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Rio de Janeiro, 16 de novembro de 2020

NOTA DE REPÚDIO E PEDIDO DE EMBARGO

O Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) em conjunto com a Associação


Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP), através de seus respectivos núcleos estaduais no
Rio de Janeiro vêm a público manifestar-se contra o projeto de marketing da empresa Dream
Factory nas encostas rochosas do Pão-de-Açúcar para um lançamento da Disney e pedir seu
embargo imediato pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, responsável pela
proteção daquele bem tombado e do sítio Patrimônio Mundial declarado pela Unesco, bem
como pelo Ministério Público, uma vez que não foram observados os procedimentos legais
para este tipo de uso de um bem público tombado. A referida ação pretende usar uma
projeção luminosa de um total de 480 mil ansilumens numa área total 62.500 metros
quadrados prevista para o dia de hoje, 16 de novembro, na encosta norte do morro do Pão-de-
Açúcar, patrimônio dos cariocas, declarado sítio Monumento Natural, bem tombado a nível
federal pelo IPHAN e Patrimônio Mundial desde 2012.

O ICOMOS é a maior organização internacional em defesa da conservação do patrimônio


cultural no mundo, reunindo milhares de profissionais do campo de conhecimento e que tem,
entre outras atribuições, o papel de assessorar a Unesco nas ações relacionadas aos sítios
Patrimônio Mundial, conforme estabelecido pela própria convenção de 1972, assinada pelo
Brasil.

A ABAP é uma associação que reúne mais de uma centena de profissionais da arquitetura e do
paisagismo com uma atuação voltada para a paisagem.

Há uma sequência de incorreções nos procedimentos adotados que podem trazer danos
irreversíveis ao patrimônio ambiental e cultural desta cidade. O parecer técnico para esta
campanha publicitária, contratado à empresa “Nehrer Sustentabilidade, Meio Ambiente e
Comunicação Ltda” não considera o fato de a projeção acontecer dentro de uma Unidade de
Conservação e tampouco há análise adequada com relação aos impactos para a biota local. Da
mesma forma, não há qualquer menção sobre o fato de a área ter proteção como sítio do
Patrimônio Mundial e sobre o uso privado para uma campanha de marketing da imagem de
um bem público da cidade, reconhecido internacionalmente.

Nos causa enorme estranheza a súbita liberação dessa ação pela prefeitura, contrariando
todos os procedimentos anteriores. Sobretudo, nos causa preocupação a realização dessa ação
sobre um monumento como o Pão-de-Açúcar, patrimônio tombado pelo IPHAN e elemento
central do sítio Patrimônio Mundial, sem a devida autorização deste órgão. Dessa forma, além
de estar em desacordo com as normas nacionais de preservação, esta ação também contraria
os compromissos assumidos com a Unesco para a preservação do sítio, presentes no plano de
gestão entregue em 2014 e que prevê a manutenção dos níveis de proteção existentes e
consulta prévia à sociedade.

Lembramos que pareceres técnicos anteriores já vedaram projeções luminosas nos costões da
cidade, baseados em informações científicas como consta no parecer técnico n. 003/2011 da
própria Secretaria Municipal de Meio Ambiente que resultou o Ofício 716/SMAC, que neste
momento muda a entendimento e passa a autorizar essas ações. No âmbito federal, sequer
consultado, o parecer 002/96 do então Departamento de Proteção do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional já apontou claramente os impactos e vedou tentativas de ações
semelhantes relacionadas a projeções e iluminação, sejam permanentes ou mesmo
momentâneas nos costões da cidade. No referido parecer, elaborado por Carlos Fernando
Delphin e Marta Queiroga Amoroso Anastácio, referências na área, são analisados os
fundamentos do tombamento do Penhasco Dois Irmãos, incluídos no mesmo processo que o
Pão-de-Açúcar e outros morros da cidade (Processo 869-T-73), e termina por apontar para a
iluminação do referido morro como “clara e imediatamente percebida como antagônica à sua
preservação” indicando também seus impactos sobre o meio físico, o meio biótico e o meio
antrópico.

Nos salta aos olhos que uma empresa preocupada com sua imagem e com a preservação
ambiental e cultural tome uma atitude como esta em uma cidade como o Rio de Janeiro que
tem na sua paisagem um dos seus bens mais importantes.

Esta mesma preocupação já foi manifestada por diversas outras associações da sociedade civil
que não foram ouvidas, nem nos fóruns adequados para tal, como o Comitê Gestor do
Patrimônio Mundial. Manifestamos a preocupação com essa ação que, além de gerar um
impacto ambiental que não foi devidamente analisado, promove a associação de uma imagem
importante de um monumento patrimônio mundial e da cidade com uma empresa, abrindo
um importante precedente e rompe com o entendimento anterior que vedava esse tipo de
ação, presente em vários documentos, sem estudos adequados e sem qualquer consulta à
sociedade.

O ICOMOS-BRASIL e a ABAP, através de seus núcleos estaduais no Rio de Janeiro, solicitam


assim o EMBARGO IMEDIATO desta ação, realizada sem as devidas autorizações e que pode
causar danos irreversíveis ao patrimônio ambiental e cultural e à imagem da cidade.

ICOMOS-BRASIL ABAP – Associação Brasileira dos


Núcleo Rio de Janeiro. Arquitetos Paisagistas
Núcleo Rio de Janeiro

Prof. Dr. Julio Cesar Ribeiro Sampaio


Conselheiro para e Região Profa. Dra. Andrea Rego
Sudeste/ICOMOS Coordenadora do Núcleo Rio de
Janeiro/ABAP

Prof. Dr. Rafael Winter Ribeiro


Coordenador do Núcleo Estadual no Rio de
Janeiro/ICOMOS