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Enfrentamento à violência

doméstica e familiar contra

Mulher GRATUITA
Essa publicação
não pode ser
comercializada

2
O Processo
de Debate
e a Construção
dos Direitos
ISABEL CARNEIRO
Copyright © 2020 by Fundação Demócrito Rocha

FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA


Luciana Dummar
Presidente

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Gerente Editorial e de Projetos

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UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE (Uane)


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CURSO ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER


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Concepção e Coordenadora Geral

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Editora de Design e Projeto Gráfico

Miqueias Mesquita
Designer

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Revisora

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Ilustrador

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Produtora

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Analista de Marketing

Este fascículo é parte integrante do Projeto “Programa de Enfrentamento à Violência


Doméstica e Familiar Contra a Mulher”, em atendimento do Contrato Nº 74/2020 firmado
entre a Fundação Demócrito Rocha e a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará.

Todos os direitos desta edição reservados à:

Fundação Demócrito Rocha


Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora
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SUMÁRIO
1.Apresentação 20
2. As raízes da violência doméstica e familiar contra as mulheres 22
3. Patriarcado: estrutura que legitima a violência contra as mulheres 25
4. As formas de violência contra as mulheres 27
5. A mobilização das mulheres para desvendar e desnaturalizar
o fenômeno da violência contra as mulheres 29

Referências 31
1
APRESENTAÇÃO

C
otidianamente nos chegam notícias de
mulheres agredidas, estupradas, mu-
tiladas e assassinadas, no mundo in-
teiro. Mulheres de todas as idades, de
todas as cores e de todas as classes sociais. São
cotidianas também as notícias sobre roubos, as-
saltos e homicídios, sobretudo de jovens negros
das periferias urbanas. Em termos estatísticos, as
pessoas do sexo masculino são maioria nas esta-
tísticas sobre violência. O que nos leva à seguinte
questão: por que falar especificamente de vio-
lência contra as mulheres?
Para responder tal pergunta, vejamos com
atenção as manchetes abaixo, retiradas de veícu-
los de informação de diversas cidades do Brasil:

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O que lhes chama atenção nessas notí- enfrentar a violência contra as mulheres. O
cias? Há semelhança entre elas? fenômeno ganha mais relevância quando
Diferentemente dos homens, a maioria acompanhamos a evolução dos dados ao
das mulheres não é espancada ou assassi- longo dos anos, mesmo após tantas políticas
nada numa briga no trânsito, por dívidas, conquistadas pela mobilização das mulheres,
num assalto ou por relações com o comér- como a Lei Maria da Penha. Afinal, mudar a lei
cio ilegal de drogas (ainda que tenha havido não modifica automaticamente um costume.
um aumento no número de casos de assas- O Atlas da Violência 2020, publica-
sinatos de mulheres e meninas em decor- do pelo Instituto de Pesquisa Econômica
rência disso). O local onde as mulheres Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de
mais correm risco é dentro das suas pró- Segurança Pública, atesta a relevância do
prias casas, lugar em que elas deveriam tema, ao demonstrar a evolução das taxas
estar protegidas e em segurança. de assassinatos de mulheres no Brasil.
A principal característica das violências
cometidas contra as mulheres e que as dife-
re das violências que vitimam os homens é
o vínculo afetivo ou de parentesco entre
a vítima e o seu algoz. Os agressores são
os maridos, os namorados, o pai, o avô, o
irmão, o tio, o primo ou o vizinho.
É por essa razão que o fenômeno da
violência contra as mulheres precisa de
uma análise aprofundada, que leve em
consideração não apenas a sua dimensão
e permanência no tempo, como as
manifestações próprias dele, buscando
identificar a raiz do problema para que,
por meio de políticas públicas e sociais,
de políticas educacionais e de pes-
soas engajadas, possamos transfor-
mar essa realidade.
Mas os indicadores são de SAIBA MAIS
extrema importância, pois re-
Conheça o Atlas da Violência
tratam a realidade e atestam
2020. ACESSSE:
que se trata de um problema
social, justificando a neces- forumseguranca.org.br/wp-content/
sidade de políticas públicas uploads/2020/08/atlas-da-
específicas para prevenir e violencia-2020.pdf

ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA MULHER 21


2
AS RAÍZES
DA VIOLÊNCIA
Feminicídio Em 2018, foram assassinadas 4.519 mu- DOMÉSTICA
É uma
qualificadora
do crime de
lheres, ou seja, 1 mulher assassinada a cada
2 horas. Vale ressaltar que a maioria dessas E FAMILIAR
homicídio, que
será abordada
eram negras (68%). Além disso, o Atlas reve-
la que, enquanto houve tendência de re- CONTRA AS
em um próximo
módulo. Aguarde.
dução da taxa de homicídios cometidos
contra mulheres fora do domicílio da ví- MULHERES

A
tima, a taxa de homicídios cometidos na
residência aumentou. Lei Maria da Penha (Lei n°
Os assassinatos de mulheres dentro da 11.340/2006), em seu Art. 5°, de-
residência, via de regra, indicam se tratar de fine que “violência doméstica e
crime de feminicídio. familiar contra a mulher é qual-
A dimensão desse fenômeno está além quer ação ou omissão baseada no gêne-
dos dados e, para contribuir com a com- ro”. A expressão violência de gênero tem
preensão dele a fim de pensarmos juntas e sido utilizada como sinônimo de violência
juntos em soluções, apresentam-se as pos- contra a mulher. Pesquisas relacionadas à
síveis raízes do problema. vida das mulheres, para a academia, em
É preciso assumir que existe uma es- geral são classificadas como estudos de
trutura que cria, alimenta e mantém a gênero. E, nos últimos anos, tem-se ouvi-
violência contra as mulheres como fenô- do muito a denúncia da existência de uma
meno sempre atual, sendo bandeira cons- “ideologia de gênero”, apresentada como
tante dos movimentos de mulheres e dos um terrível monstro que deve ser com-
movimentos feministas. batido pelas famílias brasileiras, já que
Para melhor entendimento do fenôme- “menina nasce menina e menino nasce
no da violência contra as mulheres, é neces- menino”. Mas o que isso significa? O que é
sário conhecer principalmente dois concei- ser menina/mulher e o que é ser menino/
tos: gênero e patriarcado. homem? Afinal, o que é gênero?

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lhe conduzirá ao setor cor de rosa repleto
de todos os tipos de bonecas e miniaturas
de utensílios domésticos. Se for menino,
você irá para um setor diverso, com muito
mais possibilidades, mas sem bonecas, ain-
da que os meninos possam ser pais um dia.
Ora, para os meninos haverá carros, mo-
A socióloga Heleieth Saffioti (2015) de- tos, dinossauros, navios, trens, blocos de
fine gênero, de maneira sucinta, como “a montar, miniaturas de ferramentas e jogos
construção social do masculino e do femi- de aventura. Diferentemente, as meninas
nino” (gênero patriarcado violência). A filó- brincarão de mães, de casinha, farão chás
sofa Simone de Beauvoir, em “O segundo e comidinhas falsas nas suas minicozinhas.
sexo”, sua obra célebre, afirma que “não se Os meninos serão vilões e super-heróis. E
nasce mulher, torna-se mulher”. E como é assim, brincando, a sociedade vai mode-
que se torna mulher ou se torna homem? lando meninos e meninas para agirem
Se mulher e homem, masculino e femini- gênero.
conforme os seus padrões de gênero
no, são construções sociais, como se de- Algumas crianças meninas certamente
ram essas construções? adoram brincar com carrinhos, mas nem
De modo geral, é após a identificação do sempre a família permite e considera ade-
órgão genital do bebê na ultrassonografia, quado. Se meninas têm vaginas, usam ves-
que os pais da criança começam a prepa- tidos e os cabelos compridos, entre outras
rar o enxoval da criança. Não é que, antes características, por que brincar de carrinho
de saber o sexo, eles não saibam do que o as masculiniza? Por outro lado, se um me-
bebê irá precisar. A principal questão que os nino brinca de boneca, logo o repreendem:
faz esperar é saber se o quarto será rosa ou “Isso é coisa de menina”.
azul, se comprarão vestidos e laços ou ma- Vê-se que a definição do que é ser meni-
cacões e bonés, se a decoração terá o tema na ou o que é ser menino não se resume a
de princesa ou marinheiro, flores ou carros, ter vagina ou ter pênis. Ser mulher ou ser ho-
bailarinas ou robôs. mem vai muito além dos limites do cor-
De maneira semelhante, quando você po. São gestos, estética, comportamentos,
entra numa loja de brinquedos, a vendedo- gostos, enfim, características e definições
ra ou o vendedor logo perguntam se você que nada tem de naturais ou biológicas; são
está procurando um brinquedo para meni- pura e simplesmente definições políticas,
na ou para menino. Se for para menina, ela sociais e culturais.

ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA MULHER 23


FICA A DICA
Não é o órgão genital que escolhe o Filmes: (1) Eu não sou um
brinquedo e, sim, os adultos, pais, mães, homem fácil, (2) Não sei como
professoras, tios, avós da criança, amigos, ela consegue, (3) Terra fria, (4)
vizinhos, que farão essa escolha. As meni- Preciosa e (5) Flor do deserto.
nas gostarão de rosa e os meninos de azul, Livro: Hibisco roxo,
porque, via de regra, essas serão as cores da autora nigeriana
que lhes serão apresentadas, e também na Chimamanda Ngozi Adichie.
escola ensinarão: rosa é cor de menina e
azul é cor de menino.
Além de definir que meninas brincam de
bonecas e meninos de carrinho, define-se Ou seja, as diferenças sexuais/
que meninas têm de brincar mais dentro de biológicas são transformadas em di-
casa, sentar com as pernas fechadas, falar ferenças sociais e em diferenças po-
baixo, ajudar com as tarefas domésticas. Os líticas.. Essas diferenças não apenas clas-
meninos podem jogar bola na rua, andar de sificam e definem a sociedade como uma
bicicleta, não podem chorar, devem ser va- sociedade binária, formada por dois gêne-
lentes e determinados. ros, masculino e feminino, como criam hierar-
Na medida em que vão crescendo e quias entre os gêneros, quando tudo o que é
se tornando adultos, as diferenças vão se atribuído ao gênero masculino possui maior
aprofundando e tomando outros espaços. valor do que o que é atribuído ao feminino ou
As meninas, que foram treinadas para cui- quando cria uma relação de poder entre ho-
dar de uma criança e realizar os afazeres mens de mulheres, poder deles sobre elas.
domésticos, quando se tornam mulheres, Ou seja, gênero é a classificação dos in-
serão as principais responsáveis por de- divíduos como homens ou mulheres, que
sempenhar essas funções. A sociedade atribui características específicas para cada
espera que as mulheres sejam mãe e boas um deles. A sociedade atribui valor às ca-
SAIBA MAIS “donas de casa”. Dos meninos, ao se torna-
rem homens, espera-se que sejam altivos,
racterísticas masculinas e femininas, divide
os papéis sociais de homens e mulheres e
Gênero ou género binário é a valentes, velozes e provedores do lar. E produz uma relação de poder entre os gê-
classificação do gênero e sexo em assim, as diferenças entre as brincadeiras, neros, em que os homens têm poder sobre
duas formas distintas e opostas, tal transformam-se em diferentes papéis so- as mulheres. A essa relação de poder, da-
como masculino ou feminino. ciais atribuídos a cada um dos gêneros. mos o nome de patriarcado.

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3
PATRIARCADO: ESTRUTURA
QUE LEGITIMA A VIOLÊNCIA
CONTRA AS MULHERES

Q
uando se fala de gênero, fala-se O patriarcado é uma estrutura mile-
das definições sociais do que é nar, identificada ao longo da história em
ser homem e do que é ser mu- quase todas as sociedades e que foi se
lher. Ao falar em patriarcado, modificando ao longo do tempo, se re-
estamos
e stamos falando de uma relação de po- novando, para manter a dominação dos
der dos homens sobre as mulheres. Ou homens sobre as mulheres. Essa estrutu-
seja, patriarcado “é um caso específico de ra se manifesta em todas as relações: pes-
relações de gênero” (SAFFIOTI, 2015, pg. soais, sociais e institucionais.
126) ou, como explica Mirla Cisne (2014, p. Quando, em casa, há uma divisão sexual
77), “patriarcado dá nome às desigualda- do trabalho, em que as mulheres são as úni-
des que marcam as relações sociais entre cas responsáveis pelos cuidados dos filhos
homens e mulheres na sociedade”. e das tarefas domésticas, é o patriarcado
se manifestando e organizando a hie-
rarquia dentro da família.
família Essa hierarquia
familiar no Brasil, por exemplo, esteve res-
paldada pelo Código Civil de 1916, que de-
finia as mulheres casadas como incapazes
a certos atos e estabelecia que o mari-
do era o chefe da família, que tinha o
pátrio poder. Cabia a ele, dentre outras
atribuições, autorizar ou não que a mu-
lher tivesse uma profissão.

ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA MULHER 25


Vale ressaltar que, ainda que alguns
dispositivos do Código Civil de 1916 tives-
A MULHER NO CÓDIGO
sem sido revogados por leis posteriores,
ele esteve em vigência até 2002, quando
CIVIL DE 1916
foi instituído o novo Código Civil. O Có- CAPÍTULO I CAPÍTULO III
digo Civil de 1916 era um dispositivo DAS PESSOAS NATURAIS DOS DIREITOS E
legal do patriarcado. Art. 6º. São incapazes, DEVERES DA MULHER
O patriarcado pode ser definido, portan- relativamente a certos atos (art. Art. 240. A mulher assume,
to, “como um complexo heterogêneo, mas 147, I), ou à maneira de os exercer: pelo casamento, com os apelidos
estruturado, de padrões que implicam des- II - As mulheres casadas, enquanto do marido, a condição de sua
vantagens para mulheres [...]” e “é ativado subsistir a sociedade conjugal. companheira, consorte e auxiliar
de forma concreta, nas instituições e nas nos encargos de família (art. 324).
relações cotidianas” (BIROLI, 2018, P. 11). Art. 242. A mulher não pode, sem
Sendo o patriarcado essa estrutura de CAPÍTULO II
autorização do marido (art. 251):
poder entre os gêneros, em que os homens DOS DIREITOS E
IV - Aceitar ou repudiar
têm privilégios e poderes sobre as mulhe- DEVERES DO MARIDO
herança ou legado;
res, garantidos pela cultura, pelas tradições Art. 233. O marido é o chefe da VII - Exercer a profissão (art. 233, IV)
e pelo aparato legal e institucional, encon- sociedade conjugal. Compete-lhe:
tra-se nele, nessa estrutura, a raiz da I - A representação legal da família;
violência cometida contra as mulheres. CAPÍTULO VI
IV - O direito de autorizar a profissão
da mulher e a sua residência fora do DO PÁTRIO PODER
teto conjugal (arts. 231, II, 242, VII, Art. 380. Durante o casamento,
243 a 245, II e 247, III); exerce o pátrio poder o marido, como
V - Prover a mantença da família, chefe da família (art. 233), e, na falta
guardada a disposição do art. 277. ou impedimento seu, a mulher.

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As mulheres, devido à hierarquia entre
os gêneros, estão em posição de vulnerabi-
lidade na sociedade, podendo sofrer violên-
cia em qualquer lugar, na rua, no trabalho,
na igreja, no hospital ou em casa, com a
família. As violências de gênero cometidas
contra as mulheres podem ser considera-
das em três contextos: doméstico, familiar
ou relação íntima de afeto.

4
4.1 VIOLÊNCIA DE GÊNERO
Quando uma mulher é abordada e abusada
sexualmente por um desconhecido dentro
do transporte público ou quando uma mu-
lher lésbica é vítima de um estupro corre- Estupro
tivo cometido pelo seu professor ou uma Corretivo
jovem é assassinada pelo líder de um grupo É o nome dado
armado, tendo, antes da morte, sua cabeça à violência

AS FORMAS raspada e seus seios mutilados, estamos fa-


lando de uma violência de gênero.
sexual cometida
contra mulheres

DE VIOLÊNCIA
lésbicas,
Porém, violência de gênero não é aque- supostamente
la cometida apenas contra mulheres. As com o objetivo

CONTRA AS agressões a casais homossexuais que


caminham de mãos dadas na rua tam-
de curá-las,
ou seja, de

MULHERES
fazerem com
bém representam uma violência de gênero.
que elas virem
Violência de gênero é, portanto, uma

N
heterossexuais.
categoria mais geral, que engloba todas as
o tópico anterior, pôde-se violências cometidas contra homens ou
aprender que a sociedade nos mulheres em razão do gênero, ou seja,
classifica por gênero e que a são aquelas violências cometidas princi-
nossa sociedade é patriarcal. palmente quando algum indivíduo ousa
Neste tópico, pretende-se abordar “uma subverter as categorias de gênero, como os
das práticas mais antigas utilizadas pelo homens “afeminados”, as mulheres lésbicas
patriarcado para exercer o poder sobre as ou as mulheres que rompem com a subal-
mulheres: a violência” (TEIXEIRA, 2016). ternidade em busca de liberdade.

ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA MULHER 27


4.3. VIOLÊNCIA FAMILIAR
A violência familiar ocorre quando en-
volve membros de uma mesma famí-
lia, levando-se em consideração os laços
de parentesco e consanguinidade, assim
como os laços de afinidade. É importante
salientar que a violência familiar pode
ser uma violência de gênero ou não e
pode ser doméstica ou não.
Essa distinção entre os tipos de violên-
LINHA DO 4.2. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA cia de gênero é muito importante, pois no

TEMPO DOS A violência doméstica é aquela violência de


gênero cometida no domicílio, ou fora dele,
fascículo seguinte será apresentada a Lei
Maria da Penha, que é a mais conhecida
DIREITOS desde que envolva pessoas que moram
ou fazem parte do circuito daquele do-
e, eu diria, a mais importante sobre violên-
cia contra a mulher. A Lei Maria da Penha
1985 – Criação da primeira
micílio, como as empregadas domésticas, não pode ser aplicada para todos os tipos
delegacia de defesa da mulher, em
por exemplo. São inúmeros os casos de em- de violências cometidos contra mulheres,
São Paulo.
pregadas domésticas abusadas pelos seus pois ela trata especificamente da violência
1985 – Criação do Conselho
patrões, o que representa a manifestação de “doméstica” e “familiar” contra a mulher. Ou
Nacional dos Direitos da Mulher.
uma violência de gênero e doméstica. Quan- seja, a violência doméstica e familiar contra
1988 – Promulgação da
do os homens agridem suas companheiras a mulher é uma violência de gênero, mas
Constituição.
ou os seus filhos em casa, também se enqua- nem toda violência de gênero pode ser en-
1995 – Estado Brasileiro se torna
dra em violência doméstica. quadrada na Lei Maria da Penha.
signatário da Convenção para
eliminação, prevenção, punição
e erradicação da violência contra
a mulher, conhecida como a
Convenção de Belém do Pará.
2002 – Novo Código Civil.
2003 – Criação da Secretaria
Especial de Políticas para as
Mulheres (SPM), com status de
Ministério.
2006 – Sanção da Lei 11.340 - Lei
Maria da Penha.
2015 – Lei do Feminicídio.

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5
A MOBILIZAÇÃO DAS
MULHERES PARA DESVENDAR
E DESNATURALIZAR O
FENÔMENO DA VIOLÊNCIA Com as transformações econômicas e
sociais, as mulheres passaram a ter maior

CONTRA AS MULHERES contato umas com as outras a partir do


processo de industrialização e do surgi-

A
mento das fábricas. Este encontro, o aces-
so e a circulação de conteúdos produzidos
violência contra as mulheres é, 5.1. QUEM AMA NÃO MATA por algumas delas, como artigos, jornais,
desde a década de 1960, uma das
As agressões, os estupros e os assassinatos revistas e livros, às vezes vindos de outros
principais bandeiras de luta dos
de mulheres não fazem parte de fenôme- países, contribuíram para que a resistência
movimentos feministas ao redor
no recente, havendo inúmeros registros passasse de atitude individual para ação
do mundo. Uma luta que teve muitos avan-
na história. Longe de serem passivas, as coletiva organizada.
ços, sobretudo ao inserir o tema, sobre o
mulheres sempre resistiram a essa bruta- Quando em 1976, Ângela Diniz foi as-
qual pesava o silêncio, na agenda pública.
lidade da forma como podiam, até mes- sassinada pelo seu ex-companheiro Doca
mo pelo silêncio, como forma de proteção Street, a justiça, que já vinha absolvendo
diante das ameaças contra a vida. assassinos de mulheres, justificando esses
crimes bárbaros com a tese da “legítima de-
fesa da honra”, ia deixar impune mais um as-
sassino. As matérias jornalísticas tratavam
(às vezes ainda tratam) esse tipo de crime
como consequência da paixão, os chama-
dos crimes passionais.
passionais Diante disso, indig-
nadas, as mulheres organizaram mobiliza-
ções e manifestações sob o slogan: “Quem
ama não mata”. Até então, era comum que
os homens que tirassem a vida das suas
companheiras fossem absolvidos ou con-
denados ao pagamento de penas pecuniá-
rias ou prestação de serviços. Daquela vez,
devido à repercussão do caso, Doca Street
foi condenado a 15 anos de prisão.

ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA MULHER 29


5.2. O PRIVADO É POLÍTICO
Os dados de violência contra as mulheres
ainda são alarmantes, ainda há impunida-
de em relação aos crimes praticados contra
elas, o patriarcado ainda estrutura as vi-
das em sociedade e ainda produz a subal-
Esse fato histórico marca uma mudança ternidade das mulheres.. Apesar de tudo
em termos de mobilizações. Os movimen- isso, a trajetória de mobilizações das mulhe-
tos foram crescendo, foram surgindo mais res organizadas nos diversos movimentos,
e mais coletivos de mulheres e coletivos que foram às ruas, que produziram dados,
feministas além de ONGs que trabalhavam relatórios, que escreveram minutas de proje-
com as temáticas de gênero e feminismo. tos de lei, que enfrentaram o machismo em
Esses movimentos e organizações atuavam casa, nas ruas, nos parlamentos e nos movi-
na denúncia da violência e engajavam-se mentos sociais e partidos políticos, produziu
na incidência política para alterar as leis e uma transformação profunda sobre o fenô-
criar mecanismo de responsabilização para meno da violência contra as mulheres.
quem cometesse violência contra as mulhe- Se antes as agressões cometidas no lar
res e assistência e proteção para as vítimas. eram consideradas assunto particular, pri-
O maior desafio era romper com a cul- vado, que só dizia respeito ao casal e sobre
tura do silêncio. Até recentemente a sabe- o qual ninguém poderia se envolver, hoje
doria popular dizia que “não se deve meter assegurar proteção às mulheres, garantir po-
a colher em briga de marido e mulher”. A so- líticas públicas para prevenir toda e qualquer
ciedade ainda condenava as mulheres que forma de discriminação e violência contra
decidiam se divorciar e responsabilizavam, elas, responsabilizar os agressores e estrutu-
muitas vezes, as vítimas pela própria violên- rar uma rede de atendimento multidiscipli-
cia que sofreram. Muitas mulheres também nar para mulheres vítimas de violência, tudo
guardavam a sete chaves os episódios de isso é responsabilidade do Estado.
violência sofridos, por medo de que o pai dos O Estado é obrigado a não se omi-
seus filhos fosse preso ou que as mandas- tir e a agir para a transformação deste
se para fora de casa sem que elas tivessem fenômeno.. Ainda que a responsabiliza-
renda própria para se manter. Esse desafio ção legal do Estado possa parecer pouco,
ainda persiste, embora, graças à trajetória esse deslocamento da responsabilidade é
de visibilidade do tema e as campanhas de fundamental para que a sociedade saiba
conscientização, as mulheres estejam rom- que o problema da violência é de toda a
pendo cada vez mais com o silêncio. sociedade, e não só das mulheres.

30 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


REFERÊNCIAS
Brasil_Lei Nº 3.071/1916. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil.
Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1910-1919/lei-3071-1-
janeiro-1916-397989-publicacaooriginal-1-pl.html Acesso em: 01/10/2020.
________Lei N° 11.340/2006. Lei Maria da Penha.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/
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BIROLI, Flávia. Gênero e desigualdades: os limites da democracia
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COELHO, Renata. A Evolução Jurídica da Cidadania da mulher
brasileira – breves notas para marcar o dia 24 de fevereiro, quando
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Evoluojurdicadacidadaniadamulherbrasileira_RenataCoelho.pdf
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SAFFIOTI, Heleieth. Gênero patriarcado violência. São Paulo:
Expressão Popular: Fundação Perseu Abramo, 2015.
SANTOS, Cecília MacDowell. Da delegacia da mulher à Lei Maria
da Penha: absorção/tradução de demandas feministas pelo Estado.
Sociais, 89. Junho 2010: 153-170.
Revista Crítica de Ciências Sociais
Disponível em: https://www.ces.uc.pt/ficheiros2/files/gender%20
workshopRCCS_89_Cecilia_Santos.pdf Acesso em 01/10/2020.
TEIXEIRA, Analba Brazão. Violência contra as mulheres.
Recife: SOS Corpo, 2016.

ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA MULHER 31


AUTORA
ISABEL CARNEIRO
Graduada em Ciências Sociais pela Universidade
Federal do Ceará (UFC), com pesquisa na área
de gênero, feminismo e participação política. É
integrante do Fórum Cearense de Mulheres e da
Articulação de Mulheres Brasileiras e compõe a
atual gestão do Conselho Estadual de Defesa dos
Direitos Humanos do Estado do Ceará.

ILUSTRADOR
CARLUS CAMPOS
Artista gráfico, pintor e gravador, começou
a carreira em 1987 como ilustrador no jornal
O POVO. Na construção do seu trabalho, aborda
várias técnicas como: xilogravura, pintura,
infogravura, aquarelas e desenho. Ilustrou
revistas nacionais importantes como a Caros
Amigos e a Bravo. Dentro da produção gráfica
ganhou prêmios em salões de Recife, São Paulo,
Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

APOIO PATROCÍNIO REALIZAÇÃO