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Espaço

Aberto para
Trocas: Uma oficina
sobre os paradoxos da
mobilização social em
contextos de exclusão
extrema

Valéria Giannella
Roteiro de Metodologias não Convencionais - Volume I

Espaço
Aberto para
Trocas:

Realizado no quadro do Projeto de


pós-doutorado sênior – CNPq
“Fomento e Capacitação em Metodologias
não Convencionais para a Gestão Social”

Valéria Giannella

Salvador, BA
CIAGS
2009
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA - UFBA
Naomar Monteiro de Almeida Filho

ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO - EAUFBA


Reginaldo Souza Santos

CENTRO INTERDISCIPLINAR DE DESENVOLVIMENTO


E GESTÃO SOCIAL - CIAGS
Tânia Fischer

AUTORA
Valéria Giannella

SUPERVISÃO EDITORIAL
Rodrigo Maurício Freire Soares

PROGRAMAÇÃO VISUAL
Márdel Santos

REVISÃO
Maria Cândida dos Anjos Bahia

NORMALIZAÇÃO
Neubler Nilo Ribeiro da Cunha

PROJETO SÉRIE EDITORIAL CIAGS – ROTEIROS GESTÃO SOCIAL


Neubler Nilo Ribeiro da Cunha
Rodrigo Maurício Freire Soares

ILUSTRAÇÃO DA CAPA
Emanuele “Piero” Pierobon

G433 Giannella, Valéria.


Espaço aberto para trocas: uma oficina sobre os paradoxos da
mobilização social em contextos de exclusão extrema.
/Valéria Giannella. – Salvador: CIAGS/UFBA, 2009
40p. :il.; .- (Coleção Roteiros Gestão Social, v.1)

Série Editorial CIAGS


ISBN: 978-85-60660-02-5

1. Metodologia. 2. Metodologias não convencionais.


3. Gestão Social. 4. Redes de Relações Sociais. 5. Sociologia – Metodologia.
6. Interação Social I. Giannella, Valéria. III. Titulo.

CDD – 001.4

Ficha Catalográfica / Biblioteca Especializada em Desenvolvimento e Gestão Social – CIAGS/EAUFBA


Sumário

1. Introdução ................................................................. 5

2. Metodologias não Convencionais: a razão


de uma definição negativa ......................................11

2.1 O que podemos afirmar sobre as MnC ..............15

3. A Tecnologia do Espaço Aberto (Open Space


Technology): reinventando o jeito de conduzir
encontros para a exploração, análise
e solução de problemas públicos ............................21

4. A Oficina Espaço Aberto para Trocas.......................29

4.1 O tema condutor ................................................31

4.2. Alguns conteúdos discutidos pelo grupo


“Criação de Vínculos” ........................................35

4.3 Alguns conteúdos discutidos pelo grupo


“Identidade, Cultura e Arte” ............................ 39

5. Algumas Considerações sobre o Trabalho


dos Grupos ............................................................. 45
6. Considerações sobre o Método ............................. 51

7. Referências e Recursos na Rede ............................55

ANEXOS.........................................................................61

Anexo I
Os tópicos elaborados pelos participantes
e sua divisão nos dois grupos .....................................63

Anexo II
Letra do RAP –?????????????
Redigido para a apresentação da discussão
do grupo “Identidade, Cultura e Arte” ......................66
Introdução
1. Introdução

Os Roteiros de Metodologias não Convencionais formam


uma série de instrumentos de apoio teórico-metodológico
atrelada aos objetivos do projeto de pós-doutorado “Fo-
mento e Capacitação em Metodologias não Convencionais
para a Gestão Social”, financiado pelo CNPq e realizado
no âmbito institucional e operacional do CIAGS-UFBA
(Centro Interdisciplinar de Desenvolvimento e Gestão
Social da Universidade Federal da Bahia).

O objetivo desta publicação é contribuir para a construção de


um campo teórico-prático que reconhecemos ser necessário

Introdução
para efetivação do discurso da inclusão social e do acesso
universal e ilimitado aos direitos de cidadania. É um campo
em grande e rápida evolução que nos leva a pisar em terrenos
que podem parecer incertos, se observados com os olhos do
paradigma positivista, já longamente dominante nas ciên-
cias. São estes os olhos que separaram teoria e prática, arte e
ciência, razão e emoção, e que operaram a leitura fragmenta-
da do mundo pelos “óculos” das disciplinas e dos especialis-
mos extremados. No entanto, em nossa complexa sociedade
existe uma crescente interconexão entre os processos sociais,
ambientais e políticos. Evidentemente, nossa compreensão
do real se dá sempre mais pela análise das relações entre
os fenômenos do que pela observação deles de forma iso-
lada. Então, podemos afirmar que, especialmente no campo
vivo da ação social e cultural, os ‘’cortes’’ disciplinares não dão
conta da interpretação da realidade no que ela tem de mais

7
desafiador. Uma vez que as dimensões individuais, sociais,
políticas e ambientais estão definitivamente imbricadas, o
saber de que precisamos está, com evidência crescente, nas
fronteiras e nos limiares.

O campo identificado pela definição de Metodologias não


Convencionais é, por excelência, de costura e tentativa de
re-ligação de muitas das fraturas que herdamos do pas-
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

sado. Ocupa-se, especificamente, dos elos possíveis entre


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

as práticas em construção da Gestão Social e os múltiplos


processos criativos que o ser humano é capaz de alimentar
para ler e interpretar a realidade que ele transforma e da
qual é transformado. Em cada publicação, procuraremos
enfocar um instrumento (uma técnica), ou uma ocasião es-
pecífica de ensino/aprendizado para, a partir daí, explorar
territórios, marcar pontos de referência, destilar saberes e
fazeres úteis em nossa viagem para o futuro.
Este primeiro Roteiro visa relatar o andamento e os resul-
tados da Oficina Espaço Aberto para Trocas, inserindo-a
no contexto teórico-epistemológico mais amplo, e enfo-
cando a técnica específica que foi usada para sua condução:
a Tecnologia do Espaço Aberto (Open Space Technology,
OST), parafraseada no próprio título do evento. A oficina
ocorreu no dia 13 de setembro de 2008, das 9h às 18hs,
na Escola de Administração da Universidade Federal da
Bahia, em Salvador.

A oficina constituiu-se em um espaço para a troca de ex-


periências e saberes de profissionais envolvidos na gestão,
acompanhamento e facilitação de políticas participativas

8
em contextos de exclusão radical. Estiveram presentes vinte
e seis profissionais do terceiro setor e governo, oriundos
dos mais diversos campos de atuação, sendo estes das áreas
de saúde, assistência social, inclusão digital, arte-educação,
pedagogia, psicologia, desenvolvimento e gestão social. A
pergunta orientadora do encontro chama a atenção dos
participantes para a seguinte questão: “Como vencer os
paradoxos da participação social em contextos de exclusão
extrema?” A diversidade de experiências dos participantes
do encontro e a riqueza da troca ocorrida surpreenderam
a todos, apesar da familiaridade que as pessoas do grupo
tinham com os temas tratados.

O site do projeto dentro do qual o evento foi promovido,


www.gestaosocial.org.br/metodologiasnaoconvencionais,

Introdução
foi o meio de comunicação utilizado para disponibilizar o
convite e possibilitar a inscrição de interessados em par-
ticipar. O site disponibiliza materiais teóricos e exemplos
práticos acerca do conceito de MnC, bem com divulga ex-
periências didáticas em desenvolvimento que sejam orien-
tadas por esta lógica de trabalho.

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Metodologias não
Convencionais: a razão
de uma definição negativa
2. Metodologias não Convencionais:
a razão de uma definição negativa

Utilizei esta definição, pela primeira vez, escrevendo o


projeto de pós-doutorado, querendo apontar com ela, ao
mesmo tempo, a certeza de uma negação e a incerteza e
abertura de uma busca com que o próprio projeto pre-
tende contribuir. Já diversas vezes colegas e amigos si-
nalizaram a fraqueza de uma definição baseada em uma
negação: “não convencional” diz o que essas metodologias
não são, e não o que elas são. Pois é. É exatamente este

a razão de uma definição negativa


Metodologias não Convencionais:
– em minha opinião – o estado das coisas nesta fase. Te-
mos certeza do que não queremos, do que não serve para
alcançar nossos objetivos de inclusão e participação na
esfera pública, do que precisamos desconstruir dentro das
nossas visões de mundo, das nossas formações. Já o que
queremos, ao invés disso, não está tão claro. Pouco sabemos
sobre o que nos serve para alcançar o que queremos. Quais
são os marcos teóricos, as referências, as técnicas das quais
precisamos para enfrentar esse caminho?

Dito de forma explícita: os referenciais teóricos e as técni-


cas oriundas do paradigma positivista é o que precisamos
ultrapassar (o que não queremos), pois este já demonstrou
não ter chances de sucesso no mundo da complexidade,
que é como sinteticamente definimos nossa condição atual.
O positivismo já marcou tão fortemente nossa educação,
socialização e, finalmente, nossa maneira de ver e estar no
mundo, que o compreendemos até de maneira intuitiva e
sem necessitar de grandes descrições teóricas. Podemos

11
lembrar alguns pilares desse paradigma e visão de mundo
marcada por ele:

- A idéia de que o mundo existe lá fora independente de


nosso olhar;

- Que há uma única visão de mundo válida (a científica);


uma única racionalidade válida (instrumental, linear, que
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

poderíamos também chamar de convencional);


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

- Que existe um único sujeito apto a produzir conheci-


mento verdadeiro e, por isso, válido (o cientista);

- Em conseqüência, a idéia que o mundo está organizado


de forma dicotômica, havendo uma separação drástica
entre o certo e o errado, a natureza e a cultura, a emoção
e a racionalidade, a mente e o corpo. A idéia de que tais
oposições têm um fundamento absoluto e que existem
âmbitos de ação em que só podemos admitir um dos pó-
los, sendo o outro causa de “poluição” se for admitido ao
convívio. Exemplo típico é o das emoções, tidas por longo
tempo como algo que deve ser cuidadosamente afastado
do campo da produção de conhecimento, sob pena de po-
luir esse campo por fatores subjetivos e arbitrários.

Chamo de convencional a visão decorrente dessas idéias,


construída nos bastidores da ciência, que chega a perpassar
o senso comum e a ser naturalizada. Também poderíamos
descrevê-la pelos adjetivos de objetivista, determinista, re-
ducionista e tecnicista (MARIOTTI, 2000).

12
Afirmar que queremos desenvolver o papel e aprofundar a
fundamentação das Metodologias não Convencionais para
a Gestão Social significa que tudo o que nos formou e que
ainda incorporamos não dá conta do futuro.

2.1 O que podemos afirmar sobre as MnC

Mais cautelosa, a meu ver, deve ser a afirmação quanto às re-


spostas que estamos buscando e construindo, ou construindo
enquanto buscamos. Começamos a vislumbrar partes de um
novo marco teórico, começamos a nos dar conta das incon-

a razão de uma definição negativa


Metodologias não Convencionais:
sistências entre as nossas ambições e o que fazemos para
concretizá-las (metodologias e técnicas que usamos); entre
nosso discurso (nossas retóricas) e nossas ações. Falamos,
há quase duas décadas, de inclusão e participação, mas nos-
sos métodos e técnicas ainda privilegiam, evidentemente,
os que sabem, os que dominam os códigos da racionalidade
linear e instrumental, os que têm poder (de informação, de
fala e de oposição). Chegamos a ignorar que essas formas
de expressão são, apenas, uma parte limitada de nossas pos-
sibilidades expressivas enquanto humanos, e que é preciso
se re-apropriar de outras formas que o paradigma conven-
cional nos levou a esquecer.

Isso implicará em um resgate profundo da integralidade


do humano em nossos processos e numa possibilidade
mais apurada de inclusão dos que não têm saber codifi-
cado nas formas convencionais (o que não significa que
não tenham saber ou sabedoria); que não raciocinam con-

13
forme os padrões do método científico e que têm, muitas
vezes, vivências de exclusão extrema, refletidas, também,
na expropriação cultural e total falta de controle sobre
suas perspectivas de vida. Para esses sujeitos resgatarem
suas vozes não basta apenas chegar com nossos projetos
lhes propondo participar! Temos que re-inventar juntos as
formas da fala individual e coletiva para re-apropriarmos
nossa integralidade de seres sentir-pensantes (MORAES;
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

TORRE, 2004), para sermos, todos, atores legítimos da es-


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

fera pública deste país.

Com base no que foi exposto, podemos definir as Me-


todologias não Convencionais enquanto metodologias:
assumidamente não tecnicistas1; que visam propiciar a
produção de conhecimento interativo2; que pretendem
valorizar as competências reais dos sujeitos envolvidos em
cada processo; e mobilizar, na esfera pública, toda a riqueza
do humano.

Cabem nessa definição as muitas técnicas voltadas à mobili-


zação da inteligência coletiva, à gestão de trabalho de grupo,

1
Isto significa assumir que a técnica não seja a única forma válida de acesso ao
conhecimento do mundo.
2
Chamamos de interativo o conhecimento que se origina pela própria interação e
troca de saberes e informações entre sujeitos diferentes. Exemplo disso é qualquer
trabalho de grupo que vise à análise e tratamento de problemas com base nos
conhecimentos específicos dos participantes. O caso do curso aqui relatado é,
também, representativo de uma abordagem interativa à produção de conheci-
mento.

14
análise, interpretação e solução participativa de situações-
problema. Objetivando o acesso a uma percepção mais rica
e integrada do real, tais técnicas incluem o recurso às artes
e ao lúdico como instrumentos potencialmente poderosos,
porque tocam teclas, despertam e legitimam sensibilidades
outras com respeito àquelas puramente racionais; meios
que nos levam a integrar as nossas múltiplas inteligências
– a analítico-racional com a estética, a intuitiva, a sensível
– dando um fim ao longo domínio de uma visão unívoca e
mono-dimensional do real. Isso nos interessa na perspectiva
de abrir espaço para uma expressão muito mais rica e com-
pleta do humano, refletindo diretamente nas formas com as

a razão de uma definição negativa


Metodologias não Convencionais:
quais ele poderá e saberá interferir na esfera pública. Dito
de outra forma, todos os esforços para abrir a esfera pública
à participação efetiva dos cidadãos serão pautados na con-
sciência de que precisamos “destronizar” o código analítico-
racional e multiplicar as formas de leitura, interpretação e
simbolização da realidade de acordo com a riqueza das ca-
pacidades humanas.

A prática das artes, o acesso à dimensão lúdica, o deixar os


corpos se expressarem e falarem são as pistas que entrevemos
e que começamos a praticar nas duas grandes direções de
nosso interesse:

- Nas práticas de ação em campo - quando interagimos


com contextos problemáticos e abordamos a análise e
tentativa de solucionar problemas, junto aos sujeitos
diretamente afetados por estes;

15
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos
da mobilização social em contextos de exclusão extrema

Imagem extraída da internet

- Em sala de aula - onde, por um lado, já não podem-


os desconhecer o papel dos sentidos e do emocional
na ativação do processo de aprendizado; por outro,
sabemos que o gestor social do futuro não poderá
deixar de ter noção do caráter complexo do mundo
em que age e não dominar um leque de instrumentos
para interferir nele, bem mais amplo e diversificado
do que tradicionalmente acontecia.

Como detalhado em Giannella (2008), o próprio conceito


de MnC pode ser pensado, apenas, no quadro da passagem
de uma visão positivista da ciência a uma visão pós-posi-

16
tivista. Podemos dizer que elas (as MnC) são instrumentos
decorrentes de uma nova visão paradigmática, os quais nos
auxiliam no ensino e na prática de qualquer disciplina que
pretenda lidar com a complexidade das sociedades huma-
nas3. A gestão social e a construção participativa de políticas
públicas estão, sem dúvida, contempladas nesse conjunto.

a razão de uma definição negativa


Metodologias não Convencionais:

3
Alguns autores referenciais analisam esta virada paradigmática, cujas abor-
dagens encontram-se em: VARELA, 2003; SCLAVI, 2000; SANTOS, 1987;
PRIGOGINE, 2003; MAFFESOLI, 1998; DUARTE, 2006; CARVALHO,
2000; BARON, 2004; BATESON, 2000.

17
A Tecnologia do Espaço
Aberto: reinventando o
jeito de conduzir encontros
para a exploração, análise
e solução de problemas
públicos
3. A Tecnologia do Espaço Aberto:
reinventando o jeito de conduzir encon-
tros para a exploração, análise e solução
de problemas públicos

Quantos entre nós já participaram de eventos durante os

encontros para a exploração, análise e solução de problemas públicos


quais nos flagramos bocejando e prestes ao cochilo ou,

A Tecnologia do Espaço Aberto: reinventando o jeito de conduzir


se não, nos arrependendo da escolha feita de participar e
lamentando o tempo perdido? Quantos já acharam que
os momentos melhores, os que realmente valeram a pena
foram os “coffee break”, momentos em que as idéias fluem
livres, os contatos melhores se estreitam, e tudo é acom-
panhado por um bom café e algo gostoso para beliscar? Por
outro lado, quantos entre nós se surpreenderiam ao serem
convidados para um evento participativo em que, de fato, a
pauta de discussão já estivesse formatada? E quantas vezes
isto já nos aconteceu?

A Tecnologia do Espaço Aberto (TEA) faz parte das


metodologias que objetivam a produção interativa de co-
nhecimento e a emersão da inteligência coletiva. Ela é uma
metodologia não proprietária (no estilo do software livre
ou dos produtos intelectuais copyleft), desenvolvida de for-
ma colaborativa ao longo de cerca de vinte anos de ativi-
dade. No entanto, reconhece-se em Harrison Owen o seu
primeiro idealizador que, declaradamente, teve como base
para a sua criação as perguntas e inquietações colocadas
acima. Textualmente ele afirma que a TEA é um método
para conduzir reuniões de trabalho, de 5 até 500 partici-

19
pantes, extremamente produtivas e com a mesma vivaci-
dade e leveza de um bom coffe break. O que mais chama
atenção aos que conhecem pela primeira vez esse método é
o fato dele colocar de ponta cabeça os rituais consolidados
para a condução de seminários, oficinas e de todos aque-
les eventos que pretendem explorar, de forma participativa,
problemas coletivos em busca de soluções viáveis para tra-
tá-los. De forma quase provocativa, a TEA desconstrói o
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

que “se faz” normalmente, o que apreendemos a considerar


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

normal, para conduzir esse tipo de evento. Ela nos propõe,


no entanto, uma estrutura mínima, uma abordagem que
poderíamos definir de Zen pelo fato de acolher qualquer
coisa que aconteça ou for trazida pelos participantes (im-
previstos, conhecimentos, interesses e instâncias de todo
tipo), e aceitar trabalhar em cima delas de forma pautada
no princípio da auto-organização e da capacidade do hu-
mano se mobilizar pela paixão e o compromisso.

A constatação fundamental que baseia o funcionamento


da TEA é que, nos contextos organizacionais e em todos
os processos de tratamento de problemas, nada acontece
apenas por comando e imposição hierárquica. É só obser-
var a implementação de projetos ou políticas. O que acon-
tece é sempre realizado pelos que acreditam, estão interes-
sados e apaixonados pelo que está se fazendo. Os outros,
os descrentes, ou indiferentes ou contrários por qualquer
razão, ficam na retaguarda, o que já é bom se não dificulta-
rem demais o alcance do objetivo.

Assim, a TEA proporciona um espaço em que, uma vez

20
formulada uma pergunta ou questão de forma bem clara, se
convidam todos os interessados a trabalhar em torno dela,
oferecendo uma estrutura mínima de interação que permite
a cada participante expressar suas visões e articulá-las com
as dos outros presentes. O que normalmente todo mundo
espera encontrar pronto, ao se começar qualquer reunião de
trabalho, oficina ou seminário, é uma pauta predefinida por
alguém. No caso da TEA, a pauta será o primeiro resultado

encontros para a exploração, análise e solução de problemas públicos


A Tecnologia do Espaço Aberto: reinventando o jeito de conduzir
da interação dos participantes, êxito das visões e experiên-
cias deles. A dinâmica da TEA é simples. Depois de uma
breve apresentação acerca da razão do encontro e da forma
como ele será conduzido e se desdobrará, os participantes
são convidados a destacar quais são, com base na própria
experiência, as pistas para enfrentar a pergunta norteadora
do encontro.

Em seguida, as pessoas refletem e escrevem, em cartazes,


os tópicos de suas propostas, junto ao seu nome, se respon-
sabilizando, dessa forma, com a condução de um grupo de
trabalho sobre tais tópicos, e com a produção de um relato
desses grupos. Uma vez escritos os cartazes, cada pessoa os
coloca numa parede vazia que se torna, em breve, o mapa
das idéias e anseios dos presentes quanto ao tema geral do
encontro. O desafio será, então, a reorganização dos itens
postados para chegar a definir quais e quantos grupos de
trabalho vão ser formados.

Quatro princípios e uma regra são destacados para des-


crever o espírito e o modo de funcionamento da TEA. Os
quatro princípios são os seguintes:

21
1) Quem chegou é exatamente quem deveria ter chegado.

2) Quando começa é, de fato, a hora certa.

3) Qualquer coisa que aconteça é o que tinha que


acontecer.
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos
da mobilização social em contextos de exclusão extrema

4) Quando acabar é porque é o momento certo para


acabar.

A regra, chamada da mobilidade ou dos dois pés, enuncia:

“Se você se encontrar numa situação onde nem está apren-


dendo nem contribuindo em nada, mude de lugar!” Dito
em outras palavras isto significa: não gaste seu tempo inu-
tilmente!

Por um lado, os princípios reforçam a idéia de fundo de


uma metodologia que aceita, integralmente, as condições
dadas dentro de um contexto, e trabalha em cima delas. O
que se quer é evitar as práticas frustrantes da queixa e dele-
gação de responsabilidade e, também, empoderar comple-
tamente os participantes quanto aos modos e conteúdos
do trabalho. Ninguém vai poder se queixar porque algo
importante não foi considerado, pois ele mesmo poderia
introduzi-lo na pauta do dia. Nem vai poder lamentar uma

22
reunião chata ou o tempo gasto inutilmente, pois o interes-
se do evento é responsabilidade4 compartilhada, e a ”lei da
mobilidade” convida até a ir embora se achar inútil sua pre-
sença.

Finalmente, o sucesso de uma TEA não depende singular-


mente de ninguém, mas é um resultado coletivo. O próprio

encontros para a exploração, análise e solução de problemas públicos


papel do facilitador é reformulado com respeito a visões

A Tecnologia do Espaço Aberto: reinventando o jeito de conduzir


mais convencionais, pois implica em abrir mão da idéia do
controle total e autorizar a passagem deste controle para o
grupo como um todo. Por exemplo, a partir do momento
em que os cartazes são escritos e “postados”, a interven-
ção do facilitador é mínima e o evento se desdobra prati-
camente com base numa energia sua própria. O máximo
desafio do facilitador é de ser praticamente invisível e
oferecer sua presença consciente, propiciando apoio e ori-
entação para o grupo caso aconteça algo de excepcional
(OWEN, 2003).

4
Quantas vezes já ouvimos ou até dissemos “pena que o senhor (secretário, depu-
tado, prefeito...) não esteja aqui”, querendo de alguma forma justificar o fato de
que o evento não poderá alcançar os êxitos desejados por conta de tal ausência?
O primeiro princípio - quem chegou é quem deveria chegar - nos isenta dessa
possibilidade; prioriza, aliás, o compromisso real de quem efetivamente chegou.
De forma parecida, o 2º princípio desarma a queixa, também típica, sobre o tem-
po (os atrasos e as diversas percepções que desse problema se tem em contextos
culturais diferentes), enquanto o terceiro e quarto princípio completam o quadro
da aceitação dos eventos assim como eles se dão, incentivando a prática da pre-
sença atenta e consciente para lidar com eles.

23
A Oficina Espaço
Aberto para Trocas
4. A Oficina Espaço Aberto para Trocas

4.1 O tema condutor

“Como vencer os paradoxos da participação social em contextos


de exclusão extrema?” 5 Esta foi o pergunta norteadora da
Oficina.

A necessidade de envolver os sujeitos privados dos direitos


humanos básicos nas políticas que lhes dizem respeito nos

A Oficina Espaço Aberto para Trocas


coloca frente a questões aparentemente paradoxais, que
precisam ser enfrentadas:

- Como construir a noção e vivência da cidadania para


quem não sabe (por que não vivenciou) o significado do
bem público, responsabilidade ou direitos?

- Quais estratégias são encontradas para sair desse aparente


círculo vicioso?

- Que estratégias são capazes de motivar esses sujeitos para


a ação e o compromisso na esfera pública?

5
Contextos de exclusão extrema são aqueles nos quais os sujeitos são privados dos
direitos humanos básicos (alimento saudável, moradia digna, educação de quali-
dade, possibilidade de valorização de si e da cultura de origem). São os bolsões
de miséria material e relacional em que a própria noção de direito se perde e o
estatuto de cidadão não se aplica.

25
- Como se mobilizam sonhos de transformação de si
próprio e da realidade externa?

- Como se instiga a revolta contra a injustiça, a exploração


e o descaso?

- Como incentivar a paixão pela beleza e harmonia, o dese-


jo de solidariedade com e pertencimento ao humano?
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos
da mobilização social em contextos de exclusão extrema

Em torno da pergunta principal e destas ulteriores instiga-


ções, o grupo se mobilizou. Depois de uma breve introdução
e de uma dinâmica de apresentações (para os integrantes
do grupo se reconhecerem e “quebrar o gelo” inicial), todos
são chamados para escrever, em cartazes disponibilizados,
o que acham fundamental para enfrentar a pergunta posta.
Cada cartaz é “postado” numa parede vazia que se torna,
em breve, o mapa das idéias e anseios dos presentes quanto
ao tema geral do encontro. O desafio será, então, a reor-
ganização dos itens postados para chegar a definir quais e
quantos grupos de trabalho se constituirão. Em nosso caso,
depois de uma intensa discussão sobre os elos que interli-
gavam os vários itens postados e sobre as várias opções que
teriam permitido tratá-los, foram formados dois grupos:

26
- O primeiro pretendia refletir sobre o tema “Criação de
Vínculos” como elemento estratégico na implementação de
projetos em contextos de exclusão extrema. Tratam-se, ao
mesmo tempo, de vínculos entre as componentes interna e

A Oficina Espaço Aberto para Trocas


externa da comunidade (para simplificar, pensamos apenas
nos sujeitos locais e nos técnicos), e de vínculos internos à
própria comunidade, necessários para ela se apropriar do
projeto e de seus objetivos.

- O segundo grupo trata sobre a contribuição que pode


trazer a ação cultural pautada no resgate das falas silen-
ciadas (as culturas locais, as linguagens do corpo e as artes
em geral), para o processo de participação nos contextos
de nosso interesse; o grupo foi chamado de “Identidade,
Cultura e Arte”.

Em geral, confirmou-se a hipótese de que os contextos de


exclusão radical põem, realmente, dificuldades e condições
específicas para os gestores que se atrevem a realizar aí pro-
jetos e programas. Os dois grupos de trabalho enfocaram
pontos de vistas complementares, mas sempre apontando
a dificuldade de relação entre sujeitos que vivem situações

27
drasticamente diferenciadas como o principal problema.

Observa-se uma dificuldade de diálogo e relação entre as


partes, pois o que é para um a sua realidade (a comuni-
dade), é para o outro uma situação pontual de trabalho
(técnicos). Muitos dos participantes manifestaram o in-
teresse em acompanhar ambos os grupos, mas o tempo
disponível não permitiu tal opção.
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos
da mobilização social em contextos de exclusão extrema

28
4.2. Alguns conteúdos discutidos pelo grupo “Criação
de Vínculos”

Ao acessar um contexto de exclusão extrema, uma das


dificuldades fundamentais relatadas pelos participantes é
a dramática disparidade das condições que afeta a possi-
bilidade de diálogo paritário entre a comunidade local e os
que chegam de fora (técnicos ou atores de outro tipo). As
queixas se direcionaram à incapacidade de escutar as reais
necessidades da comunidade; e os relatos auto-críticos dos
próprios técnicos sobre a tendência a “falar muito e escutar
pouco”6 são recorrentes, apontando para a questão da escu-

A Oficina Espaço Aberto para Trocas


ta como realmente crucial7 . Como dizem as operadoras do
Projeto Educadores Sociais, “A cabeça pensa onde os pés
pisam”, querendo ressaltar que, apesar de toda a boa von-
tade e compromisso, os técnicos não vivenciam os mesmos

6Nos dois parágrafos que relatam os conteúdos dos grupos de discussão, as cita-
ções referem-se a frases extraídas pelas gravações da oficina, transcritas graças
à colaboração de um grupo de bolsistas. Eles foram responsáveis, também, por
redigir os relatórios dos grupos de discussão, elaborados durante seu próprio des-
dobramento.
7O 2º Roteiro de Metodologias não Convencionais relata, entre outros temas,

um trabalho feito em torno da questão da escuta; insere o assunto num quadro


teórico mais amplo e oferece algumas ferramentas para esta prática fundamental
em nossos tempos. No geral, os técnicos declaram uma total falta de forma-
ção e treinamento a respeito do tema. Este ainda é dramaticamente omitido das
estruturas curriculares dos níveis de graduação e pós-graduação. Como muitas
vezes acontece, o mundo da empresa privada abre caminho: já se deu conta da
relevância do assunto e introduziu o tema em cursos e programas de formação e
qualificação de pessoal. As estruturas públicas de ensino deveriam mudar, rapi-
damente, devido à urgência da situação.

29
problemas, não têm as mesmas prioridades e urgências da
comunidade. Eles chegam para trabalhar e depois vão em-
bora. O tempo deles é bastante divergente do tempo da
comunidade.

O tempo dos projetos é curto, pede resultados objetivos


e mensuráveis, relatórios e prestação de contas em prazos
predefinidos. O tempo da comunidade é o tempo extenso
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

da repetição, da falta de perspectiva e de controle sobre sua


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

vida. Realmente, é outro “o tempo do outro”. As capaci-


dades que se pretendem instilar, também, pedem tempos
extensos para serem construídas. Tratam-se de capacidades
básicas de se concentrar, de escutar e de ter voz, de se or-
ganizar dentro de um grupo enxergando não apenas o seu
interesse pessoal e, sim, o do grupo como um todo; é tam-
bém a capacidade de vislumbrar outras configurações do
real. Enxergar o que existe não como a única opção e, sim,
apenas como uma das múltiplas possibilidades, a que se
impôs pelo jogo das forças e do acaso.

A aquisição dessas capacidades implica num processo de


socialização de longuíssimo prazo. É impossível pensar que
aconteça em um ano ou dois, assim como é extremamente
delicada a identificação de indicadores capazes de avaliar
tal processo. Acontece, assim, o paradoxo de projetos que,
ano após ano, alimentam processos sem que se saiba se,
realmente, eles atendem as exigências das comunidades.
“Estamos emancipando? Estamos transformando? O que
vai acontecer quando o último técnico for embora?” O tema
da auto-sustentabilidade dos projetos, uma vez encerrada a

30
fase de presença dos agentes mobilizadores, é fonte difusa
de inquietações. A necessidade de se investir em formação
de liderança local e em processos de apropriação dos proje-
tos pela própria comunidade são as pistas identificadas para
tentar enfrentar a questão. O comitê gestor comunitário
é apontado, por alguns, como uma estratégia crucial para
enraizar os projetos, enquanto outros já relatam experiên-
cias em que esta tentativa não deu certo. A implantação de
processos de avaliação participativa, contínua e abrangente
é outro caminho indicado para que sejam alimentados
processos dialógicos entre comunidade e técnicos, e que se
atente à composição das muitas exigências contrastantes

A Oficina Espaço Aberto para Trocas


que um projeto normalmente implica.

Contudo, especialmente olhando ex-post para essa dis-


cussão, continua chamando atenção o abismo entre as duas
posições, dos técnicos e da comunidade (nenhuma das duas
homogênea, nem coesa). Uma distância tão radical que dá
trabalho articulá-la e mal se espelha em palavras, como
demonstra o trecho a seguir proferido por uma educadora:

Então, assim, a gente que tá fora da comunidade e


pensa pra entrar, (...) mas o nosso pé está mais fora
da comunidade do que dentro; então, é óbvio que
a nossa cabeça vai pensar e a gente não consegue
entender porque a comunidade não quer. Não tem
santo que faça a gente entender porque a comuni-
dade não quer. Gente, tá tudo lá, tá tudo de graça, tá
tudo lindo, porque não querem?

31
Por outro lado, eis o excerto da fala de uma moradora de
bairro periférico, com longa vivência em movimentos sociais,
descrevendo o que, repetidamente, observa acontecer:

(...) quando meu partido sair, ele tem que deixar


aquela semente. Eu não diria uma semente (...)
porque essa semente não gera, não cresce, ela não
dá frutos. Por que que não dá frutos? (...) As ações
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

que, até hoje, são levadas às comunidades não são


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

fundamentadas nas necessidades reais da comuni-


dade, não são discutidas com aquelas pessoas, não
são elaboradas com aquelas pessoas que estão ali.
(...) Porque as pessoas que estão lá, os grupos que
estão lá, as lideranças que estão lá, elas que sentem,
elas que estão com os pés lá, os pés, a cabeça, o corpo
e tudo mais, na comunidade. Então quando um pro-
jeto for idealizado a partir daí, com aquelas pessoas
que os pés estão na comunidade, eles vão dar frutos,
vão crescer.

Para entendermos o sentido profundo desses testemunhos


é preciso adentrar em mais um processo apontado pela dis-
cussão, ou seja, o trabalho da individualidade do técnico:

(...) porque essas pessoas que estão se propondo de


trabalhar o coletivo, elas tem que ser trabalhadas.
(...) porque esse construir, esse sujeito que vai lidar
com essa construção, isso é um desafio. Esse sujeito
não tá pronto, ele vem de uma cultura bem compar-
timentada, e ele vai pra disputa mesmo, como em

32
qualquer outro espaço (...). E além dos interesses
que cada um traz, interesses explícitos por poder, por
recursos, por visibilidade, tem a questão da vaidade.
Além do que é explícito, do que é material, tem a
vaidade, tem o ego.

A Oficina Espaço Aberto para Trocas

33
4.3 Alguns conteúdos discutidos pelo grupo “Identi-
dade, Cultura e Arte”

O ponto de partida do segundo grupo coincide exatamente


com o do primeiro. É a constatação de uma relação difícil
entre técnicos e comunidades “alvo” dos projetos; da difi-
culdade de comunicação e, especificamente, de escuta, que
obstaculiza a implementação dos projetos e sua eficácia.
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

No entanto, a resposta atentada para enfrentar essas difi-


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

culdades se orienta em outras direções que não as identifi-


cadas pelo grupo anterior.

Perante a diferença radical de experiência dos sujeitos ex-


cluídos, o foco de atenção e a estratégia identificada para se
aproximar e comunicar aponta na direção de outras formas
e meios de expressão. Eis, a título de exemplo, os pontos
tocados pela discussão do grupo, conforme referido pelo
relatório:

- O corpo fala, descreve histórias, o corpo como instru-


mento de empoderamento.

- A igualdade se revela através das artes em geral; como


meio de empoderamento, aumento da auto-estima. As
artes como instrumento para instigar o senso crítico.

- Hierarquia comunitária: os acadêmicos que chegam para


implantar projetos, os gestores que aparentemente estão na
mesma esfera, e o objetivo da Saúde que fica refém de tudo
isso (no grupo tinha uma forte componente de operadoras

34
da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia).

- Todas as formas de expressão cultural e religiosa são váli-


das como instrumento modificador, de escuta, em comuni-
dades de extrema exclusão.

- A busca do saber do outro faz com que a pessoa se mostre,


se exponha e esteja predisposta a dialogar.

- Escutar o outro.

- Buscar novas formas de metodologias não convencionais

A Oficina Espaço Aberto para Trocas


que nos permitam ter acesso ao outro e torná-lo protago-
nista das ações de políticas públicas.

- Formar os técnicos para que eles venham, efetivamente,


trabalhar em prol das comunidades; empoderar as comuni-
dades de tal forma que lhes permita cobrarem os resultados
do trabalho dos técnicos; enfim formar artistas compro-
metidos com o trabalho social.

- Envolver as pessoas em todo o processo para que a comu-


nidade possa optar na construção do projeto.

- Construção ou conquista de espaços físicos nas comuni-


dades para a construção da cidadania.

Os elementos que são destacados repetidamente pelas falas


remetem a três temas principais: o corpo, como “texto fa-
lante”; as práticas artísticas e criativas, como vias de acesso

35
libertador de novas formas de se olhar para o mundo; e
as culturas (locais e populares), como ponto de referência
básico das identidades individuais e coletivas. A discussão
do grupo, com base nas vivências dos participantes, adi-
cionou elementos importantes a cada um desses pontos.

O corpo: não podemos continuar orientados por uma


concepção que amputa o ser humano de seu corpo, que
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

privilegia apenas a “cabeça”, ou seja, os processos lógicos,


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

a racionalidade, o cálculo. É preciso resgatar o saber e a


memória carregados pelos corpos; deixá-los “falar” e sa-
ber entendê-los. O corpo é aqui conceituado como “texto”
que tem o potencial para “falar” - com códigos não verbais
- sobre o que absorve, por experiência própria ao longo da
vida, ou pelas memórias e histórias ouvidas. Autorizar a
expressão dos corpos permite atingir o que se estratifica, o
que fica integrado e, muitas vezes, esquecido, em camadas
profundas e pouco accessíveis do consciente. Justifica-se
assim, a descrição do corpo como “forma de resistência”,
ou como “capital cultural”.

As artes: integrar, nos projetos, o recurso às artes (foram


especialmente citados o teatro e a música), e instigar pro-
cessos criativos se destacam como meios de afirmação do
potencial dos sujeitos e de aquisição de auto-confiança e
auto-estima. É, também, uma tentativa de ultrapassar os
bloqueios da comunicação exclusivamente verbal, de mul-
tiplicar as formas legítimas de interpretar a realidade e,
assim, de sonhar com sua possível transformação. Foram
relatadas experiências de uso da criatividade com sujeitos

36
em condições sociais de risco e altamente marginalizados
ou, simplesmente, com sujeitos “periféricos”. O próprio
fato deles se expressarem a respeito da realidade de for-
ma subjetiva e criativa os afirma enquanto sujeitos, donos
de uma voz e de uma opinião, e põe, com isto, a condição
para se construir com eles (e não para eles ou apesar deles),
qualquer projeto ou intervenção.

As culturas: a valorização, o resgate e a re-apropriação de


todas as expressões da cultura popular, a re-interpretação
e o enriquecimento dessas formas, bem além dos clichês
formatados pela indústria cultural, parecem uma estraté-

A Oficina Espaço Aberto para Trocas


gia imprescindível para a construção de democracias real-
mente participativas. Esse nexo não parece óbvio; todavia,
é difícil imaginar que sujeitos desenraizados e expropria-
dos de suas referências culturais possam se tornar cidadãos
comprometidos com o bem público e aptos a participa-
rem da sua reprodução. O “recuperar as raízes” é descrito
como condição básica para os sujeitos resgatarem suas
vozes públicas. Elas não brotam do nada, da ausência da
memória e da identidade, da falta diária de direitos básicos,
dos seres desconhecidos enquanto sujeitos valiosos; disto
tudo não nasce civismo ou capacidade de auto-determina-
ção, mas apenas estratégias de sobrevivência. É assim que
se considera “o caminho cultural como o mais saudável”, o
que, talvez, possa nos levar mais longe.

37
Algumas Considerações
sobre o Trabalho dos
Grupos
5. Algumas Considerações sobre o
Trabalho dos Grupos

Já foi sinalizada a convergência na forma com que os dois


grupos de discussão interpretaram a pergunta norteadora
da oficina:

“Como você vence os paradoxos da participação social em


contextos de exclusão extrema?”

Algumas considerações sobre o trabalho dos grupos


O obstáculo principal à implementação de projetos em
contextos desse tipo, unanimemente identificado pelos
participantes, foi quanto à dificuldade de comunicação e de
escuta entre técnicos e comunidade. “A mente pensa onde
os pés pisam” é a frase que sintetiza de forma brilhante a
distância entre os dois mundos. É preciso levá-la a sério
para entendermos o tamanho do desafio de se construir
um diálogo não manipulador como base de projetos e in-
tervenções.

As duas figuras que aqui aceitamos representar de forma


simplificada como “os técnicos” e “a comunidade” (sabendo-
se que eles não são unidades coesas e sim campos de nego-
ciações e conflitos) encontram-se, de fato, na encruzilhada
entre múltiplas lógicas e tentando, a duras penas, uma saída
para contradições cuja recomposição está, evidentemente,
muito além de seu alcance. O contraste entre uma lógica
do resultado e uma lógica do processo é o que qualquer
técnico, eticamente comprometido com o impacto real de

39
seu trabalho, sofre na realização de um projeto em áreas de
exclusão extrema. Adicione-se o contraste entre posturas
político-culturais não apenas abstratas, mas fundamenta-
das em condições materiais e vivências práticas cotidianas:
uma cultura da sobrevivência adaptativa, da subjugação;
uma outra que preza o potencial da crítica e da transfor-
mação. E, por fim, pensemos no próprio contraste entre as
perspectiva básica de técnicos (que já estudaram, viajaram,
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

conhecem outras experiências em que se trataram proble-


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

mas afins) e sujeitos da comunidade que mal saíram de seu


bairro e não têm bases, nem subjetivas nem objetivas, para
vislumbrar as possibilidades de alternativas.

De alguma forma, parece que os próprios técnicos ainda


mal avaliam o quanto esta dificuldade é grande e como as
condições materiais, as vivências, as memórias próprias ou
absorvidas, condicionam e formatam a maneira de perce-
ber o mundo e a própria possibilidade de transformá-lo.
A recusa dos sujeitos comunitários de assumirem os vín-
culos gerenciais dos projetos, entrarem na luta do tempo,
na agonia da produção de resultados objetivos e mensu-
ráveis, não parece uma postura óbvia e razoável e, sim, uma
resistência à transformação que pode ser re-educada por
meio de mais capacitações e processos de empoderamento.
Não é isso, no fundo, que se imagina quando se implanta
comitês gestores comunitários como solução para alcan-
çar a sustentabilidade dos projetos? Será que não estamos
subestimando o tamanho da distância entre a lógica da
comunidade e a das agências financiadoras e dos admin-
istradores? Queremos que as comunidades se apropriem

40
dos projetos que lhes dizem respeito e possam reivindicar
as formas mais adequadas de sua realização, mas com base
em que poder comunicativo ou relacional? Em que capaci-
dade de se imaginar um futuro diferente? Não estamos, de
fato, querendo que as próprias comunidades interiorizem
os vínculos das agências e auto-gerenciem seu desenvol-
vimento hetero-direcionado? São perguntas provocativas
necessárias para entender a importância das diferenças que
pretendemos tratar.

Algumas considerações sobre o trabalho dos grupos


No entanto, o grupo que identifica o caminho da ação
cultural como abordagem potencialmente interessante ao
problema enxerga um caminho diferente. Aqui, a propos-
ta é de resgatar, reforçar e reconstruir identidades outras,
como premissa de qualquer relação paritária; uma condição
necessária para assumir o peso da entrada na esfera pública
com as responsabilidades que isto implica, mas, também,
com alguma chance de autodeterminação. Caso contrário,
não se sabe pare que isto tudo valeria a pena.

41
Considerações sobre
o Método
6. Considerações sobre o Método

A Tecnologia do Espaço Aberto se propõe como método


inovador para a condução de encontros em que se busque
tratar de problemas cuja solução não é óbvia. É uma abor-
dagem que aposta na paixão e compromisso individual
como recurso básico para a transformação da realidade.
Ela aposta na energia e capacidade de auto-organização
do grupo, e enxerga cada participante como “expert”, capaz
de contribuir de forma relevante para a solução procurada.
Esse método se presta a diversas variações. Em nosso caso,

Considerações sobre o Método


foi realizada uma oficina de um dia, mas a técnica tende a
funcionar melhor na duração de dois ou até três dias. De-
pois disso, segundo os relatos, se chega-se à exaustão, pois a
auto-gestão do trabalho demanda do grupo muita atenção
e energia. No entanto, uma oficina de um dia acaba por
apresentar o problema oposto, da falta de tempo suficiente
para os grupos processarem as questões que surgem, lida-
rem com os conflitos e se escutarem com a profundidade
necessária.

Contudo, ao encerrarmos o dia de trabalho, os relatos foram


todos positivos, de entusiasmo por ter conhecido e experi-
enciado uma nova técnica libertadora e fértil de resultados
e, também, de satisfação pela qualidade dos conteúdos e
pela troca ocorrida com os colegas. Vários foram os pedidos
de continuidade. Mais uma vez, pôde-se observar como es-
tamos na difícil posição de querer compatibilizar lógicas

43
contrastantes: a lógica da produtividade e das tantas tarefas
para se dar conta todos os dias, e a do se dar o tempo de
aprofundar e amadurecer reflexões e visões em torno do
que nos inquieta.

Por último, depois dos elogios, quero apresentar uma críti-


ca ao método, extrapolando o aprendizado, talvez, mais
importante que minha pesquisa sobre as Metodologias
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

não Convencionais está sinalizando o tempo todo. Como


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

já apontado, precisamos “destronar” o código analítico-


racional e multiplicar as formas de leitura, interpretação
e simbolização da realidade de acordo com a riqueza das
capacidades humanas. Ou seja, precisamos ir além da aná-
lise lógica dos problemas e nos autorizarmos à expressão
das emoções que eles nos mobilizam; interrogar nossos
sentidos; deixar falar nossos corpos e representar nossos
sonhos. Isso é importante não apenas nos contextos de ex-
clusão extrema (como a própria oficina procurou afirmar),
mas em todos os contextos nos quais pretendemos enfren-
tar realidades complexas, atentando para a exploração de
suas múltiplas facetas; produzir conhecimentos inovadores
e soluções criativas. Em pauta está, então, a tarefa de de-
senvolvermos novas tentativas para a inclusão de outras
formas de expressão, não exclusivamente verbais, também
dentro da Tecnologia do Espaço Aberto. Conforme as de-
clarações de seu principal idealizador, ela foi desenvolvida
até a forma atual ao longo de vinte anos de trabalho co-
operativo por parte de técnicos e facilitadores dos quatros
cantos do mundo. Acredito que esta reflexão e a tentativa
de ampliação na direção apontada serão bem vindas.

44
45
A Tecnologia do Espaço Aberto: reinventando o jeito de conduzir
encontros para a exploração, análise e solução de problemas públicos
Referências e Recursos
na Rede
7. Referências e Recursos na Rede

7.1 Referências

BARON, Dan. Alfabetização cultural: a luta íntima por uma


nova humanidade. São Paulo: Alfarrábio, 2004.

BATESON, Gregory. Steps to an ecology of mind: collected


essays in anthropology, psychiatry, evolution, and epistemology.
Chicago: University Of Chicago Press, 2000.

Referências e Recursos na Rede


CARVALHO, Alex; et al. O que é metodologia científica
In:______ Aprendendo metodologia científica. São Paulo:
Nome da Rosa, 2000, p. 11-69. Disponível em:<http://www.
esnips.com/doc/67228e71-0deb-4263-91fe-1697ee357045/
ec43ea4fMetodologia_pesquisa> Acesso em: 09 novembro de
2008.

DAMASIO, Antônio, R. O erro de descartes: emoção, razão e


o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

DUARTE JUNIOR, João Francisco. O sentido dos sentidos:


a educação (do) sensível. Curitiba: Criar Edições, 2006.

GIANNELLA, Valéria. O nexo pesquisa-ação: qual conheci-


mento para que políticas. In: Carrizo, Luis (ed.). Gestión local
del dessarrollo y lucha contra la pobreza: aportes para el forta-
lecimento de la investigacón y lãs políticas em América Latina.
Montevideo: Manuel Caballa editor, 2007. p. 95-112.

47
_______. Base teórica e papel das metodologias não con-
vencionais para a formação em gestão social. In: CANÇA-
DO, Airton, Cardoso et al. (org.). Os desafios da forma-
ção em gestão social. Palmas, TO: II ENAPEGS, 2008.

MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Petró-


polis, RJ: Vozes, 1998.
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

MARIOTTI, Humberto. O automatismo concordo-dis-


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

cordo e as armadilhas do reducionismo, 2000. Acessível


em rede ao endereço:
http://www.geocities.com/pluriversu/concdisc.html aces-
so em 09-01-2009.

_______. Diálogo: um método de reflexão conjunta


e observação compartilhada da experiência. São Paulo:
[s.l], 2001, Disponível em:
<http://www.geocities.com/pluriversu/dialogo.html>.
Acesso em: 09 de jan-2009.

MORAES, Maria Cândida; TORRE, Saturnino. Sen-


tiPensar, fundamentos e estratégias para reencantar a
educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

OWEN, Harrison. Cofee break produtivo: tecnologia do


espaço aberto. [s.l.]: Nova Paradigma, 2003.

48
PRIGOGINE, Ilya, Pensar a complexidade: o fim da
certeza. In: MENDES, Candido (Org.) Representação e
complexidade. Rio de Janeiro: Garamond Universitária,
2003. Disponível em:
<http://books.google.com.br/books?id=-XoW91zM
Y S U C & p g = PA 3 & l p g = PA 3 & d q = CA N D I D O + M
ENDES+(ORG.)ENRIQUE+LARRETA+(ED.)-
,+Representa%C3%A7%C3%A3o+e+Complexidade
&source=bl&ots=dZP0-egkRo&sig=0yXjvaERZCl-
hnXXMDQMTvnB4Tc&hl=pt-BR&sa=X&oi=book_re
sult&resnum=2&ct=result#PPA45,M1> Acesso em: 08-
01-2009.

Referências e Recursos na Rede


SANTOS, Boaventura de Sousa, Um discurso sobre as
ciências. São Paulo: Cortez Editora, 1987.

VARELA Francisco; THOMPSON, Evan; ROSCH,


Eleanor. Mente incorporada: ciências cognitivas e ex-
periência humana. Porto Alegre: Artmed, 2003.

7.2 Recursos na rede

Página do projeto “Fomento e capacitação em Metodolo-


gias não Convencionais”

Disponível em: <http://www.gestaosocial.org.br/met-


odologiasnaoconvencionais> Acesso em: 07 de jan.
2009.

49
Web site da comunidade do Open Space (Espaço Aberto)

Disponível em: <http://www.openspaceworld.org/ >


Acesso em: 07 de jan. 2009
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos
da mobilização social em contextos de exclusão extrema

Disponível em: <http://www.openspaceworld.org/cgi/


iberia.cgi?> Acesso em: 07 de jan. 2009

Uma metodologia análoga ao Espaço Aberto

Disponível em: http://wiki.papagallis.com.br/World_


Caf%25C3%25A9_e_Intelig%25C3%25AAncia_
coletiva#Como_o_di.C3.A1logo_do_World_Caf.
C3.A9_funciona.3F Acesso em: 07 de jan. 2009

50
51
Referências e Recursos na Rede
Anexos
ANEXO I
Tópicos elaborados pelos participantes como
resposta à pergunta norteadora da oficina

1. Mobilização, flexibilidade, construção do conhecimen-


to.

2. Em comunidades de baixa renda a participação é garan-


tida, quando , em contrapartida, é garantido algum benefí-
cio, de preferência material – comida, presentes, brindes
etc.

3. Como vencer as barreiras do analfabetismo em prol de


uma participação popular consciente e autônoma?

Anexos
4. Apesar dos parâmetros, existe mobilização social. Quais
são as estratégias mais adequadas a serem utilizadas na mo-
bilização social, nas comunidades?

5. Superação da vulnerabilidade social e política. Superação


da pobreza e acesso à educação.

6. Qual é o espaço dado à avaliação no processo formativo


dos grupos?

7. Formação do comitê gestor comunitário no contexto de


exclusão extrema.

8. Arte e diversidade étnica, produzir conhecimentos por

53
meio da troca de saberes não-convencionais.

9. Quais estratégias usamos para estabelecer vínculos com


as pessoas que vivem a realidade da exclusão.

10. A formação de vínculos sociais entre pessoas num con-


texto de exclusão.
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

11. Disputa de poder.


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

12. Licenciamento causado pela falta de entendimento.

13. Acreditar, estimular e desenvolver o potencial humano


a partir de uma educação inovadora, aberta, sem amarras
burocráticas.

14. Desenvolver um processo de comunicação em que o


escutar, mais do que falar, seja um processo constante em
relação ao outro.

15. Estimular as trocas, a interação entre os diversos grupos


sociais nas comunidades, para discutir, refletir suas questões
a partir de metodologias pautadas.

16. Discutir a mudança como uma possibilidade, uma ne-


cessidade do ser humano.

17. Condições de/para motivar em contextos que brutalizam


a tentativa de participação e engajamento coletivo.

54
18. A utilização de metodologias avaliativas como estraté-
gia de fortalecimento de grupos e conquista de espaços.

*Os temas inicialmente “postados” pelos participantes


foram re-elaborados ao longo da discussão coletiva até
chegar à identificação dos dois grupos de discussão, cujo
trabalho foi relatado acima.

Anexos

55
ANEXO II
Letra do RAP - “?????????????”
Redigido para a apresentação da discussão do
grupo “Identidade, Cultura e Arte”
Autor: FRANCISCO FLORES
Espaço Aberto para Trocas: Uma oficina sobre os paradoxos

Inovar, recriar, esta é a questão


da mobilização social em contextos de exclusão extrema

Não querer resolver para a população


Vou chegar, vou calar!
Vou escutar para então querer trabalhar

Vamos lá escutar a comunidade


Para juntos transformar sua realidade
Respeitar, trabalhar com tranqüilidade
Ancestral é o centro da comunidade

Expressão corporal na realidade é


Ouvir o meu eu de verdade
Descrevendo meu passado, minha história
E assim seguindo em frente nessa trajetória

Respeitada a hierarquia comunitária


Refazendo parcerias de mãos dadas
“Acadêmicos” trazendo seus projetos
Vamos indo no caminho certo

Com liberdade sempre me expressando


Minha cultura se valorizando

56
Com isso realidades transformando
Vou me expondo, vou falando
Se estão me escutando
Vou buscando novos caminhos
Pra transformar meu destino

Com tudo isso com certeza vou crescendo e


Os problemas realmente resolvendo
Intervindo na política de forma diferente
É direto o cruzado
De maneira inteligente.

Anexos

57
“Como vencer os paradoxos da participação social em contextos
de exclusão extrema?”

A partir desta pergunta, um grupo de profissionais com vasta


experiência em atividades de campo se mobiliza para um dia de
troca e reflexões, usando uma metodologia que valoriza a
competência, a paixão de cada integrante e a capacidade de
auto-organização dos grupos quando deixados livres para fazê-
lo.

Esta publicação é o primeiro volume dos Roteiros de Metodolo-


gias não Convencionais, integrante da Série Editorial CIAGS,
sendo um instrumento de apoio teórico metodológico a profes-
sores e pesquisadores.

Gestão em rede e Metodologias não Convencionais para a


Gestão Social é resultado do projeto "Fomento e Capacitação
em Metodologias não Convencionais”, coordenado pela Profª
Valéria Giannella. Este Projeto, financiado pelo CNPq, é realizado
no âmbito institucional do Centro Interdisciplinar de Desenvolvi-
mento e Gestão Social (CIAGS), sediado na Escola de Administra-
ção da Universidade Federal da Bahia.