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ALEXIS LEONTIEV

O DESENVOLVIMENTO DO
PSIQUISMO

CENTAURO
EDïTORA
Capa: Paulo Gaia
Digitação: Rosilene e Rogério Bolanho
Ediloração: Conexão Editorial
Fotolitos de Capa: SM Fotoiíto
Impressão e Acabamento: Provo Distribuidora e Gráfica Lula

Título Original: Le développment du psychisme


Tradutora: Hellen Roballo

T Edição: Outubro de 2004

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Leontiev, Alexis, 1904-1979


O desenvolvimento do psiquismo / Alexis
Leontiev ; [tradutor Rubens Eduardo Frias],--
2. ed. -- São Paulo : Centauro, 2004.

Título Original em francês: Le développement


du psychisme
Bibliografia

1. Consciência 2. Pesquisa psicologia


2, Psicologia - História 4. Psicologia - Teoria,
métodos etc. I. Título

04-2408 CDD-150

índices para catálogo sistemático:


l. Psiquismo humano ; Psicologia 150

©CENTAURO EDITORA
Travessa Roberto Santa Rosa, 30
02804-010-São Paulo-S P
Tel. I I - 3976-2399 - Tel./Fax 11 - 3975-2203
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www.centiiiiR »cdiinra.com. br
SU-MÁRK)-

Introdução, 07
Prefácio da Primeira Edição (1959), 15
Prefácio da Segunda Edição (1964), 17

ENSAIO SOBRE O DESENVOLVIMENTO DO PSIQUISMO

I - O desenvolvimento do psiquismo animai

1. Estágio do psiquismo sensória! elementar. 2 1


2. Estágio do psiquismo percepüvo, 43
3. Estágio do intelecto, 53
4. Caracteres gerais do psiquismo animal, 64

II - Aparecim ento da consciência humana

1. As condições de aparecimento da consciência, 75


2 . O estabelecimento do pensamento e da linguagem, 87

III - Sobre o desenvolvimento d a história da consciência

1. A psicologia da consciência, 95
2. A consciência primitiva, 107
3. A consciência humana e a sociedade de classes, 121
A DÉMARCI1E HIS TÓRICA NO ESTUDO DO PSIQUISMO 1IUMANO

1. As teorias naturalistas em psicologia humana, I 55


2. A corrente sociológica em psicologia, 159
3. O desenvolvimento da "démarche ” histórica na psicologia
soviética, 162
4. O indivíduo e o meio, o homem e a sociedade, 169
5. O desenvolvimento biológico e sócio-histórico do homem, I 7 i
6 A apropriação pelo homem da experiência sócio-histórica, 176
7. Os mecanismos fundamentais do comportamento na ontogênese animal
e humana, 186
8. As particularidades da formação das ações intelectuais, 195
9. O cérebro c a atividade psíquica do homem, 201

O MECANISMO DO REFLEXO SENSORIAL, 215


O BIOLÓGICO E O SOCIAL NO PSIQUISMO DO HOMEM, 249
O I SOMEM L A CULTURA, 277
O DESENVOLVIMENTO DO PSIQUISMO NA CRIANÇA, 303

OS PRINCÍPIOS DO DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO NA CRIANÇA E O


PROBLEMA DOS DEFICIENTES MENTAIS, 335

1. O desenvolvimento mental da criança enquanto processo de


apropriação da experiência humana, 339
2. O desenvolvimento de uma aptidão como processo de formação de
sistemas cerebrais funcionais, 344
3. O desenvolvimento intelectual da criança enquanto processo de
formação das ações mentais, 348

índices dos autores citados, 353


INTRODUÇÃO

A obra psicológica de Aiexis Leontiev c das mais notáveis da


nossa época, c, todavia pouco conhecida nos paises de língua francesa. As
traduções de alguns trabalhos seus, dispersas por órgãos especializados
como o Bulletin de psvchologie ou nas Recherches internationales à la
lumière du marxistne e a sua participação constante em encontros
internacionais valeram ao autor uma autoridade incontestável. Faltava a
obra fundamental que aqui apresentamos.
Trata-se dos elementos de uma teoria do psiquismo humano.
Leontiev recusa, no entanto, a qualificação de ‘'teórico'". Com efeito, no
decurso de meio século de atividade científica, efetuou e dirigiu um
número considerável de trabalhos experimentais. Foi a pari ir deles e para
melhor os interpretar que se interessou pelos problemas metodológicos e
que chegou a uma concepção de conjunto. Seria simplista demais afirmar
que a sua teoria deve bastante ao marxismo enriquecendo-o, em
contrapartida, pelo simples fato de Leontiev trabalhar na União Soviética.
Foram as suas investigações que o levaram a defender a natureza sócio-
histórica do psiquismo humano e, a partir daí, a teoria marxista do
desenvolvimento social tornava-se-lhe indispensável.
Experimentador. Aiexis Leontiev não limita o seu horizonte ao
laboratório. Preocupa-se com os problemas da vida humana em que o
psiquismo intervém. O seu campo de estudos compreende a pedagogia, a
cultura no seu conjunto, o problema da personalidade. Mais diretamente
ensina, dirige e organiza a investigação, criou a Faculdade de Psicologia da
Universidade de Moscou, de que é decano, intervém e é conselheiro em
numerosos órgãos e organismos da vida científica, filosófica e política.
s O Desenvolvimento do Psiquismo

Após as suas primeiras investigações sobre as reações afetivas,


empreendeu, sob a direção de Vygotski, vários trabalhos sobre o
desenvolvimento ontogênico do psiquismo, especialmente sobre a
memorização. Em 1932, estuda, em Kharkov, o desenvolvimento da
atividade intelectual prática e da consciência na criança e dedica-se aos
problemas teóricos das relações entre a estrutura da atividade e as formas
do reflexo psíquico. Isso conduz a investigações nos domínios da
psicofisíológia e da zoopsicologia. ao mesmo tempo que dirige um grupo
de pesquisas com fins práticos sobre a percepção das ilustrações nas
crianças.
De regresso a Moscou em 1935, Leontiev consagra-se aos
problemas da gênese da sensibilidade e da teoria geral do desenvolvimento
psíquico. Durante a guerra estuda o restabelecimento das funções motrizes
dos feridos e organiza um hospital especializado. As observações e
trabalhos feitos nesta ocasião conduziram, após alguns anos, à hipótese da
estrutura do sistema das funções psíquicas (1954). Regressa então aos
problemas da psicologia da criança e à pedagogia e à psicologia geral. E
neste momento que aparece a primeira edição da presente obra.
Desde então, paralelamente às suas publicações e ao seu intenso
trabalho de organização e de ensino, o autor continuou as suas pesquisas.
Interessou-se pelos problemas da ergonomia, por certas questões
levantadas pela automatização. Prosseguindo os seus trabalhos sobre a
percepção e a imagem descobri lí , recentemente, um curioso fenômeno
batizado por ele de “efeito de lobo”, mas conhecido hoje sob o nome de
“efeito Leontiev” (primeira publicação em 1974) e que fornece novos
dados sobre a formação das imagens visuais na consciência.
Finalmente, um pequeno livro muito importante, apreciado em
Moscou em fins de 1975. reúne os trabalhos e reflexões dos últimos anos
sob o título: Atividade, consciência, personalidade (“Atividade” é tomada
explicitamente aqui no sentido concreto do alemão Tätigkeit). Um
prefácio-profissão de fé introduz este livro e não poderíamos fazer melhor
do que dar dele alguns breves extratos.
O Desenvolvimento ilo Px-nilfitUIM 9

O autor afirma inicialnieníe que este livro teórico não (oi escrito
pelo gosto de teorizar: “Os esforços para esclarecer os problemas
metodológicos da ciência psicológica foram sempre motivados por uma
necessidade constante de referências teóricas, referências sem as quais as
investigações concretas permaneceriam inevitavelmente atingidas dê
miopia". E continua:
“Há quase um século a psicologia vive uma crise de metodologia..
O sistema dos conhecimentos psicológicos, partilha no seu tempo entre as
ciências humanas e as ciências naturais, cindido numa parte descritiva e
numa parte explicativa, abre cada vez mais brechas por onde o próprio
objeto da psicologia parece desaparecer. Este objeto reduz-se, e muitas
vezes sob o pretexto do necessário desenvolvimento das pesquisas
interdisciplinares. Ouvem-se mesmo vozes que clamam: “Vinde a
psicologia e reinai sobre nós.” O paradoxo c que, mau grado todas as
dificuldades teóricas, se observa atualmente no mundo inteiro uma
extraordinária aceleração do desenvolvimento das pesquisas psicológicas
sob a pressão direta das exigências da vida. Donde uma contradição
crescente entre a enorme quantidade de fatos acumulados
escrupulosamente pela psicologia cm laboratórios perfeitamente equipados
e o estado lamentável do seu fundamento teórico e metodológico. A
negligência c o ceticismo em relação à teoria geral do psiquismo e a
extensão tomada pelo fatologismo e o cientismo que caracterizam a
psicologia americana contemporânea (e não só ela), são erigidos como uma
barreira no caminho do estudo dos problemas psicológicos capitais.
Percebe-se sem dificuldade o elo entre estes fenômenos e a
decepção que suscita o fracasso das primeiras tendências européias
ocidentais e americanas que pretendiam realizar em psicologia, a revolução
teórica tão esperada. Quando o bebaviorismo apareceu, falou-se de um
fósforo junto de um barril de pólvora; depois acreditou-se que em vez do
bebaviorismo, seria a psicologia da Gestalt que teria descoberto o princípio
geral que seria capaz de fazer sair a psicologia do impasse a que a tinha
conduzido a análise elementarista, “atomizada ; por fim, bastantes foram
aqueles a quem o freudisnio fez virar a cabeça, encontrando, digamos
m O Desenvolvimento do Psiquismo

assim, no inconsciente o ponto de apoio que permitiria recolocar a


psicologia sobre os seus pés e dar-lhe verdadeiramente vida. Outras
tendência psicológicas burguesas tiveram sem dúvida menores pretensões,
mas a mesma sorte as esperava; encontramo-las todas na caldeirada que
cozinham hoje, cada um a sua maneira os psicólogos partem em busca de
uma reputação de “grande espírito”.
Leontiev fala em seguida da psicologia soviética. O essencial no
caminho que ela percorreu, escreve Leontiev é que “foi o caminho de uma
luta incessante orientada para a assimilação criadora do marxismo-
leninismo e contra as concepções idealistas c mecanistas biologizantes, que
tomava ora um rosto ora outro. Seguindo uma linha oposta a estas
concepções havia que preservar-se quer do isolacionismo científico quer da
adoção de posições duma das escolas psicológicas em presença.
Compreendíamos todos que a psicologia marxista não é uma tendência
particular, não é uma escola, mas uma nova etapa histórica que representa
o princípio de uma psicologia autenticamente científica e
consequentemente materialista”.
Na opinião do autor, “há que reconhecer que nestes últimos anos a
atenção pelos problemas metodológicos da psicologia diminuiu um pouco.
Isso não quer dizer evidentemente que se discuta menos sobre questões
teóricas ou que sobre elas se escreva menos. Tenho para mim outra razão:
uma certa negligência metodológica cm muitas pesquisas psicológicas
concretas, inclusive em pesquisas aplicadas (...). Criou-se como que uma
impressão de dicotomia: de um lado, o domínio da problemática filosófica
psicológica, do outro o das questões metodológicas especialmente
psicológicas surgidas de pesquisas experimentais concretas (...). Mas é
necessário que os problemas parciais não escondam os problemas mais
gerais e que os métodos da investigação não dissimulem a sua
metodologia. Com efeito, o psicólogo experimentador preocupado com o
estudo de questões concretas continua inevitavelmente a confrontar-se com
os problemas metodológicos fundamentais da psicologia. Só que eles se
lhe apresentam sob uma forma disfarçada pois a solução das questões
concretas parece não depender deles c exigir apenas a multiplicação de
O Desenvofaimrnto do / ’.vn/w.v/m» //

dados empíricos cada vez mais preciosos. Criou-se uma ilusão de


“desmetodologizaçã©;” do domínio das pesquisas concretas, o que mais
reforça a impressão de desconexão das ligações internas entre as bases
gerais teóricas marxistas da psicologia cientifica e o seu material de tatos.
Resulta daqui uma espécie de vazio no sistema dos conceitos psicológicos,
vazio no qual se infiltram concepções engendradas por opiniões estranhas,
no seu fundo, ao marxismo.
O autor indica cm seguida que os trabalhos que conduziram ao seu
novo livro resultam simultaneamente da tomada de consciência das
dificuldades descritas e dos resultados das pesquisas concretas
contemporâneas. Ele qualifica-as como “um ensaio de compreensão
psicológica das categorias mais importantes para a construção de um
sistema não contraditório da psicologia enquanto ciência da gênese do
funcionamento e da estrutura do reflexo psíquico da realidade que
mediatiza a vida dos indivíduos. E explica-se sobre as três categorias assim
encaradas: a atividade concreta, a consciência humana, a personalidade.
“A análise psicológica (...) não consiste em extrair desta os
elementos psíquicos para os estudar a parte; mas em introduzir na
psicologia unidades dc análise que portem em si mesmas o reflexo
psíquico na sua indissociabilidade com os elementos da atividade humana
que o engendram e são mediatizados por ele. A posição que defendo exige
a reorganização de lodo o aparelho conceituai da psicologia, o que apenas
foi esboçado neste livro e representa na sua maior parte tarefa do futuro”.
No que concerne a consciência “ela deve scr considerada não como
um campo contemplado pelo sujeito e sobre o qual se projetam as suas
imagens e os seus conceitos, mas como um movimento interno particular
engendrado pelo movimento da atividade humana”. Há que “pôr em
evidência a categoria de consciência psicológica, o que significa
compreender as passagens reais que ligam o psiquismo dos indivíduos
concretos e a consciência social e as formas desta. Isto não pode porém,
fazer-se sem a análise prévia dos componentes da consciência individual
cujo movimento caracteriza a sua estrutura interna .
I O Desenvólvimentí! du Psiquismo

Quanto à personalidade, Alexis Leontiev considera que concebê-la


como objeto de estudo psicológico é absolutamente incompatível com as
concepções antropológico-culturais e com as concepções da sua dupla
determinação biológica e social. Isso parece-lhe sobressair particularmente
do exame dos "motores internos da personalidade e da ligação da
personalidade do homem com os seus caracteres somáticos”.
"A concepção largamente espalhada das necessidades e inclinações
do homem pretende que sejam elas que determinam a atividade da pesca e
a orientam; a tarefa principal da psicologia é, portanto, estudar quais as
necessidades que são inerentes ao homem e quais as emoções psíquicas
(inclinações, desejos, sentimentos) que elas suscitam. A outra concepção,
por seu lado, consiste em compreender como é que o desenvolvimento da
atividade humana, dos seus motivos e dos seus meios, transforma as
necessidades humanas e engendra novas, na sequência da qual a sua
hierarquia se modifica, pois a satisfação de algumas delas reduz-se ao
simples estatuto de condições necessárias da atividade humana e da
existência do homem como pessoa”.
Opondo ao ponto de vista naturalista o seu ponto de vista
psicológico, o autor precisa que, para Marx, "a personalidade é uma
qualidade particular que o indivíduo natural adquire no sistema das
relações sociais. O problema torna-se então inevitável, as propriedades
antropológicas do indivíduo não se manifestam como determinando a
personalidade ou entrando na sua estrutura, mas como condições dadas
geneticamente da formação da personalidade c. ao mesmo tempo, como
aquilo que determina, não os seus traços psicológicos, mas apenas as
formas e os modos das suas manifestações”.
A obra que apresentamos aqui apareceu pela primeira vez em
1959. É uma recolha de trabalhos que o autor considera essenciais, Uma
segunda edição, revista e aumentada, apareceu em 1964 e uma terceira em
1972. boi esta última que traduzimos parcialmente para evitar dimensões
excessivas. O próprio Alexis Leontiev quis proceder à escolha dos
capítulos que figuram nesta tradução, assim como aconselhou eficazmente
os tradutores.
13

A versão inicial do Ensaio sobre o éeseiivo/viiiiciito i/o psiquismo


data de 1947. Foi adaptada pelo autor em. função de oulras suas
publicações e do.s debates suscitados por este trabalho. O primeiro
parágrafo resume a segunda parte da tese de doutoramento de A. Leontiev
(“O desenvolvimento do psiquismo”, 1940): os dois outros constituem as
leses gerais de uma monografia preparada pelo autor, mas cuja bibliografia
e documentação prévia se perderam durante a guerra.
O resto desta recolha é formado por um conjunto de estudos em
que Alexis Leontiev desenvolve certos aspectos das suas tes.es gerais ou
expõe os resultados das investigações e das experiências que o conduziram
à elaboração dessas teses. É parti cu Sarmeittè o caso dos trabalhos sobre o
psiquismo infantil e sobre a percepção. O capítulo sobre O homem e a
cultura retoma uma reflexão geral de. grande amplitude publicada pela
primeira vez por oeasião do colóquio internacional da Tachkent em 1967.
Acrescentamos que a obra que apresentamos conheceu numerosas
traduções:.. Ao colocá-ia à disposição de um vasto público francófono de
psicólogos, de pedagogos, de filósofos, de moralistas e, mais geralmente,
de homens e mulheres preocupados em compreender o destino dos homens
para agir sobre ele, temos consciência de preencher uma lacuna bastante
nefasta na formação do pensamento contemporâneo neste vasto e decisivo
domínio.

Os editores
PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO (1959)

Extratos

O problema do desenvolvimento do psiquismo é um dos problemas


centrais da psicologia soviética. Isto deve-se ao fato de a teoria do
desenvolvimento do psiquismo não estar apenas na base da solução das
mais importantes questões da psicologia, mas também da pedagogia. A
importância destes problemas aumentou muito particularmente neste
momento, ao passo que as questões do desenvolvimento psíquico e da
personalidade tomam uma grande atualidade.
Como o problema tem múltiplos aspectos e se reveste dc uma
grande complexidade, o seu estudo deve tazcr-se em várias direções, sob
diferentes planos e por meio de métodos diversificados. Os trabalhos
experimentais e teóricos reunidos neste livro são apenas uma das muitas
tentativas empreendidas para o resolver. Razão porque esta obra não

£ÉÉÉ
pretende dar um apanhado geral ou uma síntese dos trabalhos psicológicos
soviéticos e mundiais sobre o problema do desenvolvimento psíquico,
afirmação que se aplica particularmente às numerosas pesquisas
consagradas ao desenvolvimento do psiquismo na criança.
Se bem que digam respeito a aspectos diferentes do problema, os
trabalhos publicados aqui obedecem uma intenção única e estão unidos por
uma démarche comum no estudo dos fenômenos psíquicos. Como datam
de diferentes períodos, podem conter idéias que o autor modificou
posteriormente. Razão por que a escolha comporta artigos recentes.
*
PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO (1%4)

A segunda edição: desle livro difere cia primeira pela adjunção de


novos trabalhos: “O biológico, e o social no psiquismo humano” e “O
homem e sua cultura", não obstante certos artigos psicppedagógicos mais
especializados terem sido retirados e outros de certo modo resumidos.
Estas modificações têm por causa o desejo, do autor de melhor
realçar a idéia central do livro, a saber a da natureza sócio-histórica do
psiquismo humano. Esta idéia que se exprimiu, pela primeira vez. na
psicologia de L. S. Vygotski, conservou toda sua atualidade. Encontramos
frequentemente hoje ainda concepções segundo as quais os processos
psíquicos superiores e as aptidões humanas dependeriam diretamente e
fatalmente dos caracteres biológicos hereditários.
Estas concepções não são apenas propagadas ativamente por certas
escolas psicológicas estrangeiras. Manifestam-se também sob formas
inconscientes e invisíveis, nos preconceitos pedagógicos ou outros,
resultantes da desigualdade secular das condições sociais do
desenvolvimento das pessoas.
Se este livro contribuir para a luta contra estas opiniões
biologizantes sobre a natureza e o desenvolvimento de psiquismo humano,
o autor terá atingido o seu objetivo principal.
O M SïillkS.1 0(1
o j u m v io M j s a a

O 3H H O S

O IVSK 3
() DESENVOLVIMENTO DO PSIQUISMO ANIMAL

1. Estágio do psiquismo sensória! elementar

O aparecimento de organismos vivos dotados de sensibilidade está


ligado à complexidade da sua atividade vital. Esta complexidade reside na
formação de processos da atividade exterior que mediatizam as relações
entre os organismos e as propriedades do meio donde depende a
conservação e o desenvolvimento da sua vida. A formação destes
processos c determinada pelo aparecimento de uma irritabilidade em
relação aos agentes exteriores que preenchem a função de sinal. Assim
nasce a aptidão dos organismos para refletir as ações da realidade
circundante nas suas ligações e relações objetivas: é o reflexo psíquico.
Estas formas de reflexo psíquico desenvolvem-se com a
complexidade estrutural dos organismos e em função do desenvolvimento
da atividade que elas acompanham. Por esta razão, é impossível analisá-las
uentificamente sem examinar a própria atividade dos animais.
A que atividade animal se liga a forma de psiquismo mais
elementar? A sua particularidade essencial é ser suscitada por tal e tal
propriedade que age sobre o animal, propriedade para a qual sc orienta,
mas que não coincide com as propriedades de que depende diretamente a
vida do animal. Assim, esía atividade é determinada não pelas
propriedades atuantes do meio, mas por estas mesmas propriedades.
K E Q .! J 5 " l % % j<0 <f
O Desenvolvimento do Psiquismo

Sabe-se que quando o inseto se deixa prender numa teia de aranha,


•aa se dirige imediatamente para ele e começa a envolvê-lo com seus fios.
O que suscita esta atividade e o que lhe determina a orientação?
C.iia responder a esta questão convém eliminar, uns após outros, diversos
elementos suscetíveis de agir sobre a aranha. Várias experiências
permitiram estabelecer que é a vibração das asas do inseto que, ao
transmitirem-se à teia, suscitam e orientam a atividade da aranha. Logo
que a vibração das asas do inseto pare, a aranha deixará de se dirigir para a
sua vítima. Inversamente, novas vibrações bastam para fazer com que a
manha se dirija para o inseto. Poder-se-á concluir daqui que c a vibração
que engendra a atividade da aranha e a orienta. Uma segunda experiência
assim o mostra.
Sc aproximarmos da teia um diapasão em vibração, a aranha
dirige sc imediatamente para ele, trepa para seus braços, envolve-os com a
sua leia e tenta mordê-lo com suas mandíbulas (E. Rabaud). E, portanto, o
fenômeno vibratório a causa, pois o diapasão e o inseto apanhado numa
teia de aranha não têm outro ponto comum a não ser a vibração.
Por que é que a atividade da aranha esta ligada a uma vibração que
age sobre ela, mas que não desempenha qualquer papel na sua vida?
Porque a ação da vibração se encontra, nas condições normais, em relação
estável e determinada com a substância nutritiva, o inseto capturado na
teia. Chamaremos a esta relação que existe entre a propriedade atuante
(agente, estímulo) e a satisfação de uma necessidade biológica, “sentido
biológico” da ação considerada. Diremos, pois, que a atividade da aranha é
dirigida para um corpo em vibração em virtude de a vibração ter tomado
para ela nó decurso da sua evolução especifica o sentido de alimento.
O sentido biológico de um agente exterior não é invariável para o
animal. Ele desenvolve-se e modifica-se no decurso da sua atividade em
função dos élús objetivos que existem entre as propriedades
correspondentes do meio.
Assim, quando se alimenta sistematicamente de vermes um sapo
esfomeado e em seguida lhe apresentamos um fósforo c uma pequena bola
de musgo, ele atira-se ao fósforo que é alongado como o verme e não toca
O Desenvolvimento do /'.y/í/ m/.ow 23

no musgo: a forma alongada tomou para ele o sentido biológico de


alimento. Em contrapartida se fornecermos inicialmente ao sapo aranhas,
ele atira-se ao musgo que se assemelha pela sua forma a uma aranha c não
reage de maneira alguma ao fósforo: agora, os objetos esféricos tomaram,
para ele, o sentido de alimento.
Devemos notar que os elos do sentido aparecidos na atividade
animal são ligações condicionais que apresentam um caráter particular,
podemos mesmo dizer extraordinário. Eles distinguem-se nitidamente
das ligações condicionais que formam o mecanismo do próprio
comportamento, isto é, das ligações com a ajuda das quais se realiza o
comportamento,
Quando o animal ao ver o alimento se dirige para ele, isto é,
quando estamos a tratar com uma ligação de sentido “vista do alimento-
alimento1', esta ligação aparece e modifica-se absolutamente de maneira
diferente das que surgem no processo pelo qual se forma nele o hábito de
contornar um obstáculo encontrado no caminho (ligação “obstáculo-
contorno11).
Várias pesquisas mostraram que as ligações do primeiro tipo se
formam muito rapidamente “em campo” c que de igual maneira se
destroem; basta para isso uma ou duas combinações.
Em contrapartida, as ligações do segundo tipo nascem e
extinguem-se lentamente, progressivamente. Por exemplo, os pintos
começam a bicar efetivamente a gema do ovo partido com sucesso logo à
primeira; basta então a um pinto de dois dias bicar uma ou duas vezes uma
casca de laranja amarga para que o seu comportamento alimentar lace a
gema do ovo se extinga (Morgan e outros). Por outro lado, os pintos devem
fazer várias dezenas de ensaios para que os seus movimentos de bicagem
se adaptem perfeitamente às condições exteriores cm que recebem o
alimento.
Para estudar a formação dos hábitos no sapo, Bujtendijk (1930) fez
uma série de experiências em que dava a comer aos animais insetos cuja
substância provocava neles uma reação muito negativa. Bastava um ensaio
para que o sapo recusasse durante vária horas engolir todo o inseto deste
7 O Desenvolvimento do Psiquismo

tipo ou mesmo qualquer outro inseto que se assemelhasse. Noutras


experiências Bujíendijk colocou um vidro entre o sapo e a sua presa (no
caso uma lombriga); nestas condições, o sapo manifestava uma grande
perseverança se bem que todas as yezes chocasse contra o vidro; foi
necessário um grande número de tentativas antes que a reação se
extinguisse. Mesmo o esforço do elemento de "punição'’ (reforço negativo)
não provoca nestes casos a cessação dos movimentos do sapo. A rã das
experiências de Abbot esteve durante 72 horas a lançar-se a uma presa
envolvida em agulhas, enquanto a epiderme da sua mandíbula superior não
ficou seriamente ferida. O significado biológico das diferenças entre as
velocidades de formação destes dois tipos de ligações compreende-se bem
se sc considerar as condições de vida da espécie. “Se durante as suas
caçadas vesperais o sapo chega à vizinhança dc um formigueiro e caça
uma formiga, a formação rápida de um hábito protege-o então contra a
ingestão doutros insetos semelhantes prejudiciais pelo seu ácido fómico.
inversamente, quando um sapo apanha uma lombriga e a perde
uma repetição de movimentos poderá ainda proporcionar-lhe o alimento
esperado1.
As ligações de sentido têm também outro caráter, o de serem
"'bilaterais”; com efeito, a sua formação não tem apenas como resultado
que a ação do excitante provoca uma reação determinada, um
comportamento determinado, mas também que a necessidade
correspondente "se reconheça” desde logo de certa maneira no objeto
excitante considerado, se concretize nele e provoque um comportamento
ativo de procura em relação a ele.
A originalidade destas ligações foi sublinhada por Darwin, que
relata especialmente as seguintes observações: “E muito mais fácil
alimentar artificialmente um vitelo ou uma criança se nunca foram
alimentados pela mãe do que se o foram nem que uma vez apenas...” As
larvas “que se alimentaram durante algum tempo dc uma dada planta,

i
j. Bujtendijk: lue sur la psychotogie animalé, Paris. 1930.
O Desenvtilvhuriiln tia VsiquisiiKt 25

preferem morrer a comer outra que seria perJêitãnienle aeeitávC'1 [roí' elas
no pouco que tenham sido habituadas.desde o nascimento ,
Os trabalhos clássicos cie Pavlov e dos seus colaboradores
demonstraram igualmente a formação destas ligações de sentido “rápidas”,
mesmo quando não sublinharam particularmente o seu papel fundamental
no comportamento (cf. os primeiros trabalhos de 1. S. Tsitovitch e, mais
tarde, as experiências de 1. O. Nárbutovicth e outros).
O reflexo do meio pelos animais encontra-se em unidade com a
sua atividade. Isto significa que, se bem que sejam diferentes, são ao
mesmo tempo inseparáveis. 1lã "passagens” entre eles.
üstas passagens consistem em que, por um lado, o reflexo forma-se
sempre no decurso da atividade do animai; assim, a existência e a exatidão
do reflexo, nas sensações de um animal, de um objeto que age sobre ele,
são determinadas pela existência ou não de uma ligação real entre o animal
• e o objeto considerado, no processo de adaptação do animal ao meio e na
sua atividade, assim como da natureza desta ligação. Por outro lado, toda a
atividade animal mediatizada pelas ações sofridas realiza-se em função da
maneira como estas ações se refletem nas sensações do animai. É evidente
que o que é essencial nesta unidade complexa do reflexo e da atividade é a
atividade do animal, que o ligapraticamente à realidade objetiva; o reflexo
psíquico das propriedades agentes destas realidades é imediato, derivado.
A atividade animai no primeiro estágio do desenvolvimento dof
psiquismo, caracteriza-se pelo fato de que ela corresponde a tal agente
particular (ou a um grupo de agentes) em razão da ligação essencial destes
agentes com as ações de que depende a realização das funções biológicas
essenciais dos animais. Por este fato, o reflexo da realidade, ligado a esta
estrutura da atividade, tem a forma de uma sensibilidade aos agentes
particulares (ou a um grupo de agentes), isto é, de uma sensação elementar.
Chamaremos a este estágio do desenvolvimento do psiquismo “estágio do
psiquismo sensorial elementar'. E o estágio de uma longa série de animais.2

2Ch-Oarwin, Oeuvres, l. III. M-f, 1939, p. 715 (em língua russa).


v> O Desenvolvimento do Psiquismo

é possível que certos infusòrios superiores possuam uma sensibilidade


elementar.
Podemos ser muito mais afirmativos no caso de certos vermes,
crustáceos, insetos e naturalmente todos os vertebrados.
Numerosos investigadores puseram em evidência a variação do
comportamento dos Vermes, quando se criam novas ligações. As
experiências de Copciad e Brown (1934) provaram que os Anelídeos não
reagem ou reagem negativamente ao contato de uma vareta de vidro.
Todavia, se ligarmos o contato da vareta ao alimento, a reação do verme
modilica-se: doravante o contato provoca nele um movimento positivo em
direção ao alimento’ .
Nos Crustáceos, esle gênero de variação pode tomar um caráter
mais complexo. Como mostraram as experiências de B. Ten Cate
Ka/ejcwa (1934), uma ligeira excitação mecânica do abdômen de um
bernardo-eremita que entrou na sua concha provoca um certo movimento
neste último. Se prolongarmos a excitação, ele sai da concha e afasta-se'1.
liste fato apresenta pouco interesse em si; o que é interessante são
as modificações ulteriores do comportamento do crustáceo. Com efeito, se
repetirmos sistematicamente estas experiências o comportamento do
animal modifica-se. Neste caso, o bernardo-eremita retira o abdômen da
concha logo ao primeiro contato, mas não se afasia c retoma quase
imediatamente a sua posição inicial. O contato tomou para ele doravante
um sentido diferente: tornou-se sinal de saída do abdômen.
Compreende-se que o desenvolvimento da atividade e da
sensibilidade animais tenha por base material o desenvolvimento da sua
organização anatômica. No estágio do psiquismo sensorial elementar, a via
geral das modificações dos organismos passa primeiro pela diferenciação e
multiplicação dos órgãos da sensibilidade; as sensações diferenciam-se
correlativamente.

M. Copelad. F. Brow n: “Modificações dó comportamento no Nereis Virens.” The


Biological Bulletin (o boletim biológico), LXVII. I 934. N° 3.
!t ten Cale KaZejewa: Algumas observações sobre os bernardo-eremitas “Arquivos
Holandeses de Fisiologia do Homem e dos Animais". XIX. 1934, n“4.
O D e scn vo /vu iifU ln <!o / ’xii/HixnKí 27

riG. 1. Esquema dos diferentes tipos cie estrutura da fotossensibilidado (segundo


Btiddenbrock)

Nos animais inferiores, por exemplo, as células sensíveis à luz


estão repartidas por toda a superfície do corpo, de modo que a
fotossensibiIidade destes animais é muito difusa. Os primeiros animais que
apresentam células fotossensíveis que se fecham junto da extremidade
cefálica (Fig. 1, A) são os Vermes. Ao concentrarem-se, as células tomam
a forma de placas (B); estes órgãos permitem já uma orientação bastante
precisa para a luz. Por fim, num estágio ainda mais evoluído do
desenvolvimento (Moluscos) estas placas invaginam e formam uma
cavidade interna fótossensível de forma esférica, que age como uma
“câmara clara” (C) que permite perceber o movimento dos objetos.

Fig. 2. O sislema nervoso reticular da medusa


'.S' O Desenvolvimento do Pskfutsm

Por outro lado, desenvolvem-se os órgãos motores, órgãos de


atividade exterior dos animais; o seu desenvolvimento é particularmente
nítido em relação com duas mudanças principais: a passagem à vida
terrestre e, nos hidrobióticos (animais que vivem em meio aquático), a
passagem à perseguição ativa de presas. -

Fig. 3. Sistema nervoso da estrcla-do-mar

Com o desenvolvimento dos órgãos da sensibilidade e dos órgãos


do movimento, vemos desenvolver-se o órgão de ligação e de coordenação
dos processos: o sistema nervoso.
O fíeseiiwlvinn1ni<) iio / ’.v/(jutstih 2y

Na origem, o sistema nervoso c unia simples rede cujas fibras que


partem em todas as direções ligam diretamente células sensíveis dispostas
na superfície ao tecido contrátil do animal. Este tipo de sistema nervoso
não se encontra nas espécies atuais. Na medusa, a rede nervosa que parte
das células sensíveis está já ligada ao tecido muscular por intermédio de
células nervosas motrizes.
Este sistema nervoso reticular transmite a excitação por difusão, as
fibras nervosas que a compõe apresentam uma condutibilidade bilateral;
evidentemente, faltam os processos de inibição. A etapa seguinte c!o
desenvolvimento do sistema nervoso é marcada pela individualização dos
neurônios que formam os gânglios centrais. Numa das ramificações da
evolução (nos Equinodermes), os gânglios nervosos formam um anel
pcriglótico munido de circuitos nervosos centrífugos. Este centro nervoso
permite já movimentos relativamente complexos e coordenados, como os
que efetua a estrela-do-mar para abrir a concha de um bivalve. Nas duas
outras grandes ramificações da evolução (dos Vermes inferiores aos
Crustáceos e Aracnídeos, dos Vermes inferiores aos insetos), vemos
aparecer um gânglio anterior (cefálico) mais maciço, ao qual se subordina
o trabalho dos gânglios inferiores {Figs. 2, 4).
A formação deste tipo de sistema nervoso é condicionada pela
individualização, ao lado dos outros órgãos dos sentidos, de um órgão
diretor, que se torna o órgão fundamental que mediatiza a atividade vital
do organismo.
A evolução deste sistema nervoso ganglionar conduz a uma
diferenciação posterior, ligada à segmentação do corpo do animal.
As modificações da atividade, neste estágio de desenvolvimento,
consiste numa complexidade crescente, paralelamente ao desenvolvimento
dos órgãos de percepção e de ação e do sistema nervoso dos animais.
Todavia o tipo geral de estrutura da atividade c o tipo geral de reflexo do
meio não se modificam radical mente no decurso deste estágio. A atividade
é excitada e regulada pelo reflexo de uma série de agentes isolados; a
consequência disto é que a percepção da realidade jamais é a percepção
dos objetos em sua totalidade. Assim, nos animais menos organizados
Ui O Desenvolvimento do Psiquism

os Vermes notoriamente — a atividade é engendrada pela ação dc um só


agente; na sua base de alimento, estes animais utilizam sempre “um só
órgão dos sentidos, não participando os outros (órgãos dos sentidos); c
muitas vezes o lato, mais raramente o olfato ou a vista, mas sempre um só
entre eles” (Wagner)5.
A complexidade da atividade fa/-se em duas direções principais. A
primeira é particularmente manifesta na linha de evolução que vai dos
vermes aos Insetos e aos Aracnídeos. A atividade animal tem por vezes aí
a amplitude de cadeias muito compridas, constituídas por um grande
número de reações que respondem a diferentes agentes sucessivos. O
comportamento da larva da formiga-leão c um excelente exemplo.
A formiga leão esconde-se na areia; quando está bastante enter­
rada para que os grãos dc areia lhe toquem a cabeça, isso provoca-lhe

Hg. 5. tunil da formiga-leâo (segundo Doflein)

W- A. Wagner: Nascimento e desenvolvimento das faculdades psíquicas (em língua


russa), las. 8 1928.
O Desenvolvimento do i'\n/iti.smn .</

sacudidelas da cabeça e da parte anterior do corpo que projetam os grãos


de areia para cima. Assim se forma um funil regular no centro do qual se
encontra a cabeça da formiga-leão. Ao cair neste funil, as formigas deixam
inevitavelmente cair alguns grãos de areia. listes últimos ao atingir a
cabeça da formiga-leão provocam nela os reflexos de “projeção” já
descritos. Uma parte dos grãos de areia projetados atinge a formiga que é
arrastada com a areia para o fundo do funil. Quando a formiga se aproxima
das mandíbulas da formiga-leão, estas fecham-se e a vítima é aspirada
(Hg. 5. segundo Doflein, simplificada),
O mecanismo desta atividade é um mecanismo de reflexos
elementares, inatos, incondicionais e condicionais,
Este tipo dc atividade é característico dos Insetos, onde atinge os
mais altos graus de desenvolvimento, Esta linha de complexidade da
atividade não é progressiva c não conduz a modificações qualitativas
ulteriores.
A outra direção da complexidade da atividade e da sensibilidade é,
em contrapartida, progressiva. Eia conduz à mudança da própria estrutura
da atividade e cria uma forma nova de reflexo do meio exterior; esta forma
caracteriza o segundo estágio, já mais elaborado, do desenvolvimento do
psiquismo animal, o estágio do psiquismo perceptivo. Esta orientação
progressiva para uma atividade complexa está ligada à linha progressiva da
evolução biológica (dos Vermídeos aos Protocordados inferiores e depois
aos Vertebrados).
A complexidade da atividade e da sensibilidade nos animais
manifesta-se aqui pelo fato dc que o seu comportamento é comandado pela
combinação de vários agentes simultâneos. Este tipo de comportamento
encontra-se nos peixes. Observa-se neles com particular nitidez a
contradição entre um conteúdo já relativamente complexo dos processos de
atividade e um alto desenvolvimento das diversas funções, por um lado, e
de uma estrutura ainda primitiva, por outro.
Estudemos agora experiências particulares sobre os Peixes.
Num aquário, onde vivem jovens silúriformes da América,
dispomos de unta divisória transversal, mais estreita que o aquário, para
O Desenvolvimento do Psiqmsnio

deixar uma passagem entre a extremidade da divisória e uma das paredes


dn mesmo. A divisória é em ga/.c branca estendida num caixilho.
No momento em que dois peixes (que andam geralmente muito
pmximos um do outro) se encontram numa das partes, sempre a mesma do
.iquaiio, deita-se um pedaço de carne no fundo da ontra parte. I xcitados
pelo odor da carne, os peixes vão direitos a ela. nadando ao longo do
Iumlo. Vão então de encontro a divisória dc gaze; quando estão a alguns
milímetros dela, detêm-se um instante como para a observar, depois nadam
ao longo da divisória, andam de um lado para o outro, até que por acaso
encontram a passagem, após o que a transpõe para ir até a carne.
hsta atividade estabelece-se cm função de dois agentes determi­
nantes Ma é engendrada pelo odor da carne e manifesta-se na direção
deste agente predominante; por outro lado, os peixes reparam (visual-
iiicnie) na presença tio obstáculo; razão pela qual os seus movimentos na
ducçao tio odor difuso reveste um caráter complexo ziguezagueante (fig. 6
\ f lodavia, não há aqui uma simples cadeia de movimentos; primeiro a
tenção a gaze. depois a reação a odor. Também não há simples adição da
ui fluência tios dois agentes, provocando o movimento pela sua resultante.
Itnta-se tle uma atividade coordenada de maneira complexa da qual
podemos objetivameiite retirar um conteúdo duplo, a saber: prímeiramente.
nina orientação determinada da atividade que conduz a um resultado
ipropriado. liste conteúdo aparece sob a ação do odor que tem para o
muna! o sentido biológico de alimento; depois, movimentos de
'»morno propriamente ditos; este outro conteúdo da atividade está
O Desemofvimeilio do Psiquismo

lidado a um agente determinado {o obstáculo), distinto do odor do


alimento. Por si próprio não pode desencadear a atividade dos animais; a
ga/e em si mesma não provoca qualquer reação nos peixes. O agente não
está. portanto, ligado ao objeto que desencadeia a atividade e para qual esta
se orienta, mas às condições nas quais-é dado este objeto; tais são a
tliicrença e a relação objetivas que existem entre os dois agentes. Esta
relação objetiva reflete-se na atividade dos peixes estudados? Manifesta-se
lambem para o peixe como dividida cm duas? Primeiramente, como
estando ligada ao objeto, isto é, ao gerador de atividade; em segundo,
como relacionando-se com as condições de atividade e, em geral, como
outra':
Só o prosseguimento da experiência pode dar a resposta.
Se prosseguirmos as experiências de nutrição dos peixes colocando
Iodas as vezes um obstáculo no seu caminho, vemos operar-se uma espécie
de "reabsorção" dos movimentos inúteis e os peixes acabam por se dirigir
imediatamente para a passagem que existe entre a divisória dc gaze e a
parede do aquário e em seguida para o alimento (Fig. 6 B).
Passemos agora a uma segunda fase da experiência. Retiremos a
divisória antes de alimentar os peixes. A gaze tinha sido colocada bastante
perto do ponto dc partida dos peixes para que eles não pudessem deixar de
notar a sua ausência mau grado a sua visão relativamente aperfeiçoada;
continuaram a repetir os movimentos de contorno nas novas condições,
isto é, deslocar-se como se houvesse divisória (Fig. 6, C).
Como indica a Fig. 6, D, a trajetória dos peixes acaba naturalmente
por se retificar; todavia, trata-se dc um processo lento (A. V. Zaporojets e
I. Dimanstein).
Assim, o agente que determina o movimento do contorno nos
peixes estudados está forçosamente ligado à ação do próprio alimento, ao
seu odor. Isto significa que os peixes o percebem desde início como unido
ao odor e não como fazendo parte de um outro "nó" dc propriedades
ligadas entre si. isto é, de uma outra coisa.
Observamos, portanto na ■sequência desta progressiva complexi­
dade da atividade e da sensibilidade animais, o aparecimento de uma
( ) U c s c n v o iv n n c M o d o P s u fin sm o 35

discordância de uma contradição no seu comportamento. A atividade dos


peixes (c evidentemente dc outros Vertebrados) apresenta já um conteúdo
tjue responde objetivamente às condições agentes; para o próprio animal,
este conteúdo está ligado aos agentes, para os quais se dirige a sua
atividade no seu conjunto. Dito por outras palavras, a atividade dos
animais é, nos fatos, determinada pela ação das coisas particulares'
(alimento, obstáculo), enquanto o reflexo da realidade permanece no
reflexo do conjunto das suas propriedades distintas. M
Esta discordância resolve-se no decurso da evolução pela mudança
da forma dominante do reflexo e pela reorganização do tipo geral da
atividade animal; há a passagem a um estágio mais elevado do desen­
volvimento do reflexo.
Antes de abordar o estudo deste novo estágio, devemos debruçar-
nos sobre um problema particular, ligado a este, mais geral, da variação da
atividade c da sensibilidade animais.
Trata-se do problema dito instintivo, isto é. inato, ou ainda "com­
portamento reflexo incondicional", e do comportamento que se modifica
sob a ação das condições exteriores de existência do animal e sob a
influência da sua experiência individual.
As concepções que ligam os graus sucessivos do desenvolvimento
do psiquismo a estes diferentes mecanismos de adaptação do animal ao
meio estão largamente espalhados em psicologia. Assim, nessa ótica, o
comportamento na base do qual se encontram qs "tropismos" ou instintos
dos animais seria o grau inferior do desenvolvimento psíquico; um grau }
superior caracterizar-se-ia por um comportamento fundado sobre reflexos
condicionados, isto é, suscetíveis de se modificar individualmente.
Estas concepções apoiam-se no fato incontestável de que quanto
mais se sobe na escala biológica, mais se aperfeiçoa a adaptação dos
animais às variações do meio, mais dinâmica é a sua atividade, mais facil­
mente se faz a sua "aprendizagem". Todavia, este ponto de vista concreto
respeitante ao processo da atividade animal é extremamente simplista e
funciona 1mente errado.

ÜÜÊÈÜÊIÉÍ
Ui O Desenvolvimento do Psiquismo

Primeiro, nada nos permite opor como graus genéticos diferentes o


comportamento herdado, dito invariável sob a ação dos agentes exteriores
c o comportamento que se forma no decurso do desenvolvimento
individual do animal, da sua adaptação individual. “A adaptação individual
escreve I. Pavlov — existe cm toda a extensão do mundo animal”6 *.
A oposição entre o comportamento inato e o comportamento adap­
tai ivo nasceu da redução falaciosa dos mecanismos de atividade animal a
simples mecanismos inatos e da velha concepção idealista do termo
“instinto”.
Considera-se geralmente os tropismos como a forma mais simples
do comportamento inato. Segundo o autor da teoria dos tropismos animais,
Jacqucs Loeb, o tropismo é um movimento automático imposto, deter­
minado pelo fato de que os processos físico-químicos que se desenrolam
nas partes simétricas do organismo não são idênticos devido ás diferenças
entre as influências que exercem sobre ele .
O renovo das raízes dos vegetais oferece um bom exemplo destes
movimentos impostos e constantes; com efeito, qualquer que seja a
posição que se dê a uma planta, as suas raízes dirigem-se para baixo.
Fenômenos análogos podem ser observados nos animais, mas a atividade
animal não se reduz apenas ao mecanismo dos tropismos; ela c plástica,
isto é, variável sob a influência da experiência.
Assim, sabe-se que a maior parte das dáfnias apresentam um
fototropismo positivo, isto é, efetuam movimentos forçados em direção à
luz. Todavia, G. Blees e alguns autores soviéticos (A. N. Leontiev e F. I.
Bassine) demonstraram experimentalmente que o comportamento das
dáfnias não se assemelha de modo algum ao “comportamento das raízes
vegetais8.
Kis a descrição destas experiências.

I Pavlov: O cuvres C om pletes, t II, M oscou, L eningrado: 1949; pãg 415. (em língua
russa)
( T. J. L oeb: Os movimentos forçados e os tropismos. M oscou. 1924 (em língua russa)
(i. Blees: Fototropismo e experiências com a Dáfnia. . III.
O Desenvolvimento tio !’sit/ius)it< 37

Arranja-se um pequeno aquário raso, iluminado apenas ..cie um


lado. No centro, lixa-se um tubo de vidro curvado em ângulo relo, de modo
que um dos braços fique debaixo de água em posição horizontal c o
segundo de pé na vertical, com a extremidade fora da água (lig. 7).
No princípio das experiências, a parte horizontal do tubo está
dirigida para a parede iluminada do aquário, isto c, ao encontro da lonte
luminosa (posição representada na Fig. 7). Coloca-se uma dálnia no tubo
por meio de uma pipeta; ela desce rapidamente ao longo da parte vertical
do tubo e começa a deslocar-se no braço horizontal, dirigido para a luz.
Depois sai do tubo e nada livremente para a parede iluminada do aquário.
O seu comportamento permanece, assim, estritamente submetido à ação da
luz.
As experiências seguintes consistem em fazer girar o tubo 45° em
relação à linha de propagação da luz (posição representada a ponteado na
Fig. 7).
Nestas condições a dáfnia sai do tubo como anteriormente, embora
mais lentamente.
Este fato explica-se perfeitamente com a teoria dos tropismos.
Podemos admitir estarmos perante a adição dc duas influências: a influên­
cia da luz e a da parede do tubo ligeiramente orientado de lado, que impede
o movimento direto. A adição destes dois momentos exprime-se pelo
movimento retardado da dáfnia através do tubo. Todavia, a repetição
destas experiências mostrou que a dáfnia atravessava o tubo cada vez mais
depressa até que sua velocidade se avizinhava da que era necessária para
atravessar o tubo quando este estava virado para a luz. Por consequência,
observa-se na dáfnia um certo exercício, ou seja, que o seu
comportamento se adapta progressivamente às condições dadas.
<S O Desenvolvimento do Psiquismo

a
tubo
_v______ b

|L i„i,„

Fig. 7. D ispositivo para as experiências sobre as dáfnias (segundo M ees)

Nas experiências seguintes, vira-se o tubo a 90°, 130° e finalmente


a IX0'\ Para cada urna destas posições do tubo a dáfhia aprende a sair dele
relativamente depressa, se bem que deva, nos dois últimos casos, avançar
no sentido oposto ao sinal do seu tropismo (Fig. 8).
O Dexem’olvitucillo <l<>l'siqHiSHio j y

illl
í

Js/yf^Vv" !Vyv_z-vr\_ \

ni
J __ L

l i" K Variação do com portam ento d a d á fn ia : I. experiências de Iilires ( I9 1 l>|: 11.


experiências de Leontiev. B assine e S olom akh {1933-1934)

Á primeira vista, este tato pode não parecer contraditório com a


“coação” do folotropismo positivo da dáfnia: pode-se supor que o fototro-
pismo positivo da dáfnia se transforma num fototropismo negativo, sob a
influência de condições desconhecidas para nós. Mas de tato, esta
suposição é desmentida pelo fato de que uma vez saída do tubo, a dáfnia se
dirige de novo para a luz.
Assim, ressalta dos fatos anteriormente expostos que o comporta­
mento da dáfnia não se reduz aos movimentos automáticos forçados que
são os tropismos. Os tropismos dos animais não são os elementos de um
comportamento globalmente mecânico, mas os mecanismos dos processos
m O Desenvolvimento tio Psiquismo

dementares de um comportamento sempre plástico e capaz de se reor­


ganizar em função das transformações do meio.
O outro conceito, ligado em psicologia à idéia de um compor­
tamento animal inato estritamente fixado, é o instinto. Existem diversas
concepções do instinto. A mais difundida é a que vê no comportamento
instintivo um comportamento hereditário que não exige qualquer apren­
dizagem, que se forma sob a ação de estímulos determinados, se realiza de
uma certa maneira, determinada uma vez por todas e inteiramente idêntica
para todos os representantes de uma mesma espécie animal. Razão por que
o instinto é “cego”, não leva em linha de conta as particularidades das
condições exteriores de vida de um dado animal e não pode modihcar-se a
não ser no decurso da lenta evolução biológica. Esta concepção do instinto
foi sustentada em especial por .1. 11. Fabre .
Efetivamente na maior parte dos animais altamente organizados,
podemos distinguir bastante nitidamente, por um lado, os processos que
são a manifestação de um comportamento-que se formou no decurso da
evolução histórica de uma espécie c que são fixados herediíariamcnte (por
exemplo, certos insetos “sabem” construir favos) e, por, outro, os proces­
sos de comportamento que aparecem no decurso da “aprendizagem’ dos
animais (por exemplo, as abelhas aprendem a escolher os recipientes que
contém xarope marcado por um sinal figurado particular).
Os dados experimentais demonstram todavia que não é possível a
oposição entre o comportamento de espécie e comportamento elaborado
individualmente, mesmo em graus inferiores do desenvolvimento animal.
O comportamento animal é evidentemente um comportamento especifico,
mas é igualmente muito plástico.
Assim o comportamento instintivo estritamente fixado não é o grau
inferior do desenvolvimento da atividade nos animais, Este é o primeiro
ponto.
Segundo, mesmos nos graus mais elevados do desenvolvimento da
atividade animal, não há tipo de comportamento instintivo que não seI

I II I ;iHiL* Souvenirs cníamologiques, Paris, 1910.


O Desenvolvimento ifa Evk/ hI.yhk 4!

modifique sob a ação das condições de vida individual do animal. Isto


significa que não existe, estritamente falando, comportamento deíiníti-
vamente fixado, que seguiria simplesmente um estereótipo preexistente no
próprio animal. Esta concepção do comportamento animal resulta dc uma
análise bastante pouco profunda dos fatos.
Eis o exemplo de uma das experiências de Fabre que foi aperfei­
çoada posteriormente.
Para provar que o comportamento instintivo só responde às condi­
ções de vida estritamente determinadas de uma dada espécie e que não é
capaz de se adaptar a condições não habituais, Fabre fez uma experiência
com abelhas solitárias. No dia cm que essas abelhas saem do ninho pela
primeira vez, elas têm que roer a massa compacta que o obtura.
Fabre dividiu então o ninho em dois grupos. Recobriu a entrada
dos primeiros ninhos com uma folha dc papel, dc maneira que esta aderisse
ao ninho; para o segundo grupo, utilizou um cone do mesmo papel que
colocou de maneira a deixar um certo intervalo entre as paredes do cone e
do ninho. O primeiro grupo de abelhas roeu a parede do ninho que as
aprisionava, bem como o papel e libertou-se. Quanto às abelhas do
segundo grupo, elas também roeram a parede dura do ninho, mas não
conseguiram roer a parede de cone de papel separado do ninho e acharam-
se, portanto, votadas à morte.
Fabre conclui daqui que o inseto podia prolongar um pouco o alo
instintivo de roer para deixar o ninho, mas que não era capaz de o renovar
quando se apresentava um segundo obstáculo, por mínimo que fosse; isto
significaria, portanto que o comportamento do inseto é cego e que só se
efetua perante urna ordem estereotipada e preexistente.
Todavia a experiência de Fabre não é convincente. Não aprofun­
dou suficientemente o seu estudo das condições artificiais nas quais
colocou as abelhas. Posteriormente, demonstrou-se que as abelhas do
segundo grupo ficavam presas na armadilha não porque fossem incapazes
de adaptar o seu comportamento às novas condições criadas pela presença
de um obstáculo insólito (a segunda parede de papei que envolvia o ninho),
mas muito simplesmente porque a própria conformação das suas
0 Desenvolvimento do Psiquism

maml ihi ilas não lhes permitia agarrara superfície lisa do papel, se bem que
I c u h n m tentado fazê-lo. Outras experiências provaram que o inseto podia
renovar o ato de roer, se losse necessário; com efeito, se se coloca à saída
do ninho um tubo de vidro obturado numa extremidade por argila, a abelha
ro! a parede do ninho, percorre o tubo e rói o segundo obstáculo ( o pedaço
de argila). Isto prova que o comportamento instintivo das abelhas não está
tolnlmcnte submetido a uma sucessão de atos preestabelecidos.
O estudo detalhado do comportamento inato de uma espécie (as
vespas solitárias, as aranhas, (rs caranguejos, os peixes e outros animais)
mostra, portanto, que este último de modo algum é constituído por
encadeamentos de movimentos imutáveis, fixados pela hereditariedade e
cujos diferentes elos se sucederiam automaticamente; bem peio contrário,
cada um dos elos é excitado por sinais sensoriais determinados, em
conseqiiência do que o comportamento global do animai é sempre regulado
pelas condições dadas e pode portanto variar consideravelmente10 .
L ainda mais evidente que aquilo a que se chama o comportamento
animal individual se forma sempre, por sua vez, a partir do comportamento
instintivo da espécie; não poderia ser, aliás, de outro modo. Assim, tal
como não existe comportamento integral mente real izado pelos movimen­
tos inatos, insensíveis aos agonies exteriores, também não existem hábitos
ou reflexos condicionais que sejam independentes dos elementos inatos.
Razão por que não podemos opor estes dois tipos de comportamento,
Podemos quanto muito afirmar que os mecanismos inatos desempenham
um papel bastante grande em certos animais, enquanto noutros o são os
mecanismos da experiência individual. Mas mesmo esta diferença não
reflete os verdadeiros estágios do desenvolvimento do psiquismo no
mundo animal. Ela põe antes em evidência as particularidades que
caracterizam as diferentes linhas de evolução dos animais. É assim que o
comportamento inato encontra a sua manifestação mais nítida nos insetos
que representam um dos ramos laterais da evolução.

I Kahmici: La bigiogie des hisects; .1. 11. Paire: Journal de Psychologie. 1024. n° 8
0 ftext!nv.õtvmienUf tio Pnh(Uinno 43

Assim, a diferença entre os tipos de mecanismos cjlic asseguram a


adaptação dos animais às mudanças do meio não poderia ser o único
critério do desenvolvimento do seu psiquismo. O essencial não é apenas dc
que maneira sc modifica principalmente a atividade anima!, mas é
sobretudo o conteúdo e a estrutura interna desta atividade e as formas, de
reflexo da realidade que a ela se ligam.

2. Estágio do psiquismo pereeptivo

Ü segundo estágio do desenvolvimento do psiquismo, que sucede


ao do psiquismo sensória! elementar, pode ser chamado estágio do
psiquismo pereeptivo. Ele caracteriza-se pela atitude para refletir a
realidade objetiva exterior, não sob a forma de sensações elementares
isoladas (provocadas por propriedades isoladas ou grupos de proprie­
dades), mas sob a forma dc reflexo das coisas.
A passagem a este novo estágio de desenvolvimento psíquico está
ligada à modificação da estrutura da atividade animal, já preparada no
estágio anterior.
Esta mudança de estrutura consiste em que temos agora diferen­
ciado o conteúdo do atividade que antes se desenhava, conteúdo que se
relaciona objetivamente com as condições do meio em que é dado o objeto,
e não com o próprio objeto para o qual está orientada a atividade do
animal. Neste segundo estágio, o conteúdo não está já ligado àquilo que
excita a atividade, tomado no seu conjunto, mas responde às ações
particulares que o provocam.
Assim um mamífero contorna naturalmente um obstáculo colocado
entre ele c o alimento. Isto significa que tal como os peixes do aquário
dividido descrito anteriormente, podemos distinguir na atividade do
mamífero um certo conteúdo objetivamente ligado ao obstáculo, que
constitui uma das condições exteriores da atividade, e não ão próprio
alimento que é o objeto da atividade. 1lá, todavia, uma grande diferença
entre a atividade dos peixes e a dos mamíferos. Com eleito, enquanto o
II O Desenvolvimento do Psiquismo

conlcútlo cia atividade dos peixes (o contornar) se conserva depois de


iciirado o obstáculo e só desaparece progressivamente, os animais superio-
ics, colocados num caso análogo, dirigem-se em gerai diretamente para o
alimento.
Assim, nestes últimos, o estímulo para o qual está orientada a
atividade não se confunde com a ação do obstáculo: eles agem indepen­
dentemente um do outro para o animal. Do primeiro, dependem a orien­
tação e o resultado final da atividade, da segunda as modalidades da sua
realização, por exemplo, os movimentos de rodeio.
Chamaremos operação esta composição, este aspecto da atividade
que responde às condições nas quais se encontra o objeto que a suscita.
É precisamente a existência de operações distintas na atividade que
indica que Os estímulos que agem sobre o animal, que até lá se sucediam
uns aos outros, começam a reagrupar-se: de um lado, as propriedades que
caracterizam o objeto, visado peia atividade e suas interações, do outro
lado, as propriedades dos objetos que determinam o modo da atividade,
isto é, a operação. Se no estágio do psiquismo sensorial elementar a
diferenciação dos estímulos estava iigada à sua simples reunião à volta de
um excitante predominante, agora aparecem os primeiros processos de
integração dos estímulos numa imagem única e acabada; eles reúnem-se
enquanto propriedades de uma só e mesma coisa. Doravante o animal
reflete a realidade circundante sob a forma de imagens mais ou menos
segmentares de coisas individualizadas.
Encontramos a maior parte dos Vertebrados atuais nos diversos
níveis do estágio do psiquismo perceptivo. A passagem a este estágio está
aparentemente ligada à passagem dos vertebrados a um modo de vida
terrestre.
O nascimento e o desenvolvimento do psiquismo perceptivo nos
animais são condicionados por mudanças anatômicas e fisiológicas
profundas. A principal dentre elas é o desenvolvimento e a transformação
do papel dos órgãos dos sentidos que agem à distância, em primeiro lugar
da visão. O seu desenvolvimento traduz-se por uma modificação tanto da
importância que eles tem no sistema geral da atividade como da forma das
O Desenvolvimento do Psiquismo 45

suas correlações anatômicas com o aparelho nervoso central. Sc, no estágio


precedente, a diferenciação dos órgãos dos sentidos conduzia a se isolar
dentre eles os órgãos dominantes, nos Vertebrados os órgãos diretores são
cada vez mais órgãos que integram os estímulos exteriores. Esta integração
é possível graças a uma reorganização do sistema nervoso central com a
formação do cérebro anterior, depois do córtex cerebral (em primeiro lugar
nos Répteis).
Inicialmente (nos peixes nos anfíbios e nos repteis), o cérebro ante­
rior c uma formação puramente olfativa, espécie de prolongamento do
aparelho olfativo central. A importância relativa dos centros olfativos no

5*7

Fig. 9. C órtex olfativo do ouriço-cacheiro

çórtex cerebral diminui consideravelmente no decurso do desenvolvimento


nos mamíferas) em proveito da representação de órgãos dos sentidos. Isto
vê-se nitidamente se se compara o lugar ocupado pelo córtex olfativo no
ouriço-cacheiro (Fig. 9) e no símio (Fig. 10).
1(1 O Desenvolvimento do Psiquismo

H g. 10. C órtex olfativo do sím io inferior

Peio contrário, a visão, cujo processo de “corticalização ’ começa


no réptil, ocupa um lugar cada vez mais importante (Fig. 12). Nas aves, os
olhos são o receptor principal (Fig. 11). A visão desempenha igualmente o
papel principal em muitos mamíferos superiores.
Ao mesmo tempo, desenvolvem-se os órgãos da motricidade
exterior, esses “instrumentos naturais” dos animais que permitem realizar
as operações complexas que exige a vida no meio terrestre (correr, trepar,
perseguir uma presa, transpor obstáculos etc.). As funções motrizes dos
animais corticalizam-se cada vez mais (isto é passam para o córtex
cerebral), de modo que o pleno desenvolvimento das operações nos
animais produz-se em relação com o desenvolvimento do córtex.
Assim, se a atividade dos Vertebrados inferiores está
principalmente ligada aos centros inferiores (gânglios subcorticais), ela
depende posteriormente muito mais do córtex, cujas transformações
estruturais refletem todo o desenvolvimento ulterior;
A diferenciação das operações que caracteriza o estágio do
psiquismo dá origem a uma nova forma de fixação da experiência animal,
a fixação sob forma de hábitos motrizes, no senlido restrito do termo.
O Desenvolvimento do Psiquismo 47

Por vezes, chama-se hábito a toda a ligação que aparece na


experiência individual. Mas com uma acepção tão simples do termo
“hábito” este conceito torna-se muito vago e engloba um vasto conjunto de
processos totalmente diferentes, desde modificações nas reações dos
difusórios às ações humanas mais complexas. Ao contrário desta extensão
injustificada do complexo hábito, designaremos apenas por “hábitos” as
operações fixadas.
Esta definição do hábito coincide com a percepção proposta pela
primeira vez na U.R.S.S. por V.P. Protopov que provou experimentalmente
que os hábitos motrizes dos animais se formam a partir dos elementos

Fig. 12. O deslocam ento progressivo dos ecm ros o ncos no c o n e s a o s v e u corcous t^ g u m ,
M om ikov): a) as vias e os centros óticos no cérebro fla rü: b) no réptil: c) no m am ífero: 1.
C érebro anterior; 2. C érebro interm ediário; 3. C é re b r^ m é d io ; 4. C erebelo; 3. B ulbo-
raquidiano
fS O Desenvolvimento do Psiquismo

motores da transposição de um obstáculo, que é o caráter do próprio


obstáculo que determina o conteúdo dos hábitos e que o próprio estímulo
(isto ê, o agente excitante principal) tem apenas uma influência dinâmica
(sobre a rapidez e a estabilidade do hábito), mas que não se reflete sobre o
conteúdo do hábito11.
Os elementos motores que entram na composição dos hábitos dos
animais podem ter diferentes caracteres; tanto podem ser movimentos
específicos, inatos, como movimentos adquiridos quando de uma
experiência anterior; por fim, fortuitos que o animal faz quando contrai um
hábito.
Encontramos pela primeira vez hábitos bem marcados, no sentido
próprio do termo, apenas nos animais que possuem córtex cerebral. Razão
por que devemos considerar o mecanismo da formação e de fixação dos
sistemas dc ligações nervosas condicionais çorticais, a base fisiológica da
formação dos hábitos.
A passagem ao estágio do psiquismo perceptivo acarreta igual-
mente uma transformação qualitativa da forma sensorial da fixação da
experiência. Pela primeira vez aparecem no animal as representações
sensitivas.
A questão da presença de representações no animal ainda hoje é
objeto de debates. Os fatos são todavia numerosos para testemunhar de
modo convincente esta presença.
As experiências de Tinklcpaugh estiveram na origem do estudo
experimental sistemático deste problema. Tinklepaugh dissimulava frutos
atrás de uma divisória opaca, sob os olhos de um animal (um símio). Em
seguida, substituía-os, sem o seu conhecimento, por uma couve, objeto
evidentemente menos atraente para o símio. C) símio dirigia-se então atrás
da divisória; descobria a couve, mas continuava não obstante a procurar os
frutos vistos anteriormente.

Cl'. V .P .P rotopopov: C ondições de form ação dos hábitos m otrizes e sua característica
fisiológica, K harkov-K iev, 1935.
OI I inklcpaugh: “ Hsludo experim enta! dos fatores representativos nos sím ios" Journal
o f ( oniparative Psychologie (jo rn al d e Psicologia com parada) t, VIU. 1928. Jxp 3.
O Desenvolvimento tio 1’siqmsmo 49

O soviético N. I. Voitonis fez com uma raposa experiência


análogas que mostraram os mesmos resultados” ,
A este propósito, as observações sobre cães descritas por Beritov
l+ apresentam grande interesse.
Colocava o cão num determinado lugar, apresentava-lhe em
seguida um sinal conveniente ao qual ele respondia correndo para uma
manjedoura que se abria nesse mesmo momento. Na sequência da
experiência, antes de fazer o cão entrar no laboratório, conduzia-o até o
Sun de um Corredor onde sc encontrava alimento, mostrava-lhe o alimento
sem no entanto o autorizar a abocanhá-lo. Após o que o reconduzia ao
laboratório; ao sinal combinado, ele corria para o comedouro, mas nada
recebia. Nestas condições, o cão não voltava ao seu lugar como era hábito,
mas corria pelo corredor e dirigia-se para o local onde anteriormente vira o
alimento.
As experiências com cães de Buitendijk e dc Fichei são mais
especializadas. Os dois autores demonstraram experimentalmente que,
contrariamente aos vertebrados menos organizados (os peixes), os cães, na
sua reação a uma situação anterionneute percebida (o engodo escondido
sob os seus olhos), orientam-se para a própria coisa que lhes foi mostrada.
Assim, como a modificação da estrutura da atividade dos animais e
com a correspondente modificação da forma do reflexo da realidade por
eles realizada, produz-se igualmente uma reorganização da função
memória. No estágio do psiquismo sensorial elementar, esta função
exprimia-se na esfera motriz dos animais sob a forma de transformação
sob a ação dos agentes exteriores dos movimentos ligados ao agente que
excitava o animal e, na esfera sensorial, sob a forma de fixação entre os
diversos agentes. Agora neste estágio muito mais. elevado, a função13

13 Cl. N. 1. V oitonis, A. V. K réknina: M a t e r i a i s p a r a u m e s t u d o d e p s i c o l o g i a c o m p a r a d a


R e c o lh a " in slin k ti i navyki” (“ instintos e hábitos” ). M oscou, 1935.
d a m e m ó r ia .

1. S. B eritov: R e f l e x o e c o m p o r t a m e n t o . “T roudi biologuilcheskogo scklora A kadem ii


naouk C C C P ” (T rabalhos d o setor dc biologia da A cadem ia de C iências d á U .R .S .S j
D epartam ento de G eórgia. I, 1, 1934.
O Desenvolvimento do Psiquismo

mnemónica manifesta-se na esfera motriz sob forma de hábitos motrizes e


na esfera sensória! sob forma de memória Figurada primitiva.
Quando da passagem ao psiquismo perceptivo, os processos de
análise e de generalização do meio exterior que agem sobre o anima!
sofrem transformações ainda mais importantes.
Podemos observar processos de diferenciação e de associação dos
diversos estímulos desde as primeiras etapas do desenvolvimento do
psiquismo animal. Se colocarmos, por exemplo, um animal que na sua
origem reage de maneira idêntica a dois sons diferentes, em condições tais
que um só destes dois sons seja ligado a um estímulo biologicamente
importante, o segundo som cessará gradualmente dc provocar qualquer
reação. Uma diferenciação aparece, portanto, entre os dois sons; o animal
reage doravante de uma maneira seletiva. Se, pelo contrário, se liga toda
uma série dc sons a este mesmo estímulo biologicamente importante, o
animal reagirá identicamente a cada um desses sons; eles adquirirão para
ele o mesmo sentido biológico. É a generalização primitiva. No estágio do
psiquismo sensorial elementar observam-se portanto, processos de
diferenciação e de generalização dos diversos estímulos, das diversas
propriedades agentes. É importante notar que estes processos não são
determinados por uma correlação dos estímulos tomada abstratamente,
mas dependem do seu papel na atividade do animal. Razão por que o fato
dos animais diferenciarem facilmente ou não, generalizarem ou não
diferentes estímulos, depende menos do seu grau de semelhança objetiva
que do seu papel biológico concreto. Assim as abelhas diferenciam
facilmente as formas vizinhas das flores; em contrapartida, têm dificul­
dades cm distinguir formas abstratas, mas perfeitamente nítidas (triângulo,
quadrado etc.).
Esta situação encontra-se igualmente nas etapas ulteriores do
desenvolvimento do mundo animal. Os cães, por exemplo, reagem aos
mais fracos odores de origem animal, mas não manifestam qualquer reação
ao perfume das flores, aos produtos de perfumaria etc. (Passy e Binei) '

II. I Iciuiing: ( ieruchversuche am Hurtd (experiências sobre o olfato do cão). “ ZeiLschriU


Iüi llio lo g ie" ( Revista de b io lo g ia ); N° 70, 1921.
O Desenvolvimento do Psii/uismo

Em geral o cão é capaz de distinguir com grande finura um odor que tenha
um sentido biológico para ele; segundo dados experimentais, nas
condições da experiência, um cão distingue o odor de ácidos orgânicos em
soluções até a milionésima parte.
A passagem ao psiquismo perceptivo acarreta como modificação
principal dos processos de diferenciação e de generalização o aparecimento
nos animais da diferenciação e da generalização das imagens das coisas.
O aparecimento e o desenvolvimento do reflexo generalizado das
coisas é urn problema muito mais complexo sobre o qual convém determo-
nos mais particularmente.
A imagem de um objeto não é a simples soma de diversas
sensações, o produto mecânico de diversas propriedades que pertencem
objetivamente a diferentes objetos e agem simultaneamente. Assim,
tomemos dois objetos quaisquer A e B, possuindo as propriedades a, b, c.
d, e m, n, o, p; para que se forme uma imagem é necessário que estas
diversas propriedades agentes se manifestem como formando duas
unidades distintas (A e B), isto c, que a diferenciação entre elas deva
precisamente fazer-se sob esta relação. Isto significa também que, se os
estímulos correspondentes se repetem entre outros, a unidade
anteriormente distinguida deve ser percebida como sendo o mesmo objeto.
Mas com a variação inevitável do meio e das condições da própria
percepção, isso só é possível no caso em que a imagem formada for uma
imagem generalizada.
Nos casos descritos, nós observamos processos correlativos
duplos: de um lado, processos de transferência de uma operação de uma
situação concreta numa outra objetivamente semelhante; por outro lado,
processos de formação generalizada de um objeto. A imagem generalizada
deste objeto, que aparece como a formação da operação respeitante a este
objeto e sobre a base deste, permite efetuar posteriormente a transferência
da operação numa situação nova; dada a transformações das condições
objetuais da atividade, a operação precedente encontra-se em desacordo
com estas; ela deve, portanto, ser retocada. E retoca-se consequentemente,
torna-se mais exata, parece “absorver” o conteúdo novo e uma imagem
O Desenvolvimento do Psiquismo

generalizada do objeto considerado, o que por sua vez pode acarretar uma
nova transferência da operação nas novas condições do objeto, as quais
exigem então um reflexo generalizado ainda mais justo e mais completo da
parte do animai.

I'ig. 13, O córtex cerebral do coelho, do sím io interior c do hom em . O s som breados
horizontais representam o cam po de projeção; os som breados verticais, os cam pos de
integração. V erifica-se o aum ento relativam ente forte da superfície dos cam pos não
som breados (a integração) quando se passa para níveis superiores de desenvolvim ento
(segundo Von Hconom o; a escala de conjunto destas representações dos cérebros não é
respeitada neste esquem a)

Assim, neste estágio, a percepção está ainda totalmente inclusa nas


operações motrizes externas do animal. A generalização e a diferenciação,
a síntese e a análise, desenrolam-se como um processo único.
O desenvolvimento das operações c da percepção generalizada da
atividade exterior encontra a sua expressão numa nova complexidade do
córtex cerebral. Intervém urna diferenciação mais acentuada dos campos
de integração, que ocupam um lugar relativamente cada vez mais
importante no córtex (Fig. 13).
Estes campos superiores de integração têm por função, como o seu
nome indica, integrar os diversos estímulos.
O Desenvolvimento do Psiquismo 53

3. Estágio cio intelecto

O psiquismo da maior parte dos mamíferos permanece no estágio


do psiquismo perceptivo, mas os mais altamente organizados entre eles
elevam-se a um grau superior de desenvolvimento.
Este grau superior é comum ente chamado estado do intelecto.
Naturalmente, o intelecto animal é algo absolutamente diferente da
razão humana; veremos que há entre eles uma enorme diferença
qualitativa.
t) estágio do intelecto caracteriza-se por uma atividade
extremamente complexa e por formas de reflexo da realidade também
complexas. Razão por que nâo podemos tratar das condições da passagem
ao intelecto antes de descrever na sua expressão exterior a atividade dos
animais que se encontram neste estágio.
W. Kõhler foi o primeiro a fazer um estudo experimental sistemá­
tico do comportamento intelectual nos animais mais altamente organiza­
dos, nos símios antropóides.
Eis o esquema dessas experiências.
Coloca-se um símio (um chimpanzé) numa gaiola. No exterior,
coloca-se um engodo (banana, laranja etc.) a uma distância suficiente para
que o chimpanzé não possa apanhá-lo diretamente com a mão. Há um pau
na gaiola. O símio, atraído pelo engodo só pode alcançar o fruto numa
condição: utilizar o pau. Como sc comporta o símio nestas condições?
Num primeiro tempo, tenta apoderar-se do engodo com a ajuda apenas da
mão; como os esforços são vãos, a sua atividade extingue-se após algum
tempo. Afasta-se do engodo e abandona toda a tentativa. Em seguida, a sua
atividade reaparece, mas esta vez por outra via. Sem tentar apanhar
diretamente o fruto à mão. pega no pau, estende-o em direção ao fruto,
toca-o, puxa o pau para trás, estende-o de novo, depois puxa-o para trás,
numa sequência em que o fruto se aproxima cada vez mais até o poder
apanhar. O problema está resolvido.
Com base neste princípio, inventaram-se numerosos problemas,
que foram propostos aos símios antropóides; para os resolver, era preciso
1/ O Desenvolvimento do Psiquismo

também usar de um modo de atividade que só podia criar no decurso da


solução do problema considerado. Eis como se procedia. Suspendiam-se as
bananas na barra superior da gaiola dos símios; era portanto impossível ao
animal apoderar-se delas diretamente. Não longe dali, coloca-se um
caixote. Nestas condições, o único meio de alcançar os frutos, consistia cm
colocar o caixote exatamente debaixo das bananas e utilizá-lo como
escadote. As observações mostram que os símios resolvem este segundo
problema sem aprendizagem prévia notável.
Vimos que a um nível inferior do desenvolvimento, a operação se
Formava lentamente, na sequência de uma longa série de tentativas, no
decurso das quais os movimentos conseguidos se fixavam progres­
sivamente, enquanto os movimentos inúteis eram inibidos também
progressivamente até acabar por se extinguirem; em contrapartida, no
símios observamos um primeiro período de fracasso total, com uma
multiplicidade de tentativas que não conduzem à realização de atividade;
num segundo tempo, há como a descoberta súbita da operação que conduz
quase imediatamente ao sucesso. U esta a primeira particularidade da
atividade intelectual do animal. Se se repete a experiência, a operação que
foi apenas efetuada uma única vez reproduz-se, isto é, o símio resolve um
problema análogo sem recorrer a ensaios preliminares. Este é o segundo
traço característico da atividade intelectual.
A sua terceira particularidade reside no fato de que o símio é capaz
dc transferir rapidamente a solução encontrada anteriormente para outras
condições simplesmente análogas às que suscitaram a primeira solução.
Assim, um símio que resolveu o problema que consiste em aproximar um
fruto com a ajuda de um pau, utilizará facilmente qualquer outro objeto
adequado, se lhe tirarem o pau. Se sc muda a posição do fruto em relação à
gaiola, se de uma maneira geral se modifica um pouco a situação, o animal
encontra imediatamente a solução conveniente. A solução, isto é, a
operação é transferida para uma outra situação e adaptada à nova situação
embora um pouco diferente da primeira.
Entre os numerosos dados acumulados no decurso de experiências
praticadas com símios antropóides, devemos mencionar um conjunto dc
O Desenvolvimento do Fsicjutsiiu.

fatos que apresentam uma certa originalidade qualitativa, estes latos


testemunham a aptidão dos símios antropóides para reunir duas operações
distintas numa única e mesma atividade.

o o o o o o o o o o o o o o o o o o

D
Engodo

Fig. 14. E squem a de um problem a “ bifásico”

Por exemplo, coloca-se utn engodo íbra da gaiola onde se encontra


o animal, a uma certa distância das barras. Um pouco mais perto da gaiola,
mas sempre fora do alcance para o símio, encontra-se um pau comprido.
Na gaiola, pomos outro pau, muito mais curto que o primeiro, que permite
alcançar o pau comprido, mas não o engodo. Para resolver este problema o
símio deve primeiro apoderar-se do pau pequeno para alcançar o grande,
que deverá ser utilizado para se apoderar do engodo (Fig. 14).
Em geral, os símios chegam ao fim deste tipo de problemas
''bitasicos” sem custo. A quarta particularidade da atividade intelectual
consiste, portanto, na aptidão do animal para resolver problemas bifásicos.
O Desenvolvimento do Psiquismo

Outras experiências mostraram que estes traços característicos se


conservam mesmo num comportamento mais complexo dos símios
anlropóides (cf. E. G. Vatsouro e N. N. Ladyguina-Kots) .
Eis um dos problemas mais complexos que um símio antropóide
pode resolver (Fig. 15): coloca-se uma caixa na gaiola dos símios; uma das
paredes dessa caixa está munida de barras, a outra apresenta uma fenda
longitudinal estreita. Contra a parede posterior da caixa coloca-se um fruto
que o símio tanto pode ver através das barras como pela fenda. O engodo
está a uma distância tal das barras que a mão do símio não pode alcançá-lo.
Também não c acessível da parede posterior pois a mão do símio é
bastante grossa para passar na fenda. Perto da parede posterior da caixa
crava-se uma sólida estaca, à qual se prende um pau por uma cadeiazinha
de ferro.
Para resolver este problema, é preciso deslizar o pau pela fenda
posterior da caixa e aproximar, por este meio o fruto das barras da parede
anterior; em seguida, basta agarrar o fruto à mão.
!<

Fig. 15. Esquema de um problema complexo

I ... 1- riiui.t Koís: Dstudo das faculdades de cognição do chipanzé. M oscou, 1928.
O Desenvolvimento do Psiquismo 57

Como se comporta o animai nesta situação? Ao reparar no fruto,


lenta primeiramente apanhá-lo através das barras. Em seguida, contorna a
caixa, observa o fruto através da fenda, tenta apanhá-lo com o pau, mas em
vão; finalmente empurra o fruto com o pau através das fenda e depois
contorna para o apanhar do lado das barras.
Como se formam as operações complexas que podemos observar
no decurso das experiências descritas? Aparecem elas verdadeiramente de
súbito, sem qualquer preparação como estaríamos tentados a crer à
primeira vista, ou antes se instauram como um estágio precedente do
desenvolvimento, isto é, pela via de seleção e fixação progressivas dos
movimentos conseguidos só com a diferença de que o processo é neste
caso muito mais rápido?
As experiências dos investigadores franceses dão uma resposta
clara a esta questão. Eis como eles procederam: colocaram um símio
antropóide numa gaiola; no exterior, contra as barras, uma pequena caixa
munida dc uma entrada na parede oposta à das barras. Colocaram uma
laranja na caixa, perto da parede mais próxima. Para alcançar o fruto nestas
condições, o animal devia fazê-lo rolar para fora da caixa dando-lhe uma
sacudidela. Mas esta sacudidela podia ser um acaso. Para suprimir esta
eventualidade, os investigadores empregaram um meio deveras judicioso;
recobriram a caixa com uma rede apertada. A grossura da's malhas era tal
que o símio não podia aí passar senão um dedo e a altura da caixa era
calculada para que o símio pudesse, após ter introduzido o dedo, tocar a
laranja, mas não fortemente. Assim cada contato apenas fazia avançar o
fruto alguns centímetros, isto eliminava todo o acaso na solução do
problema. Por outro lado, também permitia seguir com maior precisão o
trajeto do fruto. Iria o macaco empurrar o fruto em qualquer direção, de
modo que a sua trajetória seria a soma dos deslocamentos que o conduziam
pelo caminho mais curto, isto é, que as suas ações não seriam a soma dos
seus movimentos fortuitos, mas de movimentos dirigidos com precisão? A
melhor resposta é nos dada pelo próprio símio. Sendo o processo de
deslocamento progressivo da laranja longo e evidentemente fatigante, a
meio caminho, o animal, impaciente, esboça um movimento de avaliação
O Desenvolvimento do Psiquismo

cum a mão, isto é, tenta apoderar-se do fruto, mas percebendo que é


impossível, recomeça a empurrá-lo lentamente até que a laranja esteja ao
I7
alcance de sua mão (P. Guillaume e .1. Meyerson) ' .
Köhler pensava que o que distingue o comportamento dos símios
do dos outros representantes do mundo animal c que o aproxima do
comportamento humano, é que, neles, as operações não se formam
progressivamente, por tentativa e erro; o seu aparecimento é subito e
independente da experiência passada; elas são uma espécie de intuição ‘ .
( ) segundo caráter do comportamento intelectual, derivado do primeiro é,
segundo Köhler, a aptidão para memorizar a solução encontrada "uma vez
por todas” e para transferi-la muito largamente para outras condições
análogas as primeiras. Quando a solução apresentada pelos símios aos
problemas bifásicos, Köhler e os autores que o seguem pensam que ela
parte tia combinação de dois elementos: "a intuição” do animal e a
transferência da solução encontrada anteriormente. Este fato não é.
portanto, fundamental para eies.
Para compreender toda a sua originalidade da atividade intelectual
nos símios basta nesta ótica explicar o fato principal, a saber: a descoberta
súbita de um meio que permita resolver o problema.
Köhler tentou explicar este fato pela aptidão dos símios
antropóides para relacionar na sua percepção coisas distintas de tal maneira
que elas sejam percebidas como formando uma "situação global” única.
Esta propriedade da percepção, a sua estrutura, seria para Köhler
apenas um caso particular, expressão do "princípio geral de estrutura” que
estaria originariamente na base não só do psiquismo dos animais e do
homem e da sua atividade vital, mas também na base dc todo o mundo
físico.
Nesta ótica, o “princípio de estrutura” pode ser um princípio expli­
cativo, mas é em si inexplicável e não exige qualquer explicação. Natural­
mente, esta tentativa para descobrir a essência do psiquismo apoiando-se

|>. G uillaum e. .1. M eyerson: Recherches sur l'usage de l'instrum ent chez les singes.
to u rn ai de P sychologie” , 1930. n" 3-A.
IK ç i .. W, K ohler. Rstudo do inleleclo dos simios antropôides, M oscou. 1930.
O Desenvolvimento do Psiquismo 59

na teoria idealista da '‘Gestalt” revela-se muito fraca. É absolutamente


claro que não basta evocar a estrutura da percepção para explicar a
originalidade do comportamento dos animais superiores. Com eteito, para
os partidários do '"princípio de estrutura”, a percepção estruturada não é
atributo apenas dos símios superiores; segundo eles, valeria também para
animais para animais muito menos desenvolvidos; mas estes animais não
manifestam comportamento intelectual.
Esta explicação revela-se insatisfatória por uma outra razão ainda.
Ao insistir sobre a instantaneidade da solução intelectual e ao isolar este
fato do conteúdo da experiência animal, Köhler negligenciou toda uma
série de circunstâncias características cio comportamento símio nas
condições naturais de existência.
K. Biihier foi, segundo parece, o primeiro a chamar a atenção para
a semelhança que há entre o ato de atrair um fruto a si com a ajuda de um
pau e o de apanhar um fruto na arvore utilizando um ramo.
Chamou-se a atenção, em seguida, paia o fato de que os rodeios
efetuados pelos símios antropóides podem também ser explicados pelo fato
de estes animais, vivendo nas florestas e passando sem cessar de uma
árvore para a outra terem constantemente de “calcular” o seu caminho, se
não arriscam-se a encontrarem-se num dos impasses do labirinto natural
que são as árvores. Razão por que não é por acaso que os símios mostram
aptidão tão desenvolvida para resolver os problemas dos “rodeios” .
Esta concepção do comportamento intelectual do símio concorda
perfeitamente com certos fatos; tem o mérito de não opor o intelecto do
animal à experiência individual ou específica; também não separa o
intelecto dos hábitos. Ela choca todavia com sérias dificuldades.
Primeiro é evidente que nem a formação de uma operação nem a
sua transferência em condições de atividade novas podem ser indícios
distintos do comportamento dos símios superiores, pois os encontramos
igualmente nos animais menos evoluídos. Encontramos estes dois
momentos, embora sob uma forma menos marcada, em muitos outros

111 C f K. B ithler: B a s e s d o d e s e n v o lv im e n t o p s íq u ic o . M oscou. 1924.


O Desenvolvimento do Psiquismo

ninais, cm especial os Mamíferos e as Aves. Daqui resulta que as


lerenças na atividade e no psiquismo que existem entre estes animais e
. símios antropóides se reduzem a uma diferença puramente quantitativa:
na formação das operações mais ou menos rápida, transferências mais ou
eiios vastas. Todavia a diferença entre o comportamento dos símios
itropóides c o dos mamíferos inferiores é igualmente qualitativa. O uso
instrumentos e o caráter particular das operações que eles efetuam
Dstam para o provar.
Por outro lado, a concepção do intelecto animal que acabamos de
spor deix'a o mais importante na sombra, a saber, a verdadeira natureza
esta larga transferência de ação c a sua explicação.
Os problemas “bifásicos” mostram particularmente bem que toda a
iivuliidc intelectual animal comporta duas fases. Ele deve primeiro pegar
0 pau, cm seguida no fruto. Ele deve primeiro afastar o Iruto de si, em
cguida contornar a gaiola e agarrar o fruto no lado oposto. Em, si, o fato
e agarrar o pau significa para o símio que ele possui o pau, mas não o
m i o cobiçado. É a primeira fase. Destacada da fase seguinte, ela é
lesprovida de sentido biológico. É uma fase preparatória. A segunda fase,
1uso <lo pau, c a fase de realização da atividade no seu conjunto, orientada
cu a a satisfação de uma necessidade biológica do animal. Assim, se se
■studa, segundo esta ótica a resposta dos símios a qualquer dos problemas
rostos por Köhler, verillca-se que ela exige todas as vezes uma atividade
diifasica": agarrar o pau - aproximar o fruto de si - afastar-se do engodo -
oulornar a caixa - agarrar o fruto etc.
Qual é o conteúdo das duas fases da atividade do símio? A fase
preparatória não é evidentemente estimulada pelo objeto para a qual é
orientada, o pau por exemplo. Se um símio percebe um pau numa situação
nu que não lhe é dc nenhuma utilidade, mas que cm contrapartida exige
um movimento de contorno, o símio não procurará apoderar-se dele.
Assim, esta fase não está ligada ao pau, mas à relação objetiva que existe
entre o pau c o fruto. A reação a esta relação não é outra coisa que a
preparação da segunda fase de atividade, a fase de realização.
Em que consiste esta segunda fase?
O Desenvolvimento do Psiquismo 61

Eia está. também, orientada para o objeto que estimula


imediatamente o animal e ela constrói-se em função de condições objetivas
concernentes ao objeto. Inclui por consequência tal ou tal operação que se
torna um hábito sufícientemente estável.
Assim, a passagem ao terceiro estágio de desenvolvimento animal
manifesta uma nova complexidade na estrutura da atividade. Antes, a
atividade assentava num processo único; agora, diferencia-se em duas
fases: a fase preparatória e a fase da realização. É a existência de uma fase
de preparação que constitui o traço característico do comportamento
intelectual. O intelecto aparece, portanto, pela primeira vez, onde aparece
um processo que prepara a possibilidade de realizar tal ou tal operação ou
hábito.
O signo essencial da atividade bifásica é que novas condições não
provocam no animal simples movimentos de exploração, mas tentativas de
diferentes procedimentos, operações elaboradas anteriormente. Como se
comporta uma galinha que prenderam atrás de uma vedação? Lança-se às
cegas de um lado para o outro, isto c. não faz senão aumentar sua atividade
motriz, até que, por um movimento fortuito, consiga sair. O
comportamento dos animais superiores diante de uma dificuldade é
absolutamente diferente. Por certo, fazem várias tentativas, mas não sao
tentativas de movimentos, são tentativas de operações, de modos de
atividade. Observemos um macaco diante de uma caixa fechada. Ele tenta
primeiro uma operação habitual, agarrando-a pelo puxador; quando isso
não resulta, tenta roer um ângulo da caixa; recorre em seguida a um novo
processo: tenta penetrar na caixa através da fenda da porta. Tenta em
seguida arrancar o puxador com os dentes, depois com as mãos.
Fracassado tudo isto, emprega um último método: tenta derrubar a caixa
(Buitendijk). R f c O .Í -lS -i ‘Z^-òlOo
Esta particularidade do comportamento dos símios, a sua aptidão
para resolverem o mesmo problema de várias maneiras, constitui para nós
a melhor prova de que, entre eles e nos outros animais que se encontram no
mesmo estágio de desenvolvimento, uma operação deixa de estar ligada de
maneira estável a uma atividade que responde a um problema definido e
O Desenvolvimento tio Psiquismo

iijlo exige, para ser transferida, mais que uma analogia aproximada com o
problema precedente.
Estudemos agora a atividade intelectual dos animais do ponto de
\ isia do reflexo da realidade circundante.
Na sua expressão anterior, a primeira fase da atividade intelectual,
lusc de base, está orientada para a preparação da segunda fase, isto quer
dizer que ela é objetivamente determinada pela atividade futura do animal.
Significaria então que o animal tem em \ ista a operação seguinte, que ele é
capaz de representar? I .sta hipótese não se apoia cm qualquer fundamento.
A primeira fase responde à relação objetivamente existente entre as coisas.
I■csia relação que deve ser refletida pelo animal. Assim com à passagem ã
atividade intelectual, a forma do reflexo psíquico da realidade pelos
animais apenas se modifica na medida em que não há apenas reflexo dc
coisas isoladas, mas de relações (situações).
() caráter da transferência, e por conseqüência, o das
g e n e r a l i z a ç õ e s transforma-se correlativamente. Doravante, a transferência
de tuna operação não se faz apenas segundo o princípio da analogia dos
objetos (obstáculos, por exemplo) aos quais se ligava uma dada operação,
mas também segundo o princípio de analogia das relações, das ligações
entre os objetos aos quais ela responde (ramo-fruto, por exemplo). Agora,
o animal generaliza as ligações e as relações dos objetos. Estas
generalizações formam-se evidentemente, da mesma maneira que o reflexo
generalizado das coisas, isto é. no próprio processo da atividade animal.
O aparecimento e o desenvolvimento do intelecto animal tem por
base anátomo-flsiológica o desenvolvimento do córtex cerebral a das suas
funções. Que transformações fundamentais observamos no córtex nos
graus superiores do mundo animal? O elemento novo que diferencia o
cérebro dos mamíferos superiores do dos animais menos evoluídos é o
Sugar relativamente mais importante que ocupa o córtex frontal, cujo
desenvolvimento se faz pela diferenciação das áreas pré-frontais.
Os estudos experimentais de Jackobsen mostram que a ablação da
parle anterior dos lobos frontais nos animais superiores que antes da
operação eram capazes de resolver um certo número de problemas
O Desenvolvimento do Psiquismo

complexos, os torna incapazes de resolver problemas “bifásicos , ao passo


que a operação já estabelecida de apanhar um engodo com a ajuda de um
pau é conservada. Uma vez que a ablação dos outros campos do córtex
cerebral não produz o mesmo efeito, podemos concluir daqui que estes
novos campos estão especiflcamente ligados à realização da atividade
“bifásica”.
O estudo do intelecto dos símios superiores mostra que o
pensamento humano é realmente preparado no mundo anima! e que a este
respeito não há fosso intransponível entre o homem e os seus ascendentes
animais. Todavia, aceitando a sucessão natural no desenvolvimento do
psiquismo animal e do homem, não devemos exagerar a sua semelhança
como o fazem certos zoopsicólogos contemporâneos que se esforçam por
provar com experiências em macacos que este “comportamento
intelectual” é eterno e conforme com a natureza ta! como o trabalho em
, . 20
troca de um salário ou as trocas monetanas .
Seria absolutamente errôneo querer opor totalmente o
comportamento intelectual dos símios antropóides ao dos mamíferos
superiores. Dispomos hoje de numerosos dados que testemunham a
presença, em bastante animais, de atividades bitásicas. B o caso dos cães,
dos hamsters e mesmo dos gatos (na verdade, nestes últimos, que fazem
parte dos animais “vigilantes”, isso exprime-se de maneira muito
particular). O comportamento intelectual que se encontra nos mamíferos
superiores e que atinge um desenvolvimento muito particular nos símios
antropóides representa o limite superior do desenvolvimento psíquico, para
além do qual começa a história de um psiquismo diferente, de um tipo
lundamentalmente novo, que é exclusivo do homem, a consciência
humana.
ÍÜ P •

I. B. W olfe: Efficacité d e l a r e c o m p e n s e s y m b o l i q i t e p o u r l e s c h i m p a n z é s . "C om parative


P sychology M o n o g rap h s ' (M o n o g ralias de psicologia com parada) t. X li. 1936. irt 5.
M O Desenvolvimento do Psiquismo

í. Caracteres gerais do psiquismo animai

A pré-história da consciência humana é. como vimos, constituída


por um longo e complexo processo de desenvolvimento do psiquismo
animal.
Sc se percorre com o olhar o trajeto seguido por este
desenvolvimento, distinguem-se nitidamente os estágios principais e as
direções fundamentais da sua lógica interna.
O psiquismo animal desenvolve-se no seio do processo de
evolução, biológica e obedece às suas leis gerais. Cada grau do desenvol­
vimento psicológico corresponde à passagem a novas condições exteriores
de existência para os animais e a um passo adiante na complexidade da sua
organização física.
Assim, a adaptação ao meio mais complexo, onde as coisas
tomaram forma, acarreta a diferenciação do sistema nervoso elementar e
dos órgãos da sensibilidade. É sobre esta base que nasce o psiquismo
sensória! elementar, isto é, a faculdade de refletir as propriedades isoladas
do meio. Seguidamente, com a passagem dos animais ao modo de vida
terrestre e o desenvolvimento do córtex cerebral que ele acarreta, aparece o
reflexo psíquico de coisas inteiras, o psiquismo perceptivo.
Por fim, uma complexidade acrescida das condições de existência
que conduz ao aperfeiçoamento dos órgãos de percepção e de ação, bem
como do cérebro, cria nos animais a possibilidade de uma percepção
sensível das correlações objetivas entre as coisas, sob forma de "situações’
relativas aos objetos.
Vemos assim que o desenvolvimento do psiquismo c determinado
pela necessidade para os animais de se adaptarem ao meio e que o reflexo
psíquico é função dos órgãos correspondentes formados no decurso da
adaptação. Convém sublinhar que o reflexo psíquico não é de modo algum
um fenômeno “puramente” subjetivo, acessório, sem rea! significação na
vida dos animais e para a sua luta pela existência. Pelo contrário, o
psiquismo animal nasce e desenvolve-se, como vimos, precisamente
porque sem ele os animais não poderiam orientar-se no meio.
O Desenvolvimento do Psiquisnu 65

Assim, a evolução da vida provoca uma transformação da


organização física dos animais e o aparecimento de órgãos (órgãos dos
s e n tid o s , órgãos da ação e do sistema nervoso) que têm por função refletir
a realidade circundante. De que depende o caráter desta função? O que a
determina? Porque se traduz eia em certas circunstâncias pelo reflexo de
propriedades isoladas e em outras pelo reflexo de coisas inteiras?
Vimos que isso depende da estrutura objetiva da atividade animai
que liga, na prática, o anima! ao mundo que o cerca. Em resposta à
transformação das condições de existência, a atividade animal muda a sua
estrutura, ou em outras palavras, a sua .“anatomia”. E isto que cria a
necessidade de uma transformação dos órgãos e das suas funções, que dá
origem a uma forma superior do reflexo psíquico. Em resumo, poderiamos
dizer o seguinte: tal estrutura objetiva da atividade de um animal, tal forma
de reflexo da realidade.
Todavia, o desenvolvimento do reflexo psíquico do meio exterior
circundante pelos animais parece retardar-se sobre o desenvolvimento da
sua atividade. Assim, a atividade mais simples, que é determinada pelas
ligações objetivas que existem entre os agentes de estimulação e que põe o
animal em relação com um meio complexo, em que as coisas tomaram
forma, determina o desenvolvimento das sensações elementares que não
refletem senão estímulos isolados. A atividade muito mais complexa dos
vertebrados, determinada pelas relações entre as coisas, por situações, está
ligada ao reflexo de coisas inteiras. Por fim, no estágio do intelecto, em
que se distingue no animal uma “fase preparatória”, objetivamente
determinada pela possibilidade de uma atividade ulterior do próprio
animal, a forma do psiquismo caracleriza-se pelo reflexo de relações entre
as coisas, de situações concernentes às coisas.
Assim, o desenvolvimento das formas do reflexo psíquico parece
colocado um grau abaixo em relação à estrutura da atividade do animal, de
modo que jamais há correspondência entre eles.
Para ser mais preciso, esta correspondência só pode existir como
momento que significa a passagem ao grau superior de desenvolvimento.
A eliminação da discordância peio aparecimento de uma forma nova de
flf> O Desenvolvimento do Psiquismo

K-Clcxo abre novas possibilidades de atividade; esta última adquire uma


estrutura ainda mais evoluída e daí resulta uma nova discordância, uma
nova contradição entre elas, mas a um outro nível.
O fundamento material do desenvolvimento complexo do
psiquismo dos animais é, portanto, constituído pela formação de “ínstru-
menlos naturais” da sua atividade, os órgãos e as suas funções. A evolução
dos órgãos do cérebro c das funções que lhe correspondem, que se produz
no seio de cada estágio do desenvolvimento da atividade e do psiquismo
dos animais, prepara progressivamente as condições de passagem a uma
estrutura de atividade mais elevada; a modificação da estrutura geral da
atividade anima! que daí resulta, cria por sua vez a necessidade de uma
nova evolução dos órgãos e funções que parece dirigir-se agora a uma nova
direção, lista modificação manifesta-se muito claramente.
Assim, no estágio do psiquismo sensória! elementar, a função
mnemónica forma-se, por um lado. no sentido da fixação das ligações de
certos estímulos e, por outro lado, enquanto a função de fixação das
ligações motrizes elementares. Esta mesma função do cérebro manifesta-se
no estágio do psiquismo perceptivo sob a forma de memória das coisas e.
por outro lado, sob a forma de desenvolvimento da aptidão para formar
hábitos motrizes. Por fim, no estágio do intelecto, a sua evolução vai ainda
numa nova direção, o desenvolvimento da memória das situações.
Observam-se transformações qualitativas análogas no desenvolvi­
mento das outras funções.
No decurso cio nosso estudo do desenvolvimento psíquico dos
animais, sublinhamos sobretudo as diferenças que existem entre as suas
diversas formas. Agora, devemos realçar o que é comum a estas diferentes
formas e o que distingue qualitativamente a atividade e o psiquismo dos
animais da atividade e da consciência humanas.
A primeira diferença consiste em que a atividade dos animais é
biológica e instintiva21 . Por outras palavras, a atividade do animal não
pode exercer-se senão em relação ao objeto de uma necessidade biológica

1 Aqui c nas páginas seguintes o term o " in s tin tiv o ' é usado por nós na sua acepção m ais
am pla, com o im cdialam entc natural (A. L.)-
O Desenvolvimento do Psiquismo 67

vital ou em relação a estímulos, objetos e suas correlações (de situações),


que revestem para o animal o sentido daquilo que está ligado à satisfação
de uma determinada necessidade biológica. Razão por que toda modifi­
cação da atividade animal exprime a transformação do agente concreto que
provoca a atividade considerada c não a da relação vital que ela realiza.
Assim, nas experiências clássicas de formação do reflexo condicional no
animal não aparece naturalmente qualquer relação nova. O animal não
manifesta necessidades novas, e se responde doravante ao sinal
condicional é simplesmente porque este sinal age sobre cie como um
estímulo incondicional. Em geral, se se analisa uma das numerosas
atividades animais, pode-se sempre estabelecer a relação biológica
determinada que a atividade realiza e encontrar assim qual é a necessidade
biológica em que repousa.
Assim, a atividade dos animais permanece sempre dentro dos
limites das suas relações biológicas, instintivas, com a natureza. E uma lei
geral da atividade animal.
Correlativamente as possibilidades de reflexo psíquico dos animais
da realidade circundante são igualmente muito limitadas fundamental­
mente. Na medida em que o animal entra em interação com diversos
objetos do meio que age sobre ele e transfere sobre eles as suas relações
biológicas, estes objetos são refletidos por ele apenas pelas propriedades e
aspectos ligados à realização destas relações.
Assim, se na consciência humana um triângulo é independente da
relação efetiva que ele pode ter com ela e se caracteriza antes de tudo,
objetivamente pelos números dos seus ângulos etc., para um animal capaz
de distinguir as formas o triângulo só será distinguido na medida em que
tenha um sentido biológico para ele, Razão porque uma coisa é como se
não exista para o animal se não existir relação instintiva entre ele e essa
coisa ou um dado agente a que ele respeite e se esta coisa não estiver
ligada à realização desta relação. O animal manifesta, na sua atividade,
uma indiferença total pelos estímulos que, se bem que possam ser objetos
da sua percepção, jamais se tornem estímulos nessas condições.
O Desenvolvimento do Psiquismo

I isto que explica porque o mundo percebido pelo animal se limita


unicamente ao quadro estrito de suas relações instintivas. Assim, contra-
riamente ao homem, não há no animal o reflexo objetivamente concreto
estável da realidade.
Um exemplo ilustrará nossa afirmação (cf. Fig. 16).

Se se afasta de um bernardo-eremita a actínia que ele traz


geralmente sobre a concha, ele aí reinstalará outra logo que a encontre
(desenho de cima da figura 16). Se estiver privado da concha, receberá a
actínia como uma proteção para o seu abdome que, sabemo-lo, não tem
carapaça e tentará penetrar na actínia (segunda série dos desenhos). Por
O Desenvolvimento do Psiquismo 69

fim se o bernardo-eremita tem fome, a actínia mudará outra vc/ ainda de


sentido biológico para ele e comê-la-á (desenho de baixo)" .
Por outro lado, se para o animai todo objeto da realidade
circundante é sempre inseparável das suas necessidades instintivas,
compreende-se que a própria relação do animal com o objeto jamais possa
existir enquanto tal, independentemente do objeto. Passa-se o oposto com a
consciência humana. Quando o homem entra em relação com uma coisa,
ele distingue, por um lado, o objeto objetivo da sua relação, por outro a
própria relação. Esta distinção falta no animal. “O animal - diz Marx - não
está em relação com nada, não conhece em suma qualquer relação"" ’ .
Por fim, devemos evocar ainda um traço essencial do psiquismo
animal que o distingue qualitativamente da consciência humana. As
relações de um animal com os seus semelhantes são fundamentalmente
idênticas às relações que ele tem com os objetos exteriores, isto quer dizer
que elas pertencem igualmente à única esfera das relações biológicas
instintivas. Isto liga-se ao fato de que há sociedade entre os animais.
Podemos por certo observar a atividade de vários animais, por vezes de
muitos animais em conjunto, mas jamais observamos entre eles qualquer
atividade coletiva, no sentido em que a entendemos quando utilizamos esta
palavra para qualificar a atividade humana. Estudaram-se, por exemplo, as
formigas transportando um fardo bastante pesado, qualquer haste ou
qualquer grande inseto. Constatou-se que o caminho finalmente comum
que segue o fardo não resulta de ações comuns organizadas, mas da adição
estritamente mecânica dos esforços fornecidos pelas diferentes formigas,
cada qual agindo como se estivesse sozinha a trabalhar. O mesmo é
também claramente visível nos animais mais altamente organizados, a
saber: nos símios antropóides. Com efeito, se pusermos simultaneamente a
vários símios um problema que exija deles empilhar caixas, para sobre elas
treparem e alcançarem uma banana, observa-se que cada macaco age sem
ter conta os outros. Razão por que não é raro que uma ação comum deste

’’ Y. U éxküil. G.. K riszat: Streifzüge durch die Umwehen von Tieren und Menschen
(E xcursões d o m eid circundante dos anim ais e dos hom ens). Berlim . 1934, p. 35.
M arx: A ideologia alemã: “ Feuerbach" p- 59. Ed. Sociales. 1975.
II O Desenvolvimento do Psiquismo

iipo termine em luta pelas caixas, gritos e zaragatas entre os símios e que a
'construção” seja abandonada, se bem que cada símio sozinho seja capaz
de resolver este problema, mesmo quando não manifeste grande
habilidade.
Mau grado estes fatos, há autores que pensam que existe em certos
animais uma divisão do trabalho. Geralmente invocam o caso bem
conhecido da vida das abelhas, das formigas c de outros animais “sociais”.
Na realidade, tal como não há verdadeiro trabalho, processo que é social na
sua essência.
Se bem que, em certos animais, diferentes indivíduos
desempenham funções diferentes na coletividade, são fatores diretamente
biológicos que determinam estas diferenças de funções. A prova nos é
dada quer pelo caráter estritamente determinado c fixado das próprias
Iunções (nas abelhas, por exemplo, as “operárias” fabricam células, a
“rainha’ aí deposita os ovos), quer pelo caráter fixo da sua sucessão (as
rendições sucessivas das funções nas “operárias”, por exemplo). A divisão
das (unções tem um caráter mais complexo nas sociedades de animais
superiores, numa horda de símios, por exemplo; mas também ai a divisão
decorre diretamente de causas biológicas e não das condições objetivas que
se formam no decurso do desenvolvimento da própria atividade da
associação animal considerada.
As particularidades das relações entre animais determinam também
as particularidades da sua “linguagem \ Sabe-se que a comunicação dos
animais entre si se faz muitas vezes pela ação exercida por um sobre os
outros por meio de sons vocais. Foi isto que levou a falar-se de
“linguagem” animal. Referimo-nos, por exemplo, aos sinais dirigidos pelas
aves que vão à frente aos outros membros do bando.
Mas será um processo semelhante ao da comunicação verba! do
homem? É inegável que existe uma certa analogia exterior, mas os dois
processos são fundamentalmente diferentes interiormente. O homem
exprime pela sua linguagem um certo conteúdo objetivo; além disso,
responde ao discurso que lhe dirigem, como à realidade refletida pela
linguagem, e não como a um simples som ligado permanentemente a um
O Desenvolvimento do Psiquismo 71

determinado fenômeno. À comunicação vocaí nos animais c diferente. R


fácil demonstrar que uni animal, ao reagir à voz de um congênere, não
responde àquilo que o sina! vocal reflete objetivamente, mas ao próprio
sinal, que tomou para ele um sentido biológico determinado.

Fig, 17. Galinha e pintainho (segundo Ucxkiill)


O Desenvolvimento do Psiquismo

Assim se apanharmos um pintainho e o retivermos à força, este


dcbatc-se e pia: o seu pio atrai a mãe que se precipita na direção desse som
e responde com um cacarejar particular. O comportamento vocal do
pintainho e da galinha é, exteriormente, semelhante à comunicação pela
linguagem. Com efeito, a natureza é totaimente diferente. O grito do pinto
é uma reação inata, instintiva (reflexo incondicional) que não pertence ao
número dos movimentos ditos expressivos:, que não designam qualquer
objeto determinado, qualquer fenômeno, qualquer ação; estão apenas
ligados a um dado estado do animal engendrado por estímulos exteriores
ou interiores. O comportamento da galinha é igualmente uma resposta
puramente instintiva ao grito do pinto, que age sobre ela enquanto tal,
como estímulo que provoca uma reação instintiva determinada, e não como
significando qualquer coisa, isto c, refletindo tal ou tal tato da realidade
objetiva. A experiência seguinte permite convencermo-nos disto. Encer­
remos o pintainho preso, sempre piando, numa campânula de vidro grosso
que isole o som; a galinha que vê muito bem o seu pintainho, mas não
ouve os seus gritos, não manifesta a menor atividade em relação a ele; a
vista do pinto debatendo-se deixa-a indiferente. Vemos, portanto, que a
galinha não reage de modo algum à significação objetiva do grito, no caso
a presença de um perigo para o pinto, mas apenas ao som do grito
(Fig. 17).
O comportamento vocal dos animais superiores, dos símios
antropóides especialmente, é fundamentalmente do mesmo caráter que o
da galinha. As experiências de Yerkes e de Learned , por exemplo,
mostram que é impossível ensinar uma verdadeira linguagem aos símios
antropóides.
Todavia, o fato do comportamento vocal dos animais scr instintivo
não significa que não esteja ligado de qualquer modo a um reflexo
psíquico da realidade exterior objetiva. Contudo, o comportamento
expressivo do animal jamais se relaciona com o próprio objeto, pois os
objetos da realidade circundante são para ele indissociáveis da relação que

11{. Yerkes. B. W. I.carncd, A Inteligência do chipanzé e suas manifestações, Baitimore.


O Desenvolvimento do Psiquismo

mantém com cies. Este fenômeno manifesta-se muito nitidamente na


própria atividade do animal; com efeito, ele terá a mesma reação vocal se
os objetos que agem sobre ele forem de caráter idêntico, mas se tiverem o
mesmo sentido biológico, mesmo quando totalmente diferentes. Assim,
existe nas aves que vivem em bandos gritos específicos para prevenir o
grupo de um perigo eminente. Estes gritos reproduzem-se todas as vezes
que a ave se amedronta; todavia elas assinalam indiferentemente a chegada
de um homem ou de um carnívoro ou a presença de um ruído insólito. Por
consequência, estes gritos relacionam-se com certos fatos da realidade, não
porque apresentem uma semelhança objetiva de caracteres, mas porque se
encontram numa mesma relação instintiva com a ave. Eles não se
relacionam com os objetos da realidade, mas com os estados subjetivos do
animal que os objetos engendram. Por outras palavras, os gritos dos
animais de que acabamos de falar não têm qualquer significação objetiva
estável.
Assim, a comunicação nos animais permanece nos limites da
atividade estritamente instintiva, tanto pelo seu conteúdo como pelo caráter
dos processos concretos que a realizam.
O psiquismo humano, a consciência humana, é uma forma
absoiutamente diferente de psiquismo, que se caracteriza por propriedades
funcionalmente diferentes.
À passagem à consciência humana, assente na passagem a formas
humanas de vida e na atividade do trabalho que é social por natureza, não
esta ligada apenas à transformação da estrutura fundamental da atividade e
ao aparecimento de uma nova forma de reflexo da realidade ; o psiquismo
humano não se liberta apenas dos traços comuns aos diversos estágios do
psiquismo animal, que acabamos de analisar; não reveste apenas traços
qualitativamente novos; o essencial, quando de passagem à humanidade,
está na modificação das leis que presidem ao desenvolvimento do
psiquismo. No mundo animal, as leis gerais que governam as leis do
desenvolvimento psíquico são as da evolução biológica; quando se chega
ao homem, o psiquismo submete-se às leis do desênvohnmenlo sócio-
histórico.

APARECIMENTO DA CONSCIÊNCIA HUMANA

1. As condições de aparecimento da consciência

A passagem à consciência é o início de uma etapa superior ao


desenvolvimento psíquico. O reflexo consciente, diferentemente do reflexo
psíquico próprio do animal, é o reflexo da realidade concreta destacada das
relações que existem entre ela e o sujeito, ou seja um reflexo que distingue
as propriedades objetivas estáveis da realidade.
Na consciência, a imagem da realidade não se confunde com a do
vivido do sujeito: o reflexo é como “presente” ao sujeito. Isto significa que
quando tenho consciência de um livro, por exemplo, ou muito
simplesmente consciência do meu próprio pensamento a ele respeitante, o
livro não se confunde na minha consciência com o sentimento que tenho
dele, tal como o pensamento deste livro não se confunde com o sentimento
que tenho dele.
A consciência humana distingue a realidade objetiva do seu
reflexo, o que leva a distinguir o mundo das impressões interiores e torna
possível com isso o desenvolvimento da observação de si mesmo.
O problema que se nos põe consiste em estudar as diversas
condições que engendram esta forma superior do psiquismo que é a
consciência humana.
O Desenvolvimento do Psiquismo

Sabe-se que a hominização dos antepassados animais do homem se


deve ao aparecimento do trabalho e, sobre esta base, da sociedade. ‘"O
trabalho, escreve Engels, criou o próprio homem25.” Ele criou também a
consciência do homem.
O aparecimento e o desenvolvimento do trabalho, condição
primeira e fundamental da existência do homem, acarretaram a trans­
formação e a hominização do cérebro, dos órgãos de atividade externa e
dos órgãos dos sentidos, “Primeiro o trabalho, escreve Engels, depois dele,
e ao mesmo tempo que ele, a linguagem: tais são os dois estímulos
essenciais sob a influência dos quais o cérebro de um macaco se trans­
formou pouco a pouco num cérebro humano, que mau grado toda a
semelhança o supera de longe em tamanho e em perfeição26 .”
O órgão principal da atividade do trabalho do homem, a sua mão,
só pode atingir a sua perfeição graças ao próprio trabalho, “só graças a ele,
graças a adaptação a operações sempre novas ... é que a mão do homem
atingiu este alto grau de perfeição que pode fazer surgir o milagre dos
quadros de Rafael, às estátuas de Thoi waldsen. a música de Paganini27.”
Se se compara o volume máximo do crânio nos símios antropóides
é tio homem primitivo, apercebemo-nos de que o cérebro deste último
ultrapassa mais de duas vezes o dos símios mais evoluídos das espécies
modernas (1400 contra 600 cm3).
A diferença de tamanho entre os cérebros símio e humano é ainda
mais nítida se o comparamos quanto ao peso: o cérebro do orangotango
pesa 350 gramas, o do homem 1400 gramas, ou seja, quatro vezes mais.
Alem disto, a estrutura do cérebro humano é muito mais complexa
e mais evoluída que a do cérebro símio.
No homem de Neanderthal distinguem-se já muito nitidamente as
novas áreas (ou campo) corticais, como o mostram as moldagens da
superfície interna do seu crânio. Nos símios antropóides, estas áreas estão
ainda imperfeitamente diferenciadas: elas atingem o seu pleno

I Engels, Dialecta da Natureza. Ed. Sociales, 1975. p. 171,


Ibid.. p 175.
" Ibid.. p. 173.
O Desenvolvimento do Psiquismo 77

desenvolvimento no homem atual, é o caso especialmente das áreas


designadas pelos números 44, 45 e 46 (segundo a classificação de
Brodtnan) do lobo frontal, das áreas 30 e 40 do lobo parietal, das áreas 4 1 c
42 do lobo temporal (Fig. 18).
Vemos bem como os novos traços especificamente humanos se
refletem na estrutura do córtex cerebral quando se estuda a área dc
projeção motriz (designada pelo n° 4 na figura 18). Se excitarmos
eletricamente, com precaução, diferentes pontos desta área, podemos com

Fig. 18 C arta das áreas cerebrais (segundo Brodman)

precisão determinar o lugar que aí ocupa a projeção de tal ou tal órgão,


graças à contração dos grupos musculares provocada pela excitação.
Penfíeld resumiu estas experiências num desenho esquemático,
evidentemente convencional, que reproduzimos aqui (Fig. 19). Realizado a
uma escala definida, mostra a superfície que ocupa, relativamente, a
projeção de órgãos motores (como a mão) e sobretudo a dos órgãos da
linguagem sonora (músculos da boca. da língua, laringe) cujas funções
estão muito mais desenvolvidas nas condições da sociedade humana
(trabalho, comunicação verbal).
•H O Desenvolvimento do Psiquismo

Os órgãos dos sentidos estão igualmente aperfeiçoados sob a


influência do trabalho e cm ligação com o desenvolvimento do cérebro.
I al como os órgãos da atividade exterior, também eles adquiriram traços
qualitativamente novos. O sentido do tato tornou-se mais preciso, o olho
humanizado vê muito mais nas coisas do que o olho da ave mais

pjg 19 . -o hom em -cérebro” de Penficld


O Desenvolvimento do Psiquismo 79

perscrutante, o ouvido tornou-se capaz de perceber as dilcrenças e as


semelhanças mais ligeiras entre os sons da linguagem articulada do
homem. O desenvolvimento do cérebro e dos órgãos dos sentidos agiu em
contrapartida sobre o trabalho e sobre a linguagem para lhes "dar, a um e a
outro, impulsões sempre novas para continuar a aperfeiçoar-se”'" .
As modificações anatômicas e fisiológicas devidas ao trabalho
acarretaram necessariamente uma transformação global do organismo,
dada a interdependência natural dos órgãos. Assim, o aparecimento e o
desenvolvimento do trabalho, modificaram a aparência física do homem
bem como a sua organização anatômica e fisiológica.
Um outro elemento deveria igualmente preparar o aparecimento do
trabalho. Com efeito, o trabalho só poderia nascer entre os animais que
vivessem em grupo e apresentassem formas suficientemente desenvolvidas
de vida em comum, mesmo se estivessem ainda bastante afastadas das
formas mais primitivas da vida social humana. As experiências deveras
interessantes de N. i. Voitonis e de N. A. 1ikh praticadas com símios da
criação de Soukhoumi testemunham o alto nível de desenvolvimento que
podem atingir as formas de vida comum entre os animais. Estas
experiências mostram a existência, nas hordas de símios, de um sistema
constituído de inter-relações e de uma hierarquia e de um sistema de
comunicação correspondente muito complexo. Além disso, essas pesquisas
permitem convencer-nos uma vez mais que mau grado a sua comple­
xidade, as relações no interior de uma horda de símios estão limitadas
peias suas relações biológicas diretas e que jamais são determinadas pelo
conteúdo objetivo concreto da atividade animal.
Por fim, uma outra condição necessária ao aparecimento do
trabalho é a existência de formas muito desenvolvidas de reflexo psíquico
da realidade nos representantes superiores do mundo animal, como vimos.
Todos estes elementos conjuntamente constituíram as condições
principais que permitiram o aparecimento, no decurso da evolução, do
trabalho e da sociedade humana assente no trabalho.

F. Engcls: Dialectica da Natureza. Ed. Sociales, p. 175.


so O Desenvolvimento do Psiquismo

Que atividade c esta, especificamente humana, a que chamamos


trabalho?
O trabalho é um processo que liga o homem à natureza, o processo
de ação do homem sobre a natureza. Marx escreve: “O trabalho é
primeiramente um ato que se passa entre o homem e a natureza. O homem
desempenha aí para com a natureza o papel de uma potência natural. As
forças de que o seu corpo é dotado, braços e pernas, cabeças c mãos, ele as
põe em movimento a fim de assimilar as matérias dando-lhes uma forma
útil à sua vida. Ao mesmo tempo que age por este movimento sobre a
natureza exterior e a modifica, ele modifica a sua própria natureza também
e desenvolve as faculdades que nele estão adormecidas" .
O trabalho é antes de mais nada caracterizado por dois elementos
interdependentes. Um deles é o uso e o fabrico de instrumentos. “O
trabalho, diz F.ngels, começa com a fabricação dos instrumentos.’"’
O segundo é que o trabalho se efetua em condições de atividade
comum coletiva, de modo que o homem, no seio deste processo, não entra
apenas numa relação determinada com a natureza, mas com outros
homens, membros de uma dada sociedade. É apenas por intermédio desta
relação a outros homens que o homem se encontra em relação com a
natureza.
O trabalho, é portanto, desde a origem mediatizado simultanea­
mente pelo instrumento (em sentido lato) e pela sociedade.
A preparação dos instrumentos pelo homem tem também sua
história natural. Como sabemos, certos animais tem uma atividade
instrumental rudimentar que se manifesta pela utilização de meios
exteriores que lhes permitem realizar operações (cf. o uso do pau nos
símios antropóides). Estes meios exteriores, os “instrumentos” dos animais
são todavia muito diferentes, qualitativamente, dos do homem que são os
instrumentos do trabalho.
A diferença não está apenas em que os animais utilizem os seus
“instrumentos” mais raramente que os homens primitivos. Muito menos a

K. Marx: O Çmpilal. Livro 1, t. I. Ed. Socialesi p. 180.


I lúigcls: Dialeclica da Natureza. Ed. Social es. p. 176.
O Desenvolvimento do Psiquismo 81

podemos limitar às dissemelhanças de fornia exterior. Para descobrir a


verdadeira diferença entre os instrumentos humanos e os “instrumentos”
animais, devemos examinar objetivam ente a atividade em que eles tomam
parte.
Por mais complexa que seja a atividade “instrumental” dos animais
jamais tem o caráter de um processo social, não é realizada coletivamente
e não determina as relações de comunicação entre os seres que a efetuam.
Por outro lado, por complexa que seja, a comunicação instintiva entre os
membros de uma associação animal jamais se confunde com a atividade
“produtiva” dos animais, não depende dela, não c mediatizada por ela.
O trabalho humano é em contrapartida, uma atividade originaria-
mente social, assente na cooperação entre indivíduos que supõe uma
divisão técnica, embrionária que seja, das funções do trabalho; assim, o
trabalho é uma ação sobre a natureza, ligando entre si os participantes,
mediatizando a sua comunicação. Marx escreve: “Na produção os homens
não agem apenas sobre a natureza. Piles só produzem colaborando de uma
determinada maneira e trocando entre si as suas atividades. Para produzir,
entram em ligações e relações determinadas uns com os outros e não é
senão nos limites destas relações e destas ligações sociais que se estabelece
a sua ação sobre a natureza, a produção' .
Para compreender o significado concreto deste tato para o
desenvolvimento do psiquismo humano, basta analisar as formas que
reveste a estrutura da atividade ao modificar-se, quando ela se realiza nas
condições do trabalho coletivo. Logo no início do desenvolvimento da
sociedade humana surge inevitavelmente a partilha, entre os diversos
participantes da produção, do processo de atividade anteriormente único.
Inicialmente, esta divisão é verossimilmente fortuita e instável. No decurso
do desenvolvimento ela toma já a forma primitiva da divisão técnica do
trabalho.
A certos indivíduos, por exemplo, incumbe a conservação do fogo
e a preparação das refeições, a outros a procura de alimento. Entre as

11 K.. Marx: A Nova Gazeta Renana. 1111. Ed. Sociales. p 237.


,S'.' O Desenvolvimento do Psiquismo

pessoas encarregadas de caça coletiva, umas têm por função bater a caça,
outras espreitá-la e apanhá-la.
Isto acarreta uma modificação profunda e radical da própria
estrutura da atividade dos indivíduos que participam do processo de
trabalho.
Vimos anteriormente que toda atividade animal, realizando as
relações imediatamente biológicas, instintivas, entre os animais e a
natureza circundante, linha por característica ser sempre orientada para
objetos que poderiam satisfazer uma necessidade biológica e ser
engendrada por esses objetos. Não há atividade animal que não responda a
qualquer necessidade estritamente biológica, que não seja provocada por
um agente com uma significação biológica para um animal (a de um objeto
que satisfaz tal ou tal necessidade) e cujo último elo da cadeia não esteja
diretamente orientado para este objeto. Como dissemos, o objeto da
atividade dos animais confunde-se sempre com seu motivo biológico; estes
dois elementos coincidem sempre.
Estudemos agora, sob este ângulo, a estrutura fundamental da
atividade de um indivíduo colocado nas condições do trabalho coletivo.
Quando um membro da coletividade realiza a atividade de trabalho,
realiza-a também com o fim de satisfazer uma necessidade sua. Assim, a
atividade do batedor que participa na caçada coletiva primitiva é
estimulada pela necessidade de se alimentar ou talvez de se vestir com a
pele do animal. Mas para que está diretamente orientada a sua atividade?
Pode ser, por exemplo, assustar a caça e orientá-la na direção de outros
caçadores que estão à espreita. É propriamente isso que deve ser o
resultado da atividade do caçador. Ela pára aí; os outros caçadores fazem o
resto. É evidente que este resultado (assustar a caça) não acarreta por si
mesmo a não poderia acarretar a satisfação da necessidade de alimento, de
vestuário etc., que o batedor sente. Assim, aquilo para que estão orientados
os sens processos de atividade não coincide com o seu motivo; os dois são
separados. Chamaremos ações aos processos em que o objeto e o motivo
não coincidem, podemos dizer, por exemplo, que a caçada é a atividade do
batedor, e o fato de levantar a caça é a sua ação.
O Desenvolvimento do Psiquismo 83

Como pode nascer uma ação, isto é, a separação do objeto da


atividade e do seu motivo? Visivelmente a ação só é possível no seio de
um processo coletivo agindo sobre a natureza. O produto do processo
global, que responde a uma necessidade da coletividade, acarreta
igualmente a satisfação da necessidade que experimenta um indivíduo
particular, se bem que ele possa não efetuar as operações tinais ( o ataque
direto ao animal e a sua matança, por exemplo) que conduzem diretamente
à posse do objeto desta necessidade. Geneticamente (isto é, pela sua
origem), a separação entre o motivo e o objeto da atividade individual é o
resultado do parcelamento em diferentes operações de uma atividade
complexa, inicialmente “polifásica”, mas única. Essas diversas operações,
absorvendo doravante todo o conteúdo de uma dada atividade do
indivíduo, transforma-se para ele em ações independentes, continuando
bem entendido a não ser senão um só dos numerosos elos do processo
global do trabalho coletivo.
Dois dos elementos principais (mas não únicos) constituem
precursores naturais desta separação de operações particulares c da
aquisição por elas de uma certa independência na atividade individual. O
-primeiro é o caráter muitas vezes coletivo da atividade instintiva e a
presença de uma “hierarquia” primitiva nas relações entre os indivíduos,
que se observa nas associações de animais superiores, nos símios
especialmente. O segundo é a divisão da atividade animal, que conserva
todavia a sua globalidade em duas fases distintas: a fase preparatória c a
fase dc execução, que podem ser muito afastadas uma da outra no tempo.
Assim, as experiências mostram que a interrupção forçada de uma
atividade numa das duas fases apenas permite retardar mediocremente a
reação ulterior dos animais, ao passo que a interrupção entre as duas fases
deixa-lhes um retardamento dez a cem vezes mais comprido que no
primeiro caso (A. V. Zaporojets).
Todavia, mau grado a existência indubitável de uma relação
genética entre a atividade intelectual “bifásica” dos animais superiores a de
um indivíduo humano que participa num processo de trabalho coletivo na
qualidade de cio, há uma diferença muito grande entre elas. Esta diferença
S 7 O Desenvolvimento do Psiquismo

surge ao nível das ligações e relações objetivas que estão na base destas
duas atividades, às quais elas respondem, e que se refletem no psiquismo
dos indivíduos agentes.
A atividade intelectual bitãsica dos animais caracteriza-se como
vimos, pelo fato de que a ligação entre duas (ou várias) fases é deter­
minada por ligações e relações físicas, materiais, espaciais, temporais,
mecânicas. Nas condições naturais da existência humana, estas relações e
ligações são forçosamente naturais. O psiquismo dos animais superiores
tem, por conseqüência, a propriedade de refletir estas relações e ligações
naturais, atendo-se às coisas. Quando um animal efetua um movimento de
rodeio e se afasta da sua presa para só a apanhar em seguida, esta atividade
complexa está subordinada às relações espaciais da situação considerada,
relações percebidas pelo animal; a primeira parte do trajeto, primeira fase
da atividade, conduz o animal, com uma necessidade natural, à
possibilidade de realizar a segunda fase.
A base objetiva da forma de atividade humana que aqui estudamos
é outra.
Bater a caça conduz à satisfação de uma necessidade, mas de modo
algum porque sejam essas as relações naturais da situação material dada; é
antes o contrário; normalmente estas relações naturais são tais que
amedrontar a caça retira toda a possibilidade de a apanhar. O que então,
neste caso, religa o resultado imediato desta atividade ao seu resultado
finai? Evidentemente não é outra coisa senão a relação do indivíduo aos
outros membros da coletividade, graças ao qual ele recebe a sua parte da
presa, parte do produto da atividade do trabalho coletivo. Esta relação, esta
ligação, realiza-se graças às atividades dos outros indivíduos. Isso significa
que é precisamente a atividade dos outros homens que constitui a base
material objetiva da estrutura específica da atividade do indivíduo humano;
historicamente, pelo seu modo de aparição, a ligação entre o motivo e o
objeto de uma ação não reflete relações e ligações naturais, mas ligações e
rc Iações obj et ivas soeiai s,
Assim, a atividade complexa dos animais superiores, submetida a
relações naturais entre coisas, transforma-se, no homem, numa atividade
O Desenvolvimento do Psiquismo 85

submetida a relações sociais desde a sua origem. Esta é a causa imediata


que dá origem à forma especificamente humana do reflexo da realidade, a
consciência humana.
A decomposição dc uma ação supõe que o sujeito que age tem a
possibilidade de refletir psiquicamente a relação que existe entre o motivo
objetivo da relação e o seu objeto. Senão, a ação é impossível, é vazia de
sentido para o sujeito. Assim, se retomarmos o nosso exemplo do batedor,
é evidente que a sua ação só é possível desde que reflita as ligações que
existem entre o resultado que ele goza antecipadamente da ação que realiza
pessoalmente c o resultado final do processo da caçada completa, isto é, o
ataque do animal em fuga, a sua matança, e por fim o seu consumo. Na
origem, esta ligação é percebida pelo homem sob a sua forma sensível, sob
a forma de ações reais efetuados pelos outros participantes no trabalho. As
suas ações comunicam um sentido ao objeto da ação ao batedor. O inverso
é igualmente verdadeiro: só as ações do batedor justificam as ações do
homem que espreita o animal e lhe dão um sentido; sem a ação do batedor,
a espera seria desprovida de sentido e injustificada.
Assim, estamos ainda perante uma relação, uma ligação que
condiciona a orientação da atividade. Esta relação é, todavia, fundamen­
talmente diferente das relações que governam a atividade do animai. Ela
cria-se no seio de uma atividade humana coletiva e não poderia existir fora
dela. Aquilo para que é orientada a ação governada por esta nova relação
pode em si não ter sentido biológico imediato para o homem e mesmo
contradizê-lo. Por exemplo, assustar a caça é em si desprovido de sentido
biológico. Isso só toma um significado nas condições do trabalho coletivo.
São elas que conferem a esta ação o seu sentido humano e racional. Com a
ação, “esta unidade” principal da atividade humana, surge assim “a
unidade” fundamental, social por natureza, do psiquismo humano, o
sentido racional para o homem daquilo para que a sua atividade se orienta.
Devemos deter-nos especialmente aqui, pois é extremamente
importante para compreender a gênese da consciência numa ótica de
psicologia concreta. Precisemos uma vez mais o nosso pensamento.
Hf) O Desenvolvimento do Psiquismo

Quando uma aranha se dirige para um objeto em vibração, esta


atividade obedece a relação biológica natural que religa a vibração às
propriedades nutritivas do inseto preso na teia. Em virtude desta relação a
vibração toma para a aranha o significado biológico de alimento. Se bem
que a ligação que existe entre a propriedade que o inseto tem de provocar
uma vibração na teia e a sua propriedade de ser alimento determina de fato
a atividade da aranha, ela permanece dissimulada à aranha enquanto
ligação, enquanto relação; ele “não existe para ela”. Razão por que a
aranha se dirige para todo o objeto em vibração que se aproxime da sua
teia, seja ele um diapasão.
O batedor, quando assusta o animal, submete igualmente a sua
ação a uma certa ligação, a uma relação determinada, que une a fuga da
presa à sua captura ulterior; mas não encontramos na base desta ligação
uma relação natural, mas uma relação social, a relação de trabalho do
batedor com os outros participantes na caçada coletiva.
Como dissemos, a visão do animal só por si não incita
naturalmente assustá-lo. Para que um homem se encarregue da sua função
cie batedor é necessário que as suas ações estejam numa correlação para
que ela “exista para ele”; em outros termos, é preciso que o sentido das
suas ações se descubra, que ele tenha consciência dele. À consciência do
significado dc uma ação realiza-se sob a forma de reflexo do seu objeto
enquanto fim consciente.
Doravante, está presente ao sujeito a ligação que existe entre o
objeto de uma ação (o seu fim) e o gerador da atividade (o seu motivo). Ela
surge-lhe na sua forma imediatamente sensível, sob a forma da atividade
de trabalho da coletividade humana. Esta atividade, reflete-se agora na
cabeça do homem não já em fusão subjetiva com o objeto, mas como
relação prático-objetiva do sujeito para o objeto. Evidentemente, nas
condições estudadas, trata-se sempre de um sujeito coletivo; por este fato,
as relações dos participantes individuais do trabalho são inicialmente
refletidas por eles, na medida em que apenas as suas próprias relações
coincidam com as da coletividade de trabalho.
O Desenvolvimento do Psiquismo 87

Todavia, o passo decisivo já está dado. À consciência humana (árá


doravante a distinção entre a atividade e os objetos. Eles começam a tomar
consciência também destes peia sua relação. Isto significa que a própria
natureza (os objetos do .mundo circundante) se destaca também para eles e
que cia aparece na sua relação estável com a» necessidades da coletividade
e com a sua atividade. Assim, o homem recebe o alimento, por exemplo,
como objeto de urna atividade particular — procura, caça, preparação — e
ao mesmo tempo, como objeto que satisfaz determinadas necessidades
humanas, independentemente do fato do homem considerado sentir ou não
a necessidade imediata ou de ela ser ou não atualmente o objeto da sua
atividade própria. Consequentemente o alimento pode ser distinguido,
entre outros objetos de atividade, não apenas “praticamente” mas também
“teoricamente”, isto quer dizer que ele pode ser conservado na consciência
e tornar-se “idéia”.2

2. O estabelecimento do pensamento e (la linguagem

Acabamos de analisar as condições gerais que tornam possível o


aparecimento da consciência. Encontramo-las nas atividade de trabalho
comum aos homens. Vimos que só nestas condições é que o conteúdo
daquilo para que se orienta uma ação humana se desloca da sua fusão com
as relações biológicas.
Encontramo-nos agora diante de outro problema, o da formação
dos processos especiais aos quais se liga o reflexo consciente da realidade.
Vimos que a consciência do fim de uma ação de trabalho supõe o
reflexo dos objetos para os quais ela se orienta, independentemente da
relação que existe entre eles e o sujeito.
Onde encontramos nós as condições especiais deste reflexo?
Encontramo-las de novo no próprio processo do trabalho. O trabalho não
modifica apenas a estrutura geral da atividade humana, não engendra
unicamente ações orientadas; o conteúdo da atividade a que chamamos
sx O Desenvolvimento do Psiquismo

operações sofre também uma transformação qualitativa no processo de


trabalho.
Esta transformação das operações efetua-se com o aparecimento e
o desenvolvimento dos instrumentos de trabalho. As operações de trabalho
dos homens têm isto de notável; são realizadas com a ajuda de
instrumentos, de meios de trabalho.
O que c um instrumento? “O meio de trabalho, diz Marx, é uma
coisa ou um conjunto de coisas que o homem interpõe entre ele e o objeto
do seu trabalho como condutor da sua ação’" .” O instrumento é, portanto,
um objeto com o qual se realiza uma ação de trabalho, operações de
trabalho.
() fabrico e o uso de instrumentos só é possível em ligação com a
consciência do fim da ação de trabalho. Mas a utilização de um
instrumento acarreta que se tenha consciência do objeto da ação nas suas
propriedades objetivas. O uso do machado, por exemplo, não responde ao
único fim de uma ação concreta; ele reflete objetivamente as propriedades
do objeto de trabalho para o qual se orienta a ação. O golpe do machado
submete as propriedades do material de que é feito este objeto a uma prova
infalível; assim se realiza uma análise prática e uma generalização das
propriedades objetivas dos objetos segundo um índice determinado,
objetivado no próprio instrumento. Assim, c o instrumento que é de certa
maneira portador da primeira verdadeira abstração consciente e racional,
da primeira generalização consciente e racional.
Devemos agora tomar em consideração um outro elemento que
caracteriza o instrumento. O instrumento não é apenas um objeto de forma
particular, de propriedades Físicas determinadas; é também um objeto
social, isto é, tendo um certo modo de emprego, elaborado socialmente no
decurso do trabalho coletivo e atribuído a ele. Assim, quando
consideramos o machado enquanto instrumento e não enquanto simples
corpo físico, ele não é apenas a reunião de duas partes conjuntas, uma a
que chamamos cabo e a outra que é a parte verdadeiramente eficaz; é

1 K Marx: O Capital, l.ivro I. t. I, p. I*1. Ed. Sociales, Paris.


O Desenvolvimento do Psiquismo 89

também este meio de ação, elaborado socialmente, estas operações de


trabalho realizadas materialmente c como cristalizadas nele. Razão por que
dispor de um instrumento não significa simplesmente possuí-lo, mas
dominar o meio de ação de que eíe é o objeto material de realização. O
“instrumento dos animais realiza igualmente uma certa operação, mas esta
última não se fixa para ele. Logo que o pau desempenhou a sua função nas
mãos do macaco, ela torna-se para o animal um objeto qualquer, sem
interesse. Não se tornou suporte permanente da operação considerada.
Razão porque os animais não fabricam instrumentos e não os conservam.
O instrumento do homem, em contrapartida, é fabricado e é procurado, é
conservado pelo homem e ele próprio conserva o meio de ação que realiza.
Só considerando, portanto, os instrumentos humanos como
instrumentos da atividade de trabalho do homem é que descobriremos a
verdadeira diferença que os separa dos “instrumentos” dos animais. No seu
’’instrumento“, o animal só encontra uma possibilidade natural de realizar a
sua atividade instintiva, por exemplo, aproximar o fruto de si. O homem vê
no instrumento uma coisa que encerra em si um meio de ação determinado,
elabora socialmente.
Razão por que, mesmo quando utiliza um instrumento humano
especializado e artificial, um símio só age nos Hmites orgânicos dos seus
modos instintivos de atividade. Em contrapartida, nas mãos do homem, o
mais simples objeto natural torna-se muitas vezes um verdadeiro
instrumento, quer isto dizer que ele efetua uma operação verdadeiramente
instrumental, elaborada socialmente.
Nos animais, o “instrumento” não cria nova operação, está
submetida aos seus movimentos naturais no sistema dos quais se inclui. No
homem, é o contrário que se verifica: a sua própria mão está incluída num
sistema de operações elaborado socialmente e fixado no próprio
instrumento e está submetida a ele. As investigações atuais demonstram
com bastante precisão estes dois fatos. Razão por que se pode dizer, a
propósito do símio, que o desenvolvimento natural da sua mão determina
nele o uso do pau enquanto “instrumento”, temos as nossas razões para

ES®
IJI) O Desenvolvimento do Psiquismo

afirmar que no homem foi a sua atividade instrumental que criou as


particularidades específicas da mão.
Assim o instrumento é um objeto social, o produto de lima prática
individual. Por este fato, o conhecimento humano mais simples, que se
realiza diretamente numa ação concreta de trabalho com a ajuda de um
instrumento, não se limita à experiência pessoal de um indivíduo, antes se
realiza na base da aquisição por ele da experiência e da prática social.
Por fim, o conhecimento humano, assente inicialmente na ativida­
de instrumental de trabalho, é capaz, diretamente da atividade intelectual
instintiva dos animais, de passar ao pensamento autêntico.
Chamamos pensamento, em sentido próprio, o processo de reflexo
consciente da realidade, nas suas propriedades, ligações e relações
objetivas, incluindo os mesmos objetos inacessíveis, á percepção sensível
imediata. O homem, por exemplo, não percebe os raios ultravioletas, mas
nem por isso desconhece a sua existência e as suas propriedades.. Que torna
possível este conhecimento? Fde é possível por via de mediações. E esta
via que é a via do pensamento. O seu princípio geral é que submetemos as
coisas à prova de outras coisas e, tomando consciência das relações e
interações que se estabelecem entre elas, julgamos a partir das
modificações que aí percebemos, as propriedades que nos não são
diretamente acessíveis.
Razão por que é condição necessária do aparecimento do pensa­
mento a distinção e a tomada de consciência das interações objetivas. Mas
esta tomada de consciência é impossível nos limites da atividade instintiva
dos animais. Uma vez ainda, ela só se realiza no processo de trabalho, da
utilização dos instrumentos com os quais os homens agem sobre a
natureza. “Ora, é precisamente a transformação da natureza pelo homem e
não a natureza apenas enquanto tal, o fundamento mais essencial e o mais
direto do pensamento humano c a inteligência do homem aumentou na
medida em que ele aprendeu a transformar a natureza

iI
i ! iij.’ds. DinU'ctica da natureza, Ed. Sociales, p. 233.
O Desenvolvimento do Psiquismo 91

O pensamento do homem distingue-se, por isso radicalmente da


inteligência dos animais, que, como o mostram experiências especiais, só
se realizam uma adaptação às condições de uma dada situação e não pode
transformar estas últimas a não ser pelo acaso, pois a atividade animal no
seu conjunto permanece sempre orientada não para estas condições, mas
para tal ou tal objeto das suas necessidades biológicas. No homem, é
diferente. A “fase de preparação” donde surge o pensamento humano
torna-se conteúdo de ações independentes orientadas para um fim e pode,
posteriormente, tornar-se atividade independente, capaz de se transformar
numa atividade totalmente interna, isto é, mental.
Por fim, o pensamento, como o conhecimento humano em geral,
distingue-se fundamentalmente do intelecto dos animais porque só ele
pode aparecer e desenvolver-se em união com o desenvolvimento da
consciência social. Os fins da ação intelectual no homem não são apenas
sociais por natureza, vimos que os modos e os meios desta açao são
igualmente elaborados socialmente. Por consequência, quando aparece o
pensamento verbal abstrato, ele não pode efetuar-se a não ser pela
aquisição pelo homem de generalizações elaboradas socialmente, a sabei
os conceitos verbais e as operações lógicas, igualmente elaboradas
socialmente.
O último problema sobre o qual nos devemos deter particularmente
é o da forma em que se produz o reflexo consciente pelo homem da
realidade circundante.
À imagem consciente, a representação, o conceito tem um base
sensível. Todavia, o reflexo consciente da realidade não se limita ao
sentimento sensível que dele se tem. Já a simples percepção de um objeto
não o reflete apenas como possuindo uma forma, uma cor etc., mas
também como tendo uma signifcado objetivo e estável determinado,
como, por exemplo, alimento, instrumento etc. Por consequência, deve
existir uma forma particular de reflexo consciente da realidade, qualitati­
vamente diferente da forma sensível imediata do reflexo psíquico próprio
dos animais.
O Desenvolvimento do Psiquismo

: Mas então, sob que forma concreta opera realmente a consciência


ilc realidade circundante? Esta forma é a linguagem que, segundo Marx é
“a consciência prática” dos homens. Razão por que a consciência é
inseparável da linguagem. Como a consciência humana, a i iflguagem só
aparece no processo dc trabalho, ao mesmo tempo que ele. Tal como a
cpnsrjôncãa- a linguagem é o produto da coletividade, o produto da
atividade humana, mas é igualmente “o ser falante da coletividade”
(Marx); é apenas por isso que existe igualmente para o homem tomado
individualmente.
“A linguagem é tão velha como a consciência, a linguagem é a
consciência real, prática, que existe também para outros homens, que
existe, portanto, então, apenas para mim também ... .”
O nascimento da linguagem só pode ser compreendido em relação
com a necessidade, nascida do trabalho, que os homens sentem de dizer
alguma coisa.
Como se formaram a palavra e a linguagem? No trabalho os
homens entram forçosamente em relação, cm comunicação uns com os
outros. Originariamente, as suas ações, o trabalho propriamente, e a sua
comunicação formam um processo único. Agindo sobre a natureza, os
movimentos de trabalho dos homens agem igualmente sobre os outros
participantes na produção. Isto significa que as ações do homem têm nestas
condições uma dupla função: uma função imediatamente produtiva e uma
função de ação sobre os outros homens, uma função de comunicação.
Posteriormente, estas duas funções separam-se. Para isso, basta
que a própria experiência sugira aos homens que se em certas condições
um movimento de trabalho não conduz, por uma razão ou outra, ao
resultado prático esperado, ele está, mau grado tudo, apto para agir sobre
os outros participantes, por exemplo, levá-los a efetuar essa ação
coletivamente. Nascem assim os movimentos que conservam a sua forma
de movimentos de trabalho, mas que perdem o contato prático com o
objeto e que. por conseqüência perdem assim o esforço que os transforma

K Marx: .•< ideologia alemã: "Feuerbach", p. 159., Ed. Sociales, 1975.


O Desenvolvimento cio Psiquismo 93

verdadeiramente em movimentos de trabaiho. Estes movimentos, bem


como os sons vocais que os acompanham, separam-se da tarefa dc agir
sobre o objeto, separam-se da ação dc trabaiho e só conservam a função
que consiste em agir sobre os homens, a função de comunicação verbal.
Por outras palavras, transformam-se em gesto. O gesto nada mais é que um
movimento separado do seu resultado, isto é, um movimento que não se
aplica ao objeto para o qual está orientado.
Ao mesmo tempo, o papel principal na comunicação passa dos
gestos ao som da voz; assim aparece a linguagem sonora articulada.
Tal ou tal conteúdo, significado na palavra, fixa-se na linguagem.
Mas para que um fenômeno possa ser significado e refletir-se na
linguagem, deve ser destacado, tornar-se fato de consciência, o que, como
vimos, se faz inicialmente na atividade prática dos homens, na produção.
“Os homens, escreve Marx, começaram efetivamente por se apropriar ele.
etc., de certas coisas do mundo exterior como meios de satisfazer as suas
próprias necessidades; mais tarde começaram a designar igualmente pela
linguagem o que elas são para eles na experiência prática, a saber meios de
satisfazer as suas necessidades, coisas que os “satisfazemJ ”.
-f A produção da linguagem como da consciência e do pensamento,
está diretamente misturada na origem, à atividade produtiva, à
comunicação material dos homens.
O elo direto que existe entre a palavra e a linguagem, de um lado, e
a atividade de trabalho dos homens, do outro, é a condição primordial sob
a influência da qual eles se desenvolveram enquanto portadores do reflexo
consciente e “objetivado” da realidade. Significando no processo de
trabalho, um objeto, a palavra distingue-o e generaliza-o para a consciência
individual, precisamente na sua relação objetiva e social, isto é, como
objeto social.
Assim, a linguagem não desempenha apenas o papel de meio de
comunicação entre os homens, ela é também um meio, uma forma da
consciência e do pensamento humanos, não destacado ainda da produção15

15 K. Marx: Notas marginais sobre o "Tratado cTeconomia política", de Adolphe Wagner


m O Capital, Ed. Soei ales, edições de bolso, 1976, livro II.
94 O Desenvolvimento do Psiquismo

material. Torna-se a forma e o suporte da generalização consciente da


realidade. Por isso, quando, posteriormente, a palavra e a linguagem se
separam da atividade prática imediata, as significações verbais são
abstraídas do objeto real e só podem portanto existir corno fato de
consciência, isto é, como pensamento.
Ao estudar as condições de passagem do psiquismo pré-consciente
dos animais à consciência do homem, encontramos certos traços
característicos desta forma superior do reflexo psíquico.
Vimos igualmente que a consciência não podia aparecer a não ser
nas condições em que a relação do homem com a natureza era mediatizada
pelas suas relações de trabalho com outros homens. Por conseguinte, a
consciência é bem um “produto histórico desde o início” (Marx).
Vimos em seguida que a consciência só podia aparecer nas
condições de uma ação efetiva sobre a natureza, nas condições de uma
atividade de trabalho por meio de instrumentos, a qual é ao mesmo tempo
a forma prática do conhecimento humano. Nestes termos, a consciência é a
forma do reflexo que conhece ativamente.
Vimos que a consciência só podia existir nas condições da
existência da linguagem, que aparece ao mesmo tempo que ela no processo
de trabalho.
Por fim, vimos — e devemo-lo sublinhar particularmente — que a
consciência individual do homem só podia existir nas condições em que
existe a consciência social. A consciência é o reflexo da realidade,
refratada através do prisma das significações e dos conceitos lingüísticos,
elaborados socialmente.
Estes traços característicos da consciência são todavia apenas os
mais gerais e os mais abstratos. A consciência do homem é a forma
histórica concreta do seu psiquismo. Fda adquire particularidades diversas
segundo as condições sociais da vida dos homens e transforma-se na
seqüência do desenvolvimento das suas relações econômicas.
m

SOBRE O DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA


CONSCIÊNCIA

1. A psicologia da consciência

A consciência humana não é uma coisa imutável. Alguns dos seus


traços característicos são, em dadas condições históricas concretas,
progressivos, com perspectivas de desenvolvimento, outros são sobrevi­
vências condenadas a desaparecer. Portanto, devemos considerar a
consciência (o psiquismo) no seu devir e no seu desenvolvimento, na sua
dependência essencial do modo de vida, que c determinado peias relações
sociais existentes e pelo lugar que o indivíduo considerado ocupa nestas
relações. Assim, devemos considerar o desenvolvimento do psiquismo
humano como um processo de transformações qualitativas. Como eleito,
visto que as condições sociais da existência dos homens se desenvolvem
por modificações qualitativas c não apenas quantitativas, o psiquismo
humano, a consciência humana, transforma-se igualmente de maneira
qualitativa no decurso do desenvolvimento histórico e social.
Em que consistem estas transformações qualitativas?
Podem consistir apenas numa modificação do conteúdo que os
homens percebem, sentem, pensam? Este ponto de vista foi sustentado na
psicologia tradicional especialmente por W. Wundt, que considerava as
propriedades do psiquismo humano “são em toda a parte e sempre
w> O Desenvolvimento do Psiquismo

idênticas”, e que apenas o conteúdo da experiência e dos conhecimentos


humanos sc modiftca. Mas esta concepção loi abandonada há já muito
tempo. Hoje poderemos considerar como assente que a evolução acarreta
também uma modificação das particularidades qualitativas do psiquismo
humano.
Estas modificações não devem reduzir-se às dos diferentes
processos e funções psíquicas, se bem que a maior parte dos autores afirme
que o desenvolvimento histórico do psiquismo humano consiste
precisamente no manejo dos dilerentes processos: percepção, memória e
sobretudo pensamento e palavra, o que i malmente modifica o seu papel,
pois o papel principal seria desempenhado quer por uns quer por outros
(Hévy-Bruhl, Thurnwald, Dantzel).
Atualmente, está provado que os diferentes processos se reajustam
efetivamente no decurso do desenvolvimento histórico. Sabemos que a
memória de homens que pertencem a certos grupos atrasados nos planos
econômico e cultural tem traços característicos muito originais,
especialmente a aptidão para fixar com uma precisão surpreendente as
particularidades dos lugares (memória dita topográfica). Sabemos que o
pensamento destes homens também é extremamente original, teria mesmo
uma espécie de lógica particular.
Todavia se nos limitarmos ao estudo destas transformações destes
processos psíquicos, não podemos compreender a história real do
desenvolvimento do psiquismo humano. Evidentemente que homens
vivendo em épocas diferentes da história, em condições sociais diferentes,
distinguem-se também por aquilo que neles são os processos de percepção,
de memória, de pensamento etc. Mas esta diferença nos processos explica
por si só a diferença dos seus psiquismos, da sua consciência? Admitimos
que não é assim que se produzem igualmente, no decurso do
desenvolvimento histórico, modificações de caráter geral da consciência
humana, engendradas pelas transformações do modo de vida.
Vimos que a passagem à humanidade era acompanhada de uma
mudança do tipo geral de reflexo psíquico e do aparecimento de um tipo
superior de psiquismo: a consciência. Vimos que esta passagem se
O Desenvolvimento do Psiquismo 97

realizava consecutivamente ao aparecimento das relações dc produção


entre os homens. As particularidades do psiquismo humano são
determinadas pelas particularidades destas relações, dependem delas. Por
outro lado. sabe-se que as relações de produção se transformam, que as
redações de produção nas comunidades primitivas são uma coisa e que as
da sociedade capitalista, por exemplo são outra. Razão por que podemos
pensar que uma transformação radicai das relações de produção acarreta
uma transformação não menos radical da consciência humana, que se torna
diferente qua Iitativ amente.
Para resolver este problema convém fazer uma abordagem da
consciência, radicaimente diferente da que foi fixada pelas tradições da
psicologia burguesa.
Ao postular a consciência do homem da sociedade de classes como
eterna e própria de todos os homens, a psicologia burguesa apresenta como
qualquer coisa de absoluto, sem qualidades e “indeterminável”. Seria um
espaço psíquico particular (“a ceiia” de .laspers); por este tato, cia seria
apenas “a condição da psicologia e não o seu objeto” (P. Natorp). 'lÂ
consciência, escrevia Wundt. consiste simplesmente em podermos encon­
trar sempre em nós estados psíquicos”.
Deste ponto de vista, a consciência, psicologicamente falando,
apresenta-se como uma espécie de “iluminação” interior, que pode ser
mais ou menos forte, que pode mesmo extinguir-se, como é o caso no
desmaio profundo (Ledd). É por isso que a consciência apenas pode ter
propriedades puramente formais: são as que exprimem as leis ditas
psicológicas da consciência: unidade, continuidade, limitação ...
Não há mudança quanto ao fundo, mesmo quando se considera a
consciência como “sujeito psíquico” ou segundo a expressão dc James,
como o “senhor” das funções psíquicas. Mistificar assim o sujeito real
identificando-o com a consciência não confere a esta conteúdo psicológico:
finalmente a consciência, enquanto sujeito, é igualmente “metafísica”, isto
é, sai dos limites da psicologia.
Assim com a abordagem tradicional da consciência da psicologia
burguesa não podemos estudar aquilo que “se encontra’ na consciência ou
W O Desenvolvimento do Psiquismo

aquilo que “lhe pertence”, isto é, os fenômenos e processos psicológicos


tomados à parte e as suas relações naturais.
De tato, o estudo da consciência foi principalmente o estudo do
pensamento. Daqui resulta que, falando de consciência, apenas se tinha em
vista o pensamento, a esfera das representações, dos conceitos. Isso é justo
quando se trata de estudar o desenvolvimento do conhecimento humano.
Mas, psicologicamente, o desenvolvimento da consciência não se reduz ao
desenvolvimento do pensamento. A consciência tem as suas próprias
características de conteúdo psicológico.
Para descobrir estas características psicológicas da consciência,
devemos absolutamente rejeitar as concepções metafísicas que isolam a
consciência da vida real. Devemos, pelo contrário, estudar como a
consciência do homem depende do _seu modo de vida humano, da sua
existência. Isto significa que devemos estudar como se formam as relações
vitais do homem em tais ou tais condições sociais históricas e que estrutura
particular engendra dadas relações. Devemos em seguida estudar como a
estrutura da consciência do homem se transforma com a estrutura da sua
atividade. Determinar os caracteres da estrutura interna da consciência é
caracterizá-la psicologicamente.
Já nos esforçamos por mostrar que a um dado tipo de estrutura de
atividade correspondia um determinado tipo de reflexo psíquico, essa
dependência conserva-se posteriormente nas diferentes etapas da
consciência humana. A principal dificuldade consiste em encontrar os
“componentes” reais da consciência, as suas verdadeiras relações internas
que não só se escondem da nossa introspecção, como contradizem por
yezes o que ela nos descobre.
Para preparar a análise das transformações principais da
consciência que se produzem no processo de desenvolvimento da
sociedade humana, devemos deter-nos primeiro em certos caracteres gerais
próprios do desenvolvimento da sua estrutura.
Fizemos já notar que a principal modificação de forma do reflexo
psíquico quando da passagem à humanidade residia no fato de a realidade
se mostrar ao homem na estabilidade objetiva das suas propriedades, na
O Desenvolvimento do Psiquismo 99

sua autonomia, na sua independência para com a relação subjetiva que o


homem mantém com ela e para com as necessidades eletivas desle último;
de qualquer maneira, ela ‘‘apresenta-se” a ele, como se diz corretamente.
Esta mesma “apresentação” é tomada de consciência propriamente dita, é a
transformação do reflexo psíquico inconsciente em reflexo consciente.
Tomemos um exemplo para ilustrar as nossas palavras.
-Suponhamos um homem caminhando na rua, absorvido na
conversa com um companheiro. Nos casos normais todo seu comporta­
mento corresponde perfeitamente ao que se passa à sua volta; retarda o
passo num cruzamento, evita os peões que encontra pela frente, salta do
passeio para a rua, sobe de novo para o passeio etc. É evidente que ele
percebe o seu meio circundante. Mas terá uma imagem consciente da
situação da rua? Se estiver muito absorvido na conversa é possível que
não. Podemos, neste caso, dizer que a situação da rua não está “presente” à
sua consciência neste instante preciso. Mas eis que tem nitidamente
consciência de que a casa para que dirige com o seu interlocutor está diante
dele. O quadro da rua e dos edifícios acaba de certa maneira de se
descobrir no seu cérebro; está-lhe doravante “presente”.
Evidentemente, este exemplo representa um fenômeno psicológico
que não é senão análogo ao que realmente estudamos. Ele pode todavia
fazei- compreender ao leitor em que sentido nós empregamos o termo
“apresentação”.
" A realidade está, portanto, presente ao homem na sua consciência.
Como é que este fato é psicologicamente possível?
Todo o reflexo psíquico resulta de uma relação ação, de uma
interação real entre um sujeito material vivo, altamente organizado e a
realidade material que o cerca. Quanto aos órgãos do reflexo psíquico, eles
são ao mesmo tempo os órgãos desta interação, os órgãos da atividade
vital.
O reflexo psíquico não pode aparecer fora da vida, fora da
atividade do sujeito. Depende da atividade do sujeito, obedece às relações
vitais que ela realiza, não pode ser do parcial, como parciais são as
próprias relações.
101) O Desenvolvimento do Psiquismo

\ Dito por outras palavras o reflexo psíquico depende forçosamente


da relação do sujeito com o objeto refletido, do seu sentido vital para o
sujeito. Isto é verdadeiro também para o homem. Todavia a passagem à
consciência humana faz surgir um falo novo. Sabemos que quando o
animal sente necessidade de se alimentar é estimulado por um agente
ligado de maneira firme ao alimento; para ele, este agente reveste a virtude
de um estímulo nutritivo apenas praticamente. Para o homem é
absolutamente indiferente. O batedor de caça primitivo que espanta um
animai-— este é o objetivo imediato de sua ação — tem consciência do seu
objetivo, isto quer dizer que este,se reflete nas suas relações objetivas (no
caso, trata-se de relações de trabalho) na sua significação.
A significação é aquilo que num objeto ou fenômeno se descobre
nhjet iva mente num sistema de ligações, de interações e de relações
objetivas. A significação é refletida e lixada na linguagem, o que lhe
confere a sua estabilidade. Sob a forma de significações lingüísticas,
constitui o conteúdo da consciência social; entrando no conteúdo da
consciência social, torna-se assim a “consciência real’ dos indivíduos,
objetivando em si o sentido subjetivo que o refletido tem para eles.
Assim, o reflexo consciente é psicologicamente caracterizado pela
presença de uma relação interna específica, a relação entre sentido
subjetivo e significação.
Sendo esta relação fundamental, devemos estudá-la especialmente.
Como o conceito de significação é dos mais elaborados na psicologia
moderna, começaremos por ele.
A significação é a generalização da realidade que é cristalizada e
fixada num vetor sensível, ordinariamente a palavra ou a locução. E a
forma ideal, espiritual da cristalização da experiência e da prática sociais
da humanidade. A sua esfera das representações de uma sociedade, a sua
ciência, a sua língua existem enquanto sistemas de significação
correspondentes. A significação pertence, portanto, antes demais ao mundo
dos fenômenos objetivamente históricos. H deste fato que devemos partir.
Mas a significação existe também como lato da consciência
individual, o homem que percebe e pensa o mundo enquanto ser sócio-
O Desenvolvimento do Psiquismo 101

histórico, está ao mesmo tempo armado e limitado pelas representações e:


conhecimentos da sua época e da sua sociedade. A riqueza da sua
consciência não se reduz à única riqueza da sua experiência individual. O
homem não conhece o mundo como o Robinson da ilha deserta, fazendo as
próprias descobertas. No decurso da sua vida, o homem assimila as
experiências cias gerações precedentes; este processo realiza-se
precisamente sob a forma cia aquisição cias significações e na medida desta
aquisição. A significação é, portanto, a forma sob a qual um homem
assimila a experiência luimana generalizada e refletida.
A significação, enquanto fato da consciência individual não perde
por isso o seu conteúdo objetivo; não se torna de modo algum uma coisa
puramente “psicológica”. Naturalmente, o que eu penso, compreendo e
sei do triângulo, pode não coincidir perfeitamente com a significação
“triângulo” admitida na geometria moderna. Mas não c uma oposição
fundamental. As signiiicações não têm existência fora dos cérebros
humanos concretos; não existe qualquer reino de significações
independente e comparável ao mundo platônico das idéias. Por conse­
quência, não podemos opor uma significação “geométrica”, lógica e, em
geral, objetiva, a esta mesma significação de um indivíduo enquanto
significação psicológica particular. A diferença não é entre o lógico e o
psicológico, mas entre o geral c o particular, o individual. Um conceito não
deixa de ser conceito quando se tomato conceito de um indivíduo^ Poderia
existir um conceito que não fosse o de uma pessoa?
O principal problema psicológico que a significação põe é o do
lugar e do papel reais que ela tem na vida psíquica do homem.
A realidade aparece ao homem na sua significação, mas de
maneira particular. A significação mediatiza o reflexo do mundo pelo
homem na medida em que ele tem consciência deste, isto é, na medida em
que o seu reflexo do mundo se apoia na experiência da prática social e a
integra,
A minha consciência não reflete uma folha dc papel apenas como
um objeto retangular, branco, quadriculado ou como uma certa estrutura,
uma certa forma acabada. A minha consciência reflete-a como uma folha
ni. O Desenvolvimento do Psiquismo

de papel, como papal. As impressões sensíveis que percebo da folha de


papel refratam-se de maneira determinada na minha consciência, porque
possuo as significações correspondentes; se não as possuísse, a 1olha dc
papel não passaria para mim de um objeto branco, retangular etc. I odavia,
e isto tem uma importância fundamental, quando eu percebo um papel
percebo este papel real e não a significação do "papel’ .
Inlrospectivamentc, a significação está geralmente ausente da minha
consciência: ela rcfrata o percebido ou o pensado, mas ela própria não é
conscientizada, não é pensada, fste fato psicológico é fundamental
Assim, psicologicamente, a signihcação é, entrada na minha
consciência (mais ou menos plenamente e sob todos os seus aspectos), o
reflexo generalizado da realidade elaborada pela humanidade e fixado sob
a forma de conceitos, de um saber ou mesmo de um saber-fazer ("modo de
ação” generalizado, norma de comportamento etc.).
A significação c o reflexo da realidade independentemente da
relação individual ou pessoal do homem a esta. O homem encontra um
sistema de significações pronto, elaborado historicamente, e apropria-se
dele tal como se apropria dc um instrumento, esse precursor material da
significação. O fato propriamente psicológico, o fato da minha vida, é que
eu me aprorie ou não, que eu assimile ou não uma dada significação, em
que grau eu a assimilo e também o que ela se torna para mim, para a minha
personalidade; este último elemento depende do sentido subjetivo e
pessoal que esta significação tenha para mim.
O conceito de sentido foi estudado na psicologia burguesa com
orientações muito diversas: Miiller chamou “sentido” à imagem
embrionária; Binet, mais penetrante, à ação embrionária; Van der Weldt
tentou mostrar experimentalmente a formação do sentido como resultado
da aquisição por um sinal exteriormente indiferente ao sujeito da
experiência, significação de uma ação condicionalmente ligada a este sinal.
A maior parte dos autores contemporâneos vão numa direção muito

'' A significação pode todavia scr conscientizada; trata-se enlão dc um fenômeno


1 1 uiiituto. que só sc produz quando c a própria significação c não o signiTicadfo o objeto

,1 ,1 , mi , mtii ia. como c o caso para o estudo dc uma língua.


Õ Desenvolvimento do Psiquismo 103

diferente e só consideram o sentido em ligação com a língua. Paulhan


definiu o sentido como o conjunto dos fenômenos psíquicos suscitados
pela palavra na consciência; Titchener, como uma concepção contextuai
complexa e Bartlet, mais rigorosamente, como a significação criada pela
“globalidade" de uma situação, outros, ainda, como a concretização da
significação, como produto da signiflcância.
Mau grado as suas divergências, essas diferentes concepções do
sentido têm todas um ponto em comum: com efeito, os seus autores tomam
todos como fenômeno de partida para a análise, fenômenos que pertencem
à esfera da consciência; razão por que todos eles permanecem encerrados
nesta esfera. Todavia, a consciência não pode ser compreendida a partir de
si própria.
O estudo genético, histórico da consciência comporta toda uma
outra démarche. Ela não parte da análise dos fenômenos da tomada de
consciência, mas dos fenômenos da vida, característicos da interação real
que existe entre o sujeito real e o mundo que o cerca, em toda a
objetividade e independentemente de suas relações, ligações e
propriedades. Razão por que num estudo histórico da consciência, o
sentido è antes de mais nada uma relação que se cria na vida, na atividade
do sujeito.
Esta relação específica estabeiece-se no decurso do
desenvolvimento da atividade que religa concretamente os organismos
animais a seu meio; é inicialmente biológica e o reflexo psíquico do meio
exterior pelos animais c indispensável desta relação. Posteriormente, e pela
primeira vez no homem, o sujeito distingue esta relação como sendo a sua,
e toma consciência disso. De um ponto de vista psicológico concreto, este
sentido consciente c criado pela relação objetiva que se reflete no cérebro
do homem, entre aquilo que o incita a agir e aquilo para o qual a sua ação
se orienta como resultado imediato. Por outras palavras, o sentido
consciente traduz a relação do motivo ao fim. Devemos apenas sublinhar
que não utilizamos o termo “motivo” para designar o sentimento de uma
necessidade; eic designa aquilo em que a necessidade se concretiza de
104 O Desenvolvimento do Psiquismo

objetivo nas condições consideradas e para as quais a atividade se orienta,


o qtie a estimula.
Imaginemos um aluno lendo uma obra cientifica que lhe foi
recomendada. Eis um processo consciente que visa um objetivo preciso. O
seu fim consciente é assimilar o conteúdo da obra. Mas qual é o sentido
particular que toma para o aluno este fim e por consequência a ação que
lhe corresponde? Isso depende do motivo que estimula a atividade
realizada na ação dá leitura. Se o motivo consiste em preparar o leitor para
a sua futura profissão, a leitura terá um sentido. Se em contrapartida, sc
trata para o leitor de passar nos exames, que não passam de uma simples
formalidade, o sentido da sua leitura será outro, ele lerá a obra com outros
olhos; assimilá-la-á de maneira diferente.
Dito de outro modo, para encontrar o sentido pessoal devemos
descobrir o motivo que lhe corresponde.
Todo o sentido é sentido de qualquer coisa. Não há sentidos
“puros”. Razão por que, subjetivamente, o sentido faz de certa maneira
parte integrante do conteúdo da consciência c parece entrar na significação
objetiva. Foi este fato que engendrou na psicologia e na linguística
psicologizante um grave mal-entendido que se traduz quer por uma total
indiferenciaçãò destes conceitos, quer pelo fato do sentido ser considerado
como a significação em função do contexto ou da situação. Na verdade, se
bem que o sentido (“'sentido pessoal”) e a significação pareçam, na
introspecção, fundidos com a consciência, devemos distinguir esses dois
conceitos. Eles estão intrinsecamente ligados um ao outro, mas apenas por
uma relação inversa da assinalada precedentemente; ou seja, é o sentido
que se exprime nas significações (como o motivo nos fins) e não a
significação no sentido.
Em certos casos, a dissociação entre o sentido e a significação ao
nível da consciência aparece muito nitidamente. Podemos, por exemplo,
ter a consciência perfeita de um acontecimento histórico, compreender a
significação de uma data; isso não exclui o fato de que a data em questão
possa ter vários sentidos para o homem. Um sentido para o jovem ainda
nos bancos da escola, um outro sentido para o mesmo jovem que partiu
O Desenvolvimento do Psiquismo 105

para o campo de batalha a defender a sua pátria e dar a vida por ela. Os
seus conhecimentos do acontecimento, da data história, modificaram-se,
aumentaram? Não. Pode mesmo acontecer serem menos precisos, que
certos elementos tenham sido esquecidos. Mas eis que por uma razão
qualquer este acontecimento lhe vem de súbito ao espírito; ele aparece à
consciência numa iluminação totalmente nova, de certo modo num
conteúdo mais completo. Tornou-se outro, não como significação e sob o
aspecto do conhecimento que tem dele, mas sob o aspecto do sentido que
ele reveste para ele; tomou um novo sentido para ele mais profundo. K. D.
Ouchinsky registrou outras transformações deste tipo.
Quando se distingue sentido pessoa! e significação propriamente
dita, é indispensável sublinhar que esta definição não concerne a totalidade
do conteúdo refletido, mas unicamente com aquilo para que está orientada
a atividade do sujeito. Com efeito, o sentido pessoal traduz precisamente a
relação do sujeito com os fenômenos objetivos conscientizados.
Estudamos em detalhe a questão do sentido e da significação
porque a sua relação é a dos principais “conlponentes” da estrutura interna
da consciência humana; daqui não decorre, porém, que sejam elas as
únicas. Com efeito, mesmo esquematizando as relações complexas
inerentes à consciência desenvolvida, não podemos abstrair-nos de um
outro de seu “componentes”, a saber: o seu conteúdo sensível.
É o conteúdo sensível (sensações, imagens de percepção,
representações) que cria a base e as condições dc toda a consciência. De
certo modo, é o tecido material da consciência que cria a riqueza c as cores
do reflexo consciente do mundo. Por outro lado, estetéonteúdo é imediato
na consciência; cie é aquilo que cria diretamente “a transformação da
energia do estímulo exterior em fato de consciência”. Mas na medida em
que este “componente” é a base_c a condição de toda a consciência, ele não
exprime em si toda a especificidade da consciência.
Tomemos o caso de um homem que perde subitamente a vista; o
mundo obscurece-se de certa maneira na sua consciência, mas pode dizer-
se que a sua consciência do mundo muda? Não, por certo. Mas a coisa c
absolutamente diferente se os processos cerebrais superiores deste homem
106 O Desenvolvimento do Psiquismo

ficarem perturbados. Neste caso a consciência transforma-se, se bem que


permaneçam todas as possibilidades de percepção sensível imediata do
mundo. Isto é bem conhecido.
É absolutamente claro também que a modificação e o
desenvolvimento do conteúdo sensível imediato da consciência se
produzem apenas no decurso do desenvolvimento das formas humanas da
atividade. Assim o ouvido fonético criou-se no homem devido aos homens
empregarem a palavra sonora, tal como o olho humano só começa a ver de
modo diferente do olho grosseiro do animal na medida em que o objeto se
torna para o homem um objeto social.
Por fim, o último problema que devemos tratar brevemente diz
respeito ao método geral do estudo psicológico do desenvolvimento da
consciência.
Sabe-se que o desenvolvimento da consciência não tem história
independente, que ele é determinado no fim das contas pela evolução da
existência. Esta concepção marxista gerai conserva naturalmente todo o
seu valor em relação ao desenvolvimento da consciência individual.
Em que consiste a ligação concreta que existe entre as
particularidades psicológicas da consciência individual do homem e o seu
ser social? por outras palavras, como passar da análise das condições da
vida da sociedade à analise da consciência individual? Esta passagem é
aliás, possível?
A resposta decorre do fato psicologicamente fundamental de que a
estrutura da consciência humana está regularmente ligada a estrutura da
atividade humana.
A atividade humana não poderia, aliás, ler outra estrutura que a
criada pelas condições sociais e as relações humanas que delas decorrem.
Sublinhemos, todavia, ao mesmo tempo, que quando se trata da
consciência de um indivíduo isolado devemos ter presente, no espírito, as
condições concretas em que o homem se encontra colocado pelas
circunstâncias e que esta relação está longe de ser direta.
O nosso método gerai consiste, portanto, cm encontrar a estrutura
da atividade humana engendrada por condições históricas concretas,
O Desenvolvimento do Psiquismo 107

depois, a partir desta estrutura, pôr em evidência as particularidades


psicológicas da estrutura da consciência dos .homens.

2. A consciência primitiva

De maneira injustificada, a literatura psicológica burguesa dá ao


conceito de consciência primitiva (diz-se mais frequentemente mentalidade
primitiva) uma significação muito ampla e muito imprecisa. Lévy-Bruhi e
outros qualificam dc primitiva toda a consciência que difere da consciência
dos homens que pertencem às sociedades ditas civilizadas. Isto cria uma
oposição funcionalmente errada entre dois tipos dc psiquismo, “inferior e
“superior”; esta oposição fundamenta as “doutrinas” reacionárias e
colonialistas da dita insuficiência psíquica de povos inteiros.
Quando nós falamos de consciência primitiva, entendemos uma
coisa absolutamente diferente: a consciência humana nos primeiros
estágios do desenvolvimento da sociedade, quando os homens, já munidos
de instrumentos primitivos, travavam uma luta coletiva contra a natureza;
quando efetuavam o trabalho em comum e a propriedade dos meios da
produção e dos seus frutos era comum; quando, por consequência, a
divisão social do trabalho, as relações de propriedade privada e a
exploração do homem pelo homem não existiam. Hm resumo, queremos
falar da consciência humana nas primeiras etapas do desenvolvimento das
comunidades primitivas.
Psicologicamente, como se caracteriza a estrutura da consciência
destes homens no início da história?
Esta estrutura depende das particularidades essenciais e inertes à
atividade do homem nas condições encaradas. Caracteriza-se, em primeiro
lugar, pelo faio de a nova estrutura da atividade, social por natureza, não
englobar iniciaimente todos ós aspectos desta atividade.
O domínio do consciente limita-se às únicas relações do indivíduo
que respeitam diretamenle ao processo de produção material. “A produção
das idéias, das representações e da consciência está, primeiro, diretamente
ms O Desenvolvimento do Psiquismo

e intimamente, ligada à atividade material e ao comércio material dos


homens...” , escrevia Marx. Razão por que, por exemplo, a esfera das
relações sexuais não está nunca representada nas significações linguísticas
primitivas; a prova é-nos dada pelo fato de que todos os termos que se
referem à sexualidade serem na origem termos as sexuais. Por esta mesma
razão, os termos que servem para designar os animais domésticos
aparecem antes dos que designam os animais selvagens; o mesmo se passa
para as plantas.
Por outras palavras, na aurora do desenvolvimento humano, a
esfera das significações linguísticas coexiste com a esfera, muito mais
vasta, dos sentidos biológicos instintivos, tal como coexistem ainda as
relações socialmenle mediatizadãs do homem na natureza com as
numerosas ligações instintivas que. ele mantém com esta. Este é o primeiro
ponto.
Um traço que caracteriza a consciência nesta fase precoce do seu
desenvolvimento é que, mesmo nos seus limites estreitos, o consciente não
está ainda na sua plenitude, assim, o campo interior da percepção,
inicialmente sombrio, não se ilumina de súbito regularmente da “luz da
consciência”, fraca e vacilante à partida, depois cada vez mais forte e
finalmente bastante intensa para permitir distinguir com justeza e precisão
cada vez maior o conteúdo que nela se manifesta. Na origem, o consciente
está estreitamente limitado.
Eis por fim o terceiro traço da consciência primitiva que lhe
determina a estrutura geral, como a formação geral, e que se conservará ao
longo da existência da comunidade primitiva.
Na origem, os homens não têm qualquer consciência da sua
relação com a coletividade. Não surge senão um princípio de consciência
de que o homem vive em sociedade. “...Este início, diz Marx, é tão animal
como o é a própria vida social neste estágio; é uma simples consciência
gregária o homem distingue-se aqui do carneiro pelo único fato de a sua

M K. Marx: í ideologia alemã: “Feuerbach". hd. Sociales, paris, p. 50.


O Desenvolvimento do Psiquismo 109

consciência tomar nele o lugar do instinto ou do seu instinto se tornar um


instinto consciente. „ 3 8
■ .

Nas etapas ulteriores, quando a consciência humana realizar os


grandes progressos que veremos, as significações linguísticas que se criam
na atividade coletiva de trabalho não refletem apenas as relações dos
homens com a natureza, mas também as relações do homens entre si. Mas
as relações que têm os diferentes participantes do trabalho coletivo com as
condições e os meios de produção permanecem, no conjunto, idênticos;
por este fato, o mundo é refletido da mesma maneira sob a forma das
mesmas significações, tanto na consciência individual como no sistema de
significações lingüísticas que formam a consciência da coletividade.
Psicologicamente, isto deve-se a que o sentido que um fenômeno
consciente tem para um indivíduo coincide com o sentido que ele tem para
a coletividade e que se fixa nas significações lingüísticas. lista inseparação
dos sentidos e das significações na consciência é possível, neste estágio,
porque o domínio do consciente permanece durante muito tempo limitado
às relações diretas de todo o grupo, e também porque as próprias
significações lingüísticas não estão ainda suficientemente diferenciadas.
A coincidência dos sentidos c das significações constitui a
principal característica da consciência primitiva. Sc bem que a
decomposição desta coincidência se prepare no seio do regime das
comunidades primitivas, ela só se efetua com a desagregação deste regime.
Do ponto de vista do desenvolvimento da consciência, é o
alargamento do domínio do consciente, ao qual conduz necessariamente o
desenvolvimento do trabalho, dos instrumentos, das formas e relações de
trabalho, que prepara a separação do sentido da significação.
A primeira transformação importante, no sentido de um
alargamento do domínio do consciente, é realizada pela complexidade das
operações de trabalho e dos instrumentos. A produção exige cada vez mais,
de cada trabalhador, um sistema de ações subordinadas umas às outras c,
por consequência, um sistema de fins conscientes que por outro lado,

,KK arl M arx: A ideologia alemã “Feüerbach". Ed. Sociales, Paris, p. 60.
no O Desenvolvimento do Psiquismo

entram num processo único, numa ação complexa única. Psicologicamente,


a fusão cie diferentes ações parciais numa ação única constitui a sua
transformação em operações. Por este fato. o conteúdo que outrora
ocupava, na estrutura, o lugar de fins conscientes de ações parciais, ocupa
doravante, na estrutura da ação complexa, lugar de condições de
realização da ação. Isto significa que doravante as operações e condições
de ação também elas podem entrar no domínio do consciente. Em
contrapartida, não entram aí da mesma maneira que as ações e os seus fins.
Esta metamorfose das ações, a saber: a sua transformação em
operações, e, por consequência, o nascimento de operações de um tipo
novo (chamar-lhe-emos operações conscientes) foi muitíssimo bem
estudada, nas condições atuais, bem entendido. Razão por que nos é fácil
descrevê-la.
Tomemos o caso de um atirador: quando ele atinge o alvo, efetua
uma ação bem determinada. Como caracteriza esta ação? Em primeiro
lugar, evidentemente, pela atividade em que se insere, pelo seu motivo e,
portanto, pelo seniido que ela tem para o indivíduo que a efetua. Mas ela
caracteriza-se também pelos processos e operações através dos quais se
realiza. Um tiro justado requer numerosas operações, cada uma
respondendo às condições determinadas da ação dada: é necessário assumir
uma certa pose, apontar, determinar corretamente a mira, encostar ao
ombro, reter a respiração e premir corretamente o gatilho.
Para o atirador experimentado, estes diferentes processos não são
ações diferentes. Os fins correspondentes não se distinguem na sua
consciência. O atirador não diz: “Agora devo por a arma no ombro, agora
retenho a minha respiração etc. . Na sua consciência só há um único fim:
atingir o alvo. Isto significa que ele domina as operações motrizes que o
tiro exige.
A coisa é absolutamente diferente naquele que se inicia no tiro.
Deve primeiro ter por fim agarrar a espingarda; é nisso que reside a sua
ação; em seguida, a sua ação consciente consiste em visar etc. Ao estudar a
aprendizagem do tiro ou qualquer outra ação complexa, vemos portanto,
O Desenvolvimento do Psiquismo III

que os elos que a compõem se formam inicialmente como ações separadas


e só se transformam em operações ulteriormente.
Estas operações distinguem-se todavia, das que aparecem por
simples adaptação da ação às condições da sua realização. As experiências
mostram que estas operações se caracterizam sobretudo objetivamente pela
sua flexibilidade e aptidão para serem dirigidas. Elas distinguem-se
igualmente por toda uma outra realização com a consciência.
A ação e o seu fim. quando entram na composição de outra ação,
não se “apresentam” diretamente na consciência. Isto não significa que
deixem de ser conscientes. Ocupam apenas outro lugar na consciência; são
igualmente, por assim dizer, controlados, conscientemente, o que significa
que. em certas condições podem ser conscientes. Na consciência do
atirador experiente, por exemplo as operações que consistem em ajustar o
tiro ou apontar ao alvo podem não estar presentes. Basta todavia o menor
desvio em relação à execução normal da operação para que esta última,
bem como as suas condições materiais, apareçam nitidamente à
consciência.
Esta transformação do conteúdo inconsciente em conteúdo
consciente e inversamente que se produz em ligação com a modificação
com o lugar ocupado por este conteúdo na estrutura da atividade, pode
atualmente ser explicada pela neuroitsiologia.
As investigações atuais mostram que toda a atividade é, de um
ponto de vista fisiológico, um sistema funcional dinâmico, regido por
sinais complexos e variados, provenientes quer do meio exterior quer do
próprio organismo. Estes sinais penetram nos diversos centros nervosos
(que estão ligados entre si), entre outros os centros proprioceptivos, e são
sintetizados. E precisamente o fato de tal ou tal centro nervoso intervir ou
não que caracteriza a estrutura da atividade sob o aspecto neurológico. A
atividade pode desenrolar-se em diferentes etapas do sistema nervoso, com
o concurso de diferentes “níveis”. Todavia estes últimos não têm todos os
mesmos poderes. Um é dominante, enquanto os outros desempenham o
papel de fundo (os “níveis de fundo” segundo a terminologia de
Bernstein). O que devemos reter é que N. A.v Bernstein sublinhou
112 O Desenvolvimento do Psiquismo

particularmente, é que os sinais sensíveis conscientizados são sempre os do


nível mais elevado, o nível dominante. É este conteúdo consciente que rege
a atividade cuja estrutura pode variar. Quanto ao seu nível dominante, ele
próprio foi determinado por aquilo a que Bernstein chama a tarefa, ou seja
aquilo que nós designamos pelo termo dc “fim ' na nossa própria
terminologia. (Nós chamamos tarefa a uma coisa um pouco diferente, um
dado fim em determinadas condições).
Se bem que as relações descritas estejam estabelecidas para uma
consciência inteiramente desenvolvida, elas permitem compreender a
origem histórica da possibilidade de uma tomada de consciência não
apenas do conteúdo que ocupa o lugar de fim na estrutura da atividade,
mas também uma tomada de consciência dos modos de atividade das
condições em que se efetua a atividade.
A necessidade da tomada de consciência das operações tem a sua
causa na passagem à fabricação de utensílios diferenciados, em particular
de instrumentos compostos. Os instrumentos mais antigos, como
testemunham as descobertas arqueológicas, podiam ainda resultar dc uma
simples “adaptação” dos objetos naturais às condições da ação de trabalho
( cf. “o retoque natural’' dos instrumentos de pedra, feito no decurso da sua
utilização).
ü fabrico de instrumentos especializados c diferente. A sua
produção exige a distinção c a consciência das operações. A produção de
um instrumento deste tipo tem com efeito como fim uma operação de
trabalho, materializado no instrumento.
Assim, as operações de trabalho que se formaram inicialmente no
decurso de uma simples adaptação às condições exteriores conhecem uma
nova gênese: quando o fim de uma ação entra numa segunda ação,
enquanto condição da sua realização, ela transforma-se em meio de
realização da segunda ação, por outra palavras, torna-se operação
consciente. Isso acarreta um alargamento considerável da espera do
consciente. Compreender-se-á facilmente toda a importância deste fato
para o desenvolvimento ulterior da atividade humana.
O Desenvolvimento do Psiquismo 113

Sobre o pSano da estrutura cia consciência humana, a formação de


operações conscientes representa um novo passo no desenvolvimento da
consciência humana. Este passo consiste no aparecimento dc um conteúdo
“controlado conscientemente1' ao lado do conteúdo apresentado na
consciência e nas passagens de um ao outro. Para evitar todo o mal
entendido convém notar que a relação da consciência que nós descrevemos
subsiste mesmo nas formas desenvolvidas desta última; todavia, não é
imediatamente apreendida pela nossa introspecção. Quando um homem lê,
por exemplo, ele tem a impressão de que as idéias expressas no livro e a
forma exterior gráfica da sua expressão, o texto propriamente dito, são
conscientizados de modo semelhante. Com efeito não é bem assim; na
realidade, só as idéias estão presentes na consciência; quanto à sua
expressão, o lado exterior do texto, ela pode ser consciente, mas
eventualmente. É o caso quando há omissões, gralhas etc. Todavia se o
leitor perguntar se tem igualmente consciência do aspecto exterior do
texto, o seu fim desloca-se do conteúdo para o aspecto exterior do texto e
Uca então, por certo, consciente deste aspecto. Estas transformações
inapercebidas das operações em ação (no caso, o texto percebido primeiro
como meio de leitura é agora percebido como ação interior, independente e
orientada) criam a ilusão de que “o campo da consciência não é
estruturado.
Integrando as condições concretas, os meios e modos de ação, o
consciente alarga sua esfera; no entanto isso não constitui todo o processo.
Com efeito, a atividade sofre uma outra transformação essencial; a
produção imediata não é a única a ser consciente, a das outras relações
humanas também se tornam igualmente conscientes. Esta transformação
tornou-se necessária pelo aparecimento dc uma divisão técnica do trabalho
relativamente estável, que se traduz no fato de certos homens terem
doravante funções de produção fixadas, quer dizer, efetuarem
permanentemente ações que pertença a um domínio bem preciso. A
conseqüência natural (já exposta pela psicologia antiga) é uma espécie de
deslocamento do motivo destas ações para o fim. A ação também se
transforma, não em operação, como vimos anteriormente, mas em
IN O Desenvolvimento do Psiquismo

atividade, tendo um motivo próprio. Isto permite então aos motivos


entrarem também na esfera do consciente.
Nos estágios superiores do desenvolvimento observam-se
constantemente deslocamentos de motivos análogos. São os casos habi­
tuais do homem que começa a efetuar certas operações sob a influência de
um motivo preciso e que acaba por efetuá-los para si mesmos, tendo-se o
motivo de certo modo deslocado para o seu fim. Isto significa que estas
ações se tornaram atividade. Os motivos de atividades com esta origem são
motivos conscientes. Mas não se tornam conscientes por si mesmos
automaticamente. Este processo exige uma atividade especial, um ato
especial. Este ato é aquele que reflete a relação que existe entre o motivo
de uma atividade concreta e o de uma atividade muito mais ampla que cria
uma maoir relação vital, mais geral cm que entra a atividade concreta
em questão.
Surgindo inicialmente do deslocamento efetivo dos motivos para
os fins conscientes, o processo da tomada de consciência dos motivos
torna-se, posteriormente, de certo modo, o mecanismo geral da
consciência. Razão por que podem igualmente tornar-se conscientes, entrar
no domínio do consciente, os motivos que correspondem às relações
biológicas originais.
Este fato tem um duplo significado.
Primeiro:, permite compreender psicologicamente como numa dada
etapa da evolução sócio histórica, ascendem à consciência o reflexo não
apenas da esfera da produção material imediata, mas também o da esfera
das outras relações humanas.
Assim, na aurora do desenvolvimento da sociedades as relações
sexuais, que nada ainda limitavam, pertenciam à esfera das relações
estritamente instintivas. Quando o círculo dos laços matrimoniais possíveis
entre os sexos começa a apertar, é prova de que as relações sexuais
entraram na esfera das relações conscientes. O próprio fato de certas
uniões, serem objeto de interdição implica que os laços de parentesco
podem tornar-se conscientes.
O Desenvolvimento do Psiquismo 115

Em segundo íugar, o deslocamento dos motivos para os lins das


ações permite compreender psicologicamente como novas necessidades
podem aparecer e como se transforma o seu tipo de desenvolvimento.
A primeira condição de toda a atividade é uma necessidade.
Todavia, em si, a necessidade não pode determinar a orientação concreta
de uma atividade pois é apenas no objeto da atividade que ela encontra a
sua determinação: deve, por assim dizer, encontrar-se nele. Uma vez que a
necessidade encontra a sua determinação no objeto (se “objetiva" nele), o
dito objeto torna-se motivo da atividade, aquilo que o estimula. Na
atividade animal.
O domínio dos motivos possíveis está estritamente limitado aos
objetos naturais concretos que respondem às ngeessidadcsJiioló gicas do
animal, e toda a evolução das necessidades está condicionada por uma
mudança da organização física dos animais.
A coisa é absolutamente diferente nas condições da produção
social pelos homens dos objetos que são um meio de satisfazer as suas
necessidades. A produção, diz Marx, não proporciona apenas um material
para a necessidade, proporciona igualmente uma necessidade para um
material.
() que isso significa no plano psicológico? Em si, a satisfação de
uma necessidade por intermédio de objetos novos — objetos de consumo
só pode conduzir a dar um sentido biológico adequado a estes objetos e
lazer de modo que futuramente a sua percepção suscite uma atividade que
visa a sua posse. Trata-se da produção que servem para satisfazer uma
necessidade. Para o fazer, o consumo — sob qualquer forma que se
produza — deve conduzir ao reflexo dos meios de consumo, como sendo o
que deve ser produzido. Psicologicamente, isso significa que os objetos —
meio de satisfazer as necessidades — devem aparecer à consciência na
qualidade de motivos, ou seja devem manifestar-se na consciência como
imagem interior, como necessidade, como estimulação e como fim.
Evidentemente, a consciência dos motivos que responde às
necessidades naturais não constitui, ela só, a relação que existe entre a
consciência dos motivos c a evolução das necessidades. O fato psicológico
H6 O Desenvolvimento cio Psiquismo

decisivo consiste no deslocamento dos motivos de uma ação para os fins


que precisamente não respondem diretamente às necessidades biológicas
naturais. É especialmente do caso dos motivos de cognição que aparecem
ulteriormente. O conhecimento, como fim consciente de uma ação, pode
ser estimulado por um motivo que responde à necessidade natural de
qualquer coisa. Mas a transformação deste fim em motivo é também a
criação de uma necessidade nova, neste caso de uma necessidade de
conhecimento.
O nascimento de novos motivos superiores e a formação de
necessidades novas, especifícadamente humanas, correspondentes,
constitui um processo extremam ente complexo. E este processo que se
produz sob a forma de deslocamento dos motivos para os fins e pela sua
conscientização.
Assim, ainda nas condições da sociedade primitiva, o
desenvolvimento da produção material e a constituição das relações inter-
humanas criam já a necessidade de uma plena extensão da esfera do
consciente. À medida que os aspectos e relações da vida humana, sempre
mais numerosos, começam a determinar-se socialmente, isto é, a tornarem-
se sociais por natureza, a consciência vai revestindo cada vez mais o
caráter de forma universal de reflexo psíquico da realidade pelo homem.
Naturalmente, isso não significa que toda a realidade entre de fato na
esfera do consciente; quer simplesmente dizer que tudo para aí pode entrar.
Num breve esboço como este não podemos estudar os fenômenos
da interdependência concreta que existe entre as sucessivas etapas do
alargamento da esfera do consciente e os graus históricos do
desenvolvimento da sociedade primitiva, (sso exige exame especial
aprofundado. Contentar-nos-emos, portanto, em assinalar que os fatos que
caracterizam o nível de desenvolvimento da produção das relações entre os
homens e a sua linguagem testemunham indiscutivelmente que o processo
de alargamento do domin.io-da xon§çiência já está acabado no estágio do
regime da comunidade primitiva.
As etapas do desenvolvimento da esfera do consciente, a que
descrevemos, apenas traduzem o desenvolvimento da consciência sob o
O Desenvolvimento do Psiquismo 117

seu aspeclo funcional, sob a relação do desenvolvimento do processo da


tomada de consciência, listas etapas sobrepõem-se e formam finalmente a
estrutura funcional da consciência. O que caracteriza esta estrutura é que o
processo de tomada de consciência do conteúdo que ocupa um lugar
diferente na estrutura da atividade, se efetua sob uma forma concreta
psi co log icam e nte d iferente.
O conteúdo, que ocupa na estrutura da ação o lugar de fim, está
sempre presente, quer dizer, está sempre conscientizado como atual.
Quanto ao conteúdo que entra na estrutura de atividade na qualidade de
condições de ação e de operações conformes com estas condições, vimos
que era concientizado de maneira diferente. Os motivos da atividade,
enfim, também chegam ainda diferentemente à consciência. Assim, sob
este aspecto funcionai e descritivo, a consciência não nos parece de modo
algum como um “espaço psíquico’' homogêneo e sem qualidades, limitado
pelo seu único volume e peia claridade apenas da sua “iluminação ’, mas
caracterizada pelas inter-rclações determinadas e por uma estrutura
definida, historicamente formada, é a formação desta estrutura funcional
da consciência que se opera no quadro geral do tipo primitivo da
humanidade, que constitui o conteúdo essencial do desenvolvimento da
consciência humana.
Este tipo geral da consciência caracteriza-se, como vimos, pela
coincidência dos sentidos e das significações. Inicialmente] esta
coincidência exprime psicologicamente a identidade da relação que liga os
homens aos meios e aos produtos do trabalho, primeiro os objetos a entrar
no domínio do consciente.
Todavia o desenvolvimento dos meios c relações de produção e,
depois, o alargamento da esfera dos fenômenos conscientes que dai resulta,
deviam inevitavelmente fazer divergir a maneira como estes fenômenos
são refletidos nos cérebros dos homens tomados à parte e a maneira como
são generalizados nas significações 1ingiiísticas, as únicas que permitem a
tomada de consciência dos fenômenos. Na época da sociedade primitiva,
esta divergência traduzia-se no fato do homem conscientizar o sentido dos
fenômenos reais num círculo restrito de significações. Estes últimos
118 O Desenvolvimento do Psiquismo

adquiriram, em contrapartida, a aptidão para passar de um domínio dos


fenômenos da realidade, que refletem, para outro.
Podemos, em certas condições detectar sobrevivências desta
divergência muito após a desagregação da comunidade primitiva. É o que
testemunham os numerosos dados que constituem o aspecto fatual da
célebre concepção de Lévy-Bruhl. Mas esta mesma divergência fornece-
nos a chave de uma melhor compreensão dos fenômenos descritos por
Lévy-Bruhl sob o nome de “pré-lógicos”.
indica o autor que os membros da tribo dos Huichols identificam o
veado com as penas de aves, o trigo com o veado etc. Segundo cie, a
imagem que se apresenta à consciência deles, nestes casos, caracterizaria
precisamente a sua mentalidade. Esta imagem genérica, isto é,
generalizada, escreve Lévy-Bruhl, “implica algo de diferente da imagem
bastante análoga que, nas mesmas circunstâncias, ocorre no espírito de um
Europeu”39. Naturalmente, isto não é possível. A mentalidade desta tribo
não pode-ser tal como ele a descreveu. Ela caracteriza-se justamente não
pela “lei da participação”, que confunde o trigo com o veado numa única c
mesma imagem generalizada, mas sobretudo o fato dos membros desta
tribo semearem racionalmente o trigo e caçarem o veado com a plena
consciência do fim das suas ações. Na prática agem de maneira totalmente
diferente nos dois casos: é evidente que as representações que tem destes
objetos são completamente diferentes e que se não confundem uma com a
outra o pensamento deles quando se cultivam o cereal ou quando
perseguem a caça. Os críticos de Lévy-Bruhl fizeram-lho, aliás notar
muitas vezes.
Outra coisa é saber sob que forma o sentido daquilo que é
representado se manifesta à sua consciência, ou por outras palavras, quais
são as significações linguísticas que objetivam ainda diretamente o reflexo
de certos objetos na consciência, sob o ângulo das relações que existem
entre a coletividade e estes objetos. Sob o ângulo destas relações, o veado c

1,1 1.cvy-B rulil: Lés fonctions mentales deans les sociétés inférieures, Paris. 195 I

V
O Desenvolvimento do Psiquismo 119

o trigo têm efetivamente um ponto comum: são os dois objetos de que


depende a existência da tribo.
Os membros desta tribo afirmam que o trigo era outrora um veado.
Têm uma cerimônia particular, em que colocam um veado em cima do
trigo e se dirigem a e!c como se ele fosse um feixe deste cereal. Lévy-
Bruhl e Lumgoltz consideram que isto provém do fato que, “na
representação dos índios o trigo é um veado”.
Se se parte do fato de que a estrutura da consciência primitiva e da
consciência do homem moderno são idênticas, a hipótese de Lévy-Bruhl é
concebível, se bem que esteja em contradição gritante com os fatos da vida
prática desta tribo. Se, pelo contrário, se admite que a consciência
primitiva tem uma estrutura interna totalmente diferente da nossa, carac-
terizando-se precisamente pela não diferenciação dos sentidos e das
significações, os fenômenos descritos têm então todo um outro valor.
Nesta ótica, a aproximação das significações ‘‘veado’’- "trigo” não
passa evidentemente da forma da conscientização de uma transferência dos
sentidos, isto quer dizer que as relações práticas da coletividade com o
veado, são transferidas para o trigo. Esta transferência reflete o tato de a
agricultura ter substituído a caça pela criação inicialmente predominantes,
o que acarreta uma transformação importante do seio de uma sociedade
agora de clãs. A cerimônia descrita por Lévy-Bruhl fixa ideologicamente
esta transferência.
Encontramos estes fenômeno em outros casos: a “participação ”
ainda mais misteriosa das significações “veado” e “pena” exprime
unicamente a conscientização do fato de que a flecha deve ser fabricada de
maneira a atingir o veado: testemunhos, os pêlos de veado fixados a
extremidade emplumada da flecha.
Os Bantos consideram a esterilidade da esposa uma calamidade.
Lévy-Bruhl explica este fenômeno afirmando que a sua mentalidade
identifica a esterilidade da mulher com uma má colheita. Fraser até
construiu uma teoria a partir daqui, segundo o qual, no mais baixo nível do
seu desenvolvimento, os homens ignorariam de fato as causas naturais da
fecundação (e isto mau grado a experiência social da criação de gado!).
120 O Desenvolvimento do Psiquismo

Devemos, todavia, rejeitar a idéia pré-eoncebida de que a consciência seja


determinada pelo pensamento, pelo conhecimento. Assim, por detrás desta
“participação das representações” ou desta ignorância surge algo de muito
diferente, a saber: uma forma original de expressão, na consciência, da
identidade do sentido social (da significação) destes dois fenômenos, com
efeito, uma família composta de poucos membros, recolhe uma quantidade
insuficiente de grãos, o que equivale a uma má colheita.
Os investigadores descreveram grande número de fatos bastante
notáveis de “participação mística’' das propriedades dos objetos e das
ações ou relações humanas. Nos primórdios do desenvolvimento da
divisão social do trabalho e da propriedade privada, os objetos revestem-se
efetivamente para o homem de propriedades “supra-sensiveis” que não
dependem dos próprios objetos nem da sua natureza, mas das relações
humanas criadas na produção. São estas relações que determinam
realmente a maneira como o objeto se manifesta realmente ao homem. Se a
conscientização reveste formas particulares, diferentes das nossas, isto se
deve, uma vez mais, não ao “misticismo” da mentalidade mas ao fato de
nesta época as relações sociais estarem já objetivamente diferenciadas,
embora a sua consciência conserve ainda a sua estrutura antiga, o seu tipo
antigo de conscientização, por integração direta do sentido conscientizado
nas significações socialmente elaboradas.
A dificuldade que há para distinguir as formações psicológicas e
linguísticas das formações puramente ideológicas complica consideravel­
mente o quadro de conjunto que constituem as diferentes formas descritas
na consciência. A análise deste quadro apela evidentemente para um
estudo preliminar cuidadoso das ligações que existem entre os fenômenos
que caracterizam a consciência e as condições sócio-econômicas concretas
que as engendram. Estando este trabalho insuficientemente realizado na
psicologia “étnica’' moderna, o próprio conceito dc consciência primitiva
continua extremamente vago, como vimos,
Este estudo não se propõe seguir o- curso do desenvolvimento
histórico da consciência; no que concerne às formas iniciais da
O Desenvolvimento do Psiquismo 121

consciência, contentar-nos-emos em estudar a característica geral da sua


estrutura mais primitiva, à qual fizemos alusão anteriormente.
A decomposição da estrutura primitiva da consciências nas
condições do desenvolvimento progressivo efetua-se no próprio seio da
sociedade de clãs. Em contrapartida, a sua nova estrutura só se exprime
plenamente nas etapas tardias da sociedade de classes; propomo-nos agora
descrever os seus principais caracteres nestas etapas.

3. A consciência humana na sociedade de classes

Acabamos de ver a estrutura interna elementar da consciência


humana que reflete a relação do homem com a natureza e com os outros
homens, nas condições da comunidade primitiva. Esta estrutura interna
elementar caracteriza-se pelo fato do sentido dos fenômenos reais coincidir
ainda totalmente para o homem com as significações elaboradas
socialmente e fixadas na linguagem, forma sob a qual os fenômenos
chegam à consciência. A propriedade coletiva coloca os homens em
relações idênticas em relação aos meios c frutos da produção, sendo estes
últimos, portanto, refletidos dc maneira idêntica na consciência individual
e na consciência coletiva. O produto do trabalho coletivo tinha o sentido
comum de “bem”, por exemplo um sentido social objetivo na vida da
comunidade c um sentido subjetivo para cada um dos seus membros. Por
este fato, as significações linguísticas elaboradas socialmente que
cristalizavam o sentido social objetivo dos fenômenos podia igualmente
constituir a forma imediata da consciência individual destes mesmos
fenômenos. R E G ,:J S J g S ^ >
A decomposição desta formação da consciência — poderíamos
qualificá-ía de formação primitiva integrada — foi preparada no próprio
seio da sociedade primitiva. Como dissemos, foi preparada (se
considerarmos as transformações que se produzem de maneira refletida no
seio da consciência) pelo alargamento da esfera dos fenômenos conscientes
e pela defasagem consecutiva entre a riqueza do consciente e a relativa
122 0 Desenvolvimento cio Psiquismo

pobreza da linguagem, o que se traduziu por vezes por uma insuficiência


da aptidão psicológica para diferenciar as significações.
Mas só o aparecimento e o desenvolvimento da divisão social do
trabalho e das relações de propriedade privada poderiam atuar dc modo a
que a estrutura inicial da consciência cedesse lugar a uma nova respon­
dendo às novas condições sócio-econômicas da vida humana.
Esta nova estrutura da consciência caracteriza-se pela relação
fundamentalmente nova que liga os principais “componentes” da
consciência, os sentidos e as significações. Veremos que se tornou uma
relação de exterioridade. Por convenção, qualificaremos esta estrutura de
“desintegrada”.
A transformação essencial que caracteriza a consciência nas
condições do desenvolvimento da sociedade de classes é a modificação
que sofre a relação que existe entre o plano dos sentidos e o plano das
significações nas quais se produz a tomada de consciência.
A segunda transformação capital diz respeito àquilo que se
convencionou chamar as funções da consciência, isto é, os fenômenos
subjetivos que constituem o seu conteúdo. Do ponto de vista do
desenvolvimento funcional da consciência, esta transformação consiste na
formação de processos psíquicos propriamente internos. Primeiramente
estudaremos esta transformação.
Estando o desenvolvimento de linguagem e da palavra na base
desta transformação devemos regressar às fontes destes dois fenômenos.
O desenvolvimento da comunicação verbal faz aparecer ações de
palavra, isto é, ações tendo um fim especial: transmissão verbal,
comunicação de um certo conteúdo.
Este conteúdo é estritamente definido. O desenvolvimento da
palavra não começa pela conversação sobre um tema qualquer. É um fato a
palavra estar ainda inclusa na atividade coletiva dos homens que determina
a sua função. Ela realiza, portanto um certo conteúdo. Qual é, pois, o
conteúdo de atividade que pode ser realizado nas ações verbais?
Evidentemente, só pode ser um conteúdo qne respeite à planificação, à
organização e à direção de uma atividade, isto é, um conteúdo que não
O Desenvohimento do Psiquismo 123

constitui diretamente a realização prática desta atividade. É esta “fase


preparatória” da atividade prática de trabalho que constitui o seu aspecto
teórico. Este último destaca-se, portanto, do processo diretamente prático
do trabalho, embora permaneça ainda confundido com a comunicação
verbal.
A separação da função teórica, cognitiva, da palavra e a sua função
de comunicação propriamente dita, constitui um novo passo. Esta
separação começa na etapa histórica seguinte. Tem por preliminar o
isolamento da função de organização da produção e da troca e, por isso
mesmo, da função de ação. Este fato confere à palavra a sua motivação
independente, ou seja, dizer que ele a transforma em atividade
relativamente autônoma.
Graças ao desenvolvimento da divisão do trabalho e de urna certa
individualização da atividade intelectual, as ações verbais não asseguram
unicamente a comunicação, mas orientam-se agora igualmente para íms
teóricos, o que torna a sua forma exterior facultativa e mesmo supérflua;
razão por que elas revestem posteriormente o caráter de processos
puramente interior.
Estes processos interiores (ações verbais internas, depois, em
conformidade com a lei geral do deslocamento dos motivos, formação de
uma atividade iingüística, interior pela sua forma, e de operações
interiores) manifestam-se agora como puramente cognitivas; processos de
pensamento verbal ou talvez, de memorização ativa etc.; numa palavra,
formam um conjunto particular de processos internos intelectuais que só
são verbais na medida em que os são as significações lingüísticas aptas
para se deslocarem da ação direta do significado que constituem o seu
tecido.
E A forma subjetiva destas significações, isto é, a maneira sensível
como são representadas na consciência individual — imagem sonora da
palavra ou imagem visual interior — não é fundamental. Nem é mesmo
obrigatório que a sua forma seja totalmente inferior. Os processos do
pensamento podem apoiar-se na representação exterior gráficas das
palavras, sobre fórmulas matemáticas ou físicas etc.; podem-se processar
124 0 Desenvolvimento Jo Psiquismo O Desenvolvimento do Psiquismo 125

sob ;i forma cie pensamento cm voz alta ou pensamento ""escrito . Sob o geral por aquilo que eles não são na realidade. Esta atividade loi
ângulo de desenvolvimento das formas de vida humana, o essencial é que considerada na psicologia não como uma das formas, historicamente
estes processos não transformam imediatamente o mundo material e o seu surgidas, de realização de vida humana, real (constituindo apenas, em
produto é teórico qualquer que seja a sua lorma concreta exterior. certas condições históricas precisas, o conteúdo essencial da vida de uma
Por conseqüência, um homem que exerça uma atividade que tenha parte das pessoas), mas como uma atividade particular, como um tipo de
por conteúdo principal estes processos interiores, só pode existir em troca processos particulares, fundamentaimente opostos aos da atividade exterior
do produto desta atividade se receber uma parte dos frutos da produção prática e totalmente independente desta última.
material da sociedade. Os produtos ideais da sua atividade própria devem Evidentemente, a atividade ideal interior é profundamente original
ser transformados para ele em objetos que nada têm de ideal. Assim, a e qualitativamente particular. Nem por isso deixa de ser uma verdadeira
atividade teórica torna-se para o próprio homem um meio de realizar a sua atividade. O trabalho intelectual é portanto, um trabalho — se bem que a
vida prática. Naturalmente, isso só implica que a sua atividade teórica sua forma seja particular.
coincida com o processo material da sua vida. Mesmo subjetivamente, Como qualquer outro trabalho, está submetido às condições gerais
mesmo psicologicamente, ela distingue-se da prática autêntica. Não é isso, da produção; devemos, por exemplo, levar em conta o tempo necessário à
porem, o importante para nós neste momento, mas outra coisa: o fato de sua realização. "De outro modo, exponho-me, dizia Marx, pelo menos, ao
uma atividade humana ideal na sua forma de poder, nas condições de perigo do meu objeto jamais deixar o domínio da idéia para entrar no
separação entre trabalho intelectual e trabalho físico, ser capaz dc realizar a objeto da realidade; que não possa, portanto adquirir outro valor que o de
vida de um homem. um objeto imaginário, isto é, um valor imaginário . "
Assim aparece a forma de atividade que a velha psicologia + Só a divisão social do trabalho poderia criar condições tais que
idealista considerava como exclusivamente "psicológica como relevando viessem a permitir ao homem que este representasse, corno qualquer coisa
apenas da psicologia. Sob este ângulo a sua análise apresenta um interesse de absolutamente diferente dos processos de atividade exterior, os
particular. processos de atividade interior existindo entre estes dois processos uma
Vimos que a divisão social do trabalho leva a que a atividade contradição originai e eterna.
espiritual e a atividade material incumbam a pessoas diferentes. Ao mesmo A análise do processo de desenvolvimento histórico do homem
tempo, essa forma de atividade é isolada da ajjipc!ade_materia I prática, na mostra que a vida humana pode ter por conteúdo principal, e mesmo, em
seqüência do isolamento das ligações e relações pessoais dos indivíduos certas condições, por conteúdo único, uma atividade ideal, teórica. O
para quem ela constituí a ocupação exclusiva. homem cria neste caso produtos ideais teóricos que se transformam para
Este isolamento da atividade intelectual reflcte-se igualmente na ele em objetos que satisfazem as suas necessidades práticas: alimento,
cabeça dos homens que começam a ver nela não uma das tormas sugeridas vestuário, alojamento etc. As relações sociais, no seio das quais se opera
historicamente do processo único da vida real do homem, mas na esta metamorfose, separam a sua atividade ideal da atividade material
manifestação de um princípio espiritual particular — o mundo da prática que incumbem aos outros homens. Se, ao fazê-lo, a sua atividade
consciência, oposto ao mundo da matéria e da extensão. teórica perder o seu sentido próprio e revestir o sentido vulgar de salário, o
Esta concepção idealista errada, que opõe espírito e matéria levou
a que se apresentasse o pensamento e toda atividade espiritual interior em
K. Marx, La Sainte Famlle, lid. Sociales. Paris. 1972. p. 62
126 O Desenvolvimento do Psiquismo

homem procurará afirmar-se ainda mais numa outra atividade intelectual.


A sua nova atividade mais lhe parecerá agora pertencer a um mundo
particular, mundo que pode ser considerado o único real. Quanto mais
rápido o trabalho intelectual se separa do trabalho físico, a atividade
espiritual da atividade material, menos capaz é o homem de reconhecer, no
primeiro, a marca do segundo c perceber a comunidade das estruturas c das
leis psicológicas das duas atividades.
Este fato marcou a psicologia que durante muito tempo sc
desenvolveu estudando apenas a atividade psíquica interior como atividade
totalmente independente da atividade exterior. Razão por que os processos
psicológicos eram considerados unilateralmente, unicamente na qualidade
de determinantes da atividade exterior. Que a formação da atividade
interior depende da atividade exterior, isso permanecia à sombra. Quanto à
formação dos processos intelectuais na criança, considerava-se, no melhor
dos casos, que a sua origem sc devia procurar nas percepções sensíveis; o
desenvolvimento das ações intelectuais era apresentado como um processo
autônomo dc que dependia o desenvolvimento das próprias ações
exteriores. Negligenciava-se o fato de que os processos interiores teóricos
se destacam inicialmente do seio da atividade exterior, e só depois são
transformados num tipo particular de atividade.
Digamos a propósito que a questão de saber se devemos considerar
o pensamento e os outros tipos de processos interiores "ideais’ como
formas da atividade humana ou diferentemente, constitui, verdadeiramente
o problema essencial do método psicológico, da abordagem científica
concreta do psiquismo.
A análise psicológica mostra que a atividade interior teórica possui
a mesma estrutura que a atividade prática. Por conseqüência, devemos,
também no pensamento, distinguir entre a atividade propriamente dita, as
ações e as operações e as funções cerebrais que as possibilitam.
É precisamente a comunidade de estrutura da atividade interior
teórica e da atividade exterior prática que permite aos seus diferentes
elementos estruturais passar — e eles passam realmente — de uns para os
outros; assim, a atividade exterior inclui sempre ações e operações
O Desenvolvimento do Psiquismo 12'

exteriores, ao passo que a atividade exterior inclui ações e operações


interiores de pensamento.
Quando efetuo um trabalho científico onde a minha atividade é
evidentemente mental, teórica. Todavia no decurso do meu trabalho
apresenta-se uma série de fins cuja realização necessita de ações exteriores
práticas. Suponhamos que tenho que montar (montar c não imaginar ou
projetar) uma instalação laboratorial; começo a estender os fios, a
parafusar, serrar, soldar etc.; ao montar esta instalação, efetuo operações se
bem que práticas, não entram menos no conteúdo da minha atividade
teórica e que fora delas estariam desligadas de sentido.
Suponhamos agora que, para pôr em circuito um dos aparelhos da
instalação, devo ter cm conta a grandeza da resistência elétrica do conjunto
do circuito elétrico; ao colocar o fio no borne, calculo mentalmente esta
grandeza: neste caso é a minha ação prática que inclui uma operação
intelectual.
O que há de comum entre a atividade prática exterior e a atividade
interior teórica não se limita unicamente à sua comunidade de estrutura. E
psicologicamente essencial, igualmente que elas religuem, as duas, se bem
que de maneira diferente, o homem ao seu meio circundante, o qual, por
este fato, se reflete no cérebro humano; que uma e a outra formas de
atividades sejam mediatizadas pelo reflexo psíquico da realidade; que
sejam a título igual processos dotados de sentido e formadores de sentido.
Os seus pontos comuns testemunham a unidade da vida humana.
Ocorrida numa etapa histórica precisa, a “desintegração” da vida
humana acarretou uma oposição entre atividade mental interior e atividade
prática, depois de uma relação de ruptura entre elas. Por consequência,
esta relação não é nem universal nem eterna. O homem cuja vida não se
limita ao trabalho intelectual mas que tem diversos tipos de atividade,
física entre outras, tem também um pensamento de aspectos diversos. Este
pensamento não se fixa, portanto, em pensamento abstrato e a passagem do
pensamento à atividade prática efetua-se como um alo absolutamente
natural. Este pensamento “é sempre um momento da vida total do
128 O Desenvolvimento do Psiquismo

indivíduo que se desvanece e se reproduz consoante a necessidade se faz


41 ..
sentir .
É psicologicamente muito importante pôr em evidência a
comunidade de estrutura entre atividade intelectual em prática e a
comunidade de seu elo interno com o reflexo da realidade. Ida permite, em
particular, compreender como, nas condições de um desenvolvimento
completo da personalidade humana, c psicologicamente possível chegar a
uma união equilibrada destas duas formas de atividade que a história
isolara.
A primeira transformação da consciência, engendrada pelo
desenvolvimento da divisão social do trabalho, consistiu, portanto, no
isolamento da atividade intelectual teórica.
Isso c acompanhado de uma transformação na estrutura luncional
da consciência, no sentido em que o homem toma consciência também dos
encadeamentos interiores da sua atividade, o que lhe permite atingir o seu
pleno desenvolvimento. Eles adquirem relativa autonomia c tornam-se
orientados, governáveis e motivados conscientemente, isto quer dizer, que
eles se realizam num tipo de atividade preciso. Subjetivamente, o
psiquismo humano, manifestar-se-á doravante com o pensamento, como
atividade intelectual em geral, como lugar ou sujeito dos processos
interiores psíquicos. Tal foi a descrição que dele tez a psicologia
tradicional.
A segunda transformação da consciência, a mais importante, é.
como vimos, a mudança de estrutura interna. Ela revela-se de maneira
evidente nas condições da sociedade de classes desenvolvidas. A grande
massa dos produtores separou-se dos meios de produção e as relações entre
os homens transformaram-se cada vez mais em puras relações entre as
coisas que se separam (“se alienam”) do próprio homem. O resultado é que
a sua própria atividade deixa de ser para o homem o que ela c
verdadeiramente.

K. Marx: A ideologia alemã. O concilio de Leipzig, p, 296, Ed. Sociales, Paris< 1975.

7
O Desenvolvimento do Psiquismo 129

Esta “alienação” é criada pelo desenvolvimento das formas de


propriedade e das relações de troca. Na origem, o trabalho do homem não
estava separado das suas condições materiais. O homem encontrava-se em
perfeita relação de unidade natural com as condições objetivamente neces­
sárias à vida. Mas o desenvolvimento das forças produtivas desagrega
inevitavelmente esta relação, o que se traduz pelo desenvolvimento das
formas de propriedade. A ligação inicial do trabalhador à terra, aos
instrumentos de trabalho, ao próprio trabalho encontra-se destruída “ .
Finalmente, a grande massa dos produtores transforma-se em operários
assalariados cuja única propriedade é a capacidade de trabalho. As
condições objetivas da produção opõem-se-lhes doravante enquanto
propriedade estranha. Para viver, para satisfazer as suas necessidades
vitais, vêem-se, portanto coagidos a vender a sua força de trabalho, a
alienar o seu trabalho. Sendo o trabalho o conteúdo mais essencial da vida,
devem alienar o conteúdo da sua própria vida.
Isolando os produtores, este processo isola na mesma cajadada as
próprias condições que, sob a forma dc capital, são a propriedade dos
capitalistas. Para o trabalhador, o capitalista é a encarnação das condições
que se opõem a ele. Todavia o capital tem também a sua própria existência^
distinta do capitalista e que domina a sua vida e a submete,
Estas relações objetivas engendradas pelo desenvolvimento da
propriedade privada determinam as propriedades da consciência humana
nas condições da sociedade de classes.
Naturalmente, o psicólogo tradicional recusa-se a estudar as
relações nas quais não vê senão relações entre coisas. Exige que a
psicologia permaneça absolutamente nos limites do “psicológico” que ele
concebe como puramente objetivo. Mesmo o estudo da atividade industrial
do homem se reduz, para ele, ao simples estudo dos seu “componentes
psíquicos”, isto é, das aptidões psíquicas que as técnicas requerem. Nem vê
sequer que a atividade industrial é inseparável das relações sociais42

42 K . M a r x , F u n d a m e n to s d a c r ític a d a e c o n o m ia p o lí t ic a , t. 1, págs. 1 2 -4 2 . K d. A n t r o p o s
130 O Desenvolvimento do Psiquismo

humanas, que ela cria ao desenvolver-se e que determina a consciência dos


homens.
Voltemos à analise destas relações.
A “alienação” da vida do homem tem por consequência a
discordância entre o resultado objetivo da atividade humana e o seu
motivo. Dito por outras palavras, o conteúdo objetivo da atividade não
concorda agora com o seu conteúdo objetivo, isto é, com aquilo que ela é
para o próprio homem. Isto confere traços psicológicos particulares à
consciência.
A atividade do batedor primitivo é subjetivamente motivada pela
parte da presa que lhe caberá e que corresponde às suas necessidades; por
outro lado, a presa é o resultado objetivo da sua atividade, no quadro da
atividade coletiva. Na produção capitalista, o operário assalariado procura,
ele também, subjetivamente, a satisfação das suas necessidades de
alimento, vestuário, habitação etc., pela sua atividade. Mas o seu produto
objetivo é diferente: este pode ser o minério de ouro que extrai, o palácio
que constrói. “O que ele produz para si mesmo não é a seda que tece, não é
o ouro que extraí da mina, não é o palácio que constrói. O que produz para
si próprio é o salário — e a seda, o ouro, o palácio reduzem-se para ele a
uma quantidade determinada de meios de subsistência, talvez a uma
camisola de algodão, ao papel de crédito e a um alojamento numa cave”. U
A sua atividade de trabalho transforma-se, para ele em qualquer
coisa de diferente daquilo que ela é. Doravante, o seu sentido para o
operário não coincide com a sua significação objetiva.
Nas condições da sociedade capitalista, o operário sabe o que é a
fiação ou a tecelagem? Possui ele os conhecimentos e as significações
correspondentes? Naturalmente que possui estas significações; em todo o
caso só na medida em que isso é necessário para tecer, fiar, furar
racionalmente — numa palavra, para efetuar as operações de trabalho que
constituem o conteúdo do seu trabalho. Todavia, nas condições

43
K. Marx. Lu Nouvelle Gazette rhénane, t. IIÍ. p. 229, I d. Sociales. Paris.
O Desenvolvimento do Psiquismo 131

consideradas a tecelagem não tem para ele o sentido subjetivo de


tecelagem, ilação ou de furacão...
“As doze horas de trabalho não têm, de modo algum, para ele, o
sentido de tecer, de fiar, de furar etc., mas o de ganhar aquilo que lhe
permita sentar-se a mesa, dormir na cama44
A tecelagem tem. portanto, para o operário a significação objetiva
de tecelagem, a fiação de fiação. Todavia não é por aí que se caracteriza a
sua consciência, mas pela relação que existe entre estas significações e o
sentido pessoal que tem para ele as ações de trabalho. Sabemos que o
sentido depende do motivo. Por conseqüência, o sentido da tecelagem ou
da fiação para o operário é determinado por aquilo que o incita a tecer ou a
fiar. Mas são lais as suas condições de existência que ele não fia ou não
tece para corresponder às necessidades da sociedade em fio on em tecido,
mas unicamente pelo salário; é o salário que confere ao fio e ao tecido o
seu sentido para o operário que o produziu.
Certamente que a significação social do produto do seu trabalho
não está escondida ao operário, mas ela é estranha ao sentido que este
produto tem para ele. Se tivesse a possibilidade de escolher o seu trabalho,
seria coagido a escolher antes de mais entre dois salários e não entre a
tecelagem e a fiação.
O operário experimenta o sentimento da sua dependência em face
de condições que nada tem de comum com o conteúdo do seu trabalho,
com um sentimento crescente de insegurança face ao futuro. Certas
investigações psicológicas recentes revelam que, na Inglaterra, os
operários de uma fabrica procuram antes de mais nada a segurança do
emprego. Outros fatos vão no mesmo sentido. Por exemplo, a reciclagem
profissional, organizada pelas sociedades industrial c em geral mal aceita
pelos operários, precisamente porque “mina o sentimento de segurança que
lhes proporcionava o seu antigo emprego.”
Estas significações estranhas ao sentido que se esconde por detrás
delas encontram-se natural mente no outro polo da sociedade. Com eleito,

44
K. Marx. Ibici, p. 229.
132 O Desenvolvimento do Psiquismo

para o capitalista o sentido da fiação ou da tecelagem reside no lucro que


dela tira, isto é, numa coisa estranha às propriedades do fruto da produção
c à sua significação objetiva.
A alienação das relações pessoais dos homens e a sua
transformação em puras relações entre coisas manifestam-se de maneira
flagrante no poder que o dinheiro, modo de troca universal, tomou sobre a
vida do homem.
“Quanto menos cada um comer, beber, comprar livros, for ao
teatro ou ao baile, ao bar, quanto menos cada um pensar, amar, teorizar,
cantar, falar, fazer esgrima etc., tanto mais poupará, tanto maior será o seu
tesouro, que nem a traça nem a ferrugem roerão o seu capital. Quanto
menos cada um for, quanto menos cada um expressar a sua vida, tanto
mais possuirá, tanto maior será a sua vida alienada, mais acumulará do seu
ser alienado”. Mas “tudo o que não podes por ti mesmo, o teu dinheiro
consegui-lo-á: cie pode comer, beber, ir ao baile, ao teatro. Pode adquirir a
arte, a erudição, as curiosidades históricas, o poder político: pode viajar,
apropriar todas estas coisas, comprar todas as coisas. Ele é a verdadeira
capacidade45 ”.
Sob o reino da propriedade privada dos meios de produção tudo
toma um aspecto duplo, quer se trate da própria atividade do homem ou do
mundo dos objetos em que vive.
Q quadro cm que o pintor põe toda a sua arte. Ele é obrigado a
fazê-lo para transformar em dinheiro, coisa que nada tem de comum com a
pintura. O quadro conserva todavia o seu verdadeiro sentido para o rico
industrial que o compra. Talvez tome para este último o sentido de objeto
no qual ele entende colocar vantajosamente uma parte do seu dinheiro:
talvez, o de um objeto testemunho da prosperidade do seu proprietário.
O médico que compra a crédito uma clientela para exercer a
medicina numa pequena aldeia de província pode querer muito
sinceramente aliviar os sofrimentos dos seus doentes, talvez seja essa a sua
vocação. Mas simultaneamente é coagido a desejar ver aumentar o número

•lí k . M arx, Manuscriís de 1844, p. 103. Ed. Sociales, 1969, Paris.


O Desenvolvimento do Psiquismo 133

dos doentes, porque a sua própria vida depende disso, uma vez que os
doentes são a base material indispensável ao exercício da sua profissão.
Este dualismo desnatura os sentimentos mais elementares no
homem. O vidraceiro, notava Fourier, alegra-se com o granizo que parte
lodos os vidros. Mesmo o amor pode revestir as formas mais objetivas;
sem falar do amor pelo dinheiro que pode tornar-se uma verdadeira paixão.
A penetração na consciência destas relações traduz-se
psicologicamente pela “desintegração” da sua estrutura geral que
caracteriza o aparecimento de uma relação de alienação entre os sentidos e
as significações, nas quais o seu mundo e a sua própria vida se refratam
para o homem.
Para o reino da propriedade privada, qualquer que seja o traço
histórico concreto do psiquismo humano que nós consideremos (quer ele
se relacione com o pensamento, com os interesses ou os sentimentos), ele
comporta forçosamente a marca desta estrutura da consciência e só pode
ser corretamente compreendida em função das características desta
estrutura. Razão por que ao deixarmos de lado estas particularidades de
estrutura da consciência humana, a pô-las entre parênteses na investigação
psicológica, privamos a psicologia do seu concreto histórico e fazemos
dela uma ciência do psiquismo do homem abstrato, do “homem em geral”.
O que dissemos anteriormente da estrutura da consciência humana,
nas condições da produção capitalista, é ainda muito insuficiente para
caracterizai de maneira precisa no plano psicológico. Para avançar um
poueo, devemos analisar ainda duas circunstâncias pelo menos.
Uma delas decorre da própria natureza da alienação da atividade
humana.
A “alienação” não significa muito simplesmente que qualquer
coisa deixou de existir para mim. O trabalho alienado não é dc modo
algum um trabalho inexistente para o operário. Existe para ele, por certo, e
entra aliás duplamente na sua vida: de maneira negativa e de maneira
positiva.
Hi O Desenvolvimento do Psiquismo

Negativamenle, porque o trabalho lhe toma uma parte da vida pois


fazer pela vida não é viver. A vida começa para ele onde acaba esta
. . . . . 46
atividade, a mesa, cm casa, na cama .
Positivamente, sob duas relações. Primeiro, enquanto meio de
atividade. Fde constitui a riqueza real do aspecto “técnico’' da sua vida, a
riqueza em conhecimentos, em hábitos, em saber-fazer que lhe é
necessário possuir para efetuar seu trabalho.
Segundo, enquanto condição de enriquecimento da sua vida por
um conteúdo novo. muito diferente do da sua atividade alienada, mas
todavia criada por ela. O operário de uma empresa capitalista não aliena
apenas o seu trabalho, entra também por este fato cm relação com outros
homens: com o explorador do seu trabalho, por um lado, e com os seus
companheiros dc trabalho, por outro. Naturalmente, não são apenas
relações “teóricas”. Para o homem, elas encarnam-se-antes de tudo na luta
de classes que tem que travar em todas as etapas do desenvolvimento da
sociedade de classes, como escravo, como servo ou como proletário. Esta
luta compromete os dois pólos da sociedade, tanto o da dominação como o
da exploração.
Do lado da dominação, a luta desenvolve o aspecto inumano do
homem e sabemos ho je até onde esta inumanidade pode ir no horror.
No pólo oposto, a luta desenvolve o aspecto autenticamente
humano do homem. Assim, na sociedade capitalista, “uma vez mais o
trabalhador só tem esta alternativa: aceitar a sua sorte, tornar-se um ‘bom
operário’, servir ‘fielmente’ os interesses da burguesia — e, neste caso, cai
de certo ao nível do animal — ou então resistir, lutar quanto possa pela sua
dignidade de homem, e isto só lhe é possível lutando contra a
burguesia47 ”.
O movimento prático que esta indignação exprime cria uma
verdadeira união entre indivíduos; cies recobrem a sua essência humana e

K. M a rx : L a N o u v e lle G a z e tte rh e n a n e , l. i l l . p . 2 2 9 . E d , S o c ia le s , P a r is .
1,7 F. E n g e ls : L a S itu a tio n de la c la s s e la b o r ie u s e en A n g le t e r r e , p 1 66. E d . S o c ia le s , P a r is .
1975.
O Desenvolvimento do Psiquismo 135

na sua boca a fraternidade dos homens torna-se realidade e a nobreza da


humanidade brilha sobre estas figuras endurecidas pelo trabalho '
As relações dos operários entre si criam neles “o sentido (Sinn) da
coletividade”. Este sentido penetra também a sua relação com o trabalho, o
seu trabalho jamais sc transforma para cie numa simples mercadoria.
A segunda circunstância convém notar, apresenta-se assim: se a
alienação prática do trabalho do operário se acompanha da alienação de
uma parte da sua vida e se isso encontra expressão na consciência, por
outro lado, as relações reais conservam os seu sentido humano para ele.
Este sentido não lhe escapa e não esta de modo algum envolvido pelo véu
místico da religião. Estes ideais espirituais, a sua moral, são humanos; a
sua consciência não tem necessidade de representações religiosas que se
revelam ocas, vazias de sentido para ele. “... E se tem por acaso qualquer
religião ela não é senão formal, mas nem sequer teórica; praticamente, cie
não vive senão para este mundo e nele procura ter direito de cidade
Como na sua atividade não há motivos para que outro homem
possa perder o seu sentido para ele e possa ter a significação de uma coisa,
o operário é muito mais humano que o burguês na vida cotidiana. “Para
eles (os operários - A. E.) todo o homem é um ser humano, ao passo que
para a burguesia o operário é menos que um homem
Os operários sentem ódio e cólera pelos exploradores, mas estes
sentimentos não testemunham uma perda de humanidade. “Esta paixão,
esta cólera são pelo contrário a prova de que os trabalhadores se ressentem
do caráter inumano da sua situação, de que não querem deixar-se resvalar
ao nível do animal51 ”,
“A religião do capital” é um sentimento que os trabalhadores
ignoram totalmente. Para eles, o dinheiro não tem sentido próprio, e se
bem que sejam obrigados a trabalhar por dinheiro, “aos seus olhos, o*50

411 K . M a r x : M a n u s c r its d e 1844, p. 1 0 8 . E d . S o c ia le s , P a ris .


w F . E n g e ls , L a s itu a tio n de la c la s s e la b o r ie u s e e n A n g le t e r r e , p p . 1 7 2 -1 7 3 , E d . s o c ia le s ,

P a r is , 1975.

50 F . E n g e ls , Ib id . p . 1 7 2 .
-------------------..

136 O Desenvolvimento do Psiquismo

dinheiro só tem valor considerando aquilo que lhes permite comprar, ao


passo que para o burguês ele têm um valor particular, intrínseco, o valor de
um bem,.. Razão por que o operário tem também muito menos opiniões
feitas; está mais aberto à realidade que o burguês e não vê tudo através do
prisma do interesse" '
Assim, quando se examina mais de perto o quadro de conjunto
constituído pela vida do homem na sociedade capitalista, imediatamente
descobre não apenas a sua dualidade, mas também a sua contradição
interna. Nestas condições, a vida do homem não se partilha pura e
simplesmente entre o seu próprio conteúdo e o seu conteúdo alienado. Para
o próprio homem, a sua vida é “una” na sua totalidade. Razão por que ela
reveste também a forma de uma luta interior que traduz a resistência do
homem à própria relação que o submete, O fato do sentido e as
significações serem estranhas uma às outras é dissimulado ao homem na
sua consciência, não existe para a sua introspecção. Revela-se-lhe todavia,
mas sob a forma de processo de luta interior aquilo a que se chama
correntemente as contradições da consciência, ou melhor, os problemas de
consciência. São eles os processos de tomada de Consciência do sentido da
realidade, os processos de estabelecimento do sentido pessoal nas
significações.
Estudemos primeiro estes processos sob sua forma mais simples.
O processo de tomada de consciência complica-se por um lado,
pela divergência inicial que existe entre as relações da coletividade e a
realidade circundante, relações generalizadas no sistema das significações
linguísticas; por outro lado, pelas relações pessoais dos indivíduos,
relações que constituem para estes últimos o sentido do refletido. Em
certas condições, este processo pode tomar, como vimos, as formas mais
estranhas, como as “participações”.
Todavia, a consciência não pode desenvolver-se sob estas formas,
enquanto formas universais, para lá de um certo limite. A complexidade da
produção e a extensão consecutiva dos conhecimentos positivos sobre a
O Desenvolvimento do Psiquismo 137

natureza acarretam forçosamente o desenvolvimento e a diferenciação das


significações. Esta precisão faz com que as significações reflitam cada vez
mais as relações objetivas entre os objetos, relações às quais são
submetidos os meios e processos técnicos— socialmente elaborados — da
atividade humana.
Simultaneamente, elas libertam-se cada vez mais da relação social,
nelas cristalizada, que elas têm com os fenômenos significados.
Agora, estas relações são parcialmente refletidas nas significações
particulares, e por um lado, este conteúdo é refletido não nas próprias
significações mas por intermédio das significações. Para bem
compreendermos isto, devemos igualmente ter presentes no espírito as
transformações que as formas da linguagem e as formas da consciência
social sofrem.
Do ponto de vista da história da linguagem, isto liga-se à
“tecnização” da língua (V. Abaev), Isto significa que, decorrente da
evolução da língua as palavras deixam de ser diretamente portadoras de
conteúdo refletido: elas transformam-no indiretamente. Do ponto de vista
da história da consciência social, descobre-se que isto está ligado com o
fato de que “a uma ideologia expressa na língua se substitui uma ideologia
expressa pela língua ”5’ .
Um mesmo sistema de significações verbais está, portanto, apto
para exprimir conteúdos diferentes, até opostos. Razão por que não há
necessidade de línguas diferentes, de sistemas diferentes, de significações
para exprimir as diferenças radicais de representações e de pensamentos
que aparecem inevitavelmente na sociedade de classes. Naturalmente, o
escravo e o proprietário de escravos, o camponês e o senhor, o operário e o
capitalista têm maneiras diferentes e mesmo contraditórias de
representarem o mundo, mas estas diferenças não exigem de modo algum
uma mesma diferença na sua língua, nas significações verbais que eles
possuem e não se reduzem a elas.53

53 V . A b a e v : “ A l í n g u a e n q u a n t o id e o ló g ic a e t é c n ic a " . la z y k i m y c h lé n ié (“ a lín g u a c o
p e n s a m e n t o " ) , t. 2 , L c n i n g r a d o . 1 9 3 4 ( e m l in g u a r u s s a ) .
138 O Desenvolvimento do Psiquismo

Do ponto de vista psicológico, isto é, dos processos da consciência,


isto liga-se ao fato de que este processo tem doravante um caráter
desenvolvido. Com efeito, a revelação do sentido de um fenômeno à
consciência só pode realizar-se sob a forma de uma designação deste
fenômeno; como vimos várias vezes, um sentido não encarnado nas
significações não é ainda consciente para o homem, não é ainda '‘sentido'
para ele. Este estabelecimento do sentido nas significações passa do
simples processo de concretização do sentido nas significações a um
processo bastante complexo, que é de certo modo a solução dc um
problema psicológico particular.
Este problema psicológico é, por vezes, torturante. A literatura
científica e a literatura estética descreveram várias vezes “os tormentos da
palavra”, isto c, os tormentos da objetivação do sentido nas significações,
os tormentos da conscientização do sentido, quando para retomar uma
expressão de Dostoievski, “a idéia não entra nas palavras”. A coisa não é a
mesma em relação aos tormentos criadores do pensamento; estes são os
tormentos da consciência, da tomada de consciência. Por tal motivo, seria
vão procurar a sua natureza na natureza da atividade propriamente
cognitiva.
A sua natureza não reside unicamente no fato do processo pelo
qual o sentido se estabelece nas significações revestir doravante um
aspecto muito complexo; com efeito, a complexidade deste processo abre,
pelo contrário imensas possibilidades. A sua verdadeira natureza encontra-
se nas contradições do conteúdo da própria vida humana; ela está, por
outro lado, ligada à estreiteza da consciência social, tornada doravante
consciência de classe.
Vimos que o homem não está sozinho em face do problema da
conscientização do seu meio circundante, da sua vida e de si mesmo. A sua
consciência individual só pode existir nas condições de uma consciência
social; é apropriando-se da realidade que o. homem a reflete como através
do prisma das significações, dos conhecimentos e das representações
elaboradas socialmente. Assim, nas condições de uma língua desenvolvida
e “tecnicizada”, o homem não controla apenas o domínio das significações

i
O Desenvolvimento do Psiquismo 139

lingüísticas. Ela domina-as, mas apropriando-se do sistema de idéias e de


opiniões que elas exprimem. Psicologicamente, é impossível assimilá-las
dc outro modo. Por outras palavras, a apropriação do sistema das
significações lingüísticas é ao mesmo tempo a apropriação de um conteúdo
ideológico muito mais geral, isto é, a apropriação das significações no
sentido mais amplo do termo 1.
Sabemos que a ideologia dominante, na sociedade de classes, é a
da classe dominante que reflete e reforça as relações sociais existentes.
Vimos, além disto, que essas relações escravizam o homem, submetem a
sua vida c nela criam contradições internas. Tal como a vida humana não
se encarna totalmente nestas relações, assim os sentidos engendrados pela
atividade humana não sc encarnam totalmente nem de maneira autêntica
nas significações que refletem estas relações estranhas a vida. E esta a
causa da imperfeição e da inadequação da consciência e da
conscientização.
Devemos sublinhar que, se bem que se trate de uma inadequação
da consciência interna, ela não pode ser eliminada de outro modo a não ser
pela transformação prática das condições objetivas que a criaram. Mais
precisamente se essas condições se conservam, esta inadequação só pode
ser eliminada à custa de um repúdio pela consciência da vida real ou num
processo de luta ativa contra as ditas condições.
O homem esforça-se por pôr fim à desintegração da sua
consciência. Mas se busca a adequação e a autenticidade da sua
consciência, não é por amor abstrato à verdade. Isso apenas traduz a sua
aspiração a uma verdadeira vida; é por ta! razão que esta aspiração é tão
intensa e os processos da tomada de consciência — os mais secretos, da
“vida interior” do homem — tomam por vezes um curso realmente
dramático.54

54 C h a m a m o s a a te n ç ã o d o le ito r p a r a o d u p lo s e n t id o q u e d a m o s d o te r m o " s i g n it i c a ç ã o :
e m c e r t o s e a s o s e le d e s i g n a a s i g n if ic a ç ã o d e u m a p a l a v r a ( s i g n i l i c a ç a o v e r b a l) , n o u tr o s , o s
c o n h e c i m e n t o s , o c o n t e ú d o d a c o n s c i ê n c i a s o c ía i a s s i m i l a d a p c lò in d iv íd u o .
140 O Desenvolvimento do Psiquismo

Esta aspiração é evidentemente diferente segundo se considera um


ou outro pólo da sociedade; cia reveste formas contrárias e o seu destino é
diferente.
Nos homens das classes dominantes, ela apresenta-se como a
negação de si, a negação de sua própria vida; não pode ser, portanto,
qualquer coisa durável, de sólido; a sua caracterização essencial é a sua
impotência; ela não pode realizar-se senão fícticiamente nos sentimentos.
Máximo Cíorki gravou a forma negativa desta aspiração e a sua
impotência no romance Thomas Gordeiev e na personagem de Bougrov.
A vida de Ignácio Gordeiev é inteiramente consagrada à
acumulação do capital e nisto a sua avidez e a sua severidade não
conhecem limites. “Nos seu períodos de entusiasmo no trabalho, tratava as
pessoas duramente e sem piedade... Não dava tréguas a si mesmo na caça
aos rublos.” Estes períodos eram seguidos de instantes durante os quais
afastava da procura do dinheiro e o mundo lhe aparecia de súbito diferente.
“Ignácio Gordeiev sentia que não era o senhor do seu bem, mas o seu
humilde escravo. Então acordava nele outra alma...” “Com raiva atirava-se
às próprias cadeias que forjara e com que se tinha carregado, atirava-se a
elas e não tinha força para as quebrar.” Vinha então um tempo de pândega,
seguido de vários dias de arrependimento e de oração. “Senhor! Tu vês!...’ ,
sussurrava surdamente Ignácio.
Gorki registra estas palavras de Bougrov: “Um dia, cai cm si,
acalma-se e, de súbito a alma estremecida pensa resignado: Senhor! E
possível que todos os homens ou quase todos habitem trevas tão cegas
como as tuas?”
“É muito estranho, nota Gorky saber que este homem que vive do
trabalho de alguns milhares de homens é capaz de dizer que, na sua
opinião, este trabalho é inútil e não leva a nada.”
A impotência desta aspiração a adequação da consciência apenas
traduz a inadequação objetiva das relações vitais reais do homem.
Psicologicamente, ela é duplamente condicionada, primeiro, pela desna­
turação dos sentidos que criaram as relações de coisas às quais está
submetida a vida humana, em seguida, pelo sistema de significações, pela
O Desenvolvimento do Psiquismo NI

ideologia que precisamenle reflete estas relações de coisas inautênticas .


Com efeito, a vida de lgnácio Gordeiev não é senão acumulação de capital,
cia materializa-se apenas nisto. Na sua materialização, ela subordina
mesmo os sentimentos e os desejos mais Íntimos de Gordeiev. Ele deseja
ardentemente um filho, mas mesmo este sentimento - todavia tão humano!
- tem nele um sentido totalmente desnaturado, puramente material. "E um
filho que me falta! Compreendes? Um filho, um herdeiro! A quem deixarei
o meu capital quando morrer?... E uma angústia implacável se apoderava
dele.” No pólo do trabalho, a aspiração a uma consciência adequada é, pelo
contrário, a expressão psicológica de uma aspiração verdadeiramente vital.
Ela não se contradiz, não nega o conteúdo real da vida humana, Ela afirma,
pelo contrário, o seu desenvolvimento mais completo.
Sabe-se que, com o desenvolvimento da produção capitalista, o
trabalho toma um caráter cada vez mais coletivista: enormes massas de
operários se unem e sc aproximam na luta prática contra a burguesia.
Nestas condições, que são as da vida dos trabalhadores, não há traço das
condições que fixam na sua consciência as relações dominantes. Mesmo os
últimos laços do patriarcado que mascarava outrora o verdadeiro caráter
destas relações estão definitivamente quebrados.
Seguem-se que as relações predominantes, bem como os elementos
de relações novas que elas dissimulam entre si, tomam cada vez. mais para
os operários o seu sentido real, autêntico.
Mas este sentido não é imediatamente consciente de maneira
adequada. Para se tornar consciente, deve encarnar, entrar para a
consciência nas significações, elaboradas socialmcnte, que refletem a real
natureza destas relações. Ora, nas condições históricas consideradas, as
significações dominantes são as representações, as idéias que traduzem a
ideologia da burguesia. Elas são, portanto, estranhas a este sentido. E o seu
enraizamento na consciência das massa a causa da inadequação
psicológica, da “inautenticidade” da consciência.
Vimos já que não c indiferente, bem pelo contrário, qualquer
inadequação da consciência e da tomada de consciência; e com efeito, por
detrás dela dissimula-se a inadequação da própria vida. pois a consciência
142 O Desenvolvimento do Psiquismo

não é apenas um “epifenômeno” ou “um fenômeno anexo”; a consciência é


também condição necessária da vida. Isto explica a aspiração inevitável
para superar esta inadequação.
A aspiração à adequação da consciência reveste, no pólo do
trabalho, nas condições históricas consideradas, uma forma particular,
radicalmente diferentes das formas que podemos observar no pólo do
capital. Não cria nem a negação nem o abandono da vida real, nem a perda
ou a desnaturação do seu sentido para o homem; cria sim a negação e o
abandono das significações inadequadas, que refratam falsamente a vida na
consciência. Esta aspiração cria, por outro lado. um terreno psicológico
favorável à assimilação de significações adequadas, de uma ideologia
adequada; cria aquilo que se manifesta objetivamente por uma atração pela
ideologia socialista, pela consciência socialista cientifica.
Isto deve-se a que, por um lado, o sentido das relações objetivas
existentes não pode ainda realizar-se dc maneira adequada na consciência
dos operários, e conservando ainda a sua forma de sentido inconsciente, de
instinto, por outro, nem por isso deixa de se realizar na vida prática, na luta
espontânea, na união prática, nos seus contatos. Sendo o sentido verdadeiro
das relações existentes, ele é eficiente. Razão pela qual as dificuldades e as
contradições da consciência não tomam a forma de uma revolta impotente
contra si mesma, de um sentimento ineficaz, mas de uma revolta contra a
ideologia que escraviza a consciência e por uma aspiração a uma
compressão e a um saber autênticos. A revolta dos operários contra as
grilhetas da ideologia burguesa e o seu gosto por uma compressão
autêntica são suficientemente conhecidos para que seja necessário dar
exemplo.
Do ponto de vista psicológico, temos aqui no fundo uma nova
relação entre os componentes principais da estrutura interna da consciência
que nós distinguimos, se bem que isso seja ainda no quadro da sua
estrutura geral anterior. Esta relação exprime-se no novo papel que as
sigmllcações e as idéias adquiridas desempenham na força maior que elas
podem adquirir refletindo as relações reais de maneira adequada.
O Desenvolvimento do Psiquismo 143

As idéias que exprimem estas relações verdadeiras, as idéias do


socialismo científico, que criam uma nova ideologia socialista nas
condições do capitalismo, são o leito de homens que dominando a ciência
estão ao mesmo tempo penetrados pela compreensão do sentido do movi­
mento operário.
O papel importante das idéias do socialismo científico foi posto em
evidência pela teoria Marxista da penetração da consciência socialista no
movimento operário espontâneo. Nós só queremos aqui sublinhar ainda
uma vez um dos elementos psicológicos mais importantes da consciência
nesta etapa da sua história: a nova correlação que aparece entre os sentidos
e as significações, as idéias que as encarnam doravante, correlação que
notamos mais atrás e que confere às significações e às idéias um papel
particular na vida.
Esta nova correlação é ta! que a conscientização dos sentidos que o
homem opera no sistema destas significações, confere às suas ações traços
psicológicos novos. As ações humanas recobrem toda a força e toda a
naturalidade do instinto, conservando a racionalidade e a clareza dos fins
próprios da atividade humana desenvolvida.
A sua força crescente é para os ideólogos burgueses um “enigma
psicológico”. E!es estão todavia conscientes de que este fenômeno está
ligado à propagação das idéias do socialismo cientifico, o bastante para
intensificar a sua luta contra estas idéias.
Em certas circunstâncias, esta força transforma-se finalmente
numa força de ação histórica, que abole o domínio das relações de
propriedade privada e liberta o trabalho do homem. Esta supressão prática
das relações de propriedade privada e esta libertação prática do trabalho
humano que conduzem à “reintegração” (Marx) do próprio homem,
conduzem ao mesmo tempo à reintegração da consciência humana. É
assim que se efetua a passagem a uma nova estrutura interna da
consciência, a uma nova “formação” da consciência, à passagem à
consciência do homem socialista.
A transformação psicológica essencial é então a da relação
principal cia consciência, a relação entre o sentido e a significação. Como
144 O Desenvolvimento do Psiquismo

toda a relação do conteúdo, este último não pode transformar-se sem uma
modificação destes dois elementos que o compõem. Na ocorrência, esta
ultima não é idêntica para as duas componentes.
A sua base é o retorno prático consecutivo à abolição da
propriedade privada dos meios de produção, do conteúdo subjetivo da
atividade, isto é, do sentido real que ela tem para o homem, ao seu
conteúdo objetivo, a sua não-coincidência e a sua contradição são
eliminadas.
O operário socialista tal como o operário da empresa capitalista
tece, fia etc. Mas para ele o seu trabalho tem realmente o sentido de
tecelagem, fiação etc. Para cie, o motivo e o produto objetivo do trabalho
não são estranhos um ao outro, porque ele não trabalha para os
exploradores, mas para ele, para a sua classe, para a sociedade.
O operário socialista recebe um salário em troca do seu trabalho;
também para ele o trabalho tem, portanto uma significação de salário, mas
para este último não é senão um meio para ele de realizar uma parte dos
frutos da produção social para o seu consumo pessoal. O sentido do
trabalho modifica-se porque os seus motivos são novos.
A nova motivação do trabalho é também uma atitude nova face ao
problema que põe o domínio da técnica, dos meios de trabalho e das
operações produtivas. Enquanto relação de consciência, é a relação que
existe entre o sentido do trabalho e o conjunto das significações concretas
c conhecimentos que com elas se relacionam. Estas significações concretas
— conhecimentos, saber-fazer — deixam de ser estranhas ao sentido do
trabalho. O seu domínio não c apenas a condição do salário ou, se se
considera o empresário capitalista a condição de lucro: nos dois casos a
condição dc obtenção de resultado nada tem de comum com a essência da
produção e dos seus frutos. Estas significações concretas aparecem ao
homem na sua realidade, no seu conteúdo próprio, como condição de uma
forte produtividade do trabalho. Compreende-se que a sede de
conhecimentos seja particularmente grande nestas condições.
É uma condição indispensável à evolução da consciência do
homem novo: o sentido novo deve com efeito realizar-se psicologicamente
O Desenvolvimento do Psiquismo 145

nas significações, pois um sentido não objetivado e não concretizado nas


significações, nos conhecimentos, é um sentido ainda não consciente, que
não existe ainda totalmente para o homem. O novo sentido do trabalho
realiza-se na assimilação daquilo a que se chama a cultura do trabalho, que
constitui nele o aspecto intelectual.
O mundo das significações manifesta-se agora ao homem de
maneira diferente. Objetivamente, se, por um lado, a riqueza da
experiência prática humana, cristalizada e refletida no mundo é assimilada
muito intensamente, por outro lado esta riqueza manifesta-se doravante
para os homens à luz de novos sentidos pessoais. Tudo o que nela é
autêntico se apresenta à consciência com extremo vigor e desenvolve-sé
rapidamente; tudo o que é fictício perde o seu sentido e desaparece.
 estrutura interna nascente da consciência, a sua nova
“formação”, caracteriza-se, primeiro, por esta nova relação entre sentido e
significações. Não é de modo algum um retorno à sua coincidência inicial,
à sua fusão pura e simples. Esta nova relação conserva a forma
desenvolvida de passagens complexas de uma para a outra. Há como que
uma rotação do plano dos sentidos que abole o fenômeno de desintegração
da consciência. Agora, a consciência humana apresenta uma estrutura
integrada.
Esta característica estruturai da consciência caracteriza-a verdadei­
ramente psicologicamente? Esta questão tem razão em se pôr na medida
em que a consciência se caracteriza, entre outras, pela relação que a liga à
consciência social, ao seu conteúdo ideológico, que em si não é
naturalmente objeto de um estudo psicológico. O instrumento, por
exemplo, não é de modo algum em si um objeto “psicológico”; todavia, a
estrutura interna da atividade intelectual ligada ao instrumento e ao
processo de domínio do instrumento tem indubitavelmente um conteúdo
psicológico. Mediatizando a atividade do homem, o instrumento, reorga­
niza-a de tal maneira que mesmo os processos mais elementares que a
constituem se transformam.
As diferentes ações modificam-se sejam elas exteriores, práticas ou
interiores, teóricas, a sua transformação cria o desenvolvimento dos meios
146 O Desenvolvimento do Psiquismo

de ação, das operações e, por conseqiiência, o das significações, nas quais


estas ações se cristalizam para a consciência. Por fim, como mostram
certas pesquisas experimentais atuais, as próprias funções elementares
mudam segundo as operações que realizam; um só exemplo bastará: os
limiares das sensações são suscetíveis de variações sensíveis, em função
do papel que desempenha na atividade da forma de sensibilidade e da
maneira como entra nesta atividade a operação sensorial correspondente.
É esta dependência estritamente objetiva entre os processos
parciais e a estrutura global da atividade e da consciência dos homens —
determinada pelas condições históricas concretas da sua vida —, que
explica psicologicamente a transformação das propriedades e forças
humanas, transformação que se produz sob os nossos olhos e cria a nova
face psicológica do homem. Não se pode, por exemplo não deixar de ver a
relação interna entre o fato dos homens descobrirem a sua verdadeira
comunidade, comunidade que não altera doravante a forma das coisas que
afetavam as suas relações mútuas e, o fato dos sentimentos outrora
dominantes darem lugar cada vez mais a outros sentimentos verdadei­
ramente humanos.
Distinguir os sentidos e os motivos é sempre também distinguir
uma vontade, sentimentos. O ato de coragem que tem por motivo a
sujeição de outro homem, a usurpação do bem de outrem ou a ascensão na
hierarquia social tem qualidades psicológicas bastante diferentes das do ato
corajoso cujo motivo é contribuir com a sua ajuda para a causa comum. Há
também uma diferença psicológica entre uma taçanha realizada nas
condições de uma vida contraditória no seu conjunto (portanto, no único
domínio da pessoa) e a mesma façanha quando a personalidade do homem
se exprime em toda a sua unidade e totalidade naturais; só nestas
condições, com efeito, é que a força moral e a beleza interior do gesto
podem se manifestar plenamente.
Uma psicologia que ignorasse que as particularidades do
psiquismo humano dependem do caráter geral da consciência, ele próprio
determinado pelas condições da vida real do homem, acabaria
inevitavelmente por negar a natureza histórica dos traços psicológicos.
KttNÉ
O Desenvolvimento do Psiquismo 147

Interessada em reduzir a face psicológica do homem às suas diferentes


aptidões e propriedades, ela tende a conduzir as suas investigações no
sentido oposto ao que o processo real da sua transformação segue. Por este
falo, inverte todos os elementos: para eia, o determinado é o determinante,
a consequência é a causa. Acaba mesmo por encontrar os motivos da
atividade humana nos sentimentos subjetivos, nos sentimentos e emoções
do interesse ou do desejo. Prosseguindo a sua análise nesta direção, acaba
por encontrar a fonte deste sentimentos nas emoções e desejos inatos do
homem, isto é, nas particularidades dos seus instintos.
j, A via aberta pela análise histórica mostra, pelo contrário, que as
propriedades do psiquismo humano são determinadas pelas relações reais
do homem com o mundo» as relações que dependem das relações históricas
objetivas da sua vida. Sãó estas relações que criam as particularidades
estruturais da consciência humana, e que por ela são refletidas. Assim se
caracteriza o psiquismo humano na sua verdadeira essência social.
Como o nosso fim não é estudar a história concreta do
desenvolvimento do psiquismo humano, limitar-nos-emos a uma exposição
muito breve das suas “formações” históricas mais gerais. Aliás, este
apanhado basta para provar que o que parece à primeira vista imutável no
homem, não passa de lato de uma etapa transitória no seio do seu
desenvolvimento histórico. Mostra, por outro lado, que só com a
“reintegração” da constiência humana que intervém com a reorganização
radical da sociedade é que começa o seu desenvolvimento realmente livre e
completo.
Naturalmente, a nova estrutura psicológica da consciência não
aparece instantaneamente logo após a transformação das condições de
vida. Ela não nasce por si mesma, espontaneamente, sem luta, fora do
processo dc educação dos homens, e da penetração da sua consciência pela
ideologia socialista. Pelo contrário, a formação ativa das novas qualidades
psicológicas é condição indispensável da sua constituição.
A metamorfose da consciência não toca imediatamente todos os
aspectos da vida, todas as ligações do homem ao mundo. Quando da
primeira aparição da consciência, a realidade não apareceu de súbito na sua
148 O Desenvolvimento do Psiquismo

totalidade sob uma iluminação nova; no princípio, uma grande parte da


realidade guarda a sua iluminação anterior porque as significações, as
representações e as idéias não se modificam automaticamente, desde que
perderam o seu terreno nas condições objetivas da vida. leias podem
conservar a sua força como preconceitos e muitas vezes só após uma luta
perseverante é que elas acabam por perder o seu prestígio aos olhos dos
homens.
Por outro lado, a “reintegração” da consciência não constitui de
modo algum, como vimos a passagem à coincidência, à simples fusão, na
consciência, do sistema das significações. O trabalho interior de conscien­
tização e de objetivação das relações subjetivas pessoais com a realidade,
que subsiste no sistema das significações elaboradas socialmente, não se
torna menos complexo ou menos tenso. Verifica-se sim como que um
deslocamento deste trabalho interior para uma esfera de relações mais
variadas, mais profundas e mais sutis que o homem deve tomar
consciência para si, para “se encontrar” de certa maneira nelas.
Psicologicamente a consciência humana desenvolve-se, portanto,
nas suas mudanças qualitativas por definhamento das suas particularidades
anteriores que cedem o seu lugar a outras. Na aurora da sociedade humana,
a consciência passa pelas diferentes etapas da sua formação inicial; só o
desenvolvimento ulterior da divisão social do trabalho, da troca e das
formas de propriedade acarreta um desenvolvimento da sua estrutura
interna, tornando-a, porém, limitada e contraditória; depois, chega um
tempo novo, o tempo de novas relações, que cria uma nova consciência do
homem. Ainda nos é difícil imaginar as imensas perspectivas do seu
desabrochar futuro.

Para terminar esta breve exposição, resta-nos tirar algumas


conclusões teóricas concernentes à abordagem de princípio dó psiquismo.
Por certo, os problemas que abordamos até aqui não esgotam
mesmo o essencial do conteúdo do processo de desenvolvimento psíquico.
O Desenvolvimento do Psiquismo 149

Liste estudo não tem. portanto a pretensão dc ser um resumo da história do


psiquismo; ele representa antes um apanhado da teoria do desenvolvimento
do psiquismo; mais exatamente, propôs-se estudar o próprio princípio da
concepção histórica do psiquismo.
Quais são as conclusões gerais a que chegamos?
A concepção tradicional do psiquismo distingue dois tipos de
fenômeno e de processos. Os primeiros são os fenômenos e processos
interiores, que encontramos em nós; as imagens sensíveis, os conceitos, as
sensações e também os processos do pensamento, da imaginação, da
memorização voluntária etc. lodos eles pertencem ao domínio do
psiquismo. 1; o seu conjunto que constitui o famoso cogito de Descartes.
“Pela palavra pensar eu entendo tudo o que se passa em nós de tal maneita
que nós o percebemos imediatamente por nós mesmos; é por isso que não
apenas ouvir, querer, imaginar, mas também sentir é a mesma coisa aqui
que pensar?31
Os outros fenômenos e processos são os que contrariamente aos
primeiros, constituem o mundo material exterior. São a realidade concreta
que circunda o homem, o próprio corpo deste, os fenômenos e processos
fisiológicos que se realizam nele.
Este conjunto constitui o domínio do físico, o mundo da
“extensão”.
Nesta ótica, opõem-se dois tipos de fenômenos e processos, de que
só os primeiros relevam do estudo psicológico. Em que estes se distinguem
especificamente dos fenômenos e processos iísicos? A diferença está na
sua natureza puramente subjetiva, isto é, no fato deles não existirem por
assim dizer senão enquanto dados do vivido interior, imediato, do sujeito e
não terem outra existência; com efeito, qualquer outra forma dc existência
significaria que eles existem no mundo físico, num mundo da extensão c
não no do pensamento.
Uma concepção do psiquismo que parte desta distinção, seja que
figura de estilo se empregue, fecha inevitavelmente à psicologia o livro da

R . D e s c a r te s : L e s P r ín c ip e s d e la p h ilo s o p h ic (E d . V r in , 1 9 6 7 ), p . 5 6 .
150 O Desenvolvimento do Psiquismo

atividade prática e sensível do homem, sem a qual a psicologia, como disse


Mane, não pode ser um ciência real e verdadeiramente rica de conteúdo.
Existe uma outra concepção do psiquismo. Constitui sua base
filosófica a teoria do reflexo. Também ela se apoia numa distinção inicial,
entre o sujeito material da vida e a realidade objetiva concreta em que vive
este sujeito, isto é, segundo uma forma particular de interação material.
Dito por outras palavras, nesta ótica, o sujeito não se opõe ao mundo,
como o “eu” de Fichte; pelo contrário, estão originalmente ligados um ao
outro; a sua vida, a sua atividade vital ligam realmente o sujeito ao objeto
efetuando as passagens mútuas que, na origem, se traduzem simplesmente
pela troca de substâncias.
Num certo nível de desenvolvimento da vida do sujeito material
aparecem necessariamente fenômenos específicos que refletem as
propriedades da realidade objetiva nas suas relações e ligações, isto quer
dizer que refletem a realidade na sua materialidade. É a forma psíquica do
reflexo.
Considerado no sistema das relações e ligações da matéria do
próprio sujeito, o reflexo psíquico não passa de um estado particular desta
matéria, uma função do seu cérebro. Considerado no sistema das relações e
ligações do sujeito com o mundo circundante, o reflexo psíquico é a
imagem deste mundo.
Assim, existe um processo real no qual o refletido cria o reflexo, o
ideal (segundo a expressão de Marx “ele é transportado no ideal!). Este
processo é precisamente o processo material da vida do sujeito. Exprime-
se nos processos da sua atividade que o ligam ao mundo objetivo.
É devido ao fato da atividade criar um elo prático entre o sujeito e
o mundo circundante agindo sobre ele, e se submeter às suas propriedades
objetivas, que aparecem no sujeito os fenômenos que constituem um
reflexo do mundo, cada vez mais adequado. Na medida em que a atividade
é mediatizada por estes fenômenos particulares c os comporta de certa
maneira em si, ela torna-se uma atividade mentalizada.
Numa etapa relativamente tardia da evolução da vida, a atividade
pode ser interiorizada, isto é, revestir a forma de uma atividade interior
O Desenvolvimento do Psiquismo 151

ideal; não deixa de ser menos um processo realizando a vida real de um


sujeito real e não se torna “puramente” espiritual, oposta
fundamentaliuente à atividade exterior, imediatamente prática. Erigir como
0 faz a psicologia idealista tradicional, esta oposição em absoluto, traduz
ideologicamente a separação que de fato se criou, no decurso do
desenvolvimento da sociedade, entre trabalho intelectual c trabalho
manual. Esta separação tem na realidade um caráter tao pouco absoluto,
tão transitório como as relações econômicas que a engendram.
A segunda concepção do psiquismo rejeita, portanto, a oposição e
a separação dualista entre a atividade interior teórica e a atividade exterior
prática. Além disso, exige uma nítida distinção entre o reflexo
propriamente dito como imagem da realidade (apareça ele sob que forma
for — sob forma de sensações, de conceitos etc.) e os processos de
atividade propriamente dita, inclusive de atividade interior.
Recusando esta ruptura e esta confusão recusamos ao mesmo
tempo a concepção idealista do psiquismo que as exprime. Torna-se assim
possível superar a concepção de um psiquismo como essência com
existência própria, o que lhe permitia entrar na composição dos processos
materiais, interagir com eles, conter qualquer coisa etc. Devemos insistir
neste ponto pois o próprio modo dc expressão dos conceitos e das relações
psicológicas a que estamos habituados, traz em si a marca desta concepção
errada. Assim, por exemplo, quando dissermos o que é habitual, que “algo
se passa na nossa consciência, devemos ver nisto apenas o preço inevitável
da tradição iingüistica.
Na nossa concepção, a história real do desenvolvimento do
psiquismo não é a história do desenvolvimento do “desdobramento” da
vida, inicialmente una; este desdobramento deu origem ao psiquismo
primitivo do animal e encontra a sua plena expressão na vida consciente do
homem. Esta história é, como vimos, o reflexo da história da evolução da
própria vida e obedece às suas leis gerais: no estágio do desenvolvimento
biológico obedece às leis da evolução biológica, nas etapas do
desenvolvimento histórica às leis sócio-históricas.

iêiisasi
152 O Desenvolvimento do Psiquismo

Pensamos que esta concepção histórica pode fazer da psicologia


uma ciência que não se separe dos grandes problemas da vida, antes ajude
verdadeiramente a resolvê-los, a construir uma vida nova, a de um homem
liberto até ao desenvolvimento completo e harmonioso de todas as suas
aptidões e propriedades.
A “O ÉM AKC H E”
H IS T Ó R IC A
KO ESTUDO
O O P S IQ U IS M O H U M A K O

id í.|
LU

ü W N W M
O Desenvolvimento do Psiquismo 155

1. A s te o r ia s n a tu r a lis ta s cm p s ic o lo g ia h u m a n a

Hoje citar-se-iam com dificuldade investigações psicológicas que


não tenham em conta, de uma maneira ou outra, o falo de que a
/consciência e o comportamento humanos são ‘sensíveis às condições
históricas e sociais c que cies se modifiquem com as suas mudanças.
Mesmo os estudos consagrados a questões puramente
psicofisiológicas são obrigados a levar em consideração a influência dos
fatores sociais — instrução verbal, apreciação pelo experimentador dos
resultados obtidos pelo sujeito da experiência etc. O estudo da determi­
nação do psiquismo pelas condições sociais constitui mesmo a tarefa
essencial de certos ramos da psicologia. É o caso das investigações sobre o
desenvolvimento histórico do psiquismo humano e sobre o desenvolvi­
mento do psiquismo da criança; o mesmo se verifica para a psico-
pedagogia, a psicologia da linguagem c das relações entre os indivíduos, a
psicologia da personalidade.
A importância teórica geral do problema do determinismo social
do psiquismo é também absolutamente evidente. Outra coisa é a maneira
de resolver este problema e a importância de princípio que lhe é atribuída
nas diferentes correntes da psicologia científica. As diferenças de opinião
são com efeito extremamente grandes e traduzem-se em confrontações a
partir de posições teóricas.
156 O Desenvolvimento do Psiquismo

Uma dessas posições exprime a linha teórica derivada do.


evolucionismo positivista de Spencer'6, cujas idéias tiveram influência
direta notável sobre a psicologia pragmática americana57. Esta concepção
parte do princípio de que o homem, diferentemente dos animais, não vive
apenas num meio exclusivamente natural, mas num meio igualmente
“supra-orgânico”, isto é, social; sente-lhe constantemente os efeitos e é
coagido a adaptar-se; admite-se, por iss.o, que as leis e os mecanismos de
aquisição da experiência individual não se modificam fundamentalmente:
quando da passagem ao homem. Eles complicam-se apenas, dado o
aparecimento de fatores novos como a linguagem a as diversas instituições
sociais. Por consequência, para estudar o homem, convém conservar todas
as noções, fundamentais relativas à evolução biológica: o conceito de
adaptação ao meio e de sobrevivência, o conceito da integração e de
diferenciação dos órgãos e das suas funções e o das duas formas dc
experiência - hereditária (específica) e individual. Numa palavra, a
passagem do animal ao homem provoca simplesmente uma complexidade
quantitativa dos processos de adaptação tanto específica como individual.
Assim, a maioria dos investigadores que professam esta tese apóia-se
habitual mente e sem reservas nos dados das experiências praticadas por
animais: por exemplo, tratar dos mecanismos de aquisição da experiência
individual no homem (aprendizagem — learning. Os pontos de vista dos
autores divergem evidentemente um pouco sobre a importância destes
dados, mas estas diferenças não afetam a essência desta concepção. Assim,
se certos autores afirmam categoricamente que a aquisição da experiência
individual é idêntica no animal e no homem “E. R. Guthrie)58, outros vêem
a especificidade da aprendizagem humana no fato dela poder realizar-se no
plano da palavra (F. Skinner 9; em certos casos, admite-se em rigor que a

C f M. Spencer: Elementos de base. IK67: O s f u n d a m e n t o s d a p s ic o lo g ia . 1898

I.. P. Thorpe, A. M. Schmuller: T e o r i a s c o n t e m p o r â n e a s d a a p r e n d iz a g e m . Nova Iorque,


1954.
E. R. Guthrie: A p s i c o l o g ia d o e n s in o . Nova Iorque. 1953.
' E. Skinner: O c o m p o r t a m e n t o v e r b a l. Nova Iorque. 1957,
O Desenvolvimento do Psiquismo 157

aprendizagem humana faz intervir fatores particulares, como a "vontade de


aprender”)60.
Na maioria das vezes, para os investigadores, o principal fator que
“humaniza” o comportamento é constituído pela palavra. A adição ao
estágio do homem, da palavra (e, por consequência, dos sistemas exterior
e interior de comportamento verbal) é considerado como satisfatória das
aptidões especificamente humanas: a aptidão para distinguir os fins, para
planificar as ações, para governar os movimentos. E verdade, como com
bastante justiça lembrou í. Nuíin61, que desde a aurora das idéias do
behaviorismo Thorndik se precavera contra a adjunção mecânica da
palavra ao comportamento animal para explicar as particularidades
especificamente humanas. O homem, escrevia ele na sua primeira
monografia, não é um animal munido de palavra tal como o elefante não é
uma vaca munida de tromba. Isso não o impediu, todavia, de afirmar que o
homem se caracteriza pelo aperfeiçoamento das aptidões psíquicas que
possui já o animal e que a evolução do comportamento consiste sempre
“numa complicação quantitativa do processo de ligação instaurado entre a
situação e a reação de resposta, processo que se encontra em todos os
vertebrados e mesmo os animais inferiores, da lampreia ao homem
Esta démarche, não supera o quadro do problema da adaptação do
organismo, ao meio. mantém-se no estrangeiro num grande número de
trabalhos contemporâneos; mesmo para um problema tão especificamente
humano como o da personalidade. A personalidade humana é neles
considerada como um organismo, como o produto da integração de todos
os atos de adaptação ao meio físico e sobretudo ao meio social, como o
produto de ligações “intercorrelativas” que constituem um sistema global
qüe se forma na luta pela sobrevivência. Em resumo, esta concepção da

■R e s u m o d o s r e c e n te s t r a b a l h o s a m e r ic a n o s s o b r e o s p r o b l e m a s d o e n s in o (c f. K. R .
Ililg ard . Peoria do ensino , N o v a I o r q u e . 1 9 4 8 ) . L . I'. T h o r p e , A . M . S c h m u lle r : Teonas
comparativas do ensino. N o v a I o r q u e , 1 9 4 5 , S. S . S te v e n s : Manual de psicologia
experimental, N o v a I o r q u e , 1 9 4 5 .
1. Nutíin: Tarefa, êxito e fracasso. I.ovaina, 1953.
" E. T h o r n d i k e : O ensino no homem. M o s c o u . 1 9 3 5 ( e m l ín g u a r u s s a ).
158 O Desenvolvimento cio Psiquismo

personalidade pode ser formulada nestes termos: a psicologia da


personalidade tem por objeto dc estudo o organismo humano individual;
este organismo nada mais é que a história das suas adaptações.
F.sla concepção que encara as relações mútuas existentes entre o
homem e a sociedade de maneira naturalista, isto é, por analogia com as
relações mútuas que existem entre o animal e o meio, é das concepções
que estão na base do ponto de vista pragmático em teoria do conhecimento.
Se realmente a vida se reduz, para o homem, cm efetuar atos cujo
único fim é a sobrevivência, devemos admitir que o fundamento supremo
do comportamento e do conhecimento é a sua utilidade. O êxito, o efeito
positivo (ef. a "lei do efeito”) é nesta ótica, o único critério de adequação e
de justeza: só é justo e verdadeiro o que conduz ao sucesso. Aqui reside a
principal tese de todo o pragmatismo.
O utilitarismo e o pragmatismo são a consequência necessária da
transferência mecânica, para o homem, das relações biológicas; com efeito,
os animais são realmente “pragmáticos práticos”, no sentido em que a
regulação do seu comportamento não tem outro fundamento a não ser a
utilidade biológica. Mas eles não têm que resolver os problemas que se
põem ao homem c à humanidade.
A démarche naturalista torna impossível a explicação científica da
verdadeira especificidade da atividade e da .consciência humana; mas, por
outro lado, reforça retrospectivamente as concepções erradas em biologia.
O regresso ao mundo animal a partir do comportamento humano, cujas
particularidades aparecem, com esta démarche, como fundamentalmente
indiscernívets, reforça inevitavelmente, na própria biologia a idéia da
existência de um princípio incognoscível. Esta démarche sustenta na teoria
da evolução, mas desta vez “de cima”, as concepções metafísicas e
idealistas que postulam tanto um misterioso movimento “instintivo' dos
prolongamentos neurônicos, isto é, a existência de uma enteléquia, como
uma tendência universal para a “forma perfeita”, ou seja, a existência de
inclinações profundas agindo eternamente etc.
O Desenvolvimento do Psiquismo 159

2. A c o r r e n te s o c io ló g ic a e m p s ic o lo g ia

Os trabalhos da psicologia em que o homem é considerado antes


de mais nada como um ser social e que procuram revelar as
particularidades tjiie lhe são inerentes, na história da sociedade, traduzem
uma concepção totalmente diferente. Elas constituem a tendência histórica
e sociológica da psicologia, distinta da corrente naturalista e biológica.
Esta corrente sociológica encontra-se sobretudo na literatura
científica francesa. A tese da partida c que a sociedade forma a natureza
humana, isto quer dizer que “a sociedade é. portanto, o principio da
explicação do indivíduo6” ’.
Aqui as divergências concernem cm primeiro lugar à concepção do
desenvolvimento da sociedade que permanece idealista na maioi paite dos
autores estrangeiros. A segunda divergência de opiniões, que aliás decone
da primeira, refere-se à compreensão do processo de “socialização do
indivíduo. Alguns autores como E. Durkhein’1, M. Halbwachs' e outros
apresentam este processo dc acordo com a sua orientação sociológica,
como o resultado da comunicação intelectual, verbal entre os homens e os
seus semelhantes, como o resultado da apropriação dos ‘ conceitos sociais
ou “representações coletivas”; assim, a sociedade apareceria primeiro, nos
trabalhos destes autores c de outros da mesma escola, como consciência da
sociedade e do indivíduo humano mais como um ser ”de relação do que
como ser social agindo praticamente. Todavia, os trabalhos desta corrente
trouxeram uma contribuição preciosa, muitas vezes subestimada, à
psicologia, notoriamente no que respeita ao problema do desenvolvimento
das formas sociais da memória humana, da noção dc tempo, do
pensamento lógico em ligação do desenvolvimento da linguagem, da

# G . D um as: Traité de psychologie, t. II. P a r i s . 1 9 2 4 . p . 7 6 6 .


11 li. D u r k h e im : A s r e g r a s d o m é to d o s o c io ló g ic o , P a r is , 18 9 5 .
f,‘ M . H a l b w a c h s : O s q u a d r o s s o c ia is d a m e m ó r ia . P a r is . 1 9 2 5 .
161) O Desenvolvimento do Psiquismo O Desenvolvimento do Psiquismo 161

origem dos sentidos superiores e dos comportamentos ditos sociais - representada da maneira mais nítida na psicologia moderna francesa, nos
diversos hábitos, costumes, cerimônias etc. (P. Janet)*
66 trabalhos de H. Wallon6S e dos investigadores da sua escola. Em segundo
Do ponto de vista que nos interessa, as notáveis investigações de J. lugar, é a tendência para superar o socioiogismo abstrato e idealista na
Piaget, consagradas ao desenvolvimento psíquico da criança67, tem uma concepção histórica do psiquismo humano. Encontramo-la nos trabalhos de
significação particular, dupla na minha opinião. Penso, por um lado, na sua autores que, partindo de uma concepção materialista da sociedade,
teoria gera! do desenvolvimento, dos conceitos de organização, de sublinham o caráter concreto e dinâmico da atividade psicológica do
assimilação e de acomodação como conceitos de base e, por outro lado, no homem (G. Politzer)6''.
fato de éle considerar o desenvolvimento psíquico como o produto do [gualmente importante c a tentativa de introduzir na corrente
desenvolvimento das reações do indivíduo com as pessoas que o rodeiam, histórico-social atual da psicologia a teoria segundo a qual o trabalho,
com a sociedade, relações que transformam e reorganizam a estrutura dos transformando a natureza exterior e produzindo o mundo dos objetos
processos de cognição iniciais da criança. Tomemos um exemplo: .1. Piagei humanos materiais e intelectuais, transforma ao mesmo tempo a própria
pensa que a etapa principal na formação da lógica infantil — o natureza do homem e cria a consciência humana (I. Meyerson' ).
aparecimento de sistemas ligados a operações intelectuais — é produto da Estas duas tendências que acabamos de esboçar — abordagem
cooperação exterior aparecida na vida social, transferida para o plano naturalista e abordagem histórico-social do psiquismo humano — conser­
interior. Sem cooperação com os outros, escreve Piaget, o indivíduo não vam todavia, de fato, na psicologia estrangeira contemporânea, a separação
poderia reorganizar as suas operações num todo coerente. A dualidade da dos dois domínios que remonta à classificação das ciências de Bacon, em
concepção de Piaget cria uma série de dificuldades maiores, uma das quais que se atribui uma parte da psicologia à investigação análomo-fisiológica e
encontra expressão no fato de a transformação social em questão não outra parte à sociologia. Esta dualidade, como se sabe, reproduziu-se até o
aparecer verdadeiramente a não ser em etapas relativamente tardias do infinito: quer na oposição entre psicologia experimental, fisiológica e
desenvolvimento ontogênico c não concernir senão aos processos psicologia teórica, metafísica, quer na oposição entre psicologia
superiores. “explicativa” e psicologia descritiva ou “compreensiva”, quer na oposição
Entre os numerosos trabalhos estrangeiros que enumeramos e em entre psicologia do comportamento e psicologia subjetiva fenomenal etc.
outros consagrados à análise da natureza histórica e social das proprie No decurso da evolução da ciência psicológica, o isolamento
dades e faculdades do homem, convém notar a presença de tendências recíproco destes dois tipos de concepção do psiquismo foi. é certo, apenas
inegavelmente progressistas e materialistas. Em primeiro lugar, a tendên­ relativo, pois as pesquisas concretas, se bem que emanado de posições e de
cia para considerar o aspecto social do homem não abstraindo das suas correntes opostas aprofundavam finalmente os mesmos fenômenos
particularidades naturais e da sua organização neurofisiológica, mas como psicológicos; objetivamente isso ofereceu a possibilidade de suprimir a
produto da transformação histórica do sujeito material e corporal na dicotomia da psicologia, mas será necessário ura trabalho teórico mais
unidade das suas propriedades corporais e psicológicas. Esta tendência está
68 C f . H. Wallon: D e / ’a c t e à l a p e n s e é , Paris, Flammarion, 1942.
1,6 P. J a n e t: A e v o lu ç ã o d a m e m ó r ia e d a n o çã o d o te m p o . P a r is . 1 9 2 8 : d o m e s m a a u to r ; .1 66 Ci. Politiser: C r i t i c a d o s f u n d a m e n t o s d a p s i c o l o g i a c o n t e m p o r â n e a
e v o lu ç ã o p s ic o ló g ic a d a p e r s o n a lid a d e . Paris. 1929. 70 1. Meversom: “Temas novos da psicologia objetiva", J o u r n a l d e p s y c h o l o g i e n o r m a l e t
6 '.l. P ia g e i: A fo rm a ç ã o d o s ím b o lo na c r i a n ç a . Paris. 1945: A p s ic o lo g ia d a in te lig ê n c ia p a t h o l o g i q u e . 1954. “0 trabalho, função psicológica. O trabalho, os ofícios, o emprego",

N e u c h â le l - Paris. 1947; D a ló g ic a d a c r ia n ç a à ló g ic a d o a d o le s c e n te , Paris, 1955. 1955.


4' 3

162 O Desenvolvimento do Psiquismo

importante ainda para o alcançar definitivamente. Nem o materialismo


mecanicista nem o idealismo estão em estado de orientar a pesquisa
psicológica de maneira a criar uma ciência única da vida psíquica do
homem. Este problema só pode ser resolvido sobre a base de uma
concepção do mundo filosófico que estenda a explicação científica e
materialista tanto aos fenômenos naturais como aos fenômenos sociais.
Existe uma única concepção do mundo que responde a este objetivo; a
filosofia do materialismo dialético.

3 . O d e s e n v o lv i m e n to d a “ d é m a r c h e ” h is tó r ic a na p s ic o lo g ia s o v ié tic a

Desde a sua origem, a psicologia soviética entregou-se a tarefa de


elaborar uma ciência psicológica na base do materialismo dialético, do
Marxismo. Tomou, portanto, imediatamente consciência da importância
decisiva do problema da determinação sócio-histórica do psiquismo
humano.
Por essa razão, os primeiros trabalhos de psicologia soviética
avançaram, por um lado, com a tese do psiquismo como função de um
órgão material, o cérebro que se exprime no reflexo da realidade objetiva;
e por outro lado, estes primeiros trabalhos avançaram fortemente a tese do
papei do meio social e da determinação histórica concreta dc classe do
psiquismo humano71.
Não há necessidade de mostrar em detalhe quanto esta tarefa dos
psicólogos soviéticos é complexa ou de falar do longo trabalho sistemático
necessário para a levar a bom termo, mesmo numa primeira aproximação.
É muito natural, portanto que as primeiras tentativas dos investigadores
para elaborar uma psicologia Marxista se tenham limitado ao
estabelecimento dos princípios extremamente gerais respeitantes à
concepção materialista do psiquismo e à crítica do idealismo militante em

' CT. A . A . S in i m o v : 4 0 a n o s d e p s ic o lo g ia s o v ié t ic a . " V o p ro s s y p s ik h o lo g u ii . 1 9 5 7 . N ° 5


O Desenvolvimento do Psiquismo 163

psicologia ' . Os trabalhos desta época trataram iguaimente do problema da


determinação social do comportamento humano. Em 1924. K. N. Kornilov,
que defendia ainda posições “reatológicas”, escrevia a este propósito: “Não
devemos ir da psicologia individual à psicologia social, mas ao
contrário...", e “só a partir da base dos fatores sociais motores compre­
enderemos a psicologia individual de que trata a psicologia empírica”. Ao
dizer isto, coloca-se resolutamente em guarda contra o reconhecimento da
“onipotência do método naturalista” em psicologia7’ . Todavia, o problema
metodológico maior, a saber o de uma demarche única para o estudo do
psiquismo humano, não estava resolvido. O fato era manifesto no manual
publicado por K. N. Kornilov nesta época74, em que ele defendia a tese dos
dois fatores (biológico e social) que determinam o comportamento humano
e citava ingenuamente, ao lado da sua descrição das relações elementares
as características psicológicas dos representantes das diversas classes
sociais no espírito de Sombart.
Uma nova etapa no estudo do problema do determinismo sócio-
histórico do psiquismo humano foi marcada pelos trabalhos de L. S.
Vygotski. Foi ele o primeiro entre nós (em 1927) a exprimir a tese de que a
demarche histórica devia tornar-se o princípio diretor da edificação da
psicologia do homem. Efetuou a crítica teórica das concepções biológicas
naturalistas do homem e opôs-lhe a sua teoria do desenvolvimento
histórico e cultural. O mais importante é que introduziu na investigação
psicológica concreta a idéia da historicidade da natureza do psiquismo
humano e a da reorganização dos mecanismos naturais dos processos
psíquicos no decurso da evolução sócio-histórica e onlogênica. Vygotski
interpretava esta reorganização como o resultado necessário da apropriação*73

12 C f. P . P. B lo n s k y : Ensaio de psicologia científica , M o s c o u , 1 9 2 ! ; K . N . K o r n ilo v :


Psicologia contemporânea e Marxismo, L e n in g r a d o , 1 9 2 4 .
73 K . N . K o r n i l o v : Psicologia e Marxismo. R e c o lh a “ p s i c o lo g i a c m a r x i s m o " . M o s c o u ,
1 9 2 5 ; I,. S . V y g o t s k y : A psicologia e a teoria da localização. " T e s e s d o p r i m e ir o c o n g r e s s o
u c ra n ia n o d e n e u ro p s ic o lo g ia ” , K h a rk o v , 1934.
7,1 C f. K . >1. K o r n ilo v : Manual de psicologia. E x p o s to d o p o n to d c v i s t a d o m a t e r i a l i s m o
d i a lé tic o , L e n i n g r a d o , 1 9 2 6
164 O Desenvolvimento do Psiquismo

pelo homem dos produtos da cultura humana no decurso dos seus contatos
com os seus semelhantes.
Como se sabe, Vygotski tomou como base das suas investigações
as duas hipóteses seguintes: as funções psíquicas do homem são dc caráter
mediatizado; os processos interiores intelectuais provêm de uma atividade
inicialmente exterior, “interpsicológica”.
Segundo a primeira destas duas hipóteses, as particularidades
especificamente humanas do psiquismo nascem da transformação dos
processos, anteriormente diretos, “naturais”, em processos mediatizados,
graças à introdução, no comportamento, de um nó intermediário
(“estímulo-médio”). Daqui resulta a reunião no cérebro de elementos
simples numa “unidade” nova. Assim se cria um processo global que se
pode representar pelo esquema seguinte:

B
F ig , 2 0 . B l o c o - e s q u e m a d a in s ta la ç ã o e x p e r im e n ta l.

A-B simboliza o novo processo mediatizado, A-X c X-B


representam as ligações elementares que se criam a título de instauração
dos reflexos condicionais. Numa memorização mediatizada, por exemplo,
as ligações elementares que sc instauram unem-se estrutural mente por
O Desenvolvimento do Psiquismo 165

meio de um signo mnemotccnico X; em outros casos este papel volta à


palavra '.
Assim, Vygotski não via a originalidade da atividade psíquica do
homem em relação à do animal apenas na sua complexidade quantitativa e
na mudança do próprio conteúdo objetivo que ela reflete, mas antes de
tudo na transformação da sua estrutura.
A segunda hipótese de L. Vygotski não era menos importante: a
estrutura medial macia do processo psíquico forma-se inicialmente nas
condições em que o nó mediatizante tem a forma de estímulo exterior (em
que, por consequência, o processo correspondente tem, também ele, uma
forma exterior). Isto permitiu compreender a origem social da nova
estrutura que não surge do interior, não se inventa, mas se forma
necessariamente na comunicação que no homem é sempre mediatizada.
Assim, por exemplo, o processo voluntário da “efetuação de uma ação é
inicialmente mediatizada por um sinal exterior, pdo qual um outro homem
age sobre o comportamento do sujeito que efetua a ação considerada.
Neste estágio de formação, a estrutura mediatizada não caracteriza o
processo realizado pelo sujeito agente, mas o processo “interpsicológico”
correspondente, isto é, o processo no seu conjunto, no qual intervêm tanto
à pessoa que reage ao sinal realizando a ação como a outras pessoas que
dão o sinal. Só posteriormente, quando numa estrutura análoga o sinal cie
partida começa a ser dado pelo próprio sujeito agente (“auto-comando”), é
que o processo adquire um caráter mediatizado “inírapsicológico”. isto é,
integralmente realizado por um só homem; nasce assim a estrutura
elementar da ação voluntária, o ato de vontade.
Por outras palavras, a estrutura mediatizada dos processos
psicológicos aparece sempre a partir cia apropriação por um indivíduo das
formas de comportamento que foram inicialmente formas e
comportamento imediatamente social. Ao fazê-lo, o indivíduo assimila o
nó (“estímulo-médio”) que mediatiza o processo considerado; este pode
ser um meio material (um instrumento), conceitos verbais socialmente

75 L S. Vygotski: “Problema do desenvolvimento cultural dá criança.” Journal of Gênetic


1’sychology (Jornal de psicologia genética), 1929. n” 3,

(
166 O Desenvolvimento do Psiquismo

elaborados ou qualquer outro sinal. Assim se introduz em psicologia uma


nova idéia capital, a tese de que o principal mecanismo do
desenvolvimento psíquico no homem é o mecanismo da apropriação das
diferentes espécies e formas sociais de atividade, historicamente
constituídas. Uma vez que a atividade só pode efetuar-se na sua expressão
exterior admitiu-se que os processos apropriados sob a sua forma exterior
sc transformavam posteriormente cm processos internos, intelectuais.
Devemos, porém, dizer que as idéias avançadas na época por L. S.
Vygotski não constituem um sistema psicológico acabado. Elas exprimem
mais a abordagem do problema que a sua solução76.
O estudo do problema da consciência e da atividade humanas
constitui um outro aspecto do princípio da historicidade do psiquismo
humano. É a teoria de Marx sobre a transformação da natureza humana no
decurso do processo de desenvolvimento da atividade material c intelectual
da sociedade, a fonte direta do aparecimento deste problema. O artigo de S.
L. Rubinstein, consagrado aos problemas de psicologia nas obras dc
Marx77e aparecido em 1934, foi um marco importante no estudo deste
problema, infelizmente, não suscitou toda a atenção que merecia'8.
Mais tarde, apoiando-se na fórmula célebre de Marx a propósito da
indústria, “esta psicologia concretamente presente”, S. L. Rubinstein,
propôs nos Fundamentos da Psicologia (1935), a tese segundo a qual a
psicologia estuda as particularidades psicológicas da atividade que inclui
nas suas investigações também a atividade ou o comportamento 79. Esta
formulação foi em seguida modificada pelo autor. Num artigo teórico
aparecido em 1940, Rubinstein insistiu sobre a idéia de que a psicologia
estuda “não o psiquismo e a atividade, mas o psiquismo na atividade” e*7

76Poder-se-á encontrar uma análise c uma apreciação mais completa dos trabalhos de L. S.
Vygotski na introdução de A. N. Leontiev - A. R. Louria à ultima edição da obra A l g u m a s
e x p e r i ê n c i a s p s i c o l ó g i c a s . L. S. Vygotski, Moscou 1956. Ver igualmente A. N. Leontiev e

1.. S. Vygotski, A n e u r o f i s i o l o g i a c o n t e m p o r â n e a , 1934, n° 6.


7Cf. S. L. Rubinstein: P r o b l e m a s d e p s i c o l o g i a n a s o b r a s d e M a r x , “Psicotécnica”, 1934.
?sO: significado essencial deste artigo foi apenas notado, tanto quanto sei. na obra dc B. M.
Templov: T r i n t a a n o s d e c i ê n c i a p s i c o l ó g i c a s o v i é t i c a , M o s c o u , 1 9 4 7 .
7’S.L. Rubinstein: O s f u n d a m e n t o s d a P s i c o l o g i a , Moscou, 1935, (cm língua russa).
O Desenvolvimento do Psiquismo 16 7

que “toda a psicologia que compreende o que laz estuda o psiquismo e


apenas o psiquismo80”. Mas se bem que o autor, nos seus trabalhos
ulteriores, tenha várias vezes fornecido esclarecimentos que o
salvaguardavam contra uma eventual interpretação simplista das suas
tesess! , estas foram muitas vezes compreendidas dc tal maneira que
perdiam praticamente o seu sentido fundamental. Pilas foram de lato
suplantadas por uma concepção essencialmente diferente, segundo a qual
os processos psíquicos se manifestam na atividade e dependem da
atividade; foi notoriamente a posição característica adotada nos manuais
universitários dessa época.
A esta posição opunha-se principalmente a concepção genética,
histórica, do problema da atividade psíquica que prosseguia a investigação
no sentido indicado por Vygotsky. Esta concepção considerava a atividade
psíquica como uma forma particular de atividade — produto e derivado do
desenvolvimento da vida material, da atividade exterior material, que se
transforma no decurso do desenvolvimento socio-histórico em atividade
interna, em atividade da consciência; assim, o problema essencial
continuava a ser o do estudo da estrutura da atividade e da sua
interiorização.
Convém notar que se concedia muito menos atenção aos
mecanismos fisiológicos nas investigações orientadas para a análise do
problema da atividade, como aliás na maioria dos trabalhos psicológicos
dos anos 40, por exemplo, do que nas primeiras obras “histórico-culturais”
de L. S. Vygotski. Razão pela qual a importância que tomou posteri­
ormente, em psicologia, a fisiologia da atividade nervosa superior,
elaborada por L. Pavlov, veio a colocar o estudo do problema da natureza
socio-histórica do psiquismo humano em face dc dificuldades muito sérias
que não era possível evidentemente superar de imediato.
Por outro lado, este problema fundamental da psicologia Marxista
encontrava-se de certo modo relegado para segundo plano. Limitava-se*81

*°S.L. Rubinstein: Reflexões sobre a psicologia, “ M e m ó r i a s do Instituto Pedagógico A. 1.


I l e r z e m , de Leningrader’, t. XXXIV , Leningrado, 1 9 4 0 ( c m língua r u s s a ) .
81 Cf. S. L. Rubinstein: Os Fundamentos da psicologia geral. Moscou, 1948.
168 O Desenvolvimento do Psiquismo

essencialmente ao estudo do papel da palavra (segundo sistema de


sinalização) no comportamento. Naturalmente que continuava em vigor a
tese do caráter histórico e da essência social do homem e da sua essência,
mas unicamente nas declarações e principalmente em relação a problemas
psicológicos como os dos traços sociais da personalidade, do sentimentos
superiores, da vontade moral etc.
Assim reapareceu uma nova alternativa que, não obstante, se
verificou falsa, como o testemunha o conjunto da experiência acumulada
pela psicologia científica. Duas possibilidades se ofereciam: em primeiro
lugar, um estudo psicológico “a partir de cima’ , o estudo dos problemas
mais complexos, especificamente humanos. Mas então a investigação
entrava fatalmente, em seguida, no domínio das concepções puramente
descritivas que só podiam pôr-se em ligação com conceitos explicativos
relativos aos mecanismos de processos mais elementares à custa de
interpretações totalmente arbitrárias.
A segunda possibilidade consistia em partir '"de baixo”, isto é, do
estudo analítico ou genético das relações e processos mais simples. Sc
partirmos da doutrina pavloviana, tratamos de relações de sinalização e de
processos correspondentes de formação de ligações ou associações
condicionais. Evidentemente, poder-se-ia exigir do investigador que não
perdesse de vista que o homem é um ser antes de mais nada social etc.,
mas esta exigência não podia ser realmente respeitada, pela simples razão
de que os conceitos de base são tirados de um sistema de relações
fundamentalmente diferentes do sistema das relações homem-sociedade.
Por tal razão, não se pôde resolver, radicalmente, o problema c superar a
dualidade da psicologia tentando complexi ficar e enriquecer estes
conceitos para os aplicar ao homem, integrando, por exemplo, o índice de
atividade no conceito de adaptação ou a qualidade da sociatidade, de
caráter de classe e atividade (aqui, ações educativas orientadas para os
indivíduos) no conceito de meio etc. Esta dualidade tornou-se um hábito
tal que, em artigo relativamente decente, consagrado às discussões em
psicologia, se tentou justificar teoricamente a divisão dos problemas
psicológicos em duas espécies: os problemas estudados na base da doutrina
O Desenvolvimento do Psiquismo 169

pavloviana e os problemas estudados na base do materialismo histórico8 .


Evidentemente que a verdadeira tarefa da psicologia consiste, pelo
contrário, em aplicar uma démarche única a todos os problemas da
psicologia humana e inseri-los assim num sistema unificado da ciência.
Esta tarefa é Sioje de grande atualidade, segundo penso, pois se
renunciássemos a ela criaríamos em psicologia as condições favoráveis ao
desenvolvimento de todas as tendências que apoiam objetivamente as
concepções naturalistas positivistas.

4. í) indivíduo e o meio, o homem e a sociedade

Não há necessidade de mostrar as vantagens reais que apresenta a


démarche “a partir de baixo”, isto é que parte dos mecanismos elemen­
tares. Todavia, esta démarche, como vimos, choca com sérias contradições.
A primeira surge quando nos esforçamos por estudar o
comportamento humano no quadro do problema clássico da adaptação ao
meio exterior c do equilíbrio com ele. A contradição reside em que, por um
lado uma investigação psicológica feita no quadro do problema da
interação entre o meio e o organismo dá resultados muito limitados e, por
este fato, inadequados; por outro lado, não podemos negligenciar este
problema da interação, pois o homem é um ser natural e não está
evidentemente isento de interação com o meio. Não podemos, portanto,
pôr o problema nestes termos: devemos ou não estudar este problema em
psicologia humana? A questão deve ser formulada assim: que conteúdo
novo adquire o problema "organismo-meio’ quando o aplicamos ao
homem, isto é, quando a questão fundamental se torna a relação "homem-
sociedade”?
Todavia como o testemunham os esforços desenvolvidos para
encontrar no problema "organismo-meio” um novo conteúdo adequado ao
nível do homem, é impossível chegar a uma solução se permanecermos

Cf. "Questões filosóficas da psicologia", Voprossy lilosoíli. 1954, n" 4 (em língua russa).
170 O Desenvolvimento do Psiquismo

nos limites do problema considerado. Para o tratar a este novo nível,


devemos previamente estudar a questão da relação que existe entre as
propriedades da espécie e as dos indivíduos que a compõem.
Sabendo como a psicologia em geral ignora o problema da espécie
e do indivíduo, é indispensável que nos demoremos um pouco sobre o
conteúdo deste problema enquanto problema geral da biologia.
A definição mais simples da espécie (definição descritiva) é a
seguinte: a espécie é o conjunto dos seres mais próximos uns dos outros. A
teoria da evolução forneceu à noção de espécie um sentido filogenético: a
espécie é uma etapa do desenvolvimento e o reflexo de toda a evolução
anterior83.
A realidade da existência da espécie enquanto fenômeno
filogenético reside em que as propriedades desta se transmitem por
hereditariedade de geração em geração e são reproduzidas pelos diferentes
organismos que a compõem. “Se não houvesse hereditariedade, não
haveria espécie. Todos os indivíduos que colocamos numa mesma espécie
pertencem a esta, precisamente porque têm em comum um certo número
de propriedades que herdaram de um parente comum 8,1”.
Por outro lado, no plano do organismo, os diferentes organismos,
(indivíduos) são em relação à sua espécie a reprodução das suas
propriedades. Esta reprodução é um traço necessário e comum a todos os
organismos; é este mesmo fato que exprime a sua natureza. Assim, o
problema da natureza de todo o ser vivo é o das suas propriedades
intrínsecas que exprimem as particularidades da sua espécie. Dito por
outras palavras, a natureza do indivíduo é determinada pela sua pertença a
espécie e é o reflexo do estado atingido nesta época pela evolução
filogenética.
Deste ponto de vista, o desenvolvimento ontogênico do organismo
que se realiza num processo de inter-relações com o meio, é afinal a
realização das suas propriedades específicas. Razão por que (e quando se
conhecem as posições simplistas de certos autores, é importante notá-lo)

83 t'f. Darwin: A origem das espécies, Moscou, 1952. [F.xiste edição portuguesa.)
i"1*V, !.. Komartív: A noção de espécies vegetais. Moscou, 1944.
O Desenvolvimento do Psiquismo 171

um estudo da interação do meio exterior e dos diferentes organismos que


não leve em conta a própria natureza destes organismos, é uma abstração
absolutamente ilegítima. Com efeito, o que é o seu meio para o organismo
c como este meio se manifesta para ele, isso depende da própria natureza
do organismo em questão; desta natureza dependem igualmente as
transformações que ele pode sofrer ontogenicamente, sob a influencia do
meio. É isto que assegura a sucessão das gerações, o movimento da
evolução filogenética.
O indivíduo humano, como qualquer ser vivo, reflete nas suas
particularidades próprias os caracteres da sua espécie — os adquiridos
durante o desenvolvimento das gerações anteriores.
Quando dizemos que certas formas de comportamento, como a
palavra, a consciência etc., são especificamente inerentes ao homem,
pensamos precisamente nas particularidades formadas filogeneticamente
no decurso da evolução do homem enquanto espécie “homem”,-enquanto
gênero humano (a Menschengattung em Marx).
Assim, o problema consiste em explicar as particularidades
específicas do indivíduo humano, a sua atividade e o seu psiquismo,
analisando a relação c a ligação que existem entre estas particularidades e
as particularidades adquiridas durante o desenvolvimento das gerações
anteriores do homem, do desenvolvimento da sociedade.
Como se sabe, Marx foi o primeiro a dar a este ponto de vista uma
análise científica da natureza do homem, ser ao mesmo tempo natural e
social. A sua descoberta foi da maior importância para a psicologia.5

5. ü desenvolvimento biológico e sócio-histórico do homem

Encontramos ainda, bastante frequentemente, a concepção do


desenvolvimento filogenético do homem como um processo ininterrupto,
regido pelas leis da evolução biológica. A descrição dos homens fósseis,
dos mais antigos aos mais recentes, constitui à primeira vista um quadro
bastante convincente das variações morfológicas progressivas que se
172 O Desenvolvimento do Psiquismo

operavam até o homem moderno e se prolongarão no futuro, talvez mesmo


com a perspectiva do aparecimento de uma nova espécie dc homens,
qualquer Homo fui urus.
Fsta concepção está ligada à convicção de que a evolução humana,
obedecendo às leis biológicas, se estende a todas as etapas do seu
desenvolvimento no seio da sociedade. Supõe que a seleção e a
hereditariedade dos caracteres biológicos, que asseguram a adaptação
constante do homem às exigências da sociedade, prossigam mesmo em
condições novas. •
A paleantropologia moderna progressista está em contradição
flagrante com esta concepção da antropogênese e suas conclusões
grosseiramente biologizantes.
A teoria segundo a qual o desenvolvimento filogenético do homem
é formado por uma série de estágios sucessivos fundamentalmente
diferentes,> sobre os quais agem leis diferentes*5, forneceu uma
contribuição bastante importante à teoria científica da antropogênese.
O primeiro destes estágios é o que prepara a passagem ao homem.
Começa no fun da era terciária e prossegue até ao princípio dó-quaternário,
quando aparece o pitecantropo. Os representantes deste estágio — os
australopitecos — eram símios que viviam sobre a terra em hordas;
caracterizavam-se pela posição vertical e pela sua aptidão para efetuar
operações manuais complexas, o que tornava possível o uso dc
instrumentos rudimentares, muito pouco elaborados. As relações
complexas que existem no seio da horda obrigam-nos a admitir a
existência entre eles de meios elementares de comunicação.
O segundo estágio, estágio do pitecantropo (protoantropiano), e o
terceiro, o do homem de Neanderthal (paleantropiano) poderiam ser
qualificados de estágios de transição para o do homem moderno
(neantropiano).
A fronteira qualitativa que separa estes estágios do estágio
preparatório anterior consiste no aparecimento, nos pitecantropos, da85

85 Cf. i. I, Roguinski, M G. Lévine: As bases ela antropologia. Moscou, 1955 (em língua
russa).
Q Desenvolvimento do Psiquismo 173

confecção dc instrumentos e de uma atividade coletiva primitiva utilizando


os instrumentos; isso significa que neste estágio estavam em vias de sc
criar as formas embrionária do trabalho c da sociedade, liste lato
modificou fundamentalmente o curso da evolução.
As únicas leis da evolução no estágio dos australopitecos eram as
leis da evolução biológica. Elas conservam toda a sua forma nos estágios
do protoantropiano e do paleantropiano. Nestes estágios, também, o,
desenvolvimento é constituído por uma série de variações morfológicas
bem conhecidas, como as importantes modificações do endocrânio,
superfície interior da cavidade craniana“’.
As transformações morfológicas fixadas pela hereditariedade, que
se operavam em ligação com o desenvolvimento da atividade do trabalho e
da comunicação verbal, isto é, sob a influência de fatores já sociais,
obedeciam também, evidentemente, as leis estritamente biológicas. O
problema é completamentc outro no que concerne ao desenvolvimento da
própria produção social e dc todos os fenômenos que ela engendra. Com
efeito, este desenvolvimento não é agora regido senão peiás leis sociais,
leis socio-históricas, leis fundamentalmente novas.
Os indivíduos, tornados sujeitos de um processo social, obedecem,
portanto, doravante, simultaneamente à ação de leis biológicas (graças as
quais se produzem as transformações morfológicas ulteriores, tornadas
necessárias pelo desenvolvimento da produção e da comunicação) c à ação
das leis sociais (que regem o desenvolvimento da própria produção social).
1’ode-se dizer que nestes estágios intermediários as novas leis sociais se
manifestavam relativamente pouco, limitadas que eram pelos progressos
da evolução biológica no decurso da qual se estava formando o homem
propriamente dito -—- o Homo sapiens. À medida que se desenrola este
processo, as leis tomam maior importância e o ritmo do desenvolvimento

" ' F. Tilney: T h e B n t i n f r o m A pe 10 M a n[O cérebro do iiiacaco ao homem], 1. 2, 1928: M.


!•'. Nèstourkh: l . ' o r i g i n e d e l 'h o m m e , Ed. de Moscou {cm língua francesa).
174 O Desenvolvimento do Psiquismo

social do homem depende cada vez menos do seu desenvolvimento


biológico87.
O segundo momento crítico na filogênese do homem situa-se
quando da passagem ao estado neantropiano, isto é, ao estágio do homem
inteiramente formado biologicamente, o homem moderno. Esta viragem
manifesta-se no fato de o desenvolvimento soei o-histórico do homem estar
doravante totalmente liberto da sua antiga dependência em relação ao seu
desenvolvimento morfológico: é a nova era da dominação das leis sociais
apenas.
“Do outro lado da fronteira, isto é, no homem em formação, a
atividade de trabalho estava em relação estreita com a sua evolução
morfológica. Deste lado da fronteira, isto é, no homem “terminado”, a
atividade de trabalho desenrola-se independentemente do seu progresso
morfológico” 88 (Roginski).
Assim, a partir do homem dc Cro-Magnon, isto é, do homem em
sentido próprio, os indivíduos possuem todas as propriedades morfológicas
indispensáveis ao desenvolvimento socio-histórico ilimitado do homem,
processo que não exige doravante modificação da natureza hereditária. Eis
como se apresenta verdadeiramente o curso real do desenvolvimento do
homem durante as dezenas de milênios que nos separam do primeiros
representantes do tipo Homo sapiens: por um lado, transformações
extraordinárias de uma importância sem precedentes e feitas segundo
ritmos cada vez mais rápidos, das condições e do modo de vida humanos;
por outro lado, a estabilidade das particularidades morfológicas humanas,
cuja variação não ultrapassa as simples variantes que não têm qualquer
significado adaptador socialmente essencial89.

87 Como sublinha 1. I. Roguinski trata-se aqui de diferentes leis agindo em diferentes esferas
e não de leis biossociais intermediárias ou mistas. (Roguinski, M. Lévine: Fundamentos da
antropologia. Moscou, 1955)
** Roguinski. M. G. Lévine: Fundamentos da antropologia (em língua russa).
B‘J o processo da morfogênese no homem cessa, não, bem entendido, porque a ação da lei da
variação e da hereditariedade biológicas cesse, mas porque a seleção na luta pela existência
para. “A teoria da luta pela existência, escreve K. A. Timiriazev, detém-se no limiar da
história cultural. Toda a atividade racional do homem c uma luta contra a luta pela
O Desenvolvimento do Psiquismo 175

Significaria isto que cessa todo o desenvolvimento filogenético no


estágio do homem? Que natureza do homem, enquanto expressão da sua
espécie, não se transforma, uma vez formada?
Se o admitimos, temos que admitir igualmentc que as faculdades e
as funções próprias do homem moderno, como um ouvido fonèmico muito
fino, ou a aptidão para o pensamento lógico, são o produto de
modificações funcionais ontogênicas (A. N. Seventsov), independentes das
características adquiridas durante o desenvolvimento específico, das
aquisições das gerações anteriores.
É manifesta a ausência de fundamento desta hipótese.
/A comunicação pela linguagem ou a aptidão para utilizar
instrumentos e utensílios transmite-se evidentemente de geração em
geração; neste sentido, elas são propriedades da espécie humana. O
indivíduo em quem, por urna razão qualquer, se não formaram na
ontogênese propriedades deste tipo (casos análogos ao do famoso Kaspar
Hauscr, descritos por vezes na literatura), não pode ser considerado um
verdadeiro representante das características do homem moderno, por pouco
que dele se distinga pelos seus caracteres morfológicos.
Durante o processo do seu desenvolvimento ontogênico, o homem
realiza necessariamente as aquisições da sua espécie, entre outras as
acumuladas ao longo da era socio-histórica. Todavia as aquisições do
desenvolvimento socio-histórico da humanidade acumulam-se e fixam-se
sob uma forma radicalmente diferente da forma hiológica sob a qual se
acumulam e fixam as propriedades formadas filogeneticamente. Por
consequência, a transmissão das aquisições do desenvolvimento histórico
da humanidade pode tomar formas muito diferentes segundo os indivíduos.
O problema da relação que existe entre as propriedades do
indivíduo e as da espécie conserva-se, portanto, no homem; ele tonta
todavia um conteúdo totalmente novo. São as particularidades desta « V
relação no homem que vamos estudar agora.
1t ■
«i :
existência." (K.. A. Timiriazev; trechos escolhidos, cm quatro tomos, t. III, Moscou, 1949,
»>■•I
em língua russa). **
176 O Desenvolvimento do Psiquismo

6. A apropriação pelo homem da experiência socio-histórica

No decurso da sua história, a humanidade empregou forças e


faculdades enormes. A este respeito, milênios de história social
contribuíram infinitamente muito mais que milhões de anos de evolução
biológica. Os conhecimentos adquiridos durante o desenvolvimento das
faculdades e propriedades humanas acumularam-se e transmitiram-se de
gerações em gerações. Por consequência, estas aquisições devem
necessariamente ser fixadas. Ora, nós vímos que na era do domínio das leis
sociais elas não se fixavam sob a forma de particularidades morfológicas,
de variações fixadas pela hereditariedade. Fixavam-se sob uma forma
original, exterior (“esotérica”).
Esta nova forma de acumulação da experiência filogênica pôde
aparecer no homem, na medida em que a atividade especificamente
humana tem um caráter produtivo, contrariamente à atividade animal. Esta
atividade produtiva dos homens, fundamental entre todas, é a atividade do
trabalho. -■
O trabalho, realizando o processo de produção (sob as duas formas,
material e intelectual) imprime-se no seu produto. “O que era movimento
(Unruhe) no trabalhador, aparece agora no produto como uma propriedade
em repouso (ruhende Eigenschaft), como um ser objetivo9, (Marx).
O processo que transforma o trabalho, de forma de atividade em
forma de ser (ou de objetividade, Gegenständlichkeit), pode estudar-se sob
aspectos e relações diversas. Pode-se estudá-lo sob o ângulo da quantidade
de força de trabalho e em relação à quantidade produzida, abstraindo do
conteúdo concreto do trabalho. Pode-se igualmente estudá-lo sob o ângulo
do próprio conteúdo da atividade de trabalho e na sua relação com os
indivíduos produtores, abstraindo de todos os outros aspectos e relações.
Então, a transformação de que acabamos de falar manifesta-se como um
processo de encarnação, de objetivação nos produtos da atividade dos
homens, das suas forças e faculdades intelectuais e a história da cultura

' K. Marx. O Capital, ob. eil., t. i.


O Desenvolvimento cio Psiquismo / 77

material e intelectual da humanidade manifesta-se como um processo, que


exprime sob uma forma exterior e objetiva, as aquisições do
desenvolvimento das aptidões do gênero humano. Nesta ótica, pode
considerar-se cada etapa do aperfeiçoamento dos instrumentos c utensílios,
por exemplo, como exprimindo e fixando em si um certo grau de desen­
volvimento das funções psicomotoras da mão humana, a complexidade da
fonética da línguas como a expressão do desenvolvimento das faculdades
de articulação e do ouvido verbal, o processo nas obras de arte como a
manifestação do desenvolvimento estético da humanidade etc. Mesmo na
indústria material ordinária, sob o aspecto de objetos exteriores, estamos
perante faculdades humanas objetivadas os das “forças essenciais'
(objetivadas) do homem (Wesenkráfte des Menschen).
Recordemos uma vez mais que nós não falamos aqui senão de
faculdades psíquicas do homem. Evidentemente qne durante o processo de
trabalho o homem faz intervir um conjunto de faculdades que se gravam
no produto e de que algumas são necessariamente físicas. Todavia, as
forças e faculdades físicas apenas realizam sob a forma prática a
especificidade da atividade humana do trabalho, aquilo que constitui o seu
conteúdo psicológico. Razão por que Marx tala do ser objetivo da indústria
como de uma psicologia concretameníe presente, e escreve: "uma
psicologia para a qual continua fechado este livro, isto c. precisamente a
parte mais concretamente presente, a mais acessível da história, não pode
tornar-se uma ciência real e verdadeiramente rica de conteúdo
Este pensamento de Marx ioi muitas vezes citado na nossa
literatura psicológica, mas dava-se-lhe geralmente um sentido restrito,
essencialmente genético, histórico. Na realidade, ele tem uma significação
geral e decisiva para a psicologia científica. Esta significação aparece
plenamente quando se considera o processo sob um outro aspecto, isto é,
não sob o ângulo da objetivação (Vergegenstándigung) das faculdades
humanas, mas sob o da sua apropriação (Aneignung) pelos indivíduos.

K.. Marx: Mwntscrits de 1844. Ed. Sodaies. 1962, Paris. p. 95.


O Desenvolvimento do Psiquismo

No decurso do seu desenvolvimento ontogênico “ o homem entra


em relações particulares, específicas, com o mundo que o cerca, mundo
feito de objetos e de fenômenos criados pelas gerações humanas anteriores.
Bsta especificidade c antes de tudo determinada pela natureza destes
objetos e fenômenos. Por outro lado, é determinada pelas condições em
que se instauram as relações em questão.
O mundo real. imediato, do homem, que mais do que tudo
determina a sua vida, é um mundo transformado e criado pela atividade
humana. Todavia, ele não é dado imediatamente ao indivíduo, enquanto
mundo de objetos sociais, de objetos encarnando aptidões humanas
formadas no decurso do desenvolvimento da prática sócio-histórica;
enquanto tal, apresenta-se a cada indivíduo como um problema a resolver.
Mesmo os instrumentos ou utensílios da vida cotidiana mais
elementares têm de ser descobertos ativamente na sua qualidade específica
pela criança quando esta os encontra pela primeira vez. Por outras
palavras, a criança tem de efetuar a seu respeito uma atividade prática ou
cognitiva que responda de maneira adequada (o que não quer dizer de
maneira forçosamente idêntica) à atividade humana que cies encarnam. Em
que medida a atividade da criança será adequada c. por consequência, em
que grau a significação de um objeto ou de um fenômeno lhe aparecerá,
isto é outro problema, mas esta atividade deve sempre produzir-se.
É isto que explica que quando se colocam objetos da cultura
material humana na gaiola de um animal, sc bem que eles não percam
evidentemente qualquer das suas propriedades físicas, torna-se impossível
a manifestações das propriedades especificas que estes têm para o homem,
eles aparecem como simples objetos de adaptação ou de equilíbrio, isto é.
como elemento do meio natural do animal.
A atividade do animal compreende atos de adaptação ao meio, mas
nunca atos de apropriação das aquisições do desenvolvimento filogênieo.
Estas aquisições são dadas ao animal nas suas particularidades naturais
hereditárias; ao homem, são propostas nos fenômenos objetivos do mundo

Considero aqui e mais adiante apenas o período de desenvolvimento pós-natal (A. L.j
O Desenvolvimento do Psiquismo 179

que o rodeia". Para as realizar no seu próprio desenvolvimento


ontogênico, o homem tem que apropriar-se delas; só na sequência deste
processo —sempre ativo — é que o indivíduo fica apto para exprimir em si
a verdadeira natureza humana, estas propriedades e aptidões que
constituem o produto do desenvolvimento sócio-histórico do homem. O
que só c possível porque estas propriedades e aptidões adquiriram uma
forma material objetiva.
„ “Só através da riqueza objetivamente desenvolvida do ser humano,
escrevia Marx, é que em parte se cultiva em parte se cria a riqueza da
sensibilidade subjetiva humana (que um ouvido se torna musical, que um
olho percebe a beleza da forma, em suma, que os sentidos se tornam
sentidos e se afirmam como faculdades essenciais do homem). De fato, não
são apenas os cinco sentidos, mas também os sentidos ditos espirituais, os
sentidos práticos (vontade, amor etc.), numa palavra, a sensibilidade
humana e o caráter humano dos sentidos, que se formam graças à
existência do seu objeto, através da natureza humanizada. A formação dos
cinco sentidos é obra de toda história passada”.
Assim, o desenvolvimento espiritual, psíquico dos indivíduos é o
produto de um processo antes de mais nada particular, o processo de
apropriação, que falta no animal, tal como, aliás, o processo inverso de
objetivação das suas faculdades nos produtos objetivos da sua atividade .
Convém sublinhar que este processo de adaptação individual ao
meio natural, pois a extensão sem reservas do conceito de equilíbrio ou de
adaptação ao meio ao desenvolvimento ontogênico do homem é quase
universalmente admitido. Se se aplica este conceito ao homem sem análise
conveniente, apenas estamos a esconder o verdadeiro quadro do
desenvolvimento humano.*945

^ ’’Nern a natureza - em sentido objetivo - nem a natureza em sentido subjetivo existem


imediatamente de uma maneira adequada ao scr h u m a n o . " M a m i s c r i t s d e 1 8 4 4 . o b . d l
94K. Marx; Manuscrits d e 1 8 4 4 . o h . c i l . p. 94.
95Naturalmente, excluo aqui o caso em que os animais manifestam ''instintos dc
construção", pois a sua natureza c evidentemente diferente.
180 O Desenvolvimento do Psiquisnío

Poderemos, por exemplo, tratar em termos dc adaptação ou de


equilíbrio a atividade do homem que corresponde à sua necessidade de
conhecimentos em relação a um saber objetivo existindo sob a forma
verbal e que se torna para ele estimulação, fim, ou simplesmente condição
para atingir um fim? Ao satisfazer a necessidade de conhecimentos, o
homem pode fazer dc um conceito o seu conceito, isto é, apropriar-se da
sua significação; mas este processo não se assemelha de modo algum ao
processo de adaptação ou de equilíbrio propriamente dito. “A adaptação ao
conceito”, L‘o equilíbrio entre o homem e o conceito” são expressões
totalmente desprovidas de sentido.
A situação já é diferente nos casos em que os objetos em relação
com o homem são objetos materiais, coisas criadas pela atividade humana,
como os instrumentos de trabalho. O instrumento não é para o homem um
simples objeto de forma exterior determinada e possuindo propriedades
mecânicas definidas; ele manifesta-se-lhe como um objeto no qual se
gravam modos de ação, operações de trabalho socialmente elaboradas. Por
tal motivo, a relação adequada do homem ao instrumento traduz-se antes
de tudo. no fato do homem se aproximar, na prática ou em teoria (isto é,
apenas, na sua significação), das operações lixadas no instrumento,
desenvolvendo assim as suas capacidades humanas ’.
Não vá se dizer que o processo é idêntico para todos os outros
objetos humanos.
A diferença fundamental entre os processos de adaptação em
sentido próprio e os de apropriação reside no fato do processo de
adaptação biológica transformar as propriedades c faculdades específicas
do organismo bem como o seu comportamento de espécie. O processo de
assimilação ou de apropriação é diferente: o seu resultado é a reprodução
pelo indivíduo, das aptidões e funções humanas, historicamente formadas
Pode-se dizer que, é o processo pelo qual o homem atinge no seu
desenvolvimento o cpie é atingido, no animal, pela hereditariedade, isto é, a

A apropriação cte uma totalidade de instrumentos de produção e já o desenvolvimento


de uma totalidade das faculdades nos próprios indivíduos,” (Marx: A Ideologia Alemã, oh
cit.l.
O Qesenvolvimento do Psiquismo 181

encarnação nas propriedades do indivíduo das aquisições rio desenvolvi­


mento da espécie.
Às aptidões e funções formadas no homem no decurso deste
processo são neoform ações psicológicas, rei ativam ente às quais os
mecanismos e os processos hereditários, inatos, não passam de condições
interiores (subjetivas) necessárias que tornam o seu aparecimento possível;
em nenhum caso determinam a sua composição ou a sua qualidade
específica.
Assim, são por exemplo as particularidades morfológicas do
homem que permitem a formação das faculdades auditivas; mas c apenas a
existência objetiva da linguagem que explica o desenvolvimento do ouvido
verbal, tal como só as particularidades fonéticas de uma língua explicam o
desenvolvimento das qualidades específicas deste ouvido.
Também o pensamento lógico se não se pode absolutameníe
deduzir dos processos inatos do cérebro humano e das leis internas que os
reagem. A aptidão para o pensamento lógico só pode ser o resultado da
apropriação da lógica, produto objetivo da prática social da humanidade.
No homem que sempre viveu isolado, sem contato com as formas objetivas
que encarnam a lógica humana, sem o menor contato humano, não
puderam formar-se os processos do pensamento lógico mesmo quando se
encontrou um número incalculável de vezes em situações que põem
problemas que exigem, precisamente para a elas se adaptar, a formação
desta aptidão.
Aliás a representação de um homem sozinho em face do mundo de
objetos que o rodeia é, evidentemente, uma hipótese puramente artificial.
Nas circunstâncias normais, as relações do homem ao mundo material que
o cerca, são sempre mediatizadas pela relação a outros homens, à
sociedade. Fias estão incluídas na comunicação, mesmo quando o homem
está exteriormente sozinho, quando se entrega a uma tarefa científica, por
exemplo .

1,7Cf. Manuscrits de 1844, ob. cit., p. I 37 e seguintes.

mssm mÊÊÊm^Ê
182 O Desenvolvimento do Psiquismo

A comunicação, na sua forma exterior inicial, enquanto aspecto da


atividade coletiva dos homens, isto ó, sob forma de “coletividade direta
ou sob uma forma interior, interiorizada, constitui a segunda condição
específica indispensável do processo de apropriação pelos indivíduos dos
conhecimentos adquiridos no decurso do desenvolvimento histórico da
humanidade.
O papel desempenhado pela comunicação na antogênese do
homem foi bastante bem analisado nas investigações psicológicas
consagradas à infância 8. Do ponto de vista que nos interessa o saldo
destas investigações pode assim ser formulado:
Desde a primeira infância, as relações práticas da criança com os
objetos humanos que a rodeiam estão necessariamente inseridos na sua
comunicação com adultos — comunicação evidentemente inicialmente
“prática”.
O aparecimento destas primeiras comunicações tem como ponto de
partida subjetivo, na criança, o despertar de uma reação específica,
provocada pelo adulto, chamada “complexo de animação” por Figurine e
Denissova9899. É a partir dela que se diferencia posteriormente a
comunicação prática da criança com o seu meio circundante.
Desde o princípio, esta comunicação tem a estrutura do processo
mediatizado que caracteriza toda a atividade humana; mas nas suas formas
primeiras e rudimentares não é mediatizada pela palavra mas pelo objeto.
Ela aparece graças ao falo de que uma na aurora do desenvolvimento da
criança as suas relações com os objetos circundantes se realizam
necessariamente com a ajuda do adulto; este aproxima da criança o objeto
que ela quer apanhar, alimenta-a à colher, agita o brinquedo que faz

98 Ct. F. i. Fradkina: A psicologia do jogo na primeira infância, Tese de doutoramento.


Moscou, 1950. Do mesmo autor: "0 aparecimento da linguagem na criança”; Notas
cientificas cio Instituto Pedagógico de Lcningrado, t. XII, 1955. T. E. Kannikova: /I etapa
inicial do desenvolvimento da linguagem infantil, lese dc candidato, Lcningrado. 1947: R
Ixkhtman-Abramovileh e F. I. Fradkina: As etapas do desenvolvimento dojogo e das a ç õ e s
objectuais da primeira infância. Moscou 1949.
CT. N. L. Figurine e M. P. Denissova: As etapas do desenvolvimento do comportamento
i n f a n t i l , do nascimento à idade de um ano. Moscou, 1949.
O Desenvolvimento do Psiquismo 183

barulho etc. Por outras palavras, as relações da criança com o mundo dos
objetos são sempre inicialmente mediatizadas pelas ações do adulto.
A segunda característica destas relações consiste cm que as ações
realizadas pela própria criança não se dirigem apenas ao objeto, mas
igualmente ao adulto. Se ele manipula um objeto e o deixa por terra a
criança age sobre o adulto presente; este fenômeno é por vezes descrito em
psicologia como “um apelo da comunicação lançado ao adulto"10 . O
aparecimento do motivo de comunicação no comportamento infantil
traduz-se pelo fato dc que certas ações da criança começam a não ser agora
reforçadas pelo seu efeito concreto apenas, mas pela relação do adulto a
este efeito. Este fenômeno foi posto em evidência por S. Fajans, que
estudou a manipulação dos objetos nas crianças da primeira idade; a
criança interrompe a sua ação quando o adulto desaparece do seu campo de
percepção, e retoma-a quando o adulto reaparece111 .
Desde as primeiras etapas do desenvolvimento do indivíduo que a
realidade concreta se lhe manifesta através da relação que ele tem com o
meio; razão por que ele a percebe não apenas sob o ângulo das suas
propriedades materiais e do seu sentido biológico, mas igualmente como
um mundo de objetos que se descobrem progressivamente a ele na sua
significação social, por intermédio da atividade humana.
Isto constitui a base inicial sobre a qual se dá aquisição da
linguagem, a apropriação da comunicação verbal.
Sem querer tratar aqui do que a palavra trás ao desenvolvimento
psíquico (estão consagradas a isto milhares de páginas), gostaria
simplesmente de sublinhar uma vez mais que, se bem que desempenhe um
papel enorme e verdadeiramente decisivo, a linguagem nem por isso é o
demiurgo do humano no homem"’ .10*3

100E. k . Kavcrina: O d e s e n v o lv im e n t o d a lin g u a g e m n a s c r ia n ç a s d u r a n te o s d o is p r im e ir o s

anos, Moscou. 1950.


101 S. Fajans: “Importância do afastamento para o desenvolvimento do fenômeno “apelo à
comunicação” no lactente.” P s i c h õ l o g i s c h e F o r s c / u w g e n (Investigações psicológicas), t.
XIII, 1933.
103Cf. A. N. Leontiev: a Aprendizagem como problema de psicologia. Vaprossy
psikhologuii, 1957, n° I. p. 12 (em língua russa).
184 O Desenvolvimento do Psiquismo

\ A linguagem é aquilo através do qual se generaliza e se transmite a


experiência da prática socio-histórica da humanidade; por consequência, é
igualmente um meio de comunicação, a condição da apropriação dos
indivíduos desta experiência e a forma da sua existência na consciência.
Por outras palavras, o processo ontogênico de formação do
psiquismo humano não é criado pela ação dos excitantes verbais em si
mesmos; é o resultado do processo específico de apropriação que se
descreveu, o qual é determinado por todas as circunstâncias do
desenvolvimento da vida dos indivíduos na sociedade.
O processo de apropriação realiza a necessidade principal c o
princípio fundamental do desenvolvimento ontogenético humano - a
reprodução nas aptidões e propriedades historicamente formadas da
espécie humana, inclusive a aptidão para compreender e utilizar a
linguagem.
Quando falamos do meio social em que vive o homem,
introduzimos neste conceito um sentido diferente do que tem em biologia,
o de condições às quais se adapta o organismo. Para o homem, o meio
social imediato é o grupo social a que pertence e que constitui o domínio
da sua comunicação direta, fie tem evidentemente uma influência sobre
ele. .
A despeito das leses que a psicologia burguês.-' sustenta a propósito
do desenvolvimento ontogenético humano, que cia considera como “uma
adaptação do homem ao seu meio’’, esta adaptação ao meio não constitui
de modo algum o princípio do desenvolvimento do homem. Com efeito, o
sucesso do seu desenvolvimento pode consistir, para um homem, não
numa adaptação mas em sair dos limites do seu meio imediato que, no
caso, constituiria simplesmente um obstáculo a uma expressão
eventualmente mais completa da riqueza das suas propriedades e aptidões
verdadeiramente humanas. O conceito de adaptação do homem ao seu
meio social é. portanto, pelo menos, ambíguo tanto no plano social como
no plano da ética.
O desenvolvimento do homem, da sua vida, exige evidentemente
uma interação constante do homem como meio natural, uma troca dc
O Desenvolvimento do Psiquismo 185

substâncias entre eles. Esta interação executa o processo de adaptação do


homem à natureza circundante não é senão produzir os meios da sua
própria existência. Graças a isto. o homem, diferentemente do animal,
mediatiza, regula e controla este processo pela sua atividade; ele próprio
desempenha, em face da natureza, o papel dc uma potência natural"" .
O homem encontra na sociedade e no mundo transformado pelo
processo socio-histórico os meios, aptidões e saber-fazer. necessários para
realizar a atividade que mediatiza a sua ligação com a natureza. Para fazei-
os seus meios, as suas aptidões, o seu saber-fazer o homem deve entrar em
relações com os outros homens e com a realidade humana material. E no
decurso do desenvolvimento destas relações que se realiza o processo da
ontogênese humana, tal como o desenvolvimento do animal no seu meio
natural, o desenvolvimento do homem tem um caráter ecológico (quer
dizer que depende das condições exteriores), mas não é um processo de
adaptação em sentido próprio, biológico do termo, como é o caso para a
evolução animal.
Se, nas condições da sociedade de classes antagonistas, a maioria
dos homens, que pertence às classes exploradas e aos povos oprimidos, é
obrigada a efetuar quase exclusivamente os trabalhos físicos grosseiros, as
dificuldades correlativas destes homens para desenvolver as suas aptidões
intelectuais superiores não se explica pela “sua incapacidade para se
adaptarem” às exigências superiores, mas pelo lugar que ocupam -
independentemente da sua vontade — no sistema das relações sociais.
Determinando as possibilidades destes homens para assimilar a atividade
humana, este fato determina, ao mesmo tempo, a sua possibilidade de
“adaptação”, isto é, a possibilidade de desenvolver a sua natureza humana,
as suas aptidões e propriedades humanas.
Na sociedade de classes, a encarnação no desenvolvimento dos
indivíduos dos resultados adquiridos pela humanidade na sequência do
desenvolvimento da sua atividade global, e a de todas as aptidões humanas,
permanecem sempre unilaterais e parciais. Só a supressão do reino da10

101 K. Marx: O Capital, ob. eit.. 1. 1. Livro 1. p. 180.


186 O Desenvolvimento do Psiquismo

propriedade privada e das relações antagonistas que ela engendra pode pôr
fim à necessidade de um desenvolvimento parcial e unilateral dos
indivíduos101. Só ela cria, com efeito, as condições cm que o princípio
fundamental da ontogênese humana — a saber, a reprodução nas aptidões e
propriedades múltiplas formadas durante o processo socio-histórico — se
pode plenamente exercer.
Isto significa que, nestas condições, o homem não está agora
“alienado’' praticamente relativamente às realizações humanas e que, por
consequência, o princípio da ontogênese não é agora limitado no seu
exercício. O homem pode enfim realizar a sua vocação, levar a cabo a
tarefa essencial para que está destinado, isto é, desenvolver as suas
capacidades.
O estudo das leis concretas do processo de realização desta
vocação e deste destino-missão constitui a tarefa principal da psicologia
científica moderna.
Quais são as condições imediatas deste processo? Qual o seu
conteúdo?

7. Os mecanismos fundamentais do comportamento na ontogênese


animal e humana

Conhecem-se nos animais, mecanismos de comportamento de duas


ordens agindo conjuntamente: os mecanismos inatos, hereditários (reflexos
incondicionais, instintos) e os mecanismos de adaptação individual.
Uma importante particularidade do comportamento inato especi
tico é que o seu desenvolvimento está intimamente ligado ao desenvolvi­
mento dos órgãos exossomáticos (órgãos que asseguram as relações com o
meio exterior) e constitui de certo modo funcional da sua evolução.
As modificações ~do comportamento de espécie operam-sc, como
todas as modificações hereditárias, pela via de seleção e adição de

104K. Marx; Manuscrits de. 1844, ob. cit., p. 92.


O Desenvolvimento do Psiquismo 187

pequenas variações; é um processo muito lento correspondendo à lentidão


das modificações do meio exterior: estas modificações têm ao mesmo
tempo um alcance adaptativo fundamental10506.
Os mecanismos do comportamento individual são diferentes.
Distinguem-se principalmenle dos mecanismos de comportamento
específico porque só fixam a aptidão ou comportamento que a adaptação
individual realiza, enquanto os mecanismos de comportamento específico
fixam o próprio comportamento. Se bem que respondam a variações
rápidas do meio, a sua evolução está igualmente ligada às variações
hereditárias muito lentas embora diretamente só às transformações do
cérebro, órgão que possui o maior polimorfismo de funções. A questão
essencial que se põe é saber qual é a correlação entre estes dois
mecanismos no comportamento do indivíduo animal.
As múltiplas investigações atuais sobre o comportamento animal
revelam que não existe praticamente manifestação do comportamento
específico totalmente independente da experiência individual. Mesmo os
animais conhecidos pelo caráter fortemente mecânico dos seus instintos,
como os insetos, contrariamente às velhas idéias de J. H. Fahre""' adaptam
o seu comportamento aos elementos variáveis do meio exterior.
O mesmo ocorre para os atos inatos, como os movimentos dc
bicagcm nos pintainhos; as experiências de autores que utilizam
especialmente o método da '‘espera” de aparição dos movimentos de
bicagem mostraram que o pinto devia fazer a aprendizagem destes atos
antes de se tomarem eficazes e coordenados107.

105Cf. A. N. Séventsov: Evolução e psiquismo. Obras completas, t. Ill, Moscou, 1947 (em
língua russa).
I06E. Rabaud: A biologia dos insetos e J. H. Fabre: Journal de psychologic, 1924. n°2. A.
Molitor: “Novas experiências e observações sobre as vespas'. liiologisches Zentralblatt
(Jornal de biologia), t. i-X. 1931-1938. K. von Frisch : As abelhas, Cornell University
Press, 1950.
107F. Shepard, F. Breed: “Maturação e hábito no desenvolvimento do instinto” Jounal of
animal Behavior {Somal do comportamento animal) t. 1(1, 1913, W. W. Cruze: “Maturação
c aprendizagem nos pintos”, Jounal of Comparative psychology (Jornal dc Psicologia

í
188 O D e s e n v o lv im e n to d o P s iq u is m o

Enfim, sabemos que a manifestação ontogênica da atividade


“reflexa condicional” nos mamíferos superiores que não dependem apenas
do momento em que chegam à maturidade os mecanismos nervosos
correspondentes, mas iguaSmente das influências exercidas pelas condições
exteriores, as quais fazem fmalmente aparecer bastante rapidamente,
reflexos condicionais que se vêm enxertar nos mecanismos inatos do
comportamento .
Assim, o comportamento hereditário do animal adapta-se,
acomoda-se, de certa maneira, aos elementos variáveis do meio exterior,
no decurso da sua ontogênese. Na medida em que há sempre elementos
variáveis do meio exterior, o comportamento específico do animal é
sempre suscetível de modificações individuais109.
Por outro lado, sabemos que o comportamento individual do
animal depende do comportamento inato próprio da sua espécie. Quer se
trate de um reflexo condicional qualquer, de um comportamento em cadeia
estereotipado ou de um comportamento intelectual, é necessário no animal
que haja uma base instintiva inata.
Assim se queremos compreender 0 comportamento individual do
animal e as modificações que ele pode soirer sob a influência das
condições exteriores, é preciso sempre ter em conta o fundo do
comportamento inato específico. A este respeito escreve 1. P. Pavlov:
“Estabelecer a lista completa de todos estes reflexos (reflexos incondi­
cionais, instintos - A. L.), fazer uma descrição detalhada deles expor o seu
sistema natural constitui uma das tarefas mais urgentes da fisiologia do
sistema nervoso"0”. “Repito que é extremamente importante ter a lista
completa destes reflexos e proceder à sua sistematização, pois todo o resto

comparada). 1935: V. M. Borovsky: C o m p o r t a m e n t o d o s p i n t o s , c r i a d o s e m c h o c a d e i r a .


Réjleksy. instínkty i navyky (Reflexos instintos e hábitos) (em língua russa).
lott Cf. A. D. Slonim: " O p r i n c i p i o e c o l ó g i c o e m f i s i o l o g i a e o e s t u d o d a a t i v i d a d e i n s t i n t i v a
n o s a n i m a i s " Materiais da conferência sobre psicologia. Moscou, 1957 (em língua russa).

IWCT. h P. Pavlov, Obras completas, t. IÍI, l ivro I. Moscou, Leningrado, 1951 (em língua
r u s s a ).
1' klem. p. 362.
O Desenvolvimento do Psiquismo 189

da atividade nervosa se edifica, como veremos posteriormcnle, sobre o


fundamento destes reflexos11112.”
Os dados da zoopsicologia e da fisiologia comparada concordam
para testemunhar que a formação do comportamento individual no animal
depende diretamente dos seus instintos: um animal é capaz de levar a cabo
tarefas difíceis se são dos domínios das possibilidades do próprio
comportamento da espécie; em contrapartida, não chega ao fim das mais
simples tarefas se são inadequadas, isto é, se são estranhas às condições
naturais de vida de sua espécie“".
Os animais podem, naturalmente, manifestar um comportamento
que exteriormente parece não ter relação com os seus instintos. Se
estudarmos o processo de formação de um tal comportamento, a sua
relação com o fundo hereditário inato deixa de ter qualquer sombra de
dúvida. Tomemos o exemplo dos animais adestrados e analisemos o seu
comportamento. A foca que segura uma bola em equilíbrio, a raposa que
desenrola uma passadeira, efetuam ações que parecem totalmente
estranhas ao seu comportamento de espécie. Todavia estas ações formam-
se a partir de reações instintivas"3. Suscita-se primeiro, no animal, um
comportamento instintivo, habitual para sua espécie, que compreende os
movimentos necessários ao seu adestramento (fase da “estimulação’ direta
ou indireta). Em seguida, estes movimentos sao lixados com a ajuda de um
reforço incondicional, enquanto os movimentos inúteis para o adestrador
são inibidos (fase do “reforço” e do "polimento ). O fato de estas duas
fases serem obrigatórias mostra que o novo comportamento criado pelo
adestrador é um derivado direto do comportamento específico do animal e
que é o resultado da adaptação do animal às condições exteriores; a sua
forma insólita explica-se muito simplesmente pelo caráter extremamente
artificial das condições criadas pelo adestrador. O mesmo fenômeno se
produz quando de certas experiências visando o efeito exterior, em que se

111 [dem. i, IV. Moseou-1 xningrado, p. 28 (em língua russa).


112F. .1. Bujtendijk: Psicologia dos animais, 1928.
111Cf. M. A. Herde: “Análise dos processos de adestramento.'' Materiais cia conferência de
psicologia. Moscou. 1957.
190 O Desenvolvimento do Psiquismo

chega a criar um comportamento animal bastante complexo (cf. as


experiências de J. B. Wolfe sobre os símios)114. Não é este o lugar para nos
demorarmos sobre o estudo da aquisição da experiência individual no
animal, nas condições mais normais. Sabe-se perfeitamente que as
diferenças que o experimentador descobre dizem respeito aos mecanismos
concretos e à estrutura dos próprios processos do comportamento e, por
conseqiiência, ao reflexo do meio que se forma e que mediatiza a sua
realização. Todavia, a complexidade crescente dos mecanismos do
comportamento individual dos reflexos condicionais elementares às ações
intelectuais complexas dos símios não traduz um progresso senão num só
sentido, o do desenvolvimento, no animal, da aptidão para realizar o
comportamento próprio da sua espécie em condições concretas cada ve/
mais afastadas das condições gerais de vida desta. Assim, o comporta­
mento individual do animal depende sempre dc uma dupla experiência: a
experiência específica, fixada nos mecanismos do comportamento reflexo
incondicional instintivo e a experiência individual, formada ontogenetica-
mente; a função fundamental que asseguram os mecanismos de formação
da experiência individual consiste numa adaptação do comportamento
específico aos elementos mutáveis do meio exterior.
O problema é diferente no homem. Com efeito, existe nele um
terceiro tipo de experiência, a experiência sócio-histórica de que o homem
se apropria no decurso do seu desenvolvimento ontogênico.
Esta experiência é específica no sentido em que não se forma na
vida dos diferentes indivíduos, mas é produto do desenvolvimento dc
numerosas gerações e transmite-se de uma geração a outra. Todavia não c
fixada pela hereditariedade e é nisso que reside a sua diferença radical com
a experiência especíilca dos animais. Sc bem que ela se adquira no decurso
do desenvolvimento ontogênico do homem, não podemos identificá-la com
a experiência individual propriamente dita. Ela distingue-se, por um Sado,
pelo seu conteúdo, o que é evidente, e por outro, pelo princípio do seu
mecanismo de aquisição e de apropriação.

II4J. B. Wolfe: "Eficácia da recompensa simbólica para os chimpanzés. Comparaiivc


Psychological Memographs (Monografias dc psicologia comparada), i. XIII. 1936.
O Desenvolvimento do Psiquismo 191

A apropriação da experiência sócio-histórica acarreta uma


modificação da estrutura geral dos processos do comportamento e do
reflexo, forma novos modos de comportamento e engendra formas e tipos
de comportamento verdadeiramente novos. Razão por que os mecanismos
do processo de apropriação têm a particularidade de ser mecanismos de
formação dos mecanismos. O seu estudo apresenta sérias dificuldades, pois
são mascarados pelos mecanismos gerais de formação e de experiência
individual.
Quando um adulto procura que uma criança beba pela primeira vez
por um copo, o contato do líquido provoca nela movimentos reflexos
incondicionais, estritamente conformes às condições naturais do ato de
beber (a concha da mão forma um recipiente natural). Os lábios da criança
esticam-se em forma dc tubo, a língua avança, as narinas contraem-se e
provocam movimentos de sucção. O copo não é percebido ainda como
objeto que determina o modo de realização do ato de beber, lodavia a
criança aprende rapidamente a beber com correção pelo copo, ou seja,
dizer que os movimentos se reorganizam e ela utiliza o copo de
conformidade com a função deste. O bordo é pressionado contra o lábio
inferior, a boca estende-se, a língua põe-sc em tal posição que a ponta toca
a face interna da mandíbula inferior, as narinas dilatam-se e o líquido
escorre do copo inclinado para a boca. Há portanto, verdadeiramente, o
aparecimento de um sistema motor funcional absolutamente novo que
realiza o ato de beber integrando novos elementos (observações do autor).
A formação deste novo sistema funcional depende das
propriedades objetivas do próprio objeto que o copo é, que se distingue de
lodo o “recipiente natural” não só porque pode ser deslocado, mas também
devido ao seu bordo fino; a utilização pela criança destas propriedades não ,]
é determinada pela sua própria existência, mas pelas ações do adulto que a
obriga a beber: o adulto leva corretamente o copo aos lábios e inclina-o
progressivamente; em seguida, depois de lhe ensinar a segurar sozinha o j
copo, dirige e retifica ativamente os movimentos da criança. Assim, o ;.
adulto constrói na criança um novo sistema motor funcional, em parte jj
inculcando-lhe diretamente movimentos (segurar o copo entre os lábios e "t

MÊS
192 O Desenvolvimento do Psiquismo

incliná-lo progressivamente), em parte despertando neia com isso reflexos


existentes, mas pertencentes a outros “conjuntos reflexos” naturais.
O processo de apropriação pela criança de ações especificamente
humanas, como o uso da colher, da pá etc., desenrola-se de maneira
idêntica. No principio o objeto que a criança agarra entra no seu sistema de
movimentos naturais; ela leva a colher à boca contendo alimento como se
se tratasse de um objeto natural “não instrumental" qualquer, isto é, não
leva em conta, por exemplo, a necessidade de manter a colher na horizon­
tal. Posteriormente, pela intervenção direta do adulto, os movimentos da
mão reorganizam-se: começam a obedecer a lógica objetiva da utilização
da colher. O caráter geral destes movimentos muda; estes últimos atingem
um nível superior, nível “objetual”"5; forma-se na criança um sistema
motor funcionai, o sistema de ações de tipo instrumental.
À primeira vista, pode-se observar a reorganização análoga à dos
movimentos em certos animais superiores; de fato, esta similitude não é
senão exterior. Podemos, por exemplo, elaborar nós símios, ações que
empreguem um pau para aproximar um engodo qualquer; as experiências
inéditas de S. A. Novosselova mostram que sc produz aliás um deslo­
camento característico de motricidade.
Todavia ações deste tipo são o produto de uma adaptação
elaborada uma por uma, de uma acomodação dos movimentos naturais do
animal às relações métricas c mecânicas exteriores e, como mostrou W.
Köhler115116, não formam qualquer tipo particular de comportamento. Por
outras palavras, se bem que o símio seja capaz de elaborar diversas ações
com a ajuda de instrumentos muito simples, o próprio princípio da ação
instrumental permanece-lhe inacessível, como. o testemunha nitidamente o
caráter das faltas que ele comete quando utiliza “instrumentos”.
Por outro, lado, as ações “instrumentais dos animais distinguem-se
das ações verdadeiramente instrumentais pelo fato delas se formarem soh a
influência das próprias condições materiais (obstáculo, pau no campo de
visão do animal) e de as ações dos outros animais ou do homem não

115Cf. N. A. Bernesteín: D a f o r m a ç ã o d o s m o v i m e n t o s , Moscou. 1947 (cm língua russa).


116Cf. W. Köhler: Estudo do intelecto dos símios antròpôides, Moscou, 1930
O Desenvolvimento do Dsiquismo 193

desempenharem papel decisivo na sua formação. Hlas não sc constróem a


partir de outras, não se plagiam, não podem ser executadas ‘"segundo um
modelo”11' .
Os animais são evidentemente capazes dc imitações mas não se
formam neles ações de tipo novo. Devemos dizer que sc exagera muitas
vezes e erradamente o papel da imitação no comportamento animal. Na
realidade, numerosas reações que se atribuem à imitação, nada têm deste
mecanismo. As reações vocais das aves, por exemplo, podem aparecer sem
qualquer imitação do que quer que seja. Este fato tinha já sido mencionado
na sua época por W. A. Wagner que se apoiava nas observações de Le
Dantec relativas ao comportamento dc aves novas117118*120; posteriormente este
fato foi estabelecido de maneira rigorosa com experiências praticadas com
pintos criados no isolamento mais completo; estes últimos manifestaram
reações vocais idênticas tanto no plano quanlitativo como no plano
quantitativo às dos pintos “testemunhas"''”. O problema é sensivelmente
diferente nas aves nidifugas, mas nestes casos, trata-se igualmente apenas
de um reflexo inato de imitação.
A imitação no símio é um problema mais complexo que tem sido
objetos de numerosos debates . iodavia, a principal fonte de
divergências dc opiniões não se deve às contradições dos fatos, mas aos
diferentes conteúdos que os autores dão ao conceito de imitação1" . Pode-
se todavia considerar como certo que mesmo os animais ditos “imitadores”

117 A possibilidade dc criar nos animais ligações temporárias segundo o método dos
“movimentos passivos" não infirma de modo algum o que se disse: mesmo nos símios
antropóides. a intervenção direta do experimentador apenas faz suscitar uma ligação entre o
gesto do animal e o reforço alimentar ou reforço de orientação; assim, “a escrita dos símios
rio quadro, obtida segundo este método, está em relação com o reforço pelos seus
componentes quinestésicos e não pelo seu produto. Cf. Vatsouro. E s t u d o s o b r e a a t i v i d a d e
n e r v o s a s u p e r i o r d o a n t r o p ó i d e , Moscou, 194S (em língua russa).

1,1 Cf. W. A. Wagner: A s b a s e s b i o l ó g i c a s d a p s i c o l o g i a c o n t e m p o r â n e a , t. II, Moscou.


1913 (em língua russa)
" , D. Katz: O s a n i m a i s e o l l o m e m , Londres. 1953 (em língua inglesa).
120 f f , 1. 1. R o g u in s k i: H á b ito s e e m b r iõ e s de ações in t e le c t u a is dos c h im p a n z é s ,

Leningrado. 1948 (em língua russa).


131 Cf. N. I. Voitonis: A p r é h i s t ó r i a d o in t e le c t o , Moscou, 1949{cm língua russa).
194 O Desenvolvimento do Psiquismo

possuem certas faculdades de imitação bastante limitadas, cuja incidência


sobre o comportamento geral é muito fraco. Para disso nos persuadirmos
basta referir os estudos consagrados à limitação dos símios inferiores122* c
nos símios superiores antropóides12'’ .
Os fenômenos de imitação observados no jovem chimpanzé por TM.
N. Ladyguina-Kots são a este respeito ricos de ensinamentos: Johnny
imitava muitas vezes as ações do homem, em particular as ações
instrumentais como pregar um prego com um martelo. Todavia, não
aprendia a lógica objetiva da ação; ora não aplicava força suficiente, ora
não mantinha o prego na posição vertical, ora batia ao lado do prego.
“Assim escreve o autor, mau grado a sua longa prática Johnny jamais
pregou um só prego” l2'! .
Na criança a imitação tem um caráter fundamentalmente diferente.
Se bem que se observam, nela também, fenômenos de imitação reflexa
como a ecoquinésia, a econímica e a ecolalia, estas manifestações perdem
totalmente a sua importância quando a criança alinge os dois anos; a
criança manifesta simultaneamente reações de imitação especificamente
humanas; esta imitação é dita “intelectual” ou imitação “segundo o modelo
apresentado”. As formas de imitação superiores que se estabelecem no
decurso da vida da criança foram estudadas por P. Guillaume1"5 e Jean
Piagct126.
As experiências de A. V. Zaporojets, A. G. Poliakova e S. A.
Kirillova mostraram que, na formação das ações de imitação segundo o
“modelo apresentado”, o papel do reforçador é desempenhado, não por um

122.1, Watson: " A imitação nos símios: P s y c h o l o g i c a l B u l l e t i n (Boletim de psicologia).


1908, n®5; N. N. Ladyguina Kotz: Os h á b i t o s m o t r i z e s da a d a p t a ç ã o n o m a c a c o , Moscou.
1929; G. Aranovitchi, I. Klotín: "A imitação nos símios." E l e m e n t o s n o v o s c m r e f l e x o l o g f a
e e m f i s i o l o g i a d o s i s t e m a n e r v o s o , 1929, n“ 3.

122 R. Yerkes, A. Yerkes: O s g r a n d e s s í m i o s , 1929; N. N. Laddyguina kots: A c r i a n ç a d o


c h i m p a n z é e a c r i a n ç a d o h o m e m , Moscou, 1935 (em língua russa).

1“4N. N. Laddyguina kots: A c r i a n ç a d o c h i m p a n z é e a c r i a n ç a d o h o m e m . Moscou. 1935


(em língua russa).
^ P. Guillaume, Limitation chez i'enfant. Paris 1925.
1 11.1. Piaget: La formation dti symbolc chez I’enfant. Neuehâtel-Paris. 1945.
O Desenvolvimento do Psiquismo 195

estímulo qualquer que age como resultado da sua realizaçao, mas pela
coincidência da ação com a representação do modelo oferecido
Por este fato, a imitação reveste uma função nova: enquanto no
animal permanece limitada às possibilidades de comportamento existentes,
na criança ela pode superar este quadro, criar novas possibilidades e
formar tipos de ações absolutamente novas. Assim, a imitação na criança
aproxima-se da aprendizagem nas suas formas específicas a qual se
distingue qualitativamente do “learning” animal.

8. As particularidades da formação das ações intelectuais

A apropriação pela criança de ações especificamente humanas,


manifesta logo de origem a sua propriedade principal, a de sc fazer na
comunicação. Nas primeiras etapas do desenvolvimento, a comunicação é
comunicação prática, o que limita a sua função e as suas possibilidades.
Esta limitação deve-se ao fato do conteúdo da experiência humana,
formada historicamente, ser generalizado e lixado sob forma verbal; para
que a criança a assimile, ele tem de ser transmitido no sistema das
significações verbais, o que implica a participação dos mecanismos verbais
de segunda sinalização. A sua formação na criança deve necessariamente
preceder a aprendizagem em sentido restrito, isto é, o processo que produz
a apropriação do saber acumulado socialmente sob a forma do seu reflexo
consciente.
Nas primeiras etapas da aquisição da linguagem, a palavra é para a
criança apenas um sinal que comanda a sua atividade de orientação em
relação aos objetos que ela percebe pelos sentidos e que lhe permite
apanhá-los, compará-los e distingui-los de outros objetos exteriormente
semelhantes. Por outras palavras, ela generaliza-os e analisa-os a um nível
já superior, isto é, sob a sua forma retratada através do prisma da
experiência social, fixada na significação da palavra.

117Gf. A. V. Zaporojets: O desenvolvimento dos movimentos voluntários. Moscou, 1958.


196 O Desenvolvimento do Psiquismo

Nos estágios ulteriores do desenvolvimento da palavra, quando a


criança já adquiriu a faculdade de compreender e de utilizar a linguagem
seguida, os processos de aprendizagem revestem uma forma muito mais
evoluída e a sua função complica-se, “eleva-se” de certa maneira. A
aquisição de conhecimentos torna-se um processo que provoca igualmente
a formação na criança de ações interiores cognitivas, isto é, de ações e de
operações intelectuais. Isso serve de ponto dc partida para a aquisição dos
conceitos, nas suas ligações e no seu movimento.
O estudo deste processo de tão extrema complexidade revela o
mecanismo específico, isto é, o mecanismo de interiorização das ações
exteriores.
Numerosos psicólogos descreveram o fenômeno da interiorização.
L. S. Vygotski sublinhou em particular a sua importância fundamental para
o desenvolvimento. Tem sido sistematicamente estudado entre nós nestes
últimos tempos por P. i. Galperini121*, V. V. Davydovl~í, N. S. Pantina1' .
N. F. Talyzina128*131132. D. B. Elkonine'32 e outros; entre os trabalhos
estrangeiros devemos distinguir as numerosas investigações de J. Piaget e
dos seus colaboradores.
Não tendo por finalidade expor aqui o conteúdo destas
investigações ou tratar das divergências de concepção do processo de
interiorização, limitar-me-ei a estudar o problema da necessidade deste
processo.

128Cf. P. I. Galperini: “Experiências sobre o estudo da formação das ações intelectuais .


Relações para a conferência sobre a psicologia. Moscou. 1954; Do mesmo autor: A ação
intelectual, base pata a formação do pensamento e da imagem". Voprossy psikhologuii.
1957. n° 6 (em língua russa).
IJ<>Cf. V. V. Davydov: “Formação na criança da primeira noção cie quantidade". Voprossy
psikhologuii. 1957, n° 2 (em língua russa).
110Cf. N. S. Pantina: “A formação do hábito motor da escrita em lunção do tipo de
orientação no trabalho". Voprossy psikhologuii. 1957. n° 4.
131 Cf. N. E. Talyzina: “Da aquisição dos conceitos geométricos de base . Materiais da
conferência sobre a psicologia. Moscou. 1957.
132Cf. D. B. Elkonine: “Certas questões de psicologia respeitantes à escrita . Voprossy
psikhologuii. 1957, n° 5 (em língua russa).
O Desenvolvimento do Psiquismo 19

A interiorização das ações, isto é a transformação gradual das


ações exteriores em ações interiores, intelectuais, realiza-se necessaria­
mente na ontogênese humana. A sua necessidade decorre dc que o
conteúdo central do desenvolvimento da criança consiste na apropriação
por ela das aquisições do desenvolvimento histórico da humanidade, em
particular das do pensamento e do conhecimento humanos. Listas
aquisições manifestam-se-lhe sob a forma de fenômenos exteriores
objetos, conceitos verbais, saberes. A sua ação suscita reações na criança e
aparece, nela, um reflexo destes fenômenos; todavia, as reações primárias
da criança à ação destes fenômenos só correspondem ao seu aspecto
material e não às suas qualidades específicas; consecutivamente, o seu
reflexo, no cérebro da criança, permanece um reflexo de primeira
sinalização, não refratado nas significações, isto é, não refratado através do
prisma da experiência generalizada da prática social. Para que a criança
reflita os fenômenos na sua qualidade específica — na sua significação
deve efetuar em relação a ela tinta atividade conforme à atividade humana,
que eles concretizam, que eles “objetivam’ . Em relação aos fenômenos
espirituais, a um conceito, por exemplo, que ela encontra pela primeira
vez, a criança deve manifestar uma atividade intelectual, uma atividade do
pensamento que lhe corresponda. Como c que esta forma de atividade se
constitui na criança pela primeira vez?
Em primeiro lugar devemos rejeitar a convicção ingênua e
desprovida de qualquer fundamento que caracteriza a velha psicologia
idealista, segundo a qual a criança possuiria por natureza a faculdade de
efetuar processos mentais interiores, que os fenômenos que agem sobre a
criança apenas fariam provocar estes processos e enriquecê-los com um
conteúdo cada vez mais complexo, e que o seu desenvolvimento se
reduziria a isso.
A outra solução possível do problema do desenvolvimento da
atividade mental interior na criança parte justamente de que esta atividade
não é inata. Admite-se, por outro lado que os processos de pensamento e os
processos lógicos, são, na criança, produto da sua experiência pessoal, que
cies sc formam, portanto, da mesma maneira como se constituem no
198 O Desenvolvimento do Psiquismo

animal os processos que permitem abrir as “caixas experimentais’1 ou


encontrar o mais curto caminho num labirinto. A única diferença entre este
dois processos deve-se ao fato de que eles se formam na criança em
relação com a ação que exercem sobre cia os fenômenos de natureza socio-
histórica, os fenômenos verbais especialmente. Durante os processos de
aprendizagem, a criança é confrontada com estes fenômenos que lhe são
apresentados em ligações adequadas e selecionadas de maneira
sistemática: à força de repetir e de reforçar estas ligações, formam-se
progressivamente na criança associações e uniões em cadeias complexas
entrecruzadas cuja atualização não é mais do que o desenrolar do processo
menta 1co rrespon dente.
Esta concepção do desenvolvimento do pensamento na criança,
que se impõe pela sua simplicidade, choca todavia com sérias dificuldades.
Está em contradição com o ritmo real da aquisição das ações intelectuais
pela criança. Com efeito, a formação dos processos mentais por via de
acumulação progressiva das ligações suscitadas pela ação do material
educativo, por natureza, só poderia ser muito lento, pois devia apoiar-se
num material quantitativamente considerável. Mas, na realidade, os
processos mentais formam-se rapidamente a partir de um material
relativamente pouco importante; muito mais limitado que o mínimo
requerido para a formação, pela criança, das ligações adequadas para sua
diferenciação e generalização. Basta mencionar para este respeito o fato,
estabelecido por A. G. Rouzskaía, de mesmo uma criança em idade pré-
escolar ser capaz, na prática, de aprender, “imediatamente1' e literalmente a
partir de alguns exemplos isolados, a analisar e a generalizar corretamente
figuras geométricas, por pouco que nela se crie o processo de orientação
em relação às suas formas, graças aos sinais que o experimentador coloca
de certa maneira diretamente entre as suas mãos1'’’ .
A segunda dificuldade, muito maior c fundamental que primeira,
com que choca esta concepção do desenvolvimento dos processos mentais,13

133 Cf. A. G. Rouzskaía: “A atividade fie pesquisa-orientaçào na formação das


generalizações elementares nas crianças.” Recolha P r o b l e m a s d o r e f l e x o d e o r i e n t a ç ã o e d a
a tiv id a d e d e o r ie n ta ç ã o , M o sc o u , 1958.
O Desenvolvimento do Psiquismo 199

deve-se a que o processo de atualização das associações não é dc modo


algum idêntico ao processo de atividade intelectual que não é senão uma
das condições c um dos mecanismos da sua realização. E lacil dc ver
através de fatos muito simples e bem conhecidos. Não é dilícil, por
exemplo, criar numa criança as ligações associativas estáveis do tipo
2+3=5; 3+4=7; 4+5=9 etc. Se bem que estas ligações possam lacilmente
ser atualizadas, a criança pode todavia não saber adicionar as grandezas
correspondentes, independentemente do fato dos elementos destas ligações
estarem associados ou não nela às quantidades discretas visíveis
correspondentes. A ação aritmética da adição não c criada por estas
ligações, ela precede a sua formação. Razão por que, para aprender a
contar, nunca se começa a tabuada da adição de cor. Antes de dar a tabuada
à criança, ensina-se-lhe obrigatoriamente como efetuar a ação de adição
com a ajuda de objetos concretos; em seguida, transforma-se progres­
sivamente esta ação da criança reduzindo-a à sua forma contrata, sob a
qual é fixada nas expressões aritméticas do tipo 2+3=5 ctc. Apenas neste
momento a criança adquire a possibilidade de utilizar uma tabuada da
adição para contar; isso significa que as associações de que estamos
falando lbe permitem doravante efetuar o processo de adição Ale cabeça .
As ingênuas concepções associativistas da aprendizagem
manifestam uma falta total de fundamento nos planos teórico e prático, na
medida em que omitem o encadeamento principal c a condição essencial
dos processos de apropriação, a saber a formação na criança das ações que
constituem a base real destes processos. Estas ações devem ser sempre
construídas ativamente pelo meio circundante da criança, pois esta última é
incapaz de sozinha as elaborar.
Vimos já isto a propósito das. ações exteriores materiais mais
simples. No começo, a criança realiza-as sempre quer com a ajuda direta
do adulto (aprendizagem do uso da collier, do copo etc.), quer quando o
adulto mostra como fazer ("ação segundo um modelo”), quer enfim por
intermédio de uma instrução verbal.
Posteriormente, à força de se repetir, elas elaboram-se na criança e
adquirem a propriedade de se adaptar às modificações mesmo profundas
200 O Desenvolvimento do Psiquismo

das condições concretas. Este processo, dc adaptação das ações realiza-se já


segundo mecanismos gerais dc formação da experiência individual, mas
agora estes mecanismos asseguram a adaptação à variação tias condições
concretas de ações historicamente elaboradas assimiladas pela criança, c
não as variações das condições concretas do comportamento hereditário
específico, como é o. caso no animal.
Quando se trata da formação de ações interiores intelectuais -
ações que se relacionam com fenômenos ideais — este processo c muito
mais complexo. Tal como a influência dos objetos humanos, a influência
dos conceitos, dos conhecimentos em si não é suscetível de provocar na
criança reações adequadas; com efeito, a criança deve antes apropriar-se
delas. Para o fazer, o adulto tem de construir ativamente estas ações na
criança; mas, contrariamente às ações exteriores, as ações interiores não
podem ser criadas diretamente do exterior. Quando se constrói uma ação
exterior, pode-se mostrá-la à criança, pode-se assim intervir
mecanicamente na sua execução, por exemplo, mantendo a mão da criança
na posição correta, retificando a trajetória do seu gesto etc. Para a ação
interior, a ação “de cabeça”, é diferente. Não podemos nem mostrá-la, nem
vê-lá. nem intervir diretamente na sua realização. Assim, se se quer
construir na criança uma nova ação intelectual, como a ação da adição, é
preciso apresentar-lha inicialmente como uma ação exterior, é preciso
exteriorizá-la. A ação interior, constitui-se, portanto, primeiro, sob a forma
de uma ação exterior desenvolvida. Posteriormente, após uma transfor­
mação progressiva — generalização, redução específica dos seus encadea­
mentos, modificação do nível em que se efetua — cia interioriza-se, isto é
transforma-se em ação interior, desenrolando-se inteiramente no espírito
da criança.
Assim, a aquisição das ações mentais, que estão na base da
apropriação pelo indivíduo da “herança” dos conhecimentos e conceitos
elaborados pelo homem, supõe necessariamente que o sujeito passe das
ações realizadas no exterior às ações situadas no plano verbal, depois a
uma interiorização progressiva destas últimas; o resultados é que estas
ações adquirem o caráter de ações intelectuais estreitas de atos intelectuais.
O Desenvolvimento do Psiquismo 201

Naturalmente que este processo não passa sempre obrigatoria­


mente por todas estas etapas e não engloba necessariamente todos os
encadeamentos da ação intelectual novamente adquirida. f evidente que as
ações intelectuais já formadas se manifestam quando da aquisição de uma
nova ação, como faculdades mentais já formadas que são simplesmente
“postas em ação”. A este propósito, é importante notar que este fato cria
por vezes a ilusão de que a interiorização das ações exteriores não c senão
um caso particular, que se observa principalmente nas primeiras etapas do
desenvolvimento intelectual.
De fato, este processo é obrigatório na ontogênese do homem. É de
uma importância capital se se quer compreender a formação do psiquismo
humano, na medida em que a característica principal deste último é
precisamente desenvolver-se não a título de aptidões inatas, não a título de
adaptação de comportamento específico aos elementos variáveis do meio,
mas ser o produto da transmissão e da apropriação pelos indivíduos do
desenvolvimento sócio-histórico e da experiência das gerações anteriores.
Toda a progressão criadora ulterior do pensamento que o homem faz, só é
possível na base da assimilação desta experiência.
Por este fato, a teoria do desenvolvimento intelectual e a psicologia
da aprendizagem não podem negligenciar a profunda originalidade deste
processo; elas não devem limitar-se apenas à concepção dos mecanismos
gerais de formação da experiência individual que, se bem que estando na
base deste processo, não pode explicar-lhe as particularidades especílicas.9

9. O cérebro e a atividade psíquica do homem

A análise precedente apoiava-se em duas teses: primeiramente, no


decurso do desenvolvimento sócio-histórico, novas funções psíquicas se
formam no homem; segundo, na era da predominância das leis sociais, o
cérebro humano não sofre, filogeneticamenle falando, modificações
morfológicas essenciais; as aquisições do desenvolvimento histórico
fixam-se nos produtos objetivos — materiais e ideais da atividade
202 O Desenvolvimento do Psiquismo

humanai e transmitem-se de uma geração a outra sob esta forma; por


conseqüência, as neoformações psicológicas aparecidas no decurso do
processo histórico são reproduzidas pelos indivíduos não em virtude da
ação da hereditariedade biológica, mas em virtude das aquisições feitas no
decurso da vida.
A confrontação destas duas tese.s põe um problema muito
importante, o dos mecanismo cerebrais, das aptidões e funções psíquicas
que se formaram historicamente no homem. Este problema constitui o
ponto crílico diante do qual a investigação da maioria dos psicólogos de
orientação sociológica se detém. Ainda por cima, tem uma importância
fundamental. E com efeito por ela se desviar da sua solução que a
psicologia se cinde em psicologia social (histórica) e psicologia
experimental (subsidiária das ciências da natureza).
A dificuldade deste problema reside no fato do reconhecimento da
natureza sócio-histórica das aptidões psíquicas humanas conduzir a uma
afirmação paradoxal à primeira vista; elas são relativamente indepen­
dentes das particularidades morfológicas do cérebro. Por outras palavras,
isto põe o problema da existência possível de aptidões ou de funções
psíquicas sem órgãos especiais, no sentido próprio, morfológico do termo.
Esta questão não é absolutamente nova para a psicologia. Há já
muito que ela se pôs aos psicólogos científicos, sob a seguinte forma: o
que é que engendra tal ou tal processo psíquico? Quando, por analogia com
o conceito de função biológica de um órgão, se introduziu cm psicologia o
conceito de função, o problema tornou uma forma muito nítida. Foi
preciso encontrar os órgãos correspondentes às diversas funções psíquicas
concretas. Como a simples referência ao cérebro como órgão do psiquismo
se verificava insuficiente, os esforços dos investigadores tenderam para
ligar o mais precisamente possível as diferentes funções às diferentes
estruturas cerebrais. Sabc-se todavia que estas tentativas para localizar
diretamente as funções psicológicas superiores, num espírito de psicomor-
fologia ingênuo, se revelaram falsas, no plano dos fatos.
Tentativas ulteriores, visando ligar diretamente as funções
psíquicas a tal processo fisiológico do córtex dos grandes hemisférios não

H H H iia
O Desenvolvimento do Psiquismo 203

foram mais satisfatórios; deve-se dizer que essas tentativas são o resultado
de uma compreensão funcynnalmente errada do princípio pavloviano da
“aplicação do bordado psicológico na talagarça fisiológica’'. Com efeito, é
bem evidente que não existem e que não podem existir processos psíquicos
em que uns seriam, digamos, a função especial da inibição c os outros da
excitação; em que uns seriam o produto de uma irradiação geral, os outros
o produto dc uma irradiação “efetiva”. Mesmo um conceito fisiológico
como o conceito dc processo no segundo sistema de sinalização não se
relaciona com a única função da linguagem mas com todas as funções
psicológicas ao nível da consciência, isto é, tanto do pensamento como da
memorização lógica, da percepção consciente, da atenção voluntária etc.
Nesta época as descobertas da psicologia experimental e, em
particular, os resultados do desenvolvimento da teoria da atividade nervosa
superior constituíam uma excelente preparação para a única solução
positiva possível deste problema tão complexo.
No princípio do século XX acumulavam-se numerosas experiê­
ncias e observações clínicas que testemunham que mesmo as funções
psíquicas sensoriais relativamente simples são o produto da atividade
conjunta de diferentes aparelhos receptores e efectores. Isto permitiu
avançar a idéia geral segundo a qual “onde as funções fisiológicas
adquirem uma significação específica que se exprime psicologicamente
por uma qualidade original das sensações... o caráter especifico de uma
atividade assenta na união dos elementos c não nos próprios elementos
E sublinha-se que esta união dos elementos fisiológicos cria uma qualidade
nova, não inerente aos próprios elementos.
Além disto, múltiplos dados permitiram chegar à conclusão geral,
não menos importante, dc que a união dos elementos fisiológicos 1
elementares, união que está na base das funções psíquicas, se constitui no
decurso da vida, e que, por consequência, “a formação destas 1unções134

134 Cf. W. Wundt: Os princípios da psicologia fisiológica. I. I. 1906, p. 458 (cm língua J. j
russa).

ãÉ S É áâ — -*
204 O Desenvolvimento do Psiquismo

(psíquicas) deve ser inteiramente atribuída às condições imediatas de vida,


que agem durante o desenvolvimento individual” (W. Wundt)'3?.
Como se sabe, I. M. Setchcnov foi o primeiro a desenvolver, a
partir de uma concepção materialista reflexa do trabalho do cérebro, a idéia
segundo a qual as ligações complexas em que o funcionamento realiza as
funções cognitivas se formam e se fortificam no decurso da vida. A este
propósito, avançou a tese fundamental de que estas ligações sejam
formadas principalmente pelos encadeamentos motores dos reflexos, isto é,
não pelas sensações e imagens, mas pelas suas conseqücncias motrizes”1"6.
Todavia, a explicação fisiológica concreta da formação das
ligações entre os diversos elementos do sistema reflexo só foi encontrada
muito mais tarde. Penso nas descobertas de I. 1. Pavlov respeitantes ao
mecanismo de formação dos sistemas funcionais cerebrais.
No seu artigo intitulado “Análise dc certos reflexos no cão’
(1916). Pavlov escrevia já que não bastava ter uma noção da atividade dos
diférentes centros nervosos para compreender a base fisiológica do
comportamento complexo e que era preciso para isso supor a existência de
uma “união funcional das diferentes partes do sistema nervoso central,
realizada por uma “traçagem” particular (Bahnung) dc associações, quando
da realização de um ato reflexo determinado1'” .
Posteriormente, a experimentação deste princípio de formação de
uniões funcionais fez-se essencialmente com investigações sobre a
dinâmica dos processos de formação e de extinção dos sistemas de
ligações, a partir de conjuntos de excitantes artificiais suscessivos. Apenas
em algumas investigações sobre o homem é que se partiu desta idéia para
estudar a estrutura das funções que comprimem aptidões psíquicas gerais
simples e neste sentido universais, como a aptidão para a percepção visual
dos objetos ou aptidão para a localização espacial de excitantes*136

1,5 W. Wundt: ob. d l , p. 1. p.460.


136 í. M. Setchenov: Ohms escolhidas de filosofia e de psicologia. Moscou, 1947 (cm língua
russa).
1,7I. P. Pavlov: Obras completas, t. III. livro I, Moscou-Lcningrado. 1951
O Desenvolvimento do Psiquismo 205

acústicos138139*. Estas pesquisas mostraram que tais formações são


inegavelmente de natureza reflexa condicional e permitiram compreender
um leque de fatos muito maior, cuja análise evidencia uma outra
particularidade importante destas formações, a saber: a sua estabilidade, a
sua solidez, é bem conhecido, por exemplo, que as ligações óptico
motrizes, formadas na ontogênese, não se extinguem mesmo quando não
sofrem durante muito tempo qualquer reforço; para ilustrar este lato basta
mencionar que as imagens visuais associadas às sensações táteis subsistem
várias dezenas de anos seja em quem for que cegue tótalmènte
Uma outra particularidade específica destas formações é que, uma
vez constituídas, continuam a funcionar como um todo sem manifestar em
nada a sua natureza “composta”; por este fato os processos psíquicos corre­
spondentes apresentam sempre o caráter de atosJsimples e imediatos, como
os atos de percepção da distância dos objetos, de avaliação de peso (fenô­
meno de Charpentier), de intuição (insight) das relações concretas etc.
Estas particularidades permitem considerar as formações que se
constituíram no decurso da vida como órgãos originais, cujas funções
elementares específicas se manifestam sob a forma de aptidões ou de
funções psíquicas .
Devo sublinhar que o emprego aqui feito do conceito de órgão se
justifica totalmente. Há mais de trinta anos que A. A. Ouktomski avançou
a idéia de existência de “órgãos fisiológicos do sistema nervoso”. A este
propósito, escrevia; “Habitualmente o nosso pensamento liga à noção dc
“órgão” a qualquer coisa dc morfologicamente distinto e estável possuindo
caracteres estatísticos constantes. Parece-me que isto não é de modo algum

1,8Cf. E. N. Sokolov: Percepção e reflexo condicional, Moscou, 1958: 1. N. Kulaguinc:


'Tentativa de estudo experimenta! da percepção da direção dc um objeto sonoro ", í oprossv
psikhologuii, 1956, n°6
139M. S. Zemtsova: Os meios utilizados para compensar a cegueira ná atividade de
trabalho e de cognição, Moscou, 1956, p, 203-204 (cm língua russa).
1,10Cf. A. Leonticv: ■‘Natureza c o modo dc transformação dás aptidões e processos
psíquicos no homem ” I 'oprossy psikhologuii, leses dos relatórios da faculdade de
filosofia de Moscou, 1955.
.106 O Desenvolvimento do Psiquismo

obrigatório e que a ciência moderna, cm particular, não deveria ver nisso


qualquer coisa dc obrigatório141
Os órgãos funcionais, de que estamos falando, distinguem-se
nitidamente das formações, como por exemplo, os reflexos condicionais
em cadeia que estão na base dos hábitos ditos mecânicos. Distinguem-se
tanto pela sua formação c a sua dinâmica como pelo caráter das suas
funções elementares.
Eles não se formam na ordem de aparecimento das associações que
“decalcam” pura e simplesmente a ordem dos excitantes exteriores, mas
são antes o produto da ligação dos reflexos num sistema global possuidor
de uma função altamente generalizada, qualitativamente original. Os
reflexos que entram numa nova ligação mútua representam inicialmente
reações relativamente autônomas. Quando se efetua a sua união, os
encadeamentos são inibidos, reduzem-se e os reflexos tomam aspecto de
processos cerebrais interiores intracentrais. Se bem que os efeitos
estritamente periféricos não desapareçam totalmente no decurso deste
processo (um estudo suficientemente profundo pode sempre descobri-los),
eles perdem todavia o seu efeito adaptador autônomo e, por consequência,
a possibilidade de um reforço direto, pois apresentam-se doravante sob
uma forma reduzida. O reforço ou o não-reforço só podem agora relacio­
nar-se diretamente com o encadeamento terminal do sistema formado;
assim, uma vez constituídos, estes sistemas regulam-se como um lodo.
O ouvido tonal é um bom exemplo destes sistemas globais que
estão na base das funções que têm o aspecto de aptidões psíquicas
elementares.
O ouvido tonal é uma faculdade própria do homem, na medida em
que é condição necessária para uma percepção adequada da música, que ê
como a linguagem sonora, produto do desenvolvimento da sociedade
humana.
O que diferencia do ouvido no sentido genérico do termo e que lhe
permite perceber as nuances mais tênues entre os fonemas das línguas

141 A. A. Oulhotomski: Obras completas, t. 1„ Lcningrado, 1950, p. 299 (em língua russa).
O Desenvolvimento do Psiquismo 207

humanas é que ele distingue, nestes conjuntos cie sons, o -parâmetro da


altura, isto é, precisamente' aquilo que na maioria das línguas modernas
(não tonais) não desempenha o pape! de elemento pertinente; por outro
lado, ele permite inversamente abstrair dos componentes de timbres que
determinam certas qualidades específicas dos sons verbais.
Os estudos experimentais do autor e dos seus colaboradores
Guipenreiter e Ovtchinnikova sobre a natureza do ouvido tonal mostraram
que esta função se formava ontogenicameníe. Ele pode encontrar-se cm
vários estágios variáveis segundo as pessoas; pode mesmo não se
desenvolver de todo; neste caso; é compensado pelo ouvido timbrai. As
investigações mostraram igualmente que o encadeamento decisivo da
estrutura do ouvido tonal era constituído pela reação de resposta, adequada
ao parâmetro percebido do som, isto é, pela reação de entonação
(vocalização) da altura do som. Inicialmente, este encadeamento
apresenta-se como uma vocalização exterior que se igualiza à altura do
som percebido. Em seguida, reduzindo-se, transforma-se numa vocalização
interior, não intervindo na análise da altura a não ser pelas suas
quinestesias. Finalmente, a análise das relações entre alturas de sons íáz-se
por intermédio de um mecanismo formado especialmente, o da
“comparação” ativa e de igualização que se desenrola no campo interior.
Este mecanismo, formado no decurso da vida, que só um estudo objetivo
pode revelar, e cuja ação escapa totalmente à introspecção, representa,
propriamente falando o órgão do ouvido tonal. Se bem que se crie na
ontogênese e que se possa ativamente dirigir a sua formação, como
mostram as investigações, a sua função não se distingue em nada, à
primeira vista, da manifestação das aptidões inatas elementares. Mas é
apenas à primeira vista.
Uma análise mais detalhada põe facilmente em evidência as
particularidades deste tipo de funções.
À particularidade mais fácil de estabelecer destas funções
psíquicas sistemáticas é que a sua antiga estrutura inteiramente reflexa
pode ser sempre remanifestada e os seus encadeamentos motores reduzidos
podem ser sempre postos em evidência. Com eleito, em certos casos pelo
208

menos, a sua estrutura pode ser reordenada, especialmente pela


substituição de um elo por outro.
Tudo isto, evidentemente, está totalmente excluído se se trata de
funções, na base das quais se encontram estruturas inatas, fixadas morfolo­
gicamente.
As funções psíquicas sistemáticas tem igualmente uma dinâmica
particular, que se traduz por uma ação de reforço especial: enquanto o
reforço positivo do efeito terminal conduz de certo modo a um sistema
funcional mais apertado, isto é, à inibição de um número sempre maior de
elementos, a ausência de reforço provoca, pelo contrário, paradoxalmente a
sua manifestação, a sua desinibição. Esta dinâmica é particularmente
manifesta na palavra, quando de uma conversação telefônica, por exemplo.
Quando a audibilidade se deteriora e por este lato o interlocutor não
confirma a recepção da informação ou dá uma resposta inadequada à
informação transmitida, o locutor põe-se imediatamente a articular melhor;
quando a audição se torna normal, ele retoma um ritmo de locução normal,
isto é. reduzido para um certo número de elementos articulatórios.
Esta dinâmica foi demonstrada experimentalmente sobre o modelo
de formação das reações em cadeias múltiplas por A. V. Napalkov c M. 1
Bobneva. Evidentemente que esta dinâmica se explica pelo fato da inibição
do último elo de execução do sistema provocar, por indução a excitação
dos encadeamentos previamente inibidos, segundo o princípio da
generalização reflexa (L. G. Voronine). Poder-se-ia pensar que esta dinâ­
mica está igualmente na base da formação dos sistemas funcionais em
questão: os elos cuja inibição não modifica o efeito final reduzem-se e o
sistema contrai-se; todavia desde que a inibição respeite a um elo cuja
redução modifique o efeito final a ponto deste não ser mais reforçado, o
elo que acaba de ser inibido restabelece-se. Assim o processo autônomo
(“espontâneo”) de formação destes sistemas funcionais é dirigido pela ação
de uma “seleção natural” original dos elementos minimos necessários.
Os fatos estabelecidos pela análise sistemática das atividades,
funções e aptidões psíquicas do homem formadas ontogenicamente,. tal
como os fatos que caracterizam o seu processo dc formação, concordam
O Desenvolvimento do Psiquismo 209

perfeitamente com os dados atuais obtidos a partir de um material


patológico.
Estou pensando nos numerosos dados que testemunham de fato
que a perturbação destes processos, provocada por uma lesão numa parte
determinada do cérebro, deve ser compreendida não como a perda dc uma
função, mas como a destruição, a desintegração do sistema funcional
correspondente, de que é destruído um dos elos1" .
O problema da localização das funções psíquicas encontra-se assim
resolvido no sentido de que não é a função de um grupo isolado de células
corticais que está na sua base, mas um sistema cerebral complexo, cujos
elementos, dispostos em diversas zonas do cérebro, muitas vezes bastante
afastados uns dos outros, formam todavia uma constelação única.
Os fatos que colocam em evidência o princípio genético da
localização dos sistemas funcionais, isto é, a dependência entre o eleito
patológico e a idade da criança, na qual apareceu a lesão, são
extremamente importantes de um ponto de vista ontogênico.
Este princípio genético de localização, cuja importância
psicológica L. S. Vygotski142143 sublinhou, é mais um argumento em favor da
tese que considera estes sistemas funcionais couro formações que
aparecem no decurso da vida, possuindo estrutura interna diferente
segundo os estágios de desenvolvimento.
A análise psicológica sistemática das funções afetadas pelo
aparecimento de zonas lesadas no cérebro não tem apenas importância
teórica; com efeito, no plano prático, eia oferece um método eticaz de
restauração destas funções. Este método consiste em substituir o elo
destruído por outro elo indene, após se ter previamente “feito abrir a
estrutura da função atingida; em seguida “fecha-se" esta estrutura

142Cf. P. K. Anokhine: “Os princípios gerais da compensação das funções lesadas e a sua
base fisiológica." Relatório à cessão do Instituto de Defectologia da Academia das Ciências
Pedagógicas da R.S.F.R. Moscou, 1953; N. 1. Gratchtchcnkov, A. R Lourja. Da
localização sistemática das funções do c ó r te x cerebral." ,N e u r o l o g i a e P s i q u i a t r i a . 1945. n°
1 (em língua russa).
143 Cf. L. S . Vygotsky: P s i c o l o g i a e t e o r i a d a l o c u l i é a ç ã o , 'leses do primeiro congresso
uevaniano dc neuropsicologia. Kharkov, 1934.
210 O Desenvolvimento do Psiquismo

automatizando progressivamente o processo correspondente. Tomemos um


exemplo: a lesão das partes anteriores do lobo occipital do córtex pode
deixar indenes as funções visuais elementares, mas provocar uma total
incapacidade para ler: neste caso, simples exercícios não conseguem
eliminar sensivelmente esta perturbação. Este defeito pode durar vários
anos se não empregarem meios apropriados. E todavia possível
restabelecer rapidamente a faculdade perdida da leitura, Para tal, substitui-
se o elo óptico-motor do sistema considerado por um elo motor-manual:
ensina-se a leitura ao doente obrigando-o a contornar as letras com a ponta
de um lápis; depois, pratica-se o “contorno visual”; após algum tempo, o
sistema está interiorizado com o seu elo restabelecido e a sua função toma
o aspecto da leitura ordinária automatizada144.
Mau grado tudo o que distingue o restabelecimento das funções do
seu desenvolvimento, os dois processos traduzem, tanto um como o outro,
a sua estrutura em sistema. É esta que torna possível a compensação,
assente sobre um elemento da função diretamente lesada (compensação
dita intra-sistematizante extenso) e a adaptação das funções e tarefas
novas; não é, portanto, por acaso que atualmente se dá um sentido lato ao
conceito de compensação, pois o estudo dos seus mecanismos mostrou que
não existia qualquer diferença fundamental entre a reorganização nas
funções nas condições patológicas e nas condições normais145.
As grandes diferenças nada têm com as condições normais ou
patológicas da reorganização, mas antes com o nível em que se situam as
funções. Se se pode falar de um processo instantâneo a propósito das
funções vegetativas ou das funções animais mais elementares, fazendo-se a
sua reorganização automaticamente à custa das “reservas” do organismo,
sob a ação de uma impulsão periférica, a coisa já é diferente para a

144 Cf. A. R. Louria: O r e s t a b e l e c i m e n t o d a s f u n ç õ e s c e r e b r a i s a p ó s u m t r a u m a t i s m o de


Moscou, 1948; do mesmo autor: Psicologia e problemas da reorganização das
g u e rra .

funções cerebrais." í z v e s k i a d a A c a d e m i a d a s C i ê n c i a s d a R e p ú b l i c a d e B i e l o r n i s s i a , 1950,


n° 2.
145 Cf. P. K. Anokhine: “Os princípios gerais da compensação das funções lesadas e a sua
base fisiológica" Relatório à cessão do Instituto de Dcfectologia da Academia das Ciências
Pedagógicas da R.S.P.R. Moscou. 1953.

1
O Desenvolvimento do Psiquismo 2 1 1

reorganização das funções psíquicas que se formam no decurso da vida.


Neste caso, o processo é lento e faz-se por etapas; inclui uma
exteriorização e uma “abertura" das funções, depois a fabricação especial
de um novo elo que se insere em seguida na estrutura e em fim a
interiorização do dito elo. Por outras palavras, este processo realiza-se por
aprendizagem; constitui o resultado especial, “formal", pela sua oposição
ao seu resultado dito material, que se traduz pela apropriação do material
de aprendizagem sob a forma de conhecimentos ou de hábitos
determinados.
Regressemos ao problema mais geral que se nos põe. Assim, vimos
que o desenvolvimento psíquico do homem, no decurso da sua história
social não acarretava modificações morfológicas. As neoformações
psicológicas têm por órgãos cerebrais novas “uniões nervosas”
funcionalmente formadas por uma “traçagem” particular c estas uniões
reproduzem-se todas as vezes em cada nova geração, na sequência de um
processo específico de apropriação pelo indivíduo da realidade e da
existência humanas. Assim se produziram as modificações da expressão
superior da natureza do homem, as suas aptidões e as suas forças
intelectuais.
“A nossa natureza é moldávei”; isto relaciona-se antes dc mais
nada com a natureza espiritual do homem, com a natureza do seu
psiquismo.
O progresso principal do desenvolvimento cerebral, ocorrido
durante o período em que o homem adquiriu o seu tipo atual, consistiu
evidentemente numa corticaiização progressiva da função de fixação das
estruturas dinâmicas em formação, isto é, na transmissão ao córtex —
órgão de experiência ontogênica — do papei desempenhado pelos centros
subcorticais em face da acumulação da experiência biológica da espécie.
Isto traduz fisiologicamente o que atrás descrevi como a faculdade própria
ao homem de adquirir no decurso da sua vida a experiência da espécie, das
gerações humanas.
O progresso de que falamos foi preparado por toda a pré-história
do cérebro humano, período durante o qual as funções das suas estruturas
212 O Desenvolvimento do Psiquismo

fixadas morfologicamente e das suas estruturas funcionais se aproximavam


cada vez mais. 1. P. Pavlov falava deste lato como de um ponto de vista
'"bastante pouco espalhado5' mas que ele tinha “todavia em mente5'. “Para
mim, prosseguia Pavlov, a construção c a dinâmica não se opõem como se
pensa habitualmente. Eu junto-as, identitico-as; para mim não há quase
qualquer diferença... Razão por que penso que o que primeiro era dinâmico
se torna em seguida construtivo, porque é a mesma coisa, lenho esta
opinião e considero que a distinção entre matéria e função c convencional
c relativa. Uma análise mais pesquisada destrói a diferença entre cias e
acho estranho que se possa opor estritamente a dinâmica e a
~ 146 >5
construção
Se ao nível anima! se deve tratar sobretudo da formação de
construções fixadas pala hereditariedade, a nível do homem estas
manifestações não se reproduzem por hereditariedade biológica mas pelo
processo de apropriação atrás descrito c que constitui o mecanismo da
“hereditariedade” social.
Resta uma ultima questão a tratar, a da relação fundamental
existente entre a dinâmica fisiológica do cérebro e o desenvolvimento dos
processos psíquicos. Se prescindirmos das particularidades individuais que
existem na dinâmica da atividade nervosa superior pode-se considerar que
esta última não conhece mudanças essenciais, em todo caso no decurso da
história do desenvolvimento do homem. As leis gerais que regem a
atividade cerebral não mudam, quaisquer que sejam os pontos do córtex
que se religuem entre si e quaisquer que sejam os "bordados dinâmicos
que então se formem. Estes “bordados5 dependem do conteúdo da
atividade do sujeito que realiza a relação deste último com a realidade,
obedecendo às suas propriedades objetivas. O desenvolvimento, a variação
e a diversidade desta atividade criam o desenvolvimento, a variação e a
diversidade dos “bordados”. Se bem que eles representem sistemas
constituídos de elementos fisiológicos entrando em relação uns com os

' 1,1Pavlov; As quartas-feiras clinicas de Pavlov, 1. I, Muscou-Leningrado. 1954. p.619 (em


língua russa).
O Desenvolvimento cio Psiquismo 2/ 3

outros e sc bem que sejam o produto do trabalho cerebral, as


particularidades qualitativas da sua função não podem todavia ser
traduzidas em conceitos fisiológicos. O que elas refletem não se reproduz.'
na sua representação grática no papel. Na sua qualidade especíiica, isto é,
enquanto sistemas que realizam o reflexo, elas só sc manifestam
atualizando-se, quer dizer, reproduzindo-se sob uma outra forma a
atividade do sujeito relativamente à realidade refletida, pois é precisamente
a atividade que é o processo real, no decurso do qual o refletido passa ( é
transferido”) para o ideal, no reflexo.
■* Assim o psiquismo do homem é a função daquelas das suas
estruturas cerebrais superiores que se formam na ontogenese durante o
processo de apropriação das formas historicamente constituídas da sua
atividade relativamente ao mundo humano que o rodeia; este aspecto do
desenvolvimento dos homens, que se traduz psicologicamente pela
reprodução, modificação c complexidade destas estruturas nas gerações
sucessivas, representa o processo do desenvolvimento histórico do
psiquismo.
O estudo experimental da gênese e da estrutura das aptidões e
funções psíquicas do homem que se formaram no processo de apropriação
das aquisições do desenvolvimento soei o-histórico da humanidade,
associado ao estudo da gênese e da estrutura dos mecanismos cerebrais
correspondentes, representa uma extensão da démarche histórica ao
domínio limítrofe das investigações psicológicas.
Este estudo está hoje apenas nos seus começos. Mas já a
experiência da análise da estrutura sistêmica de aptidões como as do
ouvido, suscitada pela existência objetiva da realidade — da criação
humana - - dos sons musicais e da realidade da linguagem sonora ou a
aptidão para a percepção especificamente humana das cores — é uma nova
prova experimental dc que as propriedades psíquicas do homem, tanto
gerais como especializadas, não representam a manifestação de algumas
propriedades particulares postas biologicamente nele, dc que se não
poderia constatar senão a presença ou a ausência, mas que elas se formam
durante o processo de desenvolvimento e dc educação.
214 O Desenvolvimento do Psiquismo

Esta experiência mostra que o conhecimento das leis c do seu


processo de formação permite orientar conscientemente este processo e
caminhar com maior segurança em direção ao fim cm vista: o
desenvolvimento mais completo possível das aptidões dc todos os homens.
« MECANISMO
DO R E F LEXO
SENSORIAL
O Desenvolvimento do Psiquismo 217

I. A evolução das concepções científicas acerca dos mecanismos


concretos da cognição sensível imediata tem uma dupla implicação:
psicológica e fisiológica. Esta última confere importância particular ao
problema posto e impõe uma análise atenta do estado da questão, tanto do
ponto de vista científico concreto como do ponto de vista gnosiológico.
No século XIX, a fisiologia clássica dos órgãos dos sentidos
revelou um grande número de fatos e de regras científicas fundamentais.
Ao mesmo tempo, desenvolveu no estudo da sensação uma concepção
teórica que é por vezes qualificada entre nós de receptivisla, por opção à
concepção rejlexológica das sensações, assente nos trabalhos de I. M.
Setcheriov e de I. P. Pavlov. Sabe-se que esta concepção “receptivista”
correspondia à filosofia do idealismo subjetivo. Esta última, por sua vez,
utilizava largamente esta concepção para defender as suas posições.
A concepção “receptivista” defende que a qualidade específica de
uma sensação é determinada pelas propriedades do receptor e das vias
nervosas condutoras. Esta posição foi formulada por J. Miiller que dela faz
o princípio da “energia especifica dos órgãos dos sentidos”. Este princípio,
sob o seu aspecto geral, é por vezes apresentado como a simples expressão
dos fatos mais evidentes e mais banais: que o olho, por exemplo, pela sua
estrutura, só pode dar sensações visuais, e a orelha sensações auditivas;
não é de todo inútil, portanto, reproduzir aqui as teses pelas quais J. Miiller
traduz este princípio no seu Curso de fisiologia do homem.
2 IX O Desenvolvimento do Psiquismo

“Causas exteriores não podem provocar qualquer sensação que não


possa ser provocada igualmente sem essas causas, pelo estado dos nossos
147„
nervos sensitivos
“Uma única c mesma causa exterior provoca sensações diferentes
nos diferentes órgãos dos sentidos, em função da sua natureza”.
“As sensações próprias de cada nervo sensitivo podem ser
provocadas por diferentes excitações, internas ou externas”.
“A sensação transmite à consciência não as propriedades ou o
estado dos corpos exteriores, mas as propriedades ou o estado do nervo,
sensitivo, determinadas pela causa externa, e estas qualidades são
diferentes para os diferentes nervos sensitivos’ .
Destas teses, Mii 1ter tirava uma conclusão gnosiológica muito
precisa: as sensações não nos fornecem o conhecimento das qualidades das
coisas que agem sobre nós, pois elas respondem em função da qualidade
do órgão sensitivo (da sua energia específica). Esta conclusão idealista
subjetiva foi largamente sustentada posteriormente, pela boa razão de que
não era possível refutá-la apoiando-se no conhecimento concreto dos
processos da sensação. E é verdade que não se poderia fazê-lo a partir das
possibilidades da teoria receptivista, pois não se pode negar a realidade dos
fatos com a ajuda dos quais se procura provar que a especificidade de uma
sensação depende da estrutura dos órgãos dos sentidos. Não é verdade, por
exemplo, que um só e mesmo excitante, digamos mecânico, provoca
efetivamente sensações diferentes em função do órgão do sentido sobre
que age (olho, orelha, superfície da pele) ou que excitantes diferentes
(corrente elétrica, pressão, luz) agindo sobre um único e mesmo órgão, o
olho, por exemplo, produzem sensações da mesma qualidade, luminosas
neste caso?
As conclusões idealistas subjetivas decorrem diretamente do
princípio das energias específicas; elas tem todavia um fundamento mais
profundo, a saber: a posição de partida geral que caracteriza a concepção

117J. Müller: Handbuch für die Physiologie des Menschen für Vorlesungen. I II. 1840,. p
O Desenvolvimento do Psiquismo 219

considerada como receptivista. Esta posição é a seguinte: para que nasça


uma sensação, basta que a excitação provocada no receptor por tal ou tal
causa exterior atinja o cérebro onde ela se transforma imediatamente cm
fenômeno subjetivo. Sobre estas bases, a análise dos processos que criam
as sensações propriamente ditas iimita-se ao cio inicial, aferente, da
reação; todos os outros processos provocados no cérebro pela excitação
proveniente da periferia são considerados como realizando apenas a
transformação ulterior das sensações (“raciocínios inconscientes", “síntese
associativa” etc.), mas não participando no nascimento da própria
sensação. Isto aplica-se com mais forte razão aos processos motores de
resposta que permanecem totalmente fora do campo da concepção
receptivista.
Vê-se, portanto, que uma tai explicação da sensação apenas
reproduz a de Ioda a velha psicologia subjetiva-empírica, que via nisto o
resultado de um processo puramente passivo e atribuía a origem ativa a
uma substância particular: a alma, a percepção ativa, a consciência. É esta
concepção da sensação (e mais geralmente do conhecimento sensível),
pretensamente passiva, puramente contemplativa, considerada como
separada da atividade, da prática, c é o acento posto, pelo contrário, na
atividade puramente espiritual, a atividade da consciência, que ligam a
concepção receptivista da sensação ao idealismo subjetivo. E esta mesma
posição que acarreta a escolha unilateral dos fatos que devia constituir o
fundamento empírico do princípio de Míiller e das suas conclusões
gnosiológicas.
Esta parcialidade na escolha dos fatos fornecidos pela concepção
receptivista teve por consequência estarem longe de esgotar todos os dados
essenciais do processo da sensação: mais ainda: eles estavam mesmo em
contradição com certos fatos bem conhecidos na época. Trata-se sobretudo
dos fatos que testemunham a participação de processos motores no
nascimento da sensação , ou ainda de fenômenos tais como as interações
entre os órgãos dos sentidos.

148 Sabe-se que Webcr, Helmholz e outros descreveram fatos que testemunham a
participação dos movimentos da rnào no aparecimento das sensações táteis. Mas só tiravam
220 O Desenvolvimento elo Psiquismo

Esta é a razão por que, embora a concepção periférica continuasse


ainda dominante, se começaram a emitir outras hipóteses científicas sobre
a natureza da sensação, na sequência da acumulação de um conjunto
sempre mais vasto de dados científicos, em particular graças ao
desenvolvimento de uma abordagem anatômica comparativa, evolucio-
nista, dos órgãos dos sentidos.
Foi sobretudo o desenvolvimento do ponto dc vista evolucionista
que subverteu as idéias sobre a natureza da especificidade dos órgãos dos
sentidos. Os dados fornecidos pelo estudo da evolução confirmavam com
efeito a tese muito importante segundo a qual todos os órgãos dos -scuíkJo.s
são produto de uma adaptação às influências do meio exterior e estão,
portanto, pela sua estrutura e propriedades, adequados a estas
influências'49. Por outro lado, apercebeu-se que, servindo os processos de
adaptação do organismo ao meio, os órgãos dos sentidos apenas podiam
realizar as suas funções com a condição de que refletissem helmente as
propriedades objetivas do meio. Assim, o princípio da "‘energia especííica
dos órgãos dos sentidos” transformava-se pouco a pouco no princípio dos
“órgãos das energias especificas”, segundo o qual e inversamente as
propriedades dos órgãos dos sentidos dependem de particularidades
especíliças das energias das fontes exteriores que agem sobre o organismo.
Notemos que esta posição desempenhou um papel eminente na crítica das
conclusões gnosioiógicas tiradas da concepção periférica da sensação.
No que toca ao desenvolvimento da abordagem genética, evolu­
cionista, devemos igualmente assinalar o papel do estudo da evolução
funcional das sensações. Quero falar dos trabalhos consagrados ao estudo
do deslocamento dos limiares de sensibilidade sob a influência de diversos

disto conclusões negativas. Foi assim que Frey julgou por bem. para obter medidas mais
puras dos limiares dc sensibilidade táctil imobilizar a mão do paciente dentro de gesso a fim
de excluir toda a possibilidade de movimento da mão; détivamenlc, Shílder mostrou que
nos limiares de sensibilidade da pele se reduzem de cinco a sete vcz.es pelo movimento da
mão.
N'JCr. S. 1. Vavilov: O olho e o sol. Moscou. 1950, S. V. Kravkov, Ensaio de
psicofisiologiageral dos órgãos dos sentidos. Moscou. 1956.
O Desenvolvimento do Psiquismo 221

fatores exteriores em particular das condições da atividade profissional ou


de exercícios especiais organizados para fins experimentais ' .
Entre estes trabalhos, apresentam inlercs.se particular as
investigações efetuadas sobre os processos de reorganização das sensações
em experiências que criam condições artificiais, falseando o funciona­
mento dos órgãos dos sentidos. Estas experiências (Straiten e, muito
recentemente, !. Köhler) mostraram que a reorganização que se produz
nestas condições vai sempre no sentido de uma normalização das
sensações, isto é, no sentido dc um restabelecimento da sua adequação à
experiência dos contatos práticos com os objetos do mundo circundante
Lugar um poueo singular ocupam as pesquisas particularmente
desenvolvidas, nos anos trinta, por S. V. Kravkov e a sua escola " sobre a
interação das sensações.
A sua principal contribuição para a superação da velha teoria da
sensação foi mostrar experimentalmente a existência de uma interação
constante dos órgãos dos sentidos, manifestando-se em particular nos
níveis neurológicos inferiores; foi assim destruída a tese segundo a qual as
sensações seriam elementos autônomos e a sua associação uma função
exclusiva do pensamento, da consciência. ^ R E G .: J S J 'SSêõ
Finalmente, contribuição extremamente importante para a
concepção materialista da natureza da sensação veio das investigações
consagradas ao estudo da participação dos processos efectores no
nascimento da sensação. No princípio, estas investigações respeitavam
quase exclusivamente ao domínio das sensações ligadas à atividade dos
receptores “práxicos” de contato; depois, com a descoberta das libras
efectoras nos nervos sensitivos dos receptores visual, auditivo e outros,
elas foram extensivas à análise dos mecanismos das sensações ligadas a150*

150 B. G. Ananiev: "O trabalho como condição essencial do desenvolvimento da


sensibilidade". V o p r o s s y p s i k h o l o g i i , 1955. 1.
151 ]. Köhler: D i e M e t h o d e d e B r i i l e i i v é r s u c h e s i n d e r W a h r n e h m u n g s p s y c h o l o g i e m i t
D e rn e t k ttg e tr. d u r v o n d e r . A d a p t a t io n , 1955; 1. Köhler, "Experiments with Prolonged
Optical Distorsions.” Preceding of lhe XIV International ( ongress ol Psychology. 1955.
l5~Cf. S. V. Kravkov: A a ç ã o r e c í p r o c a d o s o r g ã o s d o s s e n t i d o s . Moscou-Leningrado.
1948.
222 O Desenvolvimento do Psiquismo

receptores à distância, a receptores “contempladores”. Estas investigações,


hoje muito numerosas e variadas, conduziram a uma conclusão de conjunto
que pode traduzir-se por esta forma lapidar: a sensação enquanto fenômeno
psíquico é impossível na ausência de uma reação de resposta ou no caso dc
reação inadequada; um olho imóvel c tão cego como uma mão imóvel c
astcreognóstica ,
Estas investigações desferiram, portanto, um golpe fatal ao
fundamento da teoria receptivista. que fazia da sensação uma reação
passiva resultante de um processo exclusivamente centrípeto. Elas
fundamentaram solidamente a ideia de que o nascimento de uma sensação
exige igualmente a existência de ligações de retorno do centro à periferia.
O desenvolvimento destas investigações, de que só citei as que
versavam sobre pontos essenciais, permitiu, portanto, reduzir a nada o
fundamento empírico da concepção receptivista da sensação, pelo menos
taí como fora formulada por Müller e Hclmholz e pelos psicofísicos.
Todavia a principal contribuição positiva para a elaboração de uma teoria
da sensação a partir de posições novas, fundamentalmente diferentes,
seguiu um outro curso — o das idéias de Setchenov e de Favlov.

2. As concepções psicológicas e gnosiológicas de Setchenov são


bem conhecidas e foram expostas em numerosas publicações1'4; razão por
que não é necessário fazer aqui a sua exposição completa. Deter-nos-emos
apenas nas teses propostas por Setchenov sobre a natureza da sensação e da
percepção. Sabe-se que a démarche geral seguida por Setchenov no estudo
da sensação é fundamentalmente diferente da antiga baseada na*154

lx'CT. P. I. Zintchenko: V o p r o s s y p s i k h o l ó g u i i . I ‘>58, 5; L, G. Tçhenov. A, Sutovskaía: "A


patologia do tato". Arquivo das ciências biológicas (cm russo), 40,1, Moscou. 1936; P.
Deiattrc: "Os índices acústicos da palavra"' P h o n e t i c a , Basilcia-Nova Iorque, v. 2. 1958. n"
1-2.
154Cf. E. A Budilova: A t e o r i a d e I . M S e t c h e n o v s o b r e a s e n s a ç ã o e o p e n s a m e n t o .
Moscou, 1954; G. S. kosliuk: "O papel dos trabalhes dc Setchenov para o desenvolvimento
de uma psicologia materialista”. Trabalhos da Universidade de Odcssa. t. CXLV1I, 1957; S
L. Rubintein: V o p r o s s y p s i k h o l o g u i i . 1955, n° 5; Setchenov e a psicologia materialista.
Recolha sob a direção de S. L. Rubinstein. Moscou, 1957,
O Desenvolvimento tio Psufuisino 223

comparação direta das propriedades do excitante e do eleito subjetivo que


ele provoca sob a forma de sensação, üs efeitos de Setchenov visavam
sobretudo explicar a produção da sensação como fenômeno psíquico
determinado pela realidade material. Uma vez que. segundo a principal
tese de Sctchenov, todas as atividades procedem do reflexo e conservam-
lhe a estrutura fundamental, a sensação devia ser portanto igualmente
considerada como um fenômeno que só pode surgir na composição de um
ato reflexo com as suas “consequências motrizes", quer manifestadas
exteriormente, quer escondidas, inibidas. Considerava aqui como primeiros
atos pelos quais um encadeamento motor externo realiza um contato direto
com os objetos circundantes, uma adaptação prática à realidade.
Surgindo no seio de um ato reflexo de adaptação, a sensação
participa ao mesmo tempo na sua realização e mediatiza-o. A sensação
pode realizar esta função porque c material. refletindo as propriedades da
realidade material. Ela é com efeito determinada pelo fato de que ela
própria se forma a partir de processos que, no fim de contas, são sempre
processos motores externos, estabelecendo o contato com o próprio objeto.
Para compreender todo o alcance desta posição devemos ver que a
idéia, essencial do ponto dc vista do princípio, ela se liga, a saber: à
realidade — cria a sensação enquanto fenómeno psíquico. Esta ideia de
Setchenov põe o problema de uma maneira inteiramente nova: em vez de
começar por perguntar o que pode esconder-se por detrás da sensação no
mundo exterior (isto c, ir da sensação às coisas concretas), deve partir do
modo como a realidade material engendra o fenômeno das sensação, ou
seja. proceder, na análise cientifica da realidade, das coisas reais, a
sensação. Se a primeira démarche, como mostrava Lcnine, e a do
idealismo, a segunda, pelo contrário, traduz uma atitude materialista15

155"Sc quereis verdadeira meme 'resguardai' nos’ du subjetivismo c do solipsisme*, deveis


antes ce mais abster-vos dos principais idealista? da vossa losolia: deve-se substitui:
tendência idealista da vossa filosofia (que consiste em ir cas sensações ao universo exterior)
pela tendência materialista (que consiste cm :r do universo exterior as sensações.) (Lcnine.
Materialismo e empirocriíicistno, Obras. Moscou, Paris, t. XIV, p. 56). I .xistem traduções
portuguesas.
224 O Desenvolvimento do Psiquismo

Antes de “ser dada” na sensação, a realidade concreta manifesta-se


como condição de existência própria, como objeto de adaptação do
organismo, que se realiza nos seus contatos reais com ela. Daqui resulta o
reconhecimento do papel decisivo dos movimentos musculares na origem
das sensações. Sem a participação do movimento, as nossas sensações e as
nossas percepções não teriam a qualidade de objetividade, isto é, de
relação com os objetos do mundo exterior ' 1.
É este o ponto mais importante das teses dc Setchcnov sobre a
natureza do conhecimento sensível.
“Todas as nossas idéias sobre o mundo circundante, tão complexas
e tão ricas, assentam, em última instância, sobre os elementos que nos são
fornecidos com os músculos’ — assim resumia A. S. Samoilov este ponto
fundamental das teses de Setchenov no seu discurso “I. M. Setchcnov e as
suas ideias sobre o papel dos músculos no nosso conhecimento da
. ,0 57
natureza
Como se deve representar a participação dos movimentos no nasci­
mento das sensações e da percepção? Setchcnov exprime-o da maneira
mais clara na sua análise das sensações táteis.
0 movimento que proporciona o contato tátil, o "encontro real da
mão com um objeto exterior, acomoda-se inevitavelmente às suas proprie­
dades: tateando o objeto, seguindo os seus contornos, a mão reproduz as
suas dimensões c a sua forma e por intermédio de sinais que partem do seu
aparelho motor forma a sua “moldagem ’ no cérebro.
Setchenov concebia de maneira análoga o funcionamento do
aparelho visual. Sabe-se que ele considerava o processo de exploração
como “absolutamente análogo pelo seu sentido” ao processo de apalpação
do objeto pelas mãos. Aqui, todavia, Setchenov introduziu um novo
elemento; o da associação da experiência visual em formação à experiência
motriz tátil. “A retina do olho educado” e, propriamente falando, a retina
de um olho inicialmente instruído pela mão. A introdução deste elemento

» » C f . 1 M. Setchenov: O b r a s e s c o l h i d a s , em dois tomos (em russo), t. S. Moscou, 1952. do


mesmo autor: F i s i o l o g i a d o s c e n t r o s n e r v o s o s , Moscou, 1952.
157A. F. Samoilov: E s c o l h a d e a r t i g o s e d i s c u r s o s . Moscou-Leningrado, 1946, p. 64.65
O Desenvolvimento do Psiquismo 225

novo era indispensável porque, diicfentemente do processo de recepção


por contato da forma, da dimensão e da distância de um objeto que se
realiza por movimentos por assim dizer impostos pelo objeto, o processo
da sua recepção à distância não é estritamente determinado e controlado
diretamente peio objeto: este não oferece a mesma resistência tísica ao
movimento do olhar que à mão que o percorre.
No seu princípio, Setchenov escondeu a sua representação do papel
dos movimentos materiais às outras sensações exteroceptivas. Todavia,
devemos sublinhar que foi obrigado a admitir para estas sensações um elo
já muito mais longínquo e indireto com a experiência motriz. Isto
introduziu nas suas teses sobre a natureza do conhecimento sensível uma
certa inconsequência devida em grande parte a que fossem então
desconhecidos numerosos fatos relativos às reações propriomotrizes dos
receptores à distância.
O passo decisivo fora no entanto franqueado: a base teórica geral
da concepção reflexiológiea estava posta.
Mau grado o alcance científico considerável que têm ainda o.s
trabalhos de Setchenov para a compreensão da natureza da sensação, eles
deixaram muitas questões sem solução. Trata-se. sobretudo, primeira-
mente, dos mecanismos nervosos centrais concretos, dos processos
sensoriais e, segundo, da questão de saber porque se exprime e como se
realiza a participação dos nós eferentes às sensações que não estão
diretamente ligadas aos movimentos que tocam os objetos ou aos seus
análogos (movimentos do olhar, por exemplo).
O desenvolvimento da concepção reflexiológiea da sensação toi
obra de Pavlov e da sua escola.
A contribuição de Pavlov para a explicação da natureza e dos
I mecanismos da sensação não poderia reduzir-se, bem entendido, ao estudo
dos analisadores, como por vezes se pretende, .lá a distinção inicial
estabelecida por ele entre reflexos condicionais e incondicionais, que de
ligava à distinção biológica capital entre dois tipos de elos do organismo
com o meio — ligações diretas e ligações de sinalização — tinha uma
importância considerável para a teoria geral da sensação. Tia permitiu
226 O Desenvolvimento do Psiquismo

introduzir na psicologia a idéia de uma função dc sinalização, de


.' , , - 158
onentaçao, de sensaçao
O aspecto psicológico desta tese foi apresentado sob a forma de
uma hipótese sobre a gênese da sensação, enunciada na psicologia
soviética nos fins dos anos 30 (Leontiev, Zaporojets). Esta hipótese é a
seguinte:
Para os seres vivos mais primitivos, os processos de interação com
o meio são determinados pela sua irritabilidade relativamente às
propriedades do meio que asseguram diretamente a assimilação e
provocam diretamente reações de defesa, isto é, que nos dois casos
determinam diretamente e por sí próprias a manutenção ou o desenvol­
vimento da vida do corpo proteico. É dc excluir a idéia de organismos
primitivos reagindo assim a propriedades do meio não vitais para eles, pela
simples razão de que reações deste tipo provocariam uma decomposição da
sua substância que nada viria compensar (pois elas traduzir-se-iam por
uma despesa de energia sem a qual não pode haver reação do organismo).
Pelo contrário, nos animais relativamente mais organizados
observavam-se igualmente reações nitidamente marcadas por estímulos
que todavia não têm por sí mesmos, segundo a expressão de Pavlov,
qualquer relação de "conveniência" com o organismo. Por outras palavras,
eles são igualmente dotados de irritabilidade relativamente às propriedades
neutras do meio. Todavia, a manifestação deste tipo de irritabilidade, nos
animais que a possuem biologicamente, atige um fim, pois as reações
destes animais aos estímulos neutros do meio circundante, mediatizando as
suas funções vitais fundamentais, orientam-nos em relação às propriedades
bióticas do meio, quer isto dizer que desempenham um papel biológico
direto para eles.
A idéia fundamenta! da hipótese considerada era que a função
realizada pela irritabilidade dos estímulos que são diretamente neutros e
desempenham apenas um papel de orientação no meio, é uma função de
sensibilidade, uma adaptação à sensação, consequentemente, os orgãos que158

158Cl', Pavlov: Obras completas, T edição, t. 111. livro 1. Moscou-Leningrado. 1951.


O Desenvolvimento do Psiquismo 227

efetuam a transformação destes estímulos diretamente neutros são os


orgãos dos sentidos, os receptores; por fim os fenômenos específicos
aparecidos na seqiiência da manifestação deste tipo de irritabilidade são
fenômenos que, sob a sua forma desenvolvida, se manifestam como
fenômenos de sensação. Por outro lado, a principal condição do apareci­
mento da sensibilidade devia ser a passagem dos organismos de vida num
meio mutável, mas homogêneo, a uma vida num meio de objetos. Foi este
ultimo que criou a necessidade do nascimento, nos organismos, de relações
mediatizadas, de relações de sinalização. Com efeito, um corpo age sobre o
organismo não apenas em virtude, por exemplo, das suas propriedades
nutritivas, mas sobretudo por um volume, uma forma etc., que estão apenas
ligadas de maneira estável à aptidão do corpo considerado para servir de
alimento.
Assim, numa dada etapa da evolução biológica, pode-se dizer que
os processos de interação que realizam a vida se desdobram: a influência
das propriedades do meio que determinam diretamente a existência do
organismo provoca reações que constituem os processos vitais
fundamentais, as funções vitais fundamentais, por outro lado, em resposta
à ação das propriedades neutras, desenvolvem-se processos que tnedia-
tizam apenas exteriormente a possibilidade de realização destas íunçõcs
fundamentais do organismo; os processos do comportamento.
Como os laços objetivos entre as propriedades bióticas e as
propriedades neutras das coisas não são senão relativamente estáveis e
suscetíveis de mudar, as formas correspondentes de atividade vital mantêm
relações dinâmicas entre si, se bem que possa surgir uma não-coincidência,
uma contradição entre elas. Esta contradição nova é uma das contradições
características do desenvolvimento do comportamento dos animais e das
formas que neles pode tomar o reflexo das propriedades do meio
circundante.
De um ponto de vista filosófico-psicológico, esta hipótese
constituía uma tentativa para excluir toda a possibilidade de concepção
subjetivista da natureza da sensação pela maneira como o problema era
posto no próprio limiar da investigação.
228 O Desenvolvimento do Psiquismo

Com efeito, não se pode compreender os fenômenos da sensação,


subjetivos por natureza, como refletindo necessariamente as propriedades
objetivas — a não ser que se admita que a sensação é. o produto do
desenvolvimento de relações mediatizadas do organismo com o meio. Uma
propriedade não pode receber a sua característica objetiva a não ser pela
sua relação com uma outra propriedade objetiva e não diretamente do
sujeito. Por consequência, para que se forme o reflexo subjetivo desta
propriedade como propriedade objetiva, é necessário que estas duas
relações — ao outro objeto e ao sujeito —se manifestem em unidade. Não
se encontra a unidade destas relações a não sei' nas formas superiores da
vida, as quais se realizam numa atividade mediatizada pelas relações
objetivas das propriedades do meto 5 .
Foi igualmente anunciada em fisiologia da atividade nervosa
superior, cm particular por K. M. Bykov e A. T. Pchonik, a hipótese que
aproximava o nascimento de ligações de sinalização do aperecimento da
sensação. “O momento da formação do reflexo condicional como ligação
temporária do tipo cortical superior — escreviam estes autores — é ao
mesmo tempo o do aparecimento do ato psíquico elementar que é a
_ ,.1 6 0
sensaçao*160

159Cf. A. N. Lconliev: O desenvolvimento cio psiquismo (to.se). 1940,; do mesmo autor:


"Sobre a gênese da sensibilidade". Antologia Psicologia, consagrada ao 35° aniversário da
atividade científica de D. N. Ouznadzé. Tbilissi, 1945.
160K- M. Bykov. A. T. Pchonik: "Sobre a natureza do reflexo condicionado
Psisiologuitcheski Journal - S.S.S.R.. L. XXXV, 1949, n° 5: K. M. Byrov. "A sinalização
dos receptores internos e externos fio córtex cerebral". Obras escolhidas, t. 1. Moscou, 1953:
A. A. Guiurdjiam "Modificação da sensibilidade do analisador a um excitante quando este
se torna um reflexo condicional,"A. L, Kniazeva "A formação de ligações temporárias aos
excitanles não sentidos agindo sobre os orgãos dos sentidos. Trabalhos do instituto de
fisiologia I. P. Pavlov. t. VI. 1949; A. 1.. Kniazeva, 1. E. Barbei: “Aformaçào cios reflexos
condicionais com intensidade minimais dc excitantes luminosos"; Problemas de ótica
fisiológicas, í.X. 1952; I. 1. Korotkine: "Correlação entre o subjetivo e o objetivo na
formação do universo condicional do homem.” Trabalhos dos laboratórios de fisiologia I
P. Pavlov. 1. XVI. 1949; A. T. Pchonik. R. A. Gelborbaum: "Dados sobre a lei da força
relativa dos excitantes condicionais," Phisiologuitcheski Journal S S. .5. R.. 1955. n 4, I.
O D e s e n v o lv im e n to d o I ’s iq u is tu o 229

Notemos todavia que, mau grado certa semelhança exterior entre a


hipótese e a exposta mais acima, há entre elas uma dilerença importante.
Pois a identificação direta do momento do aparecimento da sensação com a
formação do reflexo condicional negligencia o aspecto genético do
problema; por este fato, ao problema do aparecimento que pode ser
caracterizado objetivamente, substitui-se o problema das condições de
transformação de excitações exteroeceptivas adequadas, mas sub-limiares,
em excitações limiares. Os fatos em que assenta este ponto de vista
testemunham-no com bastante evidência. A experiência de base consiste
cm tomar um excitante que não produz, para uma dada intensidade, a
impressão subjetiva de sensação (ou a impressão de uma diferença nas
sensações). Este excitante provoca todavia reações objetivas determinadas,
uma construção de vasos, por exemplo (o que é aliás um componente
característico do reflexo de orientação); depois a ação do primeiro
excitante é conjugada com a de um outro excitante, o que tem por
resultado que o primeiro começa a ser distinguido subjetivamente pelo
sujeito, isto é, a ser concientizado.
Assim, este tipo de experiências apresenta na verdade um grande
interesse, mas a outro nível: o da possibilidade de conscientização de
estímulos na sequência da formação de associações ao nível cortical
superior, evidentemente o do segundo sistema de sinalização
A hipótese acima exposta sobre a gênese da sensibilidade põe o
problema deferentemente, Não se trata, na espécie, da transformação de
excitantes subliminares em excitantes limiares, mas na aquisição pelos
excitantes de uma função de sinalização, de orientação. Razão por que ela
deu lugar a experiências de natureza diferente (A. N. Eeontiev, com a
colaboração de N. B. PoznankaYa, V. i. Asnine, V. I. Drobantseva e S. L.16

A. Tchistovich: "O deslocamento do limiar tie discriminação do excitante sonoro quando, da


mudança do seu papel de sinalização”, ibidem, 1955, n°4.
161 Cf. F. 1’. Maiorov: ”0 problema das relações recíprocas do subjetivo e do objetivo no
estudo da atividade nervosa superior.” Phisiobguitchexki Journal S. S. S. R.,, I. XXXVIl.
1951, n°2; V. G. Samsonova: “Algumas particularidades da interação do primeiro e do
segundo sistema de sinalização quando da formação de reações condicionais a excitantes
luminosas dc fraca intensidade”. Jornal da atividade nervosa superior, 5. 1953.
230 O Desenvolvimento do Psiquismo

t"
f i!'
lí Rubinstein). Elas utilizavam excitantes luminosos intensos agindo sobre a
pele da mão. Partia-se de um raciocínio simples: sabe-se que a pele reage
í '
aos raios do espectro visível, quer dizer isto que a ação da luz sobre a pele
dos animais e dos homens produz certos efeitos fisiológicos diretos.
Todavia a pele não é um orgão sensível à luz: mesmo para uma grande
intensidade, a ação sobre a pele de excitantes luminosos não suscita reação
de orientação. Neste sentido, a luz é um excitante inadequado no que toca á
pele, isto é, ela não apenas permanece num registro “subsensoriai” ou “pré-
sensoriat”, mas é mesmo inapta para cumprir uma função de sinalização e
entrar em ligação condicional com outros agentes.
Esta tese foi de imediato objeto de uma verificação experimental.
Um feixe luminoso cuidadosamente filtrado para lhe eliminar os raios
infra-vermelhos era dirigido sobre a palma da mão do paciente (que o
ignorava ‘ao longo de toda a experiência), depois apresentava-se uma
excitação elétrica à pele, o que provocava um reflexo de elevação de
“contração” da mão da superfície da instalação concebida para os fins da
experiência. As experiências desta série desenrolavam-se, portanto,
segundo o esquema habitual do método dito motriz de formação de um
reflexo condicional com esta diferença: que a ação do agente neutro era
muito mais prolongada que habitualmente e os intervalos entre as suas
aplicações proporcionalmente maiores.
Estas experiências deram resultados negativos. Mesmo após 350 a
400 combinações “luz-corrente” em qualquer dos quatro sujeitos não se
formou reflexo condicional algum.
As séries seguintes distinguiram-se da primeira antes de tudo, pelo
fato do sujeito receber a indicação de retirar a mão para evitar os
desagradáveis choques elétricos orientando-se sobre uma ação de “aviso ’
que ele próprio devia descobrir. Por outro lado, a experiência complicou-se
um pouco: no caso cm que o sujeito retirasse a mão antes da ação do
“aviso” (isto é, em caso de reação “falsa”), um sinal óptico indicava-lhe o
erro, e ele devia aplicar de novo a palma da mão à superfície do aparelho,
após o que era imediatamente dado um “aviso” seguido de choque elétrico.
Por fim, as experiências desta série utilizavam uma instalação mais
**

m
O Desenvolvimento do Psit/uLinio 231

aperfeiçoada, excluindo praticamente toda a pos s i b i l i da de de reação a um


fenômeno parasita (térmico, acústico etc.) acompanhando de uma maneira
ou de outra o ligar da luz.
Este método fez nascer no paciente uma intensa atividade de busca
e de orientação visando à descoberta do “aviso”, lai como da primeira
série ele ignorava a natureza do agente que preenchia esta função e a
existência da luz caindo sobre a palma da mão.
O resultado destas experiências foi que os pacientes (em número
de dezesseis contando todas as séries deste tipo) manifestaram a aptidão
para evitar a ação da corrente retirando a mão alguns segundos após o
início da ação da luz. Indicaram que se orientavam sobre a manifestação de
fracos fenômenos subjetivos, desprovidos de qualidade específica, que
precediam o choque elétrico.
Fato ainda mais interessante, apareceram fases na formação desta
faculdade. Tanto dos dados objetivos como das relações dos sujeitos
sobressaía que, num primeiro período, a “boa” contração da mão só se
produzia no caso de procura ativa. No princípio, as reações ajustadas eram
visivelmente fortuitas, depois o número de erros caiu a 10% e mesmo a 4%
em certos casos, mas sem que jamais desaparecessem totalmente. A partir
do momento em que a percentagem de reações falsas se estabilizava, a
contração da mão podia tornar-se “maquinal”. Então, a evolução do
processo estudado entrava na sua segunda fase caracterizada pela
possibilidade de formar reflexos condicionais ordinários iluminando a
palma da mão.
A nossa tese foi igualmente verificada e confirmada por uma série
de experiências comportando o emprego paralelo de dois métodos: o da
“procura ativa”, que punha ao sujeito a tarefa de descobrir o agente ativo, e
o da formação de um reílexo condicional propriamente dito.
Esta investigação mostrou, portanto, primeiramente, que um
agente cuja ação sobre um órgão não específico não provoca habitualmente
processos de orientação em relação a outras ações, pode transformar-se
num agente provocador dos processos deste tipo.
O Desenvolvimento do Psiquismo

Em seguida, ela chamou a atenção para a necessidade de,


realmente, distinguir, por um lado, o processo, na sequência do qual um
agente que não provoca gerahnente reação de orientação adquire esta
função, e, por outro, o processo dc transformação deste agente em
excitante condicional, isto c, o processo de elaboração de um reflexo
condicional.
Daqui resulta uma conclusão sobre a natureza particular de uma
reação propriamente sensorial, que pode parecer primeiro um pouco
inesperada, até mesmo em contradição com a teoria da atividade nervosa
superior de Pavlov. Mas em última análise ela está plenamente conforme
com as idéias de Pavlov sobre o mecanismo do reflexo condicional.
A fisiologia da atividade nervosa superior parte como de um dado
da aptidão do organismo para constatar as modificações do meio exterior c
a elas reagir com reflexos de orientação. Sabe-se que a existência de uma
reação de orientação incondicional a um agente exterior é a condição
prévia obrigatória da formação de uma ligação temporária com
possibilidade de uma diferenciação ulterior do agente ao curso do retorço
de certas reações c do não-reforço dc outras. A uma atividade essencial
“entre a simples constatação pelo sistema nervoso de uma diferença entre
os agentes exteriores e a discriminação destes mesmos agentes com a ajuda
de reflexos condicionados. A primeira aparece por um processo de
excitação, sob a forma de uma reação dc orientação... ”.
A natureza deste “processo de excitação sob forma de uma reação
de orientação” constitui, portanto, uma questão particular que não coincide
diretamente com a da formação dos reflexos condicionais. Por outras
palavras, a primeira questão é a da natureza da sensibilidade (esta ultima
designando uma função específica objetiva de orientação e não se
limitando de modo algum à sua manifestação superior, sob forma de
sensações conscientes).
Se bem que Pavlov tenha muitas vezes sublinhado a não-
coincidência dos processos de diferenciação dos excitantes e da sua162

162 Pavlov: Obras completas, 2‘ edição, t. IV, Moscou-Leningrado, 1951, p. 142.


O D e s e n v o lv im e n to iln l* s i( } n is m o 233

discriminação peia formação de reflexos condicionais, está-se longe de o


ter sempre em conta na exposição das suas teses sobre o funcionamento
dos analisadores.
Sabe-se que um analisador, segundo Pavlov, representa um sistema
complexo estrutural constituído por um órgão periférico, por um aparelho
condutor e por centros nervosos. A função deste sistema consiste sobretudo
isolar de um meio complexo o seus diversos elementos agentes, lista
distinção ou análise passa-se a dois níveis. No primeiro nível, é efetuada
pelos receptores. O segundo nível ou nível superior da análise é assegurado
pela atividade do córtex; ele efetua-se num processo de discriminação dos
excitantes, resultante ele próprio da inibição condicional e da indução que
nascem da oposição entre excitantes reforçados e não reforçados, h assim
que sobre toda a massa cios excitantes homogêneos apenas alguns tomam
uma significação de sinalização, ou seja, são sintetizados.
Como o estudo do funcionamento dos analisadores se fizera
sobretudo sobre o processo de formação das diferenciações, isto é, sobre a
sua atividade de análise, teve-se tendência para identificar o processo de
recepção das excitações ao da sua diferenciação que faz aparecer o seu
papel de sinalização e para considerar o estudo da discriminação pelos
reflexos condicionais como praticamente o método único e universal para
o estudo objetivo da função receptiva16’ . Todavia Pavlov não era de todo
desta opinião. Notando que a diferenciação pode nem sempre “chegar à
plena utilização... do resultado da análise efetiva dos agentes exteriores’ ,
indicava mesmo que, neste caso, o estudo da atividade da análise pelos
reflexos condicionais “teria os seu defeitos"1634

163 Cl'. L- A. andrcev: “Características gerais e particulares da atividade analítica dos grandes
hemisférios segundo o exemplo analisador auditivo.’’ A r q u i v o s d a s c i ê n c i a s b i o l ó g i c a s , t.
XLIX, 3a edição, 1938; do mesmo autor: F i s i o l o g i a d o s o r g ã o s c i o s s e n t i d o s . Moscou.
1941
164Pavlov: "Curso sobre o funcionamento dos grandes hemisférios cerebrais p. 142-143.
O b r a s e s c o l h i d a s . T edição. I. IV
234 O Desenvolvimento do Psiquismo

3. O estudo gera! da atividade de análise e de síntese do córtex


grandes hemisférios cerebrais trouxe uma contribuição capital ao
desenvolvimento de concepções materialistas cientílicas concretas, fez
aparecer o trabalho do cérebro, este órgão do psiquismo, como
estritamente determinado pelas relações objetivas das propriedades agentes
do mundo exterior c refletindo de maneira adequada estas relações.
Todavia, se nos limitarmos às únicas concepções dos mecanismos
concretos que foram estabelecidos nas experiências clássicas com
elaboração de diferenciações e nos esforçarmos por fazer entrar totalmente
o processo do reilexo sensível na atividade destes mecanismos, chocamos
inevitavelmente com uma dificuldade teórica séria, a qual provém do fato
do papel do fator decisivo, determinando a atividade de análise e de
síntese, regressar ao reforço ou ao não-reforço de reações que apenas
trazem à luz o papel de sinalização dos excitantes c não a sua natureza.
Suponhamos, por exemplo, que um excitante sonoro ou luminoso
na sequência da ação de um reforço alimentar começe a provocar no
animal uma salivação condicionada. Isto signitica que o reflexo
condicional que se formou reflete de maneira adequada a relação objetiva
“som-alimento” ou “luz-alimento”; naturalmente produz-se igualmente um
reflexo do excitante correspondente, mas precisamente na relação dada,
isto é, enquanto sinal do alimento. Quando da elaboração de um só e
mesmo reflexo condicional, nutritivo por exemplo, ao som e à luz,
produzir-se-á portanto uma aproximação destes dois agentes heterogêneos,
assente no seu papel de sinalização comum; inversamente, se dois
excitantes similares tiverem funções opostas — um de reforço outro de
não-reforço — eles serão diferenciados pelo animal, mas desta vez ainda
segundo o papel de sinalização diferente que eles adquiriram.
Assim, as investigações sobre a elaboração da diferenciação não
abordam diretamente e deixam no fundo aberta a questão da adequação do
reflexo da qualidade específica, isto é, da natureza dos próprios agentes,
convém insistir especialmente neste ponto pois alargar consideravelmente
o sentido da teoria dos processos da análise e da síntese cortical conduziria
a identificar o reilexo do papel de sinalização, condicional, dos agentes,
O Desenvolvimento do Psiquismo 235

com o reflexo da sua natureza, isto c, a uma interpretação grosseiramente


errada, puramente pragmática da cognição sensorial.
Assinalando um lugar particular à questão dos mecanismos de
recepção dos excitantes, pode-se, apesar de tudo, supor que o princípio da
análise da formação e diferenciação dos reflexos condicionais conserva
também o seu valor para este processo, mas apenas enquanto fundamento
genético. Por outras palavras, é permitido supor que as propriedades
específicas dos receptores que se traduzem pela sua irritabilidade seletiva
se formaram no decurso de uma diferenciação constantemente reiterada e
sempre mais afinada, de ações opostas segundo estavam ou não associadas
a outras condições agentes do meio. Vê-se bem, todavia, que uma tal
suposição não resolve a questão. Com efeito, a distinção dos excitantes
pela inibição de diferenciação que se produz no córtex efetua-se segundo o
esquema geral da análise “filtrante” que resulta de um encurtamento
progressivo da “banda dc admissão” das excitações sobre as vias efectoras.
Ora, os esquemas desta tipo não têm função dc “detecção”, quer dizer que
não dão a reprodução dos parâmetros da ação inicial. Mas o que é em
princípio impossível funcionalmente não poderia evidentemente ser
admitido geneticamente. Razão por que a referência perfeitamente justa em
princípio à filogênese no decurso da qual se constitui a seletividade
especifica dos receptores não fornece quaiquer solução à questão da
natureza da recepção propriamente dita.
Esta questão resolve-se muito mais diretamente com investigações
sobre os mecanismos especiais do reflexo de orientação; elas tomaram
entre nós uma extensão particular nestes últimos anos 5 e permitiram
obter um grande número de dados experimentais que caracterizam o
processo de recepção do excitante como um sistema complexo dc
componentes múltiplos c de.senrolando-se em diferentes níveis
neurológicos. Este sistema compreende as ligações tanto diretas como de
retorno, regendo não apenas os fenômenos que têm lugar nos receptores

lft<: Cf. O r e f l e x o d e o r i e n t a ç ã o e a a t i v i d a d e d e o r i e n t a ç ã o . Recolha Sob a direção de L. G.


Voroninc, A. N. Leontiev. A. R. Louría. i:i. N. Sokolov, O. S. Vinogradova, Moscou, 1958;
N. Sokolov: ,4 p e r e c e p ç ã t í e o r e f l e x o c o n d i c i o n a l , Moscou, 1958.
236 O Desenvolvimento do Psiquismo

mas mais largamente uma série de fenômenos periféricos (reações vaso-


motoras e motoras).
Estas investigações fizeram aparecer o “regime” do reflexo de
orientação, como uma reação específica à estimulação de um receptor,
como um regime particular no sistema geral da atividade nervosa superior
distinto do regime de diferenciação cortica) dos excitantes. Por outro lado,
mostravam, sob um ângulo diferente, que a sensação é o produto de uma
atividade de resposta complexa do sistema da qual o processo centrípeto
inicial de excitação nascendo no êxtero-receptor desencadeia esta atividade
reflexa complexa c não se transforma diretamente, não se sabe por que
enigmático procedimento, num fenômeno psíquico, em reflexo sensível de
propriedade objetiva estimuladora na sua qualidade específica.
Esta tese, doravante absolutamente indiscutível, constitui uma das
principais premissas científicas na investigação da solução positiva à
questão do mecanismo fundamental do reflexo sensível imediato da
realidade concreta.
Assim, os resultados das investigações científicas sobre a natureza
da sensação resumem-se, na minha opinião, em três pontos essenciais.
Primeiramente, o processo da sensação tem uma estrutura reflexa:
a sensação não é apenas o resultado de um processo centrípeto, do único
elo inicial do reflexo, mas assenta num ato reflexo completo e complexo,
cuja formação e desenrolar obedecem às leis gerais da atividade reflexa.
Segundo, a sensação não é um epifenômeno que surja
paralelamente à excitação dos centros nervosos, sensoriais, e constitui
apenas uma imagem refletida subjetiva, não desempenhando qualquer
papel. A sensação, como imagem sensível de um agente objetivo,
preenche, como tal, uma função específica ele orientação e igualmente, mas
apenas com a primeira, uma junção de sinalização.
Pela sua natureza, os processos de sensação pertencem, portanto,
àquela atividade própria dos animais que sc exprime da maneira mais
imediata nos processos de “investigação”, das reações dc "tentativa” que
nunca se observam no mundo vegetal (não é esta aliás a razão por que se
O Desenvolvimento tio PniqititmiV 217

representa o vegetal como imóvel, mau grado a existência em certas


plantas de movimentos nitidamente marcados?).
Terceiro e último ponto, o sistema dos processos reflexos que
constitui o mecanismo da sensação é um sistema especial, de estrutura
particular.
Tudo isto abre o caminho a uma análise dos processos da percep­
ção que permitirá fazê-los aparecer como processos realizando a função de
reflexo das qualidades objetivas específicas das propriedades agentes da
realidade.
Por certo que o estudo das reações próprio-motoras dos receptores
bem como de outros processos pertencendo ao sistema do reflexo de
orientação põe forçosamente em evidência as suas próprias (unções. Foi
assim que se pôde descrever a tunção adaptativo-trófica, a função tônica, a
função de defesa. Mas não é destas funções que se trata aqui. Qualquer que
seja a sua importância, nem separadamente nem no seu conjunto elas
podem ser concebidas como realizando o próprio reflexo das propriedades
específicas de uma agente. Fias apareceram, por um lado, como funções
mais particulares que o processo do reflexo, e, por outro, como funções
com um papel de adaptação mais vasto. Tal é, por exemplo, a função de
defesa: cia é ao mesmo tempo particular, constituindo, por assim dizer, a
condição técnica do reflexo, e ao mesmo tempo absolutamente gerai
quanto ao seu sentido biológico. Razão por que para explicar o reflexo das
qualidades específicas dos estímulos é preciso como antes limitarmo-nos à
estrutura dos aparelhos receptivos periféricos que se formaram no decurso
da evolução biológica sob a influência das energias correspondentes. Esta
tese. já o disse, é incontestavelmente justa, mas não suprime o problema.
Com efeito, o desenvolvimento filogenético de um órgão, qualquer que ele
seja, não pode explicar-se a não ser em relação com o desenvolvimento da
função correspondente, o que significa que, para compreender o processo
de formação de órgãos que reflitam de maneira adequada as qualidades dos
agentes exteriores, é necessário dar a característica tia tunção do próprio
reflexo em vez de nos limitarmos a indicar simplesmente o fenômeno dai
resultante — o fenômeno do reflexo.
2 38 O Desenvolvimento do Psiquismo

Aqui está a questão do problema. Muito difícil, poderia parecer


insolúvel senão se tivesse encontrado já, nas investigações sobre a natureza
da sensação, a démarche fundamental que conduzirá à sua solução. É a via
que seguiu 1. M. Setchenov nos seus trabalhos sobre o lato e a visão. O que
há de notável nestes trabalhos é justamente o problema da adequação do
reflexo das propriedades espaciais de um objeto ser aí resolvido a partir da
análise dos próprios processos da apalpação ou de exploração — processos
que produzem o contorno do objeto, o seu grau de afastamento e a
disposição relativa dos seus elementos.
O trabalho cognitivo da mão ou do olho pode ser doravante
descrito, de conformidade com as representações de Setchenov, como um
processo auto-aferente, cujo mecanismo “cola” ao objeto; graças a isto a
mão que percorre o contorno de um objeto não se descola dele e o olho não
se perde nos seus diferentes elementos. O contato da mão com o objeto da
o ponto de partida e a direção do seu movimento que determina por sua
vez os sinais ulteriores que partem do objeto: portanto, o processo global
de apalpação ou dc exploração é rigorosamente determinado pelas proprie­
dades do objeto.
Assim, quanto à estrutura, este processo apresenta-se como um
anel reflexo, mas este anel não é fechado a não ser do ponto de vista
morfofisiológico; do ponto de vista da determinação do reflexo, abrc-se
nos “pontos de encontro” com um objeto. Um fenômeno semelhante se
produz quando uma câmara dc ar rola livremente no meio de objetos
duros: ela conserva a sua estrutura anelar e o seu tipo de movimento
próprio, mas se entra em contato com os objetos a sua configuração muda
em função do relevo destes objetos formando-se uma moldagem dinâmica
adequada.
No processo de recepção tátil produz-se igualmente uma
“moldagem” do objeto; todavia, diferentemente do fenômeno descrito
atrás, não se realiza por uma mudança de forma do substratum “moldável”,
mas por uma mudança do processo: não é a mão que apalpa em contato
com o objeto que reproduz o seu contorno, mas o movimento da mão.
Então, é evidente que quanto mais isomorfo for o movimento ao objeto.
O D e s e n v o l v i m e n t o d o P s iq u is m o 239

mais perfeito será o reflexo da sua forma e maior a precisão com a qual
uma dada forma pode ser distinguida de outra. Tudo isto é hem conhecido
e a experimentação permitiu descrever muitos detalhes deste processo11"’.
A análise do tato apresenta a vantagem de se tratar de um processo
cm que o conteúdo essencial se manifesta sob forma de movimento
exterior, facilmente acessível ao estudo.
Tentemos analisá-lo mais de perto. É um processo de adaptação
que não realiza nem a função de assimilação nem uma função de defesa; ao
mesmo tempo não traz mudança ativa do próprio objeto. A única função
que desempenha é reproduzir, pela sua dinâmica, a propriedade do objeto
para se refletir, a sua dimensão e forma; as propriedades do objeto são
convertidas por ele num desenho sucessivo que é em seguida
“desenvolvido” um fenômeno de reflexo sensível simultâneo. O meca­
nismo do tato caracteriza-se, portanto, por identificar a dinâmica do
processo no sistema receptor às propriedades da ação exterior.
No que concerne ao tato, esta concepção do mecanismo do reflexo
não tem quase necessidade de ser fundamentada, com efeito, o tato
manifesta-se claramente como o processo pelo qual o órgão do tato
estabelece com o objeto um contato tal que os seus movimentos repetem,
pela sua forma, os contornos do objeto dado; por outras palavras produz-se
na dinâmica deste processo uma identificação com as propriedades do
objeto que se trata de refletir. O tato não é, portanto, nada mais que um16

166Ct. I.. M. Weckcr: "A dinâmica da imagem tátil em (unção do caráter do movimento do
gesto." V o p r o s s y p s i c h o l o g ú i i , Leningrado. 1948; do mesmo autor: "Algumas questões da
teoria da imagem tátil.” M a t e r i a i s d a c o n f e r ê n c i a s o b r e p s i c o l o g i a , Moscou. 1957; L, I.
Kotiiarova: C o n d i ç õ e s d e f o r m a ç ã o d a i m a g e m d e p e r c e p ç ã o , "Teses das sessão cienlítica
do Instituto Pedagógico de Kharkov", 1956; L. A. Schiffmann: A questão da Percepção tátil
tia forma: “Trabalho do Instituto de Estudo do Cérebro 1’.' M. Bekherev", T. XIII,
Leningrado. 1940: L. A. Schiffmann: Problema da percepção lálil da forma. "Trabalho do
Instituto dc Estudo do Cérebro B. M. Bekherev”, T. XIII. i eningrado, 1940; D. Katz: D e r
a u f b a u d e r T a s t w e l t . Leipzig, 1925; G. Revesz: D i e F o r m e m w e t t d e s T r a t s i n n e s , t 1-11,
Maia, 1938-39.
240 O Desenvolvimento do Psiquismo

saber-fazer: o domínio dos procedimentos ou operações específicas desta


identificação167 .
Que se trata aqui de identificação e não de qualquer outro aspecto
do processo, uma série de fatos o testemunham, em particular a
possibilidade quase ilimitada de introduzir neste processo toda a espécie de
meios intermediários e de “codificações” artificiais de sinais provenientes
do movimento da mão sem que isso prejudique a adequação do tato. Se a
apalpação se efetua, por exemplo, por intermédio de uma sonda, a
constituição de sinais que parte da mão que segura a sonda muda
absolutamente; é modificada igualmente a forma concreta do próprio
movimento. Um único elemento permanece imutável: a relação de
semelhança do desenho do movimento “registrador” com a forma do
objeto. Basta, pelo contrário, que esta relação seja perturbada por uma
razão qualquer para que a sonda se torne “cega” e que a sensação tátil
desapareça; a mão não sente senão a sonda que segura.
Não é necessário multiplicar os fatos que ilustram esta concepção
do mecanismo fundamental do reflexo aplicado ao processo do tato e, nos
limites da analogia revelada por Setchenov, à vista. Ela não pode ser
seriamente contestada aqui. A questão de fundo reside noutro ponto: trata-
se de saber se esta explicação se pode estender igualmente aos órgãos dos
sentidos cuja atividade não comporta constitucionalmente processos
motores que estabeleçam com o objeto. For outras palavras, poderemos
considerar a identificação dos processos «o sistema receptor como o
mecanismo geral fundamental do reflexo sensível imediato da natureza
dos agentes ativos da realidade?

167 Sobre este assunto, os dados obtidos pelo estudo do desenvolvimento ontügênico do tato
(T. O. Guinievskaía: O d e s e n v o l v i m e n t o d o s m o v i m e n t o d a m ã o n o t a t o . ) "tzvestia da
Academia das Ciências Pedagógicas da R.S.F.S.R.", 14“ ed.. 1948; F. S. Rosenfeld:
P a r tic u la r id a d e s d a s p e r c e p ç õ e s t á t e is d a c r ia n ç a e m i d a d e p r é - e s c o l a r , ''tzvestia da

Academia das Ciências Pedagógicas da R.S.F.S.R. , 17“ ed., 1948 e o s d a d o s d a p a t o l o g i a


(A. N. I.eontiev, T. O. Guinievskaía) A s e n s i b i l i d a d e g n ó s t i e a d a m ã o d o e n t e . "Notas
cientificas da Universidade de Moscou". 3J ed.. 1949; L. (i. fchenov, A. Soutovskaia: A
palologia do lato". A r q u i v o s d a s c i ê n c i a s b i o l ó g i c a s , t. XI,, 1“ ed.. 1936: .1. Delay: L e s
a s l ê r é o g n o s i e s . P a t h o l o g i e d u t o u c h e r (1935) apresenta um grande inlcressc.
O Desenvolvimento do Pskjuismo 24!

4. Um dos órgãos dos sentidos ''menos” motores é, sem dúvida, o


órgão auditivo. A orelha está se se pode dizer, isolada o máximo da práxis,
do aparelho dos movimentos musculares externos; é o exemplo vivo de um
órgão “contem plador”, respondendo a um fluxo de sons pelos processos
que se desenrolam num aparelho sensível enterrado na massa do osso. Esta
impressão de imobilidade do órgão do ouvido conserva-se mau grado a
existência de um aparelho próprio-motor interno; no que concerne a
reações motrizes do ouvido externo, a sua ausência na maioria das pessoas
é testemunha suficiente da sua fraca importância.
É por isso que a questão do papel dos processo motores no reflexo
da qualidade específica do som se põe com uma acuidade particular no
domínio do ouvido.
Todavia, foi justamente o estudo do ouvido que permitiu avançar
na explicação do mecanismo do reflexo sensível atrás exposto.
1lá algum tempo, num contexto pouco diferente, retivemos para
estudo experimenta! a questão da estrutura do sistema funcional sobre o
qual assenta a audição da altura dos sons. Uma primeira análise conduzira-
nos à necessidade de levar em conta a participação da atividade do
aparelho vocal no processo de diferenciação dos sons em função da sua
altura, fato cuja importância já tinha sido sublinhada por W. Köhler e
uma série de outros autores (em particular, entre nós, B. M. Teplov)
Aplicando um método especial de pesquisa dos limiares
diferenciais de sensibilidade tonai, assente na utilização dc sons de timbres
diferentes que se deviam comparar segundo a sua altura, podemos
demonstrar experimentalmente que existe nestas condições uma estrita
dependência entre os limiares diferenciais de sensibilidade total c a
precisão da vocalização da altura imposta, isto é, a precisão da entonação
dos sons*16970

11,8W. Köhler: "Akustische Untersuchungen”. Hl. Zeitschrift Ihr Psychologie., l. I..XX11,


Ceipzig, 1915.
169Cf. B. M. Tepldv: Psicologia das aptidões musicais. M oscou feningrado. 1947,
170Cf. I. B. (iuippenreiter: Análise da estrutura sistemática da percepção. Comunicação I.
Método de medição da sensibilidade tonal diferencial "Relatórios da Academia das Ciências
24 2 O Desenvolvimento do Psiquismo

Bsías experiências mostraram além do mais que o processo de


entonação é determinante na análise dos sons em função da sua altura. Poi
outras palavras, o nível dos limiares depende da laculdade de emitn os
sons justos, e os limiares diferenciais de sensibilidade tonal só se abaixam
após “afinação” de uma entonação adequada . Assim, a análise da altura
tonal surge como uma função baseada num sistema de processos reflexos
tendo por componente necessária e decisiva as reações motrizes do
aparelho vocal sob forma de "ensaio vocal exterior, emitido em voz alta,
ou interior, inaudível, da altura do som percebido.
O significado mais geral deste fato pôde ser compreendido porque
a investigação em questão tinha por objeto mostrar a estrutura do ouvido
tonal enquanto função particular, distinta do ouvido verbal. A análise
comparada da estrutura destes dois sistemas funcionais do ouvido permitiu
precisar o papel dos seus elos motores.
Objetivamente, o som (como, aliás, os outros agentes) caracteriza-
se por um certo número de qualidades concretas definidas cm particular, a
altura e o timbre. A percepção de um som não é. portanto, outra coisa que
o seu reflexo nas qualidades que lhe são próprias: pois não se poderia
imaginar reflexo “sem qualidade”. Outra coisa é saber em que qualidade
ele se reflctuf.As particularidades da “reunião” das qualidades refletidas na
sensação diferenciam com efeito dois sistemas receptivos, dois sistemas de
audição distintos: a audição da altura tonal e a audição especificamente
verbal.
Sendo o órgão periférico — o receptor — comum a estes dois
sistemas, o problema da distinção do seu elo inicial é complexo. Todavia,
do ponto de vista dos seus componentes motores, a sua não coincidência é*

Pcdaeógicas da R.S.F.S.R.", 1957, n° 4: 1. R. Guippenreiter: Análise da estrutura sistemática


da percepção. Comunicação II. Análise experimental do fundamento motor do processo de
percepção da altura de um som "Relatórios da Academia das Ciências Pedagógicas da
R.S.F.S.R.”, 1958, n° 1.
1,1 Cf. O. V, Ovlchimiikova: "Análise da percepção sistemática. Comunicação Vil
"Relatórios dá Academia das Ciências Pedagógicas da R.S.F.S.K". 1959, n” 2.
O Desenvolvimento do Psiquismo 243

ubsolutamente nítida. Aqui, o ponto fundamental c que um sujeito, no qual


o sistema funcional caracterizado pela participação do elemento motor
vocal não se formou, não diferenciará os componentes sonoros em função
da sua altura172*1745. Evidentemente paradoxal, este fato pode no entanto,
considerar-se estabelecido.
Este princípio aplica-se igualmente, assim parece, ao sistema do
ouvido verba! que assegura o reílexo adequado da qualidade específica
(invariante) dos sons da linguagem (não se fala, aqui, das línguas de tom)
com esta diferença, todavia, de que o elemento motor é então o movimento
dos órgãos da articulação propriamente dita'73. Sabe-se, por exemplo, que
quando percebemos um discurso numa língua de fonética totalmente
estranha, não distinguimos, cm primeiro lugar, a característica dos sons da
linguagem1'4. O papel dos movimentos articulatórios na percepção da
palavra é, aliás, diretamente confirmado pelos resultados das investigações
experimentais* ■ 175
As coisas apresentam-se, portanto, da seguinte maneira: a
irritabilidade do órgão auditivo periférico só cria, para talar com
propriedade, a condição necessária ao reflexo do som nas suas qualidades
específicas; quanto às qualidades nas quais se realiza o reflexo, elas são
determinadas pela participação de tal ou tal nó motor no sistema de
recepção reflexo. Sublinhemos mais uma vez que estes elos motores do
sistema receptivo não têm apenas por missão completar ou complicai o

177Nas condições habituais e quando se utiliza o método clássico de medição dos limiares
da sensibilidade tonal, este fato é mascarado pela discriminação dos sons segundo outros
parâmetros que variam em concomitância com a estrutura fundamental.
1J “A audição da palavra não é apenas audição: numa certa medida, talamos, por assim
dizer, com o locutor.” (P. P. Blonsky; ,1 m e m ó r i a e o p e n s a m e n t o . Moscou-Leningrado,
1935, p. 154.) Numa obra recente dc linguística, P. Delattrc sublinha esta noção que formula
como se segue: “A onda sonora não é percebida dirctamente, mas indiretamente, por
referência ao gesto articulatório.” (P. Delattrc: "Os indícios acústicos da palavra
P h o n e t i c a . v. 2. n° 1-2. Basilcia-Nova Iorque, 1958. p. 248.)

174Cf. N. A. Bernstein: P r o b l e m a s d e e n s i n o d a p r o n ú n c i a . Moscou. 1937.


175Cf. A. N. Sokolov: O d i s c u r s o i n t e r i o r e a c o m p r e e n s ã o ' . "Notas cientificas do Instituto
dc Investigação Cientifica de Psicologia' .1 11, Moscou. 1941
244 O Desenvolvimento do Psiquismo

efeito sensorial final, mas que são em número dos componentes


fundamentais do sistema considerado. Basta indicar que, se o elo motor
vocal não estiver incluído no processo de percepção da altura tonal, se
assiste a um verdadeiro fenômeno de “surdez tonal . À ausência, no
sistema receptor, do elo motor adequado à qualidade do som a refletir
significa a impossibilidade de distinguir esta qualidade. Inversamente,
desde que se produza a colocação no devido ponto do processo de
entonação do som de altura desejada, os limiares diferenciais de
sensibilidade tonal caem brutalmente (por vezes de seis, oito ou mesmo
dez vezes).
Em que sentido o processo de entonação é adequado à qualidade
do som a refletir? No mesmo sentido, evidentemente, que, no lato. o gesto
de apalpaçao é adequado ao contorno do objeto: os movimentas das cordas
vocais reproduzem a natureza objetiva da .propriedade do excitante a
avaliar.
Pouco importa, para a explicação do mecanismo de entonação, que
nos apoiemos nas posições clássicas da teoria do movimento oscilatório
passivo das cordas ou que se adote o ponto de vista de R. Husson que
desenvolveu a idéia da sua vibração ativa; nos dois casos, a regulação da
altura da entonação sobre a altura do som a diferenciar representa a
identificação do processo que constitui o nó fundamental do movimento
das cordas vocais, a saber: a frequência das suas vibrações é absolutamente
adequado, com efeito, ao parâmetro físico segundo o qual o som se
diferencia. Por outras palavras, o mecanismo fundamental da recepção da
altura tonal é absolutamente análogo ao mecanismo da recepção tátil da
forma.
Entre estes dois processos há, todavia, uma diferença. No. caso da
percepção tátil a mão entra cm contato com o próprio objeto e o seu
movimento, “tomando” o seu contorno desenrola-se sempre no campo
exterior.

1,8 t t llusspn: “Estudo dos fenómenos fisiológicos e acústicos da voz cantada“. Reviu
vi'icntifique. 88, Paris. 1950.
O D e s e n v o l v i m e n t o d o P s iq u is m o 245

Para a percepção do som a coisa é diferente. Sc bem que lá


também, a identificação se produza igualmente, na origem, sob a forma de
movimento expresso exteriormente (vocalização exterior), es(c último é,
todavia, suscetível de ser interiorizado posteriormente, isto c, de tomar a
forma de uma vocalização interior, de uma “representação” (B. M. Tepiov)
interior. Isto é possível porque o aparelho sensorial periférico c o emissor
do sistema de recepção considerado não se confundem num só órgão,
como no sistema de tato. Se o movimento exterior se reduzisse os sinais
extero-sensívcl agindo sobre a mão seriam interrompidos e a recepção tátil
da forma do objeto tornar-se-ia rigorosamente impossível. Para a
percepção auditiva, pelo contrário, a redução da forma motriz exterior do
processo de identificação (isto é, a passagem da vocalização em voz alta à
“representação” interior da altura) não suprime nem muda a ação dos
excitantes êxteros-sensoriais sobre o órgão auditivo periférico c não pára a
recepção auditiva.
Os dados que dispomos sobre o papel e as particularidades do elo
efector no sistema reflexo do ouvido tonal permitem propor este esquema
geral de análise dos sons em função da altura.
O excitante sonoro agindo sobre o órgão periférico provoca uma
série de reações de resposta, em particular a reação motriz específica da
entonação, com a sua sinalização proprioceptiva. Esta reação não reproduz
imediatamente a altura exata do som, mas representa um processo
particular de “procura” de orientação ativa, que prossegue até que no
interior do sistema receptor, da altura entonada se aproximam da altura
fundamentai do som-estímulo. Depois, estabelece-se uma “ressonância"
particular entre os sinais que partem do aparelho da vocalização c os sinais
provenientes do receptor acústicos (ou retidos peia “memória
operacional”) e este processo dinâmico estabiliza-se, o que permite então a
discriminação da altura do som, isto é, da qualidade a refletir.
246 0 Desenvolvimento do Psiquismo

Esta concepção do processo da percepção da altura tonal foi


confirmada pelos dados experimentais que obtivemos ' .
Tendo em conta estes dados, podemos descrever o processo de
análise dos sons em função da sua altura como um processo de análise
comparativa <s desenrolando-se da seguinte maneira: o primeiro dos
excitantes sonoros a comparar é determinado pelo LLensaio da sua
frequência com a ajuda do processo de encontro de regulação dos
movimentos do aparelho vocal; depois, a ação do segundo excitante (que
se deve distinguir do primeiro) provoca uma modificação do elo motor
vocal do sistema — desta vez até a coincidência com a frequência do
segundo excitante. Este processo é, portanto, um processo de avaliação
relativa dos sons em função da sua altura. Se o movimento tem lugar num
sentido (elevação da frequência), o excitante é avaliado como mais alto, e
se o movimento se faz no sentido oposto, como mais baixo. O mesmo
processo permite medir o afastamento entre o som a distinguir c um
padrão, isto é, avaliar intervalos (concebe-se que não é de modo algum
necessário para isto que o registro dos sons percebidos coincida com o
registro vocal do sujeito).
O estudo do ouvido tonal forneceu-nos, portanto, uma
representação do mecanismo funcional da recepção análoga, quanto ao
fundo, à que dizia respeito ao tato. Nos dois casos, o elemento decisivo, de178

177 A. N. Leonliey, O. V. Ovlchinnikova: "Análise da estrutura sistemática da percepção.


Comunicação V. O mecanismo da análise tonal dos excitantes acústicos." "Relatórios tia
Academia das Ciências Pedagógicas da R.S.F.S.R.. 1958. n° 3.
178 Ao introduzir estes termos, refiro-me aos diferentes esquemas de dispositivos de análise
que distingue a teoria moderna dos autómatos. Um deles (Mae Kellog c Pitts) c
caracterizado pelo fato da ayatição fina! do sinal de entrada de ser apenas o simples
filtradar. resultante de um processo que só segue uma direção: a partir da entrada. No outro,
descrito por D, Mac Key, a avaliação do sinal de entrada (a sua "representação física”) é o
resultado de um processo “imitativo" de encontro, que se desenrola no interior do sistema e
efetua por assim dizer o ensaio continuo dos "programas organizatórios” - hipóteses aceitas
com a ajuda da ligação de regresso negativa com os processos da cadeia do sinal de entrada
Metaforicamente, diz o autor, este esquema, assente no principio da “comparação
disliiigue-se do primeiro pelo fato de que aqui "o ato de cognição c um ato de resposta". (('
I Shttnnon. McÇarthy: Autómato Studies. Princeton, University Press, 1956).
O Desenvolvimento do Psiquismo 247

que depende o reflexo adequado da propriedade para refletir é bem a


identificação do processo que constitui o elo eícetor tln sistema receptor
com a propriedade de refletir. Ao mesmo tempo este estudo permitiu-nos
descrever este mecanismo com toda a precisão que a sua complexidade
exigia, devido ao fato do processo de identificação, fora de toda a
possibilidade de contato exterior prático do órgão motor com o objeto, se
produzir por “comparação” dos sinais no interior do sistema, isto é, no
campo interior.
A hipótese proposta tenta fornecer uma resposta a questão mais
difícil da teoria da sensação: como é possível a detecção de sinais
provenientes de aparelhos sensoriais êxtero-rcceptivos e tendo por
resultado a produção da qualidade específica do excitante? Com efeito, a
primeira transformação das ações exteriores nos receptores é a sua
codificação
Ora o “código de frequência” dos processos nervosos é conservado
em todo o seu percurso, o que constitui a condição necessária da atividade
cortical. Caso contrário seria impossível a ação reciproca do processo
nervoso correspondente a excitantes de tipos diferentes. Nestas condições,
o mecanismo da reprodução da qualidade específica da ação deve
comportar igualmente processos suscetíveis de traduzir a natureza do
agente. Ó o que fazem os processos de apalpação de um objeto, de
exploração pelo olhar, de entonação dos sons, processos em que participam
os músculos.
A detecção da qualidade da ação produz-se necessariamente,
todavia, com a participação da musculatura periférica ou devemos falar da
participação neste processo de tais ou tais eferentes? hsta questão requer
um estudo particular, tal como a questão, ainda mais importante, do
sentido biológico geral e da origem da própria função de identificação.

170Cl’. R. Granit: Estudo eletrnfisiológico da recepção. Moscou. 1957: I I). Ltlrian: Os


fundamentos da sensação- A atividade dos orgãos dos sentidos, Moscou, 1931: Cl. Morgan:
Physidlogicál Psichology, talava Iorque. 1941.
248 O Desenvolvimento do Psiquismo

A nossa hipótese deixa ainda aberto um grande número de


questões importantes, Ela constitui a meus olhos apenas uma dêmarche
pré-limiar para transpor uma nova etapa na elaboração de uma teoria que
considera as sensações como processos que, servindo de mediadores às
relações, com o meio material, preenchem por este fato uma função de
orientação, de sinalização e, ao mesmo tempo, dc reflexo.

■í
« b io l ó g ic o
E O SOCIAL,
KO PSIQUISMO
n o HOMEM
O Desenvolvimento cio I’sK/ui'sino 25 i

] . () problema do biológico e do social desempenha um papel


decisivo na psicologia científica.
É evidente que não me entregarei aqui a um exame de lodos os
trabalhos efetuados neste domínio durante numerosos anos pelos
investigadores soviéticos. Contentar-me-ei em expor certos resultados das
últimas investigações que os meus colaboradores (em particular
Guippenreiter e Ovtchinnikova) e eu próprio realizamos na Universidade
de Moscou.
Estas investigações foram consagradas às particularidades do
ouvido humano.
Como é que o problema do biológico e do social nos levou a
estudar um domínio tão particular como o das sensações auditivas? Que
pretendíamos estabelecer com as nossas investigações?
Para responder a estas questões devo deter-me nas idéias e
hipóteses que nos serviram de fio condutor.
Tratava-se antes de mais nada da idéia segundo a qual o
desenvolvimento das funções e faculdades psíquicas específicas do homem
constituía um processo absolutamente particular.
Com efeito, é fundamentalmente distinto tanto do processo de
desenvolvimento do comportamento transmitido pela herança biológica
como do processo de aquisição da experiência individual.
O desenvolvimento, a formação das funções e faculdades psíquicas
próprias do homem enquanto ser social, produzem-se sob uma forma
252 O Desenvolvimento do Psiquismo

absolutamente específica — sob a forma de um processo da apropriação,


dc aquisição.
Vou esforçar-me por explicar o que entendo por isso.
No decurso da história da sociedade humana, os homens
percorreram um caminho considerável no desenvolvimento das suas
faculdades psíquicas. Alguns milênios de história social fizeram mais neste
domínio do que as centenas de milhões de anos de evolução biológica dos
animais.
Bem entendido, os progressos realizados no desenvolvimento das
funções e faculdades psíquicas acumularam-se pouco a pouco,
transmitindo-se de geração em geração. O que é quero dizer que estas
aquisições se fixaram de um modo ou de outro, sem o que o seu
desenvolvimento progressivo, cada vez mais rápido, leria sido impossível.
Mas como é que estes progressos se podiam fixar c transmitir às
gerações seguintes? Podiam fixar-se sob a forma de transmissões
morfológicas, biologicamente transmissíveis?
Não. Se bem que exista igualmente, a herança biológica, isso é
evidente, ao nível do homem a sua ação não se estende todavia diretamente
aos progressos realizados pela humanidade na esfera do desenvolvimento
psíquico no decurso dos últimos quarenta ou cinqüenta milênios, isto é,
após a formação biológica definitiva do tipo do homem contemporâneo e a
passagem da sociedade humana do estágio da pré-história ao estágio do
desenvolvimento histórico, portanto a um processo dependente
inteiramente de leis sociais objetivas.
A partir deste momento, os progressos no desenvolvimento das
aptidões psíquicas dos homens fixaram-se c transmitiram-se de geração em
geração sob uma forma particular, a saber: uma forma material exterior,
exotérica.
Esta nova forma de acumulação e de transmissão da experiência
filogênica (ou, mais exatamente, histórica) deve o seu aparecimento ao fato
da atividade característica dos homens ser uma atividade produtiva,
criadora. Ta! c sobretudo a atividade humana fundamentai: o trabalho.
0 Desenvolvimento :lo 1’siqiusmo 253

O trabalho ao realizar-se o processo cie produção (sob as duas


formas -— material e intelectual), cristaliza-se no seu produto. O que da
parte do sujeito se manifesta sob a forma de movimento (llnmhc), aparece
no produto sob a forma de propriedade em repouso (ntheink1 Eigenschaft),
sob a forma de ser objetiva ou da materialidade (Marx).
O processo desta transformação pode ser considerado sob vários
aspectos e relações diferentes. Pode-se considerá-lo do ponto de vista da
quantidade de força dispensada cm relação à quantidade produzida —
como faz a economia política. Mas pode-se também considerar este
processo do ponto de vista do conteúdo da própria atividade do sujeito,
abstraindo dos seus outros aspectos a dita transformação da atividade
humana no seu produto surge então como um processo de concretização,
nos produtos da atividade dos homens, das suas particularidades psíquicas
e a história da cultura material e espiritual — como um processo que, sob a
sua forma exterior, material, traduz as aquisições do desenvolvimento das
capacidades do gênero humano {Mehschengattimg).
Assim, o processo de desenvolvimento histórico dos instrumentos
e ferramentas manuais, por exemplo, pode ser considerado, deste ponto de
vista, como traduzindo e fixando o progresso do desenvolvimento das
funções motrizes da mão e o desenvolvimento da fonética das iinguas no
sentido dc uma complexidade crescente ... como a expressão de um
aperfeiçoamento da articulação e do ouvido verbal, ao passo que o
progresso das obras de arte se torne a expressão de um desenvolvimento
das aptidões estéticas.
Mesmo na indústria material corrente encontramos, sob a forma de
objetos concretos e exteriores, as forças essenciais do homem objetivadas
( Wesenkráfte des Memchen. Marx).
Esta idéia é de uma importância absolutamente universal para a
psicologia científica. Todavia a sua importância só surge plenamente
quando da análise do outro aspecto do processo, não apenas do ponto de
vista da objetivação (Vergegenstandigimg) das capacidades humanas, mas
do ponto de vista da sua assimilação, da sua apropriação (Aneigmmg) pelos
indivíduos.
254 O Desenvolvimento do Psiquismo

Quando nasce, o indivíduo não encontra o “nada ' de Heidegger,


mas de um modo objetivo, transformado pela atividade de gerações.
Todavia este mundo de objetos, encarnando as faculdades humanas
que se formaram no processo de desenvolvimento da prática sócio
histórica, não é de imediato percebido como tal pelo indivíduo. Para que a
natureza do mundo circundante, este aspecto humano dos objetos, surja ao
indivíduo ele tem que exercer uma atividade efetiva cm relação a eles. uma
atividade adequada (se bem que não idêntica, evidentemente) à que eles
cristalizaram para si.
Bem entendido, isto aplica-se igualmente aos fenômenos objetivos
ideais criados pelo homem — à língua, aos conceitos e às idéias, às
criações da música e das artes plásticas.
Assim.?o indivíduo, a criança, não é apenas “colocada’ diante do
mundo dos objetos humanos. Para viver deve agir (ativamente c) adequa­
damente neste mundo. ,
Mas isto é apenas uma condição deste processo específico a que
chamamos processo de assimilação, de apropriação ou de aquisição.
A outra condição é que as relações do indivíduo com o mundo dos
objetos humanos sejam mediatizadás pelas suas relações com os homens,
que sejam inseridas no processo da comunicação, esta condição é sempre
realizada, pois a idéia do indivíduo, da criança a sós com o mundo
objetivo, é uma abstração totalmente artificial.
O indivíduo, a criança, não é pura e simplesmente lançada no
mundo dos homens, é aí introduzida pelos homens que a rodeiam e guiam
este mundo. A necessidade objetiva e o papel da comunicação no
desenvolvimento do homem foram suficientemente bem estudados em
psicologia para que seja necessário voltar a isso.
A comunicação sob a sua forma primeira, de atividade comum ou
dc relação verbal, constitui portanto a segunda condição inevitável dó
processo de assimilação pelos indivíduos dos progressos do desen­
volvimento sócio-histórico da humanidade.
Para completar a explicação de sentido deste processo, resta-me
dizer que ele se apresenta como um processo de reprodução pelo indivíduo
O Desenvolvimento do Psiquismo 255

lias faculdades adquiridas pelo 1lomo sapiens no período do seu


desenvolvimento sócio-histórico.
Consequentemente, o que nos animais resulta da herança biológica
resulta no homem de uma assimilação, isto é, de um processo de
hominização do psiquismo da criança. E não posso deixar de me associar
ao professor H. Piéron, que dizia no seu curso sobre a hominização: “A
criança, no momento do seu nascimento, não passa de um candidato à
humanidade, mas não a pode alcançar no isolamento : deve aprender a ser
um homem na relação com os outros homens
Com efeito, indo que há de especificamente humano no psiquismo
forma-se no decurso da vida.
Mesmo nas esferas das suas funções sensoriais (todavia tão
elementares, poder-se-ia crer) produz-se uma constante reorganização que
dá origem a faculdades sensoriais absolutamente novas, por assim dizer,
próprias exclusivamente do homem.
Foi justamente a formação de novas aptidões especificamente
humanas no domínio da percepção acústica que tomamos como objeto de
um estudo experimental detalhado.

2. Os animais não têm linguagem sonora articulada c não


conhecem a música. O mundo dos sons da linguagem, tal como o da
música, são uma criação da humanidade.
Diferentemente dos sons naturais, os sons verbais e musicais
constituem sistemas definidos, com componentes e constantes próprias,
que só a eles pertencem. Por outro lado, estes componentes, estas
constantes devem ser tais que o ouvido humano as discirna.
Para os sons da linguagem (à excepção das línguas de tom}, os
seus principais componentes e constantes são, sabemo-io, timbres
específicos, ou, por outras palavras, as características do seu espectro. Peto
contrário, a sua frequência fundamental não está carregada de uma função

1811H. Piéron: "O que é a hominização?”, Lc courrier rationaliste, 1959. n° 10. P. 211.
256 O Desenvolvimento do Psiquismo

de discriminação semântica e não intervém geralmente na percepção da


linguagem,
Os sons musicais, pelo contrário, têm por componente principal a
altura, e as suas constantes são do domínio das relações tonais.
O ouvido verbal está, portanto, baseado no timbre, ao' passo que o
ouvido musical é um ouvido tonal, baseado na capacidade de discernir a
altura de um complexo sonoro e de distinguir as relações tonais.
Precisamente esta aptidão auditiva é que foi objeto dos nossos
trabalhos em laboratório.
Começamos por um problema muito simples,: queríamos medir nas
pessoas submetidas à experiência os limiares de discriminação da altura de
dois sons emitidos sucessivamente. Embatemos então com uma dificul
dade considerável. Com efeito, é necessário, para que tais condições se
consigam que os sons sejam comparados exclusivamente em função do
parâmetro desconhecido, isto é, em função da sua freqiiência fundamental.
Mas foi por mais de uma vez demonstrado que por certas razões físico-
fisiológicas, todo o som, mesmo sinusoidal. e obtido com a ajuda de um
gerador elétrico, é percebido como possuindo uma nuance de timbre que
muda aquando de uma modificação da altura. E assim que os sons mais
elevados são percebidos como mais “claros’’ e os sons mais baixos como
mais “sombrios” ou mais “pesados” . Razão por que não podíamos, na
nossa experiência, limitarmo-nos a um método clássico de medição dos
limiares de acuidade auditiva tonal. Havia que encontrar um método novo,
excluído toda possibilidade de influência, para a avaliação dos sons a
comparar em função da sua altura fundamental, dos seus componentes
microtimbrais que introduzem inevitavelmente modificações.
Conseguimos aperfeiçoar tal método ", Consistia em submeter à
comparação dois sons sucessivos de constituição espectral diferente. Um1

IS1G. Stuinpf: Tonpsychologie, B.d. I. 1883; B d 1890: W. Kôlilcr: "Akustischc


IJntersuchuagen”, Zeitschriíq íür Psychologie. P.d. 72. 1915.
2Cf. f. B. Güippenreiter: Método dc medição da sensibilidade tonal diferencial. "Alas da
Academia das Ciências pedagógicas da R.S.F.S.R.', 1957. n" 4.
O D&senvohimçnfo do Psiquismo 257

Icles (constante) era próximo, peio seu espectro, da vogal russa ou. o outio
(variável) do i duro.
A duração dos sons era de um segundo, o intervalo entre os sons a
comparar de 0,5 segundo. O nível de intensidade, de 60 db. As experiên­
cias desenrolam-se segundo o “método dos excitantes constantes nas
bandas de freqüôncia de 200 a 400 hz.
Este método (que chamarei de método comparativo’ ) põe ao
sujeito um problema muito particular: ele deve comparar os sons do tipo
ou ou do tipo i exclusivamente em função da sua freqiiència fundamental,
abstraindo da sua constituição espectral.
Este problema, característico do ouvido musical, é, num certo
sentido, oposto ao que é especificamente do ouvido verbal, timbrai.
Aplicamos este método após uma medição dos limiares pelo
método clássico, isto é. pela comparação dos seus monotimbres. Obtive­
mos, portanto, dois limiares para o sujeito: um segundo o método corrente,
o outro segundo o método por nós proposto.
Manterei a designação habitual para o primeiro: “limiar diferen­
cial”; e chamarei ao segundo “limiar de separação”.
Medimos primeiramente estes dois limiares em 93 adultos dos 20
aos 35 anos.
Eis alguns dos resultados obtidos nesta primeira série de
experiências.
Todos os nossos pacientes se repartiram segundo os três grupos
seguintes.
Entre os do primeiro grupo (13%), a passagem às experiências com
sons dc timbres diferentes não provocou alteração dos limiares.
Nos segundo grupo, o mais numeroso (57%), o limiar de separação
era mais elevado que o limiar diferenciai.
Enfim, no terceiro grupo (30%), revelaram-se total mente incapazes
de comparar os sons ou c i em função da sua freqüência fundamental: o
som i era sempre percebido por eles como mais elevado, mesmo quando
era objetivamente mais baixo que o som ou de mais de uma oitava. E isto
após minuciosas explicações do problema e de numerosas demonstrações!
25.s O Desenvolvimento do Psiquismo

Os pacientes do terceiro grupo manifestavam, portanto, uma surdez


tona! particular ■fenômeno que é totalmente velado pela utilização do
método clássico de medição dos limiares, o que a ausência de correlação
entre os valores obtidos pelos dois métodos traduz claramente.
Visivelmente, quando é o método clássico utilizado, os pacientes
pertencentes a este grupo comparam os sons, não em função da sua
frequência fundamental (isto é. da sua altura musical), mas em função da
sua característica global, comportando em particular os seus componentes
microtimbrais que, evidentemente, são para eles dominantes.
Consideremos agora os pacientes do primeiro grupo, em quem a
passagem à avaliação dos Sons ou e i não produz qualquer elevação do
limiar. Esses têm um bom ouvido tonal. Com eleito, recolhendo
informações suplementares sobre as pessoas submetidas à experiência,
constatamos que as do primeiro grupo tinham um certo sentido musical.
O segundo grupo ocupa um lugar intermédio entre o primeiro c o
terceiro. Para uma parte dos pacientes deste grupo, os limiares de
separação permaneciam inferiores ao dobro dos limiares ditereuciais, o que
testemunha um desenvolvimento satisfatório do seu ouvido tonal; noutros,
peto contrário, os limiares de separação eram várias vezes superiores aos
limiares diferenciais, ou seja que cies se aproximavam do grupo dos
tonalmente surdos.
Tais foram os resultados das nossas primeiras experiências
Eles levantavam uma série de questões, às quais consagramos a
continuação das nossas investigações.

3. Tratava-se sobretudo de estabelecer a razão por que, num grande


número de pacientes, o ouvido tonal não se formara.
Partindo da idéia de que o ouvido timbrai se forma do decurso do
processo de aquisição da língua, e o ouvido tonal no decurso do processo
de aquisição da música, emitimos a seguinte hipótese: se uma criança
adquirir muito cedo uma língua fundamentalmente de timbre, o que conduz

18.1Cf. ! lí. Guippenreiier, ob. dl.


O Desenvolvimento do 1‘xii/ iiisiiw 25C
J

inevitavelmente a um desenvolvimento rápido du sen ouvido


especifieamente timbrai, pode ser relreado o desenvolvimento do seu
ouvido tonal. Isto é tanto mais verossímil quanto um ouvido verbal
altamente desenvolvido c suscetível, num certo senlido de compensar um
desenvolvimento insuficiente do ouvido tonal. Por consequência, num
indivíduo em quem nunca venham a tomar importância real certos
problemas que exijam separar, em complexos sonoros, a sua Ireqüência
fundamental, nunca o ouvido tonal se formará e ele ficará totalmente
surdo,
É possível verificar mesmo indiretamente esta hipótese?
Tentamos fazê-lo. O nosso raciocínio foi o seguinte: se a nossa
hipótese for justa não poderia haver, entre pessoas cuja língua materna
pertença às línguas de tom (isto é. línguas nas quais a função de
discriminação semântica é própria dos elementos puramente tonais),
pessoas tonalmente surdas, uma vez que a aquisição da sua língua materna!
supõe nelas a formação do ouvido tonal.
E com efeito, as experiências realizadas com vinte vietnamitas
(utilizam uma língua de tom) deram os seguintes resultados: em quinze de
vinte pacientes, a passagem à comparação de sons de timbres diferentes
não provocou qualquer elevação do limiar ou apenas uma elevação
insignificante; apenas em cinco pacientes o limiar sofreu uma elevação
mais importante; ora, verificou-se que quatro deles provinham de regiões
centrais do Vietnã, onde a população tala uma língua em que os elementos
tonais desempenham um papel menos pronunciado. Não encontramos
neste grupo um só caso de surdez tona! ou de elevação brutal do limiar de
„ 184
separaçao.
Estes resultados, aliás concordavam plenamente com o fato
revelado pelo professor J. Taylor (Capctovvn). Segundo este autor, a
"surdez tonal” {tone deafness) na ausência de deficiências fisiológicas
constitui um fenômeno corrente na Inglaterra ou na América, é

1^1et'. A. N. Leontiev e !. B, Guippenreilen A influência da lingua materna na lormaçao do


ouvido. "Alas da Academia das Ciências pedagógicas da R.ST.S.R.". 1957. n” 2.
260 O Desenvolvimento do Psiquismo

praticamente desconhecida entre as tribos africanas cuja língua comporta a


_ , 185
entonação das vogais.
Certo que os resultados das experiências com vietnamitas não
forneceram ainda diretamente a prova da nossa hipótese. Mas como provar
diretamente que as aptidões sensoriais que correspondem ao mundo dos
fenômenos criado pela sociedade não são inatas no homem, mas se
formam a partir de uma aprendizagem destes fenômenos? O único meio é
tentar formar uma tal aptidão em laboratório.
Foi o que tentamos fazer.

4. Para formar um processo, é preciso ter uma idéia prévia da


estrutura, o seu mecanismo fisiológico.
Sabe-se que existem atualmente duas concepções de mecanismo
geral dos processos sensoriais. Uma delas, a mais antiga, vê na sensação o
resultado da transmissão às zonas sensoriais dc uma excitação nascida num
órgão receptor. Oposta a esta, a concepção elaborada no século XIX pelo
eminente fisiólogo russo Setchenov considera que os processos sensoriais
incluem necessariamente na sua estrutura atos motores com a sua
sinalização proprioceptivas. Foi a que adotamos. Razão também por que a
idéia, formulada por W. Köhler em 1915, de uma ligação íntima entre
excitação do nervo auditivo e inervação dos órgãos da fonação
, . „186
(vocalização), chamou a nossa atençao.
A partir desta idéia, dos dados de uma série de investigações
contemporâneas e de algumas observações pessoais, decidimos estudar o
papel dos movimentos vocais na discriminação da frequência fundamental
dos sons.
Prosseguimos as experiências com os mesmos pacientes, medindo
os seus limiares de "precisão de vocalização (de entonação) de uma dada
altura num registro conveniente a cada um. Não me deterei na técnica
utilizada para estas experiências; observarei apenas que as medições eram
controladas com a ajuda de um oscilógrafo.

1B' .1. Taylor: "Towards a science of Mind". Mind. v. I.XV L 1957. n” 264.
186 w. Kohler: "Akusliche Untersuchungen" Xeilschnfq fur Psychologic. F.d. 72. 1915.
O Desenvolvimento rio Psiiiuismo 261

Estas medições mostraram uma estreita correlação entre o valor


dos limiares de separação da altura fundamental e o erro médio da sua
vocalização:

P -0.83 com 'P i 0,03

Que traduz esta relação? É o grau de precisão da entonação que


depende da precisão da separação da frequência fundamental ou, pelo
contrário, a precisão da separação que depende da entonação?
A resposta a esta questão foi-nos fornecida pelas experiências
seguintes: com os pacientes que possuíam um ouvido tonal não
desenvolvido repetimos as experiências pelo método comparativo, mas
acrescentando um novo elemento. Exigia-se que eles entoassem em voz
alta a altura dos sons que lhes eram apresentados.
Ora em todas as pessoas submetidas a esta experiência, a
introdução da vocalização produziu todas as vezes uma baixa dos limiares
de separação.
Citarei os dois exemplos mais elucidativos.
Eis os resultados obtidos no paciente 59, pertencente ao segundo
grupo ou grupo intermediário. Indicarei o valor dos limiares em
centésimos (unidade da escala logarítmica musical, igual a 1/200 de tom).
Primeira experiência (sem a voz): o limiar de separação é de 385
centésimos.
Na segunda experiência (o paciente entoa) o limiar é quatro vezes
mais baixo: 90 centésimos.
Terceira experiência (sem a voz): limiar de 385.
Quarta experiência (com a voz): de novo 90.
Finalmente, quinta experiência (sem a voz): o limiar sobe a 335
centésimos.
Passemos ao segundo exemplo.
Paciente 82. Faz parte do grupo dos tonalmentc surdos.
2(2 O Deseiivnlviinen/o do Psiquismo

Na primeira, terceira e quinta experiências, que se desenrolam sem


a voz, o paciente não consegue dar a avaliação justa da altura relativa de
sons de timbres diferentes, mesmo para uma diferença dc 1200 centésimos.
Quando intervém a voz (segunda e quarta experiências), consegue
comparar os sons cm função da sua frequência fundamental e os seus
limiares atingem 135 centésimos (o que, na banda de 300 hz, representa
cerca de 22 hz.
Assim, a introdução da atividade vocal (canto, no processo de
percepção da íreqüéncia fundamental dos sons, produz uma redução nítida
dos limiares dc separação ' .
À fim de verificar esta tese, efetuamos alguns controles comple­
mentares. os quais confirmaram plenamente a nossa conclusão sobre o
papel decisivo da atividade do aparelho vocal no discernimento da
' ' ^ IH8
freqüênçia fundamental ' .
Passamos então às experiências de formação ativa de um ouvido
propriamente tonal dos pacientes desprovidos desta aptidão.
Bem entendido, as pessoas submetidas a estas experiências tinham
particularidades diferentes c, sobretudo, partiam de níveis diferentes. Em
particular, algumas eram incapazes de “regular” a sua voz sobre o som-
padrão, dado por um eletrogerador. foi preciso começar, neles, pela
“afinação” deste processo. O experimentador indicava ao sujeito as
entonações mas, ajudando-o a modificar a altura do som no bom sentido e
anotava evidentemente, o momento em que a altura do som vocalizado
coincidia com a do padrão. Este “ajuste” ocupava geralmente duas a seis
sessões. Onze pessoas ao todo passaram por este “treino”.187

187Cf. 1- B. Guippenreiter: Análise experimental do fundamento motor do processo de


percepção da altura tonal. "Alas da Academia das Ciências pedagógicas da R.S.F..S.R.".
1958. n° 1.
188 Cf. O. V. Ovtchinnikova: A influência da atividade das cordas vocais sobre a avaliação
da altura tonal. "Atas da Academia das Ciências pedagógicas da R.S.F.S.R '. 1958. n" 2.
O Desenvolvimento do Psic/iiisrn 263

Estas experiências tiveram como resultado uma forte baixa dos


limiares de separação, em particular naqueles que tinham aprendido a
. , t'89
regular corretamente a voz
Eis alguns exemplos:
Paciente 2: antes das experiências, limiar de separação: 690
centésimos; depois, 60.
Paciente 7: antes, 1105; depois 172.
O caso do paciente nove é interessante. O seu limiar inicial era
igualmente muito mais elevado: 1188 centésimos. Se bem que tenha
conseguido ajustar a voz no devido ponto, o limiar permaneceu todavia
praticamente inalterado após as experiências: superior a 1000 centésimos.
Só quando o operador lhe propôs fazer uso da sua capacidade para entoar
em voz alta a altura dos sons para os comparar é que o seu limiar de
separação se tornou de repente cinco vezes e meia mais baixo.
Tais casos apresentam um interesse particular, pois eles permitem
distinguir um elemento a mais na formação do ouvido tonal. Constatamos
que não basta que um paciente possa regular a sua voz sobre o som
percebido; c necessário, além disso, que esse processo participe do ato de
percepção da altura do som. A incitação direta a entoar em voz. alta os sons
percebidos que são emitidos num registro acessível ao paciente permite-o
sempre.
A etapa seguinte na formação do ouvido tonal é constituída pela
passagem ao discernimento da altura sem o entoar em voz alta e quando os
sons percebidos estão fora do registro vocal do paciente.
Tomarei ainda como exemplo o paciente 9, em quem o limiar de
separação só caia na condição de que ele cantasse em voz alta. Ora neste
paciente, cujo limiar inicial era superior a 1000 centésimos, obtivemos
uma forte diminuição, mesmo quando lhe era interdito entoar a altura em
voz alta.

'8,,Vcr O. V. Ovtchinnikova: "O treino do ouvido segundo o método motriz". Doklady A.


K. Red. TMauk R. S. F. S. R.'\ "Atas da Academia das Ciências pedagógicas da R.S.F.S.R.".
1958, n° 2.
264 O Desenvolvimento do Psiquismo

O processo utilizado para fazer passar os pacientes ,a esta etapa foi


o seguinte: uma vez transpostas as duas etapas precedentes (‘'regulação’' da
voz sobre a altura do padrão e introdução da voz no processo de
comparação dos sons em função da sua altura), propusemos ao paciente
não começar a vocalizar a altura a não ser após a emissão do som-padrão.
A análise mostrou que assim nós não excluíamos pura e simplesmente toda
a atividade vocal no momento da percepção do som, mas a refreávamos
apenas, transformando-a em ato de afinação, prévia, silenciosa, do
aparelho vocal à altura do padrão.
Foi assim que de um processo com caráter de ato de execução
(“cantar uma dada altura”) se destacava a sua função de orientação (“que
altura?”).
Este processo de mudança de função dos movimentos vocais
constitui o elemento principal da formação do ouvido tonal. F ao mesmo
tempo o alo de nascimento da capacidade para se representar ativamente a
altura, estando esta representação sempre ligada, como o indicava B. M.
Teplov num excelente estudo das aptidões musicais, aos movimentos
. . . 190
vocais internos
Podemos, portanto, dizer que a experimentação que tínhamos
concebido triunfou: em pacientes que não eram capazes de discernir a
altura musical propriamente dita, nós conseguimos formar esta aptidão.
Mas estaríamos nós autorizados a atribuir sem reservas o efeito
obtido à introdução ua percepção dos sons na atividade vocal? Com efeito,
sabe-se que os limiares de discriminação da altura melhoram
consideravelmente igualmente pelo simples treino com sons monotimbres.
Levando em conta este fato, empreendemos uma série de
experiências suplementares.
Treinamos intensamente um grupo de pacientes para a
discriminação da altura de sons simples, lai como os outros autores
obtivemos assim uma baixa considerável para estes sons. Mas no que
concerne aos limiares de separação medidos antes e após este treino

' B. M. Teplov: Psicologia das ['acuidades Musicais. Moscou-Leningrado 1947.


O Desenvolvimento do Psiquismo 265

puramente “sensorial”, verificou-se que sete cm cada nove casos não


tinham absolutamente mudado e que os dois outros casos tinham sofrido
uma baixa insignificante1" .
A conclusão impunha-se: sem aperfeiçoamento da atividade vocal
e sem a sua introdução no sistema receptor não se forma ouvido tonal
propriamente dito' n .

5. Estas investigações forneceram-nos, portanto, uma


representação mais precisa do próprio mecanismo do ouvido tonal.
Para que se produza o discernimento da altura, a ação do complexo
sonoro sobre o órgão do ouvido deve não apenas ser provocado por reações
reflexas incondicionadas de adaptação c de orientação, mas é igualmente
indispensável a atividade do aparelho vocal.
Pode-se todavia surgir esta atividade segundo o mecanismo de um
ato sensitivo-motor simples?
Não se poderia admiti-lo pois vimos que antes da introdução da
entonação exterior ou interior não é discernida a frequência fundamental
do complexo sonoro agente.
Por outras palavras, a entonação não se contenta em reproduzir o
que é percebido, mas entra no mecanismo interno, íntimo do próprio
processo de percepção. Ela desempenha em relação à altura musicai a
função de orientação ativa, de separação c de avaliação relativa.
Tentamos seguir a dinâmica deste processo. Durante a medição dos
limiares de separação escrevemos num canal do oscilógrafo a frequência
do som-padrão e sobre um outro a frequência entoada pelo paciente.
O desenrolamento muito rápido da banda em que se fazia o
registro permitia medir a freqüência entoada em intervalos de tempo
consecutivos muito breves: todos os 10 metros/segundo.

I9' Cf. O. V. Ovtchmnikova: O treino "sensória!" do ouvido tonal. "Atas da Academia das
Ciências pedagógicas da R.S.F.S.R ", 1959. tf I.
m Cf. A. N. Lcontiev: Notas cientificas do Instituto de investigações Psicológicas do
Ministério da Educação R. S. S., dc Ucrânia, t. XI, 1959.
266 O Desenvolvimento do Psiquismo

Os estudos dos dados obtidos com quarenta pacientes mostrou que


a frequência entoada só se aproxima progressivamente da trcqiiência do
som emitido. Revelava-se em certos casos um intervalo considerável: 100
hz e mais: em outros, este intervalo era mais reduzido, de 40 ou mesmo de
10 hz, por exemplo. O tempo passado na “regulação’ sobre a freqüência do
som emitido era igualmente variável: 1 s. 0,1 s.
Devemos sobretudo notar que logo que a freqüência entoada estava
suficientemente próxima da freqüência do som emitido, se estabilizava.
Para elucidar o desenvolvimento deste processo, propusemos aos
pacientes em quem o ouvido tonal já era suhcientemente perfeito que
entoassem os sons avaliados segundo a sua altura e que eram transmitidos
por um eletrogerador. Inscrevemos num canal de um oscilógrafo catódico a
freqüência do som emitido e noutro canal a freqüência do som entoado; um
registrador luminoso marcava o tempo sobre a mesma banda. Estas
experiências fizeram-se em quarenta pacientes,
Como o desenrolar rápido da película-foto permitia levar em conta
toda a mudança que interviesse no lapso do tempo dc 0,0 ls, podíamos
seguir o processo estudado com uma precisão praticamente microscópica.
Os resultados desta experiência mostraram que mesmo nos
pacientes que gozavam de um ouvido tonai relativamente bom, o som
entoado nem sempre se estabelecia imediatamente à altura dada, mas dela
se aproximava progressivamente.
Nos pacientes com um nivei de desenvolvimento menos elevado, a
entonação, o processo de regulação da voz, ocupa um tempo bastante
longo {da ordem de 1 ou 2 segundos). Além disto, tem um caráter de
“ensaio”, quer dizer, a altura entoada se desloca tanto para cima como para
baixo até que coincide com a altura dada e com a qual se estabiliza.
Quando o nível dos pacientes é mais elevado, este processo tem um caráter
de curto “ataque”, ou seja, que vai numa única direção, nos limites de um
intervalo dc 10 a 40 hz e não requer senão alguns centésimos de segundo.

1,15Cl'. A. H Leontiev. O. V. Ovichinnikova: Ü mecanismo do ouvido tonal. “Atas da


Academia das Ciências pedagógicas da R.S.F.S.R.", 1958, n1' 3.
O Desenvolvimento tio Psii/tus/no 26~

Enfim, devemos notar que esta investigação segue quase sempre,


sc não sempre, uni movimento ascendente de frequências mais baixas para
frequências mais altas. Só quando o som emitido sc encontra mais “baixo”
que o registro confortável para a voz é que nós igualmente observamos
deslocamentos no sentido oposto.
A partir destes dados e de alguns outros, podemos considerar o
mecanismo do ouvido tonal como um mecanismo que funciona não
segundo o esquema da análise “filtrante” mas segundo o esquema de
comparação descrito por Mac Kay1’1.
Segundo este esquema, a avaliação é resultado de um processo
reflexo “imitativo” que constitui por assim dizer a “prova”.
Sobre este esquema podemos descrever o mecanismo da separação
de dois sons em função da sua altura como se segue: após a regulação do
processo de entonação sobre a freqüência do primeiro dos excitantes
sonoros a comparar e a sua estabilização, a ação do segundo excitante
provoca uma nova mudança — desta vez até a coincidência com a
freqüência do segundo excitante. Se ele se modifica no sentido de aumento
da freqüência, o segundo excitante é percebido como mais elevado — se
ele se modifica no sentido inverso, como mais baixo. O grau da sua
modificação, quanto a ele, permite determinar o valor do intervalo.

6. Resta-me expor as nossas últimas experiências.


Tinham por fim criar em laboratório sistemas funcionais
perceptivos que não se formassem nas condições normais.
Consideramos, com efeito, que era o único meio de fornecermos à
nossa hipótese uma forma experimental decisiva.
Fixamos dois objetivos.
O primeiro era substituir o mecanismo do ouvido tonal, o órgão
auditivo por um outro órgão receptor. Nestas experiências, o órgão
emissor, efetuando a separação da frequência (a saber: o aparelho de
entonação), devia conservar a sua função.

J ( !•;. Shaniiün,.!. McÇarthy: Automata Stuciics. Princeton Univerity Press. 1956.


268 O Desenvolvimento do Psiquismo

Que receptor podia substituir convenientemente o órgão do


ouvido?
Só podia evidentemente desempenhar este papel um receptor que
respondesse a excitantes comportando um parâmetro de frequência.
É o caso dos órgãos das sensações vibratórias.
A percepção das vibrações mecânicas apresenta uma
particularidade muito importante para nós: a percepção da frequência de
uma vibração é influenciada pelas variações de outro dos seus parâmetros
— a intensidade (a amplitude). Quanto mais elevada é a amplitude, mais
baixa parece a frequência, e inversamente1 . É por isso que a comparação
de excitantes, vibratórios, segundo a sua freqüência, não se orienta
habitualmente pela sua frequência propriamente dita, mas sobre diferenças
da sua qualidade global, "geral”. Pudemos, portanto, aplicar igualmente às
medidas dos limiares e sensibilidade vibratória o nosso método
“comparativo”. As condições da experiência eram as seguintes: as
vibrações da haste de um vibrador silencioso transmitiam-se à extremidade
do índex: o diâmetro da superfície de contato era de cerca de 1,5 mm. As
medições eram efetuadas entre freqiiências de 100 a 160 hz; a relação das
amplitudes quando da medição dos excitantes era de I para 2. A freqüência
e a amplitude dos excitantes eram controladas permanentemente por
aparelhos.
Medimos primeiramente os limiares diferenciais para excitantes da
mesma amplitude. Depois, por comparação da freqüência dos excitantes de
amplitude diferentes, os limiares da separação. Como era de se esperar,
estes eram duas a quatro vezes superior aos limites diferenciais.
As experiências que se seguiram tinham por fim fazer entrar nos
processos de percepção da freqüência de uma vibração mecânica a
atividade do aparelho vocal, segundo o esquema descrito mais acima da
“comparação”.
Todas as pessoas que participavam nestas experiências tinham um
ouvido tonal suficientemente bom.

1,5 Cl. Bckesy: "Similarities between Hearing anil Skin sensations" Psychological Review,
O Desenvolvimento do Psiquismo 269

As experiências sucederam-se segundo a mesma sucessão que as


que se fizeram sobre o ouvido. Ao mesmo tempo, o processo de íonnaçâo
deste novo sistema funcional perceptive distinguia-se do outro por uma
serie de traços particulares. O principal era a grande dificuldade da etapa
da tla!inação da vocalização (ensaio cantado) da frequência das vibrações
agentes. Esta tarefa pareceu, prime iram ente, inesperada aos pacientes,
“contra natura”, até mesmo impossível. E o processo de introdução da
vocalização na comparação dos excitantes vibratórios foi mais difícil e
exigiu um número considerável de experiências.
A utilização de um certo número de procedimentos suplementares
permitiu-nos superar estas dificuldades. Finalmente, os limiares de
separação da frequência de vibrações mecânicas reduziram-se
consideravelmente156.
Eis os números:
Pacientes 1 e 2: limiar de separação inicial (em centésimos) —
700, após as experiências — 246, isto é, perto de três vezes menos.
Paciente 3: limiar inicial — 992. após as experiências — 240, seja
quatro vezes menos.
Paciente 4: limiar inicia! — 1180, após as experiências — 246, ou
seja. perto de cinco vezes menos.
Assim se formava e começava a “funcionar” este novo sistema
funcional!
Paralelamente a estas experiências no nosso laboratório por A. I.
TchumaK, teve lugar uma outra série de experiências. Elas tinham por
objetivo, ao contrário, introduzir o sistema de funcional receptivo, sem
mudar o receptor, um outro “comparador”, isto é, um outro aparelho
emissor; foi o esforço tônico dos músculos da mão.
A tarefa revelou-se muito complexa.
Exigia uma aparelhagem especial e sobretudo um trabalho longo
com o paciente.

l%Cr. A. 1. Tchumak: “l-ormação experimental de uma sensibilidade vibratória diferenciar.


"Atas da Academia das Ciências pedagógicas da R.S.F.S.R.", 1962, n° 3.
2~0 O Desenvolvimento do PsiquismB

Estas experiências foram realizadas com pessoas com uma surdez


tonal nitidamente marcada.
Á instalação comportava um aparelho de concepção original. Uma
pressão sobre uma placa deste aparelho que permanecia praticamente
imóvel, provocava uma modificação regular da frequência criada,
transmitida a um freqüencímetro, um oscilógrafo e telefones (efi Fig. 19).
A intensidade da pressão exercida sobre a placa e a frequência
criada pelo aparelho estavam ligadas (em limites determinados) por uma
correlação linear positiva; isto permitia traduzir a intensidade da pressão
exercida sobre o disco pelo número de oscilações criadas por segundo, isto
é, em hz.
A primeira etapa consistia em formar nos pacientes uma relação
condicionada entre a frequência do som agente e o grau de esforço estático
dos músculos da mão. Três pessoas participavam estas experiências.
O paciente recebia um tom puro (100 a 500 hz), ao qual deveria
reagir por uma pressão da mão. O experimentador dava uma avaliação de
cada reação reflexa, reforçando os casos em que a intensidade da pressão
coincidia com a freqüência do som condicionalmente ligado a esta força. O
próprio paciente não ouvia o som criado por ele.
Na sequência destas experiências (que exigiam 25 a 33 sessões de
quarenta minutos) formou-se em todos os pacientes a associação reflexa
'"altura do som-grau de esforço muscular".
A comparação do erro médio da reação muscular após a primeira
sessão e no fim das experiências dá os seguintes números (cm
unidades convencionais); paciente K: 65 e 1 — paciente B: 65 e 5 —
paciente L; 25 e 10.
Estabelecemos, além disto, que aq@PJL ENTER 1.ANGUAGE,
O Desenvolvimento do Psiquismo 2~l

Foi para responder a esta questão que efetuamos medição do iimiai


de separação. Eis os números obtidos:
Paciente K: limiar de separação antes das experiências: 1994
centésimos - após as experiências: 700.
Paciente B: antes das experiências: 1615 centésimos - após as
experiências: 248.
Paciente E: antes das experiências: 828 centésimos — após as
experiências: 422.
Assim, após as experiências, o limiar da separação tinha
diminuído, se bem que os pacientes não tivessem exercitado, no decurso
destas experiências, na discriminação da altura. Por essa razão nos
inclinamos a explicar o abaixamento dos limiares obtido pelo tato de, no
mecanismo de percepção dos pacientes, entrar a associação entre a altura
de um som e grau do esforço muscular.
Ao mesmo tempo, a nossa atenção foi atraída para o fato de ser
insuficiente para uma precisão elevada das reações musculares
condicionada o abaixamento dos limites de separação de dois dos nossos
pacientes (K e L), pois permaneciam duplos do que deveriam ser.
Como explicar este fenômeno?
A nossa impressão era que, nestes dois pacientes, a passagem a um
problema mais complexo de comparação de dois sons de timbres diferentes
tinha desregulado o funcionamento da associação formada. Razão por que
prosseguimos as experiências com eles. O resultado foi que, se a precisão
do esforço muscular não sofreu mudança considerável, os limiares de
diferenciação acusaram todavia uma forte baixa.
Assim, no paciente K. o limiar de separação reduziu-se de seis
vezes e o paciente L de perto de nove vezes.
Dou a este fato uma grande importância.
Com efeito, a sua análise mostra que, logo que se construa o
“esqueleto” de um dado do sistema funcional, uma outra transformação
deve intervir. Na sequência desta transformação interna, escondida, a sua
função anterior, “executiva”, muda-se totalmente em função de orientação,
de reflexo, e todo o sistema é interiorizado.
7^2 O Desenvolvimento do Psiquismo

Resta-me abordar a segunda questão: podemos afirmar que sc


tenha efetivamente formado nos nossos pacientes um mecanismo artificial
de ouvido tonai, no qual os músculos da mão desempenharam o pape! de
aparelho vocal?
Responderei a esta questão pelos resultados das experiências de
controle.
Nas nossas medições dos limiares de separação nos últimos
pacientes pusemos o acento, num caso, no aparelho muscular da mão e, no
outro, no aparelho vocal. Aconteceu que se, no primeiro caso, isso
perturbava indubitavelmente a sua capacidade de separação da altura, o
segundo caso. não provocava qualquer mudança notável neste processo.
Pode-se, portanto, considerar que conseguimos igualmente formar
r ^ - . 1 9 7
este segundo sistema receptivo funcional
Evidentemente, este sistema funcional, tal como o que foi descrito
mais atrás, é apenas um produto laboratorial. Parece que só pode funcionar
nas condições de problemas relativamente simples. Esta limitação dos
sistemas artificiais explica-se pelo lato de que sejam formados na base dc
elementos morfológicos inadequados. Mas as nossas experiências não
tinham por fim mostrar a possibilidade de criar aptidões nao próprias
habitualmente do homem. Tratava-se unicamente de verificar
experimentalmente o mecanismo de formação dos sistemas funcionais
perceptivos.

7. Não resumirei os resultados destas investigações e pa


diretamente às conclusões.
As velhas teorias científicas associavam dc maneira imutável tais
ou tais capacidades ou funções psíquicas á existência de estruturas
cerebrais correspondentes, especializadas, pertencentes à herança
biológica. Elas consideravam da mesma maneira as aptidões nascidas do
desenvolvimento sócio-histórico do homem.

107d . O . V. O v t c h i n n i k o v a : Experiência d e s u b s t i t u i ç ã o d o c i o moior no sistema do ouvido


limai. "‘Atas da Academia das Ciências pedagógicas da R.S.F S.R. 1960. nn 3.
O Dexenvn/vimeMo do Psiqais mo 273

É certo que uma atitude científica nos leva necessariamente a ver


em toda a função psíquica o resultado de um órgão ou de vários órgãos.
Por outro lado, já disse que as aptidões e as funções
correspondentes à aquisição especificamente humanas não podem lixar-se
morfologicamente.
Foi esta controvérsia que nos conduziu a emitir a idéia de que as
aptidões e funções especificamente humanas se formam no processo de
apropriação pelo indivíduo do mundo dos objetos e fenômenos humanos c
que o seu substrato material é constituído por sistemas de reflexos
sensíveis formados pela vida.
Se bem que a formação de sistemas reflexos funcionais complexos
se encontre igualmente nos animais, e só no homem eles se tornem
verdadeiros órgãos funcionais do cérebro formado por ontogênese. Trata-
se de um fato dc extrema importância.
As investigações aqui relatadas incidiam sobre a formação de um
tipo particular, relativamente elementar, de órgãos funcionais. E evidente
que a formação dc sistemas funcionais como os que efetuam, por exemplo,
a “solução imediata” {insight) de relações lógicas ou matemáticas segue
um processo diferente. Todavia, o conjunto dos dados científicos de (.pie
dispomos permite-nos revelar alguns traços comuns a todos os órgãos
funcionais formados por ontogênese.
A sua primeira particularidade é que uma vez constituídos, eles
funcionam como um órgão único. Deste modo. os processos que executam
surgem, de urn ponto de vista subjetivo-fcnomenológico. como uma
manifestação dc aptidões elementares natas, 'lais são, por exemplo, os
processos de apreensão direta de estruturas (Ge.stallen) dimensionais,
quantitativas ou lógicas.
A sua segunda particularidade é a sua estabilidade. Se bem que a
sua formação resulte do fecho de ligações cervicais, estas ligações todavia
não sc extinguem como os reflexos condicionais correntes. Bastará dizer,
por exemplo, que a aptidão para visualizar formas percebidas pelo lato que
se desenvolve, sabemo-lo, por ontogênese, não se extingue após dez anos
de cegueira, se bem que nenhum reforço das ligações correspondentes seja
O Desenvolvimento do Psiquismo

possível, evidentemente, nestas condições. Este fato foi demonstrado, há


pouco tempo, por M. I. Zemtsova e L, A. Novikova, tanto clinicamcntc
como pelo método eletrofisiológico108.
A terceira particularidade dos órgãos funcionais considerados é
qne eles se formam de modo diferente das simples cadeias reflexas ou
daquilo que se chama os estereótipos dinâmicos. As ligações que os
constituem não decalcam simplesmente a disposição dos excitantes
exteriores, mas associam processos reflexos independentes aos seus efeitos
motores para formar um ato reflexo complexo único. Tais atos
“compostos” comportam sempre, no princípio, componentes exteriores-
motrizes desenvolvidos que são em seguida inibidos, ao passo que o ato do
seu conjunto modifica a sua estrutura inicial que se abrevia e se automatiza
progressivamente. Estas transformações consecutivas dão origem à
constelação estável que funciona como órgão único e dá a impressão de
uma aptidão inata.
A sua quarta particularidade tem, por fim, que ressalta claramente
nossas últimas séries dc experiências é que, respondendo a uma só e
mesma exigência, têm uma estrutura variável. £ o que explica a
possibilidade quase ilimitada de compensações que sc observa no domínio
do desenvolvimento das funções especificamente humanas.
Penso que a introdução da noção de órgãos funcionais no sentido
definido mais acima nos permite colocar o problema do biológico e do
social nos processos psíquicos do homem sobre o terreno dos fatos
precisos da investigação cm laboratório. Penso, além disto, que este
princípio de estudo sistemático da formação destes órgãos e das aptidões
que lhe correspondem nos permite tirar algumas conclusões gerais
importantes.
A principal é que as biologicamente herdadas do homem não
determinam as suas aptidões psíquicas. As faculdades do homem não estão
virtualmente contidas no cérebro. O que o cérebro encerra virtualmente

1’* Cf. M. I. Zemtsova: Modos de compensação da cegueira no processo da atividade


cognitiva c laboriosa. Moscou. 1956.
O Desenvolvimento do Psiquismo 275

não são lais ou tais aptidões especificamente humanas, mas apenas a


aptidão para a formação destas aptidões.
Por outras palavras, as propriedades biologicamente herdadas do
homem constituem apenas uma das condições da formação das suas
funções e faculdades psíquicas, condição que desempenha por certo um
papel importante. Consequentemente, se bem que estes sistemas não sejam
determinados por propriedades biológicas, dependem todavia destas
últimas.
A outra condição, é o mundo de fenômenos e de objetos que
rodeiam o homem, criado pelo trabalho e pela luta de inumeráveis
gerações humanas. É este mundo que fornece ao homem o que ele tem de
verdadeiramente humano, Se, portanto, distinguimos nos processos
psíquicos superiores do homem, por um lado, a sita forma, isto é, as
particularidades puramente dinâmicas que dependem da sua “fatura'
morfológica e, por outro, o seu conteúdo, isto é, a função que eles exercem
e a sua estrutura, então podemos afirmar que o primeiro elemento é
determinado biologicamente e o segundo socialmente. Será preciso
sublinhar que o aspecto decisivo é o conteúdo?
O processo de apropriação do mundo dos fenômenos e dos objetos
criados pelos homens no decurso do desenvolvimento histórico da
sociedade é o processo durante o qual teve lugar a formação, no indivíduo
de faculdades e de funções especificamente humanas. Seria profundamente
errôneo todavia representar-se este processo como o resultado de uma
atividade da consciência ou da ação da “intencionalidade” no sentido em
que o entendem Husserl e outros.
O processo dc apropriação efetua-se no decurso do
desenvolvimento dc relações reais do sujeito com o mundo. Relações que
não dependem nem do sujeito nem da sua consciência, mas são
determinadas pelas condições históricas concretas, sociais, nas quais ele
vive, e pela maneira como a sua vida se forma nestas condições.
É por isso que a questão das perspectivas de desenvolvimento
psíquico do homem e da humanidade põe antes de mais nada o problema
de uma organização equitativa e sensata da vida em sociedade humana - .
2Yi O Desenvolvimento do Psiquismo

de uma organização que dê a cada titü a possibiliclade prática de se


apropriar das realizações do progresso histórico e de participar enquanto
criador no crescimento destas realizações.
Escolhi o problema do biológico c do social porque hoje ainda
muitos sustentam a tese fatalista de uma determinação do psiquismo do
homem pela herança biológica. Esta tese vem alimentar, em psicologia, un
idéias da discriminação racial e nacional, do direito a0 genocídio e às
guerras de exterminação. Ela ameaça a paz e a segurança da humanidade.
Ela está em contradição flagrante com os dados objetivç,s j as investigações
psicológicas científicas.
<1 HOMEM
e a « r i ; n iíA
0 Desenvolvimento do Psiquismo

1. De longa data, o homem é considerado como um ser à parte,


qualitativamente diferente dos animais. A acumulação de conhecimentos
biológicos concretos permitiu a Darwin elaborar a sua célebre teoria da
evolução, segundo a qual o homem é o produto da evolução gradual do
mundo animal e tem uma origem animal.
Depois a anatomia comparada, a paleontologia, a embriologia e a
antropologia ofereceram diversas provas novas desta teoria. Todavia a
idéia de que o homem se distingue radicalmente das espécies animais,
mesmo as mais desenvolvidas, continuou a ser firmemente sustentada.
Quanto a saber onde é que diversos autores viam estas diferenças e como a
explicavam, isso, é outra história.
Não é necessário determo-nos em todas as considerações emitidas
neste dominio. Não concederemos qualquer atenção às que partem da idéia
tie uma origem espiritual, divina do homem, que constituiria a sua essência
particular: admitir uma tal teoria é colocarmo-nos fora da ciência.
O essencial das discussões científicas incidiu antes sobre o papel
dos caracteres e das dificuldades biológicas inatas do homem. Uma
grosseiro exagero do seu papei serviu de fundamento teórico às teses
pseudobiológicas mais reacionárias e mais racistas.
A orientação oposta, desenvolvida pela ciência progressista, parte,
pelo contrário, da idéia de que o homem é um ser de natureza social, que
tudo o que tem de humano nele provém da sua vida em sociedade, no seio
da cultura criada pela humanidade.
280 O Desenvolvimento do Psiquismo

No século passado, pouco após o aparecimento do livro de Darwin,


A Origem das Espécies, Engels, sustentando a idéia de uma origem animal
do homem, mostrava ao mesmo tempo que o homem é profundamente
distinto dos seus antepassados animais e que a hominização resultou da
passagem à vida numa sociedade organizada na base do trabalho; que esta
/ passagem modificou a sua natureza c marcou o início de um
desenvolvimento que, diferentemente do desenvolvimento dos animais,
estava e está submetido não às leis biológicas, mas a leis sócio-históricas.
À luz dos dados atuais da paleantropologia, o processo da
passagem dos animais ao homem pode rapidamente traçar-se da seguinte
maneira:
Trata-se de um longo processo que compreende toda uma série de
estágios. O primeiro estágio é o da preparação biológica do homem.
Começa no fim do terciário e prossegue no início do quaternário. Os seus
representantes, chamados australopitecos, eram animais que levavam uma
vida gregária; conheciam a posição vertical e serviam-se de utensílios
rudimentares, não trabalhados; é verossímil que possuíssem meios
extremamente primitivos para comunicar entre si. Neste estágio reinavam
ainda sem partilha as leis da biologia. O segundo estágio que comporta
uma série de grandes etapas pode designar-se como o da passagem ao
homem. Vai desde o aparecimento do pitecantropo à época do homem de
Neanderthal inclusive. Este estágio é marcado pelo início da fabricação de
instrumentos e pelas primeiras formas, ainda embrionárias, de trabalho e
de sociedade. A formação do homem estava ainda submetida, nesse
estágio, às leis biológicas, quer dizer que ela continuava a traduzir-se poi
alterações anatômicas, transmitidas de geração em geração pela
hereditariedade. Mas ao mesmo tempo, elementos novos apareciam no seu
desenvolvimento. Começavam a produzir-se, sob a influência do
desenvolvimento do trabalho e da comunicação pela linguagem que ele
suscitava, modificações da constituição anatômica do homem, do seu
cérebro, dos seus órgãos dos sentidos, da sua mão e dos órgãos de
linguagem; em resumo, o seu desenvolvimento biológico tornava-sc
dependente do desenvolvimento da produção. Mas a produção é desde o
O Desenvolvimento do 1'sujuismo 281

início um processo social que se desenvolve segundo as suas leis objetivas


próprias, leis sócio-históricas. A biologia pôs-se, portanto, a inscreves na
estrutura anatômica do homem a “história nascente da sociedade humana.
Assim se desenvolvia o homem, tornado sujeito do piocesso social
do trabalho, sob a ação de duas espécies de leis: em primeiro higat, as leis
biológicas, em virtude das quais os órgãos se adaptaram as condições e as
necessidades da produção; em segundo lugar às leis sócio-hislóiicas que
regiam o desenvolvimento da própria produção e os (enômenos que ela
engendra. Notemos que numerosos autores modernos consideram ioda a
história do homem como um processo que conserva esta dupla
determinação. Consideremos, ta! corno Spcncer, que o desenvolvimento da
sociedade ou. como eles preferem dizer, o desenvolvimento do meio
“supra-orgânico (isto ó, social), não faz senão colocar o homem em
condições de existência particularmente complexas, às quais ele se adapta
biologicamente. Esta hipótese não tem fundamento. Na realidade, a
formação do homem passa ainda por um terceiro estágio, onde o papel
respectivo do biológico e do social na natureza do homem sofreu uma nova
mudança. É o estágio do aparecimento do tipo do homem atual — o Homo
sapiens. Ele constitui a etapa essencial, a viragem. É o momento com
efeito que a evolução do homem se liberta totalmente da sua dependência
inicial para com as mudanças biológica^ inevitavelmente lentas, que se
transmitem por hereditariedade. Apenas as leis sócio-históricas regerão
doravante a evolução do homem. O antropólogo soviético 1. 1. Roguinsk
descreve assim esta viragem: “Do outro lado da fronteira, isto é no homem
em vias de se formar, a atividade do trabalho estava estreitamente ligada à
evolução morfológica. Deste lado da fronteira, isto é, no homem atual,
“acabado”, a atividade do trabalho não tem qualquer relação com a
199
progressão morfológica
Isto significa que o homem definitivamente formado possui já
todas as propriedades biológicas necessárias ao seu desenvolvimento
sócio-histórico ilimitado. For outras palavras, a passagem do homem a

I. L Roguinski. M. G. Levine: Fundamentos da antropologia, Moscou. 1955.


282 O D e se n v o lv im e n to do P s iq u is m o

uma vida em que sua cultura é cada vez mais elevada não exige mudanças
biológicas hereditárias. O homem e a humanidade libertaram-se segundo a
expressão de Vandel, do “despotismo da hereditariedade" e podem
prosseguir seu desenvolvimento num ritmo desconhecido no mundo
animal'011. E, efetivamente, no decurso das quatro ou cinco dezenas de
milênios que nos separam dos primeiros representantes do Honw sapiens.
as condições históricas c o modo de vida do homem sofreram, em ritmos
sempre mais rápidos, mudanças sem precedentes. Todavia, as
particularidades biológicas da espécie não mudaram ou, mais exatamente,
as suas modificações não saíram dos limites de variações bastante
reduzidas, sem alcance essencial nas condições da vida social.
■Não queremos com isso dizer que a passagem ao homem pôs fim à
ação das leis da variação e da hereditariedade ou que a natureza do
homem, uma vez constituída, não tinha sofrido qualquer mudança. O
homem não está evidentemente subtraído ao campo de ação das leis
biológicas. O que é verdade é que as modificações biológicas hereditárias
não determinam o desenvolvimento sócio-histórico do homem e da
humanidade; este é doravante movido por outras forças que não as leis da
variação c da hereditariedade biológicas. Na obra que consagrou a teoria
da evolução, Timiriazev exprime esta idéia de uma maneira notável; “A
teoria da luta pela existência detém-se no limiar da história cultural. Ioda
atividade racional do homem não é senão uma lula, a luta contra a lula
pela existência. É um combate para que todas as pessoas na I erra possam
satisfazer as suas necessidades, para que não tenha nem a indigência, nem
a fome, nem a morte lenta...” ' 01 .

2. A hominização, enquanto mudanças essenciais na organi


física do homem, termina com o surgimento da história social da
humanidade. Esta idéia não nos parece, nos nossos dias paradoxal. No

" " O racismo perante a ciência. UNtiSCO 6. Gallimard, 1960.


"I>1 K.. A. Timiriazev: Obras escolhidas, em 4 volumes, t. lil. M. 1949, p.196
O D e se n v o lv im e n to d o I ’sic/m s/ini 2X3

colóauio científico sobre a hominizáeãó que se reuniu recèntemente em


, . , . . ,'n?
Paris, foi partilhada peia maioria dos participantes
Mas então como c que a evolução dos homens se produziu? Qual o
“mecanismo”? Pois, desde o princípio da história humana, os próprios
homens e as suas condições de vida não deixaram de sc modificar e as
aquisições da evolução de se transmitir de geração cm geração, o que era a
continuidade do progresso histórico.
Era preciso portanto que estas aquisições se fixassem. Mas como,
se - já vimos — elas não podem fixar- se sob o efeito de herança
biológica? Foi sob uma forma absolutamente particular, forma que só
aparece com a sociedade humana: a dos fenômenos externos da cultura
material e intelectual.
Esta forma particular de fixação e de transmissão às gerações
seguintes das aquisições da evolução deve o seu aparecimento de fato,
diferentemente dos animais, dos homens terem uma atividade criadora e
produtiva. É aliás, o caso da atividade humana fundamental: o trabalho.
Pela sua atividade, os homens não fazem senão adaptar-se à
natureza, files modificam-na na função do desenvolvimento de suas
necessidades. Criam os objetos que devem satisfazer às suas necessidades
e igualmente os meios de produção destes objetos, dos instrumentos às
máquinas mais complexas. Constróem habitações, produzem as suas
roupas e os bens materiais. Os progressos realizados na produção de bens
materiais são acompanhados pelo desenvolvimento da cultura dos homens;
o seu conhecimento do mundo circundante deles mesmos enriquece-se,
devolvem-se a ciência e a arte.
Ao mesmo tempo no decurso da atividade dos homens, as suas1
aptidões, os seus conhecimentos e o seu saber-fazer cristalizam-se dc certa,
maneira nos seus produtos (materiais, intelectuais, ideais). Razão por que.
Lodo o progresso no aperfeiçoamento, por exemplo, dos instrumentos de
trabalho pode considerar-se, deste ponto de vista, como marcando um novo
grau do desenvolvimento histórico nas aptidões motoras do homem;

202
Les processus dc i’hominisation. Paris, 1958.
O Desenvolvimento do Psiquismo

também a complexidade da fonética das línguas encarna os progressos


realizados na articulação dos sons e do ouvido verbal, os progressos das
obras de arte, um desenvolvimento estético etc.
Cada geração começa, portanto, a sua vida num mundo de objetos
e de fenômenos criados pelas gerações precedentes. Ela apropria-se das
riquezas deste mundo participando no trabalho, na produção e nas diversas
formas de atividade social e desenvolvendo assim as aptidões
especificamente humanas que se cristalizaram, encarnaram nesse mundo.
Com efeito, mesmo a aptidão para usar a linguagem articulada só se forma,
em cada geração, pela aprendizagem da língua que se desenvolveu num
processo histórico, em função das características objetivas desta língua. O
mesmo se passa com o desenvolvimento do pensamento ou da aquisição do
saber. Está fora de questão que a experiência individual do homem, por
mais rica que seja, baste para produzir a formação de um pensamento
lógico ou matemático abstrato c sistemas conceituais correspondentes.
Seria preciso não uma vida, mas mil. De fato, o mesmo pensamento e o
saber de uma geração formam-se a partir da apropriação dos resultados da
atividade cognitiva das gerações precedentes.
Está hoje estabelecido com toda certeza que se as crianças se
desenvolverem desde a mais tenra idade, fora da sociedade e dos
fenômenos por ela criados, o seu nível é o dos animais (Zingg) . Nao
possuem nem linguagem nem pensamento e os seus próprios movimentos
em nada se assemelham aos dos humanos; não adquirem mesmo a posição
vertical. Conhecem-se pelo contrário, casos inversos em que as crianças,
oriundas de povos que se encontram num nível de desenvolvimento
econômico e cultural muito baixo, são colocadas muito cedo cm condições
culturais elevadas; formam-se então nelas todas as aptidões necessárias
204 • , «•
para a sua plena integração nesta cultura. O caso citado por H. Pieron e
um exemplo.

2ur’ R, Zingg: "Feral Man and Extreme cases of Isolation”. American Journal o f Psychology.
1940. n"53.
'IJ H. Picron; De l 'Actinie à l'Homme, t. Il, Paris, 1959
O B e s e m o ! vim e fito do P s iq u is m o 285

A tribo dos Guayakils, no Paraguai, é das mais primitivas que se


conhecem atualmente, A sua civilização é chamada civilização do mel
porque um dos seus meios de sobrevivência c a recolha t i o mel de abelhas
selvagens. É difícil entrar cm contato com cies, pois não tem lugar de
habitação fixa. Assim que os estrangeiros se aproximam fogem para os '
bosques. Mas conseguiu-se um dia apanhar uma criança desta tribo com
sete anos de idade. Pôde assim conhecer-se a sua língua que se verificou
ser extremamente primitiva. Noutra vez, o etinólogo francês Vellard
encontrou uma menina de dois anos num acampamento abandonado pela
tribo. Confiou a sua educação à mãe dele. Vinte anos mais tarde (em 1958)
ela em nada se distinguia no seu desenvolvimento das intelectuais
européias. Dedica-se à etnografia e fala francês, espanhol e português.
Estes dados c muitos outros provam que as aptidões e caracteres
especificamente humanos não se transmitem de modo algum por
hereditariedade biológica, mas adquirem-se no decurso da vida por um
processo de apropriação da cultura criada pelas gerações precedentes.
Razão por que lodos os homens atuais (pelo menos no que respeita aos
casos normais), qualquer que seja a sua pertença étnica, possuem as
disposições elaboradas no período de formação do homem e que permitem,
quando reunidas as condições requeridas, a realização deste processo
desconhecido no mundo dos animais,
Podemos dizer que cada indivíduo aprende a ser um homem, O
que a natureza lhe dá quando nasce não lhe basta para viver em sociedade.
É-lhe ainda preciso adquirir o que foi alcançado no decurso do
desenvolvimento histórico da sociedade humana.
O indivíduo é colocado diante de uma imensidade de riquezas
acumuladas ao longo dos séculos por inumeráveis gerações dc homens, os
únicos seres, no nosso planeta, que são cr iodares. As gerações humanas
morrem e sucedem-se, mas aquilo que criaram passa às gerações seguintes
que multiplicam e aperfeiçoam pelo trabalho e pela luta as riquezas que lhe
foram transmitidas e “passam o testemunho" do desenvolvimento da
humanidade.
286 O D e se n v o lv im e n to d o P sU /u ism o

Foi Karl Marx, o fundador do socialismo científico, o primeiro que


forneceu a análise teórica da natureza social do homem e do seu
desenvolvimento sócio-histórico: " I odas as suas (trata-se do homem — A.
L.) relações humanas com o mundo, a visão, a audição, o olfato, o gosto, o
tato, o pensamento, a contemplação, o sentimento, a vontade, a atividade, o
amor, em resumo, todos os órgãos da sua individualidade que, na sua
forma, são imediatamente órgãos sociais, são no seu comportamento
objetiva ou na sua relação com o objeto a apropriação deste, a apropriação
da realidade humana2lh ”. Mais de cem anos se passaram depois que Marx
escreveu estas linhas, mas as idéias que elas encerram permanecem até os
nossos dias a expressão mais profunda da verdadeira natureza das aptidões
humanas ou, como dizia Marx, ‘'das forças essenciais do homem
(Wesenskrafte des Menschen).

3. A questão do desenvolvimento do homem, considerado


ligação com o desenvolvimento da cultura e da sociedade, levanta uma
série de interrogações. Em particular, leva a perguntar-se em que consiste
o como se desenrola o processo descrito mais acima de apropriação pelos
indivíduos das aquisições do desenvolvimento histórico da sociedade.
Já vimos que a experiência sócio-histórica da Humanidade se
acumula sob a forma de fenômeno do mundo exterior objetivo. Este
mundo, o da indústria, das ciências e da arte é a expressão da história
verdadeira da natureza humana; é o saldo da sua transformação histórica.
Mas cm que consiste o processo de apropriação deste mundo, que é ao
mesmo tempo o processo de formação das faculdades específicas do
homem?
Devemos sublinhar que este processo é sempre ativo do ponto de
vista do homem. Para se apropriar dos objetos ou dos fenômenos que são o
produto do desenvolvimento histórico, c necessário desenvolver em
relação a eles uma atividade que se reproduza, pela sua forma, os traços
essenciais da atividade encarnada, acumulada no objeto.

íus Manuscrits de 1844. ob. cit.. p. 91


O Desenvolvimento do Psiquismo 2 8

Esclareçamos esta idéia com a .ajuda dc um exemplo simples: a


aquisição de um instrumento.
O instrumento c produto da cultura material que leva em si, da
maneira mais evidente e mais material, os traços característicos da criação
humana. Não é apenas um objeto de forma determinada, possuindo
determinadas propriedades.
O instrumento é ao mesmo tempo um objeto social na qual estão
incorporadas e fixadas as operações dc trabalho historicamente elaboradas.
ü fato deste conteúdo, simultaneamente social c ideal, estar
cristalizado nos instrumentos humanos, isso distingue-os dos
“instrumentos” dos animais. Estes últimos devem igualmente realizar
certas operações. Sabe-se por exemplo, que um símio aprende a servir-se
de um pau para puxar um fruto para si. Mas estas operações não se fixam
nos “instrumentos” dos animais e estes “instrumentos” não se tornam os
suportes permanentes destas operações. Logo que o pau tenha
desempenhado a sua função nas mãos do símio, torna-se um objeto
indiferente para ele. É por isso que os animais não guardam os seus
“instrumentos” e não os transmitem de geração em geração. Eles não
podem, portanto, preencher esta função de “acumulação’ , segundo a
expressão de J. Bernal. que é própria da cultura. E isto que explica que não
existam nos animais processos de aquisição do instrumento: o emprego do
“instrumento” não forma neles novas operações motoras; é o próprio
instrumento que está subordinado aos movimentos naturais,
fundamentalmente instintivos, no sistema das quais se integra.
Esta relação é inversa no caso do homem. É a sua mão, pelo
contrário que se integra no sistema sócio-historicamenle elaborado das
operações incorporadas no instrumento e é a mão que a ele se subordina. A
apropriação dos instrumentos implica, portanto, uma reorganização dos
movimentos naturais instintivos do homem e a formação das faculdades
motoras superiores.
A aquisição do instrumento consiste, portanto, para o homem, em
se apropriar das operações motoras que nele estão incorporadas. E ao
288 O Desenvolvimento do Psiquismo

mesmo tempo um processo de formação ativa de aptidões novas, de


funções superiores, ‘‘psicomotoras”, que “hominizam" a sua esfera motriz.
Isto aplica-se igualmente aos fenômenos da cultura intelectual
Assim, a aquisição da linguagem não é outra coisa senão o processo de
apropriação das operações de palavras que são fixadas historicamente nas
suas significações; é igualmente a aquisição da fonética da língua que se
efetua no decurso da apropriação das operações que realizam a constância
do sen sistema fonológico objetivo. É no decurso destes processos que se
formam no homem as funções de articulação e de audição da palavra,
assim como esta atividade cerebral a que os físiólogos chamam o “segundo
sistema de sinalização” (Pavlov) .
E evidente que todas estas características psicofisiológicas são
formadas pela língua que o homem fala e não inatas, ao ponto do
conhecimento das características de uma língua dada permitir descrever
outras com a maior verosimilhança, sem qualquer estudo particular. Assim,
sabendo que a língua materna de um dado grupo humano faz parte das
línguas de tom, podemos estar absolutamente certos que todos os seus
membros têm ouvido tonal desenvolvido201’.
A principal característica do processo de apropriação ou de
“aquisição” que descrevemos é, portanto, criar no homem aptidões novas,
funções psíquicas novas, é nisto que se diferencia do processo de
aprendizagem dos animais. Enquanto este último é o resultado de uma
adaptação individual do comportamento genérico a condições de
existência complexas e mutantes, a assimilação no homem é um processo
de reprodução, nas propriedades do indivíduo, das propriedades e aptidões
historicamente formadas na espécie humana.
Falando do papel de aquisição da cultura no desenvolvimento do
homem, o autor de uma obra recente consagrada a este problema nota
muito justamente que se o animal se contenta com o desenvolvimento da
natureza, o homem constrói a sua natureza207 .

2m Ver A. N. Leontiev, 1. B. Guippenrciter: “ Influencia adaptação da língua materna sobre a


formação do ouvido", Dokt, Ak. Pèd, Nanuk, R. S. F. R . 1959, n° 2.
117.1. Chateau: La culttire géneráüe, Paris. 1960. p. 38.
O Desenvolvimento do l*siquismo 289

Mas como é que este processo c possível no plano fisiológico e


como se processa? Trata-se de uma questão muito dificil. Com eleito, por
um lado, os fatos indicam que as aptidões e funções que se desenvolvem
no decurso da história social da humanidade não se lixam no cérebro do
homem e não se transmitem conforme as leis da heieditaiiedade. Poi outio
lado, é absolutamente evidente que uma aptidão ou uma função não pode
ser senão a função de um órgão ou de um conjunto de órgãos
determinados.
A resolução da contradição entre estas duas posições igualmente
indiscutíveis constitui um dos sucessos mais importantes que a fisiologia e
a psicofisiologia do nosso século obtiveram.
Em W. Wundt encontramos já a idéia de que o caráter específico
da atividade se deve ao talo dela assentar não sobre as funções fisiológicas
elementares do cérebro, mas sobre as associações que cias formam no
decurso do desenvolvimento individual. Um novo passo decisivo foi
transposto neste sentido com a descoberta, por Pavlov, do trabalho por
sistema dos grandes hemisférios cerebrais.
Por sen turno, um dos mais eminentes contemporâneos de Pavlov,
A. A. Oukhtonski, emitiu a ideia de que existem óruàos particulares do
Sistema nervoso, os órgãos fisiológicos ou funcionais
O que são estes órgãos “fisiológicos” do cérebro? São órgãos que
funcionam da mesma maneira que os órgãos habituais, de morfologia
constante, mas distinguem-se por serem neoformações que aparecessem no
decurso do desenvolvimento individual (ontogênico). Eles constituem,
portanto, o substrato das aptidões e funções específicas que se formam no
decurso da apropriação pelo homem do mundo dos objetos e fenômenos
criados pela humanidade, isto é. da cultura.
As propriedades e os mecanismos de formação destes órgãos são
sufícienlemente conhecidos boje, ao ponto de ser possível construir
“modelos” deles em laboratórios. Além disto, podemos doravante
representar com maior clareza como se efetuou a hominização do cérebro,

208 Ver A. A. Oukhtonski: Obras, i. I, Lénenigrado, 1950, p. 290.


29 0 O Desenvolvimento do Psiquismo

aquilo que permitiu ao desenvolvimento do homem obedecer às leis sócio-


históricas e acelerar-se assim de maneira considerável: essa hominização
traduz-se pelo fato de que o córtex do cérebro humano, com os seus 15
bilhões de células nervosas, se tornou, num grau bem mais elevado que nos
animais superiores, um órgão capaz de formar órgãos funcionais.

4. Consideramos até agora que o processo de apropriação c


resultado de uma atividade efetiva do indivíduo cm relação aos objetos e
fenômenos do mundo circundante criados pelo desenvolvimento da cultura
humana. Sublinhamos que esta atividade deve ser adequada, aliás que deve
reproduzir os traços da atividade cristalizada (acumulada) no objeto ou no
fenômeno ou mais exatamente nos sistemas que formaram. Mas pode-se
supor que esta atividade adequada apareça no homem, na criança, sob a
influência dos próprios objetos e fenômenos? A falsidade de uma ta!
suposição é evidente.
A criança não está de modo algum sozinha em face do mundo que
a rodeia. As suas relações com o mundo têm sempre por intermediário a
relação do homem aos outros seres humanos; a sua atividade está sempre
inserida na comunicação. A comunicação, quer esta se efetue sob a sua
forma exterior, inicial, de atividade em comum, quer sob a forma de
comunicação verbal ou mesmo apenas mental, é a condição necessária e
especifica do desenvolvimento do homem na sociedade.
As aquisições do desenvolvimento histórico das aptidões humanas
não são simplesmente dadas aos homens nos fenômenos objetivos da
cultura material e espiritual que os encarnam, mas são aí apenas postas.
Para se apropriar destes resultados, para fazer deles as suas aptidões, “os
órgãos da sua individualidade”, a criança, o scr humano, deve entrar em
relação com os fenômenos do mundo circundante através de outros
homens, isto é, num processo de comunicação com eles. Assim, a criança
aprende a atividade adequada. Pela sua função este processo é, portanto,
um processo de educação.
E evidente que a educação pode ter e tem efetivamente formas
muito diversas. Na sua origem, nas primeiras etapas do desenvolvimento
O Desenvolvimento i/o P s iq u is m o 29!

da sociedade humana, como nas crianças pequenas, é uma simples


imitação dos atos do meio, que se opera sob o seu controle e com a sua
intervenção; depois complica-se e especializa-se, tomando formas tais
como o ensino e a educação escolares, diferentes fôrmas de educação
superior e até formação autodidata.
Mas o ponto principal que deve ser bem sublinhado é que este
processo deve sempre ocorrer sem que a transmissão dos resultados do
desenvolvimento sócio-histórico da humanidade nas gerações seguintes
seria impossível, e impossível, consequentemente a continuidade do
processo histórico.
Para ilustrar esta idéia, voltarei a uma imagem de Piéron na obra já
citada. Se o nosso planeta fosse vítima de uma catástrofe que só pouparia
as crianças pequenas e na qual pereceria toda a população adulta, isso não
significaria o fim do gênero humano, mas a história seria inevitavelmente
interrompida. Os tesouros da cultura continuariam a existir fisicamente,
mas não existiria ninguém capaz de revelar às novas gerações o seu uso.
As máquinas deixariam de funcionar, os livros ficariam sem leitores, as
obras de arte perderiam a sua função estética. À história da humanidade
teria de recomeçar.
O movimento da história só é, portanto, possível com a
transmissão, às novas gerações, das aquisições da cultura humana, isto é,
com educação.
Quanto mais progride a humanidade, mais rica é a prática sócio-
histórica acumulada por ela, mais cresce o papel específico da educação e
mais complexa é a sua tarefa. Razão por que toda etapa uova no
desenvolvimento da humanidade, bem como dos diferentes povos, apela
forçosamente para uma nova etapa no desenvolvimento da educação: o
tempo que a sociedade consagra à educação das gerações aumenta; criam-
se estabelecimentos de ensino, a instrução toma formas especializadas,
diferencia-se o trabalho do educador do professor; os programas de estudo
enriquecem-se, os métodos pedagógicos aperfeiçoam-se, desenvolve-se a
ciência pedagógica. Esta relação entre o progresso histórico e o progresso
da educação é tão estreita que se pode sem risco de errar julgar o nível
292 O Desenvolvimento do Psiquismo

geral do desenvolvimento histórico da sociedade pelo nível de


desenvolvimento do seu sistema educativo e inversamente,

5. Até agora consideramos o desenvolvimento do ho


individual, que vem ao mundo sem defesa e desarmado e que possui ao
nascer uma aptidão que apenas o distingue fundamentalmente dos seus
antepassados animais: a aptidão para formar aptidões especificamente
humanas. Se não está desprovido dc um certo número de disposições inatas
que o individualizam e deixam marca no seu desenvolvimento, isso não sc
traduz todavia diretamente no conteúdo ou na qualidade das suas
possibilidades de desenvolvimento intelectual, mas apenas em alguns
traços particulares, sobretudo dinâmicos, da sua atividade; tal é a
influência dos tipos congênitos de atividade nervosa superior.
Por outro lado, vimos qual era a única fonte e a origem verdadeira
do desenvolvimento do homem das forças e das aptidões que são o produto
da evolução sócio-histórica. São os objetos e os fenômenos que encerram
em si a atividade das gerações precedentes e resultam de todo o intelectual
do gênero humano, do desenvolvimento do homem enquanto ser genérico
(Marx). Mas esta noção comporta uma certa abstração científica tal como
as dc “humanidade”, de “cultura humana”, de “gênio humano”.
Certamente que podemos representar as conquistas inesgotáveis do
desenvolvimento humano que multiplicaram por dezenas de milhares de
vezes as forças físicas e intelectuais dos homens; os seus conhecimentos
penetram os segredos mais bem escondidos do Universo, as obras de arte
dão uma outra dimensão aos seus sentimentos. Mas todos têm acesso a
estas aquisições? Sabemos muito bem que não é esse o caso e que as
aquisições do seu desenvolvimento estão como que separadas dos homens.
A este propósito, quereria voltar à comparação entre evolução
biológica e progresso histórico, entre a natureza animal c a natureza
humana.
A perfeição da faculdade de adaptação dos animais ao meio, a
“sagacidade”, a riqueza e a complexidade dos seus instintos, do seu
comportamento, são estupendas. Tudo isso resulta do seu desenvolvimento
O Desenvofvimenío Jo l ’siqmsnio 293

enquanto espécie, da experiência adquirida pela espécie. Por certo que tudo
isso representa bastante pouco em relação as aquisições do
desenvolvimento histórico da humanidade, mas se se abstrai de eventuais
desvios individuais, tudo isso constitui apanágio de iodos os representantes
da espécie considerada. Basta, portanto, ao naturalista estudar um só ou
alguns para ter uma idéia justa da espécie no seu conjunto.
Para o homem o caso é diferente. A unidade da espécie humana
parece ser praticamente inexistente não em v irtude das diferenças de cor da
pele, da forma dos olhos ou de quaisquer outros traços exteriores, mas sim
das enormes diferenças e condições do modo de vida, da riqueza da
atividade material e mental, do nível de desenvolvimento das formas e
aptidões intelectuais.
Se um ser inteligente vindo de outro planeta visitasse a ferra e
descrevesse aptidões físicas, mentais e estéticas, as qualidades morais e os
traços do comportamento de homens pertencentes às classes e camadas
sociais diferentes ou habitando regiões e países diferentes, dificilmente sc
admitiria tratar-se dc representantes da mesma espécie.
Mas esta desigualdade entre os homens não provém das suas
diferenças biológicas naturais. Ela é produto da desigualdade econômica,
da desigualdade de classes e da diversidade consecutiva das suas relações
com as aquisições que encarnam todas as aptidões e faculdades da natureza
humana, formadas no decurso de um processo sócio-histórico.
O fato destas aquisições sc fixarem uos produtos objetivos da
atividade humana modifica totalmente, vimo-lo, o próprio tipo de
desenvolvimento. Este liberta-se da sua sujeição às leis da evolução,
acelera-se e novas perspectivas aparecem, impensáveis nas condições dc
um desenvolvimento movido pelas leis da hereditariedade. Mas este
mesmo falo tem igualmente por consequência que as aquisições do
desenvolvimento histórico possam separar-se daqueles que criam este
desenvolvimento.
Esta separação torna uma forma prática, a alienação econômica dos
meios e produtos do trabalho em face dos produtores diretos. Ela aparece
com a divisão social do trabalho, com as formas da propriedade privada e
294 O Desenvolvimento do Psiquismo

da luta de ciasses. Ela é portanto, engendrada pela ação de leis objetivas do


desenvolvimento da sociedade que não dependem da consciência ou da
vontade dos homens.
A divisão social do trabalho transforma o produto do trabalho num
objeto destinado à troca, o que modifica radicalmente o luro do produtor
do produto que ele fabrica. Se este último continua a ser, evidentemente, o
resultado da atividade do homem, não é menos verdade que o caráter
concreto desta atividade se apaga nele: o produto toma um caráter
totalmente impessoal começa a sua vida própria, independente do homem,
a sua vida de mercadoria.
A divisão social do trabalho tem igualmente como consequência
que a atividade material e intelectual, o prazer e o trabalho, a produção e o
consumo se separem e pertença a homens diferentes. Assim, enquanto
globalmente a atividade do homem se enriquece e se diversifica, a dc cada
indivíduo tomado à parte estreita-se e empobrece. Esta limitação, este
empobrecimento podem tornar-se extremos, sabemo-lo bem, quando um
operário, gasta todas as suas forças para realizar uma operação que tem de
repetir milhares de vezes,
A concentração das riquezas materiais na mão de uma classe
dominante é acompanhada de uma concentração da cultura intelectual nas
mesmas mãos. Se bem que as suas criações pareçam existir para todos, só
uma Ínfima minoria tem o vagar e as possibilidades materiais de receber a
formação requerida, de enriquecer sistematicamente os seus conhecimen­
tos e de se entregar à arte; durante este tempo, os homens que constituem a
massa da população, em particular da população rural, têm de contentar-se
com o mínimo de desenvolvimento cultural necessário a produção de
riquezas materiais no limite das funções que lhes são destinadas.
Como a maioria dominante possui não apenas os meios de
produção material, mas também a maior parte dos meios de produção e de
difusão da cultura intelectual e sc esforça por os colocar a serviço dos seus
interesses, produz-se uma estratificação desta mesma cultura. Enquanto no
domínio das ciências que asseguram o progresso técnico sc verifica uma
acumulação rápida de conhecimentos positivos, no dominio que toca ao
O Desenvolvimento do Psiquismo 295

homem e à sociedade, à sua natureza c essência, as loiças que os In/.em


avançar e ao seu futuro, nos domínios tios ideais morais c estéticos, o
desenvolvimento segue duas vias radicalmente diferentes. Uma tende para
acumuiar as riquezas intelectuais, as idéias, os conhecimentos c os ideais
que encarnam o que há de verdadeiramente humano no homem e iluminam
os caminhos do progresso histórico: ela reflete os interesses c as aspirações
da maioria. A outra tende para a criação de operações mais cognitivas,
morais e estéticas que servem os interesses das classes dominantes e são
destinados a justificar e perpetuar a ordem socia! existente, em desviar as
massas da sua luta por justiça, igualdade e liberdade, anestesiando e
paralisando a sua vontade. O choque destas duas tendências provoca aquilo
a que se chama a luta ideológica.
O processo de alienação econômica, produto do desenvolvimento
da divisão social de trabalho e das relações de propriedade privada, não
tem portanto por única consequência afastar as massas da cultura
intelectual, mas também dividir esta em elementos de duas categorias,
umas progressistas, democráticas, servindo o desenvolvimento da
humanidade, e as outras que levantam obstáculos a este progresso, se
penetram nas massas, e que formam o conteúdo da cultura declinantc das
classes reacionárias da sociedade. A concentração e a estratificação da
cultura não sc produzem apenas no interior das nações ou dos países. A
desigualdade de desenvolvimento cultural dos homens manifesta-se ainda
mais cruamente à escala do mundo, da humanidade inteira.
li esta desigualdade que serve o mais das vezes para justificar uma
distinção entre os representantes das raças “superiores” e “inferiores”. Os
países onde se fazem os maiores esforços neste sentido são aqueles em que
as classes dirigentes estão particularmente interessadas em dar uma
justificação ideológica ao seu direito a submeter os povos menos
avançados no seu desenvolvimento econômico e cultural. Não foi,
portanto, um acaso se as primeiras tentativas feitas para impor a idéia de
que estes povos se situam noutro nível biológico e pertencem a uma
variedade (subespécie) humana particular, viram a luz do dia na Inglaterra
(Lawrence, G. Smilh e na segunda metade do século XIX, G. Kent e os
296 O Desenvolvimento do Psiquismo

seus discípulos). Nada houve de fortuito no formidável esíoiço da


propaganda racista nos Estados Unidos, nos primeiros anos de libertação
dos Negros. O democrata revolucionário russo rchernychcvski (1828-
I 889) escrevia sobre este assunto: “Quando os plantadores dos Estados do
Sul viram o esclavagismo ameaçado, as considerações em favor a
escravatura atingiram rapidamente o grau de elaboração necessário na sua
luta contra as idéias do partido que se tornava perigoso para os
escravagistas...e encontrou-se neles forças tão consideráveis para a luta
oratória, jornalística ou científica, como devia encontrar mais tarde para a
luta armada20'*.
Para dar uma aparência científica à pretensa deticiência natural das
raças “inferiores”, apelou-se como todos sabem para dois tipos de
argumentos: morfológicos (morfologia comparada) e genéticos.
É aos primeiros que pertencem as tentativas repetidamente feitas
para provar a existência das diferenças anatômicas no cérebro dos homens
que pertencem à raças diferentes. Estas tentativas não podiam deixar de
fracassar. Foi assim, por exemplo, que o volume médio do cérebro de
certas tribos negras se revelou, mesmo após um estudo escrupuloso, mais
elevado que o dos Brancos (dos Escoceses). O mesmo para a estrutura tina
do cérebro. O. Kiineberg cita no seu livro sobre a psicologia social dados
que o testemunham“"1. Um colaborador do instituto de anatomia da
universidade americana John 1lopkins, Bean, publicou no seu tempo dados
que mostravam que a parte frontal do córtex cerebral era relalivamente
menos desenvolvida nos homens de raça negra que nos brancos e que seu
cérebro comportava igualmente algumas outras particularidades estruturais
confirmando o “fato estabelecido , segundo a expressão de Bean, da
inferioridade dos Negros. Como os dados sobre o que se fundamentava
Bean parecessem pouco convincentes ao diretor deste instituto, Mail, ele
retornou as investigações sobre a mesma coleçfso de cérebros, mas
diferentemente de Bean, sem saber antecipadamente quais que pertenciam
a brancos e quais os que pertenciam a negros , Mail e os seu colaboradores

Tchemychevski: Obras completas, cm 10 volumes. Ex. Moscou, 1951. pp. 809-810.


O, Kiineberg: Social psichology. Nova Iorque, 1954.
O Desenvolvimento do Psiquismo 29"

classificaram os cérebros em dois grupos em função dos critérios indicados


por Bean, c quando contaram cada grupo, os dos representantes das raças
negras e branca, verificaram que estavam mais ou menos igualmente
repartidos: as conclusões de Bean foram infirmadas. H evidente, nota
Kiineberg a este propósito, que esperando-se encontrar sinais dc
subdesenvolvimento nos negros e conhecendo antecipadamente a
proveniência de cada um dos cérebros, Bean ‘‘descobriu” entre eles as
diferenças que de fato não existiam.
Voltemos agora aos argumentos genéticos. A sua análise apresenta
um interesse particular na medida em que tocam diretamente o problema
do desenvolvimento cultural desigual entre povos diferentes. O seu
fundamento é a hipótese do poligenetismo. Esta hipótese resume-se à idéia
de que as raças humanas têm origens independentes e que provêm de
antepassados diferentes. Assim se explicariam as diferenças praticamente
inultrapassáveis entre elas, tanto no que toca ao nível atingido como às
possibilidades dc desenvolvimento ulterior. Todavia o progresso dos
conhecimentos paleantropológicos tornou esta hipótese menos plausível e
a maioria dos investigadores contemporâneos defende posições contrárias;
eles admitem a origem comum de todas as raças que não passam, do ponto
de vista biológico de variações de uma espécie única: o “Homo sapiens”.
Testemunha-o o fato de que as características raciais são pouco marcadas e
suscetíveis de variações consideráveis, o que explica que os limites entre
as raças sejam iludidos e que existam entre alas uma gradação insensível.
Os dados modernos mostram que algumas destas características
são suscetíveis, em certas condições, como por exemplo a migração para
outras regiões geográficas, de se modificarem bastante nitidamente no
espaço de uma única geração. Outra prova de origem comum das raças
humanas é que certos caracteres, tomados à parle, cuja reunião forma a
especificidade de uma raça se encontram em combinações diferentes nos
representantes de raças diferentes. Finalmente, devemos sobretudo
sublinhar que as principais característica do homem contemporâneo
“acabado” (a saber um cérebro altamente desenvolvido e a proporção
correspondente entre as partes encefálica e facial do crânio, a conformação
O Desenvolvimento do Psiquismo

característica da mão, as particularidades do esqueleto, adaptado à posição


vertical, o fraco desenvolvimento lento da cobertura pilosa do corpo etc.)
existem em todas as raças humanas sem exceção.
É possível admitir que as diferenças raciais provenham do fato de
que a humanidade, espalhando-se cada vez mais sobre a 1erra, se tenha
fracionado em grupos separados que prosseguindo seu desenvolvimento
sob a influência de condições naturais desiguais tenham adquirido certas
v u r .*'*7 ................. 1..... "

particularidades. Mas estas não têm significação adaptativa a não ser


relativamente a fatores naturais agindo diretamente por exemplo, a
pigmentação da peie corresponde a uma ação intensa dos raios solares). ()
isolamento destes grupos reforçou natural mente a acumulação hereditária
de tais características biológicas: vimos que o efeito das leis da
.

hereditariedade não cessa totalmente, mas apenas no que toca à fixação c à


transmissão das aquisições sócio-históricas da humanidade. Ora é
justamente a este nível que se observam as maiores diferenças.
É certo que este relativo isolamento c desigualdade das condições e
das circunstâncias do progresso econômico e social pôde criar, em povos
humanos estabelecidos em regiões diferentes do mundo, uma certa
desigualdade de desenvolvimento. Todavia, as diferenças enormes que se
criaram entre os níveis de cultura material e intelectual dos países e povos
diferentes não podem explicar-se unicamente pelo efeito destes fatores. De
fato, no decurso do desenvolvimento da humanidade, dos meios de
comunicação, dos laços econômicos e culturais entre os países, apareceram
e desenvolveram-se rapidamente. Ides deveriam ter o efeito inverso, isto é,
provocar uma igualização do nível de desenvolvimento dos diferentes
países e elevar os países retardatários ao nível dos países mais avançados.
Se, pelo contrário, a concentração da cultura mundial não cessou
de se reforçar, a ponto de alguns países se tornarem os portadores
principais enquanto noutros está abafada, é porque a relação entre os países
não assentam na igualdade de direitos, da cooperação e entreajuda, mas no
princípio de dominação entre o forte sobre o fraco.
A usurpação de territórios dos países menos avançados, a pilhagem
de populações indígenas e a sua redução à escravatura, a colonização
O Desenvolvimento do Psiquismo 29 9

destes países, tudo isto é que interrompeu o seu desenvolvimento e


provocou uma regressão da sua cultura. Regressão devida não apenas ao
fato dos povos sujeitos, na sua grande maioria, se verem privados dos
meios materiais mais indispensáveis ao seu progresso cultural, mas
também ao fato de terem sido levantadas barreiras artificiais entre cies e a
cultura mundial. Se bem que os colonizadores tenham sempre dissimulado
os seus objetivos interesseiros sob frases exaltando a sua missão cultural e
civilizadora, de fato reduziram países inteiros à miséria cultural. Quando
importavam riquezas culturais destinadas às massas, tratava-se o mais das
vezes riquezas fictícias, levando-lhe menos cultura verdadeira do que a
espuma que sobrenada a superfície das águas.
Assim se introduziram a concentração e a alienação da cultura não
só das histórias dos diferentes países mas também e sob formas ainda
menos disfarçadas na história da humanidade.
Esía alienação provocou uma ruptura entre, por um lado, as
gigantescas possibilidades desenvolvidas pelo homem e, por outro, a
pobreza e a estreiteza de desenvolvimento que, se bem que em graus
diferentes, é a parte que cabe aos homens concretos. Esta ruptura não é
todavia eterna, como não são eternas as relações sócio econômicas que lhe
deram origem. É o problema do seu desaparecimento completo que está no
centro dos debates sobre as perspectivas de desenvolvimento do homem.

6. A questão do desenvolvimento futuro do homem preocupa


antropólogos, psicólogos e sociólogos. Como sempre, quando se trata da
antropologia histórica as divergências devem-se a concepções opostas
sobre a natureza do homem, quer do ponto de vista biológico quer do ponto
de vista sócio-histórico.
É evidente que estes pontos de vista não se encaram .num plano
puramente abstrato; uns c outros tocam importantes problemas sociais, c
servem de fundamento à tendências funcionalmente diferentes para a sua
solução prática.
Os representantes da primeira tendência, puramente biológica,
considerando o desenvolvimento do homem como o prolongamento direto
300 O Desenvolvimento do Psiquismo

da evolução biológica, não querem ver as modificações que se produziram


neste mesmo tipo de desenvolvimento do homem na última etapa da sua
formação. Arquitetam as suas teorias sobre o futuro do homem
extrapolando pura e simplesmente as mudanças morfológicas que
ocorreram no período de preparação e de formação inicial do homem:
recorrem mesmo as observações sobre a variação dos caracteres
particulares do homem contemporâneo, considerando uns, sem reservas,
como atávicos e os outros como pregressistas e proféticos, isto é,
indicando a via do desenvolvimento futuro.
Foi assim que apareceram as teorias sobre a transformação
progressiva do homem atual num ser humano de tipo novo. liste ser, o
/fomo sapientíssimos, é descrito diferentemente segundo os autores, mas
todos lhe atribuem características biológicas novas. Em geral, vêem-no
maior, com um crânio mais redondo e mais volumoso que o do homem
atual, um pequeno rosto chato, menor número de dentes e quatro dedos nos
pés. Quanto aos seus caracteres psíquicos, o principal seria um intelecto
poderoso e sutil; os seus sentimentos, pelo contrário, enfraquecer-se-ão"
Claro que o mais importante não está nas descrições mais ou
menos fantásticas sobre o homem futuro, mas sim na concepção das leis
motoras do desenvolvimento dos caracteres transmissíveis da espécie
humana não podemos intervir no curso deste processo a não ser como
medidas de melhoramento destes caracteres hereditários. É sobre esta idéia
que assenta a eugenia (isto é, a teoria do melhoramento da espécie
humana), fundada no princípio do século por Francis Galton, autor da
famosa obra O gênio hereditário, suas leis e as suas conseqiiencias.
Para que se possam manter e desenvolver as faculdades humanas,
os eugenistas exigem que sc tome uma série de medidas visando impedir a
reprodução das raças e dos homens “inferiores e o seu cruzamento com
representantes superiores do gênero humano, os “sangue-azul . Ao lado
destas medidas, encorajando a reprodução dos membros das classes
privilegiadas cia sociedade e das raças superiores, limitando, pelo contrário,

H. Shapiro: “Man 500.000 yers from novv", Journal e f lhe American Mus. o f Natural
Historv. 1933, n° 6.
O Desenvolvimento do Psiquismo 301

;i reprodução das camadas inferiores da população e dos povos “de cor”, os


eugenistas pregam a necessidade de instaurar uma seleção sexual artificial
como a que se pratica para o apuramento de uma raça de animais
domésticos. Os eugenistas reacionários vão mais longe c pregam a
esterilização obrigatória e mesmo a eliminação das pessoas físicas
"hereditariamente deficientes” e de populações inteiras. Veem nas guerras
de exterminação um dos meios mais eficazes de melhorar a raça humana.
Sabe-se que estas teses monstruosas c inumanas não ficaram apenas no
papel; encontram a sua aplicação prática nos campos de morte fascistas e
nos atos de violência dos colonizadores racistas. Á luta contra estas idéias,
a denúncia da sua essência, antipopular e reacionária, não tem
simplesmente uma aplicação teórica abstrata; ela é indispensável para abrir
caminho ao triunfo das idéias da democracia, da paz e do progresso da
humanidade.
O futuro da humanidade é verdadeiramente grandioso e está muito
mais próximo do que imaginam aqueles que o esperam através da mudança
dc uma natureza biológica. Hoje, o futuro está à vista; c a próxima etapa da
história humana.
O homem não nasce dotado das aquisições históricas da
humanidade. Resultando estas do desenvolvimento das gerações humanas,
não são incorporadas nem nele, nem nas suas disposições naturais, mas no
mundo que o rodeia, nas grandes obras da cultura humana. Só apropriando-
se delas no decurso da sua vida ele adquire propriedades e faculdades
verdadeiramente humanas. Este processo coloca-o, por assim dizer, aos
ombros das gerações anteriores e eleva-o muito acima do mundo animal.
Mas na sociedade de classes, mesmo para o pequeno número que
usufrui as aquisições da humanidade, estas mesmas aquisições
manifestam-se na sua limitação, determinadas pela estreiteza de caráter
obrigatoriamente restrito da sua própria atividade; para a maioria
esmagadora das pessoas, a apropriação destas aquisições só é possível
dentro de limites miseráveis.
Vimos já que isto é conseqüência do processo de alienação que
intervém tanto na esfera intelectual da vida; que a destruição das relações
302 O Desenvolvimento do Psiquismo

sociais assentes na exploração do homem pelo homem, que engendram


este processo, só eia pode pôr fim e restituir a todos os homens a sua
natureza humana, em toda a sua simplicidade e diversidade.
Mas é um ideal acessível o do desenvolvimento no homem de
todas as suas aptidões humanas? A força deste preconceito profundamente
enraizado nos espíritos, segundo o qual o desenvolvimento espiritual do
homem tem a sua origem em sí mesmo, é tão grande que leva a pôr o
problema ao contrário: não seria a aquisição dos progressos da ciência a
condição da formação das aptidões científicas, mas as aptidões científicas
que seriam a condição desta aquisição: não será a apropriação da arte a
condição do desenvolvimento do talento artístico, mas o talento artístico
que condicionará a apropriação da arte. Citam-se em apoio desta teoria
fatos que testemunham a aptidão de uns e da incapacidade total de outros
para tal ou tal atividade, sem mesmo se interrogarem donde vêm estas
aptidões; tem-se geralmente a espontaneidade da sua primeira aparição por
prova de sua idoneidade.
O verdadeiro problema não está, portanto, na aptidão ou na
inaptidão das pessoas para se tornarem senhores das aquisições da cultura
humana, fazer delas aquisições da sua personalidade e dar-lhes a sua
contribuição. O fundo do problema é que cada homem, cada povo tenha a
possibilidade prática de tomar o caminho de um desenvolvimento que nada
entrave. Tal é o fim para o qual deve tender agora a humanidade virada
para o progresso.
Este fim é acessível. Mas só em condições que permitam libertar
realmente os homens do fardo da necessidade material, de suprimir a
divisão mutiladora entre trabalho intelectual e trabalho lísico, criar um
sistema de educação que lhes assegure um desenvolvimento multilateraí e
harmonioso c que dê a cada um a possibilidade de participar enquanto
criador de todas as manifestações da vida humana.
© d e s e w o e v im e n t o
I»© PSIQ U ISM O
ISA CRIANÇA

j^SásÉS
«a
U Desenvolvknenio do Psiquismo 305

1. Antes de tratar a questão teórica das forças motoras do


desenvolvimento do psiquismo na criança, precisaremos o que constitui a
característica psicológica da sua personalidade nas diversas etapas do seu
desenvolvimento.
Devemos, em primeiro lugar, notar que no decurso do desenvol­
vimento da criança, sob a influência das circunstâncias concretas da sua
vida, o lugar que d a ocupa objetivamente no papel das relações humanas
muda.
É o que vamos tentar mostrar definindo alguns estágios reais por
que passa o desenvolvimento da criança.
A idade pré-escolar é o período da vida em que se abre pouco à
pouco à criança o mundo da atividade humana que a rodeia.
Pela sua atividade e sobretudo pelos seus jogos, que ultrapassaram
o quadro estreito da manipulação dos objetos circundantes c da
comunicação com os pais, a criança penetra num mundo mais vasto de que
se apropria de forma ativa. Toma posse do mundo concreto enquanto
mundo de objetos humanos com o qual reproduz as ações humanas.
Conduz um "automóvel", dispara com a “espingarda”, se bem que o seu
carro não possa ainda rolar nem a sua espingarda disparar. Mas a criança
não tem necessidade disso neste estágio do seu desenvolvimento, pois as
suas necessidades vitais fundamentais são satisfeitas pelos adultos,
independentemente da produtividade objetiva da sua atividade.
A criança sente a sua dependência para com as pessoas com quem
está diretamente em contato; deve contar com as exigências que aqueles
306 O Desenvolvimento do Psiquismo

que a rodeiam impõem à sua conduta, pois é isso o que determina, dc talo,
as suas relações intimas, pessoais, com elas. Destas relações dependem não
apenas os seus sucessos e os seus fracassos, mas são elas que encerram
igualmente as suas alegrias e as suas penas, são elas que têm valor de
motivo.
Neste período da vida, o mundo dos homens que rodeiam a criança
divide-se, por assim dizer, os dois círculos. O primeiro compreende os seus
íntimos: a mãe, o pai ou aqueles que ocupam o seu lugar junto da criança;
as suas relações com eles determinam as suas relações com o resto do
mundo. O segundo circulo, mais largo, é constituído por todas as outras
pessoas; as relações da criança são mediatizadas petas relações
estabelecidas no primeiro círculo, menor, quer a criança seja ou não
educada na sua família. Tomemos o caso de uma criança educada primeiro
na família e que vai depois para um jardim de infância. Evidentemente que
o seu modo de vida se modifica profundamente, o que é verdade de um
certo ponto de vista. Mas psicologicamente, a atividade da criança
permanece, nos seus traços principais a mesma que antes.
Sabe-se quão particulares são, nesta idade, as relações da criança
com a sua educadora, como tem necessidade que a sua atenção se vire para
ela pessoaímente e como é frequente que recorra a sua mediação nas suas
relações com os da sua idade. Pode dizer-se tpie as suas relações para com
a educadora entre no pequeno círculo intimo das suas relações.
As relações da criança numa creche são igualmente particulares. O
que liga entre elas de maneira estável crianças dos três aos cinco anos é
ainda, numa grande parte, o que há de pessoal, de “privado no seu
desenvolvimento que se torna, portanto, cada vez mais autenticamente
coletivo. Ainda aqui o educador desempenha um papel fundamental cm
virtude, urna vez mais, das relações pessoais que se estabeleceram entre cie
e as crianças.
Se examinarmos convenientemente todas estas particularidades da
criança dc idade pré-escolar, descobrimos facilmente o seu fundamento
geral; é a posição real da criança a partir da qual ela descobre o mundo das
O Desenvolvimento do Psiquismo 307

relações humanas, posição condicionada pelo lugar objetivo que ela ocupa
nestas relações.
A criança de seis anos pôde perfeitamente saber ler e em certas
circunstâncias os seus conhecimentos podem ser relativamente extensos.
Todavia, isso pode não bastar para apagar o que nela há de infantil e de
verdadeiramente pré-escolar: todos os seus conhecimentos tomam uma
coloração infantil. Todavia, se as relações vitais fundamentais da criança
sofrerem uma reorganização, se tiver uma irmãzinha, por exemplo, e a mãe
se lhe dirigisse como a uma auxiliar, participando na vida adulta, então o
mundo abre-se-lhe de maneira funcionalmente diferente. Que importa que
saiba ou que compreenda ainda poucas coisas: ser-lhe-á preciso tanto
menos tempo para repensar o que sabe já, e a sua fisionomia psíquica geral
mudar-se-á tanto mais depressa.
Nos casos normais, a passagem da infância pré-escolar ao estágio
seguinte do desenvolvimento da vida psíquica está ligada à entrada da
criança na escola.
Não poderemos deixar de não dar a maior importância a este
acontecimento na vida da criança, lodo o sistema das suas relações vitais
se organiza. O essencial não é evidentemente o tato dela ser obrigada a
fazer qualquer coisa: ela já tinha obrigações antes de entrar para a escola.
O essencial é que doravante as suas obrigações não são apenas para com os
pais e o educador; são objetivamente obrigações relativas à sociedade. Da
sua realização dependerão o seu lugar na vida, a sua função e o seu papel
social e, portanto, como conseqiiência, todo o conteúdo da sua vida futura.
Tem a criança consciência disto? Sabe-o, é certo, e mesmo muitas
vezes muito tempo antes dc ir para a escola. Todavia, estas exigências só
adquirem para ela sentido real e psicologicamente eficiente a partir do
momento em que começa a aprender c cias tem ainda, no princípio, uma
forma muito concreta, a de exigência do mestre, do diretor da escola.
Ao fazer os seus deveres, a criança tem. pela primeira vez, sem
dúvida, a impressão de fazer qualquer coisa de verdadeiramente
importante. Proíbe os menores de a perturbar e os próprios adultos
sacrificam por vezes as suas atividades para que ela possa trabalhar. Que
308 O Desenvolvimento do Psiquismo

diferença das suas ocupações e dos seus jogos precedentes! O próprio lugar
da sua atividade na vida adulta, a vida “para a verdade” que a rodeia, se
tornou diferente.
Podemos aceitar ou recusar comprar um brinquedo à criança, mas
não podemos recusar comprar-lhe um manual, um caderno. Razão por que
a criança não pede da mesma maneira se se trata de comprar um livro ou
um brinquedo. Os seus pedidos têm um sentido diferente não apenas para
os pais mas sobretudo para ela.
Finalmente, e sobretudo, as relações intimas da criança perdem o
seu papei determinante no círculo mais largo da sua comunicação; elas
próprias são doravante determinadas por estas relações mais vastas. Por
agradáveis que possam ser, por exemplo, as relações íntimas que a criança
sente “em casa”, o “dois” que o professor lhe deu assombrá-la-á
inevitavelmente. Tudo mudou, portanto, a partir do momento em que foi à
escola. Um dois é algo de muito diferente dc uma recriminação da
educadora do jardim de infância. A nota cristaliza em si, por assim dizer,
as novas relações, uma nova forma de comunicação em que a criança
entrou agora.
Eia pode ter um comportamento acima de toda a censura, jamais
deixar bater a tampa da carteira, não conversar com o vizinho durante a
aula, aplicar-se com todas as forças e ganhar as boas graças do professor;
isso não impedirá que este último lhe dê uma má nota só porque ela pôs
maiuscula nos nomes das flores e das aves: nunca mais poderá invocar o
argumento que antigamente toda a gente levava em consideração quer em
casa quer no jardim de infância: “Não fiz de propósito, não sabia, pensava
que não estava a fazer mal”. É aquilo que os adultos chamam a
objetividade de apreciação escolar.
Além disso, mesmo se a criança venha compreender posterior­
mente que nem “rosa” nem “sol” levam maiusculas e que tem “quatro” ou
“cinco” no ditado seguinte, mesmo se o professor a felicita pelos seus
resultados, o “dois” não desaparecerá das páginas do caderno, da sua
caderneta: uma nova nota aparecerá ao lado desta mas não no lugar dela.
O Desenvolvimento do Psiquismo 309

A mesma lógica interna marca a passagem ao estágio seguinte do


desenvolvimento da vida e da consequência da criança. No estudante
adolescente esta passagem está ligada à sua inserção nas formas de vida
social que lhe são acessíveis (participação cm certas manifestações sociais
que não apresentam um caráter especialmente infantil, organização de
escoteiros, novo conteúdo da atividade periscolar). Ao mesmo tempo muda
também o lugar real que a criança ocupa na vida cotidiana dos adultos que
a rodeiam, na vida em família. As suas forças físicas, os seus
conhecimentos e as suas capacidades colocam-na, doravante, em certos
casos, em pé de igualdade com os adultos e sente-se mesmo superior por
vezes cm dado domínio particular: pode ser um mecânico reconhecido ou o
mais forte da família, mais forte que a mãe ou a irmã e apela-se para a sua
ajuda onde seja preciso um homem; ou ainda, pode ser o principal
comentador, em sua casa, dos acontecimentos da vida pública.
—f- Do ponto de vista da consciência, esta passagem à última idade
escolar é marcada polo desenvolvimento de uma atitude crítica face às
exigências, às maneiras de agir, às qualidades pessoais dos adultos e pelo
aparecimento de interesses novos pela primeira vez verdadeiramente
teóricos. Nos alunos maiores, aparece a necessidade de conhecer não
apenas a realidade que os rodeia mas igualmente o saber que existe sobre
esta realidade.
À primeira vista e superficialmente, pode parecer que não ocorre,
no fim do período da infância c da adolescência e com a passagein à vida
profissional, qualquer mudança no lugar que ocupa o estudante no sistema
das relações humanas. Mas não passa de uma aparência. O adolescente que
ainda hoje não passa de um debutante zeloso que a consciência da sua
situação o torna feliz e orgulhoso, estará amanhã nas fileiras dos
entusiastas da produção de vanguarda. Tornando-se um trabalhador, ocupa
agora um novo lugar, a sua vida adquire um conteúdo novo e isto significa
que vê doravante o inundo sob uma nova luz.
A primeira coisa que devemos notar, quando nos esforçamos por
resolver a questão das forças motoras no desenvolvimento do psiquismo, c
portanto a modificação do lugar que a criança ocupa no sistema das
310 O Desenvolvimento do Psiquismo

relações sociais, é, porém, evidente que este lugar não determina por si só
o desenvolvimento. Ele caracteriza simplesmente o nível atingido num
dado momento. O que determina diretamente o desenvolvimento do
psiquismo da criança c a sua própria vida, o desenvolvimento dos
processos reais desta vida, por outras palavras, o desenvolvimento desta
atividade, tanto exterior como interior. E o desenvolvimento desta
atividade depende por sua vez das condições em que ela vive. O mesmo é
dizer que, no estudo do desenvolvimento do psiquismo da criança devemos
partir da análise do desenvolvimento da sua atividade tal como ela se
organiza nas condições concretas da sua vida. Só uma tal démarche
permite determinar a parte das condições de vida exteriores da criança e
das disposições que ela possui. Partindo da análise do conteúdo da
atividade que se desenvolve na própria criança, só esta démarche permite
compreender o papel primordial da educação que age justamente sobre a
atividade da criança, sobre as suas relações com a realidade e determina
também o seu psiquismo, a sua consciência.
Mas a vida ou a atividade de conjunto não é simplesmente a soma
de diferentes espécies de atividade. Alguns tipos de atividade são. numa
dada época, dominantes e têm uma importância maior para o
desenvolvimento ulterior da personalidade, outros têm menos. Uns
desempenham papel essencial no desenvolvimento, outros papel
secundário. Razão por que devemos dizer que o desenvolvimento do
psiquismo depende não da atividade do seu conjunto mas da atividade
dominante.
Podemos dizer igualmente que cada estágio do desenvolvimento
psíquico c caracterizado por um certo tipo de relações da criança com a
realidade, dominantes numa dada etapa e determinadas pelo tipo de
atividade que é então dominante para ela.
Reconhece-se justamente a passagem de um estágio a outro na
mudança do tipo de atividade dominante e, portanto, da relação dominante
da criança.com a realidade.
A que é que chamamos “atividade dominante’ ?
O Desenvolvimento do Psiquismo 311

A característica da atividade dominante não sc reduz de modo


algum a índices puramente quantitativos. A atividade dominante não é
aquela que se encontra o mais das vezes numa dada etapa do
desenvolvimento, aquela à qual a criança consagra a maior parte do tempo.
Chamamos atividade dominante da criança a que comporta as três
características seguintes.
Primeiramente, é aquela sob a fornia da qual aparecem e no
interior da qual se diferenciam tipos novos de atividade. Assim, por
exemplo, o ensino, no sentido mais restrito do termo, que aparece pela
primeira vez na idade pré-escolar, ocorre antes de mais nada no jogo que é
a atividade dominante neste estágio do desenvolvimento. A criança
começa a aprender jogando.
Segundo, a atividade dominante é aquela na qual se formam ou se
reorganizam os seus processos psíquicos particulares. É no jogo, por
exemplo, que se formam inicialmente os processos de imaginação ativa, e
no estudo os processos de raciocínio abstrato. Não poderíamos daqui
concluir que a formação ou a reorganização de todos os processos
psíquicos só se faz no interior da atividade dominante. Certos processos
psíquicos formam-se e reorganizam-se não diretamente na atividade
dominante, mas noutros tipos de atividade geneticamente ligados a eia.
Assim, por exemplo, os processos de abstração e de generalização da cor
forma-se na idade pré-escolar, não no próprio jogo, mas no desenho, na
aplicação de cores etc., isto é, em diversos tipos de atividade em que
apenas a sua origem está ligada à atividade lúdica.
Terceiro, a atividade dominante é aquela de que depende o mais
estreitamente as mudanças psicológicas fundamentais da personalidade da
criança observadas numa dada etapa do seu desenvolvimento. E no jogo,
por exemplo, que a criança de idade pré-escolar se aproxima das funções
sociais e das normas de comportamento que correspondem a certas pessoas
(que faz de “soldado do Exército Vermelho”, que taz de “diretor, de
“engenheiro”, de “operário da fábrica”, e isto constitui um elemento muito
importante da formação da sua personalidade) ,
312 O Desenvolvimento do Psiquismo

A atividade dominante é, portanto, aquela cujo desenvolvimento


condiciona as principais mudanças nos processos psíquicos da criança e as
particularidades psicológicas da sua personalidade num dado estágio do
seu desenvolvimento.
Os estágios de desenvolvimento do psiquismo da criança não se
caracterizam unicamente por um conteúdo determinado da sua atividade
dominante, mas igualmente por uma sucessão determinada no tempo, isto
é, por uma relação determinada com a idade da criança. Nem o conteúdo
dos estágios nem a sua sucessão no tempo são todavia imutáveis dados de
uma vez para sempre,
Com efeito, cada geração nova, tal como cada indivíduo de uma
dada geração, encontra já prontas certas condições de vida. São elas que
tornam possível tal ou tal conteúdo da sua atividade. Conseqücntemente, se
bem que possamos identificar os estágios do desenvolvimento do
psiquismo da criança, o seu conteúdo não é de modo algum independente
das condições históricas concretas em que se desenrola o desenvolvimento;
depende mesmo, antes de mais nada de todas estas condições. A influência
das condições históricas concretas exerce-se tanto o conteúdo concreto de
tal ou tal estágio dado do desenvolvimento, como sobre o curso do
processo de desenvolvimento psíquico no seu conjunto. Assim se explica
que a duração e o couteúdo do período de desenvolvimento que se poderia
chamar da preparação do homem para a participação na vida social do
trabalho, a duração e o conteúdo da educação e do ensino, nem sempre
tenham sido os mesmos historicamente. A duração mudou de época para
época, alongando-se a medida que cresciam as necessidades da sociedade
neste tocante.
Se bem que os estágios de desenvolvimento tenham um lugar
determinado no tempo, os seus limites dependem, portanto, do seu
conteúdo, o qual é por sua vez determinado pelas condições históricas
concretas em que se desenrola o desenvolvimento do criança.
Assim, não é a idade da criança que determina, enquanto tal, o
conteúdo do estágio de desenvolvimento, mas, pelo contrário, a idade da
O Desenvolvimento do Psiquismo 313

passagem de um estágio a outro depende do seu conteúdo e que muda com


as condições sócio-históricas.
Estas mesmas condições determinam, por outro lado, qual a
atividade que se torna dominante para a criança num dado estágio do seu
desenvolvimento. A apropriação da realidade material que circunda
imediatamente a criança, o jogo através do qual a criança toma posse de
uma esfera mais larga de fenômenos e relações humanas, a formação
sistemática na escola, finalmente a sua formação especializada ou a
atividade de trabalho, tal é a sucessão das atividades dominantes, das
relações dominantes que podemos constatar na nossa época e nas nosssa
condições.
Quais são, portanto, as relações entre o tipo de atividade dominante
da criança e o Sugar real que ela ocupa no sistema das relações sociais?
Que relação há entre a mudança de lugar e a mudança de atividade
dominante da criança?
De uma maneira gerai, podemos responder que no decurso do seu
desenvolvimento, o lugar anteriormente ocupado pela criança no mundo
das relações humanas que a rodeia é conscientizado por ela como
não correspondendo às suas possibilidades. E daí que se esforce por
modificá-lo.
Surge uma contradição aberta entre o modo de vida da criança e as
suas possibilidades que já superaram este modo de vida. É por isso que a
sua atividade se reorganiza. Assim se efetua a passagem a um novo estágio
de desenvolvimento da vida psíquica.
Podemos citar, como por exemplo, os casos de “superação’ , pela
criança, da sua infância pré-escolar. No principio, no grupo dos pequenos e
dos médios, no jardim da infância, a criança participa com prazer e
interesse na vida do grupo, seus jogos e ocupações são plenos de sentido
para ela, faz de boa vontade, noticia aos mais velhos dos seus sucessos:
mostra os seus desenhos, recita cantilenas, conta o que se passou durante o
recreio. Não a intimida o fato dos adultos a escutarem com um sorriso,
distraidamente, sem conceder sempre a atenção requerida a todas estas
coisas importantes para a criança. Para ela, têm um sentido e isso basta
314 O Desenvolvimento do Psiquismo

para que encham a sua vida. Mas pouco a pouco os conhecimentos da


criança tornam-se mais vastos, as suas capacidades maiores, as suas forças
crescem e a atividade do jardim dc infância perde para ela o seu sentido,
“escapa” cada vez mais à vida do jardim de infância. Ou antes, esforça-se
por nele encontrar um novo conteúdo; formam-se grupos de crianças que
começam a viver a sua vida própria, oculta, e que já nada têm de pré-
escolar; a rua, o pátio, a sociedade com crianças mais velhas têm um
atrativo crescente. Cada vez mais a afirmação de si mesma toma na criança
formas que atentam contra a disciplina. É aquilo a que se chama a crise dos
sete anos.
Se a criança permanece todo um ano fora da escola e se continua a
considerá-la, em casa, como algo esporádico, se ela não se entrega
seriamente ao trabalho escolar, esta crise pode tomar formas agudas. A
criança privada de obrigações escolares inventá-las-á, sob formas por
vezes anormais.
Estas crises, a crise dos três anos, dos sete, a crise da adolescência,
da juventude, estão sempre ligadas a uma mudança de estágio. Elas
mostram até à evidência a necessidade interna destas mudanças, destas
passagens de um estágio ao outro. Mas serão inevitáveis estas crises no
desenvolvimento da criança?
A existência de crises de desenvolvimento é conhecida desde há
muito e a sua interpretação “clássica” consiste em dizer que elas se devem
ao amadurecimento das particularidades internas da criança e das
contradições que daí resultam entre a criança e o meio. Consideradas sob
este ângulo, as crises são por certo inelutáveis, pois as contradições são
inevitáveis qualquer que sejam as condições. Nada, todavia, é mais
falacioso no desenvolvimento do psiquismo da criança que esta idéia.
Na realidade, estas crises não acompanham inevitavelmente o
desenvolvimento psíquico. O que é inevitável não são as crises, mas as
rupturas, os saltos qualificativos no desenvolvimento. A crise, pelo
contrário, é sinal de uma ruptura, de um salto que não foi efetuado no
devido tempo. Pode perfeitamente não haver crise se o desenvolvimento
psíquico da criança se não efetuar espontaneamente, mas como um
O Besenvólvinwnk) do Psiquismo 315

processo racionalmente conduzido, da educação dirigida. Nos casos


normais, a mudança do tipo dominante de atividade da criança e a sua
passagem de um estágio a outro respondem a uma necessidade interior
nova e estão ligadas a novas tarefas postas à criança pela cducaçao e
correspondem às suas possibilidades novas, à sua nova consciência.

2. Nesta base, como se efetua a passagem de uma atividade a uma


outra atividade dominante? Para responder a esta questão devemos deter-
nos primeiro nas definições relativas de dois conceitos: a atividade e a
/ação/
Nem todo o processo é uma atividade. Nós designamos apenas por
este termo os processos que, realizando tal ou tal relação do homem com o
mundo, respondem a uma necessidade particular que llies é própria. Assim,
os processos de memorização não são. propriamente falando, uma
atividade, pois não realizam, regra geral, qualquer relação autônoma com o
mundo e não respondem a qualquer exigência particular.
Designamos pelo termo de atividade os processos que são
psicologicamente determinados pelo fato de aquilo para que tendem no seu
conjunto (o seu objeto) coincidir sempre com o elemento objetivo que
incita o paciente a uma dada atividade, isto é, com o motivo.
Tomemos um exemplo. Suponhamos o caso de um estudante que,
preparando-se para um exame, lê um livro de História. Trata-sé
psicologicamente de um destes processos que convencionamos a chamar
atividade? Não é possível responder dirctamente a questão, pois a
caracterização psicológica do processo considerado exige que aquilo que
ele representa para o próprio sujeito seja precisado, o que requer já um
mínimo de análise psicológica do processo.
Suponhamos que o nosso estudante recebe uma visita de um
camarada que o informa que o livro que ele está lendo não é absolutamente
necessário para a preparação do exame. Pode então ocorrer o seguinte: ou
abandonará imediatamente o livro ou continuará a lê-lo ou talvez o ponha
de lado, mas de má vontade, com desgosto. Nos últimos casos, é evidente
que aquilo para que estava dirigida a leitura, isto é, o conteúdo do livro, era
316 O Desenvolvimento do Psiquismo

o que incitava a íê-io e constituía o motivo. Por outros termos, a


apropriação do seu conteúdo satisfazia diretamente uma necessidade
particular do estudante, a necessidade de saber, compreender, de elucidar
aquilo de que falava o livro.
Se, pelo contrário, após ter sabido que o conteúdo do livro não faz
parte do programa das provas, o estudante não hesita e deixa de o ler, c
claro que o motivo que o incitava a ler era, não o conteúdo do livro
enquanto tal mas apenas a necessidade de passar no exame. O fim da
leitura não coincidia, portanto, com o que levava o aluno a ler. A leitura
não era neste caso, preciso, uma atividade, propriamente dita. A atividade
aqui era a preparação do exame e não a leitura do livro.
// Um outro traço psicológico importante da atividade é que ela está
especificamente associada a uma classe particular de impressões psíquicas:
as emoções e os sentimentos. Fistas impressões não dependem de processos
isolados, particulares, mas são sempre determinados pelo objeto, o
desenrolar e a espécie de atividade de que fazem parte integrante. Assim,
por exemplo, o sentimento com que eu caminho na rua não é determinado
pelo fato de encontrar ou não obstáculos no meu caminho, antes depende
da relação vital em que insere a minha ação. Razão porque pode acontecer-
mc andar alegremente cà chuva ou estar interiormente deprimido quando
faz bom tempo; num caso, qualquer entrave me desesperará, no outro
qualquer obstáculo imprevisível que me obrigue a entrar em casa pode
encantar-me interiormente.
Nós distinguimos das atividades os processos que designamos pelo
termo de ação. Uma ação é um processo cujo motivo não coincide com o
seu objeto (isto é, com aquilo que visa), pois pertence à atividade cm que
entra a ação considerada. Assim, no exemplo dado mais atrás, se o
estudante continua a ler só até o momento em que sabe que a sua leitura
não é necessária para a preparação do exame, trata-se de uma ação. Pois
para ele aquilo que tende de fato (tomar conhecimento do conteúdo do
livro) não é o motivo do estudante, O que o incita a ler é a necessidade de
passar no exame.
O Desenvolvimento do Psiquismo 3/ 7

Não levando o objeto da ação. por si próprio a agir, é necessário


que a ação surja e se realize, que o seu objeto apareça ao sujeito na sua
relação com o motivo da atividade em que entra esta açao. 1 sta ação é
refletida pelo sujeito sob uma forma perfeitamente determinada: sob a
forma de consciência do objeto da ação enquanto fim. Assim, o objeto da
ação não é afinal senão o seu fim imediato concientizado. (No nosso
exemplo, o fim da leitura é apropriar-se do seu conteúdo c este lim
imediato mantém uma relação determinada com o motivo da atividade que
é triunfar no exame.)
Há uma relação particular entre a atividade e a ação, O motivo da
atividade, deslocando-se, pode tornar-se objeto (o fim) do ato. Resulta
daqui que a ação se transforma em atividade. Este elemento é de uma
importância extrema. É desta maneira, com efeito, que nascem novas
atividades. É este processo que constitui a base psicológica concreta sobre
a qual assentam as mudanças de atividade dominante e, por consequência,
as passagens de um estágio de desenvolvimento a outro.
Qual é o mecanismo psicológico deste processo?
Para responder a esta questão devemos primeiramente perguntar,
mais geralmente, como nascem os novos motivos, após o que estudaremos
a passagem aos motivos que criam uma nova atividade dominante,
Tomemos um exemplo concreto.
Suponhamos que um aluno da primeira não consegue entregar-se
aos seus deveres. Tenta por todos os meios afastar o momento em que terá
que fazê-los, c ainda mal começou já imediatamente se distrai com outra
coisa. Acaso compreende ele ou saberá que lhe é preciso preparar as lições,
que senão terá uma má nota, que isso entristecerá os pais, em resumo, que
aprender é uma obrigação para ele, que é o seu dever, que, sem isso, não
poderá tornar-se realmente útil à sua pátria etc.? Por certo que a criança
normalmente desenvolvida sabe tudo isso, e ainda não é suficiente para
levar a entregar-se ao trabalho escolar.
Suponhamos agora que se diz à criança: enquanto não fizer os teus
deveres, não vais brincar. Esta observação faz efeito c a criança entrega-se
ao trabalho.
318 O Desenvolvimento do Psiquismo

Neste caso, a situação é, portanto, a seguinte: a criança quer ter


uma boa nota e também fazer o que deve. Não há dúvida nenhuma que
para a sua consciência, estes motivos existem. todavia, sao
psicologicamente ineficientes para ela: o motivo que age verdadeiramente
é o de obter a possibilidade de ir brincar.
Chamaremos os motivos do primeiro tipo motivos “apenas
212
compreendidos”, e aos do segundo tipo: motivos “que agem realmente"
Feita esta distinção podemos enunciar a seguinte proposição: os “motivos
apenas compreendidos” transformam-se, em determinadas condições em
motivos eficientes. É assim que nascem novos motivos e, por
consequência, novos tipos de atividade.
A criança começou por fazer os seus deveres sob o feito de um
motivo especialmente criado por nós com intenção nela. Mas passada uma
semana ventos a criança entregar-se ao trabalho por sua própria iniciativa.
E um dia, quando copia um texto, detém-se subitamente e levanta-se a
chorar. “Porque é que não trabalhas mais?” perguntam-lhe. “Não vale a
pena, explica a criança, terei um três ou um dois; não consigo escrever
como deve ser.”
Descobrimos assim o novo motivo eficiente do seu trabalho em
casa: faz agora os deveres para ter uma boa nota. Eis qual é atualmente
para ela o verdadeiro sentido dos seus exercícios, quer se trate da cópia de
um texto, de resolver um problema ou quaisquer outras tarefas escolares.
O motivo que age realmente, que incita a criança a fazer os seus
deveres é agora um motivo que antes cra apenas “compreendido” por ela.
Como se faz a mudança de motivo? A resposta é simples. Em
certas condições, o resultado da ação conta mais que o motivo que
realmente suscita a ação. A criança começa por fazer conscientemente os
seus deveres para poder mais rapidamente ir brincar. Mais o resultado é
bem maior: não apenas pode ir brincar, como ainda ter boa nota. Produz-se

212 Distinção comparável foi introduzida entre nós por Miassichtchcv (1936). Partindo dos
seus trabalhos, dar-lhe-emos todavia uma matriz uni pouco diferente. Razão por que nós
utilizamos iguaimente termos diferentes.
O Desenvolvimento do Psiquismo 319

uma nova “objetivação” das suas necessidades, islo quer dizer que das se
elevam de um grau"1'".
A passagem a uma nova atividade dominante só se distingue o
processo descrito por uma única coisa: o que se torna realmente agente, no
caso da mudança de atividade dominante, são os “motivos compreendidos
que não pertencem à esfera das relações em que a criança está
efetivamente inserida, mas a uma esfera das relações que caracterizam o
lugar que a criança poderá ocupar no estágio seguinte do seu
desenvolvimento. Estas passagens exigem, portanto, uma longa preparação
para que a esfera destas relações novas para ela se abra à consciência da
criança com satisfatória plenitude. Nos casos em que o aparecimento de
um novo motivo, não corresponde às possibilidades reais de atividade da
criança, esta atividade não pode tomar o lugar dominante e deverá
desenvolver-se, num primeiro tempo, isto é, no dado estágio, de maneira
“complementar”.
Suponhamos, por exemplo, que uma criança de idade pré-escolar
se treina sob a forma de jogo para representar uma comédia e participa em
seguida de uma festa infantil a qual assistem seus pais e outros adultos. Se
o resultado da sua participação tem sucesso, e se a criança compreende este
sucesso como relacionado com o resultado das suas ações, vai la/.er todo o
possível para dar uma propriedade objetiva à sua atividade. A sua criação,
ditada na origem por motivos lúdicos, começa então a desenvolver-se
enquanto atividade própria, separando-se do jogo. Mas não pode ainda
tornar-se um artista. Razão por que a formação desta nova atividade de
caráter produtivo não tem significação na sua vida: mal se apaguem as
luzes da festa, imediatamente os seus sucessos de comediante deixarão de
provocar a mesma atitude nos pais; assim, não se produz qualquer
deslocamento novo da sua atividade. Nenhuma atividade nova apaiecc
sobre esta base.

213 A arte da educação não reside precisamente em combinar dá melhor maneira os "motivos
compreendidos” e os motivos que "agem realmente’, sabendo dar quando é picciso a
prioridade ao resultado da atividade e ao seu sucesso, a fim dc assegurar a passagem a um
tipo superior de motivos reais que dirigem a vida da personalidade?
320 O Desenvolvimento do Psiquismo

A coisa é diferente, se é o estudo que se transforma de maneira


análoga numa atividade independente. Esta atividade, que tem uma
motivação de tipo novo e corresponde às possibilidades reais da criança,
torna-se então estável. Ela determina de maneira estável as relações vitais
da criança e, desenvolvendo-se sob a influência da escola, num ritmo
acelerado, distancia o movimento dos seus outros lipos de atividade. Eis
porque as aquisições novas da criança, os seus processos psicológicos
novos, aparecem pela primeira vez, na própria ocasião desta atividade, o
que significa que ela começa a desempenhar o papel da atividade
dominante.

3. A mudança de atividade dominante serve de base às


modificações ulteriores do desenvolvimento psíquico da criança.
Quais são estas modificações?
Detenhamo-nos, primeiramente, nas modificações das
características psicológicas das ações. Para que surja uma ação, é
necessário que o seu objeto (o seu fim imediato) seja conscientizado na sua
relação o motivo da atividade em que esta ação se insere. Este ponto é
muito importante. Resulta daqui que o fim de uma única e mesma ação
pode ser concientizado de diferentes maneiras, segundo o motivo que a ela
se liga. Ao mesmo tempo, o sentido da ação para o sujeito muda
igualmente.
Tomemos um exemplo. Suponhamos que uma criança está fazendo
os seus deveres e que resolve o problema dado.
Tem, bem entendido, a consciência do fim de sua ação, que
consiste para ela em encontrar a ação justa e escrevê-la. E aquilo para que
tende a sua ação. Mas como é concientizado este fim ou, por outras
palavras, qual é o sentido desta ação para a criança? Para responder a esta
questão, devemos saber em que atividade se insere a ação da criança ou, o
que vem a dar no mesmo, em que consiste o motivo desta ação. Talvez seja
o de aprender aritmética; talvez o de não magoar o mestre; ou ainda, muito
simplesmente, pode ir brincar com os seus colegas. Objetivamente, em
todos os casos, o fim permanece o mesmo: resolver o problema dado. Mas
O Desenvolvimento do Psiquismo 321

o sentido da ação para esta criança será em cada caso diferente; razão
porque as suas ações serão psicologicamente diferentes.
Uma ação toma tal ou tal característica psicológica cm função da
atividade em que se insere. É uma lei fundamental do processo de
desenvolvimento das ações.
Tomemos o seguinte exemplo; é posta a mesma questão a uma
criança de idade pré-escolar e a uma criança da primeira classe. Para estas
resposta de idêntico conteúdo, como pode ser diferente a sua linguagem!
Onde está a espontaneidade da linguagem do estudante? A resposta na aula
é uma ação que não é motivada pela necessidade de informar o mestre de
qualquer coisa, de lhe dar notícia de algo. fila integra-se numa relação
nova, ela realiza uma outra atividade: o estudo.
O professor pergunta: quantas janelas há nesta sala? E ele próprio
olha para as janelas. Devemos no entanto responder-lhe: há três janelas.
Devemos dizer-lhe que vemos uma floresta num desenho, se bem que o
professor e toda a classe vejam bem que é urna floresta. utE que o professor
não faz estas perguntas apenas para falar”, diz um dos alunos da primeira
classe para explicar a situação psicológica que aparece na aula. Justamente,
não é pelo prazer de falar. Razão por que a linguagem da criança na aula
tem uma estrutura psicológica bem diferente da sua linguagem nos jogos
ou na comunicação verbal com os da sua idade, com os pais etc.
De maneira semelhante, a conscientização, a compreensão pela
criança dos fenômenos da realidade, está ligada à sua atividade. Em cada
estágio do seu desenvolvimento ela está limitada pela sua esfera de
atividade que depende por sua vez da relação dominante, da atividade
dominante que caracteriza por esta mesma razão o estágio considerado no
seu conjunto. jQ -á
Esta idéia necessita de algumas explicações. Trata-se aqui da
conscientização, isto é. do sentido individual que para a criança toma um
dado fenômeno, c não do conhecimento que ela tem deste fenômeno. Para
ser mais claro, tomarei o exemplo que já utilizei algures. Pode conhecer-se
perfeitamente, por exemplo, tal ou tal acontecimento histórico,
compreender perfeitamente a importância de tal ou tal data histórica, mas
322 O Üesenvolvimenlo do Psiquismo

esta data histórica pode ter sentidos diferentes para o indivíduo: terá um
sentido para um adolescente que ainda não deixou os bancos da escola e
um outro para o mesmo adolescente que se dirige para o campo dc batalha
e vai dar, se for preciso, a sua vida por aquilo que esta data representa. Os
seus conhecimentos sobre este evento, sobre esta data histórica mudaiam,
alargaram-se? Não. Talvez mesmo os tenha esquecido. Mas eis que este
acontecimento lhe vem ao espírito, que dele se recorda e contata então que
ele se iluminou por assim dizer na sua consciência por uma luz bem
diferente, descobre-o na sua plena significação. Cie tornou-se outro, nao do
ponto de vista do saber que se tem dele, mas do ponto de vista do seu
sentido para a pessoa, adquiriu uma significação nova. Razão por que a
caracterização do desenvolvimento psíquico da criança pelo seu conteúdo
verdadeiro e não pela sua forma, não pode abstrair-se do desenvolvimento
das suas relações reais com o mundo, do conteúdo destas relações, f.la
deve partir da sua análise, sem o que não podemos compreender as
particularidades da sua consciência.
Isto torna-se evidente, quando, por exemplo, se tenta dar a
característica psicológica das crianças de sete anos que entram na escola. O
que surpreende então o psicólogo? As diferenças extremas entre as
crianças se se considera “in abstractuin” os seus processos de percepção,
de pensamento e sobretudo de linguagem. Mas a fisionomia psicológica da
criança dc sete anos, o que há de verdadeiramente geral na característica de
uma criança de sete anos não é apenas criado por estes processos tomados
isoladamente, mas, por um lado, pelas particularidades psicológicas da sua
atividade na escola, pela sua relação típica com o professor, com o seu
trabalho, com os seus colegas de classe e, por outro, mas apenas a partir
daí, pelo que caracteriza os diversos processos particulares da vida
psíquica, isto é, pela maneira de perceber a matéria escolar, compreender
as suas explicações, pela maneira como se organiza a sua linguagem nas
respostas ao professor etc.
Toda a ação consciente se forma, portanto, no interior de uma
esfera de relações já constituída, interior de tal ou tal atividade que lhe
determina as particularidades psicológicas.
O Desenvolvimento do Psiquismo 323

Consideramos o grupo seguinte de modificações observadas no


processo de desenvolvimento da vida da criança, as qne tocam as
operações.
Por operação, entendemos o modo de execução de uma ação. À
operação é o conteúdo indispensável de toda a ação, mas não se identifica
com a ação. Uma só e mesma ação pode réalizar-se por meio de operações
diferentes, e inversamente, ações diferentes podem ser realizadas pelas
mesmas operações. Isto explica-se peio fato dc que enquanto uma ação é
determinada pelo seu fim, as operações dependem das condições em que é
dado este Fim. Tomemos um exemplo muito simples: suponhamos que
tenho por fim memorizar um poema: a minha ação será então memorizá-lo
ativamente. Mas como vou fazer? Posso por exemplo, se estou em casa,
reeopiá-lo; noutras condições ser-me-á muito mais fácil repeti-lo
interiormente. Nos dois casos, a ação será a memorização, mas os seus
modos de execução, isto é, as operações de memorização serão diferentes.
Mais exatamente, uma operação é determinada por um problema,
isto é, por Fim um dado em condições que exigem um meio dc ação
particular.
Só consideramos aqui um único tipo dc operações: as operações
conscientes.
As pesquisas experimentais evidenciaram um fato característico do
desenvolvimento das ações conscientes: é que elas se formam pela
primeira vez enquanto ação e não pode aparecer sob outra forma. As
operações conscientes formam-se, primeiro, como processos que visam um
fim, que podem apenas adquirir em seguida, em certos casos, a forma de
práticas automatizadas.
Como é que uma ação se transforma em operação e, por
consequência, em habilidade e em hábito? Para transformar a ação de uma
criança em operação devemos dar-lhe um fim novo no qual a ação
considerada se torne o meio de execução de uma outra ação. Por outras
palavras, o que era o fim da primeira ação deve transformar-se numa das
condições da ação requerida pelo novo fim.
324 O Desenvolvimento do 1’siquismo

Por exemplo, quando no decurso de exercícios de tiro o aluno


atinge o alvo, o fim, ele executa uma ação determinada. Caracterizada
como? Primeiro, pela atividade em que ela se insere, pelo seu motivo e,
por consequência, peio sentido que ela tem para o aluno. Mas ela
caracteriza-se igualmente pelos meios, pelos processos que permitem a sua
execução. Um apontar ajustado exige uma múltiplos processos,
correspondendo a cada um condições determinadas da ação considerada.
É-lhe preciso dar o corpo a uma certa posição, colocar a mira em posição
estritamente vertical, estabelecer corretamenle a linha dc mira, apertar a
coronha contra o ombro, reter a respiração, empurrar o gatilho forçando
progressivamente a pressão do dedo. Num atirador experimentado, todos
estes processos não são ações independentes. Os fins que lhe
correspondem não são separados um por um na sua consciência: alcançar o
alvo. O mesmo é dizer que possui perfeitamente a prática do tiro e das
operações motoras necessárias ao tiro.
Para quem ainda está na aprendizagem do tiro, é dilerente.
Primeiro há que agarrar corretamente na espingarda, este deve ser
aliás o seu fim. é para ele uma ação. A ação seguinte consiste em ajustar o
tiro etc.
Seguindo o processo do ensino do tiro. vê-se quais as leis
fundamentais que religam as operações e a ação. Vemos, primeiramente,
que é efetivamente impossível aprender um procedimento, uma operação
qualquer, sem que o aluno tenha teito o primeiro processo que visa um hm
preciso, por outras palavras, uma ação. Por outro lado, é claro o processo
de transformação desta ação em operação. Assim que o aluno aprendeu a
puxar progressivamente o gatilho, o problema seguinte c colocar a bala no
alvo. O fim que se apresenta à sua consciência não c puxai docemente o
gatilho” mas “alcançar o alvo”. A leveza do movimento exercido sobre o
gatilho corresponde agora a uma das condições da ação requerida poi este
fim.
Notemos sobretudo que os momentos que deviam absolutamente
ser conscientizados no princípio (agarrar convenientemente sobre a
espingarda, apoiar sobre o gatilho etc.) deixam doravante dc o ser. O que
O Desenvolvimento tio Psiquismo 325

não significa cjue o atirador tuio os perceba. Não c o caso, naturalmente,


Não só continua a perceber todos estes momentos (a relaçao da uma com a
ranhura, por exemplo, ou a pressão da coronha sobre o ombro etc.), mas a
percepção que tem deles continua a comandar ós seus movimentos. E em
qualquer momento podem ser conscientizados por ele: razão por que se
tem a impressão que o seu reflexo psíquico sc laz exatamente da mesma
maneira que o reflexo do fim de uma ação. Esta relação entre a ação e as
operações, que evidenciamos no caso tias operações motoras, vale
igualmente para as operações mentais e a sua (ixação sob a forma de
hábitos mentais. Em aritmética, por exemplo, a adição pode ser uma ação
ou uma operação. Com efeito, a criança aprende primeiro a adição como
uma ação determinada, em que o meio, isto é, a operação, a adjunção
unidade por unidade. Depois tem de resolver problemas cujas condições
exigem que se efetue a adição de grandezas (“para saber tal coisa, deve-se
adicionar tais ou tais grandezas'5). Neste caso a ação mental da criança já
não c a adição, mas a resolução do problema; a adição torna-se então uma
operação e deve, portanto, tomar a forma de uma prática suficientemente
elaborada e automatizada.
Até aqui, no que respeita ao desenvolvimento das operações,
damos o privilégio a um aspecto do problema; a formação das operações
num processo de ação, a sua relação de dependência relativamente à ação.
Mas os exemplos pré-citados mostram a existência de uma outra relação
entre o desenvolvimento das operações e o das ações; um nível de
desenvolvimento suficientemente elevado das operações permite a
passagem à execução de ações mais complexas que podem por sua^vez
fazer aparecer novas operações suscetíveis dc levar a novas ações etc.
O último grupo de modificações nos processos de desenvolvimento
do psiquismo em que nos deteremos são as modificações que intervêm nas
funções psicofisiológicas.

214Não abordaremos aqui a questão da relação interna existente entre as operações mentais e
a categoria da consciência que lhes corresponde: as signihcaçõcs, os conceitos. A
complexidade desta questão exige um estudo particular.
326 O Desenvolvimento do Psiquismo

Designamos por este termo as funções fisiológicas que realizam a


forma de vida superior do organismo, a vida mediatizada pelo reflexo
psíquico da realidade. Trata-se, entre outras, das funções sensoriais, das
funções mnemónicas, tônicas etc.
Nenhuma atividade psíquica pode ter lugar sem a participação
destas funções. Mas ela não sc reduz a estas funções e muito menos pode
ser delas deduzida.
Todas estas funções constituem o fundamento dos fenômenos
subjetivos correspondentes da consciência: as sensações, as impressões
emocionais, os fenômenos sensíveis, a memória, que formam por assim
dizer a “matéria subjetiva da consciência”, a riqueza dos sentimentos, a
coloração e o relevo da imagem do mundo na consciência do homem.
Imaginemos que somos privados da função de cromatopsia, e a imagem da
realidade na nossa consciência toma a palidez de uma fotografia. Tiremos
o som, o quadro do mundo será para nós tão pobre como um filme mudo
comparado com um filme sonoro, E todavia um cego pode tornar-se um
sábio e estabelecer uma teoria nova sobre a natureza da luz, se bem que
pouco possa sentir a impressão sensível da luz tal como o homem normal
sente a velocidade da mesma luz. Equivale a isto dizer que, se bem que os
fenômenos sensíveis e os conceitos estejam ligados, trata-se todavia,
psicologicamente, de categorias diferentes da consciência.
Em que consiste o desenvolvimento das funções na sua relação
com os processos de atividade? A investigação mostra que toda a função se
envolve e se reorganiza no interior do processo que ela realiza. O
desenvolvimento das sensações, por exemplo, está ligado ao
desenvolvimento dos processos de percepção orientada. Por esta mesma
razão, as sensações precisam ser ativamente educadas na criança, mas
vimos que a sua educação não pode constituir num simples entretenimento
mecânico, em exercícios puramente formais.
Dispomos atualmente de um número considerável de dados
experimentais, obtidos por diferentes autores, que estabelecem com
firmeza que o desenvolvimento das funções depende do processo interno
O íjesenvvlviinento do Psiquismo 327

que elas se inserem.“1 As nossas próprias pesquisas permitiram precisar


este fato e. estabelecer que os progressos notáveis no desenvolvimento das
funções só são possíveis se estas funções ocuparem um lugar determinado
na atividade, a saber: que entrem numa operação em que seja requerido um
nível de desenvolvimento determinado para a execução da ação
correspondente. Em semelhante caso, a margem dos progressos possíveis,
em particular no domínio das funções sensoriais, da sensibilidade, é
extraordinariamente larga, ao ponto dos valores “normais dos limiares
estabelecidos pela psicofísica clássica poderem ser largamente superados.
O estudo do fenômeno do “compasso no olho”, por exemplo, nas
condições indicadas, permitiu obter limiares médios três vezes menos
elevados que os obtidos classicamente; para o limiar diferencial de
avaliação de peso, mais de duas vezes etc. Além disso os dados obtidos por
nós não constituem dc modo algum um limite.
Se se passa destes dados de laboratório, obtidos em adultos, à
análise dos dados do desenvolvimento infantil, por exemplo, basta o
processo de formação na criança do “olho fonemático” para ilustrar a nossa
afirmação. Sabe-se que no decurso do seu desenvolvimento, a criança
adquire a faculdade de diferenciar, com precisão surpreendente, os
fonemas, isto é, os sons signifleantes da linguagem, e isto porque a sua
distinção é condição necessária da distinção de palavras semelhantes pela
sonoridade, mas diferentes pela sua significação. A diferenciação de sons
cuja distinção não é para a criança, um meio real dc diferenciação das
palavras segundo o seu sentido permanece nela muito menos desenvolvido.
E é por esta razão que, quando ela começa ao estudar uma língua
estrangeira, no princípio não entende absolutamente qualquer diferença
entre os fonemas próximos, novos para ela, como o è francês nas palavras
mais e mês. Notemos aliás que, para que a sensibilidade a lais diferenças
apareça, não basta ouvir falar muitas vezes uma língua; se não se tentar
aprendê-la, pode-se viver anos entre as pessoas que falam outra língua c
permanecer surdo às suas gradações fonéticas.

215Cf. B. M Teplov: “As aptidões e os talentos.” “Notas científicas do Instituto de


Psicologia”, t. H, Moscou. 1941
328 O Desenvolvimento do Psiquismo

Existe igualmente uma relação recíproca entre o desenvolvimento


das funções e o desenvolvimento da atividade: o desenvolvimento das
funções permite por sua vez à atividade correspondente realizar-se mais
perfeitamente. Assim, uma grande precisão na distinção das gradações de
tons é muitas vezes o resultado de uma atividade como a de bordar, mas
permite por sua vez combinar a escolha de cores no bordado, isto é,
executar mais perfeitamente esta atividade.
Da mesma maneira, o desenvolvimento das funções psicofisioió-
gicas da criança está normalmente ligado ao curso geral do desenvol­
vimento da sua atividade.

4. Para terminar, evocaremos a dinâmica geral do desenvolvimento


da vida psíquica na criança e resumiremos, pela última vez, algumas das
nossas posições fundamentais.
Tentemos, primeiro, dar um quadro das mudanças que
caracterizam globalmente o desenvolvimento psíquico da criança nos
limites de um estágio.
A primeira idéia e a mais geral que podemos avançar aqui é que as
modificações observadas entre o princípio e o fim de um estágio nos
processos psíquicos da vida psíquica da criança não são independentes uns
dos outros, mas estão interiormente ligados uns aos outros. Por outras
palavras, não constituem eixos independentes de desenvolvimento dos
diferentes processos (percepção, memória, pensamento etc.). Se bem que
estes eixos de desenvolvimento possam ser identificados, não c possível
encontrar imediatamente, quando analisadas, as relações que movem o seu
desenvolvimento. O desenvolvimento da memória, por exemplo, forma
naturalmente uma série coerente de mudanças, mas a sua necessidade não
é determinada pelas relações que surgem no próprio seio do
desenvolvimento da memória, mas por relações que dependem do lugar
que a memória ocupa na atividade da criança num dado estado do seu
desenvolvimento.
Assim, no estado pré-escolar, uma das modificações da memória
reside no aparecimento, na criança, da memorização e da evocação
O Desenvolvimento do Psiquismo 329

voluntárias. O desenvolvimento anterior da memória é condição necessária


para que se possa traduzir esta mudança, mas é determinado não por ela
mas pela distinção que se estabelece na consciência da criança entre dois
fins específicos: memorizar e lembrar-se. Assim, os processos da memória
mudam de lugar na vida psíquica da criança. Antes a memória só se
manifestava como função que servia um outro processo; doravante, a
memorização torna-se um processo próprio, com o seu fim, uma ação
interna que ocupa um novo lugar na estrutura da atividade da criança.
No decurso de experiências especiais com crianças em idade pré-
escolar, observamos o processo de transformação em ação própria de
memorização e da evocação.
Num jogo coletivo, a criança que tem o papel de “agente de
ligação” deve transmitir ao “estado maior” informações compostas sempre
da mesma frase inicial e de algumas significações de objetos devidamente
escolhidos (e de cada vez diferentes, bem entendido).
Os mais novos quando assumiam o papel de agente de ligação não
assumiam o conteúdo intrínseco. Este papel só tinha para eles um lado
êxtero-processual: correr ao estado maior, saudar etc. O lado intero-
processual que consistia em transmitir a comunicação, as informações etc.,
parecia não existir para eles. Por isso, corriam muitas vezes a executar a
sua missão sem mesmo a ter escutado até o fim.
Outros assumiam o conteúdo intero-processual do papel. Tinham
cuidado de transmitir efetivamente a comunicação mas o fim da
memorização do conteúdo não se destacava deles. Razão porque o seu
comportamento oferecia um quadro singular: eles escutavam a sua missão
até o fim, mas não faziam visivelmente nada para memorizar. E ao
transmitirem a mensagem não faziam qualquer tentativa para recordarem
ativamente o que tinham esquecido. Quando se lhes perguntava se havia
mais alguma coisa, respondiam geralmente: “Nada, é tudo”.
Os mais velhos comportavam-se de maneira diferente. Não só
escutavam a mensagem como tentavam memorizá-la. Isso traduzia-se por
vezes no fato de, após terem escutado a mensagem, se dirigirem para o
estado-maior mexendo os lábios e repetindo-a interiormente. Se se tentava
330 O Desenvolvimento do Psiquismo

dirigir a palavra à criança enquanto corria para o estado-maior, sacudia


negativamente a cabeça e prosseguia apressadamente o seu caminho. À
chegada, não se contentava em executar a sua missão mas tentava lembrar-
se do que tinha esquecido: ‘'Há ainda”... Era visível que fazia qualquer
coisa interiormente e que se esforçava por encontrar o que se faltava na sua
memória. A sua atividade interior visava um fim determinado: recordar-se
do conteúdo da mensagem.
Tal era a situação à partida. Com efeito, a experiência consistia em
colocar pacientes que não sabiam memorizar ativamente diante de
imperativos convenientes e em dar-lhes instruções complementares para
tentar isolar na sua consciência um fim particular: memorizar c incitá-los
assim à memorização voluntária.
Constatou-se que para que aparecesse subjetivamente à criança o
fim de memorizar, era preciso que a atividade em que se inseria o
problema objetivo correspondente revestisse um motivo suscetível de dar
um sentido, para a criança à memorização. Nas experiências descritas foi
preciso passar de um motivo relevante da aquisição do aspecto exterior do
papel a um motivo correspondente ao seu conteúdo interno. Incitá-la
apenas a “tentar memorizar” não produzia qualquer mudança neste aspecto
do seu comportamento. Estudamos, portanto, aqui o aparecimento da
memorização enquanto ação no processo de desenvolvimento da atividade
lúdica, mas não se exclui naturalmente que ela possa formar-se na criança
numa outra atividade.
Enfim, pareceu importante determo-nos aqui na transformação da
memorização, enquanto ação voluntária, consciente em operação
consciente.
Verifica-se que o processo de unia ação difícil para a criança (a
memorização) em operação não se realiza imediatamente e que é por vezes
preciso esperar pelo ensino escolar.
Como se explica isto?
Transformando-sc em operação, pode-se dizer que a ação ocupa
um lugar inferior na estrutura geral da atividade, mas isto não quer dizer
que ela se simplifique. Tornando-se operação, sai da esfera dos processos
O P c s e n v o /v ifn e n to d o P s iq u is m o 33!

conscientizados, mas conserva os traços fundamentais do processo


consciente e pode, a todo momento, em caso de dificuldade, por exemplo,
ser de novo conscientizada. E isto que explica porque nos casos em que
estamos perante um desenvolvimento de processos de tipo novo (o que é o
caso da memorização voluntária, na infância pré escolar), se observa uma
transição bastante longa, caracterizada pelo lato deste processo existir
enquanto ação, mas não enquanto operação. Se a criança se encontra
colocada diante de um fim especial — memorizar — a memorização e, por
consequência, a evocação tem o caráter de um processo voluntário
comandado. Se, peio contrário, este fim não é isolado, mas coberto por
outro fim designado simultaneamente, a memória reencontra então o seu
caráter espontâneo.
As observações feitas sobre a memória dos estudantes de sete anos
são muito significativas a este respeito: nos primeiros dias da sua vida
escolar, eles “esquecem” frequentemente o que devem fazer, isto quer
dizer que não estão à altura de se lembrarem voluntariamente do momento
desejado. A tendência específica das crianças nos seus primeiros dias de
escola conduz muitas vezes nelas a um esquecimento deste fim particular:
memorizar o que devem fazer; falta ainda em muitas crianças desta idade a
memorização voluntária sob a forma de operação ou (por analogia com o
termo bem conhecido de “atenção voluntária secundária”) a memória
voluntária “secundária”. Resulta daqui que, por um lado, a criança é
completamente açambarcada pelas exigências da escola (sabe-se até que
ponto o novo estudante é respeitador das instruções do mestre e como elas
são imperativas para ele), mas, por outro lado, não consegue lembrar-se
com precisão o que tem a fazer.
Em conclusão podemos traçar o quadro geral do desenvolvimento
dos diferentes processos da vida da criança no interior de um estágio da
seguinte maneira: o desenvolvimento da atividade dominante que
caracteriza um dado estado, o desenvolvimento correlativo de outros tipos
de atividade da criança determinam o aparecimento na sua consciência de
novos fins e a formação de novas ações correspondentes. Como o
desenvolvimento ulterior destas ações é limitado pelas operações que a
332 O Desenvolvimento do Psiquismo

criança já possui c pelo nível de desenvolvimento das suas funções


psicofisiológicas, nasce unia certa disparidade entre uma e outra, que se
resolve pelo ‘"acesso" das operações e funções ao nível requerido pelo
desenvolvimento das novas ações./Ássim, o jogo de tipo pré-escolar limita-
se, a princípio, quase exclusivamcrite a ações exteriores, executadas com a
ajuda de operações motrizes preparadas pelo jogo manipulatório da
pequena infância. Mas o novo tipo de jogo, o tipo pré-escolar, e o conteúdo
das novas ações que se desenvolvem exigem meios de realização
absolutamente diferentes. Forma-se de fato com extrema rapidez (de um só
"golpe", como se diz); c neste período, em particular, que se formam
rapidamente na criança as operações mentais internas.
Assim, no interior de um mesmo estado, o processo das mudanças
caminha, poder-se-ia dizer, em dois sentidos. De um lado, o das mudanças
primitivas na esfera das relações sociais da criança, o da sua atividade,
para o desenvolvimento das ações, das operações c das funções: é aspecto
decisivo, fundamental; por outro lado, o da reorganização das funções e
operações; é aspecto decisivo, fundamental: por outro lado, o da
reorganização das funções e operações que aparece secundariameute, no
desenvolvimento da esfera de atividade da criança. No quadro de um
mesmo estágio, as mudanças que seguem esta direção são limitadas pelos
imperativos da esfera de atividade que caracteriza o estágio considerado. A
transposição deste limite significa a passagem ao estágio superior de
desenvolvimento psíquico.
As passagens de um estágio a outro são caracterizadas por traços
opostos. As relações com o mundo circundante cm que entra a criança são,
por natureza, relações sociais. Pois é a sociedade que constitui a condição
real e primeira da vida da criança, lhe determina o conteúdo e a motivação.
Razão pela qual toda atividade traduz não apenas a relação da criança com
a realidade concreta, mas traduz também objetivamente as relações sociais
existentes.
Desenvolvendo-se a criança transforma-se finalmente cm membro
da sociedade, portadora de obrigações que ela lhe impõe. Os estágios
O Desenvolvimento do Psie/iiistno 333

sucessivos do seu desenvolvimento sito do lato graus diferentes desta


transformação.
Mas a criança não muda apenas eoneretamente o seu lugar no
sistema das relações sociais. Ela consciencializa igualmcnlo estas relações
e compreende-as. O desenvolvimento da sua consciência (raduz-se pela
mudança de motivação da sua atividade: os antigos motivos perdem a sua
força motora, nascem novos motivos que conduzem a uma reinterpretação
das suas antigas ações. A atividade que desempenhava precedentemente o
papel preponderante começa a eliminar-se e a recuar para segundo plano.
Aparece uma atividade dominante nova e com ela começa um novo estágio
de desenvolvimento. Estas passagens, contrariamente às transformações
que se efetuam num mesmo estágio, vão da mudança de ações, de
operações, de funções, à mudança global de atividade.
Assim, tome-se não importa o processo parcial da vida psíquica da
criança, a análise das forças motoras do seu desenvolvimento conduz-nos
inevitavelmente aos tipos de atividades fundamentais da criança, aos
motivos que as impulsionam e. portanto, por consequência, ao sentido que
têm para ela os objetos e os fenômenos do inundo que a rodeia. Deste
ponto de vista, o conteúdo do desenvolvimento psíquico da criança
residentes na mudança de lugar de processos psíquicos particulares na
atividade da criança e é disso que dependem os traços específicos que estes
processos adquirem nos diferentes graus de desenvolvimento. Em
conclusão, podemos sublinhar que estudamos aqui o desenvolvimento
psíquico apenas do ponto de vista dos processos do psiquismo, deixando
praticamente de lado a questão, muito importante, das relações recíprocas
internas entre a mudança da atividade da criança e o desenvolvimento da
imagem do inundo na sua consciência, a mudança da estrutura da sua
consciência. O estudo desta questão que exige que seja exposto primeiro o
problema psicológico da unidade de desenvolvimento dos conteúdos
sensíveis, da consciência, e das categorias (não idênticas) que damos pelo
nome de '‘significações” e “sentido”. Por lai motivo, esta questão não
podia entrar no âmbito do presente artigo.
«s p r e m í p i o s
d o d e s e n v o e v im e u t o
P S ÍftO C O
MA CRIANÇA
E « PRO BEEM A
D O S DEFICIENTES MENTAIS
O Desenvolvimento <Jo 1'sUimxmo 337

Milhares e milhares de crianças de todos os países do mundo


manifestam um atraso no seu desenvolvimento intelectual quando sob
todos os outros pontos de vista nada as distingue essencialmente das outras
crianças da sua idade. Estas crianças são incapazes de estudar com
resultados e em ritmos satisfatórios nas condições consideradas normais.
Mas quando são colocadas nas condições que Ilics convêm e lhes aplica
método de ensino especiais, a experiência mostra que em muitos casos
conseguem fazer consideráveis progressos e por vezes mesmo liquidar
completamente o seu atraso.
Tais casos merecem toda a nossa atenção. Obrigam a pensar
naqueles que permaneceram nas categorias dos deficientes mentais,
naqueles que estão sempre “abaixo do limiar”.
O seu atraso era efetivamente irremediável ou a sua sorte ficou à
dever-se à ação de más condições ou de acasos infelizes, condições que
poderiam mudar, acasos que se poderiam afastar no decurso do seu
desenvolvimento?
Isto levanta uma outra questão: será bom misturar os médicos e os
psicólogos do problema da deficiência mental, saber qual o valor dos seus
diagnósticos, das suas previsões e dos seus métodos de seleção; qua! é no
fim das contas, o resultado das suas intervenções? Conduzirá a uma
redução do número de crianças com atraso no seu desenvolvimento mental
ou não terá por vezes o resultado contrário?
Assim posta, a questão parece exagerar o perigo e não se justifica.
Ela tem, todavia, fundamento. Numerosos fatos testemunham, com efeito.
338 O Desenvolvimento do Psiquismo

que a aplicação dc testes psicológicos {muito espalhada em vários países)


na seleção de crianças em função das suas disposições intelectuais barra o
caminho a uma formação de qualidade não só em presença de deficiências
orgânicas mas também à aqueles que. superadas as primeiras dificuldades
podiam fazê-lo. Seria, aliás, errôneo atribuir este resultado apenas à
imperfeição técnica dos métodos de diagnóstico e seleção. Estes latos têm
uma causa mais profunda. Trata-se de uma má compreensão da natureza da
“subnormalidade” que levanta por sua vez os pontos dc vista teóricos
errados sobre os processos de desenvolvimento mental da criança.
Vou falar da concepção da deficiência mental que parte da idéia
que o desenvolvimento psíquico da criança é determinado por dois tipos de
fatores: fatores endógenos, biológicos, os da hereditariedade em particular,
e fatores exógenos, os fatores do meio.
Esta concepção está muito espalhada e está conforme com a
simples constatação de fatos evidentes. Razão por que a discussão só
incide o mais das vezes sobre a importância respectiva dos fatores
endógenos e exógenos, sobre o papel respectivo, no desenvolvimento
intelectual da criança, das suas particularidades biológicas, por um lado. c
do meio social, por outro. Certos autores atribuem um pape! decisivo aos
fatores biológicos, outros aos fatores sociais, outros ainda defendem a idéia
de uma convergência ou coincidência destes fatores. As diferentes teses
propostas no quadro desta concepção global são suficientemente
conhecidas para que nelas me detenha.
Com efeito, se subsistem certas diferenças entre elas, do ponto de
vista teórico, todas fornecem, quanto ao fundo, a mesma resposta à questão
das causas da deficiência mental. Pois se se aplica um critério pré-citado, a
saber: o atraso de uma criança em relação ao nível médio atingido pelas
criança da mesma idade em condições exteriores semelhantes apoiando-se
simplesmente na teoria dos “dois fatores” de desenvolvimento, torna-se
impossível levar em linha de conta o papel dos fatores do meio. Quando
não se conseguem detectar, como é muitas vezes o caso da criança com
lógicas evidentes, admite-se então que o seu atraso se deve à influência de
O Desenvolvimento do Psiquismo 339

fatores internos, tais como as possibilidades naturais de que é dotada. Dai


nasce a prática dos testes destinados a medir o “quociente de inteligência .
Os resultados obtidos por este tipo cie testes apenas nos dão, no
melhor dos casos, uma indicação extremamente superlicial sobre o nível
de desenvolvimento. Nada revelam, evidentemenle, sobre a natureza da
deficiência e nada podem explicar. Criam apenas a ilusão de Uma
explicação. Por isso, não fornecem qualquer indicação sobre os métodos a
empregar para superar a deficiência intelectual dc uma criança ou de um
grupo de crianças. Bem pelo contrário, ao pretender estudar um fator ativo
pretensamente estável e fornece as indicações prognosticas decisivas,
defendem a idéia de uma fatalidade da deficiência mental e refreiam assim
o desenvolvimento de métodos pedagógicos ativos, científicos e
diferenciados destinados à crianças diminuídas.
O mais grave é que a sorte de uma criança sc decide muitas vezes
em função de um “quociente de inteligência” assim estabelecido. E isto a
despeito do fato de ter sido provada a variabilidade deste coeficiente não
só pela prática, como também em investigações especiais incidindo, em
particular, sobre gêmeos.
Parece-nos que é nossa obrigação, portanto, pôr em causa as
concepções tradicionais e que há sobretudo que redefinir o progresso de
desenvolvimento mental na criança.
O objetivo é formular certos princípios do desenvolvimento que
permitam, na minha opinião, eliminar uma parte das dificuldades com que
chocam aqueles que consagram os seus esforços aos deficientes mentais.
Contentar-me-ei em estudar os princípios mais importantes.

1. O desenvolvimento mental na criança enquanto processo de


apropriação da experiência humana

O desenvolvimento mental da criança c qualitativamente diferente


do desenvolvimento ontogênico do comportamentç nos animais. Esta
diferença provém, sobretudo, da ausência nos animais, dc um processo
340 O Desenvolvimento do Psiquismo

essencial no desenvolvimento da criança: o processo de apropriação da


experiência acumulada pela humanidade ao longo da sua história social.
Desde o nascimento, a criança é rodeada por um mundo objetivo,
criado pelos homens: são objetos correntes, as roupas, os instrumentos
mais simples, a língua c as concepções, as noções, as ideias que o refletem.
Os próprios fenômenos naturais encontra-os a criança nas condições
criadas pelos homens: as roupas protegem-na do frio, a iluminação
artificial afasta as trevas da noite. Pode dizer que a criança começa o seu
desenvolvimento psíquico num mundo humano.
Será todavia o desenvolvimento da criança um processo de
adaptação a este mundo? Eu afirmo que a despeito dc uma idéia muito
generalizada, a noção de adaptação não traduz, o que há de essencial no
desenvolvimento psíquico da criança. À criança não se adapta ao mundo
dos objetos e fenômenos humanos que a rodeiam, fá-lo seu, isto é,
apropria-se dele.
A diferença no processo de adaptação, no sentido em que esse
termo é empregado para os animais, e o processo de apropriação é a
seguinte: a adaptação biológica é um processo de modificação das
faculdades e caracteres específicos do sujeito e do seu comportamento
inato, modificação provocada petas exigências do meio. A apropriação c
um processo que tem por resultado a reprodução pelo indivíduo dc
caracteres, faculdades e modos dc comportamento humanos formados
historicamente. Por outros termos, é o processo graças ao qual se produz
na criança o que, no animal, é devido à hereditariedade: a transmissão ao
indivíduo das aquisições do desenvolvimento da espécie.
Consideremos um exemplo simples. No mundo que a rodeia a
criança encontra a linguagem que é o produto objetivo da atividade das
gerações humanas precedentes. No decurso do seu desenvolvimento, a
criança faz dela a sua língua. Isto significa que nelas se formam aptidões e
funções especificamente humanas, tais como compreender a linguagem e
falar, e funções como o ouvido verbal e a articulação.
Já se disse que estas aptidões e funções não são inatas e se formam
por ontogênese. O que provoca a sua formação? Primeiro, é a própria
O Desenvolvimento Jo Psiquismo 341

existência, no mundo circundante, da linpiia. Quanto às características


biológicas hereditárias da criança, elas sào apenas a condição necessária da
formação destas faculdades e funções.
Assim, por exemplo, para que o ouvido verbal se forme na criança
é necessário que ela possua os órgãos do ouvido e os órgãos que
participam na articulação. Todavia, só a existência objetiva de sons verbais
no mundo que a rodeia pode explicar que nela se forme o ouvido verbal.
As próprias qualidades deste ouvido, que pode ser de dominante timbrai ou
tonal, os fonemas que ele poderá diferenciar, dependerão das
características fonéticas da língua que a criança aprende.
Em que consiste, portanto, a apropriação pelos indivíduos da
experiência acumulada pelos homens no decurso da história da sociedade
humana e concretizada nos produtos objetivos da sua atividade coletiva,
apropriação que c ao esmo tempo um processo de formação das faculdades
e funções humanas?
Sublinhemos antes de mais nada que se trata sempre de um
processo ativo. Para se apropriar de um objeto ou um fenômeno, há que
efetuar a atividade correspondente à que é concretizada no objeto ou
fenômeno considerado. Assim, dizemos que uma criança se apropria de um
instrumento, isto significa que aprendeu a servir-se dele corretamente e já
se formaram nela as ações e operações motoras e mentais necessárias para
esse efeito.
Poderão formar-se estas ações e operações na criança sob a
influência do próprio objeto? Visivelmente que não. Objetivamente, estas
ações e operações são concretizadas, dadas no objeto, mas subjetivamente
elas são apenas propostas à criança,
O que conduz então ao desenvolvimento, na criança, das ações e
operações requeridas e à formação das faculdades e funções necessárias à
sua realização? Pelo fato de as suas relações com o mundo circundante
serem mediatizadas pelas suas relações com os homens é que ela entra em
comunicação prática c verbal com eies,
Vejamos agora como c que uma criancinha se apropria de uma
coisa tão simples como urna colher, por exemplo.
342 ü Desenvolvimento do Psiquismo

Comecemos por uma situação imaginária.


A criança nunca viu uma colher, e pôé-se-lhe uma nas mãos. Que
vai fazer com cia? Começará por a manipular, deslocá-la, martelar com
ela, tentai' metê-la na boca etc. Por outras palavras, não a verá do ponto de
vista dos modos de utilização elaborados pela sociedade, caracterizados
nas suas características exteriores, mas do ponto de vista das suas
propriedades físicas, “naturais”, não específicas.
Passemos agora a uma situação real. A mãe ou a ama alimenta a
criança à colher; depois põe-lhe a colher na mão e ela tenta comer sozinha.
A princípio, observamos que os seus gestos seguem o processo natural
pelo qual “se leva à boca o que se tem na mão”. A colher não se mantém
horizontal na mão c o alimento cai. Mas a mãe ajuda a criança, intervém
nas suas ações; na ação comum que daqui resulta, forma-se na criança o
hábito de utilizar a colher. Ela sabe doravante manejar a colher como um
objeto humano.
Este exemplo leva-me a pôr outra questão. Pode-se supor que o
hábito de se servir de uma colher se possa transformar numa criança tora
de toda a comunicação, fora da ação comum com os adultos, à maneira
como se formam as práticas nos animais? Teoricamente, é evidente que
podemos supô-lo. E na prática pode-se mesmo colocar uma criança em
condições tais que esta via seja a única via possível. Mas é uma suposição
perfeitamente abstrata. Com efeito, a criança não pode viver e
desenvolver-se fora da comunicação prática e verbal com os adultos.
Suponhamos, todavia, que a criança se veja forçada a elaborar
sozinha ta! ou tal prática, tal ou tal aptidão, pela razão, por exemplo, de
que os métodos aplicados por aqueles que a ajudam, os adultos que a
rodeiam, não são suficientemente acessíveis. Pode esperar-se um resultado,
mas após quanto tempo, e qual será o seu atraso em relação a uma criança
mais feliz a quem “inteligentemente se guiou a mão”!...
Para não complicar esta explicação, tomei o exemplo da formação
dc operações motoras. Mas o que foi dito c ainda mais evidente no que
toca à aprendizagem de ações mentais como a leitura, a escrita ou o
cálculo. É ainda mais evidente neste caso que a formação destas ações
O Di'scnvotviinchlo do l ’xU/uixino- 343

constitui um processo de apropriação de operações ipic se formam peia


experiências das gerações precedentes e elas apenas podem formar-se na
criança se lhas ensinarmos, se se orientar a sua atividade: de maneira
determinada e se se construir a sua ação. Mas voltaremos ao processo de
formação de tais operações.
Resta-me abordar uma última questão, a do papel da experiência
individual, em sentido estrito, no desenvolvimento da criança. Tentei
mostrar que o processo da apropriação pela criança da experiência das
gerações precedentes é um processo específico, distinto, tanto pelas suas
condições como pelos seus mecanismos, do processo da formação da
experiência individual e dos processos de adaptação nos animais. Ao
mesmo tempo participam no desenvolvimento da criança os mecanismos
de aquisição da experiência individual. Eles só desempenham, vimo-lo, o
papel de mecanismos particulares no que toca ao processo de apropriação.
Por outro lado, preenchem a função que indiquei: permitem a adaptação da
experiência ftlogênica às condições mutantes do meio. No homem, é
igualmente o caso da experiência histórica de que ele se apropria no
decurso da vida.
O que se acabou de 1er pode, portanto, resumir-se nos pontos
seguintes .
() processo principal que caracteriza o desenvolvimento psíquico
da criança é um processo específico de apropriação das aquisições do
desenvolvimento das gerações humanas precedentes; estes conhecimentos
adquiridos, diferentemente do desenvolvimento fílogenético dos animais,
não se fixam morfologicamente e não se transmitem por hereditariedade.
Este processo realiza-se na atividade que a criança emprega
relativamente aos objetos e fenômenos do mundo circundante, nos quais se
concretizam estes legados da humanidade. Todavia uma tal atividade não
pode formar-se por si mesma na criança, ela forma-se pela comunicação
prática e verbal com as pessoas que a rodeiam, na atividade comum com
elas; dizemos que a criança aprende e que o adulto ensina quando o fim
desta atividade c precisamente transmitir conhecimentos práticos e
aptidões.
344 O Desenvolvimento do Psiquismo

Parece por vezes que neste processo a criança apenas se limita a


pôr em açao funções e aptidões de que a natureza a dotou, que o seu êxito
depende delas. iVlas não é nada disso. As suas aptidões humanas formam-
se no próprio decurso deste processo. Aqui reside o conteúdo do segundo
princípio característico do desenvolvimento psíquico da criança, a cuja
exposição vou agora passar.

2. O desenvolvimento de uma aptidão como processo de formação de


sistemas cerebrais funcionais

Admitimos que as aptidões e funções psíquicas formadas no


decurso do desenvolvimento sócio-histórico são reproduzidas pelos
indivíduos não devido à hereditariedade biológica, mas às aquisições no
decurso da própria vida; mas uma questão extremamente complexa surge
então: a do fundamento anátomo-fisiológico destas aptidões e funções.
De um ponto de vista materialista, científico, não poderia admitir-
se a existência de aptidões ou funções que não tivessem o seu órgão
especializado. Razão por que se tentou, há muito tempo já, localizar tais ou
tais processos psíquicos superiores em determinadas estruturas cerebrais,
fixadas na morfologia. A existência no homem de tais ou tais aptidões ou
funções dependeria da presença de estruturas cerebrais inatas
correspondentes, que seriam os órgãos específicos destas funções. Esta
concepção era mesmo extensiva a aptidões que só podiam aparecer, no
homem, no processo de desenvolvimento da sociedade. Por outras
palavras, admitia-se que cias se determinavam diretamente por
hereditariedade.
lodavía, se podemos aceitar a primeira proposição, a saber que
toda a aptidão ou função é produto de um dado órgão, a segunda
proposição, essa só pode ser aceita com reservas. Ela contradiz com efeito
uma série de fatos bem estabelecidos,
Como conciliar a idéia de que as funções psíquicas superiores do
homem têm um fundamento morfofisiológico, com a afirmação segundo a
O Desenvolvimento do Psiquismo- 345

qual estas funções não se luxam morfologicamente e não .se transmitem a


não ser por hereditariedade social?
Este problema pôde ser resolvido, por um lado, graças ao
desenvolvimento da fisiologia da atividade nervosa superior (quero
sobretudo falar dos trabalhos de Setchenov, de Pavlov e de seus
sucessores, em particular P. K. Anokhine e A. A. Oukhtomsky); e, por
outro, graças às numerosas investigações psicológicas consagradas à
formação e à estrutura das funções psíquicas complexas do homem (citarei
os trabalhos de L. S. Vygotsky (1 896 - 1934) e dos seus colaboradores).
A solução proposta consiste em dizer que ao mesmo tempo em que
se formam na criança os processos psíquicos superiores especifícamente
humanos, aparecem igualmente os órgãos funcionais do cérebro que os
realizam, a saber: as associações ou sistemas reflexos estáveis que
permitem a execução de determinados atos.
Encontramos já esta capacidade de formação de sistemas cerebrais
funcionais nos animais superiores. Mas só no homem se tornam
verdadeiras neoformações do seu desenvolvimento psíquico, tornando-se a
sua formação o princípio essencial do processo ontogênico.
Os dados de que dispomos permitem-nos caracterizar com maior
precisão estes órgãos funcionais que aparecem no decurso da vida.
A sua primeira característica é que uma vez formados funcionam
como um órgão global.
Por esta razão, os processos psíquicos que eles realizam tomam o
caráter de atos quase imediatos, traduzindo uma aptidão particular, por
exemplo, a de avaliar diretamente as relações espaciais, quantitativas ou
lógicas.
Caracteriza-os, além disto, uma relativa estabilidade. Ela traduz-se
no fato dc que se bem que estes sistemas funcionais resultem da formação
de ligações reflexas condicionais, eles não se extinguem como os reilexos
condicionais. Sabe-se, por exemplo, que a faculdade de visualizar formas
percebidas pelo tato se forma no decurso da vida, e falta, portanto,
totalmente nas crianças cegas de nascença; mas naquelas que perderam a
vista depois de nelas sc ter formado esta faculdade, ela conserva-se durante
346 O Desenvolvimento do Psiquismo

dezenas de anos se bem que nenhum reforço das ligações táteis e ópticas
possa evidentemente intervir.
A sua terceira característica é que são suscetíveis de reorganização
e os seus diferentes componentes podem ser substituídos por outros,
contanto que o sistema funcional considerado se mantenha como um todo.
Por outros termos, eles contêm imensas possibilidades de compensação.
Antes de mostrar como se íaz a reorganização destes órgãos
funcionais devemos estudar os seus processos de formação.
Formam-se segundo o mecanismo geral dc formação das
associações condicionais, mas a sua formação difere, todavia, da das
cadeias de reflexos condicionais habituais, dos estereótipos.
As associações que os constituem não reproduzem simplesmente a
origem dos agentes exteriores, mas associam num sistema único atos
reflexos relativamente autônomos com os seus efeitos motores
desenvolvidos e as suas aferentações de retorno; ao mesmo tempo, a sua
associação passa pela associação dos seus efeitos motores.
No processo de formação desta nova ação “composta”, os efeitos
motores destes atos associam-se entre si. Uma determinada ação,
constituindo um sistema motor funcional tem sempre, a princípio, uma
forma exterior desenvolvida ao máximo. Depois as diferentes componentes
êxtero-motoras desta ação reduzem-se e as suas ligações não são mais que
intracerebrais, centrais. É toda ação que se reduz, que se elabora e que se
torna automática.
Compreende-se que entrando na composição de uma nova ação os
diferentes atos reflexos, iniciahnente autônomos, perdem o seu valor
adaptativo, por redução dos seus elos êxtero-moíores. Razão por que um
reforço ou um não reforço apenas pode incidir doravante sobre o efeito
final da ação considerada no seu conjunto. Daí provém a dinâmica
particular destes sistemas funcionais. Os dados experimentais mostram que
o reforço do elo fina! do sistema conduz à inibição de um número sempre
maior dc encadeamentos e finalmente ao seu aperto, ao passo que a
ausência de reforço provoca, pelo contrário, a sua desinibição. Isto deve-se
O Desenvolvimento do Psiquismo 34 7

sem dúvida ao fato da inibição do último elo do sistema provocar, segundo


o princípio da indução, a excitação dos elos que estavam inibidos.
Exteriormente, esta dinâmica particular toma a seguinte forma: se
as ações que constituem um sistema funcional encontram uma dificuldade,
elas têm tendência para se manifestar. Se produzem, pelo contrário, o
efeito final requerido, concentram-se cada vez mais ate ao momento em
que deixam de dar o resultado pretendido; então os elos que foram os
últimos a ser inibidos são desinibidos e o sistema torna a ser de novo
eficiente.
No nosso laboratório da Universidade de Moscou pudemos seguir
em detalhe a formação de alguns sistemas funcionais sensoriais, em
particular o sistema do ouvido tonal. Conseguimos reagrupar ativamente o
ouvido dos nossos pacientes pela exteriorização e regulação da sua
principal componente motriz (regulação da emissão vocal do som
percebido sobre a sua altura fundamental). Nas últimas experiências
tentamos substituir este componente por outro, que era um esforço tônico
adequado dos músculos da mão, especialmente afinado para os fins da
experiência. Os primeiros dados destas experiências confirmaram a
possibilidade de operar uma detreminada substituição,
Estas investigações e as de outros autores com pacientes normais,
mas também as pesquisas de À. R. Louria e seus colaboradores com
crianças diminuídas mentais permitem, em resumo, enunciar as
preposições que se seguem.
A criança não nasce com órgãos aptos a realizar de repente as
funções que são produto do desenvolvimento histórico dos homens e se
desenvolvem no decurso da vida pela aquisição da experiência histórica.
Os órgãos destas funções são sistemas cerebrais funcionais
(“órgãos fisiológicos móveis do cérebro”, segundo a expressão de A. A.
Oukhtomski) que se formam no decurso do processo específico da
apropriação, descrito mais acima.
O seu estudo mostra que a sua formação não se faz da mesma
maneira em todas as crianças; segundo o modo como se processa o seu
desenvolvimento, as condições em que eia se faz, podem ser formados de
348 O Desenvolvimento do Psiquismo

maneira inadequada ou não se formar mesmo (a “surdez” tonal é um


exemplo).
Em semelhante caso, a análise minuciosa da estrutura dos
processos correspondentes permite reagrupar ativamente ou re-formar os
sistemas e órgãos funcionais em que assentam.
Isto não toca apenas aos sistemas puramente motores e sensoriais,
mas também aos sistemas governados pela palavra (A. R. Louria) e a
própria palavra.
O processo de formação das operações conceituais internas é mais
complexo: requer, portanto, um estudo particular.

3 . O d e s e n v o lv i m e n to in te le c tu a l d a c r ia n ç a e n q u a n to p r o c e s s o d e
f o r m a ç ã o d e a ç õ e s m e n ta is

Vimos que o desenvolvimento psíquico da criança se fa/.ia no


decurso da comunicação, inicialmente prática. Mas a criança entra muito
cedo em comunicação verbal com os que a rodeiam. Trava conhecimento
com as palavras, começa a compreender a sua significação e a utilizá-las
ativamente na sua linguagem. A apropriação da linguagem constitui a
condição mais importante do seu desenvolvimento mental, pois o conteúdo
da experiência histórica dos homens, da sua prática sócio-histórica não se
fsxa apenas, é evidente, sob a forma de coisas materiais: está presente
como conceito c reflexo na palavra, na linguagem. É sob esta forma que
surge à criança a riqueza do saber acumulado pela humanidade: os
conceitos sobre o mundo que a rodeia.
A tarefa da criança consiste em apropriar-se destes conhecimentos,
destes conceitos. Deve efetuar para isso processos cognitivos adequados
(mas não idênticos, evidentemente) aos processos que produziram os
conceitos considerados.
Como é que se formam na criança estes processos cognitivos
intelectuais?
O Ih\wnvt)lvimento do /'siquisnw 349

Para já devemos rejeitar aqui duas hipóteses plausíveis, mas que


não resistem à análise.
A primeira defende que a criança possui de maneira inata as
funções intelectuais e as operações cognitivas que são simplesmente
ativadas pela ação dos fenômenos exteriores.
A segunda, muito espalhada, afirma que as operações mentais se
formam na criança a partir da sua experiência individual própria, que a
criança está submetida no processo de ensino a ações em que a repetição e
o reforço acarretam a formação de novas ligações ou associações
condicionais e que a sua atividade intelectual nada mais é que uma simples
reprodução destas ligações ou associações.
Esta idéia está em contradição com os fatos. Pois seriam precisos
uma experiência considerável e um tempo extremamente longo para que os
processos intelectuais se formassem desta maneira. Ora, a formação dos
processos intelectuais apoia-se numa experiência individual relativamente
reduzida e é de fato muito rápida. Porque a criança se apropria da
experiência sob a forma de conceitos já existentes. Todavia estes conceitos
não poderiam ser transmitidos à criança sob uma forma acabada. Segue-se
que se podem formar na criança associações do tipo três mais quatro igual
a sete ou cinco menos dois igual a três etc., mas isso não significa que ela
se apropriou das operações aritméticas correspondentes e da noção do
número. Por isso o ensino da aritmética não começa por aí, mas pela
formação ativa na criança de operações com objetos exteriores que são
manipulados e enumerados. Depois, estas operações exteriores
transformam-se pouco a pouco em operações verbais (“cálculo em voz
alta”) reduzem-se e adquirem finalmente o caráter de operações interiores
(“cálculo mental”), que tomam a forma automatizada de simples atos
associativos. Eles recobrem todavia as ações desenvolvidas (com os
objetos) que se tinham começado por formar na criança. E estes atos
podem ser sempre desenvolvidos de novo e exteriorizados.
A apropriação dos conceitos, das noções, dos conhecimentos,
supõe, portanto, a formação na criança das operações mentais adequadas. E
para isso, elas devem ser elaboradas nela ativamente. Elas aparecem,
350 O Desenvolvimento do Psiquismo

primeiramente, sob a forma de ações exteriores, que o adulto forma na


criança e que em seguida apenas são transformadas em operações
intelectuais interiores.
Este processo foi bastante bem estudado por P. I. Galperine e seus
colaboradores. Ele começa pela orientação preparatória da criança na sua
tarefa — na ação que lhe é mostrada e no seu produto. Isto constitui o
“fundamento orientador” das primeiras ações que a criança aprende a
executar. Vimos que elas são realizadas sob a forma de operações
exteriores com objetos, com a ajuda direta do adulto. Neste estágio, já a
sua transformação está cm curso: a criança aprende a executá-las sozinha,
elas tomam um caráter mais geral e a sua redução começa. No estágio
seguinte, as ações passam para o plano da linguagem, são verbalizadas. A
criança aprende a contar em voz alta sem o suporte de objetos exteriores. A
ação torna-se uma ação teórica: trata-se agora de uma ação com palavras,
com conceitos verbais. Esta transformação segue o curso acima indicado e
automatiza-se progressivamente. Só na etapa seguinte a ação é
inteiramente transposta para o plano mental e sofre novas modificações até
que adquire todos os traços característicos dos processos interiores do
pensamento. Segue-se que nesta etapa também ela pode ainda ser corrigida
e controlada por um adulto, o que exige que seja re-exteriorizada,
transposta para o plano oral, por exemplo.
Dei apenas um esquema geral das operações do pensamento. Não
'tendo a possibilidade de o examinar em mais detalhes, limitar-me-ei a
algumas observações.
A primeira é que este processo nem sempre passa por todas as
etapas indicadas e pode começar diretamente pela formação no plano da
linguagem, o que depende do nível inicial do desenvolvimento mental na
criança.
Segundo, este processo global pode apresentar diferentes tipos de
desenvolvimento. Mo que toca às crianças diminuídas mentais, quero fazer
as observações que se seguem. Se o ensino tem por fim dar à criança tais
ou tais conhecimentos sem conceder muita atenção ao meio. às operações
que a criança utiliza para resolver os problemas escolares que lhe são
() Desenvolvimento do Psiquismo 351

postos sc não se assegurar que a transformação necessária numa dada etapa


só se fará no devido momento, pode ficar perturbado o desenvolvimento
destas operações.
Para me fazer compreender bem, estarei uma pequena experiência
que fiz numa escola de deficientes mentais.
Tinha observado que os estudantes, para somar números, se
serviam às escondidas dos dedos. Pedi então que me trouxessem alguns
pires, dei dois a cada aluno e disse-lhes para os porem em cima da mesa
quando respondiam. () resultado é que a maioria dos alunos foi incapaz de
somar. Uma análise mais profunda mostrou que estes alunos tinham ficado
de fato no estágio das operações exteriores do “calculo por unidades” c que
não tinha ocorrido neles a passagem à etapa seguinte. Razão por que não
podiam progredir em aritmética para além da primeira dezena sem uma
ajuda particular. Era preciso, por conseguinte, não fazê-los avançar, mas,
pelo contrário, fazê-los regressar à etapa iniciai das operações exteriores
desenvolvidas, “desenrolar” corretamente estas operações e transportá-las
para o piano verbal, isto é, edificar de novo neles a faculdade de “contar dc
cabeça”.
A experiência mostra que uma tal reorganização dá bons
resultados, mesmo com crianças bastante diminuídas mentalmente. Mas
em caso de atraso pouco importante do desenvolvimento mental, isso
permite superá-lo totalmente.
Evidentemente que esta intervenção no processo de formação de
operações mentais deve ter lugar no devido tempo, pois se não percorrer
uma dada etapa da formação de um dado processo este não se forma
corretamente (a não ser por vezes, de modo absolutamente fortuito), ele
não pode desenvolver-se normalmente, daí resultando a impressão de
estarmos perante uma deficiência mental na criança, impressão sem
fundamento na realidade.
Devemos do mesmo modo terem conta todos estes elementos para
resolver a questão dos métodos dc estudo do desenvolvimento intelectual
da criança. Os testes dc inteligência apenas nos fazem verificar que a
criança resolve certos problemas e outros não, mas nada revela sobre as
.1.52 O Desenvolvimento cio Psiquismo

particularidades dos processos psíquicos; devem, portanto, ser rejeitados


para a avaliação das aptidões mentais da criança, sobretudo quando se trata
de um fraco atraso.
Acrescentarei, à guisa de conclusão, que os princípios de
desenvolvimento psíquico da criança para os quais quis chamar a atenção
não esgotam, bem entendido, todas as dificuldades deste processo. Além
disso, tive que prescindir de bom número de questões importantes que o
problema da deficiência mental levanta. A fim de prevenir lodo o mal­
entendido, citarei as mais importantes destas questões, trata-se, sobretudo,
da influência das condições sociais em que a criança se desenvolve e de
que depende a sua receptividade aos métodos pedagógicos ativos e
eventualmente a necessidade de uma ajuda pedagógica especial. A segunda
questão é a das disposições biológicas e das particularidades intelectuais,
sobretudo as que pertencem à atividade nervosa superior, que é impossível,
bem entendido, não levar em conta. C, por fim, há que ver a importância
das questões que tocam às particularidades emocionais e ao campo das
motivações da personalidade da criança.
Pondo de parte todas estas questões, tentei sublinhar o essencial: a
existência de largas possibilidades, infelizmente nem sempre exploradas,
de pedagogia corretiva, que o estudo do processo de desenvolvimento
psíquico evidencia, e o caráter inadmissível dos diagnósticos e
prognósticos precoces desprovidos de fundamento sério.
Podem-me censurar num certo otimismo pedagógico e psicológico
exagerado. Mas essa censura não me mete medo, pois este otimismo
assenta em dados científicos objetivos e encontra confirmação completa na
prática pedagógica de vanguarda.

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