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Conector
por Gustavo Mini

4 de agosto de 2010 às 14h24

Epilético – David B.

Sobrevivendo da ambição suicida de tentar


entender o contexto em que vivemos hoje
através dos códigos da cultura digital,
cinema, música, quadrinhos, entre outras
prateleiras.

Gustavo Mini
gustavomini arroba
gmail.com

Até os 11 anos, a vida de Pierre François Beauchard foi a de uma criança comum, na
Seguir @conector
medida em que uma infância pode ser comum. Ladeado por uma irmã menor, Florence,
e um maior, Jean-Christophe, os dias dos três se resumiam a explorações lúdicas dos
WALVERDES HOJE NO JECKYLL
subúrbios de Orleans, na França, invadindo celeiros abandonados e pátios de vizinhos  11 AGO 2010
mal humorados. Mas a diversão despreocupada não durou muito tempo. Nem pra eles,
e nem pra nós, leitores da graphic novel Epiléptico, do francês David B (nome adotado NÃO-LUGARES  09 AGO 2010

por Pierre na pós-adolescência). Já na página 9, o irmão maior,  Jean-Christophe, está


brincando sobre a moto do namorado da babá quando congela, cai e começa a tremer, INGRESSOS PRA FESTA DO CREATORS
sob os olhos apavorados do caçula. PROJECT  06 AGO 2010

OUTDOORS INTERATIVOS  06 AGO 2010


A cena é simples e se desenrola em seis quadrinhos de tamanho regular que não dão a
dimensão da história que vem a seguir. Ainda estamos na primeira parte de Epiléptico e
EPILÉTICO – DAVID B.  04 AGO 2010
seu autor está ainda semeando o terreno do que vai se transformar em uma das mais
intensas e ricas memórias já exorcizadas em quadrinhos.
PELAS COSTAS  03 AGO 2010

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O personagem central de Epiléptico é a doença que dá nome ao livro. De uma hora pra
outra, os ataques epilépticos de Jean-Christophe Beauchard se tornam o centro nervoso
da história pessoal de cada um dos membros da família. Na verdade, não é só a Walverdes
epilepsia que mexe com a rotina e os laços dos Beauchard, mas também (e talvez
principalmente) a tortuosa, frustrante e infindável busca pela cura. Na ânsia de descobrir
como resolver o problema, os pais de David empreendem com os filhos uma maratona Conector no Facebook
que atravessa duas décadas e que envolve todo o tipo de médicos e curandeiros.
Conector
Todo o tipo mesmo. Nesse sentido, David B. é generoso com o leitor ao descrever com Like Like
You like this.
detalhes cada encontro e o background de cada área esotérica coberta pela maratona, Like Like
num panorama interessante do que aconteceu em termos de medicina alternativa na
Europa durante os anos 60. Dentro todas as tentativas, merece destaque as temporadas You and 837 others like Conector.837
que a trupe dos Beauchard passou em comunas macrobióticas e onde David aprendeu a people like Conector.

desconfiar de figuras “santas”.

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À medida em que a história se desenrola, Epilético se movimenta de dentro para fora. As


imagens objetivas dos personagens e as paisagens por onde eles navegam vão sendo
substituídas pelo universo interno do autor numa das mais comoventes traduções
visuais de um drama individual que eu já vi. Na imagem acima, por exemplo,
testemunhamos um ataque epilético de Jean-Christophe como David enxergava: uma
serpente, de tom mítico e traços tribais, que envolve e convulsiona o corpo do irmão.
 Mas isso, creia-me, é só a ponta do iceberg.  Página após página, quadrinho após
quadrinho, Epilético vai cada vez mais fundo.

Esse é justamente o grande predicado do livro: ele revolucionou as graphic novels de


memória ao focar de forma virtuosa e atenta o universo interno do autor. Diferente da
longa linhagem em que se insere e renova (trabalhos de Robert Crumb, Art Spiegelman
e, mais recentemente, obras como Fun Home e Umbigo sem Fundo), Epiléptico se
destaca por ir abrindo mão da história objetiva e investir pesado na construção de uma
narrativa visual de forte apelo mitológico, repleta de símbolos universais (serpentes,
armaduras, pássaros, esqueletos, fantasmas) traduzidos para o uso da situação particular
dos Beauchard.

(Os símbolos universais ainda são uma das melhores bóias para mergulhar no caos,
manter a comunicação com o mundo e voltar pra contar uma boa história.)
É lindo o paradoxo que acontece: quanto mais fundo David vai em si mesmo, mais
universal e atemporal seu drama e o drama da sua família se tornam. Quanto menos
interessa o que está acontecendo objetivamente, mais objetiva a história se torna, mais
sentido ganha. E não apenas pra nós, mas também para o autor.

Aqui, entramos em uma área perigosa. O exorcismo de problemas pessoais via


quadrinhos (ou literatura ou música ou pintura…) é um setor lodoso. Quando serve mais
ao autor do que à audiência, mostra-se irrelevante como obra, não adiciona nada à arte
à qual está vinculado e possivelmente é raso como gancho para descobertas pessoais de
qualquer um que não tenha participado da sua concepção. Quando serve mais à
audiência do que ao autor, pode ser triste do ponto de vista humano: quer coisa mais
melancólica que um Nick Drake da vida, compositor de melodias incrivelmente
inspiradoras mas que morreu cedo e deprimido?
Mas Epiléptico consegue o feito de ser funcional tanto como exorcismo particular quanto
como referência no campo cultural que ocupa. O primeiro resultado pode ser auferido
tanto durante a leitura (nos capítulos finais David conta como trabalhar no livro mudou
sua visão de mundo e o salvou da força centrípeta da doença do irmão) quanto por
entrevistas. O segundo depende das resenhas que você encontrar por aí bem como da
sua experiência ao se relacionar com o calhamaço. Leia Epilético e coloque na sua
estante mental junto com os já citados Crumb, Spielgman e outros da mesma cepa.
Poucas obras tem tanta capacidade de falar por si, seja verbalmente ou visualmente.

***

Epiléptico saiu no Brasil em dois volumes pela Conrad. Se você se interessou, não
bobeie: faça as contas, economize e compre logo os dois de uma vez.

A edição americana vem com a história completa.

***

Além de uma grande obra de arte, Epiléptico também oferece um olhar honesto e amplo
sobre a epilepsia. Os relatos não são maniqueístas e a forma como David B. retrata a
relação dele com seu irmão cobre uma boa gama de matizes.  Ou seja, não espere
encontrar fórmulas hollywoodianas, como a do irmão são que recupera o irmão doente
ou o irmão doente que oferece algum tipo de redenção ao irmão são. As coisas são mais
complexas, mais feias e mais bonitas do que isso. E David não esconde o jogo nesse
sentido.

***

Dependendo do seu estado de espírito, Epiléptico não é uma leitura rápida. O livro foi
meu companheiro por dois ou três meses não porque seja complexo ou difícil, mas
porque é tão rico e tão intenso que merece uma atenção especial: vale parar, ler com
atenção, desfrutar dos desenhos, deixar cada trecho descansar e dormir com você. É
mais do que uma leitura, é realmente uma pequena jornada bastante recompensadora.

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por: Gustavo Mini postado em: Arte


tags: Alison Bechdel, Art Spiegelman, Arte, Conrad Editora, Dash Shaw, David B, Epiléptico, Epileptic, Fun
Home, Livros, Quadrinhos, Quadrinhos Autobiográficos, Robert Crumb, Umbigo sem Fundo

4 Comentários
Comentário por walker b dantas
5 de agosto de 2010 às 22h46

Obrigado, Gustavo, por compartilhar, vou procurar um dia, ler eu mesmo esta novela
gráfica.
Responder

Comentário por GiGi Radio


7 de agosto de 2010 às 5h58

poxa :~~ eu tenho esse quadrinho, os dois, engraçado que ganhei o 2 primeiro, o que
estragou um pouco da minha sensibilidade para com a história, blablabala, relendo,
conquistei mais daquele sentimento todo. Ah, é realmente uma beleza de quadrinho.eu
tenho umas doideras que foram diagnosticadas de: sonhos lúcidos, o que eu discordo
de ser, mas eles diagnosticam como o créu na velocidade 5 e “nomeclam” qqr coisa que
se mova ou não. Enfim, algumas coisas que o personagem passa, me causaram
sentimentos parecidos.. balbalablabla caos.sssVou dormir, tomei um banho de chuva da
porra, congelou até o fígado, maravilha!
Responder

Comentário por GiGi Radio


7 de agosto de 2010 às 5h59

Tem um quadrinho chamado: Estigmas… vale a pena ler, ver.


Responder

Comentário por Gustavo Serrate


9 de agosto de 2010 às 12h12

Gustavo, muito obrigado por esse post. Parece ser uma história extraordinária, pode ter
certeza que no meu próximo pagamento vou comprar a história do epilético, mas de
imediato, vi sua situação de Nick Drake. Eu não conhecia o artista apesar de já ter
ouvido falar dele, talvez já tenha ouvido uma ou duas músicas, mas nunca prestado
atenção.Dessa vez tirei a manhã para ouvir, já estou baixando os discos e Nick Drake é
uma daquelas grandes descobertas musicais que alteram sua ordem de artistas
preferidos. Obrigado
Responder

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