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Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação – RESAFE

O IDEAL DE BRANQUEAMENTO NO PROJETO EDUCACIONAL


DE JOSÉ VERÍSSIMO
Ricardo Matheus Benedicto*

RESUMO: O presente trabalho tem por objetivo mostrar a importância e o papel desem-
penhado pelo ideal de branqueamento – que orientou os debates da intelectualidade brasi-
leira sobre a formação da sociedade no século passado – no projeto educacional delineado
pelo pensador e literato José Veríssimo Dias de Matos na virada do século XIX para o sécu-
lo XX.
Palavras-chave: branqueamento; educação nacional; mestiçagem eugênica; racismo.

RESUMEN: El presente trabajo pretende mostrar la importancia y el papel desempeñado


por el ideal de blanqueamiento, que guió a los debates de la intelectualidad brasileña sobre
la formación de la sociedad en el siglo pasado, en el proyecto educativo del pensador y lite-
rato José Veríssimo Dias de Matos en el pasaje del siglo XIX al XX.
Palabras clave: blanqueamiento; educación nacional; mestizaje eugenésico; racismo.

Introdução1 enunciada acima, ou seja, que subjacente ao


seu projeto educacional se encontra o ideal
Neste artigo mostraremos que o ideal de embranquecimento dos afro-brasileiros.
de branqueamento do Brasil está presente
na obra educacional do literato, escritor e A política de branqueamento da nação
grande representante da intelectualidade brasileira
brasileira José Veríssimo, A Educação Naci-
onal. Para tanto, na primeira seção, apre- Com o término da escravidão no Bra-
sentaremos brevemente a política de bran- sil e o advento da República, o projeto de
queamento da nação que dominou a pri- nação delineado e executado pelas elites
meira metade do século passado. Em segui- nacionais, tinha no branqueamento do povo
da, mostraremos que este ideal aparece de seu ponto central. Convencidas da ideia da
forma explícita na obra Estudos Brasileiros inferioridade dos africanos e indígenas as
de 1889 e nos artigos O País Extraordinário elites políticas e intelectuais do país se per-
(1899) e Machado de Assis Impressões e Re- guntavam como resolver o que chamavam
miniscências (1908) ambos publicados no de problema negro2, a saber, como construir
Jornal do Comércio. Por fim, nossa análise uma nação civilizada – leia-se branca e oci-
do clássico de Veríssimo evidenciará a tese dental – em um país de maioria negra?

*
Professor Adjunto do Instituto de Humanidades e
2
Letras da Unilab. O artigo é uma adaptação das re- Veremos adiante que o literato José Veríssimo utili-
flexões realizadas no segundo capítulo de minha tese zou esta expressão em artigo publicado no Jornal do
de doutorado. E mail: ricardomb@unilab.edu.br. Comércio em 1899.

BENEDICTO, Ricardo Matheus. O ideal de branqueamento no projeto educacional de José Veríssi-


mo. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação. Número 30: nov./2018-abr.2019, p. 49-63.
DOI: https://doi.org/10.26512/resafe.vi30.28240
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Esta questão foi respondida do ponto degrau na escada da branquificação sis-
temática do povo brasileiro, ele é o
de vista teórico com a ideologia do embran- marco que assinala o início da liquida-
quecimento que tinha como sustentáculo a ção da raça negra no Brasil (NASCI-
tese de que a mistura de raças tornaria ine- MENTO, 2002, p. 113).

vitavelmente o país mais branco, e do ponto


E sobre a política imigratória:
de vista prático com a política nacional de
A orientação predominantemente racis-
branqueamento que estava amparada na ta da política imigratória foi outro ins-
massiva imigração de europeus. trumento básico nesse processo de em-
branquecer o país. A assunção prevale-
Esta política e ideologia foram com-
cente, inspirando nossas leis de imigra-
preendidas corretamente pelo grande pen- ção, considerava a população brasileira
sador afro-brasileiro Abdias do Nascimento como feia e geneticamente inferior por
causa da presença do sangue africano.
que as qualificou acertadamente como ge- (NASCIMENTO, 2002, p. 115)
nocídio do negro brasileiro. Nascimento
mostrou que a ideologia da mestiçagem Os trabalhos de Abdias do Nascimento
esconde na realidade a exploração sexual da (1980, 2002), Elisa Nascimento (2003) Tho-
mulher afro-brasileira bem como o racismo mas Skidmore (1989) entre outros já trata-
e eurocentrismo embutidos no elogio de um ram de maneira satisfatória do processo de
futuro mestiço para Brasil, visto que a mis- branqueamento do país. No entanto, as re-
cigenação só é possível se a natureza daque- centes pesquisas sobre a origem do racismo
les implicados no processo for diferente. e dos modelos tipológicos das sociedades
Nas palavras do autor: racializadas realizadas pelo antropólogo
cubano Carlos Moore faz com que compre-
Para a solução deste grande problema – endamos de maneira mais adequada as ori-
a ameaça da “mancha negra” – já vimos
gens deste tipo de política. Moore mostrou
que um dos recursos utilizados foi o es-
tupro da mulher negra pelos brancos da em sua obra Racismo &Sociedade: novas
sociedade dominante, originando os bases epistemológicas para entender o ra-
produtos de sangue misto: o mulato, o
pardo, o moreno, o parda-vasco, o ho- cismo que diferentemente do que prega o
mem-de-cor, o fusco, e assim por diante senso comum o racismo não é um produto
[...] O crime de violação e de subjuga- da modernidade. De fato, como mostrou o
ção sexual cometido contra a mulher
negra pelo homem branco continuou intelectual cubano ao longo de seu trabalho
como prática normal ao longo das gera- a origem do racismo remonta aos primór-
ções.
Situado no meio do caminho entre a ca-
dios da humanidade.3 Desse modo, existi-
sa grande e a senzala, o mulato prestou ram sociedades racializadas bem antes do
serviços importantes à classe dominan- advento da modernidade, como a civiliza-
te. Durante a escravidão, ele foi capi-
tão-do-mato, feitor, e usado noutras ta- ção indo-ariana, ibero-americana, ibero-
refas de confiança dos senhores, e, mais
recentemente, o erigiram como um
3
símbolo de nossa “democracia racial”. Para uma análise similar da origem do racismo ver
Nele se concentraram a “ameaça racial” a obra de Vulindlela Wobogo Cold Wind From the
representada pelos africanos. E estabe- North: The Prehistoric European Origin of Racism
lecendo o tipo mulato como o primeiro Explained by Diop’s Two Cradle’s Theory, Books on
Demand, 2011.

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árabe e árabe semita. Para Moore o caráter Moore afirma que neste sistema são as
milenar destas sociedades, que ele conside- diferenciações da cor da pele, da textura do
ra pigmentocráticas faz com que elas sejam cabelo, da forma dos lábios e da configura-
uma das formações de relações raciais mais ção do nariz que determinam o status cole-
duráveis na história da humanidade (MO- tivo e individual das pessoas na sociedade
ORE, 2007, p. 266). Dito de outro modo, (MOORE, 2007, p. 260). Assim, o desejo da
Moore defende que o racismo não se estru- brancura se origina nestas sociedades por-
tura a partir do conceito biológico de raça, que a camada dominante não é “branca pu-
mas é uma construção histórica que tem ra”. Como aspiram a este ideal, criam a ilu-
como dado básico fundamental o fenótipo. são de que a mestiçagem produzirá um no-
Desmistificado o senso comum sobre o vo tipo de branco que tomará o seu lugar no
racismo, Moore explica o que é um sistema concerto da civilização ocidental. Elisa Lar-
pigmentocrático. Para o autor, este surge kin Nascimento em sua obra O Sortilégio da
quando um grupo invasor é minoritário e Cor também chama a atenção para este fa-
deve organizar sua dominação sobre uma to. No entanto, ao invés de caracterizar es-
realidade demográfica que ameaça absorvê- tes brancos mulatos como populações bran-
lo (MOORE, 2007, p. 261). Para evitar a sua cas de fusão, Nascimento os caracteriza
extinção, o grupo minoritário, por meio de como brancos virtuais: a expressão evoca
relações sexuais violentas e organizadas, tanto o virtual na acepção de faculdade não
produziu o que o antropólogo chama de realizada, como realidade da era virtual da
populações brancas de fusão. Estes brancos informática: a imagem ou pulso eletrônico
mulatos também pretendem manter a dis- que, apesar de não se conformar num ideal
tância somática do grupo dominado. Em concreto, torna-se real ao gerar efeitos
suas palavras: (NASCIMENTO, 2003, p. 113).
E o que o antropólogo cubano traz
A política de miscigenação, por via da de novidade na compreensão do branquea-
cooptação4 racial, faz emergir, perma-
nentemente, setores fenotipicamente mento em sociedades pigmentocráticas?
diferenciados na população. Por força Moore sustenta, acertadamente a nosso ver,
da disseminação de ideologias de supe-
rioridade racial, esses “mestiços” serão
que esta política de embranquecimento an-
conduzidos a gravitar em torno do polo corada na ideologia da mestiçagem é uma
social e racialmente dominante. [...] política eugênica consciente. Ele nos
O racismo destes “brancos mulatos”
não é menos violento, e talvez seja até mostra que carece de fundamento a ideia de
mais agressivo porquanto a diferença que na antiguidade não havia reprodução
fenotípica observável, comparada com
biológica racialmente seletiva (MOORE,
o padrão fenotípico que caracteriza o
segmento subalternizado se encontra 2007, p. 264). Assim, utilizar a miscigenação
minorado por consequência da misci- como estratégia de dominação não é um
genação (MOORE, 2007, p. 260-261).
fenômeno recente na história da humani-
dade.
Sobre o modelo ibero-americano de
4
Os itálicos são do original. relações raciais o autor assevera:
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sio Nacional – atual Colégio Pedro II – insti-
Na sua obra O Genocídio do Negro Bra- tuições que viria a dirigir depois (ARAÚJO,
sileiro, Abdias do Nascimento (1978)
talvez tenha sido o primeiro pensador
2007, p. 25).
sul americano a ter enquadrado clara- Em sua obra de 1889, Estudos Brasi-
mente os preceitos da doutrina da mis- leiros, na qual investigou as possiblidades
cigenação na América Latina em uma
perspectiva de genocídio [...] tomadas de uma literatura genuinamente nacional,
em seu conjunto, essas quatro obras Veríssimo escreveu:
apontam para o fato de que a miscige-
nação – longe de ser mera inter-relação
individual e respeitosa, ditada pela afei- Para se compreender perfeitamente o
ção, como é conveniente afirmar – é espírito de um povo é necessário estu-
uma política consciente de eugenia raci- dar os diferentes elementos que o com-
al.5 (MOORE, 2007, p. 273) põem. É sobre este critério que assen-
tamos o nosso modo de pensar de que é
do estudo bem feito dos elementos ét-
As instituições escolares tiveram um nicos e históricos de compõe o Brasil,
papel decisivo na implementação deste pro- da compreensão perfeita do nosso esta-
jeto.6 Veremos nas próximas seções que José do atual, de nossa índole, de nossas
crenças, de nossos costumes e aspira-
Veríssimo era um defensor da política de ções que poderá sair uma literatura que
embranquecimento da nação bem como as se possa chamar conscientemente de
brasileira à qual ficará reservado o glo-
relações entre este ideal de sociedade e o rioso destino de fazer entrar este país,
modelo escolar concebido pelo literato. pela forte reação de que falamos atrás
numa nova via de verdadeira civilização
e verdadeiro progresso (VERÍSSIMO,
José Veríssimo e a defesa da política de 1889, p. 13).7
branqueamento
José Veríssimo Dias de Matos (1857- Já sabemos o que a intelectualidade
1916) foi um importante crítico literário, do período concebia como progresso e civi-
historiador e jornalista. Também realizou lização. Falta, agora, saber o que o intelec-
incursões no campo da Antropologia, Etno- tual tinha a nos dizer sobre os elementos
grafia e Educação. Este paraense publicou étnicos formadores do Brasil. Veríssimo
originalmente em 1890 a obra – hoje clássi- considerava que o país foi formado pelos
ca – A Educação Nacional que pretendia tupis, pelos portugueses e pelos africanos.
oferecer um projeto de educação que con- (p. 9). Sobre estes últimos o pensador para-
tribuísse para que a nascente República bra- ense sustentava:
sileira entrasse de forma definitiva no rol Um terceiro elemento étnico veio, pas-
sados tempos, trazer-nos fatal contin-
das nações civilizadas. Foi diretor de instru-
gente. Falamos do elemento africano.
ção no Pará de 1880 a 1891 ano em que se Foi o pior dos que tivemos. Raça de
mudou para o Rio de Janeiro. Na capital do uma barbaria estúpida e feroz, as perse-
guições e atrocidades que sofreu torna-
país, lecionou na Escola Normal e no Giná- ram-na ainda pior do que era. Com esse
elemento veio-nos essa terrível coisa
5
Os itálicos são do original. chamada escravidão, a que julgamos
6
Ver o livro de Jerry Dávila Diploma de Brancura:
7
Política Social e Racial no Brasil 1917-1945. São Paulo: A adaptação ao novo acordo ortográfico foi feita
UNESP, 2006. pelo autor.

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não errar atribuindo em grande parte o Ao ler as palavras de Veríssimo te-
lastimoso estado de nossa sociedade
(VERÍSSIMO, 1889, p.10-11).8
mos a impressão de que os africanos impu-
seram sua presença no território brasileiro e
Veríssimo parece responsabilizar os obrigaram os europeus a se corromperem.
africanos pela escravidão e suas funestas Se a escravidão tornou o africano mau, o
consequências na sociedade, visto que afir- que dizer dos perpetradores de tamanha
mou que ela veio com o elemento africano e barbaridade? Seriam puros cristãos? Basta-
é em parte responsável pelo lastimoso esta- ria que realizassem o trabalho pesado e es-
do da sociedade. O autor não apresentou tariam livres de tão perversa herança. Sobre
argumentos para sustentar a extrema tese a segunda parte da citação, Abdias do Nas-
de que o africano é uma raça bárbara, estú- cimento (2002) argutamente observou que a
pida e feroz o que já é um forte indício do intelligentsia brasileira sempre procurou
eurocentrismo do educador. Como se não tratar a cultura afro-brasileira como exótica,
bastasse a virulência acima, Veríssimo pros- estranha ao contexto brasileiro e como ma-
seguia em sua detração dos africanos: terial de laboratório.
De que forma José Veríssimo enten-
E como não havia de ser assim se desde dia que essa “coisa atroz” deveria ser com-
o berço até o túmulo, bebendo-lhe o batida? Em artigo publicado no Jornal do
leite, ouvindo-lhe os contos ao serão,
folgando com ela, recebendo dela suas Comércio em 1899 é possível obter a respos-
crenças fetichistas – essa raça desgraça- ta à questão:
da e tornada má pela escravidão é nossa
companheira e auxiliar? Isto, no entan-
Não há receio, como supõe, o Sr. Oli-
to, escapou aos nossos literatos que não
veira Lima, de que surja o problema ne-
viram que havia na nossa sociedade al-
gro no Brasil. Antes de surgir, foi aqui
guma coisa pitoresca e alguma coisa
resolvido pelo amor. O cruzamento ti-
atroz a combater (VERÍSSIMO, 1889,
rou do elemento negro toda a impor-
p.10-11).
tância numérica, diluindo-a na popula-
ção branca. O mulato aqui, desde a se-
gunda geração, quer ser branco, e o
branco mesmo, ainda sem deixar-se
8
José Veríssimo ao escrever esta passagem inseriu a iludir, e salvo exceções insignificantes,
seguinte nota de rodapé: Fui profundamente injusto recebe-o, estima-o, liga-se com ele. A
com a raça negra na qual tenho antepassados. Ela é mistura de raças tendendo, como asse-
porventura superior a indígena e prestou ao Brasil guram os etnólogos e pode à primeira
relevantes serviços. O autor provavelmente faz refe- vista ser reconhecido exato, a fazer pre-
rência ao seguinte trecho escrito em Populações valecer a superior, acabará forçosamen-
Indígenas e Mestiças da Amazônia: do estudo da lín- te, em período mais ou menos curto,
gua, das crenças e das tradições populares, aqui, res- por extinguir a raça negra daqui. Já vai
salta em toda a evidência a inferioridade deste ele- isso evidentemente acontecendo, e
mento (negro) e a supremacia das raças indígenas (p. quando a imigração, que penso é o pro-
24). Pena que o intelectual não tenha rejeitado a blema capital do Brasil, vier numerosa,
doutrina da inferioridade africana e indígena e da apressará, com misturas novas, que
superioridade europeia. O que o autor reconsiderou aqui se farão sempre, a seleção. En-
foram os serviços prestados – leia-se escravidão – dos quanto nos Estados Unidos oito mi-
africanos e seus descendentes na formação do Brasil lhões de negros parecem aos seus naci-
e o local que estes deveriam ocupar na hierarquia onais brancos um perigo e uma ameaça,
racial. contra o qual só lhes antolham meios

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violentos de defesa, aqui ninguém cura Oliveira Lima, que a civilização ocidental só
deles, que desaparecem simplesmente
pelo crescimento da população branca,
pode ser obra da raça branca, e que nenhu-
não pura em sua maioria é verdade, ma grande civilização se poderá levantar
mas cuja mescla vai também ganhando com povos mestiços.” Entendido o “proble-
do lado branco e aproximando-se cada
vez mais, segundo a regra da antropo- ma negro” – a formulação deste explicita o
logia, do tipo superior. Sem nenhum lugar epistemológico do qual falavam os
preconceito patriótico, penso, é verda-
autores – qual a solução defendida por Ve-
de que tenho razões pessoais para isso,
que mais demorada que a americana, a ríssimo? O ilustre literato tentou convencer
nossa evolução é, se posso dizer assim, seus interlocutores, que diferentemente dos
mais justa e mais humana. Mesmo nos
duros tempos coloniais, não dividíamos
Estados Unidos, no Brasil a questão seria
jamais a humanidade em duas partes. resolvida com o que chamou de amor. E o
(VERÍSSIMO, 04 de dezembro de que o autor entende por amor? O cruza-
1899).9
mento sucessivo das raças com vistas ao
Tivemos de realizar uma longa cita- branqueamento, ou seja, a mestiçagem eu-
ção para que possamos começar a demons- gênica. Esta identificação seria cômica se
trar o que está enunciado no título desta fosse trágica aos afro-brasileiros.
seção. Além do mais, é importante perceber Não contente com a miscigenação
de que maneira foi, e é, possível escrever compulsória imposta aos afro-brasileiros de
um texto com um conteúdo extremamente forma paternalista e autoritária, Veríssimo
violento utilizando uma linguagem aparen- afirmava, sem evidências, que o elemento
temente mansa e humanitária. Iniciemos, negro endossava a mistura de raças para
então, nossa análise do excerto de Veríssi- tornar-se branco e que estas boas almas os
mo. acolhiam em seu meio sem preconceito! O
O artigo O País Extraordinário, es- autor não via preconceito e racismo em um
crito pelo literato, é uma resenha da obra processo cujo corolário levaria à extinção da
Nos Estados Unidos – Impressões Políticas e raça negra! Ademais, se este processo era
Sociais do intelectual pernambucano Ma- seguro e querido por todos, visto que preva-
nuel de Oliveira Lima (1867-1928). O pensa- leceria o elemento superior, por que susten-
dor paraense discordava de Oliveira Lima tava que a imigração europeia era uma ne-
quanto à possibilidade de o “problema ne- cessidade capital? Não havia, neste ponto,
gro” surgir no Brasil. Como vimos na pri- uma óbvia contradição? Para arrematar seu
meira seção deste artigo, as elites brasileiras discurso “manso” e “humanitário” – sempre
debatiam como construir uma nação branca em oposição à crueldade da solução norte-
e ocidental em um país de maioria afro- americana – asseverava que o Brasil, mesmo
brasileira e indígena. O próprio Veríssimo, durante o período colonial, jamais dividiu a
no artigo que ora analisamos, explicitamen- humanidade em duas partes.
te afirmou: “estou convencido, como o Sr. É, no mínimo, intrigante que um in-
telectual do calibre de Veríssimo equipare
9
este processo de extermínio com o amor.
A adaptação ao novo acordo ortográfico e os itáli-
cos são nossos. Este artigo, que condensa todos os postula-
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dos da política de branqueamento – foi es- José Veríssimo não estava satisfeito
crito em um jornal de grande circulação, o com o estado em que se encontrava a edu-
que mais uma vez evidencia a adesão das cação no país. De acordo com o autor: “o
elites intelectuais do período a política de nosso sistema geral de instrução pública
embranquecimento, além de nos mostrar não merece de modo algum o nome de edu-
como foi possível elaborar um discurso ba- cação nacional. É em todos os ramos [...]
seado nos ideais de civilização, humanidade apenas um acervo de matérias, amontoadas,
e liberdade e ao mesmo tempo sustentar a [...] sem nexo sem lógica, e estranho com-
hierarquia racial, o branqueamento e a con- pletamente a qualquer concepção elevada
sequente extinção dos afro-brasileiros. de pátria” (VERÍSSSIMO, 2013, p. 77). Para o
Veríssimo deixou claro que os afro- intelectual, uma das tarefas da educação,
brasileiros não tinham espaço em um futuro diferentemente da instrução, era restaurar o
Brasil “civilizado”, ou dito de outro modo povo, conduzi-lo para a civilização: “ora,
não valia a pena investir em sua educação. toda a instrução cujo fim não for a educação
Desse modo, tinham de ser assimilados, à cívica e nacional, perde por esse simples
“cultura superior”. No entanto, havia uma fato toda a eficácia para o progresso, para
dúvida sobre a possibilidade dos povos mes- civilização e para a grandeza de um povo”
tiços produzirem civilização. Esta, porém, VERÍSSSIMO, 2013, p. 77).
não sepultou a esperança: Ainda sobre este tema, na introdução
A América é o vastíssimo cadinho em do seu clássico sobre a educação Veríssimo
que se fundem hoje as diversas raças e
gentes. Porventura sua missão histórica
ressaltou a importância do povo neste pro-
é dar, servindo de campo para o cruza- cesso:
mento de todas elas, unidade étnica à
humanidade, e, portanto, nova face às
Se, como é forçoso reconhecer, o estado
sociedades que hão de viver no futuro.
moral do Brasil, e ainda seu estado ma-
Amplíssimo terreiro aberto às ambições
terial, é propriamente desanimador e
de todo gênero, o Novo Mundo, rom-
precário e, sobretudo está muitíssimo
pendo com os velhos preconceitos das
aquém das justíssimas aspirações dos
sociedades tradicionais da Europa toma
patriotas e dos gloriosos destinos que
também o caminho da civilização uma
lhe antevimos, não há tão pouco negar
direção nova deixando atrás de si a Ásia
que nem somente a monarquia e as ins-
e suas antiquíssimas civilizações e a
tituições que lhe eram ministras, senão
África e a sua secular barbaria. (VERÍS-
nós todos somos disso culpados.
SIMO, 1886, p. 9).
É, pois, a nós mesmos, é ao povo, é à
nação, que cumpre corrigir e reformar,
Este é o pano de fundo que orientará se quisermos realize a república as bem
nossa análise da obra A Educação Nacional fundadas auspiciosas esperanças, que
alvoreceu nos corações brasileiros.
de José Veríssimo. Para reformar e restaurar um povo, um
só meio se conhece, quando não infalí-
O ideal de branqueamento no projeto vel, certo e seguro, é a educação, no
mais largo sentido desta palavra (VE-
educacional de José Veríssimo RÍSSIMO, 2013, p. 63).

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Estas ideias acompanharam Veríssi- Veríssimo compreendia que a educa-
mo durante muito tempo. Seu libelo a favor ção devia preparar os indivíduos do ponto
da educação nacional foi republicado em de visto moral, intelectual e físico, ou seja,
190610. Em 1908, no prefácio escrito para formar o ser humano para vida completa
livro de Paulo Tavares Questões de Ensino como membro da pátria, da família e da
podemos ler: humanidade. A educação moral, também
chamada pelo autor de educação do caráter
Não há mais necessidade de começar é aquela que “combate a todos os vícios que
um discurso ou escrito sobre educação
e ensino mostrando-lhes as vantagens e nos mimam e deprimem, e sobretudo pela
a importância. Ainda sem atribuir as educação do sentimento do dever, mais ne-
virtudes mirificas que foi de moda ro-
mântica imputar-lhe, todos parecem de
cessário e ouso dizer, mais nobre que a in-
acordo em considerar a questão, como disciplinada reclamação de direitos” (VE-
uma das mais relevantes oferecidas a RÍSSIMO, 2013, p. 188). Já a educação inte-
atividade política de qualquer povo.
Num país como o Brasil, ela redobra de lectual era compreendida pelo autor como
importância. A instrução, ou melhor, a aquela que “nos dará os elementos indis-
educação nacional aqui, não é só um fa-
pensáveis ao progresso, à civilização e gran-
tor de cultura e progresso; mas, e tal-
vez, principalmente, o fator da nossa deza das nações.” Além disso, a educação
unidade moral. Não nos iludamos; esta intelectual também nos permitiria defender
não só é ainda precária e imperfeita fu-
são dos elementos constitutivos de nos-
e prevenir-nos das ilusões de certas doutri-
sa nacionalidade e até pelas condições nas dos sofistas (VERÍSSIMO, 2013, p. 188).
geográficas do nosso país, mas é cons- Por fim, à educação física competia “regene-
tantemente perturbada, ou está amea-
çada de o ser, pela concorrência, aliás rar a nossa raça e nos dar o vigor necessário
necessária e desejável, de novos fatores para a luta material da existência, a consci-
étnicos e nacionais, diversos dos que
ência do nosso valor pessoal, do qual forma-
contribuíram para nossa primeira for-
mação. rá o nosso valor coletivo e se alentarão nos-
Se é assim, e indubitavelmente, é resul- sas energias morais.” (VERÍSSIMO, 2013, p.
ta para nós a necessidade tão urgente
quanto imperiosa, de cuidar de nosso 188).
ensino público, instrumento de nossa Esta educação nacional descrita por
educação nacional, como o único meio Veríssimo, como pretendia formar um ser
legítimo e eficaz de fortificar a nossa
cultura, promover o nosso progresso humano completo, não era tarefa apenas da
material e moral e operar a fusão, no escola. A família, a ciência, as religiões, o
sentido que nos pareça melhor, dos vá-
governo, a política, a arte e a literatura
rios elementos da nação, de modo a
constituirmo-nos em um grande povo também deveriam ser responsáveis por esta
unido e uno, poderoso e forte11 (VERÍS- fundamental empreitada (VERÍSSIMO,
SIMO, 1908 a, p. ix-x).
2013, p. 188).
Nas citações acima, vimos que Verís-
10
A terceira edição foi publicada somente em 1985. simo fez alusão à fusão das raças e a impor-
Neste trabalho utilizamos a quarta edição publicada tância da imigração estrangeira. Na seção
em 2013.
11
anterior apresentamos o entendimento do
A adaptação ao novo acordo ortográfico foi feita
pelo autor. literato sobre estes conceitos. Seria possível
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relacionar as reflexões efetuadas em outras seguinte passagem: “somos o produto de
obras com as reflexões que o pensador rea- três raças distintas. Duas selvagens e, por-
lizou sobre a educação? Vejamos o que o tanto, descuidosas e indiferentes como so-
próprio Veríssimo tinha a dizer sobre o as- em ser neste estágio da vida, e uma em rá-
sunto: “faz um ano, examinando contristado pido declínio depois de uma gloriosa, bri-
a situação moral do Brasil, no prefácio do lhante e fugaz ilustração” (VERÍSSIMO,
livro Estudos Brasileiros, concluía eu essa 2013, p. 92).
desanimadora revista por estas palavras [...] Também asseverou que os africanos
(VERÍSSIMO, 2013, p. 61). Em seguida es- eram uma raça bárbara, feroz e responsável
creveu o pensador paraense: pelas consequências funestas da escravidão
na sociedade brasileira e pelo lastimável
O Brasil, graças à unidade de raça for- estado em que esta se encontra. Para o au-
mado pelo franco cruzamento das três
que aqui concorreram no início da nos- tor a escravidão fez com que os brasileiros
sa constituição nacional, graças a não se degradassem e tivessem aversão pelo tra-
perturbação desse primeiro resultado
pela concorrência de elementos estran-
balho. Estas reflexões apareceram novamen-
geiros, assim como à unidade da língua, te no seu libelo educacional. Nas palavras
religião, e, em suma, das tradições que do autor:
mais puderam influir naquele fato, isto
é, as portuguesas, têm incomensura-
velmente mais acentuado caráter naci- Não é possível exagerar os males que
onal que os Estados Unidos. E seme- nos trouxe a escravidão. Durante tre-
lhante fato, escrevi eu algures12, nos as- zentos anos refestelamo-nos no traba-
segura um movimento social mais lento lho, primeiro do índio depois do negro.
é verdade, porém mais firme (VERÍS- Queiram os destinos do Brasil que não
SIMO, 2013, p. 64). nos seja preciso tanto tempo para li-
vrarmo-nos de uma vez do funestíssimo
veneno da maldita instituição, que pela
Está claro que as ideias discutidas em indefectível lei da justiça na história,
Populações Indígenas e Mestiças da Amazô- que quer todo o erro traga em si o seu
nia e em Estudos Brasileiros orientaram, em castigo, ainda hoje nos pesa e avexa!
Não somente abolindo como degradan-
grande medida, a obra que ora analisamos. do o trabalho, a escravidão consumou
Verificaremos, a seguir, presença das teses em nós a morte de todas as energias, já
enfraquecidas pelo clima e pela heredi-
da hierarquia racial, branqueamento, mesti- tariedade.
çagem eugênica, superioridade europeia, Extinta a escravidão índia, o africano
inferioridade africana bem como os concei- alegre, descuidoso, afetivo, meteu-se
com sua moralidade primitiva de selva-
tos de civilização e progresso em seu clássi- gem, seus rancores de perseguido, suas
co sobre a educação. ideias e crenças fetichistas, na família,
na sociedade, no lar. Invadiu tudo e
O intelectual paraense afirmou – em
imiscuiu-se em tudo. Embalou a rede
Estudos Brasileiros – que o Brasil foi forma- da sinhá, foi o pajem do sinhô-moço, o
do por três raças. Ele retomou esta ideia na escudeiro do sinhô. Ama, amamentou
todas as gerações brasileiras; mucama, a
12 todas acalentou; homem para todas
O autor se referia ao que escreveu na página 28 de
trabalhou; mulher a todas se entregou.
Populações Indígenas e Mestiças da Amazônia. A
Não havia casa onde não existisse um
citação que apresentamos na página é a introdução
ou mais moleques, um ou mais curu-
desta referência.

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mins, vítimas consagradas aos capri- adágio popular utilizados pelas elites diri-
chos do nhonhô. Eram-lhe o cavalo, o
leva pancadas, os amigos os compa-
gentes que de forma lapidar sintetiza este
nheiros, os criados. desprezo pelas afro-brasileiras: branca para
As meninas, as moças, as senhoras ti- casar, negra para trabalhar, mulata para
nham para os mesmos misteres, as mu-
camas, crioulas e mulatas. fornicar.
Nunca se notou bastante a depravada Como para Veríssimo os africanos
influência deste peculiar tipo brasileiro,
possuíam uma moralidade primitiva, eram
a mulata, no amolecimento do nosso
caráter. “Esse fermento afrodisismo pá- fetichistas e imiscuíram a selvageria na fa-
trio” como lhe chama o sr. Silvio Rome- mília e na sociedade brasileira – além, de
ro, foi um dissolvente da nossa virilida-
servir, com muito bom grado, de saco de
de física e moral (VERÍSSIMO, 2013,
p. 94).13 pancadas do nhonhô e as amas e mucamas
amamentarem e acalentarem todas as gera-
Pelo excerto acima podemos perceber ções brasileiras – podemos imaginar que
claramente a localização psicológica14 do tipo de vícios a educação moral proposta
autor. Além de marginalizar os africanos em pelo literato visava combater:
sua própria história, Veríssimo se referia a
eles como se não fossem brasileiros. A apa- Essa educação, claro está, deve come-
çar, senão desde o berço, conforme
rente exceção – que não valia para as mu- quereriam alguns, ao menos desde os
camas e crioulas – é sua referência à mulata. três anos, na família. Nenhum meio
mais próprio e mais conveniente do que
Isto porque a tradição nacional transfor- esse para encerrar a educação do cará-
mou, e erotizou, esta mulher afro-brasileira ter da criança, e lançar na sua alma os
em produto de exportação nacional. Como gérmens que hão de desenvolver-se
mais tarde no adolescente e no homem.
bem demonstrou Abdias do Nascimento, a A constituição da família brasileira,
política de branqueamento teve como um profundamente viciada pela escravidão,
dos seus pilares o estupro das afro- ressente-se ainda de graves senões, en-
tre os quais o mais saliente é a ausência
brasileiras, porém elas é que são considera- da ação feminina. Os antigos hábitos
das depravadas, responsáveis pelo amole- portugueses de proscrever a mulher não
só da sala, mas de todas as relações so-
cimento do nosso caráter e pela perda de ciais e domésticas, adotamo-los pioran-
nossa virilidade física e moral! Nascimento do-os. [...]. É incalculável a influência
constantemente lembrava em seus textos do que as mucamas tiveram na família bra-
sileira15, como foi profundíssima sua
ação deletéria. E este isolamento da
13 brasileira não era apenas, por assim di-
Os itálicos e as aspas são do original.
14 zer, material, senão moral, pois criado
O conceito de localização psicológica foi desenvol-
vido pelo intelectual afro-estadunidense Molefi Kete num bruto respeito do marido, não ti-
Asante e é um dos conceitos centrais de sua teoria nham suas relações caráter algum de
afrocêntrica. Por meio deste conceito é possível íntimo e igual convívio (VERÍSSIMO,
verificar a perspectiva que orienta o trabalho de 2013, p. 100).16
qualquer pesquisador. Podemos avaliar se uma pes-
soa está localizada em uma posição central em rela-
ção ao mundo africano pelo modo como ela se rela-
ciona com a informação africana. Se ela se refere aos 15
Os itálicos são nossos.
africanos como “outros”, percebemos que os vê dife- 16
Os itálicos são nossos.
rente de si mesma. (ASANTE, 2009, p. 96).

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Veríssimo mais uma vez deixou claro a ta e indireta de duas raças selvagens, nas
oposição entre ser mucama e ser brasileira. quais segundo a lei etnológica, a mulher
A ação daquela, no entender do autor, foi tem sempre um papel mais secundário e
deletéria na família nacional. Vale a pena ter-se-á claramente explicada a posição da
acompanhar o raciocínio desenvolvido pelo mulher brasileira” (VERÍSSIMO, 2013, p.
intelectual para chegar a esta conclusão. 101).
Veríssimo estava preocupado com o fato de Se nossa explicação parece exagera-
as mulheres brasileiras não ocuparem o seu da, vejamos o que Veríssimo tinha a dizer
papel na educação dos filhos, pois para o sobre a influência das afro-brasileiras no
autor a ação delas no que dizia respeito à processo de educação física dos filhos das
família é maior do que a do homem. Sendo “famílias brasileiras” – lembremos que o
assim lamentou o fato de as famílias brasi- autor sustentava que uma das tarefas prin-
leiras terem adotado e piorado os hábitos cipais desta modalidade de educação era
dos portugueses de proscrever as mulheres regenerar a nossa raça:
da vida familiar, das relações sociais e do-
mésticas, bem como o fato das esposas bra- Nada obstante a meiguice e carinho da
mãe brasileira – o que prova que até as
sileiras demonstrarem um respeito bruto virtudes se querem esclarecidas – a nos-
por seus maridos tratando-os por senhor. sa educação infantil, física como espiri-
Veríssimo afirmava que as mães brasileiras tual, é inteiramente primitiva e empíri-
ca.
eram fracas e como evidência para esta Os nossos filhos eram entregues aos
afirmação dizia que não era raro ver uma cuidados das escravas, cujo leite quase
sempre eivado de vícios que mais tarde
criança de três ou quatro anos ainda no co-
lhes comprometeria a saúde, princi-
lo, que elas não faziam seus filhos acordar palmente os alimentava. Eram as mu-
cedo, comer na hora e dar-lhes banho frio camas, escravas ou ex-escravas, – e isto
basta para indicar seu valor como edu-
(VERÍSSIMO, 2013, p. 101). E de quem era a cadoras – que de fato dirigiam a sua
responsabilidade por este estado de coisas: primeira educação física, pois eram elas
da mucama! É espantoso que a discussão da quem superintendia na alimentação,
nos passeios, no vestuário e nos demais
formação do caráter dos brasileiros, feita atos da vida infantil. Não era raro ver
pelo literato, não tenha passado pela inves- meninos de oito e mais anos dormindo
na mesma rede que a mucama do seu
tigação dos valores que levaram a existência
serviço que, em geral extremamente
de mucamas e se estes ainda continuavam amorosa e afeiçoada a eles, não sabia
presentes na sociedade brasileira, ou me- recusar-lhes nada, nem ainda aquilo
que evidentemente lhes podia com-
lhor, em nossa elite intelectual e econômi- prometer a saúde. O que tinham de
ca. enervantes semelhantes e costumes,
Adotando a ciência eurocêntrica e que, sem mentir, se não podem dizer
lindos, não escapará a ninguém.
contrariando todo o saber sobre o matriar- Estes hábitos exigem ser corrigidos e
cado como uma das principais característi- modificados de acordo com os ensina-
mentos da higiene e pedagogia infantil
cas das sociedades africanas, aduzia o pen- (VERÍSSIMO, 2013, p. 113-114).17
sador paraense: “junte-se a estes hábitos
herdados de Portugal [...], a influência dire- 17
Os itálicos são nossos.

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O que dizer das palavras do autor? O A educação física no Brasil é, em todo


rigor da expressão um problema nacio-
leite das afro-brasileiras eivado de vícios nal.
que comprometeria a saúde de nossos fi- Nossa raça, sentem-no todos, se enfra-
lhos? Utilizar como prova da incapacidade quece e abastarda sob a influência de
um clima deprimente, piorada pela falta
de educar das afro-brasileiras o fato de te- de higiene, pela carência de exercício,
rem sido escravizadas? Acaso ser escravo- pela privação da atividade. Uma propa-
ganda que não quero, como o sr. Sílvio
crata atestaria a melhor condição destes
Romero, chamar antipatriótica, mas
para ser educador ou educadora? Como se que certo não viu o interesse do Brasil
não bastasse esta caracterização grosseira, senão por um lado, atraiu determinadas
regiões do país uma imigração, forte pe-
Veríssimo reprovava as mucamas porque lo número e pelo vigor, e que melhor
não diziam “não” para os filhos de seus se- valera disseminada por ele todo. Essa
nhores! Seria possível imaginar uma mu- propaganda continua, e certo continua-
rá a afluir, e em maior número, a imi-
lher afro-brasileira, na condição de escrava, gração, principalmente alemã e italiana.
recusar algo para crianças – em particular os A luta entre essa gente, incomparavel-
mente mais forte, e nós, não pode ser
meninos – que tinham afro-brasileiros co-
duvidosa. O campo de combate será
mo saco de pancadas? Se ela tomasse esta primeiramente o das atividades físicas,
atitude – e muitas tomaram – ainda seria aquele que exige maior soma de robus-
tez, de força e de saúde, o comércio, a
mucama? Escaparia das torturas a que os indústria, os ofícios, a lavoura.
afro-brasileiros foram submetidos durante É, portanto, indispensável prepara-nos
este nefasto período da história brasileira? É para, sem recorrer a meios que não
consente a nossa civilização, não nos
importante observar que o literato estava deixarmos abater e esbulhar, a fim de
preocupado com os efeitos que o sistema que esta terra, que nossos antepassados
criaram e civilizaram, e cuja futura
escravocrata provocou nas elites brasileiras. grandeza prepararam, seja principal-
Não se preocupou em avaliar os valores que mente nossa (VERÍSSIMO, 2013, p. 122).
permitiram mais de trezentos anos de holo-
causto, assim como achava normal a políti- Dada nossa exposição até aqui a refe-
ca de branqueamento para solucionar “o rência acima é autoexplicativa. Tratemos
problema negro”. Não seriam estas impor- agora da concepção de educação intelectual
tantes questões a serem investigadas, visto defendida pelo literato. Esta, de acordo com
que o autor estava refletindo sobre a forma- Veríssimo, nos daria os elementos funda-
ção do caráter nacional e a eliminação dos mentais para o progresso, a civilização. A
vícios que nos deprimiam? A resposta a es- civilização que o educador tem em mente é
tas questões seria afirmativa se as reflexões a ocidental. Este fato, por si mesmo, não
do literato não fossem orientadas pelo eu- constitui um problema. Porém, em um pro-
rocentrismo e pelo racismo. Voltando a jeto assimilacionista, o que significa para os
analisar a importância da educação física afro-brasileiros serem “assimilados” por esta
para o pensador a passagem abaixo é reve- civilização? Significa rejeitar a história e
ladora do papel desta modalidade educaci- cultura africana para abraçar a história e
onal: cultura europeia. Tomemos como exemplo

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Machado de Assis. Observe como nosso to.20 Podemos perceber claramente a arro-
educador, ao homenageá-lo por ocasião de gância e prepotência de Veríssimo e Nabu-
seu falecimento, retratou o intelectual afro- co, que era, e ainda é em grande medida
brasileiro: compartilhada pelas elites brasileiras, ao
tentar impor a identidade branca e ociden-
São tanto mais de admirar e até de ma- tal à Machado de Assis e, por extensão aos
ravilhar, estas qualidades de medida, de
tato, de bom gosto, de harmonia, em
afro-brasileiros. Como bem observou Ab-
suma de elegância, na vida e na arte de dias do Nascimento comentando a carta do
Machado de Assis, que elas são justa- jurista pernambucano: “num detalhe, pelo
mente as mais alheias ao nosso gênio
nacional e muito particularmente aos menos, Nabuco estava com a razão: mulato
mestiços como ele. O próprio destes é é vocábulo pejorativo, e a designação corre-
serem descomedidos, exuberantes, fi-
ta é a palavra negro. Um negro ser chamado
lauciosos, exagerados. Sob este aspecto,
Machado de Assis era a negação viva da de grego é ainda muito pior. Sangue grego,
falaz teoria da raça. Mulato, foi de fato sim, é irremediavelmente estranho à reali-
um grego da melhor época, pelo seu
profundo senso de beleza, pela harmo-
dade negra ou brasileira” (NASCIMENTO,
nia da sua vida e pela eurritmia de sua 1980, p. 112). Mas a elite intelectual brasilei-
obra (VERÍSSIMO, 29 de outubro, de ra era confiante que o futuro da nação seria
1908).18
branco e ocidental.
O pensador que atestou a falsidade Dado o exposto nesta seção parece
da teoria racial é o mesmo que afirmou que não haver dúvidas quanto à presença e in-
bom gosto, elegância e harmonia eram fluência do ideal de branqueamento no pro-
alheios aos mestiços. Por causa deste ideá- jeto educacional que José Veríssimo ofere-
rio, Joaquim Nabuco19 ficou “arrepiado” e ceu à nação.
“recomendou” que Veríssimo não se referis-
se ao intelectual afro-brasileiro como mula-

18
A adaptação ao novo acordo ortográfico é de nossa
responsabilidade.
19
Em uma carta enviada a José Veríssimo, Joaquin
Nabuco escreveu: Seu artigo no jornal está belíssimo,
20
mas essa frase causou-me arrepio: ‘Mulato, foi de fato A reprimenda surtiu efeito. Este artigo não entrou
um grego da melhor época’. Eu não teria chamado o nas obras literárias publicadas por Veríssimo. Sobre
Machado mulato e penso que nada lhe doeria mais do este assunto ver o belíssimo texto de Ana Maria
que essa síntese. Rogo-lhe que tire isso quando reduzir Gonçalves, A caixa, Machado de Assis e o branquea-
os artigos a páginas permanentes. A palavra não é mento do Brasil disponível em:
literária e é pejorativa, basta ver-lhe a etimologia. O http://www.revistaforum.com.br/idelberavelar/2011/
Machado para mim era um branco, e creio que por tal 09/18/a-caixa-economica-federal-a-politica-do-
se tornava; quando houvesse sangue estranho, isso branqueamento-e-a-poupanca-dos-escravos-por-
em nada afetava a sua perfeita caracterização caucá- ana-maria-goncalves/ acesso em 21/06/2017 e o texto
sica. Eu pelo menos só vi nele o grego. O nosso pobre de Silvia Maria Azevedo, O ano da morte de Machado
amigo, tão sensível, preferiria o esquecimento à glória de Assis disponível em:
com a devassa sobre suas origens (Carta a José Verís- http://www.unesp.br/aci/jornal/232/supled.php
simo, 25 de novembro de, 1908). acesso em: 21/06 de 2016.

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Considerações Finais Estado brasileiro. (ARAÚJO, 2007,
p.12)22

O ideal de branqueamento, embora


Esta obra é um oásis no meio de um
desmascarado pelos intelectuais afro-
deserto – no que diz respeito às questões
brasileiros, ainda continua presente no
aqui tratadas. Entretanto, nos cinco artigos
imaginário nacional e, por consequência,
que compõem o livro não há reflexão que
em nosso sistema de ensino.21 Este fato con-
articule as relações entre o eurocentrismo, a
tribui para o pouco estudo existente sobre o
política de embranquecimento da nação e
papel desempenhado pela escola na imple-
seu projeto de educação nacional. Aliás, o
mentação e consolidação da política de
que é um paradoxo, não há uma análise de-
branqueamento da nação. O mesmo fenô-
talhada do projeto de branqueamento deli-
meno, como não poderia deixar de ser,
neado pelas elites brasileiras.
ocorre no que diz respeito a produção sobre
Diante desta situação, é forço-
o projeto educacional de José Veríssimo. A
so concluir que para os afro-brasileiros que
versão mais recente de sua obra A Educação
ingressam e frequentam o sistema educaci-
Nacional contém uma introdução escrita
onal brasileiro, em grande medida, o bran-
pelo professor José Murilo de Carvalho.
queamento ainda é a única opção. Assim,
Nestas quinze páginas não encontramos
para mantermos nossa integridade cultural
uma única referência sobre eurocentrismo e
é urgente construir um modelo educacional
o racismo do educador. Já com o livro José
que valorize e respeite a cultura, a história e
Veríssimo: Raça, Cultura e Educação, orga-
as tradições africanas e afro-brasileiras.
nizado pela professora Sonia Araújo ocorre
algo diferente. O livro é resultado da pes-
quisa dela e de mais quatro professores da
Universidade Federal do Pará e tem como
objetivo:

[...] analisar os escritos de José Veríssi-


mo, por meio do estudo de enunciados
sobre cultura e educação, visando com-
preender o preconceito e a discriminação
étnica tão fortemente presente no Brasil
no século XX e, assim, entender o senti-
do que têm as políticas de inclusão no
campo da educação propostas hoje pelo

21
Jerry Dávila, no último capítulo de Diploma da
Brancura (p. 355), no qual analisa o persistente – e
atual – fascínio brasileiro pela raça, escreve: “a euge-
nia perdeu a legitimidade científica após o final da
Segunda Guerra Mundial, mas as instituições, práti-
cas e pressupostos a que ela deu origem – na verda-
22
de, seu espírito – sobrevivem.”. Os itálicos são do original.

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Referências

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Recebido em: 27/06/2017


Aprovado em: 31/10/2019

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