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FACULDADE LUTERANA DE TEOLOGIA – FLT

WILLIAM FELIPE ZACARIAS

AS DUAS NATUREZAS DE CRISTO: UMA BREVE ABORDAGEM


HISTÓRICO-SISTEMÁTICA

São Bento do Sul/SC


Novembro/2012
2

WILLIAM FELIPE ZACARIAS

AS DUAS NATUREZAS DE CRISTO: UMA BREVE ABORDAGEM


HISTÓRICO-SISTEMÁTICA

Ensaio Monográfico com o tema Cristologia,


apresentado como requisito na disciplina de
Teologia Sistemática II.

Orientador: Prof. Dr. Euler Renato Westphal

São Bento do Sul/SC


Novembro/2012
3

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 4
1. O PROBLEMA DA MORTE DE CRISTO. ................................................................... 5
1.1. FRACASSO OU CONSUMAÇÃO? .................................................................................................. 5
1.2. A SALVAÇÃO.......................................................................................................................................... 6
2. A COMPREENSÃO DE CRISTO A PARTIR DA MATÉRIA ................................... 8
2.1. HOMOOUSIOS......................................................................................................................................... 8
3. UMA VISÃO ONTOLÓGICA DE JESUS CRISTO. .................................................. 13
3.1. O JESUS HUMANO. ............................................................................................................................ 13
3.2. O CRISTO COMO DEUS QUE SOFRE ......................................................................................... 15
4. PANORAMA DA CRISTOLOGIA ATUAL ................................................................ 18
4.1. A UNIVERSALIDADE E EXCLUSIVIDADE DE CRISTO PARA A SALVAÇÃO. .... 18
CONCLUSÃO..................................................................................................................21
REFERÊNCIAS...............................................................................................................22
4

INTRODUÇÃO

Por séculos a Igreja Cristã debateu o tema Jesus Cristo buscando soluções e
fundamentos firmes para fé. Vários foram chamados de hereges, diversos desacreditaram da
divindade de Cristo e múltiplos morreram convictos de quem era quanto à divindade e/ou
humanidade.
O próprio Cristo por vezes declarou aos cristãos quem era e os próprios discípulos
sabiam em quem criam e a quem seguiam. As dificuldades surgem quando os discípulos,
testemunhas oculares, morrem e a nova geração encontra-se perdida na sua fé. Mais tarde o
cristianismo se torna religião oficial do estado Romano a partir da conversão de Constantino.
Também surgem escolas como a de Antioquia e de Alexandria com pontos de vista totalmente
diferentes.
Em um contexto de filosofias, crenças, movimentos e heresias, a pergunta pelo Cristo
paira sobre a teologia da época e é preciso desenvolver um credo para lutar contra os hereges
que distorcem as escrituras.
Com um bom apanhado bíblico-histórico-teológico, pretende-se com este trabalho ver
as várias concepções sobre Cristo, conhecê-lo enquanto pessoa e Deus, saber de sua obra
salvífica na cruz e proporcionar uma visão sintetizada, porém, fundamental e essencial sobre
aquele a qual é o cabeça da Igreja. O grande oceano da história questiona o Cristo e
ligeiramente caí-se nas mesmas perguntas dos primeiros séculos da Igreja. Este trabalho
almeja lembrar que Jesus Cristo é o Senhor, lembrando credos e afirmações existentes na
Bíblia, história e teologia.
5

1. O PROBLEMA DA MORTE DE CRISTO

Como aquele prometido ao antigo Israel, o Deus encarnado, o Logos dos filósofos
gregos pode ter morrido tão drasticamente e loucamente em uma cruz? Esta pergunta
problematizava a questão cristológica nos primeiros séculos da Igreja Cristã, pelo menos no
mundo oriental representado pelas grandezas de Alexandria e Antioquia.
Algo de factual importância é a visão do mundo divido em oriente e ocidente, logo,
este mundo é dois mundos em apenas um. O Ocidente vê as coisas na perspectiva da forma,
do parecido, logo, o ocidente vê as a partir de um foco principal e não na totalidade das
coisas. O Oriente vê as coisas segundo a matéria e não apenas um foco em si, mas em sua
totalidade. Quando se estuda cristologia, deve-se saber que as discussões cristológicas se
desenvolvem no oriente que vê acima de tudo a matéria, logo, entende-se por que o Cristo
encarnado em matéria humana é um escândalo para gregos e para os influenciados pela
filosofia grega.

1.1. FRACASSO OU CONSUMAÇÃO?

O problema crucial da Igreja Antiga foi a morte de Cristo, pois não sabiam se ela em
primeiro lugar significava um fracasso ou consumação. Necessita-se aqui de uma
compreensão aprofundada, pois, se foi um fracasso, foi fracasso de quem? Ou, se foi
consumação, consumação do que e de quem?
O Cristo homem que morre na cruz é incompreensível à mente dos antigos, e, da
mesma forma, a ideia de que Deus se encarna em homem. Este problema se dá pelo fato da
matéria ser má, assim, o Deus perfeito não pode encarnar naquilo que é mal e muito menos
morrer, pois, Deus não morre.
O pensamento da Igreja Antiga foi fortemente influenciado pela metafísica aristotélica
e por isso não conseguiam equalizar a encarnação e morte de Jesus de modo satisfatório,
primeiro por que o Motor Imóvel, o Justo Juiz e Razão Primeira não podem ser encarnados no
homem e na matéria que é má por si mesma e em segundo por que um Deus que possui estas
qualidades não pode sofrer e morrer de modo tão humilhante e desprezível. Quanto à cruz,
esta é escândalo, visto que se o Motor Imóvel morrer, tudo se torna em uma lama de caos. Da
mesma forma o Justo Juiz e a Razão Primeira, pois, como aquele que é o mais Justo que todos
e o primeiro de todos pode ter um fim e ser morto pelas suas próprias criaturas? De fato, este
6

Deus transcendente não pode ser ligado de forma alguma com a matéria, pois Deus é
metafísico, está para além da matéria, e muito menos morrer em uma cruz.
Os discípulos, na contemporaneidade de Jesus o conheciam, porém, os reflexos da
esperança da vinda do reino de Deus e do Jesus que se tornaria o Cristo parecem fracassar na
Cruz. Enquanto os discípulos aguardavam a glória de seu Senhor de modo que já lhe pediam
lugar no céu,1 Jesus se manifestava humilde anunciando a sua morte. Enquanto os discípulos
andam a caminho de Emaús lamentando a morte de seu Senhor que já não lhes pode mais
trazer salvação em nenhum sentido, o próprio Senhor lhes acompanha e lhes conforta.2
A partir de tais compreensões, consegue-se afirmar que Jesus Cristo fracassa na cruz
em amor a todos os seres humanos e sim, verdadeiramente morreu, porém, manifestou-se na
ressurreição vitorioso sobre a morte, pois, o Pai e o Espírito o ressuscitaram. Deus, em sua dor
grita que tudo está consumado3 de forma que nada pode ser acrescentado em sua obra de cruz,
o ser humano não pode se fundamentar em suas possibilidades e em suas tentativas de
salvação, mas, basta olhar para o Cristo pendurado no madeiro e esperar a vida eterna, a
saber, a salvação.

1.2. A SALVAÇÃO

Entra-se aqui na questão soteriológica, pois, como um homem que morre pode dar
novo sentido e salvação a humanidade, ou, como um Deus fracassado, morto na cruz pode
redimir e dar esperança aos corações aflitos? O que de fato aconteceu? Como pode Deus
morrer para salvar?
Os questionamentos se desdobram sempre de maneira individual visando ou o Jesus
humano ou o Cristo Deus. Precisa-se olhar para Jesus Cristo, o Deus homem que morreu na
cruz em favor dos que antes iriam perecer. Cristo, como verbo encarnado de Deus, vem à
humanidade para dar novo sentido a estes. Como proclamador do reino de Deus, sendo este
também o seu reino, Jesus curou doentes, ressuscitou mortos, acompanhou os oprimidos para
mostrar-lhes que era o Deus presente, o Senhor que acompanha cada um na sua singularidade
e na sua dor. A visão de Jesus é a de um ser capaz de fazer tanto de forma que é
verdadeiramente Deus manifestado em carne, porém, o Deus que fazia grandes obras foi
morto na cruz e uma morte cruel. Vê-se que o questionamento feito por muitos aos pés da

1
Cf. Mt 20.20-28; Mc 10.35-43;
2
Cf. Lc 24.13-35;
3
Cf. Jo 19.30;
7

cruz é legítimo, pois, como este conseguiu curar tantos e a si mesmo não pode salvar?4 O
Jesus amigo, companheiro, irmão, mestre está pendurado na cruz e não faz nada sobre si
mesmo.
Este Jesus humano também é o Cristo Deus, e, como afirma Carl Braaten,
A vinda de Deus e a vinda de Jesus estão (...) unificadas na experiência da salvação
escatológica. A lógica da salvação exigia a identificação de Jesus com Deus. A
experiência da cruz e ressurreição de Jesus como o evento definitivo da salvação
gerou uma fé, centrada na pessoa de Jesus Cristo, que tradicionalmente pertencia só
a Deus, caso se quisesse evitar a idolatria. Se a salvação realmente tinha chegado
através da pessoa de Jesus, ele também deve ter sido Deus, porque Deus, e tão-
somente ele, é o poder da salvação5.

Desse modo, o mesmo Jesus humano é também Deus, pois pode proporcionar ao ser
humano incapaz a chance da salvação obtida somente através dele. A salvação só pode
decorrer de alguém que tem poderio para isso, pois a fé na salvação depende de Deus e se
Jesus promete salvar, então não há dúvidas de que ele é o próprio Deus, o que grosseiramente
se torna carne e sente a dor dos homens a fim de salvá-los de sua perdição6.

4
Cf. Mt 27.39-44; Mc 15.29-32; Lc 23.35-38.
5
BRAATEN, Carl E. A pessoa de Jesus Cristo. In: BRAATEN,C.E., & JENSON, R.W., Dogmática Cristã.
São Leopoldo : Sinodal, 1990. p. 483-484. v.1.
6
Cf. Mt 1.21; Lc 2.11; Jo 3.17; Jo 4.42; At 13.23;
8

2. A COMPREENSÃO DE CRISTO A PARTIR DA MATÉRIA

Como se falou na introdução, o oriente até hoje vê as coisas na perspectiva da matéria.


Em um teste com pessoas do ocidente e do oriente, tem-se: um pequeno cilindro de madeira;
um cilindro do mesmo tamanho, porém, azul e de plástico; e ainda um cubo de madeira.
Quando o cilindro de madeira é mostrado no ocidente, pergunta-se qual dos outros dois é mais
parecido e os ocidentais respondem em sua maioria: o cilindro azul. Quando a pergunta é feita
para os orientais, a resposta muda: o cubo de madeira. Por que nos dois lados do mundo as
respostas são contrárias? Por que o ocidente vê as coisas a partir da forma enquanto os
orientais enxergam a matéria, a essência. Enquanto os ocidentais comparam pela forma física
e aparente, os orientais veem em primeiro lugar a matéria do qual é feito algo, logo, mesmo
que exista um cilindro idêntico na forma, porém de plástico, escolhem o cubo de madeira por
que este é feito da mesma matéria que o cilindro de madeira7.
Com esta visão, pode-se entender cristologia na Idade Antiga, visto que as principais
discussões giravam em torno de Antioquia e Alexandria, grandes escolas presentes no lado
oriental.

2.1. HOMOOUSIOS

A palavra homoousios é formada pela junção dos vocábulos o`moi,j (homois) que
significa semelhante e ouvsi,a (ousia) que significa ser, logo, tem-se a tradução por mesmo
ser, mesma substância.
Homoousios é o credo de que Cristo é Deus e Homem em uma mesma essência. Trata-
se de que Cristo possuía a mesma substância que o Pai e, ao descer, permaneceu consigo a
natureza divina e ao assumir a forma humana, une-se a ela de forma que estas duas naturezas
eram distintas e possuíam as suas peculiaridades, mas, encontrava-se na unidade da pessoa de
Jesus Cristo, assim, Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiro homem, duas naturezas na
unidade de uma pessoa.
Esta compreensão foi fortemente defendida pela Escola Teológica de Antioquia,
marcada pela interpretação gramatical e exegética das escrituras. Foi também debatido pelo
Concílio de Nicéia, em 325 d. C. afirmando que Jesus Cristo era o mesmo que o Pai, porém

7
A FORMA E A MATÉRIA. O Oriente e o Ocidente. Brasília: TV Escola. 13 de Outubro de 2012. Programa
de TV.
9

não era o Pai, de forma que Cristo apresenta duas substâncias, duas naturezas em apenas um
ser.
O grande problema cristológico se dá na homooúsios, pois, fisicamente, como dois
corpos ou duas coisas podem ocupar o mesmo lugar? A difícil compreensão deste enredo se
dá pela forte influência da metafísica aristotélica, pois, Deus só pode ser uma substância e não
mais de uma. Assim, Cristo é simultaneamente Deus e homem e especialmente na cruz, justo
e pecado. Os teólogos alexandrinos apoiavam a ideia de que o divino é imutável e, portanto, o
divino não pode de nenhuma maneira ser reduzido à matéria e ao humano, porém, a carne por
sua vez podia ser levada pelo divino ao estado de divino, mas nunca o inverso, pois o divino
não cabe no humano.
Antioquia, por sua vez, define Cristo como verdadeiramente Deus e verdadeiramente
homem, de forma que Cristo ao se tornar humano não perde a sua natureza divina, porém, é
divino e humano ao mesmo tempo e no mesmo ser.
As discussões dos primeiros séculos da Igreja tiveram seu desfecho somente em 451 d.
C. quando aconteceu o concílio de Calcedônia. Pode-se afirmar que o Credo Cristológico de
Calcedônia foi basal após as várias discussões cristológicas ocorridas nos primeiros séculos
da Igreja. Calcedônia tem sua importância por não levantar meramente uma ideia ou defender
uma já existente, mas, esta, por sua vez, faz um apanhado de todas as concepções existentes
lançando-as para o debate. O resultado desta difícil empreitada resulta na seguinte conclusão:
Seguindo, portanto, os santos Pais, todos nós, a uma só voz, ensinamos que,
deve-se confessar que nosso Senhor Jesus Cristo é um só e o mesmo Filho, o Mesmo
perfeito em Divindade, o Mesmo perfeito em humanidade, verdadeiramente Deus e
verdadeiramente homem, o Mesmo em uma alma racional e um corpo; homoousios
com o Pai quanto a sua divindade, e o Mesmo homoousios conosco quanto a sua
humanidade; em todas as coisas igual a nós, exceto tão somente no pecado; gerado
do Pai antes das eras quanto a sua divindade, e nos últimos dias, o Mesmo, por nós e
por nossa salvação, de Maria a Virgem theotokos quanto a sua humanidade.
Um só e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, tornado conhecido em
duas naturezas (que existem) sem confusão, sem mutação, sem divisão, sem
separação; não sendo a diferença das naturezas de modo algum removida em razão
da união, mas, antes, sendo as propriedades de cada uma preservadas, e concorrendo
(ambas) em uma só Pessoa (prosopon) e uma só hypostasis – não partida ou dividida
em duas pessoas (prosopa), mas um só e o mesmo Filho e Unigênito, o Logos
divino, o Senhor Jesus Cristo; assim como os profetas desde tempos antigos
(falaram) a respeito dele, e como o Senhor Jesus Cristo mesmo nos ensinou, e como
o Símbolo dos Pais nos legou8.

O Concílio de Calcedônia traz a fundamentação existente até hoje, confirmando que


Jesus Cristo não era nem apenas Deus, nem apenas homem, mas, o Deus encarnado, aquele

8
R. V. SELLERS, The Council of Chalcedon, SPCK, 1953, pp. 210-211 apud BRAATEN, Carl E. A pessoa
de Jesus Cristo. In: BRAATEN,C.E., & JENSON, R.W., Dogmática Cristã. São Leopoldo : Sinodal, 1990. p.
491. v.1.
10

que se torna carne para redimir a humanidade dando-lhes a oportunidade de salvação, tudo
aquilo que era simplesmente confusão nos primeiros séculos da Igreja agora se torna ortodoxo
no Concílio de Calcedônia, desta forma, a Igreja possui um dogma para combater todos os
que dizem que a salvação está separada da humanidade de Jesus Cristo ou que este era apenas
um homem. Neste credo, a Igreja encontra um firme alicerce.
Desta forma, Jesus Cristo não esta dividido em duas pessoas ou duas naturezas e muito
menos em dois Cristos, porém, a mesma pessoa de Jesus Cristo é tanto divino como homem.
Em Jesus, o Deus transcendente se torna imanente, nele, pode-se ver a face de Deus. Sobre o
Jesus humano, Lutero, em seu comentário bíblico sobre Zc 9.9 fala de Jesus como
um rei, mas um rei pobre, miserável, sem nenhuma aparência de rei, se quisermos
considerar a pompa externa que os reis e príncipes do mundo exibem perante o
mundo. Pompa, castelos, prédios, dinheiro e bens, ele os deixa aos outros reis, e
permite que comam, bebam, vistam-se e construam melhor que outra gente. No
entanto, não são capazes de realizar a proeza da qual é capaz esse rei-mendigo Jesus
Cristo: ele não ajuda contra um pecado só, mas contra todos os pecados; e não só
remedeia o meu pecado, mas o pecado do mundo inteiro. É isso que o profeta diz à
filha de Sião: que não se escandalize com seu futuro miserável; que feche os olhos e
abra os ouvidos, para que não veja a humildade de seu andar, mas ouça o que se diz
e prega a respeito desse rei-mendigo. Sua pobreza e miséria é visível no fato de
montar num burro, sem arreios e esporas, como um mendigo. No entanto, que seja
capaz de livrar-nos do pecado, bem-aventurança e vida eterna, isso não se vê. Por
isso é preciso ouvi-lo e crer nisso.9

Desta forma, Jesus é o Deus mendigo e miserável, a qual como o próprio declarou que
“as raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde
reclinar a cabeça,”10 ou seja, o Filho do Homem Jesus Cristo é tão homem e carne que este
vive seu ministério mendigando pelas ruas, anunciando a vinda do Reino de Deus. Muitas
vezes, esse Deus miserável tinha de se autoconvidar a ir a uma casa de alguém para jantar
como aconteceu em seu encontro com Zaqueu.11
Os gregos, ou, influenciados pela filosofia grega não entendem como o perfeito e
imutável se torna homem, nasce em um lugarejo repleto de fezes e urina, anda em um
burrinho e morre em uma cruz, isto não lhes é compreensível, porém, é exatamente isto que
aconteceu, Deus se torna humano para resgatar o ser humano e livrá-lo de sua morte. É
homoousios conosco, possui a mesma substância, a mesma carne e as mesmas necessidades
que nós temos, porém, continua sendo ao mesmo tempo homoousios com o Pai, pois não
deixa de ser Deus.

9
Devocionário Castelo Forte, ano: 1983; Meditação do dia 27/11. São Leopoldo: Sinodal. apud (...)
10
Mt 8.20; Lc 9.58.
11
Cf. Lc 19.1-10;
11

2.2. O Lo,goj E O ESCÂNDALO CRISTOLÓGICO PARA OS GREGOS

Lo,goj (Lógos) é uma palavra derivada da filosofia grega. É esta a expressão que João
usa para adentrar seu evangelho asseverando que Jesus Cristo é lo,goj:
Vem avpch|/ h=n lo,goj( kai. o`` lo,goj h=n pro,j to.n Qeo,n& kai. h=n o`` lo,goj) Ou=toj h=n evn
avrch/| pro,j to,n Qeo,n) Panta di V auvtou/ evge,neto( kai. cwri.j auvtou/ evge,neto ouvde. e[n)
12
Kai. lo,goj sa.rx evge,neto kai. evskh,nwqsen evn h``mi/n)

Para os gregos, o lo,goj era o mantenedor de todas as coisas, por isso, João faz questão
de mencionar que nele todas as coisas foram feitas. A metafísica aristotélica via o lo,goj como
Motor Imóvel, Justo Juiz, Razão primeira, conceitos que mais tarde serão retomados por
Tomás de Aquino, logo, o lo,goj é o ser supremo em tudo, “O Deus absoluto da mitologia
grega era sem coração, sem graça e sem rosto. Este não podia sofrer, por que sofrimento
significa carência, e Deus não carece de nada.”13 Porém, o grande problema para os gregos
surge quando o lo,goj Jesus Cristo é encarnado na sa.rx (sarx), ou seja, o lo,goj aivwnioj
(verbo eterno) se torna sa.rx e o pior, habita entre os homens.
Os gregos possuem dificuldade com isso pelo motivo de rejeitarem a matéria por que
afirmam esta ser má, pois, tudo o que há de mal se encontra na matéria, a matéria é a prisão da
alma e por isso é má. Inclusive as mulheres eram rejeitadas por causa disto, pois elas geram a
matéria e em seu corpo prendem o eterno, logo, também eram consideradas más.
O paradoxo do lo,goj se encontra neste contexto. Jesus Cristo, o lo,goj nasceu de uma
mulher14, ou seja, como poderia aquele que é a totalidade e fim ultimo e supremo de todas as
coisas vir de uma mulher? Outro ponto problemático é como este pode se reduzir a matéria
que é má? Como aquele que é o Sumo Bem pode simplesmente se tornar carne? Como o
infinito pode penetrar no finito e inclusive ter um fim?
Sabe-se que o mundo do Novo Testamento é muito influenciado pela filosofia grega,
logo, deduz-se que João também era conhecedor de filosofia. O evangelho de João começa de
forma completamente diferente dos outros, falando do lo,goj que se torna sa.rx, o Deus
transcendente que se torna imanente nascendo de uma mulher. João não tem dúvida de que o
lo,goj dos filósofos se torna carne, que este é o Filho de Deus, o Messias, aquele que mantém
todas as coisas, enviado para redimir cheio de graça e de verdade.

12
Jo. 1.1-3, 14 in: NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft,
1993. p. 247.
13
BRAATEN, Carl E. A pessoa de Jesus Cristo. In: BRAATEN,C.E., & JENSON, R.W., Dogmática Cristã.
São Leopoldo : Sinodal, 1990. p. 516. v.1.
14
Cf. Gl 4.4.
12

Aquele que é metafísico se torna físico para resgatar as almas sofridas e em seu tempo,
morrer por elas. O maior escândalo está na morte de Cristo, pois, o lo,goj morre, o Motor
Imóvel, Justo Juiz e Razão primeira tem seu fim e aquele que é eterno agora tem um final.
Pode-se perceber a angústia dos discípulos nos próximos três dias, pois, aquele que grandes
sinais fez agora se encontra em uma tumba, o metafísico coube em uma pequena sepultura na
terra. Pode-se imaginar as mentes confusas dos discípulos, visto que como aquele que a tantos
salvou e ajudou não pode se ajudar?
Porém, o Jesus Cristo morto na cruz permaneceu vivo na memória do Pai que o
ressuscitou na força do Espírito Santo no terceiro dia, o lo,goj não foi vencido pela morte e o
mesmo é tanto lo,goj como sa.rx. Ele ressuscita e nele ainda estão as marcas do sofrimento,
porém, o seu grito e vitória na cruz permanece para sempre.
Pode-se ter a convicção de que no cristianismo é diferente, pois, não são os seres
humanos que em suas tentativas e possibilidades buscam estar de bem com Deus, mas, o
lo,goj se torna sa.rx, o Deus transcendente e abscôndito se revela na pessoa de Jesus Cristo
para redimir e salvar a humanidade de seu pecado. O lo,goj se torna pecado, levando todos os
pecados de todos em todas as épocas e gerações, assim, a obra de Cristo na cruz chamada de
graça pode para todo o sempre redimir os perdidos.
O lo,goj não está no metafísico, mas, se fez como nós, como afirma Heinrich Vogel,
Jesus se torna “o homem a qual Deus se tornou nosso Salvador como nosso irmão”.15 Assim,
Jesus se torna nosso irmão fazendo de Deus nosso Pai. Como certa vez afirmou Euler Renato
Westphal em um culto de ação de graças: “Deus entra no material, assume a matéria
mostrando que não é contra a matéria”.16 Nesta perspectiva, tem-se a dimensão de que Deus
ama a sua criação e que se encarna nela se necessário, como aconteceu. Deus, Jesus Cristo, se
encarna na matéria humana para redimir toda a criação.

15
VOGEL, Heinrich. Gesammelte Werke. Cristologie. Band 5. Stuttgart: RADIUS-Verlag, 1983. p. 439.
Tradução própria.
16
Frase dita em CULTO DE AÇÃO DE GRAÇAS. 11/11/2012. São Bento do Sul: MEUC. Pregação: Euler
Renato Westphal.
13

3. UMA VISÃO ONTOLÓGICA DE JESUS CRISTO

A proposta aqui é enxergar o Ser de Jesus Cristo simplesmente como ser, tentar
compreendê-lo até onde a razão pode alcançar e olhar abstratamente o homem Jesus e o Deus
Cristo encarnados na unidade de Jesus Cristo.

3.1. O JESUS HUMANO

Deus se torna tão humano ao ponto de comer, defecar, inclusive nascer e morrer. Vê-
se a humanidade de Jesus em sua carne, e, se for olhado para ele com os recursos biológicos
existentes hoje, dir-se-ia que a carne necessita de alimentos, água, ar como também expele
suor, fezes, urina, etc., assim, o Jesus homem precisa completar o ciclo biológico diário de
todo ser humano com suas necessidades.
Jesus como Deus encarnado era tudo isto e fazia tudo isto, tinha de dormir, tinha de se
vestir, enfim, tudo o que o ser humano criado por Deus faz, Jesus também fazia.
Jesus é humano, pois embora concebido pelo Espírito Santo, nasceu de uma mulher
humana como diz Gl 4.4, nasceu de mulher, debaixo da lei, ou seja, por ser humano, precisava
respeitar as leis civis e jurídicas de sua época, bem como pagar impostos.17 De fato, a partir de
tais relatos não se pode negar a humanidade de Cristo.
Um grande problema no Jesus homem surge quanto ao pecado, pois, se este era
homem, como não pecou? Jesus era impecabilidoso ou corria o risco de pecar a todo
momento? A partir deste ponto surgem várias especulações buscando inclusive respostas na
sexualidade de Jesus em suas palavras, porém, o que se sabe sem medo de errar é que se Jesus
foi sem pecado, então este era o único, pois, todos os homens pecam. O problema está em que
se Jesus não pecou, poderia não ser um homem na totalidade, pois o pecado faz parte da
natureza humana e assim, se Jesus não pecou, então não era totalmente homem, todavia,
precisa-se investigar se realmente a questão do pecado está ligada a natureza humana e se
assim for, como fica a questão de Jesus.
No relato da criação, em Gn 1 e 2, tem-se o surgimento de todas as coisas, inclusive do
homem e da mulher, logo, quem criou a humanidade na matéria em Adão e Eva foi o próprio
Deus. No relato aparecem duas árvores presentes no Édem, uma, a da vida e a outra, do Bem
e do Mal. Quanto à primeira, não a lei para o homem, porém, Deus ordena que o homem não

17
Cf. Mt 17.24-27;
14

coma o fruto da segunda, pois, se fizer isto, certamente morrerá. O ser humano por sua vez
desobedece a Deus e acaba caindo na tentação de comer o fruto proibido, logo, surge o
pecado. Com a presença da arvore da vida, colocada no Édem por Deus, o ser humano não
morre por que é mantido por ela, porém, quando come do fruto do bem e do mal, este agora
sabe distinguir entre bem e mal, tanto que veem que estão nus. Quando comem da árvore do
bem e do mal, Deus esconde a árvore da vida para que o homem não viva eternamente no
pecado, assim, o ser humano não é eterno e o pecado original acompanha a humanidade em
toda a sua história.
A pergunta continua, o pecado se origina do homem ou estava fora do homem? O
pecado surge a partir do momento em que há lei, assim, quando há a desobediência a lei,
nasce o pecado, logo, o ser humano é pecador em sua natureza, pois a carne sempre deseja o
mal. Porém, se Jesus era homem e carne, como este não pecou? Uma das respostas poderia ser
que Jesus não surge de uma relação sexual entre José e Maria, pois, assim, inclusive, seria
criado, porém, Jesus nasce como milagre, concebido pelo Espírito Santo e por isso não está no
pecado original. O apóstolo Paulo afirma em Romanos 5.12-21, por meio de um homem, a
saber, Adão, surge o pecado no mundo e por meio de um homem, Jesus Cristo, o mundo é
redimido de seu mal, assim, Jesus é o segundo Adão, aquele que tinha constantemente em seu
ser a possibilidade de pecar, e, aliás, não era tentado apenas pelo fruto de uma árvore, mas, a
tentação a partir das leis era constante, inclusive, Satanás o tentou a partir de textos do Antigo
Testamento, logo Jesus poderia ter pecado, mas, resistiu, e, mesmo sem pecado, sem culpa,
deixou-se sacrificar na cruz para a expiação dos pecados de todos se tornando pecado,
redimindo a humanidade. Jesus não foi nem se tornou pecador, pois, pecador é o sujeito que
pratica e faz o pecado e Jesus não o fez, não executou este verbo, porém, torna-se, na cruz, o
próprio pecado, pois, levou todos os pecados da humanidade que é pecadora desde Adão. A
nossa mente não mente, pois, esta constantemente julga e da o veredito de culpado, porém, os
que nele creem são redimidos pelo Cristo que sofre em meio ao pecado, em meio ao
sofrimento. A obra de Jesus Cristo na cruz, chamada de graça, livra o ser humano de todo
pecado, os torna santos reconciliados com Deus.18
Assim, Jesus era humano ao ponto de ser o verdadeiro homem a imagem de Deus que
não pecou resistindo ao pecado. O cordeiro perfeito, sem erro e defeito que leva para o
deserto da morte os males do povo19 e juntamente com isto a sua condenação.

18
Cf. 2 Co 5.18-19.
19
Cf. Lv 16.1-28.
15

3.2. O CRISTO COMO DEUS QUE SOFRE

O Credo de Calcedônia formula também que Cristo era verdadeiramente Deus, mesma
substância que o Pai quanto a sua divindade ,20 assim, aquele que nasceu de Maria também foi
posto nela de forma sobrenatural pelo Espírito Santo, portanto, não pode este ser um homem
comum, mas somente aquele que tem poderio para tal milagre o pode realizar.
De fato, em Jesus Cristo temos a encarnação de Deus em homem de forma que toma
sobre si a forma humana não deixando de ser Deus, não perdendo seu poder e sua glória,
assim, continuando como Segunda Pessoa da Trindade, o Filho, gerado pelo Pai antes de
todas as coisas.
Neste contexto, precisa-se olhar para a cosmovisão da época de Jesus Cristo e para a
nossa hoje, pois, a visão das coisas mudou para além do que os olhos podem por si mesmos
enxergar. Na época de Jesus, a visão era em sentido literal que o céu é em cima e neste habita
Deus, a terra no meio onde os seres humanos habitam e embaixo o inferno onde ficam os
firmamentos da terra juntamente com a morada dos demônios. Esta visão fica clara no Credo
Apostólico que traz esta composição, perceba:
Creio em Deus Pai, todo-poderoso, criador do Céu e da Terra.
E em Jesus Cristo, seu Filho Unigênito, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo
Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi
crucificado, morto e sepultado, desceu ao mundo dos mortos, ressuscitou no terceiro
dia, subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso, de onde virá
para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo, na santa igreja Cristã, a comunhão dos santos, na remissão
dos pecados, na ressurreição do corpo e na vida eterna. Amém. 21

Logo, é percebível que a visão de mundo era totalmente diferente da existente hoje.
Através dos recursos tecnológicos, poder-se-ia dizer até que a cosmovisão precisaria ser
atualizada, porém, acredita-se que se deve continuar com a visão existente sabendo o seu
contexto. A partir das descobertas de Copérnico, Galileu, Kepler e outros, sabe-se que o céu
azul na verdade não passa de uma ilusão causada pela atmosfera e que atrás dele não está
Deus, isto em sentido literal, mas, um espaço infinito e obscuro. De fato, o ser humano
conseguiu chegar aos céus com suas máquinas e não encontrou Deus lá. O fato é que
independentemente da realidade inalcançável onde Deus se encontra, é de lá que provém o
lo,goj encarnado em Jesus. Nesta cosmovisão, caso é que Jesus Cristo como Deus encarnado

20
Cf. o tópico 2.1.
21
GRAF, Geraldo e RAMLOW, Leonardo (org.). Nossa igreja – nossa identidade. São Leopoldo: Sinodal,
2012. p. 114. Sublinha minha.
16

em homem “está em ambos os lados do limite que separa o Criador da criação.” 22, ou seja, em
Jesus Cristo, o limite entre Criador e Criatura é partido, pois, agora o próprio Deus se
encontra no meio de suas criaturas, imanente, visível e tocável.
Esta questão de Cristo como Deus é problemática no sofrimento, pois, como Deus
poderia sofrer, pois um Deus que é verdadeiramente Deus não pode sofrer, logo, Jesus não era
Deus, pelo menos esta era a concepção defendida por muitos nos primeiros séculos da Igreja.
Porém, os apóstolos por fim acabam de reconhecer que realmente Deus esteve em carne na
terra e que este se deixou matar. Pedro, em seu discurso no templo, irá afirmar que foi morto
aquele que é o Autor da Vida,23 logo, quem é o autor da vida além do lo,goj que mantém todas
as coisas? Também Paulo afirma que se as pessoas fossem sábias, não teriam crucificado o
Senhor da glória,24 assim, os apóstolos não têm dúvida de que foi o lo,goj quem morreu na
Cruz para os redimir. Também o hino cristológico da epístola de Paulo aos Filipenses denota
que Cristo como Deus “se esvaziou, assumindo a forma se servo, tornando-se sem semelhança
de homens; e, reconhecido em figura humana”,25 ou seja, Deus se esvaziou de seu poder para
ser homem da mesma forma que os humanos são, logo, não significa que se desligou da
Trindade para fazer tal façanha, mas, mesmo assumindo a forma humana, Jesus Cristo
permanece mesma substância com o Pai, perfeito assim tanto em divindade como em
humanidade.
A partir desta compreensão, pode-se crer que somente um Deus que é homem pode
sofrer, caso contrário, não poderia ter sofrido e muito menos morrido, pois, Deus não morre.
A questão do Deus sofredor faz parte de um longo debate e, quanto a isto apenas se pode
repetir as palavras de Paulo: “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem,
mas para nós, que somos salvos, poder de Deus”26 e ainda acrescenta: “Porque tanto os judeus
pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado,
escândalo para os judeus, loucura para os gentios”.27 Desta forma, nem a tradição judaica e
nem a sabedoria grega com sua filosofia pode assimilar em suas categorias o que aconteceu na
cruz, nem admitir que o verdadeiramente Deus e o verdadeiramente homem morreu na cruz,
porém, para os que reconhecem a obra do Deus homem na cruz, estes reconhecem que ali, na
fraqueza de Deus estava na verdade o seu poder, aniquilando todo o pecado, o poder de Deus

22
BRAATEN, Carl E. A pessoa de Jesus Cristo. In: BRAATEN,C.E., & JENSON, R.W., Dogmática Cristã.
São Leopoldo : Sinodal, 1990. p. 512. v.1.
23
Cf. At 3.15.
24
Cf. 1 Co 2.8.
25
Fp 2.7. Cf. o hino cristológico de Filipenses: Fp 2.5-11.
26
1 Co 1.18.
27
1 Co 1.22-23.
17

se mostrou em seu sofrimento a favor de nós seres humanos imerecedores de sua graça. A
loucura da cruz não pode ser entendida, mas, somente aceita pela fé de que o nosso Senhor se
entregou para salvar-nos da morte e do inferno e restaurar a humanidade reconciliando criação
com criador. Somente quem recebeu o dom da fé através do Espírito Santo pode conhecer a
Jesus Cristo como Deus homem.28

28
Cf. 1 Co 12.3.
18

4. PANORAMA DA CRISTOLOGIA ATUAL

Em ocasião da tecnologia, da pós-modernidade e do giro incrível da cosmovisão,


vários aspectos são confusos se não abordados de forma a olhar o contexto a qual se
encontram. Já se discutiu um pouco sobre o problema da cosmovisão, porém, este não é um
dos maiores problemas, todavia, em um mundo secularizado, cheio de verdades, como afirmar
que Jesus Cristo foi realmente quem foi e como atualizar a sua mensagem sem perder seu
valor de caráter absoluto para a humanidade? Neste tópico, serão abordados claramente os
problemas da cristologia atual e qual deve ser a posição dos teólogos e cristãos diante do caos
pós-moderno.

4.1. A UNIVERSALIDADE E EXCLUSIVIDADE DE CRISTO PARA A


SALVAÇÃO

Neste mundo, as pessoas tendem a defender aquilo que acreditam, logo, acreditam
naquilo que acreditam. Em meio a tantas verdades individuais e coletivas, o ser humano se vê
sem rumo quanto à verdade, pois, a verdade está naquilo que o indivíduo acredita.
A ciência com novos conceitos palpáveis tem recebido fiéis e para muitos esta é a
verdade, porém, outros buscam a verdade na sua religião e outros ainda naquilo que lhes faz
bem ou que lhes traz felicidade. Outro rumo ainda é os que caem no hedonismo, ou seja, o
que importa é aproveitar a vida do modo mais prazeroso o possível, aliás, um dia todos irão
morrer então, o hoje deve ser aproveitado ao máximo.
Nesta sopa de verdades encontramos duas possibilidades ao ser humano: 1) ficar sem
rumo, confuso, sem ter aonde ir; 2) defender uma verdade própria e permanecer nela de modo
firme, não levando em conta as “outras verdades”.
Quanto ao cristianismo, este, por sua vez, possui duas tendências no contexto atual: ou
a de universalizar a Cristo ou de entender as outras religiões como também salvíficas. Os
relatos bíblicos não deixam dúvida quanto à exclusividade de Cristo, já que sempre abordam a
ele com artigo definido. Podem-se citar muitos exemplos aqui, mas, ficar-se-á nos principais.
Em At 4.12 tem-se uma passagem importante quanto à exclusividade de Cristo. Está
inserido no contexto em que Pedro e João estão perante o Sinédrio, afirmam que os judeus
crucificaram a Jesus, porém, Deus o ressuscitou dos mortos. Aqui é afirmado que em outro
19

não pode haver salvação, ou seja, não existe nada que possa salvar o homem da perdição além
de Jesus Cristo.
A confissão de Pedro também é importante neste contexto, pois, a confissão é dada por
um contemporâneo de Jesus. Após Jesus perguntar aos discípulos sobre o que as pessoas
dizem que ele é estes respondem um profeta, Elias, etc., porém, quando a pergunta é
direcionada diretamente aos discípulos que seguiam a Jesus e conviviam com ele, a resposta
não poderia ser outra: Tu és o Cristo.29 Não há duvida para Pedro, este fala com artigo
definido que Jesus é o Cristo.
O próprio Jesus por muitas vezes falou de seu senhorio. Em João 14.6 se afirma como
o caminho, a verdade e a vida de forma que ninguém pode chegar ao Pai a não ser por ele.
Jesus também usou artigos definidos, ou seja, não há dúvida, não há margem para outro
salvador, não há outra verdade além do Jesus Cristo morto na cruz. Jesus não é um salvador,
mas, o Salvador.
Mas, além da Bíblia, como poderia se explicar a exclusividade de Jesus Cristo? Esta
pergunta é difícil de responder, pois, não há como provar além das Escrituras que este é o
Salvador, porém, a mensagem contida sobre ele nas escrituras, sublinha diretamente
apontando para sua exclusividade como salvador único da humanidade. Poder-se-ia olhar para
as outras “verdades” e definir que todas elas possuem traços em comum, porém, nenhuma
além do cristianismo aponta para um Deus que morre em favor de sua criação. Em todas elas,
o ser busca o transcendente e no cristianismo, o transcendente e abscôndito se torna imanente
para resgatar e salvar de uma vez por todas o ser humano de seu pecado e sofrimento.
Um ponto importante não pode ser esquecido: do que se está falando quando se
discorre sobre salvação? Pois, salvação nas diferentes culturas, épocas e religiões possuem
significados completamente diferentes. Sobre isso, Carl Braaten afirma que
se salvação é a experiência de iluminação, então Buda pode salvar. Se salvação é a
experiência de união com Deus, então o hinduísmo pode salvar. Se salvação é ser
fiel aos ancestrais, então o xintoísmo pode salvar. Se salvação é revolução contra os
suseranos e igualdade para o povo, então o maoismo pode salvar. Se salvação é
libertação de pobreza e opressão, então o marxismo pode salvar. Se salvação é saúde
psicológica, há salvação não só fora da Igreja, mas também fora das religiões. Se
salvação é o empenho por humanização, desenvolvimento, integridade, justiça, paz,
liberdade, por toda terra, por não sei mais o que, há salvação nas outras religiões,
nas quase religiões e nas ideologias seculares. 30

Assim, percebe-se que salvação está ligada a coisas daqui e com o centro no bem estar
humano, porém, a salvação oferecida pela Bíblia e especialmente pelos evangelhos transcende

29
Cf. Mt 16.13-20; Mc 8.27-30 e Lc 9.18-21.
30
BRAATEN, Carl E. A pessoa de Jesus Cristo. In: BRAATEN,C.E., & JENSON, R.W., Dogmática Cristã.
São Leopoldo : Sinodal, 1990. p. 558. v.1.
20

qualquer tipo de salvação que o mundo poderia oferecer. O ser humano é livrado do inferno,
de sua culpa, de seu fardo por um Deus misericordioso que se compadece de sua criação. A
salvação oferecida por Jesus Cristo na cruz não pode ser repetida por nenhuma outra religião
ou idealismo, mas, tem seu caráter exclusivo.
A salvação encontrada em Cristo não é somente exclusiva, mas, universal. Se Jesus
Cristo é o redentor, então não pode ser um redentor parcial, mas universal. Sua obra salvífica
precisa permanecer para todos em todo o sempre, caso contrário, não poderia ser o único meio
de salvação.
Se existe um medo na humanidade é o de morrer e quanto ao depois da morte.
Enquanto uns acham que a morte simplesmente é o fim, outros acreditam na possibilidade de
vida após a morte. Os cristãos podem ter certeza que na obra redentora de Jesus Cristo, o
ultimo inimigo do ser humano, a saber, a morte, foi vencida e mesmo que morra, um dia será
ressuscitado para o encontro com o Senhor.31 Jesus Cristo possibilita a vida eterna, pois, o ser
humano já não é mais culpado e pode assim estar para sempre com seu Senhor para toda a
eternidade.
Para os cristãos, porém, a eternidade não se encontra longe, não está afastada e não
precisa ser conquistada, pois, já foi comprada no sangre do cordeiro, por isso, a salvação
futura já deve fazer parte do presente do cristão. Na esperança de salvação, deve-se viver com
Deus de forma que hoje ela se faça presente não tendo dúvida da salvação. Porém, o cristão
não deve ficar sentado esperando-a, mas, deve anuncia-la a quem encontrar de forma que as
pessoas possam conhecer este Jesus Cristo que salva de uma vez por todas através da graça.
Jesus deve ser anunciado como o único salvador da qual não se pode abrir mão para nenhum
outro, pois, ou Jesus Cristo é o Salvador ou não pode salvar coisa nenhuma. O ser humano
pode se agarrar nas suas possibilidades, em seus recursos, porém, desde já e no tempo
escatológico, somente um pode possibilitar a salvação, esta que não esta ao alcance dos
homens, mas somente em Jesus Cristo se tem a vida eterna. Desta forma, os cristãos atuais
não devem abrir mão de seu Senhor ou da exclusividade da salvação em Jesus, porém, em
meio às verdades criadas, de permanecer firme no Senhor que deu a vida em favor de
pecadores. A Igreja do Século XXI não pode perder a centralidade de Jesus Cristo.

31
Cf. Jo. 11.25.
21

CONCLUSÃO

Percebeu-se na construção deste trabalho que Cristo é um tema fundamental a ser


discutido e lembrado no meio teológico, pois, na pós-modernidade, podem surgir concepções
distorcidas e a atualidade também é propícia a heresias e distorções como aconteceu nos
primeiros anos da Igreja. A Igreja Cristã deve saber em quem crê para também anunciar o
verdadeiro Jesus Cristo descrito na Bíblia, aquele a qual é o único por meio da qual se pode
ter a salvação, não obtida pelo ser humano, mas recebida pela fé como dádiva de Deus que
alcança o ser humano limitado em si mesmo.
Embora o oceano da história e os avanços da ciência, a Igreja Cristã necessita cuidar
para não perder a centralidade de Jesus Cristo, pois, este está no centro da Trindade e é por
meio dele que são feitas todas as coisas. Ou a Igreja Cristã coloca Jesus Cristo no centro de
sua fé ou esta já não pode mais ser chamada de Cristã.
Deseja-se ao leitor que procure estudar e conhecer este Deus humano que de forma
louca encarna na matéria e morre para redimir a sua criação. Que o leitor possa ter convicção
na sua fé e ter a certeza da salvação em Cristo Jesus, o Senhor.
22

REFERÊNCIAS

BÍBLIA. Português. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e atualizada no Brasil. 2.


ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

BRAATEN,C.E., & JENSON, R.W., Dogmática Cristã. São Leopoldo : Sinodal, 1990. v.1.

CASTELO FORTE. Devocional. ano: 1983.Meditação do dia 27/11. São Leopoldo: Sinodal.

GRAF, Geraldo e RAMLOW, Leonardo (org.). Nossa igreja – nossa identidade. São
Leopoldo: Sinodal, 2012.

CULTO DE AÇÃO DE GRAÇAS. 11/11/2012. São Bento do Sul: MEUC. Pregação: Euler
Renato Westphal.

O ORIENTE E O OCIDENTE. Documentário apresentado na TV ESCOLA – O Canal da


Educação – no dia 13/10/2012, das 20:56 às 21:30.

NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft,


1993.

VOGEL, Heinrich. Gesammelte Werke. Cristologie. Band 5. Stuttgart: RADIUS-Verlag,


1983.

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