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doi: http://dx.doi.org/10.5892/ruvrv.2011.92.

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A IMPORTÂNCIA DA AFETIVIDADE NA EDUCAÇÃO DA CRIANÇA

THE IMPORTANCE OF THE AFFECTIVITY IN THE CHILD EDUCATION

Maria Sueli TURATTI*


Alícia Greyce Turatti PESSOLATO†
Marília Marinho SILVA‡

“Para haver aprendizagem deve haver troca, e para haver troca, essa
troca deve ser permeada de afeto. Precisamos não só ensinar o
currículo, mas ensinar a amar, a ter empatia com o outro, e isso só se
dá através do afeto e da afetividade. Para isso precisamos da família
e do lúdico, pois é a através do lúdico que podemos ensinar com
afeto.” (DE PAULA E FARIA, 2010)

Resumo: A afetividade relacionada ao ensino, principalmente na Educação Infantil e Ensino Fundamental, influencia
em toda e qualquer dificuldade de aprendizagem e favorece uma maior receptividade do ensino por parte do alunado,
que aprenderá com mais facilidade. Sabendo-se da influência da escola e do professor na formação psicossocial do
indivíduo, é de substancial importância a presença de um ambiente escolar acolhedor e de educadores capacitados a
exercer adequadamente suas tarefas, porém sensíveis ao transmitir afeto na mais ampla concepção da palavra. Deve-se a
isso o fato de que desde o início de sua vida o individuo tenta socializar-se, descobrindo o mundo inclusive pela
aprendizagem escolar. Essa tentativa acompanhada de sentimentos de afeto fará com que o mesmo sobressaia-se aos
obstáculos com sucesso e realização. Do contrário, o indivíduo poderá não conseguir conquistar autonomia,
socialização e conhecimento.

Palavras-chave: afetividade, educação, ambiente escolar afetivo, infância.

Abstract: The affectivity related to learning, especially in kindergarten and elementary school, influences on learning
disabilities and promotes increased receptivity of the students, who learn more easily. Knowing the influence of the
school and teacher in the individual psychosocial formation, it's substantial importance to the presence of a welcoming
school environment and teachers trained to adequaly perform their tasks, but sensitive to convey affection in broadest
sense of the word. Due to this the fact that since the beginning of his life the individual attempts to socialize, discover
the world including of learning school. This attempt accompanied by feelings of affection will make it stand out are the
obstacles with success and achievement. Otherwise, the individual may be unable to gain autonomy, socialization and
knowledge.

Key-words: affection, education, affective school environment, childhood.

*
Psicopedagoga e Professora de Educação Infantil e Ensino Fundamental– Centro Universitário da Fundação de Ensino
Octávio Bastos – UniFEOB – São João da Boa Vista-SP

Mestre em Ciências – Universidade de São Paulo – USP – São Paulo-SP. Email: aliciagreyce@gmail.com

Professora Doutora em Linguística Aplicada – Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP – Campinas-SP.

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Introdução “Ama-se na medida em que
se busca comunicação,
A afetividade acompanha o ser integração a partir da
comunicação com os demais
humano desde o momento da concepção até a (...)” (FREIRE, 1983)
morte, passando por todas as fases de
desenvolvimento. Na educação, ela permite
Neste sentido, a educação afetiva
que todo o processo ensino-aprendizagem
consiste na construção de uma escola a partir
aconteça com mais intensidade, o que a
do respeito, compreensão, moral e autonomia
relaciona ao favorecimento e a maiores
de idéias. Uma vez que se pretende capacitar
facilidades nos processos de formação
sujeitos críticos, honestos e responsáveis, o
cognitiva e intelectual.
desenvolvimento afetivo é fundamental para
Na escola o ensino e a aprendizagem qualquer indivíduo. Com isso, a afetividade
ocorrem como trocas professor-aluno em contribui para o desenvolvimento da
ambos os sentidos, e permeiam uma rede de aprendizagem de forma crítica e autônoma,

relações históricas, sociais, econômicas, pois a afetividade não se resume em


pedagógicas, intelectuais e afetivas manifestações de carinho físico, mas
(FONTANA E CRUZ, 1999). principalmente em uma preparação para o
desenvolvimento cognitivo (RIBEIRO, 2010).
Para designar as relações interpessoais
de afetividade em sala de aula foi criado o As crianças, seja na Educação Infantil

termo pedagogia do afeto, a qual consiste na ou no Ensino Fundamental, devem e precisam


introdução de fundamentações teóricas, ter oportunidade de desenvolver sua
técnicas e vivências que possibilitam a troca afetividade na escola, mesmo que muitas
energética e o toque afetivo no processo de vezes elas não tenham esse ambiente propício

ensino-aprendizagem, de modo que as em seu lar, pois a falta da mesma leva à


pessoas possam intercambiar a amizade, a rejeição aos livros, à carência de motivação
ternura, a cooperação, o respeito mútuo, e para a aprendizagem e à ausência de vontade
tantos outros sentimentos positivos para fazer de crescer.

do ambiente escolar um espaço de bem-estar e


realização pessoal (FRANÇA E DIAS, 2002).
Desenvolvimento psico-afetivo através das
Segundo Freire, não existe educação
relações sócio-familiares
sem amor.

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A afetividade está ligada aos sistemas compõem o ser humano, estão ainda sendo
de valores que são formados desde que a formados e serão formados, de fato, nas
criança é pequena. Ela insere-se em um relações. As trocas que ele estabelece no meio
contexto que é relacionado aos vínculos é que vão fazer com que esses sentimentos
afetivos que a criança recebe de quem as sejam diferenciados das sensações
cuida e desenvolve a partir do seu nascimento (TOGNETTA, 2004).
(LAMB, 1987 apud WEINTEN, 2002;
Para Maturana (2004), a mãe e o bebê
TOGNETTA, 2003; GONÇALVES, 2003;
se encontram na linguagem e no brincar, ou
ANDRADE, 2007).
seja, na congruência de uma relação
Da mesma forma, animais jovens biológica, em uma plena aceitação da
freqüentemente desenvolvem fortes vínculos corporeidade. Assim, o bebê se confirma
com os pais logo após o nascimento. O como um ser biológico, no decorrer de seu
vínculo assegura que a prole permaneça crescimento como um bebê humano, em
próxima para que possa ser nutrida, protegida interações humanas. Porém, Alencastro
e ensinada a se comportar de forma adaptativa (2009) alega que a mãe pode não se encontrar
(LEVINE, BANICH E KOCH-WESER, com o bebê na brincadeira, por razão de suas
1988). Yarrow, Rubinstein e Pederson (1975) expectativas, desejos, aspirações ou ilusões.
destacaram que os seres humanos “Vai por mal caminho o
bebê cuja mãe trate dele,
permanecem imaturos, desamparados e,
ainda que o faça na melhor
portanto, dependentes dos adultos que os das intenções, acreditando
que os bebês pouco mais
rodeiam por mais tempo que qualquer outro
são, no princípio, do que um
animal. Esta estimulação social responsiva feixe de fisiologia, anatomia
e reflexos condicionados.
aumenta o contato visual, o balbucio e os
Sem dúvida, esse bebê será
sorrisos, estabelecendo uma vinculação mais bem alimentado, poderá
alcançar uma boa saúde
estreita entre pais e filhos.
física e ter um crescimento
normal, mas se a mãe não
Quando o bebê está ainda na vida souber ver no filho recém
intra-uterina, já começa a sentir o pulsar do nascido um ser humano,
haverá poucas
coração da mãe, os barulhos e todos os sustos probabilidades de que a
que a mãe leva. Depois que o bebê nasce não saúde mental seja alicerçada
com uma solidez tal que a
é possível distinguir se suas expressões são criança, em sua vida
sensações ou sentimentos. Exatamente posterior, possa ostentar
uma personalidade rica e
porque, na verdade, tais sentimentos que estável, suscetível não só de
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adaptar-se ao mundo, mas desenvolvimento intelectual. A afetividade
também participar de um
não explica a construção da inteligência, mas
mundo que exige
adaptação.” (WINNICOTT, as construções mentais são permeadas pelo
1971)
aspecto afetivo. Toda conduta tem um aspecto
“Se essa negação do bebê só cognitivo e um afetivo, e um não funciona
acontece de modo ocasional,
sem o outro.
não surge nenhuma
dificuldade fundamental no
seu crescimento. Porém, se Na psicogenética de Henri Wallon, a
o desencontro entre a mãe e dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto do
o bebê se torna sistemático,
prejudica-se o crescimento ponto de vista da construção da pessoa quanto
deste. Surge então uma do conhecimento. Ambos se iniciam em um
criança com alterações
fisiológicas e psíquicas.” período denominado impulsivo-emocional e
(MATURANA, 2004) se estende ao longo do primeiro ano de vida.
Ele afirma que o ser humano é, logo que sai
da vida puramente orgânica, um ser afetivo.
Neste momento a afetividade reduz-se
A influência da afetividade no
praticamente às manifestações fisiológicas da
desenvolvimento psicossocial e cognitivo
emoção, diferenciando-se lentamente à vida
No estudo do desenvolvimento racional. Ao longo do trajeto, afetividade e
epistemológico do homem, ou seja, como se inteligência alternam preponderâncias e a
constrói o conhecimento humano, Piaget afetividade reflui para dar espaço à intensa
(1976) descreveu que o desenvolvimento atividade cognitiva assim que a maturação
cognitivo é aprendido em um processo põe em ação o equipamento sensório-motor
continuado, dividido em quatro estágios: necessário à exploração da realidade
sensório-motor (0 a 2 anos), pré-operacional (DANTAS, 1992).
(2 a 7 anos), operações concretas (7 a 12) e
Nos momentos dominantemente
operações formais (12 em diante).
afetivos do desenvolvimento, o que está em
Para Piaget (1976), o afeto pode primeiro plano é a construção do sujeito, que
acelerar ou retardar o desenvolvimento das se faz pela interação com os outros sujeitos, à
estruturas cognitivas. O afeto acelera o custa da aquisição de técnicas elaboradas pela
desenvolvimento das estruturas, no caso de cultura. Os primeiros sentimentos sociais bem
interesse e necessidade, e retarda quando a definidos surgem durante o desenvolvimento
situação afetiva é obstáculo para o pré-operacional. Crianças mais novas
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mostram afeição e têm sentimentos de gostar parcialmente socializado seja evidente desde
e não gostar, mas a representação e o início da linguagem falada, Piaget afirma
particularmente a linguagem falada são que é em torno dos 7 ou 8 anos (com o
instrumentais no desenvolvimento dos nascimento das operações cognitivas e com o
sentimentos sociais. Assim, pela primeira vez, fim do egocentrismo pré-operacional), que
os sentimentos podem ser representados e ocorre o progresso sistemático da cooperação
recordados, e as experiências afetivas acabam (WADSWORTH, 1997).
tendo como efeito o de poder durar mais do
Notadamente, a criança nesta fase,
que as próprias ocorrências vividas
vivencia situações no seu dia-a-dia que a
(WADSWORTH, 1997).
levam a experimentar sentimentos de sucesso
França e Dias (2002) afirmaram que a ou fracasso. Sucesso quando, por exemplo,
afetividade da criança pré-operatória é ela consegue executar uma tarefa escolhida
manifestada a partir dos sentimentos de por ela ou quando consegue fazer algo com
antipatias e simpatias ligadas a valorização materiais de sucata e sua produção é
dos outros e do aparecimento de sentimentos valorizada. Fracasso quando, por exemplo,
de inferioridade e superioridade ligados a numa brincadeira na qual havia a necessidade
autovalorização. A autovalorização é de muita destreza física para ganhar, a criança
compreendida como uma troca afetiva não consegue se sair bem.
consigo mesmo, cujas raízes (confiança ou
Estes fatores não influenciam apenas o
angústia) estão no período sensório-motor. A
desenvolvimento cognitivo, mas também o
criança pré-operatória já se percebe como um
desenvolvimento afetivo. Durante o estágio
todo e, dessa maneira, seus sentimentos são
operacional concreto, os afetos adquirem uma
mais duradouros. Ela já começa a julgar-se
medida de estabilidade e consistência que não
então superior ou inferior aos outros, e suas
apresentavam antes. Em torno dos sete ou oito
relações passam a ser regidas por sentimentos
anos, emerge a conservação dos sentimentos e
de simpatia ou de antipatia (PIAGET, 1976).
dos valores e as crianças tornam-se aptas a
Piaget atribuiu nítida importância às coordenar os seus pensamentos afetivos de
relações sociais entre as crianças para o um evento para outro. O pensamento afetivo é
desenvolvimento afetivo e intelectual. agora reversível. O desenvolvimento
Quando as relações infantis ocorrem entre cognitivo, o desenvolvimento afetivo e o
iguais, a cooperação torna-se uma desenvolvimento social tornam-se
possibilidade real. Embora o comportamento inseparáveis. Portanto, quando são
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conceituados separadamente, não causa Segundo Wallon (1975), o organismo
surpresa à existência de paralelos evidentes é a primeira condição do pensamento, mas
entre eles (WADSWORTH, 1997). não é suficiente, porque o objeto de ação
mental se desenvolve a partir do meio social
A afetividade, portanto, é de suma
em que a criança está inserida. Isso significa
importância para a vida, tanto quanto a
então que para Wallon a inteligência é
formação cognitiva ou o processo de
organicamente social, ou seja, a cognição é
conhecimento. A afetividade e a inteligência
como item da pessoa completa que só pode
são dois aspectos inseparáveis no
ser compreendida associada a ela. O indivíduo
desenvolvimento e se apresentam de forma
se desenvolve a partir das condições orgânicas
antagônica e complementar, pois se a criança
e é resultante da relação entre o organismo e o
tem algum problema no desenvolvimento
meio social ao qual está inserido (RIBEIRO,
afetivo isto acabará comprometendo seu
2010).
desempenho cognitivo. O afeto é o
estimulante, o que excita a ação e o Isto ocorre, pois a resolução do
pensamento é o fruto da ação (RIBEIRO, complexo de Édipo leva a criança a dirigir
2010). seus interesses para outras pessoas que não os
pais, preparando-a para estabelecer relações
interpessoais fora do lar. Desenvolve a
O papel dos grupos sociais no necessidade de pertencer a um grupo de iguais
desenvolvimento das crianças e de ser aceito pelos companheiros bem como
a necessidade de sentir-se responsável e capaz
Os seres humanos são criaturas
de realizar feitos que recebam aprovação e lhe
sociais, animais que optam por viver entre
dêem um status no grupo. Aprende se poderá
outros da mesma espécie. Gradativamente a
ser um líder, um auxiliar na liderança, um
começar da lactância, adquirimos os
simples seguidor, um rebelde ou um alienado.
comportamentos e conceitos que nos tornam
Não é preciso dizer que a posição conseguida
adequados à vida em grupo. Este processo,
nesta micro-sociedade terá influências
conhecido por socialização, ocorre
decisivas nos papéis sociais posteriormente
naturalmente à medida que pais e outras
desempenhados na vida adulta. O espírito
pessoas orientam-nos para comportamentos,
grupal é muito desenvolvido nesta fase e o
valores, metas e motivos que a sociedade
grupo é um poderoso auxiliar do ego
julga apropriados (DAVIDOFF, 2001).
individual na exteriorização de impulsos e na

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modificação de seus controles (D’ANDREA, com seus pares e com os adultos nesse
2000). ambiente.

Segundo a ótica de Goldsmith e Tognetta (2004) relatou que na escola


Harman (1994), a qualidade de vinculação tradicional, pelo fato de o trabalho ser
pode ter conseqüências importantes no realizado de forma coletiva o tempo todo, não
desenvolvimento subseqüente das crianças. há muitas oportunidades de ocorrerem trocas
Bebês com um vínculo relativamente seguro afetivas, devido à dinâmica de trabalho
tendem a se tornar crianças alegres, capazes e adotada. As atividades existentes em sala de
com elevada auto-estima. aula são solitárias e, quando são oferecidos
trabalhos e jogos que envolvam as crianças,
Lamb, Ketterlinus e Fracasso (1992);
geralmente são mais competitivos do que
Turner (1991), afirmam que nos anos pré-
cooperativos, favorecendo, dessa forma, as
escolares as crianças têm maior persistência,
trocas deficitárias e, por conseguinte, a
curiosidade, autoconfiança, liderança e
antipatia. É importante, neste sentido, que o
melhores relações com seus companheiros.
professor promova o sentimento de amizade,
Jacobsen, Edelstein e Hofman (1994) também
simpatia e auxílio mútuo entre as crianças,
observaram uma relação entre vínculo seguro
visto que motivação para cooperar depende do
e desenvolvimento cognitivo mais avançado
fato de as crianças se importarem com o
durante a infância e a adolescência.
relacionamento.
Neste contexto, a escola, o professor e
A simpatia implica em compartilhar
as relações interpessoais que ocorrem neste
valores e interesses comuns, isto é, a mútua
ambiente oferecerão estímulos base que
valorização. Para gerar este tipo de
influenciarão a estruturação tanto da cognição
sentimento, as pessoas têm que se conhecer,
como do afeto nas fases iniciais de educação
trocar idéias, interagir, compartilhar seus
em que o psiquismo está sendo formado.
interesses e valores. Numa situação escolar,
na qual não se permitem conversas, troca de
pontos de vista, o desenvolvimento deste tipo
Desenvolvimento Social – O papel da escola
de sentimento torna-se impossível
O ambiente escolar obviamente pode (TOGNETTA, 2004).
influenciar de maneira positiva ou negativa
Moreno et al. (1999) relataram que a
esse processo de autovalorização, dependendo
afetividade ajuda na construção do
do tipo de relações que a criança estabelece
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conhecimento do meio natural, social e moderna, que propõe a separação entre o
cultural. E este conhecimento ocupa um lugar mundo sentimental e o racional e intelectual.
muito importante no primeiro ciclo do Ensino Neste contexto, a falta de educação da
Fundamental, uma vez que o alunado se própria vida afetiva e o desconhecimento das
apropria de conhecimentos, hábitos, formas formas de interpretação e de respostas
de atuar, de se comunicar e de conceber o adequadas perante atitudes, condutas e
mundo, a partir do ambiente que o rodeia. manifestações emotivas das demais pessoas,
deixa os alunos e alunas à mercê do ambiente
França e Dias (2002) afirmaram que
que os rodeia e no qual abundam modelos de
ao se fundamentar na psicologia transpessoal
resposta agressiva, descontrolada e ineficaz
é possível aplicar uma determinada didática
diante dos conflitos interpessoais, que, com
em sala de aula para permear de afetividade as
freqüência, se apresentam em todas as formas
relações docentes e discentes, e melhorar com
de convivência social (MORENO et al.,
isso a qualidade dos relacionamentos e a
1999).
produtividade em sala de aula.
A escola não pode esquecer-se de para
Segundo Tognetta (2004), a escola
que as atitudes das pessoas possam ser
atualmente pretende contribuir para a
virtuosas, é preciso muito mais do que a
equilibrada formação da personalidade do
tomada de consciência em termos cognitivos.
aluno e sua integração ao ambiente sócio-
cultural, através do ajustamento de seus “Essa tomada de
consciência precisa
sentimentos, atitudes e ideais aos do grupo a
pressupor, também, outro
que o mesmo pertence. lado do ser humano, que é a
afetividade. Nenhum
No entanto, Molon e Santos (2008) homem pode ter ausentado
essa dimensão afetiva. Não
relataram que atualmente a é só necessidade do
compartimentalização entre cognição e professor de educação
infantil trabalhar com os
emoção é fato presente nas escolas. O cenário aspectos afetivos, mas sim
educativo tem se ocupado pouco com de todo e qualquer
professor, porque a
aspectos mais voltados para as áreas das afetividade não está só
relações interpessoais e dos afetos e emoções. presente no aluno da pré-
escola, está presente no ser
Fato este que corresponde às exigências, humano. E o ser humano é
talvez contraditórias de uma civilização aluno de maternal ao
terceiro ano do ensino
médio, da faculdade, ou de
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quaisquer instituições ou provocá-los, amenizá-los ou
programas de ensino.” acentuá-los.”
(TOGNETTA, 2004)

O professor como agente formador social


Chalita (2001) ressaltou que o grande
pilar da educação é, sem dúvida, a habilidade Deve fazer parte da vida do ser

emocional. humano, o respeito ao próximo, e a escola


como contribuinte na formação cidadã de seus
“Não é possível desenvolver
alunos, precisa proporcionar relações que
a habilidade cognitiva e a
social sem que a emoção indiquem essa postura, que muitas das vezes
seja trabalhada. A emoção
parte de dentro da própria sala de aula com o
trabalha com a libertação da
pessoa humana. A emoção é diálogo existente entre mediador e educando
a busca do foco interior e
(MACEDO, 2011). Assim, fica claro que
exterior, de uma relação do
ser humano com ele mesmo, além da escola e da família, o professor neste
e com o outro, o que dá
contexto, apresenta papel fundamental no
trabalho, demanda tempo e
esforço, mas é o passaporte desenvolvimento social da criança.
para a conquista da
autonomia e da felicidade.” Isto ocorre, pois durante o período de
(CHALITA, 2001)
latência, a maioria das crianças freqüenta a
escola, e após os seis anos, os pais deixam a
Na escola, Tognetta (2004) destacou a cargo dos professores grande parte da
relevância de se estudar as virtudes educação da criança. Como transmissor de
emocionais: conhecimentos, o professor passa a ser a
pessoa mais importante na vida da criança
“Tratar delas na escola faz-
depois dos pais e ela procura identificar-se
se uma necessidade ainda
maior, manifestada por com ídolos. Por isso, é importante que o
educadores que buscam
professor, ídolo vivo e mais próximo,
atender a um objetivo único,
claro, preciso, à formação contenha em sua personalidade elementos
de cidadãos conscientes,
desejáveis para identificação. Decepções com
pessoas respeitosas e
solidárias. Porém, essa não é o professor podem ser tão dolorosas como
uma tarefa fácil. Falar de
decepções com os próprios pais
sentimentos é favorecer sua
manifestação, bem como a (D’ANDREA, 2000).
reflexão sobre os estados de
ânimo e as relações
intrapessoais que podem
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Em relação à isso, Arruda e Borges A afetividade é um fator que
precisa ser fortalecido nas
(2011) descreveram:
relações educacionais dentro
e fora da escola.”
“A aprendizagem e a
afetividade na relação entre
criança e professor devem
Chalita (2001) destacou a importância
caminhar juntas, pois é a
partir da afetividade que a da afetividade no tratamento dos alunos, pois,
criança passa a ter confiança
segundo ele, só há educação onde há afeto,
no professor e com isso
algumas barreiras são onde experiências são trocadas, enriquecidas,
superadas como por
vividas. O professor que apenas transmite
exemplo a dificuldade da
criança em aprender informação não consegue perceber a
determinado conteúdo, bem
dimensão do afeto na aprendizagem do aluno.
como desenvolver
determinada atividade. É O aluno precisa de afeto, de atenção. A
com diálogo, carinho que o
família cada vez mais desestruturada gera
professor constrói caminhos
para chegar ao universo da filhos ainda mais complicados, tristes,
criança a fim de ajudá-la a
ressequidos, carentes de um mestre que
superar suas dificuldades.”
estenda a mão e não tenha medo de dar amor.
Segundo De Paula e Faria (2010) todo
Não se quer com isso desprezar a importância
ser humano precisa de limites, mas de carinho
dos pais, nem tentar cobrir sua ausência e
e amor também. Um educando aprende o que
indiferença na vida dos filhos. Entretanto,
é respeito e respeita a partir do momento em
como não dá para reclamar apenas, e alguma
que vê o educador como um amigo que tem e
coisa precisa ser feita, que o professor
espera respeito, como alguém que se preocupa
amenize esse sofrimento e auxilie o
de verdade com ele e que lhe mostra os
desenvolvimento harmônico do aluno.
caminhos.
Assim, Molon e Santos (2008) Ribeiro (2010) destaca que cabe a

acreditam que: escola, mas principalmente ao educador, uma

“... o professor ao importante função social, devendo


estabelecer um clima de compreender o aluno no âmbito da sua
confiança e uma atitude de
respeito com o aluno passa a dimensão humana, tanto afetiva quanto
ser um grande mediador das intelectual, já que a criança depende da
aprendizagens destes. Uma
das fontes motivacionais do qualidade da interação com o meio social para
ensino e da aprendizagem se desenvolver integralmente.
está no vínculo estabelecido
entre educador e educando.
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“(...) percebe-se que há uma humanos banidos de problemas, situações
eminente necessidade,
familiares conflitantes, tampouco sejam
principalmente por parte dos
educadores, de buscar pessoas fundamentalmente caridosas. Mais
conhecimento que trate
ainda, sabe-se da pouca valorização monetária
sobre o tema da afetividade,
pois este tema colabora para atual em nosso país para esse profissional que
o desenvolvimento humano,
carrega consigo uma das tarefas mais difíceis
visto que é na escola que a
criança passa boa parte do e desafiadoras: a educação de seres em
seu tempo. O educador
formação. Porém espera-se deles o mínimo de
precisa entender a
necessidade e ficar atento às paixão não só pelo objeto de ensino, mas
atitudes das crianças para
pelos sujeitos ensinados. Deseja-se um
assim colaborar para o
sucesso escolar e da vida do mínimo de empatia, um ver além do que o
educando.” (RIBEIRO,
aluno expressa, manifesta ou deixa a desejar,
2010)
seja em tarefas, domínios ou comportamento.
Pretende-se um ambiente seguro, em que as
D’Andrea (2000) em uma crítica fases sejam vivenciadas sob uma ótica
construtiva ressaltou que o professor ideal construtivista de estímulos adequados, em que
seria aquele que além dos conhecimentos não apenas as informações são repassadas,
intelectuais, tivesse uma personalidade sem mas o ensino é encarado como algo passivo
muitos conflitos, uma vida familiar de ser vivido. Não apenas na infância ou
satisfatória e fosse capaz de orientar seus adolescência, contudo em qualquer situação e
alunos em outros assuntos além dos idade que requeira uma atitude cidadã e uma
relacionados às matérias que ensina, pois recordação de como operações técnicas
infelizmente, não é raro as crianças aliadas à afetividade construíram um caráter,
encontrarem mestres desajustados, infelizes, uma mente saudável, um ego seguro.
mais preocupados com sua situação
econômica ou social do que com os alunos.
Alguns inclusive têm aversão por crianças ou Considerações Finais
se demonstram algum interesse, o fazem de
forma a expressar favoritismo.
A afetividade acompanha o indivíduo
Não se defende a hipótese de que
fisiologicamente desde a concepção e
como requisito para o estudo e formação de
fundamenta as fases psíquicas infantis que se
professores, os mesmos devam ser seres
seguem. Na fase escolar, a afetividade exerce
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coadjuvação no desenvolvimento cognitivo e Assim, o respaldo de afetividade em
intelectual e intercambia as relações sociais todos os aspectos da vida seja social,
que estão se formando. profissional e pessoal, inclusive por toda a
vida escolar fará com que o mesmo consiga
Nesta etapa os vínculos desenvolvidos
atingir a realização plena dos seus ideais, pois
poderão influenciar e determinar mudanças na
conforme Rossini (2005), “se a criança está
construção da personalidade diante da
feliz, ela aprende, ela faz”.
socialização mesmo que o indivíduo não
tenha recebido relações afetivas desde o
nascimento, uma vez que não somos
Referências
meramente ‘moldados’ ou passivos ao
mundo. Nós agimos sobre o mundo e ainda, ALENCASTRO, C.E. As relações de
afetividade na Educação Infantil. Trabalho
ao longo da vida convivemos com pessoas
de Conclusão de Curso. Universidade Federal
com as quais estabelecemos relações que do Rio Grande do Sul, Faculdade de
Educação. Porto Alegre. 34p.; 2009.
podem ser tão significativas para a construção
da personalidade quanto as primeiras relações ANDRADE, A.S. A influência da
afetividade na aprendizagem. Monografia.
sociais. Unievangélica Centro Universitário. Brasília.
Entende-se, portanto, que a afetividade 50p.; 2007.
e a sensibilidade do educador, acima de tudo,
ARRUDA, D.E.P.; BORGES, S.N.O.
irão permear autonomia, sucesso e realizações Aprendizagem no momento com o brincar.
IV EDIPE – Encontro Estadual de Didática e
individuais e coletivas aos indivíduos Prática de Ensino. 2011.
enquanto seres humanos (no sentido literal da
BOSSA, N. A. A. A psicopedagogia no
palavra) e cidadãos conscientes de seu papel
Brasil: Contribuições a partir da Prática. 2 ed.
na sociedade. São Paulo: Artmed, 2000.

Além disso, elemento essencial na CAMPOS, D. M. S. Psicologia da


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