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Eric Gustavo Cardin

Silvio Antônio Colognese


Organizadores

AS CIÊNCIAS SOCIAIS NAS FRONTEIRAS


Teorias e metodologias de pesquisa
Copyright © 2014 dos autores
Revisão:
Ana Paula Fernandes Abreu e autores
Produção Gráfica e impressão:
Gráfica JB

Conselho Editorial:
Juan Carlos Arriaga-Rodríguez - Miguel Ângelo Lazzaretti
Antonio Higuera Bonfil - Paulo Roberto Azevedo
Tania Camal-Cheluja - Osmir Dombrowski
Paulo Henrique Barbosa Dias - Gustavo Biasoli Alves
Geraldo Magella Neres
Organização:
Eric Gustavo Cardin
Silvio Antônio Colognese

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
As Ciências Sociais nas fronteiras: teorias e metodologias de pesquisa/
[organização] Silvio Antonio Colognese, Eric Gustavo Cardin. --
1. ed. -- Cascavel, PR: JB, 2014

Vários autores.
Bibliografia.
ISBN 978-85-67182-04-9

1. Ciências sociais - Metodologia 2. Ciências sociais - Pesquisa 3.


Pesquisa - Metodologia
I. Colognese, Silvio Antônio. II. Cardin, Eric Gustavo

14-01768 CDD-300.72
Índice para catálogo sistemático:

1. Ciências sociais: Metodologia 300.72

2. Ciências sociais: Pesquisa 300.72


Todos os textos são de responsabilidade exclusiva de seus autores.
São permitidsas cópias desse material, para fins educativos, desde que citadas as fontes
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Rua Erechim, 1495
Fone (45) 32232214
CEP 85812-260 - Cascavel - Paraná
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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ...............................................................................5
1. LA CONCEPCIÓN DE LAS FRONTERAS Y LOS LÍMITES
TERRITORIALES EN EL PENSAMIENTO GEOGRÁFICO DE JEAN
GOTTMANN....................................................................13
Juan Carlos Arriaga-Rodríguez

2. TEORIA DAS FRONTEIRAS E TOTALIDADE ..........................43


Eric Gustavo Cardin

3. FRONTEIRAS: ENTRE OS CAMINHOS DA OBSERVAÇÃO E OS


LABIRINTOS DA INTERPRETAÇÃO..............................................61
José Lindomar C. Albuquerque

4. A INFUSÃO ETNOGRÁFICA EM COMUNIDADES NA


FRONTEIRA..........................................................................................81
Rodrigo Kummer
Silvio Antônio Colognese

5. ETNOGRAFIA NA FRONTEIRA BRASIL-BOLÍVIA, EM


CORUMBÁ-MS: POR UMA ANTROPOLOGIA “NAS”
FRONTEIRAS...................................................................................107
Gustavo Villela Lima da Costa

6. TEXTUALIZANDO CONDIÇÕES FRONTEIRIÇAS: A


CONTRIBUIÇÃO DA LITERATURA FICCIONAL PARA O ESTUDO
DO CONTRABANDO......................................................................125
Adriana Dorfman
7. ANDAR EL CAMINO, ENCONTRAR EL PROPIO HOGAR: RELATO
VITAL DE UN MIGRANTE A LA FRONTERA MÉXICO-
BELICE..............................................................................................147
Antonio Higuera Bonfil

8. FRONTEIRAS MÚLTIPLAS: NARRATIVAS SOBRE OS SERTÕES


DO PARANÁ......................................................................................183
Valdir Gregory

9. RUPTURA HISTORICA E (DES)CONTINUIDADES


CULTURAIS NA FRONTEIRA: OS DESAFIOS DO
PESQUISADOR.................................................................................215
Erneldo Schallenberger

10. APUNTES SOBRE LOS MÁRGENES: FRONTERAS,


FRONTERIZACIONES, ÓRDENES SOCIOTERRITORIALES.......239
María Lois
AS CIÊNCIAS SOCIAIS NAS FRONTEIRAS
(a título de introdução)

As ciências sociais e os estudos das fronteiras possuem caminhos


de proximidade e distanciamento. Não seria errado afirmar que os limites
territoriais nunca corresponderam a um objeto central em suas obras
fundamentais. A fronteira aparece como um problema periférico ou no
máximo dependente nos estudos realizados entre os séculos XIX e XX.
Diferente do que ocorre com a Geografia, que possui em Ratzel um ponto
de referência inicial, os clássicos da Sociologia, da Antropologia e da
Ciência Política pouco falaram sobre as fronteiras.
No entanto, isso não quer dizer que eles não contribuem nas
investigações realizadas na contemporaneidade. Embora não coloquem
as fronteiras como um problema central, os clássicos das ciências sociais
fornecem fundamentos teóricos e metodológicos que se fazem presentes
na maioria dos estudos realizados na atualidade. Sem querer fazer um
mapeamento exaustivo destas contribuições ou fazer uma espécie de
balanço sobre aquilo que já foi escrito, temos o objetivo de indicar
brevemente o processo de amadurecimento do diálago entre as ciências
sociais e as fronteiras.
É possível observar que o inicio das discussões parta de três pontos
distintos. Em um primeiro momento, destaca-se um conjunto de estudos
de caráter político que visa explorar questões vinculadas a constituição
do estado moderno, problematizando sua formação, manutenção e
expansão. As fronteiras, mesmo não correspondendo a principal
preocupação dos contratualistas, dos liberais ou dos marxistas leninistas,
ela se faz presente de forma indireta quando as reflexões buscam explorar
questões vinculadas à soberania ou as relações internacionais.
Em segundo lugar, constata-se a vasta produção antropológica sobre
as comunidades rurais, urbanas e nativas. Os diferentes exercícios de

5
investigação realizados contribuem de inúmeras formas para o
desenvolvimento dos estudos empíricos fronteiriços, porém destacaremos
apenas duas: a prática de observar as relações entre as diferentes
dimensões que compreendem a realidade social e as técnicas de
levantamento de dados - principalmente a etnografía - que pode se
entendida aqui como uma ferramenta de pesquisa, uma sistematização
da análise e uma forma de elaboração textual.
Por fim, a Sociologia Clássica, ao se focar no estudo do
desenvolvimento socioeconomico e no seu impacto na organização social
e na formação humana, também oferece elementos que podem nos
auxiliar no entendimento das fronteiras. Os fenômenos migratórios e a
ocupação territorial configuram-se como problemas secundários ou no
máximo como argumentos para o desenvolvimento de análises sobre o
processo de expansão do capitalismo e da racionalização,
individualização e socialização do mundo contemporâneo.
A reorganização da economia e da política mundial após a Segunda
Guerra Mundial atribuiu importância as discussões territoriais e
fronteiriças no âmbito acadêmico. A guerra fria, a geopolítica
bipolarizada, a descolonização de muitos países africanos, a revolução
da social-democracia europeia, a queda do mundo soviético, a crise do
“fordismo” e da social-democracia, o fortalecimento do neoliberalismo,
dos blocos econômicos, da globalização e o constante questionamento
do papel do Estado instigaram direta e indiretamente a produção de
inúmeros estudos preocupados com o mundo em que vivemos e com as
suas fronteiras físicas e simbólicas.
A partir de então, começam a surgir investigações e publicações
abordando-as em diferentes escalas. Em síntese, constata-se a existência
de três grandes tendências, nitidamente vinculadas aos modos de atuação
difundidos pelos clássicos. Destacam-se, em um primeiro momento, as
pesquisas interessadas em compreender o funcionamento e a ação do
Estado em uma conjuntura internacional de relativa abertura de fronteiras
e de estabelecimento de acordos econômicos e políticos bilaterais. Aqui,
o surgimento das fronteiras nacionais está relacionado ao esforço de
maximizar os recursos naturais e produtivos existentes nos territórios.
Neste sentido, a flexibilização das fronteiras - garantindo uma
porosidade para a passagem de capitais e trabalhadores - estabelece

6
inovações na forma em que os governos nacionais observam seus limites,
o que vem alimentando um conjunto significativo de estudos.
Aproximando-se a estas observações, encontra-se uma segunda tendência
de pesquisas que possuem como eixo central a análise do processo de
expansão do capital. Neste grupo, constata-se a existência de dois
movimentos: o primeiro preocupado em vincular o sistema
sociometabólico a organização e a intervenção estatal nas fronteiras,
enquanto o segundo concentra suas energias em relacionar o sistema
sociometabólico com o cotidiano, as experiências, as estratégias, enfim,
as práticas dos sujeitos transfronteiriços.
A terceira e última tendência corresponde as pesquisas
microssociológicas. Aqui predominam os estudos de comunidade, a
análise do cotidiano de instituições sociais bem delimitadas, a observação
das relações culturais e de seus hibridismos, como também leituras das
práticas, trajetórias e experiências de maneira desvinculada de suas
relações mais amplas e estruturais. Embora também possam aparecer
nas outras tendências, aqui predomina a utilização de histórias de vida e
da etnografia, sendo comum a realização de observação participante e
de descrições minuciosas.
A coletânea de textos que aqui apresentamos transita por estas
tendências e aprofunda aspectos teóricos e metodológicos observados e
produzidos na relação direta com as fronteiras. São estudos que
convergem com as ciências sociais e produzem um rico diálogo sobre a
abrangência de nossos interesses e sobre a capacidade e potencialidade
de nossos referenciais no esforço de produzir um entendimento relevante
nas e das realidades fronteiriças. São dez capítulos, escritos por
experientes professores e pesquisadores, que garantem simultaneamente
a ampliação do nosso olhar e o aprofundamento de questões essenciais.
No primeiro capítulo encontramos as contribuições de Juan Carlos
Arriaga-Rodríguez para o entendimento da teoria da participação dos
espaços humanos produzida por Jean Gottmann. Segundo este autor, os
estudos dos fenômenos geográficos, incluindo os processos de instalação
de limites e fronteiras, deve obedecer à dualidade do espaço. Esta
dualidade se manifesta em um entorno humano e outro externo. O entorno
externo está vinculado ao meio ambiente, enquanto o humano está
relacionado a um sistema complexo de elementos históricos, étnicos,

7
sociais, religiosos, culturais e econômicos que condicionam a vida de
uma comunidade.
No segundo capítulo, observamos a continuação do esforço de
elaboração de um entendimento mais amplo e abrangente das fronteiras.
Escrito por Eric Gustavo Cardin,”Teoria das Fronteiras e Totalidade”
corresponde a uma proposta teórica e metodológica para o estudo das
regiões fronteiriças que valorize simultaneamente suas múltiplas
dimensões sociais e também sua organicidade. Neste sentido, é
problematizada a assimilação do conceito de cultura de contrabando e
defendido um projeto mais amplo, onde o contrabando também possa
estar inserido no que, de maneira ainda inicial, está sendo definido como
cultura de fronteira.
O terceiro capítulo, “Fronteiras: entre os caminhos da observação
e os labirintos da interpretação”, escrito por José Lindomar Coelho
Albuquerque, representa o esforço em construir um diálogo entre as
conclusões e experiências obtidas por meio de pesquisas realizadas entre
os “brasiguaios” (adotando aqui o termo utilizado pelo próprio autor) e
a produção de outros investigadores que, ao longo dos últimos anos,
buscam o aprofundamento da compreensão que possuímos das fronteiras.
Destaca-se aqui, o objetivo de estabelecer uma leitura mais ampla de
tais realidades por meio do encontro de abordagens muitas vezes
sustentadas por leituras teóricas e metodológicas particulares.
Rodrigo Kummer e Silvio Antônio Colognese escrevem o quarto
capítulo, “A infusão etnográfica em comunidades na fronteira”. O texto
problematiza dilemas metodológicos à pesquisa em comunidades situadas
em ambientes fronteiriços e reflete as incertezas dos pesquisadores em
situações de campo, onde são levados a lançar mão de um misto de
abordagens e técnicas, muitas vezes não possíveis de serem seguidas
conforme previstas. Em um primeiro momento os autores realizam uma
análise dos estudos de comunidade produzidos no Brasil e destacam
suas contribições para o estudo das realidades fronteiriças.
Partindo disso, destacam que a feitura desses estudos precisa seguir
a aferição de que não se estudam lugares, mas fenômenos. Para tanto, a
etnografia torna-se imprescindível para problematizar o sentido dado às
ações dos sujeitos que se movem em comunidades nas fronteiras. Para
perceber os processos de representação e os aspectos identitários que

8
aqueles indivíduos manifestam, intencionalmente ou não. Para desvendar
as estratégias destes sujeitos no cotidiano nas fronteiras. Enfim, segundo
os autores, na análise dos fenômenos em comunidades localizadas nas
fronteiras é preciso considerar a importância e os sentidos conferidos
pelos sujeitos às suas ações, tanto em termos manifestos quanto velados.
Dividindo alguns destes pressupostos, o capítulo seguinte,
“Etnografia na fronteira Brasil-Bolívia, em Corumbá-MS: por uma
antropologia ‘nas’ fronteiras”, apresenta alguns dos desafios no processo
de produção de análises sobre as regiões fronteiriças. Gustavo Villela
Lima da Costa destaca que os estudos das fronteiras partem de uma
pecularidade - o fluxo do pesquisador em uma realidade nacional diferente
da sua -, acrescido do reconhecimento da existência de um processo de
classificação social do pesquisador por parte dos próprios entrevistados.
O antropólogo fica sempre situado entre duas culturas, sem fazer parte
integral de nenhuma delas. Segundo o autor, esta é uma das características
da etnografia: a de colocar o pesquisador em uma posição de “fronteira”,
que a configura como um método filosófico que possibilita conhecer e
transformar a si mesmo, ao conhecer o “outro”.
Em um segundo momento do texto, destacam-se algumas
observações de caráter mais teórico. Nas fronteiras existem múltiplas
dimensões e cada uma delas possibilita um processo particular de
construção de identidades. Neste contexto, existe uma situação de
“espelhos múltiplos”, em que os indivíduos e grupos de ambos os lados
não apenas representam os “outros”, mas são também representados pelo
“outro”, pelo estrangeiro do outro lado da fronteira. A fronteira é um
espaço dinâmico, movendo-se além das visões das fronteiras baseadas
apenas no dogma da soberania dos Estados nacionais, que trabalham
necessariamente com a ideia de limite estático e estatal.
No sexto capítulo, encontramos uma experiência diferente. Adriana
Dorfman nos ajuda a pensar as fronteiras utilizando a literatura como
fonte documental. No intuito de interpretar a fronteira em uma escala
local, a autora utilizou de diferentes fontes documentais e constatou que
“a presença de deslizamentos discursivos entre a ficção e a realidade, e
entre as muitas realidades dos contrabandistas na fronteira”. Neste
sentido, ela destaca que a literatura de fronteira pode ser reconhecida
como um gênero: ao se considerar a origem geográfica dos autores; a

9
tematização da fronteira; e a interpolação de idiomas, como do português,
com o espanhol e outros termos locais.
A literatura se apresenta como um recurso estratégico para a
apreensão do contrabando formiga como prática, destacando os aspectos
morais e éticos existentes nas comunidades fronteiriças e estabelecendo
meios para a observação das relações entre legal/ilegal, legitimo/ilegitimo,
moral/imoral e viável/inviável. Desta forma, Dorfman traz para a
universidade um recurso ainda pouco utilizado, mas que é carregado de
pontencialidade. Por meio da literatura é possível um mapeamento das
representações dos modos de viver dos sujeitos fronteiriços, assim como
a visualização de práticas, nem sempre públicas.
O sétimo capitulo foi escrito por Antônio Higuera Bonfil. “Andar
el camino, encontrar el proprio hogar: relato vital de un migrante a la
frontera México-Belice” apresenta e discute a trajetória de um migrante
mixteco. O capítulo mostra as condições de vida em Oaxaca e o
deslocamento de Luis López Rojas para a fronteira do México com Belice
no final da década de 1970. Neste preâmbulo, destaca-se a estreita relação
do migrante com o trabalho agrícola e com o capital cultural acumulado
por suas relações familiares e religiososas, problematizando, a partir dos
relatos e experiências coletadas, o início e o fim dos limites fronteiriços
mexicanos.
Bonfil, por meio de sua investigação, enfatiza a importância da
história oral como método de trabalho, ou seja, como um mecanismo de
apreensão da realidade vivida por atores sociais inseridos em meios
culturais específicos. As trajetórias individuais, os modos de viver, as
experiências cotidianas, aparesentam-se como elementos fundamentais
para o entendimento das dinâmicas de fronteiras, pois comportam
aspectos diretamente vinculados as relações entre as idiossincrasias da
vida particular e os elementos estruturais que formatam os limites das
ações.
O oitavo capítulo, “Fronteiras múltiplas: narativas sobre os sertões
do Paraná” - de autoria do Professor Valdir Gregory -, em um misto de
historiografia e memórias pessoais, destaca algumas narrativas sobre o
oeste paranaense da primeira metade do Século XX. No geral, o autor
relaciona dados e informações originais, abordando questões teóricas e
metodológicas que emergem da relação direta com as fontes documentais.

10
O texto contempla discussões em torno da ideia de múltiplas fronteiras
na fronteira, ou seja, destaca a concepção de que fronteiras são construídas
pelas nas narrativas e por seus leitores.
Erneldo Schallenberger é autor do nono capítulo, “Ruptura histórica
e (des) continuidades culturais na fronteira: os desafios do pesquisador”.
O intuito do texto é iluminar o terreno investigado, salientando os limites
e as possibilidades das pesquisas realizadas em regiões de fronteira. Neste
sentido, Schallenberger destaca que “a multiplicação de interesses pela
pesquisa acerca da temática das fronteiras tem levado muitos estudiosos
a enveredar por campos de significação que conferiram ao conceito
fronteira um sentido polissêmico. A fronteira, ao mesmo tempo em que
aponta para o horizonte do novo e do indefinido, sugere um limite e
estabelece uma relação entre estes dois indicadores que são sempre
expressão do alcance humano a partir das condições socioculturais
histórica e espacialmente construídas”.
Partindo disso, o autor apresenta um belo ensaio sobre os processos
de aproximação e estranhamento, encontros e desencontros durante o
processo de colonização da América, destacando não somente as relações
entre os sujeitos envolvidos nas diputas territorias, culturais
e políticas que marcam o desenvolvimento histórico, mas também
a recepção e a leitura destes processos pelas ciências sociais, com destaque
especial ao trabalho cuidadoso e necessário com as fontes cartográficas.
Fechando o livro, encontramos a contribuição de Maria Lois,
“Apuntes sobre los márgenes: fronteras, fronterizaciones, órdenes,
socioterritoriales”. O texto apresenta um conjunto de apontamentos sobre
as fronteiras européias, refletindo, ao mesmo tempo, a multiplicidade
dos espaços fronteiriços e a sua vocação provinciana. Neste contexto,
Lois destaca a necessária abertura conceitual para o entendimento da
situação européia, incorporando as políticas de representação,
espacialização e socialização, com destaque para as experiências
instituicionais de cooperação e regionalização transfronteiriças. Os
cruzamentos ou as passagens pelas fronteiras são práticas que transgridem
a definição de limite, exigindo a ampliação conceitual para o seu
entendimento.
“As Ciências Sociais nas Fronteiras” é um livro importante. Ele se
apresenta e se coloca entre as poucas publicações brasileiras preocupadas

11
mais diretamente em pensar e propor teorias e métodos para o estudo em
realidades fronteiriças. É possível a visualização de um vasto conjunto
de pesquisas empíricas produzidas no Brasil durante as últimas décadas.
Agora é preciso sintetizá-las, compará-las e avançar no que diz respeito
ao desenvolvimento de nossas ferramentas de trabalho. Neste sentido,
acreditamos que a presente obra possa contribuir, ao menos um pouco,
nesta tarefa que nos cabe atualmente.

Eric Gustavo Cardin


Organizador

12
LA CONCEPCIÓN DE LAS FRONTERAS Y LOS
LÍMITES TERRITORIALES EN EL PENSAMIENTO
GEOGRÁFICO DE JEAN GOTTMANN

Juan Carlos Arriaga-Rodríguez1

INTRODUCCIÓN

Una de las contribuciones para el estudio de las fronteras y los


límites territoriales más interesantes fue elaborada por Jean Gottmann
(1915-1994). Frecuentemente citado por los estudiosos del tema, sin
embargo, la obra de este geógrafo francés de origen húngaro ha despertado
curiosidad sólo hasta años recientes.
Jean Gottmann fue un intelectual prolijo2. Su impresionante obra
escrita aborda una amplia variedad de temas, en diferentes campos de la
Geografía Humana. Su pasión fue la Geografía Urbana, y a él se debe el
concepto de megalópolis, desarrollado en su obra clásica Megalopolis:
The Urbanizad Northeastern Seabord of the United States, publicada en
1961. Como se sabe, este trabajo es un estudio de un área regional y su
gente, pero no desde el método descriptivo tradicional de la escuela re-
gional francesa, sino como un análisis de la dinámica de transformación
de un espacio urbano y de la concentración de personas y actividades
económicas en una amplia región urbana.
La teoría de las fronteras de Gottmann, desarrollada a finales de
los cuarenta y principio de los cincuenta, ha permanecido inexplorada
en su totalidad por los estudiosos del tema. Ello se debe, en gran medida,
a que esta teoría no fue sistematizada en un solo libro, como sí ocurrió
con los trabajos sintéticos de otros autores. Si bien la base de la

13
argumentación de Gottmann sobre las fronteras se encuentra desarrollada
en Le Politique des États et leur Géographie (1952) y en The Signifi-
cance of Territory (1973), aspectos particulares de su teoría fueron
profundizados en diferentes artículos. Autores como Paul Claval, George
Prevelakis, Luca Muscarà3, Peter Taylor, John O’Lhoglin, entre otros,
han dedicado sus esfuerzos para darle un cuerpo coherente y sintético a
todo ese conjunto de trabajos en los que Gottmann proporcionó un
enfoque novedoso de las fronteras.
En este artículo presentamos el enfoque propuesto por Jean
Gottmann para el estudio de las fronteras y los límites territoriales
contemporáneos, al cual denominamos “teoría de la partición de los
espacios humanos”. Por sus características teóricas y metodológicas,
consideramos que esta teoría es distinta a otras que han dominado los
estudios en la materia, pues centra su atención en el análisis de las
relaciones espacio-sociedad que influyen en el establecimiento y
configuración de las fronteras y límites.

CONTEXTO EPISTEMOLÓGICO Y METODOLÓGICO


EN EL QUE APARECE EL PENSAMIENTO GEOGRÁFICO DE
JEAN GOTTMANN

El contexto teórico en el que surgieron las principales tesis


geográficas de Jean Gottmann estuvo marcado por el debate entre las
escuelas geográficas francesa y alemana, la renovación teórica de la
geografía regional y el despegue de la geografía teorética4. El debate
entre el regionalismo francés y la geopolítica alemana estuvo centrado
en el carácter determinante del espacio sobre las instituciones sociales
(determinismo geográfico). Para la escuela alemana, el espacio es
determinante para la creación del Estado, las formas de gobierno, la
cultura y el carácter de las naciones; para la escuela francesa, la
personalidad de la nación y el surgimiento del Estado y sus instituciones
de gobierno es producto de la organización social5.
En cuanto a la renovación del pensamiento geográfico de la escuela
francesa, al finalizar la Segunda Guerra Mundial aparecieron diferentes
de trabajos de geógrafos franceses que rompieron con lo que Gottmann

14
llamó: “la costumbre largamente establecida de separar los problemas
físicos y humanos en los tratados de Geografía general”.6 Efectivamente,
una nueva generación de geógrafos de la escuela regional emprendió la
tarea de formular con la mayor precisión posible la relación del hombre
con su entorno espacial. A esta generación perteneció Jean Gottmann.
A pesar de los intentos de la escuela francesa por renovarse en el
plano metodológico, la Geografía Humana pasaba por un período de
crisis en la década de los cincuenta. El paradigma clásico de la geografía
regional, tanto la francesa como la anglo-estadunidense, tuvo cada vez
mayores problemas para interpretar la geografía social del mundo. El
sistema económico mundial surgido de la Segunda Guerra Mundial
impulsó la rápida urbanización, la explotación intensiva de materias
primas y un acelerado desarrollo industrial y tecnológico, entre otros
fenómenos espaciales. Las regiones anteriormente identificadas se
transformaron o se combinaron con otras, lo cual desveló las carencias
de la geografía regional para explicar la naturaleza de esos cambios.
El mismo problema se presentaba en el campo de Geografía
Política. Con la derrota de Alemania en la Segunda Guerra Mundial, la
Geopolítica cayó en una situación de descrédito –ser llamado geopolítico
era considerado una ofensa, señala Gottmann7. Junto a ello, la Geografía
Política mostraba avances teóricos poco significativos.
De esta manera, en la década de 1950 existía la necesidad urgente
de renovar la teoría en la Geografía Humana, situación que estimuló el
despegue de los estudios cuantitativos, o Geografía teorética, de gran
auge a partir de entonces. Sin embargo, la expansión del enfoque teorético
tuvo como resultado la declinación y el desprestigio de la Geografía en
todo el mundo; poco a poco en las Ciencias Sociales se la consideró,
injustamente, una disciplina lejana o definitivamente inútil.
La geografía cuantitativa se especializó en los microanálisis,
abandonando su objetivo principal que es el estudio global de la geografía
del planeta. Sus seguidores pensaban que el uso de categorías generales
en la investigación de problemas geográficos locales convertía a la
disciplina en una actividad “no-científica”. Para darle el carácter
científico, recuperaron el método lógico deductivo y la relación causal
entre la geografía física y los fenómenos sociales propuestos por el
positivismo lógico. Su fundamento teórico es que las localidades forman

15
parte de un todo funcional y están regidas por un orden; el objetivo de la
Geografía, por lo tanto, es descubrir las leyes que rigen el orden de las
relaciones en el sistema mediante modelos matemáticos, normativos o
probabilísticos8.
Fue en ese contexto de reinvención de la Geografía Humana que
Jean Gottmann desarrolló su trabajo intelectual. Muchas de sus ideas
tuvieron buena acogida en la disciplina, especialmente en el campo de la
Geografía Urbana, pues supo integrar de manera armónica todos los
procesos espaciales generados por la acción humana. A pesar de lo ante-
rior, en lo que respecta a sus reflexiones sobre las fronteras y los límites
territoriales, sus conceptos fueron muy avanzados y sofisticados para su
época, sobre todo porque entonces el mundo era pensado exclusivamente
en la división de dos sistema económicos y sociales: el comunismo y el
capitalismo.
Para Gottmann, el estudio fenómenos geográficos, incluidos los
procesos de instalación de límites territoriales y fronteras, debe observar
la dualidad del espacio geográfico, una perspectiva planteada
originalmente por el biólogo teórico Claude Bernard (1813-1878). Esta
dualidad se manifiesta en un entorno humano externo y otro interno. El
entorno humano externo refiere al medioambiente natural que rodea y
con el cual interactúa, en términos físico-químicos, el hombre. Por otra
parte, el entorno humano interno —no bien definido a mediados del
siglo XX, reconocía Gottmann— es el sistema complejo integrado por
elementos históricos, étnicos, sociales, religiosos, culturales y económicos
que condicionan la vida de una comunidad.9
En este sentido, según Gottmann, el primer paso para estudiar los
fenómenos geográficos es definir el ambiente humano interno e identificar
sus elementos permanentes, su fluidez (fluctuaciones políticas, sociales
y culturales que la historia registra) y las fuerzas que lo mueven. En
segundo lugar, este ambiente humano se materializa en espacios
geográficos específicos, los cuales son dinámicos y mantienen una
interrelación permanente. Por último, si bien el objetivo de la Geografía
Humana es explicar la interrelación entre la geografía del planeta y los
grupos humanos, el punto de partida es identificar las diferencias entre
tales espacios a partir del ambiente humano interno en el cual se basa la
organización del espacio y el uso social de los recursos10.

16
Los tres postulados anteriores forman la base epistemológica del
enfoque propuesto por Gottmann para el estudio de las fronteras, al cual
denominamos “teoría de la partición de los espacios humanos”. Por sus
características teóricas y metodológicas, la propuesta de Gottmann es
un enfoque teórico y metodológico de tipo holístico y dialéctico: es
holístico porque interpreta a la realidad como una totalidad compleja; y
dialéctico porque no intenta explicar fenómenos particulares a partir
razonamientos deductivos o inductivos, sino los interpreta a partir de las
fuerzas y procesos internos que los guían, los que a su vez siguen a
fuerzas y procesos generales11.
En el estudio de las fronteras, ciertos enfoques se concentran en el
análisis de los factores causales que influyen en la fragmentación y
división de los espacios humanos (poder, recursos naturales, riqueza de
las naciones, etcétera), mientras que otros se especializan en describir
los efectos espaciales de tales factores (conquista, zona de influencia,
Hinterland, vordeland, enclaves, zonas de interpenetración, etcétera)12.
En muy pocos estudios se presta atención a las relaciones espacio-
sociedad que influyen en el establecimiento y organización de las
fronteras13. El enfoque de Gottmann sobre las fronteras parte de en esta
consideración, y el primer concepto que se define es el de partición de
los espacios humanos.
El concepto espacio humano hace referencia al espacio geográfico
ocupado y transformado por las comunidades humanas. Este espacio es
limitado, en el sentido de que sólo es accesible en función de la tecnología
de que disponen los grupos sociales. El espacio humano extiende sus
límites con el desarrollo constante de las capacidades técnicas. El espacio
geográfico que no está accesible a los grupos humanos no genera ninguna
disputa, pero cuando las sociedades adquieren la tecnología necesaria
para llegar a ese espacio, empiezan a dividirlo, dando origen a las disputas
y reclamos territoriales que conocemos. Esto explica por qué el concepto
de espacio humano está estrechamente relacionado al concepto “espacio
político”; ambos son espacios humanos complejos y sintéticos (todos
los aspectos de la vida humana están integrados en ellos) en lo físico y
cultural, económico y social, militar y diplomático14.
El espacio humano está subdividido en territorios ocupados,
organizados, diferenciados y dominados por grupos sociales distintos,

17
los cuales dan forma a las comunidades políticas que a su vez presentan
formas de organización económica y política diferentes. El proceso
histórico de fragmentación, organización y diferenciación de territorios
es la partición política del mundo. Se trata de un proceso persistente en
las sociedades modernas, y al mismo tiempo es una de las
representaciones simbólicas de la humanidad expresada en los mapas.
Para Gottmann, el mapa es la representación imaginada de la
fragmentación de los espacios humanos.

PARTICIÓN

La categoría central en la concepción de las fronteras de Gottmann


es el concepto de partición del espacio geográfico. Gottmann lo define
como un proceso que consiste en dividir, organizar y diferenciar el espacio
geográfico que es accesible a los grupos sociales.15 La partición ocurre
cuando las áreas del planeta son ocupadas y transformadas por una
comunidad humana, lo cual a su vez sólo es posible cuando esa
comunidad posee cierta capacidad técnica y material.
Por ejemplo, hasta 1947, la partición de los espacios marinos
(mares, lecho y subsuelo marino) no estaba a discusión internacional;
pero una vez que ciertas sociedades desarrollaron la tecnología para
explotar recursos minerales submarinos, los mares fueron sometidos a
un proceso intenso de división y diferenciación (mar territorial, mar
patrimonial, mar internacional, etcétera). En 1982, una vez establecidas
las reglas jurídicas y geográficas internacionales para fijar los límites
marítimos, el proceso de partición se aceleró, transformando a los mares
y océanos en una red compleja de compartimentos bajo dominio y
jurisdicción exclusiva de los Estados16. El Mar Caribe es un claro ejemplo
de ello.
Al dividir un espacio, este adquiere singularidad, es único. Tal
singularidad viene de los rasgos físicos del espacio dividido
(compartimento), su ubicación, el sistema de relaciones que establece
con otros compartimentos, y por sus zonas de frontera y áreas limítrofes.
El sistema de relaciones entre compartimentos es producto de procesos
históricos, por lo tanto las dimensiones de los compartimentos son

18
cambiantes, lo mismo que sus fronteras y límites17.
Fragmentar el espacio geográfico no es suficiente para que un grupo
social pueda apropiárselo, además se le debe organizar. La organización
del espacio se expresa en normas de propiedad y posesión, individual o
colectiva, de áreas del territorio. El espacio geográfico se le organiza
por sus usos productivos, administrativos, sociales, culturales, recreativos,
ambientales, religiosos, habitacionales, militares, etcétera 18. La
organización del espacio exige la creación instituciones que aseguren la
unidad e indivisibilidad de cada compartimento mediante la reproducción
y protección de las estructuras sociales dominantes.
Un fragmento del planeta ya dividido y organizado se diferencia
de otros circundantes por numerosos factores, en parte geográfico-natu-
ral (ambiente humano externo) y en parte sociales (ambiente humano
interno). El espacio geográfico ha sido diferenciado, primero, por factores
físicos (clima, suelo, hidrografía) y naturales (plantas y animales) del
planeta y por el reparto desigual de recursos; segundo, por la división y
organización del espacio que le es accesible a los grupos sociales; tercero,
por la división y organización política que desarrollan los Estados
modernos. El fragmento del planeta que ha sido dividido, organizado y
diferenciado por los Estados es el territorio. En palabras de Gottmann,
el territorio es “un compartimento del espacio políticamente diferenciado
de aquellos que lo rodean”19.
Existen otros tipos de compartimentos—creados en otras épocas
de la historia y por diferentes grupos sociales— lo mismo que definiciones
y concepciones de fronteras para cada uno de esos compartimentos.
También es posible encontrar diversas categorías de compartimentos:
locales, territoriales, regionales (interiores e internacionales) y
continentales. Todos los tipos de compartimentos y sus categorías
existentes confirman que el mundo ha sido compartimentado y circundado
por límites y fronteras20.
La diferenciación de los espacios humanos se establece, en primer
lugar, mediante una serie de componentes distintivos que un grupo so-
cial dice poseer y que no pertenecen a otros. Esos componentes son,
según Gottmann: “el pasado histórico y su interpretación común a los
miembros de una comunidad cultural, pero ajena para aquellos más allá
de la frontera”; el ambiente humano externo local y, sobre todo, lo que la

19
gente piensa que ve en el medio físico y las condiciones sociales en las
que vive; las creencias basadas en la religión, valores sociales o algunos
patrones de memorias políticas, o en la combinación de estas tres
ideologías. Gottmann denomina “iconografías” a estos componentes, y
afirma que en estos se fundamenta la diferenciación de los espacios
humanos21. En este marco, el límite es el área que marca el inicio y el fin
de la diferencia y la identidad de una comunidad nacional; en tanto que
la frontera es un espacio de interacción cultural intensa.
Por todo lo anterior, la partición de los espacios humanos es un
concepto geográfico-social a la vez que político —aunque en Ciencia
Política es prácticamente desconocido. La partición política es una forma
de acción sobre la geografía del mundo, un medio de control y dominio
de espacios humanos, y una fuerza de unificación de regiones para
conformar territorios. La delimitación territorial y la identificación de
los límites territoriales sólo son posibles por la partición política del
planeta22.
Asimismo, la partición no sólo define las divisiones entre territorios
nacionales, sino que además influye en las relaciones internacionales
entre los Estados. Cambiar límites internacionales tiene consecuencias
políticas nacionales e internacionales de gran trascendencia. Por ejemplo,
en un proceso de partición, puede ocurrir que comunidades culturales
mayoritarias pueden ser convertidas en minoría, y viceversa; o también
que el balance de poder internacional sea alterado. Es por esta razón que
mucha sangre ha corrido a causa de la modificación de los límites
territoriales.
La guerra de los Balkanes de la década de los noventa ha ratificado
la importancia política de la partición del mundo. El caso de Kosovo
sirve como ejemplo. La comunidad de origen albanés fue minoría en la
provincia de Kosovo, pero al quedar separada la provincia del de Serbia,
los albaneses se convirtieron en mayoría y los serbios en minoría. En
términos geopolíticos, la creación del Estado de Kosovo ha incrementado
la preocupación de otros Estados europeos de que otros movimientos
secesionistas locales tomen fuerza y decidan imitar el ejemplo kosovar.
Así pues, si la partición del planeta es un tema de gran importancia
para la Geografía Humana, cabe preguntar entonces ¿Por qué la
humanidad tiene necesidad de dividir, organizar y diferenciar el pedazo

20
del mundo que habita?¿Cuáles son los factores que conducen a los grupos
sociales a fragmentar territorios mediante líneas de separación y a
identificar las fronteras?
Estas son preguntas fundamentales en el contexto de la
globalización, pues existe la idea generalizada de que el mundo vive la
homogenización y unificación de sociedades humanas y los territorios y,
en consecuencia, los límites y las fronteras están en proceso de
desaparición23. Parecería que las fuerzas de la globalización estarían
impulsando la creación de una “gran aldea global”, a contra corriente de
la partición del mundo. Sin embargo, la teoría de la partición de los
espacios humanos sostiene que la geografía del planeta no ha dejado de
ser heterogénea, y que las comunidades humanas continúan dividiendo,
organizando y diferenciando el espacio que habitan. En consecuencia,
las fronteras y los límites territoriales, antes que desaparecer, van
adquiriendo nuevos usos con forme cambia la sociedad capitalista.

CIRCULACIÓN

El espacio geográfico está caracterizado por la heterogeneidad y


la diferenciación. En términos sociales, los espacios son representados
según las diferentes culturas, tradiciones y prácticas sociales que ahí
ocurren; términos geográficos, se caracterizan por la distribución desigual
de recursos naturales, variedad de factores físicos, climas y vida animal
y vegetal. Esta variedad de espacios humanos y geográficos se traduce
en una amplia diversidad de regiones, todas diferenciadas e
interconectadas24.
Para Gottmann, el estudio de los fenómenos sociales debe partir
de una concepción de la geografía como un sistema de espacios
diferenciados e interconectados. Afirma que disciplinas como las
Relaciones Internacionales, la Historia Política y la Geografía Política
deben tener presente que la evolución de los espacios humanos
diferenciados es el fundamento de cualquier investigación en sus cam-
pos de estudio respectivos25.
Ahora bien, el sistema de espacios diferenciados no significa
aislamiento ni separación permanente de grupos humanos, por el

21
contrario, es el terreno en el que se mueve y avanzan las fuerzas de
circulación (en el sentido que Vidal de la Blache y Fernand Braudel le
dan al concepto). La heterogeneidad espacial hace referencia a la desigual
distribución geográfica de factores como recursos naturales, mano de
obra, capital y tecnología; la mano de obra y el capital se concentran en
ciertas localidades del planeta, igual como ocurre con la concentración
de recursos minerales y energéticos. La heterogeneidad espacial es una
condición que crea diferencias de potencial humano, lo que a su vez
puede generar el flujo de los recursos antes mencionados. Es obvio que
las sociedades demandan una gran variedad de productos y materias
primas, muchos de los cuales no produce o posee. Esta demanda genera
complementariedad de recursos a diferentes niveles, que van de lo local
a lo global.
Así pues, grandes poblaciones concentradas en pequeñas porciones
de territorio, o la ausencia de mano de obra en otros lugares, constituye
una diferencia de potencial humano que posteriormente puede dar origen
a migraciones. Si todas las diferencias de potencial que existen en el
mundo fueran sumadas, el resultado podría ser un gran capital de
oportunidades económicas. Sin embargo, estas oportunidades no pueden
traer resultados en tanto existan obstáculos, naturales o creados por el
hombre, al flujo de recursos. Por lo tanto, para que exista ese flujo, se
requieren conexiones.
A lo largo de la historia la humanidad ha creado conexiones entre
lugares con potencialidades diferentes. Los medios de comunicación y
transporte han sido los instrumentos que las comunidades han utilizado
para ampliar su campo de movimiento. A mayor movimiento, mayores
beneficios económicos y culturales son cosechados, aunque en este
proceso muchos grupos sociales han sido despojados de los beneficios.
El resultado positivo de la expansión de movimiento y del intercambio a
escala global ha creado una fuerza enorme que empuja hacia la
vinculación económica regional del mundo. Esa fuerza es denominada
circulación por Jean Gottmann26.
Gottmann señala que el concepto circulación fue formulado por
Vidal de la Blache, aunque no de una manera acabada en el marco de
una teoría geográfica general. Agrega que el concepto condujo a Vidal
de la Blache a remarcar la importancia de las ciudades como nodos en la

22
relación entre países y como lugares que organizan la vida en sus regiones.
De esta manera, el uso del suelo aparece determinado por el sistema de
relaciones exteriores que la circulación materializa y no por sus
características geológicas, climáticas o biológicas. Gottmann va un poco
más adelante y afirma: “El valor del espacio está determinado por sus
usos sociales, no por los factores físicos que lo caracterizan”27.
A diferencia de Braudel, Gottmann divide la circulación en dos
órdenes: uno político, representado por el desplazamiento de personas,
ejércitos, trabajadores y el flujo de ideas; el otro, materializado en el
intercambio de mercancías, técnicas, capitales y materias primas28.
La circulación de hombres, ideas y productos es la gran fuerza
dinámica que transforma a los espacios humanos, pues permite
organizarlos para producir bienes y recursos, al mismo tiempo que los
diferencia de otros circundantes (regiones agrícolas, industriales, mineras,
forestales, ganaderas, etcétera). Por ejemplo, las villas españolas en
América que prosperaron, fueron sólo aquellas instaladas para cumplir
la función de nodos para la circulación de personas y riquezas entre las
colonias y la metrópoli. Otros poblados crecieron o “vegetaron” según
fueron más o menos favorecidas por las corrientes de circulación que las
atravesaban. Se puede señalar, por lo tanto, que las ciudades coloniales
en la América española, y por extensión las regiones que dominaban, se
desarrollaron o declinaron dependiendo de la apertura o cerrazón que
tuvieron a la circulación29.
Por otra parte, la circulación es una de las fuerzas que mueve la
partición económico-social del mundo, lo cual es más evidente en el
ámbito local. El triunfo de la circulación está asociado a la abolición de
cualquier forma de obstáculo técnico, geográfico o cultural al libre flujo
de factores económicos. Es por eso que en el pensamiento económico,
las fronteras y los límites internacionales son el primer obstáculo que
debe desaparecer.
Gottmann observa que la generalización mundial de la circulación,
si llegara a ocurrir algún día, conduciría a la abolición gradual de la
heterogeneidad económica y social, pero no suspendería el proceso de
partición del planeta. Se trata específicamente, agrega, de la abolición
de “la injusticia geográfica y humana” y, con esta, de la mayoría de las
causas de la guerra, el conflicto y las desigualdades sociales; la

23
apropiación, explotación y ejercicio del poder sobre los espacios seguiría
manifestándose en formas insospechadas.
Ahora bien, si las supuestas ventajas deque trae consigo la
circulación son evidentes, entonces ¿Por qué ocurre la partición del
mundo? Para Gottmann, la respuesta se encuentra en la existencia de
una segunda fuerza, paralela a la circulación y la define como
“iconografía”30. Circulación e iconografía son las dos fuerzas que mueven
la geopolítica del mundo. Cuando la circulación triunfa, un espacio re-
gional se unifica; por el contrario, el fortalecimiento de las iconografías
locales conduce a la partición de regiones o al reforzamiento de
lasfragmentaciones ya existentes.

ICONOGRAFÍAS

El ideal de la unificación de la humanidad no es nuevo en la historia,


afirma Gottmann. En ciertos momentos de la historia han surgido intentos
de unificación regional, especialmente bajo la conducción de un gobierno
imperial (Roma antigua, Imperio Británico, Imperio Mongol, Imperio
Español, el imperialismo estadounidense, etcétera). Sin embargo,
reconoce que las fuerzas de la circulación no son suficientes para alcanzar
la unificación del mundo, pues existe otra aún más poderosa que
promueve la partición del mundo, a la cual denomina iconografía.
Para ejemplificar el proceso anterior podemos tomar el proceso de
unificación-partición del imperio español en América. La mayor parte
continente americano estuvo bajo dominio del imperio español. Dada la
magnitud del territorio colonial, España lo dividió en diferentes unidades
administrativas para poder defenderlo y explotarlo. Al colapsar el impe-
rio español, la mayoría de esas unidades se convirtieron en repúblicas
que a su vez lucharon entre sí por ganar o conservar un territorio
supuestamente heredado. Cada antigua unidad administrativa reclamaba
derechos territoriales, los cuales fueron satisfechos, en parte, a lo largo
del siglo XIX mediante guerras y negociaciones diplomáticas, definiendo
en gran medida el actual mapa político del continente31.
Podemos observar que a los deseos de unificación del imperio
español se impuso la fragmentación de la colonia en una realidad

24
heterogénea y compleja de territorios provinciales (distribución de la
población, fragmentación y diversidad del medio físico, culturas,
tradiciones, ideologías, instituciones políticas y económicas, etcétera).
En cada uno de esos territorios, las élites criollas inventaron, recuperaron,
desarrollaron y reprodujeron ideas, imágenes, percepciones y
descripciones de sus respectivos territorios, las mezclaron con intereses
e ideologías políticas y con ello construyeron su propio discurso de
diferenciación e identidad territorial.
El concepto iconografía en Gottmann debe ser entendido como
una fuerza paralela —no necesariamente contraria— a la circulación,
que estimula la fragmentación del mundo en diferentes formas de
compartimentos, una de las cuales es el territorio. También es una fuerza
que mantiene unidos a los sujetos que conforman comunidades culturales
o políticas.
El uso de iconografías para el análisis de los fenómenos geográficos
no es de ninguna manera un método de interpretación de los símbolos
sociales, sino que sirve para identificar a los símbolos que tienen un
significado y un sentido territorial. Gottmann recurre a la siguiente
metáfora para ejemplificar su definición del concepto. Se trata, dice, de
un ícono que es el símbolo de una comunidad humana ligeramente
diferente de los que caracterizan a otras comunidades; se trata de “un
símbolo adornado con cualquier joya o riquezas que la comunidad pudiera
abastecer y que se vuelve el orgullo de todos los miembros de esa
comunidad”.
Esas joyas y riquezas son ideas, objetos, emblemas y muchas otras
cosas quetienen un alto valor simbólico para una comunidad. No se trata
necesariamente de elementos identificados con la civilización o la cultura,
pues para Gottmann estos conceptos tienen una definición muy general
y, por lo tanto, son imprecisos para identificar identidades sociales. Por
el contrario, el concepto iconografía tiene un contenido específico, no
como una mera suma de símbolos, sino como elementos histórico-sociales
que tienen una gran influencia en la percepción y concepción de los
espacios humanos.
En Gottmann, el concepto iconografía está presente en la raíz de la
diversidad cultural del mundo. En este contexto, el concepto iconografía
de Gottmann se opone al concepto “patrón cultural” de Franz Boas —

25
sobre el cual se apoya la definición de fronteras culturales en los estudios
antropológicos de las fronteras— y al concepto histórico “civilización”
de Arnold Toynbee —según el cual, el territorio y sus fronteras dependen
del grado de desarrollo civilizatorio de las sociedades.
Los conceptos patrón cultural y civilización han sido considerados
por sus creadores como la base sobre la cual fueron construidos los
territorios y, en consecuencia, sirven para definir la característica princi-
pal de las fronteras: son espacios de transición entre culturas o
civilizaciones. Para Gottmann, las fronteras sólo pueden ser explicadas
en el marco de una geografía del poder, entre otras cosas porque los
elementos simbólicos incluidos en una civilización y una cultura son
definidos, reproducidos y defendidos por las instituciones de poder de
una comunidad.
Por su parte, el concepto iconografía, como bien lo explica el
geógrafo brasileño, Marcio Antonio Cataia, es una acción de autodefensa,
una política de valor simbólico establecida en cada lugar, que juega el
papel de cimiento entre miembros de una comunidad atada a un
territorio32. Las iconografías estimulan la circulación al interior de un
territorio, pero la obstaculizan hacia el exterior. Cuando una comunidad
local considera que los beneficios obtenidos por la circulación no le son
favorables, entonces reclama la secesión del territorio que habita. Este
ejemplo nos permite comprender el concepto iconografía introduce la
variable cultural en el análisis de las fronteras desde una perspectiva de
la geografía del poder.
La relación entre iconografías y partición de los espacios humanos
se manifiesta de tres formas. Primero las iconografías hacen posible la
relación triangular entre individuos, Estado y espacio humano; relación
que conduce a la emergencia del territorio. El territorio refuerza los
vínculos entre los individuos miembros de una sociedad política y se
vuelve parte de sus iconografías. George Prevelakis precisa que “las
iconografías no están hechas solamente de representaciones territoriales,
aunque la mayoría de sus elementos tienen una relación con la
territorialidad, real, imaginada o soñada”33. Religión, lenguaje, historia,
tabúes, etcétera, son las iconografías integradas y movilizadas en la
construcción de un discurso socio-territorial.
Segundo, las iconografías son un elemento muy importante para

26
la identificación de los territorios por parte de las comunidades nacionales
que los habitan. La identificación de los territorios nacionales ha sido
realizada mediante mapas. Efectivamente, en los últimos dos siglos, la
cartografía política ha utilizado la iconografía de la nación para reforzar
la idea del territorio como el “cuerpo de la patria”, una práctica muy
común en el proceso de partición de América durante los siglos XIX y
XX. En los siglos previos al XIX, independientemente del atraso técnico
en la cartografía, los mapas coloniales no describían con exactitud las
divisiones de las unidades geográfico-administrativas, sino que eran
simplemente la representación imaginada del espacio bajo dominio
efectivo del monarca. El mapa, explica Alan K. Henrikson, posee un
alto valor iconográfico, ya que representa simbólicamente las jerarquías
de poder en los espacios geográficos34.
Tercero, en las iconografías descansa la interpretación, en términos
culturales, de la situación geopolítica del mundo en los diferentes períodos
de la historia35. Los sistemas geopolíticos están fundados en iconografías,
sin las cuales podrían derrumbarse ante las fuerza de circulación. La
secesión y fragmentación territorial se explica precisamente por la
confrontación y divorcio entre iconografías locales y la debilidad de la
iconografía nacional. Así pues, es a través de este concepto que pueden
descubrirse las fallas de la circulación en la unificación del mundo, y
permite explicar por qué las comunidades locales se encuentran atadas
al territorio y desarrollan diferentes estrategias contra las fuerzas de
circulación que afectan sus identidades, incluidas la identidad con el
espacio en donde viven.
Además de esas tres formas que las vinculan con la partición de
los espacios humanos, las iconografías se expresan geográficamente en
diferentes niveles: parten de lo local y van subiendo a lo regional,
nacional, regional internacional y global. En esta dimensión, las
iconografías se observan más dinámicas y cambian al ritmo de las
transformaciones sociales.
En lo local, las iconografías son una especie de “pegamento” que
mantiene unidos a los miembros de una comunidad cultural con el fin de
moldear ideológicamente a una comunidad política. Además del pasado
histórico, el medio ambiente local y creencias sociales y cosmogonía,
las iconografías están integradas de cosas materiales e inmateriales, y su

27
importancia depende del valor simbólico que les otorguen los grupos
sociales. Las cosas materiales se refieren a los paisajes sociales, los
objetos para ritos religiosos, la comida, los utensilios de trabajo, la
vestimenta, entre otros; en tanto que las inmateriales tienen que ver con
las ideas, ideologías, costumbres, mitos, valores sociales, etcétera. La
combinación infinita de estos elementos produce no una, sino muchas
iconografías, aunque es sólo una es la que enraíza en cada grupo social
específico y la reclama como parte de su identidad. La categoría de análisis
identidad es fundamental para entender el concepto iconografía, pues
sirve para explicar cómo son transformadas las mentalidades de los
sujetos para convertirlos en ciudadanos de determinada entidad política.
En el ámbito nacional, las iconografías se manifiestan en la esfera
del poder del Estado. En este caso se conforman de símbolos de tres
clases diferentes: valores sociales, acontecimientos históricos que fueron
definitivos en la construcción de cada Estado, y la idea de organización
social. Los Estados modernos, señala Gottmann, se declaran modelos
puros, casi perfectos, de identidad nacional; procuran la estabilidad en
el juego de las iconografías locales evitando que alguna de estas rompa
con cualquiera de los tres símbolos nacionales mencionados.36
Finalmente, las iconografías globales estarían expresadas por
aquellos símbolos que se expresan en términos de cosmografías, según
el concepto de Johan Galtung.37 La más poderosa de estas iconografías
globales es la llamada “civilización occidental”, la cual no sólo tiene
que ver con simples expresiones culturales y de concepción del universo
(ciencia), sino también cómo se divide el mundo en términos geopolíticos
y geoeconómicos, y el reparto los espacios humanos entre las élites del
poder mundial.38 En el caso de América Latina lo podemos ejemplificar
con la Doctrina Monroe, que más allá de una simple proclama de política
internacional de Estados Unidos, es la identificación de un espacio del
planeta (hemisferio occidental) bajo el dominio económico y político de
una potencia y en donde debe imperar la forma de organización social
del modelo liberal (liberalismo político y liberalismo económico).
La manifestación de esas tres dimensiones geográficas no significa
que las iconografías sean estables y duraderas, por el contrario, para
Gottmann la estabilidad de las identidades no es permanente, como
tampoco es homogénea la actitud social hacia el cambio. Asimismo,

28
iconografías de distintas dimensiones pueden coexistir localmente y otras
veces chocar entre sí. También puede ocurrir que una iconografía local
entre en contradicción con otra exterior, denominada iconografía impe-
rial.
Todas las combinaciones posibles coexistencia de iconografías dan
por resultado un sistema amplio y diverso de interacción de iconografías,
expresado en diferentes dimensiones espaciales. Conflictos o alianzas
de iconografías han guiado la historia de amplias regiones del mundo –
el Caribe es un excelente ejemplo de ello. En los dos últimos siglos, sin
embargo, en Occidente toda esa interacción entre iconografías ha sido
sintetizada en una sola, e impuesta sobre todos los individuos que habitan
el territorio bajo dominio de un Estado: la iconografía de la nación.
Para ejemplificar un sistema de interacción de iconografías en
dimensiones geográficas distintas podemos utilizar a la Comunidad de
América del Norte. En este caso se observa la manipulación de los
gobiernos de Canadá, Estados Unidos y México en favor de la iconografía
denominada “América del Norte”, materializada en la Alianza para la
Prosperidad de América del Norte. Con esta manipulación a través de
los medios de comunicación se persigue reforzar las identidades de ciertos
grupos sociales (empresarios), los cuales eventualmente serán los
promotores del proceso de integración económica y política regional.
La estrategia de los tres gobiernos y sus grupos de apoyo es desvincular
del proceso de integración a los grupos inconformes; particularmente de
los movimientos y organizaciones sociales que protestan por los efectos
negativos en la reorganización de sus territorios, y adoptan una posición
crítica desde la identidad local. Por lo tanto, el éxito de la iconografía
“América del Norte” depende del control de los grupos disidentes, y
del grado de aceptación y adhesión del resto de los miembros de las
comunidades locales a las ideologías y valores políticos inherentes a la
iconografía de la “comunidad” regional.
De regreso al eje del tema, las iconografías son muy importantes
para las sociedades modernas por diferentes motivos. Sin embargo, no
está muy clara su efectividad para alcanzar objetivos políticos, ni tampoco
su “razón de ser” para determinadas políticas de gobierno. Se podría
suponer que las iconografías son muy útiles para garantizar la estabilidad
política de los gobiernos, pues aparentemente los ciudadanos estarían

29
listos y dispuestos al sacrificio para “defender a la patria” o a las
instituciones ante los ataques de enemigos internos o externos. La realidad
es distinta, pues existen casos en la historia, particularmente en América
Latina, en los que se confirma que el uso de iconografías con fines
político-militares ha traído consecuencias inesperadas, incluso
contraproducentes; recordemos la guerra de las Malvinas.
Otra forma de utilizar a las iconografías con fines políticos es el
aislamiento de una comunidad nacional. Esta práctica ha sido realizada
por sociedades antiguas como Japón (siglos XVII al XIX) y China, y
recientemente países como Albania y Afganistán; en América Latina el
caso más representativo ocurrió en el Paraguay a mediados del siglo
XIX. En todos estos casos, el aislamiento endureció las iconografías
creadas y reproducidas desde el Estado.
Asimismo, los gobiernos tienden a recurrir a símbolos negativos
para explicar ciertos fenómenos sociales y justificar acciones políticas.
Las sociedades, al igual que los individuos, tienen diferentes capacidades
para adaptarse a los cambios, aunque algunas estén más amenazadas
que otras. Sin embargo, ninguna sociedad puede adaptarse a la circulación
plena, en la misma medida en que ninguna persona es capaz de reinventar
constantemente su estilo de vida. Por ejemplo, aún hoy las sociedades
consideradas más “abiertas” de Occidente sufren el estrés de la
inmigración y tienden a restringir el movimiento de personas a través de
sus fronteras, generando diferentes tipos de discursos para justificarlo,
desde posturas económicas hasta de extremismo racial.
Así pues, los gobiernos tienden a fortalecer simultáneamente las
iconografías locales y determinadas iconografías regionales. Esta política
tiene un impacto profundo en el territorio y en la territorialidad, lo cual
se manifiesta en el endurecimiento de la partición política y el
establecimiento de fronteras vigiladas y permanentemente protegidas.

LA RELACIÓN CIRCULACIÓN-ICONOGRAFÍAS

De acuerdo con Jean Gottmann, las iconografías son


permanentemente reemplazadas o reinventadas a causa de los retos que
les impone la circulación de personas, bienes e ideas. Por otra parte, son
un mecanismo ideológico de defensa utilizado para evitar o reducir los

30
costos generados por los impactos negativos de la circulación sobre el
Estado y sus instituciones. La circulación produce cambios en los espacios
humanos. El comercio modifica los términos de la competencia en una
economía regional cuando productos nuevos y baratos son introducidos
al mercado nacional, afectando la economía de los productores locales.
Nuevas ideas penetran en las sociedades a través de la circulación y
produce cambios en los comportamientos de las poblaciones. De esta
manera, para las mentes conservadoras, el cambio es equivalente a
corrupción. Para evitar lo anterior, lo conveniente es minimizar la
circulación recurriendo a las iconografías.
Así pues, la circulación es regulada por las iconografías. La
partición es un evento político, producto de la interacción entre
iconografías, locales y regionales, y la fuerza de circulación entre
localidades específicas. Es por esta razón que la partición es dinámica.
Los límites territoriales cambian a pesar de los esfuerzos por reducir
esos cambios al mínimo y de los deseos por preservar el status quo.
Aunque la figura de los territorios permanece inmóvil durante algún
tiempo y los gobiernos expresan posturas favorables a la circulación, la
partición del mundo continúa desarrollándose de la manera más sutil.
Aún en Europa, en donde las fronteras de los países de la Unión parecen
debilitarse y dirigirsea su desaparición, las fronteras exteriores existen
en lo que se conoce como en “centro europeo” y la “periferia europea”.
En las fronteras externas (límites y zonas de frontera) de la Unión Europea
aún existen mecanismos de control y vigilancia rigurosa a la circulación,
especialmente con Rusia y África. En este sentido, utilizando palabras
de Gottmann: la intangibilidad de las fronteras no limita ni frena la
partición de los espacios humanos.
Esas dos fuerzas, la circulación y las iconografías, no siempre
funcionan de manera coordinada en una misma dirección, fragmentar o
unificarun espacio geográfico. En ocasiones la circulación es capturada
por alguna iconografía y sirve a los propósitos de cierto grupo social.
Otras veces, la circulación inventa sus propias iconografías. De esta
manera, por ejemplo, el discurso de la integración latinoamericana está
basado en el reconocimiento a las diferencias e identidades subregionales
y el respeto a la autodeterminación. Reconoce también, la integración
económica y la separación política; la creación de áreas comercio

31
subregionales, separadas de las economías de otras subregiones. La
identidad latinoamericana ha creado su propia iconografía, el ideal
bolivariano, sin embargo no tan efectivo ni tan fuerte como la iconografía
imperial, la unión hemisférica (panamericanismo) liderada por Estados
Unidos.
La iconografía de la integración latinoamericana dio lugar a nuevas
regiones como el Mercosur. Esto confirma que la fuerza de las
iconografías no siempre obstruye a la fuerza de circulación, por el
contrario, la redistribuye y la regula. La relación dialéctica entre las
fuerzas de circulación y las fuerzas de las iconografías facilita interpretar
la evolución de la geopolítica del mundo en diferentes lugares y
momentos. También nos permite observar la historia dinámica de las
fronteras, los cambios constantes en el mapa político del mundo. El papel
de la circulación es tan importante en la partición política del mundo,
como es el de las iconografías.

LAS FRONTERAS Y LOS LÍMITES TERRITORIALES EN


EL PARADIGMA DE LA PARTICIÓN DEL MUNDO

El fin del sistema mundial bipolar llevó consigo la crisis de los


paradigmas de análisis de las regiones humanas. Los enfoques
economicistas, tanto marxista como liberal, probaron su ineficacia para
explicar las guerras y conflictos políticos por reclamos territoriales. Las
interpretaciones más extendidas fueron desarrolladas por los enfoques
político-jurídicos, en los que la diplomacia, el Derecho Internacional y
la política internacional determinaron la delimitación territorial del
mundo.
A diferencia de los enfoques anteriores, lateoría de la partición de
los espacios humanos ofrece una propuesta de interpretación de las
fronteras y los límites territoriales más amplia, pues no sólo incluye vari-
ables políticas y económicas, sino que además agrega la variable cul-
tural. Asimismo, se distingue de los enfoque culturalistas y antropológicos
en que evita usar conceptos ambiguos como cultura y civilización, los
cuales reducen la percepción las fronteras a meras zonas contacto.
Lasobre-dimensión cultural de las fronteras cae frecuentemente en el

32
exceso de negar o augurar su futura desaparición como lo sostienen las
interpretaciones economistas.
Por lo tanto, la teoría de la partición de los espacios humanos es
una visión holística de las fronteras, pues observa el proceso de
construcción de estos espacios desde las perspectivas económica,
jurídico-política y cultural. En este sentido coincide con la interpretación
de la historia total de Annales.
Para Gottmann, el límite territorial es jurídicamente una línea-
límite, y la frontera es una zona de interacción humana39. Sin embargo,
ambos son espacios periféricos, cuyo origen es resultado de la partición
de la geografía del planeta y su primera función es la diferenciación de
los compartimentos en los que ha sido dividido el mundo, incluidos los
territorios. En el proceso de partición, la frontera y el límite son los
instrumentos utilizados por los Estados para dividir, marcar y diferenciar
sus territorios. Las distintas sociedades históricas han definido las
funciones de sus frontera, desde los limes romanos, los pagus de los
turcos, la muralla de los chinos, etcétera, hasta las actuales fronteras
geopolíticas. Cada una de estas concepciones de la frontera está
relacionada, invariablemente, al equilibrio de fuerzas entre la circulación
y las iconografías.40
Las distintas concepciones de frontera que han existido en la historia
se derivan de los “sistemas de compartimentos”. Como mencionamos
anteriormente, un sistema de compartimentos es la división del territorio
en circunscripciones —no necesariamente coincidentes con el territorio
estatal— que cumplen fines específicos (áreas administrativas,
económicas, judiciales, militares, religiosas, etcétera). La definición y
extensión de esos compartimentos han variado con el tiempo en las
distintas sociedades. En consecuencia, los límites y fronteras han sido
reubicados, borrados o redibujados de acuerdo con los cambios definidos
por el grupo en el poder en el sistema de compartimentos.
Poner atención en el sistema de compartimentos nos permite
analizar el enramado de límites y fronteras existentes en un territorio,
además de que facilita distinguir a las fronteras en su distintas
dimensiones: “fronteras de grandes “bloques de países”, fronteras de
imperios, de los Estado nacionales, en regiones al interior de los Estados,
de en aglomeraciones urbanas y distritos rurales, etcétera. Como bien

33
observa Gottmann, nuestro mundo está infinitamente “compartimentado”
y marcado por límites y fronteras.41
Concentrémonos en el sistema de compartimento de los territorios
nacionales. Al respecto, Gottmann señala que la partición de los espacios
humanos en territorios ha fluido a lo largo de la historia. En este proceso,
la política del Estado ha sido necesaria para mantener la unidad del
territorio, especialmente a través de medidas que refuerzan la
diferenciación respecto de los otros territorios que lo rodean. El principio
de diferenciación del territorio es uno de los elementos que permite
comprender las relaciones entre los espacios humanos y la organización
que estos soportan; es claramente observable en el campo del Derecho
Internacional, donde la historia de la reglamentación internacional sobre
usos y soberanía y apropiación de los espacios terrestres, marítimos,
submarinos y aéreos se ha realizado con base en la diferenciación.42
Ahora bien, las fronteras y los límites sirven para marcar la
diferenciación de los territorios, no sólo mediante medidas políticas, sino
sobre todo en las iconografías de las comunidades nacionales. Para
Gottmann, las formas más importantes de fronteras están en las mentes
de las comunidades nacionales y no en el territorio mismo.43 En este
sentido, la idea de fronteras seguras, porosas, peligrosas, móviles,
cerradas, abiertas, etcétera, no son atributos inherentes a las fronteras,
sino cualidades asignadas por las comunidades culturales que ahí viven.
El proceso de partición del planeta en compartimentos territoriales
es el que explica el origen permanencia y cambio de los límites y las
fronteras.44 Los límites y las fronteras no sólo sirven para que un territorio
sea diferenciado de otros circundantes, también para marcar la división
y organización de este. En sentido estricto, las fronteras y los límites no
aparecen por la búsqueda de la diferenciación del territorio, sino como
consecuencia de la partición espacial. Esta concepción nos permite
comprender por qué la delimitación territorial es un problema político
entre Estados vecinos.
En cuanto a las fronteras en su dimensión política, Gottmann
explica este asunto con base en el modelo centro periferia. Este modelo
está basado en la división territorial establecida por los Estados nacionales
centralistas, para los cuales la ciudad capital es el corazón político-
económico-administrativo del país. El Estado centralista fue impuesto

34
en la división territorial de América Latina durante el siglo XIX.45
Según dicho el modelo, las zonas de frontera están subordinadas
al centro, en términos políticos y económicos. Las fronteras reciben
determinadas cualidades estratégicas y de seguridad, tanto militar como
comercial, por el gobierno central. En ciertos casos, estos espacios llegan
a dominar la estructura de poder nacional, en el sentido de que en ellas
descansan supuestas situaciones que amenazan al conjunto del Estado,
principalmente a su elemento territorial.46
En Gottmann, el modelo centro periferia es utilizado de dos maneras
para estudiar a las fronteras. La primera, para explicar la relación entre
espacios simbólicos diferenciados, aunque interdependientes. En esa
relación, la frontera es representada como zona periférica en donde ocurre
el conflicto, los desencuentros sociales, la aventura, la descarga de
agresividad. La frontera circunda al territorio nacional, el cual a su vez
representa la seguridad, el reposo, un ambiente propicio para la
producción económica, la continuidad de valores, es un espacio sagrado.47
La segunda manera en que Gottmann utiliza el modelo es para
descubrir el patrón de relación sistémica entre el centro nacional y las
fronteras. En este caso, el centro nacional y la frontera son dos espacios
diferenciados en términos políticos, y la relación que mantienen es de
dominio (centro) y subordinación (periferia).48
Cabe observar la similitud que guarda el modelo centro-periferia
de Gottmann con el modelo de la polaridad centro-periferia en el sistema
mundo capitalista de Immanuel Wallerstein. En los estudios de éste
último, se explican la emergencia del sistema mundo moderno
contrastando las ventajas relativas de los imperios políticos (un sistema
de control centralizado del sistema, la propensión del Estado a cerrar y
defender sus fronteras, una burocracia jerárquica y un aparato de control
de las fronteras) con el sistema económico capitalista (diferenciación de
los espacios económicos del planeta en centro, semi-periferia, periferia).
En todo caso, el modelo centro-periferia que utiliza Gottmann
considera a estos espacios como un sistema funcional a la vez que un
sistema simbólico. El modelo esquematiza la relación entre el centro-
núcleo del poder nacional (capital) y la periferia fronteriza, resaltando la
inestabilidad en dicha relación. No se trata de una relación geométrica,
expresada en distancias y ubicación, sino en las políticas de organización

35
y reorganización del espacio geográfico, cuyo fin es conservar la relación
de domino-subordinación y corregir los factores que provocan la
inestabilidad social en la periferia.
Al respecto, Owen Lattimore señala que cuando una región
periférica protesta al centro su situación de subordinación, estaría
buscando compartir las funciones de centralidad o reemplazar la
estructura existente para convertirse, a su vez, en centro con su propia
periferia;49 esto último es una secesión territorial, en la que ocurre una
ruptura entre élites de poder local. Lattimore explica este fenómeno con
evidencia empírica para Asia Central, aunque también puede hacerse
con los ejemplos de las independencias de las colonias españolas en
América y posterior fragmentación en territorios nacionales.
En algunos estudios de frontera (Friedrich Ratzel) se acepta como
un hecho dado que el surgimiento de las sociedades políticas ocurrió en
un área central y posteriormente fue irradiada hacia las periferias, espacios
en donde el desarrollo cultural estaba más retardado. En otros estudios
se establece que en la periferia fue donde se cultivaron aquellos elementos
distintivos de ciertas sociedades nacionales (Frederick Turner y
seguidores).
La concepción espacial que se observa en estas interpretaciones
de la frontera es de una relación geométrica simple entre el centro y la
periferia, pues se presupone una situación de equilibrio en la distribución
geográfica de factores de circulación y de estabilidad en el proceso de
construcción de la identidad nacional. Asimismo, en esa relación
geométrica, la frontera es un espacio de avanzada de los factores
nacionales de circulación y de la identidad nacional.50
A diferencia de las interpretaciones anteriores, en Gottmann, así
como en Owen Lattimore, el punto de partida para el análisis de las
fronteras debe ser el proceso de organización y reorganización del centro
y la periferia, y los cambios que ese proceso genera en las relaciones de
dominio subordinación entre tales polos espaciales. Sólo mediante un
análisis de este tipo es posible descubrir cómo determinada organización
social permitió o impidió el desarrollo de innovaciones en la periferia
fronteriza.
Los grupos sociales construyen fronteras (lingüísticas, religiosas,
étnicas, etcétera) entre ellos y con el exterior a partir de imágenes, ideas,

36
valores, actitudes, percepciones y expectativas.51 En este esquema, el
centro es el lugar sagrado que define la identidad y la seguridad de una
comunidad, mientras que la frontera representa al límite exterior de la
periferia, es un lugar que marca el inicio de la diferencia del grupo so-
cial, a la vez que representa lo desconocido, lo peligroso y salvaje; es un
lugar frecuentemente deshabitado. Esta percepción de la frontera está
basada en elementos psicológicos y socioculturales, los mismos que han
trascendido en nuevos enfoques de las fronteras.
Precisamente el debate sobre las percepciones psicológicas y
socioculturales de las fronteras podemos encontrarlo en Geografía
Política, donde ciertos autores consideran a la frontera como una línea
de separación entre comunidades políticas hostiles (Ratzel, Robert
Holdich) (función negativa), y los que la definen como zona de encuentro,
e intercambio (interpenetración) entre comunidades vecinas (función
positiva) (Camille Vallaux, L. W. Lyde).
La aproximación que propone Gottmann no considera las funciones
de las fronteras en negativas o positiva. Para él, fronteras forman parte
de un sistema espacial complejo, el cual abarca todos los niveles del
sistema social.52 El carácter funcional de las fronteras tiene que ver con
los atributos que las instituciones de poder y las comunidades culturales
le asignan a estaos espacios periféricos. Es debido a estos atributos
simbólicos que las instituciones conciben y justifican su comportamiento
y actitudes respecto a determinados fenómenos que ocurren en los límites
de la periferia. La frontera está caracterizada por la representación
simbólica de la diferenciación; es un espacio geográfico que corta, di-
vide, separa y diferencia grupos sociales.
Para finalizar, el modelo centro-periferia permite expresar dos ideas
fundamentales sobre las fronteras. Primero, la frontera se convierte en
símbolo de la organización del espacio alrededor del centro-núcleo y del
conjunto del espacio habitado por la nación (el territorio). Segundo, en
este simbolismo de organización del espacio, el Estado intenta establecer
un orden entre la oposición entre capital central y frontera (periferia
subordinada), lo cual sugiere que probabilidad de confrontación entre
ambos espacios. Es en esta confrontación en donde, eventualmente,
germinaría un nuevo proceso de partición de los espacios humanos.53

37
CONCLUSIONES

La teoría de las particiones de los espacios humanos es un enfoque


a las relaciones espacio sociedad que influyen en el establecimiento y
organización de los límites territoriales y las fronteras. En este punto
radica la principal diferencia de otras teorías de fronteras, especialmente
de las visiones deterministas (histórico-diplomáticas, geopolíticas,
culturalistas) que han dominado en este campo.
El espacio humano es el espacio geográfico ocupado y transformado
por las comunidades humanas. Está subdividido en diferentes
compartimentos, uno de los cuales es el territorio.Todos esos
compartimentos han sido organizados, diferenciados y dominados por
grupos sociales distintos. Tales grupos crean comunidades políticas, las
que a su vez presentan modelos de organización política y económica
diferentes. Son precisamente las comunidades políticas las encargadas
de dirigir el proceso de partición del mundo.
El concepto “partición” se entiende como el proceso de división,
organización y diferenciación de los espacios geográficos accesibles a
los grupos sociales. La partición ocurre cuando las áreas del planeta son
ocupadas y transformadas por una comunidad humana, lo cual a su vez
sólo es posible si esa comunidad posee cierta capacidad técnica y mate-
rial.
El fragmento del planeta que ha sido dividido, organizado y
diferenciado por los Estados es el territorio, aunque existen otros tipos
de compartimentos definidos por los diferentes grupos sociales. Para
cada uno de esos compartimentos existen definiciones precisas para la
frontera y los límites que los circundan. El proceso histórico de partición
del mundo es la clave para entender las transformaciones en la concepción
de las fronteras, y también para explicar porque aparecen, cambian y se
desvanecen.
La partición es de los espacios humanos es económica, social, cul-
tural y política. Una de sus formas, la partición política, es la que con-
duce a la instalación de límites territoriales, e influye en las relaciones
internacionales entre los Estados. En este sentido, la partición política

38
es un concepto geopolítico de gran trascendencia en las relaciones de
poder mundial.
La partición de los espacios humanos es conducida por dos fuerzas,
a veces complementarias, aunque casi siempre antagónicas. Por ejemplo,
cuando la circulación triunfa y un nuevo espacio regional se unifica, los
grupos de poder inventan un discurso de contenido geográfico basado
en iconografías. Ese discurso debe ser de tal fuerza simbólica que impida
o nulifiqueal reforzamiento de las iconografías que se oponen a la
unificación. .
La relación entre circulación e iconografías siempre está presente
en el proceso de partición de los espacios humanos. La circulación genera
cambios en las comunidades locales expuestas al flujo de ideas,
mercancías y personas. Ante el temor de los efectos desconocido de esos
cambios, los gobiernos recurren a las iconografías para regular o redirigir
a la circulación.
La relación dialéctica entre las fuerzas de circulación y las fuerzas
de las iconografías facilita el estudio de la partición del mundo, en diferentes
lugares y momentos. También permite analizar la historia dinámica de las
fronteras y los cambios constantes en el mapa político del mundo definido
por los límites territoriales. El papel de la circulación es tan importante en la
partición política del mundo, como es el de las iconografías.
La teoría de la partición de los espacios humanos es una propuesta de
interpretación de las fronteras y los límites territoriales holística, pues no sólo
incluye variables políticas y económicas, sino que además agrega la variable
socio-cultural con el concepto de iconografía.

NOTAS EXPLICATIVAS

1
Dr. en Historia Moderna. Profesor del Departamento de Estudios Internacionales de la Universidad de
Quintana Roo, México. E-mail: arriaga@uqroo.mx
2
Según datos de Luca Muscará (“Complete”, 2003), Jean Gottmann escribió cerca de 400 títulos, entre
artículos, capítulos de libro y libros completos.
3
Luca Muscarà es el traductor de Gottmann al italiano. Véase de este autor: “Gottmann”, 2005;”Complete”,
2003; Strada, 2005.
4
Gottmann, “French”, 1946, p.80.
5
Gottmann, “Background”, 1942, p. 202.
6
Gottmann, “French”, 1946, p.86.

39
7
Gottmann, “Background”, 1942, p. 206.
8
Gottmann, “Geography”, 1951, p. 171; Chicarro, 1987, p. 47.
9
Gottmann, “French”, 1946, p.87; Gottmann, “Méthode”, 1947, p. 8.
10
Gottmann, “French”, 1946, p.87.
11
Galtung, Investigaciones, 1995, p. 34
12
Sobre el método causal en el análisis de la geografía humana véase, Gottmann, “Méthode”, 1947.
13
Gottmann, “Geography”, 1951, p. 154; Gottmann, “Political”, 1952, p. 153.
14
Gottmann, Politique, 1952, p. 4; Gottmann, “Political”, 1952, p. 154.
15
Gottmann, “Political”, 1952, p. 153.
16
Gottmann, “Political”, 1952, p. 512-13.
17
Gottmann, “Political”, 1952, p. 514.
18
Gottmann, Politique, 1952, p. 5.
19
Gottmann, Politique, 1952, p. 70.
20
Gottmann, Politique, 1952, p. 5.
21
Gottmann, “Geography”, 1951, p. 163.
22
Gottman In, “Doctrines”, 1947, pp. 17-18.
23
Strange, Retirada, 2002.
24
Gottmann, Politique, 1952, p. 4-5.
25
Gottmann, “Geography”, 1951, p. 156.
26
Gottmann, Politique, 1952, p. 215.
27
Gottmann, Politique , 1952, p. 49;
Gottmann, “Méthode”, 1947, p. 6-7.
28
Gottmann, Politique, 1952, p. 215.
29
Gottmann, Politique, 1952, p. 215.
30
El concepto iconografía proviene de historia del arte, donde tiene dos acepciones: como símbolos,
su significado y su sentido histórico social; y como la búsqueda y análisis de ideas implícitas en un
trabajo de arte, colocando éste en su contexto histórico
– para esta definición se utiliza también el término iconología. El concepto fue acuñado hacia finales
del siglo XVI por Cesare Ripa en Iconología; un manual que ha servido de guía para interpretar los
símbolos y alegorías de la cristiandad, y de las culturas griega, romana y renacentista. Fue recuperado
por el historiador del arte Abraham Moritz Warburg (conocido también como Aby Warburg, 1866-
1929) en su tesis sobre “transmisión de la iconografía antigua a la cultura europea moderna”. La idea
de las iconografías de Gottmann está influenciada, sin duda, por las teorías de Warburg. Sobre el origen
del concepto. Véase Cosgrove y Daniels, Iconography, 1989.
31
García, “Estudio”, 2003, p. 73.
32
Cataia, “Geopolitica”, 2006, p. 50.
33
Prevelakis, “Jean”, 2002, p. 7.
34
Henrikson, “America’s”, 1980, p. 75.
35
Muscarà, “On Gottmann”, 2005, p. 1.
36
Muscará, “From Gottmann”, 2003, p. 61.
37
Galtung, Peace, 1996; Galtung, Investigaciones, 1995.
38
Muscará, “From Gottmann”, 2003, p. 61.
39
Gottmann, Politique, 1952, p. 122
40
Gottmann, Politique Social Sciences, realizado en el Institute for the Advancement of the Social

40
Sciences, Universidad de Boston - diciembre 6-7, 2002.STRASSOLDO, Raimondo. Centre-Periphery
and System-Boundary: Culturologycal Perspectives, In Jean Gottmann (editor) Centre and
Periphery.Spatial variations in politics, Beverly Hills.: Cal, Sage Publications, 1980, 1952, p. 5.
41
Gottmann, Politique, 1952, p. 5.
42
Gottmann, Politique, 1952, p. 6.
43
Gottmann, Politique, 1952, p. 224.
44
Gottmann, “Geography”, 1951, p. 158-59.
45
Jean-Claude Thoening distingue dos modelos de división político administrativa del territorio: el
centralista, influenciado por el derecho romano; y el federalista, en el que las relaciones espaciales son
de carácter intergubernamental.
Véase, Thoening, “Territorial”, 2006, p. 281.
46
Gottmann, “Centre”, 1980, p. 16.
47
Audrey, Territorial, 1969. Galtung, Investigaciones, 1995.
48
Strassoldo, “Centre”, 1980, p. 27-28.
49
Lattimore, “Periphery”, 1980.
50
Gottmann, “Organizing”, 1980, p. 217.
51
Strassoldo, “Centre”, 1980, p. 45.
52
Strassoldo, “Centre”, 1980, p. 44-45.
53
Gottmann, “Centre”, 1980, p. 17, 20.

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41
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PREVELAKIS, George. Jean Gottmann’s relevance in today world, artículopresentado en The
Earhart Foundation Conference on the State of the

42
TEORIA DAS FRONTEIRAS E TOTALIDADE1

Eric Gustavo Cardin2

Existem múltiplas formas de viver a fronteira, a grande maioria


delas ocorre de maneira despercebida pelos próprios moradores das
regiões limítrofes. Habituados a cruzar as pontes, os rios e as ruas que
separam os diferentes países vizinhos do território brasileiro, a população
fronteiriça possui uma relação muito particular com a situação no qual
se encontra. Diferente dos visitantes e turistas que pensam e guardam no
imaginário o simbolismo de estarem em uma nação diferente da sua, os
moradores locais, das “raias” brasileiras, tem tais sensações mais
naturalizadas, inserindo as possibilidades fronteiriças cotidianamente em
suas experiências e, consequentemente, na organização das estratégias
necessárias para o desenvolvimento de suas práticas sociais.
Isso não quer dizer que eles não sabem, não percebem ou não
consideram à existência de distinções políticas e jurídicas derivadas das
respectivas configurações nacionais durante suas trajetórias de vidas e
nos seus modos de viver. Para o observador externo ou para o “nativo”,
“a fronteira está lá” e “estando lá” ela se faz presente no estoque de
conhecimento construído historicamente pelos habitantes das regiões
fronteiriças. Em outras palavras, ela é uma variável que se soma as demais
dimensões sociais que constituem o ser social. O resultado disso se
apresenta de maneira aparentemente muito simples. A fronteira
corresponde a um elemento presente e constante na vida e nas estratégias
de sobrevivência desenvolvidas pelos sujeitos que vivem na e da fronteira.
Indo além de sacoleiros, laranjas, kileros, paseros, mulas e chiveros,
colocando em um campo de espera os grupos criminosos que criam
complexas redes no intuito de explorar e se beneficiar de maneira

43
sistemática dos antagonismos da fronteira, observa-se que esta é
importante, para não dizer determinante, para uma população que escolhe
e planeja todos os dias suas ações futuras no interior de um universo
caracterizado por possibilidades fornecidas pelas diferenças existentes
entre os países (GRIMSON, 2005). Pobres ou ricos, membros de
diferentes grupos étnicos e religiosos, torcedores de diferentes times de
futebol, sujeitos inseridos nas mais diferentes ocupações, mas, por
morarem em regiões fronteiriças, visualizam e utilizam a fronteira como
um elemento enriquecedor.
Esta afirmação não é restrita aos aspectos econômicos. Os ganhos
em “atravessar a fronteira” não possuem apenas este aspecto, embora
estes possam ser determinantes. As vantagens econômicas de trabalhar
no Paraguai e com as mercadorias disponibilizadas em sua zona livre de
impostos são atrativas, como é abastecer o carro na Venezuela ou na
Argentina. No entanto, também são significativas as experiências
culturais, o lazer, a alimentação e as compras de bens ou de viveres para
o consumo diário da casa. Para um morador das fronteiras com a
Argentina ou o Uruguai, comprar roupas, cosméticos ou ir ao
supermercado no país vizinho não é uma postura popularmente
criminalizada e, muito menos, de cunho exclusivamente econômico,
embora juridicamente possam ser condenáveis.
O que dizer dos inúmeros interlocutores que trabalhavam no
circuito sacoleiro e narravam suas experiências de modo a valorizar a
liberdade de estarem inseridas em um universo mais frouxo, sem horários
e com uma moral extremamente plástica ou de uma família de
trabalhadores que mudam de atividade dentro do próprio circuito sacoleiro
por motivos religiosos? Indo além, não foram uma ou duas conversas
realizadas onde os trabalhadores destacavam a alegria de estar no
tumultuado microcentro de Ciudad del Este, com todo caos aparente,
mas, ao mesmo tempo, com um sentimento de pertencimento e
intimidade. Os laranjas e sacoleiros sustentam e formatam a zona de
livre comercio paraguaia, mas, ao mesmo tempo, são moldados pelas
relações estabelecidas em sua cotidianidade (CARDIN, 2011b).
Mais recentemente, em entrevistas realizadas com trabalhadores
envolvidos com o contrabando de cigarros na proximidade de Terra Roxa/
PR, esta situação descrita também foi observada. Entre as características

44
mais marcantes destacadas ao longo dos depoimentos encontram-se um
conjunto de elementos vinculados à adrenalina de estar realizando tais
atividades, que são constantemente vinculadas ao dinamismo e a
oscilação do mercado, a relação com “as autoridades”, enfim, a um
conjunto de situações que não são possíveis em ocupações comuns, com
horários pré-estabelecidos e rotinas bem definidas. Outra vez, como
destacamos em outro momento (CARDIN, 2011b), constata-se que o
trabalho nas atividades oriundas das relações comerciais com o Paraguai
exige adaptação e flexibilidade a um conjunto de situações fluidas e,
para os observadores externos, de aparência caótica.
No geral, são práticas sociais que vão lentamente se tornando
tradicionais, enquadradas no interior de tantas outras que são feitas muito
antes das fronteiras serem demarcadas legalmente pelos Estados
Nacionais. Embora os limites jurídicos entre os países se configurem
como obstáculos para as normatizações econômicas e políticas de um
país, que restringe sua intervenção ao seu território pré-determinado, a
circulação de pessoas e capitais simplesmente tende a desconsiderar tais
restrições. Em um universo de pouco controle estatal, a fiscalização e a
repressão das práticas populares fronteiriças tende a se fortalecer e a se
naturalizar em tais ambientes, produzindo gradativamente uma suposta
cultura do contrabando (GODINHO, 2009).
Godinho (2009, p. 31) destaca que “em toda etnografia acerca de
fronteiras se encontram referências ao contrabando, já que as fronteiras
delimitadas como linhas a partir do século XIX, se destinam a obstar à
passagem de mercadorias duma entidade política para outra”. Neste
sentido, são comuns as descrições dos roteiros, dos conflitos entre
legalidade e ilegalidade e também das experiências dos sujeitos inseridos
nestes circuitos. “O contrabando integra um conjunto de atividades
quotidianas que geram solidariedade de grupo e cumplicidade colectivas
que protegem face às ameaças exteriores (...). Mantendo um nível micro-
social das relações localizadas, os habitantes da fronteira dispuseram de
um recurso acrescido para conseguir vantagens na relação com os estados
centrais” (GODINHO, 2009, p. 32).
Dentro de uma perspectiva semelhante, mas em outro contexto
espacial e temporal, lembramos que o processo de povoamento do oeste
paranaense foi promovido durante o século XIX por meio de empresas

45
argentinas que, aproveitando-se da falta de fiscalização e controle do
governo paraguaio, brasileiro e também argentino, exploravam os
recursos naturais abundantes em toda região de fronteira, independente
de sua margem e da nacionalidade da força de trabalho empregada
(CATTA, 2002). Tais práticas, embora tenham sido interrompidas durante
o Estado Novo, deixou de herança caminhos e práticas mantidas até os
dias atuais. Ao longo de parte significativa do século XX, as “picadas” e
os portos construídos para o transporte de madeira e erva mate começaram
a ser utilizados para a passagem do café (LEMES, 2012) e mais
recentemente uma estrutura similar é utilizada no contrabando de drogas,
armas e mercadorias compradas no Paraguai (BATTISTI, 2009;
CARDIN, 2011a).
Em resumo, aquilo que entendemos por contrabando constitui-se
como um elemento histórico e determinante na formação de uma ampla
região, estando presente e arraigado nos hábitos locais e nos modos de
viver, permitindo o nascimento de inúmeras investigações sobre a possível
existência de uma cultura de contrabando na faixa de fronteira do Brasil
com os demais países da América do Sul. Contudo, acreditamos que o
problema seja um pouco mais amplo e complexo, exigindo o
desenvolvimento de um olhar teórico e metodológico especifico sobre
tais conjunturas. Neste sentido, o objetivo deste texto é propor uma
abordagem ou uma leitura para as regiões de fronteira que considere sua
historicidade e totalidade, contribuindo para a construção de uma matriz
capaz de iluminar a realidade e as suas especificidades regionais.
As discussões que aqui apresentamos não são conclusões de um
estudo empírico em específico, mas reflexões oriundas de uma relação
produtiva com o campo de pesquisa, mais especificamente com a fronteira
do Brasil com o Paraguai. O intuito é lançar algumas ideias iniciais, que
ainda encontra-se em processo de amadurecimento em espaços de
construção coletiva, para fundamentar conceitos e abordagens que sejam
mais próximos da realidade social que investigamos há quase uma década.
Durante todo este período, uma conclusão é possível de ser feita, as
práticas sociais dos moradores das regiões fronteiriças são sustentadas
pelo sentido atribuído ao outro lado da fronteira e isso, por mais simples
que pareça, tem um significado que é mais abrangente do que as restrições
jurídicas das ações e dos limites em tais regiões.

46
Sem embargo, considero que o uso do termo cultura de contrabando
pode ser inadequado ou incompleto dependendo do olhar atribuído à
fronteira ou as fronteiras. Como afirmamos brevemente, o fluxo
transfronteiriço ocorria antes da existência do controle legal dos limites
e também durante o período em que a lei não é devidamente aplicada,
configurando-se como uma prática tradicional. Sendo o termo
contrabando de origem essencialmente jurídica, ele sobrepõe práticas
anteriormente realizadas e, muitas vezes, as criminaliza. Neste ponto,
caberia aqui todo um debate referente aos processos de normatização
dos modos de viver durante o processo de construção do Estado Nacional,
mas, que devido os objetivos deste texto, não podem ser desenvolvidos
adequadamente e com a profundidade que merecem.
Autores como Kowarick (1994), Chalhoub (1999) e Carvalho
(1998), em seus estudos sobre a formação da força de trabalho assalariada
no país, assim como da construção de uma cultura republicana no Brasil,
problematizam os conflitos entre os projetos societários das frações de
classe dominante e as práticas sociais ou os modos de viver da população
nacional durante as tentativas de normatização de condutas e a criação
de hábitos supostamente correspondentes a uma nação capitalista. A
tentativa de controle dos fluxos transfronteiriços pode ser entendida
dentro desta perspectiva, ou seja, como um esforço de disciplinar as
posturas socialmente aceitas em um contexto de fronteira. Semelhante
às situações descritas pelos autores indicados anteriormente, nas regiões
de fronteira visualizam-se o choque entre as práticas tradicionais das
comunidades fronteiriças e as regulamentações impostas pelos governos
dos respectivos países limítrofes.
Deste modo, considero que a cultura do contrabando encontra-se
no interior de uma cultura de fronteira, mas sem corresponder
imediatamente a ela ou ser diretamente um sinônimo dela, pois esta tende
a ser muito mais ampla e envolvente. A cultura de fronteira pode ser
entendida como um universo cosmológico produzido pela intersecção
de diferentes dimensões sociais existentes e plasmada durante os diversos
processos históricos que formatam as conjunturas das fronteiras. Neste
sentido, o contrabando ou o descaminho seriam apenas alguns dos
elementos resultantes do encontro de um conjunto de variáveis que
determinariam as configurações destes espaços. Segundo Godinho:

47
O reconhecimento do contrabando como uma ocupação central
dos habitantes raianos permite compreender a forma fluida da
noção de espaço econômico nacional que opera nos limites
territoriais entre dois Estados. Assim se explica a dupla percepção
do contrabando, para os que o fazem e para os que têm por missão
controla-lo. Para ser entendido em sua plenitude, o contrabando
exige um enquadramento nos modos de vida das povoações da
raia e, a um nível microscópico, nas estratégias de sobrevivência
dos núcleos domésticos. Compreender o fenômeno é entender as
razões que, para os indivíduos inseridos num modo de vida local,
explicam o envolvimento numa tão perigosa e desgastante
atividade, exigindo uma abordagem das formas econômicas, das
relações sociais e das construções culturais aldeãs (Godinho, 2009,
p. 44).

Paula Godinho chama atenção para um fator fundamental. Embora


o contrabando faça parte da história fronteiriça, estando amarrado as
tradições e a própria cultura da fronteira, ele não é suficiente para o
entendimento de todo o universo composto pela confluência dos limites
internacionais entre os países. Como a autora explicita, para o seu
entendimento é preciso inseri-lo no interior dos modos de vida da
comunidade estudada e investigar as razões que encorajam os diferentes
sujeitos sociais a desenvolvem tais práticas, mesmo carregadas de
inúmeras adversidades. Neste sentido, ela salienta a importância de
observamos como o contrabando perpassa pelas dimensões da vida social
expressas nas relações econômicas, sociais e culturais manifestadas no
universo pesquisado.
Assim, torna-se importante que a definição das dimensões sociais
tenha como intuito dar conta simultaneamente dos dinamismos das
fronteiras e dos próprios obstáculos existentes para o desenvolvimento
das práticas sociais. De maneira geral, estas são definidas pelas relações
dialéticas e constantes entre as experiências acumuladas pelos sujeitos
sociais e as diferentes conjunturas onde eles atuam. Deste modo, o
entendimento dos contornos que a fronteira vai desenvolvendo durante
os processos de expansão do modo de produção é um exercício
fundamental quando se tem o objetivo de entender o funcionamento, a

48
estrutura ou o cotidiano de tais realidades, pois são eles que configuram
e delimitam o espaço onde as relações sociais são efetivadas.
A dimensão social está sendo entendida aqui como uma categoria
sociológica construída pelo exercício de suspensão da cotidianidade por
parte do pesquisador, visando garantir um afastamento metodológico
para uma posterior análise das diversas camadas ou esferas da vida social
que compõem a realidade, fomentando a elaboração posterior de
tipologias. Em outras palavras, quando observamos os movimentos e as
particularidades das fronteiras estamos visualizando de uma maneira
amorfa a cultura de fronteira ou, como definiria Kosik (2002), a
pseudoconcreticidade. Esta cultura é composta por inúmeras dimensões
sociais que não são visualizadas de maneira pura imediatamente, mas
contaminadas por suas diversas possibilidades de existência.
Segundo Kosik (2002, p. 15), o mundo da pseudoconcreticidade é
composto: 1) pelos fenômenos externos que ocorrem na superfície dos
processos realmente essenciais; 2) pelo mundo do tráfico e da
manipulação, ou seja, da práxis fetichizada dos homens; 3) pelo mundo
das representações comuns, que são projeções dos fenômenos externos
na consciência dos homens e, por fim; 4) pelo mundo dos objetos fixados,
que dão a impressão de serem condições naturais e não são imediatamente
reconhecíveis como resultados da atividade social dos homens. Em
síntese, aquilo que é imediatamente observável corresponde a
manifestações de fenômenos sociais, econômicos e políticos mais
profundos, que precisam ser apreendidos por uma noção mais aguda de
totalidade.
Neste sentido, Vázquez (2007) chama a atenção para os cuidados
necessários no processo de compreensão da realidade social. Ao longo
do desenvolvimento histórico das Ciências Sociais visualiza-se um
movimento pendular. Em um primeiro momento existe a tentativa de
entender o mundo pela valorização da pseudoconcreticidade, do mundo
vivido pelos trabalhadores. Nesta abordagem, a ciência assume o papel
de divulgadora das posições de classe. Por outro lado, visando superar
esta abordagem empirista, surgem autores idealistas, fundados nos
pressupostos de autores como Kant e Hegel. Assim, observa-se a
radicalização das discussões para outra situação, estabelecendo o
antagonismo entre empiristas e idealistas. O que precisamos fazer é a

49
superação destas duas abordagens por meio do estudo da práxis social.
No esforço de desconstruir a realidade social observada de maneira
imediata para, em um segundo momento, reconstruí-la mediada por
conceitos sociológicos (KOSIK, 2002), o pesquisador precisa promover
aquilo que Heller (1991) recomenda como suspensão do cotidiano, o
que corresponde ao esforço de se afastar do aparente caos e alienação da
realidade vivida na cotidianidade para problematizar de forma mais
aprofundada os diferentes elementos ou dimensões, como estamos aqui
definindo, que formatam a vida social. Afastados, dentro dos limites
sociais e ontológicos existentes, o pesquisador separa, elabora e define
as diversas dimensões sociais presentes em uma mesma totalidade, sem
negar ou desconsiderar o impacto que suas articulações promovem na
definição das fronteiras.
Para tanto, este constructo intelectual guarda em si as características
de ser: 1) esponjoso ao absorver de modo incontrolável as experiências
e os movimentos sociais; 2) sociometabólico por se modificar
historicamente e responder aos diferentes elementos que vão sendo
englobados durante o seu próprio dinamismo e; 3) flexível, se esticando,
alargando e se aproximando das outras dimensões, conforme a conjuntura
fronteiriça vai sendo construída historicamente. Tal característica
funcional e estética tem o intuito de demonstrar que as aparentes
contradições existentes entre pontos supostamente antagônicos, por
estarem dentro de uma mesma dimensão fazem parte de uma mesma
totalidade. A situação de oposição é espacial e temporal, portanto,
histórica.
Se fosse possível representar de outra maneira as dimensões sociais
do modo que estamos apresentando, poderíamos pensar que elas possuem
o formado de “elipses”, tendo, desta forma, pontos extremos que são
mais distantes do que outros, estando aparente e momentaneamente em
situação de oposição (pontos B e D, por exemplo). Ainda dentro de uma
perspectiva metafórica, pensamos que estas “elipses” são constituídas
por uma substancia gelatinosa, que pode ser esticada, puxada, entortada,
ao mesmo tempo em que ela vai crescendo ao absorver tudo aquilo que
está ao seu redor. Este aspecto referente à sua textura e consistência
busca expressar a ideia de que ela não é sólida, cristalizada, imutável,
mas altamente flexível e com grande capacidade de adaptação e

50
readaptação às transformações sócio históricas que ocorrem no seu
entorno.

DIMENSÃO SOCIAL

O desenho da “elipse” exposto acima possui quatro letras que


identificam os polos da figura geométrica. Os polos A e C estão mais
próximos quando comparados ao B e D, desta forma, estes últimos
poderiam sinalizar uma oposição maior quando comparados aos
anteriores ou, em outras palavras, eles permitiram denunciar um suposto
antagonismo entre elementos existentes dentro de uma mesma dimensão
social. Todavia, esta formatação é temporal, se modificando por meio
dos conflitos e articulações ocorridos na cultura da fronteira. Em um
momento, a distância entre B e D pode ser ampliada, aproximando ainda
mais A e C, mas em outro, pode ocorrer o inverso, a aproximação de B e
D e o afastamento de A e C. Estas modificações vão ocorrendo durante o
processo histórico, conforme a substância que compõem a “elipse” vai
absorvendo ou se alimentando das experiências sociais e modificando,
flexibilizando seus limites, permitindo, por exemplo, que mesmo
mantendo a ordem das letras expostas anteriormente, a “elipse” fique
esticada ao ponto de criar um “abismo” entre B e D, mas permitindo que
D faça uma curva tão acentuada que o aproxime externamente ao ponto
A.
Em outro momento, centrados na dimensão econômica tributária
da fronteira do Brasil com o Paraguai, observamos que a aduana brasileira
funcionava como uma válvula de controle dos fluxos de mercadorias e

51
capitais que entravam no território brasileiro durante a década de 1990 e
começo dos anos 2000 (Cardin, 2011b). Neste contexto, as ações
orquestradas pela Receita e pela Polícia Federal dependiam diretamente
da aproximação do Estado Brasileiro em relação aos outros sujeitos
sociais envolvidos com a questão e, consequentemente, do afastamento
em relação aos interesses de outros sujeitos. Assim, podemos pensar o
Estado como o ponto A, os trabalhadores do circuito sacoleiro como o
ponto B, as indústrias brasileiras como o ponto C e o mercado de Ciudad
del Este como o ponto D.
A aproximação do ponto A (Estado) a outro sujeito inserido na
dimensão econômica tributária analisada, afasta os demais polos do
controle da questão ao dificultar a articulação entre os mesmos. Neste
sentido, quando o governo brasileiro atende os interesses da indústria
nacional aumentando o controle na ponte que liga o Brasil ao Paraguai,
a elipse aproxima o ponto A do ponto C e afasta na mesma proporção os
interesses dos trabalhadores e do mercado paraguaio. Tal movimento é
comum próximo às datas festivas (dia dos pais, mães, crianças e natal),
quando aumenta de forma significativa as compras em Ciudad del Este.
Por outro lado, quando o governo brasileiro não age de maneira ostensiva
na fronteira, o ponto A se distância do ponto C, ocorrendo uma
aproximação de B e D. Neste contexto, o esforço na construção de
políticas públicas é fazer com que a “elipse” adquira o máximo possível
o aspecto “circular”, onde a distância entre os pontos se torna equivalente.
No entanto, a cultura de fronteira é composta simultaneamente
por inúmeras dimensões sociais com este formato elíptico, como “anéis”
em movimento que envolve uma única “esfera” ou uma mesma realidade.
Cada um dos “anéis” representa uma dimensão da vida social que, para
fins analíticos, é separado, suspendido da cotidianidade, e definido como
uma tipologia. Porém, não nos atrevemos a defini-lo como um tipo ideal
puro no sentido weberiano, pois acreditamos que as dimensões ou os
“anéis” só podem ser compreendidos de maneira conjunta e processual.
Embora o esforço seja no sentido de separar as diversas dimensões sociais
esta tarefa apenas reforça a ideia que a “elipse” se contorce de inúmeras
formas, criando infinitos pontos de intersecção entre as diversas
dimensões.
Embora possamos ter um objeto de pesquisa isolado e

52
metodologicamente bem definido, as pesquisas empíricas, principalmente
aquelas de maior caráter antropológico, vêm demonstrando a
impossibilidade de se pensar e enxergar as realidades de fronteiras de
maneira linear e harmônica. Albuquerque (2010), por exemplo, ao tentar
se concentrar no estudo da construção da identidade dos supostos
“brasiguaios”, vai lentamente apresentando e discutindo o fato de tal
processo histórico não ser exclusivamente cultural ou psicológico, mas
um fenômeno que envolve um conjunto de jogos que ocorrem no interior
das dimensões políticas e econômicas, dando um caráter vivo às fronteiras
(sociometabólico), que ele define como fronteiras em movimento.
O estudo realizado por Albuquerque (2010, p. 18) concentra-se
“nas disputas de identidades e nas representações nacionais que são
construídas pelos imigrantes e pelos paraguaios no contexto dos atuais
conflitos pela propriedade da terra, pela defesa do meio ambiente e do
território nacional” do Paraguai. Para tanto, ele parte do pressuposto que
“as fronteiras são fenômenos sociais, plurais e dinâmicos” e,
especificamente no caso da imigração brasileira no Paraguai, “produz
uma pluralidade de fronteiras (políticas, jurídicas, econômicas, culturais
e simbólicas) em relação à sociedade paraguaia. Essas fronteiras não são
estáticas, mas estão em constante movimento de redefinição e
negociação” (ALBUQUERQUE, 2010, p. 42).
A prática investigativa revela um conjunto de dimensões sociais
que precisam ser mais bem definidas e compreendidas, exigindo a
melhoria qualitativa e quantitativa das pesquisas de campo nos universos
de interesse de modo constante e interrupto. Os estudos já desenvolvidos
pelos pesquisadores que hoje se encontram espalhados por todo território
nacional permitem constatarmos a presença das dimensões: a) histórica,
onde se encontra as disputas na definição e na preservação da memória;
b) política, com os conflitos e articulações para o exercício do poder; c)
econômica tributária, com o impacto do mercado e das leis que o regem
na definição da vida social; d) jurídica, no esforço de normatização e
regulamentação das práticas sociais; e) cultural, envolvendo um amplo
universo de tradições e manifestações artísticas; f) religioso, observando
o papel dos hibridismos, dos processos de conversão, expansão e
institucionalização de novas religiões; g) por fim, a humana, englobando
os debates sobre direitos humanos, violência e segurança pública nas

53
regiões de fronteira.
Embora possam parecer envolventes e amplas de maneira suficiente
a atender as mais diferentes possibilidades investigativas, é evidentemente
que estas dimensões não correspondem a todo universo existente. As
dimensões são construídas pelo pesquisador atendendo exigências do
seu problema de pesquisa e alimentado pelas informações recolhidas
durante os estudos de campo. Logo, as dimensões, como a sua própria
estrutura elíptica, também podem ser ampliadas e esticadas para atender
realidades mais amplas ou mais específicas, conforme as necessidades
que a investigação apresenta. O que não podemos deixar de observar é
que todas estas dimensões coexistem, girando ao redor de uma mesma
realidade, como anéis que envolvem uma esfera, compondo uma
totalidade, que seria a cultura de fronteira.
Ainda que esta pressuponha a noção de totalidade, pois ela nada
mais é que um arranjo das diversas dimensões sociais possíveis em um
contexto determinado, os sujeitos sociais não a vivenciam de forma plena
ou integral. Eles agem por meio de práticas sociais, que aqui são
entendidas ou definidas como pontos ou ações fundamentadas pela
intersecção das experiências particulares e a conjuntura social do local
onde eles estão inseridos. Sendo as práticas sustentadas por experiências,
visualiza-se o predomínio de dimensões sociais especificas que, por
diferentes motivos, foram mais determinantes nas trajetórias de vida do
sujeito. Contudo, isso não quer dizer que o sujeito ao agir isola as demais
dimensões que interferem em suas práticas, ele não as reconhece e as
vivenciam de forma desorganizada e obscura, ou, como afirma Heller
(1991), de forma alienada.
Assim, a cultura de fronteira não se manifesta de forma plena em
uma mesma unidade temporal e espacial, mas de maneira confusa e
amorfa. Logo, observando as regiões de fronteira, visualiza-se um imenso
degrade tingido pelas variações na determinação das cores/trajetórias ou
pela falta de hegemonia em determinada dimensão social elíptica. É isto
que fornece em alguns contextos de fronteira um aspecto caótico. Neste
sentido, a hegemonia, o predomínio ou o domínio de uma dimensão
especifica em uma determinada cultura de fronteira pode transmitir uma
sensação de ordem, de uniformidade. Neste ponto estamos indo ao
encontro das abordagens de Gramsci (2007) e do próprio Bourdieu (2001),

54
principalmente naquilo que se refere à disputa de posições no processo
de construção da hegemonia e a importância da acumulação de capital
na organização dos campos simbólicos respectivamente.
Os pontos de intersecção ou de fronteiras entre as diferentes
dimensões sociais correspondem a locais de negociação, de conflito e
de acordos. É o momento ou o ponto do choque de interesses e/ou de
projetos societários, que é resolvido ou decidido temporariamente pelo
capital acumulado pelos sujeitos envolvidos ou, na definição de Bourdieu
(2001), dos agentes sociais que disputam posição no interior de um
mesmo campo. É neste momento que a hegemonia é definida e os
aparelhos estatais e instituições sociais se colocam de forma determinante,
garantindo ou tentando garantir a vitória dos projetos defendidos pelas
frações da classe dominante. Os grupos sociais possuidores da maior
quantia de capital acumulado (econômico, político ou cultural) tendem
a estabelecer as melhores e as maiores articulações garantindo o
predomínio de suas posições no interior das dimensões sociais que se
encontram em disputa.
A cultura do contrabando seria um ponto de encontro e conflito de
diferentes dimensões sociais, onde a econômica tributária predomina.
Como discutimos anteriormente, o fluxo de pessoas e mercadorias nas
regiões de fronteira são anteriores ao processo de normatização e
regulamentação das práticas de contrabando, por isso elas podem ser
consideradas tradicionais e, até mesmo culturais. No entanto, uma prática
que poderia ser entendida por meio de um estudo aprofundado da
dimensão cultural, fica esfumaçada se desconsiderarmos que a dimensão
histórica, ao concentrar as disputas para guardar uma memória oficial
sobre as práticas, e a dimensão econômica tributária, presente no esforço
estatal em controlar a fuga de divisas e proteger a industrial nacional,
são fundamentais no entendimento do fenômeno na contemporaneidade.
É notório o processo de criminalização dos processos de circulação
de mercadorias na fronteira do Brasil com o Paraguai no começo do
Século XXI. Durante muitos anos a economia de toda região de
confluência dos limites do Brasil, Argentina e Paraguai dependia
diretamente do mercado existente no microcentro de Ciudad del Este.
Em outro momento (Cardin, 2011b), destacamos as transformações do
circuito sacoleiro de 1970 até os dias atuais e salientamos que parte

55
significativa das mudanças foi derivada das mudanças nos setores
produtivos e nas demandas de bens materiais específicos, mas também
das configurações adquiridas pelos modelos politico e econômico
adotados pelos países, que respingava diretamente na forma que os
aparelhos estatais intervinham nas fronteiras.
Neste sentido, é possível visualizar a intervenção diferenciada do
governo brasileiro durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso em
relação às políticas adotadas por Luís Inácio Lula da Silva. A gestão do
PSDB, de forte caráter neoliberal, não exercia muito controle aduaneiro,
permitindo uma grande circulação de pessoas e mercadorias na Ponte da
Amizade durante toda década de 1990 – momento de maior
movimentação financeira na região. Por outro lado, a gestão do PT,
marcada por uma presença mais intensa do Estado nas diferentes
dimensões da vida social, estabeleceu uma politica de controle e
fiscalização muito mais rigorosa do que aquela que era adotada até então.
No entanto, tal política petista não correspondia a uma única ação, mas
a um conjunto de medidas integradas.
O fortalecimento e o aumento no controle e na fiscalização nas
aduanas – inclusive com a construção de novas estruturas – ocorreu de
forma simultânea à aplicação de políticas sociais de renda mínima, de
escolarização e de qualificação, que visavam diminuir a vulnerabilidade
de uma grande parcela da população que encontrava no circuito sacoleiro
possibilidades concretas de subsistência. Não suficiente, acompanhando
tais políticas públicas, foram desenvolvidas um conjunto de operações
policiais no sentido de desmantelar qualquer tentativa de organização e
manutenção da população por meios diferentes daqueles aceitos pelo
mercado, onde os grupos diretamente vinculados à compra, transporte e
revenda de mercadorias disponibilizadas no Paraguai foram tratados da
mesma maneira que traficantes de drogas e armas, rotulados e
criminalizados indistintamente.
Uma prática tradicional, anterior à presença efetiva do Estado
e dos seus mecanismos de controle, desenvolvida durante muito tempo
sem nenhum tipo de restrição por “laranjas” brasileiros e paseros
paraguaios e argentinos, por homens, mulheres e crianças que, como
pequenas formigas, carregavam sobre suas costas pequenas quantidades
de mercadorias com intuito de revender e garantir uma renda mínima,

56
foi gradativamente cercada e coibida. Na vida cotidiana a população
fronteiriça tenta fugir das rotulações midiáticas e jurídicas ao criar
fronteiras para separar aquele que passa contrabando daquele que
transporta pequenos valores ou, como os interlocutores falavam durante
as conversas que estabelecemos, daqueles que transportam “apenas
algumas coisinhas”.
As práticas sociais e experiências presentes nos modos de
viver tradicionais da população local ou, como definiria Bourdieu, o
capital social acumulado pelos moradores das fronteiras que fazem parte
da dimensão cultural, gradativamente vai perdendo espaço pelo processo
de legitimação de usos e costumes normatizados pelo Estado Nação.
Este processo, visualizado em um conjunto de ações políticas indicadas
anteriormente, busca fazer com que a dimensão política e a dimensão
econômica tributária prevaleçam, moldando as práticas aceitas e
limitando as possibilidades de ação dos sujeitos. Em outros termos, o
Estado utiliza de seus diversos instrumentos para diminuir os espaços,
as brechas, onde os indivíduos poderiam exercer suas individualidades
ou reproduzir algumas tradições.
No Brasil o processo de interiorização do capitalismo no
país ocorre em uma época onde as fronteiras do legal e do ilegal não são
claras, da mesma forma que as definições jurídicas de limites. Assim, as
dimensões política e humana não são muito consideradas, sendo
constantemente violadas devido ao predomínio da dimensão econômica.
Desta forma, o momento de ampliação da acumulação de capital por
meio da exploração intensiva do meio ambiente e dos próprios
trabalhadores é marcado pelo descaso com o homem. Tal situação
demonstra a correlação entre as dimensões e demonstra a importância
de observarmos os arranjos elaborados no desenvolvimento da cultura
de fronteira. As observações feitas por Martins (2009) sobre as frentes
pioneiras e as de expansão são exemplares.
Em um segundo momento, quando o capitalismo já se encontra
inserido em todo território e vivencia seu momento de consolidação,
outras dimensões são visualizadas com maior força. Agora, as dimensões
política e jurídica predominam, normatizando o funcionamento das
demais dimensões no sentido de garantir a manutenção e a expansão do
modelo econômico. Em outras palavras, como destacaria Max Weber

57
(2000), o avanço destas áreas sociais representa à cristalização do domínio
burocrático, onde o controle sobre o outro não ocorre pela violência física,
mas pela delimitação legal do comportamento, com a consequente
regulamentação das relações sociais.
Para finalizar estas considerações teóricas e metodológicas,
no esforço de sistematizar e organizar um olhar que já vem sendo
apontando em estudos de caráter mais empírico vale destacar que o
predomínio de uma dimensão não exclui a resistência das demais. É
preciso observar sempre que as fronteiras são dinâmicas, fluidas,
construídas por conflitos e diferenças, estando sempre se adaptando e se
formatando a novas situações. Logo, as hegemonias são frequentemente
desafiadas, exigindo respostas diretas e indiretas no intuito de manter
sua ordem. Por tudo isso, compreender as fronteiras como um todo não
é um exercício fácil, mas é aquele que permite a elaboração de
conhecimentos mais significativos.

NOTAS EXPLICATIVAS

1
Este capítulo é um aprofundamento das discussões apresentadas no artigo “Para Pensar as Fronteiras:
Apontamentos Iniciais para a Construção de Uma Teoria das Fronteiras” apresentado e discutido no III
Seminário Nacional de Geografia Política, ocorrido em Manaus/AM em Maio de 2013.

2
Doutor em Sociologia. Professor do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais
da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Contato: eric_cardin@hotmail.com

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Contemporaneidade: diálogos historiográficos. Cascavel: EDUNIOESTE, 2011a.

58
______. A Expansão do Capital e as Dinâmicas da Fronteira. Tese (Doutorado em Sociologia).
Araraquara: UNESP, 2011b.
______. Laranjas e Sacoleiros na Tríplice Fronteira: um estudo da
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In: FREIRE, D.; ROVISCO, E.; FONSECA, I. (orgs). Contrabando na Fronteira Luso-
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WEBER, Max. Economia e Sociedade, vol. 01. Brasília: UNB, 2000.

59
60
FRONTEIRAS: ENTRE OS CAMINHOS DA
OBSERVAÇÃO E OS LABIRINTOS DA
INTERPRETAÇÃO

José Lindomar C. Albuquerque1

INTRODUÇÃO

As possibilidades de estudos empíricos e os diálogos com diferentes


teorias nas zonas fronteiriças são múltiplos. Trata-se de um campo de
estudo em formação e que permite uma grande abertura de leituras,
pesquisa, imaginação sociológica e criatividade. Gostaria de destacar
uma perspectiva de reflexão sobre as fronteiras, um olhar para as pessoas
que vivem e transitam entre territórios nacionais e que constroem infínitas
situações fronteiriças. Algumas reflexões metodológicas e teóricas, que
pretendo desenvolver ao longo do texto, têm como referência os meus
estudos específicos sobre os denominados “brasiguaios” (imigrantes e
descendentes de brasileiros que vivem ou viveram no Paraguai)
(ALBUQUERQUE, 2010a) e o diálogo frutífero com outros
pesquisadores que realizaram e realizam trabalhos de campo nas cidades
da tríplice fronteira entre o Brasil, Argentina e Paraguai (Puerto Iguazu,
Foz do Iguaçu e Ciudad del Este) (MACAGNO; GIMENEZ BÉLIVEAU;
MONTENEGRO, 2011).
Os territórios entre os limites dos Estados nacionais modernos
aguçam a nossa imaginação desde o início de nossos trabalhos de campo
nessa região fronteiriça, especialmente para aqueles pesquisadores que

61
vem de outros lugares. A precisão desses limites políticos inscritos na
paisagem por meio de marcos, símbolos e linhas divisórias passa a
impressão de territórios claramente delimitados e demarcados e, muitas
vezes, naturalizados. Especialmente nas denominadas “fronteiras secas”
entre os países, podemos facilmente colocar um pé em um país e o outro
no Estado nacional vizinho. Em um único passo podemos atravessar os
limites entre o cidadão e o estrangeiro ou entre o crime cometido de um
lado do limite internacional e a fuga impune do outro lado. O que gostaria
inicialmente de destacar é a força do poder jurídico, político e simbólico
no traçado dos limites territoriais. A capacidade humana de produzir
descontinuidade em um espaço contínuo. Em um texto sobre a fronteira
luso-espanhola, há a descrição, com certa ironia e graça, de uma sentada
do pesquisador em um marco que divide o território entre Espanha e
Portugal:

A gente pode simultaneamente por um pé na Espanha e outro em


Portugal. A gente pode se sentar, como eu tive a oportunidade de
fazer, no marco 695 (…). Neste marco, nós podemos aposentar e
repartir simultânea e respeitosamente a bunda entre dois Estados
nacionais, duas províncias, um distrito e três limites municipais.
Excessivas fronteiras, me parece, para uma mesma sentada
(Uriarte, 1994 apud Valcuende, 1998, p. 112)2

O território não é algo natural e neutro. Há muitos traçados e


divisões políticas sobre um mesmo território. Território é poder e as
fronteiras nacionais representam a história e o poder dos Estados e dos
grupos sociais no processo de delimitação dos territórios nacionais. Os
limites internacionais são a história inscrita no espaço geográfico, repleta
de conflitos, forças, negociações e formas de cooperação (Raffestin, 1986;
Foucher, 2009). Dessa forma, todo pesquisador das ciências sociais que
se debruça sobre os estudos empíricos nas áreas fronteiriças necessita
estar bem atento para desnaturalizar permanentemente as fronteiras,
mostrando suas histórias, suas disputas e rasuras questionando as
classificações estatais e midiáticas.
O que significa, para muitos antropólogos e sociólogos, o
movimento permanente e incessante de estranhar o familiar e se
familiarizar com o estranho (VELHO, 1978; DA MATTA, 1978;1981).

62
Por um lado, estranhar e problematizar, isto é, por em suspensa nação, a
língua nacional, a região, a fronteira, as identidades e todos esses termos
facilmente essencializados em nossos discursos cotidianos. Por outro
lado, aproximar-se, tornar familiar tudo aquilo que se apresenta a primeira
vista como estranho, esquisito, diferente, repugnante, e geralmente
localizado do “outro lado da fronteira”: a nação vizinha, suas diferenças
regionais, suas línguas nacionais, seus valores e costumes, em suma, a
alteridade e o esforço antropológico de abertura hermenêutica para o
outro.
Esse percurso entre estranhamentos e familiaridades em uma área
de fronteira internacional permite construir diálogos com pesquisadores
dos países limítrofes, com pessoas que vivem e ganham a vida na fronteira
e com nossas próprias experiências pessoais, advindas de viagens,
migrações e de (des)encontros com os “outros”. Tudo isso favorece pensar
sobre novos caminhos metodológicos e interpretativos para as movediças
realidades fronteiriças.

OS CAMINHOS DE OBSERVAÇÃO DA REALIDADE


FRONTEIRIÇA

A fronteira nacional não é uma realidade homogênea e no singular.


É um fenômeno heterogêneo, plural, paradoxal e dinâmico e que exige
rigor e sutileza em seu estudo científico. É relevante, portanto, pensarmos
em uma perspectiva de abordagem metodológica capaz de aproximarmos
simultaneamente de diferentes fronteiras nacionais, sociais e simbólicas,
tendo como foco principal as populações que vivem e transitam nesses
lugares fronteiriços. Uma abordagem que seja capaz de apreender
processos econômicos, políticos e jurídicos, mas que especialmente
aprofunde a dimensão social, cultural e simbólica.
Nessa perspectiva metodológica, podemos traçar, em forma de
esboço, alguns caminhos de observação percorridos e a serem construídos
por vários pesquisadores que investigam as fronteiras nacionais entre o
Brasil e os países vizinhos. Claro que algumas dessas considerações
podem valer também para outras realidades fronteiriças. Esses caminhos,
numa perspectiva sociológica, pressupõem algumas aproximações e

63
diálogos metodológicos com a antropologia, a semiótica e a história.
Gostaria de destacar primeiramente a importância de um maior
diálogo metodológico e teórico entre a sociologia e a antropologia nos
estudos das fronteiras nacionais. No campo da antropologia, já há uma
razoável discussão sobre a antropologia das fronteiras (TOLOSANA,
2003; DONNAN & WILSON, 1999) e sobre as etnografias realizadas
em regiões de fronteiras internacionais (VILA, 2003).
A experiência desses trabalhos de campo, situados especialmente
na fronteira Estados Unidos-México e entre países europeus, tem
destacado a relevância da observação das interações, práticas sociais,
experiências individuais e representações coletivas que ocorrem no
cotidiano das populações fronteiriças. Essas interações e representações
sociais se entrelaçam e entram em tensão com os discursos, ações e
imaginários de outros agentes e instituições sociais (empresas nacionais
e internacionais, governos centrais, estaduais e municipais, igrejas,
imprensa, polícias, sistema educacional, entre outros) que estão situados
nessas zonas fronteiriças ou localizados nos centros do poder do Estado
nacional.
O que considero relevante é a prática da pesquisa etnográfica capaz
de pensar o micro e o macro, o local e o global e as múltiplas teias de
relações e intersecções sociais que acontecem na prática social dos
sujeitos que vivem, cruzam e produzem aproximações, separações e
distanciamentos entre os limites das nações.
Na observação dessa realidade heterogênea e múltipla, considero
relevante a prática da pesquisa por meio das etnografias multissituadas
(MARCUS, 1995), realizadas de um lado e outro do limite político e
com múltiplos cruzamentos e fluxos de pessoas, coisas, signos e narrativas
que possibilitam cruzamentos de dados e de perspectivas de análise. Nas
palavras de George Marcus, o etnógrafo pode seguir as pessoas, as coisas,
os enredos, as metáforas e os conflitos, priorizando os caminhos,
percursos, trajetos, conexões de experiências sociais que acontecem nas
regiões fronteiriças. Uma etnografia multissituada pode favorecer a
compreensão do entrelaçamento entre as fronteiras visíveis, narradas e
experienciadas pelas pessoas que vivem, cruzam e comercializam nas
fronteiras territoriais.
Essas pesquisas podem ser bastante promissoras se realizadas por

64
equipes de pesquisadores dos países envolvidos, investigadores de outros
lugares e com experiências em outras situações fronteiriças, bem como
estudiosos dessas regiões fronteiriças, onde aspectos de suas próprias
vidas se confundem com essas fronteiras, diluindo distâncias entre
sujeitos e objetos da pesquisa. Tudo isso permite novas reflexões
metodológicas das relações fronteiriças entre distante e próximo, nacional
e estrangeiro, próprio e alheio, insider/outsider, “nós” e “eles” na própria
prática da pesquisa de campo (VILA, 2003)3 e na condição fronteiriça
dos próprios investigadores.
Os caminhos de observação etnográfica das regiões de fronteiras
abrem também veredas para uma aproximação do universo dos signos e
símbolos que permeiam a vida fronteiriça. Dessa forma, acho salutar um
diálogo entre a sociologia, a antropologia e a semiótica. Pensar essa
realidade fronteiriça constantemente criada, transformada e transgredida
por meio de sinais, símbolos e códigos, é acionar os próprios sentidos de
nossa realidade sensorial entrelaçada com nossa imaginação intuitiva e
racional. Não se trata de um empirismo ingênuo e de predomínio do
sensível sobre o racional, mas de uma mobilização mediadora dos
sentidos, buscando compreender os significados multifacetados das
fronteiras.
Uma abordagem sociológica das fronteiras pressupõe uma
sociologia dos sentidos, conforme a digressão feita por Simmel no ensaio
O espaço e a sociedade (SIMMEL, 1986). A vista, ouvido, o olfato, o
paladar e o tato não são somente sentidos físicos que captam nossa
experiência sensorial no mundo, mas também possibilitam as interações
sociais, as repulsões e atrações individuais e coletivas e que modificam
a nossa sensibilidade ao longo do tempo. Uma breve reflexão sobre os
próprios sentidos talvez ajude a compreender as relações entre o
pesquisador e os entrevistados no momento da realização da pesquisa
de campo e permite observar como as pessoas utilizam seus sentidos
para agir no mundo e com o outro.
Para Simmel, o olhar é a forma de interação mais pura e mais
imediata da vida social, um processo instantâneo que se encerra com o
próprio fim do cruzamento de olhares. Olhar e ser olhado, traduzindo as
expressões do rosto do outro que guardam marcas de sua experiência de
vida, traços físicos de um passado histórico e social. A própria palavra

65
entrevista, que adquiriu um sentido mais técnico em seus múltiplos usos
em uma sociedade de ampla divisão do trabalho e do conhecimento, é
derivada de uma interação básica da vida humana, entre vistas, entre
olhares que se cruzam com palavras ou em silêncio. Em uma grande
cidade, por exemplo, uma pessoa pode passar horas frente à outra em
um meio de transporte (trem, ônibus etc.) cruzando olhares, desviando
os olhos da vista do outro e olhando para outros olhos que se cruzam
incessantemente.
Por sua vez, o ouvido é um órgão mais unilateral, está no apêndice
do rosto, geralmente é entre a fala e a escuta que se processa a interação,
mas ordinariamente com muitos ruídos, pois são órgãos independentes e
que pressupõem intervalos temporais de escuta e fala. Entretanto, o
ouvido tem uma importância fundamental na tradução da experiência
do ser humano no tempo. O ouvido permite a abertura para a história do
outro, escutar a linguagem do outro e construir uma memória social.
Olho e ouvido estão em permanente processo de complementaridade na
captação das interações sociais e são, portanto, os órgãos dos sentidos
por excelência. Olhar, ouvir e escrever já foram descritas como atividades
básicas do trabalho do etnógrafo (OLIVEIRA, 2006). Entretanto, os
outros órgãos são também mobilizados nos processos de interação e na
construção de fronteiras simbólicas entre “eu/nós” e “ele/eles”, como no
caso do olfato. Há vários exemplos de repulsões étnicas e sociais que
podem se estabelecer no campo das interações com o outro, tais como
“mau cheiro”, “cheiro de negro”, “suor de trabalhador braçal” ou “fedor”
de um mendigo (SIMMEL, 1986; WEBER, 1994) e que constroem
fronteiras e discriminações sociais. Claro que em muitas situações dos
processos de repulsões e atrações sociais, o que temos é a mobilização
de alguns sentidos no processo de demarcação de fronteiras na interação
social.
Nesse sentido, o que propomos é uma observação etnográfica por
meio da mobilização de nossos sentidos: olhares cruzados, audição atenta,
olfato e paladar apurados e tato sensível na interação que o pesquisador
estabelece entre as pessoas pesquisadas e diante dos produtos materiais
e simbólicos que estão em trânsito ou fixados na região fronteiriça.
Olhares cruzados para os vários lados de uma fronteira específica
e para as pessoas que vivem em uma região fronteiriça. O que significa,

66
por exemplo, uma observação cuidadosa das interações sociais entre
paraguaios, brasileiros, argentinos, estrangeiros de outras nacionalidades
e outros grupos sociais, assim como dos símbolos visíveis, das moedas
que circulam, das imagens televisivas e propagandas sempre renovadas
nas fronteiras de intenso comércio, como no caso da fronteira entre Foz
do Iguaçu e Ciudad del Este4. Nesse contexto, podemos observar o
movimento das pessoas e dos bens que identificam origens e destinos,
como as sacolas paraguaias listradas e pretas. Os produtos eletrônicos
chineses aparecem como made in Paraguay, vistos como sinônimos de
falsificação, e as feiras brasileiras de intenso comércio dessas mercadorias
passam a ser nomeadas de feiras paraguaias. O que em outros países são
reconhecidos como produtos chineses, a rota China-Paraguay-Brasil tem
o poder simbólico de transformar, no Brasil, os produtos chineses em
mercadorias paraguaias de qualidade duvidosa (MACHADO-
PINHEIRO, 2008). O lugar de passagem dessas mercadorias se torna
em um espaço de origem e de classificação negativa. Por outro lado, é
importante estar atento para maneira como são acionados os tradicionais
símbolos nacionais, como as cenas de queima da bandeira brasileira nos
conflitos de terra no Paraguai ou nos protestos sociais de fechamento da
fronteira.
Ouvidos atentos para escutar as línguas das fronteiras, os sons das
línguas no comércio de Ciudad del Este podem traduzir a zona de
transição entre o Brasil e o Paraguai na própria geografia do comércio
fronteiriço. Entre a Ponte da Amizade e o primeiro trevo de Ciudad del
Este, observamos as misturas da língua portuguesa, espanhola, guarani
e árabe ou chinesa em diferentes tonalidades conforme as ruas e lojas
comerciais. Há vendedores de lojas em Ciudad del Este que falam
espanhol ou guarani com os clientes paraguaios e argentinos, português
ou “portunhol” com os brasileiros e árabe com os patrões. Os quatros
idiomas podem ser manejados em uma mesma situação de compra e
venda de mercadorias. Além da situação linguística no comércio
fronteiriço, é importante também pontuar a presença das línguas de
fronteira nas cidades e colônias de imigração brasileira no Paraguai, na
programação televisiva e nas rádios e suas ondas sonoras na região de
fronteiras, além das músicas e festas que atravessam, singularizam,
subvertem e reproduzem as relações sociais nessa zona fronteiriça.

67
Olfato e paladar apurados indicam uma atenção etnográfica para
os cheiros e sabores das zonas fronteiriças, que podem ser traduzidos
culturalmente por meio das repulsões e atrações em relação às pessoas e
aquilo que bebem e comem de um lado e outro da linha de fronteira. A
alimentação fronteiriça pode ser vista como um forte demarcador de
fronteiras culturais e simbólicas que evoca desejos, gostos e memórias.
A comida na região de fronteiras pode traduzir as noções de sujeira e
limpeza, as conexões entre sabor, cheiro, saúde, limpeza e preconceito.
Tato sensível que permita desenvolver uma íntima percepção das
fronteiras invisíveis dos sujeitos invisibilizados na fronteira (os
“marginais”, “desviantes”, “excluídos” nas margens das nações –
“meninos e meninas em situação de risco”, prostitutas, drogados,
mendigos, situação de pobreza de algumas comunidades indígenas, en-
tre outros). A dimensão sensível das experiências individuais e
constrangimentos diários daqueles que são parados e ameaçados pelas
autoridades policiais, a cadeia de exploração de trabalhadores no
comércio informal constituindo diversas fronteiras sociais (CARDIN,
2006).
A mobilização dos sentidos permite perceber com mais clareza a
construção social dos limites políticos em um território demarcado por
fronteiras estatais e por tantas outras divisões sociais e simbólicas,
traduzindo em diferentes níveis as configurações sociais que constroem
polaridades entre “nós” e “eles”, tais como as noções de limpeza e sujeira,
beleza e feiura, ordem e desordem. Os sentidos podem acionar imagens,
narrativas, sons, cheiros, sabores valorados por “sacoleiros”, turistas,
trabalhadores que manifestam as representações de uma cidade suja e
descuidada do “outro lado da fronteira” e que contrasta com a organização
e limpeza do “lado de cá da fronteira”. Essas imagens e narrativas podem
ser contadas de outra forma desde o ponto de vista daqueles que vivem
“do outro lado” das fronteiras nacionais do Brasil.
Além desse diálogo com a antropologia e a semiótica, uma
observação das fronteiras pressupõe uma aproximação profícua entre a
sociologia e a história. Afinal de contas, as fronteiras geográficas das
nações “são a história inscrita no espaço” (FOUCHER, 2009, p. 27), são
ainda histórias, memórias e narrativas recordadas e esquecidas de
contextos anteriores.

68
Desse modo, a sociologia e antropologia têm trabalhado com a
pesquisa histórica principalmente para a realização: a) da
contextualização histórica dos objetos presentes, geralmente a partir de
material secundário; b) focando o processo de longa e curta duração em
períodos específicos de definição das fronteiras (fronteirização das
populações, mercados e Estado) (SAHLINS, 1989; GRIMSON, 2003);
c) abordando as temporalidades entrelaçadas nas narrativas presentes de
uma determinada fronteira, como no caso das imagens do passado
(bandeirantes, Guerra da Tríplice Aliança e Ditadura de Stroessner) nos
conflitos do presente na luta pela terra envolvendo imigrantes brasileiros
e camponeses paraguaios (ALBUQUERQUE, 2010).
Nesses trabalhos que priorizam uma abordagem histórica, os
investigadores têm pesquisado principalmente em arquivos públicos,
eclesiásticos e em jornais - locais, regionais e centrais e têm utilizado
fontes referentes a: a) documentos de época, leis, mapas históricos,
registros, jornais de época etc.; b) a produção historiográfica ao longo
da história sobre um determinado fato histórico da fronteira (guerra,
fundação de cidade, acordo de cooperação etc.), ou seja, narrativas
produzidas depois dos acontecimentos por personagens (principais ou
marginais) dessa história, por historiadores, escritores e que foram
produzidas e significadas em outros contextos históricos; c) As narrativas
atuais sobre o fato histórico específico (livros e históricos atuais, artigos,
materiais didáticos, mapas etc.)5.
Os caminhos metodológicos da observação empírica das fronteiras
nacionais são inúmeros, alguns já trabalhados com mais detalhes por
investigadores das ciências sociais vizinhas. Outros precisam ser mais
bem construídos pela própria sociologia, utilizando e aprimorando para
esse objeto específico as várias abordagens metodológicas de cunho
qualitativo e quantitativo da tradição sociológica e as técnicas de pesquisa
dos questionários, entrevistas, surveys, observação de campo etc. O que
apresentei aqui são mais possibilidades de diálogos metodológicos com
outras áreas do conhecimento, visando algumas travessias de fronteiras
disciplinares e novas formas de avanço do conhecimento nos estudos
das fronteiras nacionais.

69
OS LABIRINTOS DA INTERPRETAÇÃO

Se, por um lado, o objetivo desse ensaio é pensar novos e velhos


caminhos de observação das áreas fronteiriças, por outro lado, pretende-
se também, de uma maneira preliminar, levantar e deslocar alguns
problemas teóricos na investigação fronteiriça. Nosso objetivo é
problematizar algumas tipologias que esquematizam e aprisionam
sentidos e o caráter concreto, natural, empírico das fronteiras territoriais.
O que propomos é um deslocamento de reflexão das tipologias às
situações de fronteiras e das fronteiras territoriais concretas às metáforas
fronteiriças.
As fronteiras nacionais já foram bastante trabalhadas por meio do
uso de tipologias por parte da geografia, história, relações internacionais,
direito, ciências sociais. Essas tipologias classificam o mundo social e
estabelecem uma ordem de compreensão dessas realidades complexas.
Nessa história das classificações tipológicas, podemos recordar a divisão
entre fronteiras artificiais e naturais, terrestres, marítimas e aéreas,
fechadas e abertas, quentes e frias, políticas (Estado) e sociais (sociedade
civil), territoriais e metafóricas, além da classificação que separa por
esferas sociais: fronteiras econômicas, políticas, jurídicas, religiosas,
militares, sociais, culturais, simbólicas etc.
Essas inúmeras classificações fazem parte da história do estudo
de fronteiras e ajudam a ordenar a discussão inicial dos estudiosos.
Entretanto, considero que o avanço do conhecimento teórico das regiões
fronteiriças pressupõe uma atitude crítica diante das tipologias existentes.
Muitas dessas classificações tipológicas cristalizam sentidos e dividem
o mundo social em polaridades; a rigor não faz sentido uma divisão
entre fronteiras naturais e artificiais. Todas as fronteiras nacionais são
imaginadas, criadas pelos homens e estes depositam sentidos que um
determinado rio ou monte será a “fronteira natural” do Estado. A
classificação também entre fronteiras políticas e sociais tem suas
imprecisões. A noção de política pode ser pensada para além do Estado
nacional, já que o Estado não detém o monopólio do político na complexa
sociedade contemporânea. Neste sentido, as fronteiras entre os grupos

70
étnicos podem ser vistas também como fronteiras políticas na interface
com outros grupos sociais e com o próprio Estado.
A famosa tipologia que divide as fronteiras por esferas sociais
(econômicas, políticas, jurídicas, sociais, simbólicas etc.) apresenta
imprecisões se entendermos a partir de um realismo sociológico no qual
se compreende que, de fato, existem no mundo social essas fronteiras
separadas. As fronteiras nacionais talvez possam ser vistas como “fatos
sociais totais” (Mauss, 1976), em que as distintas dimensões do social
estão entrelaçadas, bem como os aspectos individuais e coletivos daqueles
que produzem fronteiras. A separação por esferas, na perspectiva da
construção do conhecimento, pode ser pensada a partir de uma abordagem
weberiana dos tipos ideais. Para Weber, a realidade social é infinita,
inesgotável, caótica e o pesquisador, a partir da relação com os valores
de sua cultura, torna relevante e significativo um fragmento dessa
realidade a ser investigada. Nessa perspectiva, o conhecimento
sociológico é sempre aproximativo, provisório, pois não há uma
reprodução da realidade tal qual ela é na construção de um trabalho
sociológico. O que o investigador formula são conceitos típicos ideais
que possibilitam destacar, ordenar e acentuar determinadas características
de uma realidade múltipla e desordenada (Weber, 2001).
Nessa perspectiva de análise, na observação de uma determinada
fronteira nacional, como a “fronteira política” entre o Brasil e o Paraguai,
o pesquisador pode acentuar em sua pesquisa os fatores econômicos,
tais como a fiscalização e apreensão de mercadorias, as propinas, os
impostos pagos, os salários recebidos pelos agentes policiais, fiscais,
alfandegários etc. Outra pesquisa sobre essa mesma “fronteira política”
pode acentuar os elementos políticos da dominação e obediência, tais
como os tipos de “abordagem” da polícia federal a ônibus coletivos e a
ônibus fretados por “sacoleiros”, as hierarquias de poder em um posto
de alfândega, as relações entre polícia federal brasileira e polícia paraguaia
etc., e assim por diante. O que gostaria de destacar é que na vida social
toda “fronteira política” é mais do que uma fronteira política, assim como
as fronteiras econômicas (as frentes de expansão), são também fronteiras
sociais, políticas, culturais e simbólicas. Cabe ao pesquisador acentuar
que tipos de fenômenos ele irá estudar em profundidade nessas áreas de
fronteiras e a partir dos dados empíricos formular novas tipologias de

71
fronteiras.
O que considero relevante nesse momento dos estudos de fronteiras
nacionais na área de sociologia é repensar e aprofundar de maneira crítica
o uso das tipologias de fronteiras e, ao mesmo tempo, pensar em situações
de fronteiras que ultrapassam as formas de classificação mais rígidas.
Essas situações de fronteiras pressupõem o estudo dos eventos singulares
em cada contexto fronteiriço por meio de novas pesquisas de campo. O
que gostaria de enfatizar são algumas características e situações que têm
aparecido em muitos estudos fronteiriços e que permitem ampliar nossos
sentidos sobre uma possível conceituação das fronteiras nacionais. Nessa
perspectiva, pontuarei as situações de fronteiras como recurso, ritual
simbólico e liminaridade.
A fronteira política muitas vezes funciona como um recurso e
sistema de complementaridade para as populações fronteiriças.Viver na
fronteira é também viver da fronteira. As diferenças de preços de
alimentos, bebidas, roupas, gasolina fazem com que os fluxos se
intensifiquem de um lado a outro da fronteira (VALCUENDE, 1998).
Há um pêndulo de deslocamentos conforme a variação dos preços em
cada país ao longo do tempo e das mudanças econômicas e políticas que
se verificam nas nações vizinhas. Dessa forma, a gasolina mais barata
na Venezuela aumenta o fluxo de brasileiros nos postos de gasolina nas
cidades fronteiriças, assim como o peso argentino valendo atualmente a
metade do real pode atrair uma clientela brasileira nas cidades de fronteira
do país vizinho. O que existe aqui é uma espécie de cálculo e diferencial
fronteiriço que possibilita uma poupança por meio do deslocamento de
compras mais baratas do “outro lado da fronteira”. As diferenças de preços
podem estar marcadas pela disparidade da cobrança de impostos sobre
as mercadorias pelos respectivos Estados nacionais.
Dessa forma, os Estados que cobram menos impostos e têm suas
zonas francas de comércio, como no caso do Paraguai, atraem os
consumidores brasileiros. Por sua vez, o Estado paraguaio não consegue
ter um sistema público de garantias sociais para sua população e muitos
paraguaios se deslocam e são atendidos nos sistemas públicos de saúde
e educação do “lado brasileiro”. Assim, além de um recurso econômico,
a fronteira é um espaço de geração de estratégias e táticas de exercício
da cidadania das populações que vivem entre dois Estados nacionais.

72
Nessas zonas fronteiriças, há geralmente migrações fronteiriças, assim
como serviços de saúde e educação que são mais presentes de um lado
que do outro do limite internacional e atraem as populações do país
vizinho.
Na fronteira se situa muitos rituais simbólicos, lugar de emblemas,
signos de diferenciação e festas que demarcam tanto diferenças como
travessias. Bandeiras, placas, hinos, festas que celebram as datas
importantes de cada nação e as celebrações que conectam as experiências
locais transfronteiriças (HERNANDEZ et al, 1999; VALCUENDE;
CARDÍA, 2009). Ritos de passagem no território dividido entre nações
que transformam nossa condição de nacional em estrangeiro e, em um
instante de travessia (de um rio, uma ponte ou de um cartaz em uma
“fronteira seca”), muitas vezes muda o horário, a língua, a moeda, a
comida, a bebida, o modo de vestir, os dias festivos etc..
As fronteiras apresentam inúmeras situações liminares. A
liminaridade é algo de extraordinário que rompe o sistema social em sua
regularidade e aponta para situações limites. Marcam ritos de passagem,
de rebelião, de transgressão que transbordam as lógicas nacionais
(TURNER, 1974). Os estudos das identidades fronteiriças são
fundamentalmente situações de identificações coletivas liminares.
Ninguém é somente brasileiro, paraguaio ou “brasiguaio”. Uma única
pessoa pode acionar várias formas de identificação conforme os
interlocutores e as interseções sociais que estão em jogo no campo das
práticas e interações sociais. Por exemplo, ser homem, imigrante
brasileiro no Paraguai, paraguaio, “brasiguaio”, brasileiro, gaúcho,
descendente de alemão, torcedor do grêmio, entre outras. Imigrantes
brasileiros podem se sentirem em casa no Paraguai, mais paraguaios
que brasileiros, ou podem se sentirem estranhos, “fora do lugar” tanto
de um lado como do outro da linha de fronteira. As situações de
identificações fronteiriças são inúmeras e ajudam a afastar qualquer ideia
mais cristalizada e permanente das identidades únicas e fixas.
As inúmeras situações de fronteiras produzem deslocamentos e
dificultam o estabelecimento de determinadas classificações tipológicas
desses eventos singulares. A fronteira é um campo inusitado de produção
de novos sentidos e de abertura para o uso de várias metáforas.
As fronteiras territoriais dos Estados nacionais muitas vezes são

73
definidas como fronteiras mais concretas e reais, diferentes das fronteiras
sociais, simbólicas e metafóricas, geralmente reconhecidas como mais
dinâmicas, abstratas e presentes em todos os lugares de interação social.
A concretude do processo de demarcação dos limites territoriais e todo
um conjunto de instituições instaladas nas áreas fronteiriças (alfândegas,
polícias de fronteira, receita federal e outras) traduzem a ideia do poder
inscrito no território, ou seja, a visibilidade dos limites entre o fim da
soberania de um Estado nacional e o começo de outra soberania nacional.
A fronteira estatal produz a sensação e imaginação da existência de uma
fronteira física, os limites do campo de ação do Estado e suas múltiplas
instituições militares, políticas, jurídicas, sociais, administrativas
plasmados no território.
O que gostaria de destacar é que as fronteiras territoriais dos Estados
modernos são, ao mesmo tempo, concretas e metafóricas, reais e
simbólicas. No mundo moderno, os limites territoriais são geralmente
concretizados por meio do poder visível do Estado e da imaginação
compartilhada daqueles que vivenciam a nação, pensada como uma
comunidade soberana e delimitada (ANDERSON, 2008). As imagens
concretas dos muros, muralhas, cercas, arames, pontes, rios, mares
dividem e atravessam as fronteiras territoriais, mas também simbolizam
sentidos metafóricos que captam a dupla face das fronteiras em seus
fluxos e controles de pessoas, mercadorias, imagens, tecnologias,
transportes, moedas e línguas.
As fronteiras territoriais foram bastante estudadas desde a
perspectiva do pensamento analítico, o qual exige análise, classificação,
modelos teóricos a serem testados na realidade, subdivisões, tipologias
que permitem entender tipos variados de fronteiras estatais. Mas a análise
e os modelos analíticos pode se associar com a abertura analógica e
poética das metáforas nos seus múltiplos deslocamentos e criação de
sentidos. Pensar as fronteiras é vivenciar a experiência de refletir entre
diferentes formas de conhecimento. A relação entre pensamento analítico
e metafórico, entre conceito e metáfora pode produzir novas fontes de
inspiração e apreensão da experiência social nas zonas de fronteiras.
A metáfora não é alheia ao conhecimento analítico, uma vez que o
pensamento filosófico e científico ocidental está povoado por inúmeras
metáforas. A palavra deriva do grego antigo metaphorein e indica a noção

74
de além, sobre (meta) e mudança, transposição de um lugar a outro
(phorein). No sentido semântico, trata-se de uma figura de linguagem
que permite transformar o sentido literal de uma palavra em sentido
figurado por meio de comparações, produções e transbordamentos de
significados para outros contextos de enunciação (RODRIGUES, 2007;
SALDANHA, 1996; RICOUER, 2000). Nesse sentido, é possível pensar
em metáforas fronteiriças nos estudos empíricos localizados em fronteiras
territoriais. Entre os caminhos da observação e os labirintos da
interpretação, os usos de metáforas podem possibilitar a compreensão
das fronteiras visíveis, narradas e vividas por inúmeras pessoas.
Esse caminho interpretativo não é novo e nem seguro. Alguns
estudiosos de fronteiras têm recorrido às metáforas do atravessador e
reforçador de fronteiras, pontes, portas e muros, a ferida simbólica
lembrada em muitas narrativas das mutilações territoriais, como as
narrativas existentes do lado mexicano da fronteira entre o México e os
Estados Unidos (VILA, 2000; ANZALDÚA, 1997; VALENZUELA,
2003). Nessas construções metafóricas, a fronteira, às vezes, é comparada
com a pele sensível de nosso próprio corpo. O corpo ferido, mutilado,
contaminado e poluído pode ser traduzido no corpo territorial da nação.
As margens do corpo e da nação são sensíveis e permeáveis pelas
impurezas, perigo de contaminação de algum elemento exterior e sem
possibilidades de controle pelos órgãos internos. Assim a prostituição
fronteiriça, tráfico de armas, drogas e pessoas, contaminação por doenças
(animais e pessoas) existentes do outro lado da fronteira reforçam a
imagem da fronteira como “terra sem lei”, “terra de ninguém”, cidades
do vício e da perdição, lugares de transgressão (VILA, 2003).
Nessa perspectiva tenho feito uso da imagem da porta, algo que
fecha e abre e que demarca um interior e um exterior, especialmente
inspirados no ensaio de Simmel (2001), A porta e a ponte (ALBUQUER-
QUE, 2010b). Outra poderosa imagem usada é a simbologia do Deus
Jano, deus de duas cabeças apontadas para direções inversas e que
representa ao mesmo tempo o fim e o começo, o passado e o futuro
(ALBUQUERQUE, 2011). Em diálogo com o pensamento ensaísta
latino-americano, tenho também recorrido às analogias do espelho do
próspero de Richard Morse (1988), semeador e ladrilhador em Sérgio
Buarque de Holanda (1995) e do próprio o labirinto da solidão de Octávio

75
Paz (1984) para pensar processos de identificação nas zonas de fronteiras
e as representações sobre o outro, as noções de ordem e desordem e os
próprios labirintos da interpretação das situações de fronteiras, em que
os fios de Ariadne são geralmente rompidos e temos que descobrir outras
saídas.
E entre o concreto e o simbólico, entre o conceito e a metáfora que
transbordam sentidos talvez encontremos as ambiguidades do sagrado –
inferno e paraíso - traduzidas no profano mundo da experiência
fronteiriça. E da tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, a
janela pela qual tenho pensado as realidades fronteiriças, posso escutar
essas múltiplas narrativas da fronteira a partir das metáforas do inferno e
do paraíso. Do lado do inferno, o narcotráfico, o terrorismo, a violência,
a prostituição e a marginalidade social. Do lado do paraíso, as mais de
setenta etnias convivendo harmoniosamente em Foz do Iguaçu/PR, as
belezas das Cataratas e as várias atrações do turismo internacional, como
aquelas apresentadas em uma propaganda televisiva em 2010. Essa pro-
paganda justamente falava das maravilhas de Foz do Iguaçu/PR e todas
as atrações que poderiam ser feitas pelo turista durante sete dias e sete
noites, mesmo tempo da criação divina do próprio mundo, conforme a
narrativa cristã.
Mas, apesar da riqueza de sentidos que podemos imaginar por meio
do uso de novas metáforas em nossas pesquisas fronteiriças, as metáforas
produzem deslocamento de sentidos, são escorredias, vacilantes e podem
ultrapassar o pensamento científico e penetrar nas areias movediças da
experiência poética. O que temos proposto é uma espécie de sintonia,
aproximação entre o necessário rigor metodológico na busca incessante
de novos dados e de novos sujeitos para nossas pesquisas de campo e a
abertura radical de nossa imaginação, intuição e criação que as metáforas
podem possibilitar. Em suma, trata-se de uma forma de pensar entre o
analítico e o metafórico, entre a ciência e a poesia, entre os conceitos
sociológicos e toda a riqueza do pensamento de nossos entrevistados,
que sempre enriquecem com novos sentidos e novas metáforas as nossas
próprias interpretações fronteiriças.

76
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os nossos estudos fronteiriços estão pautados em fortes crenças


em um mundo mais igual e justo, na superação e eliminação de tantas
fronteiras físicas e simbólicas. Entretanto, sabemos que nas cinzas e ruínas
das fronteiras derrubadas, outras serão erguidas, dando continuidade ao
movimento paradoxal da porta, aberturas e fechamentos que indicam o
processo permanente da própria condição humana e suas armadilhas,
seus labirintos e superações individuais e coletivas.
Em nome da superação de tantas fronteiras que marcam esse mundo
contemporâneo, lembro-me da dimensão poética e paradoxal do próprio
muro; essa cerca que barra a passagem de milhões de pessoas, mas que
pode também salvar vidas, quando a travessia das barreiras nacionais
significa o jogo entre a vida e a morte, como todos aqueles que escaparam
da guerra civil espanhola quando ultrapassaram a fronteira do Estado
nacional espanhol, ou aqueles que se exilaram no contexto dos regimes
ditatoriais da América Latina para além das fronteiras nacionais. Assim,
finalizo esse ensaio aproximando-me da simplicidade e delicadeza da
poesia de Manoel de Barros, um enviado do bairro fronteiriço do Pantanal
que nos apresenta a bela metáfora de duas andorinhas, essas aves
migratórias que buscam sempre coletivamente novas paisagens:

O MURO
O menino contou que o muro da casa dele era
Da altura de duas andorinhas.
(Havia um pomar do outro lado do muro)
Mas o que intrigava mais a nossa atenção
Principal
Era a altura do muro
Que seria de duas andorinhas.
Depois o garoto explicou:
Se o muro tivesse dois metros de altura
Qualquer ladrão pulava
Mas da altura de duas andorinhas nenhum ladrão pulava.
Isso era. (Barros, 2004)

77
NOTAS EXPLICATIVAS

1
Professor de Sociologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
2
Uno puede tener simultáneamente un pie en España y otro en Portugal. Uno puede sentarse, como yo he
tenido oportunidad de hacerlo, en el hito nº 695 (…). En este marco-hito, uno puede aposentar y repartir
simultánea y respetuosamente sus glúteos entre dos Estados-naciones, dos provincias, un distrito y tres
términos municipales. Excesivas fronteras, se me antoja, para unas mismas posaderas“ (Uriarte, 1994
apud Valcuende, Cardía, 2009, p 01).
3
Quando observamos a realidade específica da tríplice fronteira entre Brasil, Argentina, Paraguai, observamos
a desproporção dos trabalhos de campo realizados em cada um desses territórios nacionais por investigadores
dos países vizinhos quando comparado com os trabalhos realizados “do lado de cá da fronteira”. Há também
as limitações de financiamentos de agências nacionais e estaduais que dificultam a organizam de equipes
de pesquisa internacionais, bem como os graus de desenvolvimento das próprias ciências sociais nesses
países e o pouco diálogo entre os diversos pesquisadores argentinos, brasileiros e paraguaios nos estudos
específicos das fronteiras internacionais. Dentre as experiências já existentes de parcerias de pesquisas
envolvendo investigadores de mais de um país, gostaria de destacar o exemplo do Observatório da Tríplice
Fronteira www.observatoriotf.com, formado especialmente por investigadores do Brasil e a Argentina.
4
Em 2011 e 2012, dois cartazes muitos significativos das novas simbologias da sociedade paraguaia já
estavam presentes no próprio aeroporto de Foz do Iguaçu. De um da esteira das bagagens, o famoso cartaz
presente em vários lugares das cidades brasileiras que fazem fronteira com o Paraguai: Visite o Paraguay,
compre na Monalisa, do outro, o templo do consumo: Casa China. Aqui percebemos claramente como os
símbolos do universo artístico renascentista e o templo religioso chinês se encontram lado a lado na tradução
do Paraguai como símbolo do consumo.
5
O fortalecimento do diálogo entre a sociologia, a antropologia e a geografia nos estudos de fronteiras
territoriais pode se constituir em um caminho importante de investigação. A geografia no Brasil já tem uma
forte tradição nos estudos das fronteiras nacionais e tem contribuído, de maneira significativa, com as
reflexões contemporâneas sobre processos de integração supranacionais. Nossa perspectiva é também nos
aproximar de uma abordagem humana e crítica da geografia em trabalhos futuros.

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80
A INFUSÃO ETNOGRÁFICA EM COMUNIDADES
NA FRONTEIRA1

Rodrigo Kummer2
Silvio Antônio Colognese3

As transformações em curso em nível mundial, tanto em termos


da globalização quanto da formação de blocos regionais, conferem nova
centralidade às questões das fronteiras, particularmente em termos das
suas expressões locais. São processos contraditórios e conflitivos que,
ao mesmo tempo, redefinem territórios e flexibilizam fronteiras para
acelerar os fluxos econômicos entre os países, e se fecham e ampliam os
empecilhos para os fluxos de pessoas, tanto para retrair as migrações da
população pobre para lugares mais ricos, quanto para tentar conter as
ações de grupos criminosos, ligados ao contrabando, aos tráficos de
drogas, armas e pessoas, e ao terrorismo internacional. São processos
intensos, que produzem deslocamentos profundos nos sentidos associados
às fronteiras. Estes deixam de ser entendidos principalmente como limites
entre territórios e passam a figurar como centros das “oportunidades”,
repletos de crescentes conflitos. São exemplares neste sentido as fronteiras
Brasil/Paraguai e México/Estados Unidos, embora as expressões locais
destas dinâmicas possam ser identificadas em nível mundial.
Este trabalho discute dilemas metodológicos para a pesquisa em
contextos locais, notadamente em comunidades situadas em ambientes
fronteiriços. Reflete as incertezas dos pesquisadores em situações de
campo, onde são levados a lançar mão de um misto de abordagens e
técnicas, muitas vezes não possíveis de serem seguidas conforme
previstas. Estes dilemas metodológicos estão referidos mais
especificamente a situações de pesquisa qualitativa enfrentadas em

81
estudos de casos específicos, mais particularmente em procedimentos
que implicam a etnografia e o manuseio de dados coletados
empiricamente.
São investigações que mobilizam um misto de procedimentos de
pesquisa, enquanto uma estratégia para o cercamento e a elucidação de
problemáticas específicas. De maneira geral se referem aos estudos de
casos em comunidades fronteiriças ou não, seguindo em alguma medida
a perspectiva dos estudos antropológicos nos quais “o lócus do estudo
não é o objeto do estudo. Os antropólogos não estudam as aldeias (tribos,
cidades, vizinhanças...), eles estudam nas aldeias” (GEERTZ, 1989, p.
16). Nesta medida, destoam em muitos aspectos da tradição dos chamados
estudos de comunidade, enquanto “estudos fundamentados na observação
direta de pequenas cidades ou vilas com as técnicas desenvolvidas pela
Etnologia no estudo das sociedades tribais” (MELATTI, 1983, p. 17).
Da mesma forma, são investigações orientadas por
problemáticas de pesquisa mais heterogêneas nas quais, ao invés da
verificação de hipóteses específicas, os resultados dependem da
decifração de intrincadas tramas, que se processam através de interações
envolvendo um conjunto variado de atores sociais no ambiente das
fronteiras. Por isso a sua abordagem é marcadamente qualitativa, no
sentido que todos os fenômenos são a priori considerados igualmente
importantes e preciosos: a constância das manifestações e a
ocasionalidade, a frequência e a interrupção, a fala e o silêncio
(CHIZZOTTI, 2003, p. 84). Nestas tramas os significados manifestos se
enredam com os que permanecem ocultos. Todos os sujeitos implicados
são inicialmente dignos de estudo, embora permaneçam únicos: o culto
e o iletrado, o delinquente e o juiz, os que falam e os que se calam, os
normais e os anormais. Não são estabelecidos previamente centros rígidos
para as análises e as interpretações de pesquisa.
Estas opções metodológicas heterogêneas para a aproximação dos
objetos empíricos de pesquisa se justificam pela necessidade de
manipulação de um conjunto complexo de variáveis implicadas nestas
tramas sociais. A amplitude e a complexidade dessas variáveis sugerem
a dificuldade prática de padronização dos procedimentos de pesquisa. O
pesquisador precisa aproximar-se ao máximo da realidade empírica, a
fim de que essas variáveis possam ser mais controladas e dimensionadas,

82
ainda que esta aproximação represente riscos a objetividade e a
imparcialidade da análise.
Destas modalidades de pesquisa destacamos neste trabalho a
etnografia, que ocupa frequentemente lugar de maior destaque nas
incursões a campo. A atividade etnográfica, esta referida á análise do
cotidiano e das características da vida comunitária dos sujeitos, seus
elementos identitários e as suas atividades de sociabilização. É um recurso
de pesquisa que pode se revelar extremamente producente em
investigações locais em áreas de fronteira. Porém, antes de tratar
especificamente da etnografia, discutimos alguns percalços nas
investigações em comunidades locais nas fronteiras.

PESQUISANDO NAS COMUNIDADES

Os chamados Estudos de Comunidade no Brasil se desenvolveram


a partir da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, criada em
1933. A sua influência teórica está referida aos estudos de comunidade
realizados nos Estados Unidos desde o ano de 1920, que tinham o objetivo
de compreender “comunidades em processo de mudança social”
(OLIVEIRA & MAIO, 2011, p. 523). No Brasil estes estudos tiveram um
papel preponderante na efetivação das Ciências Sociais, que dessa forma
puderam contribuir efetivamente para o chamado “desenvolvimentismo”,
especialmente na década de 1950, quando o país vivia uma conjuntura
de transformação. Essa transformação seria a passagem de um país
“essencial-mente rural e agrário em país urbano e industrial” (OLIVEIRA
& MAIO, 2011, p. 522), onde a solução das discrepâncias regionais
também eram tematizadas.
O papel das Ciências Sociais no processo desenvolvimentista foi
garantido, segundo Goldwasser (1974), uma vez que esses estudos
serviram para institucionalizar uma consciência científica para a
compreensão da realidade brasileira, pautando-se sempre numa intensa
carga empírica. Rompiam com as interpretações de discurso longo e
demasiadamente abrangentes. Trabalhando com um controle maior das
variáveis e categorias em grupos restritos, permitiram análises mais
aprofundadas e menos especulativas. Como garantem Oliveira & Maio

83
(2011) os estudos de comunidade buscavam ao máximo a objetividade,
se configurando em análises detalhadas e minuciosas, uma vez que isso
conferia um caráter de “verdade científica”. Entre os sociólogos que
desenvolveram estudos de comunidade no Brasil podem-se destacar:
Emílio Willems; Charles Wagley; Kalervo Oberg; Antonio Candido;
Maria Isaura Pereira de Queiroz; Albersheim; Oracy Nogueira; Donald
Pierson; Doris Meyer; e Ellen Woortman.
A formulação dos estudos de comunidade está vinculada aos
estudos clássicos da Antropologia Social, no que tange a análise das
sociedades primitivas. A análise de caracteres culturais totais em uma
sociedade primitiva rendia a interpretação do modo de funcionamento
do grupo. Para os estudos de comunidade ocorreu uma transposição
metodológica, sendo eles também estudos que pretendiam explicar a
totalidade das comunidades (ARENSBERG & KIMBALL, 1973;
GOLDWASSER, 1974); (CASTRO, 2001).
De acordo com Oliveira & Maio (2011) nesses estudos havia uma
interdependência entre a Antropologia e a Sociologia, ao que chamam
de “zona interseccional” dado que a base metodológica era ligada a
etnografia – método aproximativo e extenso a várias problemáticas – e o
foco desta problematização eram as mudanças sociais – engendrando
nas questões de estrutura, resistência, desenvolvimento. Os critérios de
objetividade e subjetividade foram relativizados e somados as práticas
de etnografia. Como descreve Castro (2001, p. 197), “a objetividade
científica é construída a partir de uma experiência subjetiva e individual
(o estar lá), pelo uso de determinados procedimentos e técnicas
“científicas” na coleta de material, e legitimada pela autoridade
etnográfica do antropólogo”.

Os chamados “estudos de comunidade” representam uma tentativa


de apreensão unitária da realidade social. Metodologicamente,
refletem uma transposição para o âmbito das sociedades
complexas, das técnicas de investigação caracteristicamente
desenvolvidas pela Antropologia Clássica no estudo das
sociedades ditas primitivas. Do modelo teórico destas sociedades,
implícito naquela transferência de abordagem, destacaram-se as
dimensões de homogeneidade e isolamento que se assumiam como
condições necessárias à aplicação do método antropológico,

84
produzindo-se os primeiros estudos de comunidade
preferencialmente sobre pequenos aglomerados rurais
relativamente compartimentalizados em suas ligações com a
sociedade global. (GOLDWASSER, 1974, p. 69).

Era candente a importância de analisarem-se os espaços em


transformação e aqueles que mantinham um grau de manutenção e
preservação cultural. Avaliavam-se categorias de passado – do atrasado
– e de modernidade – do novo. Consistia numa verificação do nível de
desenvolvimento e da natureza das relações tecidas relacionando-se ao
que era necessário a sua justaposição ao ritmo do resto da sociedade
nacional. Para tal os estudos buscavam “a exploração do comportamento
humano em seu aspecto social, cultural e de grupo, in vivo, em seu cenário
natural, mais ou menos à semelhança do emprego dos métodos de história
natural em biologia e zoologia” (ARENSBERG & KIMBALL, 1973, p.
190). O foco tornava-se o comportamento dos indivíduos que compunham
os grupos comunitários.

O estudo de comunidade não é o estudo de culturas inteiras, ou


de comunidades [...]. É o estudo do comportamento humano em
comunidade; isto é, nos contextos naturais, constituídos da vida
cooperativa natural e especificamente humana, dos
relacionamentos intergeração, e intersexo, da comunidade e
transmissão cultural familiar em processo. (ARENSBERG &
KIMBALL, 1973, p. 190).

Porém, para pensar esse comportamento específico é preciso definir


o caráter do que é ou não comunitário, assim como era necessária a
espinhosa tarefa de classificar uma comunidade, de caracterizá-la. Como
afirmam Arensberg & Kimball (1973, p. 193), “em nenhuma parte está
realmente claro o que seja comunidade, em tamanho, organização, ou
outros caracteres, ou como deve ser tratado o relacionamento entre
comunidade, cultura e a sociedade mais ampla”. Enfatizam ainda que as
comunidades variam em tamanho, em complexidade e na possibilidade
de problematizações subjacentes. Como observou Castro (2001), o
“local” onde a pesquisa era realizada tinha grande importância nestes
trabalhos, e diversos estudos definiam a comunidade a partir do tamanho,

85
lido como número de habitantes. Para tanto a definição de comunidade
era associada ao caráter “rural”, demarcada a partir do “tamanho do local”,
“grau de isolamento” e de seu “desenvolvimento” (CASTRO, 2001, p.
196).
Goldwaser entende que existe um modelo forjado para a análise
das comunidades, perdulárias das definições de Conrad Arensberg e que
se baseiam inicialmente na “ideia de totalidade” e estabelecem um
conjunto de pressupostos classificatórios que imprimem uma expectativa
de verificação empírica (GOLDWASSER, 1974, p. 71).

[...] em qualquer das dimensões consideradas, menciona-se sempre


o caráter unitário da comunidade; os demais atributos se
introduzem para caracterizar sua natureza singular em face de
outros fenômenos de constituição unitária: territorialidade (a
comunidade é localizada, ocupa um espaço físico próprio que lhe
fornece a base ecológica), critério demográfico (a comunidade
compreende uma população como um dos seus constituintes
primários), organização social (as relações sociais na comunidade
compõem um sistema integrado cujo padrão pode ser
empiricamente determinado) e código cultural (um sistema
particular de significados permeia a comunidade, desenvolvendo
entre seus membros o sentido de sua participação comum e
sinalizando a área de domínio específico da comunidade).
(GOLDWASSER, 1974, p. 71).

Grosso modo, os estudos de comunidade podem ser conceituados


pela acepção de Comerford (2005, p. 115): “estudo exaustivo de um
município, tomado a princípio como ‘comunidade’”. Arensberg &
Kimball (1973, p. 170) definem estes estudos como um “método de
observação e exploração, comparação e verificação”. Como método não
seria o estudo de uma comunidade, nem de várias comunidades ou do
próprio conceito de comunidade. Como alertam “seu propósito é antes o
de usar a comunidade como um contexto para a exploração, a descoberta
ou a verificação de interconexões entre fatos e processos sociais e
psicológicos” (1973, p. 171). Portanto, a comunidade cumpria o papel
de um lócus privilegiado para a análise de conjunto particular de
fenômenos e eventos sociais.

86
Estes estudos, porém, suscitam críticas bastante contundentes,
remetendo a um impasse teórico e, por vezes, uma discussão acusatória.
Parte-se da definição de estudos de comunidade forjada por Oliveira &
Damasceno (2009, p. 253), que expõe a multiplicidade de aspectos
abordados por tais estudos, sobrepondo-se aqueles relativos a reconhecer
a comunidade como um espaço claramente definido, o que pressupôs
tendências a um entendimento de isolamento4com relação aos processos
ali vivenciados.
De acordo com ARENSBERG & KIMBALL, muitos estudos de
comunidade dão a impressão de que tratam o grupo local como se a
sociedade mais ampla não existisse, desconsiderando-a (1973, p. 189).
Poucos deles mostraram como a sociedade em geral afetava a comunidade
em estudo. Possuiriam um caráter descritivo e abrangente, buscando
relatar ao máximo a “vida social das comunidades, atrelada a elementos
que recompu-sessem o seu desenvolvimento histórico” (OLIVEIRA &
MAIO, 2011,p. 527).
Os estudos de comunidade tendiam a captar os aspectos de
manutenção nos ambientes comunitários rurais. Os fatores de mudança
eram apontados, mas dificilmente problematizados nesses locais. As
críticas de “ensaísmo” referentes aos estudos de comunidade vinculam-
se a dificuldade que tinham de prover um entendimento geral do ambiente
rural em transformação. Foram considerados “alienados” por não
definirem categoricamente sua relação com a estrutura social mais ampla
e não subsidiarem de maneira enfática o conhecimento do contexto social
nacional (OLIVEIRA & MAIO, 2011). Ponderam ainda Arensberg &
Kimball, definindo que este problema é tácito dado à ineficácia de
comparação5 e generalização, pois afirmam que “nem os problemas, nem
as comunidades são comuns” (1973, p. 193). Ainda neste sentido é
importante considerar que o exercício de generalização dos estudos de
comunidade, instituído em caráter microssocial, para a noção de totalidade
da realidade nacional não convergem de maneira assimétrica. Como
adverte Geertz, os ambientes microssociais produzem em primeira
instância respostas para si mesmos e não necessariamente ao conjunto
social mais amplo.

87
A noção de que se pode encontrar a essência de sociedades
nacionais, civilizações, grandes religiões ou o quer que seja,
resumida e simplificada nas assim chamadas pequenas cidades e
aldeias “típicas” é um absurdo visível. O que se encontra em
pequenas cidades e vilas é (por sinal) a vida de pequenas cidades
e vilas. Se os estudos localizados, microscópicos, fossem
realmente dependentes de tais premissas para sua maior relevância
– se pudessem capturar o mundo amplo no pequeno – eles não
teriam qualquer relevância. (GEERTZ , 1989, p. 15-16).

Jackson (2009, p. 276) aponta críticas aos estudos de comunidade


avaliando a ausência da dimensão histórica como ponto de deficiência,
uma vez que não contemplam os “processos mais amplos” aos quais as
comunidades foram expostas e que passam despercebidos. A comunidade
é entendida como um agregado amorfo e estanque. Da mesma forma
afirma Melatti, ao incitar as inconsistências relativas a uma tentativa de
generalização teórica a partir de exemplos muito dispersos e desconexos.

Entre as críticas que se fizeram aos estudos de comunidade está a


de que desdenham a documentação histórica [...]. Outra crítica é
a do desprezo pelas relações da comunidade estudada com a
sociedade mais ampla, tratando-a artificialmente como uma
totalidade isolada, fazendo o pesquisador perder de vista certas
conexões fundamentais. [...] Ao que parece, com os estudos de
comunidade pretendia-se chegar a uma visão geral da sociedade
brasileira, através da soma de muitos exemplos distribuídos pelas
diversas regiões do Brasil. Além desse objetivo geral, tais estudos
estavam quase sempre voltados para objetivos específicos, como
mudança cultural, persistência da vida tradicional, problemas de
imigrantes, educação e vários outros. (MELATTI, 1983, p. 18).

Ainda conforme Melatti (1983, p. 30), os estudos não seguiam


uma orientação temática, elegendo como problemática de análise “a
comunidade” em si mesma, denotando uma pretensão de entendê-la
enquanto espaço isolado, o que, segundo ele, não seria pertinente, haja
vista a dicotomia implícita em tal pressuposto.
Cabe a crítica ao descuido na acepção entre comunidades rurais
modernas e aldeias tidas como primitivas. As situações de interação social

88
não podem ser tecidas como igualdade entre ambas. Além disso, parece
não ter sido considerado o fato de que as comunidades nas complexas
sociedades modernas diferem, em espécie, das comunidades das culturas
simples e primitivas (ARENSBERG & KIMBALL, 1973). Em suma as
comunidades estudadas pela Escola Livre de Sociologia e Política não
eram, salvo exceção, sociedades simples, no sentido que teciam esparsas
relações sociais e que não estivessem ligadas à sociedade ampla e global,
ainda que de maneira rarefeita. Esse caráter alimentava as manifestações
que viam essa modalidade de pesquisa como inválida e limitada
(OLIVEIRA & MAIO, 2011).
A pretensa “utilidade” dos estudos de comunidade segundo
Goldwasser (1974) e Castro (2001) estava no fato de que eles subsidiariam
a formulação e implantação de reformas sociais. Os estudos forneceriam
além das informações necessárias para medir os investimentos
necessários, bem como considerar os melhores métodos de aplicação,
revelando os possíveis impasses e dificuldades de sua condução. Para
OLIVEIRA & MAIO (2011), os estudos de comunidade representavam
os esforços que as Ciências Sociais dispunham no sentido de contribuir
no desenvolvimento do país, incitando mudanças sociais. Em seu torno
criava-se um corpo “técnico” composto por agrônomos, antropólogos,
sociólogos, para “corrigir as reais necessidades das populações
interioranas” (2011, p. 536). Essa era uma tendência aos procedimentos
que visavam conhecer cientificamente a sociedade para resolver os seus
problemas. Contudo, além de pensar as transformações e interporem-se
para resolução de problemas os cientistas sociais faziam críticas a
determinados modelos de mudança social, preocupando-se em adequá-
las. Consistia numa “intervenção racional” na realidade.
Existe também um problema de representatividade dos estudos de
comunidade em relação ao resto do ambiente social, apontados por Castro
(2001) e Goldwasser (1974). Afinal de contas a condução rigorosa, o
controle absoluto de variáveis a expansão de discussão de “todos” os
aspectos de um pequeno grupo social pode servir para o entendimento
da sociedade em geral? Em outras palavras, cientificamente os estudos
de comunidade foram questionados enquanto sua importância para a
compreensão da sociedade. Como contextualiza Goldwasser “a
representatividade de um fenômeno é aquilatada em função do

89
atendimento de certos requisitos para comparabilidade” (1974, p. 76). O
fechamento e mesmo o isolamento analítico dificultam a possibilidade
comparativa, mesmo não a eliminando.
Essas críticas, no entanto, são ponderadas por Melatti (1983). Em
seu entendimento estariam emergindo novas análises, baseadas em
aspectos específicos da realidade comunitária. Exemplifica serem estes
estudos baseados, entre outros, na singularidade étnica de certas
comunidades rurais e estudos de aculturação de imigrantes, além de
estudos de pequenos criadores de gado, agricultores camponeses,
garimpeiros etc., sendo produzidos, geralmente em nível de dissertações
de mestrado. Denomina tais estudos pelo aspecto de serem estudos “em”
comunidade e não mais “de” comunidade.

Por outro lado, já existe uma série de estudos sobre temas


específicos desenvolvidos sem que estejam ligados a projetos mais
amplos, em pequenas comunidades. Porém não se confundem com
os antigos “estudos de comunidade”, por não pretenderem estudar
totalidades socioculturais, mas apenas um determinado aspecto.
Seriam “estudos em comunidades”, passíveis de um tratamento
comparativo a posteriori, uma vez que não previsto nos seus
projetos individuais. [...] Se os estudos de comunidade do período
anterior foram objeto de várias apreciações, tanto por parte de
alguns de seus realizadores como daqueles que não os achavam
adequados para atingir os objetivos a que se propunham, os estudos
regionais e os estudos em comunidades não parecem ter até agora
suscitado nenhum comentário crítico (MELATTI, 1983, p. 30-
31).

A positividade da realização de estudos de comunidade reside, ou


residia, portanto, em seu caráter empírico, objetivo e intenso. Além disso,
a superação de algumas das inconsistências na visão que se tinha da
comunidade e suas relações podiam produzir conhecimentos efetivos
para o entendimento social. Como destaca Goldwasser, os estudos que
consideram os aspectos conflituais e paradoxais da comunidade, que
considerem sua relação com a sociedade mais ampla e que procuram
relacionar os dados empíricos com um escopo teórico articulado tem
uma relevância destacada. Isto por que, como assegura, a comunidade

90
se mostra como “um lócus privilegiado para observação do
comportamento humano, com seus sistemas de representação e categorias
de ação” (1974, p. 77). Para um empreendimento teórico válido é
premente inquirir estes aspectos nas múltiplas possibilidades, reafirmando
que os resultados dessas discussões dependem da relação estabelecida
na sua tessitura. Em situações nas fronteiras esta potencialidade pode se
revelar ainda mais decisiva.
Finalmente, os estudos de comunidade, desenvolvidos pela tradição
das Ciências Sociais brasileiras exprimem um escopo de deficiências
quando confrontados com a realidade empírica. O fechamento e as
ingenuidades que podem suscitar não inviabilizam nem deturpam a
importância que tiveram e que ainda têm. A comunidade como elemento
social ainda está presente em nossa sociedade e continua sendo um espaço
privilegiado de análise. Com as ponderações metodológicas sempre
reafirmadas é pertinente considerar a necessidade de se fazerem novos
estudos de comunidade. Não de comunidades entendidas em seu suposto
isolamento, mas nas suas relações e fluxos sociais. Neste sentido, as
comunidades nas fronteiras podem representar um locus através das quais
importantes problemáticas de pesquisa sejam encaminhadas. Não na
acepção crítica que já teve, mas no sentido de considerar o espaço
comunitário nas fronterias na construção de problemas de pesquisa. A
feitura desses estudos precisa, talvez, seguir a aferição de que não se
estudam lugares, estudam-se fenômenos, isto é, estudar “na” comunidade,
“na” fronteira, e não “a” comunidade e “a” fronteira por ela mesma.
Enfim, esta configuração para os estudos pode assumir relevância
renovada, notadamente “nas” comunidades situadas em áreas “nas”
fronteiras. Mesmo por que, muitas problemáticas relacionadas às
fronteiras, notadamente aquelas envolvendo os fluxos de pessoas,
demandam estudos localizados em determinadas comunidades nas
fronteiras. Nestes as metodologias qualitativas de investigação
predominam e, dentre elas, a etnografia frequentemente assume a maior
importância. Por isso na sequência discutimos alguns dilemas
metodológicos para a pesquisa etnográfica ou o que chamamos a infusão
etnográfica em comunidades nas fronteiras.

91
A INFUSÃO ETNOGRÁFICA EM COMUNIDADES NA
FRONTEIRA

A construção, a feitura, a forja de uma análise social compõem-se


de incessantes situações paradoxais. Ao propor deslindar uma dada
problemática o pesquisador está envolto em conflitos operacionais,
teóricos, conceituais e pessoais. Os mecanismos que lança mão,
geralmente cuidadosamente prescritos e justificados, são insuficientes
para a compreensão – efetiva – dos fenômenos sob os quais se debruça.
Longe de lhe frustrar, esta dura realidade conjuntural o encaminha a
rever, repensar e reconstruir intermitentemente caminhos de pesquisa.
Essa constatação é comum no desenvolvimento de pesquisas em
comunidades nas fronteiras. Mesmo por que, em comunidades nas
fronteiras, é comum um estranhamento maior do pesquisador em relação
à realidade empírica vivida pelos sujeitos pesquisados, em suas relações
com o lado de lá e o lado de cá da mesma. Por este motivo, frequentemente
a etnografia que, de início, pode ser concebida como um método de
controle dos demais instrumentos de pesquisa (entrevistas, questionários,
documentos oficiais etc.), pode passar a ocupar uma posição privilegiada
e de intensa contribuição para a compreensão da realidade em estudo.
Assim, entre as diferentes estratégias de pesquisa, a etnografia pode
tornar-se o mecanismo de depuração dos dados, um instrumento de
qualificação de todas as informações colhidas em campo. Algo que se
aproxima da acepção de Clifford Geertz quando afirma que “o ecletismo
é uma frustração, não porque haja somente uma direção a percorrer com
proveito, mas porque há muitas: é necessário escolher” (1989, p. 4).
Particularmente, a etnografia (ou o “etnografar”) torna-se
imprescindível para problematizar o sentido dado às ações dos sujeitos
que se movem em comunidades nas fronteiras. Para perceber os processos
de representação e os aspectos identitários que aqueles indivíduos
manifestam, intencionalmente ou não. Para desvendar as estratégias
destes sujeitos no cotidiano nas fronteiras. Isto por que, como adverte
Geertz: “a maior parte do que precisamos para compreender um
acontecimento particular, um ritual, um costume, uma ideia, ou o que

92
quer que seja está insinuado como informação de fundo antes da coisa
em si mesma ser examinada diretamente” (1989, p. 7). Por isso, a
discussão precisa avançar no sentido de complexificar o corriqueiro, o
óbvio e o naturalizado em questionamentos, em pomo de discórdia
analítico, em pesquisa.
A etnografia pode assumir neste ambiente influência decisiva, ainda
que conduzida de maneira amadorística e em tons de aprendizado. Por
isso o pesquisador deve redobrar atenção no campo de pesquisa para
avalizar técnicas, formas e modos de conduzir as várias incursões
etnográficas a fim de torná-las não só efetivas, mas também rigorosas e
válidas. Algumas das obras clássicas6 que tratam do “fazer etnográfico”
devem ser consultadas e servem para inferir os pilares mínimos de uma
pesquisa etnográfica propriamente dita. Dentre elas destacam-se: as
proposições clássicas de Bronislaw Malinowski (1985) na introdução
de seu estudo “Os Arnonautas do Pacífico Ocidental”, obra originalmente
publicada em 1922, onde imprime modelos, exemplos e advertências
deste método de pesquisa; o trabalho de grande lastro de Clifford Geertz
(1989), que pressupõe um contributo para estudar os intricados fenômenos
culturais; e por fim, dirimem-se algumas críticas considerando as
proposições de James Clifford (2011), principalmente no que tange aos
percalços da associação/dissociação entre o etnógrafo e a etnografia.
Conforme lembra Geertz (1989), é em torno do conceito de cultura
que surgiu todo estudo da antropologia e, por conseguinte, o que os
antropólogos fazem é etnografia. Sua tese é a de que os fenômenos
culturais, dada sua complexidade, prescindem de uma “Teoria
Interpretativa”. Essa teorização passa invariavelmente por métodos de
pesquisa que fortaleçam e aprofundem os vínculos do pesquisador com
os aspectos pesquisados, no sentido que chama de uma etnografia que
promova a descrição “densa” em detrimento de uma descrição
“superficial”.

[...] a etnografia é uma descrição densa. O etnógrafo enfrenta, de


fato – a não ser quando (como deve fazer, naturalmente) está
seguindo as rotinas mais automatizadas de coletar dados – é uma
multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas
sobrepostas ou amarradas umas às outras, que são

93
simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que ele
tem que, de alguma forma, primeiro apreender e depois apresentar.
(GEERTZ, 1989, p. 7).

Por conseguinte, o termo infusão, utilizado nesta construção textual


quer significar a entrada, o envolvimento, o mergulho na realidade e nas
especificidades da etnografia. A etnografia por seu turno é entendida
como um mecanismo privilegiado de aproximar-se e distanciar-se do
objeto de pesquisa. Uma condição em que o pesquisador se mantém em
espécie de sístole e diástole entre suas acepções teóricas e os elementos
que a realidade de campo forma, desforma e reforma. Etnografar em
comunidades na fronteira supera a noção de um simples registro do que
foi visto. Assume uma posição de compreender pelo vivido, pelas ações
de dentro, se possível do âmago do problema. Geertz supõe que essa
condição em relação ao etnógrafo lhe conduz também a uma forma de
proposição para ação. Pergunta-se: “o que faz o etnógrafo? – ele escreve.
[...] ele observa, ele registra, ele analisa – uma espécie de concepção de
veni, vidi, vinci do assunto” (1989, p. 14). Dicotomias à parte, etnografar
não condiciona, como método e como prática, uma fórmula que alcance
respostas definitivas e totalizantes. Ainda seguindo Geertz, entende-se
que mesmo não obtendo uma resposta total, vários pontos, fenômenos e
situações em comunidades nas fronteiras podem ser analisados,
discutidos, explicados e compreendidos à luz do fazer etnográfico.
Malinowski defende que a justificativa do fazer-se etnografia está
na existência de fenômenos sociais que dada sua importância e
complexidade, muitas vezes escapam ao registro de pesquisas
quantitativas e observações distanciadas. Para ele estes eventos “têm
que ser observados em sua plena realização” (1985, p. 42). São exemplos:
as realidades que configuram rotina, como a vida comunitária; as noções
de tempo e espaço; as tradições dispostas; as relações de trabalho, de
amizade, de agrupamento, de hostilidades; as relações cotidianas nas
fronteiras etc. Enfim aqueles eventos que não permitem uma rápida e
efetiva definição por serem complexos também entre aqueles que os
praticam.
Uma descrição densa como defende Geertz não é uma descrição
detalhista, mas uma análise aprofundada dos porquês envolvidos nas

94
ações. O etnógrafo não pode ser um espectador que apenas narra fatos,
antes deve ser um interlocutor que os problematiza, além inclusive do
que os próprios atores compreendem sobre. Como diz, é preciso analisar
que vida eles levam e como a explicam; o que fazem e o que lhes acontece
ao fazê-lo de tal forma (1989, p.11). Por isso na análise dos fenômenos
em comunidades nas fronteiras o pesquisador precisa considerar a
importância e os sentidos conferidos pelos sujeitos às suas ações, tanto
em termos manifestos quanto velados (GEERTZ, 1989, p.8).
O fazer etnografia não determina uma análise, mas constrói uma
tentativa de leitura em analogia ao que Geertz convenciona de “um
manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas
suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais
convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento
modelado” (1989, p. 7). Como experiência pessoal é um exercício de
vontade que incide em “situar-se” entre as posições teóricas e a realidade
direta vivida em comunidades nas fronteiras. Esse é um exercício bem-
sucedido apenas parcialmente (GEERTZ, 1989). Seu foco evidencia-se
no discurso e no comportamento dos indivíduos sob a leitura, não
necessariamente em quem eles são.

Deve atentar-se para o comportamento, e com exatidão, pois é


através do fluxo do comportamento – ou, mais precisamente, da
ação social – que as formas culturais encontram articulação. Elas
encontram-na, também, certamente, em várias espécies de
artefatos e vários estados de consciência. Todavia, nestes casos o
significado emerge do papel que desempenham no padrão de vida
decorrente, não de quaisquer relações intrínsecas que mantenham
umas e outras. (GEERTZ, 1989, p. 12-13).

A organização e os elementos sociais não se dirimem em torno


apenas do que está explicito nos discursos (GEERTZ, 1989).
Notadamente no ambiente das fronteiras, as múltiplas condutas não estão
necessariamente marcadas a partir de códigos e estes por sua vez não
prescindem à publicação oficial. Os códigos são estratagemas que nem
sempre determinam condutas, o que exige ao pesquisador tornar visíveis
as “curvas do discurso social”, ou fixá-lo de maneira “inspecionável”
(GEERTZ, 1989, p. 13). Ao fazê-lo o etnógrafo cria um elemento de

95
entendimento da multiplicidade do fenômeno humano. Inicialmente
transforma os acontecimentos em dados, que podem subsidiar as análises
e que se institui como informação codificada e permanente, o que permite
que os discursos e comportamentos possam ser guardados para consultas
a posteriori (GEERTZ, 1989).
Na etnografia, ao passar do nível da observação e participação
entre os agentes pesquisados para o grafar – para escrever o que desse
convívio sobrevém como teorização possível – o etnógrafo se vê em
delicada tarefa. Como afiança Geertz, Clifford e mesmo Malinowski, a
escrita, o diário de campo, o relatório não são elementos ou “entidades”
que possam expressar exatamente o que ocorre entre os atores sociais. O
texto etnográfico é também uma versão construída pelo etnógrafo em
relação ao que pesquisou. É uma grafia metódica, comprometida com
critérios e cientificidade. Porém nunca substituirá ou expressará o fato
em si mesmo.
Para Paul Ricoeur, conforme contextualiza Geertz (1989, p. 14), é
preciso ponderar a amplitude e a aplicação do texto etnográfico. Sendo
este constituído gradativamente através de discursos, o que importa em
termos de profundidade de compreensão se torna não necessariamente o
que o ator social “diz” “ao” falar, mas sim o que foi “dito” “no” falar.
Significa complexificar – ainda que nem sempre se possa chegar a
conclusões factíveis – o que quis ser dito, como foi dito, o que de fato foi
dito, para quê foi dito, além do que não foi dito, silenciado e deturpado
e seus porquês subsequentes. Por isso o etnógrafo deve perseguir a
“substância” dos sentidos implícitos e explícitos, indo além do que é
dito e não dito.
A etnografia torna-se assim um instrumento descritivo no
sentido da representação dos fenômenos sociais. É uma descrição densa
por que é interpretativa no sentido em que expressa o fluxo dos múltiplos
discursos manifestos. Esse discurso torna-se permanente uma vez
etnografado, pois permanece disponível após a incursão do etnógrafo,
inscrito e encrustado no texto. É o que Geertz entende por “fixá-lo em
formas pesquisáveis” (1989, p. 15).
Um exemplo clássico do trabalho etnográfico provém de Bronislaw
Malinowski. Ele foi um antropólogo afeito às pesquisas de campo. Suas
incursões entre populações ditas primitivas e tribais na Ásia e Oceania

96
renderam obras seminais. Exemplo mais claro de seu trabalho é o livro
“Argonautas do Pacífico Ocidental”. A obra retrata com detalhes o
cotidiano, as relações e os rituais entre os habitantes das Ilhas Trobriand,
na costa da Nova Guiné. Nela ele registra o ritual do Kula, uma espécie
de comércio recíproco e ritualístico entre vários povos dessa região, que
permanece disponível para a pesquisa.
Malinowski desenvolveu um “estilo” de pesquisa etnográfica
alcunhado como “descrição total”. Caberia, segundo ele, ao etnógrafo
inserir-se no grupo pesquisado, conviver com ele e discorrer sobre
praticamente tudo o que faz, como faz e porque o faz. Não haveria motivo
para selecionar aspectos e fenômenos, uma vez que toda e qualquer atitude
tomada pelo grupo importaria no sentido de compreendê-lo. Julgava “tolo
e míope” aquele que, ao estar diante de uma variedade de fenômenos,
ignorasse e desprezasse parte deles por não ver utilização teórica imediata
(1985, p. 43).

O etnógrafo de campo deve cobrir de modo sério e sóbrio toda a


extensão dos fenômenos em cada aspecto da vida tribal, atribuindo
tanta importância aos fatos rotineiros e banais quanto aqueles que
chamam a atenção por surpreendentes ou estranhos. Deve
pesquisar, ao mesmo tempo, toda a cultura tribal, na totalidade
de seus aspectos. (MALINOWSKI, 1985, p. 34. Grifos do autor).

Suas acepções consideravam mister organizar o trabalho em termos


científicos. Asseverava que o etnógrafo precisava definir e descrever
todos os métodos utilizados. Almejava separar “os resultados da
observação direta das afirmações e interpretações dos nativos” daquilo
que concebia como “inferências do autor, baseadas em seu bom senso e
seu discernimento psicológico” (MALINOWSKI, 1985, p. 26). Assim,
considerava indispensável que ficasse bem definido o que era discurso
do nativo e o que dizia respeito à análise do pesquisador.
Preocupava-se com a maneira como o pesquisador conduziria suas
análises, de maneira a não permitir que seu texto caísse em descrédito
ao suscitar uma “construção” difusa da realidade. Isso o mantinha como
perdulário de uma vigília intelectual constante que só se acalentava
“através da aplicação paciente e sistemática de um certo número de regras
do bom senso e de princípios científicos bem conhecidos e não pela

97
descoberta de qualquer atalho maravilhoso que conduza aos resultados
desejados sem esforço ou problemas”(MALINOWSKI, 1985, p. 29).
Afirmava ainda a necessidade de o etnógrafo estabelecer-se em base a
princípios metodológicos como: orientar-se por objetivos
verdadeiramente científicos; criar condições adequadas de trabalho;
emanter-se vigilante na aplicação de métodos de coleta, manipulação e
registro de dados (MALINOWSKI, 1985).
Para ele, o pesquisador deve manter constante ponderação em
relação ao peso que a preparação teórica configura em um trabalho
etnográfico. Ele não deve ir a campo para lá considerar a importância e
a viabilidade de análise dos fenômenos, sob o risco de se desconsiderar
fatos e eventos. Da mesma forma não pode propor engessar fatos a teorias
preestabelecidas, de modo a preencher com informações do campo uma
fôrma teórica que resultará em conclusões de pesquisa. Sugere nesse
sentido que ambos, teoria e dados de campo, sejam mantidos numa
distância segura que não os funda de inicio e que não impeça sua relação
posterior. Destacava neste sentido que estar preparado cientificamente
não era o mesmo que sobrecarregar-se de pré-julgamentos ao ir a campo.
Para Malinowski o etnógrafo não deve omitir qualquer
comportamento, nem o íntimo nem o legal. Cabe ao pesquisador “mostrar
os detalhes e o tom do comportamento e não o simples esboço dos
acontecimentos” (1985, p. 43). Problematiza nesse sentido que a
preocupação com os comportamentos se justifica uma vez que em um
grupo social (em sua fala seria mais apropriadamente um grupo primitivo)
cada elemento tem uma impressão parcial do todo que forma. Se os
discursos e os comportamentos forem tomados como partes isoladas e
inflexíveis, a visão do todo será impossibilitada. Para tanto, lança mão
de uma prática objetiva. Ao invés de incidir ao indivíduo perguntas que
exprimam regras gerais, pode-se interrogar-lhe de que forma resolveria
um determinado problema (p. 35), ou seja, buscar compreender como o
pesquisado exprime seu próprio comportamento e suas próprias
concepções em relação a uma explicação do todo que forma. Todos estes
aspectos, todavia, precisam ser questionados em relação à estrutura
coletiva na qual se organizam. Em comunidades nas fronteiras podem-
se encontrar realidades bastante diferentes. Por isso sugere que, o que
interessa são ações e manifestações sociais, ainda que analisadas em

98
separado, individualmente.

Em primeiro lugar, deve ficar estabelecido que temos que estudar


os modos estereotipados de pensar e sentir. Como sociólogos,
não nos interessa aquilo que A ou B sentem como indivíduos, no
curso acidental de suas próprias experiências pessoais – interessa-
nos apenas aquilo que sentem e pensam como membros de uma
dada comunidade. E enquanto membros de uma comunidade, seus
estados mentais recebem uma determinada marca, tornam-se
estereotipados pelas instituições em que vivem, pela influência
da tradição e do folclore, pelo próprio veículo do pensamento,
quer dizer, pela linguagem. O ambiente sócio-cultural em que
vivem acaba por forçá-los a pensar e a sentir de um modo definido.
Assim, um homem que vive em uma comunidade poliândrica não
pode experimentar os mesmos sentimentos de ciúmes inerentes
aos membros de uma comunidade monogâmica, embora possa
possuir alguns elementos dele. (MALINOWSKI, 1985, p. 46).

O proceder da pesquisa etnográfica precisa seguir certos


“mandamentos”, como aconselha Malinowski (1985): “participar dos
acontecimentos”; compreender as “peculiaridades sutis” e eventos
“familiares”; construir um “diário etnográfico”; considerar e diferenciar
o que é tido como “normal e típico” em relação aos “desvios” (p. 44). É
preciso descobrir “os modos típicos de pensar e sentir correspondentes
às instituições e à cultura de uma determinada comunidade” e a partir
disso formular os resultados “da maneira mais convincente possível”
(p.46). Para tal intento diz ainda que é forçoso “reproduzir literalmente”
as declarações que tiverem uma “importância crucial” no entendimento
dos dados conjunturais (p. 46).
No entanto, mesmo observando estes cuidados, para manter um
status de cientificidade e de reconhecimento de validade, o fazer
etnográfico sofre críticas. Uma delas é a de que em muitas situações ele
seja microscópico. Por seu turno Geertz defende que este não é um limite,
mas uma das suas características e especificidades. Ao discutir o problema
com que o antropólogo se defronta no fazer etnográfico pondera que
esse profissional aborda contiguamente “interpretações mais amplas e
análises mais abstratas a partir de um conhecimento muito extensivo de

99
assuntos extremamente pequenos” (1989, p. 15). Suscita que assuntos
tidos como “pequenos” constituem em si e em relação aos fenômenos
amplos o tecido da vida social que é, em suma, o objeto a que se desnudam
os antropólogos. Afirma que em torno da crítica de que “já existem
suficientes profundidades no mundo” suscita-se também a obsessão de
alguns sociólogos com o tamanho de suas amostras (1989, p. 15).
O trabalho etnográfico apregoa a relação de proximidade do
pesquisador com os pesquisados. Ainda que menos dogmatizados pelo
peso do cartesianismo que impõe uma separação quase metafísica entre
sujeito e objeto, esse tipo de pesquisa causa algum desconforto e
sucessivas justificações no constructo do texto. Paradoxalmente, a
proximidade pode mostrar muitas situações que de longe pareceriam
desfocadas e embaçadas. Entretanto ela gera um fluxo de foco que pode
normatizar elementos ou não tecê-los em relação a outros fenômenos
que levariam a interpretar ligações e interconexões camufladas e sutis.
Essa condição engendra no fato de que os textos formatados segundo
essas pesquisas geralmente assumem o caráter de ensaios, o que lhes
conferem a desnecessidade de serem construídos como tratados teóricos
e sistemáticos da área. Até porque como o próprio Geertz alerta, se esses
tratados fossem assim escritos, enfastiariam os leitores por não
condizerem com as especificidades dos problemas e dúvidas que os
geraram.

A análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior,


quanto mais profunda, menos completa. É uma ciência estranha,
cujas afirmativas mais marcantes são as que têm a base mais
trêmula, na qual chegar a qualquer lugar com um assunto enfocado
é intensificar a suspeita, a sua própria e a dos outros, de que você
não o está encarando de maneira correta. Mas essa é que é a vida
do etnógrafo, além de perseguir pessoas sutis com questões
obtusas. (GEERTZ, 1989, p. 20).

Nestes casos, o pesquisador será impelido a construir


representações, a demostrar, expressar fatos e relacioná-los com
proposições teóricas que lhes deem sentido interpretativo ou pelo menos
problematizá-los. Isso é possível, segundo Geertz (1989, p. 17), quando
se assumir a máxima de que a etnografia não deve apenas ser um pensar

100
“sobre” os pesquisados, mas um pensar “com” eles. Assim, confere o
caráter inefável de que nessa relação o mais importante é “conversar
com eles”. Em suas próprias palavras “aqui a tarefa essencial da
construção teórica não é codificar regularidades abstratas, mas tornar
possíveis descrições minuciosas; não generalizar através dos casos, mas
generalizar dentro deles” (1989, p. 18).
Em obra que enfoca o que denomina de “A Experiência
Etnográfica”, James Clifford confere uma visão sobre o fazer e o texto
etnográfico no século XX. Um dos capítulos direciona-se a uma questão
espinhosa da etnografia. Refere-se à autoridade etnográfica, numa
acepção que problematiza a validade, a efetividade e cientificidade do
texto exposto ao público. O que é tomado como pertinente é repensar de
onde emanam os critérios e o reconhecimento destes textos em deslinde
de projeções que possam agregá-los a versões desconexas e
descompromissadas. Afinal, o que garante criteriosidade a esse tipo de
pesquisa, que em última instância está congregado ao relatório final, ao
texto? Clifford afirma que essa questão vincula-se a pretensa autoridade
que o etnógrafo detém pelo fato de que ele “estava lá” (2011, p. 18), no
campo, numa acepção que poderia se parecer com a fé pública manifesta
pela natureza de seu trabalho.
Essa problemática não carrega a etnografia ao descrédito como
pesquisa. Mesmo que esteja envolta num mito de que o trabalho de campo
seja um instrumento de revelação, que constitua um conhecimento
particular, privilegiado e talvez único. Ao contrário, ela mantém-se, na
afirmação de Clifford, com um “certo status exemplar” (2011, p. 20).

[...] a etnografia está, do começo ao fim, imersa na escrita. Esta


escrita inclui, no mínimo, uma tradução da experiência para a
forma textual. O processo é complicado pela ação de múltiplas
subjetividades e constrangimentos políticos que estão acima do
controle do escritor. Em resposta a estas forças, a escrita
etnográfica encena uma estratégia específica de autoridade. Essa
estratégia tem classicamente envolvido uma afirmação, não
questionada, no sentido de aparecer como a provedora da verdade
no texto. (CLIFFORD, 2011, p. 21).

Geertz converge no sentido de alertar para o fato de que, sob os

101
auspícios de promover a valiosa e importante proximidade de pesquisa
e tomar os informantes como pessoas e não como objetos, a observação
participante assumiu, em alguns casos, condição de instrumento de má-
fé do antropólogo. Isto por que, sua visão pode se fechar, se enviesar,
enquadrando diferencialmente elementos e distribuindo seu interesse de
maneira desvirtuada entre fenômenos simples e complexos. Nestas
condições, a razão e o ímpeto da pesquisa podem ser minimizados ou
superestimados (1989, p. 14).
Clifford (2011) chama a atenção para o fato de que ainda
resguardada a importância e a necessidade de problematizar aspectos
nomeadamente complexos da cultura humana, estes não encontrem um
método soberano para garantir fortuitamente a verdade dos elementos
apresentados. Considerar o etnógrafo como autoridade antropológica
tácita, baseado no peso do fato de “estar lá”, ou em uma suposta
“autoridade experimental”, seria distanciar-se de uma condição plausível
de criteriosidade científica. Replica que em etnografia o conceito de
experiência é imprescindível, porém é um pomo de furtividade já que
“assim como ‘intuição’, ela é algo que alguém tem ou não tem, e sua
invocação frequentemente cheira a mistificação” (CLIFFORD, 2011, p.
33).
As ponderações de Clifford se evidenciam quando destaca o
fato de que entre o etnografar como observação e o etnografar como
escrita existe um intercurso de tempo e espaço. O texto como relato e
construção teórica é sempre escrito após o convívio com os agentes
pesquisados e sempre fora do local de pesquisa. Isso gera o que chama
de filtragem da realidade: “o processo de pesquisa é separado dos textos
que ele gera e do mundo fictício que lhes cabe evocar. A realidade das
situações discursivas e dos interlocutores individuais é filtrada” (2011,
p. 40). Sobre essa inquietação também contribui Geertz quando chama a
atenção que os textos antropológicos são interpretações acerca de ficções
que a própria etnografia configura.

Resumindo, os textos antropológicos são eles mesmos


interpretações e, na verdade, de segunda e terceira mão. (Por
definição, somente um “nativo” faz a interpretação em primeira
mão: é a sua cultura). Trata-se, portanto, de ficções; ficções no

102
sentido de que são “algo construído”, “algo modelado” – o sentido
original de fictio – não que sejam falsas, não-factuais ou apenas
experimentos de pensamento. (GEERTZ , 1989, p. 11).

A superação destas críticas impõe se defrontar com a compreensão


que a etnografia é uma partilha de experiências e não a sucção de uma
delas, além da assunção de suas fragilidades, impotências e
impertinências. Para imprimir caráter de factibilidade e veracidade aos
estudos etnográficos não é necessário tornar-se um nativo, como diz
Geertz. No entanto, muito menos será também um relatório com discurso
engajado, a pretensa autoridade ou o status do pesquisador. Essa resposta
estará na complexidade com que os fenômenos são tratados, na clareza e
na fluência do texto quando relaciona o tecido teórico com os aspectos
práticos do campo e as cuidadosas, ponderadas e corajosas impressões
do etnógrafo. Como adverte Geertz, a efetiva objetividade nestes estudos
não será alcançada. Esse fenômeno por seu turno não depõe contra ou
infere caráter de inferioridade a pesquisa. Ou como diz: “nunca me
impressionei com o argumento de que, como é impossível uma
objetividade completa nesses assuntos (o que de fato ocorre), é melhor
que os sentimentos levem a melhor” (1989, p. 21). Toda complicação e
efetividade da etnografia residem em sua capacidade de articular, informar
e problematizar a realidade. E a isso acrescentaríamos ainda que, em
nenhum lugar encontra-se escrito que etnografia é uma tarefa simples
com resultados milagrosos.
A despeito destes limites, defende-se a potencialidade da etnografia
como um poderoso recurso de pesquisa, notadamente nos estudos em
comunidades nas fronteiras. As problemáticas relativas às fronteiras,
particularmente em termos das suas expressões locais e do fluxo de
pessoas, podem ser mais equacionadas com o dimensionamento de
estudos em unidades de análise particulares e com técnicas de pesquisa
adequadas. A infusão etnográfica em comunidades nas fronteiras pode
se revelar um importante recurso para o desenvolvimento da pesquisa
nestas áreas.

103
NOTAS EXPLICATIVAS

1
O trabalho está baseado na discussão metodológica realizada na dissertação de mestrado defendida por
KUMMER (2013), bem como nas experiências de pesquisa dos autores, notadamente em trabalhos relativos
à problemática das fronteiras.
2
Mestre em Ciências Sociais pela Unioeste (2013) e docente da Unipar/Campus de Francisco Beltrão-PR.
3
Doutor em Sociologia pela UFRGS (1997) e professor efetivo da Unioeste/Campus de Toledo, onde
coordena o Mestrado em Ciências Sociais. Email: silviocolognese@ibest.com.br
4
Pode-se problematizar o conceito de isolamento circunscrito às comunidades nas fronteiras. O fato de que,
nas áreas de fronteiras serem as distâncias fatores de isolamento não decompõe as relações de contato
social, que podem ser intensas. Por outro lado nos ambientes urbanos de fronteiras, a proximidade social
não necessariamente garante a tessitura de relações sociais intensas, muito menos a unidade.
5
Nesse sentido é possível tecer comparações se estas forem estabelecidas entre o próprio grupo, com a
análise de comportamentos nas diferentes gerações que o compõe (OLIVEIRA & MAIO, 2011).
6
Não estão compiladas várias obras que tratam do assunto. Pode-se dizer que foram analisadas apenas
alguns textos capazes de estabelecer uma breve “noção” acerca da metodologia. Para citar alguns autores
não formulados aqui e que tiveram imprescindível contribuição no desenvolvimento das técnicas de etnografia
e no pensamento antropológico como um todo, destaca-se: Radcliffe-Brown; Margaret Mead; James Frazer;
Marcel Mauss; Claude Lévi-Strauss; Franz Boas; Raymond Firth; Evans-Pritchard; entre outros.

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105
106
ETNOGRAFIA NA FRONTEIRA BRASIL-BOLÍVIA,
EM CORUMBÁ-MS: POR UMA ANTROPOLOGIA
“NAS” FRONTEIRAS

Gustavo Villela Lima Da Costa1

INTRODUÇÃO

As pesquisas etnográficas nas áreas de fronteira oferecem grandes


desafios e podem trazer resultados teóricos importantes aos antropólogos
que se dedicam a estudar empiricamente a vida social nessas regiões,
não apenas para o tema dos estudos fronteiriços, mas para o avanço de
questões teóricas da própria antropologia. O trabalho de campo na
antropologia, de acordo com Peirano (1995) não se limita a uma simples
técnica de coleta de dados, mas é um procedimento com implicações
teóricas específicas, no que podemos chamar de dialética entre o processo
de produção de dados empíricos e a utilização de conceitos (sempre
revistos criticamente a partir da pesquisa de campo). Neste sentido a
antropologia, sempre se reinventou enquanto ciência, a partir do diálogo
constante entre e teoria e prática, no que Roberto da Matta classifica
como “estado de dúvida teórica” (DA MATTA,1981).
A etnografia, enquanto método subjetivo e interpretativo, em que
não existe uma separação absoluta entre sujeito e objeto, exige uma
vivência prolongada do pesquisador junto a seus interlocutores, não
apenas para observar, mas para participar, em alguma medida, da vida
social. Neste sentido nos consideramos pesquisadores privilegiados por
morarmos em Corumbá-MS, na fronteira com a Bolívia, a partir de Puerto

107
Quijarro, o que nos permite um contato direto e prolongado com a vida
na fronteira. Esta premissa nos ajuda, em nossos estudos realizados a
partir do Mestrado em Estudos Fronteiriços, em primeiro lugar a romper
com o preconceito presente nas representações sociais sobre as fronteiras
(repetidas em noticiários e construídas nos imaginários nacionais): a de
que as fronteiras são áreas da ilegalidade, da anomia e do crime.
Entendemos que as fronteiras nacionais, enquanto lugares “liminares”,
repletos de ambiguidades, são locais por excelência do estudo das
alteridades, assim como dos processos de construção de identidades e
das trocas culturais. As fronteiras, enquanto locais dos encontros, são de
fato lugares propícios aos negócios, em função do diferencial fronteiriço
(diferentes moedas e legislações), e é justamente por esta condição é
que se costuma confundi-las, como se as mesmas fossem os lugares por
excelência da ilegalidade, sob o efeito de discursos que as caracterizam
como “terras sem lei”. Neste sentido, as fronteiras são lugares
privilegiados para estudos que procurem romper com as dicotomias do
legal e do ilegal, justamente porque estas separações não existem de
maneira pura no mundo do comércio e dos negócios.
Os antropólogos, (sobretudo em nosso caso, que vivemos em uma
cidade de fronteira), ao compreenderem os significados da ação social,
podem trazer à tona os pontos de vista nativos dos moradores fronteiriços,
restituindo-lhes sua agência sobre suas próprias práticas e representações,
o que nos permite escapar da segunda armadilha para olhar as fronteiras:
a visão hegemônica e tutelar do Estado. A partir da etnografia, então, a
fronteira aparece como uma área rica de experiências humanas, de trocas
culturais, assim como de conflitos (com suas ilegalidades particulares) e
de trânsito de pessoas, tradições, culturas e de mercadorias (sejam elas
legais ou ilegais). As regiões de fronteira, a partir da vida de seus
moradores, representam também, o papel de protagonistas na formação
dos Estados-nacionais, ainda que as narrativas “oficiais” as considerem
como áreas marginais e coadjuvantes neste processo.
O trabalho etnográfico tem como desafio dar conta da realidade
que o antropólogo pretende estudar, ao mesmo tempo em que seu objeto
de estudo é construído de sujeitos que, agem, pensam, sentem, interpretam
e explicam a realidade em que vivem. Além das regularidades
sociológicas que são observadas pelo pesquisador, a vida social é repleta

108
do que Malinowski (1976) chamou de “imponderáveis da vida real”,
que são os acontecimentos mundanos e cotidianos, aparentemente sem
importância, mas que são uma “mina de ouro” para o antropólogo. Esta
é uma das maiores dificuldades e vantagens do método etnográfico:
chegar à compreensão desses comportamentos ordinários, dos pequenos
dramas do dia-a-dia que “dizem” muito sobre a vida social em seus
aspectos mais amplos. Para chegar até essa compreensão e interpretação
dos fatos observados, dentro de contextos culturais específicos, é preciso
que o antropólogo passe um tempo prolongado de convivência e participe,
em alguma medida, da vida social que pretende estudar, para que os
detalhes, antes sem importância, adquiram significado. Por este motivo
as pesquisas de “tiro curto” não podem alcançar a densidade que
almejamos para o estudo das sociedades e das culturas.
Ao longo de minha atuação como antropólogo na fronteira realizei
algumas pesquisas que trataram dos seguintes temas: a construção
identitária local e o preconceito social em relação aos bolivianos em
Corumbá (COSTA, 2010); a compreensão das representações sociais
sobre a prática do contrabando de roupas chinesas na fronteira (COSTA,
2010b); o conflito entre taxistas brasileiros e bolivianos e as disputas
pelo espaço de “rua” em Corumbá (COSTA 2011) e o comércio de drogas
(OLIVEIRA e COSTA, 2011), (esta última a partir da pesquisa de
mestrado de meu orientando Giovanni França Oliveira). Todos estes
temas envolvem dificuldades específicas, pois como afirma Foote-Whyte
(1975), é preciso estar atento aos problemas práticos e éticos relacionados,
especialmente, à questão da identificação social do pesquisador pelos
sujeitos da pesquisa e o apoio ou proteção que ele pode conseguir de
certos indivíduos. Neste sentido, adotamos sempre a tática de nos
aproximarmos de algum “informante” privilegiado, que pudesse abrir
portas para o universo social que pretendíamos estudar (ver OLIVEIRA
e COSTA, 2012).
Ao estudar situações de conflito, de preconceito e até mesmo de
práticas ilegais, surgem inúmeras dificuldades referentes ao processo de
identificação ou classificação social do pesquisador, que pode assumir
papéis variados, de diversas identidades sociais (pesquisador, funcionário
público, professor, homem, brasileiro, e assim por diante) e que pode ser
confundido pelas pessoas que entrevista, como se fosse um policial ou

109
fiscal, por exemplo. É preciso tempo e confiança junto aos atores sociais
que estudamos - que muitas vezes vivem nos limites da lei - para que a
pesquisa se inicie e se obtenha bons resultados. Neste caso esta é uma
dificuldade inerente ao grupo social estudado, que são os vendedores de
rua ou comerciantes de drogas, e independe de estarmos em uma zona
de fronteira, pois certamente, colegas que estudam camelôs no centro da
cidade de São Paulo, ou o mundo do crime em qualquer outra parte do
território nacional, passam pelas mesmas dificuldades.
Na fronteira, há uma peculiaridade, que pode ser um fator de
dificuldade que é o trânsito quase cotidiano do pesquisador em outro
país e o contato que precisa estabelecer com estrangeiros (seja
individualmente ou com associações, por exemplo). Até mesmo por uma
questão ética, que envolve recolher informações em outro país, optamos
em diversas ocasiões, por buscar um respaldo oficial junto a autoridades
bolivianas e, para isso, foi preciso estabelecer contato com atores sociais
privilegiados, por sua posição de status ou poder político. Em Corumbá,
destacamos a figura do Cônsul da Bolívia, a partir do consulado deste
país existente na cidade, que sempre abriu as portas para que fôssemos
apresentados aos seus conterrâneos, tanto a partir de uma permissão
oficial quanto informalmente. Ao mesmo tempo, obviamente havia um
interesse por parte do consulado em saber que tipo de pesquisas nós
estávamos realizando em solo boliviano. Em outras ocasiões os
presidentes de associações (Feira Bras-Bol ou 12 de Octubre2) também
garantiram uma apresentação mais formalizada, que nos identificasse e
nos distinguisse, como professores universitários, de outros funcionários
estatais brasileiros como da Polícia Federal ou da Receita Federal, por
exemplo. O acesso aos interlocutores da pesquisa, a partir de um
funcionário diplomático, que simbolicamente nos “permite entrar em
sua casa”, nos faz refletir também no papel quase onipresente dos Estados
na vigilância e controle do espaço fronteiriço e a forte simbologia presente
no ato de cruzar a fronteira.
Além disso, destacamos que para haver um bom andamento da
pesquisa, é preciso entender como ocorre o processo de classificação
social do pesquisador por parte dos entrevistados. Como o pesquisador
é visto pelas pessoas? O pesquisador oferece algum risco para os

110
entrevistados? Qual o significado de seu trabalho para as pessoas que
entrevista e convive? Este processo envolve conhecer as regras dos grupos
pesquisados e compreender seu código social para poder participar, em
alguma medida, de suas atividades, a fim de compreender os processos
sociais em jogo.
Uma dificuldade a mais que encontramos ao realizar o trabalho
etnográfico na fronteira, é a própria barreira da língua ao entrevistar
bolivianos (no meu caso, entendo bem o castelhano e falo um “portuñol”
que é bem compreendido), seja no lado brasileiro, seja no lado boliviano;
e mais ainda, as diferenças culturais (outras fronteiras), que muitas vezes
se manifestam em sutilezas de etiqueta, de gestos e da própria postura
corporal, por exemplo. Em geral, sobretudo os comerciantes bolivianos
oriundos do altiplano possuem um habitus austero, de poucas palavras,
que fazem parte de um ethos ascético em relação aos negócios e à vida,
em que o trabalho “duro” é um valor ético de máxima grandeza, que
abre pouca margem para um “bate-papo”. Soma-se a isto, a desconfiança
em relação ao pesquisador e às perguntas que fazemos, por parte de
muitos desses comerciantes - que realizam suas atividades nas fronteiras
do legal e do ilegal - o que dificulta a aproximação do antropólogo (ainda
mais quando este pesquisador é de outro país).
Outra questão que emerge a partir daí é a de como romper a visão
oficial do grupo, ou imagem pública que o grupo deseja projetar
(BERREMAN, 1975). O trabalho do antropólogo procura compreender,
de fato, qual o sentido ou significado das falas dos atores sociais,
posicionando-os, já que nenhuma fala é neutra e os atores sociais são
sujeitos com interesses próprios que, em geral, procuram passar uma
impressão de si ou de seu grupo: quem fala, fala de algum lugar para
alguém (no caso o pesquisador). Como exemplo, ao entrevistar alguns
taxistas brasileiros, a grande maioria dos entrevistados se auto-
representava como se fossem “aqueles que cumprem a lei”, ao contrário
dos bolivianos, que estariam “ilegais”. Entretanto, compartilhando uma
experiência pessoal, após conversar com alguns taxistas brasileiros,
informalmente, os mesmos me disseram que realizavam práticas “fora
da lei”, como o transporte de mercadorias não taxadas (descaminho); de
outro lado, ao entrevistar comerciantes bolivianos em Corumbá, a maioria
dizia ter nota fiscal de suas mercadorias as quais teriam sido adquiridas

111
em São Paulo e não teriam passado pela fronteira (que, de fato, é a rota
principal dessas roupas no comércio de Corumbá). Neste sentido
retomamos autores clássicos como Malinowski (1976), que foi o primeiro
a apontar as diferenças entre o que as pessoas dizem e o que elas fazem
e Max Gluckman (1965), que nos alerta que as regras sociais são
incoerentes e contraditórias e podem ser manipuladas e redefinidas por
indivíduos e grupos. As palavras se tornam então, no trabalho de pesquisa,
“categorias nativas” que devem ser interpretadas pelo antropólogo, ou
seja, partimos das classificações locais e das interpretações dos próprios
sujeitos da pesquisa sobre sua realidade para construir nossas próprias
interpretações (GEERTZ, 1978).
Roberto da Matta (1981) constata também que o etnógrafo não
está num laboratório, ou seja, não pode repetir ou controlar jamais sua
experiência. Além disso, em geral, o antropólogo realiza sua pesquisa
em “solidão existencial”, em uma imersão profunda em outros universos
sociais, ajustando-se a novos valores e culturas, em um processo
relativizador das crenças, visões e preconceitos do próprio pesquisador
(DA MATTA, 1981). Nesta posição, o antropólogo fica sempre situado
entre duas culturas (a sua própria e a do “outro”), sem fazer parte inte-
gral de nenhuma delas, em uma situação de “ambivalências de um estado
existencial” (Idem). Esta é uma das características da etnografia: a de
colocar o pesquisador em uma posição de “fronteira”, que a configura
como um método filosófico que possibilita conhecer e transformar a si
mesmo, ao conhecer o “outro”.
No meu caso particular como pesquisador, houve um duplo
movimento em minha trajetória de pesquisa na fronteira: logo ao chegar
a Corumbá, no ano de 2009, precisei tornar o “exótico”, familiar. A vida
na cidade de fronteira, em que se vai a outro país cotidianamente; nas
inúmeras placas de trânsito na cidade de Corumbá onde se lê “Bolívia”;
as feirantes bolivianas com suas tranças e o falar e escutar o castelhano
nas feiras; as placas de carro da Bolívia nas ruas, enfim, toda esta vida
nova tinha algo de fantástico e misterioso para mim, que tinha vindo do
Rio de Janeiro. Na medida em que o tempo passou, o cruzar a fronteira
se tornou cada vez mais parte do meu cotidiano, as placas de carro da
Bolívia se tornaram cada vez mais invisíveis, a feira de rua com suas
comerciantes bolivianas se tornou a feira da minha cidade e a Bolívia, a

112
partir da cidade de Puerto Quijarro se tornou praticamente um bairro de
uma cidade binacional aonde vivo. Neste momento, a fronteira se tornou
familiar e aí precisei fazer um segundo movimento: tornar o que se tornou
familiar em exótico novamente, para perceber as idiossincrasias, as nu-
ances e as interações sociais da vida fronteiriça da qual eu faço parte.

VIVENDO NA FRONTEIRA: DEBATES ENTRE A TEORIA


E A PRÁTICA

A partir da vivência e da observação empírica da fronteira entre


Brasil-Bolívia, na cidade de Corumbá-MS e do diálogo com outros
autores, foi possível estabelecer um constante diálogo entre a teoria e a
prática, a partir do qual surgiram as seguintes perguntas e hipóteses que
serão debatidas neste artigo: quais as peculiaridades de realizar estudos
antropológicos em áreas de fronteira? Existem características universais
e estruturais nas regiões de fronteira, apesar da heterogeneidade dessas
regiões pelo mundo, que permitem estabelecer pontos em comum de
comparação entre as zonas fronteiriças? Quais resultados teóricos podem
ser obtidos ao estudar os processos de formação identitário nas fronteiras
e que podem ser aplicados a outras situações sociais distintas, em que
essas dinâmicas não estão tão claramente demarcadas (realizar uma
antropologia “nas” fronteiras e não apenas “das” fronteiras)?
Nossas pesquisas se opõem às ideias que tendem a homogeneizar
a fronteira, como se houvesse uma única identidade fronteiriça, uma
única cultura fronteiriça em um processo de hibridização (VILLA, 2000).
O que se observa, de fato, é um processo de constante reapropriação e
renegociação das identidades (ou mesmo a adoção de múltiplas
identidades), por parte das pessoas que interagem em uma área fronteiriça,
como é o caso da cidade de Corumbá-MS. Esta situação específica de
Corumbá, como uma cidade que historicamente recebeu migrantes de
várias partes do mundo - o rio Paraguai é uma porta para o Oceano
Atlântico - aliada à sua condição fronteiriça com a Bolívia, nos leva a
pensar de que forma essas diversas tradições se encontraram nesta região,
configurando um fenômeno histórico particular.

113
Bons exemplos de reprodução social dessas tradições podem ser
percebidos em hábitos oriundos da cultura guarani como tomar o tereré,
na culinária com forte influência paraguaia (chipa, sopa paraguaia) e na
música (que aí se generaliza por todo o estado do Mato Grosso do Sul),
que sofre forte influência da música de origem paraguaia ou platina, em
ritmos ternários (polca paraguaia, rasqueado, chamamé). A presença de
militares, cujo contingente sempre se renova na cidade também traz
práticas, hábitos e estilos de vida de várias regiões do Brasil, com destaque
para o grande contingente de cariocas e fluminenses oriundos da Marinha.
Destaca-se alguma influência cultural do Rio de Janeiro, a partir do
contingente majoritário de soldados e oficiais oriundos deste estado em
Corumbá se faz sentir pela forte presença do funk e do pagode, assim
como pela torcida pelos times cariocas de futebol. Além disso, nota-se
forte presença da cultura “árabe”, como uma comunidade étnica
importante historicamente na região (sírios, libaneses e palestinos), não
apenas no comércio de rua (nos restaurantes “árabes”) e na influência
dessas famílias na política da cidade, mas também através dos
muçulmanos que freqüentam a mesquita da cidade, por exemplo.
Ao invés de entender a cidade de Corumbá como um mosaíco de
culturas estanques a partir de uma visão essencialista do conceito de
cultura, o que pressupõe imaginar uma figura de partes separadas que
formam um todo, buscamos compreender esta região como um local de
interação de tradições - onde essas correntes de conhecimentos se
entrelaçam na circulação entre as pessoas - a partir de sua interação so-
cial, tornando-se difusas na vida da cidade e distribuídas desigualmente
entre os indivíduos. O processo de apreensão individual e coletivo dessas
tradições, portanto, não ocorre de forma homogênea entre as pessoas,
pois cada um possui sua trajetória, mas está posicionado socialmente e
economicamente na sociedade, carregando consigo suas próprias
tradições e é socializado a partir de diferentes matrizes culturais e de
conhecimento. Esta interação se deu historicamente não apenas a partir
de relações comerciais e de trabalho, mas também a partir de matrimônios
(com imigrantes, inclusive) e da formação multiétnica das famílias
corumbaenses.
Nas fronteiras existem múltiplas fronteiras e cada uma delas
possibilita um processo particular de construção de identidades. De

114
acordo com Villa (2000), existe uma situação de “espelhos múltiplos”
na fronteira, em que os indivíduos e grupos de ambos os lados não apenas
representam os “outros”, mas são também representados pelo “outro”,
pelo estrangeiro do outro lado da fronteira. Além disso, este jogo de
espelhos ocorre também em relação a outras áreas de seus próprios países
(em um discurso dicotômico centro/periferia ou centro/fronteira). A título
de exemplo, podemos observar as inúmeras reportagens produzidas nos
grandes centros urbanos brasileiros que representam a fronteira em seus
aspectos mais negativos, como uma área ameaçadora à soberania
nacional. Exemplificando esses discursos, posso citar as viagens de férias
que faço ao Rio de Janeiro, nas quais converso com taxistas da cidade
sobre o lugar em que resido e, invariavelmente, a resposta era parecida
com a que me deu um taxista: - “Corumbá? Pô lá é sinistro! Fronteira é
brabo... Terra de ninguém” (sic.).
Essa situação me leva a pensar também em qual a influência dos
processos de “globalização” e “hibridização” na construção de novas
identidades e novos significados para os moradores fronteiriços. De
acordo com Villa (idem), muitas pessoas não querem atravessar as
fronteiras, se “hibridizar”, mas preferem justamente reforçar a existência
das fronteiras. Ao longo do tempo, na seção de mensagens eletrônicas
dos leitores do jornal “Diário Corumbaense” se lia mensagens que diziam
coisas do tipo: “fechem a fronteira e joguem a chave fora” (sic.), as
quais demonstram certo grau de conflito e tensão nesta interação. E é o
olhar antropológico, mais subjetivo em sua “descrição densa” (GEERTZ,
1978), que pode contribuir para o entendimento desses processos, nem
sempre visíveis e declarados. A fronteira oferece uma oportunidade única
para olhar aos processos complexos de construção de identidades e seu
uso constante de categorias arbitrárias. As pessoas que mudam de país
não estão apenas cruzando de um país para outro, mas estão se movendo
de um sistema de classificação para outro e mais ainda, convivendo com
ambos os sistemas. Como afirma Villa (2000), as pessoas são forçadas a
se mover de um sistema de classificação a outro cotidianamente (além
das misturas de sistemas para dar conta de perceber o “outro”). Por
exemplo, no México, este autor identificou que o sistema classificatório
principal seria o de “região”, (norteño, fronterizo ou del sur), já no sistema
estadunidense prevaleceria a ideia de “raça e etnicidade” (latino, negro,

115
branco)(Villa, 2000). Na fronteira Brasil-Bolívia, entendemos que o
boliviano é representado por uma dupla alteridade pelos corumbaenses,
de forma preconceituosa e estigmatizante na maioria das vezes:
estrangeiro e índio (“choco” ou “colla”). Além disso, no Brasil, há um
misto de classificações étnico-raciais (branco, negro, índio, ou
pejorativamente “bugre”) e regionais (paulista, gaúcho, nordestino etc).
Na Bolívia, por sua vez, predomina um sistema de classificação étnica,
que divide seus habitantes entre Cambas e Collas3, sobretudo no
Departamento de Santa Cruz (onde estão localizadas as cidades
fronteiriças de Puerto Suarez e Puerto Quijarro).
Este caminho epistemológico pressupõe também a ideia de que as
fronteiras são lugares onde os limites não imobilizam totalmente as
pessoas, mas, que de fato, são constantemente atravessados, consoante
com as ideias de “culturas” em fluxo (nas zonas fronteiriças há espaço
para a ação no manejo da “cultura” e para a negociação identitária por
parte dos atores sociais). A atual instabilidade das fronteiras - que um
dia foram consagradas como fixas, como limites monolíticos de distintas
entidades nacionais e culturais - revela cada vez mais processos de
negociação “cultural” através das fronteiras, e coloca novas questões
sobre as relações entre o local e o global, e entre nação e Estado
(DONNAN and WILSON, 1994). Os limites, assim, são entendidos como
algo através do que se dão os contatos e interações (não marcando
“culturas” isoladas, o que corroboraria uma visão essencializante e
holística de “cultura”, que dificilmente se sustenta a partir do trabalho
empírico)4;ou como afirma Barth (2000) é justamente por cruzarem as
fronteiras que as pessoas mantém suas identidades e não evitando o
contato. As fronteiras se configuram, enfim, como um locus
epistemológico privilegiado para os estudos dos processos de construção
identitária, de fenômenos “culturais” e de interação social, que se tornam
aí mais visíveis e exacerbados.
Como vimos até aqui, é justamente por fazer parte da fronteira,
entre dois países, que os moradores dessas regiões podem negociar e
manipular a fronteira de acordo com seus interesses. Em função de serem
áreas de encontros de diversos sistemas políticos, econômicos e culturais,
as áreas de fronteira permitem uma visão única nos modos pelos quais
as identidades são construídas (DONNAN & WILSON, 1994). Sendo

116
assim, procuramos investigar como um grupo de pessoas que vivem em
uma área de fronteira entre dois países renegociam e manipulam, tanto a
fronteira, como os limites culturais e processos contínuos de formação
identitária. O processo de construção das identidades nas áreas fronteiriças
é, portanto, um fenômeno peculiar e complexo, em que a categoria
“fronteira” adquire significados distintos de acordo com o posicionamento
social dos atores sociais que vivenciam a experiência de morar nessas
regiões. Se for verdade que nos processos migratórios (ainda mais em
uma cidade de fronteira que recebeu muitos imigrantes como Corumbá),
as pessoas carregam consigo seu passado, suas tradições, também é
preciso considerar nas análises, que essas tradições são reatualizadas e
ressignificadas a partir da interação com outras correntes de pensamento
e de tradições nos processos de “globalização”. As fronteiras são locais
em que o próprio sentido de nacionalidade é colocado diariamente à
prova e onde se dão as condições para a manipulação, instrumentalização
e negociação das identidades e, por outro lado, é neste contexto em que
as identidades são vividas e sentidas profundamente pelos atores sociais.
As distinções identitárias e “culturais”, portanto, não dependem da
ausência de interação social, mas justamente ao contrário.
De acordo com Cardoso de Oliveira (1976), existem propriedades
estruturais do processo de identificação étnica, e que estendemos a todos
os processos identitários: em primeiro lugar, o caráter contrastivo da
identidade e seu forte teor de oposição com vistas à afirmação individual
e grupal; em segundo lugar, a possibilidade de sua manipulação em
situações de ambiguidade, quando se abrem diante do indivíduo ou do
grupo alternativas para a escolha (de identidades) à base de critérios de
ganhos e perdas na situação de contato. (CARDOSO de OLIVEIRA,
1976: 131). A instrumentalização das identidades se traduz, em muitos
casos, em uma visão absolutamente pragmática sobre a nacionalidade,
tal como ocorre na prática de registrar os filhos no país mais conveniente.
A fronteira se torna um “recurso simbólico” através do qual torna possível
a comunicação em contextos extraordinários (VALCUENDE e CAR-
DIA, 2009).
Entendemos que, por si só, o tema das fronteiras apresenta uma
questão de caráter universal, pois a partir da construção histórica dos
estados nacionais, forjaram-se as fronteiras políticas (linhas arbitrárias)

117
e o dogma da soberania nacional em todos os continentes do planeta, no
que poderíamos chamar de “invenção das fronteiras”. O estabelecimento
de limites soberanos entre unidades administrativas implica,
necessariamente, na imposição de um tipo específico de interação social
e de construção das identidades a partir da convivência e do trânsito
entre os limites políticos nacionais. Não obstante, apesar do papel
estratégico que as fronteiras têm para os estados nacionais, não é possível
menosprezar a construção local do espaço fronteiriço, a partir de seus
moradores.
Em primeiro lugar, esta tarefa tem como ponto de partida a
compreensão da dupla condição da fronteira: ora como “barreira” (zona
fortificada) e limite (alfândegas, passaportes, muros etc.), ora como
“passagem” (zona de interação), como área aberta, porosa, permeável e
como um local de interação social (trocas simbólicas e econômicas).
Sendo assim é preciso estabelecer relações dialéticas entre as duas
condições da fronteira, não apenas entendê-las como áreas de livre trânsito
onde os limites e força dos Estados são abolidos e nem reduzi-las apenas
à dimensão do conflito, da proibição, das disputas de poder. A fronteira
é, portanto, um espaço em movimento (um espaço vivo e vivido),
movendo-se além das visões das fronteiras baseadas apenas no dogma
da soberania dos Estados nacionais, que trabalham necessariamente com
a ideia de limite estático e definitivo estatal. Isto nos leva a conceber
uma ideia de fronteira como zona “liminar”, representando espaços que
ainda estão sendo estruturados e que são vivenciados pelos atores sociais
como “zona de interesses mútuos” (LEACH, 1960).
As cidades fronteiriças se constituem como um campo de disputas
por trabalho, rotas comerciais e pelo espaço da rua (como fonte de
recursos econômicos e sociais), onde se dão também os processos de
integração formal e informal de grupos sociais. Entender as modalidades
de trabalho “ilegal” implica, portanto, em um afastamento de pré-
julgamentos que inserem este fenômeno apenas nas esferas judicial e
criminal. Como percebemos nos estudos de caso, os atores sociais
envolvidos na economia “ilegal” não vêem a si mesmos como criminosos,
mas como trabalhadores - “que fazem seu ganho”, como empreendedores,
inseridos na economia urbana da cidade de Corumbá, inclusive a partir
de reinvestimentos feitos a partir da capitalização “ilícita” -. Neste sentido,

118
a etnografia, como método de pesquisa antropológica, fornece as
ferramentas para entender o trabalho desses indivíduos a partir do ponto
de vista dos mesmos, o que permite, por sua vez, uma melhor
compreensão das relações indissociáveis entre o que se convencionou
chamar de economia “ilegal” e economia propriamente dita,
transpassando os aspectos meramente normativos e legais.
O papel preponderante do Estado, entretanto, no cotidiano dos
indivíduos não deve ser subestimado, já que o exercício do poder estatal
nas fronteiras sempre foi estratégico, seja na defesa de seu território,
seja no avanço de suas fronteiras. Apesar de considerar a posição central
do Estado como um vetor de forças coercitivas e de controle social,
entendemos que os estudos fronteiriços devem estar pautados na vida
das pessoas que habitam essas regiões, buscando suas relações com as
instâncias de poder. Pesquisadores como Donnan e Wilson afirmam que
as fronteiras políticas entre Estados nacionais se tornaram, nos últimos
anos, um foco de atenção mundial, mas que, entretanto, a vida das pessoas
que vivem e trabalham nessas fronteiras não recebe a mesma atenção
dos teóricos. Para estes autores: (...) “as culturas de fronteira são exemplos
de relações dialéticas que existem entre uma miríade de grupos sociais e
entre eles e níveis maiores e mais poderosos de integração sociopolítica,
incluindo o Estado” (DONNAN & WILSON, 1994).
Para Grimson, por sua vez:

(...) trata-se de ir às fronteiras estatais com uma perspectiva aberta


que permita detectar e compreender não apenas a multiplicidade
e mistura de identidades, mas também suas distinções e conflitos.
Disputas culturais nos confins do poder (GRIMSON, 2000: 1).

É justamente pelo contato com o “outro” - com o estrangeiro


fronteiriço - que se forja e reafirma a construção do sentimento de
pertencer à nação, por parte dos moradores da fronteira, diferentemente
de outras áreas centrais do Estado. Se em diversos momentos os limites
do Estado são desafiados e até renegados nas regiões de fronteira, em
outros, são reafirmados com uma contundência maior do que em outras
partes do país. Sendo assim, se faz necessário compreender em que
medida a nacionalidade constitui uma categoria central na vida dos

119
moradores fronteiriços, “que organiza el espacio cotidiano, determina
acceso a derechos o define extranjería, y es condición para devenir per-
sona en la vida local” (GRIMSON, 2003, p. 18). Concordamos com o
citado autor quando afirma que a distinção de nacionalidades é o modo
principal através do qual as pessoas constroem o sentido de lugar na
fronteira (a fronteira da nação, sua nação), constituindo um elemento de
sentido comum para a população local, (Idem). É preciso, portanto,
investigar a construção dos processos históricos através dos quais esses
limites e essas identificações foram instituídos na fronteira Brasil-Bolívia,
em Corumbá- Puerto Quijarro.
Mesmo neste contexto atual de integração e expansão das fronteiras,
sobretudo através da expansão do capital, é notório que as políticas de
integração econômica e política não buscam beneficiar diretamente as
populações fronteiriças, mas principalmente promovem o comércio
terrestre entre países atravessando cidades fronteiriças, concebidas como
“zonas de serviço”. (GRIMSON, 2000) Assim, se criam importantes
facilidades para a circulação de mercadorias de grandes empresas, abrindo
as fronteiras ao capital, que tem peculiar interesse nas áreas fronteiriças
(seja pela possibilidade de ganho de capital, seja pela possibilidade de
sua evasão através de remessas ilegais ao exterior). Por outra parte, o
controle das populações fronteiriças, executado pelos Estados parece ter
se fortalecido, em relação à circulação, tanto de pessoas, quanto de
pequenas mercadorias do chamado “contrabando formiga”; ou seja,
quando interessa aos grupos sociais ligados aos governos, sobretudo
quando o que está em jogo são as grandes operações comerciais ligadas
ao grande capital, os Estados abrem suas fronteiras, todavia, quando se
trata das populações fronteiriças - que dependem das condições favoráveis
ao comércio na fronteira, e que construíram suas vidas neste cenário
comercial específico - observa-se o recrudescimento do controle, que
ignora as realidades, histórias e tradições locais.
Este ponto nos leva a pensar em outra característica estrutural da
vida nas fronteiras, a existência (quase sempre conflituosa) de duas
lógicas nas demarcações políticas internacionais nessas áreas: a lógica
das populações locais e a lógica do Estado. De acordo com Valcuende e
Cardía (2009):

120
(...) “ as populações fronteiriças aprenderam a instrumentalizar a
fronteira em função de interesses concretos e, assim, as fronteiras
políticas são reafirmadas ou negadas à medida que as fronteiras
sociais geradas a partir da interação social, sobrepassam as
demarcações estatais” (VALCUENDE e CARDIA 2009: 25).

A fronteira, de acordo com esses autores (Idem), pode ser entendida


não apenas como um recurso econômico para seus moradores, mas
também como um recurso social a partir do qual se formam redes de
solidariedade e parentesco que atravessam os limites nacionais. Esta
comunicação ocorre de várias maneiras na fronteira Corumbá/Ladário –
Puerto Quijarro/ Puerto Suarez. Os fenômenos religiosos e a socialização
decorrente dos cultos religiosos são chaves interessantes para a
compreensão dessas formas de interação e trocas simbólicas e merecem
um estudo mais aprofundado; como exemplo, podemos citar os seguintes
fenômenos: o trabalho de missionários de Igrejas evangélicas brasileiras
no lado boliviano (além do barco da Assembléia de Deus de Corumbá,
que realiza um trabalho de evangelização de ribeirinhos, nas margens do
rio Paraguai, não apenas na Bolívia, mas também do lado paraguaio); as
religiões de origem “afro-brasileiras”, como a Umbanda, com forte
presença na cidade de Corumbá, que também possuem adeptos no lado
boliviano, (“pais-de-santo” de terreiros da cidade atendem no lado
boliviano da fronteira); a presença dos “feiticeiros” bolivianos, e os cultos
religiosos católicos, padroeiras e santas, que são reatualizados em
Corumbá, e cuja devoção tem origem no Paraguai (virgem de Caacupé)
e na Bolívia (Virgem de Urkupiña).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A vida na fronteira, com toda sua complexidade, demanda um olhar


aguçado para romper com visões preconceituosas e estabelecidas no senso
comum e que emanam principalmente de atores sociais interessados, a
partir de discursos hegemônicos ligados ao dogma da soberania estatal.
Como romper com as visões preconceituosas que ora tratam as fronteiras
como “terras de ninguém”, como lugares desterritorializados e sem uma
identidade própria e ora consideram essas regiões como o locus da

121
violência, da ausência de leis e foco de preocupações exclusivas de
políticas públicas de segurança nacional? Como romper com a violência
simbólica do silêncio e da negação dos discursos oficiais sobre as
fronteiras? Para realizar a tarefa de compreender a vida fronteiriça em
toda sua densidade, acreditamos que o método etnográfico permita ir
além de questionários fechados, de metodologias pré-concebidas,
independentemente do campo de pesquisa e da coleta de dados
quantitativos que mais obscurecem do que revelam os fatos sociais que
precisam ser vivenciados e experimentados pelo pesquisador.
Outro aspecto relevante se refere ao fato de que as fronteiras são
representadas de diferentes modos pelos atores sociais que as vivenciam,
o que revela seu caráter polissêmico. A pesquisa empírica etnográfica
junto aos indivíduos e grupos sociais que vivem em áreas fronteiriças é
que pode fornecer os elementos para que possamos observar onde se
dão as adesões e as reciprocidades, os conflitos e tensões entre as pessoas
nas fronteiras, para entendermos como se formam os laços sociais e os
mínimos de dependência entre os grupos e por quais processos as
identidades se reconfiguram nas áreas liminares de fronteira. Para realizar
esta tarefa investigativa, resta saber se estes fenômenos fronteiriços
possuem características estruturais que permitem estabelecer pontos em
comum para sua comparação com outros contextos de fronteira, para
refinar cada vez mais nossas abordagens teóricas e permitir uma melhor
compreensão dos fenômenos sociais nessas regiões.
A Antropologia propõe um novo olhar para a fronteira e nosso
desafio constante é o de estar cada vez mais envolvidos com a realidade
empírica da região e com a vida dos moradores fronteiriços, da qual
fazemos parte também, que passam a ter uma “voz”, construindo e
reinventando novos discursos sobre a fronteira, a partir do ponto de vista
de si mesmos (nós mesmos, afinal de contas). Além disso, há um
compromisso teórico e metodológico de dar conta das interações formais
e informais que ocorrem nas regiões fronteiriças e que podem fornecer
as bases, “de baixo para cima”, para a implantação de políticas públicas
nessas regiões ainda tuteladas pelo Estado. É preciso enfatizar que os
moradores fronteiriços já aprenderam, ao longo da história, a
instrumentalizar sua condição e a criar laços através das fronteiras
independentemente, e anteriormente à “invenção” dos Estados e essas

122
formas de interação social não podem ser menosprezadas em seu poder,
alcance e importância.

NOTAS EXPLICATIVAS

1
Professor Adjunto de Antropologia e Docente do Mestrado em Estudos Fronteiriços da Universidade Federal
de Mato Grosso do Sul/ Campus do Pantanal em Corumbá-MS.
2
Associações de comerciantes na fronteira. A Feira Bras-Bol, espécie de “camelódromo” em Corumbá, é
composta em sua maioria por bolivianos, que vivem nos dois lados da fronteira. A Associação 12 de Octubre
está situada em Arroyo Concepción, distrito de Puerto Quijarro, na Bolívia.
3
Os Cambas se auto-identificam como os habitantes das terras baixas do oriente boliviano (no Departamento
de Santa Cruz) e denominam os habitantes do altiplano de Collas (identidade a princípio negativa, e
estigmatizante, de conotação racista, que passa a ser reapropriada pelos mesmos, sendo ressignificada
positivamente, com um sentido de orgulho étnico). Este complexo e conflituoso sistema classificatório
boliviano não é tema deste artigo e serve aqui apenas como breve ilustração.
4
A partir de leituras de Barth (2000) e Cardoso de Oliveira (1976), entendemos que os grupos e identificações
não podem ser compreendidos em si mesmos, mas apenas com relação aos outros, a partir de relações
sociais que se dão pelo contato, sobretudo em áreas fronteiriças.

REFERÊNCIAS

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VILLA, Pablo. Crossing Borders, Reinfocing Borders. Social categories, metaphors and narrative
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124
TEXTUALIZANDO CONDIÇÕES FRONTEIRIÇAS: A
CONTRIBUIÇÃO DA LITERATURA FICCIONAL
PARA O ESTUDO DO CONTRABANDO

Adriana Dorfman1

INTRODUÇÃO

O estudo das fronteiras desafia a pesquisar um objeto espacial


geneticamente estatal, mas que só pode ser descrito com atenção às outras
escalas geográficas em que sua vida de relações se constrói. A análise
escalar permite identificar comunidades com diferentes capacidades
discursivas, expressas em formas, suportes, circulação e legitimidade
variadas.
Reconhecemos a existência de uma política discursiva “na” e “sobre
a” fronteira, o que nos permite interpretar o conteúdo dos discursos e
suas conexões com as práticas, como performances com duração, que
caracterizam cada comunidade. Essa política discursiva se organiza a
partir de elementos sociais e espaciais; há grupos cujos discursos
alcançarão maiores audiências e terão maiores consequências, outros
serão pouco ouvidos. Também existem lugares de onde se lançam
representações sociais de ampla difusão e aceitação, que obliterarão as
margens geográficas e discursivas.
A fronteira – região em que se territorializa o limite do Estado –
aciona uma carga simbólica que extrapola os aspectos administrativos
da soberania, como o controle dos trânsitos de população e de
mercadorias. Daí a importância de atentar aos discursos e à sua

125
performatização; muito se diz e se escreve sobre a fronteira, geralmente
lançando mão de simbolismo e normatividade descolados das
experiências em condição fronteiriça. Especialmente no âmbito do estudo
da (i)legalidade, interessa saber: qual comunidade emite cada enunciado,
a partir de que posição política e situação geográfica, com que finalidade
e alcance efetivo sobre as práticas.
Tenho me defrontado com tais constatações desde a pesquisa para
a tese de doutorado sobre os “contrabandistas” que hoje trabalham na
fronteira do Brasil com o Uruguai (DORFMAN, 2009). Eu tentava
interpretar a fronteira na escala local - descrevendo as práticas dos
“contrabandistas” de pequenos volumes -, tendo, para tanto, recorrido a
um conjunto de documentos composto por textos muito diferentes, en-
tre os quais se destacaram, num primeiro momento, obras ficcionais –
os famosos contos de “contrabando” –, a legislação pertinente de ambos
os lados da fronteira, bibliografia acadêmica, notícias e propagandas.
O exame desse material permitiu distinguir quais dentre os
conteúdos desses discursos era concernente à realização do “contrabando
formiga”, e levou, ainda, a observar a presença de deslizamentos
discursivos entre a ficção e a realidade, e entre as muitas realidades dos
“contrabandistas” na fronteira. Durante os trabalhos de campo, conversei
informalmente e realizei várias entrevistas abertas com pessoas com
conhecimento de causa, como “contrabandistas”, aduaneiros, advogados,
juízes, professores, historiadores e geógrafos, e ao transcrever esse
material, pude comparar representações sociais e espaciais textualizadas.
Acolhi tudo o que caísse a mão, eis que sobre o “contrabando”
paira o sigilo - tanto da parte daquele que o pratica, quanto dos órgãos de
segurança e repressão -.
Para citar um informante:

(...) aqui nós ainda respeitamos os valores das pessoas, entendesse?


Ainda hay um certo pudor, ainda não é escancarado. Tu fica na
tua, fica quieto e deixa que eles tussam, entende? Não te mete
com nada e pronto, essa é a lei, deixa quieto que eles, vai chegar
um momento, eles caem. (entrevista com Robles, Santana do
Livramento-Rivera, 25/01/2006).

126
Então existia esse problema de “esperar eles tossirem”, e o sigilo
se mostrava como uma moeda forte nos discursos sobre delitos e
segurança, defendido por “contrabandistas” e policiais por conta do
caráter estratégico e reativo de suas operações. Assim, foi através de
repetidos trabalhos de campo e da lenta construção da confiança com
um informante-chave, de um trickster - pessoa falante, de grande
experiência e ótimos relacionamentos nos diferentes campos da segurança
em Santana do Livramento-Rivera - que pude aceder aos relatos de
“contrabando”, a essas verdades sigilosas.
Como se observa em campo, nessa fronteira o contrabando é
bastante legítimo, mas isso não quer dizer que possa ser comentado de
qualquer forma e em qualquer situação, menos ainda com aqueles que
não fazem parte dessa rede comercial de caráter ilegal. Ou seja, a aceitação
social do pesquisador pelos agentes territorializados na fronteira é
condição para ter acesso à informação sobre o “contrabando” como prática
e não como delito. O sigilo só é rompido quando se é aceito no grupo,
eis que se instala no limite entre pertencer ao local ou ser visto como
extralocal, criando uma geografia metafórica da informação.
A dificuldade também estava ligada ao caráter informal das práticas
estudadas. Estatísticas sobre o “contrabando”? Em certos casos é possível
conseguir balanços de apreensões, mas o “contrabando” bem-sucedido
tende à invisibilidade, não entra nas estatísticas. Além disso, a análise
estatística é problemática na fronteira - onde os fenômenos se afastam
das normas e justapõem-se as bases censitárias geradas a partir de critérios
nacionais distintos -. Já a etimologia nos mostra a ligação entre o nexo
do Estado e suas estatísticas. Além disso, descrever o “contrabando”
como delito – a partir do Estado e de sua legalidade, nada dirá sobre seu
caráter de prática legítima na condição fronteiriça.
Dada a coexistência de regimes normativos diferentes em cada
lugar de enunciação, todo um esforço teórico foi empenhado para
permitir o trabalho com esse corpus de representações sociais
textualizadas e diversificadas: do “contrabando” romântico característico
dos contos de “contrabando”, às notícias na página policial - passando
pela lei do Estado e por frases ouvidas em campo -. Essa é a história que
pretendo contar aqui: como a literatura foi importante para circunscrever
o “contrabando” como prática, evidenciando aspectos morais e éticos

127
correntes na sociedade fronteiriça e estabelecendo os contextos de ilegalidade/
legitimidade/viabilidade do “contrabando”, a partir da textualização da
geografia desse lugar.

LITERATURA DE FRONTEIRA

No Rio Grande do Sul, o emblema literário mais recorrente é o


gaúcho/peão. Da mesma forma, a literatura do Rio Grande do Sul é
pródiga em verso e prosa ambientados na região da fronteira. João Pinto
da Silva, ao escrever a primeira História Literária do Rio Grande do Sul,
ainda no ano de 1922, diagnosticava que em “nossas florações literárias,
[...] quando reflexos do ambiente rio-grandense, o tom é um só. De facto,
o nosso regionalismo é todo de accentuado cunho fronteiriço, ainda
quando a acção de contos e novelas se desenvolve longe da linha
divisória” (p.129). Críticos contemporâneos reiteram tal diagnóstico: “a
palavra ‘fronteira’ vem [sendo] [...] objeto de preocupação para todos
aqueles que se voltam ao estudo da literatura sul-rio-grandense – e
destacam-se aqui, dentre tantos, os nomes de Guilhermino César, Othelo
Rosa, Rubens de Barcellos e Moysés Vellinho” (MASINA, 1994, p. 55).

128
A expressão “literatura de fronteira” tem tido uso corrente em estudos
literários no Rio Grande do Sul – vejam-se os trabalhos de Lea Masina (1994,
1995), Nara Rubert (2003) entre outros. O quadro abaixo (figura1) apresenta
autores e obras publicados até 2009, sem exaurir a produção dos escritores
e certamente omitindo muitos nomes importantes.
A literatura de fronteira pode ser reconhecida como um gênero, ao
considerarem-se índices como a origem geográfica dos autores, a tematização
da fronteira e a interpolação do português, do espanhol e de termos locais,
gauchescos, em sua maioria, oriundos das línguas indígenas, por vezes
assumindo-se como portuñol. Para a constituição do gênero contribuem ainda
as referências recíprocas entre os autores, sejam eles contemporâneos ou
precursores, e a existência de editoras e de público-leitor, conformando um
sistema literário.
O conceito de sistema literário, no qual a relação entre autores, público
e um conjunto de editoras formam um sistema, também se aplica à literatura
sul-rio-grandense sem descartar a ideia de literatura da fronteira. Sistema
refere-se à organicidade da literatura, “do triângulo ‘autor-obra-público’, em
interação dinâmica, e de uma certa continuidade da tradição” (CÂNDIDO,
1981, p.16).
A literatura de fronteira não aparece apenas no Cone Sul.
Internacionalmente, é a fronteira entre o México e os Estados Unidos
aquela aceita como paradigmática, e não apenas no campo da literatura
(GRIMSON, 2000, p.22). Edward Soja, por exemplo, incluiu em
Thirdspace, uma análise da cultura e identidade chicana valorizadas como
“formas inovativas de interpretação (terceiro)espacial” (t.a) (“innova-
tive new forms of (Third)spatial interpretation”, 1996, p. 129). Sonia
Torres (2001) organiza sua análise da “literatura, etnografia e geografias de
resistência” pelo questionamento da hispanização da cultura norte-americana,
da busca de uma voz pelos migrantes latinos que não abandonam suas origens,
e das resistências geradas no processo. Uma análise preliminar da literatura
da fronteira México-EUA revela que apenas os latinos e seus descendentes
têm tomado a palavra, ou talvez eles sejam mais valorizados por serem
considerados pelos teóricos como os portadores da nova representação. A
comparação entre a literatura da fronteira gaúcha e a produzida nas
borderlands norte-americanas revela ainda que os conflitos são muito mais
claramente expostos no segundo caso, refletindo as distintas realidades que

129
as geram (DORFMAN, 2004).Também na França encontrei obras que falam
da fronteira e do contrabando, valorizando a primeira como lugar de memória
e o segundo como prática tradicional e marca do lugar (DORFMAN, 2008).
Assim, a literatura do Rio Grande do Sul recebe influxos da fonte
revelada pelo uruguaio Bartolomé Hidalgo – que, em 1810, escreveu os
“Dialogos Patrióticos” – e valorizada por José Hernández (1834-1886), em
“El Gaucho Martín Fierro” (1872) e sua continuação “La vuelta de Martín
Fierro” (1874). Essas obras são escritas por intelectuais urbanos empenhados
em relatar a vida campeira em seus países, seus personagens e paisagens, a
entrada da população no corpo pátrio, seja através do discurso ou da guerra
(LUDMER, 2002). Essas obras comprometidas com a caracterização das
jovens nações latino-americanas são tidas como fundadoras das respectivas
literaturas nacionais.
Antes de Hernández, José de Alencar escrevera “O gaúcho” (1870),
uma entre várias obras regionalistas através das quais pretendia mapear a
diversidade da vida e da paisagem brasileiras. O romance de Alencar não foi
bem recebido entre os intelectuais do Rio Grande do Sul, por falta de
verossimilhança na linguagem e na representação do tipo regional. Como
resposta, Apolinário Porto Alegre escreve “O vaqueano” (1872), onde se
glorifica a “democracia da estância” (congraçamento entre fazendeiros e peões)
(HEIDRICH, 2000, p.136). Note-se que a legitimidade da representação
do tipo regional é dada ao argentino Hernández e não ao brasileiro Alencar.
A literatura da fronteira insere-se, portanto, na “comarca literária do
Pampa” (RAMA, 1982), compartilhada por sul-brasileiros, uruguaios e
argentinos (figura 2). Ao observar o mapa das comarcas literárias, a simultânea
pertinência do Rio Grande do Sul ao Brasil e ao Pampa pode ser entendida
como uma negação da suposta congruência entre cultura e nacionalismo,
onde a fronteira nacional delimitaria língua e práticas culturais. No caso gaúcho,
a fronteira é o marcador, o símbolo de uma cultura, de uma especificidade
em relação ao Brasil.
A literatura da fronteira produzida no Rio Grande do Sul carrega a
ambiguidade de ser a um só tempo não-nacional, mas transnacional,
identificada com o regionalismo tradicionalista, conservador e
nacionalista. É recorrente a inclusão de glossários nas obras regionalistas
editadas nos centros culturais da nação, posicionando os termos ditos
regionais nos marginalia da página e restabelecendo a posição periférica,

130
a condição desviante, deste produto cultural. Por outro lado, o conteúdo dos
marginalia é compartilhado entre as obras publicadas em outros países
platino. Há, portanto, uma linguagem da margem, incompreensível no centro,
mas comunicando transfronteira, fortemente baseada na oralidade, nas origens
híbridas da cultura e dos habitantes desse espaço. A língua é uma prática,
assim como o “contrabando”.

CONTOS DE CONTRABANDO

Os contos de contrabando integram um segmento importante na


literatura de fronteira. Essas representações textuais sublinham a
relevância dos aspectos territoriais para aqueles envolvidos nas passagens
ilegais da fronteira. Seus enredos tematizam as práticas dos “bagayeros”,
suas relações sociais e as formas de habitar o lugar.

FIGURA 2: América Latina: mapa das comarcas literárias.


Fonte: DORFMAN, 2009, p. 127

Ainda que o valor estético ou artístico de alguns contos de


“contrabando” possa ser questionado, é evidente a rentabilidade da análise
dessas representações situadas – sobre as trocas que a fronteira permite,

131
sobre o confronto de identidades, sobre o regime normativo incidente sobre
as práticas – sobre a condição fronteiriça.
A fim de estabelecer hipóteses sobre práticas, normas e condição
fronteiriça relevantes para contrabandistas de pequena monta em Santana do
Livramento-Rivera examino aqui dois contos de autores nascidos na fronteira
Brasil-Uruguai, escritos no limite entre texto culto e a narrativa nativa. Esses
contos foram pinçados devido a referências mútuas, intertextualidades mais
ou menos explícitas, reconhecimento por parte da crítica e circulação entre
leitores.
O uso de uma linguagem local é um recurso compartilhado pelos
textos. Ligia Chiappini (1999, p. 21) cita Dino Preti (1977, p. 42-3, 47)
para enumerar estratégias a que um dos autores estudados, Simões Lopes
Neto, recorre em seu esforço para transcrever a oralidade:

(...) a redundância; a freqüência das expressões de situação (aqui,


ali, agora...); o truncamento básico; o ritmo e sonoridade típicos
da fala; o papel da pontuação ressaltando a afetividade; a imagem
do interlocutor; as interjeições e chamamentos, pelo vocativo; as
questões, supostamente dirigidas ao interlocutor e, por meio deste,
ao leitor-ouvinte; as comparações dentro do horizonte de Blau;
os castelhanismos.

O conto mais antigo e conhecido aqui analisado é Contrabandista.


É provável que João Simões Lopes Neto seja o pai dos contos de
“contrabando” no Rio Grande do Sul. O título refere-se a Jango Jorge,
descrito como um homem de muito valor e habilidade, fortemente
arraigado no pago, que se notabilizava pelo conhecimento da região -
que “nunca errou vau, nunca perdeu atalho, nunca desandou cruzada”-
localizando-se pelo faro, pelo ouvido e até pelo gosto característico a
cada lugar (LOPES NETO, 1998, p. 91).
A história se passa em meados do século XIX, mas remete também
ao tempo passado: já velho e afamilhado, Jango Jorge ia casar sua filha.
Saiu na véspera da boda para buscar o enxoval do outro lado do rio, e da
fronteira. Todos os preparativos estavam concluídos, mas a noiva não
podia aparecer na festa enquanto o pai não chegasse com seus atavios.
Depois de tensa espera, um movimento no terreiro anuncia Jango Jorge:
deixando sua experiência de lado, insistira em enfrentar a guarda de

132
fronteira e fora morto.
Além da rica informação factual deliberadamente incluída nessa
obra, e em parte transcrita acima, o desejo de registro é tão explícito que
se pode afirmar tratar-se de um conto a serviço do documento, aprende-
se que o “contrabando” é uma prática tradicional na região, e que desde
sua origem, anterior a 1800, organizava-se em bandos ou “malocas”,
atuando nos banhados do rio Ibirocaí, com qualquer tempo e a qualquer
hora do dia (LOPES NETO, 1998, p. 91). Segundo o autor, o contrabando
teria nascido porque os estancieiros iam ou mandavam buscar artigos
necessários ou supérfluos para seu abastecimento do outro lado da
fronteira ainda mal definida.
É evidente sua intenção em registrar a gênese e a organização do
“contrabando”, apresentando-o como estratégia de sobrevivência da
população diante de uma dinâmica histórica desterritorializante, e não
como crime ou contravenção. O personagem-título surge com muita
humanidade, como um pai dedicado, generoso e conhecedor da terra, e a
ele opõem-se os “ordinários” guardas da fronteira. O “contrabando” que
leva à morte de Jango Jorge não são armas nem drogas, mas um enxoval,
a proteção e a delicadeza legada por um pai a sua filha. O casamento
vira funeral, o dia vira noite, por causa do combate entre o “capitão-
contrabandista” e o pai da noiva, próximo e familiar, e os ordinários que
defendem a lei estatal. É preciso lutar para reaver o corpo do
“contrabandista”.
O contexto histórico é reforçado pelo escritor-testemunha, ciente
de seu papel social (o que é corroborado por sua opção por um
personagem de extração social baixa, tal qual os bagayeros) escolhendo
registrar a dor desencadeada pela desarticulação de certo mundo rural. A
sobreposição dos papéis de autor/testemunha permite o uso desse mate-
rial na pesquisa geográfica: os textos ecoam um coletivo humano
territorializado, sua oralidade, seu regime normativo. Eles representam
uma vida de transgressões à norma nacional em condição fronteiriça.
O autor contemporâneo Amilcar Bettega-Barbosa (1964) escreveu
“Arreglo” – que pode significar arranjo, suborno, reparação ou rendição
– em 1996 (BETTEGA-BARBOSA, 2000). Essa história não louva o
gaúcho ou sua região, como no começo do século XX. Ela mostra um
lugar marginal e violento, “esvaziado de perspectivas”, onde o

133
“contrabando” é uma “alternativa à falta de alternativas” (entrevista, Paris, 23
de março de 2007). O conto se passa numa fronteira marginalizada pela
economia e pela geopolítica, entre quartos de cabaré e um parador na Federal,
em Rosário do Sul. O posto de serviços da Rodovia Federal, que poderia
ser descrito como um não-lugar – não fosse o uso da expressão local –
sublinha a presença do nacional e aponta para a articulação supranacional
através da estrada para a Argentina. A ação se desenrola na cidade, o entorno
rural é descrito como miserável, o rio é só um cenário. Não há menção a
cavalos, sequer como ornamentos da masculinidade, mostrando ter-se
terminado o tempo dos cavaleiros em tropeadas campo afora. Outras escalas
e redes organizam o território.
Arreglo inicia com o assassinato do “contrabandista” Vico, por
Mendes. Como numa tragédia grega, o narrador é levado pela honra que
oprime por inexequível, a vingar essa morte, apesar de querer mudar de
vida para casar. Vico, o “contrabandista” morto por Mendes ainda antes
do início da narrativa, era “chibeiro pequeno, talvez dos últimos numa
época em que o chibo perdia a força e o rio já não passava de uma
paisagem d’água irmanando a miséria”. Aparentemente o assassinato
tivera motivação passional, uma disputa pela prostituta adolescente Sarita,
mas na verdade outra era mulher em questão. A irmã mais moça de
Mendes havia sido estuprada por Vico e engravidara. Miséria e a violência
atingem a todos. O desfecho é bárbaro: depois de surrar Mendes
brutalmente, o narrador solta um cachorro esfomeado e feroz que termina
de matá-lo. O corpo é desonrado definitivamente pelos cachorros.
Um ódio ao gaúcho mítico, que poderia ser uma projeção do
idealizado Jango Jorge, se manifesta no conto, exemplificando o contínuo
espelhamento e distorção entre a literatura e a vida: os gaúchos saem da
vida para a idealização na literatura (no “Contrabandista”), voltam à
literatura expressando a impossibilidade de cumprir com tal destino numa
vida transformada, frustrada e empobrecida (em “Arreglo”). A
comparação entre as duas histórias mostra uma transformação no lugar,
em seus habitantes e em suas representações.
A importância estratégica e os tempos heróicos pertencem ao
passado da fronteira, tanto no lugar quanto nas histórias que ele inspira.
A legitimação do “contrabando” no lugar se mantem associada à
esperteza, rebeldia e coragem. O “contrabandista” é portador de verdades

134
locais, associadas à territorialidade fronteiriça, baseadas nos regimes
normativos que permitem ao fronteiriço negociar as leis estatais, e grande
parte de sua naturalização decorre da frequência aos textos aqui
analisados.

REGIMES NORMATIVOS: LEIS E NORMAS

“O contrabando é ilegal, mas não é ilegítimo”, “contrabando


romântico”, contos de “contrabando”, bons bandidos e outros tropos das
explicações positivas sobre “contrabando” só ganham sentido se
pensarmos que surgem de comunidades que experimentam cotidianos
que criam e interpretam as normas e leis, estabelecendo seus próprios
entendimentos quanto à adoção destas, definindo as regras justas e
aplicáveis na comunidade.
O regime normativo é esse conjunto de normas, escritas ou não,
válidas para uma comunidade discursiva situada e compartilhando um
determinado momento histórico. São definições sobre o que é possível,
desejável, verossímil, legítimo e justo. Em sociedades complexas como
as nossas, o contrato social é debatido permanentemente, sem ruptura
com o estado, a partir de noções locais – mas também de gênero, classe,
faixa etária, etnia – sobre justiça, comportamentos e práticas legítimas.
A lei é o regime normativo de legitimidade mais abrangente no
território nacional. Cabe resgatar aqui a etimologia da palavra: vem do
verbo latino ligare, que significa “aquilo que liga”, ou legere, que significa
“aquilo que se lê”. Sua redação é um processo lento e controlado, é
monopólio do estado (as ditas autoridades competentes). Na prática,
comunidades discursivas melhor situadas, em determinados pontos do
território, emitem enunciados mais amplamente aceitos, que adquirem
força de lei. Por vezes,essas verdades ocultam, reprimem, criminalizam
sentidos locais ou desviantes.
Enfim, as leis não são meras manifestações da vontade neutra e
abstrata do estado, elas expressam a teia de interesses e encruzilhadas
público-privadas que buscam usar o aparato público no desenho da
economia, da política, da moral, da cultura no espaço/mercado/lugares
reconhecidos como território nacional. Muitas vezes, há uma
“privatização” da norma, isto é, esta é usada em proveito de grupos de

135
interesse situados (DORFMAN et al., 2012).
A produção da lei é relevante, mas é importante também
problematizar a capacidade de levar à sua observância. Um aparato muito
intrincado é construído para administrar o respeito à lei, personificado em
polícias e fiscais, peritos e investigadores, juristas e carcereiros etc. A lei
estabelece o que é contrabando, mas a decisão de reprimi-lo cabe, em certa
medida, aos diferentes agentes que controlam o território estatal – seja nos
limites territoriais,em outros pontos de entrada no território nacional como
portos ou aeroportos ou nos lugares em que se realiza o consumo.
Dada a impossibilidade de vigiar todas as mercadorias que transitam
pelo país, os órgãos de controle estabelecem metas em volume de
apreensões e em produtos específicos. A definição dessas metas é, muitas
vezes, resultado de um “clamor geral” ou da opinião pública, de um
debate que envolve sindicatos de produtores, militantes de direitos sociais
e a sociedade em geral, condenando enfaticamente e demandando a
repressão a um dado tipo de mercadoria contrabandeada (DORFMAN;
REKOWSKY, 2011).
Obviamente, a opinião pública é formada pela atualização das
verdades através dos debates nos meios de comunicação, cujos conteúdos
são primariamente definidos por comunidades discursivas ligadas a
grandes interesses econômicos ou a órgãos oficiais. Em outras palavras,
as fontes mais recorrentemente acessadas pelos jornalistas representam
o alcance do poder de certos grupos, o que está ligado à facilidade e à
efetividade da busca de informação por esses profissionais (GRIMBERG;
DORFMAN, 2012).
A norma legítima é, portanto, um compromisso entre estruturas (o
estado, o mercado, a imprensa, o lugar etc.) e agências (de aduaneiros,
de empresários, de comerciantes, de contrabandistas etc.). Localmente,
contrabandear é representado como um trabalho que implica no
desrespeito a algumas regras vigentes nos limites estatais, a partir de um
conhecimento do lugar, das práticas possíveis e legítimas nele. Quando
enunciado a partir do estado, o contrabando define-se como o transporte
ilegal de mercadorias entre estados, elidindo os tributos por estes
estabelecidos, através de um limite de permeabilidade seletiva
normatizada por agentes políticos e econômicos hegemônicos.

136
LUGARES DE ENUNCIAÇÃO E CULTURA SITUADA

E o que são lugares de enunciação? Oswald Ducrot e Tzvetan


Todorov conceituam enunciação como “os elementos pertencentes ao
código da língua e cujos sentidos, no entanto, variam de uma enunciação
para outra; por exemplo, eu, tu, aqui, agora etc.” (2001). Por lugar de
enunciação entende-se o aqui/agora do autor e de seus interlocutores,
nas províncias e redes de poder e representação que o contextualizam.
Os textos, as representações textuais, expressam a cultura
espacialmente situada. O lugar da enunciação influi na representação do
espaço formulada por cada agente: o agente é situado e a cultura em
circulação no lugar condiciona-o, ao regime normativo e às representações
que ele cria. Partindo desse ponto, enfatizo a mudança no significado da
lei e do contrabando conforme a situação que informa a representação
textual formulada por cada agente considerado.
Vou dar uns exemplos de como aparece a lei em textos originados
em diferentes lugares de enunciação. Quintana Morales, poeta riverense,
escreveu:

La ley sobre el contrabando


no fue hecha en la campaña
es como tela de araña
no se si muy bien me explico
no sujeta al bicho grande
pero enreda al bicho chico

No Código Penal da República Oriental do Uruguai, escrito com a


intenção de regular o mercado nacional, o artigo 245 da lei 13318/1964
reza que:

Se considera que existe contrabando en toda entrada o salida,


importación, exportación o tránsito de mercaderías o efectos que
realizada con la complicidad de empleados o sin ella, en forma
clandestina o violenta, o sin la documentación correspondiente,
esté destinada a traducirse en una perdida de renta fiscal o en
violación de los requisitos esenciales para la importación o

137
exportación de determinados artículos que establezcan leyes y
reglamentos especiales, aun no aduaneros

Simões Lopes Neto, escritor e publicista gaúcho do inicio do século


XX, escreveu, naquele texto fundador dos “contos de contrabando”:

Nesta terra do Rio Grande sempre se contrabandeou, desde em


antes da tomada das Missões. [1801]

Naqueles tempos o que se fazia era sem malícia, e mais por divertir
e acoquinar as guardas do inimigo: uma partida de guascas
montava a cavalo, entrava na Banda Oriental e arrebanhava uma
ponta grande de eguariços; abanava o poncho e vinha a meia rédea;
apartava-se a potrada e largava-se o resto; os de lá faziam conosco
a mesma cousa; depois era com gados, que se tocava a trote e
galope, abandonando os assoleados.

Isto se fazia por despique dos espanhóis e eles se pagavam


desquitando-se do mesmo jeito.

Só se cuidava de negacear as guardas do Cerro Largo, em Santa


Tecla, do Haedo... O mais, era várzea!

Depois veio a guerra das Missões; o governo começou a dar


sesmarias e uns quantíssimos pesados foram-se arranchando por
essas campanhas desertas. E cada um tinha que ser um rei
pequeno... e agüentar-se com as balas, as lunares e os chifarotes
que tinha em casa!...

Foi o tempo do manda-quem-pode!... E foi o tempo que o gaúcho,


o seu cavalo e o seu facão, sozinhos, conquistaram e defenderam
estes pagos!

Quem governava aqui o continente era um chefe que se chamava


o capitão-general; ele dava as sesmarias mas não garantia o pelego
dos sesmeiros...

Vancê tome tenência e vá vendo como as cousas, por si mesmas,


se explicam.

138
Naquela era, a pólvora era do el-rei nosso senhor e só por sua
licença é que algum particular graúdo podia ter em casa um
polvarim...

Também só na vila de Porto Alegre é que havia baralhos de jogar,


que eram feitos só na fábrica do rei nosso senhor, e havia fiscal,
sim senhor, das cartas de jogar, e ninguém podia comprar senão
dessas!

Por esses tempos antigos também o tal rei nosso senhor mandou
botar pra fora os ourives da vila do Rio Grande e acabar com os
lavrantes e prendistas dos outros lugares desta terra, só pra dar
flux aos reinóis...

Agora imagine vancê se a gente lá de dentro podia andar com


tantas etiquetas e pedindo louvado pra se defender, pra se divertir
e pra luxar!... O tal rei nosso senhor, não se enxergava, mesmo!...

E logo com quem!... Com a gauchada!...(LOPES NETO, 1998, p.


91)
Três formas de apresentar a lei: uma local, uma nacional, uma
regional.
Existe uma quarta forma, a lei da natureza. Quem traz é o Sergio
Faraco “era a mesma lei que reinava em sua vida e na vida de seus
conhecidos. Todo mundo se ajudava, claro, mas quando alguém morria
os outros iam chegando para a partilha dos deixados” (2000, p.295).
A variação no regime normativo reflete a combinação espaço-
tempo-precursores, da mesma forma como se inscrevem nos textos a
situação espacial, o contexto histórico de sua produção e leitura e,
finalmente, os precursores eleitos pelos emissores. Sejam os textos legais,
teóricos ou artísticos, sejam eles cultos ou populares, expressam a cultura
espacialmente situada. O lugar da enunciação influi na representação do
espaço formulada por cada grupo: o emissor é situado e a cultura em
circulação no lugar condiciona-o e às representações que ele cria. Em
última análise, a origem espacial do texto está nele expressa, mesmo
que não haja nele representação explícita do espaço.
Partindo desse ponto, entende-se a mudança nos conteúdos conforme
a situação que informa sua formulação. Situação é um conceito bem

139
explorado na Geografia Urbana, e refere-se à relação entre um lugar e seu
entorno, enfatizando conexões e acessibilidade. Cabe lembrar o apelo da
feminista americana Donna Haraway por saberes situados, em que a
objetividade ganhe corporeidade e se reconheça como construção social
(1989). Podemos afirmar que, dependendo do lugar em que se produza o
texto, e a quem se dirija o argumento, representações muito diferentes da
justiça, da fronteira e da condição fronteiriça vão aparecer.

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

Lendo, analisando a fronteira como numa central comutadora,


podemos perceber diferentes representações sociais, aqui visitadas a
partir dos textos em que elas são grafadas. Representações muito
diferentes de fronteira e de contrabando vão aparecer de acordo com o
lugar em que se produza o texto, e a quem se dirija o mesmo.
Cabe destacar: toda textualização constrói e representa o espaço.
A literatura não só representa, mas também é parte da construção dos
projetos identitários que se expressam em territórios. Citando Eric Cardin:
“a literatura sobre contrabando é um resultado, um reflexo, de um
contexto social plasmado na arte. No entanto, ela também difunde
posturas, identidades e representações, ajudando a construir o contexto
social que ela própria é originada” (comunicação particular, 2013).
Já em Durkheim se encontra uma discussão da relação das
construções simbólicas com a realidade social, uma sociologia do
conhecimento que debate as relações entre grupos socialmente situados,
suas ideias e atos. Aqui exploramos algo que se aproxima de uma
geografia do conhecimento, uma vez que a referencia é a situação
geográfica das representações sociais. Segundo Serge Moscovici,
representar é um processo de produção de conhecimento que funciona
como que “rolando” sobre estruturas sociais e cognitivas locais (e
populares), sendo, portanto, sociovariável.As representações não derivam
de uma única sociedade, mas das diversas sociedades que existem no
interior da sociedade maior (e, portanto, não podem ultrapassá-la) (2003).
Essa sociedade “maior” pode ser analisada a partir de sua

140
territorialização, lembrando da dialética que espelha sociedade e substrato
territorial. Na Geografia, isso exige ultrapassar as abordagens focadas só em
aspectos materiais do espaço e da cultura. Um desses aspectos é a literatura.

DE VOLTA AO LUGAR DE PARTIDA

Ao fim desse diálogo entre representações textuais, revela-se um


continuum entre os contrabandistas de ficção e da realidade, como se
fossem refigurações de um mesmo personagem, adaptando-se às
transformações do espaço que habitam, dialogando com a tradição da
literatura e dos costumes. Sendo a fronteira um objeto geográfico, e
havendo uma estreita relação entre os objetos geográficos e a produção
de cultura, sabendo que a sociedade se territorializa gerando
representações textuais e que essas mesmas representações textuais
entram na construção cultural e política dos lugares – pode-se afirmar
que a fronteira gera uma cultura específica. O contrabando é, nesse
sentido, uma prática cultural conectada com a condição fronteiriça. Há
uma sobreposição entre a prática do contrabando e a cultura da fronteira,
cujos índices mais reconhecidos são o portuñol, as famílias mistas, a
política transfronteiriça, a música e a literatura de fronteira.
As obras locais sobre contrabando apelam para o folclore ou para
a “contracultura”, fazem o elogio do passado ou da margem. Trata-se de
um folclore que imagina um território originalmente isento de fronteiras,
criadas por imposição de poderes maiores ou externos, que mutilaram o
território original sem, no entanto, extinguir, nos seus habitantes, o nexo
pregresso. A contracultura, a poesia da margem, atribui à região fronteiriça
valores como liberdade, autenticidade, criatividade, alinhando-se aos
pobres para exaltar seu inconformismo. Toda essa legitimação se estende
a contrabando de maior monta, com outros propósitos, às vezes bem
menos nobres.
Por outro lado, a cumplicidade moral leva a uma coesão interna:
os níveis de envolvimento com a atividade variam, há os que são
cúmplices apenas no sentido de partilharem o sigilo e não condenarem a
prática. Esse grupo – a sociedade local – não é uma classe social, nem um

141
grupo profissional, nem uma facção política. Os bandos e seus cúmplices
abrangem uma grande parte ou a totalidade da população do lugar. Deve-se
acrescentar que o contrabando dá coesão e identidade, mas não de uma
forma pacífica, acomodada. Há embates, disputas, mortes, beneficiados e
prejudicados. Conflitos, enfim. Podemos concluir que há um saber e uma
identidade nessa sociedade, nesse lugar, mas não há justiça.
Cabe pontuar que valorizar o contrabando como prática local é
problemático em outras escalas: reivindicar o delito conforma uma
sociedade fora da norma nacional, dando chance à estigmatização. Corre-
se o risco de representar a fronteira como ameaça à segurança pública,
reforçando uma geografia moral em que diferentes lugares do espaço
abrigam e estimulam valores como impureza, ameaça e delinquência. A
estigmatização da fronteira, pressupondo uma influência moral sobre
seus habitantes, é presente em diferentes representações, seja pela
mudança legal e territorial, pela situação periférica ou pelo contato/
contágio com o estrangeiro/outro (DORFMAN, 2009; PARK, 1973, p.
66).

CONCLUINDO

A literatura de fronteira e, especificamente, os contos de


contrabando revelam lances e nuances do comércio ilícito internacional
e da sociedade em que é praticado. A série de narrativas aqui encadeadas
mostra que o tema mantém-se em movimento, integrando-se na corrente
de representações textuais em que circulam leitores e autores,
contrabandistas fictícios e reais.
Como estratégia de aproximação aos sentidos locais do
contrabando, a literatura nos forneceu subsídios, que servem como
orientação para o trabalho de campo, no levantamento das práticas dos
fronteiriços. Alinhando tradição, costumes e práticas, podemos nos
aproximar dos hábitos ou costumes que se fazem no espaço social, que
trazem em si a ciência do lugar, dos pais e dos precursores, ao mesmo
tempo em que necessariamente se territorializam no presente.
De forma resumida, vou colocar algumas conclusões desse trabalho,
da minha experiência de pesquisa sobre o contrabando e da rentabilidade
dos textos literários para esse esforço.

142
Em primeiro lugar, nessa tentativa de organizar os textos segundo as
representações sociais e a situação geográfica, coloco alguns pressupostos:
- existem diferentes modos para representar o espaço e as práticas
que o ativam socialmente. A representação textual assume diferentes
gêneros (uma matéria, uma lógica, um suporte) para verbalizar o espaço,
com diferentes propósitos: descrição científica, obra ficcional, texto le-
gal e jornalístico, entrevistas, conversas, causos, anedotas, canções...
- todo mundo fala, as palavras e seus usos são de domínio geral,
em mutação e atualização permanente, mas cada gênero tem
características destacadas, leis internas. O texto científico prima pelo
diálogo com os precursores; a escrita geográfica também é cartográfica.
A representação oral recorre a gestos e entonações, perdidos na passagem
para o registro escrito. Cabe examinar o conteúdo local das palavras.
Listo como os principais elementos de uma geografia da
imaginação cultural:
- o lugar do emissor, o ponto de partida da representação, o lugar
de enunciação, o aqui e agora subjacente a cada texto.
- o lugar de recepção, a quem se dirige o texto,enfim, a situação
do texto, sua vinculação com diferentes entidades geográficas, sua posição
periférica ou central a outras representações sociais. Esse tipo de análise
sublinha ainda a suíte escalar em que circula o texto, por exemplo, o
contrabando, e os conflitos gerados na relação entre representações
oriundas no lugar, na região e no Estado.
Para fazer uma geografia da imaginação cultural precisamos
(a) reconhecer a natureza desigual de cada um desses gêneros
textuais,
(b) aproximá-los, construindo comensurabilidades entre textos de
origem, suporte e propósitos distintos,
(c) situá-los no lugar (em posições geograficamente coerentes com
a situação geográfica e social de quem as produz) e na tradição (que não
abordamos aqui),
(d) reconhecer seu caráter político na produção de coerências
internas por vezes dissonantes em relação a outras escalas e grupos sociais
(e) gerando novas representações textuais, como o texto que aqui se
encerra.

143
NOTA EXPLICATIVA
1
Dra. em Geografia, professora adjunta do Depto. de Geografia e da Pós-Graduação em Geografia da UFRGS,
adriana.dorfman@ufrgs.br.

REFERÊNCIAS

BETTEGA-BARBOSA, Amílcar. Arreglo. In: EQUIPE DA UNIDADE EDITORIAL (Org.).


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brasileira (momentos decisivos). São Paulo: EdUSP/ Ed. Itatiaia Ltda, [1950] 1981.
CHIAPPINI, Ligia. No entretanto dos tempos: literatura e história em João Simões Lopes Neto.
São Paulo: Martins Fontes, 416 p., 1988.
DORFMAN, Adriana. O espaço age sobre o estilo: comparando fronteiras através da literatura
de gaúchos, chicanos e europeus. Anais do VI Congresso Brasileiro de Geógrafos. Goiânia:
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Tese de doutorado, Florianópolis, 2009. Disponível em http://www.tede.ufsc.br/teses/PGCN0367-
T.pdf.
_______; FRANÇA, Arthur Borba Colen; DURAN, Roberta Corseuil; SOARES, Guilherme de
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Uruguai. Anais do IV Seminario da America Platina. Buenos Aires, 2012.
_______; REKOWSKY, Carmen J. Geografia do contrabando de agrotóxico na fronteira gaúcha.
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145
146
ANDAR EL CAMINO, ENCONTRAR EL PROPIO
HOGAR: RELATO VITAL DE UN MIGRANTE A LA
FRONTERA MÉXICO–BELICE

Antonio Higuera Bonfil

INTRODUCCIÓN

El estudio de las fronteras en tanto espacios sociales construidos


por el ser humano ha sido una prolífica forma de trabajo. La literatura
sobre el particular incluye acercamientos desde distintas disciplinas, con
enfoques teóricos variados; ríos de tinta han corrido para caracterizar
esas zonas del planeta marcadas por la actividad de sociedades y gobiernos
como puntos de confluencia y conflicto.
México tiene 4,301 kilómetros de fronteras internacionales
terrestres, de los que 3,152 corresponden a la vecindad con Estados
Unidos y 1,149 a la frontera con Guatemala y Belice (INEGI, 2013),
algo más del 10% de esta última -149.5 kilómetros- concierne a la
colindancia entre México y Belice (Hidalgo, 2007). Las fronteras oriental
y occidental del país son marítimas, comunicándolo con los océanos
Atlántico y Pacífico.
Este trabajo centra su atención en el relato de vida de un migrante
mixteco, muestra sus condiciones de vida en Oaxaca y el periplo que lo
llevó en 1979 a su destino final, la frontera México – Belice. Como
podrá comprobarse en las siguiente páginas, la experiencia vital de nuestro

147
personaje central está estrechamente relacionada con el trabajo agrícola,
las vivencias incluidas en este relato están salpicadas de anécdotas que
muestran el perfil cultural de un individuo que durante sus primeros
quince años de vida fue monolingüe, que por un periodo igual de tiempo
sólo tuvo los rudimentos del español para comunicarse y que adquirió
las habilidades de la lectura y la escritura sólo en el contexto del cambio
religioso que experimentaron él y su familia nuclear.
El mapa 1 muestra tanto el lugar de origen de nuestro personaje
central como el de su residencia desde hace más de treinta años. El estado
de Oaxaca se localiza en la región sureste de México y tiene acceso al
océano Pacífico, el estado de Quintana Roo conforma la parte oriental
de la Península de Yucatán, y hace frontera con el Caribe y Centroamérica,
siendo la única entidad federativa que tiene colindancia con Guatemala
y Belice.
Las diferencias entre estas entidades saltan a la vista. Oaxaca tiene
una extensión territorial de 93,952 kms2, divididos en 570 municipios
(http://www.oaxaca.gob.mx/?page_id=32006); de acuerdo con el Centro
de Información Estadística y Documental para el Desarrollo, de Oaxaca,
su población asciende a casi 4 millones de habitantes (http://
www.ciedd.oaxaca.gob.mx/sp/?p=1409). La densidad de población es
de 37.3 habitantes por kilómetro cuadrado y su jurisdicción es territorio
de 18 grupos étnicos.
Quintana Roo tiene una extensión territorial de 50,841 kms2, divididos
en 10 municipios, de acuerdo con el Consejo Estatal de Población de Quintana
Roo, estima en 1,484,746 su población parta 2013. La densidad de población
es de 29.2 habitantes por kilómetro cuadrado y en su territorio habitan, además
de los mayas originarios, varios grupos étnicos que han protagonizado una
migración laboral de cierta importancia.
Varias de las partes que conforman este trabajo fueron concebidas
como piezas complementarias que buscan mostrar tanto la dimensión individual
de nuestro personaje como algunas condiciones sociales en que aquél
desarrolló etapas específicas de su vida. El ir y venir de lo particular a lo
general permite asomarnos a diversos escenarios de la vida de los actores
sociales.
El núcleo de este texto es, entonces, la recuperación del relato de vida
de don Luis López Rojas, la forma en que creció en Oaxaca y los principales

148
rasgos de su vida en el sur de Quintana Roo, donde reside –literalmente- en
la raya en donde termina México y comienza Belice.

Mapa 1:

Fuente: http://www.losmejoresdestinos.com/mapa_mexico.gif

QUINTANA ROO, DATOS BÁSICOS

El estado de Quintana Roo se ha caracterizado por ser un lugar de


destino de migrantes nacionales y extranjeros. Erigido por el gobierno
federal en 1902 como territorio federal, se sitúa en la parte oriental de la
Península de Yucatán, haciendo frontera con el Caribe y Centroamérica.
Recibió oleadas de trabajadores para la extracción del chicle y el corte de
madera en las primeras décadas de su vida, produciéndose la fundación de
varias poblaciones en la frontera con Belice. Se debe resaltar que durante los
últimos 60 años la colonización dirigida por el Estado mexicano y la atracción
generada por polos turísticos como Cancún y Playa del Carmen han movilizado
miles de familias hacia esta zona de México.
Los trabajadores llegados a Quintana Roo para la actividad forestal,
además de los grupos mestizos y mayas ya residentes en esta zona de México,

149
sumaron en 1910 algo más de 9,000 habitantes; hoy el estado tiene
prácticamente un millón y medio de habitantes (COESPO, 2012). La condición
de frontera agrícola primero y la intervención del Estado mexicano para
colonizar esta región del país después, trastocaron la tendencia de lento
crecimiento poblacional en la primera mitad del siglo XX. Por ello, a partir de
1950 el número de habitantes tuvo un incremento sostenido, esta situación
dio lugar a una tasa de crecimiento sin precedente en los últimos sesenta años
(ver tabla 1).

Tabla 1
Tasa de crecimiento poblacional. México y Quintana Roo.
Período México Quintana Roo
1951 – 1960 3.1 6.4
1961 – 1970 3.4 6.0
1971 – 1980 3.2 9.5
1981 – 1990 2.0 8.3
1991 – 2000 1.9 5.9
2001 – 2010 1.4 4.1
Fuente: INEGI.Censos de Población y Vivienda, 1950-2010

La tabla 1 da cuenta de la elevada tasa de crecimiento poblacional


experimentado en Quintana Roo en la segunda mitad del siglo XX y el
inicio del XXI. La inmigración es, sin duda, la variable que explica esa
tendencia, cuyo valor duplica (1951–1970), triplica (1971–1980, 1991–
2000 y 2001–2010) y cuadruplica (1981–1990) lo ocurrido en el ámbito
nacional a lo largo de toda la serie. Una de las múltiples manifestaciones
del crecimiento poblacional es la de la diversidad religiosa; Higuera
(1992) y Vallarta (2011) han demostrado que en una parte de la frontera
internacional la pluralidad religiosa era un hecho consumado ya en 1904.
Si nos preguntamos por la evolución de la diversidad de creencias
religiosas a lo largo de las últimas seis décadas, encontramos una tendencia
en el cambio religioso que apunta hacia el incremento de la disidencia religiosa.
Si bien es cierto que la religión católica es hegemónica, resulta interesante
comprobar que de 1950 a 2010 el porcentaje de creyentes que profesan una
religión diferente a ella creció diez veces, al pasar de 3.5% a 35.47% (ver
tabla 2). De hecho, de acuerdo con los datos del XIII Censo General de

150
Población y Vivienda 2010, Quintana Roo es la entidad federativa con mayor
cambio religioso en México, al registrar un 8.6% de disminución de los
católicos.

Tabla 2
Católicos en Quintana Roo(totales relativos). 1950-2010
Año Población Católicos Porcentaje
1950 26,967 26,042 96.5
1960 50,169 46.099 91.8
1970 88,150 77,572 88.0
1980 225,985 186,931 82.7
1990 412,868 321,211 77.8
2000 792,990 552,745 73.2
2010 1´325,578 839,219 64.6
Fuente: Elaboración propia, con base en Giménez, 1996: 229-242;
INEGI 2002; INEGI 2006; INEGI 2011a.

¿Cómo vive un actor social no sólo el cambio en el lugar de


residencia, sino casi simultáneamente el de adscripción religiosa?,
¿estamos frente a un caso en el que el migrante lleva su creencia al lugar
de destino ó es la migración la que consolida el cambio religioso? Las
siguientes páginas ofrecen un caso de estudio que vincula estas dos
experiencias vitales.

DISEÑO DE INVESTIGACIÓN

El diseño de este trabajo partió del interés de usar la historia oral


como método de trabajo, como forma de acercarse a la realidad vivida
por actores sociales en medios culturales específicos. Al plantearse el
reto de abordar el estudio de la experiencia humana individual como
centro general de atención, y buscando no separarla del contexto social, lo
que la aislaría quitándole su sentido más profundo, se encontró una reflexión
de Marc Augé (2007) de gran utilidad para nuestro propósito.
En Casablanca, Augé ofrece un interesante modelo para abordar
el estudio de la memoria. Teniendo como punto central su propia
experiencia vital, que conecta el amor por el cine, una infancia en la

151
medianía del siglo XX y su profesión en las Ciencias Sociales, explora sus
recuerdos sobre el éxodo que la Segunda Guerra Mundial impuso a su familia
nuclear, una vez que su padre se incorporó al ejército francés y fuera destacado
en diversas regiones del país galo. De ese punto de partida, la obra desmenuza
puntos finos de cómo al pensar en el cine se puede pensar en la recuperación
de la memoria individual, que de una u otra forma se conecta siempre con el
ámbito social y nos permite conocer aspectos específicos de las relaciones
sociales.

Toda película que nos ha gustado un día comienza a ocupar un


lugar en nuestra memoria, junto a otros recuerdos. Es un recuerdo
entre otros, sometido como ellos a la amenaza del olvido, a la
erosión de la memoria. Incluso sucede que, por una razón u otra,
recordemos con mayor o menor precisión el lugar, la fecha y las
circunstancias en que vimos la película por primera vez. Pero
acordarse de una película también es recordar la película misma,
es decir las imágenes, como si la técnica de cine hubiese efectuado,
desde el inicio, el trabajo mental que selecciona percepciones
para formar recuerdos, como si, de alguna manera, hubiera hecho
el trabajo de la memoria. Así, sucede que las imágenes de las
películas se nos aparecen en la mente como recuerdos personales,
como si formaran parte de nuestra vida misma con, por lo demás,
ese mismo grado de incertidumbre que suele afectar a los recuerdo
y que a veces se revela cuando uno vuelve a los lugares del pasado
o coteja sus recuerdos con los de otra persona. (Augé, 2007: 25)

El epígrafe de la obra abre camino, “Este texto no es una


autobiografía; es, más bien, el «montaje» de algunos recuerdos. Es decir,
habría podido elegir otros recuerdos u otro montaje”. Esta declaración
es desarrollada en Casablanca, que poco a poco, como si se tratara de un
film que va mostrando sus protagonistas, la trama, los paisajes y el
desenlace, nos da las piezas del gran rompecabezas que constituye su modelo
de conocimiento y método de trabajo.
El libro teje varios niveles narrativos, que configuran la propuesta
del autor. Si sus recuerdos son el pretexto que da origen a la reflexión,
los elementos técnicos que constituyen una película, las características
de su elaboración y los procesos mentales que colocan al libreto, los

152
actores y los espectadores en lugares precisos, son utilizados por Augé para
resaltar la importancia que tiene la historia oral para conocer, entender y
explicar una capa sustancial de la vida social.

Cuando no tenemos buena memoria (una memoria que registre,


feche y clasifique), el pasado, incluso el pasado cercano, se suele
presentar como un conjunto de “escenas” dispersas. En el
momento de la rememoración tratamos de encontrar el vínculo
que las une, el hilo que corre de una a otra, es decir, el hilo mismo
de la existencia. La paradoja de la memoria es que, cuanto más
antiguo es el pasado, más vívidas, coloridas y presentes parecen
las escenas que nos quedan pero, en cambio, más tenue, confuso
y pérdido se vuelve el hilo que las une. Necesitamos “montar”
nuestros recuerdos, esos rushes de la memoria, para recomponer
una continuidad, es decir, para trenzar un relato. (Augé, 2007:
34)

Lo que más me gusta de las películas antiguas, sobre todo de las


norteamericanas, no son tanto las películas (aunque muchas son
excelentes) como los actores. Siempre los encuentros intactos,
bellos como dioses y diosas o, en todo caso, expresivos, poderosos
encarnando la virtud o el mal, el coraje o la cobardía (…) No
tienen una arruga. Siguen siendo iguales que la primera imagen
que nos dieron de sí mismos, cuando éramos jóvenes. (…)

Cuando estoy en el cine, lo que veo en la pantalla son mayores,


mayores que yo, exactamente como los adultos cuando yo era
niño. (…) Es cierto, el adulto que va al cine ha crecido, pero su
posición de espectador sentado lo coloca más o menos en el mismo
nivel que el niño que ha sido. Frente a la pantalla puede someterse,
sin demasiado riesgo, a la prueba de la fidelidad de su mirada, al
volver a encontrar las imágenes intactas de una película descubierta
años antes. (…)

(…) un pasado presente, con su propio pasado y su propio futuro.


Otra temporalidad se apodera de uno, irresistiblemente, desde el
principio: la del relato que uno conoce de memoria, pero que de
todos modos se apropia de uno y no lo deja hasta la escena final
(…) una película es una suerte de largo flashback. Volver a ver

153
una película es reencontrar un pasado que conserva toda la
vivacidad del presente. (Augé, 2007: 65, 66 y 68)

Haciendo el símil entre el cine y la vida, presentando sus vínculos


reales e imaginados, el autor discute en varios niveles las formas en que
los seres humanos fijan sus recuerdos y los procesan para ser contados
como parte de su existencia. Casablanca es un documento en el que
Augé reflexiona sobre el arte de recordar los acontecimientos de un época,
vinculando la experiencia individual con el escenario de la vida social,
la historia y los grandes eventos que marcan el ritmo de vida de las
sociedades.

Una película es una combinación de tres miradas, la de la cámara,


que obedece al director; la del protagonista, con la que la primera
se confunde cuando la cámara se vuelve “subjetiva”; y la del
espectador, por último, que toma las otras dos, mientras dura la
proyección. Paradójicamente, en definitiva, esa última mirada, la
mirada del espectador, es tributaria de las otras dos, es decir, la
que hace o deshace la película, según se deje guiar o no por la
primera y se identifique o no por la segunda. (Augé, 2007: 75)

Cuando la historia particular de una persona se entrecruza con la


historia en general, en ocasión de un hecho más o menos dramático
(guerra, huelga general, revolución…), esa persona empieza a
vivir de forma más atenta: cada minuto cuenta, todo es un signo,
nada se puede descuidar. Es la paradoja que tienen esos momentos
de temor o esperanza: eliminan la morosidad de lo cotidiano, echan
por tierra las depresiones y, más tarde, una vez desaparecidas las
amenazas o las promesas que parecían acarrear, se inscriben de
manera indeleble en la memoria… (Augé, 2007: 87)

El autor no deja de reconocer que el proceso de elaborar un relato


vital pasa, ineludiblemente, por la experiencia subjetiva de quien ha
vivido. Es éste un primer filtro que el investigador no puede obviar en su
trabajo; la posición específica del interlocutor, quien relata su propia
historia, determina el “montaje” que se hará para contar una experiencia
única, haciendo énfasis en determinadas épocas y circunstancias, fijando
su atención en elementos que, en el momento mismo del relato, tienen

154
importancia fundamental. Es el interlocutor el que decide, como el director
de la película, cuándo y dónde se hace un paneo, un primer plano o un
primerísimo plano, según quiera resaltarse una u otra situación específica de
la historia contada.

Montaje: este término, que parece tomado de la mecánica, resume


un misterio que es el encanto del cine. ¿De qué manera el
encadenamiento de una escena con otra previamente seleccionada
puede comprender un relato? […] (Al referirse a las series
televisivas estadounidenses dice) Las indicaciones de lugar, fecha
y hora se inscriben, sin embargo, en la pantalla, pero son a la vez
sintácticamente mínimas y narrativamente esenciales, hacen más
legible el recorrido narrativo construido por el encadenamiento
rápido de las imágenes; es decir, lo balizan.

En la vida real, en efecto, los momentos fuertes, los momentos


decisivos, son pocos, separados en todo caso por largos períodos
en los que fácilmente nos damos cuenta que no hay nada para
decir apenas nos ponemos a contar a alguien lo que hemos hecho
durante el día o la semana anteriores. Pero la mayoría de las veces
esos momentos fuertes y decisivos sólo aparecen
retrospectivamente, condenados a no existir más que como
recuerdos… (Augé, 2007: 30)

El segundo filtro, tan inevitable como el primero, es el que pone


en marcha el propio investigador al seleccionar lo que quedará (inclusive
cómo quedará) el “montaje” final. La redacción de la versión a publicarse
pasa por la “censura” del investigador, quien decide qué se incorpora y
qué no, en el texto final. Suerte de edición cinematográfica, esta labor da
la forma definitiva al relato que emerge de la labor investigativa.
No deja de ser interesante que el modelo de Augé tenga varios
puntos de coincidencia con la posición expresada por Bourdieu (1989),
quien reflexiona sobre la aceptación de una sola perspectiva al trabajar
la historia oral, en su fórmula de historia de vida:

Todo permite suponer que el relato de vida tiende a aproximarse


tanto más al modelo oficial de la representación oficial de uno
mismo, carnet de identidad, estado civil, curriculum vitae,

155
biografía oficial, y de la filosofía de la identidad que lo sostiene,
que se aproxima más a los interrogatorios oficiales de las
investigaciones oficiales –cuyo límite es el interrogatorio judicial
o policial-, alejándose tanto de los intercambios íntimos entre
familiares como de la lógica de la confidencia que transcurre en
esos mercados protegidos. Las leyes que rigen la producción de
los discursos entre la relación de un hábito y un mercado se aplican
a esta forma particular de expresión que es el discurso sobre uno
mismo; y el relato de vida variará, tanto en su forma como en su
contenido, según la calidad social del mercado en el que será
oficial –la misma situación de la entrevista contribuye
inevitablemente a determinar el discurso obtenido” (Bourdieu,
1989: 30-31)

Para Bourdieu es condición indispensable de las historias de vida


la comprensión de las circunstancias sociales en que se he desarrollado
el biografiado, (…) “intentar comprender una vida como una serie única
y suficiente en sí misma de acontecimiento sucesivos sin otro nexo que
la asociación que la de un nombre es por lo menos tan absurdo como
intentar dar razón de un trayecto en el metro sin tomar en cuenta la
estructura de la red, es decir, la matriz de las relaciones sociales entre
diferentes estaciones.” (Bourdieu, 1989: 31)

NOTA METODOLÓGICA

El relato de vida que se presenta en este trabajo es producto de una


investigación mayor, realizada en la frontera México – Belice a lo largo
de varios años, con el tema central de la diversidad religiosa. La región
estudiada es un escenario donde la presencia de diferentes iglesias cristianas
es una realidad añeja; si bien es un tema local poco estudiado, ha sido
abordado por autores como Villalobos (1989), Higuera (1999, 2012), Canul
G. (2000), Canul R. (2005), Poot y Vázquez (2005), Ucán (2005), Rivera
(2009), Higuera, Andrade,Caamal y Juárez (2009), Higuera, Crisóstomo y
Llerenas. (2012).
Como se ha dicho en la introducción de este trabajo, la zona
fronteriza que nos interesa forma parte de la entidad federativa con mayor

156
índice de cambio religioso en México (INEGI, 2010), razón que pone en
relieve la pertinencia de acercarse al estudio de la (in)migración a través
de la lente de la adscripción religiosa. Adicionalmente, debe señalarse
que Quintana Roo es el estado más joven de la República Mexicana,
habiendo sido erigido como Territorio Federal el 24 de noviembre de
1902 y alcanzado el estatuto de Estado Libre y Soberano el 8 de octubre
de 1974 (Careaga, 1980; Careaga e Higuera, 2011).
Espacio de colonización a lo largo de varias décadas, Quintana
Roo ha experimentado varias oleadas de inmigrantes, en la década de
1970 la colonización dirigida por el Estado Mexicano fomentó la
fundación de varios asentamientos humanos en la selva tropical; la
creación y desarrollo de un polo turístico de la importancia de Cancún
llevó a miles de familias a esta parte caribeña del país, y la migración
espontánea, aquella que es opción para quien busca tierra para cultivar ó
desea un trabajo agrícola, han contribuido decisivamente al crecimiento
demográfico del estado.
La investigación sobre el panorama religioso en la frontera México
– Belice ha seguido un diseño mixto, combinando trabajo de gabinete y
varias temporadas de trabajo de campo. Ha recurrido a diversas fuentes
de información, considerando tanto las primarias como las secundarias.
La consulta bibliográfica y de ediciones periódicas ha sido de gran utilidad
para enmarcar el cambio religioso como una expresión del cambio
cultural, en tanto que tienen injerencia directa en las relaciones sociales
regionales.
El trabajo de campo ha permitido abordar las formas concretas
que adopta la migración, el cambio de adscripción religiosa, las
modificaciones ocurridas al interior la familia como consecuencia de la
pluralidad confesional, bajando a la dimensión de los actores sociales
que tiene vínculos particulares con la historia local y regional, documentando
las diversas encarnaciones individuales de los procesos sociales.
La observación participante se ha concretado en la asistencia a los
servicios religiosos de diversas iglesias, colaborando en actividades de
la vida cotidiana de los creyentes y conviviendo con ellos en la vida
ritual y la seglar. Los encuentros con ancianos, ministros de culto, pastores
y encargados de los templos nos han permitido conocer la estructura con
la que operan las comunidades de fe y su historia local. Las entrevistas

157
en profundidad con los creyentes se han utilizado sistemáticamente, obteniendo
los datos necesarios para construir una serie de historias de vida que dé
cuenta de la forma en que se han experimentado individualmente los procesos
sociales locales y regionales.
Se empleó, además, el método genealógico para entender el
contexto inmediato de los actores sociales. Esta forma de trabajo no
sólo permite conocer las relaciones de parentesco de una familia extensa;
incorporar indicadores socioculturales a las estructuras genealógicas las
potencializa como herramienta para la investigación, ya que interrelaciona
aspectos concretos de la vida social. Si se piensa como una metáfora,
este procedimiento metodológico hace que las imágenes obtenidas en el
campo “ganen volumen, puedan ser apreciadas en tres dimensiones”.
Ello permiten expresar situaciones sociales complejas que entretejen las
diferentes experiencias individuales.
En el caso estudiado, la estructura genealógica muestra la
adscripción religiosa de los integrantes de la familia López Coronel, así
como elementos adicionales, que exponen el tránsito de los actores
sociales por la vida religiosa institucional. Quien ha permanecido fiel a
los patrones de conducta de la iglesia puede acceder a cargos de
responsabilidad dentro de la estructura institucional; si, por el contrario,
se ha mostrado desapego por las normas de la congregación pueden
ocuparse diversas posiciones, que van desde la no pertenencia a la
comunidad de fe, la separación voluntaria de la congregación
(denominada desasociación), hasta la expulsión de ella, perdiendo la
hermandad simbólica que significa pertenecer a los testigos de Jehová.
La separación voluntaria es una decisión personal del individuo, que
cuestiona los fundamentos de la religión, la expulsión no es un asunto
menor entre estos creyentes, toda vez que significa –en mayor o menor grado-
la muerte social del expulsado.
El relato vital presentado en este texto corresponde a un hombre nacido
en el sureño estado de Oaxaca y, como se verá en las siguientes páginas,
tiene una historia de migración que lo llevó por diferentes estaciones y
condiciones de vida, hasta ubicarlo en la frontera internacional que nos interesa.
Prácticamente toda su descendencia nació fuera del lugar de origen paterno y
una parte importante de ella es originaria de Quintana Roo. La migración y la
adaptación a medios naturales y sociales diversos está impreso en la

158
experiencia de los primeros integrantes de la segunda generación de la familia,
no así en el resto, que han tenido un solo lugar de residencia, en las
inmediaciones de la frontera México – Belice.
Las entrevistas realizadas con López Rojas tuvieron como escenario
su propia casa, en un ámbito de convivencia familiar y en las que varios
miembros de la familia intervinieron en uno u otro punto de la relación
dialógica. Tal condición de investigación significó un enriquecimiento
de la visión de conjunto obtenida, pues no sólo refiere la experiencia de
un actor social, aportando destellos de la memoria familiar.

RELATO DE VIDA

EL CONTEXTO DE ORIGEN

Luis López Rojas ha vivido algo más de ocho décadas. Originario


de Oaxaca, un estado del sur de México, ha residido en la frontera México
– Belice desde 1979. El crecimiento y consolidación de su familia, que
ya tiene tres generaciones de descendientes, fue el logro de la
perseverancia en una tierra que requería de individuos dispuestos al
trabajo y al esfuerzo.
Proveniente de una familia mixteca del que es el único
sobreviviente, don Luis nació en Santa María Uquilita, Taxiaco, 25 de
agosto de 1932. Además de sus padres, su familia de orientación estuvo
formada por un hermano mayor, uno menor y tres hermanas; el segundo
matrimonio de su padre –ocurrido tras su viudez- sumó dos medios
hermanos a la estirpe. Si bien todos alcanzaron el estado adulto, se casaron y
tuvieron hijos, todos fallecieron por enfermedades propias de un estado crónico
de pobreza y un alcoholismo rampante. En la niñez la situación de carencia
económica dejó a todos fuera de la educación escolarizada, manteniéndolos
a casi todos en un estado de analfabetismo perenne.
La orfandad comenzó cuando tenía 5 años, al fallecer su madre.
Siete años después perdería a su padre, lo que significó la atomización
de su familia de orientación. Luis regresó a vivir con Plácido, tío paterno
que le había dado cobijo cuando su padre aun vivía pero ya se manifestaba
una relación complicada con su madrastra; ahí se dedicó a cuidar chivos

159
y borregos del tío. Su padre poseía una pequeña porción de tierra para la
agricultura, en la que sembraba maíz de autoconsumo, con ayuda de su
hijo. Dado que el oficio paterno era la alfarería, lo transmitió a su hijo, al
que incorporó al proceso productivo desde niño:

(…) me enseñó a artesanías. Empecé a hacer ollas, platos, cazuelas,


jarros, cántaros, empecé a hacer. Él me enseñó… empecé a
trabajar, aunque sea chiquito, ¿no? Pero trabajé; empecé a hacer
artesanía, y sí con eso después de que crecí vivía yo de eso (…)
era barro rojo (…) a veces lo pintaba yo antes de quemar, esa
pintura no se borraba, y a veces así nomás, quemaba yo sin pintar.
No quemábamos en horno, amontonábamos la olla al piso, al suelo,
montaban, encimaban unos con otros, y echaban la leña encima y
echaban lumbre, así se quemaba...

Su mamá colaboraba con la economía doméstica, “a veces tejaba1


el rebozo, la nagua, así para vender, cobijas, o algo… se iba a vender a
Tlaxiaco, a veces, a la plaza, iba ella y mi papá… sacaban la lana del
borrego o compraban; compraban la lana y sacaba el hilo”. Las hermanas
también “tejaban rebozo, ahí le dicen la nagua, con lana de borrego,
primero hacia hilo y luego ya tejaba eso, usaban un telar de cintura,
amarrado a un árbol”.
Las artesanías tenían dos vías de comercialización, por un lado los
revendedores locales que adquirían las piezas a la casa paterna,
comprando al mayoreo para revender en mercados de los pueblos
cercanos; por el otro, ofrecer sus productos en las plazas de localidades
como Putla ó Chacactongo, a los que llevaban “cargando la olla a vender,
en la plaza”. El contexto general en que don Luis vivió su infancia lo formó
como un mixteco más, un campesino y artesano monolingüe que no sabía leer
ni escribir.

(…) “mire, la vida era dura, porque como le digo, mi papá tenía
que hacer ollas, hacer lo que sea pa´ llevar y vender y ahí compraba
el maíz; llevaba la olla a vender y ahí compraba el maíz, imagínese;
cada 8 días, cada 15 días tenía que ir a vender y comprar el maíz,
se vivía al día, estaba duro. (...) sí sembraba pero como era poca
tierra y a veces no llovía, no se daba, o se daba pero se acababa

160
comiendo elote (…) era su tierra (y cuando falleció) yo quedé
como mayor de mis hermanos, y tuve que repartir pedacito a cada
uno, nomás a los hermanos. Y me tocó pedacito pero ya que me
vengo pa´cá… me tocó como una hectárea, es poquito…

Como sus papás eran mixtecos casi no hablaban español fuera de


casa, sólo para comercializar sus productos, “hablaban, pero cuatriado”.
Ninguno de sus hermanos fue realmente bilingüe, don Luis es el único
que sigue vivo y el único que consiguió tierra. Aprendió español
sistemáticamente a partir de los 15 años, cuando “salí a andar a Veracruz,
Loma Bonita y allí juí aprendiendo, aunque trabalenguas pero me juí
aprendiendo [ríe]”; habló primordialmente mixteco los primeros 30 años
de vida, idioma en el que se comunicaba con su esposa, aunque hoy ya
no suele hablarlo. Demetrio, su primogénito, es el único de sus hijos que
entiende algo de mixteco. “Cuando estaba chamaco, hablaba yo con mi
esposa, así platicábamos de mixteco, por eso él aprendió (…) [Doña
Alberta, su esposa, era básicamente monolingüe], aprendió español
cuando salimos de nuestra casa, yo tenía 23 años, ella como 18, […] ella
sí fue a la escuela, como dos años, de niña, aprendió en español porque
la escuela de allá llegaban los profesores a enseñar español”.
Don Luis afirma que aprendió a escribir en el régimen Cardenista:

(…) Faltó un punto creo más importante. Cómo aprendí a leer,


¿verdad?, yo aprendí a leer… Lázaro Cárdenas fue el que hizo un
programa de alfabetización por todo el país, sacó un libro que se
llama Lengua y alfabetización,2 [vivía con su tío Plácido] y hubo
escuelas por los pueblos y ahí fue a donde aproveché, medio
empecé a letrear, sí ahí aprendí esa escuela nocturna, tantito
empecé a letrear y entonces cuando empecé a salir solito empecé
a practicar, a escribir… copiaba yo las palabras. Yo hablaba
mixteco y escribía en español, pero no entendía lo que escribía,
ya cuando empecé a estudiar la Biblia empecé a leer bien, como
cualquier alumno de la escuela, pero antes no podía leer bien […]
escribía mi nombre; o cualquiera libro, agarraba y lo copiaba,
pero yo no entendía lo que escribía; aprendí a juntar las letras y
no podía leer bien, […] [fue más difícil aprender a hacer cuentas]
cuando vendía yo mis ollas, ahí donde iba a vender era puro
idioma, todo lo vendía; el que iba a mi tierra era revendedor,

161
pero también iba a la plaza, iba yo a Chacatongo, a San Miguel
Grande, Tlaxiaco. […] Cuando empecé a estudiar la Biblia, me
puse a practicar, a practicar, a practicar, hasta que aprendí…
escribo en manoescrita. Cuando empecé a escribir comencé a
practicar el número, empezaba yo a sumar, a multiplicar… veía a
mis compañeros, sabían leer y ayúdame, a ver...

INICIA LA MIGRACIÓN

A partir de los 15 años de edad, soltero, don Luis tuvo que salir de
su pueblo, “en verdad casi ahí no había trabajo, ya cuando crecí ahora sí,
rranqué a venir a Veracruz”; comenzó a trabajar en el corte de caña de
azúcar, en el ingenio Juan Díaz Covarrubias. Como la zafra se extiende
unos seis mese del año, al concluir volvía a casa de su tío Plácido, e
iniciada la temporada de corte de piña en Loma Bonita, Veracruz, se
incorporaba como jornalero de junio a agosto. Era común que entre
septiembre y diciembre –cuando no había trabajo agrícola seguro- se
dedicara a la elaboración y venta de artesanías de barro.
Esta vida de trabajador migrante, soltero y sólo con compromiso
con la familia de su tío Plácido, se prolongó alrededor de una década.

(…) Cuando regresé en mil noveciento… mil noveciento


cincuenta y siete, me casé con ella (...) es que la costumbre de
allá era diferente, no como ahora. La costumbre es que el mayor,
papá, tío ó tía tenía que buscarle a la mujer, no el muchacho:
ahora hay libertad, así era en aquel tiempo. (…) [El tío Plácido le
dijo] te vas a casar con julana y… pues ni modo… católico, en
el pueblo, para entonces daba poca importancia en el registro civil,
la más importante es la iglesia, nada más…

Doña Alberta, su esposa por casi sesenta años, recuerda esa época:
“mi mamá y mi tía fue que lo aceptaron el viajador que envió su familia
de él (…) estaba yo chamaca todavía, unos 14 años”, don Luis confirma
la costumbre: “el viajador, busca a un hombre mayor de edad, para que
vaya a pedir”. La descendencia llegó tres años después del matrimonio,
el primogénito fue el único que nació en Oaxaca, tres hombres y tres

162
mujeres vieron la luz en Veracruz y las últimas tres mujeres en Quintana Roo,
estados de la república mexicana que configuran la ruta migratoria de la familia
López Coronel.
No habiéndose cumplido un lustro del matrimonio, don Luis salió
definitivamente de Oaxaca, iniciando una ruta migratoria que se
prolongaría casi dos décadas:

(…) Mire, cuando me vine de una vez para no volver ya, 1960;
me vine ya para no volver, pero tuve viviendo cerca de Acayucan
[Veracruz], en un pueblo que se llama Benito Juárez; estuve
viviendo varios años pero de ahí no pude, no pude hacer algo, en
tierra nacía puro zacate de clavo, todo, todo… no podía trabajar.
Agarro, me salgo de ahí y me juí otra vez a Covarrubias; en Benito
Juárez trabajaba la tierra, jornales, sembrando maíz, pero como
le digo no es una tierra buena, sembraba maíz entre puro zacate
de ese clavo, y necesita tractor, arado, yunta, pero no tenía, estaba
yo igual que [cuando] estaba viviendo en Oaxaca, en mi tierra,
pues…

Durante ese período don Luis trabajó en el campo veracruzano sin


poder reunir un patrimonio para su familia, el abuso en el consumo de
alcohol se había vuelto un problema para él y su parentela, ya que había
comenzado a tomar bebidas embriagantes casi desde que comenzó a
cortar caña, a los 15 años de edad. Los recursos obtenidos por su trabajo
a lo largo de muchos años no alcanzaban para alimentar a sus hijos y
hacerse de una casa propia. El sueño de poseer un pedazo de tierra se
escapaba una y otra vez de sus manos.
Estos años son recordados por don Luis como de gran agitación.
Viviendo de acuerdo con los patrones culturales de su grupo de origen, la
familia López Coronel perdió a tres de sus hijos por enfermedades como la
disentería o la infección del ombligo de un recién nacido. Él mismo estuvo a
punto de fallecer de disentería pero, según asegura hoy en día, beber agua
con cal le salvó la vida, al acabar con la infección estomacal que sufría.

LA EXPERIENCIA RELIGIOSA

Tal condición de precariedad no fue obstáculo para moverse en

163
ámbitos extraordinarios; con el tiempo se embarcó en actividades esotéricas,
relacionadas con espacios religiosos específicos. Según sus propias palabras
era una situación tremenda, echaba suerte con la baraja, leía baraja española,
aprendió cuando era soltero, jugaba baraja y dominó, en el corte de caña.
Ahí comenzó a practicar a echar la carta, no se acuerda quién le enseñó ese
arte, pero sus clientes le pagaban con botellas de licor…

Hubo problemas, contenía el demonismo, poco a poquito


descubriendo, me fui dando cuenta que eso no es bueno, pero ya
cuando empecé a estudiar la Biblia; varios años lo estuve
practicando, ya cuando me di totalmente cuenta cuando los
hermanos me ayudaron, que eso no, eso es cosa de… demonismo.

Era rezandero, rezaba a los muertos, oraba pues, pero eso es


después que me casé, ya grande. Aprendí en Oaxaca, mi cuñado
[esposo de una de sus hermanas] era cantor, cantaba con el cura,
y él me estaba enseñando para quedar en lugar de él, estaba yo
aprendiendo latín, porque para entonces no había Biblia español,
sólo el sacerdote estudiaba la Biblia pero en latín, nunca le decía
a la gente qué significaba, ni él entendía lo que decía; estaba yo
aprendiendo, pero ya después que me vine pa´cá y lo dejé, ya no
seguí aprendiendo… rezaba en español, por los muertos, las almas
del purgatorio, fueron varios años como 20 años, organizaba las
novenas.

Iba a centro espiritista… hay mucho qué platicar. Yo tenía una


enfermedad mental y yo quería ser sano, ¿no?, sanarme, pues, y
la ente me mandaba pa´llá, pa´cá, que ídolo julano, que templo
julano, pues yo fui hasta el centro espiritista, la última vez que fui,
Tehuantepec, ahí me quedé en el templo de esa gente, pero ahí
mienta Dios, mienta Cristo, ¡ay señor, si le cuento se va usted a
espantar!, me quedé adentro de ese templo y no podía dormir, me
tapaba yo mi ojo, y vi un visión, que llegaba murciélago, pero
grande murciélago, un montón llegaron, entraron a ese templo y
se salieron y se fueron, hasta sonaban las alas, cuando me despierto
me levanto ¡no, aquí está el Diablo, aquí no está Dios!, pero mi
meta era, como le dije antes, mi pensamiento era encontrar cuál
es el Dios verdadero, y dije entre mi, no, aquí no está Dios.

164
Desde entonce lo dejé, pero todavía no estudiaba la Biblia, hasta
ahí llegué. Cuando vi eso dije entre mi, no y dejé esa creencia, es
cosa mala, el espiritismo, pues es el demonio… La enfermedad
era mental porque me revelaban cosas de noche pero feas, feísimas,
desde chamaco empezó eso, a saber por qué, yo no comprendía
por qué, soñaba cosas feísimas, soñaba todo lo grandísimo,
culebra, gatos; […] pensaba que volaba y los animales atrás, y
caía yo donde había culebras […] desde que entra la noche hasta
que amanece, cansadísimo, un chamaco qué puede hacer porque
le haga la gente maldad, así crecí, con esa mentalidad, cuando
conocí la verdad se me fue borrando, no de un jalón, entonces
quiere decir que el Diablo me tenía bien agarrado, ahí me di
cuenta… Jehová tiene más poder.

Se debe señalar que su experiencia religiosa comenzó desde la


infancia, en un contexto dominado por la religión católica tradicional,
pero como se ha señalado, evolucionó por caminos dispares. Su contacto
con los Testigos de Jehová es recordado por don Luis como un resultado
directo de su búsqueda de Dios.

Mire, este… como le digo que me quedé huérfano, verdad, y mi


tía pues me llevaba a la iglesia, ¿no?, y ellos iban besando las
imágenes ahí, persignaba y solo, solo vino a pensar mi
pensamiento, No, pues éste no es Dios, ¿cómo va a ser Dios?, yo
quisiera conocer a Dios. No sabía leer, pues era un niño, ¿no?, no
sé cómo me vino ese pensamiento, fíjese, y con esa pregunta
crecí.

No se me olvidó esa pregunta; así crecí, así me enfermé. Ya cuando


me estaba enfermando acá, en la garganta, conocí a un hombre,
que se llamaba Villalobo, era mi amigo, vivíamos juntos, cerca
ahí, y cayó cáncer acá [la garganta] y… lo llevaron hasta Orizaba,
ahí lo operaron, lo metieron un tubo acá y allí le daban la comida…
No, pa´qué sirve uno así ya. Entonces cuando me enfermé y me
empezó a doler aquí, y el hombre ese no me dejaba dormir, toda
la noche me revelaba, y dije entre mí, puesyo creo que hasta aquí
llegué; pero la pregunta que le digo del principio, tengo que
conocer a Dios, cuál es el Dios verdadero… y garro así por donde
sale el sol, allá en Cuatotolapan Estación, y llego donde estaban

165
dos familias, estaban estudiando, pero no sabía qué religión era.
Llegué y le di las buenas tardes,

- Buenas tardes, señor, ¿qué quere usted?


- Pues mire, le digo, ¿no tiene un libro que estudie por ahí,
quiero que me venda uno para estudiar…

Salieron, me abrazaron

-¡Aquí llegó una oveja perdida!

De inmediato don Luis inició su preparación de la doctrina de los


Testigos de Jehová. Hay que recordar que no sabía leer en español, razón
por la que en este contexto de aprendizaje religioso nuestro personaje
adquiere esa habilidad y mejoró la de la escritura. Su memoria señala
que en su acercamiento a esta comunidad de fe fue determinante el libro
Verdad que lleva a la vida eterna3, edición con la que se introdujo a la
nueva doctrina. La congregación local estaba comenzando y se reunía
en una casa alquilada que hacía las veces de salón del reino. Este grupo
de creyentes era atendido por hermanos provenientes de San Andrés
Tuxtla, Veracruz, quienes llevaban la delantera como cuerpo de ancianos.
Con ellos aprendió los primeros elementos de doctrina, en su búsqueda
del dios verdadero.

Y luego luego empezaron a dar estudio [bíblico], me invitaron a


reunión [de congregación] y luego iba a la reunión, luego luego,
porque eso era lo que yo quería […], para entonces no había
muchos requisitos. Mi matrimonio no estaba legalizado y así, así
me la llevaba, así me daba mi discursito de cinco minutos, es como
empecé a hablar, poco a poco, así conocí la Verdad, pero mi
pregunta, le digo, así era de chiquita… […] esa pregunta tenía yo
vivo en el corazón y en mi mente, hasta que llegó el momento,
pero no me fui con ninguna religión.

Su incorporación a esta congregación fue paulatina, pues su


preparación avanzaba lentamente por estar aprendiendo a leer y a
escribir. Durante los dos años que estuvo en contacto con ese

166
grupo local de creyentes no se bautizó. Sin embargo sí se
produjeron los primeros cambios importantes en su vida
Mi maestro de la Biblia cada que me daba estudio me exegía eso.
Me exegía eso,

- Se tiene que casar.

Pero yo no entendía luego por qué ¿no? y digo

- Bueno, y este señor por qué sigue tanto eso, decía yo, no,
pero ya estoy casado…
- Pero ¿dónde te casaste?
- Por la iglesia católica…
- No, dice, eso no vale.
- ¿Entonces a dónde…?
- El Registro civil, entonces llegó un día de mayo, yo mismo
te voy a llevar
- ¿A dónde me va usted a llevar?
- Coayapan de Ocampo, allí el 10 de mayo casaba gratis [ríe],
ese hermano me trajo allí, en esa fecha, ahí me casé.

Como ha sido patente en las páginas precedentes, la condición


económica general de la familia López Coronel no experimentó
una mejoría evidente. Esta situación se prolongó alrededor de
dos décadas. Sin embargo, un acontecimiento casi fortuito
cambiaría el escenario de vida al presentarse la posibilidad de
migrar al sur de Quintana Roo, la frontera internacional con Belice.
Por noticias de uno de sus cuñados que había migrado a esa zona,
decidió probar suerte:
Estaba yo viviendo ahí en Cuatotolapan, cuando vino mi cuñado
pa´cá primero y me mentaba carta, que acá se está poniendo
bueno, se está haciendo un ingenio,

- Y vente y bueno…

y no quería venir, pero tanto y tanto llegó él personalmente,

- ¿Qué piensa usted se va?, ahí va a estar bueno…

167
- Bueno, le digo, vete, dame una dirección, onde vives y…
yo voy personalmente… Y me vine yo solito [ríe], a ver el lugar.
Y sí llegué. Llegué Chetumal y, como traía la dirección, tú dile al
chofer que te baje en Palmar, y así lo hice. Sí lo encontré.

Estuve aquí ocho días en Palmar, ya después regresé y le dije a


mi esposa, “así está el lugar, no sirve el agua, ¿qué vamos a hacer,
vamos o no vamos?”, pero allá donde estábamos viviendo no tenía
ni casa pues, alquilando así, pa´llá y pa´cá. Pues estuvimos
haciendo unos arreglos y “pues vámonos, total…”, pues allí no
tenemos nada, pero sí sentí lejos, sentí lejos, lejos… y ya me
vine, estuve viviendo tres años al Palmar, pero Palmar no me
quería..un dichoso que se llama Soriano, es juerano4, él era
comisariado de ahí y no me quería dar tierra pa´ trabajar y dije
entre mí, ¿pues qué hago aquí?, yo vine a trabajar la tierra…

El cambio de residencia, con la mediación de unos 900 kilómetros


de distancia, no minó su interés religioso por la doctrina de los Testigos
de Jehová. Una vez con la familia en Palmar don Luis trabó relación con
la organización local de esa comunidad de fe y pronto comenzó una
labor de prédica en la frontera internacional, actividad que se ha extendido
hasta el presente. Sin embargo, hubo de ocurrir un cambio de residencia
más, en 1980, que amenazó con no ser el último,
…me iba a ir para San Pedro Peralta. Entonces deja venir los
hermanos de Chetumal,

- No, hombre, ¿qué estás haciendo aquí solito?


- Aquí, pero ya me voy…
- No, no, no te vayas. Quédate y aquí te vamos a ayudar,
aquí vamos a hacer una congregación, me dijeron
- Bueno, si es así, me quedo…

Pero caminé otros dos pasos, aquí a Sacxan. Mire, la diferencia


de un comisariado juerano a un nativo. Fíjese cómo es la cosa,
allá no me quería y acá vine a solicitar; aquí era comisariado un
nativo, y ese señor me recibió.

- ¡Vente acá!, ¿cuánto son ustedes?

168
- Somos dos, na´más, yo y mi hijo, le digo
- ¡No, dijo, si son cincuenta para mí es mejor!

Estaba queriendo gente porque quería agrandar el poblado. Y me


vine a quedar aquí. Estaba viviendo yo allá [en Palmar] cuando
vine a hacer mi casa acá, en cartón y ya de una vez pasé, y hasta
ahorita aquí estoy… hasta aquí terminó la historia.

ECHANDO RAÍCES…

A partir de su establecimiento en Sacxan, la vida de don Luis ha


tenido dos actividades principales, el trabajo agrícola en el ejido y una
vida religiosa hacia el interior de su familia y hacia el exterior, que
cristalizó en la formación de una congregación de testigos de Jehová en
Palmar y en la predicación su doctrina en la frontera internacional con
Belice.
En este periodo estableció relación con los Testigos de Jehová de
poblaciones localizadas en la carretera Chetumal-Escárcega. Su contacto
con los predicadores de Chetumal impulsó su decisión de incorporarse
definitivamente a esta religión, bautizándose en 1980. En ese momento
sólo operaban tres congregaciones en la zona fronteriza, Sarabia, Butrón
y Obregón, por lo que se dio a la tarea de impulsar la creación de una en
Palmar con la colaboración de los hermanos de la ciudad. Uno de los
primeros estudios bíblicos conducidos por don Luis tuvo en Esteban
Chablé a un importante aliado, que aportó un anexo de su casa (una
cocinita construida de tasiste y huano, con piso de tierra) para comenzar las
reuniones de los pocos interesados locales. Ahí se reunía la congregación los
domingos para el estudio de La atalaya y el discurso público.
Esteban Chablé no sólo contribuiría con el espacio para las reuniones
de la congregación, como cabeza de familia también atraería a la congregación
a un importante número de parientes residentes en Palmar, que sumado a la
familia de don Luis conformarían la base de la nueva congregación. La
predicación fue sumando adeptos y con una membresía que no llegaba a 15
integrantes se cambió el local del salón del reino. A partir de 1982 una
construcción de block ubicada en el solar de la familia de don Esteban fungió
como el nuevo recinto de la congregación.

169
No obstante que Esteban Chablé se bautizó como testigo de Jehová,
no había erradicado el viejo vicio de fumar marihuana. Sabiendo que
esa práctica no era aceptada por la congregación, el señor Chablé se
escondía para consumirla, siendo expulsado cuando se conoció esta
situación. La salida de Don Esteban representó una escisión de la
congregación, pues con él se retiraría la mayoría de sus parientes,
reduciendo el número de sus integrantes. En consecuencia, el salón del
reino tuvo que cambiar su ubicación.
La familia Avilés Chablé donó en 1984 parte de su terreno para
construir el nuevo local para el salón del reino. En ese momento la
localidad de Palmar era parte del territorio asignado a la congregación
Sarabia, razón por la que parte de la predicación era realizada por sus
integrantes. El nuevo local se haría de block y techo de huano, pero no
tenía registro alguno ante las autoridades locales, por ser atendido desde
Sarabia.
En ese entonces un precursor especial llegó a Palmar. Su asignación
era constituir una congregación en Palmar y vino a coordinar los trabajos
tendientes a dicha fundación. Una de las contribuciones de Bernabé
Martínez fue la edificación del salón del reino.

En ese salón que estamos, ahorita no recuerdo, parece que la


Sociedad no llevó orden, porque para entonces la autoridad
perseguía a nosotros, no podíamos ser una congregación. Porque
llegaba […] la autoridad a vernos. Y eso, como quien dice, nos
escondíamos pero ya más después ahora sí legalizó la obra, porque
antes no estaba legalizada la obra aquí en México. Y cuando
legalizó ahora sí, como quien dice, abrió la puerta a construir
salones. Antes no cantábamos cántico…

Por ser territorio aislado se constituyó la congregación El Palmar em


1985, cuando logró tener 12 publicadores locales. La congregación contó,
entre otros predicadores, con Don Luis López, su esposa Alberta Coronel,
don Esteban Chablé, su hija Gloria Chablé y su yerno Celso Avilés, además
de don Nicolás Coronel, Jesús Pérez, su esposa y 2 hijas (que vivían en
Sabidos). Poco tiempo después los hijos mayores de don Luis se bautizaron,
contrayendo matrimonio con mujeres que se habían integrado a la
congregación. El territorio de prédica asignado a la nueva congregación incluyó

170
–de norte a sur por la carretera que corre paralela a la frontera internacional
con Belice- las poblaciones de Sacxán, Palmar, Ramonal, Allende y Sabidos.
Con el correr del tiempo y por el aumento de conversos en la región, la
jurisdicción de la congregación El Palmar se modificó, al crearse nuevas
congregaciones en la zona. Por ello el territorio de prédica original se redujo
a Sacxan, Palmar y Ramonal. Son los residentes de estas localidades los que
participan en las reuniones de congregación del núcleo iniciado por don Luis
a finales de la década de 1970.
Durante un cuarto de siglo la congregación El Palmar tuvo dos
centros de culto, primero se reunió en una pequeña construcción (que
hoy es la casa habitación) y luego en una galera ubicada en el predio de
la familia Avilés Chablé, que hizo las veces de salón del reino; varias
modificaciones fueron realizadas a la construcción y el crecimiento de
su membresía implicó que dejara de ser un espacio cerrado, dando paso
a un lugar abierto con capacidad para 80 personas sentadas.

Fotografías 1 y 2. Salón del reino de Palmar (2009)

171
Durante este periodo de consolidación de la congregación El Palmar,
todos los integrantes de la familia López Coronel se asociaron a ella. La
esposa y los descendientes de Don Luis, 2 hijos y 5 hijas, se bautizaron en
esta comunidad de fe entre 1983 y 2001. Al revisar las edades de
incorporación de la familia a esta religión se observa una interesante tendencia.
La primera generación se bautizaría después de los treinta años – es la
generación del cambio religioso-, la segunda lo hizo una vez cumplidos los
veinte y antes de los treinta –son individuos cuyos padres les inculcaron la
nueva religión a partir de la adolescencia-, mientras que en la tercera generación
–compuesta por quienes nacieron en una familia de Testigos de Jehová- la
edad de bautizo varía entre los diez y los dieciséis años.
Este tendencia muestra con claridad cómo se forma una tradición familiar,
producto de una forma de vida guiada por directrices religiosas, que primero
es vivida como un proceso de cambio religioso para luego, a lo largo de dos
generaciones, convertirse en el estándar de comportamiento de sus integrantes.
En octubre de 2010 la congregación había crecido casi cinco veces,
contando con 54 bautizados y 10 asistentes. Un año antes, en diciembre de
2009, la sucursal nacional de La torre del vigía informó a los integrantes de
esta congregación que se construiría un nuevo salón en la localidad. Esta
edificación, conocida como Salón del reino tipo, tiene características
arquitectónicas definidas por el departamento encargado de la construcción
de estos inmuebles en el ámbito nacional y su distribución interior sigue los
criterios institucionales.
El costo total del local ascendió a $550,000 y la obra se extendió a lo
largo de siete semanas. Los arreglos entre la sucursal nacional y la congregación
local incluyen un crédito aportado por la primera cercano al 94% del costo,
el plazo de recuperación oscila entre los 15 y los 20 años y por un decreto de
la congregación se comprometieron a pagar $2,000 mensuales a la sucursal.
El terreno había sido adquirido por dos miembros de la congregación
y donado para este fin. Celso Avilés y Nicolás Coronel compraron el terreno
de mil doscientos cincuenta metros cuadrados (50 mts. por 25 mts.), ubicado
a la orilla de la carretera que atraviesa el poblado y corre paralela a la frontera
internacional. El vendedor fue Jorge Luis Chablé, joven miembro de la
congregación local que iniciaba su vida en pareja y requería de recursos para
su matrimonio. Al terreno se sumó una donación especial de $34,000 que la
congregación hizo a la sucursal nacional de La torre del vigía para iniciar la

172
obra.
Como el esquema institucional contempla autoconstrucción y
autofinanciamiento, las aportaciones de la congregación local durante la obra
se hicieron en efectivo, en especie y con trabajo voluntario. Don Luis, quien
detentaba entonces el cargo de Anciano presidente, hizo varias donaciones
de importancia para esta causa, ya que su condición de productor de caña de
azúcar le permitió disponer de efectivo suficiente para este propósito. Este
comportamiento fue replicado por varios integrantes del cuerpo de ancianos
de la congregación local, quienes son ejidatarios y cañeros.
En lo que respecta a la propiedad del terreno y el permiso de
construcción, la sucursal envió un apoderado legal que realizó los trámites
ante las autoridades estatales y municipales; localmente se avisó a la
subdelegación municipal del inminente inicio de la construcción. La
edificación del salón del reino tipo inició el 5 de marzo de 2010, para
dirigir la construcción del salón del reino la sucursal nacional asignó al
grupo de construcción 17, compuesto por siete varones solteros y un
matrimonio.
Para la construcción la sucursal adquiere y envía un alto porcentaje
del material que se requiere en la construcción (varillas, herrería para la
estructura, tubería, sillas, puertas, láminas de zinc, equipo de sonido, ventanería,
etcétera), comprando localmente elementos tales como block, cemento, arena
y cal. Además aporta los recursos para la manutención del grupo de
construcción.
Como el grupo de construcción es permanente y sus componentes
trabajan tiempo completo durante periodos de tres meses, viajan de una
población a otra con un tráiler que hace las veces de bodega de herramientas
y accesorios, que son usados durante las siguientes semanas. Al llegar a la
población en que se edificará el salón en turno la congregación local asegura
a los integrantes del grupo de construcción condiciones básicas de vida. Se
organizan varios grupos de hombres para trabajar en la obra y dos grupos de
mujeres, al primero se le asigna la tarea de cocinar los tres alimentos diarios
del grupo de construcción y el segundo de lavar, remedar y planchar su ropa
de trabajo y de uso diario. Cada uno de estos conjuntos tiene un coordinador,
al que llaman capitán de grupo.

173
Figura ¿? Croquis del Salón del reino tipo de Palmar

Asimismo, los fines de semana es común la llegada de voluntarios


externos. Miembros de diversas congregaciones suman varias decenas
de trabajadores, hombres y mujeres de todas las edades, que en la medida
de sus posibilidades físicas y de sus compromisos ordinarios, trabajan
en las diferentes labores propias de cada etapa de construcción. Son en
las instancias de coordinación de los circuitos de congregaciones en donde
se programa la asistencia de estos voluntarios, estableciéndose un orden
progresivo de ayuda. Esta programación incluye la asistencia de
trabajadores especializados y semi especializados, albañiles que saben
pegar blocks, repellar las paredes, soldar estructuras metálicas, hacer
instalaciones hidráulicas y eléctricas, entre otros oficios, llegan a
colaborar.
El domingo 28 de marzo se registró la mayor asistencia de
trabajadores voluntarios durante la construcción del salón de Palmar,
llegando a sumar 310 personas en el momento de mayor afluencia.
Sabiendo la congregación local que ese día habría una importante
participación de voluntarios, asumió espontáneamente el compromiso
de dar de comer a todos, razón por la que compró un cerdo en pie, lo
benefició y preparó carnitas, invitando a todos los presentes.

174
Fotografías 3, 4 y 5. Aspectos de la construcción del Salón del reino tipo

Para asegurar que no decaiga la espiritualidad de los integrantes


del grupo de construcción, la congregación local hace los ajustes
necesarios reprogramando las dos reuniones semanales e incluyéndolos
en la prédica y en la lista de discursantes. A finales de abril de 2010 el
salón del reino tipo estuvo listo; su aforo es de 111 personas sentadas y
hasta 150 de pie. El local pasa a ser propiedad de La torre del vigía y la
congregación se hace cargo de los gastos de mantenimiento, conservación y
pago de servicios. Por estar ubicado en la zona rural, a pesar de localizarse
en el trópico húmedo, el salón del reino de Palmar cuenta con ventiladores de
techo para contrarrestar el calor que es característico de la zona.
El 5 de julio de 2010 se dedicó el nuevo salón del reino. Esta ocasión,
que hace las veces de inauguración, es un momento solemne para los testigos

175
de Jehová, pues es la primera reunión que se verifica en el nuevo local. Su
programa incluye invitados especiales que hablan de las orígenes de la
congregación local, recuerdan a las personas que contribuyeron
significativamente a su fundación y explica el papel que el salón tiene en el
culto a dios. En marzo de 2013 la congregación El palmar tiene como su
territorio de prédica los poblados de Sacxán, Palmar y Ramonal. Las
congregaciones más cercanas a la de Palmar se localizan en las poblaciones
de Carlos A. Madrazo y Sabidos.
Para atender el actual territorio de prédica de la congregación se
han organizado tres grupos, cada uno es coordinado por un anciano de la
congregación y se ocupa de una de las localidades referidas en el párrafo
anterior, donde se realiza prédica de casa en casa y se conducen estudios
bíblicos. Cada grupo tiene días asignados durante la semana para efectuar
estas actividades, razón por la que antes de iniciar esta labor sus
integrantes se reúnen, organizan las parejas que trabajarán juntas en la
jornada, consideran un texto bíblico y hacen oración.
Llama la atención, por su significado en el soporte dado a la
congregación y su desarrollo, el hecho de que a lo largo de treinta años
los cuatro locales que han servido como salones del reino en Palmar han
estado en la misma manzana, propiedad de algún miembro de la familia
Chablé.
Don Luis resume su vida en la frontera México – Belice de la
siguiente forma:

(…) pues en verdad verdad aquí a donde vine a hacer algo, ¿no?,
porque como le cuento mi historia que yo trabajaba corte de caña,
trabajaba en el corte de piña, pues así anduve, jornaleando por
todos lados, pero aquí es donde llegué a hacer algo. Trabajé un
año en ingenio [San Rafael de Pucté], un año fui velador, pero yo
pensé mejor en trabajar la tierra, no hacerme esclavo todo el tiempo,
y ya vine a quedar totalmente aquí ya; empezamos a hacer grupos,
empezamos a sembrar caña, primero 4 hectáreas sembré, pues al
año ya vi el billete, ¿no?, y me gustó, bueno, yo creo que aquí sí
voy a hacer algo, y así me fui, ampliando, sembrando más y
más. Gracias a Jehová, ahora sí que no me quejo, recibo algo de
dinero [del ingenio], dos veces o tres veces al año…”

176
ESTRUCTURA GENEALÓGICA LÓPEZ CORONEL

La genealogía López Coronel está conformada por 29 personas,


que conforman cuatro generaciones. El proceso migratorio, que llevó a
la familia a Quintana Roo en 1979, involucró a la pareja original y a sus
primeros cinco hijos. La otra mitad de la segunda generación y los
integrantes de la tercera y cuarta nacieron en la frontera México – Belice,
en las etapas de arribo y arraigo en esa zona de México. Como puede
apreciarse en la distribución por nivel generacional, esta familia extensa
(de orientación) se encuentra en pleno desarrollo ya que tanto en el
segundo como el tercer escalón sus integrantes han formado familias
nucleares (de procreación), favoreciendo el crecimiento del conjunto de
parientes.
Si bien la migración formó parte de la experiencia de los miembros
de más edad de la estructura (que incluye dos niveles generacionales),
los más jóvenes han nacido y crecido en la frontera internacional que
nos ocupa, desdibujándose así en su memoria muchas situaciones vividas
en los años iniciales de la pareja original y sus primeros hijos. La falta
de tierra, la inseguridad del trabajo, la falta de alimento, el desplazamiento
periódico de una localidad a otra, el contacto frecuente con la parentela
oaxaqueña, que son referentes obligados en la vida de don Luis López,
son sólo escenas en que habitan los recuerdos familiares más lejanos,
pero que no forman parte de la experiencia vital de los integrantes de
menor edad.
Uno de los elementos económicos que cambiaron definitivamente
el perfil de esta familia extensa fue el acceso a la tierra mediante la
incorporación, paulatina, de varios hombres al régimen de tenencia ejidal. En
efecto A1, B1 y B9 tienen derechos agrarios en el ejido Sacxan, lo que asegura
contar con una fuente de trabajo segura que reditúa ganancias desde diferentes
opciones, el cultivo de la caña de azúcar, la siembra de la milpa ó la producción
de verduras y hortalizas.
Como ya se ha dicho en páginas anteriores, hay que notar que las
precarias condiciones económicas de la historia inicial de la familia López
Coronel repercutieron en la muerte de tres descendientes (B3, B5 y B6),

177
pero el cambio producido en Quintana Roo evitó que tal situación se repitiera.
Como es evidente, la adscripción religiosa de sus integrantes es una
constante. Resulta especialmente llamativo comprobar que el cambio religioso
operó de forma significativa desde la segunda generación. Si bien A1, A2, B1
y B2 (13.79%) se criaron inicialmente como católicos para luego ser testigos
de Jehová, el 41.37% del total (12 casos) sólo han pertenecido a esta última
comunidad de fe.
Los indicadores socioculturales incorporados a la estructura
genealógica muestran que se trata de una familia extensa en la que el
cambio religioso –operado en la primera generación- se transformó en
una condición estable y las siguientes dos generaciones experimentaron
ser Testigos de Jehová como una consecuencia de la educación familiar
recibida.

CONSIDERACIONES FINALES

El relato de vida presentado en este trabajo trató de llamar la


atención sobre ciertos aspectos relevantes en la experiencia migratoria
de un trabajador agrícola y su familia, cuyo perfil cultural refleja ciertos
rasgos propios de un pueblo originario de Oaxaca. Asimismo, muestra
cómo el proceso migratorio, que implicó la ruptura de las relaciones
sociales previas, asociado al cambio religioso, mitigó las consecuencias
negativas del desarraigo y fijó a una familia, cuyo desarrollo definitivo
tuvo lugar en el lugar de destino migratorio.
La experiencia relatada aquí muestra la sincronía –tal vez fortuita-
de varios elementos. En primer lugar, la condición general de la frontera
México – Belice, zona tradicionalmente poco habitada que fue objeto de una
acción colonizadora con múltiples facetas y características; no sólo la
colonización dirigida, sino tal vez más importante en sus repercusiones y
número, la espontánea, que llevó a miles de familias a Quintana Roo.
En segundo lugar, el arribo a esta región fronteriza en el momento en
que los trabajadores agrícolas podían obtener ciertos beneficios imposibles
de pensar en otras zonas de México. A finales de la década de 1970 el
acceso a tierras y créditos, apoyos gubernamentales para la producción y la
incorporación a diversas localidades rurales en pleno desarrollo, fueron

178
opciones efectivamente al alcance de los inmigrantes llegados a la frontera
internacional. Con el paso del tiempo, tales condiciones se disiparon ya que
la etapa de conformación, crecimiento y consolidación de los asentamientos
humanos fronterizos fue una realidad.
En tercer lugar, el interés del personaje central en su búsqueda de
Dios permitió montar un escenario particularmente favorable para el
arraigo en la zona fronteriza. Es en ese contexto que ocurre el proceso
definitivo de incorporación a una nueva comunidad de fe, al bautizarse
como testigo de Jehová en Chetumal (la capital de Quintana Roo, que se
sitúa en el sur del estado, en plena frontera internacional). Tal interés
coincidió con la etapa de crecimiento y expansión de esta religión en
Quintana Roo (Higuera, 1999), lo que propició la creación de nuevas
relaciones sociales que soportaron a los inmigrantes y les dio certeza y
seguridad en el lugar de destino.
Finalmente, posicionarse en una condición extraordinaria, al
protagonizar la creación de una congregación local de los testigos de
Jehová, colocó a nuestro personaje central y a su familia entera en
condiciones de prestigio social que capitalizaron a lo largo de las tres
décadas más recientes.
Desde luego, lo que aquí se ofrece es una de las vías posibles en el
proceso de migración. Una experiencia recordada y presentada bajo la
propuesta de Marc Augé, un “montaje” que debe contrastarse con la de
otros trabajadores agrícolas que han experimentado avenidas diferentes
en la aventura que significa la migración.

NOTAS EXPLICATIVAS
1
Tejaban es el término que usa para decir tejían .
2
(1934) La modificación del artículo tercero constitucional permitió, por primera vez establecer de
manera oficial, en el texto constitucional, una política de Estado para dar un carácter socialista a la
educación y obligar a las escuelas privadas a seguir los programas oficiales. Con la llegada de Lázaro
Cárdenas al poder se toma nuevamente la idea de erradicar el analfabetismo en el país mediante el
Programa Nacional de Educación, que incluía un proyecto de alfabetización. (1935) El gobierno crea
el Instituto Nacional de Educación para Trabajadores, que debía establecer escuelas secundarias,
preparatorias y superiores, bibliotecas, museos y editar publicaciones. (1936) Surge la Confederación
de Trabajadores de México, a la que se afiliaron gran cantidad de maestros, y que se extendió por casi
todo el país, dando origen con esto al Sindicato de Trabajadores de la Enseñanza de la República
Mexicana. (1937) Se pone en marcha la Campaña Nacional de Educación Popular. La propaganda de
esta campaña tomó tintes de cruzada redentora nacional, y el propio Cárdenas la encabezó como
presidente de la República. Al igual que en 1920 se invitó a la sociedad a participar en esta tarea, e

179
incluso se ordenó a otras dependencias y departamentos del gobierno a trabajar en ella, además de que
se invitó a “organizaciones políticas, centrales obreras y grupos campesinos” a “establecer centros
dealfabetización, imprimir carteles y folletos, [así como a] organizar representaciones y exhibiciones”.Se
lanza también otra campaña, la de Pro-educación Popular con la que el gobierno se comprometió a
“desanalfabetizar” al país en tres años, además de lograr el “mejoramiento técnico y cultural de los
maestros así como la elevación del nivel higiénico de las comunidades y viviendas para
obreros”.Cfr.Mirada ferroviaria (2011).“Cronología de la educación y campañas de alfabetización en
México”, Revista digital, 3ra.Época, Num. 15, septiembre-diciembre, pp. 43-52.
3
Libro publicado en 1968 por la Watch Tower Bible and Tract Society of New York .
4
Término con el que Don Luis se refiere al fuereño.

REFERENCIAS

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ENTREVISTAS
Entrevista con Celso Avilés, Palmar, Quintana Roo, 23 de enero de 2009.
Entrevista con Luis López Rojas, Sacxan, Quintana Roo, 14 de enero de 2009.
Entrevista con Luis López Rojas, Sacxan, Quintana Roo, 9 de junio de 2009.
Entrevista con Luis López Rojas, Sacxan, Quintana Roo, 16 de julio de 2009.
Entrevista con Luis López Rojas, Sacxan, Quintana Roo, 6 de agosto de 2009.
Entrevista con Luis López Rojas, Sacxan, Quintana Roo, 6 de septiembre de 2010.
Entrevista con Luis López Rojas, Sacxan, Quintana Roo, 2 de diciembre de 2010.

181
Entrevista con Luis López Rojas, Sacxan, Quintana Roo, 27 de marzo de 2013.

SITIOS DE INTERNET

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portal/NotasDemograficas/NotaDemograficaEnero2013.pdf
INEGI. (2013). Referencias geográficas y extensión territorial de México, consultado en: http:/
/ w w w. i n e g i . o r g . m x / i n e g i / s p c / d o c / i n t e r n e t / 1 - G e o g r a f i a D e M e x i c o /
man_refgeog_extterr_vs_enero_30_2088.pdf
http://www.losmejoresdestinos.com/mapa_mexico.gif

182
FRONTEIRAS MÚLTIPLAS: NARRATIVAS SOBRE
OS SERTÕES DO PARANÁ

Valdir Gregory1

INTRODUÇÃO

Este capítulo apresenta algumas reflexões a partir de narrativas


sobre os sertões do Paraná. É um caminhar atento por entre registros e
relatos de viajantes, de empreendedores, de administradores e de agentes
do estado feitos no município de Foz do Iguaçu, caracterizado como
sertões do Paraná, durante a primeira metade do século XX. Busca
relacionar dados e informações com a gênese, circulação e significações
de narrativas. Aborda questões que emergem de registros no âmbito de
questões teóricas e históricas no que tange às fronteiras.
O texto contempla discussões em torno da ideia de múltiplas
fronteiras na fronteira. Ou seja, predomina a concepção de que fronteiras
são construídas pelas e nas narrativas e por leitores das mesmas. Inicia
tratando dos Sertões do Paraná. Segue com reflexões sobre Narrativas
sobre os sertões. Depois traz descrições e interpretações a partir de
relatórios de órgãos de segurança em Olhares, registros e segredos nas
fronteiras, Pelas lentes da Delegacia de Ordem Política e Social –
DOPS, Segredos da fronteira para a Comissão de Estudos da
Fronteira. Termina com algumas Considerações.

183
OS SERTÕES DO PARANÁ

Parte da historiografia denomina os sertões do Paraná como o oeste


deste estado antes da “colonização moderna” dos anos de 1940 e 1950,
ocorrida contexto da Marcha para o Oeste dos meados do século XX. O
oeste do Paraná é constituído por uma área do estado do Paraná que,
grosso modo, abrange o território que fazia parte do município de Foz
do Iguaçu, emancipado em 1914. Deste município foram sendo
desmembrados os territórios de municípios que foram criados a partir de
1951, como Cascavel, Toledo, Guaíra e Marechal Cândido Rondon e de
outros municípios, abrangendo, atualmente, as áreas de 51 municípios.
A denominação oeste do Paraná começou a ser usada na década de 1930,
no contexto da política da Marcha para o Oeste durante o período do
governo Getúlio Vargas, depois adotada pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística - IBGE. Portanto, é uma região historicamente
construída e, também, concebida para esta pesquisa, enquanto delimitação
espacial. Localiza-se numa área fronteiriça internacional, limitando-se
com o Paraguai e a Argentina, e numa área fronteiriça nacional, limitando-
se com o Estado do Mato Grosso do Sul e outras regiões do Estado do
Paraná.
Na primeira metade do século XX, esta região fazia parte, pois, do
que se denominava de sertões do Paraná e era disputada por diversos
interesses. Havia disputas por domínios territoriais entre as nações
limítrofes desta região. Era um cenário onde atuavam empreendedores e
empresas que pretendiam explorar riquezas nativas para destiná-las para
os mercados platinos e mercados a ele vinculados. Era um ambiente, no
qual as fronteiras entre populações nativas, mestiças e migrantes eram
disputadas.
Estas discussões estão sendo feitas para um estudo sobre fronteiras
e territórios na primeira metade do século XX para evidenciar elementos
discursivos referentes à construção de diferenças. Refere-se a uma época
em que predominavam explorações denominadas de obrages por parte
da historiografia2 da região. Estas, no século XIX e nos primeiros decênios
do século XX, eram fazendas com características próprias, existentes no
Paraguai, Argentina e Brasil. Tinham, normalmente, acesso aos rios, onde

184
era costume criar infraestrutura de transporte e de portos para os quais
eram levadas as riquezas extrativas da erva mate, da madeira e de outras
riquezas nativas a fim de serem transportadas para os mercados platinos
e além destes.

NARRATIVAS SOBRE OS SERTÕES: REFLEXÕES

Tenho estudado algumas narrativas e relatos de viajantes e relatos


de autoridades ou empreendedores/administradores da primeira metade
do século XX3. Para este texto, apresento, sinteticamente, algumas
reflexões relacionadas a estas narrativas.
Um exemplo destas fontes é uma narrativa de Wilson Sidwel4,
engenheiro norte americano, que foi administrador da Companhia Mate
Larangeira em Guaíra de 1916 a 1930. Este engenheiro foi responsável
pelos projetos e pelas construções do Porto Mendes, localizado no rio
Paraná abaixo das Sete Quedas5, da ferrovia deste porto a Guaíra e por
parte de construções destas duas localidades. Outro é Correa Filho6 que
descreveu a rede de transportes com os locais de origem e de destino da
produção, mostrando que Guaíra se tornara o porto receptor da erva mate,
produzida pela companhia, para, a partir daí, ser destinada aos mercados
platinos. Também, Coelho Junior7, em livro publicado em 1946, relata,
em estilo literário, suas andanças pelas selvas e rios do Paraná. Este
autor refere-se ao caboclo caluniado pelo “gênero literário”, que faria
dele “uma caricatura onde lhe deformamos as linhas exagerando-lhes os
defeitos, sem uma única pincelada de seus traços nobres”. Ainda Artur
Martins Franco8, engenheiro que exercia a função de Comissário de Terras
do estado do Paraná em vários municípios, foi incumbido de participar
da execução de serviços de medição e demarcação de terras no oeste do
Paraná. Ele teria realizado uma excursão em 1904 e outra em 1913. Fez
relatos dessas viagens de trabalho, dando ênfase aos registros do
cotidiano. Escreveu esses relatos em 1949, ou seja, 36 anos após a
realização da última viagem. Usou fotografias para rememorar. A
publicação ocorreu em 1973.
Nestas e em outras fontes que foram trabalhadas, há referências
com relação a características diversas sobre as populações locais, sobre
a ausência de civilização, sobre a natureza e sobre as potencialidades

185
econômicas da região. São adjetivações e conferência de atributos,
principalmente no que se refere às pessoas, à exuberância da vegetação,
à abundância e à força das águas, dentre outras. Transparece, na
documentação mencionada, uma necessidade de serem atribuídas
características aos humanos: uma nacionalidade, uma origem étnica, um
nível cultural, uma capacidade produtiva, uma religiosidade, condições
psico-sociais, dentre outros atributos. Os moradores, por diversas vezes,
são denominados de incivilizados, bárbaros, selvagens, atrasados. O
espaço é descrito como inóspito, sertão e selvagem. Ocorre
recorrentemente o uso de termos dicotômicos, ou pares opostos. Gilmar
Arruda9, em texto sobre o oeste paulista, norte do Paraná e Mato Grosso,
chama a atenção para tais dicotomias, como “moderno/arcaico, civilizado/
incivilizado, progresso/atraso, cidades/sertões”. Estas caracterizações
foram detectadas nas narrativas mencionadas.
Percebe-se, na leitura destas fontes, que havia uma necessidade de
atribuir, por exemplo, características às pessoas. Parece que se confirma
o dizer de Benedict Anderson10 de que “todo mundo deve e pode ‘ter’, e
‘terá’ uma nacionalidade, tanto quanto terá um sexo”. As línguas que
sabiam falar, os modos de se vestirem, a alimentação, a dedicação ou
não ao trabalho, as habilidades de lidarem com lugares inóspitos dos
sertões, enfim, muito do cotidiano da fronteira foi registrado. A construção
da nacionalidade tinha implicações “étnico-raciais”. Estes dados
proporcionam subsídios para debater fronteiras e territórios nos três países
limítrofes: Brasil, Argentina e Paraguai.
Foram analisadas, também, construções de paisagens em contextos
de fronteiras e territórios nos sertões do Paraná na primeira metade do
século XX11. Mostrados conteúdos de narrativas sobre os rios e a função
das águas. Discutida a construção de representações sobre a exuberância
e as potencialidades da natureza. Apontamentos sobre planos de
navegação e de construções de ferrovias foram pinçados dos textos. Foram
evidenciados e discutidos registros sobre as possibilidades do uso das
águas para navegação e produção de energia elétrica. Evidenciada a
construção de elementos justificadores para discursos da Marcha para o
Oeste, que teve na região oeste do Paraná, dentre outras regiões, uma
forte ação durante o governo Vargas.

186
OLHARES, REGISTROS E SEGREDOS NAS
FRONTEIRAS

Em meio a estas pesquisas relacionadas a um projeto que discutia


estas questões de fronteiras e territórios, participei de evento realizado
na Uniamérica, em Foz do Iguaçu, em outubro de 2011. Fui convidado a
coordenar os trabalhos numa secção de comunicações na qual eu iria
apresentar resultados de minhas pesquisas. Parte dos trabalhos inscritos
e apresentados tinha relação direta com as temáticas dos meus estudos.
Aconteceram boas discussões sobre temas ligados a fronteiras e estudos
agrários. Anderson Weizennmann, aluno do curso de história da
Uniamérica, apresentou trabalho sobre trabalhadores de portos do rio
Paraná na fronteira entre Brasil e Paraguai, utilizou fontes de órgãos de
segurança estaduais e nacionais, disponibilizou cópias de documentos
que chamaram a minha atenção; eram cópias impressas de documentos
digitalizados do Arquivo Público do Estado do Paraná.
Depois da secção das apresentações e debates, trocamos ideias e
documentos, e bem mais: iniciamos um processo e comprometimento
de intercâmbio de fontes e de textos; disponibilizei textos meus e recebi
dois CDs contendo fontes digitalizadas da pasta Foz do Iguaçu do Arquivo
Público do Estado do Paraná; material amplo e rico para estudos sobre a
tríplice fronteira - Brasil, Argentina e Paraguai -. Tinha tudo a ver com
meus estudos!
Iniciei a exploração de parte do referido material. Fui percebendo
que se trata de material para pesquisas diversas e para tempo prolongado.
São documentos de órgãos de segurança sob diversas denominações:
relatórios, levantamentos informativos, “Consulta s/reg/ estrangeiros”,
ofícios, editais, correspondências, declarações, telegramas, ordens,
cópias/reproduções de notícias etc. Este conjunto de documentos
mencionados aqui recebe datas como sendo produzido nos anos de 1941,
1942 e 1943.
Na sequência, trago alguns resultados de pesquisa em torno desse
material encontrado, na perspectiva de apontar como agentes do estado
brasileiro produziam informações destinadas a subsidiar vigilâncias,
políticas e ações de Estado. São olhares, registros e segredos da segurança.

187
As reflexões e apontamentos apresentados no início deste texto permeiam
as lentes de funcionários do Estado.

PELAS LENTES DA DELEGACIA DE ORDEM


POLÍTICA E SOCIAL - DOPS

Deparei-me com alguns documentos de órgãos de segurança. Um


deles foi produzido pela DELEGACIA DE ORDEM POLÍTICA E
SOCIAL: RELATORIO – COPIA. É um relatório sobre localidades da
fronteira.
É cópia de um documento datilografado de quatro páginas
paginadas, espaço simples, em papel timbrado com o “brasão”, junto à
denominação do Estado do Paraná, da “Tip. Gonçalves”. É identificado,
no canto à direita: “A.G. 12-A”. Sobre o texto, há um carimbo “COPIA”.
Estes dados e características aparecem em todas as páginas. É
encaminhado ao “Ilmo. Sr. Dr. Delegado Regional de Polícia”. Ainda no
canto acima e à direita vem escrito, manualmente, “arq. Pasta Foz do
Iguaçu”, seguido de assinatura.
O documento inicia informando que, “Cumprindo as determinações
de V.S., parti desta localidade dia 27 do mês proximo findo, margendo
toda costa do Rio Paraná, regressando á 21 do fluente sem novidade” 12.
É finalizado com o registro de que, no dia 17, o autor teria estado
de regresso a Guaíra; e, ainda, “Dia 21: Nesta localidade sem novidade.
Qualter do Destacamento em Fóz do Iguaçú, 22 de dezembro de 1942.
Respeitosamente, (a) MANOEL CURSINO DIAS PAREDES – 3º
Sargento”. “Nesta localidade” quer dizer Foz do Iguaçu. Ou seja, o 3º
Sargento Manoel Cursino Dias Paredes, encaminha texto com registros
que fez durante atividades pelo território fronteiriço do município de
Foz do Iguaçu ao delegado Gláucio Guiss. Nele constam observações e
dados deste agente de segurança e da ordem feitas a partir de observações
in loco pelos portos da costa do rio Paraná e suas adjacências. As minhas
observações dão conta de que ele estava prestando contas de tarefas que
lhe foram atribuidas. Percebo que nas estruturas de estado dos anos 1940
autoridades disseminaram preocupações e atitudes para garantir uma
suposta segurança nacional. O “3º Sargento”, o “delegado” e outros fazem
parte de uma “rede de estado” com responsabilidades institucionais sob

188
o abrigo de um governo central e estado fortalecidos.13
Há, no mesmo parágrafo, um “DESPACHO: Extraia-se cópia, e
encaminhe-se a Secretaria do Interior, Justiça e Segurança Pública. (a)
GLAUCIO GUISS – DELEGADO”. Na sequência, informa-se que está
de acordo com o original. “O referido é verdade e dou fé. Foz do Iguaçú,
23-12-42. (a) Aracy Albuquerque Neira. Escrivão.”
E, finalmente e em destaque: “ CONFERE COM O
ORIGINAL. Curitiba Em 13 de abril de 1943.” Segue assinado por
Oriente Franco Godoy (nome provável, pois não é datilografado), “agente
aux. Da Sec. De Controle.”
Busco alguns dados biográficos de autoridades de segurança
mencionados no documento.
Manoel Cursino Dias Paredes foi vereador em Curitiba, membro
de loja maçônica paranaense. Também, o 63º Comandante Geral da
Polícia Militar do Paraná de 08 de Novembro de 1960 a 23 de Janeiro de
1961.14 Gláucio Guiss foi Delegado da 9ª Região Policial em Foz de
Iguaçu de 24 de setembro de 1942 a 20 de julho de 1943, quando foi
transferido para a Delegacia da 12ª Região Policial em Londrina.15 Aracy
Albuquerque Neira foi escrivão e teria participado da repressão de
colônias alemãs de Foz do Iguaçu e de denúncias contra a Congregação
do Verbo Divino16. Para mais informações sobre os agentes do estado
nominados na fonte, há textos que abordam aspectos da fronteira deste
período, destacando-se as críticas de Aloisio Palmar.17
Eis a “embalagem” do documento. Considero pertinente trazer estas
peculiaridades para que o leitor, que não tem a fonte em mãos, possa
ampliar percepções sobre a atuação de agentes de estado nas fronteiras,
nos sertões, nos rios, nos portos, nas localidades num verão de 1941/42.
Enfatizo, além dos registros, os trâmites realizados. Percebe-se
que o relatório recebeu despachos e encaminhamentos de cópias. Hoje,
cópias digitalizadas estão em arquivos. Documentos receberam
tratamento arquivístico; foram organizados e são geridos por uma
instituição (Arquivo Público do Estado do Paraná), cujos objetivos são
diversos dos agentes do Estado brasileiro e das instituições envolvidas
na gênese documental. Uma das finalidades da gestão de tais documentos,
realizada na atualidade, é que investigadores, estudiosos, curiosos possam
consultá-los e pesquisá-los.

189
As observações que faço são percepções minhas, são leituras
provocadas por curiosidades e interesses meus. Outros terão outros
olhares, conclusões e/ou reflexões diversas.
Voltando para os anos quarenta do século XX, relembro que o
Brasil estava sob o governo Getúlio Vargas. Os nacionalismos estavam
exacerbados no mundo e nos países desta tríplice fronteira. Os governos
se moviam sob os ímãs dos Aliados e do Eixo. A política da Marcha para
o Oeste estava em discursos e em práticas.
Observo que a “máquina” do Estado brasileiro estava contaminada
por ideias protecionistas e voltadas para a tomada e para o controle de
espaços de fronteira. Os agentes, os funcionários de Estado atribuíam a
si e a eles eram atribuídos papéis e funções voltadas à garantia das
fronteiras nacionais. Vejo nas entrelinhas do documento que trabalho,
agora, o patriotismo fronteiriço dos que gestaram e encaminharam os
registros feitos nas tarefas atribuídas pelos superiores e pela ideologia
dominante.
É isso que fui percebendo no manuseio, nas leituras e nas
informações do relatório, documento este feito por várias mãos e mentes;
os matizes e os enfoques são representações de paisagens datadas e
localizadas. Estado Novo, fronteiras do Paraná com Paraguai e Argentina,
empreendimentos extrativistas da madeira e da erva mate, vínculos
econômicos, de poder e de cultura platinos. Homens e mulheres sendo
descritos, adjetivados, imaginados, recebendo atributos. São carimbados;
nomes, sobrenomes, nacionalidades, idades foram sendo registrados a
fim de que as fronteiras fossem caracterizadas em personagens, em
estruturas econômicas (portos, estradas, equipamentos...) e de vivências
(moradias, distribuição espacial...). A Tríplice Fronteira foi vasculhada.
As concepções de fronteiras constantes no documento são mais as
concepções dos que registraram do que de quem foi descrito. É a visão
de agentes do estado sobre uma paisagem representada18. Foi a construção
de uma paisagem ideológica. Enfim, são fronteiras múltiplas mencionadas
no título deste texto.
O funcionário de estado relata que passou por vários portos a partir
do dia 27. Fez seus registros.

190
“Porto Embalse, morador Snr. Cancio Aquino (Paraguaio), porto
Bella Vista, morador Snr. Ewaldo Keneg (Argentino) que faz a
travessia de passageiros em canôa. Chacara Carvalho, do Snr.
Antonio Carvalho (brasileiro). Porto Leonor que fica em frente o
porto Curupaiti no Paraguai, morador Snr. Pedro Jeca Kuei
(Argentino) com cinco filhos brasileiros. Porto Carola Cuê,
morador Amancio Arçamendia (paraguaio), tem uma pequena
plantação de milho, arroz, feijão, fumo e etc.; Tem no porto duas
canôas, uma de propriedade de Antonio Carvalho e outra de
Estefano Ramires. Porto Temoteo Uzuna, morador Snr. Temoteo
Uzuna, Brasileiro, tem plantações de milho, feijão, arroz e criação
de gado, cabritos, porcos e galinhas. A estrada até este porto é
carroçável e boa, podendo entrar caminhões.”

No dia seguinte, continua relatando suas passagens e observações.


São paisagens com estabelecimentos, atividades de criação e plantação.
Com moradores.

“A casa do Snr. Rafael Uzuna, Brasileiro, com grandes plantações


de milho, arroz, feijão, mandioca e criação de carneiros e porcos.
Porto Ipiranga está abandonado, existindo somente um morador
o Snr. Rosario Benitez (paraguaio). Porto Ocuy, morador o Snr.
Rosario Benitez (paraguaio), com 67 anos de idade, residente neste
porto desde 1.903, é o maior plantador desta zona, com criação
de porcos. Neste porto fica o campo de emergência Ocuy, com
550 x 80 metros; quem toma conta da conservação desse campo
de pouso é o Snr. Julio Dominhack.”

Os relatos referentes aos dois primeiros dias, 27 e 28 de novembro


de 1942, dão a perceber que havia portos nos trajetos percorridos; existiam
plantios e criações. Plantações eram cultivadas e animais eram criados.
Os registros mostram uma fronteira problemática, há estrada carroçável,
campo de emergência. Os moradores receberam nomes, sobrenomes,
nacionalidades, idades. Alguns tinham filhos. As mulheres não participam
do cenário construído; a fronteira é masculinizada. As lentes focam e
desfocam. Atentar para os sobrenomes ajuda a concluir que moravam
pessoas de diversas origens étnico-nacionais. Percebo, pelos sobrenomes,

191
que predominavam descendentes de europeus. Havia brasileiros,
argentinos, paraguaios. O documento contém demarcação de diferenças,
distingue dentre as três nacionalidades contíguas à Tríplice Fronteira;
um morador brasileiro não seria um morador argentino, nem paraguaio.
A nação estava confusamente povoada na fronteira.
Agora, já no dia 29, realidades sobre outras localidades são
informadas.

“Porto 7 de Setembro abandonado, antigo trabalhador Eugenio


Caferata, na exportação de madeiras. Porto Ytacora, onde o snr.
Jeronimo Vargas está tirando madeira. O porto está abandonado
(sem morador) tendo na planchada cem torras de madeira. Porto
Moleda, mora o Snr. Patricio Moleda, brasileiro, está nesse porto
desde 1.910 (Colono Militar) é grande conhecedor desta zona.”

O colono militar estaria neste local desde 1910, seria conhecedor


da região. Antes, já tinha sido informado que o paraguaio Rosário Benitez
de 67 anos viveria no Porto Ocoí, desde 1903 e era grande plantador. Ser
paraguaio e grande plantador eram dados a serem considerados. Permito-
me a acrescentar que creio que as vivências entre essas pessoas
configuravam relações de troca de mercadorias, de conversas em que as
gramáticas com suas concordâncias e suas regras oficializadas passavam
a largo. Fronteiras, acredito, havia, mas, o agente do Estado imprime
novas e mais fronteiras, muitas delas nem vislumbradas pelos moradores.
Torna-as múltiplas; outras, certamente, existiam, todavia não foram
percebidas e registradas.
Passada mais uma noite, é o último dia de novembro. O
documento começa a trazer dados sobre empreendimentos de maior
envergadura, o primeiro porto mencionado estaria em decadência.

“Dia 30: Porto Sol de Maio antiga sede da Cia. Esperia, hoje
paralizado, em decadência, tem como administrador o Sr. Agenor
Silveira, Inspetor de Quarteirão desta D.R., que possue criação
de porcos e tem grandes plantações de arroz, milho, feijão e etc.,
Porto Sol de Maio dará ao município 1.000 sacas de arroz para o
ano próximo. Porto Dionisio Chieli, a maior chácara da zona Rio

192
Paraná, com plantações de café, milho, tuna, feijão e cana de
assucar.”

Inicia-se o último mês do ano de 1942: governo Vargas, a Grande


Guerra se alastrando e a fronteira sendo descrita.

“Dia 1º de Dezembro: Sede da Cia. Bartes, Cooperativa “Manoel


Ribas”, Cia. Esperia (ramificação), e boa casa comercial
pertencente a Valentim Agostini. Cia Bartes, possue nessa
localidade grandes paiois cobertos de zinco e também grandes
quantidades de ferros velhos. Tem como administrador digo,
administrador atualmente o Sr. Pedro Alhana, pois o Sr. Ladialau
Viver transferiu sua residência para o Paraguay. Cia. Esperia
também possue grande numero de casas abandonadas. Administra
também essas propriedades o Sr. Agenor Silveira. Cooperaiva
“Manoel Ribas”, não vai adiante, devido a falta de capital, as
dividas que contraiu com os colonos, e também devido a
concorrência nas vendas com o Sr. Valentim Agostini estabelecido
com o negócio. Esta colônia, tem mais ou menos 60 famílias que
se dedicam a plantação de arroz, cana de assucar, feijão, milho e
criação de porcos, para a exportação da banha. Para o ano entrante
esta colônia fornecerá 3.000 sacas de arroz. De Foz do Iguaçu a
Santa Helena, a estrada é carroçável podendo passar caminhões,
somente durante as secas, pois existem vários rios como Bela
Vista, Guaviroba, Passo Cuê e Ocuy, que quando cheios não
permitem nem a passagem a pé. As estradas estão necessitando
de limpezas, e transito de carroça entre Sol de Maio e Santa
Helena, está interrompido devido ter caído a ponte do Rio São
Vicente Chico.”

Em 1º de dezembro, foram verificadas instalações e atividades da


“Sede da Cia. Bartes, Cooperativa “Manoel Ribas”, Cia. Esperia”.
Vislumbra-se que essas companhias e cooperativa teriam potencial para
ajudar no abastecimento de Foz do Iguaçu. As condições de transporte
deveriam ser melhoradas. A estrada, se melhorada, facilitaria a passagem
de caminhões e carroças. As 60 famílias, que ali viviam, repito, “se
dedicam a plantação de arroz, cana de assucar, feijão, milho e criação de
porcos, para a exportação da banha. Para o ano entrante esta colônia

193
fornecerá 3.000 sacas de arroz”. A Cia. Esperia, na outra localidade,
produziria 1.000 sacas de arroz.
É interessante atentar para o fato de que a quantificação da produção
é em números arredondados em milhares. As famílias são dezenas cheias.
Em linguagem coloquial, dir-se-ia que é um “chutômetro”. Isso reforça
o caráter e os objetivos subjacentes ao documento, que não foi feito para
fins estatísticos ou de registro de dados mais seguros. Vários nomes de
personagens, como de estabelecimentos e empreendimentos aparecem
com grafias diferentes no próprio documento e, principalmente, em outras
fontes. Considero pertinente levar isso em consideração.
Um exemplo: Domingos Barthe é argentino, com atividades
extrativistas, de navegação e hoteleira em Posadas e outras localidades
da Argentina. Teria conquistado poder político na Província de Misiones.
Obteve concessões de terras no Paraná.19 Veja-se as grafias deste
sobrenome.
A Cooperativa “Manoel Ribas” estaria em decadência. Cabe
lembrar que Manoel Ribas era o interventor no estado do Paraná de 1932
a 1945. Então, nesta época da decadência da cooperativa que levava o
seu nome ele deveria ter seus esforços voltados à administração do estado
do Paraná e para atividades políticas.
O autor do relatório teria proporcionado um dia de “descanço aos
animais”. No dia 3 teria partido para Cascavel pela estrada que ligaria
Santa Helena a Cascavel, onde existiria somente “uma picada para
cavaleiro ou carroça, com mui dificuldade, em virtude das pontes estarem
caídas, como a de São Francisco Falso, com 50 metros de comprimento
e 4 de altura (aproximadamente), passando a serra de Boa Vista e
Diamante, onde existe um depósito da Cia. Barte”.
No dia seguinte, teria ido até Barro-Preto, local de um depósito
grande da Cia. Barthe em abandono. E, no dia 5, “rumo a estrada de
Guarapuava, picada denominada Benjamim, saí no logar denominado
Boa Vista, daí até Cascavel passando por 2 de Maio, ‘Tate Jupi’, Botú e
Deposito Central da Cia. Barter”. Em Cascavel, Manoel Cursino Dias
Paredes, autor do documento, teria sido informado que “nenhuma
irregularidade ocorre nesse distrito, tendo notado que o povo dessa
localidade, está conciente do momento atual e a discreta vigilância
policial, está sendo mantida de maneira a elogiar”.

194
O “3º sargento teria notado que o povo estaria “conciente do
momento atual” e que haveria “discreta vigilância policial”. A consciência
e a vigilância em Cascavel são observações registradas durante uma fase
aguda da Segunda Grande Guerra e em pleno Estado Novo no Brasil.
Estas situações voltarão mais adiante no texto.
Depois de dois dias de descanso para os animais, teria rumado
para “porto Mendes acompanhando a linha telefônica, passando pelo
logar denominado Lepey antigo trabalhado da Cia. Nunes na extração
de erva-mate. Morador deste logar é o brasileiro Jorge Maceno, guarda-
linha.” Mais adiante, em “Barro Preto ou Cruzinha, reside o Sr. Cosme
Aquino (Argentino) plantador de milho, fumo, feijão, mandioca e criador
de cabritos e porcos.”
No dia 10, foi a “Marrecos, onde mora o Sr. José Alves de
Carvalho, guarda linha”. Informo que, pelo desenrolar da narrativa, pode-
se perceber que o funcionário estava retornando às proximidades do rio
Paraná e dos portos, locais nos quais os empreendimentos de maior
envergadura possuíam infraestruturas mais desenvolvidas. A seguir vão
surgindo alguns exemplos disso.
No dia 11, foi a Rio Branco, onde “a Cia. De Madeira Alto
Paraná, atualmente trabalhando na extração de olios cidreira, extraído
do capim cedroso. Administrador é o Sr. Henrique Hermer, casado com
senhora Suissa, tem 1 filho brasileiro, dedica-se a caça e possue um
aparelho radio-receptor.”
Seguem dias e localidades registradas.

“Porto São Francisco, morador Sr. Francisco Valejo (Paraguaio),


casado com mulher brasileira e tem 6 filhos brasileiro. O mesmo
é operario. Porto Altasa (Alica), antigo porto de extração e
exportação de erva mate, mora aí a viúva do caudilho Argentino
Julio Thomas Alica. Porto Francisco Mendes Gonçalves, Cia.
Mate Laranjeira. A estrada de rodagem de Cascavel a Mendes
Gonçalves está abandonada e com quase todas as pontes caídas,
não permitindo mais o transito de carroças.”

Dia 13 teria chegado a Guaíra e descansado até o dia 16. Guaíra


era uma subssede da Companhia Mate Laranjeira, contemplada com uma
considerável infraestrutura portuária e logística.

195
“Dia 16: Rumo ao Piquiri a cavalo. Porto Thomas Larangeira,
chácara do Sr. Thomas Zeballos (Argentino). Chacara do Sr.
Gregorio Benitez (Paraguaio). Chacara do Sr. Teleforo Gonçalves
(Paraguaio). Chacara do Dr. João Batista, médico de Guaíra. Barra
do Piquiri, chácara do Sr. Martins Mertuce (Paraguaio). Daí de
canôa, Rio Piquiri acima passando a chacara do professor Miguel
Camargo, até a chacara do Sr. João Palma (Italiano). Está tomando
conta desta ultima chcara, o Sr. Prudencio Miranda. Todos estes
Snrs. Tem grandes plantações de milho, feijão, mandioca, etc.
que vendem a Cia. Mate Laranjeira, sendo a chácara melhor
organizada a do Sr. Thomas Zeballos, chefe do armazém de
Guaira.”

Continuam os argentinos, paraguaios e brasileiros presentes em


chácaras e em atividades na fronteira. O médico, o professor e um que
toma conta de uma chácara são nominados, sem lhes ser atribuída uma
nacionalidade. Vê-se que, no dia 11, aparece, no texto, uma “senhora
suissa” e, depois, uma “mulher brasileira”. São as únicas presenças
femininas no documento, mesmo que os homens tivessem filhos. Concluo
que a atenção e o esforço dos registros não estavam voltados às mulheres
presentes nesta fronteira.
No dia 17, estaria de regresso a Guaíra e dia 21 em Foz do Iguaçu
“Nesta localidade sem novidade”. Perdura uma curiosidade a respeito
de detalhes do percurso feito pelo narrador. Não há informações sobre
acompanhantes ou não. Nem sobre a(s) forma(s) de locomoção. Sabe-se
que houve dias intercalados de descanso para os animais. E só!
Além do mais, há uma ausência total de guaranis e de indígenas de
outras denominações. Outros documentos, como relatos de viajantes,
que descrevem os sertões do oeste do Paraná em períodos próximos,
trazem aos cenários números significativos de guaranis “mansos e
bravos”.20 Relaciono este aspecto a debates atuais sobre a demarcação
de terras indígenas nos quais prevalece a ideia de que quaisquer
reivindicações e lutas de povos indígenas são criações ideológicas de
órgãos e organismos ligados a questões indígenas, como a Fundação
Nacional do Índio (FUNAI) e Organismos Não Governamentais (ONGs).
Outra observação que cabe sobre esta questão é que os guaranis não

196
tinham importância na geopolítica das fronteiras no período do Estado
Novo. As atenções estavam voltadas às populações que “carregavam”
nacionalidades envolvidas nos embates da Segunda Grande Guerra. Outro
aspecto a ser considerado é que atribuir aos guaranis alguma
nacionalidade não traria reforços aos discursos nacionalistas. Os guaranis
representavam populações transfronteirças21. A ausência dos guaranis
aponta, pois, para um “vazio indígena” à semelhança do “vazio
demográfico” apontado por parte da historiografia referente à dinâmica
populacional da primeira metade do século XX no Paraná.22
Enfim, os conteúdos deste documento dependem de horizontes
institucionais e da ideologia nacionalista da época. Assim, as
representações presentes neste escrito pendem mais para o “genitor” do
documento, eivado de (pré)conceitos, do que para a realidade que,
aparentemente, estaria representada. Aqui as concepções a respeito de
memórias23 contribuem para a análise. Os horizontes da criação desta
narrativa, bem como as destinações e os circuitos/circulações dos dados
pretendidos, foram condicionando escolhas, opções, ênfases,
esquecimentos, descartes.

SEGREDOS DA FRONTEIRA PARA A COMISSÃO DE


ESTUDOS DA FRONTEIRA

Passo, agora para outro documento. É o encaminhamento “Ao


Exmo. Sr. Presidente da Comissão de Estudos da Faixa de Fronteiras do
Conselho de Defesa Nacional, Palácio do Catete”, Rio de Janeiro, de
“cópia do levantamento informativo da costa da Região do Iguaçú e da
República do Paraguai, nas margens do Rio Paraná”. A primeira folha
tem informações, timbres, carimbo e outros dados semelhantes ao
documento anterior (DOPS: RELATÓRIO). “G/283 14 dezembro 2”
(1942). “SECRETO”. “ERB. Prot. Nº G/865-42.” Do “Cap. Fernando
Flores – Secretário”. Não vem assinado. Teria sido feito pela Delegacia
Regional de Polícia de Foz do Iguaçu, tendo “a colaboração do Comando
da Companhia da Fronteira”.
_________________________
(Cap. Fernando Flores)
- Secretário –

197
Tem duas partes: uma referente ao lado do Brasil e a outra, ao lado
do Paraguai.
A segunda folha contém o título: Levantamento informativo
completo de todas as localidades da costa do Rio Paraná, pertencentes
a 9ª região policial, com sede em Foz do Iguaçú – Brasil.-, seguido de
carimbo:

DELEGACIA REGIONAL DE POLÍCIA


DA
FOZ DO IGUASSÚ
ESTADO DO PARANA

Algumas palavras do documento só são legíveis com uso de lupa,


outras, poucas, não consegui decifrar nem com este equipamento de
ampliação. Permanecem secretas! É um texto denso que traz mais
descrições do que as que constam no relatório discutido nas páginas
anteriores. Várias informações coincidem.
Fiz leituras, busquei informações, resumi dados e organizei um
quadro do “Levantamento”, para facilitar a visualização e agilizar
percepções e comparações.
No “Levantamento informativo completo de todas as localidades
da costa do Rio Paraná, pertencentes a 9ª região policial, com sede em
Foz do Iguaçú – Brasil”, foram “levantadas” 36 localidades. Esta primeira
parte referente ao Brasil contém oito folhas datilografadas, quase todas
em espaço simples, referindo-se ao território brasileiro. A leitura destes
levantamentos ajuda a perceber que por localidades entendem-se áreas
ou locais em que havia moradores ou vestígios de moradores recentes
merecedores de registros.
As toponímias (nomes de lugares) mencionadas são 36 (trinta e
seis) e referem-se a 6 (seis) “chácaras”, 2 (duas) “planchadas”, 1 (uma)
“quinta”, 1 (uma) “ilha” e 26 (vinte e seis) “portos”. Não há clareza (ou
não havia a preocupação!?) quanto aos aspectos legais de tais domínios.
Os termos “residência”, “reside(m)”, e “mora(m)” são usados 16
(dezesseis vezes). O de “propriedade” aparece 6 (seis vezes). Também
os termos “administra(do)”, “concessão”, “pertencente”, “depósito”
constam uma ou duas vezes. Este documento e o trabalhado anteriormente

198
prescindem de informações e precisões quanto aos aspectos jurídicos de
acesso à terra nestas fronteiras.
Vários estudos acadêmicos apontam para situações confusas e
conflitivas no que tange ao uso, ao mercado e ao domínio sobre as terras
nas fronteiras a oeste do Estado do Paraná. Alguns processos judiciais
chegaram e/ou estão, ainda, por chegar ao Supremo Tribunal Federal
para decisão.24
As atenções estão voltadas para os nomes de pessoas seguidos de
alguns atributos, para as interferências sobre as paisagens no que se refere
à infraestrutura e a cultivos. Na tabela a seguir, organizada por este
autor, são atribuidas as categorias moradores/proprietários para
proporcionar uma visão geral de uma parte do relatório. Há conteúdos
bem mais amplos no que se refere à produção, atividades desenvolvidas,
condições de instalações e outros aspectos que não foram incorporados
a esta tabela.

199
200
O Porto Guaíra é descrito com destaque em duas páginas, constando
tabelas e informações mais detalhadas que as outras localidades. Seria o
mais importante porto do “Rio Paraná (alto e médio)” e “Sede da Cia.
Mate Laranjeira S.A”, ligando a região “aos Estados de São Paulo e
Mato Grosso por meios fluviais e a Porto Mendes por estrada de ferro”.
O destaque ainda é voltado a sua infraestrutura e às atividades
desenvolvidas nesta Companhia.
Guaíra teria “todos os recursos de uma boa cidade e apresenta

201
melhor aspecto que Iguaçu”. Existiria o prédio da Administração, além
de: “hotel, farmácia, armazém, depósito de erva, estação de estrada de
ferro, hospital, igreja, oficinas, usina, casas de material para os
funcionários graduados, grupo escolar, casas de madeira”. Esta
infraestrutura e as suas respectivas instalações serviriam “para todas as
repartições estaduais e para os funcionários e empregados da Cia.”25.
A partir de uma verificação panorâmica desta fonte, fui pinçando
algumas ênfases constantes no documento.
Aparecem nomes completos (nomes e sobrenomes), vários nomes
são incompletos, às vezes os nomes e outras vezes os sobrenomes. É
possível que, por ocasião da busca de dados e dos levantamentos, os
informantes soubessem e/ou mencionassem alguns nomes completos e
outros incompletos. Algumas referências a autoridades, como “vice-
cônsul paraguaio nesta cidade”, “primeiro suplente desta D.R.”, são
enfatizadas. 14 (catorze) nomes são precedidos por “Sr.”, mas a maioria
não recebe esta deferência.
Verifiquei que a maioria dos nomes é seguida de referências no
que tange às suas nacionalidades: (brasileiro), (paraguaio), (argentino) e
outros; brasileiro aparece 12 (doze) vezes, paraguaio 15 (quinze) vezes,
argentino 7 (sete) vezes. Esporadicamente são encontrados espanhóis,
suíços, italianos, alemães, guatemalenses. Em alguns casos, as
nacionalidades são atrubuidas coletivamente, principalmente quando se
trata de grupos de trabalhadores. Apresento alguns exemplos: “Sr.
Francisco Cherloski (brasileiro) negociante e criador”; “Dionizio Chielli,
brasileiro, com 48 anos de idade, casado, com 12 filhos, sendo 8 homens,
que são reservistas”; “Leopoldo Friedrich (brasileiro) de 46 anos, casado
com brasileira”; “Antonio Arsumencia (paraguaio), com 50 anos de
idade”; “Rogastiano Barcella (Paraguai), casado com brasileira e tem 4
filhos menores”; “Em Britania 30 pessoas (os tarefeiros de herva são
todos paraguaios)”.
Aqui posso observar que interessava, também, atentar às idades,
ao número de filhos, ao estado civil dos moradores. Além destes atributos,
o conhecimento e a prática da língua portuguesa eram observados
reiteradamente.
Outros exemplos que apontam neste sentido: “Sr. Evaldo Kenig
(argentino). Fala o português, é de boa aparência e é esperto”; “Timóteo

202
Ozuna (argentino), com 68 anos, fala bem o português, e é casado com
Amélia Ozuna (brasileira)”; “Rogastiano entende muito mal o portugues,
e seus filhos falam o português”; “Os Meireles falam mal o português, e
residem nesse lugar, para mais de um ano”, “Timóteo Ozuna (argentino),
com 68 anos, fala bem o português, e é casado com Amélia Ozuna
(brasileira)”.26
Um dos componentes importantes da brasilidade era o domínio da
língua portuguesa. Portanto, atentar para tais aspectos e registrá-los era
tarefa dos atos de vigiar a fronteira.
Patrício Moleda é apresentado como “antigo colono militar
brasileiro, com 78 anos, forte e com 22 filhos”. Mora na localidade há
“30 anos e tem alguma cultura”. Estaria morando com 6 filhos, sendo
que o menor teria 17 anos. “Ensina a todos ler e escrever. Tem 3 filhos
argentinos e um paraguaio, que não residem em sua companhia”. Este,
então, é um brasileiro de idade avançada, tem numerosa prole, inclusive
filhos argentinos e um paraguaio. Observa-se que “Patrício não tem
vizinhos e vive num isolamento único”.
Na “Cia. Esperia”, o Estado teria interditado a concessão de suas
terras, motivado pela “morte do administrador Sr. Bissoli (?) e
irregularidades havidas”, sendo que a administração seria exercida pelo
“Sr. Agenor Silveira, inspetor policial de quarteirão”. No local haveria
duas famílias paraguaias e dez brasileiras. “Há pouco tempo foram
desalojados por esta D. R., súditos alemais, solteiros, que lá residiam e
que atualmente se encontram em Guarapuava”. Nas proximidades de
outro porto, “no perímetro de 10kmts de Santa Helena, residem cerca de
300 pessoas (80 famílias), na maioria brasileiros descendentes de
italianos, que falam o português”. Desta localidade, por ação de “esta
D.R.” teriam sido retiradas “cerca de 10 famílias italianas, as quais foram
encaminhadas à Guarapuava.”
A minha leitura deste parágrafo do texto vincula alguns elementos
a aspectos geopolíticos relacionados aos Aliados e ao Eixo. O Estado
brasileiro requer do seu funcionário que atua na segurança da fronteira a
atenção voltada ao registro de indícios de nacionalidades dos moradores
e informações de atuações e ações adequadas do órgão da segurança na
fronteira. E é recomendável informar aos seus superiores, ao governo e
à nação. O “Sr. Bissoli (?)”, falecido, é grafado com interrogação. No

203
entanto, “súditos alemais, solteiros” e “famílias italianas” foram
encaminhados para Guarapuava. Chama à atenção o fato de os registros
referentes a esses desalojamentos e encaminhamentos a Guarapuava.
Entrementes, os descendentes de italianos que “falam o português”
residem no referido perímetro. José Augusto Colodel, em livro sobre a
história do município de Santa Helena, escreveu sobre a emigração de
italianos (descentes?) desta localidade27. Mesmo que a Segunda Guerra
(1939-1945) tenha sido realizada em campos de batalha na Europa e em
parte da Ásia, os seus reflexos faziam-se sentir na Tríplice Fronteira
através da atuação de órgãos de estado.
A área de 274.750 hectares de “propriedade da Cia. Madeireira
Alto Paraná (Cia. Inglesa)” teria “sede em São Paulo e Buenos Aires”. A
sua administração seria exercida por “Henrique Elmer, suíço, com 41
anos de idade”. Este administrador “fala bem o português” e estaria
residindo “com sua esposa e filho de 11 anos”. O filho teria nascido na
Guatemala. No outro documento, trabalhado em páginas anteriores, o
filho de Henrique é brasileiro e apenas a mulher seria suiça. O tal do
Henrique Elmer “é homem viajado e de certa cultura.”
Em outra localidade, “a família Dionizio dedica-se a lavoura e
apresenta ótimo aspecto não só como trabalhadores, como também do
ponto de vista social.” O paraguaio Ladislau Vive, casado com paraguaia,
“tem 28 anos de idade, e é de ótima aparência e vive em harmonia com
os colonos da Cooperativa Manoel Ribas”. Teria participado da guerra
do Chaco. “É ex-tenente do exército paraguaio”. Por sua vez, o paraguaio
“Rogastiano não tem canoa, é indolente”.
Observam-se aspectos ligados a comportamentos, sociabilidade,
“cultura”, aparência, indolência etc. O documento apenas registra estes
aspectos, não explicita julgamentos de valor de forma aberta, no entanto,
há conotações subjacentes neste sentido.
Há um conjunto de informações referentes às infraestruturas, às
atividades econômicas, aos volumes de produção, às condições de
moradia e outras informações bem amplas. Neste trabalho, estas
informações não são analisadas.
Além dos levantamentos da costa brasileira, a fonte apresenta um
“LEVANTAMENTO INFORMATIVO DAS DIVERSAS
LOCALIDADES EXISTENTES NA COSTA DO RIO PARANÁ,

204
PERTENCENTES Á REPUBLICA DO PARAGUAY”
É a segunda parte do documento referente a localidades do
Paraguai. Ela tem a mesma estrutura e característica de registros das
localidades da “COSTA DO RIO PARANÁ, PERTENCENTES Á 9ª
REGIÃO POLICIAL, COM SEDE EM FÓZ DO IGUAÇÚ – (BRASIL)”.
Na costa paraguaia são 18 (dezoito) portos nominados, seguidos de suas
descrições: PORTO PRESIDENTE FRANCO, PORTO EMBALSE,
PORTO ITACURÚ, CURUPAITY, PORTO LAS PALMAS, PORTO
AURORA, PORTO GENERAL DIAS, PORTO VANGUARDIA,
PORTO ALEGRE, PORTO DORIELA, PORTO VITÓRIO BOCAY,
PORTO CARDONA, PORTO SAENZ PENA, PORTO SANTA
TEREZA, PORTO 3 DE JUNHO, PORTO ALICA, PORTO ITAMBEÍ,
PORTO ADELIA.
Três deles estariam “totalmente abandonados” e três aparecem sem
informações sobre moradores ou proprietários.
As atribuições de nacionalidades aos moradores e proprietários
são as mais recorrentes, seguindo-se dados e registros da primeira parte.
A “Industrial Paraguaya” seria “uma Cia. De capital inglês”. A
“propriedade dos Ayala” teria um certo conforto, com os moradores
atingindo “a 250 pessoas, inclusive 150 peões paraguaios”. O Porto
General Dias, pertencente a Leandro Bertoni, teria como “administrador,
Carlos Maguez, paraguaio, que aí reside com sua senhora e 40 bugres
paraguaios”.
No Porto Doriela teria morado “o brasileiro Antonio Carvalho”,
outro porto teria sido explorado “por um argentino chamado Vasques”.
O “Porto Sta. Tereza pertence à Leandro Bertone. Possui 70 famílias
(140 pessoas), todas paraguaias, que trabalham no cultivo da erva (3 km
quadrados de plantas), afora a erva nativa. Administra o lugar o Sr.
Milciades Schneider, paraguaio, cujos avós são alemães”. Em outro,
“reside um comissário paraguaio, Zeferino Acosta, encarregado da guarda
da fronteira, nessa zona”.
Alguns aspectos merecem ser mencionados. O rio Paraná faz
fronteira. Há o “lado de cá e o lado de lá”. No entanto, os levantamentos
feitos apontam para mais semelhanças do que para as diferenças. Mesmo
que as preocupações se voltem para enfocar a fronteira, as tintas
encontram dificuldades e resistências no momento em que as vivências

205
foram sendo registradas.
Escritos de Roberto Abinzano28 contribuem para compreender esta
aparente contradição. Este autor trabalha com o conceito de transfronteira,
mostra que os atores da Tríplice Fronteira diluem nas suas vivências as
pretensas fronteiras nacionais. Em texto sobre a Frente extrativista (El
frente extractivista), Roberto Carlos Abinzano caracteriza a Província
de Misiones, no período de 1865 a 1930, como uma “formación
socioeconômica y espacial transfronteiriza”. Para ele, a exploração da
madeira e da erva mate impulsionou “epifenómenos complementários”
como traçados de vias de comunicação, o desenvolvimento da navegação,
a construção de infra-estrutura portuária. Menciona que havia
“agricultores de subsistencia, colonos espontâneos (...) especialistas
artesanos y El território”. Observa, ainda, que muitas de suas práticas
estariam presentes em décadas posteriores nos três países desta
transfronteira. Menciona fontes que afirmariam que estas regiões eram
frequentadas por “’matreros’ y otros aventureros”, que eram combatidos.
“Ya por entonces em Argentina se decia que estos personajes eran
brasileños y em Brasil, obviamente, que eran ‘castellanos, argentinos o
paraguaios’”29.
Mostra, também, a exploração da erva mate em território paraguaio,
referindo-se a um lugar conhecido como “Tucuru-Pucu” (formigueiro
gigante), localizado no porto Presidente Franco à frente da foz do rio
Iguaçu no rio Paraná. Assim, ele aponta aspectos históricos, enfatizanando
presenças de empreendedores e trabalhadores oriundos dos três países
limítrofes. Alerta que estas atividades desconheciam limites
internacionais. “Individuos de varias nacionalidades y Orígenes pasaban
las fronteras nacionales en cualquer sentido”, sendo que os controles
aduaneiros e os de outra natureza não existiam nos três países. Os
ervateiros e obrageiros criaram um mundo quase autônomo. Abinzano
menciona regulamentações e legislação que buscavam controlar as
fronteiras. Tais tentativas de normatização proporcionaram a presença
de funcionários, que, em muitos casos, usaram de espaços de poder para
manobras voltadas a seus interesses. “Estas empresas que surgen luego
de la venta de lãs tierras y se convierten en grandes empórios estaban
montadas y actuaban em los tres países yerbateros ya que habia algunas
de ellas que poseían tierras y capitales em más de una jurisdicción.” Por

206
outro lado, a maioria dos trabalhadores rurais nos ervais “fueron índios,
mestizos y criollos de los três países”, além da presença de estrangeiros
europeus.30
Com relação à população preexistente na região, havia numerosos
guaranis, mestiços e imigrantes. Com a Guerra do Paraguai, houve
ocupação militar, famílias teriam acompanhado combatentes, além de
grande comitiva de comerciantes. Assim, “crearon efecto de
repoblamiento de la zona a la que acudieron argentinos de varias
províncias, brasileños, uruguayos, españoles, franceses, italianos,
alemanes, etcétera, y aventureros o colonizadores de orígenes diversos”.
Escreve que se encontram entre escritos de viajantes e informes oficiais
qualificativos e descrições de “dos tipos de pobladores: a) agricultores
com técnicas muy primitivas de subsistência; b) bandidos o cuatreros
dedicados al pillaje, y refugiados de los três países implicados em La
región”. Também havia indígenas do grupo tupi31.
O interessante é que nomes de empreendedores e suas respectivas
obrages circulam em registros do Brasil, do Paraguai e da Argentina.
Com relação ao erval Tucurú-Pucú, “la Industrial Paraguaya, um
importante ‘holding’ integrado em su gran mayoría por capitales
argentinos”, teve, na sua constituição e desenvolvimento , a contribuição
de “tenaces hombres”, que foram os “Goicoechea, Aramburu, Bossetti,
Luchessi y Paggi”. Eram imigrantes e filhos de imigrantes europeus.
Em outra situação o ervateiro Goicoechea informa a Peyret que teve
contatos com expedições de reconhecimento dirigidas por estrangeiros.
Cita Fender, um suíço, o francês Andrieuz, o italiano Lencisa, Coffin,
comerciante norte americano, os ingleses Fair e Davison, o espanhol
Vitorio Abente. Dentre os maiores ervateiros, Abinzano menciona “los
Arrechea, los Goicoechea, Robet-Blosset, Nuñes, Gibaja, Arrillaga,
Barthe, Nosiglia...” Termina o texto com um epílogo afirmando que teria
feito uma descrição de uma formação espacial como um processo, onde
se constituíram “fronteras socioantropologicas específicas junto a lãs
fronteras jurídicas e políticas”32.
Eis a Tríplice Fronteira levantada e estuda. Os documentos de
órgãos de segurança e o texto de Roberto Abinzano evidenciam, pois,
fronteiras múltiplas.

207
CONSIDERAÇÕES

Considero pertinente observar que os conteúdos dos documentos


mencionados e destacados nas páginas anteriores trazem elementos que
evidenciam preocupações geopolíticas e disputas na Tríplice Fronteira
Brasil, Argentina e Paraguai. Os conflitos platinos estavam mal resolvidos
nas primeiras décadas o século XX. Conteúdos de discursos da política
da “Marcha para o Oeste” do período Vargas estavam sendo gestados e
consolidados nesta época. Justificativas para os planos de colonização e
para a criação de empresas madeireiras e colonizadoras, que atuaram no
Paraná nas décadas de 1940 e 1950, aparecem nas narrativas trabalhadas,
interferindo nas construções ideológicas locais.
Em discussões com os colegas Antônio Myskiw e Tarcísio
Vanderlinde durante reuniões do grupo de pesquisa Cultura, Fronteiras e
Desenvolvimento Regional, foram debatidas e apontadas algumas ideiasa
respeito de fronteiras e territórios. Antônio Myskiw33 redigiu textos sobre
estes dois verbetes que foram publicados no Dicionário da Terra. Segundo
o autor, fronteira costuma significar limites entre duas ou mais situações.
Ela pode apontar onde tem início ou fim um determinado território,
estabelecendo soberania. Pode servir para assinalar o que pertence e o
que não pertence. Há uma diversidade de tipologias de fronteira,
dependendo da natureza da discussão a ser realizada, quer na geografia,
na sociologia, na antropologia ou na história. Ao mesmo tempo em que
fronteira se constituiria num “cenário de intolerância, ambição e morte”.
No entender de José de Souza Martins34, seria, também, “lugar da
elaboração de uma residual concepção de esperança, atravessada no
milenarismo da espera do advento do tempo novo, um tempo de redenção,
justiça, alegria e fartura”. Michel de Certeau35, ao problematizar alguns
aspectos teóricos e práticos da fronteira, argumentaria que “a fronteira
funciona como um terceiro”, isto é, o espaço existente entre o lado de cá
e o lado de lá da fronteira.
Permito-me considerar que estas discussões sobre fronteiras
relacionadas com as narrativas estudadas apontam para fronteiras
múltiplas explicitadas nas fontes e apontadas no decorrer do texto.

208
Com o conceito de fronteira se articula o conceito de território.
Myskiw, citando Werther Holzer36, aponta que território também pode
ser entendido como um conjunto de “itinerários e lugares”. Ele buscaria
compreender o território a partir das relações sociais e culturais que
determinados grupos humanos (ou animais) mantêm com lugares e
itinerários que constituiriam seus territórios. Nessa óptica, a existência
do território não depende de delimitação de fronteiras fixas, e sim
flexíveis, visto que os limites são dados de acordo com as relações
(espontâneas ou não, conflituosas ou não) frente (ou junto) a outros
grupos, com a alteridade.
O território, suas fronteiras, a população e a paisagem que o
compõem têm historicidades. As histórias de lugares são histórias de
movimentos, de migrações constantes, de conflitos e de transformações
de espaços e de paisagens. Assim como o espaço, o território é produzido
(explorado ou utilizado) por formações sociais, com dinâmicas próprias
e repletas de contradições e desigualdades. No interior das fronteiras
dos territórios, estão presentes as especificidades locais, inerentes à
dinâmica geral da sociedade e às peculiaridades de lugares e tempos
históricos.
A territorialidade é constituída na perspectiva da construção de
identidades, principalmente na dimensão simbólica, cultural. Neste
aspecto, aparece o externo, a alteridade, a distinção entre nós e os outros.
Também a distinção dos outros entre eles. Constrói-se a desigualdade e
a diferença. A desigualdade exige um parâmetro comum, de essência
comum, de identidade, mas as distinções se dão no âmbito da
classificação, da quantidade, culminando em hierarquização. A diferença
se dá no sentido da alteridade, do outro, da exclusão, do preconceito. Os
encontros com os semelhantes e/ou com os outros, normalmente, levam
a comparar: Os “não-nós” podem ser considerados superiores, inferiores,
ou iguais.37 Prevalece a concepção de que os outros são inferiores a nós.
A pesquisa buscou conceber os autores dos relatos, das narrativas
como pretensos nós que procuram caracterizar os outros, os diferentes,
conferindo-lhes atributos, hierarquias, valores, etc.38 Nas narrativas, os
autores atribuíram características a partir de concepções e de idealizações
consideradas adequadas aos moradores dos sertões. As descrições
apontavam para modos de ser, para atitudes, para identidades étnico-

209
nacionais passíveis de interferirem na formação da civilização e da
nacionalidade brasileiras.
Ocorre uma luta por representações, pelo simbólico. Para Chartier39,
as representações possibilitam articular três modalidades da sua relação
com o mundo social. Seriam a classificação e a delimitação, produzindo
“configurações intelectuais múltiplas”, as práticas, visando “reconhecer
uma identidade social, exibir uma maneira própria de estar no mundo” e
as formas institucionais e objetivadas, marcando “a existência do grupo,
da classe ou da comunidade”. As narrativas trabalhadas enquadram-se,
mais ou menos, nessas modalidades, uma vez que os autores discursam
enquanto indivíduos, pertencentes a grupos e tendo vínculos e
compromissos institucionais. As representações, também, vão sendo
construidas de acordo com configurações e concepções próprias de suas
respectivas temporalidades e territorialidades, ou seja, em tempos e
espaços historicamente contextualizados.
Foram enfocadas descrições e observações sobre homens e
mulheres nas “costas” do rio Paraná. Foram trazidos elementos para
subsidiar a análise sobre representações e fronteiras múltiplas em
contextos de fronteiras e territórios na Tríplice Fronteira. Mostrados
conteúdos de narrativas, enfocando características relacionadas a questões
étnico-raciais, a elementos culturais e a disputas territoriais. Discutidas
identidades no contexto da construção de representações sobre fronteiras
culturais, econômicas e nacionais.
As fontes são narrativas produzidas na primeira metade do século
XX, duais delas nos anos de 1940 a 1945 no interior do DOPS por agentes
que atuaram no oeste do Paraná. Refletiu-se sobre estas narrativas,
buscando mostrar e compreender representações nelas contidas sobre
fronteiras múltiplas. Estas representações são construções de imagens
entendidas como consciência do eu em relação ao outro, podendo
predominar um esquema cultural mais de quem observa e registra do
que de quem é observado. Portanto, fronteiras e territórios são conceitos
que permeiam o texto construído.

210
NOTAS EXPLICATIVAS

1
Doutor em História pela UFF/Niterói, Professor Associado da UNIOESTE – Universidade Estadual do
Oeste do Paraná e líder do grupo de pesquisa Cultura, fronteiras e desenvolvimento regional.
2
Ver COLODEL, José Augusto. Obrages& companhias colonizadoras: Santa Helena na história do Oeste
Paranaense até 1960. Santa Helena: Prefeitura Municipal, 1988. WACHOWICZ, Ruy. Obrageros, Mensus
e Colonos: história do Oeste Paranaense. Curitiba: Vicentina, 1982. WESTPHALEN, Cecília Maria.
História documental do Paraná: primórdios da colonização moderna na região de Itaipu. Curitiba, UFPR,
1987.
3
Ver GREGORY, Valdir e SCHALLENBERGER, Erneldo. Guaíra: um mundo de águas e histórias. Marechal
Cândido Rondon, Editora germânica, 2008. GREGORY, Valdir. Fronteiras e territórios: construções de
paisagens nos sertões do Paraná na primeira metade do século XX. Pesquisa desenvolvida durante licença
sabática (fevereiro de
2011 a janeiro de 2012). Marechal Cândido Rondon/PR, fevereiro de 2012.
4
SIDWEL, Wilson. A través de los años 1910-1930. (Xerox de texto datilografado, acervo pessoal).
5
Atualmente inundadas pelo Lago da Itaipu Binacional.
6
CORREA FILHO. A Mate Laranjeira. Cuiabá, 1925, pp. 96-97.
7
Coelho Junior. Pelas selvas e rios do Paraná. Curitiba/SP/RJ, Editora Guaíra Limitada, 1946, p. 30.
8
Franco, Artur Martins. Relatos de viagem. Curitiba, 1973.
9
ARRUDA, Gilmar. Cidades e Sertões: entre a história e a memória. Bauru, EDUSC, 2000, p. 14.
10
Ver Anderson, Benedict. A nação e consciência nacional. São Paulo, Ed. Ática, 1989, p. 13.
Ver GREGORY, Valdir. Fronteiras e territórios: construções de paisagens nos sertões do Paraná na primeira
11

metade do século XX. Marechal Cândido Rondon/PR, fevereiro de 2012.


12
Optei por reproduzir partes das fontes mantendo a redação original no que se refere a concordâncias,
pontuação e outros componentes. Os textos são bem escritos, mas a pontuação, a acentuação e a grafia
diferem da correção gramatical atual. A interferência nestes aspectos, no meu modo de ver, poderia afetar
significados e características, bem como descontextualizar conteúdos e dados. Nas próximas páginas estarei
utilizando este documento que estou caracterizando sem citá-lo repetidamente. A redação deixa claro que
se refere a esta fonte.
13
Cabe mencionar que, naquela época, os nacionalismos estavam assoberbados, com repercussões nesta
Tríplice Fronteira.
14
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pol%C3%ADcia_Militar_do_Estado_do_Paran%C3%A1acessado em 10/02/
2012.
h t t p : / / d o m i n o . c m c . p r. g o v. b r / p r o p 2 0 0 5 . n s f / f 9 b 2 6 0 f b 1 d e 0 6 c 4 b 0 5 2 5 6 9 b a 0 0 5 c 7 5 a d /
15

3122df4bc6063a2c0325716f006a3e7d?OpenDocument, acessado em 10/02/2012.


16
Fonte:http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/840276, acessado em 02/06/2013.
17
Ver SILVA, Micael Alvino. Vigilância aos súditos do Eixo na parte brasileira da Tríplice Fronteira (1942-
43). 2010. 222p. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual de Maringá. Ver também
BLOGUE DO ALUIZIO PALMAR: Histórias do porão, acessado em 10/02/2013. Ver também http://
www.recantodasletras.com.br/cronicas/840276, acessado em 02/06/2013.
18
Ver CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa, Difel, 1990.
19
Ver ABINZANO, Roberto Carlos. Cuadernos de la Frontera. Año I, Num. II – Posadas, marzo de 2004.
Ver GREGORY, Valdir e SCHALLENBERGER, Erneldo. Guaíra: um mundo de águas e histórias. Marechal
20

Cândido Rondon, Editora germânica, 2008.


21
Este conceito tem o sentido de vivências além e independente destas fronteiras nacionais. Sobre este

211
conceito, ver o estudo de ABINZANO, Roberto sobre as frentes extrativistas em Misiones na Argentina.
22
Ver MOTA, Lúcio Tadeu ; NOELLI, Francisco Silva. Exploração e guerra de conquista dos territórios
indígenas nos vales do Tibagi, Ivaí, e Piquiri. In: DIAS, Reginaldo B. ; GONÇALVES, José Henrique
Rollo. Maringá e o Norte do Paraná: estudos de história regional. Maringá EDUEM, 1999.
23
Ver POLACK, Michel. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos históricos, RJ, vol2, nº 3, 1989, p. 3-
15. Ver Também TEDESCO, João Carlos. Passado e presente em interfaces: introdução a uma análise
sócio-histórica da memória. Passo Fundo. , UPF Editora, 2011.
24
Ver MYSKIW, COLOMBO, GREGORY, WESTPHALEN e outros.
25
A Companhia Mate Laranjeira foi objeto de estudos meus nos últimos anos. Considero pertinente mencionar,
aqui, que esta obrage atuava na Argentina, no Paraguai e no Brasil na exploração, beneficiamento e
comercialização da erva mate. Só em território brasileiro atraiu mais de três Mil trabalhadores (os Mensus).
Dentre os seus proprietários (acionistas) destacam-se Mendes Gonçalves (argentino), Thomaz Laranjeira
(brasileiro) os Murtinho (brasileiros matogrossenses). Ver ARRUDA, Gilmar.
26
Como já mencionei em nota anterior, optei por manter a grafia original. Portanto, as incorreções gramaticais
constam no original.
27
Ver COLODEL, José Augusto. Obrages & companhias colonizadoras : Santa Helena na história do Oeste
Paranaense até 1960. Santa Helena : Prefeitura Municipal, 1988.
28
ABINZANO, Roberto Carlos. Cuadernos de la Frontera. Año I, Num. II – Posadas, marzo de 2004.
29
Ver ABINZANO, p. 2 e 7.
30
ABINZANO, p. 10, 15 e 17.
31
ABINZANO, p. 22.
32
ABINZANO, p. 24, 33, 36 e 37.
33
DICIONÁRIO DA TERRA. Márcia Motta (org.). RJ, Civilização Brasileira, 2005.
34
MARTINS, 1997:11, apud DICIONÁRIO DA TERRA.
35
CERTEAU, 2000: 213, apud
DICIONÁRIO DA TERRA.
36
HOLZER, 1997:83, apud,
DICIONÁRIO DA TERRA.
Ver HAESBAERT, Rogério. Des-territorialização e Identidade: a rede gaúcha no Nordeste. Niterói:
37

EdUFF, 1997, p 42-44.


Ver TODOROV TODOROV, Teodor. Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana.
38

RJ: J. Zahar, 1993.


39
Ver CHARTIER, Roger.A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa, Difel, 1990, p. 23 a
27.

REFERÊNCIAS

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2004.
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_______; _________. Exploração e guerra de conquista dos territórios indígenas nos vales

213
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Itaipu. Curitiba : UFPR, 1987.

214
RUPTURA HISTORICA E (DES)CONTINUIDADES
CULTURAIS NA FRONTEIRA: OS DESAFIOS DO
PESQUISADOR

Erneldo Schallenberger1

A multiplicação de interesses pela pesquisa acerca da temática das


fronteiras tem levado muitos estudiosos a enveredar por campos de
significação que conferiram ao conceito fronteira um sentido polissêmico.
A fronteira, ao mesmo tempo em que aponta para o horizonte do novo e
do indefinido, sugere um limite e estabelece uma relação entre estes
dois indicadores que são sempre expressão do alcance humano a partir
das condições socioculturais histórica e espacialmente construídas. Os
diferentes sujeitos sociais constroem seus referenciais de fronteira a partir
do lugar em que se movimentam, do seu mundo de significados e
símbolos e das representações que têm de si e dos outros. Numa
perspectiva holística e abordagem interdisciplinar, os campos de
investigação não se encontram tão distintos nas representações e vivências
da fronteira. Eles remetem o pesquisador aos processos históricos
marcados por encontros e desencontros, às relações de poder, a conflitos,
acordos e negociações.
As relações culturais na fronteira começam a ter expressão na
medida em que se estabelecem formas de contato entre povos ou grupos
étnicos que passam a interagir espacialmente, produzindo processos de
diferenciação. No encontro de povos com mundos de significação e
representação diferentes, o espaço passa a se configurar como um palco
simbólico onde se travam relações de poder, maiormente marcadas por
um campo de forças desigual em virtude da diferença dos tempos sociais

215
vividos e acumulados pelos sujeitos em contato. Essa diferença pode ser
encontrada, pelo pesquisador atento, no conjunto dos referentes da cultura
que orientam a vida em sociedade e que e se materializam através de
bens sociais com significados simbólicos.
A cultura enquanto expressão e manifestação dos símbolos e
representações social e historicamente produzidos e espacialmente
vividos envolve os sujeitos em uma “teia de significados”, na acepção
de Clifford Geertz (1978), através da qual se identificam, apreendem e
conferem sentidos, são significados e geram comunicação. Deriva dessa
asserção que os “(...) espaços culturais são criados por atos de significação
com caráter intencional e interacional” (FEIBER, 2013, p.23). Ao
cientista social cabe observar que as diferentes culturas são portadoras
de signos, que expressam, a um só tempo, a unidade de sentido entre o
abstrato e o real nas representações e ações humanas. A par desses signos,
os fenômenos comunicativos traduzem, enquanto linguagem e
representação, o imaginário coletivo como força social que produz a
unidade de sentido e a sociabilidade. Assim, os sujeitos coletivos
constroem o seu mundo real e espiritual como unidade de referência e
fronteira cultural em relação a outros mundos culturais. Embora o real
possa ser entendido, a partir de Cassirer (2001), como o mundo das ações
e dos seus efeitos que ultrapassam as meras representações, as formas
simbólicas conferem significado aos processos culturais, na medida em
que são entendidos a partir da perspectiva histórica de uma sociedade
em movimento e se constituem em princípios estruturais da atividade
humana.
Travadas em espaços e períodos específicos, as relações
intersubjetivas geram distinções que fazem aflorar o imaginário e
traduzem a atmosfera cultural dos grupos humanos em contato. No caso
específico da conquista e colonização da América, o encontro de
diferentes mundos culturais colocou frente a frente sociedades com
sistemas simbólicos distintos, marcadas pelo pensamento mágico e pelo
pensamento racional. Mito e logos sustentam maneiras de pensar,
percepções e sensibilidades próprias que diferenciam a relação homem-
natureza e conduzem a formas específicas de interpretar os fenômenos e
de organizar seus esquemas mentais de compreensão e apropriação dos
espaços de vivência e convivência social. Se para os agentes da conquista

216
e da colonização da América pensar a realidade implicava conceber a
dualidade entre homem e natureza, ou seja, separar a razão do mundo
natural que os rodeava, para as culturas primitivas o mundo se apresentava
como uma unidade plena onde os mitos explicam como funcionam e
interagem todas as forças dessa enigmática realidade (CARDOZO, 2006).
O imaginário indígena não foi identificado a partir de registros
próprios e reporta à memória, à tradição e às narrativas colhidas pelos
primeiros cronistas e epistológrafos que, sem conhecer a sociodiversidade
nativa das sociedades tribais, destacam aspectos ausentes ou desviantes
do mundo da cultura racionalizada. Os sentidos emanados dos conceitos
de sociedade, da(s) divindade(s) e de poder, entre outros, eram
interpretados e vividos de forma muito particular pelas sociedades
indígenas e pela sociedade da conquista. A experiência mística indígena
e a explicação mítica dos fenômenos naturais e humanos não tinham
lugar nos cânones civis e religiosos dos sujeitos da conquista. A missão
de trazer aos primitivos habitantes da América a civilização e a salvação
envolve e justifica, na esfera do racional, um campo de interesses que
instiga o pesquisador a buscar historicamente a atmosfera do período
específico no qual se configurou o modo de ser e de pensar dos atores
sociais da conquista e da colonização da América. Interesses que podem
ser observados a partir da convergência de ideologias com axiologias
que se refletiram, de certa forma, na ética e na estética da apropriação e
da organização espacial.
Entendida como um conjunto orgânico de ideias apreendidas a
partir das suas inversões (MAFFESOLI, 2001, p. 76), a ideologia da
conquista definia campos de interesse que, de modo geral, reduziram a
diversidade sociocultural dos povos nativos. Negava-lhes a natureza de
sua cultura, reduzindo-os a uma unidade de referência exterior aos
protótipos de homem e de sociedade por ela veiculados, para explicar,
justificar e argumentar em seu favor a superioridade cultural. Selvagem,
bárbaro, indigente, “sem-Deus”, “sem-Rei” e “sem-lei” são atributos que
derivam de formulações ideológicas que desqualificam a alteridade
antropológica a partir de uma racionalidade que situa no sobrenatural e
no estado civil instituído os pressupostos dos ideais éticos e políticos.
O imenso mundo da América abrigava inúmeros povos nativos,
com culturas distintas que devem ser associadas aos territórios por onde

217
circulavam, às extensas famílias que cultivavam suas tradições, aos
espaços vividos, às relações com a natureza, de cujos fenômenos e
mistérios emanaram os mitos, as divindades e as formas de prover a
subsistência. Tudo isto era, inicialmente, desconhecido pela sociedade
da conquista.
A ideologia que moveu a conquista espiritual e política, além de
desconhecer de modo geral a realidade multicultural, fez com que muitas
sociedades tribais, sobretudo as que ofereceram resistência,
desaparecessem do mapa etnográfico das Américas. Entretanto,
fragmentos contidos nos relatos de viajantes que percorreram a região
do Rio da Prata revelam uma tentativa de entendimento de uma
diversidade cultural (SCHMIDEL, 1903; NÚÑEZ CABEZA DE VACA,
1995). De modo particular, conseguiram identificar, de certa forma, a
cultura dos Guaranis, distinguindo-a dos demais grupos étnicos, muito
mais em função dos interesses imediatos que os impulsionaram.
A maior contribuição para o conhecimento da diversidade cultural
da América deve-se aos jesuítas. Nas suas incursões pelo interior do
continente identificaram sociedades tribais e territorialidades por onde
circulavam, conferindo-lhes características socioespaciais, lingüísticas
e políticas. Usaram para tanto o método cartográfico (BARCELLOS,
2000). A cartografia jesuítica representa um verdadeiro mapeamento da
etnodiversidade da América latina. Por ela é possível identificar as
territorialidades e as culturas contidas neste universo até então
desconhecido pela sociedade da conquista. Ela rompe, em parte, com a
ideia do desconhecido, que se confundia com o ilimitado. Fatores
geográficos relacionados com o meio ambiente, como pântanos, florestas
e rios, contribuíram para definir o modo como essas sociedades se
relacionaram com o seu ambiente natural. Ao pesquisador menos atento
pode passar despercebido que houve uma geografia cultural não mapeada
até então. O mapeamento desencadeado, sobretudo pelos jesuítas, além
de situar espacialmente os diferentes povos nativos, conferiu-lhes certa
identidade pelo registro de como viviam, de suas crenças, de suas formas
de comunicação e de seus aspectos físicos. Assim, o mundo desconhecido
e a fronteira ilimitada começaram a ter contornos através de uma carta
etnográfica que estabelecia, de certa forma, fronteiras culturais.
O conhecimento da geografia cultural se tornou um elemento de

218
fundamental importância para os agentes da conquista e da colonização.
Não raras vezes serviu de referência para o desencadeamento de ações
de subjugação ou de aliança. Detentores desse conhecimento, os jesuítas
conseguiram estabelecer relações horizontais com alguns povos nativos,
o que lhes conferiu um papel mediador entre as culturas em contato. As
fricções interétnicas resultantes do avanço das frentes do colonialismo
interno, que no espaço platino foram fortemente marcadas pelo
bandeirantismo e pela expansão do sistema de encomiendas, fizeram
com que a mediação dos jesuítas fosse requisitada pelas autoridades
coloniais constituídas para recuperar a sinergia entre os indivíduos e seu
espaço e trazer uma solução para os conflitos interétnicos.
O bandeirantismo, que transbordou a fronteira imaginária do
Tratado de Tordesilhas, foi sem dúvida um fenômeno de expansão interna
do colonialismo luso, sem precedente na história das nações pela
observação de Affonso E. Taunay (1946), que aguçou a questão das
fronteiras entre os impérios coloniais ibero-americanos. Afetou o sistema
de fixação da colonização espanhola através das encomiendas,
promovendo certa instabilidade no próprio sistema colonial, mais
precisamente em relação à integração da força de trabalho indígena.
No período da unificação das coroas da Espanha e de Portugal
(1580-1640), se a questão das fronteiras em torno da fixação de limites
territoriais se diluiu, acentuou-se, no entanto, a mobilidade dos diferentes
grupos de conquistadores e colonizadores que visavam à ocupação de
espaços produtivos ou das riquezas naturais neles contidos. Esse
movimento expansionista desencadeou embates culturais que, vistos sob
a perspectiva dialética dos interesses e dos conflitos, afetou a
subjetividade dos povos nativos.
Para além das esferas político-institucionais e ideológicas a
questão fronteiriça se configurou na América Meridional como um
problema humano que expôs os limites do próprio sistema colonial. Sob
o regime do padroado, as autoridades coloniais se renderam ao poder
coercitivo da religião, dando lugar às ordens religiosas, mormente de
natureza transnacional e com um carisma contra reformista, para persuadir
e converter as culturas nativas ao catolicismo. Soldados de Cristo, os
jesuítas, conhecedores da geografia cultural, passaram a se apropriar de
elementos significativos da cultura, a exemplo da linguagem, o que lhes

219
favoreceu a comunicação e o estabelecimento de relações intersubjetivas
horizontais. Nas fraldas dos espaços vulnerados pelo avanço das frentes
internas do colonialismo, buscaram a transformação da subjetividade e
a reterritorialização dos povos nativos, a exemplo dos Guaranis, dos
Chiquitos e dos Moxos. Das relações intersubjetivas resultou certo
sincretismo cultural, possível de ser verificado na ordenação do espaço,
na arte e na arquitetura, presentes na memória escrita e nos momentos
que alimentam a história da experiência societária das reduções jesuítico-
guaranis. Estes elementos simbólicos e materiais possibilitam ao
pesquisador identificar uma nova ordem social, marcada pela
aproximação de duas culturas, integrando os atores sociais em torno de
um campo simbólico, onde discursos e representações caracterizaram o
conjunto das relações materiais e imateriais refletidas no espaço
vivenciado no cotidiano.
O novo poder que os jesuítas controlavam através do
conhecimento antropológico e da comunicação lhes conferiu a
possibilidade da construção de um espaço cultural com características
próprias e distintas da sociedade colonizadora e das demais sociedades
tribais na fronteira colonial da região platina. Nessas circunstâncias
específicas cabe o raciocínio de Bhabha (2010, p. 27) quando afirma
que:”o trabalho fronteiriço da cultura exige um encontro com ‘o novo’
que não seja parte de um continuum de passado e presente. Ele cria uma
ideia do novo como ato insurgente de tradução cultural”.
Pela estratégia da segregação étnica, a identidade coletiva
construída no espaço fronteiriço jesuítico-guarani resultou em grande
medida dos conteúdos simbólicos dessa identidade e de seu significado
para os atores sociais que a constituíram ou dela se excluíram. O novo
modelo societário, fundado em padrões éticos e estéticos resultantes da
comunicação de duas matrizes culturais promoveu inquietudes e foi
transformando o espaço cultural missioneiro numa fronteira indesejada
tanto para a vertente espanhola quanto para a portuguesa do colonialismo.
A partir daí a dinâmica das relações culturais na região platina assume
uma nova configuração.
Com a restauração da monarquia portuguesa (1640) a busca
da consolidação das fronteiras nas possessões americanas se tornou mais
intensa. Além do estabelecimento de fortalezas e sítios para simbolizar e

220
garantir os limites no Novo Mundo, batalhas e movimentações militares
passaram a caracterizar o conjunto de operações nos espaços fronteiriços.
O nordeste e o norte comportavam a presença dos holandeses, desde
1630, o que ameaçava os domínios territoriais de Portugal na América;
o sul, sobretudo a região do entorno do estuário do Prata, era a zona das
maiores disputas, muito em virtude da intensificação das atividades
comerciais e de “contrabando”. Essas atividades ensejaram o
estabelecimento de novas estruturas de poder e atraíram novos atores
sociais, que, por sua vez, promoveram um processo de intensa
comunicação cultural e interação social. Buenos Aires e Colônia do Sac-
ramento, estabelecida pelos portugueses em 1680 na margem setentrional
do rio da Prata, se constituíram em importantes centros de projeção
política das metrópoles e de interesses econômicos plantados em torno
do comércio platino. A Colônia do Sacramento foi alvo permanente dos
espanhóis desde a sua fundação, tanto assim que a tomaram em 1704, a
devolveram por força do Congresso de Utrech (1715) e a negociaram
com o território dos Sete Povos das missões jesuítico-guaranis da margem
oriental do rio Uruguai, por ocasião do Tratado de Madrid (1750).
Fatores conjunturais como a Guerra da Sucessão Espanhola
(1702-1714), que resultou da disputa de poder pelo trono da Espanha
entre os Bourbons e os Habsburgos, e a mudança da política externa
portuguesa, que se valeu da estratégia da guerra para defender seus
territórios, afetaram toda a Europa e, por conseguinte, as relações entre
as metrópoles e suas colônias. O impacto imediato dessa mudança de
relação talvez fosse a maior presença de milícias e de agenciadores do
comércio e do “contrabando” de outras nacionalidades na região platina.
Por outro lado, as condições locais proporcionadas pela atividade
pecuária, grandemente fomentada pelas estâncias missioneiras e pelas
vacarias, fizeram com que o manejo, a preação e o contrabando do gado
fossem partilhados por sujeitos sociais de diferentes matrizes culturais,
fazendo com que elementos da cultura material, símbolos, hábitos e
práticas culturais se tornassem costumes em comum.
Preconceituoso seria concordar com Capistrano de Abreu
(1976, p. 176/177) quando se refere à Colônia do Sacramento insinuando
que: “Este ninho antes de contrabandistas que de soldados, foi talvez o
berço de uma prole sinistra, os gaúchos, os gaudérios, originários da

221
margem esquerda do Prata, famosos durante longas décadas e ainda não
assimilados de todo à civilização”. O olhar atento do pesquisador
observará que nessa realidade complexa os contatos e as interações de
diferentes atores sociais em torno das atividades econômicas e das lutas
de fronteira foram forjando uma cultura regional, onde índios,
portugueses, espanhóis, negros, entre outras culturas étnicas e nacionais
foram progressivamente interagindo num espaço cultural onde elementos
simbólicos e práticas culturais se cruzaram e definiram uma fronteira
multicultural. Essa fronteira carregou as marcas da transgressão e a luta
por espaços de livre movimentação. Nesses espaços as relações
socioculturais se sobrepunham às questões dos limites territoriais. Além
do mais, a presença das missões jesuítico-guaranis, que representaram
um espaço cultural com unidade de referência ética e estética e com uma
modelação social e política definida, se afigurava como uma fronteira
cultural que se contrapunha aos interesses dominantes dos impérios
coloniais.
O processo de renegociação das fronteiras luso-espanholas
culminou em 1750 com o estabelecimento do Tratado de Madrid
(FURTADO, 2011). Esse Tratado eliminou o de Tordesilhas, fixou os
novos limites entre os domínios portugueses e espanhóis na América e
teve a finalidade de apaziguar as relações conflituosas existentes. Com a
sua celebração, as pretensões portuguesas sobre a extensão territorial da
Amazônia e da região Centro-Oeste, desbravadas por seus colonizadores,
foram contempladas. O interesse espanhol esteve centrado na Colônia
do Sacramento, sem descurar, no entanto, dos territórios das missões
jesuítico-guaranis do Guairá, do Tape, do Itatim e dos Chiquitos. Na
campanha do Uruguai, nos arredores da Colônia do Sacramento, os
portugueses haviam expandido a pecuária sob o consentimento do
governo espanhol. Essa indústria comportava, no entanto, restrições dos
povoados missioneiros (CORTESÃO, 1951).
O Tratado de 1750 motivou a constituição de comissões de
demarcação para o estabelecimento dos limites territoriais. O princípio
do Uti Possedetis, ou seja, da posse por quem primeiro se fixou nos
territórios, desencadeou operações de campo, elaborações cartográficas
e descrições etnográficas. Na região amazônica o avanço português se
fez notável. Persistiam, entretanto, polêmicas em torno dos limites do

222
centro-oeste e do sul, onde os portugueses praticavam intenso comércio
através da navegação dos rios Paraguai e Paraná. Essa atividade não
caracterizava uma ocupação efetiva do território, razão pela qual os
espanhóis se empenharam em demonstrar a existência de espaços com
populações estabelecidas ou contatadas por eles. Inúmeras
correspondências recolhidas por Pedro de Angelis (1836) dão conta da
existência dessas populações.
Relatos como os de D. Manuel A. de Flores ao Marquês de
Valdelírios, comissário geral para a execução do Tratado de 1750,
descrevem as distâncias entre os povos de uma e outra parte do rio da
Prata, o ambiente natural, o clima, o número e a espécie de seus habitantes,
suas chácaras e os frutos que produzem, além de indicar as formas da
sua comercialização (ANGELIS, 1836). Ele observa que ao longo dos
rios que deságuam no Paraguai e no Paraná existem por toda a fronteira
sítios de povoamento por meio dos quais os portugueses sustentam a sua
navegação e comércio e exploram madeiras para o fabrico de suas
embarcações. Questiona os embaraços e as desvantagens que o comércio
português poderia trazer à província do Paraguai, onde “(...) viven sus
naturales con nuestros primeros padres, entre quienes el uso del oro y la
plata era desconocido; no tienen metales algunos ni piedras preciosas,
y aun la moneda que de otras partes se pudiera llevar no tiene curso.”
A descrição da fronteira de Félix de Azara apontaem sua
Correspondência oficial e inédita sobre a demarcação dos limites entre o
Paraguai e o Brasil, de 12 de abril de 1784 (ANGELIS, 1836), para a
existência de diferentes grupos de populações nativas e, ao referir-se aos
Mbyas e suas terras, evidencia interesses contraditórios entre portugueses
e espanhóis a seu respeito. Os portugueses alegavam a neutralidade de
tais espaços ocupados, enquanto os espanhóis sustentavam tratar-se de
domínios concedidos aos jesuítas pelas autoridades hispânicas para con-
verter os índios e torna-los súditos da Espanha.

Para los portugueses, el Paraguay era parte integrante de la misma


expresión geográfica, el Brasil. La más antigua cartografía
portuguesa - Lope Homen (1519), Diego Ribeiro (1525 y 1527),
Joao Alfonso (1528 - 1543), André Homen - objetivó la idea de
que el Brasil era una gran isla, flanqueada por las cuencas de los

223
ríos Madeira, Amazonas y del Plata con sus principales afluentes
el Paraná y el Paraguay. Ese mito de la Isla-Brasil gravitó
fuertemente sobre la imaginación de los gobernantes lusitanos y
fue estímulo poderoso para oponer a la letra del tratado de
Tordesillas la razón geográfica de Estado que iba a presidir la
formación territorial de Brasil, y que le llevaría incansablemente
a buscar el señorío del Paraguay (CARDOZO, 1961, p.35-36).

As correspondências e os escritos sobre as fronteiras instigam o


pesquisador ao questionamento dos interesses, projetos e ambições em
jogo, fazendo com que os diferentes modos de disputa e negociação
transformassem a fronteira num espaço móvel de contínua redefinição
de territórios. Nesta mobilidade da fronteira, diferentes grupos, situados
em temporalidades diversas, se descobrem, convivem e interagem,
promovendo relações culturais que transcendem os limites que se lhes
pretendia interpor.
Nesse tempo de fronteiras a ideologia política do ultra-
absolutismo combateu de forma sistemática a ideologia político-
eclesiástica – ultramontanismo -, visando o fim do domínio do poder da
Igreja e a limitação dos privilégios eclesiásticos. O alvo principal eram
os jesuítas, acusados de asfixiar a maçonaria e de promover o
obscurantismo (FRANCO; RITA, 2004). A metodologia usada pelos
jesuítas de estabelecer relações de intercomunicação cultural e de
promover a reordenação sócio-espacial é vista como um fator de
instabilidade do sistema colonial. Para José de Carvalho e Melo - marquês
de Pombal - “A única fonte de progresso e de fidelidade para o povo era
a vontade real” (FRANCO; RITA, 2004, p. 34). Nesse clima, anti-
jesuítico e secularizante, se deu a expulsão dos jesuítas da América, a
fragmentação do território missioneiro e do seu espaço cultural.
Com a expulsão dos jesuítas o território das missões (1767)
passou a ser ocupado pelos colonos castelhanos, ficando a margem
esquerda do rio Uruguai, entretanto, exposta às incursões dos portugueses,
que disputavam o caminho que levava de São Paulo a Colônia do Sacra-
mento.
A revisão do Tratado de Madrid através do de Santo Ildefonso
(1777) promoveu embates que tiveram repercussões sobre as populações

224
fronteiriças. A maior tensão se projetou sobre as regiões do Iguatemi, de
onde os portugueses foram desalojados, e da Colônia, onde havia
significativas inversões e resistências à fixação da fronteira em função
da grande mobilidade social e das intensas atividades econômicas
desenvolvidas por grupos de diferentes origens étnico-culturais e
nacionais.
Assim, o tempo da fronteira que se estende do período da
definição das possessões coloniais ao da delimitação dos territórios dos
Estados nacionais emergentes é marcado por negociações e por intensos
contatos sociais. Contatos que, observados a partir da perspectiva do
encontro de diferentes mundos culturais, promoveram, em circunstâncias
dadas, conflitos e fricções interétnicas, comunicação e negociação cul-
tural, hibridismo e sincretismo cultural e, enfim, relações intersubjetivas
onde as relações de poder sempre se fizerem presentes. É um período
em que desconhecido e o ilimitado são desconstituídos e se decompõem
a parte ilusória da fronteira.
Na medida em que houve o recrudescimento da influência
do ultra-absolutismo sobre as colônias e, consequentemente, a
ascendência dos interesses do liberalismo, grupos nativos ou associados,
sobretudo ao imperialismo inglês, buscavam a hegemonia local. Esses
grupos começaram a construir de diferentes formas um sistema de
referência cultural traduzido em uma comunidade imaginada,
representada a partir dos seus interesses expressos em um discurso que
buscou unificar as diferenças étnicas, de raça, de classe e de gênero em
torno de uma identidade nacional. Assim, os referentes éticos e
ideológicos veiculados pelo próprio sistema colonial são reinterpretados
e unificados pelas sociedades colonizadas em torno de uma nova entidade
política e identidade cultural, constitutivas de um novo poder, capaz de
remover os limites impostos à liberdade individual e coletiva herdados
dos colonizadores (QUEVEDO, 2006).
Os sentidos produzidos a partir dos discursos de nação e da
construção de uma condição política autônoma merecem a atenção do
investigador no sentido de verificar a partir de que matrizes sociais e
culturais eles são produzidos. No caso específico das nações e estados
emergentes da bacia do Prata, diferentes motivações e ideologias
alimentavam os conteúdos discursivos e repercutiram sobre os processos

225
de constituição de entidades políticas e da emancipação política.
Processos que, aliás, não se traduziram na construção de uma identidade
nacional, enquanto forma ampla e unificada da identidade cultural.
Talvez seja possível buscar no horizonte do crioulismo paraguaio
e no sentimento da pertença a uma grande família guarani as matrizes
históricas e culturais de unidade nacional. Essa vertente autóctone da
construção da unidade nacional certamente foi uma das razões do
reconhecimento tardio da independência do Paraguai por parte de estados,
como a Argentina, que construiu seu discurso de unidade nacional a partir
de matrizes culturais européias.
As expressões regionais da cultura, portadoras de símbolos,
representações e práticas que emergiram historicamente de ambientes
de interação e de tensão, constituem fortalezas que resistem aos processos
unificadores das culturas. A pluralidade dos coletivos, historicamente
constituídos em contextos regionais multiculturais, pode ser uma das
razões explicativas do dificultoso caminho do reconhecimento e da
construção de uma identidade nacional no Brasil. Assim, as manifestações
e as revoltas regionais apresentaram-se como formas de resistência e
expressão da singularidade sociocultural em meio à tentativa da redução
da pluralidade à unidade discursiva de um ente nacional.
A unidade e a identidade nacional na fronteira sul foram forjadas
num contexto de conflitos de fronteira, onde atores de diferentes origens
étnicas, culturais e sociais se movimentaram num espaço partilhado a
partir de relações horizontais que os aproximou em torno de símbolos,
representações e práticas culturais construídas em comum, porém na
diferença. Esses elementos da identidade historicamente constituídos a
partir da horizontalidade das relações socioculturais se transformam em
forças que potencializaram a ação em busca do reconhecimento. Nesse
contexto, emergiu um tipo sociocultural simbolizado em torno da figura
do gaúcho, portador dos ideais da bravura, da liberdade e de hábitos e
costumes ligados à vida do campo. Constituiu-se, dessa forma, uma
fronteira cultural em territórios transfronteiriços que não se reduziu e
nem se fragmentou diante dos interesses interpostos verticalmente no
processo da constituição das fronteiras nacionais.
Na luta pelo reconhecimento dos novos entes nacionais e dos seus
respectivos territórios os movimentos impulsionados pelos discursos da

226
unidade nacional não conseguiram criar, pela acepção de Benedict Ander-
son (2008), uma comunidade política imaginada que fosse capaz de nos
despertar diferentes grupos culturais um sentido de pertencimento
comum. Em alguns casos, como assevera Charles Quevedo (2006, p.
239), estes grupos:

(...) somente tem substituído uma elite dominante por outra; em


outros, a luta entre grupos étnicos diversos pela hegemonia e o
controle dos estados pós coloniais emergentes, deu lugar a
posteriores divisões fragmentações e segregações, quando não a
verdadeiras guerras ou massacres.

O tardio reconhecimento da independência da República do


Paraguai reflete as posturas das elites nacionais, a exemplo dos estados
emergentes do Brasil e da Argentina, impondo condições que
resguardavam interesses plantados ainda no período colonial, sobretudo
os relativos à navegação dos rios Paraná e Paraguai. A Argentina somente
reconheceu a independência paraguaia e a livre navegação dos rios em
17 de julho de 1852 em troca da renúncia do território de Missiones pelo
Paraguai (CARDOZO, 1987). Assim, a luta pelo reconhecimento das
fronteiras em espaços culturais de grande mobilidade e comunicação
cultural entre grupos de diferentes origens étnicas e sociais promoveu
rupturas não só em relação às formas de apropriação e de organização
dos territórios, mas, também, nos modos de representação e da recriação
da cultura.
Os ajustes negociados na década de 1850 por
plenipotenciários para estabelecer a línea divisória entre o Império
brasileiro e a República do Paraguai evidenciam posições divergentes
acerca do reconhecimento da fronteira a partir dos espaços culturais
socialmente apropriados. Enquanto a posição dos representantes
paraguaios, liderados por José Borges, assegurava o respeito aos
agrupamentos humanos que haviam se estabelecido por primeiro, a dos
brasileiros, sob a liderança de José Maria da Silva Paranhos, alegava
que o direito que regulava as relações internacionais (uti posseditis)
deveria levar em consideração duas exceções fundamentais: os tratados
celebrados entre as coroas de Portugal e Espanha, que reconhecia como

227
vigentes e que só poderiam ser revogados mediante novo tratado. O
Paraguai mantinha posição marcante em defesa do principio do uti
posedetis e não reconhecia os tratados celebrados entre os impérios
coloniais. “Se nulos, não há possessão definitiva”, alegava o representante
paraguaio José Borges (QUESADA, 1920, p. 175).
Resulta, enfim, que o Acordo assinado em 1856, precedido
de uma série de conferências, inibia as relações interétnicas e culturais
numa fronteira até então viva, uma vez que em seu artigo 22 definia que:

Fica conveniado que mesmo não se chegue a estabelecer


definitivamente o acordo de limites, os governos do Brasil e do
Paraguai não fixarão e nem consentirão que seus súditos façam
nada que se pareça ao estabelecimento, ocupação ou posse do
terreno litigioso na margem esquerda do Paraguai, nem na direita
do Paraná (QUESADA, 1920, p. 169).

Referenciou-se, dessa forma, uma fronteira embaraçada, com uma


área litigiosa, que considerava o curso do rio Paraná como marco divisório
e que respeitava os espaços apropriados das populações já estabelecidas,
mas firmava que ambas as partes respeitariam e fariam respeitar o uti
possidetis em vigor.
As divergências persistentes em torno das fronteiras definidas em
base ao conceito geopolítico de território nacional encontraram na
variável espaço cultural um dos seus fundamentos. A posição do Império
sustentava, ao contrário da República paraguaia:

(...) onde não há posse efetiva, que regra jurídica servirá de critério
para o delinde? (...) Não há território res nullis. (...) Para decidir
a controvérsia entre o domínio da República e o do Império,
convém remontar-se a origem deste domínio, toda a vez que as
últimas populações ou estabelecimento de uma nação não se
puseram em contato com os da outra, e estão separados por
terrenos ainda despovoados, por sua natureza, por falta de
população ou por outras causas que é desnecessário enumerar
(QUESADA, 1920 .p. 178).

Essa discussão se alastrou por décadas até que, depois da Grande

228
Guerra2, os limites territoriais foram fixados em dissonância com os
acordos anteriormente negociados. O primeiro Tratado foi firmado em
09 de janeiro de 1871 com o Brasil, através do qual:

(...) o Paraguai perdia 62.325 km2 de ervais situados entre o rio


Blanco e o rio Apa, permanecendo este rio como limite norte do
Paraguai. Aceitava o pagamento de indenizações ao Brasil pelos
prejuízos derivados dos gastos da guerra e dos danos causados
aos seus súditos (GONZALES, 193 apud NÚNEZ GOMES, 2011,
p. 121).

As fronteiras entre o Paraguai e a Argentina tiveram longa


negociação, uma vez que afetaram visivelmente populações já
estabelecidas nos territórios em litígio. As condições impostas pela Ar-
gentina ao Paraguai se materializaram no tratado firmado em 09 de
fevereiro de 1876. Resultou desse tratado que a República do Paraguai,
além do pagamento da dívida de guerra, tivesse que ceder à Argentina
94.090 km2 que integram os atuais territórios das províncias de Formosa
e Misiones (NÚNEZ GOMES, 2011).
Impostos os limites territoriais ao Paraguai, persistiram pendências
entre o Brasil e a Argentina acerca da definição da fronteira do Território
das Missões. As negociações bilaterais envolveram a intervenção arbi-
tral do governo dos Estados Unidos que, em 1895, se posicionou favorável
ao Brasil.
Os embaraços da fronteira, com suas negociações e seus
deslocamentos, tiveram repercussões sobre os atores sociais que se
movimentaram na fronteira e sobre relações culturais derivadas dos seus
contatos. A fronteira, enquanto espaço negociado e território duvidoso -
não apropriado em definitivo -, atraiu sujeitos de diferentes origens étnicas
e culturais, como caboclos, descendentes de indígenas, crioulos e
paraguaios, que haviam se estabelecido antes da Guerra da Tríplice
Aliança. Tornou-se um espaço multicultural e, de certa forma, híbrido,
não alinhado com a ideologia dos segmentos sociais e políticos que
produziram o discurso das identidades nacionais.
Com a intensificação do comércio pelos rios Paraná e Paraguai,
fortemente impulsionado pela associação com o capital estrangeiro,

229
maiormente inglês e alemão, com os empresários argentinos, sobretudo
para e exploração de madeira e erva mate, os contingentes humanos da
fronteira foram incorporados como mão de obra nas empresas
extrativistas. Instituiu-se, dessa forma, um regime de intensa exploração
da força de trabalho, caracterizado pela instabilidade e pela grande
mobilidade social. As empresas (obrages) recrutavam os seus
trabalhadores (mensus) de diferentes lugares e os mantinham sob o seu
controle, numa relação de dependência que limitava ao máximo as suas
possibilidades e sua vontade de querer (WACHOWICZ, 1987).
Insurgências, conflitos e perseguições criaram um ambiente de conflito
nas fronteiras. Forjou-se, neste contexto, um espaço vivo de relações
horizontais de transgressão e de resistência que deu origem a uma
formação social transfronteiriça, não identificada com os marcos e a
simbologia da fronteira. Neste sentido, pode se afirmar com Peter Burke
(2010, p. 72) que o “(...) local que favorece a troca e a hibridação é a
fronteira.”
No final do século XIX e início do século XX os governos
argentino e brasileiro passaram a intensificar as estratégias de ocupação
territorial através da construção de estradas de ferro no sentido norte-
sul, que servissem de aporte logístico para promover a integração
econômica e o povoamento, sobretudo das terras indígenas e dos espaços
vulneráveis da fronteira. A questão era a de: “(...) buscar um sistema de
organização conveniente para obter o povoamento de seus desertos, como
populações capazes de indústria e de liberdade para educar seus povos
(...)”. (ALBERDI, 1994, p. 189). Em 1887, o Ministro da Guerra da
Argentina enviou um memorial ao Congresso Nacional enfatizando que:
“O poder executivo nada espera das expedições aos toldos dos selvagens
para queimá-los e arrebatar suas famílias, como eles queimam as
populações cristãs (...)” (ALSINA, 1877, p. 38). Importava, segundo o
ministro, povoar os desertos e não destruir o índio.
A ocupação dos espaços vazios, sobretudo dos hiatos sociais
e territoriais fronteiriços, foi motivada grandemente pela sua não
identificação com a ideia de unidade e identidade apregoadas pelos
discursos nacionais. A luta dos índios pela preservação do seu espaço
tribal era tida como um problema que atentava contra o ideal de nação,
uma vez que eles não se enquadravam no modelo de sociedade nacional,

230
que contrapunha “civilização e barbárie”. Índios, crioulos e caboclos
beiravam, a partir desse entendimento, os limites da civilização, uma
vez que a mobilidade social e espacial, a troca de produtos e a apropriação
de suas territorialidades não expressavam o caráter estável de fixação do
território. Eles favorecem, a partir do olhar de Adriana Dorfman (2009),
o “contrabando”, burlam as regulações econômicas e o controle do
território pelo Estado. A barbárie representava uma ameaça e a
possibilidade da transgressão da fronteira do privilégio e do poder. Os
hiatos das fronteiras como espaços indefinidos e sem identidade eram
vistos como lugares incertos e sem futuro. Por essa razão, era preferível
plantar os marcos da “civilização” através de um povoamento seletivo,
referenciado em sujeitos sociais portadores de um sistema sociocultural
constituído a partir da matriz européia. Partia-se do entendimento de
que:

“Os europeus das classes inferiores são ávidos de possuir a terra


em propriedade, este é o único fim de suas aspirações (...) Os
colonos irão defender a sua propriedade sem necessidade de outro
estímulo que o do seu próprio interesse, o mais poderoso de todos”
(IRIARTE, 1852, p. 30).

Nesse caso, a defesa da propriedade representava implicitamente


uma proteção à integridade territorial.
A política da colonização através da imigração se tornou pauta
comum nas estratégias de ocupação territorial dos países fronteiriços da
tríplice fronteira Brasil, Argentina e Paraguai. Ela foi dando lugar à
ideia de fronteira agrícola, que passou a não ser rígida em relação aos
limites territoriais, mas dinâmica em função dos contingentes
populacionais que historicamente se deslocavam através de processos
migratórios dirigidos ou espontâneos. O incentivo à imigração deslocou
frentes agrícolas, com perfil étnico e cultural similar, portadores de
elementos culturais alicerçados em símbolos, representações, práticas,
hábitos e costumes em comum, norteados por referenciais éticos e
estéticos responsáveis pela construção de espaços socioculturais
marcados pela ambiguidade das identidades. Se as condições político-
institucionais se constituíram em fatores circunstanciados de negociação

231
e de adaptação cultural de um lado, de outro, a memória e a tradição
representaram os elementos constituintes da modelação social e da
organização dos espaços de recriação e de demonstração da cultura. A
fragmentação de laços sociais imposta pelos limites da fronteira e a
articulação das diferenças identitárias não impediram que entre os núcleos
coloniais dos diferentes espaços fronteiriços os bens simbólicos e
materiais historicamente constituídos fossem recriados, demonstrados e
comunicados.
A drástica redução populacional no Paraguai com guerra contra a
Tríplice Aliança fez com que a atração de colonos europeus se tornasse
uma prerrogativa para fomentar o desenvolvimento interno do país. A
política imigratória paraguaia reduziu ao mínimo as exigências e os pré-
requisitos para promover a imigração estrangeira (KLASSEN, 2001;
MASKE, 2004). As terras do Estado situadas ao longo dos rios e das
ferrovias foram colocadas à disposição dos imigrantes. A imigração alemã
passou a ser o alvo principal dessa política, uma vez que havia dado
resultados satisfatórios nos Estados Unidos, no Brasil e na Argentina.
No sul do Brasil os imigrantes alemães e seus descendentes,
que haviam se estabelecido a partir de 1824, foram buscando novos
espaços de colonização em função do esgotamento das fronteiras
agrícolas. Assim, das colônias pioneiras foram se expandindo para as
regiões da Serra, do Planalto, do Alto Uruguai e do Oeste Catarinense,
em território brasileiro, transpondo as fronteiras para se estabelecer nos
territórios missioneiros de Corrientes, Misiones (Argentina) e Itapua
(Paraguai). No início do século XX as frentes de colonização do sul do
Brasil iniciaram a colonização de Puerto Rico, Eldorado e Montecarlo
na Argentina. A organização destes núcleos de colonização seguiu as
diretrizes da Associação Riograndense de Agricultores – Bauerverein,
que estabelecia um modelo de ocupação social do espaço centrado na
pequena propriedade familiar, na organização comunitária - com vínculos
societários firmados a partir da solidariedade étnica - e no associativismo.
(SCHALLENBERGER, 2010). Lideranças emergidas da Bauerverein,
a exemplo do jesuíta Max von Lassberg e do agrimensor evangélico
luterano Helmut Culmey, exerceram mediação importante na escolha
dos espaços de colonização e na organização e constituição dos núcleos
de povoamento. Essas frentes de colonização foram atraídas pela política

232
imigratória do Paraguai e no início do século XX fundaram nas terras
próximas as margens do rio Paraná, nas imediações das reduções de
Trinidad e Jesus, a colônia de Hohenau, seguida das de Bela Vista e
Obligado (KLIEWER, 1941).
Os colonos de ascendência étnica alemã do sul do Brasil que se
estabeleceram nos territórios argentino e paraguaio, apesar das fronteiras
territoriais e institucionais, mantiveram vivas relações culturais através
de correspondências, impressos e encontros, o que representa de certa
forma uma rede de relações que caracteriza um espaço cultural
transfronteiriço. A produção social desse espaço tornou presente um
mundo simbólico e de referência ética e estética que identifica estes
migrantes, traduzido em equipamentos que refletem a organização fa-
miliar, comunitária, associativa e cooperativa, presentes na cultura ma-
terial destes grupos étnicos até os dias atuais. As fronteiras político
territoriais não representam, neste caso, uma ruptura dos elos culturais,
mas se interpõem como elemento distintivo em relação ao lugar da
produção e da recriação da cultura, situando os colonos imigrantes e
seus descendentes num ambiente de ambigüidade de identidades – a
étnica e a nacional.
As circunstâncias históricas que envolvem a mobilidade das
fronteiras no período que sucede a fase da constituição dos núcleos de
colonização reservam aos pesquisadores temas com aderência às
atividades relacionadas à troca de bens e mercadorias (remédios,
alimentos, pneus e outros), que sugerem a observação não só a partir da
perspectiva da contravenção, mas, também, da complementaridade e da
interação num cenário socioeconômico fronteiriço. Pode se entender desta
forma que: “(...) comércio e contrabando são, pois, as faces de uma mesma
atividade, a troca de bens e mercadorias, que atendem às necessidades
da região” (SOUZA, 1996, p. 126). Por outro lado, o tráfico, o crime
organizado e o furto passaram a dilacerar de forma crescente os laços
sociais e transformaram os lugares de fronteira em espaços incertos e
perigosos, inibindo valores como os da autenticidade, da criatividade e
da liberdade.
A projeção vertical de estratégias geopolíticas de desenvolvimento
regional e de controle territorial, a exemplo da ITAIPU Binacional,
promoveu deslocamentos que redefiniram o conceito de fronteira e

233
afetaram as relações culturais nos espaços fronteiriços. Além de trazer
novos atores sociais para o cenário regional, a nova configuração espacial
promoveu uma mobilidade social marcada pela migração interna e
transfronteiriça, responsável pela desconstituição de fronteiras culturais,
pela efemeridade das relações sociais e pela insegurança nas e das
fronteiras. A instituição do MERCOSUL, mesmo tendo entre os seus
objetivos, o de integrar os controles nas fronteiras internas, não conseguiu
dar conta da percepção da sua vulnerabilidade, e, tampouco, da integração
econômica, social e cultural das populações que nelas residem e se
movimentam.
Em circunstâncias e contextos históricos diferentes dos que
mobilizaram as frentes imigratórias espontâneas, incentivadas pelas
políticas de colonização e de fixação dos territórios nacionais, a injunção
do processo de expansão capitalista, sobretudo a derivada da vertente do
agronegócio, passou a exercer pressão sobre a propriedade da terra e,
consequentemente, comprimir as pequenas unidades produtoras,
obrigando os seus usuários a buscarem espaços produtivos em novas
fronteiras internas ou externas. Esses deslocamentos geraram um
fenômeno cultural complexo que pode ser observado a partir da
ambiguidade dos sentidos construídos pelos atores sociais que se
movimentam neste novo cenário. É um processo constituinte de relações
culturais marcadas pela permanência, referenciada na memória e na
tradição, pela negociação cultural e, em certos casos, por certo hibridismo
cultural, que enseja o novo.
É pertinente que neste longo tempo histórico, da conquista
territorial da América Meridional à negociação continuada das fronteiras
nacionais, as lentes teóricas do pesquisador visualizem a possibilidade
de novos modos de existência e de novas relações socioculturais que
permitam entender experiências societárias inovadoras – heterotopías
(FOUCAULT, 2000). Estas experiências desconstituem as utopias
preconcebidas, inquietam, alteram sentidos, invertem relações
dominantes e definem espaços reais, construídos pelos movimentos
históricos da conquista, da colonização e da interação das frentes
imigratórias com os atores sociais dos diferentes ambientes culturais
(RUIDREJO, 2006). A acomodação teórica que privilegia tão somente
as relações verticais de poder como forma simples de subjugação de um

234
mundo cultural por outro é muito cômoda e pouco crítica. Conduz à
admissão de certo estado de inferioridade e impotência que tributa ao
passado a dependência estrutural da América Latina e a sua incapacidade
de superar os desafios presentes de uma possível mudança sociocultural
e política.

NOTAS EXPLICATIVAS
1
Doutor em História e Professor Associado da Unioeste/Campus de Toledo, onde atua na Graduação e Pós-
Graduações em Ciências Sociais (Mestrado) e Agronegócio e Desenvolvimento Regional (Mestrado e
Doutorado).
2
A Grande Guerra se refere ao conflito da Tríplice Aliança Argentina, Brasil e Uruguai com o Paraguai.

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237
238
APUNTES SOBRE LOS MÁRGENES: FRONTERAS,
FRONTERIZACIONES, ÓRDENES
SOCIOTERRITORIALES

María Lois1

Hace unos meses, cuando comenzaba a recopilar información


periodística para incluir en un artículo sobre fronteras en América Latina,
dos noticias llamaban mi atención; el día 24 de abril, Bolivia presentaba
una demanda contra Chile ante la Corte Internacional de Justicia de La
Haya (Holanda), reclamando una salida al mar, al Océano Pacífico2. Casi
al mismo tiempo, se publicaba una actualización del Eurobarómetro,
cuyos resultados establecían que el 62 % de los encuestados afirmaba
que la libertad de circulación sería el principal logro del proyecto de
integración desarrollado por la Unión Europea3.En ambas noticias
encontraba algunas de las características generalmente más difundidas
de los imaginarios ligados a las fronteras: por una parte, los diferendos
fronterizos, las disputas por los límites en América Latina. Profundizando
en la cronología de la noticia, podríamos interpretar que el
cuestionamiento del límite marcado en el tratado de Paz y Amistad
firmadoen 1904 y los discursos estadocéntricos que despliegan ambas
partes respecto a la opinión pública recolocaría a las fronteras, a su
delimitación, en el centro de la soberanía estatal. La instancia implicada
en la resolución de la demanda jurídica, un tribunal localizado en Europa,
remarca la vinculación de los diferendos con los procesos de colonización
y descolonización de la región, re-creados algunos siglos después, pero
irremediablemente anclada en el pasado. Mientras tanto, en medio de
una crisis económica y política, en el espacio de la Unión Europea la

239
normalización de la libre circulación entre países miembros podría
convertirse en el baluarte de un proyecto institucional claramente
cuestionado. Incluso podríamos asumir que la mayoría de los ciudadanos
entienden el espacio Schengen como un territorio de libre circulación,
con un régimen de movilidad absolutamente laxo, practicado por nómadas
libres de las ataduras territoriales de los viejos Estados.
En ese universo de cosmopolitanismo líquido, las fronteras
interestatales serían poco más que reliquias de un pasado lejano. Esta
lectura del pulso fronterizo en ambos lados era, sin duda, un lugar seguro,
confortable, desde la que comenzar a escribir un capítulo de un volumen
colectivo a publicar en Brasil. Algunos de los atributos de la imaginación
geopolítica moderna (AGNEW, 2005) me empujaban definitivamente a
seguir esta línea: la evocación de una división regional, jerárquicamente
definida, donde uno de estos bloques, a causa de su carácter extraeuropeo
(por tanto, más atrasado en experiencia histórica), estaría atrapado en
un intento de significarse a partir de uno de los atributos claves de la
búsqueda de un lugar en el horizonte político, esto es, a través del
cuestionamiento territorial de la imaginación estatal, a través de una
demanda por la delimitación fronteriza. Una generalización de estas
características, ayudada por las recurrentes noticias sobre diferendos
pendientes de resolución en América Latina, proporcionaría una visión
homogénea de las características sociopolíticas de la región, definida
desde su división territorial respecto a otros espacios. La cuestión es
que, desde la incomodidad intelectual que produce un cierto escepticismo
hacia las divisiones regionales en particular, y hacia la Transitología en
general, me parecía más imaginativo proponer, desde el mismo contexto
de producción, una visión algo desenfocada, proyectada desde una
minúscula incisión dentro de las miradas preferentes.
Así, el presidente boliviano Evo Morales inauguraba, casi un par
de meses después de la incursión en La Haya, un tramo de carretera del
Corredor Bioceánico Pacífico-Atlántico4. Proyecto mayoritariamente
financiado por la Corporación Andina de Fomento (CAF), esta ruta uniría
los puertos atlánticos del sur de Brasil con los del norte de Chile a través
de territorio boliviano, desde una imaginación transfronteriza de
integración regional entendida como un necesario impulso al comercio.
También, a principios de junio, se debatía en el Parlamento Europeo las

240
dimensiones de una reforma de la regulación del espacio Schengen5 ;
cuestión recurrente desde la denominada ‘primavera árabe’, e impulsada
desde la Comisión, la idea sería regular los requisitos necesarios, el
contenido de las circunstancias excepcionales necesarias para justificar
la reintroducción temporal de controles internos, en las fronteras
interestatales6. En esta segunda incursión en el mundo de las noticias
sobre fronteras, la referencia a diferentes proyectos de integración en la
región latinoamericana iba en paralelo a las reincidentes peticiones de
varios países miembros de la UE de una mayor flexibilidad en las
condiciones de suspensión unilateral del tratado de Schengen. Las
imaginaciones regionales en torno a dinámicas fronterizas se saturaban
con diferentes ángulos y perspectivas, que se cruzaban para incorporar,
por un lado, proyectos de integración en América Latina, que implican
al país envuelto en un diferendo fronterizo por la salida al mar con Chile;
y, por otro, la poderosa visión de las fronteras como dispositivo de con-
trol de movilidad, periódicamente desplegada como icono territorial
contra la inseguridad de los estados de la Europa occidental.
La tercera etapa del recorrido periodístico sobre fronteras llegaba
a una localización desordenada, esto es, la de las fronteras de la Unión
Europea en América Latina7. En realidad, el ejemplo paradigmático de
una fronteras localizada más allá de la mirada regional. Surinam reclama
a la Guyana francesa la soberanía de un área de 5.000 kilómetros
cuadrados situados entre el río Marouini (Maroni) y el Litani (Itany),
ambos afluentes del río Lawa. El diferendo, como es frecuente, data de
tiempos coloniales, cuando Francia y Holanda sometieron la disputa al
zar ruso en 1891. Surinam aceptaba en un principio la frontera propuesta
por Holanda en el momento de su independencia (1975), aunque luego
se mostraba dispuesto a aceptar la delimitación propuesta por Francia
(1977), a cambio de ayuda para el desarrollo. Sin embargo, un acuerdo
más reciente cerrando la diferencia estaría pendiente de ratificación.
Maroni es también el apellido de un ex ministro de Interior italiano,
Roberto. Maroni fue el promotor y responsable de la implementación,
en 2008, del llamado Pacheto Sicurezza (algo así como Paquete de
Seguridad), la primera de una serie de medidas periódicas destinadas a
mantener la seguridad en el país. En su primera edición, el Paquete
elevaba a la categoría de delito la inmigración irregular, criminalizando

241
y racializando al sujeto móvil a través del vínculo entre los asentamientos
gitanos en ciudades como Roma o Verona, y la inseguridad ciudadana,
en línea con el discurso y la práctica política de su partido, la Liga Norte.
Pese a las continuas denuncias públicas de racismo y xenofobia, la defensa
del gobierno italiano de la suspensión del tratado de Schengen, y su uso
de las fronteras como dispositivo territorial de control de movilidad,
convertía a Rumania, país miembro de la UE y también de origen de
parte de estos colectivos, en el último peldaño de una gradación de
membresías dentro de la Unión, la de los ciudadanos abyectos de Europa
(HEPWORTH, 2012).
En torno a los Maronis, entonces, se reconfirmaba ya la
superposición de significados complejos y formatos diversos de las
fronteras en Europa, donde se mezclan el topónimo de un accidente
geográfico utilizado como marcador de las delimitaciones territoriales
colonialescon los diferentes estatus de ciudadanía ligados a los regímenes
de movilidad de la Unión Europea; pero también están las prácticas de
fronterización de la Unión Europea, ligadas a la ayuda al desarrollo como
espacio de transacción y eliminación de las diferencias políticas8, que,
en este caso, aparecen como mecanismo clave de la negociación del
diferendo por parte del receptor latinoamericano, de Surinam; al tiempo,
nos encontramos con un diferendo en el trazado del límite fronterizo, en
este caso, en la frontera europea localizada en la región latinoamericana.
Toda esta incursión periodística abunda en las aristas de las
nociones de límites y de fronteras; más allá de lo anecdótico, aparecen
visiones fragmentadas, procesos superpuestos, donde las fronteras y los
límites cambian, se trasponen, y, sobre todo, muestran especificidades
culturales e históricas, por su carácter de procesos multidimensionales.
Establecen y marcan referentes, espacializan contextos geohistóricos de
representación del espacio y el tiempo colectivos, y por tanto, de
producción y reproducción del orden social, afectando no solo a las
prácticas materiales, sino también a la comunidad de destino, a los
espacios de imaginación cotidianos, desde donde construimos los
horizontes simbólicos de las prácticas y representaciones sociopolíticas.
Como acabamos de ver, las formas en las que se delimitan y definen
esas comunidades espacialmente están en cambio constante. La
socialización espacial, entendida como proceso a través del que los actores

242
individuales y las colectividades son socializados como miembros de
entidades territorialmente delimitadas y adoptan formas específicas de
pensamiento y acción (PAASI, 2007:15; 1996:54), está en permanente
construcción y reconstrucción. Por tanto, el orden socioterritorial,
también.
La reflexión que presento a continuación es un conjunto de apuntes
sobre las fronteras en Europa, desde una geografía política fragmentada,
y con vocación provinciana. A partir de la perspectiva – últimamente
popularizada por la crisis- de los múltiples espacios europeos, la idea es
mostrara una serie de dinámicas que ocurren en el contexto de las fronteras
interestatales de la Unión Europea como pretexto, desde el parroquialismo
y la inevitable heterogeneidad espacial, para plantear algunas cuestiones
en torno al papel de las fronteras en el contexto europeo, a sus insalvables
paradojas, a la variabilidad de sus espacios y sus tiempos, a sus vínculos
con la territorialidad y la imaginación geopolítica moderna y, en definitiva,
a la experiencia del homo geographicus (SACK, 1997) contemporáneo9.

LAS FRONTERAS Y LA GEOGRAFÍA POLÍTICA10

Desde el inicio de su conceptualización por la ciencia social


moderna, la frontera ha viajado mayoritariamente acompañada de su
significado como límite. Considerado uno de los fundadores de la
Geografía Política moderna, Ratzel definía a las fronteras como “el órgano
periférico del Estado, el soporte de su crecimiento así como su
fortificación, y participan en todas las transformaciones del organismo
del Estado” (RATZEL, 2011: 147).
De este modo, Ratzel situaba el discurso sobre las fronteras en un
plano localizado más allá de lo político: podríamos diferir en términos
de instituciones, de su mayor o menor efectividad; del diseño político.
Pero si el territorio era para Ratzel el cuerpo “natural” del Estado, su
frontera tendría que ajustarse a su crecimiento, no por imperativo político,
sino por necesidad vital. Precisamente por su deriva orgánica, Ratzel no
pensaba las fronteras como realidades inmutables, sino como parte
consustancial del cuerpo político, de la comunidad política que no podía
concebir sin fronteras.
La mayoría de los trabajos sucesivos sobre fronteras abundaban

243
en esta concepción naturalista, prescriptiva respecto a la existencia de
fronteras, y a su dimensión de límite lineal. Así, el coronel Holdich, por
ejemplo, en una de sus más conocidas investigaciones sobre límites,
cualificaba específicamente su carácter: “deben ser barreras, que cuando
no son geográficas y naturales deben ser artificiales y tan fuertes como
el dispositivo militar pueda hacerlas” (HOLDICH, 1916: 46). La
naturalización del límite fronterizo, desde un énfasis en su dimensión
defensiva y su vinculación con la soberanía territorial de los Estados,
era uno de los rasgos fundamentales de los ejercicios de delimitación
fronteriza de finales del siglo XIX y principios del XX. Algunos años
más tarde, en consonancia con la evolución de la disciplina, comienzan
a publicarse trabajos descriptivos enfocados ya desde la hegemónica
perspectiva funcionalista. Buenos ejemplos serían las clásicas
aportaciones de Hartshorne (1936) o Boggs (1940), que incluían ya
tipologías de fronteras. En todo este período, esto es, la primera mitad
del siglo XX, los trabajos publicados desde la Geografía Política
continuaban siendo prescriptivos, incidiendo repetidamente en la
importancia de delimitar, demarcar y administrar correctamente las
fronteras. La idea básica era que una demarcación adecuada evitaría
que los territorios de los Estados fueran fuente de conflicto.
Los años 1970 supusieron un cambio tanto en la Geografía Política
como disciplina como en los estudios sobre fronteras. Trabajos como
los de Guichonnet y Raffestin (1974), y algo más tarde, el de Foucher
(1991) colocaban la investigación sobre fronteras dentro de una visión
más amplia, al conectarla con la discusión central de la subdisciplina,
esto es, la relación entre espacio y poder.Estas aportaciones comenzaron
a cuestionar algunos de los mitos en torno a la naturalidad de los límites
fronterizos, y, definitivamente, abrieron nuevas vías en su
conceptualización. Pero será en los años 1990 cuando se transforme
definitivamente el panorama de la investigación sobre fronteras, en buena
parte gracias a la generalización de retóricas político-territoriales desde
donde se proyectaban nuevas bases fundacionales para el mapa político
mundial. Así, en una conocida revisión sobre narrativas en torno a límites
y fronteras, Newman y Paasi (1998) identificaban varias de las principales
cuestiones en torno a las que giraba la investigación en aquellos años.
Una de ellas, muy presente en las investigaciones en torno a los llamados

244
“procesos de globalización” (MATO, 2001), era la que asumía una
progresiva desaparición de las fronteras (1998: 191; ver, por ejemplo,
OHMAE, 1990). El referente de un futuro mundo sin fronteras se
convertía en una cuestión de discusión durante al menos una década. Sin
embargo, el paso de los años confirmaba no sólo la pervivencia de las
fronteras, sino también su multidimensionalidad espacial y temporal,
algo que periódicamenteobliga a actualizar debates teóricos y
metodológicos. En palabras de Balibar, “vivimos en una coyuntura de
constante vacilación de las fronteras ¯tanto de su trazado como de sus
funciones¯ que es, al mismo tiempo una vacilación de la propia noción
de frontera, que se ha convertido en particularmente equívoca”
(BALIBAR, 1998: 217-218). La equivoca noción de fronteras, entonces,
requiere una persistente e inconfortable actualización en la incorporación
de perspectivas, contextos y herramientas de análisis desde las que trabajar
su complejidad.

EL QUÉ Y EL CÓMO EN LOS ESTUDIOS DE FRONTERAS

En los últimos años, muchos son los trabajos que han insistido en
la necesidad de adoptar una perspectiva multidimensional en la
investigación sobre fronteras (PERKMANN-SUM, 2002; PAASI, 2005;
NEWMAN, 2006; VAN HOUTUM et al, 2005; AGNEW, 2008; KUUS,
2010; ZAPATA-BARRERO, 2012; ZÁRATE, 2012), y en su
conceptualización como procesos históricamente contingentes
(NEWMAN y PAASI, 1998: 201). Si las fronteras crecieron como parte
de los Estados y de su creación, las identificaciones políticas se construyen
a través de “prácticas de fronterización” (bordering practices) (KUUS,
2010: 671-672), entendidas como “una amplia gama de procesos
transformativos y afectivos en los cuales los órdenes y desórdenes sociales
y espaciales son constantemente reelaborados” (WOODWARD y JONES,
2005: 236). Re-pensar las fronteras a través de las prácticas de
fronterización supone entender dichas prácticas como algo implícito en
la construcción de esas fronteras, no analizables como desarrollos
incompletos o acabados, “sino en constante proceso de materialización”
(PROKKOLA, 2008: 15). Asumir, entonces, el carácter equívoco de las
fronteras (AGNEW, 2008: 176), y los cambiantes y contradictorios

245
procesos en torno a su constante reproducción, se convertía, en la década
de 2000, en una posibilidad de superar una conceptualización de las
fronteras en términos binarios, como mecanismos de delimitación entre
Estados; al tiempo, permitía dejar de pensarlas como lugares en proceso
de desaparición, o como estructuras permanentes, estáticas y
espacialmente localizables. Si bien las fronteras han sido proyecciones
territoriales del poder infraestructural del Estado (O´DOWD, 2010),
imaginarlas como las líneas fronterizas en las que se materializa el con-
trol político y social a través de la separación de espacios dejaría de lado
una amplia gama de matices desde los que mirarlas.
En ese sentido, y retomando el ejercicio de la mirada cruzada en-
tre Europa y América Latina, podría ser paradigmática una anécdota
relativamente reciente. En octubre de 2012 recibía un mail de una colega
argentina; a raíz de una baja de última hora, una hermana suya venía a
Madrid, a presentar su trabajo en un Congreso internacional sobre
educación, y pedía ayuda para entrar en España. En Buenos Aires, se
acercaba a la Cancillería a averiguar cuáles serían los requisitos para su
ingreso en el país. Allí le hicieron una lista interminable, siendo la visita
de la contraparte en destino a la Comisaría un requisito innegociable; en
dicha Comisaría, en Madrid, además de unos plazos de inicio imposibles
de cumplir ante la inminente llegada, se requería una carta de invitación,
firmada ante notario, además de otra serie de pruebas fehacientes de
situaciones de copresencia previa respecto a la persona invitada. Tratando
de descifrar los códigos de las prácticas burocráticas desplegadas en torno
a la entrada en España, el contacto con individuos que habían cruzado
esa frontera, y en mayor o menor medida familiarizados con esta práctica,
nos llevó a decidir que una carta de invitación explícita del Congreso,
un billete de avión cerrado y una reserva en un hotel de dos días podría
ser una forma de solucionar la cuestión de cruzar la frontera para un
viaje de trabajo. En el aeropuerto de Barajas nadie preguntó nada. Ni a
qué venía ni cuándo se iba, ni dónde se quedaba ni cuando era su fecha
de regreso. El viaje se completó sin necesidad de más pruebas
documentales que un pasaporte en vigor. La construcción de redes y
procesos burocráticos articulada por actores institucionales se
desmantelaba ante la implementación de los agentes de política fronteriza:
al tiempo, se hacía evidente la vinculación entre la construcción de

246
frontera y la capacidad de agencia, esto es, individuos o colectivos que
subvierten, cuestionan o construyen esa frontera, y las especificidades
de su cruce.
Así, la anécdota redundaba en cuestiones de trabajo fundamentales:
¿dónde estaba el límite fronterizo en este viaje?, ¿en los agentes de
seguridad que trabajan en el aeropuerto de Barajas?, ¿en la comisaría
del barrio de destino?, ¿en el notario que certifica una carta de invitación?,
¿en los funcionarios de la Cancillería del país de origen?, ¿en las narrativas
de las personas que desafiaron el ritual oficial en base a su propia visión
y experimentación de la esa frontera?... En definitiva, aparecía claramente
una pregunta clave: ¿cómo y para quién se proyecta la fronterización
entre ambos Estados? El mismo tipo de cuestiones, formuladas de un
modo más elaborado y académico, también ha sido motivo de una reciente
discusión entre expertos (JOHNSON et al, 2011: 61-69): ¿dónde está la
frontera en los estudios sobre fronteras? Abordar la investigación sobre
fronteras como mecanismos multidimensionales de la producción de
límites, pero en múltiples escalas y en múltiples lugares requiere también
una mayor sofisticación conceptual que permita incorporar diferentes
escalas, actores, prácticas y contextos a un marco teórico general. Los
plazos de solicitud de una certificación notarial, la virtualización de la
emisión de visas, la creación de fronteras supraestatales, o las narrativas,
experiencias y visiones de individuos y colectivos remiten a prácticas de
fronterización alejadas del límite fronterizo, y que han de formar parte
necesariamente de un marco de referencia donde el tiempo y el espacio
frontera son elásticos. La frontera se disloca espacialmente (e.g., en
oficinas policiales, aeropuertos, oficinas de emisión de visados, terceros
países, etc.), y se dilata temporalmente, en un proceso que va mucho
más allá de la inmediatez del cruce del límite fronterizo.
El cómo se despliegan y producen prácticas de fronterización se
confirmaba, entonces, como cuestión de investigación (LOIS Y CAIRO,
2011), entonces. El dónde, obviamente, también, desde una imperiosa
desencialización de la relación entre contexto geográfico y dinámicas de
frontera. Así, el acercamiento al contexto europeo de la Unión Europea
será el pre-texto para ir dando contenido a unos apuntes parafuturas
investigaciones.

247
FRONTERAS EN EUROPA: LUGARES PARA EL CENTRO,
LUGARES PARA LA PERIFERIA

Siguiendo la lógica experimental más clásica, la espacialización


del proyecto institucional de la Unión Europea sería uno de los
laboratorios más interesantes para acercarnos a procesos de
fronterización, y a los significados territoriales de la idea de Europa. Por
una parte, una de las principales consecuencias de la construcción del
espacio Schengen ha sido el fortalecimiento del límite exterior de la
Unión, en una suerte de frontera móvil, ligada a los procesos de
ampliación de la UE hacia los nuevos miembros, pero, al mismo tiempo,
explícitamente delimitada. Así, acciones como las desarrolladas a través
de FRONTEX y los acuerdos con Terceros Países Seguros (CASAS et
al, 2011), además de externalizar el propio control fronterizo, inciden
en la dinámica de dislocación espacial y temporal de la frontera,
mostrando su permeabilidad selectiva. Al tiempo, confirman, entre otras
cosas, una racialización de la migración (VIVES, 2011), que se repro-
duce transversalmente y estructura imaginarios en torno a características
físicas y lugares de procedencia (van Houtum, 2010). Estas dimensiones
se han ido configurando como claves en la producción de un imaginario
de frontera, y en su concepción como dispositivo de control de la
movilidad, al estilo Maroni. Sin embargo, en un territorio atravesado
por procesos de desigual espacialización de los límites, también se
multiplican las perspectivas éticas y políticas en torno a las fronteras; si
bien una parte de los estudios sobre fronteras de/en Europa se centran en
un imaginario fronterizo espectacularizable, hiperrepresentado a través
de las prácticas de riesgo y represión de su cruce irregular y en los
mecanismos de seguridad proyectados de manera similar al esquema
de territorialidad estatal más clásica, la presencia de diferentes regímenes
de movilidad, desiguales procesos de acceso, y, en definitiva, de modos
variables y móviles de construir frontera en el mismo espacio de referencia
es cada vez más frecuente11.
Mientras tanto, en las soporíferas fronteras interestatales de la
Unión, se dirimen los contenidos políticos de las circunstancias
excepcionales que se negocian a través de prácticas como los controles

248
de pasaportes en la frontera entre España y Francia al entrar en el Train
à Grande Vitesse (TGV) francés; la ausencia de ellos en algunos de los
límites que cruzan los autobuses de larga distancia;o las cámaras de
vigilancia instaladas en la parte holandesa del límite fronterizo con
Alemania. En términos de procesos internos, la entrada en vigor del
tratado de Schengen también condiciona la imaginación espacial del
proyecto de la UE. Así, incorporamos una de las geniales paradojas que
Diez (2006) describe como inevitablesen un trabajo sobre Europa y la
Unión Europea, esto es, que el reconocimiento de las fronteras
interestatales multiplica los significados de estos límites; su des-
securitización implica una subversión de su dimensión más evidente
(DIEZ, 2006: 238-239), la de diferenciación territorial de grupos sociales;
y, al tiempo, una volátil y constante re-inscripción de las fronteras en la
imaginación geográfica cotidiana en relación al proyecto espacial de la
Unión.
En cualquier caso, la imaginación espacial ligada a la Unión
Europea es la de la Europa de las regiones; estas funcionarían como un
conjunto de entidades funcionales que conectarían y mejorarían la
competividad de las regiones en diferentes escalas. Este proceso se
materializaría en “la introducción de nuevos procesos y estructuras
institucionales que funcionan en nuevas escalas y transgreden las fronteras
estatales, creando nuevas posibilidades de acción” (JENSEN y
RICHARDSON, 2004: 24). Así, la política regional de la Unión Europea
se basa en crear regiones capaces de desempeñar plenamente su papel
en favor de un mayor crecimiento y competitividad e intercambiar al
mismo tiempo ideas y buenas prácticas. Este es precisamente el objetivo
teórico de la iniciativa “Las regiones, por el cambio económico”12: la
política regional en su conjunto coincide con las prioridades que se fija
la Unión Europea en favor del crecimiento y el empleo, tal y como se
refleja en documentos programáticos clave, como la Estrategia de Lisboa.
Esa es la teoría. Pero resulta interesante ver también cómo se
practica la frontera, a través de qué mecanismos se subvierte su
significado. Así, en términos de prácticas institucionales, el 75% de las
regulaciones de la UE son implementadas a nivel de las regiones (EVERS,
2006: 81, apud LAMBREGTS et al., 2008: 46), y alrededor de un tercio
del presupuesto comunitario se destina al desarrollo regional. Dentro de

249
ese proceso, la regionalización transfronteriza se habría convertido en
un icono de la política territorial de la Unión. Entendiendo por región
transfronteriza aquella entidad territorial que contiene unidades
subnacionales de uno o más Estados (PERKMANN y SUM, 2002:3), el
proceso de regionalización implicaría, al menos teóricamente, a los
actores regionales y locales (institucionales y no institucionales; públicos
y privados) en estrategias de desarrollo, a través de la promoción de
formas de gestión donde el Estado ya no sería el principal agente de
regulación política. Son instrumentos como las iniciativas INTERREG
o las Redes Transeuropeas los que aportan el marco regulador de la
construcción del desarrollo de regiones transfronterizas; de hecho, el
territorio de la Unión Europea suele presentarse como el territorio de
fronteras por excelencia: “las regiones fronterizas representan el 40%
del territorio de la Unión Europea y un 25% de su población […] Las
regiones situadas enteramente a lo largo de las fronteras internas de la
Unión, esto es, las fronteras entre estados miembros, forman un grupo
heterogéneo que supone el 27% del territorio de la Unión y el 18% de su
población” (EC 2002). Tras las sucesivas ampliaciones, “el aumento del
suelo fronterizo comunitario y su extensión implica que el valor añadido
de la cooperación transfronteriza (…) debe ser incrementado” (EC 2006/
1083). En ese sentido, los programas de trabajo de la Unión Europea
para resignificar las fronteras entre los Estados miembros se basan en un
modelo de desarrollo cuyo eje fundamental sería el turismo.
Especialmente desde la firma del Tratado de Maastricht, en 1992, el
turismo ha pasado a ser oficialmente reconocido como uno de los ejes
fundamentales del desarrollo promovido por la UE: “La infraestructura
creada para el turismo contribuye al desarrollo local, y se crean o
mantienen puestos de trabajo incluso en zonas en declive industrial o
rural, o que están en proceso de regeneración urbana. La necesidad de
mejorar el atractivo de las regiones sirve de incentivo para que un número
creciente de destinos y partes interesadas promuevan prácticas y políticas
más sostenibles y positivas respecto al medio ambiente”13. El turismo se
representa como futura actividad económica y motor de desarrollo en
las periferias rurales de Europa, entre las que se encuentras las zonas
fronterizas de los diferentes Estados. Así, el desarrollo del turismo estaría
vinculado con la promoción de una conciencia regional y, al tiempo,

250
refleja la ambición de promover la integración a través de las fronteras
internas de la Unión (PROKKOLA, 2007: 124). Este modelo de
desarrollo, presente no sólo en el mencionado INTERREG, sino también
en iniciativas como el LEADER, la Carta Europea del Turismo Sostenible
o la Agenda 21, presenta características específicas: “El turismo sostenible
desempeña un papel esencial en la preservación y la rehabilitación del
patrimonio cultural y natural en un número creciente de ámbitos, que
abarcan desde el arte a la gastronomía local, pasando por los oficios o la
preservación de la biodiversidad”14.
Las iniciativas de la Unión Europea, entonces, suponen una fuente
de financiación para las actividades fronterizas, con la intención de
“promover redes transfronterizas e identidad regional”, incluyendo un
subprograma para iniciativas turísticas y culturales15. Las regiones
periféricas se integrarían así en redes institucionales y centros de toma
de decisiones; las prácticas y los discursos de desarrollo que afectan a
estos ámbitos “vinculan el destino turístico a estructuras regionales y
económicas más amplias, y, finalmente, a la economía mundial y la
circulación de capital y de cultura. Al mismo tiempo, sirven como una
herramienta y un medio institucional para el desarrollo y la construcción
de la idea de una región” (SAARINEN, 2004:169). Estos lugares de
desarrollo se convertirían en lugares de turismo enclávico- una forma
específica de reproducción de actividades económicas - pero también
una forma de re-crear las representaciones de los contextos locales, en
permanente procesos de encuentro con las expectativas turísticas.
De esta manera, la puesta en marcha de planes específicos de
actuación en las fronteras interestatales abre un proceso de resignificación
de las prácticas y los discursos sobre los límites, cómo se producen y
cómo se representan y recrean cotidianamente. La transformación de las
fronteras interestatales de periferias en centros, a través de políticas
basadas en el turismo y la regionalización transfronteriza, subvierte su
carácter de periferia y las define como elementos centrales del proyecto,
entonces. De esta manera, las zonas fronterizas se localizan en el centro
de los procesos de construcción de la esfera pública (BALIBAR, 1998,
apud PICKLES, 2005: 362), las prácticas políticas, socioterritoriales y
discursivas en torno a las fronteras se convierten en una de las claves de
la performance de la europeidad de la Unión.

251
A través de ellas, de ver cómo se practica la idea de Europa en las
fronteras de la UE, podemos hablar de diferentes geografías políticas
desplegadas desde el horizonte político y a través de las políticas de la
Unión Europea en particular, y en Europa en general. Seguir trabajando
sobre ellas ha de superar, necesariamente, su conceptualización como
una estructura geográfica; implica considerar diferentes geografías
políticas desplegadas en diferentes escalas espaciales y momentos
temporales, absolutamente heterogéneas, multiescalarmente desplegadas.
Y, en todo ello, el rol de individuos y colectivos, como sujetos que
construyen, mantienen o cuestionan fronteras ¯lo que se denomina
borderwork (RUMFORD, 2008: 2 y ss.)¯, es fundamental para seguir
avanzando en la investigación en torno a cuándo, dónde y para quién
continúan funcionando.

NOTAS FINALES

Sin intención de hacer un inventario exhaustivo o una clasificación


regionalde los estudios sobre fronteras, quisiera concluir haciendo
referencia a algunos trabajos que incorporan, en mayor o menor medida,
un acercamiento a la naturalización de diferentes órdenes
socioterritoriales, y que, a su vez, entiendo como relativamente
descentrados de la imaginación geopolítica moderna. Retomando la
argumentación de la sección anterior, la idea es trabajar el cómo se
practicaEuropa en las fronteras en la Unión Europea (LOIS, 2010); en
otras palabras, como se performan y evocan horizontes socioespaciales
y políticos en los límites fronterizos interestatales europeos, desde y a
través de los actores institucionales y no institucionales, en las fronteras
aburridas. En esos lugares también, cotidianamente, se negocian,
cuestionan, re-producen o resisten patrones de socialización espacial,
siendo nodos necesariamente presentes de un debate más amplio en torno
a las imaginaciones geopolíticas en torno a la relación entre fronteras-
Europa-América Latina-regiones.
Así, uno de las principales cuestiones de trabajo en torno a las
fronteras en la Unión Europea ha sido la cooperación transfronteriza.
Convertida en la atalaya de este proyecto de integración, y del significado
de la cooperación transfronteriza en algunos otros 16 , resulta

252
tremendamente evocador acercarse no sólo a los discursos programáticos
sino también a las dimensiones espaciales que derivan de las
intervenciones en zonas fronterizas. De hecho, pasado un momento de
EU-foria que duró casi una década, algunos trabajos ya han profundizado
en las prácticas ligadas a la cooperación transfronteriza desde una
perspectiva saludablemente escéptica, y vinculada a la incorporación de
la capacidad de agencia como variable en la producción de fronteras. Es
el caso de Prokkola et al (2012) quienes, a partir de la frontera entre
Finlandia y Suecia, abundan en la complejidad práctica de la retórica
programática de los programas de cooperación transfronteriza,
específicamente los derivados de fondos INTERREG. El artículo sugiere
la importancia de diferentes elementos, como las identificaciones estatales
o las relaciones entre colectivos de ambas partes como variables
fundamentales a la hora de construir la socialización espacial en las
regiones transfronterizas; la proyección de estas regiones, su contenido,
adquiere significado en los contextos cotidianos y siempre en clave
relacional y performativa17
Otros autores, en otras fronteras, profundizan en las paradojas
inevitablemente de la cooperación transfronteriza, tanto en el surgimiento
de nuevas fronteras desarrolladas a partir del desarrollo de instituciones
transfronterizas, como en la reproducción de los límites estatales ligada
a la financiación de estas iniciativas. Es el caso de los trabajos sobre el
parque científico y empresarial Avantis, en la Eurorregión Mosa-Rhin,
en la frontera entre Alemania y Holanda (JACOBS y KOOIG, 2013), o
de la Eurociudad Chaves-Verín, al noreste de la frontera hispano-
portuguesa (LOIS, 2013), entre otros. La idea de trabajar desde una
perspectiva desenfocada respecto a la construcción de la frontera, y que
centra la atención en sus intentos de borrarla, de suavizarla. En ese sentido,
resulta muy sugestiva la propuesta de Kramsch (2011), que lanza la
posibilidad de, una vez terminado el periodo de fascinación por la
gobernanza transfronteriza, comenzar a trabajar en una agenda de
investigación que incorpore, desde una visión no teleólógica, la doble
dimensión de las fronteras europeas; por un lado, como límites, como
medios espaciales, y, por otro lado, como iconos que definen normas y
presuponen valores y horizontes normativos de gobernanza intra-
metropolitana (KRAMSCH, 2011:203). En cualquier caso, la necesaria

253
apertura de la lente conceptual, que trate de incorporar las políticas de
representación, espacialización y socialización ligadas a los límites se
revela como enormemente excéntrica y tremendamente interesante. Y
en esas políticas, además de la cooperación y regionalización
transfronteriza institucionales, el cruce de fronteras es, como veíamos
anteriormente, la práctica espacial que transgrede su definición como
límite, que contesta su atributo espacial más clásico, y que reifica las
diferencias marcadas por el confín. Como veíamos, las dinámicas
individuales y colectivas en torno al cruce contestan, refuerzan,
comparten, proponen, y dibujan la frontera. En ese sentido, trabajos como
los de Alburquerque (2012) o van Houtum y Gielis (2006) abordan la
práctica del cruce de fronteras interestatales desde perspectivas
multiescalares, incorporando dimensiones específicas de los proyectos
de integración regional (Brasil y Paraguay, por un lado, y Alemania-
Holanda, por otro) en la constelación relacional a través de la que se
negocia la frontera como recurso. En otros trabajos, el cruce ilegal de la
frontera, el contrabando, ha sido ampliamente estudiado como estrategia
de supervivencia cotidiana (GODINHO, 1995, 2011; FREIRE et al, 2009;
CARDIN, 2012; SIMÕES, 2009). La transgresión de la frontera que
representa el contrabando sigue siendo clave en la negociación del
contenido político de la frontera. Contradiciendo la imaginación
geopolítica más fácil sobre fronteras en la UE, y sin haber desaparecido
como actividad económica, también ha pasado a convertirse en elemento
de memoria (CUNHA, 2009), en un objeto de patrimonialización
esponsorizado a través de su ritualización (LOIS y CAIRO, 2012). La
re-creación del cruce de la frontera como experiencia se significa como
horizonte de gobernanza cultural (SHAPIRO, 2004), repetidamente
musealizado y teatralizado en las fronteras interestatales de la UE
(PROKKOLA, 2008b), pero, en cualquier caso, ligado al consumo
turístico, a la turistificación de la frontera. Esa turistificación se manifiesta
en diversas formas, siendo una de ellas la de re-presentar el cruce de la
frontera como parte de la experiencia fronteriza; esta aventurase puede
consumir en la frontera entre Laos y Thailandia (su precio incluye un
paseo por el río Mekong y un sello en el pasaporte que confirma haber
pasado al otro lado); también es parte de las amenidades ofertadas por al
menos dos empresas finlandesas -no localizadas en el límite

254
necesariamente -, que reproducen un cruce de la frontera Finlandia-Rusia
que incluye falsos guardias fronterizos rusos bebiendo vodka
(LÖYTYNOJA, 2007); y es una de las actividades más demandadas del
parque temático EcoAlberto, en el estado de Hidalgo (en el centro de
México), donde se re-crea el cruce de la frontera a Estados Unidos.
Gestionado por indígenas HñaHñu, en el tour se performan coyotes y
falsos agentes de la Border Patrol estadounidense18. Quizás en el
encuentro entre la construcción de la frontera como atracción turística y
la re-producción de las fronteras como espacios de espectacular represión
pudieran surgir elementos de fuga de la imaginación geopolítica moderna,
en su dimensión fronteriza. Las políticas de representación de fronteras,
en cualquier escala, disponen las coordenadas de los diferentes circuitos
de movilidad.
Continuando con las dimensiones de una gobernanza cultural
proyectada desde las fronteras como espacios de negociación del
contenido territorial de lo político, resulta interesante también reseñar la
repetida presencia de elementos comunes en la representación visual de
las fronteras y, específicamente, en la forma de incorporar lo que está al
otro lado el límite. En ese sentido, la construcción de puentes, como
iconos de definición regional financiada por fondos INTERREG ha sido
trabajada, por ejemplo, en el caso de la frontera entre Dinamarca y Suecia
(HOSPERS, 2006). Como infraestructuras que habilitan a la otra parte
como parte de un consorcio, proyectan un espacio imaginado, en
ocasiones relativamente alejado de las prácticas locales. La misma
dimensión es remarcada, en términos escalares birregionales, en el caso
del puente sobre el río Oyapoque, entre Brasil y la Guyana francesa
(KRAMSCH, 2012). Financiado en buen parte por la Iniciativa para la
Integración de la Infraestrucura Regional Suramericana (IIRSA), en ese
puente, aún sin inaugurar, confluirían lecturas regionales, visiones
paralelas que regularizan, desde la monumentalidad y la contundencia
visual de la infraestructura, la proyección del cruce.
Mientras continúo con la preparación del artículo sobre fronteras
en América Latina, leo como una manifestación en el País Vasco reabre
cinco puestos fronterizos terrestres entre Francia y España; o cómo la
visita de los Ángeles del Infierno a un club de motociclismo de Reykjavik
rehabilitó los controles aéreos en unos 16 vuelos procedentes de países

255
Schengen. En definitiva, continúo coleccionando circunstancias
regionalmente excepcionales.

NOTAS EXPLICATIVAS

1
Departamento de Ciência Política III (Teorías y Formas Políticas y Geografia Humana). Universidad
Complutense de Madrid. E´mail: mdlois@cps.ucm.es
2
<http://www.la-razon.com/nacional/demanda_mar%C3%ADtima/Gobierno-demanda-Chile-CIJ-
ensamblara_0_1855014551.html>[ consultado el 24/06/2013]
3
<http://www.euroefe.com/3799_asuntos-sociales-y-juridicos/2090406_la-eurocamara-respalda-el-nuevo-
codigo-de-fronteras-para-la-zona-schengen.html> [consultado el 24/06/2013]
4
<http://spanish.irib.ir/elsur/noticias/america-del-sur/item/82829-evo-morales-inaugura-una-ruta-
interoce%C3%A1nica> [consultado el 24/06/2013].
5
El tratado de Schengen, en vigor desde 1995, regula la eliminación de controles fronterizos entre los
países suscriptores, a través de la libre circulación de personas. Forma parte de la legislación de la Unión
Europea desde la firma del Tratado de Amsterdam, en 1999, y reconoce una sola frontera común, exterior,
con procedimientos y normas comunes en lo referente a visados para estancias cortas, solicitudes de asilo y
controles fronterizos. <http://europa.eu/legislation_summaries/justice_freedom_security/
free_movement_of_persons_asylum_immigration/l33020_es.htm> [consultado el 10/06/2013].
6
<http://www.europarl.europa.eu/news/es/pressroom/content/20130607IPR11372/html/El-PE-debate-la-
reforma-del-espacio-Schengen> [consultado el 24/06/2013].
7
Agradezco a Olivier Kramsch la conversación (y la bibliografía) que movilizó esta idea.
8
Caso, por ejemplo, de las Políticas Europeas de Vecindad (ENP).
9
Mencionar que ese ha sido el objetivo docente de la asignatura Geografía Política y Geopolítica de
Europa, ahora ausente de los nuevos currículos educativos, pero que impartí durante 7 años en la licenciatura
en Ciencia Políticas de la Universidad Complutense. A lo largo de ellos, mi propuesta de trabajo en el aula
se ha basado instrumentalizar el particularismo de las diferentes formas espaciales presentes en Europa
(desde área a región rural policéntrica, pasando por nación, Unión Europea o ciudad global) para pensar en
el interminable proceso de alteridad ligado a su definición, así como en la multiplicación de geografías
políticas posibles en torno a un mismo referente. A pesar de alguna sorpresa inicial ante la ausencia de
metanarrativas tranquilizadoras, los estudiantes me han ido enseñando cómo avanzar en este dirección.
10
Buena parte de los argumentos que aquí se presentan fueron publicados en Lois y Cairo (2011).
11
En ese sentido destacar, por ejemplo, el trabajo de Vives (2013) sobre la migración femenina de Senegal
a España, desarrollado desde una perspectiva etnográfica multisituada, con una cartografía móvil, y, en
particular, con la (éticamente) adecuada discreción respecto a las prácticas de cruce irregulares. Riofrio
(2012) ha desarrollado un planteamiento similar, relacionando los cambios en la política de movilidad en
Ecuador en 2008con la externalización de la frontera de la Unión Europea, que convirtieron al país
latinoamericano en lugar de tránsito hacia España para los flujos de población procedentes del norte de
África.
12
<http://ec.europa.eu/regional_policy/cooperation/interregional/ecochange/doc/comm_es_acte.pdf>
[consultado el 25/02/2009]; <http://ec.europa.eu/regional_policy
; http://ec.europa.eu/regional_policy/faq/q7/index_es.htm>; <http://europa.eu/scadplus
/glossary/lisbon_strategy_es.htm>, [consultado el 25/02/2009]; «Informe estratégico sobre la estrategia de
Lisboa renovada para el crecimiento y el empleo: lanzamiento de un nuevo ciclo (2008-2010), parte I»,
Comunicación de la Comisión al Consejo, de 11 de diciembre de 2007, [COM(2007) 803 final – no publicado

256
en el Diario Oficial].)
13
<http://europa.eu/legislation_summaries/enterprise/industry/n26107_es.html> [consultado el 25/02/2009].
14
<http://europa.eu/legislation_summaries/enterprise/industry/n26107_es.html> [consultado el 25/02/2009].
INTERREG IIIA Nord- Fondo Europeo de Desarrollo Regional. <www.interregnord.com> [consultado el
15

26/02/2009].
16
Excelente el ejemplo del uso de un manual de INTERREG como manual de cooperación transfronteriza
en África Occidental (Kramsch y Brambilla, 2007), o de la visita en 2010 de una delegación del gobierno
de Brasil a la Eurociudad Chaves-Verín, en el marco del Memorando de Entendimiento entre la Comisión
Europea y el Ministerio de Integración de Brasil, donde los integrantes (representantes de las Meso-Regiones
de Alto Simoneo, Vale do Río Acre y de la Gran Fronteira Mercosur) recibieron, además de una introducción
a las buenas prácticas, su tarjeta de Eurociudadanos (Lois, 2013). Reconociendo la desigual relación entre
las partes, tampoco entendemos, al estilo orientalista , que las prácticas, modelos y posiciones emitidas
desde la UE se asumen y reproducen miméticamente; es algo más complejo, y que llevaría a una discusión
sobre cuestiones de agencia mencionadas anteriormente pero alejado del objetivo de esta sección. En cualquier
caso, las prácticas de representación de los sujetos como receptores y transmisores resultan escasamente
innovadoras.
17
Paula Godinho (2009) entiende esas negociaciones constantes como claves para contextualizar la figura
del regionauta, productos de una concepción de la cooperación “desde arriba hacia abajo, y desde adentro
hacia afuera“ (GODINHO, 2009 :148; en cursiva en el original).
http://www.fronterasdesk.org/news/2013/jun/18/fake-border-crossing-amusement-park-attraction/
18

?utm_source=facebook.com&utm_medium=referral&utm_campaign=fronteras-facebook [consultado el 27/


06/2013].

REFERÊNCIAS

AGNEW, J. (2005): Geopolítica: una re-visión de la política mundial Trama Editorial, Madrid.
Trad. al castellano por M. Lois de Geopolitics: re-visioning world politics, Londres: Routledge,
1998.
______. Borders on the mind: re-framing border thinking. Ethics & Global Politics, 1 (4), 175-
191, 2008.
ALBUQUERQUE, L. Limites e paradoxos da cidadania no territorio fronteirico: O atendimento
dos brasiguaios no sistema público de saude em Foz do Iguacu (Brasil), Geopolítica(s) 3 (2),
185-205, 2012.
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