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Guia básico de neurociência

"Neurociência" é um termo guarda-chuva que engloba todas as áreas da ciência - biologia, fisiologia,
medicina, física, psicologia - que se interessam pelo sistema nervoso: sua estrutura, função,
desenvolvimento, evolução, e disfunções.

A hipótese de trabalho mais fundamental da neurociência é que o que somos, fazemos, pensamos e
desejamos é resultado do funcionamento do sistema nervoso e sua interação com o corpo. Toda a
pesquisa em neurociência é atualmente baseada nessa premissa, e busca entender justamente como a
estrutura e funcionamento do sistema nervoso, juntamente com a história de vida de cada um, a
cultura, a sociedade, e a genética fazem de nós o que somos, individualmente, como seres humanos, e
como animais.

Os princípios básicos de organização e funcionamento do sistema nervoso que você encontra aqui estão
apresentados segundo a concepção da neurocientista Suzana Herculano-Houzel (UFRJ), e oferecem
apenas uma visão esquemática, embora abrangente, do sistema nervoso. Se você deseja obter
informações mais detalhadas, procure um livro-texto (nós indicamos alguns para você aqui).

 O que é o sistema nervoso?


Você provavelmente aprendeu na escola que o sistema nervoso é o conjunto de órgãos que "detectam
estímulos e organizam respostas a eles". Na verdade, ele faz muito mais que isso... descubra aqui o quê!

O que é o sistema nervoso?

Um sistema é um conjunto de órgãos e estruturas que têm uma função em comum. Visto assim, o
sistema nervoso é o conjunto de órgãos que têm em comum a função de integrar e regular
rapidamente o funcionamento do corpo, permitindo não só que o indivíduo atue como um conjunto,
mas também de maneira ajustada ao ambiente, à sua história de vida e às suas projeções para o
futuro.

O sistema nervoso é capaz de fazer isso devido à estrutura de seus órgãos e tecidos, compostos por
células capazes de detectar variações de energia, transformá-las em sinais químicos e
elétricos e transmiti-los rapidamente a outras partes do próprio sistema nervoso e do corpo. Por
sua rapidez e flexibilidade o sistema nervoso difere de outro sistema integrador do organismo: o
sistema endócrino, de ação também global, porém lenta (da ordem de minutos, horas ou dias).

Uma das funções do sistema nervoso de fato é permitir aos animais a detecção de estímulos e
aorganização de respostas coordenadas do organismo a eles, como dizem os livros-texto. Mas um
sistema nervoso complexo o suficiente faz muito mais do que apenas isso (detectar estímulos e produzir
respostas a eles, afinal, é coisa que até uma bactéria faz): um ser que fizesse apenas isso estaria
condenado a viver somente no presente.

Ao contrário, o sistema nervoso complexo o suficiente (como o nosso, mas também de animais como
ratos e camundongos, e até de insetos) dota o indivíduo de passado e futuro, ao torná-lo capaz de
aprender novas associações; de lembrar dessas associações, e também de seus efeitos sobre o corpo; e
de usar essas informações para fazer projeções para o futuro. Desse modo, mesmo as respostas ao
presente levam em consideração as experências passadas e o que se antecipa para o futuro - racional e
emocionalmente.
 Princípios de organização
Leia sobre a divisão em sistema nervoso central e periférico; neurônios e glia; sinapses e transmissão
sináptica; a diferença entre as substâncias branca e cinzenta; as divisões principais do sistema nervoso;
e os vários sistemas funcionais

Princípios de organização

Os mais
variados sistemas nervosos têm algumas características em comum, sinal de que compartilham sua
origem de um ancestral comum:

- Todos são compostos de células excitáveis (os neurônios) e de um segundo tipo celular associado (as
células da glia);

- Em todos eles, os neurônios usam substâncias químicas (neurotransmissores e neuromoduladores) como


intermediários para trocar informações e assim afetar a atividade uns dos outros;

- Todos possuem células capazes de detectar e sinalizar mudanças de energia no ambiente e/ou no
corpo, respondendo diretamente a elas (os receptores sensoriais e neurônios sensoriais);

- Todos possuem células (os neurônios efetores) capazes de efetuar mudanças no corpo, como contração
muscular, secreção glandular, ou mudanças na atividade de órgãos internos;

- Em todos eles, os neurônios se organizam em estruturas que fazem a interface sensorial com o corpo;
que integram essa informação; e que fazem a interface efetora com o corpo; e

- Todos permitem, assim, o funcionamento integrado do corpo como um todo e de maneira coerente
com o seu passado individual.

SN central e periférico
Conheça os critérios para a principal divisão anatômica e funcional do sistema nervoso: a divisão em SN
central e SN periférico

Sistema nervoso central e periférico


Sistema nervoso central

Sistema nervoso periférico


Sistema nervoso periférico
Nos vertebrados, a distinção entre as duas divisões do sistema nervoso adulto é simples: o
sistema nervoso central (SNC) compreende todo o tecido nervoso encontrado dentro de
caixas ósseas (o crânio e a coluna vertebral), enquanto o sistema nervoso periférico (SNP)
compreende todo o tecido nervoso restante, situado fora do crânio e da coluna vertebral -
portanto, todos os nervos e gânglios do corpo.

Em geral, isso coincide bastante bem com o critério embrionário de divisão entre SNC e SNP:
todas as estruturas do SNC são derivadas de progenitores que formam as paredes do tubo
neural, enquanto as estruturas do SNP são derivadas da crista neural, um conjunto de células
progenitoras que se descolam do tubo neural assim que ele se fecha. Como os progenitores
formados pela crista neural migram ao longo dos segmentos em formação do corpo, os
neurônios que eles formam acabam se situando fora das caixas ósseas no adulto.

A exceção curiosa à correspondência entre tubo neural-dentro de caixas ósseas e crista


neural-fora de caixas ósseas é a retina, a porção sensorial dos olhos, que tem origem no tubo
neural e portanto faz parte do SNC, mas acaba se situando fora do crânio ao longo do
desenvolvimento.

A divisão entre SNC e SNP é mais do que mero recurso didático ou semântico. As
características estruturais dos neurônios diferem entre as duas divisões, e as células da glia
são estrutural e funcionalmente diferentes também. Um dos resultados dessas diferenças é
que os axônios do SNP são capazes de se regenerar espontaneamente quando lesionados,
enquanto os axônios do SNC precisam de ajuda da ciência para tal.

Neurônios
Existem neurônios de vários tipos - mas várias coisas eles têm em comum

Neurônios

Neurônios são as unidades


funcionais do sistema nervoso: são eles as células excitáveis cuja atividade elétrica é
comunicada a outras células, mesmo a um metro de distância (por exemplo, para levar
informação da medula espinhal até o seu dedão do pé). Essa comunicação é direcional- ou
seja, tem sentido de entrada e saída em cada neurônio - devido à estrutura dos neurônios e à
distribuição de receptores e canais iônicos em sua superfície. Assim, neurônios recebem sinais
pelos dendritos; integram esses sinais nos dendritos e nocorpo celular; e, dependendo do
resultado dessa integração, disparam potenciais de ação em seu axônio, que transmite a
atividade aos neurônios seguintes.

Como resultado da excitabilidade dos neurônios e da conectividade entre eles (axônio de um


sobre os dendritos dos outros), a atividade de um neurônio influencia a dos outros - e, por sua
vez, é influenciada pela atividade de dezenas, centenas ou mesmo milhares deles. Como são
raríssimos os neurônios que ficam silenciosos por mais do que uns poucos segundos, é possível
pensar no sistema nervoso como um conjunto de neurônios permanentemente ativos,
trocando sinais o tempo todo - até que a morte os cale.
Glia
Mais do que simples "o outro tipo de células do cérebro", as células da glia - astrócitos, oligodendrócitos,
células de Schwann ou micróglia - são fundamentais para o funcionamento adequado dos neurônios. E
não, o cérebro humano não tem 10 vezes mais glia do que neurônios (em construção)

Sinapses
Estes são os locais, várias vezes um "espaço", onde dois neurônios trocam sinais químicos entre si - quer
dizer, onde ocorre a transmissão sináptica.

Sinapses

A atividade elétrica de um neurônio, distribuída por seu axônio, pode se espalhar diretamente
a neurônios vizinhos que tenham contato físico (e portanto elétrico) com aquele neurônio.
Isso acontece com bastante frequência no sistema nervoso durante a gestação. No entanto, a
maioria dos neurônios no sistema nervoso da criança ou adulto não têm continuidade elétrica
entre si: ao contrário, eles são separados por fendas, o que impede a passagem de
eletricidade diretamente de um para o outro (como dizia meu professor de química, elétrons
não nadam!).

O que permite que a atividade elétrica de um neurônio influencie a atividade elétrica do


neurônio seguinte é a transmissão sináptica, o processo de transformação de um sinal
elétrico em um sinal químico, e deste sinal químico de volta em um sinal elétrico - agora, no
neurônio do outro lado da sinapse. A sinapse, portanto, é esse local onde a atividade de um
neurônio é capaz de influenciar a atividade do outro neurônio.
Transmissão sináptica

No neurônio
pré-sináptico (ou seja, o que transmite sinal), a chegada de um potencial de ação (o sinal
elétrico) à extremidade do axônio provoca uma alteração em proteínas sensíveis à voltagem
da membrana celular.
Isso leva à entrada de cálcio no terminal pré-sináptico, o que
por sua vez faz com que vesículas contendo substâncias químicas se fusionem com a
membrana da célula, liberando seu conteúdo do lado de fora do terminal - ou seja, na fenda
sináptica.

Essas substâncias liberadas são os neurotransmissores, ou neuromoduladores, dependendo


de sua ação sobre a célula pós-sináptica.

A célula pós-sináptica (a que recebe sinais) possui receptores


em sua membrana: proteínas que detectam a presença de neurotransmissores ou
neuromoduladores e mudam sua forma como resultado, disparando assim mudanças químicas
e/ou elétricas no neurônio pós-sináptico.
No caso ilustrado, a ligação do neurotransmissor ao receptor faz
com que este se abra, formando um canal na membrana do neurônio pós-sináptico.

A abertura de
vários canais ao mesmo tempo provoca uma modificação na voltagem do neurônio pós-
sináptico que é propagada até o corpo da célula, onde fica o núcleo. Se um número suficiente
de sinapses - de um só neurônio pré-sináptico, ou, mais comumente, de vários neurônios pré-
sinápticos ao mesmo tempo - forem acionados e produzirem uma mudança grande o suficiente
na voltagem da célula pós-sináptica, esta pode chegar a disparar potenciais de ação e, assim,
passar o sinal adiante para outros neurônios.
Ao mesmo
tempo que a transmissão sináptica segue adiante do neurônio pós-sináptico, o neurônio pré-
sináptico reconstrói suas vesículas sinápticas e as enche de novo, com neurotransmissor novo
e também com as moléculas recolhidas (recaptadas) do espaço sináptico.

Disso é feito o funcionamento do cérebro: da transmissão constante de sinais elétricos e


químicos de um lado para outro. O que você faz, pensa ou sente a cada instante depende
de quais neurônios estão mais ou menos ativos a cada instante.

Substâncias branca e cinzenta


Conheça a distinção entre os dois tipos de tecido nervoso e suas subdivisões em núcleos, redes, córtex,
nervos, fibras, tratos...

Substâncias branca e cinzenta


Os neurônios
não se distribuem igualmente por todo o tecido nervoso. Seus corpos celulares (que contêm o
núcleo da célula) e os dendritos (que são arborizações locais) se agrupam em algumas regiões
do encéfalo e da medula espinhal, que por isso adquirem uma coloração mais intensa. Não
cinzenta, curiosamente, e sim rosada - mas como o tecido nervoso perde a cor ao ficar fixado
muito tempo, aos poucos essas regiões vão se tornando cinzentas. Por isso são chamadas
genericamente de substância cinzenta. Na substância cinzenta, os corpos celulares dos
neurônios podem ficar agrupados em camadas (e então ela se chama córtex), em
aglomerados globosos (e então ela se chama núcleo), ou podem ficar dispersos, sem nenhuma
organização particular (e nesse caso se diz que a estrutura é uma rede, ou retículo,
ou formação reticular).
Outras regiões do tecido nervoso podem conter quase exclusivamente axônios de neurônios.
Quando esses axônios são revestidos de mielina, o tecido ganha uma coloração esbranquiçada
(na verdade, amarelada - mas esse tecido também desbota com a fixação, ficando
esbranquiçado): daí o nome de substância brancaque essas estruturas recebem. A substância
branca, portanto, é uma região de conectividade entre partes do sistema nervoso. No sistema
nervoso central, os feixes de axônios na substância branca são chamados, dependendo do
calibre, de tratos ou fascículos; já no sistema nervoso periférico, feixes de axônios são
chamados de nervos.

Divisões principais
Encéfalo e medula espinhal; telencéfalo, diencéfalo, mesencéfalo, ponte, bulbo, cerebelo... o que são
esses nomes, e o que faz cada estrutura?

Divisões principais do sistema nervoso central


O sistema nervoso central é dividido em duas grandes porções: encéfalo e medula espinhal.
Encéfalo
O encéfalo, conjunto de tecidos nervosos dentro da caixa craniana, pode ser dividido em três
grandes estruturas: océrebro (formado pelo telencéfalo e pelo diencéfalo), o cerebelo(na
parte posterior no encéfalo, na nuca) e otronco encefálico(formado por mesencéfalo, ponte
e bulbo).

Essas divisões correspondem às porções do tubo neural de onde elas se originam no


desenvolvimento do sistema nervoso. A aparência complexa do encéfalo adulto esconde o
fato de ser todo ele organizado, na verdade, como um grande tubo. O telencéfalo é a porção
mais anterior, seguida de diencéfalo, mesencéfalo, ponte e bulbo; o cerebelo se forma por
trás, da junção de parte das estruturas que dão origem ao tronco encefálico.

Telencéfalo
A porção mais anterior, o telencéfalo, é a que ocupa o maior espaço no cérebro humano,
devido ao grande tamanho do córtex cerebral. A ele chegam todos os sinais que vêm do corpo
pelo tronco encefálico e diencéfalo. O córtex cerebral processa todos esses sinais ao mesmo
tempo, além de seus próprios sinais internos relacionados a memórias, valores e projeções
para o futuro, agregando complexidade e flexibilidade ao comportamento.

O telencéfalo é composto pelo córtex cerebral, pela amígdala (que, como você vê, não é a
da garganta, que para evitar confusões agora se chama tonsila) e pelo estriado. Estas últimas
duas estruturas são internas (ou "subcorticais), ocultas sob o córtex cerebral. Este, por sua
vez, pode ser dividido didaticamente em 5 lobos:
- o lobo occipital é o
mais

posterior, responsável pela visão;


- o lobo parietal fica imediatamente posterior ao sulco central, a dobra mais profunda do
córtex, e processa todos os sinais relacionados ao espaço corporal, inclusive a qual parte
desse espaço dedicamos nossa atenção;
- o lobo temporal se destaca na lateral do cérebro, abaixo de outra grande dobra (o sulco
lateral), e processa informações auditivas, visuais, e ainda participa da representação da
identidade pessoal (self) e do julgamento moral;
- o lobo frontal corresponde a toda a porção do córtex anterior ao sulco central. Aqui estão
as áreas do córtex que organizam o comportamento, desde a elaboração de metas e
estratégias, passando pela representação de valores e tomada de decisões, incluindo
julgamentos morais, até o comando dos movimentos propriamente ditos;
- o lobo da ínsula, não mostrado na figura, é uma dobra interna do córtex (donde o nome,
que significailha), responsável por monitorar em permanência o estado funcional do corpo, e
portanto as emoções, gerando informações que são então usadas pelo lobo frontal para
ajustar o comportamento ao nosso estado interno.

Diencéfalo
A segunda divisão do encéfalo na ordem rostro-caudal é o diencéfalo, formado por vários
núcleos. Os maiores são os que, em conjunto, formam o tálamo, passagem obrigatória para
quase toda a informação que é encaminhada ao córtex cerebral. Abaixo dele fica
o hipotálamo, estrutura vital que recebe o tempo todo informações sobre o estado funcional
do corpo e regula todos os sistemas que são capazes de modificar o funcionamento do corpo,
inclusive através do comportamento. Acima do tálamo fica a glândula pineal, ou epitálamo,
que também ajuda a integrar o funcionamento de corpo e cérebro. Outras estruturas do
diencéfalo são os globos pálidos, parte dos núcleos da base juntamente com o estriado
telencefálico, e o núcleo subtalâmico.

Mesencéfalo

O mesencéfalo é a porção seguinte no eixo encefálico, composto de vários pequenos núcleos,


vários dos quais integram funções sensoriais e motoras; de outros com função moduladora; e
de grandes feixes de fibras que interligam o córtex cerebral ao cerebelo e à medula espinhal.
Aqui ficam por exemplo oscolículos, que usam informação visual e auditiva para comandar
movimentos elementares de orientação, como o reposicionamento dos olhos e orelhas (para
os animais que conseguem movê-las!); o núcleo deEdinger-Westphal, que comanda a
acomodação dos olhos, e o núcleo do nervo oculo-motor, que comanda os movimentos
laterais dos olhos; e a substância negra e a área tegmentar ventral vizinha, fontes da
dopamina que modula a motivação e a regulação dos movimentos.
Ponte e bulbo
A ponte e o bulbo são as porções mais caudais do eixo do encéfalo, contíguas à medula
espinhal, e com algumas funções semelhantes às da medula, como a primeira integração de
informações sensoriais antes de encaminhá-las ao cérebro e o controle dos músculos da
cabeça. Além disso, e à diferença da medula, na ponte e no bulbo estão pequenos núcleos
com uma função fundamental: modificar o funcionamento de todo o sistema nervoso
central, fazendo-o entrar no estado de vigília (acordado), de sono, e todos os sub-estados.

Cerebelo
Ele responde sozinho por apenas 10% do volume encefálico, mas 80% de todos os neurônios
que temos dentro do crânio. Tantos neurônios parecem estar relacionados à função do
cerebelo: monitorar e ajustar, em tempo real, o funcionamento do córtex cerebral.

Sistemas funcionais
Uma maneira didática de reconhecer a organização funcional do sistema nervoso em conjuntos de
estruturas com funções em comum (em construção, volte em breve!)

 Princípios de funcionamento
Seu cérebro funciona o tempo todo ou não? Todas as partes são equivalentes, ou cada uma tem uma
função diferente? Quão flexível é a função de cada parte do cérebro? Leia aqui sobre metabolismo do
cérebro, divisão de tarefas, e plasticidade cerebral

 Sensores e efetores
Conheça a organização e função dos sistemas sensoriais (são sete, não cinco!) e dos sistemas efetores
(motor e visceral) (em construção)

 Mais que estímulo-resposta


Seu sistema nervoso faz muito mais do que simplesmente "detectar estímulos e organizar respostas a
eles". Veja aqui a importância da atenção, do aprendizado e da memória, das emoções, da valoração
positiva e negativa, da tomada de decisões, e dos sistemas que tornam possível a vida em sociedade

 Do começo ao fim
Conheça as várias versões do sistema nervoso ao longo da vida de um indivíduo, da gestação à velhice,
passado pela infância, adolescência, e maturidade (em construção)

 Disfunções
Conheça as mil e uma (ou mais) maneiras de tudo dar errado - e dê mais valor ao cérebro que você tem!

 Tratamentos
O que fazer quando algo não vai bem? Quando procurar ajuda, e de que tipo? (em construção)

O Sistema Nervoso
O SNC recebe, analisa e integra informações. É o local onde ocorre a tomada de
decisões e o envio de ordens. O SNP carrega informações dos órgãos sensoriais para o
sistema nervoso central e do sistema nervoso central para os órgãos efetores (músculos e
glândulas).

O Sistema Nervoso Central


O SNC divide-se em encéfalo e medula. O encéfalo corresponde ao telencéfalo
(hemisférios cerebrais), diencéfalo (tálamo e hipotálamo), cerebelo, e tronco cefálico, que se
divide em: BULBO, situado caudalmente; MESENCÉFALO, situado cranialmente; e
PONTE, situada entre ambos.

No SNC, existem as chamadas substâncias cinzenta e branca. A substância cinzenta


é formada pelos corpos dos neurônios e a branca, por seus prolongamentos. Com exceção do
bulbo e da medula, a substância cinzenta ocorre mais externamente e a substância branca,
mais internamente.
Os órgãos do SNC são protegidos por estruturas esqueléticas (caixa craniana,
protegendo o encéfalo; e coluna vertebral, protegendo a medula - também
denominada raque) e por membranas denominadas meninges, situadas sob a proteção
esquelética: dura-máter (a externa), aracnóide (a do meio) e pia-máter (a interna). Entre
as meninges aracnóide e pia-máter há um espaço preenchido por um líquido
denominado líquido cefalorraquidiano ou líquor.
O TELENCÉFALO
O encéfalo humano contém cerca de 35 bilhões de neurônios e pesa aproximadamente
1,4 kg. O telencéfalo ou cérebro é dividido em dois hemisférios cerebrais bastante
desenvolvidos. Nestes, situam-se as sedes da memória e dos nervos sensitivos e motores.
Entre os hemisférios, estão os VENTRÍCULOS CEREBRAIS (ventrículos laterais e terceiro
ventrículo); contamos ainda com um quarto ventrículo, localizado mais abaixo, ao nível do
tronco encefálico. São reservatórios do LÍQUIDO CÉFALO-RAQUIDIANO, (LÍQÜOR),
participando na nutrição, proteção e excreção do sistema nervoso.
Em seu desenvolvimento, o córtex ganha diversos sulcos para permitir que o cérebro
esteja suficientemente compacto para caber na calota craniana, que não acompanha o seu
crescimento. Por isso, no cérebro adulto, apenas 1/3 de sua superfície fica "exposta", o
restante permanece por entre os sulcos.
O córtex cerebral está dividido em mais de quarenta áreas funcionalmente distintas,
sendo a maioria pertencente ao chamado neocórtex.

Cada uma das áreas do córtex cerebral controla uma atividade específica.
1. hipocampo: região do córtex que está dobrada sobre si e possui
apenas três camadas celulares; localiza-se medialmente ao ventrículo lateral.
2. córtex olfativo: localizado ventral e lateralmente ao hipocampo;
apresenta duas ou três camadas celulares.
3. neocórtex: córtex mais complexo; separa-se do córtex olfativo
mediante um sulco chamado fissura rinal; apresenta muitas camadas celulares e
várias áreas sensoriais e motoras. As áreas motoras estão intimamente envolvidas
com o controle do movimento voluntário.
Imagem: McCRONE, JOHN. Como o cérebro funciona. Série Mais Ciência. São Paulo, Publifolha, 2002.

A região superficial do telencéfalo, que acomoda bilhões de corpos celulares de


neurônios (substância cinzenta), constitui o córtex cerebral, formado a partir da fusão das
partes superficiais telencefálicas e diencefálicas. O córtex recobre um grande centro medular
branco, formado por fibras axonais (substância branca). Em meio a este centro branco (nas
profundezas do telencéfalo), há agrupamentos de corpos celulares neuronais que formam
os núcleos (gânglios) da base ou núcleos (gânglios) basais - CAUDATO, PUTAMEN,
GLOBO PÁLIDO e NÚCLEO SUBTALÂMICO, envolvidos em conjunto, no controle do
movimento. Parece que os gânglios da base participam também de um grande número de
circuitos paralelos, sendo apenas alguns poucos de função motora. Outros circuitos estão
envolvidos em certos aspectos da memória e da função cognitiva.
Imagem: BEAR, M.F., CONNORS, B.W. & PARADISO, M.A. Neurociências – Desvendando o Sistema
Nervoso. Porto Alegre 2ª ed, Artmed Editora, 2002.

Algumas das funções mais específicas dos gânglios basais relacionadas aos
movimentos são:
1. núcleo caudato: controla movimentos intencionais grosseiros do
corpo (isso ocorre a nível sub-consciente e consciente) e auxilia no controle global
dos movimentos do corpo.
2. putamen: funciona em conjunto com o núcleo caudato no controle de
movimentos intensionais grosseiros. Ambos os núcleos funcionam em associação
com o córtex motor, para controlar diversos padrões de movimento.
3. globo pálido: provavelmente controla a posição das principais partes
do corpo, quando uma pessoa inicia um movimento complexo, Isto é, se uma pessoa
deseja executar uma função precisa com uma de suas mãos, deve primeiro colocar
seu corpo numa posição apropriada e, então, contrair a musculatura do braço.
Acredita-se que essas funções sejam iniciadas, principalmente, pelo globo pálido.
4. núcleo subtalâmico e áreas associadas: controlam possivelmente os
movimentos da marcha e talvez outros tipos de motilidade grosseira do corpo.
Evidências indicam que a via motora direta funciona para facilitar a iniciação de
movimentos voluntários por meio dos gânglios da base. Essa via origina-se com uma
conexão excitatória do córtex para as células do putamen. Estas células estabelecem
sinapses inibitórias em neurônios do globo pálido, que, por sua vez, faz conexões inibitórias
com células do tálamo (núcleo ventrolateral - VL). A conexão do tálamo com a área motora
do córtex é excitatória. Ela facilita o disparo de células relacionadas a movimentos na área
motora do córtex. Portanto, a conseqüência funcional da ativação cortical do putâmen é a
excitação da área motora do córtex pelo núcleo ventrolateral do tálamo.

Imagem: BEAR, M.F., CONNORS, B.W. & PARADISO, M.A. Neurociências – Desvendando o Sistema
Nervoso. Porto Alegre 2ª ed, Artmed Editora, 2002.

O DIENCÉFALO (tálamo e hipotálamo)

Todas as mensagens sensoriais, com exceção das provenientes dos receptores do


olfato, passam pelo tálamo antes de atingir o córtex cerebral. Esta é uma região de
substância cinzenta localizada entre o tronco encefálico e o cérebro. O tálamo atua como
estação retransmissora de impulsos nervosos para o córtex cerebral. Ele é responsável pela
condução dos impulsos às regiões apropriadas do cérebro onde eles devem ser processados.
O tálamo também está relacionado com alterações no comportamento emocional; que
decorre, não só da própria atividade, mas também de conexões com outras estruturas do
sistema límbico (que regula as emoções).
O hipotálamo, também constituído por substância cinzenta, é o principal centro
integrador das atividades dos órgãos viscerais, sendo um dos principais responsáveis pela
homeostase corporal. Ele faz ligação entre o sistema nervoso e o sistema endócrino, atuando
na ativação de diversas glândulas endócrinas. É o hipotálamo que controla a temperatura
corporal, regula o apetite e o balanço de água no corpo, o sono e está envolvido na emoção e
no comportamento sexual. Tem amplas conexões com as demais áreas do prosencéfalo e
com o mesencéfalo. Aceita-se que o hipotálamo desempenha, ainda, um papel nas emoções.
Especificamente, as partes laterais parecem envolvidas com o prazer e a raiva, enquanto que
a porção mediana parece mais ligada à aversão, ao desprazer e à tendência ao riso
(gargalhada) incontrolável. De um modo geral, contudo, a participação do hipotálamo é
menor na gênese (“criação”) do que na expressão (manifestações sintomáticas) dos estados
emocionais.
O TRONCO ENCEFÁLICO
O tronco encefálico interpõe-se entre a medula e o diencéfalo, situando-se
ventralmente ao cerebelo. Possui três funções gerais; (1) recebe informações sensitivas de
estruturas cranianas e controla os músculos da cabeça; (2) contém circuitos nervosos que
transmitem informações da medula espinhal até outras regiões encefálicas e, em direção
contrária, do encéfalo para a medula espinhal (lado esquerdo do cérebro controla os
movimentos do lado direito do corpo; lado direito de cérebro controla os movimentos do
lado esquerdo do corpo); (3) regula a atenção, função esta que é mediada pela formação
reticular (agregação mais ou menos difusa de neurônios de tamanhos e tipos diferentes,
separados por uma rede de fibras nervosas que ocupa a parte central do tronco encefálico).
Além destas 3 funções gerais, as várias divisões do tronco encefálico desempenham funções
motoras e sensitivas específicas.
Na constituição do tronco encefálico entram corpos de neurônios que se agrupam em
núcleos e fibras nervosas, que, por sua vez, se agrupam em feixes denominados tractos,
fascículos ou lemniscos. Estes elementos da estrutura interna do tronco encefálico podem
estar relacionados com relevos ou depressões de sua superfície. Muitos dos núcleos do
tronco encefálico recebem ou emitem fibras nervosas que entram na constituição dos nervos
cranianos. Dos 12 pares de nervos cranianos, 10 fazem conexão no tronco encefálico.
Imagem: ATLAS INTERATIVO DE ANATOMIA HUMANA. Artmed Editora.

O CEREBELO
Situado atrás do cérebro está o cerebelo, que é primariamente um centro para o
controle dos movimentos iniciados pelo córtex motor (possui extensivas conexões com o
cérebro e a medula espinhal). Como o cérebro, também está dividido em dois hemisférios.
Porém, ao contrário dos hemisférios cerebrais, o lado esquerdo do cerebelo está relacionado
com os movimentos do lado esquerdo do corpo, enquanto o lado direito, com os
movimentos do lado direito do corpo.
O cerebelo recebe informações do córtex motor e dos gânglios basais de todos os
estímulos enviados aos músculos. A partir das informações do córtex motor sobre os
movimentos musculares que pretende executar e de informações proprioceptivas que recebe
diretamente do corpo (articulações, músculos, áreas de pressão do corpo, aparelho vestibular
e olhos), avalia o movimento realmente executado. Após a comparação entre desempenho e
aquilo que se teve em vista realizar, estímulos corretivos são enviados de volta ao córtex
para que o desempenho real seja igual ao pretendido. Dessa forma, o cerebelo relaciona-
se com os ajustes dos movimentos, equilíbrio, postura e tônus muscular.

Algumas estruturas do encéfalo e suas funções

Córtex Cerebral
Funções:

• Pensamento
• Movimento
voluntário
• Linguagem
• Julgamento
• Percepção
A palavra córtex vem do latim para "casca". Isto porque o
córtex é a camada mais externa do cérebro. A espessura do córtex
cerebral varia de 2 a 6 mm. O lado esquerdo e direito do córtex
cerebral são ligados por um feixe grosso de fibras nervosas
chamado de corpo caloso. Os lobos são as principais divisões
físicas do córtex cerebral. O lobo frontal é responsável pelo
planejamento consciente e pelo controle motor. O lobo temporal
tem centros importantes de memória e audição. O lobo parietal
lida com os sentidos corporal e espacial. o lobo occipital direciona
a visão.

Cerebelo
Funções:

• Movimento
• Equilíbrio
• Postura

• Tônus muscular
A palavra cerebelo vem do latim para "pequeno cérebro”. O
cerebelo fica localizado ao lado do tronco encefálico. É parecido
com o córtex cerebral em alguns aspectos: o cerebelo é dividido
em hemisférios e tem um córtex que recobre estes hemisférios.

O
Tronco Encefálico Tronco
Funções:

• Respiração
• Ritmo dos batimentos
cardíacos
• Pressão Arterial

Mesencéfalo
Funções:

• Visão
• Audição
• Movimento dos Olhos
• Movimento do corpo
Encefálico é uma área do encéfalo que fica entre o
tálamo e a medula espinhal. Possui várias estruturas
como o bulbo, o mesencéfalo e a ponte. Algumas destas
áreas são responsáveis pelas funções básicas para a
manutenção da vida como a respiração, o batimento
cardíaco e a pressão arterial.
Bulbo: recebe informações de vários órgãos do
corpo, controlando as funções autônomas (a chamada
vida vegetativa): batimento cardíaco, respiração,
pressão do sangue, reflexos de salivação, tosse, espirro
e o ato de engolir.
Ponte: Participa de algumas atividades do bulbo,
interferindo no controle da respiração, além de ser um
centro de transmissão de impulsos para o cerebelo.
Serve ainda de passagem para as fibras nervosas que
ligam o cérebro à medula.

O tálamo recebe
informações sensoriais do
corpo e as passa para o córtex
Tálamo cerebral. O córtex cerebral
envia informações motoras
Funções: para o tálamo que
posteriormente são
• Integração distribuídas pelo corpo.
Sensorial Participa, juntamente com o
tronco encefálico, do sistema
• Integração Motora reticular, que é encarregado de
“filtrar” mensagens que se dirigem às partes conscientes do
cérebro.

Sistema Límbico
Funções:

• Comportamento
Emocional
• Memória
• Aprendizado
• Emoções

• Vida vegetativa
(digestão,
circulação,
excreção etc.)

O Sistema Límbico é um grupo de estruturas que inclui


hipotálamo, tálamo, amígdala, hipocampo, os corpos mamilares e
o giro do cíngulo. Todas estas áreas são muito importantes para a
emoção e reações emocionais. O hipocampo também é importante
para a memória e o aprendizado.