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Dallas Theological Seminary

Programa de Doutorado em Ministério


Disciplina: DM 705 - Selected Topics of Theological Issues in
Today’s Ministry
Aluno: Ari Langrafe Junior

Resenha Crítica
Ultrapassando Barreiras: Novas opções para a Igreja brasileira na virada do
século XXI, J. Scott Horrel org. – São Paulo: Vida Nova, 1994, 170 páginas.

O livro, Ultrapassando Barreiras: Novas opções para a Igreja brasileira na


virada do século XXI, é a primeira de duas coletâneas de ensaios de vários
autores, dentre eles Caio Fábio, Edson Queiroz, Ary Velloso, Daniel Reis, Ray
Harms, Wiebe Ricardo Barbosa, Ed René Kivitz, Armando Bispo e Paulo
Solonca. O livro apresenta o pensamento de diversos líderes da igreja
evangélica brasileira e teve como objetivo compilar a experiência dos pastores
frente a necessidade de mudanças e aos desafios da igreja na virada do século.
O alvo não é providenciar modelos para serem copiados, mas incentivar igrejas
locais a redescobrir sua própria eclesiologia bíblica, pois a eclesiologia
neotestamentária é surpreendentemente flexível na parte organizacional.

I. A Essência da Igreja: Repensando a eclesiologia à Luz do Novo


Testamento.
O texto trata essencialmente do que é ser igreja: sua essência, suas funções
prioritárias e como elas devem afetar as formas de nossas igrejas locais. Muitos
líderes sentem uma tensão entre a maneira tradicional de ser igreja e o que eles
encontram no Novo Testamento. A maioria das atividades das igrejas batistas
brasileiras giram em torno de quatro conceitos centrais: o templo, o sábado
cristão, o culto e o clero. Isso nos leva a realidade de que somos mais
veterotestamentários do que neotestamentários em nosso pensamento sobre a
igreja.
No Antigo Testamento a maneira de cultuar a Deus era centralizadora.
Centrava-se racialmente nos judeus, geograficamente em Israel, temporalmente
no sábado e na hierarquia religiosa, pois sem os sacerdotes era ilícito oferecer
sacrifícios. Quando vemos a Igreja no Novo Testamento, descobrirmos a
extraordinária inversão desta forma antiga do reino de Deus. Por definição, a
igreja do Novo Testamento é um grupo de pessoas que confessam sua fé em
Cristo, foram batizadas e se organizaram para fazer a vontade de Deus.
Passando de Atos até o fim do Novo Testamento, discernimos quatro categorias
de atividades da igreja local: adoração, aprendizagem, comunhão e
evangelização.
II. Estrutura criativa no contexto metropolitano: Passos de um
Processo de Transformação.
A comunidade cristã que se prepara para entrar no século XXI, precisa passar
por uma segunda reforma, uma reforma estrutural. Ela precisa ser transformada
antes de pensar em transformar a sociedade. A tese deste trabalho procurou
demonstrar, através do contexto de uma igreja paulistana de classe média, que
a estrutura da igreja precisa se basear na missão bíblica da igreja. Ser forjada
dentro do contexto religioso e sociocultural, e servir para facilitar a
implementação da visão específica para a comunidade escolhida.
A nossa vida eclesiástica não é apenas uma experiência de louvor e
crescimento. Como seguidores de Cristo, mesmo vivendo em um mundo injusto
e hostil, oferecer uma família, um lar onde os membros podem tirar as máscaras,
ser quem são e, mesmo assim, ser amados e aceitos. Cada comunidade local
deve se prostrar diante de Deus e pedir Sua visão para a missão específica
dentro de um determinado momento histórico. Deixemos que Deus transforme
as nossas estruturas para que o Seu Reino possa avançar com mais facilidade
e rapidez.

III. Liderança na igreja local: qualificações e escolhas bíblicas


A descoberta, o treinamento de líderes, a instituição e a administração de
liderança são as necessidades e os sonhos de toda igreja. Dentro do contexto
da Primeira Igreja Batista em Porto Alegre/RS pretendeu-se recolocar alguns
conceitos esquecidos, expor algumas considerações novas e, principalmente,
apresentar alternativas já experimentadas que possam ajudar a tantos quantos
queiram seguir a orientação bíblica para o treinamento de líderes. A igreja
precisa de líderes bem preparados. Esse deve ser o principal ministério dos
pastores.
Cada igreja precisa elaborar o seu próprio processo a partir de parâmetros
bíblicos de tal maneira que produza líderes fiéis e idôneos, conforme os quesitos
da Palavra de Deus, e bem preparados para o exercício de uma liderança que
ajude efetivamente o povo a desenvolver o seu próprio ministério, para a
edificação do Corpo de Cristo e para a glória de Deus.

IV. Pequenos grupos, uma velha novidade: voltando a uma


verdadeira Koinonia Comunitária.
Reunir pessoas aos domingos, no templo, para que assistam a performance
do clero durante os cultos, resume o ministério de muitas igrejas
contemporâneas. A igreja deixou de ser o que os cristãos são, para tornar-se o
lugar onde os cristãos vão. Pessoalmente o autor procurou demonstrar que o
entrelaçamento da comunidade cristã através de pequenos grupos é o único
caminho possível para que os cristãos experimentem hoje o que o Novo
Testamento chama de ecclesia.
Implementar pequenos grupos exigirá convicção divina, elaboração consistente,
sensibilidade persistente, liderança comprometida. Casais comprometidos com
a visão de Deus, que desfrutem boa reputação ante o rebanho, sejam
disponíveis, ensináveis e leais ao todo da liderança pastoral da igreja.

V. Espiritualidade na igreja moderna: incentivando a autenticidade


cristã.
Falar de espiritualidade é falar de relacionamentos. Envolve o que somos,
nossa capacidade de nos dar para sermos conhecidos e de conhecer o outro
como ele é. É interagir em amor e afeto, numa permanente e íntima comunhão
com o outro. Essa é a grande crise e o grande desafio da espiritualidade cristã
nesse final de século. A grande limitação dos cristãos hoje não está no campo
do conhecimento nem da experiência, mas do amor, da amizade, do encontro
pessoal e trinitário (comunhão de três), o que se espera dos Seus filhos é que
estes encontrem o caminho da comunhão íntima, pessoal e relacional.
Nesses relacionamentos três elementos precisam ser resgatados: a
confissão, a paternidade espiritual (prestação de contas) e a leitura devocional.
Levando-se em conta que a espiritualidade cristã não é o resultado de aplicação
de fórmulas ou receitas pragmáticas, nem de modelos vividos e experimentados
por outros, mas de nosso encontro pessoal com Deus, onde a história e
personalidade de cada um terá de ser colocada diante daquele que nos ama e
nos conhece como de fato somos.

VI. Os dons espirituais: despertando o potencial divino na igreja


local.
A realidade neotestamentária aponta para um mover dinâmico do Espírito
santo, dando a cada comunidade local os dons necessários para o seu
funcionamento como corpo de Cristo, relegando a forma a um plano secundário
e subserviente à função das verdades bíblicas. As igrejas neotestamentárias não
sacramentaram liturgia, costumes ou tradições humanas. Muito pelo contrário,
tornaram-se referencial de mudanças, de adaptabilidade e de capacidade
criativa, à medida que procuravam contextualizar-se como comunidades
alternativas nas diferentes regiões do mundo antigo. Os dons espirituais são as
capacitações que tornam isso possível. Através do Espírito Santo, em vez de ter
um templo, queremos ser um templo; em vez de ter um programa, queremos
estar no programa de Deus; em vez de elaborar uma mensagem, queremos ser
a mensagem viva do que Deus quer fazer através da mutualidade.
VII. Iniciando novas igrejas: Estratégias atuais para um Brasil
moderno.
Ainda que “Plantar novas igrejas é a metodologia evangelística mais eficaz
que se conhece debaixo do céu”, se isso não for bem feito pode mais atrapalhar
do que ajudar. A igreja Batista em Chapecó é uma dessas histórias que poderiam
ter evitado uma série de dificuldades. O padrão Bíblico é agir estrategicamente.
Homens que estão sendo transferidos, pastores fazedores de tendas e homens
que são desafiados a se mudarem. Precisamos plantar igrejas, mas elas
precisam ser bem plantadas.

VIII. Inovando uma igreja tradicional: esquentando um povo querido


sem queimar a casa.
A igreja como um organismo vivo precisa crescer e isso implica mudança.
Toda mudança precisa de uma combinação de humildade, coragem e visão. No
entanto, há varias tensões em torno de qualquer mudança, incluindo o idealismo,
o pessimismo e vícios (não as virtudes) adquiridos da tradição. A realidade
funcional de uma mudança significativa de uma igreja ou comunidade está a
meio caminho entre o sonho ideal e o pessimismo paralisante. Reconhecer e
aceitar tal realidade funcional é condição básica para levar adiante qualquer
esforço de entendimento mútuo da prática de uma vida em comum inovada. As
mudanças para que aconteçam de modo significativo precisam ser balizadas na
Palavra de Deus, ser baseadas em necessidades comprovadas, através dos
resultados de uma percepção concreta e não de modismos, respeitando a
história da igreja local e da denominação e sobretudo com diálogo contínuo, sem
pressa ou radicalismo. Nossas igrejas precisam saber como mudar sem perder
o que já foi conquistado.

IX. A igreja local e missões mundiais: engajando-se na grande


comissão.
Quando olhamos para as Escrituras sagradas o conteúdo geral da Bíblia é
missionário. De Gênesis a Apocalipse, é um livro missionário, a partir do ponto
de vista bíblico, o propósito de Deus é simplesmente reconciliar o homem
consigo. Na antiga aliança Israel era o instrumento missionário de Deus e hoje,
a igreja é o instrumento Missionário de Deus. No Brasil, o método mais comum
é depender de outros para fazer essa obra, seja uma denominação ou
simplesmente não fazendo nada. O autor propõe outro caminho: preparar a
igreja local para a obra missionária até o ponto de enviar seus próprios
missionários. A oferta de Fé é um programa que tem funcionado em muitas
igrejas, pois é pessoal, constante e garante uma boa manutenção da obra
missionária. Missões não é questão de metodologia e, sim, de vida espiritual.
X. A igreja brasileira e o século XXI: O presente e o futuro.
Avaliando o quadro geral da igreja, vemos que ela cresce explosivamente no
meio dos pobres, mas tem conseguido somente fazer a manutenção entre a
classe média e alta. Quando se trata das qualidades e defeitos da igreja, a
qualidade é a alegria e o papel do leigo, onde a igreja cresce através da
evangelização feita pelo leigo. Com relação aos seus defeitos, o maior deles tem
sido ético, pois a igreja tem dado pouco valor ao estudo da Palavra. Resumindo,
quem sabe não faz e quem faz geralmente não sabe. A minha oração, diz o autor
é que a igreja não seja vista como tendo muito poder. Não um poder político,
mas o poder através do Espírito Santo, para que seja uma referência ética
esmagadora. Para que ajam cristãos bem posicionados em todos os setores da
sociedade. Que a igreja, enquanto instituição, seja uma grande referência de
justiça, de verdade, de ética, de amor e de solidariedade construtiva no país.
Que cresça fantasticamente em termos numéricos, mas que não sacrifique a
doutrina. O meu sonho é que ela seja evangélica por causa do Evangelho.

Breve Crítica
A presente obra é uma coletânea muito bem construída de experiências
e reflexões sobre a igreja brasileira. Não há como fazer essa crítica sem levar
em conta que se passaram quase 20 anos desde a data da publicação. Nesse
período houve grande mudanças na igreja brasileira, com resultados positivos
outras vezes não.
O livro destaca o anseio e talvez até a angústia de pastores que
trabalhavam em suas igrejas e que diante das escrituras sentiam falta do
propósito original dos escritos do Novo Testamento ao invés do conformismo
denominacional presente em muitas igrejas. O livro trata de resgatar muitos
conceitos do Novo Testamento e que foram deixados de lado ou nunca fizeram
parte da igreja brasileira. A igreja não se centraliza nas formas de estrutura,
templo, domingo, culto, pastor, mas nas funções dinâmicas de adoração,
aprendizagem, comunhão e evangelização. O livro também deixa claro o
cuidado que se precisa fazer para que mudanças significativas aconteçam.
Um ponto negativo é que muitos dos próprios pastores que escreveram
capítulos não tomaram alguns cuidados, tão necessários, caso do próprio pastor
Caio Fábio, que hoje faz parte do movimento dos sem igreja e do pastor Ed René
que abraçou formas de teísmo aberto “abertamente”. Ao mesmo tempo o livro
continua atual para as igrejas tradicionais que preferiram esperar a onda passar
e que agora se veem na mesma encruzilhada de muitas igrejas no passado. Que
Deus tenha misericórdia de nossas igrejas para que sejamos uma igreja
relevante em um mundo desmoronando. Ao mesmo tempo, que nos
mantenhamos firmes através de um evangelicalismo baseado no Evangelho.