Você está na página 1de 29

ÁGUA DOCE

Prosopoemas ou
Poesia sem Vate
Proêmio

Os meus poemas são feitos para os leitores do


inabitual. E que não se preocupam com os estilos e
estéticas próprios das poesias beletrísticas.
Agora, depois desse indelicado parágrafo
introdutório, eu quero justificar o título desta
coletânea, porque ele remete aos igarapés das bacias
fluviais. E não é esse o seu conteúdo.
Meus poemas perfazem a ingênua tentativa de
grafar em linhas curtas, e com profundo sentimento, a
minha visão de mundo em cada bloco de semas que
configuram o sentido dos versos. E por isso eles não
obedecem às normas doutas da arte poética, nem os
princípios rítmicos, fônicos e artisticamente gráficos.
E por essa razão intitulei minha forma de construir
poemas de prosopoética—prosa em forma poética. E
com esse sentido eles trazem, gratuitamente, a
pretensão, de serem poesias se considerarmos que o
vocábulo poesia na concepção de Aristóteles
encerrava o sentido de criação, segundo Jorge Tufic,
em “Curso de Arte Poética”. E ouso a aplicar, em
metáfrase, a definição do genial Aristóteles, em meus
textos, como sendo criatividade o sentido de poesia. E
a poesia me oferece o disfarce para que eu possa
imiscuir-me entre os criadores, mas sem a pretensão
de ser um aedo. Desse modo, essas minhas abruptas
falésias semânticas são apenas maneiras brincalhonas
de saudar a poesia.
Porquanto poeta de água doce é a denominação
para os estreantes na arte poética, intitulei meu livro
de “Água Doce—Prosopoemas ou Poesia sem Vate”.

Castanhal, março 2015


Emanoel de J. Holanda.
Lágrimas de um Nômade

Embriago-me
No meu pranto.
São lágrimas
De desencanto,
Destiladas
No meu peito,
Por um amor
Desfeito.

Naufrago-me
Em ondas de amor.
Amor é altaneiro.
Não sou desairoso,
Mas aventureiro.
Sou amoroso,
Porém sozinho.
Sou louco
Sem um caminho,
Tampouco
Sem paradeiro.

Diálogo!

Minha fala:
— Eu te tenho e te amo!
Amo-te com teu amor.
Teus sonhos, sonho eu.
Do teu brio eu sou ardor.
E na tua vida, vivo eu.
Tua fala:
— Você é meu! Eu o amo!
Você em mim tem a você.
Eu em você tenho a mim.
Nosso amor é assim:
Você em mim e eu em você!
Ad Infinitum…

Chegou o meio-dia!
A minha sombra é um nada.
Com o sol ao zênite me ajustei.
Estou em simetria figurada.
Sou o sol, como espírito: sou rei.
Ofusca a sombra, o espírito,
Porém a tarde vem e… À noite.
Na obscuridade tudo é restrito.
Todavia, com a alva eu sou afoite.
Assim, o espírito volta a refulgir.
Outra vez surge a rebeldia!
Exulto-me de paz e volto a sorrir!
Apesar de vir outro meio-dia,
Sempre acordo para novo dia!
Amo, logo existo.
Ontem, por ti amar, eu era eu.
Hoje, sem teu amor, não mais sou eu.
Amanhã será que eu ainda serei eu?
Tu disseste: Sabes, o eu é um além,
Ele nunca pode existir em alguém,
Porque é a forma das convenções!
Tá, o eu não existe; o nada, antes!
Por quem anelam, então, os amantes,
Quando procuram pelas suas paixões?
Sabes, o “eu” não é só opiniões,
Ele perfaz os sentimentos constantes;
É um contínuo fluir de emoções.
Assim, amas a mim como a ti amo eu.
Então verás que eu, deveras, sou eu!
O azul e a Procura

O tempo passa às lufadas,


E eu… sigo ao léu.
Lembro-me do azul da minha infância.
Era azul do mar? Ou era o azul do céu?
Era o azul do mar,
Pois era um azul que tinha fragrância.
Não era o azul do céu,
Essa cor é ilusão, é efeito da visão.
No azul do mar tem espumas.
Como se fossem um véu.
Parecem com brancas plumas
Ou as nuvens lá do céu.
Então é loucura, Se o azul do céu se
procura?
Mar e céu azul, Ilusão, véu e espumas.
Lufadas, nuvens, fragrância e loucura.
Lembrança, infância, tempo e procura.
Procurar é busca e aventura.
O que eu procuro é em vão?
Sigo eu apenas às escuras,
Ou sigo o meu coração?

A Dança Existencial

Na eternidade estou com você a bailar,


Sentindo a energia que em meu corpo
flui.
Absorvo o eflúvio vital que fecunda o ar,
Pois nessa atmosfera fértil todo ser
evolui.

O mundo todo dessa essência emanará,


Em que a vida e a música lhe fazem a
voz.
Porém já falam do mundo do lado de lá,
Avisando as mudanças que ocorrem a
nós.

Como num longo sonho tornei a nascer,


Pairando estou numa existência astral.
Nesse baile todos dançarão com você,
Bailarina ilusória, ou subsistência real.

A Decisão

Bem ali tem uma encruzilhada,


São quatro caminhos para decidir,
E por apenas um deles devemos ir.

Então qual seguir, ao certo?


O destino se faz num momento,
Todos têm um caminho, decerto.

Porém, precisamos ter discernimento.


Um caminho dá à pobreza e a dor.
Outro induz a solidão, e ao desamor.
Tem o que conduz ao vício e a ilusão.
Mas um leva à paz, ao êxito e ao amor.
Por isso cuidado, bem ali tem a decisão.

Brasílico!

Hurras para os antigos povos sumérios!


Para eles os astros não tinham mistérios.
Seus sábios criaram a lei da astronomia.
Hurras para o Egito com a geometria!
Deles não é somente a mumificação.
Hurras para os hebreus com a teocracia!
Porque eles “criaram” o Deus da
criação.
Hurras para os gregos com a mitologia!
E também o método, o teatro e a razão.
Hurras para Roma da guerra e do louvor!
Romanos exploradores, senhores da
emoção.
Hurras para o Brasil da canção e do
amor!
Brasileiros heroicos, do frevo e da
agitação.
Da igualdade, do samba, da paz, e do
labor.

Quando aconteceu!

Todos são criativos para amar! Simples.


Mas quem criou o amor? O próprio
amor!
Não, não! Alguém diz: o amor, não.
O amor ninguém cria. É tipo o ar.
Quem cria o ar? O giro da terra? Não!
A chama está inerente na madeira,
Mas precisa outra chama para queimar!
Pois o amor não é de outra maneira,
Precisam dois amantes para poder amar!
Foi assim que tudo aconteceu…!

Libido
Volúpia, sensualidade e desejo:
Léxis que da libido são a razão.
O mundo como fenômeno natural
É o próprio desejo de ser do homem.
Pode o mundo derivar de um desejo,
Mas quem deseja o devir do homem?
Os deuses? As deusas? Ou Deus?
Ser homem é esperar por outro homem:
O filho. Este é o seu elementar desejo.
Homem: cópula; gozo e afã. Volúpia!
Mulher: gravidez; espera e luz. Ensejo!
Ensejo na espera é sensual, é o sim.
Sim para o mundo; o sim da paixão!
Volúpia, sensualidade e desejo:
Léxis que do mundo são a pulsão!

São Eles!

Tormento e alívio; prazer e dor.


A vida e um eflúvio constante.
Desses contrastes? De que, então?
Senhores, perquirir é atributo da mente!
Viver é a simplicidade da paixão.
O espirito não questiona, apenas sente.
Mas a aflição é desfrute? É ardor?
Em tudo há recompensa. As mães!
Para sentir a alegria do filho: a dor.
Júbilo e apego; paixão e acalanto.
Da alma, a paz; do espírito, o encanto.
Às mães, tudo isso trazem os filhos.
Eles são o puro desfrute do amor.
Dos pais, aos olhos trazem brilhos.
Neles desaparecem a aflição e a dor.

Aquela Rua
Todos naquela rua eram
Cativantes.
Rua, de algumas quadras.
Mas tinha cada habitante!
Discreto e azucrinante.
Adúltero e traído.
Egoísta e altruísta.
Feministas e machista
Mendicante e socialite.
Sincero e hipócrita.
Autêntico e falso.
Padre e pecador.
Pastor e desviado.
Devoto e filósofo.
Poeta e atilado.
Psicólogo e astrólogo.
Tinha gay e enrustido
Policial e bandido
Machão e efeminado.
Prostituta e donzela.
Burguês e coitado
Pródigo e avarento.
Fofoqueiro e calado.
Cheiroso e fedorento.
Tolo, teísta e ateu.
Tinha até sem tento.
E, é claro, tinha eu!

O Mestre Mundo

Quando eu atinei para o mundo…


Atinar é conhecer e se lembrar.
Essa é a regra do comportamento.
Mas, as lembranças voam. E muito.
Logo elas voam para o esquecimento.
Nesse voar, ficam bem lá para trás.
Alvitramentos numa dimensão fugaz.
Embora elas nunca saíssem de nós!
O mundo os repete em muitas ocasiões.
Ali alguém faz algo: memória veloz.
Aqui da mesma maneira: recordações.
Assim o mundo nos vai ensinando.
Trazendo as lembranças como lições.
Da escola e dos pais vem alguma noção.
Depois o mundo faz o resto, ele é o bom.
O diploma na mente, mas o mundo não.
O mundo cruza as mentes, ele é o Dom.

Poeta de Água doce

O poeta não fala para entender.


Entender, só outro poeta?
Seria bom se todos ouvissem.
Ouvidos para ouvir poeta…
Ora, que insensatez, direis!
Em poesia tudo se concreta.
Com sua verve, o poeta edifica.
Um belo edifício resulta a obra.
Matéria prima da alma: aspiração.
Este anseio em poesia se desdobra.
Ânsia é fruto inacabado do desejo.
À voz do poeta resulta em emoção.
A poesia não é tangível! São ensejos.
Vozes de poetas: coisas sem razão.
São vislumbres, flashes e lampejos.
Poetas falam ao senso do coração

Esperança

A esperança é a razão do viver.


Todo sonho é esperar com fervor,
Contudo viver não é esperar, é ser.
A vida é dádiva divina, é louvor.
Pela vida se manifesta o espírito.
Mas quem atrai o espírito é o amor.
O espírito é essência mui profunda;
Profundeza alcançável pelo nascer.
A luz da esperança ao abismo inunda.
E faz o insondável dar vida ao ser.
Oh, Esperança! Virtude que faz viver.

Império das Águas

Padre Giovanni Gallo, pároco das águas.


Os rios ele cantou, e os caboclos,
exaltou.
O Marajoara nas suas letras teve lauréis.
A simplicidade da vida no intenso labor.
Jacarés, piranhas, enchentes e coronéis.
Atoleiros, pirarucu, tisna, tuíra e urucu.
Nativos e bichos; galho de pau e canoa.
A chuva grossa, ventos fortes a noite
toda.
Muriçoca e frio; rio, a correnteza à toa.
Um pedaço de plástico servindo de tolda.
A rede no galho com os punhos
molhando.
Lamparina não adianta: o vento
soprando.
Fósforo molhado sem poder acender o
pito.
A Igreja e o catecismo; o cachorro e o
jito.
Casas em palafitas, suspensas do
lameiro.
Mantas de carne e peixe secando no
fumeiro.
As águas da enchente tudo a contaminar!
É, gente, Marajó quer dizer “tirado do
mar”!

Os Belicosos
Réquiem para Nietzsche.
Assim falou zangada a razão:
Filhos meus, a piedade é causa de pavor.
Além de perigosos, os piedosos são
astutos.
Não semeiam, mas, ávidos, querem
frutos.
Eles dizem: Vai com Deus! Vai em paz!
Qual deus e qual paz citam, por favor?
A piedade é carência de espiritualidade.
As nações piedosas espalham fatalidade.
Fomentam a guerra rezando com fervor.
Têm bilhões em armas e disseminam o
terror.
Olvidam os famintos e cruéis prezam a
dor.
Crucifixo e terço na mão — a
mortalidade.
Bíblia e hinário, irmão — a rapacidade.
Mantra e incenso, então — a
imparcialidade.
Tudo isso não é produto da piedade?
Assim falou zangada a razão…
Ladyzinha

A juventude, da alma é a fragrância.


O coração jovem é um agradável odor.
Adolescentes têm amor, e têm ânsia,
Mas o amor púbere traz o cheiro de flor;
Flor aromática, com o pólen perfumado.
E você, ladyzinha, tem olor exuberado.
Os adolescentes amorosos são odorantes.
Adolescência com ímpetos flagrantes,
Não de orgulho, fasto, ou de altivez.
São jorros de doçura e risos debutantes;
Zero Amplitude

Viva o presente!
Palavras profundas.
O absoluto apenas é.
O presente está aí,
No cerne das coisas,
Mas não é.
Advém.
O presente é fugaz!
É deslizante e
Inconcebível
Como referência,
Porém.
O presente é cardeal
Entre Leste e Oeste;
Norte e Sul;
Zênite e Nadir.
Em todos os lugares,
Dele está o centro;
E a periferia no
Devenir.
.
Guerra e Paz

Agrupamento:
Um só,
Mais outros!
Ideologia:
Um pensamento,
Mais opiniões!
A nação:
Eu, você e um irmão,
Mais outros irmãos…
O mundo:
Uma nação,
Mais outras nações…
Conflito internacional:
Nações em guerra…
Acordo mundial:
Paz entre as nações e
Amor nos corações!
Agrupamento:
Um só,
Mais outros…!
A Paz do Futuro

Quero paz para minha nação,


O amor do adulto para o irmão,
Amor puro como uma criança,
A criança do nosso coração.
Quero amor, paz e esperança,
Como na beleza da oração.
Pois amor puro é a herança
Para o futuro da nossa nação.
Oh, amor puro e verdadeiro,
Que todos sonham encontrar!
Quero hoje, agora, te semear.
Amor cândido e desinteresseiro!
Que com carinho quero cuidar.
Para alegria do mundo inteiro
Tenho certeza que irá germinar.
A Face ou o Rosto

Quem pode prometer amor,


Se o amor dono não tem?
Assim, quero te esquecer.
Mas será isso um bem?
Ao me veres renascer,
Vou amar alguém.
Dirás: só sexo, enfim…
Mas do amor sou afim
Amar é o imo do ser.
Do meu ser,
Do meu viver!
Qual o outro amor?
Juro... Por favor,
Quero lhe conhecer!
Você é uma face.
Eu, outra face.
Isso bem-posto,
Do amor somos
O rosto!
Seu Gerente

Um empréstimo? Claro…
Muito bem, saldo você tem?
Mas eu quero é emprestar
E não lhe emprestar.
Mas se saldo não tem,
Empréstimo não terá!
Mas que exigente!
Que mais devo ter?
Bens para hipotecar!
Meus bens, seu gerente?
Então, tá: pode sonhar!
Reencarnação…
O vendaval varre forte
E as flores caem à sorte,
Como a vida no abissal.
Sem a luz, a cor ou matiz,
Mas parece bem e feliz
Nessa escuridão colossal.
No orbe do luzeiro caudal
As flores murchas que caem
Transformam-se em tremedal.
Ali farão surgir à vida
Outra espécie de vegetal
Com suas flores coloridas
Para de novo serem varridas
Nos ventos do vendaval.
Todas as vidas foram assim:
Transformaram-se nessas idas,
Como o vapor em temporal!
Mas a vida é a causa da vida
Logo virão mais outras…
Enfim, novas vidas é tão natural!
Sono de Assassino…

A brutalidade estava no grito angustiante


de quem viu uma alma ser exaurida pela
fúria do bruto homicida.
Era um clamor, sim; porém um clamor
onírico sufocado na garganta de quem
não acordava!
As mentes não são silenciosas na
translucidez do sono, elas refletem
memórias das multidões de vítimas, das
suas vítimas.
Memórias que irrompem, ali, nos seus
pesadelos opressivos pela angústia de
não despertar.
Engolfam-se na alma gritos, choros,
bramidos e clamores perturbadores.
O crime… A memória… O sono!
Semana de Trabalho

Segunda-feira eu penso em trabalhar.


Terça eu saio para o trabalho.
Quarta, pego o transporte.
Quinta eu chego lá.
Sexta, bater o ponto.
Sábado hora de voltar.
Domingo, dá licença que eu vou
descansar.