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A cidade é, possivelmente, o último reduto do projeto

moderno. Estruturas massivas, onde as relações sociais são


reorganizadas em função de ritmos de produção e trocas dos
quais aqueles que nelas habitam dificilmente conseguem
escapar. Mas talvez precisamente por isso são também lugares
de resistência, onde é possível (ou simplesmente urgente)
desenvolver novas estratégias e tecnologias de construção
do espaço (físico, afetivo e social) e constituição da vida.
Frente a isso, Cidade Eletronika: Tecnopolíticas do Comum se
apresenta ao mesmo tempo como uma coleção de propostas
de intervenções tecnológicas, políticas e artísticas no contexto TECNOPOLÍTICAS DO COMUM:
urbano, e uma aposta na noção de que essas intervenções
sejam, de fato, cada vez mais urgentes e possíveis.
ARTES, URBANISMO E DEMOCRACIA
Pablo Lafuente — Professor visitante da Universidade Federal do Sul da
Bahia e co-curador da 31a Bienal de São Paulo. Organização: Alemar Rena | Lucas Bambozzi | Natacha Rena

Tecnopolíticas do Comum: Artes, Urbanismo e Democracia reúne os


principais debates que marcaram o Cidade Eletronika 2015, projeto
associado ao Eletronika, Festtival de Novas Tendências Musicais, que
acontece desde 1999 em Belo Horizonte. Esta publicação surge num
cenário em que parece ser urgente uma maior compreensão das
relações entre as micropolíticas do cotidiano, as artes e as tecnologias e
a construção política das metrópoles a partir de uma transversalidade
que inclua experiências sensíveis, antes pouco permeáveis pela
política, e hoje talvez mais conectadas com o desejo de constituição
do bem comum. Em 2015 o Cidade Eletronika teve sua programação
compartilhada com o Fórum Eletronika, Festa das Luzes e o próprio
Eletronika, e aconteceu entre 08 e 12 de outubro na Praça da Liberdade
e seu entorno, em Belo Horizonte.
TECNOPOLÍTICAS DO COMUM:
Parte IiI - Tecnologia reversa: apropriações para o comum ........ 66
Quasi-arte: tecnologia reversa e outras apropriações para o comum - Lucas Bambozzi ............ 68
OS DESAFIOS PARA A CONSTITUIÇÃO DE CIDADES SENSITIVAS - Ricardo Brazileiro ....................................... 70

ARTES, URBANISMO E DEMOCRACIA #DRONEHACKADEMY: TECNOPOLÍTICA AÉREA DO COMUM VS. A VIOLÊNCIA DA CIDADE NEOLIBERAL
Pablo de Soto .................................................................................................................................................................. 76
CARTOGRAFIA CRÍTICA, UM CAMINHO PARA A PROFANAÇÃO DO MAPA - Gabriel Zea ........................ 86
FOTO CIN TESE // CINEPLANTRONIKA - Paola Barreto Leblanc ........................................................................... 90
Dispositivos de código aberto para o espaço público - Paco Gonzáles ................................... 96
EXERCÍCIO PARA A LIBERDADE - Brígida Campbell ............................................................................................... 104

Parte IV - O que Nos Dizem as redes? ...................................................................... 110


O que nos dizem as Redes? - Natacha Rena ...................................................................................................... 112
Cidade, algorítmo, visão - Fernanda Bruno ..................................................................................................... 116
Parte i ....................................................................................................................................................................... 6 TORNAR-SE REDE E SER VISTO COMO TAL: APONTAMENTOS CONCEITUAIS E METODOLÓGICOS
Editorial Alemar S. A. Rena | Lucas Bambozzi | Natacha Rena ............................................................................ 8 Carlos d’Andréa ............................................................................................................................................................ 124

TECNOPOLÍTICAS DO COMUM: ARTES, URBANISMO E DEMOCRACIA - Lucas Bambozzi | Natacha Rena .......... 10 A DESMEDIDA DO COMUM: INVENÇÃO DA REDE COMO ÊXODO DA MODERNIDADE
Alemar Silva Araújo Rena ............................................................................................................................................ 130
Parte II - Tecnopolítica e constituição da metrópole ..................... 30 PLATAFORMA MAPACULTURABH DISPOSITIVO CARTOGRÁFICO TECNOPOLÍTICO
A teoria democrática e o papel das tecnologias da comunicação - Ricardo Fabrino ................... 32 Ana Isabel de Sá | Fernanda Quintão | Natacha Rena........................................................................................... 138
15M: ACONTECIMENTO, EMOÇÕ ESCOLETIVAS E MOVIMENTOS NA REDE - Javier Toret ................................ 36 Parte V - Arte - Praça - Rua ............................................................................................... 148
DA CIDADE INTELIGENTE À CIDADE CRIATIVA - Raquel Rennó .............................................................................. 46
BIOGRAFIAS.......................................................................................................................................................... 158
SMART CITY E URBANISMO ENTRE PARES: REFLEXÕES SOBRE URBANIDADE E TECNOLOGIA
Ana Isabel de Sá .............................................................................................................................................................. 52 español................................................................................................................................................................... 160
DA TAYLORIZAÇÃO À OFICINIZAÇÃO DA CULTURA - Antonio Lafuente ................................................................ 60 English................................................................................................................................................................... 199

4 Cidade Eletronika_TECNOPOLÍTICAS DO COMUM: ARTES, URBANISMO E DEMOCRACIA Parte I - Editorial 5


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<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< À primeira vista, o título proposto para a mesa redonda – “o que nos dizem as redes” –

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que deu origem a este artigo me soou bem provocativo. Para discutirmos esta questão,

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propomos dar um ou dois passos para trás e, correndo o risco de não voltarmos ao ponto

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de partida, perguntamos: de que rede estamos falando? Como ouvir/visualizar a rede que

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nos interessa? Como lidar com o que não conseguimos ou não nos deixam ouvir/ver?
O termo “rede” serve hoje para designar quase tudo: rede mundial de computadores,
sociedade em rede, rede social... Nesse contexto, Buzato (2014, p. 2) propõe considerar-
TORNAR-SE REDE E SER VISTO COMO TAL: mos três concepções do termo: “uma técnica (rede como uma entidade material inserida
APONTAMENTOS CONCEITUAIS no espaço e produtora de território), uma epistemológica (rede como topologia de laços
entre atores) e uma ontológica (rede como natureza do ser)”.
E METODOLÓGICOS Na primeira concepção o termo é usado para designar uma infraestrutura ou um
Carlos d’Andréa1
arranjo institucionalizado que, de um modo ou de outro, permite uma articulação e/ou

<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< troca menos hierarquizada entre os elementos envolvidos. A ênfase aqui é em uma rede

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técnica que, atravessada por questões econômicas e geográficas, evidencia relações de

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poder mediadas por empresas, Estados, regulamentações etc.

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Uma segunda perspectiva de rede enfatiza modos de organização e as relações

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relativamente estáveis entre atores. Ao articular a visão sistêmica oriunda das ciências

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naturais e representações matemáticas (grafos, em especial), essa concepção trabalha as

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redes sociais como “ferramentas de modelagem para o funcionamento estrutural (global)

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de um conjunto social a partir de interações locais” (BUZATO, 2014, p. 8). Aqui importam

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as vinculações mensuradas através de filiações, demonstrações de apoio etc. Na internet,
isso significa considerar os seguidores de um perfil e os likes recebidos no Facebook e

<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< ambientes afins, por exemplo.

<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< Interessa-nos aqui a terceira concepção de rede descrita por Buzato (2014). Para além

<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< dos atributos técnicos ou de uma forma de conhecimento, as redes podem ser tomadas

<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< como uma forma de estar e de agir no mundo. Em outras palavras, “a rede é em si um

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tecido ontológico constituído de atributos ou vínculos que ‘geram’ os atores em diferen-

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tes escalas” (BUZATO, 2014, p. 11). Assim, a rede não é um resultado da articulação dos

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atores, mas sim um modo de ser apropriado por eles, o que torna simplificador pensar

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separadamente categorias como singular e coletivo.
Inspirados pela Teoria Ator-Rede e outras perspectivas teórico-metodológicas afins,
assumimos que o social (ou a sociedade) não é algo que existe a priori, mas sim é o
1- O autor agradece à FAPEMIG e ao CNPq pelo financiamento do projeto de pesquisa que dá origem a este artigo. resultado provisório de uma constante rearticulação possível pelas associações entre os
diferentes tipos de atores (LATOUR, 2012). A rede, nessa perspectiva, não é algo que existe
de antemão, mas sim um emaranhado de relações entre pessoas, objetos, tecnologias
etc. que se afetam mutuamente desencadeando, ad infinitum, novas associações. Ao agir
e fazer com que outros ajam, um ator passa a ser reconhecido como tal e se torna rede,

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isto é, passa a articular a sua individualidade com um coletivo articulado por ele e que o samento e a visualização de dados obtidos através de APIs de redes sociais online nos
transforma. abrem possibilidades ímpares de observar, a posteriori, as associações recuperáveis de
Se as redes estão em constante modificação, como é possível ouvi-las? Detalhando um um dado momento. Tomemos como exemplo a Imagem 1. Partindo de um dataset de
pouco mais a pergunta: como compreender as dinâmicas de formação de uma rede sem 25.115 retweets com o termo “exoesqueleto” coletados no dia da abertura da Copa do
congelá-la, isto é, sem atribuir a ela uma estabilidade que contraria sua fugacidade, suas Mundo FIFA 2014, nos apropriamos dos grafos – uma representação visual típica das
variações, seu devir? Como apurar o olhar para ver a agência dos atores-rede, evitando análise de redes sociais, ou da segunda concepção de redes apresentada por Buzato
dicotomias e simplificações? (2014) – para pensar não as estruturas de relações entre os perfis do Twitter envolvi-
Este é um dos desafios que estamos enfrentando nas pesquisas em andamento no Nú- dos no debate sobre o tema, mas sim como se deram as associações entre eles com o
cleo de Pesquisa em Conexões Intermidiáticas, que atua no Departamento e no Programa passar do tempo.
de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG. Entre outras questões, interessa ao
conjunto de professores e estudantes de graduação e pós-graduação compreender melhor
as especificidades das redes em formação nos diferentes ambientes digitais, assim como
suas relações com o complexo ecossistema midiático contemporâneo.
Uma das nossas apostas para é que é possível conhecer melhor as redes em forma-
ção através dos rastros digitais deixados pelos atores. No caso da internet, esses rastros
digitais são volumosos, mais recuperáveis e descritivos do que os rastros de associações
deixados nas redes urbanas, por exemplo. Como nos alerta Bruno (2012), no entanto,
os rastos são sempre da ordem do “mais ou menos” (mais ou menos visíveis, duráveis,
recuperáveis etc.), o que põe em xeque eventuais esforços de atribuir a alguns milhares
ou milhões de rastros (tweets, likes etc.) o status de provas ou evidências.
Não podemos esquecer, por exemplo, que trabalhamos com grandes bases de dados
extraídas através de permissões fornecidas por sites como o Facebook e o Twitter, o que
significa lidar com as limitações impostas pelas empresas para acesso aos dados. Estu-
damos as associações que o Facebook e o Twitter nos permitem ver! Isso traz um desafio
que, no limite, é não só metodológico, mas também – ou principalmente – epistemoló-
gico. De forma mais ampla, portanto, e dialogando com autores como Marres e Moats
(2015), reconhecemos uma hibridização entre os debates e as práticas com os ambientes
midiáticos em rede em que eles se constituem e dos quais são extraídos os dados para
estudos.
Tomando redes como “aquilo mesmo que emerge do trabalho de mediação e tradu-
ção de atores heterogêneos”, Bruno (2012, p. 695) propõe olhar para os rastros digitais
não com a intenção de gerar conhecimento ou prever comportamentos, como fazem
em geral as apropriações publicitárias e de vigilância/controle, mas sim como inscrições
que revelam (ainda que “mais ou menos”, vale lembrar) as ações e nos permitem ver a
formação e o desenrolar dos coletivos sociotécnicos.
Sempre evitando a tentação de crer que os rastros “reencarnados” em um banco
de dados são um retrato fiel da rede, ou da sociedade, é certo que a coleta, o proces- Imagem 1

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Cada uma das quatro figuras da Imagem 1 apresenta as redes de retweets em intervalos
de 15 minutos antes, durante e após a rápida exibição do exoesqueleto BRA-Santos Dumont
na transmissão televisiva oficial. As cores enfatizam não os nós, mas as arestas, isto é, as co-
nexões, que foram também categorizadas em função da perspectiva evocada sobre o tema.
O processamento e a visualização desses rastros digitais nos possibilitaram compreender a
formação da rede de debates a partir das articulações entre os atores-rede que, ao agirem
(tuitando, retuitando...), desencadearam agregações e novas ações, conforme discutimos em
D’Andrea, 2015.
Outra aposta metodológica parte da proposta de entrarmos nas redes, fazermos parte da
sua formação, agirmos junto com os demais atores e, ao final de uma incursão, relatarmos as
associações que vimos (e fizemos) por lá. Os ambientes digitais em rede nos permitem expe-
rimentar novas formas de fazer percursos cartográficos que se caracterizam pela valorização
da experiência do pesquisador. Nas pesquisas em andamento na UFMG, essa perspectiva
tem sido útil principalmente para conhecer melhor as redes desencadeadas por atores que
funcionam como caixas-pretas, isto é, que procuram esconder as conexões sociotécnicas que
os compõem. Pense nos critérios pouco revelados do algoritmo que hierarquiza as postagens
no Facebook, por exemplo... Se não é possível saber com detalhes como um ator age, um
caminho é provocá-lo a agir, desencadeando associações que revelam novas – são sempre
novas, afinal – redes.

Referências
BRUNO, Fernanda. Rastros digitais sob a perspectiva da teoria ator-rede. Famecos, Porto Alegre, v. 19, n. 3, p.
681-704, set./dez. 2012.
BUZATO, Marcelo. Três concepções teóricas de rede e suas implicações particulares para o estudo de redes
sociais online. In: Encontro Nacional da ANPOLL, 2014, Florianópolis (SC). Anais..., 2014
D’ANDRÉA, Carlos. Controvérsias midiatizadas no Twitter durante transmissões televisivas ao vivo: a rede
“exoesqueleto” na abertura da Copa 2014. In: XXIV Encontro Anual da Compós, Brasília (DF). Anais..., 2015.
LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede. Salvador: Edufba, 2012.
MARRES, Noortje; MOATS, David. Mapping Controversies with Social Media: The Case for Symmetry. Social
Media + Society, jul./dez. 2015, p. 1-17.

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