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1. Quais os principais referenciais teóricos?

As obras de Zygmunt Bauman e Marília Pedroso Xavier


2. O trabalho foi dividido em três capítulos que retrataram os principais aspectos relacionados ao contrato
de namoro? O primeiro capítulo versará sobre o contexto da evolução social que alberga os namoros e o
surgimento do contrato de namoro, com abordagem contemporânea pautada no valor de liquidez
proposto por Zygmunt Bauman. O segundo capítulo versará sobre a distinção entre o namoro, mormente
o namoro qualificado, e a união estável. Alinhado à doutrina e jurisprudência pátrias, explicitará os
requisitos para tal distinção e as dificuldades encontradas nesse ponto. O terceiro capítulo abordará a
tutela civil do namoro no Brasil e nos Estados Unidos, enfrentará os argumentos de nulidade, invalidade e
ineficácia do contrato de namoro e concluirá sobre sua consolidação como instituto jurídico do Direito
Civil, especificamente alocado no campo das Obrigações.
3. No contexto da evolução social, por longo período as relações de amor foram parametrizadas pelo
patriarcalismo, pelo patrimonialismo e pelos dogmas da Igreja Católica. A conjugalidade refletia o dever
de procriar, a salvaguarda do patrimônio e a negação do adultério. Sem romantismo, muitas vezes
restringia-se o casamento a um acordo entre famílias. O concubinato dava vazão aos sentimentos mas
manteve-se à margem da sociedade e do Direito, em detrimento das famílias matrimonializadas. Com a
passagem de tempo e a evolução dos paradigmas e das práticas sociais, o amor romântico abriu portas
para uma mudança de posturas e costumes. A afetividade foi o divisor de águas mais evidente na base
de tantas mudanças significativas, repercutindo sobre o Direito de Família com força de princípio jurídico.
Sob a égide da afetividade, o amor dos moldes patriarcais deu lugar ao amor encartado em tempos
líquidos, quando os namorados passaram a viver relacionamentos com maior liberdade e intimidade mas,
na contrapartida, também se viram pressionados pelo consumismo desenfreado, pelo individualismo e
pela insegurança de relações que se tornariam tão frágeis quanto descompromissadas.
O namoro não terá o condão de deflagrar efeitos jurídicos na esfera familiar, mas não se pode elidir o fato
de que dos namoros atuais, admitindo a coabitação e muitas vezes aparência pública de casal, podem
decorrer a geração de prole ou a aquisição de patrimônio comum, a ser partilhado ao fim do
relacionamento.
4. A opção do Sociólogo de trabalhar com o conceito de liquidez refere-se ao estado líquido que possui
fluidez e, enquanto conteúdo, facilmente se conforma ao seu recipiente, em oposição à rigidez do
sólido. É do próprio Bauman a próxima explanação acerca da adoção do termo líquido, que evoca um
estado de fluidez daquilo que se amolda às pressões externas com facilidade, não se restringindo a uma
forma, como o sólido, mas sempre propenso às variações do tempo. Trata-se de refazer e refazer as
relações e as premissas sociais. Portanto, na sociedade líquido-moderna, viver significa adentrar em
uma grande sucessão de reinícios, já que nada tende a ser duradouro. Marília Pedroso Xavier chama a
atenção para o óbvio ao concluir: “Ao que tudo indica, esse cenário revela um caminho sem volta, o qual
influenciou todas as esferas da vida. Seria ingênuo imaginar que o amor ficaria incólume a tantas
mudanças”.Nessa ordem de coisas, o surgimento do contrato de namoro veio brindar a fluidez
propugnada por Zigmunt Bauman na esfera das relações interpessoais, afigurando-se instrumento de
expressão da vontade dos namorados para declarar que o relacionamento vivenciado não passa de
simples namoro, sem decorrências jurídicas, especialmente de ordem patrimonial.A liquefação destes
aspectos da vida cotidiana revelam um homem moldado por uma mentalidade extremamente
consumista, pela obstinação em ter o que almeja no menor tempo possível, a qualquer preço, pelo
extremo senso de individualidade e competição no ambiente de trabalho. É o que Marília Pedroso Xavier
(2020, p. 55) denomina “cultura ‘agorista’”, em que até mesmo as pessoas se tornam descartáveis,
dispensáveis. Tais desdobramentos permitem a Marília Pedroso Xavier (2020, p. 33) compreender “[...]
a fragilidade dos laços humanos de hoje”, dos quais emerge o homem individualista, que deseja
companhia sem a contrapartida de responsabilidades. E prossegue a autora: “Tudo isto faz com que, em
última instância, um contrato de namoro seja algo extremamente oportuno e desejável”. (XAVIER, 2020,
p. 33). Assim, o amor líquido não apenas acolheu como tornou relevante o namoro em seus termos de
liberdade, intimidade sexual e ausência de responsabilidades. O namoro, enfim, “[...] pode ser
enquadrado no rol de uniões que não geram, por si só, efeitos jurídicos. Justamente por essa razão, tem
sido amplamente adotado por casais que desejam viver o amor líquido-moderno”.
5. Neste contexto, o contrato de namoro revelou-se importante instrumento que visa declarar a ausência
de compromisso e responsabilização, em especial patrimonial, decorrente do término da relação
amorosa. Maior compreensão a respeito dos contornos das repercussões jurídicas do namoro, nem tanto
pelo que ele é, mas pelo que ele não é – já que ele não é união estável e o que se pretende é dela
diferenciá-lo
6. Nesse ponto sobreleva a importância do contrato de namoro, lembrando que a possibilidade, a
necessidade e a forma de fazê-lo vão ao encontro da correta distinção entre namoro e união estável, bem
como da sua alocação no Direito Civil.
Por longo período ainda, muitos arranjos familiares além da união estável entre um homem e uma
mulher, inclusive no tocante às uniões homoafetivas, restaram prejudicados pela omissão legislativa e
uma jurisprudência que mantinha tais realidades à margem do Direito de Família. As realidades
vivenciais, afastadas do selo da oficialidade, ainda que sem nome e sem lei, foram em busca de direitos,
obrigações e reconhecimento. O sistema jurídico não resistiu às mudanças. A jurisprudência, por medo
de comprometer a instituição do casamento, só conseguiu ver como uma sociedade de fato o que nada
mais era do que uma sociedade de afeto [...].

Alinhados entre si, a Lei nº 9.278, de 1996, e o Código Civil de 2002 confirmaram os requisitos imprescindíveis à
união estável: convivência duradoura, pública e contínua entre homem e mulher, a denotar uma união
publicamente notória e consolidada no tempo, além do animus familiae, atestando o objetivo comum aos
companheiros ou conviventes de constituir família.

É a comprovação cabal da concomitância desses requisitos que permite afastar definitivamente o namoro da
união estável, tendo especial relevância tal conclusão porque “[...] parece inegável que o namoro experimentado
na atualidade é pautado por uma margem de liberdade muito maior” (XAVIER, 2020, p. 92).

E, quanto maior a liberdade, maior a probabilidade de se confundir o namoro com a união estável, pois resta
público e aceitável que os namorados tenham tanta proximidade quanto os companheiros. Aliás, atualmente não
são raros os casos em que um namoro pode superar um casamento em questão de tempo, por exemplo.

Marília Pedroso Xavier (2020, p. 93) aponta que, apesar de parecerem simples, “[...] são de particular
complexidade as situações em que estão em pauta namoros que configuram convivência pública, contínua e
duradoura entre as partes”, exigindo do hermeneuta ponderação naquilo que a lei não se manifestou.

7. Direito de Família Mínimo


O Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, na Apelação Cível nº 70006235287, relatada pelo
Desembargador Luiz Felipe Brasil Santos, em 2004, já presumia o cuidado a ser tomado na distinção
entre namoro e união estável: [...]. Para que fique caracterizada a entidade familiar denominada união
estável deve restar configurada uma comunhão plena de vida, nos moldes de um casamento. O Estado-
Juiz deve ter um certo pejo para intervir na vida privada das pessoas e dizer que, embora não tenham
casado, obtiveram os efeitos plenos de um casamento. Antes e acima de tudo, deve ser respeitada a
opção das pessoas, a liberdade individual de cada um constituir a forma de relacionamento que melhor
lhe aprouver, indagando, com muita cautela, as razões pelas quais essas pessoas teriam optado por não
casar, podendo fazê-lo, mas não o fazendo. E, por isso, só reconhecendo a união estável em situações em
que ela esteja palpitante na prova dos autos, nunca em situações dúbias, contraditórias, em que a prova
se mostre dividida, porque assim estar-se-á casando de ofício quem não o fez motu proprio. [...].
A diligência do julgador nesse sentido, aliás, está em sintonia com o Direito de Família mínimo, que à
semelhança da teoria do Direito Penal mínimo propõe, nas relações privadas, “[...] a menor intervenção
estatal possível, conferindo maior autonomia aos indivíduos”. (XAVIER, 2020, p. 65). Luciano L. Figueiredo
(2020, p. 76) corrobora a crítica às decisões que, de forma precipitada, atropelam a vontade das partes e
estabelecem a união estável: A linha da quase presunção de uma união estável funda-se, inicialmente,
em uma equivocada visão do paradigma constitucional do Direito Civil, o qual conduz a uma
publicização extrema, falando-se na incidência de normas cogentes em temas eminentemente privados,
a exemplo das escolhas afetivas, formas de relacionamentos interpessoais e questões familiares. A
publicização, inadvertidamente, adentra a privacidade, tema tão íntimo que fora elevado a cláusula
pétrea dos direitos e garantias fundamentais, bem como a um direito de personalidade.
8. O Direito de Família mínimo, portanto, manifesta-se no sentido contrário ao excesso de regras
cogentes, à judicialização exagerada das demandas familiares e à intervenção estatal que ultrapassa a
autonomia privada, não raro travestida de proteção estatal, com fulcro no artigo 226, caput, da
Constituição Federal.
Tal premissa é essencial ao Direito de Família mínimo, que cresce lastreado pelos princípios da
liberdade e da autonomia privada, e pela cláusula geral de reserva de intimidade. (XAVIER, 2022,
passim).
O princípio da liberdade, também denominado princípio da não intervenção no Direito de Família, é
consagrado pela redação do artigo 1.513 do Código Civil de 2002, in verbis: “É defeso a qualquer pessoa,
de direito público ou privado, interferir na comunhão de vida instituída pela família”. (XAVIER, 2022, p.
76).
A autonomia privada, por sua vez, repercute não apenas sobre a liberdade contratual, mas também
como manifestação da vontade individual, refletindo o poder de autorregramento que valida o contrato
de namoro. (XAVIER, 2020, p. 79).
O princípio da autonomia privada, ao que tudo indica, deveria ser “[...] regra geral para a condução das
situações ocorridas no seio da conjugalidade”, especialmente porque “[...] no campo do Direito de
Família é o exercício da autonomia privada que garante o respeito à vida digna”. (XAVIER, 2020, p. 82).
Já a cláusula de reserva de intimidade, com sede constitucional , implica a preservação do conteúdo
pessoal, ou seja, resguarda a esfera íntima do indivíduo. Marília Pedroso Xavier (2020, p. 79) afirma:
“Quando concebida na esfera familiar, a intimidade se torna condição para o livre desenvolvimento da
pessoa [...]”. Assim, o Direito de Família mínimo reforça a finalidade do contrato de namoro, e a correta
distinção entre namoro e união estável é bem-vinda, afastando efeitos jurídicos indesejáveis, mas deve
ser realizada na medida do necessário, sob pena de violação da liberdade, da intimidade e da
autonomia privada dos namorados.
9. CONTITUIÇÃO UNIÃO ESTÁVEL: Para o reconhecimento da união estável àquele que a propõe, incumbe a
prova de que a relação havida entre o casal é ou foi pública, contínua, duradoura e destinada à
constituição de um núcleo familiar, nos moldes do art. 1.723, Código Civil, e art. 373, Código de Processo
Civil. Assim, cabe ao requerente instruir os autos com provas contundentes capazes de indicar a
ocorrência da relação alegada, e que tal relacionamento evoluiu no tempo com as características de
publicidade, continuidade, durabilidade e objetivo de constituir família. Precedentes.
10. PROVAS PARA UNIÃO ESTÁVEL: não foram apresentadas provas cabais da união estável, “[...] contas
bancárias, telefônicas, ou sequer um endereço ao qual o casal se referisse como sendo ‘lar’”. Também não
houve documento de imposto de renda ou plano de saúde a atestar a condição de dependente da autora
e, alertando o Magistrado: [...] atestados de acompanhamento médico, fotos em datas festivas,
documentos de viagens – são inaptas a demonstrar o sentido more uxorio do relacionamento, ou seja, o
objetivo de constituir família, que exige para tanto, elemento probatório mais denso, aprofundado, sob
pena de se reconhecer a todo namoro de longa duração a condição de união estável.
11. A união estável é situação de fato que dá ‘aparência de casamento’, independentemente de haver prole
comum, da coabitação e até mesmo da dependência econômica, embora sejam todos elementos que,
presentes, reforçam favoravelmente a tese de união estável e, ausentes, desafiam redobrado esforço de
explicar-lhes a ausência. [...]. E prossegue, explicitando que, na união estável, o casal apresenta vida em
comum e, diferentemente, no namoro não se pode vislumbrar esse mesmo horizonte, haja vista que o
namoro efetivamente não se rege pelo intuito familiae.

Assim também se posiciona a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, pelo voto do Ministro Luis Felipe
Salomão ao Recurso Especial nº 1.761.887/MS: “[...] em qualquer cenário, sempre e sempre, penso que deverá
haver a constatação deste elemento finalístico, interno, moral, que é o objetivo de constituir família, pois essa é a
chave hermenêutica para o reconhecimento ou não da entidade familiar”.

Aqui se separam, definitivamente, de um lado a união estável, de outro, o concubinato e o namoro. Outros
elementos, como a coabitação ou a existência de prole, podem tornar robusta a prova da união estável, mas se
tratam estas de provas adicionais ou indícios que não teriam o condão de, per si, atestar a união estável.

12. PONTO CHAVE AQUI É Tampouco a coabitação, por si, evidencia a constituição de uma união estável
(ainda que possa vir a constituir, no mais das vezes, um relevante indício), especialmente se
considerada a particularidade dos autos, em que as partes, por contingências e interesses particulares
(ele, a trabalho; ela, pelo estudo) foram, em momentos distintos, para o exterior, e, como namorados
que eram, não hesitaram em residir conjuntamente. Este comportamento, é certo, revela-se
absolutamente usual nos tempos atuais, impondo-se ao Direito, longe das críticas e dos estigmas,
adequar-se à realidade social.

A impossibilidade de a relação de namoro, compulsoriamente, ultrapassar a fronteira do casual e constituir


animus familiae persiste; e com razão. Afigura-se indesejável que um simples namoro resulte em união estável,
com todos os seus efeitos jurídicos, se essa não é a vontade das partes envolvidas.

13. NAMORO QUALIFICADO: O Ministro Marco Aurélio Bellizze, no Recurso Especial nº 1.454.643/RJ, vê o
simples namoro como “[...] circunstância absolutamente comum nos tempos atuais que, por si só, não
tem o condão de configurar uma entidade familiar”. E afirma:

[...] 2.1 O propósito de constituir família, alçado pela lei de regência como requisito essencial à constituição da
união estável – a distinguir, inclusive, esta entidade familiar do denominado ‘namoro qualificado’ –, não
consubstancia mera proclamação, para o futuro, da intenção de constituir uma família. É mais abrangente. Esta
deve se afigurar presente durante toda a convivência, a partir do efetivo compartilhamento de vidas, com irrestrito
apoio moral e material entre os companheiros. É dizer: a família deve, de fato, restar constituída. [...]

O Recurso em tela deu publicidade ao termo “namoro qualificado”, designado como o namoro com algumas
características de união estável, mormente a convivência pública, contínua e duradoura, em oposição ao simples
namoro, carente destes pressupostos. No seu voto, o Ministro Relator cita a doutrina e aduz:

A doutrina divide o namoro simples e qualificado. O namoro simples é facilmente diferenciado da união estável,
pois não possui sequer um de seus requisito básicos. [...] Já o namoro qualificado apresenta a maioria dos
requisitos também presentes na união estável. Trata-se, na prática, da relação amorosa e sexual madura, entre
pessoas maiores e capazes, que, apesar de apreciarem a companhia uma da outra, e por vezes até pernoitarem
com seus namorados, não têm o objetivo de constituir família. (MALUF; MALUF, 2013 apud BRASIL, 2015).

Namoro qualificado, é expressão cunhada por Maria Rúbia Cattoni Poffo e se refere exatamente aos namoros que
apresentam convivência pública, contínua e duradoura. Nesses casos, “O relacionamento, então, deixa de ser
frágil e passa a refletir para a sociedade ares de família”. (XAVIER, 2020, p. 94).

14. DIFICULDADE DIFERENCIAR NAMORO X UNIÃO ESTÁVEL: Entretanto, a própria natureza fluida do amor
líquido exige atenção do operador do Direito para detalhe relevante, apontado por Marília Pedroso Xavier
(2020, p. 56): “O amor nutrido no seio conjugal talvez seja o maior exemplo de algo que para existir
precisa ser sólido e não volátil [...] exige dedicação, tolerância e respeito ao próximo – para alguns, até
mesmo certa dose de sacrifício”.

Em tempos líquidos, vale contextualizar, é bem-vinda a assertiva de Eduardo Carlos Bianca Bittar (2007), para quem,
“[...] se a família implica em responsabilidade, renúncia, abdicação e esforço, é evidente que esta ideia está na
contramão da história do presente”.

Parece, pois, paradoxal que o indivíduo dos tempos líquidos deseje avidamente sua liberdade e individualidade mas
se submeta a algo tão opressor para si como o amor acima descrito, máxime típico da conjugalidade, a ponto de o
namoro qualificado alcançar ares de família.

Provavelmente, está-se diante do momento mais propício para questionar se este seria o limite extremo entre o
namoro e a união estável em perspectiva de amor líquido, dada a dimensão do sacrifício empreendido pelas partes.

Claro que o namoro pode se transformar em arranjo familiar, por declinação das próprias partes, mas a decisão de
evoluir para compromisso e constituir família não ocorrerá sem que se consolide esse objetivo entre os namorados,
de comum acordo. Em perspectiva líquida ou não, resta definir qual seria esse momento.

Enquanto os namorados não constituírem uma família, efetivamente, ainda que o namoro se estenda no tempo,
tenha aparência pública e até mesmo possa vir a existir o desejo das partes de se tornarem família no futuro, o
relacionamento não passa de namoro. Assim esclarece a lição de Luciano L. Figueiredo (2020, p. 80):

A intenção a ser provada é de ser família nos dias de hoje; ou seja: demanda-se animus atual de constituição de
família para verificação da união estável. Assim, se há um projeto para o futuro de constituição de família,
estaremos diante de um namoro. Se há uma família já constituída, em projeto atual, há união estável.

Na união estável, portanto, os companheiros vivem como se casados fossem, assumindo em seu relacionamento
todos os encargos que a conjugalidade atrai, o que configura uma família de fato constituída.

Parece, pois, bastante simples avaliar tais requisitos e perceber a distinção no caso concreto. Porém, ao
hermeneuta restou a complexa tarefa de perceber as sutis variações entre o namoro e a união estável diante de
certas e intrincadas omissões legislativas, o que pode tornar o contrato de namoro ainda mais relevante.

Vive-se a conjuntura de tempos líquidos, união estável constitucionalmente protegida como arranjo familiar,
namoros que se estendem no tempo mas não geram efeitos jurídicos, requisitos pouco claros para caracterização
da união estável, difícil visualização dos exatos limites do namoro, em especial do namoro qualificado.

“Esse é o contexto em que o namoro ganhou destaque social e jurídico. Isso porque nasceu a necessidade de
diferenciá-lo da união estável, em razão dos efeitos jurídicos que essa produz”.

Para Marília Pedroso Xavier (2020, p. 98), o legislador pecou ao não se manifestar claramente acerca dos requisitos
que denotam a união estável, tornando sobremaneira complexa a tarefa de distingui-la do namoro.
No cenário descrito, de ausência de contornos mais nítidos da configuração de união estável, estes fazem com que
essa entidade familiar e o namoro apareçam separados por uma linha tênue, quase imperceptível. Até mesmo os
autores desfavoráveis ao contrato de namoro admitem que a diferença entre as entidades é nebulosa. Certamente,
isso será ainda potencializado se o que estiver em jogo for um namoro qualificado.

Partindo do sobrevoo das normas civilistas, em especial o Código Civil de 2002, a autora observa que, em termos de
normatização, a união estável é no mínimo precária, se comparada ao casamento (XAVIER, 2020, p. 97).

O Código Civil de 2002 conta mais de 70 artigos dedicados unicamente ao casamento, enquanto apenas 13 artigos
regulamentam a união estável.

15. GRANDE DIFERENÇA É ANIMUS FAMILIAE X CONVIVENCIA MORE UXORIO: De fato, ao exigir a
comprovação de objetivo de constituir de família, o legislador não foi literal sobre que condições
atestariam esse requisito da união estável. A doutrina e a jurisprudência, visando à melhor interpretação
da lei, alcançaram o termo convivência more uxorio, pacificando-o na seara jurídica.

Data maxima venia, crê-se que os operadores do Direito, ao lidarem com essa questão, superaram qualquer falha
legislativa, tendo a própria Regina Beatriz Tavares da Silva (2004) afirmado, em outro momento do seu artigo: “Tais
confusões, no entanto, ocorrem muito mais no plano do direito do que no plano dos fatos”.

Atualmente, a convivência como casados, ou seja, more uxorio, é norte interpretativo do requisito de objetivo de
constituição de família. Apenas como complemento, recorre-se ao dicionário de Rodrigo da Cunha Pereira (2015, p.
190):

CONVIVÊNCIA MORE UXORIO [ver tb. more uxorio] – Expressão em latim, que se traduz em ‘segundo o costume de
casado’. É empregada para indicar a convivência entre duas pessoas em condições análogas à do casamento.
Usualmente utilizada para designar a relação de pessoas vivendo em regime de união estável, vivendo sob o mesmo
teto.

A convivência more uxorio deve ser notória, ou seja, os conviventes deverão tratar-se como marido e mulher
socialmente, revelando a intenção de constituir família, o que implica em uma comunhão de vida e de interesses,
mesmo que inexista prole comum.

Nessa toada, o que se nota é a dificuldade em fixar com exatidão os limites da união estável. Considerando que se
trata de situação fática que não exige contrato firmado entre os companheiros, muito embora ele possa ser feito
em Cartório, desafia os Tribunais analisar todos os elementos do caso concreto que podem ser traduzidos em uma
relação pública, duradoura e contínua.

16. EM PORTUGAL: Socorrendo-se do Direito Comparado, à guisa do que há legislado em Portugal quanto à
união de facto, o advogado entende razoável o prazo previsto na Lei nº 7, de 11 de maio de 2012, cujo
item 2 do Artigo 1º dispõe, in verbis: “A união de facto é a situação jurídica de duas pessoas que,
independentemente do sexo, vivam em condições análogas às dos cônjuges há mais de dois anos”.

Para Leonardo Amaral Pinheiro da Silva (2018, p. 74), a legislação lusa foi concebida acertadamente: “O prazo de
dois anos, ali minimamente exigido, funciona como prazo de segurança, parâmetro, um lapso mínimo, como
requisito para se vir a ter configurada uma ‘união de facto’. Um liame de proteção”.

Quanto a essa colocação, com a devida venia, ousa-se propor uma reflexão. Acaso regulamentado o lapso temporal
de dois anos, na ação da modelo, em que o relacionamento se estendeu por cerca de cinco anos, poder-se-ia
tacitamente admitir a união estável, ainda que outros elementos de prova digam o contrário?

Evidentemente, não! A fixação de um lapso temporal como marco para reconhecimento da união estável seria
apenas uma melhor definição de um dos requisitos capazes de constatar a união estável, traduzido no termo
duradouro, mas não se olvide que este deve estar presente no relacionamento concomitantemente com os
demais requisitos fixados em lei.

No caso concreto, não havendo relação pública com aparência de marido e esposa, não se atestando a continuidade
da relação, que fora interrompida várias vezes, nem comprovado o animus familiae, apesar do lapso temporal
decorrido, não se poderia afirmar de forma inequívoca a união estável.

O terceiro capítulo abordará a tutela civil do namoro no Brasil e nos Estados Unidos, enfrentará os argumentos de
nulidade, invalidade e ineficácia do contrato de namoro e concluirá sobre sua consolidação como instituto jurídico
do Direito Civil, especificamente alocado no campo das Obrigações.
Tendo em vista o delineamento do namoro na atualidade, mormente do namoro qualificado, e a necessária
distinção deste em relação à união estável, o que por vezes implica a manifestação do Judiciário sobre o caso
concreto, ganhou notoriedade na praxe social e, também, nos debates jurídicos, a formalização de contrato de
namoro.

Em se tratando da ausência do referido contrato, havendo desentendimento entre as partes sobre a natureza da
relação que se estendeu no tempo e envolve resolução patrimonial especialmente, é provável que se recorra ao
Judiciário para distinguir o namoro da união estável e buscar seus efeitos jurídicos.

A existência de um contrato de namoro, ao contrário, diz muito sobre a relação pretendida pelas partes em comum
acordo. O objetivo do pacto certamente é “[...] deixar claro e induvidoso que ambos os partícipes desfrutariam uma
tão só eventual relação de afeto, entretanto, sem compromisso, circunstância ou pormenor a não admitir quaisquer
consequências patrimoniais”. (SILVA, 2018, p. 86).

1. ABORTO JURÍDICO

O Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, na Apelação Cível nº 70006235287, relatada
pelo Desembargador Luiz Felipe Brasil Santos, em 2004, traz um bom exemplo de que esse caminho
deve ser cimentado com bom-senso e ponderação do Direito brasileiro.

No aresto em questão, o douto Magistrado refere-se pejorativamente ao contrato de namoro ao


mencioná-lo como um “aborto jurídico”, dando margem a interpretações que fomentaram – e ainda
fomentam – argumentos contrários à formalização de contratos de namoro:

[...] contratos de namoro, esses abortos jurídicos que andaram recentemente surgindo por aí, que são
nada mais do que o receio de que um namoro espontâneo, natural, simples e singelo, resultante de um
afeto puro, acabe transformando-se em uma união com todos os efeitos patrimoniais indesejados ao
início.

Acerta a autora em sua defesa, vendo no contrato de namoro mais um elemento de apoio para análise no
Judiciário. Entretanto, apesar de ser cada vez mais requisitado entre namorados que desejam delimitar
melhor uma relação sem desdobramentos juridicamente relevantes, o contrato de namoro tem enfrentado
maiores críticas em sua recepção como instrumento válido e útil na esfera jurídica.

O debate salutar impõe que se estenda o olhar crítico do aplicador do Direito sobre as discussões que
cercam o contrato de namoro, para perceber em cada ponto relevante sua viabilidade, validade e
regramento pertinente.

2. ESTADOS UNIDOS: Muito embora o namoro não tenha sido tutelado pelo Direito de Família
como um instituto jurídico afeto a esse ramo do Direito, cumpre atentar para sua relevância no
Direito Civil-Constitucional brasileiro e também norte-americano.
Instituto já consolidado e bastante utilizado nos Estados Unidos 1 no âmbito das relações de
namoro é o common law marriage2, “[...] originário dos casamentos informais realizados na Europa antes
da ocorrência da Contra-Reforma da Igreja Católica em 1563”. (XAVIER, 2020, p. 107).

Um pouco à semelhança da união estável no Brasil, o common law marriage, orientado por
precedentes judiciais e pela doutrina, considera requisitos para a situação de casados a capacidade civil
das partes (heterossexuais); a coabitação; a vontade mútua de estar em um relacionamento permanente
e exclusivo; a aparência pública de marido e mulher. (XAVIER, 2020, p. 109).

Nesses casos, são apresentados como provas os mesmos fatos que nossos julgadores
costumam apreciar, a exemplo do relacionamento com aparência pública de marido e mulher, a existência
de conta bancária conjunta, prova de dependência econômica e a realização de viagens juntos.

Para esses casais, foi medida de maior relevância no Direito norte-americano o delineamento
de um acordo de intenções em comum para a não configuração de common law marriage, em inglês, o
agreement of joint intent not to have a common law marriage.

O acordo visa deixar cristalino que o casal não deseja ver seu relacionamento reconhecido
como modalidade matrimonial, nem submeter-se aos efeitos jurídicos decorrentes do common law
marriage, exatamente como o contrato de namoro, no Brasil. (XAVIER, 2020, p. 110).

No Direito Civil-Constitucional brasileiro, por sua vez, o contrato de namoro ainda busca maior
projeção e fixação como verdadeiro objeto jurídico a ser tutelado, merecendo os debates que vem
suscitando.

3. CONTRATO DE NAMORO X DIREITO DE FAMÍLIA X DIREITO DAS OBRIGAÇÕES:


Enquanto no Direito de Família o namoro não logrou alcançar o status de instituto jurídico, por
não se tratar de arranjo familiar, haja vista lhe faltar o animus familiae, no Direito das Obrigações
pode-se acompanhar doutrina e jurisprudência que, dia a dia, tornam-se mais receptivas ao
instrumento.
A razão para tanto está nas consequências que podem decorrer da vivência do casal enquanto
namorados. Apesar de a doutrina ser unânime em afastar efeitos jurídicos do namoro no Direito
de Família, no âmbito das obrigações os namoros têm sido melhor compreendidos como
relações capazes de gerar disputas patrimoniais.
Nesse sentido, corrobora Rodrigo da Cunha Pereira (2015, p. 202 apud FIGUEIREDO, 2020, p.
79): “[...] é possível que o namoro leve a uma partilha patrimonial, fincada no direito obrigacional

1
Nos Estados Unidos, já foram comuns as heart balm acts, em tradução livre, as
ações de bálsamo para o coração, para solicitar ao Judiciário em casos específicos
compensação monetária por um dano pelo fim ou interrupção de namoro ou
casamento, o que, figurativamente, parte o coração. Hoje, apenas Carolina do Norte
e outros sete estados ainda admitem essas ações, que foram revogadas ou
restringidas por precedentes judiciais ou pela promulgação de estatutos de bálsamo
para o coração (heart balm statutes). (NEW HAMPSHIRE JUDICIAL BRANCH,
2020, passim).
2
Marília Pedrodo Xavier (2020, p. 108) lista os onze estados norte-americanos que
reconhecem o common law marriage: Alabama, New Hampshire, Colorado, Oklahoma,
Rhode Island, Iowa, South Carolina, Kansas, Texas, Montana e Utah, além do Distrito de
Columbia. Outros cinco estados, Geórgia, Idaho, Ohio, Oklahoma e Pensilvânia, admitem
apenas as uniões efetivadas até a data de abolição do common law marriage em sua
legislação.
e com base na vedação ao enriquecimento sem causa, com olhos à aplicação da teoria da
sociedade de fato”.
De toda a sorte de questões patrimoniais possivelmente decorrentes de um namoro, sem retirar-
lhe a qualidade de relacionamento descompromissado, talvez a mais trivial se refira mesmo a
gastos e investimentos realizados no curso do namoro e à consequente pretensão de reaver o
montante ao término da relação.
4. FILHOS DURANTE O NAMORO:
Afastando-se o debate da seara patrimonial, releva mencionar que nos namoros
contemporâneos, vivenciados com toda plenitude e liberdade sexual, é natural a geração de
filhos comuns. Com isso, têm lugar a presunção de paternidade e a oferta de alimentos, inclusive
provisionais, com fulcro no melhor interesse do menor, independentemente de haver uma família
constituída ou não.
Tais julgados confirmam a tese de João Baptista Villela (1997, p. 24), de que “[...] o casamento
ou qualquer outra forma de associação íntima entre pessoas só interessa ao Estado sob dois
estritos aspectos: a proteção dos filhos menores e a adequada liquidação de um eventual
patrimônio promíscuo que se tenha formado”, aditando-se apenas a pretensão de reparação de
danos, é claro.
Nesse ponto, a realização de um contrato de namoro decorrente da preocupação em evitar
demandas patrimoniais em uma relação que se estende sem maiores compromissos é muito
plausível, caminhando em sintonia com a proposta de autonomia dos contratantes e intervenção
estatal mínima nas relações privadas.
No entendimento de Marília Pedroso Xavier (2020, p. 82-83), este é o melhor horizonte: “Na
questão específica do contrato de namoro, assim como nos demais casos de conjugalidade,
caberia tão só às partes envolvidas resolver autonomamente os rumos do relacionamento [...]”.
5. VALIDADE E EFICACIA:
O que faz do contrato de namoro instrumento de indiscutível relevância jurídica é a sua
disposição em declarar que a relação que rege não se reveste dos requisitos caracterizadores da
união estável, afastando uma sorte de problemas, principalmente de ordem patrimonial, quando
ao relacionamento é dado ponto final.
Para parte da doutrina e da jurisprudência, entretanto e infelizmente, o contrato de namoro não
seria válido, eficaz ou necessário, sob os mais diversos argumentos.
6. JURISPRUDENCIA CONTRA:
6.1. A respeitada doutrina de Pablo Stolze Gagliano (2006) já se manifestou nesse sentido,
compreendendo que o reconhecimento da união estável seria inexorável diante do fato
de o casal viver um relacionamento contínuo, público e duradouro, com aparência de
família.
[...] o denominado ‘contrato de namoro’ poderia ser considerado como uma alternativa para
aqueles casais que pretendessem manter a sua relação fora do âmbito de incidência das regras
da união estável? Poderiam, pois, por meio de um documento, tornar firme o reconhecimento de
que aquela união é apenas um namoro, sem compromisso de constituição de família?
Em nosso pensamento, temos a convicção de que tal contrato é completamente desprovido de
validade jurídica. A união estável é um fato da vida, uma situação fática reconhecida pelo Direito
de Família que se constitui durante todo o tempo em que as partes se portam como se casados
fossem, e com indícios de definitividade. (Grifo do autor).

O argumento de validade do negócio jurídico, entretanto, deve estar adstrito ao disposto no


artigo 104 do Código Civil de 2002, segundo o qual o contrato será válido mediante a
constatação de que foi constituído por agente capaz; objeto lícito, possível, determinado ou
determinável; forma prescrita ou não defesa em lei. Não parece que o contrato de namoro
padeça de qualquer desses requisitos.
Se, por um lado, a caracterização da união estável exige a comprovação do animus familiae, de
outro lado, “[...] manifestações expressas de inexistência do animus seriam aptas, a priori, para
afastar a união estável, salvo raras hipóteses, como a presença de vícios de consentimento,
fraudes...”
6.2. Também decorre dessa discussão a regra geral de invalidade dos contratos de namoro,
fundada na suposição de que ele se constitui com o escopo de burlar a lei, hipótese
aventada por Flávio Tartuce (2019, p. 383):
Ademais, o negócio celebrado não tendo [tem] o condão de interferir nas normas de cunho
pessoal ou de ordem pública, como é o caso da própria caracterização da união estável.
Justamente por isso que é nulo eventual contrato de namoro que pretenda afastar os efeitos de
uma união estável. [...] Resumindo, o contrato de namoro é nulo, pois é flagrante o intuito de
fraude à lei imperativa que estabelece os requisitos da união estável [...].

A justificativa para tanto vem municiada pelo Código Civil, nos termos do seu artigo 166, inciso
VI, que estabelece a nulidade do negócio jurídico quando “tiver por objetivo fraudar lei
imperativa”, mas tal entendimento não deve ser universalizado.
Acatar prontamente a nulidade do contrato de namoro por implicar a tentativa de ocultar uma
união estável significa afastar o pensamento crítico para replicar um equívoco doutrinário. Como
aduz Marília Pedroso Xavier (2020, p. 90): “[...] o tema ainda padece de uma severa lacuna
doutrinária. Até porque, nas raras vezes em que é aludido, opta-se em geral por repetir que o
instrumento é nulo”.
Data maxima venia, cumpre constatar que tal argumento não se confirma, alertando Marília
Pedroso Xavier (2020, p. 104):
Com efeito, entre o que consta no documento e o desenvolvimento no plano fático, deve
prevalecer o segundo. No entanto, não há razão justificável para previamente imputar às partes
o ânimo de fraude à lei. Frise-se que no direito pátrio vigora o princípio da presunção da
inocência.

De fato. O contrato de namoro não obsta o reconhecimento da união estável quando presentes
os requisitos caracterizadores desta e a possibilidade de fraude com o fim de evitar efeitos
patrimoniais afetos à união estável em um namoro não invalida todos os contratos de namoro
que se possam avençar.

Seria, essa máxima, o mesmo que desconsiderar a vontade das partes, a presunção da inocência e da
boa-fé na efetivação do contrato, apenas pela equivocada suposição de que se pode julgar os contratos
de namoro todos por um.

6.3 Objetivamente, o contrato de namoro pode ser pactuado com fulcro no disposto no artigo 425
do Código Civil, segundo o qual, in verbis: “É lícito às partes estipular contratos atípicos,
observadas as normas gerais fixadas neste Código”.

Nada obstante, em 2016, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo foi instado a se manifestar sobre
ação de reconhecimento e dissolução de contrato de namoro consensual que, em primeira instância, foi
extinta sem o julgamento do mérito, por falta de interesse de agir e impossibilidade do pedido.

Na instância recursal, interposta a Apelação Cível nº 1025481-13.2015.8.26. 0554, o Relator


Desembargador Beretta da Silveira negou provimento ao recurso com a seguinte ementa: “Ação de
reconhecimento e dissolução de contrato de namoro consensual. Falta de interesse de agir e
impossibilidade jurídica do pedido. Inicial indeferida. Processo julgado extinto. Sentença mantida. Recurso
desprovido”.

Ao redigir o relatório, o ilustre Desembargador lembrou aos apelantes que “[...] a possibilidade jurídica do
pedido é condição que diz respeito à pretensão. Há possibilidade jurídica do pedido quando a pretensão,
em abstrato, se inclui entre aquelas que são reguladas pelo direito objetivo”.

Tal parecer apenas demonstra o quanto erra a comunidade jurídica quanto à dimensão do contrato de
namoro como instrumento de expressão da vontade dos namorados, furtando-se a tratar o tema com
maior seriedade e evitando sedimentar lastro normativo sob alegação de invalidade do instrumento.

Ainda são poucas as decisões publicizadas que versam sobre o contrato de namoro no Judiciário
brasileiro, tornando especialmente árdua a tarefa de garimpá-las o trâmite da ação sob segredo de
Justiça. (XAVIER, 2020, p. 90).

Entretanto, já se toma por precedente a pouca jurisprudência conhecida, albergada nas regras de
Direito das Obrigações, a exemplo na Apelação Cível nº 0000305-63.2006.8.19.0003, do Tribunal de
Justiça do Estado do Rio de Janeiro:

Apelante e Apelado que viveu, na verdade, um namoro prolongado, com períodos de vida sob o
mesmo teto, mas sem caráter de estabilidade. Não demonstrada a participação da apelante na
aquisição do patrimônio, restando inviável o pedido sob o ângulo da alegada sociedade de fato.
Contrato particular de união livre assinado pelas partes que sela qualquer possibilidade de
partilha de bens. [...]. Contrato celebrado entre as partes que obedeceu plenamente aos requisitos
contidos no artigo 104 do CCivil.

O reconhecimento do contrato entre namorados no decisum vem ao encontro da afirmação da sua


validade jurídica, afigurando-se em tudo razoável filiar-se ao entendimento esposado por Zeno Veloso
(2013), quando destaca:

Então, para prevenir situações constrangedoras e delicadas, evitar explorações, golpes, pedidos
imotivados de pensão alimentícia, divisão de bens, participação na herança, e deixar o
relacionamento bem claro e seguro, definindo criteriosamente os seus limites, expondo
claramente a situação em que os dois se acham, os objetivos que colimam, sempre defendi a
possibilidade de os figurantes celebrarem um contrato de namoro, que expresse o conteúdo, a
extensão, o nível do vínculo afetivo que vivenciam. Até pelo princípio da liberdade de contratar, da
autonomia da vontade, da boa-fé, esse contrato é juridicamente possível, e pode ser conveniente,
útil. (Ver Código Civil, art. 104, 421 e 422 do Código Civil).

De fato, é no campo das obrigações que o contrato de namoro se consolida como instituto
jurídico, havendo nas disposições do Código Civil de 2002, em especial os artigos 104 e 425, e nos
princípios contratuais os comandos legais que viabilizam, tanto quanto legitimam, o instrumento
de expressão da vontade das partes.

Para Ana Carolina Brochado Teixeira (apud XAVIER, 2020, p. 7), a viabilidade do contrato de namoro
existe “[...] na medida em que o Direito Civil-Constitucional confere às pessoas autonomia para regularem
suas relações como melhor lhes aprouver, desde que não ofendam direitos de terceiros”.

7. TEORIA DOS CONTRATOS:


Por oportuno, note-se que a realização de contrato de namoro está em acordo com a mais atual
teoria dos contratos, segundo a qual a autonomia da vontade das partes fora substituída pela
autonomia privada. Para Flávio Tartuce (2020, p. 64):
[...] o contrato de hoje é constituído por uma soma de fatores, e não mais pela vontade pura dos
contratantes, delineando-se o significado do princípio da autonomia privada, pois outros
elementos de cunho particular irão influenciar o conteúdo do negócio jurídico patrimonial. (Grifo
do autor).
Seguindo as principais balizas deste fundamental princípio da teoria dos contratos, Flávio
Tartuce (2020, p. 63) incorpora à sua doutrina como parâmetro regente da autonomia privada a
função social dos contratos, pontuando que:
Não se pode esquecer que o principal campo de atuação da autonomia privada é o patrimonial,
onde se situam os contratos como ponto central do Direito Privado. Esse princípio traz limitações
claras, principalmente relacionadas com a formação e reconhecimento da validade dos negócios
jurídicos. A eficácia social pode ser apontada como uma dessas limitações, havendo clara
relação entre o preceito aqui estudado e o princípio da função social dos contratos.

Nessa linha de exposição, vale colacionar ao argumento em construção algumas linhas sobre a
função social do contrato, importadas da própria doutrina de Flávio Tartuce (2020, p. 67):
Desse modo, os contratos devem ser interpretados de acordo com a concepção do meio social
onde estão ineridos, não trazendo onerosidade excessiva às partes contratantes, garantindo que
a igualdade entre elas seja respeitada, mantendo a justiça contratual e equilibrando a relação
onde houver a preponderância da situação de um dos contratantes sobre a do outro. Valoriza-se
a equidade, a razoabilidade, o bom-senso, afastando-se o enriquecimento sem causa [...].
Ora, se não é exatamente esse o perfil do contrato de namoro! Totalmente alinhado ao princípio
da autonomia privada e à função social do contrato, afastando a hipótese de enriquecimento sem
causa, provendo o equilíbrio da relação em que um dos namorados possui ou possa vir a possuir
patrimônio superior ao do outro.
A conclusão vem em boa hora, já que contradita o posicionamento do mesmo autor, quando
advoga a nulidade do contrato de namoro, fundado na expectativa de que sirva de burla à lei
imperativa. (TARTUCE, 2019, p. 383).
Ao contrário, o contrato de namoro se traduz na fiel expressão da vontade do contratantes dentro
de sua legítima prerrogativa de autodeterminação, pelo que Marília Pedroso Xavier (2020, p.
105) compreende: “[...] nada melhor que facultar às próprias partes a regulamentação jurídica de
um assunto tão íntimo”.
8. NAMORO NÃO IMPEDE RECONHECIMENTO DE UNIÃO ESTÁVEL
Nesse cenário, o cotejo de princípios constitucionais e civilistas é medida que se impõe. A
proibição do venire contra factum proprium, aqui conjugado ao princípio da boa-fé contratual,
“[...] visa proteger a parte contra aquele que deseja exercer um status jurídico em contradição
com um comportamento assumido anteriormente”, assim explicitado pelo Tribunal de Justiça do
Distrito Federal e dos Territórios, no julgamento da Apelação Cível nº 20140111993895.
Dessa forma, o princípio constitucional de proteção à família se sobrepõe ao princípio contratual
e, por consequência, à vontade dos contratantes, permitindo o reconhecimento da união estável,
ainda que os namorados tenham pactuado um namoro sem implicações jurídicas ou intuito de
formar família.
Portanto, repisa-se, o contrato de namoro não obsta o reconhecimento da união estável se os
seus requisitos forem preenchidos. Assim, não há que se falar na nulidade do referido contrato
sob a lógica de que ele se configuraria fraude à lei imperativa por, possivelmente, revestir uma
união estável com o manto de namoro
9. João Baptista Villela (1997, p. 22-24), ao referir-se a determinados aspectos cristalizados no
regime de bens dos cônjuges3, fez interessante menção que ainda hoje continua muito atual,
podendo em tudo ser aproveitada à realidade dos contratos de namoro:
São autoritárias nossas leis de família sempre que retiram às pessoas as faculdades inerentes à
capacidade negocial que se lhes reconhece. [...]. Os custos da contínua e crescente usurpação
de nossa liberdade de autorregramento por parte do Estado são múltiplos e elevados. Ela
começa por nos desqualificar como sujeitos. Depois alimenta a infantilização das pessoas
individualmente consideradas e a castração da sociedade civil. É como se umas e outra fossem
incapazes de adotar, por si mesmas, regras de convivência e de composição dos seus
interesses.
João Baptista Villela (1997, p. 24) prossegue, afirmando: “Na hipótese concreta, o delírio
normativista do Estado traduz-se, por assim dizer, em casar ex officio quem não quis casar motu
próprio”.
Com isso, o autor cimenta o entendimento que se pretende firmar, de que a intervenção estatal
exagerada busca “[...] submeter compulsoriamente ao regime legal do casamento, tanto quanto
possível, aqueles que deliberadamente fizeram a opção pelo não casamento”. (VILLELA, 1997,
p. 24).
Aqui se faz pertinente o questionamento de Ana Carolina Brochado Teixeira (apud XAVIER,
2020, p. 17), para quem:
[...] em época de maior liberdade existencial, é plenamente possível viver relações mais
espontâneas e despretensiosas que satisfaçam seus integrantes, até como contraposição a toda
a rigidez da moral e dos costumes do início do século XX. Diante dessa nova realidade nas
relações humanas, por que não contratualizá-las? Por que não dar validade e eficácia jurídica às
declarações de vontade que exprimem as escolhas pessoais e amorosas dos indivíduos?

Tal perspectiva descortina outro atual debate que envolve o contrato de namoro, referente a sua
eficácia jurídica. Paulo Lôbo (2014) explica que o contrato de namoro foi delineado para atestar a
intenção de não constituição da união estável, uma expressão de vontade das partes, contudo:

Se a intenção de constituir união estável fosse requisito para sua existência, então semelhante
contrato produziria os efeitos desejados. Todavia, considerando que a relação jurídica de união
estável é ato-fato jurídico, cujos efeitos independem da vontade das pessoas envolvidas, esse
contrato é de eficácia nenhuma, jamais alcançando seu intento. Ou quando muito, pode ser
recebido como elemento de prova negativa da união estável, mas que é suscetível de ser
contraditada pela comprovação fática da convivência pública, contínua e duradoura, com
natureza familiar.
10. PAULO LOBO
A assertiva tem lugar justamente por Paulo Lôbo considerar a união estável ato-fato jurídico, “[...]
situação fática reconhecida pelo direito por seus elementos, somente”, prescindindo de
expressão da vontade para sua constituição, assim como reconhecer apenas no casamento um
ato jurídico complexo que “[...] tem na declaração de vontade dos nubentes seu elemento
nuclear”. (XAVIER, 2020, p. 99).
Marília Pedroso Xavier (2020, p. 99), entretanto, diverge de Paulo Lôbo quanto à natureza
jurídica da união estável. Segundo ela, o autor classifica como ato-fato jurídico a união estável e
os demais arranjos familiares oriundos de situações fáticas, a despeito de qualquer elemento
volitivo. Em seguida, explica:
[...] ato-fato jurídico é aquele em que a vontade está em sua gênese, mas o direito a
desconsidera e apenas atribui juridicidade ao fato resultante. Uma das mais relevantes
consequências da categoria dos atos-fatos jurídicos é a de que não estão eles sujeitos aos
princípios da validade, ou seja, não podem ser nulos ou anuláveis. No mesmo sentido, não se

3
aplicam a eles os vícios da vontade, afinal, sua gênese está na simples constatação de fatos.
(XAVIER, 2020, p. 100).

Por isso, Marília Pedroso Xavier (2020, p. 100) se filia à corrente de Marcos Bernardes de Mello, para
quem a união estável é ato jurídico compósito que inequivocamente implica a prova de um elemento
volitivo, o aninus familiae, mais elementos fáticos, representados pela convivência pública, contínua e
duradoura.

A interpretação vem ao encontro da jurisprudência, unânime em trazer o animus familiae como


elemento essencial ao contorno da união estável. Nesse ponto, firma-se: “[...] o contrato de
namoro impede que se complete o suporte fático da união estável, uma vez que atinge
justamente seu elemento volitivo: declara-se expressamente que não se quer constituir família”
(XAVIER, 2020, p. 114).
Por tudo isso, a discrepância entre o tratamento jurídico dispensado aos atos-fatos jurídicos e
aos atos jurídicos compósitos reflete sobre a caracterização da união estável e, certamente, do
namoro qualificado, importa “[...] que se reconheça a natureza da união estável como ato jurídico
compósito, sendo que a vontade e o suporte fático são igualmente importantes”. (XAVIER, 2020,
p. 102).
Marília Pedroso Xavier (2020, p. 102) ainda alerta para que, ao tratar a união estável como ato-
fato jurídico, analisando aspectos puramente fáticos, um dos riscos que se corre é ver
reiteradamente “O fim de um namoro, que até pouco tempo não tinha qualquer efeito jurídico, [...]
se tornar uma discussão judicial longa e custosa”, impulsionando o Judiciário a declarar simples
namoros como arranjo familiar.
Para esses casos, claro, seriam muito bem-vindos os contratos de namoro. Entretanto, outro
risco de ter na união estável um ato-fato jurídico, diga-se de passagem, é justamente o de
adotar-se o ponto de vista de Paulo Lôbo (2014), de que o contrato de namoro teria “eficácia
nenhuma”.
Ao que parece, nenhuma das alternativas são factíveis para Marília Pedroso Xavier (2020, p.
105): “Não há fundamento idôneo que justifique o ato autoritário de impedir que o casal se
autorregule”.
Felizmente, longe das discussões doutrinárias a lavratura de contrato de namoro é realidade e
pode ser feita perante o cartório de notas e o tabelião, que gozam de fé pública para atestar a
livre vontade dos namorados em realizar o pacto.
11. PRINCIPIOS
Leonardo Amaral Pinheiro da Silva, fundado nos regramentos e princípios civilistas que informam
a validade dos negócios jurídicos, assevera que a constituição do contrato de namoro será
admitida tanto na via particular quanto na pública. “Há de se respeitar, em ambos os casos,
todos os requisitos do art. 104 do Código Civil [...], além dos princípios trazidos nos arts. 421 e
422 de nossa codificação, norteadores do Direito Contratual [...]”. (SILVA, 2018, p. 87).
Art. 421. A liberdade contratual será exercida nos limites da função social do contrato. Parágrafo
único. Nas relações contratuais privadas, prevalecerão o princípio da intervenção mínima e a
excepcionalidade da revisão contratual”; “Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar,
assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé”.

12. FORMATO
Frise-se que, conforme aduz Luciano L. Figueiredo (2020, p. 78), apesar de “[...] a lei apenas
exigir que o contrato de convivência seja por escrito, aconselha-se a sua confecção mediante
escritura pública, com o escopo de minimizar os futuros debates sobre eventuais vícios de
consentimento, a exemplo de dolo e coação”.
No contrato de namoro, são admitidas cláusulas que determinem, de forma expressa e literal,
que o relacionamento visa manter simples namoro, sem a pretensão de se formar uma família e,
portanto, alcançar o status de união estável; que a coabitação pode ocorrer sem que isso
implique a constituição de entidade familiar; que os namorados declaram não haver vínculo
financeiro entre eles, cada qual buscando seu provento e sustento individualmente. (SILVA,
2018, p. 87). Ainda, a renúncia, retroativa ao termo inicial do namoro, a todos os direitos
decorrentes da aquisição individual de bens na constância do namoro. (XAVIER, 2020, p. 106).
13. CONTRATO DE NAMORO CAIRÁ EM DESUSO

Se o contrato de namoro cairá em desuso, em face do delineamento do namoro qualificado na


jurisprudência dos tribunais brasileiros, ainda é cedo para afirmar. Na opinião de Leonardo Amaral
Pinheiro da Silva (2018, p. 92), entretanto, o desdobramento é possível e tangível.

Ainda assim, vislumbrando boa eficácia do contrato de namoro, aconselha: “De qualquer forma, fica ainda
a preocupação, notadamente por parte daqueles namoradores, inveterados, mas ‘desconfiados’, em não
dar azo e ver reconhecida, no futuro, uma união estável. Neste sentido, sempre é prudente contratar”.
(SILVA, 2018, p. 92).

Por ora, firma-se que o contrato de namoro ainda terá de superar barreiras para sua
consolidação como instituto jurídico.

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