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REVISTA ÍBAMÒ – Rio de Janeiro, vol. 1, nº 1, p.

105-115, Novembro de 2018

CONHECER, SER, TRANSFORMAR: REFLEXÃO SOBRE


UMA PESQUISA INTERVENÇÃO COM MULHERES CAPOEIRISTAS

Christine Nicole Zonzon1

Palavras chaves: capoeira, gênero, experiência, militância

KNOWING, BEING, TRANSFORMING: REFLECTIONS ON A RESEARCH


INTERVENTION WITH CAPOEIRISTA WOMEN
Key words: capoeira, gender, research, experience, activism

CONOCER, SER Y TRANSFORMAR: REFLEXIONES SOBRE UNA


INVESTIGACIÓN-INTERVENCIÓN CON MUJERES CAPOEIRISTAS

ÍBAMÒ – Instituto Brasil África de Mobilização Cultural e Ambiental – 20 de Novembro de 2018.


Palabras clave: capoeira, género, investigación, experiencia, militancia

Proponho nesse ensaio partilhar algumas reflexões sobre o universo da capoeira


em duas dimensões que interessam as/os pesquisadoras/es capoeiristas: o
delineamento metodológico das pesquisas sobre capoeira e os contornos da capoeira
que praticamos e recriamos hoje. Com efeito, muitos entre os que desenvolvem
estudos no campo da capoeira são também capoeiristas e se deparam, portanto, com
questões metodológicas e éticas decorrentes desse duplo pertencimento, precisando
atender às injunções do mundo da ciência sem deturpar os conhecimentos e
compromissos oriundos da experiência na capoeira e vice-versa. O que torna essa
equação ainda mais complexa, vale lembrar, é que nos dois campos (o científico e o
da capoeira) estamos inseridos em relações hierárquicas, em regras implícitas ou
explícitas, em interesses e relações de poder que moldam as ações e a produção do
conhecimento. Por outro lado, a inserção nos dois campos pode conferir maior
relevância e aprofundamento ao trabalho de pesquisa. A partir de uma experiência
de pesquisa sobre a mulher na capoeira que venho desenvolvendo ao longo dos
últimos anos, destaco as articulações entre o conhecer a capoeira e o ser capoeirista,
no feminino.

1
UFBA - Universidade Federal da Bahia. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Co
fundadora do Grupo de Estudo e Intervenção Coletivo Marias Felipas.

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Capoeirista, pesquisadora, mulher. Essas diferentes facetas da minha


identidade acabaram se entrelaçando num trabalho de pesquisa intervenção na
capoeira que relato a seguir. O meu argumento é que assumir as perspectivas, os
interesses e as subjetividades inerentes a esses três modos de ser e atuar
potencializou conhecimento, ação, parcerias, reflexões, mudanças, crescimento
existencial e político. E o que há de melhor ainda, essa experiência deu-se no plural
abarcando um número crescente de mulheres capoeiristas, que se tornaram também
pesquisadoras, sim! Acredito que todas as que se envolveram nesse projeto foram (e
continuam sendo) protagonistas da produção de conhecimento e da luta pelo
reconhecimento da mulher na capoeira.
Em julho de 2016, quando eu estava realizando um estágio pós-doutoral no

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Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da UFBA, apresentei e aprovei um
Projeto de pesquisa chamado Experiências e Representações de mulheres
capoeiristas no Edital PROPCI/UFBA 01/2016 – PIBIC, envolvendo assim dois bolsistas
de iniciação científica do curso de Ciências Sociais (uma moça e um rapaz). Pouco
tempo depois, juntou-se à equipe uma estudante mestranda do curso de Estudos
étnicos e africanos no POSAFRO, que estava desenvolvendo uma pesquisa sobre
protagonismo da mulher na capoeira2. Todas/os nós estávamos envolvidas/os na
capoeira, embora em graus diferentes de engajamento e temporalidade.
Para mim, o projeto se inscrevia na continuidade de pesquisas anteriores sobre
a capoeira que vinha desenvolvendo desde 2001, focando os processos de
aprendizagem corporal, os rituais e as tradições, primeiro apenas na tradição da
capoeira angola3 e no último trabalho de doutorado (em 2014) associando também a
pesquisa da capoeira regional e da capoeira de rua 4. Só progressivamente, essas
pesquisas sucessivas passaram a focar explicitamente a temática da mulher na
capoeira, embora em todas elas, o ponto de vista fosse inevitavelmente originado na
experiência própria de uma mulher angoleira inserida em diversos e sucessivos grupos
de capoeira angola de Salvador, desde 1989. Mesmo consciente do lugar que
ocupava, ou seja, um lugar de subalternidade e desvalorização, a problematização

2
Dissertação de Mestrado de Daniela Sacramento de Jesus apresentada no Programa de Programa
Multidisciplinar de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos, da Universidade Federal da Bahia:
Quando mulheres se tornam capoeiristas: um estudo sobre a trajetória e protagonismo de mulheres
na capoeira
3
Capoeira angola: os sentidos em jogo. Dissertação de Mestrado no PPGCS da UFBA, 2007
4
Nas rodas da capoeira e da vida: Corpo, experiência e tradição. Tese de Doutorado no PPGCS da
UFBA em 2014, publicada pela Edufba em 2017.
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do machismo e do sexismo que perpassam o mundo da capoeira era pontual nos


primeiros estudos, limitando-se a alusões e pequenas notas de roda pé. Passou a
constituir-se em problemática assumida merecendo uma análise específica em um
dos capítulos da minha tese.
Refletindo a posteriori sobre a omissão ou a eufemização da questão de gênero
durante esses primeiros quinze anos de pesquisa sobre capoeira, concluo que só
coletivamente, aquilo que era percebido como problema pessoal passa a ser uma
temática relevante. Quando se somam aos relatos pessoais, discussões coletivas e
circulação de informações, opiniões, pesquisas referentes ao tema, o problema muda
de estatuto, adquire consistência e seriedade, se transformando em uma
problemática que merece ser analisada. E foi justamente o que aconteceu com as

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mulheres que participaram da pesquisa Experiências e representações de mulheres
capoeiristas.

MULHERES DESISTENTES E MULHERES RESISTENTES

Ao longo dessas quase três décadas de envolvimento na capoeira angola, grande


parte das mulheres com as quais convivi nos grupos de capoeira que integrei ou pelos
quais transitei como visitante saíram desses coletivos e consequentemente deixaram
de praticar capoeira. Foram essas mulheres que constituíram o primeiro objeto de
estudo no capítulo da tese evocado acima. Através da análise dos depoimentos de
mulheres que se envolveram intensamente na capoeira, tentei compreender os
motivos que as levaram a abrir mão de uma prática à qual tinham dedicado anos da
sua vida. Essa discussão revelou os obstáculos que se erguem para inserção das
mulheres num universo masculino, construído historicamente a partir de valores e
práticas de virilidade, perpetuando comportamentos sexistas. Percebi que um dos
elementos fundamentais da desigualdade de gênero na capoeira era o predomínio de
modelos masculinos, tanto como modelo em carne e osso (mestres e professores)
como nas representações que se faz da capoeira: fotos, material de divulgação,
narrativas, mitos etc. Embora as mulheres participem da capoeira desde a década
de 1960, e mais maciçamente pelo menos desde a década de 80, e segundo pesquisas,
possam chegar a representar 40% dos praticantes5, não há marcas da sua presença

5
SACRAMENTO (2017) e ZONZON (2014, 2001).
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nas narrativas “nativas”, nem “acadêmicas”. Consequentemente, faltam modelos e


referências para se espelhar, se identificar: o exímio capoeirista, o capoeirista de
valor, “o capoeira” é um homem!
Com o projeto Experiências e representação de mulheres capoeiristas, buscou-
se conhecer a experiência de mulheres que resistem (retomando uma formulação
recorrente em suas narrativas) e, como segundo objetivo da pesquisa, produzir
marcas materializadas da sua presença e atuação na capoeira: narrativas e imagens
que poderiam compor as paisagens físicas e simbólicas dos contextos em que outras
mulheres se iniciariam na capoeira. Escolhemos quatro mulheres que iriamos
acompanhar em seu cotidiano na capoeira e cujas histórias iriamos registrar, sendo
elas mestras, contramestra e aluna. São mulheres que se dedicam à capoeira em

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diferentes ambientes, grupos e tradições, todas tendo em comum um imenso
engajamento nessa arte, ou, em outras palavras, são mulheres que realizam um
trabalho de perpetuação da capoeira. São mulheres capoeiristas no senso pleno da
palavra.
Um dos critérios da escolha foi a invisibilidade notável dessas mulheres
contrastando com seu tempo de prática e com a relevância do trabalho que elas têm
desenvolvido. Assim, um dos objetivos da pesquisa era de fazer com que a trajetória
e o trabalho delas na capoeira sejam conhecidos e, portanto, que elas sejam
reconhecidas.

Leitor(a), você conhece essas quatro capoeiristas?


Mestra Ritinha: uma das primeiras mulheres a iniciar-se a capoeira angola em
Salvador em torno do ano de 1983, na Academia de Mestre João Pequeno no Forte
de São Antônio, no bairro onde nasceu e vive até hoje. Ritinha viveu anos dedicando-
se a auxiliar o Mestre, em todas os afazeres da academia, aprendeu, ensinou,
acompanhou o Mestre nas viagens. Ela ficou conhecida junto ao público de alunos
capoeiristas que vinham aprender na academia do Mestre ou em outros grupos de
Salvador e foi convidada a passar uma temporada na Inglaterra onde deu aulas de
capoeira angola. Até hoje, Mestra Ritinha perpetua os ensinamentos do seu Mestre e
inicia crianças e adultos aos fundamentos da capoeira angola. Humildade e sabedoria
caracterizam essa capoeirista “das antigas” cujas histórias e memórias merecem ser
conhecidas.

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Mestra Preguiça: Mestra Preguiça começou a praticar capoeira ainda criança no


bairro do Nordeste de Amaralina em Salvador na década de 1980. Na adolescência,
no início dos anos 90, integrou a Filhos de Bimba Escola de Capoeira, onde passou
pelo processo de formação e se tornou mestra em 2010. Ela desenvolve um belo
trabalho de ensino da capoeira regional para crianças e jovens do Nordeste de
Amaralina, no âmbito do Projeto Capoerê, um projeto da Filhos de Bimba atuando
em diversas comunidades de Salvador. Há três anos iniciou um trabalho na Ilha de
Itaparica (Baiacu) ensinando a regional a meninas, pré-adolescentes e adolescentes,
em situação de risco social. Tem viajado pelo mundo participando de Eventos de
Capoeira, ministrando oficinas e palestras sobre a capoeira de Mestre Bimba.

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Contramestra Lilu: Se iniciou à capoeira em 1992 em Belo Horizonte (Grupo
Capoeira Gerais) e desenvolveu por 5 anos um trabalho em Juiz de Fora com seu
companheiro de grupo e mestre, Luciano. Ambos vieram para Bahia para aprendizado
da capoeira, instalando-se em Lauro de Freitas em 2001, onde em 2007 fundou o
grupo Malta da Serra junto com mestre Luciano. Dentre suas referências estão Frede
Abreu, Mestre Lua Rasta (Lilu é parte do Bando Anunciador da Capoeira Angola de
Rua) e também, a capoeira regional da Filhos de Bimba Escola de Capoeira. Se tornou
contramestra em 2013. Duas características que chamam atenção no perfil de Lilu:
sua sede por capoeira, com abertura para vivenciar e conhecer diferentes ambientes
e o seu trabalho com crianças e com mulheres: o coletivo Capoeira Mariá que existe
há 5 anos em Lauro de Freitas.

Mexicana: conheceu a capoeira num workshop no México, seu país de origem, e se


apaixonou pela arte tanto que resolveu vir para o Brasil para aprender capoeira e
cursar universidade em 2006/2007. Passou uma primeira fase no Rio de Janeiro, já
na Fundação Internacional de Capoeira Angola/FICA e transferiu o curso dela para
Salvador onde passou a integrar o grupo Fica Salvador liderado por Mestre Valmir.
Mexicana impressiona pela dedicação à capoeira, ela define sua relação como um
renascimento na Bahia através da capoeira. Mexicana é mãe de uma menina de 3
anos e consegue conciliar os cuidados com a filha e a presença em todos os momentos
da capoeira: treinos, rodas, eventos e inúmeras tarefas prestadas ao grupo.

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A CONSTRUÇÃO DE UMA PESQUISA/INTERVENÇÃO


Se na concepção do projeto de pesquisa, os dois objetivos (o levantamento de
dados sobre a experiência de quatro mulheres capoeiristas e a produção de materiais
dando visibilidade a essas mulheres) apareciam como eixos paralelos, o que
aconteceu de fato, foi relativamente distinto, no sentido de entrelaçar esses dois
objetivos dentro de uma experiência única que foi a experiência da pesquisa
vivenciada em conjunto por pesquisadoras e pesquisadas e envolvendo cada vez mais
relações entre pessoas, instituições, lugares.
Essa experiência conjunta foi alimentada no decorrer das visitas que fizemos a
nossas “sujeitos de pesquisa”6 quando as entrevistas tinham um formato de bate
papo e trocas de experiências e opiniões, quando as/os pesquisadoras/es

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experimentavam um treino ministrado pelas pesquisadas, ou quando se encontravam
em evento ou roda de capoeira, participando das mesmas atividades, ou ainda
quando os membros da equipe iam assistir aulas ministradas por elas, em seus
bairros. O entrelaçamento das experiências adquiriu maior consistência através da
realização de um evento, sancionando o final do primeiro ano da pesquisa, intitulado
Mulheres em Jogo na Capoeira. A programação desse evento realizado na Faculdade
de Filosofia e Ciências Sociais da UFBA, incluiu oficinas de capoeira angola e regional,
roda de capoeira angola e regional, seminário com apresentação da pesquisa e
debate.
Organizamos uma reunião prévia ao evento para construir o roteiro e discutir o
formato das atividades junto com as participantes/protagonistas da pesquisa. Esse
encontro foi determinante para que todas pudessem se conhecer. Com efeito, nem
todas as mulheres pesquisadas se conheciam pessoalmente, apenas duas tinham
maior convivência. Supreendentemente, embora o número de mulheres capoeiristas
mestras, contramestras ou alunas experientes, isto é, em atividade há muitos anos,
seja reduzido em Salvador, há um desconhecimento mútuo das atividades e da
história de cada uma. Conforme observamos, as mulheres ficam isoladas em seus
grupos respectivos ou mesmo dentro de um mesmo grupo; apenas uma pequena

6
O termo sujeito de pesquisa é duplamente inadequado na perspectiva metodológica em foco nesse
ensaio. Primeiro porque não se declina no feminino, e segundo porque reforça a divisão entre
pesquisadoras e pesquisadas. Por esse motivo, uso das aspas e será substituído por participantes ou
protagonistas da pesquisa no resto do texto.
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parcela das praticantes e mestras têm participado dos encontros e eventos de


mulheres que têm acontecido na cidade esses últimos anos7.
Na ocasião da realização do seminário propriamente falando, os papeis de
estudadas e estudiosas/os foram deslocados ou mesmo embaralhados (sem
desaparecer por completo) para diferentes configurações: nas oficinas, as mestras
exerceram seu ofício dando aulas, podendo também, em alguns casos, serem alunas
umas das outras; na mesa redonda, a exposição oral foi alternada entre coordenadora
da pesquisa, estudantes bolsistas e as quatro mulheres capoeiristas que assumiram
um lugar de destaque. No debate que seguiu essas falas, viu-se essas mesmas
mulheres que receavam a situação de exposição em um contexto acadêmico
(auditório da faculdade) ocupar os espaços de fala com desenvoltura, diante de uma

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plateia cheia, composta majoritariamente de mulheres capoeiristas vindo de todos
os cantos da cidade e do interior (algumas de outro Estado ou país) e de diferentes
tradições da capoeira (regional, angola e contemporânea).
A troca de experiência é sem dúvida a principal mola dessa experiência para
todas nós, pois sejamos mestras, professoras ou alunas, regionais ou angoleiras, há
inúmeras questões em comum que perpassam as nossas vivências na capoeira,
notadamente situações de discriminação e de violência sexista e/ou sexual. Ora, em
se tratando de uma temática tabu, dificilmente as mulheres têm oportunidade de
narrar esses episódios e, portanto, de perceber o seu caráter corriqueiro, ou seja, a
dimensão coletiva, cultural e política das interações entre homens e mulheres na
capoeira. Não há como lutar contra aquilo que não tem nome!
Assim, a percepção/interpretação da experiência própria toma novos contornos
quando confrontada às experiências de outras mulheres. Diferentes fatores podem
estar em jogo na mudança de perspectiva observada na ocasião do seminário.
Ressaltaria em primeiro lugar um contexto e uma proposta vinculados ao ambiente
acadêmico e um público quase que exclusivamente feminino. Esses dois elementos
possivelmente situaram as participantes em um ambiente desconhecido (donde o
receio inicial) mas que contrastava radicalmente com o cenário dos eventos de
capoeira clássicos, com sua ênfase na hierarquia e na tradição. Com efeito, nos

7
O mundo da capoeira além de ser dividido entre as duas grandes tradições, regional e angola, que
são por sua vez subdivididas em linhagens, tende a afastar os membros dos grupos que não pertencem
à mesma tradição. Os mestres controlam a participação dos seus alunos em atividades e eventos
organizados por outros grupos, notadamente quando se trata de eventos de mulheres.
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eventos de capoeira, mesmo quando há uma diversidade de convidados e


participantes, a dinâmica das atividades e interações está sob a égide de um
mestre/grupo organizador, geralmente um homem. No seminário, pelo contrário, as
dinâmicas das oficinas e da mesa redonda foram elaboradas em conjunto, em uma
bricolagem que buscava responder às expectativas da equipe de pesquisa e das
mulheres convidadas. As/os pesquisadoras/es almejavam dar visibilidade tanto às
mulheres pesquisadas (objetivo declarado da pesquisa) quanto à própria pesquisa.
As mulheres capoeiristas objeto/sujeito/protagonista da pesquisa viam uma
oportunidade de difundir seu trabalho na capoeira, seu saber, isto é, em certa
medida alavancar sua carreira, mas também – como mostrou a sua participação no
debate – tinham uma demanda por espaço de fala.

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O que vimos acontecer é que ao abrir esse espaço de fala, em que foram
expressas as narrativas de vivência na capoeira das convidadas no primeiro momento,
deslanchou-se uma sede contagiante de falas e interlocuções, de modo que o debate
se estendeu por horas e só foi finalizado em função do horário de encerramento da
faculdade. Assim, destaca-se a relevância do dispositivo pautado numa metodologia
da pesquisa artesanalmente e coletivamente elaborada. O objeto da investigação
deixou de ser a experiência individual de cada uma das mulheres capoeiristas em
foco (registro de narrativas biográficas) deslocando-se para as trocas e interlocuções
dessas mulheres capoeiristas no plural, sujeitos atuantes na condução do evento.
Pode-se fazer a hipótese que ao romper com a situação de isolamento das mulheres
no universo da capoeira, foi produzida uma experiência diferente das relações de
gênero. Em vez de concorrentes, as mulheres se encontravam em posição de
parceiras. Nesse sentido, a articulação das experiências individuais, ao mesmo tempo
diversas e semelhantes, produzida pela pesquisa/intervenção trouxe à tona a
dimensão política dessas experiências.

HORIZONTE E DESDOBRAMENTOS DA PESQUISA

As fronteiras entre a pesquisa e a vida, entre o conhecer e o ser desmancham-


se na experiência de pesquisa/intervenção. As relações que se teceram ao longo
desse primeiro ano entre todas/os as/os agentes da pesquisa renderam frutos
inesperados que transcendem o projeto inicial acrescentando novas dimensões para

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nossas vidas. Descobrimos que juntando nossos potenciais era possível alcançar
nossos objetivos respectivos e aprender muito umas com as outras.
Diferentes ações e coletivos nasceram desse encontro. O que era a “minha
pesquisa” no quadro de uma instituição acadêmica (UFBA) se expandiu. O trabalho
deslocou-se para outras instituições que me convidaram para realizar esse mesmo
formato de evento (notadamente o IFBA, onde Mestra Ritinha e Contramestra Lilu
ofereceram atividades e discussões para os estudantes). Muito rapidamente, o
projeto acabou se tornando explicitamente uma pesquisa/intervenção coletiva.
Formou-se um grupo de estudo e intervenção não acadêmico, As Marias Felipas, que
se dedica a partilhar e discutir estudos acerca da capoeira e a promover eventos e
encontros de mulheres capoeiristas. Reúne algumas das pesquisadoras do projeto

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Experiências e Representações de Mulheres capoeiristas, uma das capoeiristas
pesquisada e outras mulheres que encontramos ao longo dessa jornada.
No Fórum Social Mundial, o coletivo realizou uma segunda edição do Mulheres
em Jogo na Capoeira, convidando mais duas capoeirista (Contramestra Brisa e Nildes
Senna) para ministrar oficinas e partilhar sua experiência numa roda de bate papo,
junto com Mestra Ritinha e Mestra Preguiça. O debate mais uma vez atraiu um grande
público de mulheres capoeiristas vindo de diversos lugares, em sua maioria jovens
que sentem falta de referências femininas em sua trajetória de aprendizagem da
capoeira. A temática posta em destaque na condução da discussão foi a interseção
da opressão racial e da opressão de gênero, com foco nas vivências das oficineiras,
mulheres negras capoeiristas.
As Marias Felipas também organizaram uma mesa redonda tendo como
temática as articulações entre violência de gênero e tradição (Outra roda é possível:
Caladas nunca mais), ainda no Fórum Social Mundial, ampliando as perspectivas e
interlocuções com pesquisadoras e ativistas das áreas do Patrimônio, da Psicologia
social e do ativismo digital. Nessa ocasião, questionamos a escolha exclusivamente
masculina (oito homens!) para compor outra mesa constando na programação do
Fórum (Capoeira, ancestralidade e resistência) que iria ser realizada no dia seguinte.
Argumentamos que a exclusão das mulheres das discussões fundamentais da capoeira
retrata claramente a hegemonia dos homens nesse universo, ainda mais quando estão
em jogo as questões políticas da capoeira. Contudo, pela presença na assistência de
dois dos Mestres (Mestre Duda e Mestre Paulão Kikongo) que iam participar da mesa

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cuja composição criticamos, tivemos a oportunidade (e a surpresa) de receber apoio


em nossa reivindicação, concretizando-se em um convite para que uma mulher
capoeirista do nosso coletivo estivesse presente no evento do dia seguinte, trazendo
no debate sobre tradição e ancestralidade a questão incontornável da opressão de
gênero que a hierarquia tradicional da capoeira encobre e perpetua.
Com esse episódio, ilustra-se o potencial de uma pesquisa que pretende não
apenas registrar as relações de gênero que perpassam o universo da capoeira, mas
também transformá-las. Por outro lado, revela as tensões geradas pela realização
dessa pesquisa e que requerem que lancemos mão de sabedoria, jogo de cintura e
coragem. Na pesquisa como na capoeira, aprendemos muito interagindo com todo
tipo de parceiras/os; visitando outros grupos; sabendo perguntar e responder numa

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linguagem comum; revezando as tarefas, a condução e a liderança das atividades. E
principalmente, respeitando e valorizando as nossas diferenças, e nesse ponto, o
coletivo reveste a dimensão de uma escola, pois reúne mulheres de todas as idades,
origem, identidade racial e sexualidades. Somos pesquisadoras, mestras, alunas,
angoleiras, regionais, engajadas na militância feminista ou não, que têm como
horizonte uma capoeira que liberte.
A roda vai se alargando, abrindo espaço para quem mais quiser se ariscar. O
tema da mulher na capoeira cresce e mobiliza cada vez mais capoeiristas
dispostas/os a entrar nesse jogo de cooperação/enfrentamento que perpassa as
vivências e debates em torno das questões de gênero, machismo, violência,
desigualdade e outras tantas que irão surgir. Nessa caminhada, a história, os saberes
e a missão da capoeira são uma fonte de inspiração e de força que alimenta a
pesquisa/intervenção com mulheres capoeiristas. Nossa ação coletiva entrelaça o
prazer de estar juntas, a busca do conhecimento e o desafio de criar formas criativas
de luta contra a opressão. Estes são os valores que têm orientado a perpetuação da
capoeira em sua história e que poderão fazer dessa arte um espaço de igualdade
para homens e mulheres.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SACRAMENTO, Daniela. Quando mulheres se tornam capoeiristas: Um estudo sobre
a trajetória e protagonismo de Mulheres na Capoeira. Dissertação de Mestrado,
Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos, UFBA,
2017

ZONZON, C. N. Nas rodas da capoeira e da vida: Corpo, Experiência e Tradição.


Salvador, Edufba, 2017

_______. A Roda de capoeira angola: os sentidos em jogo. Dissertação (Mestrado


em Ciências Sociais) - Universidade Federal da Bahia, UFBA, Salvador, 2007.

__________. Capoeira Angola, Construção de identidades: uma investigação sobre


as identidades construídas por grupos de capoeira angola em Salvador. Dissertação
(Mestrado em Línguas e Civilização) - Université Stendhal, UFR de Langues,
Littératures et Civilisations Etrangères, Grenoble, França, 2001.

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