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A performance " no minuto inconsciente...

" (2012) consiste na execução de


uma composição musical desenvolvida a partir da pesquisa vocal de dois atores. O
objetivo desta pesquisa é criar metodologias para o desenvolvimento de figuras
livres dos modelos arquetípicos provenientes da tradição do teatro
representativo/realista. Desenvolvem-se assim processos que permitem a geração
de comportamentos corporais que surgem de proposições do próprio corpo do ator
(e não de imagens abstratas como é usual em algumas escolas do teatro
representativo) e que, assim, lhe permitem explorar as potencialidades do seu
corpo e de sua voz como um fim em si.
A estratégia para alcançar estas figuras não representativas é realizada por
uma pesquisa vocal. Através da repetição e intensificação da articulação de
consoantes pré-estabelecidas, que as transforma em estímulos fisiológicos que
reverberem em todo o corpo, um texto começa a ser conquistado. Este processo
gera sua própria rede de causalidades que são compreendidas pelo corpo como
ritmos e gestualidades que desembocam em um comportamento corporal não
anteriormente vivenciado pelo ator. É apenas neste estado que o texto começa a
ser recitado. O ator entra assim numa espécie de transe consciente, já que deve
estar sempre atento às sugestões de seu corpo e procurar vivencia-las por tempo
suficiente para que não termine o processo cedo demais, o que resultaria em um
não aproveitamento das suas possibilidades. Esta operação permite ao ator
alcançar estados corporais e vocais que não alcançaria se partisse dos
pressupostos das técnicas representativas.
Reconhecendo nesta pesquisa um dialogo interessante com o universo de
pesquisa de técnicas estendidas para voz desenvolvidas no sec. XX (como os
trabalhos realizados por Georges Aperghis, Luciano Berio, Cathy Berberian, Peter
Maxwell Davies, dentre outros) e dialogando com as proposições Schaefferianas
sobre a possibilidade de construir estruturas musicais sem partir do paradigma da
nota musical, foram realizados diversos exercícios para potencializar as
capacidades do instrumento vocal vivenciado pelos atores, pensando-o como um
laboratório de timbres, uma espécie de ‘‘estudio orgânico’’ de música
eletroacústica. A partir destes exercícios desenvolveu-se também um universo de
signos que permitiram o trabalho composicional da escritura e a criação da
partitura final. Esta escritura serviu tanto para dar forma à obra e guiar os
ensaios/criações quanto para proporcionar um jogo de conversão enriquecedora
das diferentes vivencias: O corpo e a escrita. O conflito entre o formato tradicional
de concerto (um regente e dois "cantores") e o trabalho corporal desenvolvido
pelos atores gera o interesse cênico para a performance musical.