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FACULDADE METROPOLITANA DE MANAUS

FAMETRO

2020.2

Psicologia Aplicada em saúde


Disciplina: PSICOLOGIA EM SAÚDE
Curso: Professora Psicóloga :

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 1


Ementa: Introdução ao estudo da Psicologia. Objeto de Trabalho. Conceitos básicos. Teorias psicológicas. Estudo
da personalidade. Elementos e conceitos da psicologia aplicados à área da saúde. Psicologia da saúde. Conceitos de
saúde e saúde mental. Fundamentos e abordagens psicológicas na promoção, prevenção e reabilitação em saúde.
Promoção de saúde e a prevenção de doenças. O atendimento multidisciplinar e multiprofissional. Humanização na
saúde. Atuação do profissional da saúde e a relação com o usuário do serviço.

CONTEÚDO DO SEMESTRE
N1 - UNIDADES QUE SERÃO MINISTRADAS E REQUERIDAS NA AVALIAÇÃO DO 1º BIMESTRE:

UNIDADE I – A HISTORIA E O DESENVOLVIMENTO DA PSICOLOGIA


1. Formas de conhecimento
2. Psicologia intuitiva e Psicologia cientifica
3. O desenvolvimento histórico da Psicologia
4. O conceito de Psicologia
5. O objeto de estudo da Psicologia - Subjetividade
6. Amplitudes e aplicação da Psicologia
7. Profissionais em Psicologia
8. Relação da Psicologia com outras ciências
9. Primeiras escolas da psicologia
UNIDADE I.II – Psicanalise, comportamentalismo, humanismo
1. Behaviorismo
2. Gestalt
3. Humanismo
4. Psicanálise
5. 1ª Estrutura do Aparelho Psíquico
6. 2ª Estrutura do Aparelho Psíquico
7. Funcionamento dos mecanismos de defesa
8. Psiquiatra / psicólogo / psicanalista
9. O estudo da personalidade

N2 - unidades que serão ministradas e requeridas na avaliação do 2º bimestre:

UNIDADE II – A PSICOLOGIA DA SAÚDE


1. Conceito de saúde
2. A saúde mental do profissional de saúde
3. Psicologia da saúde nas políticas publicas
4. A atuação do psicólogo na promoção da saúde
5. Equipe multiprofissional
6. Multidisciplinaridade
7. Objetivo da psicologia preventiva para a família:
8. A psicologia no hospital e suas contribuições para promoção de saúde
9. O psicólogo no hospital
10. A despersonalização do paciente
11. Psicoterapia e psicologia hospitalar
12. Ética e morte no contexto hospitalar
13. Humanização das práticas médicas e qualidade do serviço

UNIDADE III – HUMANIZAÇÂO E ÈTICA


1. Humanização

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2. Humanização e violência institucional

3. Humanização e gestão participativa

4. Humanização e tecnologia do cuidado na assistência à saúde


5. Humanização das práticas médicas e qualidade do serviço
6. A reconstrução do relacionamento médico-paciente: a importância da comunicação

UNIDADE I – A HISTORIA E O DESENVOLVIMENTO DA PSICOLOGIA

1. Formas de conhecimento
“Psicologia” é uma palavra que tem, para o leigo, um sentido bem pouco definido. Ela pode sugerir
muitas coisas para uma mesma pessoa e também coisas diferentes para pessoas diferentes. Um
levantamento breve das expectativas comuns de quem vai iniciar seus estudos em Psicologia ilustra bem
esta diversidade de concepções.
Alguns acreditam que vão estudar as causas e características do desequilíbrio mental; outros
esperam aprender como lidar com crianças em suas sucessivas etapas desenvolvimentais; há os que
pretendem alcançar a compreensão das regras do bom relacionamento interpessoal; alguns expressam o
desejo de poderem vir a psicanalisar pessoas; outros, ainda, almejam treinar-se em mensuração da
inteligência; e encontram-se, também, os que, querem, de forma mais vaga, vir a “compreender o ser
humano”.
Esta lista de expectativas, a par do aspecto altamente positivo que é a predisposição favorável em
relação à disciplina, indica a amplitude de conceituações e permite supor uma crença pretensiosa que
merece algumas palavras de advertência. Trata-se da crença generalizada de que todos nós somos
“psicólogos práticos”, o que se costuma “comprovar” pela nossa quase “infalível” capacidade de “julgar”
as pessoas.
Acreditamo-nos, em suma, conhecedores da “natureza humana”.
Apesar de ser verdade que, por pertencermos, nós mesmos, à espécie humana, devamos conhecer
alguma coisa a seu respeito e, também, que alguns indivíduos são, realmente, mais hábeis do que outros
ao avaliar ou ao relacionar-se com os demais, estes “conhecimentos” não são científicos. E preciso deixar
claro que a Psicologia vem se desenvolvendo na base de esforços sérios, de métodos que exigem
observação e experimentação cuidadosamente controladas. Não se trata, pois, de uma coleção de
“palpites” sobre o ser humano, sua conduta e seus processos mentais.

2. O desenvolvimento histórico da Psicologia

Para compreender a diversidade que a Psicologia se encontra hoje, é indispensável recuperar sua
história. As exigências de conhecimento da humanidade, às demais áreas de conhecimento humano e aos
novos desafios colocados pela realidade econômica e social e pela insaciável necessidade do homem de
conhecer a si mesmo.
As primeiras explicações sobre o ser humano e a sua conduta foram de natureza sobrenatural, tal
como as explicações para todos os eventos. Assim como a tempestade era um indício da cólera dos
deuses, e a boa colheita, do seu favoritismo, o homem primitivo acreditava que um comportamento
estranho e insólito era causado por um “mau espírito” que habitava o corpo da pessoa.
Entre os filósofos gregos surge a primeira tentativa de sistematizar a psicologia. O próprio termo
psicologia vem do grego, psyché, que significa alma, e de logos, que significa razão. Etimologicamente,
psicologia significa “estudo da alma”.

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A alma ou espírito era concebido como parte imaterial do ser humano e abarcaria o pensamento,
os sentimentos de amor e ódio, a irracionalidade, o desejo, a sensação e a percepção.
Tales de Mileto, um filósofo grego do século VI aC, tem sido apontado como quem, primeiro,
procurou explicar os eventos naturais em função de outros eventos naturais. Ele explicou a matéria como
formada de um único elemento natural: a água.
Outros filósofos, depois dele, explicaram a matéria como formada de fogo, de ar, de uma partícula
indefinida (átomo).
O importante nestas primeiras tentativas de explicação é a noção em que até hoje se apoia a
ciência: os eventos naturais devem receber explicações também naturais.
Os filósofos pré-socráticos preocupavam-se em definir a relação do homem com o mundo através
da percepção. Discutiam se o mundo existe porque o homem o vê ou o homem vê o mundo que já existe.
Havia uma oposição entre os idealistas (a ideia forma o mundo) e os materialistas (a matéria que forma o
mundo já é dada para a percepção).
A psicologia com Sócrates (469-399 a.C.) ganha consistência, sua principal preocupação era com o
limite que separa o homem dos animais. Desta forma postulava que a principal característica do homem
era a razão. A razão permitia ao homem sobrepor-se aos instintos, que seria a base da irracionalidade.
Platão (427-347 a.C.) discípulo de Sócrates dá o passo seguinte. O filósofo procurou definir um
“lugar” para a razão no nosso próprio corpo. Definiu esse lugar como sendo a cabeça, onde se encontra a
alma do homem. A medula seria, portanto, o elemento de ligação da alma e do corpo. Este elemento de
ligação era necessário porque Platão concebia a alma separada do corpo.
Aristóteles (384-322 a.C.) discípulo de Platão foi um dos mais importantes da história da Filosofia.
Postulou que a alma e o corpo não poderiam ser dissociados. Para Aristóteles, a psyché seria o princípio
ativo da vida. Tudo aquilo que cresce se reproduz e se alimenta possui a sua psyché ou alma
Sócrates (470-395 aC) e Platão (427-347 aC), os dois grandes filósofos gregos, com seus
ensinamentos, fizeram com que despertasse o interesse pela natureza do homem, o que trouxe ao
centro do questionamento filosófico da época inúmeras questões psicológicas.
Não existe aqui, ainda, a intenção de explicação científica, tal como hoje a concebemos, mas, sim, a
de uma explicação moralista, ética.
Ambos adotam a abordagem racionalista: Sócrates demonstra isto muito bem com o método do
questionamento lógico e Platão, com a sua explicação racional do mundo, pela existência do “mundo das
ideias” que justifica o mundo real.
Aristóteles (384-322 aC) é comumente apontado como o filósofo que teria valorizado, pela primeira
vez, a observação como forma de se chegar a explicar os eventos naturais, apesar de que seu método de
investigação era, também, basicamente racionalista.
A primeira doutrina sistemática dos fenômenos da vida psíquica foi formulada, na antiga Grécia,
por Aristóteles.
Aristóteles acredita que as idéias e, consequentemente, a alma, seriam independentes do tempo,
do espaço e da matéria e, portanto, imortais.
Circunstâncias especiais fizeram com que os escritos de Aristóteles fossem perdidos nas tormentas
produzidas pelas mudanças do mundo ocidental durante mais de mil anos.
Em 1250, com Tomás de Aquino (1224-1275), as obras de Aristóteles alcançaram um notável estado
de perfeição. A determinação aristotélica das relações corpo-alma e as questões ligadas a elas sobre as
diferentes funções psíquicas tornaram possível a este santo da Igreja medieval uma união quase total da
psicologia aristotélica com as doutrinas da Igreja.
A força da psicologia tomista reside uma parte nos fundamentos empíricos da psicologia já,
introduzidos por Aristóteles e nela conservados e, por outra parte, na simultânea ligação com as crenças
religiosas.
Apesar disto, na Idade Média, há pouco interesse pelo estudo dos fenômenos naturais em si
mesmos, talvez pelo fato de a grande predominância dos valores religiosos levar à crença que um
interesse muito grande nos fenômenos naturais era nocivo para a salvação da alma.

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Além disso, o homem é tido como criado à imagem e semelhança de Deus, e seu comportamento
sujeito, apenas, à sua própria vontade e à de Deus.
Tal concepção não favorece o desenvolvimento de uma ciência do homem, já que ele não podia ser
objeto de investigação científica.
Até seu corpo, considerado como uma espécie de “sacrário da alma”, era santo, e não se concebia a
dissecação de cadáveres para o estudo do organismo.
René Descartes (1596-1650), filósofo francês, além de matemático e fisiólogo, voltou a favorecer a
pesquisa sobre o ser humano com a sua teoria do dualismo psicofísico. Para ele, o homem seria constituí
do de duas realidades: uma material, o corpo, comparável a uma máquina e, portanto, cujos movimentos
seriam previsíveis a partir do conhecimento de suas “peças” e relações entre elas (pensamento
mecanicista); e de uma outra realidade, imaterial, a alma, livre dos determinismos físicos.
Todos os organismos vivos apresentariam certa diversidade de processos fisiológicos como, por
exemplo, alimentação, digestão, funciona mento nervoso, crescimento, etc.
A mente, por outro lado, é exclusividade do homem e tem atividades próprias como conhecer,
recordar, querer e raciocinar. Algumas atividades, como a sensação, a imaginação e o instinto, seriam
produtos da interação entre corpo e mente.
Desta concepção sobre o homem decorre que existem duas áreas de estudo: a parte material, o
corpo, a quem se deveria dedicar a ciência; e a parte imaterial, a alma ou mente, domínio da filosofia.
Quem estudasse a alma, portanto, não se poderia valer de observação e mensuração, já que ela é
entidade sem extensão e nem localização. Esta concepção favorece a pesquisa, porque, pelo menos, é
possível estudar corpos mortos e animais, já que ambos não possuem alma.
O pensamento de Descartes influenciou profundamente a filosofia dos dois séculos seguintes, e foi
amplamente aceita a sua teoria do dualismo psicofísico.
Os filósofos dos séculos XVIII e XIX, que tinham a mente e o seu funcionamento como objeto de
estudo de grande interesse, dividiram-se em duas escolas de pensamento: o empirismo inglês e o
racionalismo alemão.
Os primeiros valorizavam principalmente os processos de percepção e de aprendizagem no
desenvolvimento da mente. Para eles, o conhecimento tem base sensorial: as associações fundamentam
a memória e as ideias.
É grande a importância do meio ambiente que estimula a percepção, que é, por sua vez, a base do
conhecimento.
O cérebro desempenha papel primordial, já que é para onde se encaminham os estímulos
sensoriais e onde se processa a percepção. Encontra-se, aqui, a raiz filosófica das investigações biológicas
dos fenômenos mentais.
John Locke (1632-1704), inglês, é tido como o fundador do empirismo, comparou a mente com
uma “tabula rasa” onde seriam impressas, pela experiência, todas as idéias e conhecimentos. Nada
existiria ali que não tivesse passado pelos sentidos (“Nihil est in inteliectu quod prius non fuerit in
sensibus”).
A associação de idéias explicaria muito da vida mental, segundo Locke.
Os filósofos racionalistas, pelo contrário, acreditavam que a mente tem capacidade inata para gerar
ideias, independentemente dos estímulos do meio. Diminuíam, assim, a importância da percepção
sensorial.
Além disso, os racionalistas enfatizaram o papel da pessoa no processo de percepção, afirmando
que a percepção é ativamente seletiva e não um processo passivo de registro, como colocavam os
empiristas, e, também, afirmando que fazemos interpretações individuais das informações dos órgãos
dos sentidos, que poderiam, por isso, ser bastante diferentes entre si.
Preocuparam-se, assim, mais com as atividades da mente como as de perceber, recordar, raciocinar
e desejar — e enfatizaram o conceito de “faculdades” mentais, isto é, capacidades especiais da mente
para realizar estas atividades.

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Um outro ponto em que discordavam empiristas e racionalistas está na possibilidade ou não de
análise, ou decomposição, dos fenômenos mentais.
Para os empiristas, a percepção ou uma ideia complexa era composta de partes, ou elementos mais
simples.
Buscavam identificar tais componentes simples, para poder compreender os fenômenos mentais
complexos. Para os racionalistas, cada percepção é uma entidade indivisível, global, cuja análise
destruiria suas características próprias.
Esta controvérsia é importante porque vai se constituir no, ponto chave do desacordo entre as
teorias psicológicas do início do século XX.
Costuma-se estabelecer como data para o nascimento da Psicologia propriamente dita o ano de
1879, quando Wilhelm Wundt (1832- 1920) criou o primeiro laboratório de Psicologia na Universidade de
Leipzig, na Alemanha.
Wundt foi bastante influenciado pelo ponto de vista dos filósofos empiristas e pelo
desenvolvimento da Fisiologia e Psicofísica experimentais. Ele escreveu um livro intitulado Princípios de
Psicologia Fisiológica, investigou principalmente a percepção sensorial que buscava reduzir aos
elementos mais simples (sensações e imagens) e, também, encontrar os princípios pelos quais estes
elementos simples se associavam para produzir as percepções complexas.
Em outras palavras, para Wundt, o objeto da Psicologia era a análise da experiência consciente (ou
conteúdo mental) nos seus componentes básicos e a determinação dos princípios pelos quais estes
elementos simples se relacionam para formar a experiência complexa.
Wundt fez nascer uma escola psicológica que se denominou estruturalismo porque buscava a
estrutura da mente, isto é, compreender os fenômenos mentais pela decomposição dos estados de
consciência produzidos pela estimulação ambiental.
O método utilizado, a introspecção (“olhar para dentro”), exigia sujeitos treinados para que
pudessem observar e descrever minuciosamente suas sensações em função das características da
estimulação a que eram submetidos.
O relato deveria excluir o que fosse previamente conhecido e limitar-se ao que realmente foi
experienciado sensorialmente.

4. O CONCEITO DE PSICOLOGIA

Psique – Mente
Logos – Saber, estudo.

1. Rubrica: psicologia. Ciência que trata dos estados e processos mentais


2. Rubrica: psicologia. Estudo do comportamento humano ou animal
3. Conjunto dos traços psicológicos característicos de um indivíduo ou de um povo, uma comunidade,
uma geração etc. Ex.: <ele conhece bem a p. do pai dele> <não entendo a p. dos jovens> <a p. dos
ingleses>
4. Curso universitário onde se ensinam os principais ramos da psicologia, bem como ciências afins, e
que forma o psicólogo. Ex.: aluno de p.
5. Atividade psicológica ou mental característica de uma pessoa ou situação
6. Capacidade inata ou aprendida para lidar com outras pessoas, levando em conta suas
características psicológicas; tato, compreensão, jeito. Ex.: é preciso p. para lidar com delinqüentes
7. Análise ou estudo psicológico de um livro, uma obra de arte, um fato, um fenômeno, uma
característica de algo etc. Ex.: <a p. do conto francês> <a p. dos shows de rock>

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1) A letra (23a do alfabeto grego) correspondendo ao nosso "psi" (adotado em os
países como representação da Psicologia).
2) As 02 SERPENTES indicam OS SABERES (pluralidade) sobre essa ciência.
3) Os 02 RAMOS DE LOUROS (na parte inferior do símbolo) no mundo clássico
significavam: glória, honra, orgulho, triunfo, vitória, laurel, preito, homenagem.

A Psicologia se ocupa de todas as atividades da pessoa “total”. “Comportamento”, portanto, é


aplicado para designar uma ampla escala de atividades.
Para Henneman (1974, p. 38) pode incluir: atividades diretamente observáveis como falar,
caminhar, etc; reações fisiológicas internas como batimentos cardíacos, alterações químicas sanguíneas,
etc.; e processos conscientes de sensação, pensamento, sentimento, etc.
Outro autor, Bleger (1979), também sugere uma distinção entre o que chama de áreas da conduta.
Um tipo de conduta se daria na área dos fenômenos mentais, tais como raciocinar, planificar,
imaginar, etc.; outra área seria a do corpo, onde estariam incluídos os movimentos como caminhar, falar,
chorar e também as modificações orgânicas internas; e, finalmente, a área do mundo externo onde
estaria as ações do organismo que produzem efeitos sobre o meio social, meio físico ou sobre si mesmo.
Naturalmente sempre há manifestação coexistente das três áreas, isto é, não é possível nenhum
fenômeno numa das áreas sem que as de mais estejam implicadas. Bleger (1979) assinala que a
Psicologia não é a ciência apenas das manifestações observáveis e nem apenas dos fenômenos mentais,
mas abarca o estudo de todas as manifestações do ser humano.
Na verdade, qualquer tentativa de tratamento isolado de fenômenos ativos, sensíveis, intelectuais
ou outros n corresponde à realidade, pois em cada ato, em qualquer reação do homem, há inter-relação
dos aspectos: o homem é uma unidade indivisível.
Procurando, provavelmente, incluir todas as manifestações do ser humano é que Dorin (1976, p.
17) denomina a Psicologia Humana de “ciência do comportamento e da experiência”. Por experiência ele
entende o “estado consciente ou fenômeno mental experimentado pela pessoa como parte de sua vida
interior (vivência)”.
Chega o momento, então, de se discutir a palavra ciência.
Entende-se por ciência um conjunto de conhecimentos sistematiza dos, obtidos por uma atividade
humana que segue métodos rigorosos.
Dentre as principais características da abordagem científica está a objetividade, isto é, as
conclusões deverão ser baseadas em dados passíveis de mensuração, que as tornem independentes de
inclinações pessoais ou tendenciosidades por parte de quem investiga.
O cientista deverá, também, descrever minuciosamente os procedimentos utilizados na
investigação, de forma a possibilitar a réplica do estudo por qualquer outra pessoa que deseje corroborar
os resultados.
A Psicologia, apesar de se propor a estudar, também, fenômenos não diretamente observáveis,
atende a todos estes critérios da ciência.
A chave da questão está em distinguir fatos de inferências.
A partir da conduta das pessoas é que se inferem motivos como a fome, a necessidade de prestígio;
estados emocionais como o medo, a frustração; atribuí-se-lhes certas capacidades como níveis de
inteligência e certas características como a introversão.
A Psicologia estuda tudo isso e muito mais, mas, como pretende ser uma ciência, baseia suas
conclusões em dados objetivos, e estes só podem vir do comportamento.
Assim, como toda a ciência, a Psicologia usa métodos científicos rigorosos e também como
qualquer outra ciência, procura entender, predizer e controlar os fenômenos que estuda, neste caso, os
comportamentos.
Os psicólogos admitem que ainda não conheçam todas as respostas dos problemas relacionados ao
comportamento humano.

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Apesar disto, não desejam apenas compreender, mas também predizer os fenômenos. Se já
estiverem estabelecidas as condições sob as quais um determinado evento ocorre, é possível antecipar
que ele ocorrerá se tais condições estiverem presentes.
Quando uma ciência atinge este ponto de desenvolvimento em relação a um tópico qualquer,
então também pode se tornar possível o controle do fenômeno.
Controlar pode significar eliminar as condições produtoras do fenômeno, se ele é indesejável; pode
significar, pelo contrário, a sua cuidadosa produção; também pode incluir a sua utilização para fins
práticos; enfim, de uma maneira geral, controlar significa utilizar a compreensão e a capacidade de
predição obtida para fazer algo a respeito do evento.
Na Psicologia, entretanto, uma ciência jovem, os cientistas estão ainda, na maioria dos temas,
procurando obter a compreensão dos eventos comportamentais e a última etapa, o controle do
comportamento, apesar de já ter sido centro de calorosas controvérsias, está, na prática, longe de ser
atingida.
Apesar de todas as dificuldades, muitas compreensões foram sendo obtidas pelos estudos
científicos que, muitas vezes, são chamados de ciência “pura”, e o desejo de utilizar as descobertas nas
situações da vida cotidiana deu origem à psicologia “aplicada”.

5. Objeto de estudo da psicologia é a:

SUBJETIVIDADE HUMANA

O homem em todas as expressões, as visíveis (nosso comportamento) e as invisíveis (nossos


sentimentos), as singulares (porque somos o que somos) e as genéricas (porque somos todos assim) é o
homem-corpo, homem pensamento, homem-afeto, homem-ação.

 SUBJETIVIDADE

É a maneira de sentir, pensar, fantasiar, sonhar, amar e fazer de cada um. Entretanto, a síntese que
a subjetividade representa não é inata ao indivíduo. Ele a constrói aos poucos, apropriando-se do
material do mundo social e cultural, e faz isso ao mesmo tempo em que atua sobre este mundo, ou seja,
é transformando o mundo (externo), o homem constrói e transforma a si próprio. A subjetividade não só
é fabricada, produzida, moldada, mas também é auto-moldavel.
Segundo o dicionário Larousse Cultural (1999), subjetividade é o caráter do que é subjetivo, que,
por sua vez, diz respeito ao sujeito definido como ser pensante, como consciência, por oposição a
objetivo. De fato, a subjetividade engloba todas as peculiaridades imanentes à condição de ser sujeito,
envolvendo as capacidades sensoriais, afetivas, imaginativas e racionais de uma determinada pessoa.
Toda pessoa é uma complexa unidade natural e cultural. Mais que um corpo com funções biológicas e
psicológicas com capacidades de transformar o seu meio pelo trabalho e pela linguagem, o ser humano é
uma unidade de necessidades, desejos, sentimentos, angústias, temores, imaginários, racionalidades e
paixões. Da mesma forma como não podemos considerar o homem apenas como um animal racional,
também não podemos reduzir a subjetividade a uma dimensão meramente cognitiva, a uma consciência,
desconsiderando todas as demais facetas da complexa interioridade de cada um.
6. Amplitudes e aplicação da Psicologia

A distinção que se costuma fazer entre ciência “pura” e “aplicada” é dizer que a primeira busca o
conhecimento desinteressado, sem vistas à sua aplicação, e que a segunda investiga os temas com o
objetivo antecipado de usá-lo em alguma área de atividade humana.

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Tal distinção é, na verdade, apenas acadêmica, estabelecida para fins didáticos, já que ambas estão
intimamente relacionadas.
Muitos cientistas que se dizem “aplicados” fizeram grandes contribuições para o conhecimento
básico e, inversamente, outros, aparentemente “puros”, descobriram fatos e teorias que foram quase
imediatamente aplicados a problemas práticos.
Para fins apenas didáticos, portanto, listam-se os principais subcampos da Psicologia comumente
descritos como dedicados à investigação científica básica:
• A Psicologia Geral, que busca determinar o objeto, os métodos, os princípios gerais e as
ramificações da ciência;
• A Psicologia Fisiológica, que procura investigar o papel que eventos e estruturas fisiológicas
desempenham no comportamento;
• A Psicologia do Desenvolvimento, que estuda o desenvolvimento ontogenético, isto é, as
mudanças que ocorrem no ciclo vital de um indivíduo (os períodos mais estudados deste ciclo vital têm
sido a infância e a adolescência);
• A Psicologia Animal ou Comparado, que tenta estudar o comportamento animal com o objetivo
de, comparando-o ao do homem, melhor compreendê-lo e, também, por buscar a compreensão do
comportamento animal em si;
• A Psicologia Social, que investiga todas as situações, e suas variáveis, em que a conduta humana
é influenciada e influencia a de outras pessoas e grupos;
• A Psicologia Diferencial, que busca estabelecer as diferenças entre os indivíduos em termos de
idade, classe social, raças, capacidades, sexo, etc., suas causas é efeitos sobre o comportamento, além de
procurar criar e aperfeiçoar técnicas de mensuração das variáveis consideradas;
• A Psicopatologia, que é o ramo da Psicologia interessado no comportamento anormal, como:as
neuroses e psicoses;
• A Psicologia da Personalidade, que é a denominação da área que busca a integração ampla e
compreensiva dos dados obtidos por todos os setores da investigação psicológica.

Alguns dos principais ramos da Psicologia aplicada serão descritos brevemente, a seguir, para que o
estudante tenha uma visão inicial da amplitude e utilidade desta ciência.
• Psicologia educacional lida com aplicações de técnicas e princípios da psicologia, quando o
professor procura dirigir o crescimento do educando para objetivos valiosos. Os tópicos mais importantes
nesta tarefa s os das diferenças individuais, aprendizagem e memória, crescimento e desenvolvimento da
criança, motivação, comportamento grupal e outros.
• Psicologia aplicada ao trabalho é o nome genérico que se dá a um conjunto de subcampos, onde,
através da aplicação de dados da psicologia, os instrumentos de trabalho que o homem utiliza podem ser
melhor planejados, o trabalhador pode ser mais apropriadamente se lecionado e o ambiente de trabalho
adequado às características do ser humano. Com isto se objetiva um melhor atendimento às
necessidades do homem e um maior rendimento do seu trabalho. Além disso, os conhecimentos
psicológicos sobre relações humanas na empresa, no comércio, as descobertas sobre a psicologia do
consumidor, sobre liderança e dinâmica de grupo e outros têm também contribuído grandemente para
estas finalidades.
• Psicologia aplicada à medicina pode auxiliar o médico em suas tarefas de diagnóstico,
tratamento e prevenção de doenças. Hoje, em pesquisa da psicologia aplicada à medicina, são temas
preferidos: efeito de drogas sobre o comportamento humano e animal; efeitos de privação sensorial
prolongada sobre sentimentos e respostas de um indivíduo (ex.: vítimas de poliomielite que permanecem
longos períodos em balões de oxigênio, vôos espaciais longos); produção de distúrbios psicossomáticos
em animais; efeitos do estresse sobre as funções fisiológicas humanas, enfim, as perturbações
psicossomáticas.
• Psicologia jurídica envolve a aplicação dos conhecimentos da Psicologia no campo do Direito.
Servem de exemplos as contribuições sobre a confiabilidade do depoimento feito por testemunhas, as

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condições adversas da segregação racial, classes sociais desfavorecidas, efeitos da excitação emocional
sobre o desempenho de delinqüentes e criminosos, etc. Assim, em cada setor em que os conhecimentos
e técnicas da Psicologia são aplicados, ela recebe uma denominação que indica qual o ramo da atividade
humana no qual são utilizados seus conhecimentos. Há muitos outros setores em que isto também
ocorre como a propaganda, a arte, a religião, etc. Pode-se concluir afirmando que a Psicologia é uma
ciência de um campo de aplicação muito amplo, o que justifica plenamente sua importância e a
denominação que tem recebido de “a ciência do nosso século”.

7. Profissionais em Psicologia
Assim como existem muitos e variados campos de aplicação da Psicologia, assim também existem
muitos profissionais que trabalham basicamente com a Psicologia.
Sem dúvida, o principal deles é o psicólogo, que pode atuar em áreas diversas, como sugere a lista
de subcampos e aplicações da Psicologia. Mas muitas pessoas confundem psicólogos com psiquiatras.
O psicólogo é o profissional que faz o curso de graduação em Psicologia e pode se especializar em
qualquer das variadas áreas da Psicologia. Já o psiquiatra é o médico que se especializa em doenças ou
distúrbios mentais. Já o psicanalista é o termo que designa o profissional que em cursos especializados se
torna habilitado a usar a psicanálise.
O psicólogo clínico também trata destes problemas, trabalha em clínicas e hospitais, mas
tratamentos que envolvem a prescrição de drogas, terapias de eletrochoques e outras são prerrogativas
dos psiquiatras.
Outros profissionais, ainda, têm na Psicologia um instrumento importante de trabalho. Entre eles
estão o orientador educacional, o assistente social, o pedagogo, o enfermeiro e muitos outros.

8. Relação da Psicologia com outras ciências


Costuma-se denominar a Psicologia de ciência “biossocial” porque ela se relaciona principalmente
com a Biologia e com as Ciências Sociais.
Para ilustrar estas relações, basta lembrar as inúmeras pesquisas psicológicas orientadas para os
aspectos biológicos do homem e do animal, como as realizadas pela Psicologia Fisiológica, Animal e
Comparada; e, também, aquelas que investigam as atividades sociais dos indivíduos como as da
Psicologia Social, Educacional, do Trabalho.
Mas as relações da Psicologia com outras ciências não se limitam à Biologia e às Ciências Sociais.
A Psicologia conota-se hoje pela sua natureza interdisciplinar.
Assim como a maior parte dos outros campos de estudo, a Psicologia não se preocupa com a
extensão em que uma investigação permanece dentro dos limites formalmente definidos da disciplina.
“Quase todos os campos da Psicologia se sobrepõem a outros campos de estudo, servem-se deles
e, por seu turno, contribuem para eles” (Telford e Sawrey, 1973, p. 25).
Podem-se ilustrar estas afirmativas mostrando que a Psicologia Fisiológica contribui para o
desenvolvimento da fisiologia, bioquímica, biofísica, da biologia geral, etc., mas também se serve das
mesmas para seu desenvolvimento.
A Psicologia Social, em suas regiões limítrofes, se confunde com a sociologia, a antropologia, a
ciência política e a economia.
As pesquisas de opiniões e atitudes, as previsões de comportamento e a dinâmica de grupo exigem
recursos ou conhecimentos de Psicologia, assim como de outras ciências sociais.
Novas áreas de interesse mútuo para diversas disciplinas surgem constantemente.
Um desses campos, de grande interesse atual, é a psicolingüística que estuda as relações acaso
existentes entre a estruturação linguística e a atividade cognitiva e que consegue congregar psicólogos,
linguistas, sociólogos, antropólogos, filósofos num trabalho conjunto para o desenvolvimento da mesma.

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Das ligações da neurologia com a psicologia apareceu um novo ramo da Psicologia que se apresenta
como uma nova interciência: a neuropsicologia, que é o estudo sobre as relações do comportamento
com os dados da fisiologia nervosa e da neuropatologia.
Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas o que importa é ressaltar que não há, hoje, a
preocupação de manter as ciências dentro de um âmbito de investigação restrito pela definição de seu
objeto de estudo.
Para concluir este capítulo, que procurou mostrar em linhas gerais o que é a Psicologia
contemporânea, repete-se, com Marx e Hillix (1974, p. 70) que “a Psicologia de hoje nega-se a ser
limitada a um estreito objeto de estudo por definições formais ou prescrições sistemáticas”.

REFERENCIA BIBLIOGRAFICA
BRAGHIROLL, Elaine Maria; BISI, Guy Paulo: Rizzon,Luiz Antônio; NICOLETTO, Ugo. Psicologia Geral. 36.ed.
Rio de Janeiro: Vozes, 2015.

9. LINHAS TEÓRICAS, ESCOLAS

PRIMEIRAS ESCOLAS DA PSICOLOGIA

 FUNDAMENTALISMO - Willia adaptar-s m James (1842-1910): procura compreender como funciona


a consciência através do seu modo de e ao meio. Importa responder “o que fazem os homens” e
“por que o fazem”.
 ESTRUTURALISMO - Edward Titchner (1867-1927): procura entender a consciência através do
sistema nervoso central. Os conhecimentos psicológicos produzidos são eminentemente
experimentais, isto é, produzidos a partir do laboratórios.
 ASSOCIACIONISMO - Edward L. Thorndike (1874-1949): O termo associacionismo origina-se da
concepção de que a aprendizagem se dá por um processo de associação das idéias — das mais
simples às mais complexas. Formulou a Lei do Efeito, que seria de grande utilidade para a Psicologia
Comportamentalista. De acordo com essa lei, todo comportamento de um organismo vivo (um
homem, um pombo, um rato etc.) tende a se repetir, se nós recompensarmos (efeito) o organismo
assim que este emitir o comportamento. Por outro lado, o comportamento tenderá a não
acontecer, se o organismo for castigado (efeito) após sua ocorrência.

UNIDADE II – PRINCIPAIS POSIÇÕES ATUAIS EM PSICOLOGIA

BEHAVIORISMO

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 11


O criador do behaviorismo é John B. Watson (1878-1959), americano doutorado pela Universidade
de Chicago.
Descontente com a situação em que se encontrava a Psicologia, e inspirado pelo grande
desenvolvimento das ciências naturais na época, Watson propôs um novo objeto de estudo para a
Psicologia: o comportamento (behavior) estritamente observável.
Com isso, descartou dos estudos os fenômenos mentais, sensações, imagens ou idéias, funções
mentais e, também, a introspecção como método.
Afirmava que a única fonte de dados sobre o homem era o seu comportamento, o que as pessoas
faziam o que diziam.
Argumentava que apenas o comportamento era objetivo, e que apenas ele poderia ser o melhor
critério para conclusões realmente científicas.
Esta concepção valorizou os experimentos com animais, cujo comportamento mais simples facilita
a investigação e possibilita conclusões transponíveis para os seres humanos.
Sem nenhuma relação com o behaviorismo americano, desenvolvia-se, na Rússia, o trabalho do
fisiólogo Ivan P. Pavlov (1849-1936) sobre o reflexo condicionado.
Esta noção foi recebida com entusiasmo pelo behaviorismo, pois possibilitava explicar o
comportamento sem referência a processos internos que escapam à observação.
Watson reconheceu no condicionamento uma base para explicar toda a aprendizagem, mesmo a
mais complexa, já que esta poderia ser reconhecida como encadeamentos, combinações e generalizações
de condicionamentos simples.
Coerente com a ênfase dada à aprendizagem, atribuiu-se papel primordial ao ambiente na
formação da personalidade, em contraste com a quase descrença na influência da hereditariedade.
A aprendizagem é a responsável principal, inclusive, pelas mudanças observáveis no
comportamento com o aumento da idade.
A noção de instinto foi abandonada.
A importância atribuída por Watson à influência do meio ambiente pode ser avaliada pelas suas
palavras: “Dai-me uma dúzia de crianças sadias, bem formadas, e um mundo de acordo com minhas
especificações em que criá-las e garanto que, tomando uma ao acaso, posso treiná-la para que se torne
qualquer tipo de especialista que se escolha — médico, advogado, artista, comerciante chefe e, sim, até
mendigo e ladrão - independente de suas inclinações, tendências, talentos, habilidades, vocações e da
raça de seus ancestrais”. (Watson, apud KelIer, 1970, p. 71)
As idéias de Watson foram consideradas bastante radicais no início, mas acabaram ganhando
aceitação ao mesmo tempo em que foram sendo introduzidos “abrandamentos” na posição original.
Hoje, o “behaviorismo clássico” não existe mais, porém é possível afirmar que grande parte, se não
a maior, da Psicologia americana tem orientação behaviorista.
O próprio conceito de Psicologia como “ciência do comportamento”, amplamente aceito, parece
indicar isto.
O behaviorismo propõe uma Psicologia basicamente experimental, e os temas da aprendizagem e
da motivação devem a ele o seu grande desenvolvimento.
A abordagem comportamental surgiu trazendo em si a noção de que era possível prever o
comportamento humano ou animal, pois o comportamento era sempre determinado por uma série de
variáveis. Se fosse possível conhecer todas as variáveis, seria possível prever o comportamento do
indivíduo. Também seria possível controlar seu comportamento, manipulando-se as variáveis que
determinavam aquele comportamento.
Afirma que o ser humano é condicionado, ou seja, seu comportamento é aprendido e ele tende a
repeti-lo quando recebe uma recompensa por ele e tende a abandoná-lo quando não recebe nada em
troca ou quando recebe uma punição.
A abordagem comportamental utilizou experimentos com animais para fundamentar as bases do
comportamento humano. É muito criticada por isso pelas outras abordagens, que a julgam uma visão

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 12


muito simplista do ser humano, por reduzi-lo a suas semelhanças com o animal e a seus comportamentos
condicionados, perdendo de vista toda a riqueza da condição humana. Um dos grandes nomes do
Behaviorismo, B. F. Skinner, assim responde às críticas de que o modelo comportamental não admite
liberdade de escolha ao ser humano:
A psicologia comportamental representa a tentativa mais bem-sucedida de adequar a psicologia ao
modelo tradicional de ciência. Faz críticas a outras linhas justamente porque as demais não se encaixam
perfeitamente nesse modelo de ciência, e recebe críticas dos que a julgam excessivamente rígida e presa
a um modelo de ciência em extinção, baseado nas ciências naturais.

GESTALT
Fundada dentro da filosofia por Max Wertheimmer, Kurt Koffka e Wolfgan Koller , a gestalt traz
novas perguntas e respostas para a psicologia. Ela se detém nos campos da percepção e na visão holística
do homem e do mundo. A palavra gestalt não tem uma tradução exata para o português, mas pode ser
entendida como "forma", "formato", "configuração". Critica principalmente a psicologia de Wundt, que é
chamada de psicologia do "tijolo e argamassa", pois vê a mente humana dividida em estruturas.
É um Movimento de origem alemã, mas que se desenvolveu nos Estados Unidos, nasceu como
oposição às outras correntes psicológicas.
Afirmava que o estruturalismo e o behaviorismo subestimavam o papel do indivíduo,
principalmente nos processos da percepção e aprendizagem, acreditando-o um “registrador” passivo dos
estímulos do ambiente.
O gestaltismo mais conhecido como psicologia da forma que surge na Alemanha, no início do século
XX. Em oposições clara a J. Watson, seus mais importantes representantes foram Max Wertheimmer, Kurt
Koffka e Wolfgan Koller. Seus estudos partiam da experiência imediata, utilizando como método a
fenomenologia. Segundo esses estudiosos, os fenômenos da percepção, da memória e da afetividade
eram vivenciados sob forma de estruturas. Eles recusavam a idéia de Watson, para quem o
comportamento era unicamente dependente do estimulo (relação conhecida como estímuloresposta ou
E-R), afirmando que a forma resultante de um processo de percepção era muito mais que a soma das
partes.
O gestaltismo trazia como preocupação central a necessidade de se relacionar a experiência
imediata dos sujeitos com a natureza física e biológica e com o mundo dos valores socioculturais.
Opunha-se também à decomposição feita pelos estruturalistas dos fenômenos mentais em
elementos simples e àquela feita pelos behavioristas, do comportamento complexo em pequenas
unidades de reflexos ou respostas. Estas decomposições, afirmavam eles, destituíam de sentido o
fenômeno estudado.
A palavra alemã “gestalt” não tem perfeita tradução em português, mas significa,
aproximadamente, o todo, a estrutura, a forma, a organização.
O lema da Gestalt veio a ser “o todo é mais do que a soma das partes”.
Os gestaltistas ilustram esta afirmação mostrando que uma melodia, por exemplo, não pode ser
decomposta em suas notas musicais componentes sem perder a estrutura que a identifica e,
inversamente, constituir-se-á na mesma melodia se tocada com outras notas (uma escala acima ou
abaixo, por exemplo).
Os tópicos da percepção e da aprendizagem (“insight” e raciocínio) foram por eles bastante
investigados através de pesquisas rigorosamente experimentais.
Os principais representantes da Gestalt ou Psicologia da Forma foram Max Wertheimer (1880-
1943), Wolfgag Kohler (1887-1964) e Kurt Koffka (1886-1941), além de Kurt Lewin (1890-1947) que foi
um dos mais famosos gestaltistas, dedicando-se, entre outras coisas, ao estudo da interação social em
situações experimentais controladas.
Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 13
O gestaltismo trazia como preocupação central a necessidade de se relacionar a experiência
imediata dos sujeitos com a natureza física e biológica e com o mundo dos valores socioculturais.
A gestalt preocupa-se com o homem visto como um todo, e não como a soma das suas partes (o
lema da gestalt é justamente este: "O todo é mais que a soma das suas partes"). No ano de 1951,
Frederic S. Perls cria a teoria Gestalt-terapia, que contou com os colaboradores Laura Perls e Paul
Goodman, com base na filosofia de Martin Buber, das terapias corporais de Reich, em filosofias orientais,
na teoria organísmica de K. Goldstem, na teoria de campo de Kurt Lewin, no holismo e em outros.
Wertheimer pôde provar experimentalmente que diferentes formas de organização perceptiva
são percebidas de forma organizada e com significado distinto por cada pessoa. Basearam nisso a idéia de
que o conhecimento do mundo se obtém através de elementos que por si só constituem formas
organizadas.
O todo é mais do que a soma das partes que o constituem. Por exemplo: uma cadeira é mais do
que quatro pernas, um assento e um encosto. Uma cadeira é tudo isso, mas é mais que isso: está
presente na nossa mente como um símbolo de algo distinto de seus elementos.
Segundo a Gestalt, existem quatro princípios a ter em conta para a percepção de objetos e
formas: a tendência à estruturação, a segregação figura-fundo, a pregnância ou boa forma e a constância
perceptiva.

Campo Psicológico

Campo de força que nos leva a buscar a boa-forma. Funciona figurativamente como um campo
eletromagnético criado por um imã ( a força de atração e repulsão). Esse campo de força psicológico tem
uma tendência que garante a busca da melhor forma possível em situações que não estão muito
estruturadas. (Bock, 2003)

Princípios

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 14


Proximidade – os elementos mais próximos tendem a ser agrupados

Semelhança – os elementos semelhantes são agrupados

Vemos 3 linhas e não 4 colunas

Fechamento – ocorre uma tendência de completar os elementos faltantes da figura para garantir sua
compreensão

HUMANISMO

Carl Rogers; Eric Fromm; Abraham Maslow

É um movimento mais recente em Psicologia, que enfatiza a necessidade de estudar o homem, e


não os animais, e indivíduos normais psicologicamente, ao invés de pessoas perturbadas.
Além disto, critica a utilização excessiva do método experimental, cujo rigor e precisão tem
impedido a pesquisa mais significativa com seres humanos.
O homem tem características próprias, é singular e complexo e, por isso, não pode ser investigado
com os mesmos procedimentos aplicados ao estudo de ratos ou outros animais em laboratórios.
Advoga o estudo de processos mentais tipicamente humanos, como: pensar, sentir, etc., apesar de
não serem diretamente observáveis.
Além disso, o homem tem a capacidade de avaliar, de decidir, de escolher, não sendo um ser
passivo que apenas reage aos estímulos do meio.
É alguém que se caracteriza pelas suas potencialidades, pela sua tendência a realizá-las, por estar
em contínua modificação.
São representantes do Humanismo: Abraham Maslow, Rollo May e Carl Rogers.
Este conjunto amplo e heterogêneo de posições teóricas encontra das na Psicologia
contemporânea não deve ser tomado como indício de caos ou confusão, mas, sim, como um estágio no
processo histórico de investigação do homem a respeito de si mesmo.
Esta investigação seguiu, naturalmente, diversos caminhos, com objetos de estudos e métodos
diferentes, o que resultou em diferentes pontos de vista, que não são sempre, necessariamente,
contraditórios, mas podem, apenas, estar se referindo a aspectos diferentes de uma única unidade
complexa, o homem.
Talvez se possa esperar chegar, um dia, a um estágio de desenvolvimento tal que exista uma única
teoria psicológica que consiga englobar todas as posições e descobertas atuais.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 15


É um movimento mais recente em Psicologia, que enfatiza a necessidade de estudar o homem, e
não os animais, e indivíduos normais psicologicamente, ao invés de pessoas perturbadas.
Além disto, critica a utilização excessiva do método experimental, cujo rigor e precisão tem
impedido a pesquisa mais significativa com seres humanos.
O homem tem características próprias, é singular e complexo e, por isso, não pode ser investigado
com os mesmos procedimentos aplicados ao estudo de ratos ou outros animais em laboratórios.
Advoga o estudo de processos mentais tipicamente humanos, como: pensar, sentir, etc., apesar de
não serem diretamente observáveis.
Além disso, o homem tem a capacidade de avaliar, de decidir, de escolher, não sendo um ser
passivo que apenas reage aos estímulos do meio.
Surgiu entre as décadas de 1950 e 1960, como reação e crítica às duas forças anteriores, que na
época dominavam o cenário. Não há um fundador ou teórico que iniciou essa abordagem, mas
normalmente considera-se Abraham Maslow o pai da Psicologia Humanista, principalmente pelo seu
papel como articulador e organizador do movimento.
Maslow, junto com Anthony Sutich, foram os principais responsáveis pelo lançamento, nos Estados
Unidos, da Revista de Psicologia Humanista em 1961, e pela fundação da Association for Humanistic
Psychology, em 1962.
Maslow dizia que o Behaviorismo e Psicanálise não se preocupavam com o tema da saúde
psicológica e propôs-se a trabalhar nesse sentido. Suas teorias foram construídas pela observação não de
pessoas doentes, mas de pessoas com saúde mental acima da média, ou pessoas auto-realizadoras, como
ele as denominou.
Deve-se destacar ainda o nome de Carl Rogers, com sua Terapia Centrada na Pessoa, um dos
grandes colaboradores do movimento humanista, principalmente na fundamentação teórica dessa nova
forma de psicologia. O movimento humanista teve apoio e influência de psicólogos e teóricos de diversas
áreas, incluindo as teorias de discípulos dissidentes de Freud, como Adler, Jung, Otto Rank, William Reich
e Ferenczi. Teve forte influência da Psicologia da Gestalt alemã, com sua visão holística e organísmica, a
ainda das Psicologias Existenciais e da Fenomenologia.
A Psicologia Humanista vê o processo psicoterapêutico como uma técnica de crescimento pessoal
ou de desenvolvimento do potencial humano, e não como técnica de tratamento de doenças mentais.
Portanto, se você ainda achava que psicólogo é coisa pra louco, saiba que foi o movimento humanista
que mudou essa história. Eles passaram a defender a ideia de que a psicoterapia era um processo de
autoconhecimento, útil a qualquer pessoa. Deixaram de chamar o paciente de “paciente”, passando a
chamá-lo “cliente”.
Os humanistas afirmam que as pessoas só podem ser compreendidas como indivíduos. Não se pode
conhecer uma pessoa a partir de dados estatísticos da população ou a partir de estudos com animais,
uma crítica aos métodos do behaviorismo e da ciência tradicional. E ainda, as pessoas precisam ser
compreendidas de forma completa e dentro de seu ambiente natural, e não através de análise de partes
do comportamento ou através de experiências em laboratório. Tom Greening é psicoterapeuta
humanista e foi editor da Revista de Psicologia Humanista de 1971 a 2005.
Ele descreve os cinco postulados básicos da Psicologia Humanista desta forma:

1) Seres humanos são mais do que a soma de suas partes. Não podem ser reduzidos a partes ou funções
que os compõem.
2) Seres humanos só podem ser compreendidos no contexto humano.
3) Seres humanos são conscientes e conscientes de si mesmos.
4) Seres humanos têm livre-arbítrio e responsabilidade por suas escolhas.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 16


5) Seres humanos são intencionais, perseguem objetivos, sabem que podem alterar eventos futuros e
estão em busca de sentido, valor e criatividade.

4. PSICANÁLISE

Criada por Sigmund Freud (1856-1939), a psicanálise é, provavelmente, o sistema psicológico mais
conhecido pelo público em geral, apesar de não ser igualmente bem compreendido.
Este sistema, que influenciou e ainda influencia tão fortemente não só os rumos da Psicologia, mas
também das artes, da literatura, enfim, de toda a cultura ocidental, teve um desenvolvimento inicial
bastante independente da Psicologia como tal.
Freud desenvolveu a sua teoria numa época em que a Psicologia se preocupava com a experiência
consciente, estudada pela introspecção.
Ele era médico neurologista, trabalhava como psiquiatra clínico e, insatisfeito com os
procedimentos médicos tradicionais no tratamento das desordens mentais, passou a investigar as origens
mentais dos comportamentos.
Divulgou a noção de motivação inconsciente para o comportamento, enfocou a importância da
primeira infância na formação da personalidade.
Sua ênfase sobre a sexualidade como um dos motivos básicos do comportamento e como fonte de
conflitos foi uma das razões da grande polêmica que se gerou em torno da teoria. Esta abordagem
explicou o comportamento humano de forma radicalmente diversa das demais, e sem levá-las em
consideração.
Hoje, a psicanálise é considerada uma das correntes psicológicas, apesar de ter nascido e se
desenvolvido de maneira completamente independente.
A posição neopsicanalítica apresenta algumas diferenças em relação à posição freudiana original,
mas continua a suscitar controvérsias. Pela ausência da experimentação, as colocações psicanalíticas
costumam ser rejeitadas pelo cientista de laboratório, mas o clínico, particularmente, tende a apoiá-las.
A psicologia tradicional centrou seus estudos na consciência. Sigmund Freud significou uma nova
forma de entender à psicologia e influiu de maneira notável em toda a cultura do século XX. Seu contribua
fundamental é a descoberta do inconsciente. Estabeleceu que ali se encontram as verdadeiras razões que
determinam nossas condutas que são desconhecidas para nós mesmos.
A partir das descobertas freudianas surgiu uma nova forma de entendimento da psicologia; assim
foi como se constituiu a Teoria Psicanalítica. Freud; enfatiza o papel do inconsciente e as experiências
infantis.
A Psicanálise, criada por Sigmund Freud, por volta de 1900. A grande inovação trazida por Freud
foi introduzir na psicologia a noção do inconsciente. Segundo a visão psicanalítica, a mente humana é
composta por uma parte consciente e uma parte inconsciente.
A parte consciente contém todos os conhecimentos e informações que utilizamos
conscientemente. Nossos pensamentos, emoções conhecidas, memórias, reflexões e devaneios estão
todos lá. Mas essa é apenas uma parte muito pequena da mente. A outra parte, o inconsciente, é muito

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 17


maior que a parte consciente. Lá estão nossos instintos e impulsos primitivos, e as coisas que não
aceitamos sobre nós mesmos. Normalmente não temos acesso a essa parte, mas ela funciona e governa
nossos comportamentos, independente de nossa vontade. Enquanto essa parte desconhecida governa
nosso comportamento, não temos controle pleno sobre nossos atos.
O trabalho do terapeuta então é trazer os conteúdos inconscientes para a consciência, de modo
que tenhamos a possibilidade de tomar decisões mais de acordo com nossa vontade consciente. Freud
identificou e criou algumas formas de acessar o inconsciente: inicialmente trabalhou com a hipnose, mas
posteriormente abandonou-a por encontrar outros métodos mais eficientes.
Os principais são os sonhos, o método de associação livre e os atos falhos ou lapsos. Freud afirmou
que os sonhos são uma realização de desejos inconscientes. No sonho, acontece aquilo que você deseja.
Mas sempre é um desejo que você mesmo não aceita que possui, normalmente por razões morais. Por
exemplo, você teve uma séria briga com seu pai e no mesmo dia sonhou que ele estava caindo num
abismo. Isso pode indicar que naquele momento você desejou a morte de seu pai. Por ser um desejo
moralmente inaceitável, ele permanece inconsciente e se realiza através do sonho. É claro que este é um
exemplo bem didático e simplista. Normalmente, mesmo nos sonhos o desejo inconsciente aparece de
forma bem mais disfarçada.
Outro método de acesso ao inconsciente é a associação livre. Esse método foi criado por Freud e
consiste em pedir que o paciente vá falando livremente sobre qualquer assunto a partir de um dado tema.
Analisando as divagações do paciente por assuntos aparentemente sem qualquer relação entre si, pode-
se encontrar as conexões inconscientes. Por isso aquela imagem clássica do paciente deitado no divã e
falando sem parar, enquanto o terapeuta só escuta.
O homem é visto por Freud como um ser que busca o prazer e evita o desprazer, guiado
fundamentalmente por instintos primitivos. Freud era psiquiatra e seus estudos foram quase todos feitos
sobre pessoas com distúrbios psíquicos. É criticado, portanto, por focalizar excessivamente a doença e
não a saúde.
A psicanálise é ainda considerada por muitos uma abordagem não científica, pois alegam que não
se pode comprovar a existência do inconsciente. Outra crítica refere-se ao que se chama “determinismo
psíquico”, ou seja, o homem não tem liberdade de escolha, uma vez que está sempre sendo guiado por
desejos inconscientes. A influência da psicanálise não só determinou mudanças importantes na ciência
psicológica senão que se estendeu a outros campos científicos, para a arte em todas suas manifestações e
à vida social da população.
A psicanálise para Freud é:

Método de investigação dos processos mentais, através de CATARSES (Associação Livre).


Psicoterapia para o tratamento dos transtornos neuróticos
Teoria científica sobre a psicologia

Sigmund Freud, considerado como o Pai da Psicanálise, foi um dos psicólogos mais influentes dos
últimos dois séculos. Polêmicas, ousadas e radicais, suas teorias a respeito de fenômenos como
interpretação dos sonhos, sexualidade e inconsciente ainda são alguns dos temas mais estudados e
criticados nesse campo de saber. Como se sabe, a motivação sexual foi muito enfatizada por Freud,
particularmente, nos seus primeiros trabalhos. Uma das mais conhecidas - as cinco fases do
desenvolvimento psicossexual da criança - ainda provoca acaloradas discussões entre os profissionais da
área.
De acordo com Freud, as crianças passam por cinco fases ( psicossexual) de desenvolvimento:

I – A fase oral (0 – 1 ano)

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 18


Desde o nascimento, Freud afirma que a primeira fase de desenvolvimento de uma criança se
concentra na região oral. Tendo como exemplo principal foco a amamentação da mãe, a criança obtém
prazer no momento da sucção e sente satisfação com a nutrição proporcionada pelo ato. Caso a
amamentação fosse interrompida precocemente, o autor afirmava que a criança teria atitudes suspeitas,
não confiáveis ou sarcásticas, enquanto aquela que for constantemente amamentada terá uma
personalidade confiante e ingênua. Com duração de um ano a um ano e meio, a fase oral termina com na
época do desmame.

II – A fase anal (1 – 3 anos)

Após receber orientações sobre higiene íntima, a criança desenvolve uma obsessão para com a
região anal e o ato de brincar com as próprias fezes. Freud afirmava que a criança vê esta fase como uma
forma de se orgulhar das suas "criações", o que levaria à personalidade "anal expulsiva". A criança
poderia também propositadamente reter seu sistema digestivo como forma de confrontar os pais, o que
levaria à personalidade "anal retentiva". Esta fase tem duração de um a dois anos.

III – A fase fálica (3 – 5 anos)

De acordo com o psicanalista, a fase fálica é a mais crucial para o desenvolvimento sexual na vida
de uma criança. Ela se concentra nos órgãos genitais - ou a falta deles, se a criança for do sexo feminino -
e os complexos de Édipo ou Electra surgiriam. Para um homem, a energia sexual é canalizada no amor
por sua mãe, levando a sentimentos de inveja (às vezes violentos) contra o pai. Geralmente, no entanto,
o menino aprenderá a se identificar com o pai, em termos de órgãos genitais correspondentes,
reprimindo assim o complexo de Édipo. Por outro lado, o complexo de Electra, embora Freud não tenha
sido tão claro assim, principalmente diz respeito ao mesmo fenômeno, porém invertido, para as meninas.
Esta fase dura de três a quatro anos.

IV – O período de latência (5 anos – puberdade)

Freud dizia que o período de latência no desenvolvimento da criança não é um período


psicossexual, mas sim uma fase de desejos inconscientes reprimidos. Neste período, a criança já superou
o complexo da fase fálica e, embora desejos e impulsos sexuais possam ainda existir, eles são expressos
de forma assexuada em atividades como amizades, estudos ou esportes, até o começo da puberdade.
Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 19
V- A fase genital (puberdade e vida adulta)

Segundo Freud, na fase genital, a criança mais uma vez volta a sua energia sexual para seus órgãos
genitais e, portanto, em direção às relações amorosas. Ele diz que esta é a primeira vez que uma criança
quer agir de acordo com seu instinto de procriar. Os conflitos internos típicos das fases anteriores
atingem aqui uma relativa estabilidade conduzindo a pessoa a uma estrutura do ego que lhe permite
enfrentar os desafios da idade adulta. Neste momento, meninos e meninas estão ambos conscientes de
suas identidades sexuais distintas e começam a buscar formas de satisfazer suas necessidades eróticas e
interpessoais.
Freud ainda destaca a importância de duas situações de aprendizagem no desenvolvimento sexual
e emocional: a amamentação e o controle dos esfíncteres e bexiga.
A primeira situação é importante porque determina o relacionamento com a mãe e o subseqüente
relacionamento com as demais pessoas.
A segunda situação reveste-se de importância especial, porque é a primeira norma social que os
adultos e a sociedade impõem sobre a criança. É o primeiro gesto de socialização da criança.

A DESCOBERTA DO INCONSCIENTE

Inconsciente:

Sede dos conflitos reprimidos de caráter sexual, que não têm local na consciência por efeitos da
repressão (parecem esquecidos, mas estão latentes). O inconsciente é algo psíquico, não está em um local
anatômico determinado. Chega-se ao conhecimento do inconsciente através de diferentes manifestações
como ser os sonhos, os atos frustrados (são os “enganos” que costumamos ter), alguns chistes e pelos
chamados sintomas neuróticos.

O funcionamento do inconsciente

O inconsciente é regido por determinadas leis que contradizem a lógica. O inconsciente é o


conjunto de conteúdos ausentes do campo atual da consciência e que está composto por aqueles
conteúdos psíquicos reprimidos por resultar conflitivos. Algumas leis do sistema inconsciente são:

 Atemporalidade: coexistem (misturam-se os tempos) os desejos infantis com os adultos. Exemplo:


sonho que estou em classe de psicologia mas tenho a túnica da escola.
 Ausência de contradição: os desejos ou sentimentos contraditórios podem coexistir sem que resulte
conflito. Algo que gostamos e nos desagrada a de o mesmo tempo. Exemplo: sonho que entro a um
local onde tudo é muito belo, harmônico e luminoso, mas quero ir rápido porque não gosto.
 Prevalência do princípio do prazer: é a busca do prazer sem nenhum tipo de censura. Exemplo: esta
manhã tinha que me acordar temporão para repassar para o exame, ontem à noite me esqueci de pôr
o despertador e faltei.
Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 20
 Processo primário: é o mecanismo fundamental do sistema inconsciente. Estabelece a possibilidade de
que o desejo realize diferentes transformações. Nos sonhos estas se produzem em forma permanente,
em especial as deslocações e condensações. Exemplo/deslocação: durante do dia tenho uma briga com
minha mamãe. No sonho desloco-os para minha vizinha.
 Condensações: é meu irmão, mas tem posto o traje de meu noivo e o cabelo do professor de
geografia.

5. 1ª Estrutura do Aparelho Psíquico


Inconsciente – Pré-consciente – Consciente

 INCONSCIENTE:

Conjunto de conteúdos não presentes no campo atual da consciência. Conteúdos reprimidos, não
têm acesso ao pré-consciente/consciente, pela ação de censura interna. Estão armazenadas as idéias,
desejos e sentimentos recalcados, assim como todos os fatos traumáticos que a pessoa não consegue
recordar, porque os esqueceu, como defesa contra o sofrimento que a lembrança do fato traz como os:
sentimentos bom sou ruins, pensamentos positivos ou negativos, acidentes, raiva, ódio, castigo,
vergonha.
O conteúdo inconsciente permanece agindo sobre o nosso comportamento atual. Ex: fatos acontecidos
na infância (traumas, castigos, acidentes, dores) são armazenados no inconsciente, que no campo atual
criam medos, ressentimentos, angústias, sentimentos ruins.
 PRÉ-CONSCIENTE:
Conteúdos que não estão na consciência neste momento, mas no momento seguinte podem estar. São
fatos armazenados que exigem um maior esforço introspectivo para serem chamados à consciência e,
muitas vezes, não conservam a mesma nitidez dos fatos armazenados em nível consciente.
 CONSCIENTE:
É o sistema que recebe informações do mundo exterior e interior. Acontece principalmente o
fenômeno da percepção (consciência que o indivíduo possui frente ao estímulo sensorial - 5 sentidos),
principalmente do mundo exterior. É o nível que armazena os fatos ocorridos, considerados como atuais
pela facilidade que se tem de lembrá-los como por exemplo: que dia é, que mês é, em que dia da semana
estamos e assim por diante. Quando esquecemos esses dados recentes e/ou atuais pode estar ocorrendo
uma patologia.

6. 2ª Estrutura do Aparelho Psíquico

Id – Ego – Superego
ID – Instância estruturalmente inconsciente. É responsável
pelos processos primários: fome, sede, sexo, ou seja, o conjunto
de impulsos inatos (sexuais e agressivos) e de desejos recalcados.
Esses conteúdos não são estáticos. São dinâmicos e sempre
buscam a satisfação de seus desejos, impulsos e instintos. Sendo
assim, é a parte mais primitiva e menos acessível da
personalidade, constituídos de conteúdos inconscientes, inatos ou

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 21


adquiridos, que buscam a contínua gratificação. Não conhece juízo de valor (bem, moral, certo, errado),
busca a satisfação imediata. No Id não se aplicam as leis lógicas do pensamento, o que permite a
integração de conteúdos contrários com valência semelhante.
EGO (eu) – É a parte do psiquismo que faz contato com a realidade externa, pois estabelece a
relação com o meio em que vivemos através da percepção consciente, do pensamento e da ação. O Ego
tem o controle de todas as funções cognitivas. Contém elementos conscientes e inconscientes. Procura
conciliar os desejos do ID com as exigências do SUPEREGO e adequá–las a realidade.
SUPEREGO – É o representante interno das normas e valores sociais que foram transmitidos pelos
pais aqtraves do sistema de castigo e recompensa imposto à criança. Com a formação do superego, o
controle dos pais é substituído pelo autocontrole. Suas principais funções são: inibir os impulsos do id e
lutar pela perfeição, o que se faz necessário para a convivência em grupo e na sociedade. É o último
sistema da personalidade a desenvolver-se. Representante interno dos valores morais e ideais da
sociedade, transmitidos e reforçados pelo sistema de recompensas e castigos impostos à criança. É a
arma moral (certo e errado) da personalidade. Sua preocupação principal é decidir se alguma coisa é
certa ou errada, de modo que a pessoa possa se comportar em harmonia com os padrões morais
autorizados pela sociedade gerando sentimentos de culpa por erros ou falhas. Sendo assim, atua como
censor do ego, representa as exigências da moralidade. Tem a função de formar ideais, a auto-
observação, etc. Recompensa o ego por comportamentos aceitáveis e cria sentimentos de culpa para
castigá-lo por ações ou pensamentos contrários a princípios morais.

Mecanismos de defesa do EGO.

É uma denominação dada por Freud para as manifestações do Ego diante das exigências das
outras instâncias psíquicas (Id e Superego), mas a psicanálise freudiana não é a única teoria a se utilizar
desse conceito. Outras vertentes da psicologia também se utilizam dessa denominação.
Os mecanismos de defesa são determinados pela forma como se dá a organização do ego: quando
bem organizado, tende a ter reações mais conscientes e racionais. Todavia, as diversas situações
vivenciadas podem desencadear sentimentos inconscientes, provocando reações menos racionais e
objetivas e ativando então os diferentes mecanismos de defesa, com a finalidade de proteger o Ego de
um possível desprazer psíquico, anunciado por esses sentimentos de ansiedade, medo, culpa, entre
outros. Resumindo, os mecanismos de defesa são ações psicológicas que buscam reduzir as
manifestações iminentemente perigosas ao Ego. São todos inconscientes e podem ocorrer ao mesmo
tempo, por isso são dinâmicos. Visam proteger a auto-estima do indivíduo e eliminar o excesso de tensão
e ansiedade.
Sua principal função é manter a ansiedade e a tensão em níveis que não sejam tão dolorosos para
nós. Evitam o desgaste advindo das tensões intrapsíquicas causadas pela situação de frustração e
conflito.
Todos os mecanismos de defesa exigem certo investimento de energia e podem ser satisfatórios ou
não em cessar a ansiedade, o que permite que sejam divididos em dois grupos: Mecanismos de defesa
bem-sucedidos e aqueles ineficazes.
Os bem-sucedidos são aqueles que conseguem diminuir a ansiedade diante de algo que é perigoso.
Os ineficazes são aqueles que não conseguem diminuir a ansiedade e acabam por constituir um ciclo de
repetições. Nesse último grupo, encontram-se, por exemplo, as neuroses e outras defesas patogênicas.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 22


7. FUNCIONAMENTO DOS MECANISMOS DE DEFESA:

 REPRESSÃO: fundamenta todos os outros mecanismos de defesa. Tira da consciência a percepção


de acontecimentos cuja dor o indivíduo não pode suportar.
 CISÃO OU DIVISÃO: um objeto ou imagem com o qual nos relacionamos podem ter
simultaneamente características que despertam nosso amor e nosso ódio.
 NEGAÇÃO: não perceber aspectos que magoam ou são perigosos. É a defesa que se baseia em
negar a dor, ou outras sensações de desprazer. É considerado um dos mecanismos de defesa
menos eficazes. Podemos citar como exemplo o comportamento de crianças de “mentir”, negando
ações que realizaram e que gerariam castigos.
 PROJEÇÃO: consiste em atribuir aos outros as ideias e tendências que o sujeito não pode admitir
como suas. Sem que percebemos, muitas vezes vemos nos outros defeitos que nos são próprios.
Resumidamente, podemos dizer que é o deslocamento de um impulso interno para o exterior, ou
do indivíduo para outro. Os conteúdos projetados são sempre desconhecidos da pessoa que
projeta, justamente porque tiveram de ser expulsos, para evitar o desprazer de tomar contato
com esses conteúdos. Um exemplo é uma mulher que se sente atraída por outra mulher, mas
projeta esse sentimento no marido, gerando a desconfiança de que será traída, ou seja, de que a
atração é sentida pelo marido. Além desse, outros exemplos de projeção podem estar na causa de
preconceitos e violência.
 RACIONALIZAÇÃO: abstraímos as vivências afetivas e em cima de premissas lógicas, tentamos
justificar nossas atitudes.
 COMPENSAÇÃO: Esse mecanismo de defesa tem por característica a tentativa do indivíduo de
equilibrar suas qualidades e deficiências, por exemplo, uma pessoa que não tem boas notas e se
consola por ser bonita.
 EXPIAÇÃO: É o mecanismo psíquico de cobrança. O sujeito se vê cobrado a pagar pelos seus erros
no exato momento em que os comete, com esperança na crença de que o erro será
imediatamente ou magicamente anulado.
 FANTASIA: Nesse mecanismo de defesa, o individuo cria uma situação em sua mente que é capaz
de eliminar o desprazer iminente, mas que, na realidade, é impossível de se concretizar. É uma
espécie de teatro mental onde o indivíduo protagoniza uma história diferente daquela que vive na
realidade, onde seus desejos não podem ser satisfeitos. Nessa realidade criada, o desejo é
satisfeito e a ansiedade diminuída. Os exemplos de fantasia são: os sonhos diurnos, ou fantasias
conscientes, as fantasias inconscientes, que são decorrentes de algum recalque e as chamadas
fantasias originárias.
 FORMAÇÃO REATIVA: É um mecanismo caracterizado pela aderência a um pensamento contrário
àquele que foi, de alguma forma, recalcado. Na formação reativa, o pensamento recalcado se
mantém como conteúdo inconsciente. As formações reativas têm a peculiaridade de se tornar
uma alteração na estrutura da personalidade, colocando o indivíduo em alerta, como se o perigo
estivesse sempre presente e prestes a destruí-lo. Um exemplo, uma pessoa com comportamentos
homofóbicos, que na verdade, sente-se atraído por pessoas do mesmo sexo.
 IDENTIFICAÇÃO: diante de sentimentos inadequados, o sujeito internaliza características de
alguém valorizado, passando a sentir-se como ele. É o mecanismo baseado na assimilação de
características de outros, que se transformam em modelos para o individuo. Esse mecanismo é a
base da constituição da personalidade humana. Como exemplo podemos citar o momento em que

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as crianças assimilam características parentais, para posteriormente poderem se diferenciar. Esse
momento é importante e tem valor cognitivo à medida que permite a construção de uma base
onde a diferenciação pode ou não ocorrer.
 REGRESSÃO: volta aos níveis anteriores de desenvolvimento que em geral caracterizam por
repostas menos maduras de uma frustração. É o processo de retorno a uma fase anterior do
desenvolvimento, onde as satisfações eram mais imediatas, ou o desprazer era menor. Um
exemplo é o comportamento de crianças que, na dificuldade em seus relacionamentos com outras
crianças, retornam, por exemplo, a fase oral e retomam o uso de chupetas, ou ainda, comem
excessivamente.
 ISOLAMENTO: consiste em isolar um pensamento, atitude ou comportamento das conexões que
teria com o resto da elaboração mental. É o mecanismo em que um pensamento ou
comportamento é isolado dos demais, de forma que fica desconectado de outros pensamentos. É
uma defesa bastante comum em casos de neurose obsessiva. Os exemplos desse mecanismo são
diversos, como rituais, fórmulas e outras ideias que buscam a cisão temporal com os demais
pensamentos, na tentativa de defesa contra a pulsão de se relacionar com outro.
 DESLOCAMENTO: através dele descarregamos sentimentos acumulados, sentimentos regressivos
em pessoas ou objeto. O mecanismo de deslocamento está sempre ligado a uma troca, no sentido
de que a representação muda de lugar, e é representada por outra. Esse mecanismo também
compreende situações em que o todo é tomado pela parte. Por exemplo: alguém que teve um
problema com um advogado e passa, então, a rejeitar todos esses profissionais, ou ainda, num
sonho, quando uma pessoa aparece, mas, na verdade está representando outra pessoa.
 SUBLIMAÇÃO: um deseja passa a ser canalizado em outro local., com ações aceitáveis
socialmente.
 ANULAÇÃO: Desfazer ou cancelar simbolicamente uma experiência que se considera intolerável,
com fim de anular ou reparar o significado do ato anterior.
 REPARAÇÃO: Consiste na reestruturação do objeto que foi danificado. Por exemplo, um indivíduo
que fala mal de uma entidade religiosa, sente-se culpado e passa a rezar para restaurar o que fez
e não mais sentir culpa.
 SOMATIZAÇÃO: conflito manifesto através do sintoma. Há uma predisposição orgânica para o uso
da função corporal eleita para a descarga psíquica.
 INTELECTUALIZAÇÃO: controle dos afetos e impulsos por pensar sobre eles ao invés de vivenciá-lo.
 CONVERSÃO: há uma ideia penosa ligada a um conflito e se configura em um estado afetivo. Tem
sintoma mas não tem nada.
 DISSOCIAÇÃO: modificação temporária, mas drástica, do caráter ou do senso de identidade, a fim
de evitar a angústia.

8. PSIQUIATRA / PSICÓLOGO / PSICANALISTA


 Psiquiatra
O psiquiatra é um profissional com formação em Medicina e com especialização em Psiquiatria.
Após a faculdade, então, faz residência em instituições de saúde mental, clínicas e hospitais psiquiátricos.
Os conhecimentos desta área e especialidade médica concentram-se nos comportamentos que fogem à
“normalidade”. Desta forma, o médico psiquiatra está preparado para lidar com os mais variados
transtornos mentais (depressão, psicoses, etc). Ele faz uso do sistema de diagnóstico baseado em

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manuais como CID10 – Código Internacional de Doenças e DSM-V – Manual Diagnóstico e Estatístico dos
Transtornos Mentais. E a principal forma de intervenção utilizada por este profissional é a prescrição de
medicamentos como antidepressivos, ansiolíticos e outros psicofármacos.

 Psicólogo e Psicoterapeuta

O psicólogo é um profissional que concluiu a graduação em Psicologia, podendo atuar na área


clínica, organizacional, educacional, esportiva e outras. Pode, ainda, atuar com pesquisa em
universidades, contribuindo assim para descobertas sobre as variáveis relacionadas ao comportamento
humano, normal ou desviante, nos mais variados contextos. Para atuar na área clínica, o psicólogo
geralmente complementa a sua formação com cursos (especialização, pósgraduaçãostricto sensu e lato
sensu); ele utiliza a psicoterapia, um conjunto de técnicas e meios para analisar e intervir nos problemas
emocionais, comportamentais e/ou transtornos mentais.
Na psicoterapia, o psicólogo, através da mediação verbal, conduz o seu cliente a um processo em
que este se torna mais consciente das coisas que faz, pensa e sente no seu dia-a-dia e busca proporcionar
e ele a aprendizagem de novos comportamentos para lidar com as suas dificuldades.
O psicólogo que trabalha com psicologia clínica é também chamado de psicoterapeuta. Embora a
psicoterapia derive de teorias psicológicas, o psiquiatra com treinamento adicional tem, também,
utilizado a psicoterapia e se identificado como psicoterapeuta.

 Psicanalista

Já o psicanalista é um profissional de nível superior, muitas vezes psicólogo ou médico, que faz,
posteriormente, um curso numa instituição psicanalítica e submete-se à Psicanálise. Ele atende pessoas
com demandas análogas àquelas apresentadas ao psicólogo e psiquiatra.
Na Psicanálise, são utilizadas as teorias da personalidade e métodos de tratamento introduzidos
por Sigmund Freud.
Embora, muito difundida, a Psicanálise, diferente da Psiquiatria e Psicologia, não tem status
científico e sua eficácia parece questionável quando se observa o tempo em que os clientes de
psicanalistas passam pelo processo psicanalítico sem qualquer melhora significativa.

Bibliografia Consultada BALLONE GJ -in. PsiqWeb, internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/,


revisto em 2005 BARROS, Célia Silva. Pontos de Psicologia do Desenvolvimento. São Paulo : Àtica, 1999.
BOCK, Ana M. e outros. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva 2003.

9. ESTUDO DA PERSONALIDADE

PERSONALIDADE

Define-se a personalidade como tudo aquilo que distingue um indivíduo de outros indivíduos, ou
seja, o conjunto de características psicológicas que determinam a sua individualidade pessoal e social.
A personalidade é um conjunto de características ou traços que diferencia os indivíduos. É uma
organização dinâmica dos aspectos cognitivos, afetivos, fisiológicos e morfológicos de uma pessoa, que
resulta num padrão de comportamento persistente, que determina seu funcionamento em todos os

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contextos de sua vida: o modo como percebe as situações, como pensa a respeito de sai mesmo e do
mundo, e como se relaciona com os outros.
Uma vez que a personalidade determina a ação de um indivíduo, ao conhecê-la, podemos prever
o que ele fará diante de uma situação.
O termo deriva do grego persona, com significado de máscara, designava a "personagem"
representada pelos atores teatrais no palco Personalidade é um termo que apresenta muitas variações de
significado. Em geral representa uma noção de unidade integrativa do ser humano, pressupondo uma
ideia de totalidade.
A personalidade é formada durante as etapas do desenvolvimento psico-afetivo pelas quais passa a
criança desde a gestação. Para a sua formação incluem tanto os elementos geneticamente herdados
(temperamento) como também o adquirido do meio ambiente no qual a criança está inserido. São várias
as teorias que versam sobre personalidade tanto quanto as controvérsias, temas de discussões presentes
em toda história da filosofia, psicologia, sociologia, antropologia e medicina geral.
Uma das escolas de grande destaque no estudo da personalidade foi à psicanálise de S. Freud, que
sustenta que os processos do inconsciente dirigem grande parte do comportamento das pessoas. Outra
escola importante foi a do americano B. F. Skinner que sustenta a tese de que a aprendizagem se dá pelo
condicionamento.
Compreender os aspectos e a dinâmica da personalidade humana também não é tarefa simples,
visto à complexidade e variedade de elementos que a circunda, gerados por diversos fatores biológicos,
psicológicos e sociais. Com relação aos aspectos sociais, quanto mais complexa e diferenciada for a
cultura e a organização social em que a pessoa estiver inserida, mais complexa e diferenciada ela será.
Do ponto de vista biológico, a pessoa já traz consigo, em seus genes, diferentes tendências,
interesses e aptidões que também são formados pela combinação dinâmica entre diversos fatores
hereditários e uma infinidade de influências sócio psicológicas que ela recebe do meio ambiente.
(Fernandes Filho, 1992).
No senso comum é usada para se referir à capacidade de rápidas tomadas de decisão, para se
referir a uma característica marcante da pessoa, como timidez ou extroversão por exemplo, ou ainda
para se referir a alguém importante ou ilustre: “uma personalidade”.
A personalidade atribuída a uma pessoa pode definir, para o senso comum, se esta pessoa é boa
ou má. A psicologia evita este juízo de valor. A personalidade seria um conjunto de características que
diferenciam os indivíduos. Estes atributos seriam permanentes e dizem respeito à constituição,
temperamento, inteligência, caráter, um jeito específico de se comportar.
A personalidade atribuída a uma pessoa pode definir, para o senso comum, se esta pessoa é boa
ou má. A psicologia evita este juízo de valor. A personalidade seria um conjunto de características que
diferenciam os indivíduos.
Estes atributos seriam permanentes e dizem respeito à constituição, temperamento, inteligência,
caráter, um jeito específico de se comportar. Para as teorias que utilizam o conceito de personalidade,
ela significa a “organização dinâmica dos aspectos cognitivos, afetivos, fisiológicos e morfológicos do
indivíduo”. Fala-se também em personalidade básica, que seriam as atitudes, tendências, valores e
sentimentos dos membros de uma sociedade.
A personalidade pressupõe a possibilidade de um indivíduo se diferenciar, ser original e ter
particularidades. Através desta ideia pode-se predizer o que a pessoa fará em determinada situação,
pode-se ter ideia de como ela reagiria.
Dessa forma, o ser humano não pode ser considerado como um produto exclusivo de seu meio, tal
como um aglomerado dos reflexos condicionados pela cultura que o rodeia e despido de qualquer elã
mais nobre de sentimentos e vontade própria. Não pode, tampouco, ser considerado um punhado de
genes, resultando numa máquina programada a agir desta ou daquela maneira, conforme teriam agido
exatamente os seus ascendentes biológicos.
Se assim fosse, o ser humano passaria pela vida incólume aos diversos efeitos e conseqüências de
suas vivências pessoais. Sensatamente, o ser humano não deve ser considerado nem exclusivamente

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 26


ambiente, nem exclusivamente herança, antes disso, uma combinação destes dois elementos em
proporções completamente insuspeitadas.
Todas as vezes que colocamos lado a lado duas pessoas estabelecendo comparações entre elas,
qualquer que seja o aspecto a ser medido e comparado, verificamos sempre a existência de diferenças
entre ambas. Constatamos assim, as diferenças entre os indivíduos, as peculiaridades que os tornam
únicos e inimitáveis.
Para demonstrar didaticamente este duplo aspecto da constituição humana, imaginemos, por
exemplo, um enorme canteiro de rosas amarelas.
Embora todos os indivíduos do canteiro tenham características comuns e suficiente para ser
considerados e identificados como rosas amarelas, será praticamente impossível encontrar, entre eles,
dois exemplares exatamente iguais. Portanto, apesar de todos esses indivíduos possuírem traços
individuais, tais como, perfume, pétalas e espinhos, cada um deles tem suas características individuais,
mais perfume, pétalas de tonalidade diferente e espinhos mais realçados...
Podemos afirmar que os seres humanos são essencialmente iguais e funcionalmente diferentes, ou
seja, podemos nos considerar iguais uns aos outros quanto à nossa essência humana (ontologicamente),
entretanto, funcionamos diferentemente uns dos outros. Todas as tendências ideológicas que enfatizam a
igualdade dos seres humanos, num total descaso para com as diferenças funcionais, ecoam aos ouvidos
despreparados com eloquente beleza retórica, romântica, ética e moral, porém, falsas.
Não existe uma personalidade certa ou errada; boa ou ruim, os traços ou características de
personalidade advindos das crenças que construímos ao longo da vida são aprendizados que obtemos a
partir das relações e experiências que temos, principalmente, em nossa infância. Apenas quando são
inflexíveis e mal-adaptativos e causam prejuízos significativos ou sofrimento para a pessoa é que esses
traços constituem um quadro patológico muito importante e grave, denominado Transtornos de
Personalidade.

Traços de Personalidade

Para se falar de personalidade é preciso entender o que vem a ser um traço de personalidade. O
traço é um aspecto do comportamento duradouro da pessoa; é a sua tendência à sociabilidade ou ao
isolamento; à desconfiança ou à confiança nos outros. Um exemplo: lavar as mãos é um hábito, a higiene
é um traço, pois implica em manter se limpo regularmente escovando os dentes, tomando banho,
trocando as roupas, etc.
Pode-se dizer que a higiene é um traço da personalidade de uma pessoa depois que os hábitos de
limpeza se arraigaram. O comportamento final de uma pessoa é o resultado de todos os seus traços de
personalidade. O que diferencia uma pessoa da outra é a amplitude e intensidade com que cada traço é
vivido. Por convenção, o diagnóstico só deve ser dado a adultos, ou no final da adolescência, pois a
personalidade só está completa nessa época, na maioria das vezes.
Os diagnósticos de distúrbios de conduta na adolescência e pré-adolescência são outros. A
Importância da Vida Afetiva Situações, sentimentos e lembranças representam algo diferente para
diferente pessoas, por causa das nossas diferentes percepções.
A perda de um ente querido, por exemplo, costuma ser algo ruim para todos, mas mesmo assim
representará algo diferente para cada um. Na verdade mais importante que a própria realidade é a
representação dos fatos dessa realidade. Afeto é qualquer estado que engloba sentimento e emoção, ou
seja, é um conjunto de estímulos que chegam ao nosso mundo interior e recebem significados. Os dois
afetos básicos são: amor e ódio.
São nossos afetos que dão colorido a nossa vida e expressam nossos desejos, sonhos, fantasias,
medos. Conflitos, passado, presente e futuro. São nossos afetos que determinam nosso comportamento.
Sentimento é um estado afetivo complexo e duradouro, ligado a certas emoções ou
representações. As vivências produzem sentimentos no ser humano, que se manifestam de forma
diferente em cada um, que variam de acordo com a sensibilidade, ansiedade, temperamento, raiva, etc.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 27


A emoção é um estado de excitação física e psíquica acompanhadas de breves reações em resposta
a um acontecimento inesperado. Elas podem ser positivas e negativas, dependendo de como ocorre, o
momento em que acontecem e o modo como chegam a ser decodificadas de acordo com as experiências
das pessoas.
Algumas emoções podem ser vistas como positivas e negativas como o choro, riso, etc. Em toda
conduta, nunca há uma ação puramente intelectual, assim como não há atos que sejam puramente
afetivos.

Diferente do traço de personalidade, o transtorno de personalidade, exerce enorme pressão


sobre a vida da pessoa, impedindo-a de viver plenamente, pois, a deixa presa em sensações e
sentimentos que a fazem enxergar as situações sempre da mesma maneira, no lugar da realidade.
Pode-se dizer que os traços de personalidade são a maneira de ser da pessoa, o modo de sentir as
emoções ou o jeito de agir. Um transtorno de personalidade aparece quando esses traços são muito
inflexíveis e mal-ajustados, ou seja, prejudicam a adaptação do indivíduo às situações que enfrenta. Os
Transtornos de Personalidade formam uma classe de doença mental onde os traços de personalidade de
uma pessoa são inflexíveis e existe a falta de aptidão para lidar normalmente com determinadas
situações. Os transtornos de personalidade fazem passam a prejudicá-la e incomodá-la e, ou mais
comumente aos que lhe estão próximos, trazendo sofrimento.
A personalidade é o modo de ser do indivíduo, a tendência de ser de uma determinada forma de
acordo com sua herança genética, sua história pessoal e suas crenças. Este modo de ser do indivíduo, a
sua forma, é preenchida com o seu conteúdo, que lhe dá a unidade da personalidade com a característica
de ser exclusivo e ímpar em relação a todos os demais seres humanos.

 Trindade (2009) aponta a personalidade como um conjunto Biopsicossocial dinâmico que


possibilita a adaptação do homem consegue mesmo e com o meio, numa equação de fatores
hereditários e vivenciais.

FATORES BIOLÓGICOS

O sistema glandular e o SNC (Sistema Nervoso Central)


O sistema nervoso, junto com o sistema endócrino, é responsável pela maior parte das funções de
controle do corpo. Em geral o SN controla as atividades rápidas do corpo, como as contrações
musculares, os eventos viscerais de variação rápida e, até mesmo, a intensidade de secreção de
algumas glândulas endócrinas. Ao contrário, o sistema endócrino controla de modo preponderante o
funcionamento metabólico do corpo.

FATORES PSICOLÓGICOS
 O grau e as características de inteligência;
 As emoções;
 Os sentimentos;
 As experiências, os complexos;
 Os condicionamentos, a cultura, a instrução, os valores e vivências humanas.

FATORES SOCIAIS
 A família,
 A escola,
 A igreja,
 O clube, vizinhança, processa-se a interação dos fatores sociais.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 28


HEREDITARIEDADE
 Transmissão biológica das características dos pais aos filhos;
 Cada indivíduo resulta de um ovo inicial que contém um conjunto de genes fornecidos, em partes
iguais, por ambos os genitores.

MEIO AMBIENTE
 Ao nascer o indivíduo ingressa num meio ambiente:
 Social (família, comunidade)
 Físico (clima, alimentação, condições geográficas)
 Forças ambientais atuam durante toda nossa existência e, segundo alguns estudos, nos
influenciam mesmo antes do nascimento.

DOIS CAMPOS ANTAGÔNICOS

 Pesquisadores favoráveis a hereditariedade afirmam que os traços psicológicos são transmitidos,


de geração em geração através dos genes: Ex: Se um homem fosse ladrão, seus filhos também o
seriam.
 Os favoráveis à influência do ambiente afirmam que a personalidade é moldada pelo modo e
pelas circunstâncias que a pessoa é criada e educada.
 Os behavioristas afirmam que a hereditariedade não desempenha nenhum papel:
 Nas habilidades
 Nas atitudes
 No caráter
 Na personalidade: Ex: Uma criança poderá ser, conforme a educação recebida, um ladrão, um
drogado, um sábio ou um cientista.

A VIDA AFETIVA

 O coração tem razões que a própria razão desconhece”


 São os nossos afetos que dão o colorido especial à conduta de cada um e às nossas vidas.
 Eles se expressam nos desejos, sonhos, fantasias, expectativas, nas palavras, gestos, no que
fazemos e no que pensamos.
 É o que nos faz viver

EMOÇÃO X SENTIMENTO

Termos usados de forma indiscriminadamente, porém precisamos fazer distinção entre os dois;
Emoção: Estado agudo e transitório – Ex: A Ira
Sentimento: Estado mais atenuado e durável: –Exemplo: A Gratidão, a lealdade Os Afetos “ Com
açúcar e com afeto Fiz seu doce predileto Pra você parar em casa” (Chico Buarque de Holanda)
Os afetos podem ser produzidos fora do indivíduo, isto é, a partir de um estímulo externo – do meio
físico ou social – ao qual se atribui um significado com tonalidade afetiva: agradável ou desagradável.
Os afetos ajudam a avaliar as situações e servem de critério de valoração positiva ou negativa para as
situações de nossa vida;
Eles preparam nossas ações, ou seja, participam ativamente da percepção que temos das situações
vividas e do planejamento de nossas reações ao meio, caracterizada como função adaptativa. Quando
olhastes bem nos olhos meus E o teu olhar era de adeus Juro que não acreditei Eu te estranhei, me
debrucei sobre o teu corpo E duvidei E me arrastei (Chico Buarque de Holanda)
Os afetos também tem uma outra características – eles estão ligados à consciência, o que nos
permite dizer ao outro o que sentimos, expressando, através da linguagem, nossas emoções.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 29


Matrizes Psíquicas
Prazer e Dor

Entre estes dois extremos encontram-se inúmeras tonalidades, intensidades de afeto.


Afetos básicos
Amor X Ódio

Estão sempre presentes na vida psíquica – de modo mais ou menos integrados – associados ao
pensamento, fantasias, sonhos e se expressam de diferentes modos na conduta de cada um.

1. AS EMOÇÕES

São expressões afetivas acompanhadas de reações intensas e breves no organismo, em resposta a


um acontecimento inesperado, ou, as vezes, a um acontecimento muito aguardado (fantasiado).

 Nas emoções é possível observar uma relação entre os afetos e a organização corporal, ou seja, as
reações orgânicas, as modificações que ocorrem no organismo:
 Distúrbios gastrointestinais, cardiorrespiratórios, sudorese, tremor • Meu coração, não sei por quê
• Bate feliz quando te vê” (Pixinguinha)

Os Sentimentos

 Diferem das emoções por serem mais duradouros, menos explosivos e por não virem
acompanhados de reações orgânicas intensas.
 O amor e o ódio, além de manifestarem-se como emoções podem expressar-se como sentimentos.
 Paixão – emoção
 Enamoramento, ternura, amizade – sentimentos – Manifestação do mesmo afeto básico – O AMOR.

Importante:

 A vida afetiva compõe o homem e constitui um aspecto de fundamental importância na vida


psíquica.
 As emoções e os sentimentos são como alimentos de nosso psiquismo e estão presentes em todas
as manifestações de nossa vida;
 Necessitamos deles porque dão sabor e cor à nossa vida;
 Orientam-nos e nos ajudam nas decisões.
 Não podemos nos compreender sem os sentimentos e as emoções.

Tradicionalmente as emoções foram vistas como algo indigno, impróprio e até mesmo desprezível.
Não podiam ser objeto de estudo científico. O homem civilizado era aquele que controlava (eliminava)
suas emoções. Esta atitude encontra suas origens no dualismo platônico. E assim desde cedo fomos

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 30


“educados” a disfarçar e não expressar nossas emoções. Esta posição levou o homem a um estado de
desequilíbrio.
Certamente, o comportamento humano deve ser guiado pela razão e pela emoção em conjunto.
Ênfase demasiada ou exclusiva em qualquer um dos dois aspectos gera deformações na personalidade.
O homem contemporâneo perdeu muito de sua sensibilidade, particularmente em certas culturas
e sociedades. Tornou-se frio e calculista, incapaz de comover-se, de sentir compaixão, de socorrer um
amigo que está sendo assaltado.
A qualidade da vida humana perdeu muito com isso.
As emoções são um colorido especial ao nosso mundo. Apesar da objetividade, frieza e calculismo,
muitos já se deram conta do valor das emoções, o que deu origem a terapias e centros de treinamento,
que têm por objetivo levar o homem a reconhecer, aceitar e expressar suas emoções.
O homem será mais feliz, mais realizado e psicologicamente mais sadio, à medida que souber
dosar convenientemente a razão e as emoções.
Não há por que temer as emoções, nem a razão. “A emoção é uma força poderosa dos problemas
humanos. Está na raiz de guerras, assassinatos, conflito social e todos os tipos de outros conflitos entre
pessoas.
De outro lado, a emoção é o sal da vida; as coisas seriam bem monótonas sem a emoção. “A
alegria que temos em festas, nossa satisfação na realização de objetivos, o divertimento que
conseguimos em situações engraçadas fazem com que a vida mereça ser vivida”. (Morgan, 1977, pág. 73-
4).
Inferimos sua existência através do comportamento. Contudo, a maioria dos autores concorda em
que as emoções são complexos estados de excitação de que participa o organismo todo.
O termo emoção é usado também para significar os sentimentos e os estados afetivos em geral,
mas alguns autores preferem atribuir significados diferentes aos termos emoção e sentimento. “Os
estados emocionais e sentimentais formam a afetividade, um dos aspectos do comportamento humano”.
Por sentimento entendemos o estado afetivo brando de prazer, desprazer ou indiferença. São
disposições de prazer ou desprazer em relação a um objeto, pessoa ou idéia que vem a formar os
sentimentos.
“Distinguem-se das emoções por serem reações mais calmas e com uma experiência mais
complexa, com mais elementos intelectuais”. (Dorin, 1972, p. 133). A maioria dos estudiosos admite dois
aspectos em toda emoção: a experiência individual, interna e a expressão comportamental, externa.
O estado de experiência ou sentimento individual, aspecto interno, somente é objeto de análise
através dos relatos verbais, estimativas e julgamentos daquele que experimenta a emoção.
O aspecto expressivo ou comportamental constitui a parte externa, e se manifesta através de uma
série complexa de respostas motoras, respostas do sistema nervoso autônomo e respostas glandulares.
É muito difícil identificar determinada emoção, a partir da exclusiva observação dos sinais
externos, tais como expressão facial, postura corporal e respostas fisiológicas. As emoções podem ser
estudadas desde diferentes pontos de vista. Alguém pode interessar-se mais por aspectos de
comunicação das emoções como são expressas, como são interpretadas.
Outro pode concentrar seu interesse nos comportamentos desencadeados, a partir das emoções,
por exemplo, pode-se estudar por que a raiva gera respostas tão diferentes como a agressão, a apatia, a
fuga e a fantasia.

UNIDADE V – A PSICOLOGIA DA SAÚDE

1. CONCEITO DE SAÚDE

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 31


A evolução histórica das concepções sobre saúde e doença deu origem a modelos específicos de
atenção à saúde. Morais (2005) aponta três visões principais de saúde a partir do século XX: o conceito
médico; o conceito da Organização Mundial de Saúde (OMS) e o conceito ecológico.
O conceito médico, baseado no modelo biomédico tradicional, com influência do modelo
cartesiano, adota a cisão entre mente e corpo e define saúde como ausência de doença, a qual é vista
como o mau funcionamento dos mecanismos biológicos. Esse modelo propõe o corpo como uma
máquina e, para um bom funcionamento, deve ter ausência de problemas, sinais ou sintomas. Dessa
forma, o médico intervém quimicamente, concentrando-se em detalhes específicos do corpo, valorizando
o aspecto orgânico, em detrimento de outros aspectos envolvidos no processo de adoecer (Morais,
2005).
A Organização Mundial de Saúde (OMS) ampliou a concepção do modelo biomédico acerca do
processo saúde/doença, na medida em que, ao se estabelecer relações com as áreas sociais e psíquicas, o
processo saúde/doença deixa de ter caráter estritamente causal e a intervenção extrapola o aspecto
físico ou químico. O diferencial desta nova definição é a visão holística de saúde, visto que a concebe
como um estado positivo de bem-estar. Entretanto, esta definição recebe críticas por apresentar um
caráter estático e subjetivo (Rezende, 1989; Segre e Ferraz, 1997).
A proposição subjacente a este conceito implica a ideia de saúde como um estado perfeito e
completo, o que é irreal e inatingível. De acordo com Rezende (1989), essa visão não considera o
intercâmbio, muitas vezes conflituoso, existente entre o ser humano e o seu meio ambiente, além da
postura humana ativa e dialética frente aos antagonismos sociais. Ademais, a definição da OMS é ampla e
vaga, perdendo especificidade para ser definida operacionalmente e aplicada em situações práticas.
Faltam qualidades que efetivamente definam o que seja bem-estar. Ao mesmo tempo, Segre e Ferraz
(1997) destacam o fato de que as expressões "perfeição" e "bem-estar" não existem por si mesmas,
estando sujeitas a uma descrição dentro de um contexto que lhes empreste sentido, partindo da
linguagem e da experiência singular do indivíduo. Portanto, bem-estar, felicidade ou perfeição ocorrem
para um sujeito que, dentro de suas crenças e valores, dá sentido a tal uso semântico, legitimando-o.
Segundo a perspectiva ecológica, o processo saúde/doença deve ser compreendido de forma mais
abrangente, considerando a historicidade, multidimensionalidade e a processualidade. A historicidade diz
respeito à influência do contexto sócio-cultural sobre a definição de práticas ditas saudáveis ou não. Isso
é decorrente da constatação de que a saúde e, por conseguinte, a doença, nem sempre foram vistas da
mesma forma ao longo da história e nas diferentes culturas. A integralidade ou multidimensionalidade,
por sua vez, refere-se à consideração da saúde e da doença a partir de aspectos psicológicos, sociais
e espirituais, além dos biológicos, tradicionalmente destacados. Dessa forma, a saúde deixa de ser
vista como ausência de doença, ao passo que a compreensão da doença também não fica restrita à
alteração/desequilíbrio biológico. Por fim, a processualidade diz respeito à consideração da saúde e
da doença como partes de um mesmo continuum e não como estado absoluto e estático,
independentes um do outro (Morais, 2005).
As ideias dos indivíduos sobre saúde e doença têm impacto sobre suas atitudes e comportamentos
de saúde. Nesse sentido, na literatura há uma tendência à realização de pesquisas sobre as visões das
pessoas, dos mais variados contextos, a respeito das noções de saúde e doença (Boruchovitch &
Mednick, 2002). Uma ideia comum subjacente às pesquisas que se dedicam ao estudo da visão de saúde
e doença é a de que estas são fortemente influenciadas pelo contexto cultural em que ocorrem. Dessa
forma, a definição do que é saudável e doente, normal e anormal, são e insano, varia tanto
interculturalmente quanto intraculturalmente. Papel de destaque foi atribuído à visão de saúde e
doença, pois alguns autores (Boruchovitch & Mednick, 2002; Minayo, 1998; Rezende, 1989) afirmam que
elas condicionam a forma como cada pessoa experimenta seus estados de saúde e de doença, os
comportamentos adotados para evitar a doença ou restabelecer a saúde e, inclusive, as próprias práticas
de atendimento à saúde.
Segundo Minayo (1998), saúde e doença podem ser vistas como expressão social e individual e,
também, como expressão das contradições sociais. A partir dessas visões, o contexto sociocultural é
percebido como influenciando a definição das atitudes e comportamentos relacionados à saúde/doença

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 32


e à própria legitimação da condição de "estar doente". No entanto, a vivência pessoal desses estados ao
longo da vida por cada indivíduo também deve ser um aspecto a ser considerado, uma vez que, de
acordo com Minayo (1998), "é no indivíduo que essas visões se unificam: é ele que sofre os males ou
detém a saúde" (p. 194).
O processo de reelaboração de conceitos na sociedade é desafiante e pode influenciar na
reorganização de dispositivos e estratégias de atendimento e inclusão do doente mental (Silveira &
Braga, 2005). Os conceitos de saúde e doença mental, bem como as estratégias de ação usadas pelos
indivíduos, podem ser considerados como barreiras no acesso aos cuidados de saúde mental na medida
em que dificulta a busca, adesão e manutenção do tratamento necessário. Enfocar a visão do usuário é
reconhecê-lo como ator social envolvido no sistema. Nesta perspectiva, usuários adolescentes, ou
potenciais usuários, podem dar uma contribuição relevante à formação de conhecimentos na área da
saúde mental, que irá apoiar as decisões de gestores e profissionais de saúde.

Referência:

Camila Aquino Morais; Deise Matos Amparo I; Cláudia Cristina Fukuda; Katia Tarrouquella Brasil .
Concepções de saúde e doença mental na perspectiva de jovens brasileiros, 2012.

2. A SAÚDE MENTAL DO PROFISSIONAL DE SAÚDE

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a saúde mental é um estado de bem-estar no qual o


indivíduo exprime as suas capacidades, enfrenta os stressores normais da vida, trabalha produtivamente
e de modo frutífero, e contribui para a sua comunidade (WHO 2001). A saúde mental é parte integral da
saúde, é mais do que a ausência de doença, e está intimamente ligada com a saúde física e com o
comportamento (Herrman, Saxena, Moodie, E Walker, 2004): Estes autores explicam que no seio da
moderna saúde publica a saúde mental se tornou um componente central.
A saúde mental dos profissionais de saúde é um assunto bastante delicado e até polêmico em
alguns casos. Você talvez já tenha ouvido relatos de pessoas que não ingressaram nessa área por não
aguentarem “ver sangue”, não é mesmo? Contudo, saiba que ser “imune” a essa situação não é o único
pré-requisito para atuar em hospitais, clínicas, ambulatórios etc.
O profissional de saúde precisa ter um perfil técnico e psicológico adequado às atividades que terá
no dia a dia do trabalho. Ainda assim, até quem possui certa inclinação para a área pode ter problemas
de saúde mental, devido a situações de sobrecarga. Como atua de modo a melhorar a condição física,
biológica e psicológica de outras pessoas, o profissional de saúde não pode esquecer de si próprio.
Acompanhe, em seguida, alguns aspectos a respeito do perfil de quem trabalha na saúde, os
desafios enfrentados na rotina profissional e os riscos que podem ocorrer no trabalho nessa área.

Competências para atuar no setor de saúde

Cuidar de pessoas, tratar doenças, favorecer o bem-estar, prevenir enfermidades etc. Quando se
pensa em profissional de saúde, possivelmente se lembra dessas atividades, não é mesmo? De uma
simples gripe a uma cirurgia, os tratamentos na área da saúde requerem bastante qualificação técnica de
quem trabalha no setor.
Dessa forma, as pessoas que pretendem seguir carreira na saúde devem estar dispostas a estudar
muito durante a faculdade e, depois de formados, atualizar os conhecimentos. Com o avanço
tecnológico, medicamentos são criados, aparelhos de diagnóstico são aperfeiçoados, paradigmas na
medicina evoluem etc. Portanto, o profissional da área de saúde precisa estar em constante capacitação.
Quem decide seguir por esse caminho deve ter consciência do que vai encontrar pela frente, para
não se frustrar na carreira. Até mesmo quem procura atuar em cargos de gestão na saúde deve estar

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 33


preparado para lidar com situações de pressão no dia a dia. Por exemplo, garantir que haja leitos
suficientes para o atendimento da demanda de pacientes ou, então, assegurar que uma campanha
preventiva tenha eficácia e evite o surgimento de doenças transmissíveis.

Situações prejudiciais no dia-a-dia de trabalho


Por vezes o indivíduo tem inclinação para atuar na área de saúde, possui vontade de aprender cada
vez mais, contudo, não consegue desenvolver o comportamento necessário para quem vai trabalhar
nesse setor.
Em um hospital público, é comum o profissional lidar com situações complexas, como falta da
infraestrutura adequada para o atendimento, casos emergenciais frequentes, cobrança de pacientes e de
familiares deles, pressão dos órgãos de imprensa, entre outras.
Num cenário assim, por mais que possua o conhecimento técnico, o profissional da área da saúde
precisa aprender a lidar com circunstâncias que fogem do saber acadêmico em si. Com a necessidade de
ter vários empregos para possuir uma renda satisfatória, o indivíduo pode se sobrecarregar, diminuir o
próprio rendimento e cometer erros em serviço.
Quando não aprende a se relacionar com os pacientes, principalmente os mais humildes, o
profissional da área da saúde pode também ter um desempenho abaixo da média. Por exemplo, um
médico recém-formado que trabalha numa região de periferia, em que os pacientes muitas vezes não
têm noções básicas de cuidados com a higiene, precisa ter uma linguagem simples, para que consiga
transmitir o tratamento de modo a ser entendido pelas pessoas que vão ao consultório.
Se não sabe lidar com os pacientes, o profissional começa a ser taxado como arrogante ou até ser
preterido pelos moradores de determinada região. Caso trabalhe em uma clínica privada, o médico ou o
enfermeiro, por exemplo, podem até perder o emprego num caso assim.
Além disso, inevitavelmente, a saúde mental dos profissionais de saúde passa pela compreensão da
morte. Ao conviver diariamente com a iminência dessa situação, o indivíduo precisa ter um equilíbrio
entre se apegar demais ao paciente e tornar-se “frio” em excesso a ponto de não se deixar abalar pelo
fato.

Riscos para saúde mental dos profissionais de saúde


Pode parecer um paradoxo, mas aqueles que têm como missão o tratamento de doenças dos
outros nem sempre cuidam de si próprios. Na busca por crescer rápido na carreira e por ter uma renda
satisfatória, é comum profissionais não medirem consequências para acumularem cargos.
Para tanto, chegam a fazer vários plantões em série e, por vezes, realizam atendimentos no “piloto
automático”. Em casos extremos, há relatos de profissionais da saúde que chegam a usar drogas para se
manterem em estado de alerta. Como têm acesso facilitado a determinadas substâncias, alguns
indivíduos fazem uso próprio delas para disfarçarem a sobrecarga da rotina.
Outro problema que afeta a saúde mental dos profissionais de saúde é a pressão por não poderem
cometer equívocos, ainda mais, por estarem passíveis de responder na Justiça por erro médico. Quando
não estão treinados o suficiente para lidar com a morte, os profissionais não sabem até que ponto
poderiam salvar uma vida por conta própria e pelas condições do atendimento ou se a morte era de fato
inevitável.
Não raro, muitos iniciantes nas profissões da área da saúde se culpam pelos casos em que não
conseguiram salvar a vida do paciente. Dessa maneira, eles próprios podem desenvolver traumas e
bloquear a capacidade de atender bem.
Em sentido oposto, numa tentativa de se proteger de uma realidade dura, os profissionais da saúde
criam uma espécie de barreira psicológica para lidar com os limites da vida e, assim, tornam-se figuras
“frias” e quase “inertes”. Contudo, o risco desse tipo de atitude para a saúde mental dos profissionais de
saúde é que eles podem levar esse comportamento para as próprias famílias. Com isso, podem prejudicar
os relacionamentos interpessoais fora do trabalho e passar a ter uma baixa qualidade de vida.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 34


Como você pôde perceber, não é qualquer pessoa que tem perfil para se tornar um profissional da
área da saúde. Além de capacitação técnica e de resiliência para lidar com situações emergenciais, em
que deve ter tomadas de decisão rápidas e precisas, a pessoa que segue essa área deve ter um estado
mental saudável. Por vivenciar momentos estressantes, os profissionais de saúde devem manter o
equilíbrio pelo bem da própria atuação e do bem-estar ou recuperação dos pacientes.

3. A SAÚDE DO TRABALHADOR E A PSICOLOGIA DA SAÚDE

As intervenções que abordam a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) se apresentam na prática


profissional do psicólogo guardando distância considerável das produções em saúde do trabalhador. Ao
analisar empresas onde a QVT é alardeada como política organizacional verifica-se não haver reflexos
positivos destas práticas sobre “as condições específicas de trabalho e de vida do empregado” (Tolfo e
Piccinini, 2001 p.190).
Ferreira, Alves e Tostes (2009) ao caracterizar e discutir as práticas em QVT em 10 órgãos públicos
federais reafirmam a permanência das perspectivas expostas por Tolfo e Piccinini (2001) onde o
trabalhador é a “variável de ajuste” do conjunto organizacional.
Em oposição às perspectivas da QVT, as práticas em Psicologia da Saúde orientadas à Saúde do
Trabalhador proporcionam o questionamento da organização e das condições de trabalho, os limites de
acesso aos serviços dirigidos a reabilitação de trabalhadores e serviços de previdência social.
Representante da interdisciplinaridade na Psicologia, a saúde do trabalhador expõe claramente como
determinantes de desgaste à saúde originam-se na organização e nas condições de trabalho. Assim,
efetivamente são questionadas as relações de trabalho, conforme propõe Furtado (2012).
Sato, Lacaz e Bernardo (2006) posicionam as intervenções em saúde do trabalhador na história da
Psicologia brasileira, a partir da década de 1980 com as pesquisas originadas pelo Departamento
Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (DIESAT) e pelo surgimento
dos primeiros programas de saúde do trabalhador ligados ao SUS. Conforme os autores, Psicologia e
Saúde do Trabalhador experimentam:

“por um lado a forte presença de regulamentações legais e a conformação do SUS [que]


deram nortes, constrangeram ou abriram possibilidades para a construção de um campo
para a Psicologia; por outro, deve-se ressaltar que, também a abordagem psicológica
influiu na definição de regulamentações legais previdenciárias” (Sato, Lacaz e Bernardo,
2006 p.286).

A tomada do trabalho como elemento pautado pelas relações da coletividade direciona a


saúde do trabalhador às políticas públicas do Sistema Único de Saúde (SUS) e, por isso,
observa-se “o trânsito entre as representações individuais e o caráter coletivo do
trabalho” (Codo, 2006, p. 57).

Este trânsito é apresentado nos marcos legais que estabelecem a Rede Nacional de Atenção
Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST) e a Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho
(PNSST).
A RENAST prevê, na totalidade dos níveis de atenção do SUS, ações de promoção, prevenção, cura e
reabilitação em saúde do trabalhador. Aos psicólogos que já atuam nos serviços do SUS, caberá o
pressuposto de articular suas práticas em saúde à relação entre o homem e o trabalho.
Na proposição do PNSST, as ações da Psicologia ligadas a Saúde do Trabalhador necessitarão
reorientar seu processo formativo no ensino superior, promover pesquisas em saúde do trabalhador,

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 35


fortalecer a vigilância de processos e agravos à saúde e estabelecer a adequação e ampliação das
intervenções dirigidas à reabilitação física e psicossocial.
A formação de profissionais a partir de supostos da Psicologia da Saúde já apresenta um amplo
referencial teórico e técnico. Isto pode ser observado nos congressos da Associação Brasileira de
Psicologia da Saúde (ABPSA) e nas publicações científicas indexadas no Scielo, na BVS-Psi, na Redalyc e no
DOAJ. Entretanto, a proposição do PNSST exigiria maior permeabilidade da Psicologia da Saúde aos
conteúdos oriundos do campo Saúde do Trabalhador.
Em congruência com as indicações de Jacques (2007), o estímulo aos processos formativos que
preconizariam o reconhecimento do nexo causal entre atividade produtiva e adoecimento seria o
instrumento para a execução da vigilância em saúde do trabalhador no SUS. O conjunto de ações
presentes no PNSST faz parte de um campo histórico de atuação da Psicologia da Saúde.
Conforme ressalta Calatayud (2011) a Psicologia da Saúde em Cuba desenvolve-se no Instituto de
Salud de lós Trabalhadores há 35 anos, constituindo referencias para o reconhecimento do nexo causal
entre impacto à saúde e o trabalho. Almirall e Hernández (2010, p.67) pormenorizam estas ações cubanas
da Psicologia em Saúde do Trabalhador: “evaluación de la carga psíquica, fatiga, estrés, burnout y
mobbing, y su impacto en la salud y el rendimiento laboral”.
Mesmo na produção cubana sobre Psicologia e Saúde do Trabalhador, a reabilitação ainda é
rudimentar. No Brasil, isto decorre da fragilidade dos serviços de saúde, que contam com uma rede
discreta de Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST). Também contribui para a
fragilidade da reabilitação o desmonte destas estruturas do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS),
mesmo havendo legislação que defina a execução deste serviço por este serviço público.
A participação dos profissionais de Psicologia na reestruturação da reabilitação no INSS cumpriria a
atribuição da integralidade dos serviços em saúde do trabalhador prestados pelos serviços públicos, de
acordo com a normatização do PNSST (Brasil, 2011).
Com esta participação estaria referenciado o cuidado integral, que historicamente desconsiderou a
saúde mental nas práticas de reabilitação do INSS.
O fortalecimento das políticas de Assistência Social indica o reconhecimento do sofrimento ético-
político e articula-se as práticas de Psicologia de Saúde por preconizar a qualidade de vida como
pressuposto que orienta as modalidades interventivas.
Cabe a Psicologia da Saúde apropriar-se de práticas dirigidas a comunidade – tal como as
metodologias participativas para a promoção da saúde (Silva, 2002) – e conectar-se ao corpo de saberes
oriundos da Psicologia Comunitária – que se desenvolveu na América Latina – e da Psicologia Social (da
Saúde e do Trabalho).
Tanto a Psicologia Comunitária quanto a Psicologia Social ofertam experiências de práticas dirigidas
ao fortalecimento da família, a promoção de direitos civis e de fomento a autonomia, conforme propõe o
Conselho Federal de Psicologia ao orientar a prática profissional no Sistema Único de Assistência Social
(CFP, 2011).
A participação da Psicologia da Saúde nas políticas públicas pode ser ampliado para além do SUS e
do SUAS abrangendo o Ministério do Trabalho e Emprego e o Instituto Nacional de Seguro Social. Com o
incentivo do Ministério do Trabalho seria possível constituir evidências e referências técnicas para as
práticas em Psicologia da Saúde nos ambientes de trabalho. Vale ressaltar, que os determinantes de
agravos à saúde mental oriundos dos processos produtivos já receberam atenção deste ministério nas
edições especiais da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 36


A partir daqui caberia avaliar evidências de intervenções em saúde do trabalhador e divulgar
experiências notórias que se estabeleceriam como referências de atuação em Psicologia da Saúde. Junto
ao Instituto Nacional de Seguro Social, as práticas em Psicologia da Saúde envolveriam a reabilitação.
Destaca-se que as ações de reabilitação atualmente desenvolvidas são pautadas em processos de
ampliação da escolaridade e em intervenções reparadoras da funcionalidade do aparato corpóreo. São
restritas as abordagens que envolvam o desenvolvimento da autonomia e nem mesmo há cuidados em
saúde mental.

REFERÊNCIAS Associação Brasileira de Ensino em Psicologia (ABEP). (2006) A presença qualificada


no SUS como um desafio para a Psicologia: Proposta da oficina nacional da ABEP.
Ministério da Saúde/Ministério da Educação/Organização Panamericana de Saúde: Brasília.
Ávila, L. A. (2004). Grupo e corpo, no enfoque do modelo de Cambridge. Vínculo, 1(1), 23-29.
Ávila, L. A. (2006). A secreta simetria: Grupo e corpo na compreensão psicanalítica. Revista
SPAGESP, 7(1), 17-27.
Bernardes, A. G., & Guareschi, N. M. F. (2010). Práticas psicológicas: enfrentamentos entre saúde
pública e saúde coletiva.

4. A atuação do psicólogo na promoção da saúde

Keli Lopes Santos; Bruna Ceruti Quintanilha; Maristela Dalbello-Araujo

No âmbito da atenção básica, muitas vezes o profissional psicólogo e o responsável pela efetivação
dessa política. Nesse contexto, são localizadas algumas dificuldades que podem ser apontadas para a
realização de tais ações por esses psicólogos, como a concepção de saúde que norteia essas atividades.
Uma concepção de saúde que a toma apenas como ausência de doenças pode levar a ações pontuais,
visando evitar doenças por meio de mudanças de hábitos individuais. Quando a concepção de saúde
excede o limite biomédico, abre-se espaço para práticas voltadas para o coletivo, comprometidas com a
transformação do status quo e com a produção de sujeitos autônomos e solidários (CARVALHO, 2007).
Essas práticas caminham no sentido de propiciar que as pessoas sejam capazes de criar normas para suas
vidas, que estejam aptas a lidar com as dificuldades, limites e sofrimentos (CAMPOS; BARROS; CASTRO,
2004). Em decorrência, organizam-se práticas que carregam em si o gene de uma reorganização do
sistema, de maneira a ampliar os espaços de participação e o controle social da população sobre as ações
de saúde, conforme previsto quando da conquista constitucional do direito a saúde (DALBELLO-ARAUJO,
2005).
Ações e práticas constituem são ações que levam em conta os sujeitos e suas famílias, as condições
de trabalho e a renda, a alimentação e as possibilidades de lazer, como também convergem para a
formulação de políticas públicas que possibilitem aos indivíduos e às comunidades a realização de
escolhas em prol da saúde. Dessa forma, as ações devem buscar a autonomia dos sujeitos e das
coletividades e procurar estabelecer possibilidades crescentes de saídas coletivas e solidárias para
problemas que também são coletivos. Nesse sentido, essas ações são "intervenções sustentadas pela
articulação intersetorial e de participação social voltada para a consecução do direito à saúde, operando
ações que visem à melhoria das condições de vida" (PEDROSA, 2004, p. 618).
De acordo com Dimenstein (1998), o psicólogo entra no setor público de saúde reproduzindo o
modelo médico-assistencial privatista, quando este se encontrava em seu ápice, mas também em franco

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 37


esgotamento. Tal modelo privilegia as práticas medicas curativas, individuais, assistencialistas e
especializadas, em detrimento da saúde coletiva. Ele organiza as ações de saúde para uma dada oferta de
atendimento, nem se preocupando com a adstrição da clientela, nem com o compromisso em obter
impactos sobre o nível de saúde da população, levando as instituições públicas a adotar o modelo
sanitarista como forma complementar para atenderem as demandas de cunho coletivo (PALHA; VILLA,
2001). Segundo Dimenstein (2001, p. 59.60):
[...] a entrada do psicólogo nas instituições públicas de saúde, apesar de ter ampliado seu campo de
trabalho, parece não ter alterado os modelos teóricos e práticos que fundamentam sua atuação. Ou seja,
não houve uma contextualização, revisão ou até mudança nas suas formas tradicionais de atuar. Daí, sua
dificuldade em construir novas práticas voltadas para a produção social da saúde e da cidadania, práticas
comprometidas com o bem-estar social.
Silva (1992) retrata um momento em que as ações individuais eram prioritárias às ações coletivas,
por causa, sobretudo, da formação acadêmica dos psicólogos. Hoje é possível observar uma alteração
nesse quadro, em razão das mudanças de características da formação acadêmica em Psicologia e pela
disseminação de trabalhos e escritos sobre a inserção da Psicologia na atenção básica. No entanto, é
preciso ficar atento às peculiaridades das atividades em grupo e das atividades individuais, pois o
atendimento em grupo não garante coletivização das questões que ainda podem se localizar no interior
dos indivíduos, assim como a assistência feita de maneira individual não pressupõe individualização
destas.
É, entretanto, consenso que o modelo descontextualizado de clinica na atenção básica precisa ser
superado, pois essa atividade lida com um ser a-historico e abstrato. Segundo Bock (2007, p. 28), "[nos
psicólogos] devemos estar atentos para nossos conceitos, criados e pautados em experiências das
camadas altas da população branca, europeia ou americana de primeiro mundo". Devemos salientar a
importância das atividades em grupo para o fortalecimento de um coletivo, em tempos de primazia do
individualismo. Assim, entendemos que, em grupo, novas formas de vida são produzidas a partir da
vivência com o outro, com a troca de experiências, com a confrontação com o que difere, com o viver em
comunidade.
Dessa forma, pressupomos que a construção de espaços coletivos deve constituir

[...] um sistema de relações mais autônomas que decorre do debate/ação entre cidadãos iguais de
direito – composição ou aumento da potência de agir entre as pessoas e entre estas e os
profissionais; afirmação daquilo que cada um pode singularmente em seus saberes/fazeres
valorados na experimentação dos bons encontros (ANDRADE, 2007).

5. EQUIPE MULTIPROFISSIONAL

A equipe multiprofissional pode ser constituída por todos os profissionais que lidem com pacientes
hipertensos: médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, nutricionistas, psicólogos,
fisioterapeutas,. Os membros de um grupo multiprofissional devem trabalhar de acordo com os limites e
especificidades de sua formação, e respeitada esta especificidade, necessitam conhecer a ação individual
de cada um dos outros membros. Além disso, cada local de trabalho deve adequar-se à sua realidade.
Deve ficar claro que não há necessidade de todo esse grupo para a formação da equipe.

Principais vantagens desse tipo de atuação

• O número de indivíduos atendidos será maior; a adesão ao tratamento será superior; cada paciente
poderá ser um replicador de conhecimentos e atitudes.
• Haverá favorecimento de ações de pesquisa em serviço.
• Como vantagem adicional, teremos o crescimento profissional no serviço como um todo. Ações comuns
à equipe multiprofissional

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 38


• Promoção à saúde (ações educativas com ênfase em mudanças do estilo de vida, correção dos fatores
de risco e produção de material educativo).
• Treinamento de profissionais.
• Ações assistenciais individuais e em grupo de acordo com as especificidades; participação em projetos
de pesquisa.

Ações específicas individuais

As ações específicas definidas pelas diretrizes de cada profissão devem obviamente ser respeitadas.
Nas situações e circunstâncias em que houver superposições de funções, isso deve acontecer de maneira
natural e só será possível se houver harmonia entre o grupo, estabelecimento de regras claras e perfeita
uniformidade de linguagem. O processo educativo é lento, as mudanças de atitudes são demoradas, e a
comunicação clara, objetiva e equilibrada é crucial para o alcance das metas.

Participação do médico
• Consulta médica (ver avaliação clínico-laboratorial).
• Responsabilidade pelo diagnóstico e pelas condutas terapêuticas.
• Avaliação clínica dos pacientes pelo menos duas vezes por ano.
• Apoio aos demais membros, quando necessário.

Participação do enfermeiro
• Consulta de enfermagem:
• Encaminhamento ao médico pelo menos duas vezes ao ano e com maior frequência nos casos em que a pressão
não estiver devidamente controlada ou na presença de outras intercorrências.
• Administração do serviço.
• Delegação e supervisão das atividades do técnico/auxiliar de enfermagem.
Participação do psicólogo
• Consulta de psicologia: √ Avaliação e tratamento de aspectos emocionais que interfiram na qualidade de vida do
paciente, seu nível de estresse e adesão ao tratamento global da hipertensão arterial; √ Avaliação de como o
paciente processa a informação quanto à saúde, para que o método de comunicação com ele seja devidamente
individualizado e o plano de mudanças de hábitos de vida, mantido.
• Atendimento a familiares, para facilitar as mudanças de hábitos de vida do grupo familiar e a adesão ao
tratamento.
• Trabalho sistemático junto à equipe com o objetivo de promover o entrosamento e a harmonia entre todos, com
o objetivo de que o grupo, de fato, constitua-se em uma equipe multiprofissional.

Participação do farmacêutico
• Participação em comitês para a seleção de medicamentos.
• Gerenciamento de estoque, armazenamento correto e dispensação de medicamentos. • Promoção da atenção
farmacêutica ao paciente (orientação individual ou em grupo e acompanhamento do uso de medicamentos).
• Orientação quanto ao uso racional de medicamentos à população.
Participação do fisioterapeuta
• Atendimento individual e em grupo aos pacientes encaminhados.
• Identificação e atuação fisioterapêutica sobre problemas que causem limitação às mudanças de hábitos de vida
(dores limitantes, posturas etc).

Ações em Grupo

Reuniões com pacientes

As ações educativas e terapêuticas em saúde devem ser desenvolvidas com grupos de pacientes, seus familiares e
a comunidade, sendo adicionais às atividades individuais. A equipe deve usar todos os recursos disponíveis para
orientação, educação e motivação a fim de, modificando hábitos de vida, diminuir os fatores de risco
cardiovasculares e incentivar o uso ininterrupto dos medicamentos, quando necessários. Os recursos disponíveis

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 39


vão desde o contato individual até a utilização de fontes de informações coletivas, como reuniões, palestras,
simpósios, peças teatrais, folhetos, vídeos e músicas educativas. Devem ser sempre consideradas as
particularidades regionais para a aplicação de qualquer um dos métodos educativos. Nesse tipo de atividade, o
paciente se identifica com outros indivíduos com problemas semelhantes, aprendendo a expressar seus medos e
expectativas. Com isso, passa a compartilhar das experiências de todos, buscando soluções reais para problemas
de saúde semelhantes aos seus.

Reuniões da equipe

Atividades periódicas com a participação de todo o grupo para análise crítica das ações desenvolvidas, acerto de
arestas e novas orientações, caso necessárias ter em mente que: trabalhar em equipe é mais do que agregar
profissionais de diferentes áreas; só existe equipe quando todos conhecem os objetivos, estão cientes da
necessidade de alcançá-los e desenvolvem uma visão crítica a respeito do desempenho de cada um e do grupo.

Atividades que Devem Contar com a Participação da Equipe Multiprofissional

Programas comunitários
A equipe multiprofissional deve procurar estimular, por meio dos pacientes, dos representantes da comunidade,
de profissionais da área de comunicação e da sociedade civil, o desenvolvimento de atividades comunitárias.
A criação de Ligas e Associações de Portadores de Hipertensão Arterial é uma estratégia que também pode
aumentar a adesão do paciente ao tratamento instituído.
Atividades conjuntas (equipes/pacientes)
Devem ocorrer concomitantemente, reunindo diversas equipes multiprofissionais e grupos de pacientes.
Sugestões para implantação do serviço
Identificação da equipe multiprofissional mínima possível, de acordo com a realidade existente, e definição das
tarefas de cada um. Fluxograma de atendimento: cada serviço, de acordo com sua equipe, estabelecerá uma
estratégia, devendo estar aí incluídas atividades individuais e/ou de grupo. Informação ao paciente sobre a rotina
de atendimento, para que tenha maior compreensão e, consequentemente, maior adesão ao tratamento.

Ações administrativas
• Cartão do paciente.
• Obrigatoriedade do registro de todos os dados do paciente em prontuário.
• Reuniões periódicas da equipe buscando uniformização de procedimentos e linguagem. O que determina o bom
funcionamento do grupo é sua filosofia de trabalho: caminhar unidos na mesma direção.

6. MULTIDISCIPLINARIDADE

A Psicologia da Saúde, quando aplicada a promoção de saúde mental, requer um vínculo com a
Psicologia Social, Comunitária, Organizacional, Hospitalar, etc, pois precisa de um olhar abrangente do
indíviduo em todos os seus papéis sociais, além do individual.
Segundo a definição de Kern e Bornholdt (2004) e também de Chiattone (2000)[1], a atuação do
psicólogo da saúde é principalmente na área hospitalar, mas também pode ser feita em campanhas de
"promoção da saúde", educação em saúde mental, em pesquisas e aulas nas universidades por exemplo.
Logo, todo psicólogo hospitalar é psicólogo da saúde, mas nem todo psicólogo da saúde é hospitalar.

ABORDAGENS

As abordagens mais comuns na psicologia hospitalar são a psicologia cognitiva, a psicologia


comportamental, a psicologia sistêmica e a psicanálise. Mas assim como em todas as outras áreas essas
abordagens aparecem integradas sendo difícil diferencia-las na prática.

ATUAÇÃO

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O Psicólogo hospitalar atua geralmente segundo um modelo biopsicossocial que assim como a
abordagem holística busca observar o indivíduo em todos sistemas com quem interage (familiar, social,
biológico, psicológico...) simultaneamente e com inter-relações constantes entre elas. Mas também
existem psicólogos mais voltados para a psicologia clínica atuando geralmente junto com a psiquiatria
em hospitais psiquiátricos ou em centros especializados em aconselhamento. É comum que o trabalho do
psicólogo seja feito em associação com o Assistente social, principalmente em serviços cujo o objetivo
seja o Acolhimento Psicossocial.

 Funções Rodriguez-Marín (2003)[6] sintetiza as seis tarefas básicas do psicólogo que trabalha em
hospital:
 Função de coordenação: relativa às atividades com os funcionários do hospital
 Função de ajuda à adaptação: em que o psicólogo intervém na qualidade do processo de adaptação
e recuperação do paciente internado
 Função de interconsulta: atua como consultor, ajudando outros profissionais a lidarem com o
paciente
 Função de enlace: intervenção, através do delineamento e execução de programas junto com outros
profissionais, para modificar ou instalar comportamentos adequados dos pacientes  Função
assistencial direta: atua diretamente com o paciente
 Função de gestão de recursos humanos: para aprimorar os serviços dos profissionais da
organização.

7. Objetivo da Psicologia Preventiva para a Família:

Promoção e prevenção da saúde, tratar de questões relativas ao desenvolvimento e educação dos


filhos e tornar os pais melhor instrumentados para conduzir a vida dos filhos no sentido do
desenvolvimento integral e harmonioso. Pretende-se alcançar a tomada de consciência sobre o papel dos
pais na formação psíquica da criança, se questionar sobre suas próprias experiências oriundas do
relacionamento com suas famílias de origem e, com base nisto, preparar um ambiente facilitador para o
desenvolvimento de seus filhos.
A Psicologia Preventiva resulta de uma transmissão de conhecimentos à família ou o indivíduo
objetivando alertá-la (o) para os sinais precoces de distúrbios adaptativos — para que, bem como elevar
o nível de exigência existente, de modo a tornar ainda mais eficaz uma adaptação que já é
adequada.Cada família sentido-se bem assistida irá divulgar para as próximas a utilidade da ajuda
preventiva.
E, pouco a pouco, num contágio benéfico, irão se estendendo ramificações formando uma rede que
fortalece a saúde psíquica e protege a comunidade contra formas de adaptação menos eficazes.
O alcance da psicoterapia preventiva da família compreende desde os sintomas individuais até as
dificuldades de ajustamento intra ou extra-familiares.
O objetivo é promover a integração familiar a níveis de adaptação mais eficazes. Para alcançar esse
objetivo faz-se um seguimento preventivo a cada três meses.
Desse modo é verificado periodicamente o estado de adaptação familiar, independente de haver
chamada para ajuda psicológica. A família vai compreendendo pela experiência o que significa prevenção
primária. Assim, o atendimento preventivo da família combina dois modelos de assistência psicológica:
um método breve, quando surge um problema situacional (e cai no âmbito da prevenção secundária ou
terciária) e um método de atendimento por prazo indeterminado, que visa manter e melhorar o nível de
eficácia adaptativa da família (âmbito da prevenção primária).

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8. A psicologia no hospital e suas contribuições para promoção de saúde

Pensar a atuação do psicólogo nas unidades hospitalares, ou seja, nas instituições públicas de
saúde destinadas a priorizar a saúde não é uma tarefa muito fácil.
O tempo de inserção desse profissional nessas instituições públicas de saúde é relativamente
pequeno; há um contingente reduzido de profissionais atuando na área, apesar de vir aumentando
gradativamente, inexistem pesquisas mais sistemáticas, tanto nacionais quanto locais, sobre a atuação
do psicólogo nesse campo específico de trabalho.
Apesar disso, é possível observar uma série de problemas e insucessos em termos das práticas dos
psicólogos, devido a falta de apoio como um todo e na valorização desse profissional, como um agente
capaz de contribuir na promoção de saúde.
Yanamoto e Cunha, (1998) nos trás contribuições acerca da Psicologia Clínica no Brasil, onde a
própria denominação Psicologia da Saúde já é problemática, suscitando discussões de como denominar
uma área que aplica os princípios de Psicologia a problemas de saúde e doença, pois, recorrente a
confusão de terminologias, como Medicina Psicossomática, com o tema em questão Psicologia
Hospitalar, daí então sua maior contribuição nesse ensaio, dizendo que a confusão entre o que seria a
área clínica, a área da saúde e também a Psicologia Hospitalar não é somente de ordem semântica, mas
também de ordem estrutural, ou seja, estão em jogo os diferentes marcos teóricos ou concepções de base
acerca do fazer psicológico e sua inserção social. Justamente dessas diferenças, e/ou antagonismos
teórico-ideológicos, surge uma Psicologia da Saúde.
Considerando essas possíveis confusões, é importante esclarecer, também, o conceito de Psicologia
Clínica.
O psicólogo especialista em Psicologia Hospitalar tem sua função centrada nos âmbitos secundário
e terciário de atenção à saúde, atuando em instituições de saúde e realizando atividades como:
atendimento psicoterapêutico; grupos psicoterapêuticos; grupos de psicoprofilaxia; atendimentos em
ambulatório e unidade de terapia intensiva; pronto atendimento; enfermarias em geral; psicomotricidade
no contexto hospitalar; avaliação diagnóstica; psicodiagnóstico; consultoria e interconsultoria.
Sebastiani, (2003) afirma que é relevante que possamos entender o surgimento e a consolidação do
termo Psicologia Hospitalar em nosso país, é importante ressaltar que as políticas de saúde no Brasil são
centradas no hospital desde a década de 40, em um modelo que prioriza as ações de saúde via atenção
secundária (modelo clínico/assistencialista), e deixa em segundo plano as ações ligadas à saúde coletiva
(modelo sanitarista), daí a importância da luta para reverter esse quadro.
Nessa época, o hospital passa a ser o símbolo máximo de atendimento em saúde, idéia que, de
alguma maneira, persiste até hoje. Muito provavelmente, essa é a razão pela qual, no Brasil, o trabalho
da Psicologia no campo da saúde é denominado Psicologia Hospitalar, e, não, Psicologia da Saúde, o que
seria mais adequado, priorizando assim a promoção de saúde. Para Yanamoto, Trindade e Oliveira,
(2002)
O termo Psicologia Hospitalar é inadequado porque pertence à lógica que toma como referência o
local para determinar as áreas de atuação, e não prioritariamente às atividades desenvolvidas, que seria
a busca de promover saúde. Se já existe fragmentação das práticas e dispersão teórica da Psicologia, a
adoção do termo Psicologia Hospitalar caminha no sentido oposto à busca de uma identidade para o
psicólogo como profissional da saúde que atua em hospitais.
Diferente do Brasil, em alguns outros países, a identidade do psicólogo especialista está associada à
sua prática e não ao local em que atua, porém a (CHIATTONE 2000), que diz que a Psicologia Hospitalar é
apenas uma estratégia de atuação em Psicologia da Saúde, e que, portanto, deveria ser denominada
“Psicologia no contexto hospitalar”.
Rodríguez-Marín (2003) esclarece que a Psicologia Hospitalar é, então, o conjunto de contribuições
científicas, educativas e profissionais que as diferentes disciplinas psicológicas fornecem para dar melhor
assistência aos pacientes no hospital.

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O psicólogo hospitalar seria aquele que reúne esses conhecimentos e técnicas para aplicá-los de
maneira coordenada e sistemática, visando à melhora da assistência integral do paciente hospitalizado,
sem se limitar, por isso, ao tempo específico da hospitalização.
Portanto, seu trabalho é especializado no que se refere, fundamentalmente, ao restabelecimento
do estado de saúde do doente ou, ao menos, ao controle dos sintomas que prejudicam seu bem-estar,
esse nos parece ser um dos pontos principais para a promoção de saúde, dando menos valia para a
doença.
Ainda em Rodriguez-Marín (2003) de forma esclarecedora sintetiza as seis tarefas básicas do
psicólogo que trabalha em hospital, sendo:

 A primeira a função de coordenação, relativa às atividades com os funcionários do hospital;


 A segunda, seria a função de ajuda à adaptação: em que o psicólogo intervém na qualidade do
processo de adaptação e recuperação do paciente internado;
 A terceira seria a função de interconsulta: atua como consultor, ajudando outros profissionais a
lidarem com o paciente;
 A quarta função seria a de enlace: intervenção, através do delineamento e execução de programas
junto com outros profissionais, para modificar ou instalar comportamentos adequados dos
pacientes;
 A quinta função pode-se colocar como assistencial direta: atua diretamente com o paciente, e
 A sexta função é a de gestão de recursos humanos: para aprimorar os serviços dos profissionais da
organização, isso tudo contribui de forma significativa para a promoção de saúde, principalmente
se o psicólogo tiver oportunidade de trabalhar em conjunto com os amigos da saúde, que só vem a
contribuir com esse processo.
Chiattone (2000) ressalta, contudo, que, muitas vezes, o próprio psicólogo não tem consciência de
quais sejam suas tarefas e papel dentro da instituição, e em muitas vezes habilidades suficientes para
lidar com o contexto hospitalar, principalmente por que as universidades pouco enfatizam essa área,
priorizando principalmente a formação clinica tradicional, ao mesmo tempo em que o hospital também
tem dúvidas quanto ao que esperar desse profissional.
Se o psicólogo simplesmente transpõe o modelo clínico tradicional para o hospital e verifica que
este não funciona como o esperado, onde nos parece que essa situação bastante frequente, isso pode
gerar dúvidas quanto à cientificidade e efetividade de seu papel.
Desse modo, estabelece um significativo distanciamento da realidade institucional e a inadequação
da assistência mascarada por um falso saber que pode gerar experiências malsucedidas em Psicologia
Hospitalar ou como poderíamos chamar de psicologia da saúde.
Faz-se relevante ressaltar que a partir das definições expostas de Psicologia da Saúde, que pode se
confundir com a Psicologia Clínica e com a Psicologia Hospitalar, encontramos semelhanças no que tange
às formas de atuação prática dos especialistas dessas distintas áreas.
A psicoterapia individual ou grupal, por exemplo, é uma tarefa que pode ser desenvolvida dentro
dos três campos citados. Contudo, percebemos também particularidades fundamentais, a Psicologia
Clínica propõe um trabalho amplo de saúde mental nos três níveis de atuação, primário, secundário e
terciário e a Psicologia da Saúde também propõe um trabalho abrangente nesses mesmos níveis, mas
aplicada ao âmbito sanitário, enfatizando as implicações psicológicas, sociais e físicas da saúde e da
doença.
No que diz respeito à Psicologia Hospitalar, sua atuação poderia ser incluída nos preceitos da
Psicologia da Saúde, limitandose, entretanto, à instituição-hospital e, em consequência, ao trabalho de
prevenção secundária e terciária, porém sem que deixe de contribuir com o processe de promoção de
saúde.

9. O PSICÓLOGO NO HOSPITAL

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Valdemar augusto angerami-camon

Introdução
A própria dinâmica da existência parece encontrar no contexto hospitalar um novo parâmetro de
sua ocorrência dando-lhe uma dimensão onde questões que envolvem a doença, a morte e a própria
perspectiva existencial apresentam um enfeixamento inerentemente peculiar.
A Psicologia ao ser inserida no hospital reviu seus próprios postulados adquirindo conceitos e
questionamentos que fizeram dela um novo escoramento na busca da compreensão da existência
humana.
Assim, por exemplo, não mais é possível pensar-se num curso de graduação de psicologia onde
questões como morte, saúde pública, hospitalização e outras temáticas, que em princípio eram
pertinentes apenas à Psicologia Hospitalar, não tenham prioridade ou então não sejam exigidas como
necessárias para a formação do psicólogo.
O atual quadro da formação do psicólogo difere do que colocamos num texto anterior de 1984
quando afirmamos que a atuação do psicólogo no contexto hospitalar, ao menos no Brasil, é uma das
temáticas mais revestidas de polêmicas quando se evocam discussões sobre o papel da Psicologia na
realidade institucional.
A formação acadêmica do psicólogo é falha em relação aos subsídios teóricos que possam embasá-
lo na prática institucional.
Essa formação acadêmica, sedimentada em outros modelos de atuação, não provê com o
instrumental teórico necessário para uma atuação nessa realidade.
E praticamente prevendo uma mudança nesse quadro, o mesmo texto coloca que apenas
recentemente a prática institucional mereceu preocupação dos responsáveis pelos programas
acadêmicos em Psicologia.
É dentro dessa nossa perspectiva que se abre ao psicólogo no contexto hospitalar, que iremos tecer
nossas reflexões na busca de um melhor dimensionamento dessa prática.
É dentro da fé inquebrantável que o psicólogo adquire cada vez com mais nitidez um espaço no
hospital a partir de sua compreensão da condição humana. Iremos caminhar por trilhas e caminhos que
nos conduzirão a novos horizontes profissionais.

10. A despersonalização do paciente

A Despersonalização do Paciente O paciente ao ser hospitalizado sofre um processo de total


despersonalização. Deixa de ter o seu próprio nome e passa a ser um número de leito ou então alguém
portador de uma determinada patologia.
O estigma de doente — paciente até mesmo no sentido de sua própria passividade frente aos novos
fatos e perspectivas existenciais — irá fazer com que exista a necessidade premente de uma total
reformulação até mesmo de seus valores e conceitos de homem, mundo e relação interpessoal em suas
formas conhecidas.
Deixa de ter significado próprio para significar a partir de diagnósticos realizados sobre sua
patologia.
Berscheid e Walster colocam que fundamentalmente quando dizemos que sabemos qual a atitude
de uma pessoa, queremos dizer que temos alguns dados, a partir cio comportamento passado da pessoa,
que nos permitem predizer seu comportamento em determinadas situações.
Tal afirmação utilizada para embasar muitos princípios teóricos em psicologia perde sua força e
autenticidade ao ser confrontada com o comportamento de uma determinada pessoa numa situação de
hospitalização.
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Embora sem querer negar que o passado de uma determinada pessoa irá influir não apenas em sua
conduta como até mesmo em sua recuperação física, ainda assim não cometemos erro ao afirmarmos
que a situação de hospitalização será algo único enquanto vivência, não havendo a possibilidade de
previsão anterior à sua própria ocorrência.
Goffman coloca que o estigma é um sinal, um signo utilizado pela sociedade para discriminar os
indivíduos portadores de determinadas características.
E pelo simples fato de se tornar “hospitalizado” faz com que a pessoa adquira os signos que irão
enquadrá-lo numa nova performance existencial e até mesmo seus vínculos interpessoais passarão a
existir a partir desse novo signo. Seu espaço vital não é mais algo que dependa de seu processo de
escolha.
Seus hábitos anteriores terão de se transformar frente à realidade da hospitalização e da doença.
Se essa doença for algo que o envolva apenas temporariamente haverá a possibilidade de uma nova
reestruturação existencial quando do restabelecimento orgânico, fato que, ao contrário das doenças
crônicas, implica necessariamente numa total reestruturação vital.
Sebastiani coloca que a pessoa deixa de ser o José ou Ana, etc., e passa a ser o “21 A” ou o
‘‘politraumatizado de leito 4 ’ ou ainda ‘ ‘a fratura de bacia de 60 andar“. E, tentando aprofundar ainda
mais tais colocações, afirma que ‘ ‘essa característica, que felizmente notamos em grande parte das
rotinas hospitalares, tem contribuído muito para ausentar a pessoa de seu processo de tratamento
exarcebando o papel de ‘paciente’’’...
A despersonalização do paciente deriva ainda da fragmentação ocorrida a partir dos diagnósticos
cada vez mais específicos que, além de abordarem a pessoa em sua amplitude existencial, fazem com que
apenas um determinado sintoma exista naquela vida, ainda que circunstancialmente assistamos cada vez
mais o surgimento de novas especialidades que reduzem todo o espaço vital de uma determinada pessoa
a um mero determinismo das implicações de certos diagnósticos, que trazem em seu bojo, além de
signos, estigmas e preconceitos, toda uma carga de abordagem e confrontos teórico-práticos que fazem
da pessoa portadora de determinadas patologias alguém que, além da própria patologia, irá necessitar
de cuidados complementares para livrar-se de tais estigmas e signos.
A especialização clínica, na maioria das vezes, ao aprofundar e segmentar o diagnóstico deixa de
levar em conta até mesmo as implicações dessa patologia em outros órgãos e membros desse doente,
que, embora possam não apresentar sinais evidentes de deterioração e comprometimento orgânico,
estarão sujeitos a um sem-número de alterações.
A situação de hospitalização passa a ser determinante de muitas situações que irão ser
consideradas invasivas e abusivas na medida em que não se respeita os limites e imposições dessa pessoa
hospitalizada.
E, embora esteja vivendo um total processo de despersonalização, ainda assim determinadas
práticas são consideradas ainda mais agressivas pela maneira como são conduzidas dentro do âmbito
hospitalar.
Assim, será visto como sendo algo invasivo a enfermeira que vem acordá-la para aplicar injeção, ou
a atendente que interrompe uma determinada atividade para servir-lhe as refeições.
Tudo passa a ser invasivo. Tudo passa a ser algo abusivo diante de sua necessidade de aceitação
desse processo. E até mesmo a presença do psicólogo que se não se efetivar cercada de alguns cuidados e
respeito à própria deliberação do doente, implica em ser mais um dos estímulos aversivos e invasivos
existentes no contexto hospitalar.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 45


E, ao invés de propiciar alívio ao momento da hospitalização, estará contribuindo também para o
aumento de vetores que tornam o processo de hospitalização algo extremamente penoso e difícil de ser
vivido.
O hospital, o processo de hospitalização e o tratamento inerente que visa ao restabelecimento,
salvo aqueles casos de doenças crônicas e degenerativas, não fazem parte dos projetos existenciais da
maioria das pessoas. Nesse sentido toda e qualquer invasão no espaço vital é algo aversivo que, além do
caráter abusivo, apresenta ainda componentes de dor e desalento. E até mesmo evidencia que muitos
processos de hospitalização têm o reequilíbrio orgânico prejudicado devido ao processo de
despersonalização do doente, que, ao sentir sua desqualificação existencial, pode concomitamente,
muitas vezes, abandonar seu processo interior de cura orgânica e até mesmo emocional.
Ao trabalhar no sentido de estancar os processos de despersonalização no âmbito hospitalar, o
psicólogo estará ajudando na humanização do hospital, pois seguramente esse processo é um dos
maiores aniquiladores da dignidade existencial da pessoa hospitalizada.
Um trabalho de reflexão que envolva toda a equipe de saúde é uma das necessidades mais
prementes para fazer com que o hospital perca seu caráter meramente curativo para transformar-se
numa instituição que trabalhe não apenas com a reabilitação orgânica, mas também com o
restabelecimento da dignidade humana.

11. Psicoterapia e Psicologia Hospitalar

A Psicologia Hospitalar assim como a Psicoterapia têm seu instrumental teórico de atuação calcado
na área clínica.
Existem muitos profissionais da área que defendem que a Psicologia Hospitalar, mesmo tendo como
referencial os princípios da área clínica, seja considerada uma nova ramificação da Psicologia. Assim,
além da clássica divisão em Clínica, Educacional e Organizacional haveria também uma quarta
ramificação: a Psicologia Hospitalar.
E embora seja uma questão que envolva bastante celeuma quando de seu aprofundamento,
evidencia-se também a necessidade de uma nova ótica sobre a Psicologia Hospitalar seja pelo seu
crescimento, seja ainda pela sua diversidade teórica.

Objetivos da Psicoterapia

A Psicoterapia independentemente de sua orientação teórica tem como seus principais objetivos
levar o paciente ao autoconhecimento, ao auto crescimento e à cura de determinados sintomas.
O enfeixamento desses objetivos, ou, ainda, algum deles isoladamente, desde que leve esse
paciente a um processo pleno de libertação existencial, é, por assim dizer, o ideal que norteia o processo
psicoterápico.
A Psicoterapia, ainda, tem como característica principal o fato de ser um processo onde a procura e
a determinação de seu início se dá através de uma mobilização do paciente.
Assim, um paciente, ao ser encaminhado para um processo psicoterápico, muitas vezes, demora um
período de tempo bastante longo entre esse encaminhamento e a procura propriamente dita desse
processo. Chessick10 coloca que a psicoterapia falha quando não existe uma afinidade precisa entre
aquilo que busca o paciente em sua psicoterapia e aquilo que o psicoterapeuta tem condições de
oferecer-lhe.
E até mesmo a falta de definições precisas dos objetivos do processo poderá determinar implicações
que seguramente irão emperrar o processo além de arrastá-lo ao longo de um período de tempo de
maneira indevida. Ao decidir pela psicoterapia o paciente já realizou um processo inicial e introspectivo

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da necessidade desse tratamento e suas implicações em sua vida. Isso tudo evidentemente além da
inserção de suas necessidades aos objetivos da psicoterapia.

O Setting Terapêutico

Ao procurar pela psicoterapia o paciente será então enquadrado dentro do chamado setting
terapêutico. Assim as normas e diretrizes do processo serão colocadas de maneira bastante claras e
precisas pelo psicoterapeuta formalizando-se assim as nuances sobre as quais se norteará esse processo.
Detalhes como horário de duração de cada sessão, eventuais reposições de sessões, prazo de aviso para
eventuais faltas etc. são esboçados e o processo se desenvolve então em perfeita consonância com esses
preceitos.
E até mesmo alguma eventual resistência inicial do paciente em procurar pela psicoterapia, bem
com outras implicações, será resolvida num processo cujo contrato é estabelecido em acordo com as duas
partes envolvidas. E embora seja notório o número de casos encaminhados à psicoterapia e que por
alguma forma de resistência demoram muito para procurar por tal processo, ainda assim é conveniente
estabelecer que pelo fato do paciente totalmente fragilizado e necessitando desse tipo de tratamento, a
busca por tal processo se dará única e tão-somente quando esse paciente rompe com determinadas
amarras emocionais.
E ainda que surjam outras dificuldades e resistências ao longo do processo, a resistência inicial ao
tratamento é transporta pelo simples fato do paciente procurar pela psicoterapia.
A psicoterapia ainda tem uma outra característica bastante peculiar de ser um processo onde o
psicoterapeuta tem no paciente alguém que caminha sob sua responsabilidade, mas que de uma forma
simples tem nesse vínculo seu objetivo em si. Assim um psicoterapeuta não precisará prestar conta de seu
paciente a nenhuma entidade, salvo naturalmente aqueles casos onde o atendimento é vinculado a
algum processo de supervisão. O processo em si é conduzido pelo psicoterapeuta com anuência do
paciente e, no caso de algum impedimento, a relação se resolve apenas e tão-somente pelas partes
envolvidas nesse processo.
O setting terapêutico impõe ainda uma privacidade ao relacionamento que torna toda e qualquer
interferência externa ao processo plausível de ser analisada e enquadrada nos parâmetros desse
relacionamento. Chessick coloca que o psicoterapeuta descende diretamente do confessor religioso ou
então do médico de família, aquele profissional que além de cuidar dos males do organismo escutava as
angústias e dificuldades do paciente.
O psicoterapeuta em sua linhagem apresenta também resquícios do curandeiro das antigas
formações tribais encarregados de trazer bem-estar e alívio aos membros dessa comunidade.
A proteção sentida pelo paciente nos limites do setting terapêutico mostra ainda que essa origem
não é apenas perpetuada como apresenta requinte de evolução no resguardo dos aspectos envolvidos
nesse processo. E até mesmo um quê de samaritanismo presente no processo psicoterápico é também
resíduo dessas marcas que o psicoterapeuta traz de sua origem e desenvolvimento.
A emoção presente na atividade psicoterápica é outro fator que faz com que nenhuma outra forma
de relacionamento possa ser comparada com sua performance.
E nesse sentido temos também a colocação de muitos especialistas, de que a psicoterapia é o
sustentáculo do homem contemporâneo dentre outras tantas formas buscadas para alívio e crescimento
emocional. Ainda no chamado setting terapêutico vamos encontrar a peculiaridade de que a maioria dos
processos jamais tem suas sessões interrompidas, seja por solicitações externas, seja ainda por outras
variáveis decorrentes, muitas vezes, do próprio processo em si.
Assim é praticamente impossível, por ex., que um psicoterapeuta interrompa uma sessão
estancando o choro de angústia do paciente para simplesmente atender uma ligação telefônica. Ou ainda
que uma sessão seja igualmente interrompida para que o psicoterapeuta possa recepcionar algum amigo
que eventualmente vá visitá-lo.

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O setting terapêutico assim resguarda a sessão para que todo o material catalisado naqueles
momentos seja apreendido e elaborado de maneira plena e absoluta. Tais características fazem, inclusive,
com que seja muito difícil avaliar-se um processo psicoterápico que não seja fundamentado nesses
moldes.
A Realidade Institucional Uma das primeiras dificuldades surgidas quando se pensa na atividade do
psicólogo na realidade hospitalar é sua inserção na realidade institucional. Afirmamos num texto anterior
que a formação do psicólogo é falha em relação aos subsídios teóricos que possam embasá-lo na prática
institucional.
Essa formação acadêmica, sedimentada em outros modelos de atuação, não o provê com o
instrumental teórico necessário para uma atuação nessa realidade. Torna-se então abismático o hiato
que separa o esboço teórico de sua formação profissional e sua atuação prática.
Apenas recentemente a prática institucional mereceu preocupação dos responsáveis pelos
programas acadêmicos em Psicologia. E ainda que hoje em dia seja notório o número de cursos de
graduação em Psicologia, que têm dedicado grande espaço para o contexto institucional em seus
programas de formação, estamos distantes daquilo que seria o ideal em termos de sedimentação teórico-
prática.
E na medida que o hospital surge como sendo uma realidade institucional com características
bastante peculiares, embora reproduzindo as condições de outras realidades institucionais, apresenta
sinais que evidenciam tratar-se de amplitude sequer imaginável numa análise que não tenha um real
comprometimento com sua verdadeira dimensão.
Também é inegável que a partir do surgimento das reflexões realizadas principalmente pelos
profissionais da Argentina sobre a realidade institucional, esse aspecto ganhou uma corporeidade
bastante precisa e importante na esfera contemporânea da Psicologia. Assim o termo “análise
institucional” deixou de ser uma mera citação abstrata de alguns textos para tornar-se realidade, ao
menos de discussão teórica, para um sem-número de acadêmicos que, a partir de então, passaram a
interessar-se pela temática.
E apesar do psicólogo ainda estar iniciando uma prática institucional nos parâmetros da eficácia e
respeito às condições institucionais que delimitam sua situação nesse contexto, a busca de determinantes
nessa prática o levou de encontro a convergências bastante significativas na estruturação teórica dessas
atividades.
E fato que a realidade hospitalar apresenta celeumas e condições que irão exigir do psicólogo algo
além da discussão meramente teórico-acadêmica. Valores éticos e ideológicos surgirão ao longo do
caminho e irão exigir performances sequer imaginadas antes de sua ocorrência. Como ilustração dessa
afirmação, cito o grande número de crianças que padecem nos hospitais de São Paulo de insuficiência
hepática causada por inanição.
Deparar-se com crianças que padecem vitimadas pela fome em plena cidade de São Paulo é algo
que nenhum acadêmico imagina deparar-se quando idealiza efetivamente uma atividade no hospital. Ou
então que dizer dos casos de crianças que são atacadas por ratazanas enquanto dormem numa evidência
da precariedade e falta de condições mínimas de dignidades existencial e habitacional onde a falta de
saneamento básico é tão abismante que conceituá-lo de absurdo nada mais é do que aproximar-se da
verdadeira realidade dessa população.
O psicólogo, no contexto hospitalar, depara-se deforma aviltante com um dos direitos básicos que
está sendo negada à maioria da população, a saúde. A saúde, em princípio um direito de todos, passou a
ser um privilégio de poucos em detrimento de muitos.
A precariedade da saúde da população é, sem dúvida alguma, um agravante que irá provocar
posicionamentos contraditórios, e, na quase totalidade das vezes, irá exigir do psicólogo uma revisão de
seus valores acadêmicos, pessoais e até mesmo sócio-políticos.
O contexto hospitalar dista de forma significativa daquela idealização feita nas lides acadêmicas.
Assiste-se, nesse contexto, à condição desumana que a população, já bastante cansada de sofrer todas as
formas possíveis de injustiças sociais, tem de submeter-se em busca do recebimento de um tratamento

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adequado. Cenas ocorrem das mais lamentáveis situações a que um ser humano pode submeter-se. E o
que é mais agravante, tudo passa a ser considerado normal.
Os doentes são obrigados a aceitar como normal todas as formas de agressão com as quais se
deparam em busca de saúde.
Tudo é tido como normal; passa a ser normal seis horas numa fila de espera em busca do
atendimento médico, e muitas vezes após vários retornos à instituição hospitalar derivadas de
encaminhamentos feitos pelos especialistas decorrentes de exames realizados especulativamente.
Também passa a ser normal o fato de serem atendidos um número imenso de pacientes num
período de tempo absurdamente curto. E tudo passa a ser normal. E os profissionais que atuam na área
de saúde assistem desolados e conformados a esse estado de coisas. Tornam-se praticamente utópicas
outras formas de atendimento que não essas que impiedosamente são impostas à população.
O psicólogo está inserido nesse contexto da saúde de forma tão emaranhada quanto outros
profissionais atuantes na área da saúde, e, muitas vezes, sem uma real consciência dessa realidade. E
contradições inúmeras sucedem em todos os níveis no contexto hospitalar.
E se por um lado os hospitais apresentam essas enormes filas de pacientes que, padecendo em
corredores, minguam por algum tipo precário de atendimento, por outro iremos encontrar algumas
instituições nesse mesmo contexto que apresentam a alta especialização resultante do enorme processo
do conhecimento na área das ciências humanas.
Iremos encontrar nessas realidades profissionais altamente especializados. Sempre muito bem
informados das técnicas existentes estão constantemente aprimorando-as em cursos e congressos nos
centros mais desenvolvidos da Europa e Estados Unidos. E possível, por exemplo, a utilização do método
Sahling de análise do metabolismo do feto, bem como o acompanhamento eletrônico do eletro-
cardiograma fetal.
Os avanços na área da Obstetrícia permitem ainda a previsão do sexo do feto, bem como uma
possível má formação congênita.
No, entanto, em termos de realidade, temos, segundo relatórios sobre estudos realizados em várias
regiões brasileiras, dados alarmantes informando que 95% dos partos são realizados em casa e sem o
menor acompanhamento pré-natal. E o número de pessoas que recebem algum tipo de assistência é
quase nulo. Esse contexto contraditório e incongruente recebe o psicólogo que tem sobre si outras
contradições que o envolvem diretamente desde as lides de sua formação acadêmica.
E o psicólogo percebe no contexto hospitalar que os ensinamentos e leituras teóricas cie sua prática
acadêmica não serão, por maiores que sejam as horas de estudo e reflexão teórica sobre a temática,
suficientes para embasar sua atuação. E aprende que terá de aprender apreendendo, como os pacientes,
sua dor, angústia e realidade.
E o paciente, de modo peculiar, ensina ao psicólogo sobre a doença e sobre como lidar como a
própria dor diante do sofrimento, a partir da atuação do psicólogo junto ao paciente hospitalizado —
inerente os objetivos da própria psicoterapia acima citados —, trata-se de simples acréscimo ao processo
em si.
O psicólogo precisa ter muito claro que sua atuação no contexto hospitalar não é psicoterápica
dentro dos moldes do chamado setting terapêutico.
E como minimização do sofrimento provocado pela hospitalização, também é necessário abranger-
se não apenas a hospitalização em si em termos específicos da patologia que eventualmente tenha
originado a hospitalização. Mas principalmente as sequelas e decorrências emocionais dessa
hospitalização. Tomemos como exemplo, arbitrariamente, uma criança de três anos de idade e que nunca
tenha vivido longe do seio familiar.
Num dado momentos simplesmente coloquemos essa criança numa escola maternal durante
apenas um período do dia.
Essa criança, em que pese a escola ser um ambiente em princípio agradável e repleto de outras
crianças, se desarvovará e entrará num processo de pânico e desestruturação emocional ao se perceber
longe de proteção familiar. E tantos casos ocorrem nesse enquadre que a maioria das escolas possui o

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 49


chamado período de adaptação onde algum dos representantes desse núcleo familiar se faz presente na
escola para acudir essa criança nos momentos agudos dessa dificuldade.
E isso tudo num ambiente agradável de escola onde muitas vezes a criança irá se deparar com
estimulações e recreações sequer imagináveis sem seu universo simbólico. O que dizer-se então de uma
criança que num determinado momento se vê hospitalizada18 sem a-presença dos familiares e num
ambiente na maioria das vezes hostil?! Certamente essa criança entrará num nível de sofrimento
emocional e muitas vezes até físico em decorrência dessa hospitalização. Sofrimento físico que
transcende até mesmo a patologia inicial e que se originou no processo de hospitalização.
A minimização do sofrimento provocado pela hospitalização implicará num leque bastante amplo
de opções de atuação onde todas essas variáveis deverão ser consideradas para que o atendimento seja
coroado de êxito. Uma mulher mastectomizada, num outro exemplo, terá no processo de extirpação do
tumor, na maioria das vezes, a extração dos seios com todas as implicações que tal ato incide. O processo
de hospitalização deve ser entendido não apenas como um mero processo de institucionalização
hospitalar mas, e principalmente, como um conjunto de fatos que decorrem desse processo e suas
implicações na vida do paciente.
Não podemos assim, num simples determinismo, aceitar que o problema da mulher
mastectomizada se inicia e se encerra com a hospitalização. Evidentemente que muitos casos abordados
pela psicólogo no hospital irão exigir após o processo de hospitalização encaminhamentos específicos
para processos de psicoterapia tal a complexidade e o emaranhado de sequelas e comprometimento
emocional.
Embora muitas vezes seja bastante tênue a separação que delimita tais aspectos, ainda assim é
muito importante o clareamento desse posicionamento para que o processo em si não se perca em mera
e vã digressão teórica.
A Psicologia Hospitalar, por outra parte, contrariamente ao processo psicoterápico não possui
setting terapêutico tão definido e tão preciso. Nos casos de atendimentos realizados em enfermarias, o
atendimento do psicólogo, muitas vezes, é interrompido pelo pessoal de base do hospital, seja para
aplicação de injeções, prescrição medicamentosa numa determinada faixa horária, seja ainda para
processo de limpeza e assepsia hospitalar.
O atendimento dessa forma terá que ser efetuado levando-se em conta todas essas variáveis além
de outros aspectos mais delicados que descrevemos a seguir. Descrevemos no trecho inerente ao setting
terapêutico a mobilização do paciente rumo ao processo psicoterápico: a necessidade de uma reflexão e
de uma posterior constatação da necessidade de se submeter a esse processo. No hospital, ao contrário
do paciente que procurar pela Psicoterapia após romper eventuais barreiras emocionais, a pessoa
hospitalizada será abordada pelo psicólogo em seu próprio leito.
E, em muitos casos, com esse paciente sequer tendo claro qual o papel do psicólogo naquele
momento de sua hospitalização e até mesmo de vida. Dessa forma é muito importante que o psicólogo
tenha bem claros os limites de sua atuação para não se tornar ele também mais um dos elementos
abusivamente invasivos que agridem o processo de hospitalização e que permeiam largamente na
instituição hospitalar.
Ainda que o paciente em seu processo de hospitalização esteja muito necessitado da intervenção —
e seguramente em muitos dos pacientes encaminhados ao processo de psicoterapia também estejam
necessitados de tratamento, mas preservam a si o direito de rejeitarem tal encaminhamento — a opção
do paciente de receber ou não esse tipo de intervenção deve ser soberana e deliberar a prática do
psicólogo.
Balizar a sua necessidade de intervir em determinado paciente, a própria necessidade desse
paciente em receber tal intervenção, é delimitação imprescindível para que essa atuação caminhe dentro
dos princípios que incidem no real respeito à condição humana. De outra parte é também muito
importante observar-se o fato de que ao atuar numa instituição o psicólogo, ao contrário da prática
isolada de consultório, tem que ter bastante claros os limites institucionais de sua atuação.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 50


Na instituição o atendimento deverá ser norteado a partir dos princípios institucionais20. Esse
aspecto é por assim dizer um dos determinantes que mais contribuem para que muitos trabalhos não
sejam coroados de êxito na instituição hospitalar. Ribeiro coloca que o doente internado é, em síntese, o
doente sobre o qual a ciência médica exacerba o seu positivismo, e pode afirmar a transposição da linha
demarcatória da normalidade. Sua patologia reconhecida e classificada precisa ser tratada.
Ao contrário do paciente do consultório que mantém seu direito de opção em aceitar ou não o
tratamento e desobedecer a prescrição, o doente acamado perde tudo. Sua vontade é aplacada; seus
desejos coibidos; sua intimidade, invadida; seu trabalho o proscrito; seu mundo de relações, rompido. Ele
deixa de ser sujeito.
É apenas um objeto da prática médico hospitalar, suspensa sua individualidade, transformado em
mais um caso a ser contabilizado. Esse aspecto inerente, a institucionalização do paciente, enfeixa um
dimensionamento de abrangência de intervenção do psicólogo rumo à humanização do hospital em seus
aspectos mais profundos e verdadeiros.
A Psicologia Hospitalar não pode igualmente perder o parâmetro do significado do adoecer em
nossa sociedade, eminentemente marcado pelo aspecto pragmático de produção mercantilista.
Ou nas palavras de Pitta onde o adoecer nesta sociedade é, consequentemente, deixar de produzir
e, portanto, de ser; é vergonhoso; logo, deve ser ocultado e excluído, até porque dificulta que outros,
familiares e amigos, também produzam.
O hospital perfaz este papel, recuperando quando possível e devolvendo sempre, com ou sem culpa,
o doente à sua situação anterior. Se um acidente de percurso acontece, administra o evento
desmoralizador, deixando que o mito da continuidade da produção transcorra silenciosa e discretamente.
A intervenção do psicólogo nesse sentido não pode prescindir de tais questionamentos com o risco
de tornar-se algo desprovido da profundidade necessária para abraçar a verdadeira essência do
sofrimento do paciente hospitalizado.
E a própria direção contemporânea de desospitalização do paciente tem no psicólogo um de seus
grandes aliados na medida em que poderá depender desse profissional uma avaliação mais precisa sobre
as condições emocionais desse paciente. Não se pode, no entanto, perder-se o parâmetro de que a
psicologia deve se aliar a outras forças transformadoras para não se incorrer em meramente ilusionistas.
A transformação da realidade institucional, muitas vezes, pode ser determinante de uma
reformulação rumo à própria humanização da instituição. O que não pode ocorrer é, diante da
discordância, negar-se os princípios institucionais e tentar a efetivação de um trabalho sem se levar em
conta tais especificidades.
Há, no entanto, vários fatores que favorecem a desospitalização, além daqueles apontados séculos
antes. O intervencionismo e a onipotência da medicina são olhados com maiores reservas. Cada vez mais
é contestada por doentes, familiares, instituições seguradoras e pelo Estado, a abusiva utilização dos
recursos tecnológicos hospitalares.
Novos conhecimentos nas áreas da fisioterapia, propedêutica e terapêutica vêm permitindo
diagnósticos e tratamentos que tornam prescindível a intervenção ou a encurta. A Psicologia Hospitalar
não pode se colocar dentro do hospital como força isolada solitária sem contar com outros determinantes
para atingir seus preceitos básicos.
A humanização do hospital necessariamente passa por transformações da instituição hospitalar
como um todo e evidentemente pela própria transformação social. O psicólogo assim não pode ser um
profissional que despreze tais variáveis com o risco de tornar-se alijado do processo de transformação
social. Ou ainda, o que é pior, ficar restrito a teorizações que isolam e atomizam o paciente de
conceituações e conflitos sociais mais amplos.
O hospital, assim como toda e qualquer instituição, reproduz as contradições sociais, e toda e
qualquer intervenção institucional não pode prescindir de tais princípios.
O psicólogo reveste-se de um instrumental muito poderoso no processo de humanização do hospital
na medida em que traz em seu bojo de atuação a condição de análise das relações interpessoais.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 51


A própria contribuição da psicologia para clarear determinadas manifestações de somatização é,
igualmente, decisiva para fazer com que seu lugar na equipe de saúde da instituição hospitalar esteja
assegurado. As somatizações cada vez mais são aceitas no bojo das intervenções médicas e a
intervenção do psicólogo nesse sentido é determinante de uma nova performance na própria relação
médicopaciente.
É notória também a evidência cada vez maior de que muitas patologias têm seu quadro clínico
agravado a partir de complicações emocionais do paciente. Intervir nesse ponteamento é outra
performance que faz da psicologia uma força motriz até mesmo no diagnóstico e compreensão de
patologia que a própria Medicina não tem uma explicação absoluta. Assim não se pode negar, por
exemplo, a importância das variáveis emocionais num quadro diagnosticado de câncer ou de alguma
cardiopatia.
Como também é inegável a presença de determinantes emocionais quando abordadas patologias
não diagnosticadas com precisão... até mesmo pela falta de sintomas específicos e variados. Podemos
incluir nesse rol aqueles casos onde o paciente queixa- se ora de cefaléia, ora de náuseas, ora de
comiseração estomacal etc... Ou ainda daqueles casos onde o paciente apresentar diversos sintomas
concom:
Nesse sentido é interessante observar-se que o avanço da medicina com todo o seu aparato
tecnológico não consegue prescindir do psicólogo pela sua condição de escuta das manifestações d’alma
humana, manifestação essa imperceptível à própria tecnologia moderna.
Se é verdadeiro que o psicólogo conseguiu alçar vôos rumo a um projeto dignificamente de
Psicologia Hospitalar, é igualmente real que um longo caminho ainda resta a ser trilhado. E trilhá-lo irá
exigir do psicólogo um desempenho cada vez mais amplo no sentido de abarcar as necessidades da
hospitalização e dos profissionais igualmente envolvidos nas entranhas hospitalares.
A Psicologia Hospitalar é realidade que embora ainda necessite burilamento, aperfeiçoamento e
muitas buscas, será, certamente, a mais rica das alternâncias da Psicologia. Será, ainda, a mais criativa
das manifestações clínicas dentro não só da realidade hospitalar como também das lides acadêmicas que
ao assumirem-na assumirão igualmente um compromisso com o próprio futuro de toda uma geração de
profissionais.

UNIDADE IV - HUMANIZAÇÃO E ÉTICA

1. HUMANIZAÇÃO

Há alguns anos, quando o assunto humanização chegou aos serviços de saúde, a reação dos
trabalhadores foi variada. Algumas pessoas (que já trabalhavam com ações humanizadoras) sentiram-se
finalmente reconhecidas e encontraram seus pares, mas a maioria (que não fazia a mínima ideia do que
se tratava) reagiu com desdém ou com indignação. Não eram humanos afinal? Humanizar os serviços
soava como um insulto. Entretanto, tão logo se começava a discutir a humanização como o processo de
construção de uma ética relacional que recuperava valores humanísticos esmaecidos pelo cotidiano
institucional ora aflito, ora desvitalizado, ficava clara a importância de trazer tal discussão para o campo
da saúde. A medicina (e certamente todas as profissões que se destinam ao cuidar) é uma prática ético-
dependente, ou seja, ainda que o mundo se acabe em um livre agredir, em que vença o mais forte, o
mais rico ou o mais bonito, na área da saúde é imprescindível a educação para a ética nas relações entre
as pessoas, sem a qual não é possível realizar a missão que nos destina essa escolha profissional.
Humanizar, então, não se refere a uma progressão na escala biológica ou antropológica, o que seria
totalmente absurdo, mas o reconhecimento da natureza humana em sua essência e a elaboração de
acordos de cooperação, de diretrizes de conduta ética, de atitudes profissionais condizentes com valores
humanos coletivamente pactuados.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 52


No sentido filosófico, humanização é um termo que encontra suas raízes no Humanismo, corrente
filosófica que reconhece o valor e a dignidade do homem, este a medida de todas as coisas, considerando
sua natureza, limites, interesses e potenciais. O Humanismo busca compreender o homem e criar meios
de se compreender uns aos outros.
Na leitura psicanalítica, o termo fala do lugar da subjetividade no campo da saúde. Humanização,
enquanto tornar humano significa admitir todas as dimensões humanas - históricas, sociais, artísticas,
subjetivas, sagradas ou nefastas - e possibilitar escolhas conscientes e responsáveis.
Na vertente moral, a humanização pode evocar valores humanitários, como respeito, solidariedade,
compaixão, empatia, bondade (valores morais 7 pensados como juízos sobre as ações humanas que as
definem como boas ou más, representando determinada visão de mundo num dado tempo e lugar e,
portanto, mutáveis de acordo com as transformações da sociedade).
A humanização propõe a construção coletiva de valores que resgatem a dignidade humana na área
da saúde e o exercício da ética, aqui pensada como um princípio organizador da ação. O agir ético, neste
ponto de vista, se refere à reflexão crítica que cada um de nós, profissionais da saúde, tem o dever de
realizar, confrontando os princípios institucionais com os próprios valores, modo de ser e pensar e agir no
sentido do bem... Claro que seria um ato de violência se, em nome da humanização, determinássemos
quais os valores pessoais que cada um deve ter. Entretanto, na dimensão institucional, trata-se de valores
fundamentais para balizar a atitude profissional de todos com diretrizes éticas que expressem o que,
coletivamente, se considera bom e justo.
A ética, assim pensada, torna-se um importante instrumento contra a violência e a favor da
humanização.
 
2. HUMANIZAÇÃO E VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL

Em sua história, a humanização surge, então, como resposta espontânea a um estado de tensão,
insatisfação e sofrimento tanto dos profissionais quanto dos pacientes, diante de fatos e fenômenos que
configuram o que chamamos de violência institucional na saúde (violência institucional 14 aqui se refere à
expressão cunhada na história recente para definir a utilização de castigos, abusos e arbitrariedades
praticados nas prisões, escolas e instituições psiquiátricas, com a conivência do Estado e da sociedade).
Na área da saúde, a violência institucional decorre de relações sociais marcadas pela sujeição dos
indivíduos. Historicamente, a organização hierárquica do hospital do século XIX foi uma importante
estratégia da medicina da época moderna para o desenvolvimento da clínica e da tecnologia médica.
Aumentou o acesso da população ao atendimento e propiciou grandes avanços técnicos. Entretanto,
junto a esses progressos, também se engendraram situações que tornaram o hospital um lugar de
sofrimento. O não reconhecimento das subjetividades envolvidas nas práticas assistenciais no interior de
uma estrutura caracterizada pela rigidez hierárquica, controle, ausência de direito ou recurso das
decisões superiores, forma de circulação da comunicação apenas descendente, descaso pelos aspectos
humanísticos e disciplina autoritária fizeram do hospital um lugar onde as pessoas são tratadas como
coisas e prevalece o não respeito à sua autonomia e a falta de solidariedade.
A própria organização científica do trabalho (fortemente presente na área da saúde) fragmenta o
processo que vai do início ao fim da produção seja de bens, seja de serviços, deixando cada etapa do
processo a cargo de um grupo de trabalhadores que acabam tendo apenas a visão da parte que lhes cabe
e não do todo. Essa estratégia agiliza e multiplica o resultado, mas cria um estado de alienação quanto à
importância de cada um para a realização completa da tarefa. Na área da saúde, isto acarreta a
naturalização do sofrimento e a diminuição do compromisso e da responsabilidade na produção da
saúde.
Desenha-se, assim, um cenário social e institucional em que a falta de sensibilidade e de valores
humanísticos abre espaço para que o comportamento violento - expresso em atos de brutalidade
explícita ou sofisticados disfarces da intolerância e do desprezo - passe a ser a norma e não a exceção.

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Outro fator que contribui para esse estado de coisas é a medicalização do viver humano.
Inicialmente, a medicalização se referia à transformação de problemas sociais em problemas de saúde.
Por exemplo: antes de encarnar no corpo, a "fome" é um problema da pobreza ou da educação, depois
de um tempo vira "desnutrição". Combater a fome é diferente de tratar a desnutrição do ponto de vista
social (uma coisa é dar atenção à saúde, outra é mudar a distribuição de renda). Aos poucos, a
medicalização foi abrangendo problemas que em épocas anteriores não teriam a medicina como destino,
mas, sim, outras áreas do saber.
Com o aumento da crença das pessoas no que consideram verdades científicas na área da saúde e a
decadência do valor socialmente dado às outras formas de compreensão da existência humana, toda e
qualquer expressão da vida passa por um diagnóstico previsto em algum CID (Código Internacional das
Doenças) e busca remédio na medicina. Assim, toda tristeza vira depressão, toda inquietação vira
ansiedade e todo mundo procura os serviços de saúde atrás de respostas rápidas e deglutíveis, mesmo
que não funcionem...
Ao lado desse fenômeno cultural da contemporaneidade, em nossa realidade, o sucateamento dos
serviços de saúde devido à má gestão da coisa pública ou aos sempre insuficientes investimentos frente
aos crescentes custos da medicina biotecnológica levou à pletora do acesso aos serviços e ao
esgotamento dos profissionais para atender. Filas intermináveis, pacientes mal atendidos por
profissionais mal remunerados e desvalorizados, e todo tipo de conflito passaram a ser comuns nessa
arena assim armada.
A humanização surgiu em resposta a esse enredo, sob a forma de ações localizadas, e foi se
instituindo até chegar, hoje, à forma de uma política pública na área da saúde. Não por acaso, a
humanização une suas primeiras vozes nos hospitais, fazendo coro a um movimento contrário à situação
em que há aqueles que mandam e decidem, e outros que obedecem e não opinam sobre nada. Nesse
sentido, a humanização buscava nas ações humanizadoras a recuperação não só da saúde física, mas
principalmente do respeito, do direito, da generosidade, da expressão subjetiva e dos desejos das
pessoas.
 Nessa vertente, a humanização focaliza com especial atenção os processos de trabalho e os
modelos de gestão e planejamento, interferindo no cerne da vida institucional, local onde de fato se
engendram os vícios e os abusos da violência institucional. O resultado esperado é a valorização das
pessoas em todas as práticas de atenção e gestão, a integração, o compromisso e a responsabilidade de
todos com o bem comum.
Para sua implementação, a PNH atua nos eixos de institucionalização que operaram a mudança de
cultura a que se propõe. Tais eixos compreendem a inserção das diretrizes da humanização nos planos
estaduais e municipais dos vários governos, nos programas de Educação Permanente, nos cursos
profissionalizantes e instituições formadoras da área da saúde, na mídia, nas ações de atenção integral à
saúde, no estímulo à pesquisa relacionada ao tema, vinculando-os ao repasse de recursos.
Várias ações e indicadores de validação e monitoramento foram desenvolvidos pelo Ministério da
Saúde para estimular e acompanhar os processos de humanização não só nos hospitais, mas nos três
níveis de atenção à saúde no SUS. A estratégia de criação e fortalecimento dos Grupos de Trabalho de
Humanização nas instituições - grupos formados por pessoas ligadas ao tema e aos gestores dos serviços
de saúde, com o papel de implementar a PNH em sua unidade - mostrou-se exitosa em vários locais,
acumulando muitos bons exemplos de trabalho na área.
Entretanto, a humanização só se torna realidade numa instituição quando seus gestores fazem dela
mais que retórica, um modelo de fazer gestão. Boas intenções e programas limitados a ações
circunstanciais não sustentam a humanização como processo transformador. Os instrumentos que de
fato asseguram esse processo são a informação, a educação permanente e a gestão participativa.
Enfim, pensar a humanização enquanto política significa menos o que fazer e mais como fazer.
Embora importantes, não são necessariamente as ações ditas humanizadoras que determinam um
caráter humanizado ao serviço como um todo, mas a consideração dos princípios conceituais que
definem a humanização como a base para toda e qualquer atividade. Este é o grande desafio: criar uma

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 54


nova cultura de funcionamento institucional e de relacionamentos na qual, cotidianamente, se façam
presente os valores da humanização.
 

3. HUMANIZAÇÃO E GESTÃO PARTICIPATIVA

Com a PNH, a humanização alcança os processos de gestão e organização do trabalho nos serviços
de saúde, e a gestão participativa desponta como modelo eleito para a realização dessa política. Quando
falamos em gestão participativa ou cogestão, estamos nos referindo ao modo de administrar que não se
basta na linha superior de comando e inclui o pensar e o fazer coletivos.
As estratégias para a gestão participativa nos serviços de saúde devem ser estudadas caso a caso,
partindo do conhecimento das realidades institucionais específicas, mas algumas ações que a propiciam
em qualquer contexto são:
- a criação de espaços de discussão para a contextualização dos impasses, sofrimentos, angústias e
desgastes a que se submetem os profissionais de saúde no dia-a-dia pela natureza de seu trabalho;
- o pensar e decidir coletivamente sobre a organização do trabalho, envolvendo gestores, usuários
e trabalhadores em grupos com diversas formações;
- a criação de equipes transdisciplinares efetivas que sustentem a diversidade dos vários discursos
presentes na instituição, promovendo o aproveitamento da inteligência coletiva.
De modo mais específico, a gestão participativa se dá por meio da criação de instâncias de
participação nas quais é possível considerar e estabelecer consensos entre desejos e interesses diversos,
como, por exemplo:
- o conselho gestor de saúde, que aglutina gestores, trabalhadores e usuários para decidir os rumos
institucionais;
- a ouvidoria, que faz a mediação entre usuários e instituição para a solução de problemas
particulares;
- as equipes de referência, que se compõem de profissionais que juntos acompanham pacientes
comuns ao grupo;
- os grupos de trabalho de humanização, que fazem a escuta institucional e criam dispositivos
comunicacionais;
- as visitas abertas, que propiciam as parcerias com familiares para o cuidado de seus parentes.
Algumas ferramentas como as pesquisas de satisfação dos usuários e dos trabalhadores ou as
pesquisas de clima institucional e de fatores psicossociais do trabalho (FPST), podem ser bastante úteis
para certos diagnósticos institucionais e para o planejamento da ambiência (ambiente físico, social,
interpessoal) e da organização dos processos de trabalho.
Os FPST são dimensões referentes à gestão, organização e relações interpessoais no trabalho, que
no ambiente físico e relacional podem produzir a satisfação e o sentimento de realização, ou, no seu
revés, o sofrimento e o adoecimento do trabalhador. Permitem estudar como os trabalhadores
percebem a instituição, privilegiando o olhar subjetivo da experiência do trabalho na vida das pessoas em
determinado tempo e lugar.
Os fatores psicossociais, que relacionam saúde e satisfação no trabalho, abrangem: estabilidade no
emprego, salários e benefícios, relações sociais no trabalho, supervisão e chefia, ambiente físico de
trabalho, reconhecimento e valorização, oportunidades de desenvolvimento profissional, conteúdo,
variedade e desafio no trabalho, qualificação, autonomia, subutilização de habilidades e competências,
carga de trabalho (física, cognitiva ou emocional).
Particularmente importantes são as estratégias, metodologias e ferramentas que se destinam ao
desenvolvimento do profissional da área da saúde. Acreditamos que a possibilidade de promover
atendimentos verdadeiramente humanizados requer, necessariamente, a educação dos profissionais da
saúde dentro dos princípios da humanização e o desenvolvimento de ações institucionais que visem ao

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 55


cuidado e à atenção às situações de sofrimento e estresse decorrentes do próprio trabalho e ambiente
em que se dão as práticas de saúde.
Nessa direção, a Educação Permanente19 é uma estratégia para o exercício da gestão participativa
que visa à transformação das práticas de formação, de atenção e de gestão na área da saúde. Baseada na
aprendizagem significativa, a educação permanente constrói os saberes a partir das experiências das
pessoas. Nas rodas de conversa, oficinas e reuniões, discutem-se os problemas, propõem-se soluções
gerenciais, mudanças na organização do trabalho e definem-se ações educativas de acordo com as
necessidades observadas.
Dessa maneira, faz-se da gestão participativa o caminho para a humanização dos serviços.
Entretanto, como há poucos gestores com formação técnica para essa metodologia, ainda são raras as
experiências dessa forma inovadora de fazer gestão de pessoas.
 
4. HUMANIZAÇÃO E TECNOLOGIA DO CUIDADO NA ASSISTÊNCIA À SAÚDE

Na assistência à saúde, a supremacia do recorte biológico e o autoritarismo dos discursos de saber


e poder deflagraram crítica contundente ao modelo biomédico de atenção. No aprofundamento do
estudo das situações conjunturais associadas a esse fato, chegou-se ao que se pensa hoje sobre a
humanização na vertente da indissolubilidade da relação entre atenção e gestão. Por outra linha do
pensar (que também se articula com o que expusemos até aqui), o foco ilumina a relação do profissional
da saúde com o paciente e o resultado desse encontro.
Na medicina, o tecnicismo da prática atual descartou os aspectos humanísticos no cuidado à saúde.
A biotecnologia aplicada à medicina propiciou indiscutíveis conquistas para o bem das pessoas (alguém
hoje consegue imaginar um procedimento cirúrgico, até mesmo de pequeno porte, sem anestesia, por
exemplo?). Estudos mostram que os recursos tecnológicos, a visão centrada nos aspectos biológicos da
doença e a organização do trabalho médico para o atendimento de massa ampliaram o acesso da
população aos bens e serviços de saúde, mas, em compensação, criaram um abismo entre o médico e o
paciente.
A tecnologia, que é determinante para aumentar a sobrevida humana e para a diminuição drástica
do sofrimento devido aos males que acometem a saúde, tornou-se um intermediário que afasta os
profissionais do contato mais próximo e mais demorado com o paciente, não só porque agiliza o
atendimento e aumenta a produtividade contada em números, mas também porque fascina e captura o
interesse dos profissionais da saúde, particularmente dos médicos. Os pacientes passam, então, à
condição de objetos de estudo e manipulação na construção do saber e da prática "científica". E os
profissionais, à condição de peças e engrenagens que fazem funcionar a máquina institucional. O
tecnicismo perde de vistos estados vivenciais importantes para a realização do cuidado à saúde.
Já no modelo psicossocial, agregam-se saberes de teorias compreensivas sobre o vínculo capazes
de desvendar atitudes e emoções que facilitam ou impedem o bom diagnóstico e a aliança terapêutica.
Por exemplo, a Psicanálise ensina que, ao adoecer, a pessoa vive um processo que chamamos de
regressão narcísica, que, em graus variáveis de acordo com a história pessoal, a personalidade e a
gravidade de sua doença, a torna mais frágil, mais sensível e mais dependente daquele que lhe presta
cuidados. É como se o paciente, inconscientemente, voltasse aos tempos em que era cuidado pela mãe e
dela dependia para sobreviver. Desconsiderar esse estado ou tratar o paciente com displicência,
superficialidade ou mesmo pressa e desatenção às suas emoções não é só uma falha ética, mas, sim, um
erro técnico que pode provocar danos no paciente e o fracasso do tratamento. Por outro lado, não se
trata de entender o paciente como infantilizado e desconsiderar sua autonomia, o que seria, além de
antiético, o descumprimento de um direito dos usuários de serviços de saúde 22. Ou seja, não basta bom
senso e paciência, é preciso que o profissional aprenda teorias e técnicas relacionais.
Entretanto, mesmo conscientes da importância do campo da subjetividade na saúde, da ênfase
dada ao princípio da integralidade e do desenvolvimento de tecnologias leves destinadas ao
aprimoramento da atenção, particularmente no campo da atenção básica à saúde, para a maioria dos

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 56


profissionais, o modo tecnicamente humanizado permanece uma utopia - aquele que seria o jeito certo
de fazer, mas não dá ou não adianta.
O grande nó ainda não desatado talvez tenha a ver com a necessidade de desenvolver nos
profissionais o interesse legítimo pelo paciente. Tarefa nada fácil nos tempos atuais, em que, como
discutido anteriormente, prevalece o individualismo e o jeito narcísico de ser, inclusive na formação
acadêmica dos profissionais da saúde.
 
HUMANIZAÇÃO DAS PRÁTICAS MÉDICAS E QUALIDADE DO SERVIÇO

À primeira vista, numa perspectiva reducionista, parece impossível conciliar humanização e


qualidade, ambas parecem contrapor-se: humanização surge como uma bandeira de luta contra a
mercantilização dos serviços médicos, e a qualidade como um poderoso instrumento de marketing,
constituindo-se em privilégio para quem pode pagar.
Com efeito, a expressão humanização tem figurado com frequência na área da saúde, tanto no
setor público como no privado.
Tem sido utilizada como justificativa para várias iniciativas, sendo comumente empregada no
sentido de associação dos recursos tecnológicos ao reconhecimento de direitos do paciente,
compreendido como sujeito cultural e integral.
Esse é o sentido corrente que tem sustentado discursos, planejamentos estratégicos de gestão das
instituições, práticas e políticas como critério para avaliação da qualidade dos serviços.
Tem-se, então, que o conceito de qualidade é dialético, pois envolve perspectivas, valores, crenças e
necessidades que mudam ao longo do tempo. Mesmo contemporaneamente, não existe um conceito
universal, embora figure com bastante frequência no discurso de prestadores de serviços, produtores, da
mídia, do poder público, nos documentos legais e nas reivindicações dos consumidores.
Contudo, fiel aos objetivos deste trabalho, entendemos a qualidade como um processo que tem
como foco o ser humano.
Nesta perspectiva, embasamonos no pensamento de Demo (1994:21) para quem:
Qualidade de verdade só tem a ação humana, até porque é típico produto humano, no sentido de
construção e participação.
A qualidade original é a competência de fazê-la, assim como construir a capacidade de construir e
de participar é a qualidade humana primordial.
Ainda para Demo (1994:9-24) existem duas modalidades de qualidade: a formal e a política e o
conceito somente emerge da conjugação de ambas. A qualidade formal diz respeito à habilidade de
utilizar meios, instrumentos, formas, técnicas e procedimentos.
A qualidade política diz respeito à competência do sujeito em construir, em fazer parte da história.
Sob essa ótica, é possível concluir que a qualidade é um processo político, conforme aponta Piotto
(1998:52-77), citando Moss, e como tal constituísse “em uma forma de exercer poder, controle. Tem-se
assim que, definir qualidade, é definir uma visão do que se pretende alcançar. Esta visão envolverá
imagens interligadas – objetivos certamente, mas também valores, processos, relações, o dia-a-dia do
serviço.”
Na perspectiva do mercado, a qualidade se constitui num recurso de marketing bastante
valorizado.
Trata-se do diferencial que distingue um bem ou serviço dos demais destinados a satisfazer as
mesmas necessidades. De tal forma que, qualidade para poucos é privilégio e quando reduzida a mero
elemento de negociação, a um objeto de compra e venda, assume a natureza e o caráter de mercadoria,

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 57


ou seja, acesso diferenciado e distribuição seletiva enquanto na perspectiva democrática, a qualidade se
constitui num direito de todo cidadão.
Portanto, a idéia ou conceito contemporâneo de qualidade transcende ao cumprimento dos
requisitos contidos em prescrições legais e nos códigos de ética profissional, não diz respeito apenas ao
cumprimento ou a adequação de regras para a prestação de serviço ou à fabricação de produtos.
Assim, a idéia de qualidade que defendemos está associada à humaniza- ção no sentido que visa
aproximar a medicina e a prática médica do valor da essencialidade da pessoa humana ou nas palavras
de Branco (2003):
O resgate da medicina do doente que não objetiva e exclusão da tecnologia, mas sim a recoloca em
seu importante papel coadjuvante, torna-se cada vez mais necessário para determinar uma medicina de
qualidade científica, humana e social. (...) Pensar o paciente de forma integral, com mente e corpo
harmoniosamente funcionantes, inseridos em seu contexto sócio-histórico, é uma necessidade.
Considerando que a qualidade do relacionamento é fator decisivo e essencial para o sucesso da
prática médica e boa parte do descrédito e do distanciamento do doente pode ser creditado à
insuficiência na formação proporcionada pelas escolas, que não valorizam de forma adequada a
comunicação interpessoal no exercício profissional da medicina, pois conforme pondera Gomes (2003:1):
A relação médico-paciente é, por excelência, em tipo e qualidade, uma relação humana cuja
prioridade é a promoção da saúde. É o momento dramático, rico e denso, no contexto das atividades
sociais, que tem como característica essencial a aplicação de técnicas, conhecimentos e habilidades pelo
médico como provedor de saúde em favor do semelhante e, sempre, em nome do bem. Considerado como
bem fazer ao próximo o que dele se espera receber.
Assim, a melhoria da relação entre médico e paciente não tem efeitos positivos apenas no
tratamento da doença e na satisfação do usuário, mas influi decisivamente na qualidade do serviço.
A Comunicação na formação do médico Nas escolas destinadas à formação do médico, comumente
se pratica um ensino tradicional, voltado para aquisição de conteúdos e capacidades que enfatizam
apenas os aspectos físicos da doença, sem fazer qualquer referência aos aspectos culturais e
sócioeconômicos que constituem o sujeito e a maneira como ele percepciona a própria enfermidade que o
acomete.
O ensino médico, pode-se afirmar, “ falha no seu objetivo primordial de promover a formação
clínica e humana do médico, de modo que os princípios básicos da medicina começam a ser abandonados
precocemente” (Galizzi Filho, 2002:111). Entretanto, é preciso considerar que a condição ou a qualidade
do ensino médico insere-se no quadro mais amplo da crise da saúde, educação e universidade, pois
conforme assevera Almeida (1999:124) “o processo de produção de médicos não é um processo isolado,
relaciona-se intimamente à estrutura econômica, determina, como acontece com todos os demais
componentes da sociedade, a importância, o lugar e a forma da medicina na estrutura social”.
De tal modo que, a escola acaba refletindo a crise geral e reproduz, muitas vezes, as deficiências e
injustiças do sistema político e econômico. Por sua vez, as mudanças no mundo do trabalho passaram a
demandar uma nova formação intelectual e uma nova relação com o conhecimento, pois a escola para
maioria da população é o único meio de acesso ao trabalho e à vida digna. Entretanto, ao mesmo tempo
em que essas mudanças ocorrem, apontando para um novo modelo político-pedagógico que assegure o
acesso à educação como garantia de cidadania, apresenta-se também uma realidade contundente: a
redução dos postos formais de trabalho assalariado, que inviabiliza a efetiva realização dos direitos
sociais.

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 58


Essas mudanças passam a demandar um novo profissional e repercutem nas ações e políticas
públicas para a educação, provocando a revisão e/ou reformulação das Diretrizes Curriculares Nacionais,
refletindo a preocupação em garantir flexibilidade, diversidade e qualidade da formação, preconizando a
articulação entre os princípios do SUS e os consignados na Constituição Federal de 1988, de modo a
orientar a construção de currículos compatíveis com as novas exigências, baseados em valores como
qualidade, eficiência e resolutividade, com objetivo de capacitar profissionais com autonomia e
discernimento para assegurar a integralidade da atenção e humanização do atendimento prestado aos
indivíduos, suas famílias e às comunidades.
As diretrizes políticas educacionais refletem, portanto, a necessidade de acolher novas abordagens
e perspectivas destinadas à formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, com competências e
habilidades específicas, atribuindo nova responsabilidade à educação e às escolas de medicina, conforme
assinala Tapajós (2002:30):
A Educação Médica passa, então a ter de se preocupar em formar médicos detentores não somente
de técnica impecável, como também cuidadores humanizados, sensíveis, preparados para lidar consigo e
com seus pacientes, tarefa que exige trabalhar com os mais diversos valores inseridos em complexos
contextos históricos, culturais e sociais.
Assim, as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de medicina estabelecem que a
comunicação é uma das competências gerais a serem desenvolvidas e reforça que os currículos devem
contemplar as ciências humanas e sociais, referindo-se especificamente a conteúdos que envolvam a
comunicação Considerando que a saúde é um direito fundamental, sustentado por uma estrutura
sensível à atribuição de valor ou de avaliação construídos pelo homem histórico e social; que na
organização social e do Estado existem idéias e valores dominantes e instituições que incumbidas de
difundi-las, podemos compreender que a humanização e a qualidade nos serviços de saúde podem
assumir variados sentidos e significados, mas certamente a comunicação permeia o processo de
humanização das práticas médicas.
Então , o ensino da relação entre médico e paciente se constitui num grande desafio para as escolas
de medicina e para os currículos, mas que precisa ser enfrentado de modo sistematizado, com a
aproximação de áreas do conhecimento que possibilitam a aquisição de habilidade para a comunicação
eficiente.

6. A reconstrução do relacionamento médico-paciente: a importância da comunicação

Atualmente, a relação médico-paciente tem despertado grande interesse em pesquisadores de


várias áreas do conhecimento, seja na produção científica, na formação e na prática médica.
A interface entre comunicação e saúde é um exemplo desse interesse e destaca a preocupação
interdisciplinar, propagando em várias vertentes, inclusive, a que nos dedicamos: as técnicas
comunicacionais utilizadas ou aplicadas para proporcionar a melhoria da relação e consequentemente do
serviço.
Comunicação e Humanização: a reconstrução do relacionamento médico – paciente como critério
de qualidade na prestação de serviço
Ao saírem dos bancos escolares e atuar profissionalmente, os médicos têm a base de suas
atividades constituídas pelos relacionamentos, sem que tenham tido nenhum preparo acadêmico nesse
sentido, quando a comunicação pode oferecer amplas possibilidades de melhora do relacionamento
interpessoal, conforme assinala Epstein (s.d:1):

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 59


A boa comunicação pode aumentar a eficácia dos serviços de saúde. Ao nível da comunicação
interpessoal isto começa a ser reconhecido oficialmente. Os problemas da adequação da comunicação
médico paciente que sempre existiram como questões periféricas começam a ser reconhecidos
oficialmente inclusive como temas dos currículos de nossas escolas de medicina.
Oliveira (2002:64) reconhece que uma das principais atribuições do médico é “traduzir o discurso, os
sinais e os sintomas do paciente para chegar ao diagnóstico da doença”.
Quando uma pessoa procura um serviço de saúde, então, estabelece-se uma relação que
“pressupõe uma comunicação com duas vias de fluxo, permitindo, no momento em que o indivíduo busca
atendimento de saúde, o encontro de duas visões de mundo diferentes (...)”.
É justamente aí que a formação dada ao médico tem falhado, quando não o prepara para se
comunicar com o doente, mas para olhar a doença, na medida em que enfatiza o distanciamento, a
utilização dos recursos tecnológicos, em substituição à escuta, ao diálogo, à própria relação, que não
chega a se instaurar, pois somente o médico tem voz.
Ao procurar um serviço médico, a pessoa “lança mão de uma série de mecanismos que orienta essa
procura, que são acionados muito antes do encontro propriamente dito: quais os sintomas que a forçam
ao encontro, qual o linguajar a ser utilizado para descrever o que sente, que roupa vestir na consulta, e
assim por diante.
Em outras palavras: o indivíduo se prepara para esse momento, carrega consigo uma ‘bagagem’.
Considerando essa realidade, quando nos referimos à comunicação, também são produzidos “significados
de ambos os lados e que a cultura de cada grupo social estará igualmente presente” (Oliveira, 2002:65).
Mesmo sob o ponto de vista formal, a relação entre serviços de saúde e usuários envolve muitos
outros aspectos além do encontro físico entre o médico e paciente num consultório, por exemplo.
Há, entre outros fatores, as políticas de saúde em cada local e as concepções dos indivíduos sobre o
que é estar doente. A doença é uma experiência que não se limita à alteração biológica pura, mas esta
lhe serve com substrato para uma construção cultural, num processo que lhe é concomitante (Oliveira,
2002:64).
A consulta se constitui um dos atos médicos mais relevantes. De acordo com Ferreira, Ribeiro &
Freitas (2002:77) é o momento mais importante para tomada de decisão, mas tem sido desvalorizado, em
razão da baixa remuneração, que trouxe consigo a ideia de produtividade “fazer mais e mais em cada
unidade de tempo”.
A desvalorização da consulta, a limitação do tempo de escuta e atenção ao paciente torna a relação
interpessoal insatisfatória, “perdendo-se a oportunidade terapêutica que ela encerra. Aspectos vitais,
como a confiança, a aderência ao tratamento, formação de vínculo que possibilita a continuidade, a
negociação e participação nas tomadas de decisão são prejudicadas” (Ferreira, Ribeiro & Freitas,
2002:74-75).
É, pois, necessário preparar o médico para escutar e comunicar-se eficientemente, prepará-lo para
que consiga maiores informações sobre o estado de saúde, estimulando a autonomia e participação do
paciente no tratamento. Isso implica em romper com a forma usual de comunicação, na qual se evidencia
o poder exercido pelo médico e a idealização que o mesmo representa para o paciente e a sociedade.
Desse modo, o relacionamento, que se apresenta como a base da atividade médica, é fundamental
no tratamento, onde o paciente, vulnerável, enxerga no médico a possibilidade de cura. É nessa
perspectiva que Ferreira, Ribeiro e Leal (2002:54-55) ponderam que:

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As qualidades pessoais do médico, sua cultura técnica e humanística e especialmente suas atitudes,
são fatores decisivos, destancando-se a capacidade de escuta e de comunicação. Atitudes positivas do
médico, percebidas pelo paciente abrem caminho para que este se coloque mais à vontade, com
informações mais completas, sinta-se seguro, confiante e disposto a aderir ao tratamento. Esta é a
relação terapêutica.
Nesse contexto, adquire força o movimento pela reaproximação da medicina de suas origens
humanistas, seja na administração de hospitais e de outros serviços de saúde (públicos e privados) e nas
práticas médicas, entre os pacientes e os agentes da cura.
Souza (2003:35) faz interessante abordagem sobre a atitude do médico em relação ao paciente e
seus familiares: A atitude do médico na relação médico-paciente tem um sentido psicoterápico,
independentemente de ser essa intenção do médico. Todos sabem – ou deveriam saber – sobre a
importância que assumem as atitudes, os gestos e as palavras pronunciadas pelo médico e dirigidas ao
paciente ou aos familiares nas inúmeras e diferentes situações clínicas.
As palavras, como um instrumento de trabalho, podem fazer tanto mal como bem.
Esta referência às atitudes do médico, remete-nos compreender a comunicação numa dimensão
ampla, que transcende o instrumento da palavra para envolver todos os sentidos e ações das pessoas em
determinado contexto de poder, que atuam como facilitador ou como entrave à integração com o
interlocutor. Há, sabidamente, uma forma de comunicação horizontal, em que o ato de falar, intervir,
participar, ações que se esperam do paciente.
A mediação do relacionamento por essa forma pressupõe a capacitação para expressão do médico.
Mediação porque entendemos a consulta como uma etapa do relacionamento, compreendido num
contexto cultural, histórico e social que envolve os sujeitos (médico e paciente) e as instituições.

ÈTICA E MORTE NO CONTEXTO HOSPITALAR

Quando a morte se aproxima

De acordo com Espíndula e Valle (2002), a família vive grande estresse emocional quando a
criança está em fase terminal e os cuidados psicológicos devem ser redobrados.
O paciente ou a família podem viver o luto antecipatório. Esse tipo de luto pode tornar mais
dolorosa a aceitação da morte ou pode facilitar o seu entendimento, à medida que prevê tempo para
aceitar a situação, sendo, em alguns casos, um aspecto positivo para o processo de luto.
Para Worden (1998, p. 27), a antecipação do anúncio de morte pode facilitar o ensaio de novos
papéis familiares. O psicólogo pode ajudar a família oferecendo auxílio para esses en aios e percebendo
como a família lida emocionalmente com a nova situação.
A família pode se despedir através de palavras, de gestos, de pedidos de perdão e de promessas a
cumprir. Pode também rezar, chamar padres e religiosos para a última benção, realizar últimos desejos e
acompanhar o familiar até o momento de sua morte.
A realização dos cuidados paliativos em domicílio é uma das práticas recentes que estão inseridas
em hospitais com propostas de humanização em saúde. Nesses contextos, o paciente permanece em seu
ambiente, pode, dentro do possível, preservar parte de sua autonomia e tem maior possibilidade de
convívio com seus familiares e amigos.
O psicólogo pode realizar visitas domiciliares ao paciente. Com relação a decisão de falar para a
criança, a família pode optar por não falar nada sobre a possibilidade de morte.

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A equipe pode incentivá-la a falar, mas deve respeitar essa vontade da família, que pode pensar
que o paciente não está preparado, que vai sofrer muito mais se souber e que, se souber, vai perder as
esperanças.
O profissional da equipe pode passar por situações difíceis se o paciente solicitar informações ou
mostrar que já sabe o que está acontecendo.
O psicólogo, nesses casos, pode realizar intervenções entre a família, facilitando o processo de
aceitação dos familiares e de comunicação entre família e paciente. O psicólogo deve atender às
necessidades emocionais das pessoas envolvidas.
À medida que permite ao paciente a livre expressão de sentimentos e questões, o psicólogo
facilita o processo de aceitação da morte. A família deve ser apoiada, bem como a equipe de saúde.

Quando uma criança morre

Perda real de uma criança é um dos eventos mais estressantes. A sua morte é vista como um
absurdo inimaginável. Os pais buscam significado e renovação do sentido da vida.
Eles nunca se restabelecem completamente da perda da criança; o que acontece é o ajustamento
e a integração da perda em suas vidas, mas o pesar os acompanha por toda a vida. Quando a criança
morre, a família precisa elaborar o luto.
Nesse momento, faz-se necessário um trabalho de apoio dos profissionais da equipe de Oncologia
Pediátrica com todos os envolvidos, para que estes enfrentem, da forma mais adequada, as situações
conflitantes. Segundo Bromberg (2000), no caso de pais com filhos que tenham diagnóstico de doença
fatal, o enlutamento pode ter início a partir da informação do diagnóstico.
Dessa forma, o luto não começa com a morte; ele é determinado a partir da qualidade das relações
e dos vínculos familiares que existiam até então, sendo afetado por condições existentes próximas à
morte.
Mesmo que seja considerado normal, o luto é doloroso e exige grande esforço de adaptação
individual e familiar (Bromberg, 2000).
Inicialmente, é impossível, para a família, esquecer - ou tentar esquecer - o morto. Sob essa
perspectiva, Bromberg (2000) mostra que:
O esquecimento é rejeitado porque, no início do processo, há a intensa necessidade de manter
vivo o morto, por meio de lembranças, tentativas de contato, tendo o esquecimento o significado
de esvaziamento, antes da possibilidade de se estabelecerem novas relações. (p. 27).

Dependendo de como foi a morte do filho e das condições de enfrentamento da família, é possível
falar em aceitação e adaptação. Porém, não se pode falar em um tempo de aceitação, pois este vai variar
de família para família.
A morte pode também nunca ser aceita. Como mostra Bolze e Castoldi (2005): “a morte de uma
criança pequena tende a ser profundamente perturbadora para a família inteira. O sofrimento tende a
persistir por anos a fio, e pode até mesmo se intensificar com a passagem do tempo.”(p. 2).
Nesse caso, podemos estar diante de um luto complicado ou patológico, que ocorre quando a
pessoa não se permite passar pelo luto, causando prejuízos bem maiores do que o luto dito “normal”. O
luto dos pais, conforme Bromberg (2000),é frequentemente mesclado com raiva e culpa. Os pais sentem-
se injustiçados e impotentes diante da morte do filho, podendo ocorrer sérias consequências para a
saúde emocional do casamento.
A participação da família em ritos funerários e em visitas ao túmulo podem ajudar a aceitar a morte
como uma realidade (Bromberg, 2002). Para que um acompanhamento posterior à morte seja possível, o

Psiologia em Saúde Ano: 2020.2 62


psicólogo já deve ter tido um contato com a família anteriormente e, de preferência, deve ter
acompanhado o paciente e a família desde o diagnóstico. É importante que uma assistência da equipe à
família enlutada seja oferecida, principalmente para os pais e para os irmãos.
Pode-se ter um ou mais encontros com as famílias no decorrer do primeiro ano após o óbito, com a
finalidade de acolhê-la e fornecer-lhe suporte emocional, enfatizando que o luto é um processo de
adaptação e uma necessidade psicológica, ajudando, assim, a família na elaboração do luto.
Essa é uma oportunidade criada para que o enlutado possa expressar seus sentimentos e falar
sobre sua experiência, ao mesmo tempo em que são avaliadas as defesas utilizadas para lidar com a dor
da perda. São realizadas intervenções psicológicas que visam incentivar a retomada das funções diárias, o
resgate pelo prazer da vida e o estabelecimento de novos relacionamentos.
Reconhecer os padrões de um luto normal e os sinais de um pesar intenso e complexo, bem como
orientar os que precisam de um acompanhamento apropriado quando se tratar de um luto patológico,
estão incluídos nesse atendimento psicológico

Sobre a morte e o morrer

Cada época, a seu modo, influencia o sujeito na forma de pensar e de agir. Assim, o sentido de
morte não é universal, e não se opera no vazio. Além de ser um fenômeno biológico natural, a morte
contém um aspecto simbólico. Neste sentido, qualquer visão do significado da morte será multifacetada,
composta por fatores predeterminantes de ordem cultural, histórica, ética, religiosa e psicológica. A
interação desses fatores contribui para tornar ainda mais complexa e abrangente qualquer tentativa de
compreensão da morte e do morrer. Além disso, a forma como a morte é encarada tem influência direta
sobre a forma de seu enfrentamento.
Segundo Morin (1970), a consciência da morte não é algo inato, é um conhecimento do indivíduo,
aprendido. Sendo o saber da morte exterior, produto de uma consciência que capta o real, o homem é
surpreendido pela morte. Na época medieval os homens eram avisados de sua morte por sinais naturais
ou uma convicção íntima, e assim podiam se preparar; havia tempo para lamentações, queixas da vida,
perdão dos companheiros, orações, absolvição.
Mortes repentinas eram desonrosas. O homem, ainda integrado à natureza, aceitava a morte como
uma das grandes leis da espécie, sobre a qual não podia intervir. Os ritos contemplavam uma cerimônia
pública, organizada pelo próprio moribundo, com a participação das crianças. A morte ocorria no leito,
era simples, familiar, próxima, por isso denominada morte domesticada. Contudo, o mundo dos vivos
deveria permanecer separado do dos mortos, com o intuito de facilitar o percurso dos mortos até o céu e
evitar a contaminação física (pela decomposição dos corpos) e psíquica (visita dos mortos); destarte, os
cemitérios situavam-se fora das cidades (Ariès, 1989).
No final da Idade Média e nos séculos XVI e XVII o corpo dos mortos era confiado à igreja. Os
cemitérios ficavam nas cidades, o que demonstra que as pessoas estavam familiarizadas com os mortos,
bem como com a sua própria morte (Ariès, 1989). A partir do século XII surge a preocupação com o Juízo
Final. Este era individual e particular, portanto trazia inquietação, ao contrário da segurança e
tranquilidade promovidas pelo rito coletivo descrito acima.
O homem tomou melhor consciência de sua individualidade; as particularidades de cada biografia
eram analisadas e avaliadas, e essa revisão adquiriu um caráter dramático, uma carga emocional que
antes não possuía. O apego às coisas e aos seres possuídos durante a vida era considerado a grande
tentação. Encontra-se presente uma aversão à decomposição, que adquiriu um sentido macabro, de

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ruína do homem. Nesse período, o corpo passa a ser escondido nos caixões, pois é insuportável aos
olhos. Ressurgem as inscrições funerárias, significando o desejo de conservar a identidade do túmulo e a
memória do desaparecido.
O uso da cor preta como simbolização do luto data do paganismo. Relacionava-se com o horror dos
mortos, como um disfarce para o fantasma do morto. O preto contém também o simbolismo da noite e a
ausência de cor para expressão do abandono e da tristeza. Esta cor facilita a lembrança de que ocorreu
uma perda, e poderia sugerir às outras pessoas que tivessem uma atitude especial em relação à pessoa
enlutada e evitassem falar de coisas que poderiam magoá-la. A cor não só demonstrava tristeza, mas
também criava paz e serenidade interiores.
No século XIV a expectativa de vida era muito baixa. Havia muito sofrimento e vulnerabilidade, a
guerra e a peste matavam ao mesmo tempo, a Inquisição começou a usar a tortura e a morte como
instrumentos oficiais de política administrativa. A morte passou a ser considerada o castigo de Deus para
os homens, “um terror físico e teológico”.
A morte não podia ser controlada pelo sistema tecnológico nem pelo pensamento racional, era
utilizada como material para manipulação criativa a morte passa a ser exaltada, o homem preocupa-se
menos com a sua própria morte, e a morte romântica é a morte do outro, sua lamentação e saudade. A
morte comove, é admirada pela sua beleza, considerada um sublime repouso, eternidade e possibilidade
de reencontro com os entes queridos já falecidos.
No séc. XIX passa a ocorrer um exagero do luto, evidenciando que a morte do outro é mais temida
que a de si mesmo. Os cemitérios saem da igreja, devido à falta de espaço e preocupação com a higiene e
saúde, e vão para fora da cidade. As pessoas passam a visitar os cemitérios, evocam o morto e cultivam
sua recordação, conferindo a ele uma espécie de imortalidade. Este século também marca o surgimento
do espiritismo, ligado a uma expectativa de vida futura.
Diante desse sentimento de intolerância da morte do outro, passou-se a esconder do doente a
gravidade de seu estado, com o intuito de poupá-lo.
Procurou-se evitar o incômodo e a emoção forte não somente do doente, mas de toda sociedade,
pois a vida deve parecer ser sempre feliz. Entre 1930 e 1950 a morte deixa de acontecer em casa e é
transferida para os hospitais, que proporcionam os cuidados mais adequados.
Os hospitais, que outrora funcionavam como asilo, converteram-se em centros de cura, onde se
luta contra a morte. O indivíduo morre só, e a própria equipe define o momento de seu falecimento.
A morte foi dividida em cerebral, biológica e celular. São vários os aparelhos destinados a medir e
prolongar a vida. A morte não é mais considerada um fenômeno natural, e sim fracasso, impotência ou
imperícia, por isso deve ser ocultada. O triunfo da medicalização está, justamente, em manter a doença e
a morte na ignorância e no silêncio. Neste mundo em que impera a produção mercantilista, o adoecer
torna-se vergonhoso, pois o indivíduo deixa de produzir e, com isso, é excluído e ocultado.
A boa morte atual é a que era temida na Antiguidade, a morte repentina, não percebida. Os ritos
procuram ser imperceptíveis, o mais discreto possível, evitando o pretexto para as emoções. Procura-se
não exteriorizar os sentimentos para não assustar as crianças, evita-se chorar em público. Não há mais
manifestações aparentes de luto, este é solitário e envergonhado, é um luto privatizado. Já não há mais o
hábito de visitar o túmulo, cresce o número de cremações. A neutralização dos ritos funerários e
ocultação da morte fazem parte dessa incapacidade social de se lidar com ela.
O homem na contemporaneidade, caracterizada pela valorização do conhecimento científico
imerso no contexto capitalista e materialista, busca respostas invisíveis para a morte e simultaneamente

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anseia por tecnologias fúteis para retardar o fenômeno natural do morrer (MONTANARI; OLIVEIRA,
2010).
A morte por ser integrante do ciclo de vida humano é uma certeza absoluta e a aceitação dela por
parte do paciente, da família e equipe de saúde facilita os cuidados paliativos, e esses, não aceleram e
nem adiam a morte. E é através da escuta, da comunicação, da atenção e tecnologias medicamentosas
que se busca auxiliar no alcance do conforto (OLIVEIRA et. al., 2010). A filosofia paliativista parte da ideia
que se não é possível curar, é possível cuidar. Consiste em uma tecnologia leve e de grande impacto
interpessoal no resgate da humanização nas ações em saúde (BORGES; MENDES, 2012).
A morte representa a interrupção definitiva da vida e o morrer o intervalo em que a patologia se
torna irreversível e a letalidade o resultado da mesma (AZEREDO et. al., 2011).
O fato de estar diante da morte tem implicações para os profissionais da saúde, como: confronto
com a morte do outro, o cuidado direto com o paciente terminal o contato com a própria finitude e as
perdas e lutos vividos individualmente e/ou coletivamente pelos membros da equipe de saúde. O que faz
daquelas gerar reflexões e sentidos para o profissional que está em um constante aprendizado, a respeito
dos sofrimentos diante das perdas, do autoconhecimento, da sensibilidade e da compaixão frente ao
outro e do aprimoramento de estratégias para o enfrentamento da transição da vida para a morte
(RODRIGUES; ZAGO, 2012).
Estudo (RODRIGUES; ZAGO, 2012) mostra que é no óbito do outro que é possível refletir e buscar
definições que tentam significar o fenômeno do morrer. Um dos possíveis significados abrange a
religiosidade, com suas diversificadas crenças, sentidos, identidades e disposições éticas que podem
constituir sistemas de referências estruturantes nos seres humanos.
Não se podem desvalorizar os vários recursos disponíveis na tentativa de manutenção e
recuperação da vida, mas também se faz necessário discutir e abrir espaço para novas reflexões sobre o
assunto da morte.
O óbito pode ser entendido pela vivência dos profissionais da saúde através da expressão de
sentimentos diante da terminalidade do outro, essas emoções despertadas incluem a sensação de
fracasso, perda, impotência, tristeza e medo. A equipe de saúde é composta por pessoas que expressam
suas limitações e emoções na rotina de trabalho. Pois, se trata de uma situação em que o ser humano
luta constantemente com suas defesas na tentativa de distanciar-se do inevitável contato com a morte.
Ao questionar a morte e o morrer, inevitavelmente fala-se de vida, pois são assuntos
complementares e não contrários. Trazendo à tona este tabu, espera-se uma mudança nos parâmetros
de comportamento individuais e da sociedade. Assim, pode ser que, ao lidar melhor com a morte, o
homem resgate a alegria de viver, em uma sociedade marcada pelos altos índices de depressão.
Sendo a morte um tema polêmico, configura-se como um campo de estudos fértil para a psicologia
como reflexão, ciência e prática.
Destarte, uma vez que o significado das coisas tem um papel organizador nos seres humanos, é
crucial a investigação sobre o tema da morte para o psicólogo hospitalar, já que está circunscrita em sua
atuação profissional cotidiana, influenciando a qualidade de vida do trabalhador, e a maneira como ele
interage na sua atividade laboral.

Morte no ciclo de vida da família

A família, ao longo de sua evolução através do ciclo vital, experiencia momentos distintos em sua
formação e desenvolvimento, que passam por transições, crises e adaptações, situações que junto das

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características individuais de cada um de seus membros definirão os modos como essa família se
organizará e significará a si própria.
Alguns estudos nacionais e internacionais mostram que a família desempenha um papel chave na
significação da morte e, fundamentalmente, na elaboração do luto. Isso porque, muitas das concepções e
modos de enfrentamentos presentes na vida dos indivíduos são desenvolvidos ao longo da convivência
familiar, na medida em que compartilham experiências, sentimentos, afetos, significados, ou seja, na
medida em que coexistem.
De acordo com Gudmundsdottir e Chesla (2006), embora uma perda afete todos os indivíduos da
família de modo distinto, em suas interações diárias eles compartilham a experiência do luto e, assim,
afetam uns aos outros não só em suas práticas, mas também em seus discursos e relações. Esses autores
desenvolveram um estudo com sete famílias, totalizando 15 genitores que perderam seus filhos. Como
resultado, obtiveram que, diante do luto, cada família desenvolveu sua própria prática de significação e
elaboração da perda, uma vez que o apoio cultural e da sociedade foram relatados como insuficientes
para auxiliá-los diante desse sofrimento. Não obstante, apontam que, a despeito da família ser
apresentada como um meio importante para a superação da perda, poucos são os pesquisadores que
enfatizam o papel do funcionamento familiar nestas experiências.
Corroborando as considerações de Gudmundsdottir e Chesla (2006), verificou-se que, entre os
estudos que abordam as experiências de morte e luto no interior das famílias, há predominância
daqueles que enfatizam o impacto da morte de um dos membros da família nuclear, em detrimento dos
que buscam compreender como a família se organiza diante das perdas. A fim de exemplificar alguns dos
estudos encontrados, a seguir serão descritos alguns deles e suas implicações.
De acordo com Brown (2001), ao se levar em consideração os fortes vínculos existentes entre as
pessoas de um círculo familiar é possível verificar que a perda de um dos seus integrantes é uma das mais
árduas adaptações experienciada por uma família. Tanto, que dependendo de quem morre, é possível
até mesmo a ocorrência de uma ruptura no grupo familiar, podendo chegar ao extremo de um ou mais
de seus membros não conseguirem completar suas tarefas ao longo do ciclo vital (Brown, 2001).
Conforme apontam Bromberg (1994) e Brown (2001), a fim de se obter uma melhor compreensão
acerca dos efeitos do luto dentro do círculo familiar é preciso considerar uma série de aspectos que
incluem:

a) A relação existente com a pessoa que morreu e o quanto ela era significativa dentro da família;
b) A idade e o gênero;
c) A natureza da morte (acidente, doença, repentina);
d) As vulnerabilidades pessoais;
e) O contexto social e étnico da morte; e
f) A história de perdas anteriores.

Nessa mesma direção, Parkes (1998) acrescenta que, a previsibilidade e a imprevisibilidade, bem
como as oportunidades de preparação para a perda também podem afetar a intensidade e magnitude da
reação ao luto, uma vez que a morte tranquila e silenciosa de um idoso acarreta em um sofrimento
distinto daquele decorrente de uma morte trágica e repentina de um jovem.
A morte de crianças e adolescentes são as que provocam maior ruptura e crises na família, uma vez
que a morte de um filho é considerada uma grande tragédia, por parecer se tratar de algo não natural e

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fora de lugar no curso de vida, o que gera sentimentos de frustração, impotência, dor, tristeza,
sofrimento e intensa angústia.
A maioria dos pais vê o filho como sua própria extensão e, muitas vezes, projeta nele os seus
sonhos e esperanças, de modo a perder parte de si mesmo quando ele morre (Brown, 2001). Sentem-se
fracassados por julgarem que seu amor não foi suficiente para evitar a morte do filho e é comum o
sentimento de culpa por ainda estarem vivos, contrariando a expectativa natural de morrerem antes
(Oliveira e Lopes, 2008).
Além de ser impactante para os genitores, a morte de uma criança/adolescente também influencia
a vida dos irmãos que vivenciam tal perda. Em algumas ocasiões, os pais se fecham em sua própria dor,
esquecendo-se que o filho que ficou também necessita de suporte emocional neste momento.
Já o impacto da morte de um adulto irá depender da fase do desenvolvimento na qual a família se
encontra. Quando os filhos são independentes ou têm suas próprias famílias, o cônjuge sobrevivente é
quem terá maiores dificuldades em lidar com a situação.
Nesta etapa do desenvolvimento, a maioria dos casais está experienciando menos
responsabilidades e disponibilizam um tempo maior para aproveitarem um ao outro. Assim, quando um
dos cônjuges morre, aquele que fica precisa reorganizar sua vida, de modo a passar seus últimos anos
sozinho ou iniciar um novo relacionamento. Quando há forte dependência emocional, a morte de um dos
cônjuges pode levar o que continua vivo a um desespero tão intenso a ponto de cometer suicídio, ou
desenvolver doenças graves devido ao sentimento de perda emocional do próprio eu.
O peso de uma perda não aceita ou não resolvida pode se tornar um fardo para a geração seguinte,
levando à repetição de padrões familiares, com efeitos limitadores ou incapacitantes para a família. Para
a autora, quando a morte é conflituosa, quando há um acúmulo de perdas ou quando a morte é cercada
de sigilo, a recuperação da família e de seus membros é prejudicada, pois, “a morte sempre deixa um
legado, quer ele seja de fortalecimento ou de trauma, que fecha um sistema e distorce os
relacionamentos dos sobreviventes”.
O equilíbrio da família e de cada um de seus membros ao vivenciarem uma perda e um processo de
luto associa-se à capacidade da família em manter relacionamentos significativos, em não transformar a
dor e a culpa em tabu ou segredo, e em manter a flexibilidade, necessária à adaptação e à ressignificação
da vida após a etapa do luto.
Para os autores, o segredo e o tabu que ainda cercam a morte costumam resultar em alto custo
emocional que, ao invés de proteger os membros da família, apenas evidenciam o terror de não se
conseguir lidar com as consequências da perda.

A morte e a psicologia hospitalar

A considerável evolução da medicina nas últimas décadas, com a sofisticação das técnicas de
diagnóstico e tratamento, possibilitou uma melhoria da qualidade de vida do doente e contribuiu para
modificar a relação do homem com seu corpo e sua vida. O trabalho do profissional de saúde é
socialmente valorizado na cultura ocidental pela ajuda e assistência dada a quem está sofrendo.
O hospital existe para a cura, entretanto, ali a morte se faz presente a todo instante. Esta
constatação, por sua vez, muitas vezes é fonte de angústia. Aliada a essa rotina de grande exigência
emocional em função da proximidade com a dor e a morte, a precária situação do sistema de saúde
brasileiro intensifica o sofrimento do profissional de saúde, visto que este se depara cotidianamente com

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insuficiência de recursos humanos, baixos salários, precariedade de infra-estrutura, falta de
medicamentos, entre outras situações (Pitta, 2003; Bruscato, 2004).
A morte no ambiente hospitalar é identificada como fracasso da instituição e do profissional. É
negada de diversas formas: pela linguagem, através da substituição do termo morte por outras palavras
(como óbito ou parada cardíaca); pela postura de onipotência, indiferença e afastamento dos
profissionais, que procuram agir isentos de envolvimento emocional como mecanismo de defesa; no
ensino da área de saúde, a ênfase é colocada na técnica, em detrimento do aspecto emocional do
paciente. Combinato e Queiroz (2006), citando Capra (1982), pontuam que a “explicação da ciência sobre
a morte (ou sobre o não-ser) está situada na perspectiva biologicista do modelo biomédico, ou seja, ´a
morte consiste, simplesmente, na paralisação total da máquina-corpo`” (p.213).
A medicina contemporânea negligencia os aspectos psicossociais do processo saúde-doença. A vida
biológica foi aumentada, mas muitas vezes ocorre a morte social, com isolamento, abandono e uma vida
de perdas. Assim, no adoecimento são potencializados angústias, medos, inseguranças, raivas, revoltas,
não só para doentes e familiares, mas também para o próprio profissional da saúde, sempre preparado
para a cura, mas em constante tensão diante da morte.
Nesse sentido, o psicólogo hospitalar tem como foco de sua atuação a subjetividade da tríade
paciente - família - equipe de saúde, servindo como mediador das relações, considerando o homem como
um ser integral e sistêmico, que abrange os aspectos biopsico-afetivo-cultural e espiritual.
O homem não é só um corpo, e diante da urgência orgânica que leva à hospitalização, surge
também uma urgência psíquica, e é nesse contexto que o psicólogo hospitalar realizará o seu trabalho,
perpassado por uma questão central: a morte e as várias formas que o sujeito encontra para lidar com
essa possibilidade (Granha, 2000).
Segundo Oliveira (1998), quando o sujeito está internado no hospital:

o doente torna-se um paciente, sem trocadilhos, uma pessoa resignada aos


cuidados médicos, que deve esperar serenamente a melhora de sua doença. Esse
paciente, desnudado por uma instituição total, perde sua identidade, transforma-
se em número, em um caso clínico, deixa de ser responsável por si mesmo, sua
doença e vida. O paciente é vulnerável, submisso e dependente.

No hospital, não apenas seu corpo, mas tudo o que significa o controle da própria existência passa a
ser controlado pela equipe de saúde, e a família, cuidador original, atua como mero expectador. Diante
de tantos estressores, podem surgir mecanismos de defesa como a regressão e o calar-se, sendo que este
é bem visto pela equipe, já que o bom paciente é aquele que aceita as orientações médicas sem
questionar (Oliveira, 1998).
O psicólogo hospitalar não participa diretamente no tratamento clínico, de forma que seu papel
com o paciente é diferente em relação ao dos demais profissionais. Sua atuação é voltada à atenção a
pessoa integral, procura dar voz ao sujeito hospitalizado, possibilitando a compreensão e o tratamento
dos aspectos psicológicos, permitindo a abertura de um canal de contato com a equipe.
Diante de um paciente terminal, fora de possibilidades terapêuticas, percebe-se que a equipe de
saúde, em sua maioria, tenta aplacar sua angústia empregando um modo impessoal no tratamento:
utiliza termos técnicos que inviabilizam o entendimento real da situação do paciente, de modo que ele
fica perdido na linguagem científica; ou emprega expressões amenas (como melhora sensível, resultados
são lentos, exames estão se normalizando, etc.).

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A prática colaborativa entre membros de uma equipe interdisciplinar é essencial, considerando-se a
oportunidade de compartilhar as questões que permeiam o ambiente hospitalar, desencadeadoras de
desgastes e que dizem respeito a valores humanos, respeito e dignidade aos pacientes. Ainda, que a
natureza do trabalho, ao lidar com dor, sofrimento e morte, influencia a produção de sintomas psíquicos.
Segundo a autora, a compreensão da satisfação ou adoecimento pelo trabalho pode estar no
conhecimento do psicodinamismo da pulsão de morte, que pode ter três distintos destinos:

 A confusão apaixonada, que “se traduz pela componente apaixonada do projeto, do qual a pulsão
de vida (sexual) é o mestre de obras” (p. 75);
 A realização pulsional pela percepção, no qual o indivíduo se coloca em contato com o horror e o
sofrimento, e a profissão funciona como um álibi de um gozo secreto através da percepção de
certas situações sádicas;
 Sublimação, pela criação da forma como as situações serão percebidas, no qual o sujeito utiliza-se
da reparação de suas representações mentais, deslocando-as para objetos e finalidades valorizados
social e narcisisticamente.

No hospital, o psicólogo se depara com situações inesperadas, acontecimentos que podem destituir
o sujeito de seu ancoramento significante, emergindo a angústia e o desamparo.
O adoecimento pode ser visto como um momento de crise, no qual são vivenciadas inúmeras
situações de perda de sua rotina e hábitos; da condição de saúde para a doença; da autonomia e
independência; afastamento da família e do trabalho; da condição de “inteiro” para uma cirurgia, que
pode deixar marcas, cicatrizes, mutilações, ou ainda causar a morte da pessoa. Assim, o ser humano, que
já nasce incompleto, ao adoecer revela sua falta a ser de forma escancarada, revelando sua fragilidade,
para si e para os outros. Frente a essas rupturas, a morte ocupa o lugar do interdito, sendo encarada
como vergonhosa, o que dificulta sua elaboração (Moura, 2000; 2003).
Diante da complexidade do luto, o profissional da saúde que lida com este processo também é
afetado, uma vez que é difícil ajudar ou se sentir ajudando a pessoa enlutada, o que pode ocasionar
frustração e/ou raiva. Por outro lado, o profissional pode se sentir desconfortável ao testemunhar a dor
da pessoa, abreviando o contato. Worden (1998) explicita esta situação citando dois autores:

A perda de uma pessoa querida é uma das experiências dolorosas mais intensas
que qualquer ser humano pode sofrer, e não só é dolorosa como vivência, mas
também dolorosa para ser testemunhada, apenas pelo fato de sermos impotentes
para ajudar (Bowlby, 1980, p.7).

A dor é inevitável neste caso e não pode ser evitada. As duas partes têm consciência de que
nenhum pode dar ao outro o que o outro quer. A pessoa que ajuda não pode trazer a pessoa falecida de
volta, e a pessoa enlutada não pode gratificar aquela que ajuda demonstrando estar sendo ajudada
(Parkes, 1972, p.163).
O psicólogo, como integrante da equipe de saúde, cuida do sofrimento alheio e, muitas vezes, não
têm espaço para cuidar da sua dor, acarretando o seu próprio adoecimento.
Worden (1998) pontua que além de desafiar a necessidade de ajudar, trabalhar com a pessoa
enlutada pode atingir o profissional de outras maneiras: tornando-o consciente de suas próprias perdas,
muitas vezes de forma dolorosa; gerando apreensão em relação às perdas temidas; ocasionando
ansiedade existencial e a consciência da própria morte; ferindo seu narcisismo e onipotência. Assim, é

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importante que o profissional da saúde procure resolver seus conflitos, conscientizando-se de suas
limitações quanto aos tipos de pacientes e tipos de situações de luto que pode trabalhar. Muitas vezes
diante da morte de um paciente, cabe ao psicólogo hospitalar colocar-se a disposição da equipe de saúde
e/ou dos familiares, utilizando-se de sua escuta diferenciada, o discurso do silêncio, o estar junto.
Falando sobre a morte, isto se torna mais evidente, visto que é um tema complexo, pouco
discutido, no qual a teoria fala pouco da realidade vivida. Sirlei (2008) em sua pesquisa sobre a
representação da morte para o profissional da psicologia hospitalar elenca como aptidões necessárias
para o psicólogo ante a iminência de morte: autoconhecimento e consciência de suas limitações; que o
profissional tenha para si bem elaborado a morte e o controle de suas emoções; conhecimento teórico;
supervisão de outro profissional de psicologia; atitudes como doação, compaixão, acolhimento, empatia,
aceitação. Diante do panorama geral que essa breve sistematização de literatura pôde permitir, constata-
se que o contato próximo com a morte exerce um grande impacto no trabalho dos profissionais da saúde,
podendo ou não trazer prejuízos para suas vidas profissionais e pessoais.

Intervenção do psicólogo hospitalar em processos de terminalidade e morte

No ambiente hospitalar, em situações de terminalidade e morte, o processo psicoterápico deve


enfatizar a expressão dos sentimentos, a melhora da qualidade de vida e a facilitação da comunicação
(Kovács, 1992). Beneficiam-se, dessas intervenções, tanto a pessoa em processo de terminalidade quanto
seus familiares, o que diminui a probabilidade de ocorrência de sintomas Psicopatológicos futuros, como
depressão e ansiedade, decorrentes da perda ou luto não elaborados (Bowlby, 1998; Brown, 2001).
O ritual de despedida entre familiares e pacientes contribui tanto para a prevenção do surgimento
desses sintomas psicológicos quanto para a reaproximação da família e para a definição de questões do
relacionamento familiar que estejam pendentes (Bowlby, 1998; Imber-Black, 1998; Lisbôa e Crepaldi,
2003). A partir dele, é possível abrir espaços para o compartilhamento de sentimentos entre os membros
da família, incluindo as crianças nesse processo (Bowlby, 1998; Walsh & McGoldrick, 1998).
A morte de pessoas gravemente enfermas, no contexto hospitalar, pode ser considerada previsível,
de forma que o próprio paciente “prepara-se” psicologicamente para esse evento, assim como seus
familiares (Brown, 2001).
As doenças progressivas, como o câncer em situação avançada ou não, trazem a expectativa de
morte dentro de um período de tempo, permitindo que alguns planejamentos familiares sejam revistos,
favorecendo a intervenção psicológica (Parkes, 1998).
As neoplasias indicam um modelo de doença integral, por refletirem a pessoa enferma em suas
relações pessoais, sociais e familiares (Moreira e Mello Filho, 1992). Portanto, nessa perspectiva deve-se
pensar na pessoa com câncer como a expressão de um sujeito dentro de um contexto de vida com sua
construção histórica e sua rede de relações e significados.
O câncer, que corresponde à segunda causa de mortes no Brasil, perdendo apenas para as doenças
cardiovasculares é, na verdade, “o nome genérico de um conjunto de mais 200 doenças distintas, com
multiplicidade de causas, formas de tratamento, e prognósticos” (Borges e cols., 2006, p. 363).
Embora se saiba que as neoplasias são multideterminadas, em alguns grupos sociais há uma associação
do câncer como enfermidade punitiva, com conotação moral e religiosa (Aquino e Zago, 2007).
Esse sentimento de culpa parece relacionar-se ao fato de a doença ser percebida como punição em
diversas culturas, conforme indicam Sebastiani e Maia (2005). Como estratégia de enfrentamento da
doença, a religião também gera alívio ao sofrimento, oferece o conforto que toma o espaço da

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fatalidade. Isso se relaciona ao fato de que a explicação oferecida sobre a doença pelos sistemas
religiosos se aproxima mais do contexto sociocultural dos pacientes do que aquelas explicações, muitas
vezes de uma forma reducionista, oferecidas pela medicina. Em virtude disso, é importante que os
profissionais da saúde – destacando-se dentre eles os psicólogos – levem em conta a religiosidade do
sujeito enfermo ao planejar e executar suas intervenções, contribuindo para a manutenção de uma
relação de respeito e confiança com essa clientela (Aquino e Zago, 2007).
O psicólogo pode estender sua intervenção à equipe profissional da instituição, ao invés de
restringi-la apenas ao doente e aos seus familiares. Frequentemente membros da equipe mobilizam-se
em situações de terminalidade e morte de pessoas hospitalizadas. Em uma unidade cirúrgica, por
exemplo, a equipe de saúde busca salvar vidas de forma heroica, assim, o paciente inoperável e a cirurgia
não curativa representam, para eles, um fracasso (Parkes, 1998).

7. O cuidado da dor e sofrimento como direito fundamental

Dor e sofrimento são companheiros da humanidade desde tempos imemoriais. Seu controle e
alívio constituem-se hoje em competências e responsabilidades éticas fundamentais dos profissionais da
saúde. Essa ação é um indicador essencial de qualidade do cuidado da dor e sofrimento, bem como
da assistência integral ao paciente, no âmbito da saúde.
A dor é um sintoma e uma das causas mais frequentes da procura pelos serviços de saúde. Em
muitas instituições de saúde que hoje estão na vanguarda do cuidado integral do ser humano
vulnerabilizado por alguma doença grave, vendo- -se obrigado a enfrentar dores excruciantes, essa
experiência de dor é reconhecida como o quinto sinal vital integrado à prática clínica. Se a dor fosse
tratada com o mesmo zelo que os outros sinais vitais (temperatura, pressão arterial, respiração e
frequência cardíaca), sem dúvida haveria muito menos sofrimento.
O objetivo da avaliação da dor é identificar a sua causa, bem como compreender a experiência
sensorial, afetiva, comportamental e cognitiva que ela representa para a pessoa, tendo em vista a
promoção de seu alívio e cuidado.
Hoje se reconhece que a dor é uma doença. De acordo com a definição da OMS, a saúde é um
estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente a ausência de doença ou de mal-
estar. É evidente que as condições dolorosas constituem um estado de mal-estar; portanto, o ser humano
que sofre de dor não está sadio, e pode-se afirmar – legitimamente – que se está violando seu direito
inalienável à saúde.
O artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos reconhece como um dos direitos dos
seres humanos um nível de vida adequado para a saúde e o bem-estar. Infelizmente, saúde e bem-estar
nem sempre são uma escolha possível, já que, em inúmeras situações, muitas pessoas, por causa da
velhice ou das doenças, sentem dor e sofrem muito no final da vida. A diferença entre dor e sofrimento
tem grande significado, principalmente quando se lida com pacientes terminais.
O enfrentamento da dor exige o uso de medicamentos analgésicos, enquanto o sofrimento pede
acolhida para fortalecer o espírito e as noções de significado e sentido da vida, pois a dor sem explicação
geralmente se transforma em sofrimento. E o sofrimento é uma experiência humana profundamente
complexa, na qual intervêm a identidade e subjetividade da pessoa, bem como seus valores
socioculturais e religiosos.
Um dos principais perigos em negligenciar a distinção entre dor e sofrimento é a tendência dos
tratamentos de se concentrarem somente nos sintomas e dores físicas, como se esses fossem a única

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fonte de angústia e padecimento para o paciente. Tende-se a reduzir o sofrimento a simples fenômeno
físico, que pode ser mais facilmente identificado, controlado e dominado por meios técnicos.
 Dimensão física: no nível físico, a dor funciona como claro marcador, alertando que algo não está
funcionando normalmente no corpo.
 Dimensão psíquica: emerge à consciência quando é preciso enfrentar a inevitabilidade da morte;
quando os sonhos e esperanças se esvaem e surge a necessidade urgente de redefinir o mundo que
está para deixar.
 Dimensão social: é a dor do isolamento, que surge quando a pessoa que está para morrer percebe
que deixará de viver, mas o mundo tal como conhece continuará existindo. É o sofrimento de
sentir-se inexoravelmente tocado por um destino que não gostaria de experimentar, e da solidão
por saber que é impossível compartilhar plenamente essa realidade que obriga a redefinir os
relacionamentos e as necessidades de comunicação.
 Dimensão espiritual: surge da perda do sentido, objetivo de vida e esperança. Todos necessitam de
um horizonte de sentido – uma razão para viver e uma razão para morrer. O conceito de
espiritualidade é encontrado em todas as culturas e sociedades.

Ela se expressa na busca individual por um sentido último, mediante a participação na religião ou
na crença em Deus, família, naturalismo, racionalismo, humanismo e artes. Todos esses fatores podem
influenciar o modo como os pacientes e profissionais da saúde percebem a saúde e a doença e como eles
interagem uns com os outros.

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