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ABRE A BOCA, DEUSA1: O TRANSBORDAMENTO DOS ESTADOS

PULSIONAIS INCONTORNÁVEIS EM ANGELA MELIM E LAURA ERBER

Juliana Carvalho de Araujo de Barros


(UNIP)2

RESUMO: Pretendemos, para pensar o cenário poético dos anos 2000, fazer uma
leitura de Angela Melim e Laura Erber. Apesar de Laura Erber e Angela Melim
movimentarem-se poeticamente de formas parecidas, suas obras poéticas são distintas.
Melim é uma poeta ligada à poesia escrita. Ela lança seu olhar ao mundo, deformando
as imagens ordinárias para fundar um novo mundo, fundar o mundo através do
devaneio. Erber é uma artista que transita por diversas áreas de linguagem artística,
como a dos poemas, da prosa, de vídeos e fotomontagens, de instalações. Tais poetas
são importantes para a reflexão da imagem do poeta hoje, as mudanças de cenário da
poesia (1968-2008), as novas práticas literárias e suas relações com o espaço canônico.

Palavras-chave: Poesia contemporânea; Angela Melim; Laura Erber.

Introdução
Observamos, na produção poética contemporânea, em específico a primeira
década dos anos 2000, uma confluência de linguagens, emaranhado de formas e
temáticas sem estilos ou referências definidas. Há uma pluralidade de vozes. Quanto à
presença feminina, notamos um crescimento definitivo na produção literária em relação
à década anterior, quase equivalência com os homens. A presença negra também
apresenta maior nitidez neste cenário. A marca identitária, afirmativa e posicional das
minorias vai permitir o desenvolvimento de novas dicções de gênero e etnia. Há
também uma mudança na composição social destes poetas: número crescente de poetas
provenientes de periferia ou subúrbios. Novos movimentos editoriais surgem:
intensificação do movimento editorial em favelas; lançamento de publicações destes
novos produtores de poesia; internet como meio de circulação da produção de minorias
(mulheres, negros, grupos jovens, poetas ligados ao MST); surgimento de pequenas
editoras, produzindo um catálogo considerável de títulos de poesia; aparecimento de
novas revistas. A poesia passa a circular num espaço mais livre, mais alijada de todos os
gêneros. Desvantagem que traz uma vantagem: independência em relação às pressões

1
Verso de Angela Melim. A presente pesquisa começou na iniciação científica e se desdobrou no
mestrado, sob orientação da professora Dra. Ana Cristina de Rezende Chiara
2
Graduada em Letras pela UERJ. Mestre em Literatura Brasileira e doutora em Literatura Comparada
pela UERJ. Atualmente é professora titular de Literatura na UNIP – Brasília. Contato:
jucarvalho0301@gmail.com.
do mercado. As barreiras que separam a cultura alta, a de massa e a popular sofrem
rápido processo de erosão. Os anos 70 já haviam desestabilizado as hierarquias no
campo literário, ressemantizando-o. A poesia passa a se articular com várias mídias. A
distinção entre poesia escrita, cantada e visual não se sustenta mais. A nova poesia tem
uma natureza híbrida.
Propomos, neste artigo, a reflexão acerca das possíveis imagens do poeta no
primeiro decênio do século XXI, bem como a investigação desta poética.
Contrariamente ao observado na década de 70, quando, apesar da diversidade estética,
havia um reconhecimento do poeta, que se confundia com o movimento de
contracultura, o poeta era identificado como do contra, indagamos se esse tipo de
identificação é cabível. Perdemos o contorno da imagem do poeta. Na geração 90,
tínhamos um poeta letrado, que investia na recuperação do prestígio e no trabalho
formal e técnico com a literatura, veiculada por suportes diversificados, com questões
também múltiplas.
Pretendemos refletir acerca das seguintes questões a respeito da figura do poeta e
do poema: Como um poeta atinge sua época? Por quê? Para quê? Haveria questões do
“nosso tempo” seriam imprescindíveis no poema? Haveria “um modo de usar” ser poeta
ou de “ousar ser poeta”. Para tanto, fez-se um levantamento contextual das mudanças
ocorridas no período 1968-2008, a partir de uma abordagem comparativa, entre algumas
ocorrências poéticas reunidas nas antologias de Heloísa Buarque de Hollanda (26 poetas
hoje, Esses poetas e Enter).
Na introdução de Esses poetas, Hollanda reflete:

[...] diante de qualquer formação de consenso a respeito de quedas de


vitalidade na produção cultural, sinto-me impelida a organizar uma antologia
de novos poetas. De tempos em tempos, portanto, me surpreendo engajada no
processo de identificar sinais do que poderia ser um novo momento literário
ou poético. Sei também que é mais ou menos assim que assisto e colaboro, às
vezes até a contragosto, com alguns impulsos canônicos que vão se firmando
nesse horizonte ainda relativamente impreciso. [...] HOJE Já não me povoa
mais o propósito de identificar movimentos ou tendências através de uma
seleção objetiva na produção poética de uma época. Meus próprios
parâmetros de trabalho, como, por exemplo, a ideia de periodização, vem
demonstrando uma fragilidade conceitual irreversível. Até mesmo a noção de
valor estético, nestes últimos tempos, foi desestabilizada em função das
interpelações sobre sua legitimidade ética e literária promovidas pelos grupos
off canone. Sabemos hoje, com razoável convicção, que o interesse maior
que os critérios literários disponíveis podem nos oferecer dizem respeito ao
entendimento de sua natureza contingencial e histórica. Assim, a reunião dos
poetas que compõem esse volume não se pretende uma amostragem exemplar
da poesia de um período ou de uma geração. Ao contrário, procurei investir
no caráter autoral desta seleção e no fato de que o que esta antologia expõe
na realidade são apenas algumas afinidades eletivas de seu antologista.
(HOLLANDA, 1988)

Dessa forma, pretendemos investigar poetas que ficaram de fora destas


antologias. Poetas que são representativos de seu tempo, que possuem uma obra com
inquestionável valor estético.
Quanto à Angela Melim e à Laura Erber, escritoras em que nos detivemos mais
estreitamente, uma das questões muito relevantes em suas obras é a transição entre o
lugar e o não-lugar. Poderíamos dizer que neste entre-lugar acontece o
redimensionamento do sujeito, é ali que ele se transforma, com ímpeto ou espanto.
Apesar de representações literárias distintas – Erber passeia por diferentes suportes
literários e Melim é uma poeta exclusivamente “do papel”, as poetas são fundamentais
para a reflexão da imagem do poeta na primeira década dos anos 2000, as mudanças de
cenário da poesia (1968-2008) e as novas práticas literárias.

Angela Melim: um convite à viagem


O verdadeiro poeta é aquele que nos inspira.
Paul Valéry

Em Possibilidades (2006), último livro publicado por Angela Melim,


encontramos uma poeta menos ligada a questões específicas de uma época, como, por
exemplo, a dos anos 60, 70, que é o caso de vários poemas da coletânea Mais dia menos
dia (1996). Possibilidades nos apresenta uma poeta menos identificada com uma
coletividade, encontramos uma “fragilização de tradicionais cronotopos identitários
modernos” (ALVES, 2007, p. 41).
Em “Por mais que cicie”, vemos cavalgar o cavalo indomável de Claricei no
universo da poesia de Angela, “palavra não doma este potro/ intratável”, mas “tanto
faz”. As palavras vêm à poeta, ela as colhe - “colho olhos fixos de novo” (“Flores”).
“Oh palavras possíveis!/ Opondo-se semelhantes./ As mesmas sempre. Iguais.
Contradizendo-se.” A poeta colhe o poema a partir da paisagem que a invade - “O verão
quando entra em mim”, ela o contempla. A poesia não espera o poeta para acontecer, ela
se impõe a ele. Sobe pelo chão e o invade.
Colho olhos fixos
de novo
boca seca
aberta
- o não completo me suspende
entre parênteses invisíveis
no ar parado –
de passeio nesse campo minado
que a pasma semântica do absurdo
colore de avesso e espanto
flores que explodem ao contrário.
(MELIM, 2006, p.17)

A atitude, no entanto, não é a de passiva contemplação. O poema torna-se um


espaço contrastante, em que as palavras opõem-se umas às outras. As palavras
contradizem-se, apesar de possíveis semelhanças fônicas e/ou semânticas. Encontramos
no espaço poético “cio ou consciência”, voos longos e curtos, “eu ainda – viva! - a me
assombrar”, vais e vens, contrastes que provocam espantos e sustos, tornando o familiar
estranho. O verão entra nela e a renova. O olhar volta-se para o exterior, a extimidadeii
de Melim, que a coloca em situações conflitantes e a suspende. Lemos em “Flores”: “o
não completo me suspende/ entre parênteses invisíveis e impotentes/ no ar parado” -,
deixando-a extática, diante do mundo e dela mesma, - “boa seca/ aberta” diante da vida
que se abre e das “flores que explodem ao contrário”.
Segundo Bachelard (2001), o poeta é aquele que, pela imaginação, abandona o
curso ordinário das coisas. O poema é, neste raciocínio, essencialmente uma inspiração
a novas imagens. Melim, em entrevista concedida à Ana Chiara, relatou sua experiência
de suspensão do mundo concreto. O que acontece é um deslocamento, uma troca de
dimensão:

(...) quando eu vejo, vem andando na minha direção um par de sapatos


vermelhos, mas os sapatos lindos e as perninhas bem branquinhas vêm
andando. Eu não vejo nada, só os sapatos vermelhos, até chegar bem assim,
que é uma mocinha bem branca, cor de leite, com um lencinho assim que
nem o teu, cabelinho encaracolado e passou pra lá.(...) Eu só sei que eu só via
aqueles sapatos enormes da rua Haddoch Lobo. (MELIM, 2008). iii

A imagem da mocinha com sapatos enormes vermelhos se desdobra, Melim está


numa realidade objetiva, descritível, e, de repente, transporta-se a um não-lugar, ou a
um entre-lugar. Algo que está no limiar da sensação transforma sujeito e paisagem. A
imaginação é, sobretudo, a faculdade de deformar imagens, não de construí-las. Uma
imagem presente, a da mocinha com sapatos vermelhos, por exemplo, faz a poeta pensar
em uma imagem ausente – uma imagem-sensação que está no limiar da realidade,
imagem-transicional –, determinando, desta forma, uma prodigalidade de imagens
aberrantes, uma explosão de imagens. A imaginação aberta de Melim empresta a
situações cotidianas a experiência de novidade. O que está além das imagens ordinárias
é o que interessa à poeta, é esta mobilidade entre presença/ ausência uma das principais
características da sua poesia.
Se voltarmos mais uma vez a “Flores”, onde se lê sobre a preocupação com os
espaços limítrofes nos quais ela transita imprevisivelmente, vemos uma poeta suspensa
entre parênteses, espaços brancos, espaço-entre, zona de deslocamento. Flora Sussekind,
em seu texto “Desterritorialização e forma literária: Literatura contemporânea e
experiência urbana”, faz considerações acerca da dramatização do horizonte na poesia
de Angela Melim. Há, segundo ela, uma relação entre sujeito e paisagem.
“[...] passo os dias com medo/ da loucura/ - acima do horizonte./ E à noite dói/
boiar na amplidão/ sem companhia.” Estes versos colhidos de Possibilidades remontam
ao envolvimento do sujeito com a paisagem dramatizada. O horizonte se desdobra em
formas diversas e obrigatórias de conflito e indeterminação, gerando zonas
transicionais, mobilidade de imagens que nos seduz. A poeta se ausenta do curso
ordinário da vida e lança-se a uma vida nova. O deslocamento, o devaneio, transporta-
nos para outro lugar. A imaginação da poeta é o seu convite à viagem.
Em “CRTO”, quase não dá tempo de acompanharmos o ritmo do poema. Os
“papéis ao léu” nos revelam uma fome voraz. O inacabado que dá feição ao título deste
poema, o não completo que suspende Angela Melim, dá-nos Possibilidades. Fica de
tudo um pouco, talvez, bastante ou muito, para o leitor completar, preencher lacunas.
O leitor mergulha neste voo em parceria com a poeta. Ele avista com ela a linha
do horizonte. Horizonte que figura e desfigura o espaço do poema, lugar de contrastes,
conflitos: “passo os dias com medo da loucura – acima do horizonte”. Imagens
conflitantes: “o verão! Como é colorido [...] Contradições. Sinônimos” (MELIM, 2006).

Uma travessia: de Angela Melim a Laura Erber


aqui se repetem
antigas áreas de catástrofes
o gesto de andar
ligeiro
atravessar o pontilhado
onde se vigia
rompimentos
e saltos
Laura Erber

Insones é o título do livro de poemas de Laura Erber, lançado em 2002. O título


remete ao limiar da sensação, do sentido, a um estado de presença-ausência. Insônia.
Ao folhearmos Insones, deparamo-nos com a seguinte epígrafe: “algo que no te
deja dormir ni estar despierto te acompaña a esta hora” (Ángel Escobar). Se ainda
dúvida houver sobre os entre-caminhos por que passeia Laura, o poema “Sequência”
nos localiza, ou melhor, nos suspende nos espaços transicionais: “nenhuma teoria
obscura do desejo/ nenhuma teoria/ tudo tão simples como isto/ tiros na noite/ cochilo
entre um pensamento e outro/ atravesso pontes” (ERBER, 2002, p. 12) (grifo nosso). É
o que está entre, o que está no limiar da sensação, a zona de deslocamento é o que mais
uma vez nos chama a atenção aqui.
O que não está escrito, o não-dito, prevalece, faz-se presente pela própria
ausência, desloca o sujeito, faz com que ele “recorte a cidade por todos os lados” (id.,
ibid.), impaciente, em busca de. Há uma suspensão do sentido que atravessa a obra de
Laura de um extremo a outro. “Há mulheres/ dedos semi-suspensos em busca do/ que os
olhos não/ exatamente agora,/ na China,/ semi-suspensas” (id., ibid.).
Se em Angela Melim encontramos o espanto, em Erber lemos sobre o “Ímpeto”:
“perigoso de te procurar/ espaço atordoado em grande desordem/ arrancamos em seguida/
atropelantes/ neste pedaço de brejo/ há muita perturbação em se cruzar o asfalto”
(ERBER, 2002, p. 18-19). Segundo o dicionário Aurélio, ímpeto é um movimento
violento e súbito; impetuosidade. Arrebatamento, precipitação: ímpeto da juventude.
Assalto, violência, ataque. De um ímpeto, Erber anseia pelo outro, por cruzar a esquina
para descobrir o que há do outro lado. Há uma emergência na poesia desta artista, uma
urgência perturbada, um desejo intenso, um fluxo de desejos impossível de reter.
De acordo com o mesmo dicionário, espanto é uma surpresa causada por algo de
singular, de inesperado. Susto, assombro, pasmo. O que é familiar torna-se estranho a
Melim, através de contrastes, contradições, então, diante do mundo e de si mesma,
espanto.
Em Erber, o que é externo a ela mobiliza-a, desloca-a para uma zona de
desconforto, de desordem. Fá-la perceber o que está além, do outro lado da rua, ao
cruzarmos o asfalto, que perturba, transformando o ordinário, o cotidiano, “em impetuosa
vontade” de viajar a novos lugares, deformar imagens, o familiar em “estranho quarto”.
Então ela se submerge “na agitação opaca/ entre desejos materiais/ intensa necessidade de
tomar notas/ de se deitar um pouco” (ERBER, 2002).
A paisagem, em Erber, também atinge o sujeito: “uma paisagem com vapor/ em
movimento/ na intensificação que a rua oferece/ ele flutua/ e/ some”. O sujeito
interioriza o vivido. Há uma flutuação entre o eu e o outro, o que o dentro e o fora, “o
mundo dos prazeres é o mundo das coisas flutuantes” (id.). É nessa mobilidade flutuante
que o sujeito transforma o mundo e a si mesmo. Leiamos “Poema com fundo de Suzuki
Harunobu”:

quando as ondas brancas ficam mais altas em Tatsutayama


ninguém mais sabe se vai conseguir fazer a travessia de
noite
se o mundo dos prazeres é o mundo das coisas flutuantes
se a gaivota de risco fino terá lugar fora da paisagem
estilizada
ninguém sabe
se os amantes
tramam suicídio em Amijima
ou uma viagem pra Cuba
se quando pronuncio certos nomes
as ondas ficam mais altas
em Tatsutayama
ou aqui
(ERBER, 2008, p. 21)

Neste poema, é o sujeito quem interfere na paisagem, porque quando se


pronunciam certos nomes, as ondas podem ficar mais altas em algum lugar. É a
paisagem que se transforma, no entanto, ao transformar a paisagem, ele transforma a si
mesmo, numa relação ambivalente.
No ensaio “Contornos abertos”, de Ana Chiara, lemos sobre espasmos seguidos
de perda de consciência, sobre o exterior que incita e excita o poeta, sobre
deslocamentos. Ao provarmos da poesia de Erber e Melim, nós, leitores, deslocamo-nos
com estas mulheres, debatemo-nos em zonas de flutuantes, suspensas, zonas prazerosas.
“O mundo dos prazeres é o mundo das coisas flutuantes”.
Sentimos, ao acariciarmos as palavras destas poetas, um movimento fluído, “que
passa por uma refração ininterrupta de afecções, de sensações, tudo que é incitado,
excitado, pelo exterior e se transforma em delicados, violentos, exaltados, contrácteis
movimentos de sístoles e diástoles do que se chama desejo” (CHIARA, 2006). É
impossível delinear o fortuito.
Tanto em Erber quanto em Melim, observamos um movimento flutuante, algo que
não pode ser dito, apesar de estar presente, palavras e desejos que estão no limiar da
sensação, desejos vazados. Uma sensação insone. Não se estar nem num lugar, nem
noutro. O que importa a essas poetas é a mobilidade flutuante. Elas escrevem quase que
numa embriaguez poética, insone. Escrevem sobre imagens fugidias, imagens
percebidas no breve intervalo do sonho e do pensamento, da imagem e da palavra.
A palavra vive, nesses poemas, uma experiência dinâmica. Nos livros Insones e
Possibilidades, percebemos uma série de lugares (em Melim, paisagens, em Erber,
cidades) e movimentos. O sujeito desloca-se por cidades, em um ritmo frenético, e
desloca-se em si mesmo, principalmente.

São experiências confessadas ao pé do ouvido, piscando o olho para o leitor,


sussurradas, entre um bater de pálpebras. Pois a insônia de Laura
corresponde a estar perto, muito perto, estar esperto, estar desperto na
captação do instante. Em entrevista, Laura declarou uma vez: “a poesia
dissolve as bordas entre o que é cotidiano e o que é extraordinário ou
insólito”. Seus poemas se interessam pelos pequenos gestos (mulheres e
homens trabalhando, os percursos de ônibus, um caderno de notas perdido,
atrasos, amuos entre namorados) que por força de uma linguagem desviante,
alusiva, entrecortada ganham nova intensidade. (CHIARA, 2006)

No entanto, apesar de Laura Erber e Angela Melim movimentarem-se


poeticamente de formas parecidas – por serem poetas contemporâneas, mulheres,
algumas temáticas se aproximam etc. –, suas obras poéticas são distintas. Angela é uma
poeta ligada à poesia escrita. Ela lança seu olhar ao mundo, deformando as imagens
ordinárias para fundar um novo mundo, fundar o mundo através do devaneio. Um
mundo maravilhoso. A estrutura de sua poesia, segundo Ana Cristina Cesar, a poesia
de Angela é como uma conversa íntima com o leitor, apegada a exclamações,
despreocupada com a continuidade lógica e com a sintaxe rigorosa, à mercê das
interrupções súbitas, parênteses que interrompem a sequência. Laura é uma artista que
transita por diversas áreas de linguagem artística, como a dos poemas, da prosa, de
vídeos e fotomontagens, de instalações.
Reconhecemos nestas poetas um movimento de interiorização do vivido,
remetendo a um estado insone, embriagado, mas que supera o silêncio, conquistando
uma forma de dizer entrecortada por lacunas, suspensões, flutuações. Vivemos com
elas uma

experiência de precariedade, de vulnerabilidade, de instabilidade e, ao


mesmo tempo, a linguagem pode ser a superação desses estados, pois
configura um campo textual em que as noções estão sob contínuo
questionamento ou transbordamento, criando solos narrativos instáveis para
estados pulsionais intraduzíveis, intratáveis como diria Roland Barthes,
incontornáveis. (CHIARA, 2006)

Estas poetas reinventaram uma coerência própria, assumiram a herança


modernista e a herança concretista, expandindo a poesia dos anos 70. Encontramos
nelas uma liberdade de se experimentar.

Considerações finais
A partir do estudo comparativo de poemas produzidos na primeira década dos
anos 2000, por Angela Melim e Laura Erber, tentamos reconhecer, reconstituir, por
semelhanças ou diferenças, a imagem projetada do poeta na primeira década dos anos
2000. Nossos resultados indicaram que, até 2008, a partir do corpus literário analisado,
há uma pluralidade de vozes e subjetividades. Temos uma poesia híbrida, com
referências e suportes diversos. Erber, por exemplo, é uma artista plural, que transita em
várias linguagens diferentes: poemas, prosa, vídeos e fotomontagens, instalações.
Quanto à Angela Melim e Laura Erber, apesar de terem representações literárias
e estilos diferentes, ambas percorrem um movimento de interiorização do vivido e do
vivível, remetendo a um estado insone, de flutuação, zona de deslocamento entre o real
e o sonho, sono. Essas poetas superam o silêncio e conquistam uma forma entrecortada
por lacunas e suspensões de dizer, através da linguagem instável, os estados pulsionais
intraduzíveis, intratáveis e incontornáveis.
Referências
ALVES, Ida e PEDROSA, Celia (orgs.). Subjetividades em devir:estudos de poesia
moderna e contemporânea. “Poesia contemporânea: crise, mediania e transitividade
(uma poética do comum)”. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007.
BACHELARD, Gaston. O ar e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
CHIARA, Ana Cristina de Rezende. Contornos abertos. Rio de Janeiro: Caetés, 2006.
CHIARA, Ana e ROCHA. Fátima Cristina Dias (orgs.). Literatura brasileira em foco: o
eu e suas figurações. “Ana Cristina César e Ana Mendieta: as infotografáveis”. Rio de
Janeiro: Casa 12, 2008.
ERBER, Laura. Insones. Insones. Rio de Janeiro: 7letras, 2002.

__________. Vazados e molambos. Florianópolis: Editora da casa, 2008.


__________. O funâmbulo e o escafandrista.
www.novembroarte.com/catalog_funambulist

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Editorial Labor do
Brasil S. A., 1976.

__________. Esses poetas: uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano,
1998.
__________. Enter. http://www.oinstituto.org.br/enter/enter.html
LIMA, Luis Costa.
MELIM, Angela. Mais dia menos dia: poemas reunidos 1974 – 1996. Rio de Janeiro: 7
letras, 1996.
__________. Possibilidades. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2006.
SUSSEKIND, Flora. Desterritorialização e forma literária: literatura brasileira
contemporânea e experiência urbana. Disponível em:
http://www.eca.usp.br/salapreta/PDF04/SP04_01.pdf. Acessado em 4/07/2010. Acesso
em: 18 ago. 2019.

i
Na obra de Clarice Lispector, a imagem do cavalo é muito recorrente.
ii
Em seu ensaio “Ana Cristina César e Ana Mendieta: as infotografáveis” (CHIARA, 2008, p. 123), Ana
Chiara esclarece o conceito de extimidade: “A ‘extimidade’, segundo definição de Lacan, está no trânsito
entre o eu, o mim e aquilo que em ‘mim’ não domino”. É o escape em direção a um exterior, a um
outro, a um it.

iii
Entrevista com Angela Melim realizada por Ana Chiara e Amanda em 2008.