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TEXTOS MUITO ACIMA DA MÉDIA QUE USAM INTERTEXTUALIDADE E REPERTÓRIO.

TEXTO 1.

Tema: Consumismo - Caio Vinícius Fernandes Rodrigues, medicina UNIFESP e USP.

Consumista, o Sujeito Paciente

Tântalo, personagem da mitologia grega, é conhecido pela maldição a que foi condenado após
roubar, de um jantar no Olimpo, ambrosia e néctar (alimentos que lhe tornariam imortal). Zeus,
como castigo, amaldiçoou-o a passar toda eternidade em um lago com água até o pescoço e
frutos logo acima de sua cabeça. Apesar da proximidade, quando desejasse beber, as águas se
abaixariam, quando quisesse comer os frutos, ventos afastariam os inatingíveis galhos. Do
mesmo modo que no mito, o “deus” do capitalismo tem-nos condenado ao desejo eterno, que
é a força motriz do consumismo: imersos em um lago de “sonhos”, com Iphones e lojas de grife,
resumimos nossa existência à mera aquisição de bens que, aos poucos, limitam nossa
identidade.

Se Tântalo tinha um lago e galhos, nós temos as vitrines. Repletas de propagandas, mercadorias
e promessas de valorização do usuário, as vitrines estão à mostra para alimentar nossa sede. As
constantes mudanças da moda, obsolescência programada de eletrônicos são ferramentas que,
mesmo após a compra do sonhado objeto de desejo, fazem o cliente pensar na próxima vez que
será reconhecido pela bela roupa ou pelo celular atualizado. Em pouco tempo, aquilo que era
bonito torna-se feio, o que era “última palavra” em tecnologia não passa de mais um termo no
dicionário. Sendo assim, pautar uma vida e os sonhos que a nutrem na compra desenfreada e
desnecessária é entregar-se à insaciabilidade.

É inegável que o homem precisa consumir para fazer a manutenção de sua existência, comprar
alimentos e utensílios que sejam bons coadjuvantes em sua vida. Uma avó que faz um bolo à
mão tem tanto mérito quanto uma avó que usou uma batedeira. Ainda que simples, este
exemplo evidencia que as mercadorias não, necessariamente, desumanizam o homem, não o
tiram do papel de protagonista de sua vida. Entretanto, quando a “batedeira” supera a avó,
quando o “camaro amarelo” torna-se um elemento identificador do homem, o protagonismo
da vida passa ser do objeto – que agora é sujeito.

O capitalismo e as inúmeras mercadorias por ele oferecidas são tão tentadoras quanto as
ambrosias de Tântalo. Contudo, conferir sonhos de uma vida à compra de objetos tende a nos
condenar a uma eterna busca por frutos que, a depender da indústria, jamais serão atingidos,
pois o desejo insatisfeito é sua primeira matriz energética. Cabe, agora, deixarmos os objetos
apenas no papel de coadjuvantes, e não de protagonistas nas relações sociais, uma vez que, se
o forem, deixaremos o protagonismo de nossas próprias vidas e por eles seremos comprados.
TEXTO 2.

Tema: Ciúme. Autora: Amarilis Maldonado, medicina UNIFESP.

Proposição

O ciúme é um sentimento que pode tornar-se muito intenso e perturbar o comportamento do


indivíduo, surge em todas as formas do relacionamento humano, mas é particularmente notável
na relação amorosa, o que explica a frequência com que é abordado na literatura e na arte. O
ciúme e outros sentimentos a ele associados, podem assumir bastante intensidade durante a
relação ou até mesmo após a separação do casal. Com base neste comentário e, se julgar
necessário, nos textos mencionados, faça uma redação em prosa, de gênero dissertativo, sobre
o tema.

O SENTIMENTO DO CIÚME EM NOSSAS RELAÇÕES.

Infermitas amator

Argos é um monstro de mil olhos que Hera contrata para vigiar o marido Zeus. O monstro é
símbolo do ciúme, sentimento de frustração advinda da incapacidade de se possuir o ente
amado plenamente. Essa insegurança, quando recorrente, caracteriza o indivíduo como
ciumento, pois destrói seus relacionamentos ao não se valorizar e, ao mesmo tempo, duvidar
que é amado na mesma proporção em que ama. As dúvidas tornam-se hipóteses; as hipóteses
tornam-se brigas; as brigas tornam-se tragédias.

O ciúme possui um drama intrínseco, porque é irracional, logo, associado a paixões hiperbólicas
e patológicas. Esse sentimento não é racionalizável, porque não há como haver parcimônia na
opinião do ciumento, visto que ele sempre plantará dúvidas em situações triviais que, para quem
vê sem olhos passionais, não encontraria evidências de traição. Essa irracionalidade fica nítida
nas múltiplas interpretações do livro Dom Casmurro, advinda da falta de objetividade do
ciumento Bento Santiago. Relações doentias em que o ciúme impera tanto o objeto do ciúme
sofre, porque tem sua vida vasculhada e nunca possui confiança do parceiro, quanto o ciumento,
porque está sempre a procura de vestígios de traição. Antigamente, procuravam-se fios de
cabelo e manchas de batom, enquanto hoje, a internet forneceu e-mail e sites de
relacionamento para os ciumentos enlouquecerem na procura por pista de suas hipóteses. O
comportamento do ciumento talvez se baseie em tentar justificar a necessidade que sentem em
ser neuróticos com o ente amado.

O ciúme deve ser tratado como patologia. Não há ciúme moderado, porque é sempre irracional,
logo, foge ao controle, de modo a, cedo ou tarde, gerar tragédias passionais. Não há monstros
Argos para cercar um indivíduo e garantir sua posse, pois o próprio Zeus driblou sua esposa
Hera, quando exilou a amante Ledo e, com isso, evitou que a esposa ciumenta soubesse do
relacionamento extraconjugal. Relacionamentos humanos são sempre baseados na confiança,
quando o ciúme se instala, definha-os e, com o tempo, leva-os à morte.
TEXTO 3.

Redação que tirou NOTA MÁXIMA na VUNESP - 2018. 28 pontos de 28 pontos possíveis. TEMA:
“O voto deveria ser facultativo no Brasil”? AUTORIA: Tamara Yamamoto, aprovada em Medicina
na Santa Casa, PUC- Sorocaba e Medicina Jundiaí.

"Autoritarismo e falsa democracia.

Recentemente, na eleição para prefeito da cidade de São Paulo, o número de votos em branco
foi superior ao número de votos efetivos. O voto em branco tornou-se um protesto muito
comum, atualmente, contra o sistema político e a falta de representatividade. Essa forma de
protestos, por sua vez, suscitou debates acerca da obrigatoriedade dos votos e de como ela
interfere na democracia. Apesar de muitos fatores indicarem que o voto facultativo seria
democraticamente mais correto, o Brasil ainda mantém sua obrigatoriedade, evidenciando um
Estado autoritário e uma democracia fajuta.

A República Democrática brasileira nasceu de um molde autoritário e alienador, herança que é


presente até hoje, na sociedade. A prática do voto de cabresto não permitiu que a classe eleitora
formasse uma consciência eleitoral, pois não se enxergava claramente as implicações de um
voto, além de não lhe ser dado o poder de escolha, devido ao voto a descoberto. Muito tempo
se passou, mas embora os mecanismos tenham mudado substancialmente, nenhum projeto de
educação foi criado para esclarecer aos leitores acerca da importância da participação
democrática, sendo ainda muito comum a ideia de que um voto não possui valor algum. Dessa
forma origina-se a prática de compra e venda de votos, muito recorrente no Brasil, e um dos
motivos alegados para a manutenção do voto compulsório. No entanto, o autoritarismo
manifestado no voto obrigatório remete à estrutura antidemocrática da recém-criada república,
pois é apenas uma maneira de se manter a população sob controle, e não uma medida eficiente
para solucionar os problemas eleitorais brasileiros.

Além disso, o Brasil vive uma crise de representatividade. A ausência de confiança na classe
política e a descrença nos processos democráticos derivados, entre outros, da corrupção
generalizada e da falta de seriedade nos processos democráticos, como o impeachment, são
causa do alto índice de votos brancos e nulos. Esses votos são o protesto de quem não desejava
votar, mas foi obrigado. No entanto, eles são prejudiciais à democracia pois permitem que
candidatos se elejam sem o número mínimo de votos exigidos, o que claramente não é solução
para a crise de representatividade. Portanto, o voto obrigatório é uma violação democrática,
pois retira do povo o pleno poder de escolha – inclusive de não votar.

Em suma, o Brasil hesita em entregar definitivamente o poder ao povo, devido ao ser caráter
autoritário e à democracia inconsistente. No entanto, a decisão de votar é o primeiro passo
rumo ao voto consciente e à compreensão da importância do processo eleitoral. Estes, por sua
vez, quando respeitados, poderão nos levar à uma plena democracia."
TEXTO 4.

TEMA UNIFESP 2012 – Variação Linguística no Contexto da Educação. AUTORIA: MICHEL LEE,
Medicina UNIFESP.

Tecendo a língua

Certa noite, a agulha, cansada de ser menosprezada, discute a sua relevância com a linha. Esta,
por acreditar que nada era mais importante do que juntar e manter unidos os retalhos, mantinha
o seu ar arrogante; aquela, por sua vez, tentava justificar o seu mérito ao abrir caminhos pelo
dito tecido. É assim que Machado de Assis, em Um Apólogo, apresenta dois tipos caricaturais no
qual um é vangloriado e o outro é renegado. O conflito entre a língua culta e a popular é o
mesmo que o da linha e da agulha: as variantes populares são negligenciadas ainda que
imprescindíveis no âmbito educacional.

É característico da língua o seu papel de costurar sempre o caminho mais rápido. Em sua teoria
linguística, Mikhail Bakhtin afirmava que a língua é dialógica, ou seja, tanto a fala como a escrita
possuem como objetivos estabelecer um diálogo. Há, nesse aspecto, igual importância do
emissor e receptor: um por transmitir a informação, outro, por adequar o discurso do emissor.
Desse fato decorre a necessidade de o indivíduo ser educado a adequar o seu linguajar para
cada público, para cada contexto, com o intuito de estabelecer a comunicação de forma rápida
e efetiva. Assim, negligenciar as variantes populares, pelo fato de romperem com a gramática
normativa, é esquecer que existe uma heterogeneidade de públicos-alvo, é condenar a
efetivação da linguagem.

A língua é como se fosse um tecido, tecido pelas variantes populares e mantidas pela variante
culta. A língua popular é a vanguarda que modifica a língua ao buscar sempre caminhos mais
rápidos para a comunicação – a flexão só do artigo como forma de marcar a pluralidade no
trecho “Os livro ilustrado mais interessante” comprova isso. Por outro lado, a linguagem culta
também é fundamental, pois quando há desejo de comunicação e as variantes linguísticas do
emissor e receptor são distintas, é a gramática normativa que uniformiza um padrão – textos
científicos em português culto, por exemplo, permite que qualquer cidadão letrado do país leia-
o. Percebe-se que a educação deve englobar tanto a variante popular como a culta para que um
cidadão possa se adequar a sociedade.

O brasileiro deve ser um poliglota da própria língua, ou seja, ele deve saber transitar nos
diferentes tipos de variantes linguísticas. Assim, a discussão no âmbito educacional acerca da
importância da variante culta sobre a popular é infundada: tal como um tecido em que a linha e
agulha são igualmente importantes, o mesmo ocorre para as variantes linguísticas.

[SIC - texto transcrito a partir do rascunho entregue por aluno logo após a prova. O tema da
UNIFESP foi "A questão da variação linguística no contexto da educação', vestibular do dia
15/12/2011]
TEXTO 5.

ENEM. EXEMPLO de REDAÇÃO bem acima da média. TEMA: Manipulação do comportamento


dos usuários pelo uso de dados da internet. AUTORIA: Túlio Moura, Medicina UNICAMP.

Submissão à opinião de poucos

No mundo contemporâneo, é inegável a grande importância que a internet possui, haja vista
que 64,7% das pessoas de 10 anos ou mais de idade utilizaram-na. Entretanto, um aspecto
negativo dessa ferramenta tem chamado a atenção nos últimos anos devido seu impacto nas
relações internacionais: a manipulação do comportamento dos usuários. A consequência
principal desse aspecto negativo é a submissão de uma massa de usuários da internet à opinião
de poucos indivíduos - os quais controlam a divulgação de informações nas redes sociais.

A manipulação do comportamento dos usuários é feita a partir do controle de dados na internet.


Em outras palavras, uma instituição coleta os dados das pessoas nas redes sociais e assim,
conhece o perfil e opiniões delas; dessa forma, expõe a esses indivíduos certas informações
ligadas a esses dados, de modo que façam eles mudarem de ideia sobre determinado assunto.
Como exemplo, é possível destacar a instituição Cambridge Analytica, comandada por Steve
Bannon e financiada por Robert Mercer, que atuou na conversão de muitos norte-americanos à
votarem em Donald Trump. Uma das formas de fazer isso foi a coleta de dados no Facebook de
muitos usuários e a aplicação de certas informações a eles, relacionadas a esses dados,
manipulando suas opiniões. Nesse sentido, um usuário que fosse a favor do porte de armas era
bombardeado por notícias de que a oponente de Trump, Hilary Clinton, era contraria ao porte.
Ou seja, manipulando a opinião a favor de Trump, que era desejo do controlador, Robert
Mercer.

Como consequência dessa manipulação do comportamento dos usuários pelo controle de dados
na internet é possível destacar a submissão de um grande contingente de indivíduos à opinião
de poucos, como é o caso de Robert Mercer, desfavorecendo que a posição verdadeira da
população seja exposta- deixando os interesses reais do povo cada vez mais longe de serem
concretizados, já que a atenção deles está voltada para os interesses de outros.

Logo, é dever do Estado impedir que os dados dos usuários nas redes sociais sejam aplicados na
concretização da manipulação do comportamento, por meio da criação de leis que punam de
maneira severa as instituições que pratiquem essa ação, de modo que multas e prisões sejam
efetivadas à membros dessas instituições- como à Steve Bannon da Cambridge Analytica. Com
a finalidade de que os comportamentos dos usuários não sejam manipulados, e assim, a vontade
da população seja de fato atendida.

Comp1. Linguagem. 160

Comp2. Repertório. 200

Comp3. Unidade. 200

Comp4. Conectivos. 200

Comp5. Propostas. 200

NOSSA NOTA FINAL: 960.


TEXTO 6.

Tema: "o maior isolamento é cercar-se daqueles que pensam igual a você" - H. Arendt.

Isolamento social

Paradoxalmente com a globalização, as pessoas vêm recebendo cada vez mais informações de
seus grupos de amigos e de pessoas que compartilham de um mesmo pensamento. No entanto,
nessas informações que recebem, ocorre a seleção das mesmas devido aos algoritmos
complexos das redes sociais e dos mecanismos de busca que filtram os resultados apresentados
de acordo com interesse pessoal do usuário. Em contrapartida, essa característica de filtrar os
resultados é prejudicial ao desenvolvimento crítico do indivíduo, já que através dessas “bolhas”
informacionais, as pessoas não têm contato com os pensamentos que divergem de sua opinião
pessoal e não refletem sobre os acontecimentos globais.

Segundo a pensadora judia do século XX, Hannah Arendt, o maior isolamento que podemos
sofrer é cercarmo-nos daqueles que pensam igual a nós, já que devido a isso, nós, quanto
cidadãos, inseridos em um contexto sociocultural repleto de xenofobias, racismos e fanatismo,
não aprendemos a respeitar as ideias diferentes e avaliar de maneira crítica o que ocorre ao
nosso redor. Como é o caso do personagem principal do livro de Arendt, Eichmann em
Jerusalém, escrito em 1963 e que ainda reflete a sociedade atual quando analisada. No livro, ao
ser entrevistado, Eichmann relata que a sua função na Alemanha nazista seria fazer a triagem
dos judeus nos campos de concentração e ao ser questionado sobre a razão de sua função, diz
que apenas fazia porque recebia ordens de seus superiores, ou seja, ele não pensava de maneira
crítica se o que estava fazendo era certo ou errado, apenas corroborava com o pensamento
xenofóbico dos seus compatriotas devido ao fato de estar compartilhando única e
exclusivamente de uma informação do contexto que estava inserido.

Paralelamente ao cenário do livro, pode-se dizer que o isolamento atual é ainda mais forte que
ao do século passado, já que com a internet, a seleção de informação apresentada é feita em
nível global e não apenas nacional por meio dos “filtros bolhas”. Esse termo é um neologismo
contemporâneo usado para explicar de maneira exata o funcionamento das redes sociais e dos
buscadores de internet, sendo que por meio dos nossos interesses e cliques, estes mecanismos,
selecionam apenas o mais “relevante” aos usuários de seu sistema e não os assuntos de
relevância mundial, como é o caso das desigualdades tanto étnicas quanto sociais. Ademais, os
filtros bolhas podem dinamizar a propagação de pós-verdades e influenciar a decisão das
pessoas, como é o caso da última eleição norte americana, na qual o atual presidente Donald
Trump foi eleito usando discursos de ódio, manipulando as redes sociais e mentindo.

Dessarte, pode-se dizer que ao entrarmos em uma bolha em que possuímos apenas pessoas
com ideias iguais ou semelhantes as nossas, estamos de certa forma, nos isolando do mundo ao
nosso redor e fomentando a atribuição de nossas verdades como verdades absolutas a todos,
assim, consecutivamente, estamos perdendo a essência humana de raciocínio, critica e
compreensão, como diria Arendt, o maior isolamento é cercar-se daqueles que pensam igual a
você.

Nota pela Grade de correção do Redação e Dialogia.

- Conteúdo e Tema: 3,0 pontos (de 4,0 possíveis); - Estrutura: 3,0 pontos (de 3,0 possíveis); -
Linguagem: 2,5 pontos (de 3,0 possíveis).
TEXTO 7.

TEMA MODELO FUVEST/VUNESP - O aceite da mestiçagem é um ideal/utopia que falta ao Brasil?

Um mito social

O Brasil, em sua consolidação ainda como colônia, teve seu desenvolvimento racial baseado na
mestiçagem entre negros, brancos e índios. Posteriormente, com a chegada de milhares de
imigrantes das mais diversas etnias, a riqueza étnica do povo brasileiro tornou-se imensurável.
No entanto, a questão do “aceite da mestiçagem” ainda é um grave problema da sociedade
brasileira, pois o que deveria ser um ideal comum a todos, demonstra-se como uma “utopia” de
igualdade.

Nessa conjuntura, um grande sociólogo brasileiro do século XX, Florestan Fernandes,


contrapondo-se a ideia de Gilberto Freyre de mestiçagem harmoniosa, explica que a
"democracia racial" brasileira é um mito, porque a colonização do Brasil se deu por meio de
extrema violência, tal que as relações existentes entre os índios e negros para com os brancos
foram decorrentes do estupro, da agressão e da supremacia branca.

Devido a isso, o aceite da mestiçagem torna-se uma utopia pois o ideal de igualdade entre
“raças” que deveria existir em uma república supostamente democrática, desaparece quando
levado em consideração a rígida hierarquia social, política e econômica do Brasil. Ademais, por
mais que muitas pessoas digam não ser racistas, ele continua sendo velado no Brasil, ou seja,
muitas pessoas camuflam-no nos preconceitos socioculturais, como é o caso de um jovem preto
ser considerado um alvo em potencial da Polícia Militar por se encaixar em um “perfil” de
criminosos, ou até mesmo, a associação da cor preta e negra a mau agouros.

Logo, a inversão entre o ideal e a utopia nas relações sociais refletem em uma democracia racial
inexistente, tal que o aceite da mestiçagem harmoniosa falta no Brasil, como explicava Florestan
ao contrapor Freyre. No entanto, por mais que se apresente como uma “utopia”, é necessário
que jamais seja perdida pois, uma sociedade etnicamente rica, não deve haver segregações,
pelo contrário, a mestiçagem deve ser o fator primordial de união, tanto de sangue, quanto de
cultura, quanto de futuro.

Notas

Conteúdo - 3,5 (de 4,0 pontos possíveis) - faz paralelo acertado entre Freyre e Florestan. Além
do paralelo histórico. Há apenas uma pequena falha conceitual e comum no uso do termo
"utopia", como sonho impossível, mas a origem do termo quer dizer sonho possível mais que
ainda não tem lugar. Sutil diferença. Uma saída seria colocar o termo entre aspas. Tese implícita
no primeiro parágrafo e explícita no último parágrafo. Responde a pergunta-tema no texto todo
e, principalmente, no último parágrafo.

Estrutura - 3,0 (de 3,0 pontos possíveis) - bem estruturado, claro e coeso.

Linguagem escrita - 3,0 (de 3,0 pontos possíveis) - Linguagem clara. Faltaram as aspas na palavra
"utopia" no terceiro parágrafo, mas já foi descontado no conteúdo. Descontar mais na
linguagem por apenas um termo, acento ou pontuação é ser perverso demais.

NOTA FINAL: 9,5


TEXTO 8.

Tema FUVEST 2015: "Camarotização": segregação social brasileira e a democracia. Mariana


Kurowsky, Medicina Unifesp e Filosofia USP.

Elitização perniciosa

No sentido literal, a distância que separa um camarote do público em geral é de apenas alguns
metros. Contudo, tal disposição dos espaços assume a conotação de um abismo social. O acesso
das camadas mais populares ao que antes era exclusivo da elite potencializou o fenômeno da
“camarotização” no Brasil. A aversão à mistura é resultado de um histórico de desigualdade
social no país. Dessa maneira, é pertinente inferir que a segregação dos ambientes revela o
anseio por distinções em uma sociedade carregada de notória estratificação social e esvaziada
de democracia.

Cunhado pelo filósofo político americano Michael Sandel e traduzido do inglês “skyboxfication”,
o neologismo está associado a outros três termos no contexto brasileiro: distinção, desigualdade
e segregação. O impulso de distinção diz respeito a se apresentar ao mundo pelo consumo, de
forma a se diferenciar. Já a desigualdade e a segregação são crônicas no país,
retratadas, inclusive, em clássicos literários, como “Casa-grande e Senzala”, de Gilberto Freyre,
e “Raízes do Brasil”, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, ambos ilustrando uma constante
ruptura da isonomia.

Todavia, os recentes avanços na distribuição de renda agregaram novos componentes aos


conflitos entre classes. O acesso de estratos sociais e nos abastados a aeroportos, shoppings e
a bairros nobres através do metrô diverge dos interesses daqueles que já usufruíam dessas
vantagens. Esses indivíduos buscam preservar seus ambientes porque não os entendem como
privilégios, mas como consequência do mérito. Uma amostra de efeitos nocivos da
camarotização é perceptível na qualidade do ensino discrepante entre escolas públicas e
colégios de elite, conjuntura esta que faz acentuar a disparidade socioeconômica das gerações
futuras, denegrindo a democracia. Outra ilustração do aviltante fenômeno foi a repercussão
negativa dada aos rolezinhos, apropriação democrática de espaços públicos privilegiados por
jovens e baixa renda, rechaçados em uma nítida violência simbólica. Esse processo de
segregação se traduz na negação do outro e na convivência com ele, coibindo assim a igualdade
de direitos prevista em uma sociedade democrática.

A partir de uma análise criteriosa, torna-se possível inferir que a camarotização representa uma
ameaça à democracia, uma vez que o regime exige que os cidadãos compartilhem uma vida
comum. Dessa maneira, é necessário que pessoas de contexto e posições sociais diferentes se
encontrem e convivam no cotidiano a fim de que respeitem as particularidades do outro e zelem
pelo bem comum." [sic]

Nota: 8,5.

A- Tema, conteúdo e analogia: nota 3,0 de 4,0 pontos possíveis.


B- Estrutura e coesão textuais: nota 3,0 de 3,0 pontos possíveis.
C- Linguagem: nota 2,5 de 3,0 pontos possíveis.
TEXTO 9.

TEMA UERJ: a necessidade de que todos compreendam perspectivas diferentes das suas
próprias para se conviver melhor.

Equilíbrio na Relatividade

Em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, há 2 personagens totalmente opostas: Dom Quixote


e Sancho Pança. O primeiro vive em um mundo onírico, enquanto o segundo é realista ao
extremo. Ambos possuem pontos de vista relativos em determinadas situações. O mesmo
ocorre com a humanidade, pois todos têm perspectivas diferentes e é necessário que todos
consigam compreender e aceitar as diferenças de seus semelhantes, tal qual foi Dom Quixote e
Sancho Pança. Porquanto, havendo um respeito mútuo, os indivíduos só tendem a crescer como
seres humanos.

A relatividade das perspectivas já é conhecida há bastante tempo pelos seres humanos. Na Idade
Média, por exemplo, a Igreja pregava o geocentrismo, ao passo que Copérnico acreditava no
heliocentrismo. Assim, enquanto algo não é comprovado, haverá sempre divergência de
opiniões e isso é algo positivo, porque é da discussão dos pontos de vistas que se chegam às
melhores soluções, como na Grécia em que o debate era um dos pilares da filosofia. O problema
reside na não aceitação da opinião do outro, algo que também é obsoleto na humanidade, por
exemplo, a própria Igreja, que perseguia aqueles que fossem contrários aos seus dogmas na
Idade Média. Desse modo, tal perseguição causa a coibição do outro em expor os seus
pensamentos, o que prejudica o debate e, por conseguinte, a tentativa de respostas.

Infelizmente, a falta de respeito para com o semelhante ainda existe no mundo “moderno”, pois
as ideologias dominantes tentam mostrar a todos que os seus ideais são os corretos e que os
outros precisam ser combatidos. Isso é comprovado pelo combate ao islamismo praticado pelo
Ocidente, pois, na França, as mulheres não podem mais usar burca para trabalhar e isso é um
desrespeito à verdade da religião deles. Dessa maneira, não há uma verdade absoluta sobre
tudo, pois ela é relativa e tem de ser respeitada por todos. Só com o respeito ao outro, pode-se
exigir o mesmo.

Outrossim, Rocinante pode ser apenas um cavalo fraco para quem o ver de fora, mas para Dom
Quixote, ele pode transformar-se em um eficiente alazão por ser o único cavalo que possui, o
seu precioso meio de transporte. Ou seja, não dá para recriminar os pontos de vistas dos outros,
pois cada um enxerga a situação por uma óptica diferente, sendo assim, há uma relatividade em
cada situação e cada perspectiva necessita ser respeitada. Como diria Voltaire, “posso não
concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la.”, ou
seja, a discordância é algo normal, pois a relatividade estará sempre presente, mas o direito à
fala e o respeito ao outro são essenciais para que consigamos viver em um mundo que busque
a igualdade e boa convivência. Pois, se a verdade de todos for ouvida, não haverá recriminação
e todos terão os mesmos direitos, o que proporcionará uma melhor harmonia entre os
indivíduos.

Enfim, à luz do que foi na literatura a relação de Dom Quixote e Sancho Pança, em que o
sonhador completava o realista, o mundo precisa aprender a conviver e a respeitar ao próximo,
porquanto o mundo precisa viver em equilíbrio, já que se não houvesse uma divergência de
opiniões, estaríamos acreditando que a Terra é quadrada até hoje, ou seja, não teríamos
evoluído até o lugar que estamos. - NOTA final: 9,0 – Conteúdo: 3,5; - Estrutura: 3,0; e
Linguagem: 2,5.
TEXTO 10.

TEMA: Privilégios e Fortunas Ameaçadas: entre o ressentimento, a luta de classes e a igualdade.


Mariana Kurowsky, Medicina Unifesp e Filosofia USP.

Título: Temor pelo fim do status de exclusivo.

O filme " Que horas ela volta?", da cineasta Anna Muylaert, retrata a relação entre patrões e
empregados e, por extensão, cria um amplo debate sobre um Brasil segregado, desigual e
permeado por privilégios. A personagem Jéssica, filha da empregada, busca quebrar um ciclo
familiar, o que mostra a luta de classes e a busca por igualdade. As situações abordadas
evidenciam o quanto a sociedade brasileira é arraigada por valores preconceituosos, além de
alertar sobre a necessidade de uma mudança não apenas econômica, mas fundamentalmente
cultural, pois as desigualdades e os privilégios são naturalizados no Brasil atual.

As diversas formas de desigualdade, em especial a social e a racial, descendem do Brasil


escravocrata. Embora a atual Constituição Cidadã estabeleça a igualdade de direitos, é inegável
que isso não se configure na realidade. Como exemplo, tem-se as empregadas domésticas, que
conseguiram a legalização dos direitos trabalhistas apenas em 2014/2015 com a Emenda
Constitucional número 72, PEC das Domésticas. Tal emenda foi encarada de forma negativa pela
classe empregadora, situação que demonstra um ressentimento de classe. A ausência de
direitos somada às relações entre patrões e empregados são resquícios da senzala e apontam
como os privilégios são naturalizados na atualidade.

A naturalização dos privilégios, dos preconceitos e das desigualdades é exemplificada em


"Que horas ela volta?" pelas ações repressivas da patroa frente a personagem Jéssica. Esta além
de quebrar o ciclo familiar e trocar a casa de família pela sala de aula, questionava relação entre
patrão e empregado e expõe a hierarquização de classes no Brasil. Assim como no filme,
inúmeras "Jéssicas" lutam pelo fim de uma sociedade baseada em privilégios e são encaradas
com ressentimento pela classe mais abastada, que se sente ameaçada. Esta situação demonstra
a resistência cultural das classes privilegiadas, como ocorreu no Brasil monárquico ao longo das
lutas pela lei Áurea.

No passado brasileiro, as desigualdades eram constitucionais, hoje a Constituição Cidadã os


erradica. Entretanto, as relações existentes evidenciam o quanto as desigualdades são
naturalizadas e culturalmente defendidas pelos privilegiados. Neste cenário configura-se uma
luta de classes, na qual a maioria desabastada luta pela igualdade diante de uma minoria
privilegiada que teme o fim do seu "status de exclusivo".

Comentário: A NOTA desta Redação fica próxima ao DEZ. Só tiramos ponto por ela não ter
abordado de forma mais incisiva a questão das "Fortunas Ameaçadas" e ficou mais nos
"Privilégios Ameaçados". Porém, como são dois conceitos próximos e o texto ficou muito bem
articulado, muito bem escrito (linguagem simples e precisa), não há como dar nota menor que
9,0.

O ponto chave do texto: O paralelo feito com o Filme é muito bem explorado, chamamos isso
de ILUSTRAÇÃO - que é o uso de um exemplo literário, cinematográfico, mitológico ou mesmo
de uma série da Netflix que serve para dar concretude e estabelecer paralelos com o tema
pedido.
A ILUSTRAÇÃO é muito bem feita nesta redação, pois logo no primeiro parágrafo mostra-se
como o tema está intricado ao filme. Faz-se uma descrição quase que narrativa das personagens
do filme e depois faz-se a analogia ao final do primeiro parágrafo com a Tese: "As situações
abordadas evidenciam o quanto a sociedade brasileira é arraigada por valores preconceituosos,
além de alertar sobre a necessidade de uma mudança não apenas econômica, mas
fundamentalmente cultural, pois as desigualdades e os privilégios são naturalizados no Brasil
atual."

A tese é sofisticada e simples: "as desigualdades e privilégios são naturalizados no brasil."

No desenvolvimento há clara análise da realidade de preconceitos e ressentimentos


naturalizados no Brasil. O exemplo usado é a PEC das Domésticas. Muito bem usado, pois coloca
o tema relacionado com a PEC e ainda ao final do parágrafo faz referência a uma situação
umbilical do filme: a relação patrão e empregada doméstica.

No segundo parágrafo de desenvolvimento vemos isso com mais clareza: o preconceito e o


ressentimento que são naturalizados são postos para o leitor com passagens do filme, com
atitudes das personagens, mas também é feito um paralelo histórico sutil com a escravidão que
parece só ter mudado de nome desde o período colonial: "A naturalização dos privilégios, dos
preconceitos e das desigualdades é exemplificada em "Que horas ela volta?" pelas ações
repressivas da patroa frente a personagem Jéssica. Esta além de quebrar o ciclo familiar e trocar
a casa de família pela sala de aula, questionava relação entre patrão e empregado e expõe a
hierarquização de classes no Brasil."

A solução é evocada na conclusão: o respeito à Constituição cidadã, que já havia sido


mencionada e tratada no desenvolvimento.

Texto harmônico e bem escrito. A tese não é esquecida em nenhum dos parágrafos. Aparece
com clareza no primeiro; é desenvolvida no segundo; é exemplificada no terceiro; e é retomada
como ponto de encaixe na conclusão: "No passado brasileiro, as desigualdades eram
constitucionais, hoje a Constituição Cidadã os erradica. Entretanto, as relações existentes
evidenciam o quanto as desigualdades são naturalizadas e culturalmente defendidas pelos
privilegiados."

Texto coeso. Texto com linha de pensamento simples. Texto bem estruturado. Texto que parte
de um fio condutor (o Filme) e traça uma tessitura narrativa-argumentativa consistente.

O texto fecha-se tão bem que volta ao título: "Temor pelo fim do status de exclusivo".

NOTA final: 9,5


Aprovação MEDICINA USP é Redação e Dialogia.

Victor Rosa, aluno do Redação e Dialogia, entrou na Primeira Chamada da FMUSP com uma
redação bem acima da média, perdeu pontos por linguagem e uma pequena falta de
comprovação. Mas foi uma nota altíssima (8,2 de 10,0 pontos possíveis).

Victor usou um videoclipe da Beyoncé e Jay-Z para falar do tema. Um texto exemplar, excelente
conteúdo, ótima criticidade e visão sobre o tema: a importância do passado, dos museus, da
memória e da História.

O clipe: https://www.youtube.com/watch?v=kbMqWXnpXcA

Nós também lemos o texto e demos uma nota para ele, segundo os critérios da FUVEST:

CONTEÚDO/TEMA - Nota 3,5 de 4,0 pontos possíveis.

ESTRUTURA - Nota 2,5 de 3,0 pontos possíveis.

LINGUAGEM - Nota 2,0 de 3,0 pontos possíveis.

Perdeu nota, na linha 2 e 3, ficaria melhor mudando a pontuação, dessa forma: "(...), retratado
nas dependências do Louvre, em Paris, em meio a quadros históricos e emblemáticos(...)"

Perdeu nota, na linha na colocação da partícula negativa que puxa o pronome para perto, ficaria
melhor: "no qual não ser repete (...)"

Perdeu nota, no segundo parágrafo, por não comprovar melhor a crítica à Bolsonaro relacionada
com Geisel. Bastava uma frase de ambos, ou de um deles para comprovar a crítica. Algo que
mostrasse de fato que há uma semelhança entre os governos do passado e do presente no
tocante à "moral e os bons costumes".

Faltou, portanto, colocar alguma frase como: "buscaremos nos próximos anos restaurar o
sentimento familiar há muito desgastado em nossa sociedade", de Jair Bolsonaro, em
comparação com o que dizia Geisel, para dar provas cabais e substanciais do que se afirma na
Redação.

Perdeu nota em não fechar as aspas, na linha 12.

Nossa nota: 8,0

Excelente texto! A metáfora com o videoclipe foi magistral! Pena que alguns vacilos em
linguagem tiraram nota.

A FUVEST é assim: muito criteriosa! Muito mais que o ENEM.

TEXTOS ESCOLHIDOS E COMENTADOS por Fabrício César de Oliveira, professor doutor em


Linguística e Filosofia da Linguagem pela Universidade Federal de São Carlos - UFSCar,
coordenador do Redação e Dialogia, e ex-Coordenador Geral do Sistema Poliedro - São Paulo,
São José dos Campos e Campinas.

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