Você está na página 1de 159

[Escreva texto]

ÍNDICE

Titulo

Intervenção Psicológica em Crise: Aplicações ao contexto de pandemia COVID-19

I. Intervenção em crise: Modelo Geral – Eugénia Ribeiro, Adriana Sampaio &


Miguel Gonçalves……………………………………………………………………………….5

Introdução……………………………………………………………………...................6
Fases de Intervenção Psicológica em Crise………………..……...........................10
Intervenção em crise por telefone……………………………………………………..13
Autocuidado dos Psicólogos……………………………………………………………16

II. Intervenção em crise em problemas emocionais – Eugénia Ribeiro, Sónia


Gonçalves, Ana Rita Pereira, Dulce Pinto, Joana Coutinho, João Batista, João
Tiago Oliveira, Miguel Gonçalves & Andreia Milhazes…………………………………18

Recomendações transversais à intervenção em distintos problemas


emocionais……………………………………………………………………………….19
Intervenção em Crise na Sintomatologia Ansiosa…………………………………...23
Intervenção em Crise na Sintomatologia Depressiva e Luto…………………….…39
Encaminhamento para outros serviços……………………………………………….47

III. Intervenção em crise para adolescentes - Teresa Freire, Alexandra Vieira &
Gabriela Santana………………………………………………………………………………50

Objetivos do atendimento em crise para adolescentes…………………………….51


Conteúdos de formação…………………………………………………………….….52
Aspetos-chave a ter em atenção ao longo do atendimento………………………..63
Conteúdos e questões de avaliação………………………………………………….64

2
IV. Intervenção em crise na gestão da carreira de jovens e adultos – Maria
do Céu Taveira & Ana Daniela Silva……………………………………………………….66
65

Introdução………………………………………………………………………………...67 66
69
A indecisão de carreira…………………………………………………………………70
76
Dificuldade na gestão de papéis de vida………………………………………….....77
O desemprego……………………………………………………………………….....86 85

V. Intervenção em crise na violência – trauma – Ângela Maia, Marlene Matos,


Delfina Fernandes, Joana Andrade & Marta Sousa…………………………………….90

Violência filio parental………………………………………………………….……...92


Pessoas idosas: isolamento, perceção de perigo e risco de maltrato ou
abuso……………………………………………………………………………….......96
Violência na intimidade…………………………………………………….………..101
Familiares (Outros membros)………………………………………………….…...105
Violência no contexto laboral/institucional…………………………………….…..108

VI. Intervenção em crise em saúde mental perinatal – Bárbara


Figueiredo…………………………………………………………………………………..113
112
113
“Quando a vida não escolhe tempo para nascer” (VIDA)……………….……..114
116
VIDA na Gravidez………………………………………………………………......117
118
1º Sessão……………………………………………………………………….…...119
121
2º Sessão……………………………………………………………………….…...122
124
3º/4º Sessão………………………………………………………………………...125
126
VIDA no Pós-parto………………………………………………………………….127
128
1º Sessão……………………………………………………………………….…..129
133
2º Sessão…………………………………………………………………………...134
136
3º Sessão……………………………………………………………………….…..137
138
4º Sessão………………………………………………………………………..….139
139
Carta para uma mãe grávida durante a pandemia……………………………..140
143
Carta de um bebé para a sua mãe em tempos de covid-19……………….....144
145
Carta para uma mãe isolada do seu bebé…………………………………......146

3
Folheto 1 - Gravidez durante o surto do coronavírus………………….................149
Folheto 2 - Pós -Parto durante o surto do coronavírus……………………………150
Folheto 3 - Ser pai durante o surto do coronavírus………………………………..151
Folheto 4 - Amamentar durante o surto do coronavírus…………………………..152

Agradecemos os Contributos……………………………………………………...156

4
Intervenção
em Crise

Modelo Geral

Eugénia Ribeiro
Adriana Sampaio & Miguel Gonçalves
©Associação de Psicologia da Universidade do Minho
APsi-UMinho, Braga, Guimarães
www.apsi.uminho.pt

5
Introdução

Num cenário invulgar como o que se vive em contexto da pandemia COVID-19,


de múltiplas perdas reais ou antecipadas, de alteração forçada das rotinas e
confinamento dos espaços físicos e relacionais, em que a perceção de segurança
pessoal, a diferentes níveis, pode estar ameaçada, podem surgir ou agravar-se cenários
de instabilidade pessoal, familiar, profissional, violência. Nem todas as pessoas reagem
do mesmo modo às mesmas situações, mesmo àquelas que são vividas com um
sentimento de comunidade, como é o caso da pandemia COVID-19. As reações
pessoais às situações que ameaçam a sua segurança ou integridade variam,
dependendo do equilíbrio entre fatores protetores e fatores de vulnerabilidade e/ou de
risco que experienciam. Embora respostas emocionais como a tristeza, a ansiedade, o
medo, a angústia, a irritação, a confusão, sejam normais face à experiência inusitada
provocada quer pelos riscos associados à infeção quer pelas medidas de proteção,
essas respostas podem ser difíceis de aceitar e de regular. Importa, pois, promover a
estabilidade emocional e o ajustamento comportamental, ajudar a encontrar um
significado para experiências que entram em rutura com as que são mais familiares,
identificar e suportar recursos adequados para lidar com as dificuldades ou
preocupações imediatas, facilitar o autocuidado e informar/orientar para estruturas de
apoio mais adequado a problemas de natureza específica.
A linha de Apoio Psicológico SOS COVID-19, da iniciativa da APsiUMinho,
lançada em Março de 2020, tem como objetivo ajudar as pessoas que a ela recorrem a
lidarem com o impacto das experiências vividas durante a pandemia COVID-19 no seu
funcionamento psicológico.
Este documento está orientado para psicólogo/as que prestam uma intervenção
em crise, no âmbito da pandemia COVID-19. Pretende dar orientações para uma
intervenção psicológica em crise dirigida a pessoas que apresentem dificuldades
comportamentais, cognitivas e emocionais precipitadas ou agravadas, pelas
experiências no âmbito desta pandemia.

6
Do ponto de vista da experiência pessoal, social e comunitária, a pandemia
COVID-19 caracteriza-se pelo confronto com o inesperado e desconhecido, ameaça à
segurança física, familiar, laboral, limite no controlo e agência pessoal, significando risco
de vida ou da sua integridade. Algumas pessoas vivem estas experiências com maior
intensidade e maior vulnerabilidade psicológica, devido à exposição real ou percebida a
fatores de maior risco: 1) proximidade ou severidade dos acontecimentos de risco que
experienciam (e.g. perdas reais de pessoas significativas, estar infetado ou ter pessoas
próximas infetadas, desemprego), 2) fragilidade prévia da saúde física e/ou mental (i.e.,
outras patologias médicas ou psicológicas pessoal ou familiar), 3) circunstâncias ou a
fases do desenvolvimento humano de maior risco (e.g., idosos, gravidez, divórcio e
responsabilidades parentais), 4) reduzida rede de suporte social percebido (isolamento
social).
A maior parte das pessoas está capaz de se ajustar às novas circunstâncias,
mobiliar recursos pessoais e reorganizar o seu funcionamento de modo a confrontar o
impacto das situações potencialmente geradoras de crise psicológica. No entanto,
algumas pessoas podem perceber-se como incapazes de dar resposta aos desafios
colocados pela situação invulgar e estranha que vivem, como é o caso da pandemia
COVID-19.
A experiência de crise psicológica consiste numa quebra de continuidade no
sentido de self, que coloca temporariamente em causa a coerência interna e a
estabilidade psicológica do indivíduo. A perceção subjetiva de que os recursos e as
competências pessoais são insuficientes para confrontar os desafios inesperados e
impostos favorece a experiência de sentimentos de impotência e de falência pessoal.
Este desequilíbrio no funcionamento psicológico tenderá a agravar-se se for percebido
como emocionalmente insuportável (e.g., eu não vou aguentar esta angústia) e
cognitivamente intolerável (e.g., eu devia ser capaz de lidar com isto), dificultando a
regulação comportamental necessária para o confronto mais ajustado com a situação
crítica – como é o caso da pandemia COVID-19 (e.g., manter as rotinas diárias
organizadas, manter autocuidado). Sem uma intervenção atempada e adequada, a
experiência de crise, pode resultar em maiores prejuízos para a saúde mental da
pessoa, pelo impacto negativo e prolongado no seu funcionamento a nível

7
comportamental, cognitivo e emocional, frequentemente responsável por episódios de
crises recorrentes.
Sabendo que a experiência de crise psicológica reforça a inibição das
competências e recursos pessoais, pode entender-se o pedido de ajuda psicológica,
seja ele por iniciativa própria ou por incentivo de outros significativos, como um
indicador de que a pessoa reconhece que sozinha não está capaz de superar as
dificuldades e da sua prontidão para se deixar ajudar e romper o ciclo de
funcionamento desajustado. No entanto, é essencial que a ajuda que é prestada seja
competente e adequada às necessidades e ao estado cognitivo-emocional da pessoa
que faz o pedido, de modo a constituir uma oportunidade efetiva para a promover a
segurança e a confiança pessoal de quem pede a ajuda. É importante valorizar a
disponibilidade para ser ajudado e o comportamento de pedido de ajuda, promovendo
um sentido de autoeficácia e diminuindo a experiência de impotência e sofrimento.
Em geral, a intervenção psicológica em crise tem como objetivo principal ajudar a
pessoa a recuperar o seu sentido de coerência e continuidade pessoal, reestabelecendo
o seu equilíbrio psicológico imediato, dirigindo a atenção para os fatores e condições
que favorecem a regulação cognitiva emocional e comportamental da pessoa,
incentivando a ativação de recursos pessoais (e.g., autocuidado, atenção às
necessidades básicas, ativar e manter contactos sociais) e oferecendo estratégias
simples e focadas em soluções possíveis e exequíveis no momento presente (e.g.,
estabelecer rotinas diárias, estabelecer prioridades nas respostas a compromissos ou
problemas, informar sobre outro tipo de recursos ou estruturas de apoio).
A intervenção psicológica em crise consiste numa intervenção breve, focada nas
necessidades e experiências presentes, orientada por competências de escuta ativa,
por uma atitude de compreensão empática, pelo encorajamento da expressão das
dificuldades, mas respeitando a disponibilidade e prontidão da pessoa para as
comunicar, por competências de regulação cognitivo-emocional e de orientação para a
solução de problemas, possível no imediato.

8
Deve ser respeitado o direito das pessoas a tomarem as suas decisões, a
recusarem a sugestão de encaminhamento para uma ajuda psicológica, ou de outra
natureza, que seja identificada como adequada, a não ser em caso evidente risco para o
próprio ou para outros.
Intervir adequadamente com alguém que experiencia crise psicológica, exige
avaliar o seu nível de funcionamento e decidir em conformidade o grau de
direção/negociação da estratégia a implementar. Nesse sentido, é essencial atender a
indicadores de sofrimento, instabilidade emocional, desorganização cognitivo-
comportamental e de disponibilidade para receber ajuda e aderir às propostas de
intervenção. Em geral, os modelos de intervenção em crise (e.g. James, 2008; Meyer et
al., 2013) organizam-se em torno de várias fases que devem ser seguidas de modo a
sintonizar com a experiência da pessoa em crise, com o seu nível de risco, com a
necessidade de mobilizar recursos e agir estrategicamente em direção à estabilização
do que gerou ou está a gerar sofrimento.

9
Fases da Intervenção Psicológica em Crise

1. Introdução pessoal e estabelecimento de uma ligação:

Nesta fase é importante ouvir atentamente, refletir e parafrasear o discurso da


pessoa em crise, devolver a compreensão empática da sua experiência, promovendo o
estabelecimento do contacto e garantir a presença. Demonstrar interesse por ouvir a
experiência da pessoa e comunicar cuidado e respeito incondicional pelo que é revelado
são competências importante para estabelecer confiança e promover a adesão à
intervenção. Desde o primeiro momento da intervenção, o psicólogo deve assegurar-se
das condições de segurança e de risco que a pessoa vive e, dependendo da situação
ou da circunstância ativadora da experiência de crise ou da sua manutenção, pode ser
importante verificar se a pessoa está só ou acompanhada, com quem está e onde está.
Nesta fase, se necessário, pode ser apropriado estabilizar a sintomatologia emocional e
fisiológica.

2. Avaliação e identificação de problemas ou dificuldades:

Nesta fase, o principal objetivo é identificar quais são os problemas que, no


momento, estão a gerar dificuldades, motivando o pedido de ajuda, e com os quais é
possível lidar de forma realista no presente, mobilizando os recursos da pessoa. Estes
problemas podem ser multidimensionais e nem sempre claros para a própria pessoa
que pede ajuda, que os poderá comunicar de forma confusa. Nesta fase, é essencial
aceitar, validar e normalizar a experiência da pessoa, considerando a estranheza,
imprevisibilidade, o caracter ameaçador ou mesmo bizarro que alguns acontecimentos /
situação envolvem. No sentido de ajudar a tolerar e a aceitar a legitimidade da
experiência de sofrimento, o psicólogo pode explicar a natureza adaptativa das

10
emoções, proporcionando uma breve psicoeducação (por exemplo, sobre a natureza
adaptativa da ansiedade).

3. Identificação de recursos e alternativas de possíveis soluções:

Para fazer face à experiência de impotência e perceção de falência de recursos


pessoais, é apropriado fomentar a esperança, devolver algum sentido de controlo à
pessoa, reforçar a natureza temporária da situação geradora da experiência de crise
(e.g. pandemia COVId-19), focar no presente e no que é possível resolver no presente.
No sentido de encorajar a identificar e recuperar estratégias e recursos pessoais pode
perguntar-se à pessoa sobre estratégias familiares que costumavam funcionar (e.g.,
apesar do sofrimento, o que o/a tem ajudado nesta situação difícil (pandémica) ou
noutras situações em que se sentiu uma experiência semelhante?). Como complemento
ou como alternativa aos recursos pessoais identificados, podem ser sugeridas outras
possibilidades de solução exequíveis para o problema específico. Assim, nesta fase
importa identificar as alternativas e recursos da própria pessoa, da rede de familiar e de
suporte; indicar outros recursos /estratégias úteis e aplicáveis à situação específica e
ajudar a pessoa a reenquadrar a sua experiência a partir de uma perspetiva de maior
segurança, maior controlo pessoal e promotora da autoconfiança.

4. Definição de um plano realista:

A definição de um plano de ação simples e suscetível de ser implementado em


tempo imediato ajudará a promover a esperança e a organização pessoal, devolvendo à
pessoa algum sentido de controlo e agência pessoal Este plano deve ser
operacionalizado e focado no presente (e.g., definição e calendarização de rotinas,
pessoas a contactar), tendo em consideração as necessidades especificas e as
capacidades de ação que a pessoa apresenta no momento.

11
Tanto quanto possível este plano deve ser feito com a colaboração da pessoa para a
ajudar a desenvolver um sentido de eficácia, autonomia pessoal e compromisso com a
sua implementação.

5. Terminar a intervenção:

Antes de terminar o momento de intervenção, é importante voltar a sublinhar a


importância de ter pedido ajuda, incentivando a implementação do plano acordado,
enfatizando a utilidade dos recursos pessoais e salientando a importância do
autocuidado. Antes de finalizar, o/a psicólogo/a deve assegurar-se que a pessoa está
mais estabilizada, perguntando-lhe como se sente agora e se precisa de mais alguma
ajuda, assegurando ajuda no futuro, caso seja necessária.

O que a Intervenção psicológica em crise não é:

a) uma intervenção aprofundada e detalhada dos problemas apresentados;


b) uma intervenção prolongada no tempo;
c) uma intervenção com regularidade agendada;
d) uma intervenção psicoterapêutica.

Cuidados a ter:

a) Não dar falsas esperanças (e.g., não se preocupe, não vai ser infetado);
b) Não antecipar resoluções que não podem ser garantidas (e.g., vai
conseguir resolver o conflito com a sua família);
c) Não dar informação cuja validade não está confirmada (e.g., o contágio da
infeção faz-se por aerossóis);
d) Não decidir pela pessoa (e.g., se eu fosse a si optava por...) a não ser que
a pessoa esteja em risco de cometer algum ato contra a sua vida ou
contra a vida dos outros (e.g., em caso de intenção suicida).

12
Intervenção em crise por telefone

A intervenção em crise por telefone é exigente, na medida que é necessário


avaliar e identificar rapidamente os problemas e recursos da pessoa que pede ajuda e
identificar/ implementar a estratégia mais ajustada. É muito importante escutar
ativamente e apoiar a intervenção em competências verbais claras e ajustadas a este
meio de comunicação. No caso da videochamada é importante ter em consideração
quer as competências verbais quer as não verbais (faciais).

Estratégias específicas que podem ser úteis:

1. Estabelecer contacto e presença: estabelecer o mais rápido


possível um contacto não avaliativo, empático com a pessoa que
pede ajuda, usando competências de escuta ativa e assegurando a
presença (fazendo encorajamentos verbais e demonstrações de
interesse), responder com calma, de forma audível e controlada, ou
seja, prestando atenção ao tom e ritmo da voz.

2. Avaliação e definição do problema: fazer questões abertas para


obter informação, dar atenção ao conteúdo emocional do discurso
e fazer reflexão de conteúdo e de sentimentos. Ajudar a identificar
e nomear emoções apropriadas à experiência, durante a interação
e ir tomando notas breves e verificando o que foi ouvido (disse
triste, ouvi bem? está a ouvir-me bem?) Focar a pessoa no
presente através de indicações claras e firmes em relação à
respiração e objetivação sensorial.

13
3. Identificar recursos: valorizar o que a pessoa tem conseguido
fazer e oferecer apoio para encontrar alternativas ajustadas aos
problemas identificados. Pode ser importante fazer questões
focadas e dirigidas para avaliar recursos específicos e da sua
utilidade presente de um modo organizado (e.g. do que conseguiu
fazer hoje, o que mais o ajudou? vamos tentar identificar um de
cada vez...).

4. Definir um plano realista e simples: explorar as alternativas de


modo organizado e sequencial, verificando se a pessoa está capaz
de as entender e concretizar, procurando obter o acordo explícito
da pessoa em relação à sua realização (e.g., pedir à pessoa para
repetir o que se está a sugerir).

5. Finalizar: Verificar a estabilidade e organização da pessoa,


pedindo sinais que possam ser indicadores dessa experiência (e.g.,
onde sente essa tranquilidade no seu corpo?).

14
Lidar com chamadas intrusivas ou desadequadas

1. Reenquadrar o objetivo da intervenção em crise e da linha de apoio


telefónico
2. Colocar limites de tempo para focar e ajudar no problema
específico, informar sobre o tempo total disponível da chamada
telefónica, informando sobre a aproximação do tempo limite da
chamada, informando que estão outras pessoas à espera de ser
atendidas.
3. Informar que se vai terminar a chamada e que poderá ligar mais
tarde quando perceber que conseguirá comunicar de modo
adequado.

15
Autocuidado dos psicólogos/as

1. Cuidar das suas necessidades pessoais diariamente;


2. Ativar recursos e estratégias promotoras do seu bem-estar;
3. Ativar rede de suporte social;
4. Gerir a sobrecarga do atendimento em crise;
5. Informar-se sobre a problemática associada à experiência de crise;
6. Usufruir de supervisão / intervisão

16
Referências

Myer, R.A. & James, R.K. (2005). Crisis intervention workbook. Belmont, CA:
Thomson Brooks/Cole.

James, R. (2008). Crisis intervention strategies – 6th edition. Belmont, CA:


Thomson.

17
Intervenção
em Crise
Problemas Emocionais

Eugénia Ribeiro, Sónia Gonçalves, Ana Rita Pereira, Dulce Pinto, Joana
Coutinho, João Batista, João Tiago Oliveira, Miguel Gonçalves & Andreia
Milhazes
©Associação de Psicologia da Universidade do Minho
APsi-UMinho, Braga, Guimarães
www.apsi.uminho.pt

18
Recomendações transversais à intervenção em
distintos problemas emocionais

O que deve fazer

1. Personalizar o atendimento

Apresentação do/a psicólogo/a, dizendo o nome (e.g., “bom dia, chamo-me Maria,
sou psicólogo/a da Associação de Psicologia”), perguntar se gostaria de dizer o nome,
tratar pelo nome (a/o Sr(a) nome), caso a pessoa o diga.

2. Ajudar as pessoas a assegurarem um ambiente seguro


durante o atendimento

Verificar e /ou oferecer sugestões para um atendimento seguro e protegido contra


interferências (“Sente-se confortável onde está neste momento?”; “É importante que se
sinta seguro e confortável durante este atendimento. Está à vontade ou sente que pode
ser interrompido a qualquer momento?”) e averiguar as condições físicas em que a
pessoa se encontra (“Qual a sua situação?”, “Com quem está?”), recursos disponíveis.

3. Informar sobre a natureza da intervenção, clarificando o


seu caracter limitado e pontual

Clarificar que não se trata de uma intervenção de continuidade; que a


intervenção tem um tempo limitado e que vamos ajudar a lidar com as dificuldades
presentes. Esta informação pode ser dada no início ou sempre que os limites desta
intervenção não forem respeitados.

19
4. Estabelecer uma ligação empática, mas não intrusiva

a) Reforçar o pedido de ajuda, agradecendo a confiança e valorizando o


facto de ter contactado o nosso apoio;
b) Focar no aqui e agora (e.g., “O que a/o preocupa neste momento?”);
c) Devolver compreensão, orientar e tranquilizar as reações intensas;
d) Ajudar a pessoa a comunicar as suas preocupações e necessidades imediatas
(este é um ponto importante, dado que a pessoa pode ter dificuldade em
identificar o que a preocupa e cabe ao psicólogo ajudar a pessoa);
e) Oferecer ajuda prática e informação fiável e adequada.

5. Promover o papel ativo da pessoa que nos contacta para a


resolução dos problemas que apresenta

a) Ajudar a pessoa a conectar-se com redes de apoio e suporte;


b) Estabelecer um plano de autocuidado para logo após o atendimento.

6. Avaliar o risco

a) Avaliar ideação/intenção suicida;


b) Avaliar o risco em que a pessoa possa estar (de saúde física, cuidados
higiene, carência - nutritiva, etc) por estar demasiado isolada.

7. Enfatizar a transversalidade dos problemas experienciados

Dada a transversalidade dos problemas experienciados, o/a psicólogo/a poderá


recorrer ao uso do self-disclosure (se for oportuno e apropriado) dando exemplos de
situações que também tem experienciado. Quando usado com parcimónia permite
aliviar a experiência de vergonha, estigma e autocrítica apresentados pela pessoa que
pede ajuda (“de facto estamos a viver momentos singulares, estamos todos a aprender

20
e a adaptarmo-nos a esta realidade. Eu próprio/a estou a aprender a gerir todos os
desafios desta realidade”).

8. Monitorizar e responder de forma adequada aos níveis de


resistência do cliente

Com pessoas mais resistentes às sugestões é importante não “forçar". Ao


perceber-se a presença de indicadores de resistência (ex. “sim, mas...”) poderá ser
importante avaliar a necessidade de prosseguir com a intervenção (ex. se a pessoa
parece estar em risco ou se a intervenção está na sua fase final), quer se adote um
formato de convite, ou uma postura mais diretiva.

9. Finalizar o atendimento e assegurar a disponibilidade

a) Reforçar o pedido de ajuda, agradecendo a confiança e valorizando o


facto de ter contactado o nosso apoio;
b) Sublinhar a disponibilidade para atender de novo a pessoa, explicitando,
contudo, os recursos existentes na sua própria vida que possam ter sido
previamente identificados e que a pessoa possa ativar de modo mais
autónomo.

21
O que não deve fazer

1. Deixar-se contagiar pela ansiedade da pessoa;


2. Dar ou bombardear com soluções;
3. Colocar questões múltiplas e procurar recolher demasiada informação
sobre a história de vida da pessoa – lembre-se que esta é uma
intervenção breve (“não abra caixas que não poderá fechar”);
4. Julgar, rotular, estereotipar ou culpabilizar a pessoa (e.g., evitar dizer:
“Não está a pensar com clareza”);
5. Desviar a atenção daquilo que a pessoa está a dizer;
6. Minimizar sentimentos ou experiências da pessoa, dizendo frases como
por exemplo: “Não pense assim.”, “Não se preocupe com isso…”, “A pior
fase já passou”;
7. Explorar em detalhe as situações familiares que estão na base das
experiências (exemplo perceção de abandono/solidão) e ativar
processos emocionais que não poderão ser respondidos neste tipo de
intervenção em crise;
8. Procurar a transição para humor mais positivo de forma precoce.

22
Intervenção em Crise na Sintomatologia Ansiosa

A seguir, para cada problema de ansiedade, identificamos e ilustramos as


respostas específicas nas fases de avaliação / identificação dos problemas,
identificação de recursos e definição do plano, e uma sequência de passos possível. As
estratégias listadas nestas fases a propósito de cada problema não são mutuamente
exclusivas, podendo ser aplicáveis na intervenção com outros problemas de ansiedade
(ex. psicoeducação sobre a experiência de ansiedade). Atendendo à especificidade de
cada problema identificamos a estratégia que pode ser mais apropriada, mas a escolha
de cada estratégia ou da sua prioridade deve ser contingente ao problema mais saliente
no momento em que a pessoa pede ajuda, de modo a que se torne apropriadamente
responsiva.
As respostas adequadas nas fases de apresentação e estabelecimento da ligação
e de finalização são comuns aos vários problemas.

Problema 1: queixas de ansiedade generalizada

Quando nos procuram, as pessoas podem sentir-se confusas em relação ao que


sentem, face ao que estão a viver e podem iniciar por dizer algo como: “acho que me
sinto ansioso/a”, “não sei o que se passa comigo”, “pareço uma barata tonta”. Aqui é
fundamental reconhecer a experiência de ansiedade generalizada da pessoa, fazendo
uso de competências básicas de atendimento, como a escuta ativa, validação, apoio
incondicional e verbalizações empáticas, utilizando um tom de voz calmo e dando
instruções breves e precisas.

23
Fase da identificação e clarificação do problema

Passo 1: Validar a experiência de ansiedade da pessoa.


Utilizar paráfrases e outras competências básicas de atendimento como a
reflexão de conteúdo e/ou de sentimentos, demonstrando compreensão e
aceitação, e reforçando a procura de ajuda por parte da pessoa

Exemplos:
“Eu compreendo que esteja a sentir muito medo nesta altura.”
“Fez bem em procurar ajuda.”

Passo 2: Normalizar a ansiedade face à situação atual (de pandemia COVID-19)

Exemplos:
“Todos nós, em maior ou menor grau, já sentimos ansiedade. Isso não
faz de nós mais fortes ou mais fracos. A ansiedade faz parte da vida de
qualquer pessoa.”
“A resposta de ansiedade é normal e expectável em situação de
mudanças de vida, de grande imprevisibilidade e stress, como esta que
estamos a viver.”
“Na situação em que nos encontramos, de desafio da estabilidade
pessoal a vários níveis, de alteração das nossas rotinas e de relativa
incerteza em relação ao que o futuro reserva, é normal que as pessoas
se sintam mais inseguras, instáveis, confusas, irritadas, tristes,
assustadas e em sofrimento. O impacto da pandemia do Coronavírus
pode ativar um sentido de vulnerabilidade com que as pessoas podem
ter dificuldade em lidar. Estas são respostas normais face a uma
situação invulgar como a que estamos a viver, por isso eu compreendo a
dificuldade que pode estar a ter em lidar com esta experiência…”

24
Passo 3: Psicoeducação - Explicitar a natureza adaptativa da ansiedade

Exemplo:
“A ansiedade é normalmente sentida como desagradável, algo negativo,
tende a fazer-nos sentir um grande desconforto e geralmente só
queremos fazer com que desapareça. No entanto, a ansiedade tem uma
função muito importante: ajuda a que nos protejamos face ao perigo. Por
exemplo, na situação atual, face à possibilidade de ficarmos infetados
com o Coronavírus, faz com que estejamos mais atentos às coisas em
que tocamos, faz-nos lavar as mãos mais vezes, estar mais conscientes
da necessidade de termos comportamentos de etiqueta respiratória, e
faz-nos também avaliar melhor qual a real necessidade de nos expormos
ao perigo (por exemplo, se precisamos mesmo de ir ao supermercado
todos os dias ou se podemos tentar diminuir as idas ao supermercado
comprando mais coisas de cada vez). É a ansiedade e o medo de
podermos vir a ficar doentes que nos faz também permanecer mais
tempo em casa e reduzir o número de pessoas com quem estamos. Ter
alguma ansiedade neste momento é até bastante útil; se não tivéssemos
ansiedade provavelmente estaríamos a comportarmo-nos de forma
demasiado relaxada e correríamos mais riscos de contrair o novo
Coronavírus.” A ansiedade pode, portanto, ser útil...”

Identificação de recursos e estratégias alternativas

Passo 4: Fomentar a esperança e reforçar a natureza temporária da situação atual.

Exemplo:
“Esta situação é atípica e naturalmente exigente. Compreendo que esteja
a ser difícil para si. E embora não saibamos quando terminará, sabemos
que vai terminar de certeza. É uma situação temporária, que vai passar.”

25
Passo 5: Identificar e valorizar os recursos da pessoa que possam ser úteis

Exemplo:
“Nos momentos em que se sente mais calma e mais segura, o que é que
a tem ajudado? Dessas ações que a ajudam, o que acha que pode fazer
agora?”; “Talvez a ajude se focar a sua atenção num problema de cada
vez”; “com algumas pessoas resulta bem definir um tempo para a
preocupação, por exemplo na organização das suas rotinas diárias
definir quando é que vai reservar tempo para se preocupar como esta
ansiedade que não a larga..., e assim definir limites à intrusão desta
insegurança, medo..., o que lhe parece?”.

Definir um plano de ação simples e exequível

Passo 6: Ajudar a pessoa a colaborar a comprometer-se com a implementação dos


seus próprios recursos e/ou com as estratégias sugeridas. Caso a pessoa resista,
pode ser importante usar um estilo mais diretivo na definição do plano.

Exemplo:
“Vamos então definir aqui o que pode fazer hoje e durante a próxima
semana...”; O que acha de hoje definir um tempo para a sua
preocupação e ver como resulta consigo..., qual seria a fase do seu dia
em que durante 15 minutos vai estar atento/a a esta preocupação, o que
vai fazer de diferente antes e a seguir, fora desses 15 minutos...?”

26
Problema 2: queixas de ansiedade com foco em sintomas físicos ou
pânico

Fase da identificação e clarificação do problema

Para além das estratégias listadas acima sobre validação, normalização e


psicoeducação sobre a experiência de ansiedade, quando o foco é nos sintomas e na
perceção de perigo que eles podem ativar, pode ser importante incluir ou dar prioridade
a outras estratégias:

Passo 1: Ajudar a pessoa a identificar e diferenciar os sinais ou sintomas de


ansiedade

Exemplos:
“O que está a sentir no seu corpo?”;
“Vamos ouvir o que o seu corpo nos diz, agora. Consegue identificar no
seu corpo algum sinal de medo ou de perigo..., ou sintoma mais físico?”;
“Estes sintomas são novos ou já é habitual sentir estes sintomas no seu
corpo?”
“Que tipo de sintomas teve no momento do pico de ansiedade”; é natural
que não se lembre bem de tudo... eu posso ajudar a identificar... recorda-
se se sentiu...(ler calmamente, um sintoma de cada vez e esperar pela
resposta da pessoa, tendo o cuidado de ajustar a linguagem para
explicar o sintoma).

Lista de sintomas típicos:


- Hiperatividade / sentir-se inquieto/a;
- Problemas de sono;
- Fadiga;
- Tensão muscular;

27
- Batimento cardíaco acelerado;
- Sensação de aperto no peito ou garganta;
- Dores de cabeça de tensão;
- Dores de barriga, náuseas e/ou vómitos.

Pode ser importante verificar brevemente a história de pânico e do despiste de


causa orgânica da sintomatologia ansiosa/pânico, perguntando se tem feito exames
médicos...

Passo 2: Facilitar a estabilização da sintomatologia fisiológica


Durante o contacto telefónico, em casos de situação de maior ativação, dificultando a
comunicação.

Exemplos:
“Procure respirar lentamente, inspire lentamente...conte até 5, 6, 7.,
expire lentamente...e deite todo o ar para fora...muito devagar, sinta o
seu diafragma a subir a descer...”
“A ansiedade pode provocar um grande desconforto, eu sei, mas vai
passar... temos algum tempo...”
“Sei que está aflito/a e que a ansiedade é muito desagradável, mas
agora preciso que confie em mim: ninguém morre de ansiedade. A
ansiedade vai passar e você vai ficar bem.”
“Eu estou aqui, estou a ouvi-lo/a. Respire o mais lentamente que
conseguir…”
“Vai conseguir ficar melhor, eu vou ajudar. Inspire e expire à medida que
ouve a minha voz, eu estou aqui consigo... Como está agora?”

28
Passo 3: Objetivação sensorial
Indicada para gerir eventuais sintomas de desrealização/despersonalização, durante
o contacto e/ou em situações da vida diária

Exemplo:
“Enumere 5 coisas que está a ver..., (ouvir….); Agora refira 2 coisas que
está ver. Como são essas coisas? Diga-me quais são as cores? E as
formas?; Como é a textura? Descreva de que cor é a sua roupa / o que
vê pela janela…”

Identificação de recursos e estratégias alternativas

Passo 4: Identificar recursos e reforçar eventuais estratégias adequadas

Exemplos:
“Que estratégias tem utlizado para gerir a sua ansiedade? o que o tem
ajudado a ficar melhor quando sente estes sintomas?”
“Que estratégias (o que é que já fez; pensou...) já usou no passado e
funcionaram? Ok, será que podemos adotar essas estratégias agora?
Como por exemplo?”

Passo 5: Identificar estratégias de regulação desadequadas e gerar


alternativas.

Podem incluir comportamentos de risco (e.g., consumos, saídas e/ou


interações sociais não recomendáveis face à necessidade de distanciamento
social), comer demais ou de menos, isolamento face aos outros (e.g., deixar
de ter vontade de comunicar, mesmo à distância) e/ou o aumento da
conflitualidade com os outros (e.g., maior propensão à discussão).

29
Exemplos:
“Como é que tem sido a sua interação com os outros?”
“Tem estado com outras pessoas? Em que contextos?”
“Que impacto é que a necessidade de confinamento e distanciamento
social tem tido na sua interação com os outros?”
“A estratégia que está a utilizar parece não estar a funcionar como
gostaria. O que é que acha que poderá fazer em alternativa?”

Passo 6: Promover estratégias de regulação adequadas


Ensaiar no momento, modelar e sugerir praticas de alguma(s) desta(s)
estratégias.

Exercícios de respiração diafragmática

Exemplo:
“Respire lentamente… Inspire pelo nariz enquanto conta até 7 e expire
pela boca enquanto conta também até 7, enquanto nota todo o ar a sair e
com ele toda a sua tensão, repita isto até 10 inspirações e 10
expirações”

Exercícios de relaxamento

Exemplo:
“Concentre-se na sua mão dominante. Aperte-a com força durante 5
segundos. Sinta a força que está a fazer sobre ela. Agora abra-a
devagarinho. Sinta-a livre. Repita este exercício quantas vezes forem
necessárias até ficar mais calmo/a. Alterne de mão se necessário.”

30
Exercícios de objetivação sensorial

Exemplo:
“Olhe à sua volta, dê conta do ambiente que o rodeia..., imagine que a
partir da sua descrição eu vou conseguir perceber bem o cenário em que
está em detalhe...o que vê?, que cores? que formas?, que sons ouve?
como são esses sons?, a que cheira nesse ambiente? pode discriminar
os cheiros/aromas?, como são as texturas das coisas onde toca com a
sua mão, por exemplo como é a textura da sua roupa, ou do seu
telefone...”

Definir um plano de ação simples e exequível

Passo 7: Ajudar a pessoa a colaborar a comprometer-se com a


implementação dos seus próprios recursos e/ou com as estratégias
sugeridas. Caso a pessoa resista, pode ser importante usar um estilo mais
diretivo na definição do plano.

Exemplo:
“vamos então definir o que pode fazer hoje e durante as próximas
semanas..., eu sugeria que incluísse nas suas rotinas diárias a
respiração diafragmática e as outras estratégias de que falamos... Pode
começar por fazer a respiração de manhã e à noite..., ao longo do dia
inclua vários momentos de objetivação sensorial, em diferentes
ambientes, por exemplo às refeições..., quando conversa com os seus
amigos..., que lhe parece?”

31
Problema 3: Queixas de ansiedade com foco em sintomas cognitivos
e/ou emocionais

Fase da identificação e clarificação do problema

Para além das estratégias listadas acima sobre validação, normalização e


psicoeducação sobre a experiência de ansiedade, quando o foco é nos sintomas
psicológicos ou emocionais, pode ser importante incluir ou dar prioridade a outras
estratégias:

Passo 1: Ajudar a pessoa a identificar os sintomas

Exemplos:
“O que o/a está a preocupar?”
“Sabe que o nosso cérebro conversa bastante connosco. Neste momento
o que lhe está a dizer?”
“O que lhe diz a sua cabeça, agora?”
“O que está a pensar neste momento”?
“Consegue dizer-me o que está a sentir neste momento?”
“Está a dizer-me que se sente ansioso/a porque...”
“talvez eu o possa ajudar a identificar o que sente..., muitas pessoas, que
estão a viver esta situação de um modo parecido, dizem que sentem...
(listar sintomas), é isto que está a acontecer consigo?

Lista de sintomas típicos:


- Irritabilidade;
- Nervosismo;
- Sensação de descontrolo;
- Dificuldade em controlar a preocupação (“sofrer por
antecipação”);

32
- Desesperança;
- Mudanças de humor repentinas;
- Dificuldades de concentração;
- Sentimentos de vazio, inutilidade e/ou impotência.

Identificação de recursos e estratégias alternativas

Passo 2: Facilitar a estabilização da sintomatologia psicológica/emocional


As preocupações apresentadas pelas pessoas podem ser muito variadas, em
torno das suas circunstâncias mais pessoais (e.g., sentir-se assoberbado, não
saber o que fazer) e/ou de circunstâncias mais específicas relativas à
(eventual) infeção pela COVID-19, por parte do/a próprio/a, de terceiros mais
ou menos significativos e/ou das dinâmicas entre ambos, seja em contexto
familiar, laboral ou social restrito (e.g., idas à farmácia e ao supermercado),
se aplicável. As seguintes estratégias podem ser utilizadas de acordo com
diferentes combinações, dependendo das preocupações dominantes de cada
pessoa em particular.

Estratégias úteis para ajudar na gestão da preocupação, especialmente se


percebida como difícil de controlar ou se orientada para o futuro, projetando a
pessoa para um grande nível de incerteza e de ausência de controlo sobre si
e a própria vida

Focar as preocupações no presente

Exemplos:
“Vamos tentar focar as suas preocupações/medos no dia de hoje, sem
fazer para já grandes antecipações.”
“O que é que hoje o/a está a preocupar? Quais são os seus receios?”

33
Promover a sensação de controlo, focando naquilo que está ao alcance da
pessoa fazer no momento

Exemplos:
“O que pode fazer hoje para se sentir mais seguro/a?”
O que o/a poderia ajudar a sentir-se menos ansioso/a hoje?”

Facilitar a atenção nos aspetos positivos

Exemplo:
“Vamos focar-nos no que está a correr bem neste momento.”

Fomentar a esperança e reforçar a natureza temporária da situação atual

Exemplo:
“Estamos todos a passar por esta situação que nos é pouco familiar,
ainda sabemos pouco sobre este vírus, mas estamos a fazer o nosso
melhor porque é uma situação muito exigente. Compreendo que esteja a
ser difícil para si. É uma situação temporária, que vai passar.”

Passo 3: Gestão da preocupação relacionada com a possibilidade de infeção


pelo COVID-19, pelo próprio e/ou por terceiros

Promover uma adequada gestão da informação acerca da COVID-19

Exemplos:
“Identifique um ou dois meios de informação credíveis para se manter
atualizado acerca da situação atual; estabeleça um horário para o(s)
consultar.”

34
“Doseie a informação de que necessita para se manter atualizado/a, filtre
informações pouco claras e não dê ouvidos a boatos / notícias falsas.
Privilegie a procura de informação acerca das medidas de proteção
recomendadas em meios de informação credíveis / oficiais e procure
também boas notícias, por exemplo, testemunhos de casos
recuperados.”
(nota: pode ser importante dar indicações claras sobre os meios oficiais,
caso a pessoa pergunte ou não tenha essa informação)

Desafiar a catastrofização e a hiperestimação da probabilidade de contrair o


vírus

Exemplo:
“Há uma grande diferença entre a possibilidade e a probabilidade de ficar
doente. Na verdade, é possível que fique doente, é uma possibilidade
para todos nós. A COVID-19 é uma ameaça real, que apela a que nos
mantenhamos atentos e protegidos. No entanto, se cumprir com as
recomendações de proteção diminuirá consideravelmente a
probabilidade de ficar infetado/a.”
“A taxa de letalidade da COVID-19 em Portugal anda à volta dos ...%
(dar indicação atualizada no momento...), o que significa que uma
percentagem muito significativa de pessoas que contraem o vírus são
curadas.”

35
Passo 4: Regulação do humor e organização mental de um modo geral

Promover a estruturação e/ou manutenção das rotinas habituais da pessoa,


adequadas às circunstâncias da sua vida em particular e no contexto da
situação da pandemia.
a) Aconselhar uma rotina de sono regular de 6 a 8 horas para facilitar uma boa
higiene de sono;
b) Aconselhar a realização de 5 refeições diárias com base em alimentos saudáveis,
como frutas e vegetais, em horários regulares.

Exemplos:
“É muito importante que mantenha algumas rotinas, como os horários de
deitar e levantar, a alimentação, as tarefas domésticas, a atividade física
ou outras.”
“Como pode fazer para manter as suas rotinas? Vou ajudá-lo/a a
perceber.”
“O que tem feito para lidar com os problemas de sono que refere?”
“Parece-me bem que esteja a usar a atividade física como uma forma de
diminuir o stress. A atividade física ajuda-nos a regular as emoções.”

Ajudar a estabelecer um local/período do dia para relaxamento

Exemplos:
“Há algum local na sua casa que possa usar para relaxar? Se não, pode
criar um local especial para isso? Que objetos gostaria de ter consigo
nesse espaço? O que gostaria de fazer para relaxar?”;
“Há alguma atividade que o/a pudesse ajudar a relaxar? Ouvir música,
ler, meditar…? Recorde-se de coisas que antes disto, ou mesmo mais
longe no seu passado, o/a ajudassem a relaxar. Será que poderia
recuperá-la(s)?”

36
“Será que podemos introduzir um período do seu tempo que pode
reservar para fazer algo que o relaxe, que o faça sentir bem?”

Reforçar a necessidade de autocuidado mediante a programação de


atividades gratificantes, potenciadoras de prazer e bem-estar.

Exemplos:
“É importante que cuide de si neste momento crítico e dedique algum do
seu tempo a atividades que lhe proporcionem bem-estar (e.g., falar com
amigos/familiares, ler, ouvir música).”
“O que pode fazer para que o dia de hoje corra bem?”
“Faça uma lista de atividades de que gosta, que habitualmente faz/fazia
no seu tempo livre. Todos os dias, reserve um período do seu dia para
realizar uma dessas atividades (e.g., ler, cozinhar, desenhar, ver a série
X – em função das preferências da própria pessoa).”

Se as atividades de que gosta são habitualmente realizadas no exterior e/ou


com outras pessoas, ajudar a pessoa a encontrar alternativas:

Exemplos:
“Se habitualmente gosta de ir ao ginásio, construa o seu ginásio em sua
casa; se gosta de ir jantar fora com os amigos, combine um jantar com
eles por videochamada.”
“Podemos pensar em conjunto numa lista de atividades com o propósito
de o ajudar a relaxar, a ficar mais tranquilo?”

37
Ajudar a lidar com a necessidade de distanciamento social enquanto medida
recomendada de prevenção face à COVID-19
a) Distinguir a necessidade de distanciamento social do isolamento social: é possível
não estar com as pessoas, mas manter o contacto com as mesmas;
b) Promover o recurso à rede de suporte social, mesmo que à distância.

Exemplos:
“A quem poderá recorrer quando ficar mais ansioso/a? Identifique uma a
duas pessoas. Tem os contatos delas? Como as pode contactar? De que
alternativas dispõe?”
“Quem pode contactar quando precisar de falar um pouco só para se
distrair e passar algum tempo?”

Definir um plano de ação simples e exequível

Passo 5: Ajudar a pessoa a colaborar a comprometer-se com a


implementação dos seus próprios recursos e/ou com as estratégias
sugeridas. Caso a pessoa resista, pode ser importante usar um estilo mais
diretivo na definição do plano.

Exemplo:
“Vamos então definir o que pode fazer hoje e durante as próximas
semanas..., como pode organizar as suas rotinas diárias de modo a ter
cuidado com o seu sono, alimentação, o contato com os seus amigos...
podemos definir aqui o dia de hoje e de amanhã..., como exemplo?

38
Intervenção em Crise na Sintomatologia
Depressiva e Luto

Problema 1: Tristeza associada a abandono e solidão

Fase da identificação e clarificação do problema

Passo 1: Reconhecer e validar a experiência emocional, permitir a sua


ventilação e posterior regulação. Começar por identificar a experiência
emocional (através de paráfrase, sumarização ou reflexão de sentimento)

Exemplo:
“Ouvindo o que me disse percebo que se está a sentir ... (triste, sozinho,
abandonado)”; “Disse-me que se sente muito só por não falar com
ninguém há tantos dias, estou a ouvir/ perceber bem?”

Passo 2: Normalizar e validar a experiência de tristeza, enquadrando-a no


contexto que a pessoa está a viver

Exemplos:
“É compreensível que se sinta só por não ver os seus familiares há tanto
tempo. Muitas pessoas que estão a viver esta pandemia sentem essa
tristeza ao ter de lidar com o isolamento imposto pela situação.”
“É compreensível que se sinta abandonado por não ter ninguém com
quem contar ou quem conversar.”

39
“É compreensível que se sinta desiludido por não receber o apoio que
esperaria receber nesta fase.”

Passo 3: Permitir a ventilação emocional, encorajando elaboração da


experiência, necessária e apropriada ao contexto

Exemplos:
“Quer falar-me um bocadinho mais sobre o que está a sentir? Percebo
que esperaria receber mais apoio dos outros..., de alguém em particular?
O que seria mais importante para si, neste momento?”

Passo 4: Enquadramento cognitivo da experiência e interpretação alternativa


da situação

Exemplo:
“Compreendo perfeitamente que esperasse receber mais apoio (dos
seus filhos, por exemplo) mas as outras pessoas (de quem esperaria o
suporte) poderão estar também limitadas na capacidade de ajudar
(porque estão com nova rotina que acumula teletrabalho com cuidado de
crianças, porque moram longe, porque estão a lidar com problemas
económicos, etc)”.

40
Identificação de recursos e estratégias alternativas

Passo 5: Restabelecimento do sentimento de confiança e conforto, promover


a perceção da pessoa de que não permanecerá sozinha e sem apoio,
referindo o tipo de suporte a que pode recorrer a partir de agora.

Identificar e promover a ativação de recursos de suporte social existentes.

Exemplos:
“Gostaria de lhe assegurar que não está sozinha e de que existem
pessoas e serviços a quem pode recorrer. Consegue identificar alguém
(para além das pessoas de quem a pessoa esperava o apoio) a quem
pudesse telefonar para conversar um pouco?”
“Consegue identificar alguém a quem pudesse ligar para lhe trazer algum
medicamento ou alimento?”

Assegurar o apoio e encaminhando para recursos do sistema de saúde.

Exemplos:
“Gostaria que ficasse claro que não está sozinho/a e que poderemos
voltar a conversar.
“Poderá recorrer à nossa linha sempre se precisar.”
“Poderemos ligar-lhe para monitorizar o seu estado atual.”
“Podemos encaminhá-la para uma consulta de psicoterapia onde
receberá um apoio mais contínuo”.

41
Ativando recursos de autocuidado e de segurança interna.

Exemplos:
“Gostaria de tentar identificar consigo o que o ajudaria a sentir-se melhor:
ver um programa de TV específico, ouvir uma música alegre, ler algo
leve, pensar em coisas positivas que poderá fazer no futuro quando a
quarentena terminar (como voltar ao ginásio, ou outra atividade), ativar
lugar seguro”.

Definir um plano de ação simples e exequível

Ajudar a pessoa a colaborar a comprometer-se com a implementação dos seus


próprios recursos e/ou com as estratégias sugeridas. Caso a pessoa resista, pode ser
importante usar um estilo mais diretivo na definição do plano.

Exemplos:
“vamos então definir o que pode fazer hoje e durante as próximas
semanas..., Por exemplo, a quem vai ligar hoje, amanhã...e ao longo da
próxima semana?”
“que atividades deixou de fazer, mas que pode voltar a fazer, mesmo
estando em casa? quais vai fazer a partir de hoje?”
“a quem pode pedir ajuda, se sentir que precisa?”

42
Problema 2: Perda de ente querido

A perda de um ente querido pode motivar o pedido de ajuda por diferentes


dificuldades ou razões específicas, como por exemplo: precisar de partilhar a
experiência de perda, lidar com a reatividade emocional associada a uma perda,
reorganizar o quotidiano após uma perda, dar sentido a uma perda.

Fase da identificação e clarificação do problema

Passo 1: Adotar uma postura empática

Exemplos:
“Esta perda está a causar-lhe uma dor muito grande.”
“Este vazio que sente, parece estar presente na sua voz... (ou nas suas
lágrimas, caso seja vídeo chamada).”
“Diz-me que é muito difícil e sinto isso nas suas palavras, como é difícil
encontrar palavras para falar desta perda.”

Passo 2: Validação, normalização, contenção emocional

Exemplos:
“O que contou ilustra bem a importância que o/a [nome] tinha na
sua vida.”
“Obrigado por partilhar comigo a sua experiência com a pessoa que
perdeu...”
“O luto é uma reação normal e adequada à perda de alguém a quem
estamos emocionalmente ligados. Ficamos em luto porque estamos
biologicamente predispostos para nos vincular.”
“O luto é um desafio que todos temos que enfrentar, que coloca em
causa o que somos e em que acreditamos.”

43
“As exigências que o luto nos coloca são diversas, e é quase impossível
dar resposta a todas. Pelo que me conta está a fazer um esforço para
lidar com essas exigências o melhor que consegue.”

Passo 3: Identificação dificuldades na atribuição de significado à perda


Neste passo pode ser importante identificar se a pessoa está em processo de
choque ou negação da perda. Se possível e apropriado, identificar o que está
a dificultar a atribuição de sentido: a circunstância da perda, a idade da
pessoa que se perdeu, o estado da relação que se tinha com a pessoa, etc.
Pode ser relevante identificar aspetos concretos (e.g. não ser possível realizar
funeral ou não ser possível visitar o cemitério) que possam estar a dificultar a
procura de sentido para a perda.

Exemplos:
“Percebo que possa ser doloroso, mas pode dar-me indicações mais
precisas, quando faleceu o seu familiar?”
“Percebo que esta experiência está a ser muito difícil para si, há alguma
coisa que seja difícil para si entender, que aumente a sua tristeza, ou a
sua revolta...?
“Há alguma coisa relacionada com esta perda que precise de
compreender melhor, que precise de perguntar a alguém?”
“Consigo perceber a dor de não se poder despedir do modo como
gostaria da pessoa que perdeu...”

Se em continuidade com a dificuldade apresentada, pode ser relevante identificar


pressupostos de base da pessoa que foram colocados em causa pela perda (e.g. a
imprevisibilidade da perda, o receio de ter o mesmo problema, a dificuldade em
enquadra a perda em conceitos de “vida justa”,

44
“fim digno” ou nas crenças religiosas/espirituais da pessoa) e reconhecer o seu
impacto na experiência atual.

Exemplo:
“Percebo o sentido de injustiça e a revolta (ou outra emoção conforme o
caso, ex. medo, insegurança) que sente nesta altura...”
“Por vezes nestas alturas sentimo-nos mais frágeis... como se as nossas
certezas acabassem todas..., mas é normal quando perdemos alguém
significativo e de forma inesperada...”

Identificação de recursos e estratégias alternativas

Passo 4: Ajudar a identificar e incentivar a procurar na rede de apoio de


amigos e familiares quem poderia estar disponível para a partilha da
experiência de perda.

Exemplos:
“Entre as pessoas que estão mais próximas, familiares ou amigos, com
quem se sentiria mais confortável em partilhar o que sente?”
“Quem acha que entenderá melhor a sua experiência?”

Passo 5: Prestar atenção a manifestações de receios e dificuldades


associados à partilha da experiência de perda (e.g. “tenho medo de perder o
controlo”) e à existência de mitos e preconceitos associados à dificuldade em
partilhar a experiência de perda (e.g. “não quero que a minha esposa me veja
a chorar”), promovendo a aceitação da experiência, identificando as
estratégias de coping habituais da pessoa que possam ser usadas para
expressar de modo confortável a experiência de perda, bem como sugerir
formas alternativas de partilhar a experiência de perda.

45
Exemplos:
“Compreendo o medo que tem de perder o controlo, é uma
experiência muito intensa..., mas talvez possa ir partilhando um pouco de
cada vez...”.
“Percebo que não queira que os outros a vejam a chorar, talvez as
pessoas que tenta proteger precisem de perceber melhor como se sente
para a poderem ajudar...”.
“Não tem mal chorar, significa que está triste e é normal estar triste nesta
situação..., os outros vão perceber isso...”.
“Em outras alturas em que se sentiu triste, o que a ajudou?... talvez
possa fazer algo parecido..., dentro do possível”.

Definir um plano de ação simples e exequível

Passo 6: Ajudar a pessoa a colaborar a comprometer-se com a


implementação dos seus próprios recursos e/ou com as estratégias
sugeridas. Caso a pessoa resista, pode ser importante usar um estilo mais
assertivo na definição do plano.

Exemplos:
“vamos então definir o que pode fazer hoje e durante as próximas
semanas..., Por exemplo, podemos escolher uma pessoa com quem vai
falar se sentir que precisa de dizer que se sente triste ou que lhe apetece
chorar?, quem será essa pessoa...?”
“quando se sentir triste ou sem energia...talvez possa dizer a si próprio/a
que esta tristeza tem uma razão, que é normal e pode sentir-se triste, e
escolher alguma coisa que a ajude a sentir-se mais confortável, apesar
da tristeza, o que poderia ser essa essa coisa?”
“Talvez possa anotar estas ideias para se lembrar delas quando precisar,
nos próximos dias.

46
Encaminhamento para outros serviços

A pessoa deve ser reencaminhada para aconselhamento psicológico continuado


ou psicoterapia se:

1. Está desregulada emocionalmente e não há adesão ao plano de


regulação / estabilização sugerido durante o atendimento em crise
2. Foi difícil /impossível estabilizar / acalmar e comunicar clara e
adequadamente com a pessoa
3. Perguntar se a pessoa já teve(tem) algum acompanhamento psicológico
/ psiquiátrico. Se sim, pedir para marcar consulta com quem já o/a tem
acompanhado.

Caso não tenha qualquer acompanhamento, deve informar-se a pessoa que tem
as seguintes opções:

1. A pessoa pode contatar o médico de família no SNS e pedir que seja


feito reencaminhamento para psiquiatria
2. A pessoa pode contactar a linha SNS24 pois há atendimento psicológico
gratuito: 808242424
3. A pessoa pode contatar um psiquiatra / psicólogo, por sua conta

Se há intenção suicida ou outro tipo de comportamento de risco deve


recomendar-se a ida à urgência de psiquiatria

47
Neste caso é importante:

1. Assegurar que a pessoa está capaz de ir à urgência e está disposta a


fazê-lo
2. Assegurar que a pessoa está acompanhada por alguém que a poderá
levar à urgência
3. Pedir à pessoa que informe sobre o contacto(s) telefónico (s) de alguém
a quem pode telefonar a pedir ajuda e que tenha este(s) contacto(s)
consigo
4. Ajudar a pessoa a desfazer-se dos meios que podem ajudar a fazer algo
contra si próprio/a

Importante pedir o contacto e informar que iremos ligar mais tarde para saber
como está (e assegurar que foi à urgência) em situação limite, informar que vamos ter
que ativar um plano de emergência, pedir a morada (onde está) e contactar o INEM.

Os princípios éticos de confidencialidade e sigilo aplicam-se a este tipo de


intervenção, em todas as suas fases.

48
Referências

Brymer, M., Layne, C., Jacobs, A., Pynoos, R., Ruzek, J., Steinberg, A., &
Watson, P. (2006). Psychological first aid field operations guide (2nd Edition).
National Child Traumatic Stress Network
James, R. (2008). Crisis intervention strategies – 6th Edition. Belmont, CA:
Thomson.
Myer, R.A. & James, R.K. (2005). Crisis intervention workbook. Belmont, CA:
Thomson Brooks/Cole.

http://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/como_lidar_com_o_s
tress_durante_o_surto_de_codvid19_3.pdf

https://www.apa.org/news/apa/2020/03/psychologist-covid-19

https://www.apa.org/research/action/speaking-of-psychology/coronavirus-
anxiety

49
Intervenção
em Crise
Para Adolescentes

Teresa Freire, Alexandra Vieira & Gabriela Santana


©Associação de Psicologia da Universidade do Minho
APsi-UMinho, Braga, Guimarães
www.apsi.uminho.pt

50
Objetivos do atendimento em crise para
adolescentes

A Linha de Atendimento telefónico em crise visa prestar apoio psicológico a


pessoas da comunidade em situações de crise. Em particular, neste módulo, será
abordado o atendimento em crise para adolescentes, tendo os seguintes objetivos:

• Prestação de suporte emocional e de estratégias para lidar com o isolamento


e/ou distanciamento social, e facilitar a adaptação à mudança em vários contextos de
vida (e.g., escola, amigos, família, lazer);
• Promoção de comportamentos proativos para que o adolescente mantenha
contactos com outros significativos (ex. amigos, família, professores), através de
meios de comunicação à distância (e.g., telefone, videochamadas e redes sociais);
• Incentivo à realização de atividades integradas em rotinas e hábitos de vida
saudáveis (e.g., autocuidado, sono, alimentação);
• Promoção de uma perceção positiva, e de sentimentos de autoeficácia e de
competência pessoal na capacidade do adolescente para lidar com a situação
pandémica e suas exigências;
• Identificação de estratégias de coping e de formas alternativas e adaptativas
para lidar com os efeitos do stresse e da ansiedade decorrentes da situação
pandémica e das suas consequências ao nível do bem-estar.

51
Conteúdos de formação

O distanciamento social durante esta crise pode ter efeitos negativos na saúde
física e mental dos adolescentes, na medida em que estão privados de algumas
atividades ao ar livre e da interação física com os outros. Aprender a gerir/lidar com os
medos e preocupações, adaptar o seu dia-a-dia e as rotinas de modo a lidar com esta
situação e garantir a segurança em situação de crise exige conhecimentos específicos
sobre esta população.
Qual o impacto que esta situação pandémica pode ter nos adolescentes? As
reações podem ser diversas. Do ponto de vista psicológico, os adolescentes podem
sentir-se frustrados, estarem mais irritáveis e aborrecidos; ficar ansiosos e com receio, e
ainda revelar alterações nos hábitos alimentares e de sono. Neste contexto, é
importante validar os sentimentos que podem surgir como sentimentos normativos face
à situação que estão a enfrentar.
Deve-se responder com compreensão, mostrar apoio, ouvindo as preocupações e
também expectativas.
Atendendo às características desenvolvimentais e psicossociais associadas à
adolescência, alguns temas emergem como relevantes para formação de psicólogos
para atendimento de adolescentes em situação de crise:

52
1. Questões relacionadas com as recomendações de segurança e
saúde

A situação atual de pandemia tem inerente um conjunto de cuidados e medidas a


ser adotadas no sentido de promover a segurança de todos.
Perante isto, será necessário, atendendo às características contextuais de cada
adolescente (como por exemplo, com quem vivem, se estão em situação de guarda
partilhada):

- Identificar as características e exigências contextuais;


- Validar e reconhecer a experiência do adolescente;
- Reforçar a importância das recomendações e o motivo pelo qual deverão ser
implementadas;
- Facilitar a compreensão e o equilíbrio de recomendações externas e
adequando ao contexto individual de cada adolescente.
- Validar a capacidade de articular recomendações e estratégias sanitárias,
considerando o bem-estar e a saúde coletivos e individuais

2. Questões relacionadas com as emoções

Perante o cenário de pandemia COVID-19 (necessidade de cumprir medidas de


proteção, de distanciamento social, o desconhecimento e a incerteza face ao impacto
pessoal e global do coronavírus, bem como em relação à vida futura), é expectável que
os adolescentes se sintam ansiosos, com medo, preocupados, tensos e sem controlo da
situação que enfrentam.
É importante que os adolescentes sejam capazes de identificar estas emoções
estando atentos à sintomatologia que possa estar associada às mesmas (os pais podem
ter aqui um papel importante), percebendo que estes sentimentos são normativos face a
situações de incerteza, podendo ser agentes ativos no que está ao seu alcance, para
lidar de forma mais equilibrada com as emoções menos positivas.

53
Ter em atenção que na adolescência o imediato/curto-prazo tem impacto significativo,
podendo os adolescentes apresentar ainda dificuldades no controle da impulsividade, na
avaliação de riscos associados às ações, ou mesmo no planeamento e processamento
de emoções (cf. neurociência e desenvolvimento cerebral).
Assim, tornam-se relevantes os seguintes aspetos no atendimento em situação de
crise (Nota: será referido o exemplo concreto da ansiedade)

2.1Trabalhar emoções mais relevantes e avaliadas no momento


(Ex. a ansiedade)

2.2 Reconhecer a(s) emoção(ões) emergente(s) (Ex. ansiedade).

2.3 A partir do exemplo: Identificar como se sente quando está


ansioso/a.

A ansiedade tem efeitos no corpo. Do ponto de vista físico, podem experienciar


tensão muscular, sensação de “nó na garganta” ou aperto no peito, dor de cabeça,
batimento cardíaco acelerado, náuseas e vómitos, vontade acrescida de ir à casa de
banho, dificuldade em dormir ou sensação de “borboletas no estômago”. Também
podem comer menos ou mais, ou dormir menos ou mais do que é habitual.

2.4 Identificar pensamentos que o deixam mais ansioso e


agir/mudar em função dos mesmos (ex. infeção pelo vírus;
quebra no contacto social).

A ansiedade tem efeitos no pensamento. Do ponto de vista psicológico, a


ansiedade pode torná-los mais receosos, em alerta, nervosos, irritáveis, incapazes de
relaxar e de se concentrarem. Podem ter dificuldades em parar os pensamentos
repetitivos e negativos relativamente à doença (ex. “e se ficar infetado?”; “e se os meus
pais adoecerem?”) ou à perda de rotinas e contacto social e autocriticarem-se

54
excessivamente (ex. “não faço nada bem”; “não presto para nada”; “ninguém quer saber
de mim”).

2.5 Identificar como se relaciona com os outros quando está


ansioso.

A ansiedade tem efeitos nas nossas relações com os outros. Podem começar a
evitar comunicar com os amigos ou familiares (ex. não responder às chamadas, não
aceitar fazer videochamada) ou discutir mais com aqueles que são mais próximos e
partilham o mesmo espaço físico.

2.6 O que fazer para ajudar a lidar com a ansiedade?

- Identificar os pensamentos que o estão a perturbar e interrogar-se sobre a


probabilidade de isso acontecer (ex. “estou infetado” – pensar se poderá ter
estado em contacto com alguém com sintomas.);

Sugestão/estratégias: “Sempre que os pensamentos negativos ou os


comportamentos exagerados surgirem, diz em voz alta STOP e faz uma atividade
simples em que sintas prazer e aumente o teu bem-estar (ex. ouvir música, ligar a um
amigo, cozinhar)."

- Identificar cenários alternativos e ações/medidas que pode adotar;


- Concentrar-se no aqui e agora, nas atividades que pode fazer (como por
exemplo: preparar uma refeição, fazer exercício, jogar um jogo, ler um livro, ver
um filme, dedicar tempo às atividades escolares);
- Falar com amigos e familiares sobre o que está a sentir e como está a
experienciar esta situação. Falar com alguém é das estratégias mais eficazes
para diminuir a ansiedade.
- Confiar nas suas capacidades para lidar com situações difíceis.

55
Sugestão/estratégias: “Não é a primeira vez que passas por uma situação difícil
na tua vida. Que estratégias te ajudaram a ultrapassar as situações anteriores? Usa-as
ou adapta-as para enfrentar esta situação.”

3. Questões relacionadas com dificuldades em adaptar-se à


situação e às mudanças provocadas

De forma personalizada e de acordo com estrutura de vida e características


pessoais emergentes, será relevante ter em atenção as mudanças que podem refletir-se
em:
3.1Questões relacionadas com hábitos saudáveis versus não-
saudáveis

Os adolescentes lidarão melhor com este período stressante se adotarem um


conjunto de hábitos saudáveis como:
- A manutenção de padrões de sono adequados – manter um horário de sono
consistente, com horários previsíveis para acordar e dormir, é especialmente
importante para manter rotinas equilibradas, um humor positivo e a capacidade
de atender às expectativas académicas;
- A realização das refeições nos horários habituais – uma alimentação
equilibrada, saudável e com variedade de alimentos é fundamental. É essencial
realizar todas as refeições diárias (ex. pequeno-almoço, almoço, jantar) em
horários estabelecidos, o que permitirá suporte nas rotinas, mas também um
maior controlo relativamente à possível ingestão insuficiente ou excessiva de
alimentos;
- A realização de exercício regular – o exercício físico regular ajuda a manter a
produtividade e o rendimento diário em atividades como o estudo e a reduzir o
stress e a ansiedade, especialmente no caso dos adolescentes e jovens cuja
atividade física faz parte da rotina diária (ex. integrados em atividades
desportivas na comunidade, atletas federados, etc..).

56
3.2 Questões decorrentes da perda de atividades sociais e de
lazer

Para muitos, a parte mais dolorosa da crise do coronavírus poderá ser a perda de
algumas experiências importantes: atividades desportivas ou recreativas, bailes e
viagens de finalistas, cerimónias de formatura, entre outras. Embora possa ser
desafiante para os adolescentes procurarem atividades novas e prazerosas, num
primeiro momento a experiência de privação sentida pode tornar-se perturbadora).

Relativamente a estes aspetos, e tendo em conta que podem experienciar


sentimentos como deceção e/ou frustração, é importante:
- Dar espaço para partilharem os seus sentimentos
- Ouvir sem julgamento;
- Tranquilizá-los e ajudar a pensar em formas alternativas de manterem
atividades rotineiras (ex. atividades desportivas – estimular o contacto com
treinadores e/ou colegas de equipa) ou criar possíveis experiências alternativas
que podem ter mesmo estando em casa.

3.3 Questões associadas ao impedimento do contacto físico com


os amigos

Para os adolescentes e jovens adultos, os amigos são extremamente


importantes. O vínculo com os pares é uma das tarefas essenciais no desenvolvimento
dos adolescentes, contribuindo para o seu processo de independência e autonomia
sobretudo, e numa primeira fase, em relação às figuras parentais, influenciando a forma
com se vêm e se sentem em relação a si mesmos e aos outros.

57
Este impedimento pode provocar sentimentos de frustração, pelo que é relevante:

- Reconhecer a dificuldade de estarem afastados dos amigos;


- Ouvir como se sentem acerca do distanciamento social;
- Validar esses sentimentos;
- Trabalhar em conjunto formas para facilitar essa situação e flexibilizar as rotinas
de acordo com os canais de comunicação disponíveis de momento (ex. mais
tempo no computador);
- Incentivar a serem criativos sobre novas formas de interagir socialmente com
os amigos e familiares de quem não estão próximos.
- Reconhecer a sua capacidade criativa na procura de novas soluções que
poderão continuar a ser realizadas, mesmo depois da situação pandémica

3.4 Questões relacionadas com relacionamentos amorosos


(quebra no relacionamento; procura de relacionamento)

Na adolescência, as relações amorosas são de extrema importância a nível


desenvolvimental, tendo por base a intimidade, a confiança e os interesses comuns,
sendo o processo de interação fulcral para a manutenção destas relações.
No caso de quebra no relacionamento deve-se, primeiramente, identificar o
significado de quebra (e.g., quebra da rotina no relacionamento e no contacto físico e
íntimo ou quebra associada ao término do relacionamento devido à situação de
confinamento social)

3.4.1. Quebra associada ao contacto físico e de intimidade

- Validar os sentimentos e emoções relativos à quebra experienciada;


- Identificar estratégias que em conjunto tentaram adotar para lidar com estas
mudanças;
- Compreender que estratégias não funcionaram, estratégias que funcionaram
bem e foram soluções, bem como as suas razões;

58
- Procurar, em conjunto com o adolescente, estratégias alternativas para lidarem
com o distanciamento físico (sobre a intimidade física e emocional);
- Incentivar à procura de atividades novas e alternativas que possam realizar em
conjunto, respeitando as medidas de distanciamento físico.
- Refletir sobre que que aspetos pode sair reforçados na relação devido à
situação de confinamento social, como trabalhá-los na relação.

3.4.2. Quebra associada ao término

- Reconhecer e validar os sentimentos que possa estar a sentir;


- Compreender as razões que levaram ao término;
- Perceber qual a relação entre os adolescentes pré e pós-término;
- Identificar as mudanças que o término provocou na vida diária do
adolescente;
- Identificar estratégias de coping adotadas pelo adolescente;
- Promover estratégias de coping adequadas.

No caso de procura de um relacionamento deve-se:

- Compreender as dificuldades de relacionamento social devido à situação de


pandemia, refletindo sobre o que mudou e qual a situação atual possível em termos de
relacionamentos interpessoais (ex. ausência de festas e de oportunidades de conhecer
outras pessoas, como discotecas)
- Identificar se esta procura já tinha sido iniciada anteriormente à situação
pandémica e da imposição do distanciamento social;
- Identificar se pretende realizar esta procura durante esta imposição.

59
3.5 . Questões de luto associado à perda

A perda de relações significativas tem um impacto extremamente negativo para o


bem-estar psicológico, especialmente em situações de confinamento social, em que a
perda é inesperada e as condições de luto estão condicionadas.
A perda de relações pode estar associada a familiares; pessoas com vínculos
afetivos (amigos, professores, …); relacionamentos próximos ou mais distantes.

Nestas situações deve-se:


- Identificar e validar os sentimentos e emoções manifestados em relação à
perda;
- Não centrar a intervenção nas causas ou circunstâncias em que ocorreu a
morte, mas compreender significados atribuídos á situação de perda;
- Identificar a fase do luto em que se encontra (i.e., Negação; Raiva; Negociação;
Depressão; Aceitação);
- Possibilitar a expressão comportamental/física das emoções intensas como o
choro;
- Estabilizar ou regular o adolescente a nível emocional e expressão das
emoções;
- Facilitar a transição para fases seguintes do processo de luto, atendendo
sempre às características específicas dos adolescentes.

4. Questões relacionadas com o sono

Dadas as alterações no dia a dia dos adolescentes e ao seu funcionamento,


estes podem relatar dificuldades em adormecer, terem menos sono que o habitual.
Nestes casos será necessário:

- Perceber o padrão de sono, que alterações face ao habitual;


- Reconhecer as alterações em curso e o que mudar nos comportamentos
habituais para que possam ser regulados à luz de padrões saudáveis de sono.

60
- Reconhecer que é possível aprender sobre sono, higiene de sono e que de
forma o sono interfere noutras atividades na nossa vida, seja no presente seja a
longo prazo (memória, atenção, humor, etc)

Uma das técnicas que pode auxiliar no sono pode ser, por exemplo, a técnica de
relaxamento muscular. Esta técnica é uma ferramenta útil para diminuir a ansiedade e o
stress e descentrar do foco atencional, facilitando um sono mais regular e tranquilo.
Existem planos estruturados para realização de exercícios de relaxamento que poderão
ser usados com os adolescentes (recomenda-se a consulta deste tipo de documentos
pelo psicólogo). Numa primeira fase, é necessário realizar-se com o adolescente alguns
exercícios no sentido de o guiar na realização com eficácia destes procedimentos. À
medida que os aprende poderá começar a realizá-los autonomamente.

5. Questões associadas à organização do quotidiano

Tendo em conta todas as alterações vivenciadas devido às imposições da


pandemia e à quebra abrupta das rotinas anteriores, a organização do quotidiano torna-
se essencial para diminuir sentimentos de aborrecimento, ou mesmo no que se refere a
sensação de perda de controlo. A organização da vida diária contribuirá para uma
regulação e reorganização de projetos e planos a curto e médio prazo, facilitando
simultaneamente a atribuição de significados relevantes para uma (re)organização de si,
através da concretização das várias tarefas desenvolvimentais em curso.

Neste sentido, é essencial organizar o dia em função de vários momentos,


atividades e objetivos, tornando-se essencial:

- Reconhecer que momentos são significativos: estudo, socializar, lazer,


refeições, atividade física;
- Estruturar e dedicar momentos ao relaxamento e gestão de stresse onde
poderá utilizar técnicas de relaxamento ou recorrer a atividades e/ou exercícios
que o relaxem;

61
- Criar atividades novas ou adaptar atividades que já fazia e que sabe que
correram bem.
- Promover a perceção de autoeficácia na concretização desta gestão diária das
várias atividades.

62
Aspetos-Chave a ter em atenção ao longo do
atendimento

É imperativo reconhecer as diferenças entre cada adolescente/jovem, atendendo


às suas características individuais, bem como das suas problemáticas, para que seja
fornecida uma resposta à medida das suas necessidades. O contexto familiar, o nível de
escolaridade, a intensidade/severidade da situação de crise e a forma como se
expressa (e.g., linguagem) são também fatores a considerar ao longo do atendimento.
Deve ainda ser realçado que apesar da situação pandémica apresentar impacto
negativo a vários níveis, esta pode igualmente ser considerada um momento de
oportunidade para os adolescentes/jovens desenvolverem competências (i.e. resiliência;
adaptabilidade; sentido de responsabilidade; altruísmo). É em alturas de crise como a
que vivenciamos na atualidade que se torna essencial empoderar os
adolescentes/jovens e validar as suas experiências, bem como a sua capacidade de
criar soluções inovadoras e responsivas, e ainda a sua capacidade de mobilizar as suas
competências em benefício de uma sociedade em processo de mudança.

63
Conteúdos e questões de avaliação

A avaliação será realizada através de questões de escolha múltipla sobre todos


os conteúdos abordados:
a. Total de 10 questões
b. Cada questão tem 4 alíneas, sendo que apenas uma está correta

As questões são enviadas em documento word à parte.

64
Intervenção
em Crise
Na Gestão da Carreira de
Jovens e Adultos

Maria do Céu Taveira & Ana Daniela Silva


©Associação de Psicologia da Universidade do Minho
APsi-UMinho, Braga, Guimarães
www.apsi.uminho.pt

65
Introdução

Recuperar o bem-estar em situação de COVID - 19

A forma como as pessoas lidam com situações stressantes, como viver em


estado de Pandemia COVID -19, pode afetar a sua satisfação com a vida, por exemplo,
a satisfação com a vida de trabalho escolar, profissional, em casa, ou na comunidade.
A investigação da psicologia indica que o retorno ao modo habitual de
funcionamento, depende, em larga medida, de mecanismos homeostáticos e de
características da personalidade. Estas condições produzem os seus efeitos, na maioria
das vezes, sem que a pessoa tenha grande consciência disso. Mas a investigação
também indica que é possível favorecer o regresso a um modo mais satisfatório de
funcionamento, se promovermos a autorreflexão e a agência pessoal, focadas na
restauração do bem-estar e adaptação, e na capacidade para lidar com a adversidade.
As pessoas, perante uma situação stressante, avaliam a sua gravidade e a
capacidade que julgam ter para lidar com a mesma (autoeficácia de enfrentamento).
Esta avaliação pode ajudar a esbater o papel de características de personalidade
menos favoráveis para lidar com a situação (ex., “tendência para ver sempre o copo
meio vazio”). Ao mesmo tempo, a oferta de apoio (apoio emocional e empatia) e de
outros recursos sociais (ex., ligação a informação fidedigna, a serviços dirigidos à
resolução de problemas específicos) podem ajudar à recuperação emocional
pretendida, numa situação de crise.
O atendimento psicológico SOS COVID-19, apesar de constituir um atendimento
breve estruturado, é um exemplo especial de apoio social, de ajuda ao enfrentamento,
oferecendo compreensão, apoio emocional, orientações e encorajamento ao uso de
pensamentos e ações valorizadas pela pessoa, que possam favorecer o avanço na
resolução das suas preocupações ou dificuldades.

66
Ajudar a construir esperança, a identificar benefícios, a expressar e a processar
os seus pensamentos e emoções, a partilhar pequenas histórias ou situações, podem
ser usados, também, para securizar a pessoa e fomentar a sua confiança e controlo
percebidos sobre as situações stressantes. Pode ser igualmente adequado motivar a
pessoa a realizar atividades que permitam ultrapassar sentimentos depressivos e de
isolamento, e falta de apoio de outros significativos em relação às suas preocupações
ou problemas.
Estas ideias podem orientar, em termos gerais, as intervenções de apoio
psicológico em crise no domínio da carreira, da Linha de Apoio Psicológico SOS
COVID-19, destinadas a estudantes, docentes, funcionários e cidadãos dos distritos de
Braga e Guimarães.

As preocupações e problemas de carreira

A situação de pandemia que estamos a viver provoca preocupação, dúvidas,


ansiedade e medo, a convivência com um sentimento de incerteza prolongado, e com a
necessidade mais premente de estar alerta. É uma situação de crise que provoca
alterações profundas na vida de trabalho escolar e profissional de muitos estudantes,
docentes e funcionários do ensino superior, e da população em geral.
Muitos de nós estamos em regime de teletrabalho, em casa, outros continuam a
trabalhar nas suas instituições, mas num contexto de maior isolamento social, outros
ainda, estão em regime de layoff, na iminência de ficar sem o seu trabalho e/ou
emprego, ou já em condição de desemprego. O confinamento social e/ou quarentena
exigem também, de muitos de nós, mudanças fortes do nosso estilo de vida. Muitos
vivemos agora com novas exigências de gestão de diferentes papéis de vida estudante,
profissional, familiar, doméstico) confinados em casa, e separados dos que mais
gostamos ou nos apoiam.
O acúmulo de responsabilidades e a capacidade para sobreviver neste
contexto, e continuar a aprender, a trabalhar e a garantir a sua qualidade básica de vida
e daqueles pelos quais somos responsáveis ou a quem estamos ligados, pode ser muito
desafiante e stressante, mas ao mesmo tempo, sabemos, é algo expectável e natural,
no contexto pandémico em que nos encontramos.

67
Neste contexto, as pessoas continuam a ter que tomar decisões de carreira e a
ter de enfrentar e desenvolver a sua aprendizagem e trabalho, bem como a saber
manter níveis razoáveis de bem-estar.
Nestas circunstâncias, para efeitos práticos, do nosso atendimento na Linha SOS
COVID-19, podemos categorizar as principais preocupações e problemas de carreira
em (1) indecisão, (2) dificuldades na gestão de papéis de vida, (3) e (des)emprego.
Em seguida, abordamos cada uma destas problemáticas e implicações para o
atendimento psicológico SOS COVID-19. Este conhecimento pode ajudar, cremos, à
boa compreensão e apoio emocional a quem nos procura e, também, à decisão de
encaminhamento dos utentes para serviços de apoio mais intensivo, sempre que se
julgue necessário.

68
A indecisão de carreira

A indecisão de carreira tem sido definida, na literatura vocacional, como a


dificuldade de um indivíduo em formular objetivos de carreira e em experimentar
compromisso com escolhas de carreira iniciais ou mais definitivas (Feldman, 2003,
p.500).
Numa perspectiva construtivista, a indecisão de carreira é definida, além disso,
como uma tentativa subjetiva do indivíduo para significar pontos críticos do seu curso de
vida (Savickas, 1995, p. 365). Não constitui necessariamente um estado negativo, pode
ser encarada como uma pausa com significado na linha dinâmica da nossa vida, e servir
para definirmos mais conscientemente o que queremos, num futuro próximo, para a
nossa vida.
Ao mesmo tempo, em geral, a decisão de carreira é definida como a competência
que um indivíduo possui para escolher e comprometer-se com uma certa direcção
educacional ou profissional (Osipow, Carney & Barak, 1976).
Um outro sentido dado à decisão de carreira é o de identidade vocacional
(Spokane, 1996), ou seja, a clareza acerca dos objectivos, interesses, valores,
habilidades, experiências do indivíduo e competências escolares e profissionais.
Perante estas definições, é comum formular as preocupações e problemas
relacionados com a definição de direção, objetivos, escolhas de carreira e identidade
vocacional, como problemas de (in)decisão.
A indecisão de carreira pode ser determinada por múltiplos fatores agregados.
Apesar disso, pode haver tendência (a evitar) para considerar a indecisão um fenómeno
que se manifesta de modo semelhante em pessoas que estejam perante o mesmo tipo
de decisão ou transição.
Estamos a referir decisões ou transições, como por exemplo: (a) escolha de uma
via de estudos no 9ºano ou 12º ano; (b) escolha de uma saída em mobilidade; (c)
escolha de um estágio profissional, à saída de uma licenciatura; (d) escolha e procura

69
de um emprego, enquanto estudante; (e) escolha e procura de um emprego à saída de
um mestrado ou doutoramento, ou em outra fase da carreira; requalificação profissional,
após o primeiro emprego ou em fase intermédia da carreira; transformação de um hobby
num autoemprego; (f) retoma de estudos em fase adiantada da carreira; (g) interrupção
temporária da vida profissional; aceitação de um cargo ou posição de maior ou menor
responsabilidade; (h) reconversão profissional; (i) plano de conciliação da vida
escolar/profissional e familiar; (j) prosseguimento ou interrupção de um sentido de
vocação (missão); (k) emprego em part-time na reforma, desemprego involuntário, entre
outros.
Contudo, é importante ter em consideração as origens e fontes de indecisão de
carreira de cada pessoa. A ansiedade, o locus de controlo e a identidade, bem como
dificuldades e barreiras percebidas e/ou já experimentadas na tomada de decisão
(autoeficácia de tomada de decisão), além de diferenças culturais, estão entre as
causas principais de indecisão de carreira.
Em geral, as pessoas com indecisão de carreira evidenciam várias destas
causas. No que respeita às dificuldades na tomada de decisão, estas podem incluir:

Antes do início do processo

1. Falta de prontidão para tomar decisões

(a)falta de motivação para se envolver no processo


(b)indecisão generalizada (dificuldade em decidir em várias ou todas as áreas da vida
(c) crenças disfuncionais sobre a tomada de decisão de carreira (ex. “Só conseguirei
alcançar a verdadeira felicidade se descobrir e escolher a carreira certa para mim”)

70
Durante o Processo de Decisão

2. Falta de Informação
(a) Falta de Informação acerca do Self
(b) Falta de Informação acerca das Ocupações
(c) Falta de Informação acerca de fontes adicionais de informação

2.2. Informação Inconsistente


(a) Informação pouco fidedigna
(b) Conflitos Internos (ex., desejar uma opção pouco consistente com a
sua história escolar e identidade vocacional)
(c) Conflitos externos (ex., desejar uma opção que contraria as
expectativas de outros significativos).

Estas dificuldades relacionam-se, por sua vez, com seis barreiras frequentemente
percebidas, que podem influenciar de modo singular ou agregado, a tomada de
decisões de carreira. São elas:
(a) Perfis de interesses indiferenciados, elevados ou baixos
(b) Baixa autoeficácia na tomada de decisão e coping de carreira e
baixa autoeficácia em relação às opções de carreira ou limitações
reais de habilidade
(c) Expectativas de resultado negativas, ou irrealistas
(d) Problemas na articulação de metas (e.g., em integrar duas metas,
dificuldade em desviar-se de objetivos pré-definidos)
(e) Presença de barreiras externas (e.g., custos de um curso,
necessidade de deslocação do local de residência)
(f) Ausência de apoios sociais à sua carreira preferida (e.g.,
comentários negativos dos amigos e família, falta de apoio
financeiro, falta de informação).

71
É importante conhecer e atender, na intervenção psicológica, às categorias de
dificuldade, à sua gravidade e à consciência que o indivíduo tem das suas dificuldades e
barreiras percebidas.
Note-se que o comportamento de evitamento também pode explicar algumas
situações de indecisão de carreira: certas pessoas evitam comprometer-se com uma
escolha porque a ideia de trabalhar não os atrai (o trabalho não é a área mais valorizada
da vida) ou porque têm medo de se comprometer com uma opção e falhar.
De evidenciar que indivíduos muito envolvidos e capazes intelectualmente, estão
também entre aqueles que a investigação indica poderem valorizar pouco o
trabalho/profissão, em comparação com outras áreas da vida (estudo, família, lazer,
cidadania). Isto é, a saliência do trabalho na vida de uma pessoa não depende das suas
capacidades ou interesses intelectuais. Além disso, o perfeccionismo, uma forte
consciência de si e medo elevado do compromisso, surgem associados a estes
contextos de indecisão.
Convém, assim, notar aos nossos utentes que construir uma carreira na era
digital e do conhecimento, significa não tanto ou menos estabelecer um compromisso
para a vida, com um empregador e com um emprego, mas sobretudo ou mais, a
capacidade para transitar e comprometer-se por diversas vezes, e até, em simultâneo,
com diferentes escolhas, empregadores e empregos.
Não esqueçamos, também, que a indecisão de carreira pode ser normativa e
fazer parte do próprio processo de tomada de decisão.
Por exemplo, se num processo de tomada de decisão específico,
desenvolvermos, como é desejável, uma exploração ampla, seguida de exploração
aprofundada, de opções desejadas e alternativas, pesando prós e contras, é natural que
possamos não estar ainda profundamente comprometidos, nessa fase do processo de
decisão, com uma escolha.
Isto é, a indecisão pode ser uma contrapartida esperada da exploração de
carreira, antecedendo a fase de compromisso mais firme com uma opção e com um
conjunto de alternativas equivalentes.

72
Por outro lado, se pensarmos em termos do nosso próprio curso de vida e de
desenvolvimento de carreira, é esperado que durante a adolescência e início da vida
adulta, as pessoas explorem diferentes opções e as experimentem, antes mesmo de se
comprometerem mais definitivamente com uma direção mais fixa da sua carreira ou com
um estilo de vida mais definitivo. Isto é, espera-se que os jovens e jovens adultos
revejam mais do que uma vez as suas escolhas e reorientem a sua carreira com
frequência.
A verdade é que, também, perante as características do mundo social e do
mercado de trabalho atuais, a reorientação mais frequente da carreira pode ser até um
modo bastante adaptativo, ao longo de toda a vida, de enfrentar e avançar perante os
desafios e oportunidades existentes.
Abordagem mista: uma abordagem estratégica (da realidade para os objetivos, e
mais centrada no presente) e simultaneamente planeada (dos objetivos para a
realidade, mais orientada para o futuro) da carreira, pode ser então considerado um
modo eficaz para lidar com os novos contextos de trabalho, ao longo da vida.
Assim, num atendimento, teremos que prestar atenção ao momento da vida, ao
tipo de decisão, à fase do processo decisório em que a pessoa se encontra (ex.,
definição do problema, identificação e exploração de opções, avaliação de prós e
contras, hierarquização de alternativas, comprometimento e plano de ação) e às
dificuldades e barreiras específicas que estão na base da indecisão de carreira de um
indivíduo, para poder saber melhor como ajudá-lo/a.
Em termos muito sumários, a intervenção psicológica pontual pode focar-se em
três variáveis-chave, favoráveis ao avanço na tomada de decisões de carreira: a
autoeficácia na tomada de decisão, as expectativas de resultados com a ação decisória,
e os objetivos de carreira mais relevantes.
Autoeficácia na tomada de decisão: as crenças sobre a confiança pessoal
para resolver dilemas e a indecisão de carreira - isto é, acreditar que se está capaz de
ultrapassar esta fase de indecisão e escolher um curso de ação - influenciam o modo
como os indivíduos iniciam ações e respondem a dificuldades e barreiras que os
impedem de avançar.

73
Por outro lado, as expectativas quanto aos resultados dos seus comportamentos
decisórios - exploração, avaliação, comprometimento - são modeladas por fontes de
informação ou experiências prévias de aprendizagem (decisões anteriores), pelos
resultados obtidos nessas experiências e pelo apoio, feedback e reforço social
recebidos e/ou solicitados.
Finalmente, os objetivos de carreira podem relacionar-se com o domínio das
atividades/ocupações, isto é, interesses que o indivíduo pretende experimentar ou
concretizar (e.g., realizar um mestrado na área das Ciências Jurídicas); ou, também,
serem objetivos de realização (e. g., atingir um determinado nível de mestria). Os
objetivos dependem muito do conhecimento (quantidade e qualidade) que a pessoa
possui sobre as suas opções, dos resultados que a pessoa pretende alcançar com as
mesmas, e das crenças de capacidade ou competência pessoal para as realizar.

Sintetizando: Ajudar os indivíduos a tomar consciência e a identificar resultados


e sucessos passados, e estimular o alcance de pequenos objetivos realistas no
presente, pode favorecer a autoeficácia na tomada de decisão, e esta promover o
comportamento de escolha, e a persistência e sucesso na resolução da sua situação.
Além disso, quando os clientes pretendem escolher uma opção incongruente
com os seus interesses e competências, devem analisar com cuidado que tipos de
apoio social poderão obter no contexto dessa opção, pois poderão levantar-se mais
questões de adaptação, quando entrarem no novo ambiente.
Devem também ser ajudados a considerar a sua motivação e empenho para
flexibilizar atitudes face ao novo ambiente, e procurar conhecê-lo, adotar uma atitude de
abertura e envolvimento, e estar disponíveis para alguma atualização, e para ajustes e
compromissos pessoais mais variáveis.
Outro aspeto a ter em conta é o papel do acaso, ou sorte, na carreira. Apesar das
situações não planeadas, devidas à sorte ou acaso, puderem ter um papel importante
na carreira, transformando-se em oportunidades - em clientes indecisos, pode existir o
perigo de interpretarem esta ideia como uma desculpa para não assumirem
responsabilidade pelas suas decisões.

74
Pelo contrário, as pessoas que adotam uma abordagem de “acaso planeado” com
sucesso, estão abertas a mudar os seus planos e objetivos iniciais, mas correm riscos
minimamente ponderados, trabalham arduamente para ultrapassar obstáculos, e
envolvem-se ativamente no prosseguimento dos seus interesses (Mitchell et al., 1999, p.
123).
Caso o atendimento de crise não possibilite condições para o aprofundamento e
abordagem destas questões, o utente da linha SOS COVID-19 pode ser reencaminhado
para o atendimento psicológico de carreira mais intensivo, na APsi-UMinho, onde
poderá receber uma resposta mais cabal às suas necessidades de intervenção.

75
Dificuldade na gestão de papéis de vida

Redesenhar a vida em tempo de Pandemia - relação entre papéis de


vida

A gestão das tarefas e obrigações do trabalho e das restantes esferas da vida,


garantindo o bem-estar físico e psicológico dos indivíduos, é um dos desafios mais
proeminentes da construção da carreira na atualidade.
Se este desafio faz parte integrante de muitos pedidos de aconselhamento de
carreira, normalmente, ele implica uma ação deliberada das pessoas que têm controle
sobre a saliência e dedicação atribuídas a cada papel de vida, ao longo das suas
trajetórias.
Contudo, em algumas circunstâncias, como é o caso da que vivemos devido à
Pandemia Covid-19, este planeamento é muito afetado e moldado pelos contextos
sociais, históricos e políticos e pelas respetivas oportunidades de atuação acessíveis às
pessoas.
Na atual Pandemia COVID-19, os desafios ao nível da relação de papéis de vida,
colocam-se a vários níveis, começando pelo facto de constituir uma realidade nova e
inesperada, para a qual as pessoas não conseguiram precaver-se e ensaiar novas
organizações da carreira.
Subitamente, através do confinamento imposto, muitas famílias vêem-se
assoberbadas na conciliação de tarefas e agendas, na gestão de compromissos
pessoais e profissionais, na disponibilidade para a prestação de atenção e afeto devido
aos seus filhos, entre outras responsabilidades de cuidado a outros e a si.
Nesta mudança abrupta do quotidiano, as casas ganham mais vida e atividade,
tornando-se palcos de múltiplos cenários ou teatros de vida que decorrem em
simultâneo. Nestes palcos, as emoções e reações podem ser variadas, mas em comum,
todos eles implicam competências aprimoradas de gestão e relação entre papéis de
vida.

76
O conhecimento das conceções e dados da investigação sobre estas questões
podem ajudar a identificar as dificuldades principais dos utentes da Linha de Apoio
Psicológico SOS COVID-19 e, também, apoiar a decisão dos psicólogos de
encaminharem os utentes para serviços de atendimento mais intensivo, e de
continuidade.
Na sua teoria de desenvolvimento de carreira, Super (1957) foi dos primeiros a
enfatizar a implementação do autoconceito através da combinação entre vários papéis
de vida. Cada papel é experienciado em diferentes cenários de vida, variando no nível
de participação, valorização e compromisso. Posteriormente, a relação entre papéis de
vida recebeu atenção de muitos estudos, com as definições mais recentes de carreira a
apelarem para a interligação e/ou permeabilidade entre diferentes esferas e/ou papéis
da vida dos indivíduos (ex. Carreira proteana, Carreira sem fronteiras, âncoras de
carreira).
Estas definições remetem para a importância de um estilo de vida flexível,
marcado por um equilíbrio entre os diversos papéis de vida (e.g., pessoais, familiares,
profissionais e sociais). Para tal, a gestão de fronteiras entre papéis, ou seja, a
capacidade do indivíduo de os balancear e gerir de forma equilibrada, é indicada como
um recurso importante na construção da carreira. Esta estratégia inclui, por um lado, a
manutenção de fronteiras (ex. negociação com os decisores acerca do desempenho em
cada um dos diferentes papéis de vida) e, por outro lado, a transição entre papéis (ex.
esforços para distinguir as fronteiras entre os domínios pessoal e profissional).
A afirmação progressiva destas noções, reforçaram a importância de considerar,
no aconselhamento de carreira, a relações entre papéis e espaços de vida.
Concretamente, na literatura da Psicologia Vocacional, a relação entre papéis de
vida pode ser analisada de uma perspetiva de Conflito, Compensação ou
Complementaridade.
A perspetiva de Conflito centra-se na identificação dos conflitos entre e intra-
papéis. O conflito ocorre quando as exigências e tarefas de um papel interferem com a
realização das exigências e tarefas de outro papel também desejado pela pessoa.

77
Para Greenhaus e Beutell (1985), os papéis podem entrar em conflito de três
formas distintas: conflito baseado no tempo (quando não podemos estar em dois
lugares ao mesmo tempo), conflito baseado no stress (quando o stress provocado por
um contexto afeta o desempenho no outro) e conflito baseado no comportamento
(quando os comportamentos exigidos por um contexto não são adequados ao outro).
Por outro lado, a literatura também indica três diferentes mecanismos de vivência
do conflito entre papéis: a segmentação, a compensação e o spillover
(transbordamento).
Na segmentação, é necessário um esforço ativo para manter separado o nosso
envolvimento em dois ou mais papéis de vida, de forma a evitar conflitos entre eles.
Na compensação, as pessoas tendem a fazer um investimento desequilibrado
entre papéis, de modo a suprir as lacunas (emocionais ou materiais) num domínio
através, do envolvimento no outro. Por fim, no Spillover ou transbordamento, a pessoa
envolve-se em vários papéis em simultâneo, e as vivências num domínio afetam as
vivências no outro, aumentando as consequências negativas do conflito.
Relativamente aos consequentes desta sobrecarga de papéis, as questões mais
referidas são: a ansiedade, a fadiga, o burnout, a depressão, o stress emocional e
psicológico, a diminuição da satisfação com a família e com o trabalho, o absentismo, a
diminuição do comprometimento organizacional e a vontade de desistir.
A perspetiva de Compensação (ou spillover positivo) foca-se na descrição dos
ganhos que a participação num papel tem sobre o outro papel de vida. Esta perspetiva
permite identificar antecedentes e consequentes das várias formas que a relação entre
papéis pode assumir.
Por exemplo, foram identificadas algumas características do trabalho que podem
promover a facilitação família-trabalho, como a autonomia, o poder de decisão e o
controlo. O apoio de supervisores e colegas, o apoio da família e as políticas
organizacionais também são fatores ambientais apontados.
Por fim, a perspetiva de Complementaridade, dedica-se a perceber e a avaliar o
potencial conflito entre papéis, e a desenvolver diferentes recursos e estratégias para
melhorar a integração entre os diferentes papéis de vida da pessoa. Requer a resolução

78
ou gestão dos conflitos e a obtenção de ganhos e recompensas através do uso de
estratégias individuais e coletivas.
As competências de gestão de papéis de vida incluem comportamentos, hábitos e
atitudes de reflexão e de planeamento. O desenvolvimento destas competências
permite-nos diferenciar papéis que vamos assumindo, e identificar quais são os mais
salientes e que definem melhor a nossa identidade, em cada fase da carreira.
Usar estas competências facilita, por sua vez, os processos de tomada de
decisão e de construção de carreira, traduzindo-se em percursos de carreira mais
pautados por equilíbrio e bem-estar.
A situação de Pandemia COVID-19 coloca desafios acrescidos, impondo o
redesenho da relação entre papéis e espaços de vida, que podem afetar este equilíbrio
e bem-estar. Por outro lado, constitui também uma oportunidade ímpar de reflexão e
tomada de consciência sobre a funcionalidade da relação entre papéis na fase pré-
COVID-19. Isto pode ativar processos de construção/reconstrução de carreira
significativos, que podem beneficiar de apoio.

De seguida, consideram-se algumas indicações que podem apoiar a gestão de


papéis de vida em crise - no contexto particular de Pandemia COVID-19

1. Estabelecer formas de trabalho compatíveis com exigências


pessoais e familiares

Este aspeto pode suscitar diferentes níveis de preocupação, em função da


natureza da atividade profissional da pessoa. Em alguns casos, pode exigir, por exemplo,
assertividade na negociação das condições de trabalho, com os empregadores. Noutros,
pode exigir a resolução de um dilema (a pessoa pode ter que optar por uma de duas
situações indesejadas). Nestes casos, é importante apoiar a pessoa na obtenção de
informação fidedigna de modo a ficar habilitada a expor argumentos e necessidades, e a
garantir os seus direitos. Também se pode apoiar a exploração de alternativas e a

79
avaliação de cada uma das soluções (vantagens e desvantagens), reforçando a eficácia
e confiança pessoal durante o processo de tomada de decisão.

2. Identificar e produzir insight sobre a relação disfuncional entre


papéis

Pode ser importante ajudar a identificar e a clarificar quais são os aspectos da


relação entre papéis que estão a afectar o bem-estar. Por exemplo, perceber se se trata
de uma situação de conflito e em que é que esta se baseia (tempo, stress ou
comportamento), ou que mecanismos estão na base desta relação disfuncional entre
papéis (segmentação, compensação ou spillover negativo). Os problemas podem advir
da dificuldade em estabelecer limites entre papéis (ex., o cuidado aos filhos não permitir
concentrar e cumprir prazos de tarefas profissionais) ou de uma relação de compensação
(ex., o forte envolvimento a nível comunitário impede dedicar a atenção que os filhos
estão a precisar). Ajudar a pessoa a identificar estas fontes de mal-estar e a construir um
discurso sobre as mesmas, pode permitir-lhe desenvolver estratégias de intervenção que
permitam restabelecer o equilíbrio entre papéis.

3. Fomentar a organização e o planeamento

As situações de isolamento ou de confinamento remetem inevitavelmente para


uma reorganização do quotidiano familiar de todos. Em particular, em famílias com
crianças em idade escolar, impõe-se a necessidade de equilibrar os compromissos
escolares das crianças, atividades de lazer e, muitas vezes, a atividade profissional dos
pais (não só dos que estão em teletrabalho, como dos que estão em regime de turnos ou
rotatividade); e conjugá-los com os momentos em família e as atividades de foro
doméstico.
O desafio de conciliação de múltiplas tarefas é complexo, daí que a
implementação de rotinas poderá ser essencial. A elaboração de uma rotina familiar
semanal constitui uma atividade que convida à cooperação de todos na organização dos
momentos do dia-a-dia. Esta rotina deve configurar-se no preenchimento de um plano

80
contemplativo de períodos de tempo, relativos a aulas online, ao estudo, momentos de
lazer, atividade física, atividade em família, refeições, momentos de descanso, contactos
com familiares e amigos, horas para deitar e acordar e outras atividades/tarefas que as
famílias considerarem necessárias. Neste processo, é fundamental explicitar as
características dos papéis e as responsabilidades de todos na família. Esta comunicação
aberta pode garantir, por exemplo, uma adequada partilha de recursos físicos (exs.
espaços, dispositivos eletrónicos, gestão do ruído) e evitar conflitos desnecessários, por
sobreposição dos tempos de cada um.

4. Trabalhar as fronteiras entre papéis de vida

Nesta situação de Pandemia, as tecnologias permitem que muitas atividades


profissionais e de lazer continuem ativas, o que implica um esforço de adaptação à nova
organização de papéis e flexibilidade na forma como encaram as fronteiras entre eles.
Por vezes, normalizar e aceitar esta nova definição de fronteiras é importante para
promover a acomodação a novas formas de funcionamento. Ainda assim, algumas
estratégias podem ajudar a estabelecer limites, como a delimitação dos espaços em
casa, a gestão de tempos e horários dedicadas a cada papel, bem como, a escolha do
que vestir ou usar em cada um destes tempos. Estes limites podem mesmo ter sinais
claros e facilmente identificados por todos. Por exemplo, o local onde a mãe costuma
trabalhar pode ter um cartaz a dizer “O gabinete da Mãe”, o local de estudo do filho pode
ter um cartaz “A escola do João”.

5. Explorar apoio e recursos sociais e comunitários, aceitar ajuda


e distribuir tarefas

A dificuldade em responder às exigências de vários papéis pode sentir-se de forma


incapacitante quando estamos limitados nos recursos ou capacidade de resposta. A
incerteza quanto às questões laborais e educacionais dos filhos, e profissionais da
pessoa, também podem assumir um peso significativo. É, pois, importante proporcionar
recursos de exploração e suporte comunitário e legal que apoiem as pessoas nos seus

81
direitos. Promover a agência e confiança no processo de exploração e interação social,
exploração de redes sociais de apoio (exs. vizinhos, grupos de pais, amigos, etc..) e
aceitação dessa ajuda são aspetos fundamentais na diminuição da carga associada às
exigências de vários papéis. De igual modo, a negociação e divisão de tarefas na família
é fundamental. Esta pode ser uma ótima altura para fomentar autonomia nos mais novos,
apelando para a interajuda e introduzindo-os em algumas atividades domésticas por
exemplo.

6. Normalizar, reforçar e instalar a confiança e esperança

A incerteza, a exigência dos desafios e dificuldade para estar em todas as frentes,


ao mesmo tempo, podem manifestar-se em ansiedade, angústia, medo, preocupação,
tristeza, incerteza, falta de esperança, solidão, advindos normalmente da situação de
isolamento ou mesmo da exposição a trabalhos de risco de contágio. Estes sentimentos
e reações devem ser normalizados. É crucial validar os esforços das pessoas para
regular os seus comportamentos, aliviando-lhes o peso e tendência para se
responsabilizar em excesso pelo curso dos acontecimentos. Esta é uma situação
temporária em que a ação de cada um contribui para ajudar no combate à Pandemia,
tendo em vista o bem-estar coletivo. Neste sentido, há que reforçar a esperança, manter
expectativas positivas, com a convicção de que seremos capazes de ultrapassar esta
adversidade e teremos tempo para repor o que não conseguirmos fazer devido ao
confinamento, ou luta pela recuperação.

7. Definir objetivos e regular as expectativas

Promover a leitura da situação excecional em que nos encontramos é importante


para definir objetivos durante este período de vida transitório. Para clarificar estes
aspetos, podemos ajudar a pessoa a listar os principais papéis de vida que desempenha
nesta fase (ex. advogada, mãe, filha, esposa, dirigente associativa, dona de casa),
ajudando-a a perceber os objetivos que pretende atingir em cada um deles e, depois,

82
comparando-os com os objetivos que teria se não estivesse a viver a situação de
Pandemia. O objetivo é aumentar a consciência acerca das limitações que a situação
impõe a todos, e flexibilizar as ações em torno do que é possível, dadas as
circunstâncias. Na definição destes objetivos para tempo de Pandemia, a qualidade das
relações interpessoais na vida doméstica e familiar devem ser contempladas. Também,
refletir sobre as atividades prazerosas em alguns dos papéis (ex. cônjuge, irmã, filha,
amiga) e incluir pelo menos uma por dia, pode ser recomendado. Os objetivos podem ser
definidos, tendo em consideração, tanto o número de papéis a envolver-se, como o
conteúdo ou resposta a dar em cada um dos papéis.

8. Apoiar a reflexão sobre o desenho da vida futura

O sentimento de correria e assoberbamento de atividades assola muitas vidas e


famílias. Os tempos das famílias são vividos num infindável tumulto de atividades e
interações com os outros e onde o tempo para se encontrarem nem sempre é o ideal ou
desejado. A situação Pandémica devolveu esse tempo às famílias e às pessoas que se
viram “obrigadas” a priorizar o essencial e a escolher como gastar o tempo com elas
mesmas. Esta redescoberta de si pode suscitar alguma confusão, ou até receio, em
termos de como se organizar pós-pandemia e voltar às rotinas prévias.
Nestes casos, pode ser importante avaliar o desejo de mudança da pessoa,
normalizá-lo e mostrar-lhe recursos que pode dispor para reorganizar a sua perspetiva de
vida e assumir uma diferente conciliação de papéis. A intervenção em crise não está
vocacionada para trabalhar os processos inerentes a essa reconstrução de si ou
reorientação de objetivos de vida, mas deve validar este desejo e instalar a esperança.
Deve ser indicado que as competências de gestão de papéis de vida, como qualquer
outra competência pode ser desenvolvida e aperfeiçoada ao longo do tempo. Para tal, é
fundamental investir na exploração das tarefas e características de diferentes papéis de
vida, ajudando a desenvolver aspetos como a gestão de tempo, a tomada de decisão,
saber lidar com as consequências das suas escolhas, estimulando a procura de ajuda e
estratégias para resolver situações de conflito. Frequentar programas de aconselhamento

83
de carreira, com ajuda especializada, pode ser um recurso importante na promoção
destas competências, mudanças, e manutenção das mesmas no tempo.
Estas intervenções, em geral, implicam uma avaliação das dificuldades, e a
necessidade de promover mudanças comportamentais para resolver situações de conflito
intra ou inter papéis por exemplo.

Sintetizando: Em qualquer altura, mas nesta de Pandemia em particular, conjugar


agendas de forma a corresponder às solicitações das diferentes esferas da nossa vida,
sem que estas colidam, ou sem que os esforços desta conjugação nos levem a estados
de tensão, exige que ativemos competências de gestão de papéis de vida.
Instalar confiança das pessoas, na sua capacidade para lidar com esta situação
transitória, munindo-as de estratégias que lhes permitam minimizar os danos e conflitos
eminentes, torna-se fundamental. Por exemplo, apoiar competências de procura de ajuda
legislativa e/ou na rede social, ou competências que ajudem a lidar com as exigências de
diferentes papéis, com problemas de gestão de tempo e espaços, e com a necessidade
de delimitar fronteiras entre papéis e contextos.
Também pode ser importante, apoiar as pessoas a identificarem aquilo que
querem levar para o desenho das suas vidas pós-pandemia. Estas competências podem
ser trabalhadas, por exemplo, através da reflexão e identificação dos papéis de vida que
mais valorizamos e do foco que vamos dar aos mesmos em diferentes fases da nossa
existência, com base nas aprendizagens que esta experiência anómala e quase
“laboratorial” em que a pandemia nos colocou.
Sobretudo, a vivência desta fase de vida imposta pela Pandemia COVID 19,
implica aceitar que as nossas vidas mudaram e, como tal, teremos que construir
significado do que aconteceu. Neste processo, as limitações impostas pela Pandemia,
apesar das suas vicissitudes, são temporárias. Contudo, o crescimento e aprendizagem
dos indivíduos e das comunidades são vindouras, tendendo a perpetuar-se pelas nossas
vidas e por algumas gerações.

84
O desemprego

Atualmente, as carreiras são entendidas cada vez mais como empreendimentos


mais autodirigidos e impulsionados pelos objetivos e valores dos indivíduos, podendo
incluir projetos de atividade de muito curta, curta e/ou média duração. Esta visão da
carreira instalou-se progressivamente em muitas sociedades, como resultado de um
mercado de trabalho menos estável, globalizado, e que recorre à internet e à tecnologia,
numa variedade de situações.
Este mercado laboral e visão da carreira refletem-se nas necessidades de
desenvolvimento de carreira de pessoas que estão atualmente na iminência ou já sob
condição de desemprego. E que necessidades são essas? Por exemplo, a demonstração
de competências de exploração e de decisão de carreira, de reflexão pessoal sobre as
suas prioridades, de autoavaliação das aprendizagens e competências adquiridas e a
desenvolver, de motivação e comprometimento com novas aprendizagens e
relacionamentos, entre outros aspetos.
Referimo-nos a meta-competências que envolvem aumentar os comportamentos
dirigidos a metas, aprender a sustentar a motivação e o ânimo em relação ao futuro e à
carreira, e mais uma vez, ativar comportamentos de exploração, decisão, planeamento e
projeção no futuro, confiança, e um estilo relacional positivo e cooperativo. Isto é,
competências socio emocionais e de carreira, independentemente do domínio de
interesse vocacional ou de atividade.
Estas competências podem ser trabalhadas nas intervenções de carreira mais
preventivas para desempregados, como as oficinas ou seminários de gestão pessoal da
carreira. Contudo, numa situação de desemprego involuntário, por exemplo, no contexto
da atual pandemia COVID-19, as pessoas podem sentir-se muito ansiosas, impotentes, e
sem saber bem o que fazer, que apoios usar, ou que direção dar à sua vida, e como
resolver os problemas que entretanto se acumulam, por falta de dinheiro.

85
Para além do apoio emocional, a nossa ação pode ajudar a pessoa a mobilizar-se
psicologicamente para a procura de novo emprego, após alguma reflexão sobre a sua
capacidade para resolver este problema, capital social e de trabalho, objetivos de carreira
valorizados, e necessidades de requalificação (ex. Usar os princípios e técnicas da
entrevista motivacional). A requalificação, sobretudo no que respeita ao uso do
computador, internet e outras ferramentas tecnológicas, é uma necessidade central dos
nossos trabalhadores e pessoas em desemprego, em especial, para aqueles que
possuem qualificações de nível intermédio (ex. correspondentes ao 12º ano) e trabalham
na região norte do país (CIP, 2019).
A investigação sobre o desemprego, com desempregados, é muito escassa. Os
resultados desta linha de estudo indicam que o desemprego associa-se a menor saúde
física e redução de bem-estar, e que o grupo de desempregados não é homogéneo: tanto
a idade, como o nível educacional e a duração do desemprego, contribuem para
diferentes perfis psicossociais. O grau de compromisso com o trabalho e emprego, a
quantidade de experiências psicológicas vividas no desemprego (ex. Recusas não
fundamentadas), e os recursos psicológicos da pessoa (competências de procura de
emprego), são fatores de diferenciação destes perfis.
Recomendam-se as intervenções em situação de crise, destinadas a melhorar a
saúde mental e bem-estar dos indivíduos e a predispor para a procura de emprego e
participação em intervenções de aconselhamento de carreira mais intensivas, que
aumentem a prontidão e a empregabilidade sustentável dos desempregados.
A investigação também indica que experiências de observação de desemprego em
familiares ou colegas mais velhos, da parte de universitários, se relacionam
positivamente com níveis de depressão, ansiedade e stress, e com níveis mais baixos de
autoestima e suporte social, e menos intenções e pedidos de ajuda formal, no momento
da transição da universidade para o emprego. Estes resultados reforçam a necessidade
de apoios e trabalho com as famílias de desempregados.
Finalmente, reforçando esta evidência, outros resultados indicam que a
autoeficácia de carreira (confiança em si na resolução de problemas de carreira) associa-
se à capacidade efetiva para lidar com a ansiedade, o stress e a depressão resultantes
do desemprego, e com a motivação para procurar emprego, em desempregados.

86
As intervenções que possibilitam o ensaio de comportamentos de carreira e a
oferta de informação e outros recursos de apoio, têm impacto positivos na prontidão e
bem-estar de candidatos a emprego (adultos, jovens, pessoas com deficiência).
Além disso, os doentes com problemas de saúde mental que em geral apresentam
maiores dificuldades de emprego e de reemprego, podem beneficiar de aconselhamento
de carreira que integra no aconselhamento de carreira, contributos do modelo de
colocação individual no emprego, dos serviços de reabilitação profissional.

Modelo de Processo de Intervenção em Crise

O atendimento da Linha SOS Covid-19 procede desde a apresentação e


estabelecimento da relação, passando pela identificação e avaliação de problemas e
dificuldades, bem como de recursos e alternativas, até à definição de um plano realista
de ação imediata e à finalização da sessão.
Em consonância, propõe-se um processo de intervenção no âmbito da carreira,
assente em três fases principais.

87
Fase 3. Finalizar
Fase 1. Iniciar Fase 2. Explorar e
Comprometer

Objetivos Estabelecer a relação de Encerrar a sessão


ajuda fomentando a confiança
Promover Insight sobre o pessoal e esperança face ao
problema, normalizar, futuro.
Perceber o problema e/ou Identificar recursos e
dificuldades possibilidades
Considerar possibilidade de
encaminhamento e/ou
Clarificar expectativas do Mobilizar recursos pessoais e
seguimento
atendimento estratégias de ação imediatas

Proporcionar informação e
apoio emocional

Papel do/a Estabelecer empatia e Sumariar o processo de


Psicólogo/a sintonização com os sentimentos atendimento e objetivos
da pessoa. Recorrer à escuta alcançados
ativa para que a pessoa se sinta Analisar os recursos
aceite, compreendida e apoiada. psicológicos e sociais de Reforçar os progressos
carreira da pessoa, o que já alcançados e uma visão
Sumariar e clarificar as fez para lidar com o problema, positiva face ao futuro
expectativas e ajuda a ser fontes de apoio.
prestada Estabelecer procedimentos de
Clarificar sentimentos e acordo mútuo que permitam o
Identificar o conflitos vividos, seguimento ou
problema/dificuldade ou conflitos proporcionadas novas encaminhamento, quando
que necessitam de ajuda abordagens ao necessário
imediata e os que podem ser problema/dificuldade.
encaminhados para outro
tipo de intervenção Propor alternativas viáveis e
desenvolver uma abordagem
Analisar o problema, focando o centrada na
passado imediato solução
(acontecimentos que conduziram
à situação de crise), presente e Manter uma atitude facilitadora
futuro imediatos. e diretiva para ajudar a
alcançar ações concretas e
com foco no imediato.

Motivar e comprometer a
pessoa com um plano de ação
que responda às dificuldades
no imediato

Promover o controlo e agência


pessoal, bem como o recurso
a diferentes redes de apoio.

88
Referências

I. Feldman, M., & Pentland, B. (2003). Reconceptualizing Organizational


Routines as a Source of Flexibility and Change. Administrative Science
Quarterly, 48(1), 94-118. doi:10.2307/3556620
II. Greenhaus, J. H., & Beutell, N. J. (1985). Sources and conflict between work and
family roles. The Academy of Management Review, 10(1), 76–88.
https://doi.org/10.2307/258214
III. Lent, R. W. (2004). Toward a Unifying Theoretical and Practical Perspective on
Well-Being and Psychosocial Adjustment. Journal of Counseling Psychology,
51(4),
482–509. https://doi.org/10.1037/0022-0167.51.4.482
IV. Mitchell, K.E., Levin, A., & Krumboltz, J. (1999). Planned happenstance.
Constructing unexpected career opportunities. Journal of Counseling and
Development, 77(2), 115-135.
V. Nova School of Business e a Confederação Empresarial de Portugal (2019).
Relatório
“O futuro do trabalho em Portugal - Impactos na Zona Norte”.Porto.
VI. Osipow, S. H., Carney, C. G., & Barak, A. (1976). A scale of educational-vocational
undecidedness: A typological approach. Journal of Vocational Behavior, 9(2), 233–
243. https://doi.org/10.1016/0001-8791(76)90081-6
VII. Savickas, M.L. (1995), Constructivist Counseling for Career Indecision. The Career
Development Quarterly, 43, 363-373.
https://doi.org/10.1002/j.2161-0045.1995.tb00441.x
VIII. Spokane, A. R. (1996). Holland’s theory. In D. Brown & L. Brooks (Eds.), Career
choice and development (3rd edition, pp. 33-74). San Francisco: Jossey-Bass. IX.
Super, D. E. (1957). The psychology of careers. New York: Harper.

89
Intervenção
em Crise

Na Violência - Trauma

Ângela Maia, Marlene Matos, Delfina Fernandes,


Joana Andrade & Marta Sousa
©Associação de Psicologia da Universidade do Minho
APsi-UMinho, Braga, Guimarães
www.apsi.uminho.pt

90
Nota:

1. É muito importante quem atende nesta área seja capaz de:


a. Avaliação do risco;
b. Perceber o que é e como elaborar um plano de segurança
adaptado a cada vítima;
c. Saber reencaminhar para linhas de apoio específicas (e.g. APAV
para apoio jurídico; apoio médico; número da PJ para denunciar).

Áreas de formação:

● Dinâmicas da violência filioparental (compreendendo as diferentes


modalidades em que a mesma se pode traduzir e qual o impacto que
pode ter)
● Dinâmicas familiares adaptativas
● Atendimento às vítimas (procedimentos de atendimento e
acompanhamento)
● Avaliação de risco
● Intervenção em crise

91
Violência Filioparental

Isolamento físico, confinamento e consequências na dinâmica


familiar:

● Maior ocorrência de desentendimentos e conflitos (as famílias estão


confinadas à sua habitação e estão mais tempo em contacto; é mais
provável que se tornem mais irritáveis e frustrados);
● Níveis mais elevados de stress (os vários elementos do agregado têm
de, no mesmo espaço físico, conciliar vários papéis, nomeadamente
papéis domésticos, familiares e profissionais/académicos, o que poderá
culminar num estado de stress ainda mais significativo);
● Maior ocorrência de discussões sobre assuntos de “menor” importância
(ex., discórdia em relação a tarefas domésticas, que aumentam com o
confinamento).
● Reações menos adequadas e até agressivas dos filhos face aos seus
progenitores (resultante da privação que experienciam, quer da interação
com grupo de pares, quer eventualmente por perda de emprego, quer da
participação em outras atividades extracurriculares/extralaborais que
pudessem ter - ex., atividades desportivas, de música, etc.-, e
subsequente necessidade de passarem mais tempo com os pais)

92
Situações que podem dar origem a pedidos:

● Violência física (ex., agressões, empurrões, atirar objetos, etc.);


● Violência verbal (ex., insultos, ameaças, etc.);
● Maus-tratos não-verbais (ex., gestos de ameaça de agressão, destruição
de objetos de valor, etc.).

Resposta ao pedido:

Tipicamente, as vítimas partilham a crença de que a sua função enquanto


progenitores será proteger os filhos. É comum que estes pais se autoculpabilizem pelo
que está a acontecer e tenham dificuldade em definir limites e diferenciar aquilo que é ou
não um comportamento aceitável. Nesse sentido, a resposta aos pedidos de ajuda
devem:

● Validar a experiência e o estado da vítima (ex. emocional, cognitivo);


● Reforçar a sua coragem em procurar ajuda
● Reforçar o disclosure, reforçando à vítima de que esta procura de ajuda
não a colocará em maior risco;
● Diluir crenças de autoculpabilização que possam existir;
● Providenciar indicações acerca de emoções típicas da exposição a estas
situações (ex., sentimentos de humilhação e vergonha, tristeza profunda,
de perda e abandono, etc.);
● Ajudar a enquadrar a situação, explicando que o contexto atual de
isolamento e as mudanças a que o mesmo obriga induzem a um estado
de stress e incerteza considerável e que isso pode repercutir-se nas
dinâmicas familiares, mas não são aceitáveis e é preciso cessá-las;
● Avaliar o risco de vitimação;

93
● Promover a sua segurança, nomeadamente ajudando a perceber certos
sinais de alarme e escalada que possam funcionar como indícios de que
os filhos poderão vir a ter comportamentos abusivos (ex., alterações no
tom de voz ou na expressão corporal, certos indicadores da linguagem,
etc.).
● Sugerir estratégias de autoproteção e coping positivas e adaptativas
(integrando o que já faz);
● Avaliar se existem pessoas da rede informal disponíveis para apoiar a
vítima
● Empoderar as vítimas, ajudando-as a, primeiramente, gerir e pôr termo a
estas situações e, seguidamente, contribuir para que se restabeleçam e
adquiram controlam.
● Encaminhamento para a rede formal se for necessário;

Outros cuidados a ter:

● É importante que a normalização da situação não seja confundida com


uma aceitação e desvalorização das situações de violência e que seja
por isso acompanhada de um reforço de comportamentos assertivos e
para que os comportamentos de violência sejam denunciados e alvo de
intervenção de serviços responsáveis para esse efeito.
● Deve ser elaborado, quando se justifique, um plano de segurança,
prestando informações sobre procedimentos que a vítima deve ter em
caso de alarme (ex., evitar estar em zonas da casa que possam ter
objetos que sirvam como arma para o agressor, identificar
familiares/amigos que tenham condições para, se necessário, abrigar a
vítima sem que a saúde da mesma ou de outros seja posta em causa
devido à situação de pandemia, etc.).

94
● Uma vez que o plano de segurança deve ser ajustado a cada caso
específico, é importante que o mesmo seja feito tendo em conta a
situação particular da vítima e o nível de risco da mesma (cf. uma
avaliação prévia desse risco).

95
Pessoas idosas: isolamento, perceção de perigo e
risco de maltrato ou abuso

Consequências do isolamento nas pessoas idosas:

Aumento da solidão; maior fragilidade; segregação dos mais velhos (mesmo que
seja com a intenção de os proteger),; maior probabilidade de pioraram as patologias que
os tornam mais vulneráveis (e.g., depressão, demências do tipo Alzheimer,…). Em
situação de confinamento social e crise social os idosos podem não estar sozinhos, mas
perceberem o perigo das “entradas e saídas” dos mais novos, ou ter elementos da família
financeiramente dependentes deles, com um potencial de exploração financeira.

Violência contra pessoas idosas (OMS): A violência contra pessoas idosas é um


ato (único ou repetido) ou omissão que lhe causa dano ou aflição e que se produz em
qualquer relação na qual exista expectativa de confiança. Pode ser enquadrada no crime
de violência doméstica do código penal – Art.º 152, alínea D) – sendo necessária a
coabitação. Neste caso, o crime de VD é público e qualquer pessoa que saiba ou
suspeite de tais comportamentos abusivos tem a obrigação de denunciar. Caso não
exista coabitação, podemos estar perante um crime contra a integridade física, injúrias.

96
Tipos de violência contra pessoas idosas

● Violência física:
○ Qualquer comportamento que implique agressão física, por
exemplo, lesões sem explicação como feridas, nódoas negras,
fraturas ósseas, lentes ou armações de óculos partidas; excesso de
medicamentos ou incapacidade para aderir à terapêutica;

● Violência psicológica/verbal:
○ Provocar intencionalmente dor, angústia através de humilhações,
insultos, ameaças, intimidação, isolamento social, proibição de
atividades;

● Violência sexual:
○ Violência na qual o agressor abusa do poder que tem sobre a
vítima para obter gratificação sexual, sem o seu consentimento,
sendo induzida ou obrigada a práticas sexuais com ou sem
violência;
○ Ex., hemorragias genitais ou anais sem explicação; roupa interior
manchada ou rasgada, etc.

● Violência económico-financeira:
○ Qualquer prática que visa a apropriação ilícita do património de
uma pessoa idosa e pode ser realizada por familiares, profissionais
e instituições;
○ Ex., obrigar a pessoa idosa a assinar uma procuração, a alterar o
testamento ou a fazer doações a instituições; tomar decisões sobre
o património de uma pessoa sem a sua autorização, etc.

97
● Negligência:
○ Ex., negligenciar a hidratação da pessoa idosa, a boa nutrição, as
condições da habitação e higiene pessoal.

● Abandono (saber distinguir do abandono por um bom motivo ou um


abandono como tipo de crime):
○ Ex., abandonar as pessoas acamadas, nas ruas ou numa
instituição pública.
○ Para ser considerado abandono é necessário abandonar a pessoa
idosa para uma situação pior, exposta a mais perigos.

Pedidos de ajuda que podem surgir:

● Para sair da situação abusiva;


● Para lidar com os comportamentos abusivos;
● Para lidar com a ansiedade associada à prestação de cuidados à pessoa
idosa;
● Para pedir apoio jurídico (ex., etapas dos processos judiciais, direitos
enquanto vítima, etc.);
● Para pedir apoio social ao nível das necessidades básicas como
alimentação, saúde e alimentação.
● (As estratégias de intervenção devem ser adaptadas a cada pedido de
ajuda)

98
Indicadores da vitimação de pessoas idosas

● Comportamentos da pessoa idosa vítima:


○ Parece ter medo da pessoa que lhe presta cuidados;
○ Não quer responder quando é questionada;
○ Manifesta sentimentos de solidão e autoestima baixa;
○ Refere que as pessoas que lhe prestam cuidados “têm mau feitio”.
○ Insónias;

Estratégias de intervenção:

● Atitude empática;
● Valorizar o pedido de ajuda;
● Avaliar o grau de sofrimento emocional da vítima;
● Priorizar a estratégia mais urgente para a vítima;
● Respeitar as necessidades da pessoa idosa e não o que achamos que é
melhor para ela;
● Sensibilizar para a situação-crime;
● Informar de que é vítima de crime e de que possui direitos;
● Informar sobre as etapas de determinados processos judiciais;
● Construir e analisar as várias alternativas para o problema que a levou a
pedir ajuda, promovendo uma decisão informada;
● Avaliar a situação de risco e elaborar um plano de segurança adequado;
● Minimizar o sofrimento da vítima (ex., reconhecer as suas competências;
reconhecer a sua estrutura de suporte);
● Considerar a Possibilidade de contactar um familiar ou pessoa próxima
da pessoa idosa;

99
● Sensibilizar para a importância de um apoio complementar, se for
necessário (ex., Psicologia; Segurança Social – pensão social; Saúde –
apoio económico para despesas com medicamentos, bonificação do
pagamento de taxas moderadoras no âmbito do SNS);
● Perceber as necessidades sociais da vítima e explorar com ela os
recursos mais adequados que poderá ativar.

100
Violência na Intimidade

Informação pertinente para quem atende

● Conhecer o fenómeno e a sua criminalização: A violência na


intimidade é enquadrada no crime de violência doméstica do código
penal português – Art.º 152, alínea a).

● Conhecer os diferentes tipos de Violência na intimidade e os


comportamentos típicos associados a cada um deles:
○ Emocional: qualquer comportamento por parte do/a agressor/a que
tenha como objetivo fazer a vítima sentir-se inútil, despertando
medo. Este tipo de violência engloba alguns comportamentos
específicos como insultar; humilhações constantes (por exemplo,
na presença de amigos, familiares e/ou em público); intimidação
(por exemplo, destruição de coisas), ameaçar os filhos ou causar
danos.
○ Física: qualquer comportamento que implique agressão física, por
exemplo esmurrar, pontapear, estrangular e queimar.
○ Sexual: qualquer comportamento em que o/a agressor/a força a
vítima a ter atos sexuais que não deseja. Alguns exemplos deste
tipo de violência são: pressionar ou forçar a vítima a ter relações
sexuais, quando este não quer; pressionar, forçar ou tentar que a
vítima mantenha relações sexuais desprotegidas ou forçar o outro a
ter relações com outras pessoas.
○ Financeira: qualquer comportamento em que o/a agressor/a
pretenda controlar o dinheiro da vítima, sem que esta o deseje.
Este tipo de violência pode englobar comportamentos como:

101
controlar o ordenado da vítima; recusar-se a dar dinheiro à vítima,
controlando qualquer gasto que tenha ou ameaçando retirar o
apoio financeiro como forma de controlo.
○ A W.H.O define ainda o “Controlo de Comportamentos” como um
dos tipos de violência. Neste tipo de violência inserem-se
comportamentos como isolar a vítima da família e amigos; controlar
os seus movimentos e restringir o acesso desta a recursos
financeiros, emprego, educação ou assistência médica.

● Conhecer o Ciclo da Violência na Intimidade - A violência funciona


como um sistema circular, onde existem 3 fases: fase de aumento da
tensão (as tensões, injúrias, humilhações, ameaças do/a agressor/a
criam na vítima um sentimento de perigo eminente), fase de ataque
violento (o/a agressor/a maltrata a vítima, pelo que estes
comportamentos tendem a escalar) e fase lua-de-mel (o/a agressor/a
desculpa-se e promete que não vai voltar a ter esses comportamentos).

● Conhecer os fatores que contribuem para a vítima continuar na


relação abusiva:
○ Quando a vítima é do sexo feminino: medo de retaliação;
ausência de apoio económico, familiar e social; preocupação com
os seus filhos; medo de perder a guarda dos filhos, no caso de
existir um divórcio; sentimentos afetuosos para com o agressor e
crença de que ele vai mudar;
○ Quando a vítima é do sexo masculino: medo, vergonha e receio
de ser desacreditado e humilhado por terceiros (familiares, amigos
e até mesmo instituições judiciárias e policiais);
○ Fatores transversais: Não identificar os comportamentos abusivos
como tal; ter receio de ser discriminado/a quando procurar ajuda e
apoio; ter esperança que o/a companheiro/a vai mudar; desejar
continuar a relação, uma vez que existe uma dependência
emocional e a pessoa tem dificuldade em aceitar que o

102
relacionamento não funcionou; não querer deixar a casa, os seus
pertences, os filhos ou animais de estimação; recear a reação do/a
agressor/a se deixar a casa; sentir vergonha de que as outras
pessoas saibam que é vítima de violência doméstica; não se sentir
capaz de enfrentar a rutura e não querer perder o seu estatuto
social ou económico.

● Conhecer as comorbidades associadas: É frequente as vítimas terem


associadas perturbações depressivas; perturbações de stress pós-
traumático, especialmente se tiverem sido vítimas ao longo de vários
anos.

Possíveis pedidos:

Referir que o/a agressor/a escalou nos comportamentos agressivos e tem receio
do que possa acontecer; pedir ajuda para sair do contexto de violência; pedir ajuda para
obter estratégias por forma a lidar com os comportamentos do/a agressor/a, não
pretendendo sair de casa; referir que o/a agressor/a passou a controlar-lhe o dinheiro,
deixando-a sem forma de subsistir caso saia de casa; temer/já ter acontecido que os
comportamentos agressivos atinjam outras pessoas (ex., filhos).

Intervenção:

● Atitude empática;
● Valorizar a autonomia da pessoa e as suas decisões, contudo ajudar a
perceber as vantagens e desvantagens de cada decisão;
● Compreender e valorizar face aos sentimentos que a vítima apresenta.
Mencionar que o processo de decisão pode ser difícil, uma vez que se
encontra num cenário de incertezas e de medos e também muito
fragilizada/o. Atender que o processo de tomada de decisão é difícil,
podendo a vítima desistir rapidamente de tudo o que decidiu;

103
● Informar que está a ser vítima de um crime e que tem direitos;
● Perceber os recursos que a pessoa tem, conhecendo a sua realidade
(nomeadamente, perceber se vive com os filhos);
● Foco no empowerment, ou seja, ajudar a vítima a encontrar as suas
próprias potencialidades de resolução de problemas, reforçando as suas
capacidades e o seu poder de decisão. Um aspeto importante, que pode
servir para iniciar o foco nas capacidades, poderá ser o reforço na
coragem que teve para pedir ajuda;
● Ter sempre em atenção a segurança sobre a vida da pessoa, ajudando-
a a formular um plano de segurança pessoal. Esta questão pode ser útil
se a pessoa quiser sair de casa, uma vez que pode existir perseguição
por parte do/a agressor/a como no caso de a pessoa querer manter
aquela relação. Este plano deve englobar estratégias de prevenção de
ataques (nomeadamente sabendo como os prever, premeditando as
melhores reações/comportamentos a ter no caso de acontecerem), como
de sobrevivência (como se pode defender, para onde pode fugir, o que
deve levar consigo, entre outras). É também importante identificarmos a
sua rede de suporte, nomeadamente quem é que a poderia acolher se
decidisse sair de casa;
● Tanto numa possível situação em que a pessoa decide apresentar
queixa como no caso em que não o pretende, deve ser analisado o grau
de abertura da pessoa para beneficiar de apoio psicológico
especializado, reforçando a sua importância. No caso da pessoa se
mostrar disponível, quem atende deve apresentar soluções.

104
Familiares (Outros Membros)

Informação pertinente para quem atende

A violência interpessoal pode, para além de atingir o/a cônjuge, filhos, idosos,
atingir outros familiares como é o caso, de tios, primos e sobrinhos (maiores de idade).
Não obstante, podemos estar perante diferentes tipos de crimes:

● No caso de o/a agressor/a praticar tais atos contra uma “pessoa


particularmente indefesa, nomeadamente em razão de (…) deficiência,
doença, gravidez ou dependência económica, que com ele coabitam”,
estamos perante um crime de violência doméstica (Artº152, alínea d.);
● No caso de o/a agressor/a praticar tais atos contra outros elementos
familiares que não sejam particularmente vulneráveis e dependentes,
coabitando (ou não), poderão ser enquadrados nos crimes contra a
integridade física (Capítulo III – Crimes contra a integridade física do
Código Penal).

Conhecer os diferentes tipos de violência: A violência entre estes familiares


pode assumir as mesmas formas da violência conjugal e/ou contra idosos.

Pedidos - Estes familiares podem ligar porque:

● Precisam de ajuda no processo de tomada de decisão (ex., estão a


ser pressionados por algum familiar para ir trabalhar, pois caso não
contribuam para as despesas familiares serão colocados fora de casa);

105
● Precisam de ajuda para desenvolver estratégias a fim de lidarem
com situações difíceis/ procuram soluções para sair do contexto
abusivo com algum membro da família (ex., estão a ter muitas
discussões, há ameaças ou violência física), ou porque essa pessoa não
respeita os cuidados aconselhados face ao COVID 19, colocando
pessoas dos grupos de risco em perigo; a pessoa vive com algum
familiar que, anteriormente a toda esta situação, já tinha para consigo
comportamentos agressivos, pelo que tais comportamentos têm sido
mais frequentes e graves).

Intervenção

● Atitude empática;
● Atitude de compreensão e valorização face aos sentimentos que a vítima
apresenta;
● Valorizar a autonomia da pessoa, não a substituindo no processo de
tomada de decisão, contudo ajudá-la a perceber as vantagens e
desvantagens de cada decisão. Neste sentido, urge também a
necessidade de alertar a pessoa para a eventual situação-crime em que
se encontra, providenciando-lhe informações acerca da necessidade de
contactar APAV ou equivalente;
● Providenciar informação acerca dos mecanismos subjacentes ao
comportamento de cada pessoa e à nossa capacidade limitada de
controlar tais comportamentos;
● Providenciar estratégias práticas para fazer face aos comportamentos
abusivos do seu familiar: i) ajudar a pessoa a perceber quando e o que
potencia o surgimento de tais comportamentos, desenvolvendo
estratégias para os evitar e ii) ajudar a pessoa a lidar, de forma eficaz,
com o surgimento de tais comportamentos, para que estes não escalem.
Neste sentido devemos avaliar o risco que a pessoa apresenta, sendo

106
que tais estratégias devem ser consideradas como o seu plano de
segurança;
● Durante o desenvolvimento do plano de segurança, é também útil
perceber que recursos é que a pessoa dispõe para fazer face à situação
(i.e., perceber quem é a sua rede de apoio, quem é que a poderia ajudar
se decidisse sair de casa).

107
Violência no contexto laboral/institucional

A violência no contexto laboral pode dar origem a dois tipos de vítimas:

● As que já se encontravam numa empresa/instituição e começaram a


sofrer algum tipo de violência;
● As desempregadas que são atraídas mediante propostas “aliciantes”,
com salários relativamente elevados e boas condições de trabalho, mas
em que essa não é a realidade e começam a ser vítimas de exploração/
vitimação/ tráfico laboral.

Consequências típicas na vítima:

● Baixa autoestima;
● Angústia;
● Irritabilidade;
● Défice de atenção;
● Perturbações do sono;
● Ansiedade;
● Depressão;
● Alterações o foro psicossomático (e.g., queixas ao nível do sistema
digestivo e nervoso)
● Baixa produtividade e redução do desempenho;

108
Indicadores de situações de exploração laboral:

● Violência física e/ou psicológica (ex., comportamentos com fins de


dominação, exploração e opressão) para com os trabalhadores;
● Controlo do ritmo de trabalho, produtividade e rotatividade forçada de
trabalho, colocando os trabalhadores em situações de risco;
● Restrições de movimento no local de trabalho;
● Trabalhos para pagar uma dívida ou um empréstimo e, dessa forma, o
trabalhador não recebe um salário;
● Excessiva redução do salário que viola o acordo previamente realizado;
● Ameaças visando inibir, coagir ou constranger a pessoa;
● Assédio moral: exposição dos trabalhadores a situações humilhantes e
constrangedoras no exercício das suas funções;
● Assédio ou violência sexual: ações que obrigam uma pessoa a algum
ato sexual que anulem ou limitem a vontade pessoal

Pedidos de ajuda no âmbito:

● No contexto da pandemia, exigir trabalho não remunerado;


● Promessas de boas condições de trabalho que não estão a ser
cumpridas;
● Assédio moral/sexual por colegas de trabalho/chefes (i.e., mobbing);
● Testemunha de cenas de humilhação e atemorização constante no local
de trabalho;
● Medo em denunciar a um chefe algum tipo de comportamento
violento/inadequado por parte de um colega de trabalho;
● Manipulação da atividade profissional por parte dos superiores (por
exemplo, através de imposição de prazos impossíveis de cumprir);
● Ameaça de instauração de processos disciplinares ou de despedimento;

109
Estratégias de intervenção:

● Identificar e diferenciar situações-crime (ex., tráfico de pessoas se o


empregador convenceu a vítima a residir e trabalhar em Portugal;
assédio; violência sexual) das que não se configuram crime;
● Sensibilizar a vítima para a situação-crime e valorizar o pedido de ajuda;
● Avaliar o nível de risco;
● Informar de que está a ser vítima de crime e dos direitos que possui;
● Informar sobre etapas processuais (ex., pode não ser configurado crime,
mas os empregadores podem ser condenados a uma coima; se
considerado crime as etapas para a apresentação de queixa);
● Ajudar a pessoa a lidar com o sofrimento;
● Sensibilizar para a importância de um apoio mais especializado, se for
necessário (ex., Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT);
● Estabelecer planos de segurança adequado a cada pedido de ajuda (ex.,
mudar de itinerários para não ser vítima de perseguição; almoçar/lanchar
acompanhado de um colega de confiança; informar pelo menos outra
pessoa de onde vai e o que vai fazer).

110
Referências

Associação de Apoio à Vítima (2015). Violência Doméstica. Disponível em:


hhttps://apav.pt/apav_v3/images/folhas_informativas/fi_violencia_domestica.pdf
Associação de Apoio à Vítima (2015). Violência Filioparental. Disponível em:
https://apav.pt/apav_v3/images/folhas_informativas/fi_violencia_filioparental.pdf
Kent & Medway (2014). Adolescent Violence to Parents. Disponível em:
http://www.domesticabuseservices.org.uk/Adolescent%20violence%20to%20parents%2
0Feb%202016-1.pdf
Ordem dos Psicólogos Portugueses (2020). Como evitar e resolver conflitos em
situação de isolamento? Disponível em:
https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/covid_19_conflitos_isolamento
.pdf
Ordem dos Psicólogos Portugueses (2020). Isolamento com direitos - Conter o
Covid e a Violência Doméstica. Disponível em
https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/covid_19_violencia_domestica
.pdf
UK Government (2015). Information guide: adolescent to parent violence and
abuse (APVA). Disponível em: www.basw.co.uk/system/files/resources/basw_114152-
3_0.pdf
World Health Organization (2012). Understanding and addressing violence against
women: Intimate partner violence. Disponível em
https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/77432/WHO_RHR_12.36_eng.pd

111
Intervenção
em Crise
Na Saúde Perinatal

Coordenação de Bárbara Figueiredo


©Associação de Psicologia da Universidade do Minho
APsi-UMinho, Braga, Guimarães
www.apsi.uminho.pt

112
“Quando a vida não escolhe tempo para nascer”
(VIDA)

Recomendações do Grupo de Língua Portuguesa da Sociedade Marcé


Internacional para a Saúde Mental Perinatal

A OMS considerou a pandemia COVID-19 uma situação de Emergência de


Saúde Pública e adverte que as grávidas têm maior risco de infeção. A par da ameaça à
saúde em geral, o impacto da pandemia tem também sido reportado ao nível da saúde
mental1, justificando o desenvolvimento urgente de soluções especificas2.
Em resposta à situação de emergência, o grupo de Língua Portuguesa da
Sociedade Marcé Internacional para a Saúde Mental Perinatal
(https://marcesociety.com), desenvolveu e tem vindo a implementar um conjunto de
ações de cariz promocional, preventivo e clínico, enquadradas no programa VIDA,
“quando a vida não escolhe tempo para nascer”. O VIDA visa ajudar os profissionais de
saúde a promover a saúde mental de mães, pais e bebés durante o estado de pandemia
COVID-19, em Portugal, no Brasil, e em outros países de língua portuguesa.
Não obstante, de momento não existam evidências sobre a possibilidade de
infeção do feto na presença de infeção da mãe 3, a literatura é mais do que evidente
quanto (1) ao impacto das epidemias, catástrofes naturais, guerras e outras situações
que põem em risco ou ameaçam a vida, na saúde (mental) sobretudo das mães e pais
no peri-parto, e por consequência na saúde do feto/bebés, conduzindo ao aumento da
incidência, entre outras, de aborto espontâneo e parto prematuro 4, bem como quanto (2)
ao impacto da saúde mental na resolução dos estados de infeção 5. São também
necessárias e importantes todas as ações que possibilitem reduzir o impacto da
restrição dos cuidados e contactos da mãe/pai sinalizados ou confirmados com infeção
pelo coronavírus (SARS-COV-2) ou com a COVID-19, nomeadamente no que se refere

113
à amamentação e à relação com o bebé, imprescindíveis à saúde mental da mãe, do pai
e sobretudo do bebé5.
Neste documento foi dada prioridade a diferentes ações direcionadas à saúde
mental de mães, pais e bebés, nas seguintes condições: (1) mãe/pai sinalizados ou
confirmados com infeção pelo coronavírus (SARS-COV-2) ou com a COVID-19 e (2)
mãe/pai sinalizados com problemas de saúde mental prévios ou relacionados com a
pandemia. Estas ações, com recurso a diversas formas de tecnologia digital, suscetíveis
de serem implementadas em diversos contextos, incluem (1) acompanhamento à
distância por telefone e email e (2) intervenção on-line, na modalidade em grupo ou
modalidade individual.
A presença de qualquer situação que ponha em risco a vida humana ativa um
conjunto de preocupações, sobretudo em mães e pais durante a gravidez e/ou na
prestação de cuidados ao bebé. À dificuldade em lidar com a adversidade associada a
esse tipo de situação, a pandemia acresce um conjunto de restrições que podem ser
necessárias e que obrigam a alterar os cuidados e a relação com o bebé, em particular
na ocorrência de infeção em um ou ambos os pais. Sendo ainda que lidar com a
adversidade e reorganizar práticas parentais durante uma pandemia pode ser
particularmente difícil para os pais, nomeadamente na presença de problemas ou
perturbação mental.
Responder às preocupações e oferecer estratégias para aumentar a sensação de
segurança e controle é um objetivo da intervenção que propomos no sentido de manter
a saúde mental e bem-estar dos pais. Diminuir o isolamento e aumentar o suporte
social, emocional e instrumental é também um objetivo para prevenir a sintomatologia
ansiosa e depressiva dos pais. Ajudar os pais a estabelecer a relação com o bebé (por
exemplo, após o parto) e a tomar decisões no que se refere ao cuidados a ter com o
bebé (por exemplo, a amamentação), no quadro da situação de distanciação específica
em que cada um ou ambos se encontram, é um objetivo também um objetivo. Os
objetivos deste programa incluem ainda identificação e reencaminhamento para
consulta especializada de mães/pais que possam apresentar uma perturbação mental
grave, como uma desorganização psicótica ou ideação suicida.

114
Poderá usar os elementos do programa VIDA da forma que for mais útil e
adequada à situação da mãe e/ou pai e bebé. Ou seja, poderá ser adequado o
programa na sua totalidade ou em apenas algumas partes, para ambos os pais ou para
a mãe ou o pai. Ou então, poderá ser apenas necessário estabelecer e manter o
contacto à distância com a mãe e/ou o pai e o bebé. Nesse caso pode optar por fazer
uso das cartas e dos folhetos ilustrativos disponíveis no final deste documento.
Em qualquer dos casos é oferecido aos profissionais de saúde o
acompanhamento e a supervisão na realização do programa VIDA, em reuniões
semanais, modalidade vídeo conferência, por profissionais de saúde especializados na
área da saúde mental perinatal, do Grupo de Língua Portuguesa da Sociedade Marcé
Internacional para a Saúde Mental Perinatal (contacte:
portuguese.marce.society@psi.uminho.pt).

Bárbara Figueiredo

Presidente

Grupo de Língua Portuguesa da Sociedade Marcé Internacional para a Saúde


Mental Perinatal

115
VIDA na Gravidez

Destinatários:

(1) Mães/pais sinalizados ou confirmados com infeção pelo coronavírus ou


com a COVID19, em quarentena em casa ou em instituição de saúde.
(2) Mãe/pais sinalizados com problemas de saúde mental prévios ou com
problemas relacionados com a pandemia. Nestes casos recomenda-se,
num primeiro momento, a comunicação telefónica e uso dos panfletos,
como medida preventiva, e a monitorização do estado de saúde mental.

Duração:

3 ou 4 sessões de 30 minutos a 45 minutos considerando o estado de saúde (se


sinalizado ou com infeção pelo coronavírus ou com a COVID-19) e o local onde se
encontra (em casa ou em instituição de saúde).

Recomendações:

(1) As estratégias devem ser adaptadas consoante a situação de isolamento


(i.e., se em casa ou em instituição de saúde) e outras condições
específicas da mãe/pai.
(2) Consoante as condições específicas da mãe/pai, considere a
possibilidade de realizar as estratégias para cada objetivo previstas para
uma sessão numa mesma ou em mais de uma sessão, ou a
possibilidade de realizar as estratégias para cada objetivo previsto para
mais de uma sessão numa mesma sessão.

116
(3) Os elementos para cada sessão deverão ser ordenados pela forma mais
conveniente de forma a fluir a relação e comunicação.
(4) Em cada sessão, é importante avaliar o progresso, dar feedback positivo
e adotar outras estratégias, caso as anteriores não tenham sido bem-
sucedidas.
(5) Em cada sessão, é importante o esclarecimento de dúvidas ou partilha
de sentimentos relacionados com a leitura do material da sessão anterior
(cartas ou folhetos), bem como a preparação para a leitura do material
que irá enviar.
(6) É importante que o profissional de saúde, que acompanha o caso, esteja
atento a possíveis sinais de alerta que podem ser indicadores de
necessidade de acompanhamento (e.g., incongruência no pensamento,
comportamentos estranhos ou bizarros, falta de sentido temporal ou na
localização, privação de sono, pensamentos recorrentes de morte e
ideação suicida). Neste caso, a referenciação para a psiquiatra ou
psicologia clínica é sempre necessária.
(7) Considere a possibilidade da existência de outros filhos e as
preocupações relacionadas com os mesmos (e.g., a possibilidade de
infeção, quem cuida dos filhos, em caso de isolamento).
(8) Considere as decisões tomadas em concordância com os outros
profissionais de saúde.

117
1º Sessão

1. Avaliação do Risco

Para avaliar a necessidade de um acompanhamento mais específico.

1. Realização de um Screening, pode ser no final ou enquanto está na 1ª


sessão, com o objetivo de averiguar o risco ou a existência de possível
perturbação mental O Screening inclui a aplicação de:
a) 10 itens da Edinburgh Depression Scale (EPDS)6
b) Cinco itens psiquiátricos: (1) se já experienciou um evento
traumático, (2) se já experienciou sentimentos de depressão, (3) se
já teve um ataque de pânico, (4) se estão presentes sintomas
psiquiátricos no momento, (5) se apresenta sintomas severos de
depressão e ansiedade
c) Três itens psicossociais: (1) gravidez não planeada, (2) abuso de
álcool ou outras substâncias, e (3) abuso sexual/físico7

Em situações em que se observe a presença de perturbação mental, a mãe/pai


deverá ser reencaminhada/o para o psicólogo/psiquiatra do Hospital/SNS. Esteja
também atento à precaridade financeira e reencaminhamento para a assistência social.

118
2. Aumentar a sensação de segurança, bem-estar e
controlo Para promover o bem-estar.

2. Facilite que a mãe/pai expresse as suas emoções e partilhe os seus


pensamentos.
a) Manifeste empatia para com as emoções e pensamentos da
mãe/pai.
b) Conduza a mãe/pai à compreensão dos motivos associados às
suas emoções e pensamentos. Promova a aceitação dos
pensamentos e emoções (por mais desagradável que seja, é
normal sentir medo, ansiedade, tristeza; contudo, é bom saber que
isto também irá passar).
c) Promova uma atitude positiva. Informe que (1) a maioria das
mulheres grávidas com
d) COVID-19 têm sintomas leves ou moderados, tal como as mulheres
não grávidas. Informe que (2) em caso de infeção (confirmada), até
ao momento, não há evidência da transmissão do vírus ao bebé
durante a gravidez, e se tomados os cuidados adequados, durante
o parto ou a amamentação a transmissão do vírus poderá ser
evitada. Se adequado informe que (3) existem sempre riscos
associados, tais como em qualquer outra gravidez; ainda assim, o
mais provável é que tudo corra bem!
e) Estimule a mãe/pai a descentrar-se do excesso de preocupação
com o tema COVID19, e a limitar a exposição às notícias e à
procura de informação sobre a pandemia COVID-19 (i.e., com o
estabelecimento de uma hora fixa para ver as notícias e de um site
único para a procura de informação (eg, OMS). Indique a
possibilidade para ler informação em fontes credíveis e fidedignas.

119
d) Reforce que é importante não esquecer que a medida de
isolamento é apenas uma medida temporária e também uma forma
de proteger mães, pais e bebé!

3. Aumentar o suporte social, emocional e instrumental

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia ansiosa

1. Levante as dúvidas e problemas da mãe/pai (em que é que eu a/o posso


ajudar?)
2. Estabeleça a relação terapêutica (em que medida e como a/o pode
ajudar, e porque é que o faz)
3. Avalie e, se possível, reforce a relação da mãe/pai com o(a)
companheiro(a), com a família e com os amigos.
4. Incentive a mãe/pai a selecionar uma figura de suporte, a quem possa
recorrer diariamente, para partilhar e expressar sentimentos, emoções,
pensamentos e sinais de mal-estar (“Neste momento quem acha que a
poderia ajudar, em quem confia mais e com quem se sente mais
confortável a falar?”). Ajude a mãe/pai a encontrar a forma
5. de comunicação mais adequada ou viável com essa pessoa (por
exemplo, através de chamadas telefónicas, WhatsApp, Skype, etc.).
6. Sugira um contacto continuado com o médico assistente ou quem o
substitua. Ajude a pedir esclarecimento perante dúvidas e preocupações.
Reitere que o acompanhamento pelo médico de família da gravidez e do
pós-parto é elemento prioritário para a saúde e bem-estar da mãe.

Envie folheto “Gravidez durante o Surto do Coronavírus” (folheto 1) e “Ser Pai


durante o surto do Coronavírus” (folheto 3), se se justificar perante a situação da
grávida/pai. Envie a carta para uma mãe grávida durante a pandemia (carta 1), se
se justificar perante a situação da grávida.

120
2º Sessão

1. Aumentar a sensação de segurança, bem-estar e


controlo

Para promover o bem-estar.

1. Proponha a elaboração de um diário, ou uma resposta à carta do bebé.


2. Informe sobre os direitos da mãe, do pai e do bebé, nomeadamente no
que se refere ao local do parto. Os hospitais têm políticas diferentes
relativamente à prática do parto (indicar telefone de contacto ou linha de
assistência do hospital em causa), pelo que pode ser importante saber
qual é o protocolo do hospital em que se encontra ou aquele em que irá
ter o bebé.

2. Aumentar o suporte social, emocional e instrumental

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia ansiosa

1. Alerte para a importância de manifestar eventuais sintomas ou sinais de


mal-estar, junto dos próximos ou dos profissionais de saúde.

121
3. Investir e estabelecer a relação com o seu bebé

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia ansiosa e depressiva

1. Incentive a mãe/pai a:
a) Contar, todos os dias, uma história e/ou cantar músicas para o
bebé e/ou conversar com o bebé (i.e., falar sobre o pai, sobre o dia
a dia, como se sente, etc.).
b) Escrever uma carta (e se quiser gravá-la em formato áudio ou
vídeo) para o bebé e para a mãe/pai do bebé ou para quem lhe
apetecer escrever ou falar, a respeito do bebé.
2. Facilite a gestão de expectativas associadas à gravidez.

Proponha à mãe/pai que estar grávida durante a pandemia, não deixa de ser
estar grávida. Com recurso às adaptações consideradas necessárias (compra do
enxoval através de serviços on-line, manter momentos e celebrações com os amigos,
recorrendo a plataformas digitais), não perdendo a possibilidade de uma vivencia plena
de um momento tão importante para a mãe e pai.

Envie a carta de um bebé à mãe durante a pandemia (carta 2) se se justificar


perante a situação da grávida.

122
4. Diminuir o sentimento de isolamento e inatividade

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia depressiva

1. Incentive a mãe/pai a:
a) Criar e/ou manter uma rotina ativa, dentro do possível (i.e., manter
hábitos de sono saudáveis, vestir-se, realizar tarefas que a
estimulem e que gosta de realizar, continuar a realizar tarefas do
seu interesse, manter, se possível, o teletrabalho, etc.).
b) Realizar atividade física, mesmo em casa. Manter ou iniciar a
prática de atividades habituais suscetíveis de providenciar
relaxamento (massagem, yoga, meditação).
c) Realizar atividades prazerosas (i.e., ler um livro, ver filmes, ouvir
música, não fazer mesmo nada, etc.).
d) Privilegiar uma alimentação equilibrada e prazerosa.
e) Realizar videochamadas com pessoas significativas ou com outras
grávidas.

Envie a carta de uma mãe isolada do bebé (carta 3) quando for informad@ do
parto, se se justificar perante a situação da mãe.

123
3º/4º Sessão

1. Aumentar a sensação de segurança, bem-estar e

controlo

Para promover o bem-estar

1. Apoie no planeamento do parto (e.g., que tipo de parto gostaria de ter e


como vê a possibilidade de ter que reestruturar esse plano, visite on-line
a maternidade/hospital de forma a compreender os procedimentos do
mesmo, preparar a mala de maternidade, etc.). Os hospitais têm
políticas diferentes relativamente à prática do parto, pelo que pode ser
importante saber qual é o protocolo do hospital em que vai nascer o
bebé, para que a mãe/pai esteja melhor preparado/a.
2. Incentive a partilha do plano para o parto com o(a) companheiro(a) (i.e.,
o que gostaria que o companheiro providencie ao bebé) e com o(a)
médico(a) (i.e., como gostaria de conhecer e entrar em contacto o bebé).

2. Aumentar o suporte social, emocional e instrumental

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia ansiosa

1. Sugira e ajude, se necessário, na escolha de uma pessoa a quem possa


recorrer, caso surjam complicações durante o parto (i.e., com quem o
bebé fica, quem dará os cuidados ao bebé).

124
3. Investir e estabelecer a relação com o seu bebé

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia ansiosa e depressiva

1. Prepare o pós-parto (i.e., imaginar o que poderá realizar com o bebé,


com o(a) companheiro(a), com os familiares e amigos).
2. Incentive a preparação do futuro e a chegada do bebé a casa (i.e.,
preparar o quarto, pensar sobre a rotina).
3. Estimule a imaginação de como é que o bebé vai ser, quando nascer e
quando crescer (i.e., “Quando pensa no seu bebé, como é que imagina
que ele vai ser?” e “O que acha que mais vai gostar de fazer com ele?).

125
VIDA no Pós-parto

Destinatários:

(1) Mães, pais e bebés, sinalizados ou confirmados com infeção pelo


coronavírus ou com a COVID-19, em quarentena em casa ou em
instituição de saúde.
(2) Mãe/pais sinalizados com problemas de saúde mental prévios ou com
problemas relacionados com a pandemia. Nestes casos recomenda-se,
num primeiro momento, a comunicação telefónica e uso dos panfletos,
como medida preventiva, e a monitorização do estado de saúde mental.

Duração:

3 ou 4 sessões de 30 minutos a 45 minutos considerando o estado de saúde (se


sinalizado ou com infeção pelo coronavírus ou com a COVID-19) e o local onde se
encontra (em casa ou em instituição de saúde).
A 1ª sessão pode ser divida em duas ,no caso de ter a oportunidade de estar com
a mãe/pai no parto ou pós-parto imediato. No caso de o acompanhamento da mãe/pai
só ocorrer passado uma ou mais semanas do parto, os elementos apresentados para a
1ª sessão podem ser abordados numa única sessão, privilegiando os que são mais
adequados para a situação da mãe/pai. Pode também iniciar a partir da 3ª sessão caso
o bebé tenha nascido há mais de um mês, e o parto e pós-parto imediato tenho ocorrido
sem nenhum incidente significativo.

126
Recomendações:

1) As estratégias devem ser adaptadas consoante a situação de isolamento


(i.e., se em casa ou em instituição de saúde) e outras condições
específicas da mãe/pai.
2) Consoante as condições específicas da mãe/pai, considere a
possibilidade de realizar as estratégias para cada objetivo previstas para
uma sessão numa mesma ou em mais de uma sessão, ou a
possibilidade de realizar as estratégias para cada objetivo previsto para
mais de uma sessão numa mesma sessão.
3) Os elementos para cada sessão deverão ser ordenados pela forma mais
conveniente de forma a fluir a relação e comunicação.
4) Em cada sessão, será importante avaliar o progresso, dar feedback
positivo e adotar outras estratégias, caso as anteriores não tenham sido
bem-sucedidas.
5) Em cada sessão, é importante o esclarecimento de dúvidas ou partilha
de sentimentos relacionados com a leitura do material da sessão anterior
(cartas ou folhetos), bem como a preparação para a leitura do material
que irá enviar.
6) É importante que o profissional de saúde, que acompanha o caso, esteja
atento a possíveis sinais de alerta que podem ser indicadores de
necessidade de acompanhamento por psiquiatra ou psicólogo clínico
(e.g., incongruência no pensamento, comportamentos estranhos ou
bizarros, falta de sentido temporal ou na localização, privação de sono,
pensamentos recorrentes de morte e ideação suicida). Neste caso, a
referenciação para a psiquiatra ou psicologia clínica é sempre
necessária.
7) Considere a possibilidade da existência de outros filhos e as
preocupações relacionadas com os mesmos (e.g., a possibilidade de
infeção, quem cuida dos filhos, em caso de isolamento).
8) Considere as decisões tomadas em concordância com os outros
profissionais de saúde.

127
1º Sessão

NO PARTO

1. Eleger alguém de confiança para estar com o bebé e mantenha o contacto.

2. Dada a probabilidade elevada da mãe/pai estar separado do bebé, em caso de


infeção, procurar maneiras alternativas de estabelecer e manter contacto com o
bebé (fotos, vídeos em que ouve e vê o bebé e em que o bebe também pode ouvir a
voz da mãe/pai). Reforçar que o possível afastamento é temporário e para proteger
o bebé e que, neste caso, a distância é sinónimo de cuidado.
3. Transmitir que as medidas definidas pela instituição de saúde (sejam elas quais
forem relativamente a necessidade ou não de isolamento, contacto pela a pele no
parto, amamentação, possibilidade de visitas, são baseadas em nas eviências
científicas que têm sido divulgado e têm por objetivo promover um pós-parto mais
seguro para a mãe/pai e para o bebé.

1. Avaliação do Risco

Para avaliar a necessidade de um acompanhamento mais específico.

1. Realização de um Screening, pode ser no final ou enquanto está na 1ª


sessão, com o objetivo de averiguar o risco ou a existência de possível
perturbação mental. O Screening inclui a aplicação de:
a) 10 itens da Edinburgh Depression Scale (EPDS)6

128
b) Cinco itens psiquiátricos: (1) se já experienciou um evento
traumático, (2) se já experienciou sentimentos de depressão, (3) se
já teve um ataque de pânico, (4) se estão presentes sintomas
psiquiátricos no momento, (5) se apresenta sintomas severos de
depressão e ansiedade.
c) Três itens psicossociais: (1) gravidez não planeada, (2) abuso de
álcool ou outras substâncias, e (3) abuso sexual/físico7
d) Outros elementos importantes de recolher para avaliar o risco no
pós-parto são:
e) Parto: (1) cesariana de emergência; (2) internamento da mãe ou
bebé nos cuidados intensivos; (3) insatisfação com o parto; (4) não
possibilitado acompanhamento durante e após o parto; (6)
separação prolongada do bebé (> 24horas).
f) Bebé: (1) baixo peso à nascença; (2) problemas de saúde à
nascença; (4) < 37 semanas de gestação.

Em situações em que se observe a presença de perturbação mental, a mãe/pai


deverá ser reencaminhada/o para o psicólogo/psiquiatra do Hospital/SNS. Esteja
também atento à precaridade financeira e reencaminhamento para a assistência social.

2. Aumentar o suporte social, emocional e instrumental

Para promover e aumentar o bem-estar.

1. Proporcione que a mãe/pai expresse as suas emoções e partilhe os seus


pensamentos. Empatize com as emoções e pensamentos da mãe/pai.
2. Conduza a mãe/pai à compreensão dos motivos associados às suas
emoções e pensamentos. Promova a aceitação dos pensamentos e
emoções (por mais desagradável que seja, é normal sentir medo,
ansiedade, tristeza, contudo, é bom também saber que isto irá passar).

129
3. Avaliar e ajudar na elaboração de possíveis sentimentos ambivalentes e
contraditórios relacionados com desejo de proximidade e de prestação
de cuidados ao bebé e aumento do risco de transmissão da doença.
4. O casal/família precisa de reorganizar as suas rotinas com a chegada de
um novo elemento. Existem novas responsabilidades e mudanças às
quais a mãe/pai precisam de se adaptar. Esta adaptação é, per si, um
período de ansiedade e stress. Esta situação, aliada ao estado de
pandemia que atualmente vivemos, poderá exacerbar alguns destes
sentimentos negativos.
5. Caso a mãe decida amamentar, é importante que a informe da
necessidade de considerar os cuidados e recomendações a seguir
referidas. Seja qual for a forma adotada para alimentação do bebé,
estimule que a mãe/pai o faça com especial cuidado. Se a mãe/pai
seguir as recomendações providenciadas, o risco de transmissão é
reduzido. Assim, o mais provável é que tudo corra bem!
6. Os cuidados e recomendações a considerar durante a amamentação ou
alimentação por biberão, são: (1) Realizar uma higiene respiratória
adequada, usando uma máscara; (2) Lavar as mãos antes e depois de
tocar no bebé; (3) Limpar e desinfetar rotineiramente as superfícies em
que tocaram.
7. Transmitir que as medidas definidas pela instituição de saúde (sejam
elas quais forem relativamente a necessidade ou não de isolamento,
contacto pela a pele no parto, amamentação, possibilidade de visitas,
são baseadas em nas evidências científicas que têm sido divulgado e
têm por objetivo promover um pós-parto mais seguro para a mãe/pai e
para o bebé.
8. Estimule a mãe/pai a descentrar-se do possível excesso de preocupação
com o tema COVID-19, e a limitar a exposição às notícias e a procura de
informação sobre a pandemia COVID-19 (i.e., com o estabelecimento de
uma hora fixa para ver as notícias e de um site único para a procura de
informação (eg, OMS), se essa for a sua vontade. Indique a
possibilidade de ler informação em fontes credíveis e fidedignas e confiar
nos profissionais de saúde.

130
9. Reforce a importância de não esquecer que a medida de isolamento é
apenas uma medida temporária e também uma forma de proteger a
mãe, pai e bebé!

3. Aumentar o Suporte Social, Emocional e Instrumental

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia ansiosa e depressiva

1. Levante as dúvidas e problemas da mãe/pai (em que é que eu a/o posso


ajudar?)
2. Estabeleça ou reforce a relação terapêutica (em que medida e como a/o
pode ajudar, e porque é que o faz)
3. Avalie e, se possível, reforce a relação da mãe/pai com o
companheiro/a, com a família e com os amigos.
4. Incentive a mãe/pai a selecionar uma figura de suporte, a quem a
mãe/pai possa recorrer diariamente, para partilhar e expressar
sentimentos, emoções, pensamentos e sinais de mal-estar (“Neste
momento quem acha que a poderia ajudar, em quem confia mais e com
quem se sente mais confortável a falar?”). Ajude a mãe/pai a encontrar a
forma mais adequada ou viável para comunicar com essa pessoa (por
exemplo, ser realizado através de chamadas telefónicas, WhatsApp,
Skype, etc.).
5. Sugira um contacto continuado com o(a) médico(a) assistente ou quem
o(a) substitua. Ajude a pedir esclarecimento perante dúvidas e
preocupações.

131
Envie a carta de uma mãe isolada do bebé (carta 3) quando for informad@ do
parto, se se justificar perante a situação da mãe.
Envie o folheto “Pós-Parto durante o Surto do Coronavírus” (folheto 2) e “Ser Pai
durante o surto do Coronavírus” (folheto 3), se se justificar perante a situação da
mãe/pai.
Envie o folheto da amamentação (folheto 4).
Envie o folheto “Manter a Relação com o seu Bebé para Pais e Mães” (folheto 5)

132
2º Sessão

1. Aumentar a Sensação de Segurança, Bem-estar e

Controlo

Para promover e aumentar o bem-estar

1. Informe sobre os direitos e deveres da mãe, do pai e do bebé. Os


hospitais/centros de saúde têm políticas diferentes relativamente aos
procedimentos pós-parto (e.g., vacinação, visita de cortesia, etc.), pelo
que pode ser importante saber qual é o respetivo protocolo. Além disso,
informe a mãe/pai sobre a possibilidade de o registo do bebé ser feito
online.
2. Apoie a mãe/pai nos cuidados ao bebé e aos outros filhos, se for o caso
(e.g., formas alternativas de interação com o bebé em caso de
isolamento; a chegada a casa; quem irá cuidar do bebé; quem lhe dará
banho; possíveis visitas ao bebé em casa, pergunte à equipa se um
membro da família sem problemas de saúde pode passar algum tempo
com o seu bebé ao colo, enquanto o abraça e toca na sua pele).

133
2. Aumentar o Suporte Social, Emocional e Instrumental

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia ansiosa e depressiva

1. Alerte para a importância de manifestar eventuais sintomas ou sinais de


mal-estar junto dos próximos ou dos profissionais de saúde.
2. Incentive a mãe/pai a conversar sobre o bebé com amigos/conhecidos
que têm filhos.

3. Investir e estabelecer a relação com o seu bebé

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia ansiosa e depressiva.

1. Incentive a mãe/pai a:
a. Contar, todos os dias, uma história e/ou cantar músicas para o
bebé e/ou conversar com o bebé (i. e., falar sobre a mãe/pai ou
outras figuras importantes, sobre o dia a dia, como se sente, etc.).
b. Pedir a um profissional de saúde para explicar ao seu bebé porque
é que a mãe/pai não está com ele, ou porque é que o bebé ainda
não está em casa, mas numa instituição de saúde, caso não seja
possível ter contacto direto com o bebé
c. Escrever uma carta (e, se quiser, gravá-la em formato áudio ou
vídeo) para o bebé, para a mãe/pai do bebé ou a quem lhe
apetecer escrever, a respeito do bebé. Pode também gravar,
diariamente, um áudio ou vídeo a explicar ao bebé o que quiser,
incluindo, se desejar, porque é que não estão juntos, etc. Pedir ao
profissional de saúde que mostrou a mensagem ao bebé, para
devolver as reações do mesmo à mãe/pai. Isto certamente irá
ajudar!
d. Registar memórias fotográficas e construir um álbum de família.

134
e. Enviar mensagens ao bebé e promover o contacto pele-a-pele, se
possível.
f. Imaginar e planear o reencontro com o bebé (e.g., como vai ser, o
que lhe vai dizer, onde será, etc.), caso não seja possível ter
contacto direto com o bebé.

2. Promova o investimento na relação triádica (mãe-pai-bebé),


incentivando a:
a. Escrever uma carta sobre o(a) companheiro(a), e/ou casal (e.g.
como se conheceram, momentos que passaram juntos, etc.) e ler
para o bebé.
b. Planear a divisão de tarefas e responsabilidades relacionadas com
o bebé para que os pais possam participar/contribuir nos cuidados
prestados ao mesmo e partilharem momentos juntos.

4. Diminuir o Sentimento de Isolamento

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia ansiosa e depressiva.

1. Incentive a mãe/pai a:
a. Criar e/ou manter uma rotina ativa, dentro do possível (i.e., manter
hábitos de sono saudáveis, vestir-se, realizar tarefas que a/o
estimulem e que gosta de realizar, continuar a realizar tarefas do
seu interesse, etc.).
b. Manter ou iniciar atividades suscetíveis de providenciar
relaxamento (e.g., massagem, yoga, meditação)
c. Realizar atividades prazerosas (e.g., ler um livro, ver filmes, ouvir
música, ouvir podcasts, não fazer mesmo nada, cozinhar,
desenhar, realizar um curso online, etc.).
d. Realizar atividade física, se possível, mesmo em casa.
e. Privilegiar uma alimentação equilibrada e prazerosa.

135
3º Sessão

1. Aumentar a Sensação de Segurança, Bem-estar e

Controlo

Para promover e aumentar o bem-estar.

1. Proponha a elaboração/continuação de um diário (e.g., escrever sobre o


parto, os seus dias no hospital, como se sente, etc.).
2. Incentive a partilha do plano pós-parto com a família, companheiro(a) e
profissionais de saúde.

2. Diminuir o Sentimento de Isolamento

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia ansiosa e depressiva.

1. Incentive a mãe/pai a investir na relação do casal:


(considerar se mãe/pai estão ou não juntos e qual o tipo de relação de casal e
parental que delinearam)
a. Partilhar momentos a sós como casal (e.g. jantar romântico, verem
um filme juntos). O casal já existia antes do nascimento do filho e,
por isso, é importante investir ainda mais na relação que,
atualmente, está passar por mudanças e novos desafios. Será
importante relembrar que, após o nascimento de um filho não é
necessário escolher entre ser um bom marido/esposa e ser um
bom pai/mãe.

136
b. A comunicação diária entre o casal. É importante reservar algum
momento/hora do dia para conversarem sobre os pontos altos e
baixos do dia, isto é, os desafios, emoções, sentimentos e
pensamentos de cada um, escutando-se mutuamente.
c. Planear a divisão de tarefas e responsabilidades, permitindo que
nenhum dos membros do casal se sinta sobrecarregado e
possibilitando um aumento da cumplicidade e confiança.
d. Dar espaço e tempo ao outro para estarem sozinhos, se for esse o
seu desejo.

137
4º Sessão

1. Aumentar a Sensação de Segurança, Bem-estar e

Controlo

Para promover e aumentar o bem-estar

Incentivar a mãe/pai a:
1. Guardar tempo para si, fazendo algo que gosta.
2. Descansar da forma que lhes é mais confortável. O bebé precisa de uma
mãe/pai com energia, por isso relembre a importância de uma noite de
sono revitalizadora e reparadora.

2. Investir e estabelecer a relação com o seu bebé

Para prevenir ou diminuir a sintomatologia ansiosa e depressiva.

1. Incentive a preparação do futuro (e.g., pensar sobre a rotina, estilos


parentais, etc.) com o(a) companheiro(a).
2. Estimule a imaginação de como é que o bebé vai ser quando crescer
(e.g., “Quando pensa no seu bebé, como é que imagina que ele vai ser?”
e “O que acha que mais vai gostar de fazer com ele?”).

138
CARTA 1
CARTA PARA UMA MÃE GRÁVIDA DURANTE A PANDEMIA

Querida mamã,

Alguns amigos pediram-me para te escrever esta carta. Talvez estejas surpreendida
por te chamar “mãe”, quando ainda estás à espera do teu bebé. A verdade é que eu
acredito que nós já somos mães, a partir do momento em que aceitamos acomodar um
bebé dentro de nós e trazer esta nova vida ao mundo. A primeira coisa que eu sinto que
preciso de fazer é congratular-te pela tua gravidez.
A gestação, acomodar um filho até ao final, é um bonito esforço que a nossa
sociedade pouco valoriza ou honra. Aliás, é frequentemente oferecido pouco
reconhecimento, cuidado ou ajuda às mulheres grávidas. Contudo, acomodar uma criança
é um ato delicado, precioso e importante, um tempo de calma para relembrar toda a nossa
vida. Frequentemente pergunto às mães em que altura perceberam que estavam grávidas.
Muitas respondem que já sabiam ou que já sentiam uma intuição, antes de fazer qualquer
tipo de teste de gravidez.
Muitas sentem a presença do pequeno ser, praticamente desde a conceção.

A gravidez, tal como sabes, não transforma apenas o nosso corpo. Transforma
também o nosso cérebro e a forma como nos relacionamos com a vida. À medida que o
bebé cresce no nosso útero, durante esses nove meses, a nossa mente abre-se para as
memórias da nossa infância. Se pensares sobre isto, faz sentido…
Relembramos a forma como nós próprias fomos cuidadas pelas nossas mães, a
educação que os nossos pais nos deram, enquanto decidimos que tipo de mãe vamos ser
para o nosso próprio filho. Também somos mais sensíveis, durante os últimos meses da
gravidez, estamos mais sincronizadas com as emoções dos outros. É um presente da
natureza, que nos prepara para sermos altamente empáticas com os nossos bebés e
oferecer-lhes os melhores cuidados. Embora seja um presente, também nos pode fazer
sofrer, porque nos torna mais vulneráveis e mais suscetíveis à preocupação.

139
Assim eu imagino que estar grávida no meio de uma pandemia te tenha deixado
bastante preocupada. Tanto medo pelo mundo todo, tantas questões e dúvidas por
responder…
Se te encontras nos primeiros meses de gravidez, é provável que estejas
preocupada com o dano que pode suceder ao teu bebé, que se está a desenvolver, se
fores infetada com o coronavírus. A verdade é que não sabemos, mas até ao momento,
não existem dados que mostrem que a infeção possa prejudicar o teu bebé, através de ti.
Assim, arrisco dizer que podes ficar calma em relação a isto. Não me parece que o
coronavírus possa chegar ao teu bebé, através da placenta.
Se estiveres nos últimos meses da tua gravidez, a ouvir sobre as práticas hospitalares
para o parto, durante esta pandemia, é provável que te sintas preocupada ou ansiosa a
pensar sobre o parto ou os dias seguintes. Podes estar com medo de ir a um hospital, por
receio de ser infetada ou se estiveres atualmente infetada, podes estar com medo de ser
separada do teu bebé, após o nascimento. Múltiplos cenários… A verdade é que existem
múltiplos protocolos hospitalares contraditórios que mudam diariamente. Assim, gostava de
partilhar contigo alguns insights, no caso destes poderem ajudar:

1. A confiança é como um músculo: pode ser exercitado. Respira fundo - pensa numa
pessoa que amas ou num sítio que te é querido, pode ajudar-te a sentir mais
segura. De cada vez que surge um pico de oxitocina, nós sentimo-nos mais
confiantes. Carícias, massagens, boa comida, contato ocular, dançar, … estes
são agora mais necessários do que nunca. A meditação e a imaginação também
podem ser úteis.

2. CONFIA ainda mais: no teu corpo, que sabe dar à luz, e no teu bebé, que sabe
como vir ao mundo. Celebra o facto de teres chegado ao fim da tua gravidez,
observa o maravilhoso trabalho que o teu corpo consegue fazer. O parto
começa quando o teu bebé está preparado e envia sinais ao teu corpo. É bom
respeitar este momento, em que o bebé está preparado para se adaptar a um novo
mundo. O coronavírus não é razão para programar um parto induzido ou uma

140
cesariana, a não ser que a tua condição médica o requeira. Se sim, pode ser útil planeares
com a tua família estratégias de coping, caso sejas separada do teu bebé.

3. Confia nos teus profissionais de saúde (a maioria provavelmente mulheres). É


bem possível que eles também estejam com medo, a trabalhar sobre pressão e em
condições difíceis, quase sem tempo para pensar ou atender às suas próprias
necessidades. Se puderes, diz-lhes que sabes isso e que agradeces. Pensa sobre
como os podes ajudar a ajudar-te a ti da melhor forma possível. Talvez possas
praticar as conversas que gostarias de ter no hospital. Isto ajuda, porque desta
forma não será o medo a guiar-te. Podes treinar em voz alta frases, tais como:
obrigada por me apoiarem. Esperei por este momento durante muitos meses e sei
que me vou lembrar dele durante toda a minha vida. É importante para mim receber
o meu bebé da melhor forma possível. Escreve sobre como gostarias que esta
conversa se sucedesse, pratica a assertividade e o respeito. Planeia a forma como
gostarias de conhecer o teu bebé, com o teu parceiro e a tua família.

4. Procura informação sobre os teus direitos e os direitos do teu bebé nas


recomendações de parto e amamentação locais. Esta informação vai igualmente
ajudar-te a decidir onde é que queres que o teu parto ocorra.

5. Se sentires que estás demasiado preocupada, se não conseguires dormir, se


relaxar parecer impossível, se te sentires muito triste e não conseguires sentir
prazer com nada… Não estás sozinha! E nada disto é culpa tua! Procura ajuda!!!
(Escrevo isto sabendo que pedir ajuda é difícil - para mim também é!).

Existem muitos profissionais de saúde perinatais preparados para responder ao teu


pedido, por telefone, e-mail, Skype, Zoom, Fóruns, WhatsApp, etc.

141
A última coisa que eu gostaria de partilhar contigo é provavelmente a mais difícil.
Isto é: tentar aproveitar o presente, o agora, este momento, conscientemente e
completamente. Tu estás grávida, o teu bebé está contigo, dentro de ti. Talvez mais tarde
sintas saudades deste tempo de gravidez e fiques triste por não o teres aproveitado. Estar
consciente disto e colocar o teu bem-estar como prioridade pode ajudar-te a celebrar cada
dia. Pode até proteger-te do excesso de informação, preparar-te para a chegada do teu
bebé, visualizar o parto, cantar e aproveitar tudo o que tu puderes! Continua a amar e a
confiar na vida.

Com estima,

Ibone

Autoria: https://saudementalperinatal.com/carta-para-uma-mae-gravida-durante-
apandemia/

142
CARTA 2
CARTA DE UM BEBÉ PARA A SUA MÃE EM TEMPOS DE COVID-19

Querida mamã,

O dia da minha chegada está perto e quero dizer-te algumas coisas. Em primeiro
lugar, quero que saibas que estou muito feliz por nos podermos encontrar e que senti cada
miminho teu durante todo o tempo que estive aqui, dentro da tua barriga.

Deves estar apreensiva e com medo que eu não esteja seguro aqui dentro, mas
parece que a infeção pelo novo coronavírus não passa de ti para mim durante este
período. Estudos científicos não encontraram a presença do vírus na placenta, no líquido
amniótico, no sangue do cordão umbilical ou no leite materno. Já soube que talvez o pai, a
avó ou outra pessoa que tenhas escolhido para nos acompanhar no meu nascimento não
vai poder estar presente se apresentares sintomas do COVID-19, ou se estiveste em
contato com alguém com suspeita de ou infetado com o novo coronavírus.

Mãe, quero que saibas que não estás sozinha, eu vou estar contigo no momento
que será tão especial e único para nós os dois e para a nossa família. Podes falar comigo
e fazer perguntas sobre as coisas que te afligem e, quem sabe, os meus movimentos aqui
dentro acalmem o teu coração. Esperamos tanto para nos conhecermos, estamos
ansiosos e com medo. Tu do parto e eu do meu nascimento. Estamos a passar por
momentos difíceis, mas tenho a certeza que tudo irá melhorar com um pouco de paciência
e algumas precauções. Soube que podemos ficar tranquilos, os profissionais de saúde do
hospital trabalham com muita dedicação e ninguém nos vai deixar sozinhos. Será apenas
uma questão de tempo para ficarmos coladinhos, um ao outro.

Quando eu nascer, os médicos e enfermeiros irão cuidar de ti e de mim. Se


estiveres com suspeita de ou infetada com o COVID-19, não poderei estar imediatamente
em contato pele-a-pele contigo e serei examinado num berço quentinho a, pelo menos,
dois metros de ti. Posso chorar um bocadinho. Não te assustes, será a forma que eu tenho
de te avisar que estou bem e pronto para viver uma grande história contigo e com a nossa
família

143
É verdade que na sala de parto as pessoas podem usar coisas engraçadas como
máscara, touca, bata e luvas? Acho que é para a nossa proteção e dos profissionais de
saúde que estão a cuidar de nós, já que o chato do coronavírus é transmitido por gotículas
respiratórias, aerossóis ou por contacto.

Os profissionais de saúde vão-me examinar e deixar limpinho, enquanto tu também


estarás a ser cuidada. Se eu apresentar algum desconforto suspeito de infeção
respiratória, serei levado para a UCI da Neonatologia. Quero que saibas que, assim como
tu, eu também ficarei triste e vou sentir saudades. Precisamos de esperar mais um
bocadinho para nos abraçarmos, mas ambos sabemos que tudo isso é para o meu bem.

Se estivermos bem, a equipa do hospital irá levar-nos para um lugar mais tranquilo
e privado. Eu vou numa incubadora, grande e quentinha, e tu vais poder ver-me. Ela é
transparente. No quarto, a enfermeira vai ensinar-te a colocar a máscara e as luvas para
que eu possa conhecer os teus olhos e experimentar o calor do teu colo. Mas depois de tu
cuidares de mim eu vou poder descansar no meu berço, que deve estar a um metro da tua
cama. Disseram que essa distância é importante para a nossa saúde.

Poderás amamentar-me depois de lavares bem as mãos, passares o álcool gel 70%
(antes e depois de pegares em mim) e usares aqueles adereços engraçados, a máscara e
as luvas.

As visitas terão de esperar um bocadinho, mas para ser sincero, até será bom.
Assim teremos bastante tempo para nos conhecermos melhor, até que todos me encham
de mimos.

Beijinhos Mamã e até breve,


O teu Bebé.

144
CARTA 3
CARTA PARA UMA MÃE ISOLADA DO SEU BEBÉ

Querida paciente,

Estou a pensar em si e percebi que, provavelmente, é uma mãe que foi separada
do seu bebé. Ou talvez um pai. Conheço alguns casos em que ambos, mãe e pai, estão a
passar pela infeção do coronavírus, isolados, sem poderem estar com o seu bebé. Talvez
a mãe esteja no hospital, sozinha, e o pai em casa, sozinho. Por esta razão, a carta de
hoje é para si, uma mãe que está isolada e sozinha no hospital e para si, um pai que está a
passar por uma situação tão difícil.
Vou partilhar alguns pensamentos, coisas que eu sei como pedopsiquiatra e coisas
que eu sei ou posso intuir como mãe. Eu própria fui separada de um dos meus filhos
recém-nascidos durante uma semana, estive impossibilitada de o segurar nos meus braços
e quase sem o poder ver. É com base nesta minha experiência, que lhe posso dizer: isto
também vai passar - e embora seja difícil, pode sarar e ser transformado pelo amor.
Não lhe ousaria dar conselhos, apenas desejo que as minhas palavras a ajudem. Se não o
fizerem, apenas esqueças.
O ponto de partida para mim é que a maternidade esconde um mistério, ou, na
verdade, muitos; e cada um de nós tem de seguir o seu próprio caminho. Para mim - agora
que sou mãe de três jovens adultos - a batalha mais difícil foi não me sentir culpada pelos
erros que considero ter cometido, e por essa razão, o que eu menos gostaria é que alguém
se sentisse culpado por alguma das coisas que eu posso aqui sugerir.
Bom, vamos ao que interessa.

Os bebés sentem, compreendem e amam. Estes três - sentir, compreender, amar -


são capazes de fazer mais do que o que nós geralmente pensamos. Os bebés são sábios,
são capazes, querem amar e sentir-se amados. O seu bebé, tenho a certeza, quer estar
consigo, com ambos os pais, e saber que vocês estão bem. Estar separado dos pais não é
fácil para o seu bebé, é verdade, mas é exatamente por isso que é tão importante que os
pais saibam tudo o que pode ser feito para o ajudar, a ele ou a ela, durante este período
difícil. Aqui estão algumas sugestões:

145
1) Peça a alguém para explicar ao seu bebé porque é que a mãe não está com ele,
ou porque é que o bebé ainda não está em casa, mas num hospital. Muitos médicos e
enfermeiros são maravilhosos e fazem isto, falam com os bebés e explicam o que está a
acontecer. A mãe pode também gravar um áudio de voz, no qual fala com o seu bebé e
explica tudo o que quiser, incluindo, se desejar, porque é que não estão juntos. Está tudo
bem se se sentir sobrecarregada ou chorar enquanto explica. O seu bebé vai reconhecer a
voz da mãe e compreender a sua mensagem: a mãe está algures, à espera de poder
estar com ele e ama-o. O seu bebé pode chorar ao ouvir a sua voz, talvez ele ouça
atentamente, talvez não. Espero que a pessoa que está a reproduzir a mensagem possa
assistir à reação do seu bebé enquanto estiver a ouvir a voz da mãe. De qualquer modo,
se puder, envie todos os dias mensagens de voz para ao seu bebé, isto certamente irá
ajudar. Não se preocupe se eles lhe disserem que o bebé chora ao ouvir a sua voz - como
a sua mãe, ele também está saudoso, à espera de poder estar consigo.
2) O seu bebé tem o direito de estar com um membro da família durante o período em
que se encontra no hospital. No entanto, na situação em que nos encontramos, isto pode
não ser possível devido ao risco de infeção. Neste caso, a equipa de enfermagem cuidará
do seu bebé e manterá a mãe atualizada. Se puder, pergunte à equipa se um membro
da família sem problemas de saúde pode passar algum tempo com o seu bebé ao
colo, enquanto o abraça e toca na sua pele. Para os bebés, o contato é estimulante. Se
não for possível, seja paciente . . . isto vai acontecer, dê tempo ao tempo!

3) Se a mãe se sentir forte o suficiente pode querer escrever um diário sobre os


seus dias no hospital (e do seu bebé). Escreva o que lhe vier à mente, as coisas que
acontecem em cada dia - certamente vai gostar de partilhar este diário com o seu bebé
quando ele crescer. No entanto, se se sentir demasiado doente para o fazer, talvez alguém
da sua família possa escrever.

4) Se planeou amamentar o seu bebé, é provável que as enfermeiras ou parteiras já a


estejam a ajudar a extrair o leite e, esperemos, a levá-lo ao seu bebé. De qualquer forma,
não se sinta triste, se não estiver bem o suficiente para o extrair ou se tiver decidido
não amamentar. O que o seu bebé mais precisa é que a mãe se sinta bem e amada.

146
Pode concentrar a sua energia em melhorar. Na amamentação, não é tudo ou nada,
nem é irreversível. A mãe pode fazer uma alimentação mista ou bombear exclusivamente,
e até pode estimular o leite mais tarde - como as mães adotivas fazem para poderem
amamentar os seus bebés. Se decidiu não amamentar, pode apenas dar o biberão ao seu
bebé, enquanto toca na sua pele, como se o estivesse a amamentar.

5) Talvez esteja constantemente a reviver os momentos difíceis dos últimos dias


na sua cabeça, talvez se sinta triste, perdida ou culpada. Estes são sentimentos frequentes
nestas circunstâncias! Podem demorar um pouco a desaparecer, mas tudo isto pode
sarar e a mãe e o seu bebé podem ficar bem. Se não consegue dormir ou se tiver
pensamentos sombrios e assustadores, ou se sentir a necessidade de conversar sobre
isso com alguém, pode procurar ajuda profissional. Existem cada vez mais psicólogos e
psiquiatras perinatais, especializados em ajudar durante este período de vida. Ter
pensamentos sombrios e assustadores pode ser um sinal da pressão sob a qual está
neste momento. Eles não significam que a mãe não será capaz de amar ou cuidar do seu
bebé.

6) Prepare-se para ver o seu bebé novamente! Imagine esse momento. Prepare-se
para o momento em que o irá ver e segurar. Confie nisso. Quando chegar a casa, terá
todo o tempo do mundo para o mimar e abraçar, e toda a sua vida pela frente para reparar
esta separação inicial, com amor.

7) O seu bebé ama-a, está à sua espera e tem a certeza absoluta de que é a
melhor mãe do mundo. Trate-se com o mesmo amor, não fale mal de si própria, não se
julgue, não se sinta culpada, por favor. Estes são tempos difíceis e o que está a acontecer
não é culpa sua.

147
Desejo-lhe força. Estive ao lado de muitas mães, bebés e famílias que começaram
este momento de vida em situações muito difíceis, em hospitais, em unidades de cuidados
intensivos, separadas, em sofrimento. Muitos desses bebés são agora adultos saudáveis e
felizes. Sim, é verdade! Há sempre tempo para sarar e o que mais ajuda neste processo é
o amor.
Desejo-lhe um ótimo dia,
Ibone
Autoria: https://saudementalperinatal.com/carta-para-uma-mae-isolada-do-seu-
bebe/

148
149
150
151
152
153
Referências

1. Kang L, et al. (2020) The mental health of medical workers in Wuhan, China
dealing with the 2019 novel coronavirus. The Lancet Psychiatry, 7, e14.
doi:10.1016/S2215- 0366(20)30047-X
2. Duan, L., & Zhu, G. (2020). Psychological interventions for people affected by
the COVID-19 epidemic. The Lancet Psychiatry, 7, 300–302. doi:10.1016/S2215-
0366(20)30073-0
3. World Health Organization (2019). Q&A on COVID-19, pregnancy, childbirth
and breastfeeding. who.int/news-room/q-a-detail/q-a-on-covid-19-pregnancy-
childbirthand-breastfeeding
4. Seng, J. S., Oakley, D. J., Sampselle, C. M., Killion, C., Graham-Bermann, S., &
Liberzon, I. (2001). Posttraumatic stress disorder and pregnancy complications.
Obstetrics & Gynecology, 97, 17-22. doi:10.1016/S0029-7844(00)01097-8
5. Xiang, Y. T., Yang, Y., Li, W., Zhang, L., Zhang, Q., Cheung, T., & Ng, C. H.
(2020). Timely mental health care for the 2019 novel coronavirus outbreak is urgently
needed. The Lancet Psychiatry, 7, 228-229. doi:10.1016/S2215-0366(20)30046-8
6. Cox, J. L., Holden, J. M., & Sagovsky, R. (1987). Detection of postnatal
depression: development of the 10-item Edinburgh Postnatal Depression Scale. The
British Journal of Psychiatry, 150, 782-786. doi: 10.1192/bjp.150.6.782
7. Quispel, C., Schneider, T. A., Hoogendijk, W. J., Bonsel, G. J., & Lambregtse-
van den Berg, M. P. (2015). Successful five-item triage for the broad spectrum of mental
disorders in pregnancy - a validation study. BMC Pregnancy and Childbirth, 15, 51.
doi:10.1186/s12884-015-0480-9
8. UNICEF: Coronavirus disease (COVID-19): What parents should know.
Disponível em: https://www.unicef.org/stories/novel-coronavirus-outbreak-what-parents-
shouldknow

154
Notas:
(1) Este protocolo de screening foi validado numa unidade de obstetrícia
para avaliar a presença de perturbações mentais dos eixos I e II do DSM-IV e
revelou ser eficaz na avaliação do nível de risco de perturbação mental (não,
baixo e alto) em mulheres durante a gravidez.
(2) https://saludmentalperinatal.es/parir-y-nacer-en-tiempos-de-pandemia-
clase-onlineibone-olza/

155
Agradecemos os Contributos

Autores

Portugal

Adriana Sampaio, Subunidade de Psicologia Clínica e da Saúde, APsi-UMinho


Eugénia Ribeiro, Subunidade de Psicologia Clínica e da Saúde, APsi-UMinho
Sónia Gonçalves, Subunidade de Psicologia Clínica e da Saúde, APsi-UMinho
Ana Rita Pereira, Subunidade de Psicologia Clínica e da Saúde, APsi-UMinho
Joana Coutinho, Subunidade de Psicologia Clínica e da Saúde, APsi-UMinho
João Batista, Subunidade de Psicologia Clínica e da Saúde, APsi-UMinho
João Tiago Oliveira, Subunidade de Psicologia Clínica e da Saúde, APsi-UMinho
Andreia Milhazes, Subunidade de Psicologia Clínica e da Saúde, APsi-UMinho
Teresa Freire, Subunidade de Psicologia Clínica e da Saúde, APsi-UMinho
Alexandra Vieira, Subunidade de Psicologia Clínica e da Saúde, APsi-UMinho
Gabriela Santana, Subunidade de Psicologia Clínica e da Saúde, APsi-UMinho
Maria do Céu Taveira, Subunidade de Psicologia Escolar e da Educação, APsi-UMinho
Ana Daniela Silva, Subunidade de Psicologia Escolar e da Educação, APsi-UMinho
Ângela Maia, Subunidade de Psicologia Social, Comunitária e das Organizações, APsi-
UMinho
Marlene Matos, Subunidade de Psicologia Social, Comunitária e das Organizações,
APsi-UMinho
Delfina Fernandes, Subunidade de Psicologia Social, Comunitária e das Organizações,
APsi-UMinho
Joana Andrade, Subunidade de Psicologia Social, Comunitária e das Organizações,
APsi-UMinho

156
Marta Sousa, Subunidade de Psicologia Social, Comunitária e das Organizações, APsi-
UMinho
Bárbara Figueiredo, Psicóloga, Unidade de Intervenção Psicológica, APsi-UMinho,
Professora Universitária, Escola de Psicologia, Universidade do Minho
Mariana Pereira, Estagiária Curricular, Escola de Psicologia, Universidade do Minho
Inês Marques, Estagiária, Ordem dos Psicólogos Portugueses, Associação de
Psicologia, Universidade do Minho
Sara Lima, Estagiária, Ordem dos Psicólogos Portugueses, Associação de Psicologia,
Universidade do Minho
Soraia Mesquita, Estagiária, Ordem dos Psicólogos Portugueses, Associação de
Psicologia, Universidade do Minho
Vera Rodrigues, Estagiária Curricular, Escola de Psicologia, Universidade do Minho
Miguel Gonçalves, Diretor Escola de Psicologia, Universidade do Minho
Dulce Pinto, Psicóloga
Ana Paula Camarneiro, Professora Universitária e Psicóloga, Escola Superior de
Enfermagem de Coimbra
Ana Paula Sousa, Psicóloga, Agrupamento de Centros de Saúde Feira/Arouca
Berta Ferreira, Psiquiatra, CUF Nova SBE e Sintra
Catarina Freitas, Psiquiatra, Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro
Cristina Nogueira da Silva, Professora Universitária e Ginecologista, Escola de
Medicina, Universidade do Minho
Inês Oliveira Pinto, Pedopsiquiatra, Hospital Beatriz Ângelo
Lara Bastos Vilela, Pedopsiquiatra, Hospital Pedro Hispano
Maria Inês Silva, Aluna de Mestrado, Escola de Psicologia, Universidade do Minho
Maria Raul Xavier, Professora Universitária e Psicóloga, Faculdade de Educação e
Psicologia, Universidade Católica do Porto
Mariana Sousa Leite, Aluna de Doutoramento, Escola de Psicologia, Universidade do
Minho
Miguel Felizardo, Psiquiatra, Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro
Raquel Correia, Psiquiatra, Hospital Pedro Hispano
Raquel Costa, Professora Universitária e Investigadora, Instituto de Saúde Pública,
Universidade do Porto.

157
Sónia Brandão, Professora Universitária e Enfermeira, Escola Superior de Saúde Viana
do Castelo
Tiago Miguel Pinto, Aluno de doutoramento, Escola de Psicologia, Universidade do
Minho

Brasil

Érika Vieira, Professora Universitária, Enfermeira e Psicóloga, Escola Paulista de


Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo
Eunice Gus-Camargo, Neonatalogista, Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Fernanda Schier de Fraga, Professora Universitária e Obstetra, Universidade Federal
do Paraná
Manola Vidal, Psicóloga, Sociedade Psicanalítica do Rio Janeiro.
Mariana Corniani Lopes, Enfermeira e aluna de Mestrado, Escola Paulista de
Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo
Roberta Silva, Psicóloga, Hospital São Paulo, Universidade Federal de São Paulo
Solange Frid, Professora Universitária e Psicóloga, Instituto de Psicologia,
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Zelina Rosa, Enfermeira e aluna de Mestrado, Escola Paulista de Enfermagem,
Universidade Federal de São Paulo

Espanha

Ibone Olza, Pedo-psiquiatra, Diretora do Instituto Europeu de Saúde Mental Perinatal.

158
159

Você também pode gostar