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J.J.

Gremmelmaier

Genuflexório

Edição do Autor
Primeira Edição
Curitiba
2017

1
Autor; J. J. Gremmelmaier Ele cria historias que começam
Edição do Autor aparentemente normais, tentando narrativas
Primeira Edição diferentes, cria seus mundos imaginários, e
2017 muitas vezes vai interligando historias
aparentemente sem ligação nenhuma, então
Genuflexório
existem historias únicas, com começo meio e
------------------------------------------ fim, e existe um universo de historias que se
CIP – Brasil – Catalogado na Fonte encaixam, formando o universo de
------------------------------------------ personagens de J.J.Gremmelmaier.
Gremmelmaier, João Jose Um autor a ser lido com calma, a
Genuflexório, Romance de mesma que ele escreve, rapidamente, bem
Ficção, 81 pg./ João Jose Gremmelmaier vindos as aventuras de J.J.Gremmelmaier.
/ Curitiba, PR. / Edição do Autor / 2017
1 - Literatura Brasileira –
Romance – I – Titulo
-----------------------------------------
85 – 62418 CDD – 978.426

As opiniões contidas neste livro são


dos personagens e não obrigatoriamente
assemelham-se as opiniões do autor, esta é
uma obra de ficção, sendo quase todos ou
quase todos os nomes e fatos fictícios.
©Todos os direitos reservados a
J.J.Gremmelmaier
É vedada a reprodução total ou parcial
desta obra sem autorização do autor. Genuflexório
Sobre o Autor;
Vamos ao mundo de Lucas, seus
João Jose Gremmelmaier, nasceu em
problemas, seu talento, e toda a garra e fé
Curitiba, estado do Paraná, no Brasil, formação
em Economia, empresário por mais de 15 para tentar recomeçar a vida.
anos, teve de confecção de roupas, empresa
Agradeço aos amigos e colegas que
de estamparia, empresa de venda de
sempre me deram força a continuar a
equipamentos de informática, trabalhou em
escrever, mesmo sem ser aquele escritor,
um banco estatal.
mas como sempre me repito, escrevo para
J.J Gremmelmaier escreve em suas
me divertir, e se conseguir lhes levar juntos
horas de folga, alguns jogam, outros viajam,
nesta aventura, já é uma vitória.
ele faz tudo isto, a frente de seu computador,
viajando em historias, e nos levando a viajar Ao terminar de ler este livro,
juntos. Ele sempre destaca que escreve para se empreste a um amigo se gostou, a um
divertir, não para ser um acadêmico. inimigo se não gostou, mas não o deixe
Autor de Obras como a série Fanes, parado, pois livros foram feitos para
Guerra e Paz, Mundo de Peter, Trissomia, correrem de mão em mão.
Crônicas de Gerson Travesso, Earth 630, Fim J.J.Gremmelmaier
de Expediente, Marés de Sal, e livros como
Anacrônicos, Ciguapa, Magog, João Ninguém,
Dlats e Olhos de Melissa, entre tantas
aventuras por ele criadas.

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©Todos os direitos reservados a J.J.Gremmelmaier

J.J.Gremmelmaier

Genuflexório

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4
Entro a igreja, meu coração
estava pesado, me ajoelho, cruzo as
mãos e fecho os olhos, tento manter a
calma, mas meu peito doía, estava
amarrado, meus sentimentos estavam
me matando e não teria como aliviar
rápido, meus pensamentos foram a
Deus, mas sabia que a muito ele me
dera liberdade, meu nome, Lucas, o que faço? Comercializo minhas
coisas, mas em meio a isto, meu coração se perdeu em um sorriso,
me perdi nele, e a dor do meu peito é saber que ela está com outro,
que me disse que não queria mais nada comigo, que tudo que
entendia como amor, em nada eu estava colocado.
Eu olho para minhas mãos, uma lagrima corre ao rosto, eu
tento segurar, a lágrima parece soltar os sentimentos, o choro
começa, o soluço o acompanha, estava ali tentando, mas nada
parecia tirar a imagem dela saindo, meu coração apertado e
parecendo que meu destino a perdera.
As vezes achamos que um sorriso é para uma vida, estranho
pois um dia eu não a conhecia, dois dias depois, sabia que era
dependente dela, daquele sorriso, mas agora, não sei por onde
começar a caminhar.
Meu mundo estabelecido em um intervalo, antes daquele
sorriso, naquele sorriso, e agora, o que será deste ser que olha para
o altar, e não tem forças nem de levantar-se, não tem coragem de
olhar ao lado, de encarar o mundo.
Eu declarei amor, dependência, e agora, vou declarar oque,
ela levou tudo, mas o principal, minha alma.
Este local pode ser meu ultimo recinto, meu único caminho.
Porque as lagrimas não param aos olhos, porque me sinto
nada, onde me acho neste momento.
Não sei mais o que faço, pois era tudo para ela, me dedicava
a vender meus retalhos, minhas coisas, minhas ideias, mas sinal que
nem ela gostava das ideias.
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Olho o altar à frente, meus joelhos parecem doer, mas não
tinha mais forças nem para os erguer.
Olho a estatua e ela me olha, não sei mais se estou
alucinando, mas olho para a reação dos demais ao local, não viam
nada, mas aquela imagem se mexe e chega a minha frente, e fala,
estanho aquilo, mas neste momento senti uma paz.
“Para amar alguém Lucas, tens de se amar antes.”
A imagem me passava uma paz que nunca senti, meus olhos
secaram, minhas mãos se juntaram a frente do corpo e continuei a
ouvir.
“As pessoas amam quem se ama, quem cria o seu próprio
caminho, não o dela, as pessoas se iludem mais em caminhos
inacabados do que em caminhos exatos, mas antes de chorar, olha
em volta, tens um dom, tens as mãos, tem a cabeça boa, força para
recomeçar, o que posso lhe dar, que não tens, o que posso aliviar,
que não esteja apenas dentro de ti, como disse antes, ama a ti,
antes de amar ao próximo.”
Eu olhava assustado, encantado e o ser sumindo fala.
“Para amar ao próximo como a si mesmo, tens de se amar
antes de tudo, pois se amar ao próximo, e não se amar, não estará
cumprindo seu caminho...”
Fiz força e sentei, passei a manga aos olhos e os enxuguei,
olhei para os rapazes fechando a igreja, com dificuldades me
levantei e fui a rua, olho para as escadas, para a descida para casa, e
começo a voltar.
Chego a porta, abro ela e me deparo apenas com meus
trapos, nem a cama ficou, nada.
Me encosto ao canto, estava frio, ou eu estava com frio, não
sabia definir isto naquele momento.
Me olho no escuro, levanto e acendo a luz, olho tudo vazio, e
sobre um canto, uma carta, eu a pego e penso se deveria ler.
O que poderia me fazer mais mal?
“Oi
Sei que não vai entender Lucas
Mas acabou
Não é a pessoa que me completa
Não é contra você, é a meu favor
6
Vou correr atrás da minha felicidade.
Se cuida”
Ajeito algumas coisas, meus documentos, poucos trocados,
meio de mês, não teria como comprar nada até receber a próxima
venda, e não sabia quando seria, me olho e lembro das palavras da
imagem, as vezes duvidava de não estar ficando maluco, mas me
olho na única coisa que sobrou no banheiro, um espelho velho, nem
o chuveiro para um bom banho tinha ficado.
O universo parecia me dizer, desiste, passei por coisas piores
com ela, mas naqueles dias, tínhamos um o outro.
Respiro fundo, olho o amontoado de roupas, que ela nem
arrumou ao canto, as jogou ali para tirar o guarda roupa, olhei uma
toalha velha, tomei coragem e tomo uma ducha, precisava acordar,
precisava iniciar algo.
Pego os pequenos quadros, pequenas coisas que vendia a
rua, e olho para as coisas, o que poderia eu fazer, como poderia eu
erguer a cabeça.
“Para amar ao próximo como a si mesmo, tens de se amar
antes de tudo.”
Olhei em volta, quase tive certeza de ter ouvido novamente a
frase, me seco e coloco uma roupa quente, não daria para dormir
direito, então pego os papeis, um caderno e começo a pensar, não
sabia o que faria, mas era obvio, queria uma forma de sair do
buraco, estranho todas as coisas que fiz nos últimos anos me
remeterem a ela.
Pego uma madeira no fundo, e começo a lascar ela,
preparando para por uma frase, olho em volta e marco com o lápis
o escrito.
“Antes de amar ao próximo, tens de se amar.”
“Ama a si mesmo, como ao próximo.”
“Antes amar só, do que falso amor.”
Fiquei a fazer plaquinhas, pois tinha de parar de pensar, mas
não estava dando certo.
Olho para a noite passar, talvez tudo que precisava, era
acreditar, peguei as plaquinhas e fui a praça, que sempre vendia,
olho para os lados e começo a vender, o dia estava bem quando me
vejo cercado de dois fiscais da prefeitura, eles recolheram tudo, me
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empurrão, me falaram que para pegar de volta teria de ter as notas
de compra, tentei argumentar e um policial gentil me afastou, os
comerciantes ao longe, pareceram sorrir, como alguém sorri da
falência dos demais.

Me vejo no fim daquele dia de novo no genuflexório, de


joelhos, a olhar o altar, e pensar.
“Parece que fiz tudo errado, que nada que posso fazer vai dar
certo, as vezes temo por minha vida, mas peço apenas forças Deus,
o resto, vou tentar me levantar.”
Os meus pensamentos vão a Bruna, eu não sabia por que,
mas tudo que me vinha à mente, sempre tinha relação a uma
pessoa que se foi, ela me abandonou, tenho de aceitar isto.
Mas que ela sempre teve ideias boas, não posso negar.
Separei parte do dinheiro e coloquei na meia, e outra parte,
fui a um material de construção e comprei um chuveiro, passei no
mercado e comprei uma daquelas toalhas finas, mas melhor do que
a que tinha, e um sabonete.
Tenho de me reorganizar.
Chego a casa, olho para a senhora da casa, ela me perguntou
se iria ficar, confirmei que ia, ela me perguntou se tinha o dinheiro
do aluguel e falei calmamente, que na data estaria com o dinheiro
na mão dela.
A senhora me olha desconfiado, talvez a casa vazia, a fizesse
achar que iria sair a qualquer hora, mas o que posso fazer, na hora
de me avisar que Bruna estava esvaziando a casa, ninguém me
avisou, agora teria de me virar.
Tomei um banho, peguei umas placas de madeira e olhei para
a bagunça, a organizei e comecei a fazer mais placas, mas não sabia
onde venderia aquilo no dia seguinte.
Sentei a frente e Mauricio, um rapaz que expunha na frente
da catedral, chega e pergunta.
— Fazendo mais placas, o dia foi bom pelo jeito.
— Aqueles desgraçados da prefeitura recolheram tudo.
O rapaz sorriu sem graça e falou.
— Estes comerciantes do centro nos odeiam.

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— Eu até entendo eles, mas eu fico ali, escondido, vendo um
nada, não atrapalho, não tento os perturbar, mas nem sei onde vou
expor amanha.
— E pretende vender oque amanhã.
— Placas de protesto.
— Maluco.
— Sim, mas o que posso fazer, tenho de sobreviver.
O rapaz sai e a senhora da casa olha ao longe, ela parecia
estar oferecendo a minha casa, que pagava aluguel, não era minha,
algo me indicava o problema, mas novamente, parecia que os a
volta sabiam de algo e não falariam, então naquela noite, fiquei ali,
com as luzes acesas, olhei na minha caixa de trabalho, acho uma
linha e uma agulha, pego 3 tecidos velhos, pego uns ganchos antigos
de cortina, coloco nas pontas, e com dificuldade de quem não tinha
uma cadeira em casa, coloco nas janelas, se antes parecia que a
casa estava vazia, agora teriam de abrir a porta para dizer isto.
Mas algo me dizia para cuidar para não pisar em calos, eu
nunca fui o mestre das relações em casa, e sim o vendedor de coisas
sem sentido, como placas de madeira, papeis com frases, que nada
diziam, e que eu tinha uma certeza, serviam apenas para me
sustentar, pois imaginava elas jogadas ao canto das casas, sem a
pessoa que comprou saber o que fazer com elas.
As vezes me sentia culpado por isto, pois vivia de ilusão
momentânea, não de algo incrível, olho a bagunça que estava
virando a sala, e teria de recomeçar.
Sai a caminhar, olho para algumas madeiras jogadas em um
terreno baldio a frente, olho o estado delas, teria de as levar para
casa após a senhora Marilda ter dormido, ela não gostaria de ver
aquilo entrando lá, ela sempre implicara com minhas criações, acho
que ela imaginava que Bruna trabalhava e colocava dinheiro em
casa, pois a tratava bem, eu sempre com poucas frases.
Olho aquelas coisas, que poucos davam valor, e não sabia se
teria como passar mais uma noite acordado, tinha um colchão
jogado ao relento, meio úmido, mas coberto me daria uma cama,
nem que para a outra noite.
Passei a noite catando lixo, sei que os demais estranham isto,
mas sabia que não teria como comprar as coisas rápido, e se
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gastasse comprando, não teria para o aluguel, as vezes me sinto
inútil quando penso que tenho idade e não tenho uma casa para
morar.
As madeiras eu serrei, lixei, e coloquei dois conjuntos de
pernas, olho para ela e penso que precisava de uma vassoura, olho
a armação de 3 cadeiras que estavam jogadas no terreno ao fundo,
a algum tempo, as lixei, as passei um selador, e cortei 3 madeiras de
mesmo tamanho, lixei as pontas e parafusei nas armações, uma
ficou bem bamba, mas duas ficaram boas.
Pego a sobra das madeiras e faço uma armação para o
colchão e o coloco erguido ali, estava cansado, pego a lona que
usava para cobrir as coisas quando chovia, cubro o colchão, coloco
uma blusa e deito ali, estava cansado, apaguei.

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Acordei assustado, com frio,
acho que estou com febre, pois o
corpo não para de tremer, vou ao
banheiro, tomo agua, reviro as minhas
coisas e acho um comprimido meio
amassado, talvez não devesse tomar
aquilo, mas a febre era evidente, e me
olho tremendo, sento a cama, coloco
mais uma blusa e olho em volta e o corpo tremia.
Os olhos estavam no medo, eu não tinha ninguém que me
queria bem, todos a volta não se preocupavam, se morresse, viriam
bater para receber o aluguel e me achariam.
“Para de pensar besteira.”
Olho uma calça a mais, uma blusa a mais, me encolho, e
deito, cubro os pés com uma blusa antiga, me cubro com a toalha,
estava meio úmida, mas me serviu de coberta.
Eu tremia, o corpo parece amortecer, deveria ser o remédio,
ou a resistência que desenvolvi por anos, já dormi na rua num
passado distante, mas isto não pretendo voltar, mas se for o caso,
não é um mundo estranho para mim.
O corpo tremia, eu resolvi levantar, eu tinha de reagir, vou ao
mercadinho, não tinha dinheiro para remédio, comprei alho e
gengibre, porque vassoura é tão caro, mas precisava, comer alho
sempre foi algo que achei gostoso, mas sabia que com Bruna não
conseguia nem chegar perto dela depois, vi um pedaço de madeira
de uma arvore que haviam cortado e a levei junto para casa.
Mesmo meus piores momentos me lançavam na lembrança
de Bruna, eu passo no material de construção, compro um verniz e
vou para casa, tinha de fazer algo, e começo a envernizar a mesa,
levanto a cama e coloco o colchão a janela, deixando o sol pegar
nele, vi um rasgo no fundo e o costurei.
Varri a sala e peguei a madeira, fiz uma santa e a olhei, ficou
bonita, parecia que ela me olha, mas eu no lugar de pensar em

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vender ela, a coloquei a ponta da mesa, ajoelhei na madeira ao lado
e falai olhando para ela.
— Sei que não está ai Santa Maria, mas as vezes, queria que
alguém me visse e valorizasse pelo que sou, mas dentro de mim,
ainda falta a confiança, como podem gostar de algo que mesmo eu
não gosto?
Eu olhei para a santa e levantei, peguei minhas madeiras e
comecei a fazer algumas frases, coloco a parede algumas e olho em
volta e sorrio.
Quando sentei a frente da casa naquele dia, foi para pegar
um sol, não estava bem, tudo dera errado, e não conseguia
esquecer alguém que ainda morava em meu coração, eu teria de a
tirar daqui, doía ainda, mas não sabia o caminho para isto, era difícil
tirar algo que estava arraigado, e não tinha caminho para o fazer.
Entrei, estava tentando me recuperar, acho que o tempo
passou sem sentir, o corpo estava quase em off, não sei quanto
tempo passou.
Ouvi alguém batendo e vi Mauricio a porta, olhei ele e fiz
sinal para entrar.
Ele entra e olha para a santa, faz o sinal da cruz e fala.
— Tem gente que passou no seu ponto e perguntou por você.
— Estava lá?
— Um senhor, não entendi, mas falei que deveria estar lá
amanha, sabe que não gosto deste pessoal.
— Estava meio gripado, não estava bem, então estou me
recuperando antes de ir para lá.
— Por isto está cheirando a alho?
Sorri, mas assim como entrou, saiu, eu peguei alguns
materiais e olhei para fora, estava precisando de material, e não
teria como comprar ainda, estava com o do aluguel separado, e não
gastaria ele ainda.
Quando anoiteceu, eu sai a rua, sabia que onde tinha a
madeira que esculpi a santa, tinha outros trechos de madeira,
peguei minha mochila, a chamava de mochila de angariação, mas
era uma forma de escolher e separar, cheguei ao local e tinha mais
uns 8 pedaços que dava para esculpir algo, na rua de baixo tinha
uma janela de ferro jogada fora, olhei ela e sorri.
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Peguei ela e levei para casa, eu separei os vidros, os lavei, e
com calma, fui fazendo os escritos invertidos no verso, e depois
pintei de negro o resto, era uma das minhas formas de exposição de
artesanato, passei o resto da fita a volta de 8 deles, e com calma fiz
duas esculturas de figa, e uma de Santa Maria, e fui descansar.
Me ajeitei a cama, coloquei todas as blusas e deitei na cama.

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Quando acordo, pareço melhor,
ainda assustado pela ausência de
tudo, mas olho para a santa e tenho
sensação de que ela brilhava, ajoelhei
ali e rezei uma Ave Maria, e olho para
as coisas, olho para a outra imagem e
falo.
— Desculpa, não faço por mal.
Ele pega as coisas e vai ao mesmo ponto, olha para o lugar, os
comerciantes do outro lado da rua olharam atravessado, sabia que
poderiam chamar novamente a prefeitura, mas fazia parte do estar
diante de um mundo de estranhos, cidades grandes, eram todos
desconhecidos.
Vendi duas placas e vi uma menina pegar a santa e olhar para
a mãe que falou que não adoravam imagens, não entrei na
discussão, pois não era a intensão vender uma imagem, a senhora
me olha e fala.
— Sabe que é um sacrilégio vender imagens.
— Sei que parece uma santa senhora, mas é uma escultura,
de uma senhora, mas mesmo que fosse uma santa, seria referente a
outra religião, respeito aos demais, mas esta é apenas uma imagem
de uma senhora.
A senhora pega a imagem, sabia que era baseada nas vestes
que todos colocavam em nossa senhora e ela fala.
— Mas parece Nossa Senhora.
— Estas vestes remetem ao ano 1500, não ao ano zero.
A senhora olha que a estatua estava com uma veste como se
fosse uma calça larga por baixo de uma anágua, e fala.
— Verdade, bem detalhista, mas para mim parece uma
imagem de Santa.
— Não precisa comprar senhora, esta é uma arte de valor,
não é qualquer um que pode a comprar.
— Acha que não posso.
— Não disse isto senhora.
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— Quanto.
— 600. – Chutei para cima, sabia que a senhora estava
entrando na provocação, via a menina olhando a estatua quase
encantada, dava para vender por uns 60, mas a senhora me olha
desconfiada e falo, olhando a menina.
— Gostou da escultura?
— Sim, é linda, é linda, muito linda.
— Então leva, é um presente, se sua mãe autorizar, pode
levar.
— Não era 600? – A senhora.
— Senhora, as coisas são como são, ela gostou, as vezes um
brilho nos olhos vale mais que uma pilha de dinheiro.
— Provavelmente por isto se veste mal assim. – A senhora,
mas ela pega a escultura e fala.
— Vou pagar 100, não tenho os 600.
— Agradeço a doação então.
A senhora sai e guardo o dinheiro, olho um senhor chegar a
minha frente e perguntar.
— Lucas Camargo Filho?
— Sim.
— Me indicaram você para um serviço, mas não sei se é a
pessoa certa.
— Serviço em que especialidade?
— Uma indicação para uma placa de chácara, mas tem que
atender algumas especificações.
— Escultura em madeira, nisto posso fazer meu melhor
senhor, mas qual o tamanho da escultura.
— Se deixar lhe mostro.
Olho o senhor e recolho minhas coisas e fomos ao carro do
senhor, e quando estava saindo, vi os fiscais entrando na rua, já
estava indo para um serviço.
O senhor pega o carro e fomos a uma chácara na entrada, ele
me mostra uma madeira grande e pergunta.
— Não sei o tempo que demoraria para fazer um trabalho
assim, mas gostaria de uma placa com pássaros e trepadeiras com a
frase, Chácara do Marcos e embaixo, Família Ribeiro.
— Quanto tempo precisa disto senhor.
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— Tenho duas semanas para isto.
— Quanto paga para fazer isto senhor, já que estamos no seu
sitio e não sei nem como chegar aqui.
— Lhe pego pela manha lá, tenho de vir toda manha mesmo.
— Quanto está pagando para este trabalho.
— Ofereço 700, mas se ficar bom, posso ver se damos uma
caixa a mais.
Olho a madeira, a meço e foi inevitável a pergunta.
— Ela vai ser apoiada no que senhor?
— Lhe mostro.
Chegamos à entrada e olho que eram duas madeiras fixadas
ao chão, e aquele pedaço de mais de 14 metros de comprimento e
mais de um metro de largura, circunferência de mais de 2,5metros.
— Alguma exigência para saída?
— Não entendi.
— A madeira pode ter algo no sentido de saída, como volte
sempre, boa viagem, ou algo assim.
— Acredita que daria para fazer?
— Sim, mas tenho de estudar a madeira. – Voltamos para a
parte interna do sitio, medi e olhei para a distancia, olho para as
bases e pergunto.
— A trepadeira pode descer ao chão senhor?
O senhor sorriu e falou.
— Podem, pensei que pediria mais por isto.
— Eu faço, se achar que pode pagar mais, sempre agradeço a
chance de fazer o meu melhor senhor.
O senhor me deixa ali, meço a madeira, a frase, faço a pré
letra, os pássaros sobre o tronco nas ponta, como se estivessem em
galhos, na ponta esquerda um João de Barro e sua companheira na
toca, e a direita a cabeça de uma Harpia, os escritos, e começo a
esculpir.
Olho para o caminho e vou a estrada, ajeito as medidas da
Harpia com as asas encolhidas, e na parte oposta, pássaros, e os
braços de uma arvore, onde tinham pássaros, ajeito alguns galhos e
começo a fazer o acabamento, o senhor olha para mim no fim do
dia para me dar uma carona e pergunta.
— Acha que termina em duas semana?
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— Sim, uma pergunta, o senhor me vende aqueles retalhos
de madeira a beira da estrada?
— Pega, iria jogar fora, cortamos algumas arvores, e sobre os
troncos, os locais fazem lenha com aquilo.
— Nó de pinheiro, sei que faz um bom fogo, mas também é
bem resistente para esculturas.
— Estaciono o carro lá, pegamos e leva, se acha que pode lhe
ser útil.
Sorri, colocam no carro, a senhora viu o senhor com o carro
novo me deixando, não sei o que ela pensou, mas eu coloquei para
dentro as madeiras e os nós, e ouvi o senhor falar.
— Passo sedo, não sei que horas acorda.
— As vezes perco a hora, mas vou estar pronto senhor.
Entrei, peguei as minhas coisas, ajeitei no lugar, olho para o
valor do aluguel e fui a porta da senhora Marilda e peguei o aluguel,
ela me perguntou porque estava adiantando, e fui sincero.
— Pagando para não ficar com o dinheiro a rua, com ele no
bolso senhora, posso ser assaltado e perder tudo.
— Novo patrão.
— Uma encomenda, se der certo, pode ser 3 meses de
aluguel, o que é uma boa coisa, mas tenho de conseguir entregar no
prazo.
— Mais animado hoje, mas pensei que me daria o calote este
mês, sua es sempre me pagava direito.
Não falei nada, sinal que falavam mal de mim pelas costas, e
não entrei em detalhes, apenas me despedi e voltei a casa, antes de
parar, fui a uma loja a 3 quadras e comprei duas mantas, destas
baratas, algo para comer e um travesseiro.
Chego em casa, arrumo aquilo na cama, iria por aos pouco as
coisas no lugar, ajoelhei a frente da santinha e agradeci.
Me senti meio bobo agradecendo, mas me senti bem, e
peguei os nós de pinho e começo um projeto, estávamos chegando
em novembro, separo os tamanhos, faço um burro, um boi, umas
ovelhas, e separo o que seria três reis magos em seus camelos, e as
três peças principais de um presépio.
Pego uma tabua e no canto da sala, faço uma mesa baixa, e
coloco ali as primeiras peças, e falo comigo mesmo.
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Vai ficar bonito, só tem de caprichar.
Olho para os pedaços de madeira bem cortadas e pego o
cerrote e começo a cortar em fatias a madeira maior, e depois os
pedaços menores, lixo bem e passo um verniz a toda volta, para
formar um conjunto de apoios para copos e panelas, tinha de três
tamanhos, e os dos copos, fez 3 conjuntos e coloco no canto,
separando os conjuntos, pego dois nós e faço duas esculturas de
moças, sorrindo e olho em volta.
Estes nós são firmes e jovens, teria de os deixar secar, mas dai
não teriam a aparência atual. Reparo nos conjuntos de madeiras e
vejo que com aquelas poucas madeiras, recolocaria todo o estoque,
mas não daria para ficar naquele ponto, teria de pensar nisto, pois
os fiscais não desistiriam de limpar a região.
Comi uma maçã e cai na cama, os pensamentos foram a
Bruna, porque ela não abandonava meus sonhos?

18
Me levantei, tomei um banho,
e peguei uma maça a mais, não teria
luxo, mas se tivesse esta entrada,
poderia começar a pensar em pelo
menos voltar a ter um fogão.
Ajoelhei e orei, fechei os olhos e
tive a sensação de bem estar e abri os
olhos, os olhos da santa pareciam
mais felizes, eu estava mais feliz
aquele dia, menos deprimido.
Olho senhor vir e buzinar, ele nem buzinou a segunda vez e
estava já na porta, não olhei para a casa ao lado, tinha certeza que
Marilda olhava, e não queria a encarar, não estava ainda firme para
desafiar, e mesmo ela me julgando, não tinha nada contra ela.
Fomos ao sitio, e olhei que tinha uns rapazes lá e o senhor
falou.
— O pessoal está ai para ajudar a levar a madeira para lá, vi
que quer acertar a escultura daqui com a de lá.
Sorri, 10 rapazes, muita força, mas que em 10, foi levar e
erguer, quando ajeitamos no lugar, empurramos no sentido da
cabeça ficar sobre o corpo da ave e o senhor entendeu a ideia e
falou.
— Agora entendi o que era a parte baixa, mas você não é
qualquer um, pensou no projeto inteiro, está ficando muito bom.
Tentei não absorver o elogio, precisava me concentrar, os
rapazes ficaram por perto para ajudar, mas gente olhando não
facilita em nada esculpir, ajeitei os galhos de um lado, como se
fosse parte da arvore que subia ali, e nos galhos, pássaros, desço e
olhei frontalmente aquele conjunto e olho para a ave colocada
sobre um pedestal, como se tivesse a frente, as costas dela, a
madeira que cruzava a estrada, a mais de 10 metros de altura, a
frase, uma sequencia de pássaros, de flores, dando vida a aquela
escultura, estava distraído quando ouvi a buzina e tive de tirar a
escada do meio do caminho, vi o senhor voltando, mas ao lado do
carona estava Bruna, ela me olha como se soubesse e fala.
19
— Está ficando bonito Lucas.
Olhei o senhor e olhei o local, por dentro, a ver me fez
recordar, parecia com roupas novas, cabelo alisado, pintado, ela
estava linda, se por um lado sorri, por outro, odiei, um misto de
sentimentos nesta hora, mas não sei o que senti naquela hora,
vontade de largar tudo, não entendi aquilo, mas para mim parecia
apenas uma coisa.
O carro entrou, eu fiquei a olhar e um dos rapazes pergunta
para ele.
— Conhece a namorada do patrão?
“Namorada”
Eu olhei como se tentando ignorar, mas vira e volta eu olhava
para dentro, eu tive de me concentrar para voltar a esculpir,
coloquei o “Boa Viagem”, eu me senti traído, usado, mas talvez eu
tivesse mesmo de esquecer, o coração queria bater, a razão queria
sumir, e terminei a parte do fundo, comecei a lixar, teria mais de
dois dias para lixar, eu não estava conseguindo me concentrar,
quando fui mais quieto que o normal, o senhor não puxou assunto,
eu cheguei em casa e sai a caminhar, mesma igreja eu ajoelho e
olho o santo e sinto a lagrima aos olhos, eu a perdera, eu não
merecia ela? O que eu poderia fazer para passar por isto, eu sabia
que não era fácil, eu queria que fosse fácil, mas meus olhos cheios
de lagrimas olham aquela imagem novamente se mexer a minha
frente e falar.
“Todos tem direito a felicidade Lucas, tem de entender, você
não a fazia feliz, você tem de entender, o que lhe fazia feliz, nunca
foi Bruna, quem lhe fazia feliz, era você mesmo, você é um bom
filho, mas tem de entender, tem de aprender a se amar, antes de
abrir o coração novamente.”
Sequei os olhos e olhei para o santo a minha frente e orei,
pois precisava me controlar, volto para casa, pego algumas peças e
começo a esculpir, pássaros, estava amanhecendo quando ainda
esculpia aqueles pássaros.
O senhor buzinou, eu coloquei todos os pássaros na mochila,
o senhor me cumprimenta, eu não teria de o odiar, teria de
entender que todos, todos mesmos, tentam ser felizes, eu comecei
a fazer pontos sobre a madeira, buracos onde coloquei galhos que
20
tinha alisado e quando o coloquei sobre a madeira principal, vários
galhos, com aquelas 25 esculturas de pássaros, eu desço e um dos
funcionários me olha e fala.
— Parece que realmente uma arvore caiu ai, mas ficou muito
bom, pensei que era apenas um escultor iniciante.
— Estou cansando hoje, estes pássaros me tiraram a noite de
sono, mas vou começar a pintar os pássaros e folhas e depois vamos
pintar a Harpia e por fim, envernizar tudo. Preciso de uma ajuda,
não sei se consegue que o pessoal me ajude.
— O que precisa.
— Ali no fundo tem uma madeira caída, queria a encaixar na
que está a placa, como se realmente fosse uma arvore que caiu.
O rapaz sorriu e foi pegar uma maquina, entendi que não
teriam outros naquele momento, mas vi que por ser uma madeira
que não tinham como de valor, ele com um trator puxou para o
local.
Fiz sinal, fiz para aproximar, cortei parte da madeira e ela
encaixou, a raiz ficou ao chão, como se tivesse deitada, olho para
aquilo e começo a limpar aquilo.
O rapaz me olha ajeitar o resto da arvore e pergunta.
— Vai dar conta?
— Aqui ajuda, vou cortar e encaixar exatamente, quando
colocar os galhos e as aves, vai sumir a emenda.
Eu vi as sobras, estava distraindo a mente, tentando não
pensar, coloquei na mochila outros nós de pinheiro, olho para as
sobras e alguns troncos cortados, coloco a volta nos dois lados, e
sento a um e começo a esculpir umas Harpias menores, uns
pequenos homenzinhos e coloquei sobre os troncos, sorri e olhei o
rapaz chegando.
— O patrão quer saber se vai comer algo?
— Se conseguir um prato, não sei se ele comprou as tintas
que falamos?
— Vai dar cor agora?
— Sim, a tinta faz a madeira durar muito mais, então vou
começar a pintar as peças, mas os pássaros consigo pintar no chão e
fixar lá depois.

21
Eu tentava manter o foco, se alguém iria me pagar algo por
aquele trabalho, eu o faria da melhor forma, era fim da tarde,
cansado, o senhor me deixa em casa, acho que meu cansaço estava
estabelecido no rosto, vou ao mercadinho e compro algo para
comer e sento-me a olhar para fora, numa das cadeiras que
recuperei.
Vi aquela senhora entrar no terreno, a menina vinha ao seu
lado, não entendi, o que faziam ali, e ela parou a minha frente.
— Achamos ele filha.
A menina estava com a escultura a mão.
— Podemos falar rapaz?
— Quer o dinheiro de volta? – Estava cansado, então pensei
em algo ruim, fui rude e ela falou.
— Não, pelo jeito está cansado.
— Sim, esculpi a noite inteira, coloquei no lugar hoje, uma
encomenda, mas não descansei ainda.
— Vim pagar o resto da escultura.
— Disse que foi um presente senhora.
— Mas minha filha acalmou com a escultura, não sabe o
quanto ela é especial, mas ela começou a falar mais naturalmente
desde o dia que você falou com ela, sou grato.
Eu talvez não tivesse visto diferença na menina, mas ela era
Autista, e não tinha reparado, mas talvez tivesse passado outra
impressão a senhora.
— Ela fala com a boneca, ela consegue se desligar dos demais
assuntos, quando fala com ela, isto faz ela sorrir, não sabe o quanto
para uma mãe, isto faz de diferença.
— Agradeço a ajuda senhora, sempre digo que pessoas
especiais, são as que nos fazem mostrar nosso melhor lado.
— Ela ficou falando que tinha de pagar a boneca, pois foi o
melhor presente de sua vida, não posso discordar disto, até o pai
dela, concordou com isto.
A senhora me alcança o dinheiro, sorri e olho para a moça.
— Deixa eu dar um presente para ela, senhora?
— Se não for uma santa.

22
Entrei e peguei um João de Barro que esculpira na noite
anterior, e o trouxe para fora e dei para a menina que me olha e me
pergunta como se me olhando de lado.
— Um passarinho?
Olhei a menina e falei.
— Quando os pássaros do lado de fora cantam, ouvirá ele
responder em sua mente, separando isto, verá que ele é um bom
amigo para estas horas.
— Eles falam com ele?
— Vai ver que sim.
A menina sorriu e a senhora sorriu, a menina não se
desgrudava da escultura há dois dias e olha para o passarinho e
pergunta.
— Mora nesta casinha?
— Alugada senhora, não tenho minha casa, mas com calma
chego a isto.
— Saiba que é um excelente escultor.
— Agradeço o elogio.
A menina me deu um Tchau que me fez sorrir, esquecer dos
problemas, entrei, fechei a porta.
Eu ajoelhei e agradeci a santa ter me controlado, estava bem
cansado, e cai na cama, dormi como uma criança naquela noite,
com sonhos bons.

23
Acordo de sobressalto, ouço a
buzina, saio a porta e peço um
momento, o senhor pareceu não
gostar de estar atrasado, e falou.
— Tem de ter horas rapaz.
Não falei nada, olhei o senhor e
apenas me desculpei.
Sei que as pessoas que tem um
pouco mais, acham que devemos a eles os mesmos estarem
comprado nosso serviço e ouço.
— Não quero aquelas esculturas de anão na beira da estrada,
o portal é suficiente, não gosto daquilo.
— Tiro de lá senhor, não tem problema.
Ele estava irritado e estava nítido nele aquilo.
Ele me deixa na porteira e entra, não falou nada, eu olho o
verniz, vi que o senhor não falou nada, eu também não falaria,
coloquei os anões para fora, peguei o verniz e terminei o passar em
todas as peças, bati a casa e o senhor veio descontente.
— Problemas rapaz.
— Passei o verniz, tem de deixar 3 dias agora para secar e
penetrar, então por três dias, não tenho o que fazer senhor, apenas
avisando.
— Sabe que me impressiona seu sistema de trabalho, mas
não tenho como lhe dar carona este horário.
— Não nasci num carro senhor.
— Quer um adiantamento.
— Recebo no termino senhor.
Ele estava sendo duro, vi que ninguém nem me ofereceu uma
carona até a estrada, então peguei minha mochila, e comecei a
voltar.
Não era este o caminho que me tiraria do buraco, mas se ele
pagasse, começava a achar que ele não pagaria, estranho quando
sinto algo assim, mas a certeza me veio, sabia que a porteira estava
quase pronta, já poderia ser dada como pronta, mas ainda faltava
24
muito, e minha saída, sem carona, me estabelecia que o senhor
achou que demoraria mais, ele queria algo, o que não sabia.
Chego a uma lanchonete na estrada, pergunto que ônibus ia a
cidade, e pego ele.
Depois de quase uma hora e quarenta chego a casa, olho para
a senhora Matilde que me fala.
— Aquele vagabundo perguntou de você.
— Não conheço nenhum vagabundo senhora.
— Aquele que veio estes dias, ele disse que queria falar com
você, mas que não sabia onde era o lugar que você estava
trabalhando.
— Sem problemas, mas deixa eu tomar um banho, esta coisa
de ônibus no fim do dia, nos mata.
— Já foi mandado embora?
— Por 3 dias, o trabalho não vai estar em condição de ser
mexido, então tem de dar tempo ao tempo.
Entrei na minha casa, vi que alguém tinha mexido nas coisas,
vi que a santa estava em lugar diferente, a senhora mexera nas
minhas coisas, isto eu estranhava.
Tomei um banho, olhei para as peças, Mauricio agora só
acharia depois das 18 horas, sexta feira, ele cuidava de carros na
lateral do Teatro, olho para as peças, pego alguns outros nós que
trouxe nestes dois dias, e começo a fazer as peças do presépio, eu
ajeitei elas no canto, como se fosse um altar, sorri da ideia, ficou
bonito, pego alguns retalhos de madeira e faço a cabana, pegou um
pedaço de vidro, coloca a mesa fazendo um pequeno lago, ele teria
tempo para ficar pronto.
Saio a andar, a mochila as costas era algo normal sempre, na
esquina a policia me para, me revista, e olha o que tinha na mochila,
aquela historia de escultor, nunca era recebida bem, eles me
achavam um vagabundo, vi que a senhora Matilde achava isto,
talvez mesmo com o aluguel pago, tivesse problema, mas caminho
pelo terreno baldio, e retiro vidros de uma segunda janela, muito
pesada para que levasse para casa, mas os vidros, coloquei na
mochila, voltei para casa e abro a porta e me deparo com dona
Matilde dentro da casa.
— Problemas senhora?
25
A senhora me olha assustada e fala.
— Tem de entender que não gosto de você rapaz.
— E isto a faz invadir a casa quando me viu sair? Não entendi,
quer que ache outro lugar para morar?
— Sim.
— Sem problemas senhora, saio, mas vai me devolver o
aluguel?
— Fica como quebra de contrato.
— Acha engraçado roubar senhora, pois isto é roubo, a
senhora sabe disto, você está me mandando embora.
— Me acusando, chamo a policia.
— A senhora que sabe, mas me dá a licença, amanha arrumo
outro lugar para viver.
A senhora sai e olho para os cantos, não sei o que ela fazia ali,
ela se assustou, mas ela olhava a santa.
Ela estava na porta da casa dela e fala.
— Lhe dou até segunda para esvaziar.
Entrei e ajoelhei.
— Sei que quer me dizer algo, mas oque mãe?
Senti uma calma, e vi o lugar brilhar, não entendi, olhei em
volta, era o mesmo lugar, mas vazio, senti uma paz, e sorri,
agradeço e sorrio, lembro que Bruna não sabia onde eu estava
vendendo as coisas, Mauricio foi a porta, sorri e olho em volta,
desmonto a mesa, pego algumas sacolas plásticas e guardo as
minhas coisas.
Tomo um banho, arrumo as coisas, deixo varrido, ajeitado,
olho para as minhas poucas coisas, dobro minha roupa, coloco em
duas sacolas.
Carteira no bolso, tudo arrumado, santa na mochila, algumas
poucas coisas, e saio, vou no sentido do sul da cidade e olho para
um senhor ao bar no Sitio Cercado.
— Como está senhor Carlos.
— Vivos sempre aparecem, como está menino.
— Ainda tem quartos a alugar?
— Onde está a esposa?
— Achou algo melhor.

26
— Tenho uma casinha no fundo e um quarto, não sei o que
fica dentro do que precisa.
— Casinha, a 5 anos não tinha isto.
— As coisas não estão mal, mas estou pedindo 100 na casa.
— Primeiro adiantado?
— Sim.
— Posso ver senhor Carlos.
Entramos na peça e ele fala.
— Não sei se precisa dos dois quartos, mas o rapaz que
estava aqui deixou a cama e uma geladeira, se quiser tiro.
— Aluga com isto dentro?
— Pelos mesmos 100.
Tiro os 100 e dou na mão do senhor que sorri.
— Vai mudar quando?
— O pouco que tenho, é os braços senhor Carlos, Bruna
esvaziou a casa, quando saiu.
— Não trazendo confusão para cá, sabe que é bem calmo.
— Apenas se alguém perguntar, não precisa dizer que sou eu
na casa senhor, estranho quando gente me procura onde não estou,
e me acha.
— Enigmas?
— Fui contratado para fazer uma escultura, mas tudo me
indica que não vou receber, então tenho de conter gastos senhor
Carlos.
— Certo.
O senhor sai e eu entro no banheiro e olho para o chuveiro,
coloco o meu, ajeito aquele no armário que tinha no banheiro,
coloco a santa sobre a geladeira e faço o sinal da cruz e ajoelho.
— Sei que não entendi senhora, mas algo me diz, sai de lá, e
estou aqui.
Senti a paz, e orei mais um pouco.
Fui a avenida e comprei uma manta, uma colcha, e um
sanduiche, sorri, pois o custo foi quase metade do que tinha
comprado perto do centro.
Chego a casa e ajeito as coisas, e sobre um colchão usado,
mas bom, estiquei a colcha, coloquei a manta, tomei o banho e
fiquei a esculpir as peças pequenas.
27
Sabia que não teria muita coisa
a fazer no sábado, mas acordei cedo e
fui a casa da senhora Matilde, peguei
as peças, o travesseiro, 6 sacolas de
roupa, tiro os tecidos das janelas, os
dobro, coloco em outra sacola, fecho a
porta e saio, sabia que não entraria ali
novamente, mas Matilde deve ter
pensado que voltaria para pegar a mesa e as cadeiras, não, se era
para me afastar do problema, iria me afastar.
No meu interior queria sentir que algo estava certo no antigo
caminho, mas sentia que não estava, e a paz de sair dali, foi algo
que a muito não sentia.
Olho para a rua, sábado cedinho, nada aparente, estava
impressionado, vou a rua e pego o ônibus para um recomeço.
O senhor Carlos olha para mim e fala com eu entrando.
— Preciso falar com você.
Deixei as coisas e fui a parte frontal.
— Problemas senhor.
— Um senhor veio perguntar de você.
— Senhor? Ninguém nem foi avisado que estou aqui.
— Mauricio, parecia um mendigo de rua, mas ele perguntou
de você, e falei que não estava.
Paro na afirmação e pergunto.
— Como?
— Deve algo para ele?
— Não, mas se for quem eu penso, ele não teria como saber
que estou aqui Carlos, ou é outro Mauricio.
— Um senhor o trouxe, de carro, perguntou de você, e
saíram.
— Honda Civic prata?
— Sim.
— Menos mal senhor Carlos, serviço.

28
Carlos sorriu, mas eu sabia que não fazia sentido, nem eu
sabia que estava ali, e como ele saberia, talvez Bruna fosse a
resposta, mas não teria como saber ao certo.
Entro e olho para minhas anotações, olho para o local e
penso, que eles também deveriam achar que mudaria durante a
semana, a não ser que estivessem me vigiando.
Sorri da ideia, paranoia, ninguém persegue pobre.
Ajeitei as poucas coisas e fui a avenida e olhei uma loja de
moveis usados, um fogão, uma mesa pequena, uma pia, duas
cadeiras, e o senhor colocou na caçamba da Fiorino dele e quando
cheguei com os moveis, comecei ajeitar as coisas, aos poucos
pensando em retomar minha vida.
Olho para as coisas que tinha, pego o pouco que podia gastar
e compro no material de construção da esquina uma fita adesiva,
um verniz e dois pinceis.
Começo a ajeitar os quadrinhos em vidro, faço duas estatuas
a mais e duas estruturas de madeira com passarinhos, para se
pendurar em algum lugar.
Corto os pequenos quadrados de madeira e fixo os pequenos
pássaros feitos com nós, alguns pequenos anões, estava a me
distrair e o sábado foi passando, quando alguém bateu, não atendi,
pois não deveria ser para mim, pois eu não havia falado que estava
ali.
Estava distraído quando aquele senhor chutou a porta e dois
policiais entram apontando armas de alto calibre, e um fala
gritando.
No chão.
Eu levante as mãos com calma, e deitei no chão, não sei o que
estavam fazendo ali, mas era obvio, eu não achava dever nada,
então não estava pensando em problemas.
O rapaz olha tudo e fala.
— Vazio.
Um me algemou, estranhei e falou.
— Conduz a delegacia.
Olho envergonhado para Carlos, pois o estava
envergonhando, e não sabia o que estava acontecendo.
O senhor pergunta algo e o policial não falou nada.
29
As vezes diziam ser policiais militares, mas porque alguém
estaria me procurando onde não deveria estar.
Fui colocado em uma sala e vi aquela moça entrar e me olhar
e falar.
— Foi ele sim delegado.
O rapaz me levanta e me joga na cela, fui eu, oque fiz, nem
me falaram e me jogaram lá, deveria ser grave, mas oque não sabia,
começo a me sentir usado, odiava isto, o que não entendi.
Um rapaz para ao meu lado e pergunta.
— Novo no lugar, fez oque rapaz? – Eu olhei ele, como dizer
algo que não sabia, e fiquei quieto, o rapaz do outro lado me olhou
e fala.
— Este ai é aquele vendedor da XV.
Alguém me reconheceu, estranho, será que não era tão
invisível quando achava?
Meus sentimentos estavam estranhos, eu ajoelhei e rezei,
alguns tiraram sarro, mas eu não lhes devia nada, e olhei em volta,
senti que era pesado o lugar, mas dentro de mim, veio uma
esperança, algo estava comigo, lembro da estatua e penso dos
últimos dias e penso, o que poderia ter feito diferente, nada, tudo.
Lembro da ultima semana com Bruna, ela falando que tinha
acabado, que não me queria mais, que eu fora um engano, aquelas
frases que são feitas para machucar, que foi infeliz por 5 anos, será
que eu era cego, pois ela não me parecia infeliz, sentei ao fundo,
sabia que não teria cama para mim ali, esperava ser ouvido e
liberto, mas não parecia ser este o caminho.
Sabia que dormiria encostado naquele canto, ou em outro, vi
que as pessoas começam a se encostar, que distribuíram cobertas,
estavam fedidas, mas isto nunca fora problema.
Os demais se ajeitam e me cubro, não foi bem uma noite,
mas na manha, me levam a um interrogatório, tinha um rapaz do
ministério publico, mas ele não falou comigo, então não sabia o que
estava acontecendo.
— Lucas Camargo Filho, tudo que falar pode ser usado contra
você, vamos fazer algumas perguntas, tudo bem.
— Posso fazer apenas uma pergunta senhor? – Olhei o
delegado, ele me olha esperando algo.
30
— Sim.
— Do que sou acusado, tenho o direito de saber.
O delegado olha para o rapaz e fala.
— Se acha engraçado.
— Foi uma pergunta delegado, do que sou acusado.
— De ter participado de um assalto no centro na noite de
sexta, onde duas pessoas foram mortas.
Me calei, era armação e o senhor perguntou.
— Onde estava as 11 horas de sexta, tem testemunha?
— Na casa onde me pegaram, sem testemunha, pois estava
sozinho.
— Porque mudou de casa de sexta para sábado?
— A proprietária me deu até segunda para sair de lá.
— Conhece Mauricio Diógenes Marinho.
— Conheço uns 10 Mauricio senhor, nome completo na rua
não se usa.
— Mauricio Estacionamento.
— Todo ser que já morou na Rua, já o fiz, conhece Mauricio
Estacionamento senhor.
— Temos uma testemunha que lhe aponta como estando lá,
o que tem a dizer sobre isto.
— Que acareação mostrando alguém que ela não conhecia,
para fixar os olhos em mim e saber quem acusar, foi bem feita.
O delegado olha e bate a mesa, eu não tinha medo, mas não
era alguém que estava entendendo.
— Não vai confessar?
— Senhor, eu nem sei que loja é esta que está falando.
O delegado me olha e coloca uma imagem de fala.
— Assaltaram uma loja, e esta criança foi morta, você vai
responder por assassinato, acha que deixamos criminosos na rua.
Olhei a fotografia e olho aquela menina, meu coração se
rachou naquele momento e falei.
— Desculpa senhor, mas não entendo a acusação, pode me
tirar da rua, mas não está colocando criminosos na cadeia, está os
deixando solto, e acusando o pobre.
O senhor bateu na mesa, e o rapaz do ministério público me
olha pela primeira vez.
31
— Tem de colaborar rapaz.
— Quem é você? – Perguntei, já fora acusado antes, mas
nunca preso, sabia quem deveria ser.
— Ministério publico, quem está tentando lhe defender, mas
as acusações são graves.
Olhei o delegado e falei.
— Sei que sou pobre, que não tenho álibi, nem dinheiro para
uma fiança, com um advogado que nem quer saber de estar aqui,
uma defesa que nem me informa do que sou acusado, então
delegado, se já escolheu o culpado, e isto é quem vai me defender,
melhor me mandar para a cela.
O delegado olha o rapaz do ministério publico e fala.
— O que tem para falar a favor dele?
O rapaz nem me ouvira, como ele poderia se posicionar, e
fala.
— Não tenho ainda dados para expor a defesa senhor.
O delegado fez sinal para o rapaz na porta e fala.
— Levem para a cela.
A imagem da menina com Autismo não me saia da mente,
alguém a matou, a mãe que antes me pagara, agora com certeza iria
querer minha morte, pela morte da menina, não teria como a
culpar, e quando chego a cela, desta vez, alguém mandara me
bater, pois apanhei, lembro de sentir muita dor, de cair e me
acertarem na grade, apaguei.

32
Acordei sendo colocado na
maca, um dos rapazes olha que estava
cortado ao lado e suturam antes de
me levar, olho tudo turvo e ouço o
delegado falar.
— Quem quer ele morto Diego?
Não sei quem é este Diego, mas
a voz foi de um senhor que falou do
lado de dentro.
— Assassino de crianças, tem de morrer.
— E quem lhe informou o crime dele?
— Todos sabem.
O delegado fala algo a mais, mas não ouvi, estavam me
levando de maca a algum lugar, senti algo ser colocado em minha
boca, tive dificuldade, era oxigênio, e ouvi a sirene da ambulância e
senti a dor com o movimento.
Os meus sentimentos estavam no crime, mataram a única
coisa que me fez alegre nos últimos dois dias, olho para o lado, sinto
o corpo leve, será que vou morrer?
Sinto o corpo balançar, mas foi distante, abro os olhos e olho
o rapaz usando o desfibrilador, olho o rapaz falar.
— Está abrindo os pontos.
— O pulso sumiu.
Sinto minha alma ser puxada para o corpo e ouço o aparelho
de pulsação apitar e o rapaz parece aliviar um pouco.
— Tem certeza que quer salvar isto.
— Pelo que entendi, este está morto, mas não sendo em
nossas mãos, não me preocupo.
A ambulância chega e freia, sinto a dor, um resmungo e sinto
tirarem-me da ambulância, fui deixado em um corredor, não via
nada, e vi os dois rapazes me deixarem e ouvi por ultimo.
— Agora se parar, não teremos de fazer laudo.
O outro sorriu, senti o coração e senti alguém pegar a minha
mão e olhei para o lado, vi aquela alma a me olhar e falar.
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— Calma rapaz, nem todos que chegam, morrem.
Eu não conseguia respirar direito, sabia que tinha oxigênio
puro a boca, poderia estar alucinando.
Fecho os olhos de oro baixinho, não conseguia mexer as mãos
para as cruzar, estava preso a maca.
Sinto o movimento da maca novamente e vejo que abrem
uma porta e ouço.
— Está perdendo muito sangue.
— Veio da delegacia senhor, nada urgente. – Um rapaz ao
corredor.
O medico olha para o rapaz e fala.
— Tira este senhor daqui.
Senti sono e dormi.

34
Senti dor e vim a consciência,
gosto amargo na boca, seca, senti a
dor dos olhos e um rapaz fala a porta.
— O 22 acordou, avisa a
enfermagem.
Ouço uma correria e uma
senhora me olha e fala.
— Entende algo?
Balancei a cabeça positivamente.
— Sente algo.
Tentei falar e saiu um:
— Sedsss.
— Agua? – Ela perguntou.
Balancei a cabeça e vi uma moça trazer uma espécie de
esponja e me colocou a boca, a garganta dói, senti que estava a
algum tempo se tomar nada, a dor foi forte no estomago com
aquelas gotas de água e senti a lagrima nos olhos.
Não conseguia ver direito, vi que lavaram meus olhos e vi a
luz melhorar, e ouvi algo que não fazia sentido.
— Voltou depois de dois meses e 7 dias.
Tento entender o que aconteceu, para minha mente, entrara
ali a poucas horas, mas pelo jeito, fiquei a cama um tempo imenso.
Um médico entra pela porta e fala.
— Qual o agito?
— Cama 22 acordou.
O senhor saiu e não entendi, pouco após ouço a voz.
— Temos de relatar a policia, ele era um criminoso quando
foi trazido para cá depois de uma briga.
— Estes nunca se vão fácil. – A moça que antes tinha
perguntado de sentia algo, vi que o que era uma boa vinda, agora
era uma critica.
Os olhos estavam irritados e olho em volta e agradeço a Deus,
olho para os lados, minha vista via muito mais coisa e senti uma
mão na minha, virei o pescoço e vi aquele rosto jovem que me fala.
35
— Tem de melhorar moço.
Sabia que era um espirito, mas nem sabia seu nome e
perguntei.
— Por quê? – Não sei nem se os demais ouviram, mas ouvi
ela falar.
— Eles precisam entender moço, eles precisam entender,
que hoje sou mais eu, mais eu, muito mais eu. – Eu sorri e ouvi um
segundo senhor falar a porta.
— Melhor tratar este bem, pois sei que nem inquérito deve
ter ainda, ele não foi ouvido, ele tinha sido preso no dia da briga, é o
que diz a ficha, muitos acreditavam que ele morreria.
Penso e começo a tentar lembrar das coisas, eu desconfiei
certo, mas tudo que me fizeram, estava no caminho que deveria ter
traçado, tinha certeza disto, e como tudo que enfrentei desde os 14
anos, quando sai de casa, vim para a cidade, vivi na rua, aluguei
meu primeiro quarto, e fui aprendendo a reproduzir coisas com um
canivete, que lembro que ganhei para outro fim.
Mas uma coisas não saia da minha mente, dois meses,
perdera dois meses em uma cama, e nem sentia o corpo ainda, as
pernas pareciam adormecidas, dois meses sem a usar, teria de fazer
fisioterapia, as mãos, tento mexer os dedos, eles estavam ali, mas a
dor de músculos parados, foi grande, mas comecei com calma.
Acho que ficou na minha feição a dor pois ouvi alguém falar.
— Ele está tentando se mexer, mas parece doer.
Ouvi uma moça falar.
— Vai com calma, se ficou 2 meses, e voltar a se mexer, com
certeza vai retomar os movimentos.
Por um momento achei que estava tudo voltando, mas ainda
parecia que não controlava as coisas.
Senti me aplicarem algo ao braço, e dormi novamente.

36
Odeio me sentir inútil, e esta
cama me diz que estou um caco,
soube que não teria fisioterapia,
soube que assim que tivesse como
andar, voltaria para a delegacia.
Às vezes esqueço que este país
a classe media fala que quer justiça,
que lugar de bandido é na cadeia, mas
não pagar um funcionário não é crime, já pegar uma pera por estar
com fome, é crime inaceitável.
Estava a duas semanas acordado, e sabia que consideravam
que iria para a prisão novamente, toda manha, eu ajoelhava na
beira da cama, e fazia minha oração, sabia que alguns me
chamavam de hipócrita, mas o que eles entendem de se olharem ao
espelho.
No fim daquele dia, fui transferido para a delegacia, obvio
que a cela não tinha muitos, e vi que o rapaz do ministério publico
pediu para me falar.
— Senhor Lucas Camargo Filho, estou pedindo sua liberdade
condicional, mas pelo que vejo não tem endereço fixo.
Olhei o rapaz, o que falar, a policia me tirou de lá, na força, fui
jogado a cela, e com certeza, não teria nem dinheiro para
recomeçar.
— Vivia numa casa alugada, quando me tiraram de lá a três
meses senhor.
Ele me olha e pergunta.
— Sem residência fixa, não conseguimos estabelecer
liberdade condicional, não teria onde ficar, um parente.
— Não. – Por dentro xingava e olho para o rapaz e falo – Se
não quer ajudar rapaz, não se preocupa, me matam desta vez, pois
se tentativa de assassinato aqui dentro, é tido como normal, e lá
fora, acusação de assassinato sem provas, me trouxe para cá, e não
consegue me soltar, que eles tenham uma melhor pontaria desta
vez.
37
— Seu caso não é fácil.
— Qual a dificuldade senhor, eu aluguei uma casa, passei lá, a
noite inteira, o proprietário mora acima, e é impossível entrar e sair
dali sem tocar o interfone de entrada, então eu não sai, mesmo não
tendo ninguém lá comigo, qualquer pessoa poderia ter feito esta
pergunta para o proprietário, mas não o fez.
— A versão dele é diferente desta.
— Diferente, então poderia me dizer quem é Camilo Prestes
Oliveira?
O rapaz lhe olhou e perguntou.
— Porque quer saber sobre o desembargador.
— Desembargador? Esquece, estou ferrado, agora entendi,
me manda para a cela, vocês não querem que sobreviva.
O rapaz me olha e fala.
— Ele é dos desembargadores mais bem conceituados do
estado rapaz, nada que falar contra ele, vai pegar, não adianta
inventar.
— Entendi, muito mais que você rapaz, mas se não consegue
minha liberdade, mesmo depois de ter sido quase morto ali, sinal
que ninguém quer me libertar, sabe disto.
— E vai aceitar.
— Talvez isto que esteja no prospecto, deveria ter morrido, e
não morri, pois rapaz, eu não temo a morte, temo vocês, a lei.
Fui conduzido ao IML, fiz corpo delito, estava um caco, e fui
colocado na cela novamente.
Sabia que iria morrer, ou achava isto, eu apenas fui ao canto,
ajoelhei e orei.
— Sei que estou nos meus últimos momentos mãe, mas
tenha pena destes que falam em leis, mas não a aplicam, tenha
pena destes que se fazem de indignados, e apenas se venderam
para ter algo para os filhos lá fora, pois sabe que minhas mãos, são
o que tenho para me sustentar, elas não funcionam mais tão bem,
minha vista, era o que me permitia ver os detalhes, minhas pernas,
me levar ao local onde vendia o pouco para sobreviver, tudo isto
entrego a senhora, pois sabe, a menos de3 meses, entrei em seu
caminho, começo a entender os pesos de carregar algo assim, mas
saiba, estou aqui para colher as consequências.
38
Senti tudo a volta, senti aquela mão e olhei a menina na parte
de fora da grade, que estava a minha frente e ouço.
— Sabe que me fez feliz, porque não consegue sorrir mais.
Senti a paz da frase, e senti alguém bater na minha cabeça,
não olhei, senti o ferro da cela e alguém fala alto.
— Porque o matar Ricardinho?
— Estes católicos me dão nojo.
Senti o gosto amargo a boca e apenas rezei baixo e olhei a
menina ainda a frente e falei.
— Alegria é para quando estou fora das paredes, não se deixe
enganar, a alegria é uma conquista, e nada, nada mesmo, aqui
dentro me gera felicidade.
Segurei a cela, estava tonto e me levanto e olho o senhor.
— Se quer me matar, não use Deus para justificar.
O senhor olha nos meus olhos e fala.
— Você matou uma criança.
— Você sabe que não, pois recebeu para me matar, mas
como digo, estou aqui para morrer, acho que há três meses, se
tivessem me mandado direto a cela, teria morrido mais fácil, o que
pode tirar de mim além da vida, pois me tiraram o grande amor,
quando a ver ao lado de quem vai lhe pagar, diz que não tenho ódio
dela, me tiraram o pouco que tinha de dinheiro, depois a liberdade,
depois a saúde, mas não entendeu, minha vida não me pertence,
quer tirar, o que posso fazer, dinheiro maldito de uma morte, é
dinheiro que gera morte, se vão me matar para provar algo, quem o
fez, morre para não saberem que pediram, isto gera uma morte
sequencial, até alguém cansar de mandar matar.
Sentei e fiquei olhando o senhor.
— Mas dizem que você matou uma criança.
— Se mata todos que dizem ter matado criança, quando ver o
pagante, da minha morte, e lembra, eu não a matei, e para desviar
um crime, me acusam, mas quando se tem um desembargador lhe
querendo morto, me sinto meio morto, mas se quer matar o
assassino, ou mandante da morte, lembra dele.
O senhor me olha e grita.
— Mas vou te matar.

39
— Desta vez senhor, cai eu morto, você, delegado, ministério
publico, pois duas vezes, colocado em uma cela para morrer, e o
mesmo assassino a frente, tenho pena do delegado, tenho pena da
sua alma, e principalmente. Lhe espero lá. – Eu levanto as mãos, o
senhor olha em volta, todos sabiam agora que ele fora pago, mas
obvio, não deveria ter um ali dentro e olho os demais – Não se
acanhem, estou morto mesmo.
Cansado, me encolho e encosto a cabeça ao braço, e
adormeço, pensei que morreria, pois todos deveriam estar
querendo minha morte, mas não entendia ainda o por quê?
Talvez isto que não combinava, pois eu estava ali, sabia que
teria mil formas de chegar ao julgamento, mas começava achar que
não chegaria a ele.
Estava encolhido, estava frio ainda, e sinto alguém me chutar,
e abro os olhos.
— O delegado quer falar com você.
O rapaz do lado de fora da grade que me chutara, olho os
demais e um rapaz fala.
— O que é ele investigador.
— Não sei ainda, mas o que os está assustando.
— Ele brilhou a noite.
— Estão tomando oque ai dentro.
Eu não entendi, mas o rapaz me algemou e fui levado a sala
do delegado.
O rapaz do ministério publico estava lá e olho o delegado.
— Sabe que o pedido é frágil rapaz.
— Mandar ele para a mesma cela com os mesmos que
tentaram uma vez, me parece tentativa de assassinato senhor, o
que estão querendo esconder?
— Um assassino de criança não tenho pena.
Não falei nada, não estava entendendo nada.
— Tem uma determinação de soltura para você, mas tem de
registrar um local como residência, o ministério publico foi bem
convincente que seu caso poderia nos custar corregedores aqui
dentro rapaz, não gosto de lhe soltar, então saiba, pisou na bola, vai
voltar para aquela cela.
Olhei o rapaz do ministério publico e falei.
40
— Não precisa me tirar rapaz, o delegado me quer morto,
todos acham que não se perde nada, e na verdade, não se perde
mesmo, não quero complicar ninguém.
— Mas tem direitos rapaz. – O rapaz do ministério publico
que eu nem sabia o nome.
— Posso fazer uma pergunta?
— Sim.
— Acha mesmo que sobrevivo lá fora?
— Sabe que aqui dentro podem lhe matar.
— Lá fora também, como disse, quem me viu em casa a noite
inteira foi pressionado para dizer outra historia, então ele vira alvo
por ter me alugado um lugar, segundo, olhei em volta e Mauricio
Estacionamento não foi preso, então eles não querem resolver o
caso, querem apenas minha morte, por ultimo, você é só o
ministério publico, o que seria de sua vida, com Delegado,
Desembargador Oliveira, e toda aquela gangue do Mauricio
querendo lhe complicar rapaz.
— Mas...
— Eu morro aqui, ninguém se preocupa, ninguém mais
morre, eu lá fora, eles vão começar a limpar a merda que fizeram,
então eu fico quieto e morro aqui dentro.
O delegado olhou atravessado e olhei ele.
— Não tenho medo de cara feia delegado, mas faz direito da
próxima vez, pois acordar dói.
Eu estava algemado, toda a valentia do senhor poderia ser
grande, mas era apenas cara feia, de quem achava que era temido,
desculpa, os delegados acham que podem fazer a lei de acordo com
suas vontades, mas esquecem, ninguém tem medo deles, pois são
mais fáceis de monitorar e enfrentar que um desconhecido a rua.
O delegado olha para o rapaz do ministério publico que me
olhava sem saber o que fazer.
— Acalma, eu lá fora, vão ser mais mortes, me faz apenas
uma coisa, sei que não parece normal, mas antes de morrer, queria
apenas falar com a mãe da criança.
—Ela não o quer ver.
— Diz para ela, que Camila está mais feliz agora que antes, e
que gostaria de apenas lhe olhar aos olhos de falar uma coisa.
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O delegado estranha, realmente parecia quase uma confissão
e fala.
— Vai confessar agora.
— Delegado, não queira ser engraçado, o senhor não tem
dom para isto.
O delegado faz sinal para me recolherem, e me colocam a
cela novamente.
Me encolho e volto a dormir, não sei o que eles queriam, mas
uma hora ou outra, achava que acordaria morto.

42
Amanhece e eu olhava o senhor
que parecia ainda querer me matar,
ele tinha um estilete, então sabia que
ele me mataria a qualquer momento,
olho o policial chegar e me olhar.
— O rapaz do ministério público
quer lhe falar.
Lembro-me de cada palavra de
Camila, a menina morta em meu sonho e saio da cela, chego ao
local e aquela senhora estava ali, eu estava algemado, e ela fala.
— Que apodreça a cadeia, por matar minha filha.
— Isto eu já estou condenado senhora, apenas queria lhe
dizer uma coisa.
— Não sei o que faço aqui.
— Era uma estatua de Nossa Senhora, e sua filha, está melhor
agora que antes, e desculpa, se acha que matei sua filha, e se recusa
a ouvir a verdade, expressa em tudo a volta, eu só tenho uma frase
de sua filha para lhe dizer.
— Ela está morta.
— Ela lhe olharia e falaria, Não Mãe, não mãe, não entendi o
porquê do tapa, porque do chute, da mordida, não mãe, não mãe.
Olhei a senhora e falei ao rapaz.
— Agora pode me mandar à cela rapaz, hipócritas, mãe, pai,
delegado, toda a sociedade à volta, mas se vou ser culpado por uma
morte que não cometi, apenas tenha certeza, outra vai acontecer.
Levantei e o rapaz da delegacia chega rápido, como se fosse
me forçar a fazer algo.
Olho ele e falo.
— Pode me devolver a cela?
A senhora me olhava quando o rapaz me conduziu, não era
de passar a mão à cabeça de uma mãe, mas achava que meu fim
estava próximo.
Chego à cela, dou as costas para os demais, me ajoelho e
começo uma Ave Maria, não queria a morte, mas sabia agora o
43
porquê estava ali, o sonho fora tão real que pela primeira vez sorri
da felicidade da menina, de estar livre para ser ela.
Sei que o senhor se manteve longe, mas quando me virei,
todos me olhavam e o senhor falou.
— O que é você, todos o querem morto, mas você não é
alguém normal, você brilha a noite.
— Apenas dormi, não lembro de ter brilhado.
— Mas brilhou. – Um rapaz ao fundo – Pior, sabe que alguns
receberam um adiantamento por sua morte, eles não querem você
vivo, e mesmo assim, não parece preocupado.
— Acho que não entenderam, meu coração morreu a 3
meses, um grande amor foi me tirado, eu tentei por 4 dias me
levantar, mas não sei o que me é reservado, acho que estou com os
dias contados, mas não me recusarei a andar cada dia, até a minha
morte.
— E porque lhe querem morto? – O senhor.
— Não sei, realmente não sei.
— Tem de saber, pois nunca me pagaram tanto para matar
alguém. – O senhor.
— Vou morrer antes de descobrir, então não me preocupo,
entendi que queriam eu no lugar da morte, eles mataram alguém,
para me incriminar, se eu sair, estarei morto, mas tenho quase
certeza, que não é aqui dentro que morro.
— Onde acha que morre?
— Diante deum amor.
— E porque alguém lhe mataria, isto que preciso saber, pois
eles acham sua morte algo caro.
— Eu não sei. Na verdade, não quero saber.
Me encosto ao canto, e estico o corpo.
O sono vem e a menina para a minha frente.
— Não era para a fazer chorar.
— Desculpa, mas ela tem de entender Camila, que mesmo
que eles não queiram admitir, eles sabem dos motivos, não deveria
ser eu a lhe falar isto.
— Ela está falando para alguém, não conheço, que eu falei
para você o que sofria, como poderia a filha dela ainda viver ou
estar por aqui?
44
— E o que a pessoa está falando Camila.
— Que era mais um motivo para lhe matar.
— Quem está lá?
— Uma moça, bonita, olhos castanhos, cabelos alisados e
pintados de loiro, cacheados.
— Bruna?
— Acho que este é o nome, sim, este é o nome.
— Porque eles me querem morto?
— Não entendo, eles falam que Lucas Camargo morreu, e que
precisavam da morte do filho, que antes da morte, nada poderiam
fazer, que precisavam da morte, mas ela quando minha mãe está
longe, fala que assim que este rapaz morresse, expulsariam minha
mãe.
Sorri e abri os olhos e olhei para o rapaz da policia e falei.
— Consegue avisar o rapaz do ministério publico que preciso
fazer uma coisa antes de morrer.
— Porque acha que ele resolve seu problema.
— Eu não o vou resolver, eu vou me livrar do problema,
minha vida é o problema, pela quantidade de gente querendo me
matar, mas ainda não entendi porque.
Pensei e falei.
— Vai em paz pai, vai em paz.
O senhor olha para ele e pergunta.
— Seu pai morreu?
— Acho que sim, sonhei que ele havia morrido.
O senhor olha e fala.
— Você é estranho.
Sim, eu sou estranho. Pensei.

45
Era fim da tarde quando o rapaz
me chama na sala de entrevista e fala.
—Mudou de ideia?
— Consegue fazer algo sem
ninguém a volta saber rapaz, nem sei
seu nome.
—Paulo.
— Consegue uma transferência
assinada e registrada de tudo que tenho em meu nome, para uma
associação.
— Mas você na tem nada.
— Consegue?
— Não entendi a ideia.
— Um documento oficial, que assim que eu morrer, todo o
meu dinheiro e qualquer coisa que venha a herdar, vai para a
Congregação dos Capuchinhos.
— Não entendi o que quer?
— Eu acho que amo alguém além de minha vida, mesmo ela
pedindo minha morte, eu não a quero ver morrer por que viveu
comigo quase seis anos, e seria a herdeira de meus problemas.
O rapaz não entendeu, mas saiu, eu passei os dados para ele,
ele veio a tarde, assinei o documento e ele registrou em cartório, eu
sentei na cela e sorrio da ideia de morrer e sorri.
Lembro de uma pergunta que sempre fazia, porque as
pessoas as vezes doavam as coisas para a igreja, que já tinha tanto,
e agora eu o fazia, e achava ter um motivo digno para o fazer, pois
entidades imensas, não se tem como matar, enquanto se deixar
para uma pessoa tenha como a matar e roubar, para uma
instituição, isto preservava as pessoas envolvidas.
Sabia que tudo não poderia doar, mas olho para a menina e
penso no quanto tudo fora planejado, meu sentimento estabelecia
aquilo como estranho, e não sabia como encarar o deixar deles
vivos, mas não era minha função os mostrar a verdade.

46
Eu olho em volta e tudo me indicava que aquela poderia ser
minha casa naquele momento, não sentia paz ali, mesmo quando
orava, então uma parte de mim, indicava que não seria ali que
morreria, e por alguns momentos, via até os mais assustadores me
olhar assustados, não sei o que aconteceria agora.
Eu estava encostado a cela, e vi outros dois serem
transferidos, entre eles o senhor com o estilete, nas minhas certezas
incertas ele fora colocado ali para me matar, se ele não tinha
conseguido, o próximo tentaria.
A duvida era quem, mas vi Mauricio ser trazido a cela, ele me
olha e fala.
— Perdido por aqui Lucas.
Olhei ele serio e perguntei.
— Precisa encenar agora?
— Me confundindo Lucas, não está legal?
Olhei ele serio, outros dois me olham e olham para ele, ele foi
ao fundo, e falaram algo baixo, não sabia oque, mas sim, mandaram
alguém resolver o problema, não conseguia ter criatividade para
recriar os acontecimentos do lado de fora, tentava imaginar, mas
olho Mauricio vir da parte do fundo da cela e me olhar, ele sentou a
minha frente e falou.
— Sabe que tem de morrer amigo.
— Não faz diferença, quando os pobres se matam para um
Desembargador que tem muito, ficar melhor ainda, não posso ir
contra o sistema, mas Mauricio, matar a criança, para que?
Os demais olham para Mauricio, ele sorri e fala.
— Encomenda, eu não discuto encomendas.
— Encomenda?
— Não houve roubo, apenas a morte, mas todos falam de
roubo, mas o pai não aguentava mais aquilo.
Sorri, pois era o que a menina precisava para sentir-se livre, e
termino de ouvir.
— A menina era retardada, porque ter pena dela.
— Se considerar retardado todo que mata os amigos, em prol
de dinheiro que não vai ver, bem vindo a companhia da menina
Mauricio, se acha que me matar resolve, esqueceram do básico.
— Básico?
47
— Sabe qual a diferença de um pobre honesto e um pobre
arrogante que rouba e mata?
— O dinheiro no bolso.
— Falei pobre, não podre como o desembargador Mauricio.
— Ambos se dão mal no final, é o que está dizendo.
— Não, um sorri livre e leve, o outro, olha a sombra
desconfiado que vão o matar, eu não tenho medo da morte, pois
todas as minhas dividas, são terrenas, não divinas.
— Não acredito em Deus, isto é papo de pastorzinho.
— A diferença Mauricio, é que sei que existe algo, mas
somente quando morrer, saberei o todo, pensei que iria a meu
descanso, mas não foram eficientes, quem sabe alguém que chamei
de amigo, seja mais eficiente, embora sei que quem me matar, está
condenado a me fazer companhia, pois todos a volta sabem,
quando alguém grande manda lhe matar, você morre, quando a
imprensa para de olhar, o assassino morre, por alguma morte boba,
como resistência a detenção a rua.
— Sabe que isto não lhe salvará, vim e vou fazer o serviço.
— Alertando, pois quando morrer, implora, pois sei Mauricio,
como ninguém as costas, o quanto é um merdinha, eles tem medo
de sua violência, eu, medo da sua ignorância, mas se todos, você,
Bruna, aquela mãe e pai da menina, aquele desembargador querem
minha morte, vou morrer, mas eu estou pronto para isto, se
prepara, você é o próximo.
Vi ele puxa um estilete da calça e falar.
— Hora de morrer.
As vezes tenho medo do futuro, mas neste momento senti
paz, estranho, talvez o que não tivesse sentido antes para partir, sei
que não entendo nada, senti ele enfiar a faca, senti a dor, senti a
dor, sua mão segurou minha boca, ele não queria um grito, eles
desta vez queriam minha morte, senti o corpo cair, olho para trás, e
ali estava eu caído, com Mauricio terminando de furar, a dor eu não
senti nesta hora, olhei em volta e ouvi Mauricio.
— Ninguém viu e nem vão chamar ninguém.
Todos olharam o senhor, como digo, as vezes ser traído, por
algo assim, fosse no fim, o que todos esperavam, lembro de meu pai
dizendo que se saísse de casa, não precisava voltar.
48
Minha mãe havia morrido a 4 meses, ele prestes a casar de
novo, e sumi no mundo, depois de uma surra, que não mereci, mas
se eles achavam que ficaria para apanhar de novo, não fiquei.
Agora olho em volta, Mauricio coloca o estilete no vaso e
puxa a descarga.
Olho em volta todos olhando o corpo, e um senhor olha
Mauricio.
— Porque o matar Mauricio?
— Ele tem de morrer, vocês não entendem.
Talvez somente nesta hora aquele rosto da moça me veio a
mente, olhei a imagem da menina surgir ao meu lado e falei, não
ouvi minha voz.
“Es minha irmã.”
Ela sorri e olha em volta, e fala também sem som.
“Eles acham que entenderam o problema Lucas.”
“O que eles não entenderam.”
“Você foi marcado, para estar neste momento, sei que não
lembra, mas quando desacordou, e ficou dois meses longe do
corpo, você foi instruído para voltar, mas tinha de esquecer do que
viveu lá.”
“Mas morri.”
“Volta ao corpo, mas somente pela manha, pois antes, eles
lhe matam de novo.”
“Não entendi de novo.”
Ela me estica a mão, e vi um enterro, vi a senhora a frente, e
olho para o corpo, ele morrera, agora tinham matado a menina, e
só faltava minha morte, lembro que meu pai falou que casaria com
separação de bens, para que os filhos tivessem direito, se a moça
achava que nadaria em seu dinheiro, ele não a deixaria nada.
Lembro que foi o motivo da discussão, e ele disse que eu não
entendia nada de amor, para saber como as mulheres eram
interesseiras.
Eu juro que por anos duvidei disto, e imagino que existe
gente diferente, mas queria saber como eles iriam tentar transferir
os bens, e vi meu tio Carlos, a muito ele não aparecia, e vi ele
chegar ao lado da moça e dizer que ela tinha de desocupar a casa,
que tinha uma semana, que não queria nada dela lá.
49
Olhei em volta e vi o Desembargador ao fundo, senti que eles
estavam felizes, vi Bruna ali, entendi, eles tinham a esposa do filho,
pois sabia que tudo tinha de passar por algum herdeiro de minha
mãe, a verdadeira dona das terras.
A menina me segurou a mão e surgimos em uma casa,
conhecia aquela casa, a muito tempo sai dali, olho para a imagem
do lugar, triste, olho a imagem a parede, e olho para o oratório, em
espirito ajoelhei e orei.
Senti as energias a volta e vi meu pai, que falou também sem
som, frequência de luz, estranho isto.
“Morreu filho?”
“Eles mataram a pequena Camila, para me incriminar e me
jogar a cadeia, para me matarem pai.”
“Então quem herdará isto?”
“Se eu não acordar, a igreja, já que não vou deixar para quem
me matou isto pai.”
“E eles não sabem ainda.”
“Não, vão por sua amada para fora, não a reconheci quando
dei a santa a pequena Camila.”
“Foi você, ela sorriu por dois dias.”
“O que deve a eles pai?”
“O desembargador se fez de amigo, mas acho que tentou
cantar a Rosa, ela não lhe deu bola, então ele mudou, não sei quem
é esta Bruna, mas ele pareceu desencanar dela depois.”
“Bruna era quem tinha meu coração pai.”
“Não parece me odiar, pensei que me odiava.”
“Pai, nunca quis o que era da mãe, ela sabia que tudo que
viesse desta terra, traria mortes, nunca entendi, mas ela sempre me
quis longe destas terras, mas antes dela morrer, não tive coragem
de me afastar.”
“As historias tristes que ela sempre cantava.”
Olhei em volta e vi os espíritos do lado de fora e vi aquela
leva de escravos a dançar e se reunir, olho para outro lado, os
soldados da resistência, no fundo, uma leva de índios, e falei, aquele
som era ainda estranho, não se ouvia, se sentia.
“Acho que a volta, está todas as historias antigas pai.”

50
Ele chega a meu lado e olha o todo de almas que tinha ali e
fala.
“Tem quantos espíritos ali fora?”
“Todos os que sofreram nestas terras, não entendo o que os
prende aqui.”
“Não sei, mas a pequena Camila dizia que eles estavam a
perturbando para lhes dar liberdade.”
Olho ao lado e a menina surge e olha o senhor, não sei o que
aconteceu, mas sabia que ela não queria aparecer ali, talvez o fez
porque eu estava ali e o senhor falou.
“Desculpa filha, sei que não fui um bom pai.”
“Você não me queria entender...”
Olhei-a e perguntei.
“O que eles queriam que fizesse?”
“Lhes desse liberdade...mas eu tenho medo deles.”
Sorri e estiquei a mão para ela e fomos saindo, os espíritos a
frente da casa olham para nós, estranho aquele conjunto de muitos
ali e um senhor bem idoso, já deveria ter aquela idade quando
morreu, pois existiam almas de crianças ali.
“Quem é você rapaz, a menina morreu e não nos deu
liberdade...”
“Ela não sabia lhes dar liberdade, o que precisa para lhes dar
liberdade, para serem livres...”
“Dizem que estas terras aprisionam, poucos conseguem sair
dela depois de atraídos para cá...”
“Dizem, quem diz? – Perguntei ao senhor, ele parecia dos
mais velhos ali.
“Os mais velhos...”
“Mais velhos?” – O senhor parecia o mais velho.
“Os com mais tempo aqui, morri velho, mas tem seres a
muito tempo aqui.” – Ouvi e vi um senhor, deveria ter a idade de
mau pai, ao fundo e ele me olha, e fala.
“Mais mortos, precisamos de um vivo para nos libertar!”
“Como lhes libertaria?”
“Este terreno está sobre um grande cemitério, aqui viviam os
meus antepassados.”
Estava a olhar o senhor, com traços indígenas e ele terminou.
51
“Precisamos que a terra seja devolvida a natureza, aos seres
da Terra, pois somente assim, com as arvores, os bichos voltando, o
cantar dos pássaros, o sentir na terra da umidade da natureza a
volta, vamos poder evoluir como almas.”
A menina parecia com medo ao meu lado e a estiquei a mão,
olhei para fora, e o tempo pareceu avançar, estávamos novamente
na cela, os demais estavam dormindo, a menina me olhou e falou.
“Acredita, eles o queriam aqui agora.”
“Vamos ajudar a todos?”
“Algo naquele senhor não me parece real.”
“Sim, algo não está certo naquele senhor, mas vamos os
ajudar.”
Deitei e foi difícil, eu fiquei quieto, e senti o corpo, parecia
que ele não se mexeria, mas quando senti os meus pensamentos,
senti a dor, e segurei o grito, e a lagrima me veio aos olhos, senti o
sangue no chão e olhei em volta, dormindo, sentei, estava doido,
desci a cabeça e fiquei quieto, sentindo o corpo, não sei como
voltei, mas foi dolorido, e quando ouvi o primeiro me olhar sentado
foi de susto.
— Quem o sentou.
Ouvi Mauricio ao lado.
— Quem foi o brincalhão que queria me assustar.
Levantei o pescoço e olhei para ele.
— Eu. – Falei olhando ele nos olhos, todos recuaram, e
Mauricio me olha assustado.
— Lhe matei, sei que estava morto, lhe mato de novo.
— Obrigado, precisava entender o problema.
Mauricio se levanta, me olhou e para o sangue seco ao chão,
eu olhei a roupa toda ensanguentada, sorri e Mauricio falou.
— O que é você, tem de morrer.
— Não entendeu ou não ouviu nada do que falei ontem.
O rapaz do café veio com aquelas canecas, o pessoal estava
todo afastado e eu estava de costas para ele, quando me viro, não
sei o que ele viu, mas saiu deixando parte das canecas de café
caírem e minutos depois o delegado entrava pela porta.
Mauricio olha o delegado e fala.
— Não fiz nada.
52
O delegado me olha, não sabia o que passava a mente dele,
mas ele fala olhando para o rapaz ao lado.
— Chama uma ambulância, o ministério publico vai nos
esfolar, mas eles que mandaram Mauricio a cela ontem.
Os rapazes me olham e pensei se encenava, e fiquei
encostado na cela, de costas a eles, para não dar as costas
novamente a Mauricio.
Mauricio olhava para mim, não sabia o que ele pensava, mas
eu não sabia como eu mesmo estava.
Os enfermeiros me fazem deitar, e somente quando levantam
a minha camisa, vi o buraco, aberto, eles olham todo aquele sangue
e me mandam ficar quieto, lá fui eu a ambulância, o rapaz do
ministério publico olha para mim quando estava entrando na
ambulância e ouvi o delegado ali.
— Não sei, vamos revistar o local.
— Acho que ele esperava morrer, o que aconteceu?
— Não sei, ele parece em choque, pois não falou nada.
O rapaz entra na ambulância e me olha.
— Temos problemas em fazer aquilo.
— Espera eu melhorar, mas segura a transferência.
— Tem gente contestando aquilo.
— Minha es?
— Sim, mas eles deram um tempo para a última esposa do
seu pai para sair de lá.
— Sei disto, não tinha entendido quem era Camila, não tinha
reconhecido Rosa, mas se puder mudar a doação para ela, mesmo
os demais sendo contra, eu como herdeiro, posso doar, mas fez os
documentos?
— Sim, mas eles querem parar tudo.
— Eu sei.
— Tem de ficar quieto rapaz, tem um buraco na barriga. – O
enfermeiro.
— Não deveriam ter uma arma branca dentro da cela, mas
Paulo, agora pode me tirar de lá.
— Mas...

53
— Meu pai morreu pois acharam que eu não acordaria,
devem ter até me esquecido lá, mas se ele morreu, agora tenho
endereço fixo para dar ao delegado.
— E onde fica?
Passo para ele o endereço e o rapaz quando ia para a cirurgia,
foi para o juiz e pediu a liberdade condicional, que a delegacia não
era lugar seguro para alguém jurado de morte, foi a primeira coisa
que soube quando acordei da cirurgia.

54
Quando sentei no fim do
primeiro dia na enfermagem, o rapaz
me conseguiu uma cadeira de roda,
ele me deu uma carona e fomos à
região metropolitana.
A senhora me estranhou saindo
do carro do rapaz e olha assustada em
volta.
— O que faz aqui.
— Calma Rosa, precisa assinar uns papeis.
— Eles lhe pagaram para matar minha filha, e agora vão me
colocar para correr.
O rapaz do ministério público chega a ela e fala.
— Senhora, Lucas Camargo Filho, veio aqui para lhe passar a
parte dele da residência, para que não a tirem daqui.
A moça olha para mim, ela talvez somente nesta hora tenha
entendido quem eu era e fala.
— Mas você é morador de rua, como pode ser Lucas Camargo
Filho.
— Bruna, vivia naquela casa comigo senhora, a menos de três
meses, mas meu pai sempre foi alguém difícil, mas não tinha
entendido o problema antes.
— Sabia que Camila era sua irmã?
— Sonhei com ela senhora, mas ela está feliz.
— Ela sempre o foi. E você, não morre fácil pelo jeito.
— Acho que estou na hora extra, não no principal.
— E veio me passar estas terras?
— Tenho de ajudar a limpar estas terras, do que sempre foi o
peso dela, atrair as coisas ruins, mas recomendava sair das terras.
— Por quê?
— Eles a querem, se mandaram me matar, o que fariam com
você nesta casa, sozinha?
— Mas vou morar onde.

55
— Ainda não sei nem onde eu vou morar, mas enquanto
resolvemos isto, uso o quarto de hospede.
— Não lhe entendi.
— Eu não quero parecer louco Rosa.
— Certo, mas o que o rapaz ai tem para assinar.
— Lhe passando 50% das terras.
— Eles vão reclamar.
— Sim, mas os outros 50% vou criar uma ONG.
— ONG? – Paulo.
— Uma de preservação natural, uma para refazer as
nascentes e que possa conseguir descobri o que eles querem aqui.
— Eles? – Paulo.
— Algo eles acharam nesta terra, pois eles colocaram gente a
matar, gente a iludir, a roubar.
— Acha que aquele Desembargador pode ajudar? – Rosa.
— Ele é o mandante Rosa.
— Não pode ser.
— Sim, mas calma, tenho certeza que vamos ter visitas
indesejadas, mas primeiro assina os papeis – Olho para Paulo – Só
não sei como pagar esta transferência.
— Já que estamos nisto, verifico para você, mas vou tentar
não aparecer.
— Melhor, eles lhe matam e temos de começar tudo do nada.
Rosa assinou e vi o rapaz sair, olhei para Rosa e perguntei.
— O que meu pai fez para atrair o Desembargador.
— Ele sempre contava aquela historia das pedras valiosas do
vale da mina.
— Acha que eles retiraram algo de valor de lá?
— Nem ideia, nunca passo perto do rio.
Entrei com a cadeira de roda, olhei a sala, quantas
recordações de infância, olhei o canto de oração da mãe, levantei
da cadeira, olhei o curativo, firme, cheguei ao canto e ajoelhei no
genuflexório e a moça me olhou.
— Não lhe reconheci quando fomos lá.
— Somos estranhos Rosa, eu era uma criança quando sai
daqui.
— Mas fala bem.
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— As vezes queria confiar cegamente neste rapaz.
— E como saberia se ele está mentindo.
— Digamos que ainda não sei se estou de volta a este mundo
ou estou no outro, ainda me acho frágil, e tudo que ver aqui Rosa, é
apenas para que o pai, a mãe, e a mana, possam descansar.
— Acredita mesmo que tem uma maldição nesta terra?
— Sim, olha onde eu acabei, mesmo depois de ter quase
morrido.
— E vai fazer oque?
— Vou aos poucos, tentar entender o problema.
— Aos poucos?
— Eles devem começar a me procurar na cidade, depois eles
devem vir a olhar aqui.
— Provocando?
— Sim, mas saiba que Camila lhe ama Rosa.
— As vezes acho que não a dei o carinho que ela merecia, seu
pai não gostava dela.
— Ele nunca demonstrou carinho Rosa, fiquei em casa
enquanto minha mãe estava viva, você entrou e eu sai, e não era
você o problema, era meu pai mesmo.
Sai para fora e olhei para o terreno, olho para o canto das
macieiras, olho para o campo plantado ao fundo, e para aquela
formação rochosa que meu pai sempre dizia, ter uma mina
abandonada, eu não chamaria aquilo de mina, era apenas uma
parede, que escavaram e foram ampliando o buraco, para dentro da
formação, mas era ampliar a inclinação já existente para dentro da
rocha que tinha ali.
Sinto o ponto, olho para a barriga, caminho no sentido do rio,
chego a ele e sinto a menina, fecho os olhos e sinto sua mão e ouço
ela falar.
— Eles querem ajuda irmão, eles querem ajuda.
Sinto ela a mão e pergunto.
— Mas porque eles mentem, se querem ajuda irmã.
— Eles falam que degradamos a região.
— Sim.
Abro os olhos e ainda sinto a mão dela e olho para o lado e
por um segundo quase achei que a via.
57
Pego uma madeira a beira do riacho e olho para a formação,
atravesso com calma passando por aquelas pedras escorregadias e
chego a parede, alguém andou escavando ali, se via os restos ao
chão, olho para a formação e olho para a fissura, tento lembrar o
que meu pai falava daquilo, a ranhura da morte, sim, era assim que
ele a definia, antes vida, morte, depois vida novamente.
Olho aquela ranhura escura, naquele local, tinha perto de 45
centímetros, e olho que as pedras dois palmos abaixo daquela
ranhura escura na pedra, tinham sido quebradas recentemente,
olho em volta e olho o chão, não entendia nada disto, mas ali
poderia estar o problema, pego uma pedra e bato com força
naquele momento monte de tempo, que era uma ranhura mais
clara uns dois palmos abaixo da escura, e vejo o brilho, pego uma
pedra e coloco no bolso da calça, pegou uma madeira na entrada e
vou a casa, pego uma faca, pego aquele pedaço de madeira, trazido
pela agua, estava bem no seco, mas mostrava que quando chovia
forte, as madeiras ao fundo, poderiam vir a chegar ali, comecei a
esculpir e surge uma imagem de nossa senhora, eu a olho, não era
nossa senhora, era uma mãe, fosse ela quem fosse.
Olho para Rosa chegar e olhar aquele esboço e falar.
— Desenvolveu algo incrível, mas sempre nossa senhora?
— Não, isto que pensava, a mãe de todos, podemos negar
tudo, menos nossa mãe, tudo a volta, é parte da historia, sempre
que se olha em volta, um senhor me disse que isto um dia foi um
cemitério indígena, mas foi também um Cubatão.
— Não entendi.
— Cubatão, vem de barracão onde se deixava os negros que
chegavam em quarentena, mas alguns ficaram conhecidos pois os
negros foram vendidos a partir dali, mas a historia que minha mãe
contava deste, foi de uma leva de 200 mortos, de todas as idades.
— As historias tristes da terra, como seu pai falava.
— Ele sempre foi preso a isto, não entendo, mas toda vez que
vinha aqui, a única coisa que ele destacava era a mancha escura na
pedra, ele dizia ser referente a extinção dos dinossauros, que era o
símbolo de que a vida existia, mas o planeta o tirava de nós quando
bem entendesse.
— E o que acha que eles querem?
58
— Algo da Terra, mas tem de ver que tudo na vida, tem seus
custos, estranho quando amigos, transformam-se em inimigos por
um dinheiro que não verão, ou não gastarão.
— Acha que este desembargador queria algo com este lugar.
— Ele quer, ele me contratou para inventar algo, quando
percebeu que não cairia na armação, acho que apostaram em uma
tentativa de crime passional, mas como não tinha como reagir, não
tinha nada além desta minha tendência de transformar tudo em
esculturas, para enfrentar o problema.
— E cria mulheres bem reais.
— Digamos que eu me dedico a isto, as vezes vendia uma
única ao mês, mas sabia que uma escultura daquelas, tinha seu
valou, mas as pessoas não entendem isto.
— E acha que eles vão vir para cá.
— Se vierem, devem mandar os rapazes de Mauricio
primeiro.
— Quem é este?
— Quem atirou na cabeça de Camila.
— Sabe já quem a matou, você deve os estar provocando
para lhe matarem.
— Sim, mas segundo uma menina, que não consegue ver, o
Paulo, deu entrada nas transferências, não entendo ainda quem é
ele, pois os anteriores, não se preocuparam comigo.
— Alguém sendo correto, pode não parecer, mas eles
existem. – Ouvi Rosa falar aquilo e perguntei.
— Amou mesmo meu pai.
— Sim, mas ele me culpou pela doença de Camila, como se
fosse apenas eu a responsável.
— Ele não sabia o que era ser carinhoso, amoroso, ou coisas
assim com os filhos, entendo que alguém mais sensível e com
Autismo, é algo que não imagino como o pegou.
— Acho que ele era especial, mas ele não sabia demonstrar
os seus sentimentos.
Olho em volta e falo.
— Vamos ficar um pouco ao longe Rosa.
— Por quê?

59
Caminhamos no sentido das arvores no fundo, e ficamos a ver
um grupo de pessoas chegarem a casa, vi Mauricio ao longe, com
certeza ele veria a cadeira de roda, olho de canto e ficamos ali
somente olhando.
— Quem é o senhor.
— Este é Mauricio.
— E o que eles querem?
— Me matar, ele estava a cela, ele me enfiou a faca que me
cortou a barriga, mas já está solto, sinal que mesmo o delegado está
envolvido nisto.
Vi ele revirar a casa e olhar para outro.
— Põem fogo.
— Não... – Segurei a boca de Rosa que iria reclamar e falei
baixo.
— Calma, eles não querem nos dar um lugar para viver, mas
calma.
Vimos a casa começar a pegar fogo, o senhor ficou ali a olhar
em volta e olha para onde estávamos antes e fala ao rapaz ao lado.
— Deve ter vindo, e saído, sabe daquele rapaz do ministério
publico?
— Está em casa, tem outros casos.
— Pensei que nos livraríamos da senhora.
— Qual a ordem para ela?
— Matar, o desembargador não quer gente atrapalhando.
O rapaz sorriu, ouvíamos a conversa, era quase um eco forte
que fazia a parede ao fundo, e no silencio daquele lugar,
começamos a ouvir a casa queimar.
— Vamos ver se ele não tentou em um dos pontos que ele
alugou antes de ir para o centro.
— Tem os lugares.
— Sim, sei os 6 lugares que ele morou.
Eles saem e começa a escurecer, estávamos longe da cidade,
e estava confuso e pergunto.
— O que eles acham que vão ganhar com isto.
— As terras.
Eu entrei na mata e Rosa veio junto, vi aquele buraco, estava
a muito tampado, forcei a madeira e a madeira veio para fora, senti
60
o ponto e pensei se não deveria estar fazendo força, levantei a
camiseta e Rosa falou.
— Os pontos, tem de cuidar menino.
A muito não me chamavam de menino, sorri e vi a antiga
entrada da mina, peguei uma caixa lá dentro, e Rosa perguntou.
— O que vai fazer.
Com a faca, abri buracos na parte escura da rocha, estava
escurecendo, mas aquela marca estava ainda visível, peguei uma
carga de dinamite, deveria estar velha, e uma de corda, coloquei
nas pontas e Rosa entendeu que explodiria aquilo, ela me olha
assustado e pergunta.
— Por quê?
— Eles querem isto, e nem sempre a energia de algo assim é
positivo, mas calma, vai ser uma noite longe.
Senti o ponto, toda vez que ele abria um pouco, sentia uma
dor bem forte, as vezes parava e tomava ar.
Puxei a corda e fomos no sentido do que sobrara da casa, pois
a madeira de anos, seca, queimou rápido, olho para a estrada e
ninguém nem veio olhar, bem ao longe, tive impressão de um carro
na estradinha e falei.
— Tem alguém esperando nós voltarmos, bem na estrada ao
fundo. – Falei e Rosa olha.
— O que vai fazer.
Sorri, o Genuflexório que meu pai tinha em casa, estava
intacto, algo de madeira, em meio a uma sala destruída pelo fogo,
intacto, olhei para o local, Rosa olha admirada e entro nos restos da
casa, ajoelho e oro fechando os olhos.
Sinto os espíritos e ouço meu pai ao lado.
— Eles destruíram a casa e não a defendeu.
— Aquele que mataram sua filha, tentaram matar seu filho,
vieram matar sua esposa, queria oque pai.
Rosa a porta olha em volta, deveria me achar maluco.
— Mas eles queimaram tudo, todas as minhas coisas.
— Bom descanso pai.
Olhei em volta, os espíritos estavam todos chegando, vindos
do rio, lembrei das madeiras na entrada da mina, algo antigo,
madeira em vigas, não em tabuas, algo anterior aos negros, entendi
61
que era o problema, e olhei nos olhos do meu pai e depois da
pequena Camila e falo.
— Descanse em paz irmã.
Olhei o ser de luz a frente vir a mim e falar.
— As mãos continuam sendo o instrumento de oração, de
trabalho, e de força, mas assim como significa força, pode a
prender, instrumentos que criamos, e nos prendem a vida.
Lembrei da santinha sobre a geladeira, sorri e falei.
— Que todos tenham em alma, uma evolução. – peguei uma
madeira em chamas, fui até a corda de detonação e coloquei fogo,
aquilo começa a correr pelo campo, passa na parte que deixei sobre
a madeira que escorria ao lado do rio, e fomos caminhando no
sentido da entrada, mas pela lateral, para não seremos vistos,
aquela trilha, que quando ia a venda na estradinha, quando a mais
de 7 anos sai dali, usávamos, pois íamos a cavalo, não de carro.
Estávamos na trilha quando ouvi a primeira explosão, olho o
carro ao fundo ligar, todos os vizinhos agora não iriam poder dizer
que não viram, todos se fazendo de cegos.
Olho para o local, vi aqueles espíritos, quase ninguém veria, vi
os cristais voarem, e as almas serem atingidas por aquilo, elas no
lugar de se esconder, brilhavam e sorriam.
Parei um momento naquela imagem, vi meu pai me olhar aos
olhos e li em seus lábios o “Obrigado filho”, sorri, a menina estava
ao fundo e brilha também, e some, os seres pareciam mudar de
forma, fui ouvindo agradecimentos em meio as explosões, estava
sorrindo quando sinto Rosa me tocar.
Olhei para Rosa e perguntei.
— Do que meu pai morreu?
— Dizem que de desgosto, mas ele estava bem pela manha, o
Desembargador veio o falar algo com ele, dizem que ficou
desgostoso e morreu do coração.
Eu a olhei sério.
— Eu o amava menino.
Não falei nada e vi o carro entrar no campo de vista, e vi eles
saírem do carro, e as explosões continuavam, eles começam a ver a
pedreira explodir, quando um se abaixou para pegar algo brilhoso,
fiz sinal para ela chegar rápido, entramos no carro, não sei o que
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eles viram, mas saímos rápido de carro, ouvi os tiros, mas
estávamos já bem longe.
— Tudo bem? – Perguntei.
— Sabe dirigir.
— Comparado a um trator, fácil.
Saímos pela estrada e vi um ponto de ônibus e falei.
— Hora de voltar para a cidade Rosa, mas não de carro.
Paramos, descemos, estava sentido o ponto, tentava
controlar a dor e pegamos o ônibus, com sentido a cidade.
Não sei o que pensariam, mas era hora de começar a reagir e
não sabia como.
Rosa me olha e olha minha barriga.
— Sei que tá doendo, mas se eu for internado, eles me
matam Rosa, não sei se entendeu em que problema nos metemos.
— Juro que não.
Peguei a pedra no bolso e falei.
— Posso estar enganado, mas este é o problema.
Ela olha o brilho e fala.
— Acha que tem algo de muito valor lá.
— Sim, eles não querem gente olhando, mas aquela pedreira
foi parar nas terras vizinhas hoje.
— Sabia e a destruiu.
— Eu vivo do que produzo, eu não preciso ser esfaqueado por
uma terra que nunca pensei voltar Rosa.
A senhor pareceu preocupada.
Fomos ao centro e sentamos em um banco da rodoviária.
— O que fazemos aqui?
Pedi uns trocados para gente que estava chegando para
viajar, e consegui uns trocados e sentamos em uma lanchonete,
pedi algo para comermos e as noticias extras são chamadas e olho
para a TV.
— Da para aumentar? – Perguntei para atendente.
“...estamos em Mandirituba, alguém resolveu explodir e
queimar a casa ao fundo, a policia chegou e prendeu dois rapazes
que estavam aqui, mas eles explodiram uma formação ao fundo,
com dinamite, e os vizinhos dizem que choveu diamante na região.
O repórter olha um senhor e pergunta.
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— O senhor é vizinho da casa?
— Sim, o senhor Camargo morreu a dois dias, espero que a
esposa dele não estivesse na casa.
— Viu algo?
— Os rapazes chegaram, não entendi nada, pois vi eles
colocando fogo na casa, ficamos com medo, acionamos a policia,
mas somente depois das explosões, um carro da PM apareceu e
deteve os rapazes.
— E este papo de chuva de diamante.
O senhor abriu a mão e tinha umas pedras brilhosas e falou.
— Não sei se é diamante, mas vou mandar avaliar amanha.”
Rosa me olha e fala.
— Esta escancarando o problema.
— Sim, tentaram me matar, agora vão tentar jogar tudo isto
sobre mim, o que mais poderia ser Rosa.
— E como ninguém lhe conhece, engolem a historia.
Comemos e vi um rapaz que dormia na ponta da rodoviária e
perguntei.
— Roni, tem alguma coberta sobrando?
— Perdido por aqui, sabe que Mauricio está perguntando de
você.
— Sei. – Apontei a barriga que estava sangrando – Mas se vai
dar o serviço aquele desgraçado, esquece.
— O que ele quer matando gente da rua?
— Ganancia, isto se chama ganancia.
Levantei e saímos dali, sabia que Mauricio estava pagando
para nos acharem, então era obvio, nada ali era seguro.
Olhei para a rua e subimos para o Cajuru, eu não estava legal,
deveria ser perto da meia noite quando parei ao pronto
atendimento do hospital, Rosa estava ali e não falou nada, o rapaz
viu que era um ponto aberto a barriga, o estagiário de plantão refez
o curativo, e fiquei a maca, Rosa estava assustada, mas era um lugar
bom para estar até amanhecer.

64
Rosa me toca e acordo, devo ter
dormido na maca, e me fala.
— Tem um pessoal estranho
entrando.
Demorei para me situar, olhei
para os rapazes e falei.
— Vai ao banheiro.
— Mas...
— Rápido.
Ela sai pelo corredor e entra no banheiro ao fundo e me
levanto e olho para Mauricio subindo a rampa e falo alto, para que
todos me olhassem.
— Veio terminar o serviço, será que consegue agora
Mauricio.
O senhor me olha aos olhos, todos olharam para ele e o
segurança viu o senhor armado e pede reforço ao fundo e vejo ele
puxar a arma e falar.
— Acha que escapa.
— Acho que você é idiota, uma pedra daquelas, é mais do
que tudo que o Desembargador vai pagar para você.
Os rapazes se olham e Mauricio fala.
— Acha que acredito em milagre.
— Não, é cego, você me viu morto, esqueceu?
Ele me aponta a arma e ouço dois seguranças a volta gritarem
esticando as armas para ele.
— Abaixa a arma, agora.
Ele virou-se para o primeiro segurança sem baixar a arma e o
segundo o acertou ao peito, os demais assustados, se olham e
levantam as mãos, enquanto Mauricio caia morto.
— Ao chão, ao chão rapazes.
Os dois que estavam com ele de abaixaram e fiquei a olhar a
entrada, o segurança que atirou viu que esperava que tivesse mais e
me pergunta.
— Quem são estes?
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— Os que explodiram e parece terem matado uma família em
Mandirituba, para explodir uma mina de diamantes.
Os seguranças chegam pelos corredores e um senhor olha o
morto e olha para a entrada, viu a policia civil, eles não vinham tão
cedo normalmente, mas parecia que era esta a proteção de
Mauricio, sinal que tinha de sair dali.
Estava com dor e sentei, de costas a porta e me encolhi, o
senhor me olha, talvez tenha ficado visível que estava me
escondendo, pelo menos eu achei que ficou uma encenação de
quinta qualidade.
Os policiais começam a fazer perguntas, estava encolhido
quando o policial pega o comunicador e fala.
— Mauricio apareceu no Hospital Cajuru Delegado.
O intervalo de quem estava ouvindo algo.
— Não senhor, a segurança o deteve, está morto senhor.
Ouvi o agito e ouvi o policial olhando o segurança.
— Quem ele queria matar?
O senhor deve ter me apontado, e senti alguém me tocar o
braço, estava com dor de verdade, e quando tirei a mão da barriga,
a roupa estava com sangue, e o policial olha para o atendente.
— Está sangrando. – Olhei o policial e ele falou.
— Nome?
— Lucas Camargo Junior.
Ele pega o celular e fala.
— Queria matar alguém ferido a faca, de nome Lucas
Camargo Junior.
Não sei o que o senhor falou do outro lado, nem sabia que
delegado estaria do outro lado, mas ouvi.
— Proteção na porta, estamos no problema de Mandirituba.
O policial olha para o rapaz e pergunta.
— Quem é o rapaz?
— O herdeiro das pedras que detonaram em Mandirituba.
O segurança me olha, eu não era nada, mas ele sorriu, o rapaz
me levou para dentro, e suturaram agora para valer o ponto, o
estagiário tinha feito um trabalho bem meia boca.
Estava na cama da enfermaria quando um senhor entra pela
porta e fala.
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— É ele?
— Sim, é ele.
Um senhor cabelos brancos entra pela porta e fala.
— Dizem por ai que morreu rapaz.
— Dizem muita coisa por ai.
— Sabe que tem acusações pesadas sobre você.
— Sim, de ter matado uma irmã.
O delegado me olha com uma indagação, ele não entendera.
— Não entendi.
— Camila Camargo era minha irmã, de um segundo
casamento de meu pai.
— E seu pai morre estranhamente neste intervalo.
— Os inocentes são os que tentam nos matar senhor, qual a
duvida, mesmo mortos, esfaqueados, somos os culpados.
— Sabe quem está pedindo sua prisão?
— Se duvidar, o mesmo que quer casar com minha es esposa,
para ter direito aquelas terras.
— Não estou tão inteirado da historia, mas o Desembargador
Oliveira que está pressionando por sua prisão.
— Motivos?
— Afirma que você planejou a morte dos seus familiares para
assumir as terras de seu pai, não parecia fazer sentido tamanho
desperdício, antes das explosões da noite.
— Certo, quem eram os rapazes no sitio?
— Gente de Mauricio.
— Ele veio me dar cobertura então, pela versão do
Desembargador.
— Ele não sabe disto, mas com certeza dirá isto.
— Bem convincente ele me dando proteção, me esticando
uma arma e dizendo que iria me matar.
— E porque não?
— Para qualquer mendigo na rua hoje, e pergunta o que
Mauricio perguntou para eles, qualquer um, de um que dorme na
Rodoviária a um no centro.
— Ele perguntou por você, mas o que isto tem haver.
— Fui tirado da delegacia, onde ele foi colocado a minha cela
para me matar, este buraco na barriga, que cresce pois estou
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fugindo, foi feito nas dependências da Quarta DP, por Mauricio, mas
ele foi para dentro e já estava solto, então o Desembargador quer
dizer que o Delegado de lá é cumplice meu? Meus aliados são
realmente bem eficientes no me manter perto da morte.
— E porque o desembargador faria isto, o que ele ganharia
com isto.
— Primeiro, conhece o sitio do meu pai, ele sempre foi amigo
da família, ele visitou meu pai no dia da morte dele, dos últimos a o
ver vivo, segundo, deve ter conhecido a nova namorada dele.
— Aquela menina que ele anda para cima e para baixo?
— Sim, minha es mulher, com minha morte, herdeira, já que
meu pai casou a segunda vez por contrato, então ele tinha dois
herdeiros diretos, eu e a menina, as terras eram de minha mãe,
então nenhum dos meus tios, por parte de pai, tocariam na terra,
por mãe, não tenho tios, então quer o motivo, preciso ser mais
explicito que isto senhor?
O delegado olha o desembargador entrar e olhar para o
delegado e falar.
— Pegou o desgraçado.
O delegado olha o desembargador e pergunta.
— O conhece?
— Não.
— Mas o reconhece assim, na cama?
— Me disseram que era ele.
— Quem, este dado é sigiloso, quem está vazando
informação Desembargador.
O desembargador olha serio para o delegado e pergunta.
— Me acusando?
— Querendo saber quem são os cumplices do rapaz, quem
vazou as informações, e vai me dizer agora desembargador.
O senhor parece pensar e fala.
— Alguém me ligou, nem sei quem.
— Está mentindo desembargador, quem está protegendo, a
namorada? – Delegado.
Olhei para o delegado e falei.

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— Delegado, pode me prender, mas eu daria proteção aos
vizinhos do sitio, pois as pedras, desculpa, arremessei para os
vizinhos com dinamite.
— E porque fez isto.
— Digamos senhor, que eu amo uma moça de nome Bruna,
ela me largou, mas se não o fizesse, ela seria a próxima morte, as
pessoas não entendem. – Olhei o desembargador e falei – e me
deve 700 desembargador Oliveira, ou acha que não vou cobrar a
escultura que fiz no portão de seu sitio?
O desembargador olha para o delegado e fala.
— Não o conheço.
— Deve dinheiro para ele, por isto está o acusando
desembargador.
— Delegado, a única coisa que queria, se um preso ainda tem
direito de algo, era pedir a exumação do corpo de meu pai, quero
saber a verdadeira causa morte dele, ele pode até ter morrido do
coração, mas tenho de ter certeza. – Falei olhando o
desembargador.
— Me acusando.
— Esperando o pagamento do meu serviço, para poder
contratar um advogado, e diz para a namorada, que eu ainda a amo,
e que você pode ser cheiroso, mas seu cheiro, é como o do meu pai,
e sabe bem do que estou falando.
O desembargador olhou o delegado e fala.
— Tem de o prender.
— Assim que puder ser preso senhor, ele foi a delegacia
tirado do hospital, e ninguém me explicou ainda a sua determinação
para soltura hoje cedo, de quem o havia esfaqueado a noite, com
urgência.
— Qual o marginal que vai me acusar de conhecer.
— O assassino de minha irmã, lembra dele? – Olhei o
desembargador.
O senhor me olha e fala.
— Por Deus delegado, está dando ouvidos a este marginal.
Não sei exatamente o que aconteceu nesta hora, mas vi um
senhor entrar pela porta e me olhar, o tempo estava parado, ele
olha para mim, foi difícil achar o ser em luz da igreja naquele ser.
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— Este vai pagar por seus crimes Lucas, mas tem de
melhorar.
— O que está acontecendo.
— Estão tirando a moça enquanto o senhor os distrai ai.
— O que faço.
O ser tocou a minha ferida e senti o aliviar, e vi o ser se
desfazer, olhei o desembargador e falei.
— Traíra como sempre, esqueci de quem estávamos falando.
— Não entendi.
Eu me virei na cama e me levantei, o rapaz estranha e chego
com a veste do hospital rapidamente no corredor e paro a frente de
Rosa e olho os rapazes e falo.
— Estão a levando onde?
— Não se mete.
O Delegado viu que estavam armados, apontando para a
moça e fez sinal para os seus rapazes e o desembargador chega a
porta.
— O que está fazendo Delegado.
— Gente armada, conduzindo alguém a força, e me pergunta
o que eu estou fazendo desembargador.
— São pessoas do ministério publico.
O delegado olha o policial ao canto e fala.
— Desarma, e chama a imprensa, quero sair com respaldo
daqui, e o senhor, melhor encostar a parede, está preso
desembargador, e nem sei quem é a moça, mas posso garantir, é a
peça que você nem citou.
Ele viu que o delegado o algemou e o olhar do delegado para
mim.
—Quem é a moça?
— Seria minha madrasta, a mãe da menina que morreu.
— E a acusam do que desembargador.
O senhor olha os policiais prendendo e desarmando o
pessoal, algemando e fala.
— Não pode fazer isto.
— Vai para minha delegacia senhor, e se não explicar uma
detenção ilegal, por gente que não é polícia, que nitidamente estava

70
ali para me distrair, para a ação deles, alguém que nem tem uma
afirmativa de crime.
— Ela pode ter matado o marido.
— E o senhor ser o cumplice? – Perguntei.
— Não falei isto.
— Para toda família, isto o delegado pode verificar, no
enterro de meu pai ontem a noite, o senhor falou que ele morreu
de desgosto, por ver o filho preso, agora a prende para que, para
que ela não atrapalhe o extrair de algo que nem sabe se é real.
Voltei para dentro, e sentei, não estava tão bem para entrar
em uma guerra, mas vi Rosa entrar e me olhar.
— Como está?
—Achando que vou morrer a qualquer momento, e não sei de
quem vira a bala.
— A imprensa fala em maior mina de diamante daquele vale,
com diamantes de alta pureza nas terras. – Rosa falou.
— Sempre me pergunto, o que vocês querem da vida, uns
dizem que querem conhecer o mundo, mas o que muda? Quero
viver e ser feliz, sem passar um perrengue ou desgosto, para que
tanto Rosa.
— Sabe que este diamante pode ser o motivo de todas as
mortes.
O delegado olha para mim entrando.
— Pode mesmo.
— Senhor, não são tantos lugares que fazem este tipo de
trabalho de verificação, nem qualquer um que sabe fazer uma
analise, se eles tiraram uma amostra, um geólogo consegue dizer se
tiraram daquelas terras, se eles fizeram um teste, ficou registrado
em algum lugar, pois isto é ciência, não especulação.
— E acha que eles pagaram mortes.
— Senhor, um diamante daqueles, compraria as terras, mas
as terras eram de minha mãe, então meu pai para as vender, teria
de me passar metade, mas ele nunca quis vender, se pensar nos
gastos dele, pode ser que ele soubesse disto, mas ele falava muito
quando bêbado daquelas pedras.
— E alguém cresceu os olhos na terra.

71
— Imagino que não me acharem foi o que manteve o
problema estacionado, e imagino até quando fui pego pelo sistema,
eu tive uma apendicite e tive de refazer meus documentos, pois não
tinha nenhum, e devem ter visto um rapaz de rua, que era o ser que
eles procuravam por ai.
— E tudo desencadeia uma leva de mortes e pressões, mas se
for isto, sei quem para o desembargador.
Eu vi o medico vim ver o ponto e falar que a cicatrização fora
incrível, e me dar alta, os policiais me conduzem a delegacia, e fui
sentado a frente do desembargador.
O senhor estava na empáfia, e falou.
— Vai se arrepender disto delgado.
— Pode digitar todas as ameaças escrivão.
O senhor viu o rapaz digita e ouvi o delegado falar.
— Senhor desembargador, estamos pedindo o seu
afastamento para não influenciar nas investigações, como se trata
de algo complexo, não estou ainda na acusação, mas pedimos 6
exumações de corpo hoje, para não deixar nada passar, e vou
começar por perguntas simples.
— Tenho direito a um advogado.
— Sim, assim como não responder, para não criar provas
contra o senhor.
— Mas ele não está ai ainda.
— Sim, estamos no pré depoimento, não precisa de advogado
para falar seu nome completo, sua idade, sua formação, sua
profissão, ou precisa?
O advogado chegou, tinha uma petição de soltura na mão, e o
delegado olha para outro a porta e fala.
— Manda a imprensa esperar.
— Imprensa? – O advogado.
— Quero saber quem está envolvido, e – ele pega a petição
de soltura e fala – habeas corpus sem objeto de acusação – o
delegado olha para o investigador a porta e fala – Liga para o Juiz
Cardoso e pergunta se ele sabe o que está assinando, e se mantem
este Habeas Corpus, pois sem objeto de defesa, não existe Habeas
Corpus, ele nem foi acusado, como pode ter algo o defendendo
disto.
72
— Não pode ir contra uma determinação de Juiz.
— Advogado, hoje é apenas uma tomada de depoimento com
uma acareação, dependendo das respostas, ou não, posso
considerar que ele sai livre, pois tem grau superior, mas com
certeza, ele esta conduzido coercitivamente, por associação
criminosa, exercer função de condução e prisão, sem o ser
determinado em nem ter objeto de acusação valida contra a pessoa,
estamos erguendo dados, que podem vir a levar o senhor Lucas aqui
a prisão, mas se o desembargador não quer o apurar, porque pediu
a prisão do rapaz.
— Ele é acusado de assassinato delgado. – O advogado.
— Acusado que pelo incompetência ou por saberem os
resultados do teste, não passaram ele por um teste de pólvora, não
fizeram uma acareação valida, não tem provas que liguem ele ao
crime, pressionaram o senhor onde ele mora a dizer que não
reparou que ele ficou em casa, mas foi de lá que o tiraram, então,
ele estava em casa.
— Mas... – O delegado olha para o desembargador e para o
advogado e fala – estranho alguém se dizer desembargador de
justiça, e não saber que todos são inocentes até que se prove o
contrario, mas a primeira pergunta, conhecia o senhor Lucas
Camargo Filho senhor Oliveira?
Eu apenas olhava, achava que no fim, eu me daria mal, mas
estava ali para encarar, e não sabia o que aconteceria.
— Não o conheço, por mais que ele afirme o contrario.
— Onde conheceu Bruna Rosário.
— O que ela tem haver com isto?
— Não quer responder, tudo bem senhor Oliveira.
Eu não estava encarando ninguém, apenas ouvindo.
— Conhecia a senhora Rosa Silva.
— Ela era casada com o meu amigo, o senhor Lucas Camargo.
— E porque o seu pessoal estava a conduzindo armados em
um hospital, se não existe inquérito contra ela aberto, e os seus
rapazes, que estavam lá, não são do ministério publico.
O senhor se calou.
Imaginei ele pensando na resposta, ele depois diria que era
sigiloso e que não tinha como abrir o inquérito ainda.
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— Poderia me dizer quando foi a ultima vez que falou com o
senhor Lucas Camargo?
— Fui ao sitio da família, ele queria que achássemos seu filho.
— E se propôs a ajudar ao amigo, seria isto.
— Sim, seria isto.
— O que o senhor tem referente a afirmação de que falou
que o senhor Lucas morreu de desgosto.
— Quem não teria desgosto disto.
— Disse que não o conhecia senhor.
O desembargador olha que a historia estava muito furada e
fala.
— Tudo para defender este marginal delegado.
— Não estou sobre julgamento ou indagação, mas para não
dizer que fui relapso senhor, conhecia Mauricio Diógenes Marinho?
— Apenas tive uma petição dele sobre minha mesa.
— Manda soltar alguém sem saber quem é, apenas por uma
petição a mesa senhor, com urgência?
— Não existe ilegalidade nisto.
— Perguntei se faz isto sempre senhor?
— Não.
Os olhares do delegado vieram aos meus e começou com a
pergunta.
— Conhece o senhor Camilo Prestes Oliveira?
— Sim, ele frequentava a casa do meu pai, desde que me
lembro por gente, não o via a muito tempo, até ele me contratar
para fazer a escultura de uma porteira na região de Almirante
Tamandaré. Fiz a primeira parte, foi neste trabalho que descobri
que o senhor estava namorando minha es esposa.
— Tem algum motivo pessoal de vingança contra ele, por ter
lhe tirado a esposa.
— Sempre disse para ela que merecia algo melhor que eu,
amar ela não quer dizer a prender a mim senhor.
— Teria como provar que conhecia o senhor desde a infância.
— Não, a casa do meu pai pegou fogo senhor.
— Conhecia Mauricio Diógenes Marinho.

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— Quando me perguntaram isto quando me detiveram, não
sabia o nome inteiro de Mauricio, mas sim, moramos na rua,
quando tinha 14 anos e vim para a cidade.
— Foi morador de rua.
— Sim.
— Onde estava ontem a noite.
— No terreno do meu pai.
— Porque foi para lá?
— Eu pretendia passar uma procuração para Rosa, que
deixava com ela minha parte da herança.
— Parece fantasioso isto rapaz. – Desembargador.
— Tenho de concordar com o desembargador.
— Sei disto, mas quando fomos cercados, e nos escondemos
na antiga mina, para não sermos pegos pelos rapazes de Mauricio,
devemos ter deixado algo que gerou o curto que iniciou as
explosões na mina, mas víamos a casa queimando de um lado, e
fugimos por outro.
— Então pode ter colocado fogo na casa de seu pai?
— Sim, posso ser acusado disto senhor, mas não o fiz.
— Tem algum envolvimento com sua madrasta?
— Não senhor.
— O que tem haver com a morte de sua irmã, em um assalto
no centro da cidade.
— Nada, não vou acusar o teimoso e insensível do meu pai de
ter planejado aquilo, mas tem bem a cara dele.
— Porque ele planejaria isto.
— Queria um menino, tem uma menina com Autismo.
O desembargador me olha, imaginei ele pensando como
sabia daquilo e ouvi.
—Vai culpar seu pai por ter morrido.
— Quem manda ele sempre falar para todos, que aquela
pedra tinha valor, um dia alguém iria ouvir, quem não sei, mas com
certeza, todos a volta, já tinham ouvido falar das pedras que
amaldiçoavam aquele terreno.
— E planejou isto direitinho. – O delegado.
— Não, mas sei que neste país, o pobre, mesmo inocente,
aguarda na cadeia, podendo morrer, o rico, mesmo culpado, recorre
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de decisões até os prazos o tornarem inocente, pobres vão para a
cadeia, ricos, saem inocentados.
— E se acha rico? – O desembargador.
— Não, eu sou o pobre, eu vivia na rua, vivo em casa alugada,
vivo de meu trabalho, isto neste país é coisa para pobre, mas eu não
tenho medo nem da vida, nem da morte.
— O que acha que aconteceu? – O delegado.
— O que aconteceu, o desembargador deu encima de minha
madrasta, ela não lhe deu bola, então ele tinha de achar alguém
para passar a perna no velho, achou procurando uma moça com
ganancia nos olhos, contratou um pé-rapado para fazer uma
escultura, fizeram questão de mostrar lá que estava namorando
minha es, acho que apostaram em uma cena de ciúmes, algo para
com 10 testemunhas, depois afirmar uma tentativa de assassinato,
que foi respondida pelos seguranças, algo assim, crime passional é o
mais clássico no Brasil. Como o serviço andou muito rápido,
tentaram me chamar a uma conversa com Mauricio no dia da morte
da menina, também levei sorte e não cai, mas na manha seguinte,
mesmo sem ter passado perto do local, jogam sobre mim as
acusações, sou espancado e esfaqueado na delegacia no primeiro
dia, fico entre a vida e a morte, por algum tempo, e volto dos
mortos, eles achavam que não voltaria, mas isto fez com que
pedissem minha prisão novamente, eu não tinha residência fixa, o
pobre, então aguardar na prisão mesmo quase tendo morrido na
primeira noite, o que aconteceu, transferiram Mauricio para minha
cela, para mesma delegacia, na noite posterior, e me furam de
novo, fiquei quieto suficiente para me acharem morto, levantei
somente quando o rapaz do café trazia comida, dizem que parecia
um fantasma de branco, contrastando com o sangue, saio depois, e
vou ao sitio, novamente perseguido, mas o problema é que deste
ponto em diante, não tinha mais volta, e como Mauricio fala no
hospital, eu precisava morrer.
— Acha que alguém acredita nesta historinha? – O delegado.
— Como disse, sou o pobre, o que o senhor não perguntou se
tinha advogado, o que não esperou o ministério público mandar um
representante, o que acaba morrendo na delegacia.
— E não se preocupa?
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— Senhor, eu fiquei em coma, mais de dois meses, somente
quando acordei, mataram meu pai, então, ele estava nisto, ou sabia
disto, mas não o culpo, ganancia leva a morte.
— E porque acha que ele estava nisto? – Desembargador.
— Desembargador, eu nunca daria o herdeiro da família, pois
ele me fez trabalhar na fazenda quando jovem, com caxumba, me
chamando de fraco, isto me transformou em estéreo, ele tenta um
filho a mais, sei até onde pegou o problema, ele achou que a filha
era parte da praga daquela terra.
— Sabe que terá de aguardar o julgamento preso? –
Desembargador.
— Como disse senhor Oliveira, sei meu lugar, quem me tirou
da inercia foram vocês tentando me matar.
Olhei os policiais entrarem pela porta e vi o delegado da
outra delegacia me olhar.
— O que temos aqui delegado? – O outro delegado.
— Isto que queria saber, que historia é esta que nos
metemos, um desembargador que não tentou o básico, e um morto
que sabe parecer estar morto.
— Tem de entender a fortuna disto.
— Pelo que entendi Delegado, o desembargador colocou
tanta gente nisto que no fim, teríamos mais mortos que dinheiro.
— Não entendi.
— Seu grupo, grupo do Mauricio, grupo do Ricardinho, grupo
do Souza, o pessoal do ministério publico, todo morador de rua da
cidade sabe que Mauricio estava pagando 50 por informações do
rapaz.
O delegado da quarta DP olha o desembargador e fala.
— Idiota.
Eu entendi a encrenca que estava, mas evitei olhar muito,
pensei no como poderia salvar os demais, não a mim, e vi os olhos
do delegado vir a mim.
— E como não está morto?
— Como dizem na rua senhor, morador de rua, morre varias
vezes, e Deus o traz a vida, para dispor de mais aprendizado, até
que sua alma esteja pronta, a caminhar nos campos de trigo.
— Acha que está morto.
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— Estou morto, o que ninguém entendeu ainda?
— Que está muito calmo.
— Delegados, desembargador, eu sei que ainda estou aqui,
porque ainda existem pessoas a salvar, se tivessem parado as
mortes, acho que já estaria morto.
— E como sabe que continuam as mortes?
— Se um dia, algo estranho acontecer senhor, entenderá,
mas antes, não posso dizer.
Vi que os demais me olharam, vi finalmente Paulo chegar e o
delegado olhar ele.
— Interrogatório.
— Ministério Público, defesa de Lucas Carvalho Filho.
— Já estamos acabando.
Vi Paulo me alcançar um papel, eu o abri e li.
“Terras em nome de Rosa, e de uma fundação, que és
presidente, Rosa está quase no litoral neste horário.”
Peguei o papel e coloquei na boca e comi, o delegado me olha
e o Desembargador me olha.
— O que fez?
— Posso morrer agora, mas ainda não é minha hora.
O delegado viu a petição para aguardar julgamento em
liberdade de Lucas e olha para o rapaz.
— Mas como lhe concedem isto?
Paulo olhou para o senhor e falou.
— Se delegacias fossem seguras, e ele não tivesse morrido
quase duas vezes em uma, eles teriam como não conceder.
Paulo viu que o delegado não gostou, mas o olhar do
desembargador foi ao advogado que saiu, olhei Paulo e ele falou.
— Os vizinhos estão fazendo orações nas terras de seu pai, e
juro que demorei a entender.
— Não entendi.
— Eles devolveram as pedras, já coloquei no cofre da caixa, e
tive de ir lá para entender.
O desembargador não entendeu.
— Devolveram as pedras?
Paulo sorriu, saímos e ele me deu carona até o sitio,
entramos e a casa estava em chamas, entrei na sobra da casa,
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ajoelhei para orar, e olhei para a pedreira naquele fim de dia, e
afrente do genuflexório, estava a escultura que tinha feito do outro
lado do rio, o que antes era uma madeira, agora parecia escurecida,
pelo fogo, na parte madeira, e os restos da explosão, geraram uma
película branca sobre a madeira, e olhando, parecia que ela estava
olhando para quem ali ajoelhava, fechei os olhos e falei.
— O que precisa mãe de todos nós?
Senti a energia e senti um cheiro que a anos não sentia, o do
perfume de minha mãe, tentei abrir os olhos e ouvi.
— Calma filho, estou aqui.
— Como mãe?
— Livrou os pesos desta terra, agradeço por eles e pelos
meus, que a séculos vagavam por estas terras, tem algo a saber,
precisa ajudar Rosa.
— Ajudar?
— Ela espera o herdeiro destas terras filho, seu pai não teve a
paciência para o ver nascer, mas ele é a continuidade disto.
— Saudades mãe.
— Um dia andaremos pelos campos de trigo, eternamente,
apenas acalma a alma filho.
Orei e abri os olhos, aquela escultura, coberta de uma
camada brilhosa ao sol, no fim da tarde, fazia todos os vizinhos
estarem lá orando.
Abri os olhos e olhei para Paulo que falou.
— Entendeu.
— Paulo, as vezes temos de viver o desconhecido, para viver
a verdadeira fé.
— Um milagre duplo, tem de ver que isto não se explica
assim.
Caminhei até a escultura e os vizinhos me cumprimentaram, e
a noticia de todos, era que algo triplo acontecera nas terras, a casa
queimou e o genuflexório não queimou, que a explosão, fez surgir
uma imagem esculpida de nossa senhora na beira do rio, e o filho
do senhor Camargo, havia voltado as terras.

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Vi os vizinhos trazerem uma
armação que usavam para as festas e
cobriram os restos da casa, cada um
trouxe algo, estranhei, olho os
vizinhos, eles estavam
impressionados.
Anoiteci em uma barraca, Paulo
foi a cidade, e quando amanheceu, viu
aquele carro chegando pela estrada, vi quando o senhor Oliveira
saiu e viu a imagem, viu os vizinhos peregrinando e para a minha
frente.
— Acha que se livra.
— Acho que não entendi nada senhor.
— Tem alguém querendo falar com você.
— Tem de ver senhor, que quando ela lhe escolheu, escolheu
a folga, a beleza por herança, não por conquista, estas terras, vou
doar a Igreja, pois assim o senhor não me tira elas nem querendo.
— Não pode fazer isto.
— Posso, vou, pois teria de matar toda uma religião para
conseguir as terras, por um dinheiro, que nunca precisou, mas como
disse, eu amei aquela menina, e sei, que se tudo desse certo, ela
seria a ultima morte, então, considere que não é por você, por Rosa,
pelo meu pai, que darei as terras, e sim, por um amor que morreu,
morto a faca, por uma denuncia vazia.
— Ainda vai se dar mal.
— Eu? Acho que não entendeu senhor, me deve 700, vou
cobrar, mas estas terras, nunca serão suas, pois tem uma coisa aqui,
que não tem como conquistar senhor.
— Não tenho medo de truques, isto é truque.
Eu fechei os olhos e ouvi o senhor falar alto.
— O que fez.
Abro os olhos e falo olhando o fogo a toda volta, algo bem
forte, e falo.

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— Este é o fim dos que herdam esta terra senhor Oliveira, se
no fim venceres, gargalharei pela eternidade.
O senhor viu o ar voltar ao normal, olha em volta e fala.
— O que foi isto?
— Acha mesmo senhor, que não morri na Delegacia?
O senhor olha para o carro e começa a sair, ele sai assustado
e vejo Bruna ao carro ir junto, não sei, não era mais os olhos que me
prenderam, talvez no fim, era para não ser eterno.
Olho o pessoal ajoelhado a beira do rio, do lado de cá, e olho
para os vizinhos chegando e um pastor chegar.
— Isto é um sacrilégio.
— Sacrilégio? – Perguntei.
— Adoração a uma imagem.
— Todo ser que fala isto, e se faz de surdo, pois sabe que não
estão adorando a imagem, mas o símbolo que ela representa, a mãe
de alguém morto e crucificado, não deveriam pregar Deus, pois não
entendem dele.
— Mas...
— Respeito Pastor, se não é feliz em ver uma obra do senhor,
para mostrar aos filhos, que ele ainda está olhando por eles, não
posso o fazer compreender o todo.
O senhor se afasta, até entendo o que ele estava pensando,
nos dízimos que não receberia, pensei que ali começava minha
historia, e naquele lugar, surge uma chácara para menores carentes,
com minha oficina de criação, sei que não adoro a imagem, mas é
difícil de explicar o que sinto a cada ajoelhar ao genuflexório.

Fim.

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