvolvidos pressupõe que a inflação está associada estreitamente a tensões de custos, causa-
das por deficiências da estrutura econômica, a saber: a estrutura agrária, a estrutura oligopolista
de mercado e a estrutura do comércio internacional. Hoje, os estruturalistas (ou neo-
estruturalistas) colocam-se essas questões de forma mais abrangente, ou seja, associadas a um
conflito distributivo, que se estabelece entre os vários setores e agentes da sociedade. Segundo
essa corrente, as causas da inflação no Brasil derivam da pressão desses agentes na defesa de
sua parcela no produto da economia: os capitalistas, via margens de lucro; o governo, via im-
postos e preços de tarifas públicas; e os trabalhadores, através de seus salários. As idéias estru-
turalistas também estiveram associadas à estratégia de industrialização na América Latina, atra-
vés de um processo de substituição de importações. Esse processo foi ancorado em uma política
de proteção à indústria nacional, por meio de barreiras qualitativas e quantitativas à importação.
A visão monetarista, no tocante à questão inflacionária, apresenta um diagnóstico que as-
socia a inflação brasileira ao desequilíbrio crônico do setor público. A necessidade de financiar
a dívida pública leva ao aumento das emissões e ao excesso de moeda, acima das necessidades
reais da economia, levando às elevações de preços. Os economistas dessa corrente advogam por
uma economia de mercado com menor intervenção do Estado nessa atividade. São os principais
defensores da privatização de empresas estatais. Por essa razão, também são conhecidos como
liberais ou neoliberais.
A terceira corrente é a inercialista, segundo a qual a inflação no Brasil estaria associada
aos mecanismos de indexação, que acabam perpetuando a inflação passada, numa espécie de
inércia inflacionária. Os congelamentos de preços e salários, adotados nos planos econômicos,
bem como a troca de moeda (o cruzeiro real inflacionado foi substituído pelo real, teoricamente
livre da inflação), foram medidas adotadas justamente para tentar eliminar a "memória" infla-
cionária.
Em grande medida, e talvez com mais intensidade no Brasil, o debate entre as várias cor-
rentes de pensamento econômico sempre esteve associado ao próprio debate político, que repre-
senta os interesses de segmentos representativos da sociedade: trabalhadores em geral, funcioná-
rios públicos, corporações estatais, industriais, ruralistas etc.
O quadro a seguir procura sintetizar a discussão recente sobre inflação no Brasil.

Quadro 3: Inflação no Brasil e as correntes econômicas

INFLAÇÃO NO BRASIL E AS CORRENTES ECONÔMICAS

Corrente Causas principais Políticas antiinflacio-

59
nárias

Liberais ou neoliberais  Desequilíbrio do setor públi-  Ajuste fiscal (para


co (o déficit e a dívida pública reduzir déficit e dívida
provocam descontrole monetário, pública, via reforma
causando inflação de demanda) fiscal, privatização);
 controle monetário
(juros e moeda);
 liberalização do co-
mércio exterior (abertura
comercial e valorização
cambial).
Inercialistas  Indexação generalizada (for-  Desindexação (para
mal e informal). apagar ”memória ou
inércia inflacionária”,
via congelamento de
preços, salários e tarifas.
Planos Cruzado, Bresser
– ou troca de moeda –
Plano Real).
Estruturalistas  Conflitos distributivos (pres-  Controle de preços de
sões de margens de lucro, pres- oligopólios;
sões salariais, pressões de tarifas
 reformas estruturais.
e preços públicos provocam in-
flação de custos).
Fonte: VASCONCELLOS, 2001, p. 341.
Para que se possam identificar as causas da inflação é necessário primeiramente medi-la.
Essa medição se dá através de uma ferramenta da Estatística chamada número índice.

6.2 MEDIDA DA INFLAÇÃO


Um número índice é um número abstrato que sintetiza grandezas de diferentes espécies
em um único valor, que permite fazer comparação no tempo e no espaço. Mediante o emprego
do número índice, podemos comparar os custos de alimentação ou de vida em uma determinada
região num dado período de tempo com os de uma época anterior ou, ainda, a produção de de-
terminado produto durante um determinado ano em uma dada região.
Embora os números índices sejam utilizados principalmente nos negócios e na economia,
podem ser utilizados em outros campos do conhecimento, como na área da educação, podemos
utilizar números índices para comparar o grau de inteligência dos estudantes.
A construção de um número índice exige a consideração dos seguintes pontos:
 Definição da base – Consiste em especificar se o índice a ser elaborado é para preço,
quantidade ou valor, em delimitar a área geográfica à qual se refere, em estabelecer a
sua periodicidade, em selecionar a fórmula, em identificar os dados necessários e sufici-
entes para a construção.

60
 Fixação da base – A fixação da base no tempo e no espaço depende da finalidade do
índice. Entretanto, como regra geral, aconselha-se que a escolha deva recair sobre um
período ou espaço geográfico que possa ser encarado como normal, ou seja, no qual não
se tenham manifestado perturbações excessivas no comportamento do fenômeno estu-
dado.
 Obtenção de informações – É a maneira pela qual os dados devem ser coletados (senso
ou amostragem); será determinado tendo em vista o menor custo, a maior precisão e
máxima oportunidade.
Um índice de preços podem ser de três tipos. São eles:
A) Índice relativo de preços – Quando queremos analisar a variação do preço de um só
bem, basta expressar tal variação em termos percentuais. Notação utilizada:
I – índice;
P – preço;
o – época base, básica ou época de referência;
t – época atual, época dada, época a ser comparada;
Pt – preço do artigo na época atual (dada);
Po – preço do artigo na época base.

Fórmula utilizada: Po,t = Pt . 100 - 100


Po

Exemplo: um artigo foi adquirido por R$ 2.000 em 2003 e por R$ 2.500 no ano se-
guinte. Calcular o relativo de preço em 2004, com base em 2003 e dar a interpretação.

Cálculo: P o,t = 2.500 . 100 - 100 P o,t = 25%


2.000

Interpretação: o preço teve um acréscimo de 25% em relação 2003/2004.

B) Índice relativo de quantidade – Quando desejamos analisar a variação na quantida-


de de um produto em termos percentuais. Notação utilizada:
qt – quantidade de um produto na época atual;
qo – quantidade desse mesmo produto na época base;

Fórmula utilizada: q o,t = qt . 100 - 100


61
qo

Exemplo: um vendedor de automóveis vendeu 400 veículos em 2004, contra 600


em 2005. Calcular o relativo de quantidade em 2005, com base em 2004. Dar a interpre-
tação.

Cálculo: q o,t = 600 . 100 - 100 q o,t = 50 %


400

Interpretação: a quantidade de veículos vendidos teve um aumento de 50% em


relação 2004/2005.

C) Índice relativo de valor – Quando pretendemos analisar a variação no valor de um


único bem, basta expressar a variação em percentuais, obtendo o que denominamos re-
lativo do valor. Notação utilizada:
Pt - preço do artigo na época atual;
Po - preço do artigo na época base;
qt - quantidade de um produto na época atual;
qo - quantidade desse mesmo produto na época base;
Vt - valor do artigo na época atual;
Vo – valor do artigo na época base.

Fórmula utilizada: Vo,t = Vt . 100 - 100


Vo

Exemplo: uma empresa vendeu em 1996 12.000 de um artigo, ao preço unitário


de R$ 500. Em 1997 vendeu 15.000 do mesmo artigo ao preço de R$ 600. Com base em
1996, calcule o relativo de valor em 1997.

Cálculo:
V o = Po . qo (500 . 12.000) = 6.000.000
V t = Pt . qt (600 . 15.000) = 9.000.000
V o t = 9.000.000 . 100 - 100 = 50%
6.000.000

Medição da Inflação no Brasil

62
No Brasil, historicamente, as principais instituições que calculam índices de preços (vari-
ação da inflação) para economia brasileira são Fundação Getúlio Vargas (FGV), Instituto Brasi-
leiro de Geografia e Estatística (IBGE), Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) e
Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (DIEESE), respectiva-
mente. Assim, vamos apresentar os índices de preços dessas quatro instituições, descrevendo
suas principais características como, por exemplo, metodologia, cálculo, abrangência geográfica
e valores.

Índice Geral de Preços – IGP


A FGV iniciou o cálculo de índices de preços em 1947, com a criação da metodologia do
Índice Geral de Preços (IGP) que, salvo pequenas correções e atualizações, permanece inaltera-
da. Inicialmente, as estimativas referiam-se a índices de preços de títulos públicos e ações, pre-
ços no atacado, preços de gêneros alimentícios e custo de vida. Estas séries foram calculadas
retroativamente até 1944, ano de criação da FGV, e tinham a finalidade de deflacionar o índice
mensal da evolução dos negócios. Com a introdução da correção monetária no país, em 1964,
este índice passou a ser bastante usado na correção de contratos, especialmente obras públicas.
Para chegar-se ao IGP ponderam-se as parcelas Índice de Preços por Atacado (IPA); Índice de
Preços ao Consumidor (IPC) e Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), com pesos
iguais a 6,3 e 1 respectivamente.
Três derivações do IGP aconteceram ao longo da história. A primeira, em 1969, foi a se-
paração do IGP em duas versões: Disponibilidade Interna (DI) e Oferta Global (OG). O princi-
pal objetivo era isolar os efeitos das oscilações dos preços do café. A versão DI se encarregava
disto atribuindo um peso menor aos produtos de exportação. Hoje, com a diversificação das
exportações, a dispersão entre as duas versões é irrelevante.
A segunda modificação foi a introdução, em 1989, do Índice Geral de Preços do Mercado
(IGP-M), uma versão do IGP para o mercado financeiro. A diferença entre os índices é apenas o
período de coleta. Enquanto o IGP-DI coleta os preços entre 1 e 30 do mês referência, no IGP-
M a coleta é entre os dias 21 do mês anterior e 20 do mês de referência. Desta forma, o IGP-M
pode ser divulgado antes do final do mês calendário, o que é essencial para sua utilização como
referência financeira. Antes do resultado final, duas prévias são divulgadas: o primeiro e o se-
gundo decêndios. Em 1993, começou a ser divulgado o IGP-10, versão do IGP cuja coleta é
realizada entre os dias 11 do mês anterior e 10 do mês de referência.

Índices de Preços do Consumidor


Os Índices de Preços ao Consumidor, calculados pela FGV, detectam a variação dos pre-
ços de bens e serviços consumidos pelas famílias com renda mensal até 33 salários mínimos.
Esses itens são classificados em grupos: Alimentação, Habitação, Vestuário, Transportes, Saú-

63
de, Educação e Despesas Diversas. Cada grupo admite subdivisões, até se chegar ao nível do
item individual. O peso atribuído a cada grupo ou subdivisão depende do gasto dessas famílias
com cada bem ou serviço. Estas informações são obtidas através de Pesquisas de Orçamentos
Familiares (POF), elaboradas periodicamente pela FGV.

Índices de Preço do IBGE


O Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor - SNIPC, consiste em uma
combinação de processos destinados a produzir índices de preços ao consumidor. O objetivo é
acompanhar a variação de preços de um conjunto de produtos e serviços consumidos pelas famí-
lias. O sistema abrange as regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Hori-
zonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além do Distrito Federal e do
município de Goiânia. É a partir da agregação dos índices regionais referentes a uma mesma
faixa de renda que se obtém o índice nacional.
Os índices mensais resultam, regra geral, da comparação dos preços vigentes nos 30 (trin-
ta) dias do período de referência com os 30 (trinta) do período base. A coleta integral de preços
se dá a cada período de 30 (trinta) dias que é segmentado, sem interrupção, em 4 (quatro) subpe-
ríodos. Em um subperíodo efetua-se a coleta de uma quarta parte fixa de estabelecimentos. Des-
ta forma, é possível extrair do sistema índices com períodos base e de referência de 30 (trinta)
dias ao final de cada conjunto de quatro sub-períodos.
Os índices podem ser obtidos para diversas populações-objetivo desde que estejam dispo-
níveis as respectivas estruturas de ponderações correspondentes a famílias de diferentes faixas
de rendimento mensal. Do ponto de vista temporal, além dos índices mensais, podem ser calcu-
ladas as variações de preços ocorridas em 2 (dois) meses ou mais, a partir das séries históricas
produzidas. Ressaltando que o sistema, na forma como é montado, possibilita várias alternativas
de cálculo de índices, passamos a descrever, abaixo, os Índices Nacionais de Preços ao Consu-
midor.

Índice Nacional de Preços ao Consumidor – INPC e Índice Nacional de Preços ao


Consumidor Amplo - IPCA
O INPC e o IPCA são calculados de forma contínua e sistemática para as áreas abrangi-
das pelo sistema. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - IPCA é utilizado pelo
Banco Central do Brasil para o acompanhamento dos objetivos estabelecidos no sistema de
metas de inflação, adotado a partir de julho de 1999, para o balizamento da política monetária.
A população-objetivo do INPC se referente as famílias com rendimentos mensais com-
preendidos entre 1 (hum) e 8 (oito) salários-mínimos, cujo chefe é assalariado em sua ocupação
principal e residente nas áreas urbanas das regiões; e a do IPCA é referente a famílias com ren-

64
dimentos mensais compreendidos entre 1 (hum) e 40 (quarenta) salários-mínimos, qualquer que
seja a fonte de rendimentos, e residentes nas áreas urbanas das regiões.

Índice de Preços ao Consumidor da FIPE


O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) é calculado pela Fundação Instituto de Pesqui-
sas Econômicas (FIPE) - uma instituição de pesquisa ligada à Faculdade de Economia e Admi-
nistração da Universidade de São Paulo (USP) - e foi criado pela Prefeitura do Município de
São Paulo com o objetivo de reajustar os salários dos servidores municipais. Esse índice indica a
evolução do custo de vida das famílias paulistanas desde 1939. Mas, somente, a partir de 1973,
passou a ser elaborado pela FIPE.
O período de coleta vai desde o primeiro dia de cada mês até o último dia do mesmo e a
divulgação ocorre próximo ao dia 10 do mês subseqüente ao da coleta. Semanalmente ocorrem
divulgações prévias, chamadas "quadrissemanais" que simplesmente comparam os preços das
últimas quatro semanas apuradas, em relação às quatro semanas imediatamente anteriores. O
sistema de cálculo da variação quadrissemanal do IPC-FIPE abrange um período de 08 semanas
de coleta. As variações são obtidas comparando-se os preços médios das quatro últimas semanas
com os das quatro primeiras. A FIPE calcula a cada semana as variações quadrissemanais do
IPC para a faixa de renda familiar entre 1 e 20 salários mínimos.
Com o universo de pessoas que ganham de 2 a 6 salários mínimos, a composição dos
grupos de despesas para o cálculo do índice é o seguinte: Alimentação (30,81%), Despesas Pes-
soais (12,52%), Habitação (26,52%), Transportes (12,97%), Vestuário (8,65%), Saúde e Cuida-
dos Pessoais (4,58%) e Educação (3,95%).

Índice de Preços do DIEESE


O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (DIEESE) cal-
cula alguns dos principais indicadores conjunturais da economia do estado de São Paulo. Dentre
esses indicadores podemos citar a Pesquisa de Emprego e Desemprego, realizada em conjunto
com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE) e o Índice de Custo de Vida
(ICV), que é apurado pelo DIEESE desde 1959.
O ICV é calculado com o objetivo de atender à necessidade de diversos sindicatos de au-
ferir o custo de vida no município de São Paulo. O período de coleta vai do primeiro ao último
dia do mês civil e a divulgação ocorre próximo ao dia 10 do mês posterior. Com o universo de
pessoas que ganham de 1 a 30 salários mínimos, a composição dos grupos de despesas para o
cálculo do índice é a seguinte segundo a POF de 1994/95: 1.Alimentação (27,44%), 2.Habitação
(23,52%), 3.Equipamentos Domésticos (6,13%),4.Transportes (13,62%), 5. Vestuário (7,87%),
6. Educação e Leitura (6,91%), 7.Saúde (8,18%), 8.Recreação (2,08%), 9.Despesas Pessoais

65
(3,96%) e 10.Despesas Diversas (0,29%). O período de coleta vai do primeiro ao último dia do
mês civil e a divulgação ocorre próximo ao dia 10 do mês posterior.

Imposto Inflacionário
O imposto inflacionário representa uma receita para o governo, devido ao monopólio
que possui sobre as emissões de moeda. O governo praticamente não é afetado pela perda do
valor do estoque de moeda, pois, para pagar seus compromissos, basta emitir mais moeda. O
imposto inflacionário é justamente a receita que o Banco Central obtém ao emitir moeda a custo
zero.
Como as classes sociais mais baixas praticamente não em aplicações financeiras, não
em defesas para essa taxação implícita, ou seja, mais pobres pagam proporcionalmente mais
imposto inflacionário que os mais ricos. Nesse sentido, pode-se afirmar que o imposto inflacio-
nário é um imposto regressivo. Em grande medida, o imposto inflacionário explica o fato que
tem ocorridonos recentes planos antiinflacionários no Brasil quando, os derrubar as taxas de
inflação, ocorre grande elevação no consumo, principalmente das classes menos favorecidas,
justamene porque deixaram de pagar esse imposto.
Fonte: VASCONCELLOS, 2001.

Considerações sobre este capítulo.

Neste capítulo continuamos nossa fundamentação sobre economia, explorando o fenôme-


no da inflação e os seus reflexos no sistema econômico. Também examinamos questões rela-
cionadas à medição da inflação. Se você compreendeu os fundamentos aqui desenvolvidos, está
apto a seguir a diante em sua leitura.
As referências bibliográficas ao final deste livro apresentam capítulos interessantes pa-
ra aprofundar o tema desenvolvido no capítulo. Se você quiser mais, pode ainda pesquisar estu-
dos e indicadores de inflação e câmbio no Brasil. Recomendamos o site do Banco Central do
Brasil (http://www.bc.gov.br). Há outros sites interessantes, como o da Fundação de Economia
e Estatística do Rio Grande do Sul - FEE (http://www. fee.tche.br ), do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística - IBGE (http://www.ibge.gov.br ) e do Instituto de Pesquisas Econômi-
cas Aplicadas – IPEA (http://www.ipea.gov.br).

66
Atividades
1) Se todos os preços subirem, pode-se ter certeza que houve inflação? Marque a resposta cor-
reta.
a)Sim, contanto que a taxa de juros real não se altere.
b)Sim, contanto que a renda de equilíbrio esteja abaixo da renda de pleno emprego.
c)Sim, contanto que a taxa de juros não se altere.
d)Sim, contanto que esse aumento faça parte de alta persistente no nível geral de preços. (res-
posta correta).
e)Nenhuma das alternativas estão corretas.

2)Caracterize a inflação de custos.

3)Quais são efeitos ocasionados pela inflação?

4) Um automóvel foi adiquirido por R$ 12.800,00 em 2005 e vendido por R$ 14.600,00 no ano
seguinte. Calcule o relativo de preço em 2006 com base em 2005. Interpretar o resultado encon-
trado.

5) Um produtor rural vendeu 20.000 sacas de soja na safra de 2004, contra 17.500 em 2003.
Calcule o relativo de quantidade em 2004 com base em 2003. Interpretar o resultado encontra-
do.

6) Uma fábrica vendeu, em 2002, 14.000 rolamentos ao preço unitário de R$ 3,80. Em 2003
vendeu 16.350 do mesmo produto ao preço de R$ 4,10. com base em 2002, calcule:
a) O relativo de preço. Interpretar o resultado encontrado.
b) O relativo de quantidade. Interpretar o resultado encontrado.
c) O relativo de valor. Interpretar o resultado encontrado.

7) Deferencie inflação de custos de inflação de demanda.

8) Como ocorre o fenômeno da deflação?

Referências

67
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BANCO CENTRAL DO BRASIL. Disponível em: http://www.bc.gov.br. Acesso em: 06.jul.07.

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Contabilidade. São Paulo: Atlas, 2000.

CASTRO, A. B. de; LESSA, C. F. Introdução à Economia: uma abordagem estruturalista.


Rio de Janeiro: FORENSE UNIVERSITÁRIA, 1992.

EQUIPE DE PROFESSORES DA USP. PINHO, Diva B. & VASCONCELOS, Marco A. S de


(Organizadores.). Manual de Economia. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

LOPES, João do C; ROSSETI, José P. Economia Monetária. São Paulo: Atlas, 2002.

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O’ SULLIVAN, SHEFFRIN & NISHIJIMA. Introdução à Economia. São Paulo: Prentice Hall.
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ROSSETTI, J. P. Introdução à Economia. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

VASCONCELLOS, Marco A. & GARCIA, MANUEL E. Fundamentos de Economia. São


Paulo: Saraiva, 2004.

WESSELS, W. J. Economia. São Paulo: Saraiva, 2003.

CAPÍTULO 7

7 SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL E O MERCADO DE CAPITAIS

Ao final da leitura deste capítulo, você deverá ser capaz de:


 descrever a estrutura básica do sistema financeiro nacional;
 diferenciar o subsistema normativo e subsistema normativo;
 compreender o funcionamento do mercado de capitais e a bolsa de valores.

68
7.1 SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL (SFN)
A necessidade, complexidade de um sistema financeiro nacional é de tal importância que
a sua existência e atribuições estão contempladas pela Constituição Federal de 1988. Seu
art.192* diz: “O sistema financeiro nacional, estruturado de forma a promover o desenvolvimen-
to equilibrado do país e a servir aos interesses da coletividade, será regulado em lei complemen-
tar ...”. O SFN está estruturado em dois subsistemas: um “normativo” e outro “de intermedia-
ção”.

7.1.1 O subsistema normativo


Este é constituído pelas autoridades monetárias vinculadas ao Conselho Monetário Na-
cional, que regulamentam através da normalização do funcionamento do SFN de acordo com a
política monetária do governo. Fazem parte do subsistema normativo: Conselho Monetário Na-
cional, Banco Central e Comissão de Valores Mobiliários.

Conselho Monetário Nacional (CMN)


Órgão máximo do SFN, cuja responsabilidade é a elaboração da política monetária
do Brasil cujas atribuições são:
 adaptar o volume dos meios de pagamento às reais necessidades da economia
nacional e ao seu processo de desenvolvimento;
 regular o valor interno da moeda, prevenindo ou corrigindo surtos inflacionários
ou deflacionários de origem interna ou externa, depressões econômicas e outros
desequilíbrios oriundos de fenômenos conjunturais;
 regular o valor externo da moeda e o equilíbrio no balanço de pagamentos do
País, tendo em vista a melhor utilização dos recursos em moeda estrangeira;
 orientar a aplicação dos recursos das instituições financeiras públicas e priva-
das, tendo em vista propiciar, nas diferentes regiões do País, condições favorá-
veis ao desenvolvimento harmônico da economia nacional;
 propiciar o aperfeiçoamento das instituições e dos instrumentos financeiros,
com vistas à maior eficiência do sistema de pagamentos e de mobilização de re-
cursos;
 zelar pela liquidez e solvência das instituições financeiras;
 coordenar as políticas monetárias, de crédito, orçamentária, fiscal e da dívida pú-
blica, interna e externa.

*
O art.192 da Constituição Federal de 1988 pode ser encontrado em:
<http://www.dji.com.br/constituicao_federal/cf192.htm>.
69
Banco Central (BC)
Autarquia do governo (segundo o dicionário Aurélio: entidade estatal autônoma,
com patrimônio e receita próprios, criada por lei para executar, de forma descentralizada,
atividades típicas da administração pública) criada em 31/12/1964 com a promulgação da
lei n.º 4.595. O Bacen é o órgão fiscalizador e executor da política monetária que estabe-
lece o elo de ligação o governo (CMN) e o mercado, zelando pelo perfeito funcionamento
das instituições integrantes do SFN. Suas atribuições são:
 emissão de papel-moeda e de moeda metálica nas condições e limites autoriza-
dos pelo CMN;
 executar os serviços do meio circulante;
 receber os recolhimentos compulsórios dos bancos comerciais e os depósitos
voluntários das instituições financeiras e bancárias que operam no país;
 realizar operações de redesconto e empréstimo às instituições financeiras dentro
de um enfoque de política econômica do governo ou como socorro a problemas
de liquidez;
 regular a execução dos serviços de compensação de cheques e outros papeis;
 efetuar como instrumento de política monetária, operações de compra e venda
de títulos públicos federais;
 emitir títulos de responsabilidade própria, de acordo com as condições estabele-
cidas pelo CMN;
 exercer o controle de crédito sob todas as formas;
 exercer a fiscalização das instituições financeiras, punindo-as quando necessá-
rio;
 autorizar o funcionamento, estabelecendo a dinâmica operacional, de todas as
instituições financeiras privadas;
 estabelecer as condições para o exercício de quaisquer cargos de direção nas
instituições financeiras privadas;
 vigiar a interferência de outras empresas nos mercados financeiros e de capitais;
 controlar o fluxo de capitais estrangeiros garantindo o correto funcionamento do
mercado cambial, operando, inclusive, via ouro, moeda ou operações de crédito
no exterior.

Comissão de Valores Mobiliários (CVM)


É uma autarquia federal criada pela lei 6385/76, tendo como atribuições:
 estimular a aplicação em poupança no mercado financeiro;

70
 assegurar a perfeita operacionalização da bolsa de valores e demais instituições
financeiras;
 proteger os titulares de valores mobiliários contra emissões irregulares que ve-
nham a prejudicar o mercado financeiro;
 fiscalizar a emissão, o registro a distribuição e a negociação de títulos emitidos
pelas sociedades anônimas de capital aberto.

7.1.2 O subsistema de intermediação


Este é constituído pelas instituições financeiras auxiliares que dão forma ao funcionamen-
to do SFN e das operações financeiras das instituições públicas e privadas, pessoas físicas ou
jurídicas de um sistema econômico. As instituições que compõem o subsistema de intermedia-
ção são: bancos comerciais, Banco do Brasil, Caixas Econômicas, Banco de Desenvolvimento,
cooperativas de crédito, bancos de investimentos, sociedades de arrendamentos mercantil, Sis-
tema Financeiro da Habitação, bancos múltiplos, Bolsa de Valores e sociedades seguradoras.

Bancos comerciais
As operações básicas dos bancos comerciais são: receber depósitos e conceder em-
préstimos nas suas funções comerciais. São as instituições financeiras que mais se aproxi-
mam das necessidades do dia-a-dia das unidades produtivas de um sistema econômico. Essa
aproximação se dá através dos produtos e serviços por elas disponibilizados, como desconto
de títulos, duplicatas, cobranças, abertura de contas correntes e muitas outras atividades ne-
cessárias.

Banco do Brasil
O Banco do Brasil desenvolve as atividades de banco comercial, além de ser o execu-
tor da política de crédito rural e industrial do governo federal e administrar a câmara de
compensação de cheques nacional, bem como o comércio exterior do Brasil.

Caixas Econômicas
Assim como o Banco do Brasil e os bancos comerciais, as Caixas Econômicas execu-
tam atividades dos bancos comerciais além de possuir a função principal de atendimento às
pessoas físicas, e tem atribuição de:
 captar economias populares sob a garantia da União;
 conceder empréstimos e financiamentos de caráter assistencial;
 operar no setor de habitação como sociedade de crédito imobiliário e principal agente
do sistema financeiro da habitação.

71
Bancos de desenvolvimento
São instituições financeiras controladas pelos governos estaduais que utilizam repas-
ses públicos para concessão de créditos para médio e longo prazo com objetivo de promover
o fomento às atividades econômicas no estado ou região em que estão instalados. Atualmen-
te são quatro:
 Banco do Nordeste do Brasil (BNB);
 Banco da Amazônia (BASA);
 Banco Regional de Desenvolvimento do extremo Sul (BRDE);
 (BRDE)Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Este último, em razão da sua abrangência nacional, tem sido o mais importante na
atribuição de fomento ao desenvolvimento criadoem 1952, é uma empresa pública com
responsabilidade de crédito no longo prazo, tendo como atribuição:
 impulsionar o desenvolvimento econômico e social do Brasil;
 fortalecer o setor empresarial do País;
 atenuar os desequilíbrios regionais, através da criação de novos pólos de produção;
 promover o desenvolvimento integrado das atividades agrícolas, industriais e servi-
ços;
 estimular o crescimento e a diversificação das exportações.

Cooperativas de crédito
Basicamente as cooperativas de crédito atuam no setor primário da economia com a
função de auxiliar via concessão de crédito, protegendo os cooperados nas suas atividades
de produção, safra comercialização e escoamento da produção. É estruturada sobre a mutua-
lidade dos cooperados que a constituem.

Bancos de investimento
Os bancos de investimento são instituições que possuem objeto de captar depósitos a
prazo e são especializados em operações financeiras de médio e longo prazo.

Sociedades de arrendamento mercantil (leasing)


São sociedades de arrendamento mercantil ou locações com o direito de o contratante
arrematar o bem no final do período contratado pelo seu valor residual. A vantagem para o
mercado de operar com arrendamento é tributária, visto que pode ser laçado como despesa
na contabilidade das pessoas jurídicas.

72
Bancos Múltiplos
Com a resolução n° 1524/88 do BACEN permitiu-se que os bancos comerciais, de inves-
timento, sociedade de crédito imobiliário e outras constituírem uma única empresa através do
processo de fusão.

Sociedades seguradoras
São instituições financeiras que possuem a finalidade de manter o funcionamento
das unidades produtivas diante das adversidades que possam ocorrer. Sua fonte de finan-
ciamento é a mutualidade dos agentes econômicos diante de cálculos atuarial durante a
contratação do seguro.

7.1.3 Sistema Financeiro da Habitação (SFH)


Foi criado com o objetivo de promover o desenvolvimento da construção de habitações,
no Brasil na década de 1960, junto do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e o
Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). O fomento do desenvolvimento da habi-
tação tinha como fonte de financiamento principal o FGTS e SBPE, após a extinção do Banco
Nacional da Habitação e gestão desse sistema foi transferido para a Caixa Econômica Federal.

7.2 O MERCADO DE CAPITAIS E A BOLSA DE VALORES


Nas sociedades capitalistas, tem-se a realidade de que o capital é escasso, realidade que
fundamenta a gestão econômica “administrar escassos recursos para atender necessidades ilimi-
tadas”. Diante dessa realidade, a escassez de recursos passa a ser um obstáculo ao crescimento
das empresas.
A expansão da capacidade de uma unidade produtiva pode ocorrer de várias formas, entre
elas podemos citar:
 utilizar recursos financeiros próprios gerados pela própria atividade operacional;
 utilizar recursos de terceiros obtidos no sistema financeiro, seja ele público ou privado;
 obter recursos através da venda de parte da empresas cujo montante é reaplicado na
própria atividade.

Das alternativas citadas, a terceira é a que apresenta menor risco ao empresário, devido ao
fato de não haver a necessidade de pagamento futuro da dívida uma vez que a contrapartida
deste recurso financeiro recebido foi a entrega de parte da empresa.

73
A expansão da capacidade produtiva tem como resultado o aumento do produto interno
bruto de uma economia, que é indispensável para o crescimento e desenvolvimento econômico
de um país. Atualmente, a venda fracionada das empresas constitui uma importante fonte de
recursos. Esse fracionamento é possível devido à subdivisão do capital total de uma empresa em
partes iguais que denominaremos de ações sendo conhecida como abertura de capital, em outras
palavras significa que o ou os proprietários de uma empresa fracionaram seu patrimônio e abri-
ram parte ou total para venda no mercado.
Assim, o mercado de capitais é um sistema de distribuição de valores mobiliários, que
tem o propósito de proporcionar liquidez aos títulos de emissão de empresas e viabilizar seu
processo de capitalização. É constituído pelas bolsas de valores, sociedades corretoras e outras
instituições financeiras autorizadas.
No mercado de capitais, os principais títulos negociados são os representativos do capital
de empresas — as ações — ou de empréstimos tomados, via mercado, por empresas, que per-
mitem a circulação de capital para custear o desenvolvimento econômico. O mercado de capitais
abrange, ainda, as negociações com direitos e recibos de subscrição de valores mobiliários, cer-
tificados de depósitos de ações e demais derivativos autorizados à negociação.

Razões para investir no Mercado de Ações


Com os recursos necessários, as empresas têm condições de investir em novos equipa-
mentos ou no desenvolvimento de pesquisas, melhorando seu processo produtivo, tornando-o
mais eficiente e beneficiando toda a comunidade. O investidor em ações contribui assim para a
produção de bens, dos quais ele também é consumidor. Como acionista, ele é sócio da empresa
e se beneficia da distribuição de dividendos sempre que a empresa obtiver lucros.
Essa é a mecânica da democratização do capital de uma empresa e da participação em
seus lucros. Para operar no mercado secundário de ações, é necessário que o investidor se dirija
a uma sociedade corretora membro de uma bolsa de valores, na qual funcionários especializados
poderão fornecer os mais diversos esclarecimentos e orientação na seleção do investimento, de
acordo com os objetivos definidos pelo aplicador. Se pretender adquirir ações de emissão nova,
ou seja, no mercado primário, o investidor deverá procurar um banco, uma corretora ou uma
distribuidora de valores mobiliários, que participem do lançamento das ações pretendidas.
À medida que cresce o nível de poupança, maior é a disponibilidade para investir. A pou-
pança individual e a poupança das empresas (lucros) constituem a fonte principal do financia-
mento dos investimentos de um país. Tais investimentos são o motor do crescimento econômico
e este, por sua vez, gera aumento de renda, com conseqüente aumento da poupança e do inves-
timento, e assim por diante.

74
Esse é o esquema da circulação de capital, presente no processo de desenvolvimento eco-
nômico. As empresas, à medida que se expandem, carecem de mais e mais recursos, que podem
ser obtidos por meio de:
 empréstimos de terceiros;
 reinvestimentos de lucros;
 participação de acionistas.
As duas primeiras fontes de recursos são limitadas. Geralmente, as empresas utilizam-nas
para manter sua atividade operacional. Mas é pela participação de novos sócios — os acionistas
— que uma empresa ganha condição de obter novos recursos não exigíveis, como contrapartida
à participação no seu capital

7.2.1 Bolsa de Valores


As bolsas de valores são associações civis, sem fins lucrativos e com funções de interesse
público. Atuando como delegadas do poder público, têm ampla autonomia em sua esfera de
responsabilidade. Além de seu papel básico de oferecer um mercado para a cotação dos títulos
nelas registrados, orientar e fiscalizar os serviços prestados por seus membros, facilitar a divul-
gação constante de informações sobre as empresas e sobre os negócios que se realizam sob seu
controle, as bolsas de valores propiciam liquidez às aplicações de curto e longo prazos, por in-
termédio de um mercado contínuo, representado por seus pregões diários. É por meio das bolsas
de valores que se pode viabilizar um importante objetivo de capitalismo moderno: o estímulo à
poupança do grande público e ao investimento em empresas em expansão, que, diante deste
apoio, poderão assegurar as condições para seu desenvolvimento.

Bolsa de Valores de São Paulo – BOVESPA


A razão principal da existência da Bolsa de Valores de São Paulo - BOVESPA, assim
como de todas as demais bolsas de valores organizadas, pode ser expressa em sua essência por
um simples termo: Liquidez. Financeiramente um título mobiliário tem liquidez quando pode
ser comprado ou vendido, em questão de minutos, a um preço justo de mercado, determinado
pelo exercício natural das leis de oferta e demanda.
Para tanto, a BOVESPA oferece os mais variados mecanismos de negociação de títulos e
valores mobiliários de empresas criteriosamente selecionadas, um sofisticado sistema de tele-
processamento para difusão de informações, exercendo, em defesa do interesse público, um
rigoroso acompanhamento de todos os aspectos envolvidos nas transações, o que assegura ele-
vados padrões éticos ao cumprimento de negócios realizados. A liquidação das operações é
realizada pela Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia – CBLC.
Os mercados disponíveis na BOVESPA são:
 a vista;
75
 a termo;
 de opções.
As operações nesses mercados podem ser feitas no pregão Viva Voz ou pelo pregão ele-
trônico.

Mercado a Vista
No qual a liquidação física (entrega de títulos vendidos) se processa no 2º dia útil após a
realização do negócio em bolsa e a liquidação financeira (pagamento e recebimento do valor da
operação) se dá no 3º dia útil posterior à negociação, e somente mediante a efetiva liquidação
física. A liquidação física e financeira é processada pela Companhia Brasileira de Liquidação e
Custódia - CBLC.

Mercado a Termo
Operações com prazos de liquidação diferidos, em geral, de trinta, sessenta ou noventa
dias. Para aplicações no mercado a termo são requeridos, além do registro na CBLC, um limite
mínimo para a transação e depósito de valores na CBLC — tanto pelo vendedor como pelo
comprador —, utilizados como margem de garantia da operação. O contrato a termo pode, ain-
da, ser liquidado antes de seu vencimento.

Mercado de Opções
A opção proporciona ao investidor que a adquire — mediante o pagamento de um prêmio
em dinheiro — o direito de comprar ou vender um lote de ações a outro investidor, com preço e
prazo de exercício preestabelecido contratualmente. O comprador da opção de compra, até a
data do vencimento, poderá exercê-la comprando o lote de ações ou revendendo a opção no
mercado. O comprador da opção de venda, por sua vez, somente poderá exercê-la na data do
vencimento da opção, quando então poderá vender as ações-objeto da opção ao lançador. Entre-
tanto, tanto o titular como o lançador sempre poderão negociar suas opções no mercado a qual-
quer tempo, até a data do vencimento. O lançador de uma opção de compra poderá cobrir (depo-
sitar na CBLC os ativos objeto da operação) ou margear sua posição. O lançador de uma opção
de venda deverá margear sua posição por meio do depósito de valores na CBLC.

Considerações sobre este capítulo.

Neste capítulo tivemos a oportunidade de conhecer o funcionamento do sistema financei-


ro e o mercado de capitais, a sua relevante importância para o funcionamento de uma economia.
76
Com seu agentes intermediários e as alternativas de captação de recursos para incremento da
produção e suas conseqüências.
As referências bibliográficas ao final deste livro apresentam capítulos interessantes pa-
ra aprofundar o tema aqui desenvolvido. Recomendamos o site do Banco Central do Brasil
(http://www.bc.gov.br) que nos informará todas as alterações na legislação. Há outros sites inte-
ressantes, como o da Comissão de Valores Mobiliários (http://www.cvm.gov.br), Bolsa de Va-
lores de São Paulo (http://www.bovespa.com.br). As referências bibliográficas ao final deste
livro apresentam capítulos interessantes como o livro sobre o sistema financeiro nacional de
Armando Mellagi Filho. São Paulo:Atlas 2003 onde autor apresenta o seu funcionamento suas
subdivisões bem como as instituições que o formam dedicando espaço para o mercado de capi-
tais.Há outras referencias interessantes sobre este tema nas bibliografias que desenvolvem o
tema “ Sistema Financeiro e Mercado de Capitais”

Atividades
1) Descreva o subsistema normativo e o subsistema operativo do Sistema Financeiro Nacional.
2) Nas bolsas de valores, as ações podem ser comercializadas de diferentes formas, entre elas
encontramos o mercado à vista e o mercado a termo. Diferencie-os.
3) Quais são as atribuições básicas do Conselho Monetário Nacional?
4) Qual a importância de um mercado de capitais saudável para a economia de um País?

Referências
ASSAF NETO, Alexandre. Mercado Financeiro. São Paulo: Atlas, 2003.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Disponível em: http://www.bc.gov.br. Acesso em: 06.jul.07.
EQUIPE DE PROFESSORES DA USP. PINHO, Diva B. & VASCONCELOS, Marco A. S de
(Organizadores.). Manual de Economia. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

FORTUNA, E. Mercado financeiro: produtos e serviços. 15. ed. Rio de Janeiro: Qualitymark,
2003.

LOPES, João do C; ROSSETI, José P. Economia Monetária. São Paulo: Atlas, 2002.

MANKIW, N. G. Introdução à Economia. Princípios de Micro e Macroeconomia. Rio de Janei-


ro: Campus, 1999.

MELLAGI, A. F.; ISHIKAWA, S. Mercado financeiro e de capitais. 2. ed. São Paulo: Atlas,
2003.

MOCHON F. & TROSTER, R. L. Introdução à Economia. São Paulo: Makron Books, 2002.

77
O’ SULLIVAN, SHEFFRIN & NISHIJIMA. Introdução à Economia. São Paulo: Prentice Hall.
2004.

PASSOS, C. R. M.; NOGAMI, O. Princípios de Economia. 4. ed. São Paulo: Pioneira Thom-
son Learning, 2003.
ROSSETTI, J. P. Introdução à Economia. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

SILVA, José Pereira. Gestão e Análise de Risco de Crédito. São Paulo: Atlas, 2003.

VASCONCELLOS, Marco A. & GARCIA, MANUEL E. Fundamentos de Economia. São


Paulo: Saraiva, 2004.

WESSELS, W. J. Economia. São Paulo: Saraiva, 2003.

CAPÍTULO 8
8 O MERCADO DE CÂMBIO

Ao final da leitura deste capítulo, você deverá ser capaz de:


 relacionar a taxa de câmbio com as exportações e importações;
 diferenciar os sistemas de taxas de câmbio;
 identificar as relações existentes entre a taxa de câmbio e a inflação.

8.1 O COMÉRCIO INTERNACIONAL E O MERCADO DE DIVISAS


O mercado de câmbio ou divisas permite, por exemplo, que as empresas brasileiras im-
portem produtos dos Estados Unidos, pagando em reais, e que seus fornecedores comprem os
bens em sua própria moeda nacional, isto é, dólares.
A principal diferença entre o comércio nacional e o internacional deve-se a que, dentro de
um país, o intercâmbio se realiza com a mesma moeda, enquanto no comércio internacional
cada país tem sua própria moeda. A heterogeneidade de moedas dos diferentes países torna mais
complexas as relações econômicas internacionais, pois surge o problema da troca entre eles.
Uma empresa que oferece bens e serviços a outros países requererá que se lhe pague na
moeda de seu próprio país. Assim, uma empresa brasileira que vende seus produtos nos Estados
Unidos desejará ser paga em reais, enquanto uma empresa norte-americana que vende ao Brasil
pedirá o pagamento em dólares. Conseqüentemente, os compradores nos mercados internacio-
nais necessitam obter moedas dos países dos quais desejam comprar bens e serviços. Portanto,

78
um sistema desenvolvido de comércio internacional somente pode funcionar se existe um mer-
cado em que uma moeda pode ser trocada por outra. Esse é o papel atribuído ao mercado de
divisas ou de câmbio.
Os mercados de divisas são os mercados nos quais se compram e vendem as moedas dos
diferentes países.
Nesse mercado faz-se a troca da moeda nacional pelas moedas dos países com os quais se
mantêm relações econômicas, originando um conjunto de ofertas e demandas de moeda nacio-
nal em troca de moedas estrangeiras.
No mercado de divisas do Brasil, as famílias brasileiras adquirem moedas estrangeiras pa-
ra atender a pagamentos no exterior, por exemplo, financiar os estudos superiores fora do país.
As empresas brasileiras adquirem divisas para pagar as importações de bens e serviços. Por
outro lado, as famílias estrangeiras que desejam passar as suas férias no Brasil, ou as empresas
estrangeiras que fazem importações de produtos procedentes do Brasil, põem suas moedas à
venda para comprar os reais de que necessitam. Esse tipo de transação determina o preço ou a
taxa de câmbio do real em relação às moedas estrangeiras
A taxa de câmbio é o preço de uma moeda expresso em outra. Ela expressa-se como o
número de unidades da moeda nacional por unidade de moeda estrangeira. Por exemplo, se a
taxa de câmbio do real frente ao dólar é 10, entregam-se 10 reais para se obter um dólar.
Quando o preço em reais de uma unidade de moeda estrangeira sobe, por exemplo, se
passa de 8 reais/dólar a 10 reais/dólar, dizemos que o real desvalorizou-se. Pelo contrário, quan-
do a taxa baixa, dizemos que o real valorizou-se.
Uma desvalorização da moeda nacional faz com que nossos bens sejam mais baratos no
exterior e com que os bens estrangeiros fiquem mais caros no mercado nacional. Portanto, cria-
se uma tendência para elevar as exportações e para reduzir as importações.

8.2 O SISTEMA DE TAXAS DE CÂMBIO


Ao se analisar o mercado de divisas, cabe perguntar como são determinadas as taxas
de câmbio. Nesse sentido, uma primeira consideração é conhecer o papel que o banco central
tem no mercado de divisas.
Um sistema de taxas de câmbio é um conjunto de regras que descrevem o papel do banco
central no mercado de divisas. Desse ponto de vista, identificam-se dois sistemas opostos de
taxas de câmbio: o sistema de taxa de câmbio livre, ou flexível, e os sistemas de taxas fixas. As
taxas de câmbio totalmente flexíveis são determinadas sem a intervenção do banco central. As
taxas de câmbio fixas são determinadas rigidamente pelo banco central.
Na vida real, os sistemas de taxas de câmbio raramente se encontram em um dos dois ex-
tremos citados. Deve levar-se em conta que a taxa de câmbio é o preço-chave que relaciona uma

79
economia com o resto do mundo. Por isso sua determinação é necessariamente um tema com-
plexo no qual não é freqüente que se adotem posturas extremas.

8.2.1 As taxas de câmbio flexíveis ou livremente flutuantes


Para analisar as taxas de câmbio flexíveis, devemos estudar o funcionamento do mercado
livre da taxa de câmbio.
Em um mercado livre, a taxa de câmbio será determinada pelas forças da oferta e da de-
manda. Nessas circunstâncias, diz-se que a taxa de câmbio é flexível ou flutuante.
Para analisar como se forma a taxa de câmbio, lembrem que a moeda nacional, o real, e a
estrangeira (que geralmente vamos supor como sendo o dólar) são necessárias para que haja
transações econômicas entre um país e outro. A demanda por reais – ou, o que é o mesmo, a
oferta de dólares, se formos determinar a taxa de câmbio do dólar – é feita pelos exportadores
nacionais que recebem dólares em troca de mercadorias e desejam reais, assim como os turistas
e os investidores norte-americanos no Brasil, que têm de converter em reais seus dólares para
materializar seus gastos e investimentos.
A oferta de reais ou, o que é o mesmo, a demanda de dólares corresponderá aos importa-
dores nacionais, assim como aos turistas e aos investidores brasileiros nos Estados Unidos, que
necessitam trocar seus reais por dólares para adquirir as mercadorias norte-americanas e realizar
seus investimentos. Para todas essas atividades, os brasileiros têm de obter dólares. Para isso,
existem as instituições financeiras, que compraram dólares no mercado de câmbio e os entrega-
rão por reais.
Os importadores nacionais,e os turistas nacionais que vão ao exterior e os investidores
brasileiros no resto do mundo têm de obter moeda estrangeira para pagar suas faturas em outros
países, o que constitui a demanda de divisas (dólares).
No mercado de divisas, a demanda de dólares, derivada das importações nacionais e dos
investimentos brasileiros no exterior, e a oferta de dólares procedente das exportações brasilei-
ras e dos investimentos estrangeiros no Brasil determinam, conjuntamente, a taxa de câmbio.
Em um sistema de taxas de câmbio livremente flutuantes, a taxa de câmbio é determinada
mediante o jogo da oferta e da procura de divisas em relação à moeda nacional no mercado de
câmbio. Se a uma taxa de câmbio de 1,20 reais/dólar a oferta de dólares é superior à demanda de
dólares, há um superávit de divisas, isto é, um excesso de entradas de exportações e demais
transações anteriormente citadas sobre os gastos com importações, de forma que a taxa de câm-
bio do real frente ao dólar, isto é, o número de reais necessários para comprar um dólar tenderá
a diminuir, isto é, a valorizar-se, até o ponto em que a oferta e a demanda se equilibrem. Se a
taxa de câmbio é inferior à de equilíbrio – por exemplo, 0,80 reais/dólar –, o gasto com importa-
ções e demais transações é maior que as receitas por exportações e acontecerá um excesso de

80
demanda de divisas. Isso provocará uma elevação na taxa de câmbio, ou seja, uma desvaloriza-
ção do real, e o equilíbrio será restabelecido.
Ao traçar as curvas de oferta e demanda de divisas, supõe-se que permaneça constante
uma série de fatores que, realmente, incidem sobre o mercado de divisas. A alteração de alguns
desses fatores suporá o deslocamento das curvas analisadas. Desse modo, se, por exemplo, o
PIB brasileiro aumenta, a quantidade demandada de importações a uma taxa de câmbio dada
aumentará. Quando as exportações brasileiras de bens e serviços aumentam (por um aumento
nos preços norte-americanos) ou se aumentam os investimentos norte-americanos no Brasil, por
uma elevação da taxa de juros brasileira, a oferta de dólares aumentará. Isso ocasionará um des-
locamento da oferta de dólares para a direita, e o valor do real irá se elevar em relação ao dólar,
já que será necessário entregar menos reais para obter um dólar.
Uma taxa de câmbio totalmente flexível ajusta, portanto, o balanço de pagamentos auto-
maticamente, igualando a demanda e a oferta de divisas por operações autônomas com o exteri-
or, tornando desnecessária a intervenção do Banco Central para restabelecer o equilíbrio exter-
no.

As vantagens do sistema de taxas de câmbio flexíveis


Teoricamente, o sistema de taxas de câmbio flexíveis corrigirá automaticamente qualquer
tendência de gerar deficit ou superavit no balanço de pagamentos. A seqüência lógica que o
processo seguirá é a seguinte:
 inicialmente, o balanço de pagamentos da economia brasileira está em equilíbrio;
 suponhamos que aconteça um aumento na demanda por importações e o balanço de pa-
gamentos brasileiro incorra em um deficit;
 o aumento nas importações implicará um aumento na demanda por dólares no mercado
de câmbio;
 o real ficará depreciado em relação ao dólar, o que fará com que as importações fiquem
mais caras, e as exportações, mais baratas;
 a troca nos preços relativos das exportações e das importações fará aumentar o volume
das exportações e reduzir o volume das importações, fazendo com que o balanço de pagamentos
alcance o equilíbrio.

Limitações do sistema de taxas de câmbio flexíveis


Na prática, o mecanismo esboçado pode não funcionar. Também podem surgir problemas
com a sensibilidade (elasticidade-preço da demanda) da demanda das exportações e das impor-
tações. Em outras palavras, se o balanço de pagamentos apresenta um deficit e o real se desvalo-
riza, as exportações podem não aumentar o suficiente e as importações não se reduzirem de
maneira apreciável. Uma complicação adicional pode surgir pelo fato de a desvalorização do
81
real aumentar o preço das importações, o que, além de incidir sobre o custo de vida, pode afetar
os custos de produção de muitas empresas, influindo, desse modo, negativamente sobre os pre-
ços das exportações.
Outro inconveniente do sistema de taxa de câmbio flexível é que se gera uma grande in-
certeza nas relações internacionais. Assim, por exemplo, suponhamos que um empresário brasi-
leiro importe material dos Estados Unidos para produzir computadores. Se o pagamento for
feito em dólares num prazo de seis meses, o empresário brasileiro não poderá determinar de
modo preciso seus custos de produção, pois isso dependerá da taxa de câmbio no transcorrer do
período.
A presença de especuladores também pode dificultar o processo de ajuste. Eles compra-
rão uma moeda (real), quando supuserem que seu valor aumentará, e iniciarão processos de
venda quando esperarem que o valor do real se reduza. Suponha que a taxa de câmbio real/dólar
é de 100. Se o especulador espera que o real se desvalorize, procurará obter vantagem da infor-
mação que tem e, por exemplo, trocará 1.000.000 de reais por 10.000 de dólares. Quando o real
desvalorizar e, por exemplo, a taxa de câmbio for de 130 reais/dólar, os 10.000 de dólares serão
convertidos de novo em reais, que agora serão 1.300.000 reais, obtendo na operação um lucro
de 300.000 reais.

8.2.2 Os sistemas de taxas de câmbio fixas: o padrão ouro


Uma vez estudadas as principais características flexíveis do sistema de taxa de câmbio,
estudaremos os sistemas de taxas de câmbio fixas. Sob o sistema de câmbio fixo, a taxa de câm-
bio cai ligada a uma determinada mercadoria (historicamente o ouro) ou a uma determinada
moeda. Numa perspectiva histórica, o protótipo do sistema de câmbio fixo foi o padrão ouro
puro. Para aderir a esse sistema, todo país tinha de aceitar as seguintes regras:
 estabelecer uma relação fixa entre sua moeda e o ouro. Tal relação, denominava-se va-
lor paritário ou preço oficial. As autoridades econômicas deviam estar dispostas a trocar ouro
por moeda e a fazer o inverso;
 as autoridades econômicas deveriam manter a convertibilidade do ouro, comprando e
vendendo a moeda nacional em troca de ouro ao preço oficial. Dessa forma, qualquer residente
nacional ou estrangeiro poderia ir ao Banco Central e converter dinheiro fiduciário (papel-
moeda e cheque) em ouro;
 o governo deveria seguir uma política respaldada no valor do ouro, cobrindo 100%.
Assim, o banco central tinha de ter ouro num valor igual, pelo menos, à quantidade de dinheiro
que havia em circulação. O banco central, então, só criava dinheiro quando comprava ouro do
público e destruía dinheiro quando vendia ouro ao público.

82
O mecanismo de ajuste
O sistema de padrão ouro clássico não só se encarrega de manter estáveis as taxas de
câmbio, mas também equilibradas as relações comerciais internacionais. Assim, quando um país
tinha um superavit com o exterior – isto é, exportava mais do que importava – ele recebia mais
ouro do que tinha de pagar, de forma que suas reservas em ouro aumentavam e isso aumentaria
a quantidade de dinheiro. Dessa forma, a demanda agregada aumentaria, e os preços também.
Com um nível mais elevado de preços, o país seria menos competitivo em nível internacional, e
suas exportações diminuiriam e, pelo contrário, suas importações aumentariam até que alcan-
çassem o equilíbrio. O contrário aconteceria num país com deficit em suas relações com o exte-
rior, pois haveria uma saída de ouro.
O padrão ouro clássico é um regime de taxa de câmbio fixa. O valor da moeda nacional
define-se em relação ao ouro, e o banco central compra e vende ouro em quantidades ilimitadas
a esse preço. As entradas de ouro provocam uma expansão monetária, e as saídas, uma destrui-
ção do dinheiro.
Assim, mantendo fixa a taxa de câmbio, elimina-se o desequilíbrio nas relações interna-
cionais. Para isso, só se exigia que as importações e as exportações fossem sensíveis às varia-
ções dos preços e que o banco central estivesse disposto a aumentar ou diminuir a quantidade de
dinheiro, quando a quantidade de ouro aumentasse ou diminuísse.

Inconvenientes do padrão ouro


O padrão ouro clássico apresentava uma série de inconvenientes, entre eles cabe destacar
os seguintes:
 ele tendia a formar fortes oscilações na atividade econômica e no nível de preços, o que
poderia ir contra os objetivos internos de política econômica. Além disso, preços e salá-
rios internos poderiam ser rígidos para baixo, o que não garantia o equilíbrio do balanço
de pagamentos;
 os países com superávit, em suas relações econômicas com o exterior, podiam tomar
medidas que tendiam a cancelar o efeito do fluxo de ouro sobre a quantidade de dinhei-
ro. As autoridades monetárias poderiam vender títulos no mercado e reduzir os estoques
de dinheiro na mesma quantidade em que as reservas de ouro aumentariam. Isto é, o
banco central tem capacidade de “esterilizar” seus fluxos de ouro e, assim, combater os
aumentos no nível de preços, impedindo, desse modo, o funcionamento do mecanismo
de ajuste;
 um banco central esteriliza os efeitos produzidos pelas perdas (ganhos) de ouro na ofer-
ta monetária quando realiza operações de mercado aberto que compensem as variações
da quantidade de ouro, impedindo que se altere a oferta monetária;

83
 o sistema era muito sensível a uma crise de confiança, pois se centrava sobre uma base
relativamente pequena de ouro e sempre corria o perigo de um esgotamento das reser-
vas de ouro disponíveis. Além disso, a produção de ouro não podia aumentar em função
da necessidade de liquidez do comércio internacional.
Até 1914, os problemas mencionados impulsionaram uma certa modificação do padrão
ouro puro. Além do ouro, os países começaram a manter reservas em forma de divisas das na-
ções ricas que se vinculavam ao ouro, fundamentalmente a libra esterlina. Posteriormente, a
grande depressão de 1929 forçou alguns países a restringirem bruscamente seu comércio e a
fazerem acordos bilaterais com outros países, de forma que o padrão ouro modificado deixou
praticamente de funcionar.

8.3 O SISTEMA DO FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL: TAXAS DE


CÂMBIO AJUSTÁVEIS
Até o final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tornaram-se a grande potência
mundial e desejaram obter um certo controle sobre o sistema monetário internacional. Paralela-
mente, pensava-se que a criação de instituições monetárias internacionais poderia ordenar mais
eficazmente o comércio internacional e atender a seu financiamento. Da conferência de Bretton
Woods (EUA, 1944) surgiu, além de outros acordos, o da criação do Fundo Monetário Interna-
cional (FMI).
O sistema do Fundo Monetário Internacional pretendia alcançar a estabilidade das taxas
de câmbio, porém sem que se sofressem os principais efeitos do padrão ouro. Sob este sistema,
as taxas de câmbio fixas não eram completamente rígidas. Permitia-se que o valor da moeda
variasse dentro de uma estreita faixa de 1% ou 2% para cada lado ou “paridade” fixada pelo
banco central. Assim, por exemplo, se o valor do real era de 100 reais/dólar, permitia-se uma
flutuação entre 98 e 102 reais/dólar. Os bancos centrais eram os responsáveis por manter os
valores das moedas dentro de suas faixas. Para isso, atuavam como ofertantes e demandantes da
moeda nacional no mercado de câmbio. Todo banco central tinha de ter disponível certa quanti-
dade de reservas internacionais de divisas para intervir e cobrir o déficit temporal de divisas
originado pelos desequilíbrios do balanço de pagamentos.

8.3.1 A desvalorização ou a valorização como solução ao déficit permanente no balan-


ço de pagamentos
Quando um país que opera sob o sistema de taxa de câmbio fixa apresenta um déficit alto
e persistente em seu balanço de conta corrente, o Banco Central tem de intervir. Esta interven-
ção, tal como foi apontado anteriormente, implica uma redução das reservas de divisas estran-
geiras. Ainda que as reservas de divisas possam ser aumentadas por meio de empréstimos, se o

84
déficit persistir, a situação pode tornar-se insustentável, pois existe um limite para a quantidade
que um país pode pedir ao exterior.
Nessa situação, que o FMI denominava o “desequilíbrio fundamental”, um país podia
desvalorizar sua moeda. Deste modo, se a moeda estava estabelecida em um tipo de câmbio fixo
de 10 reais por dólar, e acontecesse um déficit persistente no balanço de pagamentos, as autori-
dades econômicas podiam alterar essa relação e fixá-la, por exemplo, em 11 reais por dólar.
Essas alterações na taxa de câmbio deviam ser aprovadas pelos responsáveis do Fundo Monetá-
rio Internacional.
A desvalorização, tal como foi mostrada anteriormente ao se falar de depreciação, faz
com que as exportações fiquem mais baratas para a moeda estrangeira, e as importações, mais
caras para a moeda nacional.

8.3.2 A valorização como solução ao superávit permanente no balanço de paga-


mentos
Pelo contrário, se um país apresentasse um superávit persistente em sua balança de paga-
mentos, sua moeda tenderia a valorizar-se. Se operasse sob o sistema de taxa de câmbio fixa, o
banco central teria de intervir para evitar que fosse superada a faixa de flutuação permitida. Para
isso, venderia moeda nacional (demandaria dólares) no mercado de câmbio, aumentando, dessa
forma, suas reservas de divisas. Essa situação poderia levar a uma acumulação excessiva de
reservas, e por isso seria possível socorrer-se de uma “revalorização” da moeda nacional. A
revalorização tenderia a eliminar o superávit do balanço de pagamentos, pois encareceria as
exportações e baratearia as importações.
Esse sistema também apresentava sérias limitações; por um lado, havia a dificuldade para
determinar se o desequilíbrio era temporário ou de base. Além disso, diante de uma situação
deficitária que originava uma perda de reservas, os especuladores agravavam a situação, pois
sabia-se que era necessária a desvalorização, e havia o incentivo para vender a moeda antes que
ela fosse desvalorizada. A atitude dos especuladores contribuía para acentuar os desequilíbrios.
Em segundo lugar, na medida em que as autoridades prendiam-se às taxas de câmbio e-
xistentes, quando as pressões se faziam intoleráveis, aconteciam ajustes excessivamente brus-
cos. Por outro lado, os países que apresentavam superávit mostravam-se muito inertes para au-
mentar a paridade de suas moedas. Além disso, dado que a venda de moeda estrangeira implica-
va uma diminuição da oferta monetária e a compra um aumento da quantidade de dinheiro, a
política monetária perdia sua autonomia, já que ela dependia da intervenção feita para evitar que
a taxa de câmbio saísse da faixa de flutuação estabelecida.
Sob o sistema do Fundo Monetário Internacional, os Estados Unidos impuseram o dólar
como a unidade de conta internacional e moeda de intervenção. Este fato supunha que os Esta-
dos Unidos deviam fornecer dólares em abundância ao resto do mundo, o que tornava o sistema
85
financeiro muito dependente desse país, pois os aumentos na liquidez eram função do déficit
norte-americano.
Durante os anos 60 e início dos 70, os países ocidentais e Japão acumularam dólares, en-
quanto os Estados Unidos incorriam em fortes déficits no balanço de pagamentos e começavam
a perder ouro em grandes quantidades. Tentaram remediar essa situação com sucessivas desva-
lorizações do dólar (elevação do preço do ouro em dólares); porém, em 1971, suspendeu-se a
obrigação de converter os dólares em ouro, dólares esses que os demais países apresentavam ao
Banco de Reserva Federal Americano.
Em 1970 criaram-se os Direitos Especiais de Saque (DES), anotações no haver das con-
tas do FMI que se concediam a cada país em razão do seu volume de comércio. A partir de
1973, a perda de confiança no dólar e sua inconversibilidade propiciaram o abandono do siste-
ma de taxas de câmbio fixas, porém ajustáveis, por um de maior flexibilidade na fixação de tais
taxas.
8.3.3 O sistema do FMI ao sistema atual
Diante dos inconvenientes apresentados, em março de 1973 um grande número de países
permitiu que suas moedas flutuassem livremente. O FMI aceitou que cada país elegesse o siste-
ma cambial que melhor servisse às suas particulares circunstâncias. A moeda “flutua” livremen-
te quando se permite que varie em resposta às variações nas condições de demanda e de oferta
de divisas.
Sob esse sistema não há paridade oficial da moeda nacional com o dólar ou com qualquer
outra moeda, e os desequilíbrios no setor externo tendem a corrigir-se automaticamente median-
te as variações da taxa de câmbio.

As características do sistema cambial atual


No sistema de câmbio flexível, são as variações das taxas de câmbio que promovem os
ajustes internacionais. Com as taxas de câmbio flexíveis, os ajustes podem produzir-se gradual-
mente, sem ocasionar crises de confiança e com menos probabilidades de ocorrerem movimen-
tos especulativos.
Sob um sistema de taxas de câmbio flexível, as taxas podem apresentar uma elevada vari-
abilidade, o que tende a elevar a incerteza. Do que foi dito deduz-se que, nos últimos anos, o
sistema cambial caracterizou-se pelos seguintes fatos:
 a diversidade dos sistemas vigentes nos diferentes países, sendo que as taxas de câm-
bio fixas e flexíveis aparecem como os casos extremos de uma ampla gama existente.
 pela viabilidade das taxas de câmbio. Isso se deve, em parte, aos fortes desequilíbrios
apresentados pelas balanças comerciais da maioria dos países e às sensíveis flutuações
sofridas por algumas das variáveis que incidem sobre a determinação da taxa de câm-
bio, basicamente os preços. A intensificação dos movimentos internacionais de capi-
86
tal, especialmente o de caráter especulativo, foi um fator que também contribuiu para
desestabilizar as taxas de câmbio.

8.4 Taxa de câmbio e inflação


Para analisar as relações entre câmbio e inflação, inicialmente veremos como a política
cambial afeta as taxas de inflação, e depois inverteremos a questão, isto é, como a taxa de infla-
ção afeta o câmbio.

8.4.1 Valorização cambial e inflação


Com uma valorização (apreciação) cambial, a moeda nacional (real) fica mais forte rela-
tivamente às moedas estrangeiras. Os brasileiros passam a importar mais, e aumenta a competi-
ção do produto importado com os produtos nacionais. Os empresários brasileiros são desestimu-
lados a elevar o preço de seus produtos e são obrigados a manter os preços em níveis competiti-
vos. Ou seja, a valorização cambial permite “ancorar" os preços internos e reduzir a taxa de
inflação (daí deriva o termo âncora cambial).
A partir de 1994, no Plano Real, a valorização cambial foi um instrumento bem-sucedido
no sentido de controlar a inflação, que tinha atingido cerca de 50% no mês de junho daquele
ano. Outro efeito positivo dessa política foi a elevação dos índices de produtividade, devido à
modernização do parque produtivo nacional proporcionado pelas importações de bens de capi-
tal, o que levou à redução de custos de produção e, conseqüentemente, dos preços, beneficiando
os consumidores produtos de melhor qualidade, a preços relativamente mais baixos).
Contudo, a política de valorização cambial pode apresentar (como ocorreu no Brasil) al-
gumas desvantagens. Os setores nacionais que estiverem despreparados para a competição ex-
terna podem sofrer grande queda em suas vendas, com o conseqüente aumento do desemprego
nesses setores. Os exportadores também são prejudicados, porque, com a moeda nacional valo-
rizada, nossos produtos ficam relativamente mais caros para o comprador estrangeiro. Com
importações tendendo a crescer mais que as exportações, pode ocorrer um deficit na balança
comercial, com a conseqüente saída de divisas do País. Para manter suas reservas cambiais, o
País se vê na contingência de buscar recursos no exterior, aumentando sua dependência ou vul-
nerabilidade externa.

8.4.2 Desvalorização cambial e inflação


A desvalorização cambial tem efeito contrário ao descrito anteriormente: os produtos im-
portados ficam mais caros, em termos de reais. Evidentemente, diminuirão as importações de
muitos produtos, mas os bens essenciais, como petróleo, trigo, que o Brasil importa muito, terão
seu preço aumentado (em reais, não em dólar), provocando aumento dos custos de produção,

87
que serão repassados aos preços dos produtos finais, gerando inflação – a chamada inflação de
custos.

8.4.3 Efeito da elevação da inflação interna sobre a taxa de câmbio


O aumento do nível de preços internos — ocorrência da inflação — provoca uma redução
da taxa real de câmbio, ou seja, a taxa nominal permanece a mesma, mas com a inflação gera-
se, internamente uma queda no poder aquisitivo da moeda. Os efeitos da perda de poder aquisi-
tivo são: um desestímulo às exportações, uma vez que o preço do produto exportado não sofre
correção equivalente à inflação; e um estímulo as importações, já que os bens importados, ao
não serem corrigidos ficam mais baratos.
Em países com inflação crônica, ocorre um verdadeiro círculo vicioso. O aumento da in-
flação interna em relação à externa, isto é, da relação entre preços internos e preços externos,
encarece os produtos nacionais relativamente aos estrangeiros, piorando o saldo comercial do
país com o resto do mundo. Para recuperar as exportações e inibir as importações, o governo
desvaloriza o câmbio nominal. Embora desestimule, no geral, a compra de produtos importados,
alguns produtos essenciais como petróleo, não terão sua importação diminuída, mas apenas
elevação de seu preço, em moeda nacional. Isso provocará elevação dos custos de produção, que
serão repassados aos preços finais, e tem-se então caracterizada uma inflação de custos. A rela-
ção entre preços internos e preços externos se eleva novamente, e o círculo vicioso continua.

8.5 Corridas contra a Moeda e Fuga de Capitais


Uma corrida contra a moeda ocorre quando muitas pessoas procuram vender a moeda
do país fazendo com que sua taxa de câmbio caia dramaticamente. Num passado recente ocorre-
ram corridas contra o real e contra outras moedas do México, Argentina e Indonésia. Em todos
esses casos, tanto Brasil como esses países tomaram empréstimos volumosos no exterior (houve
saída de ativos positiva, já que os países estrangeiros compraram títulos e ações locais). De al-
gum modo, os valores do real e das outras moedas nacionais desses países tinham-se sobrevalo-
rizado em virtude da demanda de suas moedas por estrangeiros, que queriam comprar os aivos e
ítulos locais do Brasil e desses países. A parir de algum ponto, os investidores estrangeiros tor-
naram-se menos confiantes em relação a seus investimentos nesses países. Em alguns casos,
preocuparam-se com a possibilidade de o governo impor controles sobre o câmbio (o que impe-
de que os investidores repatriarem o retorno de seus investimentos). Em outros casos, preocupa-
ram-se com o crescimento futuro do país. Em outros casos, ainda, preocuparam-se com a possi-
bilidade de o governo inflacionar a moeda, desvalorizando os retornos fixos sobre os títulos.
Qualquer que seja o caso, os investidores estrangeiros procuraram retirar seu dinheiro do Brasil
e dos outros países causando uma fuga de capitais.
88
Fonte: WESSELS, 2003 p. 249.

Considerações sobre este capítulo.

Neste capítulo, exploramos os mecanismo de funcionamento do câmbio e discutimos a


influência do câmbio no índice de inflação. Assim será capaz de relacionar a influência da taxa
de câmbio nas exportações e importações, diferenciar os sistemas de taxas de câmbio fixo e
flutuante e identificar as relações existentes entre a taxa de câmbio e a inflação.
As referências bibliográficas ao final deste livro apresentam capítulos interessantes para
aprofundar o tema desenvolvido no capítulo. Se você quiser mais, pode ainda pesquisar estudos
e indicadores de inflação e câmbio no Brasil. Recomendamos o site do Banco Central do Brasil
(http://www.bc.gov.br). Há outros sites interessantes, como o da Fundação de Economia e Esta-
tística do Rio Grande do Sul - FEE (http://www. fee.tche.br ), do Instituto Brasileiro de Geo-
grafia e Estatística - IBGE (http://www.ibge.gov.br ) e do Instituto de Pesquisas Econômicas
Aplicadas – IPEA (http://www.ipea.gov.br).

Atividades
1. Defina o que é taxa de câmbio.
2. Diferencie os conceitos de câmbio fixo e de câmbio flutuante.
3. Qual é a influência do câmbio sobre a balança comercial de um país?
4. Quem está sendo favorecido com a atual taxa de câmbio do Brasil: os importadores ou os
exportadores? Apresente razões para a sua conclusão.

Referências
ASSAF NETO, Alexandre. Mercado Financeiro. São Paulo: Atlas, 2003.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Disponível em: http://www.bc.gov.br. Acesso em: 06.jul.07.
EQUIPE DE PROFESSORES DA USP. PINHO, Diva B. & VASCONCELOS, Marco A. S de
(Organizadores.). Manual de Economia. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

FORTUNA, E. Mercado financeiro: produtos e serviços. 15. ed. Rio de Janeiro: Qualitymark,
2003.

KRUGMAN, P.; OBSTFELD, M Economia Internacional: Teoria e Política. São Paulo: Makron
Books, 2005.

LOPES, João do C; ROSSETI, José P. Economia Monetária. São Paulo: Atlas, 2002.

MANKIW, N. G. Introdução à Economia. Princípios de Micro e Macroeconomia. Rio de Janei-


ro: Campus, 1999.

89
MELLAGI, A. F.; ISHIKAWA, S. Mercado financeiro e de capitais. 2. ed. São Paulo: Atlas,
2003.

MOCHON F. & TROSTER, R. L. Introdução à Economia. São Paulo: Makron Books, 2002.

O’ SULLIVAN, SHEFFRIN & NISHIJIMA. Introdução à Economia. São Paulo: Prentice Hall.
2004.

PASSOS, C. R. M.; NOGAMI, O. Princípios de Economia. 4. ed. São Paulo: Pioneira Thom-
son Learning, 2003.
ROSSETTI, J. P. Introdução à Economia. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

VASCONCELLOS, Marco A. & GARCIA, MANUEL E. Fundamentos de Economia. São


Paulo: Saraiva, 2004.

WESSELS, W. J. Economia. São Paulo: Saraiva, 2003.

90
CAPÍTULO 9

9 ECONOMIA INTERNACIONAL

Ao final da leitura deste capítulo, você deverá ser capaz de:


 relacionar os níveis de integração dos blocos econômicos;
 diferenciar as teorias de comércio internacional ;
 identificar os principais blocos econômicos existentes e quais são seus países-membro.

9.1 TEORIAS DE COMÉRCIO INTERNACIONAL

O mercantilismo aparece como o primeiro conjunto de idéias que procurava expli-


car o funcionamento do comércio entre os países, enfatizando que as nações deveriam
privilegiar o comércio e principalmente as exportações para a acumulação de metais. Se-
gundo o mercantilismo, os Estados nacionais deveriam:
 possuir um exército numeroso (tendo como pressuposto o crescimento populacional);
 intensificar as atividades de comércio;
 acumular divisas (metais preciosos), ou seja, buscar o metalismo;
 defender interesses internos;
 conquistar maior participação no comércio internacional, por meio do aumento das
exportações;
 enfatizar as atividades de comércio e manufatura.

9.1.1 Teoria das vantagens absolutas


De acordo com Adam Smith1, uma das condições necessárias para a ocorrência de comér-
cio entre duas nações seria a existência de algum produto para o qual ocorresse uma vantagem
absoluta na produção, ou seja, essa nação deveria, necessariamente, ter condições de produção
mais favoráveis que as do país para o qual se pretenda exportar. Como o valor das mercadorias
seria determinado pelo tempo de trabalho necessário para produzi-las, pode-se afirmar que o
determinante, para Smith, seria o custo da mercadoria em termos de mão-de-obra. Desse modo,
seria necessário comparar o custo de produção entre duas nações de tal forma que só seria pos-
sível o comércio se ocorressem diferenças significativas entre os valores. Considera-se, nesse
caso, o coeficiente técnico, ou seja, a relação entre o número de horas de trabalho em função da
quantidade produtiva:

91
I = L / P em que:
I = coeficiente técnico de produção;
L = horas de trabalho;
P = produto (quantidade produzida).

Quadro 4: Hipótese de produção de calçados e carne no Brasil e na Argentina

HIPÓTESE DE PRODUÇÃO DE CALÇADOS E CARNE NO BRASIL

E NA ARGENTINA

País Horas de Produção Coeficiente Horas de Produção Coeficiente


mão-de- de calçados Técnico da mão-de- de carne Técnico da
obra na Produção obra na produção
(P) (P)
produção de Calçados produção de carne
de calça- de carne (L/P)
(L/P)
dos
(L)
(L)
Brasil 400 250 1,6 600 250 2,4
Argentina 600 250 2,4 400 250 1,6

Para tornar mais claro o argumento, vamos utilizar como exemplo a ocorrência de co-
mércio entre duas nações, Brasil e Argentina, considerando que ambas produzam calçados e
carne bovina e que cada uma possua mil horas de mão-de-obra disponível para distribuir na
produção desses dois bens. No entanto, dadas as características de seus respectivos processos
produtivos, cada país apresentaria coeficientes técnicos diferentes, compatíveis com os seus
respectivos custos de produção (em horas de mão-de-obra). Dessa forma, conforme demonstra o
quadro abaixo, a produção desses países apresentaria as seguintes características:
Depreende-se dessa estimativa que o Brasil precisaria deslocar mais recursos para a pro-
dução de carne que a Argentina, em decorrência de sua menor produtividade, o mesmo ocorren-
do com a Argentina em relação à produção de calçados. Observe-se, agora, o Quadro seguinte,
que demonstra o processo de especialização da produção:

Quadro 5: Hipótese de especialização de calçados e carne no Brasil e na Argentina

92
HIPÓTESE DE ESPECIALIZAÇÃO DE CALÇADOS E CARNE

NO BRASIL E NA ARGENTINA

País Horas de Coeficiente Produção Horas de Coeficiente Produ-


mão-de- técnico da de calçados mão-de- técnico da ção de
obra na produção obra na produção carne
P= L/I
produção de calçados produção de carne (I)
P = L/I
de calçados de carne
(I)
(L) (L)
Brasil 1.000 1,6 625 0 2,4 0

Argentina 0 2,4 0 1.000 2,0 500


Fonte: Carmo e Mariano, 2006
Depende-se dessa estimativa que o Brasil precisaria deslocar mais recursos para a produ-
ção de carne que a Argentina, em decorrência de sua menor produtividade, o mesmo ocorrendo
com a Argentina em relação à produção de calçados. Observe-se agora, a Tabela acima, que
demosntra o processo de especialização da produção.
A partir da descrição do quadro na página anterior, é possível perceber que, considerando
o coeficiente técnico mais baixo, ou seja, menor custo de produção, o Brasil poderia se especia-
lizar na produção de calçados e exportar o excedente para a Argentina, que, por sua vez, deslo-
caria todo o seu contingente disponível de mão-de-obra para a produção de carnes, exportando o
excedente para o Brasil.
Desse modo, somando o resultado da produção do Brasil e da Argentina, teríamos uma
produção superior que a verificada inicialmente, ou seja, a economia aumentaria a sua capaci-
dade produtiva como um todo, elevando, por conseqüência, o bem-estar da sociedade.

9.1.2 Teoria das vantagens comparativas


O princípio das vantagens comparativas explica o motivo pelo qual dois países comercia-
lizam entre si.Essa explicação sugere que cada país deve se especializar na produção daquela
mercadoria em que é relativamente mais eficiente ( ou que tenha um custo relativamente me-
nor), exportando-a. Por outro lado, esse mesmo país deve importar aqueles bens cuja produção
implicar um custo relativamente maior (ou que tenha sua produção relativamente menos eficien-
te).
A teoria das vantagens comparativas foi formulada por David Ricardo2, em 1817. Ricar-
do procurou contruir um modelo de comércio internacional que pudesse favorecer todo os paí-
ses que fizessem seus negócios com os outros. . Assim, o autor imagina um sistema com total
liberdade de comércio, onde inevitavelmente cada país produziria aquilo que pudesse produzir
melhor (isto é, o que pode produzir com o menor custo de produção possível, dados seus recur-

93
sos naturais, sua mão-de-obra e seu capital), exportando-se o excedente e importando-se as de-
mais mercadorias de que a população necessitasse, de outros países.
Essa é a teoria das vantagens comparativas: se cada país se especializar em produzir aqui-
lo que lhe for mais vantajoso (menores custos), em um sistema de total livre-comércio, haverá
um número muito maior de mercadorias à disposição para melhor satisfazer as demandas de sua
população. Assim, segundo Ricardo, a aplicação dessa teoria favoreceria a classe capitalista de
cada país, visto que considerava o lucro (renda da classe capitalista) o resíduo do produto bruto
da produção, depois de pagos os salários, os custos de produção e a renda da terra. Se cada país
produzisse aquilo que lhe fosse mais vantajoso, menores seriam os custos de produção, assim
como os salários de subsistência dos trabalhadores (pois produziriam produtos de subsistência
mais baratos), e em conseqüência, os lucros seriam os maiores possíveis.

9.1.3 Escola neoclássica


Apontando as limitações da escola clássica, essa teoria argumenta que, no âmbito do co-
mércio internacional, não basta identificar os custos de produção (em termos de mão-de-obra)
para verificar se a nação possuirá vantagens no comércio internacional. Segundo essa teoria, os
países exportam o produto disponível no país, em detrimento daquele em escassez. Desse modo,
o processo de troca entre duas nações deve observar o fato de que os países sempre tendem a
exportar mercadorias provenientes de seus recursos produtivos mais abundantes e a importar
bens cujos recursos sejam mais escassos.

9.1.4 Teoria Cepalina


Segundo essa teoria, nas trocas entre os países do centro e da periferia tende a ocorrer
uma deterioração dos termos de troca. Os preços dos produtos primários tendem a desvalorizar
em relação aos preços dos produtos secundários, fazendo com que os países periféricos preci-
sem exportar quantidades cada vez maiores para que possam manter sua capacidade de importa-
ção. Desse modo, recomenda-se a implementação de processos de industrialização nacional na
América Latina.

9.2 RELAÇÕES ECONÔMICAS INTERNACIONAIS


Atualmente, pelo menos do ponto de vista econômico, o mundo se apresenta crescente-
mente interligado, seja por fluxos comerciais, seja por fluxos financeiros. De modo geral, as
relações econômicas internacionais têm posição fundamental para a maioria dos países, inclusi-
ve o Brasil. A partir dessa constatação, o estudo da chamada economia internacional, como um
ramo especifico da teoria econômica, ganhou destaque.

94
Cada vez mais os países estão interligados e interdependentes. O comércio entre as na-
ções mais do que duplicou nos últimos trinta anos. Atualmente, acima de um terço de tudo que é
produzido no mundo é comercializado entre nações. Ou seja, é crescente a parcela da produção
mundial que não é consumida no país de origem.
Quais são os fatores que determinam as trocas internacionais? São vários os fatores que
promovem a expansão do comércio para além das fronteiras de cada país. Entre outros, podem
ser citados:
 diferenças de dotação de recursos naturais: diferentes países detêm diferenciadas reser-
vas de recursos naturais, o que favorece as trocas (petróleo, minerais, solos);
 assimetria em atributos construídos: cada país desenvolve de modo diferenciado sua
tecnologia, que proporciona diferentes oportunidades de comercialização dos produtos
dela decorrentes (remédios, softwares, engenharia);
 qualificação dos fatores de produção: cada país pode ter vantagens na produção, em de-
corrência de mão-de-obra melhor qualificada ou em razão de melhor ter desenvolvido
determinados fatores de produção;
 relações entre fatores de produção: há fatores de produção que se complementam e fa-
vorecem o intercâmbio entre países.
E quais são as vantagens do intercâmbio internacional? Existem vantagens para os con-
sumidores e para os produtores. Os consumidores, com a ampliação da oferta têm a oportunida-
de de dispor de maior diversidade de produtos. Os produtores, por sua vez, terão possibilidades
de ampliação do mercado, buscando compradores com abrangência internacional. Com essa
ampliação, os produtores terão oportunidade de especializar-se e beneficiar-se das vantagens da
produção em escalas maiores.

9.2.1 O processo de globalização


O processo de globalização é a conseqüência do incremento das relações econômicas in-
ternacionais. Os países se organizam em blocos de integração, para facilitar o comércio entre si
e para enfrentar a concorrência internacional de forma mais competitiva.
A globalização exige dos países algumas condições para ingresso nesse “clube de negoci-
antes internacionais”. A primeira delas é integrar-se econômica e politicamente. A integração
implica em negociações permanentes, participação nos tratados e acordos mundiais sobre o
tema e adaptação às tendências comerciais, que se alteram com velocidade crescente. Outra
condição é a abertura às empresas transnacionais, que são responsáveis pela maioria das transa-
ções do comércio internacional. Os países precisam, também, investir em tecnologias que favo-
reçam a inter-relação mundial, como: transportes, comunicações e transmissão de dados. Preci-
sam, ainda eliminar barreiras comerciais protecionistas e liberalizar suas economias.
As conseqüências da integração são alterações das regras de convivência internas de cada
95
país. Uma delas é a convergência das relações jurídicas internas, que tenderão a um modelo
mais homogêneo entre todos os países. Por conseguinte, haverá influência externa crescente,
sobre cada país, com o surgimento de organizações multilaterais, acordos entre governos, im-
plementação de empresas transnacionais. Em suma, haverá redução de atributos de soberania
nacional, que se consolidarão através de acordos de interdependência.
Do ponto de vista macroeconômico, a integração produzirá o aumento do comércio inter-
nacional, se relacionado com a produção interna (PIB) de cada país, provocará a homogeneiza-
ção crescente dos fatores de produção e dos produtos, tendendo à equalização dos custos dos
fatores. A influência dos investimentos externos aumentará, e estes serão cada vez mais atraídos
para infra-estrutura e para áreas de tecnologia, em vez de serem dirigidos para exploração de
recursos naturais. As nações se tornarão cada vez menos autônomas no campo econômico, de-
pendendo de fluxos financeiros internacionais de controle reduzido.
Do ponto de vista microeconômico, as empresas tenderão a ter escalas maiores, podendo
operar com custos mais reduzidos e com maiores condições de competir.

9.2.2 Níveis de integração


Existem diversas classificações de níveis de integração entre países. A que apresentare-
mos é das mais tradicionais e, como as demais, indica níveis crescentes de integração.

Zona ou área de livre comércio (exemplos: Nafta, Alca): acordo entre países que busca
a eliminação de tarifas no comércio entre os signatários.

União tarifária ou aduaneira (exemplo: Mercosul): além da eliminação de tarifas no


comércio entre os países signatários, o acordo busca obter a mesma política tarifária para
com o resto do mundo (terceiros países).

Mercado comum: além das características anteriores, o acordo busca obter a coordena-
ção de políticas monetária, cambial, fiscal, previdenciária e tributária, além da harmoni-
zação de legislação, liberdade de circulação de produtos e de fatores de produção; deve-
rão inexistir fronteiras alfandegárias. A única diferença entre os mercados dos diversos
países será a distância e o conseqüente custo do transporte.

União econômica e monetária (exemplo: União Européia): os países ficam quase sem
autonomia, adotam o uso de moeda única, têm políticas macroeconômicas comuns e ban-
co central único. As políticas são regionais, e não mais nacionais.

96
9.2.3 Blocos econômicos

Alca – Área de Livre Comércio das Américas


A Área de Livre Comércio das Américas (Alca), uma idéia lançada pelos Estados Unidos,
em 1994, durante a realização da Cúpula das Américas, quando foram assinados a declaração de
Princípios e o Plano de Ação, com o objetivo de eliminar as barreiras alfandegárias entre os 34
países americanos, exceto Cuba, e formar uma área de livre comércio para as Américas, até o
final de 2005. Por decisão posterior, a ALCA tem o prazo mínimo de sete anos para sua forma-
ção, a partir de 2005, mas neste instante enfrenta oposição para a sua implementação, tanto do
Congresso dos Estados Unidos, cujos congressistas historicamente defendem os interesses lo-
cais dos seus eleitores, quanto dos demais países do Continente Americano. Se implantada, a
ALCA poderá transformar-se em um dos maiores blocos comerciais do mundo, superando
mesmo a União Européia. Seu Produto Interno Bruto (PIB) será da ordem de 12.600 trilhões de
dólares (2 trilhões a mais que a UE), e sua população alcançará os 825,3 milhões de habitantes,
mais do dobro da registrada na União Européia.
São países-membro da Alca: Antigua e Barbuda, Argentina, Bahamas, Barbados, Beli-
ze, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Dominica, El Salvador, Equa-
dor, Estados Unidos da América, Granada, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Jamaica,
México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Santa Lúcia, São
Cristóvão e Neves, São Vicente e Granadinas, Suriname, Trinidad e Tobago, Uruguai e
Venezuela.

Mercosul – Mercado Comum do Sul


Mercado Comum do Sul foi criado oficialmente em março de 1991 pelo Tratado de As-
sunção, é um bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, além dos países associ-
ados Bolívia e Chile. Já em 1985, José Sarney e Raul Alfonsín presidentes do Brasil e Argenti-
na, respectivamente, iniciaram os acordos de cooperação econômica entre seus países. Mais
tarde com a adesão do Paraguai e Uruguai, o perfil geográfico deste bloco estava formado. Ten-
do como princípios básicos estabelecer uma união aduaneira - área de livre circulação de bens,
serviços, mãos-de-obra e capital assim como a liberação gradativa de tarifas alfandegárias e
restrições tarifárias. Entretanto, alguns produtos ainda permanecem subordinados a taxas de
importação que funcionam como tarifas de proteção para as empresas nacionais.
Ao contrário do NAFTA, existem entre os países membros do Mercosul laços que interli-
gam suas economias e, por conseguinte, interferem e servem de estímulo para relação comercial
e intercâmbio de investimentos. Os grandes países deste bloco são, sem dúvida, o Brasil e a
Argentina não por sua área, mas por seu maior contingente populacional e desenvolvimento
econômico. Para o bom andamento do MERCOSUL é de fundamental importância estabelecer
97
tarifas comuns a todos os membros, além da adoção de uma mesma política comercial. Neste
ponto existe um "problema" causado pelas diferenças de potencialidade econômica e industrial
entre os membros. Analisando o Brasil, por exemplo, percebemos que existe a necessidade de
taxas de importações mais altas para um número maior de produtos, já que seu parque industrial
é muito mais expressivo. Se isto não acontecer, não é possível proteger de forma efetiva sua
produção interna.
O Mercosul é considerado, por alguns, como um bloco econômico sub-regional, pelo fato
dos países que o compõem serem subdesenvolvidos. O principal desafio destes países é resolver
e modificar este quadro de subdesenvolvimento, diminuindo os problemas urbanos, as altas
taxas de analfabetismo e acabando com as precárias condições de educação e saúde para des-
pontar de vez no mercado mundial.

Nafta – Acordo de Livre Comércio da América do Norte


Criado em 1992 , tem como países membros os Estados Unidos da América, México e
Canadá. O acordo prevê a instalação de uma zona de livre comércio entre esses três países. Esta
área está baseada na livre circulação de mercadorias e serviços entre os países membros. Isto
acontece por eliminação das barreiras legais, e das tarifas alfandegárias, ou seja, está limitado
apenas à área comercial. O que se busca é ampliar os horizontes de mercado dos países mem-
bros e maximizar a produtividade interna de cada um. Ao contrário da União Européia, o NAF-
TA não aponta para a unificação total das economias dos países que deles fazem parte.

EU – União Européia
A União Européia representa o estágio mais avançado do processo de formação
dos blocos econômicos no contexto da globalização. Origina-se da Comunidade Econô-
mica Européia (CEE), fundada em 1957 pelo Tratado de Roma. Em 1.7.1987, contando
com a adesão de Dinamarca, Irlanda, Reino Unido, Grécia, Espanha e Portugal, entra em
vigor o Ato Único Europeu, que dá origem às Comunidades Européias, formando um
Mercado Único e priorizando a coesão econômica e social. Em 7.2.1992, é assinado, em
Maastricht (Holanda), o Tratado da União Européia para conformação da união econômi-
ca e monetária. Em 17.6. 1997, já incorporadas Áustria, Finlândia e Suécia, é elaborado o
Tratado de Amsterdam (Holanda) com vistas a viabilizar uma Europa mais democrática e
social. Em 1.1.1999 ocorre a adoção escritural da moeda única, o Euro. Em 1.1.2002 o
Euro passa a circular como papel-moeda. Em 1.5.2004 a União Européia é expandida pa-
ra 25 países com a adoção de 10 novos membros.

98
Membros da EU: Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Dinamarca*, Eslováquia, Eslovê-
nia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Letô-
nia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Polônia, Portugal, Reino Unido*, República Checa e
Suécia*.
*países que não aderiram ao Euro.

Aladi – Associação Latino-Americana de Integração


Criada em 12 de agosto de 1980 pelo Tratado de Montevidéu, a ALADI objetivou
criar um mercado comum latino-americano, a longo prazo e de maneira gradual, mediante
a concessão de preferências tarifárias e acordos regionais e de alcance parcial. A ALADI
substituiu a ALALC, a antiga Associação Latino-Americana de Livre Comércio, que foi
criada em 1960. A ALADI congrega uma população de 449,7 milhões de habitantes,
formando um PIB de US$ 1,760,4 trilhão, gerando exportações no valor de US$ 362,3 bi-
lhões e importações que alcançam os US$ 365,5 bilhões. Cuba é o mais recente país-
membro da ALADI.
São países-membro da Aladi: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equa-
dor, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

Afinal, o que é a globalização? Não existe uma resposta única para essa questão.Os
mais entusiastas acreditam que a globalização define uma nova era na história da huma-
nidade, em que a interdependência entre os povos será tão completa que as fronteiras
nacionais desaparecerão. Acredita-se que esse processo está em curso e que, no plano
econômico, a cada dia as políticas públicas perdem relevância, neutralizadas pelas for-
ças incontroláveis do mercado.As corporações transnacionais são vistas como principais
agentes do processo, uma vez que não devem lealdade a nenhum Estado-Nação e se es-
tabelecem em qualquer parte do mundo em que o mercado ofereça mais vantagens para
a expansão de seus negócios.
Alguns estudiosos, todavia, entendem que o que hoje denominamos globaliza-
ção nada maiôs é do que a continuidade do processo de crescimento das relações eco-
nômicas internacionais, em curso desde o século passado.
Fonte: CARVALHO e SILVA, 2004.

Considerações sobre este capítulo

*
Países que não aderiram ao euro.

99
Com a tendência de os mercados se globalizarem, a economia internacional
deixou de ser uma referência teórica distante para cada cidadão, tornando-se
uma variável que influencia sua vida diária. Ao contrário de poucas décadas
atrás, qualquer cidadão brasileiro hoje está familiarizado com bens oriundos do
exterior, tanto de produtos sofisticados quanto populares, desde automóveis e
equipamentos de grande porte até pequenos objetos de decoração. Assim
também é com a produção nacional, em cujo processo se envolvem brasileiros
em grande número e das mais variadas profissões: operários, administradores,
projetistas, vendedores.
Carvalho, M.A. & Silva, C.R.L. Economia Internacional. São Paulo: Saraiva, 2004. Ex-
celente manual para estudo de economia internacional e integração econômica. Relacio-
na a teoria à realidade brasileira, apresentando os prioncipais modelos do comércio in-
ternacional, a teoria da política comercial, o balanço de pagamentos e os aspectos mais
relevantes da economia internacional contemporânea.

Atividades
1. Quais são os níveis de integração comercial e econômica?
2. Qual, na sua opinião, é o nível de integração do Mercosul. Fundamente sua resposta.
3. Quais são as principais barreiras para a implementação da Alca? Para responder a essa pergunta você
deverá realizar pesquisa na internet.

Referências
BAER, W. A. Economia Brasileira. São Paulo: Nobel, 1995.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Disponível em: http://www.bc.gov.br. Acesso em: 06.jul.07.
EQUIPE DE PROFESSORES DA USP. PINHO, Diva B. & VASCONCELOS, Marco A. S de
(Organizadores.). Manual de Economia. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

HUNT, E. K. História do pensamento econômico. Petrópolis: Vozes, 2005.

KRUGMAN, P.; OBSTFELD, M Economia Internacional: Teoria e Política. São Paulo: Makron
Books, 2005.

MANKIW, N. G. Introdução à Economia. Princípios de Micro e Macroeconomia. Rio de Janei-


ro: Campus, 1999.

MOCHON F. & TROSTER, R. L. Introdução à Economia. São Paulo: Makron Books, 2002.

O’ SULLIVAN, SHEFFRIN & NISHIJIMA. Introdução à Economia. São Paulo: Prentice Hall.
2004.

100
PASSOS, C. R. M.; NOGAMI, O. Princípios de Economia. 4. ed. São Paulo: Pioneira Thom-
son Learning, 2003.
ROSSETTI, J. P. Introdução à Economia. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2002.

VASCONCELLOS, Marco A. & GARCIA, MANUEL E. Fundamentos de Economia. São


Paulo: Saraiva, 2004.

WESSELS, W. J. Economia. São Paulo: Saraiva, 2003.

101
CAPÍTULO 10

10 CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

Ao final da leitura deste capítulo, você deverá ser capaz de:


 diferenciar os conceitos de crescimento e desenvolvimento econômico;
 identificar os principais indicadores de desenvolvimento econômico.

10.1 CONCEITOS FUNDAMENTAIS


Num primeiro momento, somos levados a acreditar que desenvolvimento econômico é o
mesmo que crescimento econômico. Então, como saber o que é desenvolvimento? O desenvol-
vimento corresponde à participação social no resultado do crescimento. Quando decorrente de
crescimento a população obtém melhorias no padrão de vida, ou participa distributivamente do
resultado deste crescimento é que ocorre o desenvolvimento. Portanto, podemos simplificar
afirmando que crescimento econômico é um fator quantitativo e desenvolvimento econômico é
qualitativo.
O desenvolvimento econômico é um processo de mudança estrutural de longo prazo num
sistema econômico. Decorrente do aumento dos recursos disponíveis e/ou sua melhor utilização,
tendo como resultado o aumento da renda per capita real e os níveis de consumo e bem-estar da
coletividade. É a soma de crescimento, industrialização com mudanças estruturais, especialmen-
te no setor externo e agrícola, e com melhoria na distribuição da renda pessoal e regional acom-
panhada do aumento do nível de emprego.
Embora a mensuração do produto gerado em um país, especialmente o PIB (Produto In-
terno Bruto) e mais recentemente o PIB per capita (PIB dividido pela população do país) seja
freqüentemente mencionada, especialmente na mídia, como medidora do desenvolvimento,
esses dados estatísticos são medidas de crescimento de uma nação. Compõem o conjunto de
indicadores que revelam o nível de desenvolvimento de um país, mas não completam tal concei-
to. Só se pode considerer desenvolvido o país que obtiver crescimento econômico associado ao
aumento do bem-estar de seus cidadãos através da diminuição de suas desigualdades na reparti-
ção da riqueza, da redução dos níveis de desemprego, da melhoria geral da qualidade de vida em
atributos como nutrição, saúde, moradia e transporte.

10.1.1 Fatores que influenciam o desenvolvimento econômico

Os principais fatores que influenciam o desenvolvimento econômico podem ser assim a-


presentados:

102
 A qualidade e a quantidade dos recursos produtivos disponíveis, incluídos nesse
conjunto especialmente a força de trabalho e o estoque de capital – Sempre que ci-
tamos os recursos produtivos nos referindo à força de trabalho, ao capital e à matéria-
prima. A qualificação desses recursos representa os níveis de formação escolar da mão-
de-obra, determinado pela média de anos freqüentados nas escolas a capacidade tecno-
lógica do capital existente, se formação interna ou externa e diversidade e quantidade e
qualidade das matérias-primas existentes num sistema econômico;
 As condições políticas e sociais: a estabilidade política e institucional – para as con-
dições políticas e sociais, entenderemos que são as instituições políticas (partidos políti-
cos) que legislam em favor da população, e não em favor de segmentos da sociedade.
Partindo-se deste aspecto, que podemos chamar de maturidade e consciência política, a
população conquistará melhorias na estrutura social e político devido a maior policia-
mento do comportamento de seus legisladores eleitos.
 Dinamismo dos agentes econômicos, que proporcionam eficiência organizacional –
Sempre que a estrutura das organizações que estimulam o funcionamento das atividades
produtivas possuir dinâmica e agilidade no seu processo mais unidades produtivas po-
derão surgir no mercado aumentando os níveis de emprego e qualidade de vida. Essa
dinâmica pode ser representada pelas decisões do Banco Central do Brasil, agilizando o
funcionamento do sistema financeiro. Proporcionará agilidade no processo tributário, ou
seja, menos burocracia.

10.1.2 Conseqüências do desenvolvimento


As conseqüências do desenvolvimento são muitas e são de importância fundamental, al-
mejadas por todos. Como evidência dessa afirmação, podemos verificar na campanha para a
presidência da república que a mais importante proposta dos candidatos é a promoção do desen-
volvimento econômico.
Para melhor entender o desenvolvimento e suas conseqüências, temos que partir do parâ-
metro comparativo, ou seja, desenvolvido pressupõe necessariamente a existência do não-
desenvolvido (subdesenvolvido). Então, por que desejar as conseqüências do desenvolvimento?
A resposta é simples: o desenvolvimento trará melhorias no padrão de vida da população.
Essas conseqüências possuem caráter temporário, decorrente da natureza do processo e-
conômico que são as necessidades ilimitadas da população. Representada pela criação de novas
necessidades quando anteriores já foram atingidas. Esse aspecto torna o governo permanente-
mente refém das necessidades da população entra governo sai governo, a população considera
vitórias já atingidas como direito conquistado e reivindicam novas necessidades e assim tem
sido através dos tempos. A seguir apresentamos uma síntese das principais efeitos do desenvol-
vimento econômico:
103
 Alterações no processo produtivo – As alterações no processo produtivo decorrente
do desenvolvimento econômico significam melhorias tecnológicas bem como sistemas
produtivos menos complexos, ágeis e com maior produtividade. Com essa mudança no
processo produtivo, há, em cadeia o estímulo ao investimento no capital produtivo, de-
sencadeando mais investimentos em formação de capital e assim sucessivamente.
 Alterações na estrutura do consumo da sociedade – Em continuidade a evolução do
desenvolvimento econômico associado às conquistas do padrão de vida da sociedade
corresponde, também a melhorias do processo distributivo da renda total gerada no sis-
tema econômico. Com a evolução da renda, certamente a população modificará seu pa-
drão de consumo, buscando produtos de maior complexidade e alteração dos bens e ser-
viços consumidos até então. Como exemplo, podemos citar: “A pirâmide das necessi-
dades ou a teoria da hierarquia de necessidades de Maslow” (Figura 2).

Figura 2 – Título da pirâmide: Pirâmide das Necessidades de Maslow

Fonte: http://www.gueb.org/xmedia/maslow.jpg

Essa pirâmide (figura) demonstra claramente que sua base é constituída pelas necessidades bási-
cas de sobrevivência (alimentação, segurança, habitação, etc.) e em seu topo está a necessidade
de status, passando por várias outras intermediárias. Interpretando: saindo princípio que as ne-
cessidades básicas da sociedade foram atingidas, esse grupo reivindicará melhores condições de
lazer, por exemplo, sendo este processo continuado e interminável.
 Crescente interdependência setorial na economia – Decorrente do desenvolvimento
da economia e motivada pelo avanço tecnológico e melhorias na formação de mão-de-
obra, a economia a possuir maiores dependência dos setores entre si. Considerando a

104
verticalização e a horizontalização do processo produtivo, vamos constatar que a inter-
dependência dos setores torna-se maior devido ao processo produtivo ter consolidado as
atividades em todos os níveis. Significa que atividades produtivas que inicialmente não
existiam internamente passam a existir a partir do desenvolvimento.
 Setor externo – O desenvolvimento permite ganhos de escala, aumenta a capacidade de
importar e possui um efeito multiplicador sobre a economia. Podemos iniciar a interpre-
tação do impacto do desenvolvimento de uma economia sobre o setor externo conside-
rando que as melhorias tecnológicas obtidas atribuirão mais produtividade ao setor pro-
dutivo que por sua vez, terá competitividade maior no mercado globalizado. Em conse-
qüência disso, serão obtidos mais recursos de exportação, o que significa, na realidade,
importação de empregos e mais reservas cambiais, possibilitando a importação de bens
de capital ou promovendo o desenvolvimento tecnológico interno assim ocorrendo o e-
feito multiplicador sobre o setor produtivo da economia.

10.1.3 Principais indicadores de desenvolvimento


A macroeconomia consiste em ser o compartimento de ciência econômica que trata da
economia como um todo, das questões agregativas. Pergunta-se, então: como saber se um siste-
ma econômico está crescendo ou se desenvolvendo? E com que parâmetros estamos medido
esse resultado?
Como estamos tratando de análises comparativas entre regiões de um país, entre países ou
blocos econômicos, necessário será usar padrões universais de medida, que podemos citar: uma
mesma moeda universal, o mesmo período temporal, os mesmos parâmetro e índices. Caso con-
trário, estaremos comparando indicadores que não mostrarão os mesmos dados e portando ocor-
rendo comparações errôneas.

10.1.4 Indicadores econômicos


Renda per capita – Na realidade esse é o indicador de desenvolvimento mais utilizado
mundialmente. A renda per capita, que significa renda por pessoa ou habitante, é obtida
pela divisão do produto interno bruto pela população, em que obteremos a renda média
por habitante de um país. Esse é um indicador de crescimento econômico, porém não é
um indicador de desenvolvimento confiável. Por quê? A resposta é simples, porque é
um valor médio. Se a renda per capita aumenta, significa que a riqueza produzida num
sistema econômico cresce em velocidade superior ao crescimento demográfico da popu-
lação. Isso significa crescimento econômico, porém não desenvolvimento. Para que o-
corra desenvolvimento deve haver participação da população na renda gerada e acesso à
aquisição e à evolução na estrutura de consumo. Comprovando essa afirmação, um sis-
tema econômico pode estar aumentando seu produto interno bruto e apresentar altos ín-
105
dices de concentração de renda. Em outras palavras: a população não teria acesso a essa
renda e, conseqüentemente, não usufruiria dos benefícios do aumento de renda.
Pauta de importações e de exportações – Os países desenvolvidos e subdesenvolvidos
apresentam diferentes e distintas estruturas de importações e exportações. Castro e Les-
sa1 (1989) afirmam: “Para sabermos o grau de desenvolvimento de um país basta anali-
sar a estrutura dos produtos de suas importações. Quanto mais elaborados forem os pro-
dutos, menos desenvolvidos ele é e vice-versa”. Dessa afirmação decorrerá toda a nossa
análise da pauta das importações e exportações de um sistema econômico. À medida
que um sistema vai se desenvolvendo, há a evolução tecnológica do parque produtivo
interno e melhorias na qualificação da mão-de-obra. Em conseqüência, se obtém ganhos
de produtividade e competitividade no mercado globalizado, exportando produtos ela-
borados (com mais valor agregado) e importando empregos. Por outro lado, importar
produtos em sua forma, mas bruta (matéria-prima) a preços menores com menos valor
agregado, decorrendo disso modificação da pauta das importações de produtos acabados
para forma bruta, bem como as exportações da forma bruta modificando-a e para a for-
ma elaborada.
Estrutura da produção e do emprego – Nesse indicador é demonstrado o padrão da
estrutura de produção e do emprego, ou seja, com o desenvolvimento, a estrutura de
produção se altera, e essas modificações ocorrem na medida em que o desenvolvimento
evolui. Podemos, então, afirmar que em um país subdesenvolvido a estrutura de produ-
ção está direcionada à atividade primária, com baixa utilização de tecnologia, desenvol-
vendo-se com larga utilização de tecnologia. Conseqüentemente, a estrutura do emprego
segue o mesmo raciocínio, estabelecendo uma relação de causa e efeito. Como a ativi-
dade produtiva está fundamentada no setor primário (agricultura, extrativismo e pesca) a
exigência de mão-de-obra qualificada praticamente não existe; por outro lado, no decor-
rer do desenvolvimento, a tecnologia usada vai aumentando em função do direciona-
mento da produção para o setor secundário (transformação), a exigência da qualificação
da mão-de-obra aumenta. Concluindo, quanto menos desenvolvido for um sistema eco-
nômico, mais a estrutura de produção e emprego estará fundamentada na atividade pri-
mária e ao contrário com o desenvolvimento evoluindo ocorrerá o direcionamento para
a industrialização.

10.1.5 Indicadores demográficos


Taxa de crescimento demográfico – Nesse indicador, vamos verificar que o grau de
desenvolvimento de uma nação corresponde, numa razão inversa, à taxa de crescimento
populacional. Ou seja, quanto maior for a taxa de crescimento demográfico, menos de-
senvolvido será o país. Com o desenvolvimento, a formação cultural e o poder aquisiti-

106
vo da população aumentam, tornando-se mais consciente no que se refere ao controle da
natalidade. As pirâmides etárias dos países resultam diferentes, tendo os países subde-
senvolvidosuma população jovem, o que caracteriza a base da pirâmide mais larga em
relação ao seu topo.
Estrutura etária da população – À medida que a pirâmide etária de um país passa a
possuir uma base não tão significativamente grande em relação à sua altura, o cresci-
mento demográfico diminui e a expectativa de vida da população aumenta. O aumento
da expectativa de vida da população é decorrente do crescimento da qualidade de vida
obtida através de melhorias no acesso ao sistema de saúde, alimentação e saneamento.
Expectativa de vida ao nascer – Quando tratamos de desenvolvimento, não devemos
desassociar os indicadores econômicos e seus benefícios à população. Portanto, a expec-
tativa de tempo de vida de um cidadão é um forte indicador de desenvolvimento de cada
país. A idade média da população brasileira na década de 40 estava em torno de 50 a 60
anos e, hoje, está acima dos 70 anos. Pergunta-se: quais fatores contribuíram para esse
ganho de vida média conquistado pelo brasileiro? A resposta está no desenvolvimen-
to.Significa que o crescimento econômico aumentando e a população se beneficia desse
fato, usurfruindo de melhorias, tais como: aumento do nível de saneamento das cidades,
acesso à renda, acesso à educação e ao lazer, bem como a evolução tecnológica da me-
dicina que é revertida diretamente ao povo. A decorrência dessas conquistas foi o au-
mento do tempo de vida média da população.
Taxa de mortalidade infantil – É a quantidade de óbitos para cada mil nascimentos.
Esse é um indicador de desenvolvimento, porque indiretamente representa o acesso da
população ao acompanhamento pré-natal e à obstétrica, ou seja, seu acesso ao sistema
de saúde. Mais desenvolvido é o país quanto menor for essa taxa. Como já visto em da-
dos anteriores, com a evolução tecnológica da medicina e o direcionamento de maiores
recursos financeiros e humanos do governo voltados para o pré-natal obteve-se a redu-
ção do índice de mortalidade infantil - mais uma vez o crescimento econômico sendo
revertido à população.

10.1.6 Indicadores sociais


Taxa de analfabetismo – Esse indicador é considerado social por que nos mostra em
termos médios qual a quantidade de indivíduos que não são alfabetizados em relação ao
total da população. Quanto maior ela for, menor tenderá a ser o desenvolvimento do pa-
ís e vice-versa. Qual é a relação entre analfabetismo e desenvolvimento de um país? Es-
tá na relação de que, quanto maior for o crescimento econômico, maior será a exigência
da formação dos indivíduos para acesso ao emprego. Na década de 30, um brasileiro es-

107
tava suficientemente formado com o ensino fundamental, para o então mercado de tra-
balho. Hoje a formação superior não lhe dá garantia alguma de acesso a esse mercado.
Participação da mulher na sociedade – Uma sociedade patriarcal, muitas vezes, de-
monstra seu nível de desenvolvimento. A relação igualitária da participação da mulher
na sociedade pode demonstrar o grau de desenvolvimento, ou seja, à medida que o de-
senvolvimento ocorre, a sociedade como um todo passa a usufruir do processo partici-
pativo a decisório. Até meados da década de 30 a mulher no Brasil não tinha direito ao
voto, não participava das decisões políticas. Hoje, há governadoras comandando estados
em padrão de igualdade com os homens. Não só no processo político, mas também no
mercado de trabalho constata-se que a mulher tem conquistando espaço, competindo-
com os homens e muitas vezes superando-os. Existem empresas que têm preferência pe-
las mulheres nos cargos diretivos. Isso pode ser evidenciado pela existência de muitas
mulheres serem chefes de família.
Inclusão social – O acesso aos benefícios obtidos via crescimento econômico, a redu-
ção de desigualdades sociais e a participação de todos no processo político são fatores
que indicarão o grau de desenvolvimento. Como exemplo, cita-se a desigualdade social
existente na Índia, onde indivíduos nascem em castas sociais sendo impedidos de ter a-
cesso a certos benefícios e condenados a viver na mesma condição até a morte.
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – O IDH foi criado para medir o nível de
desenvolvimento humano dos países a partir de indicadores de educação (alfabetização e taxa de
matrícula), longevidade (expectativa de vida ao nascer) e renda (PIB per capita). Seus valores
variam de 0 (nenhum desenvolvimento humano) a 1 (desenvolvimento humano total). Países
com IDH até 0,499 são considerados de desenvolvimento humano baixo; com índices entre
0,500 e 0,799 são considerados de desenvolvimento humano médio; e com índices maiores que
0,800 são considerados de desenvolvimento humano alto.
O Índice de Desenvolvimento Humano também é utilizado para aferir o nível de desenvolvi-
mento humano em municípios, denominando-se IDH-Municipal ou IDH-M e, embora meça os
mesmos fenômenos - educação, longevidade e renda, os indicadores levados em conta no são
mais adequados para avaliar as condições de núcleos sociais menores.
IDH – Dimensão educação - para medir o acesso à educação em grandes sociedades, como um
país, a taxa de matrícula nos diversos níveis do sistema educacional é um indicador suficiente-
mente preciso. Todavia, quando o foco está em núcleos sociais menores, como municípios, esse
indicador é menos eficaz, pois os estudantes podem morar em uma cidade e estudar em outra,
distorcendo as taxas de matrícula. Daí a opção pelo indicador de freqüência à sala de aula, que é
baseado em dados censitários. O que se pretende aferir é a parcela da população daquela cidade
que vai à escola em comparação à população municipal em idade escolar. O outro critério para a
avaliação da educação de uma população é o percentual de alfabetizados maiores de 15 anos.

108
Ele se baseia no direito constitucional de todos os brasileiros de terem acesso às oito séries do
ensino fundamental. Ao final desse período, que, pelo calendário normal se encerraria aos 14
anos de idade, espera-se que o indivíduo seja capaz de ler e escrever um bilhete simples. Daí a
opção por se medir essa capacidade na população com 15 anos de idade ou mais. A taxa de al-
fabetização é obtida pela divisão do total de alfabetizados maiores de 15 anos pela população
total de mais de 15 anos de idade do município pesquisado.
IDH – Dimensão longevidade - para avaliar o desenvolvimento humano no que diz respeito à
longevidade o IDH nacional e o IDH municipal usam a esperança de vida ao nascer. Esse indi-
cador mostra qual a média de anos que a população nascida naquela localidade no ano de refe-
rência deve viver - desde que as condições de mortalidade existentes se mantenham constantes.
Quanto menor for a mortalidade registrada em um município, maior será a esperança de vida ao
nascer. O indicador é uma boa forma de avaliar as condições sociais, de saúde e de salubridade
por considerar as taxas de mortalidade das diferentes faixas etárias daquela localidade. Todas as
causas de morte são contempladas para chegar ao indicador, tanto as ocorridas em função de
doenças quanto as provocadas por causas externas (violências e acidentes). O Censo 2000 é a
base de cálculo de todo o IDH municipal. Para se chegar ao número médio de anos que uma
pessoa vive a partir de seu nascimento são utilizados os dados do questionário expandido do
Censo. O resultado dessa amostra é expandido para o restante da população daquele município.
IDH – Dimensão renda - o Produto Interno Bruto (PIB) de um país é o valor agregado na pro-
dução de todos os bens e serviços ao longo de um ano dentro de suas fronteiras. O PIB per capi-
ta é a divisão desse valor pela população do país. Trata-se de um indicador eficaz para a avalia-
ção da renda de um universo amplo, como países e unidades da Federação. Esse é o critério
usado pelo PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, mundialmente, para
o cálculo do IDH-R dos países e dos Estados. Na avaliação da renda dos habitantes de um mu-
nicípio, o uso do PIB per capita torna-se inadequado. Por exemplo: nem toda a renda produzida
dentro da área do município é apropriada pela população residente. A alternativa adotada é o
cálculo da renda municipal per capita. Ela permite, por exemplo, uma desagregação por cor ou
gênero da população, o que seria inviável de outra maneira.

109
Considerações sobre este capítulo

Neste capítulo tivemos a oportunidade de descobrir a diferença entre crescimento econô-


mico e desenvolvimento econômico e que para obtermos desenvolvimento econômico há o re-
quisito do crescimento econômico, porém com o crescimento econômico não necessariamente
teremos desenvolvimento. Portanto, chegamos a conclusão que para um sistema econômico
chegar a este desenvolvimento é necessário e indispensável a participação de sociedade na ri-
queza gerada direta ou indiretamente.
As referências bibliográficas ao final deste livro apresentam capítulos interessantes pa-
ra aprofundar o tema aqui desenvolvido. Se você quiser mais, pode ainda pesquisar no Programa
das Nações Unidas Para o Desenvolvimento. Disponível em: <http://www.pndu.org.br/idh onde
encontramos as informações tabuladas de forma a possibilitar a comparação através do tempo e
entre os sistemas econômicos. Recomendamos o site da Fundação de Economia e Estatística do
Rio Grande do Sul - FEE (http://www. fee.tche.br ), do Instituto Brasileiro de Geografia e Es-
tatística - IBGE (http://www.ibge.gov.br ) e do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas –
IPEA (http://www.ipea.gov.br). que nos mostrarão a evolução dos indicadores econômicos e de
desenvolvimentos do Brasil bem como a participação da população medida nos mesmos.

Atividades
1) Que diferenças existem entre crescimento e desenvolvimento econômico?
2) Que fatores influenciam o desenvolvimento econômico e qual os seus efeitos?
3) Descreva três indicadores de desenvolvimento econômico?
4) O que é o IDH?

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114
Gabarito

Capítulo 1
As respostas das questões acima, são encontradas no texto do capítulo.

Capítulo 2
As respostas das questões acima, são encontradas no texto do capítulo.

Capítulo 3
1. A forma de cálculo está clara no cabeçalho: a produtividade média da mão-de-obra cal-
cula-se dividindo a produção total (coluna 3) pelas quantidades de mão de obra respectivas (co-
luna 2).; da mesma forma, a coluna 5.

2. Resposta da questão:
Q produzida Custo Total Custo Médio Custo Margi- Receita Total Lucro Total
nal
20 458.000 22.900 - 1.000.000 542.000
30 478.000 15.933 2.000 1.260.000 782.000
40 498.000 12.450 2.000 1.560.000 1.062.000
50 518.000 10.360 2.000 1.800.000 1.282.000
60 538.000 8.966 2.000 1.980.000 1.442.000

Capítulo 4
1 e 2: As respostas podem ser encontradas no próprio texto do livro. Procure entender bem o
conceito de política econômica e identificar os instrumentos que o gestor macroconômico tem
para a gerir a economia.

3. As respostas devem ser obtidas através de pesquisa na internet. Utilize sites de economia,
como: www.bcb.gov.br; www.ibge.gov.br;www.fee.tche.br.

Capítulo 5
1. – Meio ou instrumento de troca; Unidade de medida e Reserva de valor.
2. – Motivo de transação; motivo precaução e motivo especulação.
3. –A resposta desta questão devera seguir a linha de raciocínio do efeito multiplicador
dos meios de pagamentos representando um aumento ou redução da quantidade de mo-
eda em circulação.
4. – Emissão de moeda
- Reservas obrigatórias
- Operações de mercado aberto
- Política de redesconto
- Regulamentação e controle de crédito.

Capítulo 6
As respostas das questões acima são encontradas no texto do capítulo.

Capítulo 7
1. O subsistema normativo é aquele que estabele as normas para o funcionamento do Sis-
tema Financeiro Nacional bem como a sua fiscalização.
O subsistema de Operativo é aquela que permite a operacionalização das operações per-
tinentes a cada necessidade do sistema econômico.

115
2. A principal diferença entre o mercado a vista e o mercado a termo esta no prazo de pa-
gamento da compra de ações.
3. As atribuições são:
a. adaptar o volume dos meios de pagamentos;
b. Regular o valor interno da moeda;
c. Regular o valor externo da moeda;
d. Orientar a aplicação dos recursos das instituições financeiras;
e. Propiciar o aperfeiçoamento das instituições e dos instrumentos financeiros;
f. Zelar pela liquidez e solvência das instituições financeiras;
g. Coordenar a política monetária.

4. Permite que os recursos financeiros sejam investidos dentro do país sem a desconfiança
na economia, ou seja, propicia a captação de recursos estrangeiros para serem investidos na
atividade econômico do país.
Capítulo 9
1 , 2 e 3. As respostas deverão ser obtidas através da leitura do capítulo. Trata-se de identificar
quais são os níveis de integração (Área de Livre Comércio, União Aduaneira, etc ) que existem
e relacioná-los com a situação do MERCOSUL e com a ALCA. Procure artigos sobre o tema,
na internet.

Capítulo 10
1. A diferença consiste em que o crescimento econômico esta somente no crescimento dos re-
sultados da atividade produtiva ou seja da economia e o desenvolvimento econômico consiste
no crescimento econômico com a participação da população neste processo. Então podemos
afirmar que para obtermos do desenvolvimento econômico pressupomos o crescimento
econômico, porém se tivermos crescimento econômico não necessariamente teremos desenvol-
vimento.
2. - A qualidade e a quantidade dos recursos produtivos disponíveis
- As condições políticas e sociais
- Dinamismo dos agentes econômicos.
Os seus efeitos podem ser descritos a partir da leitura e entendimento de cada um dos itens
anteriores.
3. O aluno deverá escolher cada um dos indicadores econômicos, demográficos e sociais e
descrevê-los.
4. É o índice criado para medir o grau de acesso da população aos benefícios obtidos pelo
crescimento econômico.

116
Referências

Capítulo 1
1
SOLOW, 2000.
2
QUESNAY, 1983.

Capítulo 2
1
ROSSETTI, 2002.
2
PASSOS e NOGAMI, 2003.
3
MARSHALL, 1982.
1
AUGUSTO, 2007.
3
FRIEDMAN, 1971.

Capítulo 8
1
SMITH, 1999.
2
RICARDO, 1817.

Capítulo 9

1
CASTRO e LESSA, 1992.

117

Você também pode gostar