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Tailândia, Pará

A história do primeiro município a receber a Operação


Arco de Fogo

Projeto Experimental apresentado como exigência parcial para obtenção


do título de bacharel em Comunicação Social- Habilitação em Jornalismo,
do Departamento de Comunicação Social da Universidade Estadual Paulista
João Ricardo Penteado Lopes da Silva
“Júlio de Mesquita Filho”, atendendo à resolução número 02/84 do Conselho
Federal de Educação, sob a orientação do Prof. Dr. Pedro Celso Campos.

Editado por Bruno Candeias


Agradecimentos
Primeiramente, agradeço aos meus pais pelo apoio financeiro
e moral durante esta minha empreitada e, principalmente, pela
paciência. Agradeço à minha octogenária vó Cida, que teve que
conviver com um neto já marmanjo o tempo todo em casa durante
centenas de dias a fio.
Agradeço ao meu orientador Pedro Celso Campos por ter aceito
orientar um projeto não muito convencional, realizado por um
orientando não muito presente.
Agradeço ao Sales por ter me oferecido estadia em Belém, ao
Ericson pelas dicas sobre a capital paraense, e, sobretudo, à dona
Nasinha, uma pessoa incrivelmente hospitaleira.
Agradeço ao Reginaldo e ao Jorge, funcionários da prefeitura de
Tailândia e meus primeiros contatos na cidade, pela solicitude em
A todos aqueles que lutam por mais justiça na Amazônia. atender um estudante de jornalismo que veio de longe e cheio de
perguntas pra fazer.
E, por fim, agradeço a todos aqueles que estiveram ao meu lado
durante esse desafio, me apoiando de uma forma ou de outra.
Índice

Agradecimentos............................................ 5
Desde Belém. . .............................................. 7
A Vila . . .......................................................12
A Cidade Só Cresce......................................18
Primeiras Impressões.. ..................................26
Madeira Matéria-Prima.................................33
O Poder Público.. ......................................... 41
Floresta e Ocupação.....................................52
Arco de Fogo............................................... 61
Prejuízos....................................................68
Posfácio..................................................... 74
Fotos.........................................................78
Bibliografia.................................................85
Desde Belém
A rodovia conhecida como Alça Viária, no Pará, é fruto de um
projeto ambicioso. Sua construção teve como objetivo principal
ligar a região metropolitana de Belém a rodovias que percorrem
as regiões sul e sudeste do estado. A obra também foi importante
para estabelecer uma integração mais rápida com o pólo industrial
de Barcarena, cidade onde estão duas das maiores produtoras de
alumínio do mundo: a Albrás e a Alunorte.
Como parte da execução do projeto, foram construídas quatro
grandes pontes e 70 quilômetros de rodovia floresta amazônica
adentro. Até 2001, quando a Alça Viária foi finalmente concluída,
sob a tutela do então governador Almir Gabriel, chegar a alguns
municípios paraenses ao sul de Belém só era possível fazendo uso
de balsas nos diversos rios que correm na região. Trajetos que
hoje são superados em algumas horas demandavam quase um dia
inteiro de viagem.
Apesar de ser uma rodovia construída para ligar a capital ao sul
do estado, quem sai de Belém para alcançar a Alça Viária segue
primeiro para o norte, mais precisamente para o nordeste. É pela
BR-316 que o viajante desfruta seus primeiros minutos de translado,
cruzando por Ananindeua e Marituba, situadas ainda na região
Tailândia, Pará Desde Belém

metropolitana. Como é típico de áreas conurbadas, os limites entre do estado parecem apresentar os mesmos problemas. Estatísticas
uma cidade e outra passariam despercebidos aos olhos de um do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) confirmam
forasteiro, não fossem pelas placas que acusam a mudança. essa suspeita. De acordo com o órgão, em 2007, o Pará registrou
Na altura do km 10 da BR-316, em Marituba, está o trecho de o segundo maior número de mortes em rodovias no Brasil, com
acesso à Alça Viária. É aí que o rumo da viagem é ajustado em 1.007 vidas perdidas, atrás apenas do Paraná, com 1.672. Assim, é
direção ao sul. A paisagem na janela do ônibus muda. O cenário mais do que natural que alguém que esteja em sua primeira viagem
urbano formado por casas, passarelas e ruas sai de cena, dando pela malha viária paraense expresse, além de curiosidade pela
lugar à floresta. Dos dois lados, o que se vê é só mata fechada. No paisagem, apreensão.
meio, uma estrada de pista simples, que se afunila no horizonte Próximo ao rio Guamá, o primeiro dos três grandes rios sobre os
entre retas e curvas. Parece sufocada pelo infinito verde que a cerca quais a Alça Viária passa, surge no horizonte uma grande ponte
por todos os lados. suspensa. É a ponte Almir Gabriel, nome em homenagem ao
Vez ou outra, à beira da rodovia, surgem povoados e vilarejos governador que a inaugurou. Possui dois quilômetros de extensão,
isolados no meio do mato. Há também alguns ribeirinhos na margem a maior de todas da rodovia, e segue o modelo de ponte estaiada,
dos rios sobre os quais a Alça Viária passa com pontes. Postes de com cabos de sustentação saindo dos mastros diretamente até
energia elétrica de cerca de cinco metros de altura acompanham a a base. O curioso é que, assim como as demais pontes adiante,
estrada praticamente por toda sua extensão. seu trecho inicial é percorrido em uma subida consideravelmente
A falta de manutenção faz com que, em certos trechos, o íngreme, lembrando verdadeiras rampas gigantes. Impossível não
mato invada o restinho de pista que poderia ser chamado de pensar na hipótese de um ônibus em alta velocidade decolar pelos
acostamento. Há trechos em que simplesmente ele não existe. A ares e cair no rio que corre abaixo. Felizmente, em quase uma
qualidade do asfalto é razoável até certo ponto – quanto mais pra década de existência, parece que não houve nenhum caso como
trás Belém, mais o pavimento se torna problemático. A tremedeira esse no local.
do ônibus começa a ficar mais constante com o passar do tempo, Menos de 50 km adiante, depois de experienciar semelhantes
potencializada por um motorista que gosta de velocidade. Até os sensações nas pontes-rampas dos rios Moju e Acará e ter deixado a
mais incrédulos passageiros, subitamente, se pegam adorando um Alça Viária e passado pela PA-151, o ônibus está agora no quilômetro
deus nos momentos mais críticos. zero da PA-150, estratégica rodovia estadual que percorre o sul do
Infelizmente, enfrentar tais condições de estrada não é só Pará, também conhecida como Belém-Marabá. Batizada de rodovia
privilégio de quem viaja pela Alça Viária; todas as demais rodovias Paulo Fonteles, em homenagem a um ex-deputado estadual
assassinado, a PA-150 se estende por 762 km, passando por doze
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Tailândia, Pará Desde Belém

municípios no total. Começa na cidade de Moju e só vai parar em nos dois lados da rodovia. Não há prédios à vista. A poeira, vinda
Redenção, onde começa a estrada federal BR-158. das vicinais da região e das ruas de terra do perímetro urbano, toma
A PA-150 também é o principal acesso à rodovia que vai até Tucuruí, totalmente conta do ar, dando-lhe um aspecto esbegeado. Para um
cidade onde está a segunda maior usina hidrelétrica do Brasil. Por forasteiro vindo de um grande centro urbano, a sensação, imbuída
toda a viagem é possível ver ao lado da pista os linhões de energia de todos os tipos de preconceitos, é a de se estar chegando ao
que saem da usina em direção ao norte do estado. faroeste. O ônibus toma a avenida Belém, bem ao lado da PA-150,
Por cortar o Pará de um extremo ao outro e por ligar Tucuruí e para na rodoviária. É a rodoviária de Tailândia.
a Belém e Barcarena, a PA-150 é bastante conhecida entre os
paraenses. Seu tráfego é intenso, principalmente de caminhões,
e suas condições são semelhantes à da Alça Viária: pista simples,
trechos de pavimentação ruim, ausência de acostamento. Desse
modo, a sensação de insegurança segue a mesma.
Quase cinco horas e 270 km depois do início da viagem em Belém,
o ônibus se prepara para aportar em mais uma cidade. Será a
antepenúltima rodoviária antes de Goianésia e Tucuruí. O cenário
fora da janela começa a mudar. Plantações de palma de dendê,
matéria-prima bastante utilizada nesses dias para a produção de
biodiesel, transformam radicalmente a vista exterior. Seguem por
quilômetros e quilômetros de extensão, em terras da Agropalma,
maior produtora de óleo de dendê da América Latina. Pouco a
pouco, outros sintomáticos elementos passam a fazer parte da
paisagem. São as serrarias. Caminhões, carregados de toras de
árvores, e bicicletas, levando os encarregados de cortá-las, cruzam
a todo instante por seus portões. Montanhas de pó de madeira de
mais de cinco metros de altura se espalham pelos seus pátios.
Passados mais alguns metros, uma cidade aponta logo adiante.
Casas, supermercados, hotéis e lojas de autopeças marcam presença

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A Vila

Em 1973, é elaborado o II PND, e dentro dele um novo PDA, com o


planejamento voltado para os anos de 1975 a 1979. Esse segundo
Plano de Desenvolvimento para a Amazônia fazia uma investigação
minuciosa das potencialidades econômicas que a região possuía.
Uma de suas principais metas era buscar alternativas energéticas
A Vila para o país, em meio à forte crise do petróleo que impactava o
mundo. Foi nessa época que tiveram início as construções das duas
maiores hidrelétricas do Brasil: as usinas de Itaipu e de Tucuruí.
Tailândia é uma cidade jovem do nordeste paraense, emancipada Esta última, erguida no meio da floresta amazônica, no Pará, bem
politicamente apenas em 1988, por meio de lei estadual sancionada às margens do rio Tocantins.
pelo governador Hélio da Mota Gueiros. Até aquele ano, era apenas Com a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, localizada
uma vila que se assentava em áreas pertencentes aos municípios numa região mais próxima ao centro do estado, surgiu então a
de Acará e de Moju. Apesar do pouco tempo de existência, a cidade necessidade de estabelecer uma conexão entre aquela área e o
possui uma população considerável para a região: são 64 mil pessoas, nordeste paraense, onde estavam Belém e o pólo industrial de
de acordo com o censo do IBGE de 2007. Mas há funcionários da Barcarena. Desse modo, em 1977, são derrubadas as primeiras
administração local que afirmam que existem pelo menos dez mil árvores para dar espaço à PA-150, uma rodovia que cortaria o Pará
a mais. de norte a sul.
A formação do que viria a ser a “Vila de Tailândia” se deu no bojo Assim como em outros processos de abertura de estradas no
do plano de integração nacional arquitetado pelos militares que estado, o início da construção da PA-150 logo atraiu muitos
comandavam o Brasil na década de 70. A Amazônia era o principal migrantes para a localidade. Foi mediante esse fenômeno que
foco das atenções. Sob o lema de “integrar para não entregar”, chegaram os primeiros moradores na área onde é hoje Tailândia. Era
foi criado o I Plano de Desenvolvimento da Amazônia, o PDA, que gente que vinha de cidades do próprio Pará e do vizinho Maranhão.
traçava metas e ações para os anos de 1972 a 1974. Seu objetivo Alguns eram de estados mais ao sul, como Rio Grande do Sul, Santa
principal era criar ações integratórias entre a região amazônica e Catarina e Espírito Santo. A maioria estava atrás de terras ainda
o centro sul do país. Para isso foram planejadas várias rodovias de sem donos, na esperança de conseguir trabalho e sustento para a
grande extensão como a Santarém-Cuiába e a Transamazônica. É
importante lembrar que o PDA estava inserido no I Plano Nacional
de Desenvolvimento, o PND.
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Tailândia, Pará A Vila

família. Outros, entretanto, tinham o objetivo de formar grandes Este decreto especificava a criação de uma colônia às margens da
fazendas e enriquecer. PA-150, que teria como principal objetivo a “absorção racional de
Com tantos colonos chegando em um curto prazo de tempo, não fluxo migratório na região”, conforme aponta o periódico do Iterpa
tardaram para que os primeiros conflitos fundiários acontecessem. da época , o Interação.
As disputas se concentravam principalmente em torno das A partir desse momento, o número de imigrantes na Vila de
terras próximas da PA-150, já que eram as melhores áreas em Tailândia alcançou níveis estratosféricos em um período muito
razão da facilidade logística que produzir à beira de uma rodovia curto de tempo. Esse fenômeno se deu graças ao status de Terra
proporcionava. A violência começou então a se disseminar, e muitas Prometida que o Iterpa propagava da colônia. A notícia que corria
pessoas perderam suas vidas. pelas estradas do Pará era de que Tailândia era um lugar ideal para
Foi para apaziguar a tensão cada vez mais crescente que, ainda quem quisesse ter prosperidade com a agricultura, a extração da
em 1977, chegou o primeiro grupo do Instituto Nacional de Terras madeira e a pecuária.
do Pará, o Iterpa1 , com o objetivo oficial de estabelecer um As disputas violentas por terras não cessaram e eram ainda
assentamento dirigido no povoado. Nessa primeira visita, a equipe mais inflamadas pelo desejo de alguns de formar latifúndios.
chefiada por José Clarindo Pinheiro Lopes, o Tenente Pinheiro, Muitos migrantes recém-chegados se assentavam em terras que
registrou 117 posseiros na região. supostamente já tinham dono e, pouco tempo depois, se viam
À época, o vilarejo ainda não possuía um nome, e foi o próprio ameaçados para abandonar o local. Em alguns casos, aquele que
Tenente Pinheiro o responsável por batizá-lo de “Tailândia”. Era uma se negava em acatar a intimidação tinha sua casa incendiada, sua
analogia entre a violência que acontecia no país asiático de mesmo roça destruída, e, em último caso, era morto.
nome, que na época passava por sérios conflitos armados em suas No início da década de 80, o fluxo migratório que até então
fronteiras, e a violência decorrente das disputas por terras naquele estava em franca ascensão deu lugar a uma emigração em massa.
povoado do Pará. Os moradores locais gostaram da sugestão dada Estimativas feitas pelo Iterpa diziam que em 1979 a população da
pelo tenente, e o lugar passou a ficar conhecido como “Vila de Vila de Tailândia girava em torno de 6 mil pessoas. Um ano depois,
Tailândia”. em 1980, o número atingiu cerca de 15 mil. Já em 1984, de acordo
Em 1978, as visitas do Iterpa ficaram mais frequentes e uma base com um periódico do mesmo instituto, noticiava-se a existência
do instituto foi estabelecida no local. Em 1980, por meio de um de pouco mais de 2.600 pessoas. À primeira vista, essa oscilação
decreto, o povoado foi alçado ao posto de Colônia de Tailândia2 . nos números, de tão absurda, acaba por sugerir que houve alguma
1 O Iterpa era uma espécie de paralelo estadual ao Incra, ambos criados para resolver impasses relacionados a falha na contagem da população. Apesar disso, esses mesmos
questões fundiárias e responsáveis por lotear as terras e entregá-las aos colonos.
2 “Colônia” é um termo de classificação utilizado pelo Iterpa à época e não substituiu o termo “Vila”, empre- gado popularmente para se referir à Tailândia.

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Tailândia, Pará A Vila

números dão um esboço do fenômeno que estava acontecendo na redor dos linhões de transmissão de energia, que vinham desde
localidade. Tucuruí e rumavam para o pólo industrial de Barcarena. Detalhe:
Essa explosão na taxa de emigração pode muito bem ser explicada apesar dos linhões passarem por dentro da vila, Tailândia não
pelo que os migrantes, movidos pelo sonho de obter prosperidade desfrutava de eletricidade.
na Vila de Tailândia, de fato encontravam quando chegavam ao Mas por volta de 1985/86, a realidade local começou a se modificar.
seu destino. Quase todos ganhavam um pedaço de terra do Iterpa, Foi nessa época que a PA-150 recebeu sua primeira camada de
mas, como não recebiam um único incentivo de ninguém, não asfalto. E junto com a melhoria, chegava à Vila um novo agente: o
conseguiam estabelecer uma vida de trabalho produtivo. Pouco madeireiro. A era das madeireiras estava começando em Tailândia.
tempo depois de haver chegado, já se viam migrando novamente
para outra região. A precária condição da PA-150 e das vicinais, que
dificultava o escoamento da produção, também agravava o cenário.
Matéria publicada no jornal paraense O Liberal, em 12 de fevereiro
de 1984, dava uma ideia de como se encontravam os colonos da
Vila de Tailândia naquele ano. O texto discorria sobre a má condição
das pontes que davam acesso à vila, da estrada esburacada e
cheia de lama que era a PA-150, e do estado lastimável de seus
habitantes, que estavam “esquecidos de Deus e dos homens”. O
acesso a remédios e a certos gêneros alimentícios pela população
era bastante restrito. Ônibus vindos de Marabá e que seguiam para
Belém costumavam demorar três dias para passar, e, não raro,
chegavam já lotados. Segundo a autora da reportagem, “a Vila de
Tailândia nessa época expressava o lado mais cruel de promessas
não cumpridas, responsáveis pela migração de centenas de famílias
atraídas pelo programa oficial de colonização”.
A matéria ainda falava sobre as mortes ocasionadas por doenças
como a malária ou por contaminação pelo agente laranja, um
veneno pulverizado pela Eletronorte para diminuir a vegetação ao

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A Cidade Só Cresce

estradas estaduais de que Tailândia seria um lugar de prosperidade,


acabou arrefecendo tempos depois, dando espaço até para o
fenômeno contrário, o da emigração. Mas, novamente, em razão
de mais uma benfeitoria na infra-estrutura – o asfaltamento da PA-
150 e a consequente chegada das madeireiras –, a cidade passou a
A Cidade Só Cresce receber um novo surto de imigrantes.
Os trabalhadores vinham de outros estados do nordeste,
sobretudo do Maranhão. Boa parte da população tailandense até
Vindos de outras cidades do Pará, como Paragominas, Jacundá, hoje é formada por maranhenses, que chegavam e ainda chegam
Tomé-Açu e Breu Branco, ou ainda de estados mais ao sul do país, para oferecer sua força de trabalho na derrubada de árvores e nas
como Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Espírito Santo, os serrarias.
madeireiros começaram a fincar as primeiras raízes em Tailândia em Com a chegada de imigrantes sulistas e capixabas para empreender
meados da década de 80. Seu surgimento ali se condicionava a dois na exploração da madeira, seguida de uma leva de imigrantes
principais motivos: o primeiro deles era a então recente camada maranhenses que vinham atrás de trabalho, a divisão social em
de asfalto da PA-150, que havia facilitado bastante o tráfego de Tailândia começava a ganhar rosto. De um lado, uma massa de gente
veículos pelo local e possibilitado, assim, um maior escoamento de parda, empregada no trabalho braçal, que chegava à Vila fugindo
mercadorias; o segundo motivo era a grande quantidade de árvores da miséria da suas cidades de origem. De outro, um pequeno grupo
de madeira de lei existentes na região e que ainda não haviam sido de pessoas de pele branca, olhos claros, proprietárias de serrarias e
exploradas. componentes da elite que ascendia no local.
O grande objetivo desses recém-chegados era o de enriquecer em Foi o papel exercido por essa elite emergente que fez com que
uma atividade econômica cuja matéria prima estava por todos os Tailândia se transformasse nos anos seguintes. Em meados de 86,
lados – além de ser relativamente fácil de ser extraída. As serrarias surgiram as primeiras mobilizações de moradores com intuito de
foram estabelecidas no entorno da PA-150, rodovia chave para o reivindicar melhorias para a Vila, que até então possuía sua maior
escoamento da produção rumo ao Sul-Sudeste do país. São essas parte vinculada ao município de Acará e outra menor parte ao
regiões as maiores consumidoras de madeira amazônica do mundo. município de Moju. Associações começaram a se formar. Nasceram
A partir daí, a população de Tailândia voltou a crescer a ACITA (Associação do Comércio e Indústria de Tailândia), a AMATA
vertiginosamente. A imigração, que nos primeiros anos da formação
da Vila aconteceu em alta escala, calcada no boato que corria as
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Tailândia, Pará A Cidade Só Cresce

(Associação dos Madeireiros de Tailândia), a AMOTA (Associação Já emancipada, Tailândia passou a ver cada vez mais dinheiro
dos Moradores de Tailândia) e uma rival desta última, a AMUTA circular dentro de seu perímetro com a intensificação da exploração
(Associação dos Moradores Unidos por Tailândia). econômica da madeira. A geração de renda aumentava. A elite
Lideranças locais passaram a se reunir com diversos políticos do madeireira, que já estava consolidada, e a nova classe média,
Pará. Em um dos encontros, reivindicaram mais segurança policial, oriunda dos empregos públicos e do comércio crescente, passaram
a construção de uma delegacia, a regularização da energia elétrica a demandar mais melhorias e serviços da modernidade. Foi assim
(já que o gerador que sustentava parte das casas estava em Moju e que, em 1990, chegou à Tailândia a telefonia privada. Também se
funcionava precariamente), e a criação de um posto médico (pois realizaram na cidade, como fruto de reivindicações, a abertura de
o problema na área de saúde era bastante grave, com falta de uma agência do Banco do Brasil, a iluminação da Avenida Belém, a
medicamentos e ambulâncias para a remoção de enfermos) 3 . instalação de telefones públicos, incrementos no posto de saúde e
Ainda em 1986, os representantes das associações se reuniram a ampliação do setor energético.
em Belém com o então governador do Pará, Hélio da Mota Gueiros. Em 1994, Tailândia, já com cerca de 20 mil habitantes, contava
O tema em discussão era a possível emancipação política de com apenas um gerador elétrico. Funcionários da unidade da
Tailândia. Depois do encontro, ficou acertada a realização de um Centrais Elétricas do Pará (CELPA) instalada na cidade realizavam um
censo demográfico na Vila, já visando ao cumprimento do desejo rodízio entre os seis bairros que até então existiam: a cada quatro
das lideranças tailandenses. horas, apenas um deles recebia energia. Essa medida gerava uma
Dois anos mais tarde, após ainda a organização de um plebiscito insatisfação muito grande entre a população, e, posteriormente, foi
local sobre a emancipação, um decreto de 10 de maio de 1988 origem de uma grande revolta popular.
finalmente alçava Tailândia ao posto de município paraense, medida A questão era que os linhões de transmissão de energia da
também aplicada a outros 17 novos municípios do estado. Eletronorte, que saíam da usina de Tucuruí, passavam por dentro de
É importante citar que, por trás do lobby para que Tailândia fosse Tailândia, mas ainda assim a cidade não era abastecida por energia
emancipada, ato que até certo ponto se justificava diante das elétrica. Enquanto isso, o racionamento de energia, em razão da
proporções que a vila vinha ganhando, havia o interesse de membros existência de um único gerador, criava um obstáculo tremendo para
das associações tailandenses em se aproveitar dos benefícios que o bem estar da população e para o desenvolvimento econômico
o status de município proporcionaria, como a criação de diversos local.
cargos públicos e do aporte de verbas estaduais e federais. O comércio era seriamente afetado, principalmente os
3 Documentos da AMOTA: Relatório de pedidos ao Sr. Governador do Estado do Pará, 23/09/1987. Arquivo estabelecimentos que dependiam de equipamentos que
pessoal da família Gouvêa. IN: PRADO, Francisca Ramos. O mito da cidade provisória: natureza, migração e conflito
social em Tailândia (1977-2000). Belém, pág 95 funcionavam por eletricidade, como freezers. Escolas também
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Tailândia, Pará A Cidade Só Cresce

constantemente tinham suas atividades prejudicadas pelos cortes de energia, mas que mesmo assim ainda eram insuficientes.
abruptos de energia nos momentos do rodízio. Na merenda escolar Então, em outubro de 94, um novo bloqueio na PA-150 foi
só era servida carne fresca. A diversidade alimentar na mesa planejado. Diversos personagens conhecidos da cidade estavam
dos tailandenses também era pequena, pois não havia modo de envolvidos, como o pároco local, o presidente do sindicato dos
conservação. Nas serrarias, cada uma tinha que possuir seu próprio trabalhadores rurais, empresários e funcionários da Prefeitura. A
gerador a diesel. manifestação estava marcada para uma quinta-feira, dia 27, mas
Grande beneficiária do desenvolvimento econômico, a logo na segunda-feira, três dias antes do previsto, um inesperado
elite madeireira tailandense queria desfrutar de aparelhos episódio pegou os tailandenses de surpresa: a ponte que atravessava
eletroeletrônicos, como televisão, ferro, geladeira e ventilador, o igarapé da cidade amanhecera pegando fogo.
em uma região marcada pelo clima quente. E, somado a tudo isso, Aquele acontecimento, fruto de uma ação unilateral de algum
1994 era ano de Copa do Mundo. Todos queriam assistir à seleção indivíduo ou grupo desconhecido, representou a primeira faísca em
em campo, muitos até adquiriram antenas parabólicas para isso, um barril de pólvora prestes a explodir. Logo a cidade se viu envolta
mas com o rodízio de energia ficava tudo muito difícil. em um transtorno generalizado que iria crescer ao longo do dia.
É assim que as cobranças em cima dos funcionários responsáveis Para conseguir superar o igarapé, os trabalhadores das serrarias,
pela administração do gerador da cidade ficavam cada vez maiores. que iam para o trabalho de bicicleta, atravessavam pela parte baixa
No dia 5 de junho de 94, com a interrupção de energia em um dos da ribanceira, bem próxima ao riacho. Quem passava por ali de carro
bairros por causa do racionamento, impedindo assim a transmissão ou de moto precisava pegar um desvio a 17 km da cidade, por meio
de um amistoso do Brasil contra o Canadá, quatro moradores de vicinais. Já os caminhões não tiveram muito o que fazer a não
locais foram até a CELPA tirar satisfações. Como saldo dessa visita ser ficarem parados, formando uma enorme fila ao longo da pista.
nada amistosa, o gerente responsável pela usina da cidade acabou Boa parte do trânsito de mercadorias na PA-150 foi interrompido
espancado. naquele 24 de outubro de 1994.
As ameaças de derrubar os linhões, que interromperia toda a Parte da população começou a se aglomerar no local, e, com o
energia da região metropolitana de Belém, começavam a circular passar do tempo, os ânimos ficaram mais exaltados. Instigadas pela
pelo boca-a-boca. Algumas reuniões entre lideranças da cidade insatisfação com o problema da energia elétrica e pelo crescente
eram marcadas, com o objetivo de elaborar ações que chamassem a clima de protesto – que ganhou ainda mais tensão com a distribuição
atenção do estado para o problema local de energia. Por duas vezes, de bebidas alcoólicas feita por anônimos com intenções escusas –,
a PA-150 foi fechada em manifestações organizadas. Como fruto algumas pessoas deram início a uma espécie de revolta popular.
dessa mobilização, a cidade recebeu novos motores para geração
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Tailândia, Pará A Cidade Só Cresce

Quando a noite chegou, o movimento ganhou contornos de A década de 90 também marcou a ascensão de um novo ramo
violência. Embriagados e bastante agressivos, os manifestantes econômico ligado à madeira na cidade. Foram as carvoarias. Surgiram
rumaram incontroláveis para o supermercado do então prefeito de depois que as siderúrgicas de ferro-gusa foram construídas em
Tailândia, Francisco Alves Vasconcellos, popularmente conhecido Marabá, no fim da década de 80 e início de 90. Era nesse município,
como Chico Baratão. Lá, saquearam mercadorias. Na sequência, se a 300 km ao sul de Tailândia, que o carvão vegetal produzido pelos
deslocaram em direção ao hotel que também era de propriedade carvoeiros tailandenses chegava pela PA-150 para ser vendido e
do prefeito, onde fizeram alguns hóspedes correr de medo. O posteriormente usado na forja do ferro-gusa.
comerciante Ibanês Brandão da Silva, conhecido como IBS, presente Assim, a produção de carvão vegetal aparecia como mais uma
no local, tentou dispersar a multidão fazendo disparos para o alto. opção econômica para pequenos, médios e grandes produtores de
O resultado não poderia ser pior. A horda de revoltosos partiu então Tailândia. Sua matéria prima é a lenha, que pode ser oriunda tanto
para a loja de eletrodomésticos do comerciante, onde promoveu das sobras das serrarias como diretamente de árvores da floresta.
saques e depredação. O prejuízo sequer pode ser contabilizado pelo Mas, diferentemente da prática de madeireiros que só derrubam
seu dono: no dia seguinte, IBS foi assassinado por um manifestante árvores com uma espessura mais grossa, quem desmata para o uso
contrariado pelos disparos no hotel. em carvoarias o faz com árvores de espessura muito menor, sendo
Tailândia naquela noite ainda testemunhou mais destruição. A que estas representam boa parte da cobertura vegetal da floresta.
Prefeitura e a Câmara Municipal, que se encontram lado a lado, Desse modo, seu efeito para o meio ambiente é extremamente
também foram alvejadas pela fúria dos revoltosos. Um poste e um devastador. Não é raro que áreas desmatadas para uso na carvoaria
relógio de energia do local foram danificados, deixando os dois se tornem pastos logo em seguida.
prédios às escuras. O carro com o motorista do prefeito, que tentava É, portanto, em cima da extração da madeira, seja para elaboração
dispersar a multidão acelerando em sua direção, foi amassado. nas serrarias ou para a produção do carvão vegetal, que Tailândia
A polícia em nenhum momento conseguiu conter aquele levante vai se forjar ao longo da história, dentro dos mais variados
popular, mesmo tendo prendido 30 pessoas ao longo do dia. aspectos. Seja na formação da sua paisagem, do seu povo e de seus
Após esse protesto, bastante noticiado pela imprensa paraense acontecimentos.
e que marcou a história de Tailândia, o estado inteiro do Pará
tomou conhecimento da situação da cidade. Mesmo assim, a
questão energética continuou problemática, sendo solucionada
apenas quatro anos mais tarde, em 1998, com a construção de uma
subestação da CELPA no município.
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Primeiras Impressões

que chegam a Tailândia vêm de Belém e têm como destino final o


município de Goianésia. Fazem também o caminho inverso. Trata-
se de uma alternativa mais barata aos ônibus de linha para quem
quer viajar.
Cortando a PA-150 pelo alto, duas grandes passarelas de pedestres
Primeiras Impressões marcam os limites do trecho urbano da rodovia. Ambas saúdam
aqueles que cruzam o município com faixas que dizem: “Tailândia,
No trecho urbano de Tailândia por onde passa a PA-150, duas 20 anos de progresso”. Apesar de bem iluminadas, elas só estão lá
avenidas marginais ladeiam a rodovia. Ambas são conhecidas pelo pra inglês ver: praticamente ninguém as usa. A população costuma
nome de Avenida Belém, que conta com cerca de 1 km de extensão fazer a travessia de um lado para o outro da cidade pela própria
e cobre todo o vetor latitudinal da cidade, do início ao fim. Por estrada, mesmo com o risco que o constante trânsito de carros,
ela se espalham diversos estabelecimentos comerciais, como motos e caminhões oferece.
supermercados, padarias, restaurantes, hotéis, lojas de construção, Quem chega de Belém a Tailândia vê logo à direita um grande
e, principalmente, lojas de autopeças. posto de gasolina, o maior da localidade, com vários caminhões
De longe, são as autopeças as lojas existentes em maior número estacionados. Típico lugar para que viajantes façam refeições e
pela Avenida Belém. A razão reside na alta demanda da indústria descansem. Logo a seguir, há o prédio da Delegacia da Polícia Civil,
madeireira local. Rolamentos, óleos, parafusos, fitas para serras onde também ficam os presos, seguido pelo prédio da CELPA, que já
elétricas e maquinários de serrarias são os bens mais requisitados. foi palco de muitas confusões no passado. Um pouco mais adiante,
Também há nos arredores lojas especializadas apenas em moto está Dona Lordes.
serras, como uma chamada Chiquinho Motoserra. O número de Residente da casa de número 88, de paredes vermelhas em tom
hotéis distribuídos pela avenida é igualmente grande. Numa rápida pastel, Lordes Faria Nascimento varre a onipresente poeira de sua
caminhada de reconhecimento, é possível contar mais de dez. calçada. Senhora já idosa, de pele alva, contrastando com a maioria
Muitos levam nomes que fazem alusão à imigração, como o Hotel dos tailandenses de cor mulata, ela faz questão de dizer que seu
da Mineira e o Hotel Sulista. nome se pronuncia “Lordes” e não “Lurdes”, como é chamada
Ainda na avenida, é possível encontrar pontos de parada de vans, por todos. Duas crianças chegam e a cortejam como mãe. Logo
que viajam de uma cidade a outra. São dois pontos, um logo ao fica evidente, pela tenra idade e traços físicos, que não são filhos
lado da rodoviária, o outro mais próximo do hospital. As vans biológicos.

27
Tailândia, Pará Primeiras Impressões

Dona Lordes diz abrigar em sua casa 32 pessoas, entre crianças, chinelos maltrapilhos. Seu corpo exibe desnutrição, seu peso deve
adolescentes e jovens. Todos seus filhos adotivos. Ela diz saber o ser algo próximo a 50 quilos e um olho parece cego. Aparenta uma
nome de cada um, mas que nem sempre acerta logo de primeira vida bastante maltratada. Pede justamente por leite a Dona Lordes.
quando chama algum deles. O mais velho tem 23 anos, o mais novo, Ela imediatamente chama uma de suas filhas, e ordena que traga
oito meses. Este último é filho de uma menina também considerada dois litros congelados. Questionada se costuma fazer isso sempre,
filha adotiva, que foi expulsa da casa da mãe biológica por haver diz que algumas pessoas têm o hábito de ir até sua casa pedir pelo
engravidado precocemente. Assim, o filho da filha também virou seu laticínio. Se sobra algo do mês, ela dá. A filha chega com o leite. Na
filho. Há também outros seis filhos biológicos, já bem mais velhos. falta de sacola plástica, o homem vai embora, carregando os dois
Todos moram em Tailândia e possuem comércio próprio. Um deles saquinhos congelados com as próprias mãos.
é dono da Danyslar, conhecida loja de material de construção local, A temperatura é alta. O calor urge um copo de água. Na sala, vários
e que conta com várias unidades na cidade. objetos contam um pouco sobre Dona Lordes. Há uma estátua de
Sua casa é grande. Tem por volta de oito espaçosos cômodos e santa, um retrato de Jesus, várias fotos de seus filhos biológicos
é circundada por uma cerca de madeira, bem ao estilo daquelas pendurados na parede, além de um quadro em homenagem a ela
desenhadas por crianças. A atual residência foi um presente de própria. Uma mulher de pele morena, mais velha, que não aparenta
Paulo Jasper, o “Macarrão”, o último e mais popular prefeito que a ser sua filha, assiste à TV sentada no sofá.
cidade já teve. Antes, vivia em uma casa menor – que hoje é a sede O copo d´água é trazido por uma de suas filhas em um prato, como
do Conselho Tutelar –, mas desde sempre já tinha o costume de se fosse um serviço de mordomia. Água gelada, das boas, daquelas
tomar pra si crianças abandonadas. Sua fama em Tailândia é tanta que revigoram as energias. A conversa em sua casa continua até
que o próprio Conselho Tutelar, sempre que encontra um menor as perguntas irem ficando escassas. Silêncios passam a ser mais
vagando sem rumo pelas ruas, o encaminha diretamente para frequentes. Dona Lordes retorna então às suas tarefas domésticas.
Dona Lordes. Ela então se encarrega de dar abrigo, até que os pais O verão, para os habitantes de Tailândia e do resto do Pará, começa
apareçam para buscá-lo. Se ninguém aparece, ele acaba ficando. em setembro. Estende-se até dezembro, para então começar o
Dona Lordes está na cidade há cerca de 30 anos, desde o início da inverno, que vai de janeiro a agosto. A diferenciação de uma estação
formação da Vila de Tailândia. Veio com o marido de Capanema, e outra, que prescinde de outonos e primaveras, se dá por questões
outra cidade do Pará. Criavam gado. pluviais: enquanto no verão as chuvas são escassas, no inverno
Para o sustento de todas as crianças, ela diz receber leite da elas são praticamente diárias. Daí que vem o costume no estado,
Prefeitura. Enquanto fala, um rapaz que vinha pela calçada a estranho pra quem vem de fora, de se marcar compromissos para
interrompe. Veste roupas sujas, um boné torto na cabeça, dois “depois da chuva”.
28 29
Tailândia, Pará Primeiras Impressões

A alternância das duas estações afeta Tailândia econômica e por comida. Vez ou outra, têm a sorte de encontrar algum animal
socialmente. Os agricultores precisam organizar suas semeações atropelado na estrada.
até dezembro, último mês antes do inverno e do início das chuvas, Cachorros abandonados também vagam por todas as partes. Mas,
o que implica na realização da queima de sua área para plantio, diferentemente dos urubus, esses não possuem a vantagem do
técnica conhecida como coivara. vôo. Restam-lhes, assim, perambular atrás de alimentos em lixos
É também durante o inverno que o setor madeireiro funciona em ou esperar por alguma boa alma que lhes dê alimento, como tripas
um ritmo mais lento. Isso porque, no tempo chuvoso, a extração de jogadas pelo dono de um açougue.
madeira de dentro da floresta se torna mais difícil e perigosa. Com o Um traço bastante característico de Tailândia é o número de
forte vento, é comum que galhos caiam em cima dos operadores de motos que circulam pelas ruas e vicinais. São elas o principal meio
motosserra ou de seus ajudantes durante a derrubada de árvores. de transporte motorizado local. Praticamente nenhum motociclista
Desse modo, não são raras as mortes durante o trabalho. faz uso de capacete e todos garantem que não há problema com
A chuva também torna mais difícil o processo de puxar as toras fiscalização. Os únicos a usarem capacetes são os moto-taxistas, que
já derrubadas para o caminhão. O transporte, feito em vicinais existem em um bom número e possuem vários pontos espalhados
de terra batida, fica bastante comprometido. Por isso, durante o pela Avenida Belém. Estão sempre devidamente uniformizados e
inverno, as serrarias têm menos madeira para trabalhar, e o número contam com uma associação própria na cidade. Em Tailândia, são
de empregados diminui. bastante respeitados, muito em razão do forte senso de união
Outro problema que aparece em Tailândia juntamente com as existente entre os membros da categoria, assim como acontece
chuvas diárias acontece na região da Avenida Belém. É o mau nos demais estados do país. O preço da corrida sai por três reais,
cheiro. Isso porque, entre a avenida e a PA-150, de ambos os lados, a qualquer hora do dia, para qualquer destino. Há capacetes para
dois canais de esgoto correm a céu aberto. Em dia de chuva, dizem os passageiros, mas que, na maioria das vezes, acabam carregados
os moradores, os canais transbordam e o resultado é possível de se pelo braço.
imaginar. Talvez a marca mais surpreendente para um viajante recém-
Urubus são outros elementos que também abundam no trecho chegado em Tailândia seja o grande número de caminhonetes
urbano da PA-150. Estão em vários lugares, principalmente importadas que trafegam pela cidade. A todo o momento, estão
vasculhando as caçambas espalhadas em vários pontos, que, ao circulando pela PA-150 ou cruzando pela Avenida Belém, muitas
que parece, são depósitos de lixo doméstico. As aves se encontram vezes sujas das estradas de terra. Dentro delas, estão os médicos
sempre em grupos de pelo menos cinco, buscando incessantemente do hospital, o juiz do Fórum local, e principalmente, os donos de

30 31
Tailândia, Pará

serrarias e carvoarias da região. São com elas que seus donos


dirigem vicinais adentro, enfrentando terrenos irregulares que só
são vencidos por carros de tração nas quatro rodas. São Pajeros
Mitsubish, Hilux, Land Rovers e Ford Rangers, todas avaliadas
em mais de 100 mil reais e munidas com equipamento de ultima
geração, como aparelhos de GPS.
Outro meio de transporte bastante usado, talvez o mais popular,
em total contraste com as caminhonetes importadas, é a bicicleta.
Como Tailândia não possui um sistema público de transporte
coletivo, é com elas que boa parte da população se desloca para os
locais de trabalho. A vantagem para esses ciclistas é que o terreno
da cidade é praticamente plano. Logo pela manhã, por volta das
sete e meia, é notório o aumento do tráfego de bicicletas nas ruas,
principalmente sobre a ponte que passa sobre o córrego. É por esse
caminho que se alcança as serrarias espalhadas pela PA-150, no
lado sul.
Com esse cenário, entre caminhonetes importadas, bicicletas de
trabalhadores, motociclistas sem capacete, urubus e cachorros
famintos, o forasteiro rabisca suas primeiras impressões de Tailândia.
Impressões, é claro, que vão mudando ao longo do tempo.

32
Madeira Matéria-Prima
As primeiras madeireiras chegaram ao Pará nos anos 70, mas foi
só na década seguinte que esse processo realmente se intensificou,
dando origem aos primeiros pólos madeireiros do estado. Um deles
se formou em Tailândia.
Em 1998, um ranking4 apontava a cidade como o quarto maior
pólo madeireiro paraense, com 44 madeireiras, atrás apenas de
Paragominas (155), Tomé-Açu (52) e Jacundá (50). Não foi à toa que
o município ficou conhecido como “a capital da madeira”, alcunha
também emprestada a outras localidades da região.
Normalmente, a exploração da madeira para beneficiamento
(aquelas que irão ser serradas) acontece em fazendas próprias
para essa finalidade, cujo proprietário negocia a exploração de
determinada área com os donos das serrarias. Trabalhadores
contratados adentram a mata pertencente à fazenda, munidos de
motosserras. Um trator tem o trabalho de puxar as toras derrubadas
do meio da floresta até um espaço mais aberto e um caminhão se
encarrega de fazer o transporte até as serrarias. O corte é seletivo,
ou seja, apenas as árvores de valor comercial é que são postas
abaixo. Elas se distinguem das demais pelo maior diâmetro de seus
4 Pólos Madeireiros do Estado do Pará. A. Veríssimo, E.Lima e M. Lentini; Belém: Imazon 2002
Tailândia, Pará Madeira Matéria-Prima

troncos. valores, a tora de uma árvore adulta chega a ser vendida por 10 mil
Uma serraria, basicamente, tem a função de transformar toras reais, sendo que é possível a derrubada diária de 10 a 12 toras se o
de madeira em partes menores, como tábuas e pranchas, que tempo estiver bom. Fazendo as contas, dá para perceber o porquê
posteriormente serão comercializadas. A maior parte tem como que tanta gente busca ingressar nesse ramo.
destino final fábricas do Sul e Sudeste do país. Além das serrarias, outro tipo de atividade ligada à madeira é a
São vários os tipos e tamanhos de serrarias, mas as mais comuns carvoaria. Essa atividade, como já dito, começou a despontar em
existentes no Brasil costumam ter o seguinte maquinário: uma serra Tailândia na década de 90, impulsionada principalmente pelas
de fita para desdobro (corta a tora em fatias), uma canteadeira siderúrgicas de Marabá, a 290 km ao sul.
multiserras (corta a prancha do desdobro em peças mais estreitas As siderúrgicas apareceram naquela cidade no fim da década
e retilíneas), uma resserra de fita (divide as pranchas canteadas de 80, em decorrência da introdução do Projeto Grande Carajás.
em peças mais finas), uma serra destopadeira ou de pêndulo (para Tratava-se de um projeto que visava explorar as jazidas de minérios
cortar as peças no comprimento desejado), e uma plaina multiface na região e que contou com forte incentivo do Governo Federal à
(para alisar as peças que já passaram pelos processos anteriores). época. São as siderúrgicas as responsáveis por produzir o chamado
Há ainda uma oficina de manutenção, que tem a tarefa de manter ferro-gusa, um produto gerado da redução do minério de ferro em
as serras sempre afiadas e em bom funcionamento. fornos industriais. O ferro-gusa também é o principal elemento
Em seguida, a madeira dita “beneficiada”, sobretudo a que tem primário para a elaboração do aço, sendo assim bastante importado
como destino o mercado externo, normalmente é mergulhada pelos Estados Unidos, Europa, China e outros países.
em um tanque com solução fungicida, buscando assim evitar o O combustível utilizado nos fornos das siderúrgicas de Marabá
aparecimento de parasitas. A secagem da madeira em geral se dá é o carvão vegetal, que tem a madeira como matéria prima.
em varais ao ar livre, mas algumas usam estufas para acelerar o Diferentemente do carvão mineral, encontrado em jazidas e
processo. As sobras (casca, serragem e outros pedaços), quando não cuja oferta no Brasil é bem pequena, o carvão vegetal existe em
reaproveitadas para outras atividades, costumam ser queimadas e abundância por motivos óbvios: basta haver árvores para que ele
transformadas em cinzas. seja produzido.
Para se ter uma ideia dos lucros que esse negócio pode gerar, o A primeira etapa da produção do carvão vegetal é o desmate da
metro cúbico de Ipê, uma das árvores mais valiosas, é vendido pelo vegetação para o acúmulo de lenha. Em seguida, a lenha é levada
fazendeiro ao dono da serraria por 400 reais. O metro cúbico da para um forno conhecido como “rabo-quente”. Feito de tijolos e
Maçaranduba, outra árvore bem cotada, sai a 270 reais. Com esses

34 35
Tailândia, Pará Madeira Matéria-Prima

com o formato que lembra o de um iglu, esse forno tem sua parte estão sempre à beira da rodovia. Desse modo, elas evitam que
interna completamente preenchida pela lenha antes desta começar a grande quantidade de fumaça da queima da lenha lançada no
a ser queimada. Esse processo é mantido por aproximadamente 24 ar cause transtornos para a população caso estivessem próximas
horas. A entrada é tampada com barro e alguns orifícios no teto à cidade. A legislação5 determina uma distância mínima para a
permitem que a fumaça saia. A lenha, depois de queimada, resulta localização das carvoarias em relação à área urbana. Alguns fornos
no chamado carvão vegetal, detentor de um alto teor calórico e de carvão também são achados junto aos pátios das serrarias.
que será usado nos fornos industriais das siderúrgicas. Existem Estão lá para aproveitar as sobras de madeira, descartadas durante
tanto grandes carvoarias, com homens trabalhando para uma o processo de serragem.
única pessoa, quanto carvoarias pequenas, cujos donos são quem Diariamente, várias carretas partem de Tailândia carregadas de
executam o trabalho. centenas de quilos de carvão vegetal rumo a Marabá. A demanda
O grande problema que reside neste tipo de atividade está no pelo produto é consideravelmente alta. Assim como a serragem de
fato de que praticamente qualquer árvore pode ser destinada madeira, as carvoarias também se apresentam como um negócio
à produção de carvão vegetal, já que o tronco para a lenha não bastante rentável para seus proprietários.
precisa ser tão espesso. Dessa forma, o desmatamento causado No Pará, a atividade madeireira acontece de forma quase que
pelas carvoarias é muito mais predatório que aquele causado pelas totalmente irregular. Estatísticas6 do ano de 2009 mostram que
serrarias, pois estas últimas praticam o corte seletivo, preservando 89% da madeira extraída do estado têm origem ilegal. As fraudes
as árvores de troncos de menor espessura. A destruição por causa com licenças de exploração e a corrupção dos órgãos públicos
do carvão vegetal é tão grande que não é raro que uma área que responsáveis pela fiscalização são extremamente comuns. De
foi desmatada para o acúmulo de lenha se torne em seguida pasto acordo com o Código Florestal Brasileiro, fazendas que estão dentro
para gado. do bioma da Amazônia precisam manter 80% de sua área intacta,
Outro grave malefício que a atividade do carvoejamento gera podendo explorar apenas 20% (para efeito de comparação, na Mata
é a deterioração da saúde de quem trabalha nos fornos. Esses Atlântica a reserva legal protege apenas 20%). Para se desmatar
trabalhadores, responsáveis pelo manuseio da lenha e do carvão seguindo os parâmetros da lei, é necessário que o proprietário
vegetal, tendem a respirar bastante fumaça tóxica que se dissemina realize o Plano de Manejo Florestal Sustentável (PMFS). Trata-se de
durante o processo da queima. Também impressionam pela um procedimento que busca fazer da exploração da madeira uma
aparência imunda por conta da sujeira do carvão. atividade racional e sustentável, normalmente elaborado por um
Geralmente, as carvoarias se encontram mais para o interior da técnico florestal. Basicamente, esse plano vai definir as áreas da
5 RESOLUÇÃO/COEMA Nº 025, de 13 de DEZEMBRO DE 2002
zona rural, em meio a vicinais, diferentemente das serrarias que 6 “Madeira tem origem 89% ilegal” 08/11/2009 Folha de S.Paulo

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Tailândia, Pará Madeira Matéria-Prima

propriedade que podem e não podem ser exploradas, conter um infelizmente a maioria não o faz.
levantamento das características do lugar (fauna, flora, hidrografia, A madeira também já foi e ainda é uma grande fonte de violência.
topografia) e um inventário com diversas informações de todas as Desprovidas de terras e bens e ávidas por qualquer tipo de trabalho,
árvores que serão derrubadas (espécie, diâmetro, altura), além de algumas pessoas são pagas por um madeireiro para penetrar áreas
um cronograma de exploração e de um plano de reposição florestal. de terceiros, derrubar as árvores locais e em seguida repassá-las à
É com base no PMFS que o Ibama ou o órgão ambiental responsável serraria de seu financiador. Esses indivíduos são chamados de “sem-
concede um número determinado de créditos florestais para o tora” e se encontram numa atividade extremamente perigosa.
interessado na exploração da madeira. A cada árvore derrubada, Perigosa porque podem ser vítimas a qualquer momento de
esses créditos diminuem. Depois de terminados, é necessária uma pistoleiros de aluguel. Como as fazendas de extração de madeira são
nova aprovação para que se continue a desmatar. estabelecidas em áreas enormes, essas invasões podem demorar a
Entretanto, há algumas formas corriqueiras para se fraudar serem descobertas por seu proprietário formal. Mas quando isso
esse sistema. Uma delas é apresentar uma PMFS de uma área já acontece, pistoleiros são então contratados com o objetivo de
desmatada. Se conseguida a aprovação, o madeireiro então retira intimidar os invasores para que deixem o local, de forma muitas
madeira de outra área, de forma ilegal, mas alega que as toras vezes aterrorizante. Nesses casos, a ocorrência de assassinatos é
saíram da área aprovada. Outro modo de driblar a lei é conseguir comum.
a aprovação de exploração para uma determinada área, mas Em Tailândia, os conflitos sempre foram presentes. No início, as
desmatar outra. Isso costuma acontecer quando a área desmatada disputas aconteciam pelas terras de melhor localização em relação à
ilegalmente está numa localização melhor do que aquela que foi PA-150. Mas, com a ascensão da indústria madeireira, elas também
aprovada. E há ainda os casos em que a ilegalidade opera com a passaram a ocorrer por causa das áreas com madeira comercial.
corrupção dos agentes públicos mediante propina. Foram disputas que geraram muitas mortes, pobreza e corrupção.
Outro grande problema da atividade madeireira que acontece Era muito comum, de acordo com alguns trabalhos históricos
tanto nas serrarias quanto em carvoarias reside nas relações de realizados sobre a cidade, o assassinato de forma banal, fruto
trabalho. Não é raro que se encontrem trabalhadores sem carteira de brigas por terra. Não tinham hora nem local apropriado para
assinada, operando em condições de segurança bastante precárias. ocorrer: às vezes, aconteciam à luz do dia, na cidade, como em
Acidentes de trabalho não são raros. No caso das carvoarias, bares e vias públicas, outras vezes, na zona rural. E, de uns tempos
regularmente casos de trabalho infantil e/ou escravo são flagrados pra cá, os acampamentos de sem-tora também vêm sendo palco
pela fiscalização. Apesar de algumas empresas do ramo da madeira para homicídios.
funcionar dentro das normas exigidas pela legislação trabalhista,
38 39
Tailândia, Pará

Toda essa cultura do uso da violência para resolver desavenças


pessoais parece ter criado raízes em Tailândia. Um forte indício
dessa constatação é o resultado de um estudo de 20087 , que traz
uma lista dos municípios mais violentos do Brasil, entre os anos de
2004 e 2006. Tailândia aparece nessa lista como o sexto município
brasileiro de maior taxa de homicídios, com 96,2 assassinatos a cada
100 mil habitantes. Trata-se de uma estatística bastante significativa.
Para o cemitério local já se planeja uma segunda ampliação de sua
área, pois o número de covas já está atingindo o limite. Em grande
parte delas, é possível ler nas lápides improvisadas que vários dos
mortos enterrados eram jovens.

7 Julio Jacobo Waiselfisz - Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros 2008

40
O Poder Público
Na margem esquerda da avenida Belém, no sentido sul, próximo
ao fim da cidade, fica a Praça do Povo, grande cartão postal de
Tailândia. Lugar bastante agradável, com bancos, coretos e árvores
bem cuidadas. Há ainda uma quadra de vôlei de areia e uma cesta
de basquete pra quem gosta de praticar esportes. Aos domingos e
sábados à noite, o movimento no local se intensifica. Vendedores de
CDs e DVDs espalham suas banquinhas e vendem seus produtos a
cinco reais a unidade. Carrinhos de cachorro quente, de espetinhos
e de outros quitutes também estão lá em bom número.
Uma TV com o volume alto mostra a pregação de um pastor
evangélico. Logo adiante, o sermão é tragado pelo som de uma
música brega que sai de autofalantes mais potentes. Ao fundo da
praça, cruzando a rua, fica uma movimentada churrascaria, onde é
oferecida comida por quilo. Funciona no horário do almoço e jantar,
todos os dias, com exceção da quarta-feira. Uma ótima saída para
viajantes hospedados em hotéis próximos.
A quadra de vôlei de areia, como sempre, está cheia. Meninos
jogam basquete na única tabela existente. Os bancos abrigam
casais de jovens paquerando uns aos outros. A boa iluminação
torna o lugar bastante agradável para que famílias passem a noite
Tailândia, Pará O Poder Público

juntamente com as crianças, que brincam sobre uma cama gigante de Tailândia, onde estão presentes o presidente do Tribunal de
de ar. No verão, quando não há chuva, sentar na praça para curtir a Justiça do Pará e outras autoridades, além da imprensa, ele se
brisa noturna que corre no local é uma excelente alternativa pra se veste a caráter, com direito a paletó e gravata. Durante o horário do
refrescar do calor. expediente, muita vezes se encontra ocupado com reuniões com
Outra função que a Praça do Povo exerce é a de dormitório. Muitos secretários, com despaches, ou ainda tentando resolver impasses
que não têm um teto pra dormir procuram o abrigo do coreto à relacionados a concursos públicos.
noite. Durante o dia, em uma dos cantos, alguns desamparados Gilbertinho, como muitos ali na cidade, é sulista. Ostenta pele e
tentam esquecer o tempo na bebida alcoólica. Em Tailândia, eles olhos bem claros, cabelos grisalhos e 56 anos de idade. Natural
são chamados de “pés-inchados”. do interior do Rio Grande do Sul, cresceu em Santa Catarina e
No alto do mesmo coreto, está instalada uma antena que gera já morou no Paraguai, antes de se mudar para o Pará. Possui as
acesso gratuito à Internet, por meio de conexão em rede sem fio. características do típico aventureiro, aquele que vaga por vários
Trata-se de um projeto pioneiro na cidade. A área de abrangência lugares atrás de prosperidade. É dele uma das maiores serrarias
da rede, entretanto, se reduz apenas às redondezas da praça, e só locais, a GM Sufredini Industrial. Gilbertinho também é pioneiro
quem está na região central pode fazer uso desse benefício. em um projeto de reflorestamento, que envolve espécies nativas,
Bem em frente à Praça do Povo, no sentido oposto à Avenida exóticas e frutíferas de vegetação. Iniciativa que começou em 1995 e
Belém, está a Prefeitura Municipal de Tailândia. É lá que todos os logo foi seguida por outros madeireiros. Hoje já existe a Associação
dias pela manhã o prefeito Gilberto Sufredini dá seu expediente, Reflorestadora de Tailândia, que diz plantar em uma área de mais
num horário em que o prédio costuma estar cheio de moradores de mil hectares.
atrás de algum auxílio. O período matutino é o único aberto ao Na antiga gestão municipal de Tailândia, Gilbertinho ocupava
público. a chefia de uma das secretarias municipais. Era subordinado do
Sufredini é conhecido por todos como Gilbertinho. Dono de um homem que de longe é a figura mais popular de Tailândia, o ex-
jeito extremamente simples, de um bom humor e de um leque de prefeito Paulo Jasper “Macarrão”, cuja popularidade é tão alta que
piadas que lança uso a qualquer momento. Costuma chegar ao até um bairro batizado com o seu apelido foi criado: a Vila Macarrão,
trabalho com sua Pajero logo cedo, por volta das oito da manhã. o mais populoso da cidade. Gilbertinho foi indicação de Macarrão
Não gosta de se ater muito às formalidades, por isso tem o hábito para as eleições municipais de 2008. Ganhou com 40% dos votos.
de ir trabalhar de bermuda, chinelo e barba por fazer. Mas quando Na ante-sala do gabinete do prefeito, estão Reginaldo e Jorge,
a situação pede, como a solenidade da reinauguração do Fórum chefe e assessor de gabinete, respectivamente. Parecem estar
sempre ocupados com telefonemas ou tarefas no computador,
42 43
Tailândia, Pará O Poder Público

principalmente na parte da manhã, quando o movimento interno é uma festa de casamento. Com ele, chegaram em Tailândia no fim
maior. São eles que recebem todos aqueles que desejam conversar da década de 1980, para, assim como muitos, também empreender
com Gilbertinho. O entra e sai na sala costuma ser constante. na exploração de madeira.
Reginaldo, o chefe de gabinete, diz ter chegado em Tailândia Logo quando chegou, Mary diz que não queria ficar de jeito
bem no seu início, em 1978, quando ainda era bebê. É natural do algum. Àquela época, a cidade contava com mínima infra-estrutura,
Pará mesmo e veio junto com seu avô, que chegou para trabalhar prescindindo inclusive de energia elétrica em tempo integral. Mas
com agricultura, e, “graças a Deus, não com madeira”. Tem cerca o tempo foi passando, e a ideia de viver ali naquela região da
de trinta anos. Inteligente, articulado e dono de opiniões bastante Amazônia foi aos poucos sendo aceita.
convictas sobre certos temas, Reginaldo trabalhava até 2008 na Tanto sua graduação como mestrado foram em artes e educação.
unidade local da Cosanpa (Companhia de Saneamento do Pará), e Desde sua chegada na cidade, sempre trabalhou nas questões
diz que só soube que assumiria o cargo atual na Prefeitura apenas relacionadas ao ensino. Diz que não queria ficar parada sem exercer
um dia antes da nova gestão tomar posse. nenhuma atividade, e foi aí que começou a se envolver com a
Jorge, seu fiel escudeiro, ocupa a mesa logo ao lado. É ele o educação de Tailândia. Viu e auxiliou no crescimento do número
responsável por atender aos telefonemas do gabinete, que não de escolas na aérea urbana e rural. Foi por muito tempo diretora
costumam ser poucos. Vascaíno, de apenas 23 anos, já residiu em pedagógica do ensino médio. Sua fama pelo trabalho que sempre
Paragominas, e costuma ser bastante solícito com aqueles que o exerceu não é pouca: tanto é que mesmo seus colegas de trabalho
requisitam. continuam tratando-a por “professora”.
Vira e mexe, quem entra na sala de acesso ao gabinete é a O ano de 2009 foi difícil para a Prefeitura de Tailândia,
secretária de administração municipal, Mary Elisa, considerada financeiramente falando. Como outros municípios pequenos do
a cabeça da Prefeitura. Praticamente todas as informações da Brasil, seu orçamento depende quase tão somente dos repasses dos
gestão estão centralizadas nela. Certas perguntas a respeito do diversos fundos nacionais geridos pela União. Há repasses oriundos
funcionamento da Prefeitura é só Mary que sabe responder. Desde do Fundeb (voltado para a educação), do FNS (Fundo Nacional
a gestão anterior que ela ocupa o mesmo cargo, fator que contribui de Saúde) e, principalmente, do FPM (Fundo de Participação dos
para todo conhecimento acumulado. Municípios), que é de onde a Prefeitura tira o grosso do seu dinheiro
Mary é outra imigrante sulista. Natural de Santa Maria, no Rio para pagar despesas com pessoal e serviços.
Grande do Sul, cursou universidade na cidade paranaense de Outro meio para se arrecadar verbas é com obras do PAC (Programa
Maringá. Foi naquele estado que conheceu seu atual marido, em

44 45
Tailândia, Pará O Poder Público

de Aceleração do Crescimento). O IPTU, que costuma ser o imposto escolar de crianças da zona rural. Também é de sua alçada arcar
municipal de maior arrecadação das cidades, inexiste. Desde 2001, os com todos os gastos dos postos de saúde espalhados pelos bairros,
tailandenses estão isentos de pagá-lo, numa tentativa de incentivar além do hospital da cidade, que conta com 15 a 20 médicos, mais
a regularização fundiária urbana. Segundo dados da administração, estagiários e enfermeiros.
já existem cerca de seis mil títulos de propriedade, mas a ampla O hospital, uma edificação de andar único, situado bem em frente
maioria dos terrenos de Tailândia ainda não está regularizada. à Prefeitura, mas do outro lado da PA-150, também faz atendimento
No intuito de amenizar os efeitos do impacto da crise econômica de emergência. E todo o dia é a mesma situação. Como quase todos
global na economia brasileira, o Governo Federal, em 2009, reduziu e os hospitais da rede pública no Brasil, logo pela manhã, por volta das
até isentou o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) de alguns seis e meia, ele já se encontra lotado. Praticamente todas as pessoas
setores da indústria nacional – como a indústria automobilística, amontoadas à espera de serem atendidas são mulheres, sentadas
que mesmo tendo batido recordes de lucro nos anos anteriores, ao longo de compridos bancos de madeira, muitas vezes trazendo
ainda assim foi contemplada com o benefício – com o objetivo de o filho pequeno no colo. Só uma minoria é composta por homens.
manter os níveis de produção estáveis. Essa redução do IPI resultou Tailândia já tem pronto um prédio que abrigará um novo hospital,
também na redução do valor arrecadado no FPM, pois este fundo estadual, bem maior que o único existente. Sua inauguração, que
é composto majoritariamente pelo dinheiro arrecadado daquele prescinde de apenas alguns detalhes para que aconteça, é bastante
imposto. Deste modo, os repasses para os mais de 90% de municípios aguardada pelos tailandenses.
brasileiros, que dependem do FPM, minguaram. Tailândia também Como a ampla maioria dos municípios brasileiros, os problemas
sofreu o golpe. estruturais urbanos de Tailândia não são poucos. Apenas as ruas da
Assim, com esse déficit inesperado em seu orçamento, havia até região central e de parte do bairro Aeroporto são asfaltadas. Já a
a dúvida sobre se os salários dos funcionários públicos municipais Avenida Belém é feita de bloquetes. Todas as demais vias públicas
conseguiriam ser pagos. Para agravar a situação, há ainda uma são de terra batida com pedra, arranjo também conhecido como
herança “maldita” da gestão anterior, que foi um concurso público “piçarra”. Isso explica a alta quantidade de poeira que circula pelos
realizado para contratar mais servidores. A convocação ficou para ares da cidade, dificultando a vida de quem é alérgico. Nas casas
a nova gestão, o que significou mais despesas. Mesmo assim, a mais distantes do centro, não há cobertura de rede de esgoto.
Prefeitura tenta se virar como pode. Um exemplo foi uma parceria Longe de ser privilégio da cidade, essa constatação só confirma a
fechada com o governo estadual para fazer o recapeamento da PA- estatística8 que diz que mais da metade dos brasileiros não contam
150 no trecho urbano, que está bastante debilitado. com saneamento básico.
8 Trata Brasil: A Falta que o Saneamento Faz/ Coordenação Marcelo Côrtes Neri. - Rio de Janeiro: FGV/IBRE,
É a Prefeitura responsável pela coleta de lixo e pelo transporte CPS, 2009.

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Tailândia, Pará O Poder Público

Um dos departamentos mais importantes da Prefeitura é o do do Bolsa Família. Trata-se de exigências para que a família continue
Bolsa Família. Localizado junto à secretaria de Ação Social, onde cadastrada no programa. O índice mínimo de comparecimento às
também são feitos atendimentos odontológicos, o Bolsa Família é aulas é de 85% para crianças de 6 a 15 anos e 75% para adolescentes
uma referência para muitos tailandenses. Lá está Osvaldo, um dos de 16 a 17 anos. No caso das gestantes, também é obrigatório que
coordenadores do programa. Na sala onde trabalha, estão mais façam o pré-natal.
cerca de cinco funcionários, todos bastante empenhados na causa, Todos os dados são então repassados aos funcionários do Bolsa
segundo ele. Do lado de fora, bem em frente à sala de trabalho, mais Família, que ficam responsáveis por fazer o controle e atualizar
de uma dezena de mulheres, muitas carregando os filhos, esperam os cadastros. De acordo com Osvaldo, é graças às exigências do
para serem atendidas. Conversam em tom de lamento sobre o fato programa que grande parte das famílias mantém seus filhos na
de seus cartões do Bolsa Família estarem bloqueados. escola e segue o calendário de vacinas de forma adequada.
Com sua voz de barítono, Osvaldo conta que em Tailândia são cerca Além das famílias, os funcionários do Bolsa Família também
de 5.500 famílias beneficiadas pelo programa, o que representa precisam seguir exigências. Eles devem acompanhar periodicamente
cerca de 13.800 pessoas. Em termos de valores, em agosto de 2009, 88% dos beneficiários, na tentativa de manter um nível mínimo de
os contemplados do Bolsa Família receberam 478 mil reais na soma eficiência do programa. O responsável por fiscalizá-os é o Tribunal
total. Em setembro foram 525 mil reais. de Contas da União (TCU).
Em abril de 2009, o programa passou por um reajuste nos valores Osvaldo também conta que a maior parte dos casos que atende em
que delimitam as duas categorias de famílias que recebem os sua sala é de gente que tem problema com o bloqueio dos cartões.
benefícios. A primeira categoria passou a abranger famílias com Mas isso, segundo ele, se deve à desinformação ou à falta de atenção
renda mensal de até 70 reais por pessoa (antes do reajuste, era até desses beneficiários, que, na maioria das vezes, não comparecem
60 reais). A segunda passou a abranger famílias com renda mensal para realizar o recadastramento dentro do prazo ou no momento
entre 70 e 140 reais (antes era entre 60 e 120 reais). Com esse em que mudam de cidade. Diferentemente das gestões passadas,
reajuste, mais gente pode ser contemplada pelo Bolsa Família. No que sempre foi muito centrada no assistencialismo acirrado, para
caso de Tailândia, em setembro, existiam mais de 7.600 pessoas o coordenador do Bolsa Família de Tailândia, a nova administração
cadastradas que se enquadravam nos critérios exigidos para ganhar municipal preconiza medidas de inclusão social, como as de geração
o benefício mensal, mas que ainda não o recebiam. de renda e as voltadas para a educação. Assim, projetos como o EJA
Funcionários da secretaria de Ação Social são responsáveis por (Educação de Jovens e Adultos), o PROJOVEM (Programa Nacional
monitorar, junto às escolas e postos de saúde, o desempenho escolar de Inclusão de Jovens) e os de inclusão digital tem tido uma
e o recebimento adequado de vacinas dos filhos dos beneficiários atenção diferenciada. O que não impede que se pratiquem políticas
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Tailândia, Pará O Poder Público

assistencialistas, necessárias, como a realizada por funcionários da está inserido no programa estadual “Um Bilhão de Árvores para a
Ação Social, que distribuem sopa gratuitamente em três pontos Amazônia”, lançado em 2008, que pretende plantar esse número
distintos da cidade. de árvores em um prazo de cinco anos.
A Prefeitura também mantém alguns projetos próprios. Um deles Alguns quilômetros adiante do viveiro municipal, seguindo pela
é uma confecção que produz uniformes escolares e enxovais de PA-150, está uma fábrica de laticínios com oito empregados, outro
bebê para famílias mais necessitadas. Há outra iniciativa, ligada ao empreendimento sob tutela da gestão municipal. Todos os dias a
setor madeireiro, que é uma fábrica de briquete, responsável por Prefeitura compra leite de cerca de 70 produtores da região, para
reaproveitar resíduos de madeira que não teriam mais utilidade. O então transformá-lo em derivados e, posteriormente, distribuí-
funcionamento se dá da seguinte forma: o pó de madeira gerado los nas escolas de Tailândia. Funcionários da Secretaria do Meio
dentro das serrarias é coletado pelos funcionários da Prefeitura. Ambiente, cuja sede fica ao lado da fábrica, dizem que a arrecadação
Posteriormente, ele é peneirado, secado com ar-quente e então gira em torno de 4.500 litros de leite por dia. A Prefeitura paga 70
destinado a uma briquetadeira, onde será exposto a uma forte centavos por cada litro. Para quem planta grãos, há ainda no local
pressão para ser compactado. O resultado é o briquete, uma espécie um silo, também da Prefeitura, usado para a secagem de cereais.
de lenha utilizada para produção de energia, como em caldeiras Talvez o fenômeno mais marcante que tem ocorrido recentemente
industriais. na agenda política dos administradores de Tailândia seja a crescente
Existe ainda um projeto ligado à questão ambiental, que é o preocupação com as questões ambientais. Símbolo disso foi a criação
viveiro municipal de mudas, localizado às margens da PA-150 ao em agosto de 2008 da Secretaria do Meio Ambiente, assunto que até
sul da cidade. Lá, são cultivadas várias espécies de árvores exóticas então era tratado com menor prioridade em outra pasta. Em uma
e nativas, frutíferas e não frutíferas. São mudas de Açaí, Freijó, cidade que, assim como o resto do Pará, sempre seguiu a tônica do
Copaíba, Jatobá, Comaru, Ipê e muitas outras, todas distribuídas desmatamento inconsequente e da degradação ambiental ao longo
para colonos da região que estejam interessados. A maioria deseja de sua história, é bastante sintomático constatar essa mudança de
apenas as espécies de madeira de lei, mas os técnicos agrícolas postura de seus dirigentes.
costumam incentivar que também sejam levados outros tipos. Não se pode ignorar, entretanto, um acontecimento de grandes
Segundo o conteúdo de um folheto que explica o projeto, a meta proporções ocorrido no município e que foi responsável direto por
do viveiro é que, até 2013, sejam produzidas 50 milhões de mudas, essa nova mentalidade. Acontecimento esse que pegou Tailândia
para que, assim, Tailândia passe a produzir carvão vegetal com 100% desprevenida, deixando marcas profundas em seus moradores.
de madeira advinda do reflorestamento. Só em 2009 mais de 400
mil mudas foram distribuídas para os colonos locais. O município
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Floresta e Ocupação

drasticamente na região. Surgiram os seringalistas, donos de


extensos seringais (áreas com numerosas seringueiras), e os
seringueiros, responsáveis pelo trabalho bruto de todo o processo:
a extração do látex direto das árvores.
A grande maioria dos seringueiros era composta por imigrantes
Floresta e Ocupação do Nordeste, que fugiam de uma grande seca que assolou a
região no fim da década de 1870. Calcula-se que mais de 300 mil
trabalhadores nordestinos migraram para a Amazônia a fim de
Desconsiderando os indígenas que sempre viveram na região, a trabalhar nos seringais antes do término do século XIX.
história da ocupação9 humana da Amazônia teve início em meados Esse período de grande extração de látex nos seringais amazônicos
do século XVII. Foi nessa época que colonizadores portugueses ficou conhecido como o “Ciclo da Borracha”. Foi uma época em que
organizaram as primeiras expedições pela floresta com o objetivo a região produziu muita riqueza, de uma forma que jamais havia
de escravizar índios e de fazer a coleta das chamadas drogas do sido vista até então. Belém se desenvolvia a pleno vapor. Durante
sertão. o início do século XX era considerada por muitos a metrópole mais
As drogas do sertão eram especiarias características da região próspera do Brasil. Igualmente podia-se dizer de Manaus, outra
amazônica, como a castanha, o cacau, a baunilha, além de cidade que gerou muitos dividendos com a demanda mundial de
outras. Depois de coletadas, eram remetidas para a Europa, onde borracha.
possuíam um alto valor comercial. Durante muitos anos esse tipo A pujança pela qual Manaus e Belém passaram entre 1890 e 1920,
de extrativismo esteve em voga. período da duração do Ciclo da Borracha, podia ser constatada em
Já no século XIX, a Amazônia conheceu uma era de prosperidade termos materiais. Ainda que com restrição, ambas possuíam luz
econômica sem precedentes. Com a expansão da revolução elétrica, sistema de água encanada e esgoto e bondes elétricos.
industrial no mundo, a demanda por algumas matérias primas Sediavam também edifícios imponentes e requintados. Em Manaus,
cresceu de forma meteórica – uma delas era o látex, a partir do foram erguidos o Teatro Amazonas e o Palácio do Governo e, em
qual se produz a borracha. O látex é extraído de árvores chamadas Belém, o Teatro da Paz e o Cinema Olympia.
seringueiras, existentes em abundância na floresta amazônica. Entretanto, nem tudo eram flores. Toda essa riqueza adquirida por
Desta forma, a busca pelas seringueiras se intensificou conta da extração do látex só era possível em razão de um sistema
9 HISTÓRIA da Ocupação da Amazônia. Disponível em: <http://www.tomdamazonia.org.br>. Acesso em: 10
perverso no qual os seringueiros eram profundamente explorados.
fev. 2010.

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Tailândia, Pará Floresta e Ocupação

Viviam em regime de semi-escravidão, em que eram obrigados a liderança de Getúlio Vargas, fechou um pacto com o governo
se lançar no meio da floresta fechada atrás das seringueiras. Lá, norte-americano, se comprometendo a restabelecer a produção de
só podiam comprar mercadorias fornecidas pelos seringalistas, borracha.
a preços bem acima do normal, fato que os fazia contrair dívidas Com isso, o início da década de 40 foi marcado pelo processo
enormes. Dessa forma, ficavam sempre presos aos seringalistas, de alistamento dos chamados “soldados da borracha”. Milhares
pois tudo o que ganhavam na extração do látex era usado para de nordestinos foram selecionados para, uma vez mais, repetir o
abater parte da dívida, sem nunca conseguir de fato zerá-la. Esse processo migratório para o interior da Amazônia, tal qual havia
sistema ficou conhecido como “sistema de aviamento”, já que as acontecido no século anterior. Mas desta vez, o objetivo era o de
mercadorias vendidas aos seringueiros vinham das chamadas casas garantir o suprimento de borracha aos Aliados na Segunda Guerra.
de aviamento, localizadas em Belém e Manaus. Esse novo ciclo perdurou de 1942 até 1945. Com o fim do conflito,
Por volta de 1920, o ciclo da borracha na Amazônia se aproximava a produção de borracha na Amazônia também se encerrou.
do fim, depois que passou a enfrentar um forte concorrente do O Ciclo da Borracha foi um período que sem dúvida gerou uma
além-mar. Milhares de sementes de seringueiras amazônicas foram riqueza nunca antes vista na região amazônica. Mas, como de
levadas por ingleses para colônias do sudeste asiático, onde foram costume, foi uma riqueza que se concentrou na mão de bem
reproduzidas. Constatou-se então que ali aquelas espécies de poucos. A grande e explícita maioria era explorada nos seringais,
árvores podiam ser cultivadas de uma forma mais eficiente. pouco se beneficiava da riqueza gerada e tinha sua vida consumida
A borracha da Amazônia logo se viu desvalorizada no mercado impiedosamente no meio da floresta.
internacional, em razão da competitividade da borracha asiática. Era Algumas décadas depois, a Amazônia novamente foi palco de
o fim do ciclo próspero que começara na década de 1870. Manaus transformações econômicas. Nos anos 70, sob a inspiração do lema
e Belém, os dois grandes centros da Amazônia, mergulharam em “integrar para não entregar”, a Ditadura Militar instaurada no país
um período de débâcle econômica. Os ricos de outrora perdiam começou a implantar os grandes projetos de ocupação da região. Foi
tudo, mansões eram abandonadas e milhares de desempregados nessa época que tiveram início as construções da Usina de Tucuruí
dos seringais migravam para as periferias das cidades. e da rodovia Transamazônica, além dos primeiros trabalhos de
Duas décadas mais tarde, com o advento da Segunda Guerra exploração das jazidas de minérios na região dos Carajás. No plano
Mundial, a economia da borracha amazônica ganhou novo fôlego. dos incentivos creditícios, foi criada a SUDAM (Superintendência do
A rota para o sudeste asiático estava fechada pelo Japão, um dos Desenvolvimento da Amazônia), em substituição à antiga SPVEA,
países do Eixo, o que interrompeu o fornecimento de borracha com o intuito de financiar aqueles que quisessem empreender em
para os Países Aliados. Foi então que o governo brasileiro, sob a
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Tailândia, Pará Floresta e Ocupação

ramos como o a pecuária e a agricultura. em razão de se tratar de uma atividade que prescinde de ajuda do
Contudo, essa nova fase de ocupação deu gênese a um grave poder público para se expandir, diferentemente do agronegócio,
problema que passaria a afligir a região de forma crônica nos anos por exemplo.
seguintes: o desmatamento predatório. Atraídos pelas linhas de Outro ramo que teve grande impulso na Amazônia durante os
créditos fáceis, agricultores e pecuaristas passaram a derrubar anos 70 foi a mineração. A extração de recursos minerais na região
árvores de forma intensa e irracional, abrindo espaço para suas já acontecia desde a década de 50, com o manganês da Serra do
plantações e pastos. O resultado dessa política expansionista foi a Navio, no Amapá, mas é sob o regime dos militares que os grandes
formação de uma das maiores fronteiras pioneiras da história da projetos vão se concretizar.
humanidade, que abrangeu uma extensão superior a 200 milhões Em 1974, é lançado o Programa de Pólos Agropecuários e
de hectares em apenas 40 anos. Essa região é hoje conhecida como Agrominerais da Amazônia, conhecido como Polamazônia. Tratava-
o Arco de Desmatamento e envolve mais de 100 municípios. Mais se de planos federais que projetavam a implantação de diversos
de 90% de toda a destruição da floresta amazônica aconteceram pólos de desenvolvimento econômico na Amazônia, com destaque
nessa área. para a produção mineral. Entre esses pólos, estavam Amapá,
Tida como a atividade que mais causa desmatamento entre Trombetas e Carajás.
todas, a pecuária não costuma ter dificuldades em se instalar na No Amapá, além da exploração do manganês, que já acontecia
Amazônia, apesar da ausência de infra-estrutura e da distância em anteriormente, também recebeu incentivos do estado o Projeto
relação aos grandes centros consumidores. É justamente por esses Jari, um mega-empreendimento idealizado pelo milionário norte-
motivos que o valor das terras na região é baixo, condição essencial americano Daniel Ludwig e que tinha o objetivo de realizar a
para uma cultura fundamentalmente extensiva como é a criação extração do caulim10 . Ainda na década de 70, a Alcan, uma gigante
de bois. Até mesmo a dificuldade de acesso a certos pastos não se da mineração do Canadá, começou a extração da bauxita em
constitui em grande problema, já que os animais podem caminhar Oriximiná, município paraense às margens do Rio Trombetas. Esse
com as próprias pernas para seu destino. E há ainda a vantagem negócio contou com um grande auxílio de capitalização da empresa
decorrente do alto índice pluviométrico local, fator que garante um estatal Companhia Vale do Rio Doce.
capim constantemente verde para o gado amazônico. Em 1980, o governo criou o Programa Grande Carajás, uma tentativa
Nos anos 70 e 80, a ocupação da Amazônia era tão desejada que, de reunir todos os projetos ligados à mineração e metalurgia em
aos olhos da Ditadura Militar, aquele que desmatasse uma área uma única coordenação. Durante a década, foram construídas
era tido como seu legítimo proprietário. Foi diante desse cenário duas plantas industriais (Albras e Alunorte) em Barcarena, no Pará,
que a pecuária avançou ferozmente em direção à floresta – muito 10 Caulim é um minério que pode ser utilizado na fabricação de papel, cerâmica, tintas, entre outros.

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Tailândia, Pará Floresta e Ocupação

e outra (Alumar) em São Luís, no Maranhão, todas voltadas para de soja, além da própria extração comercial da madeira, citada
a produção de alumina e alumínio e impulsionadas por empresas anteriormente – trouxeram impactos ambientais e sociais bastante
estrangeiras – mas sempre com auxílio econômico do estado significativos para a Amazônia. Devastação da floresta, contaminação
brasileiro. Na região, a Vale do Rio do Doce ainda deu início a de rios, expulsão de comunidades tradicionais e ocorrências de
exploração do minério de ferro na Serra dos Carajás, localizada no trabalho escravo são os principais deles. No caso deste último, a
município paraense de Paraupebas. fiscalização tem flagrado trabalhadores nessas condições com uma
Ainda durante os anos 80, a Amazônia testemunhou outra atividade frequência cada vez maior, principalmente em áreas que passam
mineral de forte impacto econômico: o garimpo do ouro. Com a pelo processo de limpeza de terreno para a abertura de pastos e
alta valorização do ouro no mercado internacional, uma onda de lavouras de soja.
migrantes chegou à região atrás do metal precioso. Esse fenômeno Em razão desse específico problema, grandes conglomerados
gerou cenários visualmente incríveis – com o famoso garimpo de ligados à indústria de carne e à produção de derivados de soja, por
Serra Pelada – além também de sérios conflitos entre empresas de meio de pressão da sociedade civil organizada e do poder público,
garimpo e garimpeiros autônomos. têm nos últimos anos fechado acordos para combater o trabalho
Quem também passou a bater às portas da Amazônia em escravo na cadeia produtiva. Símbolo disso é o Pacto Nacional
decorrência da política de incentivos estatais foram as lavouras de pela Erradicação do Trabalho Escravo, criado em 2005, e que já
soja. A partir da década de 70, muitas famílias sulistas, que já tinham conta com mais de 160 empresas e associações comerciais que se
o hábito de plantar o grão em suas terras de origem, migraram para comprometem a riscar da lista de fornecedores aqueles que em
o estado do Mato Grosso onde introduziram a cultura sojeira. cujas propriedades houver flagrante desse crime.
Com o intenso processo de mecanização dos anos 80, a abertura Já no que diz respeito à conservação da floresta, as cobranças são
econômica do país nos anos 90 e o consequente fortalecimento do bem mais antigas e vieram inclusive de fora do País. A crescente
agronegócio exportador, as plantações de soja em solo brasileiro preocupação mundial acerca do meio ambiente ao longo do
praticamente dobraram de área num período de 15 anos. Para se século XX culminou na primeira Conferência Mundial sobre o Meio
ter uma ideia, a soja responde nos dias atuais por cerca de metade Ambiente Humano, ocorrida em 1972, em Estocolmo, e organizada
das lavouras brasileiras de grãos. É a partir dela que são feitos óleos pela ONU. Em 1988, foi a vez de Toronto, no Canadá, ser sede da
de cozinha, rações de animais e, mais recentemente, combustíveis. primeira Conferência Mundial sobre o Clima. Posteriormente, ainda
A despeito do alegado desenvolvimento econômico gerado na houve outras conferências da ONU sobre o meio ambiente no Rio
região, todas essas atividades – pecuária, mineração, plantio de Janeiro em 92, em Johanesburgo em 2002, e em Copenhague
em 2009.
58 59
Tailândia, Pará

Com isso, o futuro da Amazônia entrou na pauta das discussões e


o governo brasileiro foi impelido a intensificar a fiscalização contra
o desmatamento ilegal. Assim, em 1989, no fim do Governo Sarney,
foi criado o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis, o Ibama.
Principal órgão federal de fiscalização das atividades que envolvem
questões ambientais, o Ibama tem um papel preponderante na
Amazônia. Além da fiscalização, é também, juntamente com
secretarias estaduais de meio ambiente, o responsável por conceder
autorizações de instalação e funcionamento a diversas atividades
com fins econômicos.
Auxiliados pelos dados dos satélites do SIVAM – Sistema de
Vigilância da Amazônia – equipes inteiras de fiscais costumam
percorrer diversas localidades da floresta amazônica durante o
processo de fiscalização, que pode durar até meses. Em todas as
vezes, seguem escoltados por homens armados, incumbidos de
fazer a segurança. No caso do Pará, há um destacamento específico
para isso, que é o Batalhão da Polícia Militar Ambiental.
Em 2008, o governo federal inaugurou uma nova composição
nos grupos de fiscalização. Homens da Polícia Federal, de forma
inédita, integraram uma operação ao lado dos fiscais do Ibama e
dos responsáveis pela escolta. O debute aconteceu na chamada
Operação Arco de Fogo. Tailândia foi a primeira cidade a recebê-la.

60
Arco de Fogo
A Operação Arco de Fogo é uma operação de fiscalização que
envolve o Ibama, a Polícia Federal e a Força Nacional de Segurança.
Foi arquitetada no âmbito dos ministérios da Casa Civil, do Meio
Ambiente e da Justiça, diretamente em Brasília. Sua área de atuação
abrange todos os estados da Amazônia Legal11 , dentro dos quais são
realizadas vistorias em serrarias, carvoarias, garimpos e qualquer
outra atividade que possa estar ligada a crimes ambientais.
O grande diferencial dessa operação em relação às demais é a
presença pioneira da Polícia Federal, que cumpre o papel de polícia
judiciária no momento da fiscalização. Novidade que contribui para
agilizar o processo de autuação no caso de flagrantes de delitos.
Em resumo, o Ibama é quem aponta as irregularidades, a Polícia
Federal se incumbe de abrir inquéritos e realizar prisões, e a Força
Nacional de Segurança faz a proteção de todos.
Lançada em fevereiro de 2008, a Arco de Fogo tinha como primeiro
destino a cidade de Altamira, no centro-sul do Pará, outro grande
pólo de devastação florestal do estado. Mas o advento de um
episódio inesperado fez com que os planos mudassem.
11 Nome dado à região que engloba a bacia amazônica. Fazem parte dela todos os estados do Norte, mais o
Mato Grosso e a metade ocidental do Maranhão.
Tailândia, Pará Arco de Fogo

No dia 13 de fevereiro daquele ano, o Ibama divulgava via imprensa trabalho. O medo do desemprego começou então a se alastrar entre
a apreensão, em Tailândia, de 10 mil metros cúbicos de toras e peças os operários da indústria madeireira, um ramo cuja informalidade é
serradas de madeira, durante uma outra operação de combate extremamente alta. Era o germe de um acontecimento que tomaria
ao desmatamento – em meio às diversas existentes – chamada enormes dimensões mais tarde.
de Guardiões da Amazônia. Segundo o instituto, 130 pessoas do No dia 18 de fevereiro, de 2008, uma segunda-feira, um boato
próprio Ibama, da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA) começou a correr pelo boca-a-boca em Tailândia. Dizia-se que
e das Polícia Civil e Militar faziam-se presentes na cidade para a uma manifestação aconteceria no dia seguinte, em protesto
fiscalização. contra a fiscalização na cidade. Segundo relatos, os mentores da
Relatos sugerem que essa megaoperação, de proporções maiores manifestação seriam alguns madeireiros.
do que o normal, teria sido uma demanda vinda diretamente de Na terça-feira 19, o boato se confirmou, e a ponte que cruza o
Ana Júlia Carepa, governadora do Pará. Ana Julia estaria sendo igarapé local amanhecia bloqueada por pneus e toras de madeira
pressionada para apresentar resultados positivos em relação aos em chamas. Trabalhadores das serrarias interrompiam o tráfego da
números sobre a derrubada ilegal de árvores no estado, uns dos rodovia PA-150, remontando o cenário de 14 anos antes quando do
maiores do País. Desta forma, teria exigido dos órgãos responsáveis protesto pela energia elétrica.
pelo meio ambiente que mostrassem serviço. A concentração de pessoas nas imediações do bloqueio não parava
E mostraram. Para se ter uma ideia, os dez mil metros cúbicos de crescer ainda durante a manhã. Homens temerosos pela falta
de madeira apreendidos dos pátios das serrarias de Tailândia são de trabalho se aglomeravam em um clima até então relativamente
suficientes para encher as caçambas de cerca de 500 caminhões. pacífico. Mas a indignação era grande.
Também foram aplicadas multas que ultrapassaram um milhão e O movimento começou a ganhar contornos mais agressivos com
meio de reais. Mais de cem fornos de carvão vegetal foram destruídos a chegada da notícia sobre o paradeiro de um grupo de fiscais.
e um grande número de máquinas foi lacrado, impossibilitando de Faziam apreensão de madeira em uma serraria próxima, na Taiplac,
vez qualquer atividade de beneficiamento de madeira. de propriedade de Gilbertinho, que à época ainda não era prefeito.
Entretanto, o mais estranho dessa operação é o fato de que, Parte do protesto, que àquela altura já contava com várias centenas
segundo moradores, Tailândia era regularmente destino de de pessoas, se deslocou para os arredores da serraria, cercando os
fiscalizações por parte do Ibama e da SEMA. Se isso é verdade, por fiscais. O nível de hostilidade era alto e o risco de invasão, iminente.
que nunca se constatou essa onda de ilegalidades antes? Acuados, os funcionários do Ibama e da SEMA foram obrigados
Com as serrarias interditadas e as madeiras confiscadas, não havia a improvisar uma rota de fuga pelos fundos, com o auxílio de

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Tailândia, Pará Arco de Fogo

Gilbertinho e os demais que acompanhavam a fiscalização. Fugiram de batalha campal em Tailândia.


de carro em meio a uma plantação de milho. O alvoroço é total e todos fogem o mais depressa que podem. Mas
A polícia naquele momento já estava na rua, monitorando o logo a resposta é dada sob forma de pedras lançadas em direção à
desenrolar da manifestação. De acordo com um relato, homens tropa de choque. As balas de borracha seguem sendo disparadas,
do batalhão da tropa de choque, vindos de fora, se encontravam mas a multidão não se dispersa, ao contrário, parte pra cima dos
presentes na cidade desde o dia anterior – fato que leva a crer que policiais, que em alguns momentos chegam a ser encurralados.
sabiam de antemão da realização do protesto. Uma bala de borracha acerta o olho de um manifestante. O
Nas imediações do bloqueio da estrada, um morador chega com ferimento é irreversível.
um carro de som, colocando-o à disposição do público. Alguns Os confrontos não dão sinais de fim e o medo se dissemina entre
passam a se aventurar no microfone e um homem começa a imitar os tailandenses. O Fórum é invadido. Janelas, portas, grades e
Sílvio Santos, para a risada geral de todos. Momentos mais tarde, computadores são totalmente destruídos. Alguns manifestantes
um elemento surge para incendiar de vez o protesto. Duas caixas de tentam colocar fogo no prédio, mas policiais conseguem expulsá-
aguardente são distribuídas entre os manifestantes, que disputam los a tempo. A devastação, entretanto, é grande.
cada garrafa a tapa. A bebida é passada de mão em mão e virada a Lojas do centro fecham as portas, as escolas municipais suspendem
goles largos. Rapidamente, a multidão vai ficando embriagada. as aulas. Moradores se trancam em casa ou se refugiam onde
O álcool gratuito cumpre seu papel e o teor de agressividade na podem. Bombas de gás lacrimogêneo são lançadas pela polícia
manifestação aumenta. Um manifestante se lembra do carro de contra os manifestantes e a fumaça de uma delas invade o saguão
som da Prefeitura, maior e mais potente que o que está sendo de espera do hospital, lotado naquele momento. A irritação nos
usado, e raciocina que se é de propriedade da Prefeitura, o povo olhos e a dificuldade de respirar tomam conta de pacientes e
também tem direito a usá-lo. A maioria lhe dá razão e começa a acompanhantes. O tumulto no prédio é generalizado.
marcha em direção ao automóvel almejado. Um policial é acertado por um coco jogado por um manifestante.
Os manifestantes chegam ao pátio da Prefeitura e se aglomeram Enraivecido, ele agarra a fruta do chão e a arremessa de volta contra
em frente ao portão. Irredutíveis e agressivos, exigem o carro de a multidão. Outros policiais, visivelmente exaltados, disparam para
som. A tropa de choque, a poucos metros de distância, se prepara o alto e em direção ao solo. Os tiros são de munição letal.
para intervir. Diante da intransigência da multidão em recuar, alguém Mais tarde, um batalhão da polícia com 25 homens chega de
dispara a primeira bala de borracha. É nesse exato momento que a Belém para dar apoio aos que já estavam em ação. Bem à tempo:
tensão latente desde o início do dia explode, dando início às cenas a munição não-letal estava se esgotando e uma tragédia maior

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Tailândia, Pará Arco de Fogo

poderia acontecer. O medo das consequências da Arco de Fogo estava presente


A rodovia PA-150 continuou bloqueada até o fim da tarde, quando em todos. À época, o secretário de Administração do município,
então os manifestantes voltaram para suas casas. À noite, um toque Cristóvão Vieira, profetizou: “Se os setores madeireiros fecharem,
de recolher imposto pela polícia deixou as ruas da cidade vazias. Tailândia se inviabilizará”.
No dia seguinte, a Operação Guardiões da Amazônia foi suspensa
e os fiscais do Ibama e da SEMA bateram em retirada de Tailândia.
Inconformados com o acontecido e decididos a afirmar autoridade,
o Ibama, por meio de seu chefe de fiscalização, Leandro Aranha,
solicitou à Brasília a alteração do primeiro destino da Operação
Arco de Fogo: no lugar de Altamira, que fosse Tailândia. O objetivo
desta forma era o de dar uma resposta rápida e intensa ao levante
que expulsou os fiscais da Guardiões da Amazônia.
A solicitação foi acatada. Seis dias depois da revolta popular, no
dia 25 de fevereiro de 2008, Tailândia recebeu uma das maiores
operações de combate ao desmatamento já realizadas pelo governo
brasileiro. Nada menos que 220 homens da Força Nacional de
Segurança, do Ibama e da Polícia Federal chegaram à cidade em um
mega comboio de carros, inaugurando a Operação Arco de Fogo.
Tailândia foi então ocupada por um aparato militar nunca antes
visto. Incursões com helicóptero e homens da Força Nacional de
Segurança, portando armas de grosso calibre, passaram a fazer
parte do cotidiano daqueles dias. Grupos de carros levando fiscais,
policiais federais e militares cruzavam a PA-150 e vicinais a todo
momento, atrás de madeiras de origem ilegal. Todas as serrarias
e carvoarias foram vistoriadas. Com os vários casos de ilegalidade
existentes e a intenção de mostrar serviço para o País, a fiscalização
foi severa e praticamente paralisou a atividade madeireira na cidade.

66 67
Prejuízos

empregados diminuir. Apenas um mês após a Arco de Fogo, o SINE


(Sistema Nacional de Emprego) registrou cerca de 4.400 pedidos
de desemprego na cidade. Estimativas dão conta que cerca de onze
a doze mil tailandenses perderam o trabalho em decorrência da
débâcle do setor madeireiro.
Prejuízos Com isso, as consequências sociais foram catastróficas. Centenas
de famílias inteiras, de uma hora para outra, se viram sem dinheiro
para poder suprir necessidades básicas como se alimentar. Na
No dia 4 de abril de 2008, a Operação Arco de Fogo foi concluída tentativa de amenizar a gravidade da situação, o prefeito da época,
oficialmente em Tailândia. Durante os quase 40 dias que estiveram Paulo Jasper “Macarrão”, decretou estado de emergência no
na cidade, os fiscais do Ibama e da SEMA passaram por cerca de município e criou uma frente de trabalho – que ficou conhecida
50 serrarias e carvoarias. De acordo com o órgão, foram lavradas como “Frente de Emergência” – para fazer a limpeza de vias públicas
multas no valor de 23 milhões de reais. Quatro serrarias foram e terrenos. O objetivo com a medida era o de absorver parte dos
desmontadas e 13, embargadas. Um total de 23 mil metros cúbicos desempregados das madeireiras.
de madeira foi apreendido e mais de 1.100 fornos de carvão vegetal, Foram abertas 600 vagas com salários de 100 reais por semana.
postos abaixo. No decorrer desse período nenhum novo distúrbio Uma fila gigantesca e repleta de desesperados se formou no local
ocorreu. de inscrição para os candidatos, mas a oferta estava muito aquém
Em agosto do mesmo ano, a Promotoria de Justiça de Tailândia da demanda. A grande maioria teve que voltar pra casa carregando
denunciou onze pessoas sob a acusação de insuflar e liderar os consigo apenas a frustração e a falta de perspectiva de trabalho.
protestos do dia 19 de fevereiro. Os denunciados foram enquadrados Já aqueles que tiveram a sorte de serem contratados passaram
pelo Ministério Público Estadual nos crimes de formação de a se reunir diariamente às sete horas da manhã em frente à
quadrilha, dano qualificado, constrangimento ilegal, poluição Prefeitura. Lá, vestidos com uniforme laranja e de mão colada ao
atmosférica, supressão de documento e incitação ao crime. peito, entoavam o hino nacional diante das bandeiras do Brasil, do
Já os temores de cidadãos e funcionários da Prefeitura se Pará e de Tailândia, todos os dias. Só então é que partiam para o
confirmaram. Com a interrupção das atividades no setor madeireiro, trabalho.
Tailândia mergulhou num declínio econômico inédito. Serrarias A Frente de Emergência foi apenas uma ação paliativa diante
e carvoarias demitiram em massa. Por tabela, a crise chegou ao de um oceano de problemas. A desesperança na população era
comércio local, que viu suas vendas desmoronarem e seu quadro de
69
Tailândia, Pará Prejuízos

generalizada, e Tailândia começou a assistir ao fenômeno da A Operação Arco Verde foi lançada oficialmente no dia 19 de
emigração. Muitos moradores abandonavam a cidade em busca de Junho de 2009, nas cidades de Marabá (PA), Alta Floresta (MT)
trabalho em outros lugares. As placas de “vende-se” penduradas em e Porto Velho (RO). Em Tailândia, o mutirão chegou no dia 25 de
frente às casas de madeira não pararam de proliferar pelos bairros. junho, exatos um ano e quatro meses depois do início da Operação
Com a cidade bastante visada após a forte repressão, muitas Arco de Fogo no município. Mesmo assim, a sensação dentro da
serrarias também se mudaram. Algumas foram para cidades Prefeitura é de certa insatisfação. Isso porque, se comparada aos
da região, outras partiram para novos estados. Mas várias ainda danos ocasionados pela Arco de Fogo, os benefícios da Arco Verde
continuaram em Tailândia, e um ano e meio depois da Operação foram de certa irrelevância.
Arco de Fogo, boa parte daquelas que foram paralisadas pela Em frente ao hospital municipal, montado em uma bicicleta azul
fiscalização já havia voltado a operar normalmente. com uma estufa de vidro acoplada na dianteira, Elton é um dos que
Diante do colapso socioeconômico decorrente de uma operação perderam o emprego após a Arco de Fogo. Ele tenta faturar algum
de sua autoria, e da grande repercussão nacional do caso, o Governo dinheiro vendendo salgados e sucos em saquinhos. Cobra por cada
Federal também tentou fazer alguma coisa. Ainda em março de 2008, um R$1,50 e R$0,50, respectivamente.
a pedido do presidente Lula, o Ministério do Meio Ambiente, em Homem baixo, de cerca de 1 metro e 60 de altura, jovem e
articulação com outros ministérios, começou a conceber o projeto articulado. Cursou a escola até a sétima série. Está em Tailândia
da chamada Operação Arco Verde. A ideia da operação é auxiliar há nove anos, vindo de Ourém, cidadezinha no extremo nordeste
as cidades da Amazônia Legal com alto índice de desmatamento a paraense. Veio pra trabalhar com madeira junto ao pai e os irmãos,
realizar a transição de um modelo de produção predatória para um que já deixaram a cidade. Elton vive com a mulher e o filho de oito
modelo sustentável. anos. Revela que também tem vontade de ir embora.
Para isso, funcionários de órgãos estaduais e federais começaram Com a onda de demissões na indústria madeireira no início de
a rodar por 43 municípios em esquema de mutirão, organizando 2008, perdeu a carteira assinada e dinheiro. Diz que seu ex-patrão
eventos abertos à população juntamente com as administrações deve a ele cerca de dois mil reais, entre férias e décimo terceiro não
locais. Nesses eventos, são praticadas diversas atividades, como pagos. Já foi diversas vezes cobrá-lo, todas em vão. “Tinha amigos
palestras de capacitação e orientação a produtores rurais, plantio na mesma situação que só receberam depois de fazerem ameaças.
de mudas, emissão de documentos e regularização fundiária. O Mas não quero brutalizar, isso não é do meu feitio”, afirma. Numa
Ministério do Meio Ambiente também anunciou a criação de linhas loja de eletrodomésticos da cidade, ele deve 70 reais por duas
de créditos para proprietários que desejem recompor áreas de prestações atrasadas de um fogão que comprou. Dívida que admite
reserva legal e de preservação permanentes. incomodar.
70 71
Tailândia, Pará Prejuízos

Desde a perda do trabalho, Elton se desdobra pra sustentar a um suco de maracujá, por sede. No fim, sensibilizado com sua
família. Chegou a fazer alguns serviços em madeireiras e diz que história, compro mais outro, por compaixão.
não foi pago. Partiu então sozinho para produção de carvão vegetal,
vendendo pequenas quantidades na rua. Às vezes, conseguia
produzir o suficiente para que fosse vendido para Marabá. Com o
12 de Março de 2010
pouco dinheiro que entrava, comprava feijão e lata de óleo. “No
início, só não passamos fome por causa da aposentadoria dos meus
sogros”, confessa.
No lançamento da Frente de Emergência, ele também encarou
a enorme fila de inscrição para candidatos. Mas não teve sorte.
Sua mulher já recebeu dinheiro do Bolsa Família, só que em outra
cidade, e, recentemente, o benefício foi cancelado.
Perguntado sobre a Arco de Fogo, Elton é taxativo em condená-
la. “Antes, quem ia buscar cestas básicas na Prefeitura eram as
mulheres. Depois da Arco de Fogo, os homens também começaram
a ir, muitos chorando”. No dia da “revolução”, que é como se refere
ao confronto entre população e policiais, estava na farmácia com a
mulher quando tiros de borracha começaram a ser disparados bem
ao lado. Ela começou a chorar e os dois partiram assustados em
retirada.
Passado mais de um ano, ele agora conseguiu comprar uma
bicicleta e vende salgados e sucos em frente ao hospital. Elton
conhece praticamente todos os médicos dali, além de pacientes e
seus problemas. Sabe dizer também quem é quem entre motoristas
e passageiros das caminhonetes importadas que saem do Fórum,
logo ao lado.
Durante a conversa, uma manhã quente de quinta-feira, compro

72 73
Posfácio

Diferentemente de como pensava de início, essa questão traz


consigo não só o debate sobre a preservação do meio-ambiente,
mas também toda uma história que envolve miséria humana,
migração em massa, expansão econômica e Ditadura Militar.
E foi aí, em meio a uma série de ponderações internas, que me fiz
Posfácio a fatídica pergunta: por quê não? Além do mais, era também uma
oportunidade de escrever um livro-reportagem, algo até então
inédito para mim.
Depois de tantas desventuras, infortúnios e procrastinação, Assim, inspirado nessa tríade de motivos (viagem, temática social
finalmente esse livro se torna realidade. Dois anos se passaram e nacional, livro-reportagem) e em um projeto semelhante de um
desde o nascimento da ideia, em alguma noite de pensamentos amigo, aceitei o desafio de tentar retratar a história e a atualidade
utópicos do início de 2008, até a colocação do último ponto final, de Tailândia em meu TCC.
nos derradeiros dias do Verão de 2010. Foi suado, foi penoso, mas
Desembarquei na cidade no dia 16 de setembro de 2009, uma
foi bonito.
quarta-feira, e lá fiquei por seis dias. Pouco antes, havia passado
A decisão em rumar para uma cidade do interior do Pará, uma uma semana em Belém, onde entrevistei funcionários da Secretaria
região idealizada por minha mente paulistacêntrica como parte do Estado do Meio Ambiente e do Ibama, além de ter aproveitado
dos confins do mundo, se baseou exatamente no desejo, comum pra conhecer um pouco da capital paraense.
a muitos jovens de minha geração e círculo social, de viajar por aí.
Posso afirmar, com grande grau de convicção, que Tailândia
De sair do eixo das cidades turísticas e percorrer lugares ermos,
me proporcionou uma das maiores experiências jornalísticas e
desconhecidos da maioria, mas que ainda assim tenham uma
pessoais que já tive. Foram dias singulares e marcantes, ainda que
história pra contar. Dentro dessa linha de raciocínio, poucos destinos
cansativos. Conheci o migrante rico, que saiu do Sul pra empreender
teriam sido melhores que Tailândia.
na Amazônia, e conheci o migrante pobre, que fugiu da miséria do
Descobri a cidade em 2008, pela mídia, durante a forte repercussão Maranhão pra tentar vender sua força de trabalho e sobreviver.
dos protestos do dia 19 de fevereiro. Era justamente a época em Cacei depoimentos, reconstrui eventos, andei por cemitério,
que precisava definir o que faria de meu Trabalho de Conclusão de conversei com o major da cidade. Ouvi histórias dramáticas, dignas
Curso (TCC). Pesquisando um pouco mais a fundo sobre o evento, vi de livros, andei de caminhonete importada, bebi água direto do
ali a chance de abordar uma temática de caráter social e de grande rio, visitei um canal de TV. Tive indisposição intestinal, inalei
interesse nacional, como é o caso do desmatamento da Amazônia.
75
Tailândia, Pará Posfácio

fumaça de carvão, matei barata, caminhei pelo interior da floresta. que vos escreve, jamais por má fé ou desleixo.
Constatei o quanto o Estado é importante para a vida de pessoas Muitas das dificuldades que me acometeram no decorrer do
completamente desamparadas. Plantei uma árvore. E encontrei trabalho foram devidas a certa falta de familiaridade com o tema
muita gente empenhada em tentar buscar soluções em meio a um Amazônia. Não sabia praticamente nada sobre sua história de
mar de problemas. De fato, Tailândia não está nada fácil depois da ocupação, nem sobre a lógica de exploração da madeira, e de
Arco de Fogo. repente tive que aprender. Algumas dúvidas surgiram também
Uma das aprendizagens mais significativas obtida dessa jornada em relação a questões mais técnicas, como legislação ambiental,
foi ter compreendido, com certa propriedade, como se dão as detalhes de engenharia florestal e funcionamento das operações
relações entre a indústria madeireira, o desmatamento da floresta do Ibama.
e o quadro socioeconômico da população. Descobri que madeira é Mas, no final das contas, acho que até que me saí bem para um
algo que dá muito dinheiro, muito mais do que sequer imaginava. escritor de primeira viagem. A despeito dos pontos negativos,
Pude testemunhar com meus próprios olhos a pujança material procuro ver este TCC mais como um laboratório para os próximos
dos beneficiados do ramo. Isso me deixou bastante claro o porquê projetos que eu venha realizar no futuro. Aí, já não serei mais
da violência na disputa por terras, o porquê de tantos migrantes um estudante de graduação, e sim um jornalista formado. A
pobres em Tailândia e o porquê de tantos relatos de corrupção responsabilidade será indubitavelmente maior.
generalizada de agentes públicos. A derrubada predatória de
árvores é um negócio altamente lucrativo.
Alguns trechos ficaram incompletos, com informações importantes
faltando. Isso se deveu ao fato de que algumas fontes não foram
ouvidas ou checadas como deveriam ter sido, seja por carência de
tempo hábil ou por omissão deliberada. Por esse motivo, tenho
consciência que para aqueles que leram essa história muitas
perguntas podem ter ficado sem respostas.
Já sobre as informações que entraram nessas páginas, o leitor pode
ter a certeza que tive o cuidado em tentar apurá-las o máximo que
pude. Sei que isso é um pressuposto básico do jornalismo e nem
precisaria ser ressaltado. Entretanto, se por ventura alguém perceber
algum absurdo escrito, saiba que foi por pura incompetência deste
76 77
Fotos

Fotos

Trecho da PA-150 que corta Tailândia

Passarela que corta a rodovia PA-150

Prefeitura de Tailândia

79
Tailândia, Pará Fotos

Prefeito Gilberto Sufredini (ao centro) Viveiro Municipal

Linhão de energia vindo de Tucuruí que passa por Tailândia Cemitério

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Tailândia, Pará Fotos

Área de reflorestamento com eucalipto Carvão vegetal

Fornos de carvão vegetal Lenha preparada para virar carvão vegetal

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Tailândia, Pará

Toras de árvores sendo transportadas

Casas colocadas para venda ou para troca

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