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Harmônicos de Tensão no Setor Elétrico – Verificação da

Instrumentação em Campo

Márcio Antônio Sens e Leonardo Philippi Sens


sens@cepel.br e philippi-bolsista@cepel.br

Resumo – O presente artigo técnico trata da medição de harmônicos em altas tensões


alternadas, com ênfase nos sensores e divisores de tensão e, especialmente, do modo de
verificação da instrumentação normalmente utilizada para a avaliação da qualidade da energia
em conexões de parques eólicos com o Sistema Interligado Nacional – SIN.
Palavras-chave: Harmônico; transformador; divisor de tensão; calibração; TPC; TPI.

1 Introdução
Existe uma crescente preocupação dos organismos reguladores do sistema elétrico nacional com o
conteúdo de harmônicos na tensão elétrica das linhas de transmissão [1]. Também existem
preocupações quanto aos harmônicos nas correntes de cargas conectadas ao Sistema, mesmo de uma
simples lâmpada LED [2], como de fato ocorre [3]. As maiores preocupações do momento devem-se aos
parques eólicos que surgem se conectando ao Sistema Interligado Nacional – SIN, e existem nítidas
divergências de opiniões sobre as necessidades da instalação de filtros para a correção da onda da
corrente que flui entre os parques eólicos e o SIN. Do mesmo modo, as opiniões divergem sobre as
técnicas sugeridas para a distinção e atribuição da responsabilidade pelos transtornos detectados na
tensão nos pontos de interligação com a rede [4].
No entanto, não se encontram, claramente, os procedimentos de medição de distúrbios ou de
harmônicos nas redes elétricas e, tampouco, como devem ser calibrados os sistemas de medição,
mesmo com a existência de normas e portarias específicas [2]. Levantamentos de fatores de correção,
em distintas frequências, para divisores de tensão, são sugeridos, sem muitos detalhes de como podem
ser obtidos.
Outra questão em que há divergências diz respeito às possibilidades de uso dos transformadores de
potencial, de qualquer tipo, para a medição de harmônicos nas linhas de alta tensão. Recentes
publicações [5] indicam a possibilidade de uso do transformador de potencial indutivo – TPI na
medição relativa de harmônicos em alta tensão e descartaram as possibilidades de uso dos
transformadores de potencial capacitivo – TPC para tais medições. Em análise comparativa entre
instrumentos de medição de qualidade de energia, publicada, adotou-se uma onda de corrente quase
quadrada nos ensaios [5]. Já outro estudo, mais recente [6], sugere o uso de uma onda de corrente padrão
gerada por uma lâmpada LED para comparar analisadores de harmônicos de corrente elétrica.
Nesse contexto, o presente trabalho mostra o comportamento de algumas amostras típicas de
transformadores de potencial, tanto indutivo, quanto capacitivo, em frequências de até 2400 Hz
(harmônico de ordem 40) quando alimentados pelo lado de alta tensão, em níveis de tensão bem
inferiores à tensão nominal, para verificar as possibilidades de uso como divisor de tensão em sistemas
de avaliação da qualidade da energia. O artigo também mostrará um procedimento para calibração de

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sistemas de medição de harmônicos de tensão que independa de instrumentos de referências. Entende-
se por sistema de medição os instrumentos de análise da qualidade da energia e os respectivos sensores
de corrente, ou divisores de tensão, que permitem a conexão da fonte de corrente alternada sob
avaliação aos instrumentos eletrônicos de análise. Os limites máximos admissíveis pela ANEEL [18]
para as amplitudes das ordens harmônicas de tensão são mostrados na Tabela 1. Os máximos níveis
das ordens harmônicas, até a 40ª, para as redes entre 69 e 230 kV, são ilustrados na Figura 1.
Tabela 1 – Limites Máximos Admissíveis para Amplitudes Harmônicas [17], [18]

PRODIST Módulo 8 – Qualidade da Energia Elétrica - Tabela 4 - 2010.


Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL - Procedimentos de
Distribuição de Energia Elétrica no Sistema Elétrico Nacional –
H1 = 100 % Máxima Amplitude Harmônica Individual de Tensão [%]
Harmônica - Hn Vn ≤ 1 kV 1 kV < Vn ≤ 13,8 kV 13,8 kV < Vn ≤ 69 kV 69 kV < Vn < 230 kV

5 7,5 6,0 4,5 2,5


7 6,5 5,0 4,0 2,0
11 4,5 3,5 3,0 1,5
Ímpares
13 4,0 3,0 2,5 1,5
não
17 2,5 2,0 1,5 1,0
múltiplas
19 2,0 1,5 1,5 1,0
de 3
23 2,0 1,5 1,5 1,0
25 2,0 1,5 1,5 1,0
>25 1,5 1,0 1,0 0,50
3 6,5 5,0 4,0 2,0
Ímpares 9 2,0 1,5 1,5 1,0
múltiplas 15 1,0 0,50 0,50 0,50
de 3 21 1,0 0,50 0,50 0,50
>21 1,0 0,50 0,50 0,50
2 2,5 2,0 1,5 1,0
4 1,5 1,0 1,0 0,50
6 1,0 0,50 0,50 0,50
Pares 8 1,0 0,50 0,50 0,50
10 1,0 0,50 0,50 0,50
12 1,0 0,50 0,50 0,50
>12 1,0 0,50 0,50 0,50
Máxima Amplitude Harmônica Vh (%)

100
ANEEL-Prodist Distribuição de
Módulo 8 - 2010 Energia Elétrica em
10 Item4.6.2 69 kV < Vn < 230 kV
2,5
2

1,5

1,5
1

1
0,5

0,5

0,5

0,5

0,5

0,5
0,5
0,5

0,5

0,5
0,5
0,5

0,5

0,5
0,5
0,5
0,5
0,5
0,5
0,5
0,5
0,5
0,5
0,5
0,5
0,5
0,5
0,5

0,1
01

03

05

07

09

11

13

15

17

19

21

23

25

27

29

31

33

35

37

39

M.A.Sens-14/07/2019 17:17
Limites-Aneel-DistorcaoHrmonica.xls Ordem Harmônica

Figura 1 – Máximas Amplitudes das Ordens Harmônicas para as Redes de 69 a 230 kV

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2 Conceitos Fundamentais
A decomposição de uma onda periódica em uma série harmônica denomina-se, notoriamente, como
série trigonométrica de Fourier. De modo geral, não se necessita conhecer a amplitude absoluta das
componentes da série, mas a amplitude relativa das mesmas, geralmente até a ordem 50 ª. A ANEEL
admite até a 40 ª como mínima. Desta forma, a instrumentação não precisa estar calibrada em valores
absolutos. Com isso, a avaliação das amplitudes dos componentes harmônicos e da distorção total na
tensão de um sistema elétrico não precisa de conhecimentos prévios da relação de transformadores de
medição, se fixa para a faixa de frequência sob análise, ou de incertezas nestes fatores de divisão.
Assim, para análises de distorções harmônicas, o instrumento e os divisores de tensão podem ser
verificados rapidamente, sem necessidade de encaminhamento para calibração, demorada e custosa.
Basta que o instrumento seja confrontado com o sinal de tensão de um gerador de onda quadrada, que
tem componentes harmônicas teoricamente conhecidas e de distorção total também conhecida.
2.1 Distorção Harmônica Total – DHT
Embora sejam de amplo conhecimento, cabe relembrar sobre os conceitos e sobre os dois meios de se
calcular a distorção harmônica total, a DHTF em relação à fundamental e DHTR relativa ao valor RMS.
Vrms  V1
2 2 DHTF
DHTF   100 [%] DHTR   100 [%]
1002  DHTF
2
V1

Vrms  V1
2 2 DHTR
DHTR   100 [%] DHTF   100 [%]
1002  DHTR
2
Vrms
Onde, nas equações anteriores, V1 = valor da tensão eficaz da componente fundamental, ou de primeira
ordem, do sinal sob avaliação e Vrms = valor da tensão eficaz total do sinal.
Nos procedimentos de calibração efetuados pelos metrologistas, aplicam-se um a um os
harmônicos de tensão no analisador sob análise, com um gerador calibrador, e mede-se a distorção
total no instrumento sob avaliação. Normalmente são escolhidos os valores definidos para as
verificações em campo, ou para atendimento normativo.
A distorção total de uma onda que tem apenas um harmônico, além do fundamental, resulta na
própria amplitude do harmônico, conclui-se pelas equações anteriores. Exemplificando, a amplitude
de 2 % de um harmônico resultará em DHT = 2 %, sem outros harmônicos. Havendo vários
harmônicos, cada um terá sua amplitude, sendo a distorção total a do conjunto.
2.2 Fator de Correção da Relação – FCR.
Segundo as normas internacionais de transformadores para instrumentos [7], nos ensaios de calibração,
devem ser determinados os erros de relação, que devem ser expressos como um fator de correção da
relação nominal – FCR. Ou seja, o FCR deve ser o valor que, multiplicado pela relação nominal
resulte na relação real do dispositivo divisor de tensão, conforme abaixo.
 Relação 
Fator de Correção da Relação  FCR   
 Relação Nominal 
Entretanto, os transformadores são construídos para uma frequência específica, como 50 ou 60 Hz e
justamente nesta frequência define-se a relação nominal. O bom divisor de tensão mantém a mesma
relação em ampla faixa de frequência e, para a medição da qualidade de energia e avaliação das
amplitudes de harmônicos na tensão do sistema elétrico, a resposta em ampla faixa de frequência
constitui primordial importância. Caso contrário, tal avaliação pode implicar a obrigação de instalar
filtros corretivos nas subestações, implicando em altos investimentos financeiros.

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3 Medições Realizadas em Parques Eólicos
Segundo um recente estudo publicado pela Eletrosul [8], 27 parques eólicos da empresa foram
monitorados e concluiu-se que nenhum necessitava de instalações de filtros de correção para
harmônicos. Entretanto, de acordo com as determinações da ANEEL/ONS [1], pelos resultados obtidos
pela metodologia definida para estudos de desempenho harmônico por estimativas teóricas, tais
parques precisam de correção por filtros capacitivos, bastante onerosos. O levantamento efetuado pela
Eletrosul incluiu medições dos harmônicos de tensão nos pontos de interligação das eólicas com o
SIN, tanto nos parques ativos quanto com o desligamento dos mesmos. Ainda de acordo com o estudo
da Eletrosul, houve casos em que a energização do parque eólico resultou em melhoramento da onda
de tensão no ponto de interconexão, ou na redução da distorção harmônica total – DHT [8].
O ONS [1] reconhece a importância das medições de campo para o levantamento de harmônicos,
mas adverte que as simulações e medições têm caráter complementares, pois se referem a momentos e
situações diversas. Ressalta ainda que a simulação tem uma grande abrangência sob diversas
condições de carga e contingências a que está sujeita a Rede Básica, enquanto que as medições
retratam uma condição momentânea de operação. Dessa forma, as condições adotadas para estudos e
medição são distintas, sendo que os resultados encontrados não podem ser comparados às situações
momentâneas que as caracterizam.

4 Divisores de Tensão para Avaliação de Harmônicos


Trata-se aqui de medições para a avaliação de harmônicos em sistemas de alta tensão e altas correntes.
Portanto, para a conexão dos sinais de tensão e de corrente com os instrumentos de análise, faz-se
necessária a divisão através de transdutores, ou através de sensores, como os transformadores de
potencial indutivos e capacitivos, divisores de tensão capacitivos e resistivos. Cada tipo de sensor tem
suas particularidades construtivas e podem distorcer os sinais de saída em relação ao de entrada,
mascarando a análise ou introduzindo erros na medição de harmônicos. Divisores perfeitos não
existem. Nenhum divisor estará isento de erros na divisão da tensão. Entretanto, cabe uma avaliação
das incertezas de tais acessórios e o estabelecimento de critérios de aceitação para que possam ser
utilizados na avaliação da qualidade da energia elétrica, ou dos harmônicos das redes elétricas.
4.1 Transformador de Potencial Indutivo - TPI
Quanto à utilização do tradicional transformador de potencial indutivo para análise de harmônicos,
curiosamente, o ONS não recomenda. Somente se aceita a utilização de TPI, segundo ONS, se houver
possibilidade de determinação da resposta de frequência do equipamento, antes da realização da
campanha. Mesmo assim, constitui baixa a chance de se obter a resposta necessária. Não se
recomenda, portanto, o uso do TPI [1]. Por outro lado, em estudos realizados pelas equipes do Cepel e
ONS [9], concluiu-se que para a faixa de frequência em que tipicamente ocorrem os harmônicos de
maiores amplitudes no sistema elétrico ( <15 º ), a medição com o TPI parece ser adequada. A
constatação de campo anterior também foi verificada em laboratório por outra equipe independente do
Cepel [10], [11] em 2006. Pelos resultados obtidos nessas referências, concluiu-se que um transformador
de potencial para linhas de até 13800 V pode ser utilizado para medições de distorção harmônica da
tensão com incerteza de medição igual ou inferior a ± 0,5 % na relação e com ângulos de fase
entre 0,1 e 0,9 graus, quando mantidas as condições de ensaios descritas, sob temperatura ambiente de
(23 ± 2) ºC. No estudo citado, não foram observados comportamentos distintos dos apresentados para
cargas resistivas conectadas ao secundário do transformador de potencial entre 5 kΩ e 10 MΩ.
Resultados mais recentes [11] verificados com o transformador acima, por meio da aplicação de onda
quadrada, confirmam que o mesmo TPI pode ser utilizado satisfatoriamente na análise de harmônicos.
Constatou-se uma excelente linearidade da resposta do TPI, comparada com o valor teórico esperado e
com a resposta de acoplamento direto do gerador com o analisador de harmônicos. Em tal análise
apenas harmônicos ímpares foram encontrados e a distorção DHTR resultou em 42,7 % pelo TPI

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e 42,9 % com acoplamento direto do gerador de ondas quadradas, conforme Figura 2.
100
100,0

33,3 Harmônicos: Direto

Amplitude (%)
20,0

Analisador de 14,3
11,1
DHTR= 42,9 %
9,1
10 7,7

V
Harmônicos 6,7
5,9
5,3
4,8
4,3
4,0 3,7
3,4 3,2
3,0 2,9

V, %
2,7 2,6
2,4 2,3
2,2 2,1
2,0 2,0
1,9 1,8 1,8
1,7 1,6 1,6

1
1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 31 33 35 37 39 41 43 45 47 49 51 53 55 57 59 61 63
Marcio Antonio Sens-5/12/2017 18:44
Harmonicos.xls Ordem (N)

TPI
100 100,0

H1 33,3
Harmônicos: na saída do TPI-13,8kV

Amplitude (%)
20,0
DHTR = 42,7 %
X1 Analisador de 10
14,3
11,1
9,0
7,6

V Harmônicos 6,6
5,8
5,2
4,7
4,2
3,9
3,6 3,3
3,1 2,9

V, %
2,7 2,5
X3 2,4 2,2
2,1 2,0
1,9 1,8
1,7 1,6
Ho 1,5 1,5
1,4 1,3
1,3

1
1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 31 33 35 37 39 41 43 45 47 49 51 53 55 57 59 61 63
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Harmonicos.xls Ordem (N)

Figura 2 – Resposta do TPI para 13,8 kV aos Harmônicos de Ordem até 63


4.2 Transformador de Potencial Capacitivo - TPC
O transformador de potencial capacitivo – TPC constitui-se no divisor de tensão mais utilizado nas
subestações para tensões iguais ou superiores a 138 kV. Segundo o ONS [1], a utilização de TPC para
fins de medições de qualidade de energia somente é factível se o próprio transformador dispuser de
derivação específica para este fim, ou se adotar uma unidade de medição conectada aos terminais
secundários que efetue a linearização de sua resposta para a faixa de frequência de interesse, isto é, até
a 50 ª harmônica (três kHz) – denominada de unidade de medição tipo PQ-Sensor™ para linearização
da resposta.
Da mesma forma, em experimentos realizados pelas equipes do Cepel e do ONS em 2007 [9],
concluiu-se que, para medir harmônicos, o TPC não era satisfatoriamente adequado, pois sua
utilização depende de uma modelagem mais detalhada do equipamento e de sua função de
transferência – FCR, na faixa de frequência de interesse.
Para verificar essas constatações, aplicou-se também a um TPC de 138 kV uma onda de tensão
quadrada, por meio de gerador calibrador, conforme mostrado na Figura 3. Os ensaios foram
efetuados em duas modalidades, com a chave BD aberta e fechada, sem modificações perceptíveis [11].
H1
TPC 100 100,0

C1 36,3

17,8
Harmônicos: Saída do TPC 138kV
Amplitude (%)

10
9,4
DHTR = 38,7 %
X1 Analisador de 6,1
3,5
2,6
1,9

V
C2 Harmônicos 1
1,3
1,0

0,6
0,8
0,6 0,6
0,5 0,4 0,4 0,5
X3
V, %
0,4
0,3 0,4 0,3
0,2
0,3 0,3 0,3 0,3 0,3

BD H2 0,1
0,1
0,1

1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 31 33 35 37 39 41 43 45 47 49 51 53 55 57 59
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Harmonicos.xls Ordem (N)

Figura 3 – Resposta do TPC para 138 kV aos Harmônicos de Ordem até 59


Constatou-se que, de fato, o TPC não responde bem aos estímulos de altas frequências [11]. As
distorções DHTR resultaram em 38,7 %, quando se esperava, teoricamente, 43,5 %. Não eram
esperados harmônicos pares, para estímulos de onda quadrada, mas a resposta mostrou significante
conteúdo de harmônicos pares na saída do TPC avaliado. Este fato não ocorreu nos TPIs.

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A constatação da resposta deficitária do referido divisor de tensão – TPC para as medições de
harmônicos também foi confirmada pela medição da DHT na saída para estímulo de onda quadrada na
entrada, com distintos instrumentos: o LEM 6100 de bancada e o Fluke 345 PQ de mão. Ambos
indicaram DHTR entre 38,5 e 38,7 %, quando convertido para a mesma base pelas equações mostradas
em 2, pois o Fluke indica, de fato, DHTF [11].
Outra amostra de TPC, maior que a anterior, para a tensão nominal de 230 kV-115 V, também foi
avaliada quanto à resposta ao estímulo por onda de tensão quadrada de amplitude de 200 V [11]. A
leitura direta na saída do TPC foi obtida pelo medidor de qualidade de energia Fluke 345 PQ, portátil,
indicando distorção total em relação à fundamental entre 40,3 e 40,9 %, ou entre 37,4 e 37,9 % em
relação ao valor eficaz, convertidos pelas equações indicadas em 2. A Figura 4 ilustra a distinção de
circuitos entre o transformador de potencial indutivo – TPI e o capacitivo – TPC, com três
secundários.

Objeto sob ensaio


H1
Cn = 4542 pF

C1 = 4738 pF
Al 1X1 Oil Cap

1X2 Óleo

2X1
1X1
100 V 1X2

1X3
C2 = 109,8 nF

2X1
2X2 60 Hz Oil Cap
2X2

2X3
3X1
3X1
3X2

3X3

Ih

Epóxi 3X2
HF H2
TPI TPC
Figura 4 – Circuitos dos Transformadores de Potencial Tipos TPI e TPC

5 Obtenção do Fator de Correção da Relação


Pelas recomendações do ONS, já citadas, há necessidade de se verificar a resposta dos
transformadores pelo menos até a frequência de ordem 40 ª. As técnicas para a obtenção do fator de
correção da relação estão bem definidas nas normas nacionais e internacionais [7], [14] para a frequência
fundamental, como para 60 Hz. Não se encontram, entretanto, técnicas para a determinação dos fatores
de correção da relação para outras frequências, sobretudo nas ordens de interesse para a computação
da qualidade da energia elétrica, até 2400 Hz, ou de ordem de 1 a 40.

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Como técnica experimental passível de aplicação em campo, propõe-se aqui o uso de um gerador de
ondas quadradas, na frequência fixa de 60 Hz, tensão da ordem de centenas de volts e um osciloscópio
digital. A vantagem do osciloscópio está na percepção de até quatro sinais simultâneos da ordem de
poucos milivolts. O sistema é bastante simples: O transformador de potencial, indutivo ou capacitivo,
deve ser excitado com uma onda quadrada de tensão, da ordem de centenas de volts. Levanta-se o
espectro de amplitudes de ordens harmônicas da onda de entrada e da onda de saída do transformador
de potencial, simultaneamente, com uso de um osciloscópio digital com processamento matemático. A
relação entre as amplitudes em cada ordem harmônica será os fatores de correção da relação em cada
ordem harmônica. O espectro esperado para a onda quadrada é notório, assim como a distorção
harmônica total – DHTF, como visto no item 2.1. Dessa forma, pode-se verificar rapidamente a boa
resposta do sistema de medição. Porém, levantar o espectro de ordens harmônicas no osciloscópio
digital, requer alguns cuidados. Mas se tudo estiver correto, a onda quadrada de entrada resulta em
espectro de apenas ordens ímpares decrescentes, de amplitudes inversamente proporcionais às ordens.
Para a citada análise experimental utilizou-se de filtros matemáticos para a correção da janela de
medição, que dificilmente inicia e termina em um número inteiro de períodos da frequência
fundamental. Aos referidos filtros denomina-se de Blackmann-Harris ou apenas Black-Harris [15], [16].
Quanto à frequência central, optou-se por 3,0 kHz com faixa de 6 kHz e resolução de 9 Hz. Os
registros de entrada e saída do divisor sob análise foram com 20 mil pontos e os espectros harmônicos
gerados com 1500 pontos.

6 Análise de Resultados
A título de ilustração, para a verificação dos fatores de correção da relação para distintas frequências,
ou de ordens harmônicas, ensaiou-se dois outros transformadores, um TPI de relação 300:1 e um TPC
de relação 2500:1, como ilustrados na Figura 4, com carga de 1 MΩ. Registraram-se as tensões de
entrada e de saída, com os espectros harmônicos. Os resultados obtidos são mostrados na Figura 5.
Terminais 2X1-2X3

Tensão de entrada

Amplitude dos harmônicos na entrada

Amplitude dos harmônicos na saída

Tensão de saída

DHTf = 51,35 %

Figura 5 – Resposta à Excitação em Onda Quadrada para um TPC Avaliado

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Como visto na Figura 5, a onda de saída não representa fielmente a onda de entrada. Visualmente,
pode-se identificar a deficiência na resposta para altas frequências. Relacionando-se as amplitudes
harmônicas, chega-se aos fatores de correção da relação nominal, como mostrado na Figura 6.

8
TPC – Balteau – Série 188303-01-2019
Fator de Correção - FCR

F. Correção
7

6,1
2X1-2X3
6 100 V

Relação Nominal 2500:1


5
(23 ± 2) ºC
4
DHTf = 51,35 %

3,1
60 Hz

2,6

2,6
3

2,2
2,2

2,1
2,0
1,9
1,9

1,8
1,8

1,8

1,8
2
1,0

1,0

1,0

0,82
1,0

0,55

1
0
1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 31 33 35 37 39
M.A.Sens-22/04/2019 15:21
2X1-2X3-Fator_Correcao_Harmonicos.xls Ordem do Harmônico
Figura 6 – Fatores de Correção da Relação Nominal do TPC Avaliado
Por outro lado, a onda de saída para a excitação em onda quadrada para o TPI representou bastante
fielmente a onda de entrada, como visto na Figura 7. Visualmente, pode-se identificar a boa resposta
para altas frequências. Confirmando essa informação pela relação entre as amplitudes harmônicas,
chega-se aos respectivos fatores de correção da relação nominal para o TPI, como ilustra a Figura 8.

Tensão de entrada

Amplitude dos harmônicos na entrada Tensão de saída

Amplitude dos harmônicos na saída

100 V

DHTf = 47,29 %
60 Hz

Figura 7 – Resposta à Excitação em Onda Quadrada para um TPI Avaliado

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1,012
Fator de Correção - FCR

1,010
TPI – Arteche Relação Nominal 300:1 100 V

Série 1700/1 (23 ± 2) ºC


1,008
2X1-2X2
1,006
DHTf = 47,37 % 60 Hz
1,004

1,001

1,001
1,000
1,000
1,000
1,000

1,000

1,000
1,002

1,000

1,000

1,000

1,000
1,000

1,000
1,000

1,000

1,000
1,000

1,000

1,000
1,000
0,998
0,996
0,994
1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 31 33 35 37 39
M.A.Sens-7/7/2019 7:40:51
Fator_Correcao_Harmonicos-Arteche.xls
Ordem do Harmônico

Figura 8 – Fatores de Correção da Relação Nominal do TPI Avaliado

7 Conclusões
A partir dos resultados obtidos experimentalmente, tanto em medições de bancada, de alta
complexidade e demoradas, quanto pelo uso de instrumentos portáteis, cujos ensaios não levam mais
que dez minutos, incluindo o tempo de conectar os cabos no topo dos transformadores para
instrumentos e na saída dos mesmos, foi confirmada a possibilidade de uso de transformadores de
potencial indutivos – TPIs, como já havia sido apontado por trabalhos do Cepel e do ONS em 2007 [9],
sem uso de artefatos ou fatores corretivos.
Da mesma forma, confirmou-se, com as amostras avaliadas, pelo descarte da possibilidade do uso
dos transformadores de potencial capacitivos – TPCs, sem dispositivos de correção ou sem tabela de
FCR para as ordens harmônicas, nos programas de medição de harmônicos no Setor Elétrico.
Mostrou-se que com um gerador de ondas quadradas e medidor de qualidade de energia portáteis
pode-se avaliar rapidamente divisores de tensão, sem necessidades de enviá-los para calibração, pois a
onda quadrada tem distorção harmônica total teoricamente bem conhecida, sendo DHT F = 48,3 % e
DHTR = 43,5 %, referidas à fundamental e ao valor eficaz total, respectivamente. Pela técnica simples,
constatou-se que a amostra de TPI respondia com erro máximo de –1 % na DHT e que dois TPCs
respondiam com erros de -5 % e -6 % [11]. Os resultados obtidos com TPCs precisam ser majorados.
Além disso, evidenciou-se que, com facilidade, encontram-se os fatores de correção da relação para
os transformadores, tanto TPI quanto TPC, para ordens harmônicas até a 40 ª. Com tais fatores, os
resultados das medições podem ser corrigidos para uso dos TPCs nos programas relativos à qualidade
da energia elétrica - QEE. Ademais, o mais importante foi que se confirmou a superioridade do TPI
em relação ao TPC na avaliação de harmônicos; como evidenciado pelas escalas na Figura 6 e na
Figura 8. Os fatores de correção do TPC chegaram a 6,1, enquanto os do TPI não ultrapassaram ao
valor de 1,001 até a ordem 40 ª. Conforme citado em 4.1 e 4.2, o TPI não apresentou harmônicos pares
para a excitação em onda quadrada, como esperado, mas os transformadores de potencial capacitivos –
TPCs mostraram ordens pares na saída. Foi possível se obter a DHTF diretamente no osciloscópio.
Por outro lado, três instrumentos distintos de análise de harmônicos, todos com os respectivos selos
de calibração pela RBC, quando avaliados pela técnica descrita, em onda quadrada, diretamente
conectados, sem uso de divisores intermediários, exibiram erros entre -0,5 e -1,25 % no DHTF.

Seminário Internacional de Metrologia Elétrica - 24 a 27 de novembro de 2019,


CentroSul, em Florianópolis - SC.
8 Referências
[1] ONS, NT009/2016–Rev.1, “Instruções para realização de estudos e medições da qualidade de energia
elétrica (QEE) relacionados aos novos acessos a rede básica para parques eólicos, solares e consumidores
livres”, http://www.ons.org.br/AcervoDigitalDocumentosEPublicacoes/ONSNT0009-2016_InstrEstudos-
Medicao_QEE_Acesso_RB_rev2.pdf, 61 páginas, abril de 2016.
[2] Portaria Inmetro 389, “Regulamento Técnico da Qualidade para Lâmpadas Led com Dispositivo de Controle
Integrado à Base”, 30 páginas, de 25/08/2014.
[3] Márcio Antônio Sens, “Radiated Electromagnetic Interferences of Electronic Lamps”, XII Semetro -
Congresso Internacional de Metrologia Elétrica, Fortaleza – CE, 26 a 29 de novembro de 2017.
[4] Franklin Clement Véliz, Sergio Luis Varricchio e Cristiano de Oliveira Costa – CEPEL, Octávio Augusto da
Cunha - Power Solution Engenharia Elétrica e Renato Campos Amaral - Enerwatt Engenharia “Metodologia
Baseada em Medições e no uso de Filtros Ativos para a Determinação das Responsabilidades sobre as
Distorções Harmônicas Relativas à Conexão de Novas Instalações ao SIN”, GDS, XXIV SNPTEE -
Seminário Nacional de Produção e Transmissão de Energia Elétrica, Curitiba – PR, 22 a 25 de outubro
de 2017.
[5] Gonzalo Aristoy, Leonardo Trigo, Marcelo Brehm, Alejandro Santos e Daniel Slomovitz, “Calibration
system for voltage transformers under distorted waveforms”, XII Semetro - Congresso Internacional de
Metrologia Elétrica, Fortaleza – CE, 26 a 29 de novembro de 2017.
[6] Rodrigo Rodrigues Nascimento Zampilis e Marcelo Britto Martins - Inmetro, “Avaliação Metrológica de
Analisadores de Qualidade de Energia”, XII Semetro - Congresso Internacional de Metrologia Elétrica,
Fortaleza – CE, 26 a 29 de novembro de 2017.
[7] IEC 60186 - Voltage Transformers.
[8] Miguel P. De Carli, Ricardo Antunes Orlando J. Rothstein, Breno T. Meyer, Ricardo S. Salengue e Rafael
T. Carvalho - ELETROSUL “As dificuldades enfrentadas no projeto de filtros frente às baixas distorções
harmônicas provocadas pelos parques eólicos. GDS - XXIV SNPTEE - Seminário Nacional de Produção e
Transmissão de Energia Elétrica, Curitiba – PR, 22 a 25 de outubro de 2017.
[9] Luiz. F. Willcox de Souza, Ricardo. P. D. Ross - Cepel e José Roberto de Medeiros, Dalton O. C. Brasil –
ONS, “Campanhas de medição dos indicadores de flutuação, harmônicos e desequilíbrio de tensão na Rede
Básica – constatações e resultados”, Rio de Janeiro - 2007.
[10] Márcio Antônio Sens, “Verificação da Resposta em Frequência de um Transformador de Potencial
de 13800:115 V para Análise de Harmônicos de Redes de Distribuição de Energia Elétrica – Hitachi/Cepel”,
Relatório de Ensaio CEPEL DVLF – 6009/2006-C.
[11] Márcio Antônio Sens e Italo Foradini da Nova, “Harmonics in the Electrical System – Instrument and
voltage divider performance”, SBSE 2018 – VII Simpósio Brasileiro de Sistemas Elétricos, de 12 a 16 de
maio de 2018 – Niterói - RJ - Brasil.
[12] J. H. D. Souza, A. S. Lima, C. C. M. M. Carvalho, M. E. L. Tostes, P. P. C. de Oliveira, R. S. Alves, C. R.
F. Marçal e W. S. Tostes – UFPA e J. C. D. Carvalho – Eletronorte, “Comparação de Medidores de
Qualidade da Energia Elétrica Quanto à Distorção Harmônica”, projeto de P&D do Ciclo 2003/2004 da
ELETRONORTE - Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A., Belém-PA, 6 páginas, 2004.
[13] NBR IEC 61400-21: Turbinas Eólicas - Parte 21: “Medição e avaliação das características da qualidade de
energia de aerogeradores conectados à rede”, 57 páginas, outubro de 2010.
[14] ABNT NBR 6855:2018 –“Transformador de Potencial Indutivo - Requisitos e Ensaios”.
[15] Blackman-Harris Window Family, https://www.dsprelated.com/freebooks/sasp/Blackman_Harris_Window_Family.html,
acesso em 11/07/2019.
[16] Blackman–harris Window, https://en.wikipedia.org/wiki/Window_function, acesso em 11/07/2019.
[17] Operador Nacional do Sistema Elétrico – Nt 009/2016 Rev. 02 – “Instruções para Realização de Estudos e
Medições de Qee Relacionados aos Acessos à Rede Básica ou nos Barramentos de Fronteira com a Rede
Básica para Parques Eólicos, Solares, Consumidores Livres e Distribuidoras”, março de 2018.
[18] Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL - Procedimentos de Distribuição de Energia Elétrica no
Sistema Elétrico Nacional – PRODIST - Módulo 8 – Qualidade da Energia Elétrica – Rev.01, 01/01/2010.
Harmonicos de Tensao no Setor Eetrico-Verificacao Instrumental-Rev07.doc - 31/07/2019 14:23.

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