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“O Quinto Império”, “Nevoeiro” e “Amor a Portugal”

(Muito bom dia a todos.) Este trabalho foi elaborado no âmbito da disciplina de Português e
tem como principal objetivo explorar e analisar os poemas “O Quinto Império” e “Nevoeiro” de
Fernando Pessoa, bem como equipará-los à música “Amor a Portugal” interpretada pela Dulce
Pontes.

(Em primeiro lugar irei começar por contextualizar e localizar os dois poemas.) “O Quinto
Império” e “Nevoeiro” são poemas da autoria de Fernando Pessoa e localizam-se na terceira
e última parte da sua obra Mensagem, denominada como “O Encoberto”. Este “Encoberto”
explora essencialmente os símbolos, os avisos e os tempos num contexto de Pax in excelsis
que em grego significa Paz no Céu. Face ao que estudamos até agora é incontestável que
esta derradeira parte da obra de Pessoa espelhe essencialmente um Portugal comandado
sobre a alçada de um tempo e de um espaço perdidos e envolvidos nas brumas da memória.
O sofrimento presente no sujeito-poético ao ver dormir o povo que acabara de esquecer a sua
pátria e a glória da sua nação, direciona-o para um único caminho: o levantar da ideia do
Quinto Império e a ascensão da memória de Dom Sebastião.

Posto isto, Fernando Pessoa, recorrendo a um lirismo silencioso e à inspiração épico-lírica,


escreve cerca de treze poemas numa linguagem excecional que lhe dá a possibilidade de
ressuscitar o tempo de prosperidade espiritual, restaurando de novo a intuição de um futuro
melhor que, aos olhos dos portugueses, trará consigo o orgulho de ser português e de
pertencer a uma pátria com felicidade, paz e fraternidade universal. Tal como o professor
Jacinto Coelho afirma, Fernando Pessoa escreve numa “dupla face de tédio e ansiedade, de
cética lucidez e intuição divinatória”, tornando os leitores inertes e órfãos com todas as
matérias apresentadas, sendo que estas vão desde os cinco grandes mitos até às profecias
dos três grandes arautos do messianismo português, não esquecendo das alterações do
tempo que simbolizam a possibilidade de nascimento, encerrada no valor metafórico do
nevoeiro.

Associado também a este conteúdo, Fernando Pessoa apresenta-nos, ainda que seja
necessário explorar com detalhe os seus poemas, o seu império épico-espiritual. O poeta
considera que Portugal tem ou poderá ter a capacidade de lutar pela conquista e construção
de um império vanglorioso, de um Império Espiritual. Pessoa diz fielmente que “Todo o Império
que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de pé, um Cadáver mandando” o que
me leva a acreditar na desmaterialização da conquista pela matéria, pois, tal como aconteceu
nos descobrimentos, as expansões territoriais por falta de gente que se impusesse não
ofereceram, infelizmente, nada mais do que a própria matéria (terreno). Fernando Pessoa
garante que Portugal ao criar uma civilização com espírito próprio, orgulho de ser português
e vontade de ir mais além, fará com que o resto do mundo se subjugue e o Império Espiritual
se encerre nas nossas mãos.

Analisando agora com um pouco de precisão o primeiro poema assinalo de imediato que n’“O
Quinto Império” a ideia geral que sobressai não é mais do que regeneração de um povo que
estagnou entre a podridão de almas e o desinteresse do povo em querer ser construtor de um
novo império.

Sem deixar de fazer referência à questão cultural que está tão bem retrata nos versos, este
poema, segundo a minha análise, pode ser facilmente dividido em três partes onde se realça
três aspetos e temas importantes e evidentemente representativos da nacionalidade do país
naquela altura e, talvez, ainda hoje. Assim sendo, a primeira parte destaca-se através das
duas primeiras estrofes e apresenta como conteúdo a apatia do povo português, bem como
a vivência daqueles que resumem toda a sua vida a uma espécie de existência conformista,
comum e desinteressante. Fernando Pessoa comenta, de forma desiludida, a situação
nacional, espelhando a vida daqueles que vivem de forma medíocre uma vida sem sonhos,
desejos e ambições. Uma das expressões que retrata de modo claro essa situação são
possivelmente os seguintes versos: “Triste de quem vive em casa, / Sem que um sonho, no
erguer de asa, / Faça até mais rubra a brasa” onde Pessoa realça os portugueses que, apesar
de se demonstrarem de facto felizes, são tristes por coordenarem uma vida mortal através da
insignificância, onde apenas se sentem completos e preenchidos por usufruírem de uma vida
banal no simples aconchego do lar. Vivem abandonados e não se arriscam a sonhar, entrando
em total refuta com um dos tópicos culturais que Fernando Pessoa apresenta e que neste
caso se sintetiza àquela ideia proveniente dos tempos dos vikings e romanos onde se mudava
de lugar e levava-se brasas acesas desde a casa antiga até ao novo lar, com vista a não se
perder a ligação à terra natal. Limitam-se à sua imobilidade espiritual e não desejam ter um
papel ativo na luta pelo império: são tristes por serem mentirosamente felizes.

Já na segunda parte, patenteada na terceira estrofe, são apresentados um desejo e uma


corroboração sobre o povo português. O poeta diz-nos que o verdadeiro projeto de vida do
Homem é encontrar soluções e não ficar sentado à espera de um recomeço espontâneo e
milagroso. Fernando Pessoa afirma severamente que o tempo não para – “Eras sobre eras
se somem / No tempo em que eras vem” e por isso o que o povo deverá fazer é levantar-se
cada manhã e sentir-se insatisfeito com o que ainda não tem. Sentir-se descontente no sentido
de fazer novo caminho e lutar por algo maior do que a expansão territorial e do que os bens
materiais. “Ser descontente é ser homem.” Enfim, é nesta base que Pessoa apresenta o seu
desejo: a luta pela felicidade e a busca por uma pátria fundada na plenitude existencial.

Por último, a terceira parte, representada nas duas últimas estrofes deste poema, expressa
naturalmente a grande ideia e, num modo geral, o compromisso que Fernando Pessoa
entrega às pessoas que o leem. Desta maneira, o poeta apresenta de modo inteligente o
anúncio de uma nova era, ainda que não saibamos quando é que esta chegará - Grécia,
Roma, Cristandade, / Europa — os quatro se vão / Para onde vai toda idade.” Aquilo que se
sabe e que interessa é que existe agora um objetivo que foi dado por aqueles que algum dia
já o tentaram cumprir e por outras razões não o conseguiram. O plano agora é construir o
Quinto Império que fará Portugal se distinguir de todos os outros que algum dia existiram e
mostrará ao mundo o valor que este país realmente tem. Tudo isto depende apenas do povo
que não se poderá cansar de sonhar e de acreditar na desforra que Portugal merece, ou seja,
o regresso de S. Sebastião como o despertar para uma nação adormecida.

No fundo a ideia síntese de tudo isto está retratada na afirmação que o escritor Artur Veríssimo
apresenta num dos seus livros: Fernando Pessoa pretende ascender o Império espiritual que
se constrói na esfera de uma identidade cultural. Um Império que a vontade e a esperança
transformadoras hão de por força (re)criar contra a decadência presente.

(Centralizando-me agora noutro dos poemas pertencentes ao “O Encoberto”.) Antes de mais


saliento-me que o poema “Nevoeiro” é a última composição poética presente em toda a obra.
Por essa razão, Fernando Pessoa retrata nela a mensagem que quer deixar na memória
daqueles que chegaram até ali, inclusive nos próprios futuros portugueses. Se repararmos
bem o último verso presente no poema diz exatamente “É a Hora!” afigurando simbolicamente
um apelo e um grito de ajuda a todos os leitores e os portugueses do presente e do futuro.
Pessoa, pede de maneira profunda que Portugal se rejuvenesça e que se afaste da tristeza e
da solidão que recaí e sossega sobre todo o território português. Chegou a hora da mudança,
do renascer de Portugal e da ascensão do Quinto Império e não há outro caminho que se
possa percorrer.

Além disso, logo na primeira estrofe, Pessoa expõe um retrato geral do país e do estado em
que este se encontra no mundo. O autor regista a crise generalizada da nação que se encontra
indefinida e sem ninguém que assegure o brio que um dia Portugal teve – “Que é Portugal a
entristecer – / Brilho sem luz e sem arder”. O território nacional perde pela falta de identidade
e um sentimento de incerteza e imprecisão está instalado. Tal como o poema indica, ninguém
conhece a alma que tem e ninguém sabe o que é ser verdadeiramente português. A luz do
olhar portucalense morre e a chama que arde no interior do país vai se apagando – “Como o
que o fogo-fátuo encerra.”

Portugal vai se perdendo entre o desinteresse das pessoas e tal como no poema anterior,
Pessoa retrata os portugueses como meros andantes que não sabem que são, o que fazem,
o que querem ou sequer o que ambicionam. Em contrapartida, existe ainda alguém que tem
esperança e, neste contexto, esse é alguém é precisamente Fernando Pessoa. Através da
interrogação que faz – “Que ânsia distante perto chora?” – o poeta mostra a vontade que
ainda lhe resta por ver surgir um futuro melhor. Ele guarda no seu pensamento a pequena
crença de que no interior de cada irá surgir essa vontade de mudar que, apesar de ainda se
encontrar longe, sente-se perto, assim como o renovar do país.

“Ó Portugal, hoje és nevoeiro...”. Esta é a expressão que Fernando Pessoa apresenta como
forma de conclusão de toda a sua obra. Para finalizar o autor insere o mito Sebastianismo
com vista a alcançar o maior sonho: o Quinto Império! O “nevoeiro” é inserido como uma
representação metafórica do país e, à vista disso, é utilizado como um “motor poderoso para
o erguer das pedras do caminho que alcançará o verdadeiro reinado.

Se passarmos agora para uma analogia entre estes dois poemas e a música “Amor a Portugal”
de Dulce Pontes verifica-se de imediato que o conteúdo abordado é exatamente o mesmo.
Lembrando um pouco o que afirmei até agora, esta terceira parte da obra de Fernando Pessoa
resume-se muito rapidamente a uma enorme crítica ao estado em que o país e os portugueses
se encontravam, bem como um fortíssimo apelo pelo acordar e renascer do território nacional.
Na letra da música verifica-se que logo na primeira quadra – “O dia há de nascer / Rasgar a
escuridão / Fazer o sonho amanhecer / Ao som da canção” – Dulce Pontes, consciente ou
não, retrata exatamente a mesma ideia que Fernando Pessoa escreve no poema “O Quinto
Império”. Ambos demonstram essa escuridão que prevalece sobre o território português que
metaforicamente simboliza apenas a decadência e a indefinição presentes na alma do povo
e do país.

Depois, na segunda e terceira estrofes, Dulce Pontes retrata a esperança que Pessoa também
sente e escreve sobre no poema “Encoberto”. Apesar do desalento, tanto o Fernando como
Dulce exprimem a esperança de que um dia surgirá uma força interna no povo que os fará
mover e sentirem-se constantemente insatisfeitos, sendo que é precisamente essa
insatisfação que os levará até à loucura de ter sempre mais e até ao desejo de ação.

Já na última estrofe da canção vemos que Dulce Pontes admite que um dia se ouvirá o cântico
final que fará com que o Amor a Portugal seja cumprido. Na minha análise considero que este
cântico surja no mesmo sentido que o “encoberto” do poema de Pessoa. Assim sendo, será
então esse amor e encoberto que farão renascer o orgulho da pátria no coração de cada
pessoa. Será desta maneira, recheada pelo mito sebastianista e pelo amor que circula no
sangue dos homens, que a sociedade erguer-se-á, fazendo com que o Quinto Império
apareça como uma luz no olhar de cada português.

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