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Chegada de

Blaise Cendrars
ao Brasil
acompanhado à
direita por
Sérgio Buarque
de Holanda, e à
esquerda por
Ronald de
Carvalho, em
1924

Exotismo e alteridade: M A R I A T E R E S A D E F R E I T A S

MARIA TERESA DE

histórias brasileiras de
FREITAS é professora
do Departamento de
Letras Modernas da
FFLCH-USP e autora de
Literatura e História
(Atual).

178
BLAISE
RR EE VV II SS TT AA UU SS P,P, SS ÃÃ OO PP AA UU LL OO (( 33 88 )) :: 11 77 88 -- 11 88 44 ,, JJ UU NN HH OO // AA GG OO SS TT OO 11 99 99 88
CENDRARS
Adentremos agora, com Blaise Cendrars, as profundezas

do Brasil, o sertão, a floresta virgem com seus “mâchoires

qui rongent” (1), com seus espíritos do Bem e do Mal –

lobisomens aterrorizantes, ameaçadoras jibóias de cem

metros de comprimento (mas que nunca se conseguem ver!),

hediondos crocodilos escondidos nas profundezas das águas

–, as enormes fazendas com seus coronéis-caçadores, suas

negras imensas, suas bruxas – em suma, tudo aquilo que, de

sua “segunda pátria espiritual”, povoa os sonhos do poeta.

Sonhos ou devaneios, conscientes ou inconscientes, vivi-

dos ou imaginados – em todos os casos, escritos. Como, por

exemplo, aqueles verdadeiros sonhos sobre os mistérios do

Outro que são as “histórias brasileiras” de D’Oultremer à

Indigo (2). Conjunto de cinco novelas, das quais a primeira,

“Son Excellence l’Ambassadeur”, se passa em Paris, e nada

tem a ver diretamente com o Brasil, a segunda – “Le ‘Co-

ronel’ Bento” – conta as aventuras estapafúrdias da perso-

nagem-título entre Paris e sua fazenda no interior do Mato

Grosso, a terceira – “Mes Chasses” – conta histórias de

caça a diferentes animais selvagens das quais Cendrars teria

participado em várias fazendas do interior do Brasil, a quarta

– “L’Amiral” – se passa num transatlântico de luxo durante

a travessia de Cendrars do Brasil para a França, e conta

sobretudo a história de um acidente que o comandante do

navio e sua amante inglesa sofreram durante uma escala em

Pernambuco e que deixou nela uma enorme cicatriz de alto

a baixo no rosto – dividindo-o ao meio –, e a última –

“Monsieur le Professeur” – é a história de um professor de

Botânica sueco, da Universidade de Upsala, que Cendrars

conhece em Paris e que estivera no Brasil em tempos idos,

quando então (entre outras aventuras) levara de volta con-

sigo um espécimen único de uma deslumbrante flor brasi-

leira, que muda várias vezes de cor no decorrer do dia.

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Escritura de uma alteridade, evidente- do longínquo e de sua relação com a
1 A expressão, de Victor Hugo mente – o Outro concebido aqui como um idealização do Outro na teoria do exotismo
(Légende des Siècles, Seizième
Siècle, “Le Satyre”), mostra grupo sociocultural concreto ao qual o “Eu” é incontestável. Todorov lembra que, no
um dos bons exemplos fran-
ceses do emprego do sim-
não pertence (3) –, e de uma alteridade exóti- canto XIII da Ilíada, Homero – que o críti-
bolismo da grande floresta ca, pois que longínqua e diferente – exotismo co tem como o primeiro “exotista” célebre
devoradora. Utilizado com
freqüência na literatura utilizado aqui no sentido de “estética do di- – considera os Abioi, então a população
hispano-americana inspirada verso” (4) –, o que a caracteriza essencial- mais longínqua das que conhecem os gre-
pela floresta virgem, o tema
será abundantemente utiliza- mente? Que lugar ocupa ela no imaginário gos, os mais justos dos homens; e no canto
do por Cendrars, particular-
mente no texto de que tra- de Cendrars, esse imaginário povoado de IV da Odisséia supõe ele que “aux confins
taremos aqui. toda sorte de alteridades? Que papel repre- de la terre […] la vie pour les mortels n’est
2 In Oeuvres Complètes, vol. 8, senta ela em relação à identidade pessoal e que douceur”. “Ici – conclui Todorov – on
Paris, Denoel, 1964. As cita-
ções correspondem a essa cultural do autor? Essas são as perguntas chérit le lointain parce qu’il est lointain”
edição e serão, como de res-
que viso a responder aqui, através da análise (10). Lévi-Strauss transporá o mesmo co-
to todas as demais citações
tiradas de textos franceses, do exotismo do Outro brasileiro na escritura mentário a uma época recente, ao apontar
traduzidas por mim.
de Cendrars nessa coletânea. aquela “foule d’auditeurs pour qui des
3 Cf. Tzvetan Todorov, Nous
et les Autres, Paris, Seuil, 1989, platitudes et des banalités sembleront
p. 11. ALTERIDADE E EXOTISMO miraculeusement transmutées en
4 Cf. Victor Segalen, Essai sur révélations pour la seule raison qu’au lieu
l’Exotisme, Paris, Fata
Morgana, 1978, p. 71: “Est Começaremos por definir alteridade (no de les démarquer sur place, leur auteur les
exotique, au sens propre, tout aura sanctifiées par un parcours de 20 000
sentido antropológico do termo) como sen-
ce qui est extérieur au sujet
observant”. É também o sen- do uma combinatórla de diferenças que o kilomètres” (11). Com efeito, no devaneio
tido etnológico do termo,
que associa alteridade e Eu percebe no Outro (5). Sem esquecer a exótico, é o espaço longínquo e geralmente
exotismo (cf. Francis relatividade do conceito – que só pode se inacessível que se idealiza e se coloca no
Affergan, Exotisme et Altérité,
Paris, PUF, 1987, p. 218). Seja configurar a partir de um sujeito determi- centro do mundo sonhado (12).
como for, o importante é não
reduzir o conceito ao senti- nado – veremos fundar-se assim a relação Por outro lado, tampouco se pode es-
do de “tropicalismo”, como entre alteridade e exotismo que os teóricos quecer a importância da noção de estra-
se faz habitualmente.
estabelecem, sejam eles literários, sociólo- nheza na constituição do conceito de
5 Cf. F. Affergan, op. cit., p. 225.
gos ou etnólogos. Assim, Segalen na sua exotismo: “Une oeuvre d’art est exotique –
6 V. Segalen, op. cit. p. 23. É a
definição do que designa tentativa de redefinição do exotismo literá- precisa Mario Praz – non pas à cause de la
como “exotismo essencial” rio assimila diretamente as duas noções, seule présence d’éléments étrangers […],
(p. 37).
uma vez que funda a definição do exotismo mais lorsqu’elle est inspirée par les
7 F. Affergan, op. cit., p. 9.
sobre o conceito de diferença – “la notion émotions provoquées par l’évocation de
8 T. Todorov, op. cit, pp. 297-
386. de différent, la perception du divers, la pays étrangers ou par leur contact […]. La
9 V. Segalen, op. cit., p. 104. connaissance de quelque chose qui n’est gamme de ces émotions va de la fascination
10 T. Todorov, op. cit., p. 298.
pas soi-même” (6). Affergan, em seu en- pour des coutumes inusités et bizarres
11 Claude Lévi-Strauss, Tristes
saio de crítica etnológica – intitulado pre- (aspects qui ont frappé les premiers la
Tropiques, Paris, Union cisamente Exotisme et Altérité – afirma fantaisie des Européens), ou pour des
Genérale d’Editions, 10/18
[Plon, 1955], 1962, p. 6. desde o início que o processo de apreensão passions exaspérées et même monstrueuses
12 Cf. Jean-Marc Moura, Lire da alteridade dá origem a uma nova dimen- […], à la jouissance d’une vie plus riche et
l’Exotisme, Paris, Dunod, são da consciência, que denomina, no ras- libre de toute contrainte morale” (13).
1992, p. 5. O autor, no en-
tanto, não insiste sobre a tro de Segalen, exotique (7). E Todorov Chega-se assim, com Baudrillard e
noção de idealização, que me
parece essencial.
dedica toda uma parte de seu Nous et les Guillaume, à noção de “alteridade radical”:
Autres a “L’Exotique” (8), que considera “[…] dans tout autre il y a autrui – ce qui
13 “Exotisme”, in Encyclopaedia
Universalis, 1989, vol. 9, p. 163. uma forma de escritura do Outro – a forma n’est pas moi, ce qui est différent de moi,
14 Jean Baudrillard et Henri literária propriamente dita. mais que je peux comprendre, voire
Guillaume, Figures de l’Altérité,
Paris, Descartes, 1992, p. 4. Todavia, essa concepção da alteridade assimiler – et il y a aussi une altérité
15 Idem, ibidem, p. 7. A expres-
como diferença não basta, por si só, para radicale, inassimilable, incomprehénsible,
são bem como a noção alu- definir o exotismo. Por um lado, há que se et même impensable” (14). É nessa
dem, evidentemente, à “in-
quietante estranheza” levar em conta a atração do longínquo, que “inquiétante altérité” (15) que residiria o
freudiana (in Essais de é também uma da marcas constitutivas da verdadeiro exotismo, bem distinto daquele
Psychanalyse Appliquée, Paris,
Gallimard [Idées], 1933). escritura exótica (9). Aliás, a importância “éloge dans la méconnaissance” que de-

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nuncia Todorov. Senhor Professor fizera, à sua época (1887,
Podemos pois estabelecer dois valores ao mesmo tempo em que Cendrars vinha
essenciais na apreensão da alteridade, que ao mundo (17)), uma ida e volta entre a
irão forjar os símbolos emblemáticos sob Suécia e o Brasil.
os quais o Outro será percebido e concebi- Vê-se por aí que o texto de Cendrars
do como exótico: o longínquo e o maravi- instaura uma ligação permanente e fácil entre
lhoso, este último nos seus dois pólos fun- a Europa e o Brasil. As distâncias diminu-
damentais, a bondade e a beleza em, o espaço que os separa é praticamente
paradisíaca de um lado, e o monstruoso, abolido, o longínquo se reduz ao próximo.
ou pelo menos o estranho, do outro (16). Trata-se para Cendrars de vencer esse obs-
Vejamos como esses elementos são utili- táculo primeiro que o separa de seu Outro
zados por Cendrars nas novelas de brasileiro – a distância geográfica – para
D’Oultremer à Indigo. assim apropriar-se dele, integrá-lo ao seu
próprio espaço. O contato com o Outro ani-
O LONGÍNQUO quila a consciência ordinária do espaço, para
que se elabore uma outra, onde a separação
Começaremos pelo próprio título, que, não mais existe, ou, pelo menos, a distância
por uma simples associação de idéias, evo- não é mais percebida como um obstáculo
ca de imediato terras longínquas, um para tal encontro. Nessa forma de manipu-
além-mar distante e desconhecido. Com lação do espaço geográfico que a ficção
efeito, logo após as primeiras páginas, o opera, pode-se ver uma tentativa de ultra-
leitor é transportado para além do Oceano passar a concepção do Outro como tal, lon-
Atlântico, ao Brasil, que, apesar das breves gínquo e inacessível – isto é, exótico.
incursões na Itália, na Dinamarca, no Uru- Por outro lado, observa-se também que
guai e na Suécia, será o espaço de eleição a coletânea em questão começa e termina
de Cendrars nessa coletânea. Diríamos, em Paris: vê-se assim configurar-se uma
pois, à primeira vista, que, confirmando o espécie de círculo espacial, no centro do
título, o autor situa sua história num espaço qual se encontra o Brasil, cercado porém
longínquo, diferente e novo – portanto exó- pela França. Os dois países se tocam pois,
tico. No entanto, um olhar mais atento favorecendo os intercâmbios, com, além
mostrará que as coisas não são assim tão do mais, uma inversão de valores: aqui, é o
simples. Brasil que está no centro.
Na verdade, o espaço exerce uma fun- E não é só. Se compararmos os espaços
ção essencial nessas novelas, que se parisienses inicial e final, veremos que a
estruturam inteiramente em torno de um coletânea possui uma dinâmica espacial
eixo espacial deveras complexo. Por um interna apontando para uma evolução do
lado, elas se organizam sobre um jogo es- espaço original em direção ao espaço do
pacial que se caracteriza por um vaivém Outro: se, na primeira novela, o espaço
incessante entre a Europa – sobretudo a parisiense apresenta-se fechado sobre si
França – e o Brasil; não apenas de uma mesmo, na última abre-se ele sobre o Bra-
novela para outra, mas principalmente den- sil, pois o engloba (no restaurante
tro de cada uma delas. Assim, a história do parisiense, é do Brasil que se fala) e dele se
“Coronel Bento” estrutura-se em zigueza- apropria – concretamente agora: é o que
gue, entre Paris e Mato Grosso; a “caça” ao simboliza aquela extraordinária flor que
crocodilo começa com a chegada das per- muda de cor, cujo único exemplar o Senhor
sonagens ao interior de São Paulo, vindas Professor trouxe do Brasil para sua terra.
de Boulogne, e termina com a partida imi- Não somente as fronteiras se tocam, mas
nente do personagem-autor-narrador para também o espaço do Outro invade o espaço 16 Cf. F. Affergan, op. cit , p. 27.
a França; a história de “L’Amiral” desen- do Mesmo, é integrado a ele. O sujeito re- 17 É uma constante na obra de
rola-se quase inteiramente durante a tra- encontra pois seu espaço original Cendrars a utilização da data
de seu nascimento para ou-
vessia da costa brasileira para a França; e o identitário, modificado no entanto pelo tros fins.

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contato com o Outro, que doravante faz mente, Ferdinand Denis, o mito do “Uni-
parte dele. verso encantado” brasileiro exerce ainda
E é certamente para melhor marcar essa hoje um papel de destaque no imaginário
“invasão” que, nesse incessante vaivém francês (22) e europeu em geral. E Cendrars,
entre a Europa e o Brasil, não é apenas o obviamente, não foge à regra.
francês que se desloca, mas também o bra- Recomecemos pelo título da coletânea,
sileiro – como Bento, ou Dona Veridiana que evoca não somente um além como di-
e suas filhas. Com a abertura espacial para zíamos acima, mas sobretudo um além
o Outro, a identidade se desdobra e o aco- colorido, com um destaque para as dife-
lhe em si. Cendrars afasta-se assim radical- rentes tonalidades de azul. Ao que serão
mente do exotismo segaliano, que entende logo acrescentadas todas as outras cores
degustar a distância (18): nele, o exotismo vibrantes da natureza brasileira, essa “terra
do Outro se dilui no cosmopolitismo do de fogo” (p. 114), com a vegetação luxuri-
Eu, que se abre para o Outro, aceita suas ante da floresta virgem, “a imortal paisa-
influências, deixa-se penetrar por ele e o gem da Guanabara”, o “sol ardente”, a “luz
incorpora a si. Compreende-se, pois, que insustentável”, a baía “grandiosa” (p. 92),
Cendrars insista, em quase todas essas no- os numerosos pássaros, os eucaliptos, as
velas, em lembrar que o espaço geográfico palmeiras, as “noites feéricas” dessa “terra
brasileiro contém inúmeras Suíças (19): ardente” (p. 97) – em suma, tudo aquilo
doravante, esse espaço outro fará parte in- que constitui para Cendrars “uma das mais
tegrante do espaço identitário literário do belas paisagens do mundo” (p. 114), e que
escritor. Muito mais do que preservar a nada mais é, no fundo, do que uma série de
preciosa alteridade do Outro (20), trata-se estereótipos que compõem a imagem
para Cendrars de integrar essa alteridade à consensual que os europeus fazem da “be-
sua própria identidade. leza paradisíaca” dos trópicos brasileiros.
É evidente que a natureza brasileira
A “BELEZA PARADISÍACA” exerce sobre Cendrars um verdadeiro fas-
cínio. Mas… sobre ele somente? Conve-
Segundo elemento a caracterizá-lo, esse nhamos, com Abel Bonnard, que há muito
espaço outro é paradisíaco. mais verdade do que se pensa nas idéias
18 Segalen prossegue definindo A noção de “beleza paradisíaca”, que se preconcebidas que um povo faz do Outro
o exotismo como uma associa em geral ao conceito de exotismo, (23). Com efeito, se o estereótipo é
“réaction vive et curieuse au
choc d’une individualité forte tornou-se hoje um daqueles estereótipos que freqüentemente caricatural, ele não é ne-
contre une objectivité dont elle
perçoit et déguste la différence” a Modernidade, na sua busca insaciável de cessariamente arbitrário, na medida em que
(Essai sur l’Exotisme, p. 25). novidade e de surpresa, não tem lá em muito pode amalgamar traços que existem efeti-
19 A Suíça é a terra natal de alta estima. E, no entanto, há que se convir vamente no Outro (24). Resultante de uma
Cendrars. A nacionalidade
francesa lhe foi outorgada por que “todos os discursos sobre o Outro pa- certa maneira de apreender a realidade, seu
decreto, pela sua participação
gam seu tributo a clichês muito enraiza- caráter problemático reside precisamente
voluntária na Primeira Guer-
ra Mundial. dos” (21). Assim, quando se fala do Brasil na sua bivalência, já que é suscetível de ser
20 Uma das características do na França (como aliás em toda a Europa), considerado ora como um conceito – um
exotismo, segundo Todorov
(op. cit., p. 362). surge de imediato um certo número de es- paradigma cognitivo que permite a cons-
21 Mario Carelli et alii, France-
tereótipos, que correspondem a represen- trução dos significados e dos saberes –, ora
Brésil: Bilan pour une Relance, tações mentais coletivas mais ou menos como uma opinião – uma representação
Paris, Entente, 1987, p. 17.
problemáticas. A começar precisamente ideológica que entrava essa construção e
22 A esse respeito, ler-se-á com
proveito o trabalho de Pierre pelo de “beleza paradisíaca”, que nutre o suscita reações de rejeição por parte dos
Rivas, Encontro entre Literatu- mito do Brasil exótico, e que está na ori- receptores lúcidos. Entre essas duas inter-
ras (São Paulo, Hucitec,
1995). gem da “miragem brasileira” na França: pretações, nada há que permita objetiva-
23 Cf. Abel Bonnard, Océan et concebido já desde os primeiros viajantes, mente escolher. Mas o fato é que são os
Brésil, Paris, Flammarion,
1929, p. 64.
a partir sobretudo das diferenças do clima, estereótipos que constituem a competência
da flora e da fauna, e consolidado nas Le- cultural mais compartilhada, o menor de-
24 Cf. Mario Carelli et alii, op.
cit., p. 20. tras francesas no século XX por, inicial- nominador comum aos membros de uma

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sociedade. Assim, embora se conheça o nica e a se expor a todos os seus perigos:
caráter duvidoso do valor literário do este- para ele, é necessário conhecer o Outro no
reótipo, sabe-se hoje que toda avaliação, seu interior, apreendê-lo nas suas
seja ela clássica ou moderna, repousa so- profundezas.
bre um duplo processo: a celebração, pelo Mas compreender, para repetir Sartre, é
leitor, dos “clichês”, que formam sua com- transformar-se. Ir além de si mesmo (28).
petência – seu “horizon d’attente”, como A apreensão da alteridade acompanhar-se-
dirá Jauss (25) –, e a celebração de elemen- á de um desejo de incorporar o Outro a si,
tos que se desviam dessa competência (26). de se deixar mudar por ele. É assim que a
Em outras palavras: a presença de estereó- velha Universidade de Upsala abrigará
tipos numa obra literária não prejudica doravante o único exemplar desse extraor-
necessariamente seu valor estético, uma vez dinário lírio brasileiro: a “beleza
que fornecem ao leitor parâmetros cultu- paradisíaca” da alteridade brasileira será
rais identitários; espera-se, todavia, que eles assim incorporada ao sujeito; penetrada
sejam tratados de forma mais ou menos pelo Outro colorido, a terra de origem tor-
inédita e criativa. nar-se-á ela também colorida.
Assim, esses estereótipos que impreg-
nam de exotismo as descrições “brasilei-
ras” de Cendrars são, na verdade, marcas O ESTRANHO
obrigatórias de uma cor local tangível, que
correspondem àquilo que o europeu con- Contudo, por fascinante que seja, a “be-
cebe no seu imaginário como denotador de leza paradisíaca” do Outro não deixa de ser
“brasilidade” – seu horizon d’attente; num perigosa. É o lobisomem do “Coronel Ben-
primeiro momento, produzem o efeito de to”, são os incontáveis animais – invisíveis
colocar em evidência a diferença radical mas ameaçadores – de “Mes Chasses”, é a
desse espaço outro, para assim restituir a louca vidente da caça ao crocodilo, é o in-
alteridade na sua irredutível distância – sólito sapateiro (Andrea-del Sarto), e o fan-
objetivo primeiro, segundo Segalen, do tástico homem-peixe (que Cendrars chama
“exoto”. Contudo, ao mesmo tempo em que de Clemenceau ), de “L’Amiral”…, em
marcam a distância em relação à terra de suma, uma série de elementos narrativos
origem, esses estereótipos designam a sa- que criam, em torno do Outro brasileiro,
ída do sujeito de seu espaço habitual e, uma atmosfera de “inquietante estranhe-
portanto, o abandono de seus parâmetros za” (29). Ora, como bem lembra Affergan,
identitários – em suma, seu desenrai- a estranheza produz a própria essência da
zamento. Seguir-se-á uma tentativa de co- alteridade exótica (30).
25 Pour une Esthétique de la
nhecer a alteridade, de apreendê-la, e até No entanto, essa estranheza do Outro Réception, Paris, Gallimard,
1978.
mesmo de conquistá-la: assim, frente àquele não será, ela tampouco, exterior ao Mes-
26 Cf. Jean-Louis Dufays,
fascinante lírio brasileiro, que “passa do mo. Assim, a seus dois estranhos amigos “Stéréotypes, Lecture
branco ao rosa, do rosa ao vermelho vivo, de Pernambuco, Cendrars atribuirá nomes Littéraire, et Postmodernis-
me”, in Christian Plantin
do vermelho ao laranja, do laranja ao vio- de personagens históricos europeus – como (org.), Lieux Communs, Topoi,
leta e do violeta intenso ao azul, ao azul a estabelecer uma ponte entre eles e si Stéréotypes, Clichés, Paris,
Kimé, 1993, pp. 80-91.
luminoso” (p. 133), o Senhor Professor, mesmo. Assim também, o olhar sobrenatu-
27 T. Todorov, op. cit., p. 298.
sueco, decide não apenas defini-lo e ral da vidente da fazenda de Dona Veridiana
28 Questions de Méthode, Paris,
classificá-lo, mas ainda dar-lhe seu próprio alcança “o outro lado dos mares”, e, mais Gallimard [Tel], 1960, p. 21.
nome – ou seja, apoderar-se dele. Ora, o especificamente – não por acaso, sem dú- 29 “[…] l’inquiétante étrangeté
conhecimento, lembra Todorov, é incom- vida – a França e a Suíça! E sobretudo, sera cette sorte de l’effrayant
qui se rattache aux choses
patível com o exotismo (27). De resto, não essas “histórias brasileiras”, extraídas connues depuis longtemps et
de tout temps familières”
se trata somente de conhecer, trata-se tam- (como nos revela o próprio Cendrars) quer (Freud, op. cit., p. 165).
bém de compreender. É assim que o perso- da literatura de cordel brasileira, quer dos 30 F. Affergan, Op. cit., p. 71.
nagem-autor-narrador não hesitará em se relatos por ele colhidos da boca de negros
31 Cf. Blaise Cendrars Vous Parle.
aventurar na amedrontadora selva amazô- brasileiros (31) – e que, por isso mesmo, OC, VIII, pp. 566 e 569.

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refletem perfeitamente o imaginário coleti- Além disso, essa abertura ao Outro per-
vo de nosso povo –, são dadas no texto como mitir-lhe-á também operar uma
aventuras pessoais, efetivamente vividas reversibilidade de papéis, e lançar um olhar
pelo autor: Cendrars se identifica, fazendo- sobre si mesmo através do olhar do Outro:
se chamar pelo próprio nome, e as autentica: tão exótica quanto o Mato Grosso para um
são “histórias verdadeiras”, diz ele ao Almi- francês, será Paris para o Coronel Bento,
rante. Por meio dessa apropriação cultural, obcecado pelo fantasma das demi-
o autor associa à questão do Outro sua pró- mondaines francesas sofisticadas, que vi-
pria individualidade; não se trata de olhar o nham vender seus encantos nos trópicos no
Outro e de descrevê-lo do exterior, mas de início do século – fantasma que, aliás, paira
fazê-lo viver em si. Personagem de sua ainda hoje na memória coletiva brasileira.
autoficção, o autor se torna seu próprio Outro, Tão exótico quanto o brasileiro que come
nutrido, além do mais, pela alteridade brasi- laranjas nu, sentado no parapeito da janela
leira, cujos valores ele assimila. de um hotel de luxo em Paris, é o francês
Com essa forma de implicação, a “in- que embarca consigo, num transatlântico
quietante estranheza” do Outro acabará por também de luxo, um… bode! No mais, se
perturbar o Eu, colocando em questão sua a inglesa fica marcada indelevelmente, no
própria identidade. Assim, naquela luxuri- corpo e na alma, pelo exotismo da natureza
ante floresta virgem – símbolo psicanalíti- brasileira, o brasileiro, por sua vez, ficará
co do inconsciente (32) – Cendrars vai à marcado tão indelevelmente quanto por
caça de um sem-número de animais selva- uma tradição exótica européia, a do lobiso-
gens, todos temíveis e ameaçadores – as mem (a quem deve sua própria cicatriz).
revelações de seu inconsciente, talvez? Instaura-se assim nas novelas um ver-
Atraído por aquela “misteriosa presença” dadeiro jogo de imagens recíprocas, cujas
que o fascina, ele mergulhará “nas trevas marcas imprimir-se-ão afinal na própria
como se cai no fundo de si mesmo” (p. 45). escritura: das tradições francesas contidas
Com o sonho de um Além paradisíaco, no título em francês antigo, às cicatrizes
coexiste o temor fascinado de um mundo deixadas pelo Outro que as numerosas pa-
inquietante e feroz, projeção no Outro do lavras brasileiras incorporadas ao texto
mundo interior do Eu. representam – a tal ponto que Cendrars se
Ao questionamento do próprio Eu, se- dá o direito de mudar até mesmo a grafia
guir-se-á sua transgressão, através da original –, o desejo de fusão com o Outro
irrupção do Outro em si. É assim que o acha-se indelevelmente gravado na própria
deslumbre da natureza tropical brasileira corporalidade do texto. Como se vê, à “arte
acabará por marcar dolorosa e indelevel- de mostrar homens e paisagens diferentes”,
mente o rosto – índice primeiro de identi- que constitui o exotismo, Cendrars prefere
ficação – de Felicia, transtornando então a “arte de captar essa diferença para fazer
não apenas sua vida, mas sobretudo sua dela o princípio de uma nova estética” (33),
personalidade – seu Eu: ela chegará até a que caracteriza o cosmopolitismo.
mudar radicalmente de identidade (nome, Dessa forma, o exotismo do objeto ver-
nacionalidade e sexo!) durante longo tem- se-á diluído no cosmopolitismo do sujeito:
po. E o simbolismo de sua ao mesmo tem- ao olhar exterior, que permanece arraigado
po horrível e fascinante cicatriz aparece- na própria cultura – único lugar de onde se
nos agora claro e poderoso: doravante, a pode perceber o Outro como exótico –,
inglesa, com o rosto dividido em dois deve- Cendrars substitui o olhar interior, que
rá integrar em si sua alteridade. Para penetra na cultura do Outro, apreende-a e
Cendrars, o contato com o Outro implica se deixa penetrar por ela, a ponto de integrá-
32 Cf J. Chevalier et A. necessariamente uma incorporação do la em si, ou pelo menos à sua estética. Passa
Gheebrant, Dictionnaire des Outro em si, que deverá conduzir a uma ele, assim, da simples busca de uma novi-
Symboles, Paris, Lafont/Jupiter,
1982, p. 455. reestruturação interior, a uma mudança dade geográfica ao mergulho profundo no
33 Moura, op. cit., p. 6. profunda de si mesmo. espírito de uma outra cultura.

184 R E V I S T A U S P, S Ã O P A U L O ( 3 8 ) : 1 7 8 - 1 8 4 , J U N H O / A G O S T O 1 9 9 8