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Instrumentos Musicais no Culto Público da

Igreja

John L. Girardeau

O Presbiteriano
Direitos autorais © 2020 O Presbiteriano

Título Original: Instrumental Music in the Public Worship of the Church.

Tradução e Edição: Rodrigo Varoni.

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SUMÁRIO
PREFÁCIO6
A QUESTÃO ESTABELECIDA8
I. O ARGUMENTO GERAL A PARTIR DA ESCRITURA10
II. O ARGUMENTO A PARTIR DO ANTIGO TESTAMENTO27
III. O ARGUMENTO A PARTIR DO NOVO TESTAMENTO77
IV. O ARGUMENTO A PARTIR DOS PADRÕES
PRESBITERIANOS122
V. O ARGUMENTO HISTÓRICO156
VI. ARGUMENTOS A FAVOR DA MÚSICA INSTRUMENTAL
CONSIDERADOS 181
VII. CONSIDERAÇÕES FINAIS201
PREFÁCIO
O seguinte tratado deve sua origem a um desejo expresso por membros da
última classe Sênior do Seminário Teológico de Columbia de ouvir uma
discussão sobre se a música instrumental pode ser legitimamente usada no
culto público da Igreja. Possuidor de profundas convicções sobre o assunto, o
escritor não podia recusar o cumprimento de tal pedido e, consequentemente,
ministrou uma série de palestras para a classe. Uma estimada amiga cristã,
que ouviu uma dessas palestras pregadas como um sermão, sugeriu que a
exatidão delas fosse publicada. Ciente de que o escritor não era onerado com
os bens deste mundo, generosamente ofereceu os meios para tornar a
sugestão possível. Embora advertida de que poderia fazer um sacrifício
pecuniário inútil, uma vez que a corrente de visões da Igreja está agora numa
direção oposta à doutrina do tratado, ela insistiu em executar sua intenção,
com base de que contribuiria para erigir um testemunho para a verdade. Essa
é a origem deste pequeno livro diante do público.
Será, sem dúvida, dito que a tentativa de provar ser injustificável o
emprego da música instrumental no culto público da Igreja é cismático, uma
vez que a prática é agora quase que universal; que é trivial, na medida em que
diz respeito a uma mera circunstância nos serviços da religião; e que é inútil,
pois a tendência resistente é invencível e está destinada a triunfar em toda a
cristandade protestante. A tudo isso, uma única resposta é oferecida, e é
suficiente, a saber: que a tentativa está fundamentada na verdade. Ela envolve
a defesa de um princípio poderoso e abrangente ao se opor a uma das formas
especiais na qual ele hoje é comumente transcendido e violado. É esse
princípio, enfatizado nas seguintes observações como escriturístico e
regulador, que dá importância à discussão e redime-a da crítica de ser
limitada e insignificante.
O argumento é indicado para a consideração de qualquer pessoa de Deus
em cujas mãos ele possa estar; mas é especialmente dirigida aos
Presbiterianos, aos cujos padrões veneráveis, bem como diretamente às
Escrituras, o apelo à prova é levado em conta. Eles são solicitados a lerem e a
julgarem de acordo com as evidências apresentadas. Que o Espírito Todo-
Poderoso, cuja iluminação nosso divino Senhor e Salvador prometeu aos
Seus seguidores, guie cada leitor para a verdade!
COLUMBIA, S.C.COLUMBIA, S.C.
A QUESTÃO ESTABELECIDA
Na discussão da questão se o uso da música instrumental no culto da
igreja é permitido ou não, devem ser premissas:
Em primeiro lugar, a questão não é em relação ao culto privado ou
familiar, ou àqueles encontros sociais que não são eclesiásticos em sua
natureza, nem com referência à utilidade ou gosto da música instrumental
nem em relação ao abuso ao qual possa ser responsabilizada; mas,
Em segundo lugar, a questão é precisamente: o uso da música
instrumental no culto público da igreja é justificável?
O desígnio dessa discussão é, com a ajuda do Espírito divino, provar o
negativo.
I. O ARGUMENTO GERAL A PARTIR
DA ESCRITURA
A atenção, desde o princípio, é invocada às considerações, as quais
servem para estabelecer o seguinte princípio de controle:
Uma autorização divina é necessária para cada elemento de
doutrina, governo e adoração na igreja; isto é, tudo o que nessas esferas não
seja ordenado nas Escrituras, quer expressamente quer por boa e necessária
consequência de suas declarações, é proibido.
1. Esse princípio é dedutível por inferência lógica a partir da grande
verdade — confessada pelos protestantes — de que a Escritura é uma regra
infalível de fé e prática e, portanto, suprema, perfeita e suficiente para todas
as necessidades da Igreja. “Toda Escritura é dada por inspiração de Deus, e é
proveitosa para doutrina, para repreensão, para correção, para instrução em
justiça: para que o homem de Deus seja perfeito e completamente equipado
para todas as boas obras” [tradução direta - 2Tm 3:16]. Essa verdade opera
positivamente incluindo tudo na doutrina, governo e adoração da igreja que
seja ordenado, explícita ou implicitamente, nas Escrituras, e negativamente
excluindo tudo o que não é de igual modo ordenado.
2. Esse princípio da necessidade de uma autorização divina para tudo
na fé e prática da igreja é provado pelas declarações didáticas da Escritura.
[...] vos lembreis de todos os mandamentos do Senhor, e os cumprais; e não seguireis após o
vosso coração, nem após os vossos olhos, após os quais andais adulterando. Para que vos
lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e sejais santos ao vosso Deus (Nm
15:39-40).

E observa para que os faças conforme o seu modelo, que te foi mostrado no monte (Êx
25:40).

Que servem ao exemplo e sombra das coisas celestiais, como Moisés foi admoestado por
Deus quando estava prestes a construir o tabernáculo. Ele diz: Olha, cuida em fazer todas as
coisas de acordo com o modelo que no monte se te mostrou (Hb 8:5).

Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis nada dela, para que possais
guardar os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando (Dt 4:2).

Tudo o que te ordeno, observarás e farás; nada lhe acrescentarás nem diminuirás (Dt 12:32)
Toda a palavra de Deus é pura; escudo é para aqueles que põem sua confiança nele. Não
acrescentes às suas palavras, para que não te reprove e sejas achado mentiroso (Pv 30:5-6).

À lei e ao testemunho! Se eles não falarem de acordo com esta palavra, é porque nenhuma
luz existe neles (Is 8:20).

E nos dias destes reis o Deus do céu irá erguer um reino, o que nunca será destruído; e o
reino não será deixado para outro povo, porém quebrará em pedaços e consumirá todos estes
reinos, e permanecerá para sempre (Dn 2:44).

Assim invalidastes o mandamento de Deus pela vossa tradição (Mt 15:6).

Portanto, ide, ensinai a todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do


Espírito Santo; ensinando-as a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado (Mt 28:19-
20).

Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que, como se
vivêsseis no mundo, vos sujeitais às ordenanças, (não toques, não proves, não manuseies; as
quais coisas todas perecem pelo uso), segundo os mandamentos e doutrinas dos homens? Tais
coisas têm, de fato, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade e em
disciplina do corpo, mas não são de honra alguma, senão para a satisfação da carne (Cl 2:20-23).

Toda Escritura é dada pela inspiração de Deus, e é proveitosa para doutrina, para
repreender, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e
perfeitamente instruído para toda boa obra (2Tm 3:16-17).

Porque eu testifico a todo homem que ouvir as palavras da profecia deste livro: Se algum
homem lhes acrescentar alguma coisa, Deus lhe acrescentará as pragas que estão escritas neste
livro; e, se algum homem retirar alguma das palavras do livro desta profecia, Deus excluirá a sua
parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro (Ap 22:18-
19).

Essas solenes declarações e tremendas advertências nos ensinam a


lição de que introduzir quaisquer aparatos e invenções próprias na doutrina,
governo ou adoração da igreja, é acrescentar às palavras de Deus; e que falhar
em manter os princípios e verdades ou em cumprir as instituições e
ordenanças entregues a nós nas Escrituras é subtrair das palavras de Deus. Os
romanistas, por exemplo, que sustentam a doutrina da transubstanciação e
observam o sacrifício da missa, acrescentam às palavras de Deus. Os quakers,
que sustentam a autoridade coordenada de revelações diretas de verdades
novas e originais junto aos Oráculos inspirados e negligenciam a observância
dos sacramentos, tanto acrescentam a elas quanto subtraem delas. E, da
mesma forma, aqueles que introduzem a música instrumental no culto
ordenado da Igreja do Novo Testamento transcendem à autorização das
Escrituras e adicionam às palavras que Cristo, nosso Senhor, ordenou.
3. Existem exemplos concretos registrados nas Escrituras que ilustram
graficamente o mesmo grandioso princípio.

(1) Gn 4 — Caim e sua oferta. Os irmãos, Caim e Abel, foram na


infância, acima de qualquer dúvida, instruídos por seus pais no conhecimento
da primeira promessa de redenção a ser realizada pela expiação. Eles haviam,
temos todos os motivos para crer, visto muitas vezes seu pai oferecendo
sacrifícios de animais no culto a Deus. A esse modo de adoração eles
estavam acostumados. Caim, o protótipo de racionalistas e fabricantes de
ritos e cerimônias na casa do Senhor, consultou sua própria sabedoria e bom
gosto e se aventurou a oferecer no culto a Deus o fruto da terra — um
sacrifício sem sangue; enquanto Abel, em conformidade com as designações
e os usos prescritos nos quais havia sido treinado, expressou sua fé e
obediência oferecendo um cordeiro. A adoração de Abel foi aceita e a de
Caim rejeitada.
E no passar do tempo, aconteceu que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. E
Abel, ele também trouxe das primícias e da gordura do seu rebanho. E o Senhor teve
consideração por Abel e por sua oferta; mas por Caim e por sua oferta ele não teve consideração
(v. 3-5).

Assim, na família mais próxima de Adão, vemos um sinal e exemplo


tipológico de autoafirmação e desconsideração das prescrições divinas na
questão da adoração. Isso foi, sem demora, seguido pela desaprovação de
Deus, e então vieram o desenvolvimento do pecado no crime atroz do
fratricídio e o banimento do assassino da comunhão de sua família e da
presença de seu Deus.

(2) Lv 10:1-3 — Nadabe e Abiú.


E Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo,
e puseram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o qual não lhes fora
ordenado. E saiu fogo de diante do Senhor e os devorou; e eles morreram perante o Senhor.
Então disse Moisés a Arão: Isto é o que o Senhor falou, dizendo: Serei santificado naqueles que
se chegarem a mim e diante de todo o povo eu serei glorificado. E Arão calou-se.

Esses jovens, como filhos do sumo sacerdote de Israel, estavam


legitimamente empregados no cumprimento das funções designadas ao ofício
sacerdotal, mas presumiram acrescentar aos mandamentos de Deus.
Exercendo a própria vontade em relação ao modo de Sua adoração, fizeram
aquilo que Ele não os havia ordenado e foram instantaneamente mortos por
sua temeridade perversa.

(3) Nm 16:32-33 — Coré, Datã e Abirão. Deus havia consagrado os


descendentes de Levi que nasceram de Arão ao sacerdócio, enquanto os
descendentes remanescentes de Levi foram designados para outros ofícios
pertencentes ao serviço do tabernáculo. Coré era levita, mas não filho de
Arão. Datã e Abirão não eram nem levitas, antes parecem descender de
Rúben. Quando, portanto, esses homens, afirmando a alegação de que toda a
congregação tinha o direito de se classificar como Moisés e Arão,
aventuraram-se a assumir para si funções que Deus restringira a certa classe,
eles foram surpreendidos pela rápida indignação de Jeová e pereceram de
uma maneira terrível.
E a terra abriu a sua boca e os engoliu com as suas casas, e a todos os homens que
pertenciam a Corá, e todos os seus bens. E eles, e tudo o que lhes pertencia, desceram vivos ao
abismo, e a terra se fechou sobre eles, e pereceram do meio da congregação.

(4) Nm 20:7-12 — Moisés ferindo a rocha em Cades. Quando,


numa ocasião anterior, os israelitas estavam sofrendo de sede, Deus ordenou
que Moisés ferisse a rocha em Horebe. Ele o fez, e a água jorrou
abundantemente. O apóstolo Paulo nos diz que aquela rocha tipificava a
Cristo. O ensinamento tipológico fornecido por Moisés, então, era que, a
graça do Espírito Santo deveria proceder da morte de Cristo sob o golpe da
lei para satisfazer a sede da alma. Cristo seria ferido até a morte apenas uma
vez. Ora, novamente em Cades, os israelitas sofrem por falta de água. Deus
ordena a Moisés que fale à rocha. A esse comando explícito ele se arriscou a
acrescentar. Ele falou ao povo, ao invés de à rocha, e feriu a rocha, e feriu
duas vezes. Ele usou o seu próprio julgamento, afirmou a sua vontade e
ensinou ao povo falsamente. Por esse pecado, ele e Arão, o qual concordou
com ele em sua comissão, foram excluídos da entrada na terra prometida.
E o Senhor falou a Moisés, dizendo: Toma a vara e reúne a congregação, tu e Arão, teu
irmão; e falai à rocha diante dos seus olhos, e ela dará a sua água; e tirarás água da rocha e darás
a beber à congregação e aos seus animais. E Moisés tomou a vara de diante do Senhor, como lhe
havia ordenado. E Moisés e Arão reuniram a congregação diante da rocha, e Moisés lhes disse:
Ouvi agora, rebeldes; teremos que tirar água desta rocha para vós? E Moisés levantou a sua mão,
e com a sua vara feriu a rocha duas vezes; e saíram águas abundantemente, e a congregação
bebeu, e também os seus animais. E o Senhor disse a Moisés e a Arão: Porque não crestes em
mim, para me santificar aos olhos dos filhos de Israel, por isso não levareis esta congregação à
terra que lhes dei.

Temos aqui um exemplo que afeta inexprimivelmente o pecado e a


insensatez de acrescentar invenções humanas às ordenanças do desígnio de
Deus, [um exemplo] dos terríveis resultados que podem se seguir daquilo que
os homens podem considerar leves desvios da obediência aos mandamentos
de Deus. Sem falar de Arão, o orador talentoso, o santo venerável, o primeiro
sacerdote ungido de seu povo; Moisés, esse homem incomparável, em quem
foram combinados todos os dons naturais e graças sobrenaturais, o libertador,
o legislador, o historiador, o poeta, o juiz e o comandante de Israel depois de
trazê-los do Egito, que os conduziu através das águas do Mar Vermelho,
mediou entre eles e Deus diante dos terrores do Sinai, conduziu-os através
dos horrores do deserto enorme e árido — esse homem glorioso agora à vista
do Jordão, que como um fio os separava do objetivo há muito desejado e há
muito cobiçado de seus corações — está condenado, por um acréscimo ao
mandamento de Deus que sem dúvida lhe pareceu nada mais que um ligeiro
desvio de Suas instruções, a morrer antes da terra prometida.

(5.) 1Sm 13 — Saul oferece um holocausto em Gilgal. O rei não


tinha ordem para oficiar como sacerdote. Saul acrescentou ao comando de
Deus e realizou uma função na qual ele não tinha autoridade. As
circunstâncias pareciam justificar o ato, mas ele ganhou a desaprovação
divina e perdeu seu reinado pelo erro.
[...] quanto a Saul, ele ainda estava em Gilgal, e todo o povo o seguia, tremendo. E ele
esperou sete dias, de acordo com o tempo determinado que Samuel havia indicado; mas Samuel
não veio a Gilgal; e o povo espalhou-se para longe dele. E Saul disse: Trazei-me aqui uma oferta
queimada, e ofertas de paz. E ele ofereceu a oferta queimada. E sucedeu que, assim que ele
terminou de oferecer a oferta queimada, eis que Samuel chegou; e Saul saiu ao seu encontro,
para que ele pudesse saudá-lo. E Samuel disse: O que fizeste? E Saul disse: Como vi que o povo
estava espalhado para longe de mim, e que tu não vieste dentro dos dias indicados, e que os
filisteus se reuniam em Micmás; por isso disse eu: Os filisteus descerão agora sobre mim em
Gilgal, e não fiz súplica diante do Senhor; eu forcei-me, portanto, e ofereci uma oferta queimada.
E Samuel disse a Saul: Procedeste loucamente; não guardaste o mandamento do Senhor teu
Deus, o qual te ordenou; pois agora o Senhor teria estabelecido o teu reino sobre Israel para todo
o sempre. Porém, agora, o teu reino não continuará; o Senhor procurou para si um homem
segundo o seu próprio coração, e o Senhor ordenou que ele fosse capitão sobre o seu povo,
porque tu não tens guardado aquilo que o Senhor te ordenou.

(6) 1Cr 13:7-8; 15:11-15 — Uzá e a arca, e a subsequente


obediência de Davi. Os levitas, ou, mais especificamente, os coatitas, foram
expressamente ordenados a carregarem a arca. O modo de carregá-la também
foi ordenado. Aros foram acrescentados através das quais varas corriam.
Essas varas, cobertas de ouro, deveriam ser apoiadas nos ombros dos que as
carregavam. Eles foram proibidos de tocar na arca, sob pena de morte.
[...] então, os filhos de Coate virão para levá-lo; mas no santuário não poderão tocar, para
que não morram [...] [Nm. 4:15].

Esse era o mandamento de Deus. Ao transportá-la da casa de


Abinadabe, Davi infringiu o mandamento divino ordenando que a arca fosse
carregada em uma carroça puxada por bois. Então, quando os animais
tropeçaram, Uzá, com a intenção de salvar a arca da queda, tocou-a com a
mão. Ele foi morto instantaneamente por sua desobediência piedosa.
E eles carregaram a arca de Deus em uma carruagem nova, da casa de Abinadabe; e Uzá e
Aiô conduziram a carruagem. E Davi e todo o Israel se divertiam diante de Deus com toda a sua
força, e com cânticos, e com harpas, e com saltérios, e com adufes, e com címbalos, e com
trombetas. E, quando eles chegaram à eira de Quidom, Uzá estendeu a sua mão para segurar a
arca; porque os bois tropeçavam. E a ira do Senhor foi acesa contra Uzá, e ele o feriu, porque pôs
a sua mão na arca; e ali morreu diante de Deus [1Cr 13:7-10].

A ofensa era a mais indesculpável, porque as varas nunca ficavam


separadas da arca, e não é de modo algum provável que os filisteus, que
haviam sido submetidos a um tratamento tão severo enquanto a possuíram,
tivessem se aventurado a roubá-las. E merece consideração que aqueles
pagãos não tenham sido mortos no manuseio da arca, enquanto que, para
fazer a mesma coisa, o povo de Deus, que deveria melhor entender, aprendeu
uma terrível lição.
A magnífica demonstração causou uma punição desastrosa, e o rei de
Israel, consciente da advertência que havia recebido, voltou para casa para
fazer o que deveria ter feito antes — estudar a lei de Deus. Tendo cumprido
esse ofício negligenciado, faz uma segunda tentativa de remover o símbolo
sagrado da aliança de Deus para Jerusalém, mas de um modo diferente do
anterior. Ouçamos o registro.
E Davi chamou Zadoque e Abiatar, os sacerdotes; e os levitas: Uriel, Asaías, e Joel,
Semaías, e Eliel e Aminadabe, e disse-lhes: Vós sois os chefes dos pais dos levitas; santificai-
vos, tanto vós, como os vossos irmãos, para que possais fazer subir a arca do Senhor Deus de
Israel até o lugar que preparei para ela. Porque, como vós não o fizestes da primeira vez, o
Senhor nosso Deus fez uma fenda sobre nós, pois não o buscamos segundo a ordem devida.
Assim, os sacerdotes e os levitas se santificaram para fazer subir a arca do Senhor Deus de Israel.
E os filhos dos levitas carregaram a arca de Deus sobre os seus ombros, com as suas hastes sobre
eles, segundo a palavra do Senhor [1Cr 15:11-15].

É digno de nota que, quando a arca devia ser removida e instalada em


seu lugar no templo, que estava prestes a ser dedicado, Salomão fez com que
a “ordem devida" fosse observada.
E todos os anciãos de Israel vieram, e os levitas ergueram a arca. E trouxeram a arca e o
tabernáculo da congregação, e todos os vasos sagrados que estavam no tabernáculo, e os
sacerdotes e os levitas é que os fizeram subir. (...) E os sacerdotes trouxeram para dentro a arca
do pacto do Senhor até o seu lugar [2Cr 5:4-5,7].

A história desse tema reforça a impressionante lição de que não temos


liberdade para usar nosso próprio julgamento e agir sem uma divina
autorização em relação às coisas da designação de Deus.

(7) 2Cr 26:16-21 — Rei Uzias oficiando como sacerdote. Deus não
havia dado nenhuma autorização a um rei para atuar como sacerdote; e Uzias
arrogantemente se comprometeu, sem tal autorização, a cumprir as funções
sacerdotais. As consequências de sua impiedade são vividamente retratadas
no seguinte registro:
Porém, havendo-se fortalecido, o seu coração ficou exaltado para a sua destruição; porque
ele transgrediu contra o Senhor seu Deus, e adentrou o templo do Senhor para queimar incenso
sobre o altar do incenso. E Azarias, o sacerdote, entrou após ele, e com ele oitenta sacerdotes do
Senhor, que eram homens valentes; e eles resistiram a Uzias, o rei, e disseram- lhe: Não compete
a ti, Uzias, queimar incenso para o Senhor, mas aos sacerdotes, aos filhos de Arão, que são
consagrados para queimar incenso; sai do santuário; porque tu transgrediste; tampouco isto será
para a tua honra da parte do Senhor Deus. Então, Uzias ficou irado, e tinha um incensário na sua
mão para queimar incenso; e enquanto estava irado com os sacerdotes, nasceu-lhe a lepra na sua
testa, diante dos sacerdotes na casa do Senhor, do lado do altar de incenso. E Azarias, o sumo
sacerdote, e todos os sacerdotes, olharam para ele, e eis que ele ficou leproso na sua testa, e o
empurraram para fora dali; sim, ele mesmo se apressou em sair, porque o Senhor lhe havia
ferido. E o rei Uzias ficou leproso até o dia da sua morte, e sendo um leproso, habitou em uma
casa separada; porque ele foi cortado da casa do Senhor; e Jotão, o seu filho esteve sobre a casa
do rei, julgando o povo da terra.

(8) 2Cr 28:3-5 — Rei Acaz transgredindo duplamente quanto à


função e ao lugar. Ele desempenhou funções sacerdotais sem uma
autorização divina e as executou em lugares que Deus não havia designado.
Por essa perversa autoafirmação, ele foi visitado com a vingança divina.
Além disso, ele queimou incenso no vale do filho de Hinom, e queimou os seus filhos no
fogo, segundo as abominações dos pagãos os quais o Senhor havia expulsado de diante dos
filhos de Israel. Ele também sacrificou e queimou incenso nos lugares altos, e nos outeiros, e
debaixo de toda árvore verde. Porquanto o Senhor seu Deus o entregou nas mãos do rei da Síria;
e eles o feriram, e levaram consigo uma grande multidão de cativos, e os trouxeram a Damasco.
E ele também foi entregue na mão do rei de Israel, que o feriu com um grande massacre.

(9.) O zelo de Deus pelo princípio de uma autorização divina para


tudo em Seu culto é mais claramente ilustrado nos tempos do Novo
Testamento pelos tremendos julgamentos que se sucederam ao povo judeu
por perpetuar, sem tal autorização, o ritual tipológico de Deus, o serviço do
templo. Até que o grande sacrifício expiatório fosse oferecido, eles tinham
uma autorização positiva de Deus para a observância dessa ordem. Mas
quando esse sacrifício foi oferecido, o véu do templo sendo rasgado em duas
partes e o Espírito Santo sendo copiosamente derramado na inauguração de
uma nova dispensação, a autorização positiva para o culto do templo foi
retirada. Nisso Estêvão insistiu perante o Concílio, e a testemunha ilustre de
Cristo foi assassinada por seu testemunho. Ele acusou que, quando seus pais
não tinham autorização para cultuar de modo sacrificial a não ser no templo,
eles persistiam em observar esse culto em outro lugar; e agora que Deus
havia retirado a autorização para cultuar no templo, eles exigiam o direito de
cultuar ali. “Vós sempre”, disse o glorioso servo de Jesus, “resistis ao
Espírito Santo”. Por esse pecado, pelo qual endossavam a rejeição do Messias
e do Salvador, o estado da igreja e a política nacional foram demolidos; e
eles, depois da experiência de uma tribulação sem precedentes, foram
espalhados pelos quatro ventos do céu. Não temos as provas diante de nós
nestes dias?
O poderoso princípio foi assim estabelecido por um apelo às
declarações didáticas da Palavra de Deus e aos exemplos especiais
registrados na história da Escritura, de que uma autorização divina é
requerida para tudo na fé e na prática da Igreja, de que tudo o que não é nas
Escrituras ordenado, seja explicitamente ou por boa e necessária
consequência, é proibido. A aplicação especial desse princípio ao culto a
Deus, como ilustrado nos exemplos concretos que foram fornecidos, não
pode escapar à observação menos atenta. Deus é visto manifestando um
veemente zelo em proteger a pureza de Seu culto. Qualquer tentativa de
afirmar o julgamento, a vontade e o gosto do homem à parte da autorização
expressa de Sua Palavra e de introduzir em Seu culto invenções, aparatos e
métodos humanos foi alcançada por retaliação e repreensão imediatas pelos
raios de Sua ira.
Nenhuma necessidade há de maravilharmo-nos com isso, pois o
serviço que a criatura professa prestar a Deus alcança sua expressão mais alta
e formal no culto que lhe é oferecido. Nesse ato, a majestade do Altíssimo é
diretamente confrontada. O adorador se apresenta face a face com o infinito
Soberano do céu e da terra e assume colocar aos Seus pés a mais sincera
reverência de coração. Na realização de tal ato, violar designações divinas ou
exceder à prescrição divina a fim de afirmar o raciocínio de uma criatura
pecaminosa contra a sabedoria, a vontade de uma criatura pecaminosa contra
a autoridade de Deus, é deliberadamente exibir um insulto à Sua face e
arremessar uma afronta contra o Seu trono. O que mais poderia se seguir
senão o raio da indignação divina? É verdade que, na dispensação do Novo
Testamento, a mesma detenção rápida e visível desse pecado não é a regra
comum. Mas a paciência e a tolerância de Deus não podem constituir a
justificação para essa licenciosidade. A punição, se não houver
arrependimento, é apenas adiada. “Porque não se executa rapidamente uma
sentença sobre a má obra, então o coração dos filhos dos homens está
inteiramente disposto a fazer o mal” [Ec 8:11], enquanto a justiça tardia de
Deus está reunindo para si indignação a fim de irromper como uma
tempestade avassaladora no terrível dia da ira.
O princípio que tem sido enfatizado está em oposição direta àquele
mantido pelos romanistas e preladistas e, lamento dizer, pelos presbiterianos
negligentes: de que aquilo que não é proibido nas Escrituras é permitido. A
Igreja da Inglaterra, em seu vigésimo artigo, concede à igreja “um poder para
decretar ritos e cerimônias”, com somente esta limitação em seu exercício:
“que não é lícito à igreja ordenar qualquer coisa que seja contrária à palavra
escrita de Deus[1]”. O princípio do poder discricionário da igreja em relação
às coisas não ordenadas por Cristo em sua Palavra foi a principal fonte da
qual fluiu a crescente onda de corrupção que varreu a igreja latina[2] para a
apostasia do evangelho de Graça de Deus. E, tão certamente quanto as causas
produzem seus próprios efeitos, e a história se repete em obediência essa lei,
qualquer igreja protestante que incorpore esse princípio em seu credo está
destinada a, mais cedo ou mais tarde, experimentar um destino similar. O
mesmo também pode ser afirmado para uma igreja que formalmente o rejeita,
mas praticamente conforma-se a ele. O motivo é simples. O único freio que
reprime a tendência degenerativa da igreja — uma tendência manifesta em
todas as épocas — é a Palavra de Deus: pois o próprio Espírito da graça
ordinariamente opera somente em conexão com essa Palavra. Se essa
restrição for descartada, o lapso em declínio é certo. As palavras do grande
teólogo John Owen — e as Ilhas Britânicas não produziram nenhum outro
maior — são solenes e merecem ser seriamente ponderadas:
O princípio de que a igreja tem o poder de instituir qualquer coisa ou cerimônia pertencente
ao culto a Deus, seja quanto à matéria ou quanto à forma, que vá além da observância de tais
circunstâncias que necessariamente auxiliam naquelas ordenanças que o próprio Cristo instituiu,
encontra-se no âmago de toda horrível superstição e idolatria, de toda a confusão, sangue,
perseguição e guerras que têm por uma longa temporada se espalhado sobre a face do mundo
cristão.

Em vista de considerações como essas, confirmadas, como são, pelos


fatos de toda a história passada, é fácil ver quão irrelevante e infundada é a
provocação lançada pelos mais altos clérigos, ritualistas e laxistas[3] de todos
os tipos contra os administradores do princípio oposto: de que são fanáticos
intolerantes por insistirem em detalhes triviais. A verdade é exatamente o
oposto. O princípio sobre o qual esse escárnio barato é lançado é simples,
amplo e majestoso. Ele afirma apenas as coisas que Deus ordenou, as
instituições e ordenanças que Ele prescreveu e, além disso, executa apenas
um ofício negativo que varre toda invenção insignificante da fantasia
meretrícia do homem.
Não são os defensores desse princípio, mas seus oponentes, que se
deleitam em insistir em crucifixos, genuflexões e curvar-se para o leste, em
vestimentas, altares e velas, em órgãos e cornetas, e “as estimadas antífonas
que assim fascinam seus prelados e suas assembleias com o bom eco que
fazem”; em suma, todo aquele tolo refugo que, herdado da mulher vestida de
escarlate, marca a tendência regressa para o Rubicão e para a feira de almas
de sete colinas[4].
Mas seja lá o que os outros possam pensar ou fazer, os presbiterianos
não podem abandonar esse princípio sem culpa de deserção de seus próprios
padrões veneráveis e dos testemunhos selados pelo sangue de seus pais. Entre
os princípios que os reformadores extraíram do lixo da corrupção e
reafirmaram à luz novamente, nenhum foi mais compreensível, abrangente e
profundamente reformista do que esse. Ele atingiu a raiz de toda doutrina e
prática falsas e exigiu a restauração da verdade. A Alemanha tem sido
infinitamente a pior por causa do fracasso de Lutero em aplicá-lo ao máximo.
Calvino o reforçou mais plenamente. A grande Igreja Protestante Francesa,
com exceção de manter uma relíquia litúrgica de papado, deu-lhe uma grande
aplicação, e a França sofreu uma perda irreparável quando enviou expedição
punitiva, causando quase que a inexistência do corpo que o mantinha. John
Knox carimbou-o no coração da Igreja escocesa e tal princípio constituiu-se a
glória dos puritanos ingleses. Que lástima este estar sendo atacado em
decadência nas igrejas presbiterianas da Inglaterra, Escócia e América. O que
resta senão que aqueles que ainda o veem e apegam-se a ele como algo mais
estimado que a própria vida deveriam continuar a expressar, por mais
debilmente, por mais inoperante que seja, o testemunho imutável da sua
verdade? Ele é a acrópole das liberdades da igreja, o paládio de sua pureza.
Isso acabado, nada será deixado para ter esperança além de forçar seu olhar
para o alvorecer do dia milenar. Então — somos autorizados a esperar —,
uma reforma mais profunda e gloriosa do que qualquer outra que tenha
abençoado a igreja e o mundo, desde a magnífica propagação do cristianismo
pelos labores dos próprios apóstolos inspirados, será efetuada.
II. O ARGUMENTO A PARTIR DO
ANTIGO TESTAMENTO
Na dispensação judaica, aprouve a Deus proceder de acordo com o
grandioso princípio que havia sido registrado no que diz respeito à introdução
da música instrumental no culto público de Seu povo. Ele mantinha a ordem
dessa parte de Seu culto formal e instituído em Suas próprias mãos. Há prova
positiva de que nunca existiu outro elemento desse culto que não fosse por
Seu comando expresso. Sem a Sua autorização seria excluído; só com ela
seria executado.

1. Notemos a aplicação desse princípio com referência ao culto do


tabernáculo.
Moisés recebeu o modo de construir o tabernáculo e a ordem de seu
culto pela revelação divina. “E observa, diz Ele, para que os faças conforme o
seu modelo, que te foi mostrado no monte” [Êx 25:40]. Admitir-se-á que as
instruções assim divinamente dadas descendiam aos mínimos detalhes — os
tipos de tecidos e peles a serem usados, suas diversas cores, os alfinetes, os
entalhes e os pontos, as abluções, as vestimentas e as ações dos sacerdotes
oficiantes e dos levitas, os ingredientes do unguento sagrado e o incenso, as
partes, os arranjos, os instrumentos de culto — a tudo relacionado ao
tabernáculo essas direções específicas se referiam. É claro que, se Deus
tivesse pretendido que a música instrumental fosse empregada, ela teria sido
incluída nessas direções particulares; os instrumentos teriam sido
especificados para seu desempenho e as regulações ordenadas para seu uso.
Quais são, então, os fatos? Nenhuma direção é dada com respeito aos
instrumentos de música. Dois instrumentos sonoros são fornecidos, mas eram
de tal caráter que tornam impraticável usá-los ordinariamente como
acompanhamentos da voz no canto. O registro é:
E o Senhor falou a Moisés, dizendo: Faze duas trombetas de prata; em uma peça inteira as
farás; para que possas usá-las para a convocação da congregação e para a partida dos
acampamentos [Nm 10:1-2].

E se sairdes a guerrear em vossa terra, contra o inimigo que vos oprime, então tocareis um
alarme com as trombetas, e sereis lembrados perante o Senhor, vosso Deus, e sereis salvos de
vossos inimigos. Também no dia da vossa alegria, e nas vossas solenidades, e nos princípios dos
vossos meses, tocareis as trombetas sobre as vossas ofertas queimadas, e sobre as vossas ofertas
pacíficas, para que sejam para vós, como uma lembrança perante o vosso Deus: eu sou o Senhor,
vosso Deus [Nm 10:9-10].

O soar dessas trombetas como um sinal para marchar, ou para ir à


guerra, certamente não tinha nada a ver com o culto, nem o chamado da
congregação para se reunir pertence à execução do culto mais do que um sino
de igreja agora, o toque que cessa quando os serviços começam. Não há nada
que mostre que o soar das trombetas, nos dias festivos e no começo dos
meses, sobre as ofertas, era acompanhado de cantos por parte de sacerdotes e
levitas. Não há menção a esse fato, e a tradição judaica se opõe à suposição.
Além disso, é quase certo que o soar de trombetas em tais ocasiões era um
ato representativo executado pelos sacerdotes e que, consequentemente, não
era acompanhado pelo canto da congregação. É verdade que há uma exceção
registrada (2Cr 5:12,13) que ocorreu, no entanto, quando o tabernáculo deu
lugar ao templo. Na dedicação da última construção, os sacerdotes tocaram as
trombetas ao mesmo tempo em que os levitas cantavam e tocavam
instrumentos de música, para serem “como um”; mas é evidente que, naquela
grande ocasião de regozijo, o objetivo não era a harmonia musical, mas um
poderoso estrondo de som jubiloso. Estamos fechados na conclusão de que
não havia nada no culto do tabernáculo, como ordenado por Moisés, que
poderia ser justamente caracterizado como música instrumental.
Essa ausência de música instrumental dos serviços do tabernáculo
continuou não apenas durante as peregrinações dos israelitas no deserto, mas
depois de sua entrada na terra prometida, durante o longo período dos juízes,
o reinado de Saul e uma parte do de Davi. Esse é um fato notável. Embora
Davi fosse amante da música instrumental, e ele mesmo um intérprete da
harpa, só algum tempo depois de seu reinado foi que essa ordem de coisas foi
mudada e, como veremos, mudou por ordem divina. Ouçamos o registro da
Escritura:
Assim, quando Davi era velho e cheio de dias, ele fez Salomão, o seu filho, rei sobre Israel.
E ele reuniu todos os príncipes de Israel, com os sacerdotes e os levitas. Ora, os levitas foram
enumerados de trinta anos para cima; e o seu número, segundo seus cabeças, homem por
homem, foi trinta e oito mil. Dos quais, vinte e quatro mil foram colocados à frente do trabalho
da casa do Senhor; e seis mil foram oficiais e juízes. Além disso, quatro mil foram porteiros; e
quatro mil louvaram ao Senhor com os instrumentos que eu fiz, disse Davi, para com eles louvar.
E Davi os dividiu em classes entre os filhos de Levi, a saber: Gérson, Coate e Merari (1Cr 23:1-
6).
Ora, como Davi veio a fazer essa alteração na ordem mosaica que
havia sido estabelecida pela revelação divina? Para a resposta, consultemos
novamente o registro sagrado:
Então, Davi deu a Salomão, o seu filho, a planta do pórtico, e das suas casas, e dos seus
tesouros, e das suas câmaras superiores, e dos seus salões internos, e do lugar do propiciatório, e
a planta de tudo que ele teve pelo Espírito, dos átrios da casa do Senhor, e de todas as câmaras
em redor, dos tesouros da casa de Deus, e dos tesouros das coisas sagradas; também para as
turmas dos sacerdotes e levitas, e para toda a execução do serviço da casa do Senhor, e para
todos os vasos do serviço na casa do Senhor. [...] Tudo isso, disse Davi, o Senhor me fez
entender por escrito da sua mão, a saber, todas as obras desta planta (1Cr 28:11-13,19).

E, ele [Salomão] pôs os levitas na casa do Senhor com címbalos, com saltérios e com
harpas, de acordo com o mandamento de Davi, e de Gade, o vidente do rei, e de Natã, o profeta;
porque assim foi o mandamento do Senhor pelos seus profetas (2Cr 29:25).

À luz dessas declarações da Palavra de Deus, várias coisas são


evidenciadas, o que desafia nossa séria atenção. Primeiro, a música
instrumental nunca foi divinamente ordenada como um elemento no culto do
tabernáculo até que Davi recebesse instruções inspiradas para introduzi-la,
como que preparatória para a transição que estava prestes a ser efetuada para
o ritual mais elaborado do templo. Em segundo lugar, quando o templo
estava para ser construído e sua ordem de culto para ser instituída, Davi
recebeu uma revelação divina em relação a isso, assim como Moisés recebeu
concernente ao tabernáculo com suas ordenanças. Em terceiro lugar, essa
revelação direta a Davi foi imposta a Salomão, aos sacerdotes e aos levitas,
por comunicações inspiradas, concernentes ao mesmo assunto pelos profetas
Gade e Natã. Em quarto lugar, a música instrumental não teria constituído um
elemento no culto do templo se Deus não tivesse expressamente autorizado
por Seu comando. O culto público do tabernáculo, até o momento em que
fosse fundido ao templo, havia sido estranho a isso, e uma inovação tão
grande poderia ter sido realizada apenas pela autoridade divina. A
promulgação positiva de Deus fundamentou a adequação da mudança.
Não está claro que o grandioso princípio ― de que tudo o que não é
ordenado por Deus, seja expressa ou implicitamente, em relação ao culto
público de Sua casa é proibido ― encontra aqui uma ilustração conspícua? A
importância de tudo isso na igreja cristã é tão impressionante quanto óbvio.
Se, sob uma dispensação predominantemente caracterizada por designações
externas, a música instrumental não poderia ser introduzida no culto do
santuário de Deus exceto em consequência de uma autorização fornecida por
Ele, como pode uma igreja, existindo sob a mais clara e mais espiritual
dispensação do evangelho, ousar, sem tal autorização, incorporá-la em seus
serviços públicos? E que nenhuma autorização desse tipo pode ser alegada
será evidente à medida que o argumento se expande.

2. Contra a coerência desse argumento, é objetado que os israelitas


estavam acostumados a usar a música instrumental à sua escolha e que
especialmente era esse o caso em ocasiões de regozijo público, quando ações
de graças eram, pela multidão do povo, prestadas a Deus pelos benefícios
conferidos por Sua providência libertadora. Na medida em que a alegação diz
respeito ao emprego desse tipo de música na vida privada ou social, ela é
irrelevante para o escopo de um argumento que tem referência explícita e
unicamente ao seu uso no culto público da casa de Deus. Isso descartará
muitas das instâncias citadas para provar a inutilidade do princípio alegado
nesta discussão.
Resta, no entanto, outra classe de casos aos quais uma atenção pode
ser dirigida de forma justa, casos em que o culto público parecia ser
oferecido. Nessa classe, recaem os exemplos de Miriã tocando tamborim no
Mar Vermelho; as boas vindas de Saul e Davi pelas mulheres com música
cantada, dançante e instrumental; o exemplo semelhante da filha de Jefté; o
acompanhamento da arca por Davi e Israel com bandas de música; e o
menestrel dos profetas a quem Saul se reuniu. Em resposta à objeção baseada
nesses exemplos, o fundamento geral pode considerar que não são exemplos
de culto da igreja, mas de regozijo público por parte da nação ou de
comunidades, com exceção do menestrel dos profetas, que será considerado
separadamente. Algumas observações especiais são, no entanto, pertinentes
em relação a tais [exemplos].
Em primeiro lugar, será notado a partir do relato do regozijo
triunfante à costa do Mar Vermelho que apenas os homens cantavam. “Então
Moisés e os filhos de Israel cantaram este cântico ao Senhor, e falaram,
dizendo”, etc. O que pode ser obtido desse singelo canto dos homens de
Israel ― em louvor a Deus por seu grande livramento ― a favor da música
instrumental no culto é um tanto difícil de visualizar.
Em segundo lugar, foi Miriã e as mulheres que usaram instrumentos
de música na ocasião: “E Miriã, a profetisa, a irmã de Arão, tomou um
tamborim em sua mão; e todas as mulheres saíram após ela com tamboris e
com danças”. O argumento do objetor contradiz a realidade. Se, a partir dessa
instância, a legitimidade de empregar-se música instrumental no culto público
da Igreja judaica deve ser inferida, assim pode [também ser inferida] a
legitimidade de seu uso por mulheres nesse culto. Mas a história das
designações desse culto não fornece evidência da coerência da última
inferência. O contrário é provado. As mulheres foram excluídas de qualquer
função proeminente, pelo menos oficial, nos serviços da casa de Deus na
dispensação mosaica[5]. Os homens de Israel que receberam o comando de se
dirigirem a Jerusalém naquelas ocasiões festivas em que as explosões de
música instrumental eram unidas com o canto de louvor no culto do templo.
De fato, além das mulheres não participarem ativamente desse culto, [a
música instrumental] parece ter sido limitada, quanto a sua expressão externa
em sons, aos sacerdotes e levitas, que, como representantes oficiais da
congregação, divinamente designados, cantavam e tocavam instrumentos de
música. O argumento poderia ser uma defesa moderna dos direitos da mulher,
mas dificilmente responderá pela dispensação judaica. É tão improdutivo de
resultados quanto foi a própria Miriã em questão.
Em terceiro lugar, [o exemplo] mais uma vez contradiz a realidade se
a palavra traduzida por “danças” estiver traduzida corretamente. Isso provaria
que a dança religiosa foi um elemento no culto prescrito do povo de Deus. A
consequência refuta o argumento.
Mas, voltando à posição geral, os exemplos mencionados na objeção
foram aqueles que não eram de culto eclesiástico, mas de regozijo nacional.
Contra essa visão geral, insta-se, em resposta, que é feita uma distinção
imprópria entre a igreja judaica e a nação judaica. Isso levanta a questão se
tal distinção é válida. Estado e igreja eram idênticos? Os membros do estado
atuavam como membros da igreja? Os membros da igreja agiam como
membros do estado? Pode-se admitir que, em geral — isto é, com certas
exceções, como os prosélitos de justiça, por exemplo, — a nação e a igreja
eram numericamente coincidentes. Ordinariamente — isto é, com certas
exceções — o rito da circuncisão designava tanto um membro do estado
quanto da igreja. Mas que esses dois institutos eram idênticos; que as funções
de um eram as funções do outro, considerados como organismos, não é, a
meu ver, suscetível de prova. Não seria adequado, aqui, entrar amplamente
nessa questão, mas ela encontra-se em todo o curso do argumento em
questão, e uma breve consideração dela, como não é ilogicamente interposta,
não será considerada impertinente. A questão é discutida de maneira crítica e
hábil por esse grande homem, George Gillespie, em seu Aaron’s Rod
Blossoming [A Vara Florida de Arão]. Darei um mero esboço, os principais
pontos, de uma parte de seu argumento para provar que o estado e a igreja
judaica, embora na maior parte sejam o mesmo materialmente, quanto aos
constituintes pessoais eram institutos orgânica e formalmente distintos; e faço
isso mais prontamente porque a valiosa obra de Gillespie agora é rara e de
difícil acesso. Eles [isto é, o Estado e a Igreja] são distintos:
(1.) Em relação às leis. A lei judicial foi dada ao estado; a lei
cerimonial à igreja.
(2.) Em relação aos atos. Os membros do estado, enquanto tais, não
adoravam a Deus e ofereciam sacrifícios no templo, etc.; e os membros da
igreja, enquanto tais, não infligiam punições físicas.
(3.) Em relação a controvérsias a serem decididas. Algumas se
referiam aos assuntos do Senhor e deviam ser eclesiasticamente
estabelecidas; algumas, aos assuntos do rei, e deveriam ser civilmente
decididas.
(4.) Em relação aos oficiais. Os sacerdotes e levitas eram oficiais da
igreja; os magistrados e juízes eram oficiais do estado.
(5.) Em relação à continuidade. Os romanos levaram embora o
estado judeu e o governo civil, mas a igreja judaica e o governo eclesiástico
permaneceram.
(6.) Em relação à variação. A constituição e o governo do estado
judeu sofreram sérias mudanças sob diferentes administrações civis; mas não
podemos dizer que a igreja foi remodelada com a mesma frequência em que
foi o estado.
(7.) Em relação aos membros. Havia prosélitos, os prosélitos de
justiça, que eram admitidos como membros da igreja com seus privilégios,
mas não tinham direito aos privilégios dos membros do estado.
(8.) Em relação ao governo. Na prossecução desse argumento para
provar a distinção da igreja e do Estado judaico, Gillespie pressupõe que
havia dois Sinédrios, um civil e outro eclesiástico; e ele cita, como mantendo
essa visão, Zepperus, Junius, Piscator, Wolfius, Gerhard, Godwin, Bucerus,
Walaeus, Pelargus, Sopingius, os comentaristas holandeses, Bertramus,
Apollonius, Strigelius, os professores de Groningen, Reynolds, Paget, L'
Empereur e Elias, citados por Buxtorf.
(Nesse argumento especial, Gillespie afirma de forma elaborada e
crítica por mais de uma dúzia de considerações separadas derivadas das
Escrituras. Mas como a questão foi debatida habilmente em ambos os lados
por homens aprendidos em assuntos judaicos, nenhuma opinião positiva é
aqui expressa quanto à conclusividade das provas apresentadas pelo grande
teólogo escocês).
(9.) Havia uma excomunhão eclesiástica entre os judeus diferente
das penalidades infligidas pela lei criminal do estado.
Tal é meramente o esqueleto de um poderoso argumento em favor da
distinção entre o estado judaico e a igreja por alguém que tinha a reputação
de ser um dos mais exigentes debatedores da Assembleia dos Teólogos de
Westminster. O renomado estudioso Dr. Joseph Addison Alexander expressa
a opinião, em seus Primitive Church Offices [Ofícios da Igreja Primitiva], de
que o estado e a igreja judaicos eram uma única organização com duas
classes distintas de funções, uma civil e outra eclesiástica. Porém, Gillespie
mostra que os componentes numéricos de algumas das cortes eram
diferentes; elas consistiam de homens diferentes. Tome qualquer ponto de
vista, no entanto, e os fins desse argumento serão cumpridos, mais
conclusivamente em Gillespie, é verdade, porém conclusivamente para
ambos. O que o estado como tal fazia, a igreja como tal não fazia, e vice-
versa. E, se assim for, segue-se que o mesmo aplica-se ao povo. Aquilo que
faziam numa capacidade nacional não necessariamente faziam numa
eclesiástica. Quando, então, Miriã e as mulheres com ela; as mulheres que
receberam Saul e Davi voltando para casa em triunfo; a filha de Jefté
celebrando a vitória de seu pai; e a multidão de pessoas que acompanhavam a
arca em seu transporte para Jerusalém tocavam instrumentos de música,
estavam comemorando eventos nacionais com regozijos nacionais
apropriados. Eles não estavam agindo como igreja ou como membros da
igreja.
No que diz respeito à companhia de profetas a quem Saul se reuniu, é
suficiente dizer que eles eram, em parte, os poetas e menestréis da nação, e
que, como o incidente ocorreu durante a existência do tabernáculo, a prova
incontestável que tem sido já exibida ― de que a música instrumental como a
que eles empregavam não era permitida em seu culto ― é suficiente para
varrer todo fundamento por debaixo da objeção agora considerada contra a
operação do grandioso princípio de limitação sobre o culto da igreja que
tenho defendido. Isso é válido, quer a visão apresentada quanto a esses
profetas seja correta ou não. Sua atuação em instrumentos não tinha nada a
ver com o culto público formalmente instituído da casa do Senhor.
Foi assim demonstrado, por um apelo direto às Escrituras, que,
durante todo o período prolongado em que o tabernáculo foi o santuário de
Deus, o grandioso princípio foi aplicado ― de que somente o que Deus
ordena é permitido, e o que Ele não ordena é proibido ― no culto público de
Sua casa. Moisés, com toda a sua sabedoria; os juízes, com toda a sua
intrepidez; Saul, com toda a sua desobediência e obstinação; Davi, o doce
salmista de Israel, com toda a sua habilidade na arte musical; nenhum deles
se aventurou a violar esse princípio e introduzir nos serviços públicos da casa
de Deus os aparatos de sua imaginação ou as invenções de seu gosto. A lição
é certamente notável, vinda, como o é, daquela era distante; e cabe àqueles
que vivem numa dispensação deste lado da cruz do Calvário e do dia de
Pentecostes mostrar a causa, além de uma porventura, por que estão
dispensados do dever de obediência à vontade divina nessa questão de vital
importância.

3. O próximo passo nesse argumento é mostrar que nenhum


instrumento musical foi usado no culto da sinagoga.
Como isso é quase universalmente admitido, não é necessário um
argumento extenso para prová-lo. Esperar-se-ia do zelo que Deus sempre
manifestou peculiarmente em reforçar o princípio ― de que, sem Sua
autorização expressa, nada deveria ser introduzido no culto público de Seu
povo ―; e especialmente dos fatos já enfatizados ― de que instrumentos
musicais não tinham autorização para serem empregados no tabernáculo e
que foram incluídos no serviço do templo apenas em consequência de
instruções divinas explícitas para esse efeito ―, esperar-se-ia que a música
instrumental não tivesse sido incorporada ao culto dos judeus nos dias
comuns do Sabbath, não inclusos nos três festivais nacionais. Essa suposição
é confirmada pelos fatos do caso.
Os escritores que investigaram com mais cuidado as antiguidades
judaicas e escreveram instruída e elaboradamente em relação à sinagoga
concordam em mostrar que seu culto era destituído de música instrumental. O
canto que havia, e não havia muito disso em proporção aos outros elementos
de culto, era claro e simples. Em sua grande obra, On the Ancient Synagogue
[Sobre a Antiga Sinagoga], Vitringa mostra[6] que havia apenas dois
instrumentos de som usados em conexão com a sinagoga, e que estes eram
empregados não no culto ou durante ele como acompanhamento, mas como
sinais de divulgação — primeiro, para proclamar o ano novo; segundo, para
anunciar o início do Sabbath; terceiro, para tornar pública a sentença de
excomunhão; e quarto, para anunciar jejuns. Esses eram seus únicos usos.
Não havia sacrifícios sobre os quais deviam ser tocados, como no tabernáculo
e no templo. E, pela natureza dos instrumentos, é claro que eles não poderiam
ter acompanhamento de voz cantada. Eles eram de apenas dois tipos —
trombetas (tubae) e chifres de carneiro ou cornetas (buccinae). As primeiras
eram retas, as últimas, curvadas. Também não se deve supor que a corneta,
como o instrumento moderno de igual nome, fosse suscetível de modulação
e, portanto, de acompanhar a melodia vocal. Ela tinha apenas uma nota e era
tão fácil de ser tocada que uma criança podia soá-la. Além disso, elas não
eram, na maior parte, usadas apenas em conexão com os edifícios das
sinagogas, mas eram soadas dos telhados das casas, de modo a serem ouvidas
à distância. Já foi dito o suficiente para provar que nenhuma música
instrumental foi introduzida nos serviços da sinagoga judaica[7].
Os elementos de culto na dispensação mosaica eram de dois tipos:
(1.) Genéricos ou Essenciais. O que era observado na sinagoga eram a
leitura e exposição da Palavra de Deus, exortação, orações acompanhadas de
canto, se a recitação comum pelo povo de partes dos Salmos pode ser assim
caracterizada, e a contribuição com doações. Sem aqui levantar a questão se
as sinagogas existiram anteriormente ao exílio babilônico, alguém pouco se
arriscaria em desconsiderar que, durante todo o tempo do desenvolvimento da
igreja no passado, o povo de Deus estava acostumado a se reunir aos dias de
Sabbath para o engajamento nessas partes essenciais do culto divino. A
dispensação patriarcal, sendo deixada de lado, na qual, no entanto, todo
sentimento de piedade e reverência, a instituição original do sétimo dia como
um dia de descanso e o entendimento dos israelitas sobre a lei do Sabbath
antes da promulgação da lei sinaítica tornam altamente provável que tal
prática fosse conservada. Algumas razões serão apontadas em favor de sua
manutenção durante o período da economia judaica:
Primeiro, o quarto mandamento tornou obrigatória a observância
sagrada de todos os dias de Sabbath. Não é racional supor que a lei
contemplava a mera santidade individual e privada do dia.
Segundo, os israelitas, durante sua permanência no deserto, estavam
acostumados a cultuar todos os dias de Sabbath em conjunto no tabernáculo.
Ele era acessível a todas as partes do acampamento, o qual ficava ao seu
redor por todos os lados. A prova disso é dada em Lv 23.3: “Seis dias
trabalhareis, mas o sétimo dia será o Shabbat do descanso, uma santa
convocação”. O uso prescritivo da reunião para o culto em todos os Sabbaths
foi assim estabelecido durante sua peregrinação de quarenta anos: no deserto.
Em todo esse tempo, durante o qual realizavam assembleias semanais,
observemos também, eles nada conheciam sobre a música instrumental. É
totalmente irracional supor que esse hábito, neles enraizado no início de sua
existência nacional e consagrado por inúmeras associações sagradas e
esplêndidas, teria deixado de ser influente depois que suas peregrinações
cessaram e estavam permanentemente localizados na terra de descanso. Tal
inovação em seus costumes só poderia ter ocorrido em consequência de um
mandamento divino impondo a mudança, ou de uma séria deserção de seus
princípios religiosos. Sabemos que nenhuma dessas causas operou para
produzir a suposta revolução em seus hábitos de culto. Após o seu
estabelecimento em Canaã, eles foram, é claro, dispersos em consequência de
sua distribuição tribal por toda a extensão e largura do país, de Dã a Berseba,
e, como o tabernáculo estava, necessariamente, num determinado tempo,
confinado a um lugar, ele não era acessível às congregações que representam
todo o Israel, exceto nas ocasiões dos festivais nacionais prescritos. O que,
então, estiveram eles fazendo em todos os outros Sabbaths do ano em suas
cidades, aldeias e bairros rurais? Não se pode supor que naqueles Sabbaths
eles nunca se reuniam para o culto[8]. Essa consideração é poderosamente
aumentada pelo fato de que apenas os homens de Israel eram obrigados a
comparecer às grandes festas anuais. Foram as mulheres, as mães de Israel, as
treinadoras de crianças e jovens, deixadas destituídas de todo culto público?
A suposição não pode ser considerada. Provisão deve ter sido feita para o seu
envolvimento no culto público declarado por seu Deus.
Terceiro, os sacerdotes e levitas, quando não ocupados no
cumprimento de seus deveres formais e oficiais no templo, foram distribuídos
pela terra, e há evidências que mostram que eles atuavam como professores
de escolas. Seria provável que os ministros da religião tivessem educado o
povo em tudo e não na lei divina, ou que eles não teriam conseguido reuni-los
nos dias de Sabbath para receber a instrução religiosa, ou que tal instrução
teria sido desacompanhada do culto? Pode-se dizer que isso equivale a não
mais do que uma hipótese. Mas, se assim for, é uma hipótese poderosa, e é
fortemente confirmada por outras considerações, como as que se seguem.
Quarto, os israelitas foram ordenados a proclamar a chegada dos
Sabbaths e das luas novas pelo tocar das trombetas. Que essas temporadas
eram observadas com o culto solene das assembleias é quase certo pela
passagem de 2Rs 4, em que insinua-se que, nessas ocasiões, os profetas
estavam acostumados a realizar reuniões para instrução e culto. A sunamita,
cujo filho havia sido ressuscitado por Eliseu, tendo perdido a criança por
morte, propôs ao marido que lhe providenciasse o necessário para uma
viagem ao profeta no Monte Carmelo. Sua resposta foi: “Por que irás a ele
hoje? Não é nem lua nova, nem Sabbath”. A resposta não pode ser entendida
exceto na suposição aqui sustentada, a saber: que os Sabbaths e as luas novas
eram temporadas de reunião para instrução e culto; e é certo que Carmelo não
era Jerusalém, e que os Sabbaths semanais e o início dos meses não ocorriam
apenas três vezes por ano.
Quinto, no Salmo 74:8, o salmista, em vista da devastação do país por
seus inimigos, lamenta: “Disseram em seus corações: Juntos vamos destruí-
los; eles queimaram todas as sinagogas de Deus na terra”. Não é necessário
supor que os edifícios aqui traduzidos por sinagogas correspondiam
exatamente àqueles erguidos para o culto depois do retorno do cativeiro
babilônico, mas eram lugares para o culto[9]. Possivelmente eram, como
Prideaux e outros sugerem, lugares de culto sem cobertura, proseuchae; mas,
se fossem edifícios, como poderiam ter sido queimados? Que eles não eram
os salões adjacentes ao templo, como alguns conjeturam, é provado pela
declaração de que eles estavam em toda a terra: “todas as sinagogas de Deus
na terra”. Eram as construções do templo onipresentes? Com essa exposição,
não poucos comentadores eminentes concordam. Dr. McCurdy, no Lange’s
Commentary, sobre a passagem diz que essas construções eram locais de
reunião em diferentes partes do país. Calvino observa:
Prontamente tomo a palavra hebraica, moadim, no sentido de sinagogas, porque ele diz
todos os santuários, e fala expressamente de toda a terra.

Adam Clarke observa:


A palavra moadey, que traduzimos por sinagogas, pode ser tomada num sentido mais geral
e significa quaisquer lugares onde assembleias religiosas eram realizadas; e que tais lugares e
assembleias existiram muito antes do cativeiro babilônico é bem evidente em diferentes partes da
Escritura[10].

Dr. Plumptre, no artigo sobre sinagogas no Dictionary of the Bible


[Dicionário da Bíblia], de Smith, citando Sobre a Sinagoga (p.271), de
Vitringa, diz:
[...] escritores judeus reivindicavam às suas sinagogas uma antiguidade muito longínqua.
Em quase todas as passagens onde aparece a frase ‘perante o Senhor’, eles parecem reconhecer
nela um santuário conhecido, um local fixo de reunião e, portanto, uma sinagoga.

Essa visão é tomada nos Targuns de Onkelos e Jonathan. “Por um


lado”, diz o Dr. Plumptre, “é provável que, se luas novas e os Sabbaths eram
observados [foi mostrado acima que eram], eles devem ter sido observados
por alguma celebração que não no tabernáculo ou no templo [...] Por outro
lado, até onde encontramos vestígios de tal culto local, ele parece ter decaído
muito facilmente numa religião fetichista, em sacrifícios a éfodes e terafim,
em bosques e lugares altos, oferecendo nada mais que um contraste com o
‘serviço racional’, com as orações, os salmos e as instruções na lei da
sinagoga posterior”. Isso, até certa extensão não universalmente, é
lamentavelmente verdadeiro; mas o abuso prova o uso legítimo dessas
temporadas declaradas e locais de culto público separadamente dos serviços
do tabernáculo e do templo.
As reuniões dos anciãos durante o exílio para a instrução pelo profeta,
que são repetidamente mencionadas em Ezequiel, inferem que a prática de
realizar assembleias para o culto e para a pregação da lei antecedeu o
cativeiro. Os exilados carregaram o costume com eles. As palavras em Ez
11:15,16 parecem implicar que Deus manifestou Sua graciosa presença
nessas reuniões de Seu povo tanto nos pequenos santuários quanto nos
tempos antigos e melhores em que Ele o havia feito nos maiores santuários
em sua terra natal. “Essa visão é apoiada”, observa o instruído autor que foi
citado, “pela LXX, a Vulgata e a Versão Autorizada. Ela é confirmada pelo
consenso geral dos intérpretes judeus”.
Se esses argumentos valeram para provar que o povo de Israel estava
acostumado a realizar reuniões fixas para o culto à parte dos serviços do
tabernáculo e do templo, a prática bem estabelecida das sinagogas pós-exílio
claramente estabelece a ausência de música instrumental naquelas
assembleias semanais. Pois, se esse tipo de música tivesse sido empregado
naquelas reuniões, inevitavelmente teria sido instaurado no culto da sinagoga.
Toda consideração plausível teria se oposto à sua eliminação: a força
poderosa de longos e contínuos precedentes, os costumes prescritivos do
passado consagrados por associações sagradas, o sentimento conservador que
resiste a uma inovação revolucionária e mais do que todas as exigências do
gosto humano e as exigências de um padrão artístico reconhecido. Mas é
certo que nenhuma música instrumental foi usada no posterior culto da
sinagoga. O argumento é quase que inevitável.
Se for alegado que a música instrumental, que existia anteriormente,
teria sido expurgada do culto regular dos judeus pela reforma pós-exílio, a
questão em voga é abandonada. Pois se os judeus reformaram o culto da
igreja abandonando a música instrumental, muito mais teria sido descartado
na maior reforma inaugurada pelo cristianismo. Caso contrário, seria
admitido que a Igreja Cristã era menos pura em seu culto, menos
completamente reformada, do que a Igreja Judaica em seu estado posterior e
superior.
Foi assim demonstrado que as partes essenciais do culto divino foram
mantidas pelo povo de Deus em seu culto ordinário nos dias de Sabbath
durante a dispensação judaica; e é o propósito dessa discussão, como será
desenvolvido, evidenciar o fato de que somente esses elementos essenciais do
culto passaram para a dispensação cristã. Eles são permanentes e, como o
pacto da graça em suas características genéricas e essenciais em
contraposição às específicas e acidentais, foram designados para permanecer
inalterados em todas as dispensações.
(2) O segundo tipo de elementos de culto na economia mosaica eram
os Específicos ou Acidentais, os quais eram Tipológicos e Simbólicos e, como
tais, temporários por sua natureza[11].
Warburton diz que tipos e símbolos são genericamente os mesmos
naquilo em que ambos são representações, mas são especificamente
diferentes naquilo em que o tipo representa algo futuro, e o símbolo, algo
passado ou presente. Consequentemente, ele considerava os sacramentos do
Novo Testamento como símbolos. Thornwell observa que eles se diferem um
do outro na circunstância de que os tipos ensinam por analogia, e símbolos,
por sinais expressivos. Sem pausar para discutir a natureza das diferenças
específicas entre eles ou para considerar a questão de que alguns dos
elementos do serviço ritual judaico não seriam ao mesmo tempo tipológicos e
simbólicos, procuro mostrar que os tipos do culto do templo não tinham,
como é muitas vezes descuidadamente assumido, referência exclusiva ao
sacrifício de Cristo, mas que alguns deles representavam de antemão os
efeitos a serem produzidos na dispensação do Novo Testamento pelo Espírito
Santo; e, então, tentarei ainda mostrar que a música instrumental do culto do
templo recaiu para a última classe e, portanto, tendo cumprido seu ofício
tipológico e temporário, faleceu e desapareceu com a introdução da economia
cristã. Mas, antes que esses pontos sejam desenvolvidos, é necessário que
algumas premissas sejam postas.
Em primeiro lugar, nenhum elemento no culto da sinagoga era
tipológico e temporário. Isso é deveras evidente para se exigir argumentos. A
leitura e a exposição da Palavra divina, os discursos exortatórios, o cântico
dos salmos e a contribuição de doações[12] são elementos de culto que não
podem ser considerados como tipos que prenunciem realidades substanciais
por vir. Eles pertencem à classe essencial e permanente.
Em segundo lugar, os elementos essenciais e permanentes de culto,
sendo fundamentais para todo serviço religioso público, entraram, é claro, no
culto do templo. Nesse aspecto, não havia diferença entre o culto do templo e
o da sinagoga.
Em terceiro lugar, qualquer elemento de culto ausente na sinagoga e
presente no templo era tipológico ou simbólico em seu caráter. Tendo em
comum o que era essencial e permanente, a diferença específica entre eles
estava na posse de um daquilo que era acidental e temporário e na carência do
outro dos mesmos. Ora, os únicos elementos que recaem nesta última classe
foram os tipológicos e simbólicos. Esses foram abraçados no serviço do
templo e excluídos da sinagoga. Consequentemente, como a música
instrumental não foi incluída no culto da sinagoga, mas no do templo, deve
ser considerada como tipológica ou simbólica. Como simbólica ela não pode
ser considerada; deve, portanto, ter sido tipológica. Nesse caso, reconhece-se
a necessidade de tentar, no andamento dessa discussão, mostrar o que era
tipológico.
Em quarto lugar, alguns dos elementos do serviço do templo eram
direta e unicamente tipológicos de Cristo, especialmente o sacerdote e o
sacrifício expiatório a ser oferecido pelo pecado. Outros eram tipológicos
apenas do Espírito Santo; e ainda outros eram tipológicos, ao mesmo tempo,
tanto de Cristo como do Espírito Santo. Para usar a linguagem tecnicamente
precisa da teologia, a impetração ou aquisição da salvação é atribuída a
Cristo, a sua aplicação, ao Espírito Santo. Mas a graça que aplica os
benefícios assegurados pela obra de Cristo está intimamente relacionada com
a obra pela qual [os benefícios] foram adquiridos. De fato, ela é adquirida
pelo mérito e intercessão do Redentor. Eles, portanto, pressupõem e implicam
um ao outro. Consequentemente, alguns dos tipos têm uma referência dupla a
ambos. Quando diretamente representam o Espírito Santo, eles, ao mesmo
tempo, representam indiretamente a Cristo. Algumas das posições tomadas
nessas observações preliminares podem ser justamente consideradas e
levadas junto à discussão como pressuposições que não exigem provas, e
outras serão substanciadas à medida que o argumento prossegue.
Em primeiro lugar, os ofícios e obra do Espírito Santo foram tão clara
e definitivamente preditos e prometidos nas Escrituras do Antigo Testamento
quanto os de Cristo. A verdade é que eles não podem ser separados. Nenhum
deles seria operativo para a salvação sem o outro. Toda a revelação do Antigo
Testamento, na medida em que era do evangelho, trazia uma dupla referência
ao sangue e à água, à aquisição meritória da salvação pela justiça e morte
expiatória de Cristo e sua aplicação eficaz pela graça do Espírito Santo. Na
concepção de redenção que encontramos em toda parte na Bíblia, a
justificação e a santificação nunca estão dissociadas. Elas são sempre
representadas como os fatores complementares e igualmente necessários de
uma salvação inteira e completa. Esse é o próprio espírito do evangelho, bem
antes da morte do Filho de Deus. Como foi proclamado aos nossos primeiros
pais, revelado a Abel, Enoque e Noé, e, como o apóstolo expressamente
testifica, “pregado antes a Abraão”, ele era essencialmente promissivo em sua
natureza. O mesmo caráter promissivo foi ainda mais amplamente revelado
nas características da dispensação mosaica, nos Salmos e nos Profetas, e,
como espero mostrar, nos ritos e cerimônias tipológicos do serviço do
templo.
Que a pessoa e ofícios do Espírito Santo eram distintamente
conhecidos pelos crentes sob a antiga dispensação é provado por enunciados
nos Salmos, um livro que representa a experiência do verdadeiro povo de
Deus em todas as condições de sua história. No Salmo 51, temos as orações:
“não toma de mim o teu Santo Espírito”; “sustém-me com um espírito livre”;
e no 143: “O teu Espírito é bom; guie-me para a terra da retidão”. Isaías (cap.
63:10) diz: “Eles, porém, se rebelaram e importunaram seu Santo Espírito”,
palavras que, como eram ditas sobre a “casa de Israel”, supõem que eles
reconheciam, ou deviam reconhecer, o Espírito Santo como seu guia. Pode-se
acrescentar que os historiadores sagrados do Antigo Testamento afirmam
repetidas vezes, com referência aos ilustres heróis daquela dispensação, que o
Espírito do Senhor veio sobre eles. Tudo isso serve para mostrar que as
promessas relacionadas à obra do Espírito Santo num período futuro do
desenvolvimento da igreja não eram ininteligíveis para aqueles a quem foram
entregues.
Citemos algumas dessas declarações que apontam para a obra do
Espírito na nova dispensação.
Depois de descrever a desolação que seria visitada na terra de Israel, o
profeta diz:
Até o Espírito ser derramado sobre nós do alto; e o deserto ser um campo frutífero e o
campo frutífero ser considerado uma floresta. Então, juízo habitará no deserto, e justiça
permanecerá no campo frutífero. E a obra da justiça será paz, e o efeito da justiça, quietude e
segurança eternamente (Is 32:15-17).

Eis aqui meu Servo, a quem eu sustenho. Meu Eleito em quem minha alma se deleita. Eu
tenho posto meu Espírito sobre ele. Ele irá produzir justiça para os gentios (Is 42:1).

Porque eu derramarei copiosamente água sobre aquele que está sedento, e enchentes sobre o
chão seco. Eu derramarei copiosamente meu Espírito sobre a tua semente, e minha bênção sobre
a tua descendência. E eles brotarão como entre a erva; como salgueiros próximos a cursos de
água (Is 44:3-4).

Então, eles temerão o nome do Senhor desde o oeste, e a glória dele desde o nascer do sol.
Quando o inimigo vier a entrar como uma inundação, o Espírito do Senhor erguerá um
estandarte contra ele. E o Redentor virá a Sião, e em direção àqueles que se desviam da
transgressão em Jacó, diz o Senhor. Com relação a mim, este é meu pacto com eles, diz o
Senhor. Meu Espírito que está sobre ti e minhas palavras, as quais eu tenho colocado em tua
boca não se afastarão da tua boca, nem da boca de tua descendência, nem da boca da
descendência da tua descendência, diz o Senhor, desde agora em diante e para sempre (Is
59:19,20,21).

Essa profecia a respeito do Espírito que resiste a uma inundação de


inimigos refere-se, para os rabinos, à vinda do Messias.
Então, eu aspergirei água limpa sobre vós, e ficareis limpos; de toda a vossa imundícia, e de
todos os vossos ídolos vos purificarei. Um novo coração também vos darei, e um novo espírito
eu colocarei dentro de vós, e eu tirarei o coração de pedra da vossa carne, e vos darei um coração
de carne. E eu colocarei o meu espírito dentro de vós, e vos farei andar nos meus estatutos, e
guardareis os meus juízos, e os fareis (Ez 36:25-27).

E sabereis que eu sou o Senhor, quando eu tiver aberto vossos túmulos, ó povo meu, e vos
trarei de vossas sepulturas, e porei meu espírito em vós, e vivereis, e eu vos colocarei na vossa
própria terra; então sabereis que eu, o Senhor, disse isto, e o cumpri, diz o Senhor (Ez 37:13-14).

E acontecerá que, depois derramarei o meu espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e
vossas filhas profetizarão, os vossos velhos sonharão sonhos, e vossos jovens verão visões. E
também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu espírito (Jl 2:28-29).

Para a referência dessa gloriosa promessa aos tempos do Novo


Testamento, temos o testemunho inspirado do apóstolo Pedro no dia de
Pentecostes, quando ela foi efetivamente cumprida. Em estreita conexão com
a promessa de que uma fonte seria aberta para a casa de Davi e para os
habitantes de Jerusalém, pelo pecado e pela impureza, Zacarias profere
também a promessa:
Mas derramarei sobre a casa de Davi, e sobre os habitantes de Jerusalém, o espírito de graça
e de súplicas (12:10).

Pouco importa se com alguns tomamos aqui a palavra espírito para


indicar uma disposição ou não. Essa disposição pode ser produzida apenas
pelo Espírito Santo. O apóstolo Paulo, isso merece ser considerado, denomina
o Espírito de “Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13); e, em Gl 3:13,14, ele
fala muito explicitamente sobre esse assunto:
Cristo nos redimiu da maldição da lei, fazendo-se por nós maldição, porque está escrito:
Maldito todo aquele que for pendurado em uma árvore. Para que a bênção de Abraão pudesse vir
sobre os gentios por meio de Jesus Cristo; para que possamos receber a promessa do
Espírito através da fé.

Quão intimamente ele acopla a obra expiatória de Cristo com a obra


aplicável do Espírito! E quão claramente ele enuncia o fato de que o Espírito,
assim como Cristo, foi prometido nas antigas Escrituras e nas novas
revelações feitas ao povo de Deus!
Em segundo lugar, os ofícios do Espírito Santo, juntamente com seus
efeitos salvadores e proporcionadores de alegria, foram tipificados, bem
como a obra sacerdotal e a morte expiatória de Cristo, nos serviços que eram
peculiares ao templo. Em vista do que foi mostrado a respeito da clareza e da
plenitude com que a obra do Espírito nos tempos do Novo Testamento é
anunciada nos escritos proféticos, estaríamos preparados para julgar isso
verdadeiro ao examinarmos os tipos do templo; nem ficaremos desapontados
com tal investigação. Esses tipos, bem como as profecias, proclamavam o
evangelho. Eles pregavam poderosamente toda a salvação do evangelho − o
sangue e a água, a justificação e a santificação. Como poderia ser diferente?
Enquanto Deus pretendia por esses elementos tipológicos representar, como
por meio de lições objetais, o esquema de redenção para Seu povo antigo que
vivia antes de sua concretização efetiva, é razoável supor que Ele teria
fornecido uma pré-figuração imperfeita e inadequada de sua partes
essenciais? Teria Ele omitido todas as instruções de antemão em relação ao
modo de sua aplicação? É difícil conceber como um teólogo pode deixar de
ver o óbvio prenúncio, nas mobílias e no serviço do templo, da graça e da
obra do sempre bendito Espírito. Selecionarei para comentar apenas os
elementos que parecem com maior clareza tipificar os ofícios do Espírito
Santo.

A lavagem com água


Por que foi a água empregada como um tipo senão para significar
aquilo que as Escrituras do Novo Testamento tão inequivocamente
caracterizam sob essa figura? “Se um homem”, disse o Senhor Jesus, “não
nascer da água e do Espírito, ele não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3:5).
A preposição anterior a “Espírito” aqui é omitida no original, e as palavras
podem bem ser traduzidas “da água até mesmo o Espírito”. Pelo menos, esse
deve ser o significado no julgamento de qualquer um que não coordenasse a
água externa com a graça onipotente do Espírito Santo na nova criação da
alma. E falar de alguém que é nascido espiritualmente parcialmente de um
símbolo externo é falar ininteligivelmente. Paulo usa várias vezes a lavagem
e a água para significar a limpeza pelo Espírito Santo.
Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra (Ef 5:26).

Ao menos alguns de vós têm sido isso, mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas
fostes justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus (1Co 6:11).

[...] segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do
Espírito Santo (Tt 3:5).

João enfatiza a questão da água e do sangue saídos do lado de Jesus


na cruz, e declara:
Este é aquele que veio por água e sangue, a saber, Jesus Cristo; não apenas por água, mas
por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade. Porque três
são os que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um. E três
são os que testificam na terra: o Espírito, e a água, e o sangue; e estes três concordam em um
(1Jo 5:6,8).

O Espírito testifica tanto a justificação como a santificação. É Ele


quem santifica e quem testifica com Sua própria obra na alma. A analogia,
então, entre o tipo e o antítipo, quanto aos ofícios respectivamente
executados, leva à conclusão de que as pias e as abluções do templo tipificam
a graça do Espírito Santo. Essa visão está longe de ser singular. Ela tem o
apoio do ilustre Lightfoot. “O fim dela [isto é, da pia] era”, diz ele, “lavar as
mãos e os pés dos sacerdotes; mas o fim mais importante era significar a
lavagem e purificação pelo Espírito da graça, que é tão frequentemente
chamado de água na Escritura. E, assim, a aspersão do sangue do sacrifício e
a lavagem na água da pia liam as duas grandes lições sobre a divindade: a de
lavar-se pelo sangue de Cristo da culpa e pela graça de Deus da imundície e a
poluição[13]”. Esse testemunho é verdadeiro, e seu aprendizado e piedade
tornam supérfluo citar o testemunho de outros para o mesmo propósito.

O óleo da unção
Não está claro nas Escrituras que isso tipifica o Espírito Santo? Sob a
economia do Antigo Testamento, sacerdotes, profetas e reis eram ungidos. O
óleo da unção do templo significa que Cristo ungiria a Si mesmo? Ou melhor,
não prefigurava a Sua unção pelo Espírito Santo? Ele é o Cristo, o Ungido de
Deus, e a santa Unção era o Espírito de sabedoria, poder e graça. “Como
Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder” (At 10:38).
Esse testemunho direto é suficiente. O óleo da unção do templo executava o
tipológico ofício de prefigurar a santa Unção com a qual Jesus foi ungido,
[Espírito] o qual, vindo dEle sobre todo o Seu povo, lhes ensina todas as
coisas (1Jo 2:27). Essa visão também é sustentada pela autoridade do
renomado estudioso que já foi citado. “O óleo e a unção”, ele observa, “com
os quais os sacerdotes e os vasos da casa do Senhor eram santificados,
denotavam a Palavra e o Espírito de Deus, pelos quais Ele santifica os vasos
de Sua eleição, mesmo pessoas de Sua escolha, para Seu serviço e
admissão[14]”.

O óleo no castiçal de ouro


Levando em consideração a analogia do ensino da Escritura, não
podemos duvidar que esse óleo tipificasse o Espírito Santo. Cito as
observações sobre esse ponto do Rev. Patrick Fairbairn, em seu Typology of
Scripture [Tipologia da Escritura][15]:
Esse símbolo recebeu tamanha repetida ilustração em outras partes da Escritura, que
escassamente há algum espaço para uma diferença de opinião quanto à sua importância
fundamental e sua ideia principal. No primeiro capítulo de Apocalipse, a imagem ocorre em sua
forma original, ‘as sete lâmpadas de ouro’ (não castiçais, como em nossa versão, mas as sete
lâmpadas em um candelabro) são ditas significar ‘as sete igrejas’. Essas igrejas, no entanto, não
por si mesmas, mas enquanto reabastecidas pelo Espírito de Deus e cheias de luz e energia
santas; e, portanto, no quarto capítulo do mesmo livro, encontramos novamente sete lâmpadas de
fogo diante do trono de Deus, que se diz serem ‘os sete espíritos de Deus’ — seja o único
Espírito de Deus em Suas variedades de obras santas e espirituais[16], ou sete espíritos de luz
que atuam preparados por esse Espírito para as ministrações referidas na visão celestial. Na
Escritura, como já vimos no capítulo três dessa parte, o óleo é uniformemente considerado como
um símbolo do Espírito Santo. É assim não menos em relação à sua propriedade luminosa quanto
às suas qualidades de unção e renovação; e, portanto, o profeta Zacarias (cap. 4) representa o
exercício da energia graciosa e vitoriosa do Espírito em favor da igreja sob a imagem de duas
oliveiras derramando óleo no candelabro de ouro, sendo a igreja manifestamente figurada no
candelabro e a graça assistencial do Espírito na corrente perpétua de óleo com a qual era
suprida[17].

A festa de Pentecostes
“Esse festival”, diz Horne, em sua Introduction [Introdução][18],
“tinha referência tipológica à efusão milagrosa do Espírito Santo sobre os
apóstolos e as primícias da Igreja Cristã no dia de Pentecostes, [...] no
quinquagésimo dia depois da ressurreição de Jesus Cristo”. Ele se refere, em
apoio a essa visão, a Schultz, Lamy, Lightfoot, Michaelis, Reland e Alber.
Horne ainda diz[19]:
Uma das mais notáveis cerimônias realizadas nessa festa, no período posterior da
comunidade judaica, era a libação ou o derramamento de água, extraída da fonte ou tanque de
Siloé, sobre o altar. De acordo com os próprios judeus[20], essa água era um emblema do
Espírito Santo; Jesus Cristo aplicou a cerimônia e a intenção dela a Si mesmo quando clamou,
dizendo: Se algum homem tem sede, deixai-o vir a mim, e beber (Jo 7:37-39).

Tratando dessa festa, Fairbairn faz as seguintes observações


instrutivas[21]:
O rito que comemorava a redenção tipológica tinha que ter precedência de qualquer coisa
pertencente à colheita vindoura, até mesmo da apresentação de seu primeiro feixe de maturação.
Mas a obra de redenção sendo terminada, e o banquete de coisas gordas, por tanto tempo em
preparação, estando pronto, então as mais livres boas-vindas são dadas para vir e satisfazer-se
com a benevolência do Senhor. E tendo Cristo sofrido e sido glorificado, que dia poderia ser tão
apropriadamente escolhido para a descida do Espírito Santo do que o dia de Pentecostes? Pois
para que fim foi dado o Espírito? Para tomar as coisas de Cristo e mostrá-las ao povo de Cristo;
isto é, para converter as riquezas de Sua redenção adquirida de um tesouro depositado entre as
coisas preciosas de Deus num tesouro recebido e possuído por Seu povo, para que eles possam
ser capazes de alegrarem-se e chamarem outros para se alegrarem com eles, na bondade de Sua
casa. Agora a obra de Deus está finalizada, doravante a experiência frutífera da mesma entre o
Seu povo proceda; e as primícias do Espírito, seguramente dadas, Ele nunca pode retirar Sua
mão até que toda a herança da bênção seja desfrutada.

A Música Instrumental
Em primeiro lugar, já foi demonstrado que nem pela direção de Deus
nem na prática efetiva de Seu povo na antiga dispensação eram os
instrumentos musicais, suscetíveis de modulação, empregados em outras
partes do culto público além de no templo. Eles não foram usados no
tabernáculo até quando Davi estava a preparar-se para construir o templo,
nem na sinagoga.
Em segundo lugar, também foi demonstrado que qualquer elemento
de culto que fosse adotado no serviço do templo e estivesse ausente no da
sinagoga era tipológico em seu caráter. Isso era verdade sobre a música
instrumental. Portanto, como elemento do culto do templo, ela era tipológica.
Em terceiro lugar, ficou provado que alguns dos elementos contidos
no serviço do templo eram tipológicos do Espírito Santo e dos efeitos a serem
produzidos por Ele na dispensação do Novo Testamento, como a
consagração, a iluminação, a purificação e a conversão das almas.
Em quarto lugar, estabeleço a proposição de que a música
instrumental do culto do templo era tipológica da alegria e do triunfo do povo
crente de Deus resultante da abundante efusão do Espírito Santo nos tempos
do Novo Testamento.
Ela era adequada para desempenhar tal ofício significativo na época
em que Deus julgava conveniente prescrever seu exercício como parte de um
ritual tipológico. Ela produz uma satisfação dos sentidos e isso é tudo o que
ela de fato produz. Vimos que os israelitas, como todos os outros povos, a
empregaram em seus regozijos nacionais e seculares. Ora, a dispensação
mosaica não era peculiarmente uma dispensação do Espírito. Uma glória
característica da economia cristã é “o ministério do Espírito”. “Mas”, diz
Paulo, “nós falamos a sabedoria de Deus em um mistério, mesmo a sabedoria
escondida, a qual Deus ordenou antes do mundo para nossa glória; a qual
nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; pois se a tivessem conhecido,
eles não teriam crucificado ao Senhor da glória. Mas, como está escrito: O
olho não viu, nem ouvido ouviu, tampouco entraram no coração do homem
as coisas que Deus preparou para aqueles que o amam. Mas Deus nos revelou
pelo seu Espírito; porque o Espírito busca todas as coisas, sim, as coisas
profundas de Deus” (1Co 2:7-10).
Essa revelação, parcialmente feita na antiga dispensação, está muito
mais completamente manifesta mesmo nesta vida presente e será ainda mais
ampla e gloriosamente manifesta na celestial. “Mas se”, também diz o mesmo
apóstolo, “a ministração da morte, escrita e gravada em pedras, era gloriosa,
de maneira que os filhos de Israel não podiam contemplar firmemente a face
de Moisés, por causa da glória do seu semblante; cuja glória estava se
acabando, como não será a ministração do Espírito mais gloriosa? Porque, se
a ministração da condenação for gloriosa, muito mais a ministração da justiça
excederá em glória. Porque até o que foi feito glorioso, a este respeito não
tinha glória, em razão da glória que excede” (2Co 3:7-10). No Novo
Testamento, aprendemos muito bem a razão disso. Não era certo que o
Espírito Santo fosse copiosamente derramado antes da oferta efetiva do
grande sacrifício expiatório e da entrada do verdadeiro sumo sacerdote no
santo dos santos celestial.
No último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé e clamou, dizendo: Se algum
homem tem sede, deixai-o vir a mim, e beber. Quem crê em mim, como diz a escritura, do seu
ventre fluirão rios de água viva. (Mas isso ele falou do Espírito, que haviam de receber os que
nele cressem; porque o Espírito Santo ainda não fora dado, pois Jesus ainda não tinha sido
glorificado) (Jo 7:37- 39).

Assim como, na antiga dispensação, o véu do templo não se rasgou


em dois; assim como a plena liberdade de adoção e ousadia de acesso à
presença de Deus com a certeza da fé e da esperança, que faz iniciar o céu na
terra, não foram concedidas ao adorador, aprouve a Deus tipificar a alegria
espiritual de nascer de uma posse mais rica do Espírito Santo através do
êxtase sensível gerado pela melodia apaixonada de instrumentos de cordas e
pelo estrondo de címbalos, pelo clangor de trombetas e pela vibração de
harpas. Era a instrução de Seus filhos numa escola inferior, preparando-os
para um nível mais alto. Enquanto isso, não deve ser esquecido, eles eram
habitualmente lembrados, mesmo naquela dispensação pelo culto mais
simples e espiritual de suas assembleias semanais, de um serviço a Deus que,
como sempre existiu no passado, continha em si mesmo uma profecia de
permanência através de todo o desenvolvimento futuro da igreja.
Que a música instrumental do templo, que, como vimos, foi
introduzida em seus serviços somente por expressa autorização divina, era
tipológica e, portanto, temporária, é provado ainda mais pelo fato de que não
foi praticada na igreja apostólica. Isso, é verdade, continua a ser estabelecido
no progresso do argumento, mas é tão geralmente admitido que pode ser aqui
assumido. Certamente, se o Rei e Legislador da igreja tivesse pretendido que
esse tipo de música acompanhasse o canto de louvor sob o Novo Testamento,
Ele teria instruído seus inspirados organizadores para esse efeito. O fato de
não terem sancionado é uma evidência de que Ele não a ordenou; e isso, por
sua vez, prova que ela foi designada para ser meramente tipológica durante a
continuidade do culto do templo.
Ora, ela deve ter sido tipológica ou de Cristo em Sua pessoa ou
ofícios; ou do uso de música instrumental pela igreja na dispensação do Novo
Testamento ou alguma outra ação exterior; ou do Espírito Santo em Sua
pessoa ou ofícios, ou de um efeito produzido por Sua graça. Não há alguma
outra suposição em que eu possa pensar. Não há sentido concebível em que
ela pudesse ter tipificado a pessoa ou os ofícios de Cristo. Não há sentido em
que se suponha que tipifique qualquer outra ação externa da igreja além do
uso de música instrumental. Ela não poderia ter tipificado o uso da própria
música instrumental, pois isso envolveria a absurdidade de uma coisa que
tipifica a si mesma — da identidade de uma representação com a coisa
representada, de um tipo com o seu antítipo. Não podemos imaginar qualquer
maneira em que ela poderia ter tipificado a pessoa invisível ou os ofícios do
Espírito Santo. Estamos fechados, logo, na posição de que ela era tipológica
de um efeito a ser produzido pela graça do Espírito divino; mas faço eco à
opinião de eminentes e piedosos teólogos em sustentar que foi designada para
ser um tipo daquela alegria espiritual e triunfante que é engendrada pela
abundante efusão do Espírito Santo sobre os crentes sob a dispensação cristã.
O Espírito tendo sido derramado e aquela alegria abundante dos crentes tendo
sido experimentada, a sombra deu lugar à substância, o tipo, ao antítipo.
Para evidenciar o fato de que essa visão não é nova nem particular,
aduzo o testemunho de alguns ilustres teólogos, mostrando, em geral, que a
música instrumental era tipológica e, em particular, que era tipológica das
graças do Espírito Santo.
“Cantar os louvores de Deus ao som da harpa e do saltério”, diz
Calvino, “inquestionavelmente formava uma parte do aprendizado da lei e do
serviço de Deus sob aquela dispensação de sombras e figuras; mas não
devem agora ser usadas nas ações de graças públicas[22]”. Ele diz novamente:
Com respeito ao tamborim, harpa e saltério, já observamos anteriormente, e julgaremos
necessário simplesmente repetir a mesma observação, a saber: que os levitas, sob a lei, eram
justificados ao fazer uso de música instrumental no culto divino; que seu intuito era treinar seu
povo, enquanto eram ainda imaturos e semelhantes a crianças, necessitando de tais rudimentos,
até a vinda de Cristo. Mas então, quando a lídima luz do evangelho já dissipou as sombras da lei,
e já nos ensinou que Deus deve ser servido de uma forma mais simples, estaremos agindo como
tolos e equivocados imitando aquilo que o profeta ordenou somente aos de seu próprio
tempo[23].

Ele ainda observa:


Devemos lembrar que o culto divino nunca deve ser tomado como que consistindo em tais
serviços externos, os quais só eram necessários para ajudar um povo fervoroso, porém ainda
fraco e rude de conhecimento, no culto espiritual celebrado a Deus. É preciso observar a
diferença, neste aspecto, entre o seu povo sob o Velho e sob o Novo Testamento; pois agora que
Cristo já se manifestou, e a Igreja já alcançou a plena maturidade, se introduzíssemos as sombras
de uma dispensação expirada só iríamos sepultar a luz do evangelho. Disto transparece que os
papistas, como tive ocasião de mostrar em outro lugar, ao empregarem música instrumental, não
se pode dizer que imitam a prática do antigo povo de Deus, mas o imitam de uma maneira
insensata e absurda, exibindo um tolo deleite naquele culto do Velho Testamento que era
figurativo e extinto com a vinda do evangelho[24].

“A primeira questão”, diz Ames (Amesius) em seu Church


Ceremonies[25] [Cerimônias da Igreja], foi:
Se a igreja primitiva realizava tal serviço idólatra de canto, como nas nossas igrejas-
catedrais. A réplica [do Dr. Burgess], depois de algumas palavras sobre o canto (sobre as quais
ele não traz a menor semelhança do que está em questão, até a quarta era [século] depois de
Cristo) excetua que: a música de órgão era a ordenança de Deus no Antigo Testamento, e não era
significativa ou tipológica; e, portanto, é pecaminosamente chamada de serviço idólatra. [...] A
isso digo: (1) Que a sua negação da música de órgão ter sido significativa ou tipológica é sem
razão e é contra a corrente de nossos teólogos [N.B.]; tomado, como pode se ver, de Belarmino
(Sobre a Missa, L.2, C.15), que usa essa evasão contra aquelas palavras de P. Mártir: ‘Todos os
órgãos pertenciam à cerimônia judaica, e não concordam mais conosco do que a circuncisão’.
Então, podemos negligenciar e levá-lo a dizer que nada do que foi ordenado no Antigo
Testamento (não, nem sacrificar os animais) é agora um serviço idólatra.

Assim assim, Belarmino, que é aqui mencionado por Ames como que
evadindo o julgamento de Pedro Mártir, expressa ele mesmo o mesmo
julgamento em outro lugar[26]. “Justino”, observa ele, “diz que o uso de
instrumentos foi concedido aos judeus por sua imperfeição, e que, portanto,
tais instrumentos não têm lugar na igreja. Nós [Belarmino e os católicos]
confessamos que, de fato, o uso de instrumentos musicais não coincide de
igual forma com o perfeito e com o imperfeito, e que, portanto, eles deram
início, mas não a ponto de serem admitidos na igreja”. Belarmino viveu de
1542 a 1621.
Essa última opinião mencionada do grande e polêmico cardeal foi
anteriormente expressa por Tomás de Aquino, o doutor angélico da Igreja de
Roma, em sua Summa Theologica[27]. “Instrumentos de música”, diz ele,
“tais como harpas e saltérios, a igreja não os adota para louvores divinos,
para que não pareça judaizar”.
Instrumentos desse tipo mais movem a mente a deleitar-se, do que a formar internamente
uma boa disposição. Sob o Antigo Testamento, entretanto, havia alguma utilidade em tais
instrumentos, tanto porque as pessoas eram mais duras e carnais, e precisavam ser estimuladas
por instrumentos desse tipo, como por promessas de bem terreno, e também porque instrumentos
materiais desse tipo figuravam algo.

“É evidente”, diz Zuínglio[28], “que esse mesmo canto e bramido


eclesiástico em nossos templos (escassamente também entendido pelos
próprios sacerdotes) é o mais tolo e vão abuso, e um dos mais perniciosos
apelos à piedade. No culto solene a Deus, não julgo-o mais adequado do que
se nos lembrássemos do uso do incenso, das velas e outras sombras da lei.
Digo novamente que ir além do que nos é ensinado é a pertinácia mais
perversa”.
Voetius, em sua grande obra, o Ecclesiastical Polity [Governo
Eclesiástico], argumenta com esmero contra o uso da música instrumental na
igreja cristã e, entre os argumentos que desenvolve, usa este:
Porque ela tem gosto de judaísmo, ou de um culto adequado a uma condição infantil sob a
economia do Antigo Testamento; e poderiam com justiça igual ser introduzidos nas igrejas do
Novo Testamento os sinos de Arão, as trombetas de prata dos sacerdotes, os chifres do Jubileu,
harpas, címbalos e saltérios, com cantores levitas, e assim todo o culto daquela economia ou os
elementos desprezíveis do mundo, de acordo com as palavras do apóstolo no quarto capítulo de
Gálatas[29].

Suicer, em seu Thesaurus[30], argumenta extensamente para justificar


Clemente de Alexandria da imagem de que ele favorecia o uso de
instrumentos na igreja e para mostrar que ele e Isidoro de Pelúsio
consideravam a música instrumental do Antigo Testamento como tipológica
do louvor jubiloso da igreja do Novo Testamento pelos ricos benefícios de
uma redenção realizada. Ele cita um cânone de um dos Conselhos de Cartago
para esse efeito: “No dia do Senhor, que todos os instrumentos musicais
sejam silenciados”; e observa que poucos em seu tempo favoreceram o uso
de instrumentos na igreja.
George Gillespie, em seu Assertion of the Government of the Church
of Scotland[31] [Afirmação sobre o governo da Igreja da Escócia] diz:
A Igreja Judaica, não enquanto igreja, mas enquanto judaica, tinha um Sumo Sacerdote,
tipificando o nosso grande Sumo Sacerdote, Jesus Cristo. Enquanto judaica, tinha músicos para
tocar harpas, saltérios, címbalos e outros instrumentos musicais no templo.

David Calderwood, o autor da célebre obra Altare Damascenum (Altar de


Damasco) e de uma valiosa História da Igreja da Escócia, diz em seu livro
The Pastor and the Prelate[32] [O Pastor e o Prelado]:
O Pastor ama nenhuma música na casa de Deus além das que edificam, e fecha os ouvidos
para a música instrumental, servindo para a pedagogia dos judeus desfavorecidos sob a lei, e
sendo figurativa daquela alegria espiritual em que nossos corações devem ser abertos sob o
evangelho. O Prelado ama o canto carnal e curioso para o ouvido, mais do que a melodia
espiritual do evangelho, e, portanto, teria antífona e órgãos nas igrejas catedrais, sem razão maior
do que outras sombras da lei de Moisés; ou instrumentos menores, como alaúdes, cítaras ou
tubas, devem ser usados em outras igrejas.

“Como um bom argumento”, comenta o Dr. James Begg, “pode-se


elaborar para o uso de incenso, sacerdotes, sacrifícios ― de fato todo o
sistema do templo ―, assim também para o uso de música instrumental no
culto cristão[33]”.
Dr. Killen, em seu Ancient Church [A Igreja Antiga], diz[34]:
Como os sacrifícios, ofertas e outras observâncias do templo, bem como os sacerdotes, as
vestimentas e até mesmo o edifício em si, tinham um significado emblemático, parece que o
canto misturado com a música de vários instrumentos de som também era tipológico e
cerimonial.

Em um argumento contundente contra o uso da música instrumental no


culto da igreja cristã, o Rev. Dr. Alexander Blaikie, um ministro americano,
diz[35]:
Esses [instrumentos musicais] perduraram no serviço do templo de Jeová enquanto “o
primeiro tabernáculo ainda estava de pé”, e não mais; pois assim que o caminho para o mais
santo de todos fosse manifesto (Hb 9:8, a escravidão ― sempre amada ― dos judeus), esses
“elementos fracos e miseráveis” devem do culto a Deus ser para sempre eliminados. Aquele em
quem “habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” tirou toda “a escrita de ordenanças
que era contra nós, cravando-a na sua cruz”. Os instrumentos de música no culto a Deus haviam
cumprido sua missão, em comum com o sangue de touros, de cabras e as cinzas de novilhas, e
eles terminaram seu curso quando Jesus morreu. O soar de “chifre de carneiro” e outras “coisas
sem vida que transmitem som” já não têm um lugar de aceitação no culto de Jeová. O
cerimonial, sentimental e ritual em seu culto para sempre deixou de ser designado por e aceitável
a Deus quando aquele que “falou como nunca o homem falou” exclamou: “Está consumado”.

Em sua resposta à declaração do Rev. Dr. Ritchie, submetido ao


Presbitério de Glasgow em favor da introdução de um órgão na Igreja de St.
Andrew, Glasgow (o caso foi decidido em maio de 1808, adversamente ao
Dr. Ritchie), o Rev. Dr. Porteous observa:
Parece ser reconhecido por todas as descrições dos cristãos, que, entre os hebreus, a música
instrumental no culto público a Deus era essencialmente conectada com o sacrifício — com o
sacrifício matutino e vespertino, e com os sacrifícios a serem oferecidos em dias grandiosos e
solenes. Mas como todos os sacrifícios dos hebreus foram completamente abolidos pela morte de
nosso bendito Redentor, assim também a música instrumental [...], estando tão intimamente
conectada com o sacrifício e pertencendo a um serviço que era cerimonial e tipológico, deve ser
abolida com esse serviço; e não podemos ter nenhuma autorização para lembrá-la na igreja cristã
mais do que temos para usar outros ritos revogados da religião judaica, da qual ela é uma
parte[36].
Este capaz e judicioso teólogo, Dr. Ridgley, fala muito expressamente
não apenas da natureza tipológica da música instrumental empregada no
templo, mas daquilo que foi designado para tipificar. Ele diz:
Pode-se observar que, por mais que o uso de instrumentos musicais, que estavam nesse
culto, possa ser concluído como sendo particularmente adaptado àquela dispensação, naquilo que
eram tipológicos daquela alegria espiritual que a igreja do evangelho deveria obter por Cristo;
ainda a ordenança do canto continua a ser um dever, conforme fundamentado na lei moral[37].

À objeção de que “aqueles argumentos que foram retirados da prática


da igreja do Antigo Testamento para provar que o canto é uma ordenança
podem, com igual justiça, ser alegados para provar o uso da música
instrumental”, ele responde:
Embora muitas vezes leiamos sobre a música sendo usada para cantar os louvores a Deus
sob o Antigo Testamento, ainda se o que foi dito a respeito de ser um tipo daquela alegria
espiritual que acompanha nosso louvor a Deus pelo privilégio da redenção que Cristo adquiriu
for verdadeiro, então essa objeção parecerá não ter peso, já que esse tipo é abolido juntamente
com a lei cerimonial[38].

Ouvi dizer que a opinião sustentada de que a razão pela qual essa
música não estava em uso no culto da sinagoga era porque ela envolveria
uma violação da lei que ordenava o dia de Sabbath a ser mantido santo; que
ela requeria uma espécie de labor que, como não era necessário, violaria o
mandamento de abstenção de todo trabalho desnecessário naquele dia. E, em
apoio a essa visão, afirma-se que a música instrumental era permitida e, na
verdade, era empregada nos dias de semana entre os Sabbaths. Em resposta
eu diria:
Em primeiro lugar, a alegação de que a música instrumental foi usada
nos dias da semana na sinagoga antes do início da dispensação cristã precisa
ser confirmada. O fato de que tal prática existe agora, ou tem existido há
muito tempo, nada prova. O racionalismo e o indiferentismo de muitos dos
judeus modernos seriam suficientes para explicar o fato, assim como esse
temperamento heterodoxo oferece uma explicação do emprego de órgãos no
culto da sinagoga, mesmo no Sabbath.
Em segundo lugar, se a alegação fosse verdadeira, não estabeleceria
nada em oposição à opinião mantida nesta discussão. Pois, durante a
dispensação mosaica, os judeus sempre manifestaram uma tendência a
desobedecer aos mandamentos divinos e a desprezar as ordenanças divinas,
na afirmação de sua própria vontade e na gratificação de seu próprio gosto —
uma disposição que frequentemente os incitava à adoração idólatra
flagrantemente. E, contudo, depois que a exposta idolatria do cativeiro
babilônico cessou, a mesma disposição continuou e suscitou a repreensão
administrada por Cristo aos escribas e fariseus por invalidarem os
mandamentos de Deus pelas tradições humanas. A lei oral sobrepôs à escrita,
a tradição substituiu a Bíblia.
Além disso, pode-se questionar se esse suposto culto de um pequeno
número de pessoas em uma sinagoga nos dias da semana poderia ser
colocado na categoria de culto solene, formal e público, como a que se obtém
nos dias do Sabbath.
Em terceiro lugar, admite-se que a música instrumental não foi
empregada na sinagoga no Sabbath. A razão atribuída é que teria sido
infringida a lei do Sabbath, que exigia a cessação de todo trabalho
desnecessário. Ora, surge a pergunta: como, em vista dessa lei, ela foi
empregada no templo no Sabbath? A resposta dada é que Deus, nesse caso,
por Sua autoridade, relaxou o rigor do quarto mandamento e garantiu um
trabalho que de outra forma seria injustificável. Eu replico:
Um relaxamento da lei sabática, em favor dos serviços do templo, não
é aceitável. Tudo o que era necessário ou adequado, de acordo com a
indicação de Deus, para a observância de Seu culto, estava previsto naquela
lei. Não era necessário que Deus dispensasse Sua própria autoridade para
garantir o cumprimento dela.
Além disso, se, de acordo com a suposição, Deus relaxou Sua lei em
um caso, a questão é: por que Ele não relaxou em outro? Se para o templo,
por que não para a sinagoga? A mesma autoridade era suficiente para o
relaxamento no último caso, assim como no primeiro.
Mas essa hipótese de um relaxamento da lei sendo descartada, a
questão retorna: por que a música instrumental não foi empregada no Sabbath
na sinagoga, como no templo? A resposta é: porque Deus assim não ordenou.
Ele ordenou que fosse usado no templo; Ele não ordenou, como poderia ter
ordenado, que ela fosse usada na sinagoga. Ora, por quê? Deve haver uma
razão adequada para a diferença. Qual foi ela? A única resposta que parece
fornecer uma solução para a dificuldade é que o culto do templo era
tipológico, o da sinagoga, não. O emprego de tipos na sinagoga teria
contrariado a própria ideia do templo. A razão da singular e excepcional
existência do último era que ele envolvia um serviço tipológico. Ter tornado
os tipos comuns teria subvertido o templo.
O argumento pode se tornar ainda mais claro testando-o na instância
dos sacrifícios. Eles eram oferecidos no templo no Sabbath. Por que não eram
oferecidos na sinagoga naquele dia? O próprio judeu alegará que a razão era
que a lei do Sabbath teria sido violada? Ele mesmo admitirá que os
sacrifícios, enquanto tipológicos, só poderiam ter sido oferecidos no templo.
Se ele negar, ele nega o significado dos sacrifícios e o espírito da religião
judaica. Assim foi com todos os tipos, incluindo a música instrumental. Diria
ele que os sacrifícios eram permissíveis na sinagoga em dias que não os do
Sabbath? Diria ele que tal prática foi alguma vez realmente estabelecida? Ele
deve encontrar, então, outra razão pela qual os sacrifícios não foram
oferecidos na sinagoga no Sabbath além da infração da lei sabática que eles
teriam desempenhado. O mesmo argumento vale para a música instrumental.
Mas a questão aqui é com o judeu, e a tentativa de convencê-lo sem a
concordância da graça todo-poderosa seria tão eficiente quanto um esforço
para reduzir Gibraltar com um argumento[39].
Foi provado por essa linha especial de argumento que, em
consequência da ausência de um comando divino justificando seu uso, a
música instrumental não foi incluída no culto da sinagoga; que, como Cristo,
o procurador da redenção, foi prometido, assim também o Espírito Santo, o
aplicador da redenção, foi prometido no Antigo Testamento; que toda a
salvação, pelo sangue e pela água, foi revelada em suas declarações didáticas,
suas profecias e seus tipos; que os elementos do serviço do templo, que não
foram adotados na sinagoga, eram tipológicos; que alguns deles eram
tipológicos do Espírito Santo e os efeitos a serem produzidos por Sua graça
nos tempos do Novo Testamento; e que, entre eles, a música instrumental
deve estar classificada. De tudo isso, segue-se primeiro que trazer para a nova
dispensação as características do culto que pertenciam ao templo, e não à
sinagoga, é mais injustificável em nós do que a importação dos elementos
distintivos do culto do templo na sinagoga teria sido para os judeus; segundo,
que, como os tipos do Espírito Santo no serviço do templo são cumpridos em
Sua aplicação aos crentes dos benefícios de uma redenção adquirida, retê-los
na igreja cristã é tanto desonrá-lO quanto reter sacrifícios sangrentos que
desonrariam a Cristo; e, em terceiro lugar, que, portanto, como a música
instrumental no culto do templo era um desses tipos, seu emprego nos
serviços públicos da igreja cristã é, ao mesmo tempo, injustificável e
desonroso para o sempre bendito Espírito.
4. A todo esse argumento derivado do Antigo Testamento, é
triunfantemente objetado que os Salmos exortam todos os homens a
louvarem a Deus com instrumentos de música e que foram designados para
serem cantados em todas as épocas da igreja. A objeção é tão fútil quanto
popular.
Em primeiro lugar, por que Davi, que foi um dos principais autores
dos Salmos, não apresentou uma música instrumental no culto do
tabernáculo? A resposta é que ele não foi divinamente ordenado a fazê-lo.
Por que Moisés, que era um salmista talentoso, e que ouviu o som
empolgante de tamboris no grande regozijo sobre o desconcertado exército de
Faraó na costa do Mar Vermelho, não incorpora esse tipo de música como
um acompanhamento do canto naquela adoração? A resposta é: porque ele
não tinha autorização divina para tal medida.
Vimos que Davi, por ordem divina, preparou instrumentos de música
e os orientou a serem usados no templo quando esse edifício fosse erguido.
Ele não teria o direito de dar esse passo se não tivesse sido inspirado e
ordenado a fazê-lo por Deus, o único que possuía a prerrogativa para ditar o
modo pelo qual Ele deveria ser adorado. Também merece indagação se algum
dos salmos atribuídos a Davi, nos quais os instrumentos musicais são
mencionados, há alguma referência a seu emprego no culto público da casa
de Deus. Que aqueles que costumam pleitear a autoridade de seu nome
examinem os Salmos 57, 108 e 144 e descubram neles, se puderem, algo
mais do que referências a seu culto individual. O 81 é atribuído a Asafe, e
pode muito bem ter sido composto após a dedicação do templo.
Também pode ser observado, enquanto esse Salmo [81] está sob
observação, que o argumento derivado dele em favor do uso inicial de
instrumentos musicais pelos israelitas não tem valor. As palavras são:
Tomai um salmo, e trazei junto o tamborim, a harpa agradável com o saltério. Tocai a
trombeta na lua nova, no tempo designado, em nosso solene dia de festa. Pois este foi um
estatuto para Israel, e uma lei do Deus de Jacó. Isto ele ordenou em José por testemunho, quando
ele saiu pela terra do Egito [v.1-5].

O estatuto, lei, ordenança, aqui mencionado manifestamente


relaciona-se especialmente com a festa da Páscoa, que, quando ocorria na lua
nova, era observada com o solene soar de trombetas, como mostra a
passagem paralela: Êx 13:8,9,14-16. Se isso não for considerado satisfatório,
que o estatuto, lei ou ordenança, seja apontado, o qual reforçava o uso de
tamboris, harpas e saltérios aos israelitas em conexão com o seu êxodo do
Egito. Até que isso seja feito, a vaga afirmação não valerá de nada.
O Salmo 92 é anônimo e refere-se ao culto individual. O 53, que é
anônimo, não está necessariamente relacionado ao culto público. O 98, 149 e
150 também são anônimos, e, enquanto convocam todas as criaturas a
louvarem a Deus, não pode ser provado ter referência ao culto público de Sua
casa. Mas, se o fazem, na medida em que inculcam o uso de instrumentos,
relacionam-se com um culto cerimonial e tipológico.
A menos que, portanto, o culto do templo, somente no qual esse tipo
de música como acompanhamento do canto no culto público era divinamente
autorizada, possa ser legitimamente trazido para a dispensação do Novo
Testamento, o apelo aos Salmos em favor de instrumentos no culto público
da igreja cristã é destituído da menor força.
Em segundo lugar, o argumento a partir dos Salmos contradiz a
realidade e, portanto, não tem valor. No Salmo 51, que tem sido em todos os
séculos desde a sua incorporação ao cânon sagrado um veículo para expressar
as confissões penitenciais do povo de Deus, Davi ora:
Purifica-me com hissopo, e serei limpo; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve.

O hissopo mergulhado no sangue do cordeiro pascal era usado para


borrifar as ombreiras e as vergas das portas dos israelitas, como um sinal de
sua salvação da desgraça que se abateu sobre os primogênitos do Egito, e
como um tipo de maior libertação para os israelitas a ser realizado depois
pelo Cordeiro designado por Deus (Êx 12:21-24). Também foi empregado em
conexão com a purificação do leproso (Lv 14) e com o sacrifício queimado
da novilha ruiva fora do acampamento (Nm 19). No Salmo 50, o Senhor,
dirigindo-se a Israel, diz:
Eu não te reprovarei pelos teus sacrifícios ou pelas tuas ofertas queimadas, que estão
continuamente diante de mim.

E, na conclusão do Salmo 51, Davi, depois de orar para que Deus fizesse
o bem em Seu bom prazer a Sião, e construísse os muros de Jerusalém,
exclama:
Então te agradarás com os sacrifícios de justiça, com a oferta queimada e a oferta queimada
por inteiro; então oferecerão novilhos sobre o teu altar.

Embora essas passagens se refiram parcialmente à limpeza individual,


não se pode negar que elas, muito mais claramente do que as citadas em favor
da música instrumental, estão relacionadas ao culto público da casa de Deus.
Se, ora, o argumento é válido, o qual é derivado dos Salmos em apoio ao uso
de instrumentos no culto público da igreja cristã, ele também sustenta a
justificação da oferta de sacrifícios sangrentos naquele culto. O absurdo da
consequência refuta completamente o argumento.
A única maneira pela qual posso conceber que uma tentativa pode ser
feita para evitar o ponto desta consideração fatal é por sustentar que os
sacrifícios do culto antigo eram tipos que foram abolidos em consequência de
seu cumprimento por Cristo, o grande sacrifício expiatório, mas essa música
instrumental não era tipológica e, portanto, permanece. Pode-se ver agora
porque o argumento anterior, para provar o caráter tipológico da música
instrumental como parte do culto do templo, foi tão elaboradamente afirmado
e sustentado por uma longa catena [cadeia] de autoridades. Se esse
argumento foi conclusivo, esse método de fuga de nada vale.
Apenas o que era genérico, essencial e permanente no culto do antigo
povo de Deus passa para a nova economia; o que era específico, acidental e
temporário desapareceu com a velha; e foi demonstrado por provas
conclusivas que, a este último tipo de culto, a música instrumental deve ser
atribuída. Foi um ambiente temporário pelo qual aprouve a Deus cercar o
cântico de Seu louvor e, como era tipológico, foi despojado por seu
cumprimento na copiosa efusão do Espírito Santo e pelos efeitos gloriosos de
sua graça na aplicação da expiação consumada de Cristo. Nós somos cristãos.
Somos judeus, se crentes, “interiormente”, como Paulo declara; judeus
enquanto somos a semente espiritual de Abraão e participamos de sua fé;
enquanto possuímos, pelo menos temos o direito de possuir, e de possuir
mais plenamente, os benefícios desse imutável pacto da graça que, em suas
provisões essenciais, foi administrado nas dispensações patriarcais e
mosaicas, é administrado na cristã e, na celestial, é administrado “em todas as
gerações, para todo o sempre”. Não somos judeus, como diz o mesmo
apóstolo, “exteriormente”: não judeus por descendência carnal ou linhagem
nacional, não somos vinculados às promulgações positivas da lei cerimonial,
não somos sujeitos às provisões acidentais, os elementos específicos,
peculiares, tipológicos que constituíam a concha temporária daquele pacto
imutável.
Esse argumento a partir das Escrituras do Antigo Testamento
contradiz vastamente a realidade. Aqueles que mais urgentemente insistiram
nisso têm agido com coerência lógica ao importar os sacerdotes para a igreja
do Novo Testamento; e, como sacerdotes pressupõem sacrifícios, eis o
sacrifício da Missa! A música instrumental pode não parecer estar sobre o
mesmo pé de igualdade com aquela monstruosa corrupção, mas o princípio
que delineia a ambos é o mesmo; e isso quer estivermos contentes com um
único instrumento, a corneta, o baixolão, o órgão, quer mantenhamos um
desenvolvimento natural para a arte orquestral, as cúpulas da catedral e toda a
magnificência espetacular de Roma. Somos cristãos e somos falsos para com
Cristo e para com o Espírito da graça quando recorremos ao rito abolido e
proibido do templo judaico.
III. O ARGUMENTO A PARTIR DO
NOVO TESTAMENTO
Vimos, através de um exame das Escrituras do Antigo Testamento,
que, durante toda a dispensação mosaica, este grandioso princípio exerceu
uma influência controladora — que, naquilo que interessa ao culto público de
Sua casa, tudo o que Deus ordena é observado, e tudo o que Ele não ordena é
proibido. Sob a execução desse princípio, a música instrumental, como
acompanhamento do canto de louvor, estava excluída no tabernáculo durante
quase todo o período de sua existência, e também na sinagoga, e foi
introduzida no templo em consequência de uma autorização divina
expressamente fornecida para tal causa. Chegamos agora à consideração do
Novo Testamento, e a questão é: Cristo, o Rei da igreja, proibiu a introdução
da música instrumental em Seu culto público? Que Ele proibiu será mantido
pelos seguintes motivos:

1. Aquilo que era peculiar e característico do culto do templo judaico


foi abolido.
Essa é a visão geral da igreja cristã, mas tem sido ridicularizada por
infiéis, e contrariada, em parte, por alguns preladistas: ridicularizada pelos
primeiros porque se pressupõe uma mudança nos decretos divinos e infere-se
a admissão da mutabilidade[40] de Deus; pelos últimos, porque buscam
justificativa para introduzir na igreja cristã uma classe de oficiais e uma
ordem de culto que pertencia ao templo judaico. É curioso que essa questão
seja raramente discutida em sistemas de teologia e história da igreja. Não
será, portanto, infundado indicar algumas das razões que justificam a visão de
que aquilo que era peculiar ao culto do templo foi revogado. Isso pode ser
inferido a partir:

(1) Da natureza do caso. É admitido que alguns dos elementos do


serviço do templo eram tipológicos. Enquanto os judeus negam que tenham
concretizado seu cumprimento em seus antítipos correspondentes, os cristãos
afirmam-no. Estes últimos, consequentemente, devem sustentar que os tipos,
não enquanto objetos de estudo, mas enquanto elementos de religião a serem
observados, desvaneceram. Os antítipos, enquanto realidades substanciais
próximas no futuro, lançaram suas sombras para trás deles Eles foram
brevemente esboçados nessas sombras. Quando, no decorrer do tempo, as
próprias substâncias fossem atingidas, que necessidade haveria de seguir a
orientação das sombras?
Tomando outra visão, indicada também pelas Escrituras, os tipos
eram profecias e promessas apresentadas concretamente, e não meramente
em palavras, ao antigo adorador. Eles eram manifestações reais na esfera
singular do propósito da redenção e da segura Palavra de profecia. Mas as
coisas profetizadas e prometidas foram realmente realizadas e estão agora em
posse do adorador cristão. A história, por um lado, e uma experiência
presente contínua, por outro, tomaram o lugar da profecia e promessa.
Ou seja, os elementos peculiares do serviço do templo eram
representações figurativas de realidades futuras, de realidades não conhecidas
pela experiência. Qual a necessidade das figuras quando os objetos reais são
experimentalmente conhecidos? Uma planta ou mapa topográfico do
agrimensor é de grande valor para quem deseja comprar, mas não pode
examinar, um pedaço de terra. Quando está sob sua posse realmente, ele o
olha com seus próprios olhos, e a planta não é mais uma necessidade. A
figura de uma pessoa que alguém nunca viu, mas deseja ver, é preciosa até
que o conhecimento efetivo ocorra. Por que estudar a fotografia quando
alguém olha para o rosto da própria pessoa? A partir da natureza da questão,
então, os elementos característicos do culto do templo já desvaneceram. Eles
expiraram por sua própria limitação.

(2.) Das declarações da Escritura. Vamos seguir a ordem dos


escritos do Novo Testamento e selecionar alguns dos testemunhos que eles
fornecem.
Primeiro, encontramos o cântico de Simeão, que, quando tomou o
menino Jesus em seus braços, “bendisse a Deus, e disse: Senhor, agora
despedes o teu servo em paz, de acordo com a tua palavra; porque os meus
olhos têm visto a tua salvação” [Lc 2:29b-30]; e as palavras da profetisa Ana,
que “deu graças ao Senhor, e falava dele a todos os que aguardavam a
redenção em Jerusalém” [Lc 2:38].
Em segundo lugar, o Batista, apontando para Jesus como que com o
dedo indicador da antiga economia, exclamou: “Eis o Cordeiro de Deus, que
tira o pecado do mundo” [Jo 1:29]. Veja! Lá está Ele, o Cordeiro provindo e
designado por Deus, o grande sacrifício expiatório, que foi tipificado por todo
cordeiro sacrificado no tabernáculo e no templo.
Em terceiro lugar, “Filipe encontra a Natanael, e lhe diz: Nós
encontramos aquele de quem escreveram Moisés na lei, e os profetas: Jesus
de Nazaré, filho de José” [Jo 1:45]. E quando Natanael, convencido de Seu
messianismo, proferiu a confissão: “Rabi, tu és o Filho de Deus; tu és o Rei
de Israel”, Jesus recebeu a confissão e confirmou o testemunho.
Em quarto lugar, “depois que João foi encarcerado, veio Jesus para a
Galileia, pregando o evangelho do reino de Deus, e dizendo: O tempo está
cumprido, e o reino de Deus está próximo” [Mc 1:14]. Mais uma vez Ele
disse: “E nenhum homem põe vinho novo em odres velhos; do contrário, o
vinho novo romperá os odres e se derramará, e os odres se perderão. Mas
vinho novo deve ser posto em odres novos, e ambos são preservados”; pelo
qual evidentemente ensinava que, como a nova dispensação estava prestes a
começar, Seu espírito transcenderia as formas da antiga e exigiria sua
abolição. Em Suas últimas palavras, “Está consumado”, Jesus, cumprindo
realmente os tipos da antiga economia, pronunciou a sua abolição. Todo o
trabalho mediador na Terra foi completado, e todas as figuras foram
substituídas pela realidade. Depois de Sua ressurreição, em reprovação à
incredulidade de Seus discípulos, Ele disse:
Ó tolos, e tardos de coração para crerdes em tudo o que os profetas falaram! Não convinha
que o Cristo sofresse essas coisas e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés e por todos
os profetas, explicou-lhes em todas as escrituras as coisas a seu respeito [Lc 24:25b-27].

Há três aspectos nos quais a necessidade que Cristo aqui afirma para
os Seus sofrimentos e Sua glorificação pode ser considerada.
Primeiro, havia uma absoluta necessidade, no pressuposto de uma
livre determinação da parte de Deus em salvar pecadores, que uma expiação
competente por sua culpa devesse fundamentar sua reconciliação com Ele, de
forma consistente com Suas infinitas perfeições — Sua justiça, verdade e
santidade.
Segundo, havia uma necessidade de que o substituto legal, que
morreria pela expiação da culpa, fosse um sacerdote, não apenas para
evidenciar com perfeita clareza Sua própria livre e alegre suscetibilidade à
grande tarefa, e para ser qualificado pela experiência real a fim de simpatizar-
se com o Seu povo em sofrimento, mas também para providenciar, pelos
ofícios de um Ministro de culto infinitamente meritório, o acesso dos
pecadores a Deus e a aceitação de suas orações e louvores.
Mas, em terceiro lugar, havia uma necessidade quanto ao
cumprimento dos tipos e profecias do Antigo Testamento, e há pouca dúvida
de que foi principalmente sobre esse ponto que o Senhor Jesus insistiu em
Sua conversa com os discípulos em seu caminho para Emaús. As instituições
legais e cerimoniais de Moisés e os escritos promissórios dos profetas, Ele
expôs como tendo referência a Si mesmo e, portanto, praticamente declarou
que todos eles haviam sido cumpridos, na medida em que se relacionavam
com Seus sofrimentos e obra expiatória, ou estavam em processo de
realização, na medida em que eles apontavam para Sua entrada em Sua glória
— Sua ascensão ao céu, Sua reunião ao trono, Sua intercessão, Sua
comunicação do Espírito Santo e Sua segunda vinda para completar a
redenção de Seu povo e para julgar os vivos e os mortos.
Mas uma promessa cumprida deixa de ser uma promessa, e um tipo
realizado em seu antítipo não é mais um tipo — seu ofício potencial expira
necessariamente. É evidente, portanto, a partir do discurso atribuído pelo
evangelista ao nosso Senhor, que os elementos peculiares e característicos do
culto do templo, na medida em que prefiguravam uma expiação futura pelo
sacrifício sacerdotal, haviam sido revogados, e, na medida em que
representavam uma futura efusão do Espírito Santo, em breve seriam ab-
rogados.
Em quinto lugar, no dia de Pentecostes, Pedro declarou que o
maravilhoso derramamento do Espírito Santo, que foi então vivenciado, era o
cumprimento de uma profecia de Joel. O pregador apostólico explicou tal
cumprimento, dizendo:
A este Jesus, Deus o ressuscitou, do qual todos nós somos testemunhas. Portanto, tendo sido
exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, ele
derramou isto que vós agora vedes e ouvis [At 2:32-33].
Ora, não somente a morte e a glorificação de Cristo estavam
associadas à efusão do Espírito nas profecias, mas elas também estavam
associadas umas às outras nos tipos do templo. Ambas as classes de
representações prospectivas, a profética e a tipológica, nesse seu duplo
significado, foram cumpridas. Vimos, além disso, que a festa de Pentecostes,
que era um elemento constituinte dos serviços do templo, era tipológica da
copiosa efusão do Espírito Santo, e foi precisamente no dia de Pentecostes
que ela encontrou cumprimento conspícuo. O que deveríamos concluir senão
que, como os tipos da morte e da exaltação de Cristo necessariamente
expiraram, o mesmo aconteceu com aqueles que prefiguravam o
derramamento do Espírito Santo? Em resposta a isso, pode ser dito que a
profecia citada por Pedro teve apenas um cumprimento parcial, porém
glorioso, no dia de Pentecostes e continua sendo uma predição de copiosas
efusões do Espírito, e assim os serviços do templo que carregam a mesma
comunicação contínua de Sua graça podem ser legitimamente empregados até
que a consumação seja alcançada. O que é verdade sobre as profecias pode
ser verdadeiro para os tipos.
Mas, em primeiro lugar, o mesmo seria válido com referência ao
contínuo processo da obra intercessora de Cristo no céu. Ora, isso foi
certamente tipificado pela oferta de incenso do sumo sacerdote no santo dos
santos judaicos. O argumento, se vale alguma coisa, serve para mostrar que
as representações tipológicos da intercessão de Cristo ainda podem ser
mantidas na igreja. Qual seria a consequência? Isto: que muito do serviço do
templo, enquanto tipificava a morte sacrificial de Cristo, foi ab-rogado e
desapareceu, e muito do que pertencia à Sua intercessão, como ainda não
completada, ainda pode ser legitimamente empregado. Ou seja, um serviço
que Deus fez um grande todo, pode agora, a critério da igreja, ser dividido em
dois — uma parte descartada e uma parte retida. Nenhuma mente protestante
sóbria poderia ter tal visão. Nem ainda, por razões semelhantes, poderia
tolerar a permanência daqueles serviços tipológicos que prenunciavam a
contínua efusão do Espírito Santo.
Ou todo o serviço do templo ou nenhum — essas são as alternativas
às quais a igreja cristã foi reduzida. A última opção foi escolhida, e foi
reservado para Roma e para os episcopais da alta igreja, que concordam com
ela [isto é, com Roma] em seguir um meio-termo não pretendendo reter
sacrifícios sangrentos, divorciar o que Deus uniu e perpetrar a solene
zombaria de um ritual de templo mutilado.
Em segundo lugar, o próprio templo era um tipo de Cristo e Seu
trabalho mediador. Mas foi cumprido o seu ofício tipológico e deixou de
existir. Manter uma parte de seus serviços é pressupor a existência
ininterrupta do templo, pois Deus nunca autorizou a utilização desses
serviços, exceto em conexão direta com aquela estrutura particular depois que
o tabernáculo havia sido substituído pelo templo por Sua direção inspirada.
A força dessa consideração é reconhecida pelos próprios judeus, que
não pretendem oferecer sacrifícios sangrentos em outros lugares. Se a
catedral toma o lugar do templo, teríamos muitos edifícios sagrados, em
muitos lugares diferentes, substituindo o único templo que existiu por
nomeação divina, para o qual as tribos de Israel e prosélitos de países
distantes se estabeleciam para celebrar os grandes festivais tipológicos. Se
pudermos ter apenas um substituto para ele, qual delas será? Será a [Catedral]
de São Pedro? E deve todo o mundo ir àquela montanha para cultuar, quando
Jesus Cristo disse que nem no Monte Gerizim nem no Monte Moriá os
homens seriam obrigados a adorar? Jesus assim declarou que a promulgação
positiva que exigia o culto cerimonial no templo judaico está ab-rogada; e o
Novo Testamento é absolutamente silencioso em relação a qualquer
transferência para a igreja cristã dos serviços peculiares àquela construção.
Em terceiro lugar, embora as profecias contidas no Antigo
Testamento ensinassem uma comunicação contínua do Espírito até o
estabelecimento completo do reino mediador de Cristo na Terra, ainda assim
elas mesmas foram finalizadas quando proferidas. Assim também com os
tipos que prefiguram o mesmo. Poderíamos, de forma garantida, tanto
acrescentar a essas profecias novas predições, pois não tiveram uma
realização consumada, quanto continuar a fazer uso dos tipos, pois não
tiveram uma realização exaustiva. Ambos os exemplos de representações
prospectivas foram limitados pela vontade de Deus, e a tentativa de reinstitui-
los, ou dar prosseguimento a eles, pela vontade do homem, seria violar a
prerrogativa de Deus e desobedecer à autoridade de Deus.
Em quarto lugar, a efusão do Espírito Santo já foi parcialmente
desfrutada no passado pela igreja e é em parte agora desfrutada pela igreja, e
perpetuar serviços que a tipificam seria ao mesmo tempo confundir um tipo
que tenha referência ao futuro com um símbolo comemorativo do passado e
observar o tipo no exato momento em que o antítipo está de fato manifesto.
Ambos os casos resultariam em contradição e absurdo.
A verdade é que o glorioso, embora parcial, cumprimento das
profecias e tipos semelhantes da antiga dispensação constitui um penhor,
definido e suficiente, de sua exaustiva realização no futuro. Se for dito que o
Novo Testamento contém profecias próprias no tocante ao futuro progresso
do reino de Cristo, a resposta é fácil: elas foram terminadas e seladas com a
conclusão do cânon sagrado, e, a menos que a igreja tenha o direito,
fornecido por nova inspiração, de criar acréscimos substantivos às Escrituras,
as quais Deus declara perfeitas, ela já não tem autoridade para proferir
profecias, no sentido estrito. Pode ser perguntado: onde estão os tipos
peculiares ao Novo Testamento? Estamos apontando para o batismo e para a
ceia do Senhor? Que seja provado que são tipos; e se isso pudesse ser
provado, tudo o que seria estabelecido é que a igreja está restrita somente a
eles, e o apelo por rituais sacerdotais de serviços tipológicos seria cortado
pelas raízes.
A tudo isso, poder-se-ia responder que o que se discute é se a igreja
cristã está autorizada, pela observância de serviços análogos aos do templo
judaico, a comemorar os eventos ilustres do passado de sua história. Onde
está a autorização? Temos uma autorização divina para a observância do dia
do Senhor. Temos uma autorização divina para a observância dos dois
sacramentos do batismo e da ceia do Senhor. Que outros dias somos
ordenados a santificar? Quais outras ordenanças simbólicas somos
comandados a observar? Assumir que a igreja tem um poder discricionário
para designar outros dias santos e outros rituais simbólicos é conceder à
Roma a legitimidade de seus cinco sacramentos supérfluos e toda a
parafernália de festivais sagrados planejados por ela. Não há meio-termo. Ou
estamos vinculados pelas designações do Senhor em Sua Palavra ou o poder
de decisão humana logicamente autoriza a completa licenciosidade de Roma.
Em sexto lugar, o discurso de Estevão diante do Concílio Judeu. Esse
discurso do ilustre protomártir da igreja cristã deve sempre ser considerado
como uma das mais fortes provas bíblicas da abolição do culto do templo;
mas, uma vez que ele será considerado como um dos elementos no
argumento direto contra o uso da música instrumental no culto público, seu
exame será, no presente, adiado.
Em sétimo lugar, o decreto do Sínodo de Jerusalém. Certos mestres
judaizantes que foram da Judeia a Antioquia “ensinavam aos irmãos e
diziam: A menos que sejais circuncidados, conforme o método de Moisés,
não podeis ser salvos” [At 15:1]. Isso levantou toda a questão sobre a
conformidade com as instituições da lei cerimonial pela igreja cristã. Essa
questão foi deixada à decisão dos apóstolos e anciãos em Jerusalém. Paulo e
Barnabé eram os comissários. Eles expuseram o caso perante um sínodo
reunido. O decreto daquele corpo, que foi enviado às igrejas dos gentios, foi:
Que vos abstenhais de alimentos oferecidos aos ídolos, e do sangue, e das coisas
estranguladas, e da fornicação; resguardando-vos dos mesmos, fareis bem. Que passem bem [At
15:29].

A ausência significativa de qualquer alusão, explicitamente feita, à


questão sobre a lei cerimonial foi manifestamente equivalente a uma decisão
de que não era necessário que as igrejas devessem estar de acordo com as
exigências daquela lei. Isso equivalia a um julgamento de que as instituições
mosaicas, na medida em que eram cerimoniais e tipológicas, não eram mais
obrigatórias. Naturalmente, segue-se que o venerável sínodo considerou que a
observância do culto do templo não era mais obrigatória e eximiu as igrejas
gentias do dever de aderir a quaisquer de seus elementos que fossem
característicos da antiga dispensação[41]. Supor que aquelas igrejas, depois de
tal exoneração, tinham poder discricionário para reter os serviços do código
cerimonial, é supor que elas poderiam, a seu critério, abandonar a liberdade
que tinham em Cristo e retomar ao jugo de Moisés. A suposição é absurda.
Como o grande corpo da igreja cristã foi reunido a partir dos gentios, a
inferência é óbvia.
Em oitavo lugar, os discursos de Paulo em sua última visita a
Jerusalém. A acusação que foi feita contra ele foi esta: “Este é o homem que
por todas as partes ensina a todos homens contra o povo, a lei e este lugar!”
[At 21:28]. Se a acusação fosse ainda parcialmente falsa, de que ele ensinava
contra a lei e o templo, o primeiro passo de defesa de Paulo consistiria,
evidentemente, em negá-la. Essa negação ele não fez. Como o fato pode ser
explicado a não ser pelo fundamento de que Paulo estava bem ciente de que
tanto o templo quanto seus serviços peculiares estavam condenados? Ele
sabia da predição de Jesus de que o edifício seria destruído, e ele tinha uma
razão especial para lembrar a defesa de Estêvão diante do Concílio, na qual
aquele servo de Cristo sustentava que todo o ritual tipológico daria lugar à
sublime simplicidade do culto que caracterizaria a nova dispensação. Que o
próprio Paulo ocasionalmente cultuava no templo era uma mera questão de
conveniência. Se ele tomou parte em suas observâncias cerimoniais e
tipológicas não há provas para se mostrar. De fato, sem qualquer afirmação
sobre o assunto, não pode ser levantada a questão se, após o dia de
Pentecostes, quando a dispensação cristã foi inaugurada, os apóstolos não
cometeram, enquanto homens, um erro em cultuar no templo. É difícil
acreditar que Estevão teria cultuado lá.
Em nono lugar, o argumento da Epístola aos Hebreus é decisivo.
Primeiro, ele mostra que os sacerdotes araônicos e os ministros levitas
desapareceram, tendo sido substituídos por um sacerdote segundo a ordem de
Melquisedeque, que ofereceu um sacrifício perfeito e vive para sempre a fim
de interceder por Seu povo e consumar a obra de redenção. Se não há
sacerdotes e levitas para oficiar, como é possível continuarem os serviços do
templo? Dizer que eles são sucedidos por ministros cristãos é simplesmente
contradizer o argumento do escritor inspirado.
Em segundo lugar, o argumento prova expressamente que o culto do
templo foi abolido. Depois de declarar o fato de que a primeira aliança [ou
seja, a dispensação judaica[42]] tinha “ordenanças de serviço divino, e um
santuário terrestre” [9:1], e de especificar as coisas contidas e os ofícios
realizados no último, declara que “o primeiro tabernáculo” [v.8] — e, por
esse termo, o templo, bem como o próprio tabernáculo, era designado — “foi
uma figura para o tempo então presente” [v.9]; mas que Cristo veio “como
sumo sacerdote das coisas boas que virão, por meio de um tabernáculo maior
e mais perfeito” [v.11]. A figura foi realizada naquilo em que era prefigurada
e, consequentemente, não havia mais qualquer necessidade de seu ensino; de
fato, seu ensino seria totalmente falso e enganoso.
Em terceiro lugar, o argumento mostra que a lei cerimonial, como
mera sombra das coisas boas por vir, era ineficaz para prover a remoção da
culpa da consciência e da santificação da alma. Mas esses fins são agora
assegurados por Cristo através do sacrifício de Si mesmo. Agora não há
necessidade de se aproximar de Deus pelo antigo modo do culto do templo.
Temos a liberdade de nos aproximarmos dEle por um novo e vivo caminho,
que Cristo inaugurou para nós, através do véu; isto é, Sua carne. Sua morte
expiatória cancelou a necessidade do templo e de todas as suas observâncias
cerimoniais e tipológicas.

(3) A providência de Deus resolveu essa questão. Ela efetivamente


aboliu o templo e seus serviços. O Senhor Jesus, antes de Sua morte, predisse
a destruição do próprio templo. Quarenta anos depois de Sua morte, os
romanos destruíram-no. Isso, poder-se-ia dizer, não provaria nada quanto à
legitimidade de se continuar os seus serviços: ele poderia, pelo que sabemos,
ser restaurado. É verdade que o templo foi reconstruído após o cativeiro
babilônico. Isso foi realizado apenas após o fim de setenta anos, e ainda pela
direção de Deus. O Messias não havia chegado, e o ofício tipológico do
templo ainda poderia ser devidamente desempenhado. Mas Ele veio, e o
rasgar do véu, quando Ele expirou, foi o sinal patente da desgraça do templo.
Mais de mil e oitocentos anos se passaram desde a sua destruição, e
ainda não foi reconstruído. Deus nunca direcionou a sua reconstrução, mas,
pelo contrário, por Sua providência, impediu quando houve tentativa. O
imperador Juliano, comumente chamado de Apóstata, fez o esforço e ficou
perplexo de uma maneira extraordinária. Ao falar do que ele chama de “a
interferência miraculosa dos céus, que derrotou a tentativa de Juliano de
reconstruir o templo judaico de Jerusalém”, o Bispo Warburton diz:
Os sacrifícios, constituindo o essencial de seu culto [isto é, dos judeus], não se pode dizer
que a religião deles existiria por mais tempo do que aquela celebração permaneceu. Mas os
sacrifícios não deveriam ser realizados em nenhum lugar fora das paredes de seu templo. De
modo que, quando esse lugar sagrado foi finalmente destruído, de acordo com as previsões
proféticas, a própria instituição foi abolida. Tampouco era algo mais consonante com o espírito
dessa religião do que a designação de tal celebração de seus principais ritos. O templo existiria
enquanto eles permanecessem um povo e continuassem soberanos. E quando sua soberania foi
perdida, o culto do templo se tornou precário e sujeito ao prazer arbitrário de seus senhores. Eles
destruíram esse templo: mas não foi até que tivesse perdido seu uso. Pois os ritos, dirigidos para
lá serem celebrados, eram apenas relativos a eles como um povo politicamente livre.

De modo que isso foi, na realidade, uma extinção total do culto judaico. Quão maravilhosos
são os caminhos de Deus! Isso aconteceu exatamente naquele período em que uma nova
revelação dos céus coincidiu com as transações cegas da política civil, para substituir a lei pela
introdução do evangelho: a última grande obra que completou o esquema da redenção humana.

Confundir essa ordem admirável da providência foi o que induziu o imperador Juliano a
tentar a reconstrução do templo judaico de Jerusalém. A presunção da tentativa só poderia ser
igualada com a sua impiedade; pois foi planejada para atribuir mentira a Deus, que, pela boca de
Seus profetas, predisse que ele nunca seria reconstruído. Essa foi, então, a ocasião mais
importante para uma intervenção miraculosa, enquanto para derrotar essa louca tentativa. E
assim, de fato, ela foi derrotada, para a admiração de toda a humanidade.

Mas, como um relato amplo e completo de todo o caso já foi dado ao público em uma obra
intitulada — Juliano, ou um Discurso sobre o Terremoto e a Erupção de Fogo que derrotou a
tentativa do Imperador de reconstruir o Templo em Jerusalém; refiro-me ao leitor instruído, que
ali reunirá todas as várias evidências do fato, abundantemente suficientes para apoiá-lo e
estabelecê-lo; juntamente com uma completa refutação de todos os sofismas que se opõem à sua
certeza e necessidade.

Poder-se-ia alegar que, embora o templo possa ser irrevogavelmente


destruído, seus serviços sacerdotais podem, em certo sentido, ser transferidos
de uma forma modificada e sob novas condições para a igreja cristã — que o
próprio Novo Testamento autoriza os ofícios de um sacerdócio. Sim, ele
declara que todos os crentes devem ser feitos sacerdotes em Cristo a Deus,
mas sacerdotes enquanto oferecem sacrifícios eucarísticos — sacrifícios de si
mesmos, de suas orações e de sua substância. Nada mais precisa ser dito em
refutação a essa perversão ímpia da Escritura além de que a palavra sacerdote
(iereuj) nunca é, no singular, aplicada no Novo Testamento a qualquer oficial
humano da igreja. Aquele que assume ser oficialmente um sacerdote usurpa a
prerrogativa de Jesus Cristo e audaciosamente invoca Seu juízo. Isso é
suficiente em resposta aos sacerdotalistas que, se não já dentro dos confins de
Roma, precisam apenas expor seus pontos de vista a uma conclusão legítima
a fim de chegarem ao ultraje papista da missa.
Devemos concordar com Warburton ao sustentar que a destruição do
templo, após a morte de Cristo, envolveu a “extinção” de tudo o que era
peculiar e característico ao culto do templo.
A abolição do culto do templo, na medida em que era peculiar à
dispensação judaica, foi agora provada por um apelo à natureza do caso, às
declarações das Escrituras do Novo Testamento e à impressionante
providência de Deus; e como foi antes incontestavelmente mostrado que a
música instrumental foi empregada somente naquele culto, no que diz
respeito aos serviços religiosos públicos do povo de Deus, segue-se que esse
tipo de música é, com essas limitações, abolido, e que seu uso na igreja cristã
é contrário à Palavra e vontade de Deus.

2. O segundo argumento será derivado da reprodução pela igreja


cristã, sob as condições do Novo Testamento, dos princípios essenciais de
política e culto obtidos na sinagoga judaica.
Façamos uma pausa para indicar brevemente os elementos de
diferença e semelhança entre a igreja da nova dispensação e a da antiga.
Os elementos proeminentes pelos quais a igreja cristã era obviamente
distinta da judaica eram:
(1) O verdadeiro advento, morte, ressurreição, exaltação, intercessão
e reinado mediador de Cristo; com todas as consequências que fluíram
daqueles estupendos eventos. A antiga igreja aguardava com expectativa por
todos eles; a nova [igreja] volta seus olhos para trás, para alguns deles,
contempla a outros enquanto continuam a existir e sempre aguarda com
expectativa a segunda vinda do Salvador para completar a redenção de Seu
povo e julgar os vivos e os mortos. Jesus é mais distintamente reconhecido e
adorado como o Rei e Cabeça da igreja, como o Soberano Mediador a cujas
mãos Deus o Pai tem designado domínio sobre todas as coisas no céu, terra e
inferno, do que era possível aos santos do Antigo Testamento.
(2) A influência proveniente da copiosa efusão do Espírito Santo e os
resultados que a acompanham sobre os discípulos e seus companheiros
crentes, ao aumentar maravilhosamente seus dons e graças, e sobre a massa
de incrédulos na convicção de suas mentes e a conversão de suas almas.
(3) A eliminação de tudo o que era cerimonial e tipológico na antiga
dispensação. Apenas duas ordenanças simbólicas são ordenadas por Cristo
para serem observadas: os sacramentos do batismo e da ceia do Senhor. A
simplicidade é o espírito reinante do culto, sendo permitidas apenas aquelas
instrumentalidades externas que forem necessárias para constituir o meio de
sua expressão. Tudo o mais, exceto o batismo e a ceia do Senhor, é
aniquilado.
(4) A exaltação, acentuação e extensão da função de pregação. O
evangelismo se torna dominante em contradição com o conservadorismo
dominante na igreja do Antigo Testamento — dominante, observemos, pois a
igreja judaica não era mera e absolutamente conservadora, uma vez que
provisão foi feita para a admissão de prosélitos das nações gentias; e a igreja
cristã está muito longe de ser simplesmente evangelística, já que é uma parte
importante de seu dever preservar, conservar e defender a verdade, e treinar
os filhos de Deus para o serviço na terra e a glória no céu.
(5.) A ênfase do canto de louvor no culto público. Há razões para
acreditar que os apóstolos cantavam, como uma parte distinta e articulada do
culto, mais proeminente na igreja cristã do que nos serviços da sinagoga
judaica. A razão parece ser clara. É o veículo mais adequado para a expressão
de gratidão e alegria; e o cristão é peculiarmente chamado a expressar esses
sentimentos em culto por consequência da expiação finalizada de Cristo e da
influência derramada do Espírito Santo.
A questão seguinte sendo ‘que elementos de similaridade há entre a
igreja sob a nova dispensação e aquela sob a antiga?’, é óbvio, a partir do que
foi dito em relação ao caráter tipológico e temporário do templo judaico, que
ele [isto é, o templo] não poderia ter constituído o padrão ou modelo em
conformidade com o qual a igreja cristã foi organizada. Precisamos buscar
em outro lugar, se é que em algum, por tal ideal. Descobrimos que na
sinagoga judaica, como um instituto organizado, existiam aqueles elementos
essenciais da política e do culto que possuem o caráter de permanência,
elementos que foram destinados a formar os atributos permanentes da igreja
visível através de todas as mudanças dispensacionais. Poderíamos, portanto,
concluir, pela própria natureza da questão, que tais elementos seriam
passados por uma leve transição, sem o choque de deslocamento e de uma
construção totalmente nova, para a igreja da nova dispensação. Essa
suposição anterior, descobrimos ser confirmada pelos fatos.
A sinagoga, de acordo com aqueles autores, tanto judeus quanto
cristãos, que têm mais propriedade para falar sobre o assunto, tinha, quanto à
sua organização política, presbíteros, diáconos e — estou disposto a acreditar
— pregadores. Pelo menos, havia o germe da função de pregação que só
precisava de expansão para completar-se. Aqui estavam os elementos
essenciais, que só precisavam ser modificados pelas condições do Novo
Testamento para se tornarem os constituintes da organização política e ordem
das congregações cristãs.
Quando, consequentemente, a maioria de uma sinagoga judaica fosse
convertida à fé cristã, tornar-se-ia de imediato, simplesmente por uma
profissão de cristianismo, sem nenhuma mudança externa marcante, uma
igreja cristã, com seus oficiais já existentes, e consequentemente sem
necessidade de ser eleito e ordenado. Numa palavra, não havia necessidade
de criar novos ofícios. O que era antigo pode precisar ser modificado e
ampliado em consequência das novas relações e condições envolvidas, mas
não deve ser desocupado para que novos ofícios, outros tipos de cargos,
sejam substituídos por eles.
Assim, nos relatos dados nos Atos dos Apóstolos da primeira reunião
de igrejas cristãs, não temos conhecimento da instituição do ofício de
presbítero ab initio [de início]. Os anciãos judeus da sinagoga se tornaram os
anciãos cristãos da igreja. O mesmo, com exceção dos apóstolos e outros
oficiais extraordinários, parece ter sido verdadeiro em todos os ofícios da
igreja cristã — dos pregadores e, com toda probabilidade, dos diáconos.
Não há prova positiva de que a designação dos Sete tenha sido uma
criação do ofício diaconal. A evidência tende a uma conclusão oposta. A
narrativa leva naturalmente à conclusão de que havia, sob a superintendência
dos apóstolos, diáconos hebreus que cuidavam da distribuição do fundo
comum contribuído pela igreja; e que os Sete (cujos nomes são helênicos)
foram acrescentados ao já existente corpo de diáconos, a fim de acalmar os
murmúrios dos helenistas conversos e satisfazer adequadamente a seus
desejos. Como esse é apenas um ponto subsidiário para o argumento em
questão, ele não será discutido de maneira elaborada. Uma massa
considerável de testemunhos pode ser coletada a partir de escritores
instruídos que, embora caracterizados por diferentes tipos de pensamento
teológico e eclesiástico, argumentaram que a igreja cristã foi organizada
segundo a analogia da sinagoga. Pode ser suficiente citar as observações
frequentemente citadas de alguém que, em vista de suas relações com a igreja
e sua posição oficial, deve ser considerado como tendo falado com distinta
franqueza sobre esse assunto.
“É provável”, diz o arcebispo Whately[43], “que uma causa,
humanamente falando, por que encontramos nos Livros Sagrados menos
informações sobre o ministério cristão e a constituição de governos da igreja
do que de outra forma poderíamos ter encontrado, é que essas instituições
tinham menos novidade do que alguns, à primeira vista, suporiam; e que
muitas partes delas não se originaram totalmente dos apóstolos. Parece
altamente provável — eu diria, moralmente certo — que, onde quer que
existisse uma sinagoga judaica que fosse levada, o todo ou a parte principal
dela, a abraçar o evangelho, os apóstolos não tanto formaram uma igreja
cristã (ou congregação, ecclesia) quanto tornaram uma congregação existente
em cristã, introduzindo os sacramentos e culto cristãos e estabelecendo sejam
quais forem os regulamentos necessários para a fé recém-adotada; deixando o
maquinário (se assim posso falar) do governo inalterado; os governantes das
sinagogas, os anciãos e outros oficiais (espirituais ou eclesiásticos, ou ambos)
já sendo estabelecidos nas instituições existentes. E é provável que várias das
primeiras igrejas cristãs tenham se originado dessa maneira; isto é, elas eram
sinagogas convertidas que se tornaram igrejas cristãs assim que os membros,
ou a parte principal dos membros, reconheceram Jesus como o Messias”.
A tentativa de efetuar essa conversão de uma sinagoga judaica numa igreja cristã parece
sempre ter sido feita, em primeiro lugar, em todo lugar onde havia uma abertura para ela. Mesmo
após o chamado dos gentios idólatras, parece claramente ter sido a prática dos apóstolos Paulo e
Barnabé, quando chegavam a qualquer cidade onde havia uma sinagoga, ir primeiro para lá e
entregar sua mensagem sagrada aos judeus e “gentios devotos”, de acordo com sua própria
expressão (Atos 13:17), aos “homens de Israel e vós que temeis a Deus”, acrescentando que “era
necessário que se pregasse primeiro a palavra de Deus” a eles. E, quando fundavam uma igreja
em qualquer uma dessas cidades em que (e tais eram, provavelmente, uma grande maioria) não
havia uma sinagoga judaica que recebesse o evangelho, é provável que eles ainda se
conformassem, em grande medida, ao mesmo modelo.

Com esses pontos de vista, homens como Grotius, Vitringa, Selden e


Lightfoot concordam.
Se for assim, se a igreja cristã adotou sua política e seus oficiais
comuns a partir da sinagoga judaica, é quase desnecessário argumentar que
ela se apropriou de seu modo de culto a partir da mesma fonte. Ele era o que,
no passado, o povo de Deus estava acostumado em suas reuniões fixas no
Sabbath. Por que não teria permanecido por todo o futuro? Esse seria o
resultado quase inevitável, a menos que o Cabeça da Igreja tivesse
direcionado com autoridade uma mudança a ser feita e tivesse prescrito um
outro e diferente método de culto que Ele desejasse que fosse observado. Não
há a menor prova para mostrar que Ele o fez, exceto nos casos do batismo e
da ceia do Senhor; e esse silêncio de Cristo e a ausência de direção inspirada
para esse efeito pelo Espírito Santo têm o direito de ser interpretados como
uma aprovação da continuação pela igreja do modo de culto de longa data e
venerável da sinagoga judaica. Esse argumento provável equivale à certeza,
em vista do fato significativo, de que os elementos do culto público realmente
enumerados no Novo Testamento são precisamente aqueles que existiram na
sinagoga. Como, então, o uso da música instrumental era desconhecido no
culto da sinagoga, ele não foi introduzido na igreja cristã.
A essas duas considerações, pode ser acrescentado: primeiro, que a
analogia entre a sinagoga e a igreja cristã é sustentada pelo fato de que a
LXX frequentemente usa o termo ecclesia como variação de sinagoga; e
segundo, que enquanto o templo permanecia e seu culto continuava por
muitos anos depois que as primeiras igrejas cristãs foram constituídas, a
introdução nelas de um tipo de música que todo judeu sabia ser peculiar ao
templo teria fornecido em si uma razão de hostilidade intensa ao cristianismo,
e suscitaria uma oposição especial que teria deixado sua marca nos registros
dos tempos, tanto sagrados como profanos. Mas não ouvimos nada sobre tal
conflito, e a inferência é quase irresistível de que não existiria fundamento
para isso; a música instrumental não teve lugar nas primeiras igrejas cristãs.
Essa consideração particular é, além disso, aumentada quando
refletimos que as próprias sinagogas judaicas passaram por uma leve
transição para congregações cristãs. Mas que o judeu convertido teria, sem
dificuldade, admitido na sinagoga, mesmo que cristianizada, um elemento
que pertencia ao templo como peculiar e tipológico, ou que o cristão teria
adotado o oferecimento de um culto cuja abolição ele sabia ser certa, é,
qualquer uma das duas, uma suposição muito violenta para ser acolhida.

3. O terceiro argumento contra o emprego da música instrumental na


igreja cristã será extraído a partir do grande discurso de Estevão diante
do Concílio Judaico.
Estevão era um homem completamente extraordinário. Dotado de
grandes habilidades intelectuais, cheio de fé e poder e do Espírito Santo,
disputou com tanto vigor contra os libertinos, cireneus e alexandrinos, e os da
Cilícia e da Ásia, que “não eram capazes de resistir à sabedoria e ao Espírito
com que ele falava” [At 6:10]. A referência à Cilícia torna altamente provável
que, nessas discussões públicas, ele tivesse Saulo, o acadêmico de Tarso e
discípulo de Gamaliel, como um de seus antagonistas; e pode ser que a
derrota na argumentação à qual o talentoso e aspirante zelote foi submetido
possa tê-lo armado com a amargura, que encontrou expressão tão visível na
execução do mártir. Não sendo capazes de lidar com ele no campo do
honroso debate, seus adversários recorreram ao expediente que a derrotada
malícia costuma sugerir — eles o processaram perante o supremo judiciário.
A acusação contra ele era:
Ouvimos-lhe proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus [v.11]; este homem
não cessa de proferir palavras blasfemas contra este santo lugar e a lei. Porque nós lhe ouvimos
dizer que esse Jesus de Nazaré destruirá este lugar, e mudará os costumes que Moisés nos deu
[v.13b-14].

Como é provável que seja o caso, essa acusação é parcialmente


verdadeira e parcialmente falsa. Era falsa na medida em que alegava
blasfêmia contra Moisés e contra Deus. Na medida em que a declaração de
Estêvão afirmava que o templo seria destruído e os costumes ou ritos do
código Mosaico, enquanto cerimoniais e tipológicos, seriam mudados, deve,
por duas razões, ser considerada verdadeira: em primeiro lugar, porque o
acusado nunca negou essa alegação; e, em segundo lugar, porque sua própria
defesa provou a relevância.
Essa construção da acusação tem forte apoio. “Essa acusação”, diz o
Prof. Joseph Addison Alexander[44], “era, sem dúvida, verdadeira, na medida
em que se relacionava com a doutrina de que a nova religião, ou melhor, a
nova forma da igreja, deveria substituir à antiga”. “Até o momento”, observa
o Dr. Arthur Penrhyn Stanley[45], “os apóstolos e a comunidade cristã
primitiva haviam se apegado ao seu culto, não apenas à terra santa e à cidade
santa, mas também ao local sagrado do templo. O culto local, com os
costumes judaicos pertencentes a ele, [Estêvão] agora denunciava. Desse
modo devemos inferir a partir das acusações feitas contra ele, confirmadas
como são pelo teor de sua defesa. As palavras reais da acusação podem ter
sido falsas, naquilo em que a intenção terrível e maligna que eles atribuíram a
ele era indubitavelmente falsa. ‘Palavras blasfemas’, isto é, ‘caluniosas’,
‘contra Moisés e contra Deus’, ele provavelmente não usaria. Mas a
derrubada do templo, a cessação do ritual mosaico, não é mais do que São
Paulo pregou abertamente, ou do que está implícito no próprio discurso de
Estevão: ‘contra este santo lugar e a lei [...], que esse Jesus de Nazaré
destruirá este lugar, e mudará os costumes que Moisés nos deu’”.
O discurso, em conformidade com uma tendência da mente oriental, é
moldado no contexto de uma afirmação histórica e, para o leitor superficial,
não apresenta as características de um argumento. No entanto, é um
argumento poderoso. Há dois grandiosos princípios cuja afirmação envolveu
e sobre os quais procedeu: primeiro, a espiritualidade de Deus; segundo, sua
infinita imensidão.
A partir do primeiro, o grandioso orador argumentou que seria
loucura sustentar que Deus poderia ser adequadamente adorado por artifícios
materiais e ritos cerimoniais. A partir do segundo, ele derivou a consequência
de que, como Deus não poderia estar confinado a um lugar, também não
poderia Seu culto. Essas posições ele sustentou por um apelo, em primeiro
lugar, à história de Israel e, em segundo lugar, à doutrina dos profetas.
Ele mostra que a igreja-estado dos hebreus havia sofrido grandes
mudanças — mudanças que tornavam impossível que eles pudessem adorar
sempre em um modo particular, em uma localidade particular e em um
santuário particular. A igreja, enquanto organizada na família de seu grande
ancestral, Abraão, adorava sem o templo. A igreja, enquanto em escravidão
no Egito, adorava sem o templo. A igreja, em suas migrações por quarenta
anos no deserto, adorava sem o templo. A igreja, depois de ter encontrado
descanso na terra da promessa, durante todo o período dos juízes, e através
dos reinados de Saul e Davi, adorava sem o templo. Ele não existia até
Salomão, quando o templo foi construído, e seus serviços peculiares foram
inaugurados como suplementares e aperfeiçoadores daqueles que pertenciam
ao tabernáculo. Aqui Estêvão chega à conclusão da primeira vertente de seu
argumento — a saber, que a história da igreja hebraica provava que o templo
no qual seus juízes se gloriavam não havia sido, no passado, uma necessidade
para o culto espiritual a Deus, e portanto não envolvia nem absurdidade nem
a impiedade sustentar que a igreja voltaria a cultuar sem ele.
Ele então prossegue em confirmar essa lição da história israelita pela
doutrina dos profetas, que ensina a grandeza, a majestade e a infinitude de
Deus:
O Altíssimo, porém, não habita em templos feitos por mãos, como diz o profeta: O céu é o
meu trono, e a terra é o meu escabelo; que casa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do
meu descanso? Não foi a minha mão que fez todas as coisas? [At 7:48-50].

Evidentemente, o argumento foi para mostrar a falta de razoabilidade


de assim localizar o culto do infinito Ser, de modo a vinculá-lo a uma única
casa de adoração. Afirmava implicitamente o caráter temporário do templo e,
com toda a probabilidade, teria tornado explícita a afirmação se alguma
manifestação de raiva e orgulho por parte do Conselho não tivesse
interrompido o orador. Isso levou a testemunha destemida e apaixonada pelo
evangelho a indiciar diretamente seus juízes:
Duros de cerviz, e incircuncisos de coração e ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo;
como fizeram vossos pais, assim fazei vós [v.51].

Está implícito que, como os pais resistiram ao Espírito Santo em


relação ao culto segundo as designações de Deus, eles resistiam a Ele da
mesma maneira. Quando, por exemplo, o Espírito orientou seus pais a
adorarem no templo, eles adoravam em lugares altos e em bosques. Agora
que uma nova dispensação havia sido introduzida, e o Espírito Santo os
orientava a abandonarem o culto no templo como tendo cumprido seu ofício
tipológico e temporário, eles o desobedeciam e insistiam em dar
prosseguimento a esse culto. Essa explosão de santa eloquência os ofendia
em seu cerne e atraía neles expressões de raiva. E quando ele declarou que
via a Jesus, a quem ele havia acusado de terem assassinado, em pé à direita
de Deus, isso se tornou intolerável e, reunindo-se em uma multidão furiosa,
eles arremeteram contra ele, arrastaram-no para fora do portão da cidade, e
impiedosamente o apedrejaram até a morte.
Nesse discurso, fica claro que Estevão erigiu um testemunho que lhe
custou a vida em favor da revogação do culto do templo; e, como a música
instrumental era peculiar àquele culto, nós temos uma linha de prova
independente a partir do Novo Testamento de que ela não foi introduzida e
não foi destinada a ser introduzida na igreja cristã.
Há, além disso, outro aspecto desse discurso imortal que não deve ser
menosprezado. Estevão, dotado de um extraordinário discernimento de mente
e com uma maravilhosa inspiração do Espírito Santo, parecia estar adiantado
em relação ao próprio colégio apostólico em sua estima ao espírito do culto
do evangelho. Ele sustentava, como o Senhor Jesus havia declarado antes,
que a espiritualidade de Deus exigia adoração espiritual e entregava um
testemunho selado com sangue em nome da absoluta simplicidade das
instituições do evangelho. Despojados de todo o ritual pesado e esplêndido
do templo, eles reproduziam os serviços simples e sem ostentação da
sinagoga e não introduziam nada que não fosse expressamente prescrito pela
autoridade divina, ou requerido por necessidade, entre o adorador vivo e o
Deus vivo.
A espiritualidade e a simplicidade do culto do evangelho — foi nisso
que o ilustre diácono insistiu em palavras ardentes e com espírito destemido
diante daquela bancada fanática furiosa de zelotes; esse foi o princípio que
ele saturou com o sangue de mártir logo no início da dispensação cristã. Que
todos os oficiais da igreja imitem o exemplo glorioso e, em face do clamor
popular e das exigências dos príncipes deste mundo, tenham um testemunho
inabalável contra a introdução no culto público da igreja de todo elemento ab-
rogado dos antigos serviços do templo!

4. A próxima prova é baseada no ensino de Cristo e seus apóstolos —


um ensino aplicado pela prática deles.
(1) O ensinamento do Senhor Jesus excluiu a música instrumental do
culto público da igreja do Novo Testamento, Ele declarou que Deus é
vaidosamente adorado quando as doutrinas e os mandamentos de Deus são
substituídos pelos dos homens. Vimos que, por orientação divina, pela
doutrina e mandamento de Deus, a música instrumental na igreja do Antigo
Testamento foi excluída do culto ordinário e fixo de seu povo no dia de
Sabbath na sinagoga e foi confinada aos serviços do templo.
Também vimos que a igreja cristã em sua política e culto estava, sob
as condições e com as modificações necessárias pela nova dispensação,
modelada segundo a sinagoga judaica. Nenhum elemento inteiramente novo
de culto foi incorporado aos serviços daquela igreja. Jesus não autorizou a
efetivação de tal mudança. Consequentemente, a introdução da música
instrumental, que Deus não havia sancionado, ou melhor, que havia proibido,
no culto da sinagoga, teria sido a substituição da doutrina e mandamento de
Deus para os que procediam dos homens.
Em sua conversa com a mulher samaritana no poço de Jacó, nosso
Salvador declarou o grandioso princípio da espiritualidade do culto: “Deus é
um Espírito, e os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade” [Jo
4:24]. Embora Ele reconhecesse que os judeus, em contraste com os
samaritanos, ofereciam adoração inteligente a Deus, por razão de que ela
envolvia o conhecimento da salvação — uma salvação a ser realizada por
Aquele que, segundo a carne, brotaria da linhagem judaica —, e enquanto na
prática admitia que eles haviam cumprido a direção divina na condução de
um culto cerimonial e tipológico com seu estabelecimento em Jerusalém, Ele
acrescentou as palavras significativas:
Crê-me, a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. [...] Mas
a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em
verdade, porque o Pai procura a tais para adorá-lo [v.21,23].

Nessas palavras, que prenunciavam o espírito do culto do evangelho,


nosso bendito Senhor claramente ensinou duas coisas: primeiro, que o culto
cerimonial, tipológico e ritualístico do templo judaico foi designado para ser
temporário, e que a hora estava se aproximando rapidamente quando ele seria
inteiramente abolido; em segundo lugar, que mesmo aquele culto fixo que era
desprovido de caráter cerimonial, tipológico e ritualístico, sob as influências a
serem exercidas sobre o povo de Deus na dispensação prestes a ser
inaugurada, se tornaria mais espiritual do que nunca.
Essas lições o Senhor Jesus inculcou manifestamente, e elas
justificam as inferências que, como a música instrumental era um apêndice
peculiar do templo, ela passaria junto a ele; e que, como estava ausente da
sinagoga, a igreja cristã, que estava destinada a ser mais espiritual em sua
adoração do que aquele instituto não cerimonial e não tipológico, não podia,
consistentemente com sua natureza e ofício avançados, introduzi-la em seus
serviços. Supor-se-ia, na igreja do Novo Testamento, um menor grau de
espiritualidade no culto do que a tida pelo Antigo.
Ademais, nosso Senhor, ao emitir aos Seus apóstolos, pouco antes de
Sua ascensão à glória, a grande comissão que contemplava a evangelização
do mundo, impôs a eles esta solene obrigação: “ensinando-os a observar
todas as coisas que eu vos tenho mandado”. Essa injunção do Profeta e Rei da
igreja envolvia três coisas: primeiro, que os apóstolos, em suas comunicações
orais e em seus escritos inspirados, deveriam ensinar todas as coisas que
Cristo ordenou; em segundo lugar, que eles deveriam ensinar nada além do
que Cristo ordenou; e em terceiro lugar, que a igreja a ser organizada por eles
deveria obedecer ao ensino deles, originado e reforçado pela autoridade de
Cristo, e não introduzir nada em sua doutrina, política e culto que não fosse
expressa ou implicitamente garantido pela ordem de Cristo, como refletida
por inculcação e exemplo apostólicos.
Isso deixa a igreja sem discricionariedade em relação a esses
elementos de doutrina, governo e culto. Ela está absolutamente vinculada aos
mandamentos de Cristo, originalmente enunciados pelos lábios dos apóstolos,
e agora permanentemente registrados em Sua Palavra inspirada. Ela é
obrigada a fazer tudo o que Ele ordenou; ela é proibida de fazer qualquer
coisa que Ele não tenha ordenado. Ela não pode construir nenhuma nova
doutrina, instituir nenhum novo elemento de governo e decretar nenhum novo
rito e cerimônia — introduzir nenhum novo modo de culto.
A pergunta ‘qual poder discricionário a igreja possui na esfera de
culto?’ será reservada para outra parte desta discussão. Por agora, é suficiente
dizer que é um poder discricionário aquilo que ela nunca tem o direito de usar
enquanto igreja, mas simplesmente enquanto uma organização agindo sob
condições seculares e temporais pertencentes a todas as sociedades humanas.
É somente onde não há necessidade, talvez não haja espaço, para um
mandamento de Cristo — na esfera em que a sabedoria humana, o
julgamento natural dos homens, é competente para agir, na qual realmente
deve agir; é somente aqui que a igreja é, a partir da própria necessidade do
caso, investida com poder discricionário.
A questão agora é: Cristo ordenou o uso da música instrumental em
Sua igreja? A resposta deve ser: Ele não ordenou. Certamente não existe tal
comando em registro. E ele nem pode ser presumido. O Senhor Jesus
conhecia o decreto divino pelo qual os serviços temporários do templo
estavam destinados a serem abolidos. Ele mesmo previu a destruição total do
templo. Ele sabia perfeitamente que a música instrumental era um vínculo
com os serviços peculiares e característicos do templo e, portanto, sabia que
devia fazer parte do naufrágio ao qual o templo, com todos aqueles serviços,
estava condenado. Ele autorizou Sua igreja a salvar a música instrumental das
ruínas e empregá-la em seu culto? Ele não o fez. Ela está, então, autorizada a
fazê-lo? Certamente não.
Nosso Senhor, enquanto homem, estava perfeitamente familiarizado
com o culto da sinagoga. É dito que havia em Seu tempo pelo menos
quatrocentos e cinquenta sinagogas na grande cidade de Jerusalém, igrejas
nas quais a população adorava de Sabbath a Sabbath, assim como o povo
cristão agora cultua nas suas. Seu costume era frequentar a sinagoga onde
quer que, em Sua bendita itinerância, Ele pudesse estar. Ele conhecia bem a
ausência de música instrumental de seus serviços, e sabia que Sua igreja,
quando estabelecida como tal, seguiria os precedentes do culto fixo do
Sabbath, que alcançava imemorialmente a história de Seu antigo povo. Ele
deixou um mandamento à Sua igreja para que se afastasse dessa ordem e
introduzisse a música instrumental em seu culto fixo no Sabbath? Ele não o
fez; e a falta de tal mandamento é suficiente para resolver a questão.
Se essas considerações precisassem de confirmação, a encontrariam
na prática real de nosso Senhor. Somos informados de que Ele cantou salmos
com Seus discípulos. Na noite fatal em que foi traído, Ele fechou a
solenidade afetiva de instituir o sacramento da ceia cantando. “E, tendo
cantado um hino”, dizem dois dos evangelistas em idêntica língua, “eles
saíram para o monte das Oliveiras”; e o escritor da Epístola aos Hebreus, no
maravilhoso capítulo em que discute a necessidade da encarnação — a
comunhão de natureza entre Cristo e Seus irmãos —, retrata-O
comovedoramente como se estivesse exercendo o ofício de pregador e de
regente deles, dizendo: “Anunciarei o teu nome a meus irmãos, no meio da
igreja cantar-te-ei louvores”. Nada ouvimos de instrumentos de música; mas,
como Justino Mártir, ou pseudo-Justino, diz da salmodia da igreja primitiva,
apenas como “canto simples”.
De-Quincy[46] representou com desprezo o canto dos dissidentes
ingleses “como um deserto uivante de salmodia”. Ele poderia ter poupado sua
ridicularização se tivesse refletido que um dos clérigos que liderou esse tipo
de canto foi o próprio Jesus Cristo. Mas “o homem vão seria sábio, embora o
homem nasça como um potro de jumento selvagem” [Jó 11:12]. Ele
descreveu, com magnífica retórica, “a ondulação do hino, a explosão do
refrão de aleluia, a tempestade, o movimento violento da paixão do coral, [...]
o tumulto do coro, a ira do órgão”. Por acaso, escreveu melhor do que sabia
quando representou o órgão como trazendo a ira; e seu desprezo episcopal
pelo povo humilde e obediente a Cristo, bem como sua esplêndida retórica
em glorificar as pompas do culto da catedral, podem ser compensados pela
seguinte passagem do corifeu da liberdade britânica[47]:
Em tempos de oposição, quando novas heresias surgem, ou antigas corrupções [estão] a ser
reformadas, essa doce gentileza da sabedoria positiva não é suficiente para abafar e surpreender a
orgulhosa resistência dos carnais e falsos doutores, então (que eu possa ter licença para planar
por um momento, como usam os poetas) o Zelo, cuja substância é etérea, armado em diamante
completo, sobe a sua carruagem de fogo puxada por dois meteoros em chamas, reluzindo como
bestas de uma raça superior a qualquer produto do zodíaco, parecendo dois daqueles quatro que
Ezequiel e São João viram; um com o semblante de um leão, para expressar poder, alta
autoridade e indignação, o outro de semblante como um homem, para lançar escárnio e desprezo
sobre sedutores perversos e fraudulentos: com estes, o guerreiro invencível, o Zelo, sacudindo
livremente as rédeas frouxas, passa por cima das cabeças dos prelados escarlates e aqueles que
são insolentes em manter as tradições, ferindo seu pescoço duro sob as rodas flamejantes.

Ou ainda podemos ouvir o trovão de uma retórica mais poderosa do


que De Quincey ou Milton exerceram — um trovão que, como o rosnado
furioso de uma tempestade que se aproximava, antecipa a condenação
daquela mãe apóstata, de cujo útero fértil penetrou as monstruosas corrupções
que têm esmagado a pureza da justa e gloriosa noiva de Cristo:
Babilônia, a grande, caiu, caiu e se tornou habitação de demônios, e o antro de todo espírito
imundo, e gaiola de toda ave imunda e odiável [Ap 18:2]. [...] Ai, ai daquela grande cidade! que
se vestia de linho fino, e de púrpura, e de escarlate; e se adornava com ouro e pedras preciosas e
pérolas! [v.19]. [...] Regozijas-te sobre ela, tu céu, e vós, santos apóstolos e profetas; porque
Deus vos vingou dela [v.20]. [...] E a voz de harpistas, e de músicos, e de flautistas, e de
trompetistas, não se ouvirá mais em ti; [v.21]. [...] E depois destas coisas, eu ouvi uma grande
voz de uma numerosa multidão no céu, dizendo: Aleluia! Salvação, e glória, e honra, e poder ao
Senhor nosso Deus. Porque verdadeiros e justos são os seus juízos; porque ele julgou a grande
prostituta, que corrompeu a terra com a sua fornicação, e vingou o sangue dos seus servos que
estava na mão dela. E novamente eles disseram: Aleluia! E a sua fumaça subiu para sempre e
sempre [19:1-3].

(2) O ensinamento dos apóstolos excluiu a música instrumental do


culto público da igreja.
Dentre as partes daquele culto que são enumeradas no Novo
Testamento, está incluso o cântico de louvor, mas não a música instrumental.
As passagens que são relevantes são:
Como é então, irmãos? Quando vos reunis, cada um de vós tem um salmo, tem uma
doutrina, tem uma língua, tem uma revelação, tem uma interpretação. Que todas as coisas sejam
feitas para a edificação (1Co 14:26).

Falando entre vós com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, cantando e fazendo melodias
ao Senhor no vosso coração (Ef 5:19).

[...] ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos
espirituais; cantando com graça em vosso coração ao Senhor (Cl 3:16).

“A causa de toda a contenda”, diz o Rev. A. Cromar[48], “está no fato


de que a palavra salmo e a palavra traduzida fazendo melodia sugerem
imediatamente à mente a ideia de música instrumental. Um salmo é
propriamente definido como uma ode sagrada designada para ser cantada
com o acompanhamento da lira; e a palavra traduzida por fazendo melodia
literalmente significa tocar as cordas do mesmo instrumento. Tomando as
palavras em sua simplicidade, a passagem, na medida em que se refere à
música, parece consistir de duas partes — aquela que impõe o dever geral de
louvar em composições cantadas com ou sem um acompanhamento
instrumental, e a outra que particularmente afirma que o louvor, seja ele com
ou sem orientação instrumental, deve sempre ser do verdadeiro caráter do
evangelho, isto é, deve ser um exercício do coração. Se esse, o mais provável,
for também o sentido verdadeiro da passagem (Ef 5:19), então temos nele o
que os defensores do órgão acreditam ser a opinião divina sobre o assunto”.
O peso da autoridade acadêmica é certamente contra o Sr. Cromar e
aqueles que, como ele, distorceriam essas passagens a fim de sustentar a
música instrumental no culto público da igreja. Dr. James Begg, ao notar a
exceção feita por um escritor anônimo à nossa tradução da Bíblia e sua
afirmação, com outras, de que yallw significa radicalmente tocar um
instrumento musical de cordas, faz estas observações que são dignas de
atenção[49]:
Essa tentativa de estabelecer o significado da palavra como implicando tocar ao invés de
cantar, como usada pelos escritores do Novo Testamento, foi completamente deixada de lado
pelo Dr. Porteous, por uma variedade de evidências, uma parte da qual é assim concluída:
“dessas citações dos pais gregos, os três primeiros dos quais surgiram no quarto século —
homens de grande erudição, bem qualificados na fraseologia e linguagem da Escritura,
perfeitamente mestres da língua grega, que foi então escrita e falada com pureza nos países onde
residiam; homens também que, por causa da consciência, não lidariam com a Palavra de Deus de
forma enganosa —, é evidente que a palavra grega yallw significava em seu tempo cantar
somente com a voz. Por fim, podemos ter certeza de que eles todos tinham firmeza,
entendimento e influência na igreja suficientes para induzirem seus ouvintes a usar a harpa e o
saltério no culto público a Deus”.

É curioso observar como constantemente, e com que pretensão de aprendizagem, os erros se


repetem. Em uma discussão anterior, a exatidão de nossa tradução autorizada de Tiago 5:13 foi
questionada confidentemente, e foi afirmado que yalletw significava soar como que na lira, e que
a passagem não deveria ter sido traduzida por “que cante salmos”, mas “que toque um
instrumento”. A questão assim levantada é muito ampla e importante, sendo nem mais nem
menos do que se a música instrumental é divinamente designada no culto cristão. Ela indica, em
todos os casos, até que ponto alguns hinologistas estão preparados para ir.

Se essa ideia estiver correta, a igreja cristã nas eras iniciais havia confundido inteiramente o
que queriam dizer os homens inspirados, e assim tem nossa igreja [a escocesa] desde a Reforma.
Afirmamos, no entanto, que yalletw em Tiago não pode significar nada mais do que “que cante
salmos”. O substantivo yalmoj ocorre não mais do que sete vezes no Novo Testamento; e o uso
aqui, além de outras evidências, seria suficiente para determinar o significado do verbo yall. O
substantivo ocorre três vezes (Lc 20:42, 24:44; At 1:20), onde refere-se ao livro dos Salmos;
uma vez (Atos 13:33), onde refere-se ao segundo salmo; duas vezes (Ef 5:19; Cl 3:16), onde,
com outras duas palavras, a tradução é “salmos, hinos e cânticos espirituais”; e uma vez (1Co
14:26): “Quando vos reunis, cada um de vós tem um salmo”. Em relação ao próprio verbo, além
da passagem em Tiago e em Efésios 5:19, apenas referido a ele, yallw só ocorre três vezes no
Novo Testamento; duas vezes (1Co 14:15), onde o seu uso exclui absolutamente a música
instrumental, e deve implicar o cântico de cânticos inspirados* ou salmos ― “eu cantarei com o
espírito, e também cantarei com o entendimento”, e uma vez (Rm 15:9), “como está escrito: Por
isto, eu te confessarei entre os gentios e cantarei ao teu nome”. É interessante notar que a última
passagem é exatamente copiada da Septuaginta (Sl 18:49), e isso proporciona uma prova
impressionante da exatidão do processo o qual estamos agora discutindo.

Como assim citado pelo apóstolo, temos uma tradução inspirada no verbo grego yall de
uma palavra hebraica que geralmente é traduzida por “cantar louvores” ou “cantar salmos”.
“Cantar salmos” era o único louvor vocal autorizado da igreja da antiguidade. A questão agora,
como todos sabem, não é sobre as raízes ou o significado original das palavras, mas sobre o
sentido em que elas foram usadas pelos escritores inspirados; yallw nunca ocorre no Novo
Testamento, em sua significação radical, como soar ou tocar um instrumento.

Os quarenta ou cinquenta altos intelectuais da Inglaterra, através de cujas mãos aprovaram a


versão autorizada de nossas Escrituras, estavam completamente familiarizados com estas coisas
e raramente falharam, em questões de menor importância, em dar, seja no texto ou na margem,
uma versão correta da língua original — embora, claro, não fossem infalíveis. Em conexão com
isso, não é desinteressante, no entanto, observar quão plenamente a correção de nossa versão
autorizada é confirmada por Lutero e os primeiros reformadores. Lutero traduz yalletw (Tg 5:13)
por “der singe psalmen”; Wickliffe, “and seye he a salm”; Tyndale ‘‘let him singe psalmes”; e
Cranmer, “let him synge psalms”. Dean Alford, também, entre críticos recentes, forte episcopal
como é, e interessado em defender a música instrumental, traduz a palavra por “let him sing
praise” [que cante louvor].. Sr. Young, em sua tradução da Bíblia “de acordo com a letra e os
idiomas das línguas originais”, traduz a passagem, “let him sing psalms”; e o Dr. Giles, falecido
membro do Colégio da Igreja de Cristo, Oxford, em seu Novo Testamento, “traduzido palavra
por palavra”, em Londres, 1861, também traduz “let him sing psalms”.

Não há necessidade de multiplicar autoridades. Todos os


comentaristas admitem que os salmos designavam principalmente odes
sagradas que eram adequadas para serem acompanhadas, quando cantadas,
por instrumentos de música. Mas a grande maioria concorda em sustentar que
o sentido secundário, de composições sagradas a serem cantadas, é aquele em
que a palavra é usada no Novo Testamento. Como poderia ser diferente com
homens que tinham aprendido o suficiente para saber que a música
instrumental foi excluída do culto público da igreja apostólica?
Se for afirmado que isso é fugir da pergunta e a prova for exigida, o
apelo é levado, primeiro, ao argumento precedente; e, em segundo lugar, à
prática da igreja pós-apostólica. Se os apóstolos tivessem permitido o
emprego da música instrumental na igreja, é moralmente certo, a partir da
própria constituição da natureza humana, que ela teria continuado a ser usada
posteriormente ao seu tempo. Mas não foi; e sua ausência pode ser explicada
apenas porque a Igreja do Novo Testamento nunca a adotou. Se estivesse em
uso sob os apóstolos, sua expulsão só poderia ter sido realizada por uma
mudança revolucionária que teria sido uma revolta da prática apostólica. Tal
suposição é, em todos os aspectos, absurda — na verdade é impossível. A
prova de que a igreja primitiva não conhecia qualquer música instrumental é
proposta em uma parte subsequente desta discussão. Sua apresentação é,
portanto, adiada.
Mesmo se o argumento precedente a partir das Escrituras do Novo
Testamento tivesse apenas um grau respeitável de probabilidade, pareceria
absurdo tentar refutá-lo com uma única palavra ambígua — uma palavra
entendida por aqueles que tomam eles mesmos essa posição como tendo tanto
uma significação original e uma significação secundária. Como, além disso,
não é alegado que as palavras “hinos e cânticos espirituais” implicam o
acompanhamento de instrumentos, aqueles que se posicionam no sentido
primário da palavra salmos seriam obrigados a admitir que alguns dos
cânticos da igreja apostólica eram acompanhados pela música instrumental e
alguns não. Quando conseguirem provar que tal é o caso, podem com alguma
plausibilidade reivindicar a rendição de seus oponentes. Não é evidente que o
argumento que repousa sobre a única palavra salmos oscila em uma frágil
dobradiça?

5. O único outro argumento das Escrituras do Novo Testamento será


derivado da condenação que elas declaram sobre a “adoração da
vontade”.
A adoração da vontade é aquela que não é ordenada por Deus, mas
inventada pelo homem. Vimos que Deus ordenou que a música instrumental
fosse empregada em conexão ao templo. Portanto, naquele aspecto, ela não
era um elemento de adoração da vontade. Ela era claramente legítima. Mas,
se o judeu a tivesse empregado na sinagoga, ele teria cometido o pecado de
adoração da vontade. Por quê? Porque, sem a autorização divina, ele teria
afirmado sua própria vontade em relação ao culto público a Deus.
Agora que o templo se foi, tudo o que era peculiar a ele foi embora.
Reavivar qualquer de seus serviços extintos, e apropriar-se de suas ruínas
para a ornamentação da igreja cristã, é um exemplo de adoração da vontade.
O princípio geral é enunciado por Paulo na Epístola aos Colossenses, embora
ele o aplique especificamente a certa classe de casos. “Portanto”, diz ele, “se
estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que, como se
vivêsseis no mundo, vos sujeitais às ordenanças (não toques, não proves, não
manuseies; as quais coisas todas perecem pelo uso), segundo os
mandamentos e doutrinas dos homens? Tais coisas têm, de fato, alguma
aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade e em disciplina do
corpo, mas não são de honra alguma, senão para a satisfação da carne”.
A música instrumental, como foi provado, era um dos rudimentos
daquele ritual cerimonial e tipológico pelo qual aprouve a Deus treinar os
israelitas, como crianças em uma escola preparatória, para a varonilidade da
dispensação cristã com seus gloriosos privilégios e suas responsabilidades
expandidas. Essa foi a visão até mesmo de Aquino e Belarmino. Aquele,
portanto, que importaria esse elemento débil para a Igreja da Nova
Dispensação, impugnaria a sabedoria de Deus, declararia sua vontade contra
a autoridade divina e abandonaria a liberdade de Cristo pela escravidão de
Moisés.
IV. O ARGUMENTO A PARTIR DOS
PADRÕES PRESBITERIANOS
Ao argumentar contra o uso da música instrumental no culto público a
partir dos padrões Presbiterianos — isto é, os formulários de doutrina,
governo e culto da Igreja Presbiteriana — eu desejo que seja claramente
entendido que eles não são vistos ou tratados como uma autoridade
independente da inspirada Palavra de Deus. Toda a autoridade que possuem
— cada gota dela — é derivada dessa Palavra. Fora dela, eles não têm
nenhuma.
Em primeiro lugar, enquanto composições humanas, podem ou não
concordar exatamente com as Escrituras e representar fielmente seu
significado. Tanto quanto o fazem, e apenas na medida em que o fazem, eles
estão trajados com a autoridade da própria Palavra divina e, como todo
cristão admite que a autoridade dessa Palavra é vinculada a todos os homens,
eles, nessa medida, confessadamente exercem uma autoridade controladora
sobre todos os homens.
Em segundo lugar, os membros e especialmente os oficiais daquela
igreja da qual eles são um diretório de fé e prática, estão, acima e além dessa
obrigação geral que repousa sobre todos os homens, sob uma obrigação
especial resultante de sua aceitação voluntária destes padrões como uma
verdadeira interpretação das Escrituras e de seu acordo pactual com seus
irmãos da mesma fé e ordem para serem governados por eles como a
constituição de sua igreja. É, portanto, com referência a eles, não
exclusivamente, mas em um sentido muito especial, que, na construção e
desenvolvimento deste argumento particular, o apelo é feito aos padrões
presbiterianos. Falo como que a homens sábios; que tais julguem o que pode
ser dito em relação a esse tribunal venerável.
Perceba-se também que, ao seguir essa linha particular de
argumentação, não é, de modo algum, reivindicado que novas provas
materiais são derivadas desses formulários. As provas já foram apresentadas
a partir das Escrituras, tanto as do Antigo Testamento quanto as do Novo, e a
conclusão que elas justificam já foi alcançada e anunciada. O presente apelo é
para os padrões como claramente resumindo as provas escriturísticas e
cumprindo definitivamente a conclusão, e como tendo uma autoridade
peculiar para aqueles que, no conflito de opiniões religiosas, os adotaram em
seu julgamento como uma declaração correta e exposição da lei do Senhor.
Mas, em adição a isso, que seja notado que esses padrões definem
claramente as limitações de tal poder discricionário na esfera do culto e em
todas as outras esferas, como deve ser concedido à igreja. Eles definem tanto
negativamente — declarando o que não é — e positivamente — declarando o
que é —, e é nesse especial sentido que a referência à sua autoridade é
investida com interesse e importância.
1. A música instrumental é, por boa e necessária consequência,
excluída do culto público da igreja pela exposição que os Catecismos
fornecem do Segundo Mandamento. Na citação de suas palavras, somente
aquilo que influencia o assunto do culto e é relevante para a questão em voga
será aduzido.
“Quais”, pergunta o Catecismo Maior[50], “são os deveres exigidos no
segundo mandamento?”:
Os deveres exigidos no segundo mandamento são o receber, observar e guardar, puros e
inalterados, todo o culto e todas as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra [...]
bem como o desaprovar, detestar e opor-nos a todo o culto falso, e, segundo a posição e vocação
de um, removê-lo.

Quais são os pecados proibidos no segundo mandamento?

Os pecados proibidos no segundo mandamento são: o estabelecer, aconselhar, mandar, usar


e aprovar de qualquer maneira qualquer culto religioso não instituído pelo próprio Deus; [...]
todas as invenções supersticiosas, corrompendo oculto de Deus, acrescentando ou tirando dele,
quer sejam inventadas e adotadas por nós, quer recebidas por tradição de outros, embora sob o
título de antiguidade, de costume, de devoção, de boa intenção, ou por qualquer outro pretexto;
[...] toda a negligência, desprezo, impedimento e oposição ao culto e ordenanças que Deus
instituiu.

Quais são as razões anexas ao segundo mandamento para lhe dar maior força?

As razões anexas ao segundo mandamento, para lhe dar maior força, contidas nestas
palavras: “Porque eu sou o Senhor teu Deus, o Deus forte e zeloso, que vinga a iniquidade dos
pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e que usa de
misericórdia até mil gerações com aqueles que me amam e que guardam os meus preceitos”, são,
além da soberania de Deus sobre nós e o seu direito de propriedade em nós, o seu zelo fervoroso
pelo seu culto e indignação vingadora contra todo o culto falso, considerando-o uma apostasia
religiosa, tendo por inimigos os violadores desse mandamento e ameaçando puni-los até diversas
gerações e tendo por amigos os que guardam os seus mandamentos, prometendo-lhes a
misericórdia até muitas gerações.
O Breve Catecismo[51] condensa, portanto, essas declarações do
Maior:
O segundo mandamento exige que recebamos, observemos e guardemos puros e inteiros
todo o culto e as ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra.

[Ele] proíbe o adorar a Deus por meio de imagens, ou de qualquer outra maneira não
prescrita na sua Palavra.

As razões anexas [...] são a soberania de Deus sobre nós, a sua propriedade em nós em nós,
e o zelo que Ele tem pelo seu culto.

Consideremos atentamente as características desse mandamento que


são sinalizadas por esses formulários:
(1.) O zelo e ciúme fervoroso e duradouro que Deus manifesta no
tocante a tudo o que diz respeito ao Seu culto. Isso é adequado para prender
nossa atenção, alarmar e restringir aqueles que afirmam seu direito de
decretar ritos e cerimônias e de regular o culto divino de acordo com seu
próprio julgamento e gosto quanto ao que é adequado e decoroso nos serviços
da casa do Senhor. Ele mesmo guarda o Seu próprio santuário e, armado com
ímpetos de vingança, ameaça com condigna punição os invasores de Seu
privilégio, os usurpadores de Seus direitos. Vimos quão terrivelmente essa
lição foi imposta sob a antiga dispensação, quão rapidamente, como
relâmpagos, seus julgamentos se manifestaram contra afirmadores
precipitados e insolentes de sua própria vontade em relação ao modo em que
Ele deveria ser adorado, e quão severamente Ele lidou com os seus próprios
servos mais santos e escolhidos pelos desvios de Suas prescrições nesta
questão.
Esse veemente zelo e ciúme de Deus pela pureza de Seu culto deve
nos impedir de nos aventurarmos um passo além das direções de sua Palavra.
Quem, por causa dos ornamentos artísticos e das sugestões extravagantes,
desafiaria desnecessariamente as visitações de Sua ira? Nesta dispensação,
Ele é paciente e tolerante, mas quem decidiria friamente ir, com a culpa não
expurgada de invadir a soberania de Deus quanto ao culto de Sua casa, ao
tremendo tribunal das últimas prestações de contas?
(2) O grandioso princípio é aqui mostrado e enfatizado, de que não é
somente o que Deus ordenou positivamente que é para ser obedecido, mas o
que Ele não ordenou é proibido. A lei não é que estamos na liberdade de agir
quando Deus não se pronunciou, mas, pelo contrário: não temos o direito de
agir quando Ele está em silêncio. Não será resposta dizer, na justificação de
algum elemento de culto, que Deus não o proibiu expressamente; devemos
produzir uma autorização divina para isso. A ausência de tal autorização é
uma interdição.
A exposição do segundo mandamento impõe a obrigação, não apenas
de receber, observar e manter puros e inteiros todo o culto e todas as
ordenanças religiosas como Deus instituiu em Sua Palavra, mas também de
não conceber, aconselhar, comandar, usar e aprovar qualquer culto religioso
não instituído pelo próprio Deus. A instância, já comentada, de Nadabe e
Abiú, os filhos de Arão, o venerável sumo sacerdote de Deus, é exatamente o
que está em questão. Eles foram visitados com julgamento conciso, como nos
é explicitamente dito, por realizar uma função no culto a qual Deus não havia
ordenado.
Não podemos, sem culpa, transcender designações divinas. Nenhum
poder de decisão é permitido à igreja para introduzir no culto público o que o
próprio Deus não instituiu e designou. Ele não a constituiu como vice-regente
ou agente confidencial. A ela não é confiado nenhum poder plenipotenciário.
Ela age sob instruções e é obrigada a aderir ao texto de sua comissão.
A aplicação à música instrumental no culto público da igreja é clara.
Ela era permissível, como foi mostrado, somente quando Deus a ordenou, e
Ele a ordenou em conexão com os serviços tipológicos e temporários do
templo. Ele não ordenou que fosse usada no culto de Sabbath ordinário da
sinagoga e, portanto, não foi empregada naquele instituto. Os judeus
obedeceram à vontade divina nesse aspecto. Deus não ordenou que ela fosse
introduzida na igreja cristã e, em conformidade com Sua vontade, não foi
empregada na igreja apostólica ou na igreja primitiva. Ela não foi
reconhecida na igreja durante séculos. Ela foi, como será mostrado, uma
importação tardia em seus serviços — uma importação efetuada sem
autorização divina e, portanto, em confronto à vontade divina.
Se nossa exposição do segundo mandamento é válida — e nós
reconhecemos que ela é válida e autorizada — nós violamos esse
mandamento quando empregamos música instrumental no culto público,
porque planejamos, aconselhamos, comandamos, usamos e aprovamos um
modo de “culto religioso não instituído pelo próprio Deus”. Que Deus não a
instituiu, seja em conexão com a sinagoga judaica ou com a igreja cristã, foi
irremediavelmente provado.
Sendo assim, não podemos, de acordo com as exigências deste
mandamento, concordar com o emprego da música instrumental no culto
público da igreja. Nenhum “título de antiguidade, costume, devoção, boa
intenção ou qualquer outra pretensão” justificará ou nos dispensará. Não nos
valerá alegar que a encontramos em uso, e não somos chamados a insistir ou
a promulgar medidas revolucionárias. Somos obrigados a desaprovar,
detestar, opor-nos a todo culto falso e, como está nessa categoria, desaprovar,
detestar e opor-se a ele. O argumento para provar sua falta de autorização
divina deve ser derrubado antes que a posição de inação e aquiescência possa
ser conscienciosamente mantida.
Tampouco dizer que não examinamos a questão — que não sabemos.
Devemos examinar, devemos saber, pois, como presbiterianos, nossos
padrões nos expõem claramente a lei divina sobre o assunto e, como cristãos,
não temos o direito de ser ignorantes do ensino da Escritura em relação a
isso. “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem de acordo com esta palavra,
é porque nenhuma luz existe neles” [Is 8:20].
O princípio, fortemente enfatizado pela exposição do segundo
mandamento, que uma autorização divina é requerida para tudo que entra no
culto a Deus, é também enunciado e aplicado nas seguintes declarações da
Confissão de Fé:
Deus é o único Senhor da consciência, e a deixou livre das doutrinas e mandamentos
humanos que, em qualquer coisa, sejam contrários à Sua Palavra, ou que, em matéria de fé ou de
culto, vão além dela.[52].

[...] o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo e tão limitado
pela Sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos
homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou de qualquer outro
modo não prescrito nas Santas Escrituras[53].

Nessas palavras, a Confissão declara que a consciência é livre para


rejeitar o ensino de quaisquer doutrinas e a autoridade de quaisquer
mandamentos que estejam fora da Palavra de Deus em matéria de culto; e que
não é permitido adorá-lO de maneira que não seja prescrita nas Escrituras. Se,
como foi evidenciado, a música instrumental no culto público estava no
Antigo Testamento apenas prescrita como um anexo do templo, e não foi
prescrita em conexão com a sinagoga, e não é prescrita no Novo Testamento,
está obviamente fora do Palavra de Deus, destituída de sua autoridade e,
portanto, deve ser rejeitada.
2. A música instrumental é excluída do culto público da casa de Deus
pelas declarações da Confissão de Fé e do Diretório para o Culto no que se
refere ao canto.
A Confissão de Fé, ao enumerar as “partes do ordinário culto a Deus”,
especifica “o cantar salmos com graças no coração”. O Diretório para o Culto
assim fala: “É dever dos cristãos louvar a Deus cantando salmos”. “A
proporção de tempo de culto público a ser despendido em cantar é deixado
para a prudência de cada ministro”.
(1) Essas provisões da Confissão de Fé e do Diretório para o Culto
excluem a música instrumental do culto público da igreja que os reconhece
como seus formulários, de acordo com a máxima legal Expression unius est
exclusio alterius: a afirmação expressa de uma alternativa é a exclusão da
outra. Se supostamente dois homens fossem, com base provável, culpados
pelo mesmo crime, a acusação de apenas um deles seria a exclusão da
acusação do outro. Nenhuma nomeação formal da pessoa não inclusa na
acusação é necessária. Se de dois atos, que podem ser realizados sob
determinadas circunstâncias, um só é ordenado em um estatuto a ser feito, o
outro é excluído — não é ordenado. E assim, se de dois atos que podem ser
feitos sob determinadas circunstâncias, um só é permitido por estatuto, o
outro é excluído da permissão — é proibido.
Aplicando o princípio ao caso em questão: o canto de salmos ou hinos
e a execução da música instrumental são dois atos distintos que poderiam ser
feitos ao mesmo tempo. A lei eclesiástica ordena que apenas um desses atos
seja feito no culto público. Segue-se que o outro é excluído — não é
ordenado. Mas isso, poder-se-ia perguntar, descarta o outro? Não poderia ser
feito, embora não seja ordenado? A resposta deve ser encontrada no
grandioso princípio, já estabelecido pelas provas escriturísticas, de que aquilo
que Cristo não ordenou para ser observado, os homens não têm o direito de
introduzir no culto de Sua igreja; e aqueles que reconhecem a lei eclesiástica,
à qual é agora apelada, como corretamente representando ou ainda
reproduzindo a lei divina, são obrigados a sustentar que aquilo que a lei
eclesiástica não autoriza não pode ser legitimamente introduzido no culto da
igreja.
Vimos que não é verdade que o que não é proibido é permitido, mas,
ao contrário: o que não é ordenado é proibido. Segue-se que, como a lei nos
padrões presbiterianos autoriza o canto e não autoriza a música instrumental,
esta está excluída. É extrajudicial e, portanto, contrajudicial.
(2) Essa interpretação da lei nos padrões é confirmada pelo que
sabemos do pensamento e da intenção de seus autores em relação a este
assunto. Antes que a Assembleia de Teólogos de Westminster se
encarregasse do ofício de preparar um Diretório para o Culto, o Parlamento
havia adotado, com autoridade, medidas visando à remoção de órgãos, junto
com outros remanescentes de papado, das igrejas da Inglaterra. No dia 20 de
maio de 1644, os comissários da Escócia escreveram à Assembleia Geral de
sua igreja e fizeram a seguinte declaração, dentre outras:
Não podemos deixar de admirar a boa mão de Deus nas grandes coisas já feitas aqui,
particularmente que o pacto, o fundamento de toda a obra, é recebido; a prelazia e toda a sua
linha, extirpada; o livro de serviço [de culto] em muitos lugares, abandonado; a pregação clara e
poderosa, estabelecida; muitas faculdades em Cambridge, providas de ministros que são os mais
zelosos das melhores reformas; os altares, removidos; a comunhão em alguns lugares, dada à
mesa [com o povo] assentado; os grandes órgãos de Paulo e Pedro em Westminster, removidos;
as imagens e muitos outros monumentos de idolatria, desfigurados e abolidos; a Capela Real em
Whitehall, expurgada e reformada, tudo pela autoridade, de maneira tranquila, ao meio-dia, sem
tumulto[54].

Tão minucioso foi o trabalho de remover órgãos que a “Enciclopédia


Britânica” diz que “na Revolução, a maioria dos órgãos na Inglaterra foram
destruídos[55]”.
Quando, portanto, a Assembleia se dedicou à tarefa de formular um
Diretório para o Culto, viu-se confrontada por uma condição das igrejas da
Grã-Bretanha em que o cântico de salmos sem acompanhamento instrumental
quase universalmente prevalecia. Ao prescrever, consequentemente, o cântico
dos salmos sem fazer qualquer alusão à restauração da música instrumental,
deve-se, com toda a justiça, ser interpretado como especificando o simples
cantar do louvor como parte do culto público.
A questão, além disso, é resolvida pela consideração de que, se
tivesse ocorrido qualquer debate sobre a adequação de permitir-se o uso da
música instrumental, os comissários escoceses teriam veementemente e sem
concessões se oposto a essa medida. Mas Lightfoot, que era membro da
Assembleia, em seu “Journal of its Proceedings[56]” [Diário de seus
Procedimentos], nos diz: “Hoje de manhã realizamos o Diretório para cantar
salmos; e, em pouco tempo, terminamos”. Ele diz que o único ponto sobre o
qual os comissários escoceses tiveram alguma discussão foi a leitura dos
Salmos linha por linha.
Se faltasse alguma coisa para confirmar esses pontos de vista, seria
encontrado no que é conhecido do estado de opinião no partido puritano, o
partido representado na Assembleia de Westminster, bem antes como durante
as sessões daquele corpo.
“Sua Majestade [Elizabeth] estava receosa”, diz Neal, “em reformar
demais; ela estava desejosa de reter imagens em igrejas, crucifixos e cruzes,
música vocal e instrumental, com todas as velhas vestes papistas; não é,
portanto, de se admirar que, ao rever a liturgia do rei Eduardo, nenhuma
alteração tenha sido feita em favor daqueles que agora começavam a ser
chamados de puritanos, por sua tentativa de uma forma mais pura de culto e
disciplina do que até então se estabelecera[57]”.
“Os Drs. Humphrey e Samson”, diz o mesmo historiador, “dois chefes
dos não conformistas, escreveram a Zurique as seguintes razões contra o uso
dos hábitos”. Depois de dar as razões, os escritores continuam: “Mas o debate
não é apenas sobre um chapéu e sobrepeliz; há outras queixas que devem ser
corrigidas ou dispensadas; como (1) a música e os órgãos no culto divino”,
etc[58].
Ele ainda diz: “Eles [os puritanos] rejeitaram o modo de culto da
catedral; de cantar suas orações, e da antífona ou do cantar os Salmos por
alternâncias, que os comissários eclesiásticos da época do rei Eduardo, o
Sexto, aconselharam a deixar de lado. Também não aprovaram instrumentos
musicais, como trombetas, órgãos, etc., que não estavam em uso na igreja por
mais de 1200 anos depois de Cristo[59]”.
John Owen, o grande teólogo puritano, que era contemporâneo da
Assembleia de Westminster, diz[60]: “Não apenas por meio do louvor e da
bendição a Deus, mas o uso dessas formas de fazê-lo tornou-se uma parte
necessária do culto a Deus; e assim foi o uso de órgãos e instrumentos de
música semelhantes, que diziam respeito a esse modo de louvá-lO que Deus
até então exigia”. Ele fala aqui do serviço do templo na dispensação judaica.
Este venerável servo de Cristo também diz[61]:

E ele [Davi] fala expressamente, em 1Cr 23:5, em louvar a Deus


com instrumentos de música ‘os quais’ diz ele: ‘eu fiz’. Ele o faz pela
direção do Espírito de Deus; caso contrário ele não deveria ter feito isso;
pois assim é dito, 1Cr 28:12, quando ele tinha estabelecido todas as
ordenanças do templo, ‘a planta de tudo que ele teve pelo Espírito’. E
versículo 19: ‘Tudo isso’, disse Davi, ‘o Senhor me fez entender por
escrito da sua mão, a saber, todas as obras desta planta’. Tudo foi
revelado a ele pelo Espírito Santo, sem o qual ele não poderia ter
introduzido nada no culto a Deus.

Pelo que foi dito, é evidente que as provisões da Confissão de Fé e do


Diretório para o Culto no tocante ao canto no culto público tinham a intenção
de excluir o emprego da música instrumental; e segue-se que seu uso por
aqueles que aceitam estes formulários está em violação de sua lei
constitucional.

3. A música instrumental é doutrinariamente excluída do culto


público da igreja pela Confissão de Fé.
A passagem que é apelada para apoiar essa posição é a seguinte:
Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a Sua própria
glória e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode
ser, por boa e necessária consequência, deduzido dela, a qual nada se acrescentará em tempo
algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; no entanto,
reconhecemos ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora
compreensão das coisas reveladas na palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto
de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser
ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da Palavra,
que sempre devem ser observadas[62].

(1) Todo o argumento precedente prova claramente que a Assembleia


de Westminster não poderia ter pretendido incluir a música instrumental
naquelas circunstâncias concernentes — não em, nem de, não implicadas na
natureza de, mas concernentes — ao culto a Deus, a ordenação das quais
reconhece não serem elas prescritas pela Escritura, mas dependentes do
julgamento natural e do poder de decisão cristã.
Relembremos esse argumento. Ele provou que a vontade prescritiva
de Deus regula todas as coisas relativas ao tipo de culto a ser prestado em Sua
casa; que nada que não seja ordenado por Ele em sua Palavra, explícita ou
implicitamente, pode ser introduzido de modo aceitável no culto público de
Seu santuário; que a vontade, a sabedoria ou o gosto do homem não podem,
nesta esfera, originar nada, autorizar nada, mas que o poder de decisão
humana é excluído, e a obediência absoluta à autoridade divina, imposta; que
a música instrumental não foi ordenada por Deus para ser usada em conexão
com o tabernáculo durante a maior parte de sua existência e,
consequentemente, não foi lá empregada; que Deus expressamente ordenou
que fosse usada no templo e, portanto, foi empregada em seus serviços; que o
próprio templo, com tudo o que era peculiar e característico de seu culto, era
tipológico e simbólico e foi designado para ser temporário; que ele desfaleceu
no início da dispensação cristã; que a música instrumental fazia parte de seus
elementos tipológicos e, consequentemente, acompanhou a sua abolição; que
a música instrumental não foi ordenada por Deus para ser usada em conexão
com a sinagoga, que existia simultaneamente com o templo, e, portanto, ela
não foi empregada em seus serviços; que a igreja cristã, em sua política e
culto, não se conformava com o templo, mas com a sinagoga, como é
admitido até mesmo por alguns episcopais distintos, tais modificações e
condições tendo sido adicionadas como necessariamente aconteceriam a
partir da mudança das dispensações — a concretização da expiação, a copiosa
efusão do Espírito Santo, o espírito evangelístico e o ofício da nova
economia; que a música instrumental no culto público não foi uma dessas
modificações ou condições cristãs; que as Escrituras do Novo Testamento
excluem esse tipo de música, e que ela era desconhecida na prática da igreja
apostólica, como é evidenciado não apenas pelo ensino dos apóstolos, mas
também pela ausência de música instrumental na igreja por mais de um
milênio.
Ora, esse era o modo no qual os teólogos de Westminster, junto com
todo o partido puritano, estavam acostumados a argumentar. Em adição a
esse método de argumento a partir da Escritura, eles também condenavam a
música instrumental como um daqueles emblemas do papado, dos quais
alegavam que a igreja deveria ser purgada. Tomar base, então, de que na
cláusula única em relação às “circunstâncias relativas ao culto a Deus [...]
comuns às ações e sociedades humanas, as quais devem ser ordenadas pela
luz da natureza e da prudência cristã,” eles se referiam a incluir a música
instrumental é sustentar que, naquele único enunciado, eles contradiziam e
subvertiam toda a sua doutrina sobre o assunto. Seria dizer que eles
construíram todos os seus solenes debates e suas preciosas visões sobre o
assunto sobre aquilo que a mulher sábia de Tecoa representou como sendo a
vida humana: “como água derramada no chão, a qual não pode mais ser
recolhida”. A coisa é absurda. Não pode por um momento ser suposto. Pode-
se, portanto, já fechar o argumento aqui. Seja o que for que a Assembleia
desejasse incluir na categoria de circunstâncias que recaísse sob o poder de
decisão da igreja, é absolutamente certo que não se pretendia abranger nela a
música instrumental. Mas, na medida em que, apesar deste fato importuno, a
cláusula na Confissão de Fé, no que tange às circunstâncias relativas ao culto
a Deus, é, inexplicável, mas comumente, defendida na justificação do
emprego da música instrumental nos serviços da igreja, tentarei defendê-la
dessa construção abusiva.

(2) Determinemos, à luz do instrumento que estamos interpretando,


quais são essas circunstâncias.
Elas são expressamente definidas como aquelas que são “comuns às
ações e sociedades humanas”. Parece desnecessário discutir a questão. É de
se considerar supérfluo e insignificante argumentar que as circunstâncias
comuns às ações humanas não são e não podem ser peculiares às ações da
igreja. É certo que circunstâncias comuns às sociedades humanas não podem
ser peculiares às sociedades eclesiásticas. Antes, essas circunstâncias são
declaradas comuns às sociedades humanas, às sociedades de todos os tipos —
políticas, filosóficas, científicas, literárias, mercantis, agrícolas, mecânicas,
industriais, militares e mesmo infiéis. Tempo e lugar, traje e postura, sentados
ou de pé, e assim por diante, são circunstâncias comuns a todas as sociedades
e, portanto, pertencem à igreja enquanto uma sociedade. Mas será seriamente
mantido que a música instrumental seria tal circunstância? É comum às
sociedades humanas? Essas perguntas respondem a si mesmas. Como a
música instrumental não é uma circunstância comum a todas as sociedades,
não é uma das circunstâncias especificadas na Confissão de Fé. Ela é
excluída pelos termos que [a Confissão] usa.
Pode-se dizer que, como todas as sociedades humanas têm o direito
de ordenar as circunstâncias em que seus atos peculiares serão realizados, a
igreja possui esse direito comum e pode indicar a circunstância da música
instrumental como acompanhamento de seu ato peculiar de cantar louvores.
Como isso ameniza a dificuldade é impossível de se ver. Pois a Confissão
define as circunstâncias em questão como comuns às ações humanas e,
portanto, comuns às ações de todas as sociedades humanas. Mas não será
alegado que a ação de cantar louvores no culto a Deus pertence a todas as
sociedades como tais. Se essa ação não lhes pertence, nenhuma circunstância
quanto a ela pode pertencer a eles.
A coletividade da ação infere a coletividade das circunstâncias que a
acompanham. O fundamento da objeção é, portanto, eliminado; não existe tal
ação comum a todas as sociedades como o canto de louvor no culto a Deus e,
consequentemente, nenhuma circunstância referindo-se à música
instrumental. A ação e a circunstância desaparecem juntas. Se a ação de
cantar louvores pertencesse igualmente à igreja e a todas as sociedades,
poderia haver algum tom de plausibilidade no argumento de que a igreja pode
determinar as circunstâncias que a acompanham enquanto feitas por ela
mesma, na medida em que, ao menos, se referem os termos desta cláusula
particular na Confissão de Fé. Se, no entanto, a ação de cantar louvores no
culto a Deus é peculiar à igreja como um tipo particular de sociedade, a
circunstância da música instrumental como participante não pode ser comum
às ações e sociedades humanas. É, portanto, descartada pela linguagem da
Confissão.
Esse argumento é conclusivo, a menos que se possa demonstrar que a
música instrumental é uma circunstância necessária para a execução da ação
— cantar louvores. Uma resposta simples e completa para isso é que, por mil
anos, a igreja cantou louvores sem acompanhamento instrumental. Como,
então, pode ser sustentada a sua necessidade no canto de louvores? Pode uma
circunstância ser necessária para a realização de um ato, quando o ato foi
realizado sem ela e é agora continuamente, Sabbath após Sabbath, realizado
sem ela? Dizer que a música instrumental auxilia no desempenho do ato é
alterar a questão. A questão não é: “Ela é útil?” Mas é: “Ela é necessária?”
A isto deve ser acrescentado que essa provisão particular da
Confissão deve ser interpretada em conformidade com o seu ensino católico e
o dos seus padrões irmãos. Ambos representam o canto dos salmos como
prescrito. Ambos estão em silêncio sobre a prescrição do instrumento
musical. Ora, se pudesse ser provado que o último é necessário para o
primeiro, a prescrição de um implicaria logicamente a prescrição do outro.
Mas nós vimos que não existe tal necessidade. Somos obrigados, portanto, a
excluir a música instrumental como ilegítima, em vista da declaração
expressa da Confissão e de outros padrões de que nos é proibido introduzir
qualquer coisa no culto a Deus que não seja prescrita. Aqui está uma
circunstância que não é necessária nem prescrita. Ela não pode, portanto,
estar entre as circunstâncias legitimadas pela Confissão.
Vimos, então, que a ação de cantar louvores no culto a Deus é
peculiar à igreja e não a ela em comum com todas as outras sociedades, e que
a música instrumental é uma circunstância concernente a essa peculiar ação
eclesiástica que, portanto, não pode ser comum às ações e sociedades
humanas. Consequentemente, não é uma daquelas circunstâncias que estão no
poder discricionário da igreja, precisamente estando no poder discricionário
de todas as sociedades. Nenhuma circunstância peculiar e característica da
igreja, enquanto tal, pode ser uma das circunstâncias mencionadas pela
Confissão de Fé.
A questão, então, retorna: “Quais são as circunstâncias relativas ao
culto a Deus que a igreja tem o direito de ordenar de acordo com a luz da
natureza e da prudência cristã?” Sua definição adequada é que elas são
CONDIÇÕES sobre as quais as ações de todas as sociedades humanas são
realizadas — condições sem as quais as ações de qualquer sociedade não
podem ser executadas de forma alguma, ou não podem ser realizadas
decentemente e em ordem.
Primeiro, são condições que não são peculiares aos atos de qualquer
sociedade em particular, mas comuns aos atos de todas as sociedades. Elas
não podem, consequentemente, ser peculiares aos atos da igreja enquanto
uma sociedade particular. Mas a música instrumental é uma condição
peculiar ao ato de cantar louvores em algumas igrejas em particular. A
conclusão é óbvia.
Tomemos, por exemplo, as circunstâncias de tempo e de lugar. Elas
condicionam a reunião e, portanto, os atos de toda sociedade. Ninguém
poderia se encontrar e agir sem a designação de um horário e um lugar para a
assembleia. Isso é verdade tanto na igreja como num clube infiel. Nesse
aspecto, eles dependem das mesmas condições. Nenhum dos dois pode se
encontrar e agir sem cumprir essa condição. Esse é um exemplo das
circunstâncias da Confissão que são comuns às ações e sociedades humanas.
É ridículo dizer que a música instrumental está em tal categoria.
Não se pode negligenciar, como acaba de ser dito, que a música
instrumental é uma circunstância que não é comum até mesmo a igrejas em
particular. Algumas têm, outras não. Como pode ser comum a todas as
sociedades, quando não é comum às próprias igrejas? Como pode esta
conclusão ser evitada — de que não é uma das circunstâncias designadas pela
Confissão de Fé?
Segundo, as circunstâncias indicadas pela Confissão não são partes
dos atos das sociedades: elas simplesmente condicionam a realização dos
atos. Elas não são, em nenhum sentido, as qualidades ou os modos dos atos.
Se uma prova dessa posição é necessária, ela é vista na simples consideração
de que pelo menos alguns dos atos de várias sociedades são atos diferentes —
eles não são comuns entre si. É óbvio, portanto, que as partes desses atos se
enquadram na categoria dos atos dos quais fazem parte.
Porém, essas circunstâncias são comuns aos atos de todas as
sociedades. Voltemos ao exemplo de tempo e lugar. É desnecessário dizer
que estes, enquanto condições necessárias aos atos de todas as sociedades,
não são, a partir da natureza do caso, partes dos atos de nenhuma. As
resoluções adotadas por qualquer sociedade certamente não abrangem o
tempo e o lugar como elementos integrais, ou qualidades ou modos. Mas a
música instrumental, embora às vezes empregada nas igrejas por si mesma
como um ato distinto — e nesse caso ela é confessada como não-prescrita e
proibida — é geralmente usada junto ao canto como parte do ato de culto da
igreja. Nesses casos, ela certamente qualifica ou modifica o ato. Como,
portanto, ela entra como um elemento nos atos da igreja, enquanto uma
sociedade distinta, e não nos atos de todas as sociedades, ela é excluída por
esse fato da classe de circunstâncias indicada pela Confissão.
Terceiro, essas circunstâncias são condições de ações enquanto ações,
e não enquanto esses ou aqueles tipos específicos de ações. Elas condicionam
todo tipo de ações de todos os tipos de sociedades. Os debates e votos de um
corpo deliberativo secular são tão condicionados por elas quanto as orações e
os louvores da igreja. Dificilmente pode ser argumentado que a música
instrumental seja uma circunstância que condiciona os debates e os votos de
uma legislatura ou de uma reunião política. Mas, não sendo, é admitida como
excluída das circunstâncias pronunciadas pela Confissão comuns às ações e
sociedades humanas.
Quarto, essas circunstâncias são condições necessárias para as ações
de todas as sociedades — necessárias ou para a execução das ações ou para
seu desempenho decoroso. Que seja observado que elas são necessárias não
para o desempenho ou para o decoroso desempenho de algumas ações
peculiares de sociedades particulares, mas para todas as ações de todas as
sociedades. Tomar a base de que a música instrumental é uma circunstância
de alguma forma, uma condição necessária do cântico de louvor no culto da
igreja é sair dessas circunstâncias que a Confissão de Fé contempla. Uma
condição dessa ação peculiar da igreja, embora necessária ao desempenho da
ação que seus realizadores possam considerar, não pode ser uma condição
comum das ações e sociedades humanas. Ela se encontra fora dessa classe e,
portanto, fora das circunstâncias que a Confissão tem em vista. A música
instrumental é palpável e não pode ser justificada por um apelo a esta seção
da Confissão.
Quinto, essas circunstâncias, enquanto condições sobre as quais os
atos das sociedades devem ser feitos, não podem ser religiosas em seu
caráter. A razão é perfeitamente clara: elas condicionam os atos de todas as
sociedades seculares, e estaria fora de questão dizer que elas procedem de
condições religiosas. Mas a música instrumental, quando empregada no culto
da casa de Deus, é religiosa. Daí o apelo aos órgãos — que eles têm um som
solene e são por isso peculiarmente adequados para acompanhar o cântico de
louvor como um ato religioso.
Se for dito que eles são um acompanhamento secular do culto
religioso, poder-se-ia perguntar: com que direito esse acompanhamento do
culto a Deus é empregado, sem uma autorização distinta vinda dEle? E,
quando o órgão é tocado sem o acompanhamento do canto de louvor, é então
secular ou religioso? Se secular, será justificado com base no fato de que a
música secular pode, por si só, ser permitida na casa de Deus, e que Ele pode
ser adorado de maneira mundana? Se religioso, a questão é abandonada, e
então somos compelidos a voltar à afirmação de que a igreja não tem poder
discricionário na designação de elementos religiosos: eles não estão entre as
circunstâncias que são comuns às ações e sociedades humanas.
O argumento anterior mostrou que a música instrumental não pode,
em nenhuma pressuposta base, ser considerada como uma circunstância
comum às ações e sociedades humanas, e que, portanto, é excluída pela
Confissão de Fé do controle discricionário da igreja. A menos que, então,
possa ser provado que ela é uma das coisas ordenadas por Cristo e seus
apóstolos, ela não pode ser legalmente empregada em conexão com o culto
da casa de Deus. A fim de enfrentar as críticas que podem ser pronunciadas
ao argumento — de que ele deriva de uma concepção singular e restrita da
doutrina quanto às circunstâncias declaradas na Confissão de Fé —, as
opiniões de alguns eminentes teólogos serão citadas em seu apoio.
Dr. John Owen, ao argumentar contra uma liturgia, enuncia os
princípios defendidos nessas observações. “As circunstâncias”, diz ele[63],
“são tanto essas ações subsequentes, enquanto ações, quanto aquelas que são
aleatoriamente adicionadas e reunidas por comando a ações; que não agem
por iniciativa própria, nem natural nem necessariamente as auxiliam”.
Ora, ações religiosas no culto a Deus ainda são ações. Sua relação religiosa não destrói seu
ser natural. Essas circunstâncias, então, que auxiliam a ações enquanto ações não determinadas
pela instituição divina, podem ser ordenadas, descartadas e reguladas pela prudência dos
homens. Por exemplo, a oração é uma parte do culto a Deus. A oração pública também o é,
conforme indicado por Ele. Esta, como é uma ação a ser realizada pelo homem, não pode ser
feita sem a atribuição de tempo, lugar e outras diversas coisas, se a ordem e a conveniência
forem observadas. São circunstâncias que auxiliam a todas as ações dessa natureza a ser
desempenhadas por uma comunidade, quer se relacionem com o culto a Deus ou não. Esses
homens podem, de acordo com o que julgam ser bom, mudar e regular como há ocasião; quero
dizer, podem fazê-lo aqueles que são reconhecidos por terem poder nessas coisas. Como a ação
não pode existir sem elas, também a sua regulação é arbitrária se não vierem sob alguma
disposição e ordem divinas, como a do tempo em geral.

Há também algumas coisas, as quais alguns homens chamam de circunstâncias também,


que de nenhum modo pertencem, por si mesmas, às ações das quais se diz que são
circunstâncias, nem as auxiliam, mas são impostas sobre elas, ou anexadas a elas, pela
autoridade arbitrária daqueles que tomam sobre si o dar ordem e regras em tais casos; tal como
orar diante de uma imagem ou para o oriente, ou usar esta ou aquela forma de oração em tais
administrações evangélicas, e não em outras. Essas não são circunstâncias que auxiliam a
natureza da coisa em si, mas são arbitrariamente superadições às coisas que elas são designadas a
auxiliarem. Do que quer que os homens possam chamar tais acréscimos, tais não são menos
partes do todo a que servem do que as próprias coisas às quais eles estão ligados.

Ele, então, continua em provar a partir da Escritura que “tais


acréscimos ao culto a Deus, além ou acima de Sua própria instituição e
designação” não são “permitidos, ou lícitos de ser praticados”.
Em outro lugar, o mesmo grande teólogo diz[64]:
Tudo o que é circunstancial no modo de seu desempenho [isto é, no culto] ― não passível
de determinação especial, como emergindo ou surgindo apenas ocasionalmente, sob a ação
daquilo que é designado para esse ou aquele tempo, nesse ou naquele lugar, e assim por diante
― é deixado para a regra da prudência moral, em cuja observação sua ordem consiste. Mas a
superadição de cerimônias não necessariamente pertencentes nem às instituições de culto nem
àquelas circunstâncias cuja disposição recai sobre a regra da prudência moral, não pode nem
deve acrescentar qualquer coisa à devida ordem do culto evangélico; de modo que elas são
totalmente desnecessárias e inúteis no culto a Deus. Tampouco é esse o todo do inconveniente
com o qual sua observância é auxiliada; pois, embora não sejam particular e expressamente
proibidos na Escritura — pois seria simplesmente impossível que todos os casos em que a
inteligência do homem pudesse exercer sua invenção em tais coisas devessem ser considerados e
condenados —, ainda recaem diretamente sob as severas proibições que Deus registrou para
proteger Seu culto de todos os acréscimos a ele, de qualquer natureza [...]

Os Papistas dizem, de fato, que todos os acréscimos que corrompem o culto a Deus são
proibidos, mas aqueles que o adornam e o preservam não o são, o que implica uma contradição,
pois ao passo que todo acréscimo é principalmente uma corrupção, porque é um acréscimo sob
cuja noção é proibido (e aquilo que no culto a Deus é proibido é uma corrupção do mesmo), não
pode haver tal adição preservadora e adornadora, a menos que permitamos uma corrupção
preservadora e adornadora. Tampouco é de maior força, como alegam eles, que os acréscimos
que eles fazem não pertençam à substância do culto a Deus, mas às circunstâncias dele; pois
toda circunstância observada religiosamente, ou a ser observada no culto a Deus, é da substância
dele, como foram todas aquelas cerimoniosas observâncias da lei, que tinham o mesmo aspecto
nas proibições de acréscimos, com as coisas mais pesadas de todas.

“Não há nada”, diz George Gillespie[65], “que, de certo modo,


pertença ao culto a Deus que seja deixado à determinação de leis humanas
além das meras circunstâncias, as quais não têm nenhuma santidade em si,
pois não têm outro uso e louvor no sagrado que têm em coisas civis, nem
ainda foram particularmente determináveis na Escritura, porque são infinitas;
mas cerimônias sagradas e significativas, como crucifixo, ajoelhar-se,
sobrepeliz, feriados, bispado, etc., que não têm qualquer uso e louvor, exceto
apenas na religião, e que, também, foram mais facilmente determináveis
(ainda que não determinadas) dentro daqueles limites que a sabedoria de
Deus estabeleceu para a sua Palavra escrita, são coisas que Deus nunca
deixou para a determinação de qualquer lei humana”.
Ele fala mais explicitamente com o mesmo efeito nas seguintes
palavras[66]:
Dirijo minha atenção diretamente à dissecação dos verdadeiros limites dentro dos quais o
poder da igreja de decretar leis sobre as coisas referentes ao culto a Deus é limitado e confinado,
ao qual ela não pode sobrepor, nem transgredir. [Eis] três condições que penso ser
necessariamente requisitadas em algo que a igreja tem poder de prescrever por suas leis:

1. Deve ser apenas uma circunstância de culto divino; nenhuma parte substancial dele;
nenhuma cerimônia sagrada, significativa e efetiva. Pois a ordem e decência deixadas para a
definição da igreja, quanto às particularidades dela, não compreendem mais do que meras
circunstâncias. [...] Embora as circunstâncias sejam deixadas para a determinação da igreja,
contudo as cerimônias, se falarmos apropriadamente, não são [...] circunstâncias que têm lugar
em todas as ações morais, e isso para o mesmo fim e propósito para o qual servem em ações
religiosas — a saber, para embelezá-las com aquele comportamento decente que a própria luz e
lei da razão natural requerem como uma coisa conveniente a todas as ações humanas. Pois a
igreja de Cristo, sendo uma sociedade de homens e mulheres, deve ou observar a ordem e a
decência em todas as circunstâncias de suas ações sagradas, tempo, lugar, pessoa, forma, etc., ou
então ser deformada com aquela desordem e confusão que a razão comum e a civilidade
abominam.

2. Aquilo que a igreja pode legalmente prescrever por suas leis e ordenanças, como uma
coisa deixada à sua determinação, deve ser uma das coisas que não foram determinadas pela
Escritura em cima daquele raciocínio que Camero nos deixou, ou seja, porque individua, é
infinita. [...] Falamos verdadeiramente daquelas várias e mutáveis circunstâncias que são
deixadas para a determinação da igreja, que, sendo quase infinitas, elas não eram particularmente
determináveis na Escritura. [...] Mas, quanto às outras coisas pertencentes ao culto a Deus, que
não devem ser consideradas entre as circunstâncias dele, não sendo em número muitas, nem em
mudança, variadas, eram mais fácil e convenientemente determináveis na Escritura. Ora, uma
vez que Deus reclama Sua Palavra (que é a nossa regra nas obras de Seu serviço) não para ser
entregue pela tradição, mas para ser escrita e selada em nós, para que, por este meio, obviando a
sutilidade satânica e socorrendo a imbecilidade humana, possamos ter um caminho mais seguro
para a conservação da verdadeira religião e para a sua instauração quando minguada entre os
homens — como podemos sequer nos assegurar de que toda coisa aceitável referente de algum
modo à religião, que fosse particular e convenientemente determinável na Escritura, está de fato
determinada nela; e, consequentemente, que tal coisa não é uma mera circunstância alterável e
deixada para a determinação da igreja?

3. Se a igreja prescreve alguma coisa legalmente, de modo que ela não prescreva mais do
que o poder que lhe foi dado para prescrever, sua ordenança deve ser acompanhada com alguma
boa razão e autorização dada para a satisfação das consciências.

“Como uma instituição positiva, com uma carta escrita”, observa o


Dr. Thornwell[67], “ela [a igreja] está confinada aos ensinos explícitos ou
implícitos da Palavra de Deus, o padrão de sua autoridade e direitos; [...]
como na esfera da doutrina ela não tem opiniões, mas uma fé, portanto, na
esfera da prática, ela não tem expedientes, mas uma lei. Seu poder é
unicamente ministerial e declarativo. Todo o seu dever é crer e obedecer.
Qualquer coisas que não seja ordenada, expressa ou implicitamente, é ilegal.
[...] Segundo a nossa visão, a lei da igreja é a positiva da conformidade com a
Escritura; de acordo com a visão que condenamos, é a negativa da não-
contradição à Escritura. De acordo com nosso ponto de vista, a igreja, antes
que ela possa se mover, não só deve mostrar que ela não é proibida, mas
também deve mostrar que ela é verdadeiramente ordenada; ela deve
apresentar uma autorização. Por isso, negamos absolutamente que ela tenha
qualquer poder discricionário em relação a coisas não ordenadas. Ela não
pode proclamar quaisquer leis que Cristo não tenha ordenado, instituir
quaisquer cerimônias que Ele não tenha designado, criar quaisquer ofícios
que Ele não tenha prescrito e exigir qualquer obediência que Ele não tenha
imposto. Ela não entra no vasto domínio que Ele deixou indiferente e, por sua
autoridade, não prende a consciência onde Ele a deixou livre.
Mas daí decorre que ela não tem absolutamente nenhum poder discricionário? Pelo
contrário, afirmamos distinta e repetidamente que, na esfera das coisas ordenadas, ela tem um
poder discricionário — um poder discricionário determinado pela natureza das ações e pelo
princípio divino de que todas as coisas sejam feitas com decência e em ordem. [...] Nós apenas o
limitamos e definimos. Nunca negamos que a igreja tenha o direito de fixar os horários de culto
público, os tempos e os lugares das reuniões de suas cortes, os números dos quais serão
compostas, e os locais que cada um deve ocupar. Nossa doutrina vem precisamente dos padrões
de Westminster, de João Calvino, de John Owen, da Igreja Livre da Escócia e do nobre exército
de puritanos, mártires e confessores.

Depois de citar as declarações da Confissão de Fé de Westminster


sobre o assunto, ele prossegue dizendo:
Aqui o poder discricionário está limitado a algumas circunstâncias, e aquelas comuns às
ações e sociedades humanas. Ora, surge a pergunta: Qual é a natureza dessas circunstâncias?
Uma olhada nos textos-prova, nos quais a doutrina se baseia, nos permite responder. As
circunstâncias são aquelas concomitantes de uma ação sem a qual ela não pode sequer ser feita,
ou não pode ser feita com decência e decoro. O culto público, por exemplo, requer assembleias
públicas e, em assembleias públicas, as pessoas devem comparecer em certo traje e assumir certa
postura. Se escandalizam o senso comum em seus trajes ou se se adaptam à prática comum; se
permanecem de pé, sentam-se ou deitam, ou se têm a liberdade de determinar seu próprio
comportamento — são essas as circunstâncias; elas são os concomitantes necessários da ação, e
a igreja tem a liberdade de regulá-las.

As assembleias públicas, além disso, não podem se sustentar sem fixarem a hora e o local
da reunião; essas também são circunstâncias que a igreja está em liberdade de regular. As
assembleias parlamentares não podem transacionar seus negócios com eficiência e prontidão —
na verdade, não podem sequer transacioná-lo decentemente — sem os comitês. Comitês,
portanto, são circunstâncias comuns às sociedades parlamentares, que a igreja, em seus
parlamentos, tem a liberdade de nomear. Todos os detalhes de nosso governo em relação à
distribuição dos tribunais, o número necessário para constituir o quórum, os tempos de suas
reuniões, a maneira na qual eles serão abertos — todos esses, e coisas semelhantes, são
circunstâncias que, portanto, a igreja tem o perfeito direito de organizar.

Devemos distinguir cuidadosamente entre as circunstâncias que auxiliam ações enquanto


ações — isto é, sem as quais as ações não poderiam existir — e aquelas circunstâncias que,
embora não sejam essenciais, são acrescentadas como apêndices. Estas últimas não se
enquadram na jurisdição da igreja. Ela não tem o direito de designá-las. São circunstâncias no
sentido de não pertencerem à substância do ato. Elas não são circunstâncias no sentido cercarem
[o ato] de tal modo que não podem ser separadas dele. Uma liturgia é uma circunstância desse
tipo, como também o sinal da cruz no batismo, e curvar-se ao nome de Jesus. Owen observa a
distinção.

Esses grandes homens concordam em mostrar que as circunstâncias


das quais a Confissão de Fé fala como estando sob o controle discricionário
da igreja na esfera do culto não são apêndices acrescentados aos atos de
culto, as quais podem ou não acompanhá-los, como a igreja determinar, mas
são simplesmente condições necessárias ao desempenho dos atos ou a seu
desempenho decente e ordenado — condições não peculiares a esses atos da
igreja enquanto uma sociedade distinta, mas comuns aos atos de todas as
sociedades.
Particular atenção é desafiada aos pontos de vista citados por
Gillespie, pela razão de que ele era um membro da Assembleia de
Westminster, e é claro que conhecia e expunha com precisão a doutrina desse
corpo sobre esse assunto. Ele faz uma distinção clara entre o que seria
determinável pela Escritura e o que não seria. O que não era assim
determinável foi deixado para ser determinado pela igreja; o que era assim
determinável foi excluído de seu poder discricionário.
Ora, é certo que a música instrumental foi, sob a dispensação judaica,
realmente determinada pela vontade revelada de Deus como um elemento no
culto do templo. Precisa ser dito que, portanto, ela não era indeterminável?
Poderia ter aprazido a Deus determiná-la como um elemento no culto da
sinagoga e, da mesma maneira, poderia tê-lo aprazido determiná-la como um
apêndice ao da igreja cristã. Ele não o fez e, consequentemente, ela é
proibida.
Isso estabelece de maneira conclusiva a doutrina da Assembleia de
Westminster. Ela pretendia ensinar que a música instrumental não era uma
das circunstâncias indetermináveis pela Escritura e deixada ao poder
discricionário da igreja. Como a questão aqui é em relação ao significado das
circunstâncias que a Confissão de Fé trata, essa consideração é absolutamente
decisiva. A música instrumental não pode, sem violência à Confissão, ser
colocada na categoria de circunstâncias determináveis pela igreja. Como,
então, não é ordenada, é proibida; e aqueles que justificam seu emprego no
culto público estão sujeitos à séria acusação de acrescentar ao “conselho de
Deus” que é “estabelecido” em sua Palavra.
V. O ARGUMENTO HISTÓRICO
Espero provar a qualquer espírito sincero que a argumentação
histórica opõe-se esmagadoramente ao uso da música instrumental no culto
público da igreja cristã. Já foi demonstrado que ela não foi empregada, sob a
dispensação judaica, no tabernáculo até que estivesse prestes a dar lugar ao
templo, ou no culto estabelecido da sinagoga, e que, tendo sido limitada por
direção divina ao ritual do templo, foi, juntamente com os outros elementos
característicos a esse instituto temporário, abolida na inauguração da
economia cristã.
Também foi evidenciado que a igreja cristã, através de uma leve
transição, transferiu para a nova dispensação o culto simples bem como a
política da sinagoga, modificados pelas condições peculiares a essa
dispensação; que o emprego da música instrumental no culto cristão não foi
uma dessas modificações, pois tal modificação teria o efeito de conformar a
igreja do evangelho ao templo, com seus rituais simbólicos e tipológicos —
uma conformidade da qual até mesmo a sinagoga estava isenta; e que os
apóstolos, como os organizadores divinamente comissionados e inspirados da
igreja do Novo Testamento, tão longe de autorizar o uso da música
instrumental em seu culto, a excluíram.
A igreja cristã, está claro, foi iniciada sem ela. Qual tem sido a
história subsequente ao caso? Ao responder a essa questão, será feita
referência à prática da igreja e ao testemunho de alguns de seus principais
teólogos durante os sucessivos períodos de seu desenvolvimento.
Não há evidência, mas, sim, o contrário, para mostrar que a música
instrumental tenha sido comumente introduzida na igreja até o século XIII.
Os historiadores da igreja não mencionam isso em seus relatos sobre o
culto da igreja primitiva. Mosheim não diz uma palavra sobre isso. Neander
faz a simples observação: “A salmodia da igreja, também, passou da sinagoga
para a igreja cristã[68]”. Dr. Schaff observa: “Ele [Cristo] sancionou por Sua
própria prática, e espiritualizou, os elementos essenciais do culto judaico[69]”.
Eles eram historiadores e não poderiam registrar um fato que não existisse.
Bingham, merecidamente reconhecido como um escritor de
antiguidades cristãs e, como um membro da Igreja Anglicana, certamente
sem parcialidade a favor de visões puritanas, diz[70]:
Eu deveria aqui ter posto fim a este capítulo, mas alguns leitores estariam inclinados a
considerá-lo uma omissão de que não notamos órgãos e sinos entre os utensílios da igreja. Mas a
verdadeira razão é que tais coisas não estiveram em uso nas igrejas antigas por muitas eras. A
música nas igrejas é tão antiga quanto os apóstolos, mas a música instrumental não o é.

Em relação à doutrina dos pais sobre o assunto, não posso fazer


melhor do que dar um extrato de uma obra erudita e capaz do Rev. James
Peirce[71], intitulada “A Vindication of the Dissenters” [Uma Defesa dos
Dissidentes]. “Venho agora”, diz ele[72], “falar um pouco sobre a antiguidade
dos instrumentos musicais. Mas que esses não foram usados na igreja cristã
nos tempos primitivos é atestado por todos os escritores antigos com único
consenso. Daí eles explicarem todas as passagens do Antigo Testamento que
falam de instrumentos musicais figurativamente, como eu poderia mostrar
facilmente através de um milhar de testemunhos de Clemente de Alexandria,
Basílio, Ambrósio, Jerônimo, Agostinho, Crisóstomo e muitos outros. [...]
Crisóstomo fala mais belamente: ‘Como os judeus louvavam a Deus com
todos os tipos de instrumentos, somos assim ordenados a louvá-lo com todos
os membros de nossos corpos, nossos olhos,’ etc[73]. E Clemente de
Alexandria fala muito com o mesmo propósito[74]. Além disso, os antigos
julgavam ser ilegal usar tais instrumentos no culto a Deus. Assim [diz] o
autor desconhecido de um tratado entre as obras de Justino Mártir: ‘Questão:
Se as canções foram inventadas por incrédulos com o desígnio de ludibriar, e
foram designadas para aqueles sob a lei por causa da infantilidade de suas
mentes, por que os que receberam instruções perfeitas da graça, que são mais
contrários aos supracitados costumes, no entanto cantam nas igrejas assim
como fizeram aqueles que eram crianças sob a lei? Resp.: O canto simples
não é infantil, mas apenas o canto com órgãos sem vida, com danças e
címbalos, etc. Daí o uso de tais instrumentos e outras coisas próprias a
crianças ser posto de lado, e somente o canto simples ser retido[75]’”.
Crisóstomo parece ter sido de mesma opinião e ter pensado que o uso de tais instrumentos
era mais permitido aos judeus, em consideração à sua fraqueza, do que prescrito e ordenado[76].
Mas, que ele estava enganado e que os instrumentos musicais não eram apenas permitidos aos
judeus, como pensava ele e também Isidoro de Pelúsio (cujo testemunho mencionarei no
presente), mas foram prescritos por Deus, fica evidente a partir dos textos das Escrituras aos
quais me referi anteriormente. Clemente [...] julgava tais coisas mais próprias às feras do que aos
homens[77]. E embora Basílio elogie e defenda com firmeza o modo de canto antifonal[78], ele
considerava os instrumentos musicais inúteis e nocivos[79]. [...] Ele diz assim: “Em artes tão vãs
quanto tocar harpa ou flauta, ou danças, assim que se cessa a ação, a própria obra desaparece”.
De modo que, realmente, de acordo com a expressão do apóstolo, “o fim dessas coisas é a
destruição[80]”. Isidoro de Pelúsio, que viveu após Basílio, sustentava que a música era
permitida aos judeus por Deus de um modo condescendente à sua infantilidade: “Se Deus”, diz
ele, “suportava sacrifícios sangrentos, por causa da infantilidade dos homens naquele tempo, por
que questionar se Ele suportava a música de uma harpa e de um saltério?[81]” [...] Pelo que foi
dito, parece que nenhum instrumento musical foi usado nos tempos puros da igreja.

2. Com referência ao tempo em que os órgãos foram postos pela


primeira vez em uso na Igreja Católica Romana, ouçamos a Bingham[82]:
Hoje é geralmente acordado entre os homens instruídos que o uso de órgãos entrou na igreja
após o tempo de Tomás de Aquino, Anno 1250; porque ele, em suas Summas, escreve estas
palavras: “Nossa igreja não usa instrumentos musicais, como harpas e saltérios, para louvar a
Deus, a fim de que ela não pareça judaizar-se”. Do qual nosso sábio sr. Gregory, em uma
dissertação peculiar que faz sobre o assunto, conclui que não houve uso eclesiástico de órgãos
em seu tempo. E a mesma inferência é feita por Caetano e Navarra entre os escritores
romanistas. Sr. Wharton também observou que Marino Sanuto, o qual viveu por volta do ano
1290, foi o primeiro a trazer o uso de órgãos de tubos para as igrejas, de onde se denominou
Torcellus, que é o nome de um órgão na língua italiana. E sobre esse tempo, Durantus, em seu
Rationale, toma notas de tais como que recebidos na igreja; e ele é o primeiro autor, julga sr.
Gregory, que toma conhecimento deles.

O uso do instrumento, na verdade, é muito mais antigo, porém não no serviço da igreja; a
não observação de tal distinção é aquilo que engana a muitos escritores [...] Nem nunca foi
recebido nas igrejas gregas, não havendo qualquer menção de um órgão em todas as suas
liturgias, antigas ou modernas, se o julgamento do sr. Gregory pode ser usado. Durantus, no
entanto, defende a sua antiguidade, tanto nas igrejas gregas e latinas, e se oferece a prová-la, mas
com mau êxito; primeiro, a partir de Juliano Halicarnassense, um escritor grego, Anno 510, a
quem ele faz dizer que os órgãos eram usados na igreja em seu tempo. Porém, ele confunde o
sentido de seu autor, que não fala de seus próprios tempos, mas do tempo de Jó e do templo
judaico. Pois, comentando estas palavras de Jó 30:31: “A minha harpa também se tornou em
pranto, e o meu órgão na voz dos que choram”, diz ele: “Não havia qualquer proibição de se usar
instrumentos musicais ou órgãos, se feito com piedade, porque eles foram usados no templo”.
Por essa declaração, é claro, ele fala do templo judaico no singular, e não de templos ou igrejas
cristãs no plural, como Durantus confunde. Em seguida, para a igreja latina, ele incita o senso
comum que atribui sua invenção ao Papa Vitaliano, Anno 660; mas suas autoridades para isso
não são melhores que Platina e o Pontifício, as quais pouco podem ser consideradas contra
evidências claras do contrário. Aquilo que alguns incitam a partir de Clemente de Alexandria,
não responderei como Suicerus (que, com Hospiniano e alguns, condenando totalmente o uso da
música instrumental nas igrejas cristãs, diz que é uma interpolação e corrupção desse autor
antigo), mas apenas observo que ele não fala do que estava então em uso nas igrejas cristãs, mas
do que poderia legalmente ser usado por qualquer cristão privado, se estivesse disposto a usá-lo;
o qual, antes, argumenta que a música instrumental (o alaúde e a harpa dos quais ele fala) não
estava em uso nas igrejas públicas. O mesmo pode ser extraído das palavras de São Crisóstomo,
que diz: “Só foi permitido aos judeus, como foi o sacrifício, pela dureza e grosseria de suas
almas. Deus condescendeu à sua fraqueza, porque eram sempre inclinados aos ídolos; mas agora,
em vez de órgãos, podemos usar nossos próprios corpos para louvá-lo”. Teodoreto tem muitas
expressões semelhantes em seus Comentários sobre os Salmos e outras passagens. [...] De modo
que, não havendo uso de órgãos até o décimo segundo [décimo terceiro*] século, eu não poderia
falar deles como utensílios nas igrejas antigas.
Façamos uma pausa por um momento para notar o fato, apoiado por
uma massa de evidências incontestáveis, de que a igreja cristã não empregou
a música instrumental em seu culto público durante 1200 anos depois de
Cristo. Isso prova — o que já foi mostrado a partir das Escrituras do Novo
Testamento — que a igreja apostólica não a utilizou em seus serviços
públicos, e certamente a igreja deve agora ser conformada à prática dos
apóstolos e das igrejas cujos usos eles modelaram de acordo com a direção
inspirada do Espírito Santo.
Além disso, merece séria consideração que, apesar da tendência cada
vez mais acelerada para a corrupção no culto, bem como na doutrina e no
governo, a Igreja Católica Romana não adotou essa prática corrupta até
meados do século XIII. Esse é o testemunho de Aquino, que sempre foi
estimado por essa igreja como um teólogo de primeira eminência, e que,
naturalmente, conhecia perfeitamente seus usos. Quando o órgão foi
introduzido em seu culto, enfrentou forte oposição e abriu passagem
lentamente até a aceitação geral.
Esses seguramente são fatos que devem impressionar profundamente
as igrejas protestantes. Como podem adotar uma prática que a Igreja Romana,
no ano 1200, não havia admitido e que cuja subsequente introdução foi
contestada por alguns de seus melhores teólogos? Por exemplo, Belarmino,
como já vimos, condena [a música instrumental] como não pertencente à
igreja aperfeiçoada na nova dispensação, e o cardeal Caetano disse:
Deve-se observar que a igreja não usava órgãos no tempo de Tomás; de onde, até mesmo
hoje, a Igreja de Roma não os usa na presença do Papa. E realmente será visto que os
instrumentos musicais não devem ser conservados nos ofícios eclesiásticos em que nos reunimos
para servir com o intuito de receber a instrução interna de Deus; e que, assim, devem ser
excluídos, porque a disciplina interna de Deus excede todas as disciplinas humanas, a qual
rejeitou esse tipo de instrumento[83].

O grande erudito Erasmo, que nunca se retirou formalmente da


comunhão da Igreja de Roma, poderosamente se expressa:
Trouxemos para nossas igrejas certa música operosa e teatral; uma conversa confusa e
desordenada de algumas palavras, quase como nunca achei que fosse ouvida em nenhum dos
teatros gregos ou romanos. A igreja toca com o ruído de trombetas, flautas e saltérios; e vozes
humanas se esforçam para fazer sua parte com elas. [...] Os homens correm para a igreja como
para um teatro, para fazer cócegas em suas orelhas. E, para esse fim, os produtores de órgãos são
contratados com grandes salários e uma companhia de garotos, que desperdiçam todo o tempo
aprendendo esses tons lamuriosos [Ames traduz: “essa tagarelice”]. Ora, calcule quantas pessoas
pobres, em grande extremidade, poderiam ser mantidas pelos salários daqueles cantores[84].
Apesar dessa oposição, o órgão, durante os séculos XIV e XV, seguiu
seu caminho rumo ao triunfo universal na igreja romana. Então veio a
Reforma; e surge a pergunta: Como os reformadores lidaram com a música
instrumental na igreja? Será que eles ensinaram que a Reforma deveria
abraçar a expulsão desse tipo de música de seus serviços?
Não apelarei para Lutero. Eckhard[85] é referido como dizendo:
“Lutherus organa musica inter Baalis insignia refert”, “Lutero considera os
órgãos entre as insígnias de Baal”. Mas o reformador alemão expressa uma
opinião diferente em seu comentário sobre Amós 6:5.
Zuínglio já foi citado para mostrar que a música instrumental era uma
das sombras da antiga lei que foi concretizada no evangelho. Ele declara seu
emprego na presente dispensação como “perversidade maligna”. Não há
dúvida quanto aos seus pontos de vista sobre o assunto, os quais foram
adotados pelas igrejas reformadas suíças.
Calvino é muito expressivo em sua condenação da música
instrumental em conexão com o culto público da igreja cristã. Além dos
testemunhos que já foram apresentados para provar que ele considerava como
um dos tipos do Antigo Testamento que é cumprido no Novo, outras
passagens de seus escritos podem ser acrescentadas. Em seu comentário
sobre o Salmo 33, ele diz:
Há uma distinção a ser observada aqui, no entanto, de que não podemos considerar
indiscriminadamente aplicável a nós tudo o que foi anteriormente ordenado aos judeus. Não
tenho dúvida de que tocar címbalos, harpa e violino, e todo aquele tipo de música tão
frequentemente mencionado nos Salmos, fazia parte da educação — isto é, a instrução pueril da
lei. Falo do serviço fixo do templo. Pois mesmo agora, se os crentes escolhessem recrear-se com
instrumentos musicais, eles não devem, penso eu, nutrir o objetivo de dissociar sua alegria dos
louvores de Deus, mas quando frequentam suas assembleias sagradas, instrumentos musicais em
comemoração os louvores de Deus não seriam mais adequados do que a queima do incenso, o
acender das lâmpadas e a restauração das outras sombras da lei. Os papistas, portanto, tomaram
isso emprestado tolamente, assim como muitas outras coisas, dos judeus. Homens que gostam de
pompa externa podem se deliciar com esse ruído; mas a simplicidade que Deus nos recomenda
pelo apóstolo é muito mais agradável a Ele. Paulo nos permite bendizer a Deus na assembleia
pública dos santos, somente em uma língua conhecida (1Co 14:16). A voz do homem, embora
não entendida pela generalidade, certamente excede a todos os instrumentos inanimados de
música; e ainda assim vemos o que Paulo determina quanto a falar numa língua desconhecida. O
que diremos então do canto, que enche os ouvidos com nada além de um som vazio? Alguém
objetaria que a música é muito útil para despertar a mente dos homens e mover seus corações?
Eu mesmo; mas devemos sempre cuidar para que nenhuma corrupção se introduza, o que pode
tanto corromper o culto puro de Deus, como envolver os homens na superstição. Além disso,
uma vez que o Espírito Santo nos adverte expressamente deste perigo pela boca de Paulo,
proceder além do que somos garantidos por ele não é apenas, devo dizer, zelo inadvertido, mas
perversa e ímpia obstinação.
No Salmo 150:3-5 ele diz: “Não insisto nas palavras em hebraico que
significam instrumentos musicais; apenas deixo o leitor lembrar que vários
tipos diferentes são aqui mencionados, os quais estavam em uso sob a
economia da lei”, etc. No versículo 6, “Tudo quanto tem fôlego louve ao
Senhor”, ele comenta: “Até agora o salmista se dirigia em suas exortações ao
povo que estava familiarizado com as cerimônias sob a lei; agora ele se volta
aos homens em geral”, etc.
Em seu sermão em 1Sm 18:1-9, ele se comunica enfática e
solenemente sobre o assunto:
No papado havia uma imitação ridícula e inadequada [dos judeus]. Enquanto adornavam
seus templos e se valorizavam como tendo produzido um culto a Deus mais esplêndido e
convidativo, eles empregavam órgãos e muitas outras coisas ridículas, pelas quais a Palavra e o
culto de Deus são excessivamente profanados, o povo estando muito mais ligado a esses ritos do
que à compreensão da Palavra divina. Sabemos, no entanto, que onde tal entendimento não está
não pode haver edificação, como ensina o apóstolo Paulo [...]. O que, portanto, estava em uso
sob a lei de modo algum tem direito à nossa prática sob o evangelho; e essas coisas, não sendo
apenas supérfluas, mas inúteis, devem ser abstidas, porque a modulação pura e simples é
suficiente para o louvor de Deus, se cantada com o coração e com a boca. Nós sabemos que
nosso Senhor Jesus Cristo surgiu e, pelo Seu advento, aboliu essas sombras da lei. A música
instrumental, sustentamos, portanto, era tolerada apenas por causa dos tempos e das pessoas,
porque eram como meninos, como diz a Sagrada Escritura, cuja condição exigia esses
rudimentos pueris. Mas nos tempos do evangelho, não devemos recorrer a eles, a menos que
desejemos destruir a perfeição evangélica e obscurecer a luz meridiana que desfrutamos em
Cristo, nosso Senhor.

Com essas visões, seu ilustre colega Beza concordava[86]. “Se”, diz
ele, “o apóstolo proíbe justamente o uso de línguas desconhecidas na igreja,
muito menos ele teria tolerado essas performances musicais artificiais que são
dirigidas apenas aos ouvidos e raramente atingem o entendimento até mesmo
daqueles que as executam”.
A Igreja Protestante Francesa, que foi organizada principalmente
através da influência e dos conselhos de Calvino, naturalmente adotou seus
pontos de vista em relação ao culto, bem como à doutrina e ao governo.
Consequentemente, como o reformador não se opunha ao uso de uma liturgia
moderada e evangélica, aquela igreja, seguindo seu exemplo, empregou uma
que era permissiva, isto é, não imposta por autoridade. Alguém pode se
admirar de que Calvino, que inequivocamente declarava o grandioso
princípio de que tudo o que não é ordenado é proibido, não tenha visto a
aplicação desse princípio aos serviços litúrgicos, ao menos não tenha feito
essa aplicação praticamente. Seria irrelevante para o propósito desta
discussão considerar essa questão como uma de fato.
Sabemos que a Igreja Reformada Francesa agiu de acordo com suas
opiniões sobre esse assunto; e pode-se dizer, de passagem, que tem sido uma
questão de observação que o uso de uma liturgia pelos imigrantes huguenotes
a este país [isto é, Estados Unidos da América] foi uma armadilha que teve
influência em levar muitos deles a abandonarem a igreja de seus pais, os
quais se opunham definitivamente à prelazia, e se identificarem com uma
comunhão prelatícia. Lendo o caso retrospectivamente, podemos ver que
quaisquer que tenham sido as razões que governaram o reformador a
declinar-se em aplicar o poderoso princípio mencionado a uma liturgia, elas
não foram sustentadas por fatos. E é um pouco curioso, pelo menos é uma
oportunidade que atrai a atenção para suas causas, que as igrejas escocesas e
americanas, as quais hoje são geralmente opostas a uma liturgia, como
Calvino não era, estejam, cada vez mais, adotando a música instrumental, à
qual ele era contrário.
Mas o fato aqui enfatizado é que a Igreja Reformada Francesa, em
seus dias de eficiência e glória, excluiu a música instrumental de seus
serviços. O exemplo também não é insignificante. Foi o exemplo de uma
grande igreja, tão ilustre expoente dos princípios do presbiterianismo, com a
exceção que acaba de ser indicada e a sua aliança com o Estado, quanto
existiu desde os dias dos apóstolos. Esses princípios não foram usados como
um uniforme em desfile, mas foram mantidos por meio de sangue e fogo.
Alguns trechos da valiosa obra de Quick, Synodicon in Gallia Reformata,
iluminarão esse ponto com um brilho fantástico.
“Enquanto”, diz ele[87], “a Babilônia Mística, a Sodoma espiritual e o
Egito (onde nosso Senhor foi, em Suas mais preciosas verdades e ordenanças
e em Seus mais queridos santos e membros, por muitas eras, sucessivamente
crucificado) nadavam no calmo oceano de riquezas e grandezas mundanas,
nos mares pacíficos de peculiares felicidades e prazeres; a pobre Sião,
naquele sangrento reino da França, esteve em tempestades e chamas, passava
de uma ardente prova à outra, de caldeirões de óleo fervente em fornos
ardentes aquecidos com fogo sete vezes mais quente que antes; ela foi
expulsa de cidades populosas e as agradáveis habitações dos homens para o
frio e nevado Líbano, para os altos topos penhascosos de Amana e Senir, para
os assustadores dentes de felinos selvagens e para os horríveis obstáculos de
dragões e leões”. Isso é uma declamação extravagante? Vejamos alguns fatos.
No Sínodo Nacional de Rochelle, no ano 1571, presidido pelo Sr. Beza, os reformados
podiam contar mais de duas mil cento e cinquenta igrejas; e, em muitas destas, mais de dez mil
membros, e na maioria destas, dois ministros, em algumas havia cinco, como no ano 1561, onde
serviram à igreja de Orleans (que na época tinha sete mil comungantes) Anthony Chanoriet,
Lorde de Meringeau, Robert Macon, Lorde des Fontaines, Hugh Sureau, Nicholas Fillon, Lord
de Valls e Daniel Tossane, que depois morreu em Heidelberg, no Palatinado. Quando o Colóquio
[nosso Presbitério] de Poissy foi realizado, havia na única província da Normandia trezentos e
cinco pastores de igrejas, e, na província de Provence, sessenta. Eu me lembro que o autor de Le
Cabinet du Roy de France, um livro impresso no ano 1581, e dedicado a Henrique III, faz um
cálculo de seus mártires terem sido, em poucos anos, pelo menos 200.000 liquidados pelo
evangelho, e ele faz sua contagem deste modo: “Calcule”, diz ele, “cerca de cem mártires para
cada igreja e você tem o montante; e ainda é tão claro quanto o sol ao meio-dia que o montante é
muito mais. Pois é uma verdade incontestável, que foram liquidados pela espada e por massacres
pela religião da igreja de Caen acima de 15.000 ou 16.000; da igreja de Alencon, 5.000; da igreja
de Paris, 13.000; da igreja de Reims, 12.000; da igreja de Troyes, 12.000; da igreja de Sens,
9.000; da igreja de Orleans, 8.000; da igreja de Angiers, 7.000; e da igreja de Poictiers, 12.000
pessoas, etc.” Livre Premier, pp. 274-277.[88]

Quick faz esta declaração notável[89], que não posso deixar de citar,
sobre a poderosa influência exercida pelo simples canto de salmos sobre o
povo francês no início da Reforma Protestante:
Clemente Marot, um cortesão de grande engenhosidade, foi aconselhado pelo Sr. Vatablus,
professor régio de língua hebraica na Universidade de Paris, a consagrar sua criatividade a Deus;
conselho o qual ele aceita e traduz cinquenta dos salmos de Davi para a métrica francesa. Sr.
Beza fez os outros cem e todas as canções da Escritura. Lewis Guadimel, outro Asafe ou
Jedutum, um dos mais habilidosos mestres da música, estabeleceu aquelas doces melodias nas
quais [os Salmos] são cantados até os dias de hoje. Essa santa ordenança encantou os ouvidos,
corações e afeições da corte e cidade, município e país. Eles eram cantados no Louvre, bem
como nos Pres-des-Cleres, por senhoras, príncipes e, sim, pelo próprio Henrique II. Somente
essa única ordenança contribuiu grandemente para a queda do papado e para a propagação do
evangelho. Associou-se tanto ao espírito da nação, que todas as classes e graus de homens
praticavam-na nos templos e em suas famílias. Nenhum cavalheiro que professasse a religião
reformada se sentaria à sua mesa sem louvar a Deus cantando. Sim, era uma parte especial de seu
culto matutino e vespertino, em várias casas, cantar os louvores de Deus. O clero papista se
enfureceu, e, para impedir o crescimento e a propagação do evangelho por tal meio, aquele
astuto cardeal de Lorraine, outro Elimas, o mago, conseguiu que as odes de Horácio e os poemas
sujos e obscenos de Tibulo e Catulo fossem traduzidos para o francês e cantados na corte. A
obscenidade era a sua piedade e o meio usado por ele para expulsar e banir o cântico dos salmos
divinos da profana corte da França.

Qualquer que seja a prática nos últimos tempos das igrejas da


Holanda, os Sínodos da Igreja Reformada Holandesa, logo após a Reforma,
pronunciaram-se decididamente contra o uso da música instrumental no culto
público. O Sínodo Nacional em Middleburg, em 1581, declarou-se contra ela,
e o Sínodo da Holanda e da Zelândia, em 1594, adotou esta forte resolução:
“Que se esforçariam para obter do magistrado a retirada dos órgãos e do
canto junto a eles nas igrejas, mesmo fora do tempo de culto, antes ou depois
dos sermões”. O Sínodo Provincial de Dort também invectivou severamente
contra o seu uso.
Alguns testemunhos são acrescentados de distintos teólogos
continentais. Pareus, comentando 1Co 14:7, diz: “Na igreja cristã, a mente
deve ser incitada à alegria espiritual, não por flautas, trombetas e tamboris, os
quais Deus anteriormente entregou a seu povo antigo por causa da dureza de
seus corações, mas por salmos, hinos e cânticos espirituais”.
“A música instrumental”, observa Zepperus[90], “no culto religioso
dos judeus, pertencia à lei cerimonial, que agora é abolida. É evidente que é
contrário ao preceito e à regência de Paulo, que (1Co 14) quer que nas
assembleias cristãs tudo seja feito para a edificação, para que os outros
possam entender e ser reformados; isso mesmo que o falar em línguas
desconhecidas fosse banido da igreja; muito menos deve ser aquela música
orgânica dissonante, que produz uma tagarelice de muitas vozes, ser
permitida, com suas flautas, trombetas e apitos, fazendo nossas igrejas
ressoarem, ou melhor, gritarem e rugirem [...] Em algumas igrejas
reformadas, esses instrumentos musicais são retidos, mas não são tocados até
que a congregação seja dispensada, todas as partes do culto divino sendo
concluídas. E eles são então usados para um propósito político [civil], para
gratificar aqueles que buscam prazer a partir do som e da harmonia”.
Molerus, no Salmo 150, observa: “Não é de admirar, portanto, que um
número tão grande de instrumentos musicais esteja assim amontoado; mas,
embora fizessem parte da Paedagogia Legalis [instrução da lei], ainda assim
eles não foram, por isso, trazidos para as assembleias cristãs, porque Deus
deseja que, depois da vinda de Cristo, Seu povo cultive a esperança da vida
eterna e a prática da verdadeira piedade por meios muito diferentes e mais
simples que estes[91]”.
Gisbertus Voetius argumenta extensamente contra o uso da música
instrumental nas igrejas em seu Ecclesiastical Polity [Política Eclesiástica],
uma obra que é mantida em alta estima entre os presbiterianos[92]. O
argumento é caracterizado pela grande habilidade pela qual o autor foi
reconhecido, mas é elaborado demais para ser aqui citado.
Pode parecer inútil obter da Igreja da Inglaterra um testemunho contra
o emprego de instrumentos no culto; mas quando seu primeiro amor foi
aquecido pela influência bendita da reforma a partir do papado, ela falava
sem tons hesitantes sobre o assunto. Em sua homília “Do Lugar e do Tempo
de Oração”, essas palavras notáveis ocorrem: “A vingança de Deus foi e é
provocada diariamente, porque muitas pessoas ímpias nada fazem para
recorrer à igreja; ou por isso estão tão cegas que não entendem nada de Deus
ou de piedade, e não se importam com o exemplo diabólico de ofender a seu
próximo; ou ainda por isso veem a igreja completamente polida daquelas
atrações divertidas e espantosas, nas quais sua torpe fantasia grandemente se
deleitava, porque eles veem a falsa religião abandonada, e a verdadeira
restaurada, o que parece uma coisa desagradável para o seu desagradável
gosto; como pode parecer por isso, que uma mulher diria a sua vizinha: ‘Ah,
tagarela, o que faremos agora na igreja, uma vez que todos os santos foram
levados; uma vez que todas as boas atrações que estávamos acostumadas se
foram; uma vez que não podemos ouvir a mesma cantoria, entoação e soar
com os órgãos que podíamos antes?’ Mas, amados, devemos nos alegrar
muito e dar graças a Deus que nossas igrejas estão libertas de todas as coisas
que desagradam a Deus, tão dolorosas e sujas que contaminam a sua casa
sagrada e o seu lugar de oração”.
Os trinta e dois comissários piedosos e eruditos nomeados pelo rei
Eduardo VI para reformar as leis e observâncias eclesiásticas, apresentaram o
seguinte conselho[93]:
Ao ler capítulos e cantar salmos, ministros e clérigos devem pensar nisso diligentemente:
que Deus não deve ser apenas louvado por eles, mas que outros devem ser levados a realizar a
mesma adoração por seu conselho e exemplo. Portanto, que eles pronunciem suas palavras
distintamente e deixem seu canto ser claro e fácil, para que tudo possa ser entendido pelos
ouvintes. Assim, é nosso prazer que a operosa música vibrante, que é chamada figurada, seja
totalmente deixada de lado[94], já que muitas vezes faz tanto barulho nos ouvidos das pessoas
que elas não conseguem entender o que é dito.

“Certamente”, diz Ames em resposta às provocações do Dr. Burgess,


“esses não eram homens nem distraídos nem estúpidos; de onde vem o
preconceito deles, que a própria tréplica julgue[95]”.
“Na Convocação Inglesa, realizada no ano 1562, na época da Rainha
Elizabeth, para o acerto da liturgia, a conservação do costume de se ajoelhar
no sacramento, do sinal da cruz no batismo e dos órgãos foi conservada
apenas por um voto de desempate”. O relato de Hetherington sobre o assunto
é o seguinte[96]:
No início do ano 1562, realizou-se uma reunião da Convocação, na qual o assunto de
reforma posterior foi vigorosamente discutido em ambos os lados [...] [Entre as alterações
propostas, houve esta]: “Que o uso de órgãos seja posto de lado”. Quando a votação foi tomada,
nessas proposições, quarenta e três votaram a favor e trinta e cinco, contra; mas quando as
procurações foram contadas, o balanço foi alterado; o estado final da votação sendo cinquenta e
oito a favor e cinquenta e nove contra. E assim foi determinado, por um único voto, pela
procuração de uma pessoa ausente que não ouviu o debate, que o Livro de Oração deveria
permanecer sem melhoria, que não deveria haver reforma adicional, que não deveria haver alívio
para aqueles cujas consciências se sentiam prejudicadas pela mistura de invenções humanas no
culto a Deus.

Em 1564, durante o reinado da rainha Elizabeth, houve considerável


discussão no tocante ao uso de vestimentas no culto público. O bispo Horn
escreveu a Gualter em Zurique sobre o assunto. Ele e Bullinger responderam-
no recomendando moderação. Em seguida, Samson e Humphrey, em
fevereiro de 1565, escreveram aos teólogos de Zurique dando “um relato
copioso das razões em que fundamentavam sua recusa em obedecer” às
ordens da Rainha e do Parlamento: Bullinger respondeu-lhes recomendando
novamente a moderação[97]. A carta de Bullinger para Samson e Humphrey
foi enviada para Horn e Grindal, que a publicaram. “Nisso, Samson e
Humphrey escreveram a Zurique queixando-se da impressão de sua carta, e
levaram suas reclamações muito mais longe do que a questão das vestes: eles
reclamaram da música e dos órgãos, de fazer os responsáveis no batismo
responderem em nome da criança, da Corte de Faculdades, e da oração por
dispensações[98]”.
Esses fatos são suficientes para mostrar que a Igreja da Inglaterra
estava certa vez à beira de eliminar a música instrumental junto com outras
relíquias do papado de seus serviços públicos; e se ela tivesse sido
completamente reformada de acordo com os desejos de seus mais puros
teólogos, ela teria conformado sua prática, neste caso, àquela das igrejas
reformadas no continente. Mas o gosto e a vontade de uma cabeça de uma
mulher arbitrária na igreja determinaram seus usos numa direção contrária. A
história merece ser mais seriamente ponderada.
Quais eram os pontos de vista dos puritanos ingleses sobre este
assunto já foi indicado quando a questão estava em consideração em relação
à posição assumida sobre ela pela Assembleia de Teólogos de Westminster.
Não é necessário exibir os sentimentos deles em novos apelos à autoridade.
Em sua oposição quase unânime à música instrumental no culto público da
igreja como antibíblica e papista houve algumas exceções, entre as quais
estava o justamente célebre Richard Baxter, um grande homem, mas não um
grande calvinista nem um grande presbiteriano. Aqueles que desejam ver
seus argumentos em favor de um emprego moderado da música instrumental
no culto da igreja podem encontrá-los no quinto volume de suas obras,
editadas por Orme, página 499: argumentos tão fracos quanto aqueles pelos
quais ele tentou apoiar a teoria grotiana de expiação[99]. Como eles podem,
em certa medida, ser considerados no exame dos argumentos a favor da
música instrumental [capítulo VI], não serão observados neste local.
Não posso passar dessa referência aos puritanos ingleses sem pausar
para expressar a convicção de que, quaisquer que tenham sido algumas de
suas características peculiares — e mesmo essas foram ampliadas e
caricaturadas por oponentes que estavam parcial ou totalmente destituídos de
sua seriedade religiosa — expoentes mais puros da verdade de Deus como
estabelecida nas Sagradas Escrituras não existiram na terra desde os dias dos
apóstolos — e a crescente deserção das visões que eles mantinham no tocante
à pureza do culto, que agora marca ostensivamente as igrejas não prelatícias
de língua inglesa, traz consigo os sintomas ameaçadores da apostasia do
evangelho.
Alguns poucos ainda se mantêm firmes contra o que agora é
chamado, em uma frase dolorosamente significativa, de tendências de “baixo
nível” desta era. Entre eles, destaca-se o eminente servo de Cristo — uma
estrela em sua mão direita — Rev. Charles H. Spurgeon, que não apenas
proclama com poder as doutrinas puras da Palavra de Deus, mas mantém e
sustenta uma simplicidade apostólica de culto. A grande congregação que é
abençoada com o privilégio de ouvir suas instruções não tem nenhum órgão
“para ajudá-los” a cantar seus louvores ao seu Deus e Salvador. Eles julgam
seus órgãos vocais suficientes. Suas línguas e vozes expressam a gratidão de
seus corações.
É quase desnecessário citar o exemplo da Igreja da Escócia. Ela era
— com a exceção de uma aliança profana entre igreja e Estado: uma fonte
maléfica de males incalculáveis, “uma fonte de desgraças inumeráveis” —,
no princípio, um glorioso exemplo de igreja tão completamente reformada
quanto se poderia esperar na condição presente, imperfeita, pré-milenar.
Mesmo a liturgia permissiva de John Knox ela logo jogou fora como uma
atadura de seus braços livres, e durante séculos não conheceu nada de música
instrumental em seus serviços públicos. Quão bom seria se ela agora retivesse
essa primitiva pureza de culto!
Mas em meio século atrás, em consequência da agitação
persistentemente alcançada por alguns que clamavam por uma “celebração”
mais artística de culto, a Igreja Estabelecida relaxou o seu testemunho e
consentiu em tornar a questão da música instrumental completamente
“aberta” — isto é, o assunto foi deixado para a opção de congregações
individuais. Enquanto isso, a Igreja Livre permanecia firme e permaneceu até
recentemente. Dr. Begg, em sua obra sobre órgãos, podia expressar sua
gratidão pela atitude conservadora de sua igreja sobre o assunto, e Dr.
Candlish censurou a discussão da questão como gravemente perigosa. Mas
eles adormeceram e a igreja de seu amor está agora, pela ação de seus
presbitérios, tornando-a uma “questão aberta”. As comportas estão abertas e
o resultado não é de forma alguma incerto: a experiência da Igreja
Presbiteriana Americana será a dos escoceses.
A Igreja Presbiteriana Irlandesa tem debatido seriamente a questão em
sua Assembleia Geral. Até agora ela se recusou a torná-la aberta; mas a
pressão de uma minoria pesada, quase com certeza esperada, prevalecerá em
romper os diques do conservadorismo bíblico. O fato, entretanto, de que até
hoje a nobre igreja mantém sua oposição à música instrumental não contribui
com nenhum elemento sem importância para o argumento histórico contra
seu uso. É provável que a questão nunca tenha sido submetida a um exame
tão aprofundado como ela se encontrou nas discussões prolongadas de sua
suprema corte. Ela é agora quase a última grande testemunha do canto
simples de louvor no culto público. Se o padrão de seu testemunho cair, deve
ser deixada para os pequenos corpos separados, ou para os indivíduos, a
continuação do testemunho e da disputa por uma simplicidade de culto da
qual a maioria da igreja apostatou.
As igrejas não prelatícias, independentes e presbiterianas, começaram
seu desenvolvimento no continente americano sem a música instrumental.
Elas seguiram os puritanos ingleses e a igreja escocesa, que haviam adotado
os princípios da Igreja Reformada Calvinista. Como o órgão veio a ser
gradualmente introduzido nelas, seria inútil perguntar. Elas começaram bem,
mas cada vez mais se afastaram do simples espírito do culto cristão. Com que
base fizeram isso, seria bom que elas parassem e se perguntassem. Pois, se
houver alguma força no argumento, sua posição atual não pode ser mantida.
É um claro afastamento da prática da igreja, tanto primitiva quanto
reformada. A Igreja Presbiteriana Unida acabou de ceder. Uma minoria
respeitável se opõe à deserção, mas como a questão será os eventos ainda não
fornecem dados suficientes para determinar.
A Igreja Reformada Associada ainda não recuou dos princípios e
práticas puros de seus antepassados. Que Deus lhes conceda graça para
continuar em sua manutenção! Chegará o tempo em que aqueles que se
apoiam nesses princípios e se recusam a ceder às exigências de uma era
latitudinarista serão atraídos pela adesão a um sentimento comum em direção
a uma união formal entre si. Pode-se questionar se a retenção de um puro
culto do evangelho não constitui uma razão para a existência de uma
organização distinta.
Ficou provado, portanto, por um apelo aos fatos históricos, que a
igreja, apesar de cair mais e mais em deserção da verdade e em corrupção da
prática apostólica, não teve música instrumental durante mil e duzentos anos;
e que a Igreja Reformada Calvinista a expulsou de seus serviços como um
elemento do papado, mesmo a Igreja da Inglaterra quase chegou à extrusão
desta de seu culto. O argumento histórico, portanto, combina com o bíblico e
o confessional a fim de levantar um protesto solene e poderoso contra seu
emprego pela Igreja Presbiteriana. É heresia na esfera de culto.
VI. ARGUMENTOS A FAVOR DA
MÚSICA INSTRUMENTAL
CONSIDERADOS
No argumento anterior, o apelo foi levado às Escrituras e aos padrões
presbiterianos como que as interpretando; e provas históricas da prática da
igreja foram, além disso, apresentadas principalmente com o propósito de
mostrar qual era o costume dos apóstolos e das igrejas que eles organizaram.
Quaisquer argumentos produzidos em favor da música instrumental no culto
público da igreja devem professar estar fundamentados nas mesmas
considerações — isto é, devem assumir serem derivados das mesmas fontes
das quais as provas precedentes foram estabelecidas ou devem ser
considerados indignos de resposta. Aqueles fundamentados no gosto ou na
sabedoria humana menosprezam a seriedade do assunto. Eles se referem a um
padrão que não pode ter autoridade possível numa questão que diz respeito ao
culto público a Deus.
Tais são os argumentos comuns, por exemplo: que a música
instrumental auxilia a devoção, que estimula e exalta o sentimento religioso e
que transmite dignidade, graça e atratividade aos serviços da igreja. Todos
eles são baseados em conveniência e, portanto, são irrelevantes para a
consideração de uma questão que só pode ser legitimamente decidida pela
autoridade expressa de Deus. Não há meio termo entre a submissão à vontade
revelada de Deus e um culto ditado pelas fantasias dos pecadores. Apenas
dois tipos de argumentos serão examinados:

1. Aqueles que professam ser derivados diretamente das


Escrituras.
(1) É argumentado que o próprio Deus sancionou o uso da música
instrumental no culto público, e as Escrituras são pleiteadas como prova
dessa afirmação. “Certamente o que Deus aprovou deve estar correto; não
pode ser condenado pelo homem”.
A falácia aqui consiste na afirmação de que o que Deus aprovou em
um determinado lugar, em um determinado momento e em certas
circunstâncias, Ele aprova em todos os lugares, em todos os momentos e em
todas as circunstâncias. É esquecido que há uma distinção entre as leis morais
fundamentadas na natureza eterna de Deus, que são imutáveis, e os decretos
positivos baseados nas determinações especiais de Sua vontade, que podem
ser mudados a Seu prazer.
Ele deu a Adão uma permissão para comer da árvore da vida no
Paraíso; Ele a revogou quando Adão caiu. Ele ordenou a Seu povo na antiga
dispensação que observasse a circuncisão e a páscoa; Ele mudou o decreto e
os ordenou observar o batismo e a ceia do Senhor. Ele uma vez lhes ordenou
que oferecessem sacrifícios sangrentos e observassem outros rituais especiais
no templo; Ele agora ordena que se abstenham do que na época eram deveres
obrigatórios. E mesmo durante a época em que era obrigatório oferecer culto
sacrificial e tipológico em um determinado lugar — no templo —, Ele os
proibiu de apresentá-lo em outro lugar — na sinagoga —. De igual forma,
houve um tempo em que Ele ordenou positivamente o uso da música
instrumental no templo e proibiu seu uso na sinagoga; e uma vez que o
templo com seus serviços característicos desvaneceram, Ele proíbe o
emprego [de música instrumental] agora em qualquer lugar.
“Deus aprovou a circuncisão, a páscoa, a oferta de sacrifício, as
ofertas de manjares, ofertas de bebida, abluções e coisas semelhantes. Logo,
Ele os aprova em todos os momentos, e aprova-os hoje”.
Tal é a lógica do argumento em consideração. O cristão, então,
circuncidará seus filhos, comerá a páscoa, oferecerá sacrifícios, sangrentos ou
não, e empregará abluções em seu culto? Por que não? Deus não os aprovou
uma vez? O bordão perfura a mão que se apoia sobre ele. O argumento
contradiz a realidade e, em muitos aspectos, é admitido ser sem valor. Deus
uma vez aprovou a música instrumental. Verídico. Mas isso mostra que Ele a
aprova agora? Pelo contrário, Ele a condena agora. Ela era um daqueles
decretos positivos que Lhe aprouve mudar.
Pode-se responder que, quando determinou o desuso de uma antiga
ordenança, Ele colocou outra em seu lugar; o batismo, por exemplo, no lugar
da circuncisão, e a ceia do Senhor em vez da páscoa; porém o mesmo não se
aplica à música instrumental. Mas, em primeiro lugar, isso não é
universalmente verdadeiro. Ele substituiu o culto sacrificial por o quê? Em
segundo lugar, Ele colocou o canto simples no lugar do canto com o
acompanhamento de instrumentos. Numa palavra, Deus uma vez aprovou
todo o ritual do templo. Ele o desaprova agora; e aquele que introduzir
qualquer parte desse ritual na igreja cristã se torna judeu e volta-se de Cristo
para Moisés. Isso é verdade para a música instrumental, como já foi provado.

(2) “A música instrumental não é condenada ou proibida nas


Escrituras do Novo Testamento”.
Essa posição poderia ser consistentemente tomada apenas por um
preladista da escola ritualista, que afirma que a igreja é revestida de um poder
discricionário para decretar ritos e cerimônias; e vimos que mesmo a
Convocação da Igreja Inglesa, que adotou os 39 Artigos, não incorporou a
eles tal princípio. Para aqueles que nutrem um respeito pelas doutrinas da
Igreja Reformada, dos puritanos ingleses e da Igreja da Escócia, o princípio
— de que tudo o que não é ordenado, explícita ou implicitamente, nas
Escrituras do Novo Testamento é proibido para a igreja do Novo Testamento
— é de valor cardeal. Para eles, é suficiente que tais Escrituras silenciem a
respeito de qualquer prática para assegurar sua exclusão dos serviços da
igreja.
No início desta discussão foi mostrado que, sob a dispensação do
Antigo Testamento, uma autorização divina era necessária para a introdução
de qualquer elemento no culto público da casa de Deus. Era excluído tudo em
relação ao qual se poderia dizer que Deus “não havia ordenado”; e, naqueles
casos em que Seu silêncio era aproveitado para introduzir em Seu culto o que
a vontade ou sabedoria do homem ditava, Sua raiva fumegava contra o
invasor de Sua prerrogativa. Que prova existe de que o mesmo princípio não
prevalece na nova dispensação?
O Novo Testamento termina com o estatuto proibitivo, aplicado nas
Escrituras do Antigo Testamento, contra o acréscimo ou a retirada das
palavras de Deus. Nada é deixado à discricionariedade humana, apenas
aquelas circunstâncias naturais que condicionam as ações de todas as
sociedades humanas.
As Escrituras são suficientes para todas as necessidades da igreja.
Suas recomendações equipam completamente o homem de Deus para toda
boa obra. Aquele que defende a introdução daquilo que Deus não autorizou
no culto da igreja toma por pressuposto que as Escrituras não são suficientes
e que a sabedoria humana tem o direito de suplementar as suas faltas; ele
afirma ser mais sábio do que o próprio Cabeça da igreja.
A música instrumental é proibida pela ausência de qualquer
autorização no Novo Testamento para seu uso; é proibida pela declaração de
que o culto do templo, com todos os seus pertences peculiares, é abolido; é
proibida pelo fato de não estar incluída na enumeração inspirada dos
elementos do culto público; e é proibida pela prática dos apóstolos, que deve
ser considerada reguladora dos costumes da igreja por todos os que
reverenciam a autoridade da inspiração.

(3) “A música instrumental é legitimada na igreja terrena pela


consideração de que ela é representada como é executada na igreja celestial.
Não devemos nós ser celestiais?”.
Quer a linguagem do profeta apocalíptico deva ser interpretada
literalmente ou não, quer harpistas tocarão harpas reais no céu ou não, não é
relevante para o presente propósito determinar. Se for admitido que a música
instrumental será executada no céu, esse argumento não será apoiado. Seria
inválido, pois contradiria a realidade. Tudo o que os santos glorificados
experimentarão no céu não pode, partindo da natureza da situação, ser
realizado na terra. Eles não precisarão confessar e lamentar os pecados
recorrentes, mas somos obrigados a fazê-lo aqui embaixo. Eles cantarão, mas
dificilmente cantarão em melodias tristes:
Demonstra piedade, Senhor, ó Senhor, perdoa,
Deixe um rebelde arrependido viver;
Não são as Tuas misericórdias grandes e tenras?
Não pode um pecador confiar em Ti?
Se súbita vingança tomar meu fôlego,
Devo pronunciar-Te mesmo na morte;
E se minha alma fosse mandada para o inferno,
Tua justa lei aprova bem[100].

Assim, cantamos, no entanto, até o nosso último suspiro. Um dos


mais santos ministros que conheci, aos 93 anos de idade, à beira de sua
translação para a glória, escreveu que era obrigado a cantar aquelas palavras
penitentes. Não é provável que eles molhem o pão sacramental com lágrimas
de penitência, mas isso fazemos enquanto obedecemos à injunção de nosso
Senhor: “Fazei isto em memória de mim”. Eles nem se casam nem são dados
em casamento, mas dificilmente seria legítimo argumentarmos, partindo de
seu exemplo, qual deveria ser a nossa prática. Se o fizéssemos, a igreja na
terra estaria, como diz Owen, na condição do reino dos romanos, quando
consistia apenas de homens: “era como se fosse questão de uma única
geração”.
Eles [isto é, os santos da igreja celestial] não podem ser concebidos
como pecadores suplicantes a se reconciliarem com Deus, mas nós, se os
imitássemos a esse respeito, faríamos em descarte de nosso dever para com as
almas não convertidas ao nosso redor. É o suficiente. É claro que o
argumento contradiz a realidade, portanto, é inválido. Ele tenta provar, a
partir do mundo celestial, o que temos visto alguns se esforçando para provar
a partir do templo judaico. Ambos os argumentos explodiram em seu próprio
excesso. Se Deus nos ordenasse fazer o que é feito no céu, poderíamos nos
esforçar para obedecer, seja qual for o sucesso ou o fracasso em atendê-lo,
mas até que tal ordem possa ser produzida, não nos é autorizado transformar
os harpistas e harpas de cima em harpas na igreja terrena.

(4) “O uso da música instrumental na igreja é justificado pelo


princípio bíblico de que devemos consagrar todo talento que possuímos ao
serviço de Deus”.
Esse argumento também é fútil porque contradiz a realidade. Isso
provaria que o escultor deveria instalar suas estátuas no santuário; que o
pintor deveria pendurar suas gravuras em suas paredes; que o mecânico
deveria contribuir com os produtos de sua habilidade, como “lições práticas”
para a elucidação das verdades do evangelho; que o arquiteto deveria, por
meio de construções enormes, expressar a grandeza de Deus e, pela
multiplicidade de seus mínimos detalhes, a diversidade de Suas obras.
Avante! O argumento é adequado apenas para um papista.

(5) “A música instrumental está entre as adiáforas — coisas


indiferentes. A lei da liberdade nos dá direito ao seu uso”.
A resposta é fácil. Essa lei nos isenta, nas coisas sagradas, da
obediência aos mandamentos dos homens e, no que diz respeito às nossas
consciências individuais, do cumprimento de seus escrúpulos e caprichos.
Mas não pode nos libertar da obrigação de obedecer a Deus. Ora, Deus
ordenou aos judeus que usassem música instrumental no templo e não lhes
ordenou que a empregassem no tabernáculo durante a maior parte de sua
existência, ou na sinagoga. Eles O obedeceram em ambos os aspectos. É
manifesto que não era uma coisa indiferente a eles. Nem é aos cristãos.
A verdade é que é um abuso de linguagem classificar entre coisas
indiferentes qualquer coisa que acompanhe o culto público que se torne parte
e parcela dele. Ao contrário, nestas observações foi mostrado que, longe de
estar nessa categoria, não há nada sobre o qual o Deus vivo expresse tão
veemente zelo quanto o método no qual os homens se aproximam dEle em
adoração. Indiferente? Nadabe e Abiú acharam que sim, mas cometeram um
erro terrível.
Mas se a música instrumental é vista como algo indiferente, admite-se
que ela não é necessária; ela pode ou não ser usada; não é exigida por dever.
Aqui, então, a lei da caridade entra e desafia a obediência. Admite-se, é claro,
que, na suposição, a liberdade do indivíduo não é limitada na medida em que
seus pontos de vista e seus atos privados estão envolvidos, mas a sua prática,
na presença de irmãos que ele julga fracos, é limitada pela lei da caridade.
Não é este o princípio afirmado pelo apóstolo inspirado em relação ao
consumo de carne oferecida aos ídolos? Ele afirmou a liberdade do crente
para comer dela. Mas a lei da liberdade individual era controlada pela
consciência mais fraca de seu irmão, à qual a lei da caridade exigia que
respeito fosse mostrado.
Paulo manteve seu perfeito direito de comer, mas declarou: “se a
comida ofender ao meu irmão, eu não comerei carne enquanto no mundo
estiver, para que meu irmão não se ofenda” [1Co 8:13]. Sua liberdade
particular era, na presença de um irmão fraco, não apenas contida, mas
controlada pela lei superior do amor. Se, portanto, um crente escolhe se
banquetear com a melodia ou a harmonia dos instrumentos, ele não é
limitado; mas se a música instrumental no culto público faz tropeçar a
consciência dos irmãos, muito embora possam ser considerados como que
sustentando escrúpulos infundados sobre ela, como confessadamente ela não
é uma questão de obrigação, não deve a lei da caridade levar seus defensores
a dizer: “Se a música instrumental no culto público fizer nossos irmãos se
ofenderem, nós não a empregaremos enquanto o mundo estiver de pé para
não fazermos nossos irmãos se ofenderem”?
Há aqueles que, quando ouvem, oram para que Deus não os
responsabilize pelo seu uso em Seu santuário. Eles são sinceros; e se é uma
coisa indiferente, por que não deveria, por causa deles, ser descartada? A lei
da caridade fraterna pergunta: por quê? Essa lei certamente tem precedência
na liberdade de satisfação de gostos, e sua infração não pode ser desvinculada
de culpa.

2. Argumentos derivados da Confissão de Fé:


(1) Não é afirmado, tanto quanto eu sei, pelos defensores da música
instrumental que ela seja necessária para qualquer realização do ato de
cantar louvores, mas é afirmado que é necessária para a “decente e ordeira”
realização desse ato. Ela se justifica por um apelo à última cláusula da
seguinte sentença da Confissão de Fé, sobre a qual tanto foi dito no decorrer
do argumento precedente:
Há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da igreja, comum às
ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência
cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser observadas[101].

Entre aquelas regras gerais da Palavra citadas nos textos de prova,


apoiando toda essa declaração, começando em “há algumas circunstâncias”,
está o seguinte: “Todas as coisas sejam feitas decentemente e com ordem”
[1Co 14:40]. Isso, afirma-se, garante o uso de música instrumental. Entre as
“todas as coisas” a serem “feitas decentemente e com ordem” está o canto de
louvor, e a música instrumental é necessária para que essa coisa seja “feit[a]
decentemente e com ordem”.
Em primeiro lugar, deve ser observado que a última cláusula da
afirmação da Confissão, a cláusula que é usada neste argumento para a
música instrumental, tem referência às “circunstâncias” mencionadas naquela
afirmação. São essas circunstâncias, e não algo diferente delas, em relação às
quais “as regras gerais da Palavra” — incluindo esta: “Todas as coisas sejam
feitas decentemente e com ordem” — “sempre devem ser observadas”.
Ora, já foi claramente apontado que essas circunstâncias são
circunstâncias “comuns às ações e sociedades humanas”. São precisamente
tais circunstâncias sobre as quais a declaração da Confissão impõe que sejam
ordenadas de acordo com as regras gerais da Palavra. São precisamente tais
circunstâncias, consequentemente, que essa afirmação exige que “sejam feitas
decentemente e com ordem”. A questão diante de nós, então, é esta: a música
instrumental é uma dessas circunstâncias?
Foi, em uma parte anterior desta discussão, por um argumento um
tanto meticuloso, provado que não pode ser uma delas. Essas circunstâncias
foram mostradas como condições não características sobre as quais as ações
de todas as sociedades são desempenhadas. São comuns a todas elas. Mas a
música instrumental não é comum às ações de todas as sociedades. Ela não
pode, portanto, ser uma das circunstâncias indicadas pela afirmação da
Confissão.
A conclusão inevitável é que, no que diz respeito a essa afirmação, ela
não é necessária ao desempenho decente e ordeiro do canto de louvor como
parte do culto da igreja. Este argumento particular em favor da música
instrumental será ainda melhor considerado à medida que a discussão se
aproxima do seu fim.
Em segundo lugar, o argumento assume o aspecto de arrogância
absurda, contendo uma acusação da verdadeira igreja de Deus em quase
todos os séculos da era cristã de um canto de louvor indecente e sem ordem
em seu culto público, para não falar da igreja na antiga dispensação em seus
serviços ordinários do dia de Sabbath.
Seria loucura analisar a questão do louvor decente e ordeiro, ou
indecoroso e desordeiro, por um padrão temporário, especialmente um
erigido em uma condição moderna e corrupta da igreja nominal. O padrão
pelo qual a prática da igreja cristã — deixando de fora os judeus — deve ser
julgada por doze séculos deveria ser aquele que a Igreja de Roma tolerou
lenta e relutantemente até a metade ou o fim do século XIII? E, por esse
padrão, nós condenaremos de culto indecoroso e desordenado as igrejas
reformadas da Europa, a suíça, a francesa e a holandesa, as igrejas da Escócia
por séculos, os puritanos ingleses e a Igreja Presbiteriana da Irlanda? Foi
deixado para a igreja nestes últimos dias descobrir a única maneira decorosa e
ordeira em que os louvores de Deus devem ser cantados? A suposição é
intolerável.
As mesmas considerações valem contra o argumento de que a música
instrumental é uma ajuda no canto de louvor. Se a igreja de Cristo não sentiu
a necessidade dessa ajuda durante a maior parte de sua existência, nenhum
argumento é requerido para mostrar que ela pode fazer sem essa ajuda agora.
Pode-se admitir que ela seja uma ajuda para tal “versão” (!) do canto como
exigido por ouvidos cultivados no desfrute de óperas italianas e performances
artísticas semelhantes. Mas isso é bem diferente de admitir que ela seja uma
ajuda ao canto de louvor por pecadores humildes e penitentes, pelo aflito
povo de Deus carregando sua cruz como peregrinos por um mundo para o
qual eles estão crucificados e que está crucificado para eles. A discussão é
infundada e desnecessária. É suficiente dizer que não pode ser uma
verdadeira ajuda para o culto aquilo que o Ser a ser adorado não aprova.

(2) É sustentado que a música instrumental deve ser classificada


entre as circunstâncias permitidas pela Confissão de Fé, e isso é provado
pelo fato de que ela está no mesmo pé de igualdade com outras
circunstâncias sobre as quais não há qualquer debate: como casas de
adoração, leitura de sermões, a extensão de sermões, orações e cânticos,
sinos, diapasões, livro de melodias e afins.
Tem-se o direito de enfrentar esse argumento sobre o fundamento
geral, já tantas vezes e tão sinceramente mantido, de que todas as
circunstâncias remetidas pela Confissão à discricionariedade — ao
julgamento natural — da igreja são comuns às ações e sociedades humanas, e
são tais enquanto pertencentes à esfera natural em que os atos de todas as
sociedades são executados e, portanto, não podem ser distintamente
espirituais ou mesmo eclesiásticos. Como a música instrumental, usada no
culto religiosamente espiritual e efetivamente eclesiástico, não pode ser
atribuída a essa categoria, é, por essa razão patente, excluída pelos próprios
termos da afirmação da Confissão. Esse fundamento eu sustento ser
irrefutável. Mas na medida em que é um fato que certas mentes consideram a
música instrumental tão benéfica para a igreja pela razão que pode ser vista
como estando em pé de igualdade com as circunstâncias que foram
mencionadas, tentarei enfrentar suas dificuldades, embora à custa consciente
da estrita consistência lógica, seguindo esse argumento em seus mínimos
detalhes; e rogo para que o Espírito de Deus conceda Sua orientação neste
último passo da discussão.
Em primeiro lugar, foi argumentado que o uso da música instrumental
é uma circunstância do mesmo tipo com a construção de um templo de culto
e a seleção de suas medidas; que não é uma condição absolutamente
necessária nos atos da igreja que ela deva realizar suas reuniões em
construções: elas podem ser realizadas, como de fato foram feitas, ao ar livre.
Para isso, a resposta óbvia é que essa circunstância é comum aos atos
de todas as sociedades. Elas devem se encontrar em algum lugar, e é claro
que é competente para todas elas determinar se serão submetidas aos
inconvenientes de assembleias ao ar livre ou aproveitar as vantagens
oferecidas pelos edifícios. Assim também os equipamentos e móveis dos
edifícios nos quais eles se reúnem. Toda sociedade, mesmo uma sociedade
infiel, tem essa circunstância condicionando suas reuniões e atos, quer
necessária para a própria realização delas quer necessária para o seu
desempenho decoroso e ordeiro. Mas a música instrumental não é tal
circunstância: não é comum às ações e sociedades humanas. Isso destrói a
suposta analogia, e, consequentemente, o argumento fundado sob ela falha.
Em segundo lugar, a mesma contestação é aplicável à suposta
analogia entre a dita circunstância da música instrumental e a da leitura dos
sermões. É dito que um sermão deve ser entregue de duas maneiras: com ou
sem leitura, e há discricionariedade para a igreja eleger entre eles. Se ela acha
que ler é o melhor caminho, ela tem a liberdade de empregá-lo. De igual
modo é com a escolha da música instrumental como um modo em que o
louvor deva ser cantado.
Pode haver, como já houve, alguma discussão em relação à
legitimidade dos sermões lidos. Mas, deixando essa questão de lado e
considerando o argumento em seu próprio fundamento, basta responder que a
analogia afirmada não se concretiza. A entrega de discursos, falas, relatórios
e resoluções é um ato comum a todas as sociedades humanas. Ora, é
competente a todas as sociedades dizer se devem ser simplesmente ditos ou
lidos, se a entrega será espontânea ou a partir de um manuscrito. Elas podem,
cada uma por si, determinar a circunstância do modo em que um ato comum
a todas deva ser executado. Mas o canto de louvor no culto a Deus não é um
ato comum a todas as sociedades. Portanto, não é um ato em relação ao qual a
Confissão concede a liberdade à igreja de fixar a circunstância do modo em
que será feito[102].
Em terceiro lugar, a mesma linha de argumentação, afirma-se, é
válida com referência ao poder discricionário da igreja em ordenar as
circunstâncias da duração dos sermões, das orações e do canto. Mas, é
respondido, todas as sociedades precisam, necessariamente, fixar o tempo
destinado a seus vários exercícios, ou suas reuniões seriam fracassos. A
própria natureza dita isso. A igreja, portanto, tem o direito natural de ordenar
esta circunstância em conexão com todos os seus serviços.
Mas a questão de determinar a duração de um exercício é muito
diferente da de introduzir o próprio exercício. Não há analogia entre a
determinação do tempo a ser permitido a todos os atos e a determinação da
legitimidade de algum ato especial. O ajuste da duração de seus exercícios é
uma circunstância comum a todas as sociedades. O emprego da música
instrumental, como um acompanhante do culto, é uma circunstância peculiar
à igreja enquanto uma sociedade distinta. A analogia em todos os aspectos se
desfaz.
Em quarto lugar, se a igreja tem sinos, é perguntado: por que não
pode ter órgãos? Ambos são instrumentos de som que servem a um propósito
eclesiástico. A resposta é tão óbvia que nos sentimos quase envergonhados
em dá-la. O sino não está diretamente ligado ao culto; o órgão está. O sino
para de tocar antes de começar o culto, o órgão acompanha o culto em si. Não
há a menor semelhança entre eles no que diz respeito a essa questão. Um sino
simplesmente marca o tempo para a reunião. Assim como faz um relógio; e
podemos tanto instituir uma comparação entre os ponteiros do relógio em
certa hora e os instrumentos de música no culto após essa hora quanto entre o
som do sino e o próprio sino. A questão é em relação a algo que acompanha o
culto, não algo que o preceda e dê lugar a ele.
Em quinto lugar, é por alguns seriamente alegado que se diapasões
acústicos e de sopro podem ser usados, os órgãos também podem. A mesma
resposta que foi dada ao argumento imediatamente anterior é pertinente aqui.
Os que apresentam esse argumento já notaram o uso de um diapasão acústico
ou de sopro por um líder de canto? Ele é tocado ou soado de modo a ser
ouvido pelo próprio líder, e quando, por meio do objeto, ele obtém o tom da
melodia a ser cantada, é colocado em seu bolso, onde descansa de forma
confortável e silenciosa enquanto o canto prossegue. Ele não mais
acompanha o culto do que um sino. Pois ele para de soar antes do ato de
adoração começar.
Que analogia existe entre ele e um instrumento que acompanha cada
nota do canto por uma nota correspondente? Atribua ao órgão o mesmo
ofício que o mais humilde diapasão acústico ou de sopro, ou seja, apenas para
dar ao líder do simples canto o tom das melodias, e quem se oporia a ele? A
questão dos órgãos seria tão silenciosa quanto eles. Um toque antes do canto,
e então eles seriam o que deveriam ser durante o canto público de louvor: tão
silenciosos quanto o túmulo. Não se pode deixar de ficar espantado que
admiradores desse “instrumento majestoso” empregariam uma comparação
que o reduzisse a um tom tão baixo!
Em sexto lugar, há apenas outro argumento desta classe minuciosa
que será considerado. É um que eu tenho sabido que alguns irmãos sustentam
enquanto os homens elaboram um último refúgio. Argumenta-se que a
música instrumental tem o mesmo direito de se classificar entre as
circunstâncias indicadas pela Confissão de Fé como tem um livro de
melodias. Um livro de melodias ajuda o canto de louvor? O mesmo acontece
com um órgão. Se a igreja tem discricionariedade em empregar um tipo de
assistência ao canto, por que não o outro?
Não ocorreu às mentes daqueles que insistem tão veementemente
nessa visão de que podem estar usando um livro de melodias para realizar um
ofício o qual pode ser inadequado, quando o usam para derrubar argumentos
derivados das Escrituras do Antigo Testamento e do Novo Testamento, da
antiga dispensação e da nova, da prática da sinagoga judaica, dos apóstolos,
de toda a igreja por mil e duzentos anos, e da Igreja Reformada Calvinista por
séculos? Não lhes ocorre também que pode haver uma falha na afirmação de
seu argumento? Expandindo, é dito isto: o que quer que ajude o canto de
louvor é uma circunstância legítima; tanto o livro de melodias quanto o órgão
ajudam, etc., portanto, são circunstâncias legítimas. A verdadeira afirmação
seria: tudo o que for necessário para o canto de louvor é uma circunstância
legítima; o livro de melodias e o órgão são igualmente necessários; portanto,
são circunstâncias igualmente legítimas. Cabe a eles mostrar que o órgão é
necessário para o canto de louvor. Não é suficiente dizer que ele o ajuda. Eles
não podem provar sua necessidade. O louvor foi e é cantado sem o órgão.
Mas também me convém mostrar que o livro de melodias é necessário para o
canto do louvor, que é uma condição sem a qual não poderia ser feito. Se isso
puder ser evidenciado, como o órgão não é necessário para cantar, não se
assume, como se supõe, o mesmo pé de igualdade com o livro de melodias, e
o argumento é infundado.
Será reconhecido que uma melodia é necessária para o canto
modulado — isto é, para o canto, que não é meramente o prolongamento de
uma única nota, o que não poderia ser denominado canto. Mas o livro de
melodias dá a melodia. A melodia é necessária para cantar; o livro de
melodias é necessário à melodia; portanto, o livro de melodias é necessário
para cantar. É necessário que este argumento simples seja reafirmado? De
onde a melodia senão do livro de melodias? Seria improvisada pelo cantor
principal? Suponha que seja, e ele seria o único cantor. Seria impossível que
os outros se unissem a ele.
Pode-se responder que o órgão também dá a melodia. Isso é um erro.
O órgão é tão devedor ao livro de melodias como é um cantor principal. Se o
organista improvisar a melodia, onde estaria o canto? Dificilmente se
sustentará que um solo no órgão seria o canto da congregação, ou que o
próprio órgão cante.
Pode-se dizer ainda que o livro de melodias não é necessário para
cantar, já que é fato que o canto é frequentemente feito sem ele. Isso também
é um erro. O livro de melodias pode estar ausente enquanto livro, mas a
melodia que ele contém está presente na mente do cantor principal, ele se
lembra do que obteve do livro. É uma necessidade para ele, esteja
literalmente ausente ou presente; ele não pode cantar sem a melodia, e a
melodia está no livro de melodias.
Finalmente, a poderosa disputa pode ainda ser mantida sobre o
fundamento de que alguns cantores principais não conhecem as notas
musicais e, portanto, não podem depender do livro de melodias para a
melodia. É verdade que há alguns que são ignorantes das notas, mas mesmo
assim dependem do livro de melodias, não imediatamente, mas de forma
indireta e efetivamente. Pois a melodia é aprendida, em primeira instância,
apenas por alguém que conhece as notas e tira a melodia do livro. O livro de
melodias é a causa primeira da melodia e é necessário para sua existência.
Claro, as músicas são aprendidas pelo ouvido. A maioria dos membros de
uma congregação assim as aprende. Mas essas pessoas as adquirem a partir
do cantor principal, e ele as recebeu do livro de melodias. Assim sendo, ao
contemplar o assunto como podemos, o livro de melodias é necessário para o
canto de louvores: ele condiciona o seu desempenho.
Se, então, for objetado que o livro de melodias é uma circunstância
não comum às ações e sociedades humanas e é igualmente, junto à música
instrumental, de acordo com esse argumento, excluído do controle
discricionário da igreja, respondo: isso é verdade. São as circunstâncias na
esfera natural, aquelas que observam ações enquanto ações e não essa ou
aquela ação particular de uma sociedade distinta, que se inserem na
discricionariedade da igreja. Consequentemente, ambas as circunstâncias — o
livro de melodias e a música instrumental — recaem sem essa
discricionariedade. Ambos condicionam a realização de um ato peculiar à
igreja. Mas a diferença entre eles é esta: um é necessário para o desempenho
de um dever ordenado, ou seja, o canto de louvor, e o outro não é. O canto de
louvor é, sem dúvida, um dever ordenado, e segue-se que o que é uma
condição necessária de seu desempenho também está sob o escopo de ordem.
Não é, portanto, discricionário à igreja empregá-lo; é obrigatório. Deve ser
empregado, ou o dever ordenado não é feito. Não é assim com a música
instrumental. Ela não é uma condição necessária para o dever ordenado de
cantar louvores; nem é uma circunstância natural condicionando os atos de
todas as sociedades. Não é, portanto, obrigatório nem discricionário para a
igreja usá-la. Por conseguinte, é excluída.
VII. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O argumento anterior procedeu principalmente por dois passos. O
primeiro é: Qualquer coisa, em conexão com o culto público da igreja, que
não seja ordenada por Cristo, quer expressamente ou por boa e necessária
consequência, em Sua Palavra, é proibida. A segunda é: A música
instrumental, em conexão com o culto público da igreja, não é assim
ordenada por Cristo. A conclusão é: A música instrumental, em conexão com
o culto público da igreja, é proibida.
Se as premissas são materialmente verdadeiras, e se estão logicamente
conectadas no argumento, a conclusão é inegável. A primeira premissa, que é
negada pelos romanistas, preladistas e latitudinários, foi estabelecida por
provas derivadas das Escrituras. A posição de que a igreja tem poder para
decretar ritos relacionados ao culto da casa de Deus, ritos não prescritos na
Palavra divina, é confessadamente uma doutrina de homens, fazendo um
acréscimo substancial à única regra suficiente, completa e infalível, de fé e
prática.
Dentre os que rejeitam esse princípio, só o romanista é consistente. É
claro que tal poder discricionário na igreja só poderia ser fundamentado em
sua posse de inspiração contínua. Se ela tem esse dom, sua autoridade é igual
à dos organizadores e instrutores inspirados da própria igreja. Ela pode
suplementar as Escrituras. Mas a reivindicação de inspiração só pode ser
comprovada pela operação de milagres. Isso Roma admite, e cumpre o
requisito apelando aos seus milagres. Esses milagres professados são, no
entanto, de tal caráter que não podem ser colocados acima de suspeitas. Eles
podem ser explicados por princípios naturais. Eles nunca chegam ao ponto de
poder criativo, nem do poder que restaura a vida aos mortos.
A igreja protestante, portanto, rejeita a pretensão de Roma à
inspiração e infalibilidade e está consequentemente obrigada a negar a
autoridade daquela igreja, ou de qualquer outra, para decretar ritos e
cerimônias não prescritos na Palavra de Deus. Pois uma igreja que
teoricamente faz tal afirmação se professa, nessa medida, apóstata. Está em
flagrante rebelião contra a autoridade única de Cristo expressa em Sua
Palavra. A história passada da igreja é uma afirmação sobre a veracidade
dessa acusação.
A segunda premissa, a saber, que a música instrumental não é, em
conexão com o culto público da igreja, ordenada por Cristo, quer
expressamente ou por boa e necessária consequência em Sua Palavra, é
reconhecida como verdadeira por todos os presbiterianos consistentes.
Argumentar-se-ia, portanto, que eles a excluiriam do culto público da igreja;
e assim, de fato, fizeram até um período comparativamente recente. Nesse
mesmo fundamento, recusaram-se justamente a empregá-la.
Como a admirável mudança em seu desempenho deve ser justificada?
Como é que, na Escócia, essa revolução contra a posição histórica da Igreja
Presbiteriana está agora em pleno progresso? Como é que, na conservadora
Igreja Escocesa-Irlandesa, tão extraordinário esforço é feito para derrubar o
seu testemunho e a sua prática em relação a este assunto? Como é que,
estando homens como Breckinridge e Thornwell, na Igreja Presbiteriana
Americana, ainda dificilmente frios em seus túmulos ― nos mesmos lugares
em que trovejaram suas discussões pelo poderoso princípio que exige uma
autorização divina para cada elemento de doutrina, governo e culto, onde eles
tinham, em obediência a esse princípio, se recusado totalmente a admitir
música instrumental na igreja ― o órgão irromperia seus triunfos por cima de
seus pontos de vista? Como esse estado de coisas pode ser explicado?
Há uma classe que olha com indiferença para a questão, que está
desejosa que as opiniões humanas prevaleçam e que os gostos humanos
sejam gratificados nos procedimentos do culto público. É desnecessário dizer
que, como desconsideram igualmente os ensinamentos da Palavra de Deus e
os testemunhos de seus antepassados, estão contribuindo para um caminho
que, se não for interrompido pela extraordinária interposição da providência
divina ou da graça divina, deve colocar a igreja em estado de apostasia aberta
do evangelho.
Há uma segunda classe que sustenta a teoria prelatícia, de que tudo o
que não é expressamente — isto é, em termos explícitos — proibido nas
Escrituras do Novo Testamento é permitido. Aqueles que sustentam essa
visão rompem com os padrões de Westminster, servem aos interesses dos
ritualistas e convertem as ordenanças da Igreja Presbiteriana, assim como os
mantenedores do mesmo princípio converteram as da Anglicana, em
propedêutica para o cultus de Roma.
Há uma terceira classe que sustenta que, como a música instrumental
foi ordenada por Deus na igreja do Antigo Testamento, é justificável na do
Novo Testamento. É uma das coisas que o próprio Deus prescreveu. Esse é
um fundamento muito inacreditável para que cristãos se baseiem. É difícil
acreditar que eles defenderiam as seguintes posições, logicamente validadas
por seu ponto de vista: que toda promulgação positiva da vontade divina sob
a antiga dispensação passa inalterada em sua autoridade para a nova; que a
igreja cristã é o templo judaico, ou mesmo modelada em conformidade com
ele; que os tipos do Antigo Testamento continuam no novo; que o que não
era autorizado aos judeus no culto da sinagoga é justificável para o cristão no
da igreja; que todos os elementos externos de culto autorizados nos Salmos
são permitidos na igreja cristã, pois, nessa base, os sacrifícios de animais
também seriam apropriados; e que toda a igreja nominal, dos apóstolos a
Tomás de Aquino, em 1250, estava enganada em relação a esse assunto.
Mesmo assim, levando consigo essas consequências, essa visão é apoiada por
alguns membros da Igreja Presbiteriana.
Há uma quarta classe — e acredita-se ser a maior — que defende
teoricamente o grandioso princípio de que tudo o que não é ordenado é
proibido, mas nega sua aplicabilidade à música instrumental em conexão com
o culto público da igreja. Eles afirmam que é uma das circunstâncias que a
Confissão de Fé atribui ao controle discricionário da igreja. Essa é
provavelmente a principal explicação da notável mudança que está passando
a Igreja Presbiteriana na esfera do culto. É de se temer que pouquíssimos de
seus ministros e anciãos no poder tenham estudado minuciosamente a
Doutrina das Circunstâncias. Quantos deles já expuseram isso às pessoas
sobre as quais o Espírito Santo os tornou supervisores?
Nada é mais comum do que ouvir dizer que essa questão é relativa a
um “detalhe circunstancial” de valor subordinado, e que a questão, como de
menor importância, deve dar lugar a outras de maior interesse que estão
urgindo na igreja. Essa confusão de pensamento seria surpreendente se não
fosse tão genérica. Que erro profundo é expresso em tais observações! Em
vez de circunstâncias relegadas pela Confissão à discricionariedade da igreja,
sendo detalhes circunstanciais de culto, elas não são sequer detalhes de culto.
Em vez de serem de importância secundária, são indispensáveis — não como
partes do culto, mas como condições naturais de sua realização. Sem elas,
não haveria adoração conjunta. As assembleias dos santos seriam um sonho.
A mudança que está ocorrendo cada vez mais no culto da Igreja
Presbiteriana é devida à influência combinada das visões de todas essas
classes, mas o principal perigo resulta daquela mantida pela última que foi
mencionada. É quase inconcebível que a maioria dos oficiais e membros da
Igreja Presbiteriana possa ter abandonado o princípio ordenado de que uma
autorização divina é necessária para cada elemento que entra no culto da casa
de Deus. Se assim fosse, a apostasia aberta no departamento de culto seria
reconhecida.
Mas de que proveito é a aceitação professa do princípio, se a sua
aplicação for recusada? Como esse princípio — que foi interpretado pelos
reformadores presbiterianos e pelos autores dos padrões de Westminster
como excluindo a música instrumental do culto público; que foi aplicado pela
Igreja Presbiteriana quase universalmente por séculos após a Reforma — é
agora interpretado de tal maneira a admitir-se essa inovação papista nos
serviços outrora simples e evangélicos daquela igreja, desafia a compreensão,
exceto por uma suposição. É que a Igreja Presbiteriana está afrouxando o
domínio sobre seus antigos testemunhos, ampliando sua prática em
conformidade com as exigências do gosto mundano, e está, portanto, cada
vez mais trilhando o caminho da deserção dos princípios bíblicos que ela
professa.
A revolução em sua prática começou na Igreja americana, pouco além
da lembrança de alguns que agora vivem, e certamente nas igrejas escocesas,
dentro daquelas que ainda não têm cinquenta anos de existência. Mas, uma
vez começada, que progresso rápido fez! O que Gillespie e Calderwood
diriam agora, o que Chalmers e Candlish, Cunningham e Begg, o que Mason,
Breckinridge e Thornwell — o que eles diriam, se lhes fosse permitido sair
de seus túmulos e revisitar as cenas de seus labores — as igrejas pelas quais
labutaram e oraram?
É evidente que uma grande mudança tomou o lugar. Ora, ou foi para
melhor ou para pior. Se for alegado que é para melhor, esses grandes homens,
e milhares de pessoas que pensavam assim, são pronunciados como
ignorantes das Escrituras e dos princípios do sistema presbiteriano. Quem são
os que assumirão tal censura? Que, por argumentos, provem sua
reivindicação a essa superioridade arrogante. Se não puderem — e
certamente ainda não o fizeram —, abandonem a tentativa injustificada de
revolucionar a prática antiga e bíblica de sua igreja e, antes que seja tarde
demais, retornem aos bons e velhos caminhos pisados por seus pais.
“Nós não somos obrigados a usar o jugo da autoridade humana”,
será dito. Não. Mas esses homens usaram o jugo da autoridade divina e
devemos fazer o mesmo. “Essa é tua própria afirmação humana”, será
respondido. Sim. Mas é uma afirmação provada por um argumento
irrefragável, fundamentado nas Escrituras, nos padrões presbiterianos e na
história da verdadeira Igreja de Cristo. O ônus da prova recai sobre aqueles
que fizeram ou toleraram essa mudança. Eles oferecem provas derivadas dos
princípios da natureza e do gosto humano. Qualquer argumento da Escritura
que nos for apresentado é um que nos faria tornar-nos judeus e cultuar no
templo. Nem sequer nos converteria em judeus que cultuavam na sinagoga. É
um argumento que levaria a igreja cristã, das ruínas da sinagoga, novamente
para templo e, com efeito, reencenaria a loucura de Juliano por uma tentativa
de reconstruir um instituto anulado.
Mas, seja qual for a falta de argumentos satisfatórios para
fundamentar essa deserção generalizada e surpreendente da velha e
conservadora posição da Igreja Presbiteriana, o triste fato é patente: as
congregações que essa igreja abraça estão cada vez mais sucumbindo à sua
maléfica influência. Os ministros que se opõem ao movimento antibíblico
estão, pelo menos em parte, indispostos a se opor à corrida adiante. Eles não
estão dispostos a tratar seriamente com o seu povo sobre essa questão. Eles
estão relutantes em qualificar o emprego da música instrumental no culto
público como um pecado. Mas um pecado é, se houver alguma força no
argumento que se opõe a ela. O povo deve ser ensinado que, ao usá-la, eles se
rebelam contra a lei de Cristo, seu Rei.
É um mau sinal para a igreja que esse assunto agora seja tão
frequentemente tratado de uma maneira irreverente e até jocosa. A questão do
uso da música instrumental no culto público da casa de Deus é, por exemplo,
às vezes colocada no mesmo pé de igualdade com relação ao uso do tabaco.
Ambas as perguntas são reconhecidas como igualmente ilegítimas e
igualmente triviais. O tabaco é mencionado na Palavra de Deus? Esquece-se
que um hábito privado de um indivíduo é algo muito diferente de uma ação
que modifica o canto público e solene do louvor a Deus por uma congregação
de professos adoradores? Essa leviandade envolve profanidade. Zomba-se
das coisas sagradas. A indulgência desse temperamento pelas cortes da nossa
igreja mostrará o afastamento de nossa glória.
Não é menos do que chocante supor que a igreja possa minimizar um
assunto sobre o qual o zelo de Deus tenha fumegado, e Sua ira tenha
irrompido em uma chama consumidora. Se empregar instrumentos musicais,
que ela pelo menos se abstenha de tocar enquanto muitos de seus filhos
choram diante do que julgam ser a corrupção de seu culto e a decadência de
sua espiritualidade. Nero tocava enquanto Roma queimava, e Belsazar estava
profanando os vasos do santuário de Deus no meio da festança quando a
mística mão escreveu na parede de seu palácio a sentença de condenação.
Aqueles de nós que protestam contra essa revolução no culto
presbiteriano são, por alguns, escarnecidos, por outros, ridicularizados e, por
ainda outros, denunciados como fanáticos. Se somos, compartilhamos a
companhia de uma série de fanáticos que se estendem desde o dia de
Pentecostes até o meio do século XIX. Não recusamos ser classificados,
embora conscientemente indignos da honra, junto aos apóstolos, mártires e
reformadores. Mas nem eram eles loucos, nem somos nós. Nós falamos “em
verdade e sobriedade estas palavras” [At 26:25]. Conscientes da injunção
apostólica, “examinai todas as coisas” [1Ts 5:21], submetemos argumentos
derivados das Escrituras, dos formulários de nossa igreja e do consensus do
povo de Cristo, e respeitosamente invocamos para eles a atenção de nossos
irmãos. Nós os convocamos a examinar esses argumentos e desaprová-los ou
adotá-los.
Mas, sendo dispensados sem aviso prévio e nossos protestos fiéis
sendo ignorados, nós humildemente, mas sinceramente, advertimos à igreja
sobre as más e amargas consequências que, verdadeiramente acreditamos,
serão acarretadas por aquela corrupção do culto público que tem sido
nomeada; e, contra ela, em nome dos autores de nossos veneráveis padrões,
em nome dos reformadores, clérigos e mártires da Igreja Presbiteriana, em
nome das verdadeiras testemunhas de Cristo nos séculos passados, em nome
dos inspirados apóstolos e, acima de tudo, em nome de nosso glorioso Rei e
Cabeça, erigimos nosso solene PROTESTO.

[1] Algumas declarações curiosas e notáveis foram feitas com referência a esse artigo. Quando, em
1808, a questão da introdução da música instrumental no culto público se levantou perante o Presbitério
de Glasgow, o Rev. Dr. Begg, pai do falecido Dr. James Begg, publicou um tratado sobre o “Uso de
Órgãos”, no qual a seguinte declaração é atribuída ao Rev. Alexander Hislop: “A Igreja da Inglaterra
admitiu em seus artigos este princípio: de que pertence à autoridade da própria ‘igreja’ ‘decretar ritos e
cerimônias’ (Artigo 20). Como matéria de fato histórico, esse princípio nunca foi aceito pela
Assembleia que adotou os Trinta e Nove Artigos, sendo que essa frase não se encontra nem na primeira
edição impressa dos artigos nem no rascunho dos mesmos que foram promulgados na Assembleia, os
quais ainda existem, com as assinaturas manuscritas dos membros; mas acredita-se ter sido
clandestinamente inserido pela mão da própria rainha Elizabeth, que tinha muito do espírito exagerado
de seu pai, Henrique VIII, e quem, como cabeça da igreja - pois a constituição inglesa assim fez dela -
estava determinada a ter um culto pomposo sob seu controle eclesiástico”. Em apoio a essa declaração,
é feita referência a “autoridades em Presbyterian Review, julho de 1843”. The Use of Organs [O Uso
de Órgãos], etc., de James Begg, D.D., (p. 150). Veja também a Igreja de Cristo, por Bannerman, vol. I.
p. 339 [publicado pela Editora Os Puritanos num único volume].
[2] Ou seja, a igreja de Roma [N. do T.]
[3] Na teologia, é aquele que tem tendência a não cumprir os deveres ou não seguir as normas
morais com base em justificações circunstanciais [N. do T.].
[4] Referência à cidade de Roma [N. do T.].
[5] As filhas de Hemã, mencionadas em 1Cr 25:5, não eram cantoras e intérpretes de instrumentos
no culto público, pois não estão inclusas na enumeração das linhagens que se seguem.
[6] De Synag. Vetere, Lib. I., Pars i, cap. 10. Lightfoot em Mat. vi. 2. Veja também Josefo, Ant.
Jud., liv. III, cap. 12.
[7] Os judeus ortodoxos, até os dias de hoje [1888], se opõem ao seu uso na sinagoga. O escritor
conheceu uma congregação em Charleston, S.C., sendo partida ao meio por causa de uma tentativa de
introduzir um órgão.
[8] “Em todas as dispensações anteriores, a santidade do Sabbath havia sido uma parte
fundamental da religião revelada; o culto da sinagoga remonta, possivelmente, ao cativeiro no Egito, e
certamente ao cativeiro na Babilônia” ─ Breckinridge, Subjec. Theology, p. 530.
[9] Veja a Introduction de Horne, vol. ii. p. 102, para uma confirmação dessa visão. Ali é
mostrado que foi defendido por Josefo e Filo, e também por Grotius, Ernesti, Whitby, Doddridge e
Lardner.
[10] George Gillespie diz: “Depois que as tribos foram estabelecidas na terra da promessa, as
sinagogas foram construídas no caso de uma necessidade urgente, porque todo o Israel não poderia vir
todos os dias de Sabbath para a leitura e a exposição da lei no lugar que Deus havia escolhido para que
Seu nome pudesse lá morar” Eng. Pop. Cerem. p. 116.
[11] Observe que, ao fazer essa distinção entre elementos de culto essenciais e acidentais, por
“elementos acidentais” entendem-se elementos divinamente ordenados. Com os teólogos reformados e
puritanos, repudio completamente a distinção usada pelos preladistas para justificar tais elementos
acidentais como sabedoria humana ou a autoridade da igreja em adicionar, sem autorização divina, aos
elementos essenciais do culto.
[12] Segundo o Diretório para o Culto Público, a Confissão de Fé e diversos autores da
Assembleia de Westminster, o “ofertório” não é um elemento de culto como Girardeau afirma, antes
consiste num dever pós-culto, devendo ser realizado sem prejudicar os elementos de culto. No entanto,
Girardeau está correto em afirmar que as ofertas estavam presentes na sinagoga, ainda que afirmemos
que não durante período de culto da sinagoga [N. do T].
[13] Works, Vol. ix., p. 419: London, 1823. Fairbairn toma substancialmente a mesma visão:
Typology of Scripture, Vol. ii., pp. 212, 213. Ver também M’Ewen, Types, Bk. iii., §3.
[14] Ibid., p. 440. Essa visão é também mantida por M’Ewen, Types, Bk. iii. §3.
[15] Vol. ii., pp. 257, 258.
[16] Essa é provavelmente a visão verdadeira.
[17] Em oposição a Fairbairn, e de acordo com a maioria dos comentaristas ortodoxos, eu
consideraria o candelabro de ouro como um tipo de Cristo, e as luzes meramente, as lâmpadas da
revelação, representando a Igreja. O óleo, com Fairbairn, tomo como tipificando a graça iluminadora do
Espírito Santo; mas o verdadeiro Recipiente desse óleo é originalmente o próprio Cristo, não a igreja
(exceto, talvez, de forma derivada), que o recebe dEle e o manifesta num mundo de trevas. Veja
M'Ewen, Tipos, Bk.
[18] Vol. ii., p. 126.
[19] Ibid., p. 127. M’Ewen fortemente afirma essa significância tipológica da Festa de
Pentecostes.
[20] Em confirmação dessa afirmação, o autor cita a seguinte passagem do Talmude de Jerusalém:
“Por que é chamado o lugar ou a casa de retirada? Porque dali eles retiram o Espírito Santo: como está
escrito, e deveis retirar água com alegria dos poços da salvação”.
[21] Typol. Scrip., Vol. ii. p. 311.
[22] Em Sl 71:22.
[23] Em Sl 81:3.
[24] Em Sl 92:1.
[25] p. 404.
[26] De Bon. Operibus, Liv. I. Cap. 17. Apelamos de Filipe embriagado para Filipe sóbrio [essa
frase vem de uma anedota contada pelo historiador e moralista romano Valerius Maximus a respeito de
um julgamento injusto proferido pelo rei Filipe da Macedônia: a mulher condenada por Filipe declarou
que o apelaria mais uma vez, mas desta vez quando ele estivesse sóbrio – N. do T.]: de Belarmino, o
partidário, a Belarmino, o teólogo.
[27] II. ii. 2, xci., A. ii., 4, et conclusio: Tom. iv., Ratisbonae, 1884, p. 646.
[28] Act. Disp. ii. p. 106, citado por Ames.
[29] Lib. ii., Tract. ii., Cap. iii., Tom. i., Amstel., p. 554.
[30] Numa palavra, Orgão.
[31] Cap. iii., p. 13: The Presbyterian’s Armory, Vol. i.
[32] p. 4, Presbyterian’s Armory, Vol. iii.
[33] Em The Use of Organs [O Uso de Órgãos], etc., p. 18.
[34] p. 216.
[35] The Organ and other Musical Instruments, as noted in the Holy Scriptures [O Órgão e outros
Instrumentos Musicais, como conhecidos nas Santas Escrituras].
[36] Dr. Candlish, The Organ Question [A Questão do Órgão], págs. 87, 88. Pode-se dizer em
resposta que, sob mesmo fundamento, o canto deveria ser abolido. Mas, primeiro, cantar não era tão
peculiarmente ligado ao sacrifício como o soar de trombetas; em segundo lugar, o uso de instrumentos
era peculiar ao serviço do templo, enquanto o canto não era. O argumento só vale para os elementos
específicos e temporários do culto, não para os genéricos e permanentes.
[37] Body of Divinity, Quest. CLIV., Vol. iv., p. 82, Philadelphia, 1815.
[38] Ibid., pp. 87, 88.
[39] O território de Gibraltar foi objeto de disputa entre ingleses e espanhóis, que tentaram reduzir
Gibraltar com bloqueios e ataques, o que eles posteriormente consideraram impossível. Há anedotas
sobre o evento tais como “o homem que tentou reduzir Gibraltar com ervilhas” [N. do T.].
[40] A resposta para isso é encontrada na óbvia distinção entre leis morais e positivas ─ as
primeiras sendo imutáveis, as segundas não.
[41] Isso foi posteriormente declarado, de modo expressivo, a Paulo pelos apóstolos em Jerusalém
como o sentido da decisão do sínodo. “quanto aos que, dentre os gentios”, disseram eles, “creram, nós
escrevemos e concluímos que eles não observem tal coisa” (Atos 21:25).
[42] A alusão aqui não pode ser ao pacto de obras como precedendo historicamente o pacto da
graça, e sim a essa forma especial em que Deus administrou o pacto da graça na dispensação judaica
que deu lugar à outra forma de administração sob a economia cristã.
[43] Kingdom of Christ, pp. 83-85. Am. Ed., pp. 84-86.
[44] Comm. on Acts, Chap. 6.
[45] Art. Stephen, Smith’s Dict. of Bible.
[46] Writings, Vol. i. p. 224; Boston: Ticknor, Reed and Fields, 1851.
[47] Milton’s Prose Works. Vol. i., p. 135; Philadelphia: John W. Moore. 1847.
[48] Vindication of the Organ, pp. 93, 94.
[49] The Use of Organs, p. 264, ff.
[50] Questões 108, 109 e 110.
[51] Questões 50, 51 e 52.
[52] Cap. XX, sec. 2.
[53] Cap. XXI, sec. 1.

[54] Acts of Assembly of Church of Scotland, 1644.


[55] Art., Organ.
[56] Works, Vol. xiii., pp. 343, 344: London, 1825.
[57] Hist. Puritans, Vol. i, p. 76, Choules’s ed., New York, 1863.
[58] Ibid., p. 93.58 Works, Vol. ix., p. 463.
[59] Ibid., p. 107.
[60] Works, Vol. xv., p. 37, Goold’s ed.
[61] Works, Vol. ix., p. 463.
[62] Cap. I, sec. VI.
[63] Works, Vol. xv., pp. 35, 36, Goold’s Ed.
[64] Works, Vol. xv., pp. 469, 471, Goold’s ed.
[65] Works, in Presbyterian’s Armoury, Vol. i., Pref. p. xii.
[66] Works, in Presbyterian’s Armoury, Vol. i., p. 130.
[67] Coll. Writings, Vol. iv., p. 244, ff.
[68] Hist. Vol. i., p. 304.
[69] Hist. Apos. Ch., p. 345; ver também Hist. Chris. Ch., Vol. i., pp. 120, 121.
[70] Works, Vol, iii., p. 137.
[71] Um não-conformista, morto em 1726.
[72] Pt. iii., Ch. iii.; London, 1717.
[73] No Salmo 150.
[74] Paedag., Lib. ii., C. 4.
[75] Resp. ad Orthodox., Q. 107.
[76] No Salmo 150.
[77] Paedag., Lib. ii., C. iv., p. 163.
[78] “Singing by turns”, traduzido literalmente por “cantar por turnos” pode ser identificado com
o canto antifonal, um tipo de canto gregoriano, que consiste na alternância de vozes, entre dois corpos
corais [N. do T.].
[79] Comm. in Isa., C. v., pp. 956, 957.
[80] p. 955.
[81] Epist., Lib. 2, ep. 176.
[82] Works, Vol. iii., p. 137, ff.
[83] Hoffm. Lex., voce Musica, citado por Peirce.
[84] Em 1Co 14:19, citado por Peirce e Ames.
[85] Um teólogo alemão. Ele argumentava em favor da música instrumental, contra Calvino.
[86] In Colloq. Mompelg., Pars 2, p. 26.
[87] Epistle Dedicatory.
[88] Introduction, pp. lix., lx.
[89] Ibid., p. v.
[90] De Lege Mosaica, Lib. iv.
[91] Os três testemunhos precedentes são extraídos do relatório de um comitê ao presbitério de
Glasgow em 1808.
[92] Pars i. Cap. iii., De Organis et Cantu Organico in Sacris.
[93] Reform. Leg. de Div. Offic., Cap. V.
[94] “Vibratam illam et operosam musicam, quae figurata dicitur, auferri placet”.
[95] Church Cerem., p. 406.
[96] Dr. Henry’s Hist., Strype’s Annals, p. 363.
[97] Uma [recomendação] é aqui lembrada a partir das palavras de Lutero: “Demasiada
discricionariedade é desagradável a Deus”.
[98] O autor de Primitive Truth, citando Bp. Burner, Reformation, Vol. iii., pp. 308-310.
[99] Para maiores informações sobre a teoria governamental grotiana da expiação, também
defendida por Richard Baxter, acesse:
<http://www.monergismo.com/textos/expiacao/teoriasexpiacao.htm>. Acesso em 27 de maio de 2019
[N. do T.].
[100] Isaac Watts, The Psalms of David 1719. “A penitent pleading for pardon”.
[101] Cap. I, Seç. VI.
[102] Além disso, seja notado que, ao pregar aos homens, o culto não é oferecido diretamente a
Deus; ao cantar louvor, o é, pelo menos em grande parte.