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Ser negro no Brasil hoje

Ética enviesada da sociedade branca


desvia enfrentamento do problema negro

Milton Santos

Artigo escrito por Milton Santos, geógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da USP

Fonte: Folha de S.Paulo

Há uma frequente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar,
também, se isso é diferente de ser negro no Brasil. As peripécias da vida levaram-nos a viver em
quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é,
conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador. Desse modo, tivemos a
experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques
culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas
diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas. Aqui, o fato de que o
trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do
bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética
conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas
arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os
demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja,
dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos
(paradoxalmente contra as vítimas). Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos,
treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um
injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera
nenhuma forma de discriminação ou preconceito.

500 anos de culpa

Agora, chega o ano 2000 e a necessidade de celebrar conjuntamente a construção unitária da


nação. Então é ao menos preciso renovar o discurso nacional racialista. Moral da história: 500 anos de
culpa, 1 ano de desculpa. Mas as desculpas vêm apenas de um ator histórico do jogo do poder, a
Igreja Católica! O próprio presidente da República considera-se quitado porque nomeou um bravo
general negro para a sua Casa Militar e uma notável mulher negra para a sua Casa Cultural. Ele se
esqueceu de que falta nomear todos os negros para a grande Casa Brasileira. Por enquanto, para o
ministro da Educação, basta que continuem a frequentar as piores escolas e, para o ministro da
Justiça, é suficiente manter reservas negras como se criam reservas indígenas. A questão não é
tratada eticamente. Faltam muitas coisas para ultrapassar o palavrório retórico e os gestos cerimoniais
e alcançar uma ação política consequente. Ou os negros deverão esperar mais outro século para
obter o direito a uma participação plena na vida nacional? Que outras reflexões podem ser feitas,
quando se aproxima o aniversário da Abolição da Escravatura, uma dessas datas nas quais os negros
brasileiros são autorizados a fazer, de forma pública, mas quase solitária, sua catarse anual?

Hipocrisia permanente

No caso do Brasil, a marca predominante é a ambivalência com que a sociedade branca


dominante reage, quando o tema é a existência, no país, de um problema negro. Essa equivocação é,
também, duplicidade e pode ser resumida no pensamento de autores como Florestan Fernandes e
Octavio Ianni, para quem, entre nós, feio não é ter preconceito de cor, mas manifestá-lo. Desse modo,
toda discussão ou enfrentamento do problema torna-se uma situação escorregadia, sobretudo quando
o problema social e moral é substituído por referências ao dicionário. Veja-se o tempo politicamente
jogado fora nas discussões semânticas sobre o que é preconceito, discriminação, racismo e
quejandos, com os inevitáveis apelos à comparação com os norte-americanos e europeus. Às vezes,
até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é? Talvez seja esse
um dos traços marcantes dessa problemática: a hipocrisia permanente, resultado de uma ordem racial
cuja definição é, desde a base, viciada. Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar
vesgo e ambíguo. Essa ambiguidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e
o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições. Tais
refrões cansativos tornam-se irritantes, sobretudo para os que nele se encontram como parte ativa,
não apenas como testemunha. Há, sempre, o risco de cair na armadilha da emoção desbragada e não
tratar do assunto de maneira adequada e sistêmica.

Marcas visíveis

Que fazer? Cremos que a discussão desse problema poderia partir de três dados de base: a
corporeidade, a individualidade e a cidadania. A corporeidade implica dados objetivos, ainda que sua
interpretação possa ser subjetiva; a individualidade inclui dados subjetivos, ainda que possa ser
discutida objetivamente. Com a verdadeira cidadania, cada qual é o igual de todos os outros e a força
do indivíduo, seja ele quem for, iguala-se à força do Estado ou de outra qualquer forma de poder: a
cidadania define-se teoricamente por franquias políticas, de que se pode efetivamente dispor, acima e
além da corporeidade e da individualidade, mas, na prática brasileira, ela se exerce em função da
posição relativa de cada um na esfera social.
Costuma-se dizer que uma diferença entre os Estados Unidos e o Brasil é que lá existe uma linha de
cor e aqui não. Em si mesma, essa distinção é pouco mais do que alegórica, pois não podemos aqui
inventar essa famosa linha de cor. Mas a verdade é que, no caso brasileiro, o corpo da pessoa
também se impõe como uma marca visível e é frequente privilegiar a aparência como condição
primeira de objetivação e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa, a
despeito das pretensões de individualidade e de cidadania do outro. Então, a própria subjetividade e a
dos demais esbarram no dado ostensivo da corporeidade cuja avaliação, no entanto, é
preconceituosa.
A individualidade é uma conquista demorada e sofrida, formada de heranças e aquisições
culturais, de atitudes aprendidas e inventadas e de formas de agir e de reagir, uma construção que, ao
mesmo tempo, é social, emocional e intelectual, mas constitui um patrimônio privado, cujo valor
intrínseco não muda a avaliação extrínseca, nem a valoração objetiva da pessoa, diante de outro
olhar. No Brasil, onde a cidadania é, geralmente, mutilada, o caso dos negros é emblemático. Os
interesses cristalizados, que produziram convicções escravocratas arraigadas, mantêm os
estereótipos, que não ficam no limite do simbólico, incidindo sobre os demais aspectos das relações
sociais. Na esfera pública, o corpo acaba por ter um peso maior do que o espírito na formação da
socialidade e da sociabilidade.
Peço desculpas pela deriva autobiográfica. Mas quantas vezes tive, sobretudo neste ano de
comemorações, de vigorosamente recusar a participação em atos públicos e programas de mídia ao
sentir que o objetivo do produtor de eventos era a utilização do meu corpo como negro -imagem fácil-
e não as minhas aquisições intelectuais, após uma vida longa e produtiva. Sem dúvida, o homem é o
seu corpo, a sua consciência, a sua socialidade, o que inclui sua cidadania. Mas a conquista, por cada
um, da consciência não suprime a realidade social de seu corpo nem lhe amplia a efetividade da
cidadania. Talvez seja essa uma das razões pelas quais, no Brasil, o debate sobre os negros é
prisioneiro de uma ética enviesada. E esta seria mais uma manifestação da ambiguidade a que já nos
referimos, cuja primeira consequência é esvaziar o debate de sua gravidade e de seu conteúdo
nacional.

Olhar enviesado

Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la


diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel
frequentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em "faits-divers", em lugar de
aprofundar as análises. A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de
comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago. E há, também, a
displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito
mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado
para um amanhã que nunca chega.
Ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa
sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim
tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social
quanto haver "subido na vida".
Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há
racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode
esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se
buscam remédios. A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas
raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira,
contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira de modo que,
num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil.

Ética enviesada da sociedade branca desvia enfrentamento do problema negro

Há uma frequente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar,
também, se isso é diferente de ser negro no Brasil. As peripécias da vida levaram-nos a viver em
quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é,
conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador. Desse modo, tivemos a
experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques
culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas
diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas. Aqui, o fato de que o
trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do
bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética
conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas
arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os
demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja,
dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos
(paradoxalmente contra as vítimas). Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos,
treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um
injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera
nenhuma forma de discriminação ou preconceito.