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ENEM

Diversidade cultural, conflitos e vida em sociedade o Cultura Material e imaterial; patrimônio e


diversidade cultural no Brasil .................................................................................................................... 1
A Conquista da América. Conflitos entre europeus e indígenas na América colonial. A escravidão e
formas de resistência indígena e africana na América.............................................................................. 9
História cultural dos povos africanos. A luta dos negros no Brasil e o negro na formação da sociedade
brasileira................................................................................................................................................. 30
História dos povos indígenas e a formação sócio-cultural brasileira .................................................. 39
Movimentos culturais no mundo ocidental e seus impactos na vida política e social.......................... 54
Formas de organização social, movimentos sociais, pensamento político e ação do Estado ............. 64
Cidadania e democracia na Antiguidade; Estado e direitos do cidadão a partir da Idade Moderna;
democracia direta, indireta e representativa ........................................................................................... 76
Revoluções sociais e políticas na Europa Moderna ........................................................................... 96
Formação territorial brasileira; as regiões brasileiras; políticas de reordenamento territorial ............ 119
As lutas pela conquista da independência política das colônias da América .................................... 128
Grupos sociais em conflito no Brasil imperial e a construção da nação ........................................... 128
O desenvolvimento do pensamento liberal na sociedade capitalista e seus críticos nos séculos XIX e
XX ........................................................................................................................................................ 142
Políticas de colonização, migração, imigração e emigração no Brasil nos séculos XIX e XX ........... 148
A atuação dos grupos sociais e os grandes processos revolucionários do século XX: Revolução
Bolchevique, Revolução Chinesa, Revolução Cubana ......................................................................... 148
Geopolítica e conflitos entre os séculos XIX e XX: Imperialismo, a ocupação da Ásia e da África, as
Guerras Mundiais e a Guerra Fria ........................................................................................................ 157
Os sistemas totalitários na Europa do século XX: nazi-fascista, franquismo, salazarismo e stalinismo.
Ditaduras políticas na América Latina: Estado Novo no Brasil e ditaduras na América ........................ 198
Conflitos político-culturais pós-Guerra Fria, reorganização política internacional e os organismos
multilaterais nos séculos XX e XXI ....................................................................................................... 226
A luta pela conquista de direitos pelos cidadãos: direitos civis, humanos, políticos e sociais. Direitos
sociais nas constituições brasileiras. Políticas afirmativas .................................................................... 227
Vida urbana: redes e hierarquia nas cidades, pobreza e segregação espacial ................................ 239
Características e transformações das estruturas produtivas ............................................................ 251

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Diferentes formas de organização da produção: escravismo antigo, feudalismo, capitalismo, socialismo
e suas diferentes experiências ............................................................................................................. 270
Economia agro-exportadora brasileira: complexo açucareiro; a mineração no período colonial; a
economia cafeeira; a borracha na Amazônia ........................................................................................ 271
Revolução Industrial: criação do sistema de fábrica na Europa e transformações no processo de
produção. Formação do espaço urbano-industrial. Transformações na estrutura produtiva no século XX:
o fordismo, o toyotismo, as novas técnicas de produção e seus impactos ........................................... 271
A industrialização brasileira, a urbanização e as transformações sociais e trabalhistas ................... 271
A globalização e as novas tecnologias de telecomunicação e suas consequências econômicas,
políticas e sociais ................................................................................................................................. 271
Produção e transformação dos espaços agrários. Modernização da agricultura e estruturas agrárias
tradicionais. O agronegócio, a agricultura familiar, os assalariados do campo e as lutas sociais no campo.
A relação campo-cidade ....................................................................................................................... 283
Os domínios naturais e a relação do ser humano com o ambiente .................................................. 295
Relação homem-natureza, a apropriação dos recursos naturais pelas sociedades ao longo do tempo.
Impacto ambiental das atividades econômicas no Brasil. Recursos minerais e energéticos: exploração e
impactos. Recursos hídricos; bacias hidrográficas e seus aproveitamentos ......................................... 304
As questões ambientais contemporâneas: mudança climática, ilhas de calor, efeito estufa, chuva ácida,
a destruição da camada de ozônio. A nova ordem ambiental internacional; políticas territoriais ambientais;
uso e conservação dos recursos naturais, unidades de conservação, corredores ecológicos, zoneamento
ecológico e econômico ......................................................................................................................... 315
Origem e evolução do conceito de sustentabilidade ........................................................................ 332
Estrutura interna da terra. Estruturas do solo e do relevo; agentes internos e externos modeladores do
relevo ................................................................................................................................................... 332
Situação geral da atmosfera e classificação climática. As características climáticas do território
brasileiro............................................................................................................................................... 345
Os grandes domínios da vegetação no Brasil e no mundo .............................................................. 354
Representação espacial .................................................................................................................. 354
Projeções cartográficas; leitura de mapas temáticos, físicos e políticos; tecnologias modernas
aplicadas à cartografia ......................................................................................................................... 361

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Diversidade cultural, conflitos e vida em sociedade o Cultura Material
e imaterial; patrimônio e diversidade cultural no Brasil

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CULTURA SOCIEDADE PATRIMÔNIO

Cultura e Sociedade Brasileira

A cultura no Brasil é um reflexo da formação do país já no período colonial, quando começam a surgir
as primeiras relações entre portugueses e indígenas no primeiros anos do contato. Ao longo de mais de
cinco séculos de transformação, ela incorpora elementos de todos aqueles que ajudaram a criar o país
ou que vieram para o Brasil em busca de uma nova vida. Do churrasco ao acarajé, catolicismo a umbanda,
norte ao sul, o Brasil é um país de contrastes definidos por seus habitantes que convergem seus
costumes, crenças e práticas em território nacional1.
As influências indígenas e africanas deixaram marcas no âmbito da música, da culinária, do folclore,
do artesanato, dos caracteres emocionais e das festas populares do Brasil, assim como centenas de
empréstimos à língua portuguesa.
É evidente que algumas regiões receberam maior contribuição desses povos: os estados do Norte têm
forte influência das culturas indígenas, enquanto algumas regiões do Nordeste têm uma cultura bastante
africanizada, sendo que, em outras, principalmente no sertão, há uma intensa e antiga mescla de
caracteres lusitanos e indígenas, com menor participação africana.
No sul do país, as influências de imigrantes italianos e alemães são evidentes, seja na língua, culinária,
música e outros aspectos. Outras etnias, como os árabes, espanhóis, poloneses e japoneses contribuíram
também para a cultura do Brasil e são notadas em diferentes regiões.
A essência básica da cultura brasileira formou-se durante os séculos de colonização, quando ocorre a
fusão primordial entre as culturas dos indígenas, dos europeus, especialmente portugueses, e dos
escravos trazidos da África subsahariana. A partir do século XIX, a imigração de europeus não-
portugueses e povos de outras culturas, como árabes e asiáticos, adicionou novos traços ao panorama
cultural brasileiro. Também foi grande a influência dos grandes centros culturais dos países que exportam
hábitos e produtos culturais para o resto do globo.

Diferentes povos que formaram o Brasil

Portugueses
Dentre os diversos povos que formaram o Brasil, foram os europeus aqueles que exerceram maior
influência na formação da cultura brasileira, principalmente os de origem portuguesa.
Durante 322 anos o território foi colonizado por Portugal, o que implicou a transplantação tanto de
pessoas quanto da cultura da metrópole para as terras sul-americanas. O número de colonos portugueses
aumentou muito no século XVIII, na época do Ciclo do Ouro. Em 1808, a própria corte de D. João VI
mudou-se para o Brasil, um evento com grandes implicações políticas, econômicas e culturais.
A imigração portuguesa não parou com a Independência do Brasil: Portugal continuou sendo uma das
fontes mais importantes de imigrantes para o Brasil até meados do século XX.
A mais evidente herança portuguesa para a cultura brasileira é a língua portuguesa, atualmente a
língua oficial do país. A religião católica é também decorrência da colonização. O catolicismo,
profundamente arraigado em Portugal, legou ao Brasil as tradições do calendário religioso, com suas
festas e procissões. As duas festas mais importantes do Brasil, o carnaval e as festas juninas, foram
introduzidas pelos portugueses.
Além destas, vários folguedos regionalistas como as cavalhadas, o bumba-meu-boi, o fandango e a
farra do boi denotam grande influência portuguesa. No folclore brasileiro, são de origem portuguesa a

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Diversidade Cultural https://bit.ly/2LzmjZZ

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crença em seres fantásticos como a cuca, o bicho-papão e o lobisomem, além de muitas lendas e jogos
infantis como as cantigas de roda.
Na culinária, muitos dos pratos típicos brasileiros são o resultado da adaptação de pratos portugueses
às condições da colônia. Um exemplo é a feijoada brasileira, resultado da adaptação dos cozidos
portugueses. Também a cachaça foi criada nos engenhos como substituto para a bagaceira portuguesa,
aguardente derivada do bagaço da uva.
Alguns pratos portugueses também se incorporaram aos hábitos brasileiros, como as bacalhoadas. Os
portugueses introduziram muitas espécies novas de plantas na colônia, atualmente muito identificadas
com o Brasil, como a jaca e a manga.
De maneira geral, a cultura portuguesa foi responsável pela introdução no Brasil Colônia dos grandes
movimentos artísticos europeus: renascimento, maneirismo, barroco, rococó e neoclassicismo. Assim, a
literatura, pintura, escultura, música, arquitetura e artes decorativas no Brasil Colônia denotam forte
influência da arte portuguesa, por exemplo nos escritos do jesuíta luso-brasileiro Padre Antônio Vieira ou
na decoração exuberante de talha dourada e pinturas de muitas igrejas coloniais. Essa influência seguiu
após a Independência, tanto na arte popular como na arte erudita.

Os indígenas
A colonização do território brasileiro pelos portugueses representou em grande parte a destruição física
dos indígenas através de guerras e escravidão, tendo sobrevivido apenas uma pequena parte das nações
indígenas originais. A cultura indígena foi também parcialmente eliminada pela ação da catequese e
intensa miscigenação com outras etnias. Atualmente, apenas algumas poucas nações indígenas ainda
existem e conseguem manter parte da sua cultura original.
Apesar disso, a cultura e os conhecimentos dos indígenas sobre a terra foram determinantes durante
a colonização, influenciando a língua, a culinária, o folclore e o uso de objetos caseiros diversos como a
rede de descanso.
O português brasileiro guarda, de fato, inúmeros termos de origem indígena, especialmente derivados
do Tupi-Guarani. De maneira geral, nomes de origem indígena são frequentes na designação de animais
e plantas nativos (capivara, ipê, jacarandá, etc), além de serem muito frequentes na toponímia por todo
o território.
A influência indígena é também forte no folclore do interior brasileiro, povoado de seres fantásticos
como o Curupira, o Saci-pererê, o Boitatá e a Iara, entre outros. Na culinária brasileira, a mandioca, a
erva-mate, o açaí, a jabuticaba, inúmeros pescados e outros frutos da terra, além de pratos como os
pirões, entraram na alimentação brasileira por influência da culinária indígena no Brasil. Essa influência
se faz mais forte em certas regiões do país, em que esses grupos conseguiram se manter mais distantes
da ação colonizadora, principalmente em porções da Região Norte do Brasil.

Os africanos
A cultura africana chegou ao Brasil com os povos escravizados trazidos da África durante o longo
período em que durou o tráfico negreiro transatlântico. A diversidade cultural da África refletiu-se na
diversidade dos escravos, pertencentes a diversas etnias que falavam idiomas diferentes e trouxeram
tradições distintas. Os africanos trazidos ao Brasil incluíram bantos, nagôs e jejes, cujas crenças
religiosas deram origem às religiões afro-brasileiras, e os hauçás e malês, de religião islâmica e
alfabetizados em árabe.
Assim como a indígena, a cultura africana foi geralmente suprimida pelos colonizadores. Na colônia,
os escravos aprendiam o português, eram batizados com nomes portugueses e obrigados a se converter
ao catolicismo.
Os africanos contribuíram para a cultura brasileira em uma enormidade de aspectos: dança, música,
religião, culinária e idioma. Essa influência se faz notar em grande parte do país; em certos estados como
Bahia, Maranhão, Pernambuco, Alagoas, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul
a cultura afro-brasileira é particularmente destacada em virtude da migração dos escravos.
Os bantos, nagôs e jejes no Brasil colonial criaram o candomblé, religião afro-brasileira baseada no
culto aos orixás praticada atualmente em todo o território. Largamente distribuída também é a umbanda,
uma religião sincrética que mistura elementos africanos com o catolicismo e o espiritismo, incluindo a
associação de santos católicos com os orixás.
A influência da cultura africana é também evidente na culinária regional, especialmente na Bahia, onde
é comum o uso do azeite de dendê. Este azeite é utilizado em vários pratos de origem africana como o
vatapá, o caruru e o acarajé. Especula-se que o dendezeiro tenha chegado às terras brasileiras junto com
os primeiros cativos africanos à Capitania de Pernambuco de Duarte Coelho Pereira, entre 1539 e 1542,
trazido pelos feitores de escravos.
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Na música a cultura africana contribuiu com os ritmos que são a base de boa parte da música popular
brasileira. Gêneros musicais africanos como o lundu terminaram dando origem à base rítmica do maxixe,
samba, choro, bossa-nova e outros gêneros atuais. Também há alguns instrumentos musicais originários
da África muito utilizados no Brasil, como o berimbau, o afoxé e o agogô.

Outros imigrantes
A maior parte da população brasileira no século XIX era composta por negros e mestiços. Para povoar
o território, suprir o fim da mão-de-obra escrava mas também para "branquear" a população e cultura
brasileiras, foi incentivada a imigração da Europa para o Brasil durante os séculos XIX e XX. Dentre os
diversos grupos de imigrantes que aportaram no Brasil, foram os italianos que chegaram em maior
número, quando considerada a faixa de tempo entre 1870 e 1950.
Eles se espalharam desde o sul de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, sendo a maior parte na
região de São Paulo. A estes se seguiram os portugueses, com quase o mesmo número que os italianos.
Destacaram-se também os alemães, que chegaram em um fluxo contínuo desde 1824. Esses se fixaram
primariamente na Região Sul do Brasil, onde diversas regiões herdaram influências germânicas desses
colonos.
Os imigrantes que se fixaram na zona rural do Brasil meridional, vivendo em pequenas propriedades
familiares (sobretudo alemães e italianos), conseguiram manter seus costumes do país de origem, criando
no Brasil uma similaridade com as terras que deixaram na Europa.
Em contrapartida, os imigrantes que se fixaram nas grandes fazendas e nos centros urbanos do
Sudeste (portugueses, italianos, espanhóis e árabes), rapidamente se integraram na sociedade brasileira,
perdendo muitos aspectos da herança cultural do país de origem. A contribuição asiática veio com a
imigração japonesa, porém de forma mais limitada.
De maneira geral, as vagas de imigração europeia e de outras regiões do mundo influenciaram todos
os aspectos da cultura brasileira. Na culinária, por exemplo, foi notável a influência italiana, que
transformou os pratos de massas e a pizza em comida popular em quase todo o Brasil. Também houve
influência na língua portuguesa em certas regiões, especialmente no sul do território. Nas artes eruditas
a influência europeia imigrante foi fundamental, através da chegada de imigrantes capacitados em seus
países de origem na pintura, arquitetura e outras artes.

Diversidade Cultural Regional no Brasil

A diversidade cultural reflete os diferentes costumes e práticas que compõem a sociedade brasileira.
O Brasil é um país de dimensões continentais, que passou por diversos processos de ocupação,
migração, imigração e emigração, incorporando os traços de diversos povos e sociedades para compor
uma cultura única e diversificada. Além disso, por conter um extenso território, apresenta diferenças
climáticas, econômicas, sociais e culturais entre as suas regiões.
Entre as principais fontes de contribuição para a formação da cultura brasileira, estão os diferentes
povos indígenas que habitaram e ainda habitam o território brasileiro, os africanos escravizados e os
colonizadores e imigrantes europeus.
Para facilitar o entendimento da diversidade cultural brasileira é possível dividi-la pelas cinco regiões,
lembrando porém que cada localidade possui características únicas, que muitas vezes não podem
simplesmente serem englobadas de maneira simples.
Cada região brasileira, apresenta aspectos singulares relativos aos costumes, crenças ou
manifestações culturais e artísticas.

Região Norte
Dentre as manifestações culturais presentes na região norte do Brasil destacam-se as duas maiores
festas populares da região. São elas o Festival de Parintins e a festa do Círio de Nazaré.
O Festival de Parintins é a maior festa do boi-bumbá do país. Foi criada em 1965 e acontece no estado
do Amazonas. A festa do Círio de Nazaré, por sua vez, é considerada uma das maiores manifestações
religiosas católicas do país e acontece em Belém (PA).
Ainda em Belém do Pará destaca-se o Carimbó, uma dança e gênero musical de origens indígenas.
Alguns alimentos típicos da região norte são mandioca, tucupi, tacacá, jambu, carne de sol, camarão
seco, pato, jacaré, pirarucu, mussarela de búfala, pimenta-de-cheiro e frutas (cupuaçu, bacuri, açaí,
taperebá, graviola e buriti).

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Região Nordeste
Dentre as manifestações culturais presentes na região nordeste do Brasil destacam-se muitas festas,
danças e gêneros musicais, como: festa do bumba-meu-boi, festa de Iemanjá, lavagem das escadarias
do Bonfim, Carnaval, maracatu, caboclinhos, ciranda, terno de zabumba, marujada, reisado, frevo,
cavalhada.
Vale lembrar que a literatura de cordel é um elemento muito presente na cultura nordestina bem como
o artesanato feito com rendas.
Alguns alimentos típicos da região nordeste são: acarajé, vatapá, caruru, carne de sol, peixes, frutos
do mar, sarapatel, buchada de bode, feijão-verde, tapioca, broa de milho verde, canjica, arroz-doce, bolo
de fubá cozido, bolo de massa de mandioca, pamonha, cocada, tapioca, pé de moleque.

Região Centro-Oeste
Dentre as manifestações culturais presentes na região centro-oeste do Brasil destacam-se a cavalhada
e o fogaréu no estado de Goiás. A dança folclórica do cururu de origem indígena que ocorre nos estados
do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul na "Festa do Divino" e na "Festa de São Benedito".
Alguns alimentos típicos da região centro-oeste são: galinhada com pequi, sopa paraguaia, arroz
carreteiro, arroz boliviano, empadão goiano, pamonha, angu, curau, peixes (dourado, pacu, pintado ...).
Nessa região há uma grande mistura de elementos culturais das culturas indígena, paulista, mineira,
gaúcha, boliviana e paraguaia.
Nota-se exemplos dessa diversidade nos nomes dos muitos pratos típicos da região: "arroz boliviano",
sopa paraguaia", "empadão goiano".

Região Sudeste
Dentre as manifestações culturais presentes na região sudeste do Brasil destacam-se muitas
festividades de caráter religioso e folclórico além das danças e gêneros musicais típicos da região.
Dentre os elementos presentes na cultura do sudeste podemos citar: festa do divino, festejos da
páscoa e dos santos padroeiros, festas de peão de boiadeiro, dança de velhos, batuque, jongo, samba
de lenço, festa de Iemanjá, folia de reis, caiapó, congada, cavalhadas, bumba meu boi, Carnaval.
Alguns alimentos típicos da região sudeste são: virado à paulista, cuscuz paulista, feijoada, aipim frito,
bolinho de bacalhau, queijo minas, pão de queijo, feijão-tropeiro, tutu de feijão, moqueca capixaba, carne
de porco, farofa, pirão.

Região Sul
Dentre as manifestações culturais presentes na região sul do Brasil destacam-se as festas instituídas
por imigrantes advindos principalmente da Europa no século XX.
Dentre elas, destaca-se a maior festa alemã brasileira com sua primeira edição em 1984, chamada
"Oktoberfest", a festa da cerveja.
De origem germânica, essa festa acontece todos os anos na cidade de Blumenau-SC. Outra festa
muito tradicional da região sul do país, de origem italiana com primeira edição em 1931 é a "Festa da
Uva" que acontece a cada dois anos na cidade de Caxias do Sul-RS.
Além disso, destacam-se o fandango, de origem portuguesa, a tirana e o anuo, de origem espanhola.
Outras festas e danças da região são a festa de Nossa Senhora dos Navegantes, a congada, o boi-
de-mamão, a dança de fitas, boi na vara.
Alguns alimentos típicos da região sul são: vinho, chimarrão, churrasco, camarão, pirão de peixe,
marreco assado, barreado.

Patrimônio e diversidade cultural no Brasil2

No Brasil, as questões relativas ao patrimônio são regulamentadas pela Constituição Federal de 1988
e pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é uma autarquia federal vinculada ao
Ministério da Cultura que responde pela preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro. Cabe ao Iphan
proteger e promover os bens culturais do País, assegurando sua permanência e usufruto para as
gerações presentes e futuras.
O Iphan possui 27 Superintendências (uma em cada Unidade Federativa); 31 Escritórios Técnicos, a
maioria deles localizados em cidades que são conjuntos urbanos tombados, as chamadas Cidades
Históricas; e, ainda, quatro Unidades Especiais, sendo três delas no Rio de Janeiro: Sítio Roberto Burle

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Fonte: www.Iphan.com.br

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Marx, Paço Imperial e Centro Nacional do Folclore e Cultura Popular; e, uma em Brasília, o Centro
Nacional de Arqueologia.
O Iphan também responde pela conservação, salvaguarda e monitoramento dos bens culturais
brasileiros inscritos na Lista do Patrimônio Mundial e na Lista o Patrimônio Cultural Imaterial da
Humanidade, conforme convenções da Unesco, respectivamente, a Convenção do Patrimônio
Mundial de 1972 e a Convenção do Patrimônio Cultural Imaterial de 2003.
Histórico - Desde a criação do Instituto, em 13 de janeiro de 1937, por meio da Lei nº 378, assinada
pelo então presidente Getúlio Vargas, os conceitos que orientam a atuação do Instituto têm evoluído,
mantendo sempre relação com os marcos legais. A Constituição Brasileira de 1988, em seu artigo
216, define o patrimônio cultural como formas de expressão, modos de criar, fazer e viver. Também são
assim reconhecidas as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos,
edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; e, ainda, os conjuntos
urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e
científico.
Nos artigos 215 e 216, a Constituição reconhece a existência de bens culturais de natureza material e
imaterial, além de estabelecer as formas de preservação desse patrimônio: o registro, o inventário e
o tombamento.

Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial


Em 4 de agosto de 2000 foi publicado o Decreto nº 3.551, que instituiu o Registro de Bens Culturais
de Natureza Imaterial e definiu um programa voltado especialmente para esses patrimônios. O registro
é um instrumento legal de preservação, reconhecimento e valorização do patrimônio imaterial do Brasil,
composto por bens que contribuíram para a formação da sociedade brasileira.
Esse instrumento é aplicado àqueles bens que obedecem às categorias estabelecidas pelo Decreto:
celebrações, lugares, formas de expressão e saberes, ou seja, as práticas, representações, expressões,
lugares, conhecimentos e técnicas que os grupos sociais reconhecem como parte integrante do seu
patrimônio cultural. Ao serem registrados, os bens recebem o título de Patrimônio Cultural Brasileiro e
são inscritos em um dos quatro Livros de Registro, de acordo com a categoria correspondente. Os
pedidos de registro de bens culturais imateriais devem ser feitos de acordo com os artigos 2º a 4º da
Resolução Nº 001, de 3 de agosto de 2006.

Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC)


O Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) é uma metodologia de pesquisa desenvolvida
pelo Iphan para produzir conhecimento sobre os domínios da vida social aos quais são atribuídos sentidos
e valores e que, portanto, constituem marcos e referências de identidade para determinado grupo social.
Contempla, além das categorias estabelecidas no Registro, edificações associadas a certos usos, a
significações históricas e a imagens urbanas, independentemente de sua qualidade arquitetônica ou
artística.
A delimitação da área do Inventário ocorre em função das referências culturais presentes num
determinado território. Essas áreas podem ser reconhecidas em diferentes escalas, ou seja, podem
corresponder a uma vila, a um bairro, a uma zona ou mancha urbana, a uma região geográfica
culturalmente diferenciada ou a um conjunto de segmentos territoriais.

Tombamento
O tombamento é o instrumento de reconhecimento e proteção do patrimônio nacional mais
tradicional e foi instituído pelo Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937. Sob a tutela do Iphan, os
bens tombados se subdividem em bens móveis e imóveis, sendo que entre esses estão incluídos
equipamentos urbanos e de infraestrutura, paisagens naturais, ruínas, jardins e parques históricos,
terreiros e sítios arqueológicos. A proteção é uma das ações mais importantes referentes ao patrimônio
de natureza material. Proteger um bem cultural significa impedir que ele desapareça, mantendo-o
preservado para as gerações futuras.
Este Decreto-Lei é o primeiro instrumento legal de proteção do Patrimônio Cultural Brasileiro e nas
Américas e seus preceitos fundamentais se mantêm atuais e em uso até os nossos dias. Define
o Patrimônio Cultural Brasileiro como "conjunto de bens móveis e imóveis existentes no País e cuja
conservação é de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil,
quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico".
A palavra tombo, significando registro, começou a ser empregada pelo Arquivo Nacional Português,
fundado por D. Fernando, em 1375, e originalmente instalado em uma das torres da muralha que protegia

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a cidade de Lisboa. Com o passar do tempo, o local passou a ser chamado de Torre do Tombo. Ali eram
guardados os livros de registros especiais ou livros do tombo.
No Brasil, como uma deferência, o Decreto-Lei adotou tais expressões para que todo o bem material
passível de acautelamento, por meio do ato administrativo do tombamento, seja inscrito no Livro do
Tombo correspondente. A lista de bens culturais inscritos nos Livros do Tombo é a versão mais recente
sistematizada e publicada sobre os bens móveis e imóveis tombados pelo Iphan.

Patrimônio Cultural

A Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 216, ampliou o conceito de patrimônio estabelecido
pelo Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, substituindo a nominação Patrimônio Histórico e
Artístico, por Patrimônio Cultural Brasileiro. Essa alteração incorporou o conceito de referência cultural e
a definição dos bens passíveis de reconhecimento, sobretudo os de caráter imaterial. A Constituição
estabelece ainda a parceria entre o poder público e as comunidades para a promoção e proteção do
Patrimônio Cultural Brasileiro, no entanto mantém a gestão do patrimônio e da documentação relativa aos
bens sob responsabilidade da administração pública.
Enquanto o Decreto de 1937 estabelece como patrimônio “o conjunto de bens móveis e imóveis
existentes no País e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos
memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico
ou artístico”, o Artigo 216 da Constituição conceitua patrimônio cultural como sendo os bens “de natureza
material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à
ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”.
Nessa redefinição promovida pela Constituição, estão as formas de expressão; os modos de criar,
fazer e viver; as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações
e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor
histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
O Iphan zela pelo cumprimento dos marcos legais, efetivando a gestão do Patrimônio Cultural
Brasileiro e dos bens reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e
a Cultura (Unesco) como Patrimônio da Humanidade. Pioneiro na preservação do patrimônio na América
Latina, o Instituto possui um vasto conhecimento acumulado ao longo de décadas e tornou-se referência
para instituições assemelhadas de países de passado colonial, mantendo ativa cooperação internacional.
Nesse contexto, o Iphan constrói em parceria com os governos estaduais o Sistema Nacional do
Patrimônio Cultural, com uma proposta de avanço disseminada de maneira contínua para os estados e
municípios em três eixos: coordenação (definição de instância(s) coordenadora(s) para garantir ações
articuladas e mais efetivas); regulação (conceituações comuns, princípios e regras gerais de ação); e
fomento (incentivos direcionados principalmente para o fortalecimento institucional, estruturação de
sistema de informação de âmbito nacional, fortalecer ações coordenadas em projetos específicos).
Trabalhando com esses conceitos e visando facilitar o acesso ao conhecimento dos bens nacionais, a
gestão do patrimônio é efetivada segundo as características de cada grupo: Patrimônio Material,
Patrimônio Imaterial, Patrimônio Arqueológico e Patrimônio da Humanidade.

Patrimônio Material
O patrimônio material protegido pelo Iphan é composto por um conjunto de bens culturais classificados
segundo sua natureza, conforme os quatro Livros do Tombo: arqueológico, paisagístico e etnográfico;
histórico; belas artes; e das artes aplicadas. A Constituição Federal de 1988, em seus artigos 215 e 216,
ampliou a noção de patrimônio cultural ao reconhecer a existência de bens culturais de natureza material
e imaterial e, também, ao estabelecer outras formas de preservação – como o Registro e o Inventário –
além do Tombamento, instituído pelo Decreto-Lei nº. 25, de 30 de novembro de 1937, que é adequado,
principalmente, à proteção de edificações, paisagens e conjuntos históricos urbanos.
Os bens tombados de natureza material podem ser imóveis como os cidades históricas, sítios
arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; ou móveis, como coleções arqueológicas, acervos
museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos.
A relação de patrimônios materiais tombados pelo Iphan podem ser acessados por meio do Arquivo
Noronha Santos ou pelo Arquivo Central do Iphan, que é o setor responsável pela abertura, guarda e
acesso aos processos de tombamento, de entorno e de saída de obras de artes do País. O Arquivo
também emite certidões para efeito de prova e faz a inscrição dos bens nos Livros do Tombo.

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Patrimônio Imaterial
Os bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e domínios da vida social que
se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cênicas,
plásticas, musicais ou lúdicas; e nos lugares (como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas
culturais coletivas). A Constituição Federal de 1988, em seus artigos 215 e 216, ampliou a noção de
patrimônio cultural ao reconhecer a existência de bens culturais de natureza material e imaterial.
Nesses artigos da Constituição, reconhece-se a inclusão, no patrimônio a ser preservado pelo Estado
em parceria com a sociedade, dos bens culturais que sejam referências dos diferentes grupos formadores
da sociedade brasileira. O patrimônio imaterial é transmitido de geração a geração, constantemente
recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de
sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo para promover o respeito
à diversidade cultural e à criatividade humana.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) define como
patrimônio imaterial "as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – com os
instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os
grupos e, em alguns casos os indivíduos, reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural."
Esta definição está de acordo com a Convenção da Unesco para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural
Imaterial, ratificada pelo Brasil em março de 2006.
Para atender às determinações legais e criar instrumentos adequados ao reconhecimento e à
preservação desses bens imateriais, o Iphan coordenou os estudos que resultaram na edição do Decreto
nº. 3.551, de 4 de agosto de 2000 - que instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e
criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI) - e consolidou o Inventário Nacional de
Referências Culturais (INCR).
Em 2004, uma política de salvaguarda mais estruturada e sistemática começou a ser implementada
pelo Iphan a partir da criação do Departamento do Patrimônio Imaterial (DPI). Em 2010 foi instituído
pelo Decreto nº. 7.387, de 9 de dezembro de 2010 o Inventário Nacional da Diversidade Linguística
(INDL), utilizado para reconhecimento e valorização das línguas portadoras de referência à
identidade, ação e memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.

Questões3

01. (ENEM) Própria dos festejos juninos, a quadrilha nasceu como dança aristocrática. Oriunda dos
salões franceses, depois difundida por toda a Europa. No Brasil, foi introduzida como dança de salão e,
por sua vez, apropriada e adaptada pelo gosto popular. Para sua ocorrência, é importante a presença de
um mestre “marcante” ou “marcador”, pois é quem determina as figurações diversas que os dançadores
desenvolvem. Observa-se a constância das seguintes marcações: “Tour”, “En avant”, “Chez des dames”,
“Chez des cheveliê”, “Cestinha de flor”, “Balancê”, “Caminho da roça”, “Olha a chuva”, “Garranchê”,
“Passeio”, “Coroa de flores”, “Coroa de espinhos” etc.
No Rio de Janeiro, em contexto urbano, apresenta transformações: surgem novas figurações, o francês
aportuguesado inexiste, o uso de gravações substitui a música ao vivo, além do aspecto de competição,
que sustenta os festivais de quadrilha, promovidos por órgãos de turismo.
CASCUDO. L.C. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Melhoramentos. 1976.

As diversas formas de dança são demonstrações da diversidade cultural do nosso país. Entre elas, a
quadrilha é considerada uma dança folclórica por
(A) possuir como característica principal os atributos divinos e religiosos e, por isso, identificar uma
nação ou região.
(B) abordar as tradições e costumes de determinados povos ou regiões distintas de uma mesma
nação.
(C) apresentar cunho artístico e técnicas apuradas, sendo também, considerada dança-espetáculo.
(D) necessitar de vestuário específico para a sua prática, o qual define seu país de origem.
(E) acontecer em salões e festas e ser influenciada por diversos gêneros musicais

02. (ENEM)

TEXTO I
Andaram na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e daí a pouco começaram a vir mais. E parece-
me que viriam, este dia, à praia, quatrocentos ou quatrocentos e cinquenta. Alguns deles traziam arcos e
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https://bit.ly/2zSi8as

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flechas, que todos trocaram por carapuças ou por qualquer coisa que lhes davam. […] Andavam todos
tão bem-dispostos, tão bem feitos e galantes com suas tinturas que muito agradavam.
(CASTRO, S. A carta de Pero Vaz de Caminha. Porto Alegre: L&PM, 1996 (fragmento))

TEXTO II

(PORTINARI, C. O descobrimento do Brasil. 1956. Óleo sobre tela, 199 x 169 cm Disponível em: www.portinari.org.br. Acesso em: 12 jun. 2013. (Foto:
Reprodução))

Pertencentes ao patrimônio cultural brasileiro, a carta de Pero Vaz de Caminha e a obra de Portinari
retratam a chegada dos portugueses ao Brasil. Da leitura dos textos, constata-se que
(A) a carta de Pero Vaz de Caminha representa uma das primeiras manifestações artísticas dos
portugueses em terras brasileiras e preocupa-se apenas com a estética literária.
(B) a tela de Portinari retrata indígenas nus com corpos pintados, cuja grande significação é a
afirmação da arte acadêmica brasileira e a contestação de uma linguagem moderna.
(C) a carta, como testemunho histórico-político, mostra o olhar do colonizador sobre a gente da terra,
e a pintura destaca, em primeiro plano, a inquietação dos nativos.
(D) as duas produções, embora usem linguagens diferentes – verbal e não verbal –, cumprem a mesma
função social e artística.
(E) a pintura e a carta de Caminha são manifestações de grupos étnicos diferentes, produzidas em um
mesmo momentos histórico, retratando a colonização.

Gabarito

01.B / 02.C

Comentários

01. Resposta: B
A quadrilha pode ser classificada como um bem imaterial. Ela sofreu uma grande transformação desde
sua origem nos salões da nobreza francesa até ser popularizada em todas as regiões brasileiras, cada
uma com características próprias.

02. Resposta: C
Tanto o trecho da carta de Caminha quanto a obra de Portinari retratam o mesmo evento. A diferença
se dá pela percepção de cada um: enquanto Pero Vaz de Caminha trata a reação indígena como animada
em relação aos recém-chegados, o quadro de Portinari tentar representar a apreensão dos nativos com
a chegada dos colonizadores.

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A Conquista da América. Conflitos entre europeus e indígenas na
América colonial. A escravidão e formas de resistência indígena e
africana na América

AMÉRICA ESPANHOLA E LATINA

O Início do Domínio Europeu e as Tentativas de Resistências à Escravidão na América

O processo de interação e dominação entre indígenas e europeus começa com os primeiros contatos
nas ilhas da América Central em 1492. Lá foram implantados os “repartimentos” que consistiam na
distribuição de indígenas a alguns espanhóis, conhecidos como encomendeiros, que tinham a função de
cuidar e catequizar na fé cristã, ganhando em troca a mão de obra indígena. Em 1500 a coroa espanhola
tornou os indígenas livres e não mais sujeitos a servitude. Ao mesmo tempo ainda era possível dominar
e escravizar indígenas através da chamada “Guerra Justa”, quando as ações dos espanhóis pudessem
ser consideradas morais.
Os espanhóis possuíam vantagem em relação aos povos americanos pela estranheza e admiração
que causavam. O cavalo era um animal nunca antes visto no continente e impressionava os indígenas.
Também a crença espanhola na superioridade cultural, moral, e principalmente religiosa ajudou no
processo de dominação, além dos equipamentos de combate, como armaduras e arcabuzes (primeiras
espingardas) contra lanças e flechas.
O impacto da escravidão das populações indígenas foi imenso. Poucos anos após a chegada de
Colombo em 1492 grande parte da população nativa da América havia sido dizimada por doenças e
conflitos com europeus. Em 1512, tentando regular o funcionamento das Encomiendas, surgiu a Lei de
Burgos. Porém, a lei pouco adiantou, pois, a ação intensiva dos encomendeiros e a falta de fiscalização
sobre suas ações não acabaram com as práticas de morte e trabalhos forçados
Apesar de algumas sociedades que fizeram contato com espanhóis estarem acostumados com
grandes batalhas, como Incas e Astecas nas regiões da Mesoamérica e andes, os armamentos que os
espanhóis possuíam tinham uma grande vantagem em relação aos indígenas. Armas de pedra e madeira
não eram páreo e se quebravam ou não possuíam efeito nas armaduras espanholas, armas de fogo
possuíam mais poder destrutivo do que um arco e flecha. Assim, mesmo em menor número, os espanhóis
ainda conseguiam obter uma vantagem militar.
Além dos elementos bélicos, os espanhóis também se aproveitaram dos conflitos já existentes entre
grupos indígenas distintos para conquistar as populações da América. Diferentemente do caso brasileiro,
onde existiam diversas etnias diversificadas entre si, os espanhóis encontraram grandes impérios nos
casos Inca e Asteca, onde o poder ficava centralizado na figura de um único individuo, e a conquista e
dominação destes significava a desestruturação da sociedade que comandavam. Em casos como o
Asteca, os espanhóis utilizaram seus inimigos que foram dominados por um longo período. A derrubada
do império Asteca também significava para esses indivíduos o fim da opressão que vinham sofrendo de
seus dominadores. Apesar da vitória contra os Astecas e o auxílio aos espanhóis, essas populações
acabaram por ter o mesmo destino, que seus inimigos, indo de encontro também à escravidão
No caso Inca a geografia de seus territórios auxiliou para prolongar a resistência. Apesar da rápida
conquista que obtiveram, optaram por fundar uma nova capital para comandar a região, em Lima (Atual
capital do Peru), deixando a antiga capital do império Inca em Cuzco na mão de subordinados do antigo
império. A distribuição desigual de riquezas entre os lideres incas pelos espanhóis causaram revoltas,
como as ocorridas entre 1536 e 1537, na tentativa de recuperar as terras que haviam sido dominadas. A
vantagem dos indígenas nesse caso foi a altitude dos Andes, que lhes rendeu vitórias em batalha por
algum tempo, já que os espanhóis não estavam acostumados com a falta de oxigênio causada pela
altitude das montanhas.
Apesar dos impérios americanos constituírem grande parte do território de ação dos espanhóis, alguns
grupos autônomos renderam aos espanhóis grandes preocupações e conflitos. Grupos como os
Araucanos e Mixtecas, que viviam nas fronteiras dos grandes impérios, não possuíam a mesma unidade
de Incas e Astecas, e tinham de ser conquistados um por um. A existência de grupos não pacificados ou
dominados gerava uma grande perda para a economia local, pois os gastos com a defesa desses lugares
era muito grande, além dos prejuízos gerados pelos ataques, como são os casos das Guerras de Arauco
na região do Chile e as rebeliões no norte do México causados por Mixtecas.
O funcionamento interno das colônias foi um dos principais pontos de divergência. Apesar dos fatores
que levaram Inglaterra e Espanha a explorarem seus interesses nas colônias, de certo modo semelhantes
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(interesses mercantis), é possível perceber que o desenvolvimento das colônias se deu de maneiras bem
diferente.

Colonização Inglesa
Um dos motivos para a vinda de ingleses para a América foi a intolerância religiosa em seu país de
origem. Ao chegar ao poder, a dinastia Stuart encontrou na Inglaterra diversos grupos protestantes e
católicos, além da Igreja Anglicana, a oficial, em conflito. Diversos grupos, entre eles os quakers,
enxergavam na América uma oportunidade de serem livres na prática de seus cultos.
No começo da colonização muitos grupos religiosos se dirigiam para a América em busca de liberdade
para seus cultos, vetados na Inglaterra, a exemplo dos peregrinos, que vieram para a América abordo do
navio Mayflower. Os quatro principais grupos religiosos da América Inglesa eram os puritanos, os
anglicanos, os quakers, e os holandeses reformados. Além destes também haviam presbiterianos,
católicos, luteranos e huguenotes. Algumas colônias foram criadas com o intuito de livre culto. A religião
oficial das colônias era o Anglicanismo, porém havia a presença de batistas e presbiterianos no “Velho
Oeste”, além de pastores de seitas alemães. Os católicos (especialmente em Maryland), huguenotes,
batistas, entre outros, eram perseguidos em algumas colônias pela divergência religiosa, e muitas vezes
se encontravam em conflito com os anglicanos
A colônia também era utilizada como destino para o excedente populacional da Inglaterra que alcançou
nos anos anteriores um forte crescimento demográfico.
A presença de negros nas colônias inglesas se fez de maneira muito intensa, utilizados como mão-de-
obra nas lavouras principalmente no sul, introduzido pela necessidade de mão-de-obra nas plantations.
O trabalho escravo era considerado mais rentável e barato que a mão-de-obra livre.
A exploração colonial e a escravidão estavam tão relacionadas que chegaram a ser vistas como
sinônimos, “peças inseparáveis do mesmo sistema”.
Nas colônias inglesas do sul, a exploração colonial era apoiada na grande propriedade agrícola voltada
para o comércio e no escravismo. As colônias existiam principalmente para o fornecimento de produtos
de áreas tropicais para as metrópoles.
As colônias do norte, por seu clima semelhante ao europeu não ofereciam muitos produtos novos para
a Inglaterra e eram vistas como competidoras com a metrópole. A economia da região era voltada ao
mercado interno e à subsistência, então estava tão condicionada aos interesses da metrópole. Pautava-
se, principalmente, no trabalho livre. A distinção climática entre as colônias do Norte e do Sul causavam
também a distinção socioeconômica.

Colonização Espanhola
Ao chegarem na América os espanhóis se depararam com grandes e complexas civilizações. Muitos
dos centros urbanos criados pelos povos pré-colombianos superavam as cidades da Europa.
Um dos mais expressivos processos de dominação da população nativa aconteceu quando Hernán
Cortéz liderou as ações militares contra o Império Asteca, dominando e escravizando uma numerosa
população indígena.
O confronto e a doença funcionavam como importantes meios de dominação, além de outros casos,
em que os espanhóis instigavam o acirramento das rivalidades entre duas tribos locais. Dessa forma,
depois dos nativos se desgastarem em conflitos, a dominação hispânica agia para controlar as tribos em
questão.
Após a conquista, os colonizadores tomaram as devidas providências para assegurar os novos
territórios e, no menor espaço de tempo, viabilizar a exploração econômica de suas terras. A extração de
metais preciosos e o desenvolvimento de atividades agroexportadoras nortearam a nova feição da
América colonizada. Além de contar com uma complexa rede administrativa, os espanhóis aproveitaram
da mão de obra dos indígenas subjugados.
O grupo majoritário era composto de indígenas, que formavam a base de sustentação da economia
colonial. Os indígenas foram considerados os vassalos do rei e deviam trabalhar para que o Império
Espanhol ficasse mais forte. Além disso, deveriam pagar impostos, cobrados na forma de trabalhos
compulsórios.
A América Espanhola, foi caracterizada por uma descentralização administrativa, que se subdividia em
quatro vice-reinos:

– Nova Espanha: vice-reino foi criado no ano de 1535, estando assim incluído o México, parte da
América central e o oeste dos Estados Unidos.
– Peru: esse vice-reino criado no ano de 1543 e formado pelo novo Peru e por parte da Bolívia.

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– Nova Granada: vice-reino criado no ano de 1717 e formado por novos territórios da Colômbia,
Equador e Panamá.
– Rio da Prata: esse vice-reino foi criado no ano de 1776 e foi formado por novos territórios do
Paraguai, parte do Peru e da Bolívia, Uruguai e Argentina.

Escravidão na América Espanhola


Na América Espanhola coexistiram diferentes modalidades de relações de trabalho, variando conforme
as características da região e sua densidade demográfica. Na fase inicial da conquista, nas ilhas do
Caribe, quando a população indígena ainda não havia declinado drasticamente e a presença efetiva do
poder metropolitano era ainda débil para exercer um controle sob os interesses privados, predominou
como forma de trabalho a escravidão indígena, pura e simples.
No início do século XVI, além do ouro pilhado, o bem mais precioso que os espanhóis poderiam dispor
era o trabalho das comunidades indígenas. Durante a fase de organização da ocupação, em terras firmes,
preponderou a encomienda. Esta foi a primeira forma institucionalizada de trabalho e reunia aspectos da
tradição senhorial ibérica com os costumes tributários pré-hispânicos. As encomiendas eram concedidas
como um usufruto aos primeiros colonizadores, uma recompensa por serviços prestados ao rei. O
tratamento dispensado pelos encomendeiros e o ritmo de trabalho imposto aos índios, conjugado a falta
de defesas imunológicas às doenças introduzidas pelos europeus, resultaram em uma diminuição
populacional acentuada.
Outra modalidade de trabalho utilizada pelos espanhóis foi a mita, também conhecida por
“repartimiento” e “cuatéquil”. A mita foi amplamente utilizada na extração e beneficiamento de minérios,
sendo os índios escalados por sorteio para uma temporada de serviços compulsórios. Os trabalhadores
recebiam uma baixa compensação salarial pelo trabalho desenvolvido nas minas. Após o fim da jornada,
ainda recebiam uma quantidade de minério conhecida como partido. A mita também causou uma grande
queda no número de indígenas, já que os trabalhos eram forçados e as condições inadequadas.
Diante da queda demográfica, a Coroa se viu obrigada a proteger, reforçar ou mesmo criar
mecanismos de preservação das comunidades que se constituíam na única garantia de recrutamento de
trabalhadores.
Em algumas regiões, devido ao despovoamento ocasionado pela conquista, foi utilizado de forma
sistemática o trabalho do escravo africano, como nas plantations caribenhas; em outras áreas coloniais
especializadas no garimpo do ouro de aluvião, como no caso de Nova Granada (Colômbia) predominou
o trabalho escravo. Contudo, as relações de trabalho na hispano América estavam vinculadas às
possibilidades de arregimentar mão-de-obra junto às comunidades ameríndias. As tarefas relativas a
construção de prédios, estradas e pontes, além do transporte de mercadorias e extração de minérios,
foram atividades executadas majoritariamente pelo trabalho compulsório dos índios.

Escravidão no Brasil
O trabalho compulsório, entre eles a escravidão, foi um dos eixos principais da organização social de
uma vasta área no continente americano. No Brasil, os “negros da terra” (índios) e sobretudo os “negros
da guiné” (africanos) foram utilizados como escravos em todas as atividades econômicas rurais e
urbanas, no trabalho doméstico e artesanal, marcando profundamente nossa história. O trabalho braçal
passou a ser identificado com a escravidão e com a cor da pele dos africanos.
No início da colonização, nos engenhos os trabalhadores escravos eram quase exclusivamente
indígenas. A mão-de-obra era obtida pela sujeição dos índios capturados nas matas ou nas missões
catequizadoras dos jesuítas. Nas regiões Sudeste e Norte, essa mão-de-obra perdurou por certo tempo;
entretanto, no Nordeste, onde se desenvolvia uma atividade econômica importante e que dependia de
mão-de-obra abundante, as dificuldades com os indígenas (doenças, fugas, conflitos) fizeram com que
se empregassem escravos africanos. Estes possibilitavam ainda lucro adicional à metrópole por meio do
tráfico negreiro.
Os portugueses já utilizavam o africano escravizado como mão-de-obra nas plantações de açúcar nas
ilhas do Atlântico (Madeira e Cabo Verde). A escravidão não era um tipo de relação social desconhecido
na África. Em algumas sociedades hierarquizadas ela já existia, mas de forma diferenciada. Geralmente,
o cativo era presa de guerra, propriedade coletiva, não podia ser vendido, e sua condição não era
hereditária. Tratava-se de uma escravidão quase patriarcal, na qual o tráfico não tinha importância
econômica. Com o estabelecimento de feitorias portuguesas no litoral africado, o negro cativo tornou-se
objeto de troca comercial, isto é, uma mercadoria.

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As principais civilizações Pré-Colombianas4

Os Maias
Durante o apogeu de sua civilização, os maias dominaram a Península de Iucatã no sul do México,
quase toda a Guatemala, parte de Honduras e El Salvador e Belize.
A denominação maia é utilizada em razão da semelhança linguística entre os povos da região.
Originários das regiões setentrionais, atualmente Estados Unidos. Estabeleceram-se inicialmente ao
norte da Guatemala e Honduras, constituindo a mais antiga das civilizações pré-colombianas.
Os maias não chegaram a construir um Império, pois suas cidades estiveram constantemente em
conflito, gerando uma organização caracterizada pela formação de cidades-Estados. O poder político era
teocrático e hereditário. Cada cidade-Estado possuía um governante local que devia obediência ao poder
central. A sociedade era rigidamente dividida e a posição social era dada pelo nascimento. No topo da
pirâmide social, estava a família governante, altos funcionários do Estado (sacerdotes e militares) e
comerciantes; abaixo destes, vinham os cobradores de impostos, militares e responsáveis pelas
cerimônias; na base da pirâmide, encontravam-se os trabalhadores braçais. Na economia, o cultivo da
terra era coletivo e as comunidades pagavam um imposto também coletivo. O principal produto cultivado
era o milho, base da alimentação dos maias. Os mercadores eram os responsáveis pela realização de
trocas de produtos agrícolas e artesanais.
A religião defendia que o destino dos homens era controlado pelos deuses, aos quais prestavam cultos,
rezavam cerimonias e construíam templos em forma de pirâmides com escadarias, utilizando mão de
obra camponesa recrutada de forma compulsória. Ainda em função da religião, desenvolveram a
escultura em terracota a pintura e o calendário cíclico, com 52 anos, Fundamentando-se em seus
avançados estudos de astronomia. Com a intenção de facilitar os cálculos, Inventaram o zero. A escrita
elaborada e denominada glífica e consiste em um conjunto de caracteres que representam parcialmente
um objeto ou algo relacionado a esse objeto.
Por volta do ano 900, iniciou-se o declínio do Império Maia que, dois séculos mais tarde passou a
sofrer influência da cultura tolteca. Os toltecas originários do grupo linguístico naua haviam ocupado o
Planalto Central Mexicano e transformado Tula em sua capital. Formavam uma sociedade urbanizada e
militarista, na qual se destacava a religião, que tinha como deus principal Quetzalcoatl (serpente
emplumada). Ocorreu, então, a fusão das culturas maia e tolteca, dando início ao chamado Novo Império
Maia, que, lentamente, entrou em declínio.
Quando os espanhóis chegaram, os maias já estavam em decadência. Entretanto, deixaram a marca
da sua cultura em muitos povos vizinhos na Mesoamérica. As hipóteses para explicar a sua decadência
são muitas. Entre elas podemos citar o esgotamento do solo em razão da pratica da agricultura de coivara
ou queimada, a deficiência alimentar (o consumo de carne e portanto de proteína era raríssimo) e ainda
os acirrados conflitos internos entre os diversos líderes das cidades-Estados.
No período de 1517 os espanhóis conquistaram o Império Maia, o que foi marcado pela violência do
branco contra o indígena, pela força das armas em busca do ouro. Entre as culturas pré-colombianas,
somente os maias resistiram a conquista europeia, já que não acreditavam, como os outros povos, que
os europeus fossem deuses que chegavam na América.

Astecas
Os astecas possuíam uma sociedade simples, na qual prevalecia a igualdade entre os membros do
grupo, que era liderado por um chefe guerreiro. Em 1325, fundaram a capital do império, às margens do
Lago Texcoco, que recebeu o nome de Tenochtitlán (que significa Rocha de Cactus e corresponde a atual
Cidade do México). Firmou aliança com as cidades-estados de Tlacopan e Texcoco, que juntas
submeteram os povos do Vale e deram origem ao Império Asteca.
A religião Asteca era politeísta. Entre os deuses adorados pelos astecas, estavam o Colibri-Azul ou
Uitzilopochtli (o deus do Sol do Meio-Dia) e Tezcatlipoca (deus protetor dos guerreiros e escravos,
simbolizado pela noite). O contato com outras civilizações os fez adorar deuses corno Quetzalcoatl (a
Serpente de Plumas).
Os astecas acreditavam na ideia de que seriam o povo incumbido de zelar pela manutenção da
harmonia no universo. O que só poderia acontecer por meio da alimentação dos deuses. Assim o seu
código religioso admitia o sacrifício humano. Os deuses que regiam o universo e asseguravam as boas
colheitas e vitorias militares também regiam o destino dos homens.
Os astecas organizavam-se em clãs denominados calpulli, que tinham por base os laços de
parentesco. Nesse período, a posse da terra era coletiva.

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Adaptado de Silva & Costa

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O imperador e sua família estavam no topo da pirâmide social. A expansão sobre o Vale do México e
a conquista de terras - realizada da meio da guerra - conferiram aos militares um grande poder no Império.
Os sacerdotes e os militares constituam a nobreza, compondo a classe dominante. Esta recebia como
privilégios a isenção de impostos e o domínio sobre extensões de terras, das quais não era proprietária
particular. Os comerciantes (denominados pochtecas) e os artesãos compunham a camada social
intermediária. Os comerciantes organizavam-se em corporações e detinham o monopólio sobre a
atividade mercantil, que era transmitida de pai para filho. Os artesãos trabalhavam com a ourivesaria e a
confecção de peças em plumas; também se organizavam em corporações e pagavam impostos ao
Estado. A profissão era hereditária dentro das famílias. Na base da pirâmide social, estavam os
camponeses e os escravos. Os primeiros, de origem asteca, deviam obrigações ao Estado, corro
trabalhar em obras públicas, na agricultura, pagar impostos e prestar serviço militar. Quando casavam,
recebiam um lote de terra para cultivar e nos combates militares, havia a possiblidade de ascensão social.
Os escravos, adquiridos em guerras, como pagamento de dívidas ou condenados por crimes,
trabalhavam a terra e podiam ser libertados. A poligamia era admitida no grupo pelo fato de a população
masculina diminuir em períodos de guerra, mas predominava a monogamia.
Os astecas produziam milho, feijão, cacau e algodão, entre outros produtos. Utilizavam as chinampas
e aperfeiçoaram o sistema de regadio em suas plantações. O comercio, apesar de não ser a principal
atividade econômica, também se destacava na sociedade. Esse comercia levou ao aprimoramento do
sistema de troca, que transformou a semente de cacau em “moeda corrente”.
Sua arquitetura foi extremamente desenvolvida, destacando-se a construção de pirâmides, palácios e
sistemas de irrigação, além de aquedutos. Estudavam astronomia e criaram um calendário dividindo o
ano em dezoito meses (cada mês com vinte dias), mais cinco dias complementares; a cada 52 anos,
concluía-se um ciclo. Utilizando esse conhecimento, previam eclipses lunares e os solstícios.
A escrita era pictórica e hieroglífica.
Em 1440, Montezuma I inicia a construção de grandes aquedutos e obras para a irrigação do solo e,
principalmente, a organização do Império. Quando os espanhóis chegaram à região do Império Asteca
em 1521, Montezuma II era reconhecido como o único imperador, e os astecas viviam seu momento de
apogeu.

Incas
Os Incas ocuparam o território que corresponde atualmente ao Peru, Bolívia, Equador, Chile e Norte
da Argentina.
Antes dos Incas, o Altiplano Andino foi calco de culturas que são denominadas pré-incaicas. Entre
essas culturas, estavam a Chavin, que existiu dos séculos IX a II a.C., no norte do Peru. Com a
decadência dessa cultura, o Altiplano Andino assistiu a um longo período em que predominaram grupos
fragmentados e, no século VI da Era Crista, três grandes culturas floresceram nessa região.
São elas:
Império Tiahuanaco, no Altiplano boliviano, próximo ao Lago Titicaca;
Civilização huari, na bacia do Rio do Aiacucho, estendendo-se da região de Cuzco até a costa norte
do Peru;
Império Chimu, costa norte do Peru.

Os incas constituíam um povo nômade, parte integrante do grupo quíchua, da regido da Amazônia.
Após sucessivas conquistas, os incas estenderam o seu poder sobre uma área de quase 5.200.00 km²,
com uma população estimada entre 3.5 milhões e 7 milhões de habitantes.
Quando os espanhóis chegaram, em 1532, o Império Inca vivia seu auge, impressionando os
espanhóis pela sua organização e suas imponentes obras arquitetônicas. Apesar da dominação
espanhola, a influência dos incas faz-se presente até hoje. No Peru, o quíchua, antiga língua dos Incas,
é atualmente uma das línguas oficiais do país.
A base da economia Inca era a agricultura, na qual a batata e o milho ocupavam lugar de destaque.
Para ampliar a área cultivável, faziam terraços nas regiões do Altiplano Andino, o que, além de favorecer
a agricultura, evitava a erosão da terra. O solo era fertilizado com guano, fertilizante natural de excremento
de aves. A terra no Altiplano Andino era propriedade coletiva da comunidade ayllu, que trabalhava em
conjunto nas plantações.
Urna corte da produção era recolhida aos depósitos públicos para ser distribuída aos habitantes em
tempo de crise pelo curaca, líder local.
Com a chegada dos Incas e seu processo de expansão e submissão das comunidades, as terras
passaram a pertencer ao Estado e a estrutura fundiária original foi alterada. As terras foram então
divididas em terras da comunidade e terras do Estado, cultivadas peba membros do ayllu.
13

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O tributo em espécie não era pago diretamente ao Estado, mas este detinha o direito de requisitar a
mita, paga sob a forma de trabalho compulsório nas minas, construção de estradas e obras públicas,
corro canais de irrigação. Na época em que a mita era requisitada, o Estado devia prover os trabalhadores
com víveres.
O comercio também se desenvolveu com base na produção de cerâmica, tecidos e artesanato em
ouro, bronze e prata
Com a conquista incaica sobre a região do altiplano no século XIII, as comunidades foram
subordinadas e o poder político ficou nas mãos de um imperador - Inca ou Sapa Inca -, cuja força se
fundamentava na religião e no Exército, do qual era o comandante supremo
Abaixo do imperador estava a nobreza, formada por seus parentes, por altos funcionários do Estado e
do clero e pelos curacas. Em seguida vinham os artesãos, médicos, artistas, militares e contabilistas. Na
base da pirâmide social estavam os camponeses e os escravos.
Dentro do Império, o ayllu continuou a ser a base da organização social e administrativa sendo formado
de acordo com os laços de parentesco e chefiado pelo curaca, cujo poder era transmitido
hereditariamente.
Para tentar evitar os conflitos internos, graças as conquistas sobre outros povos, os incas tomavam os
filhos dos curacas dominados como “reféns” e os enviavam a capital do Império para estudar, forçando a
submissão dos líderes derrotados. Administrativamente, o Império foi dividido em quatro partes
(províncias), que eram interligadas por numerosas estradas, permitindo tanto o serviço dos correios
quanto a ação do Exército em caso de revolta. Mais tarde, essas vias acabaram facilitando o trabalho dos
invasores espanhóis.
Os incas dedicaram-se a astronomia, elaborando um calendário que, além de marcar o tempo, servia
para fazer previsões astrológicas. Na religião, além do Sol, da Lua, do Trovão e da Terra, cultuavam Vira-
cocha, o "Criador do Universo". Completando as suas cerimônias, que incluam danças e uso da chicha
(espécie de cerveja feita de cereais), sacrificavam humanos e lhamas.

Processo de Independência5

O processo de independência da América Espanhola ocorreu em um conjunto de situações


experimentadas ao longo do século XVIII. Nesse período, observamos a ascensão de um novo conjunto
de valores que questionava diretamente o pacto colonial e o autoritarismo das monarquias. O iluminismo
defendia a liberdade dos povos e a queda dos regimes políticos que promovessem o privilégio de
determinadas classes sociais.
Sem dúvida, a elite letrada da América Espanhola inspirou-se no conjunto de ideias iluministas. A
grande maioria desses intelectuais era de origem criolla, ou seja, filhos de espanhóis nascidos na América
desprovidos de amplos direitos políticos nas grandes instituições do mundo colonial espanhol. Por
estarem politicamente excluídos, enxergavam no iluminismo uma resposta aos entraves legitimados pelo
domínio espanhol, ali representado pelos chapetones.
Ao mesmo tempo em que houve toda essa efervescência ideológica em torno do iluminismo e do fim
da colonização, a pesada rotina de trabalho dos índios, escravos e mestiços também contribuiu para o
processo de independência. As péssimas condições de trabalho e a situação de miséria já tinham, antes
do processo definitivo de independência, mobilizado setores populares das colônias hispânicas. Dois
claros exemplos dessa insatisfação puderam ser observados durante a Rebelião Tupac Amaru
(1780/Peru) e o Movimento Comunero (1781/Nova Granada).
No final do século XVIII, a ascensão de Napoleão frente ao Estado francês e a demanda britânica e
norte-americana pela expansão de seus mercados consumidores serão dois pontos cruciais para a
independência. A França, pelo descumprimento do Bloqueio Continental, invadiu a Espanha,
desestabilizando a autoridade do governo sob as colônias. Além disso, Estados Unidos e Inglaterra
tinham grandes interesses econômicos a serem alcançados com o fim do monopólio comercial espanhol
na região.
É nesse momento, no início do século XIX, que a mobilização ganha seus primeiros contornos. A
restauração da autoridade colonial espanhola seria o estopim do levante capitaneado pelos criollos.
Contando com o apoio financeiro anglo-americano, os criollos convocaram as populações coloniais a se
rebelarem contra a Espanha. Os dois dos maiores líderes criollos da independência foram Simon Bolívar
e José de San Martin. Organizando exércitos pelas porções norte e sul da América, ambos sequenciaram
a proclamação de independência de vários países latino-americanos.

5
Sousa, Rainer Gonçalves. "Independência da América Espanhola"; Mundo Educação. https://bit.ly/2M9ua0C.

14

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No ano de 1826, com toda América Latina independente, as novas nações reuniram-se no Congresso
do Panamá. Nele, Simon Bolívar defendia um amplo projeto de solidariedade e integração político-
econômica entre as nações latino-americanas. No entanto, Estados Unidos e Inglaterra se opuseram a
esse projeto, que ameaçava seus interesses econômicos no continente. Com isso, a América Latina
acabou mantendo-se fragmentada.
O desfecho do processo de independência, no entanto, não significou a radical transformação da
situação socioeconômica vivida pelas populações latino-americanas. A dependência econômica em
relação às potências capitalistas e a manutenção dos privilégios das elites locais fizeram com que muitos
dos problemas da antiga América Hispânica permanecessem presentes ao longo da História latino-
americana
Questões

01. Uma das diferenças essenciais entre a Independência da América Espanhola e a Independência
Brasileira está no:
(A) modelo político adotado, haja vista que na América Hispânica predominou o modelo republicano,
enquanto no Brasil adotou-se o modelo monárquico.
(B) modelo de guerra adotado, já que no Brasil a guerrilha foi o modelo de combate adotado no
processo de independência.
(C) modelo econômico, haja vista que o Brasil, ao contrário da América Espanhola, sofreu um grave
transtorno na produção agrícola, levando a política colonial ao colapso.
(D) carisma do líder, já que Bolívar tinha menos impacto na consciência da população do que Dom
Pedro I.
(E) papel do exército, já que, no caso brasileiro, o exército precisou impedir que Portugal retomasse o
Brasil como sua colônia.

02. (UNESP) Leia:


É uma ideia grandiosa pretender formar de todo o Novo Mundo uma única nação com um único vínculo
que ligue as partes entre si e com o todo. Já que tem uma só origem, uma só língua, mesmos costumes
e uma só religião, deveria, por conseguinte, ter um só governo que confederasse os diferentes Estados
que haverão de se formar; mas tal não é possível, porque climas remotos, situações diversas, interesses
opostos e caracteres dessemelhantes dividem a América. (Simón Bolívar. Carta da Jamaica [06.09.1815].
In: Simón Bolívar: política, 1983.)
O texto foi escrito durante as lutas de independência na América Hispânica. Podemos dizer que:
(A) ao contrário do que afirma na carta, Bolívar não aceitou a diversidade americana e, em sua ação
política e militar, reagiu à iniciativa autonomista do Brasil.
(B) ao contrário do que afirma na carta, Bolívar combateu as propostas de independência e unidade
da América e se empenhou na manutenção de sua condição de colônia espanhola.
(C) conforme afirma na carta, Bolívar defendeu a unidade americana e se esforçou para que a América
Hispânica se associasse ao Brasil na luta contra a hegemonia norte-americana no continente.
(D) conforme afirma na carta, Bolívar aceitou a diversidade geográfica e política do continente, mas
tentou submeter o Brasil à força militar hispano-americana.
(E) conforme afirma na carta, Bolívar declarou diversas vezes seu sonho de unidade americana, mas,
em sua ação política e militar, reconheceu que as diferenças internas eram insuperáveis.

Respostas

01.A / 02.E

Comentários
01. Resposta: A
Na América Espanhola, o processo de Independência foi permeado por guerras sangrentas e culminou
na implementação de regimes republicanos. No Brasil, o processo de independência não chegou ao
confronto armado com a coroa portuguesa e o regime político adotado passou a ser a monarquia
constitucional.

02. Resposta: E
Simón Bolívar foi o principal líder que conduziu o processo de Independência da América Espanhola.
Seu epistolário (isto é, seu conjunto de cartas escritas e enviadas a diversas pessoas) é um dos mais
impressionantes de que se tem notícia desse período. Em suas milhares de cartas, Bolívar deixou claras
15

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as contradições que o atormentavam enquanto homem que tinha consciência de ser um ator político de
seu tempo. Apesar da vontade de promover uma América Latina integrada, sabia que o projeto não
poderia ser levado a cabo à época.

BRASIL COLONIAL

Da Organização da Colônia ao Governo Geral

• A organização colonial mostrada aqui é aquela a partir de 1530, após o chamado período pré-colonial.
É o período após o envio da expedição de Martin Afonso de Souza com a intenção de policiar, ocupar e
explorar efetivamente o território brasileiro, aceito como início real da colonização.

As Capitanias Hereditárias

Fonte: http://www.estudopratico.com.br/

A implantação do regime de capitanias hereditárias no Brasil em 1534 está vinculada com a


incapacidade econômica do Estado português em financiar diretamente a colonização. Lembrando que o
comércio com as Índias, maior responsável pelo excedente da balança comercial portuguesa já não era
tão lucrativo.
Por essa razão, e considerando a necessidade de se colonizar o país, D. João III decidiu dividir o
território em capitanias hereditárias para que elas se “auto colonizassem” com recursos particulares sem
que a coroa tivesse que investir dinheiro.
O regime de capitanias já havia sido aplicado com êxito nas ilhas atlânticas (Madeira, Açores, Cabo
Verde e São Tomé) e no próprio Brasil já existia a capitania de São João, correspondente ao atual
arquipélago de Fernando de Noronha.
O território brasileiro foi dividido em 14 capitanias e doadas a doze donatários. Os limites de cada
território definido sempre por linhas paralelas iniciadas no litoral, estavam especificados na Carta de
Doação. Este documento estipulava que a capitania seria hereditária, indivisível e inalienável, podendo
ser readquirida somente pela Coroa.
Nesse processo havia um segundo documento: o Foral, que regulamentava minuciosamente os
direitos do rei. Na realidade, os donatários não recebiam a propriedade das capitanias, mas apenas sua
posse. Ainda assim possuíam amplos poderes administrativos, militares e judiciais, respondendo
unicamente ao soberano. Tratava-se portanto de um regime administrativo descentralizado.
São Vicente e Pernambuco foram as únicas capitanias que prosperaram. O fracasso do projeto como
um todo decorreu de vários fatores: falta de coordenação entre as capitanias, grande distância da
metrópole, excessiva extensão territorial, ataques indígenas, desinteresse de vários donatários e, acima
de tudo, insuficiência de recursos.
Motivado por esses fracassos, a saída encontrada pelo rei foi uma mudança na forma de administrar
a colônia, com a criação do Governo-Geral.
As capitanias hereditárias não desapareceram de uma vez com a criação do Governo-Geral, elas
foram gradualmente readquiridas pela Coroa até serem totalmente extintas, na segunda metade do século
XVIII pelo Marquês de Pombal.
16

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* A relação de propriedades e nomes dos donatários e suas capitanias já não é alvo de questões (é
mais pedida em vestibulares do que em concursos). De qualquer forma a lista segue abaixo. Sugiro que
foquem sua atenção mais nas características e motivos do fracasso do que na relação capitania-
donatário.

Principais Capitanias Hereditárias e seus donatários: São Vicente (Martim Afonso de Sousa),
Santana, Santo Amaro e Itamaracá (Pêro Lopes de Sousa), Paraíba do Sul (Pêro Gois da Silveira),
Espírito Santo (Vasco Fernandes Coutinho), Porto Seguro (Pêro de Campos Tourinho), Ilhéus (Jorge
Figueiredo Correia), Bahia (Francisco Pereira Coutinho), Pernambuco (Duarte Coelho), Ceará (António
Cardoso de Barros), Baía da Traição até o Amazonas (João de Barros, Aires da Cunha e Fernando
Álvares de Andrade).

Governo Geral

A ideia de D. João III era centralizar a administração colonial subordinando as capitanias a um


governador-geral que coordenasse e acelerasse o processo de colonização do Brasil. Com esse objetivo
elaborou-se em 1548 o Regimento do Governador-Geral no Brasil, que regulamentava as funções do
governador e de seus principais auxiliares — o ouvidor-mor (Justiça), o provedor-mor (Fazenda) e o
capitão-mor (Defesa).
O primeiro governador-geral foi Tomé de Sousa, fundador de Salvador, primeira cidade e capital do
Brasil. Com ele vieram os primeiros jesuítas.
A administração do segundo governador-geral, Duarte da Costa, apresentou mais problemas que seu
antecessor:
- revoltas dos índios na Bahia
- conflito entre o governador e o bispo
- a invasão francesa do Rio de Janeiro (criação da França Antártica).

Em compensação, o terceiro governador-geral, Mem de Sá, mostrou-se tão eficiente que a metrópole
o manteve no cargo até sua morte. Foi ele quem conseguiu expulsar os invasores franceses, com ajuda
de seu sobrinho Estácio de Sá.
Depois de Mem de Sá, por duas vezes a colônia foi dividida temporariamente em dois governos-gerais:
a primeira teve como divisão a Repartição do Norte, com capital em Salvador, e a do Sul, com capital no
Rio de Janeiro.
A segunda divisão foi durante a União Ibérica6, onde o Brasil foi transformado em duas colônias
distintas: Estado do Brasil (cuja capital era Salvador e, depois, Rio de Janeiro) e Estado do Maranhão
(cuja capital era São Luís e, depois, Belém). A reunificação só seria concretizada pelo Marquês de
Pombal, em 1774.
Além das Capitanias e do Governo-Geral, as Câmaras Municipais nas vilas e nas cidades
desempenhavam papel menor na administração do Brasil colonial. O controle das Câmaras Municipais
era exercido pelos grandes proprietários locais, conhecidos como "homens-bons". Entre suas
competências, destacavam-se a autoridade para decidir sobre preços de mercadorias e a fixação dos
valores de alguns tributos.
As eleições para as Câmaras Municipais eram realizadas entre os já citados homens-bons. Elegiam-
se três vereadores, um procurador, um tesoureiro e um escrivão, sob a presidência de um juiz ordinário
(juiz de paz).

Sistema Colonial

Sociedade
No topo da pirâmide social do período estavam os senhores de engenho. Eles dominavam a economia
e a política, exercendo poder sobre sua família e sobre outras pessoas que viviam em seus domínios sob
sua proteção – os agregados. Era a chamada família patriarcal.
Na camada intermediária estavam os homens livres, como religiosos, feitores, capatazes, militares,
comerciantes, artesãos e funcionários públicos. Alguns possuíam terras e escravos, porém não exerciam
grande influência individualmente, principalmente em relação à economia.

6
*A União Ibérica foi o período em que o império português e espanhol estiveram sob a mesma administração. Quando D. Sebastião – Rei de Portugal -
desapareceu durante conflitos contra os mouros na África sem deixar herdeiros diretos, o trono português foi ocupado provisoriamente por seu tio-avô. Após seu
falecimento, Felipe II, rei da Espanha e tio de D. Sebastião assume o trono português. Esse período durou 60 anos (1580 – 1640). Ele influenciou definitivamente as
relações entre Portugal e Espanha e alterou de forma marcante nosso território originalmente definido pelo Tratado de Tordesilhas.

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Na base estava a maior parte da população, que era composta de africanos e índios escravizados
(sendo os índios a primeira tentativa de escravidão). Os escravos não eram vistos como pessoas com
direito a igualdade. Eram considerados propriedade dos senhores e faziam praticamente todo o trabalho
na colônia. Os escravos nas zonas rurais não tinham nenhum direito na sociedade e começavam a
trabalhar desde crianças.
A sociedade colonial brasileira foi um reflexo da própria estrutura econômica, acompanhando suas
tendências e mudanças. Suas características básicas entretanto, definiram-se logo no início da
colonização segundo padrões e valores do colonizador português. Assim, a sociedade do Nordeste
açucareiro do século XVI, essencialmente ruralizada, patriarcal, elitista, escravista e marcada
pela imobilidade social, é a matriz sobre a qual se assentarão as modificações dos séculos seguintes7.
No século XVIII, a sociedade brasileira conheceu transformações expressivas. O crescimento
populacional, a intensificação da vida urbana e o desenvolvimento de outras atividades econômicas para
atender a essa nova realidade, resultaram indubitavelmente da mineração. Embora ainda conservasse o
seu caráter elitista, a sociedade do século XVIII era mais aberta, mais heterogênea e marcada por uma
relativa mobilidade social, portanto mais avançada em relação à sociedade rural e escravista dos séculos
XVI e XVII.
Os folguedos (festas populares) das camadas mais pobres conviviam com os saraus e outros eventos
sociais da camada dominante. Com relação a esta, o hábito de se locomover em cadeirinhas ou redes
transportadas por escravos, evidencia o aparecimento do escravo urbano, com destaque para os
chamados negros de ganho8.

Escravos e homens livres na Colônia


No Brasil colonial a mão de obra escrava foi utilizada amplamente. A escravidão está presente na
formação do país, desde os índios aos negros que chegavam em navios, a utilização do trabalho escravo
se deu pela intenção de maximizar lucros através da super exploração do trabalho e do trabalhador.
Apesar da ampla utilização do trabalho escravo, este não foi o único. Uma parte da sociedade era livre,
composta de trabalhadores livres, que no início eram apenas os portugueses condenados ao exílio na
América como punição.
Ser livre, mas pertencer ao último estamento social na colônia significava apenas não ser escravo.
Mesmo sendo livres, os mais pobres eram marginalizados e tinham poucas chances de ascensão sendo
privados de exigir melhores situações econômicas. No grupo de trabalhadores livres estavam os
desgredados portugueses, escravos forros (libertos) e os pardos.
O cultivo do açúcar e os engenhos motivaram essa variação de posição dos trabalhadores livres, em
que os senhores de engenhos consideravam estar no topo da sociedade. A divisão da terra através das
sesmarias9 beneficiava os mais abastados que se tornavam os grandes proprietários e arrendavam uma
parte para colonos que não possuíam condições para ter sua própria terra, denominando assim os
senhores de engenhos (produtores de açúcar) e os agricultores (produtores de cana). As relações entre
senhores de engenho e agricultores, unidos pelo interesse e pela dependência em relação ao mercado
internacional, formaram o setor açucareiro.

A Resistência à Escravidão
Onde quer que tenha existido escravidão, houve resistência escrava. No Brasil os escravizados
criaram diversas maneiras de resistência ao sistema escravista durante os quase quatro séculos em que
a escravidão existiu entre nós. A resistência poderia assumir diversos aspectos: fazer “corpo mole” na
realização das tarefas, sabotagens, roubos, sarcasmos, suicídios, abortos, fugas e formação de
quilombos. Qualquer tipo de afronta à propriedade senhorial por parte do escravizado deve ser
considerada como uma forma de resistência ao sistema escravista.
As motivações que levavam um escravizado a fugir eram variadas e nem todas as fugas tinham por
objetivo se livrar do domínio senhorial. De forma contrária, às vezes, o escravizado fugia à procura de um
outro senhor que o comprasse; caso o seu senhor não aceitasse a negociação, ele poderia continuar
fugindo e, portanto, dando prejuízos e maus exemplos, até que seu senhor resolvesse vendê-lo.
Era comum a fuga por alguns dias, quando em geral o escravizado ficava nas imediações da moradia
de seu senhor, às vezes para cumprir obrigações religiosas, outras para visitar parentes separados pela
venda, outras ainda, para fazer algum “bico” e, com o dinheiro, completar o valor da alforria.

7
https://www.coladaweb.com/historia-do-brasil/sociedade-colonial-brasileira
8
Escravos que repassavam todos os ganhos de seu trabalho aos seus donos.
9
Sesmarias nada mais eram do que pedaços de terra doados a beneficiários para que estes a cultivassem. Assim como no exemplo das capitanias, a posse
real ainda era da Coroa e os beneficiários, deviam cumprir uma série de exigências para garantir sua posse. Diferentemente das capitanias, ela não podiam ser
divididas em novos lotes.

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Os Quilombos
Os quilombos ou mocambos (conjunto de habitações miseráveis) existiram desde a época colonial até
os últimos anos do sistema escravista e assim como as fugas, foram comuns em todos os lugares em
que existiu escravidão. A formação de quilombos pressupõe um tipo específico de fuga, a fuga de
rompimento, cujo objetivo maior era a liberdade. Essa não era uma alternativa fácil a ser seguida, pois
significava viver sendo perseguido não apenas como um escravo fugido, mas como criminoso.
O Brasil teve em sua história vários grandes quilombos e o mais conhecido foi Palmares. Palmares foi
um quilombo formado no século XVII, na Serra da Barriga, região entre os estados de Alagoas e
Pernambuco. Localizado numa área de difícil acesso, os aquilombados conseguiram formar um Estado
com estrutura política, militar, econômica e sociocultural, que tinha por modelo a organização social de
antigos reinos africanos. Calcula-se que Palmares chegou a possuir uma população de 30 mil pessoas.
Depois da abolição definitiva da escravidão no Brasil, em 1888, as comunidades negras deram outro
sentido ao termo “quilombo”, não sendo mais utilizado como forma de luta e resistência ao cativeiro, mas
sim como morada e sobrevivência da família negra em pequenas comunidades onde seus valores
culturais eram preservados. Tais comunidades receberam diferentes nomeações: remanescentes de
quilombos, quilombos, mocambos, terra de preto, comunidades negras rurais, ou ainda comunidades de
terreiro.

Educação
A história da educação no Brasil tem início com a vinda dos padres jesuítas no final da primeira metade
do século XVI, inaugurando a primeira, mais longa e a mais importante fase da educação no país,
observando que a sua relevância encontra-se nas consequências resultantes para a cultura e civilização
brasileiras10.
Os jesuítas se dedicaram à pregação da fé católica e ao trabalho educativo. Logo perceberam que não
seria possível converter os índios à fé católica sem que soubessem ler e escrever.
De Salvador a obra jesuítica estendeu-se para o sul e, em 1570, vinte e um anos depois da sua
chegada, já eram compostos por cinco escolas de instrução elementar – cursos de Letras, Filosofia e
Teologia -, localizadas em Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo de Piratininga,
e três colégios, localizados no Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia.
A educação era privilégio apenas das classes abastadas, pois as famílias tradicionais faziam questão
de terem entre seus filhos um doutor (médico ou advogado) e um padre. A educação era usada como
instrumento de legitimação da colonização, inculcando na população ideias de obediência total ao Estado
português. Os jesuítas impunham um padrão educacional europeu, que desvalorizava completamente os
aspectos culturais dos índios e dos negros.
Em relação às mulheres, mesmo as das famílias mais abastadas raramente recebiam instrução
escolar, e esta limitava-se às aulas de boas maneiras e de prendas domésticas. As crianças escravas por
sua vez estavam excluídas do processo educacional, não tendo acesso às escolas.

Religião
A origem do processo de ocupação territorial do Brasil, serviu também para as intenções da igreja
católica.
Os portugueses que vieram para o Brasil estavam inseridos no ideal similar ao das cruzadas, adotando
o catolicismo como símbolo do poder da coroa.
Diante desta ideia, todo o não católico era considerado um inimigo em potencial, a não aceitação da
fé em cristo era vista como contestação do poder do rei e afronta direta a todo português, uma motivação
que incentivou, dentre outros fatores, o extermínio dos indígenas, vistos como pagãos e infiéis.
Havia também o outro lado da moeda, em que o gentil era visto como potencialmente um servo da
coroa e de Deus, desde que tivesse a devida instrução. Essa ideia era defendida por muitos jesuítas,
como o padre Manuel da Nóbrega, conhecido por defender o direito de liberdade dos nativos
cristianizados.
Dentro deste contexto, a construção de igrejas passou a delimitar a conquista territorial, garantindo a
soberania do Estado.

10
OLIVEIRA, M. B. AMANDA. Ação educacional jesuítica no Brasil colonial. Revista Brasileira de História da Religiões.
http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf8/ST6/005%20-%20AMANDA%20MELISSA%20BARIANO%20DE%20OLIVEIRA.pdf

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A Religiosidade Africana
Vigiados de perto por seus senhores e fiscalizados pelos eclesiásticos católicos, na qualidade de
escravos, considerados utensílios de trabalho semelhantes a uma ferramenta, os africanos foram
obrigados a aceitar a fé em cristo como símbolo da submissão aos europeus e a coroa portuguesa11.
Apesar disso, elementos das religiões africanas sobreviveram se ocultando em meio à simbologia
cristã.
Associações de caráter locais, as irmandades negras contribuíram para forjar a polissemia (múltiplos
sentidos de uma palavra) e sincretismo12 religioso brasileiro.
Impedidos de frequentar espaços que expressavam a religião católica dos brancos, as irmandades
representavam uma das poucas formas de associação permitidas aos negros no contexto colonial.
Surgiram como forma de conferir status e proteção aos seus membros, sendo responsáveis pela
construção de capelas, organização de festas religiosas e pela compra de alforrias de seus irmãos,
auxiliando a ação da igreja e demonstrando a eficácia da cristianização da população escravizada.
Entretanto, ao se organizarem geralmente em torno da devoção a um santo específico que assumiu
múltiplos significados, incorporando ritos e cultos que eram originais aos deuses africanos, permitiram o
nascimento de religiões afro-brasileiras como o acotundá, o candomblé e o calundu.

Os Judeus
Perseguidos pelo Tribunal do Santo Ofício na Europa, os judeus sempre estiveram em situação de
perigo iminente, sendo obrigados a converterem-se ao cristianismo em Portugal.
Aos olhos do Estado, os convertidos passaram a ser considerados cristãos-novos, vigiados de perto
pela Inquisição sofrendo preconceitos e perseguições esporádicas.
O Brasil se transformou na terra prometida para os cristãos-novos portugueses, compelidos a
migrarem para novas terras em além-mar.
Foi uma saída viável à recusa da aceitação de sua fé no reino, tendo em vista o fato da Inquisição
nunca ter se instalado por aqui, embora tenham sido instituídas visitações do Santo Ofício em 1591, 1605,
1618, 1627, 1763 e 1769.
Alojados sobretudo na Bahia, em Pernambuco, na Paraíba e no Maranhão; os cristãos-novos recém-
chegados integraram-se rapidamente ocupando cargos nas Câmaras Municipais em atividades
administrativas, burocráticas e comerciais, destacando-se também como senhores de engenho, algo
impensável em Portugal.
Sem a Inquisição em seus calcanhares, os cristãos-novos continuaram a exercer práticas judaicas no
interior de seus lares, mantendo vivos os laços familiares e comunitários clandestinamente e ao mesmo
tempo, adotando uma postura pública católica respondendo a uma necessidade de adesão, participação
e identificação.

Cultura
As manifestações artístico-culturais foram até o século XVII, condicionadas às atividades
desenvolvidas aos centros de educação, que eram os colégios jesuíticos. No trato social alicerçavam-se
práticas, usos e costumes que seriam marcantes para a formação da sociedade brasileira. A partir do
século XVIII esse cenário mudou.
Com a emergência da mineração, inúmeras manifestações tornaram-se presentes, como a arte
barroca (seja ela plástica ou literária), as manifestações árcades e parnasianas, principalmente ligadas a
uma referência mais letrada e influenciada pelos matizes europeus (a produção cultural não era mais
monopólio da igreja).

Economia
• A primeira atividade extrativista lucrativa da colônia foi em torno da exploração do pau-brasil. É
considerado seu ápice ainda no período pré-colonial, anterior a 1530 com a chegada de Martin Afonso e
o empenho dos primeiros engenhos. Tratamos aqui a partir do cultivo de cana e produção do açúcar.

- A cana-de-açúcar
Houveram muitos motivos para a escolha da cana como principal produto da colônia, sendo o principal
a ocorrência do solo de massapê, propício para o cultivo da cana-de-açúcar. Além disso, era um produto
muito bem cotado no comércio europeu.

11
MOREIRA, S. ANTONIA. Intolerância Religiosa em Acapare. UNILAB.
http://repositorio.unilab.edu.br:8080/jspui/bitstream/123456789/373/1/Antonia%20da%20Silva%20Moreira.pdf
12
Fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, com reinterpretação de seus elementos.

20

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As primeiras mudas chegaram no início da ocupação efetiva do território brasileiro, trazidas por Martim
Afonso de Souza e plantadas no primeiro engenho, construído em São Vicente.
Os principais centros de produção açucareira do Brasil localizavam-se nos atuais estados de
Pernambuco, Bahia e São Paulo.
A ocupação do Brasil no Século XVI esteve profundamente ligada à indústria açucareira. A economia
de plantation13 possui relação intensa com os interesses dos proprietários de terras que lucravam
enormemente com as culturas de exportação.
O latifúndio formou-se nesse período tendo consequências até os dias de hoje. A produção da cana-
de-açúcar também contribuiu para a vinculação dependente do país em relação ao exterior, a monocultura
de exportação e a escravidão com suas consequências. A colônia portuguesa de exploração prosperou
graças ao sucesso comercial de sua produção.
Em 1630 os holandeses invadiram o nordeste da colônia, na região de Pernambuco, que era a maior
produtora de açúcar na época. Durante sua permanência no Brasil, os holandeses adquiriram o
conhecimento de todos os aspectos técnicos e organizacionais da indústria açucareira. Esses
conhecimentos criaram as bases para a implantação e desenvolvimento de uma indústria concorrente,
de produção de açúcar em grande escala, na região do Caribe. A concorrência imposta pelos holandeses,
que haviam sido expulsos pelos portugueses, fez com que o Brasil perdesse o monopólio que exercia no
mercado mundial do açúcar, levando a produção a entrar em declínio.

- Outras atividades econômicas


Na região Nordeste a atividade pastoril expandiu-se rapidamente, pois o capital necessário para a
montagem de uma fazenda de gado era bastante reduzido. As terras eram fartas e o criador precisava
somente requerer a doação de uma sesmaria ou simplesmente apossar-se da terra.
As instalações das propriedades pastoris eram comuns, com poucas casas e alguns currais feitos com
material encontrado nas localidades. O método de criação também era muito simples, feito de maneira
extensiva (o gado vivia solto no campo), o que dispensava mão-de-obra numerosa ou especializada.
Na região amazônica a geografia impedia a implantação de fazendas de cultivo ou a criação de
animais. Ao penetrarem os rios e selvas da região os portugueses notaram que os índios utilizavam uma
grande variedade de frutas, ervas, folhas e raízes para fins medicinais e alimentícios. Os produtos
utilizados, em especial cacau, baunilha, canela, urucum, guaraná, cravo e resinas aromáticas foram
chamados de drogas do sertão, e possuíam bom valor de comércio na Europa, podendo ser vendidas
como substitutas ou complementos das especiarias. Além das plantas, outras variedades de drogas do
sertão incluíam: gordura de peixe-boi, ovos de tartaruga, araras e papagaios, jacarés, lontras e felinos.

- O ciclo do ouro
Quando foi divulgada a notícia da descoberta de jazidas auríferas, muitas pessoas dirigiram-se para
as regiões onde foi encontrado o ouro, em especial para o atual território do estado de Minas Gerais.
Praticamente todas as pessoas que se deslocaram para a região o fizeram na intenção de dedicar-se
exclusivamente na exploração do metal, deixando de lado até mesmo atividades essenciais para a
sobrevivência, como a produção de alimentos.
Isso gerou uma profunda escassez de mercadorias na região. Era comum entre os anos de 1700 e
1730 a ocorrência de crises de fome caso o acesso a outras regiões das quais os produtos básicos eram
adquiridos fossem interrompidas. A situação começa a mudar com a expansão de novas atividades, e
com a melhoria das vias de comunicação.

- Impostos e a administração da coroa


Com as primeiras notícias de descobrimento das jazidas em Minas Gerais, a Coroa publicou o
Regimento dos Superintendentes, Guardas-Mores e Oficiais-Deputados para as minas de ouro, no ano
de 1702.
Para executar o regimento, cobrar impostos e superintender o serviço de mineração, foram criadas as
Intendências de Minas, uma para cada capitania em que houvesse a extração de ouro.
Quando uma nova jazida era descoberta, era obrigatória a comunicação para a Intendência. O Guarda-
mor, então, dirigia-se ao local, ordenando a demarcação do terreno a ser explorado. Este era dividido em
lotes, que eram chamados de datas.
As datas eram entregues através de sorteio. No dia da distribuição, comunicado com certa
antecedência, deviam comparecer todos aqueles que estivessem interessados em receber um lote; não
se admitiam procuradores ou representantes. O descobridor da jazida não só tinha o direito de escolher

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Possui como características: latifúndio, mão de obra escrava e interesses voltados à exportação.

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uma data, mas também de receber um prêmio em dinheiro. A Intendência separava em seguida uma data
para si, vendendo-a depois em leilão público. As datas restantes eram sorteadas entre os presentes.
Encerrado o sorteio, se sobrassem terras auríferas, fazia-se uma distribuição suplementar. Se o número
de interessados era muito grande, o tamanho das datas era reduzido. Normalmente as datas eram lotes
com no máximo 50 metros de largura.
No início da atividade mineradora foi estabelecido um imposto para as pessoas que se dedicavam à
extração: o quinto. Correspondia a 20% do ouro extraído, que deveria ser pago para a Coroa. Como era
difícil determinar se uma barra ou saca de ouro havia sido ou não quintada, a sonegação era uma pratica
fácil de ser realizada.
Com o objetivo de regularizar a cobrança, foi criado um imposto adicional chamado finta14 que não
funcionou como planejado e acabou sendo extinto. Para resolver o problema o governo criou as Casas
de Fundição, das quais a mais famosa foi a de Minas Gerais, inaugurada em 1725.
Nas casas de fundição o minerador entregava seu ouro, que era fundido e transformado em barras,
das quais era descontado o quinto. Após as Casas de Fundição, também foi proibida a comercialização
e exportação de ouro em pó. É possivelmente dessa época o surgimento dos “Santos do pau oco”
(imagens de santos esculpidas por dentro e preenchidas com ouro em pó, para fugir da fiscalização e da
cobrança).
Em 1735 a Coroa começou a cobrar um novo imposto, a Capitação. Era um imposto per capita, pago
em ouro pelas pessoas e estabelecimentos comerciais da área mineradora.
Em 1750 a capitação foi extinta, restando apenas o quinto. Apesar disso, era exigida uma arrecadação
mínima de 100 arrobas de ouro por ano. Caso não fosse atingida a arrecadação era decretada a derrama:
cobrança da quantidade que faltava para completar as 100 arrobas de arrecadação.
Conforme as jazidas foram se esgotando, a produção de ouro caiu assim como a arrecadação de
impostos. As suspeitas de sonegação de impostos e a violência da Intendência aumentaram juntamente,
gerando atritos e conflitos entre autoridades e mineradores, uma das causas da Inconfidência Mineira de
1789.
Para a extração do ouro foram organizados dois tipos de empreendimentos: lavras e faiscações.
As lavras eram unidades de produção relativamente grandes, podendo até possuir equipamento
especializado e o trabalho de mais de 100 escravos, o que exigia o investimento de alto capital, sendo
rentável apenas em jazidas de ouro de tamanho suficientemente grande.
Nas faiscações, que eram pequenas unidades produtoras, trabalhavam somente algumas pessoas
(por vezes eram até mesmo compostas de trabalhadores individuais). Era comum a prática do envio de
escravos por homens livres para faiscação, sendo o ouro encontrado dividido entre ambos.

Expansões Geográficas

Entradas e bandeiras, conquista e colonização do nordeste, penetração na Amazônia, conquista do


Sul, Tratados e limites.

Bandeiras e Bandeirantes
As bandeiras, tradicionalmente definidas como expedições particulares, em oposição às entradas, de
caráter oficial, contribuíram decisivamente para a expansão territorial do Brasil Colônia. A pobreza de São
Paulo, decorrente do fracasso da lavoura canavieira no século XVI, a possibilidade da existência de
metais preciosos no interior e particularmente, a necessidade de mão-de-obra para o açúcar nordestino
durante a União Ibérica, levaram os paulistas a organizar a caça ao índio, o bandeirismo de contrato e a
busca mineral.

• As entradas tinham uma origem diferente, porém com finalidade semelhante à dos bandeirantes.
Enquanto o movimento das bandeiras tratava-se de uma expedição particular (normalmente financiada
pelos próprios paulistas) com objetivo de obter lucros (encontrando metais preciosos, preando índios ou
comercializando as ervas do sertão), as entradas eram expedições financiadas pela Coroa, normalmente
composta por soldados portugueses e brasileiros. Embora o objetivo inicial fosse mapear o território
brasileiro e facilitar a colonização, as entradas também envolviam-se em conflitos com os índios
(principalmente aqueles que apresentavam resistência) e, como era de se esperar, também lucravam
com isso.

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30 arrobas de ouro cobradas anualmente.

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A Caça ao Índio
Inicialmente a caça ao índio (preação) foi uma forma de suprir a carência de mão-de-obra para a
prestação de serviços domésticos aos próprios paulistas. Porém logo transformou-se em atividade
lucrativa, destinada a complementar as necessidades de braços escravos, bem como para a triticultura
(cultura do trigo) paulista.
Na primeira metade do século XVII os vicentinos (bandeirantes da Vila de São Vicente) realizaram
incursões principalmente contra as reduções jesuíticas espanholas, resultando na destruição de várias
missões, como as do Guairá, Itatim e Tape, por Antônio Raposo Tavares. Nesse período, os holandeses,
que haviam ocupado uma parte do Nordeste açucareiro, também conquistaram feitorias de escravos
negros na África, aumentando a escassez de escravos africanos no Brasil.

O Bandeirismo de Contrato
A ação de bandeirantes paulistas contratados pelo governador-geral ou por senhores de engenho do
Nordeste com o objetivo de combater índios inimigos e destruir quilombos, corresponde a uma fase do
bandeirismo na segunda metade do século XVII. O principal acontecimento desse ciclo de bandeiras foi
a destruição de um conjunto de quilombos situados no Nordeste açucareiro, conhecido genericamente
como Palmares.
A atuação do bandeirismo foi de fundamental importância para a ampliação do território português na
América. Num espaço muito curto os bandeirantes devassaram o interior da colônia explorando suas
riquezas e arrebatando grandes áreas do domínio espanhol, como é o caso das missões do Sul e Sudeste
do Brasil.
Antônio Raposo Tavares, depois de destruí-las, foi até os limites com a Bolívia e Peru atingindo a foz
do rio Amazonas, completando assim o famoso périplo brasileiro. Por outro lado, os bandeirantes agiram
de forma violenta na caça de indígenas e de escravos foragidos, contribuindo para a manutenção do
sistema escravocrata que vigorava no Brasil Colônia.

Conquistas e Tratados
Fato curioso na ação das bandeiras e entradas é que eles não tinham real noção do tamanho do nosso
território. Era comum pensarem que se adentrassem o suficiente, logo chegariam às colônias espanholas.
As necessidades econômicas (que já falamos acima) levaram os portugueses a adentrar muito mais do
que o combinado no Tratado de Tordesilhas e posteriormente obrigou os governos a reconhecerem novos
acordos.
No século XVII um evento ajudou para que essa expansão ocorresse sem maiores problemas. Trata-
se da União Ibérica. Para a expansão territorial brasileira isso foi ótimo. Primeiro por estreitar as relações
entre colônias portuguesas e espanholas e depois por, quando dos portugueses adentrarem o território
além do estabelecido não encontrarem nenhum problema, afinal os espanhóis entendiam que o seu povo
estava povoando a sua terra.
Os limites estabelecidos em Tordesilhas foram tão alterados e de forma tão definitiva (várias novas
colônias já haviam sido estabelecidas) que um novo acordo sobre os limites territoriais entre Portugal e
Espanha foi estabelecido: o Tratado de Madri (1750). Em resumo ele reconhecia que a maioria do
território desbravado pertencia a Portugal, baseado no princípio da posse por uso.
• No período colonial, que dura até o ano de 1815 quando o Brasil é elevado à categoria de Reino
Unido de Portugal e Algarves, ainda teremos o início dos conflitos da Cisplatina (1811 – 1828) – disputa
entre Portugal e Espanha em torno da fronteira do RS devido às pretensões espanholas de controlar o
rio da Prata -. Porém esse conteúdo é mais comumente pedido dentro do período imperial, talvez pelo
seu final ter sido após 1822.

União Ibérica
Em 1578, na luta contra os mouros marroquinos em Alcácer-Quibir, o rei D. Sebastião de Portugal,
desapareceu. Com isso teve início uma crise sucessória do trono português, já que o rei não deixou
descendentes. O trono foi assumido por um curto período de tempo por seu tio-avô, o cardeal Dom
Henrique, que morreu dois anos depois, sem deixar herdeiros.
Logo após, Filipe II da Espanha e neto do falecido rei português D. Manuel I, demonstrou o interesse
em assumir o trono português. Para alcançar o poder, além de se valer do fator parental, o monarca
hispânico chegou a ameaçar os portugueses com seus exércitos para que pudesse exercer tal direito.
Assim foi estabelecida a União Ibérica, que marca a centralização de Portugal e Espanha sob um mesmo
governo.
A vitória política de Filipe II abriu oportunidade para que as finanças de seu país pudessem se
recuperar após diversos gastos em conflitos militares. Para tanto, tinha interesse em estabelecer o
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comércio de escravos com os portugueses que controlavam a atividade na costa africana. Além disso, o
controle da maior parte das possessões do espaço colonial americano permitiria a ampliação dos lucros
obtidos através da arrecadação tributária.
Apesar das vantagens, o imperador espanhol manteve uma significativa parcela dos privilégios e
posições ocupadas por comerciantes e burocratas portugueses.
Mesmo preservando aspectos fundamentais da colonização lusitana, a União Ibérica também foi
responsável por algumas mudanças. Com a junção das coroas, as nações inimigas da Espanha passam
a ver na invasão do espaço colonial lusitano uma forma de prejudicar o rei Filipe II. Desta maneira, no
tempo em que a União Ibérica foi vigente, ingleses, holandeses e franceses tentaram invadir o Brasil.
Entre todas essas tentativas, podemos destacar especialmente a invasão holandesa, que alcançou o
monopólio da atividade açucareira em praticamente todo o litoral nordestino. No ano de 1640 a
Restauração definiu a vitória portuguesa contra a dominação espanhola e a consequente extinção da
União Ibérica. Ao fim do conflito, a dinastia de Bragança, iniciada por dom João IV, passou a controlar
Portugal.

Invasões

Invasões Francesas
A França foi o primeiro reino europeu a contestar o Tratado de Tordesilhas que dividiu as terras
descobertas na América entre Portugal e Espanha em 1494. Visitaram constantemente o litoral brasileiro
desde o período da extração do pau-brasil mantendo relações amistosas com os povos indígenas locais.
Deste acordo surgiu a Confederação dos Tamoios (aliança entre diversos povos indígenas do litoral:
tupinambás, tupiniquins, goitacás, entre outros), que possuíam um objetivo em comum: derrotar os
colonizadores portugueses.
Em 1555 os franceses fundaram na baía de Guanabara a França Antártica, criando uma sociedade
de influências protestantes. Através dos franceses, algumas partes do litoral brasileiro ganharam diversas
feitorias e fortes.
Por aproximadamente cinco anos ocorreram conflitos entre os portugueses e a Confederação dos
Tamoios. Em 1567 os portugueses derrotaram a Confederação e expulsaram os franceses do litoral
brasileiro, o que não desencorajou os ideais franceses.
No século XVII (1612), fundaram a França Equinocial, correspondente à cidade de São Luís, capital
do estado do Maranhão.
Com a intenção de conter a expansão francesa, Portugal enviou uma expedição militar à região do
Maranhão. Essa expedição atacou os franceses tanto por terra quanto por mar. Em 1615, foram
derrotados e se retiraram do Maranhão, deslocando-se para a região das Guianas onde fundaram uma
colônia, a chamada Guiana Francesa.
Após duas tentativas mal sucedidas de estabelecimento de uma civilização francesa no Brasil colonial,
os franceses passaram a saquear através de corsários (piratas), algumas cidades do litoral brasileiro no
século XVIII. A principal delas foi a cidade do Rio de Janeiro, de onde escoava todo ouro extraído da
colônia rumo a Portugal. Uma primeira tentativa de saque, em 1710, foi barrada pelos portugueses;
entretanto, no ano de 1711, piratas franceses tomaram a cidade do Rio de Janeiro e receberam dos
portugueses um alto resgate para libertá-la: 600 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 bois.
Terminavam, então, as tentativas de invasões francesas no Brasil.

Invasões Inglesas
As incursões inglesas no Brasil ficaram restritas a ataques de piratas e corsários.
William Hawkins foi o primeiro corsário inglês a aportar na colônia. Entre 1530 e 1532, percorreu alguns
pontos da costa e fez escambo de pau-brasil com os índios. Outro foi Thomas Cavendish, que atracou
em Santos em 1591. Conhecido como “lobo-do-mar”, Cavendish estava a serviço da rainha inglesa
Elizabeth I.
O corso realizado pelos ingleses, entretanto, intensificou-se apenas na segunda metade do século
XVI, quando os conflitos entre católicos e protestantes tornaram-se intensos na Inglaterra e os
mercadores empolgaram-se com as possibilidades comerciais abertas pelas novas rotas marítimas.
A primeira incursão pirata dos ingleses ao litoral brasileiro foi em 1587. Em 1595, o inglês James
Lancaster conseguiu tomar o porto do Recife. Retirou grande volume de pau-brasil, que levou para a
Inglaterra depois de realizar saques na capitania durante mais de um mês.

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Invasões Holandesas
As invasões holandesas na primeira metade do século XVII estão relacionadas com a criação da União
Ibérica. Antes do domínio dos Habsburgos15, as relações comerciais e financeiras entre Portugal e
Holanda eram intensas. Pouco antes de Filipe II tornar-se rei de Portugal, os Países Baixos iniciaram uma
guerra de independência tentando libertar-se do domínio espanhol. Iniciada em 1568, essa guerra de
libertação culminou com a União de Utrecht16, sob a chefia de Guilherme de Orange. Em 1581, nasciam
as Províncias Unidas dos Países Baixos, mas a guerra continuou.
Assim que Filipe II assumiu o trono luso, proibiu o comércio açucareiro luso-flamengo. O embargo de
navios holandeses em Lisboa provocou a criação de companhias privilegiadas de comércio. Entre 1609
e 1621, houve uma trégua que permitiu a normatização temporária do comércio entre Brasil-Portugal e
Holanda. Em 1621, terminada a trégua, os holandeses fundaram a Companhia de Comércio das Índias
Ocidentais cujo alvo era o Brasil. Começava então a Guerra do Açúcar.
A primeira invasão foi na Bahia, realizada por três mil e trezentos soldados. Salvador foi ocupada sem
muita resistência e o governador Diogo de Mendonça Furtado foi preso, tendo a cidade saqueada. A
população fugiu para o interior onde a resistência foi organizada pelo bispo D. Marcos Teixeira e por
Matias de Albuquerque. Os baianos também receberam a ajuda de uma esquadra luso-espanhola
(“Jornada dos Vassalos”) e, em maio de 1625 os holandeses foram expulsos.
A segunda invasão holandesa no Nordeste foi direcionada contra Pernambuco, uma capitania rica em
açúcar e pouco protegida. Olinda e Recife foram ocupadas e saqueadas. A resistência foi comandada por
Matias de Albuquerque a partir do Arraial do Bom Jesus, e durante alguns anos impediu que os invasores
ampliassem sua área de dominação. Mas a traição de Domingos Calabar alterou a situação.
Entre 1637 e 1644, o Brasil holandês foi governado pelo conde Mauricio de Nassau-Siegen, que
expandiu o domínio holandês do Nordeste até o Maranhão e conquistou Angola (fornecedora de
escravos). Porém, em 1638 fracassou ao tentar conquistar a Bahia.
Quando Portugal restaurou sua independência e assinou a Trégua dos Dez Anos com a Holanda,
Nassau continuou administrando o Brasil holandês de forma exemplar. Urbanizou Recife, fundou um
zoológico, um observatório astronômico e uma biblioteca, construiu jardins e palácios e promoveu a vinda
de artistas e cientistas para o Brasil.
Além disso, adotou a tolerância religiosa e dinamizou a economia canavieira. Sua política garantiu o
apoio da aristocracia local, mas entrou em choque com os objetivos da Companhia das Índias Ocidentais.
O desgaste com a Companhia levou Nassau a deixar o Brasil em 1644. Enquanto isso, os próprios
brasileiros organizaram a luta contra os flamengos com a Insurreição Pernambucana. Os líderes foram
André Vidal de Negreiros, João Fernandes Vieira, Henrique Dias (negro) e o índio Filipe Camarão.
Em 1648 e 1649, as duas batalhas de Guararapes foram vencidas pelos nativos. Em 1652, o apoio
oficial de Portugal e as lutas dos holandeses na Europa contra os ingleses em decorrência dos prejuízos
causados pelos Atos de Navegação de Oliver Cromwell, levaram os holandeses a Capitulação da
Campina do Taborda17.
Os holandeses foram desenvolver a produção de açúcar nas Antilhas, contribuindo para a crise do
complexo açucareiro nordestino. Mais tarde, Portugal e Holanda firmaram o Tratado de Paz de Haia
(1661), graças a mediação inglesa. Segundo tal tratado a Holanda receberia uma indenização de 4
milhões de cruzados e a cessão pelos portugueses das ilhas Molucas e do Ceilão, recebendo ainda o
direito de comercializar com maior liberdade nas possessões portuguesas, em razão da perda do Brasil
holandês.

As Rebeliões Nativistas
A população colonial já enraizada na terra e, portanto, com fortes sentimentos nativistas, manifestou
seu descontentamento frente às exigências metropolitanas. Em vista disto, surgiram os primeiros sinais
de rebeldia, denominadas rebeliões nativistas.

Revolta de Beckman (1684)


Na segunda metade do século XVII, a situação da economia maranhense que nunca fora boa, tendia
a piorar. A Coroa, pressionada pelos jesuítas proibiu a escravização de indígenas, os quais eram a base
da mão-de-obra local utilizados na coleta de “drogas do sertão” e na agricultura de subsistência.

15
Poderosa família que dos séculos XVI ao XX governaram diversos reinos na Europa, entre eles Áustria, Nápoles, Sicília e Espanha.
16
A União de Utrecht foi um acordo assinado na cidade holandesa de Utrecht, em 23 de Janeiro de 1579, entre as províncias rebeldes dos Países Baixos -
naquele tempo em conflito com a coroa espanhola durante a guerra dos 80 anos.
17
Acordo que estabelecia, entre tantas cláusulas que o governo holandês abdicava de suas terras no Brasil.

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Visando melhorar a situação da capitania, o governo português criou em 1682 a Companhia de
Comércio do Maranhão, a qual recebia o monopólio do comércio maranhense e em troca deveria
promover o desenvolvimento da agricultura local.
A má administração da empresa gerou uma rebelião de colonos em 1684, sob a chefia dos irmãos
Manoel e Thomas Beckman. O objetivo dos rebeldes era o fechamento da Companhia e a expulsão dos
jesuítas. A revolta foi sufocada pela coroa, mas a Companhia encerrou suas atividades.

A Guerra dos Emboabas (1708-1709)


Apesar da fome que assolou as Minas em 1696-1698 ter sido terrível, uma crise de desabastecimento
ainda mais devastadora aconteceu na região em 1700. Três anos depois da descoberta das primeiras
jazidas, cerca de 6 mil pessoas haviam chegado às minas. Na virada do século XVIII, esse número
quintuplicara: 30 mil mineiros perambulavam pela área.
Pouco depois surgiram os conflitos entre paulistas, que foram os descobridores das jazidas e primeiros
povoadores e os Emboabas, forasteiros, normalmente portugueses, pernambucanos e baianos.
Os dois grupos disputavam o direito de exploração das terras. Os paulistas argumentavam que
deveriam ter o direito de exploração, por serem os descobridores. Já os emboabas defendiam que por
serem cidadãos do Reino também possuíam o direito de exploração das riquezas. Entre 1707 e 1709,
ocorreram lutas violentas entre os dois grupos, com derrotas sucessivas por parte dos paulistas.
O governador Albuquerque Coelho e Carvalho promoveu a pacificação geral em 1709, quando foi
criada a capitania de São Paulo e Minas de Ouro, pertencente à coroa.

A Guerra dos Mascates (Pernambuco, 1710-1714)


Luta entre os proprietários rurais de Olinda e os comerciantes portugueses de Recife, originada pela
expulsão dos holandeses no século XVII. Se a perda do monopólio brasileiro do fornecimento de açúcar
à Europa foi trágica para os produtores pernambucanos, não foi tanto assim para a burguesia lusitana de
Recife, que passou a financiar a produção olindense, com elevadas taxas e grandes hipotecas.
A superioridade econômico-financeira de Recife não tinha correspondente político, visto que seus
habitantes continuavam dependendo da Câmara Municipal de Olinda. Em 1710, Recife conseguiu sua
emancipação político-administrativa transformando-se em município autônomo. Os olindenses,
comandados por Bernardo Vieira de Melo invadiram Recife, provocando a reação dos Mascates,
chefiados por João da Mota.
A luta entre as duas cidades manteve-se até 1714, quando foi encerrada graças à mediação da Coroa.
O esforço da aristocracia fora inútil: Recife manteve sua autonomia.

Os Movimentos Emancipacionistas

As revoltas emancipacionistas foram movimentos sociais ocorridos no Brasil Colonial, caracterizados


pelo forte anseio de conquistar a independência do Brasil com relação a Portugal. Entre os principais
motivos para esses movimentos estavam:
- a alta cobrança de impostos;
- limites estabelecidos pelo Pacto Colonial que obrigava o Brasil de comercializar somente com
Portugal;
- a falta de autonomia e representação na criação de leis e tributos, além da política dominada por
Portugal;
- os ideais iluministas e separatistas vindos da Europa e dos Estados Unidos.

A Inconfidência Mineira (1789)


Na segunda metade do século XVIII, a produção de ouro nas Minas Gerais vinha apresentando um
grande declínio, o que aumentou os choques e conflitos entre a população local e as autoridades
portuguesas. Quanto menos ouro era extraído, maiores eram os boatos e ameaças do acontecimento da
Derrama18, atitude que afetaria boa parte da elite local.
Os grupos mais influenciados pelas ideias iluministas, que eram também os que mais teriam a perder
com as medidas do governo português, resolveram tomar uma atitude dando início em 1789 ao
movimento que seria chamado pela metrópole de Inconfidência Mineira, ou Conjuração Mineira.
Os inconfidentes tinham como objetivo a imediata separação da colônia, criando uma República
moldada pelo pensamento liberal-iluminista e pela Constituição dos Estados Unidos, que havia
conquistado sua independência em 1776. Após conquistada a liberdade em relação à metrópole,
18
No Brasil Colônia, a derrama era um dispositivo fiscal aplicado em Minas Gerais a fim de assegurar o teto de cem arrobas anuais na arrecadação do quinto.
O quinto era a retenção de 20% do ouro em pó ou folhetas que eram direcionadas diretamente a Coroa Portuguesa

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estabeleceriam São João del-Rei como capital, criariam a Universidade de Vila Rica e dariam estímulo à
abertura de manufaturas têxteis e de uma siderurgia para o novo Estado. Em relação à escravidão as
posições eram divergentes.
A revolta foi suspensa quando participantes da conspiração denunciaram o movimento ao governador.
O coronel Joaquim Silvério dos Reis foi apontado como principal delator. Endividado com a coroa assim
como outros inconfidentes, o coronel resolveu separar-se do movimento e apresentar um depoimento
formal para o governador da capitania, Visconde de Barbacena. O governador suspendeu a cobrança e
mandou prender os inconfidentes.
Após a confissão de Joaquim Silvério e a prisão dos suspeitos foi instituída a devassa, uma
investigação levada a cabo pelas autoridades da época, constatando que envolveram-se no movimento
da Capitania das Minas grandes fazendeiros, criadores de gado, contratadores, exploradores de minas,
magistrados, militares, além de intelectuais luso-brasileiros.
Dentre os inconfidentes, destacaram-se os padres Carlos Correia de Toledo, José de Oliveira Rolim e
Manuel Rodrigues da Costa, além do cônego Luís Vieira da Silva; o tenente-coronel Francisco de Paula
Freire de Andrade, comandante militar da capitania, os coronéis Domingos de Abreu Vieira, também
comerciante, e Joaquim Silvério dos Reis, rico negociante; e os letrados Cláudio Manuel da Costa, Inácio
José de Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga.
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi o único “conspirador” que não fazia parte da elite.
Conhecido como alferes (primeiro posto militar) e dentista prático, foi talvez por sua origem o mais
duramente castigado. A memória de Tiradentes passou a ser celebrada no Brasil com a Proclamação da
República, quando foi considerado herói nacional pelo regime estabelecido em 15 de novembro de 1889.
Sua representação mais conhecida é muito semelhante à imagem de Cristo, reforçando a construção da
imagem de mártir.
Assinada em 19 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, a sentença de morte de Tiradentes cumpriu-se
dois dias depois: ele foi enforcado, decapitado e esquartejado. Os outros participantes foram condenados
ao desterro na África.

Conjuração Baiana (1798)


A conjuração Baiana, ou Revolta dos Alfaiates, assim como a Conjuração Mineira, foi influenciada
pelos ideais iluministas, em especial a Revolução Francesa. Ocorrida na Bahia em 1798, buscava a
emancipação e defendeu importantes mudanças sociais e políticas na sociedade.
Entre as causas do movimento estava a insatisfação com Portugal pela transferência da capital para
o Rio de Janeiro em 1763. Com tal mudança, Salvador (antiga capital) sofreu com a perda dos privilégios
e a redução dos recursos destinados à cidade. Somado a tal fator, o aumento dos impostos e exigências
à colônia vieram a piorar sensivelmente as condições de vida da população local. O preço dos alimentos
também gerou revolta na população. Além de caros, muitos produtos tornavam-se rapidamente escassos
pelas restrições impostas sobre o comércio e as importações.
Os revoltosos defendiam a separação da região do restante da colônia, buscando independência de
Portugal e instalando um governo baseado nos princípios da República. Também defendiam a liberdade
de comércio (fim do pacto colonial estabelecido), o aumento dos soldos19 e a igualdade entre as pessoas,
resultando na abolição da escravidão.
O movimento ganhou o nome de Revolta dos Alfaiates pela grande adesão desses profissionais no
movimento, entre eles Manuel Faustino dos Santos Lira e João de Deus do Nascimento. Outros setores
também aderiram ao movimento, como o militar, representado pelo soldado Luís Gonzaga das Virgens.
O movimento contou com a participação de pessoas pobres, letrados, padres, pequenos comerciantes,
escravos e ex-escravos.
A revolta foi impedida antes mesmo de começar. O ferreiro José da Veiga informou sobre os detalhes
do movimento ao governador, que pôde mobilizar tropas do exército para conter os revoltosos.

Questões

01. (TJ/SC - Analista Administrativo - TJ) Sobre o Período Colonial Brasileiro, assinale a alternativa
INCORRETA:
(A) De 1500 a 1530 a economia brasileira gravitou em torno do pau-brasil. Após 1530, declinando o
comércio com as Índias, a coroa portuguesa decidiu-se pela colonização do Brasil.

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A palavra ¨soldo¨ (em latim ¨solidus¨), remuneração por serviços militares e ¨soldado¨, têm sua origem no nome desta moeda.

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(B) A extração do pau-brasil foi declarada estanco, ou seja, passou a ser um monopólio real, cabendo
ao rei conceder a permissão a alguém para explorar comercialmente a madeira. O primeiro arrendatário
a ser beneficiado com o estanco foi Fernando de Noronha, em 1502.
(C) A administração colonial foi efetuada inicialmente por meio do sistema de Capitanias Hereditárias.
Com seu fracasso foram instituídos os Governos Gerais, não para acabar com as capitanias, mas para
centralizar sua administração.
(D) No sistema de Capitanias hereditárias a ocupação das terras era assegurada pela Carta de Doação
e pelo Foral. A carta de doação determinava os direitos e deveres dos donatários e o Foral cedia aos
donatários as terras, bem como o poder administrativo e jurídico das mesmas.
(E) O primeiro núcleo de colonização do Brasil foi a Vila de São Vicente, fundada no litoral paulista em
1532.

02. (TJ/SC - Assistente Social - TJ) Sobre o Período Colonial brasileiro, assinale a única alternativa
que está INCORRETA:
(A) Portugal só deu início à colonização das terras conquistadas, que passaram a chamar-se Brasil,
devido à pressão que sofria com o declínio de seu comércio com o oriente e com a sistemática ameaça
estrangeira no território brasileiro.
(B) O sistema de Capitanias Hereditárias foi implantado por D. João III mas não teve o sucesso
esperado. Entre os fatores que contribuíram para o fracasso das capitanias podemos citar: falta de terras
férteis em algumas regiões, falta de interesse dos donatários, conflitos com os indígenas, falta de recursos
financeiros para o empreendimento por parte de quem recebia a capitania.
(C) Tomé de Souza foi o primeiro Governador-Geral do Brasil e a sede do governo geral foi
estabelecida na Bahia.
(D) A estrutura econômica brasileira do período colonial tinha como principais características a
monocultura, o latifúndio, o trabalho escravo e a produção para o mercado externo.
(E) O primeiro núcleo de colonização do Brasil foi a Vila de Santos, fundada em 1532.

03. (PC/SC - Investigador de Polícia - ACAFE) Sobre a economia do período colonial do Brasil, todas
as alternativas estão corretas, exceto a:
(A) O ciclo do ouro contribuiu para a formação de núcleos urbanos no interior do Brasil e para a
transferência da capital da colônia de Salvador para o Rio de Janeiro.
(B) A propriedade agrícola no qual se baseava o sistema colonial tinha duas características básicas: a
monocultura e o trabalho escravo.
(C) O pau-brasil foi um dos primeiros produtos explorados no Brasil, sendo obtido pelos europeus
numa relação de escambo com os nativos.
(D) O ciclo da cana-de-açúcar foi fundamental para a criação de um mercado econômico interno,
realizando a ligação comercial entre o litoral e o interior da colônia.

04. (Prefeitura de Padre Bernardo/GO - Contador) Entre 1708 e 1709 o estado de Minas Gerais foi
palco de um conflito marcado pela disputa pelo Ouro. Tal guerra se baseou no conflito entre bandeirantes
paulistas e forasteiros que buscavam a riqueza oriunda dos metais preciosos. Tal conflito ficou conhecido
como:
(A) Guerra das Emboabas.
(B) Inconfidência Mineira.
(C) Levante de Vila Rica.
(D) Guerra Mata Maroto.

05. (PUC) “Nenhuma outra forma de exploração agrária no Brasil colonial resume tão bem as
características básicas da grande lavoura como o engenho de açúcar.”
Alice Canabrava, in Sérgio Buarque de Holanda (org.) História geral da civilização brasileira. Rio de Janeiro: Difel, 1963, tomo I, vol. 2..

A frase pode ser considerada correta, entre outros motivos, porque na produção açucareira:
(A) prevalecia o regime de trabalho escravo e a grande propriedade monocultora.
(B) havia emprego reduzido de mão de obra e prevalecia a agricultura de subsistência.
(C) prevalecia a atenção ao mercado consumidor interno e à distribuição das mercadorias nas grandes
cidades.
(D) havia disposição modernizadora do aparato produtivo e prevalecia a mão de obra assalariada.
(E) prevalecia a pequena propriedade familiar e a diversificação de culturas

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06. (VUNESP) Leia o texto para responder à questão.
O Brasil colonial foi organizado como uma empresa comercial resultante de uma aliança entre a
burguesia mercantil, a Coroa e a nobreza. Essa aliança refletiu-se numa política de terras que incorporou
concepções rurais tanto feudais como mercantis.
(Emília Viotti da Costa. Da Monarquia à República, 1987.)

A afirmação de que “O Brasil colonial foi organizado como uma empresa comercial resultante de uma
aliança entre a burguesia mercantil, a Coroa e a nobreza” indica que a colonização portuguesa do Brasil
(A) desenvolveu-se de forma semelhante às colonizações espanhola e britânica nas Américas, ao
evitar a exploração sistemática das novas terras e privilegiar os esforços de ocupação e povoamento.
(B) implicou um conjunto de articulações políticas e sociais, que derivavam, entre outros fatores, do
exercício do domínio político pela metrópole e de uma política de concessões de privilégios e vantagens
comerciais.
(C) alijou, do processo colonizador, os setores populares, que foram impedidos de se transferir para a
colônia e não puderam, por isso, aproveitar as novas oportunidades de emprego que se abriam.
(D) incorporou as diversas classes sociais existentes em Portugal, que mantiveram, nas terras
coloniais, os mesmos direitos políticos e trabalhistas de que desfrutavam na metrópole.
(E) alterou as relações políticas dentro de Portugal, pois provocou o aumento da participação dos
burgueses nos assuntos nacionais e eliminou a influência da aristocracia palaciana sobre o rei.

Gabarito

01.D / 02.E / 03.D / 04.A / 05.A / 06.B

Comentários

01. Resposta: D
Na alternativa incorreta houve uma inversão, pois Carta de Doação era um documento que cedia aos
Donatários a posse da terra, já o Foral era o documento que estabelecia direito e os deveres dos
donatários.

02. Resposta: E
Martim Afonso de Souza fundou, em 1532, o primeiro núcleo populacional do Brasil: A Capitania de
São Vicente.

03. Resposta: D
A produção de cana-de-açúcar era feita em grandes latifúndios, toda a produção feita na colônia era
voltada ao mercado externo, nessa época não havia produção destinada ao mercado interno, exceto os
gêneros alimentícios de subsistência.

04. Resposta: A
O enunciado da questão faz referência a Guerra dos Emboabas. Como havia sido um paulista a
descobrir ao ouro, eles achavam que tinham direitos especiais sobre a terra. Quando um dos líderes dos
emboabas enfrentou, junto com uma frente armada e conseguiu expulsar os paulistas da região de
Sabará, o ato foi entendido por eles como uma declaração de guerra.

05. Resposta: A
A produção do açúcar no Brasil foi a primeira grande atividade comercial estabelecida de forma efetiva
para a geração de lucros para a coroa portuguesa. Era caracterizada pela mão-de-obra escrava (indígena,
depois africana), a grande propriedade rural (Latifúndio) e a exportação para o mercado europeu.

06. Resposta: B
Durante o período colonial, a obtenção de terras estava vinculada à concessão do rei, que as cedia
para pessoas com capital disponível para a construção de engenhos ou investimentos na colônia.

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História cultural dos povos africanos. A luta dos negros no Brasil e o
negro na formação da sociedade brasileira

Sociedades Africanas pré-coloniais20

A grande maioria das populações africanas empregadas como mão-de-obra escrava no


empreendimento colonial americano foi trazida de regiões da África Subsaariana. Compreendendo uma
extensão que vai do Senegal até a Angola, diversas populações subsaarianas, pertencentes ao tronco
linguístico banto, se fixaram ao longo das regiões de savana formando diferentes culturas. As aldeias ali
formadas surgiam em terrenos onde a caça e a agricultura se mostravam mais viáveis.
Esse tempo em que as aldeias se formaram foi marcado por diferentes deslocamentos populacionais
motivados por conflitos tribais, desastres naturais ou crescimento demográfico. Ao longo de sua história,
diversas tribos passaram a entrar em contato e, posteriormente, formaram pequenos Estados. Essa
primeira experiência política mais complexa possibilitou o desenvolvimento de um articulado comércio de
gêneros agropecuários.
As condições hostis dessa região acabaram sendo propulsoras de uma série de práticas que marcaram
os costumes destes povos africanos. As doenças e intempéries climáticas faziam com que a capacidade
de manter uma prole extensa fosse extremamente valorizada. A virilidade sexual era compreendida como
um dado que distinguia socialmente os indivíduos. A título de exemplo, observa-se a grande recorrência
de esculturas representando a figura de mulheres grávidas.
De forma geral, a economia se organizava em torno da posse coletiva das terras. Um chefe tribal
ordenava a distribuição de lotes de terra mediante o pagamento de uma determinada tributação. A divisão
de tarefas no trabalho agrícola contava com a participação de homens e mulheres. As famílias agregavam
uma ampla extensão de indivíduos que englobava filhos, esposas, parentes mais pobres, agregados e
escravos. A prática da escravidão nessas culturas contava com uma complexa organização.
Os escravos mais prestigiados eram utilizados para os combates militares entre as tribos rivais. Outra
parcela de escravos trabalhava junto aos camponeses e acabavam sendo incorporados ao ambiente
familiar. Alguns escravos chegavam a desfrutar de alguns privilégios e poderiam até mesmo ter algum
tipo de posse. A inserção social de escravo só não acontecia na livre escolha de uma esposa ou na
participação das questões políticas.
As práticas religiosas destas tribos africanas contavam com uma grande variabilidade de crenças. Um
exemplo dessa questão pode ser claramente observado nas concepções que regiam a relação dos
indivíduos com a natureza. Em algumas culturas, as manifestações naturais eram temidas e vistas como
uma consequência direta do comportamento dos deuses. Dessa forma, diversos rituais eram
desenvolvidos com o propósito de apascentar tais forças. Em outras culturas, animais eram
compreendidos como representantes de determinadas virtudes e características.
A partir do processo de expansão marítima empreendido pelas nações europeias e o desenvolvimento
do tráfico negreiro, diversas dessas culturas foram profundamente transformadas. No ambiente colonial,
várias das tradições foram reinterpretadas à luz das demais culturas que conviviam no continente
americano. Contudo, as poucas características aqui levantadas sobre as culturas africanas, demonstram
a existência de todo um modo de vida rico e diverso, estabelecido antes do contato com o “europeu
civilizado”.

África

No século XIX a África foi considerada como um continente atrasado e dominado pela barbárie. De
acordo com as ideias inspiradas no evolucionismo biológico de Charles Darwin, povos como os africanos
estariam num estágio cultural e histórico correspondente aos ancestrais da Humanidade. Como
argumento para tal afirmação, os europeus citavam a utilização do alfabeto, inexistente em muitas
culturas africanas.
A partir dessas concepções de atraso, por muito tempo a África foi pensada como um continente cuja
história e a cultura antes do contato europeu fosse inexistente (em várias situações o Egito é descrito
como algo separado da África)
A degeneração da imagem das sociedades africanas, de suas ciências, e de seus produtos é resultado
do projeto do neocolonialismo, que difundiu a ideia de que o continente africano é tórrido e cheio de tribos
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SOUSA, Rainer Gonçalves. "África pré-colonial"; Brasil Escola. https://bit.ly/2OlFCqx.

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perdidas na História e na Civilização. É resultado também do etnocentrismo das ciências europeias do
século XIX. É necessário, pois, ver de que História e de que Civilização se trata. E do ponto de vista
histórico-econômico, o imperialismo colonial na África é meio e produto do Capital, uma das grandes
invenções que vem desde a era dos Descobrimentos reforçada ainda mais pela consolidação do
Liberalismo.
Antes do contato pelo período das navegações, a Europa já conhecia o norte da África, na região do
mar Mediterrâneo. Nessa região foi fundada a cidade de Cartago, que durante muito tempo desafiou o
poder do Império Romano, fator que desencadeou as guerras púnicas.
Além do Egito, o reino de Aksum, na Etiópia também desenvolveu um expressivo poder. O reino surgiu
por volta do século V a.C e seus governantes declaravam-se descendentes da Rainha de Sabá e do Rei
Salomão de Israel. Além da expressividade no poder, Aksum foi o primeiro a cunhar moedas e criou
inclusive um alfabeto próprio durante o século III.
Para além da região norte da África, em direção ao sul do continente estendia-se o deserto do Saara,
que para os estrangeiros configurava-se em um grande obstáculo. Para os povos que já habitavam a
região, a travessia do deserto para alcançar a África subsaariana era uma questão de conhecimento das
rotas e dos oásis em meio ao deserto. Entre os principais conhecedores dessas rotas estavam os
berberes e os tuaregues.
Além dos caminhos por terra, havia também rotas marítimas pelo litoral da África Oriental, via Oceano
Índico, em direção à Índia e à China. As correntes marítimas facilitavam a navegação para os hábeis
navegadores africanos e seus parceiros que conheciam seus movimentos nas diferentes estações do ano
A costa oriental africana tinha ricas cidades-porto movimentadas pelo ir e vir de barcos, pessoas e
mercadorias. Havia nesse litoral comerciantes indianos e árabes, além de muitos africanos. Era ativa a
negociação com grupos do interior do continente, que traziam marfim, peles, cascos de tartaruga, chifres
de rinocerontes, plumas de avestruz, âmbar e ceras. Na costa recebiam tecidos e especiarias vindas da
Índia, porcelanas chinesas, sedas do Japão, entre tantos outros produtos.

Os reinos da África Ocidental

Na África, durante o período conhecido como Idade Média na história da Europa, houve grandes e
poderosos reinos, como os de Gana, Mali e Songai. Esses reinos, localizados na África Ocidental, ficaram
conhecidos pelo controle que tinham sobre as rotas de comércio e as minas de ouro na sua região.
Realizavam comércio com diferentes partes do mundo, incluindo a Europa e o Oriente, através das rotas
de caravanas que atravessavam o deserto de Saara e chegavam ao norte da África. No comércio de
longa distância se fazia ao mesmo tempo contatos e trocas de mercadorias, bem como intercâmbios de
tecnologias e conhecimentos.

Gana21
Na região entre os rios Senegal e Níger, os soninquês (povos de origem mandê), fundaram pequenas
cidades, que desde o século 4 foram se unificando, muito provavelmente para resistir às guerras com
povos nômades. No século 8, a região era conhecida como Império de Gana.
Os soninquês chamavam sua região de Wagadu, mas os berberes (povos do Magreb), que chegaram
ali no século 8, a chamavam de Ghana, pois era esse o título do rei da região (ghana: "rei guerreiro").
Por muito tempo, o deserto do Saara dificultou o acesso dos povos do norte da África ao interior do
continente. Uma viagem do Magreb (região africana banhada pelo mar Mediterrâneo, exceto o Egito) até
a bacia do rio Níger poderia durar até 4 meses em pleno deserto.
Dessa forma, enquanto o norte da África estava inserido no comércio entre diversos povos desde a
Antiguidade (gregos, romanos, fenícios, cartagineses, líbios, persas, egípcios, árabes), o reino de Gana,
na África Subsaariana (ou África Negra), pôde se desenvolver isoladamente.
Somente quando os árabes conquistaram o Magreb e introduziram o camelo como animal de
transporte foi possível a viagem através do deserto. A partir de então, os reinos e as grandes riquezas da
África Negra passaram a fazer parte do comércio internacional do Mediterrâneo.
Gana já era um reino rico antes da chegada dos comerciantes do norte, e são os documentos deixados
por esses comerciantes (árabes e berberes) que nos informam o que foi Gana, e relatam um império
extraordinário, também chamado de Terra do Ouro. Segundo Al-Bakri, comerciante árabe de Córdoba
(século 11), o rei de Gana usava túnicas bordadas a ouro, colares e pulseiras de ouro - e os arreios dos
cavalos e as coleiras dos cachorros do rei eram de ouro.

21
Adaptado de Turci

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O império de Gana tinha como capital Kumbi-Saleh. Dessa cidade, o rei e seus nobres controlavam
povos vizinhos, obrigando-os a pagar impostos em troca de proteção. Além disso, Gana controlava o
comércio tanto das mercadorias que eram trazidas do norte (como sal e tecidos), quanto das que saíam
do interior da África (como ouro e escravos). Na capital, o comércio era intenso: os seus 20 mil habitantes
recebiam diariamente as caravanas que vinham de diversas regiões. Entre os séculos 9 e 10, Gana viveu
seu apogeu, sendo um dos mais ricos reinos do mundo, segundo Ibn Haukal, viajante árabe da época.
Com o processo de islamização dos povos africanos (os primeiros convertidos foram os berberes), o
Império de Gana (que se recusava a se converter ao Islã) foi perdendo força, até que em 1076 os
almorávidas (dinastia berbere) conquistaram e saquearam Kumbi-Saleh, transformando a cidade em um
reino tributário. A partir daí, todo império se fragmentou, o que possibilitou as incursões de vários povos
vizinhos, um deles os sossos, que passaram a controlar várias regiões do antigo império.

Mali
O Reino de Mali era, a princípio, uma região do Império de Gana habitada pelos mandingas. Era
composto por 12 reinos menores ligados entre si, e tinha como capital Kangaba. Os mandingas
chamavam seu território de Manden (= terra dos mandingas).
Após anos de guerras entre os soninquês de Gana e os almorávidas (século 11), e depois das guerras
com os sossos (século 12), Mali conseguiu sua independência e adotou o islamismo. E, apesar de passar
por um período de crise política e econômica, conseguiu se restabelecer e, em 1235, os mandingas de
Mali conquistaram o território do antigo Império de Gana, sob a liderança de Maghan Sundiata, que
recebeu o título de Mansa, que na língua mandinga significa "imperador".
O nome que os mandingas davam ao seu império era Manden Kurufa; o nome Mali era usado por seus
vizinhos, os fulas, para se referir ao grande império. Manden Kurufa significa Confederação de Manden.
A capital era Niani (atualmente uma aldeia na República da Guiné).
Ao contrário do Império de Gana, que somente se preocupava em manter os povos dominados, a fim
de controlar o comércio regional, o Império de Mali se impôs de forma centralista, estabelecendo fronteiras
bem definidas e formulando leis por meio de uma assembleia chamada Gbara, composta por diversos
povos do império. A aplicação da justiça era implacável, tanto que vários viajantes se referiam aos povos
negros como "os que mais odeiam as injustiças - e seu imperador não perdoa ninguém que seja acusado
de injusto". Acredita-se que o Império de Mali tivesse a extensão da Europa Ocidental.
O Império de Mali se tornou herdeiro do Império de Gana, pois passou a controlar todo o comércio
local. O ouro extraído por Mali sustentava grande parte do comércio no Mediterrâneo. Conta-se que, entre
1324 e 1325, Mansa Mussa, em peregrinação a Meca, parou para uma visita ao Cairo e teria presenteado
tantas pessoas com ouro, que o valor desse metal se desvalorizou por mais de 10 anos.
Também sob o reinado de Mussa, a cidade de Timbuktu (ou Tombuctu) se tornou uma das mais ricas
e importantes da região. Sua universidade era um dos maiores centros de cultura muçulmana da época,
e produziu várias traduções de textos gregos que ainda circulavam nos séculos XIV e XV. A grandiosidade
de Timbuktu atravessou os tempos e, no século XIX, exploradores europeus se embrenharam pelos
caminhos africanos, seguindo o rio Níger, em busca da lendária cidade.
O Império de Mali entrou em decadência a partir do final do século 14, em função das disputas políticas
internas e das incursões dos tuaregues (povo berbere), sendo conquistado, no século 15, pelos songais
(povo africano até então dominado por Mali). Foi nesse mesmo século que os portugueses, em pleno
processo de expansão marítima, conheceram o já decadente Mali.

Cidades iorubás
A partir do século IX formaram-se as cidades da civilização iorubá, na região da atual Nigéria, já
habitada por esse povo desde o século 4.
Os iorubás nunca unificaram suas cidades, mas mantiveram a mesma cultura (língua, religião etc.). A
cidade iorubá mais importante era Ifé, considerada sagrada, por ser o berço dos iorubás, segundo a
crença local. Outra cidade importante foi Oyo, um centro militar que, no final do século 17, tinha se
expandido até Daomé (atual Benin).
Ifé foi um grande centro artesanal e artístico, e era governada por um rei sacerdote que tinha o título
de Oni, enquanto nas outras cidades os governantes recebiam o título de Oba.
Apesar do cristianismo e do islamismo terem chegado até os iorubás, a maioria desse povo sempre
se manteve fiel às antigas tradições politeístas locais, sendo os orixás os seus deuses.
Ao contrário do que se acredita, a crença nos orixás não se expandiu pela África, mantendo-se
exclusivamente iorubá. Mas como muitos iorubás (chamados de nagôs ou anagôs pelos portugueses)
foram transformados em escravos e trazidos à força para a América, o culto aos orixás se misturou ao
cristianismo imposto por portugueses e espanhóis, criando vários sincretismos religiosos que fazem parte
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da cultura americana, como, por exemplo, o Candomblé e a Umbanda, no Brasil, e o Vodu no Haiti (apesar
de o Vodu também receber influências de outras culturas africanas).
A partir do século XV, as cidades iorubás iniciaram seu processo de declínio (apesar de Oio ter se
mantido até o século XIX). Muitos pesquisadores acreditam que a falta de unidade política foi uma das
causas desse declínio, já que os iorubás não tiveram condições de se fortalecer para enfrentar o processo
de escravização que lhes foi imposto.

A expansão Banto
Durante os últimos milênios, as sociedades africanas passaram por longos e diversos processos
migratórios e adaptativos em relação ás mudanças climáticas no interior do continente.
Esses movimentos migratórios levaram ao surgimento de diversas cidades e aldeias, além de criar
diferentes povos, com diferentes costumes.
O surgimento de novos polos de habitação e as migrações geraram diversos conflitos por territórios, o
que fez com que surgissem as primeiras fronteiras entre diferentes grupos.
Os grupos que compartilhavam uma história de migração comum e a conquista de um território, com
o tempo desenvolveram uma tradição e uma língua comuns. Muitas vezes seus vizinhos de região tinham
a mesma antiga origem. Mas, o momento em que partiram na sua migração, os caminhos que tomaram
e diferente maneira pela qual cada um dos grupos se apossou da terra, mudaram sua história. Mudando
a história, mudava também a sua tradição e a sua identidade. Tinham uma origem comum, mesmo que
distante no tempo, eram vizinhos, mas eram povos distintos. Assim, foram se formando as identidades
dos grupos, mais tarde chamadas de identidades étnicas.
Entre as principais origens dos povos africanos, está o tronco linguístico Banto. A palavra Banto é a
combinação de ‘ntu’ (ser humano) acrescido do prefixo ‘ba’, que designa plural. Ou seja, banto (em alguns
lugares é escrita como bantu) quer dizer: ‘seres humanos’ ou ‘gente’.
A ocupação dos povos de origem banto no continente africano, ao sul da linha do equador foi um
processo lento, que ocorreu ao longo de milhares de anos.
A primeira grande onda migratória teria se movimentado ainda no final do IIº milênio a.C., partindo da
região norte, entre o Camarões e a Nigéria. Estes grupos cruzaram a região onde fica hoje a República
Centro Africana, ocupando áreas dentro e fora da floresta equatorial, a oeste e a leste. Ao se
estabelecerem, de forma sedentária ou semi-sedentária, introduziram dois sistemas diferentes de
produção de alimentos, que se adaptaram respectivamente às florestas e à savana. Eram agricultores e
foram os primeiros nesta região a se organizar em aldeias e a agrupar estas aldeias em unidades mais
abrangentes, com cerca de 500 pessoas cada.
Uma segunda onda migratória ocorreu por volta do ano 900 a.C., quando terminava a longa expansão
inicial. A esta altura haviam dois grandes grupos, falando línguas semelhantes, porém diversas:
- Os bantos do oeste (norte da atual República Popular do Congo e leste do Gabão);
- Os bantos do leste (atual Uganda).

Os bantos do oeste desceram para a região que atualmente compreende o norte de Angola e
chegaram a uma terra mais seca. Outros permaneceram na fronteira entre a savana e a floresta, seguindo
os cursos de água. Enquanto isso, os bantos do leste moveram-se em direção ao Sul, para o sudeste do
Zaire e Zâmbia atuais.
Os processos de expansão banto não representaram invasões. Eles foram parte de um movimento
populacional lento e irregular. Os bantos acabaram por estabelecer contatos com outros povos, que
habitavam as regiões para onde migravam. As pesquisas linguísticas e arqueológicas demonstram que
algumas vezes os bantos mudaram seu modo de vida, tornaram-se pastores nômades, e chegaram em
alguns casos a transformar sua própria língua.
Novas ondas migratórias dos grupos banto do leste desceram em direção ao Sul, nos séculos iniciais
da era Cristã, e parecem ter levado junto consigo as importantes técnicas de metalurgia para estas áreas.
A esta altura seriam, além de agricultores, também ferreiros. O domínio desta técnica modificou
enormemente a vida destes povos. A partir deste momento - em torno do século V - e como resultado
desta verdadeira rede de movimentos de população, expandiram técnicas de produção de alimento e
metalurgia entre os povos da África subequatorial.
Com o domínio das técnicas agrícolas, a produção de alimentos ficou assegurada, levando estes
grupos ao sedentarismo. O sedentarismo foi importante na criação da noção de pertencimento à terra, da
ligação de determinados grupos a seus territórios.
Os contatos entre os grupos foram aumentando com as trocas entre produtores de diferentes tipos de
alimentos, de acordo com a região. O inhame e o azeite de dendê, além da caça e pesca das áreas mais
próximas às florestas podiam ser trocados por cereais e outros produtos de áreas próximas.
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Estas mudanças foram sendo acompanhadas por transformações nas organizações sociais destes
grupos. Surgiram novos modos de reconhecer e se relacionar interna e externamente. Em alguns casos,
apareceram divisões sociais mais profundas e em outros se criaram autoridades a partir da história de
liderança da ocupação da terra. E, em todos os casos, estas criações para o funcionamento da vida em
sociedade se basearam no mundo espiritual, parte inseparável do entendimento da vida para estas
populações.
Assim, e paralelamente a esta história de ocupação de grandes partes da África ao sul do equador,
foram surgindo grupos que, por uma história, língua, crenças e práticas em comum passaram a constituir
povos. Isto ocorreu longamente, entre o século V a.C e século V da nossa era. Foram surgindo novas
identidades de grupo.

A África Muçulmana
Atualmente o número de muçulmanos na África está estimado em mais de 300 milhões, ou seja, cerca
de 27% do total dos seguidores da religião no mundo
A expansão do Islã na África se deu no início mais pelo comércio e pela migração do que pelas
conquistas militares. A expansão do islã na África seguiu três direções:
- Do noroeste do continente (região do Magreb), ela avançou pelo Saara e alcançou a África Ocidental;
- Do baixo para o alto vale do Nilo, chegando ao nordeste da África (península da Somália e arredores);
- Comerciantes originários da porção sul-sudoeste da Península Arábica e imigrantes do subcontinente
indiano, criaram assentamentos no litoral do Índico e, dali, difundiram a presença muçulmana para o
interior.
O islamismo fez sua entrada no continente a partir da África do Norte, do Egito ao Marrocos, sendo
uma das primeiras regiões a ser conquistadas pela expansão inicial árabe-islâmica (séculos VII e VIII).
A partir do norte do Egito, os muçulmanos tentaram ir mais ao sul, mas esbarraram nos exércitos da
Núbia cristã. Derrotados, foram forçados a reconhecer a autonomia do reino cristão núbio. Mas, do Norte
conseguiram expandir-se para o Oeste (que, em árabe, quer dizer Magreb, nome pelo qual esta região
da África ficou conhecida). Foram pouco a pouco conseguindo dominar o Norte do continente africano,
durante a segunda metade do século VII. A partir dali, cruzaram o mar Mediterrâneo e conquistaram
partes do sul da Europa, incluindo a Península Ibérica (Espanha e Portugal).
Dos séculos X a XVI, mercadores muçulmanos contribuíram para o surgimento de importantes reinos
na África Ocidental, que floresceram graças ao comércio feito por caravanas que, atravessando o Saara,
punham em contato o mundo mediterrâneo ao das estepes e savanas do Sudão Ocidental e África centro-
ocidental. A conversão de certos monarcas africanos fez não só o islã avançar como criou uma florescente
cultura. Assim, cidade de Tumbuktu (no atual Máli) era, no século XIV, um núcleo urbano conhecido pelo
alto nível de suas escolas islâmicas, que atraíam muçulmanos de várias partes do mundo.
Na porção oriental do continente, comerciantes árabes conseguiram se fixar junto ao litoral do Índico,
levando a gradual conversão de grupos africanos que viviam em áreas da atual Eritréia e do leste da
Etiópia. Todavia, os reinos cristãos do alto vale do Nilo conseguiram bloquear por séculos o avanço
muçulmano, como foi o caso dos grupos etíopes, ocupantes dos altos planaltos da Etiópia. Nos séculos
seguintes, a cultura árabe-muçulmana influenciaria grupos bantos que estavam em processo de
expansão para a África oriental e meridional.
Paralelamente, comerciantes árabes cruzaram o Oceano Índico e criaram, do Chifre da África ao atual
Moçambique, um conjunto de importantes cidades-estados e fortalezas, junto ao litoral e nas ilhas, cujo
comércio de ouro se manteve até o início da presença portuguesa no século XVI. Às vésperas do início
da colonização europeia, o islã se constituía na principal presença "importada" no continente, presença
esta que já estava fortemente integrada às sociedades africanas.

Os Reinos Africanos22
A região da África Oriental, dos reinos da Núbia, Etiópia e posteriormente Burundi e Uganda, sofreram
grande influência religiosa em seu processo de organização cultural e espacial. Conflitos religiosos entre
mulçumanos e cristãos foram decisivos para a nova organização desses reinos, a exemplo do Antigo
Egito, que teve que se consolidar como Estado mulçumano entre duas potências cristãs – Bizâncio e
Dongola.
O resultado desses conflitos foi à conquista de Dongola em 1323 pelos mulçumanos, e a tomada
gradativa do controle da Núbia em 1504, o que daria um golpe de misericórdia nos reinos cristãos da
região. Nos casos da Núbia e da Etiópia, além dos conflitos religiosos existentes, o comércio
principalmente com o Egito, foi outra atividade que influenciou diretamente, servindo como estímulo para

22
https://bit.ly/2OokeRL

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a criação destes Estados. Esta atividade comercial se dava por rotas que cortavam o deserto do Saara,
em caravanas puxadas por cavalos, dificultando o percurso e prejudicando consequentemente a atividade
comercial, uma vez que o camelo domesticado só foi introduzido no Norte africano no século II da era
cristã. Só a partir do domínio mulçumano na região é que as atividades comerciais expandiram-se mais
para o sul do continente. Portanto, os conflitos religiosos entre mulçumanos e cristãos, além das
atividades comerciais exercidas entre esses povos, foram decisivos para a organização espacial dos
territórios da África Oriental, fatos que produzem reflexos atuais na cultura e na religiosidade dos Estados
africanos atuais.

Antigos Impérios Africanos

Na apresentação das grandes civilizações africanas, em 1000 a.C., povos semitas da Arábia emigram
para a atual Etiópia. Depois, em 715 a.C. o Rei de Cush, funda no Egito a 25a dinastia. Em 533 a.C.
transfere sua capital de Napata para Meroé, onde, cerca de cinquenta anos depois, já se encontra uma
metalurgia do ferro, altamente desenvolvida. Por volta do ano 100 a.C. desabrocha, na Etiópia, o Reino
de Axum. O tempo que se passou até a chegada dos árabes à África Ocidental foi, durante muitos séculos,
considerado um tempo obscuro, face à absoluta ausência de relatos escritos, que só apareceram nos
séculos XVI e XVII, com o “Tarik-Al-Fattah” e o “Tarik-Es-Sudam”, redigidos, respectivamente, por
Muhammad Kati e Abderrahman As Saadi, ambos nascidos em Tombuctu. Mas o trabalho de arqueólogos
do século XX, aliado aos relatos da tradição oral, conseguiu resgatar boa parte desse passado. O mais
antigo desses reinos foi o da Etiópia. Entre os séculos III e VII, a Etiópia teve como vizinhos outros reinos
cristãos: o Egito e a Núbia, contudo, com a expansão do islamismo essas duas últimas regiões caíram
sob o domínio árabe e a Etiópia persistiu como único grande reino cristão da África. Antes do efetivo início
do processo de islamização do continente africano, a África Ocidental vai conhecer um padrão de
desenvolvimento bastante alto. E, os antigos Estados de Gana, do Mali, do Songai, do Iorubá e Benin,
são excelentes exemplos de pujança das civilizações pré-islâmicas. Império do Gana

O Antigo Império de Gana


Teve seu apogeu entre os anos 700 e 1200 d.C. Acredita-se que o florescimento desse império
remonte ao século IV. Fundado por povos berberes, segundo uns, e por outros, por negros mandeus,
mandês ou mandingas, do grupo soninkê. O antigo nome desse império era Uagadu, que ocupava uma
área tão vasta quanto à da moderna Nigéria e, incluía os territórios que hoje constituem o Mali ocidental
e o sudeste da Mauritânia. Kumbi Saleh foi uma das suas últimas capitais. Segundo relatos históricos, o
Antigo Império de Gana era tão rico em ouro, que seu imperador, adepto da religião tradicional africana,
tal como seus súditos, eram denominados “o senhor de ouro”. Com a concorrência de outras potências
no comércio do ouro, o Antigo Império Gana começou a declinar. Até que, por volta de 1076 d.C., em
nome de uma fé islâmica ortodoxa, os berberes da dinastia dos almorávidas, vindos do Magrebe, atacam
e conquista Kumbi Saleh, capital do Império de Gana.
O atual Gana, que antigamente se chamava Costa de Ouro, deve o seu nome moderno ao de um
antigo império que dominava a África Ocidental durante a Idade Média. O velho Gana ficava a muitos
quilómetros mais para norte do atual, entre o deserto do Saara e os rios Níger e Senegal. O Gana foi
provavelmente fundado durante os anos 300.
Desde essa data até 770 os seus governantes constituíram a dinastia dos Magas, uma família berbere,
apesar do povo ser constituído por negros das tribos Soninque. Em 770 os Magas foram derrubados pelos
Soninques, e o império expandiu-se grandemente sob o domínio de Kaya Maghan Sisse, que foi rei cerca
de 790.Nessa altura o Gana começou a adquirir uma reputação de ser uma terra de ouro. Atingiu o
máximo da sua glória durante os anos 900 e atraiu a atenção dos Árabes. Depois de muitos anos de luta,
a dinastia dos Almorávidas berberes subiu ao poder, embora não o tenha conservado durante muito
tempo. O império entrou em declínio e em 1240 foi destruído pelo povo de Mali. Os soninkés habitavam
a região ao sul do deserto do Saara.
Este povo estava organizado em tribos que constituíam um grande império. Este império era
comandado por reis conhecidos como caia-maga. Viviam da criação de animais, da agricultura e da
pesca. Habitavam uma região com grandes reservas de ouro. Extraíam o ouro para trocar por outros
produtos com os povos do deserto (berberes). A região de Gana, tornou-se com o tempo, uma área de
intenso comércio. Os habitantes do império deviam pagar impostos para a nobreza, que era formada pelo
caia-maga, seus parentes e amigos. Um exército poderoso fazia a proteção das terras e do comércio que
era praticado na região. Além de pagar impostos, as aldeias deviam contribuir com soldados e lavradores,
que trabalhavam nas terras da nobreza.

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O Império do Mali
Os fundados do Antigo Mali teriam sido caçadores reunidos em confrarias ligadas pelos mesmos ritos
e celebrações da religião tradicional. O fervor com que praticavam a religião de seus ancestrais veio até
bem depois do advento do Islã. Conquistando o que restara do Antigo Gana, em 1240, Sundiata Keita,
expandiu seu império, que já era oficialmente muçulmano desde o século anterior. E, o Mali se torna
legendário, principalmente sob o mansa (rei) Kanku Mussá, que, em 1324, empreendeu a peregrinação
a Meca com a intenção evidente de maravilhar os soberanos árabes. O Antigo Império Gana teve seu
apogeu entre os anos 700 e 1200 d.C. Acredita-se que o florescimento desse império remonte ao século
IV. Fundado por povos berberes, segundo uns, e por outros, por negros mandeus, mandês ou mandingas,
do grupo soninkê. O antigo nome desse império era Uagadu, que ocupava uma área tão vasta quanto à
da moderna Nigéria e, incluía os territórios que hoje constituem o Mali ocidental e o sudeste da Mauritânia.
Kumbi Saleh foi uma das suas últimas capitais. Segundo relatos históricos, o Antigo Império de Gana era
tão rico em ouro, que seu imperador, adepto da religião tradicional africana, tal como seus súditos, eram
denominados “o senhor de ouro”.
Com a concorrência de outras potências no comércio do ouro, o Antigo Império Gana começou a
declinar. Até que, por volta de 1076 d.C., em nome de uma fé islâmica ortodoxa, os berberes da dinastia
dos almorávidas, vindos do Magrebe, atacam e conquista Kumbi Saleh, capital do Império de Gana. No
século XVI chegou a ser o mais importante entreposto comercial do império, mas os mesmos fatores que
causaram a decadência da «cidade irmã» – o comércio marítimo dos portugueses, a ocupação
marroquina e, depois, francesa – acabaram por torná-la num insignificante centro agrícola dotado de
magníficos exemplares de arquitetura islâmica. Djenné foi igualmente um importante centro de
peregrinação e cultura, atraindo peregrinos e estudantes de toda a África ocidental. Durante muito tempo
foi uma verdadeira escola de juristas. Os seus monumentos, entre os quais se destaca uma Grande
Mesquita que remonta ao século XIII, recorrem ao mesmo tipo de material e técnicas construtivas que os
de Tombuctu. O que dá origem a problemas de conservação muito semelhantes.

Império Songai
A organização do Songai era mais elaborada ainda que a do Mali. O Império Songai teria suas origens
num antepassado lendário, o gigante comilão Faran Makan Botê, do clã dos pescadores sorkôs. Por volta
de 500 d.C., diz ainda a tradição, que guerreiros berberes, chefiados por Diá Aliamen teriam chegado à
curva norte do Níger, tomando o poder dos sorkôs. A partir daí, a dinastia dos Diá reina em Kukya, uma
ilha perto do Níger, até 1009, quando o reino se converte oficialmente ao islamismo e transfere a capital
para Goa, onde a dinastia reina até 1335. Nesse ano, o povo songhai se liberta do Antigo Mali, de quem
se tornara vassalo em 1275 e, começa a conquistar as regiões vizinhas. O Império Songhai, também
conhecido como o Império Songhay foi um estado pré-colonial africano e grande civilização oriental, em
Mali. Do início do século XV até o final do século 16, Songhai foi um dos maiores impérios africanos da
história. Este império tinha o mesmo nome de seu grupo étnico líder, os Songhai. Sua capital era a cidade
de Gao, onde uma pequeno estado Songhai já existia desde o século XI. Sua base de poder era sobre a
volta do rio Níger nos dias atuais Níger e Burkina Faso.
Antes do Império Songhai, a região tinha sido dominada pelo Império Mali, uma das civilizações mais
ricas da história do mundo. Mali tornou-se famoso devido à sua imensa riqueza obtida através do comércio
com o mundo árabe, e os lendários hajj de Mansa Musa. No início do século XV, o Império do Mali
começou a declinar. As disputas pela sucessão enfraqueceram a coroa e muitos afastaram-se. Os
Songhai foram um deles, fazendo a cidade proeminente de Gao a sua nova capital. A cidade do Songhai
originou-se na região de Dendi, do noroeste de Nigéria e o rio expandido chega gradualmente de Níger,
no século VIII. No ano 800, estabeleceram uma cidade do mercado florescendo em Gao. Aceitaram o
Islão em torno do ano 1000. Por diversos séculos, dominaram os estados adjacentes pequenos, quando
foram controlados ao mesmo tempo pelo império poderoso de Mali ao oeste.

Império Kanem-Bornu
Outro grande Estado da África Negra, florescido por essa época, no norte da atual Nigéria, foi Kanem-
Bornu, em torno do ano 800 d.C. As cidades-estados haussás, situadas entre o Níger e o Chade que se
encontram em uma grande encruzilhada. Constituíram-se por volta do século XII, em redor das vias
comerciais que ligavam Trípolis e o Egito à floresta tropical, por um lado, e, por outro lado, o Níger ao alto
vale do Nilo pelo Darfur. Os haussás ou a classe dirigente são negros que habitavam muito mais ao norte
e a leste do que hoje. Junto com o Mali e o Songai, um dos mais vastos impérios dos grandes séculos
africanos foi o Kanem-Bornu. A sua influência, no seu período de maior esplendor, estendia-se da
Tripolitânia e do Egito até ao Norte dos Camarões atuais e do Níger ao Nilo. Nas origens do Kanem
encontra-se a conjunção dos nômades e dos sedentários.
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Império Iorubá
A sudeste da atual Nigéria constituíra-se o poderoso e dinâmico grupo Ibo. Possuía uma estrutura
ultrademocrática que favorecia a iniciativa individual. A unidade sociopolítica era a aldeia. No sudoeste,
desenvolveram-se os principados iorubás e aparentados, entre os séculos VI e XI. As suas origens,
mergulhadas na mitologia dos deuses e semideuses, não nos fornecem, do ponto de vista cronológico,
informações suficientes. O grande passado de todos estes príncipes é Odudua. Seria ele próprio filho de
Olodumaré, que para muitos seria o Nimrod de que fala a Bíblia, ou segundo a piedosa tradição islâmica,
de Lamurudu, rei de Meca. O seu filho Okanbi, teria tido sete filhos que vieram a ser todos “cabeças
coroadas”, a reinar em Owu, Sabé, Popo. Benin, Olé, Ketu e Oyó. Por volta do século XII, Ifé era uma
cidade-estado cujo soberano o Oni, era reconhecido como chefe religioso pelas outras cidades iorubás.
É que Ifé, fora o lugar a partir de onde as terras se teriam espalhado sobre as águas originais para,
segundo a tradição, fazerem nascer o mundo.
Os iorubás foram expulsos da antiga Oyó pelos Nupês (Tapas) estabelecendo-se no que é a Oyó de
hoje. A partir do século XVI o poder da cidade-Estado de Oyó cresce até unificar toda as cidades-Estado
ioruba. O alafin (rei de Oió) exerce a soberania temporal dos iorubas e também começa a questionar a
legitimidade de Ifé, deificando Xangô, antigo rei oioano, como divindade principal. No século XVII o
Império de Oyó dominará grande parte da Nigéria, incluindo o Reino de Daomé. A civilização dos iorubas
alcançou grande prosperidade, notavelmente em relação à vida urbana. Censos iorubas de 1850 revelam
10 cidades com mais de 100 mil habitantes. O Império de Oyo Yoruba (c. 1400 - 1835) foi um império da
África Ocidental onde é hoje a Nigéria ocidental. O império foi criado pelos Yoruba, no século XV e cresceu
para se tornar um dos maiores estados do Oeste africano encontradas pelos exploradores coloniais.
Aumentou a vantagem riqueza adquirida através do comércio e de sua posse de uma poderosa cavalaria.
O império de Oyo foi o estado mais importante politicamente na região de meados século XVII ao final do
século XVIII, dominando não só outras monarquias Yoruba nos dias atuais Nigéria, República do Benim,
e Togo, mas também outras monarquias africanas, sendo a mais notável o reino Fon do Dahomey
localizado no que é hoje a República do Benim).
Império do BeninFamoso por sua arte, o Benin, situado ao sudeste de Ifé, foi fundado, segundo a
tradição, também por Oranian, pai de Xangô, sendo então, intimamente aparentado com Oyó e Ifé. A
primeira dinastia a reinar teve, segundo mitos, primeiro doze Obas (reis) e terminou por uma revolta,
quando se constituiu em reino. Seu apogeu ocorreu no século XIV, com a capital Edo, que perdura até
hoje. A cultura nagô, evidenciada nesta pesquisa, tem procedência no grupo dos escravos sudaneses do
império iorubá, acima citado, em suas origens.Na verdade a denominação “nagô” foi dada, no Brasil, a
língua iorubá que foi, na Bahia, a “língua geral” dos escravos, tendo dominado as línguas faladas pelos
escravos de outras nações. O iorubá compreende vários subgrupos e dialetos, entre os quais o Egbá,
que inclui o grupo Ketu e Ijexá, das tribos do mesmo nome, cujos rituais foram adotados, principalmente
o Ketu, pelos candomblés mais conservadores. Do ewe “anago”, nome dado pelos daomeanos aos povos
que falavam o Iorubá, tanto na Nigéria como no Daomé (atual Benin), Togo e arredores, e que os
franceses chamavam apenas nagô. O reino possuí uma origem mítica: teria sido fundado por Oranian,
um ioruba. A sede é a cidade de Ubini. No século XVI é proibido a escravidão masculina, numa política
de estímulo demográfico. O oba mantinha o monopólio na produção e circulação do marfim e da
Pimenta.O território onde o Benim se localiza era ocupado no período pré-colonial por pequenas
monarquias tribais, das quais a mais poderosa foi a do reinado Fon de Daomé. A partir do século XVII,
os portugueses estabelecem entrepostos no litoral, conhecido então como Costa dos Escravos. Os
negros capturados são vendidos no Brasil e no Caribe. No século XIX, a França, em campanha para
abolir o comércio de escravos, entra em guerra com reinos locais. Em 1892, o reinado Fon é subjugado
e o país torna-se protetorado francês, com o nome de Daomé. Em 1904 integra-se à África Ocidental
Francesa. O domínio colonial encerra-se em 1960, quando Daomé torna-se independente, tendo Hubert
Maga como primeiro presidente.
A partir de 1963, o país mergulha na instabilidade política, com seis sucessivos golpes militares. Em
1972, um grupo de oficiais subalternos toma o poder e institui um regime esquerdista, liderado pelo major
Mathieu Kérékou, que governa até 1990. Kérékou nacionaliza companhias estrangeiras, estatiza
empresas privadas de grande porte e cria programas populares de saúde e educação. A doutrina oficial
do Estado é o marxismo-leninismo, mas a agricultura e o comércio permanecem em mãos privadas. Em
1975, o país passa a designar-se Benim. O regime político entra em crise na década de 1980, e o governo
recorre a empréstimos estrangeiros. Uma onda de protestos, em 1989, leva Kérékou a promover uma
abertura política e econômica. Com a instituição do pluripartidarismo, surgem mais de 50 partidos.
Nicéphore Soglo, chefe do governo de transição formado em 1990, é eleito presidente em 1991.

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Cultura Afro

A contribuição cultural dos africanos no Brasil é enorme. Na religião, música, dança, alimentação,
língua, temos a influência negra, apesar da repressão que sofreram as suas manifestações culturais mais
cotidianas.

Influência religiosa23
No campo religioso, a contribuição negra é inestimável, principalmente porque os africanos, ao invés
de se isolarem, aprenderam a conviver com outros setores da sociedade.
Favoreceu essa convivência a mentalidade comum a ambos os grupos étnicos - brancos e negros -
de que a prática religiosa estava voltada para a satisfação de algum desejo material ou ideal. As
promessas a santos, pagas com o sacrifício da missa, apresentavam semelhanças com os pedidos feitos
aos deuses e espíritos africanos em troca de oferendas de diversos tipos.
Mas, nos primeiros séculos de sua existência no Brasil, os africanos não tiveram liberdade para praticar
os seus cultos religiosos. No período colonial, a religião negra era vista como arte do Diabo; no Brasil-
Império, como desordem pública e atentado contra a civilização.
Assim, autoridades coloniais, imperiais e provinciais, senhores, padres e policiais se dividiram entre
tolerar e reprimir a prática de seus cultos religiosos.
A tolerância com os batuques religiosos, entretanto, devia-se à conveniência política: era mantida mais
como um antídoto à ameaça que a sua proibição representava do que por aceitação das diferenças
culturais.
Outras manifestações culturais negras também foram alvo da repressão. Estão neste caso o samba,
revira, capoeira, entrudo e lundu negros.

O racismo
Na sociedade brasileira do século XIX, havia um ambiente favorável ao preconceito racial, dificultando
enormemente a integração do negro. De fato, no Brasil republicano, predominava o ideal de uma
sociedade civilizada, que tinha como modelo a cultura europeia, onde não havia a participação senão da
raça branca. Esse ideal, portanto, contribuía para a existência de um sentimento contrário aos negros,
pardos, mestiços ou crioulos, sentimento este que se manifestava de várias formas: pela repressão às
suas atividades culturais, pela restrição de acesso a certas profissões, as "profissões de branco"
(profissionais liberais, por exemplo), também pela restrição de acesso a logradouros públicos, à moradia
em áreas de brancos, à participação política, e muitas outras formas de rejeição ao negro.
Contra o preconceito e em defesa dos direitos civis e políticos da população afro-brasileira, surgiram
jornais, como A Voz da Raça, O Clarim da Alvorada; clubes sociais negros e, em especial, a Frente Negra
Brasileira, que tendo sido criada em 1931, foi fechada em 1937 pelo Estado Novo.

O samba e a capoeira
Durante o período da revolução de 30, os próprios núcleos de cultura negra se movimentaram para
ganhar espaço. A criação das escolas de samba no final dos anos vinte já representara um passo
importante nessa direção. Elas, que durante a República Velha foram sistematicamente afastadas de
participação do desfile oficial do carnaval carioca, dominado pelas grandes sociedades carnavalescas,
terminaram sendo plenamente aceitas posteriormente.
No rastro do samba, a capoeira e as religiões afro-brasileiras também ganharam terreno. Antes
considerada atividade de marginais, a capoeira seria alçada a autêntico esporte nacional, para o que
muito contribuiu a atuação do baiano Mestre Bimba, criador da chamada capoeira regional. Tal como os
sambistas alojaram o samba em "escolas", Bimba abrigaria a capoeira em "academias", que aos poucos
passaram a ser frequentadas pelos filhos da classe média baiana, inclusive muitos estudantes
universitários.

23
Adaptado de IBGE

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História dos povos indígenas e a formação sócio-cultural brasileira

POPULAÇÕES ÍNDÍGENAS DO BRASIL

• Indígena: em 1492, quando chegou à América, Colombo achou que tinha desembarcado nas Índias
e chamou de índios os habitantes da região. O nome resultou de um erro e contém a falsa visão de que
todos os habitantes da América nesse período eram iguais, com a mesma cultura. Portanto hoje se prefere
empregar o termo indígena.

História dos Povos Indígenas e a Formação Sociocultural Brasileira24

Segundo o censo do IBGE de 201025, o Brasil conta com uma população de 896.917 pessoas que
consideram-se indígenas. Destes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais, o que
corresponde aproximadamente a 0,47% da população total do país.
A maior parte dessa população distribui-se por milhares de aldeias, situadas no interior de 700 Terras
Indígenas, de norte a sul do território nacional.
Esses números representam os sobreviventes da colonização do território brasileiro ao longo de 500
anos de exploração. Ao ponto que estima-se que, na época da chegada dos europeus, fossem mais de
1.000 povos, somando entre 2 e 4 milhões de pessoas. Sendo que, nos dias hoje, encontramos no
território brasileiro 246 povos falantes de mais de 150 línguas diferentes.
Contudo para tratar o assunto na atualidade, é necessário ter em mente seis pontos:

Ocupação: populações humanas já habitavam a terra hoje denominada Brasil antes da chegada dos
europeus, com ocupações que variam entre 40.000 e 2.000 anos antes do presente, e que ainda se
mantinham por volta de 1.500. Essas populações habitavam territórios que interagiam com seu modo de
vida e seus costumes.

Origem: não existe um consenso sobre a origem das populações indígenas. Pesquisas apontam
migrações vindas do norte da América, da Polinésia e de outras áreas do planeta. Essas populações
foram chamadas de nativas ou originárias por já habitarem o lugar antes da chegada dos europeus.

Permanência: muitos dos grupos que habitam o território brasileiro possuem vínculos com os
primeiros povos aqui estabelecidos.

História: o ser humano surgiu na África, aproximadamente 3 milhões de anos atrás. A partir de então
vem adaptando-se ao ambiente, até resultar no Homo sapiens sapiens, que data de 40.000 anos. Durante
todo esse período, chamado de pré-história, ocorreram migrações para diversas partes do mundo, até
chegar à América. As fontes de informação sobre esse período são de origem arqueológica, visto que as
populações que habitavam o Brasil eram ágrafas (não possuíam sistema de escrita). A partir de 1500
esses grupos que haviam se separado pelos fluxos migratórios entram em contato novamente, com a
chegada dos portugueses.

Cultura: como qualquer outro grupo humano, os povos indígenas possuem culturas resultantes da
história e das relações entre os homens e o ambiente que os cerca. Essa cultura sofreu diversas
transformações por conta dos contatos realizados nos últimos 500 anos, de maneira nem sempre pacífica.

Limites Geográficos: os limites entre países, estados ou municípios muitas vezes são criados a partir
de referências que não coincidem com os limites de habitação dos povos indígenas. Em muitos casos,
os povos que hoje vivem em uma região de fronteiras internacionais já ocupavam essa área antes da
criação das divisões entre os países; é por isso que faz mais sentido dizer povos indígenas no Brasil do
que do Brasil.

24
http://pib.socioambiental.org/
25
https://indigenas.ibge.gov.br/graficos-e-tabelas-2.html

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Discussões
Sobre os povos indígenas, pela visão dos portugueses “eles eram selvagens e muito cruéis”. Essa
visão, construída com base nos valores europeus da época marcou o processo de colonização.
Alguns arqueólogos afirmam que a ocupação da América ocorreu há cerca de 15.000 anos. Outros,
porém, dizem que isso ocorreu antes, por volta de 50.000 anos atrás.
Seja como for, o fato é que boa parte do território hoje conhecido como Brasil já era ocupado por
grupos humanos há 10.000 anos. A cultura e as formas de organização social desses grupos eram
diferentes umas das outras.
Alguns desses grupos são chamados atualmente de povos de tradição Humsitá. Eles ocupavam o
que é hoje a região Sul do Brasil e eram habilidosos fabricantes de instrumentos de pedra.
Haviam os sambaquis que habitavam principalmente o litoral. Viviam, sobretudo, da pesca e da coleta
de moluscos, como o caranguejo.
Outros grupos eram os que habitavam a atual região amazônica e produziam objetos de cerâmica. O
grupo dos Itararé, que ocupavam as regiões Sul e Sudeste do Brasil atual e faziam suas habitações
abaixo do solo, além de diversos outros grupos com características próprias.
A relação entre os povos indígenas e os europeus sempre foi bastante agitada. Durante os primeiros
anos do contato foram estabelecidas relações de comércio, principalmente do Pau-Brasil, com
portugueses e franceses. Percebendo a concorrência, esses países buscaram aliados nos grupos que
habitavam o litoral e que já possuíam histórico de rivalidade com outras tribos.
Com a decisão de Portugal de ocupar e colonizar efetivamente o Brasil, muitos índios acabaram
aprisionados e escravizados, utilizados como mão-de-obra principalmente nas plantações de cana-de-
açúcar.
Como havia a necessidade de cada vez mais terras para o cultivo da cana, os portugueses adentravam
cada vez mais para o interior, o que gerava sempre novos conflitos ao tentar expulsar os índios de suas
terras. A busca por ouro e pedras preciosas empreendida pelas bandeiras de exploração também resultou
na captura de muitos indígenas.
A situação amenizou-se com a chegada dos padres da Companhia de Jesus ao Brasil, que
condenavam o trabalho forçado dos índios. Os padres construíram colégios e reduções, onde buscavam
converter os índios para a fé católica. Muito mais do que um local para a conversão, os índios enxergavam
nessas construções formas de fugir da exploração do trabalho forçado e de seus inimigos.
Com a expansão para o interior do Brasil, principalmente durante os séculos XIX e XX, a situação
indígena piorava cada vez mais. Aqueles que não eram mortos durante os conflitos por terras acabavam
confinados em aldeamentos e reservas, que representavam uma pequena parte do território que
habitavam e de onde tiravam seu sustento.
Muitos índios acabaram também sendo expulsos dessas reservas, obrigados a migrarem para as
cidades ou sendo realocados em reservas com povos totalmente diferentes, em alguns casos até mesmo
povos em que existia uma relação de conflito.

Os Indígenas em 1500
Por volta de 1500, quando os portugueses aqui chegaram, alguns desses povos ainda existiam; outros
já tinham desaparecido havia algum tempo. Estudos atuais revelam que por essa época, viviam no atual
território brasileiro mais de 1.000 povos diferentes, com crenças, hábitos, costumes e formas de
organização específicas.
Esses povos falavam cerca de 1.300 línguas distintas, agrupadas em dois troncos linguísticos: o
Tupi e o Macro-Jê. Mas havia muitas outras famílias linguísticas, como a dos Aruaque e a dos Caraíba,
da atual região amazônica.
De modo geral, os povos do tronco linguístico Tupi viviam no litoral. Estre eles estavam povos como
os Guarani, os Tupinambá e os Tabajara.
Já os povos do tronco Macro-Jê – como os Bororó, os Carajá, os Tarairu, os Cariri – viviam, em grande
parte, mais para o interior do território, ou no sertão, como os portugueses diziam na época.

- Povos do tronco Jê
Xavantes: autodenominados Akwén, entraram em contato com mineradores na província de Goiás,
no início do século XVIII. Atualmente habitam o estado do Mato Grosso.
Apinayé: entram em contato com jesuítas no Tocantins em 1633, sendo contrários à ideia de
pacificação. Estiveram em conflito com portugueses e com o governo brasileiro ao longo de vários
séculos. Atualmente habitam o estado de Tocantins.
Kaingang: São um dos grupos indígenas mais numerosos do Brasil, com uma população estimada
em aproximadamente 30 mil pessoas. Habitam os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio
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Grande do Sul. Desde o século XVI possuem contato com europeus, quando eram denominados
Guaianazes.
Eram também conhecidos por coroados, devido ao corte de cabelo que utilizavam, semelhante a uma
coroa. Sua relação com os colonizadores e funcionários do governo sempre adquiriram caráter hostil, até
que em meados do século XIX seus líderes resolveram aliar-se aos não índios, auxiliando na pacificação
dos diversos grupos espalhados pelo interior dos estados que ainda habitam.
Kayapó: habitantes da região da floresta amazônica. Atualmente vivem nos estados de Mato Grosso
e Pará.
Timbira: entram em contato com os não índios a partir do início do século XVIII, na capitania do Piauí.
Atualmente habitam os estados de Tocantins, Pará e Maranhão.
Xokleng: habitantes do sul do Brasil, os primeiros registros de contatos datam do século XVIII. Vivem
atualmente no estado de Santa Catarina.

- Povos do tronco Tupi


Caetés: ficaram conhecidos pelo episódio em que teriam supostamente feito um banquete com a
tripulação que naufragou juntamente com Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo português a chegar
no Brasil. Habitavam a região dos estados de Alagoas e Pernambuco.
Potiguaras: povo que tinha no caráter guerreiro seu valor fundamental. Praticavam a antropofagia (ato
de comer partes de um ser humano) ritual. Foram inimigos dos portugueses durante o processo de
conquista do território, formando alianças com franceses. Viviam do litoral do atual estado da Paraíba ao
estado do Ceará. Eram inimigos dos Tabajaras.
Tabajaras: viviam no litoral dos estados de Alagoas e Sergipe, migrando para a Paraíba, território de
domínio Potiguara, o que gerou grandes conflitos entre os povos. Os Tabajaras acabaram aliando-se aos
portugueses após os primeiros contatos.
Tamoios: também eram praticantes da antropofagia. Habitavam o litoral norte de São Paulo e o Vale
do Paraíba, sendo inimigos dos portugueses.
Tupinambás: habitaram porções de terra no norte da Bahia, Sergipe e também do litoral norte do Rio
de Janeiro até São Sebastião em São Paulo. Foram inimigos dos Tupiniquim e também dos portugueses.
Tupiniquins: viviam na região do atual estado da Bahia e possuíam uma grande concentração de
pessoas no território do atual estado de São Paulo. Foram aliados dos portugueses.

Influências na Formação da Sociedade Brasileira


Muitas das práticas sociais e culturais do Brasil atual têm origem nas sociedades indígenas, a começar
pela alimentação. Ao chegarem ao Brasil em 1500, os portugueses saborearam os alimentos nativos da
América, conhecidos e cultivados há muito tempo pelos indígenas.
Assim, iniciou-se o consumo pelos portugueses da mandioca, do milho, da batata-doce, do amendoim,
da abóbora, do abacaxi, do caju, da pimenta, do mamão, entre outros. O hábito de assar os alimentos, o
hábito de dormir em redes, tão difundido, sobretudo no Nordeste, o consumo de bebidas preparadas a
partir de guaraná e mate também tem origem nos costumes indígenas.
Técnicas como a pesca utilizando tarrafa (rede), a coivara (queimada dos campos para limpeza) e o
mutirão, originado da prática tupi de realização coletiva de determinada atividade necessária para a
manutenção da organização da tribo, foram também incorporadas.
A medicina também utilizou-se da sabedoria indígena para auxiliar na cura dos homens. A quinina,
empregada para a malária, ainda hoje é utilizada como medicamento básico. A copaíba, que os tupis
utilizavam para curar feridas, igualmente continua a ser utilizada. Podemos citar, ainda, o curare, usado
como anestésico, e a pajelança (invocação dos espíritos para efetivar a cura de doenças), praticada
mediante a intermediação dos pajés.
Também o folclore foi e ainda é marcado por influências indígenas. Destacamos o curupira, que
protegia a caça e a natureza, garantindo um permanente equilíbrio entre as necessidades do homem e a
preservação do ambiente natural; o boto-tucuxi, que, no folclore amazônico, era o responsável pela
gravidez de jovens virgens e de mulheres cujos maridos costumavam ausentar-se por longos períodos.
Nosso vocabulário teve uma grande contribuição de diversas etnias em sua formação. Até hoje muitos
nomes de lugares, pessoas, objetos e práticas do dia tem sua origem em palavras indígenas.

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Organização dos Índios

Relações Familiares
Os documentos produzidos pelos portugueses e outras evidências históricas revelam que boa parte
dos povos indígenas viviam em pequenas aldeias. Cada aldeia era formada por um conjunto de quatro a
sete malocas (tipo de cabana comunitária).
Essas aldeias eram circulares, em forma de ferradura ou lineares, como por exemplo, duas fileiras de
casas, formatos ainda hoje utilizados pelos indígenas. As malocas eram feitas de galhos de árvores e
cobertas com palha.
Uma característica comum às aldeias é a existência de um espaço central entre as habitações onde
se organizam cerimônias religiosas e festas, e onde as crianças brincam. Em tupi, esse espaço é
chamado de ocara.

Crenças e Costumes
As crenças religiosas dos povos indígenas estavam estreitamente relacionadas com a natureza. Para
eles, a chuva ou a seca, uma boa caçada ou uma pescaria bem-sucedida deviam-se à ação de várias
entidades e espíritos ligados à natureza.
O boitatá, por exemplo, protegia o campo dos incêndios, representado por uma serpente de fogo; o
curupira, descrito como um indígena de cabelos vermelhos com os pés virados para trás, era o protetor
da fauna e da flora.
A figura central dos ritos religiosos era o pajé, mediador entre o mundo terreno e o espiritual. Ele
entrava em contato com os espíritos da floresta para curar as doenças e era um grande conhecedor dos
remédios naturais extraídos das plantas.
Na época da chegada dos portugueses à América, os indígenas conheciam mais de 3 mil diferentes
espécies de ervas, que usavam para combater os mais variados problemas de saúde. Na Europa, o
número de remédios não passava de cem.
Para os indígenas, a terra, a floresta, a água e os animais eram de todos, não havia propriedade
privada. Para resolver situações importantes – como decidir uma guerra -, formava-se um conselho
composto dos chefes das grandes famílias e as decisões eram tomadas coletivamente. O morubixaba –
líder da aldeia – era o conselheiro encarregado de ajudar as pessoas a resolver pequenos conflitos.
Podemos dizer, portanto, que nas sociedades indígenas não havia privilégios nem desigualdades
sociais.
A educação das crianças era tarefa de toda a comunidade, e não só da família. As crianças eram muito
bem tratadas e não havia castigos físicos. Da mesma forma, os idosos eram respeitados como guardiões
da história e do saber de seu povo. Eram eles que transmitiam aos mais jovens os valores e as crenças
do grupo.
Os indígenas que viviam nas terras que hoje formam o Brasil desconheciam a escrita. Assim, o
conhecimento e os saberes acumulados pelos grupos eram transmitidos de geração em geração por meio
de histórias narradas oralmente.
Além da arte de contar histórias, muitos grupos desenvolveram habilidades como produtores de arte
plumária, que consiste na criação de enfeites e adornos de penas coloridas em combinações de grande
beleza. Também na cerâmica, nos traçados e nas pinturas corporais alguns desses povos produziram
obras belíssimas.
As tarefas que garantiam a sobrevivência do grupo eram feitas por todos. Assim também era dividido
o resultado do trabalho coletivo. Derrubar árvores, caçar, pescar, preparar a terra para o plantio, construir
malocas, armas e canoas, em geral, era trabalho dos homens. As mulheres, além de cuidar das crianças
pequenas e cozinhar, trabalhavam na coleta de frutos, na plantação de roças e na colheita.
Os alimentos variavam conforme a disponibilidade dos recursos naturais e as características de cada
povo indígena. Grupos que moravam próximo a rios e mares tinham na pesca sua principal fonte de
alimento. Já os que viviam no interior do território, além da caça, se dedicavam muitas vezes à prática da
agricultura. Plantavam principalmente milho, mandioca, abóbora, inhame e batata-doce.
Com o grande conhecimento que tinham da natureza, alguns povos indígenas aprenderam a extrair o
veneno de certas variedades de mandiocas. Feita a extração do veneno, transformavam a raiz em farinha
seca, tapioca, beiju e outros produtos. Vários alimentos que consumimos hoje no Brasil são uma herança
direta das culturas indígenas.

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Antropofagia na Cultura Indígena
A antropofagia praticada pelos povos indígenas fazia parte de sua cultura, e é sob esse prisma que
precisamos compreender o fenômeno. Os indígenas não comiam outros seres humanos por estarem com
fome ou por não terem comida.
Para algumas etnias, comer o corpo de um ente querido constituía um ato de amor: mães e pais, por
exemplo, poderiam comer restos mortais de seus filhos.
Outra forma de antropofagia era aquela em que grupos ou povos comiam o corpo de um guerreiro
aprisionado. Esse costume fazia parte de um ritual mais amplo: o prisioneiro poderia viver muito tempo
junto ao grupo que o aprisionou, era bem alimentado e chegava mesmo a se casar com uma mulher da
aldeia. No dia da execução, aldeias vizinhas eram convidadas para a festa. Por meio dessa morte e da
ingestão do corpo do guerreiro, a aldeia vingava simbolicamente os parentes mortos pela aldeia inimiga.
Em outros casos, julgavam adquirir a força e a coragem do inimigo ao ingerir partes do corpo do prisioneiro
morto.

Papel dos Jesuítas

Muitos padres da Companhia de Jesus, conhecidos por Jesuítas condenavam as ações praticadas
pelos colonos portugueses em relação aos escravos indígenas, já que a rotina de trabalho nos canaviais
era árdua e durava longas horas diárias.
Por pressão dos Jesuítas, a Coroa portuguesa estabeleceu que os escravos fossem liberados de suas
atividades durante os domingos para praticar a fé cristã e frequentar a missa. Apesar da determinação
real, a medida não era seguida por muitos senhores de engenhos e quando era praticada, muitos
indígenas acabavam usando o dia para descansar ou praticar outras atividades que lhes rendessem uma
alimentação complementar, deixando de lado as obrigações religiosas.
Os Jesuítas criaram aldeamentos com o objetivo de batizar os índios na fé católica. Com a ideia de
que poderiam alcançar o paraíso e praticar a fé cristã, os índios eram catequizados. Para conseguir uma
aproximação e conquistar os interesses indígenas, os Jesuítas aprenderam sua linguagem e seus
costumes, para pouco a pouco incorporar elementos religiosos em sua cultura e finalmente torná-los
completamente cristãos.
O abandono das antigas crenças e aceitação da fé cristã, mesmo quando imposta, era considerada
pelos jesuítas, como a forma mais eficiente para torná-los mais pacíficos, além de facilitar a vida dos
colonos pois auxiliariam em guerras contra tribos consideradas perigosas e hostis, além dos invasores
franceses e holandeses que possuíam grande interesse pelo território brasileiro.
É importante notar o ponto de vista indígena, muitas vezes atraídos para os aldeamentos com o
objetivo de fugir da escravidão imposta pelos colonos e das guerras praticadas por seus rivais.

Aldeamentos Indígenas
Os aldeamentos foram os locais de trabalho dos missionários, que buscavam catequizar as populações
indígenas. Utilizados como forma de atração, os aldeamentos normalmente estavam localizados próximos
às povoações coloniais, para incentivar o contato com os portugueses.
Entre os vários exemplos de estudo da língua indígena para a utilização como ferramenta de conversão
é possível citar os padres José de Anchieta e António Ruiz de Montoya.
O primeiro dicionário conhecido da língua Tupi foi escrito pelo padre José de Anchieta e publicado em
1595, com o nome de “Arte de Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil”.
Anchieta, que missionou no Brasil desde 1553, notava (como seus contemporâneos) a grande
semelhança da língua falada pelos indígenas do litoral: os tupis. Em uma carta de 1584, ele observa que
todos os povos do litoral “têm uma mesma língua que é de grandíssimo bem para a sua conversão”.
Seriam assim povos cuja identidade estaria associada à língua geral, como os jesuítas chamavam o
“tupi universal” que inventaram. Ao lado da inegável semelhança de todos os dialetos tupis, o
agrupamento das diversas “castas” resolveu-se na necessidade homogeneizadora que os primeiros
missionários viam para lidar com os grupos nativos.
Tratava-se de entender para transformar, compreender as culturas indígenas para substituí-las pelo
Evangelho. Os jesuítas, desde cedo, determinaram que a catequese, ou a conquista das almas, seria
mais facilmente realizada se usassem da língua dos naturais. Assim, a Gramática da língua mais usada
na costa do Brasil surge com um instrumento da conversão do indígena.
O primeiro dicionário da língua Guarani foi escrito no ano de 1639 pelo padre António Ruiz Montoya.
Publicado em Madrid, no dicionário de 814 páginas traz cerca de 8.100 palavras. Não por acaso a
publicação que traduz para o castelhano recebeu o nome “Tesouro da Língua Guarani”.

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Sobre a relação dos indígenas com os aldeamentos, como bem destacam Mota e Chagas26, ao tratar
das reduções jesuíticas na região do Guairá (atual Paraná), os índios guarani, por seu lado, fizeram
alianças, acordos e guerras, no sentido de garantir sua liberdade.
É preciso lembrar que, quando fizeram aliança com os jesuítas, eles buscaram uma forma de não ser
submetidos, por exemplo, à servidão (encomiendas). Para entender a história da ocupação dos territórios
do Guairá, é preciso considerar as relações entre os diversos grupos: conquistadores e seus interesses,
os Guarani, os Kaingang (inimigos).
Com expedições denominadas de descimentos, os missionários convenciam os índios através da
retórica a descerem de suas aldeias para se juntarem a novos aldeamentos. Pela legislação, o
aldeamento garantia a liberdade indígena, no entanto, nesse ambiente, os indígenas foram forçados a
adaptar-se a novos elementos culturais, sofrendo interferência religiosa e moral. Eram obrigados a
trabalhar e por lei deveriam receber pagamento, uma nova realidade completamente diferente da sua
tradição.
Os jesuítas nunca foram contrários ao trabalho indígena e, muito menos, à sua inserção no mundo
colonial. O que eles não sustentavam era a servidão natural dos mesmos e a sua escravização, salvo por
motivo de “guerra justa”.
Para os jesuítas, o objetivo final da catequização e conversão começava a mostrar seu sucesso a partir
da destruição e da perda dos costumes dos povos indígenas.
O modelo, tal como inaugurado pelos jesuítas, perdurou ao longo de todo o período colonial, embora
tenha sofrido significativas alterações com a política indigenista pombalina, inaugurada com o Diretório
dos Índios (1757-1758), que já apostava na secularização das aldeias, e reforçada após a expulsão dos
jesuítas em 1759-60.

Diretoria-Geral e Diretorias Parciais dos Índios.27

A criação das Diretorias Gerais e Parciais dos Índios por todo o território brasileiro foi originada por
meio do Regulamento das Missões de Catequese e Civilização dos Índios criado pelo Decreto n° 426 de
24 de julho de 1845.
As Diretorias dos Índios tinham como responsabilidade as mediações entre os índios e os Governos
Imperial e Provincial.
Segundo o Regulamento, cada Província teria um Diretor Geral de Índios, nomeado pelo Imperador
que deveria interagir com o respectivo Presidente da Província para algumas questões, como por
exemplo, requisitar os objetos que o Governo Imperial enviasse para os índios, a fim de distribuí-los pelos
Diretores das Aldeias e pelos Missionários.
Com relação à Assembleia Provincial, deveria propor “a criação de Escolas de primeiras Letras para
os lugares, onde não baste o Missionário para este ensino”. As Aldeias eram controladas por um Diretor,
nomeado pelo Diretor Geral.
Tanto o Governo Imperial e quanto o Governo Provincial seriam juridicamente responsáveis pela
Diretoria. Essa divisão de responsabilidade apenas aconteceu a partir do Ato Adicional de 12 de agosto
de 1834, que alterou a constituição e, dentre outros, criou as Assembleias Legislativas Provinciais,
delegando-lhes competências legislativas e materiais, ou seja, competência de editar leis e de colocá-las
em prática, incluindo a de elaborar as leis orçamentárias e a de “promover, cumulativamente com a
assembleia e o governo geral, a organização da estatística da província, a catequese, a civilização dos
indígenas e o estabelecimento de colônias”.
Na Província de São Paulo, o Diretor Geral dos Índios nomeado pelo Imperador foi o Brigadeiro José
Joaquim Machado de Oliveira, que, por sua vez, deveria nomear diretores leigos para cada aldeia
indígena da província.
Machado de Oliveira se posicionava a favor da vertente que via a catequese e civilização como saída
do estado de barbárie, contrariando aqueles que não acreditavam ser possível qualquer mudança. Mesmo
que o Regulamento das Missões fosse um passo a favor dessa vertente, ainda assim, era composto por
ideias bastante diversificadas.
O aldeamento de Itariri-SP chama atenção, por ser um dos poucos que Machado de Oliveira
considerava ter dado certo. Ele foi criado em 21 de janeiro de 1847, no município de Iguape, porque,
segundo o diretor geral, existiram famílias de indígenas Guarani Nhandeva, que deixaram as matas, em
1837 e ali se asilaram, vivendo do trabalho braçal onde era este exigido, e talvez sob a condição de
escravos.

26
Chagas, Nádia Moreira; Mota, Lúcio Tadeu. O Guairá nos Séculos XVI e XVII – As Relações Interculturais
http://projetos.unioeste.br/projetos/cidadania/images/stories/ArquivosPDF/biblioteca/O_Guair_nos_sec._XVI_e_XVII_.pdf
27
http://www.ambienteterra.com.br/paginas/indio/seusdireitos.html

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Criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI)28

O Serviço de Proteção aos Índios (SPI), instituição criada pelo decreto nº 8.072, de 20 de junho de
1910 com o nome de Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN).
Tinha por tarefa a pacificação e proteção dos grupos indígenas, bem como o estabelecimento de núcleos
de colonização com base na mão de obra sertaneja.
As duas instituições foram separadas em 6 de janeiro de 1918 pelo decreto Lei nº 3.454, e a instituição
passou a ser denominada SPI, que foi extinta em 1967 quando da criação da Fundação Nacional do Índio
(FUNAI).
A origem do SPI estava nas redes sociais que ligavam os integrantes do Ministério da Agricultura,
Indústria e Comércio (MAIC), Apostolado Positivista no Brasil e Museu Nacional, pois o MAIC previu
desde a sua criação a instituição de uma agência de civilização dos índios.
As atividades das Comissões de Linhas Telegráficas em Mato Grosso deram notoriedade a Cândido
Mariano da Silva Rondon. Ele e outros militares positivistas que integravam redes de relações políticas
regionais e nacionais, vinculadas a instituições civis e aparelhos governamentais, sediados na Capital
Federal, se envolveram numa polêmica pública relativa à “capacidade ou não de evolução dos povos
indígenas”.
A partir de 1908, Rondon propôs que fosse criada uma agência indigenista do Estado brasileiro tendo
por finalidades:
a) estabelecer de uma convivência pacífica com os índios;
b) garantir a sobrevivência física dos povos indígenas;
c) estimular os índios a adotarem gradualmente hábitos “civilizados”;
d) influir “amistosamente” na vida indígena;
e) fixar o índio à terra;
f) contribuir para o povoamento do interior do Brasil;
g) possibilitar o acesso e a produção de bens econômicos nas terras dos índios;
h) empregar a força de trabalho indígena no aumento da produtividade agrícola;
i) fortalecer as iniciativas cívicas e o sentimento indígena de pertencer à nação brasileira.

As iniciativas do SPI envolviam a intervenção na vida indígena através de um ensino informal, a partir
das necessidades criadas, evitando-se influenciar a organização familiar. O objetivo era impedir conflitos
entre diferentes povos enquanto o SPI introduzia inovações culturais, prevendo possíveis mudanças nos
locais de habitação dos índios.
Foram estimuladas mudanças no trabalho indígena com a difusão de novas tecnologias agrícolas e o
ensino da pecuária, além da arregimentação de índios para os trabalhos de conservação das linhas
telegráficas.
A experiência de Rondon no trato com povos indígenas e suas ideias positivistas sobre os índios,
convergentes com os projetos de colonização e povoamento definidos na criação do MAIC, originaram o
convite que o tornou primeiro diretor do SPI. Dessa forma, foi instaurado um novo poder estatizado que
assegurava o controle legal das ações incidentes sobre os povos indígenas. Esse poder foi formalizado
na malha administrativa do SPI, a partir de um código legal (regimentos, decretos, código civil, etc.).
Para a administração da vida indígena foi formalizada uma definição legal de índio, através do Código
Civil de 1916 e do Decreto nº 5.484, de 1928. Os indígenas tornaram-se tutelados do Estado brasileiro,
um direito que implicava num aparelho administrativo único, mediando as relações
índios/Estado/sociedade nacional.
A terra, a representação política e o ritmo de vida foram administrados por funcionários estatais, com
os índios adotando uma indianidade genérica.
Os indigenistas do SPI trabalharam em diferentes tipos de postos indígenas (de atração, de criação,
de nacionalização, etc.), assim como em povoações e centros agrícolas. Dependendo de recursos
financeiros e políticos, o SPI adotou um quadro funcional heterogêneo, envolvendo desde militares
positivistas a trabalhadores rurais sem qualquer formação. A pedagogia nacionalista empregada por

28
BRASIL. Legislação indigenista. Brasília: Senado Federal/Subsecretaria de Edições Técnicas, 1993.
Ministério da Agricultura. Serviço de Proteção aos Índios. SPI/1953. Relatório das atividades do Serviço de Proteção aos Índios durante o ano de 1953. Rio
de Janeiro: Serviço de Proteção aos Índios, 1953.
Ministério da Agricultura. Serviço de Proteção aos Índios. SPI/1954. Relatório das atividades do Serviço de Proteção aos Índios durante o ano de 1954. Rio
de Janeiro: Serviço de Proteção aos Índios, 1954.
FREIRE, Carlos Augusto da Rocha. Saudades do Brasil: Práticas e representações do campo indigenista no século XX. Tese (Doutorado em Antropologia
Social) – PPGAS/MN, UFRJ, Rio de Janeiro, 2005.
LIMA, Antonio Carlos de Souza. Sobre indigenismo, autoritarismo e nacionalidade: considerações sobre a constituição do discurso e da prática da “proteção
fraternal” no Brasil. In: OLIVEIRA, João Pacheco de (Org.). Sociedades indígenas e indigenismo no Brasil. Rio de Janeiro: Marco Zero: Ed. UFRJ, 1987.

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esses agentes controlava as demandas indígenas, mas podia resultar em situações de fome, doenças e
de população, contrárias aos objetivos do Serviço.
A ação do SPI foi marcada por contradições identificadas como "paradoxos indigenistas", pois tinha
por objetivo respeitar as terras e a cultura indígena, mas agia transferindo índios e liberando territórios
indígenas para colonização, impondo uma pedagogia que alterava todo o sistema produtivo indígena.
De 1910 a 1930, o SPI fez parte do então Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio; de 1930 a
1934, esteve ligado ao Ministério do Trabalho; de 1934 a 1939, foi integrado ao Ministério da Guerra,
como parte da Inspetoria de Fronteiras; em 1940 voltou ao Ministério da Agricultura e, mais tarde, passou
para o Ministério do Interior. Em 1939, foi criado o Conselho Nacional de Proteção aos Índios (CNPI) com
o objetivo de atuar como órgão formulador e consultor da política indigenista brasileira.
A ideia seria a de que o SPI daí por diante teria somente atribuições executivas, o que não ocorreu. A
atuação do SPI se concentrou na pacificação de grupos indígenas em áreas de colonização recente. Em
São Paulo, Paraná, Espírito Santo, Mato Grosso e outras regiões foram instalados postos indígenas.
Após a consolidação da pacificação eram feitas negociações com os governos estaduais para a
criação de reservas de terras para a sobrevivência física dos índios. Progressivamente eram introduzidas
atividades educacionais voltadas para a produção econômica e ações destinadas a atender as condições
sanitárias dos índios.
O SPI buscou garantir a posse de terras aos índios através da concessão de terras devolutas. Inúmeras
propostas foram feitas pelo SPI de criação de terras indígenas e que foram negadas pelos governos
estaduais.
Nos postos indígenas eram instaladas oficinas mecânicas, engenhos de cana-de-açúcar e casas de
farinha, e os índios treinados em diversos ofícios. As crianças eram enviadas as escolas dos postos,
sendo que estas também recebiam filhos de colonos de empregados dos postos e crianças da população
vizinha, o que permitia um processo de integração da população.
O SPI enfrentou durante toda a sua existência problemas de carência de recursos e dificuldades de
qualificação de seu pessoal. A atuação do órgão acabou por gerar resultados opostos a sua proposta.
Eram frequentes as denúncias de casos de fome, doenças, assassinatos e escravização. No início da
década de 1960, sob a acusação de genocídio, corrupção e ineficiência o SPI foi investigado por uma
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).
O processo levou à demissão ou suspensão de mais de cem funcionários de todos os escalões. Em
1967, durante o regime militar, o SPI e o CNI (Confederação Nacional da Industria) foram extintos e
substituídos pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

Assistência Sanitária
A disseminação de doenças e a ocorrência de epidemias para as quais os povos em guerra ou
dominados tinham baixa imunidade contribuiu para a conquista dos povos indígenas do Brasil na época
colonial. O contágio da varíola, gripe, tuberculose, pneumonia, coqueluche, sarampo e outras viroses
levaram à dizimação de inúmeros povos indígenas, à mortandade de milhares de índios.
Nas primeiras décadas do século XX, essa realidade não foi alterada: nos grupos recém-contatados
pelo SPI, aldeias inteiras foram destruídas por doenças pulmonares. Ao causar alta mortalidade, o pós-
contato iniciava o desequilíbrio das condições de sobrevivência de um povo que já enfrentava doenças
endêmicas como verminoses e malárias, passando a conviver com a desnutrição, a dificuldade de
produção de alimentos e a falta de cuidados sanitários.
O SPI dificilmente conseguia controlar, estabilizar e melhorar a condição sanitária de povos indígenas
que enfrentavam surtos epidêmicos. Em campo, no início dos anos 50, o antropólogo Darcy Ribeiro foi
testemunha da morte de dezenas de índios Urubu Kaapor dizimados por sarampo e coqueluche. Os
postos indígenas possuíam alguns medicamentos, mas a maioria de seus encarregados eram leigos em
assistência sanitária.

Assistência Educacional
Dos antigos aldeamentos missionários aos postos indígenas do SPI, a alfabetização de crianças e
adultos indígenas visava consolidar a sedentarização de um povo. Esse processo pedagógico envolvia
cultos cívicos, aprendizado de trabalhos manuais, técnicas da pecuária e novas práticas agrícolas.
Pressupunha também novos cuidados corporais, como o uso de vestimentas e o ensino de práticas
higiênicas.
Os postos indígenas instalavam oficinas mecânicas, engenhos de cana e casas de farinha, treinando
os índios em diversos ofícios, além de investir na educação para transformar os índios em trabalhadores
nacionais. Desde o século XIX, crianças indígenas eram enviadas para as escolas de artífices existentes
nas capitais estaduais como ocorreu em Manaus na gestão do SPI.
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A política de “nacionalização” dos índios esteve presente em quase todos os postos, onde a professora
das crianças indígenas era quase sempre a esposa do encarregado, orientando essas crianças para a
integração à população regional à medida que aceitavam também como alunos os filhos de colonos, dos
empregados do posto e de fazendas vizinhas. Essas escolas não se diferenciavam das escolas rurais, do
método de ensino precário à falta de formação do professor, predominando a formação de índios como
produtores rurais voltados para o mercado regional.

Assimilacionismo Cultural
No dicionário a palavra assimilacionismo recebe a seguinte definição: “corrente que preconiza a
assimilação de culturas periféricas pelas culturas dominantes”29.
Por assimilacionismo entendemos que um determinado grupo cultural minoritário num processo de
“deculturação” esquecem os traços da sua cultura de origem e, simultaneamente, adquirem os da cultura
dominante.
Tem como base uma perspectiva ideológica que considera uma cultura superior à outra e supõe um
papel passivo das culturas mais fracas: muitas vezes, ao grupo mais fraco exige-se mesmo que adote os
traços do grupo dominante. Neste caso, uma das culturas elimina efetivamente a outra (ajustamento por
eliminação). Na prática, no entanto, verifica-se que só alguns aspectos da cultura subordinada são
eliminados em favor da cultura dominante.
Em termos de comunidades migrantes, culturalmente diferentes e minoritárias, portanto mais fracas, a
forma de reação a esta situação parece depender de duas condições:
- primeiro, que haja uma opção clara e vigorosa dos indivíduos candidatos à integração, de se inserirem
na sociedade de acolhimento;
- segundo, que haja uma opção coletiva suficientemente clara e explícita da sociedade de acolhimento
para reconhecer a identidade cultural própria e um estatuto de igualdade aos novos integrados.

Museu do Índio (anos 1950)30

O Museu do Índio foi criado, em 1953, no Serviço de Proteção aos Índios – SPI, agência do Governo
encarregada de dar assistência aos índios no Brasil.
No início da década de 60, o Museu foi transferido para o Conselho Nacional de Proteção aos Índios
– CNPI, órgão responsável pelo assessoramento e formulação da política indigenista oficial da época.
Em 1967, o Governo militar resolveu reunir o SPI, o CNPI e o Museu em um único órgão, a Fundação
Nacional do Índio - FUNAI, onde a instituição está inserida até hoje.
Atualmente, o Museu do Índio é uma importante instituição de pesquisa sobre línguas e culturas
indígenas. Tem sob sua guarda documentos relativos à maioria das sociedades indígenas
contemporâneas, constituídos de 15.840 peças etnográficas e 15.121 publicações nacionais e
estrangeiras, especializadas em etnologia e áreas afins. Seus diversos Serviços são responsáveis pelo
tratamento técnico de 76.821 registros audiovisuais e 833.221 documentos textuais de valor histórico e
contemporâneo.
Sob a direção do antropólogo Darcy Ribeiro, o Museu do Índio foi inaugurado no dia 19 de abril de
1953, no Rio de Janeiro.
O prédio já foi residência oficial na época do império e abrigou, entre outras figuras políticas, o
marechal Rondon, pioneiro na política indigenista no País. Em 1865 o imóvel foi doado para abrigar um
órgão de pesquisas sobre as culturas indígenas brasileiras. Em 1910, se tornou sede do Serviço de
Proteção ao Índio (SPI) e, entre 1953 e 1978, foi sede do Museu do Índio. Em 1978, o museu foi transferido
para o bairro de Botafogo, na zona sul.
A abertura do Museu do Índio não representou apenas um novo espaço para divulgação da cultura
indígena. Ele exibia a temática indígena conjugada a um novo estilo museográfico, caracterizado pela
elaboração de um projeto prévio, onde tanto o tema quanto os equipamentos expositivos foram pensados
de modo que o resultado agradasse ao usuário.
Para tanto o prédio passou por uma reforma, assinada por um arquiteto de renome que criou um novo
sistema de iluminação, projetou as vitrines, distribuiu os espaços inserindo nele objetos e fotografias
concatenados com o tema. O Museu do Índio abre suas portas atraindo o público devido ao grande apelo
visual, abrigando em sua dependência arquivo textual, audiovisual e espaços para dinâmicas educativas.

29
https://bit.ly/2v73uqH
30
LEFEBVRE, H. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2001.
MOREIRA, Ruy. A Nova Divisão Territorial do Trabalho e as Tendências de Configuração do Espaço Brasileiro. In: LIMONAD, Ester; HAESBAERT, Rogério &
MOREIRA, Ruy (org.) Brasil Século XXI, por uma nova regionalização. São Paulo: Max Limonad, 2004.

47

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Provido de uma infraestrutura que conjugava conforto e conteúdo documental, o Museu do Índio,
representado por Ribeiro, se lança como um novo fórum de debates para as políticas indigenistas até
centrada no Museu Nacional marcadamente pela atuação de Heloisa Alberto Torres. Ribeiro não apenas
assina a Certidão de Nascimento do Museu do Índio como é também responsável pelas primeiras
coleções etnográficas autorais daquela instituição.
O casarão que abriga, atualmente, o Museu do Índio/FUNAI foi tombado como patrimônio de
preservação cultural do país em 22 de fevereiro de 1967. Vinte anos depois, a construção também passou
a ser considerada patrimônio do município do Rio de Janeiro, pelo decreto 6.934, de 9 de setembro de
1987.
A história e trajetória do Museu do Índio é peculiar, por ter surgido de um órgão voltado à proteção das
populações indígenas, que desenvolveu uma seção de estudos, que não tinha como finalidade a pesquisa
acadêmica; e sim pesquisas para dar um respaldo ao SPI. Essas pesquisas acabaram construindo um
acervo, que gerou um processo museológico. Desde sua existência o museu esteve vinculado às
pesquisas, salvo alguns momentos em que mudanças na estrutura impediram essa aproximação.

Parque Nacional do Xingu (anos 1960)

A criação do Parque do Xingu resultou de um longo processo de luta entre instituições do Estado
brasileiro e setores da sociedade civil envolvendo o controle territorial e/ou privatização de terras. Sua
superfície corresponde a uma pequena parcela da vasta região onde se encontrava presente, já no início
do século XX, uma variedade significativa de etnias indígenas localizadas na bacia do alto rio Xingu no
estado brasileiro de Mato Grosso.
A partir dos anos 40 foi sendo sistematizado o contato entre setores da sociedade nacional, mais
precisamente indigenistas com os grupos indígenas. Um posto de assistência do órgão oficial
encarregado da tutela aos grupos indígenas no Brasil - o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) foi criado
e instalado no Alto Xingu.
Em 1952 foi apresentado ao Congresso Nacional um Anteprojeto para a criação de um parque nacional
na referida região. Neste projeto estava previsto um perímetro bem maior que o atual, incluindo uma zona
tampão de amortecimento do contato com as frentes de expansão, de proteção às nascentes da bacia
hidrográfica e da preservação do meio ambiente imediatamente circunvizinho à região ocupada pela
população indígena.
Em 1961 foi criado pelo governo federal no alto Xingu o Parque Nacional do Xingu. Em 1973 é, por
força do Estatuto do Índio, alterado na sua condição jurídica para parque indígena. A lei 6.001 de 1973
em seu artigo 28 define:

Parque Indígena é a área contida em terra para posse dos índios, cujo grau de integração permita
assistência econômica, educacional e sanitária dos órgãos da União, em que se preservem as reservas
de flora e fauna e as belezas naturais da região.

O novo status remeteu o Parque do Xingu à subordinação da FUNAI – Fundação Nacional do Índio e,
portanto, não mais subordinado ao IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis, caso permanecesse como parque nacional.

Segundo a legislação ambiental brasileira parques nacionais correspondem a áreas geográficas


extensas e delimitadas, dotadas de atributos naturais excepcionais, objeto de preservação permanente,
submetidas à condição de inalienabilidade e indisponibilidade de seu todo.

Considerando-se a configuração do PIX (Parque Indígena do Xingu) em relação ao território mato-


grossense constata-se que este se encontra “ilhado”. Isto porque o Parque do Xingu sofre pressões
constantes sobre sua geografia e população, ao situar-se em meio à ocupação do seu entorno, por
grandes fazendas do agronegócio, pela mobilidade dos trabalhadores rurais e pelas novas cidades.
Ao longo desses últimos 60 anos, a consolidação do espaço rural e urbano do estado de Mato Grosso
resultou na expansão espacial da economia para o interior do Brasil, resultando em impactos
socioambientais, especialmente para o conjunto de etnias localizadas no Parque Indígena do Xingu.
A ampliação do PIX é atualmente uma das principais reivindicações de líderes indígenas endereçadas
a FUNAI - Fundação Nacional do Índio. O parque tem quase 30 mil quilômetros quadrados, embora seu
território atualmente seja muito menor do que o inicialmente previsto. Nas quatro décadas seguintes a
sua criação, incorporou algumas pequenas áreas, porém não suficiente para incluir as nascentes da bacia
hidrográfica e evitar a pressão do desmatamento e da progressiva influência do complexo do agronegócio.
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A leitura do atual mapa de uso e ocupação do Mato Grosso revela a vulnerabilidade do Parque do
Xingu e de seus habitantes sobre o entorno ligado ao uso das terras pelo agronegócio. Esta pesquisa
está se iniciando e apresenta uma primeira leitura da análise geográfica sobre o Parque Indígena do
Xingu nos tempos atuais.
Recentemente uma série de fatos e eventos circunscritos à área de localização e influência da terra
indígena está relacionada aos equipamentos do território e à mobilidade da força de trabalho, fatos estes
que se inserem no grande projeto da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IRSA). Consolidando-se
como liderança regional, o Brasil passa a investir e coordenar um programa de integração da
infraestrutura regional (IRSA) com apoio das instituições multilaterais: BID (Banco Interamericano de
Desenvolvimento), BIRD (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento), CAF (Bando de
Desenvolvimento da América Latina) e agências de desenvolvimento europeias, japonesas etc.
Tal processo é mutuamente reforçado pelo aumento da integração econômica regional, comercial,
financeira e produtiva. E o Parque do Xingu está bem no âmago e no centro destas territorialidades. O
efeito mais imediato conforme dados que serão apresentados é o da urbanização do território.
Assim, argumenta-se com base nos dados referentes aos impactos socioambientais presentes na
atualidade do território indígena sobre três condições:
- a geografia do território oficial do parque do Xingu;
- o significado da transformação de parque nacional em parque indígena; e
- os efeitos do processo de urbanização extensiva e da consolidação do agronegócio sobre as etnias
e seus descendentes localizados no referido território indígena.

A ideia de criação do Parque tomou forma numa mesa-redonda convocada pela Vice-Presidência da
República em 1952, da qual resultou um anteprojeto de um Parque muito maior do que o que veio
finalmente a se concretizar. A despeito dos poderes legislativo e executivo do Mato Grosso estarem
representados nessa mesa-redonda, inclusive por seu governador, o estado começou a conceder, dentro
desse perímetro, terras a companhias colonizadoras.
Por isso, quando foi finalmente criado o Parque Nacional do Xingu, pelo Decreto nº 50.455, de
14/04/1961, assinado pelo presidente Jânio Quadros, sua área correspondia a apenas um quarto da
superfície inicialmente proposta. O Parque foi regulamentado pelo Decreto nº 51.084, de 31/07/1961;
ajustes foram feitos pelos Decretos nº 63.082, de 6/08/1968, e nº 68.909, de 13/07/1971, tendo sido
finalmente feita a demarcação de seu perímetro atual em 1978.
Tendo em vista os povos que lá habitam, pode-se dividir o Parque Indígena do Xingu em três partes:
- uma ao norte (conhecida como Baixo Xingu);
- uma na região central (o chamado Médio Xingu); e
- outra ao sul (o Alto Xingu).

Na parte sul ficam os formadores do rio Xingu; a região central vai do Morená (convergência dos rios
Ronuro, Batovi e Kuluene, identificada pelos povos do Alto Xingu como local de criação do mundo e início
do Rio Xingu) à Ilha Grande; seguindo o curso do Rio Xingu, encontra-se a parte norte do Parque.
Na década de 80, tiveram início as primeiras invasões de pescadores e caçadores no território do PIX.
Ao final dos anos 90, as queimadas em fazendas pecuárias localizadas a nordeste do Parque ameaçavam
atingi-lo e o avanço das madeireiras instaladas a oeste começou a chegar perto dos limites físicos
definidos pela demarcação.
Ademais, a ocupação do entorno começava a poluir as nascentes dos rios que abastecem o Parque e
que ficaram fora da área demarcada. Nesse processo, fortaleceu-se entre os moradores do PIX a
percepção de que está a caminho um incômodo: o Parque vem sendo cercado pelo processo de ocupação
de seu entorno e já se evidencia como uma “ilha” de florestas em meio ao pasto e a monocultura na região
do Xingu.
A questão da fiscalização do território é presença certa na agenda dos assuntos políticos do Parque,
sendo discutida tanto em encontros de lideranças e assembleias da ATIX (Associação Terra Indígena
Xingu) como na interlocução com a FUNAI e os órgãos ambientais federal (IBAMA) e estadual (Fundação
Estadual do Meio Ambiente - FEAM).
Para tanto, foi montada uma infraestrutura dos citados onze postos de vigilância para proteger as áreas
que propiciam um acesso direto ao Parque, como a intersecção dos principais rios com os limites do PIX
e o ponto em que a BR-080 margeia esses limites.
No entanto, o sistema de postos, por si só, não é suficiente para enfrentar as situações criadas pelo
entorno e vem sendo complementado por outras ações, desenvolvidas no âmbito do Projeto Fronteiras,
uma parceria da ATIX com o ISA (Instituto Socioambiental).

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O projeto compreende o mapeamento da dinâmica de desmatamentos, através de fotos de satélite, e
da identificação in loco de novos vetores de ocupação no entorno do PIX. Também inclui um trabalho de
capacitação dos Chefes de Postos, a restauração e manutenção dos marcos que estabelecem os limites
físicos do território e um banco de dados georreferenciados de todos os fazendeiros cujas propriedades
fazem fronteira com o PIX.
Dessa maneira, torna-se possível que os índios acompanhem de perto o que acontece nas fronteiras
do Parque e mobiliza as comunidades acerca das ameaças externas, tanto em discussões inter-aldeias,
como junto aos órgãos públicos responsáveis (FUNAI, IBAMA e o Governo Estadual).

O Indigenismo no Regime Militar (anos 1960 a 1980)31

Após o golpe civil-militar de 1964, um novo período econômico se iniciou no Brasil. Construções de
grandes obras (hidrelétricas, estradas e desmatamento de áreas para a criação de grandes latifúndios
para pecuária) se espalharam por todas as regiões do país, e no caminho desses projetos inúmeros povos
com suas terras, reconhecidas ou não, passaram a ser tratados como obstáculos para o desenvolvimento.
Nas regiões de fronteira agrícola, como a Amazônia e o Centro-Oeste, as terras indígenas eram
invadidas por criadores de gado, madeireiros ou garimpeiros. O Estado tinha pouco controle nessas
regiões, e as violências contra os indígenas tinham, frequentemente, a conivência das autoridades locais.
As políticas indigenistas foram integralmente subordinadas aos planos de defesa nacional, construção
de estradas e hidrelétricas, expansão de fazendas e extração de minérios. Sua atuação foi mantida em
plena afinidade com os aparelhos responsáveis por implementar essas políticas: Conselho de Segurança
Nacional (CSN), Plano de Integração Nacional (PIN), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(INCRA) e Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).
A ação da FUNAI durante a ditadura foi fortemente marcada pela perspectiva assimilacionista. O
Estatuto do Índio (Lei nº 6.001) aprovado em 1973, e ainda vigente, reafirmou as premissas de integração
que permearam a história do SPI.
Com recursos escassos e mal contabilizados, a FUNAI continuou a operar, assim como o SPI, com
profissionais pouco qualificados. Não se concretizou a proposta de se realizar planejamentos
antropologicamente orientados, conduzidos por profissionais de formação sólida, bem pagos e
comprometidos com o futuro dos povos indígenas. O órgão foi permeado, em todos os níveis, por redes
de relações pessoais, clientelistas e corporativas, que remetem ao paternalismo e ao voluntarismo que
dominaram o velho SPI.
Projetos como a construção das hidrelétricas de Itaipu e de Tucuruí, no Rio Tocantins, e a criação do
maior latifúndio do mundo no norte do Mato Grosso, em terra indígena Xavante, expulsaram centenas de
comunidades e provocaram milhares de mortes nas aldeias. A abertura da rodovia Transamazônica BR-
230, planejada para cortar o Brasil transversalmente, da fronteira com o Peru até João Pessoa na Paraíba,
afetou de maneira trágica 29 grupos indígenas, dentre eles, 11 etnias que viviam completamente isoladas.
Documentos e relatos colhidos durante as investigações recentes da Comissão Nacional da Verdade
(CNV) apontam que cerca de 8 mil indígenas foram mortos, em conflitos, crises de abastecimento ou
epidemias trazidas pelos trabalhadores, em consequência da construção de quatro rodovias:
- a Transamazônica;
- a BR-174, que liga Manaus a Boa Vista;
- a BR-210, conhecida com Perimetral Norte; e
- a BR 163, que liga Cuiabá a Santarém.

Essas estradas faziam parte do Plano de Integração Nacional (PIN), instituído em 1970, pelo
presidente Emílio Garrastazu Médici. O PIN previa que 100 quilômetros em cada lado das estradas a
serem construídas deveriam ser destinados à colonização. A intenção do governo era assentar cerca de
500 mil pessoas em agrovilas que seriam fundadas nesses locais.
O processo civilizatório imposto pela ditadura civil-militar incluía perseguição, criminalização, prisão e
tortura de lideranças indígenas que lutavam por seus territórios ou que tivessem comportamento
considerado inadequado pela FUNAI.
Durante a ditadura, as comunidades indígenas encontraram entre os antropólogos, sertanistas e
missionários ligados ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI) seus principais apoiadores para resistir
às violências e às ameaças cometidas pelo regime, pelos donos de terras e pelos colonos e trabalhadores
do garimpo.

31
Adaptado de http://memoriasdaditadura.org.br/indigenas/ e http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai

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Os Índios e a Tecnologia32

A população indígena é formada por diferentes povos com hábitos, costumes e línguas distintas.
Atualmente o rápido avanço tecnológico tem permitido a aproximação entre os índios que ainda vivem
em reservas e o restante da população. O contato com os meios de comunicação, especialmente a
televisão, o telefone e a internet, colabora na busca pela adoção de um novo estilo de vida e na perda de
antigos valores.
Há cerca de quatro anos, foi destaque na imprensa nacional e estrangeira a história de índios suruís
que vivem na reserva indígena Sete de Setembro, na divisa entre os Estados de Rondônia e Acre, fazendo
uso das novas tecnologias para defender a terra na qual eles vivem do desmatamento. Com a ajuda de
GPS, eles passaram a monitorar a posição de madeireiros ilegais.
Os dados são enviados para autoridades competentes, como Polícia Federal e Fundação Nacional do
Índio (FUNAI), para que as providências cabíveis sejam tomadas. Foi quando os arcos e flechas deixaram
de ser as únicas ferramentas de defesa do território, e as novas tecnologias passaram a fazer parte do
dia a dia de muitas tribos indígenas.
A proximidade das comunidades indígenas aos centros urbanos faz com que os índios acessem os
instrumentos disponíveis das tecnologias de informação e comunicação, trazendo esses recursos e os
incluindo no seu dia a dia e nas suas relações de sociabilidade. Essas mídias são adaptadas não levando
em conta o fazer dessa comunidade, ou seja, a formação do povo.
Muitas crianças e jovens são expostas desde cedo à televisão e à internet, o que pode ser considerado
natural para quem vive nas fronteiras culturais. O problema é que grande parte destas crianças só tem
acesso às produções culturais do ocidente. O conhecimento produzido pelos povos indígenas, nestes
espaços que se constituem com as novas tecnologias, fica do lado de fora.
Por outro lado, essas mídias têm servido para dar visibilidade e ‘guardar’ a história e a memória da
comunidade indígena, dentro de recursos tecnológicos que atraem o olhar do índio e também que fazem
com que os mesmos sintam-se incluídos no mundo, pois a cultura deles também é difundida para a
sociedade.
Guardadas as devidas proporções, assim como nas outras regiões do mundo, do Brasil e da Amazônia,
as tecnologias invadiram o dia a dia das pessoas, seja pela mera cópia de um CD pirata, seja pelos
aparelhos sofisticados que passaram a fazer parte da vida pessoal e profissional dos indivíduos na
contemporaneidade. Da mesma maneira, os índios foram atraídos pelos encantos desses aparatos
tecnológicos, levado pela proximidade de suas aldeias, assim como sua inserção no convívio com as
cidades urbanas.
Esse contato com as mídias foi incorporado à cultura indígena. Hoje é comum encontrar nas
comunidades Indígenas aparelhos de TV, filmadoras, DVDs, rádios, telefones celulares, câmeras e
computadores. Algumas populações indígenas passaram a utilizar e consumir produtos dessa sociedade
informacional.
Não que isso seja um crime, pelo contrário, pode representar uma oportunidade de “capturar” as
informações, os relatos e socializá-los de vez aos conhecimentos e a cultura indígena não somente para
os índios mais jovens, mas com toda a sociedade que desconhecem a riqueza dos primeiros habitantes
do Brasil.
O jovem/adolescente Suruí transita por outros espaços e se constitui também em outras identidades,
já que ele pode ser um eleitor, um estudante, pode receber uma bolsa assistencial do governo, ter um
número de celular, conviver com jovens da sociedade envolvente. Portanto, se essa tecnologia é uma
realidade e adentrou a vida dos índios Suruí, é preciso conciliar sua utilização com as tradições do povo,
do mesmo modo que deve ser aplicada como recurso didático na educação, levando em conta a memória
e história do povo indígena.
Nem sequer pode-se atribuir aos meios eletrônicos a origem da massificação das culturas populares.
Esse equívoco foi apropriado pelos primeiros estudos sobre a comunicação, segundo os quais a cultura
massiva substituiria o culto e o popular tradicionais.
É interessante destacar que a noção de popular é reforçada nas mídias ainda levando em conta uma
lógica de mercado, ou seja, a mídia tem um papel central já que as pessoas necessitam do seu discurso
para que possam construir o sentido social da realidade.
E não é diferente com a comunidade indígena Suruí que passa compreender como importante ter sua
história e tradições serem narradas pelos diversos meios de comunicação. A mídia, neste sentido, não é

32
CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da Modernidade.3ª. Edição. São Paulo: Edusp, 2000.
COSTA, Alda Cristina. O embate entre o visível e o invisível: a construção social da violência no jornalismo e na política. 2010. Universidade Federal do Pará,
Belém.
http://www.videonasaldeias.org.br/2009/.

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apenas um suporte tecnológico, mas uma instituição responsável por criar uma lógica de mundo, muitas
vezes, não muita clara, mas que exerce sentido na vida humana, pois influencia as relações sociais ou
até cria novas formas de sociabilidade.
Hoje, a imagem midiática começa na primeira idade das crianças e vai até o fim da sua vida, ditando
as intenções daqueles que trabalham para construir esses sentidos, sejam produtores anônimos ou
ocultos: no despertar pedagógico da criança, nas escolhas econômicas e profissionais do adolescente,
nas escolhas tipológicas (a aparência) de cada pessoa, até nos usos e costumes públicos ou privados,
às vezes como “informação”, às vezes velando a ideologia de uma escolha ou persuadindo os
comportamentos. As crianças começam a desenvolver algumas lógicas de pensamento a partir de uma
programação televisiva.
Muitas crianças indígenas, mesmo vivendo com suas famílias, bem cedo são expostas à escola
ocidental, à televisão e até mesmo à internet, o que é natural para quem vive nas fronteiras culturais. O
problema é que grande parte destas crianças só tem acesso às produções culturais do ocidente. O
conhecimento produzido pelos povos indígenas, nestes espaços que se constituem com as novas
tecnologias, fica do lado de fora. Ainda que existam sociedades isoladas dentro da Amazônia, no Brasil,
lembra a antrópologa Ivânia Neves, a maioria dos povos indígenas mantém relações efetivas com a
sociedade envolvente.
Já estabelecem, portanto, uma fronteira cultural com as instituições ocidentais (igreja, escola,
televisão, rádio, secretarias públicas, ONGs, entre outras). Nascidas dentro deste cenário, a grande
maioria das crianças indígenas vive hoje nestas fronteiras. Historicamente, o início do contato entre as
sociedades indígenas e as instituições ocidentais, além de terem resultado na morte de milhares de
índios, quer seja por processos de violência, quer seja por questões de saúde, representa quase sempre
uma grande desestruturação política e cultural para estas sociedades.
Este contato, no entanto, uma vez realizado estabelece uma nova e irreversível ordem para as
sociedades indígenas. Se as gerações mais velhas não dominavam a língua portuguesa, hoje, na
realidade de muitas sociedades, o que se observa é o fato de que as crianças falam apenas a língua
portuguesa. Não podemos perder de vista que existem grupos indígenas que não falam mais uma língua
tradicional.
Ao se trabalhar a questão da tecnologia deve-se levar em conta que seus avanços produzem
transformações na experiência cotidiana, estabelecendo novas relações de sociabilidade.
É interessante destacar que algumas experiências já vêm sendo realizadas com resultados positivos
com relação a inserção dos índios no mundo digital. Desde 1987 vem sendo realizado o projeto
denominado Vídeo nas Aldeias, na área de produção audiovisual indígena no Brasil, com o objetivo de
apoiar as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais e
culturais, por meio de recursos audiovisuais.
O uso do vídeo permite que as comunidades indígenas selecionem e fortaleçam manifestações
culturais que elas desejam tanto conservar para as futuras gerações quanto apresentar como parte de
sua identidade. Ele é um instrumento adaptado a formas tradicionais de produção e transmissão cultural
apoiado na força da palavra e na memória oral.
O Vídeo nas Aldeias surgiu como proposta das atividades da ONG Centro de Trabalho Indigenista,
como um experimento realizado por Vincent Carelli entre os índios Nambiquara, depois abrangendo
outras aldeias brasileiras. Hoje o projeto criou um importante acervo com mais de 70 filmes sobre os
povos indígenas no Brasil.
A utilização das mídias também passa na concepção dos índios como instituições importantes de
divulgação de identidades e de visibilidades. É interessante destacar que os indivíduos e as formas de
relação entre eles são alimentados pela mídia porque a maior parte dos conhecimentos acerca do mundo,
dos modelos de papel, dos valores e dos estilos de comportamento chega à mente humana não pela
experiência direta do mundo físico e das relações com os outros, mas cada vez mais pela mediação dos
meios de comunicação. E diversas questões passam a habitar a mente humana, a partir da discussão
por esses meios. Esses meios se tornam fundamentais como suportes de inclusão e exclusão sociais e
de controle das coisas que acontecem no mundo.
Com o surgimento da Internet e seus adventos, o homem se deparou com um espaço que antes era
difícil de imaginar: um lugar onde pudesse exprimir suas ideias, pensamentos, opiniões, sua vida
cotidiana, e ao mesmo tempo, um lugar onde tudo isso poderia ser visto.
Dessa maneira, uma perspectiva onde a cultura ocidental ainda se sobrepõe sobre a indígena, é
possível hoje utilizar os recursos tecnológicos em benefício da comunidade, pois eles abrem novas
possibilidades, principalmente no sentido de que podem servir também para atrair e seduzir o mundo
indígena, ou seja, contando a história e memória do povo nos artefatos. Não é possível excluir esses

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recursos, mas é possível adaptá-los para que sejam utilizados como instrumentos para comunidade, já
que eles podem produzir o mundo deles e divulgá-los para sociedade como um todo.

Questões

01. (TJ/CE – Titular de Serviços de Notas e Registros – IESES) Tratando-se de terra indígena com
demarcação homologada:
(A) A União promoverá o registro da área em seu nome.
(B) O Município onde se encontra a terra indígena promoverá o registro da área em seu nome.
(C) Fica dispensado o registro da área.
(D) A Unidade da Federação-UF onde se encontra a terra indígena promoverá o registro da área em
seu nome

02. (FUNAI – ESAF) É correto afirmar que as rendas do Patrimônio Indígena serão administradas pela
Funai tendo em vista o seguinte objetivo:
(A) emancipação econômica das tribos.
(B) acréscimo do patrimônio rentável da União.
(C) custeio dos serviços de assistência jurídica e médica ao índio.
(D) custeio dos salários dos funcionários da Fundação.
(E) custeio das manifestações culturais dos povos indígenas.

03. (FUNAI – Indigenista Especializado – ESAF) Assinale a opção que indica corretamente quais
foram os principais motivos que levaram à extinção do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) em 1967,
dando lugar à Fundação Nacional do Índio (FUNAI)
(A) Má gestão, falta de recursos, corrupção funcional, vulnerabilidade do órgão e a ingerência dos
partidos políticos na política indigenista.
(B) Massacres de sociedades indígenas realizados com a convivência e/ou participação dos seus
funcionários.
(C) A necessidade de uma renovação nos quadros burocráticos do Estado.
(D) O fim da presidência do Marechal Humberto de Alencar Castello Branco (1964 – 1967) e o início
da presidência do Marechal Arthur da Costa e Silva (1967 – 1969).
(E) As novas políticas do Estado para o desenvolvimento da Amazônia e a necessidade de um órgão
mais enérgico para implantar essas políticas.

04. (PGE/MT – Procurador do Estado – FCC) São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios
(A) as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as
imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias à
sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.
(B) as por eles habitadas em caráter permanente ou provisório, as utilizadas para suas atividades
produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as
necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.
(C) apenas aquelas por eles utilizadas para suas atividades produtivas e para moradia.
(D) as por eles habitadas em caráter provisório e as utilizadas para suas atividades produtivas.
(E) as terras declaradas por portaria da Fundação Nacional do Índio.

Gabarito

01.A / 02.A / 03.A / 04.A

Comentários

01. Resposta: A
De acordo com o artigo 231 da CF cabe a União o registro da terras/áreas indígenas.
“São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os
direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las,
proteger e fazer respeitar todos os seus bens33”.

33
https://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/con1988_08.09.2016/art_231_.asp

53

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02. Resposta: A
De acordo com a Lei nº 5.371, de 5 de Dezembro de 1967, Art. 3º:
As rendas do Patrimônio Indígena serão administradas pela Fundação tendo em vista os seguintes
objetivos:
I - emancipação econômica das tribos;
II - acréscimo do patrimônio rentável;
III - custeio dos serviços de assistência ao índio34.

03. Resposta: A
O SPI, após ser investigado por uma CPI teve como resultado a demissão ou suspensão de muitos
funcionários. Em 1967, o SPI e a CNI foram instintos e substituídos pela FUNAI. Entre os problemas
enfrentados estavam a carência de recursos, despreparo de funcionários, corrupção e denúncias de
maltratos e escravização aos indígenas.

04. Resposta: A
Ao complemento do art 231 citado na primeira questão, vejamos o primeiro parágrafo:
1º São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente,
as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais
necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos,
costumes e tradições35.

Movimentos culturais no mundo ocidental e seus impactos na vida


política e social

Modernismo e seu Contexto Histórico

O início do século XX poderia ser datado no ano de 1895. Esta "licença histórica "se explica pela
importância que esta data teve na história das ideias artísticas que vieram depois. Nesse ano, o austríaco
Sigmund Freud lançou o livro Estudos sobre a histeria, um marco importante na divulgação de suas
descobertas científicas, que o levaram a constituir um novo ramo médico a Psicanálise.
Dedicada ao estudo do inconsciente humano, que guardaria a face obscura dos desejos do indivíduo,
a ciência psicanalítica forneceu vasto material à Arte. A revelação da existência de um verdadeiro universo
no interior da mente humana serviu de impulso decisivo para o surgimento de teorias estéticas baseadas
na tentativa de expressão desse universo.
Ainda em 1895, os irmãos Lumiére lançaram, na França, um novo invento: o cinematógrafo. Através
dele, era possível registrar imagens em movimento, objetivo perseguido durante muitos anos por técnicos
de toda a Europa. Os primeiros filmes lançados pelos Lumiére não tinham nenhuma pretensão artística,
ou mesmo narrativa, visando apenas a explorar as então incipientes possibilidades da nova descoberta.
Logo, porém, o cinema impôs-se como um meio de comunicação artística que viera para modificar
fundamente as estruturas artísticas até então existentes. A rapidez da imagem, a simultaneidade narrativa
passou a ser instrumentos utilizados em todos os ramos da arte.
A febre dos inventos varria a Europa, provocando o surgimento de muitos concursos, que premiavam
aqueles que conseguissem ultrapassar obstáculos até então intransponíveis. Em 1906, em Paris, o
brasileiro Santo Dumont realizou com seu 14-bis o primeiro voo mecânico do mundo, feito proclamado no
mundo inteiro. Mundo. O homem parecia vencer limites importantes: o conhecimento da própria
personalidade, o registro do movimento e o espaço. O otimismo do início do século justificava a crença
na capacidade criativa do ser humano. Contudo, o reverso da medalha não tardou a aparecer. Em 1914,
eclode a I Grande Guerra Mundial, como resultado de lutas imperialistas (disputa de mercados e regiões
de produção de matéria-prima) que se davam em várias partes do mundo. O homem mostrava que, tanto
criar, era capaz de destruir.
No meio da guerra, uma nação se retira do conflito para resolver problemas internos. Em 1917, a
Revolução russa transformou profundamente as bases socioeconômicas do país, com a introdução
prática das ideias comunistas que Marx divulgara a partir de meados do século anterior. A abolição da
propriedade privada, o fim dos privilégios da nobreza, jogou o país em uma crise de grandes proporções,

34
http://www.camara.gov.br/sileg/integras/576664.pdf
35
https://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_231_.asp

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mas da qual emergiu uma nação vitoriosa e forte. Essa vitória contaminou o mundo, e a propaganda,
comunista alcançou todos os países. Apenas cinco anos depois da Revolução, por exemplo, era fundado
o Partido Comunista Brasileiro.
Em 1919, a Grande Guerra chega ao fim, e nova onda otimista atingiu a Europa. Acreditava-se, então,
que uma catástrofe suicida daquelas proporções nunca mais ocorreria. A década de 20 ficou conhecida
como "anos loucos “. Era o auge e o fim da chamada "belle époque". A rebeldia, a ousadia e a alegria
eram palavras de ordem: tudo era discutido, todas as liberdades eram proclamadas.
Esse ambiente favorece o surgimento de novas ideias estéticas (surgidas, ressalte-se, a partir de
contribuições artísticas do século XIX). Tais ideias constituíram o fundamento do que se convencionou
chamar de Arte Moderna, a arte do século XX. Como aspectos comuns, essas ideias possuíam: a ruptura
com o passado; o desejo de chocar a opinião pública; a valorização da subjetividade artística no trabalho
de tradução dos objetos ao redor; a busca de inovações formais cada vez mais radicalistas; a intenção
de reproduzir esteticamente um mundo que se transformava rapidamente; a tentativa de responder à
desintegração social provocada pelo panorama da guerra.
Vejamos algumas propostas dos principais movimentos artísticos do início do século na Europa.

Características
Um primeiro elemento, comum a todas as manifestações do Modernismo, é sua sistemática oposição
ao academicismo, isto é, à arte regrada, regulamentada, repleta de truques convencionais. Essa postura
de destruição dos símbolos artísticos, aceitos generalizadamente, e de desprezo pela norma culta
conduziu, quase sempre, os modernistas a atitudes de antipatia à cultura estabelecida. Foram, por causa
disso, muitas vezes perseguidos e ridicularizados.
A demolição dos edifícios estético convencional tinha como contrapartida a proposta de uma arte livre.
Essa liberdade buscava se realizar tanto no plano formal quanto no temático. No terreno da forma, os
modernistas defendiam a abolição da rima e da métrica, com a exploração do verso branco (ou solto -
versos sem rima) e livre (sem métrica regular, isto é, sem o mesmo número de sílabas). Essa inovação
formal era propriamente modernista, já que, antes deles, os simbolistas já faziam uso dela. Porém, o
Modernismo a transformá-la-á em bandeira de luta. Uma ressalva, contudo, deve ser feita: defensores da
liberdade formal absoluta, os próprios modernistas praticarão, quando entenderem necessário, o verso
rimado e regular; a partir desse momento, porém, esse tipo de verso deixa de ser condição prioritária para
a obtenção da boa poesia.
Além da versificação mais livre, a linguagem coloquial será adotada pelo Modernismo, que buscava
aproximar a arte erudita das camadas populares. A transposição da fala das ruas para o texto escrito
Co$6fere a este um alto grau de oralidade. Com isso, a linguagem artística absorve gírias, erros
gramaticais, criações espontâneas do povo, neologismo, estrangeirismo etc.
Coerente com essa postura de utilização de uma linguagem mais próxima do falar rotineiro, o
Modernismo tinha, como tema fundamental, o cotidiano. A partir de então, acontecimentos banais e
aparentemente sem importância podiam ganhar estatura artística, tanto quanto os grandes amores e as
emoções profundas tratadas pela arte mais tradicional.
Distanciando-se da postura que defendia uma arte voltada para si mesma, as vanguardas estéticas do
período manifestaram a preocupação social própria de um mundo sacudido por guerras e disputas
internacionais de todos os tipos. Tratava-se, assim, de uma arte voltada para o mundo e que fazia dele
sua grande miséria.
Além disso, ao comportamento sisudo e aristocrático que a arte assumira até então, os modernistas
opõem uma valorização do humor. No Brasil, por exemplo, ficaram famosos os poemas-piada de Oswald
de Andrade, obras-primas de síntese e sutileza crítica.
Enfim, podemos resumir a proposta modernista, de uma maneira geral, em uma única expressão
fundamental: liberdade. Em todos os níveis, de todas as formas. Muitas vezes, o desejo de fugir de
qualquer convencionalismo preestabelecido provocou o surgimento de uma arte excessivamente pessoal,
quase sempre incompreensível. Essa dificuldade de comunicação artística contrariava a tendência
democrática da arte de vanguarda, e representou, de fato, uma de suas contradições mais profundas.
A essas características gerais, devem ser acrescentadas aquelas que dizem respeito, mais
particularmente, aos contextos próprios de Portugal e do Brasil. Isto será feito oportunamente.

Jazz como American


Um artigo de compilação aparece no The New York Times. Jazz em 1923 proclamou ser "uma
contribuição da América para as artes É reconhecido em todo o mundo como parte de um folclore musical
deste país: é tão completamente e tipicamente americano como a Doutrina Monroe ou o Quatro de Julho,
ou baseball.”.
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Jazz Americano-ness começa com suas raízes. Jazz foi um produto do Africano americano, um grupo
cultural distinto para a América. Embora os primeiros azuis cantassem distintamente das tristezas de um
povo deslocadas, jazz era outra coisa. A classe operária Africana americana que deu à luz o jazz não
estava sujeitos à formação de outros músicos brancos; menestréis negros conseguiram escapar a
pressão para "europeizar" a sua arte. Cultura (com C maiúsculo) essencialmente exigiu que os
americanos preferissem elogiar, e reiteramos todas as coisas Europeias. Livre desses constrangimentos,
jazz progrediu de uma forma desconhecida. “Em 1925, Irving Berlin chamado jazz “da música popular
americana” e citou influências que vão de “velhas Canções do Sul” e “Negros Spirituals”, para um tom
“das canções folclóricas russas e italianas”, mas Berlim concluiu que era” tipicamente americano, acima
de tudo”. Como a nação onde ele foi criado, jazz misturados separados étnicas influências e culturais
em um produto novo e diferente, que combina elementos da identidade negra com outras influências de
imigrantes. Ela integra os sons do Sul e do moderno, e adaptados elementos de skylines urbanas. Jazz
era distintamente americano em que misturou o caráter de povos diferentes, mas ainda deixa o indivíduo
tem sua chance de se expressar em um solo de improviso, e, portanto, afirmou o "individualismo" que já
caracteriza a nação. Além disso, o jazz começou a quebrar a barreira entre o artista e o público. É
"democratizada” cultura, tornando-a acessível à pessoa comum.

Jazz tão moderno


Jazz é distintamente moderno em som e forma. Segundo Lawrence Levine, "Jazz era, ou parecia ser
o produto de uma nova era... estridente, dissonante... acessível, espontânea... abertamente uma música,
interativo participativa". Daniel Gregory Mason cobrado que o jazz "é tão perfeitamente adaptado para
robôs que o poderiam ser deduzidas do Jazz. Outro é, portanto, o reflexo exato musical do capitalismo
industrial modernista ", e jazz também tem sido comparado ao som de rebitagem. Irving Berlin chamado
jazz a "música da máquina idade ". Jogadores chamaram influências de conversa de rua todos os dias,
no Harlem, bem como de pinturas impressionistas franceses. A natureza improvisada implora o jogador
de desmontar e examinar a estrutura pré-existente dentro da música. Como homenagem para a
modernidade do jazz, um só precisa examinar os diversos meios de comunicação, que arrancavam
influências da música. O musical Shuffle Along é um da adaptação jazz mais antigo e mais bem-sucedido
para o palco, ballets jazz apareceu no Metropolitan de Nova York Theatre, Langston Hughese Brown
Sterling chamou a poesia da música Jazz eles experimentaram jazz e música coloridas pinturas de Aaron
Douglas, Miguel Covarrubias, e muitos outros.

O Feminismo, Gênero e Sexualidade

Desenvolvimento do feminismo
A partir do início do século 19, algumas mulheres usaram as doutrinas da feminilidade ideal para evitar
o isolamento da esfera doméstica. Na década de 1830, as mulheres eram desafiar abertamente esfera
das mulheres e exigindo mais direitos políticos, econômicos e sociais. Eles formaram clubes de mulheres
e sociedades beneficentes de todo o domínio dos EUA Masculino da arena pública não estava mais
dentro de limites aceitáveis para muitas destas mulheres de classe média ativistas. Começando com a
Convenção de Seneca Falls, em 1848, as feministas americanas realizam convenções estaduais e
nacionais até o início do século 20. Alguns porta-vozes do movimento feministas ligados a causa feminista
com amor livre e da revolução sexual, que foram as questões tabu da Era Vitoriana. Portanto, as
feministas, tanto na Grã-Bretanha e os Estados Unidos se concentrou em questões políticas e jurídicas,
a votação, em particular, e outras questões importantes das mulheres sobre os papéis domésticos de
mulheres e da organização da vida doméstica em geral. Finalmente, depois de uma luta longa e difícil,
que incluiu protestos maciços, por vezes violentos, a prisão de muitas mulheres, e até mesmo algumas
mortes, a batalha pelo sufrágio feminino foi vencida. A lei foi aprovada em sufrágio dos Estados Unidos,
em 1920, para as mulheres que eram chefas de família ou esposas de chefes de família e, em 1928, para
todas as mulheres adultas. (Africanas-Americanas mulheres não foram incluídas. Eles só receberam o
direito de votar no Movimento dos Direitos Civis de 1960.) A Organização Nacional de Mulheres (NOW)
foi fundada em 1966 por um grupo de feministas. O maior grupo de direitos das mulheres em os EUA
agora teve como objetivo acabar com a discriminação sexual, especialmente no local de trabalho, por
meio de lobby legislativo, litígio, e manifestações públicas. O ano seguinte do final do século 20 assistiu
a uma grande expansão dos direitos das mulheres em todas as áreas da sociedade moderna. Artistas
modernistas tiveram uma atitude ambivalente para o feminismo: por um lado, eles optaram por igualdade
de tratamento entre homens e mulheres no que diz respeito à lei, franquia e profissões; por outro lado,
eles ainda tinham as inadequações percebidas mulheres em termos de cultura, biologia, e transcendência

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em mente. Como o radical feminista Emma Goldman, proclamou, "a verdadeira libertação começa nem
nas urnas nem nos tribunais [mas] na alma de uma mulher" (qtd. em Lyon 223).

Sexo e Sexualidade
Os papéis de gênero e sexualidade no modernismo americano foram elaborados por meio de estudos
de identidade nacional e política da identidade, cidadania racial e raça, identidade quer e estética, cultura,
revista, cultura visual, economias de mercado, e relatos históricos da modernidade do século 20
política. Imenso trabalho feito por estudiosos de gênero, feminismo, sexualidade e ajudou a reestruturar
o campo da bolsa modernista americana. Escritores mulheres tornaram-se os temas de estudo literários
extensos. Comunidades de gays e lésbicas foram reavaliadas como padrões de experimentação estética
moderna e identidade sexual e de gênero formação foram interpretados de uma maneira nova.
A virada do século 20 a vida cultural vi uma mudança para uma dicotomia entre cultura de massa
contra a alta cultura, com o primeiro sendo geralmente gênero como cultura feminina e de alta a ser
considerado machista. Anteriormente denunciou ficção popular agora serviu ao propósito feminista”;
formou a base para a defesa de uma nova fase do amor livre e da promoção concomitante de controle de
natalidade" (Lyon 225). O interesse próximo em psicologia populares, especialmente freudianos teorias,
incentivado esta nova abordagem para os papéis de gênero e sexualidade nas artes. A diferença sexual
foi retratada pelas próprias mulheres, com a ajuda dos meios de comunicação disponíveis para eles. Este
se manifestou, por exemplo, em Mina Loy "s" sexo-talk ", que é" impressionante, tanto para o foco que
coloca em decepção sexual de uma mulher e para o equilíbrio que estabelece entre a franqueza clínica
e indireta poética "(Lyon 225). Ele também envolveu o rompimento dos papéis de gênero tradicionais.
Eles já não eram exclusivamente masculinos ou femininos, mas também havia um reconhecimento da
homossexualidade, os homens femininos e mulheres masculinas. Assim, o conceito de sexualidade
tornou-se multi-camadas, como em Djuna Barnes novela 'Nightwood (1936), no qual ela apaga todas as
idéias estabelecidas de gênero e sexualidade. Este primeiro debate lidar com estas questões abriu o
caminho para abordagens contemporâneas de gênero, por exemplo, que de Judith Butler em seu livro
Gender Trouble (1990).
Esta seção se concentra em pessoas e objetos que são representativos do modernismo americano.
De modo geral, esses seres humanos famosos e bem conhecidos de objetos são chamadosícones de
uma vez que, para além de que irradia uma aura de exclusividade, assim como a originalidade (cf. Wagner
2006: 121), que despertou o interesse do público neste período e tiveram uma duração influenciar as
gerações futuras (cf. Checa 2006: 27-28). Dessa forma, servem como pontos focais para a memória
coletiva ou identidade no presente (cf. ibid.). Mesmo que algumas pessoas na Europa ainda reconhecê-
los como símbolos do modernismo americano.
A representação medial / público a pedra fundamental para a criação de ícones. Desta forma, a uma
determinada imagem de uma pessoa ou de um objecto biológico real (significante) é produzido e torna-
se o significado (cf. Volkmann 2006: 94-96). A configuração emanado de sinais (cf. ibid. 96) ajuda a
transformar o significado em um ícone, se ele capta a atmosfera de um determinado país período / e é
reconhecida pelas sociedades contemporâneas, bem como das futuras gerações.

Nova Iorque
Nova York é uma das cidades mais emblemáticas nos Estados Unidos e uma das principais cidades
globais do mundo, devido ao seu negócio importante, organizações comerciais, financeiras e culturais,
como Wall Street, das Nações Unidas, o Museu Metropolitano de Artes e os teatros da Broadway com a
sua (em que o tempo inovador) iluminação elétrica. É considerado como o berço de muitos movimentos
culturais americanos, incluindo o Renascimento de Harlem na literatura e expressionismo abstrato em
arte visual.
Nova York é um ícone, não só para os americanos, mas também para muitos europeus, como a cidade
de caldeirão onde muitos grupos étnicos diferentes, muitas vezes vivem em guetos, como Chinatown,
Little Italy. "Cultura parece apenas estar no ar, como parte do tempo". No modernismo americano, Nova
York se tornou a primeira parada para os imigrantes que buscam uma vida melhor. A população da cidade
cresceu, cinco bairros foram formados, o New York City Subway foi aberto e se tornou um símbolo do
progresso e inovação. A cidade viu a construção de arranha-céus no horizonte.
"Take New York City skyline, por exemplo -. Que feita pelo homem maltrapilho Serra na borda oriental
do continente Claramente, nas mentes dos imigrantes e viajantes que retornam, na iconografia dos
publicitários que a utilizam como pano de fundo para o Bourbon e bagagem avião que eles estão
vendendo, os olhos dos poetas e das estratégias militares, é um dos símbolos principais “(Kouwenhoven
1998: 124)”. Iconic é especialmente o horizonte de Manhattan e sua propriedade estrutural. É considerado
como um símbolo do progresso americano e da competição em criatividade altura, de avanço, estrutura
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e eficiência. Ele é considerado um ícone do “individualismo arquitetônico” (cf. ibid. 125). O padrão de
grelha típica de ruas da cidade é um ícone de simplicidade (cf. IBID 127), enquanto a construção de aço
vertical de muitas histórias é um ícone do progresso e inovação.

Charlie Chaplin
Chaplin é considerado como um ícone de filme. Nascido em Londres, e, embora não um cidadão dos
EUA, teve um forte sentido de pertença à sociedade americana. Chaplin ficou famoso depois de estrelar
seu primeiro filme, Making a Living, (1914). “Como “um menino de 10 anos de idade”, ele trabalhou como
um mimo no circuito de vaudeville britânico”. O fato de que ele já foi muito pobre inspirou sua marca
registrada Vagabundo. Ele criou uma versão distorcida de um terno jantar formal (que foi considerado
para ser um símbolo de um homem adulto personificado), combinada com a atitude de uma criança
inocente.
Ele foi o primeiro e a última pessoa que estava no comando de todos os aspectos de fazer seus filmes.
Iniciaram os seus próprios filmes do estúdio United Artists, foi encarregado de dirigir, escrever, editar,
produzir e lançar os filmes em que jogou. Diz-se que ele mudou a indústria do cinema em forma de arte,
nas primeiras décadas do século 20. Era a sua personalidade, e seu gênio com "graça expressiva",
"inventividade sem fim" e criatividade que fez dele um ícone americano. Ele preferia fazer filmes mudos,
(ele fez mais de 75 filmes mudos) fixar a agir e a trama no centro da acção. Seus filmes mais conhecidos
são O Grande Ditador (1940), Monsieur Verdoux (1947), Limelight (1952), The Kid (1921), The Gold Rush
(1925), The Circus (1928), Luzes da Cidade (1931) e Tempos Modernos (1936)
Ele era tão altamente reconhecível que um movimento de "Chaplinitis" é formada por 1920. Houve
canções Chaplin, danças, histórias em quadrinhos, bonecos, e coactais. Poemas foram escritos sobre ele
e sua pantomima. A Geração Beat (dos escritores) fez dele um dos seus ícones. Nos anos 80 a IBM
tomou a Tramp para o logotipo nas propagandas seus de computadores pessoais
"Todas as semanas, fora da sala de cinema em praticamente qualquer cidade americana na década
de 1910 atrasados, estava a figura de papelão em tamanho real de um vagabundo pequena - vestido com
farrapos, calças largas, de fraque e colete, incrivelmente grande, desgastada sapatos e um chapéu de
derby maltratado - "." com a inscrição hoje estou aqui A figura cativante de seu Vagabundo foi
instantaneamente reconhecível em todo o mundo e trouxe o riso de milhões Ainda é ainda faz “.
Durante a era McCarthy foi atacado e condenado por alguns para as mensagens cada vez mais
politizados de seus filmes, e ele foi acusado de "atividades anti-americanas" e de ser um defensor
suspeita de comunista. Ele manteve sua cidadania britânica, e depois de uma viagem para a Inglaterra
em 1952 e por muitos anos ele não foi autorizado a entrar novamente os EUA Finalmente, em 1972, ele
retornou triunfalmente e foi concedido um honorário Oscar. Ele é visto hoje como um ícone do cinema
americano, devido ao charme e brilhantismo de seus filmes.

O Ford Modelo T
Ícones são geralmente capazes de transmitir, por um lado, o conhecimento da tradição e, por outro
lado, a noção de progresso (cf. www.ikonothek.de). Neste ponto, vale a pena mencionar alguns conceitos
do modernismo em os EUA, ou seja, o sentido de prospectiva contemporaneidade (Wilk 2006: 2) a ser
lief-no poder e potencial da tecnologia da máquina e industrial (ibid. 3) e a ênfase
no processo (Kouwenhoven 1998: 133-136). Todos estes aspectos podem ser associados com o Modelo
1913-T Ford. Ao usar da linha de montagem de sistemas, Henry Ford e seus homens aplicados contínuos
processo de princípios (Strasser, 1989: 6), durante a sua produção. O que deve ser mencionado, neste
contexto, é que muitos imigrantes não qualificados foram empregados pela fábrica Ford expandida a fim
de atender à crescente demanda por este ícone material do modernismo americano sobre o mercado de
massa emergente. Em conseqüência, a contribuição dos trabalhadores estrangeiros também ressaltou o
mito do The Melting Pot-americano (ver também: Meyer 1998).
Hoje, o Ford Modelo T continua a representar a idéia de processo e mobilidade. Portanto, embora o
modernismo pretende-se afastar qualquer forma de tradição e história, este ícone, curiosamente,
transmite, até certo grau, um senso de tradição.

Cotidiano e cultura
O movimento modernista provocou grandes mudanças nas sociedades em que ocorreram. Com a
introdução de empreendimentos industriais, o povo americano começou a apreciar o resultado da nova
era modernista. Cotidiano e cultura são as áreas que refletem a mudança social nos hábitos da
sociedade. Evolução que ocorreu com o modernismo influenciado americanos padrões de vida das
pessoas e deu lugar ao novo estilo de vida.

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O uso generalizado de energia elétrica e produção em massa de eletrodomésticos como geladeira
tecnológica provocou a mudança de hábitos alimentares dos povos americanos. O uso de alimentos
congelados tornou-se mais comum. Após a guerra, o governo dos EUA aprovou novas leis relativas à
alimentação. Então, alguns alimentos novos vieram diretamente dos kits de ração para as
lojas. "Alimentos anteriormente fabricados exclusivamente para uso do exército foram colocados no
mercado civil", congelados e produtos alimentares secos também se tornou popular após a
guerra. National Research Corporation of Boston introduziu suco concentrado congelado de laranja
chamado "tang". A empresa se tornou Minute Maid, e, em 1950, um quarto da safra de laranja da Flórida
estava indo para concentrados. O produto congelado rapidamente ultrapassou suco de laranja fresco, na
maioria dos lares americanos. Completas refeições congeladas não foram muito longe. Na década de
1950, uma empresa de Nebraska Swanson é trazido seus jantares de TV de grande sucesso.
Esta mudança nos hábitos alimentares provocou mudanças enormes em aparelhos, transporte e
agricultura. Desde que as pessoas começaram a comprar os novos produtos, novos refrigeradores foram
rapidamente desenvolvidos com seções maiores congelador resistente ao choque geladeira unidades
para caminhões tinha de ser inventado e usado pelos militares antes de os produtos congelados poderia
distribuídos e comercializados em todo o país e ao redor do mundo. Estes desenvolvimentos forçaram os
agricultores a mudar o que eles cresceram e como eles cresceram seus produtos para atender novas
exigências dos consumidores.

Moda
Referindo-se à moda, geralmente se pensa estilos de se vestir ou fantasias. Claro, estilo de vestir é
uma categoria muito importante da palavra "moda". Por outro lado, "a moda" tem mais significados e
poderia ser explicado e encontrado em muitos outros campos, como a arquitetura do corpo de dança,
tipo, e da música, e até mesmo as formas de discurso, etc.

Trajes
No início dos anos 1920, a moda pronto-a-desgaste começou a se espalhar América. Mais mulheres
ganharam seus próprios salários e não quer gastar tempo com acessórios. Moda como o símbolo de
status não era mais importante como distinções de classe eram cada vez mais ténue. Pessoas,
especialmente mulheres chamadas para a moda barata. No aspecto da produção em massa de roupas
de estilo contemporâneo para mulheres, a América seguiu em frente de outros países. Vários estilistas
desta forma, incluindo Jane Derby fez um estágio pose.

Mulheres: Em 1921, a mais longa saia, que era geralmente longo e irregular na parte inferior estava
desatualizada. A saia curta se tornou popular em 1925. No peito, sem cintura, e os cabelos quase
escondida sob um chapéu cloche. A fabricação de cosméticos também começou a partir desta
década. Batom, pó, rouge, lápis de sobrancelha, sombra de olhos, unhas coloridas, as mulheres tinham
todos eles. Além disso, as pérolas vieram em forma também.

Homens: Neste período, a roupa para os homens foi um pouco mais conservador. Calças ampliadas
para 24 centímetros em fundo. Calcinhas, aumento da largura e comprimento, foram chamadas "fours
plus". Durante o verão de linho branco era popular, enquanto que no inverno um casaco excelente
americana o casaco de guaxinim estava na moda. O chapéu desabado, feito de feltro, pode ser enrolado
e embalado em uma mala. Estes eram muito populares com os homens da faculdade.

Móveis
Não há puro estilo americano moderno no mundo projetar. O artista norte-americano moderno herdado
o estilo caracterizado pela simplicidade da forma, a ausência de ornamento decorativo, e centrado em
preocupações funcionais de seus precedentes. Ao mesmo tempo, os designers americanos misturados
o estilo selvagem da pintura parisiense, bem como as características da arquitetura moderna em suas
obras, como a Art Deco. Além disso, os designers também colocaram muita ênfase sobre os materiais,
especialmente aqueles inventados na idade moderna.

Literatura Americana Moderna

Modernismo americano cobriu uma grande variedade de tópicos, incluindo as relações raciais, papéis
de gênero e sexualidade. Ele atingiu o seu pico nos Estados Unidos na década de 1920 até os anos 1940.
Modernistas célebres incluem Ezra Pound, William Carlos Williams, F. Scott Fitzgerald, Ernest

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Hemingway e William Faulkner, e enquanto amplamente considerado como um poeta romântico, Walt
Whitman às vezes é considerado como um pioneiro da era moderna na América.
Influenciado pela Primeira Guerra Mundial, muitos americanos escritores modernistas explorou as
feridas psicológicas e cicatrizes espirituais da experiência de guerra. A crise econômica nos Estados
Unidos no início da década de 1930, também deixou uma marca na literatura, como John Steinbeck 's
Uvas da Ira Os. Um problema relacionado é a perda da auto e da necessidade de auto-definição, como
trabalhadores diluiu-se da vida da cidade, engrenagens despercebido dentro de um anseio máquina para
definição de si mesmo. Modernistas americanos ecoou o foco meados do século 19, na tentativa de
"construir uma auto", um tema ilustrado por Fitzgerald O Grande Gatsby. Loucura e suas manifestações
parece ser outro tema favorito modernista, como visto em Eugene O’neill é O Imperador Jones,
Hemingway é o Batalhador e Faulkner Isso Evening Sun. No entanto, todo este aspecto negativo levou a
novas esperanças e aspirações, e para a busca de um novo começo, não só para os indivíduos
contemporâneos, mas também para os personagens de ficção da literatura modernista norte-americana.
O período modernista também trouxe mudanças para a representação dos papéis de gênero e,
especialmente, ao papel da mulher na sociedade, e a literatura reflete a emancipação e de mudança
social da época. Gatsby, por exemplo, lida com temas como a interação de gênero em uma sociedade
mundana.
Relações raciais entre negros e brancos, a diferença entre o que era esperado de cada um dos dois e
que os fatos eram, ou, melhor dito, o preconceito na sociedade da época são temas tratados na maior
parte da literatura modernista norte-americano, se nós falar sobre a prosa (Jean Toomer, Zora Neale
Hurston, Faulkner, Hemingway), ou cerca de drama (O’neill). Por exemplo, os estereótipos, como a falta
de educação, Inglês dialético e retratos de negros como perigoso não são eliminados na literatura
modernista, mas permanecem presentes. No entanto, em histórias como a de Hemingway O Battler,
parece haver uma inversão de estereótipos. O personagem Africano-Americano neste conto prova a ser
um tipo, calculada e homem educado cujas boas maneiras e vocabulário cuidadosamente escolhidos é
facilmente perceptível desde o primeiro momento que ele aparece na história.
Escritores negros também precisam ser mencionados quando se fala sobre o modernismo na América,
como parecem ter trazido um avanço na literatura e na mentalidade, tanto quanto a autoestima dos
Africano-Americanos está em causa. A poesia popular orientada de Sterling Brown e Langston Hughes,
por exemplo, escrito em um ritmo adequado para ser cantado, ou seja, contada como uma história,
melancolicamente descreve a atitude alegre de afro-americanos em relação à vida, apesar de todas as
dificuldades que eles eram confrontados. Os protagonistas desses poemas são mostrados na tal luz que
oferece uma visão sobre a sua identidade cultural e do folclore. Uma visão sobre a cultura e folclore
também é um tópico que trata de prosa com, como, por exemplo, Toomer -Sangue Ardente Lua e de
Faulkner que o sol da noite.

New Criticism nos Estados Unidos


A partir dos anos 1930 para os anos 1960, o New Criticism tornou-se uma força crítica nos Estados
Unidos. Foi a perspectiva de mais poderoso na crítica literária americana. Os representantes foram John
Crowe Ransom, Allen Tate, Cleanth Brooks , Robert Penn Warren . "Os métodos de influentes críticos
estes poeta professores desenvolvidos enfatizou a agudização das habilidades de leitura mais próximos.
Nova Crítica privilegiada a avaliação da poesia como a justificação de estudos literários". Brooks e Poesia
Warren Entendimento (1938) tornou-se um dos livros de poesia mais influentes da faculdade da década
de 1930 e continuou a ser revisto e republicado bem na década de 1970 "(Morrisson, 29).
New Criticism mostrou-se em obras como Eliot 's e Yeats 'poemas. "A poesia que melhor se ajustam
aos critérios estéticos dos Críticos de Nova foi enfatizado em antologias importantes de sala de aula de
ensino" (Morrisson, 29). TS Eliot redefiniu tradição em seu ensaio "Tradição e talento individual". Ele
formulou tais conceitos críticos, como "correlato objetivo", e repensado o cânone literário em sua elevação
de Jacobean drama e poesia metafísica. Seu trabalho teve uma influência fundamental sobre o New
Criticism nos Estados Unidos.

Arquitetura e espaço
Os Estados Unidos desempenharam um grande papel no movimento do modernismo sobre construção
nova e avançada e tecnologias de construção. Entre as inovações da construção existem materiais como
concreto, aço, ferro e reforçado. Ponte de Brooklyn por John e Washington Roebling (1869-1883) (para
mais detalhes, ver John Roebling / Washington Roebling)
Henry Louis Sullivan chefiou a chamada escola de Chicago de arquitetura, que foi distinto por seu
desenvolvimento de design funcional, juntamente com materiais modernos. Seguidor de Sullivan Frank
Lloyd Wright absorvido de seu 'lieber Mestre' (querido mestre) da tradição romântica alemã de arquitetura
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orgânica. Ele desenvolveu uma abordagem nova e original para design residencial antes da Primeira
Guerra Mundial, que se tornou conhecido como o "estilo da pradaria". Ele combina os princípios de
planejamento abertos com ênfase horizontal, elevações fachada assimétricas e amplas, telhados de
abrigo. Robie House em Chicago (1909) e do Museu Guggenheim em Nova York (1946-1959) são duas
de suas obras seminais.
Em suas obras Wright se aproximou e mais perto de um sentido preso à terra de forma natural, usando
tosca de pedra e madeira e visando sempre em suas casas para conseguir um efeito de abrigo íntimo e
protetor.
Nascidos no exterior arquitetos como Richard Neutra, Rudolf Schindler , e Lescaze William durante a
década de 1920 desempenhou um grande papel no desenvolvimento da arquitetura americana realizando
depois um estilo, que tem o nome de estilo internacional e foi refletido no projeto de edifícios de escritórios
corporativos após Mundial Guerra. Edifícios como Skidmore, Owings e Merrill Lever House (1952) e
Ludwig Mies van der Rohe Seagram Building (1956-1958), em Nova York são os exemplos deste novo
estilo. Quando tais europeus famosos, como Walter Gropius e Mies van der Rohe Ludwig imigrou para
os Estados Unidos, muitas escolas americanas de arquitectura foi sob a influência das tradições da
Bauhaus na Alemanha.

Modernismo na Europa e na América Latina

Cabe inicialmente caracterizar os significados mais genéricos dos movimentos de vanguarda europeus
relacionados ao modernismo latino-americano.
O modernismo europeu data de uma época anterior - últimas décadas do século XIX. Segundo alguns
autores que se propôs a definir o termo modernismo, eles se referem à arte da modernização que está
relacionada ao progresso material, econômico, tecnológico dessa época.
O artista do final do século expressava uma tensão e uma incerteza frente a mudanças que redefiniram
as relações sociais e produziram novas concepções de mundo. O período se caracterizou por uma mescla
de euforia e desespero, esperança no futuro e niilismo, revolucionarismo e conservadorismo, louvor e
desprezo à tecnologia. Ou seja, as reações frente às mudanças não eram as mesmas e variavam do
extremo otimismo ao extremo pessimismo nostálgico.
Tal processo deu ensejo a transformações importantes no campo das artes e a circulação de imagens
produzidas pelo espetáculo do progresso aproximou artistas num plano internacional.
Na literatura, o primeiro modernismo correspondeu ao momento em que os artistas procuraram superar
o realismo/naturalismo, o romantismo e as representações humanistas, incorporando um estilo, uma
técnica e uma forma capaz de expressar uma busca interior profunda.
O primeiro movimento modernista latino-americano, ou mais especificamente hispano-americano,
acompanhou as mudanças artísticas européias, fazendo delas uma leitura particular. Como os europeus,
os literatos desta região, se posicionaram de forma crítica em relação aos valores e códigos do mundo
burguês, mas propuseram renovações literárias específicas: eles defenderam a criação de uma
linguagem diferenciada da ex-Metrópole. A busca de uma identidade própria assumiu a língua como traço
fundamental de ruptura com os padrões culturais da Espanha, que permaneceram mesmo após a
independência das colônias.
O movimento data da década de 1880, mas antes já existia uma procura de formas para expressar a
experiência americana. Essa busca, no entanto, ficou restrita a algumas experiências isoladas, segundo
Jean Franco. A partir dessa época, houve um renascimento literário hispano-americano que resultou em
transformações na forma e no conteúdo, tanto da poesia como da prosa. A recusa da cultura espanhola
aproximou os modernistas da França, ou melhor, de Paris, centro cultural do mundo ocidental.
O segundo movimento modernista da América Latina (a presença dos brasileiros, neste caso, foi
significativa), diferentemente do anterior, contou com a participação de artistas plásticos que mantiveram
contato com artistas europeus de diferentes nacionalidades: a pintura, sobretudo, assumiu importância
tão relevante quanto a literatura. Caracterizou-se por uma busca de construção da identidade nacional
que levou os artistas intelectuais ao encontro das tradições e raízes nacionais.
Refiro-me aos "artistas intelectuais" porque os modernistas dos anos 1920 abriram um amplo debate
de ideias sobre a natureza da arte e sua relação com a nacionalidade. Além da produção artística,
escreveram manifestos, criaram revistas, tiveram ampla participação na grande imprensa e se
preocuparam em refletir sobre a sua sociedade, os impasses e possibilidades de mudança com ênfase
no campo cultural.
Os movimentos modernistas latino-americanos dessa época foram tributários das experiências
artísticas europeias que, a partir da Primeira Guerra, introduziram elementos novos no campo das artes.
O conflito mundial provocou uma crise de consciência entre intelectuais e artistas europeus que sentiram
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necessidade de expressar suas ideias e sentimentos. Os movimentos denominados vanguarda se
ampliaram e se fizeram acompanhar de uma profusão de escritos sobre a natureza da arte, sua finalidade
e função social do artista.
Esse debate também ocorreu na América Latina. Segundo Jorge Schwartz, a crescente politização da
cultura latino-americana no final dos anos 1920, reintroduziu a discussão sobre o uso da palavra
"vanguarda", através da clássica oposição entre "arte pela arte" e "arte engajada", relacionada a uma
controvérsia em torno do próprio estatuto da arte. Como mostra o autor, inicialmente restrito ao
vocabulário militar do século XIX, o termo "vanguarda" acabou adquirindo na França um sentido figurado
na área política.
Mas ao mesmo tempo em que as facções anarquistas e comunistas se apropriaram do termo como
sinônimo de atitude partidária capaz de transformar a sociedade, o surgimento dos ismos europeus deu
grande margem à experimentação artística desvinculada, em maior ou menor grau, de pragmatismos
sociais. E embora as vanguardas artísticas tivessem por denominador comum a oposição aos valores do
passado e aos cânones artísticos estabelecidos pela burguesia do século XIX e início do XX, elas se
distinguiam entre si, não apenas pelas diferenças formais e pelas regras de composição, mas por seu
posicionamento frente às questões sociais. Esta observação geral do autor é inteiram ente válido para
caracterizar os pintores que se preocuparam com a busca de raízes: eles tinham essa preocupação
comum, mas diferiam entre si, tanto nas posições assumidas frente ao tema da função social da arte,
como no sentido estético. Além disso, alguns deles reviram suas ideias políticas ou artísticas ao longo de
suas trajetórias.
Os grupos tornavam-se conhecidos a partir de revistas, exposições, conferências e manifestos. O
debate acalorado que surgiu em torno do significado da arte pode ser recuperado nesses documentos
que, em muitos casos, traduziam a natureza militante e polêmica desses movimentos.
Paulo Menezes se refere à "Era dos Manifestos" ao analisar a profusão de movimentos, tendências
artísticas e disseminação de escritos sobre a arte na Europa. Os artistas plásticos integrantes das
"vanguardas" tinham uma característica comum: a crítica à pintura naturalista e realista e a recusa à
imitação das fórmulas herdadas do passado, sobretudo da herança grega e seu conceito de beleza que
toma o homem como modelo de perfeição. Alguns se insurgiram contra os velhos temas, contra os
métodos de expressão pictórica (inclusive a noção de perspectiva) e os materiais utilizados pelos artistas.
Franz Marc afirmou: "As tradições são coisas belas, mas é preciso apenas criar tradições, não viver
delas". Kandisky era contra a existência de regras para a criação e Malevich defendeu a ideia de que "a
arte não deveria servir ao Estado, nem à religião, nem à história dos costumes, nem à representação dos
objetos. Deveria viver por si e para si". Naum Gabo, pai do construtivismo, também se opôs a esses usos
da arte e ao seu caráter descritivo. Mas nem todos os vanguardistas se preocuparam apenas com o
aspecto formal da arte. O expressionismo alemão, o surrealismo francês, embora diferentes em vários
aspectos, tinham como denominador comum a preocupação social. Os expressionistas reagiram contra
os horrores da Primeira Guerra e o mesmo fizeram os dadaístas, ainda que de forma diversa; os
surrealistas pregaram a transformação do homem através da libertação das formas do inconsciente e o
futurismo reagiu fortemente contra a burguesia da época e contra a arte passadista; o cubismo o
acompanhou em vários aspectos.
Os artistas latino-americanos se inspiraram em várias dessas correntes, mas pretendo mostrar que
mesmo os discípulos dos defensores da arte pela arte, não se identificaram com essa perspectiva. A
maioria deles revelou preocupação com os problemas da sociedade a que pertenciam. Procuraram
romper com o passado, mas a produção nova, geralmente, representou respostas a suas inquietações
sociais e/ou políticas.
As propostas inovadoras se expressavam, particularmente, nos Manifestos que tinham um sentido
panfletário e apresentavam uma estrutura literária telegráfica, contundente e sonora. Tendia mais a
sacudir, provocar do que a suscitar reflexão. Como observa Jorge Schwartz, a retórica contida nesses
documentos é agressiva e se volta para a promoção de uma nova estética. Vários foram produzidos por
ocasião do lançamento de revistas e explicitavam o projeto cultural ou político-cultural que orientaria a
trajetória dessas publicações.
O auge da produção de Manifestos, tanto na Europa como na América Latina, se deu a partir dos anos
1920. Nesse período, houve uma efervescência política e social que se fez acompanhar de intensa
produção artística. Não só a Primeira Guerra e suas consequências devastadoras, mas também a
Revolução Russa e o início dos movimentos de esquerda e de extrema direita provocaram uma
reavaliação dos valores estabelecidos a partir de novos parâmetros: a guerra revelou o absurdo da
condição humana e a Europa passou a ser vista como o "velho mundo" em decadência enquanto a
imagem do "novo mundo", lugar do futuro se fortaleceu. Houve febril intercâmbio de ideias e imagens
entre esses dois continentes.
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Na América Latina, alguns movimentos tiveram maior repercussão do que outros. Antes mesmo da
eclosão da Primeira Guerra, o Manifesto Futurista de Marinetti (1909) tivera grande impacto na região. Ali
se encontrava a negação mais radical ao passado, antigo e recente, e a apologia do futuro, da tecnologia
e do movimento. A exaltação do novo por parte dos futuristas correspondia à imagem, que seria reforçada
posteriormente, da América como lugar do futuro.
Alguns autores consideram que a repercussão desse Manifesto na América Latina pode ser tomada
como o marco inicial do Movimento Modernista. Jorge Schwartz se refere avarias interpretações em torno
dessa periodização e menciona o fato de que outros autores entendem a Semana de Arte Moderna de
1922 (São Paulo) como um divisor de águas na cultura e nas artes do continente latino-americano. O
crítico uruguaio Angel Rama o definiu como um evento histórico que marca o ingresso oficial das
vanguardas na América Latina.
É importante lembrar como aconteceu esse evento, no qual ocorreram exposições, recitais de poesia,
concertos musicais e conferências, que foram alvo de críticas acerbadas na ocasião.
O escritor e diplomata Graça Aranha, que morou na Europa entre 1900 e 1921, foi o seu promotor. Ele
convivera com a agitação intelectual e artística do período e incorporara concepções estéticas do "espírito
moderno".
Quando voltou ao Brasil em 1921, trouxe a notícia do "Congrès de l 'Esprit moderne " que seria
realizado, na Europa, por iniciativa dos dadaístas e puristas em 1922. O evento não aconteceu, mas
inspirou a organização da Semana de Arte Moderna paulista programada para comemorar o centenário
da independência.
Considerada marco do modernismo latino-americano, ela contribuiu para o desenvolvimento de
pesquisas formais e de uma nova linguagem artística em relação a várias artes. A partir dessa
experiência, surgiram, em todos os cantos do Brasil, revistas culturais; algumas delas lançaram
manifestos que exaltaram a integração do país no mundo da técnica e da mecânica.
Quanto ao final do Movimento, há certo consenso em admitir que, no início dos anos 1930, já se
vislumbrava o ocaso das experiências inovadoras e experimentais.

Modernismo latino-americano e a busca de raízes

Levando em conta a diversidade da produção cultural dessa época, considero mais apropriada a
referência amovimentos modernistas latino-americanos, diversidade essa que se explica pelas diferenças
conjunturais e históricas.
Nos anos 1920, a América Latina foi palco de conflitos sociais e políticos relevantes, alguns de caráter
mais geral e outros mais específicos, como a Revolução Mexicana que teve grande impacto na América.
Nesse período deu-se, em vários países, a criação de partidos comunistas, ocorreram movimentos
operários e estudantis de grande porte, além de movimentos nacionalistas de esquerda e de extrema
direita. No plano intelectual, foram formuladas propostas de unidade latino-americana e houve
significativo debate em torno da questão indigenista. Todos esses acontecimentos tiveram cada um à sua
maneira, repercussão importante. Foi nesse contexto que ocorreram redefinições no campo cultural com
propostas de novos códigos artísticos para interpretar o mundo em mudança.
É importante lembrar, também, que nas primeiras décadas do século XX, foram organizadas
comemorações relacionadas aos centenários de independência em muitos países. Tais comemorações
deram ensejo a reflexões em torno dos problemas nacionais e busca de soluções para eles, o que explica,
em parte, as tentativas de revisão das identidades nacionais.
A busca de uma identidade nacional fundamentada em novas bases coincidiu com o surgimento dos
movimentos modernistas dos anos 1920. Literatos e artistas plásticos se inspiraram nas vanguardas
europeias da época, mas a busca de raízes nacionais implicou num processo de releitura da produção
externa a partir das questões que estavam postas nos diferentes países da América Latina.
A tentativa de recuperação das origens foi, geralmente, orientada por uma valorização da cultura
popular e das tradições. Com base nesses elementos, os modernistas pretendiam criar um produto novo
a partir de novas linguagens artísticas aprendidas na Europa. A circulação de ideias e formas visuais
entre os artistas latino-americanos e europeus possibilitou a existência de "diálogos através de
imaginários".
A maioria dos modernistas dos anos 1920 criticava a cópia ou a imitação de padrões estrangeiros,
comprometendo-se a produzir uma obra totalmente autêntica e original. No entanto, como observam
alguns autores como Angel Rama, o "novo" significava, acima de tudo, uma vontade de ser diferente dos
antecessores e nada dever ao passado.
O decantado produto novo era, na verdade, fruto de releituras do passado e a originalidade nacional
resultava, muitas vezes, de uma inspiração europeia. O contato dos modernistas latino-americanos com
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os europeus era intenso e ambos demonstraram interesse pelos mitos indígenas ou pelos ritos afro-
antilhanos. Cabe lembrar que, desde o final do século XIX, artistas europeus lançaram os olhos para fora
da "velha Europa" com o intuito de encontrar novos estímulos para a criatividade.
O processo de circulação entre o nacional e o internacional que caracterizou os movimentos
modernistas latino-americanos foi permeado por uma tensão existente entre o prestígio dos modelos
externos e a procura de uma identidade nacional. O cubano Alejo Carpentier, autor de O século das luzes
e O recurso do método, dentre outros, afirmou: "Temos que tomar nossas coisas, nossos homens e
projetá-los nos acontecimentos universais para que o cenário americano deixe de ser uma coisa exótica".
O modernismo tentou pôr em prática essa ideia e por isto se pode dizer que, muitos deles foram, ao
mesmo tempo, nacionalistas e cosmopolitas.
Foi com os representantes das vanguardas do "velho mundo" que artistas do "novo mundo" discutiram
e compartilharam ideias, aperfeiçoaram suas técnicas e inventaram novas formas de expressão.
O novo foi um vocábulo muito utilizado na época. Appolinaire em L 'Esprit nouveau e lês
poètes, consagrou a ideologia do novo na esfera das artes, no que foi seguido por modernistas latino-
americanos. Mas, como veremos mais à frente, a nostalgia da sociedade que não existia mais era visível
em alguns escritores e artistas da América Latina. Na região, o culto ao novo e ao presente, traduzidos
na exaltação da máquina, da tecnologia e do progresso, convivia, no mesmo espaço, com o culto
nostálgico da sociedade que a modernização destruíra.

Formas de organização social, movimentos sociais, pensamento


político e ação do Estado

NOVAS FORMAS DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL36

Nas diversas conjunturas históricas tem ocorrido à necessidade da população em geral e da população
de baixa renda em particular, de lutar pela sobrevivência e pelas necessidades humanas básicas. Isso
tem levado essa população a mobilizações organizadas e às vezes desorganizadas ou a formação de
movimentos sociais urbanos de caráter reivindicatórios em diversas sociedades ou setores destas.
Os movimentos sociais de modo geral existem desde muitos séculos. O autor Beer, usando a
denominação de lutas sociais narra sua existência na mais remota Antiguidade e, atravessando guerras
e conflitos que marcaram a vida dos povos, passando pelos tempos modernos chega à época
Contemporânea (década de 1920, do século passado).
Hofmann (1984) afirma que ―todo o pensamento do movimento social contemporâneo encontra a sua
origem nas grandes ideias da Filosofia do Iluminismo. Para ele é ― pela primeira vez na história do
mundo, o Iluminismo traçou a imagem de uma humanidade libertada. Isto faz com que o homem coevo
crie e realize as suas utopias ou busque realizá-la. E continua Hofmann, “o que constituiu uma esperança
para o Iluminismo, passou a constituir para o movimento social um programa ainda não cumprido e
passível de ser realizado.” Para Gohn (1982), os movimentos sociais europeus, anteriores ao século XX,
e principalmente os do século XIX, caracterizam-se por suas ideologias e práticas revolucionárias. A
unidade básica destes movimentos era dada no próprio plano da produção. As péssimas condições de
vida dentro das fábricas levavam à sua eclosão.
Movimentos e mobilizações de grupos sociais são encontrados em diferentes épocas, lugares,
situações e em distintas sociedades, com maior ou menor significação. Como exemplos podemos nos
referir às revoltas de escravos, aos movimentos de mulheres da Idade Média, às guerras camponesas do
século XVI, aos conflitos étnicos, aos movimentos religiosos como o franciscanismo, o protestantismo do
século XVI. Na história do Brasil, encontramos vários deles, de diferentes características e dimensões,
como movimentos emancipacionistas, messiânicos, culturais, políticos... Os dos anos 70 e 80 têm seus
predecessores nos movimentos de bairro, de camponeses e operários das décadas anteriores. Ao se
falar dos movimentos das últimas duas décadas, os autores procuram distingui-los dos anteriores,
denominando-os de novos movimentos sociais.
Como vimos, os Movimentos Sociais decorrem das desigualdades de classes ao longo da história e,
do avanço do processo urbano-industrial, que no início do século XX, compreendia quase exclusivamente
a organização do proletariado industrial, isto é, os sindicatos. Entretanto, Ammann (1991) destaca que os
Movimentos Sociais só recentemente mereceram a atenção dos cientistas sociais. Para estes, o que vem

36
Texto adaptado de CABRAL, A. A. C. e SÁ, A. J. de Professores pesquisadores.

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a qualificar um movimento como Movimento Social é o elemento constitutivo: a contestação, o protesto,
a insatisfação, o conflito, o antagonismo.
Movimento é aqui entendido no sentido dado por Gohn (1985): Os movimentos se expressam através
de um conjunto de práticas sociais nas quais os conflitos, as contradições e os antagonismos existentes
na sociedade constituem o móvel básico das ações desenvolvidas. E continua Gohn, o movimento social
também expressa a consciência possível da classe que representa.
Todo Movimento Social carrega o germe da insatisfação, do protesto contra relações sociais que
redundam em situações indesejáveis para um grupo ou para a sociedade, sejam elas presentes ou
futuras. Sendo assim, todo Movimento Social inscreve-se em uma problemática relacional de poder, e,
como tal, é preciso compreendê-lo como uma relação de força, de confronto, de disputa e conflito entre
lutas de classes, dominantes e dominados, de relação capital/trabalho, com todas as complexidades e
implicações que envolvem estas categorias, hoje.
Esta luta nem sempre é pela direção da produção da sociedade, mas protestam contra formas de
direção vigentes ou anunciadas, e de suas consequências para a classe dominada, Andrade enfatiza que
a história e o processo de produção do espaço constituem assim uma interminável luta entre os grupos
sociais dominantes entre si, e da classe dominante como um todo, frente às classes dominadas.
O jogo dialético da luta dentre as classes dá origem e se origina, a um só tempo, do sistema de relações
de trabalho dominante em face do nível de desenvolvimento, de utilização das forças produtivas. Daí a
ligação direta que há entre o tipo de espaço produzido e o modo de produção e/ou a formação econômico
social dominante.
Sendo assim, o antagonista visível dos Movimentos Sociais pode ser o Estado ou outros
representantes diretos da exploração, enquanto responsáveis por relações sociais consideradas
indesejáveis. Os representantes dos Movimentos Sociais podem ser, uma classe social, uma etnia, uma
região, um religião, um partido político, ou inúmeras outras categorias. Mas Gohn (1985) e Ammann
(1991), nos alerta que, tanto a classe dominante como a classe dominada, com suas respectivas frações,
podem constituir-se em sujeitos sociais dos movimentos, insatisfeitas com as relações sociais vigentes
ou propostas. Entretanto, aqui se faz necessário alertar que apesar dos Movimentos Sociais encontra-se
regidos por uma lógica de exploração do capital, este produz outras formas de opressão e dominação
específicas, entre as quais figura as problemáticas dos índios, homossexuais, étnicos, ecológicos entre
outros, que não se reduz em relação capital/trabalho. Esses movimentos específicos têm objetivos
particulares, não podendo ser reduzidos as relações de classe como adverte Ammann (1991); em outras
palavras, apesar de estar no interior do regime capitalista, quando dentro desses movimentos suprimir-
se a oposição entre capital/trabalho não se enquadrando como movimentos sociais. Entretanto, as
necessidades cotidianas dos moradores pobres e miseráveis do nosso País se inserem nas questões de
lutas de classes, apresentando-se como movimentos.
Isto mostra-nos que são as intencionalidades dos processos de contestação que define o que será ou
não um Movimento Social, em outras palavras, são os ―processos de contestação que objetivam a
contraversão ou a preservação da ordem estabelecida, a partir das contradições específicas da realidade.
Para superar as imprecisões e ambiguidades do conceito de Movimentos Sociais básicos que
conhecemos Gohn (1985) elabora um quadro geral, denominado de Principais Movimentos Sociais; o
qual transcrevemos abaixo:

Principais Movimentos Sociais

1) Movimentos Sociais Ligados à Produção:


- Movimento Operário
- Movimento dos Produtores
- Movimento Sindical: Operário e Patronal
2) Movimentos Sociais Político-Partidários
- Partidos Institucionalizados
- Grupos e Facções Políticas Não Institucionalizados
3) Movimentos Sociais Religiosos
- Movimentos de Igreja Católica
- Movimentos de Igrejas Protestantes e Outras
- Movimentos Messiânicos
- Movimentos Religiosos Ligados a Tradições Culturais e Folclóricas
4) Movimentos Sociais do Campo
- Proprietários
- Trabalhadores Rurais
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5) Movimentos Sociais de Categorias Específicas
- Movimento Feminista
- Movimento Negro
- Movimento de homossexuais
- Movimento de Defesa do Índio
- Movimento de Estudantes e Professores
6) Movimentos Sociais a partir de Lutas Gerais
- Lutas pela Preservação do Meio Ambiente — Movimento Ecológico
- Lutas pela Democracia (Ex. Movimento pela Anistia e Luta pelas Diretas)
- Lutas contra inflação e a Política Econômica do Governo (Ex. Movimento contra a Carestia)
- Lutas de Defesa dos Consumidores
- Movimentos dos Desempregados
7) Movimentos Sociais Urbanos:
- Populares: Movimentos Econômicos, Reivindicatórios de Bens e Equipamentos. Movimentos Sociais
Populares Urbanos de Caráter Marcadamente Político
- Burgueses: Ações Reivindicatórias de Bens e Equipamentos Urbanos Defensores de Privilégios e
anti-igualitários.
Já Ammann (1991), enumera seis princípios para conceituar o que seja Movimento Social, que
descrevemos a seguir:
- É a contestação o elemento construtivo dos Movimentos Sociais;
- Os Movimentos Sociais contestam determinadas relações sociais, no contexto das relações de
produção;
- Os protagonistas podem ser classes sociais, etnias, partidos políticos, regiões etc.;
- Nem todo Movimento Social tem caráter de classe;
- Nem todo movimento Social luta pelo poder;
- O objetivo dos Movimentos Sociais pode ser a transformação ou, contrariamente, a preservação de
relações sociais dadas, quando as mesmas se encontram ameaçadas.
Diante do exposto, concordamos com o conceito formulado por Ammann, movimento social é uma
ação coletiva de caráter contestador, no âmbito das relações sociais, objetivando a transformação ou a
preservação da ordem estabelecida na sociedade. Sendo assim, os movimentos sociais em sua maioria
lutam por melhorias sociais (de bens, equipamentos e serviços), e não pela tomada do poder (do Estado),
como veremos a seguir.

Movimentos Sociais Urbanos Reivindicatórios

Como vimos acima, as lutas e reivindicações por menores desigualdades e exclusões sociais, ou seja,
melhores condições de vida em sentido pleno (de cidadania), não são novas nem exclusivas do Brasil,
mas tem acompanhado a humanidade desde que surgiu a divisão social do trabalho (divisão de classe),
contudo apresentam particularidades no tempo e no espaço.
No entanto, os estudos propriamente ditos dos movimentos sociais reivindicatórios de melhorias
urbanas datam de época recente. Segundo Gohn (1982), eles se desenvolveram principalmente a partir
de uma abordagem derivada de uma leitura estruturalista de Marx. Na Europa, o maior número destas
análises tem ocorrido na França, sendo Manuel Castells um de seus principais representantes.
Esse autor foi um dos que mais influenciou na literatura sobre Movimentos Sociais na América Latina.
Para ele, um movimento social nasce do encontro de uma dada combinação estrutural, que acumula
várias contradições, com um certo tipo de organização. Todo movimento social provoca, por parte do
sistema, um contra movimento que nada mais é do que a expressão de uma intervenção do aparelho
político (integração/repressão) visando à manutenção da ordem.
E continua Castells, o movimento social urbano é um sistema de práticas resultando da articulação de
uma conjuntura do sistema de agentes urbanos e das outras práticas sociais, de forma que seu
desenvolvimento tende objetivamente para a transformação estrutural do sistema urbano ou para uma
modificação substancial da relação de forças na luta de classes, quer dizer, em última instância, no poder
do Estado.
Outro autor a influenciar teoricamente os movimentos sociais urbanos na América Latina foi Alain
Touraine. Para ele, Movimentos Sociais são a ação conflitante de agentes das classes sociais, lutando
pelo controle do sistema de ação histórica. Touraine deixa mais clara a definição quando afirma que os
Movimentos Sociais são forças centrais que lutam umas contra as outras para dirigir a produção da
sociedade por ela mesma, a ação de classe pela direção da historicidade.

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Para nós os movimentos sociais urbanos reivindicatórios, ou seja, os movimentos populares de bairros
são organizações da classe destituída de poder, que demandam através das reivindicações, por direitos
básicos de acesso à participação e cidadania, não se dirigindo à luta pelo domínio (controle) político do
Estado. Mas, tendo no Estado não apenas o destinatário de suas reivindicações, mas também um
adversário e, às vezes, paradoxalmente, até um aliado.

No Brasil
No Brasil, as contradições urbanas decorrentes do desenvolvimento do capitalismo se iniciam após
1930, com uma lógica no processo de acumulação do capital que cria como precondição, para seu
funcionamento e desenvolvimento, a participação controlada das massas populares no processo
econômico e político (RAICHELIS, 1988). Gerando um novo tipo de sociedade urbana, especialmente
nas duas principais metrópoles do país, Rio de Janeiro e São Paulo, baseando-se na superconcentração
de atividades produtivas e de sua reprodução. Concentrou-se nessas regiões, já que ai se centralizava
os demais fatores indispensáveis para sua ampliação.
Para Moisés (1985), as enormes massas de população foram formadas neste contexto, sendo
obrigadas a se acomodar ao fenômeno que se poderia chamar de urbanização por extensão de periferias,
fenômeno que adquiriu as feições de um verdadeiro processo ecológico de discriminação social. E
continua ele, a formação das principais áreas metropolitanas brasileiras foi acompanhada do surgimento
de uma série de contradições sociais e políticas específicas que apareceram na forma das distorções
urbanas conhecidas, por exemplo, por cidades como São Paulo, Rio, Recife, Belo Horizonte, Salvador e
Porto Alegre, entre outras. Desde os anos 40 e, mais intensamente, após a industrialização que se inicia
em meados dos anos 50, o aprofundamento da divisão social do trabalho no país provocou a emergência
de necessidades sociais e urbanas novas para a sobrevivência da população. Aumentou a demanda por
serviços de infraestrutura (água, esgotos, asfaltamento de ruas, iluminação privada e pública, etc.) e por
um sistema de transportes coletivos mais rápido e eficiente, pois a expansão da periferia tornava bem
maiores as distâncias entre o local de moradia e o local de trabalho da mão-de-obra. Por outro lado, o
novo desenvolvimento criou necessidades (reais ou ilusórias) infinitamente maiores para o sistema
educacional, em todos os níveis, pois a modernização econômica impôs expectativas novas à mão-de-
obra e, ao mesmo tempo, uma ânsia de valorização (qualificação e especialização) para o conjunto da
força de trabalho; de outra parte, ampliou consideravelmente a demanda por serviços de saúde (pronto
socorros, postos de saúde, maternidades, hospitais, etc.), pois a complexificação de vida urbana, com a
intensidade e a rapidez de sua concentração, altas taxas de densidade, circulação rápida e veículos,
trânsito, etc., e ao ritmo cada vez intenso do trabalho e da vida social, aumentou os acidentes de trabalho
e de trânsito, as doenças nervosas, as epidemias e as enfermidades em geral. Criou uma demanda nova
por equipamentos sociais e culturais (creches, maternidades, parques infantis, bibliotecas, centros de
recreação, locais de práticas de esportes, áreas verdes), pois não apenas as crescentes levas de
migrantes recém-chegados à cidade exigiam atendimento social especial, como as condições urbanas
aprofundaram a qualidade das expectativas, provocando a emergência de uma demanda inteiramente
nova para o sistema. A incorporação da mulher à força de trabalho criou problemas sempre crescentes,
como a necessidade de hospitalização durante a gravidez e a assistência à população infantil durante o
horário de trabalho. Além disso, a atomização da vida social e a diluição da vida familiar exigiu o
surgimento de novos padrões de sociabilidade da mesma forma que lançou os agentes dessa vida
moderna a um tal grau de complexificação de sua existência, que seria inevitável a emergência de
problemas como as chamadas enfermidades mentais, a prostituição, a criminalidade do menor, etc.
Viver nas áreas metropolitanas, além de exigir a integração a novos padrões de consumo, que
garantissem uma sociabilidade adequada à vida moderna (de que a televisão talvez seja o melhor
exemplo), exigia também, da população, o desenvolvimento de uma rápida capacidade de resposta ao
ritmo urbano de vida (longas distâncias, tráfego congestionado, mobilidade rápida no trabalho, acidentes,
surtos epidêmicos, etc.). E a integração nesse ritmo rápido e violento de vida, indispensável para o
funcionamento da metrópole, não podia mais se dar no âmbito das soluções individuais, tomadas por
cada família dos componentes da força de trabalho. Ela dependia de soluções globais situadas ao nível
das macro decisões, só passíveis de serem tomadas ao nível do Estado.
É interessante observar do exposto acima, como o processo de industrialização/urbanização não só
alterou a vida da população pobre (da classe trabalhadora), com novas necessidades, como também
levou a um agravamento do estado de pauperização desta. Além de transferir com uma nova ideologia
criada pela classe dominante, segundo a qual cabia agora ao Estado ser o provedor de toda a população,
isto é, um Estado acima das classes, responsável a atender às necessidades mais prementes da
população, e assim, resolver a problemática urbana, que crescia sempre mais. Levando também, a
alteração, no transcorrer do tempo, da importância do antagonismo entre proletariado e burguesia nos
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conflitos sociais induzindo a uma nova contradição, que é o confronto entre as massas populares e o
Estado.
Este processo de metropolização que vai formando-se nas principais cidades brasileira, só foi possível
entre outros fatores, graças aos movimentos migratórios do campo, que apresenta verdadeira inversão
quanto ao lugar de residência da população apontada nas taxas de urbanização do país entre 1940 e
2000, melhor dizendo, em 1940, a taxa de urbanização representava 26,35% do total, passou para
36,16% em 1950; alcançando 45,52% em 1960; em 1970 chega 56,80%; em 1980 vai para 68,86% e em
1991 e 2000 atinge 77,13% e 81,25% respectivamente.
Estes recém-emigrados do campo se fixam na periferia das principais cidades, em condições muito
precárias de vida, estando disponíveis, abaixo preço para investimento do capital, tanto na agricultura (os
boias frias), como nas atividades urbanas (indústrias e serviços), como à construção civil; se constituindo
em um subproletariado (GOHN, 1982) que subsiste mediante a venda da força de trabalho diária, sem
desfrutar das garantias da legislação trabalhista, constituindo o proletariado urbano. Em outras palavras,
os trabalhadores e seus familiares constituem a força de trabalho predominante nos grandes centros
urbanos, necessitando que aumente a demanda dos serviços de infraestrutura urbana que necessitam, e
ao mesmo tempo, que eleva e acelera as proporções de moradia em condições inadequadas, de forma
geral, agrava também, conforme o perfil social, a cidade. Surgindo assim, as favelas e os bairros
periféricos, além de novas formas de organização e estrutura de poder que se materializa nos movimentos
sociais urbanos reivindicatórios.

Movimentos Sociais no Brasil e Cidadania

A análise dos movimentos sociais no Brasil revelam forte enfoque teórico oriundo do marxismo, sejam
eles vinculados ao espaço urbano e/ou rural. Tais movimentos, quando se referiam ao espaço urbano
possuíam um leque amplo de temáticas como por exemplo, as lutas por creches, por escola pública, por
moradia, transporte, saúde, saneamento básico etc. Quanto ao espaço rural, a diversidade de temáticas
expressou-se nos movimentos de boias-frias (das regiões cafeeiras, citricultoras e canavieiras,
principalmente), de posseiros, sem-terra, arrendatários e pequenos proprietários.
Cada um dos movimentos possuía uma reivindicação específica, no entanto, todos expressavam as
contradições econômicas e sociais presentes na sociedade brasileira.
No início do século XX, era muito mais comum a existência de movimentos ligados ao rural, assim
como movimentos que lutavam pela conquista do poder político. Em meados de 1950, os movimentos
nos espaços rural e urbano adquiriram visibilidade através da realização de manifestações em espaços
públicos (rodovias, praças, etc.). Os movimentos populares urbanos foram impulsionados pelas
Sociedades Amigos de Bairro - SABs - e pelas Comunidades Eclesiais de Base - CEBs. Nos anos 1960
e 1970, mesmo diante de forte repressão policial, os movimentos não se calaram. Havia reivindicações
por educação, moradia e pelo voto direto. Em 1980 destacaram-se as manifestações sociais conhecidas
como "Diretas Já".
Em 1990, o MST e as ONGs tiveram destaque, ao lado de outros sujeitos coletivos, tais como os
movimentos sindicais de professores.
Concomitante às ações coletivas que tocam nos problemas existentes no planeta (violência, por
exemplo), há a presença de ações coletivas que denunciam a concentração de terra, ao mesmo tempo
que apontam propostas para a geração de empregos no campo, a exemplo do Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra (MST); ações coletivas que denunciam o arrocho salarial (greve de professores
e de operários de indústrias automobilísticas); ações coletivas que denunciam a depredação ambiental e
a poluição dos rios e oceanos (lixo doméstico, acidentes com navios petroleiros, lixo industrial); ações
coletivas que têm espaço urbano como lócus para a visibilidade da denúncia, reivindicação ou proposição
de alternativas.
As passeatas, manifestações em praça pública, difusão de mensagens via internet, ocupação de
prédios públicos, greves, marchas entre outros, são características da ação de um movimento social. A
ação em praça pública é o que dá visibilidade ao movimento social, principalmente quando este é
focalizado pela mídia em geral. Os movimentos sociais são sinais de maturidade social que podem
provocar impactos conjunturais e estruturais, em maior ou menor grau, dependendo de sua organização
e das relações de forças estabelecidas com o Estado e com os demais atores coletivos de uma sociedade.

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST


O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, também conhecido pela sigla MST, é um
movimento social brasileiro de inspiração marxista cujo objetivo é a implantação da reforma agrária no
Brasil. Teve origem na aglutinação de movimentos que faziam oposição ou estavam desgostosos com o
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modelo de reforma agrária imposto pelo regime militar, principalmente na década de 1970, o qual
priorizava a colonização de terras devolutas em regiões remotas, com objetivo de exportação de
excedentes populacionais e integração estratégica. Contrariamente a este modelo, o MST declara buscar
a redistribuição das terras improdutivas.
Apesar dos movimentos organizados de massa pela reforma agrária no Brasil remontarem apenas às
ligas camponesas, associações de agricultores que existiam durante as décadas de 1950 e 1960, o MST
proclama-se como herdeiro ideológico de todos os movimentos de base social camponesa ocorridos
desde que os portugueses entraram no Brasil, quando a terra foi dividida em sesmarias por favor real, de
acordo com o direito feudal português, fato este que excluiu em princípio grande parte da população do
acesso direto à terra.
Uma das atividades do grupo consiste na ocupação de terras improdutivas como forma de pressão
pela reforma agrária, mas também há reivindicação quanto a empréstimos e ajuda para que realmente
possam produzir nessas terras. Para o MST, é muito importante que as famílias possam ter escolas
próximas ao assentamento, de maneira que as crianças não precisem ir à cidade e, desta forma, fixar as
famílias no campo.
A organização não tem registro legal por ser um movimento social e, portanto, não é obrigada a prestar
contas a nenhum órgão de governo, como qualquer movimento social ou associação de moradores.
O movimento recebe apoio de organizações não governamentais e religiosas, do país e do exterior,
interessadas em estimular a reforma agrária e a distribuição de renda em países em desenvolvimento.
Sua principal fonte de financiamento é a própria base de camponeses já assentados, que contribuem
para a continuidade do movimento.
Dados coletados em diversas pesquisas demonstram que os agricultores organizados pelo movimento
têm conseguido usufruir de melhor qualidade de vida que os agricultores não organizados.
O MST reivindica representar uma continuidade na luta histórica dos camponeses brasileiros pela
reforma agrária. Os atuais governantes do Brasil tem origens comuns nas lutas sindicais e populares, e
portanto compartilham em maior ou menor grau das reivindicações históricas deste movimento. Segundo
outros autores, o MST é um movimento legítimo que usa a única arma que dispõe para pressionar a
sociedade para a questão da reforma agrária, a ocupação de terras e a mobilização de grande massa
humana.

Movimento dos Trabalhadores Sem Teto - MTST


O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) surgiu em 1997 da necessidade de organizar a
reforma urbana e garantir moradia e a todos os cidadãos. Está organizado nos municípios do Rio de
Janeiro, Campinas e São Paulo. É um movimento de caráter social, político e sindical. Em 1997, o MST
fez uma avaliação interna em que reconheceu que seria necessária uma atuação na cidade além de sua
atuação no campo. Dessa constatação, duas opções de luta se abriram: trabalho e moradia.
Estão em quase todas as metrópoles do País. São desdobramentos urbanos do MST, com um
comando descentralizado. As formas de atuação variam de um movimento para outro. Em geral, as
ocupações não têm motivação política, apenas apoio informal de filiados a partidos de esquerda. O
objetivo das ocupações é pressionar o poder público a criar programas de moradia e dar à população de
baixa renda acesso a financiamentos para a compra de imóveis.
Atualmente, o MTST é autônomo em relação ao MST, mas tem uma aliança estratégica com esse.

Fórum Social Mundial - FSM


O Fórum Social Mundial (FSM) é um evento altermundialista organizado por movimentos sociais de
diversos continentes, com objetivo de elaborar alternativas para uma transformação social global. Seu
slogan é “Um outro mundo é possível”.
É um espaço internacional para a reflexão e organização de todos os que se contrapõem à
globalização neoliberal e estão construindo alternativas para favorecer o desenvolvimento humano e
buscar a superação da dominação dos mercados em cada país e nas relações internacionais.
A luta por um mundo sem excluídos, uma das bandeiras do I Fórum Social Mundial, tem suas raízes
fixadas na resistência histórica dos povos contra todo o gênero de opressão em todos os tempos,
resistência que culmina em nossos dias com o movimento irmanando milhões de cidadãos e não-
cidadãos do mundo inteiro contra as consequências da mundialização do capital, patrocinada por
organismos multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e a
Organização Mundial do Comércio (OMC), entre outros.
O Fórum Social Mundial (FSM) se reuniu pela primeira vez na cidade de Porto Alegre, estado do Rio
Grande do Sul, Brasil, entre 25 e 30 de janeiro de 2001, com o objetivo de se contrapor ao Fórum
Econômico Mundial de Davos. Esse Fórum Econômico tem cumprido, desde 1971, papel estratégico na
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formulação do pensamento dos que promovem e defendem as políticas neoliberais em todo mundo. Sua
base organizacional é uma fundação suíça que funciona como consultora da ONU e é financiada por mais
de 1.000 empresas multinacionais.

Movimento Hippie
Os "hippies" (no singular, hippie) eram parte do que se convencionou chamar movimento de
contracultura dos anos 60 tendo relativa queda de popularidade nos anos 70 nos EUA, embora o
movimento tenha tido muita força em países como o Brasil somente na década de 70. Uma das frases
idiomáticas associada a este movimento foi a célebre máxima "Paz e Amor" (em inglês "Peace and Love")
que precedeu a expressão "Ban the Bomb”, a qual criticava o uso de armas nucleares.
As questões ambientais, a prática de nudismo, e a emancipação sexual eram ideias respeitadas
recorrentemente por estas comunidades.
Adotavam um modo de vida comunitário, tendendo a uma espécie de socialismo-anarquista ou estilo
de vida nômade e à vida em comunhão com a natureza, negavam o nacionalismo e a Guerra do Vietnã,
bem como todas as guerras, abraçavam aspectos de religiões como o budismo, hinduísmo, e/ou as
religiões das culturas nativas norte-americanas e estavam em desacordo com valores tradicionais da
classe média americana e das economias capitalistas e totalitárias. Eles enxergavam o patriarcalismo, o
militarismo, o poder governamental, as corporações industriais, a massificação, o capitalismo, o
autoritarismo e os valores sociais tradicionais como parte de uma "instituição" única, e que não tinha
legitimidade.
Nos anos 60, muitos jovens passaram a contestar a sociedade e a pôr em causa os valores tradicionais
e o poder militar e econômico. Esses movimentos de contestação iniciaram-se nos EUA, impulsionados
por músicos e artistas em geral. Os hippies defendiam o amor livre e a não-violência. Como grupo, os
hippies tendem a viver em comunidades coletivistas ou de forma nômade, vivendo e produzindo
independentemente dos mercados formais, usam cabelos e barbas mais compridos do que era
considerado "elegante" na época do seu surgimento. Muita gente não associada à contracultura
considerava os cabelos compridos uma ofensa, em parte por causa da atitude iconoclasta dos hippies,
às vezes por acharem "anti-higiênicos" ou os considerarem "coisa de mulher".
Foi quando a peça musical Hair saiu do circuito chamado off-Broadway para um grande teatro da
Broadway em 1968, que a contracultura hippie já estava se diversificando e saindo dos centros urbanos
tradicionais.
Os Hippies não pararam de fazer protestos contra a Guerra do Vietnã, cujo propósito era acabar com
a guerra. A massa dos hippies eram soldados que voltaram depois de ter contato com os Indianos e a
cultura oriental que, a partir desse contato, se inspiraram na religião e no jeito de viver para protestarem.
Seu principal símbolo era o Mandala (Figura circular com 3 intervalos iguais).

Movimento Feminista
O Feminismo é um discurso intelectual, filosófico e político que tem como meta os direitos iguais e a
proteção legal às mulheres. Envolve diversos movimentos, teorias e filosofias, todas preocupadas com
as questões relacionadas às diferenças entre os gêneros, e advogam a igualdade para homens e
mulheres e a campanha pelos direitos das mulheres e seus interesses. De acordo com Maggie Humm e
Rebecca Walker, a história do feminismo pode ser dividida em três "ondas". A primeira teria ocorrido no
século XIX e início do século XX, a segunda nas décadas de 1960 e 1970, e a terceira teria ido da década
de 1990 até a atualidade. A teoria feminista surgiu destes movimentos femininos, e se manifesta em
diversas disciplinas como a geografia feminista, a história feminista e a crítica literária feminista.
O feminismo alterou principalmente as perspectivas predominantes em diversas áreas da sociedade
ocidental, que vão da cultura ao direito. As ativistas femininas fizeram campanhas pelos direitos legais
das mulheres (direitos de contrato, direitos de propriedade, direitos ao voto), pelo direito da mulher à sua
autonomia e à integridade de seu corpo, pelos direitos ao aborto e pelos direitos reprodutivos (incluindo
o acesso à contracepção e a cuidados pré-natais de qualidade), pela proteção de mulheres e garotas
contra a violência doméstica, o assédio sexual e o estupro, pelos direitos trabalhistas, incluindo a licença-
maternidade e salários iguais, e todas as outras formas de discriminação.
Durante a maior parte de sua história, a maior parte dos movimentos e teorias feministas tiveram
líderes que eram principalmente mulheres brancas de classe média, da Europa Ocidental e da América
do Norte. No entanto, desde pelo menos o discurso Sojourner Truth, feito em 1851 às feministas dos
Estados Unidos, mulheres de outras raças propuseram formas alternativas de feminismo. Esta tendência
foi acelerada na década de 1960, com o movimento pelos direitos civis que surgiu nos Estados Unidos, e
o colapso do colonialismo europeu na África, no Caribe e em partes da América Latina e do Sudeste
Asiático. Desde então as mulheres nas antigas colônias europeias e no Terceiro Mundo propuseram
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feminismos "pós-coloniais" - nas quais algumas postulantes, como Chandra Talpade Mohanty, criticam o
feminismo tradicional ocidental como sendo etnocêntrico. Feministas negras, como Angela Davis e Alice
Walker, compartilham este ponto de vista.
Desde a década de 1980, as feministas standpoint argumentaram que o feminismo deveria examinar
como a experiência da mulher com a desigualdade se relaciona ao racismo, à homofobia, ao classismo
e à colonização. No fim da década e início da década seguinte as feministas ditas pós-modernas
argumentaram que os papeis sociais dos gêneros seriam construídos socialmente, e que seria impossível
generalizar as experiências das mulheres por todas as suas culturas e histórias.

Movimento Estudantil
O movimento estudantil, embora não seja considerado um movimento popular, dada a origem dos
sujeitos envolvidos, que, nos primórdios desse movimento, pertenciam, em sua maioria, a chamada
classe pequeno burguesa, é um movimento de caráter social e de massa. É a expressão política das
tensões que permeiam o sistema dependente como um todo e não apenas a expressão ideológica de
uma classe ou visão de mundo. Em 1967, no Brasil, sob a conjuntura da ditadura militar, esse movimento
inicia um processo de reorganização, como a única força não institucionalizada de oposição política. A
história mostra como esse movimento constitui força auxiliar do processo de transformação social ao
polarizar as tensões que se desencadearam no núcleo do sistema dependente. O movimento estudantil
é o produto social e a expressão política das tensões latentes e difusas na sociedade. Sua ação histórica
e sociológica tem sido a de absorver e radicalizar tais tensões. Sua grande capacidade de organização e
arregimentação foi capaz de colocar cem mil pessoas na rua, quando da passeata dos cem mil, em 1968.
Ademais, a histórica resistência da União Nacional dos Estudantes (UNE), como entidade representativa
dos estudantes, é exemplar.
O movimento estudantil é um movimento social da área da educação, no qual os sujeitos são os
próprios estudantes. Caracteriza-se por ser um movimento policlassista e constantemente renovado - já
que o corpo discente se renova periodicamente nas instituições de ensino.
Podem-se encontrar traços de movimentos estudantis pelo menos desde o século XV, quando, na
Universidade de Paris, uma das mais antigas universidades da Europa, registraram-se vários movimentos
grevistas importantes. A universidade esteve em greve durante três meses, em 1443, e por seis meses,
entre setembro de 1444 e março de 1445, em defesa de suas isenções fiscais. Em 1446, quando Carlos
VII submeteu a universidade à jurisdição do Parlamento de Paris, eclodiram revoltas estudantis - das
quais participou, entre outros, o poeta François Villon - contra a supressão da autonomia universitária em
matéria penal e a submissão da universidade ao Parlamento. Frequentemente, estudantes eram detidos
pelo preboste do rei e, nesses casos, o reitor dirigia-se ao Châtelet, sede do prebostado, para pedir que
o estudante fosse julgado pelas instâncias da universidade. Se o preboste do rei indeferia o pedido, a
universidade entrava em greve. Em 1453, um estudante, Raymond de Mauregart, foi morto pelas forças
do Châtelet e a universidade entrou novamente em greve por vários meses.
Contemporaneamente, destacam-se os movimentos estudantis da década de 1960, dentre os quais
os de maio de 1968), na França. No mesmo ano, também se registraram movimentos em vários outros
países da Europa Ocidental, nos Estados Unidos e na América Latina. No Brasil, o movimento teve papel
importante na luta contra o regime militar que se instalou no país a partir de 1964.

Era pós 90
A partir de 1990, ocorreu o surgimento de outras formas de organização popular, mais
institucionalizadas - como os Fóruns Nacionais de Luta pela Moradia, pela Reforma Urbana, o Fórum
Nacional de Participação Popular etc. Os fóruns estabeleceram a prática de encontros nacionais em larga
escala, gerando grandes diagnósticos dos problemas sociais, assim como definindo metas e objetivos
estratégicos para solucioná-los. Emergiram várias iniciativas de parceria entre a sociedade civil
organizada e o poder público, impulsionadas por políticas estatais, tais como a experiência do Orçamento
Participativo, a política de Renda Mínima, Bolsa Escola etc. Todos atuam em questões que dizem respeito
à participação dos cidadãos na gestão dos negócios públicos. A criação de uma Central dos Movimentos
Populares foi outro fato marcante nos anos 1990, no plano organizativo; estruturou vários movimentos
populares em nível nacional, tal como a luta pela moradia, assim como buscou uma articulação e criou
colaborações entre diferentes tipos de movimentos sociais, populares e não populares.
Ética na Política, um movimento do início dos anos 1990, teve grande importância histórica, porque
contribuiu decisivamente para a deposição - via processo democrático - de um presidente da República
por atos de corrupção, fato até então inédito no país. Na época, contribuiu também para o ressurgimento
do movimento dos estudantes com novo perfil de atuação, os "caras-pintadas".

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À medida que as políticas neoliberais avançaram, outros movimentos sociais foram surgindo: contra
as reformas estatais, a Ação da Cidadania contra a Fome, movimentos de desempregados, ações de
aposentados ou pensionistas do sistema previdenciário. As lutas de algumas categorias profissionais
emergiram no contexto de crescimento da economia informal, no setor de transportes urbanos, por
exemplo, apareceram os transportes alternativos ("perueiros"); no sistema de transportes de cargas
pesadas nas estradas, os "caminhoneiros". Algumas dessas ações coletivas surgiram como respostas à
crise socioeconômica, atuando mais como grupos de pressão do que como movimentos sociais
estruturados. Os atos e manifestações pela paz, contra a violência urbana, também são exemplos dessa
categoria. Se antes a paz era um contraponto à guerra, hoje ela é almejada como necessidade ao
cidadão/cidadã comum, em seu cotidiano, principalmente nas ruas, onde motoristas são vítimas de
assaltos relâmpagos, sequestros e assassinatos.
Grupos de mulheres foram organizados nos anos 1990 em função de sua atuação na política, criando
redes de conscientização de seus direitos e frentes de lutas contra as discriminações. O movimento dos
homossexuais também ganhou impulso e as ruas, organizando passeatas, atos de protestos e grandes
marchas anuais. Numa sociedade marcada pelo machismo, isso também é uma novidade histórica. O
mesmo ocorreu com o movimento negro ou afrodescendente, que deixou de ser predominantemente
movimento de manifestações culturais para ser, sobretudo, movimento de construção de identidade e luta
contra a discriminação racial. Os jovens também criaram inúmeros movimentos culturais, especialmente
na área da música, enfocando temas de protesto, pelo rap, hip hop etc.
Deve-se destacar ainda três outros importantes movimentos sociais no Brasil, nos anos 1990: dos
indígenas, dos funcionários públicos - especialmente das áreas da educação e da saúde - e dos
ecologistas. Os primeiros cresceram em número e em organização nessa década, passando a lutar pela
demarcação de suas terras e pela venda de seus produtos a preços justos e em mercados competitivos.
Os segundos organizaram-se em associações e sindicatos contra as reformas governamentais que
progressivamente retiram direitos sociais, reestruturam as profissões e arrocharam os salários em nome
da necessidade dos ajustes fiscais. Os terceiros, dos ecologistas, proliferaram após a conferência Eco-
92, dando origem a diversas organizações não governamentais. Aliás, as ONGs passaram a ter muito
mais importância nos anos 1990 do que os próprios movimentos sociais. Trata-se de ONGs diferentes
das que atuavam nos anos 1980 junto a movimentos populares. Agora são inscritas no universo do
terceiro setor, voltadas para a execução de políticas de parceria entre o poder público e a sociedade,
atuando em áreas onde a prestação de serviços sociais é carente ou até mesmo ausente, como na
educação e saúde, para clientelas como meninos e meninas que vivem nas ruas, mulheres com baixa
renda, escolas de ensino fundamental etc. (Era pós 90 - Texto adaptado da autora GOHN, M. G.).

Movimentos de Igualdade Racial


Desde a abolição, os negros passaram a se abrigar em guetos e comunidades, sendo marginalizados.
O fim da escravidão não havia mudado a mentalidade social que, por muito tempo e ainda hoje, os vê
como inferiores37.
Com o passar dos anos, diversos movimentos sociais em defesa da igualdade racial foram criados
com o objetivo de conquistar direitos.
E mesmo que a situação ainda seja de vulnerabilidade e preconceito, o Brasil avançou na criação de
políticas públicas para a população negra, e os movimentos estão aí para garantir que essa luta continue.
Entre essas conquistas está a criação das cotas para negros, que reservam uma certa porcentagem
de vagas a pessoas de etnias distintas. Ainda há polêmica em torno das cotas, mas não deixa de
representar um grande avanço.
Há um grande caminho pela frente. Os negros ainda vivenciam a desigualdade nas relações de
trabalho, além do preconceito velado de um país que registra casos de racismo nos dias de hoje.

Movimentos de Igualdade de Gênero


Apesar de trazer muitas vitórias em sua trajetória, o Movimento Feminista tem, ainda, um grande
caminho pela frente.
A mulher ainda é vista por muitos como objeto, sendo criticada pela sua forma de vestir e se portar.
Inúmeras são vítimas de violência sexual, psicológica, física e ideológica, ferindo gravemente o direito a
autonomia pelo próprio corpo.
Apesar do movimento feminista já atuar há algumas décadas, percebe-se que atualmente ele está
diferente. Algumas pessoas dizem que o feminismo de hoje é multifacetado, sendo criados diversos
grupos com interesses semelhantes, mas cada um defendendo uma pauta específica.

37
Human. 4 movimentos sociais que valem a pena acompanhar. https://bit.ly/2HAVxhN

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No passado, essa luta se concentrava na conquista pelo direito ao voto, pela igualdade salarial e
inserção do mercado de trabalho. Hoje, o movimento agrega outras pautas e ganha espaço não apenas
nas ruas, mas principalmente nas redes sociais.
Recentemente, campanhas a favor da legalização do aborto, como forma de conquista pela autonomia
do corpo, e contra a cultura do estupro que acomete mulheres de todas as idades se espalham em todo
o mundo.

Movimento LGBT
Talvez este seja um dos movimentos que mais ganhou visibilidade nos últimos tempos. No Brasil e no
mundo, a causa em defesa das Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros
busca, de forma democrática, conquista de direitos, além de lutar contra a homofobia, a intolerância
sexual e a discriminação.
É composto por ativistas que, representando os homossexuais, buscam garantir a valorização dos
mesmos, com foco na humanização e no bem-estar dessas pessoas que, há tanto tempo, vêm sofrendo
ações preconceituosas por parte de uma sociedade ainda atrasada e intolerante.
Dentre as principais conquistas LGBTs, podemos citar:
- a retirada do termo “homossexualismo” da Classificação Internacional de Doenças (CID);
- o reconhecimento da união estável entre casais homossexuais;
- a possibilidade de requerer junto ao INSS pensão por morte de companheiro;
- a aprovação de lei no Rio de Janeiro que impõe sanções para quem agir de forma discriminatória (Lei
nº 7041 de 15/07/2015);
- a legalização da adoção homo afetiva;
- a legalização da união civil homo afetiva.

Quanto à criminalização da homofobia, infelizmente ainda não existe lei que pune o agressor e os
casos de violência contra os homossexuais ainda é classificada como lesão corporal. Em 2006, foi criado
um projeto de Lei que criminaliza a Homofobia (PLC 122/06), porém, após tramitar por 8 anos foi
arquivado.
Outra pauta que tem causado discussão é a restrição à doação de sangue. No Brasil, ela está expressa
na portaria 158/2016, do Ministério da Saúde. Porém, essa decisão está sendo questionada no Supremo
Tribunal Federal (STF) pelo Partido Socialista Brasileiro, que quer acabar com as restrições de doação
de sangue impostas aos homossexuais, afinal, todo sangue recebido é testado independentemente de
quem os tenha doado.

Movimentos das Pessoas com Deficiência


Os movimentos sociais em defesa das pessoas com deficiência têm, ao longo do tempo, lutado para
fazer valer os direitos de acessibilidade a esse público, garantindo a possibilidade de uma vida comum e
a participação de forma direta ou indireta na definição de políticas públicas.
E, nessa jornada de lutas, a Lei nº 7.853 de 24 de outubro de 1989, representa uma grande conquista
para o movimento. Por meio dela, fica assegurado o exercício de direitos individuais e sociais das pessoas
com deficiência, bem como sua efetiva integração social.
Como foi dito, é um grande avanço, mas ainda há muito o que ser feito, visto que, infelizmente, o poder
público e parte da sociedade ainda não dão a devida importância à problemática que essas pessoas
vivem no cotidiano.
Os movimentos lutam por inclusão social, acesso à mobilidade urbana, ao mundo de trabalho, à
educação e também por mais atenção por parte do Sistema Único de Assistência Social (SUAS).
Organizações que atuam na defesa dos direitos das pessoas com deficiência: APAE, Associação
Laramara, Movimento Superação, Amigos pra Valer, entre outros.

Classes Sociais e Movimentos Sociais38


Segundo Tompson (1981), “as classes surgem porque homens e mulheres, em relações produtivas
determinadas, identificam seus interesses antagônicos e passam a lutar, a pensar e a valorar em termos
de classes: assim o processo de formação de classes é um produto de auto confecção, embora sob
condições dadas”. Ele nos oferece uma concepção do momento de configuração de uma classe social,
onde estrutura e sujeito mantêm uma relação de não superposição. A classe acontece, então, enquanto
as pessoas vivem sua própria história, configurando-se como uma formação econômica, política, social e
cultural. A classe não existe independente da elaboração de uma representação de classe – da criação

38
Texto adaptado de MASCARENHAS, A. C. B.

73

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de um mundo de significação, em que as necessidades e interesses dos sujeitos são tratados em sua
cultura e consciência. Desta forma, sua existência efetiva-se quando as situações e relações produtivas
são experimentadas, não só como interesses e necessidades, mas também como sentimentos, normas
e valores.
Quando as classes sociais são concebidas como um dado espaço constituído e ao mesmo tempo
como um espaço de formulações de representações e significados, é preciso que se esteja atento às
lutas e movimentos esboçados na vida social. É nesse sentido que a temática dos movimentos sociais
torna-se de grande valia na análise da configuração das classes. Sendo estes aqui concebidos como
práticas sociais que elaboram a constituição de novos sujeitos. Representam manifestações bem
características das sociedades complexas contemporâneas. A diversificação da estrutura social, sua
heterogeneidade, as diversas formas de inserção dos sujeitos sociais são, sem dúvida, elementos que
compõem a emergência desses movimentos. É muito rica a possibilidade de se captar por meio deles
como determinados agrupamentos se colocam no cenário social, fazendo-se representar e reconhecer.
É no momento da percepção do fazer representar-se, do se fazer ouvir, da expressão de interesses
próprios e da luta coletiva pela defesa desses interesses, que se pode enriquecer a análise das classes
sociais.
Para Alain Touraine (1977), o caráter mais novo das classes sociais nas sociedades contemporâneas
(que ele denomina pós-industriais), é que, estando menos sustentadas pela transmissão hereditária das
posições sociais, por regras institucionais e por aparatos simbólicos, as classes só são realidades
observáveis na medida em que figuram, efetivamente, como atores históricos, ou seja, em que participam
de movimentos sociais, ainda que estes sejam incompletos. Esses movimentos constituem-se, assim, na
expressão mais evidente da historicidade. As classes serão reconhecidas a partir da colocação dos atores
em movimento. A fundamentação teórica de Touraine tem o mérito de estabelecer o elo de ligação entre
o conceito de classes e a noção de movimentos sociais.
Lojkine (1981), por sua vez, caracteriza um movimento social principalmente pela capacidade de um
conjunto de agentes das classes dominadas diferenciar-se dos papéis e funções através dos quais a
classe (ou fração de classe) dominante garante a subordinação das classes dominadas com relação ao
sistema socioeconômico em vigor. O alcance histórico real de um movimento só pode ser definido pela
análise de sua relação com o poder político. Apesar de muitas vezes observando a realidade, não
podermos afirmar que os movimentos sociais representam, necessariamente, uma força transformadora,
é inegável o seu poder de revigoramento do cenário político. Esses movimentos trazem uma crescente
politização da vida social, ampliando a visão do político, que deixa de ser um espaço restrito aos canais
representativos instituídos. É importante ainda destacar que na medida em que a estrutura social não é
encarada como o único fator determinante das ações de classes, colocando-se como fundamental a forma
como os sujeitos sociais vividas poderão estabelecer fronteiras entre as classes. Aqui, surge o papel das
conjunturas sócio-políticas como fator relevante explicativo, estabelecendo a mediação entre a situação
objetiva estrutural e os elementos constitutivos do plano das representações coletivas.

Classes Sociais e Cidadania


A relação entre a constituição das classes sociais e a luta pela extensão dos direitos de cidadania tem
se dado por meio de uma ligação muito íntima. Mas encontramos hoje uma tendência a afrouxar bastante
os laços que ligam essas questões. A noção de cidadania aumenta o seu fôlego, com ares de
independência e rouba a cena. Não sei se desde os brados da revolução Francesa tivemos um momento
em que está noção estivesse tão em evidência, do discurso dos meios de comunicação de massa ao
discurso acadêmico. E aqui é preciso novamente que tenhamos muita cautela, pois a pressão para a
extensão dos direitos de cidadania teve e tem como pano de fundo os conflitos de classes. Sem querer
reduzir todo tipo de conflito a caracterização de conflito de classe, o que é preciso salientar é a
abrangência desse fenômeno e a pertinência de destacá-lo na caracterização dos conflitos nas
sociedades contemporâneas.
Um exemplo da supervalorização da noção de cidadania como princípio explicativo da composição do
conflito social moderno é a proposição de Dahrendorf (1992) de que uma vez que a esmagadora maioria
das pessoas dos países das sociedades da OCDE tornaram-se cidadãos no sentido pleno da palavra, as
desigualdades sociais e as diferenças políticas assumiram uma nova compleição. As pessoas não
precisam mais juntar forças com outras na mesma posição para lutar por direitos básicos. Elas podem
fazer progredir suas chances de vida através do esforço individual, de um lado, e através da
representação de grupos de interesses constituídos mas fragmentados, do outro. (...) A nova classe é a
classe dos cidadãos, se o paradoxo for permissível, ou, de qualquer modo, a classe da maioria. Um
capítulo da história política e social que começou com lutas de classes profundas e potencialmente

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revolucionárias levou, depois de muitos esforços e sofrimentos, a conflitos mais calmos de antagonismos
de classes democráticos ou institucionalizados.
Dahrendorf reconhece o paradoxo colocado, mas parece encará-lo como permissível, o que é
lamentável. Como podemos falar em uma “classe de cidadãos”? O aglomerado de cidadãos, ainda que
exista majoritariamente, abarca grandes clivagens, diferenciações, muitas desigualdades. O que significa
um grande agrupamento de cidadãos, se uma das partes se apropria do trabalho da outra? Acredito ainda,
que a melhor maneira de responder a essa questão e a muitas outras é procurar delinear a forma como
os agrupamentos distinguem-se uns dos outros por meio de sua caracterização econômica, política e
sociocultural, como vivenciam o mundo e como o representam. Nesse sentido, não encontro melhor
aparato analítico conceitual que o embutido na configuração das classes sociais e as relações travadas
por elas. O conceito de classes sociais é o elemento essencial, respaldado por análises conjunturais e
despido de ortodoxias e visões messiânicas.
Outra questão colocada na mesa das discussões sobre os conflitos sociais modernos é a possibilidade
de realização de um novo contrato social. Sobre que bases ele emergiria? Sobre as bases de uma
socialdemocracia? De um novo liberalismo? Socialismo? Melhor não desenterrar o defunto... as
alternativas apontadas estão imersas majoritariamente no âmbito de uma democracia capitalista. Essa
perspectiva representa sérios limites. Recorro aqui a Przewoski (1989) que salienta o componente do
universalismo inerente a ideologia burguesa, onde dentro dos contornos da noção de cidadania, os limites
expressam-se na caracterização da mesma como a harmonia básica de interesses dos indivíduos
(cidadãos). Na democracia capitalista, as massas não agem diretamente em defesa de seus interesses.
A representação resulta em uma desmobilização das mesmas. A estrutura do Estado burguês produz
pelo menos dois efeitos: separa as lutas econômicas das políticas e impõe uma forma específica à
organização de classes em cada uma dessas lutas. Os sindicatos tornam-se organizações separadas dos
partidos políticos e a organização de classes assume uma forma representativa.
O estabelecimento de um novo contrato social passa necessariamente pela composição dos vários
agrupamentos que integram a sociedade, ainda que todos, ou a maioria esteja abrigada no grande grupo
dos cidadãos. São cidadãos que distinguem-se entre si: uns são mais afortunados que outros, uns contam
com melhores condições de vida, tem mais prestígio, mais acesso ao saber, ao poder, etc. Então como
não procurar caracterizá-los à partir dessas distinções? A caracterização desses agrupamentos como
classes sociais representa nesse contexto um exercício bastante salutar. Przewoski com relação a essa
questão afirma que as classes são formadas como efeito de lutas; seu processo de formação é perpétuo,
elas são continuamente organizadas, desorganizadas e reorganizadas.

Questões

01. (TJ-SP – Assistente Social – VUNESP) Os movimentos sociais latino-americanos ocuparam o


centro do cenário político na década de 1990 a partir de resistências contra as privatizações e os
programas de ajuste estrutural. É nesse contexto que ocorre o incremento da resistência e da luta popular
na América Latina, que abarca as mais diversas formas de protesto social. No Brasil, ainda nos anos 90,
surgem também mobilizações coletivas centradas mais em questões________________ com
mobilizações que partem de um chamamento à consciência individual das pessoas, apresentando-se
mais como___________ do que como movimentos sociais.

Assinale a alternativa que completa, correta e respectivamente, as lacunas do texto.


(A) éticas e morais … campanhas
(B) jurídicas e operacionais … paralisações
(C) políticas e culturais … agitações
(D) econômicas e estruturais … piquetes
(E) legais e pessoais … manifestações

02. (DPU – Sociólogo – CESPE) Com relação aos movimentos sociais, assinale a opção correta:
(A) As lutas do movimento feminista na contemporaneidade focam, em todas as esferas sociais, as
discriminações sexistas, o patriarcado, a misoginia ou a divisão sexual do trabalho.
(B) O movimento feminista é considerado um movimento social recente.
(C) Apenas alguns movimentos sociais devem ser considerados sexuados.
(D) O papel das mulheres como sujeito coletivo em movimentos sociais mistos é central e visível.
(E) O movimento das mulheres em bloco rejeita a ideia de que a igualdade com os homens supõe a
transformação global das relações sociais.

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Gabarito

01.A / 02.A

Comentários

01. Resposta: A
Os anos 90 são marcados pelos movimentos de ética na política. O processo de impeachment do
presidente Collor exemplifica bem o cenário. As mobilizações do período buscavam tocar a própria
consciência individual das pessoas, o que os caracterizava mais como campanhas do que com
movimentos sociais.

02. Resposta: A
Todos os aspectos citados na alternativa A corroboram para o entendimento de que o movimento
feminista não apenas NÃO é recente como ainda combate práticas que remontam ao período colonial,
como o patriarcado. A história seguiu dando exemplos de exclusão da vida política e capitalista (na forma
da oferta e diferenciação de remuneração nos empregos).

Cidadania e democracia na Antiguidade; Estado e direitos do cidadão


a partir da Idade Moderna; democracia direta, indireta e representativa

GRÉCIA

Situada na Europa Meridional, entre os mares Jônio, Egeu e Mediterrâneo, a Grécia é um país
montanhoso, em cuja costa existem muitos golfos e enseadas. A pobreza do solo e o litoral recortado
com muitas ilhas, contribuiu para que os gregos se tornassem excelentes navegadores, lançando-os à
conquista de outras regiões mais produtivas.
Diferente do país que conhecemos hoje, no passado a Grécia era formada por diversos territórios que
se espalhavam pelos mares que a cercavam. O próprio nome Grécia não era utilizado, pois os habitantes
da região chamavam a Grécia Antiga de Hélade e a si de helenos. Os povos que ali habitavam julgavam-
se autóctones descendentes de Heleno, filho de Deucalião, que havia escapado de um dilúvio provocado
por Júpiter, pai dos Deuses. Daí o nome de Hélade.

Grécia Primitiva

A Ilíada e A Odisseia, poemas atribuídos a Homero, nos fornecem muitos conhecimentos sobre a
Grécia Antiga.
A Ilíada narra a guerra entre os gregos e os troianos. A causa dessa guerra foi o rapto da bela Helena,
esposa de Menelau, por Páris, filho do rei de Tróia ou Ileo (daí Ilíada).
Comandados por Agamenon os gregos atacaram os troianos.
Durante as lutas Aquiles foi o destaque grego enquanto Heitor era o herói troiano.
Protegido pelo deus Hefaísto, que lhe cedera uma armadura impenetrável, Aquiles atacou os troianos
que fugiram, exceto o corajoso Heitor, que enfrentou Aquiles. Apesar da bravura, Heitor foi morto por
Aquiles que acabou profanando o seu cadáver.
O irmão de Heitor, Paris, que jurara vingança, acabou matando Aquiles após feri-lo com uma flecha
em seu único lugar vulnerável: o calcanhar, daí o termo calcanhar de Aquiles que quer dizer o ponto fraco
de uma pessoa.
Não conseguindo tomar Tróia pela força, os gregos usaram da astúcia…
Após terem celebrado a paz com os troianos, os gregos enviaram à Tróia um grande cavalo de madeira
como presente (daí a expressão “presente-de-grego”). Acontece que dentro desse cavalo estavam os
melhores guerreiros gregos. Estes, já dentro da cidade, abriram as portas para que o exército grego
liquidasse os troianos que foram apanhados desprevenidos.
Foi assim que os gregos conquistaram Tróia, após uma guerra de durou 10 anos.
Hoje acredita-se que apesar da aventura contada no obra, os gregos forçaram a invasão a Tróia por
causa de sua localização estratégica para o comércio marítimo no mar Egeu.

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A Odisseia narra as aventuras de Ulisses (ou Odisseu), rei da Ítaca, que após a destruição de Tróia
procura retornar a sua fiel esposa Penélope, que prometera escolher um noivo, assim que terminasse de
tecer um manto. Acontece que na esperança da chegada de Ulisses ela desmanchava, à noite, o trabalho
que fizera durante o dia.
Finalmente, Ulisses chegou. Disfarçado em mendigo, se dirigiu ao local onde se celebrava a festa em
honra do deus Apolo. Nesta festa, Penélope propôs que aquele que conseguisse disparar o arco e as
flechas de Ulisses ela desposaria. Todos tentaram, sem sucesso.
Ulisses, graças à interferência de Telêmaco, seu filho, que sabia de seu segredo, disparou as doze
flechas. Em seguida venceu os seus adversários e revelou-se a Penélope, que não acreditava ser aquele
velho esfarrapado o seu esposo. Para contornar a situação, a deusa Atenéia devolveu a Ulisses a sua
juventude e também a obediência a seu povo.
No final do período homérico, o aumento populacional e a falta de terras acabou desagregando a
comunidade primitiva.
As terras coletivas foram divididas pelo páter (chefe de família) entre seus parentes mais próximos,
surgindo dessa forma à propriedade privada e a hierarquização da sociedade em classes distintas.
Dessa forma, de um lado formou-se uma poderosa aristocracia que possuía as melhores terras e
controlava o poder político, do outro lado os despossuídos que passaram a trabalhar para os aristocratas
ou se dedicaram ao comércio e ao artesanato. Outros ainda acabaram emigrando para novas terras.

Povo Grego

Na verdade a civilização grega resultou numa mistura de diversos povos.


Por volta do segundo milênio a.C., a ilha de Creta, graças ao seu comércio marítimo possuía uma
civilização bastante complexa.
As comunidades neolíticas das costas do mar Egeu foram muito influenciadas pela metalurgia. O
comércio de metais e as novas armas conferiram superioridade a alguns povos, provocando mudanças
em sua organização.
A civilização grega teve suas raízes mais profundas na cultura cretense, desenvolvida nos milênios III
a.C. e II a.C, baseada na agricultura e em um rico comércio marítimo.
A partir de 2200 a.C, a ilha de Creta adquiriu um papel preponderante na região do mar Egeu.
Localizada nas proximidades do Egito e da Ásia Menor, seu esplendor se iniciou em torno do ano 2000
a.C, época na qual a cidade de Cnossos dominava a ilha.
A sociedade minoica era governada por príncipes, que criaram um império marítimo. Dentre eles
destacou-se o legendário Minos (o mesmo da lenda do minotauro), que teria construído numerosos
palácios em Cnossos, a cidade mais importante de Creta. Por isso, a cultura cretense também é
denominada cultura minoica.
A economia, construída sobre uma base agrícola, evoluiu para o comércio. A aplicação do torno à
cerâmica e o domínio da metalurgia impulsionaram a exportação e a importação. Além de produtos
agrícolas, os cretenses exportavam suas manufaturas e importavam matérias-primas: cobre do Chipre e
estanho da Europa ocidental. Eles eram os intermediários comerciais entre os povos vizinhos. O comércio
favoreceu o desenvolvimento da vida das pessoas nas cidades.
A arte minoica esteve bastante presente na construção dos palácios e sobretudo na decoração de
seus interiores. As obras artísticas, que anteriormente tinham apenas inspiração religiosa, sofreram
mudanças graças às transformações ocorridas na vida e na mentalidade da sociedade. Assim, elas
deixaram de ter caráter apenas sagrado e passaram a ter sentido próprio, voltadas à simples
contemplação. Destacam-se as elegantes pinturas em afresco que representavam cenas da vida
cotidiana.
Os minoicos utilizavam dois tipos de escrita, Linear A e Linear B. O primeiro ainda não é bem
conhecido, mas o segundo está ligado à escrita grega.
Atraídos pelo desenvolvimento de Creta, por volta de 1400 a.C, os aqueus invadiram e conquistaram
a ilha. Contudo, não destruíram a cultura cretense; ao contrário, procuraram assimilá-la e preservá-la, de
onde surgiu a civilização micênica.
A Civilização Micênica é considerada uma das sociedades mais sofisticadas da cultura grega pela
grande disseminação artística e pela avançada organização política que via as mulheres com igualdade.
Entretanto, ao contrário das civilizações gregas mais antigas que adoravam uma deusa-mãe, os
micênicos passaram a louvar Poseidon, que eles acreditavam ser o governador máximo da Terra.
Acredita-se que nesta civilização se dá início às primeiras lendas da Mitologia Grega, pois ao fim deste
período o deus principal passou a ser Zeus.

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O sistema político e econômico era centrado na figura do rei, mas pouco se sabe sobre a hierarquia
social da época. Alguns especialistas sustentam que, abaixo dos reis, havia uma forte organização militar
detentora de grandes lotes de terra. Os escravos, trabalhadores livres e comerciantes faziam parte da
escala social mais baixa.
Os micênicos eram grandes navegadores e construíram embarcações bem mais avançadas que as
iniciadas pelos minoicos. Este povo, que se caracterizava pelo aspecto guerreiro, construiu barcos de
carga que eram propícias ao combate. Como armamento, os micênicos começaram a utilizar o ferro e o
bronze.
Não se sabe ao certo qual foi o real motivo de desaparecimento dessa civilização, mas alguns
historiadores acreditam que a invasão dos dórios na região de Creta foi o principal motivo. Os dórios
acabaram com toda a potência marítima iniciada pelos micênicos e a ilha de Creta, que se tornara uma
das regiões mais desenvolvidas da Grécia, perdeu sua hegemonia com sua divisão em cidades-Estado.
Os dóricos entraram violentamente na Grécia pouco depois da Guerra de Tróia, por volta de 1100 a.C.
Eram mais poderosos que os Aqueus do ponto de vista bélico, pois possuíam armas feitas de ferro. Com
a invasão de Creta as cidades micênicas foram destruídas.
Os dóricos não conseguiram absorver as conquistas micênicas, como a escrita, e a urbanização
praticamente desapareceu. A Grécia viveu um período conhecido como idade obscura ou período
Homérico (recebeu este nome por conta das poucas fontes, e sendo as obras Ilíada e Odisseia de Homero
as principais), do qual se conhece muito pouco.
Com a invasão dórica muitos habitantes fugiram da Península do Peloponeso, essa foi a primeira
diáspora grega.

Cidades-Estado

A história da Grécia Antiga caracteriza-se pela presença da cidade-Estado (pólis). Havia ao todo cerca
de 160 cidades-Estado na Grécia, todas elas soberanas, com destaque para Atenas e Esparta. A
independência dessas cidades resultou de vários fatores: o relevo montanhoso, que dificultava as
comunicações terrestres; o litoral recortado e as numerosas ilhas existentes no Mar Egeu, que
estimulavam a navegação; a ausência de uma base econômica interna sólida, que poderia aglutinar os
gregos em um Estado-nação. Contudo, os gregos passaram por um processo de dispersão que os levou
a fundar numerosas colônias no litoral do Mediterrâneo e do Mar Negro. Essas colônias vieram a tornar-
se outras tantas cidades-Estado, de forma que não se estabeleceu uma unidade política entre elas.
Entretanto, como havia unidade cultural (identidade de língua, etnia, religião e costumes), por isso
podemos falar em um Mundo Grego, mas não em um Império Grego.
Nessa época, os gregos viviam em pequenas comunidades agrícolas autossuficientes — os genos –
cujos membros eram aparentados entre si e obedeciam à autoridade de um pater famílias. A propriedade
da terra era coletiva. O sistema gentílico desintegrou-se quando o crescimento demográfico tornou
insuficiente a produção dos genos. Os parentes mais próximos do pater famílias (os eupátridas)
apropriaram-se das terras, transformando-as em propriedade privada; quanto aos parentes mais
afastados, estes se transformaram em camponeses sem terra ou então emigraram. Separando-se dos
camponeses, os eupátridas passaram a morar em locais fortificados que, com o correr do tempo e o
desenvolvimento do comércio, deram origem às polis.
Constituída por um aglomerado urbano, abrangia toda a vida pública de um pequeno território e
geralmente encontrava-se protegida por uma fortaleza. Compreendia a totalidade dos cidadãos, exceto
os escravos, metecos e membros de populações subjugadas e distinguia-se de outras cidades pelo nome
dos seus habitantes.
A criação da pólis foi favorecida pelo progresso da agricultura, do comércio e pelo aparecimento da
indústria têxtil, bem como pela intensificação da vida política. Quando os habitantes de povoações
disseminadas transferiram a sua residência para perto das fortalezas, a acrópole se converteu no centro
político da pólis.
A pólis era uma organização social constituída por cidadãos livres que discutiam e elaboravam as leis
relativas à cidade. Dentro dos limites de uma pólis ficavam a Ágora e a Acrópole, além dos espaços
urbano e rural. A agricultura era a base da economia da pólis.
A Ágora era uma grande praça pública, um espaço onde os cidadãos se reuniam para atividades
comerciais, discussões políticas e manifestações cívicas e religiosas.
A Acrópole era uma fortificação onde estavam os monumentos, os templos e os palácios dos
governantes.
Atenas e Esparta foram as pólis com maior reconhecimento através dos tempos, com fama até os dias
atuais.
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Esparta
Esparta localizava-se na região da Lacônia, que ocupava a parte sudeste da Península do Peloponeso,
ao extremo sul da Grécia, sendo uma das primeiras cidades-Estado. Foi fundada pelos dórios, por volta
do século IX a.C., após a submissão dos aqueus.
Durante o Período Homérico, os dórios vivenciaram o sistema gentílico, como as demais regiões da
Grécia. Nesse período, as terras que haviam sido conquistadas aos aqueus foram distribuídas entre os
guerreiros, que as trabalhavam coletivamente, sob um regime patriarcal. No século VII a.C., em razão da
escassez de terras e do crescimento da população dória, teve início a expansão vitoriosa sobre a Planície
Messênia; os messênios foram reduzidos à condição de escravos. Esse fato promoveu profundas
alterações na estrutura econômica e fundiária de Esparta. As propriedades coletivas desapareceram,
cedendo lugar a uma vasta propriedade estatal, denominada de terra cívica — as terras centrais e mais
férteis da planície.
Essas terras foram divididas em cerca de 8.000 lotes, que foram distribuídos aos guerreiros dórios,
detentores da posse útil da terra cívica. Recebiam também cerca de seis escravos para realizar os
trabalhos. As terras periféricas foram divididas entre os aqueus, que detinham a propriedade privada
sobre a terra, podendo vendê-la ou dividi-la.
A conquista da Planície Messênia promoveu uma reestruturação social em Esparta. Basicamente,
após a conquista da Planície, a sociedade era composta de esparciatas (cidadãos e guerreiros de origem
dória, que constituíam a camada social superior e recebiam educação militar), periecos (aqueus,
habitantes da periferia, que, apesar de serem homens livres, não eram considerados cidadãos) e hilotas
(escravos). A sociedade era estamental, rigidamente hierarquizada e sem mobilidade social.
Até o século VII a.C., a legislação de Esparta—Grande Retra — estabelecia que o governo deveria ser
exercido por dois reis (diarquia), por um conselho e por uma assembleia. A sucessão ao trono era
hereditária e duas famílias dividiam o poder: os Ágidas e os Euripôntidas. O Conselho, denominado
Gerúsia, era formado pelos homens idosos e tinha um caráter apenas consultivo. A Assembleia, Ápela,
era o órgão mais importante, e os cidadãos tomavam as decisões finais sobre todos os assuntos. A
Constituição e a organização política eram praticamente imutáveis, pois eram atribuídas à lendária figura
de Licurgo, personagem histórica que, por ter um caráter divino, imprimia essa divinização às normas por
ele criadas. Com o processo de conquista da Planície Messênia concluído no século VII a.C., as
transformações políticas foram proporcionais às mudanças socioeconômicas. O governo passou por uma
transformação conservadora e mais uma vez essas alterações foram atribuídas a Licurgo. Esparta adotou
a oligarquia como forma de governo. A antiga Gerúsia passou a monopolizar o poder e, nesse momento,
compunha-se de 28 gerontes (cidadãos com mais de 60 anos), com poderes vitalícios.
O Poder Executivo passou a ser exercido pelos éforos, cinco magistrados escolhidos pelos gerontes,
com o mandato de um ano. A antiga Ápela aprovava as leis apenas por aclamação, correspondendo,
nesse contexto, a um órgão formal de decisões políticas, de caráter meramente consultivo. A diarquia
continuou a existir, mas os seus poderes políticos foram esvaziados, restando-lhe o exercício do poder
sacerdotal e as atribuições militares. O caráter conservador de Esparta resultou da preocupação da
minoria esparciatas em manter a maioria hilota subordinada. Daí o militarismo do estamento dominante,
a xenofobia (aversão ao estrangeiro) e o laconismo (forma sintética de expressão), que sufocavam o
surgimento de ideias e restringiam o espírito crítico.
A educação espartana estava voltada para a guerra, moldando os homens, desde crianças, que se
preparavam para tornar-se soldados.
Esse processo de formação militar começava quando ainda criança, quando um grupo de anciãos
observava as crianças, que não poderiam ter problemas físicos e de saúde. Caso a criança fosse
completamente saudável ela ficaria sob a guarda da sua mãe até os sete anos de idade; após, quem se
tornaria responsável pela criança era o próprio Estado.
Assim, ao sete anos, a criança “entrava” para o exército onde permaneceria até seus doze anos de
idade, quando receberia alguns ensinamentos para que conhecesse a dinâmica do estado Espartano e
principalmente as tradições de seu povo, e após esses ensinamentos entrariam de fato em um
treinamento militar.
Aprendiam a combater com eficácia, eram testados fisicamente e psicologicamente, além de
aprenderem a sobrevivência em condições extremas e diversas, e principalmente aprendiam a obedecer
seus superiores. Se por algum acaso esses jovens soldados não conseguissem completar essas missões
pela qual eram submetidos, ocorriam punições.
O teste final na vida do soldado espartano era realizado aos seus 17 anos. Esse teste era conhecido
como Kriptia e funcionava como um jogo, onde os soldados escondiam de dia em campo para ao
anoitecer, saírem a caça do maior número de escravos (hilotas) possíveis.

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Passando por esses processos de seleções o jovem espartano já poderia integrar oficialmente os
exércitos e teria direito também a um lote de terras.
Aos trinta anos de idade o soldado poderia ganhar a condição de cidadão e isso o dava o direito de
participar de todas as decisões e leis que seriam colocadas na mesa pela Apela, e aos sessenta anos o
indivíduo poderia sair do exército podendo integrar a Gerúsia.

Atenas
De origem jônica, Atenas se apresentou como um padrão para o desenvolvimento para outras cidades-
estados gregas. A região cercada de montanhas, foi poupada de uma ocupação dos Dórios. Ao lado de
Esparta, a cidade de Atenas é caracterizada como um modelo a ser seguido, isso pois, nessa cidade
aconteceu a formação e o desenvolvimento da Democracia. Essa palavra em sua origem representa:
DEMO (povo) KRATOS (poder), ou seja, poder do povo. A Democracia é até hoje o regime político
utilizado na maioria dos países Ocidentais, inclusive no Brasil.
Em 621 a.C, o legislador Drákon foi o encarregado de escrever as primeiras leis escritas em Atenas,
codificou portanto as antigas leis conhecidas pela tradição oral. Nada mudou em relação à legislação, os
eupátridas continuavam sendo os que detinham os maiores direitos políticos, por isso, aconteceram em
Atenas várias manifestações dos Thetas (camada social marginalizada, camponeses, servos...) que
queriam participar da política ateniense, lutando principalmente contra a escravidão por dívida que ainda
existia em Atenas.
Somente em 594 a.C. com o legislador Sólon, aconteceram reformas políticas em Atenas mais
próximas dos interesses dos Thetas. Sólon decretou a lei seisachtéia, a proibição da escravidão por
dívida, além de determinar o confisco de terras dos eupátridas e uma divisão de terras para as famílias
mais pobres, isso resultou numa grande paz e estabilidade social. No plano jurídico decretou a eunomia,
a igualdade de todos perante a lei. Essa reforma foi decisiva para o desenvolvimento de um sentimento
democrático em Atenas.
A Democracia em Atenas passaria ainda por algumas reformas, o que aconteceu em 507 a.C com o
legislador Clístenes, que recebeu o título de “pai da democracia”.

Educação

Na antiguidade, a cidade-estado grega de Atenas destacou-se nas áreas de artes, teatro, literatura e
outras atividades culturais. Desta forma, a educação ateniense refletiu os anseios e valores desta
sociedade.
A educação ateniense tinha como objetivo principal à formação de indivíduos completos, ou seja, com
bom preparo físico, psicológico e cultural.
Por volta dos sete anos de idade, o menino ateniense era orientado por um pedagogo. Na escola, os
jovens estudavam música, artes plásticas, Filosofia, etc.
As atividades físicas também faziam parte da vida escolar, pois os atenienses consideravam de grande
importância a manutenção da saúde corporal.
Já as meninas de Atenas não frequentavam escolas, pois ficavam aos cuidados da mãe até o
casamento.

Cidadania e Democracia na Antiguidade

Comumente consideramos como antiguidade o período que vai do surgimento da escrita, por volta de
3000 a.C na Mesopotâmia, até a queda do Império Romano do Ocidente, no ano de 476 d.C. Diferentes
povos se desenvolveram na Idade Antiga, entre elas as civilizações do Egito, Mesopotâmia, China, as
civilizações clássicas como Grécia e Roma, os Persas, os Hebreus, os Fenícios, além dos Celtas,
Etruscos, Eslavos, dos povos germanos (visigodos, ostrogodos, anglos, saxões,) entre outros. Ela surge
como um período histórico de fundamental importância, destacadamente por suas criações e legados,
muitos dos quais lançaram as bases para a construção de muitas sociedades atuais.
Além de ser o período do surgimento da escrita, a antiguidade também viu nascerem os jogos
olímpicos, a organização do conhecimentos, o surgimento de diversas cidades e a criação do Estado
enquanto instituição capaz de regulamentar o convívio entre os homens. A partir de então, o crescente
nível de complexidade das civilizações comportou também o fortalecimento das relações políticas.

Política
Os sistemas de governo na Antiguidade estavam baseados em elementos teocráticos, ou seja,
sustentados por uma visão religiosa e dominado por uma pequena elite política. O Faraó no Egito era
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visto como um enviado dos deuses, e, em alguns casos, como uma reencarnação divina. Nos povos
mesopotâmicos, assim como em grande parte das demais civilizações do período, eram frequentes as
interferências do sacerdote em assuntos políticos.

Exemplo de Esparta
Até o século VII a.C., a legislação de Esparta —Grande Retra — estabelecia que o governo deveria
ser exercido por dois reis (diarquia), por um conselho e por uma assembleia. A sucessão ao trono era
hereditária e duas famílias dividiam o poder: os Ágidas e os Euripôntidas.
O conselho, denominado Gerúsia, era formado pelos homens idosos e tinha um caráter apenas
consultivo. A Assembleia, Ápela, era o órgão mais importante, e os cidadãos tomavam as decisões finais
sobre todos os assuntos.
A Constituição e a organização política eram praticamente imutáveis, pois eram atribuídas a lendária
figura de Licurgo, personagem histórica que, por ter um caráter divino, imprimia essa divinização às
normas por ele criadas.
Com o processo de conquista da Plante Messênia concluído no seculo VII a C., as transformações
políticas foram proporcionais às mudanças socioeconômicas. O governo passou por uma transformação
conservadora e mais una vez essas alterações foram atribuídas a Licurgo. Esparta adotou a oligarquia
como forma de governo. A antiga Gerúsia passou a monopolizar o poder e, nesse momento, compunha-
se de 28 gerontes (cidadãos com mais de 60 anos), com poderes vitalícios. O Poder Executivo passou a
ser exercido pelos éforos, cinco magistrados escolhidos pelos gerontes, com o mandato de um ano. A
antiga Ápela aprovava as leis apenas por aclamação, correspondendo, nesse contexto, a um órgão formal
de decisões políticas, de caráter meramente consultivo. A diarquia continuou a existir, mas os seus
poderes políticos foram esvaziados, restando-lhe o exercício do poder sacerdotal e as atribuições
militares. O caráter conservador de Espana resultou da preocupação da minoria esparciata em manter a
maioria hilota (escravos) subordinada. Daí o militarismo do estamento dominante, a xenofobia (aversão
ao estrangeiro) e o laconismo (forma sintética de expressão), que sufocavam o surgimento de ideias e
restringiam o espirito crítico.
A sociedade espartana era composta de esparciatas (cidadãos e guerreiros de origem dória, que
constituíam a camada social superior e recebiam educação militar), periecos (aqueus, habitantes da
periferia, que, apesar de serem homens livres, não eram considerados cidadãos) e hilotas (escravos).
A sociedade era estamental, rigidamente hierarquizada e sem mobilidade social.
A política nos exemplos citados possui uma maneira de organização pautada na hierarquia e na
participação de um seleto grupo de pessoas, que governavam e mantinham o poder através da
justificativa divina e também familiar.
Apesar do caráter oligárquico da política na Antiguidade, algumas experiências merecem destaque
por mudarem esse cenário, aumentando a participação da população nos assuntos políticos.

Democracia em Atenas
A democracia, governo do povo (demo = povo, cracia=governo), foi implantada em Atenas, por volta
de 510 a.C., quando Clístenes comandou um revolta contra o último tirano que governou a cidade-
estado. As reformas políticas adotadas por Clístenes visavam a resolver os graves conflitos sociais
decorrentes da estratificação social em Atenas.
O regime político democrático instituído por Clístenes tinha por princípio básico a noção de que “todos
os cidadãos têm o mesmo direito perante as leis”.

E quem eram os cidadãos?


Somente os homens atenienses maiores de 21 eram considerados cidadãos, ou seja, eram
excluídos da vida política as mulheres, os estrangeiros, os escravos e os jovens. A democracia de Atenas
era, dessa forma, elitista, patriarcal e escravista, porque apenas uma pequena minoria de homens
proprietários de escravos poderia exercê-la.
Os cidadãos participavam da Assembleia do Povo, órgão de decisão que ficava a cargo de aprovar
ou rejeitar os projetos apresentados para a cidade. Esses projetos eram elaborados pelo Conselho dos
Quinhentos, um conjunto de 500 cidadãos eleitos anualmente. Após serem aprovados pela Assembleia
do Povo, os projetos eram executados, em tempos de paz, pelos estrategos.
A democracia ateniense acabou por volta de 404 a.C., quando a cidade-estado foi derrotada por
Esparta na Guerra do Peloponeso, voltando a ser governada por uma oligarquia.

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ROMA

De acordo com a tradição, Roma surgiu às margens do Rio Tibre, em 753 a.C. Era uma espécie de
acampamento militar dos povos albanos contra os etruscos. Até 509 a.C., Roma foi governada por sete
reis, quando o último deles, Tarquínio, o Soberbo, foi deposto. Iniciou-se então a República Romana. O
regime republicano duraria até 27 a.C., data oficial do início do Império Romano, que se extinguiu no
Ocidente, em 476 d.C., e no Oriente, em 1453 d.C.
Segundo a mitologia romana Rômulo e Remo são dois irmãos gêmeos, um dos quais, Rômulo, foi o
fundador da cidade de Roma e seu primeiro rei. Conta a lenda, que Rômulo e Remo, eram filhos do deus
grego Ares, ou Marte seu nome latino, e da mortal Réia Sílvia (ou Rhea Silvia), filha de Numitor, rei de
Alba Longa.
Amúlio, irmão do rei Numitor, deu um golpe de estado, apoderou-se da coroa e fez de Numitor seu
prisioneiro. Réia Sílvia foi confinada à castidade, para que Numitor não viesse a ter descendência.
Entretanto Marte desposou Réia que deu à luz aos gêmeos Rômulo e Remo. Amúlio, rei tirano, ao saber
do nascimento das crianças as jogou no rio Tibre. A correnteza os arremessou à margem do rio e foram
encontrados por uma loba, chamada capitolina ou luperca, que teria os amamentado e cuidado deles até
que estes foram achados pelo pastor Fáustulo, que junto com sua esposa os criou como filhos.
Quando Remo se tornou adulto se indispôs com pastores vizinhos, estes o tomaram e levaram a
presença do rei Amúlio que o aprisionou. Fáustulo revelou a Rômulo as circunstâncias de seu nascimento,
este foi ao palácio e libertou ao irmão, matou Amúlio e libertou seu avô Numitor. Numitor recompensou
os netos dando-lhes direito de fundar uma cidade junto ao rio Tibre. Os dois consultaram os presságios
e seguiram até a região destinada a construção da cidade. Remo dirigiu-se ao Aventino e viu seis abutres
sobrevoando o monte. Rômulo indo ao Palatino avistou doze aves, fez então um sulco por volta da colina,
demarcando o Pomerium, recinto sagrado da nova cidade. Remo, enciumado por não ser o escolhido,
zombou do irmão e, num salto, atravessou o sulco sendo morto por Rômulo, que o enterrou no Aventino.
Rômulo, após a fundação da cidade, preocupou-se em povoá-la. Criou o Capitólio um refúgio para
todos os banidos, devedores e assassinos da redondeza. A notícia da nova cidade se espalhou e os
primeiros habitantes foram chegando, principalmente Latinos e Sabinos. Rômulo, após longa batalha com
os Sabinos, firmou acordo com Tito Tácio, seu rei e com este reinou sob uma só nação na grande cidade
de Roma.
A Rômulo também é atribuída a instituição do Senado e das Cúrias.

Monarquia Romana

Durante a fase da Monarquia, a economia de Roma era baseada na agricultura e no pastoreio. A


sociedade era formada pelos patrícios, originários das antigas famílias, que constituíam os grandes
proprietários de terra e rebanhos; clientes, homens livres, de famílias pobres, que viviam sob a proteção
dos patrícios; plebeus, representados pelos estrangeiros, pequenos proprietários, artesãos e
comerciantes.
Em toda a fase monárquica, as lendas falam da existência de sete reis: dois latinos, dois sabinos e os
três últimos etruscos. Nessa última fase, a cidade de Roma passou por um grande desenvolvimento
urbano, em decorrência do notável conhecimento de técnicas arquitetônicas dos etruscos, que exerceram
uma profunda influência na civilização romana.
Até o advento dos reis etruscos, em 640 a.C., Roma era governada por soberanos que dependiam do
Senado — Conselho dos Anciãos —, órgão formado exclusivamente por patrícios. As decisões eram
aprova - das pela Assembleia Curiata, que reunia todos os cidadãos das famílias aristocráticas, cuja fina
li da de era votar as leis e aprovar a guerra.

Estrutura do poder na República Romana


Cônsules: chefes da República, com mandato de um ano; eram os comandantes do exército e tinham
atribuições jurídicas e religiosas.
Senado: composto por 300 senadores, em geral patrícios. Eram eleitos pelos magistrados e seus
membros eram vitalícios. Responsabilizavam-se pela elaboração das leis e pelas decisões acerca da
política interna e externa.
Magistraturas: responsáveis por funções executivas e judiciária, formadas em geral pelos patrícios.
Assembleia Popular: composta de patrícios e plebeus; destinava-se a votação das leis e era
responsável pela eleição dos cônsules.
Conselho da Plebe: composto somente pelos plebeus; elegia os tributos da plebe e era responsável
pelas decisões em plebiscitos (decretos do povo).
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Expansão das Fronteiras Romanas

Iniciado durante a República, o expansionismo romano teve basicamente dois objetivos: defender
Roma do ataque dos povos vizinhos rivais e assegurar terras necessárias à agricultura e ao pastoreio. As
vitórias nas lutas conduziram os romanos a uma ação conquistadora, ou seja, a ação do exército levou à
conquista e incorporação de novas regiões a Roma. Dessa forma, após sucessivas guerras, em um
espaço de tempo de cinco séculos, a ação expansionista permitiu que o Império Romano ocupasse boa
parte dos continentes europeu, asiático e africano.
O avanço das forças militares romanas colocou o Império em choque com Cartago e Macedônia,
potências que nessa época dominavam o Mediterrâneo. As rivalidades entre os cartagineses e os
romanos resultaram nas Guerras Púnicas (de puni, nome pelo qual os cartagineses eram conhecidos).
As Guerras Púnicas desenvolveram-se em três etapas, durante o período de 264 a 146 a.C. Ao
terminar a terceira e última fase das Guerras Púnicas, em 146 a.C., Cartago estava destruída. Seus
sobreviventes foram vendidos como escravos e o território cartaginês foi transformado em província
romana. Com a dominação completa da grande rival, Roma iniciou a expansão pelo Mediterrâneo oriental
(leste). Assim, nos dois séculos seguintes, foram conquistados os reinos helenísticos da Macedônia, da
Síria e do Egito. No final do século I a.C., o mediterrâneo havia se transformado em um “lago romano”
ou, como eles diziam, Mare Nostrum (“nosso mar”).

Irmãos Graco e a Questão Agrária


Com sua politica expansionista Roma consegue, a cada novo território conquistado, além das vitorias
militares a dominação de terras que se somavam para aumentar as suas fronteiras
Por dominarem a maior parte da terra conquistada, os patrícios passavam a estabelecer uma oferta
cada vez maior e mais barata de gêneros alimentícios, o que prejudicou os pequenos e médios
proprietários plebeus. A competição desnivelada entre patrícios e plebeus obrigou o segundo grupo a
abrir mão de suas terras e tornar-se mão de obra barata nos centros urbanos romanos
O grande acumulo de plebeus nos grandes centros e a disponibilidade de escravos, principalmente
em cidades como Roma, fazia com que a inserção social e econômica dos plebeus fosse cada vez mais
limitada. Com o tempo esses fatores vão aumentar as tensões na sociedade romana.
Com o intuito de amenizar os problemas vividos pela sociedade romana, os tribunos da plebe e irmãos
Tibério e Caio Graco estabeleceram reformas ligadas à questão agrária. No ano de 133 a.C., Tibério
Graco conseguiu aprovar uma lei que limitou a extensão das terras pertencentes à nobreza e determinou
a distribuição de terras públicas para os despossuídos. A repercussão da lei foi grande e gerou
descontentamento entre os grandes proprietários, que arquitetaram o assassinato de Tibério pouco tempo
depois.
Dez anos após o assassinato de Tibério, seu irmão Caio Graco chega ao cargo de tribuno da plebe,
com intenções de continuar o projeto de seu irmão. Conquistando apoio politico de alguns grupos da
sociedade com benefícios como dos cavaleiros romanos ao beneficiá-los com uma lei que lhes concedia
o direito de participar dos tribunais que controlavam a administração dos recursos públicos empregados
nas províncias romanas e o oferecimento de cidadania romana a povos alidos na Peninsula Italica, Caio
conseguiu aprovar leis que estabeleciam mudanças na distribuição de terras que haviam sido
conquistadas em tarento e na Cápua. Outra medida importante foi o estabelecimento da Lei Frumentária,
estipulando a venda de trigo para cidadões mais pobres a preços menores.
As ideias de de ampliação da cidadania romana levaram ao declínio de Caio Graco. O temor da
população em perder seus benefícios do pão e circo o fizeram perder popularidade. Após tentativas
infrutíferas de reeleição e um golpe de estado falho, o Senado decretou estado de sítio. Sem alternativas,
Caio e seus seguidores se viram acuados, o que levou o tribuno ao monte Aventino, onde ordenou sua
morte pelas mãos de um escravo.

Período de instabilidade política


Com o fim das Guerras Púnicas, em 146 a.C., iniciou-se um período de intensa agitação social. Além
dos escravos, povos da Península Itálica também se revoltaram, só que exigindo o direito à cidadania
romana. A expansão das conquistas e o aumento das pilhagens fortaleceram o exército romano, que
então se colocou na luta pelo poder. Assim, esse período ficou marcado por uma acirrada disputa política
entre os principais generais, abrindo caminho para os ditadores.
Essa crise se iniciou com a instituição dos triunviratos ou triarquia, isto é, governo composto de três
indivíduos. O Primeiro Triunvirato, em 60 a.C., foi composto de políticos de prestigio: Pompeu, Crasso e
Júlio César. Esses generais iniciaram uma grande disputa pelo poder, até que, após uma longa guerra
civil, Júlio César venceu seus rivais e recebeu o título de ditador vitalício.
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Durante seu governo, Júlio César formou a mais poderosa legião romana, promoveu uma reforma
político-administrativa, distribuiu terras entre soldados, impulsionou a colonização das províncias
romanas e realizou obras públicas.
O imenso poder de César levou os senadores a tramar sua morte, o que aconteceu em 44 a.C. Os
generais Marco Antônio, Lépido e Otávio formaram, então, o Segundo triunvirato, impedindo que o poder
passasse para as mãos da aristocracia, que dominava o Senado.
A disputa pelo poder continuou com o novo triunvirato. Em 31 a.C., no Egito, Otávio derrotou as forças
de Marco Antônio e retornou vitorioso a Roma. Fortalecido com essa campanha, Otávio pôde governar
sem oposição. Terminava, assim, o regime republicano e iniciava o Império.

Alto Império Romano

O Império se estabeleceu de fato em Roma quando Caio Otávio retornou do Egito com seu numeroso
exército. O Senado concedeu-lhe vários títulos que legalizaram seu poder absoluto: cônsul vitalício,
censor, imperador, príncipe do Senado e, finalmente, Augusto (título até então só atribuído aos deuses e
que permitia a Otávio escolher seu sucessor). Embora Otávio Augusto conservasse durante seu reinado
as aparências republicanas, seu poder apoiava-se efetivamente no imperium (comando do Exército), no
poder proconsular (direito de indicar os governadores das províncias) e no poder tribunício (poder de
representar a plebe).
Augusto reorganizou as províncias, dividindo-as em imperiais (militares) e senatoriais (civis). Indicava
os governadores e os controlava através de inspeções diretas e relatórios anuais feitos pelos sucessores
dos mesmos. Criou o sistema estatal de cobrança de impostos, acabando com a concessão da
arrecadação a particulares (publicanos).
No plano social, acabou com a tradicional superioridade do patriciado e criou um sistema censitário
baseado na renda anual de cada um. Os mais ricos, acima de 1 milhão de sestércios (moeda de prata
cunhada em Roma), pertenciam à Ordem Senatorial, que tinha todos os privilégios políticos e se distinguia
pelo uso da cor púrpura. A renda acima de 400 mil sestércios indicava o homem da Ordem Equestre, com
menos direitos e a cor distintiva azul. Abaixo desse índice monetário ninguém tinha direitos políticos, era
a Ordem Inferior.
Augusto procurou conter a influência da cultura oriental e grega (helenística), que dominava Roma e
estimulava a busca do prazer (hedonismo) e o culto aos deuses místicos orientais. Tentou reavivar os
valores morais do passado agrário de Roma, sem muito êxito. Para defender suas ideias, trouxe para a
corte literatos como Tito Lívio, Virgílio, Ovídio e Horácio.
Não tendo herdeiros diretos, Augusto indicou como sucessor seu genro, Tibério. Não obstante, as
indicações seguintes seriam em geral feitas pelos militares, notadamente da Guarda Pretoriana.
Com Augusto começou a dinastia Júlio-Claudiana do Império Romano, a qual seria continuada pelos
Flávios até 96 d.C., quando terminaram os chamados Doze Césares. Em seguida viriam os Antoninos e
mais tarde os Severos, já no século III.

Baixo Império Romano

No século III tem início a crise do Império, abalado por problemas econômicos, militares, políticos e
religiosos. A crise econômica tinha suas origens na cessação das guerras de conquista e na consequente
redução do número de escravos. O déficit orçamentário, resultante do aumento das despesas, levou o
poder político a aumentar excessivamente os impostos. Os preços se elevaram, os mercados se retraíram
e a produção declinou.
O Império Romano, já na época de Augusto, abrangia a maior parte do mundo então conhecido. Suas
legiões garantiam a dominação das províncias, fornecedoras de riquezas que fizeram a grandeza de
Roma.
Começou o êxodo urbano, a concentração da vida no campo em propriedades autossuficientes,
chamadas vilas, precursoras dos feudos medievais. Caracterizavam-se pela economia agrária de
consumo, com o trabalho exercido em termos de meação. Os clientes (romanos) e os colonos
(germânicos) cultivavam a terra, entregando metade da produção ao dono da mesma. Os pequenos
proprietários endividados (precários) tinham o mesmo estatuto, sendo porém livres, ao passo que clientes
e colonos viam-se presos à área em que trabalhavam.
Nessa mesma época, agravou-se a crise religiosa. O Cristianismo começou a se difundir pelo Império
logo após o martírio de Cristo, ocorrido no reinado de Tibério. Os Apóstolos iniciaram sua difusão e São
Pedro fundou o Bispado de Roma; foi martirizado juntamente com São Paulo na época do imperador
Nero. Este foi o autor da primeira perseguição aos cristãos. Nas perseguições posteriores, os cristãos
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foram acusados de não cultuar os deuses pagãos nem o imperador (considerado divino desde que Otávio
se tomou Augusto). Além disso, atribuía-se- lhes a responsabilidade pelas calamidades que ocorressem:
enchentes, tempestades, pestes e incêndios. A última perseguição foi desencadeada entre 303 e 304,
pelo imperador Diocleciano (284-304). Quase sempre, os imperadores tentavam colocar a população
contra os cristãos, buscando o apoio da plebe pagã.
Contudo, as perseguições tiveram um efeito contrário ao esperado, pois acabavam convertendo os
espectadores pagãos, impressionados com a firmeza e resignação dos cristãos diante dos sofrimentos.
Em 313, Constantino baixou o Edito de Milão, proibindo as perseguições aos cristãos e dando-lhes
liberdade de culto. A partir de então, a difusão do Cristianismo ganhou um impulso ainda maior: em 390,
o imperador Teodósio proibiu o culto pagão e oficializou o Cristianismo.

Difusão do Cristianismo
Nessa época, o clero cristão já estava estruturado. Presbíteros obedeciam aos bispos, os bispos das
cidades menores obedeciam aos bispos das capitais de província (metropolitas) e estes, aos bispos das
grandes cidades (Constantinopla, Antioquia e Alexandria), os chamados patriarcas; estes, enfim,
obedeciam ao papa (bispo de Roma), cuja autoridade sobre os cristãos foi oficializada pelo imperador
Valentiniano III, em 455.
Ao clero secular (que vivia em contato com a sociedade laica, ou “o mundo” = “saeculum”) se
contrapunha o clero regular, constituído pelos monges — ascetas que viviam isolados nos desertos; era
chamado “regular” porque obedecia a uma “regra” que impunha a castidade, pobreza e renúncia aos bens
materiais. A primeira regra foi estabelecida por São Basílio, seguindo-se lhe a de São Bento (beneditinos).
Portanto, ao mesmo tempo em que enfraquecia o poder imperial, o Cristianismo tornava-se a própria
base legal do poder no fim do Império.
Mas a situação se agravava. A crise política estava intimamente relacionada com os problemas
militares, pois o Exército conturbava a ordem nas épocas de sucessão imperial. Já na última fase do
Império, Diocleciano (284- 304) tentou contornar o problema dividindo-o em quatro partes (tetrarquia).
Depois de sua morte, as disputas sucessórias renasceram, pois Constantino reunificou o Império.
Outras divisões se verificaram, até à última, determinada por Teodósio, em 395, que criou o Império
Romano do Ocidente (Roma) e o Império Romano do Oriente (Constantinopla). Depois dessa divisão
nunca mais o Império se reunificou em sua integridade, pois os invasores germânicos ocuparam a parte
ocidental, enquanto o Império Oriental sobreviveu até a conquista muçulmana de Constantinopla, em
1453.
O golpe final no Império Romano do Ocidente foi desfechado pelos germânicos, que começaram a se
infiltrar militarmente em fins do século IV. Mas as chamadas “Grandes Invasões” começaram em 406.
Primeiro vieram os visigodos: liderados por Alanco, saquearam Roma e se fixaram na península Ibérica
e sul da Gália, constituindo o primeiro reino germânico dentro das fronteiras do Império. Os vândalos
seguiram o exemplo, saindo do Danúbio, cruzando a Gália e Espanha e se estabelecendo no norte da
África. Os francos ocuparam o norte da Gália. Os anglos e saxões invadiram a Britânia (Inglaterra),
ocupando as terras baixas.
Com o Império em acelerada decadência, os bárbaros germânicos lançaram-se sobre aquilo que
restava do esplendoroso mundo romano.
Em 476, o Império do Ocidente reduzia-se ao território da Itália. O imperador Júlio Nepos foi deposto
por Orestes, chefe do Exército, que colocou seu filho de 6 anos no trono com o nome de Rômulo
Augústulo. Odoacro (rei dos hérulos), chefe bárbaro aliado a Júlio Nepos, deu um contragolpe: afastou
Orestes e Rômulo Augústulo, assumindo o título de “rei da Itália”. As insígnias imperiais foram enviadas
para Constantinopla, o que significava, ao menos teoricamente a reunificação do Império sob o domínio
de Constantinopla.

Cultura Romana

A religião romana tradicional não comportava dogmas. Era prática e imediatista. Incluía o culto dos
antepassados, o culto dos deuses públicos e a crença nos auspícios e prodígios (manifestações divinas
através da Natureza).
As conquistas romanas na Grécia e Oriente Próximo abriram o caminho para a introdução de
divindades orientais, tais como Isis, Serápis e Mitra. Obviamente, os deuses greco-romanos tradicionais,
como Júpiter, Juno e Minerva, caíram em descrédito. O Mitraísmo, uma religião de raízes persas
relacionada com o culto do Sol e representada pelo touro, fez inúmeros adeptos.
O Cristianismo veio a substituir todos esses cultos pagãos. Mas seu domínio sobre o Império somente
se efetivou em fins do século IV.
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Arte
A arte romana tem pouca originalidade. Em seus primórdios, caracterizava-se pela influência etrusca
ou das colônias gregas da Magna Grécia. Posteriormente, foi marcada pela influência helenística, que
aparece nas principais construções romanas: arcos triunfais, aquedutos, teatros, anfiteatros, circos,
termas, bem como nas esculturas.

Literatura
A maior contribuição romana à história da cultura foi no setor literário. Não na literatura científica, na
qual os exemplos são poucos, mas na literatura filosófica, jurídica e política.
Na poesia destacaram-se Ovídio, Virgílio, Marcial, Juvenal e Horácio. A Filosofia teve Plínio, Sêneca
e Marco Aurélio; a oratória, Cícero. Na História destacaram-se Tito Lívio, Tácito, Salústio. Suetônio e
Políbio. Nos fins do Baixo Império, apareceram com destaque os escritores cristãos, como São Jerônimo
e Santo Agostinho.

QUAL É A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DO ESTADO BRASILEIRO?

Estado e Governo

É comum e indevido confundir o Estado com o governo. O Estado é toda a sociedade política, incluindo
o governo. O governo é principalmente identificado pelo grupo político que está no comando de um
Estado. O Estado possui as funções executiva, legislativa e judiciária. O governo, dentro da função
executiva, se ocupa em gerir os interesses sociais e econômicos da sociedade, e de acordo com sua
orientação ideológica, estabelece níveis maiores ou menores de intervenção. Assim, governo também
não se confunde com o poder executivo, este é composto pelo governo, responsável pela direção política
do Estado, e pela administração, como conjunto técnico e burocrático que auxilia o governo e faz funcionar
a máquina pública.
A diferença entre Estado e governo é atualmente mais acentuada com a personalização jurídica do
Estado, porque o Estado como pessoa tem vontade própria, distinta da vontade individual do governante.
No Estado Democrático e de Direito há a perspectiva de reduzir a participação do governo ao máximo
possível. Fazem parte deste Estado e não fazem parte do seu governo a Constituição, o conjunto de
servidores públicos estáveis, o patrimônio público, a máquina burocrática pública, as forças públicas, etc.
Isto porque a sociedade precisa que estas instituições sejam estáveis e impessoais, que não estejam
sujeitas às mudanças de governo no processo eleitoral e que sejam republicanas – pertencente ao
conjunto da sociedade e não aos interesses de quem está no poder. Isto é uma peculiaridade da
democracia constitucional, nos regimes autoritários a ausência de limites aos governos os levam absorver
ao máximo o Estado. O princípio republicano de responsabilidade política dos governos está presente
nas constituições modernas das democracias e das monarquias, como limite ao poder e como
identificação da coisa pública distinta do governo.
A personalização jurídica do Estado é a sua identificação como pessoa, com vontade própria,
caracterizada nos princípios de sua constituição. Um governo de um Estado que se legitima pelos
princípios desse Estado terá uma margem de discricionariedade menor, sempre dentro destes princípios.
Excepcionalmente e geralmente em momentos de crise, os governos buscam legitimação no carisma de
seus líderes e de seus programas, mas é a legalidade conferida na ordem pública estatal a principal fonte
de legitimidade moderna. Também o processo eleitoral de composição dos governos, com a distinção
entre situação e oposição legitimando-se reciprocamente, contribui para a separação entre o Estado e o
governo e para a sua legitimação.
O governo antecede ao Estado, pois é toda forma de organização do poder para a orientação de uma
sociedade. Ainda que ocupe parte da estrutura do poder executivo, o governo é mais do que o executivo,
pois se caracteriza por se estabilizar institucionalmente no Estado e assumir a responsabilidade da
orientação política geral.

Funções do Estado e o Governo


As funções do Estado se confundem com os seus poderes, porque o Estado se legitima pela sua
utilidade. Ao assumir um poder específico o associa a uma respectiva função social, ou seja, à ideia de
que aquela capacidade é útil e necessária. Mas aqui não será identificado como poder, e sim por essa
utilidade e necessidade.
O Estado é um conjunto de órgãos responsáveis pelo desempenho de suas funções. Os órgãos do
Estado fazem o que é do seu interesse, pois exercem o poder do Estado, não possuem vontade própria,
por isso são órgãos.
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As funções são a executiva, a legislativa e a judiciária. A função executiva é composta pela
administração pública, como organização da burocracia estatal, e pelo governo, como conjunto de órgãos
decisórios. O governo possui a discricionariedade, que é a liberdade de ação e de escolha nos limites da
legalidade, mas o Estado possui princípios que limitam a opção ideológica dos governos. As opções
ideológicas dos governos correspondem à fonte soberana do poder, que nas democracias é expressa
pelo voto popular, mas é definida por um conjunto complexo de forças sociais que compõe uma elite
efetivamente poderosa. Por isso o executivo não é um mero executor das decisões legislativas.
A função legislativa é a essência do poder. É a fonte última das decisões e por isso se confunde com
o poder soberano. Nas democracias que justificam o poder na vontade popular afirma-se que o legislador
é o representante do povo. A prática tem demonstrado que o poder executivo é muito mais influente. O
exercício do poder legislativo é geralmente atribuído a colegiados, para se obter uma maior distribuição
da representatividade e para obter soluções mais discutidas e amadurecidas.
A função judiciária é de controle. Controle sobre os atos públicos e privados para a garantia da
legalidade. Pela teoria de freios de contrapesos de Montesquieu, os atos judiciários são atos especiais
como os atos do executivo. Eles estão na mesma categoria de identificação da lei com a realidade. Mas
o judiciário não se limita à identificação da legalidade na sociedade, a produção de jurisprudência no
preenchimento das lacunas da lei é uma verdadeira ação decisória.
No Estado de Direito as funções do Estado, caracterizadas na forma de poder, devem ser separadas
para não caracterizar o benefício do poder para o indivíduo que a ocupa, segundo a teoria de freios e
contrapesos. É neste sentido que as funções do Estado não devem também se confundir com os
ocupantes do governo.

Separação de Poderes e as Implicações no Estado e no Governo


A Democracia Moderna, fundada no Estado de Direito e no constitucionalismo, se utiliza da Separação
de Poderes e da garantia dos Direitos fundamentais do homem. Junto com o seu presidencialismo, os
EUA simbolizam o modelo de democracia que combina a separação de poderes em executivo, legislativo
e judiciário com a responsabilidade política republicana de uma Constituição material, acima da vontade
arbitrária dos governantes.
A separação formal dos poderes é uma característica de alguns Estados Democráticos e de Direito
para a realização desta condição. De regra, os Estados antigos centralizaram as decisões das funções
públicas. Em parte, isto é decorrência do modelo de Estado Democrático e de Direito, mas em parte
contribuiu o rol restrito de funções públicas, além de sociedades menores e menos burocratizadas. Para
ocorrer a separação, a cada poder foi atribuído órgãos respectivos, com personalidade jurídica e
independência, a ponto de muitas vezes se confundir o órgão com o poder. Entretanto a doutrina nos
ensina que órgão público é um espaço dentro da administração, destinado a um fim. O órgão se
caracteriza pela estrutura de organização, com os seus critérios de preenchimento, funcionamento e
execução da finalidade, combinados com esta finalidade. Entretanto um órgão pode ser substituído por
outro diferentemente caracterizado, permanecendo a finalidade. A função legislativa é comumente
desempenhada por colegiados em órgãos como Assembleias, Câmaras, Congressos, Parlamentos, etc.,
a função executiva é comumente desempenhada por órgãos como presidências, gabinetes, prefeituras,
etc. e a função judiciária possui órgãos como tribunais, varas, fórum, etc. Em alguns Estados a Separação
de Poderes é ainda maior, com órgãos com um grau de autonomia em relação aos demais a ponto de
politicamente serem reconhecidos como um novo poder. É o que ocorre com o Ministério Público no
Brasil, ainda que a Constituição não indique assim expressamente.
Assim, a Separação de Poderes não é apenas a divisão de funções, ainda que esta pareça lógica e
eficiente. É, na verdade, um mecanismo de autocontrole do Estado, com independência e atribuição de
fiscalização recíproca entre os poderes. É inspirada na Teoria de Freios e Contrapesos de Montesquieu,
segundo o qual os atos do Estado podem ser divididos em atos gerais e atos especiais. Os primeiros se
caracterizam por serem indistintos, impessoais, e destinam-se a estabelecer regras gerais para a
sociedade, é a ação de legislar, e os segundos se caracterizam por serem concretos, individualizados, e
identificam os atos gerais com o comportamento das pessoas em sociedade, é a ação executiva. Para
ocorrer a separação de poderes, que garante o autocontrole do Estado, é imperioso que os responsáveis
pelos atos gerais não tenham controle e conhecimento sobre os destinatários destes atos, bem como os
responsáveis sobre os atos especiais não tenham participação exclusiva na elaboração dos atos gerais
e sejam apenas aplicadores da lei. Este mecanismo garante hipoteticamente que o indivíduo responsável
pelo ato público não se beneficie individualmente da sua atribuição pública.

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Separação de Poderes e a Pós-modernidade
Este modelo que garante a democracia e o Estado de Direito com a imposição de uma separação de
poderes é aplicável e própria da modernidade. Na pós-modernidade o Estado perde a sua capacidade de
articulação das funções, que estão engessadas, burocratizadas e sobrecarregadas. Gradativamente os
Estados que adotaram a separação de poderes estão criando normas que implicam na ingerência de um
poder no outro. E a razão é muito simples: na pós-modernidade o fundamento moderno de legitimidade
produzido por legalidade é substituído pelo fundamento da eficiência produzida pela operatividade. A
atual crise do Estado afeta indistintamente todas as suas instituições. As funções do Estado continuam
as mesmas, até mesmo o pragmatismo de sua separação é aceito, entretanto no limite de sua eficiência,
e não na necessidade de garantir um Estado Democrático e de Direito. A democracia e o Estado de
Direito, por consequência também estão afetados, não somente pela inviabilidade da absoluta separação
de poderes, mas porque a pós-modernidade está produzindo outros parâmetros para a política. Quando
o indivíduo abandona o sentido de cidadania como uma ação para a realização de interesses públicos
comuns e o substitui por uma cidadania de ação pública de realização de interesses privados a
democracia tal qual como foi idealizada para a modernidade já não faz mais sentido. Isto atinge todas as
suas instituições, não somente a separação de poderes, mas também tudo que implica na relação entre
Estado e governo. O governo será muito mais um gestor das tensões produzidas pelo individualismo e a
serviço de um ideal de eficiência tipicamente privado, do que uma equipe promotora dos ideais ideológicos
de um grupo, segmento ou classe social39.

Conceituando a ideia de Democracia

O Brasil, desde 1985 é um país democrático. Mas o que significa isso?


A Democracia é uma forma de governo em que o povo exerce a soberania. A palavra democracia vem
da língua grega, demokratía que é composta por demos (que significa povo) e kratos (que significa
poder). No sistema democrático, o povo exerce seu poder através do voto.
Como já discutido, a palavra Democracia vem do grego demos que significa povo. Nas democracias,
o povo detém o poder soberano sobre o poder legislativo e o executivo.
Democracia é o sistema de governo onde o poder de decisões políticas está com os povo, direta ou
indiretamente, por meio de representantes eleitos — forma esta mais usual. Uma democracia pode existir
num sistema presidencialista ou parlamentarista, republicano ou monárquico.
As Democracias são divididas em espécies A distinção mais importante acontece entre democracia
direta onde o povo expressa a sua vontade por voto direto em cada assunto particular, e a democracia
indireta, onde o povo expressa sua vontade através da eleição de representantes que tomam decisões
em nome daqueles que os elegeram.
O sistema democrático tem por fundamento o governo da maioria associados aos direitos individuais
e das minorias. Todas as democracias, embora respeitem a vontade da maioria, protegem os direitos
fundamentais dos indivíduos e das minorias.
Em um Estado que adote o sistema democrático, as eleições por exemplo, são livres e justas, abertas
a todos os cidadãos. As eleições numa democracia não podem ser fachadas atrás das quais se escondem
ditadores ou um partido único, mas verdadeiras competições pelo apoio do povo.

Democracia Direta
As primeiras democracias foram diretas, como a de Atenas, na qual o povo se reunia nas praças e ali
tomava as decisões políticas. Neste caso, os cidadãos não delegam o seu poder de decisão, mas, de
fato, o exercem.
Na Grécia antiga o "Povo" era composto pelos homens que tinham o título de "cidadão ateniense".
Desta forma mulheres e escravos não tinham direito a esse título pois tinham de ser do sexo masculino
e ser filho de pais atenienses e netos de avós atenienses, não tendo direito a voto nem nenhuma influência
na política.
Desta forma, tem-se que uma democracia é direta quando tem sua forma de organização na qual todos
os cidadãos podem participar diretamente no processo de tomada de decisões.

Democracia Indireta ou Representativa


A Democracia Indireta, ou Representativa, é aquela em que o povo, através de eleições periódicas,
escolhe as pessoas que irão representá-lo, para em seu nome tomar as decisões políticas de seu
interesse; assim, o povo é a fonte primária do poder que será exercido por representação.
39
Fonte: ROCHA, M. I. C.).

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Na democracia representativa, a participação popular é indireta, periódica e formal, e se organiza
mediante regras que disciplinam as técnicas de escolha dos representantes do povo.
Todavia, não se trata apenas de uma questão de eleições periódicas, em que, por meio do voto, são
escolhidas as autoridades governamentais. Além de designar um procedimento técnico para a
designação de pessoas para o exercício de funções governamentais e legislativas, eleição significa a
expressão de preferência entre alternativas, a realização de um ato formal de decisão política.
Realmente, nas democracias de partido e sufrágio universal, as eleições tendem a ultrapassar a pura
função designatória, configurando um instrumento por meio do qual o povo manifesta sua aprovação a
uma política governamental e confere seu consentimento e, por consequência, legitimidade às
autoridades governamentais, participando na formação da vontade do governo e no processo político.
Característica principal da democracia representativa, essa participação dos cidadãos, direta ou
indiretamente, nas deliberações que em diversos níveis (local, regional, nacional) e nos mais diversos
setores, com escola e empresa, por exemplo, que interessam à coletividade.

Sistemas de Governo

O sistema de governo identifica os mecanismos de distribuição horizontal do poder político e,


consequentemente, o modo como se articulam os Poderes do Estado, notadamente o Executivo e o
Legislativo. Como se sabe, são dois os modelos dominantes no mundo: o parlamentarismo e o
presidencialismo. Mais recentemente, consolidou-se em alguns países uma fórmula híbrida, que combina
elementos dos dois sistemas clássicos. Trata-se do semipresidencialismo, modelo que apresenta duas
particularidades: os poderes do Parlamento são limitados e o chefe de Estado não desempenha apenas
funções cerimoniais ou simbólicas, titularizando poderes próprios e efetivos. Em meio a outros aspectos,
o sempresidencialismo conjuga a especial legitimação que caracteriza a eleição direta do chefe de Estado
com mecanismos de responsabilização política do chefe de Governo.
A seguir, serão apresentadas, de maneira objetiva, as principais características de cada um dos dois
sistema puros. No tópico subsequente, far-se-á uma apreciação do sistema semipresidencialista, com
ênfase em algumas peculiaridades dos modelos que vigem em Portugal e na França. Como se observará,
o semipresidencialismo representou para aqueles países o termo final de um longo e tortuoso processo
de maturação institucional, propiciando uma equação mais equilibrada entre os Poderes Executivo e
Legislativo. Em desfecho, serão expostas as razões pelas quais se sustenta que esta fórmula engenhosa
de combinação das virtudes dos sistema clássicos é adequada para o Brasil, sendo mais conveniente
que o presidencialismo puro de nossa tradição republicana. Pretende-se com a proposta neutralizar
alguns problemas que vêm de longe e são recorrentes, como (i) a superconcentração de poderes no
Executivo, sem mecanismos adequados de controle e responsabilização política; (ii) a refuncionalização
da atividade legislativa, pela atuação concertada de Governo e Parlamento.

Parlamentarismo
O parlamentarismo tem como característica fundamental a divisão do Poder Executivo entre um chefe
de Estado e um chefe de Governo. Este último é normalmente denominado Primeiro-Ministro, sendo
escolhido pelo Parlamento. O Primeiro-Ministro depende, para a estabilidade de seu governo, da
manutenção do apoio parlamentar. Esta dualidade no Executivo e a responsabilização do chefe de
Governo perante o Poder Legislativo são os traços fundamentais do sistema parlamentarista. A estrutura
do poder segue a repartição tripartite, mas a separação entre os Poderes Executivo e Legislativo não é
rígida. O chefe de Estado, por sua vez, exerce funções predominantemente protocolares, de
representação simbólica do Estado. Não é por outra razão que, em pleno século XXI, o posto continua a
ser exercido por Monarcas em diversos países caracterizados por elevados índices de desenvolvimento
econômico e social, como Reino Unido, Dinamarca e Holanda, em meio a outros.
Várias vantagens são atribuídas a esse sistema de governo. A principal delas é tornar a relação entre
Executivo e Legislativo mais harmoniosa e articulada. O chefe de Governo é, em regra, oriundo dos
quadros do Legislativo, sendo indicado pelo partido que obteve maioria nas eleições parlamentares. Esse
apoio da maioria facilita a atuação político-administrativa. No entanto, não é incomum que a maioria do
Parlamento retire seu apoio ao Governo, embora isto se dê apenas em face de graves divergências.
Nesse caso, ocorre a aprovação de um voto de desconfiança e o Governo é substituído. Em seu lugar,
passa a governar um novo Gabinete, que tenha obtido apoio parlamentar. É possível, inclusive, que em
uma mesma legislatura o Governo seja substituído várias vezes, sem que, para isso, sejam feitas novas
eleições parlamentares. Não há, portanto, a hipótese de um Governo que não seja apoiado pela maioria
do Parlamento. Isso permite, em tese, uma maior eficiência do Governo, que não tem a sua ação
obstruída por um Legislativo hostil.
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Por conta dessa possibilidade de substituição facilitada do Gabinete governamental, o sistema se torna
mais propício à superação de crises políticas. Se o Governo não possui mais o apoio do Parlamento, este
pode aprovar uma moção de desconfiança, o que leva à queda do Gabinete. Observe-se que isso pode
se dar por razões políticas, e não apenas por razões éticas. Se o Governo enfrenta uma crise grave, não
só por conta de algum procedimento reputado ilegal ou ilegítimo, mas também em razão de uma decisão
política que tomou, ele é substituído imediatamente, sem que seja necessária a instauração de um
processo complexo e frequentemente conturbado como o de impeachment. O Governo não possui
mandato. Ele governa apenas pelo período em que goze de apoio parlamentar.
Por outro lado, o Governo terá também mecanismos para evitar a obstrução contínua por parte do
Parlamento, solicitando ao Presidente a dissolução da legislatura.
Pode-se objetar que essa virtude do parlamentarismo tem o seu reverso: nem sempre haverá concerto
entre o Legislativo e o Executivo, o que provocará instabilidade, com sucessivas trocas de Gabinete. A
constatação, de fato, se confirma na história. É comum que alguns países parlamentaristas passem por
períodos de sucessivas trocas de gabinete. Em 54 anos de pós-guerra, a Itália já havia conhecido 58
gabinetes. Mas o inverso também se verifica. Há casos em que um mesmo gabinete governa por diversas
legislaturas. Lembre-se, por exemplo, do que tem ocorrido na Inglaterra, país em que o Partido
Conservador governou por diversas legislaturas (18 anos), sendo em seguida substituído pelo Partido
Trabalhista, que governa desde 19979. O sistema, portanto, nem sempre é capaz de prevenir crises, mas
oferece mecanismos mais céleres e menos traumáticos para sua superação.
Alega-se, em relação ao parlamentarismo, que o sistema depende de um ambiente no qual o quadro
partidário seja dotado de racionalidade e não seja excessivamente fragmentado. De fato, a funcionalidade
do modelo diminui em situações nas quais sejam necessárias coalizões complexas, que são menos
estáveis e supervalorizam o papel de pequenos partidos, quando necessários à composição da maioria
parlamentar. Portanto, como regra, o argumento é procedente. Ele desconsidera, no entanto, que o
próprio parlamentarismo tende a conformar um sistema partidário mais depurado. De fato, nesse sistema
a atividade parlamentar torna-se mais centrada na atuação dos partidos, já que são eles que indicam os
Governos. Para mudar o Governo, o povo deverá votar de modo a alterar a composição partidária do
Parlamento.
No Brasil, a percepção geral é de que o Presidente da República é escolhido pelo povo de modo mais
atento e cuidadoso que os parlamentares. De fato, a população se mobiliza muito mais para a escolha do
chefe do Executivo do que para a dos Deputados. Nos países em que a eleição do chefe de Governo
depende do partido ao qual a maioria dos parlamentares pertence, essa atenção especial se transfere,
pelo menos em parte, para as eleições parlamentares. Considere-se, sobretudo, que durante o processo
eleitoral os partidos já apresentam o quadro partidário que ocupará, em caso de vitória, a função de
Primeiro-Ministro. Para utilizar um termo usado por Ackerman em outro contexto, há uma
“institucionalização do carisma”, o que certamente exerce um importante papel no fortalecimento dos
partidos.

Presidencialismo
No sistema presidencialista, os poderes da chefia de Estado e de Governo se concentram no
Presidente da República. O Presidente governa auxiliado por seus ministros, que são, em regra,
demissíveis ad nutum. O Presidente não é politicamente responsável perante o Parlamento. O programa
de governo pode ser completamente divergente das concepções compartilhadas pela maioria
parlamentar. O presidencialismo possibilita, por exemplo, a coexistência entre um Presidente socialista e
um Parlamento de maioria liberal. Uma vez eleito, o Presidente deverá cumprir um mandato. Enquanto
durar o mandato, o Presidente não poderá ser substituído – salvo procedimentos excepcionais, como o
impeachment e o recall –, mesmo que seu governo deixe de contar com o apoio da maioria dos
parlamentares e, até mesmo, da maioria do povo.
O sistema presidencialista apresenta algumas virtudes destacáveis. A primeira delas diz respeito à
legitimidade do chefe do Executivo. Na maioria dos países que adotam esse sistema, a eleição para
Presidente da República se faz de forma direta. Por isso, o eleito goza de grande legitimidade, sobretudo
nos momentos posteriores aos pleitos eleitorais. O fato de ter sido o próprio povo que o escolheu torna-o
mais habilitado a tomar decisões polêmicas. O presidencialismo, por essa razão, seria um sistema mais
aberto a permitir transformações profundas na sociedade. É por esse motivo que grande parte da
esquerda brasileira, ao contrário do que costuma ocorrer no plano internacional, tem defendido o
presidencialismo como sistema de governo adequado ao Brasil.
Além disso, o presidencialismo garantiria maior estabilidade administrativa, por conta de os mandatos
serem exercidos durante um período pré-determinado. No Brasil, o Presidente da República é eleito para
cumprir o mandato e, no curso desse período, não pode ser substituído, a não ser por razões
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excepcionais, subsumidas às hipóteses de crime de responsabilidade, apuradas em processo de
impeachment. Como acima consignado, passa-se diferentemente no parlamentarismo, sistema no qual o
chefe de Governo pode ser substituído a qualquer tempo, mesmo que por razões políticas. Por isso, no
presidencialismo, o mandato presidencial permitiria que o programa de governo fosse formulado
considerando um prazo maior para sua implementação, com ganhos em estabilidade administrativa e
previsibilidade da atuação estatal.
Entretanto, a despeito dessas vantagens, o presidencialismo também não está isento de críticas
importantes. A primeira delas refere-se à forte concentração de poder numa só figura, o que potencializa
o risco de autoritarismo. Na história constitucional brasileira, a emergência de governos autoritários
sempre se deu através do fortalecimento do Executivo em detrimento do Legislativo. Foi o que ocorreu
tanto na ditadura do Estado Novo quanto no regime militar de 1964. Mesmo em momentos de normalidade
democrática, a presença de um Executivo excessivamente forte tem aberto espaço a certas práticas
arbitrárias. No Brasil, essa crítica tem sido recentemente desenvolvida a propósito do uso excessivo de
medidas provisórias no período pós-88. De fato, a ausência da responsabilidade política incrementa em
demasia a liberdade de ação do governante. Essas ponderações são procedentes. No entanto, duas
observações devem ser feitas.
Em primeiro lugar, as decisões do Executivo são, em regra, controláveis pelo Poder Judiciário, o qual
utilizará, como parâmetros, tanto as leis quanto a Constituição. Na verdade, a atuação judicial costuma
ser mais incisiva no presidencialismo que no parlamentarismo. Não se pode perder de vista o fato de que
o próprio controle de constitucionalidade tem sua origem no sistema político norte-americano, que é
também a matriz do modelo presidencialista de separação de poderes. Embora possam ser identificadas
importantes exceções em países que adotam o parlamentarismo, em regra, é seguro afirmar que, diante
das decisões do Parlamento, os juízes costumam ser mais cautelosos que perante as decisões do
Executivo.
Em segundo lugar, tanto regimes presidencialistas quanto parlamentaristas estão expostos a
degenerações autoritárias. E há Estados presidencialistas que não são autoritários. É o que se verifica
historicamente. Na América Latina, as ditaduras não se implantaram propriamente por conta do
presidencialismo, mas em razão da ruptura, pela via dos golpes militares, da ordem constitucional. Por
outro lado, a ascensão dos regimes totalitários na primeira metade do século, tanto na Alemanha quanto
na Itália, se deu através do sistema parlamentarista. Não foram os chefes de Estado que levaram à
instauração daqueles regimes de força e iniquidade, mas Primeiros-Ministros.
Outra desvantagem do presidencialismo – e esta sim tem gerado graves problemas na vida política
brasileira – é a possibilidade de crises institucionais graves causadas pelo desacordo entre o Executivo
e o Legislativo. No presidencialismo, de fato, não existem instrumentos hábeis para a solução rápida e
normal de crises políticas, tal como ocorre no parlamentarismo. Ademais, na hipótese de o Presidente
não conseguir compor maioria no Parlamento, a execução dos programas de governo e das políticas
públicas em geral fica substancialmente prejudicada. No parlamentarismo, se ocorre uma
incompatibilidade fundamental entre o Parlamento e o Governo, este cai, e forma-se um novo Governo,
com apoio parlamentar. Por outro lado, se o Parlamento não consegue formar um novo Governo, ou se
é o Parlamento que está em desacordo com a vontade popular, há mecanismos que permitem a
convocação de novas eleições parlamentares.
No presidencialismo, essas possibilidades inexistem, e o Governo acaba se prolongando até o final do
mandato sem sustentação congressual e sem condições de implementar seu plano de ação. O país fica
sujeito, então, a anos de paralisia e de indefinição política, o que pode gerar sérios problemas econômicos
e sociais, ou pelo menos, deixá-los sem solução imediata. Além disso, a pré-fixação do mandato
presidencial pode manter no poder um governante que tenha perdido inteiramente o apoio popular. A
destituição de um Presidente somente se dará na hipótese de crime de responsabilidade, pela complexa
via do impeachment, ou por outra medida excepcional, que é o recall, em que o eleitorado é convocado
diretamente para se pronunciar acerca da permanência ou não de um governante no poder. Ambos são
procedimentos custosos e traumáticos.

Sistema Semipresidencialista
Sem embargo de suas virtudes, os dois modelos clássicos – parlamentarismo e presidencialismo –
apresentam disfunções importantes. Esses problemas se manifestam tanto no plano da instauração de
regimes verdadeiramente democráticos, quanto no que diz respeito à governabilidade, à eficiência e à
capacidade estrutural de superar crises políticas. O modelo semipresidencialista surge como uma
alternativa que busca reunir as qualidades desses sistemas puros, sem incidir em algumas de suas
vicissitudes. Ressalte-se, desde logo, não se tratar de um modelo híbrido desprovido de unidade e
coerência, um agregado de elementos estanques. Pelo contrário, trata-se de uma fórmula dotada de
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identidade própria, capaz de oferecer solução adequada para alguns dos principais problemas da vida
política brasileira.
No semipresidencialismo, o Presidente da República é o chefe de Estado, eleito pelo voto direto do
povo, e o Primeiro-Ministro o chefe de Governo, nomeado pelo Presidente e chancelado pela maioria do
Parlamento. Assim como no parlamentarismo, no semipresidencialismo também tem lugar a dualidade
do Executivo, que se divide entre as chefias de Estado e de Governo. Contudo, enquanto no
parlamentarismo a chefia de Estado tem funções meramente formais (como as de representação
internacional, assinatura de tratados, geralmente a pedido do Primeiro-Ministro), no semipresidencialismo
lhe são atribuídas algumas importantes funções políticas. Dentre essas se destacam, de modo geral, as
seguintes: nomear o Primeiro-Ministro; dissolver o Parlamento; propor projetos de lei; conduzir a política
externa; exercer poderes especiais em momentos de crise; submeter leis à Corte Constitucional; exercer
o comando das Forças Armadas; nomear alguns funcionários de alto-escalão; convocar referendos. A
nota distintiva dos países que adotam o semipresidencialismo situa-se na maior ou menor atuação do
Presidente na vida política.
A principal vantagem que o semipresidencialismo herda do parlamentarismo repousa nos mecanismos
céleres para a substituição do Governo, sem que com isso se provoquem crises institucionais de maior
gravidade. O Primeiro-Ministro pode ser substituído sem que tenha de se submeter aos complexos e
demorados mecanismos do impeachment e do recall. Por outro lado, se quem está em desacordo com a
vontade popular não é o Primeiro-Ministro (ou não é apenas ele), mas o próprio Parlamento cabe ao
Presidente dissolvê-lo e convocar novas eleições. Do presidencialismo, o sistema semipresidencialista
mantém, especialmente, a eleição do Presidente da República e parte de suas competências. A eleição
direta garante especial legitimidade ao mandatário, dando sentido político consistente a sua atuação
institucional. O ponto merece um comentário adicional.
No semipresidencialismo, as funções do chefe de Estado se aproximam daquelas atribuídas ao Poder
Moderador por Benjamin Constant. O Presidente da República se situa em uma posição de superioridade
institucional em relação à chefia de Governo e ao Parlamento, mas esse papel especial não se legitima
no exercício da política ordinária, mas na atuação equilibrada na superação de crises políticas e na
recomposição dos órgãos do Estado. Embora o semipresidencialismo esteja necessariamente vinculado
à forma republicana, o fato de a chefia de Estado ser exercida por um Presidente eleito não é suficiente
para caracterizá-lo. É possível conceber um sistema parlamentarista em que o chefe de Estado também
seja um Presidente eleito. O fundamental, no particular, é que seja titular de competências políticas
significativas.
O semipresidencialismo é adotado em diversos países (como Colômbia, Finlândia, França, Polônia,
Portugal e Romênia). A seguir serão examinados dois exemplos: o português e o francês, enfatizando-se
como o sistema logrou dar cabo de longos períodos de instabilidade institucional, equilibrando a relação
entre os Poderes. Em seguida, serão apresentadas as razões pelas quais o sistema também pode
fornecer ao Brasil maior estabilidade política, ostentando sensível vocação para se consolidar também
como o sistema de nossa maturidade institucional40.

Organização dos poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário

Poder Legislativo
É o encarregado de exercer a função legislativa do estado, que consiste em regular as relações dos
indivíduos entre si e com o próprio Estado, mediante a elaboração de leis.
No Brasil, o Poder Legislativo é organizado em um sistema bicameral e exercido pelo Congresso
Nacional que é composto pela Câmara dos Deputados, como representante do povo, e pelo Senado
Federal, representante das Unidades da Federação. Esse modelo bicameral confere às duas Casas
autonomia, poderes, prerrogativas e imunidades referentes à sua organização e funcionamento em
relação ao exercício de suas funções.
A Câmara dos Deputados é composta, atualmente, por 513 membros eleitos pelo sistema proporcional
à população de cada Estado e do Distrito Federal, com mandato de quatro anos. O número de deputados
eleitos pode variar de uma eleição para outra em razão de sua proporcionalidade à população de cada
Estado e do Distrito Federal. No caso de criação de Territórios, cada um deles elegerá quatro
representantes. A Constituição Federal de 1988 fixou que nenhuma unidade federativa poderá ter menos
de oito ou mais de 70 representantes.

40
Fonte: Instituto Ideias.

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Já no Senado Federal, os 81 membros eleitos pelo sistema majoritário (3 para cada Estado e para o
Distrito Federal) têm mandato de oito anos, renovando-se a cada quatro anos, 1/3 e 2/3 alternadamente.
Nas eleições de 1998 foram renovados 1/3 dos senadores e nas eleições de 2002, 2/3 dos membros.
Uma vez eleitos, os deputados e senadores passam a integrar a bancada do partido ao qual
pertencem. Cabe às bancadas partidárias escolher, dentre seus membros, um líder para representá-los.
Assim, para orientar essas bancadas durante os trabalhos legislativos, há a figura do líder partidário e
suas respectivas estruturas administrativas. O governo também possui líderes, na Câmara, no Senado e
no Congresso, que o representa nas atividades legislativas.
O Congresso Nacional e suas Casas funcionam de forma organizada, tendo os seus trabalhos
coordenados pelas respectivas Mesas. Em geral, a Mesa da Câmara dos Deputados e a do Senado
Federal são presididas por um representante do partido majoritário em cada Casa, com mandato de dois
anos. Além do presidente, a Mesa é composta por dois vice-presidentes e quatro secretários.
A Mesa do Congresso Nacional é presidida pelo presidente do Senado Federal e os demais cargos
ocupados, alternadamente, pelos respectivos membros das Mesas das duas Casas.
Compõem ainda a estrutura de cada Casa as comissões, que têm por finalidade apreciar assuntos
submetidos ao seu exame e sobre eles deliberar. Na constituição de cada comissão é assegurada, tanto
quanto possível, a representação proporcional dos partidos e dos blocos parlamentares que integram a
Casa.
Na Câmara dos Deputados há dezoito comissões permanentes em funcionamento e no Senado
Federal, sete. As comissões podem ser ainda, temporárias, quando criadas para apreciar determinado
assunto e por prazo limitado. As comissões parlamentares de inquérito (CPIs), as comissões externas e
as especiais são exemplos de comissões temporárias.
No Congresso Nacional as comissões são integradas por deputados e senadores. A única comissão
mista permanente é a de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização. Contudo, existe também a
Representação Brasileira de Comissão Parlamentar Conjunta do Mercosul. Já as comissões temporárias
obedecem aos mesmos critérios de criação e funcionamento adotados pela Câmara e pelo Senado.
O processo legislativo compreende a elaboração de emendas à Constituição, leis complementares,
leis ordinárias, leis delegadas, medidas provisórias, decretos legislativos e resoluções. Todos estes
instrumentos legais tramitam no Congresso Nacional e em suas Casas segundo procedimentos próprios
previamente definidos em regimentos internos.
Apesar de o Congresso Nacional ser um órgão legislativo, sua competência não se resume à
elaboração de leis. Além das atribuições legislativas, o Congresso dispõe de atribuições deliberativas; de
fiscalização e controle; de julgamento de crimes de responsabilidade; além de outras privativas de cada
Casa, conforme disposto na Constituição Federal de 1988.
O Congresso está localizado na área central de Brasília, próximo aos órgãos representativos dos
Poderes Executivo e Judiciário, formando a praça dos Três Poderes. Internamente, o Congresso é uma
verdadeira "cidade" contando com bibliotecas, livrarias, bancas de revistas e jornais, barbearias, bancos,
restaurantes, dentre outros serviços.

Poder Executivo
O Poder Executivo Federal é exercido, no sistema presidencialista, pelo Presidente da República
auxiliado pelos Ministros de Estado.
O Presidente da República, juntamente com o Vice-Presidente, são eleitos pelo voto direto e secreto
para um período de quatro anos.
Em 1997, através de Emenda Constitucional nº 16, foi permitida a reeleição, para um único mandato
subsequente, do Presidente da República, dos Governadores e dos Prefeitos. Dessa forma, o Presidente
Fernando Henrique Cardoso iniciou, em 1º de janeiro de 1999, seu segundo mandato para o qual foi
reeleito em 1º turno nas eleições de outubro de 1998, se tornando o primeiro Presidente da República a
ser reeleito.
Em caso de impedimento do Presidente da República, ou vacância do respectivo cargo, serão
chamados sucessivamente para exercer o cargo, o Vice-Presidente, o Presidente da Câmara dos
Deputados, do Senado Federal e do Supremo Tribunal Federal.
Compete ao Presidente da República entre outros, chefiar o governo; administrar a coisa pública;
aplicar as leis; iniciar o processo legislativo; vetar, total ou parcialmente projetos de lei; declarar guerra;
prover e extinguir cargos públicos federais; e editar medidas provisórias com força de lei.
Aos Ministros de Estado compete exercer a orientação, coordenação e supervisão dos órgãos e
entidades na área de sua competência e referendar os atos assinados pelo Presidente da República e
expedir instruções para a execução das leis, decretos e regulamentos.

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A indicação de ministros é feita pelo Presidente da República com base em critérios políticos, de modo
a fazer acomodações na base de sustentação do governo. Entretanto, isso não exclui a possibilidade de,
em alguns momentos, ser utilizado um critério exclusivamente técnico para a escolha do ministro.
O exercício das funções relativas ao Poder Executivo é feito através da Administração Direta e Indireta.

Poder Judiciário
A função do Poder Judiciário, no âmbito do Estado democrático, consiste em aplicar a lei a casos
concretos, para assegurar a soberania da justiça e a realização dos direitos individuais nas relações
sociais.
A estrutura do Poder Judiciário é baseada na hierarquia dos órgãos que o compõem, formando assim
as instâncias. A primeira instância corresponde ao órgão que irá primeiramente analisar e julgar a ação
apresentada ao Poder Judiciário. As demais instâncias apreciam as decisões proferidas pela instância
inferior a ela, e sempre o fazem em órgãos colegiados, ou seja, por um grupo de juízes que participam
do julgamento.
Devido ao princípio do duplo grau de jurisdição, as decisões proferidas em primeira instância poderão
ser submetidas à apreciação da instância superior, dando oportunidade às partes conflitantes de obterem
o reexame da matéria.
Às instâncias superiores, cabe, também, em decorrência de sua competência originária, apreciar
determinadas ações que, em razão da matéria, lhes são apresentadas diretamente, sem que tenham sido
submetidas, anteriormente, à apreciação do juízo inferior. A competência originária dos tribunais está
disposta na Constituição Federal.
A organização do Poder Judiciário está fundamentada na divisão da competência entre os vários
órgãos que o integram nos âmbitos estadual e federal.
À Justiça Estadual cabe o julgamento das ações não compreendidas na competência da Justiça
Federal comum ou especializada.
A Justiça Federal comum é aquela composta pelos tribunais e juízes federais, e responsável pelo
julgamento de ações em que a União, as autarquias ou as empresas públicas federais forem interessadas;
e a especializada, aquela composta pelas Justiças do Trabalho, Eleitoral e Militar.
No que se refere à competência da Justiça Federal especializada, tem-se que à Justiça do Trabalho
compete conciliar e julgar os conflitos individuais e coletivos entre trabalhadores e empregadores. É
formado por Juntas de Conciliação e Julgamento, pelos Tribunais Regionais do Trabalho, composto por
juízes nomeados pelo Presidente da República, e pelo Tribunal Superior do Trabalho, composto por vinte
e sete ministros, nomeados pelo Presidente da República, após aprovação pelo Senado Federal.
À Justiça Eleitoral compete, principalmente, a organização, a fiscalização e a apuração das eleições
que ocorrem no país, bem como a diplomação dos eleitos. É formada pelas Juntas Eleitorais, pelos
Tribunais Regionais Eleitorais, compostos por sete juízes e pelo Tribunal Superior Eleitoral, também
composto por sete ministros.
E, à Justiça Militar, compete processar e julgar os crimes militares definidos em lei. É composta pelos
juízes-auditores e seus substitutos, pelos Conselhos de Justiça, especiais ou permanentes, integrados
pelos juízes-auditores e pelo Superior Tribunal Militar, que possui quinze ministros nomeados pelo
Presidente da República, após aprovação do Senado Federal.

- São órgãos do Poder Judiciário:


- Supremo Tribunal Federal, que é o órgão máximo do Poder Judiciário, tendo como competência
precípua a guarda da Constituição Federal. É composto por 11 ministros nomeados pelo Presidente da
República, depois de aprovada a escolha pelo Senado Federal. Aprecia, além da matéria atinente a sua
competência originária, recursos extraordinários cabíveis em razão de desobediência à Constituição
Federal.
- Superior Tribunal de Justiça, ao qual cabe a guarda do direito nacional infraconstitucional mediante
harmonização das decisões proferidas pelos tribunais regionais federais e pelos tribunais estaduais de
segunda instância. Compõe-se de, no mínimo, 33 ministros nomeados pelo Presidente da República.
Aprecia, além da matéria referente a sua competência originária, recursos especiais cabíveis quando
contrariadas leis federais.
- Tribunais Regionais, que julgam ações provenientes de vários estados do país, divididos por regiões.
São eles: os Tribunais Regionais Federais (divididos em 5 regiões), os Tribunais Regionais do Trabalho
(divididos em 24 regiões) e os Tribunais Regionais Eleitorais (divididos em 27 regiões).
- Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal e de Alçada, organizados de acordo com os
princípios e normas da constituição Estadual e do Estatuto da Magistratura. Apreciam, em grau de recurso

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ou em razão de sua competência originária, as matérias comuns que não se encaixam na competência
das justiças federais especializadas.
- Juízos de primeira instância são onde se iniciam, na maioria das vezes, as ações judiciais estaduais
e federais (comuns e especializadas). Compreende os juízes estaduais e os federais comuns e da justiça
especializada (juízes do trabalho, eleitorais, militares)41.

Questões

01. Sobre a queda do Império Romano do Ocidente no ano de 476 d.C. podemos afirmar que:
(A) Ocorreu, após os conflitos entre Roma e os cartagineses, o que enfraqueceu as bases econômicas
do Império.
(B) Teve, no fortalecimento do cristianismo, a única motivação explícita.
(C) Foi provocada pela conjugação de uma série de fatores, destacando-se a ascensão do
cristianismo, as invasões bárbaras, a anarquia nas organizações militares e a crise do sistema escravista.
(D) Teve, na superioridade dos povos bárbaros, a única explicação possível.
(E) Teve, em Carlos Magno, Imperador dos francos, a principal liderança político-militar a comandar
os povos bárbaros na queda de Roma.

02. Podemos dizer que antes as coisas do Mediterrâneo eram dispersas... mas como resultado das
conquistas romanas é como se a história passasse a ter uma unidade orgânica, pois, as coisas da Itália
e da África passaram a ser entretecidas com as coisas da Ásia e da Grécia e o resultado disso tudo
aponta para um único fim.
(Políbio, História, I.3.)
No texto, a conquista romana de todo o Mediterrâneo é
(A) criticada, por impor aos povos uma única história, a ditada pelos vencedores.
(B) desqualificada, por suprimir as independências políticas regionais.
(C) defendida, por estabelecer uma única cultura, a do poder imperial.
(D) exaltada, por integrar as histórias particulares em uma única história geral.
(E) lamentada, por sufocar a autonomia e identidade das culturas.

03. "Os animais da Itália possuem cada um sua toca, seu abrigo, seu refúgio. No entanto, os homens
que combatem e morrem pela Itália estão à mercê do ar e da luz e nada mais: sem lar, sem casa, erram
com suas mulheres e crianças. Os generais mentem aos soldados quando, na hora do combate, os
exortam a defender contra o inimigo suas tumbas e seus lugares de culto, pois nenhum destes romanos
possui nem altar de família, nem sepultura de ancestral. É para o luxo e enriquecimento de outrem que
combatem e morrem tais pretensos senhores do mundo, que não possuem sequer um torrão de terra.
(Plutarco, Tibério Graco, IX, 4. In: PINSKY, J. "100 Textos de História Antiga". São Paulo: Contexto, 1991. p. 20.)

Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema, pode-se afirmar que a Lei da Reforma Agrária
na Roma Antiga
(A) proposta pelos irmãos Graco, Tibério e Caio, era uma tentativa de ganhar apoio popular para uma
nova eleição de Tribunos da Plebe, pois pretendiam reeleger-se para aqueles cargos.
(B) proposta por Tibério Graco, tinha como verdadeiro objetivo beneficiar os patrícios, ocupantes das
terras públicas que haviam sido conquistadas com a expansão do Império.
(C) tinha o objetivo de criar uma guerra civil, visto que seria a única forma de colocar os plebeus numa
situação de igualdade com os patrícios, grandes latifundiários.
(D) era vista pelos generais do exército romano como uma possibilidade de enriquecer, apropriando-
se das terras conquistadas e, por isto, tinham um acordo armado com Tibério.
(E) foi proposta pelos irmãos Graco, que viam na distribuição de terras uma forma de superar a crise
provocada pelas conquistas do período republicano, satisfazendo as necessidades de uma plebe
numerosa e empobrecida.

04. Na atualidade, praticamente todos os dirigentes políticos, no Brasil e no mundo, dizem-se


defensores de padrões democráticos e de valores republicanos. Na Antiguidade, tais padrões e valores
conheceram o auge, tanto na democracia ateniense, quanto na república romana, quando predominaram
(A) a liberdade e o individualismo.
(B) o debate e o bem público.

41
Fonte: WESSLER, D. R.

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(C) a demagogia e o populismo.
(D) o consenso e o respeito à privacidade.
(E) a tolerância religiosa e o direito civil.

05. As lutas por riquezas e territórios sempre estiveram presentes na História. Na Antiguidade, o
Mediterrâneo foi disputado nas Guerras Púnicas por:
(A) gregos e persas.
(B) macedônicos e romanos.
(C) romanos e germânicos.
(D) romanos e cartagineses.
(E) gregos e romanos.

Gabarito

01.C / 02.D / 03.E / 04.B / 05.D

Comentários

01. Resposta C.
O sistema escravista romano entra em declínio após o fim do expansionismo que Roma promovia há
alguns séculos. Os povos germânicos que ocupavam as bordas do império, sendo pressionados pelas
ondas migratórias aumentavam cada vez mais. O cristianismo ganhava também cada vez mais força
dentro do império, com a legalização do culto e a popularidade que a religião adquiria.

02. Resposta D.
O trecho exalta, ou seja, comemora e engrandece as conquistas romanas e a formação do império
como unidade de interligação de cultura e de organização espacial.

03. Resposta E.
Os irmãos Graco protestavam contra a distribuição desigual de terras. Apesar das conquistas cada
vez maiores de territórios, a partilha possuía um grau de desigualdade muito grande, ficando a maior
parte destinada aos patrícios que reuniam cada vez mais terras e conseguiam produzir e vender seus
produtos a preços que obrigavam os pequenos proprietários a abandonar suas atividades e rumar para a
cidade em busca de novas formas de sustento.

04. Resposta B.
Diferente dos períodos monárquicos e imperiais, onde o líder muitas vezes governava de forma
autoritária e ditava leis, a democracia ateniense e a república romana respeitavam os princípios do voto
dos cidadãos, que elegiam seus representantes através da escolha daquele que melhor atendesse seus
ideais.

05. Resposta D.
A disputa entre romanos e cartaginenses pelo controle do mar Mediterrâneo resultou em disputas que
levaram à destruição de Cartago em 146 a.C. e garantiu o completo domínio romano sobre o comercio
no Mediterrâneo.

Revoluções sociais e políticas na Europa Moderna

REVOLUÇÕES INGLESAS

Dinastia Tudor
Após o fim da Guerra dos Cem Anos, travada contra a França, a Inglaterra viveu uma forte crise
dinástica, quando duas famílias de nobres disputaram o trono, envolvendo o país na Guerra das Duas
Rosas, que foi uma guerra civil ocorrida entre os anos de 1455 e 1485. Os conflitos ocorreram pela
disputa do trono inglês entre duas importantes famílias nobres britânicas: Lancaster e York.
O nome da guerra vem dos emblemas que representavam estas duas famílias: Casa de Lancaster
(rosa vermelha) e Casa de York (rosa Branca).
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O conflito terminou quando Henrique Tudor foi coroado rei, com o nome de Henrique VII. Nesse
momento, a autoridade do monarca esbarrou no Parlamento, que restringiu sua atuação e impediu a
implantação do absolutismo.
Com a morte de Henrique VII, o poder foi transmitido a seu filho Henrique VIII, que começou a impor
seu poder aos nobres feudais, com a ajuda da burguesia, carente de apoio na sua expansão comercial.
A partir desse momento, o poder real passou a centralizar-se cada vez mais na figura do rei.
Este rei rompeu com a Igreja Católica, apoderando-se de todos os seus bens e aumentando seu poder
político. Por meio do Ato de Supremacia, o Parlamento investiu o rei com a suprema autoridade
eclesiástica.
O rei governava por decretos que não eram submetidos à sanção parlamentar. O Parlamento era figura
decorativa, sendo convocado em raras oportunidades. O Conselho real era instrumento fundamental do
poder monárquico.
No governo da rainha Isabel I (Elizabeth), o Parlamento foi mantido com um poder apenas aparente,
porém o absolutismo foi implantado de fato.
Nesse período, a tensão entre Inglaterra e Espanha cresceu.
Nesse momento, a hegemonia espanhola foi substituída pela hegemonia da Inglaterra, que passou a
exercer a supremacia comercial no Atlântico. Durante o reinado de Isabel I, foi iniciado o processo de
"cercamentos", arruinando os pequenos proprietários, que passaram a concentrar-se nas cidades.
Buscando solucionar a crise social resultante, Isabel I assinou em 1601 a 'Lei dos Pobres", que obrigava
a população marginalizada e sem ocupação a trabalhar em oficinas, abastecendo o setor manufatureiro
de grande quantidade de mão de obra barata.
Durante o longo reinado de Isabel, o poder absoluto foi implantado de fato. A próxima dinastia, Stuart,
tentaria legalizá-lo. Esse esforço dos Stuarts iniciou-se com a ascensão ao trono de Jaime I, primo de
Isabel e rei da Escócia, e terminaria com a Revolução Gloriosa de 1688.

Etapas da Revolução
As Revoluções Inglesas podem ser separadas nas seguintes fases:
- A Revolução Puritana, de 1642 a 1649;
- O Protetorado de Cromwell, de 1649 a 1658, que corresponde à República;
- Um intervalo de dois anos, bastante confuso, que levou à restauração da Monarquia em 1660;
- A Revolução Gloriosa, completada em 1688.

Todos estes períodos revolucionários constituem um único problema, que é a Revolução Inglesa,
iniciada em 1640 e completada em 1688.
A revolução da burguesia na Inglaterra contra os entraves ao seu desenvolvimento, representados
pelo rei, é um marco importantíssimo na história da Inglaterra. Depois da Revolução Gloriosa de 1688,
nenhuma outra revolução se produziu na Inglaterra, até hoje. Somente por este fato, pode-se perceber a
sua importância.
No plano da história europeia, as Revoluções Inglesas precederam a Revolução Francesa,
constituindo um exemplo para esta, com a qual se igualam em importância histórica, e mesmo a
Revolução Francesa supera-as por ter sido definitiva.
Com a morte de Elisabeth I, a Inglaterra foi governada por Jaime I, iniciando-se a Dinastia dos Stuarts,
de origem escocesa. Sua atuação absolutista chocou-se contra o Parlamento, que iniciou uma luta política
com os Stuarts.

Fatores das Revoluções Inglesas


Na Revolução Inglesa, os problemas econômicos, sociais e políticos misturaram-se aos religiosos.
Com o aumento de importância da agricultura (em 1640 a Inglaterra fornecia quatro quintos do
consumo europeu, já que o seu intenso comércio estimulou a produção de alimentos e matéria-prima),
os empresários capitalistas passaram a investir na compra e exploração das terras, adotando
técnicas e equipamentos que aumentavam a produção. Com os pequenos proprietários, a quem se
uniram, estavam interessados em expulsar das terras os seus antigos rendeiros. Mas esses rendeiros
eram protegidos pelo rei, pelos nobres e pelos chefes da Igreja Anglicana, que estavam todos
ligados à agricultura, também, e em nada queriam alterar a situação vigente. Os monopólios concedidos
pelo rei a alguns grandes capitalistas, e os privilégios ("herdados" da Idade Média) que tinham as
corporações na produção de artigos artesanais nas cidades constituíam outros motivos de insatisfação
para a burguesia.
Empobrecidos pela concorrência burguesa na agricultura, os nobres viram sua riqueza diminuir
ainda mais com a inflação (que enriquecia os burgueses); agarraram-se então às rendas do Estado,
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controlando a administração. Os burgueses, por seu lado, controlavam o poder local e elegiam seus
C
representantes para o Parlamento. E
Ao pretender aumentar os impostos pagos pela burguesia para manter os nobres (seu einstrumento
contra a ascensão burguesa, que ameaçava o poder real), o rei entrou em choque com o Parlamento,
que se considerava o único com direito a legislar sobre essa matéria.
Rei e burgueses opuseram-se também por questões religiosas. O puritanismo tinha numerosos
adeptos na burguesia, pois pregava o trabalho e a poupança, tão ao gosto dessa classe social. O
rei, para quem o c o n t r o l e d a I g r e j a e r a u m instrumento indispensável do poder, protegia
a Igreja Anglicana e perseguia os que at acavam a r eligião oficial. Os conflitos religiosos entre
puritanos e anglicanos foram, desse modo, a expressão de uma luta mais importante: o choque entre
burguesia e realeza. A prova é que o primeiro movimento revolucionário pelo controle do poder na
Inglaterra foi chamado de revolução puritana.

Revolução Puritana
A luta entre o Parlamento e o rei começou em 1628, quando o Parlamento impôs a Carlos I a "Petição
dos Direitos", pela qual problemas relativos a impostos, prisões, julgamentos e convocações do exército
não poderiam ser executados sem a autorização parlamentar. Carlos I disse que aceitava a imposição,
mas não a cumpriu. Quando a reunião parlamentar do ano seguinte condenou sua política religiosa e o
aumento dos impostos, o rei dissolveu o Parlamento e governou sem ele durante onze anos. As decisões
que tomou durante esse tempo provocaram protestos em toda a Inglaterra.
A revolta começou na Escócia, por causa da tentativa de imposição do anglicanismo aos puritanos e
presbiterianos, e logo espraiou-se. Os rebeldes, que se negaram a pagar os novos impostos instituídos
por Carlos I, foram condenados pelos tribunais reais, em 1639 e 1640.
Em 1640, os problemas financeiros obrigaram o rei a convocar o Parlamento; este só funcionou du-
rante um mês, pois foi dissolvido ao negar-se a aumentar os impostos, como queria Carlos I. Ainda nesse
mesmo ano foi reunido um novo Parlamento, que, durante os dezoito meses nos quais trabalhou, transfor-
mou a administração da Inglaterra, perseguiu ministros do rei e passou a controlar a convocação do
exército e a política religiosa.
Em 1641, a eclosão de uma revolta separatista na Irlanda forçou a organização de um exército, cujo
comando foi negado ao rei. Tornou-se, então, obrigatória a reunião do Parlamento pelo menos a cada
três anos, e o rei perdeu o direito de dissolvê-lo.
Ainda em 1641, porém, o Parlamento dividiu-se entre alguns líderes radicais (que queriam desapropriar
as terras dos senhores religiosos) e a aristocracia unida aos burgueses capitalistas conservadores (que
se sentiram ameaçados pelo povo e voltaram-se para o rei, "encarnação" da ordem e da segurança).
Aproveitando-se disso, Carlos I tentou recuperar seu poder, indo contra as medidas parlamentares.
Começou então a guerra civil, no início de 1642.
O comando do exército parlamentarista foi dado a Cromwell, que revolucionou a organização militar
da época, tornando-a muito mais eficiente. A ascensão aos postos começou a ser feita por merecimento,
e não por nascimento, como antes. O povo pôde participar da revolução, pois foi organizado em grupos
para discutir os problemas mais importantes. Embora precisasse dele na sua luta contra o rei, a burguesia
começou a temê-lo, vendo que o povo começava a influir no curso dos acontecimentos.
O exército de Cromwell foi influenciado durante algum tempo pelas ideias democráticas de certos
grupos artesãos, os "niveladores", que não conseguiram, no entanto, convencê-lo de suas ideias radicais.
A sua luta pelo poder favoreceu o aparecimento dos "escavadores", proletários urbanos e rurais que não
possuíam terras. Em 1649, quando se apossaram de terras no condado de Surrey e começaram a escavá-
las, para demonstrar que elas lhes pertenciam, foram dizimados pelos soldados da República. O mesmo
movimento surgiu em outras regiões da Inglaterra, mas em todas elas foi reprimido.
Muito disciplinado, o exército de Cromwell acabou por tornar-se uma força política poderosa: ocupou
cidades; pôs em fuga líderes do Parlamento e assumiu o controle da situação; destituiu a Câmara dos
Lordes; aprisionou e depois mandou decapitar em praça pública o rei. A guerra civil culminou com a
implantação da República, em 1649.

Commonwealth
Com a República, começou a segunda fase da Revolução Puritana, a Commonwealth. Em poucos
anos, Cromwell venceu Carlos II (filho de Carlos I) e dominou todo o Império Britânico. O "Ato de
Navegação", baixado em 1651 (os produtos importados pela Inglaterra só podiam ser transportados por
navios britânicos ou pertencentes aos países produtores), provocou a luta com os Países Baixos, cujo
comércio se baseava no transporte de mercadorias. Esse ato permitiu que fosse estabelecida a su-
premacia inglesa nos mares.
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Cromwell governou com intolerância e rigidez, impondo a todos as suas ideias puritanas. Quando, em
1653, o Parlamento tentou limitar seu poder, Cromwell dissolveu-o e fez-se proclamar "Protetor" da
Inglaterra, Escócia e Irlanda. A partir daí governou com plenos poderes, até a sua morte, em 1658.
Sucedeu-o seu filho Ricardo, que, não tendo as qualidades do pai, foi considerado incapaz e destituído
do poder, em 1659. Os burgueses desejavam a segurança, e os irlandeses e escoceses, a volta da
realeza. O Parlamento procurou então Carlos II, que estava refugiado na Holanda. Ao ser restaurado no
poder, em 1660, Carlos II prometeu a anistia geral, a tolerância religiosa e o pagamento ao exército.
Embora tudo parecesse continuar como antes, o Estado tinha sido reorganizado em outras bases: o rei
era agora uma espécie de funcionário da nação, a Igreja Anglicana deixou de ser um instrumento do
poder real, e a burguesia já estava bem mais poderosa que a nobreza.

Revolução Gloriosa

Sentindo-se totalmente limitado pelo Parlamento (que legislava sobre as finanças, a religião e as
questões militares), Carlos II uniu-se secretamente a Luís XIV da França, rei católico e absolutista, o que
o tornou suspeito ao Parlamento. Desse momento em diante, o rei não pôde mais interferir na política
europeia sem o consentimento parlamentar.
Seu irmão e sucessor, Jaime II, era católico e amigo da França. Como tomasse várias medidas a favor
dos católicos, o Parlamento revoltou-se e chamou Maria Stuart e seu marido, Guilherme de Orange, dos
Países Baixos, para assumir o governo em lugar do rei, que fugiu para a França.
Guilherme só foi proclamado rei (com o nome de Guilherme III) depois de ter aceito a Declaração de
Direitos (Bill of Rights), que limitava muito a sua liberdade e dava ainda mais poder ao Parlamento: o rei
não podia cancelar as leis parlamentares e o próprio trono podia ser dado pelo Parlamento a quem lhe
aprouvesse, após a morte do rei em função; as reuniões parlamentares e as eleições seriam regulares; o
orçamento anual seria votado pelo Parlamento; inspetores controlariam as contas reais; os católicos
foram afastados da sucessão; a manutenção de um exército permanente em tempo de paz foi
considerada ilegal. Todas as decisões começaram a ser tomadas pelos ministros, sob a autoridade do
lorde tesoureiro. O Tesouro passou a ser dirigido por funcionários que, na época das guerras, orientavam
a política interna e externa. Em 1694, foi criado o Banco da Inglaterra, para emprestar dinheiro ao Tesouro
e aconselhar seus funcionários.
Ficou assim organizado o tripé do desenvolvimento do capitalismo inglês, montado pela burguesia: o
Parlamento, o Tesouro e o Banco da Inglaterra. Encerra-se, sem derramamento de sangue, a Revolução
Gloriosa, que marcou a ascensão da burguesia ao controle total do Estado. Nesse sentido, ela pode ser
considerada o complemento da Revolução Puritana.
Uma vez estabelecida no poder, a burguesia fez com que fossem retirados os obstáculos à sua
expansão: a terra foi liberada para os comerciantes e completou-se a expulsão dos rendeiros. O
desenvolvimento da Inglaterra, depois disso, foi enorme.
Questões.42
01. (MACK) O período em que Oliver Cromwell dirigiu a Inglaterra, decretando, entre outros, o Ato de
Navegação que consolidou a marinha inglesa em detrimento da holandesa, ficou conhecido como:
(A) Monarquia Absolutista
(B) Monarquia Constitucional
(C) Restauração Stuart
(D) República Puritana
(E) Revolução Gloriosa

02. A morte de Cromwell, em 1658, desencadeou uma nova onda revolucionária na Inglaterra, pois
seu filho e sucessor, Richard, não conseguiu ter a mesma força política do pai. A situação na Inglaterra
só se estabilizou em 1688, com a chamada:
(A) Revolução Anarquista.
(B) Reforma Anglicana
(C) Revolução dos Navegadores
(D) Revolução Gloriosa
(E) Revolução Industrial

42
FERNANDES, Cláudio. Exercícios sobre Cromwell e a Revolução Puritana Inglesa. Mundo Educação. https://bit.ly/2OEf9FO.

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03. (UERJ) “O rei é vencido e preso. O Parlamento tenta negociar com ele, dispondo-se a sacrificar o
Exército. A intransigência de Carlos, a radicalização do Exército, a inépcia do Parlamento somam-se para
impedir essa saída "moderada"; o rei foge do cativeiro, afinal, e uma nova guerra civil termina com a sua
prisão pela segunda vez. O resultado será uma solução, por assim dizer, moderadamente radical (1649):
os presbiterianos são excluídos do Parlamento, a câmara dos lordes é extinta, o rei decapitado por traição
ao seu povo após um julgamento solene sem precedentes, proclamada a república; mas essas bandeiras
radicais são tomadas por generais independentes, Cromwell à testa, que as esvaziam de seu conteúdo
social.” (RENATO JANINE RIBEIRO. In: HILL, Christopher. "O mundo de ponta-cabeça: ideias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640". São Paulo:
companhia das letras, 1987).
O texto faz menção a um dos acontecimentos mais importantes da Europa no século XVII: a Revolução
Puritana (1642-1649). A partir daquele acontecimento, a Inglaterra viveu uma breve experiência
republicana, sob a liderança de Oliver Cromwell. Dentre suas realizações mais importantes, destaca-se
a decretação do primeiro Ato de Navegação. A determinação do Ato de Navegação consistia em:
(A) não permitir que nenhuma matéria-prima de origem asiática entrasse na Inglaterra.
(B) não permitir que nenhuma embarcação estrangeira atracasse no litoral inglês;
(C) permitir que os portos ingleses fossem usados livremente por outras nações;
(D) permitir que os holandeses usufruíssem da frota marítima inglesa.
(E) não permitir que as frotas marítimas inglesas trafegassem fora dos mares do norte.

Gabarito

01.D / 02.D / 03.B

Gabarito

01. Resposta D
Oliver Cromwell foi o responsável pela implementação da República Puritana em meios às ondas
sucessivas de revoluções que mudaram a Inglaterra no início da modernidade.

02. Resposta D
A chamada Revolução Gloriosa completou o processo revolucionário desencadeado na Inglaterra. A
solução encontrada foi o modelo da Monarquia Parlamentarista, no qual há a representação simbólica do
monarca, porém as decisões políticas efetivas são tomadas pelo parlamento, que tem como
representante periódico um Primeiro-Ministro.

03. Resposta B
A política dos Atos de Navegação proibia que os portos ingleses fossem usados por navios de outras
nações, exceto quando estes transportavam matéria-prima inglesa. A importância dessa lei para a
economia inglesa foi enorme, pois, a longo prazo, forneceu os meios e estrutura básica para o
desenvolvimento industrial desse país.

REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

A revolução industrial é um dos momentos de maior importância e influência sobre o modo de vida das
sociedades atuais. Ela marca a passagem e as transformações sociais ocorridas primeiramente na
Europa e que posteriormente se espalharam pelo restante do mundo.
A passagem da sociedade rural para a sociedade urbana, a transformação do trabalho artesanal e
manufatureiro para o trabalho assalariado e a organização fabril foram algumas dessas transformações.
A Revolução Industrial normalmente é dividida em três fases:
A Primeira Fase que vai de 1760 a 1850, predominantemente na Inglaterra, quando surgiram as
primeiras maquinas a vapor;
A Segunda Fase que vai de 1830 a 1900 e marca a difusão da revolução por países europeus como
Bélgica, França, Alemanha e Itália, além dos Estados Unidos e Japão. Durante esse período surgem
formas alternativas de energia, como a hidrelétrica e motores de combustão interna, movidos a gasolina
e diesel.
E por fim, a Terceira Fase que começa em 1900, caracterizada pela inovação nas comunicações e do
aumento da produção em massa.

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O que é Industrialização?

A industrialização pode ser entendida como a transformação de matérias-primas para serem


consumidas e utilizadas pelo ser humano.
A transformação de matérias-primas em produtos por meio de da utilização de maquinas é conhecida
como maquinofatura, enquanto a transformação manual é conhecida como manufatura.
Existe também uma outra categoria de transformação, o artesanato, em que o processo de produção
é efetuado por uma única pessoa do início ao fim.

* Cuidado ao diferenciar o artesanato, manufatura e maquinofatura.


O artesanato condiz a técnica do trabalho manual não industrializado, no qual é realizado elo artesão,
e que escapa à produção em série. A manufatura é um estágio mais avançado, em que numerosos
trabalhadores se reúnem para a realização de um mesmo objetivo, possuem funções definidas e são
coordenados por um chefe que gerencia a produção.
Por sua vez, maquinofatura se caracteriza pelo uso de ferramentas e máquinas que são utilizadas no
processo de produção.

Como tudo começou?


Para entender a Revolução Industrial é preciso entender as mudanças ocorridas na Inglaterra a partir
do século XVIII e o restante da Europa no século XIX.
Um dos fatores que colaborou com a Revolução Industrial foi a melhoria de condições de higiene e
alimentação, garantindo uma maior longevidade, que aumentava o consumo de produtos e também
disponibilizava mão-de-obra para o trabalho na indústria.
As revoluções inglesas que ocorreram no século XVIII colocaram o poder político da Inglaterra nas
mãos da burguesia capitalista. Seu interesse no desenvolvimento econômico colaborou para a
organização do sistema de circulação de mercadorias através da abertura de canais, estradas, portos e
comercio exterior. Os impostos (cobrança e aplicação) foram organizados no mesmo período.
A ascensão da burguesia ao poder colaborou para o processo de cercamento de terras baldias e terras
de uso comum, o que extinguiu os yeomen43, que formavam uma classe de pequenos proprietários e
trabalhadores rurais que sobreviviam do cultivo de terras arrendadas e da utilização das áreas comuns.
Com as terras que eram utilizadas pelos yeomen confiscadas pelo governo, muitos trabalhadores
rurais acabaram migrando para as cidades em busca sobrevivência, tornando-se empregados nas
manufaturas.
A religião teve um importante papel para a mentalidade e economia na Inglaterra. O Puritanismo é
uma concepção da fé cristã que surgiu na Inglaterra, criada por grupos protestantes radicais após as
reformas que ocorreram no país. Inspirados pelo calvinismo, tinham a crença da acumulação, poupança
e enriquecimento, que eram vistos como demonstrativos da salvação.
Além disso, durante muito tempo, os ingleses desenvolveram seu comércio e sua agricultura. O
comercio foi expandido em escala mundial, criando um grande mercado que pudesse comprar seus
produtos e absorver sua produção de produtos industrializados, em especial o algodão.
Ele mostrou-se uma alternativa mais atraente para os comerciantes ingleses, devido à sua abundancia
de produção nas colônias britânicas no Oriente e nos Estados Unidos, que ainda pertenciam à Inglaterra.
Como não havia regulamentação sobre o comercio do algodão e a mão-de-obra disponível juntamente
com a matéria-prima era extremamente atraente, do ponto de vista econômico, os esforços empresariais
concentraram-se nessa área.
Toda essa rede de comercio e produção garantiu para a Inglaterra grande acumulo de capital, ou seja,
os recursos necessários para investir e aumentar a produção industrial.
Esse capital, junto de outros fatores ajudaram a Inglaterra a destacar-se como pioneira na Revolução
Industrial com o aluguel de terras produtivas, o lucro obtido na venda de matérias primas e a elevação
constante de preços, que garantiam uma grande margem de lucro para os comerciantes.
Com uma grande quantidade de capital disponível era possível fazer empréstimos que possuíam juros
baixos, o que permitia fazer investimentos a longo prazo, em produtos e maquinas que levavam um longo
tempo para garantir retorno e compensação financeira.
A Inglaterra possuía além dos fatores econômicos e sociais necessários para a criação de industrias,
elementos minerais que eram utilizados na construção das máquinas, como o ferro e o carvão.
A existência de ferro e carvão no país colaboraram para as invenções que ajudaram a mudar a
indústria. A criação de mecanismos que aumentavam determinada etapa da produção obrigava outros

43
classe de homens que possuem pequenas e médias terras.

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setores a buscar alternativas para acompanhar o ritmo de produção, transformando-se em um ciclo de
desenvolvimento industrial, gerados através da busca pela produção.

Industrialização e o Trabalho

Para suprir a grande produção e atender o mercado consumidor, as fabricas precisavam de mão-de-
obra para operar a produção. Se antes os trabalhadores, principalmente artesãos, trabalhavam em suas
casas, agora o trabalho era concentrado no ambiente das fabricas.
Para conseguir lucros as fabricas precisavam produzir em larga escala, o que barateava a produção,
pois não fazia sentido a utilização de recursos imensos como maquinas a vapor e represamento de rios
para a utilização de energia hidráulica com o intuito de produzir pouco.
Outra grande mudança para os trabalhadores era a relação entre o tempo e o trabalho. Para produzir
com eficiência as fabricas precisavam organizar seus funcionários, seja em turnos ou escalas, para que
garantam que a produção nunca pare ou caia, o que ajudava a maximizar os lucros e evitar prejuízos, e
é aí que entra o conceito de tempo.
Até o período anterior à revolução industrial era comum que pessoas trabalhassem sem horários ou
dias fixos, normalmente eles o faziam (trabalhavam) até obter o necessário para os gastos da semana ou
pelo período desejado.
Com o trabalho concentrado nas fabricas e com a necessidade de se manter a produção, era essencial
que os trabalhadores cumprissem horários determinados de entrada e saída em seus postos de serviço.
Foi nesse período que o relógio se popularizou, já que era necessário para garantir a rotina imposta pelas
fábricas.
Com a introdução da maquinofatura outro importante aspecto ganha forma: a separação entre
trabalhador e meio de produção.

Se antes da Revolução Industrial um fabricante de tecidos utilizava seus equipamentos, como a roca
de fiar, agora ele dependia de equipamentos sofisticados para tornar seus produtos competitivos. Os
preços desses equipamentos normalmente atingiam valores altos, que poucas pessoas poderiam pagar.
Anteriormente um artesão era capaz de produzir com suas próprias ferramentas, agora com o trabalho
nas indústrias e com o custo dos equipamentos, o trabalhador dependia dos meios de produção, no
entanto, não os possuía, assim a pessoa acabava se tornando funcionário de uma empresa, e a partir daí
utilizava os seus meios de produção.
Com essa mudança a sociedade divide-se em duas categorias:

- Quem possuía os meios de produção, capital, matéria prima e equipamentos – uma pequena minoria;
- E as pessoas que vendiam sua força e capacidade de trabalho para o primeiro grupo em troca de um
salário.

As mudanças que ocorreram no século XVIII não agradaram a todos. Muitos artesãos e trabalhadores
ficaram insatisfeitos com as rotinas de trabalho de impostas. Era comum existirem jornadas de trabalho
de 14 a 16 horas diárias em condições extremamente desfavoráveis e arriscadas, como o barulho
incessante de maquinas e o trabalho repetitivo a que se sujeitavam para receber baixos salários.
A situação era ainda mais complicada no caso de mulheres e crianças, que recebiam uma quantia
menor, independentemente do nível de trabalho executado em relação aos homens.
Com a grande leva de camponeses que buscavam oportunidades nos centros industriais, a
concorrência por empregos aumentava. Com isso os donos de fabricas davam preferência para a mão-
de-obra barata e abundante que vinha do campo.
A concentração em grandes centros também prejudicava aqueles com pouco poder aquisitivo. Nas
regiões industrializadas a população crescia em ritmo acelerado, chegando a cidade a possuir mais de 1
milhão de habitantes antes do século XIX.
O crescimento da população nem sempre era acompanhado pela oferta de moradia, o que gerava
alugueis com altos preços e aglomeração de pessoas em pequenos espaços, muitas vezes abrigando
diversas famílias.
O próprio país sofreu mudanças em sua paisagem. Nesse período a Inglaterra dividia-se em dois
contextos: a Inglaterra Negra, que era dominada por industrias, instaladas principalmente onde havia
disponibilidade de carvão, em geral no norte e oeste do país, e a Inglaterra Verde no sul e sudeste, que
era responsável pela agricultura e pastoreio.

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Movimentos Organizados
As dificuldades enfrentadas levaram à criação de movimentos organizados de trabalhadores que
reivindicavam melhores condições de remuneração e segurança no trabalho.
Entre os movimentos de reinvindicação que ocorreram no século XVIII, o Ludismo possui destaque.
Os ludistas eram contra a industrialização da produção e mecanização do trabalho e ficaram famosos
por quebrarem maquinas em indústrias têxteis. Seus membros acreditavam que as maquinas tiravam o
trabalho das pessoas e que era necessário acabar com elas para garantir empregos para a população.
Apesar do movimento ludista ter durado pouco tempo (entre 1811 e 1812) ele teve uma grande
repercussão e serviu de inspiração para movimentos posteriores. Entre os atos mais notáveis de seus
participantes está a invasão noturna na manufatura de William Cartwright que ficava no condado de York,
em abril de 1812.
Como consequência, 64 pessoas foram acusadas de participar da invasão e julgadas um ano depois.
Dentre as penas sofridas, 13 pessoas foram condenadas à pena de morte, sob o crime de atentado contra
a manufatura de Cartwright e duas pessoas foram deportadas para as colônias britânicas.
O termo Ludismo ainda hoje é utilizado para referir-se a pessoas que são contra o desenvolvimento
tecnológico e industrial. Seu nome deriva do nome de um operário chamado Ned Ludd, que supostamente
teria quebrado as maquinas de seu patrão. A história serviu de inspiração para que outras pessoas
aderissem a essa ideia.
Um segundo movimento importante foi o Cartismo, que ocorreu nas décadas de 1830 e 1840 na
Inglaterra. Sua origem vem da carta escrita pelo radical William Lovett, que ficou conhecida como Carta
do Povo, documento que continha as reivindicações do grupo.
Suas exigências eram:
- Voto universal;
- Igualdade entre os distritos eleitorais;
- Voto secreto por meio de cédula;
- Eleição anual;
- Pagamento aos membros do Parlamento;
- Abolição da qualificação segundo as posses para a participação no Parlamento;

O movimento cartista buscava melhorias nas condições dos operários, que mesmo após quase cem
anos do início da Revolução Industrial ainda eram péssimas. Possuiu uma grande adesão da população
e foi considerado o primeiro grande movimento tanto de classe como de caráter nacional que lutava contra
a condição social na Grã-Bretanha.
A intenção era de que a Carta do Povo fosse aprovada pelo parlamento inglês, de maneira a garantir
os direitos reivindicados. O parlamento não só rejeitou a carta como perseguiu os líderes e simpatizantes
do movimento, com a intenção de acabar com sua influência.
Apesar dos esforços do parlamento, o movimento exerceu grande influência no operariado, tanto inglês
como internacional e conseguiu convocar em 1848 uma grande mobilização que estimava reunir 500 mil
trabalhadores e pressionar o parlamento. A mobilização fracassou, porém, diversas leis trabalhistas foram
criadas para beneficiar os trabalhadores.

As Trade Unions
Como maneira de conseguir melhores condições de trabalho, muitos trabalhadores partiram para a
formação de associações e para lutar por seus direitos.
Em várias partes da Inglaterra, em especial nas cidades com grande concentração de indústrias como
Lancashire, Yorkshire e Manchester, diversas sociedades de trabalhadores (conhecidas como Trade
Unions) começam a aparecer com o objetivo de promover ajuda mútua entre os trabalhadores.
Por sua vez, os patrões ficaram atentos ao movimento dos trabalhadores e também se organizaram
para conter as revoltas. As greves, uma das formas de protesto mais prejudiciais para a indústria até hoje,
foram amplamente utilizadas.
Com trabalhadores paralisados em manifestações e protestos, as maquinas paravam e, portanto, não
produziam, o que afetava os lucros.
De olho em formas de conter tanto greves como associações, os empresários e patrões tiveram que
recorrer à influência que possuíam no governo da Inglaterra. Em 1799 uma lei foi criada para proibir as
associações de trabalhadores, que foi derrubada pela forte oposição que eles conseguiram fazer.
Além de leis, também era utilizada a violência para conter o aumento dessas associações. Apesar da
grande disputa entre os dois lados, em 1824 as leis que proibiam a formação de associações foram
revogadas.

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Outros Países na Disputa
Durante muitos anos, a Revolução Industrial ocorreu praticamente apenas na Inglaterra, que fez o
possível para manter as maquinas e técnicas de produção em seu território. Apesar de toda a legislação
e proibições, muitos fabricantes tinham interesse em expandir seus negócios.
Em 1807 William Cockrill criou fabricas para a produção de tecidos na Bélgica, que se desenvolveram
com bastante eficiência, já que além do interesse também haviam ferro e carvão disponíveis em
quantidades satisfatórias.
A França passava por um período turbulento na época, com o fim da Revolução Francesa. Além disso
havia uma tradição da pequena indústria no país juntamente com a produção de artigos de luxo. Somente
após 1848 a indústria começa a desenvolver-se timidamente e com uma política protecionista de
mercado, ou seja, com o impedimento de importações e o incentivo de exportação de produtos franceses.
E tanto Itália como Alemanha começam a desenvolver suas industrias após 1870, quando os países
terminam seus processos de unificação.
Além da Europa, os Estados Unidos foram o único país a desenvolver com êxito a Revolução Industrial,
com uma grande produção de artigos manufaturados no fim do século XIX.

Segunda Revolução Industrial

No final do século XIX novas tecnologias propiciaram o que ficou conhecido como Segunda
Revolução Industrial ou Revolução Techno-científica. A produção agora não estava restrita somente
a tecidos e produtos do gênero. Através do investimento em pesquisa e produção em outras áreas, além
da descoberta de novas fontes de energia e transporte, o leque industrial ampliou-se.
No setor energético duas mudanças foram significativas: a utilização de produtos derivados do
petróleo e a energia elétrica.
Edwin Drake perfurou o primeiro poço de petróleo em 1859, no estado da Pensilvânia. A técnica
utilizada por Drake foi desenvolvida a partir das técnicas de exploração das minas de sal. A descoberta
de uma maneira viável de extrair o petróleo ajudou a expandir sua utilização em vários setores industriais.
O dínamo industrial também foi um passo muito importante e marcou a passagem da utilização do
carvão para a energia elétrica, que se mostrava mais barata e eficiente. O dínamo é um aparelho que
gera corrente contínua, convertendo energia mecânica em eléctrica, através de indução eletromagnética.
A descoberta de novas técnicas para a produção de aço, como o processo de Bessemer44 na Inglaterra
possibilitou a criação de maquinas mais resistentes. A indústria química também se desenvolveu e
possibilitou a criação de novos ramos de produção como tintas, corantes, fertilizantes e munições.
Os transportes se desenvolveram em grande escala com a invenção e aprimoramento de maquinas a
vapor, com destaque para a locomotiva criada na Inglaterra em 1814, e do navio a vapor em 1805 nos
Estados Unidos.
A criação de meios de transporte mais rápidos e eficientes possibilitou uma melhor movimentação no
transporte de cargas e produtos, deixando de depender de condições climáticas e naturais. Um exemplo
são os trilhos da locomotiva que estavam sempre no mesmo lugar e evitavam que ela atolasse ou tivesse
que parar durante a viagem. Os navios também não dependiam mais da força dos ventos para navegar.
Outras invenções que revolucionaram o setor de transportes foram o avião, no início do século XX e
motor de combustão interna, que popularizou a utilização do automóvel como meio de transporte.
As comunicações passaram por grandes mudanças durante o período, e permitiram o contato entre
duas pessoas a uma longa distância através de mensagens em tempo real. Em 1837 Samuel Morse
inventou o telégrafo nos Estados Unidos e ao longo do século XIX a colocação de cabos submarinos
permitiram a ligação telegráfica entre os Estados Unidos e a Europa.
O trabalho também passou por diversas mudanças que buscavam aumentar a eficiência e os lucros
das empresas através da organização da produção. O fordismo e o taylorismo foram as duas principais
ideias adotadas.
O Fordismo tem como características: produção em série e a introdução de linhas de produção
mecanizadas. É famosa a frase de seu idealizador Henry Ford quando se referia ao seu famoso
automóvel, o Ford T: “Quanto ao meu automóvel, as pessoas podem tê-lo em qualquer cor, desde que
seja preta!”. Acontece que, para a Linha de Produção Fordista, a cor preta é a que secava mais rápido.
No Taylorismo existe o controle da produtividade dos operários através da análise técnica de seus
gestos e movimentos diante das maquinas.

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primeiro processo industrial de baixo custo para a produção em massa de aço a partir de ferro gusa fundido.

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Lado Financeiro
As grandes inovações e novas invenções que surgiam quase diariamente tornavam cada vez mais
difícil os investimentos feitos por uma única pessoa. Nesse contexto os bancos ganham muito destaque,
lucrando através de empréstimos e de ações de empresas na bolsa de valores.
Você sabe como funciona a bolsa de valores?

A bolsa de valores é o mercado organizado onde se negociam ações de sociedades de capital aberto
(públicas ou privadas) e outros valores mobiliários45.
Tudo começa quando uma empresa decide lançar ações ao público. Essa iniciativa é conhecida
como abrir o capital. Com o capital aberto, novos acionistas são atraídos e injetam dinheiro nessa
empresa. Em caso de lucro, todos ganham. Se houver prejuízo, as perdas também são divididas
proporcionalmente.
Para participar das apostas na bolsa, a companhia precisa credenciar-se em uma corretora de
valores. Essas instituições estão por trás de todas as negociações, fazendo as transações para quem
quer investir em ações e mantendo a bolsa financeiramente.

Neste período as práticas monopolistas também se intensificaram. As consequências foram o acumulo


de capital nas mãos de poucos grupos ou pessoas. Assim surge o que ficou conhecido como capitalismo
financeiro ou monopolista.
O monopólio é a pratica de dominação do mercado através do controle de um determinado produto.
Além do monopólio outras práticas surgiram e se fortaleceram:

- Cartel: o cartel é um acordo entre empresas independentes com a finalidade de criar uma ação
coordenada para o estabelecimento de preços. Atualmente no Brasil a prática de cartel é considerada
uma atividade criminosa. Como exemplo é possível citar os carteis em redes de postos de combustível46.
- Dumping: o dumping é a pratica da venda de produtos a um preço artificialmente baixo, para eliminar
a concorrência e voltar a praticar preços mais altos.
- Holding: o holding é a pratica de uma empresa controlar as ações de diversas outras empresas.
- Sociedades anônimas: são um tipo de sociedade em que o capital é dividido em ações que podem
ser livremente negociáveis.
- Truste: é a fusão de empresas que visam obter controle sobre alguma atividade econômica.

Terceira Revolução Industrial

A Terceira Revolução Industrial ocorre após o termino da Segunda Guerra Mundial, em meados de
1940. Sua principal característica é o uso de tecnologias avanças para a produção industrial e teve como
líder os Estados Unidos.
As fontes de energia passam a ter importância ainda maior e é nesse período começam as buscas por
fontes alternativas como a energia nuclear e a eólica. O desenvolvimento tecnológico nesse período é
importante não apenas na busca de novas fontes de energia, mas na produção em si.
Uma grande mudança proporcionada pela tecnologia é a disputa com a mão-de-obra humana. Linhas
de produção passaram a dispensar trabalhadores e substitui-los por maquinas que conseguem fazer o
serviço com mais rapidez e precisão, o que abriu ainda mais o leque de industrias, com destaque para a
Biotecnologia e a Nanotecnologia.
No cenário mundial surgiram outras potências tecnológicas como a Alemanha, o Japão e a China. A
globalização é um fenômeno bem característico do período, com a produção de produtos com peças que
são fabricados em diversas partes do mundo.
Com o grande investimento e desenvolvimento da tecnologia, ela passa a ser cada vez mais acessível
para as pessoas, o que revolucionou novamente os meios de comunicação com a produção em massa e
de baixo custo de telefones celulares, computadores pessoais, notebooks, tablets e smartfones.

Questões

01. (TRT/15ª Região – Analista Judiciário – FCC/2018) Uma diferença importante entre a Terceira
Revolução Industrial e as duas primeiras ocorridas anteriormente reside na constatação de que o produto
final, no caso da Terceira Revolução Industrial,

45
https://www.osmelhoresinvestimentos.com.br/bolsa-de-valores/como-funciona-bolsa-valores/
46
http://www.cade.gov.br/servicos/perguntas-frequentes/perguntas-sobre-infracoes-a-ordem-economica

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(A) tem elevado valor agregado, considerando-se os altos custos e investimentos em seu processo de
produção.
(B) produz impacto reduzido na sociedade, uma vez que permanecem inalterados os hábitos e padrões
de consumo.
(C) gera distribuição de riqueza, uma vez que promove a participação de pequenos produtores no
processo industrial.
(D) causa poucos danos ao meio ambiente, uma vez que os materiais envolvidos são recicláveis e
gasta-se pouca energia em sua fabricação.
(E) favorece a autonomia do trabalhador, uma vez que independe da lógica de produção industrial e
em série.

02. (IF/TO – Professor – IF/TO - 2019) A Revolução Industrial inaugurou um ciclo de inovações
tecnológicas que permeiam as atividades humanas desde o século XVIII. O uso disseminado das
máquinas, advindas dessas inovações, modificou as relações de trabalho, como satirizado na charge
seguinte, ampliou a produção e a produtividade, impulsionou a urbanização e assim reestruturou a
organização do espaço no mundo.

Analise as alternativas seguintes sobre a Revolução Industrial, suas fases e os reflexos econômicos e
sociais no espaço mundial e brasileiro e assinale a correta:
(A) Como estratégia para promover o crescimento econômico e o desenvolvimento industrial, a Grã-
Bretanha, nos primórdios da Revolução Industrial, adotou uma postura protecionista, executando medidas
tanto para impedir transferência de tecnologia para os principais concorrentes, como reduzindo ou
abolindo as tarifas alfandegárias de importação de matérias-primas importantes para sua atividade
industrial, além de conceder subsídios para a exportação de seus produtos industriais. Essa política de
fomento de sua atividade industrial durou até meados do século XIX.
(B) A 2ª Revolução Industrial, iniciada em meados do século XIX, também denominada de Revolução
Técnico-Cientifico-Informacional, ampliou a industrialização para além do continente europeu, abarcando
o continente americano como um todo e parte do continente asiático.
(C) Os fatores locacionais para a instalação de unidades industriais configuram-se como vantagens
competitivas de um lugar em detrimento de outro. Para as indústrias de alta tecnologia, os fatores
locacionais mais importantes são, em ordem decrescente: amplo mercado consumidor, incentivos fiscais,
disponibilidade de matéria-prima e mão de obra altamente qualificada.
(D) A importância alcançada pelas empresas transnacionais no mercado global possibilitou a
descentralização industrial e, por meio da fragmentação do processo produtivo, favoreceu o
desenvolvimento industrial de países não industrializados como o Brasil e a Rússia. Nestes países, desde
o início de seu desenvolvimento industrial, o consumo foi ampliado por meio da obsolescência
programada.
(E) Na 1ª Revolução Industrial a exploração dos trabalhadores foi intensa. Cargas horárias de trabalho
excessivas, poucos ou nenhum direito trabalhista, baixas remunerações e condições insalubres de
trabalho foram e são enfrentadas por todos os trabalhadores do setor secundário até a atualidade nas
economias emergentes.

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03. (SEDUC/AL – Professor – CESPE/2018) Determinadas transformações do sistema capitalista
mundial resultam da revolução tecnológica das últimas décadas do século XX e do início do século XXI.
A esse respeito, julgue o item subsequente.
A revolução tecnológica da Terceira Revolução Industrial aumentou a produtividade sem descentralizar
o capital das grandes empresas.
(A) Certo
(B) Errado

04. (Instituto Rio Branco – Diplomata – CESPE/2018) A Revolução Industrial teve início no século
XVIII e transformou econômica e socialmente boa parte do Ocidente ao longo de suas fases. Tendo essa
informação como referência inicial, julgue (C ou E) o item a seguir, que dizem respeito ao referido período
e aos seus desdobramentos.
O emprego e uso da noção e conceito de mercado, essencial ao capitalismo industrial, foi herdado do
mercantilismo. A partir da necessidade de expansão e garantia de mercados, houve a formação de
Estados territoriais e de impérios coloniais: o Imperialismo resultou da Revolução Industrial.
(A) Certo
(B) Errado

05. (Instituto Rio Branco – Diplomata – CESPE/2018) A Revolução Industrial teve início no século
XVIII e transformou econômica e socialmente boa parte do Ocidente ao longo de suas fases. Tendo essa
informação como referência inicial, julgue (C ou E) o item a seguir, que dizem respeito ao referido período
e aos seus desdobramentos.
Os cercamentos ingleses aconteceram com o objetivo de incentivar o excesso de mão de obra
necessária às fábricas na Inglaterra. Esse processo foi pacífico e contou com o apoio dos pequenos e
médios produtores, pois estes adotaram a lógica comercial vigente e se integraram à cadeia de consumo.
(A) Certo
(B) Errado

Gabarito

01.A / 02.A / 03.B / 04.A / 05.B

Comentários

01. Resposta: A
A Terceira Revolução Industrial ocorre após o termino da Segunda Guerra Mundial, em meados de
1940. Sua principal característica é o uso de tecnologias avanças para a produção industrial e teve como
líder os Estados Unidos. A utilização de tecnologias avançadas demandou altos investimentos e por
consequência produtos com valores superiores até então.

02. Resposta: A
Protecionismo é uma doutrina, uma teoria que prega um conjunto de medidas a serem tomadas no
sentido de favorecer as atividades econômicas internas, reduzindo e dificultando ao máximo, a importação
de produtos e a concorrência estrangeira. Tal teoria é utilizada por praticamente todos os países, em
maior ou menor grau, estando presente no contexto do desenvolvimento da Revolução Industrial inglesa.

03. Resposta: B
A tecnologia possibilitou o aumento da produção de forma geral, ao contrário do que ocorreu no início,
quando o capital de grandes fabricas ficou concentrado em seus núcleos. Hoje, é comum que grandes
empresas tecnológicas se estabeleçam perto de centros com mão de obra qualificada por exemplo. A
diversidade desses centros também faz com que esse capital permaneça descentralizado.

04. Resposta: A
O capitalismo comercial foi a base para o desenvolvimento do capitalismo industrial. Os Estados
territoriais e impérios coloniais foram formados e delimitados para atender aos monopólios derivados do
mercantilismo que, em decorrência da produção e a busca por mercado consumidor e matéria-prima,
resultou no imperialismo.

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05. Resposta: B
Cercamentos são o processo de exclusão dos trabalhadores de seu meio de sustento, as terras
produtivas, na transição do feudalismo para o capitalismo, mediante sua transformação em propriedade.
Como mostra a alternativa, não foi um processo pacífico nem tampouco contou com o apoio de médios e
pequenos produtores47.

REVOLUÇÃO FRANCESA E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Ao proporem a divisão quadripartite da História (Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade
Contemporânea), os historiadores do século XIX elegeram a Revolução Francesa como um dos grandes
marcos divisórios da chamada “História Geral” – baseada na concepção eurocêntrica –.
Por ter representado uma profunda mudança nos padrões de vida e da sociedade do período, o ano
de 1789 (início da Revolução) marca a divisão entre a Idade Moderna e a Idade Contemporânea.

Antecedentes da Revolução

Na França do século XVIII vigorava um sistema de governo conhecido como Absolutismo Monárquico.
Luís XVI era o rei francês no período da Revolução e sua imagem personificava o Estado, reunindo em
sua pessoa os direitos de criar leis, julgar e governar (daí a referência ao poder absoluto).
Dentro da França absolutista havia uma divisão de três grupos distintos, chamados de Estados
Gerais:
- o Primeiro Estado era representado pelos representantes do Alto Clero;
- o Segundo Estado tinha como representantes a nobreza, ou a aristocracia francesa – que
desempenhava funções militares (nobreza de espada) ou funções jurídicas (nobreza de toga);
- o Terceiro Estado era representado pela burguesia e pelos camponeses. Sozinho, ele totalizava
cerca de 97% da população.
Apesar de representar a maioria esmagadora da população, o terceiro estado possuía direitos limitados
e estava subordinado aos interesses dos dois primeiros estados.

Sua composição era bastante heterogêneo e dele faziam parte:


- Alta burguesia: banqueiros e grandes empresários;
- Média burguesia: profissionais liberais;
- Pequena burguesia: artesãos e lojistas;
- Sans-culottes: trabalhadores, aprendizes e marginalizados urbanos e cerca de 20 milhões de
camponeses, dos quais cerca de 4 milhões ainda viviam em estado de servidão feudal.

Era sobre o Terceiro Estado que pesava o ônus dos impostos e das contribuições para a manutenção
do Estado e da Corte, e mesmo sem existir uma unidade, os membros do Terceiro Estado de uma maneira
geral concordavam em reivindicações como o fim dos privilégios de nascimento e instauração da
igualdade civil.
Ao longo do século XVIII alguns fatores contribuíram para a agitação política e a insatisfação popular
verificadas no instante da revolução. A Guerra dos Sete Anos (1756-1763), travada contra a Inglaterra,
contabilizou milhares de mortos, feridos e elevadíssimos gastos e prejuízos materiais para ambos os
países, além da própria derrota sofrida pela França.
A derrota levou o país a financiar e instigar os colonos britânicos da América a buscarem autonomia,
o que resultou no processo de independência dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a Corte absolutista
francesa que possuía um alto custo de vida era financiada pelo Estado, que, por sua vez, já gastava
bastante seu orçamento com a burocracia que o mantinha em funcionamento. A esses dois fatores ainda
vale acrescentar a crise que afetou a produção agrícola francesa nas décadas de 1770 e 1780, o que
resultou em péssimas colheitas e alta da inflação.
O resultado desses fatos gerou uma crise financeira, ao passo em que o Estado terminava por
arrecadar uma quantidade inferior aos gastos anuais, com uma dívida pública que se acumulava
sobretudo pela falta de modernização econômica – principalmente a falta de investimento no setor
industrial.
O último item que deve ser levado em conta para entender o contexto da Revolução é a ascensão da
burguesia. Resultado do desenvolvimento do capitalismo comercial, essa classe social apresentava duas
tendências marcantes: ou procurava ingressar na nobreza por meio da compra de títulos, ou tentava

47
http://www.fau.usp.br/docentes/depprojeto/c_deak/CD/4verb/cercamentos/index.html

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afirmar os seus valores, impondo critérios econômicos de hierarquização social em substituição ao critério
do nascimento e da tradição, típico da sociedade estamental48.
A segunda tendência marcou a ascensão da burguesia e rompeu os quadros da sociedade do Antigo
Regime.

Cenário Político
Em meio ao caos econômico vivido na França, Luís XVI chega ao poder em 1774 enfrentando desde
o início o problema de insuficiência na arrecadação de impostos. Turgot, primeiro de seus ministros de
finanças, tenta cobrar impostos de padres e nobres. Frente a negatividade de suas ações foi obrigado a
renunciar.
Ele foi substituído por Necker, que incentivou o apoio francês à independência dos Estados Unidos
como forma de revidar o resultado da Guerra dos Sete Anos. Necker permaneceu até 1781, quando
contraiu grandes empréstimos para cobrir os gastos com o financiamento da emancipação americana e
acabou por aumentar a dívida francesa.
Calonne, seu sucessor, buscou cobrar impostos sobre as terras da nobreza e acabou substituído por
Brienne, que teve o mesmo destino. A saída de Brienne gerou uma crise ministerial, resolvida com a volta
de Necker.
Somente em 1789, durante o mandato de Necker, as autoridades reais abriram portas para o
movimento reformista. Em maio daquele ano, os Estados-gerais foram convocados para a formação de
uma assembleia que deveria mudar o conjunto de leis da França.
A Assembleia dos Estados Gerais era um órgão político de caráter consultivo e deliberativo (servia
para que o rei consultasse a opinião dos membros, além de poder tomar decisões, se o rei assim
permitisse), constituído por representantes dos três estados.
Na contagem dos representantes de cada estado, o primeiro estado contava com 291 membros, o
segundo com 270 e o terceiro estado dispunha de 578 membros votantes. Apesar da maioria absoluta, a
forma de voto da Assembleia dos Estados Gerais impedia a hegemonia dos interesses do terceiro estado.
Conforme previsto, os votos eram dados por estados, com isso a aliança de interesses entre o clero e a
nobreza impedia a aprovação de leis mais transformadoras que beneficiassem o terceiro estado.
Os Estados Gerais reuniram-se em Versalhes, em 5 de maio de 1789. O Terceiro Estado queria
votações individuais. Os outros dois insistiam em voto por Estado, tendo o apoio do rei.
O Terceiro Estado, revoltado com essa situação reuniu-se separadamente e jurou não se dispersar
enquanto o rei não aceitasse uma Constituição que limitasse seus poderes.
Por sua vez Luís XVI cedeu, mandando o clero e a nobreza juntarem-se ao Terceiro Estado, surgindo
assim a Assembleia Nacional Constituinte. O rei queria ganhar tempo, pois pretendia juntar tropas para
dispersar a Assembleia.
Ao mesmo tempo em que ocorriam essas tensões políticas, socialmente também haviam problemas.
Os produtos alimentícios começavam a faltar, surgindo revoltas nas cidades e nos campos. Os rumores
de composição aristocrática da realeza cresciam aumentando o medo do Terceiro Estado. Tudo isso junto
da reunião de tropas próximas a Paris, e a demissão de Necker, provocaram a insurreição.

Em 14 de julho de 1789 ocorre a queda da Bastilha.

A Bastilha foi construída em 1370, e era uma fortaleza utilizada pelo regime monárquico como prisão
de criminosos comuns. Na regência do Cardeal Richelieu, entre 1628 e 1642, o prédio foi transformado
em prisão de intelectuais e nobres, especialmente os opositores à monarquia, sua política ou mesmo à
religião católica, oficial no período monárquico. Apesar de ser uma prisão, na data de sua invasão a
Bastilha contava com apenas sete presos.
Para além do sentido físico de domínio do prédio, a tomada da Bastilha representou a derrota do Antigo
Regime para a revolta da população, sendo considerada a data de início da Revolução Francesa.
O rei já não tinha mais como controlar a fúria popular e tomou algumas precauções para acalmar o
povo que invadia, matava e tomava os bens da nobreza: o regime feudal sobre os camponeses foi abolido
e os privilégios tributários do clero e da nobreza acabaram.

Assembleia Nacional (1789-1791)

Após a invasão de Bastilha, a Assembleia Geral Nacional se transformou em Assembleia Constituinte,


onde os deputados elaboraram uma constituição que determinou o fim dos privilégios feudais e de
48
Sociedade Estamental é uma forma de organização social na qual a sociedade é dividida em grupos sociais separados uns dos outros por privilégios, sendo
a estratificação social garantida pelo proprio Estado.

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nascimento, a igualdade de todos perante a lei e a garantia de propriedade. Foi feito um juramento, que
deu origem ao lema da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (Déclaration des Droits de l'Homme et du
Citoyen), proclamada em 26 de agosto de 1789 determinou o fim das estruturas restantes do Antigo
Regime. Ela proclama que todos os cidadãos devem ter garantidos os direitos de “liberdade, propriedade,
segurança, e resistência à opressão”. Isto argumenta que a necessidade da lei provém do fato que “… o
exercício dos direitos naturais de cada homem tem só aquelas fronteiras que asseguram a outros
membros da sociedade o desfrutar destes mesmos direitos”. Portanto, a Declaração vê a lei como “uma
expressão da vontade geral”, que tem a intenção de promover esta igualdade de direitos e proibir “só
ações prejudiciais para a sociedade”. Sobre ela, o historiador inglês Eric Hobsbawm escreveu:
"Este documento é um manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres, mas não um
manifesto a favor de uma sociedade democrática e igualitária. Os homens nascem e vivem livres e iguais
perante as leis”, dizia seu primeiro artigo; mas ela também prevê a existência de distinções sociais, ainda
que “somente no terreno da utilidade comum”. A propriedade privada era um direito natural sagrado,
inalienável e inviolável. ”49

Segue abaixo a reprodução do texto da Declaração:


Os representantes do povo francês, reunidos em Assembleia Nacional, tendo em vista que a
ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos direitos do homem são as únicas causas dos males
públicos e da corrupção dos Governos, resolveram declarar solenemente os direitos naturais, inalienáveis
e sagrados do homem, a fim de que esta declaração, sempre presente em todos os membros do corpo
social, lhes lembre permanentemente seus direitos e seus deveres; a fim de que os atos do Poder
Legislativo e do Poder Executivo, podendo ser a qualquer momento comparados com a finalidade de toda
a instituição política, sejam por isso mais respeitados; a fim de que as reivindicações dos cidadãos,
doravante fundadas em princípios simples e incontestáveis, se dirijam sempre à conservação da
Constituição e à felicidade geral.
Em razão disto, a Assembleia Nacional reconhece e declara, na presença e sob a égide do Ser
Supremo, os seguintes direitos do homem e do cidadão:

Art.1º. Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem
fundamentar-se na utilidade comum.
Art. 2º. A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis
do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade a segurança e a resistência à opressão.
Art. 3º. O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhuma operação,
nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente.
Art. 4º. A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo. Assim, o exercício
dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros
membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela
lei.
Art. 5º. A lei não proíbe senão as ações nocivas à sociedade. Tudo que não é vedado pela lei não
pode ser obstado e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene.
Art. 6º. A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer,
pessoalmente ou através de mandatários, para a sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, seja
para proteger, seja para punir. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a
todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que
não seja a das suas virtudes e dos seus talentos.
Art. 7º. Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela lei e de
acordo com as formas por esta prescritas. Os que solicitam, expedem, executam ou mandam executar
ordens arbitrárias devem ser punidos; mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da lei deve
obedecer imediatamente, caso contrário torna-se culpado de resistência.
Art. 8º. A lei apenas deve estabelecer penas estrita e evidentemente necessárias e ninguém pode ser
punido senão por força de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada.
Art. 9º. Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se julgar indispensável
prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei.
Art. 10º. Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua
manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.

49
Eric Hobsbawm, A ERA DAS REVOULUÇÕES

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Art. 11º. A livre comunicação das ideias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem.
Todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos
desta liberdade nos termos previstos na lei.
Art. 12º. A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública. Esta força é,
pois, instituída para fruição por todos, e não para utilidade particular daqueles a quem é confiada.
Art. 13º. Para a manutenção da força pública e para as despesas de administração é indispensável
uma contribuição comum que deve ser dividida entre os cidadãos de acordo com suas possibilidades.
Art. 14º. Todos os cidadãos têm direito de verificar, por si ou pelos seus representantes, da
necessidade da contribuição pública, de consenti-la livremente, de observar o seu emprego e de lhe fixar
a repartição, a coleta, a cobrança e a duração.
Art. 15º. A sociedade tem o direito de pedir contas a todo agente público pela sua administração.
Art. 16.º A sociedade em que não esteja assegurada a garantia dos direitos nem estabelecida a
separação dos poderes não tem Constituição.
Art. 17.º Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado, a não
ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir e sob condição de justa e prévia
indenização.

Luís XVI, mesmo derrotado, se opunha aos decretos e recusava-se a ratificá-los. Tendo o rei se
recusado a sancionar estes últimos decretos, o povo de Paris (a comuna), marchou em direção ao Palácio
de Versalhes trazendo o rei para a cidade e obrigando-o a assiná-los. Se sentindo ameaçada, a nobreza
francesa fugiu para o Império Austríaco.
Em 1790, os bens do clero foram confiscados, servindo de lastro para a emissão dos assignats (papel
moeda), por intermédio da Constituição Civil do Clero.
A lei visava reorganizar em profundidade a Igreja da França, transformando os párocos em
"funcionários públicos eclesiásticos”, e serviu de base para a integração da Igreja Católica ao novo
sistema político em vigor a partir de 1789.
A Lei sobre a Constituição Civil do Clero se compunha de quatro partes, dedicadas aos cargos
eclesiásticos, o pagamento dos religiosos e outras questões práticas. As circunscrições das dioceses
foram adaptadas às novas unidades estatais dos départements, cada um destes correspondendo a um
bispado. A redistribuição reduziu o número de sedes episcopais de 139 para 83.

A Constituição francesa ficou pronta em setembro de 1791, modificando completamente a organização


social e administrativa da França. O documento concebeu uma forma de governo baseada no princípio
da separação dos poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), proposta por Montesquieu.
O poder executivo, responsável por gerir o Estado, foi confiado à monarquia, que agora deveria
obedecer aos princípios determinados na constituição, ou seja, também estava sujeita à força da lei,
conforme deixavam bem claros os artigos 3 e 4 do capítulo II:
Artigo 3. Não existe na França autoridade superior à da Lei. O Rei reina por ela e não pode exigir a
obediência senão em nome da lei.
Artigo 4. O Rei, no ato de sua elevação ao trono, ou a partir do momento em que tiver atingido a
maioridade, prestará à Nação, na presença do Corpo legislativo, o juramento de ser fiel à Nação e à Lei,
de empregar todo poder que lhe foi delegado para, manter a Constituição decretada pela Assembleia
Nacional constituinte nos anos de 1789, 1791, e de fazer executar as leis.

O poder legislativo passava a ser formado por uma assembleia, que não poderia ser violada ou
dissolvida (evitando o abuso do poder real). Ela era eleita com o uso do voto censitário, e tinha o poder
de fiscalizar os ministros, as finanças e a política estrangeira. O voto censitário era a concessão do direito
do voto apenas àqueles cidadãos que possuíam certos critérios que comprovassem uma situação
financeira satisfatória.
Na prática, a política continuava nas mãos da classe abastada, em geral dos grandes proprietários,
excluindo do processo mais de 20 milhões de franceses que não atendiam os critérios estabelecidos pelo
voto censitário.
A exclusão da maior parte da população do processo político logo tornou o novo governo impopular,
gerando também rupturas internas, que fizeram com que a Assembleia se dividisse em várias tendências:

Feuillants: monarquistas constitucionais, liderados por La Fayette e Barnave


Jacobinos: defensores da República democrática

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Girondinos: grupo de deputados convencionais, liderados por representantes da região da Gironda,
partidários da Revolução e da República, mas com posições bem mais moderadas do que os Jacobinos,
especialmente quanto ao papel das massas populares no movimento revolucionário.
Cordeliers: clube político muito próximo das posições dos “sans-culottes”, representando a população
mais pobre.

A dificuldade para governar enfraqueceu a Assembleia, o que garantiu a Luís XVI a chance de tentar
escapar para o Império Austríaco, com o objetivo de organizar uma contrarrevolução. O rei foi
reconhecido próximo a região de Varennes, onde foi capturado e enviado para Paris. Após a tentativa
frustrada de fuga, a Assembleia suspendeu seu poder.
O êxito da Revolução na França deu novo estímulo aos revolucionários de outros países, ao qual não
surtiu efeito, como nos Países Baixos, Bélgica, Suíça, Inglaterra, Irlanda, Alemanha, Áustria e Itália. Ainda
assim, simpatizantes com a Revolução na França organizaram demonstrações de apoio. Os déspotas
esclarecidos, alarmados, abandonaram seus programas de reformas e se aproximaram da aristocracia
contra as classes baixas.
Alguns escritores na Europa defenderam a contrarrevolução, ou seja, a retomada do poder na França
pela força das armas e restauração da Monarquia Absoluta.
Muitos franceses abandonaram o país. Nobres, clérigos e mesmo burgueses esperavam o auxílio das
potências europeias que por sua vez se mantiveram indiferentes a princípio, mas, quando as ideias que
resultaram da Revolução ameaçavam abalar os soberanos absolutos da Europa, modificaram sua atitude.
Em 20 de abril de 1792, a perseguição dos emigrados pelos franceses provocou a guerra com a
Áustria, que continuaria com poucas interrupções até 1815. Os insucessos repetiram-se de abril a
setembro.
O avanço do exército prussiano rumo a Paris fez crescer o temor da contrarrevolução, arquitetada pelo
rei e pela aristocracia. Em 10 de agosto as tulherias50 foram ocupadas e o rei aprisionado no templo. No
início de setembro, a massa parisiense atacou as prisões e massacrou os nobres feitos prisioneiros. O
Exército passou a convocar voluntários para defender a Revolução.
Em Valmy, as forças francesas venceram os invasores. No mesmo dia, uma nova Assembleia tomava
posse: a Convenção. Foi nesse período que a República foi proclamada. A segunda fase da guerra, de
setembro de 1792 a abril de 1793, é marcada pelas vitórias da França, que avançou em direção à Bélgica,
região do Reno, Savoia e Nice.

Convenção Nacional

Os membros eleitos para a Convenção Nacional organizaram-se em três grandes partidos: Gironda,
Montanha e Planície. (Contra as cinco principais representações anteriores).
- Gironda: Os Girondinos faziam parte um grupo político moderado durante o processo da Revolução
Francesa. Seus integrantes faziam parte da burguesia francesa. Entre seus líderes destacavam-se Brissot
e Vergniaud.
- Montanha (ou Jacobinos): Os jacobinos faziam parte de uma organização política, criada em 1789
na França durante o processo da Revolução Francesa. No princípio tinham uma posição moderada sobre
os encaminhamentos revolucionários, porém, com a liderança de Robespierre, passaram a ter posições
radicais e esquerdistas. Pequenos comerciantes e profissionais liberais eram as principais camadas
sociais que compunham este grupo. Entre seus líderes destacavam-se Saint Just, Marat, Danton e
Robespierre.
- Planície (ou Pântano): apesar de ser formada por membros da burguesia, era considerado um
partido de centro, fazendo acordos e estabelecendo relações com ambos os partidos.

Convenção Girondina (1792-1793)


Após seu estabelecimento, a Convenção foi liderada pelos girondinos, sob forte oposição jacobina.
O rei foi julgado pela Convenção em 21 de janeiro de 1793 e, a despeito do esforço dos Girondinos,
foi condenado à morte como traidor, sendo guilhotinado.
A condenação do rei abalou as demais monarquias absolutistas europeias, que temiam sofrer
processos revolucionários parecidos em seus países. Assim, os impérios da Áustria, da Rússia e da
Prússia uniram-se militarmente com Inglaterra e Holanda, contestadoras da ocupação francesa sobre a
Bélgica, e formaram a I Coligação. A união de forças foi capaz de derrotar as tropas francesas, além de
incentivarem os contrarrevolucionários a influenciarem a revolta camponesa da Vendéia.

50
Palácio parisiense, cuja construção começou em 1564 sob o impulso de Catarina de Médici, num local ocupado anteriormente por uma fábrica de telhas (tuiles)

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As derrotas sofridas pelas tropas, aliadas aos problemas internos, acentuaram os ânimos dos
extremistas montanheses. Os Jacobinos, núcleo mais radical da Montanha, eram apoiados pela Comuna
de Paris, composta por trabalhadores, artífices, pequenos proprietários e trabalhadores rurais.
O acirramento dos ânimos levou a exigência da criação de um tribunal revolucionário contra os
suspeitos e chefes girondinos, além da criação de um exército revolucionário para a defesa do país. As
reivindicações foram suficientes para reunir as camadas mais baixas e resultaram na queda dos
girondinos em junho de 1793.

Convenção Montanhesa (1793-1794)


Os montanheses chegaram ao poder com o apoio dos sans-culottes, porém buscaram conter o
movimento popular para evitar extremos. Como parte das reformas introduzidas, no campo político
aboliram a escravidão nas colônias e confiscaram as terras dos nobres, transformando-as em pequenas
propriedades. Na política, introduziram uma constituição democrática, assegurando uma participação
mais ativa das camadas mais baixas.
As tensões internas e as vitórias da I Coligação criaram um clima de insegurança, que aumentou ainda
mais quando o líder montanhês Marat foi assassinado pela monarquista Charlotte Corday, o que revelou
a possibilidade do restabelecimento da monarquia. Esses fatores colaboraram para a instalação do
Terror.

O Terror
Colocado em prática em setembro de 1793, o Terror contou com amplo apoio dos sans-culottes.
Liderados por Robespierre, os montanheses criaram os Comitês da Salvação Pública e da Segurança
Geral com o objetivo de governar o país, e o Tribunal Revolucionário, para aplicar a justiça.
As prisões eram feitas com base na Lei dos Suspeitos, que permitia capturar e julgar todos aqueles
considerados suspeitos de traição contra a República. Milhares de pessoas foram enviadas para a
guilhotina, entre elas a rainha Maria Antonieta.
Com o mesmo argumento de proteção da Revolução, as igrejas também foram fechadas, sendo
instituído o “culto do Ser Supremo”, que na verdade tratava-se de uma devoção à razão.
No plano econômico foi instituída a lei do Máximo Geral, ou seja, a fixação de um teto Máximo para
os produtos de primeira necessidade.
O calendário também foi substituído, dando lugar ao Calendário Revolucionário51.
O terror gerou resultados, com a derrota da Vendéia e da Coligação. Superadas as dificuldades,
Robespierre acreditava que a ditadura era a única forma de manter a Revolução, e não hesitou em enviar
para a guilhotina todos aqueles que considerou inimigos.
Paris durante esse período passava por um momento de grande efervescência política, e grupos
distintos, com visões completamente diferente acabaram levando o mesmo fim, tendo as cabeças
separadas dos corpos. Os enragés (enraveicidos) propunham a taxação e a suspensão da especulação
monetária e tinham muito prestígio perante os sans-culottes, porém foram guilhotinados.
Os indulgentes, liderados por Danton, acreditavam que as medidas eram enérgicas e autoritárias
demais. Por outro lado, os hebertistas, liderados por Hébert, consideravam que elas ficavam aquém do
necessário para salvar a Revolução. Para Robespierre tanto um quanto outro, e qualquer outro tipo de
divergência eram uma ameaça, e ambos foram guilhotinados.
Nem mesmo o cientista Lavoisier escapou da condenação, pois era visto com maus olhos por possuir
origem nobre e ser membro da Ferme Générale, agência ligada ao governo e responsável pelo
recolhimento de impostos, vista como corrupta.
O Terror não poupou nem mesmo seus dirigentes. As execuções em massa, a ditadura e a intervenção
na economia acabaram enfraquecendo o poder de Robespierre, que teve sua queda votada pela
Convenção em 27 de julho de 1794. Juntamente com dezenove partidários, o líder acabou enfrentando o
destino que muitos de seus tiveram: a própria guilhotina.

A Guilhotina
Criada pelo médico Joseph Ignace Guillotin, a guilhotina não apareceu como um método de
execução usado para amedrontar os inimigos da revolução. Criada com a finalidade de proporcionar
uma morte rápida e sem dor aos condenados à morte, o doutor Gillotin defendeu na Assembleia

51
Os revolucionários propuseram a utilização de um novo calendário, que deveria diferenciar-se do calendário gregoriano, símbolo do cristianismo e do Antigo
Regime Monárquico que havia sido extinto. Ele foi adotado a partir de 1793, mas seu início marcaria a data de 22 de setembro de 1792, dia em que foi instaurada a
República.
O objetivo era iniciar a marcação de uma nova era de ruptura com as tradições cristãs e mais próxima ao racionalismo burguês. O ano I, iniciado em 1792, era
o ano da adoção da Constituição que havia instituído o sufrágio universal, a democratização (https://bit.ly/2mGeTN0).

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Nacional que esse seria um método mais humanitário, eficaz e igualitário, pois os condenados teriam
a mesma pena e o executor não precisaria necessariamente sujar suas mãos com sangue.
Porém, com a Revolução Francesa todo e qualquer suspeito de se opor ao regime passou a ser
decapitado, dessa forma a guilhotina ficou marcada como símbolo de crueldade e opressão.
Mesmo com o fim da Revolução na França, a guilhotina continuou a funcionar como aparelho de
execução, com a última condenação registrada em 1977, quase duzentos anos após sua utilização em
massa.

Convenção Termidoriana
Após a queda de Robespierre, um novo governo assumiu o poder liderado pela Planície. O novo
governo buscou afastar-se da pequena burguesia e dos sans-culottes, e pouco a pouco retirou os poderes
do Comitê de Salvação Pública, além de revogar as leis dos Suspeitos e do Máximo. A Igreja e o novo
governo estabeleceram um acordo de separação.
O fim da Lei do Máximo provocou um aumento nos preços dos produtos, inflacionando os assignats.
O aumento nos preços gerou novas tensões populares, e a alta burguesia, com medo de perder seus
privilégios e seu poder, eliminou o governo de convenção e criou a Constituição do ano III que instituía
o Diretório, em 1795. A nova constituição buscou reafirmar o direito à propriedade e a liberdade
econômica, pelo uso do restabelecimento do voto censitário, o que excluiu novamente as camadas
populares do processo político.

Diretório (1795-1799)
O novo governo baseava-se na teoria da separação dos poderes. O poder legislativo dividia-se entre
o Conselho dos Quinhentos (em que os membros deveriam ter mais de 30 anos) e o conselho dos Anciãos
(que deveriam ter mais de 40 anos). O poder executivo era composto por um Diretório (junta de diretores)
que era eleito pelos conselhos.
A nova constituição não conseguiu estabilizar o país, e também não conseguiu afastar os opositores
(nobres emigrados e sans-culottes). Os nobres tentaram um golpe de retomada do poder, porém foram
impedidos pelo general Napoleão Bonaparte. Entre as camadas populares, o crítico da propriedade
privada, Graco Babeuf articulou uma conjuração, a Revolta dos Iguais, que buscava derrubar o
Diretório, porém não obteve sucesso.
A corrupção no governo e a má administração enfraqueceram o regime. Juntamente com os problemas
internos, foi formada a II Coligação, através da união militar entre o Império Turco, a Rússia, a Inglaterra
e a Áustria, com o objetivo de retomar o poder na França.
Frente aos problemas enfrentados, alguns membros do Diretório defendiam a ideia de que a única
forma de manter o poder era o estabelecimento de uma nova monarquia. Preocupando-se em perder o
poder, parte da alta burguesia apoiou um golpe de Estado, contando com a popularidade de Napoleão
que havia conquistado vitórias importantes no Egito e no norte da Itália.
Apoiado por Roger Ducos e pelo abade Sièys, ambos lideres burgueses, em 9 de novembro de 1799
Napoleão derrubou o Diretório e estabeleceu um consulado provisório, composto pelo general e pelos
dois líderes que ajudaram a arquitetar o golpe.
A chegada de Napoleão ao poder ficou conhecida como golpe de 18 Brumário, data que correspondia
aos meses de outubro e novembro no calendário revolucionário. Os apoiadores do golpe acreditavam
que através de um poder executivo autoritário poderiam conter os contrarrevolucionários. Contudo, ao
assumir o poder, Napoleão buscou satisfazer suas próprias ambições, e impôs uma ditadura na França.

Período Napoleônico

Ao chegar ao poder em 1799, a França apresentava um aspecto desolador: a indústria e o comércio


estavam arruinados, os caminhos e os portos destruídos e o serviço público desorganizado. Todos os
dias mais e mais pessoas deixavam o país, fugindo da desordem e da ameaça de ver os seus bens
confiscados. Os clérigos que se tinham negado a jurar fidelidade à nova Constituição eram perseguidos
e a guerra civil ameaçava estourar em numerosas províncias.
Napoleão buscou conciliar os diferentes grupos em conflitos, na tentativa de restabelecer a paz e a
segurança.
Em 1799 uma nova constituição foi submetida a um plebiscito, e com a aprovação por mais de 3
milhões de votos, Napoleão agora possuía poderes ilimitados, sob o disfarce do consulado. O voto voltou
a ser universal, e os candidatos eram escolhidos através de uma lista dos mais votados. O Poder
legislativo perdeu grande parte de sua importância, tornando-se basicamente um poder formal.

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Ele era composto de quatro assembleias: o Conselho de Estado, que preparava as leis; o Tribunal,
que as discutia; o Corpo Legislativo, que as votava e o Senado, que velava pela sua execução.
O Poder Executivo, confiado a três cônsules nomeados pelo Senado por dez anos, era o mais forte de
todos. Quem detinha efetivamente o poder era o primeiro-cônsul, que propunha, mandava publicar as
leis e nomeava os ministros, os oficiais, os funcionários e os juízes.
As guerras continuaram até 1802, quando Napoleão assinou a Paz de Amiens, pondo fim ao conflito
europeu iniciado em 1792. A administração do Estado foi reorganizada e centralizada.
Importantes medidas financeiras, como a criação de um corpo de funcionários para arrecadar os
impostos e a fundação do Banco da França (que recebe o direito de emitir papel moeda), foram tornadas,
melhorando sensivelmente a situação econômica do pais.
Na educação, o ensino secundário foi organizado com o objetivo de instruir funcionários para o Estado.
Uma das maiores contribuições do de Napoleão foi a criação do Código Civil, inspirado no Direito
Romano, nas Ordenações Reais e no Direito Revolucionário, completado em 1804, continua, na essência,
em vigor até hoje na França.
As relações com a Igreja Católica foram retomadas, através de Concordata52 com o papa. O sumo-
pontífice aceitou o confisco dos bens eclesiásticos e o Estado ficou proibido de interferir no culto. Os
bispos, indicados pelo governo e investidos de funções religiosas pelo papa, prestariam juramento de
fidelidade ao governo e as bulas só entrariam em vigor depois de aprovadas por Napoleão.
Os êxitos obtidos tanto internamente como externamente permitiram a Napoleão conquistar o direito
de nomear seu sucessor garantido pelo senado, em 1802. Na prática, estabelecia-se uma Monarquia
hereditária.
Com o reinício dos conflitos externos em 1803, o Consul aproveitou-se da situação de perigo nacional
para que fosse proclamado imperador da França. Já em 1804 uma nova Constituição legalizava a
instituição do Império e convocava um plebiscito para confirmá-la. Oficializada a proclamação através da
vontade popular, Napoleão foi sagrado imperador pelo papa, e tratou de formar uma nova corte, com
muitos membros da antiga nobreza francesa.
Além do Código Civil, que já vinha sendo elaborado, foram criados o Código Comercial e o Código
Penal. A economia sofreu um grande impulso, tanto pelo aumento da produção no campo – o que levou
os camponeses a apoiarem o imperador – quanto no incentivo pela industrialização do país. Os projetos
de reformas de pontes e estradas foram concluídos e novos portos e canais concluídos.
Ao mesmo tempo em que era verificada prosperidade em algumas áreas, em outras as coisas não
pareciam caminhar tão bem. Com o aumento da popularidade, Napoleão tornava-se cada vez mais
despótico, até mesmo para os padrões da monarquia francesa. As assembleias foram suprimidas, o poder
judiciário passou cada vez mais para as mãos do imperador e as liberdades individuais foram revogadas.
A imprensa também passou a ser censurada, e o ensino foi modelado para garantir a obediência ao
imperador, tanto que se estendeu à educação superior: a Universidade Imperial monopolizou o ensino e
as disciplinas consideradas perigosas para o regime (História e Filosofia) tiveram seus programas
alterados.
No plano religioso, o catecismo orientava que os deveres existiam para com Deus e também com o
Imperador. As desavenças com poder papal, que não aceitou as imposições feitas pelo imperador,
resultaram no confinamento do pontífice em Savoia e na tomada de seus Estados. Os bispos que
buscaram apoiar a Igreja foram também perseguidos.
O resultado foi uma nova onda de crises e descontentamento. A burguesia opunha-se à perda de
liberdade e às perseguições policiais, as guerras arruinavam a economia e os portos, o restabelecimento
de antigos impostos irritava os contribuintes e os jovens procuravam fugir ao serviço militar obrigatório.

Conflitos externos
Apesar de Napoleão ter assinado com a Inglaterra a Paz de Amiens53, em 1805, as ameaças francesas
promoveram a formação da primeira coligação antifrancesa, reunindo a Inglaterra, Rússia e Áustria.
Napoleão venceu em Ulm e Austerlitz, mas a esquadra franco-espanhola foi derrotada em Trafalgar
pelo almirante inglês lorde Nelson. Após a vitória contra a nova coligação, em 1806, Napoleão dissolveu
o Sacro Império Romano-Germânico, fundando a Confederação do Reno54.
Em 21 de novembro de 1806, foi decretado que os países que estavam sob o domínio do império
francês estavam proibidos de fazer comércio ou autorizar o acesso aos portos para navios ingleses. A

52
Acordo diplomático que o Vaticano celebra com outro Estado
53
Tratado de paz firmado em 25 de março de 1802 na cidade francesa de Amiens. Ele pôs fim às hostilidades existentes entre França e Reino Unido durante as
chamadas Guerras Revolucionárias Francesas.
54
A Confederação do Reno ou Liga Renana foi constituída por Napoleão Bonaparte em 12 de Julho de 1806, no contexto da Terceira Coligação contra a França

115

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medida, que ficou conhecida como Bloqueio Continental, visava enfraquecer o concorrente, afim de poder
dominá-lo.
Para que o bloqueio fosse efetivo, Napoleão necessitava que todas as nações sob sua influência
aderissem totalmente ao acordo, o que foi feito pela Rússia e Pela Áustria, mas não por Portugal.
Portugal era um pequeno reino na Península Ibérica que dependia imensamente de suas colônias para
o sustento econômico. O principal parceiro econômico de Portugal era a Inglaterra, e desde 1703 os dois
países estavam sob um acordo conhecido como Tratado de Methuen, que recebeu o nome em função do
embaixador inglês que conduziu as negociações.
O Tratado estabelecia o comércio de panos ingleses e vinhos portugueses, o que a longo prazo provou-
se desvantajoso para Portugal, pois o volume de panos que chegava era maior que o volume de vinhos
que saía. Com o investimento na produção de vinho, Portugal perdeu muitas das áreas de produção de
alimentos, o que o obrigou a importar parte dos gêneros alimentícios. Além dos alimentos, Portugal deixou
de investir em sua indústria, e importava uma grande quantidade de produtos manufaturados da
Inglaterra.
Por conta de todos os fatores citados, o Bloqueio Continental era desvantajoso para o pequeno país,
que optou por não aderir à estratégia de Napoleão. Sentindo-se prejudicado pela decisão portuguesa, e
vendo que seus esforços para impedir o comércio não estavam rendendo o esperado, em agosto de 1807
Napoleão envia um ultimato a D. João VI: ou Portugal rompia suas relações com a Inglaterra, ou seria
invadido.
Como Portugal manteve-se firme em sua decisão, a França assinou em conjunto com a Espanha o
Tratado de Fontainebleau, que dividia o território português entre os dois países e extinguia a dinastia
dos Bragança, à qual pertencia D. João VI.
Buscando manter suas relações comerciais, a Inglaterra, que possuía um poderoso poder naval,
pressionou Portugal através de seu embaixador em Lisboa, lorde Strangford, a fugir para o Brasil.
Em novembro de 1807, o Príncipe Regente reuniu a família real e toda sua corte, totalizando cerca de
15 mil pessoas, e partiu para o Brasil aportando em 22 de janeiro de 1808 na Bahia.
Aproveitando-se da luta de Napoleão na Espanha, a Áustria formou em 1809 uma coligação, sendo
porém, derrotada em Wagram55, perdendo vastos territórios e transformando-se em potência secundária.
Nesse momento, o Império Napoleônico encontrava-se em seu apogeu, com mais de 70 milhões de
habitantes, dos quais somente 27 milhões eram franceses. O exército francês parecia imbatível. Em 1812,
porém, a Rússia rompeu o bloqueio ao comércio inglês, sendo invadida por forças francesas. Apesar da
vitória na Batalha de Moscou, Napoleão foi obrigado a fazer uma retirada desastrosa, na qual morreram
milhares de homens.
Entusiasmados por este fracasso de Napoleão, Inglaterra, Áustria, Prússia, Rússia e Suécia formaram
uma coligação, derrotando os franceses na Batalha de Leipzig, em 1813. Napoleão foi então aprisionado
na ilha de Elba, de onde fugiu um ano depois, retornando à França e retomando o poder. Inicia-se o
governo dos Cem Dias. Durante esse governo, enfrentou a última coligação contra a França, sendo
derrotado pelos ingleses em Waterloo, na Bélgica, e novamente aprisionado e exilado na ilha de Santa
Helena, onde morreu em 1821.

A Europa em Guerra e em Equilíbrio (1789 -1830): Napoleão, Congresso de Viena e


Restauração.56
Com o fim da Era Napoleônica, as potências que se envolveram nas guerras empreendidas pelo
imperador francês articularam-se na capital da Áustria, Viena, para traçar os rumos que a Europa tomaria
a partir daquele momento. A essa articulação deu-se o nome de Congresso de Viena.
Além da Áustria, que sediou o congresso, as outras potências participantes foram a França, a Prússia,
a Rússia e a Grã-Bretanha.
O objetivo principal do Congresso de Viena era retomar o modelo político que ordenava a Europa antes
das guerras napoleônicas, o que significava retomar as estruturas do Antigo Regime, com repressão às
ideias liberais e às manifestações revolucionárias das quais a França foi o principal alvo.
Os líderes participantes do Congresso de Viena ainda propuseram a defesa de dois princípios gerais:
o princípio da legitimidade (determinava que as dinastias que detinham o poder no período anterior ao
processo revolucionário francês deveriam reassumir seus tronos e territórios) e o equilíbrio do poder
(pregava que as potências que ganharam a guerra contra a França teriam o direito sobre territórios fora

55
Deutsch-Wagram é um município da Áustria localizado no distrito de Gänserndorf, no estado de Baixa Áustria
56
FERNANDES, Cláudio. Congresso de Viena. https://bit.ly/2MtiZA8
SANTOS, Marco Cabral dos. Congresso de Viena: Conservadores restauram o Antigo Regime. https://bit.ly/2nlIOah.

116

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do continente europeu e poderiam permanecer com aqueles que já lhes pertenciam por merecimento pela
participação na luta contra Napoleão Bonaparte).

Os Reis de Volta ao Trono


O princípio da legitimidade garantiu o retorno de algumas das antigas dinastias europeias, como os
Bourbon em Nápoles, Espanha e França, a dinastia Orange na Holanda, os Bragança em Portugal e os
Saboia no Piemonte, além do restabelecimento do papa nos Estados Pontifícios.
Pelas intervenções de Talleyrand, a França – que saíra derrotada com a queda de Napoleão – garantiu
sua integridade territorial, restaurando suas fronteiras de antes de 1792. A Inglaterra foi o que mais se
beneficiou a longo prazo, pois conseguiu garantir a hegemonia militar e comercial nos oceanos, além de
grande influência política e econômica no continente. A Prússia praticamente dobrou sua extensão
territorial, incorporando partes da Saxônia, da Pomerânia e da Polônia, assim como a Rússia, que garantiu
a anexação da Finlândia, da Bessarábia e de parte da Polônia.
Esse retorno à antiga ordem que caracterizou as propostas das potências vencedoras também
implicava uma redefinição do mapa geopolítico da Europa, que havia sido profundamente afetado pelo
império napoleônico. Para tanto, o czar russo, Alexandre I, propôs a criação de uma aliança.
Formada por Rússia, Prússia e Áustria, a Santa Aliança, como ficou conhecida, objetivava garantir a
hegemonia desses três países, bem como combater focos de revoluções impulsionados pelas ideias
liberais.
O primeiro artigo da Santa Aliança pode ser lido abaixo:
Art. 1º De acordo com as palavras das Santas Escrituras que ordenam a todos os homens olharem-se
como irmãos, os três monarcas contratantes permanecerão unidos pelos laços de uma fraternidade
verdadeira e indissolúvel e, considerando-se como compatriotas, se prestarão, em qualquer ocasião ou
lugar, assistência, ajuda e socorro; julgando-se, em relação aos seus súditos e exércitos, como pais de
família, eles os dirigirão no mesmo espírito de fraternidade de que se acham animados para proteger a
religião, a paz e a justiça. (“Tratado da Santa Aliança”. Trad. Luiz Arnault. Dep. Hist. Contemporânea. UFMG.)
O pacto militar começou a ruir a partir do momento em que a Inglaterra se recusou a apoiá-lo. Ela era
contrária aos propósitos do envio de tropas para a América Latina, com o propósito de reprimir os diversos
levantes emancipacionistas que ameaçavam o colonialismo. Além disso havia grande interesse na
expansão comercial e em garantir novos mercados aos seus produtos industrializados, os ingleses
desaprovavam a presença militar nas colônias americanas, postando-se contra a política intervencionista
da Santa Aliança.

Questões

01. (MPE/GO – Auxiliar Administrativo – MPE/GO – 2019) A Revolução Francesa é um marco


histórico no que diz respeito à cidadania. Foi na França que o conceito de cidadão passou a ter uma
dimensão de reconhecimento de direitos. Pergunta-se: em que ano ocorreu a Revolução Francesa?
(A) 1787
(B) 1789
(C) 1791
(D) 1772
(E) 1790

02. (Instituto Rio Branco – Diplomata – CESPE/2018) A cultura política revolucionária não pode ser
deduzida das estruturas sociais, dos conflitos sociais ou da identidade social dos revolucionários. As
práticas políticas não foram simplesmente a expressão de interesses sociais e econômicos subjacentes.
Por meio de sua linguagem, suas imagens e atividades políticas diárias, os revolucionários trabalharam
para reconstruir a sociedade e as relações sociais. Procuraram conscientemente romper com o passado
francês e estabelecer a base para uma nova comunidade nacional.
Lynn Hunt. Política, cultura e classe na Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 33 (com adaptações)

Tendo o fragmento de texto anterior como referência inicial, julgue (C ou E) o seguinte item, acerca
das revoluções dos séculos XVIII e XIX.
Iniciada em 1789, a Revolução Francesa rompeu com o despotismo e pôs fim ao Antigo Regime, mas
não instaurou uma sociedade democrática e igualitária
(A) Certo
(B) Errado

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03. (Instituto Rio Branco – Diplomata – CESPE/2018) A cultura política revolucionária não pode ser
deduzida das estruturas sociais, dos conflitos sociais ou da identidade social dos revolucionários. As
práticas políticas não foram simplesmente a expressão de interesses sociais e econômicos subjacentes.
Por meio de sua linguagem, suas imagens e atividades políticas diárias, os revolucionários trabalharam
para reconstruir a sociedade e as relações sociais. Procuraram conscientemente romper com o passado
francês e estabelecer a base para uma nova comunidade nacional.
Lynn Hunt. Política, cultura e classe na Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 33 (com adaptações)

Tendo o fragmento de texto anterior como referência inicial, julgue (C ou E) o seguinte item, acerca
das revoluções dos séculos XVIII e XIX.
Devido ao aprendizado de seus métodos por revolucionários que a sucederam, a Revolução Francesa
é considerada a mãe das revoluções políticas ocorridas depois dela.
(A) Certo
(B) Errado

04. De um modo geral, observa-se como numa sociedade a intervenção dos detentores do poder no
controle do tempo é um elemento essencial (...). Depositário dos acontecimentos, lugar das ocasiões
místicas, o quadro temporal adquire um interesse particular para quem quer que seja, deus, herói ou
chefe, que queira triunfar, reinar, fundar.
JACQUES LE GOFF
Adaptado de "Memória-História". Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1984.

Diversas experiências políticas contemporâneas alteraram as representações do tempo histórico, na


forma como são mencionadas no texto. Uma ação política que exemplifica essa intervenção no controle
do tempo, e que resultou na implantação de um novo calendário, ocorreu no contexto da revolução
denominada:
(A) Cubana
(B) Francesa
(C) Mexicana
(D) Americana

05. (Instituto Rio Branco – Diplomata – CESPE/2018) A cultura política revolucionária não pode ser
deduzida das estruturas sociais, dos conflitos sociais ou da identidade social dos revolucionários. As
práticas políticas não foram simplesmente a expressão de interesses sociais e econômicos subjacentes.
Por meio de sua linguagem, suas imagens e atividades políticas diárias, os revolucionários trabalharam
para reconstruir a sociedade e as relações sociais. Procuraram conscientemente romper com o passado
francês e estabelecer a base para uma nova comunidade nacional.
Lynn Hunt. Política, cultura e classe na Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 33 (com adaptações)

Tendo o fragmento de texto anterior como referência inicial, julgue (C ou E) o seguinte item, acerca
das revoluções dos séculos XVIII e XIX.
A reflexão filosófica e política da denominada República das Letras e o cosmopolitismo europeu a ela
inerente, por si só, não foram os fatores que conduziram à ação revolucionária: esse papel coube à plebe
que, de fato, pôs a teoria em prática.
(A) Certo
(B) Errado

Gabarito

01.B / 02.A / 03.A / 04.B / 05.A

Comentários

01. Resposta: B.
A Revolução Francesa ocorreu no ano de 1789 e é considerada o evento que marca a passagem do
Período Moderno para o Contemporâneo.

02. Resposta: A.
Apesar de a Revolução atingir o interesse burguês no período e apresentar uma proposta democrática,
em diferentes episódios vimos que essa proposta não foi atingida. A divisão entre jacobinos e girondinos

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e o governo autoritário apresentado posteriormente por Napoleão são exemplo de que a igualdade e a
democracia foram bandeira, mas não foram práticas pós revolução.

03. Resposta: A
A Revolução Francesa é um marco na mudança de períodos históricos. A Idade Moderna e os
movimentos que seguiram dentro do período levaram bandeiras fomentadas e difundidas no movimento
francês (como os Direitos Naturais do Homem) derivados do iluminismo e que combateram praticas do
Antigo Regime que insistiram em permanecer na modernidade.

04. Resposta: B.
A revolução Francesa representou uma mudança muito grande na forma de entendimento de política
e organização de uma sociedade. Durante sua fase mais radical foi criado até mesmo um novo calendário
baseado nos ideais iluministas e rompendo com o calendário Gregoriano, de origem cristã.

05. Resposta: A
Reconhecidamente uma revolução burguesa, os “letrados” tiveram papel essencial na propagação de
ideias iluministas e contra os princípios do Antigo Regime. Apesar disso, A Revolução foi realizada pelo
povo, como a força do número exigiu no período.

Formação territorial brasileira; as regiões brasileiras; políticas de


reordenamento territorial

FORMAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO57

A cartografia da formação territorial brasileira revela, em diferentes períodos, os processos que


levaram o Brasil a chegar até a forma territorial e as divisões internas atuais. Desde 1500, o país passou
por diversas conformações territoriais, fruto de diferentes organizações políticas e administrativas.
Observe o mapa.

Brasil: Capitanias Hereditárias (1534-1536)

A doação de uma capitania era feita por meio de dois documentos: a Carta de Doação e a Carta Foral.
Pela primeira, o donatário recebia a posse da terra, podendo transmiti-la para seus filhos, mas não vendê-
la. Recebia também uma sesmaria de dez léguas da costa na extensão de toda a capitania. Devia fundar
vilas, construir engenhos, nomear funcionários e aplicar a justiça, podendo até decretar a pena de morte
para escravos, índios e homens livres. Adquiria alguns direitos: isenção de taxas, venda de escravos
índios e recebimento de parte das rendas devidas à Coroa.
A Carta Foral tratava, principalmente, dos tributos a serem pagos pelos colonos. Definia ainda, o que
pertencia à Coroa e ao donatário. Se descobertos metais e pedras preciosas, 20% seriam da Coroa e, ao
donatário, caberiam 10% dos produtos do solo. A Coroa detinha o monopólio do comércio do pau-brasil
e de especiarias. O donatário podia doar sesmarias aos cristãos que pudessem colonizá-las e defendê-
las, tornando-se assim colonos.
O modelo de colonização adotado por Portugal baseava-se na grande propriedade rural voltada para
a exportação. Dois fatores influíram nesta decisão: a existência de abundantes terras férteis no litoral
brasileiro e o comércio altamente lucrativo do açúcar na Europa.
Num primeiro momento os portugueses lançaram mão do trabalho escravo do índio e, depois, do negro
africano. A colonização iniciou-se, então, apoiada no seguinte tripé: a grande propriedade rural, a
monocultura de produto agrícola de larga aceitação no mercado europeu e o trabalho escravo.
As dificuldades iniciais eram muitas. Bem maiores do que os donatários podiam calcular. Era difícil a
adaptação às condições climáticas e a um tipo de vida totalmente diferente do da Europa. Além disso, o
alto custo do investimento não trazia retorno imediato. Alguns donatários nem chegaram a tomar posse
das terras, deixando-as abandonadas.

A cartografia da formação territorial do Brasil

57
FURQUIM Junior, Laercio. Geografia cidadã. 1ª edição. São Paulo: Editora AJS, 2015.
TAMDJIAN, James Onnig. Geografia: estudos para compreensão do espaço. James Onnig Tamdjian, Ivan Lazzari Mendes. 2ª edição. São Paulo: FTD, 2013.

119

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Com a chegada de Cristóvão Colombo na América, em 1492, o território americano passou a ser
cobiçado pelos principais países europeus. Em 1494, após anos de negociação mediada pela Igreja
Católica, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Tordesilhas, que repartia as novas terras entre
esses dois países. Observe o mapa a seguir.

Brasil: o Tratado de Tordesilhas

Definiu-se que as terras situadas a leste da linha de Tordesilhas seriam de posse de Portugal e aquelas
localizadas a oeste seriam de propriedade espanhola. Contudo, a existência do Tratado não garantiu na
prática a posse dos territórios na América. Primeiro porque esses territórios não estavam vazios, ou seja,
encontravam-se ocupados por diferentes grupos indígenas. Os portugueses e espanhóis teriam de
conquistar suas terras, o que envolveu muitas batalhas. Em segundo lugar, outros Estados (como França,
Inglaterra e Holanda) não reconheciam a legitimidade do tratado nem o direito de Portugal e Espanha
sobre essas terras e também as disputavam.
No caso português, a ocupação de suas terras na América ocorreu de fato a partir de 1530. Até então,
Portugal limitou-se a criar postos de comércio no litoral para a comercialização de pau-brasil – as feitorias.
Porém, devido a constantes invasões de piratas e expedições estrangeiras, o rei viu-se obrigado a ocupar
o território para garantir o seu domínio.
Foi a partir de então que começaram as primeiras expedições de exploração e colonização do litoral
brasileiro e de algumas regiões no interior mais próximas. Ao longo do século XVI, a exploração e o
povoamento da colônia pouco avançaram em direção ao seu interior. No século XVII, o desenvolvimento
da economia açucareira e de algumas atividades voltadas para abastecer o pequeno mercado interno
proporcionou a exploração e ocupação de novos territórios – uma vez que era necessário espaço para
desenvolvê-las. Observe o mapa a seguir.

Brasil: povoamento no século XVI

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A exploração e a ocupação de novas terras na Colônia acompanharam o processo de desenvolvimento
da economia local, conforme é possível observar o mapa anterior. É importante ressaltar que o
desenvolvimento econômico e as consequentes possibilidades de enriquecimento serviam de estímulo
para promover o povoamento da Colônia.
É possível notar ainda que, no século XVII, a maior parte de cidades e vilas ainda se concentrava no
litoral. Porém, graças às atividades como a pecuária e a procura pelas chamadas drogas do sertão, ervas
encontradas na região amazônica, foi possível conhecer e ocupar novos territórios no continente –
ultrapassando, inclusive, os limites da Linha de Tordesilhas.
Porém, ainda havia uma grande parcela de terras a leste de Tordesilhas que não tinha sido explorada
pelos portugueses. Por mais que, segundo o tratado, pertencessem à Portugal, na prática esses territórios
ainda eram controlados por indígenas. Portanto, para serem conquistados, eles deveriam ser explorados
e ocupados.
A exploração desses territórios deu-se a partir do século XVII, por meio das entradas e bandeiras. As
entradas eram expedições oficiais de exploração do território da Colônia, financiados pela Coroa
Portuguesa. Já as bandeiras, apesar de também possuírem um caráter exploratório, eram expedições
particulares, movidas por interesses econômicos e comandadas por homens conhecidos como
bandeirantes.

As Bandeiras e os Bandeirantes

Grande parte das bandeiras originou-se das vilas de São Vicente e São Paulo. Devido às dificuldades
econômicas enfrentadas no sul da Colônia, muitos homens viram-se forçados a explorar novos territórios
em busca de riquezas minerais (como ouro e prata) e de escravos indígenas para vender. Outra atividade
comum era a captura de escravos negros fugitivos.
Os comandantes dessas expedições, os bandeirantes, foram responsáveis pela exploração de grande
parte do atual território brasileiro. Apesar das contribuições dadas ao processo de expansão do território
brasileiro, as ações dos bandeirantes são alvo de controvérsia. Não devemos esquecer que eles foram
responsáveis pela escravização e morte de diversos povos indígenas. Observe o mapa a seguir, que
mostra as principais bandeiras dos séculos XVII e XVIII.

Brasil: principais bandeiras (séculos XVII e XVIII)

Atlas histórico escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991

Observando o mapa, é possível notar que as bandeiras que partiam de São Paulo tinham como direção
o interior da Colônia, ultrapassando os limites do Tratado de Tordesilhas. Essas expedições foram
responsáveis pela exploração de áreas e a criação de vilas nas regiões Sul, Centro-Oeste e Norte do país
– que até então haviam sido nada ou pouco exploradas.
É importante ressaltar que, entre 1580 e 1640, Portugal permaneceu sob domínio espanhol, época
conhecida como a União Ibérica. Assim, durante todo esse período, o Tratado de Tordesilhas passou a
ser invalidado de fato, o que facilitou a exploração e ocupação de territórios além de seus limites por parte
dos bandeirantes.
121

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Foi apenas em 1750 que Portugal e Espanha assinaram um tratado que substituía o de Tordesilhas.
Ambos os países reconheciam que os limites estabelecidos em Tordesilhas não foram historicamente
respeitados. Assim, naquele ano foi assinado o Tratado de Madri, que teve como objetivo regularizar a
fronteira entre suas colônias.
Segundo os termos do Tratado de Madri, as fronteiras das colônias deveriam ser estabelecidas como
base na lógica de Uti Possidetis, expressão em latim que significa que quem ocupa determinado território
tem a posse sobre ele. O mapa a seguir mostra como ficou a fronteira brasileira após o Tratado de Madri.

O território brasileiro após o Tratado de Madri (1750)

Repare como o território brasileiro se expandiu para além dos imites do Tratado de Tordesilhas –
aproximando-se, inclusive, de seus limites atuais.
Pode-se dizer que a expansão territorial do Brasil ocorreu graças à ação exploratória dos bandeirantes,
que foram responsáveis por explorar e povoar essas novas áreas e garantir a posse delas no Tratado de
Madri, em 1750.
Apesar do novo tratado, ele não significava o fim das questões referentes a territórios e fronteiras na
região. Até o fim do período colonial, o Uruguai e parte do Rio Grande do Sul foram disputados entre
Brasil e Espanha.

A Organização Política e Administrativa do Brasil

Em 1621, durante a União Ibérica, o rei Felipe III decretou a separação da Colônia portuguesa em dois
estados: Estado do Maranhão, com capital em São Luís, e o Estado do Brasil, com capital no Rio de
Janeiro. Cada um desses Estados encontrava-se dividido em várias capitanias, conforme representa o
mapa que mostra a divisão das capitanias em 1709. Nesse ano, o Estado do Maranhão era composto
pelas capitanias do Grão-Pará e do Maranhão, tendo sua capital transferida para a cidade de Belém. Em
1763, foi a vez de mudar a capital do Estado do Brasil, passando de Salvador para o Rio de Janeiro. Em
1774, a Coroa portuguesa decretou a reunificação da Colônia, que permaneceu assim até a sua
independência.
Observe e compare os mapas das divisões territoriais do Brasil em 1709 e em 1822, ano da
independência do país.

Divisão Territorial do Brasil (1709) - São Paulo no seu Máximo


A partir de 1709, o Brasil já estava dividido em sete estados. Onde hoje abrange parte da Amazônia,
no Norte do país, localizava-se a província do Grão-Pará. Abaixo, na área que pertence atualmente a
Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Minas Gerais, Goiás, São Paulo e parte do
Paraná, era dominada pelo Estado de São Paulo. O estado do Nordeste era ocupado apenas por
Maranhão, Pernambuco e Bahia. Na região Sul, apenas a província de São Pedro. A Sudeste, o Rio de
Janeiro.

122

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Divisão territorial do Brasil (1822)

Em 1822, ano da independência brasileira, o território brasileiro configurava-se assim:

Brasil em 1822

Observe que, em 1822, os limites do território brasileiro assemelhavam-se aos atuais. Nesse caso,
deve-se destacar a região da Cisplatina, que na época pertencia ao Brasil. Pouco tempo depois, a
Cisplatina tornou-se independente do Brasil e passou a se chamar Uruguai.

1823: Províncias Imperiais

No ano de 1823, um ano após a Declaração da Independência, foram acrescentados ainda mais
territórios. O Brasil ganhou os estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Ceará e
Piauí. No Sul, houve o acréscimo do estado de Santa Catarina e da Província da Cisplatina, o atual
Uruguai.

Divisão territorial do Brasil (1889)

123

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Na época da independência, a divisão político-administrativa brasileira era baseada em províncias, e
não em estados, como hoje em dia. Repare como as diversas províncias existentes em 1822, assim como
suas fronteiras, deram origem a muitos estados atuais.
Até o fim do Império e a formação da República, em 1889, o território brasileiro sofreu algumas
pequenas modificações. Da mesma forma, alguns territórios deixaram de pertencer a algumas províncias
e foram incorporados a outras, como mostra o mapa acima.
Com a instauração da República, a divisão político-administrativa brasileira, que antes compunha
várias províncias, passou a se basear em estados. Dessa forma, o Brasil tornou-se uma República
Federativa, composta por diferentes unidades.
Desde 1889 foram criados alguns estados novos, bem como uma nova divisão político-administrativa:
os territórios federais. Esses territórios integravam diretamente a União, sem pertencer a nenhum
estado. Em 1988, os territórios federais existentes foram extintos e suas áreas foram incorporadas a
estados vizinhos.

As Unidades Federativas do Brasil

As unidades federativas são entidades político-administrativas e territoriais vinculadas ao Estado


Nacional – no caso brasileiro, à República Federativa.
Elas possuem autonomia no que diz respeito à eleição de seus governantes, à criação de
determinadas leis e à cobrança de impostos.
Atualmente, o Estado brasileiro é composto por 27 unidades federativas: 26 estados e o Distrito
Federal, onde se localiza Brasília, a capital do país.
O estado é composto por diversos municípios. Todos os estados possuem um governador e uma
assembleia legislativa que são responsáveis por gerir e regular as políticas dentro de seu território.

O Brasil no Mundo: Localização e Extensão

Posição Geográfica e Noções Cartográficas do Brasil


Os pontos extremos do Brasil são: setentrional – nascente do Rio Ailã, no Monte Caburaí (em Roraima,
fronteira com a Guiana); meridional: Arroio Chuí (no Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai); oriental:
Ponta do Seixas (na Paraíba); ocidental: a nascente do Rio Moa, na Serra do Divisor ou Contamana (no
Acre, na fronteira com o Peru).

O gigantismo do território brasileiro se confirma pelos 15.719 quilômetros de fronteiras que o Brasil
possui com quase todos os países da América do Sul (exceto Chile e Equador), bem como pelos 7.367
quilômetros de costa atlântica.
Cerca de 90% de seu território se encontra entre a Linha do Equador e o Trópico de Capricórnio, e que
o predomínio das terras nas baixas latitudes confere ao Brasil características típicas de um país tropical.
A expressiva amplitude longitudinal do Brasil explica a adoção de diferentes fusos horários.

A Posição Latitudinal do Brasil e suas Implicações


A latitude corresponde ao ângulo formado pela distância de um lado paralelo em relação à Linha do
Equador.
A variação latitudinal implica mudanças da obliquidade, isto é, da inclinação com a qual os raios solares
incidem sobre a superfície terrestre.
No território brasileiro, dadas as suas grandes dimensões, essa mudança da inclinação da incidência
solar é relativamente perceptível.
O extremo sul do Brasil recebe raios oblíquos, que implicam temperaturas médias anuais mais baixas
e, consequentemente, climas mais amenos em comparação àqueles dominantes na maior parte do país.
Quanto a extensão latitudinal do Brasil e a localização espacial do extremo sul, essa porção do território
brasileiro está situada ao sul do Trópico de Capricórnio, o que implica obliquidade maior. Por isso, é
dominada pelo clima zonal temperado, cujas temperaturas médias estão entre as mais baixa registradas
no país.

A Posição Longitudinal do Brasil e suas Implicações


A longitude corresponde ao ângulo formado pela distância de um ponto qualquer da superfície
terrestre em relação ao meridiano de Greenwich, que, divide a Terra em dois hemisférios: o Ocidental e
o Oriental.

124

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A longitude varia de zero a 180 graus a partir do Meridiano de Greenwich, tanto para o leste, como
para oeste. O território brasileiro se localiza integralmente no Hemisfério Ocidental.

Fronteiras Marítimas do Brasil

Nas últimas décadas do século XX, uma nova fronteira chamou a atenção da sociedade e do governo
brasileiro: e as águas do Oceano Atlântico que banham nosso território.
Isso tem um motivo: a tecnologia desenvolvida durante a Segunda Guerra Mundial criou navios mais
rápidos que os anteriores e com maior capacidade de carga, que podem viajar a grandes distâncias,
explorando economicamente as águas longe de seus territórios de origem. Gigantescos navios frigoríficos
japoneses e europeus, por exemplo, passaram a dispor de recursos que lhes permitem explorar, até a
exaustão, os cardumes que se deslocam em alto-mar.
Essa acelerada evolução tecnológica trouxe novas perspectivas às nações, que passaram a considerar
o mar não só uma via de transportes ou fonte de alimentos, mas um grande gerador de riquezas e
matérias-primas. Assim, os mares e oceanos tornaram-se estratégicos, e muitos países passaram a tentar
incorporar áreas marítimas aos seus territórios.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a ONU patrocinou diversas reuniões sobre os limites marinhos.
Elas ficaram conhecidas como Conferências das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Nessa época,
muitos defendiam que os recursos dos fundos marinhos, situados além das jurisdições nacionais, fossem
considerados patrimônio comum da humanidade. Dessa maneira, passou a ser necessário determinar os
limites marítimos de cada Estado costeiro.
Enquanto ocorriam essas negociações, o Brasil adotou, em 1970, para resguardar os interesses
econômicos do país e por razões de segurança nacional, o limite de 200 milhas náuticas (cerca de 370
quilômetros) para exploração das águas territoriais brasileiras.
Nessas águas – cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados de superfície aquática – somente navios
brasileiros e de empresas estrangeiras com autorização do governo brasileiro poderiam exercer alguma
atividade. Navios estrangeiros sem licença pagariam multas e seriam apreendidos.
Em 1982, na Jamaica, foi assinada a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM).
Foi nessa convenção que os limites marítimos dos países foram definidos, da seguinte forma:

* mar territorial: compreende a faixa de 12 milhas marítimas (cerca de 22 quilômetros) de largura,


medidas a partir do litoral e das ilhas brasileiras. Nesse espaço marítimo, o Estado costeiro tem total
controle sobre as águas, o espaço aéreo e o fundo do mar;

* zona contígua: delimitada por 12 milhas além do limite do mar territorial. Essa faixa é importante,
pois se trata de uma área de segurança, onde os países podem fiscalizar todas as embarcações que nela
navegarem;

* zona econômica exclusiva: área que se estende até 200 milhas além do mar territorial. Pela
convenção da ONU, os Estados costeiros têm o direito de explorar e a obrigação de conservar os recursos
(sejam eles minerais ou pesqueiros) que se encontram em toda essa região. Desde o início da década
de 1980, o Brasil vem realizando estudos para identificar o potencial de pesca no Oceano Atlântico e zelar
pela manutenção dele;

* plataforma continental: conforme a convenção de 1982, corresponde ao leito e ao subsolo das


áreas submarinas que se estendem além do seu mar territorial.

Os países que tiverem intenção de ampliar sua atuação para além das 200 milhas devem apresentar
um relatório para a Convenção da ONU, provando que a plataforma continental se prolonga para além de
200 milhas.
Para cumprir essa determinação, o governo brasileiro criou, na década de 1980, o projeto
Levantamento da Plataforma Continental (Leplac). Cientistas, militares e técnicos da Petrobras
participaram dessa empreitada, e o relatório em 2013 já havia sido praticamente todo aprovado pela
comissão da ONU. Assim, o Brasil controlaria a área de 4,5 milhões de quilômetros quadrados no mar, o
que praticamente equivale, em extensão territorial, a uma nova Amazônia. Foi por isso que muitos
passaram a chamar essa região de Amazônia Azul.
Nessa área ocorre quase 80% da exploração petrolífera brasileira. Muitos especialistas afirmam que
em um futuro próximo será possível explorar outros minerais que existem no fundo do mar.

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Por esse tratado, o Brasil também é responsável, por exemplo, por operações de resgate em uma área
muito maior que a Amazônia Azul. Trata-se de uma nova fronteira que ainda precisa ser muito estudada
e conhecida.

A Divisão Regional do IBGE

Os primeiros estudos de divisão regional datam de 1941 e foram realizados sob a coordenação do
engenheiro, geógrafo e professor Fábio Macedo Soares Guimarães (1906-1979). Ao avaliar as diversas
propostas de divisão regional que já existiam naquela época, esse trabalho visava a elaborar uma única
divisão regional do Brasil para a divulgação de dados estatísticos sobre a realidade socioespacial de
nosso país.
Foi assim que, em 1942, surgiu a primeira divisão regional do IBGE, que levava em conta sobretudo
as características naturais. Era constituída por cinco grandes regiões: Norte, Nordeste, Leste, Sul e
Centro-Oeste. A região Nordeste foi subdividida em Nordeste Ocidental e Nordeste Oriental. Por sua vez,
a região Leste foi subdividida em Leste Setentrional e Leste Meridional.
Em 1945, o IBGE divulgou uma nova divisão regional do Brasil, levando em consideração, agora, sub-
regiões denominadas zonas fisiográficas, baseadas no quadro físico do território, com vistas ao
agrupamento de dados estatísticos municipais, em unidades espaciais de dimensão mais reduzida que
as das unidades da federação.
Desde então, uma sucessão de divisões regionais foi proposta pelo IBGE.
Ressalta-se que, em todas as divisões regionais propostas pelo IBGE, há um aspecto importante em
comum: os limites das regiões coincidem com os limites estaduais.
Evidentemente, essas divisões regionais não levam em conta as especificidades naturais do nosso
país. O norte de Minas Gerais, por exemplo, apesar de abrigar paisagens naturais típicas do Sertão
nordestino, integra a região Sudeste.

Lista do Estados e Capitais por região

Região Norte
Acre – Capital: Rio Branco.
Amapá – Capital: Macapá.
Amazonas – Capital: Manaus.
Pará – Capital: Belém.
Rondônia – Capital: Porto Velho.
Roraima – Capital: Boa Vista.
Tocantins – Capital: Palmas.

Região Nordeste
Alagoas – Capital: Maceió.
Bahia – Capital: Salvador.
Ceará – Capital: Fortaleza.
Maranhão – Capital: São Luís.
Paraíba – Capital: João Pessoa.
Pernambuco – Capital: Recife.
Piauí – Capital: Teresina.
Rio Grande do Norte – Capital: Natal.
Sergipe – Capital: Aracaju.

Região Centro-Oeste
Goiás – Capital: Goiânia.
Mato Grosso – Capital: Cuiabá.
Mato Grosso do Sul – Capital: Campo Grande.
Distrito Federal – Capital: Brasília.

Região Sudeste
Espírito Santo – Capital: Vitória.
Minas Gerais – Capital: Belo Horizonte.
São Paulo – Capital: São Paulo.
Rio de Janeiro – Capital: Rio de Janeiro.
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Região Sul
Paraná – Capital: Curitiba.
Rio Grande do Sul – Capital: Porto Alegre.
Santa Catarina – Capital: Florianópolis.

Questões

01. (Instituto Rio Branco – Diplomata – CESPE) Julgue (C ou E) o próximo item, relativo à formação
histórica do território brasileiro.
A formação histórica do território brasileiro iniciou-se com a assinatura do Tratado de Madri, que
determinou, por meio da criação de uma linha imaginária, o primeiro limite territorial da colônia portuguesa
nas Américas.
(....) Certo (....) Errado

02. (TJ/SC – Analista Administrativo – TJ/SC) Sobre o território brasileiro, sua localização geográfica
e sua organização política-territorial, todas as alternativas estão corretas, EXCETO:
(A) O Brasil é uma república federativa formada por 27 unidades sendo, 26 estados e um Distrito
Federal.
(B) A divisão política do território brasileiro tem mudado no decorrer do tempo, assim até a Constituição
de 1988 existia no Brasil a denominação de Território Federal.
(C) Os Territórios Federais eram divisões internas do país administradas diretamente pelo governo
federal.
(D) Na divisão política-administrativa do Brasil, em 1988 é extinto o Território Federal de Fernando de
Noronha, que passa a fazer parte do Estado de Pernambuco.
(E) O Brasil ocupa a porção centro-ocidental da América do Sul, portanto, apresenta fronteiras com
quase todos os países sul-americanos exceto, o Chile e Equador.

03. (DPE/SP – Oficial de Defensoria Pública – FCC) O Estado Brasileiro organiza-se, política e
administrativamente, sob a forma de
(A) confederação democrática.
(B) república parlamentarista.
(C) república federativa.
(D) federação parlamentarista.
(E) confederação parlamentarista.

04. (IF/PI – Assistente em Administração – FUNRIO) A organização político-administrativa da


República Federativa do Brasil compreende
(A) a União e os Estados, somente.
(B) a União, os Estados e o Distrito Federal, somente.
(C) a União e o Distrito Federal, somente.
(D) os Estado, o Distrito Federal e os Municípios, somente.
(E) a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios.

Gabarito

01. Errado / 02.E / 03.C/ 04.E

Comentários

01. Resposta: Errado


A colonização foi um dos processos que definiram a formação populacional brasileira.
A partir do século XV, os europeus – especialmente os portugueses, seguidos dos espanhóis –
iniciaram a expansão marítima que os levou à conquista de terras até então desconhecidas – na África,
na Ásia e na América.

02. Resposta: E
O Brasil é considerado um país continental, se encaixa entre os cinco maiores países do mundo. Ocupa
a porção centro-oriental do continente, fazendo fronteira com quase todos os países sul-americanos
(exceção do Chile e do Equador).
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03. Resposta: C
Artigo 18, CF/88: A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende
a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição.

04. Resposta: E
Artigo 18, CF/88: A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende
a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição.

As lutas pela conquista da independência política das colônias da


América
*Candidato(a). Esse tema foi trabalhado no tópico “A Conquista da América. Conflitos entre europeus
e indígenas na América colonial. A escravidão e formas de resistência indígena e africana na América.”.

Grupos sociais em conflito no Brasil imperial e a construção da nação

PERÍODO JOANINO E A INDEPENDÊNCIA

Só passando para lembrar que quando tratamos sobre a chegada dos portugueses no Brasil a
partir do período joanino ou após o período colonial, estamos falando das CORTES portuguesas,
uma vez que a presença lusitana no nosso território é ininterrupta desde o descobrimento.

Realizações Político-sociais das Cortes no Brasil

As mudanças econômicas e políticas que vinham soprando suas ideias da América do Norte e da
Europa para as colônias é fator chave para entendermos porque a família real portuguesa mudou-se com
toda a sua Corte da “civilizada” Lisboa para a abandonada colônia brasileira.
O absolutismo viu suas bases estremecerem na segunda metade do século XVIII principalmente pelo
sucesso das Revoluções Estadunidense e Francesa com suas ideias democráticas. No mesmo sentido,
sua política econômica - o mercantilismo - via o capitalismo industrial começar a tomar a dianteira frente
ao capitalismo comercial, marca desses governos.
Mas foi da França o empurrão fundamental para a mudança da Corte lusitana58. Quando da expansão
napoleônica na Europa, apenas a Inglaterra conseguia fazer frente aos franceses. Em uma tentativa de
enfraquecer seu maior adversário, a França decreta um bloqueio comercial à Inglaterra por todos os
países que estavam sob sua influência, entre eles, Portugal, que não aceita manter o bloqueio,
desencadeando a invasão francesa, consequência da fuga da Corte para o Brasil.
Os motivos que o leva a não aceitar manter o bloqueio dizem respeito a uma série de acordos
econômicos entre Portugal e Inglaterra (mal feitos), que tornou Portugal uma nação dependente. As
premissas dos acordos mantinham os portugueses como uma economia basicamente agrária enquanto
os ingleses desenvolviam sua indústria.
O Tratado de Methuen exemplifica bem isso: Portugal forneceria vinho aos ingleses (campo) e a
Inglaterra forneceria tecidos aos portugueses (indústria). Sem opção e por exigência da Inglaterra,
Portugal recusa o bloqueio.
Por sua vez, Napoleão foi um cão que latia e também mordia. Ao ver a recusa portuguesa nos seus
planos, a França invade e divide Portugal com a Espanha (Tratado de Fontainebleau) além de declarar
extinta a Dinastia dos Bragança.

A Fuga para o Brasil


Portugal contou com o apoio naval inglês para sua fuga. Cerca de 15 mil pessoas que compunham a
Corte fizeram a viagem que durou cerca de dois meses com escolta e medidas de segurança como
colocar membros da família real em diferentes navios, caso houvesse ataques.
Ao chegar, D. João tomou duas medidas que afetaram tanto França quanto Inglaterra, sendo:
- a retaliação à Napoleão, invadindo e conquistando a Guiana Francesa; e

58
Que se refere à Lusitânia, antiga região situada na península Ibérica. Atualmente, refere-se ao território português.

128

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- premiando a Inglaterra e visando o próprio conforto, ainda em 1808 assinou uma Carta Régia com a
medida que ficou conhecida como “Abertura dos Portos às Nações Amigas”, beneficiando basicamente o
país inglês.
A medida mudava o status do Brasil, mas beneficiou muito os ingleses que agora não precisavam mais
negociar com a metrópole suas relações comerciais em território nacional.
Além das mudanças que afetavam política e economia externas, D. João também realizou mudanças
internas.
Temos que ter em mente que até então o Brasil é uma colônia. Isso significa que todo o aparato
administrativo, judiciário e econômico são da metrópole. Com a vinda da Corte, todos os tipos de decisões
nesse sentido que eram tomadas em Lisboa, teriam que ser tomadas no Rio de Janeiro e para isso seguiu-
se uma série de mudanças: nomeou ministros de Estado, criou secretarias públicas, criou tribunais de
justiça, o Banco do Brasil e o Arquivo Central.
Mudanças na cidade também foram realizadas com a intenção de tornar a capital do Brasil uma cidade
mais próxima do que a Corte estava acostumada na Europa: foram criados jornais de circulação diária,
uma biblioteca real com mais de 60 mil exemplares vindos de Lisboa, Academias militar e da marinha,
faculdades de medicina e de direito, observatórios, jardim botânico, teatros (...) Estruturalmente a cidade
ganhou iluminação pública, ruas pavimentadas, chafarizes e pontes.
Culturalmente a principal mudança se deu pela vinda da Missão Francesa para a criação da Imperial
Academia e Escola de Belas-Artes, tendo como principal nome o artista Jean-Baptiste Debret.
Apesar de os trabalhos realizados pela Missão Francesa não influenciarem o grosso da população
brasileira e carioca, foram de grande importância para o conhecimento do Brasil na Europa.
Como era no Rio de Janeiro que as coisas aconteciam, foi natural o crescimento populacional. Além
do número crescente de brasileiros que migravam em busca de emprego na capital, o número de escravos
também aumentou – para atender a maior demanda de serviços – assim como o de estrangeiros que
faziam negócios e já pregavam a ideia de trabalhadores assalariados.
Economicamente, apesar de D. João autorizar a instalação de manufaturas no país, os acordos
desiguais feitos com a Inglaterra castravam as intenções empreendedoras dos brasileiros.
Em 1810 foi assinado o Tratado de Comércio e Navegação em que os produtos ingleses entravam em
nosso país com taxas menores até do que os produtos portugueses.

O Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves

Após a derrota de Napoleão, o Congresso de Viena59 contou com os principais representantes dos
países europeus e decidiu os caminhos que seriam tomados a partir de então.
Em uma disputa de interesses entre Inglaterra e França, D. João acaba sendo influenciado pelas ideias
francesas e decide continuar com a Corte no Brasil, além de declará-lo como Reino Unido de Portugal e
Algarves.
No Congresso de Viena ficou decidido que toda e qualquer mudança realizada durante a expansão
napoleônica seria desfeita. Reis destituídos – como os casos de Portugal e Espanha – teriam seu governo
restaurado. Essa era uma medida que beneficiaria novamente a Inglaterra. Se D. João voltasse a
Portugal, dificilmente ele conseguiria fazer com que as mudanças realizadas no Brasil (econômicas)
voltassem ao modelo antigo, aquele em que a metrópole tem controle sobre a colônia.
A Inglaterra já havia estabelecido negócios e influência dentro do nosso país, e os próprios
comerciantes e classe alta brasileiros não aceitariam o retorno à condição de colônia.
Do outro lado do Atlântico tínhamos uma Lisboa financeiramente debilitada ao ponto de a Corte preferir
permanecer no Rio de Janeiro. A solução para manter a posição em Lisboa e o controle sobre o Brasil foi
elevá-lo a categoria de Reino e não mais colônia.

Revolução Pernambucana

Todas as melhorias que foram descritas há pouco ficaram restritas apenas ao Rio de Janeiro. As outras
províncias do Brasil ainda sofriam com a precariedade econômica e social. Esse cenário gerou
descontentamento em várias regiões mas apenas algumas fizeram algo a respeito, como foi o caso de
Pernambuco.
Com ideais republicanos, separatistas e anti-lusitanos, a Revolução Pernambucana ia contra os
pesados impostos, descaso administrativo e opressão militar.

59
O Congresso de Viena foi uma conferência entre embaixadores das grandes potências europeias que aconteceu na capital austríaca, entre maio de 1814 e
junho de 1815, cuja intenção era a de redesenhar o mapa político do continente europeu após a derrota da França napoleônica

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A Revolução apenas teve início após a delação do movimento. Quando os líderes conspiradores foram
presos, a luta começou. A revolta chegou a contar com a participação da Paraíba e Rio Grande do Norte,
porém a coroa conseguiu encerrá-la através da força militar.
Alguns líderes foram executados e outros receberam o perdão real anos depois, como Frei Caneca.

O Retorno de D. João para Portugal

Lisboa e Rio de Janeiro literalmente inverteram os papeis nesse período. Se antes Lisboa era o centro
do império português com suas instituições e riquezas colhidas pela forma de governo colonial, agora ela
via o Rio de Janeiro assumir esse papel.
Os comerciantes portugueses viram sua economia despencar quando das assinaturas de D. João nos
novos acordos com os ingleses. O Brasil era o principal mercado lusitano. Não bastasse isso, o rei de
Portugal não tinha planos de regressar e ainda deixou o governo do país a cargo de um inglês (general
Beresford).
Fórmula certa para insatisfação, foi o que ocorreu: Em 24 de agosto de 1820 eclodiu a Revolução do
Porto, onde, vitoriosa, a nova Assembleia Constituinte (Cortes portuguesas) adotou nova Constituição,
exigindo o retorno da Família Real para jurar a ela e a volta do Brasil à condição de colônia. Não foi o que
aconteceu.
D. João garantiu que sua família ainda governasse os dois territórios. Para agradar os portugueses,
ele regressou à Portugal. Para agradar os brasileiros ele deixou seu filho, D. Pedro I como regente,
assegurando que o Brasil não voltaria a ser colônia.

O Dia do Fico e a Independência do Brasil

Apesar dos planos de D. João, as Cortes portuguesas não encararam bem o fato de D. Pedro I ter
ficado no Brasil como regente. A partir daí ele passa a ser pressionado a voltar para Portugal e prestar
homenagens às Cortes.
Por outro lado, a aristocracia brasileira sabia que a única forma de garantir que o país não regressasse
à condição de colônia era apoiar o movimento emancipacionista em volta de D. Pedro I.
Em janeiro de 1822 com grande apoio do movimento emancipacionista brasileiro D. Pedro I não
cumpre às exigências das Cortes e afirma que permaneceria no Brasil (“Dia do Fico”). Esse dia foi seguido
de negociações e mudanças na administração brasileira até finalmente em 7 de setembro do mesmo ano
ser declarada a independência do Brasil.

O Reconhecimento da Independência
O simples fato de D. Pedro I declarar o Brasil independente não o tornava assim. Era necessário que
externamente essa independência fosse reconhecida. Portugal, claro, não o fez. No início apenas alguns
reinos africanos com o qual o Brasil tinha relações comerciais (negociação de escravos) e os Estados
Unidos (dois anos depois) reconheceram nossa autonomia.
A Inglaterra, embora continuasse fazendo negócios com o Brasil não reconheceu de imediato a nova
condição, uma vez que não queria perder Portugal como parceiro/dependente dentro da Europa. Visando
os próprios interesses foi ela quem intercedeu para que um acordo fosse realizado entre Brasil e Portugal.
Em 29 de agosto de 1825 foi assinado o Tratado de Paz e Aliança, em que mediante o pagamento de
dois milhões de libras esterlinas como indenização, e a continuidade do título de imperador do Brasil para
D. João, Portugal reconhecia a emancipação do Brasil.
O dinheiro foi conseguido junto à Inglaterra que reviu seus acordos comerciais com o Brasil e
conseguiu o “compromisso” do fim da escravidão no país, além do pagamento da própria dívida. A partir
daí outras nações da América e do mundo também reconheceram o Brasil como nação autônoma.

O Primeiro Reinado (1822-1831)

De cara, alguns fatores chamaram a atenção a respeito da independência do Brasil:


- éramos o único país na América que após a emancipação da metrópole continuamos a viver em um
regime monárquico;
- a população não teve participação alguma no processo e até mesmo províncias mais distantes só
ficaram sabendo da mudança meses depois;
- a aceitação não foi total e pacífica como era de se esperar.

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Algumas regiões, principalmente aquelas com conservadores portugueses e acúmulo de tropas
lusitanas não apenas recusaram-se a aceitar a autoridade de D. Pedro I como lutaram contra ela.
As províncias da Bahia, Cisplatina, Maranhão, Piauí e Pará resistiram ao novo governo e apenas com
o uso da força aceitaram a nova condição.
Na prática, nossa política não teve mudanças, ainda vivíamos em uma monarquia centralizadora e
mesmo os defensores de ideias republicanas só pensavam em sua projeção política e não em uma
mudança de fato.

A Primeira Constituição Brasileira


D. Pedro I havia convocado uma Assembleia Constituinte antes mesmo de declarar o Brasil
independente. E desde o primeiro momento houve desacordo.
A Assembleia, liderada pelos irmãos Andrada, tinha a intenção de fazer uma Constituição similar à
portuguesa, onde D. Pedro teria seus poderes limitados. Já o monarca, que era conhecido por ser
autoritário e centralizador trabalhou para permanecer com todos os poderes em torno de si.
Apesar da Constituição elaborada por influência dos Andrada ter a intenção de limitar os poderes de
D. Pedro I, ela garantia os privilégios da aristocracia rural. Popularmente conhecida como Constituição
da Mandioca60 ela garantia os privilégios à quem tivesse a posse da terra e defendia a manutenção da
escravidão.
Acontece que essa Constituição, onde o legislativo predominaria pelo executivo nem chegou a ser
concluída. Em 12 de novembro de 1823 D. Pedro I ordenou o fechamento da Assembleia (episódio
conhecido como “Noite da Agonia”), convocou um Conselho de Estado e encomendou a nova
Constituição do país, onde seu poder estaria assegurado.
A nova Constituição dividia o Estado em quatro poderes: executivo, legislativo, judiciário e moderador.
O poder moderador era exclusivo de D. Pedro I e estava acima de todos os outros. Assim ele mantinha
todas as características centralizadoras e absolutistas de uma monarquia e não via precedentes de
verdadeira oposição.

A Confederação do Equador
A tendência autoritária de D. Pedro I e a nova Constituição desagradaram em vários aspectos muitas
províncias brasileiras. O nordeste, já marginalizado nesse período e com histórico de revoltas contra a
coroa, novamente se movimentou. Com início em Pernambuco e com apoio popular, outras províncias se
juntaram ao movimento (Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba).
Apesar de iniciada por lideranças populares, entre eles Cipriano Barata e Frei Caneca, as elites
regionais também apoiaram o movimento. Do ponto de vista social foi o mais avançado do período com
reformas sociais, mudança de direitos políticos e abolição da escravidão.
Essas mesmas mudanças radicais levaram as elites regionais a abandonar o movimento, pois temiam
perder seus próprios privilégios.
Sem o apoio da aristocracia local e com forte repressão do governo, o levante foi contido com
dezesseis membros sendo condenados à morte, entre eles, Frei Caneca.

A Cisplatina
A região da Cisplatina61 sempre foi alvo do interesse do governo português que desejava expandir
suas fronteiras até o rio da Prata. Após a “bagunça” feita por Napoleão às Coroas europeias, mais
precisamente à Coroa espanhola que teve sua continuidade interrompida e retomada após a queda do
general francês, as colônias americanas viviam um período de instabilidade e descentralização. Todos
os movimentos de independência dessas colônias, apesar de bem sucedidos, as debilitaram econômica
e politicamente. Foi quando dessa instabilidade que D. João viu a oportunidade de realizar um antigo
desejo português, em 1820 ele ordena às tropas imperiais invadirem a região da Cisplatina.
Mesmo após o retorno de D. João à Portugal e à independência, a Cisplatina continuou sendo parte
do Brasil (até 1828), porém à duras custas, a região nunca aceitou o domínio brasileiro, e constantemente
D. João e posteriormente D. Pedro I tinham de enviar expedições para conter as revoltas. Isso não apenas
gerava custos aos cofres imperiais como também atacava a imagem do imperador, que se mostrava
incapaz de resolver a questão. A opinião pública era avessa à causa de gastar com os conflitos e insistir
em manter a posse de uma região que nem era semelhante culturalmente ao povo brasileiro.
Enfim, em 1828, com apoio do governo argentino, as forças cisplatinas fazem com que o Brasil se
retire do conflito e proclamam a República Oriental do Uruguai.

60
Apenas pessoas com mais de 150 alqueires de mandioca poderiam se candidatar ou votar.
61
Província do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e, posteriormente, do Império do Brasil. A província correspondia ao atual território do Uruguai.

131

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A imagem de D. Pedro I sai abalada após o episódio. Seguiu-se a isso o misterioso assassinato de
Libero Badaró (jornalista declarado opositor e crítico de D. Pedro I), maior força do movimento liberal e
aumento das críticas a respeito da conduta política do imperador.
Além da pressão política, do exército e da população, D. Pedro I teve de superar uma crise sucessória.
Quando D. João faleceu, D. Pedro I abdica do trono português em favor de sua filha. Em Portugal é
iniciado então um conflito sucessório entre D. Maria da Glória e o irmão de D. Pedro I, D. Miguel.
D. Pedro passa a gastar recursos brasileiros para garantir o trono de sua filha, o que gera mais
descontentamento nacional. Com a pressão interna e a necessidade de cuidar de seus interesses em
Portugal, D. Pedro I abdica do trono brasileiro e retorna para seu país, deixando como herdeiro seu filho,
D. Pedro II.

O Período Regencial (1831-1840)

D. Pedro II, herdeiro do trono brasileiro tinha apenas cinco anos de idade quando D. Pedro I retornou
a Portugal. A maioria dos políticos brasileiros ainda eram favoráveis à manutenção do império e se
preocuparam com as possíveis revoltas que haveriam tendo uma criança como governante. Ficou então
decidido que o país seria governado por regentes até a idade apropriada de D. Pedro II.
Politicamente esse foi o período mais conturbado desde a colonização. Além dos grupos regionais que
se revoltaram, o próprio cenário político não tinha unidade. Apesar de todos fazerem parte basicamente
dos mesmos segmentos e terem interesses econômicos semelhantes, politicamente estavam divididos
entre:

- Restauradores (conhecidos como Caramurus, eles defendiam a continuidade de D. Pedro I no poder


e acreditavam que a tranquildade política passava pela ação absolutista. José Bonifácio fazia parte desse
grupo que foi articulador do Golpe da Maioridade anos depois);
- Liberais moderados (apesar do nome, esse grupo era composto em grande parte pela aristocracia
rural. Eram contra reformas sociais e lutavam por manter seus privilégios. Defendiam a monarquia, porém
de forma menos autoritária do que D. Pedro I empregava. Eram chamados de Chimangos);
- Liberais exaltados (era o grupo mais variado, tinha desde aristocratas até trabalhadores livres e
sem terras. Esse grupo buscava reformas sociais e políticas, maior autonomia das províncias e mudanças
constitucionais. Eram conhecidos como Chapéus-de-palha).

A Regência Trina Provisória


A Constituição previa que caso o soberano não tivesse um parente próximo com mais de 35 anos para
governar em seu lugar, uma regência trina (composta por três pessoas) deveria fazê-lo.
Como na época em que D. Pedro I abdicou os deputados estavam de férias, foi formada uma Regência
Trina Provisória.
Suas principais ações foram a manutenção da Constituição de 1824, reintegração do ministério
demitido por D. Pedro I, anistia aos presos políticos e a promulgação da Lei Regencial de abril de 1831,
que limitava os poderes dos regentes.

A Regência Trina Permanente


Foi eleita em junho de 1831. Com o padre Digo Antônio Feijó como ministro da justiça e composta por
Bráulio Muniz, Costa Carvalho e Francisco de Lima e Silva, essa regência teve como principal realização
a criação da Guarda Nacional.
A criação da Guarda Nacional gera uma série de consequências que serão vistas até o século XX,
principalmente no período da República Velha. A Guarda foi uma tentativa de baratear os custos da
segurança no país “terceirizando” as funções de polícia e do exército. Os chamados coronéis compravam
suas patentes militares e recebiam autonomia para organizar suas próprias forças armadas locais.
Embora na teoria seu papel fosse garantir a ordem regional, essa força só servia aos seus interesses,
como as leis garantiam que apenas ingressasse na Guarda quem dispusesse de altos ganhos anuais, e
estes eram apenas os grandes proprietários de terras, apenas a aristocracia rural ficou identificada com
os coronéis.
A mesma administração ainda promulga a “Lei Feijó” que proibia o tráfico e tornava livre todos os
africanos introduzidos em território brasileiro. Essa lei nunca foi respeitada de fato e a escravidão
permaneceu até 1888.

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Ato Adicional de 1834
O Ato Adicional de 1834 foi uma revisão da Constituição de 1824. Promulgado em 12 de agosto,
possuía caráter descentralizador, instituindo a criação de assembleias legislativas nas províncias, a
supressão do Conselho de Estado e a Regência Una (governante único). O Rio de Janeiro foi considerado
um território neutro. Também foi reduzida a idade para o imperador ser coroado, de 21 para 18 anos.

Regência Una
Apesar de uma tentativa frustrada de assumir o poder em 1832, abandonando o cargo de Ministro da
Justiça logo em seguida, o padre Feijó obteve a maioria dos votos na eleição para Regente em 1835.
Sendo empossado em 12 de outubro do mesmo ano para um mandato de quatro anos, não completando
nem dois anos no cargo. Seu governo é marcado por intensa oposição parlamentar e rebeliões
provinciais, como a Cabanagem, no Pará, e o início da Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul. Com
poucos recursos para governar e isolado politicamente, renunciou em 19 de setembro de 1837.

Segunda Regência Una


Com a renúncia de Feijó e o desgaste dos liberais, os conservadores obtêm maioria na Câmara dos
Deputados e elegem Pedro de Araújo Lima como novo regente único do Império, em 19 de setembro de
1837. A segunda regência una é marcada por uma reação conservadora, e várias conquistas liberais são
abolidas. A Lei de Interpretação do Ato Adicional, aprovada em 12 de maio de 1840, restringe o poder
provincial e fortalece o poder central do Império. Acuados, os liberais aproximam-se dos partidários de D.
Pedro II. Juntos, articulam o chamado golpe da maioridade, em 23 de julho de 1840.

Revoltas no Período Regencial

Em muitas partes do império a insatisfação com o governo cresceu muito, levando alguns grupos a
apelarem para a luta armada e a revolta como forma de protesto.

Cabanagem (1833-1840)
A Cabanagem foi uma revolta que ocorreu entre 1833 e 1839, na região do Grão-Pará, que
compreende os atuais estados do Amazonas e Pará. A revolta começou a partir de pequenos focos de
resistência que aumentaram conforme o governo tentava sufocar os protestos, impondo leis mais rígidas
e a obrigação de participação no exército para aqueles que fossem considerados praticantes de atos
suspeitos. A cabanagem contou com grande participação da população pobre, principalmente os
Cabanos, pessoas que viviam em cabanas na beira dos rios. Os revoltosos tomaram a cidade de Belém,
porém foram derrotados pelas tropas imperiais.

Revolução Farroupilha (1835-1845)


A Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos foi uma revolta promovida por grandes proprietários
de terras no Rio Grande do Sul, conhecidos como estancieiros. O objetivo de seus líderes era de separar-
se do restante do país.
A revolta começa pelo descontentamento de produtores do sul em relação aos produtores estrangeiros
de charque, principalmente os platinos e argentinos que comercializavam e concorriam com os
estancieiros pelo mercado do produto no Brasil, utilizado principalmente na alimentação de escravos.
Em 1835, insatisfeitos com o governo, os estancieiros iniciam a revolta, tendo Bento Gonçalves como
principal chefe do movimento, comandando as tropas farroupilhas que dominaram Porto Alegre. Com as
vitórias obtidas foi proclamado um governo independente em 1836, conhecido como República do Piratini,
com Bento Gonçalves como presidente.
Em 1839, o movimento farroupilha conseguiu ampliar-se. Forças rebeldes, comandadas por Giuseppe
Garibaldi e Davi Canabarro, conquistaram Santa Catarina e proclamaram a República Juliana.
A revolta consegue ser contida somente após a coroação de D. Pedro II e com os esforços do Barão
de Caxias, encerrando os conflitos em 1 de março de 1845.

Revolta dos Malês (1835)


Em Salvador, nas primeiras décadas do século XIX, os negros escravos ou libertos correspondiam a
cerca de metade da população. Pertenciam a vários grupos étnicos, culturais e religiosos, entre os quais
os muçulmanos – genericamente denominados malês -, que protagonizaram a Revolta dos Malês, em
1835.
O exército rebelde era formado em sua maioria, por “negros de ganho”, escravos que vendiam
produtos de porta em porta e, ao fim do dia, dividiam os lucros com os senhores. Podiam circular mais
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livremente pela cidade que os escravos das fazendas, o que facilitava a organização do movimento. Além
disso, alguns conseguiam economizar e comprar a liberdade. Os revoltosos lutavam contra a escravidão
e a imposição da religião católica, em detrimento da religião muçulmana.
A repressão oficial resultou no fim da Revolta dos Malês, que teve muitos mortos, presos e feridos.
Mais de quinhentos negros libertos foram degredados para a África como punição.

Sabinada (1837-1838)
A Sabinada ocorreu na Bahia, com o objetivo de implantar uma república independente. Foi liderada
pelo médico Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, e por isso ficou conhecida como Sabinada. O
principal objetivo da revolta era instituir uma república baiana, mas só enquanto o herdeiro do trono
imperial não atingisse a maioridade legal. Diferentemente de outras revoltas ocorridas no período, a
sabinada não contou com o apoio das camadas populares e nem com os grandes proprietários rurais da
região, o que garantiu ao exército imperial uma vitória rápida.

Balaiada (1838-1841)
Balaiada ocorreu no Maranhão, em 1838, e recebeu esse nome devido ao apelido de uma das
principais lideranças do movimento, Manoel Francisco dos Anjos Ferreira, o "Balaio", conhecido por ser
vendedor do produto.
A Balaiada representou a luta da população pobre contra os grandes proprietários rurais da região. A
miséria, a fome, a escravidão e os maus tratos foram os principais fatores de descontentamento que
levaram a população a se revoltar.
A principal riqueza produzida na província, o algodão, sofria forte concorrência no mercado
internacional, e com isso o produto perdeu preço e compradores no exterior. Além da insatisfação popular,
a classe média maranhense também se encontrava descontente com o governo imperial e suas medidas
econômicas, encontrando na população oprimida uma forma de combatê-lo.
Os revoltosos conseguiram tomar a cidade de Caxias em 1839 e estabelecer um governo provisório,
com medidas que causaram grande repercussão, como o fim da Guarda Nacional e a expulsão dos
portugueses que residiam na cidade.
Com a radicalização que a revolta tomou, como a adesão de escravos foragidos, a classe média que
apoiava as revoltas aliou-se ao exército imperial, o que enfraqueceu bastante o movimento e garantiu a
vitória em 1841, com um saldo de mais de 12 mil sertanejos e escravos mortos em batalhas. Os revoltosos
que acabaram presos foram anistiados pelo imperador.

A Maioridade e a Tranquilidade Política


Toda a instabilidade do período regencial colocou tanto liberais quanto conservadores em xeque, uma
vez que ambos haviam ocupado o poder mas nenhum conseguiu trazer estabilidade ao país. A ideia de
antecipar a maioridade de D. Pedro II começou a agradar ambos os grupos: os liberais esperavam que
com isso teriam a chance de voltar ao governo. Os conservadores viam nisso uma oportunidade de
preservar a monarquia e manter a unidade do império. Em 1840, com uma regência conservadora o
parlamento aprova adiantar a maioridade de D. Pedro II.

Segundo Reinado

Ao contrário do que aconteceu com seu pai, a preparação política de D. Pedro II parece ter sido melhor.
Mesmo sem abandonar o aspecto autoritário em seu governo, politicamente ele soube trabalhar com as
aristocracias rurais. D. Pedro II dava a elas a condição de crescerem economicamente e em troca recebia
seu apoio político.
Falamos em aristocracias porque nesse período uma nova elite agrária e mais poderosa surgiu
representada pelos cafeicultores do sudeste frente a antiga elite nordestina. O café passou a ser o
principal produto do país e assim permaneceu até a república.

Liberais e Conservadores62
Liberais (chamados de Luzia) e conservadores (Saquarema) diferiam em suas teorias e aspirações
políticas em seus discursos, porém, durante todo o Segundo Reinado ficou claro que quando no poder,
ambos eram iguais.
Os liberais defendiam a descentralização e autonomia das províncias enquanto os conservadores,
como o próprio nome sugere, defendiam um governo forte e centralizado.

62
Adaptado de MARTINS. U. (Segundo Reinado – 1840 – 1889)

134

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As Eleições do Cacete
Ao assumir, D. Pedro II vivenciou um grande impasse político: para auxiliá-lo em seu governo foi criado
o Ministério da Maioridade. O problema se deu porque o Ministério tinha sua maioria composta por
liberais, enquanto a Câmara era composta maioritariamente por conservadores. Qualquer decisão a ser
tomada gerava grande debate pelas divergências entre ambos.
A solução encontrada para acabar com essa disputa foi dissolver a Câmara e convocar novas eleições:
As Eleições do Cacete. O nome não foi por acaso. Para garantir a vitória, o partido liberal colocou
“capangas” para trabalhar nas eleições e através de coerção e ameaças eles venceram.
Os liberais mantiveram-se no poder por pouco tempo. Apesar de serem maioria, as pressões externas
(Inglaterra) e internas (Guerra dos Farrapos), e a má impressão que ficou após o uso da força nas eleições
fez com que o imperador novamente dissolve-se a Câmara e formasse um novo ministério, este composto
por ambos os lados.

Revolução Praieira
A Revolução Praieira ocorreu na metade do século XIX (1848) em um contexto onde o nordeste já
sofria as consequências econômicas da crise do açúcar, enquanto a região sudeste já era a “favorita” do
Império com a prosperidade econômica ocasionada pelo café.
Pernambuco era uma província conturbada na época: eram os portugueses quem controlavam o
comércio e a política local. O cenário de problemas econômicos, sociais e políticos criou o clima para um
conflito entre os partidos Liberal e Conservador.
Os portugueses se concentravam em torno do partido conservador. Os democratas e liberais
brasileiros em torno do partido liberal. Após as eleições de 1848 que tiveram como resultado a eleição de
um conservador para o cargo de presidente de província, os liberais revoltam-se pegando em armas e
lançando o Manifesto ao Mundo, documento que exigia o fim dos privilégios comerciais portugueses,
liberdade de imprensa, fim da monarquia e proclamação da república, fim do voto censitário, extinção do
poder moderador e Senado vitalício.
Com adesão popular os revoltosos chegaram a derrubar o presidente de província e controlar Olinda,
porém as tropas imperiais os contêm em 1849.

O Parlamentarismo às Avessas
Em 1847 D. Pedro II cria no Brasil um sistema parlamentarista até então inédito no mundo.
Um sistema parlamentarista tradicional funciona com o rei (ou presidente) sendo o chefe de Estado,
porém não sendo o chefe de governo. Isso implica nas responsabilidades políticas do cargo, onde o chefe
de governo as têm em muito maior quantidade.
Normalmente é o parlamento quem elege o Primeiro Ministro para chefe de governo. No Brasil as
coisas aconteceram um pouco diferentes: o Parlamentarismo às Avessas, como ficou conhecido, contava
com um novo cargo, o de Presidente do Conselho de Ministros (que em um sistema normal seria o
Primeiro Ministro), submisso e escolhido por D. Pedro II, que poderia destitui-lo quando quisesse.
Era uma forma de manter o parlamento e o Presidente sob controle e que acabava descaracterizando
o sistema como Parlamentarista.

A Influência do Café
O sistema de produção rural no Brasil sempre foi o mesmo, baseado na monocultura, grande
propriedade e trabalho escravo. Desde a crise do açúcar e esgotamento das jazidas de ouro, o país
procurava seu novo salvador econômico. Este se apresentou na figura do café, que além da mudança
em relação à mão de obra, mostrou poucas mudanças na estrutura de produção.
Graças ao aumento do consumo europeu, clima e solos favoráveis, além da já estabelecida estrutura
de grandes propriedades e monocultura, o café já na primeira metade do século XIX despontava como
principal produto nacional. Das primeiras fazendas comerciais no Rio de Janeiro, até sua expansão para
o interior de Minas Gerais, São Paulo e norte do Paraná, até quase a metade do século seguinte o café
não apenas conseguia sozinho equilibrar nossa balança comercial, mas foi responsável pelo
desenvolvimento da malha ferroviária, algumas cidades que a acompanhavam e pela introdução da mão
de obra livre.
Com crescente demanda, maior necessidade de braços para a lavoura, com a pressão da Inglaterra
pelo fim do tráfico e posteriormente fim da escravidão, os cafeicultores não encontraram outra solução
que não trazer trabalhadores imigrantes europeus para suas fazendas.
Esse foi um período que marca o país em todos os aspectos:
- sociais com o surgimento de novas classes;

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- políticos com a mudança do eixo central da velha oligarquia açucareira para a nova oligarquia
cafeeira (Barões do Café); e
- econômicas com o desenvolvimento de cidades, serviços e ensaios de industrialização.

Cultura
A cultura no século XIX desenvolveu-se de acordo com os padrões europeus.
Na literatura tínhamos o romantismo como principal gênero seguindo as devidas influências exteriores.
José de Alencar com sua obra O Guarani nos dá um bom exemplo disso, descrevendo o índio Peri como
herói que enfrenta tribos menos civilizadas.
No campo das artes os indígenas também eram retratados de maneira ao imaginário europeu:
passivos e martirizados, além de características físicas distorcidas (a obra Moema – Victor Meirelles - é
representada com pele quase branca).
No campo das instituições, D. Pedro II revelou-se grande entusiasta e apoiador. Sempre demonstrou
interesses pelas atividades do IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) do qual chegou a receber
o título de protetor da instituição. Pouco depois fundou a Ópera Nacional, a Imperial Academia de Música
e o Colégio Pedro II, onde ele frequentemente fazia visitas.
Por fim, manteve incentivos financeiros em campos de estudo como medicina e direito.

O Caso Indígena
No século XVIII se desenvolveu um projeto civilizador que foi incorporado à colônia. O conceito era
simples à primeira vista: povos que não respondiam ao poder real precisavam ser subjugados.
Acontece que as elites locais/regionais ao incorporar a ideia não levavam em conta o fator “civilizador”,
mas sim o econômico. Caso não houvesse a possibilidade de angariar recursos (de qualquer natureza) a
intervenção não era justificada. De uma forma mais simples: o projeto só aconteceu em regiões que
dariam algum retorno financeiro para as expedições, para as elites ou para o governo central.
Civilizar ou não o indígena tinha um segundo lugar de importância nessa empreitada.

A Questão Agrária
Do início da colonização até o século XIX a questão e a política agrária no Brasil eram definidas pelas
sesmarias. Ao mesmo tempo em que a concessão de uma sesmaria era a garantia legal de posse da
terra, apenas quem tivesse relações e contatos políticos conseguiam esse acesso.
Outras formas como a ação de posseiros também eram comuns, porém até o ano de 1850 ela era
ilegal mediante algumas condições.
O que muda em 1850 é o advento da Lei nº 601, conhecida como Lei de Terras. A criação dessa lei
não apenas afirmava a legalidade das sesmarias como garantia o direito legal da terra a posseiros (desde
que as terras tivessem sido possuídas anteriormente à lei e fossem devidamente cultivadas).
A Lei de Terras veio para garantir o valor de um novo produto, a própria terra, uma vez que a escravidão
via seus dias contados desde a aprovação da Lei Eusébio de Queirós. A lei que proibia o tráfico de
escravos dificultou a obtenção de mão de obra para os grandes fazendeiros, que então importavam
escravos de outras regiões do país. Com a escassez de escravos, a terra passaria a ser o principal
produto e símbolo de status (da mesma forma que ter um grande número de escravos destacava as
pessoas de maiores fortunas e influência, agora a terra garantia essa imagem).
A Lei de Terras ainda tinha um segundo propósito: garantir que apenas quem tivesse capital
(normalmente quem já tinha terras) conseguisse obtê-las. As terras devolutas (aquelas “desocupadas”63)
não mais seriam entregues por doação ou ação de posseiros, o que garantia que os trabalhadores
dependessem de um emprego em fazendas.
O governo arrecadou mais impostos com demarcação e vendas e com isso conseguiu financiar, junto
de cafeicultores a vinda de mão de obra imigrante no período.

Imigração64
Vários são os motivos que explicam o movimento de imigração para o Brasil: internamente havia o
preconceito dos grandes produtores rurais que, quando obrigados a abrir mão do trabalho escravo por
motivos de lei ou econômicos, não admitiam ter que pagar para os mesmos negros trabalhar em suas
terras. Havia a desinteligência de que a partir daquele momento o escravo não seria ideal para o trabalho
rural e ainda as aspirações do governo de uma “recolonização”, principalmente da região sul ainda alvo
de disputas de fronteiras ou povoada por indígenas.

63
Quando falamos em terras “desocupadas” falamos do ponto de vista do governo da época. Eram terras no qual o governo não havia recebido rendimentos.
Indígenas e posseiros sem permissão ocupavam essas terras e eram expulsos sem cerimônia ou compensação.
64
Adaptado: UNOPAREAD < http://www.unoparead.com.br/sites/museu/exposicao_sertoes2/Imigrantes-e-migracoes.pdf>

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Externamente víamos na Europa um exemplo inverso ao Brasil: aqui tinham terras de sobra e poucos
trabalhadores, lá eles tinham muitos braços livres e poucas terras. A Europa do século XVIII e XIX viu um
aumento na taxa de natalidade, expulsão dos trabalhadores do campo e pequenos proprietários, além de
perseguições políticas e religiosas.
Pareceu à época uma solução natural que os imigrantes europeus arriscassem a sorte no novo
continente.
A região sudeste, principalmente o estado de São Paulo, apesar de ter tido grande influência imigrante
demorou a “engrenar”. As primeiras experiências receberam o nome de sistema de parceria. Nesse
sistema os imigrantes trabalhavam no cultivo e colheita do café, e dividiam os lucros e eventuais prejuízos
com o dono da terra. O maior exemplo desse sistema (e seu fracasso) foi o implantado pelo Senador
Campos Vergueiro. Apesar da promessa, a fazenda tinha o monopólio de tudo que os imigrantes
necessitavam adquirir (sempre com preços mais elevados), o que resultava em uma dívida viciosa com
o fazendeiro. Além disso, devido à proximidade do contato com o trabalho escravo, o tratamento com os
imigrantes era semelhante, o que chegou a fazer com que o próprio governo italiano recomendasse que
seus cidadãos não viessem para o Brasil.
Nos últimos anos do século XIX, com a situação se agravando na Itália e com a maior necessidade de
mão de obra no Brasil, governo e fazendeiros oferecem melhores condições, o que abre as portas
definitivamente para a chegada do europeu.
O sul, como falamos acima, mostrou uma colonização diferente. Composto por pequenas propriedades
familiares ou comunidades rurais, a região não atendeu os interesses do mercado externo e o governo
tinha maior preocupação em garantir a posse do Brasil na região do que garantir as exportações da época.

Tráfico Negreiro, Lutas Abolicionistas e o Fim da Escravidão65


À época da independência D. Pedro I se viu pressionado por dois lados muito importantes para manter
seu governo:
- De um lado a Inglaterra, nação industrializada que via na extinção do comércio de escravos (e na
própria instituição escravista) maior possibilidade de capital e mercado consumidor. Seu apoio político e
financeiro ao Brasil no processo de independência estava condicionado ao compromisso do país em
abolir essa prática.
- Do outro lado estavam os grandes proprietários de terra, motivo pelo qual nem D. Pedro I, nem a
regência e nem D. Pedro II conseguiram cumprir o acordo.
No curto período anterior ao aumento da produção cafeeira no país, o tráfico de escravos de fato
diminuiu em números visto que a necessidade de mão de obra era menor. A partir do momento em que
os grandes fazendeiros sentiram necessidade de mais braços em suas lavouras, mesmo com leis da
regência proibindo a importação de escravos, o volume voltou a crescer. As consequências foram a maior
pressão inglesa sobre o Brasil no aspecto político, e na prática uma perseguição real da marinha inglesa
a navios negreiros.
Sentindo a pressão britânica surtir mais efeito que a interna, finalmente em 1850 o governo brasileiro
promulga uma lei com a verdadeira intenção de cumpri-la. A Lei Eusébio de Queiroz, que a partir da data
de sua publicação proíbe o tráfico negreiro no Brasil.
Como o governo não tinha intenção nenhuma de acelerar o processo que levaria o fim da escravidão,
a Lei Eusébio de Queiroz garantia apenas o fim do tráfico de importação. O tráfico ou troca interna ainda
era permitido, o que ocasionou grande deslocamente de contingente negro escravo do nordeste para as
colheitas de café no Vale do Paraíba no sudeste.
Uma segunda consequencia foi que com o capital que agora estava “sem destino”, uma vez que a
compra de escravos se tornava mais difícil com o tempo, novas atividades econômicas começaram a
receber esse dinheiro: bancos, estradas de ferro, indústrias, companhias de navegação...
A modernização do pensamento econômico, mesmo que de certa forma forçada, também provocou
mudanças na política externa do país. Em 1844 o ministro da Fazenda Alves Branco promulga uma lei
que levaria seu nome, e que aumentava as taxas alfandegárias para os produtos importados. Era uma
das poucas vezes até então em nossa história que o governo tomava medidas que beneficiavam nossa
indústria em relação à estrangeira.

Processo Abolicionista66
Em maio de 1888, a princesa Isabel Cristina Leopoldina de Bragança conhecida posteriormente como
“A Redentora” assina o documento que finalmente colocou fim à escravidão no país.

65
Adaptado de FOGUEL, I. Brasil: Colônia, Império e República. < https://bit.ly/2Iqul4S>
66
História do Negro no Brasil. CEAO/UFBA.

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A História normalmente nos ensina a respeito do ato generoso dessa figura, mas não podemos ignorar
que o dia 13 de maio foi apenas o cume de uma empreitada que vinha sendo construída há muito tempo.
A resistência à escravidão por parte dos negros existiu sempre que houve a escravidão. Fugas,
violência contra os senhores e formação de quilombos eram algumas das práticas comuns que existiam
desde a colônia. A partir da segunda metade do século XIX, talvez por algumas leis já existirem, elas se
tornaram mais comuns.
A sociedade também já contava com um número maior de entusiastas que estavam dispostos a lutar
pelo fim dessa prática e pressionar o governo. O império inglês junto desses fatores finalmente consegue
se colocar em posição de forma que o Brasil não podia mais ignorá-lo.
As seguintes leis são o resultado dessas pressões e mostram a evolução do processo de abolição:

Lei no 581 (Lei Eusébio de Queirós), de 4 de setembro de 1850: a partir dessa data é proibido o
tráfico de escravos para o Brasil. Trocas internas entre províncias de escravos que já estão no país ainda
são permitidas.
Lei no 2.040 (Lei do Ventre Livre), de 28 de setembro de 1871: considerava livre todos os filhos de
mulheres escravas nascidas a partir dessa data.

Lei no 3.270 (Lei dos Sexagenários ou Lei Saraiva-Cotegipe), de 28 de setembro de 1885: a Lei
concedia liberdade a escravos com mais de 60 anos de idade.

Lei no 3.353 (Lei Áurea), de 13 de maio de 1888: Art. 1o É declarada extinta desde a data desta lei a
escravidão no Brasil.”

A Questão Platina67

A questão da Cisplatina foi um conflito entre Brasil e Argentina pelo controle de parte da bacia do Prata,
especificamente na região Cisplatina (que corresponde ao atual Uruguai).
Deve-se entender que apesar de em parte da história o Uruguai pertencer ao Brasil ou ser tomado
pela Argentina, o conflito nunca envolveu apenas duas partes.
Historicamente o que hoje corresponde ao território uruguaio foi uma colônia portuguesa (Colônia de
Sacramento). Quase um século depois (1777) a colônia passa a ter domínio espanhol, que dura até a
transferência da coroa portuguesa para o Brasil que volta a anexá-lo.
Acontece que o período em que a Espanha controlou a região deixou marcas mais fortes que o período
colonial português (cultura e língua). Não se sentindo como parte do império português, a Cisplatina
(Uruguai) inicia um movimento de separação.
A Argentina que já era independente e tinha interesses expansionistas à região não demorou a
comprar o lado do Uruguai enviando além do apoio político, suprimentos.
O governo brasileiro não recuou, além de fazer frente ao Uruguai ele declarou guerra à Argentina.
Apesar de haver algum equilíbrio durante o início do conflito, o nosso governo sofreu com grande pressão
interna. O país já estava endividado com os gastos da independência e bancar um conflito em tão pouco
tempo depois causou insatisfação geral (aumento de impostos).
Em 1828, com mediação inglesa e se vendo muito pressionado, Brasil e Argentina chegam a um
acordo e ambos concordam que a região da Cisplatina se tornaria independente. Tinha início a república
do Uruguai.
Posteriormente Brasil e Argentina ainda brigaram indiretamente dentro do território uruguaio: a política
do novo país estava dividida principalmente entre dois partidos, os “colorados” e os “blancos” (federalistas
e unitários respectivamente) onde o Brasil apoiava os colorados e a Argentina os blancos.
Internamente o Uruguai sofreu com sucessivas trocas no comando por parte de generais ou de acordo
com os interesses vizinhos até o ano de 1865, contando com grande contingente brasileiro (gaúcho)
quando o general Flores assume o poder e cessam os conflitos internos.

A Guerra do Paraguai

A Guerra do Paraguai foi um conflito envolvendo Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina que durou entre
os anos de 1864 e 1870 e teve consequências que marcam o continente até hoje.
O Paraguai não era o país mais rico da América Latina até o início do conflito, mas é correto dizer que
era o mais desenvolvido socialmente e menos dependente economicamente.

67
Adaptado de: JARDIM, W. C. A Geopolítica no Tratado da Tríplice Aliança. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História - ANPUH

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Desde 1811, ano de sua independência, o país fora governado por apenas três governantes, não
encontrando a turbulência política interna que aconteceu com alguns vizinhos, como o Uruguai.
Era Francisco Solano Lopes o líder uruguaio no período do conflito e assim como seus antecessores
ele garantiu algumas medidas que tornavam o Paraguai um país único na América Latina: apesar de não
ser democrático, seu governo beneficiava as camadas populares, não havia elite agrária e as terras eram
garantidas aos trabalhadores rurais, seus principais produtos (erva-mate e madeira) eram de monopólio
do Estado, a maioria das famílias tinham garantido o direito a emprego, comida, moradia e vestuário. O
analfabetismo quase não existia, não tinha dívida externa e já havia iniciado um processo de
industrialização.

As Causas da Guerra
O Paraguai se manteve fora dos conflitos na região desde sua independência. Tinha um acordo com
o Brasil que garantia a autonomia uruguaia e um acordo com o Uruguai que garantia ajuda mútua.
Foi a partir das intervenções brasileiras no governo uruguaio (quando depôs Aguirre e assume Flores)
que o Paraguai quebra sua política de neutralidade. Considerando que o Brasil perturbava a harmonia da
região e temendo que ele mesmo fosse o próximo alvo (além do fato de Solano Lopes ser simpatizante
de Aguirre, derrotado no Uruguai com ajuda brasileira), o Paraguai direcionou vários avisos preventivos
ao Brasil. Não surtindo efeito, no final de 1864 Solano Lopes ordena o aprisionamento do navio brasileiro
Marquês de Olinda e declara guerra do Brasil, é o início da Guerra do Paraguai.

O Conflito
O início do conflito envolveu apenas os dois países, porém o próprio Paraguai acabou fomentando os
seus vizinhos a se juntarem a causa brasileira.
O Paraguai mostrou clara vantagem tomando partes do território brasileiro (MS) e posteriormente
invadindo até a Argentina (queria através dela dominar o Rio Grande do Sul). A vantagem do país se
mantém até a formação da Tríplice Aliança, unindo Brasil, Argentina e Uruguai.
A partir daí o conflito se torna desfavorável. Apesar de o Paraguai estar estruturado, os números não
podiam ser ignorados. O Paraguai contava com uma população total de 800.000 habitantes no período
contra 13.000.000 dos aliados. O Rio da Prata, única via de comunicação do Paraguai para fora do
continente foi bloqueado pelo maior número de navios aliados. Por fim, países como a Inglaterra
ofereciam apoio financeiro aos aliados enquanto o Paraguai se matinha sozinho.
A partir de 1868, muito sob o domínio de Caxias a vantagem já havia passado para os aliados e a
Guerra se passou apenas em território paraguaio. Em março de 1870, já com o conflito vencido, Conde
D’Eu, genro de D. Pedro II, substituto de Caxias no comando das tropas aliadas persegue o restante das
forças paraguaias e executa Solano Lopes.

As Consequências da Guerra
Apesar de os países aliados ganharem territórios, seu saldo comum dessa guerra foi o aumento da
dívida externa além do número de vidas perdidas.
Para o Paraguai as perdas foram irremediavelmente mais pesadas e mostram sequelas até hoje.
Cerca de 75% de sua população morreu nesse período (90% dos homens). Ele perdeu 150.000 km²
de seu território, teve seu parque industrial destruído, sua malha ferroviária vendida a companhias
inglesas a preço de sucata, reservas de madeira e erva-mate praticamente entregue aos estrangeiros.
Por fim, todas as terras passaram para o controle de banqueiros estrangeiros que as alugavam aos
paraguaios.

A Crise do Império

A partir da década de 1870 o império brasileiro vê seus melhores dias passarem. Uma crise iniciada
com o conflito do Paraguai resultaria em quase vinte anos depois na proclamação da república.
A crise do império pode ser baseada em quatro pilares:

- Questão abolicionista e de terras: durante muito tempo a escravidão foi a base econômica das
elites que apoiavam a monarquia. Com a grande campanha abolicionista e as medidas graduais tomadas
pelo império, a antiga aristocracia escravista que ainda apoiava D. Pedro II ficou descontente com seu
governo. As novas elites, que faziam fortuna com o café e se adaptaram ao trabalho livre imigrante
europeu, ansiavam por mais autonomia política, e passaram a fazer grande campanha em favor da
república.

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A sociedade, agora com crescente número de imigrantes também convivia com novas ideias (entre
elas o abolicionismo).
D. Pedro II se viu sem o apoio da classe média da sociedade, da nova aristocracia e também da antiga.

- Questão religiosa: a Constituição de 1824 declarava o Brasil um país oficialmente católico. A


Constituição fixava que a Igreja deveria ser subordinada ao Estado, razão pelo qual já haviam alguns
atritos. O problema maior se dá a partir de 1860 quando o Papa Pio IX publica a Bula Syllabus, excluindo
membros da maçonaria de irmandades católicas. Apesar de o imperador não acatar as recomendações,
os bispos de Olinda e Belém seguem as instruções do Papa. Em consequência, D. Pedro II ordena que
ambos sejam presos, o que leva a Igreja a também dar as costas a coroa.

- Questão militar: até a Guerra do Paraguai o exército brasileiro não tinha qualquer influência ou
importância para o governo. Durante as regências a criação da Guarda Nacional garantiu que a
necessidade de um exército forte quase não existisse.
A Guerra do Paraguai vem para mudar essa situação. Forçados a se modernizar e se estruturar, após
a guerra o exército não apenas exige maior participação no governo do país como passa a ter setores
contrários às ideias monarquistas.
Como a Coroa continuava intervindo em assuntos militares e punindo alguns de seus membros a ponto
de censurar a imprensa em determinados assuntos relacionados às forças armadas, o exército também
dá as costas a monarquia e com isso deixa D. Pedro II sem nenhum apoio de peso.
Sem apoio após a abolição da escravatura por parte da princesa Isabel, em novembro de 1889 com a
ação militar, sem conflitos ou participação popular, termina o império brasileiro e tem início o período
Republicano.

Questões

01. (Prefeitura de Monte Mor/SP – Agente de Transito – CONSESP) Historicamente, o primeiro


passo para o advento do Parlamentarismo no Brasil, ocorreu na época do Império com:
(A) A Constituição outorgada em 1824
(B) A criação da presidência do Conselho de Ministros por D. Pedro II
(C) A abdicação de D, Pedro I
(D) A declaração da maioridade

02. (IF/AL – Professor-História – CEFET/AL) No processo crescente que levou à abolição dos
escravos (1888), o Brasil passou a instituir uma legislação que iria culminar com a abolição. Em 1850
foi sancionada a Lei Euzébio de Queiróz (proibição do tráfico de escravos). Em contrapartida o império
instituiu a Lei das Terras, que significou:
(A) Objetivando regularizar os quilombos que existiam no Brasil, foi criada a Lei das Terras, dessa
forma, os quilombolas poderiam permanecer nas terras ocupadas.
(B) O império objetivava com a criação da LEI DAS TERRAS facilitar a aquisição de terras pelos negros
libertos e dificultar para os imigrantes.
(C) A Lei das Terras tinha o objetivo de restringir terras para os novos libertos e facilitar para os
imigrantes.
(D) Pensando em proteger os negros libertos, a Lei das Terras seria um arcabouço jurídico que
protegeria todos os brasileiros.
(E) Visando a aumentar os valores das terras, a lei foi criada dificultando, assim, a compra por parte
dos libertos, favorecendo a permanência dos libertos como trabalhadores nas fazendas já existentes.

03. (SEDUC/AM – Professor-História – FGV) A Constituição do Império do Brasil, outorgada por


D. Pedro I em 1824, inaugurou formalmente um sistema político-eleitoral que sofreu algumas
alterações ao longo do período monárquico (1822-1889).

Assinale a opção que caracteriza corretamente uma dessas alterações.


(A) 1834 – modificação da Constituição extinguiu o Poder Moderador, assegurando a independência
dos três poderes.
(B) 1840 – interpretação parcial da Reforma Constitucional de 1834, ampliando a autonomia dos
legislativos provinciais.
(C) 1847 – criação do cargo de Presidente do Conselho de Ministros, inaugurando o “parlamentarismo
às avessas”.
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(D) 1855 – reforma eleitoral denominada “Lei dos Círculos”, extinguindo o voto distrital da Constituição
do Império.
(E) 1881 – nova reforma eleitoral conhecida como “Lei Saraiva”, estendendo o direito de voto aos
analfabetos.

04. O período monárquico no Brasil costuma ser dividido em três momentos distintos: Primeiro Reinado
(1822-1831); Regências (1831 1840) e Segundo Reinado (1840-1889). Sobre as principais questões que
marcaram esses momentos, assinale a alternativa incorreta.
(A) A Guerra do Paraguai marcou o Primeiro Reinado e foi a grande responsável pelo enfraquecimento
do poder de D. Pedro I, resultando na Independência do Brasil.
(B) A primeira etapa da monarquia brasileira teve dificuldades para se consolidar, o Primeiro Reinado
foi curto e marcado por tumultos e conflitos entre D. Pedro I - que era português com os brasileiros.
(C) A primeira Constituição Brasileira foi outorgada em 1824, por D. Pedro I.
(D) A segunda etapa da história do Brasil monárquico inicia-se em 1831, com a renúncia de D. Pedro
I em favor do filho Pedro de Alcântara, com apenas cinco anos de idade.
(E) O terceiro momento da monarquia no Brasil inicia-se com o reinado de Dom Pedro II, período
marcado pela centralização do poder de um lado e pelas disputas político-partidárias entre liberais e
conservadores, de outro.

05. (UEL/PR) “[...] explodiu na província do Grão-Pará o movimento armado mais popular do Brasil
[...]. Foi uma das rebeliões brasileiras em que as camadas inferiores ocuparam o poder.”

Ao texto podem-se associar:


(A) a Regência e a Cabanagem.
(B) o Primeiro Reinado e a Praieira.
(C) o Segundo Reinado e a Farroupilha.
(D) o Período Joanino e a Sabinada.
(E) a abdicação e a Noite das Garrafadas.

06. (FATEC) Em 4 de setembro de 1850, foi sancionada no Brasil a Lei Eusébio de Queirós (ministro
da Justiça), que abolia o tráfico negreiro em nosso país. Em decorrência dessa lei, o governo imperial
brasileiro aprovou outra, "a Lei de Terras".

Dentre as alternativas a seguir, assinale a correta.


(A) A Lei de Terras facilitava a ocupação de propriedades pelos imigrantes que passaram a chegar ao
Brasil.
(B) A Lei de Terras dificultou a posse das terras pelos imigrantes, mas facilitou aos negros libertos o
acesso a elas.
(C) O governo imperial, temendo o controle das terras pelo coronéis, inspirou-se no "Act Homesteade"
americano, para realizar uma distribuição de terras aos camponeses mais pobres.
(D) A Lei de Terras visava a aumentar o valor das terras e obrigar os imigrantes a vender sua força de
trabalho para os cafeicultores.
(E) O objetivo do governo imperial, com esta lei, era proteger e regularizar a situação das dezenas de
quilombos que existiam no Brasil.

Gabarito

01.B / 02.E / 03.C / 04.A / 05.A / 06.D

Comentários

01. Resposta: B
Como falamos, a primeira experiência com o parlamentarismo ocorreu da criação e prática do que
ficou conhecido como “Parlamentarismo às Avessas”, em que D. Pedro II criou um quarto poder, o
“moderador” onde a ele (o próprio D, Pedro II) caberia autoridade sobre todos os outros e a livre opção
de colocar ou retirar qualquer pessoa do cargo de Primeiro Ministro.

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02. Resposta: E
Além da questão econômica (agora a terra não seria apenas um símbolo de status social, mas de
poder), a medida garantia que o preço elevado das terras mantivesse apenas quem tinha maior poder
aquisitivo com sua posse. Como quem detinha o poder financeiros eram comumente os próprios
proprietários de terras, acabou-se criando um ciclo onde aqueles que trabalhavam nela, teriam que
continuar trabalhando pela dificuldade em obtê-la.

03. Resposta: C
Dentre todas as mudanças que a Constituição sofreu, como o senado vitalício, a criação do cargo de
Presidente do Conselho de Ministros foi a mais drástica, uma vez que em nenhuma outra experiência
parlamentarista havia um quarto poder acima dos outros. A alternativa “E” poderia causar alguma
confusão, mas note que ela não faz nenhuma referência a uma renda mínima, critério presente na
Constituição.

04. Resposta: A
A Guerra do Paraguai ocorre somente durante o segundo reinado, quando D. Pedro II estava no trono.
A abdicação de D. Pedro I ocorre somente em 1831, ou seja, quase dez anos após a Proclamação da
Independência.

05. Resposta: A
O período Regencial foi marcado por inúmeras revoltas, na maioria descontentes com o governo
imperial, mas também com os grandes proprietários rurais. Assim como a Cabanagem, a Farroupilha
também ocorreu no mesmo período, porém no Rio Grande do Sul.

06. Resposta: D
Com o fim do tráfico negreiro, era necessário encontrar uma nova mão-de-obra que pudesse substituir
a força de trabalho deixada pelo escravo. A regularização nas vendas, juntamente com aumento de
preços foi a solução encontrada para evitar a concorrência de imigrantes, que deveriam se submeter ao
trabalho assalariado para sobreviver, já que muitos não conseguiriam adquirir uma propriedade no
momento em que chegassem ao Brasil.

O desenvolvimento do pensamento liberal na sociedade capitalista e


seus críticos nos séculos XIX e XX

CONCEITOS POLÍTICOS E MOVIMENTOS SOCIAIS

Liberalismo

O liberalismo foi, durante o século XIX, uma ideologia essencialmente burguesa.


O liberalismo revelou-se como um conjunto de princípios e ideias que orientou e organizou os
procedimentos políticos na perspectiva da ordem burguesa. A liberdade individual no campo político e
econômico se caracterizou como sendo o seu principal fundamento68.
Os países onde o liberalismo mais se desenvolveu foram aqueles onde existia uma burguesia
poderosa; sendo assim, é possível afirmamos que o liberalismo foi o disfarce, a máscara, o álibi pelo qual
a classe burguesa justificou a tomada do poder.
Durante o Antigo regime, quando tiveram de lutar contra as monarquias absolutistas e contra a Igreja
Católica, os liberais foram subversivos, progressistas e revolucionários. À medida que tomaram o poder,
tornaram-se conservadores, defendendo ciosamente as suas conquistas.
Os liberais transformaram as sociedades europeias. Na Inglaterra, na Holanda e nos países
escandinavos, as mudanças ocorreram pelas reformas. Em outros países – a França especialmente – a
revolução foi o método utilizado para acelerar a evolução econômica, social e política.
A sociedade liberal repousa sobre a igualdade de todos perante a lei. Porém, no campo social, as
desigualdades aumentaram, gerando terríveis injustiças.

68
Século XIX: Liberalismo, Nacionalismo e Socialismo. https://bit.ly/2M16Iqh.

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Nacionalismo

Na Europa do século XIX, proliferavam os mais diversos grupos étnicos, linguísticos e históricos. O
império russo, por exemplo, possuía mais de 200 etnias, numa babel de línguas, culturas e de religiões.
No entanto, essas diferenças não eram respeitadas. O russo era idioma da administração, da justiça e do
ensino. A igreja ortodoxa era a oficial. As minorias eram reprimidas em meio a um processo avassalador
de russificação. Mesmo assim, as diversas nações resistiam.
A Revolução Francesa consagrou “o direito de os povos disporem de si próprios” e a obrigação de os
governantes colocarem em prática a “vontade da nação”. Hinos patrióticos, bandeiras e obras intelectuais
(historiadores, linguistas e filósofos políticos) endossavam o movimento das nacionalidades.
Uma outra fonte do nacionalismo está na tradição, no retorno ao passado e no culto de seus
particularismos. A valorização da Idade média, da religião, a restauração de obras arquitetônicas e as
pesquisas de filólogos, procurando reconstituir línguas antigas, são exemplos deste “retorno ao passado”.
Como bem salientou René Rémond, o movimento das nacionalidades foi bastante contraditório. Em
alguns países (França, por exemplo), ele se inclinou para a esquerda, ansiando por uma sociedade liberal
ou democrática. Em outras regiões (Polônia e Hungria), o nacionalismo foi aristocrático, feudal e religioso,
pois visava restaurar a ordem social e política do Antigo Regime.
Socialismos

A exploração dos operários fez com que muitas pessoas, com ideias humanitárias e progressistas,
levantassem suas vozes, denunciando e buscando soluções para os males que afligiam as classes
desfavorecidas.
O conde de Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837) e Robert Owen (1771-1858) são
chamados de socialistas utópicos porque o socialismo que pretendiam era irrealizável.
O conde de Saint-Simon recebeu uma esmerada educação. Para ele, a principal missão da sociedade
devia ser o desenvolvimento de riquezas. Sendo assim, os industriais formariam uma classe social mais
importante que a nobreza e o clero e, portanto, deveriam governar o país.
Em sua última obra, O novo cristianismo, pregava um regime cujo princípio básico fosse “amar o
próximo”. Segundo Saint-Simon, era preciso fazer com que as classes prósperas compreendessem que
a melhoria das condições de vida dos pobres implicaria também na melhoria das condições de vida delas.
As ideias de Fourier estão expostas em sua principal obra: Teoria dos quatro movimentos. Nela, propõe
a criação de “falanstérios”, ou seja, grandes edifícios administrados dentro de normas cooperativistas.
Nas comunidades idealizadas por Fourier não haveria igualdade absoluta. Haveria sim a igualdade de
oportunidade, em que os filhos dos pobres receberiam a mesma educação dos filhos dos ricos. Haveria
sufrágio universal e os trabalhos desagradáveis seriam melhor remunerados.
Em suas fábricas, Owen reduziu a jornada de trabalho dos operários. Procurou melhorar suas
habitações e ainda abrir armazéns onde operários podiam comprar a preços baixos produtos de boa
qualidade. Owen foi além, organizou escolas e creches. Tentou, sem sucesso, organizar na América do
Norte, para onde se transferira, uma comunidade agrícola comunista.
Os alemães Karl Marx (1818- 1883) e Friedrich Engels (1820-1895) publicaram em 1848 o Manifesto
do Partido Comunista. Nessa obra, Marx e Engels diziam que a burguesia destruíra as relações feudais
e tornara-se a classe dominante no sistema capitalista. O proletariado iniciou a luta contra a burguesia,
classe dominante do regime capitalista, que o explorava.
Marx e Engels falavam que o objetivo imediato dos comunistas era “a destruição da supremacia
burguesa, a conquista do poder político pelo proletariado”.
Assim, pois, o Manifesto do Partido Comunista continha a ideia de ditadura do proletariado. Além disso,
Marx e Engels fundamentaram a necessidade da destruição da propriedade privada dos meios de
produção, não dos bens de consumo, como erroneamente se difunde com frequência.
Marx e Engels participaram ativamente das lutas políticas e sociais de seu tempo. Apesar das
perseguições, em 1864 os dois fundaram a Associação Internacional dos Trabalhadores - a primeira
internacional.
Para Marx e Engels a história da humanidade tem sido a história da luta de classes, ou seja, a luta
entre patrícios e plebeus na sociedade romana, senhores feudais e servos da gleba na sociedade
medieval, burgueses e proletários na sociedade capitalista. A produção econômica e a organização social
que dela resultam necessariamente para cada época da história política e intelectual dessa época, ou
seja, o materialismo histórico.
Segundo essa doutrina, caberia à classe operaria o papel histórico de transformar pela revolução a
sociedade capitalista, através do estabelecimento da ditadura do proletariado e da supressão da
propriedade privada. A ditadura do proletariado marcaria o advento do socialismo, como fase de transição
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de uma sociedade capitalista - baseada na propriedade privada e na existência de classes para uma
sociedade comunista - baseada na inexistência de classes e na propriedade social dos meios de
produção.

Conceituando a ideia de Autoritarismo

Dentro de um sistema autoritário, o povo não possui formas de exercer suas vontades, pois não existe
o voto como forma de representação. As decisões sobre o rumo do país partem de uma única pessoa,
que comanda o Estado e subordina todos os membros e setores da sociedade a ele.
Os governos definidos como autoritaristas são sistemas políticos controlados por legisladores que se
excedem no exercício da autoridade investida a eles. Algumas características são a exclusividade do
exercício do poder, a restrição das liberdades públicas e individuais, a agressividade à oposição, a
censura às opiniões e as arbitrariedades.
O Brasil passou por dois períodos autoritários durante o século XX.
Durante o Estado Novo, que durou de 1937 até 1945, sob o comando de Getúlio Vargas;
O Regime Militar, estabelecido com o golpe de 1964 e terminando em 1985. Durante esse período
em que os militares estiveram no poder vários opositores do regime foram perseguidos, torturados e
mortos.

O Liberalismo é a doutrina que prega a defesa da liberdade política e econômica. As ideias do


liberalismo pautam-se na defesa do Estado Mínimo, ou seja, um Estado que exerça apenas a menor
parcela possível de controle sobre a economia e sobre a vida de seus cidadãos. O Estado entraria como
mantenedor da liberdade, criando leis que permitissem às pessoas viverem suas vidas da maneira como
quisessem, desde que isso não provocasse lesões ou danos a outras pessoas. As pessoas são livres
para fazer o que quiserem, o que traz a ideia de livre mercado, criado através da concorrência.
O liberalismo surgiu da concepção de um grupo de pensadores imersos na realidade da Europa dos
séculos XVII e XVIII. Durante esse período, o absolutismo ainda era presente na grande parte dos
governos europeus, e estava baseado na ideia de que o rei, como legítimo representante de Deus na
terra, teria natural primazia sobre todos os assuntos que envolvessem a nação.
Os ideais do Iluminismo vão gradualmente implodir tal sistema de excessiva intervenção do estado,
auxiliadas pelo espírito empreendedor e autônomo da burguesia, abrindo espaço para outras
possibilidades na relação entre os homens e o mundo. O burguês, que se lançava ao mundo para o
comércio e usava a somente a própria iniciativa para alcançar seus objetivos, destoava de todo um
período anterior onde os homens colocavam-se subservientes ao pensamento religioso.
Então, como uma reação natural à ordem anterior de coisas, vários pensadores se mobilizam no
esforço de dar sentido àquele mundo que se transformava. Surge um ponto fundamental do pensamento
liberal quando é concebida a ideia de que o homem tinha toda sua individualidade formada antes de
perceber sua existência em sociedade. Para o liberalismo, o indivíduo estabelecia uma relação entre seus
valores próprios e a sociedade.
De acordo com o pensador John Locke, que foi um dos fundadores do pensamento liberal, a falta de
recursos poderia levar à disputa entre os seres humanos pela sobrevivência. A sobrevivência, sendo uma
questão primordial na relação do homem e o mundo exterior, seria possível na medida em que o trabalho
proporcionasse o seu sustento. Assim, no momento em que o homem adquirisse algo por meio do
trabalho, as riquezas trazidas alcançadas pelo seu esforço seriam de sua propriedade.
Estendendo essas concepções para o campo econômico, o pensamento liberal, principalmente em
Adam Smith, pregou uma ideia de que a conservação das liberdades é primordial para o bom
funcionamento da economia. Assim, a livre concorrência de mercado, a quebra dos monopólios e o fim
das áreas de exploração colonial seriam pontos importantes para o desenvolvimento saudável da
economia.
Focado em tais princípios, o liberalismo se desenvolveu de modo a responder e dar continuidade às
configurações do sistema capitalista.

Os movimentos sociais no século XIX

O Congresso de Viena empreendeu a chamada reconstrução da Europa. Antes mesmo de o


Congresso se reunir, tratados importantes tinham sido assinados pelas potencias europeias aliadas
vencedoras: os dois tratados de Paris impostos a Luís XVIII (Maio de 1814 e novembro de 1815) e os
tratados coloniais entre Inglaterra e Holanda.

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De setembro de 1814, após a primeira abdicação de Napoleão, a junho de 1815, passando pela
restauração de 100 dias do Império, reuniu-se o congresso de Viena.
O ambiente do Congresso era festivo, devido à vitória sobre as forças revolucionarias do Império.
Participavam dele apenas as grandes potências, representadas diretamente pelos seus chefes ou por
ministros plenipotenciários.
A Rússia tinha como representante o czar Alexandre, assistido pelo ministro Nesselrode. A Áustria era
representada pelo chanceler Metternich, a Inglaterra por Castlereagh e a Prússia por Hardenberg. As
discórdias decorrentes dos interesses pessoais facilitaram o trabalho do ministro francês Talleyrand
Dentre os princípios gerais propostos, vingou o ponto de vista de Talleyrand, ou seja, o de que a França
deveria conservar seus limites de 1789. Na verdade, foi a busca do equilíbrio entre as potencias que
norteou as decisões do congresso, principio que favoreceu extraordinariamente a França.
O mapa geográfico da Europa foi bastante modificado. Houve mudanças também no quadro colonial.
A Inglaterra assegurou a supremacia nos mares graças à anexação das ilhas de malta e Jônicas, no
Mediterrâneo, da Cidade do Cabo e Ceilão, no caminho das Índias, e de pontos estratégicos nas Antilhas.
A Bélgica, dominada pela França, foi ligada à Holanda (Países baixos) com o fito de anular uma possível
ação da França sobre Antuérpia, porto privilegiado sob o ponto de vista econômico.
Os demais aliados também foram recompensados. A Rússia recebeu parte da Polônia, a Finlândia e
Bessarábia. A Prússia recebeu a supremacia política sobre a Itália. O tratado de Paris, confirmado pelo
Congresso, impunha à França o pagamento de uma indenização de guerra e a ocupação de seu território
por um exército aliado. Os custos de manutenção desse exército recaiam sobre a França. Suas fronteiras,
não muito atingidas, permaneciam, grosso modo, as mesmas do Antigo Regime.

A Santa Aliança
A proposta que deu origem à Santa Aliança partiu do czar Alexandre I. Em 26 de setembro de 1815, o
czar, o imperador da Áustria e o rei da Prússia assinaram o tratamento em nome da Santíssima Trindade
e, segundo as regras da caridade cristã, prometiam ajuda mutua. A França aderiu ao tratado.
Foi o príncipe Metternich, entretanto, quem deu à Santa Aliança suas diretrizes. Deveria haver reuniões
periódicas entre as potencias signatárias do tratado, nas quais se discutiriam problemas relativos à
preservação da ordem estabelecida pelo Congresso de Viena. Em última instancia, era uma forma de
manter a França sob vigilância e conter os possíveis movimentos revolucionários e liberais que viessem
a eclodir em qualquer ponto da Europa.
O sistema criado por Metternich funcionou em várias oportunidades desde quando foi criado. O
primeiro congresso da Santa Aliança realizou-se em Aix-la-Chapelle no ano de 1818. Durante o encontro
foi decidida a retirada das tropas de ocupação na França e a entrada do país na Santa Aliança.
Uma associação de estudantes na Alemanha provocou distúrbios por ocasião da comemoração do
tricentenário da Reforma Protestante. Os congressos de Carlsbad e de Viena (1819/1820) organizaram
uma violenta repressão, impondo vigilância a Universidades, combatendo sociedades secretas
nacionalistas e censurando jornais. As posições liberais de alguns grupos militares na Espanha e nas
Duas Sicílias geraram revoluções que impuseram a governos baseados em constituições para os
monarcas destes países, que recorreram à Santa Aliança.
Nos congressos realizados em Troppau (1820) e laybach (1821), ficou decidido que a Áustria deveria
intervir nas Duas Sicílias e no congresso realizado em Verona no ano de 1822 coube à França a
organização de uma missão restauradora na Espanha.
Essas revoltas contidas foram os últimos êxitos que a Santa Aliança obteve. Por volta de 1830 ela já
não exercia grande influência e não afetou nem a revolta dos gregos contra a Turquia ou as
independências na América Latina, que obtiveram forte apoio da Inglaterra, interessada no comércio com
as novas áreas independentes.

A Revolução Liberal de 1830

A Revolução Liberal de 1830, foi também chamada de Jornadas de Julho.


O movimento político dos liberais contra a reação absolutista resultou, nas “Jornadas Gloriosas”, em
julho de 1830, com as barricadas levantadas nas ruas de Paris, que derrubou a dinastia Bourbon do trono
francês. A Revolução, estimulada e liderada pela alta burguesia francesa, resultou na fuga de Carlos X,
temeroso de desdobramentos revolucionários semelhantes aos de 1789, que haviam resultado na
decapitação de seu irmão Luís XVI.
Com a Fuga de Carlos X, Luís Felipe, conhecido como o “Rei burguês” ou “Rei das barricadas” assumiu
o poder na França. Luís Felipe era um defensor do Liberalismo, e sua chegada ao poder impulsionava o
entusiasmo de nações prejudicadas pelas medidas do Congresso de Viena: a Bélgica proclamou sua
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independência da Holanda, e a Alemanha, a Itália e a Polônia iniciaram as lutas nacionais contra a
dominação estrangeira.
A Revolução de 1830 sepultou definitivamente a reação restauradora do Congresso de Viena,
motivando uma vaga de progressismo e ímpeto revolucionário, que culminaria na Revolução de 1848 e
em diversos movimentos nacionalistas do período.
Na França, Luís Felipe revisou a Constituição dos Bourbons, reforçando pontos liberais, como a sua
submissão à Constituição, que fortaleceu o legislativo; aboliu a censura e o caráter oficial da religião
católica, apesar de manter a exigência censitária para eleger ou ser eleito a um cargo legislativo.
Luís Felipe atendeu exclusivamente os interesses da burguesia, ignorando os do operariado, o que
ativou a agitação político-social, a oposição generalizada.
Os opositores a Luís Felipe organizaram reuniões populares de manifestações contrárias ao “rei
burguês”, apelidadas de política dos banquetes — referência às reuniões de políticos em restaurantes
condenando o regime. Após mais de 60 dessas reuniões, quando o ministro Guizot decidiu proibi-las, em
fevereiro de 1848, o descontentamento generalizado explodiu, dando início à Revolução de 1848.
Os adversários do governo — socialistas, bonapartistas e republicanos — uniram-se contra Luís
Felipe, reclamando uma reforma eleitoral e parlamentar. Reivindicavam a queda da exigência censitária,
permitindo o voto para todos os que pagassem até 100 francos de imposto anual. O rei e seu ministro
Guizot não cederam às pressões reformistas. As manifestações populares, os confrontos e a rebeldia da
Guarda Nacional levaram à demissão de Guizot e à fuga de Luís Felipe para a Inglaterra. Era a Revolução
de fevereiro de 1848 na França, o epicentro de explosões por todo o mundo, refletindo o ânimo
apaixonado das massas por mudanças profundas.

A Revolução de 1848 e a Segunda República Francesa


Com a derrubada de Luís Felipe, foi proclamada a Segunda República na França (a primeira foi a de
1792 a 1804), e as massas populares, com suas várias correntes políticas, organizaram um governo
provisório, com a função de convocar uma Assembleia Constituinte que elaboraria uma nova consti-
tuição para o país. Oliberal Lamartine ficou com a presidência do governo provisório, de que participavam
também o jornalista moderado Ledru-Rollin, o escritor socialista Louis Blanc e o operário Albert.
Dentre as primeiras medidas do novo governo, destacaram-se o fim da pena de morte e o
estabelecimento do sufrágio universal nas eleições, ao mesmo tempo que afloraram conflitos entre as
lideranças trabalhistas e as burguesas. Os socialistas pressionavam por medidas governamentais que
garantissem trabalho, direito de greve e limitação das horas de trabalho. Obtiveram a criação das
“Oficinas Nacionais “, trabalhos para os desempregados em aterros, fábricas e construções do governo,
imprimindo como meta política a criação de uma república social. Ao contrário, os liberais-moderados,
representantes dos grandes proprietários e burgueses da França, buscavam barrar as medidas de cunho
popular, temendo que desembocassem num governo radical como o montanhês de 1793.
Em abril de 1848, nas eleições da Assembleia Constituinte, os moderados saíram-se vitoriosos,
obtendo a maioria das cadeiras, graças, principalmente, à atuação dos proprietários rurais, radicalizando
a polarização política entre socialistas e burgueses. Os populares multiplicaram suas manifestações de
rua, tumultuando Paris. Sob o comando do general Carvaignac, o governo massacrou os revoltosos
(Massacre de Carvaignac), suspendeu os direitos individuais, fechou as “Oficinas Nacionais”,
transformando a Revolução em guerra civil: mais de 3.000 pessoas foram fuziladas, e 15.000 foram
deportadas para as colônias. Carvaignac, conhecido como “o carniceiro”, garantiu a vitória da burguesia,
assumindo o governo até novembro, quando foi aprovada a nova Constituição republicana. Segundo essa
Constituição, o poder legislativo caberia a uma assembleia eleita por sufrágio universal por 3 anos, e o
poder executivo ficaria a cargo de um presidente eleito por 4 anos.
A 10 de dezembro de 1848, os franceses elegeram seu presidente — Luís Bonaparte, sobrinho do
imperador Napoleão I e, portanto, figura carismática, em que se via a possibilidade de restauração da
glória vivida pelo país na época de Napoleão.

Crítica ao Liberalismo
Partindo para a interpretação socialista, temos um outro tipo de compreensão que nega os argumentos
liberais que tentavam naturalizar as desigualdades. O pensamento socialista, inspirado por pressupostos
lançados pelo Rousseau, tenta enxergar esses problemas como consequência das relações sociais
estabelecidas entre os homens. Seguindo tal linha, os socialistas passariam a realizar uma crítica ao
comportamento assumido pelos homens em sociedade que estabelecia tais diferenciações.
Dessa forma, os argumentos que justificavam as desigualdades por meio do fracasso pessoal perdem
terreno para o questionamento profundo de toda a lógica que formava a sociedade capitalista. Antes de
apontar o progresso do capital como um benefício, os socialistas realizam uma investigação que vai
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detectar na oposição entre as classes sociais a força que opera grande parte dessas relações e problemas
da sociedade.
O socialismo, em suas origens intelectuais, não era uma teoria política e sim uma teoria econômica.
Mais precisamente, uma teoria que procurava reorganizar a sociedade industrial. Os primeiros ideólogos
socialistas — os que Engels chamou de “socialistas utópicos” — simplesmente não cogitavam de
instituições políticas.
O socialismo só se politizou com Marx, que fundiu a crítica do liberalismo econômico com a tradição
revolucionária e igualitária do comunismo.
Marx nunca valorizou os direitos civis (de expressão, profissão, associação, etc.). Ao contrário, chegou
mesmo a condená-los, vendo neles mero instrumento de exploração de classe. O socialismo marxista, e
muito especialmente o praticado pelos regimes comunistas, sempre refletiu esse menosprezo pelos
direitos civis.
Em Lenin, a indiferença de Marx para com a liberdade civil torna-se verdadeira hostilidade aos direitos
civis e políticos. Hoje, ninguém mais duvida de que nos regimes comunistas, ninguém consegue, ou tenta,
tornar compatíveis socialismo e democracia.

Correntes
Existem várias correntes do socialismo, entre elas as principais são: socialismo democrático,
socialismo árabe, socialismo africano, comunismo, eco-socialismo, social anarquismo, social democracia,
socialismo utópico, socialismo de mercado e socialismo revolucionário.

Questões

01. (ENEM) O texto abaixo, de John Locke (1632-1704), revela algumas características de uma
determinada corrente de pensamento.
“Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto da sua
própria pessoa e posses, igual ao maior e a ninguém sujeito, por que abrirá ele mão dessa liberdade, por
que abandonará o seu império e sujeitar-se-á ao domínio e controle de qualquer outro poder? Ao que é
óbvio responder que, embora no estado de natureza tenha tal direito, a utilização do mesmo é muito
incerta e está constantemente exposto à invasão de terceiros porque, sendo todos senhores tanto quanto
ele, todo homem igual a ele e, na maior parte, pouco observadores da equidade e da justiça, o proveito
da propriedade que possui nesse estado é muito inseguro e muito arriscado. Estas circunstâncias
obrigam-no a abandonar uma condição que, embora livre, está cheia de temores e perigos constantes; e
não é sem razão que procura de boa vontade juntar-se em sociedade com outros que estão já unidos, ou
pretendem unir-se, para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens a que chamo de
propriedade.”
(Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1991)

Do ponto de vista político, podemos considerar o texto como uma tentativa de justificar:
(A) a existência do governo como um poder oriundo da natureza.
(B) a origem do governo como uma propriedade do rei.
(C) o absolutismo monárquico como uma imposição da natureza humana.
(D) a origem do governo como uma proteção à vida, aos bens e aos direitos.
(E) o poder dos governantes, colocando a liberdade individual acima da propriedade.

02. Leia o texto a seguir:


“Nos séculos XVIII e XIX, o termo liberalismo geralmente se referia a uma filosofia de vida pública que
afirmava o seguinte princípio: sociedades e todas as suas partes não necessitam de um controle central
administrador porque as sociedades normalmente se administram através da interação voluntária de seus
membros para seus benefícios mútuos. Hoje não podemos chamar de liberalismo essa filosofia porque
esse termo foi apropriado por democratas totalitários. Em uma tentativa de recuperar essa filosofia ainda
em nosso tempo, damos a ela um novo nome: liberalismo clássico.”
(Rockwell, Lew. O que é o Liberalismo Clássico. IBM.)
O autor do texto argumenta que o termo “liberalismo clássico” reabilita a tradição de ideias políticas e
econômicas dos séculos XVIII e XIX. Entre os representantes dessa tradição, estão:
(A) Lenin, Mikhail Bakunin e Voltaire
(B) Karl Marx, Vilfredo Pareto e John M. Keynes
(C) Adam Smith, David Ricardo e John Locke
(D) Rousseau, Louis Blanqui e Diderot
(E) Edmund Burke, Max Weber e Trotsky
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Gabarito

01.D / 02.C

Comentários

01. Resposta: D
John Locke foi um dos mais importantes filósofos iluministas e pai do pensamento liberal. Sendo assim,
se posicionava contra o poder absoluto e total dos governantes, seja rei ou não.

02. Resposta: C
Adam Smith, David Ricardo e John Locke estão entre os principais representantes do liberalismo
clássico.

Políticas de colonização, migração, imigração e emigração no Brasil


nos séculos XIX e XX

*Candidato(a). Esse tema está inserido dentro do tópico “Grupos sociais em conflito no Brasil imperial
e a construção da nação”.

A atuação dos grupos sociais e os grandes processos revolucionários


do século XX: Revolução Bolchevique, Revolução Chinesa, Revolução
Cubana

REVOLUÇÃO RUSSA

Antecedentes

A Rússia era o único país da Europa a manter um governo absolutista na virada do século XX. O Antigo
Regime na Rússia compunha-se de um poder político absoluto exercido pelo imperador (tsar ou czar), da
antiga dinastia dos Romanov. Apoiava-se em uma organização basicamente agrária, tendo em vista que
85% da população vivia no campo. Os nobres proprietários de terra e a burguesia industrial e mercantil
concentravam-se nas cidades, bem como os cossacos da Guarda Imperial, que representavam outros
pontos de apoio. O governo era autocrático. O imperador escolhia um corpo de ministros, seus auxiliares
no governo. Não havia nenhuma forma de restrição efetiva ao seu poder.
O Império Russo começou a enfrentar diversos problemas a partir de 1905, com o início da Guerra
Russo-Japonesa, causada pelo interesse de ambos os países na região chinesa da Manchúria. Apesar
dos esforços, o exército russo sofreu uma desastrosa derrota, frente aos armamentos mais avançados
dos japoneses.
A derrota ante os japoneses mostrou a deficiência do Estado tsarista, tornando evidente a urgência de
reformas. A partir de então, começam as manifestações e revoltas contra o Império. Os partidos políticos
mais organizados destacaram-se, principalmente o Partido Operário Social-Revolucionário Russo,
fundado em 1898, e o Partido Social-Democrático Russo, de 1902. O Partido Social-Democrático era
composto por dois grupos surgidos nas reuniões em Londres e Genebra em 1903:
Bolcheviques, de tendência radical;
Mencheviques, moderados e conciliadores.

Os protestos e movimentos de rua foram reprimidos de maneira extrema pelas tropas imperiais, com
destaque para o episódio do Domingo Sangrento, de 22 de janeiro de 1905, em que mais de 100 pessoas
morreram em um protesto pacífico pelas ruas de São Petersburgo. Enquanto isso, a tripulação do
couraçado Potemkin amotinava-se contra seus oficiais. As greves multiplicavam-se, atingindo até mesmo
a zona rural. Esse conjunto de pressões levou o imperador a criar a Duma, espécie de Assembleia
Legislativa. No fundo, era uma reação do poder imperial, que pretendia com essa concessão estancar os
movimentos de rua e ganhar tempo para controlar o problema. As Dumas eleitas entre 1905 e 1912, ao
todo em número de quatro, foram pressionadas, nada podendo fazer. O disfarce constitucional do Império
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Russo não durou muito tempo. Os efeitos da Grande Guerra, na qual a Rússia se viu envolvida, acabaram
por desmascará-lo. A crise gerada pela guerra evidenciava a deficiência da estrutura imperial. Alguns
dados poderão exemplificar melhor a questão: o exército precisava de 1,5 milhão de obuses e conseguiu
apenas 360 mil; a balança comercial entre 1914 e 1917 apresentava um déficit que subira de 214 milhões
de rublos em 1914 para 1,658 bilhões em 1917; em 1914, a dívida pública do Estado era de 1 bilhão de
rublos, e em 1917 chegara a 10 bilhões; o meio circulante passou de 1,6 bilhão em 1914 para 9,5 bilhões
em 1917.
Os salários eram assim desvalorizados, por causa da inflação violenta, e as empresas com capitais
nacionais iam à falência, aumentando a entrada do capital estrangeiro, o qual alcançaria 50% do capital
total da Rússia em 1917 (33% era francês, 23% inglês, 20% alemão, 14% belga e 5% norte-americano).
Nessa conjuntura de crises, os descontentamentos sociais cresceram; as greves eram numerosas.
Somente no ano de 1916, entraram em greve cerca de 1 170 000 operários.

Fevereiro de 1917: A Revolução Burguesa

As medidas tomadas pelo governo imperial não agradavam a maioria dos setores da população russa.
As manifestações aumentavam diariamente, tanto nas cidades quanto no campo. A burguesia liberal, com
apoio da esquerda moderada, pressionavam o governo por meio de greves gerais, como aconteceu em
Petrogrado. O imperador não deu muita atenção ao movimento, que estava restrito à capital, que contava
com uma guarnição militar forte.
Mas ele não contava com dois pontos essenciais: os soldados não se prestaram a reprimir os
movimentos, com os quais eram coniventes, e os chefes socialistas puseram-se imediatamente a
organizar a luta. No dia 12 de março (27 de fevereiro pelo calendário russo, atrasado 13 dias em relação
ao calendário ocidental), os soldados recusaram-se a marchar contra o povo amotinado. Sem o exército,
o poder político imperial desapareceu. Dois governos foram constituídos imediatamente, o primeiro por
deputados da Duma; o segundo, intitulado soviete, era um conselho de soldados, trabalhadores e
camponeses. Inicialmente, a Revolução limitou-se a Petrogrado, mas em seguida difundiu-se
rapidamente. O tsar abdicou e os sovietes, que se organizavam para dirigir as grandes cidades, formaram,
junto com a Duma, um governo provisório; a monarquia absolutista estava vencida. O governo provisório
era dirigido pelo príncipe Lvov e dominado pela burguesia. Pusera fim ao tsarismo para organizar uma
República parlamentar liberal. Era fundamental, portanto, manter a Rússia no sistema de alianças
mundial, o que significava continuar a guerra contra a Alemanha. A partir de maio, o ministro da Guerra,
Kerensky, preparou uma grande ofensiva contra a Áustria-Hungria, aliada da Alemanha. O país não tinha
condições para dar sequência à guerra, estava esgotado. Além disso, a burguesia não representava a
massa. Era uma minoria reduzida que não tinha força suficiente para impedir a elevação dos preços,
estimular a produção ou impedir as deserções dos soldados, muitos dos quais lutavam descalços.

A Revolução Socialista
O governo provisório foi marcado pela instabilidade política e Petrogrado transformou-se em núcleo
revolucionário. Os bolcheviques aumentavam suas fileiras e o Congresso dos sovietes, controlado por
eles, exigia a retirada da Rússia da guerra. O governo provisório perseguiu os líderes bolcheviques e
reprimiu violentamente as manifestações públicas; para escapar da perseguição, Lenin refugiou-se na
Finlândia.
Em julho, os bolcheviques contavam com o considerável número de cerca de 200 mil partidários.
Contavam ainda com o apoio dos marinheiros da base de Kronstadt. O fracasso da ofensiva contra a
Áustria-Hungria deu oportunidade à manifestação do dia 17 de julho, em Petrogrado. Caiu o governo
provisório de Lvov, que foi substituído por Kerensky. Adversário dos bolcheviques, Kerensky não era
menos socialista, só que mais moderado. Em setembro, o general Kornilov, ligado ao Antigo Regime,
marchou em direção a Petrogrado. Kerensky foi obrigado a pedir ajuda, até mesmo aos bolcheviques.
Kornilov foi batido, mas Kerensky mostrou sua dependência em relação aos trabalhadores e aos
bolcheviques.

A Revolução de Outubro

A crise na Rússia era enorme, e foi apenas agravada pela participação do país na Primeira Guerra.
Aproveitando-se da situação, o partido bolchevique deu um golpe de Estado, comando por Lenin. O
episódio ficou conhecido como Revolução de Outubro.
Logo que foi declarada a revolução, uma coligação internacional esforçou-se reverter a situação em
que a Russia encontrava-se. Os confrontos duraram até 1921, quando a Rússia saiu vencedora. Durante
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esse período, Trotsky organizou o Exército Vermelho e propôs a ideia de uma revolução permanente que
deveria ser difundida por todo o mundo, ao que se opôs Stalin, que pretendia consolidar a Revolução na
Rússia em primeiro lugar.
Assim que os comunistas tomaram o poder na Rússia, implantaram o governo do povo, a ditadura do
proletariado, que se fazia representar pelos sovietes. Decretou-se a comunização total: os bens de
produção foram estatizados, as indústrias com mais de cinco empregados e as terras foram coletivizadas,
a moeda foi extinta, criando-se um bónus correspondente às horas de trabalho e que poderia ser trocado
por alimentos e serviços. As dificuldades foram a oposição interna (camadas descontentes) e a pressão
externa. Por isso foi adotada a NEP (Nova Política Econômica), a partir de 1921. As pequenas indústrias
voltaram à situação anterior; a venda dos produtos agrícolas foi devolvida aos camponeses; e a moeda
voltou a circular. Lenin pretendia dar um passo atrás para poder "dar dois passos à frente". A produção
agrícola recuperou-se rapidamente, bem corno a produção industrial. Porém, os kulaks, camponeses
abastados, enriqueciam com a alta de preços.

A morte de Lenin

No mesmo ano da criação da União Soviética, 1922, Lênin contraiu uma doença que o levaria à morte
em 21 de janeiro de 1924.
Vladimir Ilyitch Ulianov nasceu em Simbirsk, na Rússia, no dia 22 de abril de 1870. Entre os seis
filhos da família, o jovem se tornou conhecido como Lênin. Desde adolescente teve contato com
ideologias políticas, especialmente por causa da influência de seu irmão Alexandre Uilánov. Este, aos
21 anos fazia parte de um grupo de estudantes niilistas em São Petersburgo. O irmão de Lênin integrou
um grupo de extrema esquerda chamado Pervomartovtsi, o qual foi responsável pela tentativa de
assassinato do czar Alexandre III. Uilánov foi preso juntamente com o restante do grupo, sendo
condenado à morte em 1887, quando Lênin tinha apenas 17 anos. O ocorrido deixou Lênin muito
impressionado e convencido de que o anarquismo não oferecia a melhor alternativa para se derrubar o
czarismo na Rússia.
No mesmo ano da morte do irmão, Lênin começou a alterar o destino de sua vida. Em 1887 mudou-
se para Kazan, onde foi cursar a faculdade de Direito. No decorrer dos estudos que o jovem Lênin teve
contato com as ideologias que realmente marcariam suas ações futuras. E, principalmente, tornou-se
um marxista. Após se formar, Lênin dedicou-se ao estudo dos problemas econômicos da Rússia, tendo
como base orientadora os escritos de Marx e Engels.
Após sua morte, seu corpo foi embalsamado e permanece até hoje exposto em seu mausoléu na Praça
Vermelha, em Moscou.

A Sucessão de Lenin
Com a morte de Lenin, as visões sobre a continuidade da revolução ficam divididas entre os dois
membros do Partido Comunista dispostos a substitui-lo: Joseph Stalin e Leon Trotsky.
Para Trotsky, a União Soviética não deveria limitar seus anseios revolucionários aos limites da nação
russa. A Revolução deveria espalhar-se pela Europa, com a União Soviética agindo como incentivadora
de novas revoluções, criando uma comunidade de países que compartilhassem uma visão política
semelhante e com interesse na cooperação, como definia a doutrina do marxismo.
Stalin, por outro lado, acreditava que a revolução deveria manter-se dentro do país, desenvolvendo
suas forças produtivas e abstendo-se da participação em processos revolucionários exteriores.
Através de uma aliança com outros líderes bolcheviques, Stalin derrotou Trotsky e foi eleito líder da
União Soviética, durante o XIV Congresso do Partido Comunista Russo (1925). Ocupando a função de
chefe de Estado, Stalin logo determinou a expulsão partidária e o exílio de Leon Trotsky.

Stalinismo

O termo stalinismo define o período em que a URSS foi governada por Josef Vissarionovith
Djugatchvili, ou simplesmente Josef Stalin (que significa "de aço"), entre 1924 e 1953.
A ascensão de Stalin representou uma enorme mudança no processo de implantação do socialismo.
O foco voltou-se para o interior do país, deixando de lado a revolução internacional. Stalin implantou um
governo autoritário e burocratizado, controlado por uma elite militar e alheio às decisões de conselhos
populares e seus representantes.
Com o objetivo de desenvolver a indústria pesada no país, em 1927 foi anunciado o primeiro plano
quinquenal. Os planos quinquenais foram um instrumento de planificação econômica implantado por

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Stalin na antiga União Soviética, com o objetivo de estabelecer prioridades para a produção industrial e
agrícola do país para períodos de cinco anos.
Seguiram-se outros planos quinquenais, que desenvolveram a produção industrial e agrícola. A grande
dificuldade estava na agricultura, em relação à qual o governo abandonou a ideia de coletivização total e
criou as granjas coletivas (kolkhozes) e as fazendas estatais (sovkhozes). Existia um mercado paralelo
em que os camponeses podiam vender os excedentes da produção, a qual deveria ser fornecida ao
Estado a preços de custo. A produção econômica global era planificada e dirigida por um órgão central,
o Gosplan. Um banco central, o Gosbank, acumulava os capitais em nome do Estado, cerca de 25% do
produto global, e os distribuía para os bancos industriais, comerciais e agrícolas. Os bens de produção
foram incrementados em detrimento dos bens de consumo.
O comércio era realizado em grandes lojas do Estado e a variedade dos produtos era muito reduzida,
pois a padronização diminuía os custos. O avanço da economia soviética em relação aos países
capitalistas foi muito grande no setor industrial, mas permaneceu atrasado no setor agrícola. A ideia de
uma sociedade comunista preconizada por Marx esteve bem longe de realizar-se na Rússia, onde foi
necessário distinguir com salário os trabalhadores mais eficientes, e ao mesmo tempo realizar a
conversão da produção industrial para bens de consumo. Existia uma elite intelectual, os grandes
cientistas e a cúpula dirigente do partido, que preservava alguns privilégios em relação aos demais
membros da população. Os países socialistas são monopartidários, isto é, só o Partido Comunista é
legalizado e a única forma de participação política é pertencer ao partido. A unidade básica de poder é o
soviete de camponeses, operários e soldados, de onde saem os representantes para eleger os membros
do governo. Abolindo os cultos e as religiões tradicionais, violentamente perseguidos nos países
socialistas, acabou-se por criar uma nova forma de religião, a religião do Estado.

Questões

01. (IF/AL – História – CEFET/AL) A Revolução Russa de 1917 marca o início de uma experiência
cujos reflexos se fazem sentir ainda hoje. Esse movimento representou uma grande ruptura econômica,
política e social, sem precedentes, possibilitando, apesar das mais variadas pressões externas, a
superação de um atraso até então secular do povo russo. Sobre esse fato, considere as seguintes
preposições:

I. Embasada ideologicamente nos fundamentos liberais, a Revolução Russa de 1917 consolidou o


primeiro Estado socialista, representativo das aspirações do proletariado.
II. O movimento revolucionário agregou em si, diferentes segmentos sociais, da burguesia ao
campesinato, tendo neste último o principal mentor do processo de tomada ao poder.
III. Na queda do regime czarista e deflagração da Revolução Russa em 1917, houve a participação de
líderes, grupos e organizações de oposição com divergências na estratégia de encaminhamento do
movimento.
IV. Stalin e Trotsky divergiram quanto aos rumos da revolução, já que o primeiro defendeu o “socialismo
em um só país”, ao passo que o segundo propôs a “revolução permanente”.

Podemos considerar falsas apenas as seguintes afirmativas:


(A) I, II e IV
(B) I e II
(C) III e IV
(D) II e IV
(E) I e IV

02. (FGV) Em abril de 1917, o líder bolchevique Lenin, exilado em Zurique (Suíça), voltou à Rússia
lançando as Teses de Abril. Nesse programa político é incorreto afirmar que Lenin propunha a/o:
(A) formação de uma República de sovietes;
(B) concessão à defesa nacional, dando total apoio ao governo provisório;
(C) nacionalização dos bancos e das propriedades privadas;
(D) reconstituição da Internacional;
(E) controle da produção pelos operários.

03. (PUCCAMP) A Revolução Socialista na Rússia, em 1917, foi um dos acontecimentos mais
significativos do século XX, uma vez que colocou em xeque a ordem socioeconômica capitalista. Sobre
o desencadeamento do processo revolucionário, é correto afirmar que:
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(A) os mencheviques tiveram um papel fundamental no processo revolucionário por defenderem a
implantação ditadura do proletariado.
(B) os bolcheviques representavam a ala mais conservadora dos socialistas, sendo derrotados, pelos
mencheviques, nas jornadas de outubro.
(C) foi realimentado pela participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial, o que desencadeou uma
série de greves e revoltas populares em razão da crise de abastecimento de alimentos.
(D) foi liderada por Stalin, a partir de outubro, que estabeleceu a tese da necessidade da revolução em
um só país, em oposição a Trotsky, líder do exército vermelho.
(E) o Partido Comunista conseguiu superar os conflitos que existiam no seu interior quando
estabeleceu a Nova Política Econômica que representava os interesses dos setores mais conservadores.

Gabarito

01.B / 02.B / 03.C

Comentários

01. Resposta: B
A ideologia de base da Revolução Russa foram as ideias do comunismo de Marx e Engels. A revolução
começa como um movimento urbano, apesar da participação dos camponeses, porém estava mais
concentrado nos trabalhadores urbanos.

02. Resposta: B
Lenin era totalmente contra o governo provisório. O próprio Lenin foi um dos elementos que ajudaram
a decretar seu fim

03. Resposta: C
A Rússia já passava por diversos problemas internos como a falta de alimentos e a crise política. A
entrada e desempenho desastroso do país na Primeira Guerra serviu apenas para alimentar os ânimos
revolucionários.

CHINA

Revolução Chinesa69

A China entrou no século XX sob o estigma da humilhação nacional. Parte do seu território, inclusive
de sua capital estava ocupada por oito potências estrangeiras – Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha,
França, Rússia czarista, Japão, Itália e Áustria.
Em 1900, a rebelião dos Boxers foi cruelmente sufocada por uma coligação militar dos países europeus
sob o comando do exército alemão.
O domínio estrangeiro sobre a China e a incapacidade de resistência da monarquia manchu, fizeram
com que a dinastia Qing caísse no descrédito da população. O movimento republicano foi liderado por
Sun Yat-sen, que fundou em 1894 a “União pelo Renascimento da China”. O movimento ganhou força e
a República foi proclamada em 1911. Mas Sun Yat-sen, representante da nascente burguesia chinesa
em aliança com a pequena-burguesia urbana, ainda sumamente débeis – não conseguiu manter-se no
poder e foi obrigado a renunciar, sendo substituído pelo despótico general Yuan Shikai. Esse governo fez
concessões ainda maiores aos estrangeiros e a China mergulhou na anarquia, dilacerada pela luta entre
os diferentes “senhores da guerra” (que eram detentores do poder nas províncias).
A “União pelo Renascimento da China” deu origem, em 1912 ao “Partido Nacional do Povo”
(Guomindang), tendo como líder civil Sun Yat-sen e como dirigente militar o jovem general Chiang Kai-
shek. A Revolução Russa, em 1917, influenciou e impulsionou os nacionalistas chineses.
Em 1919, grandes manifestações estudantis contra a dominação estrangeira e contra o governo
sacudiram a China, congregando intelectuais, artesãos e trabalhadores, o que deu um novo impulso à
luta anti-imperialista. Em julho de 1921, em Shangai, foi fundado o Partido Comunista da China
(Kungchantang), tendo a sua frente, entre outros, Mao Zedong.
Sun Yat-sen formulou, nessa época, a sua doutrina das Três Políticas: “colaboração com a URSS,
colaboração com o PC da China e apoio aos operários e camponeses”. Em 1923, é assinado o “Pacto

69
Adaptado de Raul Carrion

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Yoffe-Sun Yat-sen”, através do qual os soviéticos passaram a proporcionar assistência administrativa e
militar ao Guomindang.

A Primeira Guerra Civil Revolucionária (1924-1927)

Entre 1924 e 1927, varre a toda a China uma nova vaga revolucionária – conhecida como “a grande
Revolução” –, tendo por esteio a Frente Única entre o Guomindang e o Partido Comunista da China.
Em março de 1925, falece Sun Yat-sen, amigo sincero da URSS e defensor da aliança com o Partido
Comunista. À medida que o tempo passava e a luta avançava, crescia no seio do Guomindang a ala
anticomunista, liderada pelo Jiang Jieshi. Mas, a “Expedição do Norte” contra os caudilhos militares do
norte – apoiados pelas potências imperialistas e muito bem armados – necessitava do apoio da URSS e
do PC da China, o que neutralizou temporariamente as atitudes anticomunistas.
A aproximação do “Exército Nacional Revolucionário” das cidades de Shangai, Cantão e Wuhan
estimulou insurreições operárias que, dirigidas pelos comunistas, ocuparam esses grandes centros
urbanos.
Preocupado com o crescimento e o fortalecimento dos comunistas, Chiang Kai-shek rompeu, em abril
de 1927, a Frente Única com o PC da China e iniciou uma feroz repressão aos seus militantes. Só em
1927, foram mortos 40 mil comunistas, sendo que 13 mil foram executados posteriormente. Assim, a
“primeira guerra civil revolucionária” terminou com a derrota das forças revolucionárias.
Batidos, os comunistas refugiaram-se em áreas do interior, para fugir ao massacre, e iniciaram uma
das mais longas guerras civis dos tempos modernos, que só terminaria 22 anos depois, em 1949, com a
vitória da Revolução Chinesa, dirigida por Mao Zedong.

A Segunda Guerra Civil Revolucionária (1927-1937)

Em 1º de agosto de 1927, sob a liderança de Zhu De e Zhou Enlai, ocorreu o levante de dois corpos
do antigo Exército Nacional Revolucionário de Nanchang, onde encontravam-se mais de 20 mil soldados
controlados ou influenciados pelos comunistas. Esse levante foi seguido de outros, como o da Colheita
de Outono, em Hunan, dirigido por Mao Zedong. Em um primeiro momento a estratégia dos comunistas
foi a de tomar grandes cidades, o que logo revelou-se inadequado, levando-os a derrotas.
A partir de então, sob a direção de Mao Zedong, os comunistas chineses orientaram-se no sentido de
organizar bases de apoio no campo e desenvolver a luta de guerrilhas. Em abril de 1928 formou-se o “4º
Corpo do Exército Vermelho de Operários e Camponeses”, que passou a combater nas montanhas de
Jing Gang, na província de Jiangxi, tendo por Comissário Político Mao Zedong e por Chefe Militar Zhu
De.
Beneficiando-se das condições topográficas favoráveis – “região fácil de defender e difícil de atacar” –
logo as bases de apoio se multiplicaram, principalmente nas províncias de Tzian-Si, Fu-Tzian, Hunan,
Hubei, Huan-si e outras, situadas na China central e meridional.
A medida que as áreas liberadas se consolidavam, o poder passava às mãos de Conselhos (Soviets)
de operários e camponeses, que confiscavam as terras aos latifundiários e as entregavam aos
camponeses pobres. Da mesma forma, as empresas dos capitalistas estrangeiros eram confiscadas; já
os capitalistas chineses podiam manter as suas empresas e eram apoiados pelo novo poder.
Em dezembro de 1931, na cidade de Chzhui-Tzin, reuniu-se o “Primeiro Congresso dos Soviets”,
estando representadas nele todas as bases revolucionárias da China. Esse congresso elegeu um governo
central operário-camponês das regiões libertadas, tendo à sua frente Mao Zedong.
Entre 1930 e 1932, Chiang Kai-shek organizou quatro campanhas militares contra as regiões
libertadas, mas não conseguiu destruí-las. Em setembro de 1931, o Japão invadiu o nordeste da China
(Manchúria), sem maior resistência do Governo de Nanquim, mais preocupado em combater os
comunistas. Em 1932, foi constituído, no território ocupado pelos japoneses, o estado títere de Man-
chuko, governado por Pu Yu, último imperador da dinastia manchu.
Frente aos apelos dos comunistas para a constituição de uma grande frente única para combater os
japoneses, Jiang Jieshi respondeu com sua quinta campanha contra as bases revolucionárias, lançando
sobre elas, em outubro de 1933, um exército de um milhão de soldados. Erros “esquerdistas” na condução
da luta (sob influência de Wan Min, que abandonou a tática de guerrilhas e passou à ofensiva contra as
grandes cidades e à defesa a qualquer preço dos territórios), somados à grande superioridade numérica
das forças de Jiang Jieshi (as forças revolucionárias totalizavam em torno de 100 mil combatentes),
forçaram o abandono das bases revolucionárias da China Central e Meridional e deram origem a “Grande
Marcha”.

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Em outubro de 1934, o Exército Vermelho conseguiu romper o cerco e iniciou uma grande retirada em
direção ao noroeste da China, que durou um ano. Em meio a encarniçadas batalhas e sofrendo graves
perdas, as unidades remanescentes do Exército Vermelho cruzaram onze províncias, percorrendo um
trajeto de doze mil quilômetros. Apenas dez mil dos noventa mil guerrilheiros que iniciaram a “Grande
Marcha” chegaram, em fins de 1935, à província de Shensi-Kansu, que se converteu na principal base
dos revolucionários, tendo por capital Yenan.
Nesse processo, Wan Min e a sua política aventureira foram derrotados na direção do PC da China e
Mao Zedong e a sua política tornaram-se hegemônicos no partido.

A Guerra de Libertação contra o Japão (1937/1945) e a Terceira Guerra Civil Revolucionária

Em julho de 1937, as tropas japonesas iniciaram uma ofensiva no norte da China visando a ocupação
de todo o país. Em pouco tempo, tomaram Beijing, Nanjing, Tien-Tsin, Shangai e outras importantes
cidades da China. Sob forte pressão, inclusive de seus generais, Chiang Kai-shek viu-se obrigado a
aceitar a Frente Única proposta pelos comunistas para enfrentar o Japão.
Na prática, porém, as tropas do Guomindang pouco faziam contra os japoneses, que apoderaram-se
de todas as províncias do litoral chinês e de todos seus centros econômicos e políticos. Quem de fato
enfrentava as tropas japonesas eram o Quarto e o Oitavo Exércitos Vermelhos, secundados pelos
movimentos guerrilheiros que se multiplicavam na retaguarda do inimigo. As vitórias da URSS contra as
tropas japonesas no Lago Hasán (1938) e junto ao Rio Jaljin-Gol (1939) também favoreceram muito a
luta das forças patrióticas chinesas.
Em 1940, as regiões libertadas pelos comunistas já abrangiam um território com uma população de
100 milhões de habitantes e as fileiras das unidades regulares do Exército Popular Libertador contavam
com mais de meio milhão de combatentes. Em 1941 e 1942, os japoneses lançaram suas principais forças
contra as regiões libertadas e contra o Exército Popular Libertador da China, mas sem conseguir vencê-
lo. Enquanto isso, a resistência do Guomindang havia-se desfeito totalmente e Jiang Jieshi colaborava
abertamente com os japoneses.
Em agosto de 1945, o exército soviético passou à ofensiva na Manchúria, destruindo as principais
forças do exército japonês. O “Exército Popular Libertador da China” aproveitou as circunstâncias para
lançar uma grande ofensiva, libertando 150 cidades e novos territórios na China Central e do Norte,
aproximando-se de Beijing, Nanquim e Changai. Preocupados com o avanço das tropas revolucionárias,
os Estados Unidos desembarcaram um exército de mais de cem mil homens em várias regiões da China
e, junto com as forças do Guomindang, ocuparam Beijing, Shangai e Nanquim.
Derrotados os japoneses, os comunistas propuseram a retirada de todas tropas estrangeiras da China
e a formação de um governo de coalizão, com a participação de todos os partidos políticos.
Mas, em julho de 1946, depois de uma trégua de sete meses, os exércitos do Guomindang iniciaram
seu ataque ao “Exército Popular Libertador”, no norte e no centro do país. Eram quatro milhões e trezentos
mil homens do Guomindang – abastecidos pelos Estados Unidos com o que havia de mais moderno em
armamentos – contra um milhão e duzentos mil homens das forças revolucionárias, precariamente
armados.
Aplicando amplamente a tática de guerrilhas, em combinação com tropas regulares, o “Exército
Libertador” resistiu aos ataques de Chiang Kai-shek e em julho de 1947 passou à contraofensiva em
escala nacional. Em pouco mais de dois anos, o “Exército Popular” libertou toda China Central e
Setentrional e penetrou no Sudoeste, tomando Nanquim, Shangai, Hanchou e outras importantes cidades.
Nesses três anos de luta, o “Exército Popular de Libertação” chegou a contar com mais de cinco
milhões de combatentes, enquanto o exército do Guomindang se reduziu a um milhão.
Em 23 de abril de 1949, os revolucionários tomaram Nanquim, sede do governo do Guomindang. No
dia 1º de outubro de 1949, foi proclamada em Beijing a República Popular da China. Jiang Jieshi e seus
aliados fugiram para a ilha de Taiwan (Formosa), sob a proteção da esquadra e do exército norte-
americano.

Questões

01. (FGV/SP) A Grande Marcha empreendida nos anos 30 por Mao Tsé-tung e seus seguidores foi:
(A) uma fuga dos contingentes comunistas que estavam sendo perseguidos pelas tropas do
Kuomitang.
(B) uma fuga dos seguidores de Mao perseguidos pelas tropas japonesas que invadiram a Manchúria.
(C) uma tentativa das tropas comunistas de cortar as linhas de abastecimento das tropas nacionalistas.

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(D) uma tentativa das tropas de Mao de cercar as tropas japonesas que haviam invadido a Manchúria
e o norte da China.
(E) a marcha empreendida pelos comunistas sobre Nankim para derrotar as tropas do Kuomitang.

Gabarito

01.A

Comentários

01. Resposta: A
A fuga dos membros do Partido Comunista para o interior do país visava conseguir apoio camponês
para enfrentar as tropas nacionalistas do Kuomitang, que estavam no poder e perseguiam Mao e seus
seguidores.

A INDEPENDÊNCIA DE CUBA E A INFLUÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS

Cuba foi o último domínio da Espanha a emancipar-se, em 1898. Apesar da independência, a realidade
política de cuba não foi muito alterada. Sua emancipação foi resultado da guerra entre Estados Unidos e
Espanha, com a vitória do país americano, que passou a exercer sua influência sobre a ilha.
A Constituição cubana, criada após a independência, incluiu uma lei aprovada pelo Congresso norte-
americano: a Emenda Platt, que estabelecia, entre outras coisas, que o governo de Cuba nunca deveria
ingressar em nenhum tratado ou outro pacto estabelecido com qualquer potência estrangeira; que o
governo de Cuba deveria permitir que os Estados Unidos exercessem o direito de intervir a fim de
preserva a independência do país; que todos os decretos dos Estados Unidos em Cuba durante sua
ocupação militar deveriam ser ratificados e validados. Essa postura dos Estados Unidos enquadrou-se
no âmbito do "Big Stick Policy" e foi adotada pelo presidente Theodore Roosevelt, sendo também
responsável pela dependência do país ao capitalismo norte-americano.
O domínio dos Estados Unidos durou até 1933, quando o Dr. Ramón Grau San Martín chegou ao
poder, apoiado por um movimento popular que contou com apoio comunista. Durante essa nova etapa
de governo, a Emenda Platt foi revogada, foi criado o Ministério do Trabalho, e as mulheres ganharam o
direito ao voto.

O Governo de Fulgêncio Batista

O governo de San Martin não agradou alguns setores da sociedade cubana, ligados aos interesses
norte-americanos. O sargento Fulgêncio Batista encabeçou a oposição ao governo e foi eleito presidente
em 1940. Seu governo caracterizou-se pelo cunho ditatorial, durando até 1944, quando o Partido
Autentico reelegeu San Martin.
Durante os anos 1950, em plena Guerra Fria, os Estados Unidos temiam o avanço do comunismo na
América, e apoiaram a tomada de poder de diversos governos autoritários de direita para garantir sua
hegemonia. Apoiado pelos norte-americanos, em 10 de março de 1952 Fulgêncio Batista toma o poder
novamente.
Paralelamente à chegada de Batista ao poder, começam a eclodir diversas greves e revoltas,
movimentadas pelo proletariado e pelo movimento estudantil. Em 1953 começam as tentativas de
revolução, quando os rebeldes tentaram conquistar os quartéis de Moncada e de Carlos Manuel de
Céspedes, em 26 de Julho. A ação fracassou e boa parte dos revoltosos que não morreram durante o
conflito foram presos. Entre eles estava um jovem que havia ganhado destaque na liderança dos
movimentos: o advogado recém-formado pela Universidade de Havana, Fidel Alejandro Castro Ruz.
Após passar alguns meses na prisão, Castro é libertado e exilado, refugiando-se no México, onde
conseguiu reunir as condições necessárias para iniciar uma guerrilha com o objetivo de derrubar Batista
do poder. Dessa forma surge o Movimento Revolucionário 26 de Julho (M-26-7), que contava com
apoio de membros no México, em Cuba, Guatemala e até mesmo nos Estados Unidos. Nessa época
entra para o grupo o médico e também guerrilheiro, Ernesto “Che” Guevara
Durante mais de dois anos o grupo guerrilheiro de Fidel estruturou-se para garantir a coesão do grupo.
Ao longo desse período foi sendo traçado o plano de invasão de Cuba: penetrar as florestas do sudoeste
da ilha com um grupo de guerrilheiros, aos pés da Sierra Maestra, e a partir daí, espalhar o movimento
com a ajuda de camponeses pobres que viviam na região.
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O Início dos ataques
Os guerrilheiros vieram do México a bordo do iate Granma, transportando 82 pessoas, armamentos e
mantimentos. Dois dias depois do planejado, em 2 de dezembro de 1956, o iate encalhou no sudeste da
ilha. A distância do litoral obrigou os combatentes a alcançar a praia à nado, o que revelou-se uma
tentativa frustrada, ao serem reconhecidos por um barco de patrulha costeira de Cuba, que disparou
incessantemente contra eles. O resultado foi a morte de 60 guerrilheiros.
Os sobreviventes embrenharam-se nas selvas da Sierra Maestra, contando com a ajuda de
camponeses para conseguir abrigo e alimentos. Ciente do risco que corria, o governo de Batista retalhou
com firmeza as tentativas do grupo, punindo severamente qualquer um que fosse acusado de colaborar
com os rebeldes
Organizando-se clandestinamente, a partir de técnicas e aparelhos rudimentares, os rebeldes foram
ganhando espaço e conquistando a simpatia da população carente, que via neles uma esperança de
mudança de vida. Através das táticas de guerrilha, conseguiam vencer conflitos contra os soldados do
exército, muitas vezes em maior número. Para garantir a sobrevivência do movimento, foram dividas
“colunas”, grupos de certa forma autônomos, comandados por um líder
Mesmo com as afirmações do governo de que o movimento havia sido sufocado na Sierra Maestra, os
focos de conflito continuavam a crescer.
As colunas, agora já maiores e melhor organizadas traziam consigo vantagens e desvantagens.
Tornava-se inviável bater na casa de um camponês e pedir-lhe comida. A base guerrilheira, então
instalada na Sierra Maestra funcionava como um Quartel General e muito por iniciativa de Ernesto
Guevara (Che), criou-se em plena floresta um sistema rudimentar para a produção de pão e charque que
alimentasse as tropas, artigos de couro para os soldados e inclusive uma pequena imprensa com um
mimeógrafo antigo de onde eram editados manifestos e até um jornal da floresta. Atos de insubordinação
ou indisciplina, também eram frequentes e firmemente tolhidos. Algumas vezes até passíveis de crítica
quanto a sua dureza, principalmente na figura de Che Guevara. Promovido a chefe de uma coluna, Che
era conhecido pela sua conduta exemplar e por exigir não menos que isso de seus soldados.
No final de 1958 os grupos guerrilheiros estão próximos da capital, cada vez mais fortalecidos. A coluna
de Che já toma a segunda cidade em importância de Cuba e marcha para a capital, assim como a coluna
de Camilo Cienfuegos, personagem de vital importância para a Revolução.
Conseguindo cada vez mais apoio e recursos, no primeiro dia de 1959, os guerrilheiros chegam à
Havana, capital cubana. Entendendo que a situação estava perdida, Batista havia abandonado o país,
juntamente com alguns membros de seu governo.

Fidel no Poder

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