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SUMÁRIO

1 TRANSTORNO MENTAL ........................................................................... 3

2 PSICOSES................................................................................................ 13

3 ESTADO MENTAL DE RISCO E FATORES DE RISCO PARA A PSICOSE


.................................................................................................................. 25

3.1 Combater estigmas. ........................................................................... 42

4 TRANSTORNOS MENTAIS – TEAS E PSICOSES: TRABALHANDO


JUNTO ÀS FAMÍLIAS ............................................................................................... 43

5 BIBLIOGRAFIA ......................................................................................... 59

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1 TRANSTORNO MENTAL

Fonte: www.retironoticias.com.br

Especialistas o definem como uma disfunção significativa no pensamento,


controle emocional e comportamento de alguém, o que muitas vezes compromete sua
habilidade de se relacionar com outros e de administrar as várias atividades do dia a
dia.
Os transtornos mentais não têm nada a ver com fraqueza ou falha de
personalidade. Profissionais da área têm tratado com sucesso vários tipos de
transtornos mentais. Por isso, o primeiro passo é ter uma avaliação completa de um
profissional de saúde com experiência em tratar distúrbios mentais.
No entanto, quem sofre de transtorno mental só vai se beneficiar dessa ajuda
se aceitar e seguir um tratamento apropriado. Para isso, ele talvez precise superar
qualquer receio de falar sobre seu problema. Pode ser que o tratamento inclua
conversas com profissionais de saúde mental habilitados que podem ajudá-lo a
entender melhor sua doença, a resolver problemas do dia a dia e a reforçar a
necessidade de não interromper o tratamento. Nessas consultas, um membro da
família ou um amigo pode ter um papel vital em dar o apoio necessário.

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Muitas pessoas aprenderam a lidar com os transtornos mentais depois de
terem entendido melhor sua doença e seguido o tratamento prescrito por profissionais
da área.
O primeiro passo é ter uma avaliação completa de um profissional de saúde
experiente.

Fonte: www.imagens.globoradio.globo.com

A gravidade dos sintomas pode variar de duração e intensidade, dependendo


da pessoa, da doença e das circunstâncias. Os transtornos mentais podem afetar
qualquer pessoa, independentemente de sexo, idade, cultura, raça, religião, nível
educacional ou renda, e não têm nada a ver com fraqueza ou falha de personalidade.
Com os cuidados médicos apropriados, a pessoa pode levar uma vida produtiva e
gratificante.
Em todas as partes do mundo, milhões de pessoas sofrem de transtornos
mentais, o que também acaba causando mudanças na vida daquelas que as amam.
Uma em cada quatro pessoas será afetada por um tipo de transtorno mental em algum
momento da vida. Em todo o mundo, a depressão incapacita mais pessoas que
qualquer outra doença. A esquizofrenia e o transtorno bipolar estão entre os distúrbios
mais graves e incapacitantes. Embora afete um grande número de pessoas, os

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transtornos mentais continuam invisíveis, negligenciados e discriminados. —
Organização Mundial da Saúde (OMS).
Segundo a OMS, muitas pessoas não buscam tratamento por causa do
estigma relacionado à doença mental.
A maioria das doenças mentais é tratável, mas, de acordo com a Aliança
Nacional para a Doença Mental, nos Estados Unidos, aproximadamente 60% dos
adultos e quase 50% dos jovens entre 8 e 15 anos que têm transtorno mental não
recebem tratamento.

Fonte: www.tvrsul.com.br

Transtornos mentais são alterações do funcionamento da mente que


prejudicam o desempenho da pessoa na vida familiar, na vida social, na vida pessoal,
no trabalho, nos estudos, na compreensão de si e dos outros, na possibilidade de
autocrítica, na tolerância aos problemas e na possibilidade de ter prazer na vida em
geral.
Transtornos Mentais como a ansiedade, depressão, distúrbios alimentares,
dependência química, demência e esquizofrenia, podem afetar qualquer pessoa em
qualquer época da sua vida. Na realidade, elas podem causar mais sofrimento e
incapacidade que qualquer outro tipo de problema de saúde.
Os transtornos mentais, em geral resultam da soma de muitos fatores como:
• Alterações no funcionamento do cérebro;

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• Fatores genéticos;
• Fatores da própria personalidade do indivíduo;
• Ação de um grande número de estresses;
• Agressões de ordem física e psicológica;
• Perdas, decepções, frustrações e sofrimentos físicos e psíquicos que
perturbam o equilíbrio emocional.

Fonte: www.1.bp.blogspot.com

Podemos então afirmar que os transtornos mentais não têm uma causa
específica, mas que são formados por fatores biológicos, psicológicos e
socioculturais.
Os Transtornos Mentais são tratáveis e respondem favoravelmente ao
tratamento médico e outros tratamentos, como tantas outras doenças somáticas. O
problema da doença mental é que o preconceito pode dificultar a busca de ajuda pela
pessoa que sofre e também atrapalhar para que outros a auxiliem.
Os transtornos mentais são tratados, de uma maneira geral, com uma
associação de meios psicológicos e medicamentos (psicofármacos). Algumas
condições não requerem o uso de medicamentos e são tratados apenas por meios
psicológicos. Caberá ao profissional que faz o diagnóstico ao ter o primeiro contato
com o paciente, fazer a indicação de que recursos serão necessários para a
recuperação de sua saúde mental.

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Desde que as pessoas se reconhecem enquanto pessoas, existe a percepção
de comportamento normal, padrão e comportamento desviante. Em diferentes
momentos da história, esses comportamentos desviantes receberam vários nomes e
classificações.

Fonte: www.image.slidesharecdn.com

Para os antigos, alguns desses comportamentos eram vistos como sinais de


deuses, tanto positivos quanto negativos. Alguns casos de esquizofrenia, por exemplo
eram vistos como sinais de profetas.
Com a influência do cristianismo na cultura ocidental, esses mesmos
comportamentos passaram a ser vistos como sendo negativos e influenciados por
demônios. A depressão, por exemplo, dizia-se que era influenciada pelo demônio do
meio-dia. Como a Igreja tinha bastante influência na sociedade, essas pessoas eram
ou abandonadas por estarem possuídas ou eram levadas a igrejas para serem
exorcizadas.
No final da idade média e início do Renascimento, pessoas que apresentavam
esses comportamentos eram deixadas de lado pela sociedade. Eles eram chamados
de loucos e muitas vezes eram trancados com criminosos para afastar suas
influências das pessoas ditas normais.
Com o tempo e o avanço da medicina, começou-se a perceber que esses
“loucos” não possuíam só comportamento desviante, mas apresentavam sintomas

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claros que se repetiam em várias pessoas. Agora, ao invés de trancados em cadeias
com criminosos comuns, eles eram trancados em asilos e manicômios para serem
estudados e tratados.
Neste ponto, passou-se a reconhecer a loucura como doença mental.

Fonte: www.image.slidesharecdn.com

Surge então a psiquiatria moderna no final do século XIX e várias tentativas de


tratamento de doenças mentais. Sigmund Freud, por exemplo, com ajuda de Jean-
Martin Charcot, utilizou inicialmente a hipnose para mostrar que a histeria, doença até
então misteriosa que afetava principalmente mulheres e causava paralisias entre
outros sintomas, era uma doença psicogênica, ou seja, de origem psicológica ou
mental.
Carl Jung, psiquiatra suíço que trabalhou no hospital psiquiátrico de Burgholzli
na suíça, mostrou através de testes de associação de palavras a existência de
complexos autônomos reprimidos e inconscientes, comprovando assim a tese de
Freud. Ele também contribuiu no desenvolvimento do diagnóstico de esquizofrenia,

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elaborado por seu professor e mentor Eugene Bleuler, doença até então chamada de
demência precoce.
No século XX, houveram muitos avanços na psiquiatria e na psicopatologia,
como ficou conhecida a área de estudos das doenças mentais. Durante a Primeira
Guerra Mundial houveram importantes avanços na área da psicometria, ou de testes
psicológicos. Eles eram utilizados inicialmente para selecionar os melhores soldados
e depois para selecionar os melhores empregados para as indústrias.

Fonte: www.i.ytimg.com

Com os testes psicológicos começaram as classificações de inteligência. Com


isso alguns casos de transtornos mentais passaram a ser classificados como retardos
mentais ou déficits de inteligência. Pessoas com QI entre 80 e 120 eram consideradas
normais, pois estavam na média.
Pessoas com QI abaixo de 80 eram consideradas com atraso no
desenvolvimento mental e taxadas como retardadas mentais. Após a Segunda Guerra
Mundial, a Associação de Psiquiatria Americana criou o Manual Estatístico e
Diagnóstico de Doenças Mentais, o DSM (Diagnostic and Statistic Manual).
Atualmente estamos na quarta edição, lançada em 1994, com revisão feita em
2000. A Organização Mundial da Saúde organizou a Classificação Estatística
Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, atualmente em
sua décima revisão, conhecido por sua sigla CID-10. Ela possui um capítulo exclusivo

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para distúrbios mentais e do comportamento que pretende estar concordante com o
DSM, porém apresenta algumas diferenças significativas.
Um estudo foi feito mostrando que o CID-10 é mais utilizado em diagnósticos
clínicos enquanto o DSM-IV é mais utilizado em pesquisas. O DSM-V está agendado
para sair em 2013 e o CID-11 para 2015, com mais aproximações entre ambos.
Com todas as classificações de loucura da medicina e de retardo mental da
psicologia, o século XX trouxe muitos estigmas às pessoas que traziam tais rótulos.
Elas eram chamadas de loucas, depois de doentes mentais ou retardadas mentais.
Inclusive alguns problemas físicos com efeitos no comportamento e na inteligência,
como o hipotireoidismo – também chamado de cretinismo, foram responsáveis por
estigmatizar várias pessoas.

Fonte:www.camacarifatosefotos.com.br

Atualmente, chegou-se em um consenso de utilizar o termo “transtorno mental”


ou “distúrbio mental”, para desestigmatizar essas condições psicológicas. Essas
pessoas não são mais marginalizadas como loucas ou internadas como doentes, mas
tratadas com respeito e compreensão.
Os atuais manuais classificam os transtornos, não as pessoas. Por isso evita-
se utilizar expressões como “o esquizofrênico” ou “o alcoólatra” e utilizam-se termos
como
“a pessoa com esquizofrenia” ou “o paciente que sofre de alcoolismo”.
A saúde mental é tão importante como a saúde física para o bem-estar dos
indivíduos. Os avanços da medicina mostram que, como muitas doenças físicas,

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estas perturbações resultam de uma complexa interação de fatores biológicos,
psicológicos e sociais.
É evidente que a saúde mental debilitada de um indivíduo desempenha um
papel significativo na diminuição do funcionamento imunitário e consequente
desenvolvimento de certas doenças.

Fonte: www.s-media-cache-ak0.pinimg.com

Sabe-se que as perturbações mentais podem afetar todas as idades e causam


sofrimento no indivíduo, em toda a família e comunidade. Esses fatores na maioria
das vezes são ignorados ou negligenciados no tratamento dos indivíduos,
ocasionando assim o aumento do uso de psicofármacos, tratamentos inadequados e
internações desnecessárias.
Os transtornos mentais já representam quatro das dez principais causas de
incapacidade em todo o mundo. Esse crescente ônus representa um custo enorme
em termos de sofrimento humano, incapacidade e prejuízos econômicos.
Visto a alta prevalência de transtornos mentais na atenção primária e o impacto
considerável na vida dos indivíduos afetados, é necessária a implementação de
políticas públicas na área. Para tanto é necessário dispor de informações adequadas
a fim de realizar-se uma análise objetiva das situações sobre as quais se pretende
atuar.

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A efetiva abordagem dos problemas de saúde mental pela equipe da atenção
básica, incluído aí uma escuta qualificada (acolhimento) e intervenções pertinentes
neste nível de atenção, é um marcador potente que aponta a incorporação na prática
cotidiana do conceito ampliado do processo saúde-doença.
Dessa maneira, será possível potencializar a capacidade das equipes para sair
da atuação tipo "queixa-conduta" e gerar competência para articular recursos
comunitários e intersetoriais. O conhecimento do contexto sociocultural e dos
recursos da comunidade e da família são condições necessárias para o
enfrentamento de questões que extrapolam os problemas da ordem do biológico,
como os transtornos mentais e aqueles derivados das situações de violência.

Fonte: www.slideplayer.com.br

A busca pelo conhecimento é uma característica fundamentalmente humana.


Desde os tempos pré-históricos o homem tenta compreender, prever e controlar a
natureza que o cerca. Hipócrates, quatro séculos antes de Cristo, é reconhecido no

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mundo ocidental como quem primeiro buscou descrever e categorizar quadros clínicos
diagnosticáveis através da observação, prática que ficou conhecida como “método
hipocrático”. Toda a história da Medicina é marcada por esse raciocínio clínico em que
identificar e agrupar enfermidades que compartilham dos mesmos sinais e sintomas
é a base para se buscar a origem desses males, prever sua evolução e buscar meios
de tratamento.
No campo da saúde mental, podemos atribuir ao psiquiatra alemão Emil
Kraepelin (1856-1926) o desenvolvimento do primeiro sistema de classificação que,
norteado por uma visão fenomenológica, considerava a origem orgânica das doenças
psiquiátricas. Através de sua observação clínica, Kraepelin buscou identificar padrões
de sintomas que permitissem a construção de diagnósticos sindrômicos. Em seu
tratado, refutou a ideia de uma psicose única e apresentou o quadro de “Demência
precoce”, distinguindo-o da
“Psicose maníaco-depres-siva”.

2 PSICOSES

Fonte: www.2.bp.blogspot.com

A Psicose a uma doença bastante mencionada em várias esferas: no cotidiano


popular, no cinema, como, por exemplo, no famoso filme de Alfred Hitchcock 'Psicose'

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e, claro, na ciência psicológica, mais especificamente na psicanálise. Com o presente
ensaio objetiva-se refletir sobre as dificuldades de se elaborar um diagnóstico correto
e de caracterizar a psicose. Por fim, será feita uma análise do psicótico em uma
instituição.

Vieira (2001) cita três razões nas quais se faz necessário o uso do diagnóstico:
• Para existir comunicação, trocas e transmissão de informações;

• Para que seja possível obter uma opinião coerente que atribua um relativo
poder ao que se analisa;

• O diagnóstico possibilita adquirir orientações importantes para se ter uma ideia


de como agir e administrar a terapia.

Fonte: www.image.slidesharecdn.com

Sua prática, no entanto, não é tão simples quanto sua definição. A grande
polêmica é saber como respeitar o universo do indivíduo e classificá-lo noutro
universo de diagnósticos previamente estabelecidos. Vieira afirma que "por mais que
se busque preservar a singularidade, a atribuição de um diagnóstico é
necessariamente a atribuição de um juízo de valor que incorpora o sujeito a uma
classe".
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De fato, temos de admitir que o diagnóstico é um problema para o psicanalista,
e que todo diagnóstico, inevitavelmente, é uma classificação. Vieira chega à seguinte
conclusão: "percebemos então que no diagnóstico há sempre um aspecto de
objetivação do sujeito que consolida o peso do eu em detrimento da flutuação
subjetiva".

Fonte: www.68.media.tumblr.com

Desse modo, o profissional que utiliza o diagnóstico como ferramenta de


trabalho deve considerar a limitação dessa ferramenta, já que ela não é capaz de
oferecer uma análise desprovida de erro ou vieses, assim como deve não se deixar
confundir com discussões e divagações que defendem uma ruptura filosófica com o
diagnóstico. Contudo, o que se tem visto é uma devoção aos manuais e aos
compêndios psicopatológicos, sem que haja qualquer espaço para uma perspectiva
subjetiva do indivíduo.
Hoje em dia, o diagnóstico psiquiátrico reduziu-se a um conjunto de sintomas
descritos pelo CID ou DSM. Ao psiquiatra basta conhecer as listas de sintomas e
enquadrar seus pacientes nos diagnósticos correspondentes. O paciente, nos dias
atuais, não tem um diagnóstico: tem vários, porque seus sintomas podem compor,
seguindo escalas, mais de um diagnóstico possível, o que acontecer na maioria dos
casos. Não importa o ser humano que se "esconde" atrás dos sintomas, considera-
se apenas a superfície e o sujeito não entram em questão.

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Diante disso, a psicanálise, por sua vez, necessita de atenção tanto para
fatores conscientes como inconscientes para a realização de um diagnóstico, ressalta
Hegenberg (2004), pois demanda do terapeuta a capacidade de distinguir aquilo que
pertence a ele mesmo (juízo de valor) e o que se refere ao outro. Destaca-se, assim,
a importância fundamental de um diálogo significativo, oriundo da relação existente
entre terapeuta-paciente (transferência-contratransferência).

Fonte: www.image.slidesharecdn.com

Cabe ao profissional saber lidar com esse poder e buscar esse equilíbrio
máximo de não se perder nas divagações dialógicas mentais nem de se prender a
normas e manuais 'sagrados'. A situação se compara a uma balança: se não houver
cautela, um dos extremos sempre prevalecerá e, consequentemente, o outro estará
desnivelado. De fato, é um caminho árduo e que exige esforço; entretanto, nada mais
é do que o exercício da própria prática clínica.

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Quem trabalha com pacientes psicóticos precisa ter conhecimento
aprofundado do tema, assim como vivência na prática clínica e/ou institucional. Por
isso, primeiramente, será feita breve explanação sobre os elementos tipológicos
estruturantes do psiquismo segundo Freud.

Fonte: www.3.bp.blogspot.com

Três são as estruturas que compõem o psiquismo, id, ego e superego. O Id é


a única estrutura com a qual o indivíduo nasce. O id é um reservatório de energia
instintiva. Dela se deriva as outras duas estruturas psicológicas, o ego e superego. O
id consiste numa estrutura psíquica 'exigente', repleta de desejos e pulsões e não é
influenciada pelas demandas do mundo exterior, ou seja, a realidade. O id é movido
pelo princípio do prazer.
Já o Ego é direcionado para a realidade e busca a satisfação das necessidades
através de meios aceitáveis socialmente; logo, o ego se opõe ao id em relação ao
princípio do prazer, pois o ego atua de acordo com o princípio da realidade. Por fim,
o Superego é a consciência, a censura. Essa estrutura da personalidade é formada
pelas leis e pelos padrões da cultura na qual o sujeito está inserido.

Zimerman (1999) distingue três situações:


• Psicose propriamente dita;
• Estado psicótico;

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• Condição psicótica.

O que nos interessa aqui é a psicose propriamente dita. O autor define que as
psicoses implicam um processo deteriorativo das funções do ego, a tal ponto que
haja, em graus variáveis, algum sério prejuízo do contato com a realidade. É o caso,
por exemplo, das diferentes formas de esquizofrenias crônicas.

Fonte: www.cdn.slidesharecdn.com

Portanto, a psicose tem como núcleo estruturante central a prevalência do


princípio do prazer sobre o princípio da realidade. Dessa forma, as funções do ego
são prejudicadas, caracterizando o contato do indivíduo psicótico com seu mundo
externo como um ambiente restrito ao seu universo interpsíquico, ou seja, um mundo
só seu.
Freud, em 1924, em seu escrito a perda da realidade na Neurose e na Psicose,
permite entendermos a psicose como um distanciamento do ego (a serviço do id) da
realidade, com predomínio do id (e não o princípio da realidade) sobre o ego em si.
Ele estabeleceu a existência de duas fases para o desenvolvimento de uma defesa
psicótica diante um estímulo. Inicialmente, o distanciamento do ego para muito além
da realidade do estímulo apresentado; em seguida, uma possibilidade de tentar
reparar o dano provocado pelo distanciamento, por meio do restabelecimento dos
contatos do indivíduo com a realidade que o cerca, mas à custa do id.

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Definimos a doença em si, mas quais seriam as características de um
psicótico?
Hegenberg (2001) caracteriza as pessoas psicóticas como: Profundas,
centradas nelas mesmas, estabelecendo uma delicada relação com o ambiente
porque esse ambiente pode ser fator de desorganização pessoal, têm um mundo
interno rico, em função do id como instância dominante. A criatividade do tipo P é
grande em função desse contato profundo com seu mundo interno, sendo que suas
ideias próprias, que não precisam respeitar regras ou opiniões alheias, também se
dão em função dessa riqueza do mundo interior.

Fonte: www.slideplayer.com.br

Além dessas características, existe um fator que define o quadro do psicótico,


a questão social. O psicótico tem dificuldade de se desempenhar no campo social.
Em termos psicanalíticos, ele apresenta dificuldade de se desempenhar diante do
outro, no espaço do outro.
Podemos dizer a dificuldade de constituir o próprio campo do Outro como isso
que ele é para nós, neuróticos: o campo de nossa existência (social), o campo
simbólico onde um sujeito (simbólico/social) pode se realizar e se exercer como
sujeito.
A natureza da angústia, na personalidade psicótica, é de fragmentação. Não
há organização do superego, pois o que domina é a organização do id, que direciona
a um conflito com a realidade.

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Com relação ao pensamento, no psicótico acontece o que podemos chamar de
clivagem, isto é, o pensamento delirante primário não se reprime nem fica embutido,
o que o possibilita agir com uma normalidade aparente. Como seu pensamento é
prisioneiro, ele não possui o prazer de pensar nem liberdade e autonomia para
elaborar novos pensamentos. Por isso o psicótico tem dificuldade em criar metáforas
(conotações secundárias, no sentido figurado), aquilo que ele escuta é interpretado
de forma literal.

Fonte: www.cienciahoje.org.br

Se um paciente psicótico ouve falar que a cabeça de alguém está "cheia de


lixo", vai entender que o crânio dessa pessoa se encontra repleto de objetos sujos.
Pode ser que ele até fique angustiado por não poder retirar esse "lixo" de lá. O
psicótico não tem capacidade de abstrair.
Intrínseco ao pensamento, encontramos os afetos que também não são típicos.
Ao psicótico não é permitido experiências, os sentimentos genuínos que vivencia. Na
psicose incide, portanto, uma interdição no registro da 'nominação dos afetos',
tornandoos sentimentos, o que não possibilita nomear adequadamente as vivências
cuja causa esteja relacionada à significação ausente.
Além do pensamento e do afeto, o profissional precisa estar atento ao contexto
em que o psicótico está inserido, principalmente no que se diz respeito a sua família,
que, num aspecto mais amplo, apresenta "características psicóticas" como a clausura.

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Elas são fechadas, possuem um mundo próprio e desfavorecem as regras e o que é
dito no meio social, ou seja, tais características impedem uma interlocução sadia do
sujeito com o que é diferente, com estímulos derivados do campo não familiar que
poderiam oferecer certa autonomia e liberdade. Desse modo, tais observações nos
permitem considerar a possibilidade de uma "transmissão" da psicose entre os
membros que compõem a família.

Fonte: www.i.ytimg.com

Diferentemente das outras doenças emocionais, que podem ser comparadas


às experiências humanas, a psicose ou transtorno psicótico não encontra base de
analogia com nenhuma vivência pessoal, e não é semelhante nem ao sonho mais
irreal. Este estado mental indica uma perda de contato com o real.
A pessoa que atravessa uma crise psicótica pode ter alucinações, delírios,
mudanças comportamentais e pensamento confuso. Estes sintomas estão aliados a
uma carência de visão crítica que leva o indivíduo a não reconhecer o caráter estranho
de seu comportamento. Assim, ele tem sérias dificuldades nos relacionamentos
sociais e em executar as tarefas cotidianas.
O grau desta perda de contato com a realidade depende da intensidade da
psicose. Quando não estão em crise, os pacientes cuidam de si mesmos, preocupam-
se com sua qualidade de vida, alimentam desejos sexuais, desempenham bem seus
papéis sociais, interagindo com o outro sem problemas.

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A psicose em si tem início quando a pessoa começa a se relacionar com
objetos irreais, modificando suas atitudes, ideias e visões de mundo em função desse
relacionamento. A partir daí a realidade vai perdendo o significado para o paciente.
Ele pode cismar com situações absurdas ou com pessoas que não existem, embora
continue a viver no mundo real.

Fonte: www.3.bp.blogspot.com

Uma reação psicótica pode ser provocada por uma grande quantidade de
stressores do sistema nervoso. As pessoas podem passar por experiências
transitórias de alucinações, por exemplo, sem que se caracterize uma psicose
permanente, com consequências para a vida toda.
Elas podem inclusive aproveitar essas vivências como inspiração artística ou
como revelação divina. Assim, alguns autores dizem que se deve lidar com a psicose
como uma continuidade do estado de consciência.
Segundo o DSM – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, guia
de diagnósticos utilizado amplamente nos EUA -, a psicose é considerada um sintoma
de uma perturbação mental, mas não como uma doença em si mesma. De acordo
com este mesmo manual, a psicose é dividida em dois tipos – funcional, como a

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esquizofrenia e as doenças afetivas, e orgânica, como resultado de uma demência ou
de intoxicações.

Fonte: www.transpsicanalise.com.br

Os psicóticos agem de um modo bizarro, assumem posturas estranhas,


vestemse de uma forma excêntrica, têm alucinações, ideias falsas e arrebatadoras,
confundem os acontecimentos. São quase sempre impulsivos e estão
constantemente em risco, pois distorcem a realidade e agem baseados nesta
percepção ilusória; eles não têm uma clara consciência de si mesmos e do ambiente
em que se encontram.
Os pensamentos sem coerência e carentes de um mínimo de organização
refletem-se na fala do paciente; a memória também é seriamente comprometida, tanto
no registro, quanto na detenção das lembranças e no seu resgate. Sua orientação
temporal fica igualmente prejudicada e as emoções vão da apatia e da depressão ao
medo e à raiva.
Esta doença psíquica pode ter como causas uma tendência genética ou
elementos orgânicos externos provocados por fatores ambientais e psicossociais, que
desencadeiam os sintomas acima descritos. O paciente pode até mesmo deixar de
se cuidar, seja na esfera da alimentação ou da higiene.
Teóricos como Freud e Lacan abordaram a psicose em suas pesquisas. O
primeiro a associou à neurose, enquanto o segundo a ligou a uma forclusão –

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mecanismo presente na teoria lacaniana que garante à psicose sua condição
essencial, a falta, distinguindo-a assim das neuroses. Trata-se de um significante, o
Nome-do-Pai, parte integrante do campo do real. Para Lacan, o psicótico sofre
justamente da carência desse elemento - uma ponte para a realidade, que passa pela
castração simbólica, experiência ausente no processo mental deste paciente; assim
ele se vê muitas vezes cotejado com a castração real.

Fonte: www.images.slideplayer.com

O psicótico pode, em crise, ser considerado um perigo para si mesmo e para


os outros. Quando ele ou seus familiares procuram o atendimento de emergência, os
médicos devem estar atentos a qualquer sinal de violência, mesmo nos pacientes que
parecem mais racionais.
Qualquer indício de irascibilidade deve ser levado a sério e contido, seja pela
redução dos estímulos externos, pela diminuição das trocas na equipe de
atendimento, por uma atitude calma e tranquila do médico, ou até mesmo através de
uma demonstração de força, quando o paciente deve visualizar os seguranças do
prontosocorro, inclusive para que ele organize melhor seus pensamentos e retome o
controle de suas emoções.

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O medicamento deve ser evitado na avaliação do psicótico, pois complica essa
investigação médica, a não ser que o comportamento do paciente se torne tão agitado
e violento que impossibilite o prosseguimento do exame e exija uma sedação.

3 ESTADO MENTAL DE RISCO E FATORES DE RISCO PARA A PSICOSE

Fonte: www.temosquefalarsobreisso.files.wordpress.com

Nos últimos quinze anos, foram feitas tentativas para identificar


prospectivamente indivíduos na fase prodrômica de esquizofrenia e outros
transtornos psicóticos. A abordagem de ultra alto risco, baseada na combinação de
fatores conhecidos de risco de traço e estado, tem sido a principal estratégia utilizada.
A validação dos critérios de ultra alto risco levou em conta a pesquisa preditiva
nessa população, em uma tentativa de identificar fatores de risco clínicos,
neurocognitivos e neurobiológicos para o início de psicose. Também levou a uma
série de estudos de intervenção nessa população, que incluíram o uso de medicação
antipsicótica em baixa dose, terapia cognitiva e ácidos graxos ômega-3.
Ainda que existe evidências razoáveis sobre a eficácia de estratégias de
intervenção específicas nessa população, o tipo mais efetivo e sua duração ainda têm
que ser determinados. Uma controvérsia atual no campo refere-se à inclusão de uma
adaptação dos critérios de ultra alto risco (a síndrome de psicose atenuada) na
próxima versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
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A intervenção precoce na esquizofrenia e em outros transtornos psicóticos tem
sido uma questão central em psiquiatria nas últimas décadas. Apesar de o foco ter
sido inicialmente o primeiro episódio de psicose, rapidamente expandiu-se para incluir
a fase prévia ao início do transtorno.

Fonte: www.sairdadepressao.com

O início dos transtornos psicóticos é geralmente precedido por um período


prodrômico caracterizado por sintomas psiquiátricos não específicos, declínio
funcional e, mais próximo do início da psicose propriamente dita, por sintomas
psicóticos atenuados ou isolados.
A identificação de casos durante essa fase da doença (o “pródromo”) abre
importantes possibilidades para a pesquisa e intervenção sobre a psicose. Primeiro,
ela pode fornecer insight sobre as fases anteriores e iniciais do transtorno, permitindo
a identificação de variáveis preditoras e marcadores de vulnerabilidade. Segundo, ela
permite o desenvolvimento de intervenções que possam retardar, melhorar ou até
evitar o início do transtorno.
No entanto, um grande desafio tem sido o de identificar prospectivamente o
pródromo, especialmente dada a natureza não específica dos sintomas prodrômicos.
Sintomas prodrômicos típicos, tais como transtornos do sono, humor deprimido e
ansiedade, podem ser o resultado de várias condições, tais como depressão maior,

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transtornos de ansiedade e até doença física, e não necessariamente indicam um
pródromo de psicose.

Fonte: www.nacoesunidas.org

Mesmo sintomas psicóticos positivos atenuados ou isolados podem não


necessariamente progredir para um transtorno psicótico franco, já que esses são
conhecidos por ocorrerem antes do início de transtornos não-psicóticos e serem
razoavelmente comuns na população geral.
Assim, ainda que alguns pródromos de fato evoluam para o desenvolvimento
de um transtorno psicótico (os verdadeiros positivos), muitos não evoluem. “Falsos
positivos” são aqueles que não desenvolveram e não desenvolverão jamais um
transtorno psicótico. Esses falsos positivos precisam ser distinguidos daqueles que
desenvolveriam um transtorno psicótico se não fosse por fatores que alteraram a
trajetória da doença, tais como intervenção, redução do estresse ou o abandono do
uso de drogas ilícitas.
O desafio tem sido, portanto, o de desenvolver critérios que sejam capazes de
detectar pessoas com alta probabilidade de desenvolver psicose, ou seja, maximizar
os verdadeiros positivos e minimizar os falsos positivos.
A violência e a criminalidade têm aumentado consideravelmente nas
sociedades urbanas nas últimas décadas, e como consequência disso, alguns
esforços têm sido realizados visando uma melhor compreensão do comportamento

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antissocial. Há muita discussão na literatura sobre o grande número de pessoas com
doença mental em cadeias e prisões. As taxas de homicídio em países de primeiro
mundo mostram grandes variações, mas as taxas entre os indivíduos com transtornos
mentais são semelhantes entre os países e ao longo do tempo.

Fonte: www.recreoviral.com

Recentes estudos mostram que as taxas de homicídios de indivíduos


diagnosticados com esquizofrenia foram fortemente correlacionadas com as taxas de
homicídio total. Uma percentagem de 6,48% de todos os criminosos homicidas com
diagnóstico de esquizofrenia apresentou taxas de homicídios que não contribuíram
para a heterogeneidade da proporção de homicídios cometidos por pessoas com
esquizofrenia.
Nos Estados Unidos, em meados do ano 2005, mais da metade de todos os
detentos da prisão tiveram problemas de saúde mental, incluindo 705.600 detentos
em prisões estaduais, 78.800 em prisões federais e 479.900 em cadeias locais. Estas
estimativas representaram 56% dos presos estaduais, 45% dos presos federais, e
64% dos reclusos em cadeias locais.
Várias razões foram citadas para este fenômeno. Estas incluem a falta de
acesso ao tratamento adequado às pessoas com doença mental na comunidade,
limitada disponibilidade de leitos em hospitais psiquiátricos, interações entre as

28
pessoas com doença mental grave e agentes da lei, e critérios mais formais e rígidos
para o compromisso civil.

Fonte: www.essentia.com.br

No Brasil, há poucos estudos sobre transtornos mentais na população


carcerária, visto que isso tem se tornado um problema para grande parte dos países.
Nesse contexto, o objetivo deste estudo foi abordar a prevalência de comportamento
violento, e sua associação com as categorias individuais de transtorno mental na
Penitenciária Santa Augusta (Criciúma - Santa Catarina - Brasil) para tentar delinear
melhor esses dados no Brasil e principalmente na região sul.
Prevenir a ocorrência das patologias e minimizar riscos são os objetivos de
diversos programas de saúde, como os realizados para as doenças infecciosas e para
o câncer. Mas há essa perspectiva preventiva para os distúrbios mentais.
Ações preventivas podem ser definidas como intervenções desenvolvidas para
se evitar o surgimento de doenças específicas, através da detecção, do controle e da
mitigação dos fatores de risco dessas enfermidades. As intervenções podem ser
direcionadas para grupos populacionais específicos ou para a população em geral.
São exemplos de estratégias preventivas: os programas de rastreamento
populacional do câncer, campanhas de vacinação contra doenças infecciosas,
atividades para a conscientização da população sobre os riscos do tabaco e a
aplicação de normas de segurança contra acidentes.

29
Segundo Giovanni Abrahão Salum Júnior, coordenador júnior do Projeto
Prevenção, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento
para a Infância e Adolescência, a Psiquiatria está buscando uma abordagem
preventiva, pois vários transtornos mentais, como a depressão, o transtorno do déficit
de atenção/hiperatividade e a esquizofrenia, podem se tornar crônicos, mesmo com
tratamento, trazendo sofrimento e prejuízos sociais e econômicos.

Fonte: www.imgsapp2.uai.com.br

Giovanni Salum destaca que esse é um referencial novo, já que, em geral, a


área da saúde mental tem se dedicado mais ao tratamento e à reabilitação dos
portadores de distúrbios mentais.
O Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento (INPD) é um centro de
pesquisa multicêntrico, que reúne especialistas de diversas universidades do Brasil e
do exterior, entre elas a Universidade de São Paulo, a Universidade Federal de São
Paulo, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Universidade Presbiteriana
Mackenzie e a Universidade Federal de Pernambuco. A coordenação da instituição é
realizada pelos psiquiatras Eurípedes Constantino Miguel Filho, Luis Augusto Paim
Rohde e Marcos Mercadante. O INPD está realizando 16 projetos de pesquisa sobre
os transtornos mentais da infância, com avaliações sob o ponto de vista social e
biológico, para o desenvolvimento de ferramentas e métodos para a identificação

30
precoce de crianças e de adolescentes que apresentem fatores de risco para os
distúrbios, possibilitando uma intervenção antes da doença se manifestar.

Fonte: www.saudementalepsiquiatria.com

Giovanni Salum explica que as pesquisas sobre a relação entre fatores


genéticos e o ambiente sugerem que os genes não determinam as doenças de forma
definitiva, os transtornos psiquiátricos são resultado de uma interação complexa entre
vários genes de pequeno efeito (isto é, cada gene é responsável por parte dos
sintomas) e diversos fatores ambientais.
As pesquisas indicam que os fatores ambientais são capazes de alterar a
nossa biologia. Embora eles não sejam capazes de modificar a sequência do DNA
que herdamos, o ambiente é capaz de alterar quais e como os genes são expressos
em determinadas células durante o neurodesenvolvimento.
A exata relação entre os fatores genéticos e os fatores ambientais, bem como
a magnitude do risco do desenvolvimento de uma psicopatologia ainda são aspectos
desconhecidos e provavelmente são bastante diferentes para cada pessoa. Giovanni
Salum destaca que existe a possibilidade de serem criadas estratégias de prevenção,
quando se considera o papel, ainda inexplorado, do ambiente em “ativar” e “desativar”
as porções do nosso DNA.

31
Fonte: www.s3-sa-east-1.amazonaws.com

Estabelecer critérios.

Um dos desafios para se definir medidas preventivas na área da saúde mental


é que ainda não existem critérios objetivos para a indicação de intervenções precoces,
pois apenas alguns poucos fatores de risco são conhecidos. O Projeto Prevenção
está estudando essa questão.
O Projeto Prevenção tem como objetivo identificar variáveis que podem
predizer a ocorrência de transtornos mentais. Para isso, está acompanhando o
desenvolvimento de crianças, entre 6 e 12 anos, em alto ou baixo risco para esses
problemas, com avaliações do ponto de vista genético, clínico, neuropsicológico e
neuroanatômico. Estão sendo estudados quais são os fatores de risco para diferentes
transtornos mentais, entre eles o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade,
alterações psicóticas precoces na infância, o transtorno obsessivo-compulsivo, os
transtornos de ansiedade e de aprendizagem.
Com a definição dos fatores de risco, no futuro, será possível desenvolver
programas de prevenção seletiva (aplicados para indivíduos com os fatores de risco
específicos) e programas de prevenção indicada (aplicados para indivíduos que já
manifestam emoções e comportamentos disfuncionais, mesmo que ainda não
preencham diagnóstico formal).

32
Fonte: www.saudebusiness.s3.amazonaws.com

Giovanni Salum afirma que esses dois tipos de programas de prevenção são
mais indicados porque os programas de prevenção universais (quando as
intervenções são aplicadas para todas as crianças, sem a identificação de quais estão
em risco) são mais caros e podem não atingir as especificidades de cada transtorno.
Outro projeto desenvolvido pelo INPD é uma pesquisa sobre estados mentais
de risco para a esquizofrenia e para o transtorno afetivo bipolar. Essa pesquisa é
coordenada por Rodrigo Bressan, professor do departamento de Psiquiatria da
Unifesp, e está sendo realizada no Programa de Reconhecimento e Intervenção em
Estados Mentais de Risco (Prisma). Estado mental de risco é um conjunto de
sintomas ou comportamentos que indicam a possibilidade do aparecimento futuro de
um transtorno mental grave. Existe na literatura a hipótese de que uma intervenção
na fase de estado mental de risco pode alterar o curso do transtorno, sendo possível
reduzir o sofrimento dos adolescentes e prevenir a conversão para quadros mais
graves, por isso é um dos campos mais promissores para as pesquisas.

33
Fonte: www.uploads.consultaremedios.com.br

Os objetivos do grupo de pesquisadores liderados por Bressan são identificar


crianças e adolescentes em estados mentais de risco para esquizofrenia e para o
transtorno afetivo bipolar, comparar o perfil de funcionamento cognitivo, genotípico e
de neuroimagem estrutural dessas crianças com o de portadores dos transtornos e
com o de controles saudáveis; definir características (endofenótipos) dos indivíduos
em estados mentais de risco que possam predizer o desfecho ao longo de 3 anos e
testar a eficácia de estratégias de intervenção psicossocial.
Segundo Ary Gadelha, pesquisador do grupo, os critérios que caracterizam os
estados mentais de risco ainda não estão totalmente estabelecidos, sendo uma
questão chave para a área. O grupo está iniciando a pesquisa adotando os critérios
usados em pesquisas realizadas ao redor do mundo e outras características clínicas
e marcadores biológicos (como alterações genéticas e neuroestruturais).

Trabalhar com a comunidade.

Tradicionalmente, são descritos três níveis de prevenção: primária, secundária


e terciária. A prevenção primária tem como objetivos evitar o aparecimento de um
transtorno mental e, assim, reduzir a incidência na população (número de casos novos
em um período de tempo específico). Um exemplo são as campanhas educativas
sobre os riscos do uso de álcool e drogas.

34
Fonte: www.imagens.globoradio.globo.com

A prevenção secundária visa à identificação precoce e ao pronto tratamento de


portadores do distúrbio, para a redução da prevalência na população (número total de
casos existentes em um determinado período de tempo) e do tempo de duração do
distúrbio. A prevenção terciária busca a redução da prevalência de incapacidades
residuais, para que as pessoas com doença mental crônica alcancem o nível mais
alto de funcionamento possível.
Segundo Sheila Giardini Murta, professora da Universidade de Brasília, na
prevenção primária, o psicólogo trabalha com a comunidade em ações dirigidas para
a população em geral ou para segmentos específicos, por exemplo, crianças e
adolescentes, buscando reduzir a ocorrência de problemas de ajustamento e
promover a construção de competências associadas à saúde mental.
O objetivo é promover fatores de proteção, aspectos sadios que podem ser
ativados diante de situações adversas. Nessa abordagem, o psicólogo não impõe a
adoção de comportamentos, ele estimula o fortalecimento do grupo para que, se
surgir alguma adversidade, os indivíduos sejam capazes de ultrapassar o problema
através da resiliência ou consigam enfrentar e reagir, utilizando suas habilidades de
vida.

35
Fonte:www.epsjv.fiocruz.br

O conjunto de fatores de proteção de cada indivíduo, explica Sheila Murta,


funciona como um recurso de ajuda na interação com eventos estressores da vida,
evitando consequências negativas para a saúde mental. Exemplos de fatores de
proteção são os vínculos afetivos, o humor, o bom funcionamento cognitivo
(inteligência), as habilidades de comunicação e as habilidades sociais (relação
interpessoal), relacionamentos sociais e afetivos (rede de apoio social), acesso aos
serviços de saúde e à educação e as políticas públicas de proteção aos direitos
humanos.
A promoção de fatores de proteção pode ser realizada em diferentes áreas da
Psicologia, como a Psicologia comunitária, Psicologia escolar e a Psicologia da
saúde, podendo seguir diversos referenciais, como a Psicologia Positiva e o modelo
ecológico de desenvolvimento humano.
Sheila Murta destaca que a definição das intervenções preventivas requer um
bom conhecimento sobre o desenvolvimento infantil e sobre os fatores individuais e
ambientais que podem representar um risco ou proteger a saúde mental. Além disso,
é necessário verificar se a intervenção atende as necessidades e está de acordo com
as características da comunidade.
Darío Cunha Ramirez, pesquisador da Universidade Federal de Santa
Catarina, esclarece que os riscos relacionados à saúde mental podem ter diversas
origens: física (como doenças genéticas ou adquiridas), social (por exemplo, um

36
ambiente violento), psicológica (efeitos de abuso, negligência ou exploração, entre
outros).

Fonte: www.2.bp.blogspot.com

O que determina que uma pessoa seja vulnerável ou resiliente?

A definição de eventos ou situações como prejudiciais ou favoráveis não é


única para todas as pessoas e para os diferentes contextos. A literatura científica tem
destacado cinco fatores gerais que explicam as variações individuais frente à
adversidade: idade, personalidade, suporte social, experiências anteriores e os
modelos de relação entre família e criança.
Darío Ramirez destaca que uma situação de estresse pode representar um
agravo, sendo um fator de risco. Entretanto, também pode favorecer o
desenvolvimento da resistência para vencer e superar o problema, nesse caso
representa um fator de proteção.
Uma das metodologias para promover os fatores protetivos é o ensino de
habilidades de vida, como, por exemplo, a habilidade para a tomada de decisões e
para a resolução de problemas, o pensamento crítico e a comunicação eficaz de
sentimentos.
Os professores, Zilda Aparecida Del Prett e Almir Del Prett e, da Universidade
Federal de São Carlos, coordenam o grupo de pesquisa Relações Interpessoais e
Habilidades importância das redes de apoio social) e possuíam melhores repertórios

37
de habilidades sociais de enfrentamento. Zilda e Almir Del Prett e esclarecem que não
está demonstrada uma relação causal entre o uso de drogas e o baixo repertório em
habilidades sociais e, sim, o potencial protetivo das habilidades sociais.
Através delas, as crianças conseguem manter contatos com as redes de apoio
e procurar os adultos quando precisam de ajuda.

Fonte: www.ednavietta.files.wordpress.com

Como as habilidades sociais são aprendidas, é possível desenvolver


estratégias de prevenção a partir de programas de treinamento que podem ser
aplicados nas escolas, no âmbito do trabalho e, também, nos contextos da Psicologia
Clínica e da Psicologia da Saúde.
Os estudos realizados pelo RIHSUFSCar, com crianças, adolescentes e
também com adultos, têm demonstrado que o treinamento de habilidades sociais
promove uma melhora na qualidade dos relacionamentos interpessoais, um aumento
do respeito e da empatia entre os indivíduos, uma maior flexibilidade para negociar e
lidar com frustrações na escola e também no ambiente corporativo.
Segundo os pesquisadores, o treinamento de habilidades sociais pode ser
utilizado na Psicologia Clínica e na Psicologia da Saúde para o tratamento e a
prevenção de transtornos ou problemas que apresentam correlatos com déficits de
habilidades ou competência social, entre eles os transtornos depressivos, de
ansiedade e de fobia social e os transtornos psicóticos.

38
Fonte: www.nossasbrincadeiras3b.zip.net

O RIHS-UFSCar também tem avaliado a aplicação da técnica de


aprendizagem e de fortalecimento das habilidades sociais para o combate da
violência interpessoal.
Segundo Zilda e Almir Del Prette, os comportamentos agressivos estão
estreitamente relacionados a diversos fatores, entre eles a dificuldade de
compreender a perspectiva do outro, de estabelecer relações satisfatórias e de lidar
com frustrações, bem como estão associados à falta de autocontrole e a muitos
problemas de comportamento, tanto externalizantes (agressividade, coerção,
desrespeito em relação ao outro) como internalizantes (mágoa, ressentimento,
autodepreciação).
As habilidades sociais podem gerar comportamentos substitutivos para a
violência, sendo que a escola é um contexto privilegiado para desenvolvê-las.
Contudo, Zilda e Almir Del Prette enfatizam que, para se obter a prevenção da
violência interpessoal nas escolas, o trabalho com habilidades sociais também deve
ser direcionado para a família e para a comunidade em geral.
A abordagem preventiva na área da saúde mental também está presente na
Polícia Militar do Estado de São Paulo. O serviço de Psicologia da Polícia Militar (PM)
foi criado em 1949, inicialmente estava voltado principalmente para a seleção de
pessoal. A Psicologia clínica começou a se desenvolver na PM em 1990, para atender
às demandas de cunho psicoemocional dos policiais militares. Atualmente, o Sistema

39
de Saúde Mental da Polícia Militar do Estado de São Paulo conta com 134 psicólogos
e assistentes sociais credenciados. A unidade que trabalha na área da Psicologia
clínica é o Centro de Apoio Social (CAS).

Fonte: www.4.bp.blogspot.com

Como explica o 1º tenente da PM Mario Kitsuwa, as atividades de preservação


da ordem pública e de polícia ostensiva expõem o policial militar a situações de perigo
que podem ter consequências graves e imprevisíveis. As emergências muitas vezes
têm consequências físicas, emocionais ou ambas.
Para promover um suporte psicológico tanto para os policiais militares expostos
a eventos potencialmente traumáticos quanto para aqueles que, mesmo sem
envolvimento direto nesses episódios, venham a apresentar algum tipo de alteração
comportamental, foi criado o Programa de Acompanhamento e Apoio ao Policial
Militar (PAAPM).
O PAAPM enfoca a saúde de forma ampla, abrangendo os aspectos
biopsicossociais. Os principais objetivos do programa são promover o reequilíbrio
psicoemocional do policial militar, favorecendo o desenvolvimento pessoal e o
consequente uso produtivo de suas potencialidades; promover a interação do policial
com a sociedade; fortalecer princípios éticos e morais de hierarquia e disciplina;
prevenir ocorrências que tenham como resultado morte e/ou lesões corporais;

40
maximizar a qualidade dos serviços prestados para a sociedade; minimizar o grau de
exposição ao risco e reduzir os efeitos traumáticos.

Fonte: www.gnosisonline.org

Uma pesquisa científica publicada no Journal of Psychiatric Research (Peres


et al., 2011) demonstrou a importância da técnica de atenção psicológica aplicada
pelos profissionais da PM para a terapêutica de memórias traumáticas. Por meio de
imagens obtidas em exames de ressonância magnética funcional, foram investigados
os circuitos neuronais subjacentes ao resgate de memórias traumáticas de três
grupos de policiais militares afetados por traumas psicológicos: policiais que
apresentavam a síndrome parcial do transtorno de estresse pós-traumático (pPTSD)
submetidos a Psicoterapia, policiais com pPTSD que ainda não tinham iniciado o
tratamento e um grupo sem sintomas (resilientes).
O estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São
Paulo, da Philips Medical Systems, da Santa Casa, da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal de Juiz de Fora e da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Foi
observado que o grupo de policiais que foi submetido à Psicoterapia, após o
tratamento, apresentava escores de sintomas e expressão neural relacionada ao
resgate de memórias traumáticas comparáveis ao grupo que não apresentava
sintomas no início do estudo.

41
Os pesquisadores destacam que esses resultados demonstram a relevância
da Psicoterapia para o encurtamento de períodos de sofrimento e para a prevenção
da cronificação de sintomas.

Fonte: www.ichef-1.bbci.co.uk

3.1 Combater estigmas.

O serviço de Psicologia da Polícia Militar desenvolve outros programas, entre


eles o Programa de Preparação para a Inatividade, uma preparação do policial militar
para as mudanças de vida após a inatividade, que visa combater os estigmas
relacionados ao envelhecimento e estimular a superação de desafios e a
redescoberta de habilidades; e o Programa de Prevenção ao Uso de Álcool e Outras
Drogas, com ações preventivas e terapêuticas, incluindo os níveis de prevenção
universal, seletiva e indicada, conforme preconizado pela Organização Mundial da
Saúde.
Identificação de fatores de risco e promoção de fatores de proteção.
Vulnerabilidade e resiliência. As pesquisas e programas apresentados nesse texto
são exemplos de algumas das iniciativas que têm sido desenvolvidas com uma
abordagem preventiva. Como foi abordado, os projetos nessa área não buscam
apenas a prevenção dos distúrbios, pretendem também produzir estratégias para o

42
desenvolvimento de fatores protetivos, conscientizar a população e, dessa forma,
promover a saúde mental.

4 TRANSTORNOS MENTAIS – TEAS E PSICOSES: TRABALHANDO JUNTO ÀS


FAMÍLIAS

Fonte: www.2.bp.blogspot.com

A relação da família, no tratamento dos portadores de transtorno mental – PTM,


com o serviço de saúde mental faz parte de uma perspectiva institucionalista. Tem
como objetivo levantar, descrever e analisar o campo de forças que se estabelecem
na relação entre famílias, portadores de transtorno mental e o serviço de saúde mental
que dificultam uma efetiva adesão dos familiares ao tratamento dos usuários
atendidos em Ribeirão das Neves.
Nesse contexto, definimos e contextualizamos o papel da família, no
tratamento do usuário, portador de transtorno mental. Realizamos não só uma
investigação da relação dos familiares com o serviço de saúde mental, evidenciando
os analisadores presentes, a partir da Análise Institucional, de René Lourau, como
também examinarmos os aspectos instituídos dessa relação, desvendando o que
dificulta o necessário e real apoio no tratamento do usuário, por parte do familiar, e o
que pode propiciá-lo.

43
Também apresentamos algumas experiências de trabalho com os familiares
dos portadores de transtorno mental, ressaltando que são poucas as produções e
relatos, relativos a esse tema, existentes no Brasil. Este estudo busca uma maior
ampliação dessa discussão, além de contribuir para o campo das intervenções com
os familiares dos portadores de transtorno mental.
Podemos ainda concluir ainda que é necessário que os serviços de saúde
mental encontrem estratégias para abranger as famílias durante o tratamento,
ampliando, dessa maneira, o horizonte das intervenções, para que, assim, esse grupo
possa ser parceiro no tratamento do portador de transtorno mental e possibilite a
emergência de forças na relação entre família, portador de transtorno mental e os
serviços de saúde.

Fonte: www.s-media-cache-ak0.pinimg.com

A família historicamente foi excluída do tratamento dispensado às pessoas com


transtorno mental, pois os hospitais psiquiátricos eram construídos longe das
metrópoles, o que dificultava o acesso dos familiares a essas instituições.
Outro fator que permeava a relação da família com o portador de transtorno
mental era o entendimento de que ela era a produtora da doença, uma vez que o
membro que adoecia era considerado um bode expiatório, aquele que carregava

44
todas as mazelas do núcleo familiar e deveria ser afastado daqueles considerados
responsáveis pela sua doença. Desse modo, restava à família o papel de encaminhar
seu familiar à instituição psiquiátrica para que os técnicos do saber se incumbissem
do tratamento e da cura.

Fonte: www.3.bp.blogspot.com

Esse distanciamento da família esteve presente na relação sujeito-loucura até


aproximadamente a década de 80 do século passado, quando emergem novas
possibilidades referentes ao papel e ao relacionamento da família como portador de
transtorno mental.
Essas perspectivas ocorrem em face das novas políticas na área da saúde
mental, consequência do movimento da reforma psiquiátrica que acontece no país e
orienta a transição dos espaços de tratamento da instituição coercitiva e restritiva para
serviços comunitários de atenção à saúde.
Diante dessa nova realidade, a temática família e saúde mental vem
despertando o interesse das várias áreas do conhecimento, haja vista que o novo
modelo de assistência em saúde mental, exige a participação da sociedade, o
trabalho em equipe e a inclusão da família no cuidado à pessoa com transtorno
mental.
A família, portanto, deve ser considerada como ator social indispensável para
a efetividade da assistência psiquiátrica e entendida como um grupo com grande

45
potencial de acolhimento e ressocialização de seus integrantes. Exemplos de
transformação no campo da saúde mental que tem exigido a inclusão da família no
plano de cuidados são a criação e ampliação de uma rede comunitária de atendimento
às pessoas com transtorno mental e a redução do tempo de internação em instituição
psiquiátrica.

Fonte: www.luizberto.com

Cuidar da pessoa com transtorno mental representa para a família um desafio,


envolve sentimentos intrínsecos à vivência de um acontecimento imprevisto e seus
próprios preconceitos em relação à doença. Isso implica em perceber o ser humano
como ser de possibilidades, capacidades e potencialidades, independente das
limitações ocasionadas pelo transtorno mental.
Ainda, é preciso considerar que a convivência da família com o portador de
transtorno mental nem sempre é harmoniosa, é permeada por tensões e conflitos,
uma vez que é nesse espaço que as emoções são mais facilmente expressas. Assim,
a família, como grupo de convivência, requer de seus integrantes a capacidade
constante de repensar e reorganizar suas estratégias e dinâmica interna.
Exige dos sujeitos o respeito à individualidade, pois apesar das pessoas
habitarem a mesma casa, há uma diversidade de formas de ser e estar no mundo,
uma vez que elas pensam, interpretam os fatos e se comportam de forma diferente.
A família é uma unidade social complexa e fundamental para o processo de
viver de todo ser humano, que se concretiza por meio da vivência, que é dinâmica e
singular. Ela não é formada apenas por um conjunto de pessoas, mas pelas relações
46
e ligações entre elas. E, ao longo da trajetória familiar, seus integrantes passam por
situações de crise, sejam estas previsíveis ou não, ligadas aos processos de transição
como nascimento, mudança de emprego, casamento, saída de casa dos filhos, ou a
situações adversas, como a doença.

Fonte: www.dialogospoliticos.files.wordpress.com

A capacidade da família de ajustar-se a novas situações, como a de conviver


com um membro com doença crônica, depende das fortalezas que possui, dos laços
de solidariedade que agrega e da possibilidade de solicitar apoio das outras pessoas
e instituições.
Assim, a temática família e saúde mental no cuidado e na ressocialização do
portador de transtorno mental torna-se relevante em face do processo da reforma
psiquiátrica.
Portanto, estudos que abordam o papel da família na convivência com o
portador de transtorno mental e que promovam discussões dos conceitos de família,
saúde mental transtorno mental e ser humano podem contribuir para cuidados
condizentes com as reais necessidades dessa clientela.
Conhecer o papel da família em relação ao portador de transtorno mental e
identificar a percepção da família com relação à saúde mental-transtorno mental, ao
portador de transtorno mental e ao tratamento em saúde mental.

47
Fonte: www.demonstre.com

Os participantes declararam que a família é o suporte com o qual podem contar


independente da dificuldade que enfrentam. É no núcleo familiar que as relações mais
verdadeiras são estabelecidas, e as soluções para os problemas podem ser
elaboradas.
Eles reconhecem a família ideal como àquela que é capaz de viver em
harmonia. Constata-se um conceito ampliado de família, que vai além dos laços de
consanguinidade, da família nuclear ou representada por aqueles que moram na
mesma casa, além disso, envolve as relações que fazem parte e são importantes na
sua dinâmica. Consideraram que a família, ao vivenciar uma doença, experiência um
processo de crise que pode ocasionar desentendimentos e tornar a convivência tensa:
Família é onde a gente pode contar com eles.
Por mais que ninguém te entenda, alguém te entende. Quando estou
precisando de ajuda peço para minha família. É que tudo tem uma lógica, se você
está mal tem que contar para alguém, e é com eles que eu conto.
É um porto seguro, um lugar onde na dificuldade, você pode contar com
alguém, ou como também do outro lado, a recíproca é verdadeira. A minha família é
a minha família, eu, a minha esposa, e nós temos três filhos, uma está casada, e o
menor é que está morando junto com a gente.

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Família não é só como a religião prega. Além de mãe, pai, filho, um amigo, que
na hora que você precisa pode contar. Família é aquela mais abrangente do que pai
e mãe, aquela coisa sanguínea.
Além de ser porto seguro como fonte de apoio, é o lugar onde podemos falar a
verdade, não aquela que ela quer ouvir, mas aquela que ela precisa ouvir. Na família
não só podemos como precisamos falar a verdade, poder ser verdadeiro.

Fonte: www.portaldoprofessor.mec.gov.br

As falas dos participantes referentes à concepção de família como unidade de


suporte nas adversidades do ciclo de vida vão ao encontro dos achados na literatura,
que a considera uma unidade primária de cuidado, denota sentido de segurança,
espaço de interação, de troca de informações e da identificação de dificuldades. Ela
é dinâmica e varia de acordo com o momento histórico e social que vivencia.
A família é um grupo social organizado, no qual os vínculos são
potencializados, e se constitui espaço de socialização e de proteção aos seus
membros. Evidencia-se a necessidade de conhecê-la e valorizá-la ao reconhecer que
ela é ponto de ligação entre o sujeito e o campo social.

49
Fonte: www.ensinar-aprender.com.br

Quanto à saúde mental, essa concepção é fundamental, pois em face da


reorganização da assistência nessa área, a família passou a ser considerada como
importante fator de ressocialização e reinserção social da pessoa com transtorno
mental, que por vezes ficou afastada do seu convívio familiar e social devido aos
longos períodos de internação em instituição psiquiátrica.
Ainda entendida como base da sociedade, tem-se que os seus integrantes
sejam capazes de compartilhar as experiências do viver, fornece apoio nos momentos
adversos, interagir, potencializar o diálogo e garantir o desenvolvimento saudável de
seus integrantes, a fim de que possam assumir a vida pessoal e profissional.
Alicerçada no respeito à individualidade, a família é reconhecida como
ambiente privilegiado de socialização, próprio para o aprendizado e o exercício da
cidadania e das relações democráticas, além de ser espaço para práticas de
tolerância, responsabilidade, e busca coletiva de estratégias de sobrevivência. Assim
como a família é mais do que pai, mãe e filhos, alguns estudos trazem um conceito
ampliado, em que ela é constituída pelas pessoas unidas pelos laços de sangue, por

50
aqueles que se percebem como parte dela e pelos que são unidos por afeto, que
convivem organizados em determinado tempo e tem objetivos comuns.

Fonte: www.media.deseretdigital.com

O papel da família no cuidado e no tratamento da pessoa com transtorno


mental. Para os participantes deste estudo, o papel da família em relação à pessoa
com transtorno mental é estar presente, ter atitudes de zelo, proteção, afeto e
compreensão. Também é o de instrumentalizar-se, buscar conhecer a si mesmo, o
transtorno mental, os sintomas e as possíveis limitações que ele impõe ao familiar
que adoeceu.
Os sujeitos reconheceram a importância de incentivar e envolver a pessoa com
transtorno mental nas atividades diárias, conforme os depoimentos subsequentes: O
meu filho não tinha iniciativa. Eu trabalho em feira, eu estou cada vez mais deixando
que ele tome a iniciativa de entrar em contato com os clientes e ele tem continuado a
fazer esse trabalho. No começo era difícil para ele, até agora ele vai guardando o
tíquete. Vai se relacionando, as pessoas já o conhecem, então ele vai tendo uma
forma própria de se dirigir às pessoas. Numa feira dessas eu vi ele sair conversar com
as pessoas, coisa que ele não tinha iniciativa de fazer. Coisas assim são estimulantes.
O mais importante, quando se está doente, é conhecer a própria doença
porque cada um de nós é diferente, cada um sabe o que passa o que passou, e até

51
sabemos quando o nosso familiar está piorando. Mas, você tem que correr atrás, ler,
aprender, conversar.

Fonte: www.missionariadafe.com.br

Sempre tento aprender como lidar com ela, mas essa doença deixa a pessoa
difícil, tem que ter uma paciência de Jó, tem que ser muito tolerante, tem que ajudar
muito.
Há uma tendência em considerar a família como unidade efetiva de cuidados,
em esperar que ela assume o papel de cuidadora, nos momentos de doença quanto
de saúde de seus integrantes, ao almejar o alcance do equilíbrio e o bem-estar deles.
Assim, é sua função assistir os seus membros, atender às suas necessidades e
prover meios adequados de crescimento e desenvolvimento.
Porém, os participantes referem que antes da família conseguir exercer esse
papel, ela precisa encontrar estratégias para enfrentar as situações adversas e,
muitas vezes, precisa primeiro se conhecer, trabalhar com os seus anseios, para
posteriormente cuidar do outro:
É acudir. Tem que tratar, a gente não pode sair fora, tem que enfrentar. Como
mãe eu tenho que enfrentar, não fugir, tem até que ir na terapia, para conhecer suas
próprias dores. Acho que tem que fazer tudo isso para poder chegar num dado
momento que a gente tenha um domínio, dos seus traumas, das minhas dores
pessoais, e que eu posso então me dirigir para o outro e acudir. Isso tanto eu como

52
meu marido, sempre na mesma direção. Não mentimos, não negamos, não deixamos
de lado. Sempre falei para a psicóloga o que eu falo, falo na frente do meu filho. Não
tem nada que eu digo que ele não possa ouvir.

Fonte: www.demonstre.com

Para mim foi difícil, para chegar a entender o problema demora um tempo.
Você começa a olhar a pessoa, e ela não tem aquela iniciativa, é um negócio bem
diferente. Teve uma época que eu perdi a paciência. Com o tempo eu fui entendendo
a doença, depois que eu comecei a entender a doença a coisa melhorou.
Nessa perspectiva, uma rede social ampla e resolutiva, de preparo,
acolhimento, apoio e orientação por parte dos profissionais pode contribuir para que
a família assuma o seu papel de provedora de cuidado e se torne uma efetiva unidade
básica de saúde, capaz de resolver os problemas do viver cotidiano.
Entretanto, muitas vezes os profissionais da saúde têm a visão idealista de
família, com a expectativa de que esta seja capaz de produzir cuidados, proteção,
aprendizado dos afetos, construção de identidades e vínculos relacionais de
pertencimento. Dessa maneira, pode proporcionar aos seus membros melhor
qualidade de vida e inserção social.

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Fonte: www.mulher3em1.files.wordpress.com

Ainda, é preciso considerar que a família vive em determinado contexto e em


dado momento de sua trajetória, nos quais suas potencialidades podem estar
comprometidas, e ela necessitar ser igualmente cuidada e instrumentalizada para
cuidar. Mas é preciso considerar, também, que a família, independente das suas
limitações e mesmo sendo instrumentalizada para oferecer cuidado, pode optar por
não o fazer.
Os participantes expressaram que saúde mental é ter equilíbrio entre o pensar
e o fazer, é ser capaz de desempenhar as atividades e estabelecer relações. Já o
transtorno mental, definem como limitação, comprometimento para a realização de
atividades cotidianas, que afeta a vida do indivíduo como um todo. Além disso,
disseram que é difícil conviver com essa situação: Saúde, não só a saúde mental, não
é só ausência de doença, é estar bem é conseguir fazer as coisas no seu ritmo, é
conviver, é poder trabalhar, pensar, estudar, sorrir é poder participar.
A doença é o inverso, é a dificuldade que o ser humano tem, de conseguir fazer
as coisas próprias do ser, trabalhar, estudar, se relacionar, sofrer para fazer as coisas.
Quando aconteceu o problema com o meu filho a sensação que eu tinha é que
existem níveis de saúde mental, vários patamares, eu não via um nível de
diferenciação muito grande entre o doente mental e o resto da população de um modo
geral, isso porque na minha concepção havia níveis.

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Mas vejo que existe uma questão básica do doente mental, como mãe a gente
cria uma expectativa ao desenvolvimento do indivíduo, existe uma questão que é
aquele indivíduo não se projetar, não se apaixonar, eu entendi isso, que a limitação
maior do meu filho, é não se apaixonar, ele não se apaixona nem por uma ideia, nem
por um trabalho, nem por uma pessoa realmente existe um déficit, uma limitação hoje
eu tenho consciência de que não é simplesmente um patamar a mais.
Ter problema mental geralmente afeta o ser de uma maneira contínua e total.
A pessoa fica precisando de ajuda, carente quando se tem saúde mental é muito bom
porque a pessoa fica harmonizada, isso se reflete no que pode fazer, no que se
programa e faz de uma maneira que é bem entendida, bem aceita.
O conceito de saúde mental e transtorno mental é abstrato e subjetivo, visto
que não pode ser observado. O que é concreto, portanto passível de observação e
classificação, são as várias manifestações do comportamento.
Entende-se que o transtorno mental é explicitado pelo desequilíbrio nas
dimensões humanas, sejam elas físicas, psíquicas, emocionais, culturais,
manifestadas por sentimento de tristeza, angústia e sofrimento. Outro aspecto
importante é que a doença interfere nas relações do sujeito com a família, a
comunidade e está intimamente relacionado à sua qualidade de vida.
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Fonte: www.2.bp.blogspot.com

Saúde mental significa a capacidade de lidar com as exigências e os limites


impostos pelo cotidiano. É elaborar e trabalhar com emoções e sentimentos,
agradáveis ou não, com as relações sociais, familiares e profissionais, com as
diferenças de ideias e opiniões e reservar momentos de lazer, entre tantas outras
coisas. Entretanto, para ter saúde mental é preciso equilíbrio entre os aspectos
biológicos, psicológicos e sociais, além de estar bem consigo mesmo e com os
demais.
Vivenciar a prática assistencial com famílias de pessoas com transtorno mental
é trabalhar com o seu sofrimento, com as suas frustrações e com o binômio negação
aceitação do transtorno mental, o que mobiliza sentimentos e percepções em quem
está envolvido.
Neste estudo ficou evidente a necessidade que as famílias têm de falar,
compartilhar suas experiências, deter alguém para ouvir as angústias e as vitórias
que conquistaram no tratamento, no relacionamento com o familiar que adoeceu e
nas descobertas de estratégias de enfrentamento.

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Fonte: www.4.bp.blogspot.com

O papel da família é cuidar, incentivar, estar presente, ser suporte seguro e


confiável, pois é no âmbito familiar que os seus integrantes buscam apoio,
compreensão e vislumbram possibilidades. A relação da família com a pessoa com
transtorno mental por vezes é tensa, mas quando os sintomas decorrentes do
transtorno estão controlados, a convivência pode ser harmoniosa, o que enseja
entender o ser humano com transtorno mental como ser único dotado de
capacidades, e que, apesar de algumas limitações, é capaz de se relacionar e
desenvolver atividades.
Ressalta-se o número reduzido de 6 famílias participantes dentre o universo
das 56 convidadas como uma limitação do estudo e aponta para a necessidade de os
profissionais da área da saúde mental desenvolver mais trabalhos que abordem essa
temática e incluam essa clientela.
Esses dados reforçam a necessidade de os profissionais que atuam na área
da saúde mental buscar incluir familiares nos projetos terapêuticos de seus
integrantes portadores de transtorno mental visando tanto à mudança de
comportamento para a participação em atividades que permitam o compartilhar,
quanto à aquisição de conhecimentos a respeito do tema saúde mental, transtorno
mental e da relação famíliapaciente.

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Fonte:www.1.bp.blogspot.com

Ainda, a dificuldade em mobilizar a família para participar de momentos como


o proporcionado nesse estudo, pode estar relacionada a um passado recente na
história de tratamento nessa área em que a família deveria permanecer distante do
tratamento e quem se responsabilizava pelos cuidados eram exclusivamente os
profissionais de saúde. Acredita-se que mais estudos nessa temática contribuirão na
ampliação de dados para instrumentalizar profissionais e familiares na compreensão
dos vários aspectos desse fenômeno.

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