Você está na página 1de 6

Primeiro Estudo Dirigido

Primeira Avaliação do curso de Psicologia Cognitivo-Comportamental,


ministrado pela Professora Marcele Carvalho.
Estudante: Pedro Sydenstricker Alvares
DRE: 116033321
2020.1
UFRJ

1. Explique em que consiste a prática da psicologia baseada em evidências,


considerando seus três domínios.

A prática da psicologia baseada em evidências (PPBE) consiste numa abordagem


que baseia a tomada de decisão no âmbito terapêutico a partir da melhor evidências
disponível no momento, visando o melhor e mais adaptado tratamento possível ao cliente.
De fato:
[A PPBE] Promove a prática psicoterapêutica eficaz e contribui com a saúde pública
através da aplicação de princípios empíricamente baseados de avaliação psicológica,
formulação de caso, relação terapêutica e intervenção. A PPBE requer do psicólogo
aprendizado e atualização constantes (Melnik, 2014, p. 89)

São estes os três domínios da PPBE:


a) A melhor evidência científica disponível: uma evidência é julgada a partir da
eficiência, eficácia, efetividade e segurança de determinada intervenção
psicoterápica. A eficiência refere-se ao custo-benefício da prática, a eficácia avalia o
desempenho dessa prática em uma situação controlada, a efetividade avalia em
função do desempenho no mundo real e a segurança é a avaliação dos efeitos
confiáveis ou adversos de determinada intervenção psicoterápica. A melhor fonte de
evidências são as revisões sistemáticas (evidências de nível I), visto que avaliam
todos os ensaios clínicos randomizados; mesmo que, na ausência dessas revisões,
estudos randomizados de ensaios clínicos também sejam uma opção.
b) Expertise clínica: esse segundo domínio diz respeito à experiência e ao julgamento
do terapeuta na sua prática clínica, aquela que ele adquire com a experiência
empírica. Segundo os autores:
[...] a psicologia envolve necessariamente a incorporação de expertise clínica baseada
em evidência científica, já que não há dados disponíveis para informar muitos dos
desafios clínicos enfrentados pelo psicólogo (Melnik, 2014, p. 81).
c) As características do cliente: esse terceiro domínio consiste na priorização dos
valores e preferências do cliente na condução de seu tratamento. Ou seja, o
psicólogo não deve nesse caso tomar as decisões de forma isolada; mas sempre
articulada, através de decisões informadas com o cliente. Citamos: “as decisões
clínicas devem ser feitas em colaboração com o cliente, com base na melhor
evidência clinicamente relevante e levando em consideração o provável
custo-benefício” (Ibidem, p. 82). Naturalmente, a decisão final é de responsabilidade
do terapeuta, sendo o foco desse domínio apenas mostrar a importância pilar da
colaboração no processo terapêutico.

3. Cite e descreva três características centrais da Terapia Cognitivo-Comportamental.

Num primeiro sentido, segundo Wenzel (2018), a terapia cognitivo comportamental


(TCC) é uma forma de psicoterapia que possui estas três características centrais:
a) ser uma psicoterapia ativa, significando que a TCC se pauta num trabalho de
preparo mútuo do terapeuta e cliente para cada sessão. Não se trata de um trabalho
espontâneo realizado ​in acto​, mas de um trabalho direcionado e com objetivos
clínicos delimitados. Isso se relaciona diretamente com a próxima característica.
b) ser uma psicoterapia semiestruturada, significando que tanto para o curso do
tratamento no geral quanto para as sessões há um esquema organizado e flexível
que visa direcionar a terapêutica. Nesse sentido, o terapeuta de TCC deve pensar
ambos no trajeto da terapia como um todo e nas sessões individuais de forma a
garantir que o trabalho terapêutico seja direcionado e eficiente. A importância da
eficiência se liga à terceira e última característica.
c) ser uma psicoterapia limitada em relação ao tempo, característica que parte da
constatação de que os clientes iniciam o tratamento com a perspectiva de um dia
acabá-lo. Assim, em TCC, sendo uma terapia semi estruturada e ativa, entende-se
permitir aos pacientes:
[...] avançar o tratamento e fazer diferenças em suas vidas entre as sessões e que eles
poderão implementar ferramentas terapêuticas por conta própria sem a necessidade de
haver um terapeuta treinando-os (Ibidem, p. 1).

Ainda, o objetivo o qual essas características servem, seria “aliviar problemas de saúde
mental e de adaptação, abordando padrões cognitivos e comportamentais problemáticos
que causam interferência e/ou sofrimento emocional excessivo na vida” (Ibidem, p. 1).
Entretanto, se no início do capítulo 1 Wenzel dá uma definição compactada da TCC,
pautada nos três tópicos acima citados, além do objetivo, no restante do texto e também no
décimo capítulo do mesmo livro Wenzel mostra como no interior da TCC temos um ampla
gama de terapias distintas entre si e que é difícil construir uma definição que abarque todas
essas. É até mesmo apresentada no texto a posição de que é impossível dar uma definição
à TCC. Por exemplo, mesmo a premissa de que a cognição medeia a mudança de
comportamento, aparentemente central no campos das terapias englobadas enquanto TCC,
é relativizada no texto, visto que há controvérsias consideráveis na literatura científica sobre
o assunto. Dada a perda desse eixo central, Wenzel propõe uma definição integrativa de
TCC, a qual citamos:

A definição de TCC aqui proposta, que vou chamar de TCC integrativa, é a de um


programa de tratamento estratégico e personalizado que surge a partir da
conceitualização de caso da apresentação clínica de cada cliente e incorpora
estratégias cognitivas, comportamentais e de aceitação, equilibradas com cultivo e
manutenção da relação terapêutica. As estratégias cognitivas podem ter como alvo o
conteúdo ou a forma e a função da cognição. A partir desse arcabouço geral,
abordagens terapêuticas cognitivo-comportamentais específicas podem assumir maior
ou menor ênfase na mudança de comportamento, na mudança cognitiva e/ou na
aceitação (Wenzel, 2018b, p. 8)
Portanto, num segundo sentido de TCC, isto é, a TCC integrativa, poderíamos trazer outras
três características centrais. Nesse sentido, a TCC tem como característica:
a) ser uma psicoterapia com base na conceitualização cognitiva do caso, sendo que
podemos descrever essa conceitualização enquanto uma coleta de dados das
queixas do cliente que visam instrumentalizar o desenvolvimento de um plano de
trabalho para intervir nas demandas do cliente ao longo da terapia (Wainer; Pittolo,
2011)
b) ser uma psicoterapia que presume alguma estrutura, o que nos remonta à segunda
definição dada no primeiro sentido de TCC. Nos parece aqui que tal sutil mudança,
da “semi-estrutura” em prol da “alguma estrutura”, indica a atenção mais
recentemente dada pela chamada terceira onda à singularização da proposta
terapêutica e a inclusão das pautas culturais na terapêutica. Podemos descrever
esse “presume alguma estrutura” enquanto a pressuposição de um plano terapêutico
com um sentido determinado, mas passível de mudança e adaptação de acordo com
as demandas clínicas apresentadas ao longo do tratamento.
c) ser uma psicoterapia que incorpora tarefas de casa, sendo que podemos descrever
essas tarefas enquanto um modo ativo do cliente se engajar no tratamento.
Considerando que as possibilidades de tarefas são tão diversas quanto o campo que
constituem o dito a Terapia Cognitivo-Comportamental, seria impossível
descrevê-las todas, entretanto, é possível dizer que haveria em comum nas tarefas
de casa a dimensão ativa do cliente no tratamento. Utilizamos aqui o sentido de
ativo como sendo aquele descrito na primeira característica do primeiro sentido de
TCC elaborado na presente resposta.

Por fim, declaramos que as três últimas características centrais - da TCC Integrativa
- não são exaustivas, mas seleções convenientes retiradas de uma lista de características
centrais realizada por Wenzel no décimo capítulo (Wenzel, 2018b).

5 - Defina condicionamento clássico e condicionamento operante. Além disso,


diferencie os comportamentos de fuga e de evitação e dê exemplos destes
comportamentos numa situação na qual uma pessoa tenha medo de falar em público.

O condicionamento clássico (também conhecido como respondente ou pavloviano,


entre outros) se estabelece por uma relação de contingência entre dois estímulos. I. P.
Pavlov foi o teórico responsável pela formulação desse conceito, que é oriundo de sua
pesquisa sobre sistema digestivo e com cães. Alí, Pavlov mostrou que era possível
condicionar a salivação de um cão à estímulos neutros, do tipo sons ou luzes. Ou seja,
estímulos neutros, que a priori nada teriam a ver com um certo comportamento - do tipo a
salivação de um animal -, poderiam evocar um comportamento se devidamente
condicionados. Como isso é realizado? Através da apresentação de um estímulo
incondicionado (EI) - do tipo carne no nosso exemplo com o cão - logo após um estímulo
condicionado (EC). Ao ver o estímulo incondicionado - a carne no nosso exemplo -, um
comportamento é evocado - ainda no exemplo do cão, esse comportamento é a salivação -.
A sucessão temporal do EI logo após o EC faz com que haja uma associação entre os dois
e aquele comportamento evocado inicialmente apenas pelo EI também é estimulado pelo
EC, na medida em que se reforça essa associação contingente entre estímulos
incondicionado e condicionado.
Já o condicionamento operante (também conhecido skinneriano ou Tipo II, entre
outros) enfatiza as contingências entre respostas e estímulos consequentes. Skinner é o
teórico responsável por esse conceito, que foi desenvolvido através dos experimentos com
ratos e pombos no recipiente que ficou conhecido como a Caixa de Skinner.
Resumidamente, Skinner se propunha a reforçar, normalmente através de comida,
comportamentos desejáveis realizados por animais no interior de uma caixa com uma
alavanca. O comportamento desejado era que o animal apertasse essa alavanca no interior
da caixa. Inicialmente, o animal o faz de forma aleatória ou espontânea, entretanto, o
condicionamento operante pode aumentar a frequência desse comportamento na medida
em que associa-o a um estímulo reforçador positivo. No caso de Skinner, esse estímulo
reforçador positivo é a comida, que é apresentada logo após uma resposta desejada.
Portanto, o condicionamento operante é uma eficiente forma de aprendizado de
comportamentos que aumenta a frequência de determinada resposta associando-a com
estímulos reforçadores positivos.
Em relação a fuga e evitação, ambas são comportamentos produzidos por situações
aversivas. Sobre essas, citamos:
Eventos desse tipo são chamados aversivos, pois sabe-se que um estímulo é aversivo
quando, ao ser apresentado após a resposta, diminuem sua força e, ao serem
apresentados antes, a aumentam se a respostas os eliminam” (Ibidem, p. 19).
Portanto, ambos fuga e evitação são resposta a situações aversivas.
A fuga é um conceito de comportamento definido como uma resposta que afasta um
estímulo aversivo presente, sendo importante nesse conceito a presença de um estímulo
aversivo no momento da resposta de fuga. A fuga, portanto, é uma resposta a uma situação
aversiva acontecendo no presente. Por exemplo, fechar as janelas para diminuir o barulho
do tráfego de automóveis na rua é um comportamento de fuga, na medida em que visa
cessar um estímulo aversivo que existe momentaneamente. Entretanto, a fuga não se
aplica a possíveis eventos aversivos futuros.
A evitação, por sua vez, é semelhante com a fuga, mas aplicando-se a possíveis
situações aversivas futuras. Sobre esse ponto, citamos: “O que ocorre é uma espécie de
antecipação da resposta de fuga, que em vez de ser emitida após o estímulo aversivo,
passa a ser emitida após o estímulo discriminativo e antes do estímulo aversivo” (Ibidem, p.
19). Portanto, se a fuga é uma solução momentânea para uma estimulação aversiva
acontecendo no presente, a evitação se diferencia por ser uma solução voltada para o
futuro. Ou seja, antes mesmo da situação aversiva, uma resposta defensiva contra uma
possível situação aversiva futura vista como iminente é realizada. Tal comportamento é a
evitação.
Em relação ao exemplo pedido no enunciado, um caso de comportamento de fuga
poderia ser que, no ato de uma apresentação oral, o palestrante fóbico se retire da sala.
Seria um comportamento de fuga na medida em que o sujeito, afasta a presença de uma
situação aversivo (falar em público) se retirando do evento aversivo. Por outro lado,
exemplos de comportamento de evitação poderiam ser comportamentos de afastamento
que antecedem o momento dessa apresentação: esse sujeito com medo de falar em público
pode deixar de pegar o ônibus para ir ao local da palestra ou mentir dizendo que está
doente e que não poderá comparecer. Esses comportamentos de evitação são distintos
daquele de fuga, visto que nesses últimos trabalha-se com uma projeção futura e existe
uma resposta comportamental anterior à presença do estímulo aversivo. Naturalmente,
estamos pressupondo nesses últimos exemplos que o sujeito em questão não tem medo
nem de pegar ônibus nem de mentir.

Referências Bibliográficas​:

Melnik, T., Souza, W.F., Carvalho, M.R. (2014). A importância da prática da psicologia
baseada em evidências: aspectos conceituais, níveis de evidência, mitos e resistências.
Revista Costarricense de Psicología, 33(2), 79-92.

Wenzel, A. (2018a). Evolução da terapia cognitivo-comportamental. In A. Wenzel. Inovações


em terapia cognitivo-comportamental: intervenções estratégicas para uma prática criativa
(20-39). Porto Alegre, Brasil: Artmed. (Capítulo 1). 2018a

A. Wenzel. (2018b). Inovações em terapia cognitivo-comportamental: intervenções


estratégicas para uma prática criativa (198-212). Porto Alegre, Brasil: Artmed. (Capítulo 10).
In: A. Wenzel. Inovações em terapia cognitivo-comportamental: intervenções estratégicas
para uma prática criativa (198-212). Porto Alegre, Brasil: Artmed. (Capítulo 10).

Wainer, R., Piccoloto, N.M. (2011). Conceitualização cognitiva de casos adultos. In B.P.
Rangé (Org.). Psicoterapias. In: Cognitivo-Comportamentais: um diálogo com a psiquiatria
(2a ed., 120-131). Porto Alegre, Brasil: Artmed. (Capítulo 9). 2011

Você também pode gostar