Você está na página 1de 4

MANA 8(2):195-222, 2002

RESENHAS

FAUSTO, Carlos. 2001. Inimigos Fiéis: bacias do Xingu e do Tocantins, no Es-


História, Guerra e Xamanismo na Ama- tado do Pará, e que entraram em conta-
zônia. São Paulo: EDUSP. 588 pp. to direto com a sociedade brasileira en-
tre 1971 e 1984. Não se trata, porém, de
uma etnografia clássica, no sentido de
Cecilia McCallum uma descrição normativa, em perspecti-
Simon Fellow, University of Manchester va sincrônica. De fato, após suas primei-
ras estadas entre os Parakanã, Fausto
Combinando uma exploração crítica da tecera a base de sua compreensão des-
teoria antropológica com uma contri- se povo, abordando sua estrutura social
buição detalhada e original para o acer- como forma atemporal mediante um es-
vo etnográfico, este livro segue a tradi- tudo de parentesco na aldeia de Apyte-
ção estabelecida pelos melhores estu- rewa. Mas, ao longo de uma década de
dos etnológicos. Fruto de longos anos pesquisa de campo, uma perspectiva
de pesquisa e análise, baseado em tese diacrônica veio a se impor, e um dos ob-
de doutorado premiada, refere-se aos jetivos principais do livro se estabele-
debates mais recentes e instigantes de ceu: a reconstrução microssociológica e
seu campo de estudos, tratando de re- comparativa das mudanças estruturais,
pensar a sua contribuição para a teo- políticas e econômicas vividas durante
ria antropológica, sobretudo no que diz um século pelos dois subgrupos dos Pa-
respeito à relação entre história e ação rakanã, os ocidentais e os orientais, que
social. Essas tarefas são realizadas com se tornariam “inimigos fidagais”. O li-
erudição, elegância e, o que é mais ad- vro conta a história da fissão ocorrida
mirável, um toque leve de linguagem. entre os ancestrais comuns aos dois
Em uma edição bela e cuidadosamen- grupos, no fim do século XIX, e detalha
te produzida, o livro pode ser lido como os processos que levaram à constituição
uma introdução ao estado-da-arte da de dois sistemas sociais diferentes a
etnologia (com algumas ressalvas) e da partir dessa origem compartilhada.
tupinologia no começo do século XXI, A primeira parte é uma exploração
sem, no entanto, se restringir aos ini- das transformações que ocorreram des-
ciantes em antropologia como público- de então, em ambos os subgrupos, pos-
alvo. Prova disso eu tive com um amigo sibilitando ao autor sustentar o argu-
neófito (é juiz de direito) que leu o livro mento de que a morfologia social, a or-
e o julgou “extremamente bem escrito”. ganização econômica, o regime de gê-
Inimigos Fiéis é uma etnografia dos nero e a estrutura política devem ser vis-
Parakanã, falantes de uma língua tupi- tos como construções históricas dinâ-
guarani, cujas terras se localizam nas micas e não estáticas. O que há de novo
196 RESENHAS

aqui é a demonstração de que a história exogâmicas, relativamente fechado e,


parakanã não pode ser entendida ape- entre os ocidentais, de uma ênfase na
nas como uma reação a forças externas. busca da afinidade no exterior, através
A análise etnográfico-histórica susten- da valorização da caça a inimigos e do
ta a crítica àqueles teóricos que tratam rapto de mulheres. Ironicamente, o re-
os fatores externos – invasões de terras, gime de gênero que emergiu nesse se-
conflitos com outros grupos, constrangi- gundo contexto favorecia uma posição
mentos ambientais – como determinan- mais autônoma e igualitária para as mu-
tes únicos das mudanças experimenta- lheres que entre os orientais.
das pelas sociedades indígenas, e que Retratando o sistema de metades,
assim negam a seus membros o papel por exemplo, este não será mais visto
de agentes, mostrando que se aquelas como uma ‘tradição’ ameaçada pela his-
nunca estiveram fora da história, os úl- tória, mas como uma solução sociológi-
timos foram sempre atores engajados ca para um problema posto pelo viver
na produção dos seus próprios destinos. histórico. Fausto mostra o caráter dinâ-
Durante o século XX, os Parakanã mico dessas sociedades, desconstruin-
construíram dois modos de engajamen- do aquela imagem gasta (mas sempre
to econômico e, paralelamente, dois pa- recorrente) dos povos indígenas como
drões de assentamento. No bloco orien- pré ou a-históricos. Mas a intenção de-
tal, possuíam chefia e um sistema de clarada de Inimigos Fiéis é “pensar as
produção agrícola baseado na coope- formas na história e a história nas for-
ração entre agnatos e na coordenação mas” (:16) e, por isso, após examinar os
masculina do trabalho feminino, prefe- “modos do processo”, na primeira par-
rindo um estilo de vida mais sedentário, te, passa para os “modos de forma”, na
desenvolvendo ainda um espaço públi- segunda. Nesse momento, o tom da ex-
co masculino, a tekatawa. Ambos os gru- posição altera-se e o enfoque muda pa-
pos valorizam a caça seletiva, com pou- ra tratar das “formas socioculturais”.
ca ênfase na pesca, mas os ocidentais Focalizando seu olhar sobre os aspec-
levaram esta preferência alimentar mais tos cosmológicos e simbólicos da vida
longe, terminando por abandonar a hor- parakanã, procura integrar à análise
ticultura; grupos pequenos passavam histórica e sociológica, já apresentada
longos meses em trekking longe da al- de um ponto de vista exterior, uma pers-
deia, acarretando uma crescente auto- pectiva interna: the native point-of-
nomia produtiva das famílias e uma ten- view, ou melhor, a visão que deste tem
dência à acefalia. Na literatura, o aban- o autor, por meio de uma exposição mi-
dono da horticultura em favor da coleta nuciosa dos significados, valores, con-
tem sido designado como “regressão” e ceitos e teorias que dinamizam e impul-
tratado como uma conseqüência do im- sionam a ação social.
pacto das frentes de colonização. Fausto A noção de “formas socioculturais”
demonstra como, ainda que facilitados é sugestiva da orientação teórica que
por fatores externos, a adoção de um norteia o texto, escrito agora em regis-
estilo de vida seminômade e a crescen- tro lévi-straussiano, mas em contrapon-
te valorização da belicosidade entre os to crítico à tendência do estruturalismo
Parakanã ocidentais constituíram pro- de enfatizar excessivamente, segundo
cessos internamente motivados. Ainda Fausto, a reciprocidade como forma so-
na parte I, retraça a emergência, entre cial par excellence. Essa obsessão há de
os orientais, de um sistema de metades ser substituída, afirma, por uma ênfase
RESENHAS 197

maior no consumo e na produção. Pa- dade xamânica de sonhar. O principal


ra este fim, adapta a noção marxiana benefício assim adquirido é a possibili-
de “consumo produtivo”, originalmente dade de consumo de identidades outras,
resgatada para a antropologia por Chris uma lógica característica de diversos
Gregory. Em uma manobra feliz, o con- grupos belicosos ameríndios (:329). Os
ceito assimila-se ao terreno já prepara- matadores parakanã travam uma rela-
do por outros etnólogos sul-americanis- ção de predação criativa com os inimi-
tas. O consumo produtivo de Fausto to- gos com a intenção de extrair-lhes o que
ma vida a partir da noção de predação, têm de mais valor – a sua subjetividade.
elaborada por Viveiros de Castro, con- O argumento de Inimigos Fiéis re-
cernente à forma abstrata da relação de mete à teoria da “economia simbólica
alteridade entre sujeitos, relação que, da predação” e se constrói a partir dos
quando posta em prática, é simboliza- parâmetros estabelecidos por Viveiros
da, entre muitos grupos, como um ato de Castro e o estruturalismo brasileiro.
canibal, um ato de consumo que reduz Pretende, no entanto, extrapolar os seus
essa relação de alteridade a um espaço limites, articulando o conceito de consu-
de identidade. Na visão tingida pelo mo produtivo com o de “predação fami-
marxismo amerindianizado de Fausto, liarizante”. Este processo é elaborado no
a predação é mais do que forma abstra- capítulo 5, que trata da relação estabe-
ta, sendo tratada como processo produ- lecida entre os sonhadores e os seus ini-
tivo embutido em uma seqüência eco- migos oníricos, fonte dos poderes de cu-
nômica e fenomênica. A predação, as- ra e os verdadeiros mestres da ciência
sim, contribui integralmente para um xamânica. Não há xamãs entre os Para-
processo produtivo maior, vindo a ser kanã, apenas sonhadores, os quais es-
englobada pela produção, não tanto de tabelecem com os inimigos encontrados
bens materiais, mas primordialmente nos sonhos uma relação de “senhor”-
de pessoas. ”xerimbabo”, por intermédio da qual
O modelo paradigmático do consu- capturam os cantos terapêuticos. O ini-
mo produtivo é elaborado na análise da migo é domesticado por seu sonhador
guerra (capítulo 4). Da crítica cuida- sem, no entanto, perder os seus poderes,
dosa às teorias da guerra ameríndia sendo o protetor do próprio senhor. Não
elaborada pelo autor aprendemos que recebe nenhuma contrapartida para as
a perspectiva predominante busca ex- dádivas. “A predação é um momento do
plicação em fatores como a pressão de- processo de produção de pessoas do qual
mográfica ou a escassez de recursos, o a familiarização é outro” (:418), sublinha
que não se aplica ao caso parakanã, Fausto. Do mesmo modo que a recipro-
enquanto a perspectiva estruturalista, cidade equilibrada não será o comple-
reduzindo a guerra a relações simétri- mento da economia simbólica da pre-
cas de troca, não pode dar conta da des- dação, a estrutura profunda da guerra
truição que desencadeia e, simultanea- ameríndia não é a troca simétrica. Para
mente, do seu aspecto produtivo. Vista se compreender a guerra de modo satis-
como consumo produtivo, a guerra com- fatório, há que se buscar nas relações
bina várias etapas em um processo ca- assimétricas (do tipo pai-filho ou sogro-
nibal essencialmente fértil, desde a des- genro) o modelo complementar ao da
truição do corpo e do espírito do inimi- economia simbólica proposto por Vivei-
go, passando pelo “consumo” olfativo ros de Castro. No capítulo final, o autor
do sangue, até a longevidade e a capaci- volta-se para os tempos históricos, ao
198 RESENHAS

tratar as relações parakanã com a so- serviria para preencher a lacuna analí-
ciedade nacional, desta vez a partir da tica no modelo proposto da produção de
compreensão cosmológica e escatológi- pessoas. E, sobretudo, no nível de cons-
ca alcançada ao longo da segunda par- trução do modelo, falta uma discussão
te do livro. O epílogo retoma o tema da da complementaridade entre agências
predação familiarizante, agora como masculinas e femininas, em prol de uma
modelo geral capaz de dar conta de di- ênfase na hierarquia entre os gêneros,
ferenças entre os dois tipos de sistemas o apagamento do feminino via sua re-
de reprodução social ameríndios que legação ao pré-social e antecultural, e
delineia. o seu eclipsamento sob a sombra do va-
Fausto distancia-se dos estudos ame- lor concedido ao masculino.
ricanistas que, ao modo de Strathern Finalmente, essas observações de-
(The Gender of the Gift, 1988), enten- verão ser vinculadas a um outro comen-
dem a relação entre consumo e produ- tário crítico, que diz respeito à ausên-
ção, referida como “produção consump- cia de um diálogo com o livro de Peter
tiva”, como um momento-chave na pro- Gow, Of Mixed Blood: Kinship and His-
dução da socialidade e da vida cotidiana, tory in Peruvian Amazonia (1991), que
no qual as atividades femininas e a es- também tematiza a relação entre a his-
fera denominada “doméstica” são tidas tória do ponto de vista exterior e a his-
como aspectos essenciais do ciclo de re- tória do ponto de vista nativo, no caso
produção social, tão potentes e ricos em dos Piro da Amazônia peruana.
simbolismo quanto as atividades mascu- Não é preciso dizer que essas res-
linas e a esfera denominada “pública” salvas, críticas e sugestões são ofereci-
(:327, n.71). No que tange ao gênero e das no espírito de um engajamento com
ao cotidiano, Inimigos Fiéis, de fato, ali- as idéias e teorias instigantes de Inimi-
nha-se melhor com o tom conservador gos Fiéis. Para aqueles que gostam de
do estruturalismo, privilegiando as ati- ler e pensar, sejam etnólogos, antropó-
vidades masculinas e ritualizadas e pro- logos, ou simples mortais (como juízes
curando explicitamente revalidar o uso de direito), não há dúvida de que este
de categorias como, por exemplo, a opo- livro é uma adição imprescindível às
sição entre “doméstico” e “público”, na bibliotecas pessoais.
contramão de sua desconstrução pela
literatura feminista e etnológica. Assim,
Inimigos Fiéis pode ser lido como um GOW, Peter. 2001. An Amazonian Myth
estudo de masculinidades parakanã. and its History. Oxford: Oxford Uni-
As feministas da década de 70 prega- versity Press. 338 pp.
ram a correção do “viés de gênero” pelo
estudo direto das mulheres, suas falas e
práticas, o que Fausto comenta não ter Tânia Stolze Lima
podido fazer. Na pesquisa de campo ele Professora, UFF
não teve informantes mulheres, no má-
ximo podendo entrevistar casais juntos. O acontecimento que originou esse li-
Mas a escassez da fala de mulheres não vro é um sobre o qual a literatura antro-
é o problema principal aqui. Sente-se pológica é muito silente, mas isto não é
falta de um olhar mais justo sobre temas razão para crer que ele seja muito raro.
como menstruação, concepção, gravi- Refiro-me àquela circunstância em que,
dez e criação de filhos, um olhar que durante o trabalho de campo, nos des-