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Felicidade roubada

Todos os dias acordava para uma vida sem sentido...

Até que de repente olhando pela janela do meu quarto avisto uma cena que muito me
impressiona. Eram dois cachorros vira-latas que brincavam um com o outro. Tamanha
era a alegria deles, que o simples fato de vê-los agitados já fazia com que eu me
movesse para mais perto do beiral da janela. Os rabos balançavam freneticamente,
latiam em tom de chamar o outro pra participar da brincadeira. Fiquei ali olhando
aquela cena e rindo por dentro e maravilhando-me por fora. O que será que eles estão
dizendo um para o outro. E assim os vejo tentando morder de faz de conta, um deles
consegue levantar e corre para um lado e depois para o outro como se estivesse dizendo:
Você não me pega, você não me pega... Era encantador demais aquela comunhão de
amizades entre aqueles cães...

Passados algumas horas eles se foram da minha vidraça. Eu continuei ali, sentado na
minha cadeira. Nisso um casal sai do prédio. Eles se abraçam se beijam e não querem se
despedir. Conversam mais um pouco, se abraçam por mais tempo e se beijam
longamente, até que ele se vai. O amor é mesmo lindo quando se percebe a importância
do outro. Que linda cena...

Hora de ir pra escola, crianças barulhentas aparecem na calçada. Gargalhadas soltas,


movimentos imperativos apontam que elas estão voltadas para o reencontro após longos
meses de isolamento. As aulas começaram e elas estão esperando o ônibus escolar.
Ansiedade em gestos, falatórios, risadas, e mesmo dentro das máscaras no rosto elas
mostram no olhar o sorriso de felicidade. O Ônibus finalmente chega, elas entram
apressadas e ele se vai e o silêncio retorna.

Lá embaixo uma senhorinha caminha pela calçada. Ela cumprimenta a todos que
passam por ela. Não é possível ouvir sua vozinha miúda, mas dá pra saber que ela está
desejando bom dia, que ela pergunta como a pessoa está. É tão lindo seus cabelos
brancos sendo alvejados pelo vento suave que toca a sua face. Toda arrumada, batom
nos lábios e um perfume que dá pra sentir daqui , dá pra sentir também o quanto ela é
feliz com tanta idade vivida. Onde será que ela vai? Pergunto eu. Nisso ela some no
final da rua...

Do outro lado numa arvore ouço pássaros fazendo barulhos. Tento , com os olhos,
localizá-los. E lá estão eles. Que coisa mais linda. Um ninho com três filhotes de bicos
abertos... Opa! Olha quem chega. A mãe trazendo em seu bico o alimento dos famintos.
É uma festa quando a mãe introduz o bico em cada biquinho e eles se fartam... A
natureza é tão sabia e tão linda. Eles agora silenciam e a mãe se deita sobre eles.

Carros passam velozes pela estrada. O sinal fecha e abre a cada instante. Pessoas
atravessam na faixa, outras não se dão conta dela e atravessam em qualquer parte da
rua. Vendedores chegam ao cruzamento. Gritam seus produtos. Vendem e depois se
vão...

Meio dia. Olha aí elas de novo... Crianças. Mais barulhentas ainda e mais risonhas.
Primeiro dia de aula foi maravilhoso diz uma. Matei as saudades diz a outra. Pena que a
gente não pode nem abraçar a tia, reclama uma terceira. A mãe as chama, elas entram
no prédio as gargalhadas. Que delicia é ser criança.

Sento-me para comer. Ansioso para voltar para a minha janela. A televisão
está ligada e apenas ouço as notícias... A única que me chama a atenção é a do tempo...
vai chover amanhã, uma frente fria chega ao estado na madrugada.

Dizem-me que devo repousar. Como repousar se tenho que ir para a janela...
Mesmo assim sigo as ordens. Deito-me. As imagens da manhã me veem a mente e outra
vez me comovo com algumas lembranças. Que doideira a mente da gente, que fica
perambulando entre as lembranças e nos faz rir sozinhos... Os olhos se fecham
adormecendo meu corpo e tornando livre a minha alma...

Vejo-me na janela, sou bem miúdo e estou debruçado nela a ponto de cair
lá embaixo, porém consciente de que devo tomar cuidado. Estou ansioso demais e sou
chamado a atenção para sair da janela. Aborreço-me severamente e resmungo
silenciosamente para não ser ouvido. Então me vejo sendo conduzido pelas mãos
escada abaixo até a calçada, caminhamos alguns metros e entramos num coletivo. Ainda
não entendo o que se passa. Estou com uma mulher do meu lado e ela reclama dos meus
modos de sentar. Emburro de novo. Chegamos. Ela carrega uma mala enorme.
Seguimos por uma rua estreita, depois em outra larga e finalmente chegamos. Uma casa
imensa de vários andares. Entramos e lá descobri que seria meu lar. Eu não entendia o
que estava acontecendo, apenas aceitei. Fui levado por uma escada longa até o
dormitório. Várias camas e uma delas seria a minha. Eu queria entender, mas era muito
difícil...

Várias outras crianças entraram no dormitório e fui apresentado a todas


elas. Por um minuto da minha vida eu me vi a salvo.

Eu era diferente deles. Era como se eles tivessem eletricidade no corpo todo enquanto
eu não tinha nenhuma. A minha lentidão era percebida e isso por um bom tempo
afastou-me de algumas crianças, acho que da maioria. Aos poucos consegui me
adaptar. Tive que cuidar de algumas feridas ao longo do tempo, mas nada que mudasse
a minha condição dentro daquele Lar. Vi muitas crianças irem embora, levadas por
famílias adotivas assim como vi outras tantas chegarem. Eu não sabia o que era ser
adotado. Sabia que eles só mudavam de casa.

Cresci ligeiro por força do ambiente e pela necessidade de ter que me virar sozinho.
Mesmo com tantas dificuldades eu tive um amigo que sempre me ajudava em algumas
coisas.

Um dia ele se foi e fiquei sozinho de novo. Ele ganhou a idade de viver do lado
de fora daqueles altos muros e nunca mais nos vimos.

Eu nunca tive idade madura para me virar sozinho do lado de fora, por isso
aquele seria realmente meu único e ultimo lar.

Acordo assustado. Que lembrança foi essa? Já se passaram tantos anos...

Com muito esforço levanto-me e vou para minha janela. A tarde se foi e o anoitecer se
faz presente.

Luzes acesas. O movimento dos carros continua frenético. Pessoas chegam de mais um
dia de trabalho.
Hora do banho. Confesso que minha dificuldade se acentua a cada dia. Já não posso me
cuidar sozinho. Sou levado ao banheiro e asseado o corpo, volto para a cadeira e para a
mesa onde já está minha janta. Fui alertado de que estou dormindo demais, pois não
acordei para o lanche da tarde. Menos uma refeição. Ah, se ela soubesse como extasiada
está a minha alma e com revigoroso prazer de viver, ela não teceria tal reclamação. Só
pensava em acabar logo para poder ir à janela....

Ouço quando ela diz : Nunca vi você comer tanto... deixou o prato limpo. Que bom,
assim vai ficar forte e saudável.

Forte e saudável, pensei, nunca fui mesmo na minha infância conturbada e cheia de de
vazios como é que agora diante de tão longa idade e desafiando a medicina dos homens,
pois os médicos garantiram que eu não chegaria aos 15, depois aos 30 e hoje estou aqui
carregando 60 anos num corpo praticamente invalido, não pela velhice, mas pela doença
que mutilou minha alma. Só quem passa por tantas perdas saberá entender o que é estar
vivo por fora e morto por dentro... Porém algo novo me reabilitou as emoções... as
mesmas que deixei de sentir por conta de tantas lágrimas.

Passaram-se alguns momentos e consigo levar minha cadeira até a janela. O céu está
explendido de tantas estrelas e a lua? Nossa que luar maravilhoso. Se apagassem as
luzes da rua ela seria suficiente para iluminar a todos.

O comércio começa a fechar suas portas. Por conta da pandemia muitas lojas
quebraram assim eu ouvia a conversas e os noticiários da TV, muitas pessoas perderam
seus empregos e viram suas vidas sendo arrebatadas pelo vírus. Muitos perderam
familiares e amigos. Nada se compara as minhas perdas. Então a minha dor foi ficando
cada vez mais pequena diante de tantas outras... compreendi que a vida é breve demais e
que devo ser grato de qualquer forma estar vivo mesmo nessas condições... ah que coisa
mais mórbida achar que a vida dos outros não tem valor, mas é assim que a gente é,
egoísta demais para sofrer pelas pessoas que não conhecemos... isso me fez rever muitas
coisas na minha vida e na vida dos outros...

A doença existe e ela é tão invisível quanto ao vírus e nos mata todos os dias...
De repente tudo silencia, o movimento dos carros diminui, são poucas as pessoas na
rua... Nisso vejo um homem se aproximar de um latão de lixo, ele remexe, cata uma
coisa e come freneticamente como se não comesse a dias... a cachorrada da vizinhança
late, fazem um barulho ,,, as luzes de algumas casas se acendem e o homem se assusta e
é enxotado... ele foge... as pessoas voltam pra dentro de suas casas e fecham as portas...

Nessa hora me vem Deus a cabeça. Porque é assim que Ele faz da onde Ele está... olha
todas as ações humanas. A pergunta é: o que ele sente diante de uma cena como essa.
Eu me sinto arrasado.

Algo estava acontecendo com meu corpo e eu não sabia de certo o que era... mas fiquei
em silêncio

Nunca deixei que fechassem a cortina da janela... queria ser acordado pelos primeiros

raios do sol.

Vi minha mãe enferma na cama. Ela gemia. A febre estava altíssima e o médico fazia de
tudo para que ela melhorasse. Eu ficava olhando tudo e só sabia que ela tava doente. Vi
quando o médico colocou as mãos nos olhos de minha mãe e os fechou. Que ela
descanse em paz, disse ele. Aproximei-me dela a pedido dele, minhas mão foram
colocadas nas mãos dela e eu tirei reclamando que tava gelado... ele riu tristemente e
disse: Você tem que esquenta-la... então acaricei as mãos de minha mãe e repeti parte da
frase do medico: durma em paz mamãe... Depois disso tudo se apagou da minha
mente... e só me lembro de descer as escadas e finalizar aqui.

É estranho ter essas lembanças agora quase no im de uma vida;; estranho me lembrar de
coisas que já tinha esquecido... Nunca explicaram o porquê de nada...

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