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EM DESTAQUE FRANÇA VINHOS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS CORONAVÍRUS COVID-19 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

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#0 A desglobalização pós-covid-19
) É importante encontrar o ponto de equilíbrio entre a correcção dos problemas que a
globalização trouxe, como a atomização e a perda de identidade, e a necessidade de
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progresso tecnológico e científico.
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Filipe Nobre Faria
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( 30 de Abril de 2020, 16/00

% A covid-19 deverá acelerar a desglobalização. Mas tal não implica o regresso aos
Estados-nação de uma Europa fragmentada. É preferível cultivar o destino europeu
num mundo plural.

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Imagine o mundo depois da pandemia causada pelo coronavírus SARS-CoV-2.


Voltaremos ao modo de vida anterior ou iremos viver num mundo bastante
diferente? Os analistas das mais variadas áreas debatem esta questão. Entretanto,
os países ocidentais declararam estados de emergência e impediram boa parte das
suas populações de circular livremente. Muitas destas restrições serão levantadas,
mas adivinha-se uma recessão económica séria no horizonte – com potenciais
implicações políticas. Para resolver os problemas em curso, os vários analistas
dividem-se entre duas posições normativas:

1. A primeira posição defende que precisamos de mais interconectividade porque


os problemas modernos têm uma dimensão mundial e só se resolvem com uma
crescente governação ou cooperação global.
2. A segunda posição considera que as dificuldades actuais resultam de uma
excessiva interconectividade, e, como tal, é necessário regressar ao primado
das nações europeias soberanas e proteccionistas – iniciando assim o processo
de desglobalização.

Ambas as posições falham em pontos fundamentais. Para encontrar soluções tanto


desejáveis como viáveis, devemos examinar as bases filosóficas destas posições.

Um mundo, um destino
No ocidente, o objectivo de atingir a governação ou cooperação mundial num
mundo interligado tem hoje as suas bases no liberalismo. A intenção desta
ideologia é garantir que todos os indivíduos sejam livres para praticar o modo de
vida que preferirem. Como os indivíduos se revelam conflituosos e dominadores, o
liberalismo apela à limitação do poder estatal ou comunitário que infrinja as
liberdades individuais. Pelo menos desde John Locke que esta ideologia concebe
tradicionalmente o Estado legítimo como produto de um contrato social entre
indivíduos livres e iguais. Mas mesmo que o modelo liberal consiga resolver o
problema do conflito e da falta de liberdade dentro da jurisdição estatal, não
consegue evitar o conflito entre Estados. Desta forma, o liberalismo necessita de
avançar para um contrato social global de forma a atingir a paz perpétua sugerida
por Immanuel Kant. Só assim os indivíduos podem ser de facto livres. Dados os
alicerces filosóficos desta ideologia que domina a cultura política ocidental, não é
surpreendente que o problema causado pela pandemia da covid-19 leve a apelos
por mais interconectividade e governação global.

CORONAVÍRUS
Na pandemia não há fuga possível: a filosofia pode
ajudar?
Reflexões sobre o que vem, o que deveria vir e o que desejamos que venha a
seguir à pandemia da covid-19, sobre o medo da morte, quem salvar, ecologia,
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Contudo, o liberalismo tem limites que se tornam cada vez mais evidentes. No meu
recente livro The Evolutionary Limits of Liberalism (Palgrave 2019), mostro que o
liberalismo tem problemas de estabilidade e de sustentabilidade. Recorrendo aos
mais importantes modelos em biologia evolutiva, eu demonstro que o paradigma
liberal tem um impacto negativo na continuidade dos grupos sociais que o
adoptam. Em particular, as instituições liberais geram baixa natalidade e fraca
coesão grupal, perdendo robustez evolutiva no processo de selecção biocultural.
Por conseguinte, outros grupos com instituições e regras sociais mais robustas
deverão prevalecer e expandir-se, substituindo assim o paradigma liberal.

Os problemas de estabilidade das instituições liberais são também ilustrados pela


teoria dos jogos. As simulações evolutivas computacionais mostram que estratégias
de cooperação grupal – onde os indivíduos cooperam fundamentalmente com os
membros do seu grupo – vencem a longo prazo as estratégias de cooperação
universalistas liberais – onde se coopera com todos. Dito de forma simples, os
grupos particularistas/identitários adaptam-se melhor do que os grupos liberais.

Em períodos difíceis, como é o caso da pandemia da covid-19, os instintos tribais


são activados pela ameaça existencial. A sociedade aberta tende a fechar-se e as
identidades manifestam-se ao nível político. A pandemia veio lembrar aos
proponentes do mundo globalizado que depender do “outro” para o bem-estar
económico e para a sobrevivência é uma solução perigosa, dado que não é possível
controlar o que Estados e culturas distintas fazem ao serviço do seu próprio
interesse. Por exemplo, a cultura chinesa poderá continuar a gerar modos de vida
que potenciam o aparecimento de novas pandemias. E dada a sua forte soberania,
será difícil saber exactamente quais as acções que levaram à disseminação do vírus
SARS-CoV-2. Mas os chineses também deverão estar mais bem preparados do que
outros para resolver os problemas que advêm do seu modus vivendi.

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A globalização apoiou-se na lei da vantagem comparativa de David Ricardo. Esta lei


enfatiza os benefícios de delegar a manufactura de produtos para zonas
economicamente mais eficientes, mesmo a de produtos vitais, tais como
equipamentos médicos e tecnologias diversas. Tal levou a deslocações do tecido
produtivo do ocidente para zonas do globo onde essa manufactura tem menos
custos. Mas a lei ricardiana esbarra inevitavelmente no problema do pluralismo
cultural que assenta em diferentes sentidos de destino colectivo. E poucos grupos
sociais deverão querer que a sua forma de vida dependa de culturas que visam um
destino diferente. O pluralismo cultural no mundo dita que apesar de existirem
problemas comuns, a sua resolução não é comum. Tal resolução será influenciada
pelas regras morais das diferentes populações, assim como pelas pressões
evolutivas distintas que afectam todos os seres vivos. Até dilemas como as
alterações climáticas, que supostamente atingem todos, não o fazem por igual. Há
aqueles que se irão adaptar e outros nem tanto. Ao contrário do que difundem os
proponentes do mundo globalizado, não estamos todos no mesmo barco, ou se
estamos, há uns com melhores mecanismos de salvação do que outros.

ENSAIO
O medo
Não se trata, como já ouvimos dizer, de pôr em causa a nossa civilização, mas as
suas formações de poder e, com elas, o desenvolvimento de laços sociais cada
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Ademais, esta pandemia não é uma excepção. Se fosse, bastaria resolvê-la e


poderíamos regressar à globalização. Mas como entidades biológicas que somos,
estaremos sempre a sofrer desafios naturais, para os quais uns estarão mais bem
preparados que outros. É esta a condição da bios, isto é, da vida. E um mundo
demasiado integrado teria pouca flexibilidade para lidar com desafios
imprevisíveis, tornando-se num sistema frágil.

No fundo vivemos num paradoxo. Apesar de o ocidente viver numa era tecnológica
e científica notável, as suas elites políticas vivem numa esfera moral não-naturalista
de inspiração Kantiana, onde muitas vezes se postulam valores de aplicação
universal desligados do mundo natural. Este coronavírus veio lembrar-nos de que
podemos fugir da natureza, mas não nos podemos esconder.

Vários mundos, múltiplos destinos


A covid-19 espalhou-se facilmente pelo mundo devido à interconectividade que a
globalização trouxe. Como tal, os que entendem que cada grupo sociopolítico
detém um destino próprio advogam um regresso ao proteccionismo das nações
europeias soberanas. Pretendem desta forma desglobalizar o mundo e devolver o
sentido de controlo às diferentes populações e identidades culturais. Tal implica
controlar fronteiras, escrutinar os elementos que entram nos países e desenvolver
autossuficiência, isto é, desenvolver a capacidade para viver sem demasiada
dependência de culturas externas.

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Faz sentido enfatizar a importância antropológica da identidade e da autonomia.


Mas há um problema central nesta visão da Europa fragmentada: os Estados-nação
europeus são demasiado pequenos para manter o nível de progresso tecnológico,
de bem-estar e de segurança que teriam caso estivessem unidos. O
desenvolvimento científico necessita de confiança, de cooperação e de uma base
identitária comum na partilha de esforços e resultados. Além disso, a divisão do
trabalho beneficia de mercados maiores do que aqueles que os Estados-nação
europeus possuem internamente.

Os pensadores influenciados pela filosofia de Martin Heidegger e que pretendem


reduzir a importância da tecnologia no mundo dirão que o decrescimento
económico e tecnológico é positivo. Na sua óptica, tal irá permitir uma maior
autenticidade dos indivíduos – que entrariam assim em verdadeiro contacto com as
suas culturas. Contudo, a existir, este decrescimento resultaria de um
entendimento particular e não global. Por conseguinte, as grandes potências que
optassem por maximizar o seu poder tecnológico, económico e militar
rapidamente ditariam o rumo do mundo. O mero decrescimento unilateral não é
uma opção viável.

Seria importante que a União Europeia


aproveitasse a crise causada pela covid-19 para
fortalecer as suas instituições. Tal implica
abandonar a trivial narrativa da solidariedade
económica para abraçar uma posição unionista e
civilizadora

Por outro lado, aqueles influenciados por Jürgen Habermas diriam que é possível
chegar a um acordo mundial através do diálogo e da deliberação racional. Assim, os
vários agentes globais poderiam concordar em diminuir o mundo tecnológico e
económico para atingir modos de vida mais simples. Porém, tal ideia parece
igualmente inviável. Alguns valores não são negociáveis. Pelo contrário, são
sagrados. Nem sempre existem pontos comuns entre os vários sistemas de valores.
Afinal de contas, ao nível evolutivo, cada grupo sociopolítico tem incentivos para
perseguir o seu destino particular. E alguns grupos entendem o desenvolvimento
tecnológico como parte integral desse destino.

O destino europeu
Para terem uma voz no mundo, os europeus precisam de estar unidos. Não apenas
unidos por mercados, mas também por um sentido de destino comum que culmina
em soberania política. A União Europeia é vista muitas vezes como o resultado de
um contrato social assinado por agentes racionais e culturalmente distintos. Visto
desta forma, os agentes nem precisam de ser europeus – poderiam ser mundiais.
Todavia, faz mais sentido ver esta união como o produto de uma forma de vida
semelhante que se organizou politicamente. Só assim o projecto europeu poderá
resistir às dificuldades. A União Europeia não pode ser construída apelando apenas
à razão. Precisa também do apelo às emoções e instintos que assentam no sentido
de identidade europeia. Apesar dos conflitos históricos, esta identidade permanece
reconhecível como forma de vida. E, como Ludwig Wittgenstein notou, a nossa
concórdia deve mais a essa forma de vida do que a acordos com base na opinião.

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Seria importante que a União Europeia aproveitasse a crise causada pela covid-19
para fortalecer as suas instituições. Tal implica abandonar a trivial narrativa da
solidariedade económica para abraçar uma posição unionista e civilizadora. De
forma a resolver as próximas pandemias e demais desafios naturais, os europeus
necessitam de um crescente conhecimento científico da natureza, como Aristóteles
pretendia. Não é possível fazê-lo ao nível global, mas é possível fazê-lo ao nível
civilizacional, recorrendo, por exemplo, a melhoramento biomédico que confira
uma maior robustez populacional contra as mais diversas ameaças.

Para atingir coesão social, o mundo europeu necessita de se afirmar como bloco
geopolítico. Tal implica integrar a europeidade mas também desglobalizar. Todavia,
mesmo antes desta pandemia, já se contemplava a ascensão de forças políticas
antiglobalização e populistas, tal como o desenvolvimento de filosofias políticas
pós-liberais. A pandemia da covid-19 deverá assim acelerar a desglobalização e a
aceitação de novas filosofias. Mas é importante encontrar o ponto de equilíbrio
entre a correcção dos problemas que a globalização trouxe, como a atomização e a
perda de identidade, e a necessidade de progresso tecnológico e científico. Só
encontrando este ponto de equilíbrio se poderá atingir algo igualmente importante:
o sentido de autenticidade e de destino único num contexto tecnológico e num
mundo plural.

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Investigador em filosofia política e bioética na Universidade Nova de Lisboa; Sugerir correcção

autor do livro “The Evolutionary Limits of Liberalism” (Palgrave, 2019)

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EM DESTAQUE

EDIÇÃO IMPRESSA
17 de dezembro de 2020

CORONAVÍRUS CORONAVÍRUS CORONAVÍRUS ENTREVISTA COM EDUARDO


CABRITA
Macron diagnosticado com Covid-19: vacinação vai Teletrabalho em queda:
“A senhora directora do SEF
covid-19. Esteve com Costa começar a partir de 27 de quatro em cada cinco
podia ter cessado funções
ontem Dezembro em toda a União pessoas estão no local de
na altura? Obviamente que
Filipa Almeida Mendes e Europeia trabalho habitual
podia”
Sónia Sapage Filipa Almeida Mendes e Pedro Crisóstomo
Ana Sá Lopes e Celso Paiva Sol
Miguel Dantas

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OPINIÃO

EDITORIAL OPINIÃO OPINIÃO OPINIÃO


CORONAVÍRUS
O meu elogio público aos professores 10. Outras modernidades Travemos a segunda vaga de rendas
O Natal é para as crianças portugueses excessivas
David Justino
David Pontes João Miguel Tavares Jorge Costa
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ENTREVISTA COM EDUARDO CABRITA CONTEÚDO COMERCIAL COVID-19


“A senhora directora do SEF podia ter Sabe o que é a linha Luz 24? Medidas para o Natal e Ano Novo
cessado funções na altura? deverão manter-se
Obviamente que podia” São José Almeida e Liliana Borges
Ana Sá Lopes e Celso Paiva Sol
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COVID-19 MÚSICA CONTEÚDO COMERCIAL

Especialistas defendem limite de Que haveria de fazer fechado em Quinta Vale D. Maria. Vinhos
pessoas e de famílias no Natal casa um rapaz de 78 anos chamado únicos, que contam a história do
Maria João Lopes Paul McCartney? Douro
Mário Lopes
% &6 % #5 % # 70

COVID-19 EDUCAÇÃO PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA


Juíza proíbe crianças acolhidas em Tribunal absolve professora de Estado de emergência passa a prever
lares de irem a casa no Natal Português de passar enunciado de crime de desobediência para quem
Ana Cristina Pereira exame a aluna não cumprir as regras
Ana Henriques Leonete Botelho
% &5 % &4 % &2

CONTEÚDO COMERCIAL CORONAVÍRUS PESSOAS

Quer saber como é que os ecrãs Quem, como, quando? O que precisa O Gandalf de O Senhor dos Anéis já está
estão a afectar a sua visão? O tema de saber sobre a vacinação da covid-19 protegido contra a covid-19
vai estar em debate Miguel Dantas PÚBLICO

% # 525 % & 4 # 176 %

CORONAVÍRUS CONTEÚDO COMERCIAL INTERACTIVO


As dez recomendações da DGS para Selo de sustentabilidade promete Mortes, casos, internados. As previsões
evitar contágios no Natal revolucionar mercado dos vinhos da evolução da pandemia – no país e
PÚBLICO na sua região
PÚBLICO e Instituto de Saúde Pública da U. Porto
% & 9 # 2259 % & 2 # 685 %

VACINAÇÃO COVID-19 CONTEÚDO COMERCIAL

Feita em quatro anos, a vacina da Wuhan volta a sair à noite: o primeiro Este Natal, na The Body Shop,
papeira foi a mais rápida da história – epicentro da pandemia reaprende a ‘Tornamos Realidade Juntos’
até hoje divertir-se
Claudia Carvalho Silva Reuters
% # 171 % % # 50

COVID-19 EM PORTUGAL CORONAVÍRUS


Infectados sobem, há 82 mortes, mas Covid-19: Joe Biden vai ser vacinado
doentes em cuidados intensivos para a semana, Mike Pence já na sexta-
descem feira
Miguel Dantas Pedro Bastos Reis
% %

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