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to: trata-se de contrastar duas sensibilidades juridicas con- CAPÍTULO 1
temporâneas e ocidentais, representadas nos sistemas jurí-
dicos brasíleiro e dos Estados Unidos da América.
Por unla Antropologia do Direito, no Brasil1
Entretanto, relendo alguns dos textos, vejo que a argu-
mentação e o padrão interpretativo sofreram inflexões, des-
locando-se, pouco a pouco, de propostas de trabalho para
a descrição de modelos empíricos de sistemas juridicos Introdução
concretos (modelos de), para a construção de modelos
Antropologia se constitui como disciplina científica nos
ideais para o espaço público (modelos parai, enfatizados
quadros do pensan1ento social europeu do século XIX em
em momentos distintos, pelos sistemas jurídicos concretos
torno, dentre outras, das problemáticas obrigatórias do
que servem de base para sua elaboração.
"progresso" e da "evolução social". Competia à disciplina
Além dos agradecimentos já registrados, quero
assim constituída a tarefa de explicar as diferenças entre as
expressar minha dívida emocional, profissional e intelec-
diversas sociedades e suas instituições, em especial aque-
tual para com os pesquisadores do Núcleo Fluminense de
las pertencentes aos "povos exóticos" encontrados e domi-
Estudos e Pesquisas (NUFEP) da Universidade Federal
nados no mundo todo, pela Europa. Para cumprir sua tarefa
Fluminense, e àqueles que conosco colaboram, pois sem
desenvolveu metodologia própria, calcada inicialmente na
esse ambiente de trabalho seria impossível levar adiante
comparação de relatos elaborados por viajantes, missioná-
minhas atividades de pesquisa.
rios, militares, administradores coloniais etc. e posterior-
Sem mais delongas, coloco à disposição do público a
coletânea, esperando que de sua leitura Íaça bom proveito.
Eu fiz.
Originalmente publicado em Joaquim Falcão (org.). Pesquisa Científica e
Direito, Recife, Editora Massangana. 1983, pp. 89-116. Repubiicado em
Niterói, março de 2005. Arquivos de Direito, Nova Iguaçu, Universidade Iguaçu, Ano 2, nl! 3, v.l,
RobertoKantdeLilna 1999, pp. 223-253. No processo de sua elaboração, o autor agradece à ins-
piração dos professores Roberto DaMatta e Luiz de Castro Faria (póstu-
mo) do Departamento de Antropologia do Museu Nacional, UFRJ. A este
último, especial agradecimento pelas sugestões,empréstimo de material,
indicações bibliográficas e estimulos no que diz respeito à discussão
aqui empreendida sobre o 'Ihbunal do Júri.
Agradeço também a Renato de Andrade Lessa, do Departamento de
Ciências Sociais da Universidade Federal Flwninense, pelas preciosas
indicações no que se refere à tomada de decisões dos jurados e suas
implicações políticas mais gerais.
Aos Prois. Francisco José dos Santos Ferraz e Marco Antônio da Silva
Mello, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Flumi-
nense, e ao Prof. Augusto F. G. Thompson, da Faculdade de Direito da Uni-
versidade Candido Mendes, meus agradecimentos pelas sugestões, infor-
mações e apresentações sem as quais este trabalho não seria possivel.
Ao Professor Joaquim Falcão, a oportunidade de apresentar, discutir
e publicar primeiramente este trabalho.

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I'

Roberto Kant de Lima Ensaios de Antropologia e de Direito

mente naqueles obtidos através de observações direta, em das Ciências Naturais, preocupadas em descobrir leis que
traball10 de campo, de profissionais especializados. expliquem regularidades observadas.
A questão central da comparação, em torno da qual se A imensa diversidade de costumes encontrados em
organiza o saber antropológico, envolve uma série de pro- suas investigações permitiu à Antropologia o exercício crí-
blemas delicados e sutis. Na trajetória de sua constituição tico da construção de seu objeto teórico. A arbitrariedade
de muitas maneiras foram respondidas as' questões de o dos fatos culturais liberta a reflexão antropológica dos lia-
que, como e por que comparar. Essas respostas se sistema- mes da "Natureza", percebida e reencontrada em tão diver-
tizaram em corpos teóricos e hoje fazem parte do patrimô- sas formas e definitivamente classificada como invenção
nio da disciplina. O que llies é comum, no entanto, é que da "Cultura". O domínio do "natural" fica restrito apenas
aos fenômenos biológicos comuns aos indivíduos da espé-
embora dirigida para o conhecimento de outras sociedades,
cie humana. É apenas a base comum que nos permite a
do "Outro", a Antropologia é uma ciência européia e ociden-
ousadia de tentar entender tão fortes distinções e afirmá-
tal basicamente comprometida com os pontos de vista de
las compreensíveis e comparáveis. Os fenômenos de que
sociedade onde se tornou necessária sua constituição.
se ocupam as Ciências Sociais são de outra ordem, aqueles
A prática sistemática da comparação levantou desde
que significam e, portanto, aqueles que dizem respéito à
logo o problema das categorias do discurso antropológico,
vida.humana em sociedade, fundada na heterogeneidade e
comprometidas com as linguas e instituições ocidentais e
na oposição. Assim, é possível apreender que a "Econo.
por isso alvo de permanente suspeição de incapacidade de mia" nada tem a ver cqm o estômago, a "Religião", nada a
operar convenientemente a tradução do "Outro". Da dis- ver com o espírito, a "Política" nada a ver com o Estado, o
cussão surgiu uma permanente consciência crítica da dis- "Parentesco", nada a ver com instintos naturais, relações"
ciplina soLre seus próprios produtos intelectuais, que de sangue" ou sexuais, o Direito, nada a ver com Códigos
acaba por caracterizá-la e apontar-lhe papel da maior rele- ou tribunais.
vância metodológica no seio das Ciências Sociais. A armadillia, no entanto, está posta: como pensar
As vicissitudes e avanços do método comparativo aca- outras sociedades em termos comparativos senão em ter-
baram por permitir que a Antropologia assuma integral- mos dessa compartimentalização inventada por nós para
mente seu papel: utilizando-se do conhecimento das dife- pensar nossa vida social dividida nesses domínios defini-
renças entre as sociedades humanas, "estranhar"sua pró- dos? Fica clara a impossibilidade de resolver o dilema da
pria sociedade, descobrindo nela aspectos inusitados e Antropologia em seus termos de nossas categorias, mas
ocultos por uma familiaridade embotadora da imaginação pode-se mellior entender nossas categorias e nossa socie-
sociológica. Ao compreender que o discurso comparativo é dade ao perceber como elas são exclusivas e arbitrárias, ao
um discurso fundamental valorativo, enunciado por um em vez de "gerais" e "naturais". Cumpre-se a vocação pri-
sujeito preso a um sistema de valores (o antropólogo) sobre meira da Antropologia oculta por tanto tempo em seus
um sujeito também enredado em um sistema de valores (o disígnios explicitados de conhecimento do "Outro". Com a
"objeto" de estudo), a Antropologia pode afirmar sua natu- Psicanálise tradicional ela forma os limites do conhecimen-
reza crucialmente interpretativa, separando-se definitivo to que se instituiu em torno do Homem, embora com opos-

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Roberto Kant de Lima £n:::;aius de AlltropoJüÇ)la e de Direito

tas trajetórias: A Psicanálise procurando o conhecimento semelhantes às nossas. Esse processo, mais ou menos
do "Eu" para entender o "Outro", a Antropologia buscando velado, mais ou menos etnocêntrico, oculta sistematica-
o conhecimento do "Outro" para entender a si mesma. mente um dos pólos da comparação: a sociedade do obser-
Tais reflexões tornam-se possíveis condicionadas por vador, seus valores e instituições. A rigor, não se trata de
fatores muitas vezes independentes das correntes teóricas um esforço de conhecimento, mas de re-conhecimento, de
centrais da' disciplina. A formação de quadros de observação de possíveis reflexos do observador no obser-
Antropólogos profissionais nas sociedades periféricas aos vado. A reação ao não encontrar o "mesmo" é sempre valo-
núcleos de produção do saber científico impôs tarefas das rativo-negativa: ou contra a sociedade do observado, apon-
mais difíceis a esses profissionais, pois a Antropologia evi- tada como "pervertida" e "impura" diante de supostas ino-
dentemente não conseguiu produzir nenhum estudo etno-
cências e "naturalidade" perdidas.
gráfico de peso sobre a própria Europa ou os Estados
O recapitular da trajetória antropológica no estudo do
Unidos. Isso faz com que a medida e o padrão ocultos da
Direito passa por extensa enumeração e crítica de traba-
comparação, tão "natural" para as sociedades centrais,
lhos de variada tradição intelectual em especial aqueles
seja inexistente para quem tem sua origem cultural nas
realizados na França, Alemanha, Inglaterra e Estados
sociedades periféricas. Há que constituir um espaço teóri-
Unidos. Não é meu objetivo aqui enumerá-los, catalogá-los
co que viabilize a conjunção do saber antropológico com c
e criticá-los exaustivamente. Aqueles que por essa tarefa
saber nativo através de seu produtor, ele mesmo antropólo-
se interessem devem consultar algumas resenhas disponí-
go-nativo. A relação sujeito-objeto de conhecimento, já
; complicada na Antropologia porque seu objeto é também veis (Nader, 1965; Moore, 1978). Meu objetivo será fazer
um sujeito de valores, complica-se ainda mais quando ü uma reflexão metodológica, a "posterior", sobre algumas
sujeito-antropólogo pertence ao sistema nativo e sua tare- das tendências que se verificaram na especialidade, no
fa é produzir um discurso por todos compreensível. intuito de obter material que possibilite a formulação de
Os problemas que se colocam para a disciplina antro- sugestões para seu possível desdobramento.
pológica continuam extremamente excitantes e traçar-lhe a O início dos reflexos antropológicos sobre o Direito ve-
trajetória futura é sempre arriscar o incógnito e a surpresa. rifica-se nos quadros do evolucionismo social do século
A tarefa se impõe, no entanto, ainda mais devido ao papel XIX (Maine, 1861; Bachofen 1861; Maclennam, 1865;
crítico desempenhando por esse saber frente às outras dis- Durkheim, 1893). Tal perspectiva teórica, mais ou menos
ciplinas das Ciências Sociais. nítida de acordo com tendências intelectuais individuais,
caracteriza-se por atribuir ao tempo a responsabilidade
A Tradição Antropológica e o Estudo do Direito por transformações necessárias vistas como" estágios" de
evolução social. Mais ou menos oculto nessa perspectiva,
Como já foi apontado, o estudo dos "compartimen- dependendo do autor, está o fato de que no topo da esca-
tos "(Economía, Religião, Parentesco, Política, Direito, etc.) la evolutiva situam-se sempre formas "superiores" e "com-
foi estendido à investigação de outras sociedades onde plexas" de organização social encontradiças na sociedade
sempre se procurou identificar instituições e práticas do observador.

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Roberto Kant de LiIna Ensaios de Antropologia e de Direito

Exemplo quase caricatural dessa tendência teórica çao (como o parentesco australiano, por exemplo) aliados a
pode ser encontrado no texto de Morgan sobre a "Socie- economias de tecnologia r:;onsiderada não sofisticada e
dade Primitiva", vulgarizado por Engels em seu trabalho "primitiva" (mas eficaz...) como é a dos aborígines austrd-
sobre as origens da família, da propriedade privada e do lianos. O que ficou desta perspectiva, algumas vezes rotu-
Estado (Morgan, 1877; Engels, 1884, Leacok, 1978;), lada de "evolucionismo unilinear do século XIX" ou de
Morgan imagina a Humanidade evoluindo em uma única "falso evolucionismo" (Lévi-Strauss, 1960),foi a certeza das
linha evolutiva que pode ser dividida em estágios denomi- dificuldades em se tentar estabelecer linhas gerais que
nados de "selvageria", "barbárie" e "civilização", cada um dêem conta da evolução supostamente uniforme de todas
deles dividido em inferior, médio e superior de acordo com as sociedades, ou da "Humanidade", como foi possível
característica tecnológicas distintas, escolhidas, obvia- estabelecer no campo da Biologia em relação à espécie
mente, por Morgan. No topo do esquema evolutivo, a "civi- humana. Na mesma medida em que se acentuou a unidade
lização superior", estava "naturalmente" a sociedade vito- psíquica do homem, considerando-o genericamente apto a
riana do século XIX, monoteísta, parlamentar, monogãmi- atingir os diferentes "estágios" evolutivos, acentuou-se o
ca, capitalista, contratual e, claro, conhecedora e aprecia- vínculo entre as diferentes instituições e dominios das rela-
dora das teorias do autor. No estágio mais "baixo" estava ções sociais, embora considerando-as erroneamente como
a "selvageria inferior", que era exatamente o oposto disso, interligadas de maneira necessária e sucessiva.
caracterizando-se por "promiscuidade sexual", "comunis- A questão fundamental na Antropologia do Direito
mo primitivo a, "anarquia" política e jurídica," supertições" , nesse quadro teórico era como descrever e classificar as
incoerentes etc. É evidente que nunca nenhuma evidência diferentes formas de controle social bem como descobrir a
empírica foi encontrada da e}ristência dessas formas desor- origem e leis de seu desenvolvimento. O modelo do falso
ganizadas de vida humana em sociedade. evolucionismo quando empregado nesta tarefa opera duas
O esquema se revelou absolutamente fantasioso na reduções arbitrárias: a primeira, de ordem especial, colo-
medida em que foram ficando disponíveis mais e mais cando o espaço europeu no espaço dos outros continentes;
informações sobre as sociedades ditas "primitivas", em a segunda, temporal, ao tornar civilizações e sociedades
que ficou patente a necessidade de, no mínimo, proceder- contemporâneas no passado europeu, negando-lhes, desta
se à criação de vários esquemas evolutivos para dar conta maneira, a História. Os costumes, culturas, regras de con-
da diversidade do desenvolvimento das culturas e socieda- duta, diferentes da sociedade européia são o "Outro", o
des humanas. A utilização do critério tecnológico como re- "Exótico", o "Estranho", a quem não se reconhece o direi-
dutor das demais esferas das relações sociais, admitindo- to de existir diversamente. Toda a diferença é reduzida
se, de início, que à simplicidade tecnológica correspondem temporal e espacialmente em um processo de reconheci-
simplicidades políticas, jurídicas, religiosas, de parentes- mento de reflexos de uma mesma sociedade, identificada
co, etc., também não sustentou. Sem entrar na discussão como detentora da única Humanidade possível.
de que a técníca se mede por sua eficácia e adequação a Herdeiros intelectuais e sofisticados dessa perspecti-
contextos dados e não por sua sofisticação, encontraram- va são os esquemas evolucionistas lllultilineares, que esta-
se sistemas culturais de extrema complexidade e sofistica- belecem tipologias distintas de evolução social para dife-

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Roberto Kant de Li1Jl;, £ns~Ji0s de i\..fnrupologia e de Direito

rentes grupos ou tipos de sociedades. A par da insistência o catalogo dessas ..ausências" vai então ser preenchi-
na redução tecnológica para definir a evolução, essas pers- do por observação direta, "in loco", quase sempre longa,
pectivas estão em geral associadas intimamente as cate- participante e envolvente, que tem fundéUnentalmente a
gorias e instituições de nossa sociedade. As coisas. afinal, conseqüência genérica de transformar esse "Outro" exóti-
sempre evoluem do simples para o complexo, senào sim- co em algo cotidiano e familiar. Teoricamente, a conseqüên-
ples o que ê "indiferenciado", ..homogêneo", "descentrali- cia é a incorporação das teorias sociais nativas ao discurso
zado", "não-especializado", etc. antropológico, até mesmo como pano de fundo para consi-
Assim são sistematicamente construídas as tipologias derações de ordem mais geral que envolvem a sociedade
que apontam para o crescente "progresso" das sociedades do observador.
no sentido da especialização de suas funções jurídicas, co- A marca dessa reflexão é a compreensão da inter-rela-
mo é o caso daquelas em que podem ser encontrados me- ção dos fenômenos sociais, que não podem ser explicados
diadores, árbitros, juízes, tribunais, códigos, etc. (Diamond, separadamente, atomizadamente, mas devem sempre ser
1935, 1951, 1965; Hoebel, 1954; Gulliver, 1963; BohéUman, referidos a seu contexto e significação específicos. Sem
1957, 1965, 1967).Como aponta Clastres sobre a discussão abandonar as categorias em que compartimentalizamos
da origem do Estado na Antropologia Política. continua-se nossa sociedade, passa-se a reconhecer a funcionalidade e
a lidar das "ausências" para as "presenças" no próprio a interdependência dos tatos sociais. O direito aparece
idioma da disciplina (Clastres, 1974).O pensamento social, como um caso privilegiado de controle social, não só para
encarregado da tarefa de descobrir, classificar e comparar reprimir comportamentos indesejáveis mas também como
o exótico, reproduz em suas categorias a fala do etnocen- produtor de uma ordem social definida. A instância jurídi-
trismo. À semelliança de nossos descobridores, que vêem ca não só reprime, mas produz (Malinowski, 1922, 1926,
nossos "índios" apenas "sem lei nem rei" apesar de seus 1942;R.aàcliffe-Brown,1952),
vinte mil anos de civilização, qualificam-se sempre as A percepção da diferença, entretanto, leva freqüente-
sociedades diferentes de "simples" e " primitivas" por defi- mente este tipo de reflexão a dilemas insolúveis: Um deles,
nição e obrigação, imputando-lhes as ausências: socieda- a constratação teoricamente inútil de que as coisas em
des sem Estado, "sem escrita", "sem instituições jurídicas uma sociedade "funcionam" de uma determinada maneira,
especializadas" etc. embora diferentemente em cada urna delas, o que apenas
O método antropológico traz suas surpresas, no entan- nos garante que as sociedades têm estratégias próprias de
to. Eis que a princípio a maioria das informações dispOlÚ- reprodução. A garantia da especificidade é, no entanto, ini-
veis sobre sociedades "não européias" eram catalogadas bidora da generalização. Descarnba-se muita vez em um
por não especialistas, em geral envolvidos de alguma relativismo radical que implica admitir a impossibilidade
forma com a sociedade descrita em virtude de suas ocupa- do saber antropológico pela inviabilidade da comparação
ções como missionários, militares, viajantes, administrado- entre heterogeneidades irredutíveis (Bohannan, 1957,
res coloniais, etc. A constituição da Antropologia como um Gluckman, 1965).Tais posturas algumas vezes até mesmo
campo legitimado do saber social vai tornar possível a parecem ignorar o fato de que nas raízes do saber antropo-
transferência desta tarefa para antropólogos profissionais. lógico está a dominação política dessas sociedades, que é

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Roberto Kant de Lima
Ensaios de Antropologia e de Direito

preciso melhor conhecer para mellior controlar. Acoberta- apenas e sempre mais uma de suas alternativas viabiliza-
dos na razão instrumental, prática, em que tudo é "útil" da concretamente.
quando "funciona", confundam-se os objetos de análise, A própria sofisticação da técnica antropológica na
nas Ciéncias Sociais voltados para a interpretação de sig- construção de seus objetivos concebidos como manifesta-
nificados somente possíveis na diferença e não para a des- ções que se atualizam de maneira particular em certos
coberta de regularidades e semelhanças organizadas em lugares, de onde as sociedades se oferecem melhor à com-
tipologias, infinitamente ameaçadas por subcategorias da preensão, permite a discussão mais rica em termos da
diversidade, como em imensa coleção de borboletas. O questão da generalização sociológica. Embora estudando
"Outro" resgata sua identidade às custas de uma diferen- um lugar em que o método o leva a trabalhar em "pequena
ça irredutível que nada nos pode ensinar. Na esteira dessas escala", não é esse o seu "objeto" embora como tal muitas
reflexões etnocêntricas e colonialistas estão as tentativas vezes fosse tomado. Não está ali estudando "um sistema
de "preservação dos objetos de "pesquisa" em seu "esta- de parentesco", "um sistema jurídico", "uma comunida-
do natural", a saber, as sociedades e costumes "primiti- de", sobre os quais enunciará um discurso limitado pela
vos" e "tradicionais", como se o próprio reconhecimento e sua "pouca'! capacidade de generalizar. A passagem da
instituição de sua existência não fossem já sua incorpora- quantidade à qualidade não é empírica, mas teórica. É por-
ção e utilização. Como se a "invenção" dessas sociedades que está estudando "em um tribunal", com experiências
como objeto de poder-saber já não fosse a antecipação de específicas e concretas, estabelecendo relações que se
sua dominação. podem exprimir em "casos" e a partir deles, é quê a expe-
O aprofundamento metodológico da questão da com- riência qualitativa da Antropologia é geral e desvendadora
paração leva a outros caminhos o problema da diversidade. da capacidade das generalizações ocas e das especificida-
Após tornar o "exótico", semelhante, mas" primitivo" , para des rasteiras.
depois torná-lo familiar, mas "diferente", há que tornar o É assim que a Antropologia volta seus olhos para for-
familiar, exótico, e finalmente realizaI"em sua plenitude a mas de Direito das "sociedades complexas", munida de
proposta do saber antropológico de contemplar-se com os toda essa trajetória crítica. Incrementa-se o exercício da
olhos do outro, implodindo, deftnitivamente, a "Natureza" diferença dentro da própria sociedade, refunda-se as classi-
na "Cultura". A diferença é um artefato heurístico vivido ficações sempre etnocêntricas a que está submetida em
em fenômenos específicos e experimentado de maneira sociedades modernas, urbanas e industriais, divididas ou
intensa nessa operação da experiência para o conhecimen- não em classes sociais. Refutam-se os adjetivos de "tradi-
to. O processo de produção do saber é uma eterna segmen- cionais" "primitivos", "embrionários", para rotular as for-
I

tação de um "Sujeito", que torna sempre possível mais mas dominadas de saber existentes nas "sociedades com-
uma divisão, produtora de diferença e de oposições signifi- plexas"; mostra-se dinâmica da complerrtentaridade e a
cativas, passíveis de novas interpretaçõ&s. A "Humanida- lógica paradoxal da construção das identidades em socie-
de" originalmente objetificada, após diluir-se em infinitas dades divididas. Questiona-se o mitq da centralização e
combinações de "sociedades", recupera-se na instância do progressiva racionalização das práticaS do poder, que ocul-
específico, da construção da interpretação daquilo que é ta sua capacidade de inscrição e homogeneização de unida-

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Roberto Kant de Lima
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Ensaios de Antropologia e de Direito


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des sociais, súbita e surpreendentemente identificadas com denominar de "observação participante". O fato de que a
"indivíduos" erigidos em sujeitos de direitos e obrigações. Antropologia tenha privilegiado sociedades de tradição
Põe-se a nu os paradoxos encerrados na percepção do oral ("sem escrita" ...) fez com que esse aspecto do método
Estado como "organizações" e sua imagem de todo homo- etnográfico fosse privilegiado, em especial nas tradições
gêneo e centralizador: quanto mais complexa a sociedade, Inglesa e Americana do Norte.
tanto mais centralizada, mas tanto mais camadas de regras, Mas a reflexão etnográfica sobre textos tem também
e mais adjacentes, nlli'Ilerosas e diversas as jurisdições, ins- seu lugar no saber antropológico, o desvendar de sua lógi-
tâncias e campos autônomos. À aparência de centralização ca e das categorias centrais que o organizam, acompanha-
e controle racional corresponde uma efetiva delegação no mento ou não de observação participante, tendo sido obje-
governo e na administração, constituindo-se mais áreas de to de especial atenção por parte, por exemplo, de Marcel
discrição e semi-dutonomia mas assim constituídas subpar- Mauss e seus discípulos. Em a.nbas as sitcações, entretan-
tes da sociedade, sejam formalizadas ou informais. to, a boa técnica é a mesma: utiliza-se o familiar para esta-
Acima de tudo, entretanto, o olhar antropológico é crí- belecer diferenças e dele descobrir significados insuspeita-
tico e impiedoso com seus próprios produtos intelectuais e dos, que aparecem por contraste onde haviam sido confun-
aqueles das suas companheiras Ciências Sociais. A perma- didos pelo olhar opaco da familiar idade 'cotidiana.
nente etnografia de seu próprio conhecimento, o desvenda- A contribuição que se pode esperar da Antropologia
mento das categorias que organizam seu saber e sua siste- para a pesquisa jurídica no Brasil selá evidentemente vin-
mática implosão são os objetivos definitivos da Antropolo- culada à sua tradição de pesquisa. Desde logo há a advertir
gia, enquanto disciplina científica. que o estranhamento do farniliar é um processo doloroso e
esquizofrênico a que certamente não estão habituadas as
A Contribuição da Antropologia para a Pesquisa pessoas que se movem no terreno das certezas e dos valo-
res absolutos. A própria tradição do saber jurídico no Brasil,
Jurídica
, no Brasil
dogmático, normativo, formal, codificado e apoiado numa
concepção profundamente hierarquizada e elitista da socie-
A tradição antropológica prima, como se viu, por incor-
dade refletida numa hierarquia rígida de valores autode-
porar aspectos de seu objeto de estudo a suas reflexões
monstráveis, aponta para o caráter extremamente etnocên-
teóricas. Tal tarefa se realiza no plano prático pela utiliza-
trico de sua produção, distribuição, repartição e consumo.
ção do método etnográfico, cujo ponto central é a descrição
Constitui-se, mesmo, o "mundo do Direito" em domínio
e interpretação dos fenômenos observados com a indispen-
afirmado como esfera à parte das relações sociais, onde só
sável explicitação tanto das categorias "nativas" como
penetram aqueles fatos que, de acordo com critérios formu-
aquelas do saber antropológico utilizado pelo pesquisador.
lados internamente, são considerados como juridicos. Essa
Talmétodo pode exercer-se não só sobre fenômenos sociais
de que participa diretamente o observador como também identidade formal do objeto a que devo dirigir minha refle-
sobre quaisquer produtos culturais de uma dada socieda- xão tem conseqüências imediatas. É evidente o fato de que
de, o que incluí tanto discursos orais como escritos. A con- seus contornos nítidos apontam para facilidades empiricas
vivência e participação na vida dos grupos costuma-se na definição preliminar de meu campo de análise, como

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f Roberto Kant de Lima Ensaios de Antropologia e de Direito


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representado pelo "nativos": o Direito é ensinado em Fa- domínio destes aglutina diferentes saberes eventualmente
culdades de Direito, que usam tratados didáticos sistemáti- incompatíveis. O mito da coerência e sistematicidade do
cos em que se inscreve seu saber e formam profissionais Direito serve a sua instituição como saber dogmático e
que praticarão atividades classificadas de jurídicas, em fonte de poder.
lugares também determinados e específicos, como tribu- O problema de que o direito de uma sociedade capita-
nais, delegacias, cartórios, etc. A essa aparente facilidade lista tem características comuns a todos os Direitos de
se opõe, de imediato, a questão de que essa nítida definição todas sociedades capitalistas, em especial àquelas que
de limites não pode ser tomada ao pé da letra se quero exer- apresentam configurações jurídicas semelhantes, não frus-
cer coerentemente a observação antropológica: se as agên- tra meu ímpeto antropológico. Pelo contrário, o discurso da
cias específicas tratam do Direito, elas não tratam, certa- antropologia é sempre ancorado em uma experiência espe-
mente, só do Direito. É óbvio que os profissionais do Direito cífica, onde se descobrem aspectos inusitados dos signifi-
estabelecem uma teia de relações entre si e com os grupos cados sociais que se querinterpretar. Se o fato de por estar-
que os circundam, que as Faculdades se ligam a ministé- mos estudando em uma sociedade capitalista e dependen"
rios, que os Cartórios e Delegacias não são apenas instân- te um Direito adequado a essas condições gerais não pode
cias "auxiliares" do "Poder Judiciário", etc. Impõe-se tam- ser ignorado, não se deve recusar o conhecimento de suas
bém raciocínio inverso. A experiência antropológica ensina especificidades para melhor exercitar nossa tarefa socioló-

I
que o Direito é parte do controle social, que reprime mas gica (Da Matta, 1979, especialmente Introdução).
também pedagogicamente produz uma ordem social defini- Minha reflexão passará a se desdobrar em torno de
da, embora freqüentemente desarmônica e conflituosa. Se o três eixos, procurando apontar para as perplexidades que
estudo dos Tribunais e demais agências especializadas não i nos esperam no decorrer de uma etnografia: o primeiro
é só o estudo do Direito, o estudo do Direito também não se l deles, a questão do saber jurídico, como se constitui e
baseia no estudo dessas agências especializadas. Mais: é I reproduz no Brasil; a segunda, a questão da aplicação
desse através de instituições e práticas especializadas; a
inútil tentar compreendê-las sem contextualizá-Ias.
Preliminar à investigação é também a própria repre- terceira, a questão da relação entre esse saber jurídico e
sentação que o Direito tem em nossa sociedade. O que ele sua aplicação e os outros saberes jurídicos éventualmente
representa para a sociedade brasileira, quais são as expec- existentes na sociedade e por eles dominados, onde se
tativas que se tem em relação a seu significado e papel e coloca basicamente o problema do acesso ao Direito.
aos das instituições judiciárias em geral? Os dados utilizados provêm de minha experiênCia
O Direito, também, não pode ser visto como um saber como aluno e bacharel em Direito (1964 - 1968), de uma
monolítico. Ele estará necessariamente fragmentado em curta experiência de campo no Pará (1977) e de dados reco-
düerentes codificações substantivas e processuais, desco- lhidos em pesquisa de campo que realizo atualmente no
bertas atrás de uma aparente homogeneidade: os princí- Estado do Rio de Janeiro desde setembr<>de 1981. Como
pios que informam o Direito Fiscal, 'lIibutário, Trabalhista, pano de fundo atua certamente minha recente permanên-
Penal, Comercial, não são os mesmos, nem se aplicam nos cia nos Estados Unidos, que me serve de padrão de con-
mesmos contextos, 'lIibunais e casos concretos. Cada traste (1979-1981).

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,
I
Roberto Kant de Lima
Ensaios de Antropologia e de Direito

Quanto à questão do saber jurídico, é preciso primeiro ameaçadoras a nossos desígnios imediatos porque contra-
defini-lo não como saber restrito e especializado a ocupar ditórios. difusos. desordenados e implícitos. Há sempre a
espaço limitado dentro da sociedade brasileira, mas como possibilidade de que desconheçam normas (em geral, de
saber que se difunde e pervague todas suas esferas e formal e "obrigatório" conhecimento de todos) que possa
camadas sociais, enquanto sistema de representações ser subitamente invocada para nos impedir (ou favorecer ...)
sobre a sociedade, seus fundamentos e seu modo de exis- uma atividade muitas vezes corriqueira e diuturnamente
tência e operação. Nesse sentido constitui-se em represen- repetida. Nossa única possibilidade de sucesso, então,
tação consensual, em termos formais, dos formatos que deixa de repousar em nossa única possibilidade individual
organizações em geral devem incorporar, por exemplo, e coletiva, para deslocar-se sistematicamente para a habili-
desde times de futebol a empresas públicas. A manipula- dade e prestígio de nossos patronos do momento, capazes
ção técnica desse saber pertence a uma hierarquia de de sempre e sistematicamente "controlar" a situação, mas
especialistas que com maior ou menor eficiência "expli- dificilmente de fazer valer nossos direitos.
cam" o arcabouço jurídico em que estamos envolvidos em Essa prática geral, que poderíamos rotular de cliente-
lística e hierarquizante em nosso cotidiano. pode ser obser-
nossas atividades cotidianas.
Conseqüência imediata dessa situação é o sentimento vada em sua produção e reprodução nas instituições "jurí-
comum de que a ordenação de nossas atividades não é dicas" de maneira geral e. em especial. nas Faculdades de
algo passível dt:!surgir de um consenso imediato entre os Direito. Esse é o lugar por excelência da instauração e
diretamente interessados, que contratualmente estabele- constituição explícita desse saber e de suas formas de ope-
çam regras para sua convivência, mas deverá sempre ser ração. Por essas instituições e por seu processo socializa-
fruto de uma" adequação" a de~coIlhecidas fórmulas dor passam. no Brasil. não só os profissionais do Direito,
legais para que possa ter eficácia. Por isso esse saber é um como jUízes. advogados, promotores e juristas, mas tam-
poder difuso mas nem por isso menos eficaz em produzir bém delegados, escrivães, policiais, funcionários públicos,
conteúdos e orientações formais para a ação social de uma donas de casa. empresários. políticos, enfim membros os
maneira geral. Seu exercício é instrumental e formal em sua mais diversos das camadas dominantes e dominadas da
capacidade de agregar conteúdos aparentemente contra- sociedade. que ali vão em busca de "status" e reconheci-
ditórios em tomo de eixos de significação específicos, des- mento social em seus respectivos grupos de referência.
tinados a "resolver" paradoxos observados em casos parti- Mas, se o obtém. será sempre à custa da iniciação nessas
culares. Incorpora facilmente outros saberes, atualizando- práticas dogmático-formais de representar a sociedade

I se, sem perder suas propriedades fundamentais, que não


residem exclusivamente em seu conteúdo mas nas formas
de sua utilização como poder.
Sua impregnação na sociedade brasileira, que se repre-
senta legalista e formal, evidencia-se em nossa prática
ideal como um conjunto de lógicos em harmonia com razão.
que detém. em princípio. um conhecimento definitivo sobre
as origem e o conteúdo das formas de vida humana em
sociedade.
Na prática, essa socialização se complementa tecnica-
social densamente povoada de normas, regulamentos, arti- mente no cotidiano do exercício profissional. mais ou
gos e parágrafos que pairam em existência ainda mais menos bem-sucedido de acordo com as posições que se

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16
Roberto Kant de Lima Ensaios de Antropologia e de Direito

consiga ocupar em uma estrutura hierarquizada e corpora- pesquisa jurídica, tornando conscientes processos que se
tiva que é como se representam organizadas as profissões ocultam atrás de formalismos que apenas podem servir ao
jurídicas. A Faculdade, sempre "acusada" de ineficaz para reforço do arbítrio e da exploração em nossa sociedade.
o ensino da "prática do direito", cumpre eficazmente seu Autores e situações citadas, portanto, são aqui considera-
papel de socializar, iniciar, consagrar e ampliar para além dos como representativos de uma situação geral, nenhum
da esfera propriamente jurídica as representações consen- propósito havendo além do interesse acadêmico na inter-
suais ali apresentadas como parte de uma "Ciência do pretação de nossa sociedade, na exposição e discussão
Direito". nesse doloroso processo de estranhamento.
O saber assim produzido será a base na qual se fun- O primeiro exemplo dirá respeito à área de parentesco,
damentarão leis, regulamentos, sentenças e acórdãos judi- por guardar íntima relação com a tradição de estudos de
ciais, pareceres e projetos políticos, inclusive aqueles de minha disciplina. Na Antropologia Social se estabeleceu
ordem constitucional, assim como a chamada doutrina - em definitivo a convicção de que o parentesco é um fenô.
princípios básicos que orientam a prática supostamente meno social, que diz respeito à organização de grupos den-
técnico-jurídica. Mas também será a base em que serão tro da sociedade, em termos de direitos, obrigações, atitu-
exercidas atividades "extrajurídicas", como as policiais, de des, residências, alianças, inclusão e exclusão de mem-
serviços públicos e particulares, de associações e organiza- bros. Nada tem a ver, portanto, com "instintos individuais"
ções particulares, consciente ou incoscientemente. ou com "leis naturais" (Lévi-Strauss, 1959, entre vasta bi-
A forma de instituição desse saber implica aparente bliografia).
distanciamento formal da realidade social, que tem que ser Mas em consagrado texto de Filosofia do Direito, lar-
atingida por sucessivas operações de redução lógica a suas gamente utilizado nas cadeiras de "Introdução à Ciência
configurações normativas. É a realidade que se deve adap- do Direito". obrigatória no currículo das faculdades, como
tar, em cada caso, ao Direito. O que nos coloca diante da legi- comprova sua 2~ edição de 1980, encontra~se exposição
timidade dos processos de constituição dessas representa- sobre a "origem da família". O autor faz referência, sem
ções. Cabe a nós antropólogos explicitar os mecanismos que contextualização cultural alguma, a casos de "promiscui-
informam as regras de operação desse saber. dade" entre melanésios para exemplificar supostas diver-
Fara demonstrar como percebo operando a relação gências entre antropólOgos e sociólogos quanto ao "estatu-
entre o conteúdo desse saber e a legitimação de práticas to originário das relações sexuais na espécie humana",
sociais em nossa sociedade, deverei exemplificar com duas (Lima, 1980:17).Segundo ele, alguns admitem a existência
situações em que o saber jurídico, através de princípios de um alegado estado de "promiscuidade" e "comunismo
doutrinários, se inscreve em instituições judiciárias e recu- sexual" anterior à constituição da família, como Gunther
sa o que explicitamente se propõe, regular "juridicamente" (autor que não merece nenhuma indicação bibliográfica
o comportamento social através de regras gerais a todos assim como todos os demais, impossibilitando qualquer
aplicáveis, fundamentadas em princípios explícitos. Ao dar tentativa de conferência, contextualização e discussão aca-
tais exemplos pretendendo contribuir para uma explicita- dêmica de suas afirmações, tomadas dogmaticamente,
ção do tipo de contribuição que a Antropologia pode dar à portanto), enquanto outros (sem indicação) afirmariam o

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Roberto Kant de Lima

"patriarcado" como mais antiga forma de família. Está for-


f
r
Ensaios de Antropologia e de Direito

mos ou não de acordo com ele. Pois, se um pai ajuíza uma


necida e estabelecida a fórmula evolucionista de pensar a
I'r causa para livrar-se do pagamento de pensão ao filho, por
instituição familiar em termos de organização de suas este ter atingido a maioridade, o filho, embora parte socio-
regras. Após dissertar sob formas de casamento poligâmi- lógica e crucialmente envolvida no processo, dele não é
cos, o autor volta a fazer citações. E os autores escolhidos parte legítima, formalmente falando, pois o pacto que esta-
são Westermarck e Briffault, o primeiro afirmando a exis- beleceu pensão foi firmado entre mulher e marido, na mino-
tência de um "instituto monogâmico" enraizado na nature- ridade do filho. Embora se comprovando a necessidade da
za humana e o segundo, que estabelece em relações tran- pensão a despeito da maioridade, o argumento formal pre-
sitórias e "promíscuas" os aspectos predominantes das valeceu, sendo decidida favoravelmente ao pai a causa,
relações entre os sexos no "estágios inferiores da cultura" realmente ajuizada no Estado do Rio de Janeiro em 1982.
(Lima, 1980). Onde, então, buscar a legitimidade das regras capa-
Outro tratadista, especialista em Direito de Família, zes de assegurar orientação' segura para este domínio
ensina que o parentesco "natural" decorre apenas da con- supostamente "natural" do parentesco, que em nossa
sangüinidade, sendo pai e filho,por exemplo, "parentes na- sociedade se apresenta, por isso mesmo, como de domínio
turais"; seu parentesco foi criado pela própria natureza, do Direito Público, regido por normas rígidas e não contra-
através do sangue (Monteiro, 1964:242).Os vínculos sociais tuais? Pois a característica desse saber é também ser
e os direitos e obrigações jurídicas que decorrem da relação impermeável ao exame concreto e empirico das condutas,
de parentesco, estritamente sociais, parecem ter sua legiti- a pretexto de dirigi-las. Assim, uniões que não se realizam
mação na Natureza. Numa suposta natureza humana segundo as "formalidades legais" também não são admiti-
encontram também justificação os estabelecimentos arbi- das ao Direito em suas condições particulares, pois estas
trários das várias idades em que se adquire a responsabili- fazem parte de um elenco limitado, de enunciação restrita.
dade civil e a habilitação para a plena capacidade jurídica. "Contratos de casamento" que pude manusear no Pará, em
Na prática, o que esse saber faz é veicular certas que estipulam condições para uma vivência temporária de
representaçõt;s, oriundas de concepções acríticas dos fenô- um casal com explicitação de (leveres e direitos mútuos e
menos sociais, de maneira dogmática. Como é esse saber compreensíveis para ambos os contraentes, inclusive no
que vai ser invocado na confecção das leis, e preencherá as que diz respeito a serviços sexuais, econômicos e sociais a
justificativas que serão apresentadas em juízo, ele tenderá serem prestados por ambos os cônjuges, são elaborados e
a reproduzir concepçôes etnocêntricas e ultrapassadas das "registrados" em cartórios ou escritórios de advogados.
instituições sociais. Mais que isso, ele é ensinado hoje, nas Servem para fundar relações duradouras e explicitamente
Faculdades, como atual e base para a realização da finali- controladas pelas partes, uma vez que renovam ou não
dade do Direito como habitualmente definido: campo de periodicamente o pacto, alterando-o ou não. A garantia da
estabelecimento do dever social. vigência, entretanto, é de ordem puramente social, consti-
Entretanto, a operação dessas premissas de conteúdo tuindo-se em geral em impedimento de contrair novo pacto
discutível não se constitui nem ao menos em regra geral na comunidade em virtude de perda da credibilidade da
pela qual podemos orientar nosso comportamento, esteja- parte inadimplente. Eis aqui um novo significado contra-

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.,

Roberto Kant de Lima Ensaios de Antropologia e de Direito

tual de que não só à realidade social mas também a sua desse trabalho tomarei apenas normas e práticas relacio-
suposta finalidade reguladora. Na prática, os contratos são f nadas à incomunicabilidade dos jurados e à constituição
incorporados sempre de maneira implícita e sub-reptícia às de uma lista anual pelo juiz, de onde são sorteados aque-
discussões e conflitos que originam. Não podem, no entan- f les que vão assim servir.
to, aparecer explicitamente como prova ou indício no pro- Nas disposições dos artigos 458, parágrafo 12 e 476,
cesso. Fica, de novo, inteiramente no arbítrio dos agentes t do Código de Processo Penal Brasileiro, encontram-se as
processuais sua consideração ou não. disposições sobre as fórmulas prescritas para tomada de
O formalismo processual, portanto, só contribui para decisão dos jurados, que incluem o instituto da incomuni-
prolongar o arbítrio e o clima de permanente ilegalidade cabilidade. No art. 439 do mesmo Código encontra-se a
que se respira em toda a sociedade brasileira, oriundo lon- regra para a elaboração das listas de jurados.
gínqua e provavelmente de um espírito fiscalista do No art. 458, parágrafo 12, lê-se que o juiz advertirá os
Império português, mais recentemente atualizado em ter- jurados de que, uma vez sorteados, não poderão comuni-
mos de nossa triste tradição de regimes republicanos de car-se com outrem, nem manifestar sua opinião sobre o pro-
execução. cesso, sob pena de exclusão do Conselho e multa, de qua-
Meu segundo exemplo refere-se mais explicitamente trocentos a mil cruzeiros. Informantes solicitados a esclare-
ao trabalho que atualmente desenvolvo sobre o júri no cer o significado desse artigo, ligados às tarefas do júri,
Brasil. fora.rnunânimes em afirmar que esta é a maneira de preser-
As representações sobre a instituição do júri desta- var os jurado de eventuais influências que possam interfe-
cam sempre sua caract€ristica de "Instituição democráti- rir em seu julgamento. Resulta, na prática, em seu corúina.
ca", em que o "povo" participa das decisões judiciais, "hu-
menta ao recinto do Tribunal do Júri pelo período que durar
manizando" a lei. As suas decisões devem, por isso mes-
o julgamento, muitas vezes prolongado por dias seguidos.
mo, ser obtidas através do compromisso dos jurados, como
Um comentarista consagrado faz referência à "severidade"
forma reconhecida de exercício democrático e de legitima-
dessa medida em relação a outras legislações, como a fran-
ção de instituições e normas jurídicas. Não seria muita
cesa e algumas norte-americanas que permitem intervalos
ousadia afirmar que o júri no Brasil reflete, conscientemen-
no julgamento, podendo o jurado retirar-se a sua casa,
te, em sua organização, nossa idéia de democracia. 'Ial
"sujeito, então a influências as mais diversas" (Noronha,
hipótese é reforçada pelo acirramento das polêmicas que
1979: 265). O mesmo tratadista argumenta que não seria
tem suscitado, desde sua origem, a instituição e suas prá-
demais que essa incomunicabilidade se estendesse aos
ticas, inclusive aquelas originadas em sua omissão da
jurados entre si, "de modo que o voto fosse exclusivamen-
Constituição de 1937 (Franco, 1956).
O que demonstrarei é que o júri brasileiro se organiza te o resultado de sua convicção", mas a lei pátria, com as
e toma suas decisões de acordo com normas e práticas cautelas tomadas, cuida para que a comunicação entre os
associadas a certo saber jurídico, fundado em determina- jurados não chegue ao ponto de um influir sobre o outro.
das concepções do século passado, que se atualizam atra- This cautelas são as do art. 476 do CPP,que estipula que o
vés da legislação e práticas judiciais. Para os propósitos juiz deve estar presente à sala secreta onde se realiza a
~==~~~-j
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Roberto Kant de Lima Ensaios de Antropologia e de Direito

.
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votação dos requisitos referentes ao julgamento para "evi- outros. Talvisão parece denunciar certa desconfiança com a
tar a influência de uns sobre os outros". prática da discussão entre pessoas iguais, onde não se
A chamada quebra da incomunicabilidade, quando "influencia", mas se convence através de argumentação.
provada por quem a alega, é motivo de anulação do julga- A desconfiança com a influência, ou sugestão, não é
mento e a realização de um outro, o que tem sido sistema- nova, entretanto. Desde o século passado faz parte de teo-
ticamente ratificado pelo saber jurídico expresso nas deci- rías da chamada "psicologia coletiva", que entendia a
sões jurisprudenciais, inclusive do Supremo Tribunal sociedade não a partir de sua constituição em grupos
Federal (Jesus, 1982: 270 - 272 e 279). sociais mas como composta de agregados de indivíduos,
Ora, tal característica foge inteiramente às representa- estes as verdadeiras unidades sociais. Tais concepções não
ções que os brasileiros leigos têm sobre o júri, inclusive fazem senão radicalizar a invenção ideológica do indivíduo
réus, a maioria delas oriundas do que se vê em filmes, no como sujeito de direitos e obrigações, que aparece na ideo-
cinema ou na televisão, quando todo o encanto e força dos logia ocidental como parte do processo de compartimenta-
longos e acalorados debates entre os jurados vão consti- lização e autonomização com que se representa (Dumont,
tuir-se em expressão dos valores de uma determinada 1960; 1967; 1977).
sociedade. Tais debates também veiculam a idéia de que a Explicava-se o comportamento social coletivo como
decisão final é fruto de um compromisso entre jurados, comportamento de "multidão" tendendo a ver quaisquer
após veiculação explícita de suas diferenças. O júri mesmo movimentos de massa como formas de "loucura" coletiva,
"bloquear-se", não conseguindo chegar a um veredito, "anormalidades" psíquicas, e não como resultado de con-
caso em que o julgamento é repetido (Jacob, 1972). Essa flitos sociais emergentes.
característica do debate permeia as várias formas que o Ora, as vinculações sobre o saber-poder do Direito e os
júri toma nos Estados Unidos, enquanto processo pedagó- da Psiquiatria e da Psicologia têm sido objeto de reflexão
gico destinado à obtenção de compromisso entre as partes, metodológica sistemática (Foucault, 1963; 1972; 1975; 1977).
ou de um "senso comum" representativo do grupo. Tendem essas associações especialmente em direito crimi-
A perplexidade diante do cerceamento da comunica- nal, à transformação de conflitos sociais e políticos em fenô-
ção entre pessoas escolhidas a dedo, por indicação pessoal menos relacionados ao "homem", a sua "personalidade" ou
do juiz ou de pessoas de sua confiança. como dispõe a legis- a seu "meio". Cría-se com isso a figura do "criminoso" do
lação (art. 439 CPP), que se constituem em grupos de vinte "delinqüente, do "louco", que vem substituir a noção clás-
e um, dos quais se sorteiam em cada julgamento sete e que sica de "crime", indivídualizando, no campo jurídico, os pro-
supostamente representam a idoneidade média da socieda- cedimentos essenciais a seu controle. Passa-se, assim, de
de, desaparece quando se vê que o motivo da medida não uma estratégia repressiva e exemplar à verdadeira "produ-
reside em descC'nfiança pessoal mas na eventual possibili- ção" de certo tipo de indivídnos úteis ao sistema. Reflexo
dade de influência que possam exercer uns sobre os outros. deste movimento é o conceito de periculosidade, utilizado
É bem verdade que a categoría influência, no Dicionáriode para constituir um discurso médico-psiquiátrico-jurídico
Aurélio Buarque de Hollanda é assemelhada à "sugestão" e capaz de justificar o controle indeterminado de desviantes
também ao exercício de ascendência de uns sobre os ou dissidentes (Thompsom, 1983).

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Roberto Kant de Lima Ensaios de Antropologia e de Direito

Pois é nessa direção da individualização de conflitos e "Uma reumao cosmopolita não pode evidente-
dos procedimentos teóricos da chamada criminologia posi- mente refletir em seu conjunto os diversos caracteres
tiva que encontramos o campo intelectual onde se consti- dos indivíduos que compõe, com a mesma exatidão
tui como saber a "psicologia das multidões". Não foi neces- que uma reunião de indivíduos todos italianos, ou
sário procurar muito para encontrar no mesmo tratadista todos alemães, refletiria no seu conjunto os caracteres
anteriormente mencionado, agora na parte de Direito Penal particulares desses italianos ou desses alemães. O
(em 1982 em sua 4Q2 edição), referência, em seu parágrafo mesmo se poderá dizer de um júri, no qual o acaso
141, aos "crimes de multidão" (Noronha, 1982). Não é tam- cego colocou o tenderro junto de um homem de ciência,
em comparação com uma Assembléia de peritos"
bém surpresa encontrar ali referência (como é de hábito
(Sighele, 1954:22, grifo nosso).
nesse saber dogmático sem indicação de obra ou página)
aos autores "especialistas" da matéria: Le Bom, Sighele e
Vê-se bem por que a tendência da homogeneização
Tarde. O autor repete-lhes o conceito de multidão: "É a mul-
em termos de classe social, profissão, etc., que se constata
tidão um agregado, uma reunião de indivíduos, informe e
nas listas de jurados, muitas vezes conscientemente dese-
inorgânico, surgido espontaneamente desaparecendo"
jada no Brasil, não se constitui em preocupação de obter a
(Noronha, 1982). Tornam-se "espontâneos" caos de perda
maior representatividade social, estimulando-lhe a compo-
das faculdades mentais, objeto portanto de estudos psico-
sição diferenciada, como nos procedimentos até mesmo
lógicos para detectar as origens dessa anormalidade das
aleatórios de escolha nos EUA (Jacob, 1972:124).
consciências individuais sadias, momentaneamente en- Não são menos arraigadas no tempo e nos conceitos da
sandecidas. psicologia coletiva as normas e práticas que tendem a for-
A relação desta discussão sobre multidões com a for- mar um permanente COlpO de jurados, para que meLhorse
ma de julgamento pelo júri popular é conclusão expressa ajuste as suas finalidades julgadoras. Não é portanto o jul-
de um dos autores citados pelo tratadista e ditado entre gamento do "homem comum" ou do "homem médio" que se
nós em 1954 sem nenhuma introdução crítica, passando procura, mas o julgamento de um jurado profissional:
portanto, tranqüilamente, seu conhecimento por contem-
porâneo. Sighele, referindo-se a supostos erros de julga- "Mas não basta que as unidades sejam muito
mento cometido pelo júri afirma: "todos estes fatos (...) pro- semelhantes entre si, para estabelecer analogia entre
vam simplesmente isto: que doze homens de bom senso e seus caracteres e os do agregado que os cotnpõe; é
inteligentes podem dar um sentença estúpida e absurda, necessário ainda ql,1eessas unidades estejam unidas
uma reunião de indivíduos pode (sic) dar uma resultante entre si por uma relação permanente e orgânica"
oposta à que teria dado cada um deles" (Sighele, 1954: 16). (Sighele, 1954:22). E mais "as reuniões adventícias e
Prossegue o autor dizendo que o único caso em que os inorgânicas de indivíduos, como as que temos num
caracteres do agregado e das unidades que o compõe se juri, num teatro, numa multidão - não podem reprodu-
correspondem é quando existe semelhança, "homogenei- zir nas suas manifestações os caracteres das unidades
dade, entre suas unidades" (Sighele, 1954: 21). que as compõe, do mesmo modo que o ajuntamento

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Roberto Kant de Lima Ensaios de Antropologia e de Direito

confuso e desordenado de uma determinada quanti- exemplo, pelas euforias e depressões econômicas e políti-
dade de tijolos não pode reproduzir a forma retangular cas (Sighele, 1954:35). A imitação é atualizada em compor-
de um só desses tijolos. Por conseguinte neste último tamento através da sugestão. pela qual os homens se
caso é necessária a disposição regular de todos os tijo- influenciam reciprocamente. No caso da multidão, entre-
los, para construir uma parede do mesmo modo, no tanto, essa sugestão atua sempre negativamente. perden-
primeiro caso, para que um agregado dê as qualidades do as melhores influências para as más. Isto porque: "a mé-
dos indivíduos que compõe, é necessário que estes dia de muitos números não pode ser igual ao mais elevado
indivíduos estejam unidos entre si por meio de rela- desses números, do mesmo modo que um agregado de
ções permanentes e orgânicas, como, por exemplo, os homens não pode refletir nas suas manifestações as facul-
membros de uma mesma família, os indivíduos que dades mais elevadas, próprias de alguns desses homens;
pertencem à mesma classe da sociedade" ( Sighele, refletirão apenas as Íaculdades que se encontram em todos
1954: 23, gritos do autor). ou no maior número de indivíduos. As últimas e melhores
estratificações do caráter, diria Sergi, as que a civilização e
A seguir, citando Bentham a propósito das As- a educação conseguiram formar alguns individuas privile-
.•sembléias políticas e do júri inglês, diz que ele já "fazia giados estão eclipsadas pelas estratificações médias que
.notar a grande diferença que há entre as manifestações são patrimônio de todos: na soma total estas prevalecem e
dos corpos políticos que têm uma existência permanente, as outras desaparecem (...). Sucede, na multidão, do ponte
e as manifestações dos corpos políticos .que têm uma exis- de vista intelectual. A companhia enfraquece - em relação
tência na ocasião e passageira e dizia que os primeiros dão ao resultado total - tanto a força do talento como os senti-
mais facilmente que os segundos resultados que corres- mentos caritativos (Sighele, 1954: 58-59).
pondemaos verdadeiros interesses e às verdadeiras ten- Justifica.da está a fiscalizaçãõpermanente dosjurados,
dências de seus membros" (Sighele, 1954:23,nota 19, gri- para que não se "influenciem" apesar de selecionados com
fos do autor). todo o rigor. Não dependendo de sua vontade mas de sim-
Para esses autores, como se vê, a sociologia não tem ples fato de sua reunião a decadência ~oral e a decadência
um objeto que lhe seja próprio, como já desde 1888 estabe- intelectual a que estarão submetidos. E claro que o fato de
lecera Durkhein (1888; 1895). O comportamento social não se tratarem de brasileiros, e não de americanos e franceses,
é fruto de representações coletivas diferentemente apro- faz com que essa fiscalização certamente se exerça com
priadas pelos grupos, e existentes apesar dos indivíduos maior "rigor e cautela" fechando-os portanto no recinto do
que os compõem, mas fruto de contato entre os indivíduos, 'llibunal enquanto dura o julgamento.
ou de imitação. A grande preocupação de Sighele, aliás, é Tais idéias opõem-se evidentemente à idéia liberal
retirar da sociologia spenceriana, que estabelecia que os clássica de que indivíduos livres e iguais entre si deverão
agregados eram resultado do comportamento dos indiví- atingir um compromisso através de discussão de que par-
duos, o estudo dessas "multidões", segundo ele regidas ticipem argumentando e contra-argumentando explicita-
pela lei da imitação e pelo mecanismo da sugestão. Pela mente. O compromisso surge dessa discussão e a decisão
imitação se verifica o "contágio moral", responsável, por não se constitui em manifestação, através de suas cons-

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Ensaios de Antropologia e de Direito
Roberto Kant de Lima

pugnam. Ele é realmente o espelho de nossa "democracia",


ciências individuais, de um consenso anteriormente impos-
to pela socialização preexistente e de cujo conteúdo são tutelada e hierarquizada.
receptáculos supostamente passivos, acríticos e repetidos.
A diferença é um mal a ser evitado, a homogeneidade é um Conclusão
bem em si. Mais que isso, a diferença implica uma hierar-
A etnografia do judiciário passa pela compreensão de
quia "natural" entre os indivíduos, classificados de acordo
que suas instituições, práticas e representações estão inse-
com uma tabela de valores definidos, evidentemente, por
ridas na sociedade brasileira e com ela mantêm uma rela-
camadas dominantes na sociedade. São esses valores
ção de influência e interdependência. Também passa pelo
aqueles que cumprem reproduzir através de engenhosos
parad.oxo de verificar as causas de que essa "ineficiência"
esquemas de poder-saber, pedagogicamente destinados a
secularmente atribuída às instituições judiciárias se alia a
veiculá-los eficazmente, inclusive através de suas institui-
seu imenso potencial reprodutor e difusor, para todas as
ções mais democráticas. É evidente que o dOllÚniodo Juiz
áreas da sociedade, desse saber-poder.
singular está resguardado, pois juízes, por formação e pro- É necessário fazer a etnografia dos mecanismos que
fissão, são "homogêneos" e "permanentes". Mas não é presidem a formação dessas decisões milagrosamente
necessário para que se tenha uma justiça elitista e anti- racionais e imparciais num mundo de "jeitinhos" e privilé-
democrática, reprodutora de um mesmo saber comprometi- gios, enumerando cuidadosamente suas circunstâncias e
do com a homogeneidade e a estratificação. seus agentes, formal e informalmente admitidos ao proces-
Tais representações sobre a prática da tomada de so. Problemas e discussões familiares à Antropologia no
decisões em grupo se atualizam concretamente no júri, estudo das instituições jurídicas em geral e no seio das cha-
pedagogicamente informando aos jurados como deve ser madas sociedades mediterrâneas em particular, com sua
sua atuação enquanto grupo. A permanência de uns mais elaborada processualistica e seu característico sentimento
que os outros nas listas de jurados, ao arbítrio do juiz, refle- de honra que, afinal, se atualiza em qualquer litígio e entre
te que esse processo de socialização tem mesmo um fiscal seus agentes, bem como com sua infindável multiplicação
de sua incomunicabilidade e sugestionabilidade. De outro de instâncias mediadoras associadas com freqüência e erro-
lado, essas visões individualizadoras do crime e de "multi- neamente a sociedades "simples" e "irracionais".
dões" são freqüentemente levadas à tribuna por advoga- Certamente deveremos analisar as conseqüências que
dos e promotores, que freqüentemente citam idéias, num uma ordem jurídica liberal, supostament~ fundada na
processo de convencimento e inscrição sobre um grupo igualdade de indivíduos diferentes e na isonomia das par-
social do saber-poder de que estão dotados. tes, apresenta quando aplicada a sociedade'que se repre-
Tal socialização, que se estende ao "aprendizado" na sentam hierarquizadamente. Individualidade associada a
resposta a quesitos e na circunstância de que a maioria dos representações igualitárias da sociedade constitui-se em
discurso sustentador de liberdades individuais e respeito a
jurados, em cidades grandes, é "bacharel", mostra que o
diferenças. Individualidade associada a representações
sentido pedagógico deste julgamento está perfeitamente
hieráquicas da sociedade significam sempre distorções
de acordo com aquilo que seus ardorosos defensores pro-

31
30
f
r,
! Roberto Kant de Lima
Ensaios de Antropologia e de Direito

atribuídas a ordens da efetividade, "egoísmo" ou da insa-


nidade (genialidade e loucura), resultando quase sempre
em "necessidade" de imposição de ordens autoritárias, fre-
qüentemente associada à exploração selvagem dos mais
I indivíduos e dos grupos sociais capazes de exprimir, criar
e extinguir diferenças e semelhanças fundamentais ao con-
vívio social e ao exercício da diferença e da heterogeneida-
de (Nader, 1965). . .. ,
fracos, a quem não se dá nem a proteção da casta e a É preciso fazer a etnografia das instituições ]UdlCla-
garantia de uma posição e identidade sociais quaisquer rias. É preciso percorrer seus Espaços, as salas e os corre-
(DaMatta, 1979; 1982; Falcão, 1981). dores, assistir audiência, reparar em quem lá comparece,
Estaremos também problematizando as defuüções e como se veste e comporta. É necessário contar as presen-
limites dos domínios do público e do privado, tradicional- ças e as ausências, descrever-lhes significados e uti~iz~Çã?
mente operados em uma ótica personalizante no seio da Depois, é preciso entender seu tempo, seus prazos mfinda-
magistratura brasileira (Schwartz, 1979). veis, suas audiências formalmente ininterruptas, seus hie-
Será preciso, pois, rasgar os véus do poder e implodir rarquizantes rituais de espera e poder.
suas férreas categorias a que sempre correspondem práti- É imperioso contar-lhes os servidores e serventuários,
cas casuísticas e arbitrárias, mas eficazes em sua manu- descrever suas práticas, observar suas transformações no
tenção e reprodução. É preciso tornar todas as práticas jurí- contato contagiante do poder. Perceber a rede de suas rela-
dicas, substantivas e processuais, conhecidas e explícitas, ções pessoais e sua expressão na maior ou menor fa.cili,-
para que regras definidas e a todos acessíveis governem as dade de acesso às informações e às decisões processuais. E
atividades judiciárias. A democracia do judiciário passa preciso fascinar-se com o jogo do formal e do informal. con-
pelas concepções de democracia arraigadas na sociedade taminar-se com ele, vestir-se como um deles e com eles se
e portanto por esse poder-saber difllso que se inscreve em confundir. Portar-se diferentemente e deles se diferenciar.
seus objetos a cada insta...'lte. É preciso ir além: saber qU.emvai aos tribunais e por-
Será preciso abandonar concepções legalistas de que quê. Contar-lhes os números, os motivos, os valores morais
decretos e leis são a melhor forma de governar, privilegia- e financeiros envolvidos, por que vale e por que não vale a
das vias de transformação social, em vez de conceber esse pena litigar judicialmente. É preciso ir às varas cíveis e cri-
processo invertido de produção legal como um abdicar de minais de Família e de Falências, à Defensoria Pública e às
direitos, não sua expressão. É preciso libertar-nos de con- Promo;orias. Depois é preciso ir aos cárceres. Às Repar-
cepções positivas e naturalistas na representação dos tições Públicas e mais uma vez percorrer tudo como poli-
fenômenos e saberes que se produzem socialmente, e que cial, como advogado, como antropólogo e como cidadão e

I
I
resultam sistematicamente em mitos como os de neutrali-
dade de partes e agentes de decisões, individualizações de
conflitos sociais, criminosos, processos e prisões.
Será preciso desfazer-se, finalmente, da idéia funcio-
deslindar essa mágica transformação dos serviços da
Adrnistração em Poder Administrativo.
E nesses casos observar como o Poder se organiza
súbito, coerente, frente a casos concretos que investe,
nal-instrumental de que o judiciário é um lugar de "resolu- organiza e silencia. É preciso ouvir os silêncios desse
ção de conflitos", suposto promotor de uma harmonia saber-poder, o que nele está implícito naqueles procedi-
social sempre ameaçada pelo litígio e pela diferença dos mentos sempre tão ritualizados, abertos e formais, de

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Roberto Kant de Lima Ensaios de Antropologia e de Direito

quem nada teme porque nada deve, expressão máxima de saber, a partir de nossas especificidades culturais e a elas
seu arbítrio definitivamente impune e irresponsável. adequado.
Fundamentalmente, é preciso não deixar nada de Se queremos levar a sério a proposta de pensar demo-
lado, nem um recanto e nem um escaninho, não para que craticamente a diferença em nossa sociedade, libertando-
se reproduza a realidade no anseio de sua transparência nos dos prismas do colonialismo econômico e cultural, inter-
positivista, nem para que surja renovada de uma quimeira no e externo, bem como explicitar as tendências etnocêntri-
racional. Apenas para finalmente perceber que não esta- cas e homogeneizantes por ele suscitadas, há que aprender
mos diante de nenhum "judiciário", mas diante de uma com a perspectiva antropológica a valorização heurística
janela de onde é possível constituir e interpretar alguns das diferenças. Começar por descobri-las e pô-las a nu em
dos aspectos de nossa sociedade, aprofundando seu nosso cotidiano, estranhando o "natural" e familiarizando-
conhecimento e ocupando, afinal, um espaço vago. nos com o exótico, eis o longo caminho democrático a per-
Depois de nos ver pelos 1bbunais, é preciso não es- correr. Na área do direito, como apontei, o percurso ~ tanto
quecer a sociedade. É preciso percorrer-lhe as formas urba- mais árduo porque implica a transformação das próprias
nas e rurais de legislar, judicar e executar a lei no silêncio bases onde se ancora um saber-poder que se difunde muito
embrutecido de unl Direito elitista. É preciso aprender com além do "jurídico" em nossa socialização.
sua variedade, colaborando em sua distinção e nunca Não há glória ou fama nessa luta, nem ol:,Jjetivoa ser
temendo sua diversidade e autonomia que afirma "a priori" alcançado. Em nossa melhor tradição, "porfia-se porquan-
sua capacidade para o exerCÍcio do Poder. É preciso apren-
to é bom porfiar".
der com essas formas juridicas, sofrer com elas, deixar-se
educar por seu conhecimento que antropologicamente se
desvenda. Colabora-se assim na destruição das estratifica-
Bibliografia
ções injustas e na construção de hierarquias expressivas
BACHOFFEN,J. J. Das Mutterecht. Stuttgart, Krais and
da realidade social. É preciso tomar desses saberes domi-
nados a implosão dessa razão instrumental, oportunista e Hoffmam, 1861.
impiedosa sistematicamente utilizada para dominar e BOHANNAN,Paul. A Categoria Injô na sociedade Tiv. In:
explorar. SHELTON,Davis (org.). Antropologia do Direito. Rio de
Há que conhecer-se com os olhos do "Outro" . Janeiro, Zahar, pp. 57-69, 1957-1973.
Numa outra perspectiva é urgente e imprescindível . African homicide and suicide. New jersey,
----
encetar e encorajar estudos comparativos nessas áreas e Princeton University Press, 1960.
nesse espírito, pensando antropologicamente em outros ____ oa antropologia e a Lei. In: Panorama da
sistemas de sociedades aparentemente semelhantes ou Antropologia, Sol 'fax ed., Rio de Janeiro, Ed. Fundo de
muito distintos da nossa. A perspectiva comparada preci- Cultura, pp. 165-173, 1964 (1966).
sa do exercício da convivência com a diferença para afiar CLASTRES,Pierre. A Sociedade contra o Estado. Rio de
seus instrumentos. Só assim será possível produzir um Janeiro, Francisco Alves, 1974 (1978).

34 35
Ensaios de Antropologia e de Direito
Roberto Kant de Lima

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Este artigo foi produzido do ponto de vista de um
NADER, Laura. 111eanthropological Study of Law. In: The
antropólogo social profissional. Os dados aqui discutidos
Ethnography of law. American antropologist, v. 67, n.
são fruto da minha pesquisa sobre o sistema judicial da
6, parte 2, dez., pp. 3-32, 1965.
cidade do Rio de Janeiro, iniciada em 1982 e ainda em
NORONHA,Magalhães - Curso de Direito Processual Penal.
andamento. A investigação compreendeu trabalho de
São Paulo, Saraiva. 12a ed., 1979.
campo e pesquisa bibliográfica. O trabalho de campo utili-
____ oDireito Penal. São Paulo, Saraiva. 20a ed. 2v., 1982.
zou as técnicas consagradas pela tradição álltropológicéi,
POlRER, Jean. Introduction à l'ethnologie de l'appareil juri-
como entrevistas estruturadas e não-estruturadas, conver-
dique. In: Ethnologie Génerale. Paris, Gallirnard, pp.
sas informais e observação participante; às informações
1091-1110,1968.
assim obtidas juntaram-se àquelas oriundas da identifica-
RADCLIFFE - Brown. Estrutura e função na sociedade pri-
ção e interpretação das categorias presentes em textos
mitiva. Petrópolis, Vozes, 1952 (1973).
consagrados pelas culturas jUlidicas brasileira e norte-
SCHWARTZ,Stuart B. Burocracia e sociedade no Brasil colo-
americana.2
nial. A Suprema Corte da Bahia e seus juízes: 1609-
A perspectiva adotada aqui é urna perspectiva compa-
1751. São Paulo, Perspectiva, 1979.
rada. A forma da comparação, entretanto, difere daquela dos
SIGHELE, Scipio. A multidão criminosa. Rio de Janeiro
Organização Simões, 1954. ' textos jurídicos. Pois a comparação que se intenta aqui é
THOMPSON,Augusto F.G. Quem são os criminosos? Rio de
Janeiro, Achiamé, 1983.
1 Originalmente publicado em Revista Brasileira de Ciências Sociais, São
Paulo, ANPOCS, nll lO, vol. 4, junho 1989: 65-84. Uma versão preliminar
deste artigo foi apresentada no seminário do grupo Derecho y Sociedad,
do CLACSO,realizado em Belo Horizonte, em 1987. Agtadeço ao CNPq o
apoio institucional que propiciou a realização desta pesquisa, bem como
à OABIRJ,à Capes e aos inúmeros amigos e colaboradores que a torna-
ram viável, os quais, pelas 'limitações editoriais deste texto, estou inca-

,..,~-
pacitado de nomear.
2 O termo categorias é aqui empregado como o define MareeI Mauss:
"hábito diretor da pensamento". Para uma discussão metodológica mais
aprofundada ver Bourdieu (1974).

38 39

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