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A Comunicação dos Sentidos

Alexandre Amorim

Tudo o que está no pensamento passou antes pelos sentidos – Aristóteles


porém...
O que em mim sente está pensando – Fernando Pessoa

A frase de Aristóteles, refere-se sobretudo, ao processo de aprendizagem. É através dos sentidos que as
informações chegam ao cérebro e são por este processadas e interpretadas, isto é, atribuindo algum sentido e
tecendo aos poucos a rede de significados que nos permite ver o mundo.

Podemos observar em nossa linguagem coloquial uma construção discursiva que explicita este fato, na criação de
inúmeras expressões que vinculam a leitura da realidade aos fenômenos sensórios: "olho grande", "me olhou de
cima a baixo", "me comeu com os olhos", "à boca miúda", "fulano tem uma boca grande", "ficar de orelha em pé",
"isto não está me cheirando bem", "vou te dar um toque", etc.

Podemos observar também que a percepção está vinculada a uma historicidade, a uma contextualização de tempo
e espaço. A vinculação da percepção com a cultura também nos aponta para formas diferentes de se pensar. Uma
vez que a própria construção de modos de pensamento está ligada às formas de sentir (M. Melrleau Ponty). É para
isso que servem os instrumentos perceptivos - para tornarem a mente inteligente. Além disso, a sociedade constrói
códigos de comunicação a partir das percepções socializadas. Códigos culturalmente aprendidos e compartilhados
que fazem com que possamos nos comunicar mesmo que sem o artifício das palavras.

Por outra, temos também a possibilidade da comunicação corporal que acessa as nossas instâncias mais
primitivas, como no caso do sexo, que mesmo em culturas diferentes, sinais e códigos corporais são enunciados e
compartilhados mesmo que sem fala, produzindo um entendimento bastante significativo.

No entanto, o que podemos observar é que o homem veio criando uma enorme dependência do racional, do
mental, de alguma maneira desprezando as informações que nos chegam pelos sentidos. Isto tem uma
conseqüência muito funesta: torna-nos insensíveis. Anestesia na qual muitas das vezes nos vemos mergulhados,
numa profunda negação das próprias sensações. Com isto, acabamos por nos embrutecer e também obstar o
desenvolvimento pleno da mente.

Rubem Alves em diversos textos coloca bem clara a distinção entre saber e conhecer, nos fazendo referência à
origem de ambas as palavras. Nos apresenta o saber em conexão com o sabor (ambas possuem o mesmo radical
latino: sapere). Daí, o sabor necessário à educação. E os educadores, vistos como cozinheiros que temperam os
conhecimentos para serem saboreados pelos alunos. O conhecimento parece querer dizer da apropriação de
certas habilidades específicas e se mantêm numa esfera abstrata, já a sabedoria implica em um número
maior de habilidades vinculadas entre si e ao viver cotidiano de quem a possui. Estão por assim dizer,
incorporadas a esta pessoa. E é bem este o termo, na medida que incorporar significa precisamente trazer
ao corpo, fundir-se nele! O saber constitui parte integrante do corpo de quem o possui, torna-se qualidade
sua.

Os gregos diziam que a cabeça começa a pensar quando os olhos ficam estupidificados diante de um
objeto. Pensamos para decifrar o enigma da visão.
Rubem Alves

A construção de um sentido através dos canais perceptivos. A arte ela própria é significação da realidade. É
poetização do mundo, daí que se faz possível tendo-a como linguagem, o resgate do saber-sabor. E
sobretudo é preciso manter o olhar "estupidificado", admirado, surpreso diante do mundo, afim de conferir-
lhe sempre a possibilidade de mudança e, conseqüentemente, garantir a nossa própria capacidade de nos
tornarmos melhores do que somos.

Aristóteles em Metafísica: “Todos os homens têm por natureza um desejo de conhecer. Uma prova disso é o
prazer das sensações, pois, fora até de sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas, e, mais que todas
as outras, as visuais” ...

As sensações nos trazem o prazer. É isto que buscamos muito avidamente quando crianças. O prazer em
descobrir, desvelar. É preciso manter este prazer vivo e ativo.

Mas é de Fernando Pessoa, o poeta que atravessa a realidade com sua poesia que nasce uma grande
reflexão sobre a arte. É a articulação de todo conhecimento pela via do sensível. O que em mim sente está
pensando. Não é mais o pensamento que atribui o que é ou deixa de ser, nada de penso logo existo. Abrem-
se as portas do Eu que sente para se entrar em acordo com o mundo. Deleitar-se com o mundo. Fruir. Fluir.

PRAZER
DA PURA PERCEPÇÃO
OS SENTIDOS
SEJAM A CRÍTICA DA RAZÃO

PAULO LEMINSKY