Você está na página 1de 664

J.J.

Gremmelmaier

Contos
Reunidos

Edição do Autor
Primeira Edição
Curitiba
2017

1
Autor; J. J. Gremmelmaier Ele cria historias que começam
Edição do Autor aparentemente normais, tentando narrativas
Primeira Edição diferentes, cria seus mundos imaginários, e
2017 muitas vezes vai interligando historias
Contos Reunidos aparentemente sem ligação nenhuma, então
existem historias únicas, com começo meio e
------------------------------------------
fim, e existe um universo de historias que se
CIP – Brasil – Catalogado na Fonte
encaixam, formando o universo de
------------------------------------------ personagens de J.J.Gremmelmaier.
Gremmelmaier, João Jose Um autor a ser lido com calma, a
Contos Reunidos, Romance de mesma que ele escreve, rapidamente, bem
Ficção, 658 pg./ João Jose vindos as aventuras de J.J.Gremmelmaier.
Gremmelmaier / Curitiba, PR. / Edição
do Autor / 2017
1 - Literatura Brasileira –
Romance – I – Titulo
-----------------------------------------
85 – 62418 CDD – 978.426

As opiniões contidas neste livro são


dos personagens e não obrigatoriamente
assemelham-se as opiniões do autor, esta é
uma obra de ficção, sendo quase todos ou
quase todos os nomes e fatos fictícios.
©Todos os direitos reservados a
J.J.Gremmelmaier
É vedada a reprodução total ou parcial Contos Reunidos
desta obra sem autorização do autor.
Sobre o Autor; A soma de pequenos textos em um
João Jose Gremmelmaier, nasceu em unico livro, para que o leitor tenha em uma
Curitiba, estado do Paraná, no Brasil, formação edição caprichada parte das obras do autor.
em Economia, empresário por mais de 15
anos, teve de confecção de roupas, empresa Agradeço aos amigos e colegas que
de estamparia, empresa de venda de sempre me deram força a continuar a
equipamentos de informática, trabalhou em escrever, mesmo sem ser aquele escritor,
um banco estatal. mas como sempre me repito, escrevo para
J.J Gremmelmaier escreve em suas me divertir, e se conseguir lhes levar juntos
horas de folga, alguns jogam, outros viajam, nesta aventura, já é uma vitória.
ele faz tudo isto, a frente de seu computador,
Ao terminar de ler este livro,
viajando em historias, e nos levando a viajar
empreste a um amigo se gostou, a um
juntos. Ele sempre destaca que escreve para se
inimigo se não gostou, mas não o deixe
divertir, não para ser um acadêmico.
parado, pois livros foram feitos para
Autor de Obras como a série Fanes,
correrem de mão em mão.
Guerra e Paz, Mundo de Peter, Trissomia,
J.J.Gremmelmaier
Crônicas de Gerson Travesso, Earth 630, Fim
de Expediente, Marés de Sal, e livros como
Anacrônicos, Ciguapa, Magog, João Ninguém,
Dlats e Olhos de Melissa, entre tantas
aventuras por ele criadas.
2
©Todos os direitos reservados a J.J.Gremmelmaier

J.J.Gremmelmaier

Contos
Reunidos

3
Contos
1 – Amaná Pag.005
2 – A Lenda do Dragão Pag.051
3 – Carnaval Pag.101
4 – Dalma Pag.193
5 – Definitivo Pag.321
6 – Elza Pag.383
7 – Rastros das Sombras Pag.447
8 – Bem Vindos Pag.525
9 – Mar – Antipoética Pag.599

4
5
6
Amaná

Primeira Edição

Curitiba / Paraná
Edição do Autor
2012

7
Autor: J. J. Gremmelmaier
Edição do Autor
Ano: 2013
Obra: Amaná

CIP – Brasil – Catalogado na Fonte

Gremmelmaier, João Jose

Amaná, Contos Indígenas, -- 40 pg. / João Jose


Gremmelmaier / Curitiba, Pr. / Edição do Autor / 2012

1. Literatura Brasileira – Conto – Infantil - I - Titulo

85 – 0000 CDD – 978.000

8
Amaná

Jota começou a falar de contos infantis, e obvio, Amaná


entra em suas pretensões de escrever, pois começou a
perguntar a um, a outro, e ninguém lhe dava a resposta
que queria:
— Já ouviu falar de Amaná?
As bases deste livro rápido urgiram em uma conversa
entre João, sua Filha Fernanda, o estudioso alemão
Helmut, e a tradução de livros referente a cultura dos
Índios Brasileiros em Frances, Alemão, para falarmos de
Amaná.

9
É uma pretensão minha de falar de uma Deusa,
sou eu a chamando de Deusa, não os indígenas
locais, a única na cultura dos índios locais, a criadora
de tudo, Amaná!
Queria agradecer a Fernanda Diniz, pelos
relatos traduzidos do Frances, obtidos na biblioteca
de Sorbone, queria agradecer a Helmut Dieter,
alemão de nascença, mas no Brasil a mais de 20
anos, que vem com os textos em Alemão, me
permitindo ter uma ideia de como pensavam os
índios antes da Catequização forçada dos Jesuítas no
Brasil.
Por último, quero pedir desculpas aos Religiosos
que sentirem-se ofendidos, já que até hoje não
entendem, que direito a credo, é diferente de ser um
demônio, que assim como eles podem ser cristãos,
os indígenas tinham direito a seguir sua deusa, se
considerar que quem criou deuses como Tupã,
foram os jesuítas, quem criou um falso Deus não
foram os Índios, a adoração a Deus Lua nunca
existiu entre eles, desculpa, mas a Pascoa Cristã-
Judaica, é baseada na lua, e isto não os tornou
adoradores da Lua, se não entendem de cultura
Indígena, não falem sobre o que não entendem.

10
Prólogo
Este texto, vai tentar desmistificar o que se tornou mito depois
da semana de arte moderna de 1922, o mito pelo qual, transformou
e adulterou toda nossa cultura, a existência dos índios, a cultura
deles, a visão distorcida da classe media e alta que viviam em
grandes capitais como Rio e São Paulo, então este texto parte do
pressuposto de desmontar o que você acredita que era o índio
brasileiro. Tenho de dizer que quando li os primeiros relatos dos
textos franceses sobre o índio brasileiro, fiquei descrente da
autenticidade, tive de ler e reler, tive de reconstruir, me imaginar lá,
pois fazem mais de 500 anos que os Europeus transformaram o
Índio em um preguiçoso, e é incrível como o povo absorve lendas e
as transformam em real.
E o pensamento deste obra, aconteceu ao acaso, quando ouvia
uma apresentação de comemoração de 80 anos do grupo
Caprichoso, em Parintins, imagine o fato, pois aconteceu, você
lendo um texto traduzido por sua filha, do francês, dos anais dos
documentos transcritos dos primeiros índios que eles tiveram
contato no nordeste, afirmando depois de umas 50 paginas, que
Tupã era invenção dos Jesuítas, e se depara com uma canção como
se fosse representação de uma cultura indígena, homenageando o
Deus Tupã. Talvez para a maioria das pessoas, não lhe passasse
verificar, transformar em uma historia, ela sempre me chama de
extremista mesmo, mas pode contar, depois disto, requereu quase
dois anos lendo coisas referente aos indígenas brasileiros, estranho
o que os Jesuítas transformaram a historia dos índios, incrível o que
fizemos com eles, com a assinatura de um Deus. Foi esta
constatação que fez surgir alguns temas que pretendo contar. Estas
poucas linhas, mas tentando ser sucinto, em algo que requer muito
estudo.
J.J.Gremmelmaier

11
Vou tentar fazer explanações curtas, e dinâmicas,
em contos e falas rápidas, até ganhar estrutura de
historia.

O nome do titulo desta conversa informal é Amaná,


mas vamos falar de seus filhos, da crença de
algumas tribos, do pouco que sobrou destas
crenças.
Vamos falar da criação dos Pajés, explicar o que as
vezes não se fala sobre a cultura indígena, da
influencia dos Brancos na sua cultura e no que
chamamos de Cultura Indígena atual, mas em texto
leve e espero que objetivo.

12
Primeira Parte

Estamos em um campo, em Curitiba, de frente a


um lago, o pequeno Pedro
pergunta para sua mãe Irá;

— Mãe, como era aquele


conto que me falava, sobre
Amaná!

13
A senhora sorri, abraça o filho agora com 12
anos;

— Filho,
estas terras um
dia foram de
seguidores da
grande Deusa,
ainda estranho
ter nascido em
uma época que
tudo já tem
dono, que as
terras não são
mais livres, tem
proprietário ou são reservas de uma nação!
Nascemos em um mundo que tudo tem dono, nada a
conquistar, a não ser nossa própria historia a contar,
descobrir nossas origens, escolher por nós seguir
nossa Deusa.

14
— Seus pais a seguiam?

— Não, há
muito é proibido
falar dela nestas
terras!

— Como
proibido?

15
— Amaná para
os povos locais,
era a fonte de
energia que tudo
gerou!

— Como fonte de
Energia?

A senhora, cabelos
negros longos, olha o lago pensando em como
explicar isto.

16
— Para o
povo destas terras
filho, a força
sempre foi algo
com tom
feminino, pois a
energia que tudo
fez, era tido como
um ser sem sexo,
mas que gerou
dois grandes
filhos, e para os
nativos, quem gerava era a mãe, então era um ser
sem conotação de sexo, mas que era respeitado
como as geradoras de vida, alguns povos a
chamavam de Jurupari, os colonizadores a
transformaram, mudando seu sexo, a transformando
em um Demônio, matando todo cacique que falava
dela.

17
— Por que disto mãe,
por que foram tão cruéis?

— Muitos falam
em direito a crença
hoje, mas na época ou
se era cristão, ou se
convertia ou morria,
no caso uma deusa
criadora de tudo, os
Jesuítas tiveram a
função de a
transformar em algo
ruim, e criaram deuses
como Tupã!
— Não entendi, Tupã não é crença indígena?

18
— Não, foi
criado pelos Jesuítas
para contrapor em
poder Amaná, mais
para confundir do
que para qualquer
outro fim! Então é
fácil dizer hoje que
os locais seguiam
falsos Deuses,
quando os que os
criavam, eram os próprios Jesuítas. Estranho para
onde vai esta cultura da dor, do medo ao Deus, eles
se dizem cultos e religiosos, e tem medo de seu Deus,
nunca entendi fé por medo, para mim isto nunca foi
fé, é como respeito ao mais forte, não é verdadeiro, é
apenas medo, ou dar poder ao filho de Amaná.

19
— Mas como é esta
Deusa?

— Deixar claro
que os povos desta
terra não tinham esta
noção, a palavra Deus
era estranha a eles,
pois as forças
naturais eles
compreendiam, mas
não adoravam como
Deuses, respeitavam
como forças, dizer
que eles adoravam a
Deuses da Natureza é
não compreender o que eles sentiam!

20
— Não entendi mãe?
Eles não adoravam a lua?

— Esta confusão
vem de uma época
quando a igreja baseada
em Roma, dizia que a
terra era achatada, se
negava a influencia da
lua nas marés, negava-
se muitas coisas, então
todos os que entendiam
sobre época de plantio,
baseada na lua e nas
estações do ano, foram
tachados de acreditarem
em Deuses Pagãos, mas eles acreditavam em seus
olhos, e na existência de forças que ajudavam
quando feito na hora certa, no momento certo, eles

21
não estavam adorando um Deus, estavam Cultivando
a Terra, estavam aprendendo e passando aos seus
filhos conhecimento, hoje se chamaria de técnicas e
ciências de plantio, na época, Bruxaria, Paganismo, e
tudo isto os homens da fé perseguiam como sendo
Demônios!

— E como eles
explicavam as marés mãe?

— Cada um tinha uma


explicação, não lembro bem
disto, mas não esquece que
para eles, os mares acabavam
em buracos sem fundo!

22
— Como eles
acreditavam nisto? Não
pensavam que se fosse
assim a agua teria corrido
toda para lá!

— Filho, para você,


noções como ser natural as
coisas caírem, e ficarem
presas a um planeta, por
uma lei da Gravidade, a
mesma lei lhe induz que a
agua cairia toda, eles não
tinham, o que parece
natural hoje, era assustador para eles, um planeta
esférico, determinaria que uma hora estaria ele de
ponta cabeça, e cairia!

— Eles não sabiam da


Gravidade?

23
— A teoria da gravidade
é de 1784, muito antes disto
haviam proibido falar de
Amaná nestas terras!

A senhora olhava a água, pega uma pedra a


beira e arremessa sobre o lago, a mesma salta duas
vezes e afunda.

— Mas Amaná era uma força criadora,


entendida pelos nativos desta terra como uma força
feminina, acreditava-se que em cada ser do sexo
feminino, seja ele animal ou humano, mesmo nas
plantas que geravam frutos, para os indígenas, seres
femininos, tinha um pedaço de Amaná!

24
— Eles acreditavam que
em cada ser feminino tinha um
pedaço desta força, — o
menino pareceu parar para
pensar – esta fonte de energia como a senhora falou?

— Sim, mais um
motivo de perseguição, pois
embora eles afirmem que o
Deus deles não tem sexo,
eles impõem uma imagem
masculina a seu Deus, e na
crença deles, o homem veio
antes da mulher, somente
nas religiões derivadas do
Judaísmo, que se acha normal o homem vir antes da
mulher!
— Não entendi mãe?
— Filho, já ouviu muitas vezes, o termo, quem
veio antes, o ovo ou a galinha?
— Sim, nunca vão descobrir, pelo jeito!

25
— Por que nunca ninguém perguntou quem veio
antes, o ovo ou o galo?

— Por que ele não bota


ovo!

— A pergunta é bem
para induzir que o ovo veio
antes, pois somente assim
um ser do sexo masculino
nasceria antes, mas a
resposta é mais complexa, se
viesse apenas um ovo, o ser
nasceria e não deixaria
descendentes, todo ser que
acha que o homem veio antes, deveria se perguntar
por que Deus faria algo assim?

26
— Acha que as forças são
mais fortes nas mulheres?

— Não estamos falando


dos músculos filho, os
nativos desta terra não se
viam como superiores aos
demais seres, viviam em
harmonia com eles,
respeitavam eles, mas
levamos azar na invasão
europeia!
— Azar?
— Toda a cultura foi roubada ou distorcida, não
tiveram nem o respeito de contar a verdade, os
relatos em Português, matam os Deuses reais e
avançam ao futuro como se a invenção dos Jesuítas
fosse a crença local!

27
O menino olha para a mãe e fala;

— Mas a senhora ainda


sabe a história!

— Filho, tive sorte,


quem mais contou sobre
nossa cultura, foram livros
Franceses, Holandeses e
Alemães, o ultimo traduzindo
testos dos dois primeiros,
quando tiveram invasões em
nossas terras!
— Então os portugueses
nunca contaram a verdadeira história dos nativos do
Brasil?
— É só ler um pouco filho, mas Amaná ainda é
uma história que pretendo contar a meus netos!

28
O menino sorriu abraçando a mãe.

— Filho, Amaná nos ensina a respeitar o todo


que fazemos parte, respeitar primeiro seu corpo,
depois o meio que o cerca, os seres a sua volta,
entendendo, que você faz parte disto, em harmonia
com o meio, vai sorrir mais, viver melhor, ter amigos
e seus filhos o respeitarão,

— Lembra filho, quando contava aquelas


Histórias?

29
— Lembro mãe, gostava
da forma que contava sobre os
filhos de Amaná! – O menino
lembra da estória e continua –
Contava sobre Tamusi e Yolokantamulu, irmãos
gêmeos, iguais na aparência mas totalmente opostos
nos sentimentos, Tamusi, representava o justo, o
bom, o lado que todos tentavam alcançar,
Yolokantamulu, o ser que era a parte negativa, o lado
que todo ser desta terra tentava se deixar levar, o
lado negativo, preguiçoso, invejoso, com todos os
seus males, lembra que enquanto um fazia de tudo
para que os nativos estivessem bem, sempre
Yolokantamulu tentava destruir esta felicidade. —
Lembro, a dualidade do bem e do mal, do produtivo e
do improdutivo, do correto e do errado, todas as
tantas estórias que falava de cada um puxando para
um lado.

30
— Filho, os filhos de
Amaná sempre foram a
forma dos nativos
entenderem se estavam em
um caminho de felicidade ou
de desgraça, então a noção
de ser supremo deles,
mostrava que tanto o bem
quanto o mal esta contido no reino de Amaná, eles
não separavam um lugar bom no céu e um ruim no
inferno, eles acreditavam que tudo era o mesmo
reino, e que qualquer ser, poderia sair de um lado
ruim e ir para o bom.
— Acha que eles
acreditavam que tudo era
regido por uma força maior, as
vezes fico na duvida mãe se
eles estavam tão adiantados
nos pensamentos assim, os
professores tentam nos induzir a imagem preguiçosa
dos nativos desta terra. Fico olhando a diferença,
entre o que me conta e o que as vezes tenho de
escrever para passar de ano mãe!
31
— Filho, tem de
distinguir o que a sociedade
conta do que é real!

— Como assim mãe?


— Quem lhe disse, que
cidades são melhores que
campo?
— Ninguém diz isto mãe!
— Verdade, eles induzem que lá não tem
estrutura, escola, hospitais, não tem internet, não
tem asfalto bom para chegar, que não tem
supermercado perto, que existem bichos, como
cobra, eles não dizem que a cidade é melhor, eles
dizem que o campo é bom, temos de plantar arvores,
que temos de preservar a Amazônia, a cultura dos

32
indígenas, mas desculpe, eles falam de uma forma a
ninguém ir para lá!
— Mas eles estão
mentindo?
— Faltando com a
verdade, pois lá tem escola, não
as com computadores, com
internet, tem escola com
cadernos e livros, onde as pessoas tem de procurar
nos livros os assuntos, não
digitar no Google o assunto e
ela sair pronta em segundos.
— Mas isto é a
modernidade mãe!
— E quem disse que a
modernidade é boa filho?
Eles te induzem cada dia
mais comer coisas com
conservantes, com açúcar, com sal, quem precisa
disto para ser feliz!
— Acho que todos mãe!
— Então eles nunca serão felizes, pois quando
eles terminarem de comprar algo, em algum lugar
estão lançando outras 100 coisas que ele não tem

33
ainda, quando eles acharem que são livres, estarão
presos a regimes alimentares para reduzir colesterol,
açúcar no sangue, depressão, pois estas doenças são
novas, menos de 50 anos, e matam mais do que
picada de cobra!
— Mas acha que devemos
viver como os índios ao norte
do país?
— Não filho, aquilo
também é saudável, as pessoas
defendem a ideia de se manter
tradições, manter tradições não é se manter na era
da pedra!
— Então o que podemos fazer mãe?
— Filho, o ser indígena
tem de aprender a conviver,
a trabalhar, a cultivar, a
prosperar, deve aceitar as
leis, como alguns dizem
querer fazer parte, mas
querem manter os antigos
caciques, é como se
estivéssemos obrigando os
descendentes de português
ainda seguir o rei, a força, por lei, tudo mudou, não
34
estamos mais em 1500, as reservas indígenas neste
país são controladas por órgãos federais, como se
fossem reservas naturais onde nada se pode fazer,
esta na hora do índio assumir suas terras, e
responder por elas, não para uma Funai, e sim, para
o estado a qual faz parte, para a nação que os
permitiu chegar até aqui!
— Mas acha que Amaná
seria a favor disto?
— A força criadora, quer o
ser evoluindo e preservando,
mas não vejo futuro em uma
humanidade que vive para o
consumo filho!
— Porque não mãe?
— Filho, Amaná,
pregava que a terra tudo
provem ao homem, mas o
homem, não quer mais
saúde, não quer mais paz,
não quer mais responder a
um Deus, eles querem
computadores, querem
sanduiches gordurosos,

35
querem carros rápidos para ficarem em
congestionamentos, querem armas para manter a
sua paz, nem que acabando com a felicidade de uma
família inteira.
O pequeno Pedro olha para o lago e fala;
— Tem razão mãe, não estamos prontos para
um Deus que nos daria o que precisamos, e não o
que queremos!
— As vezes temos de falar mais sobre isto filho,
lhe deixar uma parte de nossa cultura.

36
Segunda Parte

Acho que aqui tenho de explicar um pouco, na


cultura Indígena, Amaná é um dos nomes do ser
maior, mas quando os Europeus chegaram a América,
numa sociedade onde a mulher era tida como
inferior, a cultura a uma deusa, Mãe de todos,
geradora de toda a vida, entre elas, Tamusi e
Yolokantamulu, que eram a interpretação deles para
a dualidade do bem e do mal, que um não existia sem
o outro, muito mais profunda que a religião dos
Europeus na época, já seria motivo para matar quem
falava dela, mas imagine ainda na interpretação que
37
eles tinham, que todos os seres femininos, eram em
parte representação de Amaná, pois tinham em parte
seu poder, o de gerar vida.

38
— Vamos falar de Tamusi e
Yolokantamulu mãe?

— Sim filho, deixa eu


me apresentar ao leitor,
meu nome é Irá, um nome
muito comum entre os
meus, vou falar de dois
filhos da representação
maior, nossa origem, nossa
força inicial, Amaná.
— Tomasi, o filho
primeiro de Amaná, filho
que lhe representava o avanço, a colheita boa, o bom
tempo, as coisas boas, mas não esqueça filho, as
coisas boas para nós, não o que achamos bom, pois
hoje o Abá está querendo coisas que não lhe servem
para nada, e culpam seus deuses por não lhes darem
isto.

39
— Yolokantamulu é o
negar de Tamusi pelo medo,
um vazio que surgia no índio
quando se deixava tomar
pelo medo, ele desandava e
tirava as forças do Abá, mas
o poder de Yolokantamulu é o medo. As vezes sinto
isto em pessoas que se dizem religiosos, eles temem
que não o aceitemos como são, que não entremos na
igreja eles, temem a Deus por isto o seguem, eles
estão mais no caminho de Yolokantamulu, e nem
sabem.
— Tomasi é a certeza
que estamos em terras que
Amaná impera, nos provendo
tudo, Tomasi tem no símbolo
o mel, os índios acreditavam
que era um ser na forma de
um ser que veio dos braços e
Amaná, uma fêmea que
surgia do mel, provendo a
polinização, as frutas, as flores, as riquezas na terra.
40
— Yolokantamulu é o
medo, quando um índio
paralisava diante de um
Jaguar (onças variadas), este
era uma das representações
de Yolokantamulu, então
este ser representava a
morte quando se deixa de
acreditar, de ir em frente, de
enfrentar as coisas do
mundo de Amaná, se acreditava que um verdadeiro
Abá (homem), não temia os felinos, pois eles eram
parte da natureza, e os mesmos realmente evitavam
os acampamentos dos Abás, os respeitando.
— Tomasi é tido como
o defensor da fartura, das
coisas boas, mas ele tinha
muitas representações, que
foram sendo adulteradas,
uma delas, a força das
aguas, que quando usada
com inteligência, era
sempre um símbolo de
Tamusi, de sua irmã quando
apenas usada através do descuido, da preguiça.
41
— Quando um Abá
formava sua família e
instalava muito a beira de um
rio, se acreditava que ele
estava dando forças a
Yolokantamulu, pois traria a
sua casa, os medos do rio,
como as serpentes e jacarés, a violência do rio em
dias mais tumultuado.
— Conta sobre aquela
historia de seres entre o bem e
o mal mãe.
— Entre os seres que os
Abás
respeitavam da natureza,
existiam os que eram parte
de Tamusi e os que faziam
parte de Yolokantamulu, dai
vem as forças inferiores, mas
em parte, a interpretação
delas foram adulteradas
todas para Deuses pagãos
pelos Jesuítas, então foram transformadas em
42
Demônios. Talvez não entenda, mas tanto a Serpente
que na cultura Indígena representava Yolokantamulu,
quando a Abelha Rainha, representando a
fecundação, eram representações femininas.
— Na cultura Indígena,
existia os Saci, nada haver
com Monteiro Lobato, eram
a representação entre
Yolokantamulu e Tamusi, é
uma representação de
pequenos pássaros, na
forma de guerreiros, que
faziam muitas travessuras,
mas eles estavam entre o
bem e o mal. Diziam-se os Abás seres que também
estavam nesta linha, entre o bem e o mal, tentando
aprender com os dois lados, o verdadeiro caminho
para Amaná.
— Porque disto mãe?
— Pois os pássaros
cantavam antes do amanhecer,
anunciando Tamusi, e se
alvoroçavam anunciando
Yolokantamulu, ao anoitecer.
Os humanos sabiam que as beiras dos rios eram
43
perigosas a noite, e mesmo assim se aventuravam
em fazer suas cabanas sobre as águas, assim como as
aves, somos seres entre as duas forças, a de Tamusi,
e a de Yolokantamulu.

— Mãe, é por isto que


falam que Saci Pererê não é da
nossa cultura?

— Sim filho, a
representação que você
conhece por Saci Pererê, é
uma criação de Monteiro
Lobato, mas é difícil explicar
isto para quem confundiu a
historia, Saci era um ser que
estava na cultura indígena,
entre amizades entre a Cuca,
e o Curupira, Cuca a
representação do ser que limpava as margens de
todos seres que estavam fracos para continuar, os
devorando, e Curupira, que protegia as florestas e os
animais da floresta.

44
— Porque deixaram estas
historias se perderem mãe?

— Não vivi aquela época


filho, mas como sempre
repito, está em todos os
livros deles, que as
sociedades indígenas eram
matriarcais, dai lhe pergunto,
qual das tribos atuais, ainda
mantem a senhora mais
velha na representação
maior, eles trocaram por
Chefes, Pajés, apagando a historia para que os
seguidores da Cruz tivessem razão.

— E como era a Cuca mãe?

45
— Esta é parte da
historia que sei que os
jovens gostam, pois a ligam a
carnificinas, mas não, as
pessoas esquecem que tanto
Yolokantamulu quanto
Tamusi, são representação
de filhas de Amaná, ambas
tem seus filhos, toda a crença dos Abás, baseia-se na
existência da família, então desde os seres
rastejantes aos voadores, dos peixes aos botos, das
arvores aos insetos, existe uma família, e o equilíbrio
está não em manter uma arvore de pé, e sim uma
família de arvores, não me adianta ter uma abelha,
uma serpente, todos são partes de um fluxo, e com
exceção da grande mãe, todos nasciam e morriam,
então se hoje falamos de Tamusi, é da líder dos
Tamusi, se falamos de Yolokantamulu, é de sua líder,
mas desviei o assunto. – Sorri a
senhora.
— Verdade mãe, e como
era a Cuca.

46
— Normal, uma família
da energia que se entendia
por lado ruim, mas o que mais
me chateia filho, é que
tínhamos uma cultura, que
poderia ter evoluído, chego a
conclusões, e não nos foi
permitido a evolução, mas é
uma família que vive da caça
aos fracos a margem,
limpando as margens, mas uma família que ainda
hoje se encanta pela luz, vejo hoje eles caçarem
jacarés usando algo cruel, apontando uma luz para
eles a noite, o símbolo dos Sacis a noite, a luz própria.
— Mas estes seres eram
inteligentes mãe?
— Filho, o ser humano se
considera inteligente, mas é
apenas arrogância, os
crocodilos estão aqui da época
das grandes aves, quando elas tomaram o mundo, ao
lado dos grandes seres herbívoros, na nossa crença
no passado não existiram os dinossauros, existia um
mundo de criaturas, alguns com penas, rápidos, os

47
carnívoros, os herbívoros, de grande tamanho, as
serpentes, os crocodilos e Amaná.
— E não acredita que ouve
uma extinção em massa.

— Nisto a ciência atual


concorda com nós filho,
todos os seres nascem e
morrem, alguns poucos
evoluem, mas em sua
maioria, quando se acham
superiores a tudo, geram
seres gordos, relapsos, e
entram em extinção.
— Mas e Amaná?
— Ainda vive, como os filhos, pois o bem, o mal
e a fecundação, geraram e geram ainda nestas terras
a vida, um dia talvez o ser humano tente acabar com
isto, mas dai será o fim da era dos Abás nesta terra.

48
Os dois se abraçam e o menino sorri de
caminhar com sua mãe ao lado de um terreno que
depois de anos, voltava à família.

49
50
51
52
A Lenda do
Dragão
J.J.Gremmelmaier

53
Autor; J. J. Gremmelmaier
Edição do Autor
Nome da Obra: A lenda do Dragão
ISBN

CIP – Brasil – Catalogado na Fonte

Gremmelmaier, João Jose

A Lenda do Dragão, Romance de Ficção, 42 pg./ João


Jose Gremmelmaier / Curitiba, Pr. / Edição do Autor / 2011

2. Literatura Brasileira – Romance – I – Título


3. Literatura Fantástica – Romance – I — Título

85 – 0000 CDD – 978.000

54
Introdução:
Este é um conto conhecido entre os Ninfas e outros povos.
Pouco difundido entre os humanos ocidentais, mas os orientais tem
parte desta história em suas lendas.
Esta história remonta ao inicio da existência deles, os Ninfas,
além de ser uma lenda muito popular entre os Angelicais de hoje, os
antigos por anos não gostavam desta versão da historia, ela conta o
surgir de um grande Dragão, o dragão das boas vindas.
Para começar a contar este mito, temos de explicar que para
os Angelicais a palavra mito, é tudo o que não se tem como provar,
eles não veem como historias fictícia, apenas como um assunto sem
provas suficientes para ser ciência.
Segundo a tradição, nos campos de Mart, um grande
continente próximo ao que achavam ser o centro do planeta, eles
não tinha noção de que seu planeta era ovalado, então
consideravam-se no centro do planeta plano dos Angelicais.
Naquele local existia a montanha dos 4 grandes dragões, cada
qual tinha uma cor, divididos em dois grupos, os Azulados, e os
Laranjas, os primeiros eram responsáveis pelas boas vindas das
águas e dos ventos, os segundos, as boas novas vindas das colheitas
e da terra, estes 4 dragões eram sempre aguardados pelos
Angelicais no inicio da primavera, anunciavam o começo das
colheitas, mas algo aconteceu a 5 mil anos e ai começa nossa
historia.
Antes de irmos a lenda em si, lembrando que este grande
vale, era habitado por 12 comunidades Angelicais, não estamos
falando de anjos, e sim de seres alados que se consideravam filhos
de Deus, viviam ao lado de um grande lago ao centro vale, formado
pelas aguas de degelo do monte chamado de Mart, antes de
formarem o grande rio Amarelo, no lago viviam os Ninfas, não
estamos na lenda de mulheres nuas, e sim de uma civilização de
machos e fêmeas que viviam as águas, pois lendas onde só existem
um ser feminino é boa como lenda, pois estes teriam de ser
imortais, pois senão ao morrerem se extinguiriam, ao contrario dos

55
Angelicais, que presam pela perfeição, estes vivem pela imposição
de reis e imperadores.
Nas montanhas geladas vivem o que chamaremos de
descendentes das bruxas, mas não são mais do que humanos com
seus Xamans, uma destas tinha desejos ocultos sobre as terras dos
Angelicais, mas eram muito primitivos, e tinham medo daquela
criação dos Deuses.

56
Os angelicais tinham suas pequenas
vilas, montadas nas partes mais planas
e altas, se via a busca da perfeição em
cada ato dos mesmos, suas calçadas
eram limpas, seus pequenos eram
instruídos na perfeição já nos
primeiros dias, eles verificavam a que cada ser se identificava e se
adaptava melhor e em si lhe era instruído para esta formação, quem
via as plantações, pareciam tão perfeitas que não se via uma única
espiga de milho fora das filas, não se via uma erva daninha nos
intervalos, as casas sempre muito limpas, era inaceitável a origem
dos Angelicais deixar uma sujeira ao caminho, isto fazia do lugar um
sonho, que os habitantes tentavam, mesmo na aparência de
perfeição melhorar a cada hora, a cada dia, a cada ano, não
deixavam a aparência de perfeição os iludir que haviam chego lá,
queriam cada vez mais a perfeição.
A festa da Primavera estava agitando a pequena vila de
Flores, e os campos estavam com as pequenas mudas surgindo na
terra, enfeitam as ruas com canteiros perfeitos, com tudo pronto
para o dia especial de 24 de Primavera, primavera era um dos doze
meses, o que determinava o inicio das floração.
Se via o andar sincronizado dos habitantes a rua, o voo
sempre preciso dos mais jovens ao ar, o simples cair de uma pena,
durante o voo era olhado com reprovação, onde o próprio rapaz
que sem percebeu que ela estava solta mais sedo, em seu limpar-se
antes de ir as ruas, deveria catar e providenciar a devida reciclagem.
Tudo pronto, e o dia tão esperado para os Angelicais, surge
com sorrisos, com o andar correto as ruas, com o voar perfeito de
grupos escolares, em apresentações aéreas de suas técnicas únicas
e perfeitas de voo, estavam ao meio dia olhando o ar, e algo
aconteceu, os Dragões não apareceram, e o prefeito da pequena

57
vila se comunicou com os prefeitos vizinhos, e quando os demais
confirmaram que os dragões não apareceram, em meio ao mundo
de perfeição dos Angelicais um mal pressentimento se apresentou;
— Como eles não apareceram? – O Prefeito ao comunicador;
— Não apareceram, estão falando que eles devem ter se
perdido no tempo de seu sono, e perdido as festividades!
— Mas nunca deixaram de vir, temos de mandar alguém
verificar!
— Estou mandando 3Mestres, para encontrarem-se aos seus
para verificarem isto junto as montanhas!
— Serão aguardados com entusiasmo! – O prefeito
mostrando preocupação, as 12 comunidades mandaram seus
melhores Mestres.
Os mestres foram como sempre recebidos com respeito, sem
festa, sem excessos, os mesmos trocaram ideia sobre o que fazer
durante aquela tarde, deixando para partirem nas primeiras horas
do dia;
Os mestres surgem da casa de parentes a cidade, depois de
uma higiene completa e uma refeição perfeita.
Foram se posicionando na praça central da pequena vila de
onde os Mestres saíram no sentido das montanhas de Mart, tinham
de verificar o que havia acontecido com os Dragões de boas novas.
O começo foi pela grande estrada que ligava a comunidade
vizinha, a qual fizeram em uma única curva, longa mas única, foram
em seus veículos de condução com motores da Hélio, pararam ao
lado de uma grande ponte, iniciando uma trilha em meio a floresta,
e que acompanhava o grande rio Mart.
Começaram a caminhar por uma trilha, que ao inicio era bem
limpa, mas quando adentrava a floresta, não era mais um caminho
usado pelos Angelicais, então era cheia de folhas, na primeira hora;
— Por que a natureza não limpa seus dejetos? – Pergunta um
dos mestres.
— São seres acomodados da criação!

58
Andaram mais um pouco e começaram a reparar que a trilha
era cheia de curvas, não obedecia uma logica reta ou de um
caminho mais curto, cheia de curvas;
— Por que não fizeram esta trilha reta! – Fala um dos
Mestres;
— Não fomos nós que as fizemos, irmão, estas são feitas
pelos animais que vivem a floresta!
— Devem ser animais mesmo, pois nem sabem o que é uma
linha reta!
O rapaz tentou não entrar em uma discussão sem futuro,
discussões que não davam frutos eram desnecessárias aos
Angelicais;
Viram um declive na trilha e o mesmo mestre falou;
— Se estamos subindo, por que não projetaram apenas
subidas, perderemos neste trecho, mais de 600 metros de
caminhada em subida, para descer e subir novamente! – O rapaz
estava reclamando, e não prestou a atenção no passo, onde haviam
raízes atravessadas e tropeçou com força, ele olhou a perna e gritou
alto de dor, todos os demais olharam para ele com reprovação por
ter gritado.
As arvores iam ficando mais altas naquele trecho, se ouvia o
rio ao lado, mas poucas vezes se via ele, sabiam que era um rio
caudaloso e que nas primaveras alagava as margens, então estavam
indo pela trilha alta.
Os mestres estavam acostumados a pequenas caminhadas,
nada que passasse dos limites físicos deles, não voavam naquela
área, pois tinha muita neblina, e muitas aves, que não sabiam a
inteligência do voar coordenado, vira e volta se chocando com
algum deles, o mais velho dos Mestres ia a frente, e quando sentiu
o pequeno cansaço eles pararam para descansar, armaram suas
barracas infláveis, e cada qual se ajeitou em seu canto;

59
Numa das duas cidades Ninfas, a
de Patos, nas aguas do grande lago de
Mart, o prefeito e imperador daquele
grande grupo de Ninfas chama um dos
seus informantes;
— Informante Ton, por que não fomos
agraciados pelas aguas frias das montanhas no dia de ontem?
O senhor se arcou diante do prefeito e sem olhar seus olhos
falou;
— Imperador, mandei verificar, mas parece que os Dragões
não nos agraciaram com suas aguas mais frias este ano!
— Quem eles pensam que são para desafiarem meu império?
— Imperador, pode ser que alguém tenha os proibidos, sabe
que os dragões nunca falharam, mais de 5 mil anos de seu império e
nunca falharam!
— Verdade, mas quem pode ter feito algo assim?
— Não tenho ideia senhor, mas poderíamos mandar um
grupo para verificar!
— Esta minha ideia é boa, mande convocar 100 guerreiros,
para uma missão junto ao rio Mart até os grandes ninhos dos
Dragões!
O rapaz sai sem falar nada, pensando “minha ideia”, e vai ao
capitão dos exércitos, sempre armados para enfrentar os Ninfas de
Moluscos, logo ao extremo daquele grande lago;
— Mas o Imperador não sabe que estamos em guerra, como
posso tirar 100 dos meus do campo de guerra?
— Se quiser defender esta sua negativa diante do Imperador
eu consigo pra você! – Fala Ton;
— Não, consigo os guerreiros, acha que teria problema se
fossem seres mais fracos?
60
— Não entendo de guerra, e muito menos de dragões,
apenas de servir ao Imperador – Ton que sempre quis conhecer
além dos pátios do castelo do Imperador, mas nunca tinha
autorização para isto.
Depois de poucas horas, Ton retornou ao Imperador e se
arcou novamente, e falou;
— Imperador, os chefe dos exércitos, Doma, já dispõem do
exercito pronto para sair! Aguardando suas ordens!
— E o que ele esta esperando, não sabe da urgência?
Ton olhou para o chão, pensando rápido e falou;
— Senhor, Doma esta preocupado com o lhe manter
informado, e perguntou se o senhor mandaria alguém para lhe
manter informado do andar por aquelas terras?
— Bem pensado, mas quem poderia mandar a algo assim!
— Não gostaria de ir senhor, como ele insinuou!
O Imperador se levantou de seu trono, e olhou os seguranças
a porta e olhou seu informante ali prostrado e falou;
— Mas fara isto Ton, preciso que alguém me mantenha
informado, mas leve 12 pessoas a mais, para que possa os mandar
com as informações diariamente, se apos 12 dias não tiverem uma
posição, você os conduzira novamente a cidade!
— É mesmo necessário? – Ton sorrindo por dentro, por que
imaginou que esta posição era a que o Imperador esperava.
— Ton, você é o meu melhor informante, preciso saber se
existe alguém usando isto para que não tenhamos as levas de
peixes frescos em meses por ausência das bênçãos dos dragões,
esta decidido, você vai!
Ton se retirou, falou para Doma a urgência, e explicou que o
Imperador pediu que ele e 12 dos informantes fossem junto, neste
momento o capitão soube que o Imperador estava vendo algum
perigo nisto e falou;
— Então sairão em duas horas, prepara os seus, mas nada de
moleza, não será um passeio rapaz!

61
Ton passou os comunicados para os 12 informantes, 10
rapazes e duas moças, Ton olhou os olhos de Prit, uma linda
informante quando ela lhe olhou;
— Por que eu Ton?
— Não sei, se for acontecer algo, quero os melhores lá!
— Melhores? – Fala ela com um brilho aos olhos;
Ton sorriu e foram as formações de saída;

62
Os Angelicais acordam se
coçando de picadas de butucas e o
mais velho fala;
— Absurdo este descaso da
natureza a perfeição!
— São seres perdidos na criação,
senhor Bono! – Fala um senhor mais jovem se coçando;
O senhor olhou para o ar, a neblina cobria tudo, não daria
para voar com aquele tempo, pois ele mal via o topo das arvores;
Começaram a caminhar e pararam em um córrego, enchem
seus cantis, alguns falando da sujeira de seus calçados, perderam
um bom tempo limpando as coisas, mas apos comerem começaram
a caminhar novamente, o céu não se via, pois as arvores cobriam
tudo acima da cabeça, em algumas alturas, uma leva mais baixa de
arvores, com longas folhas, e grandes troncos que atravessavam
aquilo indo acima, mas não se via seus cumes por baixo.
— Vamos caminhar quantos dias? – Um dos Mestres;
— Devemos neste ritmo chegar lá em 6 dias!
— Não seria mais perfeito chegarmos antes?
— Desgaste físico não é perfeição, o tempo não diz respeito a
perfeição, não podemos dizer que viver 60 anos é menos imperfeito
do que viver 1000 anos! – Esta era uma afirmativa clássica dos
angelicais, que vendo que os Ninfas viviam mais de 8 mil anos, não
queriam se dizer inferiores.
A caminhada estava difícil, cada vez mais íngreme, seguindo
aquela trilha que passava por troncos deitados de arvores caídas,
por milhares de raízes atravessando o caminho, para os angelicais
que acostumados a ruas retas, lizas e perfeitas, as vezes um
segundo de descuido e eram tombos, arranhões, os insetos
pareciam os seguir, eles não entendiam que para os insetos eles
eram apenas uma reserva de sangue passando por ali, não havia
63
certo ou errado nisto, mas para os Angelicais, era uma mostra de
dependência, uma fraqueza, seres imperfeitos.

64
Os Ninfas começaram a se
deslocar no sentido da margem do
grande lado, no sentido da margem
onde o rio desembocava, as aguas
geladas atraiam cardumes de peixes
nesta época, o que atrapalhava a
visão, mas deixava a comida ao alcance das mãos, e ninguém ali
estava reclamando disto, começaram seguindo em 3 filas de
soldados, de ambos os sexos, e o comandante deste batalhão a
frente, logo atrás vinham os informantes;
— Estamos indo para onde exatamente? – Comandante
Gutus;
— A missão é verificar por que os dragões não apareceram,
se necessário ir até os ninhos, no topo do monte Mart! – Ton;
— Então teremos um trecho fora da agua?
— Sim, algum problema Comandante?
— Aquela região é dos Primatas!
— O que teria de problema neles?
— Dizem horrores deles, seres que comem de qualquer coisa,
até carne de Ninfas se estiverem com fome!
— Espero que não tenham comido a carne de Dragões!
— O eterno nos livre de uma praga destas!
Chegaram ao delta do grande rio que desaguava naquele
ponto nas aguas calmas do lago, se viu o quão turva estava a agua,
mal se via centímetros a frente, foram caminhando com cuidado,
avançando rio acima.
Haviam andado perto de mais de meio dia, quando viram a
iluminação começar a reduzir, e pegaram pedras no fundo do rio,
fizeram uma proteção em forma de circulo, e se abrigaram ao
fundo, para descansarem para o dia seguinte.

65
Os angelicais começam o
terceiro dia de caminhada, estavam a
caminhar mais conformados com a
imperfeição do local, quando se viram
cercados por uma leva de primatas, o
Mestre mais velho olhou os seres com
suas lanças primitivas, olhou para os seus, e pegou um bastão ao
bolso, movimentos de guerra e abate, sempre foram parte das
técnicas passadas desde cedo a todos os Angelicais, os demais viram
isto e pegaram seus bastões, os seres gritavam coisas que eles não
conseguiam entender, então eram ignorantes como os pássaros,
quando os primatas avançaram com suas lanças, os Angelicais
esticaram suas espadas a lazer e em movimentos sincronizados,
foram cortando um a um, a cena aparentemente cruel, não para os
angelicais que viam aqueles seres como imperfeições da criação,
mas a sena de mais de 100 seres mortos sem significado, atraiu a
região os carnívoros e os abutres, que disputaram a carne
abandonada ao tempo.
Os angelicais continuaram sua caminhada, se embrenhando
na floresta, achavam que mais meio dia de caminhada, já poderiam
usar suas asas.

66
Numa caverna em um dos pré-
picos de Mart, a grande montanha de
gelo, um senhor olha para um
guerreiro chegar correndo;
— Pai dos de Adão, uma má
noticia!
— Fale filho!
— Os angelicais parecem subir a montanha para a guerra!
— Os angelicais nunca vieram nos atacar, tem certeza?
— Infelizmente, a leva de filhos que mandou vigiar a fronteira
ao sul, parece que apenas o emissário conseguiu sair antes de
serem todos mortos!
— Isto não é bom, primeiro os Dragões não surgem com as
boas novas, agora vem as noticias de guerra, põem as mulheres,
crianças e velhos para andar, com poucos guerreiros mostrando o
caminho da grande caverna, e manda um aviso aos irmãos que os
Angelicais veem para a guerra, as lendas dizem que são matadores
cruéis!
O rapaz sai pela porta e um agito toma aquela caverna,
pequena para ser uma cidade, mas que abrigava mais de 20 famílias
inteiras, as crianças foram sendo vestidas para o rigor do frio, as
mulheres deram um beijo em seus companheiros, e todos os
animais foram amarrados para andarem junto com o grupo,
primeiro montanha acima, depois atravessando o grande salão da
morte, até a caverna do irmão de Adão, do outro lado da montanha.

67
Os angelicais começam a se
deparar com uma relva mais fina, no
quarto dia de caminhada, parte dos
insetos somem, a temperatura começa
a cair, estavam já cansados de andar
quando no meio da manha do quarto
dia, o mais velho dos Mestres abriu suas asas e se lançou ao ar,
planando primeiro e depois as abatendo no sentido da montanha,
subindo, foi um dia de muitos quilômetros de avanço, o senhor viu
uma formação de rochas e pousou sobre ela, começava a ter neve,
mas teriam de descansar um pouco, mas o sorriso era de quem
havia avançado um bom trecho.
— Senhor, temos rastros de primatas que passaram a um da
rapidamente subindo a montanha!
— Eles devem ser os responsáveis pelo sumiço dos dragões,
mas o que se esperar de um grupo de macacos!
— Acha que teremos mais deles pela frente?
— Amanha devemos chegar a parte alta da montanha um, a
que dá acesso direto pelo ar a Mart, dois dias e veremos os ninhos,
não acredito que tenhamos problemas com estes macacos!
— Mas acha que devemos por alguém de vigia a noite?
— Põem as proteções de luz, elas devem ser suficiente, eles
tem medo da luz!
O senhor sorriu, pareciam convictos do que falavam;
Os senhores se juntaram aquele fim de tarde para trocarem
uma ideia;
— Senhores, gostaria de trocar uma ideia do que pode ter
acontecido! – O mais velho;
— Fale Mestre! – Fala um dos rapazes;

68
— Acho que de alguma forma, os primatas apreenderam um
dos dragões, sabem bem que os demais não apareceriam sozinhos,
pois se nunca apareceram sozinhos, não quebrariam as regras, seres
perfeitos odeiam mostrar suas falhas!
— Acha que os Dragões não são perfeitos?
— Não ao nosso nível de perfeição, e sabemos que eles
hibernam no inverno, o que lhes deixam frágeis, uma época bem
propicia a os pegarem, mostrando suas falhas, seres que tem um
fraco tão evidente não podem ser comparados a nós a nível de
perfeição!
— E o que faremos se os dragões não estiverem lá?
— Acharemos eles, nem que tenhamos de esvaziar a
montanha, tirar todos os macacos desta montanha!
— Acha necessário algo tão sem objetivo?
— Se os macacos atrapalham, em qualquer coisa, a
eliminação deles é questão de manter a perfeição!
— Verdade! – Concordaram outros dois;
Alguns cuidavam de arranhões, que embora fossem a prova
de uma grande aventura, eram sinal de imperfeição, e olhados
como desleixo na sociedade que os deu origem, outros cuidavam de
manter suas asas muito arrumadas.
Um dos rapazes esticou a volta do acampamento, um cordão
de luz, que circundava todas as cabanas, indo na seqüência se
exercitar, e depois dormir, a noite de sono era um remédio ao tédio
da imperfeição que os cercava.
A noite o cordão emitindo calor, foi afundando na neve que
os cercava, alguns acordam com um pequeno movimento do piso
para baixo e um estrondo assustador, um dos rapazes sai de sua
cabana inflável e mal tem tempo de esticar as asas e vê o piso aos
pés sumir, levando em uma fenda as demais cabanas infláveis. A
escuridão não se via muita coisa, mas olhou o circulo perfeito
aberto no gelo, parou ao lado, olhando para o buraco de mais de 80
metros de profundidade, ouviu os gritos e não tinha noção de se
sobrevivera alguém, mas estava sem mantimentos, teria de pensar

69
em como voltaria, pois não teria como manter a busca, teria de
conseguir ajuda dos seus, e verificar se tinham sobreviventes.
Parou com frio, olhou a manha se apresentar, e com ela a
neblina cobrir tudo, se a noite estava frio para voar, agora não se via
mais nada, o rapaz olhou em volta e se viu cercado foi puxar sua
espada e olhou para o buraco novamente, pois não havia nem uma
arma para enfrentar os macacos que os cercavam;
— O que querem? – Fala o Angelical de nome Bruma;
Ouviu resmungos, viu os demais abrirem o caminho e uma
senhor velho veio ao lado de uma moça, corpo escultural, músculos
perfeitos, o angelical ficou a olhando, nunca soubera de haver entre
os macacos alguém tão bem formado, tão bem disposto em
músculos, e o ser mais velho olhou para a moça e falou algo, ele não
entendeu, mas ouviu ela falar;
— O que quer Angelical?
O choque do rapaz foi grande, nunca soubera que os macacos
falavam, nunca soubera de alguém fora eles e os Ninfas que
desenvolveram a fala, mas a deles sempre foi a mais difícil, mais
complexa;
— Você fala?
A moça sorriu e olhou para o mais velho e falou algo, o rapaz
viu os macacos com uma adaga em cada mão começarem a descer
com cuidado pela encosta, do buraco que abrira ali;
— O que vão fazer?
— Ver se existem sobreviventes, qual seu nome? – A moça;
— Bruma, como fala minha língua!
— A de vocês é fácil, a dos dragões são mais complicadas! –
Fala a moça, o rapaz fica a olhar para ela, nunca soubera que os
ruídos dos Dragões fossem uma forma de fala;
— O que você é Primata? – Pergunta Bruma;
— Uma Primata herdeira das Montanhas, Sula de Mart!
— Vocês se denominam em terras?

70
A moça olha para o senhor mais velho e fala algo, e o rapaz
fica vendo os rapazes gritarem do buraco, e a moça olha para o
rapaz e fala;
— Um sobreviveu, mas esta mal!
— Não precisamos de Ajuda de ...! – Bruma, segurou o
macaco mas lhe veio a mente;
— Você não precisa, mas o rapaz quebrou uma asa,
arrogantes como deus disse que seriam!
— Vocês não podem falar com deus!
— Verdade, deus é apenas de vocês!
A moça olhou nos olhos de três deles e os mesmos saíram,
sem uma palavra, outros dois vieram e começaram a conduzir o
mais velho para a antiga caverna;
— O que vieram fazer aqui? – Bruma;
— Viemos a guerra, vocês mataram dos nossos, ou acha que
gostamos de sermos mortos por que vocês não sabem falar nossa
língua!
— Mas são animais!
A moça sorriu, viu trazerem o rapaz vivo do buraco, o porem
ali, começou a recuar e sumiu na nevoa, que encobria tudo a toda
volta;
— Como esta Plumas?
— Estou vivo, mas o que fez, eles me tiraram de lá, como fala
a língua deles?
— Eles falam a nossa, ou pelo menos um deles fala!
— Quebrei a asa na queda?
— Sabe se sobreviveu mais alguém?
— Acho que não, eles abriram todas as cabanas, mas a queda
foi doida, estava quase saindo da cabana quando vi tudo começar
cair, tentei abrir a asa, mas na queda algo bateu em uma delas com
força, e cai com tudo, mas as asas ainda amorteceram a queda, os
demais devem ter sentido o chão numa velocidade muito grande!
— Temos de ter uma forma de voltar, Plumas!
— Sim, mas como passaremos em meio a selva?
71
— Não parecem tão agressivos!
— Não falo deles, e sim dos felinos, aqueles grandes
carnívoros, que devem estar a comer os restos a um dia de voo!
O rapaz pensou na afirmação, pois não teria como aguentar o
levar do outro mais que um dia, no ar, mas parecia querer tentar.

72
Os exércitos começam a nadar
acelerados rio acima, e as filas foram
separando—se e se preparando para a
parte mais estreita, havia uma grande
queda, mas com a agilidade de seres
das águas as foram subindo, ainda
tinha volume de água para ir acima;
Depois de meio dia pararam em uma grande queda, mais de
60 metros, teriam de fazer uma parte pela encosta, mesmo com o
volume de água sendo alta, não se desgastariam ao subir, foram
saindo em formação do rio, em uma praia lateral, e um
respiradouro por trás dos pescoço dos seres entra em ação, eles
fora da água não tinham a mesma desenvoltura das águas, mas
conseguiriam algumas horas sem problemas, começam a subir por
uma lateral e se deparam com varias feras carnívoras lhes olhando,
o comandante vai a frente e fala;
— Só mantenham a calma, estão comendo e não querem
dividir a comida!
— Mas quem fez esta matança? – Ton;
— Bem estilo dos Angelicais, mas isto já foi a dois dias, pelo
cheiro, então temos de ganhar os dias que estamos atrasados!
O rapaz nunca havia visto uma fera como um leopardo,
assustadora e linda aos olhos, os demais também não estavam
acostumados com seres que não viviam as águas, muitos estavam
encantados, mas passaram em formação e atentos, foram pela
trilha, parecia que lhes levaria mais rapidamente para fora dali, e se
deparam com dois Angelicais, vindo em sua direção.
Um apoiava no outro, e Ton olhou para Prit, que entendeu
por que viera, e o comandante olhou para Ton que apenas apontou
a moça, que chegou a frente;
— O que vem a nós? – Olhando para o Angelical;
73
Os dois estavam vindo, um apoiando o outro, e param diante
daquela imensa formação de Ninfas, vindo no sentido contrario;
— Apenas Angelicais não querendo confusão! – Fala Brumas;
— Pelo jeito estão fugindo do grupo que subiu? – A moça;
— Não, apenas fomos pegos por um desmoronamento
durante a noite anterior, os demais podem estar mortos,
precisamos chegar a nossa vila e pedir ajuda!
O comandante olha para a moça;
— Os demais estão mortos, ou podem estar, mas precisam de
ajuda!
— Onde?
A moça olha para o Angelical e pergunta;
— Onde eles caíram? Podemos ajudar!
— Não aceitamos ajuda de inimigos declarados!
A moça sorriu e falou;
— Se quer continuar a descer, a vontade, tem perto de duas
famílias de felinos brigando por comida que vocês colocaram ali, a
vontade!
— Não acredito! – Brumus;
A moça olha para Ton e pergunta;
— O que faremos, eles não querem ajuda, podemos os deixar
passar, mas sabe que nos acusaram das mortes, ou acha que depois
que virem nós descermos dirão o que?
O comandante concorda com a cabeça e Ton fala;
— Tem razão, não podemos gerar uma guerra entre os dois
povos por que duas crianças, não devem ter 40 anos, resolvem ser
irresponsáveis, mas não gosto de fazer os nossos os carregarem!
— Também não gosto disto! – Comandante;
A moça sorri e fala olhando para o angelical;
— Acho que temos um problema, mas como os perfeitos aqui
são vocês, queria uma opinião! – Prit aguçando o defeito como um
elogio, para conseguir que os seres pensassem.
— Qual o problema?

74
— Que se deixarmos vocês passarem, serão mortos logo a
seguir, e a morte caíra sobre nós, e seremos culpados pois os
deixamos ir a morte, e isto pode gerar uma guerra que os seus não
têm como ganhar, já que somos mais numerosos, vivemos mais, e
não nos prendemos a regras para matar, este é o problema!
Plumas que apenas olhava para Brumas fala pela primeira
vez;
— Realmente um problema para mestres, não sabia que
desenvolviam a capacidade de pensar no futuro?
— Não pensamos no futuro, mas não gostamos de guerras, já
guerreamos por que dois irmãos se desentenderam na infância, não
precisamos de mais inimigos! – Prit, que falou isto por que os
demais não entendiam, senão nunca o teria falado, não eram
aceitas criticas diretas ao imperador;
— Se estou certo, não falaria isto em sua língua!
— Não, mas pensar gera isto, duvidas, mas precisamos de
uma saída, já que os deixar passar por teimosia, o que disseram—
me que os Angelicais não cometiam coisas assim como teimosia,
arrogância, pois seria contraproducente e por isto, imperfeito!
Brumas estava vendo a segunda fêmea, de outra espécie lhe
desafiar, mas o raciocínio lógico dela estava certo e ele admirava
isto.
— Mas como podemos voltar a subir, não posso negar
socorro a meu primo e continuar a subir!
— O que estavam fazendo lá?
— Verificando o por que do não aparecer dos Dragões das
Boas Novas!
— Então temos o mesmo objetivo, pois não podemos deixar
as tradições, e os dragões estão em nossas tradições, assim como na
de vocês!
— Mas não soluciona isto o problema! – Brumas;
A moça olhou para o comandante e perguntou;
— Seus médicos entendem algo de Angelicais?
— Não, mas eles não sabem disto! – Comandante;

75
A moça olha para o rapaz e fala;
— Temos médicos, mas não pretendemos deixar dos nossos a
lhes conduzir até sua vila, precisaremos deles, se algo aconteceu
com os Dragões, é algo poderoso!
Os Angelicais se olharam, e Plumas fala;
— Eu aceito a ajuda! – Acabando com a discussão;

76
O senhor mais velho, olhava a
caverna, e vê um dos rapazes
chegarem e falar;
— Senhor, sua bisneta traz
noticias! Foi verificar com seu filho!
— A mandem entrar!
A moça entra e olha nos olhos do senhor e lhe beija a mão;
— Sua benção grande pai de nossa família! – Sula;
— O que me conta neta?
— Dos Angelicais que vinham, sofreram um acidente, e
morreram quase todos, ajudamos dois a voltarem, iriamos ajudar
mais, mas eles se recusam a admitir—se fracos, mas estávamos
observando e uma leva de Ninfas também sobem a montanha!
— Pelo jeito todos querem guerrear?
— Estava ao longe ouvindo, eles veem verificar por que os
dragões não apareceram!
O senhor ia falar algo e viu um dos rapazes entrar afobado a
sua presença;
— Algum problema rapaz?
— Pai de todos, temos um problema a mais!
— Fale filho?
A moça olhava o rapaz como se pronta a guerra;
— Estávamos atravessando a grande caverna, e recuamos
senhor, vimos algo terrível, uma bruxa!
— As bruxas não veem as estas terras a anos, o que fazem lá?
— Estão com os 4 dragões presos senhor!
— Ela esta sozinha?
— Não ficamos muito tempo, pois estávamos com mulheres
velhos e crianças, as recuamos antes de serem vistas!

77
O senhor olhou para o rapaz, pensou um pouco e falou serio
olhando para Sula;
— Neta, temos um problema grande, chame os guerreiros!
— Qual o problema avô?
— Os chame, rapidamente!
A moça se retira e ele olha para o rapaz novamente;
— Pega o pessoal e comecem a retornar, assim que saírem da
caverna, sei que vai ser difícil, perigoso, mas tem de dar a volta na
montanha, nesta época o maior perigo são as avalanches, mas vão
pelas partes altas, e lentamente, sei que é perigoso, mas foram
prudentes em não passar pela caverna se lá tem uma bruxa, já que
elas nunca andam sozinhas!
— Então retornarei mais rápido possível para lhes passar a
posição!
— Vai filho, e deus o acompanhe!
O rapaz beija a mão do senhor e se retira;
A moça entra logo a seguir e olha o senhor, com os guerreiros
as costas;
— Entrem, o que vou falar é sério, e depende de vocês a paz
nestes montanhas!
— O que aconteceu avô? – Sula;
— Os Angelicais e Ninfas, não diferem uma bruxa de um
primata, para eles são todos iguais, mas elas não o são, elas nunca
foram como nós e nunca o serão!
— Acha que eles nos culpariam se algo acontecesse aos
Dragões? – Sula;
— Sabe que eles matam sem pensar, somos seres inferiores,
mas preciso que se apresentem, ou tentem, aos que veem no
caminho, precisam conseguir ajuda, pois sozinhos não
conseguiremos enfrentar as Bruxas e soltar os Dragões!
Um dos guerreiros olhou o senhor serio;
— Duvida de nossa força de determinação avô?
— Não neto, mas somente a soma de conhecimento, de
agilidade e de muito amor pode enfrentar as bruxas!
78
— Acha que devemos levar quantos? – Sula;
— Para falar, uns 10 guerreiros, para enfrentar, cada ser com
mais de 16 anos que não cheirar a medo!
Sula entendeu que seria uma batalha que enfrentaria os
medos, já ouvira falar de Bruxas, mas nunca as vira, diziam ser a sua
imagem, mas se fosse assim, como se reconheceria uma bruxa;
— Como podemos ter certeza de que serão bruxas lá? – Sula;
— Quando olhar para ela saberá, as bruxas tem a forma, a
imagem de quem as vê, pode ser um ser de qualquer espécie, mas
ela em sua imagem, reflete um ser como nós, então os demais
vendo o reflexo dela, ou a matando, podem vir sobre nós, pensando
que fazemos parte disto!
— E como os convenceremos do contrario? – Sula;
— Tentarão, não se descuidem, não quero a perder neta!
— Sempre estive pronta para morrer avô, mas não acredito
que seja ainda!
Os demais entenderam que seria uma guerra, e os guerreiros
foram separando os grupos, e armando os guerreiros, uma águia
mensageira foi mandada para sobrevoar a montanha e avisar que
talvez precisassem de ajuda.

79
Os primatas se organizam em
grupos e Sula chega ao lado do irmão e
lhe estende um pequeno bastao de
metal;
— O que é isto? – Sek;
A moça mostra um ponto em
meio ao metal o apertando, uma luz quente surge na forma de uma
espada e ela gira no ar;
— Que feitiçaria é esta?
— A que os angelicais usaram contra nós, melhor nos
protegermos! – Fala a moça girando no ar aquela luz avermelhada e
quente.
— Tem mais? – Pergunta o irmão;
Ela pega outros 12 e alcança aos lideres, não sabia o que viria
do outro lado, mas com certeza os Ninfas eram tidos como mais
violentos que os Angelicais;
Começaram a descer a montanha, a moça e mais 9
guerreiros, no meio de uma fenda, avistaram o exercito de Ninfas a
vir e a moça fez sinal para os demais subirem pelas encostas, o que
fizeram com certa facilidade, e sentou—se a uma pedra esperando
os demais chegarem perto;
No grupo de Ninfas, o Comandante vinha a frente, e quando
viu um primata, puxou sua espada metálica, e falou;
— Aguardem! – Os soldados pararam e Prit passou por eles,
olhando a fêmea de primata os aguardando;
Prit não tinha certeza se o que aprendera da língua dos
selvagens era real, já que nunca vira um falar;
— O que quer Primata?
— Conversar, temos um problema!
Brumas olhou a moça e falou para Prit;
80
— Esta é a selvagem que fala a língua dos Angelicais!
Sula sorriu e falou;
— E falo a dos Ninfas também!
Prit olhou para a moça e perguntou;
— Que problema?
— Soubemos a pouco que temos uma bruxa nas montanhas,
e não temos como a enfrentar sozinhos!
— Este não é um problema nosso! – Prit.
— E o que transformaria em um problema de vocês?
— Nada, não mechemos com as bruxas, elas não mechem
com a gente!
— Então o problema é mais de vocês que nosso! – Fala Sula
se erguendo, olha para cima e os rapazes começam a se afastar, os
militares só sentiram pequenos movimentos na montanha acima,
não sabiam quantos seriam, mas um desmoronamento ali e
estariam em uma grande encrenca. Sula pega duas adagas e finca
na parede de gelo e começa a subir com uma facilidade que
mostrava que os músculos não eram apenas aparente;
Prit olhou para o comandante, que fez sinal de não entender
e falou;
— Por que seria nosso problema? – Na língua dos nativos;
— Por que ela aprisionou seus 4 dragões!
A moça olhou para o comandante, não tinha tempo de
explicar pois a moça continuava a subir, já longe do alcance de uma
espada;
— E por que vocês as enfrentariam, já que o problema não é
de vocês?
— Pelo jeito vocês nunca viram uma Bruxa! – Fala a moça
alto, pois já estava a mais de 10 metros. – Mas não somos covardes,
mas era de esperar isto, Angelicais vem e nos matam, Ninfas vem e
se fazem de guerreiros, mas são todos um bando de medrosos! –
Fala na língua dos Ninfas, o comandante bradou após isto.
— Não somos covardes!

81
A moça não falou nada, viu o senhor puxar a espada para ela
como se ela estivesse o atacando, e nem o ameaçou, este ela
enfrentaria com as unhas e dentes e venceria.
O Angelical olha para Prit como se não entendesse nada;
— Ela disse que Bruxas aprisionaram os Dragões!
— Então eles tem parte, as bruxas parecem primatas para
mim! – Brumas.
— Agora entendi o problema! – Prit.
— Qual? – Brumas.
— Eles não querem o peso de terem matado os Dragões, mas
sabem que se acontecer caíra sobre eles!
— Obvio, foi parte deles! – Brumas.
Prit olha para o Angelical e pergunta serio, arrogante mesmo;
— Tem certeza que és um sábio, parece um fofoqueiro sem
conhecimento dos equilíbrios, e pela destruição que fizeram lá atrás
deveria ter desconfiado!
— Esta me ofendendo!
— Estou, pois Sábios não julgam, julgamento por sinal é amostra
de imperfeição, mas parece que a perfeição é apenas discurso
para vocês!
— Mas que perfeição tem nesta desordem toda, olha em
volta, não temos clima controlado, não temos comida, não temos
linhas retas ou arredondadas!
— Não, e uma pergunta, quem é mais perfeito, alguém que
precisa da perfeição para viver, ou alguém que sobrevive nestas
condições!
— Não precisamos da perfeição, mas a impomos ao meio!
Sula ouvia a mais de 30 metros a conversa, uma moça
inteligente diante dos Ninfas, foram espertos em fez de arrogantes,
imaginou a primata, mesmo sem saber da verdade.
Prit explica para o comandante o problema e este fala;
— Então manda um mensageiro, pois talvez precisemos de
reforços em dois dias!

82
— Verdade, mas acho melhor mandar um mensageiro e 4
rapazes, assim eles acompanham os Angelicais, que neste estado só
vão atrapalhar!
— Concordo, avisa por eles que estaremos na entrada da
Caverna de transposição, o Capitão saberá onde nos encontrar!
A moça concordou e olhou para os dois Angelicais;
— Vamos lhes proporcionar uma escolta de 4 rapazes para
retornarem!
— Mas por que?
— Avisa seus Sábios, o que esta acontecendo, pois não
precisamos de crianças aqui, e sim de sábios! – Prit;
— Não quero ir!
A moça puxa a espada e põe no pescoço do rapaz;
— Você que escolhe, os rapazes vão conduzir seu amigo, se
quer ficar morto por aqui, providencio!
O comandante não entendia a língua, mas sabia que a moça
em nada era agradável com os Angelicais.
— Vou a contragosto!
— Fala para os seus o que esta acontecendo, se eles quiserem
ajudar serão bem vindos, se quiserem atrapalhar, melhor se
esconderem em usas cabaninhas!
Os exércitos começaram a andar e ficaram ali, 4 militares e os
dois Angelicais, que começaram a retornar, mesmo a contragosto,
mas aquelas terras não eram para fracos, Sula observava de cima,
entendeu cada palavra trocada, viriam mais exércitos agora, olhou
seu irmão ao lado;
— O que eles vão fazer?
— Estão indo para a entrada da caverna!
— E os demais?
— Foram avisar dos perigos, o problema esta com a forma de
pensar dos Angelicais, os Ninfas parecem mais guerreiros, mas
guerreiros conscientes de sua missão, os Angelicais, crianças
brincando de ser adultos!

83
— Estranho estes seres que não se sabe se são homens ou
mulheres!
— Por que eles não são nem um nem o outro, eles são os dois
seres em um!

84
Na entrada da caverna, Sula e os
guerreiros chegam antes do exercito
dos Ninfas, sabiam os caminhos mais
curtos, e tinham pratica em andar
naquelas montanhas, fora o fator de
serem seres da terra e não das aguas.
Começam a entrar, as famílias já faziam a volta na montanha,
foram se aproximando e viram quando um ser muito parecido com
eles, tocou algo ao longe, fez um som ressoar pela caverna, e se
ouviu o agito geral do outro lado.
Os guerreiros se armaram, e Sula ficou a olhar, eram seres
como eles, mas por que prenderiam os Dragões, por que seu avô
nunca falou destes seres.
Estavam avançando, não sabiam se eles teriam como os
cercar, estavam em mais de 120 guerreiros, e uma leva maior
esperava do lado de fora, Sula olhou as grandes grades que
prendiam os dragões, teve a impressão de um a olhar aos olhos,
olhou para as grades e viu que apenas 3 estavam ali, um arrepio lhe
passou aos pelos do corpo como mau pressentimento;
Sula parou e o irmão parou logo atrás com os guerreiros, ele
não duvidava dos sentimentos da irmã, e quando ela deu um passo
lento para traz soube que algo estava muito errado, viu a irma pegar
o metal e este reluziu no ar, os primatas que foram aquele buraco
sabiam que algo estava errado, Sek faz os irmãos e primos
aguardarem, a moça olha nos olhos do irmão, sabia que algo estava
ali, poderia não ver, mas algo que se desse mais um passo, lhe
pegaria;
— Calma, eu avanço, se algo acontecer, me tira de lá!
— O que pode estar errado irmã?
— Não entendo de Bruxas, irmão!

85
O rapaz sorriu e viu a irmã avançar com a espada luminosa a
mão, ela passou no chão e fez um barulho como se estivesse
cortando, ele viu que aquela arma era poderosa, cortava a rocha ao
chão.
Sula avançava lentamente e sentiu o corpo esbarrar em algo
grudento, o escuro da caverna não dava a visibilidade daquelas teias
de aranha dispostas no caminho, não fizeram o mesmo caminho dos
irmãos que tentariam atravessar as cavernas, eles estavam indo de
encontro ao mar de fogo ao centro daquela montanha, o mar que
às vezes derramava pelas laterais da montanha, mostrando a fúria
da mesma, Mart era quase um deus para os Primatas.
Sula sentiu o corpo preso, o irmão olhou para ela;
— Se mantem ai! – Sula;
Ela passou a espada no sentido do que a prendia e sentiu—se
solta, mas viu um vulto negro, imenso se mexendo para seu lado,
ficou estática, desfez a luz da espada, e viu o ser se aproximar, era
uma imensa aranha, Sula nunca vira algo tão grande, nem os
grandes mamíferos do vale ao norte eram tão grandes, pensou
rápido, Aranhas geralmente são cegas, abaixou—se lentamente,
pegou uma pedra e jogou lentamente a poucos metros dela, a
aranha teria de passar muito rente a ela para ir para aquele lugar,
estava escuro e não se via muita coisa. A aranha ao sentir o
movimento se locomoveu rápido, Sula esticou a mão estendendo a
espada de luz, cortando a aranha ao meio, no passar rápido por ela,
olhou o ser escuro ao chão, não pensou duas vezes, cortou suas
patas e depois a dividiu em pedaços pequenos, um líquido
visguento saiu da mesma que se encolheu ao chão.
Obvio que não estavam mais discretos, mas avançaram
silenciosamente, se via os grandes dragões ao longe, devido ao
tamanho, mas estavam ainda a mais de 6 mil passos deles;
A moça ia a frente, viram os primeiros rapazes com lanças
afiadas, olhou para um e tentou;
— Falam que língua?
O rapaz olhou desconfiado, mas pareceu não entender;
— Falam que língua? – Na língua dos antigos, a de seu Avô;

86
O rapaz pareceu entender e olhou para ela;
— Quem vem?
— Alguém que não gosta de ver dragões presos!
— Então lutaremos moça!
A moça aperta o pequeno botão da espada de Luz e fala;
— Não gostaria de os matar, se puder falar com o pai de sua
família?
— Aqui temos uma grande mãe, não um pai como vocês
incultos e promíscuos de fora!
A moça sorriu e falou;
— Então me apresente a sua bruxa!
O rapaz olhou como se perguntasse quem era a moça;
— Como sabe como a chamamos!
— Me conduz a ela, o resto, se for para morrer para que ela
não faça mais burrada, e nos chamar de incultos depois, melhor,
para ontem rapaz!
O rapaz não gostou mas falou para os demais abrirem o
caminho, os guerreiros que vinham com Sula se armaram, mas os
rapazes com as espadas de luz se posicionaram em um grande
circulo a volta dos seus, e quando ligaram as espadas, os demais
recuaram.
Sula caminhou por baixo das grandes gaiolas, olhou para
cima, e viu que se via o céu dali, já estava noite do lado de fora, por
isto não viam grande coisa, olhou mais a frente e viu uma gaiola
sobre o mar de fogo, vazia, pensou o que pensavam conseguir com
algo assim.
Olhou a senhora sentada sobre um trono e pensou qual a
idade daquela senhora, parecia mais velha, bem mais velha que seu
avô;
— O que pensam que estão fazendo os poupando! – A
senhora;
O rapaz chegou a frente de falou;
— Ela disse que precisava lhe falar!
— A matem!
87
O rapaz puxou a espada, os a volta puxaram as suas, uma
multidão a volta fez ruído com os lábios, que ecoava pela caverna,
ela desligou a espada, pôs na cintura, presa entre a pequena pele
que a cobria e um cinto que a estreitava a cintura, lhe dando melhor
mobilidade, olhou para o rapaz avançar, desviou a espada, e bateu
na mão do rapaz, que bateu no chão, perdendo o equilíbrio, pegou
em seu pescoço e o torceu, o rapaz caia, ela puxou a espada e jogou
no sentido do trono atravessando a senhora a cadeira, que olha a
espada a atravessar, e sorri.
— O que estão esperando para os matar! – Fala a senhora
tirando a espada, somente neste instante Sula entendeu o que a
senhora queria, a imortalidade dos dragões, mas viu que a ferida
ainda estava aberta, sorriu e puxou a espada de luz, vendo uma leva
de seres avançarem sobre eles, eram muitos, mesmo cortando
muitos, vinham mais, a guerra se arrastou, os ao centro estavam
diminuindo, Sula não gostava de ver os seus morrerem, olhou para
os que estavam vivos e começaram a se mexer em conjunto no
sentido do trono, e ouviu a senhora gritar;
— Não os deixem se aproximar!
Isto deu animo ao grupo, que se concentrou, e foram
cortando braços, cortando pernas, Sula chega perto da senhora e vê
ela puxar a espada para ela, passa a de luz a frente da senhora, e a
espada da senhora é cortada ao meio, Sula, dá um giro sobre seu
eixo e passa na cabeça da senhora a espada, vê a cabeça cair e
sorrir, pegou a metade da espada da senhora, atravessou a cabeça e
lançou no sentido do mar de fogo.
Sula por ignorar algumas coisas, estava agindo pelo impulso
de guerreira, mas assim que a cabeça atingiu o magma, o corpo a
frente dela começou a pegar fogo, todos olharam para a moça com
raiva, mas viram um ser misto da senhora e de um dragão em fogo
se levantar do mar de fogo.
Sula xingou e olhou nos olhos do dragão, eles ainda estavam
tristes, por que, o que estava acontecendo?
Sula não pararia de guerrear, se era para sobreviver ela
sobreviveria, mas não estava gostando do que estava acontecendo,

88
viu o ser de fogo vir no sentido, mesmo passando a lamina ao ar,
era um ser em fogo, como matar algo assim;
— Você vai morrer, neta dos de Adão!
Sula entendeu que a senhora sabia quem eram e mataria
apenas por uma coisa que não dominava, os a sua volta estavam
com os braços cansados de cortar, de pé apenas ela e os 11 que
tinham as mãos as espadas dos Angelicais, mas a moça não era de
entregar os pontos, desligou sua espada e olhou para a senhora;
— Eu posso morrer, mas você, para a infelicidade destes que
tentam nos matar, não vai, quer saber, eles merecem a Bruxa que
tem, alguém que só pensa nela mesmo, vê os filhos morrerem aos
milhares e nada faz!
— Arrogante!
— Sou, mas preso pelos meus, batalho hoje pois sei que você
nos avançara, pois mostra isto em seus atos, mas esqueceu de uma
coisa senhora!
— Eu não esqueço de nada!
Sula olhou nos olhos da senhora e falou;
— Que bom que não esquece! — Sula vê os ninhos dos
dragões no topo da grande boca da montanha, aquela que lhe
permitia ver para fora, estava clareando, a senhora na forma mista
de um dragão olhou para cima e olha novamente para ela;
— Acha que algo me atinge agora?
Sula olha para o irmão, e este pega o arco as costas, e põe a
espada dos Angelicais e atira ao ar, era longe, mas Sula acreditava
no irmão, os demais o protegeram, e Sula ligou sua espada de luz,
olhou para a senhora e falou;
— Realmente nada a atinge, então o que faz entre nós, os
primatas, já que nos despreza!
— Meus filhos estão aqui!
— Quem, aquela pilha de mortos?
Fala Sula tirando uma cabeça a mais de um e chutando para
longe, o ser olha os seus e vê a quantidade de mortos, as mulheres
e crianças ao fundo era o que sobrou, e olha para a guerreira;

89
— Verdade, não tenho mais filhos aqui! – O ser olhou para
cima, ao mesmo tempo que a espada atingia a lateral da formação
no topo, e a atravessou, gerando um furo no gelo compactado
sobre as bordas do vulcão que chamavam de Mart, a senhora olha
para os seus e ouve o grande estrondo, e todos se recolhem, e a
senhora vê o gelo vir sobre ela a apagando.
Sula e os seus se recolhem, e são abraçados pelo gelo do teto,
saem com dificuldade do gelo, e vêem os demais olharem para a
moça, a Bruxa estava morta, ela a matara.
A guerreira olha para o irmão, o alcança sua lança e olha no
sentido da senhora, viu um coração ao chão, via a tristeza dos
dragões que não falavam nada.
— Eles parecem estar morrendo! – Um dos guerreiros.
Sula tenta lembrar das lendas, e olha para o irmão;
— Temos de levar o coração a seu ninho! – Fala apontando
para cima.
— Mas os demais não o deixaram?
Sula iria tocar no coração e ouviu um dragão falar ao longe;
— Não o toque! – A maioria não entendeu, mas Sula tinha
estudado esta linguagem, olha para o dragão e pergunta;
— Como faço?
O dragão não respondeu, ela olhou uma pele, com o pé
empurrou o coração para a pele, a fechou, e amarrou as pontas,
pegando no nó.
A moça prendeu em seu cinto, pegou duas adagas, e os
demais guerreiros a cercaram, e começaram ir no sentido de uma
das paredes, Sula nem sabia se era aquilo que deveria fazer, mas
olhou para os Dragões ao fundo, estavam morrendo, perdendo
forças, estavam ficando fracos, os guerreiros ainda avançavam, Sula
começou a subir por uma parede enquanto os irmãos e primos
defendiam—se ainda do avanço dos demais.
Começa a subir, olha para os que estavam vivos, os ninhos
tinham a cor dos dragões, então este coração era do mais vermelho
de todos eles.

90
Na vila dos Angelicais a noticia
chega e os Sábios chamam seus
melhores guerreiros a vila, e o mais
sábio ainda vivo, Brumas fala;
— Temos uma guerra contra os
primatas, eles aprisionaram os
Dragões, não poupem ninguém, eles não são inocentes!
Plumas olha para ele e pergunta;
— Discordo!
— Não é questão de discordar, agora sou o sábio mais antigo,
e minhas determinações tem de ser cumpridas!
— Desculpa pelo desconfiar de sua sabedoria, primo, mas um
deles me salvou a vida, não posso relevar isto!
— Ele não fez mais que a obrigação, somos perfeitos, seres
imperfeitos tem de nos admirar e salvar, qual a duvida nisto!
Plumas olha para os demais concordando com isto e fala;
— Espero que a arrogância, que sinto nestas palavras não
tirem a perfeição dos nossos!
— Esta me chamando de arrogante, com base em que?
— Se fossemos perfeitos seriamos deus, nós tentamos, mas
erramos, mas somos arrogantes demais para admitir que não somos
deuses!
— Não nos comparamos a deus!
A maioria olhava para a asa quebrada de Plumas, isto
denegria o que ele falava diante dos demais, pois era uma
imperfeição, Plumas olhando os olhares não falou mais nada e se
recolheu.
Os guerreiros se armaram e começaram a voar no sentido da
montanha;

91
Em Patos, o imperador lê a
noticia, e manda chamar Domas, e lhe
apresenta a carta e fala;
— Organiza o pessoal, vamos a
guerra!
O Capitão olha a carta e fala;
— Sim Imperador, quer que mande quantos?
— Suficiente para tirar estes falsos primatas, da terra!
— Estaremos saindo ainda hoje senhor!
O general saiu e o Imperador começou a se achar grande,
pois previra a gravidade, e agora iriam mostrar que os Ninfas
estavam dispostos a guerrear por seus dragões;
Saíram naquele dia uma leva de 20 mil Ninfas no sentido do
rio Mart, acelerados em companhias.

92
Sula olha para o ninho, estava
preso em uma das rochas laterais, e
quando chegou ao ninho, se
embrenhou ao meio de muitas raízes
retorcidas e amarradas umas as
outras, grandes raízes, olhou ao centro
do ninho, um imenso ovo, e olhou as aranhas a se aproximar, elas
estavam começando tomar aquele caminho, já que os dragões não
estavam mais ali, pegou o coração e colocou com cuidado sobre o
ovo de mais de um metro de altura, e viu o coração adentrar o
mesmo, mas teria agora que o defender, não sabia como e olhou
para o irmão e falou;
— Vou precisar de ajuda aqui! – Gritou para baixo;
Os rapazes começaram a subir, um foi atingido nesta
manobra, voltou ao chão e pegou a espada do que o havia acertado
e mesmo ferido segurou a leva de avanço para que os demais
estivessem mais longe, quando eles ficaram a mais de 20 metros,
Sula viu o rapaz perder a cabeça, mas o fizera sorrindo, os
guerreiros quando chegaram no ninho viram as aranhas chegando
perto, se posicionaram;
— Temos de defender o ovo!
— Mas isto é loucura!
Na parte externa da caverna, uma leva de guerreiros
esperava a ordem de entrar, mas eram seguros por uma indecisão
entre os dois irmãos, Adão e All, que não sabiam se avançavam ou
esperavam os demais guerreiros;

93
Sula olhava os dragões nas suas
gaiolas, via que estavam morrendo, se
os soltasse não sabia se teriam forças
para se defender, daqueles que
pareciam por algum motivo odiar os
Dragões, mas pensando bem, eles
poderiam ser caçados pelos mesmo, pois uma dieta apenas de
aranhas não os alimentaria direito, mas por que ficavam então ali,
as perguntas vieram a mente dela, sabia que seu avô não contara
tudo, pois eram pessoas como eles, nunca era permitido ir ao lago
de fogo, os mais velhos falavam que quem ia para lá não voltava
para os vivos.
Viu um dos dragões amarelos cair, parecia não respirar mais,
o que ela faria, as coisas estavam difíceis, seus irmãos estavam
protegendo aquele ovo a mais de dois dias, em guerra a mais de
três dias, as resistências estavam acabando e os reforços não
chegavam, e Sula começou a desconfiar que não viriam, não
queriam que os demais soubessem que haviam pessoas como eles
ali, ela lembra que para entrar ali passou pelas teias das aranhas,
será que os que estavam ali, tinham como sair?

94
Os guerreiros ainda na indecisão
se entravam quando uma leva de
Angelicais surgiu ao ar, desceram
matando todos, uma guerra de poucas
horas, pois não estavam enfrentando
seres evoluídos, e os ao chão não
tinham as mesmas armas mortais a mão, os Angelicais foram
amontoando os mortos e Brumas falou;
— Mandem alguns a vila a poucos minutos daqui! – Apontou
o sentido – Se tiver mais alguém, podem os matar!
Os Angelicais começam a entrar na caverna, para terminar o
trabalho, quando param nas teias de aranha, alguns foram pegos
por menosprezar o perigo, mas os Angelicais não pouparam
nenhuma aranha depois disto.
Sula viu os Angelicais entrarem na parte baixa, e as aranhas
começarem a avançar sobre elas, viu eles matarem todos, mulheres,
crianças, era um extermínio, olhou para os irmãos, e falou para
ficarem quietos.
Os Angelicais soltaram os Dragões, vendo que estavam fracos,
e um morto, Brumas falou;
— Pensei que fossem especiais!
O dragão respondeu, mas ele não entendeu;
— Pensei que vínhamos salvar uma lenda, mas olha isto, eles
se deixam prender por estes animais!
Um outro chegou e falou;
— Senhor Mestre, acho que esta na hora de mudarmos
nossas crenças, não podemos idolatrar fracos!
Os Ninfas haviam chego a dois dias, e ficaram a observar, não
se meteriam com as aranhas, para eles seres sagrados, e quando
viram que havia uma leva maior de primatas do que eles

95
conseguiam enfrentar, ficaram a esperar reforços, mas quando
viram o Mestre dos Angelicais atravessar um dos dragões, Prit falou;
— Não podemos deixar eles matarem todos!
O comandante concordou e saíram da pré caverna e a moça
olhou para o rapaz e falou;
— Sabia que não era um sábio, é um carniceiro, olha em
volta, agora mata os dragões e com certeza não falariam aos demais
quem os fez!
— Acha que pode nos desafiar?
Naquele instante chegavam os reforços dos Ninfas e ela falou;
— Não, mas você não sai vivo daqui!
Um dos Angelicais passa a espada na cabeça do ultimo dragão
vivo, e os Ninfas sentem raiva, seres que se achavam especiais e não
eram mais que arrogantes de asa.
Os exércitos se enfrentaram, muitos estavam a cair mortos,
quando os espíritos dos dragões se soltaram, e em meio a guerra ao
chão, ninguém viu eles se unificando, quer dizer, alguns primatas
viram, os espíritos foram se unificando, Sek vê o grande espírito vir
no sentido deles e recuou, não conseguiu puxar a irmã, viu o grande
dragão atravessar Sula e entrar o ovo, viu a irmã se desmaterializar,
e ser sugada para dentro, viram o ovo fazer um ruído grande e
rachar, olhou para os guerreiros e falou na língua deles;
— Vão, por cima é mais seguro!
O dragão avançou sobre duas aranhas, e os guerreiros
começaram a subir pela lateral do grande vulcão, e o dragão
crescer, e se atirar para baixo, parou no meio do confronto quando
Brumas esticou a espada para matar Prit;
O ser gralhou, e os Ninfas viram que um estava vivo, Brumas
não iria parar, o sabor do poder havia tomado sua alma, ele
atravessa Prit com a espada de luz, e olha para o dragão;
— Não seguimos mais os dragões! – Brumas;
O dragão olhou para os Ninfas e fala;
— Tirem os seus daqui, agora!

96
Sopra sobre os que haviam morrido, assim como a moça e
estes vêem seus cortes se refazerem e começam a sair, olha para os
Angelicais e pergunta;
— Quem é o sábio de vocês?
— Eu sou o sábio! – Brumas;
O dragão estala um dedo e o Angelical se desfaz em pó e ele
pergunta novamente;
— Vou perguntar novamente, não sou de fazer isto, mas para
não dizerem que os amaldiçoei sem saberem por que! Quem é o
sábio entre vocês?
Um dos guerreiros com sua espada de luz falou;
— Não seguimos mais os Dragões!
— Isto vocês nunca o fizeram, sempre gostaram da magia das
colheitas, mas nunca me seguiram, e qualquer sábio saberia disto,
mas se um guerreiro lhes é tido como sábio, todos os que vieram, e
mataram de outros, por se acharem melhores, provam por seus
atos que são piores!
O guerreiro olha para o Dragão e fala;
— Mas o que um dragão pode fazer, se os 4 tinham suas
funções!
4 outras cabeças começaram a surgir, Prit que saia, aturdida
pela dor de algo que não estava mais lá, viu que uma das cabeças de
dragão lembrava a guerreira primata, lembra que os dragões não
falavam outras línguas, olhou o dragão apresentar suas demais
cabeças e olhar para o Angelical;
— Eu para vocês nada mais posso!
Outras pés, na forma de grandes patas foram surgindo, 8
patas no chão, 4 pescoços, e duas imensas asas, olha para os
Angelicais e fala;
— Hoje surge uma nova espécie a pedido do pai! – O ser
gralha e os Ninfas vêem os Angelicais tomando a forma de um
pássaro negro, e ouvem no final – Vocês viverão de carniça, pois se
não tinham função, a partir de hoje, vocês o terão!

97
As vilas ao pé da montanha, não sabem o que aconteceu, mas
viram o grande dragão, de 4 cabeças surgir ao ar, uma cabeça de
cada cor, os campos dos demais davam muito mais que os dos
Angelicais, que nunca souberam que os Urubus que agora existiam
nas montanhas, que comiam parte de suas plantações, eram seus
melhores sábios e guerreiros.
Esta lenda é passada de Ninfa a Ninfa, desde a infância, dizem
que algumas aldeias de Angelicais também a contam, para nunca
deixarem de respeitarem o meio que vivem, pois mais perfeito que
a obra de deus, não existe.

Fim.

98
99
100
101
Autor; J. J. Gremmelmaier
Edição do Autor
Primeira Edição
2017
Carnaval
------------------------------------------
CIP – Brasil – Catalogado na Fonte
------------------------------------------
Gremmelmaier, João Jose

Carnaval, Romance de Ficção, 089 pg./ João Jose Gremmelmaier /


Curitiba, PR. / Edição do Autor / 2017
1 - Literatura Brasileira – Romance – I – Titulo
-----------------------------------------
85 – 62418 CDD – 978.426

102
J.J.Gremmelmaier

Carnaval

103
Em 2017 o autor coloca a disposição textos que
ele não achou um fim, mas havia escrito, historias
que ele não revisara, que ele pensou em deixar na
gaveta, mas este ano ele resolveu esvaziar a gaveta,
tirando de lá e dando um acabamento a estes contos
rápidos.
Vamos a historia de João Lucas, um eletricista de
carro alegórico, vamos entrar no seu passado, em
seus planos, enquanto ele tenta sobreviver e dá uns
tiros.
Rio de Janeiro, capital, zona Oeste, área da
Mocidade e da Unidos, bem vindos a mais um conto
rápido de J.J.Gremmelmaier.
Conto de gaveta, aqueles que o autor não achou
um fim que lhe agradasse, e por anos ficaram ali
esperando uma chance de se mostrarem.

104
“Toda folia, começa no
pretexto.”
João escreve no cartaz que
coloca na parede, sabia que muitos
falavam que odiavam o carnaval,
mas sabia que no fundo, muitos
amavam a folia, a bagunça, o sentir-
se livre.
Ele olha as noticias, sabia que as noticias ruins do Rio de
Janeiro se ampliaram nos últimos anos, e boa parte disto, por haver
mais controle da policia. Muitas vezes a imprensa nem ficava
sabendo de mortes nas favelas, hoje, quase todo dia, temos noticias
disto.
Carnaval sempre foi uma paixão de infância, e como João fala,
desculpa os velhos, mas ele não tem culpa que vocês envelheceram.
João, ele é natural do Rio, mas morou em Curitiba muito
tempo, correu o mundo, mas ultimamente resolveu parar em sua
terra natal, defendendo o seu ganha pão, na administração da parte
elétrica de um barracão de escola de samba, muitos acham que o
trabalho dele é apenas festa, mas vamos falar a verdade, nem tudo
é festa, nem tudo é agradável, e nem tudo sai como ele pensa que
vai sair.
João adora uma confusão, isto o tirou de sua cidade natal, e
isto o colocou no mundo, isto também o devolveu ao local, mas
seus sonhos eram grandes, e agora em casa, considerava a região
Oeste da Capital Carioca sua casa, iria enfrentar tudo, ou quase
tudo.
Ele está a 7 meses elaborando e fazendo os acabamentos do
carro a frente, diriam os demais dos 6 carros da escola, mas não, ele
considera cada um deles, como parte de um todo, se a escola entra
com todos em ordem, completos, acesos, ele sabe que fez seu
trabalho, se por algum motivo, o carnavalesco tem uma ideia
brilhante nos últimos 2 meses, ele sabe que algo vai acontecer
105
errado, não adianta falar, tem de se preparar para o problema e ir
em frente. Só faltava esta parte, todo resto já estava na região
central, sabia que cada detalhe valia um campeonato, ele estava por
baixo do carro, prendendo uma fiação reserva, estranho ver
carnavais inteiros durante anos, e as vezes um fio estourado, acabar
com todo o carnaval de uma escola.
João olha Cauê entrar no local e olhar para ele, vinha
problemas.
— Fala Cauê, problemas?
— O presidente da Escola mandou lhe afastar, ele não quer
você mais aqui dentro, e tem um pessoal dele lá fora esperando
você sair.
— Um pessoal é bem relativo.
— Favela do Vintem.
— Então melhor você sair pela direção Cauê, pode sobrar
para você.
— Eles me respeitam.
— Depois não vem chorar.
— Pensei que iria sair pela direção, não pela porta.
— Eu não sei de nada, tenho meu serviço para acabar,
Pedrinho – Diretor da Escola – não veio me dar à conta, então
considero apenas meu trabalho Cauê.
— Não se preocupa mesmo.
— Quando tudo isto parar de funcionar na avenida, não
venham falar que eu sabotei, sou chato, mas não sou incompetente.
João olha para o diretor chegar da direção, sabia que viria a
ordem de dispensa.
— João, não sei o que aprontou, mas o presidente da escola
me esculachou por ter alguém como você aqui.
João olha para Pedrinho e fala.
— Ele lhe esculhambou? – João largando o cabo e olhando o
senhor.
— Forma de falar.
— Pedrinho, somos uma família, se o Pango esqueceu o que é
família, ele esqueceu que não foi ele me colocou aqui, ele nunca
gostou de mim, para ele é mais fácil um estrangeiro ser da família

106
que eu, mas não existe apenas a família dele aqui em Padre Miguel,
mas o que ele pediu para fazer Pedrinho.
— Lhe mandar embora.
— Ele está lá encima?
Pedrinho viu nos olhos de João que ele não levaria isto para
casa, ele resolveria ali, naquela hora.
Pedrinho não respondeu, então João sobe pela escada lateral
e entra na peça que o presidente da escola estava, falando no
telefone, ele olha com raiva e grita.
— O que faz aqui marginal.
— Até 3 dias, era João, o que fiz para você Pango, para me
distratar, pois garanto, comprou uma briga, só quero saber, sabe a
briga que comprou ou não tem coragem de perguntar para o neto o
que ele fez?
— Não falo com marginal.
— Então não deve falar com seu neto, com boa parte de sua
família, acho que deve falar com o espelho apenas, mas eu saio,
mas marginal, se repetir, vai responder no júri, e se estes na sala ao
lado mentirem em júri, eles vão presos, dai não serei apenas eu o
Marginal senhor, e manda um beijo para a esposa, ela é gente boa
demais para estar casada com um tralha como você.
— Eu... – O senhor ia falar algo, mas viu João chegar perto
rápido e recua.
— Bom ter respeito presidente, odeio esta historia tanto
quanto você, mas aqueles marginais que seu filho chamou que
estão lá na porta, melhor chamar uma ambulância, e se o seu filho
estiver lá, chama o IML também.
João sai pela porta batendo e desce para o barracão, pega
apenas sua carteira no armário e olha para a confusão do lado de
fora, foi saindo, sabia que seria barrado.
João sai erguendo os ombros, o neto do Presidente da escola
estava a porta e apenas vê João chegar rápido, os demais iriam
intervir mas João já encostava o rapaz a parede.
— Um aviso, se tentar tocar nela de novo, seu avô não vai ter
um bisneto, pois não vou lhe capar, mas com certeza, vai doer cada
dia que tentar algo.

107
— Larga ele. – Um rapaz apontando um canivete para João ao
fundo.
João levanta o rapaz e inverte com força o jogando contra o
rapaz que estava com uma faca, tinha gente armada também.
— Se vai defender a amante Paulinho, melhor perguntar para
a Rita como foi horrível a primeira vez com esta merda que
defende, um bando de vendidos, se venderam para o dinheiro do
pirralho e vem me esticar uma arma?
— Vamos acabar com você. — Rui, o neto agora solto se
fazendo de valente.
— Vamos? Não consegue com um velho, e vem com estes
vendidos me julgar, como disse Pirralho, tenta de novo, e não terá
como fazer uma próxima, e se estes a volta querem problema, eles
não sabem com quem mexeram.
João olha para Rui, sabia que tinha dois vindo por traz, a
valentia de muitas brigas de favela, onde se matava o adversário
por covardia pelas costas.
João olha para o prédio e viu o senhor olhando, cumplice,
sem problemas, ele olha para Paulinho, ele precisava de uma forma
de se defender, então avançou, o rapaz estica a faca, João chega a
faca, segura com as duas mãos a puxando para ele, jogando o rapaz
no sentido dos demais, puxa a arma na cintura de outro e olha para
os demais.
— Porque morrer na sexta?
— Acha mesmo que sobrevive a segunda? – Alguém as costas
de João, ele demorou para achar a voz em sua memoria e responde.
— Se até você está querendo minha morte, porque não
entraram lá e me mataram Carlinhos.
— Eles não querem ser envolvidos.
— Todos sabem que se esta merdinha não tivesse aprontado,
não teria falado nada, e todos vocês querem jogar encima de mim?
— A menina mudou a versão João.
João para na frase e apenas aponta a arma para a cabeça de
Rui e fala.
— Se vou morrer por algo que não fiz, agora estão me dando
motivos para o fazer. – João destravando a arma.
— Sabemos que não mata um rato João. – Paulinho.
108
— Não matava.
Todos ouvem o tiro, todos recuam, o rapaz começa a cair e
João a se desviar, se queriam um culpado, seria um culpado, viu que
ali ele não sairia, teria de ter uma forma, e nada como derrubar o
rei para sair de alguns lugares.
João não olhou para a janela do presidente, atirou em duas
pernas e saiu pela viela ao fundo, sabia que estava encrencado, mas
o que era estar encrencado mais uma vez, aos 31 anos, já fizera
muita coisa, mas o não matar um rato, era um disfarce que pegou
bem pelos 3 anos que esteve no Rio.
Paulinho olha para Carlinhos, olhando Rui morto e fala.
— Disse que não era uma boa ideia Carlinhos.
— Pensei que ele nem reagiria, precisávamos limpar a barra
do Rui, mas... – Carlinhos parou a frase olhando o senhor chegar ao
corpo, ele provocara, ele acreditara, agora estava com o corpo ao
chão, olha o senhor olhar para ele e falar.
— Peguem este desgraçado, não quero nem saber onde ele
vai ser abandonado morto.
Carlinhos olha para Paulinho, outros que se faziam de
valente, começam a dispersar, e a policia chega ao local.
Se a ideia era não envolver a escola, morto a porta do
barracão não combinava com não envolver.
Carlinhos olha para Paulinho e pergunta.
— Porque achava que não era uma boa?
— Ninguém sabe de onde veio este senhor Paulinho, ele veio
de Curitiba, mas quando, ninguém sabe, como, ninguém sabe, o
cara é calmo demais, enérgico demais, viu ele agir, ele sabia que o
esfaqueariam pelas costas e resolve avançar.
— Acha que temos como ir atrás dele?
— Acho que ele nem vai voltar ao barraco dele, mas não
custa olhar.
Os dois olham outros dois pegam o carro e saem no sentido
de uma favela no bairro ao lado.

109
João chega a seu quarto e sala
na entrada da favela de São Miguel,
olha para a rua e olha aquela
menina, quanta encrenca por uma
menina que agora pelo jeito mudara
a historia para lhe complicar, medo
era o padrão, ela olha para João e
sai no sentido oposto, João entra em seu refugio e viu tudo
revirado, inocentes, achavam que encontrariam algo ali assim, só
revirando.
João chega a parede, ao fundo, totalmente lisa, pega a faca e
passa nos extremos, aquele isopor ele tirara dos restos de lixo da
escola a 3 anos, montara uma parede falsa e sabia que teria de sair
rápido.
Pega o dinheiro ao fundo, olha para a arma, a deixa, não teria
como levar muito, nem sabia se conseguiria sair da região a tempo.
Sai no sentido da Estação de Trem de Magalhães Bastos, sem
olhar para trás, sem nem se preocupar que deixara pistas de quem
era naquele muquifo.
Paulinho recebe a ligação que João estava em casa e acelera
para a favela, ele e Carlinhos tiveram de pedir para entrar, não era
área deles, Paulinho olha para Carlinhos e comenta.
— Ele sabia que demoraríamos para entrar aqui, mas pelo
jeito ele veio pegar algo.
— Vamos saber em breve, liga para o Presidente, tem de dar
o alerta, senão o rapaz foge, ele quer a vingança, mas se ele sair da
cidade, talvez descubramos que nem João ele se chamava.
Paulinho liga, ouve absurdos, passa sua posição, pois
Paulinho achava que ninguém da escola tinha certeza do nome do
senhor.
Os dois olham as moças olhando ao longe, veem que Zé do
São Miguel os acompanhou.
— O que está acontecendo Paulinho, vocês não vem para cá?
110
— A policia deve aparecer em breve Zé, João matou Rui
Pango.
— Aquele senhor matou alguém, todos diziam que ele
tentava não matar ninguém, manter a ordem, mas quando vi ele
discutindo com Rui, pensei que o que aconteceria era o inverso.
— Não sabemos ainda o que os dois discutiram, mas Rui
chamou um grupo para dar uma lição no senhor, ele quando viu que
não sairia tão fácil, escolheu o caminho fácil, distraiu todos
abatendo Rui.
— E vieram ver oque aqui?
— Ninguém na escola sabia se o nome dele era João mesmo.
O rapaz foi quieto, viu que o senhor havia saído e nem
fechado a porta, viu a parede ao fundo arrancada, olha para a
bagunça e fala pegando o radio.
— Pequeno, manda gente para o cafofo do João da Padre
Miguel.
— Problemas?
— Estou sozinho com dois rapazes, mas eles falaram que a
policia vai dar uma batida por aqui, e tem mais de 30 armas que vi
até agora.
Paulinho nem toca nas armas, sabia que teriam problemas,
olha para os cantos e olha para uma serie de recortes, olha para
Carlinhos e fala.
— Rui mexeu com o cara errado.
Carlinhos olha a publicação amarelada que dizia, “Policial
Afastado mata 10 pessoas e some sem deixar rastros”, olha a
imagem e lá estava João, a reportagem falava em Tenente Lucas,
mas os dois não sabiam que Lucas era sobrenome.
Os rapazes da favela entraram, retiraram as armas e Zé olhou
para Paulinho.
— Melhor dizer que não viu as armas.
— Pelo que entendi, tínhamos um policial que matou alguns
em Curitiba, se passando por alguém que não matava nem um rato,
em meio a parte elétrica dos carros alegóricos da escola.
Zé saiu quando o radio falou.
— Farda entrando, 5 grupos.

111
Zé saiu e Paulinho e Carlinhos saíram pela porta, esperar a
policia, sabiam que teriam problemas, Paulinho se afasta e ouve o
telefone tocar.
— Pegou o desgraçado Paulinho? – Pango.
— Ele era um fugitivo de Curitiba Presidente, havia se metido
em um problemas, parece que acusado de algo, ele foi afastado da
policia de lá, ele matou os 10 problemas e sumiu.
— Esta falando serio?
— A policia está chegando agora, não sei o que eles vão fazer,
mas com certeza, fechar as saídas, se ele não sair rápido, pegamos
ele.
— Cuida disto, tenho de me preocupar em por a escola na
avenida na Segunda, cuida disto para mim.
— Estamos tentando obter informação, lhe mantenho
informado, mas seu neto escolheu a pessoa errada para mexer
presidente.
O senhor olha em volta, odiava ter de concordar, mas via ao
fundo o corpo do neto ser recolhido pelo IML, e teria de encarar as
coisas como normais.
Muitos apoios nesta hora.
A policia entra no recinto e olha os documentos falsos, o
senhor respondia um processo com aqueles documentos, ninguém
nem se deu conta que o documento era do senhor, acharam que o
senhor usou a certidão de nascimento de alguém vivo e tirou uma
via nova de documento, documento real, olha para o rapaz ao
fundo e fala.
— O que tem ai?
O rapaz olha para a porta e fala.
— A casa foi revirada, mas pelos cartuxos que tinham aqui,
pelo menos 20 armas foram retiradas daqui.
— O senhor pode ter levado?
— Se o fez, saiu de carro, não a pé.
O senhor olha a viela e fala.
— Sem chance, o que mais?
— Tem todas as repercussões do crime em Curitiba, o
processo está quase vencendo os prazos de levantamento e não
está acabado.
112
— Ele estava esperando por aqui e algo aconteceu?
— Alguns dizem que o senhor se meteu com este rapaz, Rui,
ontem, disse que capava o rapaz se forçasse algo com alguém, mas
alguém pressionou e a menina mudou o depoimento de ontem para
hoje, dai estamos pegando as câmeras da escola de samba, tinha
muita gente lá, ele pode ter reagido, não parece alguém que fosse a
um local publico para matar alguém, o processo em Curitiba está
sendo levantado e tem grande problema no levantar de provas.
A bagunça estava grande, o senhor olha para os policiais e
fala.
— Isola a região, os marginais vão gostar que prendamos
este, é só dizer que é um policial matador de bandidos, que estamos
investigando para o pegar, que eles não vão atrapalhar.
O rapaz sai, isola a área, o investigador tira as digitais, olha
para a parede, afasta os moveis e olha para a organização das
coisas, ele não pretendia sair as pressas, mas ele somava partes, ele
começou com uma parede, algo alugado, mas que foi somando
paredes, ele olha para a próxima, olha para a faca ao chão, passa a
parede ao fundo, e vê que era a logica, existia mais coisas ali.
Ele afasta mais os moveis, olha para a parede ceder e chama
o investigador.
— Estas armas que estava falando?
O rapaz olha para as armas e fala.
— Ele tinha um arsenal de guerra, temos de ver se algumas
mortes na região não tem haver com este senhor.
— Temos, mas ele parece alguém sistemático, ele organiza as
paredes, temos mais uma a tirar a proteção, mas desconfio que
termos armas, documentos, mas não o que ele veio pegar.
— Acha que ele veio pegar oque?
— Dinheiro e documento, o problema, qual documento, para
onde ele pretende ir.
— Estamos dando alerta, até para a policia de Curitiba,
pedindo informação.
— Começa a perguntar para as pessoas em volta se
conheciam algo a mais do senhor.

113
Maria, mais conhecida por
Doida, estava a porta da sua casa
quando Paulinho para a sua frente.
— Sabe que tem de mantar a
versão que falou por segundo.
— O que aconteceu? – Doida.
— Rui tentou dar uma lição
naquele senhor, e está no IML, vai ser a noticia do dia, policial
procurado em Curitiba, mata neto de Presidente de Escola de
Samba.
— Era policial?
— Agora entendo o como ele me desarmou tão fácil, como
ele foi frio ao matar Rui, sem nem pensar nas consequências, ainda
bem que o tiro a perna passou de raspão.
— E pensar que tinha gente que daria seu muquifo para ter
aquele senhor em casa, sem saber que ele podia com os seus
marginais Paulinho, sozinho.
— Acha que está falando com quem Doida?
— Alguém que deve estar com problema, alguém deve estar
pedindo para você matar o policial, mas não pensava em achar
alguém que sabe atirar do outro lado, ou esperava.
— Tenho de me inteirar, tem muita policia olhando.
— O que o Zé tirou dali?
— Armas, o senhor tinha um estoque imenso numa parede
falsa, parece que os policiais acharam mais armas, ouvi um
investigador falar que vão comparar com mortes na região.
— Acha que era um matador?
— Acho que ninguém olhava para o senhor, mas sabiam que
ele se posicionava em quase tudo, quantos odiavam ele.
Doida olha em volta, lembra dos problema no surgir daquele
senhor falando os “e” mais acentuados e puxando um pouco o “r”,
olha para o bar Paraguaçu a baixo e fala.

114
— É, talvez somente agora comecem a pensar nos mortos
que apenas deixaram de perturbar, como Fiu Fiu, Doguinho,
Machadinho, Dum Dum, Toni do Paraguaçu. – Doida fala mas
Paulinho não conhecia os mortos, mas entendeu a suspeita, o
senhor poderia estar a muito tempo limpando a área, e ninguém
nem olhava para aquele senhor, todo colocado em uma roupa que
parecia crente, as pessoas até esqueciam de olhar seus braços,
Paulinho lembra que foi pego de surpresa, ele esperava uma coisa,
mas a força do senhor o impressionou, ele desce para a entrada e
olha para Carlinhos.
— Conhece a região?
— Já morei por aqui.
— Doida falou algo que não sei se pode ser real, mas ele deu
a entender que muitos sumiram ou morreram sem saberem quem
matou nesta região desde que o senhor apareceu por ai.
— Mas isto sempre acontece em favelas.
— Ela olhou um bar ali acima, e falou de gente como Dum
Dum, Doguinho, Toni do Paraguaçu.
Carlinhos olha para o lugar mais a cima e fala.
— Ela acha que ele poderia estar limpando a área?
— Se tivesse, vê se alguém consegue os nomes que ela falou
e passa para um investigador sem nos comprometer.
Os rapazes deixam a fofoca correr, saindo em sequencia.

115
João entra em um banheiro
da Central do Brasil, sujo, olha para
um canto, olha para o espelho
quebrado e pega na mochila um
boné, um óculos, tira a blusa, põem
o paletó de crente, fecha a camisa
até encima, uma contradição em
visual, põem as coisas na mochila e pensa que teria de ir ao centro
antigo.
Olha os seus documentos, ele pega um ônibus no sentido do
centro, quando desce do ônibus, pega o pente e se penteia
andando, com todo o cabelo para um lado.
Ele entra em um hotelzinho na entrada da Pedra Liza, paga e
o atendente parece o olhar desconfiado, mas talvez não fosse
normal um crente ali.
João sobe ao quarto e liga a TV, liga para a portaria dizendo
que receberia uma moça, que perguntaria por ele, olha para o
espelho, faz a barba bem feita, olha para os cabelos, os raspa, olha
para a roupa, a separando a cama.
Quando o jornal começa ele ergue, coisas normais, como
corrupção começam no jornal, depois reclamações sobre ações da
policia e por fim, o que ele queria.
“Um assassinato ainda sobre investigação mata o neto do
presidente da Escola de Padre Miguel, o Delegado local deu uma
entrevista, que o assassino é um policial procurado por 10 mortes
no Paraná, acharam em sua casa armas, muita munição e
documentos falsos, o delegado afirmou que vai confrontar mortes
locais com as armas encontradas.”
João olha o rosto dele a tela e o alerta de que se virem Joao
Lucas, a policia estava procurando por ele.
João sorriu, eles usaram as imagens dos processos em
Curitiba, eles queriam que ele bobeasse, deveriam estar mostrando
para os policiais outra foto.
116
Alguém bate a porta e ele abre.
— Me diz que é mentira João.
João a olha serio e fala.
— Sabe que nunca falei porque voltei, e para não perguntar o
que fiz antes.
— Mas porque matar o Rui.
— Queria sair vivo de lá, não tinha muitas opções, logico que
a versão do rapaz sozinho e sendo morto, não vai mudar, mesmo
que eu estivesse sem uma arma lá.
— Mas o que vai fazer?
João tira um maço de dinheiro e coloca em uma segunda
mochila que estava dobrada dentro da primeira e fala.
— Sai da cidade, você vai virar alvo.
— Eles não fariam.
— Amanda, eu não tenho como lhe proteger neste instante,
ou você sai agora, ou irei ao seu enterro, de longe.
— Não acredito em você, mas guardo o dinheiro.
João a olha serio.
— Vou pensar João.
João queria proteger a pessoa que lhe fazia diferença naquela
cidade, mas começava a ver que as coisas não iriam ser fáceis, que o
poderia fazer.
— Vai mudar de visual?
— Sim, e lhe ligo, se estiver viva, tiver entendido o problema,
nos falamos, podemos ser sinceros e você escolhe o caminho. –
João.
— Vai para onde?
— Nem ideia, hoje meu primeiro esconderijo bom foi
desmontado, não sei.
— Matou alguém e nem parece preocupado com a família.
— Sobrevivi, quer me julgar, me afasto de vez Amanda.
— Eu tenho de pensar.
João tenta a beijar e ela o afasta, ele então apenas pega sua
mochila e fala.
— Então acaba assim?
— Vou pensar, me liga. – Amanda.

117
Ela saiu, ele ajeitou uma barba, um cabelo, ficou esperando
mudar de atendente, trabalhara ali dois meses quando voltou a
cidade, mas ninguém da época ainda trabalhava ali, salario ruim e
condições péssimas faziam o rodizio alto de gente, mas não a
mudança de esquemas.
Ele se olha no espelho, cabelos longos, barba rala clara, os
óculos grossos, um boné jogado para traz, uma dentição falsa, sobre
os dentes, lhe dando dentes tortos, o fez sorrir, liga para a
recepção, pede para calcularem a conta, sai, sabia que esperaria
eles verificarem as coisas no quarto, quem seria maluco de roubar
algo daquele lugar era a pergunta, mas acerta e contorna a quadra e
começa a subir a ladeira do Morro da Pedra Liza, ele foi barrado, ele
com um ar de pobre procurando algo pergunta.
— Me informaram que a Dona Tereza tinha umas casas para
alugar na região.
O rapaz armado até os dentes olha para João e pergunta.
— O que tem na mochila.
— Quer ver?
O rapaz apontava a arma, olha que só tinha coisa velha e fala.
— Segunda ladeira a direita, casa Amarelo ouro.
João sobe, sempre achou um problema serio uma arma de
tamanho poder de destruição na mão de crianças, mas obvio, ele
sem mostrar interesse, olhava para a trava da arma o tempo inteiro,
sobe e olha para uma senhora a porta de uma casa amarelo e
pergunta.
— Dona Tereza?
— Não, vou chamar minha filha.
João tenta não parecer conhecer o lugar, estava em um
disfarce que parecia não ir muito longe.
Tereza olha para João e fala.
— Um quarto com certeza.
— Se tiver um.
Ela faz sinal para ele entrar e fala.
— O que aconteceu João.
— Rui armou o pessoal para me matar, apenas não morri.
— Eles estão num agito, o Pango está chamando todos os
amigos e conhecidos para lhe achar.
118
— Ele era a favor de minha morte para abrir caminho para o
neto aprontar com as meninas próximo de onde me escondia lá.
— Se metendo sempre em encrenca, e esta cara de Jesus
Cristo?
João se olha ao espelho e fala.
— Acho que Jesus é sacrilégio, ou não é?
Tereza sorri e fala.
— Matar é mais sacrilégio que isto.
— Apenas preciso me organizar Tereza.
— Quer o quarto que sempre deixou pago?
— Se der.
— Os rapazes não o reconheceram?
— Não, deixa a policia levantar todos os dados antes de dar
minha versão do caso, preciso saber o que eles vão falar e o que os
demais vão dizer que fiz.
— Alertou quem?
— Amanha vai surgir alguém morta, pior, sei que será jogado
sobre mim, mas amanha penso nisto.
João senta-se no quarto e sala que tinha ali, ele por um
tempo vivera bem ali, mas achava que estava evoluindo na Escola
de Samba, então foi para mais perto, não pretendia se meter em
encrenca, mas sabia que jogariam tudo sobre ele.

119
Ferreira era Delegado da
Região que abrangia aquele
pequeno bairro da Padre Miguel e
também parte do Realengo, olha
para o auxiliar que fala.
— Sabe que podemos
encerrar vários casos apenas
jogando na costa deste senhor.
— Sei disto Pedrinho, mas quero saber quais ele fez de
verdade, um cara destes numa favela nos ajuda mais que atrapalha,
o que deu nas gravações da Escola de Samba.
— Mais de 20 cercaram o senhor na saída, ele não teria como
sair vivo de lá se não matasse alguém Delegado.
— E de quem era a arma?
— A imagem mostra ele puxar de um rapaz da comunidade,
parece Micro, a imagem não daria nem para afirmar isto.
— Mas dá para afirmar que ele estava desarmado.
— Sim, o senhor mostra algumas coisas na imagem, ser forte,
ter coragem, mira, e que só queria matar Rui.
— A defensoria publica adora coisas assim.
— A defensoria hoje em dia defende os marginais Delegado,
eles parecem urubus sobre a carniça, mas ninguém tem sinal de
onde o senhor acabou.
— Algo sobre onde ele morava antes de estar ali?
— Favela da Pedra Liza.
— Um senhor que se escondia onde todos odeiam policiais,
mas que a morte do rapaz o tira o disfarce.
— Senhor, o que achamos naquele quarto/sala/banheiro de
12 metros quadrados, dava para matar quase todos os moradores
daquela comunidade, tem disfarce, tem até sinal de que havia notas
em algumas caixas, ele foi lá pegar o dinheiro.
— Ou alguém foi lá e pegou antes, não esquece, ele poderia
apenas estar olhando ao longe.
120
— Verdade, mas parece não querer pegar o cara.
— Pedrinho, qualquer um que matasse aquele marginal do
Rui, mereceria uma comenda, não um inquérito, mas como você
disse, o ministério publico gosta de marginais.
— Que não ouçam isto.
— Ter opinião ainda não é proibido, ainda.
— O que acha que ele vai fazer?
— Não sei, mas fica de olho, se pegarem ele, o quero vivo e
inteiro, entendeu.
— Pelo jeito gostou do senhor.
— Pedrinho, se ele limpou uma favela para nós, é um aliado,
inimigo do nosso inimigo, é um amigo.
— Mas mando gente para onde?
— Posso estar enganado, mas ele vai detonar a escola, não
sei como, mas pode esperar, ele o vai fazer.
— Ele não é maluco.
— Eles estão terminando de montar as ultimas grandes
alegorias, que vão da Gamboa para a Marques, fica de olho,
amanha as pessoas da comunidade começam a ir para a festa,
muita gente começa hoje mesmo.
— Verdade, o senhor está na cidade em meio ao inicio do
carnaval.
O Delegado olha o outro investigador entrar e falar.
— Podemos conversar Delegado.
— Fala.
— Como deve saber, tudo que vou falar, não teria como
provar sem novo laudo pericial, mas estamos falando de casos dos
últimos 3 anos, em varias regiões, lembra que tínhamos o caso dos
mortos por Pistolas Militares de alta performance Israelense, que
não levamos a publico pois não tínhamos um atirador e nem a
armar certa.
— Uma das armas do senhor?
— Sim, uma das armas, ligaria o senhor a pelo menos 52
mortes, em comunidades como Favela do Caminho do Luca, Nova
Aliança, Vintém, São Miguel, Coqueiro e Jacaré.
— Se isto escapa teria gente o procurando em toda a cidade.

121
— Sim, mas dai tem uma segunda arma, isto colocaria parte
de nós nesta busca.
— Fala.
— Arma Semi Automática Suíça, de enfrentamento a
Terrorista, nunca havia visto uma bala destas, mas elas deixam
rastros em outros 32 crimes, mas ai quem morreu foram policiais,
sei que todos de grupos de extermínio, mas se vazar vai ser difícil de
segurar isto.
O delegado olha para o assistente e fala.
— Mas mantem a ordem, o quero vivo e inteiro, ele sabe
muita coisa que não sabemos.
— Mesmo que vazar.
— Vale o mesmo que falei antes Pedrinho, inimigo de
inimigos nossos, é nosso amigo.
— Mas...
— Se o comandante deles mandasse lhe matar e a toda sua
família, eles não pensariam Pedrinho, eles matariam.
— Certo, pelo jeito alguém infiltrado bem nos lugares que
mais tememos entrar.
— Pensa friamente, ou ele sai toda noite para matar, ou ele
tem cumplices, pois não tem como ele matar tanta gente em 3
anos, ou até tem, mas dai ele premedita, ai temos algo mais
perigoso, pois ele pode ter matado aquele marginal do Rui, mas se
olhamos a frieza que ele fez, a pratica que ele fez, ele poderia ter
matado a todos.
— Acha que ele vai se apresentar?
— Acho que ele vai ser achado morto, mas não pretendo ser
eu a por minha mão nesta morte, como estamos vendo, podemos
terminar o levantamento com mais de 100 mortes, pois estamos
falando de dois casos que não tínhamos pistas, e aparece 84
mortos, agora pensa naquelas mortes que nem soubemos?
— Vou verificar, mas tem mais gente olhando estes dados
Delegado.
— Então fecha a boca, ninguém tem provas que o senhor deu
os tiros, fomos a um cafofo que foi indicado por eles, não
esqueçam, achamos documentos que remetem alguém que veio de

122
Curitiba, mas a imagem a TV, duvido que qualquer um da favela em
São Miguel, reconhecesse a rua.
O delegado olha mais alguns papeis e dispensa os dois.
Ele pega o telefone e liga para o Delegado Plinio, de Bangu,
este estranha e fala.
— Problemas Ferreira.
— Sim, mas nada por telefone.
— Assunto?
— Mortos com uma arma semi automática Suíça.
— Tem um suspeito.
— Tenho a arma, preciso trocar uma ideia, pois não quero
perder os bons homens para isto.
— Vai dizer que chegou a alguém por acaso.
— Acaso que se mandar ao ministério público, podemos
pegar por matar marginais, mas acredito que tem gente que não
deixaria ele vivo se soubesse disto.
— Muitos mortos?
— Dos dois lados, mais dos de lá.
— Passo por ai.
O delegado Plinio olha para o Investigador a porta e pergunta.
— Fala.
— Algo está acontecendo na Delegacia do Ferreira.
— Acho que ao acaso, eles descobriram quem estava nos
matando.
— Vamos o caçar?
— Parece que o delegado de lá tem outra ideia.
— Porque?
— Disse que ele matou mais gente do outro lado.
O rapaz sorriu e falou.
— Mas não discutiu isto por telefone.
— Nada que nos incriminasse, mas vou até lá, é um pulo
daqui e preciso me inteirar, sabe que podemos ter pego pesado
com quem não deveria.
— Não entendi.
— Quantos falam mal aqui do Eletricista da Padre Miguel.

123
— Muitos, sei que alguns... – O rapaz para a frase, ele iria
dizer que alguns já morreram e o odiavam - ...está achando que ele
era o matador de policiais?
— Ele matou o neto do Pango, em Padre Miguel ele não está,
parecem ter ligado ele a outros nomes, podemos ver e dar uma
entrevista coletiva, jogando todos os marginais sobre este senhor,
sabe que estamos em uma guerra, mas se não precisarmos perder
dos nossos para liquidar este senhor, melhor.
O delegado se levanta, já estava acima do peso a alguns anos,
mas ainda tinha vontade para o cargo, vai a viatura indo ao
encontro da outra delegacia, vê o agito na entrada, sabia que teria
um publico, isto era bom.
Os delegados se cumprimentam e Ferreira fala para o auxiliar.
— Nos daria um momento a sós?
O rapaz sai e Plinio fala.
— Nunca falamos sobre isto antes Ferreira, pensei que não se
envolveria.
— Não vou, não preciso saber Plinio, mas a arma encontrada
no barraco do senhor, bate ate agora com 32 mortes de policiais, e
mais de 52 marginais, a pergunta que me faço, ele age sozinho ou
não.
— E qual ação vai fazer?
— Se eu sair a porta e falar, ele matava marginais, terei os
marginais o procurando, mas o principal, o ministério publico e os
direitos humanos, se colocando contra o senhor, se sair a porta e
falar, ele matava policiais, sabe que será exatamente o oposto.
Plinio olha para Ferreira, entendeu a ideia básica, mas como
provar algo assim era sua pergunta.
— E como os convencer, devem ser mortos de vários locais e
a muito tempo enterrados.
— Pensa que temos de ser convincente, pois as imagens que
vão vazar na internet, não são de alguém matando apenas, é de
alguém se defendendo, eles iriam o linchar por que ele defendeu
uma menina da favela de ser estuprada por aquela merda do Rui,
não sei o que ofereceram aos pais da menina que a forçaram mudar
o próprio depoimento, mas estamos pegando um senhor, não
porque ele saiu do controle, estamos pegando ele por um acaso.
124
— Certo, não tínhamos nem desconfiança do senhor, sei que
alguns dos meus juraram aquele crente de morte, mas obvio, nunca
procuramos nele um culpado, pois ele não parecia ser perigoso.
Ferreira inverte a tela para Plinio e este olha a ação na saída
da quadra da Escola de Samba.
— Se acha que isto não é perigoso, o que é Plinio?
Plinio olha a calma, a frieza, a forma seca de matar e de sair, e
fala.
— Alguém treinado para se defender, é o que esta falando.
— A lista dos policiais você vê depois, mas estes – Ferreira
passa uma lista por cima da mesa para Plinio - são de comunidades
como Jacaré, Favela do Caminho do Luca, Nova Aliança, Vintém, São
Miguel, e Coqueiro, tem os nomes e os apelidos, 52 mortos com
uma arma que agora sabemos qual é, mas que nunca havíamos
visto uma no Brasil Delegado.
— Uma arma única, que estava em 52 inquéritos sem
solução, é o que está dizendo, não está nem colocando outros,
pensei em ter de por algo assim.
— Se olhar, tem gente ai, que vai sair a procura dele a
qualquer custo.
Plinio olha a lista e fala.
— Acha que ele não vai sair da cidade?
— Acho que ele vai esperar a terça de cinza, é um fluxo tão
grande de gente saindo, que se ele conseguir ficar vivo até lá, ele
sai, sabe disto.
— Verdade, agora enche, depois esvazia, mas acha que o
ministério publico engole está?
— Mandei a pouco um pedido de exumação dos 52 corpos, se
confirmar a morte de um pegamos o cara, mas acho difícil que
tenha duas armas destas no Brasil.
O delegado olha a lista, toma folego e sai pela porta da
delegacia, uma repórter olha para ele, estica o microfone e
pergunta.
— Delegado Plinio, alguma novidade para nós?
— As delegacias da região estão em contato umas com as
outras, pois a sorte as vezes nos atinge, na busca na casa do senhor
que matou o rapaz na frente da Escola de Samba covardemente,
125
encontramos uma arma, que nunca havíamos visto no Brasil, pois
ela é especial de policiais de tiro de precisão Americana, e estamos
pedindo o abrir de 52 inquéritos, pedindo a exumação dos corpos,
pois podemos ter um serial Keller escondido numa favela pacificada.
— Poderia me confirmar algum nome que está nesta lista de
inquéritos que estão abrindo?
— Sei que tem a morte de Paulinho Fumaça do Jacaré, de
Carlinhos Sorriso do Caminho de Lucas, Catarina da Nova Aliança,
Paulinho e Catatau do Vintém, Dum Dum de São Miguel, Loquinho
do Coqueiro, tem até este instante, 52 inquéritos, estamos
levantando se existem outros. – O delegado começa a andar e pede
licença, chegando ao seu carro.
João acompanhou a reportagem indo ao ar, junto com
anuncio de números recordes de blocos naquele ano em quase toda
a cidade.
João sai e sobe a viela e bate a porta de uma casa, sabia que
era a viela do Carlinhos Dom Dom.
João olha aquele senhor armado sair a porta e fala.
— Não preciso de nenhuma oração.
— Sei que não Carlinhos, mas gostaria de paz, e sei que
somente você me daria paz aqui.
— O que lhe ameaça rapaz, ninguém me falou mal de você
aqui ainda, sabe que tem de andar na linha.
— É serio Carlinhos, tem de entender porque da armação que
vão montar contra mim, entre as coisas que afirmarão é que matei
seu irmão.
O senhor aponta a arma para João e fala.
— Não pode estar a minha porta, é maluco?
— Desarmado, mas querendo paz, se souber conversar
Carlinhos.
— Me dê um motivo para eles estarem mentindo.
— Eles tem uma lista de no mínimo 32 nomes, de pessoas
que matei, todos ligados ao Delegado Plinio, deve entender quem
matei.
— Está dizendo que eles querem que façamos o serviço deles,
mas e as armas?

126
— Porque teria uma coleção de armas, se só tenho dois
braços, eles plantaram lá, sei que Zé do São Miguel esvaziou a casa
das armas que lá tinha, eles plantaram as armas, mas estou pedindo
paz, pode não querer Carlinhos, mas não vai poder dizer que não
propus.
— E se o matar e lhe entregar ao Pango.
— Duvido que já não tenha pensado em matar aquele
marginal, mas ele esticou a arma, ele me cercou, não sou de morrer
quieto, apenas não estou na ativa contra o pessoal do morro, eles
querem inverter, mas não tenho como provar isto agora.
— Sabe que passaria desapercebido.
— Vou continuar no disfarce, se quiser me matar, estou num
quarto para baixo, que aluguei, você controla tudo por aqui
Carlinhos, fácil de achar.
João dá as costas, ele ouve o tiro, foi para cima, sabia que os
demais iriam chegar até ali por esta tiro, mas viu que o senhor nem
olhou para traz, apenas desceu a rua.
João passa na sua atual residência, pega uma bíblia e vai a um
culto na entrada da favela.
Carlinhos olha para os rapazes e liga para Zé.
— Zé, Carlinhos da Pedra Liza.
— Me ligando, problemas ou solução?
— Duvida.
— Duvida?
— Um passarinho me informou que o acusado pelo delegado
Plinio, era um matador de meganha, e que você havia esvaziado a
casa do rapaz das armas que tinham colocado lá, a segunda parte
confere?
— Sim, tiramos umas 30 armas de lá.
— E as armas, a policia achou ou plantou lá?
— Acha que a policia quer que cacemos o cara, tem ele
matando o Rui num vídeo e querem que façamos o trabalho sujo
deles?
— Apenas trocando uma ideia, pois isto é bem a cara daquele
podre do Delegado Plinio.
— Tenho de verificar isto, sabe que mesmo que ele seja um
matador de policial, muitos adoram a família do Rui.
127
— Eu respeito o vô e o pai dele, não ele, era uma merda
ambulante.
— Sabe que muitos se espelham em gente como o Rui.
— Apenas me confirma, pois se for apenas o Rui, eu não vou
colocar meu pessoal para fazer o trabalho dos meganha.
— Certo, em pleno carnaval acho que isto segura muita
gente, mas acha que o cara era matador de policial.
— Acha que alguém mataria em 6 comunidades, acha que
aquele senhor, mataria em 6 comunidades nossas Zé?
— Sei que seu irmão pegava no pé dele, mas ninguém via
nele um matador, alguém com ideias de estruturação, mas bem
pode ser coisa daquele porco do Plinio.
— Lhe ligo depois para saber se tem algo concreto ou apenas
a palavra dos porco.
Carlinhos olha os demais e fala.
— O que vou falar, é apenas entre nós, se vazar, vou querer
uma cabeça na bandeja, entenderam.
— Sim.
— Soube que um senhor de barba e cabelo comprido entrou
e começou na favela hoje, quero olho nele, mas não vou me meter
com nada dele, se o grupo do Delegado Plinio subir, quero gente ao
longe, e tirando as crianças da rua.
— Não entendi.
— Pode parecer apenas um crente, mas é um matador de
policiais, não quero saber o que mais ele fez, mas se ele mata
meganha, tem meu apoio.
— Aquele Jesus que entrou mais cedo.
— Sim, aquele mesmo.
Um sorriu ao fundo e pergunta.
— Tem certeza que aquilo mata uma mosca?
— Como digo pessoal, matador não precisa aparentar um
matador, para matar meganha, tem de aparentar bem como aquele
senhor, alguém simples, sem ninguém olhar para ele como
perigoso.
Zé vê o pessoal do Vintém na entrada e desce para conversar,
olha para Guguinho e fala.
— Entra.
128
— Queremos cooperação Zé, vai proteger alguém aqui agora?
— Ele não está aqui, mas uma coisa me veio a mente.
— Uma coisa.
— Guguinha, eu e os rapazes entramos na casa do senhor
antes da policiai, tiramos de lá mais de 30 armas, alguém do outro
lado da cidade me liga e pergunta, porque um Delegado que tem
um grupo de extermínio, acusa o senhor de matar lideres de nossas
comunidades, acusa bem um matador de policial?
— Matar um policial não dá direito a matar meu primo Zé.
— Primeiro ele não está mais aqui, segundo, não está
ouvindo Guguinho, quando saímos da casa do senhor, não tinha
mais armas lá, que arma eles afirmam que era do senhor, que
matou todos estes lideres, e que somente depois do Delegado Plinio
ir a delegacia ali abaixo, surgiu?
Guguinho olha para Zé, talvez entendendo a duvida e
pergunta.
— Está dizendo que ele pode não ter matado ninguém, e
aquele desgraçado que já matou até minha irmã, pode estar
jogando com isto?
— Sim, é o que estou dizendo.
— E quem seria este senhor, como saber se é verdade?
— Esquece a imagem que está na TV, aquilo era o senhor
antes de vir ao Rio, ele ainda tem ombros largos, mas veste camisa e
terno de crente pobre, mas tem uma cara comum, ele põem uma
peruca e ninguém o acha neste carnaval.
— Acha que ele pode não ser inocente?
— Guguinho, quem me fez pensar foi o Carlinho da Pedra
Liza, até desconfiei dele estar por lá, mas pensa, quantos muquifos
tem naquela região.
— Muitos, mas ele já estaria no centro.
— Saída rápida para qualquer lado, fácil de chegar lá de trem,
qualquer um sabe disto.
— E se o cara for inocente?
— O Delegado Plinio tá atrás dele, sabe como eu, Panginho
sempre foi ligado a este pessoal da Policia Civil, se não foi o mesmo
que resolveu se livrar do cara e está mudando a interpretação nossa
das coisas para que assista de camarote a morte do cara.
129
— Quer dar uma olhada no cafofo do senhor?
— A policia já liberou?
— A policia nem ficou para dar explicações, sabe disto
Guguinho.
O rapaz entra na comunidade, isto já era estranho, mas o
olhar do rapaz era aos detalhes até entrar naquela peça, olha em
volta e fala para Zé.
— Tirou as armas de qual parede?
Ele apontou.
— Os demais sabem segurar uma informação Zé?
Zé olha para os demais, faz sinal para um ficar e dois saírem e
fala olhando Guguinho ainda a porta, ele olhava para dentro,
parecia medir o lugar e pergunta.
— O que olha?
— Quero entender Zé, pensei que o estavam escondendo,
estão tentando entender o acontecimento, mas isto não é uma casa
normal a favela.
— Reparei, ela está toda acabada, o senhor Rui, que alugou
para o rapaz, disse que era um muquifo, úmido, sem encanamento
quando alugou.
A peça a frente não era grande, um quarto e banheiro, que
tinha uma cozinha, mas era evidente algumas coisas que Guguinho
fala.
— Vamos ver se entendi algo, ele não tem fogão, apenas uma
geladeira – Ele olha para a parede – não tem ventilador, não tem
uma verdadeira cozinha, ele não comia aqui, no máximo, bebia o
que tinha a geladeira. – Zé olha o rapaz e a peça, mas parecia que
Guguinho estava tentando adivinhar algo – Zé, esta casa é pequena,
ali ao fundo, uma parede que eles abriram. – Guguinho pega um
objeto a mesa, era uma espécie de pedra, parecia um peso para
segurar algo, ele bate a parede e viu que a mesma era de gesso fino,
ele não ficou olhando, ele continuou batendo e se voltou a porta e
olhou para a porta, a fecha e fala para Zé olhando o local – Posso
estar enganado Zé, mas ele apenas dormia aqui, si é que dormia,
parece um esconderijo, não uma residência, pouca roupa, coisas
básicas não tem, mas como disse, tinha armas.
— Não entendi.
130
— Eu passei a tarde olhando o videio da ação do senhor
quando o cercaram em Padre Miguel, ele não fez um único
movimento não controlado, e quando avançou, foi tão rápido, que
eles nem viram, acharam que era apenas firula e o senhor já tinha
uma arma apontada, uma faca a mão, acho que mesmo a policia
não tem aquele treino, parece militar, parece exercito, não policia
militar, ele com certeza tem uma historia maior, mas a marca a
porta – Ele aponta a porta, olha para Zé – se ele é especial, ele é
daqueles que não deixam marcas que os normais entendem.
— Não entendi. – Zé.
— Zé, fotografa este símbolo e pergunta como se não quer
nada, para o Tabajara se ele saberia o significado disto.
— Porque o tabajara? – Zé.
Zé olha aquela porta, olha o símbolo feito a mão e fotografa.

— Porque isto é um símbolo que já vi em algumas armas, a


algum tempo, UZI.
Guguinho puxa o canivete as costas e anda a parede que se
mostrara frágil, passa em volta a faca do canivete, viu a parede se
descolar e Zé olha para as armas e ouve.
— Zé, eles tiraram armas também, daquela parede.
— Pode ser real, um matador?
— Isto é um local montado Zé, posso apostar que se fizer isto
naquela parede, tem mais armas.
— E acha que o cara montou isto para que?
— Não sei, mas não vi nada de armas modernas Israelenses,
então porque ele fez o símbolo a porta?
— Confundir?
— Ou informar os que conhecem isto com algo.
Guguinho fecha a porta e olha para as paredes, olha os traços
esculpidos, chega a porta e olha que tinha uma camada fina na
parte central, ele passa a faca e puxa uma espécie de plástico e olha
131
para o UZI bem no centro, mas no centro do Z havia uma flecha
apontando para o piso, ele chega ao local e tira o tapete.

Olha para Zé e fala.


— Vamos descobrir mais que a policia.
Guguinho olha para o tapete, pede ajuda para tirar a mesa e
olha para o buraco, somente neste momento Guguinho repara que
todo chão tinha um tapete, e que abrindo uma portinhola no chão,
todo o piso era de madeira, aquela sensação de algo montado
realmente.
Guguinho olha para Zé e desce uma escada olhando em volta
e os dois rapazes desceram junto e olham a peça, ali tinha cozinha,
ali tinha uma cama desarrumada, bagunça, o que mesmo numa
peça revirada não parecia ter, olha a parede, as armas prontas para
atirar, chega a parede e aciona o celular e põem a imagem da arma
que a policia disse ser do rapaz, olha que tinha uma igual a parede,
um computador portátil, um sistema de imagens que não notara
acima, câmeras que lhe davam a imagem acima, mesmo sem eles
terem visto as imagens, o rapaz olha para Zé e fala.
— Ele tinha um esconderijo aqui sim, mas se olhar, ele não
precisava das armas acima, ele fez questão de quebrar a parede
para que olhássemos o resto, não este lugar.
Zé olha a imagem de Amanda em um retrato ao fundo e fala.
— Tenho de falar com mais alguém.
— Ele pelo jeito não escondeu isto de todos, mas ele tem um
mapa a parede de toda região, só sei uma coisa Zé, eu não sei ler
estes escritos a parede, pede ajuda para Tabajara, a esposa dele é
es Mossad, não entendo isto, mas parece uma base bem montada,
mas para alguém passar desapercebido, aqui tem menos armas que
lá em cima, mas com certeza, ele não tem medo que isto venha a
conhecimento.
— Acha que entendeu algo? – Zé olhando para Guguinho.
132
— Tenho de pensar, não é algo para não ser encontrado, ele
deixou sinalizado Zé, para alguém que conhece a regra achar o
lugar, a pergunta, ele veio por primeiro ou é mais um a serviço
aqui?
O grupo sai, Zé cobre novamente o buraco, chega a parede
oposta, vè que tinha mais armas e fala.
— Um chamariz para por medo este.
— Sim, um senhor, eletricista, que ninguém nem desconfiava,
tem um estoque de armas maior que todo grupo da favela a volta.
— E armas novas, não usadas, parece ser arma pronta para
uso, estranho alguém deixar isto ai, como se fosse para um dia usar.
Zé faz sinal para o grupo de fora entrar e tirar as demais
armas e Guguinho olha para ele e pergunta.
— Quem é a moça?
— Apenas alguém da comunidade.
— Acha que ele se apaixonou?
— Ela estava por ai e não pareceu preocupada, pode ser
apenas uma distração, mas vamos lá conversar com ela.
— Acha que ela sabe de algo?
— Já saberemos.
Zé faz sinal para os rapazes, ele chega a porta de Amanda, ela
viu que a tiraram de lá, a mãe dela gritava, mas eles nem ouviram,
ela talvez tenha entendido que a pegariam nem que para dizer,
mandamos.
João quando entraram na peça, o alarme do local tocou em
seu celular, ele aciona a saída dos vídeos, agora teria os vídeos, ele
olha eles olhando, fechando, mas olha eles chegando a casa de
Amanda e liga para Zé e fala.
— Quer este caminho Zé?
— Quem?
— Se falar meu nome, sabe que estará morto antes do fim do
dia Zé, melhor não, mas se vai torturar mulheres, melhor realmente
ser bom em fugir, pois não é este buraco que vai lhe proteger.
— Acha que está falando com quem seu filho da puta.
— Toca na Amanda e vai ver, achei que era gente de bem,
mas covardes, na minha comunidade não.
— Sua.
133
— Moro ai, isto você não faz, vai para ai, mas morra em
frente, então sim, minha comunidade.
João olhava por 3 câmeras e olha Zé apontar na cabeça de
Amanda, ele queria dizer que era homem, ele abaixa na altura do
peito os demais viram que ele a mataria, Amanda se assusta, uma
bala saindo da arma e a atingindo, João olha para o celular e desliga,
Zé olha a moça caindo, olha para os demais, olha em volta, para
observar reações, mas os demais da comunidade se afastam, muitos
pensavam que se ele iria matar gente da comunidade, para vingar
algo não queria estar por perto, muitos fecharam as portas.
Guguinho fez que não e começa a sair, Zé olha os rapazes e
fala.
— Sumam com o corpo.
Eles pareceram sem saber o que fazer, mas Zé acabou com a
festa, mas aos olhos de João, bem longe dali, uma lagrima corre o
rosto e ele pega a arma, põem as costas, pega um boné e fala para
Tereza e fala.
— Não volto.
— Problemas?
— As vezes queria ser como deveria, não sentir.
Tereza viu que ele saiu, os rapazes na entrada viram ele sair e
andar no sentido da central do Brasil, ele olha para o Trem e pensa
na maluquice que seria aquele carnaval.

134
Se todos esperavam ele
saindo da cidade, ele começa a ir no
sentido de Bangu, ele olha para as
mãos, estava tremulo, algo dentro
dele não estava gostando, algo
talvez no sentir, ele não queria ter
aberto este espaço, lembra dos
treinamentos, lembra da forma crua que aprendera a sobreviver,
treino militar extremo, lembra que quando cedeu ao primeiro erro,
foi afastado, os treinam para atirar em qualquer um, quando o faz,
penalizado, dai ele vai a policia militar, ele não conseguia ver lados,
era tudo o mesmo caminho, todos caminhando para a morte,
apenas como zumbis em uma estrada de trabalho, fosse o trabalho
qual fosse, nem que matar inocentes.
Ele senta-se ao Trem, indo vazio, quando chega perto da
região, muita gente de Vermelho e Branco, um grupo de
carnavalescos que desfilariam naquele dia, lá no centro.
Ele olha o agito, a noite caindo, e entra na região do Bangu,
ele para a entrada de um bar, não era fácil o ver naquele folião, ele
olha para os policiais do outro lado da rua a entrada do 34º, se
preparando para extorsões clássicas dos dias de carnaval, a blocos e
comerciantes, mas pareciam mais desconfiados, olhando em volta.
João olha para a entrada de um dos blocos entrando na
região dos ônibus vindo da Tamarindo, do Trem, no sentido da
Sabogi, olha a sujeira, blocos nem sempre geravam coisas
organizadas, na maioria das vezes não.
João pede umas latinhas, coloca em uma sacola plástica, e sai
com o bloco, estava se fazendo de bêbado, ele para ao lado da
delegacia, ele mija a frente dela de proposito, dois policiais vieram
para cima dele, o levando para o canto, alguns que acharam uma
provocação, um deles aponta a arma para João falando alto, não se
ouvia nada, a batida ao fundo omitia os sons, João deixa as latinhas
cair, os militares olham as latinhas e não veem ele pegar a arma as
135
costas e apenas dois tiros rápidos, os dos caem, ele encosta eles na
viela e arrasta um deles para um dos banheiros químicos, pega a
insígnia, a arma, faz o mesmo com o segundo, estavam começando
as festas, sai do banheiro e olha para a sede da policia, olha para as
janelas, olha para uma moça ao fundo, ela parecia olhar para ele,
mas poderia ser impressão, mas quando ela aponta para ele, não
soube o que estava acontecendo, mas viu um policial vir no sentido,
ele sai pela rua do fundo, enquanto o policial ia atrás dele, ele entra
na delegacia, os policiais olham para ele que fala.
— Fui assaltado, como faço um boletim, levaram meu
dinheiro e meus documentos.
— Tem de voltar amanha rapaz, hoje já não sai mais BO.
— Mas...
— Horário de atendimento rapaz, some.
João olha em volta, a maioria não estava a vista, ele vira-se
para a porta, pega a arma, ajeita o silenciador, vira-se, os rapazes
iriam mandar ele embora e veem ele esticar a arma e dar dois tiros,
cabeça, eles sentam-se e ele olha para o corredor.
Ajeita arma as costas e entra na sala onde estava o Delegado
Plinio, ele olha para ele para reclamar, ultima reclamação, João
estica a arma, dois tiros no peito do senhor.
Ele foi a região de detenção ao fundo e abriu as celas e os
presos saíram para a rua se misturando na confusão.
Ele se arma, olha para o delegado morto e entra na sala de
controle, recebiam ligações, mas estavam vendo um canal fechado,
pareciam se preparando para a festa, cervejinha, diversão, quando
o alarme de fuga toca, eles olham para a porta e veem aquele
senhor, pensaram ser um fugitivo, mas viram ele entrar atirando.
O sistema de telefones começa a tocar, ninguém atender,
nem o alcoolizado anterior.
João vai à rua.
Uma moça para ao lado dele e fala.
— Não era você mijando na delegacia.
— Vai dizer que já sou famoso assim, que me reconhece ao
longe?
— Convencido.

136
João olha a moça, uma testemunha que estivera ali, ele olha
para a avenida, passa por um rapaz que vendia cerveja e compra
dez delas, joga uma para a moça e fala.
— Se diverte, carnaval apenas uma vez por ano.
— O que eles estão agitando no fundo? – A moça.
— Dois policiais mortos, só isto. – Falou e virou de costas, a
moça olha para o local, foi bem de onde João havia saído, ela fica
olhando como se tivesse sido ele, mas como acusar.
João sai calmamente da região, caminha calmamente pela
Sabogi, no final dela, entra no mercado pelo estacionamento, e sai
de frente a Estação de Bangu, não ficou para ver o corre-corre do
achar dos mortos, pega o trem agora bem cheio no sentido de
Padre Miguel, próxima parada
João olha para as avenidas, sabia que aquilo iria ferver e
entrou em um bar ao fundo, olha para o garçom que fala.
— Não pode trazer bebidas de fora.
João sai a porta, olha dois rapazes e fala.
— Me fazem um favor?
— O que quer velho.
— Bebam com moderação. – João riu de achar graça ele
falando isto, mas os rapazes não entenderam, ele volta para dentro
e agora o garçom o atendeu.
Senta-se e olha a TV ao fundo, começa a olhar as
informações, olha as programações do carnaval, olha para o
cardápio e pede algo para comer, olha o agito tomar a rua e o
garçom olhar para fora, muitos foram a porta, João ficou ali apenas
comendo um lanche e uma cerveja.

137
Delegado Ferreira estava
quase saindo quando a noticia das
mortes na Delegacia de Bangu lhe
levam para lá.
Ele olha o rapaz a portaria
morto, olha para o Investigador e
fala.
— Pede para isolarem a área, preciso do IML aqui, e se eles se
recusarem, pressiona.
— O que aconteceu? – Outro investigador chegando.
O delegado passa pelas detenções, tudo vazio, olha para os
sistemas de atendimento, sai e olha para o segundo investigador
— Isola o prédio.
— Mas...
— Acabou a folga, as vezes temo que algo assim aconteça,
somos alvos fáceis, mas alguém com experiência entrou aqui.
— E ai dentro
— Mortos – O delegado subiu esperando que o delegado já
tivesse saído, dai saberia onde o achar, mas viu o senhor morto a
cadeira, um tiro a cabeça, um no peito.
O rapaz entrou pela porta e falou algo, ele olha para o rapaz e
grita.
— O que falou?
— A imprensa lá embaixo.
— Põem para fora, área de crime.
— Mas eles vão reclamar.
— Sei que vão, mas ainda não sei quem são os mortos, pelo
que entendi, acharam dois mortos em um banheiro químico ao
lado, vieram fazer o relato e acharam os mortos.
— Quem fez isto?
— Alguém que já saberemos.
O Delegado foi ao sistema de câmeras e olha para aquele
rapaz entrar, ele parecia saber onde estavam as câmeras, fica a
138
olhar a forma fria que o rapaz fez, armou o silenciador com calma e
virou atirando, omitindo o rosto em um boné simples, pior, poucos
tiros iniciais, olha ele pegando a arma dos policiais, olha ele entrar
na sala e soltar os presos, ele não olha para cima, o tempo inteiro
olhando para baixo.
O senhor olha a frieza dos atos, mas não tinha a imagem de
quem o fez.
Ele desce e olha os repórteres e um pergunta.
— Delegado, delegado, o que aconteceu aqui?
O delegado olha para os rapazes da imprensa e fala.
— Ainda levantando, temos mais de 30 presos soltos, um
delegado morto, parece que alguém entrou atirando, dois mortos
fora do local, mas quem o fez parecia saber onde as câmeras
estavam.
— Acha que tem alguma ligação com a morte logo cedo em
Padre Miguel?
— Não temos nada que ligue as duas ações, aqui parece algo
mais organizado, mas posso confirmar que foi apenas uma pessoa
que o fez.
— Tem a gravação?
— Vamos analisar, ainda não temos a identidade de quem o
fez, mas vamos pegar este criminoso.
O jornal na TV a frente de João faz o anuncio do telejornal
urgente e entra a informação da matança na região do Bangu, que
tinham mais de 20 policiais mortos, João pede uma cerveja a mais e
pega o celular e disca para Zé, que olha para os rapazes olhando a
noticia a TV.
— O que quer João, ou agora é Lucas.
— Como vê a TV, Plinio já era, agora, o covarde, melhor
começar correr.
João desliga e olha o garçom olhando para ele assustado,
colocando a cerveja a mesa.
— Vê a conta por gentileza.
O senhor anda de costas, havia ouvido, embora não sabia
quem era, mas era obvio que ele ameaçara alguém.

139
João põem uma boa quantia no copo e vira ele, põem uma
nota sobre a mesa e sai pela porta, indo no sentido de Padre
Miguel.
Ele chega ao muro do posto de saúde, do outro lado da
Avenida Brasil, ao longe a Escola de Samba, olha para os rapazes ao
longe, encosta no muro, puxa um baseado do bolso, olha em volta,
aquele cabelo comprido, aquela barba, boné o transformavam em
outro ser, pelo menos olhando de longe, ele olha a policia passar ao
longe, eles nem olharam para ele.
Paulinho olha ao longe para aquele senhor e olha para
Carlinhos.
— Quem tá lá?
— Não sei, os rapazes falaram que alguém fumando um
baseado, deixa o rapaz se divertir um pouco Paulinho.
— Acho que todos estão tensos, Zé ligou falando que João
ligou e o ameaçou.
— Que merda ele fez, para João fazer isto?
— Parece que acharam uma foto de João e Amanda,
acabaram matando Amanda, e se João não tinha motivos, parece
que começou a ter.
— Acha que ele voltaria?
— O problema é que segunda vamos todos estar na avenida
esperando para desfilar, já vi neguinho sumir ali mais do que carro
quebrar.
João apaga o cigarro e atravessa a avenida, ele já atravessa
ajeitando a arma, os demais olhavam em volta, encostados em um
barzinho onde faziam o aquecimento, barzinho encostado na
Escola, onde os preços eram bem mais caros, o puxar da arma já foi
atirando, atingindo Paulinho e Carlinhos que ficam a rua, e alguns
rapazes que resolveram dar uma de valente.
João atravessa a avenida e começa a voltar no sentido do
Vintém.
O Delegado Ferreira recebe uma ligação de sua delegacia e
faz sinal para um dos rapazes o acompanhar.
— O que houve Delegado.
— 12 mortos na frente da Mocidade.
— Acha que é o mesmo senhor caminhando?
140
— Eu achava que era um grupo, mas as imagens mostram
apenas um atirador, alguém com um disfarce, mas que pode o
mudar a qualquer hora.
O delegado Ferreira chega a porta da Escola de Samba e olha
para a policia militar cercando a área.
— Problemas Delegado? – Comandante Camargo, da PM.
— Sim, 12 mortos aqui, 22 na delegacia de Bangu, nada que
consiga ligar os casos ainda, vamos ter de ser bem sistemáticos para
pegar este marginal.
— Acha que é o mesmo? – Comandante.
— João Lucas, es militar de ações especiais do exercito,
treinado para a guerra, afastado quando em uma repressão atirou
no líder do grupo, absolvido do inquérito militar e expulso do
exercito, faz faculdade para PM e começa a trabalhar, 3 anos calmo
até se desentender com alguém do grupo, 10 mortes atribuídas a
ele, foge, se esconde no Rio, estava tranquilo, um neto de
presidente de Escola de Samba o provoca e o cerca, parece que
ligamos o sobreviver no rapaz, ele tinha na favela, no quarto dele,
armamento pesado de guerra, mais de 30 armas apreendidas, não
sabemos quantas ele tirou de lá antes.
— E não falaram nada para ninguém?
— Está em todos os telejornais, o Delegado Plinio liga
inquéritos que ele tinha sem solução a uma arma apreendida na
casa do senhor, ele invade a delegacia e mata Plinio como se fosse
apenas um alvo parado na calçada.
— E como o paramos?
— Não sabemos onde ele está, ele parece fora do controle,
algo está errado, mas com certeza, fora de controle.
A policia isola a área, a direção da escola, que tinha uma
reunião ali, ficou tensa com a informação, uma coisa era mandar
matarem alguém, agora todos falavam que este senhor matou os
rapazes que tinha mandado fazer o serviço.
João desce a Americano Freire direto, quando ele chega a
Água Branca, olha um senhor alcoolizado, entra no carro dele, que
pareceu perceber e gritar quando João já estava a mais de uma
quadra, pega o carro no sentido da Gomes de Castro, estaciona o
carro a frente da Dorinha, sai do carro, deixando ali a arma, olha
141
para o policial chegando na região, mas pareciam ir a outro lugar,
tira as luvas e joga na lixeira de entrada, entra na casa que promovia
um baile infantil, a rua, dois blocos pareciam se organizar para
descer para Bangu, e de lá para a diversão.
Paga a entrada, revista normal de algo que ficava ao lado do
Vintém, olha um senhor e senta-se a mesa dele olhando para um
rapaz e pede uma cerveja.
Carlos Pereira, olha para João e fala.
— Dizem que está fora de controle.
— Eles nem entenderam nada Carlos, mas como estão as
coisas, sei que eles lhe informam.
— Sabe que eles estão agitando a região, mas o agito saiu da
região e foi mais a Leste.
— Desculpa por qualquer confusão.
— Sabe que não quero confusão João, dizem que nem se
chama assim.
— Eles não me ouviram, é pessoal o problema com Zé, ele
não tinha de matar Amanda covardemente.
— E vai se complicar por uma piranha.
— Eu não me compliquei ainda, mas se ela ganhava a vida
como ganhava, e chamam ela de piranha, o que é gente como você
Carlos, que se não existisse pessoas como ela viveriam na mão,
apenas na mão?
— Quer ofender, acha que está onde?
O senhor levantou a voz e João olhou para ele serio.
— Onde não pode ser atingido por uma bala, pois desarmou
todos, um covarde, e manda estes seus seguranças se comportar,
pois para quem matou um grupamento da Civil inteiro, dois gordos
é fácil.
Carlos ficou na duvida se João estava desarmado e fala.
— Não precisamos brigar João.
— Então me diz, o que eles sabem?
— Zé chamou um rapaz que não conheço, a pedido de
Guguinho, algo que ele saberia lhe explicar o símbolo.
— Não entendi?
— Ele colocou o Pedro do Tabajara nisto.

142
João olha para o senhor, pega o celular e busca nos contatos
um numero e liga para Pedro e fala.
— Podemos conversar Pedro?
— Quem?
— João Lucas.
— O que quer rapaz?
— Saber o que falou para Zé de São Miguel.
— Eu não entendo daquilo, minha companheira apenas riu,
eles acharam que você era alguém do Mossad, deixou eles
preocupados, mas nada nas paredes eram algo ligado ao Mossad,
apenas a relatos do Torá.
— Eles não perguntaram sobre o que era?
— Eles são do trafico João, não de grupos religiosos, minha
companheira explicou que deveria ser um Judeu, convertido, não
entendi, um novo Judeu, não entendi nada, mas não me envolvo em
coisas assim.
— Bom saber, nos falamos qualquer dia Pedro.
Pedro olha para a esposa que fala.
— Ele não usa os verbos como um Judeus.
— Ele quer confundir, mas pelo jeito, já está se situando.
João olha para o grupo de Guguinho chegando ali, era uma
área protegida e de pessoas desarmadas, isto facilitava bailes
menos violentos, viu ele olhar para a porta e olha para Carlos.
— Pela reação dos rapazes de Guguinho, Zé chegou ai.
Carlos olha para a entrada e fala.
— E se escondia naquele terno de crente, isto que não
entendo João.
— Não estava disfarçado, mas deixa eu me complicar.
Carlos viu o senhor ajeitar a barba, levantar e olhar para o
lado onde estava Guguinho, o senhor olha ele andar como se
estivesse festando, para aquele lado, ele chega ao lado de
Guguinho, as costas dele e pede uma cerveja.
Guguinho não olhou, pois via Zé chegando ali, que se portava
como alguém fora de seu reino, desconfiado e tentando parecer
normalmente, Carlos observada de longe, João ficou ali, ao lado
deles no balcão, tomando a cerveja, apenas de costas.
— Ele é petulante.
143
— Quer que o tiremos senhor?
— Ele quer algo assim, não está incomodando, ele parece ter
vindo para onde achou que Zé fugiria, mas parece alguém bem
diferente daquele senhor sempre de gola alta, bíblia a mão, mas de
ideias exatas mas que não dávamos atenção, pois nós o
analisávamos como um crente, não pelo que ele falava.
Zé chega Guguinho e fala.
— O que faz aqui Zé, querendo se esconder?
— Dizem que ele vem para cá, não sei quando, mas ele vem,
não sei o que ele viria fazer aqui.
— Matou mesmo Amanda?
Zé sorri, não responde, olha em volta e fala.
— Um lugar com crianças e pessoas desarmadas, se ele entrar
será pela porta atirando. – Fala Zé olhando para a entrada.
— Acho que ele não vem atirar.
Zé olha para Guguinho e fala.
— Você também sabe de algo, não sei oque, mas sabe.
Guguinho olha para a entrada e fala.
— Acho que no fundo, apenas quem está em que papel? –
Guguinho olhando Amanda entrar pela porta.
Zé olha ela e fala.
— Tinha muita gente olhando, mas era um sinal, talvez não
entenda, mas sinais são sinais.
— Atirou nela ou não?
— No colete que ela usava, ela cai para traz, os rapazes tiram
ela de lá, mas é que preciso de algo para negociar, sei que ele não
era um pastor a um tempo.
— O que ele fez hoje, pois parece saber.
— Ele acabou com Plinio, aquele Delegado Ferreira está
tentando não sorrir quando vê que Plinio caiu.
— E o pessoal da Padre Miguel.
— Não sei se o conhece Guguinho, o quanto o conhece?
— Porque quer saber?
— Alguém que roubou um carro no caminho da Mocidade
para lá, está a porta estacionado.
— E acha que a policia vai dar uma batida por aqui?
— Acho que estão chegando ao carro agora. – Zé.
144
Guguinho não olhou para traz, apenas fala um pouco mais
alto.
— Eles estão chegando João.
Zé olha em volta e olha para Guguinho, não entendeu, mas o
senhor no balcão as suas costas, pediu mais uma cerveja, e vai ao
banheiro ao fundo.
— Onde ele está?
— Não sabia que era um dos meninos dele. – Guguinho
olhando para Zé.
— Ele me abriu o caminho para o ponto que estou, mas
ninguém fala disto, é um acordo de estrutura, eu nunca havia
entrado do cafofo dele.
— Então era um aliado, não um dos meninos dele, bom
saber.
— Menino dele?
— Zé, quando se fala em João Lucas, se fala dos Lucas, eles
estão fora da região há quantos anos, há 12 anos?
— Ele é o que do antigo Capitão?
— O filho que foi ao Exercito, estava lá quando o pai foi
morto com mãe e muitos parentes em Bangu.
— Está dizendo que ele é o menino que todos diziam que
desertou?
— Ele nunca desertou, ele apenas não estava aqui, mas se
todos os que estão à volta soubessem quem é ele, alguns já
estariam correndo, mas ele não queria eles correndo, queria eles
parados, isto é uma vingança, uma mudança de rumo, mas nem
todos concordam com isto.
— E quem mais é contra?
— Os Andrade.
Zé olha em volta e fala.
— Ai vem a policia.
— Todos desarmados, mas tem de ver que puxar para um
baile infantil a policia, é uma sacanagem grande com a policia, eles
não tem como dar uma revistada geral, teria criança chorando.
Amanda chega a Guguinho e pergunta.
— E você Guguinho, vai ficar de fora?

145
— Zé nem sabe de nada, pensei que ele era sua entrada na
região de São Miguel.
— E onde ele está?
— Deve ter saído pelo banheiro, quando soube que a policia
estava entrando, mas com barba e cabelos compridos, diria que fica
quase irreconhecível.
— Ele disse para me afastar, mas não vou deixar a diversão
para ele, Zé não sabe a dor de atirar num colete.
— Malucos, qual a ideia?
— Acho que ele não pretendia antecipar nada, sabe disto
Guguinho.
— E ele vai para onde?
— Sua cidade do coração, onde mais.
— Maluco.

146
O delegado Ferreira chega a
Delegacia Técnica e Cientifica, olha
para os corpos chegando e caminha
até a Legista responsável, viu que a
entrada daqueles rapazes, fazia uma
correria geral.
— O que temos?
— Corpos, a arma que matou os seguranças da Mocidade, são
a mesma que matou o Delegado Plinio.
— Certeza?
— Quando tiver certeza já será manha, que dia para se
envolver em algo assim.
— A policia está toda na rua para o carnaval, mas começamos
como não pensávamos, preciso de padrão, algo que ligue a alguém.
— Acharam um carro ao lado da Favela do Vintém, com a
arma que matou pelo menos 12 pessoas na porta da escola, e 4
pessoas na delegacia.
— Escondida?
— Não, isto que parece estranho, foi deixado ali para que
achássemos, estava quente, pior, a única digital que tenho, é a do
policial que a pegou.
O delegado olha a porta e fala.
— Posso estar enganado, mas parece uma mudança de
direção, sei que sempre que isto acontece tem muita morte.
— Porque acha isto?
O delegado olha para o assistente que trás um envelope e
fala.
— Quando dos documentos apreendidos, parecia que o
senhor não queria deixar que não soubessem que foi ele, estamos
falando de João Lucas, filho do Capitão Lucas, que coordenou o
trafico no Vintém a 12 anos, quando numa operação da Civil, o
Delegado Plinio disse que eles resistiram, eu lembro de ver a esposa
do capitão com um tiro a cabeça, ninguém teve coragem de não
147
assinar a versão de Plinio, mas tudo indicava grupo de extermínio,
agora surge um senhor que tentava passar desapercebido, mas que
uma arma afirma que ele pode estar matando o pessoal de Plinio a
mais de dois anos, ele saiu do disfarce pois foi tirado dele, não
porque fosse sair.
— Esta dizendo que este João Lucas da morte na Mocidade,
pode ser o causador de tudo isto? – A moça sorriu e falou – Mas
temos mais de três tipos de tiros na delegacia, ele não está sozinho,
quem está com ele?
O delegado tira o pendrive do pacote e fala.
— Tenta achar algo, aqui tem a forma de agir do ser.
A moça olha para a imagem, não tinha o rosto, tinha apenas
as mortes, olha para o Delegado e fala.
— Um treinado em matar.
— Sim, um treinado a matar.
— Vou pedir para os rapazes voltarem a delegacia e pegar
alguns dados, mas se vê que o senhor usava luvas.
O Delegado olha para a moça esperando que tivesse mais
coisas, mas tudo indicava para o rapaz, talvez por isto que ele
tentasse ver se não podia ser outra coisa.
O delegado sai para fora, olha para a moça e fala.
— Não sei porque parece que tem mais coisa.
— Acha que pode não ser isto?
— Pensa, enquanto o ser faz questão de deixar claro nos
documentos que é ele, na imagem, não.
— Ele quer que acusemos, mas não tenhamos provas
concretas delegado.
O Delegado sai pela porta, precisava verificar algumas coisas
ainda.

148
João entra na Rua Mesquita,
aqueles dois blocos de rua, eram
resultado de algo que acontecia a
cada ano, o publico das
arquibancadas ficavam mais
brancos, e os blocos, mais normais e
imensos. Caminha até a entrada e
olha um segurança que o barra.
— Não pode entrar.
— Diz que Lucas quer falar com o Lenilson.
— Ele não está recebendo ninguém.
— Vai se responsabilizar por não dar nem o recado? – João
olhando o senhor, grande e lento.
O senhor olha para dentro e um senhor mais a frente entrou,
voltou depois de uns 10 minutos, João pensou que não teria tempo
se demorassem mais, mas nada veio no sentido deles.
Lenilson olha para João e fala.
— Lucas por que parte?
— Filho do Capitão.
O segurança olha assustado e o senhor faz sinal para ele
entrar e sobem.
— O que quer rapaz, dizem que matou gente.
— Somente os que mataram minha família, mas não vim
atrapalhar presidente, apenas perguntar, como estão as coisas,
consegue por a escola inteira na avenida?
— Sempre desafios de ultima hora, mas porque se preocupa?
— Meu pai morreu, todo apoio foi a coirmã, mas sabemos
que não teria sido como foi, se ele não tivesse morrido.
— E vai nos apoiar, mas não queremos problemas com a
policia.
— Vim apenas confirmar Lenilson, não somos inimigos, somos
uma família, que nasceu neste lugar, se hoje parece mais calmo, é
que eles não viram isto a 25 anos atrás.
149
Lenilson sorriu e falou.
— E vai tomar o lugar de seu pai?
— Não, este lugar tem gente hoje, mas vamos por mais coisas
para gerar dinheiro, e vamos unir os irmãos de um passado distante,
passei por estar por ai, não por que estivesse combinado algo.
— Não quer ir ao desfile com a gente?
— Se precisar de um eletricista, dou um jeito.
— Estava ao lado fazendo oque?
— Aprendendo e me situando, não tinha como vir antes sem
gerar problemas.
— Meu convidado hoje.
— Não quero gerar problemas.
— Vamos, tem coisa que eles podem dizer, menos que estava
a matar gente estando na Marques de Sapucaí.
João sorri, o segurança olha como se pedisse desculpas, e
olha para os diretores saírem, tinha gente já lá, o desfile era as 5 da
manha, mas as pessoas chegavam muito antes.
As vezes as pessoas acham que é fácil por as pessoas em
ordem, com tudo em ordem, mas requeria uma direção e uma
organização muito grande.
João saia da região e os demais ficaram a casa de shows
sendo revistados, um policial chega a Zé e pergunta.
— Sabe que estão lhe acusando de barbaridades em São
Miguel.
— Sei, de matar alguém que está viva, mas o que nos acusam,
estamos apenas bebendo uma cerveja e evitando nos meter em
confusão hoje.
— Por quê?
— Não sei quem procuram para saber o que responder. – Zé
olhando o rapaz.
— Um assassino, não sei quem de vocês o é.
Guguinho sorriu e fala.
— Nós, tem certeza ou não tem coragem de dar uma batida
na favela ao lado?
O policial soube de cara que o senhor não estava ali, era a
logica, mas o comandante mandou entrar e revistar, viu gente que
normalmente não estaria ali, estranhou e foram mais sistemáticos.
150
Sistemático com pobre e apontar a arma a cabeça e mandar
ficar quieto, revistar.
Entraram e saíram, Zé olha para Guguinho e pergunta.
— O que você é neste esquema?
— Lembra que ainda não o aceitamos Zé, mas quer fazer
parte de um grupo que vai crescer na região Oeste do Rio?
— O que pretendem?
— Crescer, mas dentro de pessoas escolhidas.
— E quem lidera isto?
— Não somos um grupo de súditos Zé, somos candidatos a
novos donos do esquema, mas em cooperação e ampliação.
— Não entendi.
— Sei disto, mas aparece amanha a tarde no estádio do
Bangu, as 3 da tarde.
Guguinho sai pela porta e um rapaz chega a ele.
— Onde?
— Sapucaí com o presidente.
Os rapazes olham para os policiais saindo em dois sentidos,
mas ninguém parecia saber para onde ir.
João chega ao sambódromo, coloca a camisa da comissão
organizadora, o crachá, o chapéu de diretoria, olha para o primeiro
carro e chega ao rapaz que fala.
— Pifou a luz do fundo.
— Deixa eu dar uma olhada?
— Quem é você?
João sorriu e passou por baixo do carro, olhou na curva,
sempre a mesma coisa, mastigava, olha o rapaz e fala.
— Me desliga a bateria da parte do fundo, e me vê dois
metros de fio 10.
— Sabe o que vai fazer, se pifar o resto o presidente nos
mata.
João sorriu e começou a descascar o fio, passou o primeiro,
um segundo, e um terceiro, os três se encontram a frente, ele fixa,
isola e prende com uma pequena sobra, o rapaz liga e olha a parte
do fundo acender e olha para aquele senhor, com barba, não
conhecia, mas veio em boa hora.
— Obrigado.
151
— Algum problema a mais?
— Estamos ainda terminando os detalhes da ultima alegoria,
mas ainda não testamos as luzes.
— Vamos ver, vir de lá para cá, comeu o fio da ligação, se fez
o mesmo, só trocamos e vamos a frente.
— Faz isto em algum lugar?
João olha o rapaz e fala.
— Oficialmente não estou aqui, certo.
— Veio de onde?
Joao não falou, o presidente chega ao lado dele, e fala.
— Problemas solucionados?
— Sim, mas sempre de olho ligado, sempre digo que algumas
coisas tem de acompanhar do começo ao fim.
— Não entendi a proposta ainda.
— Deixa eles trabalharem, vamos conversar presidente.
Os dois saem e o rapaz olha para o rapaz do lado, e pergunta.
— Quem é o rapaz, porque o presidente tá fazendo sala?
— O herdeiro dos Lucas voltando para casa.
— Mas ele parece conhecido.
— Sim, não o reconheceu?
— Não.
— O eletricista dos carros da Mocidade.
O rapaz olha para ele e fala.
— Ele estava tão próximo, mas parece que ele teve problema
lá, não entendi.
João se afasta e entram em uma área de imprensa a frente e
sentam-se ao fundo.
— Não sei ainda a ideia Lucas, o que pretende.
— Eu estou fazendo, apenas não está fechado o projeto,
como resolveram me acelerar, estou a fim de somar.
— Não entendi.
— Vamos ampliar os sócios participantes no país, através da
internet, vamos gerar um segundo barracão para poder fazer as
fantasias, onde vamos ter nossas costureiras o ano inteiro
presidente, elas vão costurar outras coisas, mas ali vamos ter
costura, bordado, trabalho em tecidos.
— Quer ajudar na estrutura?
152
— Acho que perdemos a chance, sei onde mataram meu pai,
ele queria uma comunidade que crescesse em todos os pontos, que
alimentasse empresas, que cresceriam, que seriam a estrutura do
processo, mas tivemos problemas com o trafico e com o bicho,
então estou vindo 12 anos depois, embora ainda estivesse
estruturando.
— Mas como pretende fazer isto?
— Presidente, dependemos de outros, dai sempre nos
complicamos em fornecimentos, mas se o bairro começar a crescer
economicamente, vamos fazer com calma, crescer o todo, não
apenas um ou outro.
— Sabe que alguns temem a vinda de outros para cá.
— Não posso parar o bairro, para que alguns medos segurem
o povo na pior presidente.
— Mas como faremos isto?
— Com calma, sempre com calma.
Os dois acompanham os desfiles dali, viram todo o agito, todo
o desfile da serie A, João acompanha ao longe, sorri das ideias,
quando sai de madrugada do lugar, com destino muito próximo.
Tereza vê ele subindo a ladeira naquele inicio de manha, os
rapazes não mexeram com ele, ela faz sinal que havia alguém lá,
mas com um sorriso, ele entra e olha para Amanda, o dia amanhecia
quando ele ouve.
—Temos de conversar.
— Conversa cansado é bem desgastante.
— Não sabe resolver na conversa.
— Conversa não resolve no Brasil, eles combinam algo e você
vira as costas e 30 segundos já estão em outros planos.
— Porque pediu para me afastar.
— Temia por você, acha que o primeiro alvo foi o Delegado
porque?
— E não me falou que conhecia Zé.
— Um teimoso, só estará totalmente nos planos, se não tiver
outra opção, estes são os mais perigosos.
— Guguinho?
— Já atira bem, mas deixa eu descansar, vou precisar estar
bem para daqui a pouco.
153
— O que vai fazer?
— Guguinho quer conversar, Bangu.
— Sabe que muitos falam que você estava na Sapucaí hoje?
— Bom, mas quem poderia falar algo assim, pois sei que
poucos me reconheceriam, mas pode ser apenas fofoca.
Amanda o abraçou e fala.
— Lhe faço uma massagem.
Ele sorri e ela vê ele tirar a camisa, foi a um balde ao fundo,
se lavou, e a abraçou, ele estava cansado e apaga a cama.

154
O Delegado Ferreira chega a
região da Favela Vila São Miguel,
olha para um dos rapazes de Zé
olhando ao longe, as armas sumiram
da vista, um rapaz olha para o
delegado e pergunta.
— Não vai esperar reforço?
— Zé não está aqui, ele está na Vila Vintém, vamos sair daqui
para lá, se temos de descobrir algo, que seja hoje, estou acabado, a
anos não passava uma noite inteira sem dormir, to ficando velho.
Eles chegam a casa e o Delegado olha para as demais paredes
e fala.
— Tinha mais coisa, eles já esvaziaram.
O rapaz olha o local todo ajeitado e fala.
— Tiraram, arrumaram e limparam.
— Sim, mas preciso verificar uma coisa.
O delegado olha para a porta, olha a flecha apontando o chão
e faz sinal para o rapaz ver o que tinha ali, ele abre a comporta e o
Delegado viu duas viaturas a mais chegarem ali, os rapazes ao fundo
estavam olhando para eles, pois as viaturas fechavam toda a
passagem, não dando chance de movimentos rápidos.
Um rapaz olha ao fundo, o encarando e ele fala.
— Quando o Zé estiver por ai, diz que quero falar com ele.
— Ele não vem para cá pela manha, somente a noite.
— Algum motivo?
— Sim, uma reunião no Bangu.
O delegado olha para o assiste e fala.
— Vai a delegacia de Bangu, garante segurança para a
investigadora Rita.
O rapaz tira o carro de ré, descendo a ladeira e voltando.
O delegado entra na peça e olha para o assistente.
— O que isto tem de anormal? – Fala o delegado abrindo a
geladeira baixa, olhando para o que tinha ali.
155
— Não sei.
— Tem símbolos de Olorum ao fundo, tem símbolos Cristãos
na parede em frente, tem símbolos Judeus na parte da descida, ele
usa bem o branco para disfarçar este buraco, dando a sensação de
não estarmos num buraco, mas parece apenas um canto para
descansar, não sei.
O delegado chega a uma pequena maquete a mesa, olha para
o mapa, não tinha quase nada, mas caixas de fosforo com
anotações, lá estava Mocidade, Unidos, Fabrica, Casa, alguns
lugares tinham um palito de fosforo, ele olha para o rapaz e fala.
— Fotografa, quero o mais definido possível, pois se tirar
daqui, eu tiro as coisas do lugar.
— O que é isto?
— Um esquema de execução, se olhar, ele fixou os lugares,
mas ainda não voltou, mas tem os palitos queimados e os palitos a
queimar, se olhar tem alguns palitos sobre a delegacia de Bangu,
alguns sobre o IML, alguns em alguns pontos a volta, ai tem mais de
200 palitos queimados, e não é metade dos palitos rapaz.
O rapaz fotografou, começam a sair, olha para a peça que
estiveram e fala.
— Se tinha armas nas demais, teremos problemas a rua,
precisamos de um acordo de paz rapaz, isto é guerra.
— Eles não negociam.
— Ainda não entendi o que o rapaz quer.
Os dois começam a sair, o rapaz olhava ao longe, obvio que
ali eram sempre frágeis, mas precisavam ir.

156
A Investigadora Rita, estava a
recolher dados e corpos na
Delegacia de Bangu, viu quando
reforçaram a segurança, sinal que
ninguém tinha ainda uma resposta,
força para proteção é duvida
referente a quem lhe ataca.
Ela olha o Delegado Ferreira entrar pela porta e a olhar.
— Algo que não percebi?
— Temo estes profissionais em matar senhor, ele não parou
para dar chance, ele matou sem nem se preocupar se era a moça do
café ou a secretaria.
— Sem testemunhas, sabe disto, método de grupos de
extermínio, eles matam as crianças para não ter vingança posterior.
— Certo, mas temos um agressor muito bem organizado, ele
entrou, matou, saiu, não se deixou pegar pelas câmeras, ele entra
no mercado ao fundo, pelo estacionamento, quando tentamos ver o
mesmo ser saindo pela porta da frente, pela câmera da frente, não
vemos ninguém parecido, pode ter deixado o carro ali e saído
delegado.
— Algo que dê para incriminar alguém?
— Não sei o que temos ainda, mas tem muitos vestígios que
provavelmente não é do assassino.
— Algo que possa ser rastreado?
— Apenas uma coisa, a urina a frente da delegacia, estamos
coletando e vamos analisar.
— Tenta achar algo, posso estar errado, mas depois falamos
sobre minhas desconfianças Rita.
— Se cuida.
— Cuido, mas o carnaval a rua, atrapalha por um lado, mas vi
que alguém não quer pressão.
— Não entendi. – Rita.

157
— As TVs pararam de falar dos assassinatos, alguém não quer
que isto venha a publico, sinal que o comercio pressionou para não
ter noticias ruins nesta hora.
O delegado sai a rua, estreita, olha para o local, tentou
imaginar aquilo com blocos carnavalescos a rua, olha para a câmera
de segurança publica desativada na esquina, quanto dinheiro jogado
fora.
Caminha até a frente e olha em volta, um lugar onde todos
deveriam ter visto algo, mas ninguém se ligou que era um
assassinato em serie que estava acontecendo.
O assistente chega a ele e pergunta.
— Onde vamos?
— Quero ver onde acharam o carro com a arma usada na
Mocidade.
O grupo sai dali andando no sentido da esquina, viu um dos
rapazes chegar a ele e falar.
— O numero que pediu senhor.
O delegado olha o numero e disca.
— José Siqueira Lima?
Zé olha o numero, não conhecia, e pergunta.
— Quem quer saber.
— Delegado Ferreira, preciso parar as mortes Zé, com quem
falo para isto?
— Não entendeu nada ainda senhor.
— Pergunta para o João Lucas se quer conversar.
— Sabe que não pode propor paz ainda, toda a pressão.
— Não estou propondo paz, estou querendo entender o
problema, odeio ver mortes que não tem sentido.
— Todos morrem.
— A moça do café é covardia, mas fala com ele, se ele quiser
falar, me liga.
Zé olha para Guguinho e pergunta.
— O que ele quer com isto?
— Celulares se monitoram, se ele sabe seu numero, troca,
mas Ferreira nunca foi grande coisa. – Guguinho.
Guguinho liga para João que acorda assustado, olha para o
telefone e atende.
158
— Fala Guguinho.
— Tem um delegado querendo falar com você, não sei se
quer falar com ele.
— Quem?
— Francisco Ferreira.
— Me passa o numero dele, mas tenho de mudar lugar para
ligar para ele.
João beija Amanda e levanta da cama, olha para a parede ao
fundo, olha para a TV, a liga, a imagem ruim suficiente para saber
que as noticias estavam sendo mudadas para a festa, politica se
ganha com propaganda, mas é difícil as vezes se inteirar do
problema, ele abre um armário, pega uma mochila, olha para o
espelho, pega uma peruca diferente, hoje não iria de barba, iria de
cicatriz, ele olha para a maquiagem, cuida do detalhe e olha para
Amanda que fala.
— Eles não entendem você, mas sabe se disfarçar, agora
parece um velho sofrido, mas o que vai fazer?
— Tem de ver que tenho de propor paz, não guerra, mas tem
gente que pode ser teimosa, como não sei ainda as posições
pessoais, é sempre duvidoso o caminho.
— Eles querem lhe apoiar.
— Sim, assim como me matar.
Amanda levanta nua da cama e abraça João e fala.
— Se cuida.
— Eu que deveria recomendar isto. – João.
— Você não sabe ser gentil ainda.
— Acho que quando o for, você sai pela porta.
João se arruma e sai, os rapazes viram que era quase outro
senhor e viu Carlinhos Dom Dom parar a sua frente.
— Sabe que hoje parece outro.
— Desculpa preocupar o pessoal.
— Sabe que esperava que Plinio aparecesse por aqui, entrou
lá e detonou ele.
— Sabe como eu Dom Dom, que a Policia Civil tem muitos
Delegados Plinio, um contingente de mais de mil pessoas que
pensam como aquele senhor, digamos que só exterminei 122 deles,
ainda falta muito para limpar a região.
159
— E vai onde?
— Tem um delegado querendo falar comigo, então vou a
Bangu e marco por lá, evita chamar as pessoas para cá.
— Dizem por ai que é um Lucas.
— João Lucas, filho do Capitão, porque?
Dom Dom sorriu e falou.
— Sabe que os Lucas eram bem vindos, mas algo aconteceu.
— Fomos sabotados por três partes, uma era o Trafico
querendo os pontos do morro, por segundo, os Bicheiros que não
nos queriam com poder, e por ultimo, a lei que está na mão destes
dois grupos.
— Sabe que sou parte do trafico.
— Não tenho nada contra o trafico Dom Dom, tenho contra
ver nosso povo morrer de fome, sem assistência, e os que lhe
vendem a droga estarem muito bem na região sul.
— E vai agitar longe daqui.
— Não quero atrair problemas para onde durmo.
O rapaz abriu caminho, João saiu e o rapaz ao lado pergunta.
— Tem certeza que é o mesmo senhor de ontem?
— Este vai fazer historia.
João mais a frente com aquela mochila as costas, pega uma
bengala, e entra no Trem, não senta, olha para os demais, se curva
um pouco mais, sai pela porta da parada no Bangu, sobre os
empurrões de alguns, olha para os rapazes de Guguinho olhando ao
longe, passa por eles e bate a janela de um Taxi e pede para lhe
deixar a entrada da Nova Aliança. O senhor disse que era uma
corrida curta que não fazia, João olha para ele e fala.
— 50 para me deixar lá.
O rapaz abre a porta e fala.
— Assim é diferente.
João olha para a comunidade, entra lentamente e olha para
um rapaz do trafico e pergunta.
— Qual a rua 12?
— Procurando alguém velho?
— Uma filha.
— Naquele sentido, a segunda rua.

160
João anda calmamente na rua, chega ao endereço, olha para
a moça ao portão que fala.
— O que quer senhor?
— Fala baixo Tereza, apenas entrar.
A moça olha desconfiada para aquele senhor, foi difícil achar
João ali, mas abre o portão e olha em volta.
— O que faz aqui?
— Vou usar a casa que mantenho ali no fundo.
— Mas...
— Era apenas um inquilino, qual o problema Tereza?
— Se cuida, mas que aparência é esta?
— Praticando disfarce.
João entra, vai até a peça simples e limpa ao fundo, põem a
arma a mesa, põem algo para cozinhar, pega alguns papeis e
embalagens usadas da mochila e espalha na mesa, como se usasse,
põem um prato e alguns talheres sujos a pia.
Sai pela porta e liga para o Delegado Ferreira.
— Queria falar comigo Delegado?
— Quem?
— João Lucas, se não queria, tudo bem.
— Quero, como paramos esta guerra?
— Desarma a policia que nos mata, que paramos.
— Não posso fazer isto?
— Quer conversar Delegado?
— Sim.
— Anota ai, Nova Aliança, rua 12 casa 61.
O delegado não acredita, ele estava em uma favela próxima, a
mais próxima.
— Estou indo para ai, me espere, preciso conversar.
João foi ao espelho, tirou a cicatriz, tira o cabelo, pega uma
camisa fechada a frente do corpo, põem uma calça de Linho,
sapato, se olha ao espelho e sorri.
Olha a bagunça e olha para o agito se fazer a porta, quando
se fala em ser suicida, este era o lado suicida de João, os policiais
entram, ele olha o policial pegando a arma a mesa, olhar para ele e
falar no interfone.
— Limpo.
161
Do outro lado da rua, o Delegado sai da viatura, olha em
volta, o que não estava certo?
Ele entra no local, o cheiro de comida, mesmo que desligada,
a bagunça, o local pouco vistoso, faz ele olhar para a foto que
tiraram no Sambódromo, que lhe deram na Mocidade, da imagem
da câmera da Delegacia, ele olha para o policial a porta e fala.
— Garante o perímetro.
O policial olha como se não fosse aquilo que procuravam.
— João Lucas?
— Sim.
— Porque das mortes?
— Delegado, quando uma família inteira é morta, com tiros a
cabeça e um de vocês diz que resistiram, mas até a menina de 5
anos está morta, pergunta porque, ou se cala?
— Sabemos que existe gente que não deveria ser da policia,
mas quando o dinheiro é maior do lado da contravenção, é difícil os
conter.
— Deve estar estranhando eu, mas entendo que as pessoas
só olham o que querem.
— Você pode ter feito, mas pode não ser apenas você e se
não for apenas você, sei que estou me encrencando.
— E o que precisa delegado?
— Entender e saber onde vai parar?
— Eu estou parado, perdi o emprego pois um filhinho de
papai me apontou uma arma, com outros 20 a volta, a lei diz que eu
deveria ter morrido, então logico que estou fora da lei.
— E vai responder por aquilo.
— Eu não tenho saída, está gravado, documentado, mas
ainda tem gente tentando me matar Delegado, Vô Pango não vai
parar porque dois ou 12 morreram, ele pode até se esconder no
desfile, mas sei que a forma de pensar dele, é minha morte na hora
do desfile, para ninguém poder ligar ele ao crime.
— Sabe que tenho de o deter.
— O senhor que sabe Delegado, mas se me ligasse para me
prender diria não, se propôs a conversar, e ainda não falou nada.
— Não me convenci que foi você.

162
— Não darei as provas que sua filha vai levantar de graça
delegado, ela é boa nisto, não sei onde errei, mas ela sempre
descobre algo, sempre digo que alguns nunca devem morrer.
— Como a moça do cafezinho.
— Algumas nem deveriam estar lá naquele horário senhor,
mas estavam, então não me culpe de parar uma operação de
extorsão, a eliminando.
— Dizem que está fora de controle.
— Sim, eu se matar muito, mato 10% das mortes geradas por
grupos de extermínio da própria policia por ano, então estou fora
de controle, mas não só eu.
— E o que acontece se lhe prender.
— Morro na delegacia, o que se espera quando alguém lhe
coloca onde você não tem como argumentar, apenas ser furado.
— Você não nos deu alternativa.
— Sei que não delegado, deveria ter morrido, dai o
presidente da escola que pede minha morte, tinha sumido com a
filmagem, iriam afirmar qualquer coisa, e obvio, mortos não
reclamam justiça.
Os policiais entram lhe apontando a arma, ele ouve um
megafone do lado de fora e todos olham para fora, o delegado sai e
ouve.
— Se ele sair morto Delegado, todos morrem ai.
O delegado olha os rapazes com os dedos no gatilho, alguns
pensavam em atirar, ele olha para os rapazes e fala.
— Vamos com calma.
— Não podemos facilitar Delegado.
— Matou dos dele e reclama Roberto, é fácil atirar em gente
desarmada.
O soldado olha o delegado, todos olham para ele, muitos
querendo apagar as pegadas, o Delegado olha o rapaz com capuz,
sobre a casa a frente, toda a policia estava voltada para ele, os
soldados apontam para ele e começam a ver a rua ser fechada, o
lugar ser bloqueado e gente sobre telhados distantes com armas de
longa distancia.
— O que querem?

163
— Pensei que fosse um rato Delegado, está se mostrando um
lobo disfarçado na pele de cordeiro.
Roberto dentro da peça olha para João, a arma dele estava
destravada, os demais já estavam mais calmos, mas ele parecia que
iria atirar, João olha para ele e fala.
— Bem a cara da policia local, valente quando o alvo esta
desarmado e a poucos metros da arma destravada.
— Quer se complicar, mas por mim não sai vivo.
O delegado estava do lado de fora quando João aperta um
botão a mão e o piso explode todo de uma vez, o barraco some a
volta do sofá, João sente a perna atingida, por um tiro ao cair de
Roberto, João sai do sofá enquanto a poeira subia, pula para a parte
de fora do barraco, olha para a casa a frente, pega a mochila, a
roupa, sai pelo canto da construção, mudando de roupa, colocando
os cabelos, a cicatriz, arcando o corpo e colocando a mochila velha
as costas.
O delegado viu que algo acontecera, olha para o barraco
sumir ao fundo, mais mortos, alguém fez algo extremo, mas olha
em volta, não conseguia ver muito, mas ouviu.
— Ultima chance de largarem as armas porcos. – Fala o rapaz
ao megafone.
Os policiais ouvem o destravar de armas a toda volta e o
delegado sem saber o que fazer levanta as mãos e fala.
— E que garantia temos.
— A mesma do senhor ali, trouxe matadores de pobres para
uma operação destas delegado, não se faça de inocente. – Branco,
um rapaz ligado a antigos traficantes da região.
— Acha que fala com quem rapaz.
— Delegado, se não morreu ainda, é porque temos
consideração por parte de sua família, mas não facilita. – Branco
olha aquele senhor ao fundo, andando com dificuldade para fora
dali, olha para o rapaz ao lado e fala.
— Ajuda o velho, tiro. – Falou baixo.
Os rapazes olham para o velho e o delegado olha o velho e
fala.
— Cuidando dos locais, deve ser Branco. – Ferreira.

164
— O que quer ainda Delegado, que não soltaram as armas e
começaram a sair quietinhos.
— E as viaturas.
— Vamos fazer uma fogueira com elas, a pergunta, quer estar
dentro dela quando queimarem ou fora.
Alguns ainda estavam querendo confusão, mas sabiam que
cercados e naquela região plana, não teriam chance.
Eles começam a baixar as armas, os rapazes começam a se
aproximar com as armas engatilhadas, e colocam eles para fora, os
desarmando.
O delegado olha para a casa explodida, não sabia quem
morrera ali, não sabia muita coisa, mas eles iriam limpar a região
antes de qualquer coisa.
O delegado começa caminhar até a 34ª Delegacia.
Um rapaz chega ao lado de João e fala.
— A moto está chegando ai, tem de saturar o tiro.
João olha para o rapaz, sabia que teria, mas senta-se e
pergunta.
— Saíram?
— Sim.
— Consegue um álcool e uma linha com fio.
O rapaz viu João sentar, limpar a região, tocar ela a
pressionando com força e falar.
— Foi de raspão.
Um sai ao fundo enquanto ele limpava a ferida, limpa e
desinfeta e depois costura, prende uma faixa a perna e põem a
calça sobre o local.
Branco era um rapaz negro, alto, azul diria João, ele chega ao
lado e fala.
— A Tereza vai reclamar.
— Pede ajuda para o Joca, põem aquele barro que ele tirou
lá, aterra tudo, depois construímos uma casa nova ali.
— E os corpos?
— Que consigam autorização para desenterrar, não
precisamos facilitar, apena desaba o resto dentro do buraco e
cobre, fica mais fácil para construir depois.
— E vai mesmo reunir o pessoal no Bangu?
165
— Na verdade era para conseguir que o Delegado fosse, mas
ele parece que quer assumir o posto de Plinio.
Branco olha serio e fala.
— Rita vai odiar isto.
João olha para Branco e fala.
— Obrigado, nem precisava tanto.
— Iria matar a todos?
— Roberto e outros 6 sabia que iriam para o buraco, mas
agora faltam só os outros 5 que saíram.
— Sabia que viriam? – Branco.
— O delegado está atirando sobre mim todos eles, para que
faça o maior estrago possível, ele sabe de algo que não falou, mas
deixa eu tirar o peso deste ponto.
O senhor se põem de pé, o olhar daquele senhor, andando
para fora da favela, fez alguns olharem sem entender quem era, ele
passa pelos policiais e olha para o ponto de ônibus a frente.
Espera o ônibus, mas não o pega, estava observando os
policiais.
O delegado chega a região de volta, e olha em volta e fala.
— O que aconteceu lá?
— Não sei, mas a tapera explodiu, não sei se algo saiu vivo de
lá.
— Preciso saber se o rapaz saiu, mesmo parecendo frio,
precisamos de reforço para entrar lá.
— Estão mantando dois Caveirões. – Um policial.
— A militar?
— Esta mandando gente, não sei o que aconteceu ali
Delegado.
— Roberto poderia ter escolhido uma melhor hora para fazer
a lei funcionar, mas parecia querer acabar com isto, ignorando que
estávamos na área deles, não nossa.
Os reforços começam chegar, os carros ao longe começam a
ser deixados ali como empecilho, a senhora Tereza é tirada de casa
pelos vizinhos, que parecem saber que iriam chegar atirando, a rua
se esvazia e a comunidade olha aqueles dois veículos blindados, que
todos chamavam de caveirão, entrar pelas vielas, um se posicionou
em cada ponto, e se vi a policia entrar no terreno, olha que
166
desabaram tudo para dentro do buraco, se via os corpos ao fundo,
um buraco circular, que fez com que toda a casa desabasse, o
delegado olha em volta e fala.
— Nosso alvo continua vivo.
— Como sabe?
— Temos apenas policiais ai, como não sei, mas ele saiu.
— Vamos revirar a comunidade. – O policial ao lado.
— Tomem cuidado, a maioria é trabalhador.
— Desempregados e inúteis delegado.
— Trabalhadores para a imprensa, cuidado pessoal.
Os policiais começam a entrar casa por casa, mas não
passaram perto da quadra do trafico, ignoraram os rapazes as
esquinas anotando bicho, eles tinham um objetivo, qual nem eles
sabiam.
Ferreira entendeu que não era hora de fazer aquilo, o rapaz
queria conversar, mas era obvio, eles queriam a morte dele, como
ele poderia ficar em paz enquanto soubessem quem ele está vivo.
Ele volta ao Despertamento Técnico e Cientifico e olha para a
filha.
— O que fez pai, parece ter despertado gente que a muito
não me ligava.
— Quem?
— Branco, ele disse que foram lá para matar o rapaz, tem
certeza que foi ele?
— Ele falou de você como se a conhecesse, como se você
fosse conseguir achar onde ele falhou.
— Ele oque?
— Ele sabe mais de nós que nós dele, ele estava ali, sem se
mexer, observando a mais de dois anos, a tapera que estourou em
Nova Aliança parecia a residência dele, pois tinha cheiro de comida,
coisas desarrumadas, lixo, embalagens pela metade, mas fomos
cercados, quando eu sai do local, para ver quem nos cercava, o
lugar foi pelos ares, e pior, não achamos até agora o corpo de João
Lucas, então ele saiu, como não sei.
— Mais mortes?
— 5 policiais a mais, mas queria lhe mostrar umas imagens.
Rita soube que ele queria entender.
167
Ele coloca a imagem do tabuleiro e Rita aproxima, estava
falando em mais de 4 bairros a volta, olha as indagações e pergunta.
— Quem está tocando o centro de Convivência Padre Miguel.
— Acho que a Marlene.
A moça mostra os pontos e fala.
— Aqui tem Marlene, tem Tereza, tem algo que não entendi.
— O que?
— A Catarina não tinha morrido? – Rita olhando para o pai.
— Sim, dizem que alguém explodiu a casa dela, foi
encontrado um corpo carbonizado com um tiro a cabeça, temos os
vestígios da bala.
— Aqui põem ela em Bangu, cuidando de algo.
— Bangu? – Ferreira.
— Moça Bonita, e a referencia é Dona Catarina Castro, para
deixar bem claro que é ela.
— Esta dizendo que alguns não morreram, ou achando isto?
— Pai, não sei o que é isto, mas com certeza um projeto de
implantação, pois não temos o barracão dois da Unidos de Padre
Miguel, não temos o centro de distribuição Estação Bangu, não
temos parte destas coisas, mas com certeza, isto é um projeto de
implementação, mas não parece nada ilegal.
— Outro problema filha, eu olhei ele pessoalmente, eu não
diria que é ninguém destas fotos.
— Porque não seria?
— Se olhar o primeiro usa relógio e tênis, o segundo, um tênis
mais cheio de firulas, sem relógio, mas com pulseiras, o terceiro,
sapato de crente, mas barba e cabelo comprido, sem relógio ou
pulseiras, diria que parece que alguém está tentando parecer mais
do que é.
— E o que ele queria conversar?
— Perdi a chance, mas ele parecia querer ser preso até ver
que o grupo de Roberto que faria a escolta de prisão.
— Extermínio, e de alguma forma, os cercaram e ele saiu?
— Acho que ele saiu, não tenho certeza, mas o agito lá está
grande.
— Plinio não tinha alguns apoios na Nova Aliança?
— Sim.
168
— Eles não vão bater nestas portas, será que eles não estão
usando a própria policia para os indicar os informantes?
— Se olhar assim teria de dizer que eles estão melhor
organizados que nós.
— Conversou pai, ou apenas tentou dizer que ele estava
errado.
— Ele sabe que não tem saída, isto que ele deixou claro, ele
falou com todas as letras, que pela lei, ele deveria ter morrido,
quando ele reage, ele vira culpado, mas se morresse, sumiam com
os vídeos e inventariam uma forma de morte para ele.
— Sabemos que acontece, mas acha que não foi ele, em
todos os casos?
— Acho que algo está errado, mas não vejo oque.
— Mais errado do que Branco que deveria odiar ele, pois até
este seu tabuleiro todos falavam que a mãe dele morreu, está
apoiando o rapaz?
— Sim, tenho de ver se a senhora foi dada como morta, pode
não ter sido, e estar com todos os documentos validos, mas vamos
ter de puxar muitas meadas ainda.
— Se cuida pai.
O senhor saiu e olha para o grupo chegando com mais corpos,
volta para dentro e olha para a filha.
— Só uma pergunta filha.
— Fala.
— Quantos mortos nos últimos 3 dias nas favelas do Rio?
A moça olha os dados e fala.
— Mais de 30 na região Sul da cidade – ele olha os dados e
fala – assustador isto, mas nada nas comunidades mais violentas,
nada de registros, não quer dizer que não esteja acontecendo.
— Sei disto, mas como está a região Oeste?
— Nas favelas, os policiais que acabam de chegar, nada mais.
— Revisa isto filha, algo grande está acontecendo.
Rita olha para os dados, estranho pois houve mortes, mas nas
regiões mais perigosas, nada.
Pessoas mortas era algo que entrava toda hora, todo dia, 365
dias por ano, carnaval não era menos, era mais, pois as pessoas
bebem demais e brigam mais.
169
Os dados mostravam que alguns lugares tidos como
violentos, estavam calmos demais, ela estava olhando para os
dados, quando uma moça olha para ela e fala.
— Tem um senhor querendo falar com você.
— Senhor?
— Disse que tem um recado do Lucas para você, mas se
quiser o dispenso.
Rita olha para a moça e pensa se deveria chamar reforço, olha
para a sala e vê um senhor, com sua bengala e com aquela cicatriz
no rosto e fala.
— O que tem de errado Rita?
Ela olha o senhor não olhar para nada, como se não quisesse
chamar atenção, mas olha para a posição que estava, olha para o
canto que não o pegava, as câmeras, ele não ficaria bem registrado.
Ela sai e olha para a moça.
— Aquele senhor?
— Sim, quer que dispense?
— Quero saber quem é este senhor, mas se algo sair do
controle, chama a segurança.
— É um velho.
— Sim, mas olha em volta, mensageiros nunca aparecem sem
cobertura.
Rita olha aquele senhor e fala.
— Porque parece uma fantasia?
João olha para Rita e fala.
— Porque a gente cansa de fugir das balas, mas queria
apenas alertar uma coisa Rita.
— Qual?
— Avisa seu pai que ele não consegue tomar o lugar de Plinio,
que é morte certa, não vale o pouco mais que ele pode conseguir,
como se dinheiro fosse tudo.
— Ele não faria isto.
— Ele é ambicioso, mas não tem como conseguir, ele está
jogando sobre João todos que acha que ele tem como tirar do
caminho, mas as vezes é difícil de sair de uma cabana explodindo
sem se machucar.
— Esta dizendo que acertaram João?
170
João abaixa-se e levanta a calça e fala.
— Tiro de raspão, nada muito grave.
Rita olha assustada, olha o senhor tirar o cabelo e colocar na
mochila, tirar a cicatriz, pegar um pano limpando o rosto e falar
olhando para ela.
— Tem coisa que os olhos deixam ver, tem coisa que os
instintos veem, sempre disse que prefiro um investigador com
instintos do que matemático, pois a razão vê o que deixamos a vista
para ser visto, já o instinto, mostra o que não mostramos. — A
moça ao longe olhava e viu o senhor se desmontar, não sabia quem
era, não estava nas descrições que diziam estar procurando.
— Porque as mortes pararam nas comunidades.
— Quando no ano passado um grupo de turistas entrou na
vila, e os policiais civis que lá estavam os mandou parar e não
pararam, eles atiraram para matar, mas qual foi a noticia?
Rita lembra da afirmação de que traficantes receberam os
turistas a tiro, olha ele e fala.
— Nem todos são ruins.
— Mas tem de ver que eles fora das comunidades, é morte
em outras partes, não na comunidade.
— E chega a uma parte interna de uma delegacia sem
ninguém lhe pedir o documento?
— Eles pedem, mas não leem, o documento dá um nome,
uma imagem, não o que fiz, nem se sou eu, mas já falei demais,
hora de sair.
— Vai onde?
— Tenho uma reunião com alguns, quero parar brigas, é uma
reunião de empresários, em meio ao carnaval, não dizem que o ano
começa depois do carnaval?
João se levanta, com a mochila as costas sai pela porta, a
moça olha para a secretaria chegar ao lado e perguntar.
— Quem é o gato?
Rita olha para a moça e fala.
— Aquele é João Lucas.
A moça olha serio e fala.
— Fala serio, dizem ser um assassino, não o deixariam entrar.
Rita sorriu e falou.
171
— Tem gente que não tem medo da morte, de entrar onde os
demais dizem para não entrar, quantas vezes não entendi o que
estava acontecendo.
Rita sai da parte dos laudos e vai a direção, olha para a
secretaria do pai e fala.
— Ele está ai?
— Entra.
Rita entra e olha para o pai.
— Problemas? – Ferreira.
— Alguém veio a mim e alertou para dizer uma coisa para
você, não acredito que seja verdade, mas não custa alertar.
— Alguém?
— João Lucas.
— Onde?
— La no saguão, como um senhor de uns 60 anos, entrou,
sentou, se deixou ver e pediu para falar comigo, mas ele me alertou
a dizer para você pai, que não adianta tomar o lugar de Plinio, que é
morte certa.
O senhor olha a filha e fala.
— Tem coisas que não deveria se meter filha.
Rita não gosta da resposta, olha para o pai e fala.
— Pensa na família pai, Plinio caiu, sabe que os próprios
rapazes dele vão dar fim na família dele, independente de ordem,
mas o que vi foi alguém que levou um tiro na perna, mas estava
inteiro, não parecia ter saído de um barraco que explodiu, entrar
em uma delegacia, se ele me quisesse morta, estaria.
— E como ele pode ter chego aqui?
— Ele disse que daqui vai a uma reunião de empresários, não
entendi, mas pelo jeito tem razão, ele não age sozinho.
Rita sai pela porta e o assessor olha para o Delegado.
— Ela entrou direto, desculpa.
— Me consegue as imagens de entrada do local, algo não
entendi, como João Lucas entrou aqui sem ninguém ver.
— Ele oque?
O delegado viu que o medo foi aos olhos, parecia que o
senhor estava conseguindo o que queria, por medo nos demais.

172
No estádio do Bangu, uma
leva de pessoas começa a chegar, os
vizinhos estranharam, não tinha
jogo, mas aquele grupo de pessoas
vindas de todos os lados, fez alguns
olharem para o agito.
Os grupos foram entrando, ao
centro do gramado, um pequeno palco estava armado, todos
olhavam desconfiados, João chega a entrada e Catarina o olha.
— Pensei que iria atrasar.
— Eles não sabem se querem ainda, então vou apenas
alertar, não posso fazer mais que isto.
— Tem gente que veio que assim que lhe ver, vai dar o
serviço para a policia.
O olhar de João foi a um rapaz que chega a eles e fala.
— O que precisa senhor, soube que foi quem nos contratou.
— Vamos em teoria, pedimos autorização para isto, ter um
bloco que vai se concentrar na praça e das ruas adjacentes, fecha as
entradas, coloca os banheiros químicos, os carros de som devem
chegar em poucos minutos. – João pega um papel ao bolso
alcançando ao rapaz – este é o esquema com os carros de som e
banheiros químicos.
— Em teoria?
— A festa vem somente depois da apresentação, mas assim
que começar a fechar as ruas, a policia deve dar proteção a área,
teremos um baile publico a praça, então eles cuidam da parte
externa, cuidamos da interna.
— Certo, está vindo muitos, mas não estão na praça.
— Vamos conversar no estádio, depois vamos a festa.
Catarina olha para João vendo o senhor sair.
— Vai isolar a área, eles pensando em algo menos
organizado.

173
— Está em todos os prospectos do carnaval deste ano, bloco
de rua de Bangu, com carros de som, banheiros químicos, tem
vendedores da região chegando a região para ver se defendem um
trocado.
— Pensei que isto iria atrapalhar, mas já pensava neste
encontro?
— Não, pensei em um lugar para o pessoal da região poder
vender, defender um trocado, se divertir, mas se vou ter de
antecipar Catarina, vamos a confusão.
João olha para o local cheio, olha para alguns chegando e olha
pessoas da pesada ali, gente que nem era da região, mas que
estavam querendo saber o que iriam propor ali.
João pensa no que falaria, ele pediu muito, se disfarçara, se
recolhera, mas no fundo, ele sabia que em dois anos, roubou,
matou, se apropriou, acumulou, pois ele queria fazer algo, mas de
nada adiantava tudo o que pensou, se estaria preso, ele temia pois
sabia que acabaria condenado, preso, temia a morte.
Quando Zé olha Dom Dom ao lado de Pedro do Tabajara,
sabia que algumas pessoas longe dali, estavam querendo saber o
que estava acontecendo.
O som interno foi ligado, o rapaz começa entrar e olha para
todos os lados, varias vertentes de pessoas, gente de varias
comunidades, que considerava sua casa, mas que muitos
consideravam deles.
O som externo começa nos carros de som, para desviar o som
interno ao estádio, os portões se fecharam e João chega ao centro
do gramado e olha em volta, logico que o olhar para a família Pango
(família Tríade), ele não estava escondido, alguns duvidaram que o
senhor realmente iria para lá, mas ele pega o microfone e fala.
— Sei que alguns me odeiam, mas pensassem nisto antes de
mandar matar a minha família, agora que veem os seus mortos,
dizem-se vitimas, mas não sou inocente, os inocentes da família,
morreram, não vim pedir para me instalar, não vim para dizer
vamos nos unir que seremos mais, vim dizer que vou apoiar a quem
quiser apoio.
Ele olha um grande painel e uma das laterais descer e uma
imagem surgir lá, um mapa, e fala.
174
— Na região do morro periquito, estou instalando uma
cervejaria, ela vai gerar emprego, renda e impostos, mas
principalmente, começar a deixar na região o dinheiro de outras
regiões. – A imagem trocou e ele falou – Fiz um acordo com o
governo local e vamos construir um segundo barracão da Unidos de
Padre Miguel onde era os barracões Federais, ali teremos sistemas
de costura industrial, com peças vendidas a todo país, mas o
principal, manter dos empregos o ano inteiro, gerando renda e
forma própria de ir a avenida, independente de doações de governo
ou de outros, minha cervejaria vai financiar as festas e realizações
da mesma, mas parece que a coirmã mandou me matar para não
me ouvir, porque Pango, porque me matar?
O senhor encara o rapaz, uma coisa era dizer que ele matara
seu neto, outra a verdade, ele poderia negar, mas sabia que apoiara
a morte do senhor.
João olha para a imagem e olha para o sistema de câmeras e
fala.
— Vamos ter nosso sistema de segurança, interna aos 5
bairros internos, legalizado, mas que nos apoiara em casos de
discrepâncias da policia sobre nós. – A imagem mostra os carros da
empresa e imagens de varias ruas da região e termina – pois uma
coisa é vocês me dizerem que estamos em paz, outra, ver quem
está querendo nos por em guerra.
— Estamos assumindo o lixão de Bangu, vamos cobrir e gerar
gás vendendo ele, pretendo fazer dali o nosso segundo grande
ponto de ganhos da região. Empregos e evolução em Catini. – As
imagens vão ao crescimento da região – E para reforçar o problema,
vamos ter uma fabrica comunitária no morro do Carrapato, gerando
empregos e renda a região de Batan. – Joao sabia que os problemas
estavam chegando, mas queria uma forma de o fazer, olha para o
painel e fala. – Já no morro de Sandá, iremos fazer um parque local,
com muitos barres e atrações a riquinhos da cidade.
João olha para os demais e fala a ultima frase.
— Esta á parte que vou implementar, não pretendo entrar em
mercados que vocês exploram, eu quero reforçar o que temos, para
crescer junto, não adianta uma família chegar sobre as demais e

175
depois ficarmos dependente de uma ou duas pessoas, elas morrem
a ideia morre.
No telhado da cobertura, um atirador mirava em João, todos
olham a mira brilhar no peito de João, ele fez que não percebeu e
ouvem o tiro, que atinge o senhor ao peito, a correria se fez,
Catarina tira o senhor dali, uma ambulância sai da região, e a policia
chega a região, querendo respostas, mas ninguém sabia onde
colocaram o corpo do senhor.
Na praça pessoas da comunidade se divertiam, no interior do
estádio, um grupo de pessoas tentava entender o que acontecia.

176
O pessoal da policia entra na
região, os mais perigosos já haviam
saído, eles entram e olham para o
palco, olham para a senhora da
organização e o delegado pergunta.
— O que estava acontecendo
aqui?
— Uma reunião de empresários da região.
O delegado olha em volta e fala.
— Mas só tem pobre a volta.
— Falei empresários da região, não da região sul da cidade
delegado, mas no que podemos ajudar?
— Soube que houve um tiroteio aqui dentro.
— Alguém do telhado - A senhora aponta – atingiu o rapaz
que chamou os demais a conversar.
— Rapaz?
Catarina se fazendo de desentendida olha o cartão e alcança
para o senhor, onde tinha apenas J. Lucas Produções, com um
endereço que ele estivera, na Nova Aliança, rua 12.
O delegado olha a senhora e pergunta.
— Não havia morrido senhora Catarina?
— Nunca vi ninguém vir perguntar, não iria a uma delegacia
dizer bem o que o delegado queria, para terminar o serviço.
— Acusando a policia senhora? – Outro investigador.
Catarina olha o senhor e fala.
— Mortos, não tenho porque dar queixa.
— E o senhor saiu para onde?
— Não sei, havia algumas ambulâncias para o evento na
praça, chamamos uma, mas não sei ainda para onde levaram.
— E qual sua parte aqui? – Ferreira.
— Manter um clube que quase faliu pelas regras atuais, não
sabemos ainda o que faremos, mas iremos levantar o Bangu de
novo, nem que como associação de bairro.
177
Os rapazes da técnica chegam ao telhado e olham o rifle de
longa distancia ali, não sabiam por onde o rapaz havia saído, mas
tinha um rastro de algo que entrou arrastando-se, alguns maços de
cigarro fumados ali, o rapaz guarda as butucas, tira as fotos,
recolhem o rifle e fotografam a região de cima para baixo.
Os mesmos se reúnem, vendo os demais saírem, o delegado
havia retido a gravação e chama gente de 3 delegacias a volta, mais
dois senhores da federal, pois algo estava acontecendo e ninguém
estava falando.
— Senhores, o que vou passar, é as imagens de uma reunião
no estádio Moça Bonita, do Bangu, algo que não entendi, pois todos
estão me mostrando o rapaz da imagem como alguém que está
matando gente, mas olhem o vídeo por si, e gostaria de trocar umas
ideias.
Os demais veem o filme e o Delegado Ferreira volta ao
microfone.
— As vezes estranho pois as informações que estão me
chegando é confirmando que as obras que o senhor falou, estão em
andamento, ele terá uma concessão de gás natural, teremos uma
empresa de fabricação de cerveja, temos uma serie de pequenos
pedidos para os 3 bairros, mas de outro lado, um procurado pela
policia do Paraná, um rapaz que se mostra uma pessoa que diziam
ter morrido por aqui a 12 anos, ouvi muitos falarem que o rapaz
havia morrido a 12 anos, e uma serie de mortes, mas quando
ouvimos o senhor, ele pergunta ao avô do morto na Mocidade,
porque o matar?
— Este rapaz que é João Lucas? – Um policial Federal.
— Sim.
— E tem onde ele se esconde?
— Pelo que soube, uma casa que estamos fazendo rescaldo
na Nova Aliança, a mesma explodiu.
— E onde ele está?
— Não sei, mas o ser na maca, não se meche, ele pode ter
morrido pessoal, mas como saber quem naquele estádio pediu sua
morte?
— Pelo jeito ele achou estar em um lugar seguro.

178
— Ele estava, mas alguém dos seus seguranças, o traiu, não
sabemos ainda quem, mas saberemos.
— E o que precisa delegado?
— Saber quem atirou, saber quem matou os demais, porque
a gravação que temos da morte de Rui na Mocidade, parece focada,
como se alguém estivesse observando a confusão, mas ninguém
pode dizer que ele foi lá para matar o rapaz, ele estava trabalhando,
o Vô do Rapaz o dispensa para que ele saia naquela hora.
— Está dizendo que a arma não era dele?
— Sim, o que ninguém esperava, era que o senhor reagisse,
mas se olharmos o reagir, ele não pensou, ele reagiu, mas não como
se fala, qual a chance dele sair dali vivo?
— Reagindo com força, é o que está dizendo.
— Quando se vê alguém morrendo, os ânimos ficaram na
memoria, ele atingiu 6 outras pessoas de raspão, mas destes,
ninguém sobreviveu a uma segunda investida, que dizem ser dele,
mas ninguém tem provas.
— Algo que pudesse ligar as ligações dele com alguém?
— Ele ligou para alguns, mas nada que sem o conteúdo, de
para saber se é parceria ou ameaça.
— Tem algo sobre a chacina na 34ª? – Outro policial.
— Não, temos alguém que não se assemelha com o senhor,
mas que se passou pelo senhor, na Marques de Sapucaí no fim do
mesmo dia.
— Mais de um agindo?
— Isto que estou na duvida.
O delegado coloca a imagem e pergunta.
— Alguém saberia quem é este senhor?
Todos olham, ninguém reconheceu, dai ele coloca a câmera
mostrando ele tirar o cabelo, a cicatriz e olhar para a câmera, como
se soubesse que estava sendo filmado e o delegado federal fala.
— Está dizendo que pode ser o mesmo, mas disfarçado.
— Uma das possibilidades, mas querem ver o que me
preocupa nisto?
— O que?
— A frieza de alguém assim. Ele disse que se matar muito,
mata 10% do valor dos grupos de extermínio da própria policia.
179
— E o que isto tem de preocupante?
— Que os grupos de extermínio da cidade, matam mais de 20
mil por ano, isto quer dizer, dois mil mortos, todos os policiais que
ele achar que são de grupos de extermínio.
— Mas ele está morto. – Um senhor entrando.
O delegado olha para o secretario de segurança entrando, era
quem parecia querer ali, mas não falaria ou chamaria em meio ao
carnaval.
— Quando tiver certeza disto, comemoro senhor.
O senhor olha o delegado, os demais e fala.
— Não está fazendo muito alerta disto Delegado.
— Não, não tem imprensa ai fora.
— Mas parece querer chamar atenção, não quero alguém
fazendo politica com isto.
O delegado riu, e o senhor ficou furioso.
— Quer só o senhor fazendo politica, mas preciso de algumas
colaborações de gente que não aparece, quero saber quem pediu a
morte do rapaz, antes de sabermos quem ele era, quero saber se o
processo em Curitiba me dá condição de o prender sem precisar
provar nada aqui, pois a gravação mostra legitima defesa, quero
alguém do ministério publico pedindo a prisão preventiva do
senhor, e preciso saber, onde ele está sendo atendido, ninguém me
soube dizer isto.
— Sabe que não quero isto chamando atenção delegado.
— Sei, vi os parceiros de negocio dele, entendi, mas preciso
prender um assassino de policiais, que está lá fora, mas tem
inimigos que podem o ter matado antes, mas quero ter certeza
disto.
— Sabe que não querem pressão delegado.
— Vai me ameaçar Secretario? – O delegado olha serio, ele
era politico, não policial, sabia que ali tinha coisa violenta.
O grupo se organiza, junta os dados, e determinam batida em
22 pontos na região.

180
João olha para o banheiro do
estádio de futebol, olha para Pedro
Tabajara entrar pela porta e o olhar.
— Tem gente querendo se
matar ali fora.
— Se eles não entenderem
que continuidade não requer
vingança, e sim, crescimento, não requer eu lá, e sim, eles
quererem, todos eles.
— Vim ouvir a ideia, parece maluquice.
— O problema é que estamos virando uma nação de
empresas de fora, elas vem com regras que transformam o pequeno
em impossível, então temos de dar estrutura para o pequeno poder
competir.
— Não entendi.
— Eles querem tudo embalado, tudo isolado, pois os grandes
que trazem tudo de bases, fazem assim, não por ser melhor, mas
então podemos os ensinar a fazer. Temos como organizar as coisas,
para que cada região ofereça uma coisa diferente, temos uma das
maiores cidades do mundo, então temos consumo de milhares de
coisas, tudo que eu montar e tiver como vender, vendo.
— E vai começar pela região Oeste?
— Sim, tem coisa que tem de se estruturar para ir
espalhando, se for querer fazer todos ao mesmo tempo, não vai dar
certo.
— Vim ver se precisava de apoio, mas vi que os quer fazer
pensar, pensei que era apenas um aventureiro.
— Pedro, meu pai respeitava seu pai, pelos velhos, ambos
mortos por estes que se fazem de amigos hoje, mas que não daria
minhas costas a eles sem um colete a prova de bala.
— Se cuida, vai para onde?
— Hora de por um velho na parede e o fazer pensar.
— Cuidado com o Vô, ele é teimoso.
181
— A teimosia dele é mais famosa que minha historia inteira,
mas a parte vingativa dele, mais ainda.
— E vai lá quando?
— Daqui a pouco, o bloco vai tomar a rua, o bairro e vamos
no sentido que não deveríamos.
— A policia está toda de olho, se cuida.
Pedro sai e Catarina entra na peça e fala.
— Foram, estão querendo me processar por não ter morrido.
— Desculpa a por a vitrine Catarina, mas precisa assumir sua
parte, assim como eu tenho de por um velho na parede.
— E vai fazer como?
— Acho que vocês continuam sem olhar para as pessoas.
Guguinho entrou e trouxe uma mala e falou.
— Não sei o que tem ai dentro.
— Apenas um agrado para alguém.
— Se cuida.
Os demais saíram, João colocou um colante cor da pele, de
corpo inteiro, uma meia calça, uma luva feminina, uma peruca, uma
mini saia, um sutiã, um salto 15, fez uma maquiagem, colocou um
veu ao rosto e sai pela porta, ouviu um assoviar e sorriu, o rapaz
não reparou, a noite começava do lado de fora, Catarina olha
aquela moça saindo e olha para Guguinho.
— Ele sabe se disfarçar.
— Ele quem?
Catarina sorri, e somente nesta hora o rapaz reparou no
tamanho da moça, olha sem acreditar, e fala.
— Difícil de ver João assim, ele não tem vergonha, não tem
estas coisas de isto não pode.
Aquela moça sai pelo portão, passa pelos policiais, indo ao
bloco, muitos atirados bêbados, mas João queria sair dali, olha para
o diretor que começa a por o bloco a rua, e começam a subir pela
Ribeiro Dantas, aquele grupo agitando a rua, levando compradores
de cerveja e coisas para regiões laterais, enquanto 3 carros de som
mantinham o agito na praça.
Quando o grupo começa a dispersar, João pega um taxi e
pede para ir para Padre Miguel, ultimo dia antes da apresentação,
muita gente tinha que se apresentar para pegar sua roupa para o
182
dia seguinte, aquela moça mostrou o pedido da roupa, e a moça
trouxe a roupa, a mediu e falou.
— Pensei que teria de ajeitar, tem gente que passa dados
irreais, mas em você vai ficar muito boa esta fantasia.
A roupa tinha a cabeça de lobo, com uma estilização frontal
da roupa do chapeuzinho vermelho e a parte dos fundos, o lobo em
si, João olha a roupa, fala quase nada, sorrisos apenas.
Ela sai pela porta da recepção de roupas e viu o Vô Pango
subir para a direção e as suas costas 3 rapazes.
João foi ao banheiro alto, passou pelos rapazes subindo, entra
no banheiro, pegou o pacote das roupas, guardou em um saco, pega
a pequena mochila as costas, tira a peruca, os sapatos, coloca um
tênis, uma calça leve, uma camiseta, toda sua roupa para o saco e
põem o mesmo as costas como um saco de lixo, e sai pela porta,
abaixando a cabeça, o rapaz a frente olha para ele e fala gritado.
— Aqui não é lugar para limpeza senhor.
João anda de costas e solta o saco, encosta na porta da sala
do Vô e a forma que o senhor recuou, fez os demais olharem para
João, que fala abrindo as costas a porta.
— Fiquem ai quietinhos, só tenho de valar com o Vô.
João fecha a porta e olha para o senhor lhe olhar, ele
demorou para se situar.
— Podemos conversar Vô?
— O que faz a...
— Calma, senta ai, não vim lhe fazer mal, apenas preciso
saber se vou ter de continuar a cuidar das costas matando gente
que não precisava morrer presidente.
— Matou meu neto.
— Tinham vendido minha pessoa e vem me acusar
presidente, lá fora não precisam saber disto, mas não gosto de ser
morto, mas não se coloca o neto nisto, não sabe o básico Vô?
— Sabia, mas o matou.
— Ele me jurou morte, sabe como eu, em qualquer vila a
volta, se alguém lhe jurar de morte, mate ou será morto.
— E veio fazer oque?
— Propor parar isto, se o senhor não parar, todos sabem
onde isto vai acabar, um péssimo fim.
183
— Mas não posso...
— Não deveria ter o mandado lá, fez, assume a sua parte de
culpa, eu sei a minha Vô.
Se ouviu os rapazes batendo a porta, João se levanta e fala.
— Vai mesmo querer ver o fim de sua família por um erro
senhor?
— Não pode me ameaçar.
— Meu pai lhe deu o apelido Vô, ou somos uma família, ou
não, a pergunta é apenas esta, vamos voltar a ser uma família ou
vamos vender parte para a policia ou para o trafico?
— Seu pai levou azar.
— Foi traído por alguém que lhe financiou depois, e não levei
para o pessoal, mas parece que quer que leve para o pessoal.
— Não tenho como recuar.
— Se continuar pedindo para me matar, vou falar a todos,
que você os mandou a morte, pois sabe bem que vou me defender,
e se no fim, tiver de passar do ponto, não me culpe, não está me
dando opção Vô, você me queria morto, manda me matar e quando
colhe a sua ordem, pois me defendi, você se faz de ofendido, pode
até estar, mas não tenho culpa sozinho.
— Ninguém vai lhe ouvir, sabe disto.
— Sinal que ninguém vai sobreviver, uma pena a família
acabar assim.
— Não entendeu, tem coisas na vida que não tem volta, você
está morto João, assim como seu pai estava, todos achavam que
você estava morto, nem olhei o sobrenome do rapaz da luz pois
temos muitos Lucas por ai, mas ninguém olhava para você, até o
Plinio falar que você estava incomodando, ele pediu sua morte sem
nem ideia de quem era, todos sabem que você tem de morrer, já
está querendo fazer aquelas maluquices do seu pai.
João olha para o senhor, talvez aquela confissão declarada ele
não esperasse, ficasse apenas no disfarce, olha para a porta e fala.
— Se acha isto Vô, estou aqui, porque pedir para alguém me
matar, sei que tem a arma ai, é só me matar, pensei que éramos
uma família, demorei a ver que não existia mais a família, somente
eu acredito nela.

184
O senhor olha a gaveta, a ideia era boa, mas o rapaz parecia o
testar, se tinha uma coisa que não poderia dizer é que o rapaz não
tinha coragem.
— Acha que não lhe mataria?
— Acho que não sei mais nada, eu pensando em levantar
todos, você querendo depender do bicho e do trafico uma vida,
como evoluir se somente a contravenção mantem a festa.
— Não sabe o que fala, hoje a politica fala mais alto.
— Sei que a politica manda muito, mas eles pelo jeito o
colocaram no esquema, mas está esperando oque Vô?
— Você quer algo, não sei oque, parece querer que os demais
saibam de algo.
Joao olha que faziam força a porta, vê o senhor chegar a
mesa, ele olha para ele pegar a arma, o senhor estica a arma e fala
alto.
— Vou acabar com o que meu neto não conseguiu.
O senhor não olhou a porta abrir, então não viu a policia
arrombar.
— Larga a arma senhor.
O senhor olha para o policial, olha para os seguranças presos
e fala.
— Quem é você?
— Larga a arma senhor.
Dois rapazes estavam com as armas apontadas para o senhor,
que olha sem saber o que fazer, olha para João e destrava a arma.
João caminha rápido para o senhor, bate na arma
lateralmente, se ouve o tiro a parede e o senhor vê a arma cair, e o
olho assustado do senhor.

185
A policia federal toma a
escola, alguns estavam pensando no
desfile do dia seguinte, mas a
informação da prisão do presidente
da Mocidade, assim como o deter de
João Lucas, na policia Federal em
uma operação na escola de samba,
fez a imprensa vir a frente da escola, onde alguns rapazes armados,
um rapaz que não conheciam e o presidente da escola eram presos.
Um rapaz olha para o policial federal e pergunta.
— Estão prendendo o presidente da escola por que motivo.
— Mandar matar 3 pessoas, uma reagiu, vocês tem a
gravação, podem não ter coragem de dizer que o senhor reagiu,
mas é o que a imagem mostra, mas ele vai responder pelo
assassinato, mas os outros dois que foram cercados por este grupo,
estão mortos, como a policia civil não fez os levantamentos, fomos
colocados no caso.
João olha para o investigador federal, sabia que iria agora
responder por crimes que tinham como apurar, mas as imagens
dele matando era o que mais o incriminava.
— Nome completo.
— João Lucas.
— Idade?
— 31.
— O que tem a declarar sobre ter invadido a escola de samba
hoje a tarde?
— Estava ao banheiro e resolvi falar com o presidente, fui
pegar minha fantasia, que esta num saco a entrada da porta que
estava.
— E acha que alguém acredita?
— Isto posso provar, se eles não controlam para quem
vendem as roupas não é culpa minha.
— E iria desfilar?
186
— A forma de encarar o carnaval de cada um é diferente, mas
ainda acho que respeito o espetáculo.
— Esta preso por assassinato, tem algo a declarar.
— Não precisava ter puxado o gatilho, mas não queria morrer
mais tarde no mesmo dia.
— O que sabe sobre a matança na 34º delegacia de Bangu.
— Vão querer dizer que matei todos eles, mas provem, não
vou assumir um crime que não teria como fazer.
— Porque não teria como fazer.
— Se eu o fiz, todos deveriam ser atores, não policias
treinados e armados, pois quando alguém conseguir provar que um
único ser entra numa delegacia, mata quantos falam que matei.
— 22 policiais, 3 funcionários.
— Espero para a segurança dos demais policiais que o
ministério publico não tente provar isto.
O policial olha João e fala.
— Vai se dar mal senhor, pode cooperar e conseguir uma
redução de pena.
— Reduzir oque? 12 anos por assassinato não premeditado,
de um marginal reagindo a um ataque, que cumpro um quarto da
pena e saio livre?
— Tem outras mortes.
— Se for a júri popular, posso até pegar penas absurdas, mas
isto não muda o fato senhor, eu saio, tenho endereço fixo, tenho
emprego, tenho um processo em Curitiba, ele está andando, dizem
que não sabem onde estou, mas meu advogado sabe e compareci a
cada chamado, não estou fugindo, estou quieto, mas se acham que
podem me manter preso por um processo que eles não tem provas,
vai ser como aqui, júri popular para dizer, sou inocente lá, legitima
defesa aqui.
O senhor por traz do vidro olha o secretario de segurança e
fala.
— Não temos muita coisa, sabemos que foi ele, mas se não
tivermos ele afirmando, fica difícil, vimos o senhor apontando para
ele a arma, ele não queria morrer, mas estava esperando a ação do
senhor, não adiantava ver o senhor morto, por isto invadimos, mas
pensamos que a arma estaria em outra mão quando entramos.
187
— E ele vai sair quando? – Secretario.
— Assim que o juiz determinar a soltura, mas estamos no
carnaval senhor.
Um rapaz entra e olha para o delegado que Le a
determinação e fala.
— O problema é que tiraram um juiz da cama para tirar o
presidente da escola, ele teve de analisar o do rapaz também,
temos horas para o por para correr.
— Este ministério publico parece contra nós sempre.
— Eles estão esperando algo a mais, mas pelo jeito, os dois
ainda vão se estranhar por ai.
Os rapazes olham o senhor sair pela porta, um carro esperar
ele a porta, não viram quem dirigia, mas viram ele sair da região.

188
João olha para Amanda que
fala.
— Pensei que estaria morto
nesta hora, até que está bem, mas
acha que vale o risco?
— Como digo, alguém tem de
defender a escola, se o presidente
não a defende, nós defendemos.
O senhor foi ao morro da Pedra Lisa, descansa e ao começo
da outra noite estava indo a Sapucaí, agora disfarçado de Jack de
Sexta Feira 13, ele e Amanda desfilam, os dois se abraçam ao fim,
somente quem se dedicava a um espetáculo daqueles entendia a
força de ver um desfile perfeito ao fim, os dois voltam para casa,
sorrisos, o futuro seria de processos, mas também de ganhos, mas
agora era hora de terminarem o carnaval, de descansar para
encarar quarta feira de cinzas, aos pedaços, as cinzas.
Quinta João se apresenta a policia civil, eles mandaram uma
petição de acareação, eles queriam o transformar e fugitivo, mas
como não havia mais fragrante, João se apresenta a Delegacia, ele
dá seu endereço, sua situação, o policial pega o depoimento dele,
obvio, todo baseado nas imagens, em momento algum ele declara
intensão de matar, diz que apertou o gatilho por medo, pressão, e
sai da delegacia, o carnaval se voltava a vencedora do ano, segundo
colocados em um desfile perfeito, isto que gerava as intrigas, mas
todos sabiam que o ano já tinha dono.
A noticia vai para o desfile das campeãs, e pouco se falava de
crimes da sexta feira, já estavam nos escândalos de quarta.
João olha para a rua e pega um taxi, pediu para Amanda não
o pegar, pois não a queria na linha de fogo, chega a comunidade do
Vintém e olha para Guguinho.
— Pensei que segurava eles, quase morri Guguinho.
— Sabe que as vezes, eles querem se mostrar.
— Idiotas dispostos a morrer por um babaca.
189
O rapaz olha para João e fala.
— Vai fazer oque?
— Mudar de visual, fixar uma fácil, tocar a vida, o que posso
fazer?
— Dizem por ai tantas coisas que nem sei.
— Guguinho, ano que vem, teremos o mesmo bloco e festa
na praça, mas vamos reerguer um desfile de roubas de luxo, vamos
investir em prêmios, vamos financiar os blocos, com carro de som e
propaganda de pelo menos 4 marcas do bairro, uma coisa sei, o
povo adora um marginal, pior, adora um marginal rico.
Guguinho sorriu, enquanto João caminha para a casa no
centro da comunidade, entra pela porta daquela casa com teto
caído, com sinais que fora muquifo de fumo, que queimaram parte
da casa por acidente, as memorias de sua mãe, de sua irmã
pequena, lhe faz olhar como se voltara tarde, mas voltara, ele olha
para a maquina chegar a frente e começar a derrubar tudo, ele iria
reassumir a casa que fora de seu pai, mas agora, uma nova casa,
uma nova vida.
Mas no Brasil, as coisas nunca são rápidas como se pensa, já
que a politica instável detona o país.
Os anos passam.

190
João olha o filho correr pelo
gramado, em Bangu, ao seu lado
Amanda, já foram 6 anos de
inquérito, ainda não o fecharam, o
de Curitiba venceu os prazos e não
deu em nada, mas ele ainda espera
a morosidade da justiça.
Muitos perguntam como este processo acabou, mas ele ainda
está no ministério publico, se eles não o terminarem, não há
julgamento, pelo ritmo, não vão acabar, assim não terá julgamento,
tudo será esquecido, apagado, e a vida continua, Brasil, um país de
leis, sem moral, sem divisão de renda, apenas de trabalho, uns
trabalham, recebem ninharia, já um ministério publico tem salários
imensos, e nunca se dão ao trabalho de trabalhar.
Como divagação final, se João tirar um antecedentes
criminais, Civil e Criminal, não aponta nada, já um pai de família,
desempregado que atrasou por isto a pensão, este consta e os
Juízes ainda falam que existe lei para todos.
“Todos se for, Todos Abastados, para o pobre, Cadeia”

Fim
Aguardando o Julgamento ainda;

191
192
193
Aut7or J.J.Gremmelmaier
Edição do Autor
Nome da Obra: Dalma
ISBN
CIP – Brasil – Catalogado na Fonte
Gremmelmaier, João Jose
Dalma, Romance de Ficção, 123 pg./ J. J. Gremmelmaier
/ Contos / Curitiba, Pr. / Edição do Autor / 2017
4. Literatura Brasileira – Romance – I – Título
5. Literatura Brasileira – Contos – I – Título
6. Literatura Fantástica – Romance – I - Título
85 – 0000 CDD – 978.000

194
J.J.Gremmelmaier

195
Vamos invadir a vida de Dalma, vamos entrar nas
entranhas de suas crenças, vamos enxergar o lado
místico, encantador e assustador vivido pela
personagem.

Vamos ao sobrenatural, vamos ao pessoal, vamos ao


mundo de fantasia, conto independente de
J.J.Gremmelmaier, em sua serie de historias para
fazer pensar, ou como ele fala, para o fazer pensar,
focando num fato, toda historia tem dois lados,
mesmo as mais macabras delas.

O conto está no universo de J.J.Gremmelmaier, pois


ele não abandona suas ideias, ele as alimenta, então
estamos num futuro, porque parece normal, porque
o autor mudou o planeta em seus contos, então ele
está ao futuro, em sua cidade, como se a cidade
ainda estivesse ali, as coisas ainda fossem normais,
apenas uma cidade, um estado, para que a historia
apenas se desenvolva.

196
Dalma senta-se a cadeira da
cozinha, olha para as ervas ao fogão,
suas mãos tremulas colocam o chá
para tomar, olha pela janela.
“Sol de novo, este mundo não
me obedece mais.” – Pensa a senhora
olhando para o muro ao fundo da casa, olhando-se presa naquele
terreno, em suas lembranças.
Com dificuldade levanta-se e vai ao fogão a lenha, pega a
chaleira servindo seu chã e colocando a mesma sobre a pia de
granito ao lado.
Volta a sentar-se e olhar para fora.
“Minha prisão, o que fiz para merecer isto.”
Ela olha um estalo ao corredor, olha assustada, pois parecia
ter alguém ali, mas fora apenas o Félix, seu gato de estimação, um
gato malhado, branco com manchas bem ralas e esparsas pretas
sobre ele. Gato gordo que chega até Dalma e esfrega-se em sua
perna.
— Me assustou Félix.
Dalma olha para o terreno, olha para fora pela janela, hoje o
muro da casa era alto, hoje, vivia ela e seu gato, no caminho da
vida, não teve um filho ou filha.
As vezes desejava alguém para conversar, para trocar ideia,
mas raramente alguém queria saber de suas historias, o que uma
senhora, aos 80 anos, em uma casa que já não era limpa como
gostava no passado, com forças cada vez menores, com um mundo
que os muros são altos, as vidas longas no tempo, curtas nas
aventuras.
As vezes sentia as dores da idade, sentia sua alma jovem
dentro de um corpo antigo, olha para seu gato, mesmo ele, com

197
mais de 14 anos, já não estava na mesma velocidade da infância,
mas as vezes temia por Felix, o que seria dele quando ela se fosse.
A sensação de que estava presa, ainda era algo que a
chateava, os muros altos estão ali a mais de 20 anos, embora
muitos falam de segurança, o que mais a motivou, foi a morte da
pequena Francis, uma gata negra que ela tinha, os vizinhos que
sempre a acharam estranha, não a chamam mais de bruxa, pois
agora se diz que todos tem direitos, mas nos pensamentos, devem
ainda a achar uma. Lembra de encontrar a pequena Francis
envenenada, nada a salvou, o veterinário disse que ela estava com
sangramento interno, não teria o que fazer, ele recomendou o
sacrifício, Dalma a levou para casa, já era sozinha naqueles dias, e
quase morreu com sua gata, ela morreu em seus braços quase 15
dias depois, ainda lhe olhando como sempre.
As vezes as recordações do passado, são o forte de Dalma,
mas ela naquele momento estava apenas curtindo seu chá mate,
quente, com pouco açúcar a xícara.
Ela já deixara muitas ervas no passado, foi-se o tempo que
tinha horário para tomar as ervas, já foi-se o tempo das
preocupações excessivas, pega seu livro de anotações e olha para a
caneta, a pega e sente Felix aconchegar-se em seu colo, sempre a
mesma dificuldade, era pegar a caneta e ele queria atenção.
As recordações de Dalma foram a adolescência.
Um sorriso aos lábios lhe fez pensar em quantos momentos
poderiam ter sido diferente.

198
“As vezes tento lembrar do
passado e o escrever, hoje me veio
esta vontade, as vezes tento escrever
o que fiz ontem, as vezes, a 60 anos,
isto me faz saber que ano estou,
quantos anos tenho, e se minhas
memorias não me traem.
Sim, eu fui nova, diziam que era até bela, com certeza
cheirava melhor que hoje.
Lembro até hoje, quando passei na faculdade de Farmácia,
minha mãe dizia que não precisava daquilo, que os bons
naturalistas não iam a faculdades.
Eu sabia disto, mas eu queria ter uma vida melhor, uma
condição de dar o melhor a meus pais, nisto acho que consegui,
embora eles sempre me cobraram um caminho que não tomei.
Hoje se você falar para um jovem que ele tem de casar com
alguém que as famílias amigas decidiram, eles vão falar de direitos,
de amor, quando eu era jovem, ninguém casava por amor, por sinal
acho que não sei o significado desta palavra até hoje.
Meus sentimentos por aquele rapaz, eram de uma moça
nova, que não conhecia outro rapaz, acho que se tivesse me
dedicado mais a ele, ele teria vivido mais, mas as vezes achava que
ele queria a vida em outros braços também, se querem ter pena
dele, a vontade, eu não sou de deixar as pessoas que entram em
minha vida sair, então não forço ninguém para dentro, mas se
entrar, tem de saber, a escolha é sua, lembro que quando os nossos
pais indicaram nosso casamento, eu não sabia se era uma ideia boa,
vi os olhos dele nos meus, o insistir dos pais dele, que ele seria um
bom marido, via os olhos de desejo dele, mas as vezes as pessoas
não sabem o que pedem, as vezes elas se perdem nos próprios
desejos, eu juro que não entendia muito quando nos casamos de
sentimentos e desejos, acho que a palavra desejo, para as demais
pessoas tem uma conotação diferente do que imagino para ela.
199
Quando de nosso casamento, lembro dos demais parentes
me dando parabéns, as brincadeiras sem graça de tias que estavam
encalhadas, mas juro que se pudesse antes da primeira noite, trocar
de lugar com elas, teria trocado.
Depois da primeira noite, o que achava que seria difícil de
encarar, meu corpo achou normal e minha vontade, as vezes
saciada as vezes ignorada, me fez controlar meus próprios desejos,
as pessoas na época diziam que era errado a mulher ter prazer,
ainda existem pessoas que pensam assim, mas se não fossemos
feitos para ter prazer, não teríamos esta possibilidade a nossa
disposição para experimentar.
Deixar claro que tive apenas um homem na minha vida, meu
falecido Ariovaldo, homem que muitas vezes me deixava sozinho
para sair com amigos, aquele cheiro de perfume barato, entregava
onde ele estivera, o dormir sem nem vir para meu lado, confirmava,
mas não era sempre que ele tinha dinheiro para aventuras em
puteiros da cidade.
Antes puteiros ficavam a saída das cidades, hoje falam em
puteiros no centro, talvez eles já existissem lá, mas os homens não
falavam disto tão abertamente como hoje em dia.
Uma época que as noticias chegavam por radio, talvez as
noticias fossem algo que me fazia tensa, mas existiam as novelas do
radio, aquelas historias tinham sempre finais felizes, sinal que ou
nenhuma era real ou não havia acabado ainda, os problemas viriam
depois disto.
Quantas lembranças que me fazem lembrar que a senhora ao
espelho, já foi jovem, já foi desejada, já deu o fora em homens
atrevidos, já escapou de tentativas agressivas, mas é que as pessoas
as vezes nos olham pela aparência, não pelo que podemos fazer.
Mas sim, fiz Farmácia, na época em que vacinas estavam
começando a ser inventadas, quando veio a tríplice para as crianças,
muitos tomaram coragem de ter mais filhos, alguns me apontam
como alguém infértil, mas nunca saberei se era eu ou o Ariovaldo, já
que lembro quando uma vizinha quis dizer que o filho era dele, e
quando nasceu, ele nunca teria gerado aquele Japonesinho, a moça
mudou de bairro, antes as coisas não eram tão aceitas como hoje,
uma vez mal falada, arrastava-se isto por muito tempo.
200
O fazer da faculdade, acabou me dando um emprego na
secretaria de saúde, primeira mulher a passar no concurso e se
apresentar a frente de um hospital, primeira e por muito tempo,
única a ocupar um cargo superior no mesmo.
Foram 35 anos lá, se hoje como, foi por ter trabalhado lá, as
vezes me perguntavam o que meu marido fazia, muitos dos que
viviam em volta, nem sabiam que eu trabalhava fora, isto a 50 anos,
era um escândalo, muito menos que o pobre Ariovaldo ganhava
menos que eu, então sempre tentava levantar o moral, dizer que
ele era um excepcional vendedor, que ele tinha um senhor emprego
numa loja de departamentos no centro, lembro que fomos a
primeira casa a ter uma geladeira, hoje isto é obrigatório, na época,
uma raridade.
Os anos pareciam andar e os remédios mudarão totalmente,
cada dia as pessoas mais obesas, se quando entrai no hospital
enfrentávamos Desnutrição e Tuberculose, quando sai, doenças
como Infarto e Derrame cerebral já eram os mais comuns.
Quanta gente ficou no caminho, quantas gente não vejo mais,
ou pior, eu com 80 anos, sou de uma geração que as pessoas
tinham expectativas de vida próximo dos 50 anos, então muitos já vi
enterrarem, os pesos no corpo são forte, o medico diz que posso
viver mais 20 anos, se estou escrevendo isto, é para não ficar
maluca, imagina chegar aos 100, se aos 80 os pesos e a solidão já
me abatem muito.
Olho para fora, não vejo nada pela janela da frente, quer
dizer, dá para ver a ameixeira, não está na época, o pé de chuchu
que tomou o muro, e a grama a cortar, por sinal tenho de chamar o
senhor Pedro, para o fazer.
Olhando para o fundo, os canteiros de sempre, com minhas
ervas, poucas ruins de tomar, mas é que existem algumas que não
se toma porque quer, e sim, para problemas reais, ali ao fundo está
a cultura que trouxe de minha mãe, que meu pai sempre tentava
me afastar, mas que está na tradição das mulheres da família.
Das poucas que ainda estão vivas.
A grama antes dos canteiros, está alta, a cobertura com
churrasqueira está suja e não sei quando vou lavar, cada ano parece
que minha disposição se torna poeira mais rápido.
201
Por sinal elas insistem em fazer reuniões aqui em casa, tenho
de criar coragem para estar bem até o fim de semana.
Talvez seja das poucas que transformou tudo que elas falam
em ciência, embora ainda hoje, muitas drogas são proibidas, pois
parariam de vender os tais remédios.
Lembro da falecida Paula, ela sempre que passávamos na
praça no caminho de casa, olhava os jovens e falava absurdos sobre
eles fumarem maconha, que era coisa de marginal, que deveriam
prender todos, pois como ninguém via que aquela porcaria os
transformava em marginais, ela morreu a 12 anos, câncer no
pulmão, pois ela falava isto sacudindo aquele cigarro fedido, o filho
dela, foi preso por contrabando, vendeu a casa que ela e o marido
compraram para tentar um negocio, dizem que ele e a esposa vivem
em uma casa alugada no centro.
As vezes rio destes jovens, eles tem vergonha de morar na
periferia, pagam caro para ter carros caros, em casas caindo aos
pedaços, e na primeira chance, para omitir de onde vieram, vão
para apartamentos alugados na área central, como pode uma
sociedade tão voltada ao que os demais pensam deles.
Se fosse ligar para o que pensam de mim, não estaria mais
entre os vivos, mas isto, minha vida, esta eu respeito, mesmo que
tenha relaxado esta semana no banho, mas velho sentir-se cansado
não considero preguiça, é falta de forças mesmo.”

202
Félix começa a morder a ponta
da caneta, o que faz Dalma parar de
escrever, ela ouve alguém batendo no
portão, quem seria, ela com calma
olha para Felix ir a grama ao fundo,
apoia-se com dificuldade, deixando o
caderno a mesa da cozinha e vai ao
portão.
Primeiros movimentos, a cada dia mais difíceis, parecia para
Dalma que o primeiro movimento demorava mais que tudo, e doía
as juntas da perna.
Ela abre o mesmo e vê duas senhoras e uma fala;
— Poderíamos deixar uma mensagem de Deus para a
senhora.
O cheiro de Dalma, que há dois dias não tomava um bom
banho passa pelas senhoras, uma faz cara de nojo e Dalma fala.
— Deus é sempre bom, mas desculpa não poder dar muita
atenção, hoje não estou muito bem.
A segunda fala.
— Mas podemos ler apenas um trecho para a senhora.
— Poderiam, mas a bíblia não foi feita para ser lida como uma
sorte chinesa senhora, ou se lê e discute o contexto, ou são palavras
jogadas ao vento.
Dalma fecha o portão, olha para a grama, caminha ao
banheiro, ela mesmo sentira seu cheiro, pega uma toalha, põem o
chinelo, desde os 71 anos, quando caiu no chuveiro, começou a
tomar banho de chinelos, antiderrapantes falava a todos que
perguntavam.
Dalma imaginou a cara de indignadas das senhoras, com
dificuldade tirou a roupa, ela dizia que viver sozinha era um
sacrifício, olha para a frauda geriátrica e descobre de onde vem
parte do cheiro forte, dobra e coloca no saco de lixo do banheiro,
ela sabia que tinha suas necessidades, mas não queria pesar a
203
ninguém, muitos indicavam uma casa de repouso, mas pagar para
alguém ficar com seu dinheiro e não lhe tratar direito, não, preferia
correr os riscos de estar viva.
Lavou-se com calma, sabia que as vezes ela mesmo deixava
para depois estas coisas, mas era parte do ficar velha.
Ela olha para o barulho a porta, ainda se assustava com isto e
olha o espirito de Ariovaldo, que a olha e fala.
— Tá descuidando Dalma.
— Se não se preocupava quando estava viva, o que mudou
Ariovaldo?
— Sabe que não tenho opção, vou penar a sua volta, até você
achar que devo descansar, mas arrisco que é capaz de me deixar
aqui e ir descansar sozinha.
Dalma sorriu e fala.
— O que lhe chateia? – Dalma olha o senhor que lhe olhava o
corpo, talvez mesmo velha, ela tinha um corpo, o senhor, mesmo
aparentando a idade de sua alma, uns 30 anos, não o tinha mais.
— Poderíamos ter sido mais felizes.
— Sim, poderíamos, mas antes de morrer, nunca enxergou
nisto uma possibilidade Ariovaldo.
— Esquecia que você estava trabalhando ou cuidando de
nossa casa, acho que me deixei levar por aquela historia de que
você não podia me dar um filho.
— Aquilo é passado, pelo menos não deixou alguém para me
tirar a casa quando morreu.
— Sabe que toda vez que marcam por aqui, fico pensando se
você aguenta mais uma reunião anual?
— Um ano não aguentarei, mas faz parte de viver os riscos da
vida, como disse, um dia irei descansar.
O senhor passa pela porta andando de costas e Dalma
termina seu banho com calma.
Dalma seca-se com calma, senta-se ao vazo para secar os pés,
olha para a roupa, cada dia mais difícil de vestir.
Olha o espelho, passando a toalha, para se olhar um pouco,
estava horrível, sorri, olha serio no espelho e pergunta.
— Quem é você, não lembro de lhe conhecer.

204
Ela sorri, pois sabia ser ela, mas tinha uma dificuldade triste
de olhar para o espelho e enxergar naquela imagem ela, talvez os
anos tenham se passado, rapidamente, ela não sentiu o mesmo,
mas o espelho insistia em lhe dar as más noticias que os anos não
paravam.
Ela olha para a porta, sente a tontura, ela segura-se e fala
com ela mesmo.
— Cada dia mais imprestável.
A senhora fica um tempo quieta esperando a tontura passar,
ela sentia isto quando mexia a cabeça muito rápido, ou quando o
movimento a sua frente, fazia os olhos mudarem de posição muito
rapidamente, vai a cozinha, um chá olha para fora e sente o clima
mudando, viria chuva forte.
O dia ia ao fim, aquele vento sul, dizendo que iria chover e
Félix na mesa da cozinha olhando para fora, confirmavam que iria
chover, Dalma com calma vai ao varal, tira a roupa que estava seca,
olha para o céu invertendo, chega a pia da churrasqueira, pega um
punhado de sal grosso e olha para o céu, joga ao ar e fala.
— Desvie, desvie, desvie.
O vento pareceu passar por ela e a chuva desvia a leste, ela
entra na cozinha, tira o chá do fogo, serve uma xicara e sai pela
varanda da frente, tomando um chá de camomila.
Ela ouve alguém buzinar, as vezes queria não ter ninguém por
perto, se olha no vidro da porta, olha que estavam ainda
descabelada, sorri e vai ao portão, abre e olha para a irmã na parte
do passageiro, olha para a sobrinha, destranca o portão maior e o
empurra para abrir, as vezes parecia fácil, as vezes difícil, mas a
muito desistiu do elétrico, ele emperrava mais do que funcionava.
O carro para a cobertura, Dalma faz um gesto com a mão e o
portão pareceu ir a posição fechado.
O olhar para Rita, sua irmã, as duas estavam ficando velhas,
mas os pesos estavam grande naquele dia, e fazer sala cansada não
era algo que Dalma gostasse.
O abraço de Rita, fez Dalma agradecer o banho, pois ele
estava cheirosa, o que seria se tivessem chego antes do banho.
— Tomando um chá irmã?

205
— Fiz um para os nervos, já que para as dores nem os
remédios dão jeito, mas não viria mais para o fim de semana.
— Ela apareceu lá em casa a pouco Tia. – Fala Margarida, a
sobrinha.
— E a trouxe direto?
— Ela queria vir antes, mas as vezes temos de nos preparar
para vir para cá tia, parece cansada.
— Os anos estão cada vez mais pesados.
— E sozinha ainda.
— Quando ficar velha vai entender que quanto menos gente
para atrapalhar, mais ficamos bem.
As três entram na casa, o Félix some pela porta dos fundos,
Dalma coloca o chá a mesa, passa uma agua em duas xicaras a mais,
e senta-se.
— Mas o que a fez antecipar as coisas irmã?
— Sonhei com o Ariovaldo.
— Este já foi a muito irmã.
— Sonhei que ele tinha terras ao norte, e que teria uma
fortuna lá, acabei ficando com isto a mente.
— Eu não tenho mais idade para aproveitar a vida, mesmo
que tivesse algo em algum lugar. – Dalma.
— Mas tem de ver que as irmãs tem muitos filhos.
— Verdade, mas não lembro nada de terras, ele nem ao
menos tinha um terreno para viver, nosso pai que insistia que era
um bom rapaz.
— E não teria como verificar?
— Verifico, mas não quer dizer que tenha, mas as coisas as
vezes vem a tona, mas onde seriam estas terras?
— Londrina, via-se a cidade ao fundo.
— E reconhece uma cidade ao longe assim? – Dalma.
— Lembro dele falar que era Londrina.
— Ainda sonhando com meu es marido irmã, que coisa.
— Ele nunca nem olhou para mim, sabe disto irmã.
A filha de Rita olha para a mãe como se perguntando-se do
que estavam falando, Rita sorriu e falou.
— Nem pergunte nada, as vezes falo demais.
— Mas não lembro dele ter algo.
206
— Mas vai verificar?
— Verifico, nem que tenha de o desenterrar para descobrir.
— Estou falando serio. – Rita.
Dalma olha para o corredor, se via aquele vulto ao longe, e
ela fala.
— Irmã, até sábado sei de algo, mas tenha calma, não sei se
não foi apenas um sonho, sei que acredita piamente em seus
sonhos, mas verifico, algo mais especifico?
— Não, fica ao sul da cidade, se via a cidade após um campo
imenso plantado, mas o campo plantado era após o terreno, pois
ele parecia abandonado, tinha uma leva de mato alto, mas olhando
para todos os lados, se via campos plantados.
— Soja? – Dalma.
— Sim, alguma ideia?
— Não sei de nada ainda irmã, mas verifico para você, vai
ficar na casa de Margarida até sábado?
— Sim, aproveito e faço umas compras.
— Sempre gastando.
— Você reclama, mas tem de tudo Dalma, mas não entendo o
que estes seus chás fazem, eles são divinos mesmo.
— Eles são o que deveria estar passando a frente, mas parece
que ninguém mais nos ouve, todos grudados no futuro, esquecem
que futuro sem estrutura, não adianta, é sofrimento.
As 3 se olham, tomam o chá, perguntas sobre as dores, sobre
as dificuldades, e Rita e a filha saem, Dalma olha em volta e sente
Ariovaldo as costas.
— Sabe que os impostos nunca foram pagos daquele terreno
Dalma, eu disse que não queria voltar lá.
— Acha que alguém um dia vai olhar para lá?
— As suas sobrinhas vão, sabe disto, sentiu o desejo de algo a
mais, nunca soube como Rita sonha estas coisas.
Dalma olha para fora, não queria a sobrinha entrando em
problemas, a muito evitava falar deste terreno, alguns falaram
sobre ele a uns 50 anos, de tempos em tempos, alguém vinha e
falava do terreno, mas até então, ninguém parecia querer de
verdade o problema, mas Dalma não era de deixar as coisas pela
metade, ela perguntou, mas geralmente ninguém respondia, era
207
uma forma de pensar, então olhou para Ariovaldo, pois ele olhara
como se fosse falar algo.
— A mais velha, as porções, a mais nova, os sonhos livres, sei
que nunca respeitou isto.
— Ela parecia preocupada, algo a preocupou.
Dalma olha para a sala, entra na casa, abre um armário ao
fundo, pega uma caixa de registros e olha para Ariovaldo.
— Deveria ter feito isto a 20 anos, acho que estou velha para
isto. – Dalma olha para os documentos, folha alguns, anota o
endereço, olha para a chuva indo no sentido sul.
— Sabe os pesos Dalma, sempre deixou este para depois, mas
pesos são para a vida.
— Oque quem fala, nunca nem me levou ao local, pois tinha
medo, agora querendo me por pressão. – Dalma olha para
Ariovaldo, ele queria algo, mas ele nunca pediria.
Dalma olha para o registro, chega ao canto, tinha um
computador antigo, tela ainda de tubo, teclado ergométrico antigo,
um dia foi branco, agora estava amarelado.
— O que vai fazer? – Ariovaldo.
Ela entra na internet, site da prefeitura de Londrina, olha para
o registro de impostos, quase nada, estranhou, olha para a situação
do imóvel, normal, ainda em nome do marido, olha para os
documentos e fala.
— As vezes queria ser mais jovem, energia as vezes faz falta.
Dalma olha para a carteira, para as suas coisas, vai ao
banheiro e penteia o cabelo, pega o telefone e chama um taxi, não
deu meia hora estava saindo.
O chegar de noite ao aeroporto Internacional Afonso Pena,
que por sinal fica no município ao lado, verifica que havia uma vaga
para voar para Londrina, e não pensou, era para onde tinha de ir.
Avião pequeno era algo diferente de grandes, balançava
muito, quando chega a Londrina, aquela senhora pergunta onde
havia um hotel próximo, eles indicam um próximo, ela olha para a
região, sorri, caminha naquele sentido, pede um quarto, o rapaz
pareceu estranhar aquela senhora, as pessoas vinham de carro, ou
de taxi, mas ela veio a pé, mas com muitos quartos vagos, ele libera
um bem frontal, no segundo andar.
208
Dalma olha o saguão do Aero Park Hotel, olha a avenida
Santos Dumont a frente, por onde veio caminhando, acerta a diária,
sente como se algo estivesse estranho, como se algo estivesse
procurando por ela, magia de interação, será que foi um sonho
implantado, para a atrair para lá?
Dalma sobe, olha o quarto simples, sorri, ela senta-se, olha o
documento e fala sozinha.
— Como posso eu, enfrentar isto?
Ela abre sua mala, pequena, olha para os chás, a muito não se
dedicava a toda sua magia, ela sempre foi alguém calma, mas que
tinha suas posições firmes, sabe que terá de enfrentar seu passado,
seus caminho, sua petulância, mas estava ali, se fosse para alguém
pagar por aquilo, que fosse ela, não suas sobrinhas.
Dalma olha para a cama, deita tentando relaxar, mas se em
casa ela reclamava em um colchão próprio, feito para ela, imagina
num que era para todos.
O sono a fez dormir.

209
As dores acordaram Dalma, ela
olha para fora e olha em volta, sentia
que algo estava tentando entender o
que estava naquele quarto, mas não
conseguia identificar o que era aquela
energia, até agradável.
Dalma pega suas coisas e desce,
senta-se para o café, algo simples mas muito mais do que a senhora
estava acostumada, toma com calma o café e viu um senhor com
uma roupa negra, golas brancas, Dalma demorou para perceber que
era uma batina, olhar para ela e falar.
— Posso sentar?
— À vontade padre.
— Católica.
— Na verdade a muito não entro em uma igreja.
— Desculpe o atrevimento, mas a senhora viaja sozinha,
quantos anos tem?
— 80, o peso da vida começa a se mostrar forte.
— E não tem medo.
— Quem teme a morte senhor é porque não está pronto para
a mesma.
— E vai onde?
— Acertar uma pendencia que não posso deixar aos meus
descendentes.
— Pendencia?
— Herdeira viva das terras dos Rosa.
O senhor recuou a cadeira e falou.
— Sabe que ninguém gosta daquelas terras.
Dalma estranha, pois poucos falavam disto, e um padre veio a
sua mesa para confirmar algo, mas a confirmação o fez se assustar,
sente o cheiro do senhor ao ar e sorri, teria de manter o foco, pois
se antigas famílias da magia local estavam a procura dela, talvez isto
que sentira antes, teria de cuidar com seus passos.
210
— Sei, ninguém quer comprar, ninguém quer chegar perto,
mas sei que tenho algo a resolver lá.
— A senhora é uma bruxa? – O padre.
— Bruxas não existem senhor, vocês inventaram isto na idade
media para roubar terras de senhoras que não tinham herdeiros,
em toda Europa, hoje rio de gente que tenta se dizer Bruxos, tentar
transformar isto em religião.
— Acha que eles não são uma religião?
— Eles nem sabem o básico senhor, há 60 anos, me formei
em Farmácia, e muitos religiosos da época nos chamavam de bruxos
modernos, mas hoje todos tomam o que desenvolvemos na época,
fui a primeira mulher a dirigir um hospital em Curitiba, se não fosse
casada, talvez tivesse sido pior, mas assim como os religiosos
condenavam os Farmacêuticos, uma mulher não deveria se prestar
a isto, lembro bem disto senhor.
— Tem formação, mas porque vai lá?
— Digamos que se hoje, todos os meus são ameaçados por
aquilo, que para mim em Curitiba é lenda, resolvi ver de perto, pois
tem um pedido para compra, mas não quero vender, mas não quer
dizer que as pessoas entendam isto.
— Sabe que chamam as terras dos Rosa de Terras
Amaldiçoadas.
— Quem amaldiçoou senhor?
O padre olha em volta, poucos ao longe, ele sentia medo de
algo, Dalma sentiu isto e falou.
— Senhor, sei que as perguntas as vezes não tem respostas,
mas saiba, tudo que se amaldiçoa, tem de ser limpo da maldição,
minha mãe falava que na antiguidade se falassem em cura através
de operar alguém, isto era um absurdo, pois receber sangue de
outros era tido como uma total violação de suas almas, tem gente
que ainda pensam coisas assim, mas se sua alma estivesse no
sangue, tirar seu sangue e deixar secar ao sol, seria matar sua alma,
acho que nem a fé e nem a Farmacologia acreditam nisto.
— E vai lá?
Dalma serve mais um café, sorri e não responde.

211
Aquela senhora levanta-se com dificuldade, vai a recepção e
fala que vai a cidade, acerta dois dias a mais, pede para chamarem
um taxi.
Um senhor chega ao Padre e pergunta.
— Temos algum problema Padre José.
— Não entendi, há dois dias sonhei que uma senhora viria a
cidade, que estaria no meu caminho.
— Ela é muito idosa, quem é?
— Pelo que entendi, a Herdeira dos Rosa.
— Quem seria a herdeira?
— Uma senhora, pela aparência, mais de 70, ela falou em 80,
deve ser Dalma Rosa, a esposa do falecido Ariovaldo Rosa.
— A lenda está na cidade.
— Ela não parece uma lenda, parece uma senhora.
— Acha que ela é uma bruxa padre, das reais?
— Pelo que entendi, ela tem formação superior, ela nunca se
deu ao trabalho de vir para cá, mas ela parece não ter medo de ir lá,
telefona e pede para os vizinhos ficarem de olho.
— Vai para a região?
O padre pensa, olha o rapaz e fala.
— Ela pode ser quem vai fazer aquelas terras voltarem ao
reino de Deus, vou, vê se tem alguém para apoiar se der.
— Vai apoiar uma bruxa.
— Roberto, ela foi a primeira mulher diretora de hospital
publico do Estado, ela enfrentou a vida de cabeça erguida, pode
nem ser uma bruxa, mas a chave para que algo aconteça, o abrir de
algo que lá foi feito, ela está entrando na historia dela, minha, de
muitos que não confessam seus erros do passado.
O rapaz saiu e o padre chega a direção e pergunta ao rapaz.
— Me informaria o nome da senhora hospede do quarto 22.
O rapaz vira o caderno para o senhor que olha, Dalma Rosa, e
ouve.
— Não mostrei nada padre, mas o que ela tem de
importante, vi que você e Roberto ficaram de olho nela.
— Ela veio a um desafio, apenas fica de olho.
— Desafio?
— Terra dos Amaldiçoados.
212
O rapaz faz o sinal da cruz a frente do corpo e olha a senhora
entrando com dificuldades no Taxi.
— Mas vai apoiar bruxaria Padre.
— Ela casou com um Rosa, mas fica de olho, ela pode precisar
de ajuda, ninguém sabe ao certo das coisas presas naquelas terras.
O rapaz olha serio e concorda com a cabeça.

213
Dalma passa o endereço ao
Taxista que fala.
— Sabe que aquele terreno está
abandonado a muito tempo senhora,
eu a deixo na estrada, não entro lá.
— Sem problemas.
— Não vou esperar.
— Eu ligo para a empresa quando sair de lá.
Dalma pega o caderno vendo o rapaz pegar a estrada ao sul e
anota.
“A minha vida é difícil de compreender, venho de gente ligada
a terra, as magias da terra, nos chamavam primeiro de curandeiros,
depois que os padres resolveram que somente eles podiam curar,
saber de um chá para dor de barriga, virou bruxaria, mas entre as
famílias que eram ligadas a terra, existia a minha, uma tradição, e a
dos Rosa, outra, não sei o que o velho fez nestas terras, mas todos
os que tentaram roubar ou se apropriar delas, passando os Rosa
para trás, morreram, não sei ainda o desafio, Ariovaldo não passa
nem em alma perto daqui, ele disse a anos que não viria resolver
isto, ele sabe de algo, mas sempre pensei em algo muito pesado,
pois ele não tem coragem de falar.
A casa ainda está lá, vi via imagem da Internet, os vizinhos
não se atrevem nem roçar para dentro do terreno, não sei o que
acontece, mas obvio, o que uma velha, de 80 anos, pode temer,
perder a vida, a alma, sentir dor, acho que nada mais me faz medo,
pois quem vive sozinha, sem saber se vai acordar, travar a cama, ou
morrer e ninguém achar o corpo, o que pode temer?”
Ela olha o carro do Taxi que na cidade é vermelho, passar o
portal da reserva florestal Mata dos Godoy, ela olha para aquela
mata a toda volta da estrada, quando passou pelo portal de saída da
região sabia que estava próximo ao local que pararia, viu a mata a
esquerda e o carro começar a reduzir.

214
Dalma olha o carro parando a frente, olha que o senhor parou
do lado direito da estrada, ele olha para ela e pergunta.
— Tem certeza?
— Logico que não, mas se não vai esperar, apenas não se
estressa, eu ligo.
O senhor viu ela acertar a corrida e sair pela porta voltada ao
acostamento, com aquela pequena bolsa de mão, não parecia ter
algo pesado ali, apenas uma bolsa feminina.
Dalma olha para o mato alto do outro lado da estrada,
caminha no sentido oposto que havia vindo, até ver aquela entrada,
tomada por mato, apenas as marcas que um dia houve uma entrada
ali.
Ela caminha com dificuldade, aperta o passo para atravessar a
rodovia, olha para o mato, passa a mão a frente do corpo, o mato
abaixou e se viu o portão de madeira bem ao fundo, ela viu o taxista
sair, e começa a entrar naquele terreno.
As serpentes se erguem na lateral, parecem olhar para a
senhora, mas se recolhem se afastando.
Um ar veio junto com o afastar das serpentes, uma sensação
de morte que a fez olhar em volta. Mas caminha até próximo do
portão.
Ela sente os pelos do braço se arrepiarem e sorri
— Que se apresentem.
Ela não olhou em volta, mas vários seres translúcidos
pareceram olhar para ela, que caminhava para a porteira de
madeira a frente.
Ela chega a ela, pesada, olha para a entrada lateral, onde se
passava apenas pessoas, fazia um V, olha para dentro, passa a mão
na teia de aranha que tinha ali e atravessa para dentro, olha em
volta, algo estava diferente, olha para a rodovia e via que entrara
em algo que poderia não ter saída.
Ela sente os espíritos a volta mudarem de feição, ficaram com
rostos deformados, mas o que intrigava Dalma, era ver a estrada
antes do portão como se estivesse conservada, e bem ao longe, a
estrada de asfalto, mas nenhum movimento.

215
Ela observava quando sente alguém tocar em seu ombro, se
assusta e olha um senhor, parecia um índio, não era muito maior
que ela, que não tinha uma grande estatura, e ouve.
— Quem vem para esta prisão eterna.
— Prisão?
Dalma olha para a região que entrara, se fechar com vigas,
olha para o portão crescer, e olha para o senhor.
— Acho que nada é definitivo.
— Quem se atreve a vir a nós.
— Dizem que a maldição destas terras não me permitiu ter
um herdeiro, mas ainda tenho de entender isto.
Os espíritos ficaram mais assustadores, rosnando, fazendo
gestos agressivos com os braços, mas o senhor a frente, pareceu
virar uma nevoa e sumir pelo caminho.
O mato para dentro estava grande, mas não ouvia como algo
vivo, pois matas tem pássaros, aquela parecia não os ter, o silencio
vindo da natureza a faz olhar atenta.
Começa a caminhar no sentido daquele caminho, se para fora
parecia conservado, para dentro, a estrada estava toda tomada pelo
mato. O caminho por aquele mato alto, silencioso, fazia ela
obrigatoriamente ouvir os rosnados dos espíritos, todos estavam
bem agressivos com ela.
À frente a estrada passa por um riacho, se via os restos de
uma ponte de madeira destruídos, ela olha para o riacho, estava
parado, não tinha vida, parecia um lodo morto. Dalma olha para as
madeiras, fez um gesto com a mão, e as madeiras se agruparam
para ela passar, ela chega a beira e viu um ser do outro lado do rio
atravessar a ponte e parar a sua frente.
— Não pode entrar.
— Motivo.
— Não é bem vinda.
— A escolha é dos que me rosnam, ficar nisto a vida inteira,
ou me deixar entender o que aconteceu, posso virar as costas e
sumir, mas todos ficarão aqui para sempre.
— Não tem como sair.
— Não tenho como ficar, então não é passível de ter algo que
me impeça de sair, mas não estou saindo ainda.
216
O ser a olha agressiva e segura ela de cima para baixo,
segurando sua cabeça, ele era muito maior que Dalma, ela sente as
garras dele na sua testa, sente a dor e fala.
— Acha que tenho alternativa? Eu não entrei nisto porque
queria, mas não gostaria de lhe machucar.
O ser riu e Dalma levanta a mão direita e toca na do ser, ele
sente a mão ficar em força, ela sente a cabeça ser solta, olha para o
ser e fala.
— Todos tem uma escolha, a minha é ir até a casa, mas ainda
não sei o que tem lá.
— Saiba que todos que entraram não saíram.
— Então ficarei, mas não me faça perder tempo.
Dalma segura a pequena bolsa com força, faz um gesto com a
mão direita e o ser sente o girar, como se tivessem mudado de
posição, ela olha o ser e fala.
— Não precisa atrapalhar, se não sabe o que precisa fazer
pequeno ser, mas preciso andar ainda.
Dalma dá as costas e atravessa por aquela ponte continuando
pelo caminho.
Um espirito chega ao lado do ser imenso e fala.
— Porque não a deteve?
— Ela não me atacou, mas ela se defendeu, tudo nesta terra a
quer atacar, ela, apenas caminha.
— Mas não a deteve.
O ser olha para o sangue da senhora em suas garras e sorri, o
ser não entendeu o que havia acontecido, mas era obvio, algo
aquilo queria dizer. Dalma passa a mão na ferida da garra a cabeça,
passa na língua e fala.
— Sonífero.
Ela encosta em uma arvore, o corpo sente as pernas
perderem força, ela deixa o corpo deslizar ao chão e pega uma
pílula a bolça e toma, não tinha agua, desceu amargo, ela olha em
volta, sozinha, em meio a um local morto, mais ainda não sabia o
que estava acontecendo.
Ela faz um gesto com a mão, olha para o local e o corpo
desaba de vez.

217
Um ser de luz chega ao corpo,
ele estava em uma camada de
energia, se via a cor amarelada da
camada, a senhora idosa, olha em
volta e o grande ser que barrara
Dalma chega ao lado.
— Ela vai dormir um pouco.
O ser de luz olha para a senhora e sente o cheiro ao ar, olha
para a testa da senhora, soube que ela foi a um sonho forçado, mas
não sabia quem era ainda e olha para o grande Domt.
— Porque a pôs a dormir?
— Ela quer chegar a casa, sabe que estamos aqui para que
nenhum Rosa chegue lá.
O ser de luz olha para Domt e sacode a cabeça.
— Ela não cheira a um Rosa, parece nunca ter desabrochado,
como se nunca tivesse tido um herdeiro.
— Mas não era a ideia, eles não gerarem Herdeiros.
— Não, a ideia era outra, mas ela não cheira a Rosa.
— Que cheiro ela tem? – O senhor que tocou no ombro de
Dalma a entrada.
— Cheiro de mato vivo, aquele que esta mata não tem, cheiro
de vida, mas quem é ela?
— O caminho de entrada se abriu a ela, ela veio direto, não
foi acidente, alguém a deixou ai na frente, aquele religioso está lá
na entrada olhando para dentro, como se pensasse se entra.
— Aquele cheira a morte. – Ser de Luz.
— Mas porque ela seria permitida, se não é uma Rosa.
— Ela pode ter entrado nisto por um casamento, ela não é
nova, tem um cheiro ralo de Rosa, ela conheceu um Rosa, mas não
sei ainda o que ela é. – O ser de luz olha para Domt e pergunta – Ela
falou algo?
— Que eu não precisava atrapalhar, mas ela precisava andar.
O senhor da entrada, olha para o ser de luz e fala.
218
— Ela disse que a maldição desta terra não a deixou ter um
herdeiro, tem de ser um Rosa.
— Ou uma linha mais forte, mas ela em segundos se protegeu
de nós, ela está dormindo, mas numa proteção, quem dos Rosa
fazia isto?
— Eles não se prendiam a se proteger, somente em atacar.
O ser olha para o caminho e surge a entrada, vendo o
religioso e alguns rapazes a forçar o portão.
Os espíritos olham para o ser de Luz e um fala estranho, com
um som sussurrado.
— O que fazemos Luz?
— Os atrasa, os induz ao caminho.
— Cheiram a morte.
— Todos estamos mortos neste espaço, mas parece que a
senhora é alguém que estes conhecem.
— Tem certeza Luz?
Ela não responde, mas na entrada o padre José olha para
Roberto e pergunta.
— Já havia chego ao portão?
— Não, não sei quem é a senhora, mas ela parece ter
abaixado as resistência entre a estrada e o portão, perdi alguns
homens neste chão de serpentes, mas elas não estão por aqui hoje,
parecem ter sido afastadas.
— Tem como abrir o portão?
— Vamos puxar, tem um trator, vamos depois de tirado o
portão entrar de trator, sei que as coisas ai dentro são nossos
medos que dão força. – Roberto.
— Já entrou ai? – Um dos rapazes.
— Vi um amigo entrar, ele nunca saiu, eu não passei do
portão, mas vi ele falar com alguém e sumir dali, como se fosse
tirado do lugar.
— E ninguém nunca veio resgatar.
— Ninguém entra ai Padre, se a senhora entrou, e tudo indica
que sim, o terreno a aceitou, mas não sei se este mesmo terreno a
deixaria caminhar muito longe.
A caminhonete força a madeira, o motor parecia que não ia
aguentar quando o ser de luz balançou a mão a frente e o portão se
219
abriu de vez, todos sentiram aquele cheiro de morte passar por
eles, o Padre faz o sinal da cruz, Roberto olha para o fundo e um
trator começa a vir da estrada, 4 rapazes, Roberto e o padre sobem
nas laterais do trator, o motorista parecia assustado, mas não diria
isto, olha para o caminho e começa a entrar.
Roberto olha quando a dois metros do portão, o mesmo se
materializa e olha em volta, o rapaz do trator tentou andar para traz
e viu que a maquina não conseguia encostar no portão, olhando
para fora, parecia o mesmo lugar em outro momento, o padre olha
para os rapazes e fala.
— Mantenham a fé, nada pode com Deus.
— Mas o que foi isto? – Um rapaz.
— Vamos, se não temos saída, vamos avançar.
O grupo começa a ver as almas, elas estavam com rostos
angelicais, um dos rapazes olha para uma que lhe estiva a mão, ele
estica a dele e todos viram quando o rapaz tocou a alma, ela o
puxar, todos viram a alma do rapaz ir e o corpo desabar para fora
do trator, todos se armam, o rapaz pareceu sumir, os demais
espíritos pareceram rir.
Roberto faz sinal para parar, tira o pulso do rapaz, nada,
põem ele na parte de trás do trator e faz sinal para andarem.
O trator foi abrindo com a força do motor o caminho a frente,
os espíritos a toda volta faziam os rapazes assustados, o corpo de
Silvio na parte do fundo, mostrava que estavam em um campo
perigoso e mortal.
A força eles foram abrindo caminho, chegam ao pequeno
riacho, olham aquela ponte improvisada, se via as marcas de barro
dos pês da senhora e Roberto falou.
— Estamos no caminho certo.
Padre Jose olha para cima, as arvores altas faziam naquele
lugar ser quase noite, viam uma luz vinda de mais a frente, a mata,
como se alguém tivesse uma luz acessa, com força e muito motor,
passam pelo alagadiço.
As arvores crescendo na trilha, faziam do caminho muito
demorado para ser feito com aquele trator, mas ninguém parecia
disposto a andar naquela terra.

220
Fazem uma curva na trilha após tirar uma imensa arvore caída
do mesmo, e veem aquela luz, Roberto olha a senhora e fala.
— Algo a fez dormir.
O padre olha em volta e fala.
— Que Deus nos ajude.
— Ele parece não mandar neste trecho do planeta.
— Deus manda em tudo.
Dalma ouve o barulho de um motor, isto a traz do sono, ela
abre assustada os olhos, pois assim como pareceu que iria
desmaiar, ela não sentiu o fechar dos olhos, acorda em um susto, e
olha em volta, olha a madeira as costas, olha para o trator e olha o
padre sobre ele.
Dalma olha para eles como se perguntando o que faziam ali.
— Sei que ninguém interfere, mas parece que estamos todos
para dentro presos. – O Padre.
Ela olha os rapazes, havia um cheiro errado no veiculo, ela se
levanta, olhando eles serio, ela estava no terreno, eles no trator,
então mostrava medo, mas não era este o cheiro que lhe
perturbava, ela olha o corpo no fundo do veiculo, olha em volta,
olha para o padre e pergunta.
— Qual o nome do rapaz?
— Era Pedro.
Dalma olha em volta, toca o chão e fala alto.
— Quer ficar Pedro?
Se viu vários espíritos chegarem por todo lado, ela olha um
em si, ele se aproxima e ela pergunta.
— Tem de escolher agora Pedro, estes campos não são
sempre tranquilos como no primeiro dia, é só olhar as demais
almas, elas vão deixando suas energias na terra, e com o tempo,
devendo existência a terra, hoje pode sair, amanha já será difícil.
O ser mexe os lábios, os demais não ouviram, mas Dalma
sentiu o medo de ficar e fala.
— Tem de se juntar ao seu corpo novamente.
Dalma olha um espirito ficar entre os dois e falar alto, este
todos ouviram.
— Não pode me tirar a diversão.

221
— Se acha diversão matar gente, tirar deles as forças, se
disfarçar de algo que não é para os enganar, não lhe devo nem as
desculpas, pois isto não é diversão, é crueldade.
— Acha que está falando com quem?
— Sabe que se soubesse seu nome, não estaria a minha
frente, então se vai me dizer quem é, ai sim vamos conversar.
O ser recuou atravessando a alma que estava logo atrás e
fala.
— Não pode me abandonar Pedro.
A alma olha para Dalma, e para a menina as costas, parecia
uma alma jovem e triste, sozinha, e ouve Dalma falar.
— Imagem espelho, se desfaça.
A alma as costas começa a mudar de cor, de aparência, olha
para Dalma, mas o espirito do rapaz recuou em seu sentido, o
mesmo olha seu corpo e deita ali, Dalma sem tirar os olhos do
espirito toca o corpo e sentiu-se o mesmo se sacodir, ele abre os
olhos assustados e olha para a senhora, achou que sonhara, mas via
o espirito ao fundo, olhos negros, pele enrugada, toda deformada,
os rapazes olham assustados.
— Acha que pode sair daqui, você nos deve a vida, se é uma
Rosa.
Rosa não falou nada, ela apenas olha para o padre e fala.
— Vou a frente, se querem ir de veiculo, apenas não se
deixem tentar.
A senhora começa a andar e toca o chão, os espíritos viram o
caminho se abrir, a senhora caminha lentamente, mas o trator a foi
seguindo, Roberto dentro do mesmo pergunta ao padre.
— O que foi isto?
— Ela intercedeu pelo rapaz, não sei como fazer isto, mas
agradeço por não ter de explicar as filhas onde seu pai morreu e
estava.
— Mas porque ela pode andar por ali, e ninguém a enfrenta.
— Ela tem de chegar pelos próprios pés, pelo que entendi, a
casa, mas nem sei se a casa ainda existe.
O trator sofria para ir a frente, muita força de tração,
enquanto a senhora andando com dificuldade ia mais rápido que o
trator.
222
Dalma olhava os seres, sentia que alguém os observava,
queriam que eles chegassem a algum lugar, mas isto não quer dizer
que fossem aliados, eram pessoas querendo os ver no ponto que
todos diziam ser sem saída, mas ainda deveriam ter 3 horas de
caminhada, ela não sabia quanto tempo adormeceu, mas era obvio
que chegaria lá a noite, pois o dia não parara, ela tenta localizar o
sol e vê que ele cruza o céu, como se não fosse algo que fosse
comparativo a parte externa.
Estava caminhando quando o caminho começa a ficar liso,
bem liso, ela teve de se abaixar para não cair, olha em volta, não
tinha marcas de pegadas, mas como ali dentro ninguém deixava
pegadas, ela olha para seus passos a lama, olha para a sapatilha,
péssima para um chão liso, olha para os cantos, não teria como
desviar, o trator parou mais ao fundo e Roberto ao veiculo
perguntou.
— Quer uma carona?
Dalma olha para o rapaz, não sabia as regras totais, ela temia
a alteração de regras, o salvar do rapaz lhe seria cobrado, cada
pessoa a mais, cobrado, mas tinha de pensar, olha as folhas as
arvores e mexe a mão, teria de ter calma ao pisar, pois um tapete
de olhas não é algo que seja firme.
Dalma olha as folhas tomar toda a lama, e olha para as
arvores, nada, folhas surgiram novas, olha para o caminho e começa
a caminhar.
O padre olha para a senhora e olha Roberto.
— Alguém que em si tem um controle de todo o mundo que a
cerca, talvez a primeira bruxa que tenha conhecido.
— Acha que ela é uma bruxa?
— Ela deve ter outro nome para isto, mas dentro de uma
região que nitidamente o sol não se mexe como deveria, muita
coisa a obedece, ela parece saber onde está, isto é assustador.
— Medo Padre.
— Já havia visto uma alma Roberto?
Roberto olha para Pedro, estranhando estar ali de novo,
assustado, e fala.
— Não, tudo a volta parece morto, mas tudo além dos
mortos, almas presas.
223
Os dois olham a senhora se desequilibrar, pensaram que ela
cairia, mas aquela aura amarelada a fez se equilibrar e continuou a
caminhar.
— Ela veio a um enfrentamento, mas nitidamente algo
aconteceu, ela esta com marcas de garra a testa, ela enfrentou algo,
talvez o que a fez perder forças e a fez descansar.
— Talvez, mas os espíritos a volta parecem a cada instante
mais, o lugar está ficando assustador.
— Sim, e estamos aqui. – Roberto.
Dalma olha um ser parar a sua frente e a olhar, os rapazes no
veiculo as costas param o mesmo e veem as almas chegar perto,
como se quisessem ver de perto.
— Quem se atreve a passar por estas terras?
— Uma andarilha. – Rosa.
— Omite quem é, acha que isto lhe protege dos crimes de sua
família, a odiosa família Rosa?
— O que fiz a você rapaz?
— Fui morto nestas terras, me ergui das lamas, hoje alguns
me chamam de Praga, mas não me sinto uma praga.
— Sei o que é isto, mas porque me barra?
— Deve saber porque, todos querem chegar a cabana.
— Eu não quero, eu preciso, a diferença, se vocês não
estivessem aqui, não precisaria, se todos a volta não estivessem
aqui, não estaria aqui.
— Mas vai forçar para passar?
— Quer que vá embora, vou.
O ser olha para a senhora, bem velha, se via a dificuldade dela
nos pequenos gestos e fala.
— Esperamos uma eternidade e vem uma velha para ir a casa,
acha que consegue velha.
— Eu vou, a pergunta, vai me deixar passar ou vai me barrar.
— Não pode passar.
Dalma olha o ser e mexe as mãos, uma soma de gravetos
começa a estalar a toda volta, uma cadeira de pequenos gravetos se
juntando formam uma cadeira, Dalma não olha, apenas senta-se e o
senhor olha para ela.
— Não pode sentar no caminho.
224
— Estou cansada, se vai ficar conversando com você mesmo,
o que posso fazer é esperar você decidir o que vai fazer.
— Vou lhe destruir.
— Isto é uma agressão, sem problemas, espero você o fazer.
— Não tem medo de mim? – Fala o ser que pareceu absorver
a terra a frente, e crescer, Dalma olha o ser, um dia na infância sua
mãe falou dos seres de terra, uma maldição que vivia enquanto não
se quebrasse, mas somente quem o fez o poderia, ou um
descendente de quem o fez, mas os pesos de algo assim, o desfazer
de uma maldição de Terra Viva, era algo que estava somente na
memoria, pois nunca estudara.

225
Dois seres ao longe observavam
e um olha para o Ser de Luz e fala.
— Porque ela não ataca?
— Me pergunto quem é ela,
pois olha para o caminho Domt, ela
caminhou por ele, não o desafiou, os
seres as costas podem estar abrindo a
força, mas ela abriu a mão, ela caminha, ela passou pelo pântano
negro sem pisar na lama que lhe tiraria a força, viu ela mexeu os
dedos e os gravetos de milhares de arvores abandonados ao chão a
serviram uma cadeira.
— Acha que ela é uma “B....” – Domt não falou Bruxa, ele
pareceu temer a palavra.
— Não sei, o padre a chamou de Bruxa, mas ela não parece
com uma bruxa, elas não chegam a esta forma, elas se prendem a
corpos novos, elas se prendem a morte, ela cheira a vida.
— E quem ela é, pois estamos em solo amaldiçoado, porque
as arvores a obedecem.
— É a parte viva deste local, sabe disto.
— Mas ela intercedeu por um morto?
— Este é o problema, quantos segundos passaram lá fora?
— Não sei.
— Nem eu, mas quase nada, cada um aqui está em uma
maldição, mas a senhora não intercedeu por um morto, pois ele não
teve tempo para ser considerado morto, ela intercedeu por a
possibilidade de morte, aquela alma achou que poderia a enfrentar,
mas deve estar pensando em como readquirir sua jovialidade.
— Esta dizendo que estamos fora do tempo, mas porque
envelhecemos.
— Porque vivemos aqui dentro, não sei quanto tempo se
passou lá fora, podem ter sido décadas aqui dentro, e nada lá fora,
as arvores parecem nos dar a posição de tempo, mas ainda não sei
quem e a senhora ali.
226
Dalma olhava o ser que olha
para ela serio.
— Me disseram que bruxas
atacam, não ficam na espera.
— Não deve ter visto uma
bruxa para saber disto.
— Já viu alguma?
— Tenho uma irmã que se define assim.
— E não se define como uma bruxa?
— Não preciso explicar quem sou Terra Viva, eu não posso
lhe falar seu nome, isto o prenderia nesta Terra para sempre, mas
não desafio, caminho, sei que mesmo isto pode ser tido como um
desafio, mas tenho de chegar a casa ao centro do terreno, sei que
ela está lá, isto se chama tecnologia, o satélite vê a casa, cercada de
mata por todos os lado.
— E o que vai fazer em uma casa, que todos que foram não
saíram?
— O destino de nossas vidas, está em nossas vidas, não na
dos demais, alguns vieram por conquista, alguns por destino, mas
cada um caminha pelo seu caminho, posso demorar anos, mas
chegarei lá.
— E não teme os espíritos.
— Terra Viva, a maioria eram seres desta floresta, as arvores
crescem, mas amaldiçoadas não geram frutos, sem frutos, alguns
insetos morrem, alguns mamíferos morrem, os rios com os seus
restos, viram aguas podres, então elas vivem, mas elas não geram
descendentes pois não florecem, raízes se levantando como novas
arvores, sobre antigas, a mesma renascendo, mas não temos nova
vida, isto em si, gera a morte dos ratos, roedores, felinos, aves e
repteis próximos, dentro da redoma, 99% dos seres que vê a volta,
nunca foram como você, eles foram animais soltos, livres, hoje,
mesmo mortos, eles não conseguem abandonar a agressividade, já
que somente isto os restou, já que nem comida eles disputam.
227
O ser olha em volta e fala.
— E porque vem a este lugar?
— Porque teria de os poupar, antes de morrer.
— Sua irmã é uma bruxa, mas o que tem haver?
— Quando eu morrer, estas terras vão aos Weber.
O ser olha para ela e fala.
— E não os quer dar isto?
— Eu não sei se ela sairia viva daqui Terra Viva, pois as
lembranças que tenho de sua existência, foram me faladas por
minha mãe, mas eu fui para a ciência, e não fui iniciada no que
todos chamariam de bruxa, eu apenas sou uma idosa, mas eu nunca
fui ou serei da família Weber, já e ela casou com um.
— E sua mãe era uma bruxa?
— Minha mãe era minha mãe, nada além disto, não
analisamos mães por este ponto, pois se assim fosse, elas nunca
seriam mães.
— Mas porque quer ir a casa?
— A maldição desta terra, me atingiu longe daqui, ou por
meu companheiro ou por ter casado com ele, mas assim como estas
arvores, não deixei minha arvore de filhos, netos, então estou aos
meus 80 anos, sem a obrigação com a arvore que me seguiria, por
mim se extingue algumas coisas.
— E não se sente culpada por isto?
— Não tenho filhos, se os tivesse, eles me odiariam, não
tenho um companheiro, ele me odiava quando morreu, sei que
todo este caminho vem a mim, por um Rosa, mas nunca fui uma
Rosa real, um cartório não muda o sangue que corre em minhas
veias.
— E quer passar?
— Se me deixar ir, um dia terá de me autorizar a passar, ou
resolvo voltar, como alguns dizem, posso não sair daqui, mas dai
seria dada como morta, e ai você descobriria, quem eu fui.
— E não pretende contar?
— Antes da hora, antecipar é criar rixas ou ajudas, é meu o
desafio, não dos demais.
— E se a barrar não vai desviar?

228
— Não existe desvio, se está determinado que vou ser
barrado por um Terra Viva, obvio, o caminho que tomar, você lá
estará.
O ser olha para ela, estranha a frase, mas sabia que todos os
caminhos sempre passavam por ali, havia seres que nunca
passaram, havia gente que chegara tão cansada ali que o agrediu
por medo, uma ação, milhares de reações.
— E se a deixar passar.
— Tenta lembrar quem foi Terra Vida, na hora da soltura, isto
é importante.
— Acha que sai daqui?
— Posso não sair, não entenderam, não sou eu a parte
importante.
Dalma se levanta, os gravetos vão ao chão como um
amontoado de gravetos, o ser fica a beira da estrada, olha os
demais ligarem o trator, pensou em os deter, mas o não entender o
que estava acontecendo os deixou passar.
O padre Olha para Roberto e fala.
— Algo forte está acontecendo, você viu aquele ser, ela o
denominou, não sei o que significa.
— Acha que ela não é mesmo uma bruxa?
— Ela não se definiu como uma, mas falou em família Weber,
estes viram da Europa, alguns os temem.
— Alguns?
— Não entendo de bruxaria Roberto, mas ela falou em os
poupar, o que ela pode querer dizer com isto?
— Viu os gravetos?
— Ela parece ser guiada, estranho pois ela passa paz, mas se
reparou, ela não revelou quem é a ninguém.
— Ela tem algo oculto, é o que está dizendo?
O padre sacode a cabeça novamente positivamente, o trator
continuava a seguir atrás daquela senhora.

229
Dalma começa a andar, estava
cansada, olha em volta, estava com
sede, não teria como tomar nada ali,
olha para cima e sente a chuva vir
sobre a região, ela sorri, sente a agua
escorrer por seus cabelos brancos,
sente a água escorrer a sua boca e
fala baixo.
— Obrigada.
O ser de Luz olha para cima, sentira a energia, olha os demais
e fala.
— Deixa eu acompanhar este ser.
— O que aconteceu?
— Não sei, estou aqui a muito tempo, não sei o que
aconteceu, este ser caminha como se dentro dele estivesse as
respostas, ela dispõem de ajuda da terra, do ar, das nuvens, não sei,
Bruxas não tem isto.
O ser de luz chega a frente de Terra Viva e fala.
— Não deveria a barrar?
— Deveria?
— Você barrou todos que viu no caminho.
— Se o tivesse feito, muitos não estariam por ai presos nesta
floresta.
— Mas não a desafiou?
— Estou neste caminho, para reagir de acordo com o
tratamento, não para atacar, isto ela terá problemas depois de mim,
não aqui.
— Mas acha que ela chega a casa?
— Não sei, os senhores no veiculo estão apenas como
observadores, mas cheiram a mais morte que ela, se duvidar ela sai,
mas eles ficam.
— E acha que ela falou a verdade? – Ser de Luz.
— Ela omitiu ou escondeu, não mentiu.
230
Os seres começam a caminhar enquanto o Terra viva sente o
chão e volta a forma de barro, ao chão.
Os espíritos ao longe começam a passar por aquele barro,
muitos curiosos.
Dalma olha para uma pedra, senta-se um pouco e olha o
veiculo chegar perto, e viu o Padre sair do veiculo, os demais
pareciam com medo, o cheiro de morte do senhor era o que mais
desagradava Dalma, mas não era de julgar ninguém.
— Boa tarde. – Padre José.
— Boa tarde. – Dalma sentido os seres próximos, tinha muita
gente ouvindo, ela sentia-se vigiada, fazia anos que não sentia isto,
desde que era jovem, e o seu esposo ciumento a vigiava, ouvia atrás
das portas, sorri da ideia, e vê o senhor chegar perto.
— Pelo jeito você é um mistério, me falavam da lenda Dalma
Rosa, mas pensei em uma Bruxa, mas não se deixou dominar por
esta definição.
— Lenda?
— Diziam que existia uma moça que entrara para a família
Rosa que mais cedo ou mais tarde, pelo jeito deixou para mais
tarde, viria as terras amaldiçoadas, mas parece não temer isto que
os demais sentem do que esta a volta.
— Padre, qual o motivo de alguém me considerar uma lenda?
— Todos foram atraídos para cá, você se mantinha a cidade
sem vir, sem se deixar atrair, chega, não faz estardalhaço, sei que
muitos a esperavam há 20 anos.
— Eu? Como alguém me espera, se nem eu queria vir, se nem
fazia ideia de onde isto ficava.
— E veio direto?
— Acho que todos estão ouvindo Padre, estou descansando
as pernas, pois sou uma velha, eu deixei para depois vir, mas não
quer dizer que não quis vir antes, falei muito sobre isto com meu ex,
ele parecia temer, eu disse que o acompanharia, ele sempre deixou
para depois, mas o que era medo para ele, era ignorância para mim,
acho que não vim antes por ignorar, mas um dia alguém lhe
atravessa com uma historia do seu passado, soube que era hora de
vir, mas não as pessoas não entendem.
— E vamos até onde?
231
— Eu me mantinha um pouco mais afastado agora.
— Problemas?
— Agora começam as resistências da casa, eu não sei o que
tem lá Padre, mas tudo que tem até agora, é vitima, daqui em
diante, causa, então até aqui, paz, daqui em diante, guerra.
— Mas parece tranquila.
— Dor nas pernas, sei que não tenho feito muita coisa
ultimamente, caminhar é sempre doido.
— E o que vem ai?
— Os que chegaram até aqui, não ficaram no caminho, eles
foram arrastados para a cabana, então tentem não ser arrastados, e
nos vemos antes do amanhecer do dia.
— Amanhecer do dia?
— Se eu não sair antes do amanhecer da casa, não vou sair
tão rápido.
— Quer ajuda?
— Senhor, tudo que tem dentro daquela cabana, é para mim,
para a família que coloquei no meu nome, mas tem de saber o que
fazer para cada ato.
Dalma se levante e fala.
— Apenas se mantem mais distante.
— Acho que não entendeu o que fazemos aqui.
— Provavelmente não, mas é hora de usar a força e
inteligência juntas.
Dalma começa a caminhar, desviando as raízes no caminho, o
senhor olha o trator e os espíritos a toda volta e acelera o passo o
veiculo.
Dalma sente o ser a frente, não sabia o que era, mas era
obvio, não estava ali para recuar agora.
Dalma nem sente de onde veio a rajada de vento, e sente o
chão, ela cai e olha em volta, sente o corpo doido, toca o chão,
sente a energia e sorri.
Todos ao longe olham aquele senhora, as arvores se
entortam pelo vento forte, folhas e gravetos voam a volta, Dalma
fecha os olhos, apoia a mão, fica de joelho, sente as madeiras vindo
de todos os lados, sente a energia da terra e estas tocam na
proteção, mesmo com ela, sente o corpo sentir as mesmas, segura o
232
resmungo, estava de joelhos, apoia a mão fica de pé, a toda volta,
madeiras vindo e batendo em sua proteção, de longe não se via ela
ali, Dalma afasta as mãos lentamente, fazendo força, e as madeiras
imensas param de bater tão próximas, mas como a proteção era de
seu corpo, sentia as batidas, abre os olhos, eles estavam brancos,
ela olha em volta e todos os galhos ao longe pareceram se levantar,
tudo em um raio de 40 metros dela, começa a se erguer, ela estava
procurando quem a barrara, ela dá um passa a frente, as madeiras
que tentavam bater nela acertam alguém pois mudara de lugar, ela
não olha, mas ouve o resmungo, o xingamento, e olha para o ser,
aqueles olhos secos, brancos, fixados no ser.
— Quem me ataca na covardia? – Dalma.
O ser olha para aquela senhora, se via ela olhando o ser, que
estava erguido, não atacado, mas preso entre o vento e forças que
iam ao centro, empurrando tudo, e a distorção que Dalma formou,
erguendo tudo, preso entre uma proteção e o andar de um passo da
outra o ser estranho aos olhos, parecia um ser peludo, negro, mais
de 3 metros.
— Não permito que passe.
— Quem é você para querer me deter?
— Eu comando os ventos e as forças.
— Tem certeza. – Dalma deu um passo pesado a frente, foi
fazendo força, levando com ela toda aquela energia no sentido do
ser, se ouviu o grito de dor e o ser fala.
— Vai me matar, nunca vai poder passar se me matar.
— Eu não lhe fiz um sequer ataque, quem lhe torce, é seu
poder, eu ainda não ataquei ser sem nome? Quem me ataca?
Dalma olhava no sentido, não via o que era, sentia a energia,
sua vista estava ainda protegida, parecia uma cortina branca sobre
os olhos, todos olhavam assustados, pois ninguém sabia o que
aconteceria se ela desse mais um passo a frente, mas Dalma olhava
o ser, e no lugar de andar a frente, no sentido do ser, deu um passo
largo a direita, e o ser cai ao chão, as madeiras, os gravetos, folhas
foram ao chão, sentia-se o vento, tentando erguer tudo, mas
parecia tudo preso ao chão agora.
O ser sente o chão, olha a senhora, ele parece temer, talvez
pela primeira vez vira alguém com poder naquele caminho.
233
— O que você é, bruxas não controlam o meio.
— Tem de ouvir os demais, mas o que um Maná faz perdido
neste caminho.
— Estas florestas eram da minha família, elas morreram nela,
sua raiz fez isto, me deve a vida.
— Se quer cobrar de mim, que o peso caia sobre toda a sua
espécie, pois não sabe nem quem sou, como pode me acusar de
algo.
— Disseram que uma Rosa entrou neste terreno.
Dalma olha o ser, sorri, eles ainda não sabiam o que ela era,
as vezes acreditar na existência destes seres, não lhe dava a
procedência deles, esquecera que sua cultura atravessou o oceano,
já os Maná são uma cultura local, assim como o Terra Viva, talvez o
sentir que o ser estava confuso a fez abaixar a guarda um pouco e
sentiu o golpe de ar forte, duro na altura do estomago, se encolhe,
cai para trás, sua proteção pessoal fez ela não bater a cabeça, mas
soube que não poderia baixar a guarda, ele poderia parecer
desnorteado, mas ainda era um ser de força.
Dalma sente sua vista voltar ao normal, as corres voltaram, e
olha o ser e fala.
— Se não sabe o que enfrenta, tem de tentar algo mais forte
Maná.
— Um dia fui isto, preso aqui, apenas um ser em
deterioração, não posso esticar o problema aos meus, não posso
me negar a defender a casa.
Dalma encosta a palma da mão ao chão e se ergue, olha
como se querendo entender o problema, mas agora sem baixar a
guarda, sente o golpe em sua proteção e sente as arvores
entortarem a volta, pois a força foi desviada, alguns espíritos
pareceram se assustar, e uma clareira se abriu no lugar.
— Tem de ver que força demais sem saber qual o inimigo,
não lhe serve, mas se quer tentar.
— Bruxas não são permitidas aqui.
— Se me barrar e não chegar a cabana, elas não serão
permitidas, elas serão donas disto.
— E porque não as quer aqui.

234
— Meu nome foi dado por meu pai, em homenagem a região
de onde veio minha família, muitos acham que é o masculinizar de
Dalmo, mas não, é o abreviar de Dalmácia, região no Mediterrâneo,
banhada pelo mar Adriático, hoje se diria que são as terras baixas
da Albânia, mas vem de minha origem, sou da Dalmácia, mas obvio,
como um Maná nunca ouviu falar de nós.
— Não entendi.
— Meu pai ofereceu as filhas as linhas de poder, ele teve 7
filhas, dois rapazes, mas se tenho uma irmã na família Weber, fui
casada com um Rosa, mas nunca fui uma Rosa, minha irmã nunca
foi uma Weber, mas era a mais velha das filhas da Dalmácia que
passava aos seus filhos, o poder da terra, mas eu como mais velha,
não tive meus filhos, eles não atraíram os demais para a cultura de
minha mãe, e se perderam em outras culturas, então embora minha
irmã nunca tenha sido uma Bruxa, as filhas dela o são, pois a prega
que foi jogada sobre esta terra, não me permitiu ter um herdeiro ou
herdeira, então comigo, morre a cultura de um povo da Dalmácia,
mas não morre uma existência, hoje, não posso gerar almas para a
vingança de alguém, não posso gerar mais degenerações, então
agora posso me entregar a este caminho.
— Parece que acredita sair daqui.
— O que proibir-me-ia de sair Maná?
— Toda esta terra morta.
Dalma olha o sentido da estrada que entrara, não via nada
naquele sentido e fala.
— Para lá, foi por onde entrei – Dalma balança a mão a
frente, como se empurrando algo, e se vê as arvores caindo para os
dois lados, e em linha reta se viu um caminho, e bem no fundo o
portão de entrada.
— Pelo jeito não sabe o que lhe espera.
— Eu não sei mesmo.
O ser olha como se querendo a enfrentar ainda, Dalma sente
as madeiras vindo, de todos os lados com força, ela apenas flutua
lentamente, como se o ar a erguesse e abaixo dela todas as toras se
colidem e caem ao chão, ela pisa sobre elas e olha para Maná.
— Imagino o ódio que tem de minha família, mas isto não lhe
dá o direito a me matar rapaz.
235
Dalma começa a caminhar sobre as arvores, o ser ao fundo
parecia não conseguir se mexer, as arvores estavam o barrando,
duas forças, e o que ele usou como ataque, agora o separava da
senhora, que lentamente caminha sobre aquele trecho de floresta
ao chão.
Os demais pareceram não entender, Roberto no veiculo olha
para o padre que fala.
— Não entendi nada, não conheço nem a existência destes da
Dalmácia, nem sei onde fica isto.
— Ela transforma gestos simples em energia, olha o
descampado que surgiu.
O padre olha ao fundo e se via para um lado os restos de uma
casa ao longe, mas se via mais ao longe ainda paredes erguidas de
outra casa.
Dalma caminhava para lá e sente o escurecer total, de um
segundo para outro, um momento o sol estava ali, no segundo
seguinte não estava mais.
Dalma olha em volta, talvez somente o ser de Luz ao fundo
ficou visível, se os olhos das pessoas pudessem ser vistos, eles
estavam assustados, a noite não caia assim, Maná olha para a
senhora.
Maná olha Dalma inverter as retinas para aquela cor branca,
e todos viram a aura dela ficar visível, mais do que o ser de Luz ao
fundo, ela olha para o caminho e começa a caminhar, os rapazes no
trator olham para Roberto que fala.
— Não sei, para continuar temos de desviar esta pilha de
arvores, mas se olharem para o fundo, o caminho que a senhora
apontou, se vê uma luz bem no fundo, como se lá fora fosse dia
ainda, mas aqui, noite.
Roberto olha para o padre.
— Ainda bem que fizemos o que o senhor indicou, ficar mais
longe, pois estaríamos embaixo de todas aquelas toras.
— Eu não sei o que faremos, olha aquele ser ao fundo, o que
barrou a senhora primeiro, a noite parece um ser de luz, embora
não tenha se mostrado assim antes.
— O que fazemos?

236
— Espera os demais se afastarem, contorna a direita, tem
aquele ser a esquerda, não sei o que é, mas viu o estrago.
— Pensar que viemos para apoiar a senhora. – Roberto.
Os rapazes olham o caminho a direita e começam a abrir a
força a trilha se afastando dali.
Os seres olham aquela senhora caminhar, veem o trator
acender as luzes e começar a desviar a direita, dando a sensação de
que iriam para outro lugar.

237
Dalma caminha mais um
tempo, estava a chegar em um
pequeno pântano, a noite, olha em
volta se sente aquele cheiro, seria
ruim dormir ali, mas olha em volta,
sabia que aquilo lhe daria sono, então
cobre o nariz, olha para uma rocha
maior, faz um gesto com a mão e alguns gravetos construíram uma
estrutura sobre aquela pedra, ela sobe nela, encosta a cabeça e
sente o sono a tomar, a proteção se faz e os demais chegam perto.
— Ela vai dormir de novo? – Domt.
— Para nós, os cheiros dos pântanos a noite, não nos dão
sono, mas para vivos, é quase um convite a uma noite de sonhos
estranhos.
— E o que a protege?
— Não sei, ela mesmo dormindo, tem uma proteção forte.
O grupo olhava para o pântano onde ela se instalara, olham o
grande ser de pedra andando no pântano, ele é atraído para a luz
daquela pedra e fica a olhar a senhora.
— O que é isto ser de Luz?
— Um ser que quer chegar a casa.
— Ela cheira a vida, há anos não sentia este cheiro de vida em
algo que vem de fora.
— Todos estranham este cheiro, mas o que faz aqui Pedra
Viva?
— Soube que algo passou pelo Maná, mas não vejo nada.
Domt olha a senhora e fala.
— E algo chama mais atenção que esta senhora.
— Uma velha não passaria por Maná.
— Então de que adianta falar algo Pedra, se não acredita.
O ser olha Domt, ele não vinha naquele sentido, olha para o
ser de Luz e pergunta.
— O que todos fazem a volta, vão perturbar meu pântano?
238
— Não sabemos o que aconteceu ainda, mas o cheiro do
pântano a deu sono, ela parou para dormir, mas parece preparar
um lugar para dormir.
O ser olha a pedra, não era apenas uma pedra, era uma cama
de madeira, com uma pequena escada para o ponto que a senhora
estava, ele olha em volta e fala.
— E aquela luz que vem lá atrás?
Os demais olham e o ser de Luz fala.
— Eles parecem observar se a senhora vai conseguir, mas são
apenas humanos Pedra.
— Eles acham que vão passar por meu pântano assim, sem
permissão?
O grupo estava avançando quando uma pedra cresce por
baixo do trator o tirando do chão, deixando as rodas rodando no ar,
o senhor Roberto olha para onde a Luz daquele ser se via, e olha
aquele imenso ser de pedra vir no sentido deles.
— Problemas chegando.
Todos olham o ser de pedra encostar-se à frente do trator e
falar.
— Quem invade?
— Curiosos referente à Dalma Rosa. – O padre.
O ser olha à senhora e fala.
— Ela não pode ser uma Rosa, ela não cheira a morte, o
senhor cheira a morte.
Dalma olha o surgir de luz em seu sonho e abre os olhos,
todos olham a senhora brilhar, até o ser de Pedra, olha ela e olha o
céu voltar a brilhar, os seres a volta pareceram se acalmar, a luz os
acalmava, mas Dalma não havia ainda se situado e o ser de Pedra
caminha dando passos rápidos no sentido dela, enquanto o Padre
fez sinal para os demais se acalmarem, o rapaz do volante fez sinal
para todos se segurarem, baixa uma das laterais que se usava para
tirar as rodas do fundo do chão, para ter estabilidade quando
escavando algo, o trator tendeu para o lado, e uma das rodas de
trás toca o chão, o rapaz põem a tração naquela roda e puxa para
fora da rocha, desvia ela e continuam a fazer a volta, enquanto viam
o ser avançar no sentido da senhora.

239
Dalma olha aquela sombra vindo em seu sentido, estava
acordando, e olha aquele imenso ser que grita.
— Quem se atreve a acabar com minha noite.
— Sua noite? – Dalma acordando, os demais espíritos
recuaram, era geralmente neste momento que a violência de Pedra
Viva atingia os demais.
O se olha em volta, e Dalma sente as pedras surgindo do
chão, como se brotassem, e ouve.
— Acha que permitimos mesmo que uma filha da terra
atravessar esta floresta.
— O que seria uma filha da Terra? – Dalma olhando aquele
ser imenso, mais de 10 metros, vindo e chegando rápido, sentiu a
pedra ao seu chão se mexer.
Dalma sabia que este tremor era daqueles que desencadeava
a sua labirintite, ela se abaixa para não cair, e o ser olha ela tocando
o chão, Dalma sente as pedras virem e apenas sabe que mais uma
vez iria a extremos, olha em volta, sente a umidade do ar, e olha
ainda tonta, para as mesmas chegando.
O ser viu tudo chegar muito rápido, e a senhora abaixada,
nada sobraria, era o que o ser pensou sorrindo.
As pedras chegam ao campo de Dalma, e foram se tornando
em pó, ela estica uma mão a frente, no sentido que a casa se
encontrava ao centro daquele terreno e o ser vê as pedras se
tornando pó, e a humidade os ir transformando em uma massa, na
forma de um caminho, uma ponte, e foi se materializando, ele fica
irritado, chega a ponte e bate com as duas mãos, as mesmas
atravessam ela, como se fosse liquida, atingindo o chão, enquanto
ela volta a forma anterior, o ser olha mais irritado, tenta a tocar, ela
parecia ser liquida para ele, como alguém com raiva, joga mais
pedras com seu poder contra Dalma e se coloca no caminho da
ponte, pensando em não deixar ela se materializar ali.
O ser olha para ela sentindo aquilo tomar o contorno de seu
corpo, e começa a endurecer, ele olha revoltado, tenta se mexer e
começa a ficar preso, Dalma ainda nem estava abaixada, muitas
pedras entravam ainda em sua proteção se tornando pó, e no
segundo seguinte absorviam humidade, contornando o ser, que
estava a sua frente, mas que ela não via.
240
Dalma sente as pedras pararem, todos a volta olham aquela
ponte até a casa ao fundo, sobre o mangue a frente, formando um
caminho sem passar pelo pântano, mas o que fez uma lagrima aos
olhos de Dalma, foi ver que o ser estava preso na frente dela,
formando uma imensa estatua, onde tinha o ser com as mãos
erguidas em forma de ataque de magia, mas estático, o caminho
contornava pelos dois lados a estatua, ela não queria isto, mas era
um dos riscos que sabia que teria de absorver, ver seres de poder
presos.
Dalma olha em volta, os espíritos ainda estavam distante e
começa a caminhar naquela ponte, que se materializava e secava
com ela passando.
Todos olham o grande ser de Pedra preso, o ser de Luz olha
para Domt e fala.
— A magia dela sabia que ele não pararia, algo a protege,
olha o resultado a frente, uma ponte em magia, feita de pó e
humidade, mais magia.
— Como algo pode ter tanto poder?
— Isto que não entendo, ela não parece usar o poder, parece
que algo a quer ajudar a chegar a casa.
— Se for ela a esperada, não seria assim? – Domt.
— Sim, mas não pensei que o ser lá dentro ainda tivesse
tamanho poder, tudo a volta está morto.
O padre olha ao longe e olha os demais.
— Algo aquela senhora sabe, pois olha o resultado ao fundo.
— Ela enfrenta, sei que nunca vimos uma bruxa real Padre,
mas esta senhora, se encaixaria na descrição física e de poder.
— Acho que ninguém definiu algo assim. Todos apontam para
esta senhora, mas ninguém nunca conseguiu o poder ou se
equiparou a isto.
— O que seria então ela?
— Não sei, por isto estamos observando. – Padre José
lembrando de um evento trágico bem no passado, fica a olhar meio
sem saber se a senhora era a solução ou mais problemas.
— Ela brilhou na hora certa senhor, o ser de pedra iria nos
atacar, estranhamente, ela brilhar foi o que fez o ser desviar de nós.
– Pedro ao fundo.
241
— E como está Pedro?
— Estranhando como posso estar aqui novamente, mas se
me perguntarem, sonhei.
— Com certeza ninguém vai acreditar mesmo.
Os grupos de almas começam a passar por eles, mas agora
pareciam não prestar atenção neles, estavam seguindo para a
ponte, Roberto olha aquilo e fala.
— Não parece que eles tinha acesso a casa, parece que todos
queriam ir para lá, e os desafios os deixavam no caminho.
— E agora se despreocuparam com nós, ou eles estão nos
distraindo, melhor ficarmos atentos.
— Vamos seguir o caminho normal.
— Vamos, deixa eles caminharem, nós abrimos o caminho,
sem eles olharem, nos dá a chance de ter um caminho de saída se
tudo que a senhora fez desandar. – Padre José.
Dalma caminha calmamente, sem olhar para trás, ela sentia o
grupo crescer, as energias seguirem no sentido, tinha medo de estar
sendo usada, mas se era para enfrentar, ela enfrentaria.
Ela olha a casa cada vez mais perto, o dia pareceu parar, pois
o sol ao céu parecia estático, ela via que sua sombra se mantinha
com poucos centímetros a sua frente, então na mente dela havia
duas respostas para isto, ou o tempo estava estático, ou ela estava
tão cansada, que o pouco que caminhou, pareceu uma eternidade,
embora não tivesse durado nada.
Quando ela olha em volta da casa, viu que a ponte parou
pouco mais de 50 metros da casa, parecia que existia uma energia
ali, pois nem o mato crescia para dentro, uma barreira a tudo, ela
caminha até aquela barreira, e toca ela, sente o corpo ser jogado
para trás, ela fica irritada, pois doeu o ralar no chão, fecha os olhos,
olhando os demais vindo, ela recua uns 10 passos, olha em volta e
toca o chão, os demais viram que uma segunda proteção se formou,
os espíritos começam a se aproximar por todos os lados, mas
quando chegavam a proteção formada por Dalma.
Dalma senta-se a poucos metros da camada, olha para a bolsa
e tira um pano, limpa a mão, passa uma pasta, olha para a proteção,
ela não a deixou sentir, mas se a ideia era os demais chegarem
perto, estavam chegando a toda volta, ela toca o chão e todos
242
ouvem o estalar de algo bem ao fundo, e veem o ser de pedra se
soltando e olhando em volta, loco começa a vir no sentido da
proteção, se era para ser ali o problema, ali seria.
Dalma termina de limpar a mão, e fica a olhar para a casa,
não sabia o que tinha ali, mas seus pensamentos estavam no que
sentira, ela levanta-se e todos a volta viram a aura da senhora,
como se ela agora estivesse brilhando de dia, mais que o sol ao céu,
ela chega perto da proteção, sua aura toca a mesma e ela sente a
proteção e fala alto.
— Não estava me esperando? Se não, vou embora.
Dalma olha para a casa, estática, mas se aquela energia tinha
sua identificação, parecia a querer controlar, ela estava com sua
aura encostada na proteção, mas não fisicamente encostada, sente
a energia a abraçar e olha para a casa, as janelas se abriram, e uma
criança sai pela porta, ela olha para ela, todos a volta viam aquela
criança bonita sair da casa.
— Acha que sai se não deixar?
— Se não me quer dentro, não me quer fora, o que quer?
— A parte que de ti que foi deixada neste caminho.
— Minha parte? – Dalma.
— Você sabe que faz parte deste mundo Dalma de Biograd,
você pode não entender, mas todas as famílias do mundo, queriam
uma parte de sua família, mas apenas a mais velha mantinha a
crença antiga, dai 5 das mais antigas chegam perto e estabelecem
que parariam a crença de Biograd, nesta união, estavam os Weber,
os Jones, os Evòlene, os Rosa, os Wasser.
— E o que eu tenho haver com isto? Eu não sou do caminho,
eu sou a que abandonou o caminho.
A menina olha em volta e fala.
— Veio em questão de horas da divisa a minha porta, todos
que tentaram entrar ou sair, estão no caminho, as poucas almas que
chegaram a entrada, foram apenas aperitivo, elas não resistiram ao
toque da casa.
— Um toque covarde, mas quem é você? – Dalma ainda
tentando entender o que era a menina.
— Pensei que soubesse, que tivesse um motivo para vir, pois
todos diziam que você viria a mim, a semente que foi tirada da sua
243
família, e me gerou, a energia que distorceu este quadrado de mata,
e não sabe quem sou.
— Não tem energia, para ter uma assinatura, não tem corpo,
para ter nome, não tem historia nas paredes da casa, para ter
existido, como eu saberia, talvez isto que no fundo não entenda,
como pode existir algo que não existe?
A criança passa a mão ao ar, Dalma olha em volta, outro
lugar, a casa lhe parecia conhecida, mas agora a reconhecia, a casa
de campo que fora para sua lua de mel, a casa onde ela descobrira
que poderia ter prazer, mas que dificilmente seu parceiro chegaria
ao ponto de lhe dar isto, mas não entendeu, talvez sua duvida, as
figueiras ao fundo não pareciam as mesmas, pareciam ter séculos,
não anos, não, talvez tivessem 60 anos, ela não sabia quanto crescia
uma floresta em 60 anos, estava sentada e uma lagrima lhe corre ao
rosto e esta toca o chão, todos as costas, sentem a energia correr
por eles, a menina olha revoltada, pois o que era uma floresta ao
fundo, começa a mudar de cheiro, as arvores sentem a humidade e
os insetos começarem a entrar na região, além da proteção de
Dalma, a humidade vinda do oeste veio com insetos, com tudo que
tinha direito, e entrou naquele lugar lavando os cantos, o ser de
Pedra olha para o ser de luz e fala.
— O que ela está fazendo?
— Um batismo natural, nos dando condição de nascer.
— Mas para que as coisas quereriam nascer?
O ser de luz olha os pequenos espíritos brilhando a volta, e
começando a renascer, se via as arvores receberem chuva com algo
a mais, não entendeu, mas quando olhou as figueiras ao fundo,
todas para fora da proteção, viu elas jogarem novas folhas e flores.
A menina olha com raiva para Dalma e fala.
— Não pode os libertar, não entendeu, eu sou sua força, eu
sou a sua energia, eu sou o poder aprisionado de sua vida, que os
Biograd passavam a mais velha quando da morte da mais velha das
Matriarcas.
Dalma sorriu, começou a entender o que era a menina, o
sentido de estar ali, mas a menina não entendeu, mas o cheiro que
vinha da floresta a volta começava a mudar, a menina olha em volta
e sente a energia saindo, mas não entendeu, parecia ter energia
244
chegando, muito mais do que a que saíra, olha as pequenas almas
renascendo, mas não entendia como isto poderia gerar mais força
do que as aprisionar.
Dalma olha para aquela menina, sem cheiro, sem existência e
pensa no que sua mãe um dia lhe ensinou, sobre quem vinha a vida,
e lembra dos pontos básicos que ninguém nunca deveria esquecer,
aquilo que valia para todos os seres. Que você receberá um corpo.
Poderá amá-lo ou odiá-lo, mas ele será seu todo o tempo. Se a
criança não tinha cheiro, não nascera. Ela falava que ela aprenderá
lições antes de nascer. Que nascer era estar matriculado numa
escola informal de tempo integral chamada Vida. A cada dia, terá
oportunidade de aprender lições. Poderá amá-las ou considerá-las
idiotas e irrelevantes. Que Não há erros, apenas lições. O
crescimento é um processo de ensaio e erro, de experimentação. Os
experimentos mal sucedidos são parte do processo, assim como
experimentos que, em última análise, funcionam. Que Cada lição é
repetida até ser aprendida. Ela será apresentada a você sob várias
formas. Quando você a tiver aprendido, passará para a próxima.
Aprender lições é uma tarefa sem fim. Não há nenhuma parte da
vida que não contenha lições. Se você está vivo, há lições a serem
aprendidas e ensinadas. A menina a porta parecia não ter
aprendido, tinha força, mas não tinha vivencia. A morte só será
melhor que a vida quando o seu sentir da morte se tornar uma vida.
Você simplesmente terá um outro sentido para a morte, que
novamente parecerá melhor que a vida, dai saberá que chegou a
hora da morte, Dalma sorri, sabia que não era ainda sua hora, pois
na menina não achara nada melhor, apenas desafios de outras
crenças. Lembrou que sua mãe falava que os outros são apenas
espelhos de você. Você não pode amar ou odiar alguma coisa em
outra pessoa, a menos que ela reflita algo que você ame ou deteste
em você mesmo. O que você faz da sua vida é problema seu. Você
tem todas as ferramentas e recursos de que precisa. O que você faz
com eles não é da conta de ninguém. A escolha é sua. Estranha
quando alguém dedica a vida de 5 famílias, no sentido de ser contra
algo, já que aprendera que apenas a sua vida lhe era parte, a dos
demais, não. Dai lembrou dela, com aquele ar de mãe, falando que
as respostas para as questões da vida estão dentro de você. Você só
245
precisa olhar, ouvir e confiar. Lembra dela falando que todos os
conhecimentos estavam dentro de nós, antes de nascermos, então
se esquece de tudo isso, e ainda assim, você se lembra, você sabe o
que é teu e o que é dos demais.
Olha para a menina e fala.
— A verdade é estranha para quem nunca viveu algo menina,
você foi presa nesta casa, não sei quando, não sei por que, mas
estou aqui, com toda minha experiência, para lhe ajudar, mas para
isto, precisa querer ajuda.
— Acha que entendeu o problema?
— Acho que apenas entender não nos faz viver, enfrentar e
entender a verdadeira vida, sim.
— Parece não temer os que se aproximam.
— Um Weber pelo cheiro, que escolheu a religião, um
Wasser, que escolheu os campos laterais, um Evolène que escolheu
ser segurança, um Rosa que resolveu ser motorista e um segurança
Jones? Destes que está falando?
— Sabia quem eles eram, eu os defendi a acordando, mas
sabia quem eles eram, não entendi, eles são a causa de eu estar
aqui, e ao mesmo tempo, eles esperavam chegar aqui, eles não
entendem que sou apenas a vida presa, aquela que nuca vai vir a
vida, você já não pode gerar um filho, e quem seria meu pai já é
morto a 20 ciclos solares.
— Acho que o que não entendeu, é que não existe vivencia
sem vida, não existe desafio sem vivencia, não existe vida sem vida,
então todos a volta, escondem uns dos outros o que realmente
importa, eles em si nem falam de suas origens, todos observam,
mas ninguém confia nos demais, parece que eles se juntaram para
lhe criar, para que este involucro de morte acontecesse, mas
esqueceram de algo primordial, não sei se tem nome?
— Não fui nomeada, para não existir chance de poderem me
prender ou vencer. Mas qual a base primordial que esqueceram.
— Que todo o conhecimento dos Biograd, não vem da família,
vem do planeta, eles não sentem o planeta menina, então a decisão
é sua, quer viver ou morrer, este é o problema.
— Como assim, eu vivo.
— Vive?
246
— Vivo.
— Já correu pelos campos a volta? Experimentou os figos
gostosos daquelas figueiras? Sentiu o poder da chuva sobre um
corpo, tirando força dos fracos, dando força aos fortes?
— Mas que importância tem isto?
— Menina, antes de ter um nome, não terá duvidas, não terá
desafios impossíveis, metas que não vencerá, você não cresce com
o que domina, e sim com o que não domina, você não tem como
aprender sem ter perdas, ou os aprendizados não são profundos
suficientes para gerar uma magia.
— Mas porque alguém quer algo assim?
Os seres do lado de fora continuavam renascendo quando
Roberto, o Padre e o trator chegam a ponta oposta, o trator encosta
na proteção de Dalma e se desmancha ao chão.
O grupo é jogado ao chão e levantam sem falar muito.
— E porque eles estão ai?
— Tem de entender, no fim, ficará apenas eles e 4 seres fora
da proteção.
— 4?
— Dois deles são a junção do orgânico e inorgânico de seu
corpo, transformados em dois seres imensos, sua matéria, terá um
ser que será a faísca de vida que foi tirado de seu corpo, e por final,
a magia dos líquidos sendo eles terra ou agua.
A menina olha os espíritos para fora e fala.
— Esta dizendo que eles são parte de mim, por isto não
conseguem se afastar?
— Não, eles são você, sem eles você é apenas a experiência
de um amor dentro de uma casa, um gozo ao chão, uma semente
no vácuo, uma formação carbônica sem outra substancia, lhe
deixando pura, brilhante, mas sem cor, sem poder de transmissão,
sem vida.
— E como sabe disto, você disse que iria embora.
— Você sabe que eu poderia sair, eles não entendem, pois
todos pensam que eu sou super poderosa pelos feitos no caminho,
mas e a reação de quando batemos em nós mesmos, e não
queremos morrer, geramos uma força que nos seja possível resistir.

247
— Quer dizer que eles não poderiam com você, pois são parte
de você, mas disse que eles são parte de mim.
— Acho que no fundo, tudo que quis dizer é que família é
família, mesmo que alguns achem que são mais, eles apenas
confirmam que não o são.
— E vai me ajudar.
Dalma toca o chão e a energia da casa se desfaz, a menina viu
as almas dos que foram arrastados para lá, se levantarem, não
conhecia ninguém, mas deveriam ser seres que achavam entender
do problema.
Os senhores que estavam jogados ao chão, sentem a
proteção a frente se desfazer e olham para a menina que estava
agora num campo de energia, mas ainda dentro de uma camada de
proteção, que eles não viam.
— Sabia que você era o segredo da família, todos diziam que
não poderia ser fraca. – Roberto.
Padre José olha ele e pergunta.
— A conhece?
— Padre, sei que você é um Weber, mas a muito nossas
famílias geraram isto, nem sei mais o que eles pretendiam, mas sei
que o brinde está ali, aquele ser em energia.
— Acha que é fácil assim? – O motorista.
— Sabe o que é aquele ser?
— Meu pai falava que era a existência da família Biograd, mas
ela não se revelou, todos sabíamos quem ela era, mas todos
parecem querer chegar ao premio sozinhos.
— De que família você é? – Padre.
— Rosa.
— Pelo jeito todos querem mesmo isto, mas como chegar a
ela sem a mesma perceber.
— A senhora está lá sentada, a criança a poucos metros dela,
não sei o que estão conversando, mas não parecem estar brigando.
— Os seres maiores estão chegando as costas da senhora,
não sei o que eles farão.
— Não sei, mas vamos chegando perto, temos de saber o que
está acontecendo.

248
O grupo começa a dar a volta, Pedro parou vendo os demais
olhando para aquela menina em energia, parece a reconhecer,
estranhou, os demais o deixaram ali, os 5 foram no sentido daquilo
que parecia brilhar, ele olha para a menina dentro da proteção e
apenas sorri, senta-se nos restos do veiculo, não teria como sair dali
com ele, teriam de o fazer a pé.
Dalma olha Pedro ao longe, olha os demais, olha para a
menina e fala.
— Eles nem sabem o que é você menina, eles querem o
poder que despertaram nesta terra, mas eles não tem ideia do que
está acontecendo.
A menina olha para Dalma, ela não sabia a saída ainda, ela
tinha suas duvidas, não tinha ainda um caminho fácil, tudo como
estava iria gerar uma briga, uma guerra, algo que muitos não
veriam, mas nas noites do mundo poderia ser sentido, visto, talvez
uma ultima visão de um mundo decadente.
— Sabe que não sei o que fazer, tudo me diz que se absorver
sua energia senhora, serei algo. – A menina olha para a senhora, ela
queria um caminho a seguir, mas parecia não ter certeza de
conseguir, sabia que entre as duas, mesmo uma estando
centímetros da outra, havia um imenso campo de energia.
— Estou aqui para tentar menina. – Dalma estava pensando,
não sabia qual era a melhor saída, não gostava do caminho.
— Não teme a mim, mas o que aconteceria se o fizesse?
— Perderia a chance de ser algo, de andar por suas pernas, de
viver, certo que na forma que está nunca vai envelhecer, nunca vai
amar, nunca vai existir, mas não morrerá, em um corpo, com
certeza morrerá.
Dalma observa os demais pelos olhos da menina, que parecia
querer algo que não lhe servia de nada, pois um corpo velho, era
um corpo velho.
— Os demais estão chegando. – A menina olhando os grandes
seres chegarem as costas da senhora, olha para a forma que
olhavam com medo a senhora, eles não deveriam a temer, a menina
entendeu que eram reflexo dos seus sentimentos.
— Eles me temem assim como a temem menina, mesmo
aqueles que estão dando a volta tentando chegar de surpresa.
249
— Acha que vale a briga.
A menina olha em volta, tentando observar tudo, a casa havia
se desfeito, então via em todos os sentidos.
— Eu não briguei com ninguém, eu nem revidei menina, os
seres atacam e tem de saber, o resistir não quer dizer desafiar, é
apenas manter-se viva para que a diversão deles não acabe.
— Parece esperar algo.
— Sim, mas acho que não acontecerá.
Dalma observava a menina, ela tinha algo que lhe parecia
conhecido, ela observava os rapazes ao longe, ela olhava os seres ao
fundo, mas tinha algo de conhecido.
A menina olha para cima e fala.
— O que faz aqui Pedra Viva?
— Vim ver se ela lhe ameaçava menina, ela me desafiou e
passou pelo pantanal do sono.
— Vejo que alguém finalmente conseguiu, mas o que está
acontecendo, todos a volta parecem renascer?
— Não sabemos menina, os pássaros estão voltando as
arvores, vi algumas arvores florirem depois de muito tempo. – Fala
o ser de Luz.
A menina viu que as coisas estavam estranhas, mas em sua
redoma, achava que estava segura, mas agora não tinha uma casa
mais, ela olha Dalma e fala.
— E como fazemos para resolver este impasse?
— Eles querem a energia desta magia, não sei qual foi feita,
minha família nunca se dedicou a esta parte, as vezes temo a
natureza humana, todo este poder, na mão de animais, as vezes
temo passar a frente, a ciência talvez seja mais eficiente neste
ponto.
A menina olha para o ser de Luz e pergunta.
— Como o que ela fala pode ser real?
— Sabe que é a essência da vida dela que foi presa nesta
casa, a impossibilidade da mais velha gerar um herdeiro, a premissa
de isolar a parte magia do bem, aquela que tenta nos afastar
menina, somos em si seres feitos para o bem, e que praticamos
maldades a muito tempo.

250
— E porque então eles estão por perto ainda? – A menina
olhando para a senhora, mas Dalma não sabia, ela veio por uma
frase, jogada naquele caminho, as vezes achava que nada
aconteceria ali, que não tinha saída.
O ser de pedra olha a senhora e fala.
— Não entendi a conversa, para dar minha opinião, estamos
protegendo a casa, mas os seres ao fundo parecem querer chegar a
você menina, eu me protegia.
Roberto olha ao longe, como se todos vissem eles, ele pega
no bolso um pó que joga a proteção de Dalma, a mesma abre
caminho, ele olha para os demais virem junto, ele chega a segunda
proteção, faz o mesmo e fala.
— Não toquem em nada, o pó vai dizer onde é a porta, todos
que tocarem na porta estão mortos.
O grupo passa para dentro da proteção da menina, ela olha
assustada e ouve Dalma.
— A escolha continua sendo sua menina. – Dalma estica a
mão a frente e a menina olha para as mesmas, ela não sabia se
queria esta aliança, ela olhava os rapazes correndo para ela, viam
aquele senhor que jogara o pó, estavam a mais de 100 metros
ainda, a menina olha para o ser de Pedra que Tenta entrar e a
proteção da menina o joga longe.
O ser cai muito tonto, ao fundo, a menina parecia com medo,
as mãos de Dalma estavam esticadas, mas isto teria de ser uma
escolha da menina, a mesma se vira assustada para os rapazes
chegando, ela era apenas um espirito, ela tentava sentir as coisas e
sente aquele pó que o rapaz jogou a manter fixa, sem mexer-se.
Os olhos de pânico, os demais pareciam estar estáticos,
Dalma sente sua aura e esta começa a fechar, tudo dentro da
proteção estava vindo junto, parte de arvores, o ser de pedra, o ser
de Luz, os olhos dos rapazes estavam sobre a menina, enquanto
Dalma fechava sua aura, eles pareciam que iriam a tocar, e Dalma
estica a mão a frente do corpo e junto com sua aura, toca a
proteção interna, ela sente a força, os seres todos prensados
sentem a energia da proteção da menina, os seres olham para fora
e veem que deixou de ser dia, olham para Roberto que fala.
— A menina de luz, temos de a tocar, e tirar daqui.
251
Os três olham em volta, a menina olha para sua proteção
mudando de cor, ela foi indo do translucido para o vermelho, ela
olha a linha de saída, se desfazer e olha para Dalma, tocando sua
proteção, olha para os seres todos pressionados na sua proteção,
ela não conseguia se mexer muito.
Olha para Dalma que olha para o chão, ela olha suas mãos e
baixa ao chão, sente a energia, sente em sua mente.
“Tem de escolher menina, de que lado estará, da magia da
terra, ou do uso por seres que não entendem de magia.”
— Mas o que faço?
Roberto olha para a menina, não sabia com quem ela estava
falando, olha para a saída, fechada, olha para a proteção
escurecendo, e acelera, eram agora poucos segundos para a tocar.
“Apenas mantem a calma, eles não tem como vencer menina,
quem os dá força, é seu medo.”
— Mas eles entraram na minha proteção.
“Eles entraram, tem uma pequena chance de sair, mas você,
apenas se esquecer o que é, e existência em força, sem ciência,
deixa de existir.”
— Está dizendo que fora daqui sou um nada.
“Não disse isto, disse que eles para lhe tirar, teriam de lhe
tirar as forças, você sem forças, tirada da sua proteção, deixa de
existir.”
Roberto estava quase a tocando, quando vê o motorista a
tocar, e afasta a mão, o rapaz no lugar de ganhar força, fica
translucido, e olha assustado vendo seu corpo cair ao chão.
O padre José tocou segundos depois, então não teve tempo
de ter reação, Roberto olha os demais ficarem translúcidos, olha
para a menina, joga do bolso mais daquele pó, e os demais parecem
gritar de dor, e a menina sorri, e brilha forte, recebendo as almas, as
vivencias, as ciências, normalmente o descobrir de toda a vivencia
de um ser tomava as vezes até dois anos da menina, com 3 novas
vivencias teria muito tempo, Roberto tenta se afastar e olha para
Dalma.
— O que ela fez, com quem ela fala?
Dalma sorri e fala.

252
— Quando eu entender o que estas que sumiram são ou
foram, já estarei morta, mas o que é este pó ai.
— Sal marinho de alta pureza, tirado de placas salinas de
séculos, elas tem a pureza, penetra qualquer magia.
“Agua” – Ouve a menina em sua mente e Roberto olha o
lugar ficar bem úmido, e o sal escorrer pela menina, ele sentiu o
corpo suar e o pó ao bolso quando ele pegou com a mão, era uma
pasta, não mais pó, quando ele joga este bate em uma proteção da
menina que começa a se ampliar e empurrar ele contra a parede, o
ser sente a energia das paredes o empurrarem no sentido oposto, e
sua energia ser queimada e virar pó entre as duas proteções.
A menina olha para Dalma e fala.
— Agora só falta você.
— Fugi por acaso de algo?
Dalma faz um leve movimento com a mão, e a sua aura faz
com os seres externos, o mesmo que a menina fez com os internos,
sente o poder da pedra, o poder da agua, a alma da menina, a faísca
da vida da menina, que olha para Dalma, ela não lhe dera opção,
pois agora ela tinha parte dos seres que lhe protegiam.
A menina olha sua aura puxar para dentro da magia a
senhora, que olha para a menina, sabia que não queria lutar, estava
no fim de sua vida mesmo, mas precisava entender o que havia
feito antes de deixar de existir.
— Não entendo a sua ausência de medo senhora, você me
mostra que tudo a volta poderia ser dilatado e espremido bem mais
cruelmente do que tenho feito, mas estes seres são de um poder
estranho.
— Eles querem saber o que você sabe, você o que eles
sabem, acho que neste ponto isto é o que mais me parece
engraçado, alguém com um poder imenso a mão ter de aprender
como você.
— Sei muito.
— Ainda esperando a sua decisão.
— Não tenho mais alternativa.
Dalma sente a energia da menina vindo em todo sentido,
sabia que poderia resistir, mas resistir era destruir as duas, sente a
carne começar a queimar, mas pensa em umidade sente sua alma,
253
sente seu corpo, as energias, talvez a dor fosse forte demais para
resistir muito tempo.
A menina sente o corpo se formando, sente a alma do ser em
Luz, sente a força da pedra, a existência do barro, a força da Dalma
e olha para fora, olha para aquele rapaz a olhar tudo, Pedro, ela
olha para o mesmo e se levanta, estava com as roupas de Dalma,
olha para as mãos, sente as costas, as dores, se ela nunca sentira
uma dor, agora sabia que a senhora sentia dor, levantar-se não foi
apenas erguer a energia, ela com dificuldade levanta o corpo, acha
o equilíbrio e começa a caminhar no sentido do rapaz.
Dalma sente a sua alma e olha para o rapaz, olha para o susto
do rapaz.
— Como a senhora pode enfrentar tudo o que vi ali.
— Vamos, estou cansada. – Fala a menina, ela não sabia o
que fazer, estava em sua primeira caminhada, a floresta estava
diferente, sente uma energia passar por ela, olha no sentido que
estava, olha para a energia girar em torno de algo, o núcleo do
terreno e viu a casa surgir lá. A menina sente a energia saindo de
seu corpo, ela olha para a casa, olha para o campo de energia, tinha
vontade de voltar, mas não era mais sua casa, não era mais seu
mundo.
— O que está acontecendo agora? – A menina no corpo de
Dalma.
— Não sei senhora, mas está bem?
— Vamos sair, temos de ir agora.
Os dois olham o céu escurecer e olham para a trilha sumir, o
caminho que Dalma havia feito até a saída, parece se fechar
novamente, o olhar de medo da senhora fez o rapaz olhar diferente
para ela.
— O que a assustou, pois até então nada parecia a assustar?
— Não sei o que está acontecendo.
Os dois passam pelo pântano, sentem o feitiço do sono e
adormecem, encostados em uma pedra.

254
Dalma sente a alma ser
arrancada do corpo da menina, não,
de seu corpo, sente que junto com
ela, veio outras coisas, olha para o
centro do terreno, sente a energia do
terreno ressurgir, abre os olhos e vê a
casa se formar a sua volta.
Ela olha pela janela aquela senhora se afastando, olha para o
rapaz ao fundo, sente a energia dos seres ressurgirem na floresta,
eles não eram parte da menina, era sua parte, estranhou isto, mas
sente o ser adormecer, sente a energia fechar as trilhas, seu
caminho que ligara até ali se desfazer.
Seus pensamentos estavam confusos quando acha o Padre
Jose olhando para dentro da casa, em alma a porta.
— Entre Padre.
Ele olha a senhora, olha a outra ao fundo e fala.
— A menina venceu?
— Os jovens sempre tem mais energia, principalmente de
velhos.
— Vai a deixar sair?
— Deve dormir daqui a pouco, tenho de saber até onde posso
ir, sei que todos queriam isto, vocês avançaram, atrapalhando a
iniciação de algo que vocês provocaram, ou alguém provocou
quando éramos jovens e herdamos o problema.
— Minha mãe sempre falou do poder desta terra, que meu
pai, ela e eu viemos, e que meu pai não saiu do terreno, que algo
protegeu a mim, e isto ajudou ela sair, isto ditou todo meu caminho
religioso.
Dalma o olhou e ele continuou.
— Segundo minha mãe, meu pai foi lá verificar segundo um
trato, eu era uma criança, algo sobre uma formação, sobre o
prender da força de uma família, a sua, através de um casamento
que fora induzido, e a casa foi preparada para absorver toda a
255
fertilidade de uma moça, que ali teria sua primeira noite, ele ficou
impressionado com algo, pois minha mãe falava que a casa brilhara
enquanto o casal estava à cama na primeira noite, já na segunda,
eles viram o calor ir encolhendo, e quando o casal foi embora, ele
nos levou lá, para verificar se daria certo, naquele dia, somente eu e
minha mãe saímos da casa, todos os velhos, ficaram lá, dos jovens,
meu pai, que deveria ter sua idade.
— Padre, se quer andar para a cidade, sua saída está livre, se
vai assustar alguém muito raramente, pelo menos não fica preso
neste problema.
— Não nos vai dominar, disseram que você era uma ameaça.
— Era, a força que vocês criaram, a mais de 60 anos, começa
a ter sono ao longe, mas ela é mais forte que toda minhas forças
atuais, mas tem total ignorância da existência.
— Acha que Roberto não saiu?
— Deve se materializa a qualquer instante, mas a existência
ficou neste terreno, mas são livres como almas, se um dia
aprenderem o caminho do Eterno, não percam tempo, dizem que
somente quando se transpassa de um ponto ao outro, se tem
ciência sobre os segredos que para nós são impossíveis de calcular
ou entender, mas vistos da visão superior, apenas a base.
— Não acredita em Cristo? – O padre.
— Se um dia leu o velho testamento, sabe que o Deus de lá,
nunca mandaria um filho para morrer na cruz por nós, ou vocês
querem me convencer que existem dois Deuses, um penaliza até
crianças de Sodoma e Gomorra, até mesmo a esposa do religioso,
um que mata toda a família de Jó para que ele provasse o adorar, e
outro, que manda o filho para morrer por nós, um que nos trata
como servos, outro como filhos, e como todos vocês falam, gritam,
a palavra é uma só.
— Sua alma vai ficar condenada a este lugar por toda vida,
por esta sua fé estupida. – O padre.
— Sei que vou, sou alguém da Terra, somente quando eu
achar o ponto para a outra vida, é que chegarei a ela, não antes, é
meu conhecimento, meu ser, minhas ciências, que vão me levar ao
Eterno, mas muitos de vocês confundem quando falamos em Eterno
como um pronome, um ser, e é apenas uma palavra para definir os
256
seres que lá vivem, assim como definimos os seres aqui de
Humanos, antes daqui, Pré Existentes, depois desta vida, Eternos,
mas como estamos falando de algo superior, não usamos o plural,
pois cada um de nós tem de o conquistar.
— Eu vou achar meu Cristo.
— Religiosos não deveriam ser Weber, mas se algo chegou a
este ponto, não sou eu a causadora, apenas o cheiro de morte da
família aumenta.
O religioso olha para a senhora, ela sabia quem ele era,
parecia até aquele momento não saber e pergunta.
— E vai ficar?
— Como alma – o senhor olha pela janela que ela olhava, e
vê o ser de Pedra se erguendo fora da proteção - tenho minha força,
tenho minha energia, - o senhor viu o ser de Luz surgir – tenho a
faísca da minha vida e os líquidos do meu corpo protegidos, a
menina leva os pesos, eu fico com a energia, mas a pergunta,
porque queriam este peso?
Roberto entra pela porta olhando a senhora em alma e fala.
— Pensamos conseguir com a menina, mas algo a preparou, e
sabemos que não foi você, toda a magia desta terra, ela tomou a
magia das 5 famílias que vieram aqui para prender, tiveram de
oferecer as suas irmãs, para ficar com um pouco da força, mas algo
eles fizeram errado, e assim como sua fertilidade ficou nesta terra,
mantendo a floresta, mesmo sem novos nascimentos, mas aqui
ficou a força dos Weber, Rosa, Jones, Evòlene, e dos Wasser.
— Como falei ao Padre, a alma de vocês está livre a sair desta
maldição, pelo menos por hoje, amanha não sei, então se fosse
vocês, sairia.
— Mas como sabe?
— A senhora vai demorar para sair, enquanto ela não sair,
vocês conseguem, depois, não sei o que acontecerá, pois eu não sou
de magias de retenção, e estou presa em uma.
— Parece calma.
— Tenho de pensar, ainda não sei se vou entrar em pânico,
mas se for, melhor sair enquanto podem.
Roberto olha para o padre e chega até Dalma, olha para ela e
fala.
257
— Você não me parece forte, posso a absorver.
— Não existe esta coisa de absorver almas, não sem carne.
— Não me culpe por tentar. – Roberto encosta no ombro de
Dalma, ela sente a energia dele lhe fazer cocegas no braço, sacode a
cabeça negativamente e ele solta revoltado, olha em volta e fala.
— Eu vou sair, se pode ser a ultima chance, que seja agora.
O padre saiu junto e o grupo olha para mais dois surgirem e
olham para a senhora ao longe, a proteção surgiu a volta dela, eles
olham para o trator ao fundo, era apenas um espectro de trator, o
grupo sobe e começa a sair.
Eles olham o ser de pedra os afastar, e foram para longe da
senhora caída e começam a sair, eles chegam a entrada do terreno,
olham para fora, e viram seus carros parados, a policia chegando ao
local.
Roberto vai a frente, ele tenta falar algo, mas viu as pessoas o
atravessar, olha para o terreno e olham para o portão no local,
como se não tivessem o arrancado, o olhar dos rapazes era de medo
e o grupo ouve o comandante da Policia Militar.
— Não vou por meus rapazes lá dentro a noite, amanha
verificamos direito.
Roberto olha que estavam no fim do dia, e ouve o rapaz ao
fundo falar.
— Acha que eles estão bem?
— Ninguém sabe o que acontece ai dentro rapazes, mas
temos mais sumiços neste terreno, do que nos 10 municípios
vizinhos juntos.
— Vão querer por medo em nós? – Fala um rapaz que veio de
Londrina, achando graça.
O policial olha em volta, sentiu aquele frio na espinha,
Roberto e os rapazes sentem seus corpos serem cercados de
energia, todos olham aqueles cones de energia surgirem a entrada,
e o despedaçar em pequenas almas, o desfazer de 5 almas fez a
cena daquela luz correndo para dentro da mata escura, o portão
abriu e o rapaz que tirara sarro olha querendo dizer que não estava
com medo.
— Fizeram isto para ser uma pegadinha?

258
O rapaz não parecia querer acreditar, mas viu aquele liquido
negro correndo pelo chão, todos recuaram, como se tivesse algo
errado, o mesmo chega por baixo dos 3 carros parados a entrada, os
levanta e arrasta para dentro, o portão se fecha e todos olham
assustados e o comandante fala novamente.
— Meus rapazes não vão entrar ai a noite, se quer entrar, nos
vemos amanha, vamos pessoal, devemos ter problemas mais
importantes na cidade.
Os carros foram saindo e o rapaz ficou com dois vindos de
Londrina na entrada e um fala.
— O que foi aquilo?
— Não sei, eles devem ter feito isto de alguma forma, mas
como, nem ideia.
— Vai querer entrar mesmo?
— Pega a lanterna, vamos olhar um pouco, se tiver
problemas, saímos e voltamos amanha.
O rapaz olha para os dois ao outro carro e fala.
— Passamos o radio se for o caso.
— Certo, observamos de fora. – O rapaz não querendo entrar
naquele terreno, o mais famoso terreno assombrado da região.
Os dois foram entrando, quando entraram, viram o local que
entraram se fechar, o portão se fechar, e crescer, o senhor viu que
não teria como sair, olha o outro, tenta passar um radio, mas o
rapaz ao radio do lado de fora, sente um cheiro estranho e dorme
com o rapaz ao lado.
— Não respondem senhor.
— Como pode existir algo assim, não acredito em maldição,
nestas coisas, isto é coisa para quem tem miolo mole.
— As coisas aqui não parecem se explicar por si. – O rapaz
olhando para dentro.
O comandante olha para onde ele olhava e repara nos topos
dos carros que estavam do lado de fora, como se tivesse passado
muito tempo com eles ali dentro.
Os dois olham os espíritos surgirem a todo lado, pequenos
espíritos que eram a divisão dos primeiros aventureiros, pareciam
seres perdidos, como se não tivessem vontade, o rapaz fez o sinal
da cruz, e viu aquele ser imenso surgir a frente deles.
259
— Quem vem a este caminho?
— Alguém querendo entender o problema, temos 5 rapazes
que entraram, precisamos saber se sobreviveram.
— Se fala daqueles senhores que entraram com um trator,
acho que somente um ainda está vivo.
— O que é você? – Fala o policial puxando a arma.
— Uma dica policial, hoje não estou atacando, mas se vai
acordar as magias negras com um tiro, melhor começara a correr.
— Não acredito em magia negra.
— Eu não acreditava também senhor e estou aqui a mais de
60 anos.
— E sabe quem foi antes?
O ser cresceu, mais um pouco com aquelas garras grandes,
olha para os dois e fala.
— Se falar quem fui ou sou, ficarei aqui eternamente, ainda
tenho esperança, mas aqui me conhecem por Domt.
— E porque nos barra?
— Não barro, mas estou aqui a observar porque acredito que
existem ainda 3 pessoas querendo sair deste lugar, e se alguém
pode ajudar, porque atrapalhar?
— Mas falou em uma pessoa.
— A segunda pessoa é uma senhora que eles seguiam aqui
dentro, que ainda vive, e por terceiro, o verdadeiro eu, mas este
somente se puder sair revelo como é.
— E porque quer ajudar.
— Você não esta preso em uma floresta isolada há 60 anos,
entendo que não entende o quanto é chato aqui dentro.
O ser foi a frente, o que os rapazes achavam assustador, ele
achava bonito, havia vida, flores, pássaros, algo estava diferente,
mas obvio, não acabara ainda.

260
Dalma em espirito sai da casa,
olha as magias, toca sua proteção,
que isolava a casa ao centro e apenas
pensa.
“Desfaça”
A proteção se baixou, o cheiro
da mata, agora viva, veio para a parte
interna, o ser de Pedra olha para ela tocar a estrutura de pedra que
havia se desfeito, e esta se refez, ela caminha até onde o corpo da
senhora e o rapaz dormiam, olha para o ser de luz e fala.
— Algo que não saiba?
— Dois policiais vem para dentro, não entendi a magia
externa, parecemos presos ainda.
— Nem eu e nem a menina saímos ainda.
Dalma sente a proteção da menina, que estava em sua forma,
olha para o rapaz, olha para o Terra Viva olhando ao longe e fala.
— Indica a saída, no sentido dos rapazes que entraram.
— Se os senhores tentarem vir para o centro?
— Eles vão estar querendo sair, não entrar, mas cuida para
eles tomarem o caminho para fora.
— Os do lado de fora dormiram.
Dalma sorriu e fala.
— Sorte deles de ter sobrado apenas a alma das serpentes,
na entrada.
— Vou os acompanhar, mas vai naquele sentido? – Terra
Viva.
— Ainda tenho de entender o que aconteceu na casa, estou a
quase 24 horas aqui dentro, então estamos indo ao fim de meu
tempo aqui dentro.
— E acha que o local vai ficar mais agradável como está
agora?
— O que ninguém entendeu, nem eu, é o começo, quando
isto acontecer, eu talvez entenda como enfrentar isto.
261
Dalma olha os seres e começa a entrar novamente na casa, se
via ao fundo da mesma aquelas cruzes, ela chega naquele pequeno
cemitério, olha os nomes, apenas indígenas, ela toca aquelas
madeiras, das cruzes, sua mão as atravessa, olha para o local, senta-
se olhando a casa, naquele solo sagrado, e olha as almas indígenas
começarem a olhar para ela a volta, se erguendo do chão.
— Está em nossa terra de descanso senhora. – Uma senhora
que parecia bem idosa, a olhando aos olhos.
— Desculpa a confusão, tenho de entender o começo, mas
ainda não posso tocar nas coisas físicas, tenho de usar uma força
que talvez precise mais a frente.
— Não entendi.
Dalma não entendia o que a trouxera exatamente a aquele
lugar, para ela, a menina não teria como vencer, mas a duvida a fez
recuar, pois não queria a destruição das duas, mas naquele
momento ela descobriu algumas coisas, a menina desenvolvera
uma alma, então ela tinha o conhecimento primordial, pois
somente assim ela expulsaria sua alma do corpo, pensou no inicio
que ela não chegara a isto, então primeiro erro foi este.
Ela toca com sua alma o chão, sente a energia e as palavras
da mãe que falava sempre, que quando em alma, se não achar o
Eterno, tem de entender que não existe passado e futuro a uma
alma treinada, ela quase se xingou por não ter se dedicado tanto a
isto.
As almas viram a imagem a frente da casa, começar a recuar,
primeiro lentamente, mas para passar 60 anos, teria de acelerar
aquilo, ela olha para a mata mudar a volta, a casa, apenas magia,
teria de saber o que fizeram.
Ver o evento de trás para frente teve de refazer o evento,
pois viu primeiro a energia da casa surgir no local, ao chão um pó
branco, depois viu os seres tentando sair do terreno, antes do surgir
da casa, eles correram para tentar sair, mas o sal ao chão não
conseguiu o controle da energia.
O espalhar de todo aquele sal, com o chegar e começar de
um ritual.

262
O desmontar da casa, o tirar dali as vigas, as bases, as pedras,
Dalma olha para as pedras ao serem tiradas, e uma lagrima lhe
corre ao rosto.
Chega ao dia anterior, quando ela e o marido saem da casa,
lembra de ter sido algo bem intimo, mas Ariovaldo não parecia
querer mais do que sexo, o que a fez se dedicar a sua profissão mais
quando voltou.
A primeira noite, a cena da casa emitindo energia.
O chegar deles ali.
O grupo se reunir na casa, e com uma espécie de tinta,
pintarem todas as paredes, lavarem as paredes e lajotas com canela
e óleo untado, quase sente o cheiro da casa, como há 60 anos
estava.
Ela para na cena do seu pai indicar o como o fazer para os
demais, sua mãe já era morta a 1 ano, e a traição veio da arvore que
a gerou, como ela poderia ir contra a arvore.
Os espíritos ao lado da senhora a olhavam, e ela tira as mãos
do chão, e a casa a frente se desfaz novamente.
— O que aconteceu senhora, não está feliz.
— Quando seu próprio pai é parte do grupo que lhe
condenou a não ter um filho, quando toda a energia do mundo diz
que as raízes de sua arvore, lhe fazem ir para cima com força, e no
meio disto, a mesma lhe trai, não sei o que falar.
— E o que foi que fizeram ali, o senhor que tinha esta casa,
fazia rituais de matança de nosso povo, isto há 60 anos era floresta
dos índios locais.
— Gente que acredita na parte cruel da força, a que lhe dá
força, mas tem de tirar isto de alguém.
— E qual a sua, pois pelo jeito a moça bonita na historia era a
senhora.
— Sim, eles fizeram um involucro de energia, para aprisionar
a fertilidade, mas me senti duplamente traída, pois a parte do piso
desta casa, virou as paredes laterais de minha casa, em Curitiba,
eles mantiveram o prisão ativa, e ela ainda o está, tudo para que
não tivesse uma filha.
A senhora que a barrara, a senhora mais velha daquela tribo a
olha e pergunta.
263
— Você era de que família, pois eles tentaram matar sua raiz?
— Nada ligada a suas terras, viemos do outro lado do oceano,
de terras férteis, como as deste país, mas somos apenas filhos da
terra, eles que nos nomearam, mas é triste saber que toda sua vida
foi controlada por algo, que os próprios criadores, não viveram nem
para deixar clara a existência do controle.
— Pelo jeito eles desconheciam a força de usa raiz, mesmo
seu pai.
— Ele nunca entendeu, a mais de 100 anos, não temos mais o
nome da raiz pois a exigência de carregar o nome do marido, em um
poder que vem da filha mais velha, gera um caminhar tendo de
saber a origem, mas sem trazer o nome em si.
— E aceitou assim, fácil?
— O poder não está no afirmar, e sim no sentir e saber o que
afirma, as palavras aceitam mentira com uma facilidade, mas o que
eles criaram, não foi algo que minha mãe falasse, eles prenderam
ao solo, a fertilidade, tudo a volta deveria ser vida, mas até ontem,
era tudo morte, pois vale a regra do pássaro preso, do animal
selvagem preso, pode estar ali vivo, mas não é mais o ser, é carne
sobrevivendo.
— Mas parece saber muito do que prenderam, ainda
caminha.
— Não passei a frente, pensei que fosse meu defeito não
gerar um filho, então achei que não era eu a pessoa que deveria
passar a frente, pois se eu não era a herdeira genética que deixaria
a continuidade, pensei que isto seria passado a uma das minhas
irmãs, mas ignorava o que acontecia aqui.
Dalma se levanta vendo a senhora ao fundo abrir os olhos, viu
que ela olhou no sentido da casa, o rapaz ao lado dela também
olhou e falou.
— A casa sumiu de vez, pensei que era uma reação da
menina? – Pedro.
Ele olha a senhora olhando para ele, mas logo após ao
caminho refeito e ouve.
— Vamos sair, o caminho voltou a nos apontar o sentido de
saída.

264
A senhora com dor, começa a caminhar, a alma da menina
dentro dela começa a entender a força que deveria ter aquela
senhora, pois ela começava a se irritar com o seu corpo, imaginava
ter de caminhar muito com aquele corpo.
O olhar para o Pedra Viva ao fundo, olhando para ela, a fez
olhar em volta, eles ficariam, pensou que eram parte dela, mas pelo
jeito quando sentiu a saída daquela força, foram estas que saíram.
Dalma ao longe olha para a área da casa, pensa na humidade
da região, chega ao centro da casa, e fala alto.
— Chuva.
Ela sente a chuva vir sobre ela, lavando aquele chão
violentamente, mas era um solo protegido por uma camada por
mais de 60 anos, em pouco tempo ela estava vendo o sal ao chão
começar a escorrer pelas laterais, ela sente quando sua mente fica
leve, e os pensamentos de sua mãe pareceram vivos em sua mente,
ela olha para os índios ao fundo e toca o chão, as cruzes, para ditos
batismos se tornam pó, os índios parecem mais fortes e livres ao
fundo e a senhora da tribo olha para Dalma.
— Veio libertar a tudo?
— Estas terras vão fazer parte de uma reserva ao lado, para
que não vire plantação de soja ou café, mas primeiro tenho de sair
destas terras.
— Mas não tem carne. – Fala o ser ao fundo, Dalma olha para
o ser de pedra. Dalma sorri e apenas olha para os indígenas e fala.
— Que descubram o caminho do Eterno, pois verão que toda
experiência a mais, vale e é recompensada quando viramos Eternos.
Dalma olha o ser de pedra e fala.
— Vamos, temos de ver de perto as coisas.
— Vai assim? – O ser a olhando e ela apenas toma a forma de
uma ave e começa a voar a frente.
Os demais índios viram que a senhora iria enfrentar com seus
conhecimentos e o índio mais velho chega a mais velha e pergunta.
— O que faremos matriarca?
— Sinto minhas forças naturais depois de muitos anos, ela
soltou nossas almas da terra, ela vai tentar voltar a vida, ela sabe
que tem uma chance.
— Mas ela não morreu? – Um guerreiro ao fundo.
265
— Ela ainda está no segundo dia, ela pode tentar antes do fim
do terceiro o retorno ao estado viva, por isto ela interfere, tem
força, ela ainda está no intervalo de volta.
O grupo olha para a ave voando ao fundo.
A ave olha para o ser de pedra acompanhar ao fundo e o de
Luz, vir no sentido deles, tudo as costas, começa a florir, como se a
floresta fosse a uma florada mesmo fora de época.
O ser de Luz sorri e avança no sentido dos portões de
entrada.
A menina no corpo da senhora, olha para o fim do caminho
de pedra, olha o ser Terra Viva se erguer a sua frente e ela fala.
— O que não entendeu Terra Viva?
— Porque ela quer que você saia, isto que não entendi.
— Ela quem? – Pedro.
O ser olha para o rapaz e fala.
— Quem está no comando neste momento, mas que não
estava ontem.
A senhora olha para traz e olha para aquela ave vindo no
sentido deles, e tudo as costas começava a florir, era outra floresta,
o cheiro de flores, variadas, atravessa eles antes de qualquer outra
coisa.
— Não entendi o que ela quer ainda? – A menina.
— Um corpo, sabe disto. – Terra Viva.
A menina naquele disfarce que lhe pesava olha para o ser e
pergunta.
— Pensei que vocês fossem parte de mim.
— Éramos, mas renascemos, pois uma alma ficou a casa, não
sei o que vai acontecer, mas é bom vocês apertarem o passo.
O rapaz olha a senhora e fala.
— Vamos, pelo jeito os desafios não terminaram.
A menina concordou e começou a caminhar, o indicar do
caminho foi um sinal que a menina não entendeu, mas ela não
entendia de vida, eles estavam atravessando uma mata difícil,
quando olham dois rapazes apontando armas para eles.
— Mãos ao alto.
Pedro parou e esticou a mão, a senhora olha para eles e fala,
estava cansada.
266
— Temos de sair enquanto podemos, não temos muito
tempo para erguer as mãos.
— Os demais? – O rapaz ao fundo.
— Acho que mortos, pois todos que ficaram para traz,
parecem estar mudando o estado da floresta.
— Estado? - O Comandante.
— De morta para viva.
O senhor iria falar algo e viu o ser de Terra viva vindo ao
fundo, olha ao lado e viram o ser de pedra vindo junto, olham para
Domt que recua, como se dizendo que não era de enfrentar aqueles
seres.
— O que é aquilo? – Comandante.
— A magia local chama de Terra Viva e Pedra Viva, temos de
chegar ao portão. – A menina em seu disfarce.
O senhor falou olhando o outro e pergunta.
— E sabem por onde ir?
A menina olha a frente e balança a mão como se apontasse o
sentido e as arvores saem do caminho, e veem bem ao fundo o
portão e ela fala.
— Naquele sentido.
O comandante olha para a senhora assustada, ela não
entendeu o que fez com as mãos, mas olhando os seres o
comandante fala.
— Espero que saibam sair, pois o portão parece não nos
permitir chegar a ele.
— Vamos. – Fala a menina olhando Pedro.
O policial olha o comandante que faz com a cabeça para irem,
eles não viram o Domt, ele não se apresentou, mas viu eles
passarem no sentido do portão.

267
O comandante que não entrara
a noite, volta ao local ao amanhecer e
olha para os dois rapazes dormindo ao
carro, e fala para o auxiliar.
— Acorda os dois folgados.
O rapaz sai confiante para tirar
sarro, embora aquele lugar ainda lhe
passasse medo, o cheiro vindo da floresta mudara, ele abre a porta,
pensando em chamar a atenção dos rapazes e recua de costas, o
olhar de assustado fez outros seres saírem dos carros e irem no
sentido do local, o comandante olha aquela imensa serpente,
translucida sair do carro pela porta e ficar de pé a frente dos
policiais que recuavam, o movimento fez os dois no carro
acordarem, um olha para fora e grita, a serpente olha para os
rapazes, abaixa-se no mato e corre no sentido da mesma, a cara de
assustado de todos contrastavam a cara do comandante que fala.
— Onde está o seu comandante?
O rapaz olha o radio e passa um áudio, ele não sabia se o
comandante havia chamado, mas teria de verificar.
— Tenente Camargo para Comandante Pereira, me ouve?
O comandante que andava de costas no sentido do portão
ouve o radio, depois de uma noite sem nada além de ruídos, e fala.
— Estamos voltando ao portão, se puderem preparar para
abrir ele, agradecemos.
— Problemas?
— Nada que dê para descrever por radio Tenente.
— Alguém vivo? – O outro comandante olhando para o
tenente.
— O comandante Fabio quer saber se tem mais alguém vivo?
— Um rapaz de nome Pedro e uma senhora, não perguntei o
nome ainda.
— E os demais comandante?

268
— Segundo o rapaz, mortos, mas não tenho como chegar ao
local que o rapaz falou que eles entraram, falam que uma menina
em energia os transformou em pó.
— Ele bebeu? – O comandante.
O comandante Pereira ouviu sem o tenente falar e
respondeu.
— Da mesma pinga de medo que o comandante que fez esta
pergunta, mas ele ainda está para dentro, enquanto alguém voltou
a Londrina para se esconder na saia da esposa.
O comandante olha atravessado, mas ele saíra, sabia, mas se
alguém narrar mortes, teria um sobrevivente, reforço, mas era
difícil acreditar nisto.
O tenente olha para o outro e fala.
— Pega as cordas, prendemos no portão e no carro,
esperamos eles chegarem e puxamos com tudo.
O comandante chega ao portão e vê que ele está mais alto,
totalmente fechado e pergunta.
— Como entraram?
— Como se não tivesse problema algum, mas se estão
voltando, vão estar cansados, pois caminharam a noite inteira.
— Ainda terei de ouvir merda daquele comandante.
— Acredito que nem tudo se fala fora daqui senhor, hoje ele
está cansado, amanha ele estará longe e sem motivos para falar
disto novamente.
Os rapazes preparam o local para a chegada dos demais,
ficaram tensos ao portão esperando o sinal quando o radio diz que
estão chegando, o carro liga e começa a fazer força.
Os rapazes chegavam ao portão e veem aquela ave pousar
sobre o portão, toda a floresta a volta flori, os soldados militares do
lado de fora veem as serpentes tentarem se afastar do terreno,
eram apenas espectros, mas elas foram se desfazendo em luz.
Os grandes chegavam, e o policial puxa a arma e aponta para
a ave, a senhora olha para o ato e segura a arma, e fala.
— Calma, aves não existiam nesta mata, não pode ser algo do
lado da morte.
— Mas...

269
— Ela está distribuindo a fertilidade a floresta, algo está a
dando forças, mas manda os rapazes puxarem o portão, vamos sair
daqui. – Fala a senhora apontando os grandes seres vindo no
sentido deles.
O comandante pega o radio e fala.
— Se pudesse ser para agora eu agradecia.
O soldado estava tentando acelerar, mas o carro começava a
afundar na terra e patinar, a ave bate suas asas, quando ela tira os
pés do portão o mesmo se desfaz, o carro acelera quase acertando
os demais, que saem assustados, eles olham o grupo de 4 pessoas
saírem, olham para dentro, e veem aqueles dois seres imensos
vindo, o comandante olha para os demais e fala.
— Tirem estes civis daqui.
O segundo comandante dá a ordem e vê o que saíra olhar
para dentro e vê o ser que falara com eles parar a poucos metros do
portão, olha para ele e fala.
— Nem todos precisam saber do desfecho comandante.
Os demais olham para ele, o rapaz que saíra junto olha os
demais seres começarem a se desfazer em energia, viram o ser de
Luz surgir sobre aquele que se denominou de Domt, e a ave girando
ao fundo, vindo pelas costas do ser que olhava para eles com força
e se desfazer e penetrar no ser que cai de joelho e começa a
encolher, começa a olhar as mãos e Dalma começa a tomar a forma,
de quando tinha uns 20 anos, ela olha as suas roupas rasgadas, olha
para bichos da seda começarem a fazer uma veste branca, que
parece se materializar em seu corpo, a senhora do lado de fora
olhava para a moça, sem saber quem era, Dalma sente a falta de
energia, e cai, a floresta parece acalmar, o cheiro bom surge em
todo lado e sobre um carro ao fundo surgem os corpos dos que
entraram no dia anterior, e milhares de ossos, de pessoas que um
dia foram aprisionadas naquele terreno.
O comandante olha a moça cair e corre para a amparar, pede
ajuda e a tiram dali, ela não tinha documentos, mas parecia que
algo mudara, o olhar do comandante que saíra a noite, era de susto,
mas via-se os corpos ao fundo, via-se os sobreviventes, e não teria
como narrar o que vira ali.

270
Dalma acorda no hospital e olha
Pedro ao lado da cama, estranhou.
— Alguém problema rapaz?
— A senhora foi para sua casa,
não sei o que é aquela senhora, mas
parece que ela ficou com medo de
você.
— Eu não sei do que está falando. – Mente Dalma.
— Que ninguém sabe quem você é, mas você saiu das terras
amaldiçoadas dos Rosa.
— Eles não acreditariam em quem sou rapaz, então não
adianta falar, se quem me conheceu vai estranhar, imagina quem
nunca me viu.
— A senhora parecia com medo.
— Ela foi para onde?
— Curitiba.
— Mas onde em Curitiba, sei que a casa de Dalma Rosa não a
receberia, pois a casa só recebe conhecidos, não desconhecidos.
— Mas ela é Dalma Rosa.
— Pedro, pode não ter entendido, mas aquela senhora, não é
Dalma Rosa, aquela senhora nunca foi nomeada, ela precisa ser
nomeada, mas ela não entende o que aconteceu, se eu estou
tentando pensar, sonhar, entender, imagina ela.
Dalma olha para a porta, viu aquele ser atravessar a porta,
Ariovaldo, o rapaz não via nada, mas ouviu a moça falar.
— Sei que não entende, mas poderia me dar um momento a
sós?
— Vai fugir do hospital?
— Somente quando for a hora de fugir, mas minhas irmãs me
esperam a uma reunião, não posso atrasar muito.
O rapaz saiu e ela olha os olhos de Ariovaldo.
— O que sabia disto Ariovaldo Rosa?

271
— Que haviam preparado algo, soube enquanto estávamos
voltando a Curitiba, da noticia da morte de meu pai, deve lembrar
disto, mas nunca soube o que aconteceu, assim como não sei o que
fez lá, mas o terreno parece ter voltado a vida.
— Eles apenas tentaram evitar que os filhos da terra
deixassem uma menina mais velha como herdeira dos poderes da
terra, aprisionaram lá esta possibilidade, matando tudo que
pudesse ter gerado a mim um peso, ou uma felicidade, mas como
felicidade nunca existiu, assim como tristeza, são instantes de
emoção, alguns se deixam levar e vivem nestes instantes, mas
apenas são pessoas que não entendem o poder de suas vidas, como
podem entender o complexo caminho de uma alma.
— Tem alguém lá tentando se passar por você, suas irmãs
não sabem o que fazem, algumas acham que você foi dominada,
tem um grupo de pessoas que parece querer destruir aquela que se
passa por você.
— Pesos que nunca me neguei caminhar, mas o que faz aqui?
— Você voltou a idade de usa alma, mas parece que ninguém
mais sente a energia, pois estão indo a Curitiba.
— Pelo jeito acabou minha folga.
O senhor sorriu e sumiu.
Dalma olha para a porta e viu o policial entrar, ele olhava para
o medico que fala.
— Ela não tem nada de anormal policial, digamos que é a
internada mais saudável que temos, não podemos manter ela aqui,
precisamos do quarto.
O policial vê a senhora sentar a cama, o medico olha para ela
estalar o dedo e uma roupa surgir em seu corpo, modelo a sua
idade, não da pessoa que aparentava.
O policial viu o medico se assustar e perguntar.
— O que é você?
— Alguém que está querendo chutar para fora doutor, então
saio pela porta por minha perna.
— Tenho de lhe fazer algumas perguntas. – O comandante.
— Aqui, no caminho do aeroporto ou na delegacia
comandante Pereira.
— Sabe quem sou?
272
— Não esqueço pessoas que me apontam uma arma senhor,
mesmo que estivesse apenas na forma de uma ave.
— Do que ela está falando.
— Era você?
— Digamos que é complicado estar preso em uma mata, e
não estar em sua forma original, mas o que precisa saber que caiba
em uma descrição que a policia aceite, que um juiz aceite, mas
tenho de tentar defender uma senhora, pois sabe que eles vão
tentar culpar a senhora daquelas mortes.
— Porque a culpariam? – Comandante.
— Porque Dalma Rosa, era esperada naquele terreno a 20
anos, ela veio agora, mas o vir dela, parou a maldição, surgem os
corpos antigos, os novos, mas as famílias não vão querer deixar isto
como está, vão querer o que queriam na época que geraram
aqueles campos a 60 anos, a magia da senhora, que agora com 80
anos, não parece ser uma ameaça a eles.
— Acha que ela os matou?
— Comandante, se viu Domt, sabe que lá aconteciam coisas
estranhas, se Domt é parte de mim, eu seria mais culpada que a
senhora, mas quero ver você provar isto.
— Preciso saber algumas coisas antes de a liberar.
— Quer oque, o nome de alguém que estava lá a 60 anos? Vai
dizer que não pode ser eu, vai querer minha idade de verdade, 80,
sei que até o medico ai ao lado vai duvidar, para ele eu sou alguém
saudável sem uma única infecção. Se quer motivos para me
prender, então vamos a delegacia, não ao aeroporto.
O comandante olha para a porta e um senhor entra por ela,
não sabia o que estava acontecendo, mas aquele senhor ali, era algo
que Dalma não estava esperando, mas na posição que estava, não
teria como recuar, não estava sentindo as coisas ainda como antes,
sabia que parte de seu controle ficou ao corpo, treinado por anos
para que se protegesse, coisas que absorveu mesmo sem usar
muito, ela olha aquele senhor, deveria ter uns 10 anos a menos que
ela, uma das crianças que não foram a casa, alguém que herdara os
problemas, mas estava ali.
— Não sei se saberia quem eu sou. – Fala o senhor, o medico
estava perdido ao meio.
273
Dalma olha para o doutor e fala.
— Nos daria um tempo doutor, nem tudo que vamos falar
aqui é de compreensão dos demais, e quanto menos se espalha
uma praga, invisível, menos se vê a praga.
— Não entendi.
— Nos daria um momento?
O doutor olha o policial, olha o senhor e sai, Dalma olha para
o comandante, sabia que algo estava errado, mas precisava se
inteirar um pouco mais, pensou neste senhor a porta em Curitiba,
não ali, mas poderia ter mandado filhos e netos, e se isolado para
defender sua vida.
— Se não estou enganada, Max Weber, líder de uma família
destroçada após um evento que ninguém narra, ninguém fala,
ninguém nem sabe que aconteceu nas terras dos Rosa, líder por
herdar após o evento tudo que era de seu pai e avô.
— E não vai dizer quem é?
— Sabe o que sou, vocês me prenderam lá, 60 anos, e quer
dizer que não sabe? – Dalma.
— Eu era uma criança quando isto aconteceu, sei que muitos
querem aquele poder, mas a senhora que entrou, saiu, e você surge
lá como se fosse a força da terra, a senhora ainda esta meio
confusa, parece nem saber quem é, o que pode, ou nos esconde as
mazelas de seu poder.
— Nunca entendeu de filhos da terra senhor, para entender
que o poder não está na pessoa, e sim no que a cerca, uma vez filha
da terra, tudo a volta pode lhe atacar, lhe tentar matar, mas o
mesmo objeto que você lança contra o ser, lhe serve como arma de
defesa, não existe perda para eles, então quando você vê um deles
morrer, é a volta a terra das forças que um dia existiram no ser,
vocês nunca vão conseguir a força que não pertence ao ser, e sim a
crença deles, vocês podem ter me aprisionado em um involucro de
força, mas um dia, alguém chegaria lá e apenas desmancharia o
involucro.
— Alguns querem a condenação da senhora, pela morte dos
rapazes que lá estavam.
— Se acusarem ela disto, vão ter de a acusar de todas as
mortes, em si ela é culpada, pois ela não havia voltado ao local, 60
274
anos se passaram porque ela não veio, mas ela nem sabia da
existência do involucro, se ela aos 20 aos não tivesse terminado sua
formação superior, e sim se voltado a vingança da morte da mãe, e
contra o grupo que a tentou prender, teriam um problema rapaz,
hoje o senhor pode ser uma ameaça para ela, aos 10 anos, não
sobraria Weber sobre o planeta, vocês a prendem em uma magia,
que todos vocês queriam, sofrem a consequência e quer culpar a
vitima daquela covardia?
— Temos de dar respostas aos demais.
Os olhos foram para o comandante e fala.
— E pelo jeito estou presa, pois estes covardes mandam e
você protege assassinos?
— Não disse isto, mas tem de ver que pessoas morreram.
— Ela lhe apontou a saída, estava caminhando ao centro do
terreno onde os demais morreram, então deveria estar
agradecendo estar vivo, e está querendo o mal de quem o tirou de
lá.
— São as leis.
Dalma fecha os olhos e fica em silencio, respira fundo, os
senhores não entenderam o que estava acontecendo, mas não
sabiam quem era a senhora.
Ela abre os olhos, olha o comandante e fala.
— Se era para isto, era só me ter deixado naquele chão, não
precisava me trazer para a cidade, era só me deixar morrer lá.
— Não deixamos vivos perto daquele lugar, embora pareça
outro lugar.
— Não a vai prender? – Weber.
— Ela está sendo detida senhor, mas ainda não me explicou o
que está acontecendo.
— Ele não pode Comandante, tudo que ele tem, tudo mesmo,
ao ser declarado a senhora o que aconteceu, nas leis da magia,
pertencem a senhora, então ele pode bater, mas quanto mais bater,
mais vai dever a senhora, ele sabe disto, vai tentar, pois eles não
conseguiram desfazer, e estavam lá através de um padre, irmão
mais velho de Max, tentando se apropriar daquela força.
— José se voltou a outro lado, ele queria parar aquilo, ele
nunca entendeu o poder daquilo.
275
— Nem você, mas se vão me prender, vamos desocupar o
quarto para outro que precise.
A moça sai presa do local, enquanto o senhor Max embarca
para Curitiba.

276
Rita estava na casa da irmã,
olha para fora e todas se olham, um
vulto surge ao centro da peça e fala
olhando para Rita, a mais jovem.
— Se cuidem Irmãs, eu ainda
vivo, mas os Weber, os Rosa, os Jones,
os Evòlene, e os Wasser, querem a
força da menina em meu corpo lá fora, estou pedindo que a
protejam, ela é a força da terra que nossa mãe sempre falou, mas
estava presa em um involucro de poder, peço apenas que a
protejam, e se protejam, sabem o peso disto, pois são filhas da
terra.
— Mas quem é a senhora em seu corpo?
— Um ser sem nome, não foi nomeado, não foi preparado,
apenas isolado, se ela tivesse nascido a 60 anos, seria minha filha,
mas alguém a aprisionou para nunca nascer.
O espectro some e todas se olham.
Rita olha para Catherine, a segunda mais velha e pergunta.
— O que ela quis dizer?
— Que alguém prendeu a essência da família, em um
involucro, ela o soltou através de seu corpo – Catherine olha as 5
irmãs presentes, e algumas sobrinhas – o problema é que nos
entrelaçaram a estas famílias, hoje carrego o Jones no nome, Rita
carrega o Weber, Carolina carrega o Wasser, Mirian carrega o
Evòlene, então ou unimos as forças e enfrentamos, ou todas as
famílias se degeneram.
Catherine sai pela porta, as irmãs olham ao fundo e olha
aquela senhora e fala.
— Podemos conversar?
— Não entendeu nada Catherine.
— Não havia entendido, mas melhor entrar, nossos inimigos
em comum devem estar chegando.
— Agora vão me receber, não entendi.
277
— Entre, não sei ainda se entendeu o involucro que foi
colocada, mas deve estar cansada.
A menina dentro do corpo de Dalma estranha, viu que
conseguiu entrar agora, antes sentia seus músculos pararem, como
se não tivesse autorização a entrar.
As demais olham para a senhora, difícil ver alguém que não
fosse sua irmã naquele corpo, mas ela não se comportava como sua
irmã, a sentam a cozinha e Rita fez um chá, o gato chega a porta e
sai novamente, como se soubesse que não era Dalma.
— Sei que não deve estar entendendo nada moça. – Fala Rita
olhando a irmã, a forma de olhar, de se portar, diziam facilmente
que não era a irmã. Alcança o chã e vê a mesma olhar as demais a
olhando, ela era a mais velha, mas ali, estava diante de pessoas que
não sabia quem eram.
— Parecem saber mais que eu. – A menina.
Catherine olha para Rita e fala.
— Temos de dar a ela um nome, primeiro nome, pois não vou
conseguir a chamar de Dalma.
— Quem são vocês?
Carolina olha para Catherine e pergunta.
— O que aconteceu, não me explicaram nada.
— Eu explico irmã, posso ter causado isto. – Rita.
— Não entendi.
— Moça, somos o que os demais chamam de as filhas dos
Rosas, mas nunca fomos isto, somos as filhas de Margarita Biograd,
deixar claro que este sobrenome não é o nosso, pois não tínhamos
sobrenomes, somos seres da terra, então nome serve para facilitar
comunicação, mas não nos define, sobrenome, estabelece a raiz da
família, mas minha mãe já não carregava este sobrenome e sim do
marido, leis da época.
— Mas o que causou? – Catherine.
— Disse que sonhei que o pai teria deixado um terreno em
Londrina que era pura floresta, e perguntei para Dalma se não sabia
de nada, ela não se mostrou prestativa, mas ela nunca foi de nos
passa a mão a cabeça mesmo.
— Ela foi a Londrina e algo aconteceu, é isto? – Carolina.
— Sim.
278
— Meu marido recebeu uma ligação de lá a 2 dias, algo
referente a fazerem uma reunião lá.
— Ele foi?
— Não, mas o convocaram e parece que o patriarca da família
vem a cidade, para falar com ele.
— Eles querem o poder que está retido no corpo de nossa
irmã Carolina, eles querem algo que não nos é parte, pois nossa
energia vai a terra, mas se nossa irmã ainda não foi, e já nos
comunica o perigo, temos de entender o problema antes de
perdermos tudo em uma guerra que ninguém vai ganhar nada. –
Catherine.
A mesma olha a senhora e pergunta.
— Como a chamavam, alguém deve a ter dado um nome?
— O Terra Viva me chamava de Agnes, mas eu não entendo
porque ele iria me chamar assim.
O olhar de Catherine foi a Carolina que fala.
— Seres da terra são ligados ao grego, não me pergunte
porque, mas Agnes é Pura que não existe negatividade capaz de a
vencer.
Catherine olha para ela e fala.
— Escolhemos o nome, e tem de saber se aceita, a
chamaremos de Agnes Biograd.
A menina fala para si o nome e estranha sentir suas forças
voltarem, as demais olham para ela e Rita pergunta.
— Como ela fez este crescer de força?
— Ela não cresceu em força irmã, ela fixou sobre ela, sobre
um ser nomeado, a força que ela tinha. – Catherine.
— Então ela é a herdeira que nossa irmã falava não poder
gerar?
— Ela é a experiência herdeira de duas pessoas aprisionada,
não sei como o fizeram, mas seria nossa sobrinha, como ela falou,
filha dela, se tivesse nascido a 60 anos.
Agnes olha para Catherine e pergunta.
— Como falam com aquela senhora?
— Ela ainda não morreu, não sei como, mas ela alertou todas
as linhas Biograd que existia um risco de existência, isto deve ter
alertado gente até do outro lado do oceano, mas seja bem vinda.
279
— Estão dizendo que ela intercedeu por mim, mesmo eu me
prendendo ao corpo dela?
— Ela não nos explicou tudo, mas ela sabe se posicionar
menina, se tem alguém que quando põem algo a mente vai a frente,
é Dalma, ela pode parecer uma senhora hoje, mas ela da forma
dela, manteve nossas tradições, mesmo a desafiando através da
ciência. Ela tenta a vida inteira negar o que tem dentro dela, nossa
mãe falou que ela quando jovem fazia o mesmo, mas Dalma parece
ter se prendido a desafiar pois não passaria a frente, não parecia
poder gerar descendentes, embora toda a ciência dela afirmassem
que ela e o marido eram férteis.
— E o que faremos?
— Observar e ir para casa. – Catherine.
— Não entendi. – Rita.
— Nossos maridos serão chamados a algo, a ultima vez que as
5 forças se uniram para algo, sei lá, dizem que teve uma reunião a
60 anos, se duvidar foi bem sobre este terreno que nos omitiam
existir. – Catherine.
— Acha que plantaram o sonho? – Rita.
— Acho que as coisas acontecem quando tem de acontecer,
todas nós estarmos aqui, é parte de algo que acontece todo ano,
mas nossa irmã foi lá antes de nos encontrar, sinal que ela sabia de
algo, mas talvez não soubesse oque.
As senhoras inteiraram Agnes de algumas poucas coisas e
começam a ajeitar as coisas, como se não tivessem estado ali.
As senhoras foram saindo e Agnes olha para o gato ao longe,
sente a energia do local, forte, olha as madeiras a parede, entendeu
o que eles fizeram, eles mantiveram a prisão, ela olha para as
madeiras e parte das paredes se desfez, caindo ao fundo, ela olha o
piso da casa, o desfez, ela estava destruindo a casa de Dalma, ela
olha para a força local crescer, tudo era controlado, a senhora
nunca deve ter sentido todo seu poder, todo retido, decaindo, olha
para a parede do fundo, olha para suas mãos, pensa em pedras, e
viu o chão se refazer, olha a parede, e uma de alvenaria isola a
madeira, segurando o telhado, sente a madeira se desfazer e olha
para fora, as ervas eram a parte sem influencia da casa, por isto

280
sentiu a energia do chá, algo que a senhora plantara com as mãos
em um solo não controlado.
Ela sai e olha o telhado, telhas de amianto, sinal que trocaram
as mesmas com o tempo, permitindo o não definhar dela dentro da
casa, mesmo com os problemas da idade.
Olha para os muros, os vizinhos iriam estranhar, mas a toda
volta sobe um muro paralelo ao que tinha, Agnes olha para o
portão, sente a energia, entra com as dores da idade, controlar o
meio era mais fácil do que mexer o corpo.
Ela vai ao portão e um senhor a olha.
— Dalma Rosa?
— Sim.
— Investigador Carlos Silva, pediram para verificar se estava
em casa, e lhe fazer algumas perguntas.
— Perguntas?
— Posso entrar.
— Não ligando para a casa de uma senhora de idade com
pouca mobilidade, tudo bem.
Agnes abre caminho e chega a cozinha, vendo que o chá
ainda estava quente, oferece um ao senhor, que estranha a
simplicidade da casa, parecia algo novo, o piso parecia brilhar
demais, as paredes aparentando novas.
— Aceito.
O senhor olha para ela e pergunta.
— Ainda não sei nada sobre este inquérito senhora,
mandaram eu fazer um levantamento sobre assassinatos, cheguei
pensando em achar algo, juro que não havia observado a data de
nascimento da suspeita.
— Do que me acusam senhor.
— De ter se envolvido em uma mortandade em Londrina.
— Quais as duvidas senhor? – Agnes que via o senhor
receoso, pareceu acalmar com o chá, algo que sentia também com
aqueles chás naturais.
— Me mandaram perguntar o que foi fazer em um terreno
em Londrina.

281
— Ver, minha sobrinha perguntou dele, me inteirei que meu
pai tinha um terreno lá, e depois de 60 anos voltei a pisar no
terreno, nem sabia que ainda estava em nome da família.
— E os senhores que entraram lá e surgiram mortos.
— Não entendi tudo, mas como disse, o terreno era da
família, não sei o que eles estavam fazendo lá, ouvi absurdos de que
a terra era amaldiçoada de um padre, para que não chegasse perto,
ouvi ameaças de um outro senhor, não sei o nome, apenas fui lá,
verifiquei que o terreno está lá e não é amaldiçoado, e voltei.
O senhor pega uma foto e coloca a mesa, e pergunta.
— Conhece esta senhora?
Agnes olha a parede, olha para o senhor e fala.
— A única pessoa que conheci com este rosto, morreu
quando eu tinha 19 anos senhor, minha mãe. – A senhora aponta a
foto a parede, o senhor olha para a foto, e para a pintura a parede,
parecia a mesma pessoa, pega uma câmera e tira uma foto e fala.
— Esta senhora surgiu no terreno, de algo que não sei como
narrar, me colocam no papel e eu que passo por maluco.
— O que escreveram?
— Que ela surgiu após um ser imenso, se fundir com um ser
de pedra e um de luz e ser atravessado por uma ave, ela surgiu nua
ao chão, alguns bichos da seda formaram a roupa dela, que parece
ter chego ao corpo dela como se flutuando, eles devem estar
fumando algo naquele lugar.
— É uma floresta natural, não tem nada que não seja natural
naquele lugar senhor.
— Mas entende onde a descrição é incrível demais.
— Sei, seres de pedra não existem, seres de luz não existem,
e nada é atravessado, pássaros não atravessam pedra.
— Pediram para que não saia da cidade, não sei o que acham
que a senhora pode ter feito.
— Também não, mas não pretendo sair, por sinal, a mais de
20 anos, desde a morte de meu marido não saia da cidade, então
não pretendo sair, fui apenas verificar, agora coloco na mão de um
corretor e nem preciso pisar lá novamente.

282
Dalma estava em uma cela
super lotada de delegacia de Londrina
quando é levada a depor, ela olha
para o delegado, talvez mesmo
naquele corpo mais novo, ainda fosse
a forma de olhar de Dalma, de alguém
que não levara a vida pelo lado feliz,
ela fizera o que lhe era confortável, bom para a alma, mas nem
sempre feliz, nem sempre triste, apenas saudável.
— Sente-se senhora.
Dalma não falou nada, ela não teria o que falar, se os
poderosos estavam querendo algo, ela poderia os mostrar o
caminho, ela sente o cheiro e fala.
— Do que sou acusado Delegado Sergio Wasser?
— Sabe quem sou, bom, mas lhe acusam de assassinato.
— Matei como? A arma, com as mãos, com um sopro?
— Não me passam dados referente.
— Mantem pessoas presas porque ouviu alguém falar, seria
isto?
— Não estou sobre analise senhora.
— Sei, mas fala para os seus, que se os Wasser, os Weber, os
Rosa, os Evolène e os Jones querem a família Biograd como inimiga,
melhor começarem a correr, pois hoje todos sabem de onde veio o
ataque, todos sabem que vocês se uniram, sei que o escrivão não
está entendendo nada, mas eu fico presa, eles morrem, pois se acha
que eles vão ficar olhando velhos, mandarem os filhos morrerem e
não fazer nada, não espere que fiquem quietos.
— Sabe que está se complicando.
— Sei que não passo na primeira pergunta, então não vou a
responder, pois tudo seria desmentido, então não me preocupo
com complicação, vocês que estarão se matando mesmo, se estiver
presa, mesmo sem identificação, sem acusação, sem provas, não
serei culpada do que acontecer.
283
— E qual a primeira pergunta que não passaria?
— Nome e idade.
O senhor olha para ela, esperava algo para depois da
identificação, então sabia que algo estava errado, quando
mandaram para sua delegacia, sabia que era o grupo que mandara,
pois não tinham nem acusação no papel.
— E porque não passaria?
— Delegado, quando vim a cidade, não tinha ideia do que
estava acontecendo, não me culpe por seu irmão Roberto entrar lá,
ele não deveria ter entrado, vocês mais que eu sabiam que não
deveriam entrar, não pode culpar alguém por sobreviver aquilo.
— Quem é você?
— Se tem uma imagem minha a mesa, andaram a falar com
Dalma Rosa, mas aquilo é um retrato feito a 80 anos.
— E não tem como ser você.
— Qualquer um ligado aos Rosa, aos Weber, Wasser, Jones,
Evolène sabem que Margarita de Biograd morreu a 61 anos senhor.
O escrivão olha para o delegado e pergunta.
— Quer que digite isto?
— As vezes para que os demais tenham ciência do problema,
pois se entendeu Carlos, sinal que ligou as peças.
Dalma soube que era alguém ligado a historia, ela olha o
senhor ao computador e este falou.
— Todos somos mais novos que Dalma, na verdade somos
mais novos que o evento em si, dos mais velhos, Jose Weber foi
uma perda, pois ele sabia diferenciar a verdade, mas poucos se
falavam, se soubessem o que aconteceria, não se afastariam uns
dos outros, Roberto pediu auxilio para ir lá a dois dias, ninguém deu
bola, pois todos consideravam uma historia a deixar para lá, mas
todos sabiam que Roberto queria o poder, mas poucos sabiam que
Roberto era um Wasser, a própria historia ficou ao fundo, e o tempo
apontava apenas uma senhora em Curitiba, em seu involucro de
proteção, que todos queriam ter acesso, mas ninguém conseguia
entrar na casa.
— Aquela é uma casa das Irmãs Biograd, nem os irmãos vão
lá, pois sabem que é uma casa pesada em forças, não entendia

284
porque tão pesada antes, mas é que parte da historia, até eu não
sabia.
— Fala as vezes como se fosse Dalma, as vezes como se fosse
Margarita, quem é você? – Escrivão.
— Algo que não existe, não tenho documentos senhor, terei
de assumir um, mas quando o fizer, não pretendo ser seguida por
vocês, não podem me deixar presa muito tempo.
— Não vai falar pelo jeito. – Delegado.
— Meu crime maior, é talvez ter se me passar por maluca,
por alguém que não lembra quem é, uma hora terei meu caminho
aberto, não tenho pressa para isto.
— Não imagina o que eles vão fazer? – Escrivão.
— Acho que ninguém ouviu ou quer ouvir a verdade rapaz, se
alguém acha que pode com Dalma Rosa, é por ignorar que ela é
uma Biograd, ou por achar que as outras 5 famílias conseguem com
a magia fora de controle.
O delegado olha para a senhora, olha para o escrivão e fala.
— O que eles querem com esta prisão?
— Eles não sabem quem ela é, mas mandaram um
investigador ignorando a historia entrevistar Dalma em Curitiba,
obvio que qualquer pessoa diante de uma senhora de 80 anos, acha
que ela é inofensiva.
— Porque não mandaram alguém que soubesse de algo.
Dalma sorriu e o delegado a olhou.
— O que tem de graça?
— Primeiro que ninguém das famílias que falei, conseguiria
entrar na casa, depois, o que eles saberiam a mais que um
investigador normal, já que vocês mesmo pelo jeito estão correndo
atrás das informações.
— Alguém poderia a pressionar, e não acredito que ninguém
entrasse.
— Está falando daquele sal puro, certo, entrar e não
conseguir administrar seus próprios pensamentos, deve ser pior do
que apenas não entrar.
— Pelo jeito conhece a casa.
— Eu conhecia uma casa, mas sinto que tudo mudou, então
não adianta tentar adivinhar, mas sinto uma casa mais forte.
285
— Mesmo daqui.
— Mesmo os seres na Dalmácia sabem que a casa de Dalma
está mais forte.
— O que é Dalmácia?
— Um local, casa de um massacre que não está na historia,
dos tantos feitos por religiosos e bruxos.
— E acredita que não entraríamos?
— Não sei ao certo, mas quer começar o depoimento ou
vamos ficar enrolando.
— Se não vai nem falar seu nome.
— Não me adianta mentir, então melhor não falar.
— Vai dizer que acredita no Não Mentir. – O delegado a
olhando atravessado.
— Não falei a nível de magia, de religião, falei a nível de lei
dos homens. – Dalma.
O delegado manda ela novamente para a cela, teria de
pensar, ele não conseguiu entender o problema.

286
Catherine chega em casa, na
região central e Marcos, seu marido a
olha e pergunta.
— Já em casa?
— Algum problema Marcos?
— Uns amigos querem
conversar, pensei que demoraria
mais, as vezes esquece de voltar quando vai a casa da sua irmã.
— Ela chegou cansada, não sei onde foi, mas nos colocou
para fora, disse que remarca, ele parecia acabada.
— E o que ela fez que a cansou tanto?
— Não sei, mas algo haver com enfrentar seres que são
mitologia para mim, já que Terra Viva, é um ser de energia pura que
protege uma existência, um ser em si, Pedra Viva, a parte matéria
não liquida do mesmo corpo, mas não entendi ainda o que
aconteceu e onde.
— Vou receber eles no escritório, algum problema?
— Vou subir, aquela casa parece acabar com a força da gente.
Catherine sobe e o senhor olha para o motorista e pergunta.
— Algum problema?
— Não entendi, primeiro a irmã delas chegou lá, elas não a
receberam, a deixaram para fora, depois sua esposa foi lá e a fez
entrar, mas elas parecem ter brigado, não sei o que aconteceu, mas
ninguém que saiu de lá parecia feliz.
— E não parece bem, mas as vezes elas discutem, e aquelas
ali quando discutem a coisa é pesada.
— Algo mais senhor.
— Algumas pessoas vão chegar, apenas faz eles estacionarem
certo, odeio a ideia de estacionando sobre as gramas.
O motorista sai e o senhor Marcos entra na peça ao lado, olha
seu avô ali, ele chegara antes, queria falar, mas não sabia sobre
oque.
— O que aconteceu Patriarca?
287
— Esta historia é passado, ou era até quinta, alguém resolveu
jogar Dalma sobre o terreno que eles tem em Londrina, um terreno
que os locais chamam de amaldiçoado, a mais de 60 anos, seu pai,
resolveu fazer um conluio com outros Patriarcas de famílias de
poder, desenvolveram uma redoma de retenção de poder, a ideia
dele nunca soube qual era, mas acredito que foi aquela coisa que
falava de amar Dalma e ela nunca ter lhe olhado e casado com
aquele pulha dos Rosa, dai ele se aproxima do Rosa pai, que acabara
de oferecer o seu filho em casamento, ele sabia que o poder da
família Biograd seria passada toda a filha mais velha, a mãe dela
havia morrido a poucos dias, então decidem atrair o senhor Biograd,
que parecia ainda perdido sem Margarita por perto, para tentar no
momento de passagem do poder, que todas as crenças acreditavam
ser na primeira noite da moça, atrair para as demais famílias o
poder, eles juntaram todos os grupos, todas as ideias e criaram um
involucro, sentia-se a energia do involucro mesmo de Londrina, na
noite que o casal saiu da casa, mas no dia que marcaram para se
apoderar da energia, algo aconteceu, ninguém sabe o que fizeram
errado, mas apenas duas pessoas saíram vivas daquele terreno
naquele dia, a esposa do Patriarca dos Weber e o filho dela, todo
resto morreu naquele lugar, muitos tentaram entender, todos que
entraram, não saíram. Há 30 anos, o grupo tentou novamente
entender, eles mandaram um grupo, ninguém saiu, os filhos
revoltados, pegaram 6 tratores, e prenderam correntes dos dois
lados, e atravessaram o terreno arrastando todas as arvores,
quando eles terminaram de derrubar tudo, uma luz se fez no centro
daquele terreno, tudo que tinham arrastado, apodreceu como se
estivesse morto a muito tempo, e uma linha de novas arvores
surgiu, fizemos os enterros simbólicos e muitos se propuseram a
esquecer que o terreno existia.
— Mas o que aconteceu agora?
— Alguém chamou Dalma à região, quase todos que
acompanharam morreram, pelo jeito ela achou um no caminho e o
trouxe para fora, mas novamente tivemos mortes lá, mas sempre
tentamos jogar nos demais o erro, mas desta vez, todos estão
tensos, pois a praga não parece estar mais sobre o terreno.
— Como não?
288
— O terreno cheirava a morte, os vizinhos falam que as
arvores voltaram a florir, que os pássaros voltaram a região, e que o
cheiro vindo da mata não é mais de podre.
— Então acham que a senhora se apoderou do que lhe fora
imposto lá?
— Ela é uma senhora, conhece ela neto, uma senhora, a mais
velha das Biograd, mas como houve mortes, houve uma aparição
que não parece fazer sentido.
— Qual?
O senhor passa uma foto para o rapaz e fala.
— Esta senhora surgiu em Londrina, na entrada do terreno,
depois de Dalma já ter saído.
— Quem é?
— Não tenho certeza, mas se parece muito, diria muito
mesmo, com Margarita, a conheci nesta idade, diria que é ela, mas
pode ser outra coisa.
— Mas como isto aconteceria?
— Ninguém sabe, os Weber vão mandar uma moça, para
tentar descobrir o que aconteceu, mas como as filhas, netas e
bisnetas diretas sabem que é a sua raiz que está ameaçada,
precisamos por alguém que não seja da raiz Biograd, mas que
possamos confiar nas afirmações.
— O que os demais acham?
— Não sei ainda neto, não sei.

289
Era fim da tarde quando uma
determinação de soltura da
prisioneira Dalma Biograd, com a
apresentação dos documentos dela,
chega ao delegado, ele não entendeu,
não era Dalma Rosa, e sim uma
Biograd, quem era a senhora, não
entendeu o que estava acontecendo, mas uma determinação
judicial teria de ser cumprida, a moça foi tirada da cela, Dalma não
entendeu, viu o senhor lhe alcançar os seus documentos, assinou o
papel de saída, e na porta olha para Pedro, ela não sabia quem era,
mas ele estava no hospital, ele agora estava ali, com certeza ele que
providenciara sua soltura.
— Foi você?
— Precisamos conversar senhora.
— Sabe quem sou?
— Sei que vi a senhora, quando na forma de alma, quando
me olhou e perguntou se queria voltar ou ficar, na mata, sei que é a
senhora, eles não entenderam, mas sinal que a menina saiu.
— Sabe que isto que eles querem saber.
— Eles não acreditariam se alguém falasse, porque eles
duvidariam dos olhos, em prol da verdade.
— E o que quer falar?
— Como ajudo?
— Porque quer ajudar?
— Os demais me deixariam lá, você não duvidou em me
oferecer a volta, os demais nem me viam antes de você me olhar.
— Sei que parece besteira, mas preciso voltar a Curitiba,
tenho de falar com Dalma Rosa.
— Estranhou os documentos?
— Sim, pelo jeito você também faz suas interferências.

290
— Digamos que tenho um tio que vive na cidade de Curitiba,
ele sempre diz para não duvidar das forças da terra, eu me achava
quase imortal quando o espirito me puxou para fora do corpo.
— De que família você é?
— Buzau!
— Um Moroi não deveria se arriscar assim, eles nem devem
saber quem você é. – Dalma se referindo aos herdeiros de uma
maldição, que a séculos correm por estas terras, olhando o rapaz,
aparência normal, cheiro de muito velho, a raiz que a mais de 2 mil
anos, nas montanhas da atual Romênia, montes Transilvanicos,
gerou a lenda hoje deturbada dos Vampiros e Lobisomens, como
Dalma sabia que os Weber era uma subdivisão de 500 anos, onde
parte dos lobos, se afastaram abandonando parte da cultura, a
historia ganhava um ser de força, mas para ela que não sabia que o
cheiro era deles, começa a lembrar que já sentira aquele cheiro em
sua cidade.
— Devem saber algo, mas oque, nem ideia.
— Vamos como para Curitiba?
O rapaz a indicou o carro, foram ao aeroclube ao lado do
aeroporto de Londrina e decolam em um motor para Curitiba.
— Quando os seus se instalaram em Curitiba, pensei que
estavam bem longe.
— Um Rosa nos atraiu para cá, foi alguns anos, mas a parte
que ninguém mais fala dos Rosa.
— O aliado de Beliel?
— Sim, o aliado de Beliel, mas este parece ter se afastado de
vez, nunca entendi esta parte da historia, mas esta parte da família
Rosa ninguém fala.
— Pedro Rosa é uma lenda mesmo para mim. – Dalma
olhando o documento.
— Acabamos nos aliando a cartórios, pois temos um
problema sério, ter de trocar de nome de tempo em tempo, pois
ninguém vive como eu, 300 anos, muito menos 2 mil e trezentos
anos como nosso patriarca.
Dalma sorriu, a ajuda veio de onde ela não esperava, sabia
que o rapaz tinha um cheiro diferente, mas aquele cheiro de tempo

291
tentou ligar a conhecimento, não a idade, se deixara levar pelos
olhos, ela sorri de seus próprios pensamentos.
Embarcam para Curitiba, onde um grupo de duas moças e
dois rapazes saem no sentido da casa de Dalma, atravessando a
cidade para a parte que consideravam pobre, via-se na reação da
moça que bate a porta que estava no lugar errado.
O grupo bate a porta de Agnes.
A senhora olha para a campainha, ainda estanhava estas
coisas, mas a simplicidade daquela casa pelo menos não a fazia
sentir-se como o corpo ao espelho mostrava.
Caminha com dificuldade até o portão, o abre e olha aqueles
jovens.
— Em que posso ajudar crianças?
A moça olha para a senhora, pensou em alguém mais
poderosa, talvez a primeira imagem não tenha facilitado, mas a
moça fala.
— Poderíamos trocar uma ideia senhora Dalma?
— Quem são, já que pelo jeito me conhecem.
— Nossos pais mandaram nós falar com você, parece que
existe um mal entendido entre nossas famílias, eles querem paz,
não sei se poderíamos conversar sobre isto.
Dalma sente as energias, olha para a moça e fala.
— Entrem.
As moças entraram e somente quando Dalma fez com a mão
para os dois rapazes entrarem pareceram conseguir entrar, eles não
falariam que estavam barrados ali, mas quando conseguiram entrar
pensaram se não foi apenas impressão, um deles não acreditou
nisto.
Agnes olha aquele grupo, pensa no que estavam fazendo ali,
olha eles e sentando-se fala.
— O que um grupo da família Weber quer conversar?
A moça viu que a senhora foi direto, uma coisa era terem de
se apresentar, outra ela ir direto ao ponto.
— Nossas famílias, por escolhas de pessoas que já não estão
entre os vivos, andaram se estranhando, nossos pais querem saber
se vamos manter a paz entre nós.

292
— Não vejo porque brigaríamos, tenho uma irmã entre os
Weber, não me culpem se for rude um pouco, é que estou cansada,
mas não vejo motivos para que briguemos, embora sei que as vezes
acontece.
— Me disseram que a senhora era poderosa, mas vive em
uma casa simples, é velha.
Agnes dentro do corpo sorri, seres incapazes de sentir a força
de alguém, incapazes de diferenciar a imagem da real experiência
ali presente.
— Tem de ver que velhos, se isolam, minha semente não foi
deixada ao solo, não corre para uma arvore, morre em mim, então
não tenho a obrigação de aparentar o que não preciso.
— As vezes queria entender meus pais. – Fala uma das moças
ao fundo, o rapaz olha a moça e fala baixo.
— Respeito, a senhora pode ser idosa, mas sua aura de poder
é maior que a do vô.
— Tem certeza disto Caio?
Caio toca no ombro da moça que olha para a senhora e vê
aquela aura tomando toda a sala, em camadas, de uma força que
nunca vira ou soubera e pergunta.
— Acha que ela merece respeito apenas por isto?
Caio deixa ela ali e para ao lado da moça que estava a falar e
pergunta.
— Desculpa o incomodo senhora Dalma, mas disse que não
passou a frente seus conhecimentos, não teve oportunidade?
— Não deixei meus herdeiros.
— Saiba que sempre estamos dispostos a aprender algo,
acredito que a função de manter a força e historia dos clãs de
magia, é uma parte que poucos dão a verdadeira importância.
Agnes mede o rapaz e fala.
— As vezes esqueço que mesmo entre os Weber, existem
pessoas com audácia de querer aprender e evoluir, mas tem de ver
que todo meu conhecimento, é pouco, mas sempre que alguém se
propõem a aprender, me sinto grata.
— Saiba que tenho interesse.
O olhar de nojo da prima fez Caio rir e falar.

293
— Quem dera todos entendessem de magia e controle, mas
sou Caio Weber.
— E quem acha que sou?
— É importante?
— Sim, um nome estabelece um caminho, Caio vem de
Alegre, Forte, mas forte e alegre com foco no crescimento social,
teria força para crescer com alegre no âmbito magia?
— Estou tentando crescer, sei que nem todos entendem, mas
não acredito que o crescimento social, seja encarado por todos da
mesma forma, para mim, é o respeito que gera crescimento social,
vejo minhas primas olhando a senhora as vezes com nojo, mas
duvido que uma tivesse coragem de falar uma virgula de mal
colocando seu nome inteiro na frase, para mim, isto é ascensão
social, quando os inimigos, mesmo os que não a conhecem, tem
respeito pelo seu nome, aos 80 anos.
A menina dentro do corpo de Dalma entendeu o respeito, o
rapaz estava falando que a senhora tinha o respeito, ascensão por
respeito, a Matriarca de uma família.
— Entendo e agradeço o respeito rapaz, mas as vezes
esqueço de ser mais clara na pergunta, vou refazer a pergunta, no
lugar de quem acha que sou, o que vê que lhe faz querer aprender
comigo?
— Uma aura de poder maior que o patriarca da minha
família, em uma casa simples, mas de um piso tão limpo que duvido
que um empregado o fizesse, paredes antigas, mas que se tocar, ela
me diz ser novas, de tão limpas, um chá simples, mas feito com
energia do dia, magia da terra.
— Saiba que raros Weber se dedicaram a ser observadores,
eles as vezes se prendem apenas no conquistar e nem reparam que
destroem metade da conquista pois não havia a observado.
— Tento me prender a sentir, no lugar de julgar.
— Um bom caminho, por mais que as vezes confuso, mas
sempre se diz, sentir requer pratica, e nem tudo que se sente, se
fala, senti que omitiu algumas coisas, saiba que o todo, é algo que
não precisamos nunca demonstrar, pois como alguém no caminho
da Felicidade, as vezes, para interagir socialmente, tenha uma dor

294
de barriga, uma dor de cabeça, as pessoas isolam os perfeitos, elas
são humanas, e os humanos odeiam perfeitos ao seu lado.
— Uma dica?
— Sim, uma dica. – Agnes sente a energia e fala. - Só um
momento, alguém está chegando.
O rapaz estranha e vê a senhora com dificuldade ir ao portão
enquanto a prima perguntava.
— O que está fazendo, é uma velha.
— Algo vem a nós prima, estamos em meio a um encontro
que ninguém relatou, mas se prende a observar magias, não as
coisas materiais, isto o tempo leva.
Agnes chega ao portão e olha a senhora abrindo o portão e a
olhando.
— Podemos conversar menina? – Dalma que olha para Pedro
e fala – Pode entrar.
O rapaz entra e olha para Dalma.
— Tem gente na casa.
— Talvez no fundo, deixe de ser minha casa, mas preciso
primeiro deixar as coisas no caminho certo.
Agnes olha a senhora e fala.
— Quem é você que invade minha casa?
— Já esqueceu de quem tirou o corpo menina?
— Este corpo está acabando comigo, saio em um corpo
acabado e você em um novo?
— Se me deixasse ajudar, estaríamos em posições opostas, já
que as forças do terreno eram para materializar alguém, quem lá
estivesse.
— E veio falar, tem um grupo dos Weber querendo algo, não
sei oque lá na cozinha.
— Como está as costas menina?
— Doendo, ainda não consegui descansar.
Dalma olha para o rapaz a porta e fala.
— Vamos a cozinha, não queremos atrapalhar o encontro de
Dalma e dos Weber.
Caio a porta olha a senhora, vira a foto na casa do avô, ela já
estava a porta, uma coisa era falar em força, mas a entrada dela a

295
casa, pareceu dar vida as paredes, se antes elas estavam novas,
agora pareciam brilhar, Dalma olha para Agnes e fala.
— As paredes ficaram melhor assim.
— Isto foi um agradecimento?
— Digamos que ainda esperava ter de fazer isto, então é um
agradecimento.
Dalma senta a cozinha, olha para Pedro e para as pessoas e
fala.
— Deve ser o grupo dos Weber que veio falar com Dalma?
— Sim, quem é a senhora que faz as paredes brilharem. – Fala
a moça que começou a conversar com Agnes.
— Uma imagem, não um ser, mas é difícil entender isto.
— Como assim? – Caio.
— Um dia fui, alguém que andou por este planeta, estou
nesta interação por mais um dia, depois vou voltar ao meu
descanso.
— Mas... – Caio olha a foto a parede, era muito parecida, será
que a Matriarca dos Biograd tinha apoio dos Antecessores, e isto
que todos não teriam como controlar.
Dalma riu e olhou para Agnes e falou.
— Desculpa Dalma, não resisti, eles são muito crédulos.
Caio ficou bravo e Agnes olha para ele e fala.
— Esta é minha prima, mas para não confundir vocês, e por
ter o mesmo nome que eu, acaba por confundir as pessoas. – Agnes
evitando confusão, já que seria inevitável acabar chamando a outra
por Dalma, e isto poderia gerar problemas.
— Está dizendo que as duas são Dalma? – Caio.
— Sim, mas eu sou Rosa, ela ainda é uma Biograd. – Agnes.
— Dizem que ela surgiu no terreno que é da família, isto é
lenda?
— Eles inventam muita coisa, mas algumas coisas não se
explica rapidamente, quando se forma um caminho, este parece
indicar o rumo, e mesmo todos tentando desviar, este se realiza,
mas uma coisas que tem de entender Caio, nunca caia na grande
armadilha das religiões, que diz que é proibido mentir, pois é
proibido fazer o mal pelo mal, e se sua verdade fere, mata, sem
motivos para isto, dizer que isto é bom é hipocrisia.
296
Caio olha para Dalma, a aura das duas se digladiavam na sala,
duas auras tão fortes que as paredes brilhavam, mas era a reação
das duas forças, algo que ele nunca vira, ele olha as duas com uma
admiração que a moça que começou a perguntar as coisas viu que
ele estava perdido em observações e assume a sina e pergunta.
— Quem traz com você?
— Não sei se conhece, Pedro de Buzau.
A moça olha desconfiada e Caio olha o rapaz, o nome fez os
demais olharem ele.
— Um Moroi, não sabia existirem na cidade. – Caio.
— Isto que discutia com Dalma, a Biograd, como a magia local
está se perdendo, pois os herdeiros perderam o poder de ver o que
é básico, sentir o básico, pois toda a família estrutural dos Moroi,
até Tudor mora atualmente em Curitiba, e ninguém no planeta fala
disto, ou a cidade é invisível, ou todos a cidade se prendem ao social
fútil, e não ao social por respeito as origens.
Agnes não sabia do que falavam, então ficou quieta, ela não
sabia o que era um Moroi, nunca vira um, não sentira um, quer
dizer, sentiu quando aquela alma foi tirada do trator, mas não teve
calma para entender as historias contidas naquele pouco tempo.
Dalma olha para Agnes e fala.
— As vezes esquecemos que parte não falamos ainda, que
você ainda estava naquela coisa de não se dedicar a ser a matriarca,
mas qualquer Biograd sabe que Dalma Rosa, é uma Biograd e é a
Matriarca da família, um dia terá de assumir esta parte da sua
historia Dalma. – Dalma.
Agnes olha a senhora e fala.
— As dores me tiram parte da vontade, mas pensei que não
viria?
— Eles estão com alguém muito parecida comigo em
Londrina, presa na delegacia, quero ver quem é.
— Alguém? – Agnes.
— Sabe como eu Dalma, que aquilo era um involucro para
prender sua capacidade de gerar, aquilo foi covardia, mas quando
você desfez o involucro, algo que tem mais de 60 anos, nasceu
naquelas terras.
— E esta pessoa seria oque? – Caio.
297
Dalma olha o rapaz e fala serio.
— A filha que Dalma nunca teve, a próxima Matriarca da
família. – Dalma olhando Agnes.
— Então serei mãe de uma alma aprisionada, terei de a
ensinar muito, espero que tenha tempo para isto. – Agnes.
— Tempo, quem sabe não faça o que sempre se recusou a
fazer Dalma, o criar do grupo de herdeiros e os ensinar o básico,
aquilo que mesmo sem falar para ninguém, sabemos que sabe.
— Querendo já mandar em mim?
— Sempre, desde que descobri que existia alguém que
arrastava-se por ai com meu nome.
Pedro sorri e olha para Caio.
— O que realmente os Weber vieram fazer, parece quase um
grupo de recepção, ela sempre esteve nas festas clássicas, como
nascimentos, casamentos, falecimentos, não é uma estranha, então
estranho o cercar da senhora?
— Nossos Patriarcas estão preocupados, referente ao evento
que ouve em Londrina, alguns tem medo de uma guerra por um
problema antigo em um terreno, que parece ter levado mais alguns
de nossas famílias.
— Então diz ao Patriarca dos Weber, que não estamos em
guerra, somos pela paz, mas um dia os Weber vão ter de entender
que o aprisionar, enfraquece o todo, mesmo que fortaleça um ser
por um tempo muito pequeno. – Agnes.
— Eles querem ascensão como falávamos por aparência, não
por respeito. – Caio.
— Saiba que estamos sempre dispostos a dividir o pouco que
sabemos, mas tem de entrar com a mente aberta – Agnes olha a
moça e fala – pois as paredes da casa – Agnes estala os dedos –
poderiam ser de ouro – estala o dedo mudando as paredes de novo
para prata – de prata ou granito – estalando o dedo novamente –
mas isto não demonstra o poder dos a dentro da casa, apenas o
quanto podemos ser fúteis, podendo ter cristais, ouro, mas pouca
dignidade.
Se Agnes parecia a senhora velha, quando eles viram a casa
se transformar com um estalo, obvio que ficou claro que a casa era
como a senhora queria que fosse.
298
— Mora em uma casa simples porque quer? – A moça.
— Moro onde ninguém tenha medo de entrar por ter
segurança na porta, luxo que parece não se poder tocar,
imponência que não deixam as pessoas serem elas, uma pessoa se
prepara pelo simples, se ela souber ser simples, pode ter muito e
continuara a respeitar as coisas, sem o que, se perderá não na
magia e sim nas conquistas.
— Pelo jeito cansada ainda. – Dalma a olhando.
— Sim, vai ficar para conversarmos ou vai sumir? – Agnes.
— Depende do humor da proprietária, não quero acordar em
um calabouço de serpentes.
— Nunca fiz isto com ninguém. – Agnes.
Pedro olha para Caio e fala.
— Elas precisam conversar, mas são bem vindos, a senhora
Dalma precisa descansar, não conseguiu desde que chegou de
Londrina hoje cedo.
O grupo se despede e Pedro fica a porta enquanto Dalma olha
para Agnes e fala.
— Se está com dor, culpa de não ter calma na hora de ter
calma menina.
— Sabia disto?
— Não, estava lá para descobrir o acontecido, nem imaginava
ser você parte de uma relação no passado, na casa que já nem
existia, que o pouco que tinha aqui, pelo jeito deu fim.
— Aquilo me irritava, não sei como você conseguiu viver aqui
com algo que lhe absorvia parte.
— Achava ser parte dos meus problemas não da casa.
— Tem de melhorar na observação senhora Dalma.
Dalma sorriu, as duas sentam-se a sala e começam a
conversar, tinham muitas coisas a por em dia.
Estavam conversando quando recebem uma visita, Dalma no
corpo novo, olha aquele rapaz, aparência uns 35 anos, cheiro do
tempo, ao seu lado, Pedro, que fala.
— Meu bisavô quer falar com você.
Dalma olha o rapaz, e fala.
— A lenda a minha porta, no que posso ajudar?
— Nos convida a entrar?
299
Agnes olha aquele rapaz, como poderia existir alguém como
aquele, ela se achando especial, entendeu que teria de aprender e
rápido o que era o mundo de Dalma, pois ela estava sobre ele.

300
Camila olha para Caio, entrando
no carro a entrada da casa e pergunta.
— O que não entendi.
— A senhora deixou claro,
estava mentindo e que era melhor
mentir a ver todos se destruírem, não
sei o que sentiu Camila, mas naquele
lugar tinham duas pessoas tão poderosas, que as paredes não
brilharam porque a segunda chegou, e sim, porque a aura das duas
acabavam interagindo com as paredes, e as fazendo brilhar.
O grupo vai a cada do patriarca da família e o mesmo olha
para Camila, a filha mais velha e pergunta.
— O que descobriram.
— A moça que surgiu em Londrina apareceu lá, as duas
pareciam se conhecer, mas não sei se entendi o que elas falaram,
mas a senhora parecia totalmente desprovida, diria inofensiva, mas
a casa estava impecável, aquela limpeza que uma mão não faz, mas
a conversa delas eu não entendi muito.
O senhor não olhou para os rapazes, então Caio não falou,
queria falar, mas sabia que na casa do Patriarca, só falaria se fosse
indagado, e ouviu Camila descrever as coisas sem o ponto principal,
saiu dali, olha para a irmã ao longe, ela nem veio falar com ele,
então não queriam saber o que ele ouvira, ou somente ele ouvira
aquilo.
Paulo olha ele ao longe e chega até o bar onde ele senta e
pede uma cerveja, estava um dia agradável para tomar uma.
— Acha que eles vão entrar em guerra?
— As vezes agradeço não ter de falar, e não ser indagado
Paulo, poderia estar me metendo em encrenca, mas assim como
gostaria de alertar do problema, não queria ser discriminado por
falar a verdade.
— Não entendi.

301
— Se o Patriarca me perguntasse porque a respeitar, como o
fez para Camila, responderia por que ela tem uma aura umas 18
vezes maior que a do senhor, ele ficaria muito irritado.
— Ela não falou nada com nada, ela esperava o luxo da casa
do Patriarca, não aquela casa pequena.
— Ela aos 80 anos vive sozinha em uma casa, nosso Patriarca
está com 68 e sabemos que sem enfermeira, dois assistentes, não
viveria bem. – Caio toma um gole, olhando para fora, como se
pensando no que falara, parecia ainda procurar respostas.
— Certo, ela tem coragem de viver na periferia em uma casa
simples, sozinha, mas isto a dá muita fragilidade.
— Paulo, sabe como eu, só entramos na casa quando a
senhora autorizou, não tínhamos como avançar antes.
— Aquilo foi estranho, mas era o que esperavam, ou não?
— Quem dos Weber sabe fazer uma proteção destas, como
aprendemos isto Paulo?
— Estava falando serio em tentar aprender com a senhora?
— Paulo, é serio, eu me perdi na conversa quando vi as auras
das duas disputando espaço e interagindo com toda a casa, imagino
como aquelas paredes devem brilhar quando todas as irmãs estão
na casa, algo que alguém sem aura nem deve conseguir ficar no
ambiente.
— Acha que aquele rapaz é um Moroi mesmo?
— O cheiro dele está na cidade, apenas não conhecia o cheiro
de um Moroi, mas ele disse que Tudor de Buzau está a cidade, e
nenhum dos nossos Patriarcas sabe disto.
— Mais uma coisa que Camila não falou.
— O problema é que ela não falou o básico, o Moroi não era
o assunto, mas quando perguntei o que seria o ser que nasceu,
pensei que elas não responderiam, a moça afirmou com todas as
palavras que ela é a filha que não nasceu, que foi presa ao terreno
antes do nascimento, na concepção, a 60 anos, isto que Camila não
falou, e não adiantava interferir, o Patriarca me isolaria e não me
ouviria, então começo a ficar sem saber o que fazer, o que falar,
pois está era a informação que fomos lá verificar, as senhoras não
esconderam, então ela não estão preocupadas, apenas não entra

302
em um grupo de interferência contra elas Paulo, todos que forem
contra aquelas duas, vão ficar no caminho.
— Está dando muito valor a elas.
— Alertando, depois não me venham chorar.
— Tem de entender que esta sua posição drástica que faz o
Patriarca não lhe ouvir, nem lhe perguntar nada.
— Acho que até nisto a moça me alertou como me portar,
não adianta falar que está sempre tudo bem comigo, na verdade, as
vezes sorrio e quero bater, então tenho de me educar a mudar, juro
que pensei que não entraria, então não estava preocupado, mas o
ver da aura daquela senhora, me fez pensar o porque os demais
queriam aquele poder, mas como vencer alguém que desmancharia
aquela casa com um estalo de dedo.
— Estranho a pessoa se prender ao ouro nas paredes, e não
se ater ao fato de que tudo foi em um estalo, entendo em parte
você Caio, a atenção no fútil, mas sabe que se eles precisarem de
suas previsões negativas, eles perguntam.
— Agradeci não ter de responder algumas perguntas, mas
aquela senhora é uma incógnita, e a minha percepção estava toda
invertida, ou não entendi tudo ainda.
— Invertida?
— O cheiro da senhora, era de uma adolescente, a da moça
que chegou depois, de uma senhora.
— Acha que ela tem todo aquele poder e sua alma ainda é
jovem?
Caio toma um gole a mais, olha para o garçom, como se
estivesse pensando longe e fala.
— Não entendi isto ainda, posso ter percebido algo errado,
mas se for pela percepção, pelas formas de fazer, não chego a
conclusão, o cheiro me inverteria os locais, a força da segunda aura,
da moça, era mais forte que a da senhora, isto me poria ela como
matriarca, estou pensando ainda.
— As curvas da aura?
— Isto que me dizia ser uma jovem a senhora a frente e as
auras também inverteriam a posição das pessoas.
— Não entendi.

303
— Paulo, posso estar enganado, mas o ser que se apresenta
como Dalma Rosa, a senhora, tem cheiro de adolescente, aura de
adolescente, força de adolescente, mas uma interação de uma força
que nunca vi. A segunda Dalma, cheiro de matriarca, curvas de aura
de mais de 75 anos, e uma força mais forte que a primeira que
nunca havia visto algo tão forte.
— Uma encenação?
— Não, as duas devem estar conversando agora sobre o que
aconteceu, nós não sabemos, mas esquecemos que tudo, nem as
duas ainda transformaram em conhecimentos, pois devem pensar
sobre os atos.
— E não vai alertar?
— Sabe que se pedir para falar eles não vão nem me chamar,
então estou tentando não fazer o que eles querem.
— Algo mais que induzia que a senhora não era quem falava?
— Sim, o gato quando entramos, nos foi verificar ao portão,
ele não entrou na casa enquanto a senhora estava lá sozinha, mas
quando a segunda chegou, ele se esfregou nela ao portão, e entrou
junto.
— Sabe que um dia chego a este nível de observação, mas sei
que você sempre acha algo a mais.
— Uma ultima coisa. – Caio sorrindo.
— Oque?
— Quem autorizou o Moroi entrar na casa não foi a dona e
sim quem chegou depois, ela conhecia a magia da casa, e estava
entrando, ela não bateria, a senhora que se levantou e foi a ela, mas
ela estava entrando direto.
— Algo não normal a casa de um Biograd, casas que
estabelecem apenas a entrada dos donos, muitos dos nossos
reclamam disto. – Paulo.
Caio sorriu e fala.
— Agora deixa eu tomar minha cerveja, para tentar relaxar,
aquela casa me assusta, algo simples que põem medo em quem
sente magia.
Paulo se levanta e vai ao Patriarca, sabia que o que Caio falara
era importante, mas se ele falasse, não ouviriam, então ele resolveu
falar o pouco que percebeu.
304
O patriarca olha para Paulo depois de ter narrado parte e
pergunta.
— Acha que elas estão em posição invertida?
— Acho que devemos pensar nisto senhor, pois não é normal
a conversa, elas podem estar querendo nos induzir a isto, mas o
pouco de aura que entendo, a senhora tinha aura de adolescente, e
a moça que chegou após, aura de uma senhora, com as pontas
enroladas e gastas.
— Porque não interviu antes?
— Analisando se minhas conclusões eram certas, reparei que
a maioria nem notou nisto, tive de perguntar a Caio se ele havia
reparado nisto, pois nem eu e nem ele entraríamos na casa, a
senhora autorizou, então não veríamos isto, é o padrão das casas
dos Biograd, mas ele quando falei ficou me olhando como se
estivesse reparado em algo importante, resolvi lhe falar Patriarca.
O senhor bate as costas de Paulo e fala.
— Vou pensar sobre o que falou, mas como disse, poderiam
estar nos querendo induzir a isto.
Paulo olha o senhor, ele não levara a serio, ou era contra o
que ele queria, a aura estava irritada, mesmo ele fazendo-se de
simpático, então saiu e voltou ao bar.
— Pelo jeito vamos a guerra mesmo Caio.
— O que aconteceu?
— Fui ao Patriarca e falei o que falou, ele me tratou bem, mas
o tempo inteiro com a aura irritada, ele não ouviu, ele queria que
não tivesse falado aquilo, ele parecia querer briga.
— Sei que nos lançarão a frente, se a ideia não era se livrar de
nós hoje, e usar isto como desculpa para a guerra, mas deixa eu ir
dormir, pois acho que teremos um Domingo difícil.
Paulo olha Caio saindo ao longe.

305
Domingo amanhece com os
Weber saindo de suas casas, já
prontos para uma reunião chamada
as pressas pelo Patriarca, a cidade
tinha chegada de aviões vindos das
capitais e das cidades próximas,
carros chegando a casa do senhor na
região do Jardim Social em Curitiba.
Caio olha a irmã e fala.
— Se mantem longe dos campos de batalha mana, é um dia
que pode ser de perdas.
— Porque perdas?
— Rita e suas filhas, acabam de sair da cidade, como se
estivessem deixando o Patriarca daquele trecho, abandonando a
família.
— Os herdeiros dos Biograd não iriam contra a matriarca da
família, normal, mais do que aceitável Caio.
— Mas é sinal de guerra, talvez esteja a frente, mas evita
estar lá, vai ter mortes mana. E não esquece, a senhora disse que
não estava em guerra conosco, a magia estará toda com eles.
— Acho que está dando muito valor a aquele senhora mano,
é só uma velha, ela sabe fazer truques de estalo, mas o que isto
faria contra os nossos.
— Morte, isto que fará, será um dia triste, e não espere que
alguém assuma depois que errou.
Caio sai de casa, pegando o carro a garagem e vai ao centro,
foi ver as corridas de cavalo, um vicio que aprendera com seu pai,
que não fora hoje, ele olha para os demais olhando ele e um rapaz
chega a ele o empurrando.
— Disseram que você não é mais da família.
— Algum motivo?
— Dizem por ai que você quis aprender com uma velha, o
patriarca pediu a sua exclusão da família.
306
— Então quando ele estiver a frente da guerra que vocês
morrerão hoje, pergunto se ele fez isto mesmo.
— Ele não vai, sabe disto.
Caio o empurra, os demais se assustam e ouvem.
— Então fala para aquele covarde, que se não tem coragem
de enfrentar uma velha de 80, não me chamar de um Weber, se ele
é o patriarca de uns covardes, não é meu patriarca.
Todos ouviram em volta, o rapaz não falaria, mas entendeu,
era fácil mandar os jovens, mas se não existisse perigo, não
mandaria os jovens contra a velha.
— Acha que vou falar.
— Obvio que não, é mais covarde do que o Patriarca, logico
que um covarde que – Caio conta os presentes – precisa de 10
pessoas para ter coragem de me empurrar, não enfrenta o
Patriarca, esqueci com quem falava.
Caio levanta a aura, sabia que viria coisas contra ele assim
que virasse as costas, e sentiu em sua aura algo que nem olhou para
ver que era um tijolo, que se desfez na mesma.
Caio passa no caixa e sai no sentido da casa do patriarca.
Ele entra, o segurança queria o barrar, mas ele disse que iria
falar, havia um monte de outros senhores lá, até seu pai, quando
ele entra na peça e o senhor grita com os seguranças.
— Tirem este rapaz daqui, ele não é mais um Weber.
— Sei que não sou senhor, mas vim perguntar uma coisa,
para todos ouvirem, já que nem teve coragem de falar isto ontem
quando estava aqui, dormiu mal e resolveu descontar em alguém,
mas a pergunta, é mesmo o patriarca desta família, se é, vai a frente
e vai enfrentar a matriarca de 80 anos da família Rosa, ou é um
covarde e vai mandar o filho destes que te adoram hoje, amanha
estará excluindo da família por não terem herdeiros, pois morreram
e não vai dizer que foi uma tática errada, lhe desafio a ser o
patriarca desta família de merda, onde nem meu pai me defende, e
ir a frente dos demais, pois estou cansado de ver jovens morrerem e
o senhor dizer que minhas previsões eram pessimistas, que tal
assumir as mais de 300 mortes que minha previsão falou que
aconteceria e o senhor esconde destes as costas.

307
O segurança chega a porta e Caio apenas olha para o rapaz
invertendo a cabeça para a forma de um lobo, o segurança
entendeu que não era uma boa hora.
— Tem de acalmar filho. – O pai de Caio.
— Tenho, ele vai mandar sua filha a frente para morrer, e o
senhor o adora, ou é estupido pai, ou não entendeu, Dalma é uma
Biograd, ela desfez a maldição, uma criança que proibiram de
nascer a 60 anos se materializou ontem no terreno, ela está lá com
a senhora, as duas juntas, devem conseguir enfrentar toda a família
Biograd junta, quem daqui consegue com um da família Biograd,
porque entrar em uma guerra, apenas para o grande covarde do
Patriarca continuar a matar as linhas que o podem tirar da condição
de covarde mor.
O senhor estava tremendo de raiva, olha para o rapaz, ele
não tinha coragem de o encarar normalmente, mas a raiva dele
estava grande.
— Foi lá e se propôs a aprender coisas com aquela bruxa.
— Nos mandou lá para isto senhor, nos oferecer, para
conseguir informação, sabe disto, ou vai negar as próprias palavras
senhor?
— Não era para se oferecer a aprender.
— E vai entrar em guerra por que motivo, José foi o morto,
alguém que o senhor já havia expulso da família, lembra disto?
— Mas era um dos nossos.
— É a desculpa do dia, mas a pergunta continua, tem
coragem de enfrentar uma velha, se não, não sou da família que
adora um covarde.
— Não sou um covarde, apenas não estou bem.
— Algo que seja verdade senhor, pois se está bem para
mandar jovem a morte, está bem para enfrentar as consequências,
mas saiba, não estará – Caio olha todos – nenhum de vocês estará
livre do peso dos Biograd, soube que perdemos 32 pessoas somente
por sua decisão, dos mais fortes, saíram pois não mandariam seus
filhos contra a matriarca de sua origem, mas eles eram os únicos
que a poderiam segurar a senhora, boa sorte, melhor sair da família
e sobreviver a segunda, do que morrer, e não esquece senhor,
quem me colocou para fora foi o senhor.
308
Caio sai pela porta, o senhor olha os demais e um senhor olha
para o Patriarca e fala.
— Mandou ele se oferecer e o penalizou Patriarca, por quê?
— Vai me enfrentar.
— Uma resposta, não vamos mandar nossos filhos a morte se
não consegue uma resposta simples, mandou os filhos de Roger, e
agora exclui o filho dele, mas pelo jeito já queria o excluir antes,
falou em excluir Paulo Carter, o que os dois viram lá que não nos
falou senhor? – Um dos pais da família.
— Quer ser excluído?
— Se a única coisa que sabe é excluir, podemos o excluir, pois
uma coisa o rapaz tem razão, ele vai espalhar isto por ai, o nosso
Patriarca, mesmo que ganhemos, temia uma senhora de 80 anos.
— Acha que fala com quem?
— Alguém que vai a frente, nem que com os demais, já que
quer a guerra Patriarca, vai a ela, ou nenhum dos nossos vai, pois
não respondeu o básico, quer uma guerra, mas não quer as
consequências, ou podemos mandar os seus antes, para lhe
proteger, o senhor após, e depois os nossos.
— Não autorizo os meus a ir a guerra.
— Se os seus não vão, os meus também não vão! – Roger.
O senhor entendeu o problema, excluíram seu filho para ele
ficar quieto, mas Caio nunca ficou quieto, alguns apoiaram o
Patriarca e alguns se retiraram, mas obvio, a família do Patriarca
não iria a guerra.
Os grupos viram parte das famílias se retirando, todos falam
que Caio chamou o Patriarca de covarde, a frente de todos, após ele
o excluir, que o desafiou a ir a frente, se o desafio era simples, uma
senhora de 80 anos, as pessoas viram os Weber racharem, mas
quando parte dos Wasser se juntaram ao grupo, e depois parte dos
Jones, o grupo estava grande, a policia observava aquele
agrupamento ao longe, quando o grupo entra em seus carros e sai
no sentido da casa da senhora.
Roger chega ao bar onde o filho estava e o olha sentando-se a
mesa, não estava feliz, mas queria saber o que acontecera de
verdade.
— Porque o excluíram?
309
— Ele a muito queria isto pai, ele mandou os seus para a casa
da senhora para que algo acontecesse, as perguntas na volta
mostravam que o Patriarca não esperava que voltássemos, e sim
que fossemos a causa da guerra.
— E esta senhora, acha que ela é poderosa?
— Pai, pensa nos Weber, sem a parte de Rita da família?
— Uma perda em poder incrível.
— Elas já saíram, assim como Catherine tirou os seus da
cidade, o marido dela queria ficar e ela o colocou a parede, ou ela
ou a mortandade que aconteceria, dai cada uma das filhas fez o
mesmo, soube que até os dois filhos de Dalma saíram com suas
famílias ontem da cidade.
— Ela vai enfrentar sozinha, isto é suicídio.
— Pai, sente este cheiro diferente no ar?
— Esta falando deste cheiro de cães antigos?
— Sim, os Weber são uma divisão de a 500 anos dos que tem
este cheiro, mas eles estão na cidade, um estava ao lado da senhora
ontem, este rapaz falou que Tudor de Buzau está na cidade, e
ninguém nos informa isto, impossível que o Patriarca não saiba.
— Esta falando que quem vai servir de observador é as
lendas?
Caio sem olhar para fora, onde o agito se formava, com carro
e mais carro saindo, fala.
— Se olhar para o topo dos prédios, em todo caminho pai,
verá que os urubus estão lá.
O senhor olha pra fora e respira fundo.
— Eles estão a toda volta, algo mais?
— A cidade está estranha, parece com um cheiro estranho,
como se antecedentes tivessem despertado, eles vão tentar parar a
guerra, mas não quer dizer que eles não se matem.
O senhor sai pela porta e vê Paulo entrar e falar.
— Me tirou da guerra, isto não vale.
— Paulo, sabe aqueles urubus nos prédios altos.
— O que tem haver?
— São Moroi, todos eles.
Paulo olha em volta e fala.
— Eles vão apoiar a senhora?
310
— Ela defendeu um deles na saída, o único que saiu vivo com
a senhora, um Moroi de nome Pedro de Buzau.
Paulo entendeu, olha para fora.
— E não vamos intervir?
— Estamos tentando deixar metade das famílias fora, pois
não sei o que será das que estiverem lá.
Caio se levanta, olha para fora, todos olham a leva de urubus
sobrevoando a cidade ao sul, toda uma leva de Moroi iria intervir
pela senhora, o que aconteceria agora?
Os seres ao chão começam a olhar para os urubus, todos
sabiam pelo cheiro que não eram apenas urubus, os a frente,
mesmo os Wasser começam a ficar na duvida da decisão.

311
Dalma olha para a menina e
fala.
— Entendeu o que tem de
fazer?
— Acha que eles vão me ouvir?
— Logico que não, mas mantem
a calma, precisamos passar de hoje
para inverter o problema.
A senhora sorriu e Dalma olha para a rua começar a encher
de gente, muita gente chegando, eles estavam fechando a rua, a
menina dentro do corpo de Dalma a vê sair voando ao fundo,
enquanto os demais começam a chegar, os urubus iam ao sul e
Dalma voava no sentido do centro, depois pega um pouco a leste, e
para a frente da casa do senhor João Weber, o corpo dela se
transforma e os seguranças começam a chega a aquela senhora,
que apenas sacode as mãos e os seres sentem os pés presos ao
chão e as armas pesando toneladas sendo soltas aos pés.
O senhor estava a sala falando com alguém ao telefone, ele
olha a senhora e recua, aperta o botão de pedido se socorro e
ninguém aparece, os olhos do senhor pareciam de alguém covarde,
estranho uma família de Lobos seguir a um senhor como este, que
cheirava a medo.
— Juro que pensei em encontrar um Patriarca, não um
cãozinho medroso.
— Quem é você?
Dalma olha para o senhor mudando de forma, para ela em
pessoa, aquela senhora de 80 anos, ele olhava com medo mesmo
para ela, e Dalma apenas sacode a mão e fala.
— Como matar um covarde, parece covardia.
— Vai me desacatar?
— Cheira a medo, cheira a merda, isto também os anos
mandaram me usar frauda geriátrica, mas como os lobos podem
seguir um ser que tem medo de alguém como eu?
312
— Você matou dos nossos.
— Manda o resto da família a morte para vingar um Padre,
que já havia saído da família?
— Se está aqui eles devem estar chegando ai.
— Não entendeu nada, eu não vou o julgar João Weber, pois
vocês tem iguais, eles vão decidir o que fazer com você.
Um rapaz entra pela porta e o senhor olha aquele rapaz, não
conhecia, aparentava uns 30 anos, mais de 2 mil e trezentos anos, o
olhar para o senhor o fez sacudir negativamente a cabeça.
— Um dia os lobos resolveram abandonar os ensinamentos,
mas como deixar um covarde a frente deles.
— Quem é você?
O rapaz foi andando e se tornando um grande gato negro,
alto, com as garras a mostra, sua roupa acompanhou a mudança e o
olhar do senhor foi ao pânico.
— Você não pode ser...
— Sim, Tudor de Buzau, quando me falaram que os Lobos
seguiam um covarde, duvidei, mas vejo que é verdade.
— Não vivemos uma eternidade.
— Escolha dos seus.
Dalma olha um rapaz entrar pela porta e olhar para Tudor e
falar.
— Não suje dos seus Tudor, resolvemos isto.
Tudor olha o rapaz se levantar, um Guará, o senhor viu que
mexera com a pessoa errada e falou.
— Desculpa senhora, não pensei que tinha acordo com os
demais, podemos ainda parar isto.
— Não parou ainda por quê? – Dalma.
— Eu não havia entendido o problema.
Dalma olha para o Guará e fala.
— Cuidado, este trai pelas costas.
Tudor volta a sua forma e começa a sair, Dalma sai e se
transforma em uma ave e começa voltar ao sul, enquanto o guará
passa a garra a frente do peito do senhor, que cai morto, os
médicos viram o ser tentar mudar de forma, para se curar, mas
estava sem apoio, e sente o Guará apertar seu coração, o pegando a

313
mão, os seguranças quando entraram dois minutos depois do lobo
sair pela porta, veem o senhor morto a sala.
A família estava voltada a um lado, e ninguém comunica a
morte do patriarca, pareciam querer a guerra, Dalma olha para os
muros, estes descem, como se a casa ganhasse um terreno a frente,
o grupo a rua olha para o terreno, como se a casa recuasse no
terreno, e os Weber olham para a casa ao longe.
As arvores foram crescendo e um dos rapazes pisa para
dentro, todos veem algo segurar o pé dele, e sair da calçada, se
erguendo, em pedra, joga o rapaz para fora e fala olhando para os
demais.
— Quem desafia os Biograd? – Pedra viva olhando o grupo
dar um passo para trás e um senhor vem a frente.
— Ela matou dos nossos.
— Amaldiçoam ela quando jovem, e querem cobrar a reação,
querem mesmo que ela cobre de todas as famílias o que lhe
devem?
— Não devemos nada a uma bruxa.
— Lobinho, se é coragem tudo isto, é só avançar.
Os lobos olham para o céu ficar negro, e as casas a volta
começam a ter milhares de urubus, que vão se tornando lobos, e os
Wasser olha para um deles e pergunta.
— Quem vai apoiar esta anomalia.
— Para um bruxo que deveria respeitar as famílias por sua
raiz, não respondo, mas se querem avançar, somos observadores,
nada sairá daqui, de informação, o patriarca de nossa família vem
garantir pessoalmente isto.
O rapaz pensa se perguntaria quem viria, ele sabia, todos
sabiam que eram Morois que estavam a volta, então Tudor viria
pessoalmente, mas viram o ser de Terra Viva se erguer da Terra, e
olhar para Pedra Viva e perguntar.
— Quem nos perturba irmão?
Os demais olham para o ser e ficou obvio que não seria como
eles pensaram, apenas enfrentar uma velha.
Um dos patriarcas dos Jones chega a frente e fala.
— Porque defendem esta linha de desgraça dos Biograd.

314
— Se eles fossem a desgraça, ninguém estaria aqui, ninguém
quer desgraça, querem poder, mas talvez vocês nunca tenham
entendido o que é ser uma Matriarca dos Biograd, pois eu sou parte
dela, meu amigo Pedra Viva, é parte dele – Ao fundo o ser em Alma
surge brilhoso – como um ser, posso ser vários, como um
ameaçado, um exercito, mas o que fazem aqui, o que faz quererem
o mal de parte de suas famílias, porque a raiva, pois todos sabemos
não tinha outra forma de sair de lá, mas me culparem dos que
ficaram pelo caminho, infantilidade.
— Não podemos deixar alguém assim viver. – O senhor da
linha Wasser.
Os seres começam a se desmaterializar, o ser em terra olha o
senhor e fala.
— Demos motivos para poupar os seus, os Morois são nossa
testemunha diante da terra, do ar e dos seres vivos, tentamos os
trazer a lucidez.
Dalma (Agnes) sai da casa ao fundo, andando com
dificuldade, olha para os seres, olha para Terra Viva e fala.
— Cuida dos seres vivos, pois estes já morreram em alma,
pois quem não pensa, já é um morto, apenas não deitou.
Os demais olham o grupo, mais de 300 pessoas para
enfrentar aquela senhora, talvez o grupo tenha neste momento
entendido a palavra Covarde dita por alguns, mas a menina ia
chegando e sente a terra prender seus pés, o grupo dos Wasser
mandou uma leva de magia de interação, os lobos avançam com
força, com suas garras e dentes a vista, a menina sente a energia,
ela lembrou que Dalma não atacou, apenas se defendeu, um Moroi
iria enfrentar e outro o deteve.
Dalma sente a interação da magia, a solta de volta, os que o
praticaram, estavam ocultos, começam afundar na terra, os lobos
chegam rápido, uma leva de invisibilidade e intocabilidade, e eles se
agridem, uma nevoa surge e os seres começam a agredir o que
deveria estar no lugar, os gritos não fez alguns parrarem e sim
avançarem mais, os James soltam seres de magia, seres negros em
sacos apropriados, nevoas negras que consomem as energias do
caminho, elas chegam a nevoa e a dissipam, a senhora olha os seres
e apenas lhes estica a mão, eles pareceram estranhar, eles olham
315
para aquela senhora como alguém deles, e se recolhem, os Jones
olha ao chão, vários lobos mortos, olham em volta e um grupo de
Wasser joga uma magia de desintegração, ela pega no bolso um pó
branco e jogou ao ar, a magia se desfez, os comedores de almas se
recolhe em um canto, como se fossem descansar, e Dalma dá um
passo a mais para a parte frontal do terreno.
Os Morois aos telhados viram que aquela senhora era
poderosa, pois nem tocaram nela e muitos estavam muito mal ao
chão, ela puxa para ela as mãos e todos os corpos começam a ser
arrastados no sentido dela, com tudo que tinham, todos entram no
terreno, os Morois viram aquele grupo imenso de pessoas ser
puxado para dentro do terreno, o muro volta a crescer, a rua ficou
com os carros abandonados, e os grupos olham para o escuro tomar
o local, e a floresta começar a crescer, a senhora olha para eles e
fala.
— Quem aprender a sair, não terá minha raiva, quem não
sair, espero que aprenda o caminho do Eterno, se não, que
apodreça.
A senhora some daquele lugar e olha para sua casa voltando
ao lugar, abre o portão e sai para a rua, olha os carros e meche a
mão, eles encolheram, ela passa a rua recolhendo eles.
Os Morois olham a senhora, a calma dela, e viram a outra
chegar a ela voando.
— Onde os colocou?
— Onde me colocaram o primeiro dia, um mundo de
interação, como ser sem memoria, sem conhecimento, sai de lá em
24 horas, eles deveriam já estar saindo, mas desconfio que não
sejam mais seres de magia, eles só tentaram infantilidades.
— E vai ficar? – Dalma olhando para a senhora a sua frente.
— Tenho escolha?
— Todos temos.
Dalma estica a mão para a senhora e fala;
— Seja bem vinda Agnes Biograd a família. – Dalma a abraça e
sente a energia de interação, a moça olha que Dalma voltou a sua
aparência, e olha suas mãos, ela estava rejuvenescendo, ela para
em uma adolescente de uns 16 anos e fala.
— Sabia disto?
316
— Agnes, eles não entenderam nada, nem eu, quando
terminar de entender, tudo que sei será historia;
— O que acontece agora?
— A família cresce, apenas isto. – Dalma voltando a andar
lentamente para dentro, mas feliz em estar em seu corpo
novamente, sorri de sua dificuldade e chega a cozinha, sorri ao
sentar e sentir dor.
Atravessa a casa, vai ao quintal, olha em volta, sente a
energia, pega umas ervas secas ao chão e olha para a menina.
— Nem sempre é um fim, as vezes um recomeço.
— Acha que sou parte da família?
Dalma sorri, pegando algumas ervas, já secas ao chão, passa a
mão a frente do corpo vendo aquilo se misturar a terra e fala.
— As vezes temos de recomeçar a plantar, as vezes
abandonar um caminho antigo, mas primeiro um chá.
Dalma entra com calma, põem o chá a pia, põem uma agua
para ferver, assim que ferveu, colocou as ervas, olha a menina, pega
o chá e fala.
— Os dias de aventura, são cansativos, mas como a idade, nos
fazem falta, pois o difícil é o dia a dia, quando somos apenas seres a
passar pelo tempo.

317
O dia seguinte, as irmãs
começam a bater a porta, o primeiro
apresentar oficial de Agnes foi as
irmãs de Dalma, o traçar as metas de
uma família, muitos pedaços de
outras famílias assumem seus
sobrenomes, através de novas
Matriarcas, unificam as famílias, a família Biograd passa a ser a
maior de Curitiba, mas isto, é outra história.
Pois a policia apareceu na segunda, perguntando de gente
que havia sumido, agora pareceram ter coragem de aparecer, pois
era uma senhora de 80 anos a porta.
Mas quando Tudor surgiu no fim daquele dia a porta, com a
esposa e os lideres Manás, os Guarás, Dalma desejou ser jovem,
pois esta aliança a 50 anos, seria algo que lhe deixaria alegre, mas
se isto seria vivido por outra moça, não se recusou a apresentar a
herdeira dos Biograd as linhas que alguns chamam de Demônios,
por aqui e pelo mundo, mas são apenas os excluídos, quando a
magia deixou as crenças e virou filme, poucos olham ao lado, é mais
fácil dizer que não existem, transformar em algo do passado do que
os trazer a luz.
Dalma finalmente se dedica a ensinar, finalmente a Matriarca
da família vai passar a frente seus segredos.

Fim.

318
319
320
321
Autor; J. J. Gremmelmaier
Edição do Autor
Primeira Edição
2017
Definitivo
------------------------------------------
CIP – Brasil – Catalogado na Fonte
------------------------------------------
Gremmelmaier, João Jose
Definitivo, Romance de Ficção, 060 pg./ João Jose Gremmelmaier /
Curitiba, PR. / Edição do Autor / 2017
1 - Literatura Brasileira – Romance – I – Titulo
-----------------------------------------
85 – 62418 CDD – 978.426

322
J.J.Gremmelmaier

Definitivo

323
Definitivo, o texto começa em uma frase, que eu
mesmo escrevi em outro texto rápido, e começo a
escrever um texto dentro do que considero
definitivo, a Morte, então o nome é para estabelecer
quando o conto começa, e vou durante ele, deste
conto rápido, correr atrás do Definitivo, se ele existir.

Introdução, Carlos, não é o nome do personagem


principal, sua função, conduzir almas, seu problema,
como tudo que tende a um fim, o caminhar nele,
estabelece o não ter descanso, os eventos surgiram
como um sopro, não sou detalhista, então apenas
narrei uma ideia, boa leitura.

324
Quando Carlos entrou naquela casa,
ele não sabia o que faria, ele apenas foi
atraído para aquele lugar.
As vezes tinha perguntas, mas nunca
conseguiu respostas, ele se deixa levar por
uma função, ele sabe o que vai fazer, mas
não tem nada que lhe impeça, seus
sentimentos parecem ser serenos, olha aquela criança em febre a
cama, olha a senhora a segurar sua mão, olha o senhor alcoolizado
na peça ao lado, a cara de descrença de todos.
Carlos olha o rapaz que chega e lhe atravessa, sente sua
nevoa e foi inevitável olhar o rapaz, sabia que ele estava em seu
caminho, e ninguém desviava o caminho.
— Que sintomas ele apresentou. – Fala o rapaz, olha para a
senhora que fala.
— Ele vomitou parte da noite, pareceu acalmar depois da
meia noite, dormiu, mas hoje cedo a febre não sede.
— Não levou ele ao hospital?
Carlos olha para fora, era a ambulância de emergência, olha
para aquela moça entrando, Carlos tenta a achar em suas
lembranças, parecia conhecida, mas poderia ser alguém parecida.
Ela trazia os equipamentos de medico, que o rapaz a frente
parece usar para olhar o calor do menino, mas Carlos não estava
querendo conversa ou lamentações naquele dia, atravessa o rapaz,
olha para a cama do menino, em sua mão surge uma pequena foice,
que passou ao ar na altura da cabeça do menino, olha o mesmo
parar de respirar, olha para o medico olhando para a moça, pedindo
ajuda, enquanto ele olha a alma da criança se desprender, a estica a
mão, sabia que ela não via mais os humanos, regras básicas que
somente os “Coletores” quebravam, foi o que falaram para ele
Carlos a muito tempo, mas nem ele sabia se era isto, as vezes
duvidava, mas o menino olha em volta e como estava de mãos
dadas com o menino, viu a luz a toda volta, olha o menino brilhar,
325
olha ele sorrir, Carlos queria saber porque alguns sorriam e outros
lamentavam, mas desconfiava que dependia da forma que
encaravam a vida, ainda em vida, já que viu até gente não querer
lhe esticar a mão, pois dizia que ele não existia, estranhava isto, mas
nunca era igual, apenas alguns estavam alegres de morrer, outros,
queriam ainda viver muito.
O ser de luz encara Carlos, ele sabia que teria de ir, era hora
de largar a mão do rapaz, o faz e olha a sala ainda no agito do rapaz
tentando trazer o rapaz de volta, lembra de um caso no passado,
sorri saindo, sem olhar, lembrando da vez que se atrasou para levar
a alma marcada, ela voltou da morte e como ele não a conduziu, o
ser teve de ser conduzido forçadamente.
Nem sempre as pessoas entendem o caminho de Carlos, e
muitas vezes lhe perguntam se o seu nome é este.
Carlos sai e tenta lembrar de seu nome inicial, mas não
lembra mais, não lembra e parece que faz uma vida que o faz, isto
que tirou os olhos da moça, não tem como a ter conhecido.
Lembra quando um ser como ele o tocou, faz tempo, ele
trabalhava numa obra na cidade de New York, fazendo buraco na
base de um rio, onde se instalaria as bases de uma ponte, lembra de
sentir a força indo, a respiração pesada, o sangue no cuspe, lembra
de abrir os olhos, não saber onde estava, mas aquele ser lhe esticou
a mão, o esticar da mão para alguém que parecia lhe ajudar, mas
demorou para entender que estava morto, lembra do ser deixando
ele no campo de luz e o mesmo ser que o olhara a pouco, lhe olhar
como se não fosse o seu lugar, e o ser ressurgir, estranho que o ser
pareceu feliz em ser chamado de novo, e me olhou e falou, de hoje
em diante seu nome é Carlos que vem de Agricultor, então será um
“Coletor”, todos os coletores se chamaram Carlos, até o dia que
será sua vez de caminhar pelos campos de luz.
Carlos olha seu caminhar e não havia passado outros 15
minutos e estava chegando a um acidente ao centro, olha o casal,
estranho, pois eles estavam mal, mas o que lhe chamava era a
criança ao fundo, olha para a criança, o mesmo movimento rápido
como a mão direita, e vê a criança se desprendendo do corpo,
enquanto o bombeiro rasgava o carro para tirar as pessoas lá de
dentro, surge no campo e nem olhou o ser de luz, a criança parecia
326
perdida, e a deixou ali, uma pergunta que sempre se fizera, era
quantos Carlos Coletores existia, já que no começo, achava que era
apenas ele, mas lembra quando de um incêndio numa cidade ainda
nos Estados Unidos, que devorou um prédio, que outros como ele
se apresentaram, até aquele dia achava que se parasse teriam
problema, mas soube que continuariam as mortes.
Então nem o nome Carlos era apenas dele, e isto não lhe
incomodava, era como se o chamassem de agricultor de almas,
quando elas chegavam ao ponto, colhiam e entregavam aos
senhores do campo.
Carlos sai olhando em volta e olha aquelas pessoas chegando
atirando, estava no centro do Rio de Janeiro, estavam em meio a
um atendimento de transito, com mortes, e assaltantes tomam a
rua, atirando primeiro para cima, vejo um atirar em um soldado,
mas ele não estava em sua lista, Carlos vê outro ser surgir do outro
lado do mesmo lugar, sente a moça atrás dele falar algo, dá um
passo e sente ela cair, esta estava em sua lista, olha a alma, ida e
volta e novamente olha os rapazes a atirar, Carlos evitava olhar para
quem estava do outro lado, colhendo almas, sente o rapaz a frente,
o atirador, na sua lista, sente que não deveria antecipar, mas
apenas passa a pequena adaga em seu pescoço, e ele cai sem os
demais saberem o que havia o atingido e começam a recuar, Carlos
olha o rapaz, lhe estica a mão, e este olha assustado, Carlos não
sabia o que ele vira nele, mas quando ele dá a mão para ele, tudo a
volta fica negro, ele estranha, pois não havia ido a um lugar escuro,
olha o ser a sua frente, bem vestido, que fala.
— Pensei que não mandariam mais ninguém para cá.
O rapaz olha desconfiado, largo sua mão, e tudo some, sujo
na beira da rua, olhando e um ser daqueles olha para mim, não sei
oque ele pretendia até ouvir.
— Deve ser principiante, estragou tudo.
Carlos não falava, nunca discutira nem com quem lhe dera a
determinação, mas olha outros chegando e um era uma moça,
estranhou e ouviu.
— Deve ser um desocupado, já que não deveria estar aqui. –
Outro rapaz, Carlos dá as costas e começa a sair, ele nunca discutira

327
o seu caminho, ele nunca nem trabalhara em equipe, aquilo
pareciam uma equipe, ele sempre trabalhara sozinho.
Ele olha em volta e olha aquela moça da ambulância parada
ali, olhando a bagunça, olha para uma mão lhe segurar o ombro, e
vira-se e olha o que era o primeiro lhe falara.
— Não vai se desculpar.
Carlos olha sem saber o que eram aqueles seres, talvez ele
fosse como eles se apresentavam ali, mas ele nunca olhara um
espelho que lhe desse além da sua imagem normal, sem nada além
de um rosto em uma roupa estranha.
— Desculpar?
— Sentíamos que teríamos uma imensa coleta aqui hoje,
você atrapalhou tudo.
Olhei em volta, todas as adagas com sangue e perguntei.
— Alguém não coletou o primeiro indicado?
Os seres me olharam, se olharam, todos tinham o feito.
— Acho que sim, eu só coleto o que me indicam, e meu
caminho ainda está em aberto.
— Mas...
— Está me atrasando rapaz, posso ser o principiante, mas não
tenho tempo para conversar.
Os demais se olham e Carlos olha para o rapaz na ambulância,
ele olha para ele pela janela, olha a moça olhando para a confusão e
parou do lado de fora da janela, sente o coração do rapaz
acelerando, sente ele por a mão no peito, sente ele olhar sem ar,
passa a adaga e espera o rapaz cair ao volante, a moça olhava ele
assustada, enquanto a alma se solta, ele estica a mão para a alma, e
vê tudo mudar.
O senhor de luz sorriu para o rapaz, Carlos não entendeu,
pareceu sorrir pela primeira vez para Carlos, que solta a mão do
rapaz indicando o caminho.
Carlos surge na rua e olha para traz, os rapazes ainda olhavam
para ele, que pega o sentido que iria, chega a duas quadras dali,
vendo o corpo a calçada, para quem acompanha parecia um dia
agitado, para Carlos estava apenas numa tarde normal.

328
Quando ele ressurge novamente olha para os rapazes
olhando para ele, nunca trabalhou em equipe, nem soubera que a
cidade do Rio de Janeiro tinha tanta gente.
— Vai nos explicar?
— Explicar? – Carlos.
— Todos nós estamos fazendo isto, gostamos de organização,
eu coordeno as ações, não é um trabalho fácil, não é um caminho
sem controle.
— Não entendi.
— Estou dizendo que não pode coletar na cidade sem minha
permissão.
— E quem é você para dizer que não posso?
— Carlos 532.
— Alguém mais velho, pois isto é gente que nasceu a menos
de 30 anos.
— Eu morri a este tempo, não nasci.
— 532, se não sabe que nasceu no dia de sua morte, explico
que quando tiver o direito a morte, nascera em luz, quem o
conduziu a este caminho?
— Apenas fomos indicados no caminho.
— Quem lhe indicou lhe colocou como líder?
— Não.
— Vocês parecem ser mais de 10, quantas mortes estão
deixando de acompanhar nestes minutos?
— Já tivemos nosso dia encerado, você o encerrou.
— Não o fiz, os 3 seres que estavam naquele lugar que
morreriam, morreram.
— E tem mais?
— Até a meia noite devo ter um a cada 12 minutos, 5 por
hora, raramente mais de 120 por dia, mas ainda faltam 3 horas e
meia, ainda falta 17 seres, e desculpa, se não tem mais ocupação,
preciso continuar meu serviço, posso ser um principiante, vai ver
que é por isto que me dão toda desta quantidade e para você
poucos por dia.
Carlos passou por ele, teria de avançar mais duas quadras, e
olha para os rapazes o cercarem.

329
— Não acabamos para você, não vai sair antes de nos explicar
quem é?
— Alguém me disse há alguns anos, agora você é um
“Agricultor”, e terá de caminhar, a cada caminhada saberá quem
estará no seu caminho e que tem de encaminhar, mas ele nunca se
apresentou, imagino que deva ter sido um Carlos, que é sinônimo
de Agricultor, e que no nosso trabalho é sinônimo de Coletor, mas
desculpa a falta de educação, mas nunca me foi permitido passar
meu trabalho a outros, dizem que é minha missão, ela me levará
aos campos de luz, se quer chegar antes 532, faça o seu caminho,
nenhuma alma que era de outro, lhe pertence, então somente as
suas lhe darão o caminho.
Carlos passa por eles e 532 olha Carlos se afastar e fala.
— Ele deve estar em inicio, alguém o deu um caminho
corrido, ele sozinho corre mais que todos nós juntos.
— Mas nunca o vimos.
— Ele tem razão, todos nós entregamos a alma do dia, mas é
que quando todos surgiram ali, tudo indicava uma grande colheita,
aquela que o antigo 254 dizia ser a que nos levaria a uma posição
melhor, ele foi mudado para o sul, nem sabemos onde.
— Acha que ele vai nos atrapalhar?
— Vimos que ele é rápido, mas espera acontecer, vi ele saber
que o rapaz no carro era dele, ele esperou, o rapaz teve um ataque
cardíaco, e ele estava ali para nem dar chance de que ele não fosse
aos campos de luz.
Todos se olham, todos viram ele surgir no campo, todos viram
que a missão dele era a criança, não pareceu ter pena, muitos
falhavam nas crianças, então a Carolina 127 olha para 532 e fala.
— Vi a frieza dele diante da criança, sempre disse que quando
se fala em vales de luz, a rapidez tem de ser aquela, para garantir
menos traumas possíveis.
— Ele parece apurar o passo, mas será que ele falou a
verdade, 120 por dia, ele pelo jeito não descansa. – 532.

330
Carlos senta-se a beira da praia,
acabara de ver um banhista estrangeiro ser
deixado nos campos de luz, ele olha em
volta, olha para as estrelas, as duas luas ao
céu, uma que começou ver somente depois
de morto, mas olha as estrelas e se
pergunta quantos deles deveriam existir
próximo a cada estrela daquela, não sabia o que aconteceria, mas
tudo indicava um novo caminho no dia seguinte, ele o recebera
independente de onde estivesse.
Pensa no rapaz que deixara naquele mundo escuro, luxuoso,
nunca deixara alguém fora dos campos, sentia que as coisas eram
para atrair naquele lugar, lembra do cheiro e resmunga.
— Poderiam nos preparar melhor para isto.
Ele olha para o céu, parecia uma luz, fecha os olhos, reflexo,
abre e olha um ser a sua frente.
— Carlos, temos reclamações de você.
Carlos olha o ser que o deixara ali, olha em volta, tinham
seres de luz, ele nunca fora a aquele lugar, ele sentia a revolta de
todos, olha para o ser a sua frente.
— O que tem a dizer.
— Não ouvi as acusações e reclamações ainda.
Carlos olha para os seres, ninguém falou, ou ele não ouviu
nada, estranha, pois o rapaz que lhe colocara nisto, lhe olha e fala.
— Ninguém entende como não os ouve.
— Nunca ouvi, qual a urgência disto?
— Falam que você cometeu um erro hoje, este erro, levou a
pessoa ao Inferno, pois se tivesse o trazido 48 segundos depois, ele
viria ao céu.
— Aquilo era o inferno?
— Sim, mas eles não gostam dos “Coletores” tendo contato
com o inferno, vocês são mensageiros do Céu, não do Inferno.

331
Carlos não entendeu, pois não fazia sentido, ele olha como se
na duvida e ouve algo as suas costas.
— Tem de entender Carlos, nem eles sabem tudo.
Carlos se vira, olha aquele ser olhando-o e pergunta.
— E você posso ouvir?
— Eles não me veem.
— Como existe algo que os seres dos campos de luz não
veem?
— Tem de entender Carlos, eles não me veem, apenas isto, e
eles não estão ouvindo isto, pois assim como tempo é determinado
por cada ser, quando você não está em carne, você consegue
computar até 100 mil palavras num segundo, então o que falamos,
eles não verão, é como se tivéssemos muito mais rápido neste
momento.
— E o que farão?
— Estão estudando ainda o que fazer.
Carlos olha para os seres, sente o ser ao lado se mexer e nem
olhou para trás.
— Eles querem uma solução, dizem que não vão admitir que
conduzamos almas ao inferno.
— Não me perguntaram a 137 anos, se o queria, assumi uma
função, me dediquei 137 anos nisto, mas se agora tudo que fiz, não
conta, paro, se acham que fazem melhor, façam, ninguém nunca me
passou assim como Carlos ao meu lado, um única vez, as regras,
vocês não nos passaram isto, mas como um Carlos, estou a
disposição, sempre, 24 horas deles, mas quem determina isto são
vocês.
Carlos não ouviu eles bradarem, mas o fizeram alto, a ponto
de outras almas chegarem a volta para ouvir, mas Carlos não as
ouvia também, talvez ele nunca tenha ouvido uma alma antes, e
estranhava estar naquela função.
O senhor que o colocou nisto, via que Carlos não ouvia a
discussão, mas todos ouviram seu desabafo, eles nunca se
perguntaram se Carlos ouvia o que eles falavam antes, então por
anos, décadas, mais de um século, eles acharam que sim, pois
Carlos o fez sem perguntar, agora se viam com um problema, e
Carlos, não ouvia eles, o agora aposentado e caminhante dos vales
332
de luz, não tinha como estar ao lado de Carlos muito tempo, pois
agora como ser de luz, acabaria por matar a alma ou a transformar,
então não teria como o fazer.
Carlos ficou ali estático, os seres, não pareceram se importar
com o que ele falara, pois poderiam ter indagado Carlos através do
ser ao lado e não o fizeram, mas lembra do rapaz olhando para ele e
lhe estivando a mão. Carlos surge em um caminho, não era mais a
Terra, e novamente, ninguém o dissera o que tinha de fazer ali.
Carlos olha em volta e pensa algo, que falara com um amigo
irlandês enquanto cavava a ponte do Brooklyn, “A única coisa
Definitiva é a morte”, sorri da frase, pois não, tinha muita coisa
depois deste definitivo, e a cada dia, parecia mais longe do
descanso, lembra que quando deitou com o peito queimando e a
cabeça explodindo, na noite de sua morte, desejou o fim das dores,
mas não pensava nunca virar um “Coletor”, Carlos estranha, pois
desde que fora tocado, suas lembranças pareciam não terminar de
se formar, e começa a lembrar quem foi, mas ainda não tinha um
nome.
Ele caminha pela trilha, ele olha suas mãos, sem sua veste
padrão e sem nada para se defender, sorri, deixara de ser Carlos,
agora teria de recobrar suas lembranças, para talvez voltar a ser ele
mesmo, e ter uma chance, mas novamente, não haviam lhe contado
o todo. Carlos tenta lembrar do exato momento de sua morte, e
não lembra, poderia estar ai o problema, poderia estar neste
momento, descobrir o que fizera que descontentara o caminho de
Luz, os seres de Luz, Carlos olha em volta e tenta lembrar do ser que
falara com ele, estranho, algo que estava ao lado e eles não viam.
Carlos como alguém que não descansara nos últimos 137
anos, estava a caminhar, não sentia o cansaço, talvez sua alma não
se cansasse mais. Sorri da ideia de não se cansar, de não ir a lugar
nenhum, e olha um ser parar a sua frente, ele rosna, pareceu falar
algo, mas Carlos não ouvia o ser, olha que ele parecia querer que
ele recuasse, era a estrada, estava em um mundo acima dos vivos,
olha para o ser lhe atacar, ele se defende com os braços, segura as
patas dianteiras do ser, que parecia um grande cão com seus dentes
a mostra, ele tenta evitar ser mordido, mas via que outros
chegavam a volta.
333
Ele sente o corpo desiquilibrar e vai ao chão, segurando o ser,
sente a cabeça tocar o chão, e depois de anos, sente dor, ele
pareceu meio desconcertado pelo sentir da dor, ela lhe trouxe
lembranças de quando fora uma criança, ainda na Irlanda, ele olha o
ser o segurando e fala.
— Porque me ataca?
Carlos via o ser falar, mas não ouvia.
Olha para os lados e fala.
— Alguém que eu ouça, sacanagem não ouvir além de minha
voz.
O ser pareceu olhar para ele, parar de rosnar e Carlos ouve
outro ao longe.
— Ele não lhe ouve Cão, por isto ele não lhe respondeu.
Carlos olha para o que falara e pergunta.
— Porque lhe ouço e não a ele?
— Não sei, todos me ouvem, todos lhe ouvem, não sei,
deveria ouvir, não tem como ouvir um e não outro.
— Onde estou?
— Purgatório.
Carlos segurou as palavras, parou e pensou, fizera o trabalho
para os seres por mais de um século, e o que conseguira de
reconhecimento, o Purgatório, porque era a pergunta.
— Posso fazer uma pergunta? – Carlos ainda olhando o ser
que tentava segurar longe sua boca.
— Sim, mas Cão não acreditou em você.
— Imagino, mas assim como não ouvi ele, não ouço os seres
de Luz, mas ouço quem me levou a eles, devem pensar o mesmo
que o Cão, mas não quero levar ninguém a meu problema, peço
apenas passagem, pois não quero complicar ninguém com meus
problemas, posso apenas passar?
— Mas está no caminho dos cães, que leva ao Inferno,
porque quer caminhar para lá, ninguém quer caminhar para lá.
— Me colocaram nesta estrada, eu sempre caminhei pelas
trilhas que os seres de Luz me indicaram, eles novamente não me
falaram, ou não ouvi, e como colocado neste caminho, caminho por
ele. Mesmo odiando a ideia.

334
Nas ruas do Rio de Janeiro, Carlos
532 olha para os nomes e locais surgirem
em sua mente e olha para outro.
— Hoje o dia vai ser apurado, algo
anormal aconteceu, o dia vai ser de muitas
mortes.
— A minha lista tem mais de 11 a
mais que ontem, e a sua? – 573.
— Também outros 11 a mais que ontem, pelo jeito vamos
somar muito em trabalho nestes dias a frente.
O grupo começa a fazer seus caminhos, no fim daquele dia,
Carolina 127 cansada.
— Um dia apurado, como seria ter 120 mortes para fazer em
um dia, se 18 me deixaram correndo o dia todo.
573 olha ela e fala.
— Duas repreensões por ter demorado demais, sem 120, com
120, teriam me chamado de principiante.
Carlos 532 olha em volta e fala.
— Pelo jeito transferiram para nós as mortes daquele rapaz,
não o vi por perto, nem o senti, alguém o viu?
Todos se olham, não havia o visto, mas viram surgir um rapaz
novo a frente e com a numeração nas vestes, de Carlos 700, roupas
novas, e fala.
— Este sim tem jeito de novato.
Os demais sorriram, mas o rapaz saiu para coletar as suas
almas, ele não olhou para eles, mas estava a fazer seu primeiro dia,
quando uma moça surge a sua frente, ela fora apaixonada pelo seu
companheiro de serviço, não falara, ele morrera do coração no dia
anterior e ela não aguenta a pressão e corta os pulsos, o rapaz novo
passa a lamina em sua garganta, lhe estica a mão e surge no campo
de luz, ele ouve o agradecimento e volta a seu caminho, a moça de
nome Camila olha o ser de luz que lhe toca a cabeça e ouve.

335
— O caminho dos que se suicidam, é o Purgatório, o caminho
que somente entendendo que sua alma é mais importante que tudo
a volta, poderá caminhar por este campo de luz.
Camila olha o caminho de pedra a frente, e um Cão surge a
sua frente, ele a olha e pergunta.
— O que a trouxe ao caminho dos cães alma penada.
— Me suicidei.
O cão olha os demais e fala.
— Preferia quando eles mandavam estes ao inferno.
— Deixa ela caminhar para lá Cão. – Fala uma moça ao fundo.
A moça olha com medo os seres e acelera por aquele
caminho, corre com medo e a frente tropeça em um rapaz, ela fala
e ele não responde, Carlos a olha e fala.
— Desculpa moça, não ouço muitos, acho que este é meu
desafio, até encontrar um lugar que todos me ouçam.
Ela olha para Carlos, ele a olha aos olhos e sorri.
— Não sorria moça, eu nunca fui bom, eu trabalhei, eu fiz o
que achava ser certo, mas me responderia com um sim ou um não
uma pergunta? – A moça estranha, mas Carlos lembra dela da
ambulância, lembra dela salvando gente, e ela estava no purgatório,
como alguém assim foi parar lá.
Ela sacode afirmativamente a cabeça.
— Um ser com vestes de morte, com uma pequena espátula
lhe conduziu ao ser de luz?
Ela sacode afirmativamente.
— Ele lhe mandou para cá?
Ela sacudiu afirmativamente.
— O que alguém que salvava vidas, fez para acabar aqui?
A moça mostra os braços cortados e Carlos olha para ela com
uma lagrima nos olhos.
— Amava o rapaz que estava sempre na ambulância com
você?
A moça olha ele e fala.
— Como sabe tudo isto?
Carlos não ouviu e sacode a cabeça afirmativamente e fala.
— Deve ser terrível não conseguir ouvir nada.
A moça fala e olha em volta e pergunta.
336
— Para onde vai isto?
Ela se assusta a ouvir alguém responder as costas.
— Ao inferno, mas pelo jeito ele sabia algo a mais, moça.
A moça olha para trás e olha o grande Cão.
— Por quê?
— Ele lhe fez perguntas como se lhe conhecesse, mas as
vestes são as da época que você viveu, diria que ele morreu a mais
de 130 anos.
— E como ele saberia?
— Ele também não me ouve, não sei, tem uma única moça na
matilha que ele ouve.
Carlos via os dois conversando, parecia excluído e começa a
caminhar, a moça olha para ele e fala.
— Ele parece triste.
— Ele parece não acreditar que fora lançado aqui.
— Para onde vai este caminho?
— Para o inferno, alguns param no caminho por saber isto,
ele pareceu não acreditar que lhe colocaram neste caminho, mas se
o colocaram, ele vai caminhar por ele.
— E o que acontece aos que param?
— As dores, os desafios, independente de caminhar, o
purgatório não é um lugar para fracos, a maioria definha, se perde,
esquece quem é, mas observo ele, algo está errado, as pessoas
evoluíram nas vestes, nas palavras, ele não, mas parece mesmo no
silencio, caminhar.
— Mas disse que uma das moças ele ouve?
— Uma das Cadelas, do caminho dos Cães, não uma moça.
— E porque aconteceria isto?
— Não sei, o observo, ele perguntou para mais de 30 seres,
coisas como perguntou para você, ele parece saber como estas
pessoas morreram, mas ele não as indagou sobre o começo, ele
indagou antes de você, sobre se o ser havia lhes conduzido para cá,
e geralmente ele sabia a forma que morrera, você ele não viu, mas
sabia que fizeram, é como se ele – o cão olha o senhor – eles não
fariam isto com um deles.
— Fazer oque?

337
O cão rosna para longe chamando uma cadela que chega ao
lado e pergunta.
— O que lhe intriga agora Cão.
— Nina, preciso que pergunte algo para o senhor.
A cadela olha o senhor indo longe e pergunta.
— Ainda ele?
— Poderia me perguntar uma coisa para ele?
— Faço, o que precisa perguntar?
— O nome dele, o que ele fazia antes de vir para cá, não
antes de morrer.
Os três aceleram o passo e Carlos olhando eles o seguindo
param e Nina olha ele e pergunta.
— Me seguindo?
Nina olha para ele e perguntou.
— Cão gostaria de saber uma coisa.
— Oque?
— Qual seu nome?
— Carlos.
— O que fazia antes de vir para cá?
— Antes de morrer?
— Não, antes de vir.
— Era um “Coletor”, não sei se sabe o que é um coletor.
Nina olha para Cão e fala.
— Ele se chamava Carlos, era um “Coletor”, não entendi, o
que isto tem de importante.
Cão se levanta, olha Carlos e fala.
— As vezes queria entender os seres de Luz Nina, os cães
nunca vão a Luz, não sei porque, mas pergunta para ele, a quantos
anos ele morreu?
— Morreu em que ano? – Nina.
— 1880, em New York, era um Irlandês, mas meu nome desta
época, ainda não lembro.
Nina olha para Cão.
— Ele era um “Coletor” Nina, eles são o braço dos Seres de
Luz, eles que indicam o caminho para o céu, mas começo a
entender o que ele queria saber.
— Por quê?
338
— Todos dizem que os “Coletores”, são seres que coletam
para o reino de luz, todas as leis estabelecem isto, mas ele pelo jeito
olhou alguns que ele coletou, e no lugar de estar no Céu, estão no
caminho do inferno.
— Esta dizendo que ele é a “Morte”? – Camila.
— Não, a “Morte” nunca existiu, aquele ser nunca se chamou
morte, e sim “Agricultor”, Carlos é Agricultor na tradução literal,
nunca entendi a existência de almas com sexo, mas as masculinas,
Carlos, as femininas Carolina, mas o que alguém que pelo jeito
prestou serviço mais de século, fez a ponto de ser lançado aqui.
Cão olha para Carlos como se perguntando o que estava
acontecendo, via ao longe alguns, olha para o rapaz ao fundo e fala.
— Não sei o que está acontecendo, mas com certeza, algo
está acontecendo, e o senhor ai, não deveria poder passar a frente
o que viveu, o que fez, mas não entendo ainda por que.
O grupo olha Carlos voltar a caminhar e Nina pergunta.
— Não para nunca?
— Eu sempre trabalhei 24 horas por dia, 365 dias por ano,
nem sei o que é ficar parado muito tempo.
— Pelo jeito mandou muitos para cá.
— Eu fiz algo errado, pois dizem que matei alguém 45
segundos antes e pela primeira vez entreguei alguém no inferno,
mas a pergunta, se eles querem eles longe do inferno, e colocar
aqui, nada muda, ou o que muda, mas como 45 segundos, a menos,
pode dar direito a alguém vir ao purgatório, e não ir ao inferno.
Nina olha para Cão, ela estava de interprete ali, e Cão fala
para ela.
— Pelo jeito ele foi culpado por algo que todos dizem que não
é função de um coletor, ele não abre o caminho, quem abre deveria
ser os seres de Luz, mas pelo jeito nem são eles.
Carlos nem olhava para eles conversando pois ele não ouvia,
as vezes era quebrado o silencio por algo, mas a maioria das
pessoas ele não ouvia.

339
A ordem de mortes no Rio de Janeiro
fez terem de colocar 10 pessoas extras para
junto com o aumentar das cargas para as
pessoas, para cobrir a ausência de Carlos, o
sistema estava sobrecarregado naquele
ponto, mas o estabelecer de novos seres,
sem experiências, gera atrasos, gera
problemas, e no fim do segundo dia Carlos 532 diante do ser de luz
ouve.
— Vocês não está dando conta, afastei apenas um senhor, e
vocês parecem não conseguir cobrir a ausência dele.
— Pedimos compreensão, estamos nos adaptando.
— Não me forcem a fazer com um de vocês o que tive de
fazer com o ser.
— Não entendi senhor. – Carlos 532
— Carlos NY foi mandado ao purgatório, pois ele falhou,
espero que não me decepcionem.
Carlos 532 olha o senhor, estranhou, pois em duas afirmações
sua cabeça se perde, não era um principiante, era o famoso Carlos
NY, e que mandaram alguém que fez mais de século de serviços ao
purgatório.
— O que não podemos fazer de forma alguma senhor, para
não sermos condenados, já que uma lenda o foi? – 532.
O ser de luz não respondeu, olhou outro ao fundo, apenas fez
sinal para ele sair e manda chamar quem foi o Carlos anterior ao
rapaz, hoje de nome John, pois voltou a ser o que era antes.
— Pode me responder uma coisa Luz John?
— Sim Grande Luz?
— O que Carlos 532 quis dizer com “o que não podemos fazer
de forma alguma, para não sermos condenados, já que uma lenda o
foi?”
— Nunca considerei Carlos NY descartável senhor, ele é o
“Coletor”, com maior tempo de serviço, de todos, eu coletei por 12
340
anos, os demais, coletam entre 10 e 35 anos, ele coletou por 137
anos, sei que quando ele falou, vocês se irritaram, mas sim, ele o
fez, todos vocês ignoraram todos os acertos por um erro, mas ele
não deveria estar mais coletando, mas obvio que alguém com
experiência faz com muito mais pratica, e se ele não havia visto uma
alma ir ao inferno, ninguém o viu senhor, pois ninguém coleta como
ele, ninguém se esforça para terminar as linhas inteiras, sei que ele
o faz, e sempre passam a ele as cargas que sabem que os demais
não vão cumprir.
— Mas ele falou em lenda.
— Ele está a muito tempo nisto, mas ninguém o identificaria a
rua, ele nunca se apresentou por Carlos NY.
— Pelo jeito falei demais, o rapaz não sabia que o
condenamos, mas tem de manter a ordem.
— Sabe que não é minha função o fazer Grande Luz, a séculos
não estou nisto, eu quando me chamaram referente a ele, pensei
que ele descansaria finalmente, mas nunca contestei assim como
ele as ordens, a executei, mas obvio, não posso dizer que gostei.
— Ele faz que não nos ouve.
— Ele não os ouve, sabe disto, mas mesmo que ele ouvisse, o
que tinham decidido não mudariam, pela primeira vez mandaram
um “Coletor” caminhar no caminho do Inferno, só vejo um
problema nisto senhor.
— Problema?
— Ele não vai parar no caminho, talvez tenhamos um
“Coletor” no inferno, mas não sei se vocês não pensaram nisto, pois
parece bem o que queriam.
O ser olha Luz John, não haviam pensado nisto, talvez o não
ter gente que conseguisse, não os fez pensar, mas o ser olha e sorri
para John.
— Está se deixando a levar pela lenda Luz John.
John não falou nada, eles continuavam a achar que o ser não
chegaria lá, as vezes ficava pensando se Carlos sabia o quanto os
demais falavam dele, as vezes achava que as pessoas começaram a
achar que era apenas lenda e esqueceram de o trazer para a Luz, ou
tinha algo que ninguém falava.

341
Carlos 532 olha para o fundo,
passando o pequeno objeto no pescoço, ele
não falaria mais nada, na parte superior,
estava segurando suas palavras, eles
alardearam no problema do tempo do
rapaz, ele tenta lembrar da precisão do
senhor, ele sentia o ar, ele não parecia
correr, e ao mesmo tempo, executar o que precisava.
532 estava quieto, ele não sabia se poderia passar o que
ouvira a frente, poderia ser um teste, não ao ser, e sim a ele, mas a
afirmação de que o senhor foi ao purgatório não saia de sua mente,
ele pensava em fazer aquilo para descansar no reino de luz, ele
estava distraído, o senhor olha ele entregando mais um, agradeceu
e 532 nem ouviu, parecia distante, some dali, surgindo a frente do
mar, olha seus afazeres, teria um dentro de mais de uma hora.
Ele olha alguns surgirem a sua volta e olha para eles,
pareciam se perguntar o que ele pensava, mas o silencio dele era
mais preocupante.
A moça olha para ele e fala.
— Pelo jeito lhe puxaram as orelhas, pois está quieto demais
532. – Carolina.
— Acho que estou cansado. – O rapaz olhando o mar ao
fundo.
— Você cansado fala mais do que nós 532. – Outro Carlos.
Ele olha outros chegando e pergunta.
— Todos já na folga? – 532 querendo os por a trabalhar.
Carlos 573 chegava a eles e pergunta para 532.
— O que falou 532?
— Porque?
— Mandaram relatar o que havia reclamado ou falado, está
quieto, mas alguém lá espera que fale e quer saber oque.
Carolina olha para 532 e fala;

342
— Vai dizer que aquele rapaz de dois dias atrás reclamou de
você e não vai dividir com a gente?
Carlos 573 olha para 532 e fala.
— Se é isto saiba que não vou falar nada.
— Não é, mas sei que estou em um teste 573, as vezes acho
que eles falam coisas para nos testar, mas não sei ainda o que falar.
— Vai negar que aquele principiante fofocou de você.
532 olha para Carolina e fala.
— Sei que analisamos o rapaz apenas por não o conhecer,
mas estava estes momentos lembrando a forma dele agir, limpa,
sem estardalhaço, vi ele mandar dois para o outro lado, e mesmo
assim, de forma rápida, silenciosa e precisa, ou alguém viu uma
falha naquilo.
— Reclamamos por ele estar ali, todos já tinham agido, mas
parecia que teria mais mortes. – 573.
— Mas era um principiante, pois quem seria obrigado a fazer
tantas coletas em um dia. – Carolina.
532 olha para os demais e fala.
— Acho que vocês não entenderam quem é aquele rapaz,
mas ele não é um principiante, ele não se dá ao trabalho de formar
uma equipe, ele trabalha sozinho, ele produz sozinho o que nos foi
passado a mais.
— Não entendi, o que quer dizer 532.
— Aquele Rapaz estava de passagem, mas aquele é Carlos NY.
Todos olham para 532, o rapaz não os desafiou, não os
enfrentou, não discutiu, ninguém sabia quem era, poucos o haviam
visto pessoalmente, os demais sorriram e 573 pergunta.
— E ele está por ai, ninguém fala, quer dizer, ele estava
caminhando numa missão, nós que atravessamos o caminho dele,
não ele o nosso, mas onde ele está, que passaram para nós o que
ele estava fazendo.
Carlos 532 olha para eles, não responde, ai estava a
pegadinha, mas começa a caminhar para a região norte da cidade,
onde teria trabalho em pouco mais de uma hora.
Os demais ficam olhando Carlos 532 sair e 573 pergunta.
— O que o mordeu?

343
— Ele quase destratou uma lenda, mas acham mesmo que o
senhor se foi, onde ele pode ter ido?
— Para os campos de luz, até ele merece descanso.
Os demais sorriram, sabiam que este era um momento que
todos esperavam, ficavam pensando no dia que iriam aos campos
de luz, acharam entender o que 532 estava pensando.

344
Carlos olha o primeiro portal de
saída, se via a imensa inscrição, o que dizia,
não sabia, ele nunca se dedicou a algo fora
de sua função, morrera trabalhando para
ter comida, depois se dedicou a um serviço
que o fazia a tanto tempo, que as vezes
tinha de ver o ano que estava para lembrar
quanto tempo estava nisto.
Ele lembra de gente que começou depois dele, e achava já
estar nos campos de luz, ele olha o portal, existiam dois cães nas
pontas, um escrito com símbolos que não entendia, sai e olha
aquela trilha no sentido da montanha ao fundo, olha para cima, não
se via a altura, quando chega a primeira ponte, logo a frente olha
para baixo e vê que estava alto, olha para a montanha, olha o
caminho, ele descia, não subia.
Carlos olha para trás e vê que 3 pessoas o seguiam, a Cadela
ele ouvia, os demais não, mas não entendia o que eles pretendiam,
olha para o fundo e vê alguns vindo também, gente que parara a
beira da estrada e agora estava ali.
O caminho em descida, sem ninguém, naquele ponto
ninguém parava, pois era uma ribanceira a esquerda, uma
montanha de rochas a direita, um estreito caminho que mal passava
um, mas mesmo assim, não foi difícil descer, ele olha quando
termina a descida e olha a abertura na rocha, o caminho se dividia,
um ia para fora, onde se via os que ali chegaram, e um que ia para
dentro, ele caminha para dentro e olha para a dificuldade de ver,
entendeu que ali seria no tropeção quando segurasse e quase
desequilibra, sente o calor vindo da esquerda, olha aquele magma
começar a jorrar e correr ao lado, dando uma cor ao caminho, uma
cor laranja avermelhado.
Ele olha em volta, não tinha tecido, mas o cheiro do local era
forte de mofo em tecido, ele olha para o caminho e pensa em
passar rápido, sente a pressão subir do local, suas memorias lhe
345
levaram a um trabalho simples do passado, empurrar lama para um
corredor, um emprego que parecia fácil, mas lhe tomou a vida.
Ele para a entrada e olha para trás, estranhou aqueles seres
estarem ali.
— Vão me seguir?
A cadela olha para ele e fala.
— Não parece saber onde vai, ninguém entra, todos ficam
esperando a chegada dos barcos para levar ao caminho a frente.
— Quem dera existisse caminho certo, errado, duvidoso,
todos os caminhos levam ao futuro, e o futuro é que importa,
independente do caminho.
A moça olha para Carlos continuar, e Cão pergunta.
— Ele sabe onde vai?
— Com outras palavras ele falou que o que importa é o
futuro, não o caminho.
Cão olha a moça e pergunta.
— Você se suicidou, mas o que fazia antes?
— Era enfermeira, perdi um amor, mas salvava vidas.
O cão olha para Nina e fala.
— O que ele está dizendo que tudo no passado não foi
considerado, pois o que importa é o futuro, não importa o caminho
cego, mas o futuro, e parado não chegamos ao futuro, ficamos nas
conquistas do passado. – Cão.
Carlos olha para trás e fala.
— Não sei o que falou, mas consegui quase ouvir algo, bem
baixo, mas estranho ouvir resmungos onde não existia resmungos.
Carlos olha para o caminho, sorri de entrar em uma antessala,
ela era imensa, olha para cima, se via como se a montanha fosse
quase oca, como se um dia aquilo fosse um caminho do magma
para cima, agora ele corria ao lado, olha as paredes lisas afinando
para cima, não existia saída, mas se via longe para cima, diria que
mais de 300 metros, sente-se pequeno, todos olham aquilo, o
magma iluminava as paredes, pareciam úmidas e emitiam uma
pequena luz, parecia verde, Carlos sorri, pois provavelmente seria
um fungo que já vira no mundo, ele ao lado de fora, seria brilhoso e
azulado, mas com a cor do local, puxando ao laranja, dava aquela
cor verde clara, subindo pelas paredes, chega a uma e olha que era
346
úmida, uma visão incrível, que poderia lhe mostrar um caminho,
mas principalmente um local diferente.
Nina olha para Cão e fala.
— Como pode existir um lugar lindo destes no purgatório?
Cão não respondeu, olha para Carlos que começa a sair, por
um corredor lateral, e olha fala.
— Vamos, não sei onde estamos indo, mas este rapaz parece
ser guiado, nunca ouvi alguém falar sobre isto, certo que ninguém
sobe no sentido dos cães, mas sempre alguém fala.
Carlos pega a direita e olha para a parede, ela não era escura,
olhando por dentro, ela era translucida, a falta de luz vindo da
parede que dava a sensação de escura, olha para fora, olha o
corredor que entrou, através daquela luz esverdeada que tomava o
lugar, olha através da parede translucida olhando aquele caminho
bem mais largo que a descida externa, mas o caminho começava a
descer, passa pela altura do magma, sentiu as paredes quentes, e a
luz local foi passando do verde para o azulado, agora apenas os
fungos luminescentes davam a luz daquele caminho.
Os demais olham que o rapaz estava indo mais para baixo, se
tinha algo ali ninguém sabia, mas ele estava entrando na terra.
O grupo via aquela cor azulada e esqueceu para onde
estavam indo.
Carlos caminha por horas, e para diante daquele senhor na
entrada de uma porta.
— Tem de pagar para entrar.
Carlos sorri, pois ele ouvira o ser falar, pelo menos não teria
de fazer o discurso de que não ouvia, embora os demais ou
ouvissem. Olha em volta e fala.
— Então vou ter de voltar.
— Não vai insistir?
— Eu não tenho além das posses de uma alma, como posso
lhe pagar para entrar.
— Sabe onde esta?
Carlos olha a luz amena, clima gostoso, olha para os
acabamentos, e fala.
— Garanto que as pessoas pensam em um lugar bem menos
aconchegante que isto, para a palavra inferno.
347
O ser olha para Carlos e pergunta.
— Sabe que agora me impressionou, sabe e mesmo assim
vem no sentido.
— Já entrou alguma vez?
— Não, a Luz me livre.
Carlos olhava para o ser e um senhor sai pela porta e fala.
— Este rapaz e os seus acompanhantes são esperados.
O senhor olha o ser, ele raramente saia pela porta, diziam ser
um mensageiro do Anjo Maldito.
Carlos vê o rapaz abrir caminho, os demais viram que o
senhor entrava em um local, o senhor não os barrou, o que lhes deu
a sensação de que eram esperados, mas ignoravam onde estavam.
Carlos entra e olha aquele rapaz ao lado de um senhor, o
rapaz tomava algo e o ser olha para ele.
— Bem vindo Carlos NY.
Carlos estica a mão e fala olhando o rapaz que fala.
— Nandinho do Pavão.
— As vezes queria entender as regras, que me regem senhor,
pois dizem que ele não estaria aqui se tivesse coletado 42 segundos
depois.
— E não entendeu? – O senhor com uma roupa bem
alinhada.
— Não.
— Quando eles estabeleceram o caminho ditado pela luz, me
tirando a mesma, pensei que seria o fim, mas a séculos ninguém se
prende a entrar pela porta, eles querem ser salvos, mesmo os que
não acreditam.
— E como está então por aqui? – Carlos – E o que 42
segundos muda isto.
— Sente a adaga ainda? – O ser.
Carlos olha para as mãos e sabia que sim, mas porque não
sabia, era como se a parte física estivesse ficado.
— E como sabe?
— Sou anterior as regras atuais, sou anterior a sua existência,
a existência dos Carlos, era mais natural as coisas.
— Mais natural? – Cão que olha aquele ser.

348
— Um dia no passado, os Cães entravam ao lado de seus
donos e com eles viviam, mas os seres de Luz, com ciúmes, não os
vai ver falar isto, da dedicação dos cães aos seus donos, amor sem
pedidos, sem pedir nada de troca, proíbem os cães no mudo de Luz.
Carlos olha o ser olhar para ele e fala.
— E como alguém sabe disto, quando falo disto, todos a volta
duvidam. – Cão encarando o ser.
— Um dia Cão, sei que foi tirado do lado do seu dono, sei que
estava lá, sei que foi triste, mas enquanto você ainda lembra de seu
dono, este, agora adora a Luz.
— E quem é você.
— Um dia me chamaram de Beliel, apelidado por muitos,
ainda quando no lado superior, de Lúcifer, o mestre da luz, mas isto,
era antes, nomes como Lúcifer, não me caem mais, pois não estou
mais lá ao lado da luz.
— Estamos no inferno? – Camila.
— Ninguém passa por aqui moça, para achar que está em um
lugar terrível, mas por um erro de Carlos NY, Fernando Oliveira,
conhecido como Nandinho do Pavão, veio ao meu caminho, e me
veio uma pergunta, a muito as almas aqui descansam, interagem,
vivem sua eternidade, mas este marasmo do passado, me fez
pensar porque estamos tão parados.
— Vai dizer que não faz as maldades que falam? – Camila.
Carlos olha para a moça, a voz forte dela lhe fez sorrir e
responde.
— Moça, o transferir para outros seus erros, é um dos pontos
que mais pesa, eu sei que quando me colocaram no caminho, de
coletor, era porque não me queriam no mundo da luz, poucos
foram aceitos rápido, mas vi alguns parados no Purgatório, eles não
me reconhecem mais, parados diante de lembranças e pecados de
um passado, mas todos os erros em Terra, são das almas, elas
deveriam saber, do básico mas sei que não sabemos.
— Agora me ouve?
— Isto aqui dentro, lá fora não.
Carlos olha para o ser e pergunta.
— Porque aqui me sinto integrante, lá apenas uma alma sem
interação.
349
— Carlos, você quando estava com a dor na cabeça, perdendo
as forças para aquela pressão constante em seu cérebro, pegou
uma arma de atirou em sua cabeça, você como suicida, tende a ir
para o Purgatório, mas a escolha dos seres que serão coletores, são
seres como você, que sentem a adaga a mão, embora sei que alguns
que estão colocando lá, não a sentem, tem de ser treinados.
— Como assim?
— O Carlos que lhe sucedeu, lhe encontrou, mas quem sente
a adaga, é o ser de luz, quando ele lhe apontou, o outro poderia
descansar, mas ele não tinha o suicídio em seu caminho.
— Então estou no caminho do purgatório pois me suicidei.
— Regras de quem nunca sentiu uma dor Carlos, se você
olhasse ao lado, conversasse com alguém, no lugar de se dedicar a
sua função, 137 anos sem perguntar, veria que Carlos NY é uma
lenda, você coletava almas em um dia, que um grupo de 12
coletores o faz com trabalho, você sente as almas que vão cruzar
em seu caminho, mesmo antes das listas diárias, porque ainda tento
entender.
— E porque uma diferença de segundos muda as coisas?
— Acha mesmo que são os seres de Luz que determinam o
caminho Carlos.
— Nunca perguntei sobre isto, as duvidas me vieram quando
soube que estava no purgatório, mas por algum motivo, nem ali
consigo interagir.
— Você interage com os lugares que lhe são parte Carlos, se
você não interage com os seres de luz, não é seu lugar, se você não
interage com os seres do purgatório, apenas com alguns, é porque
alguns não deveriam estar lá, mas não quer dizer que aqui seja seu
lugar, apenas um lugar que você seria aceito como é, assim como no
mundo real.
— Mas quem comanda o caminho?
— As mortes são marcadas para segundos que o caminho da
Luz está aberto, na verdade você usa as curvas de entrada deles,
não o contrario, qualquer outra hora, eles não estariam lá, mas
quem determina o caminho, a anos não me permitem usar, a
verdadeira Luz.
— O que é a verdadeira luz?
350
— Um caminho sem volta, sem intermédio, quando você vê
um ser de luz, você passa a ser parte dos planos deles, uma vez fiz
parte, eles parecem ter me excluído, seres que se olha-los, parecem
com seres de Luz, mas o brilho deles não lhes agride os olhos, o
toque deles, acalma, lhe dá o rumo.
Carlos olha em volta, olha para o Beliel e fala.
— Está dizendo que seria aceito no mundo da Luz real, mas
não no mundo da Luz?
Beliel sorriu, olha em volta, sente a energia voltar no lugar, e
fala.
— Você os viu?
— Um ser de Luz, voz calma, ele me disse que os seres de Luz
não sabiam de tudo, senti a calma para ser condenado, não gostei
da condenação, mas nunca contestei, mas pareceu me abrir a
mente a perguntas e lembranças do passado.
— Carlos, talvez você seja o ser que foi previsto, o agricultor,
que nos indicaria o novo caminho. – Beliel.
— Como novo caminho?
— Parte do que vou dizer, é apenas acho, pois vejo parte, não
o todo, mas estou excluído do poder da Luz, de caminhar as cegas,
de enxergar o caminho, mas quando da grande briga, entre eu e os
seres de Luz, foi quando me foquei em entender as almas, e a
grande Luz não queria os estudando, queria a adoração.
— Nunca entendi a guerra. – Cão.
— Escrever sobre ela é fácil, todos mentem, ninguém estava
lá, então todos os relatos são falsos, o ser que recebe os seres
quando coletados, e chamado de Grande Luz, é um anjo, como um
dia eu fui, mas em nada ele tem de Luz, pois os seres de Luz nos
abandonaram, quando a própria Luz se denominou Deus.
— Está dizendo que os seres que comandavam
verdadeiramente o local, apoiaram a sua saída?
— Não, eles deixaram de interagir, quando eles vendo nos
guerreando, nos matando, consideraram uma grande falha, quando
se isolaram, foi dito com todas as palavras, que as almas para
chegar a Luz, agora teriam de ser coletadas por agricultores, estes
sentiriam a morte as mãos, não a luz, e somente através do

351
aprender com o tempo, chegaria o dia que eles voltariam a
interagir.
— Acha que sou isto, eu nunca interagi nem com o meu
trabalho.
— Carlos, eles não apareciam para ninguém a mais de 4 mil
anos, você em si, é o maior coletor que eles implementaram,
embora saiba que existem milhares de coletores como você.
— Imagino, pois não coleto mais que quarenta e três mil e
oitocentos espíritos por ano.
Cão sorriu, nunca ouvira algo assim, agora entendera quando
o ser apontara o tal Carlos NY como lenda.
Beliel olha para a entrada, algumas almas seguiram o grupo e
ele fala.
— Sintam-se em casa, são todos bem vindos.
Camila olha Paulo entrar olhando em volta, sorri e chega ao
lado dele e Carlos sorri.
— O que lhe fez sorrir Carlos? – Beliel.
— Existem amores que não se separa.
— Carlos me passou uma coisa em mente, não sei quando
você completa 137 anos de trabalho exato.
— Teria de lembrar da minha morte com detalhes, isto foi me
tirado, mas porque?
— Carlos, você deve estar próximo ou chegou ao numero que
algo superior estabeleceu.
— Como assim?
— Se colocar a media anual sua, multiplicada pelos anos que
o fez, sem parar, Fernando pode ser o ser de numero 6 milhões das
suas colheitas.
— Acha que pode ter sido algo programado para acontecer.
— Eles esqueceram de você nos campos de coleta, somente
seres superiores para desfocar os seres de Luz a ponto deles lhe
deixarem lá.
— E o que aconteceria após isto?
— Não sei, eles estão tentando por mais seres para coleta,
mas parece que algo esta os atrapalhando, mas não sei ainda o que,
distração.
— Posso descansar aqui pelo menos esta noite? – Carlos.
352
— Pode, como disse, você era esperado, você me trouxe uma
alma após anos, mas algo aconteceu depois disto.
— Não entendi.
— Quando entrar pelo corredor amanha, depois de
descansar, observa como está o lado de fora, com calma, pela
manha.
Carlos não entendeu, mas o caminhar por aquelas terras
foram cansativas, e um rapaz do local lhe indica um quarto, ele olha
para a simplicidade, mas aconchegante, um inferno diferente do
que acostumara acreditar.

353
Carlos depois de mais de século, teve
uma noite de sono, ele sente os músculos,
senta-se a cama, parecia um quarto padrão,
uma jarra de agua na ponta, aquela luz
azulada do local dava uma sensação
estranha.
Ele sai pela porta, olha que o
corredor dava para um local que as pessoas que chegaram estavam
olhando encantadas, sai para a parte externa, olha para cima, uma
imensa lua, fixa os olhos, não era uma lua, era maior, um planeta,
azulado, olha em volta, as pessoas pareciam felizes, lembra quando
começou a caminhar naquele caminho, os rostos eram de perdidos,
de cansados, de querendo o fim da dor, ele olha os sorrisos, e ouve
uma voz.
— Veio à companhia dos normais? – Camila.
Ele olha o rapaz ao lado e fala.
— Como estão?
— Algo está estranho, dizem que estamos no inferno.
— Não, dizem que estão na casa de Beliel, ou Lúcifer, o dono
da Luz, do conhecimento, Inferno é a visão de quem está lá fora.
— Acha que ninguém vai relatar isto? – Camila.
Carlos olhava a praça e vê pessoas surgirem ali, almas em um
caminho natural, eles não pareciam pessoas ruins, mas tinham cara
de cientistas, olha aquele rapaz caminhar a eles, gente que não
deveria acreditar em Deus, pela regra que sempre mantivera, estes
seriam levados ao purgatório, até entenderem seus erros, mas eles
não consideravam e não viam naquilo a existência de algo superior,
e sim igual.
A mente de Carlos foi a sua missão, pois seres como os
Coletores estavam com data contada, ele teria de ter uma função,
quando o mandaram para lá, mesmo sem ele ter feito nada, o
menino deveria ser a alma de numero 6 milhões e um de sua coleta,

354
o ser que abriu seu caminho por si, olha Beliel olhar para ele e
sorrir.
Carlos chega perto e ouve.
— Há anos não via o céu, não estava no mundo, estava em
uma curva do espaço, desde que o menino surgiu, a posição original
do salão de luz ressurge novamente.
Carlos não sabia se aquele lugar lhe era parte, não sentia-se
bem em atrapalhar, e pergunta.
— Posso voltar a minha caminhada?
— Ninguém nunca foi preso aqui.
Carlos olha para sua mão, sente a foice e fala.
— Como ficam os seres que nascem com uma função, se esta
deixa de existir.
— Este é o problema, eles continuam com função Carlos, mas
não quer dizer que os demais estejam feliz.
Carlos não entendeu, olha para a entrada, se despede e
começa a sair.
Cão olha para ele e ladra para Nina, e ela chega ao lado de
Carlos já na entrada.
— Vai onde?
— Voltar.
— Não entendi.
— Cão, não esquece, ali fora você não me ouve, então algo
ainda está fora do lugar, eu vou voltar.
Cão olha o local e fala.
— Voltamos junto, as coisas aqui começam a agitar, mas o
lugar é bem aconchegante.
— As vezes acho que não entendi nada, então ainda preciso
voltar.
Carlos começa a sair, passa pelo porteiro, ele estranhou,
nunca alguém sairá, ele nunca olhara além do corredor de entrada,
olha para dentro como se esperando que alguém viesse e proibisse,
mas não veio ninguém, o senhor e dois cães saem, enquanto alguns
ainda vinham pelo caminho.
Ele começa a subir a montanha, alguns vinham no sentido, e
estranham gente voltando, a caminhada era pesada, foram horas
subindo, Cão olhava Nina e fala.
355
— Ele tem uma resistência e tanto.
— Dizem as fofocas Cão, que pela primeira vez em 137 anos
ele descansou, ele deve estar com todas as forças, sei que fico mal
humorada com uma noite sem descansar.
Cão sorri, ele olhava primeiro algo como impossível de subir,
mas olhando o portal a poucos metros ele pensa que fizeram uma
super subida.
Carlos para a entrada e olha para cima, olha para Nina que
fala.
— Quer ir onde?
— Deve ter um lugar que as pessoas entram neste caminho.
— Sim, poucos metros de onde o barramos. – Cão.
Carlos olha Cão e pergunta;
— O que mudou que o ouço?
Cão o olha e olha em volta.
— Não sei, vamos entrar e descobrimos.
Eles chegam aos demais e um para a frente de Cão.
— Pensei que era verídica a historia que contam? – Toby.
— O que seria verídico?
— Que os cães acharam uma saída do Purgatório, todos estão
indo para lá, mas se está aqui, sinal que falaram demais.
Cão olha em volta e pergunta.
— Quem falou isto?
— Não sei, eu sonhei com isto, muitos sonharam com isto, a
muito não dormíamos assim, sonhar com coisas boas, raramente,
então quando todos foram chamados a um mundo agradável, em
sonho, muitos saíram no sentido de onde foram.
— Achamos um local agradável, mas não uma saída, apenas
um canto agradável, aos olhos e sentidos, mas estanho isto ser
passado a frente antes de voltarmos. – Cão.
— Veio anunciar isto? – Toby sorrindo, ele ficara
decepcionado em os ver ali antes.
— Vim entender a historia toda, mas existe um local para
onde podemos mudar, mas desconfio que tudo a volta está
mudando.
— Porque? – Nina.

356
— Menos pensamentos ruins, lembro das sensações
desagradáveis que sempre senti.
Nina olha em volta e olha para Carlos indo a frente e fala.
— Vamos lá, este rapaz não para.
Cão olha para Toby e fala.
— A descida é longa, mas no lugar de sair pela ponte, o
caminho é para dentro da montanha.
— Para dentro?
— Não esquece, estamos em um mundo etéreo, tudo é
possível, mas algo está mudando e estamos verificando.
Cão e Nina aceleram o passo e veem o rapaz barrado em uma
porta onde havia uma inscrição, ele não sabia o que estava escrito,
mas batia a porta.
— Acha que eles vão atender?
— Cão, se eles não atenderem, teremos de fazer pelo
caminho inverso, mas odeio a ideia de ter de inverter as estruturas,
acho que não me é parte isto.
Carlos queria caminhar, mas o sentido que queria ir era
aquela porta, e não voltar, então ficou a bater a porta.

357
Carlos 532 chega a um senhor, ele
tivera um ataque cardíaco, mas antes dele
passar a pequena foice, vê a alma se
desprender, ele olha para Carlos e some no
ar.
Carlos olha em volta, nunca vira algo
assim, algo acontecera de forma irregular.
Carolina 127 surge a rua como se estivesse assustada, Carlos
para a sua frente e pergunta.
— O que ouve?
— Minha missão era a beira de um cemitério, mas algo
estranho está acontecendo lá 532.
— Por quê?
— As almas que foram enterradas, aquelas que mesmo com
este exercito de gente para coleta, não foram coletadas, estão se
erguendo no cemitério, e sumindo no ar.
— Sumindo?
— Brilhando, sorrindo e sumindo.
— Não sei o que aconteceu 127, mas algo esta errado.
— Por quê?
— Quando fui colher minha segunda alma do dia, ela se
desprendeu antes do horário que fui designado, e antes disto ela
pareceu escolher o caminho e sumir.
Outros começam a surgir, sem conseguir estabelecer seus
caminhos, algo estava errado, e não pareciam prontos a enfrentar
aquilo.

358
Nos campos de luz, o Grande Luz,
olha em volta, há horas não recebia uma
alma, olha em volta, tenta sentir os campos,
nada, apenas aquela batida na porta ao
fundo, eles nunca abriam para pessoas
virem naquele sentido, então olha para os
demais, sentia a redução de energia
naquele campo.
O ser olha para os campos que se alimentavam diariamente
com a entrada das almas, com suas luzes começar a murchar, o
olhar de alguns deixarem de olhar o grande cristal de luz e olhar os
campos a volta dele começarem a murchar, fez o Grande Luz olhar
em volta e caminhar a porta que batiam, ele não sabia o que estava
acontecendo, mas obvio, algo estava acontecendo, e o único
movimento diferenciado que lhe cabia a mexer era aquela porta de
entrada para o Purgatório, lacrada, eles soltavam as almas para
dentro, eles nunca deslacravam a porta.
Alguns chegam perto vendo que o Grande Luz abriria a porta,
e perguntam.
— Porque deslacrar a porta Grande Luz?
— Não sei, algo errado está acontecendo, não consigo sentir
as almas nos mundos, bilhões de mundos não se desconecta assim,
o que está acontecendo?
— Não sabemos, muitos sonharam com um caminho de paz
surgindo nos campos do Purgatório, mas ninguém tem coragem
nem de falar com o senhor sobre isto.
— Deslacrem a porta, sei que vai demorar um pouco.
O Grande Luz olha em volta e sente alguém pedindo para lhe
falar direto dos “Carlos”, ele olha para o campo e fala a outro.
— Me chama John, ele tem experiência nisto, não ouvimos
ele, e logo depois disto, algo está acontecendo.

359
John que estava a olhar e sentir a energia da Grande Pedra,
algo que fazia toda manha, com suas orações e adorações, estranha
algo interromper sua obrigação matutina.
John quando sai para os campos, olha eles todos murchos,
olha em volta, deveriam estar entrando milhares de almas naquele
caminho, nenhuma, olha para todas as pontas, normalmente
andaria para qualquer delas, e ali estaria uma das formas do Grande
Luz, que tinha sua existência dividida em milhares, para receber as
almas, mas reparou nele parado em apenas um caminho, algo
totalmente estranho a ele.
O Grande Luz olha John chegando e pergunta.
— Algo de diferente na parte interna John?
— Não, mas pelo jeito algo aconteceu, onde estão as novas
almas senhor?
— Não estão vindo, então estava pensando, a única coisa que
aconteceu diferente estes dias, foi a retirada de Carlos NY dos
campos de coleta, algo que tenha a me narrar John.
John olha em volta e olha que estavam deslacrando o
caminho para o purgatório.
— Não conseguimos nos materializar lá dentro, antes
deixávamos as almas lá, agora parece que eles se isolaram, mas
alguém dos campos de coleta, pediu para nos falar, e preciso de
alguém que me explique o que está acontecendo, pois algo está.
John olha o Grande Luz caminhar a uma das pontas e caminha
ao seu lado e vê Carlos 532 surgir a sua frente.
Carlos 532 olha para o chão e fala.
— Pedindo esclarecimentos Grande Luz.
Os coletores raramente tinham tempo para isto, o Grande Luz
raramente os ouviria, se não tivesse com tudo parado, não o faria.
— Qual o esclarecimento Carlos.
— Coisas estranhas estão acontecendo senhor.
— Coisas estranhas?
— As almas estão se desprendendo antes do horário falado e
sumindo antes de conseguirmos fazer nosso serviço, nossa ordem é
não o fazer antes, mas no horário estabelecido, elas já não estão lá.
O Grande Luz olha pra John.
— Algo que poderia gerar isto John?
360
— Não estava aqui quando se fixaram as regras, mas em
teoria, este era o caminho natural, que todos deixamos quando
escolhemos a Luz há quatro mil e poucos anos.
Carlos 532 olha para o ser de luz, nunca vira aquele, mas
estavam trocando uma ideia, e pelo jeito o que ele relatava, era
algo que eles estavam estudando ainda.
— Qual a ordem senhor, pois todos sabemos que nos é
permitido por regra, atrasar, mas nunca antecipar a vinda de uma
alma. – 532.
— Nunca estabelecemos isto Carlos, porque não antecipam
um pouco?
— Se Carlos NY, uma lenda em coleta, o senhor mandou ao
Purgatório por um erro em mais de 137 anos, por antecipar uma
vinda, o que seria feito com um pobre coletor de poucos anos.
O ser olha com raiva, mas era o que fizeram, todos poderiam
não saber, mas quem o chamara sabia, talvez o não prestar a
atenção nos “Carlos” nem o fez pensar em quem estava a sua
frente.
John olha para o rapaz e fala.
— Respeito rapaz.
Carlos encara John e fala.
— Não faltei ao respeito, nossa educação é na verdade, não
faltei com ela, mas se alguém em anos antecipa uma única vez, só
reforçou que o antecipar do acontecimento não o pode acontecer,
todos que tinham duvida, quando se espalhou que fora considerado
um erro, com represália, embora eles nem saibam qual foi a
represália, pois não a espalhei, todos tinham de saber, antecipar,
mesmo que você seja o mais considerado dos “Coletores”, não será
perdoado.
O Grande Luz olha o ser e fala.
— Mas o que mais estava acontecendo, parecia querer narrar
mais coisas, está em sua aura.
— Por mais que coletássemos, sempre coletávamos os que
estavam na lista, deixando outros lá, que foram enterrados com
suas almas, as narrativas da Terra, são de milhares de almas se
desprendendo dos corpos, brilhando, sorrindo e sumindo dos
cemitérios pelo mundo.
361
O grande ser olha Carlos 532 e depois para John e fala.
— Pelo jeito talvez você tivesse razão John, não o ouvi, mas
quanto tempo da condenação de NY?
— 3 dias.
— Ele atravessou o Purgatório em 3 dias, você me alertou,
mas tenho de falar com os demais, vou destravar a porta do
Purgatório, preciso saber como as coisas estão ali.
— Do que estão falando? – 532.
— Que me alertaram que se um Coletor que não dormia, que
coletava 24 horas, decidisse atravessar o purgatório e entrar no
inferno, teríamos pela primeira vez um Coletor no Inferno, as almas
que não coletamos eram as que achávamos não ter nenhuma
chance de recuperação, então são os candidatos ao inferno
perfeito.
John olha o Grande Luz se afastar e olha para Carlos 532.
— O que mais está acontecendo 532?
— Sabe quem sou?
— Está em suas vestes seu numero, mesmo que não o veja,
mas o que mais está acontecendo, o que não parece normal.
— O que estranho é que nada esta anormal lá, os mundos
continuam, mas os que colocamos lá para coletar a um dia, por
excesso de trabalho, sem o mesmo, não sentem mais suas foices.
— E as pessoas a rua, parecem mais felizes ou tristes?
— Normais, nem mais nem menos.
— Volte e aguarde a posição do Grande Luz para voltar ao
trabalho.

362
Carlos senta-se a beira da porta, batia
as vezes, mas as vezes ele queria pensar,
sentar era bom para isto, olha em volta,
sente o cheiro de terra molhada, olha para
os campos ao fundo, não os observara
antes, mas agora estavam brotando, verde
ao fundo, olha para Nina e pergunta.
— Sempre pensei em um lugar mais triste.
Nina olha os campos, olha para Cão que olha o grande vale,
que vinha encurtando até aquela porta, era duas imensas paredes
de rocha que se encontravam naquele ponto com a porta na junção,
mas aquela visão o fez sorrir.
— O que fez Carlos?
— Eu apenas caminho.
— Isto era um deserto de pessoas, tristes, sem vida, agora
tem gramíneas a todo lado, algo que nunca houve neste lugar.
Cão olha uma nuvem, saindo de frente da grande luz e
recorda quando ainda um cão, a latir, para o sol e fala.
— Aqui o céu era cinza, o tempo inteiro, não haviam nuvens,
não havia chuva, o cheiro diz que choveu, mas sol ao céu, nunca.
Carlos estava ali para entender, olha para as pessoas
começando a caminhar, como se o sol alimentasse suas almas, que
estavam cansadas, sempre se indagou o que alimenta as almas, será
que por serem energia, o sol tinha uma função maior a elas que aos
humanos, sorri e viu uma moça ao fundo, olhar para todos os lados,
ela olha uma vala cheia de agua, lava o rosto e lava-se, olha em
volta, madeira, começa a fazer uma tapera, os cães olham aquilo,
ela trabalha naquela tarde eterna, depois olha em volta, olha umas
gramíneas diferentes e começa a diferenciar seu quintal, o Coletor
sorri, pois eles começavam ver aquilo como um mundo a ser vivido,
não apenas pensado.

363
Todos olham para a porta, se ouviu os primeiros lacres se
desfazendo do lado de dentro, mas não viram os imensos lacres
caírem, apenas ouviram.
— O que está acontecendo? – Nina.
— Alguém vai abrir a porta. – Cão.
— Não entendi. – Nina.
— Estão tirando os lacres, ninguém abre esta porta a séculos,
então o caminho para este lado não é opção, já que ele é lacrado.
Carlos olha o Cão, ele sabia disto e mesmo assim o seguiu, ele
acreditou que algo estava acontecendo, e olhando em volta, estava
mesmo.
— Tem ideia de quanto tempo? – Carlos.
— Algum tempo, não tenho ideia.
Carlos levanta-se e olha a madeira lateral do caminho fora do
lugar, coloca ela no lugar, olha para Nina e pergunta.
— Aquela pedra ao fundo é cal?
— Sim.
— Consegue algo para por parte dela e agua?
— Não entendi a ideia?
— Cão, vamos organizar, vamos mostrar a quem abrir, algo
que eles não sabem, e não existia, mas eles não sabem se era assim,
eles lacraram a porta.
Carlos foi ajeitando as madeiras de uma espécie de mureta,
todas desajeitadas, mas não era para ter um padrão, era para ser
apenas uma indicação do caminho, quando terminou de ajeitar uns
100 metros, ele pega algumas poucas ervas daninhas, prende em
um dos lados, e pegando a vasilha que a Nina trazia, começa a
passar aquele cal, nas madeiras, dando um visual de branco sujo,
pois ainda estava molhado, ele fazia isto e outras almas chegavam
junto, ele foi indicando para tirarem as pedras imperfeitas do
caminho, fizeram uma serie de vassouras improvisadas e começam
a varrer aquele caminho, ele ajeita uma madeira velha entre dois
bancos bem em frente a porta, o pinta de branco, Cão olha em volta
e sorri.
Ao fundo outras pessoas colocavam as coisas em ordem, ele
olha aquele ser, olha Nina ao seu lado e fala.

364
— Como alguém pode querer transformar o Purgatório em
algo bom?
— Ele caminha, ele parece não ter os pesos da vida, as
pessoas a tinham, e isto as parava em pensamentos, mas uma vez
alguém se mexendo, todos a volta começam a lembrar que a vida
não era apenas coisas ruins, era de momentos bons e ruins, o ditado
que não existe felicidade, pois se ela existisse existiria Tristeza, mas
existem momentos felizes e tristes, é nossa escolha estar em
qualquer dos momentos.
Cão olha em volta e olha aquele senhor, sentir suas vestes de
serviço, se viu uma capa negra surgir sobre ele, ele descobre a
cabeça e olha em volta, olha para os campos ao fundo e fala.
— Acho que podemos ter entendido tudo errado.
Cão olha ele e fala.
— Se entendemos errado não sabemos senhor Carlos NY,
mas está mostrando que dependia de nós mudarmos isto.
— Sei disto, sabe qual a função do senhor na entrada da
residência de Beliel?
— Não.
— Dizer que ali era o inferno, cobrando para não entrarem, se
as coisas fossem como eles pregam, estaria ali alguém oferecendo
uma entrada, não como empecilho.
— O quer dizer? – Nina.
— Estamos em um mundo Etéreo, mas que pelo que narram,
não existia dia e noite, apenas horas que eram escuras, horas claras,
disposto de acordo com o sentimento de todos a volta, agora temos
a parte atrás da porta, ao centro, e o Sol ao céu esta se
locomovendo, então teremos dia e noite, se isto for real, isto deixa
de ser apenas etéreo para ser regido por regras físicas, as gramas
por regra, não nascem no etéreo, não por não poder, mas por
inexistência de gravidade, sem alto e baixo, ela se perde, ela cresce
para o lado errado e morre.
— Mas o que geraria isto?
— Aquilo que todos ignoram, o peso da alma, todas tem o
mesmo micronésio de peso, o que lhes dá velocidade, o que lhes
tira o precisar de comida, mas a luz parece me devolver até minhas
vestes padrões.
365
— Acha que a luz era nos tirada para nos tirar as capacidades
inerentes da alma? – Fala um ser se aproximando, Carlos viu que
era alguém como ele, que readquirira as vestes, sentia a adaga em
sua mão.
— Ainda esperando eles deslacrarem a porta, para ter
certezas.
— Eles não o deixarão caminhar. – O ser que olha para Carlos
e fala – Fui Carlos 78.
— Carlos NY.
O ser olha em volta e fala.
— A lenda, se até a lenda eles mandam para cá, muitos
devem o estar aqui.
— Pelo que entendi 78, o caminho não é regido por eles, e
sim pelo que nos gerou a morte, mas quando eles nos tiram deste
caminho, por sentirmos a adaga de coletor, eles não tem controle
sobre quando e para onde iremos após nos tirar de lá.
— Vai dizer que a lenda se matou.
— Eu era trabalhador da estrutura da ponte do Brooklyn
quando peguei a doença da ensecadeira, minha cabeça parecia que
iria estourar, eu antecipei minha morte, eles sabem, pois ninguém
que pegou a doença sobreviveu, então me condenar por isto, é
apenas mostrar que eles não entendem de nada externo ao local.
— Então é real que esta nisto a mais de 90 anos.
— 90 quando você foi tirado de lá 78, 137 quando resolveram
me dar isto como pagamento por todas as almas colhidas.
Se ouve o cair de mais um dos lacres.
— As vezes queria as coisas normais de coletar minhas almas,
mas se este caminho não existe mais, talvez tenha de caminhar para
longe, mas primeiro, quero entender o que causei. – Carlos.
— Acha que causou algo? – Carlos 78.
— Deve saber, para alma colhida, se absorvem uma infinita
parte desta alma em seu peso.
— Sempre falaram isto, mas nunca entendi isto. – 78.
— A disputa não é entre o bem e o mal, pois se o fosse, não
existiria o purgatório a serviço do bem, ou vai dizer que 3 dias isto
parecia feliz.
— Esta a apenas 3 dias nisto? – 78.
366
Carlos sacode a cabeça afirmativamente, mas termina.
— Alguém acima disto, calculou, era um limite que não
deveriam ter deixado acontecer, mas se aconteceu, não me
chamaram antes, e não me chamariam, como se tivessem felizes
com minha produtividade, e esqueceram que mesmo o
infinitamente pequeno, quando multiplicado por milhões, gera
diferenças.
— Quantas almas colheu? – Nina.
— Beliel disse acreditar que passei do limite, e a conta é
simples, 120 por dia, por 137 anos.
— Não entendi.
— 6 milhões de almas. – Carlos.
Carlos começa a sentir o fim da tarde, olha os campos, as
pessoas se protegendo de algo que agora pareceria normal, o fim da
luz, mas por lembrarem agora da noite, muitos tinham boas
lembranças deste momento em suas vidas, Carlos olha aquele
planeta surgir ao céu, e ao fundo, uma lua, sorri e olha para as
estrelas a perder de vista, toda a Via de Leite.
— Estamos diante do planeta? – Carlos 78.
— Disto eu não entendo, mas parece que sim, mas sei hoje
que estamos a um passo de lá, eles podem não abrir nosso caminho
Carlos 78, mas entre viver aqui e lá, será escolha nossa.
— Não entendi. – Nina.
— Pelo que me lembro, esta segunda lua, surgiu para mim no
céu somente depois que virei um Coletor, então eu não a via antes
de morrer, sinal que ela está em uma frequência de luz invisível aos
vivos, ou aos humanos. – Carlos olhando para Nina.
— Para nós cães, sempre existiram três luas ao céu.
— 3? – 78.
Carlos nem termina de perguntar e olha aquele segundo
planeta girando, surgir ao fundo, olha para onde ele surgiu, olha a
cor dele, veio no momento certo, sorri.
— Esta falando deste? – Carlos.
Nina olha o grande planeta surgir ao lado, aquela cor de
liquens azulada tomar toda parte não iluminada, e a parte
iluminada, num verde intenso.
— Sim, vai dizer que estes mundos estão ligados.
367
— Estou dizendo que o purgatório parece estar entre os dois
mundos, é etéreo, então estarmos aqui não muda o ponto de
caminhada, apenas a distancia.
Ouvem mais um lacre cair e Nina fala.
— Pelo jeito são muitos lacres.
— Se são muitos lacres que os separam dos demais mundos
Nina, prefiro ficar do lado de fora do mundo deles.
— Mas não entendi onde estamos? – Cão.
— Entre a parte externa do mundo, que os de Luz ocupam o
interior, e o mundo de Beliel, a frente, todo espaço entre os dois
mundos, como almas, podemos caminhar, ainda não sei como, mas
acredito que dê para colonizar todo o espaço, agora que parecemos
estar girando novamente.
Cão olha para o lado que vai a trilha, no sentido do planeta ao
espaço, estanha, sorri e fala.
— E veio mudar nosso mundo, e tentei o barrar.
— Quanto mais resistência Cão, me dá mais gana a caminhar.
Ficaram a olhar as estrelas, a sentir os caminhos e Carlos não
fala nada, mas sabia agora como voltar, como ser parte deste todo,
ele estava aprendendo com seus sentidos.
Estava amanhecendo quando o ultimo lacre cai e o Grande
Luz surge a frente da porta, alguns seres de luz ajudam a abrir a
porta, Carlos olha para Nina e Cão e fala.
— Não recomendo este lugar para cães.
— Por quê?
— Mataria a forma que olham os humanos.
Os dois ficaram as costas, Carlos 78 um pouco atrás e Carlos
NY bem à frente.
John olha para Carlos NY, ele estava na forma de um Coletor,
os seres de luz, nunca viram um Coletor portado de sua pequena
foice, ele olha aos fundos e olha Carlos 78, dois já estavam ali se
portando como coletores, olha ao fundo, ele nunca olhara direito o
Purgatório, regras internas de deixar as pessoas lá, não olhar nem
para elas e nem em volta.
Mas o que mais agradou a John, foi sentir o sol, que brilhava
na parte externa, estranho, uma sensação melhor do que a diante
da grande Pedra de Luz, estava a observar, não falaria nada, mas
368
olha para os campos, não eram reais, eram etéreos, mas tinham a
cor verde de um campo plantado, viu as pessoas começarem a
caminhar para aquele lugar, milhares que quando viram o abrir da
porta, começam a caminhar para aquele ponto.
John conta com os olhos, poderia parecer muito, mas eram
poucas comparadas ao que deveria ter ali, a visão dos campos ao
fundo, entrou com o cheiro de mato molhado, vida, o que o fez
sentir aquilo depois de mais de século.
O Grande Luz olha para Carlos NY e fala.
— Porque bate a minha porta?
— Gostaria de trocar uma ideia, mas teria de ser com quem
sabe as regras, não apenas almas penando senhor.
— Sabe que não daremos acesso a eles.
— Senhor Grande Luz, eles aqui são livres, ai presos, eles
precisavam ver que os campos de vocês é de luz, por sinal, deveria
dizer que os campos de entrada tiravam a força das almas que ai
chegam, para precisarem da Grande Pedra, mas preciso trocar uma
ideia, já que parece que embora eu tenha perdido função, parece
que a função está em mim.
O senhor vendo que vinham muitos, faz sinal para alguns que
se postam como se fossem um exercito de almas prontas a guardar
a entrada.
Carlos observa que as plantas de luz estavam todas
morrendo, o que fazer, as vezes as pessoas estão em uma função
por milênios, como as convencer que um simples coletor tinha algo
a falar.
— Senhor, não vim invadir suas terras, já falei isto, vocês
deveriam olhar em volta, não estão vendo, a luz acima de vocês está
tentando os mostrar que estão presos, não livres, que não
entendem mais de almas, sei que não mereço um lugar ao lado da
pedra de luz, eu me suicidei, mas a pergunta, vocês merecem estar
presos a ela?
— Não sabe o que diz.
— Grande Luz, sua luz e a da pedra, em nada assemelham a
gama de energia de um sol real, que nos dá todas as frequências de
luz, não apenas uma variante visível, mas a pergunta, querem

369
continuar presos, sei que tradições prendem mais que grades, mas a
pergunta, querem ficar presos?
— Acha que nos convencemos que não querem nos invadir.
— Amanha estes campos estarão vazios senhor, eu não vou a
casa de Beliel, mas vou a minha casa.
— Não entendi.
— Todos a volta, não estarão aqui amanha, pois os mostrarei
um mundo melhor do que o que vê ao fundo, mas isto quer dizer, se
ontem, as pessoas foram no sentido de Beliel, amanha, verão que
os 4 mundos, 2 reais e dois etéreos a volta, são mundo das almas,
nossas almas, não sei ainda o que sou, o que farei, precisava trocar
uma ideia, mas não falarei coisas onde não posso falar, assim como
não pararei de caminhar, e se a porta estará fechada, quando o
ultimo pensar em a abrir, agora sei que sozinho não conseguira e
sua teimosia e arrogância Grande Luz, os matará a todos, talvez não
esteja ouvindo, mas todos, todos ai dentro, deveriam saber, as
regras mudaram, queria as entender, mas se terei de caminhar em
um mundo real para entender um etéreo, minha caminhada será
longa.
O senhor ficou irritado e mandou começarem a fechar a
porta, Carlos olha os demais lhe condenando, mas ele não
prometera nada, não naquele caminho.
Carlos senta-se sentindo o sol e suas vestes se transformam,
indo a de um irlandês do fim do século 19, a adaga se transforma
em uma faca, ele prende a cintura e todos o olhavam, Carlos 78 olha
para Cão e pergunta.
— O que ele pretende, ele parece ter recuperado sua alma
original, como ele o fez?
— Sente o sol Carlos 78, ela nos dá todas as frequências de
luz, ele quer fazer algo, mas não entendo o que.
— Mas o que ele quer fazer?
— Não sei, ele parece pensar.
Carlos senta-se a grama ao fundo e fica a pensar.

370
Carlos 532 para a beira da praia,
senta-se a areia e um grupo de Carlos e
Carolinas foi para lá, olham para ele,
parecia estar pensando e Carlos 700, já sem
sua foice e vestes, pois não a sentia mais,
olha pra 532.
— O que aconteceu, que não contou
para nós.
532 olha em volta e fala.
— Não sei se deveria falar, mas tudo começou a 3 dias, alguns
a volta lembram do acontecimento, tiroteio no centro, com mortes,
13 delas, como éramos 12, um ser que todos falavam ser uma
lenda, entra na área, faz sua parte, como ele antecipou uma morte,
ele foi condenado ao Purgatório, isto que não falei.
— O condenaram ao purgatório por aquele erro? – Carolina
173 olhando ele serio.
— O condenaram, se foi apenas por isto não sei, mas o
Grande Luz, foi alertado que Carlos NY, era um coletor que não
dormia, não descansava, e em 3 dias, ele atravessou o purgatório e
entrou nas terras que chamam de inferno.
— Eles falaram isto para você?
— Discutiram a minha frente para que soubesse, e não me
alertaram a não espalhar, então o que eles estão pensando, logo
após Carlos NY entrar no inferno, tudo desanda, todas as almas que
não coletamos, e que o Grande Luz afirmou serem almas com
chance alguma de recuperação, levantam-se e estão indo sei lá,
devem estar indo ao inferno. Temos um coletor no Inferno.
— Devem?
— Ninguém sabe, eles estavam lá falando em deslacrar o
purgatório para olhar atentamente para dentro.
A fofoca corre o mundo entre os coletores.

371
O grande Luz olha o conselho, que
condenara o ser ao purgatório, olha para
John e fala.
— Saberia me explicar algumas
coisas?
— Posso tentar.
— Agora ele me ouvia.
— Estávamos entre dois mundos, não sei se do lado de lá ele
não lhe ouviria senhor, mas o senhor estava em um mundo e ele no
outro, mesmo que ninguém fale, a porta ali não é física apenas, é
um portal de entrada.
— Ele se portava como um coletor, como?
— Sei que nunca viu um coletor Grande Luz, mas não
entendo de regras de função, ele parece ter recuperado a foice, isto
que estranho, os coletores no planeta não conseguem administrar
lá a foice, pois não a sentem, ele ali ao lado sente.
— Ele nos afirmou que somos presos, entendeu algo sobre
isto?
— Não senhor, mas eles tinham um sol as costas deles, sentiu
a força, os campos etéreos deles que deveriam ser secos, estavam
verdes e com cheiro de mato molhado, não temos chuvas na parte
interna, nem na etérea, mas o que não entendi, achei que
abriríamos e ele não estaria ali, que estaria no Inferno, mas ele nos
esperava a porta, como outro coletor ao lado, com os cães as costas
e uma gama de pessoas.
— Pensei que eles nos invadiriam.
— Senhor, eles estavam em muito poucos para isto.
— Poucos? – Um outro do conselho.
John olha o senhor e fala.
— Os cálculos apontam que ali deveria ter mais de um bilhão
de almas senhor, tinha pouco mais de 100 mil.
O Grande Luz olha para John e pergunta.
— Alguma teoria?
372
— Senhor, estou ainda pensando na visão que vi, tudo que
me proibiram olhar durante uma vida, não condiz com a visão ao
abrir a porta, pois ali parecia um mundo vivo, aqui, dependente, o
que ele falou foi neste sentido.
— Como vivo? – Outro senhor do conselho.
— Eles tinham gramíneas etéreas, a toda distancia, o caminho
de entrada, que não é usado a séculos segundo vocês, não estava
aqui, parecia cuidado, pintado, varrido, ao fundo, parecia que as
pessoas criaram taperas para viver no local, o cheiro de mato
molhado, foi o que mais me pereceu irreal, isto vem de uma
recordação ainda quando vivo, ao céu, eles tinham visão do astro
que temos apenas quando vivos, no planeta, a direita de onde
estavam, os campos pareciam crescer para cima e para baixo, como
se saíssem do planeta, ou não entendi o que era aquilo, mas existia
os campos e a luz a atravessava, como se fosse etéreo e ao mesmo
tempo, campos de grama.
O ser que perguntou vira-se ao Grande Luz e pergunta.
— Estão afirmando que um coletor transformou o purgatório
em dias?
— Aparentemente sim, mas como podemos garantir, estamos
pensando nas consequências, mas os campos de luz na entrada do
grande reino, estão todos morrendo, eles viviam da força das almas,
então sem a entrada de almas, eles estão se desfazendo.
— O que faremos?
— Não sei conselho, sempre usamos o calculo de momento
da morte para abrir para nós as almas, se anteciparmos ou
atrasarmos, podemos perder a alma, mas não sei.
O conselho começa a pensar, eles teriam de dar uma solução.

373
Carlos NY estava sentado, ele olha
aquele ser de luz surgir ali a olhar para o
campo, olha em volta, tudo parado, ou
quase parado, olha-o e fala.
— Como eles podem vir a entender,
se nem eu entendi? – Carlos.
O ser olha em volta e fala.
— Quando os espíritos superiores, calcularam sua existência
Newton, eles não sabiam que poderia tanto.
— Calcularam?
— As coisas na dimensão humana, são calculáveis, muitos
falam em probabilidade, nós falamos em caminho inevitável,
quando você tem por dia, mais de 12 milhões de experimentos
genéticos avançando, de varias formas, o chegar a você era uma
estrada que surgiria, quando o Grande Luz o tocou, ele sentiu sua
foice, como nunca havia sentido, ele sabia que seria um grande
coletor, mas ele nem se deu ao trabalho de ver os motivos de sua
morte, quando John o tocou, a ordem era sua exclusão, eles
estavam lhe mandando ao planeta para vagar, mas você não
poderia mais cumprir as ordens, você tinha direito a caminhar entre
eles, então surgiu no purgatório, os seres superiores não falariam
que não escolheram o purgatório, acharam que era vontade da
grande pedra de Luz.
— Quem é John e o que é esta pedra de Luz, ouvir falar não é
saber o que é?
— John é o nome do Carlos que lhe antecedeu, a ele é
passado toda a gloria de ter indicado o melhor coletor de almas
existente, mesmo ele não se gabando disto, todos os indicam por
isto, já a pedra de luz, é o centro de calor de um mundo etéreo, no
planeta terra teria o núcleo solido, aqui, um núcleo de luz.
— E como os posso ajudar, eles não querem ajuda.
— Caminha pelo que sentiu, todos estão lhe olhando, embora
alguns ainda duvidem. – O ser some da frente de Carlos, que olha
374
para o céu, iriam a noite novamente, ele perdera um dia, ou
ganhara, não sabia, estava confuso, mas queria tentar algo.
Carlos chega a Carlos 78 e pergunta.
— A pergunta é simples Carlos, quer vagar por aqui a
eternidade ou vagar pela Terra pela eternidade.
O ser olhou Carlos, ele olha serio.
— O lugar parece bom.
— Tem de entender a diferença para escolher ou é uma
escolha definitiva Carlos 78.
78 olha o planeta surgir ao céu com o giro deles e fala.
— Vai para a Terra?
— Vou, não sei ainda o que farei, mas todos que quiserem ir
para lá, ajudo, os que quiserem algo mais moderno, as grutas de
Beliel são indicadas, quem quer campo, estes parecem bons. –
Carlos olhando os cães chegando perto.
— Qual o desafio Carlos? – Nina.
— Vou voltar ao planeta, apenas a escolha tem de ser de cada
ser, não sei como sentem este caminho, eu vou para lá, o caminho
vai ficar aberto por algum tempo, depois não sei.
Nina olha para Cão que fala.
— E o que seremos lá?
— Nem ideia, estou aprendendo caminhando.
Carlos caminha no sentido da montanha que se erguia no
sentido do planeta ao fundo, se via ela etérea, se via através do solo
o planeta ao fundo.
Os demais viram aquele senhor caminhar, todos achavam que
ele apontaria uma solução, mas quando viram a ponte se estender
entre o local que estavam e a Terra, alguns apressaram o passo, ali
poderia ser bom, mas ainda era um mundo etéreo, todos queriam
uma chance, embora a maioria fez por impulso, nem sabia o que
faria em um planeta físico, em estado etéreo.
Carlos caminha pensando, o ser de luz sabia seu nome, não
era qualquer um, duvidava que o Grande Luz soubesse, tentou
entender o que faria, mas estava seguindo para fora daquele
caminho, não por não ter o transformado em bom, mas por não
achar que era seu caminho.

375
Carlos caminha por horas, as pessoas não pararam não por
não sentir o cansaço, e sim por não saber quanto tempo aquele
caminho se manteria aberto.
Quando chega ao centro da cidade do Rio de Janeiro, viu
algumas almas as costas, a noite ainda estava alta, eles ignoravam
que a ligação estava em um estado de tempo diferente, se eles
tivessem olhado de fora, teriam tido a sensação de que passaram
quase a velocidade da luz, mas como estavam dentro da mesma, foi
demorado.
Carlos pisa na rua, viu que os demais surgiram muito rápido,
como se estivessem todos acelerados no caminho, ele calmamente
sente o ser coletor dentro dele e os demais viram ele ir a veste
negra, foi no sentido da baia.
Ele para a beira da praia do Flamengo olhando aquela leva de
Carlos olhando para o 532, talvez o olhar do mesmo para ele, fez
todos virarem-se para ele.
Talvez a forma de ver das coisas, eles eram os bonzinhos,
Carlos o que se bandeara ao inferno, fez todos puxarem suas foices,
os cães ao fundo, nitidamente não eram vistos por ninguém, mas os
seres a praia os viram chegando, uma coisa era atacar em grupo um
coletor, outra coisa uma leva de cães que não sabiam o que fazia ali.
Carlos foi chegando perto e olha para 532.
— Podemos conversar 532.
— Acha que vai nos convencer a mudar de lado?
Carlos gargalhou e olhou os cães e fala.
— Não entrem na provocação. – Fala olhando Nina, esta para,
os demais ficam a observar enquanto Carlos se transforma em
Newton, deixando suas vestes de Coletor, para as suas reais roupas,
532 sentia a foice ainda na mão do senhor, não a via, mas sabia
estar ali, e fala.
— E quer saber oque?
— O que está acontecendo, pois parece que está tudo fora do
lugar, eu fui jogado a 5 dias no Purgatório, mas está tudo fora do
lugar, pelo jeito todos acreditam que a culpa é minha.
— Você está aqui, quem mais saiu do purgatório.
— Todos que lá estavam.

376
Carlos 532 olha para as almas chegando ao fundo, os demais
viram que o problema estava se ampliando.
— E como aconteceu?
— Uma passagem entre o etéreo e o planeta se abriu, então
estamos onde é mais cruel, mas não é tão pesado.
— O que quer conversar?
— Saber o que está acontecendo, minhas almas do dia não
foram coletadas, ninguém o está fazendo?
— Ninguém consegue, elas se libertam antes.
Carlos olha para os demais e fala.
— Todos crianças brincando de coletores, deveria imaginar
isto.
Carlos volta a sua forma e fala olhando os demais.
— Acho que vocês não entenderam, quem faz a passagem
entre a alma não é o Grande Luz, a alma está determinada a ir, se
você não a indicar o caminho, ela vai para onde sente ser seu lugar,
mas a pergunta, onde elas estão indo?
— Mas e as que não desprendemos e foram a cemitérios, elas
se levantaram e foram embora.
— E os demais?
— Eles desencarnam e não os conseguimos tocar, eles
parecem não nos verem.
Carlos olha 78 chegar a ele e falar.
— Ouvi, parece a crise do Afeganistão a 30 anos. – 78.
— Não estava lá. – NY.
— Os seres estavam em guerra, Mulçumanos e Exercito
Russo, um lado não acreditava em nosso Deus, o outro, não
acreditava em Deus, então ninguém via-nos, estávamos em campo
e não tínhamos como coletar.
— E como os coletaram?
Carlos 78 toca sua foice e todos viram ela bem mais real e
brilhosa.
— Fizemos eles verem a foice, assim eles pareciam fazer um
caminho entre o existente e o etéreo.
Carlos olha o rapaz e fala.
— E lhe largaram lá para estar aqui agora?

377
— Não sei, olhando assim, parece, mas fiquei décadas lá para
que estivesse neste momento aqui.
— Nunca entendi tudo, mas parece que o contexto está
diferente do que pensei, mas o surgir das almas lá, dará acesso a Luz
novamente sobre o purgatório.
— Entendo a preocupação, mas acredito que quase todos
passaram.
— Tem certeza de que não estão no caminho?
— Como falou Carlos NY, a escolha era simples, vagar aqui
pela eternidade ou lá, a escolha foi de cada um.
Carlos NY olha para 532 e pergunta:
— Saberia fazer?
— Se nos mostrar com certeza conseguimos.
Carlos volta a caminhar, os seres abrem caminho, as almas
estavam temerosas, pois a visão de uma leva de Coletores lhes dava
medo, ele chega a uma senhora, estava marcada para ser sua
colheita, se estivesse ali, ele espera o momento da morte, a sente,
as pessoas ao quarto viram aquela lamina brilhar, e passar ao ar, o
ser não sentiu, mas a alma olhou a lamina e pareceu parar a olhar
Carlos, ele lhe estica a mão, e surge diante do Grande Luz.
O ser olha a primeira alma em dias, normalmente não olharia
os coletores, mas quis saber quem o conseguira e reconhece NY que
fala.
— Calma Grande Luz, apenas mostrando aos calouros como
fazer.
Carlos some no ar, os coletores foram saindo e o olhar de
Camila para ele parecia de critica.
— Você mata pessoas.
— Não, eu apenas indico o caminho, seu amado estaria no
caminho sem entender que havia morrido se não o tivesse
conduzido, eu não escolho, mas obvio, as vezes parece frio, como
aquele menino a cama na periferia a 6 dias, mas ele estava lá
sofrendo, quando o coração dele parou, acabei com o sofrimento
apenas.
Camila se afasta de costas de mãos dadas ao amado, Carlos
sorri voltando a forma de Newton, olha em volta, estava ainda
tentando entender tudo.
378
Estava ele ali parado, quando 532 para a sua frente e
pergunta.
— Me responderia uma coisa?
— Sim.
— Não foi ao inferno mesmo?
— Fui ao local que os seres da Luz, chamam de inferno, mas
eu chamaria apenas de casa de Beliel, mas ainda tenho de aprender
os limites do que aprendi.
— Eles querem falar com você.
— Sem problemas.
Carlos 532 olha para Newton voltar a forma de um coletor e
olhar em volta, esperando o chamar dos seres de Luz.
Carlos fecha os olhos, sente a energia o conduzir e surge de
frente ao conselho, estivera ali a alguns dias, agora parecia que não
era mais parte, mas vê o ser que todos chamavam de Grande Luz,
parar a sua frente.
— Ainda não sei se lhe agradecemos ou condenamos.
— Vim por bem senhor, porque me condenar?
— Deveria estar no Purgatório.
— Prove que não estou.
— Sabe que não está, mas gostaríamos de trocar uma ideia,
seu mentor gostaria de lhe perguntar algumas coisas.
Carlos sai da imagem de Coletor para a de Newton e olha
para John e estiva a mão.
— Meu nome é Newton, senhor John.
— Quer os por medo.
— Se eles tem medo de um Irlandês como vão enfrentar os
problemas do universo senhor.
— Todos querem saber o que fez por traz daquelas portas?
— Hoje se as abrir, verá que não existem muitas almas ali,
umas duzentos mil, foram vagar longe dali, a maioria, escolheu o
conforto das terras de Beliel.
— Como alguém transforma as coisas tão rápidas.
— Um ser de luz me falou, que eu era previsto, não entendo
isto, que estavam observando, mas acho que mesmo eles, são
apenas observadores, assim como vocês observam o planeta ao
fundo, alguém deve olhar os controles dos planetas habitados,
379
depois deve ter alguém que olha os controles das Galáxias, acima
disto, alguém que controla os conglomerados, acima disto, os
universos, sempre existirá algo maior, mas como saber quando
alguém lhe fala, qual dos limites estas pessoas fazem parte.
— Como era este ser de luz. – Um dos conselheiros.
— Um ser que apenas me disse, que vocês não teriam como o
ver, pois para casa segundo dele, para vocês passar mais de 200 mil
deles, algo que é um sopro, mas pareceram apenas observadores
curiosos.
— Acha que acreditamos nisto? – Grande Luz.
— Não pedi para acreditarem, se vocês pensaram em me
prender no caminho do purgatório, agora sei, ali sou livre, aqui,
apenas um membro de uma sociedade estacionaria.
— E pretende viver onde.
— Sou um espectro de vida, todas as almas o são, não
pretendo viver, apenas observar e esperar o dia que minhas forças
se forem.
— E se não se forem?
— Quem sabe retome minha caminhada.
O grupo olhava para Carlos, ele apenas fecha os olhos e surge
na frente dos demais, olha os cães e saem a norte, ele não ficaria na
cidade, achava que teria algo a fazer no futuro.
Ele sai caminhando enquanto os demais olham eles se
afastar, os campos do purgatório, de tempos em tempos, eram
esvaziados, mas Newton ainda vivia isolado, sem que os demais
entendessem o quanto aquele senhor, era feliz sozinho.

Fim.

380
381
382
383
Autor; J. J. Gremmelmaier
Edição do Autor
Primeira Edição
2017
Elza
------------------------------------------
CIP – Brasil – Catalogado na Fonte
------------------------------------------
Gremmelmaier, João Jose
Elza, Romance de Ficção, 062 pg./ João Jose Gremmelmaier /
Curitiba, PR. / Edição do Autor / 2017
1 - Literatura Brasileira – Romance – I – Titulo
-----------------------------------------
85 – 62418 CDD – 978.426

384
J.J.Gremmelmaier

Elza

385
Conto rápido, mais um tirado da gaveta, de ideias
que ainda acho que ficaram pela metade, mas que na
gaveta não lhe levam a esta pequena aventura,
vamos as ruas de Curitiba, no Paraná, vamos a um
evento rápido, bem vindos as ruas andando ao lado
de Elza, uma moradora de Rua.

Mortes, alguém especial, uma aventura, chegar ao


dia seguinte vivo, historia que por anos o escritor
deixou na gaveta, achando não ter um fim, não ser
um fim, mas em 2017, nos seus 50 anos, disponibiliza
esta e outras pequenas historias, para comemorar 50
anos, com 50 historias narradas.

386
Elza caminha a rua, sim, ela
observa cada um dos que andam a
rua, ela não parece alguém diferente
dos demais, não aos seus olhos, mas
todos a evitam.
Sim, Elza mora na rua, a quanto tempo? Ela não sabe, ela está
na rua desde pequena, ela não foi a uma escola, quando falam para
ela algumas coisas simples, ela olha perdida.
Frases simples como “Tá escrito ali”, “Não sabe ler?”, “Estes
inúteis que não servem para nada”, “Isto é Lixo Humano”, no
passado, a chatearam, mas ela não parece mais se importar.
Se ela sabe o que é viver? Sim, ela sabe o que é viver, se ela
tem potencial, todos reprimidos pela sobrevivência, as pessoas a
rua a evitam, a policia, tenta a convencer sempre a ir a um abrigo,
assim como os Assistentes Sociais, ela foi uma vez lá, “Lugar sem
Alma”, foi o que ela pensou.
As vezes ela se olha no espelho, comparando as moças
bonitas que passam a rua, estranho como sua vida parece sem
proposito, e ao mesmo tempo, rica em detalhes.
Se ela já foi abusada na rua? Sim, as vezes por querer
proteção, as vezes por não ter como evitar, as vezes até por gostar
de um rapaz novo que vinha a rua, mas uma coisas Elza sempre
soube, foi diferenciar sentimentos de sexo, agressão de carinho,
gente que cheira bem e não presta, e gente que cheira como ela,
mas tem um coração grande.
Ela chega para comer no restaurante popular mais uma vez,
ela sempre preferia as verduras, raramente tomava além de agua,
ela não gostava de nada que a tirasse o sono, e uma simples Coca-
Cola a tirava o sono.
Estava a olhar para a comida, ela nunca prestava atenção,
quando o tumultuo a chamou atenção, um senhor começou a
passar mal e caiu ao chão, os rapazes do local primeiro não
souberam o que fazer, mas dois moradores de rua tentam ajudar o
senhor e o levam ao hospital que era próximo.
387
Elza olha em volta, olha para a comida, talvez somente ela
não tivesse pego aquela carne que estava ao prato do senhor, mas
comeu como se não tivesse nada a lhe perturbar, quando esta
saindo, ouve que o senhor morrera antes de chegar ao hospital, sai
e vai ao mesmo lugar de sempre, inverno em Curitiba era garoa
constante, então caminhar a rodoferroviária era normal, local
coberto e que não fechava nunca.
Ela senta-se ao canto, em um dos bancos bambos ao lado da
estação de Trem, e como todo dia cinza, tenta divagar, mas ela
olhava os demais como se fossem de outro mundo, ela não
pertencia a aquele mundo, ela nunca fora treinada para aquele
mundo que se abria a sua frente, gente chegando de viagem, gente
esperando as pessoas que viriam, malas, pertences, ela tinha em
sua pequena mochila, tudo que tinha na vida.
Encosta e com o almoço a barriga adormece encolhida ali.

388
Elza é acordada pelo barulho
ensurdecedor vindo de sua volta, olha
meio sonolenta para onde estava, se
situando, ali era um dos locais que ela
dormia a tarde, mas o barulho a tirou da inercia.
Ela abre os olhos calmamente e olha que um dos ônibus, que
deveria ter deixado as pessoa a sua frente, não parou, passou por
cima de pessoas, agora esticadas a calçada, e acertou dois carros, as
pessoas correram para ver, viram o senhor morto ao volante,
alguém chamou a ambulância, varias ambulâncias, Elza olha para
aquele tumultuo, muita gente perdida ali, muita gente perdida em
meio a confusão de mais ônibus chegando, e uma leva de pessoas
sendo atendidas.
Calmamente ela se levanta, olhava o agito, olha para outro
banco, mais distante, chega a ele, e se ajeita novamente.
Elza comia uma vez por dia, ela não tinha grandes atividades,
era magra, mas não tinha energia sobrando para quase nada.
Inverno ela sempre tinha muito sono, mas sempre respeitara
a vontade de seu corpo, ele quer encostar e descansar, ela
descansava.
Ela olha ao fundo, dois entreveros em um dia, as vezes 10
dias não lhe davam entrevero nenhum, aquele dia parecia em si
agitado.
Elza vê um senhor, o senhor Caco, chegar e olhar a bagunça,
olha para ela e pergunta.
— Que bagunça, quero paz para dormir.
Elza sorri e fala.
— O que houve que veio pra cá.
— Um índio morreu na frente do Mercado Municipal, não sei
o que aconteceu, mas a policia tá isolando as pessoas lá.
— Isolando?
— O senhor pareceu passar mal, e caiu se estrebuchando,
coisa horrível de se ve.
Elza pensa e olha para o senhor.
389
— O que tá acontecendo Caco?
— Nada, deve ter sido apenas um mal estar.
— Mas algo está acontecendo.
— Você não viveu muito para saber algo.
— Isto vocês falam, o espelho parece me dizer o contrario.
— Moça, você deve estar uns 12 anos na rua, não mais que
isto, estou a mais de 40, a cidade era diferente.
— Sorte sua saber contar.
Caco olha para a moça, não sabia quantos anos ela tinha, mas
todos chamavam ela de Elza, dizem que ela escolheu o nome, pois
ela não tinha documento, e falou.
— As vezes queria ter paciência para lhe ensinar a contar.
— Não precisa, me viro sem isto.
— Bem me dizem que você é maluca.
— Pode ser que seja maluca, o que é ser normal?
O senhor olha a moça e fala.
— Porque acha que algo está acontecendo.
— Sei lá, um morto quando estava comendo, certo que isto
não me tira o apetite, dai um motorista parece morrer no volante
bem quando está chegando, ele morto, parece que tem uns 10 bem
feridos que foram atropelados, agora você me diz que um índio
morreu na frente do mercado, muita morte para um dia.
— Quem morreu no refeitório, não estava lá, viu quem era?
— O Gordo do Capanema.
— Sabe o que matou aquele porco?
— Não, ele tava comendo e caiu no chão, os cara acharam
que ele estava brincando, dai parece que viram ele mudar de cor,
soube quando saia, que ele chegou morto ao hospital a frente.
O senhor tirou o chapéu da cabeça e fez o sinal da cruz,
pareceu orar, Elza também não sabia orar, ela não fora induzida a
nenhuma crença, ela acreditava em tudo e nada, pois não
aprendera nada sobre religião, a maioria teve pais que os ensinaram
isto, ela não lembra de ter tido pais, ela só lembra de sua vida, a
lembrança mais antiga, já estava a rua.
Elza viu que os policiais cercaram a região, o senhor olha que
era serio, pois cercaram realmente para ninguém sair, lembra que
nunca viu tanta policia ali antes e fala.
390
— Talvez tenha razão, algo está acontecendo.
— Lá vão querer me dar um banho de novo, este pessoa
parece ter nariz de cachorro, cheiram até o que não precisa.
O senhor sorriu, a policia chega a eles e fala.
— Andem, todos tem de passar por aquele corredor de
policiais.
Os dois começam a andar, o senhor pega um saco grande e o
policial fala.
— Deixa o saco, pega depois.
A cara de contrariado do senhor foi grande e o policial fala
mais ríspido.
— Se quiser jogamos no lixo para o senhor.
Andam e viram que estavam isolando todos daquele lugar,
não só eles, Elza olha uma menina perdida, sem saber o que fazer
no meio e por instinto estica a mão para ela, que pergunta olhando
em volta.
— Viu meus pais?
— Todos estão indo para o mesmo lado menina, se estiverem
por aqui, os encontrará lá.
— Você fede. – A menina.
Elza solta à mão dela, e fala.
— Sim, eu fedo, como todos a volta.
Elza sorri da menina cheiras embaixo dos braços e falar
andando.
— Eu não fedo assim não.
O senhor sorriu e continuam a caminhar, o policial fez Elza
soltar a sua mochila a entrada de um cordão de isolamento, se via
pessoas assustadas ali, mas não se sabia ainda o que estava
acontecendo.
Elza olha para um dos policiais ao longe, ele parece cair e
começar a ter convulsões, ela olha para Caco que fala.
— Certo, tem algo acontecendo.
Elza olha o senhor olhando outros moradores de rua e olhar
para ela, parecia os liderar com os olhos e fala.
— Vamos nos concentrar no centro do tumultuo, não sei o
que está acontecendo, mas temos de nos defender.

391
Elza o segue, a menina pareceu seguir ao longe, olhando os
demais, não sabia onde estava os pais da menina, mas algo estava
fazendo os policiais pararem aquela rua, isolarem as pessoas em
meio a rua, em um cordão de isolamento, pareciam trazer parte dos
índios que estavam na frente do Mercado Municipal, os ônibus
começam a ser desviados, e o cordão de isolamento amplo, dizia
que eles pretendiam isolar por um tempo as pessoas ali.
Caco olha outros moradores virem ao grupo, e começarem
descrever uma morte muito semelhante, mas os pensamentos de
Elza estavam longe e Caco a indaga.
— Não é de pensar tanto.
— O motorista não era daqui, não veio daqui, ele vinha de
algum lugar e morreu pelo jeito como eles descreveram.
Caco olha para Elza, seria maluquice pensar assim, mas e se
não fosse algo localizado, ou se não fosse algo normal.
— Mas... – Caco para a frase e ouve outro falar - ...tem gente
de todo gênero morrendo Caco, de medico a motorista, de morador
de rua a índio, de secretaria a policial, algo está errado e não é
apenas para nós.
Caco olha para Elza se aconchegar em um dos bancos a
frente, naquele pedaço de praça a frente da Rodoferroviária e
pergunta.
— Não tem medo de morrer?
— Não, e pensa Caco, se eles acham que estão isolando os
outros de nós, podem estar fazendo diferente.
— Não entendi.
— Tem aquela palavra, inver... alguma coisa.
— Inverso.
— Sim, inverso, pois eles nos estão isolando do pobrema, pois
nós, não temo o pobrema aqui.
Elza olha para o lugar, se ajeita e deita para descansar.
— Acha que vão nos deixar sair depois. – Um rapaz que viera
a rua a pouco tempo, ninguém sabia de onde ele vinha.
Caco olha para Elza, a pergunta foi para ela, mas ela não
respondeu, então fala.
— Se eles nos isolar será por quarentena, mas se algo
realmente estiver acontecendo, espero que não seja contagioso,
392
pois dai todos podemos ainda estar bem mas ter contraído de
alguém em volta.
Elza olha a menina chegar até ela e falar.
— Posso ficar aqui enquanto eles não aparecem?
— Pode, aqui sempre cabe mais uma, alguém me falou isto
quando era mais nova que você menina - Elza.
O rapaz chega a Elza e pergunta.
— Porque não me respondeu?
— Es muito cheiroso para estar na rua, não sei de onde veio
rapaz, mas aqui é lugar para gente forte.
— As vezes não é opção abandonar tudo, as vezes, um
caminho que escolhemos trilhar.
— Fala difícil rapaz.
A menina sorriu e falou.
— Meu nome é Camila, e o seu.
— Elza.
E menina olha o rapaz que fala.
— Eduardo.
— Você mora mesmo na rua, ninguém mora na rua. – A
menina olhando para Elza.
— Então me chame de ninguém.
— Mas você não tem casa, família?
— Não. – Elza não falava sobre isto com quase ninguém,
mesmo Caco ao longe as vezes queria saber mais sobre a moça, mas
ela não era de conversa fiada, ela parecia apenas sobreviver a rua,
ela caminhava pelo parque, pelos locais públicos, mas nunca se
prestava a conversar com alguém.
— Pelo jeito não fala muito? – A menina.
Elza sacode a cabeça, ela estava tentando se manter quieta,
para entender o que estava acontecendo, mas na verdade não
gostava de ficar presa, e mesmo naquele isolamento, não sentia-se
presa, tinha muito espaço para caminhar.
A menina sorriu e Eduardo perguntou.
— Mas está a quantos anos na rua.
Elza olha o rapaz, seus pensamentos foram a coisas que com
a menina perto não falaria, mas senta-se.
— Não sei.
393
— Como alguém não sabe algo assim? – A menina.
— Tem de ver que tudo que tenho – ela bate com a palma da
mão a cabeça – está aqui dentro, lembro de quando criança, estar
pedindo dinheiro a rua, mas já morando na rua, lembro de muita
coisa neste tempo que passei aqui, mas para saber quanto tempo
estou na rua, teria de saber contar, não sei, para saber quantos
anos eu tenho, teria de ter um papel, tem um nome, mas não
lembro, não tenho, me chamo Elza, pois eu escolhi este nome.
Eduardo olha para a moça, alguém que até falava bem, para
alguém que não tivera instrução nenhuma, pelo jeito a rua desde
que se entende por gente, mas vê ela olhar em volta e fala.
— Eu não sei o que está acontecendo Caco, mas está
piorando.
— Piorando?
Ela faz sinal com os dedos que iriam chover, eles não tinham
proteção naquele lugar, a capa dela, mesmo velha, ficou para fora,
Eduardo viu os primeiros pingos gelados de uma chuva de inverno,
o grupo ao centro, não parecia se preocupar muito, mas pessoas
como a menina, não tinham uma pele gordurosa para resistir ao
frio.
Elza sempre dizia que banhos no inverno era covardia para
moradores de rua, eles perdiam sua maior proteção, a sujeira a
pele, ela não entendia que não era a sujeira que os protegiam, mas
a oleosidade da pele.
Mas ela oferece a proteção de sua blusa a menina, os demais,
começam a reclamar, os policiais ao longe pareciam ter ordem de os
isolar a qualquer custo, se ouve um tiro ao longe, não sabiam eles
ao centro, que um grupo tentou ir para a área protegida e a policia
abriu fogo, atingindo até pessoas ao longe que não tinham nada
haver com a tentativa, e não se preocuparam com os feridos,
pareciam temer eles.
Elza olha para um grupo chegar a eles reclamando que a
policia abriu fogo pois queriam chegar a cobertura, um estava ferido
a perna, viu o rapaz pegar um pedaço de pano, isolar o corte da bala
e falar com uma convicção que na rua não tinham.
— A bala não ficou alojada, só tem de conter o sangramento.
— É medico?
394
— Fui enfermeiro, mas faz algum tempo.
— Parece morador de rua. – O rapaz que ele ajudou.
— Nem todos tem as mesmas sortes e caminhos ditados
rapaz, tenta não virar um morador de rua, pois uma vez aqui, somos
isolados até das oportunidades.
Elza somente ouviu, a menina pareceu querer ficar com os
que chegaram, mas viu que eles a isolaram, queriam sobreviver
sendo atendidos, mas sem se envolver.
Elza olha a menina chegar cabisbaixa e fala.
— Tem de ser forte para sobreviver Camila.
— E como se sobrevive sem família?
— Quando temos sua idade, a comida é fácil, mas muitas
vezes, tem gente má intencionada que lhe dá comida, quando
crescemos, a comida fica mais difícil, mas dai já temos força para
nos defender dos atrevidos.
— Porque a policia atirou? – Camila. – Não deveriam nos
proteger?
— Sei lá.
— Pelo jeito não gosta de polícia.
— Eles só sabem mandar a gente circular, sumir, nos bater
quando querem se divertir, quando você tem documentos menina,
você é gente, tem casa, é gente, eles temem vocês, pois vocês
denunciam eles, nós, ninguém ouve.
— Tem uma inteligência grande para quem não estudou! –
Eduardo olhando para Elza.
— Alguém a muito tempo me falou algo como “Inteligência
não enche a barriga”, quer saber o que acho disto?
— Quero.
— Nunca enchi a barriga par saber se a burrice ou a
inteligência enchem a barriga.
— E o que acha que vai acontecer? – A menina assustada
olhando Eduardo.
— Se for local, não sei, se entrarem atirando não temos o que
fazer, se eles vão criar grupos de isolamento, vários, não tem policia
para tanto. Os ônibus pararam de circular, algo eles devem ter
comunicado aos demais, mas oque, não sei.
A menina olha Elza que fala.
395
— Devem ter afirmado algo, uma doença transmissível, como
Caco falou, para todos ficarem em casa ou se apresentarem a alguns
hospitais quem se achar doente, mas não acredito que de em algo.
— Por quê? – Eduardo.
— Vejo os motorista todo dia fazerem aquela curva, o senhor
morreu entre o começar a curva e o terminar da curva, sem
demonstrar nada antes, o Gordo, estava comendo, caiu já
morrendo, o policial ao fundo, estava nos mandando andar, se
afasta e morre ao fundo, algo tão rápido, que eles mandarem ficar
em casa é mandar morrer quietos, um não nos incomode.
— E porque acha que o motorista não morreu do coração? –
Eduardo vendo que a moça prestava atenção em detalhes, mesmo
se fazendo de indiferente.
— Já vi mortos no mesmo lugar do coração, eles sentem dor,
aceleram e param, aceleram e param, não apagam de vez, existe a
dor que gera reação.
Caco ao fundo ouvi e pergunta.
— E se forem nos eliminar?
— Caco, se forem atirar sem pensar, melhor morrer rápido,
pois sem tratamento, um tiro a altura do rim, o cara vai estar ao
nosso lado por 48 horas entre a vida e a morte, e o veremos morrer,
o rapaz ali levou sorte. – Eduardo.
— E se tentarmos sobreviver. – Caco.
— Deixa a coisa pronta, mas não faz besteira Caco. – Elza
olhando ele.
— Pensou nisto também.
— Logico, um rio passa ao fundo, deve ter mais de 4 boca de
lobo nesta praça.
Eduardo a olha, eles teriam uma rota de fuga.
— Você são malucos.
— Eduardo, se quer sobreviver, apenas corre atrás de quem
sabe sobreviver, esta moça ai, sabe sobreviver, ela sem saber nem a
própria idade, vive na rua há muito tempo, mais de 12 anos, a vejo
por ai. – Caco.
Eduardo olha para Elza, ela não tinha tantas marcas da vida,
mas parecia sempre olhar triste para frente, e pergunta.
— E qual seria a saída que você escolheria?
396
— A boca de lobo da Avenida, ela sobe para os bairros,
enquanto as bocas de lobo da praça descem todas para o rio ao
fundo.
Caco a olha e fala.
— Mas lá eles nos veriam.
— Por isto falei para não fazer burrada, eles nos observam,
uma hora vão fazer algo.
— E o que fazemos?
— Tira as bocas de lobo, deixa aberto todas elas, se eles
entrarem atirando, temos de sobreviver ao ataque para escolher o
caminho.
— E já chegou por ali até onde? – Caco.
— Tem uma encruzilhada que nos coloca no bairro daquelas
casas de 3 pavimentos, bonitas na parte de cima depois do hospital.
Elza olha para a menina e fala.
— Mas tem de saber que uma vez naquele caminho, é entrar
e sair, não dá para olhar e ficar pelo caminho.
— O que tem lá? – A menina assustada.
— Agua fedida, barata, rato, esgoto, plástico velho, toda
sujeira que jogam ao chão chega as galerias, quando falo na
encruzilhada é que a esquerda, acaba em lama, não consegui passar
por ali. — Caco entendeu que era sobrevivência, mas que a moça já
fizera o caminho, mas fala com os demais e eles vão tirando as
bocas de lobo de toda a praça. As pessoas foram se juntando a volta
dos buracos, todos pareciam tensos, pois a policia parecia disposta
a matar a todos.
Os grupos olham todos os limites, para provocar, eles ficam
próximos aos policiais, levando para perto deles os corpos dos
mortos, se tinha atirado para matar em pessoas que estavam bem,
que olhassem os mortos.
Caco sorriu pois eles fizeram bem o esperado, colocaram um
pelotão de costas para eles.
Elza sente o sono a tomar, ela sempre dormira muito, talvez a
pouca reserva de calorias, a desse muito sono.
Eduardo chega ao lado de Caco e fala.
— O que faremos?

397
— Descansa, ela tem razão, não adianta reagir antes de
sabermos o problema, geramos no pessoal com o abrir das bocas de
lobo uma confiança que eles não tinham, isto é positivo para o
moral das pessoas, mas pessoas como a moça, comem muito
pouco, ela precisa estar descansada para correr se preciso.
— Estranho pois somente ela pareceu reparar nos mortos, o
que a sociedade está fazendo a volta Caco?
— Ela dorme, mas seu sono é leve, deve ter acordado com o
primeiro grito, mas as pessoas, são atropeladas hoje por não
olharem a rua, atropelam por não olhar a mesma rua.
A noite começa a e luzes são acessas para dentro, o que
tirava toda a visibilidade se tinha gente do lado de fora, Caco olha
para os rapazes e fala.
— Vamos ter de descansar por leva, alguém tem de ficar
acordado para dar o alerta.
— Acha que eles vão tentar eliminar a gente?
— Acho que não sei nada, a única pessoa que disse que algo
estava acontecendo, foi a Maluca – Entre os rapazes eles chamavam
Elza de maluca, pois ela falava sozinha, andava sozinha, não
interagia muito – se tivesse ouvido, teria dado tempo de sair, mas
fiquei dizendo para mim que não tinha nada, quando percebi já não
tinha mais por onde sair.
— Ela sempre presta atenção, mesmo dormindo dizem que
ela presta atenção, alguns dizem que ela já morreu nestas ruas.
A menina olha assustada para o rapaz que falou e Caco ri.
— Não assusta a criança Papinha.
— Sabe do que falo.
— Sei, muitos malucos a rua dá nisto.
— Mas o que vamos fazer?
— Assim que amanhecer, vamos locomover o pessoal para
cima da avenida.
— Eles parecem ter isolado do lado de lá da avenida, não
querem que alguém saia.
— Fica de olho e vê se alguém morre, isto é mais importante
do que sair neste momento.
— Os que levaram tiro não vão amanhecer. – Papinha.
— Estes não são o problema.
398
— E qual a ideia?
— Não sei, a policia que vai dar as ideias, mas preciso saber
se temos como sair, não confio na policia, para esperar eles
decidirem.
O grupo fica tenso, não viam nada além dos holofotes a noite,
então não tinham como nem fazer locomoções forçadas ou algo
assim.
A menina se encosta em Elza que lhe dá o braço como
travesseiro, e a pequena Camila dorme.

399
Elza acorda com o roncar da
menina, sorri, ela deveria estar
assustada, tenta lembrar de quando
fora deste tamanho, não lembra, para
ela sempre fora a mesma pessoa, sabia ser impossível isto.
Olha em volta, Caco dormindo, um rapaz vigiando ao fundo,
olha em volta, começando amanhecer, via as luzes sobre eles, mas
logo elas não teriam efeito nenhum, olha sobre os holofotes e tinha
pouca gente lá.
Ela meche o braço e a menina parece reclamar, coloca a
cabeça dela ao chão e levanta-se, olha em volta novamente, os
grupos estavam a toda volta, tentando se manter firme, mas o sono
estava ao rosto de todos, aquela chuva agora fina, fazia todos
ficarem lavados, se alguém não estava doente, adoeceria pelo
menos de gripe, Elza raramente teve gripe, dizia para ela mesmo
que para ter gripe tem de se comunicar com os demais, ela sempre
se isolava muito.
Ela conhecia as pessoas apenas de ver por ai, ela não falava
com as pessoas muito, raras pessoas como Caco que tiravam dela
palavras, mas a arrogância de Caco, de sempre querer ficar isolado,
fazia ela ter um apresso pelo senhor.
Alguns ao fundo ela não confiava e não gostaria de deixar a
menina em suas mãos, gente que não respeita nada, mesmo nas
ruas existem estes.
Ela olha para a avenida, olha para a menina dormindo,
caminha até a avenida, olha a boca de lobo que teria de entrar, não
conseguiria, sabia que uma das outras 3 também dava lá, mas não
sabia qual, mas naquela passaram uma camada de asfalto a
isolando, olha em volta, e um policial olha para ela e fala.
— Não ultrapassa que atiro.
Elza olha o rapaz e fala.
— Se é tão idiota para achar que somente os para dentro
estão morrendo, melhor não falar com você.

400
Ela dá as costas e começa a entrar, o policial olha para o rapaz
ao lado, todos sabiam que as ordens eram isolar, mas era evidente
que algo estava matando em todo lado.
Ela chega a uma estrutura em forma de fogueira, ao topo
tinha um relógio que informava horas que ela nunca olhara,
aprendera apenas que pela manha, quando chegava com os dois
pontos para cima, era hora de ir comer no restaurante, eles falavam
que eram horas, mas ela não sabia contar para saber qual, a
estrutura era feita de concreto, uma porta, que ela chuta, alguns
acordam e olham assustados, ela entra na parte interna e começa
subir por uma estrutura de metal, no topo, empurra uma tampa de
concreto no topo, entre a estrutura dos dois relógios, um para cada
lado, sobe naquela laje alta, alguns a olham ao longe, mas aquela
era alguém considerada maluca, não se esperava nada menos
maluco.
Elza olha em volta, a garoa começava a se tornar uma nevoa,
mas dava para ver a cidade parada a volta, Elza sabia que aquele dia
deveria ser movimentado, pois existiam dias que as pessoas
chegavam em massa na cidade, o dia seguinte a isto, geralmente
era movimentado, a dita segunda feira, o que significava isto, nem
ideia, mas olha em volta e vê uma cidade parada, olha os grupos,
olha os policiais ao longe, olha mais para o centro e se via fumaça,
viu o carro do bombeiro passar na avenida, saindo também do
centro, pelo viaduto ao fundo, olha para o sentido oposto, também
tinha fogo, algo resolveu pegar fogo, em vários pontos da cidade ao
mesmo tempo.
Ela olha os policiais ao longe, pareciam tensos, olha para as
ruas, desertas, a humidade parecia ter gerado uma coriza em seu
nariz, soa o nariz e limpa na camiseta, olha para a cidade amanhecer
de cima da praça, obvio que os prédios a frente eram mais altos,
mas dava para ter uma ideia dos acontecimentos, pois eram raros
carros a rua, e a policia estava a toda volta.
Ela começa a ouvir um barulho de metal, estranha aquele
barulho, olha para a avenida ao fundo e vê tanques, chega a beira e
olha para baixo e faz sinal para um rapaz.
O rapaz parece não ouvir e ela grita.
— Exercito a toda volta.
401
Ela entra no buraco de descida, segura na estrutura da escada
de metal que a trouxe para cima, e escorre uns metros, acelerando
para baixo, a descida foi bem mais rápida, Papinha chega a ela e
pergunta.
— O que viu?
— Tem muitos focos de fogo na cidade, mas o exercito acaba
de ir as ruas, não sei se quero ficar na frente de uma metralhadora
do exercito.
— Mas por onde?
— O menor grupo de policiais fica no sentido do Viaduto do
Capanema no fundo.
— Certo, mas porque subiu, não queria fugir pela galeria?
— Alguém jogou muito piche lá, não vai dar para abrir.
— Certo, pensando em como sair, mas pelo jeito nada será
fácil.
— Existe um destes que dá lá também, mas não teria como
verificar todos, sem eles perceberem. As ruas estão desertas, como
seria isto hoje, normalmente? – Elza olhando o rapaz.
— Muito tumultuado, até os ônibus pararam de chegar, eles
devem estar desviando, ou algo está acontecendo.
— Algo está acontecendo, mas onde e oque que eu não sei.
Elza chega a menina e a pega no colo, ela acorda e se bate e
ela fala.
— Melhor assim, hora de levantar.
Caco abre os olhos e outros a olham.
— Me deixa dormir.
— Quem estiver dormindo, vai morrer menina.
Ela abre os olhos e um senhor chega perto e fala.
— Filha.
A menina olha o senhor e sorri, corre a ele e Elza sente alivio,
menos peso melhor, mas ouve o senhor falar.
— O que fazia escondendo minha filha.
— Escondendo, fala serio, estamos prestes a ser mortos, e
acha que estava escondendo sua filha?
O senhor olha para os policiais sendo trocados, mas agora,
era o exercito tomando o lugar, sinal que precisavam deles em
outros pontos.
402
Elza vê a menina se afastar e olha Eduardo ao seu lado.
— Como pretende sobreviver?
— Rapaz, muitos vão morrer hoje, pelo jeito aqui, e fora
daqui, mas a pergunta, quer estar entre os vivos ou entre os
mortos?
— Vivos.
— Então observa, a menor resistência é no sentido do viaduto
ao fundo, mas temos um problema, eles provavelmente estão nos
dando uma rota de fuga, para nos matar.
— Certo, mas como podemos fugir e sobreviver.
— Observando, bem atentamente, se mantendo longe das
miras, e somente quando for a hora de correr, bater e sobreviver,
vamos correr, bater e sobreviver.
— E a menina?
— O senhor estava prestes a brigar comigo, larga a filha por
ai, dai algo acontece, a culpa é nossa.
— Não se apega mesmo a nada, foi o que falaram?
— O que vivi nas ruas, me faz ter nojo de certas pessoas,
gente que me chama de louca, mas normal para eles seria ter sido
abusada na rua e ficado quieta.
— Certo, nem todos são santos, mas parecem lhe olhar e
respeitar.
— Como Caco fala, ele lembra de mim a 12 anos, seja lá
quanto tempo isto represente, mas eu era menor que a menina ali,
e sobrevivi, todos sabem a dificuldade a rua rapaz.
— E não tem medo de morrer?
— Medo de deixar de carregar o peso de meu corpo, de
implorar um dinheiro para comer um prato de comida por dia,
medo de deixar de sentir frio, de sentir gripes que nos afetam e nos
reduzem a nada embaixo de papelões a rua, sem ninguém olhar por
nós?
Eduardo se calou, a moça parecia as vezes falar com ódio,
talvez por isto ela falasse sozinha, mas viu que ela se situou, ela
ficou mais central possível na praça, todos os moradores de rua
olhavam para ela, enquanto os demais, pareciam preocupados com
um rapaz do exercito que se posicionava sobre um caminhão ao
fundo.
403
Elza não ficou por perto, ela queria sair dali rápido, os
instintos dela falavam para sair rápido, e não estava entendendo,
mas sabia que tinha de sair, queria ir para um lado, e tudo indicava
outro.
Caco olha ao longe o rapaz do exercito falar num megafone.
— Quem quiser comida, terá de fazer fila e tomar uma vacina
antes de comer.
Caco só olha Elza balançar a cabeça negativamente, como se
falasse com ela mesmo, os demais começam a chegar perto do
caminhão e fazer uma fila, Eduardo olha para Elza e pergunta.
— Porque não quer tomar a vacina?
— Eles sabem o que causou isto?
Eduardo olha para ela, os isolaram uma noite, agora vinham
com uma vacina, eles seriam as cobaias, ele chega a frente de um
grupo, mas ainda afastado do caminhão, ele olha para o militar e
pergunta alto, todos ouviram, até os que estavam na fila.
— Vacina para que vai nos aplicar senhor?
O militar olha para o rapaz e fala.
— Interessa, és medico?
— Enfermeiro, não tomo vacina para qualquer coisa, mas a
pergunta que me veio a mente, se sabiam o que nos aflige, porque
nos deixaram uma tarde e uma noite na chuva, para nos oferecer
uma vacina pela manha? Somos as cobaias por acaso?
— Acha que está falando com quem rapaz.
— Alguém que é valente por estar com armas, e do lado de
fora, pois se tivesse aqui, seria como dois policiais ali dentro,
desarmados, um merdinha do exercito, que se mandarem atirar nas
crianças, atira.
O rapaz ia mandar o deter, mas viu que uma porção de
pessoas ficou a volta, teriam de abri caminho, não era boa ideia e
falou.
— A condição para a comida é tomarem a vacina.
O senhor olha atravessado para Eduardo, talvez nem Elza
tivesse pensado em serem cobaias, mas sempre tem os que por um
prato de comida, ou por uma cura milagrosa, se oferecem a vacina,
Caco entendeu que ou eles sabiam o que os atingiu, ou eles
testariam em pessoas que poderiam nem estar doente, uma vacina,
404
que poderia ter reações adversas e não estavam protegidos,
estavam em praça publica.
Elza olha para a fumaça no prédio lateral, ela foi a primeira a
olhar, prédio de 10 andares e a fumaça saia do quarto andar,
começa a ser tomado pela fumaça rápido, se viu o fogo, a explosão
e começa uma correria na avenida ao lado, pois o prédio que estava
com gente quieta começa a se agitar, os dois prédios vizinhos
menores também, primeiro se viu que a ordem era não saírem, pois
um policial quis proibir as pessoas de saírem do prédio, depois
vendo o bombeiro chegar se afasta, mas ficou nítido a Eduardo algo
que fala a Elza.
— Decretaram Lei Marcial ou algo assim, ninguém pode sair
de casa Elza.
— Não temos casa, qual a diferença.
— Isolaram os a rua aqui, junto com os que não teriam como
chegar em casa com tudo parando, se ninguém está a rua, fica fácil
controlar quem está, nem que atirando neles.
— Precisamos de informação. – Elza.
— Ninguém tem nada, tiraram tudo que nos permitisse
comunicar ou nos informar. – Caco.
— Protege ele Caco, o militar quer mostrar valentia em
alguém – Fala Elza – Melhor em alguém que não saiba fazer curativo
como eu, do que em quem pode nos salvar a vida.
— Sabe que muitos acham que você é a maluca que vai dar a
saída.
— Caco, vai ventar do sul, vai parar de chover, eles
substituíram os policiais com balas de armas normais, por 14
caminhões com metralhadoras apontadas para nós, só tem um
problema nisto.
— Oque?
— Não fiquem perto do caminhão da vacina.
— O que vai fazer?
— Tomar a vacina, o que mais.
— Mas disse que não ia? – Eduardo.
— Disse que não é uma boa tomar, mas fiquem prontos para
agir quando for a hora de agir.
— Não entendi nada. – Caco.
405
Elza não fala nada, começa a caminhar no sentido da fila de
comida e vacina, todos estavam ali, ela vê os demais tomando
vacina, ela não sabia se seria uma boa, mas olha quando o rapaz
estica a agulha, lhe aplicar e ela cai fazendo que estava tendo um
ataque ao chão, todos a volta pensam que ela tomou a vacina, os
que estavam a fila recuam, os soldados recuam, o senhor no
caminhão olha assustado e fala.
— Tira ela do caminho, sinal que tem doentes ai.
— Ela está tendo um ataque epilético senhor. – Fala um dos
soldados, e o senhor sobre o caminhão não parecia saber o que
fazer, e grita.
— Põem ela de lado, está atrapalhando.
Elza ao chão, se batendo, olha em volta, vê quando o rapaz
tenta colocar a mão em sua boca para que não mordesse a língua e
se afogasse, se bate mais, os olhares para ela fizeram a fila parar um
momento, as certezas viraram duvidas, e o soldado olha para a
moça começar a parar ao chão, como se estivesse acalmando, ele
via que era uma moradora de rua, os demais não chegaram perto,
mas não sabia se ela tinha tomado a vacina ou não, então ficou no
meio do caminho, Elza via que estavam isolando os que tomaram
vacina, olha para a pequena Camila na fila e faz que não com a
cabeça, ela faz o pai recuar com a mãe, Caco olha para ela, não
sabia o que ela vira, mas se tinha duvida, agora tinha certeza, ela se
levanta e olha para o soldado que estava com a agulha na mão para
aplicar e pergunta.
— Você tomou a vacina?
— Todos no exercito tomaram.
Ela se afasta de costas e fala olhando para o rapaz, e depois
para o acima no caminhão.
— Se vai nos matar senhor, sejam pelo menos homem, com
um tiro, não precisamos ser envenenados, como fizeram com vocês.
— Acha que eles lhe ouvem.
— Se não fosse perigoso, não estavam os isolando de nós,
vocês se tem a vacina de algo que tingiu os demais no sangue, são
portadores e transmissores da doença, eu quero é distancia disto.
Elza andava de costas falando, então quando ela terminou, já
estava longe, ela chega ao fundo e apenas pula em uma das bocas
406
de lobo, o rapaz no caminhão olha para a manobra e faz sinal para
eles irem pegar a moça, isolam um corredor e chegam a boca de
lobo, enquanto Elza andava pela parte baixa no sentido do
caminhão, ela olha para a boca de lobo que vira por baixo do
caminhão e começa a subir, ela não sabia dirigir, mas sabia soltar
um freio de mão, ela sai por ali, com todos olhando para o lado
inverso, entra no caminhão e solta o freio de mão, o rapaz sobre o
mesmo vê o mesmo começar a andar, ele se segura, enquanto Elza
olha para o rapaz pegando na metralhadora, ele não a vira, mas ela
sobre pela lateral e bate com a mão no pescoço do rapaz, ele olha
assustado, sem entender, ela o empurra e ele cai ao chão, ele é
cercado por gente e o caminhão anda descontrolado no sentido do
rol baixo de entrada da rodoferroviária.
Elza pula ao chão, estava fora do cordão de isolamento, ela
corre pelos corredores vazios da Rodoferroviária, passa por sua
mochila, jogada ao canto, ela pensa se pode correr no sentido dos
trilhos ao fundo, longe, difícil de entrar se tivesse isolado.
Ela viu muitos se armando as costas, olha para o intervalo
entre a parte estadual e federal passando por cima, pela passarela
suspensa, e olha que havia um carro do IML, havia corpos de
pessoas mortas, olha para frente e vê tinha de parar, pois ela corria
no sentido de policiais civis, que recolhiam corpos no ônibus que
batera. Olha o ônibus, olha para trás e começa a andar de costas,
eles pareciam preocupados, tensos, mas a pilha de corpos dizia que
havia mais mortos, ela olha em volta, olha para o sistema interno e
caminha calmamente rente a parede no lado oposto dos guichês de
vendas superior de passagem, olha para a parte baixa e passa por
um tapume e se posiciona abaixo de uma das escadas, no andar
inferior, olha para o canto, tinha aquela grade, ela fica a forçar a
mesma, quando a primeira sede, ela se espreme e passa para a
galeria interna, começa a descer para a que passava abaixo da
região, que ia no sentido da praça a frente, ela olha os ratos no
caminho, muitos deles mortos, era algo que passava até para os
animais, pensa na ausência de pombas na subida da estrutura
frontal da rodoferroviária, olha em volta e olha o sentido do rio que
ia para norte, mas volta para a praça, não era hora de sumir ainda,
sai olhando qual era a boca de lobo correta.
407
Pega a capa na sua mochila e olha em volta, de cabeça baixa
senta-se ao lado de Caco que a olha, vendo ainda o Exercito ir no
sentido da Rodoferroviária, se via os que tomaram vacina ainda
esperando a comida, ainda nada de comida, e o exercito começa a
ver que a reação não foi boa, duas pessoas tiveram ataque cardíaco
e morreram.
Caco olha para alguns e chegam a volta, Camila olha para
aquela moça de capa e arrasta seu pai para lá.
— O que tá acontecendo Maluca? – Pergunta Papinha.
— Deixar claro que não sei, estão tirando corpos do ônibus
que bateu ainda, tem mais de 15 corpos, não esquece, vem
daqueles ônibus confortáveis, verdes, que vocês falam que vão e
vem de Sampa, mas se vem de Sampa, não é só aqui.
Caco olha intrigado, pois seria uma mortandade muito maior
que ali, e não seria apenas na cidade deles.
— Alguma ideia?
— Tem um problema. – Elza pensando.
— Problema? – Caco.
— Quantos pombos você vê por perto Caco?
Caco olha em volta, nenhum ao ar, nenhum por perto, e
ouve.
— No buraco, tem muitos ratos mortos, o que atingiu nós,
está atingindo tudo, pessoas morrendo sem aviso, gera gás vazando
em prédios, uma faísca e temos mortes aos montes, mas nós por
algum motivo estamos com a cabeça boa.
— O que quer dizer com isto? – Eduardo.
— Os policiais que tiram os corpos, os soldados a volta, estão
todos com pânico no cheiro e nos olhos, isto é mais mortal que a
praga, mas posso estar enganado, veremos os prédios a frente
queimarem um a um.
— Eles vão lhe procurar muito pelo jeito.
— Acho que eles não estão olhando para nós, mas obvio, eles
testaram a vacina, não está dando bom resultado, aqui todos não
morreram, dos que tomaram a vacina, parece que tem 4 grupos
sem saber o que fazer.
— Acha que eles vão se misturar a nós?

408
— Não sei, mas se isto atinge Pássaros, tá no ar, se atinge
ratos, tá no ar e na comida, se atinge humanos, acho que tá em
mais alguma coisa, mas cada ser tem sua resistência, os pombos
resistem a quase tudo.
— E vamos fazer oque?
— Sair no sentido do rio que vai para o bairro.
— Achou um caminho.
— Eu quando andei por ali no passado, achei impossível, mas
era verão, tinha muita agua, tá baixo.
— Acha que todos vão?
— Caco, eu vou, se querem ficar, a vontade, eu recomendava
grupos pequenos, mas quando estiver os últimos, ir todos juntos,
pois não temos como deixar os últimos, pelo menos acho que não
tem, sem eles perceberem.
— E como nos seguiriam?
— De dia é visível lá embaixo, mesmo que pouco, mas as
marcas de passagem, ficam bem visíveis.
— Acha que vamos a seguir? – O pai de Camila.
— Não senhor, eu disse que eu vou, todos que se vacinarem,
estarão com um vírus dentro do corpo, que pelo jeito, não
entendem ainda, pois se vê as pessoas morrendo, muito rápido, não
apresenta nada, morre em seguida, não posso ajudar a quem cair,
assim como se cair, sigam, não é um, é sobrevivência, quem ficar,
morre, o senhor que escolhe.
— E se falar para eles seus planos.
— Sinal que além de tudo, faz parte deles, pois não estava
aqui a noite, ou acha que ninguém reparou que está seco senhor. –
Elza olhando o senhor, a menina somente nesta hora reparou que o
pai estava muito saudável, talvez ele entrara para tirar a filha,
admirável por este lado, mas se era parte, tudo que ela falara perdia
efeito.
— E não deixou de falar da mesma forma?
— O pânico nos olhos deles, mostra senhor, que pode se
esconder de nós, da chuva, mas não do que ataca as pessoas, a
escolha como se diz, é dos que estiverem vivos, pode ser que em 24
horas não precisemos disto, caminhe para fora da proteção com

409
todos a volta mortos, pois vocês não sabem o que está
acontecendo.
O senhor olhou a moça e teve duvida, mas parecia parte dos
demais e Caco fala.
— O vai deixar sair?
— Acho que ele não entendeu.
— Oque? – Caco.
— Não tem saída, eles entraram pois se perderam da filha,
mas não acredito que exista lugar seguro, e não esquece Caco, o
que entendo disto?
— Acho que mais que a gente.
Elza sorri, não acreditava nisto, pega a mochila e pula no
buraco, viu Eduardo, uma moça e um rapaz que viviam na marquise
do prédio em frente vir junto, ela começa a caminhar pelo túnel,
Eduardo viu que era nojento, a moça pensou em voltar, mas Elza ia
tão firme a frente que eles a seguiram, ela foi caminhando por mais
de hora no sentido dos bairros, por aquela galeria, um dia fora um
rio, agora apenas uma galeria submersa entre casas e prédios.
— Vamos para onde?
— Um esconderijo bom, se tiver vazio.
— Porque estaria vaziou, - O rapaz ao fundo.
— Se as pessoas estão retidas em casa, os colégios estariam
fechados e vazios.
— Vai a um colégio, mas sabe onde sair?
— Esta galeria passa ao lado, tem um imenso desvio que vem
do colégio, pois toda a agua pluvial dele vem direto para este lugar.
Eles caminharam, certas horas era difícil passar tamanho lixo
e plástico que se acumulava ali, sistemas antigos e novos todos
interligados, alguns mais baixos, alguns mais altos.
Eduardo viu quando surgiu a esquerda uma grande galeria,
parecia mais limpa até, a moça caminhou por ali, ela chega a uma
saída, a galeria ia a frente, mas parecia que a saída era por ali,
Eduardo ouve a moça falar.
— Vamos rápido, não esqueçam, se nos acharem a rua, nos
matam.

410
Eduardo viu que a moça estava levando a serio, olham o
canteiro bem feito, as calçadas limpas, e entram em uma grande
cobertura, olham a piscina e Elza fala.
— Não sei porque da fissura de rico por agua.
O rapaz ao fundo olha a estrutura do colégio pelo vidro da
frente e fala.
— Eles podem nos ver?
— Vamos nos manter escondidos, mas precisamos de um
lugar para descansar, todos estão cansados.
O rapaz olha que existiam colxões para ginastica, Elza olha e
sorri, ela sabia que estavam arriscando, mas ficar ao centro parecia
não fazer sentido.
Eduardo olha para um canto, ele foi direto, pegou algo e
trouxe um som, deveria ser para as aulas, ele liga e todo ouvem.
— Estamos com uma infecção em 20 das nossas capitais e
mais de 300 outras cidades confirmadas, pedimos que se
mantenham em casa, todos que estiverem a rua, serão levados para
uma área de triagem.
A gravação volta a falar o mesmo e Eduardo olha para Elza
que pergunta.
— Estudou aqui?
— Sim, como disse para Caco a noite, você tem um senso de
localização e de percepção muito arrojado.
— Arrojado? O que é isto?
— Apurado, especial, dinâmico, você se localiza como não nos
fazemos mais.
— Não exagera. – Elza olhando em volta, olha pelo vidro
escurecido do local, a polícia tinha se apoderado do posto de
gasolina a esquina, tinha alguém morto lá, mas parecia a tiro, olha
em volta e não sabia onde conseguir comida, mas com certeza era
melhor estar ali do que esperando para levar um tiro.
Eduardo viu o segundo grupo chegar, entrarem e olharem
para a construção, alguns sorriram, pensaram em um buraco,
estavam falando em uma área coberta com agua e colchões, as
pessoas foram se limpando ao fundo, Elza ficou a frente, olhando o
movimento da policia.
Eduardo olha para ela e pergunta.
411
— Sempre arisca?
— Você fala muito difícil.
— Sempre se isolando dos demais?
— Eles se encantam com o que quero distância, eu não viria a
um lugar destes se não precisasse.
— O que olha?
— Os policiais, eles parecem ter matado o dono do posto, a
senhora parece uma das donas, eles estão roubando o combustível,
pois são a lei, mas é roubo da mesmas forma.
— Lei Marcial dá a eles o direito de nos matar.
— Sabia disto e falou alto com o militar? – Elza que desvia os
olhos para Eduardo.
— Eles não tinham como avançar, ou eu achava que não, eles
avançaram depois, mas quer dizer que eles não entenderam o
problema, ou se fazem de surdos.
— Todos estão confusos, mas este bairro tem casas térreas e
poucos prédios ainda, mas as ruas cheiram a comida, não sei como
alguém come algumas coisas, eu não consigo.
— O que não consegue comer?
— Já comeu carne de cachorro?
— Não, nunca.
— Se temperado, tem o mesmo gosto de porco, comi
obrigada uma vez, vomitei lembrando do animal depois, toda vez
que vejo carne animal, eu me lembro do cão, pois todos os bichos
deveriam ter seus direitos e seus espaços.
— Eles cresceriam demais.
— Nós crescemos demais, não o inverso, crescemos tomando
o lugar deles.
— E o que acha que vai acontecer agora?
— Eles podem vir atrás, podem entrar nos matando, podem
apenas olhar de longe e não nos ver, mas não sei quantos a volta
conseguem sobreviver Eduardo.
Eduardo olha para Elza, pela primeira vez ela demostrou ter
ouvido seu nome, e o pronunciou.
— E acha que faremos oque?
— Avançar lentamente, o que mais.
— Avançar?
412
— Imagina quanta gente está retida em suas casas, eles daqui
a pouco começam a sair, daqui a pouco as pessoas vão tentar voltar
as suas idas e voltas.
Eduardo lembra de como aquele lugar era agitado durante a
semana, estavam em plena segunda feira, e ninguém a rua, os
restaurantes fechados, os locais fechados, os policiais estavam
gerando um local de segurança.
Elza olha para Eduardo e fala.
— Eles devem nos procurar, temos de pensar em como nos
esconder, mesmo estando a vista.
— O colégio é grande.
Elza olha o chão e fala.
— Os rastros também.
Ele olha para o que fizeram chegando ali e pergunta.
— Não vai lavar os pés?
— Quando for a hora de parecer limpa, agora ainda não é
esta hora.
— Pretende fazer algo?
— Sair pela porta do fundo, dar a volta e descer a rua no
sentido do posto.
— Por quê?
— Eles tem de saber onde fui, sei que não entende, mas algo
me dizia para sair de lá, não entendo estas coisas que vivem em
mim, quando sinto medo de ficar em algum lugar, eu saio, mesmo
que nada aconteça, sinal que o aviso era para minha pessoa, se algo
acontece, era para o todo, mas ninguém nunca ouve.
— E quando vai fazer isto?
— Daqui a pouco, deve ter mais de 30 pessoas as costas, deve
ter outros tantos vindo, mas preciso saber mais,
— Saber mais.
— Eu não ouço o que o radio está falando daqui. – Elza
olhando para o carro da policia parado ao fundo.
— E o que faço?
— Consegue proteger os vidros, eles podem quebrar.
— Não entendi.
— Eu os sinto quebrados, eles vão quebrar, breve, mas não
sei porque, mas protege os demais, para não ter cacos os atingindo.
413
— Por isto lhe chamam de maluca?
— Eles não sabem quem eu sou, eu não sei quem sou, isto me
torna um ser maluco a sociedade a volta.
Caco chega ao local e olha para ela.
— Eles começaram a entrar e atirar nas pessoas.
— E as pessoas?
— Algumas pularam nas galerias, algumas ficaram para a
morte, mas existiam soldados mortos, eles estão infectados, vi pelo
menos dois caírem sem nada os atingir.
Ela olha serio para Caco e fala.
— O lugar é seguro, mas sinto que deixa de ser se ficar.
— Vai nos deixar?
— Ajuda o rapaz a cuidar dos vidros, eu tenho de caminhar.
Elza sai a rua, anda pela rua dos fundos, ela não sabia o que
estava fazendo e viu uma senhora olhar para ela pela janela.
— Moça, se protege, eles estão atirando em todos a rua.
— Sei disto, mas se protege também senhora, evita comer o
que tiver a geladeira ou vier via canos de agua, algo eles nos
serviram que saiu do controle.
— Mas como apenas as verduras do quintal.
— Bem que faz. – Elza sorriu e continuou subindo, quando
ouviu um carro, se encolheu em uma entrada de portão, se abaixa e
espera o barulho se afastar.
Elza vê que existiam cães nos portões, pareciam com fome,
ela abriu o portão, eles correm a rua, gerando um agito no lugar, ela
anda na rua lateral e começa a descer a rua, no sentido do colégio.
Ela caminhava ao meio da rua, falando alto com ela mesmo,
os policias ao longe olham para a moça e um fala.
— Não é a moça que falaram que sumiu na Rodoferroviária?
Ele olha a imagem e fala.
— Ela mesmo, vem direto a nós, falando alto, alguns dizem
que ela é maluca.
— Como ela chegou aqui?
— Acho que as pernas dela falam, pela galeria pluvial.
O comandante olha para o rapaz as costas e fala.
— Prendam ela, e subam a rua, pode ter mais gente se
escondendo por ai.
414
Duas viaturas sobem a rua, enquanto um policial aponta a
arma para Elza que estica as mãos para cima.
— Calma senhora, encosta a parede.
— Eu estou calma, porque não estaria?
— Não ouviu o alerta para não saírem de casa.
— Não tenho radio.
— Tem gente lhe procurando na Rodoferroviária.
— Verdade, de lá eu fugi, os militares estavam caindo mortos,
acho que me assustei vendo eles morrerem assim tão rápido.
— Eles oque? – Um rapaz ao fundo.
— Os que eles vacinaram e eles que tomaram a vacina lá,
começaram a morrer, por isto que todos tentaram sair de lá, nem
sei onde estou, nunca vim para uma parte bonita da cidade.
Um soldado ao fundo fez sinal de que ela era maluca e
pergunta.
— E teria problema de voltar para lá?
— Acho que eles já fecharam o grupo de isolamento lá,
mataram a todos. – Elza olhando o senhor, sorri ao falar isto, não
parecia levar isto por um lado mal.
— E se a matarmos agora?
— Venho puxar o seu pé, mas acredito que todos devem
estar mortos como o senhor ali em pouco tempo.
— Ele não morreu da doença.
— Dá para ver senhor, ele levou um tiro, acha que o exercito
vai limpar as ruas como, matando todos, eles não sabem o que
causa, ou acreditam que sabem de algo, o que é pior.
O rapaz põem uma algema nela e empurra ao carro.
— Vamos ter de lavar o carro depois. – Um rapaz
reclamando.
Elza sorri, pois ela era maluca, mas nunca estaria preocupada
com a limpeza de um carro em meio a mortes a toda volta.
Elza olha a senhora e fala.
— Tem gente que eles vão matar antes, alguns durante, mas
não acredite senhora que eles vão poupar alguém que viu demais.
A senhora olha o marido morto, olha o frentista, ele puxa a
mangueira, parte da gasolina começa a escorrer por baixo dos
carros, ela se afasta e entra na parte da administração, os policiais
415
ao fundo olham como se ela fosse tentar descansar, não tinha
telefone, quando eles olham o rapaz da bomba correr não
entendeu, ele entrou no mesmo lugar e viram a chama tomar o
lugar, se ouviu a explosão seca, os policias correndo a rua,
queimando, se viu dois carros voltarem, tentarem ajudar, estavam
olhando os demais, quando sentem um grupo os empurrar e
desarmar, Caco olha para os vidros frontais do lugar que estavam
estourados, olha para Eduardo e pergunta.
— Tem como tirar um dos rádios?
Ele sacode a cabeça afirmativamente, eles prendem os dois
policiais em um poste, tudo a volta queimava, a senhora do posto
parece olhar os demais se afastando, faz sinal para o rapaz sair,
pegam um dos veículos da policia e saem a leste, estavam subindo a
rua na contramão quando ouvem o segundo explodir, nem olharam
os rapazes queimando a rua.
Os policiais ouviram a explosão, mas já tinham feito a curva,
estavam ouvindo explosões o dia inteiro, não pareciam ligar mais
isto a um perigo, Elza olha para traz e olha a fumaça e fala.
— Que o Inferno tenha pena daquelas almas.
— Conhecia alguém na região? – O soldado.
— Não, mas o inferno deve estar enchendo hoje, algo em
todas as grandes capitais, algo que vai encher o inferno.
— Disse para o comandante que não havia ouvido.
— Eu gosto da região da Rodoviária.
— Maluca.
Elza sorriu, vendo o carro chegar na região, ela não saberia ir
por cima, mas viu que era quase reto, olhava as ruas como se
tentando lembrar delas.
Os policiais chegam a um grupo ao fundo e o cabo sai e fala
com o comandante.
— Pegamos alguém que dizem que estava aqui, já no Alto da
XV.
O senhor chega ao carro e fala.
— Como ela chegou tão longe?
— Não sabemos, como está o grupo aqui?

416
— O exercito tentou matar eles, mas parecem estar caindo no
campo, eles estão doentes, os vacinados, todos mortos, algo os
matou.
O cabo olha para o comandante e pergunta.
— Ela nos disse isto, não acreditamos.
— Ela disse oque?
— Que os militares estavam morrendo, que os vacinados
também, e que se assustou e saiu dali.
— Ela disse isto?
— Sim.
— Algo aconteceu na base no Alto da XV, alguns dizem que o
posto de gasolina explodiu. – O comandante.
— Mas saímos de lá a pouco.
— Sei disto, mas coloca ela para dentro da área, quero ver o
que ela vai fazer.
— Acha que ela vai dar o caminho que os demais foram?
— Acho que tem muita gente morta, a tarde está correndo, e
não temos uma posição oficial referente aos acontecimento, temos
os bombeiros tentando apagar o centro da cidade, mas parece que
a área histórica está toda em chamas.
— E os militares?
— Sumindo, como se estivessem morrendo.
— E eles falaram que nós seriamos os próximos a tomar a
vacina, lembrei de perguntar porque depois, na hora pensei que
estavam priorizando este lixo, como esta moça.
— Ela pode ser um lixo para a sociedade Cabo, mas a
resistência dela a bactérias e a viroses, é bem superior que a nossa,
ela enfrenta estas viroses de frente, não escondido em um
antibiótico.
Induzem a moça caminhar, ela olha para as janelas altas e fala
gritado.
— Desliguem os gazes, por favor, desliguem os gazes.
Os policiais olham para ela, uma maluca, achando que alguém
a ouviria, a conduzem pela entrada ao lado do Mercado Municipal,
ela entra vendo as pessoas mortas, olha para uma boca de lobo e
olha uma leva de olhos a olhando.
— Você não saiu? – Um senhor.
417
Ela não respondeu e vai ao caminhão a frente e olha para o
megafone e fala.
— Podem sair, os militares já morreram todos.
Os policiais olham aqueles seres saindo de buracos ao chão,
ela olha para o prédio em frente e fala novamente.
— Se querem viver, por favor, desliguem o sistema de gás.
Elza senta-se e olha as pessoas saindo, gente que não era da
rua, como ela, olha aquela menina vir andando para seu lado, ao
seu lado um senhor, não viu a mãe dela.
— Voltou?
— Disse para sair Camila.
— Meu pai avisou os militares que tentariam sair, mas parece
que a pegaram de volta.
Ela pega o megafone e fala.
— Não adianta ir abastecer no posto que mataram o dono,
ele explodiu.
Os militares se olham e o comandante olha para o cabo.
— Quem é esta moça?
— Moradora de rua, dorme na calçada ou ali na cobertura da
ferroviária, toda noite.
— Ela sabe mais do que parece.
Os dois estavam falando e ouvem a explosão do prédio que
ela passara ao lado, se afastam, como era um sistema de gás único,
começa a explodir em todos os apartamentos, e o fogo começa em
todo o prédio, eles olham o prédio na esquina, de mais 8 andares
queimar e o rapaz olha a moça bem ao longe.
— Ela sabia? Como? – Comandante.
— Não sei.
Viram um senhor se jogar e morrer a frente dos dois, pulou
da parte alta.
O pessoal a praça, via o fogo, não tinham mais bombeiros
para tantos incêndios, os policiais se afastam, o comandante olha a
moça chegar a entrada e falar.
— Quando quiser ajuda, parar as mortes, pede.
— Mas como ajudar?
— Posso?

418
Ele faz que sim, ela caminha pela rua, via gente caindo, mas
viu ela entrar pela portaria, descer e bater em uma válvula, a
pressão estava aumentando, mas desliga o gas e olha para o policial
que a acompanhou, deveria ser mais maluco que ela.
— Pega os extintores na entrada, se explodir se perde até
vocês a rua.
O rapaz sobe, pega e vê ela acionar o mesmo, desajeitada
jogando aquela espuma sobre o grande recipiente, ela fechara o
gás, sai e olha para o prédio parando de pegar fogo, atravessa a rua
voltando ao centro da área de detenção.
— O que ela fez? – Comandante, ele olhava para o fogo se
extinguindo, reduzindo.
— Desligou o gás, cobrimos o local com espuma, mas ainda
vai queimar.
— Sim, mas dá para ajudar a tirar as pessoas, a praça ainda é
melhor que num prédio que tende a queimar.
— Como uma moradora de sua sabe destas coisas
Comandante?
— Não sei, mas ela voltou para lá sem precisar a por para lá,
ela acha lá mais seguro que aqui.
— Se aquilo tivesse explodido, nós morreríamos senhor, ela
ofereceu a ajuda para nós, pois o prédio, muitos ainda vão morrer.
— O que a Civil falou?
— Não tem ninguém atendendo, podem estar em casa
escondidos, ou mortos. – O senhor estava falando quando o gerente
de um prédio ao fundo pergunta se poderiam sair do prédio, e ir a
praça.
O policial viu que era medo, autoriza, o exercito não estava
mais lá para atirar, eles atiraram primeiro, os militares depois, todos
os que não aplicaram a vacina, estavam vivas, mas o comandante
sabia que o que matava, não apresentava nenhum sinal anterior a
morte.
Elza viu outros chegando e não entendeu, eles trouxeram
coisas do prédio, como se fossem se alojar na praça, ela sorri, uma
boa ideia finalmente, ela olha para eles e não vê morte, olha para a
menina e fala.

419
— Tem de se cuidar pequena Camila, aqui ninguém vai
morrer mais, mas tem de ficar na praça.
— E vai onde? – Um senhor ao fundo.
— Eu sou alguém da rua, não sirvo para comodidades.
— E quais prédios vão queimar? – O gerente olhando ela, viu
que ela alertara os moradores, ninguém a ouviu.
— Todos, não é culpa da estrutura, a pessoa adoece muito
rápido, está bem, cai e um gás fica ligado, uma faísca e uma
explosão, numa casa é só evitar cozinhar, em um prédio, sempre
tem quem vai desafiar as regras, ou ter fome.
O senhor olha para a moça, estava fedida, ela se levanta,
caminha até o banheiro da Rodoferroviária, ela se lava, lava a sua
roupa, e a coloca húmida no corpo, estava ainda no fim do dia, teria
tempo de transpirar e secar a roupa.
Ela sai do banheiro e olha para o comandante a olhando, olha
para o militar ao fundo morto e pergunta.
— Porque voltou?
— Não sei o senhor, mas vou parar quando morrer, eles
queriam matar todos, por quê? Não sei, mas se não sei o que
atingiu os mortos, não posso dizer que alguém está salvo.
— Porque não acredita em algo normal, um vírus.
— Senhor, eu não sei ler, escrever, não sei o que é um vírus,
pode ser, mas eu não entendo o que é.
O rapaz ao fundo olha para ela, como alguém não sabia, olha
para o senhor que pergunta.
— Nunca foi alfabetizada.
— Nuca fui a uma escola, nunca soube quem são meus pais,
vivo na rua desde que me lembro.
— E resolveu sobreviver.
— Posso estar enganada, mas é algo que liga açúcar a algo na
carne.
— Por quê?
— Os mortos que não foram vacinados, tinham semelhanças
físicas, todos que vi estavam acima do peso, todos cheiravam a
gente gorda.
— Gordo tem cheiro? – O soldado tirando sarro.

420
— Assim como maconha rapaz. – Elza fala, o rapaz faz que vai
avançar, o comandante olha para o rapaz, sabia que ele fumava,
poderia não estar cheirando, mas a moça sabia, ele foi reagir mas o
olhar de se controle do comandante o fez parar.
— E porque acha que é isto?
— Bem isto, acho, não sei a verdade, como digo, moro na rua.
— E não obedeceu o cordão de isolamento?
— Que cordão? – Elza provocando, ela sabia que todos
estavam armados, ela poderia até ser morta, judiada, agredida e
ninguém a socorreria.
O senhor olha os mortos, olha o cordão caído, olha para o
prédio e fala.
— Vai os liderar?
— A praça é mais segura, mas ter onde fazer as vontades,
evita gerar cantos fedidos e impróprios na praça.
— Acha que acabou?
— Se lançaram na carne, está na carne ou nas pessoas,
esperando para agir, espero que seja na carne. – Elza olhando em
volta.
— Por quê?
— Pois não como carne, e pode não parecer senhor, eu fui
vacinada, eu sou a única pessoa vacinada que não morreu.
Elza passa por eles voltando a praça, pede ajuda e colocam os
corpos dos mortos junto a calçada da rua, pegam os vacinados,
militares, todos, e colocam em pilhas, a imagem triste de velhos,
crianças, mulheres, todos mortos, fez Elza olhar serio todos, ela iria
sair, mas não sabia quando.
O comandante olha para o cabo e fala.
— O que as demais concentrações falam?
— Vacinados mostos, exercito aparentemente sumindo,
devem estar morrendo em grande quantidade, sem ninguém ver,
será que a moça foi realmente vacinada?
— Não sei, mas ela não parece doente, os demais foram
perdendo ação, ela parece ativa.
— Precisamos saber as ordens senhor, as pessoas nos
prédios, detidos lá, ouviu, vão morrer.

421
— Ela está usando logica, ela não tem estudo, mas tem lógica
de sobrevivência, ela deve ter visto muito mais coisas perigosas na
vida que os militares que a cercaram.
— O que fazemos.
— Passa pelos prédios, com o megafone alertando, falando
para desligarem os gases, para cuidarem, se quiserem escolta a
praça a frente da rodoviária, os conduzimos, trazer comida.
— Será que ela está com a razão?
— Ela parece para alguém que fede, ter um nariz apurado, ela
está tentando achar a diferença dela para os que morreram, ela
acha que todos estão infectados.
— Sabemos que cães, gatos, pássaros, ratos, animais
domésticos variados, surgiram mortos, não sabemos como estão os
campos senhor.
Elza recusa algumas comidas, ela olhava os soldados, quando
todos se acomodam em seus carros, ela em meio a lâmpadas
apagadas, ruas desertas, caminha pela avenida, chega ao trilho de
trem e começa a caminhar sobre ele, sem se preocupar se estavam
a seguindo.
Os rapazes olham para as noticias no colégio e Caco olha para
Eduardo.
— Acha que ela vem para cá?
— Não sei, vou ter de ver o que ela vai fazer.
— Não a deixa chegar aqui.
Eduardo sobre pela rua lateral até o trilho, ele caminha no
sentido que ela deveria vir, ele olha ela que pergunta.
— O que faz aqui, sou a isca, não é para pegar ninguém do
grupo.
— Caco ficou com medo que fosse para lá, pois os rádios
falam para onde está indo.
— Então devem estar falando que eu encontrei alguém no
trilho andando.
— E vamos onde? – Eduardo.
— Filar uma comida, o que mais.
— Não parece preocupada?
— Acho que todos estamos mortos, como posso me sentir
preocupada, a morte é a única certeza que sempre tive.
422
Os dois caminham, a policia ficava ao longe, mas quando eles
chegam a rua, descem apenas meia quadra e Elza olha a senhora a
janela e pergunta.
— Teria um prato de comida senhora?
— Sim, não morreu?
— Tinha de diminuir o peso do barro.
— Entrem.
Eduardo estranha, ela foi a uma casa, entraram, onde a
policia estava eles não sabiam, mas obvio, Elza não estava
preocupada.
— Namorados? – A senhora.
— Não. – Elza.
— Ainda não.
A senhora sorriu, mas a cara de nada haver de Elza, fez
Eduardo a olhar e falar.
— Quando resolveu comer aqui?
— Quando ela disse que planta o que come.
A senhora sorriu e falou.
— Sabem o que está acontecendo?
— Não, mas estão mandando manter o gás desligado, deve
ter ouvido explosões por ai.
— Sim, mas aqui é tudo no fogão a lenha mesmo.
Elza sorri e fala.
— E o que tem hoje.
— Refogado de quiabo com alho, repolho e polenta.
— Acho que acertei em cheio onde filar comida hoje. – Elza.
A senhora sorriu e começa a falar do tempo que a cidade era
tranquila, aquilo era um bairro de baixa renda, onde haviam
terrenos grandes, todos tinham galinheiro, tinha gente que até
criava o porco que comia, hoje vinha tudo industrializado, ela falou
muito, parecia querer conversar, estavam conversando quando
alguém fala alto, em um megafone.
“Saiam com as mãos ao alto”
A senhora se assusto, Elza pega o prato e vai a porta, olha
para o comandante e fala.
— Entra comandante, aqui só tem sobreviventes comendo
um pouco.
423
O senhor ficou sem jeito, a moça estava ali, não se escondia,
isto que não combinava, eles deveriam ter batido em muitas casas,
muita gente saiu em outras portas, mas o senhor faz sinal para
baixar as armas e entra na casa.
A senhora olha para o senhor assustada e pergunta.
— Estou presa por quê?
— Calma, pelo jeito recebendo visitas.
— Eles se ofereceram a comer, as ruas estão violentas, uma
conversa no começo da noite, a beira do fogão de lenha, sempre vai
bem antes de dormir.
— Parece não ser tão maluca moça?
— Não?
— Passei a informação a frente, alguém está querendo falar
com você.
— Alguém?
— Um farmacêutico da UFPR.
— O que é UFPR?
— Universidade Federal do Paraná. – Eduardo.
O senhor olha para Eduardo e fala.
— E você, estava quebrando a ordem de ficar em casa.
— A ordem já não está no radio, eles nem devem estar mais
lá, não entendi, mas o que querem com a moça?
— Tem formação?
— Um dia fiz enfermagem.
— E o que faz junto com ela?
— Ela não quer este “Junto”, em nossa relação comandante.
— Certo, mas pareciam ter combinado onde vinham?
— Ela disse que ia tentar filar uma boia, estamos o fazendo,
algo de errado nisto?
Os dois se despedem, saem e Elza fala entrando no carro.
— Voltamos para terminar a conversa.
A senhora sorri, a policia conduz ela para a região da
universidade, o capitão olha para ela e pergunta.
— Como sabia que o posto explodiria.
— Não sei, isto faz eles me chamarem de maluca, mas olhei
as vidraças da região, e pareciam todas estilhaçadas, então teria
uma grande explosão, o que tem ali que pode explodir.
424
— E porque saiu da região da Rodoferroviária?
— Eles não parecem mais brancos, agora parece que vão
viver, não sei por que, mas não gosto de falar disto.
— Por isto não se relaciona com alguém? – Eduardo.
— Não disse isto Eduardo, não disse.
Ele sorri e o carro para em uma área isolada, Elza foi
conduzida, ela entra e olha sobre uma mesa, olha para o sanduiche
e olha para o capitão.
— O dono daquele sanduiche é o próximo.
— Seria maluco se acontecesse.
Um senhor chega a eles, ela olha o senhor, o seu cheiro e fala.
— Você é o especialista?
— Não, ele está lá dentro, sou apenas o segurança.
— Menos mal.
O senhor a olha atravessado, o cheiro dela era forte, alguém
que viveu a rua a vida, nunca usara um desodorante, nunca se
cuidara para parecer bonita, e mesmo assim, tinha seu charme.
Ela é levada a uma sala, o senhor do lado de dentro sai em
uma veste isolada e pergunta.
— Desculpa a forma que os atendo, mas estamos em uma
calamidade, quem que falou que o problema está na carne?
— A moça, mas não entendi porque a trazer aqui? – Cabo.
— Alguns estão morrendo ainda.
— O segurança é o próximo senhor. – Elza.
Ele a olha, não gostava de adivinhos, olha decepcionado e
fala.
— Vai dizer que é uma cartomante destas que chuta, isto é o
que não esperava agora, e sim alguém para trocar uma ideia.
O agito veio da parte de fora e o rapaz a porta fala.
— O segurança está caído e parece ter pego a praga.
O doutor sai pela porta, olha para o sanduiche e fala.
— Isola o que ele comeu, põem ele na geladeira.
— Mas...
— Temos de parar isto, mas... – Ele olha para a moça, sentiu o
cheiro dela quando passou ao lado, mesmo em sua veste protegida,
sinal que não era tão protetor assim - ... como sabia?

425
— Isto que falava para o comandante militar, os seres que
morreram e não eram vacinados pelo exercito tem a estrutura física
do senhor ali, acima do peso, cheirando a bacon.
— Mas seria uma adivinhação.
— Senhor, tudo que falar, é chute, não sei para que me trazer
aqui, assustaram uma velhinha para me trazer aqui. – Elza saindo da
posição cômoda de apenas ouvir e se defender.
— Qual sua formação?
— Analfabeta total.
— Fala serio, ninguém é totalmente analfabeto.
Elza olha para o comandante e fala.
— O que queria me trazendo a frente de um doutor, que
deve ter mais diplomas a parede do que todos que já olhei ao longe
durante a vida?
O doutor olha que a moça não olhou para ele, se ele queria
fazer perguntas e duvidar das respostas, o que ela fazia ali?
— Tem de ver moça, que é a única pessoa que tomou a
vacina e está viva. – O comandante.
Eduardo teve a sensação de que ela havia tomado a vacina,
mas não falou para ninguém, teve medo de ninguém a seguir, mas
agora era um policial falando.
O doutor olha para a moça, magra, fedida e pergunta.
— Isto é verdade?
— Sim.
— E quando foi a ultima vez que comeu carne?
— Eu era uma criança, um morador de rua matou o cachorro
e me ofereceu a força, vomitei aquele dia.
— Não come nada de proteína, isto é perigoso para a saúde.
— Disse que não como carne senhor, não que não como
proteína.
O rapaz ao fundo chega a ela e fala.
— Nos deixaria tirar uma amostra de seu sangue?
— Sim.
Eduardo olha para ela, não sabia se era uma boa ideia, eles
poderiam a usar como cobaia, mas ela parecia saber o que queria
fazer, não entendia o que ela pretendia.

426
O senhor tira também uma amostra do sangue do senhor que
morrera e fala olhando para o Eduardo.
— Ela não tem nenhum índice de gordura sobrando, ela deve
ter um frio grande nos invernos.
— Deve mesmo, ela mora a rua.
O doutor iria falar algo, mas vendo a moça o olhando apenas
termina de fazer a analise e fala.
— Não temos como descer o nível de gordura do sangue para
o da moça para salvar alguém, mas o grupo de soldados que me
mandaram mortos, estava com uma camada de proteção sobre
grandes quantidades de gordura, como se algo as unisse, forçando
um enfarte violento, tão violento que a dor intensa mata as reações.
— E no senhor? – Elza.
O doutor entendeu que a moça fazia perguntas, e tentava as
entender, poderia não ter formação, mas queria sobreviver.
— Algo provoca os glóbulos brancos atacarem toda a gordura
do sangue, uma hora está bem, no segundo que recebe esta ordem,
as células começam a entupir, o coração para em todos os pontos
junto, com o acumulo de gordura.
— Pode ser uma reação natural dos corpos?
— Tem de entender que está acontecendo no país inteiro
menina.
— E fora, está? – Elza.
— Alguns países, mas na américa está mais forte que em
outras partes do globo.
— Mesmo em países como o Chile? – Eduardo.
— Sim.
— Não é na carne Elza.
Ela olha para ele, então o que seria.
— Mas o que seria?
Eduardo olha o doutor e pergunta.
— Quais sais estão no sangue?
O rapaz alcança uma lista e ele pergunta.
— Quais os índices de Glutamato Monosódico no corpo?
O doutor olha para o rapaz, um tempero de carne, muito
usado para tirar o gosto desagradável em carnes processadas.
O rapaz faz o teste e fala.
427
— Não entendi o resultado doutor.
— Por quê?
— A moça tem índice zero de Glutamato Monosodico, o
senhor a mesa, perto de 2% no sangue, isto é muito senhor.
— E o que este gutamato faria? – Elza olhando para Eduardo.
— Ele é um tempero de carnes e peixes, para tirar o gosto de
processado do mesmo, é um inibidor de paladar.
— Aquilo que a senhora usava nos vegetais? – Elza olhando
ele.
— Sim, aquilo que você não usou, mas ela tinha a mesa, e
dizia que puro ela conseguia usar, mas estes que vendiam nas lojas
hoje ela não conseguia comer.
— Do que está falando?
— O senhor se preocupa com os mortos senhor, eu me
preocupo com os vivos. – Elza.
— E não toma banho por isto?
— Quem não sabe o cheiro que teria na natureza, não pode
saber muito mais que o básico senhor.
O senhor sorriu, Elza olha para o Comandante e fala.
— Tira os temperos de todos, não comer nada com isto, não
sei o que tem, mas deve ter muita coisa ai, algo em um deles,
parece ter despertado.
O comandante sai e o medico fala.
— É muito sedo para termos certeza.
— Sim, mas se conseguirmos evitar que as pessoas comam
um ou outro alimento, podemos os estar salvando. – Eduardo.
— Vocês não entendem de ciência.
— Estamos lá fora senhor, morrendo, quer trocar de lugar? –
Fala Elza olhando o senhor aos olhos.
Ele olha o assistente que fala.
— Se tiramos o glutamato da operação, as veias não se
entopem senhor, pode não ser a causa, mas é uma forma de se
precaver das mortes.
— E como vamos descobrir o que as faz se aglutinar.
Elza olha para Eduardo e fala.
— Por acaso ouviu isto?

428
— Sim, tem algo chegando a nós, parece tanques, temos de
sair, não sei o que vai acontecer, mas precisamos sobreviver para
saber.
Os dois saem pelo fundo, se ouvia as rodas metálicas dos
tanques chegando perto.
O comandante da policia, olha os policiais ao longe e faz sinal
para deixar chegar e olha um general sair de um tanque.
— Estão quebrando a ordem de Lei Marcial.
— Somos os atiradores a rua. – O comandante, olhando para
os soldados – se vão nos substituir para descansarmos um pouco,
agradeço.
— Existe uma transmissão que diz que uma fugitiva do
isolamento está aqui, viemos a deter.
— Sobre ordens de quem senhor?
O soldado sobre o caminhão mira na entrada do prédio,
aquela metralhadora e o senhor fala.
— Comando maior das forças armadas.
— E veem pegar uma moradora de rua, com 10 tanques, mais
de 50 soldados, sabe o que enfrenta senhor general?
— Acha que não sei. Não entendeu nada comandante.
— Acho que se sabe mais que eu, é o causador, a pergunta,
vale as mortes?
— Me acusando?
— O senhor se acusou, não eu.
Os militares estavam em suas posições e o comandante
pergunta ao rapaz ao caminhão.
— Tomou a vacina que horas rapaz?
— A nova vacina, a meia hora.
— Morre as 6 da manha, assim como o general a minha
frente, pode matar todos, mas não volta para casa rapaz, pois a
vacina apenas ajuda a aglutinar a doença nas suas veias.
O militar mentiu, ele sabia que os seus rapazes estavam os
cercando, mas não teria chance de sobreviver se o rapaz abrisse
fogo sobre o caminhão, 18 milímetros é morte certa.
Elza sai pela porta e olha para o general, Eduardo saia pelos
fundos, ele não entendera, mas ela disse que se os dois saíssem

429
pelo fundo, os dois morreriam, se os dois saíssem pela frente, os
dois morreriam, então teriam de improvisar.
Elza olha para o comandante e fala.
— Calma comandante, estou me entregando, não mata seus
rapazes por alguém que nem o medico local achou algo de proveito.
— Mas...
— Sem mas, eles são o exercito, mas talvez esteja errado
referente ao rapaz morrer as 6 da manha, assim como o general a
frente morrer na mesma hora, ele é um cagão, não tomou a vacina,
é fácil mandar os demais tomarem, e não tomar.
— Acha que fala com quem moça?
— Veio me buscar? Estou aqui.
— Não parece perigosa.
— O que tenho dentro de mim é perigoso, não eu como
pessoa, acha que me preocupo se morrer?
— Matem ela. – O general falando alto - e todo resto depois.
O comandante olha a moça lhe piscar e falar.
— Quer saber o que se faz agora?
— Sim.
Ela olha para ele falando baixo e fala.
— O prédio do outro lado da rodovia explode – os dois ouvem
a explosão – o rapaz se vira para lá assustado, o general também – o
seu rapaz do fundo acerta um rapaz na metralhadora do fundo, o
rapaz a frente, os seus rapazes abrem as compotas dos tanques e
apontam para dentro, o rapaz do caminhão parece olhar assustado
ainda, e andar de costas, ele cai para nosso lado, o general vai puxar
a arma, estamos ainda estáticos, ele quer me acertar, mas ele sente
o coração, ele sente o amargo a boca, ele tenta puxar o gatilho e cai
morto. – Elza foi falando e as coisas acontecendo, ela olha para os
rapazes do comandante apontando suas armas e fala alto.
— Quem não atirar, não morre agora.
O rapaz ao chão olha para ela, caído ainda e pergunta.
— Mas vou morrer as 6?
— Não posso garantir algo impreciso, eu não sou de antecipar
mortes, mas acredite, somente nós somos donos da nossa vida,
todos a volta podem morrer, mas o importante não é morrer, é
como morrer.
430
Os rapazes foram baixando as armas e o comandante olha
para o cabo e fala.
— Entra e pergunta para onde podemos os mudar, sem radio,
sem falar para ninguém, o exercito quer os parar agora.
Elza pega o radio do caminhão, o comandante põem na
frequência da policia e ela fala.
“Para quem quer ouvir, nosso problema é o exercito, eles
sabem das mortes, da causa, tentaram uma vacina, estão tentando
uma segunda, mas parem de temperar as coisas, com qualquer
coisa que não saibam o que está usando, não entendi oque, mas é
em algum tipo de sal usado em produtos variados, que desencadeia
a reação que gera a morte, ainda tem gente querendo matar a
gente, mas o exercito metralhou os cientistas da Universidade, não
vejo motivos bons nesta ação, então estão avisados, o exercito sabe
do acontecido, e tem ordens de parar qualquer um que acha que
pode sobreviver sem a vacina deles, que continua mortal.”
Os policiais prenderam os militares para dentro, tiraram as
coisas e colocaram nos caminhões do exercito, o comandante olha
para a moça e fala.
— Sabe de algum lugar que dê para usar?
— O que ele precisa?
— Um laboratório simples.
— Vamos tomar um então.
Elza faz sinal para Eduardo que saia pelos fundos e pergunta.
— Como é o nome daquele laboratório perto do posto que
explodiu?
— Vai os mudar para lá?
— Preciso ter uma ideia, mas parece ter entendido algo que
não entendi.
— Quer entender, porque, não parecia preocupada antes?
— A senhora parecia saudável, era aparência somente?
— Acha que o problema é uma mudança no produto?
— Eu não entendo destas coisas de guta qualquer coisa.
— Glutamato Monosódico. – Sorri Eduardo falando a palavra
que a moça parecia tentar achar uma forma de falar.
— Gutamato porcaria este.

431
O comandante olha os soldados todos presos, olha para o
cabo e pergunta.
— Sabe dirigir os tanques?
— Sei, não é complicado, mas vou explicar para alguns,
vamos fazer oque?
— Isolar uma quadra da cidade, unir forças, tentar entender o
que não entendo.
O caminhão com a moça e o rapaz saiam e ele pergunta.
— O que não entendeu?
— Ela foi narrando o que aconteceria, calmamente, e os
acontecimentos foram se desenrolando, como algo assim pode
existir, ela parece sentir o caminho, mesmo que para muitos, ela
sair pela porta fosse suicídio.
— As coisas inexplicáveis de Curitiba.
— As demais não sei, todas tinham explicação, mas nunca vi
algo assim, não é dizer, vai acontecer, é antecipar cada
acontecimento segundos antes, como se tivesse visto tudo antes de
acontecer, tivesse escolhido o caminho que lhe garantiria algo.
O cabo foi a um dos tanques, ele havia servido no Boqueirão,
então conhecia aqueles tanques, ele mira na construção e atira com
o tanque na mesma, se ouve a explosão do laboratório, o grupo
começa a sair dali no sentido do Alto da XV.
Eduardo olha para Elza e pergunta.
— Confia neles?
— Eles pretendem me prender no fim, se estiver viva para
isto, legal.
— Não reclama de nada?
— Tínhamos algumas possibilidades, saímos com a menor
quantidade de mortes, mas os soldados vão morrer, e queria saber
por que sei.
— Você sente o meio, deve antecipar o que é a parte
inevitável de cada ação pensada.
— Me parece não ser pensado, mas tenho medo as vezes, se
eu tivesse errado, estaria morta.
— Uma hora vai acontecer isto, mas lembra, terá vivido a
possibilidade, o pior é se esconder dela.
— Se esconde de algo?
432
— Sim, um erro, grave, mas que após feito, não tinha como
reverter, eu acabei com uma família com meu erro, e não soube não
me culpar por isto.
— E fugiu para a rua?
— Sim, fugi para não ver ninguém me apontando, me
julgando, acho que ainda não sei olhar para o fato, pois sei que fui a
parte errada, não consigo nem falar disto.
— Com calma o faço confessar.
— Não teve graça. – Eduardo.
— O pessoal vai se assustar.
— Com certeza, o pessoal vai se assustar.
Os caminhões chegam ao lado do colégio, poucos metros
depois do posto que ainda queimava, arrombam um laboratório de
analises clinicas, entram e os doutores viram que teriam o que
precisavam, olham para um soldado e pergunta.
— Quem escolheu o lugar?
— A moça?
— Como ela sabia o que precisávamos?
— Não sei senhor, mas o exercito está tomando as
transmissões novamente, negando a transmissão de uma terrorista
de Curitiba.
O caminhão deles estava indo quando o soldado para o
caminhão e o rapaz fala.
— Ouçam isto.
“Estamos alertando que um núcleo de terroristas está em
Curitiba, a transmissão anterior deve ser ignorada, não podemos
dar ouvidos a terroristas esta hora.”
— Põem na mesma frequência. – Elza.
“Quem afiram nos rádios que sou uma Terrorista?”
Ela espera alguém falar, como não ouve resposta continua.
“Povo, exercito, militares, é serio, um general sem nome fala
que existe um núcleo de terroristas em Curitiba, mas se olharem via
satélite, veem o exercito detonando o núcleo de pesquisa da
Universidade daqui, então vai o desafio, quem é que está falando,
pois todas as mortes que o negar o que falei gerar, vou cobrar do
senhor, se é homem, toma a vacina, pois pelo menos sei que não
chega à manha do dia seguinte que o fizer, forçar alguém tomar
433
isto, covardia, deveria tomar antes de mandar os soldados
morrerem com isto a veia. E por ultimo, somos sim uma resistência,
resolvemos sobreviver, a pergunta, porque o Exercito está fazendo
de conta que não sabe de nada, e matando quem sabe, no lugar de
apoiar a sobrevivência?”.
Alguém vai ao radio e pergunta.
“Mas você também não falou quem é, porque devemos a
ouvir, e não ao comandante em chefe.”
“Meu nome, Elza, porque me ouvir, sou a única cobaia que
tomou a vacina, e está viva, não porque não tenha esta porcaria
dentro de mim, mas porque não tenho índice de gordura para que
isto me mate, tudo que conseguiram foi que minha pressão subisse,
mas somente isto, porque me ouvir, pois fui cobaia destes que
dizem não saber o que os aflige, mas tem uma vacina para isto, mas
peço, quer viver, não toma esta porcaria.”
— Desliga. – Elza olhando o rapaz ao radio.
Um general olha para o segundo no comando e pergunta.
— O que está acontecendo?
— Temos o exercito forçando vacinação em todas as capitais,
todos que tomaram a vacina, morreram, as imagens de satélite
mostram o prédio destruído da Universidade.
— Quem em Brasília está coordenando isto?
— Ninguém assume, mas estão todos nas bases de segurança
máxima senhor.
— Quem é esta moça?
— Uma moradora de rua, segundo as gravações da policia
local, que de alguma forma, protegeu os moradores de rua,
ninguém sabe onde, mas ela os escondeu, mas não fugiu.
— Porque eles a ouviram?
— Não sei senhor, mas se ela é alguém que tomou a vacina e
está viva, o exercito deveria a querer viva, mas temos as ordens
chegando de Brasília, sem ninguém assinar, pedindo a morte dela.
— Nada oficial, me informa onde ela se protege, dá proteção
nossa na região. Fecha a área por terra e ar.
— Mas...
— Ninguém assinou as ordens vindas de Brasília, as
cumprimos e depois falam que não mandaram.
434
— Mas como nos falamos?
— Está cidade é um ovo, vou conversar com alguns, vamos
ver se sobrevivemos, se alguém descobriu como, manda gente a rua
recolher tudo que tenha sal, elimina qualquer coisa nos estoque que
tenha isto, vamos por as pessoas a fazer exercício, se precisamos
perder gordura, vamos a perder.
O rapaz bate continência e sai pela porta.
Elza olha para o laboratório e fica do lado de fora, olha o
comandante a olhar e falar.
— O que eles vão fazer?
— Tentar descobrir o que este Gutamato ativa, acho que é
isto. – Elza.
O senhor olha para Eduardo que concorda com a cabeça, não
estava corrigindo o falar errado, mas ela entendera o que eles
tinham de fazer, sinal que os senhores deveriam conseguir.
U general desce a rua e olha o comandante.
— Podemos conversar senhor? – General Pereira.
— Sim.
— Sem transmissão via radio, estamos fechando as 8 quadras
em volta, e tornando este espaço aéreo em fechado para sobrevoo.
— Não entendi. – Comandante.
— O comandante em chefe do Exercito do Paraná, está
determinando esta área como prioritária, mas sem avisar,
comunicar onde, e nem espalhar por radio.
— Então agradece a ajuda ao comandante em chefe.
Eduardo olha para Elza sem entender e pergunta.
— E agora?
— Diz para o comandante que vamos escolher uma sala de
aula e dormir um pouco.
— Não para?
— Acha mesmo que gosto de ficar onde alguém pode
bombardear?
— Nunca viu um bombardeio. – Eduardo.
— Todos que viram, ou grande parte deles, morreu, ou não?
Eduardo sorriu, chega ao comandante e pergunta.
— Podemos descansar um pouco senhor?
— Cansados?
435
— Pensa o quanto o normal para nós, é pesado para a moça,
ela não tem reserva nenhuma de gordura no corpo.
— E vão onde?
Ele olha em volta e pergunta.
— O que é esta construção grande?
— Um colégio.
— Parece um bom lugar para encostar o corpo e dormir um
pouco.
O general olha para o rapaz se afastando e pergunta.
— Como acharam a moça?
— Ela fez questão de se deixar pegar, ela parece quase
adivinhar de onde vem as balas senhor.
— Sabe que tem gente querendo manter as pessoas em casa.
— Acho positivo, mas alertar da existência de um risco nos
temperos e produtos com Glutamato Monosódico, soube a pouco
que até os refrigerantes dietéticos tem isto.
— Algo em tanto lugar que não achamos perigoso. – O
general.
O comandante concorda, enquanto Elza entra no colégio,
sabia que os moradores de rua olhavam desconfiados, mas ela
precisava descansar, em breve começaria a noite, talvez uma
batalha a rua, então teria de descansar para hora de correr.
Eduardo olha para ela e pergunta.
— O que me esconde?
— Ninguém está seguro, mas alguém resolveu pensar e tirar o
apoio local a maluquices do exercito, mas eles podem vir sobre nós
com tudo, não sei porque parece seguro, e ao mesmo tempo,
parece que não posso estar a rua a noite.
— As vezes é apenas cansaço.
Ela entra em um corredor, acende a luz e olha para um
banheiro ao fundo, olha um senhor caído, morto, o segurança local,
olha para o banheiro e entra nele, olha para Eduardo para ele ficar a
porta, ele para ali e olha Caco chegar a ele.
— Trouxeram a policia sobre nós, estão malucos?
— Trouxemos ou fomos trazidos? – Eduardo.
— Mas atravessaram a rua.

436
— Ela não acha seguro ficar a frente, então veio para onde
sente-se mais segura.
— Não gosto disto rapaz. – Caco.
Elza foi ao banheiro, fez xixi e voltou, olha para Caco e fala.
— Sem problemas Caco, saímos.
— Não vai discutir? – Eduardo.
— Eduardo, eles não precisavam matar o segurança, alguém
que estava ali cumprindo uma função, com medo, sozinho, Caco já
fez isto na vida, e matam o cara apenas por matar, melhor não ficar
por perto de quem acredita que a vida não tem valor, quando não é
a sua.
— Acha que sai se não quiser. – Caco.
— Acho que não é idiota de não me deixar sair, ou quer
mesmo que eles venham olhar, vim ao banheiro, algum problema
nisto Caco?
Caco pensou, se eles não saíssem, sim, eles viriam ver o que
aconteceu, ele pensou que poderiam dar sumiço neles, mas isto
faria eles revirarem o lugar.
Elza começa sair e Eduardo fica na duvida, ela não parecia
feliz, algo estava mudando nela, como se estivesse irritadiça.
— O que aconteceu?
— Esta porcaria no meu sangue, se eles souberem eles nos
matam Eduardo.
— Mas você os trouxe para cá.
— Pensei que seria diferente, eu não tenho visões do meu dia
inteiro, ou das coisas 24 horas por dia, ainda bem, que graça teria,
mas quando vi o senhor morto, soube que teríamos de sair, apenas
tinha de tirar agua do joelho.
— Certo, mas para onde?
— Acho que podemos achar um outro lugar, apenas não ficar
no meio da rua.
— Está com enigmas?
— Eu não entendo o que sinto, mas vamos dar a volta,
sempre tem uma marquise em algum lugar.
— Este é o tipo do bairro que não tem marquise.
Elza sorri, chegam a panificadora fechada da esquina, tinha
uma pequena área de recuo do teto e ela se ajeita e fala.
437
— Sabe que não precisa me seguir Eduardo.
— Eles querem algo, quero entender.
— Descansa, embora acho que isto no meu corpo não vai me
deixar dormir.
— Está bem agitada.
— Sei disto, e as coisas ficaram mais vivas a minha mente,
depois da vacina, eu não reparava tanto nos detalhes, acho que
estava sempre meio dormindo.
Ela olha os policiais chegarem ali e um perguntar.
— Não iriam ficar no colégio?
— Acho que não sirvo para certos mundos, mas não sei
porque, evitem ficar no meio da rua.
— Algo vai acontecer?
— Buracos, não sei como, mas amanha terá buracos ao meio
da rua.
Eduardo olha os rapazes recuarem, não sabia o que fariam,
mas estavam ouvindo ela, ele estava cansado, não dormira direito,
ela apagara um pouco na noite anterior, mas após a vacina, parece
que virou uma maquina em ação, mas ela não gostava de ter isto no
sangue.
Os policiais tiraram os carros da rua, isolando a rua.

438
Era perto das duas da manha,
um dos apartamentos ao lado,
explodiu, Elza abre os olhos, estava
com eles apenas fechados, e vê o gás
sair voando pela parede para a rua, olha ele cair na entrada do
bueiro, viu o fogo pegar em algo, e ouve o agito dos ratos saindo
por todas as entradas e os bueiros pegando fogo, algo ali estava
pegando fogo, vê parte da rua afundar, um carro ao fundo, de
alguém que deixara ali, afundar num buraco e explodir, a fumaça
acordou muitos, as pessoas continuavam morrendo, e Eduardo olha
para ela.
— Acho que nem você entende o que vê, ou estou errado.
— Está certo, mas olha a rua?
Eduardo se levanta, olha para a rua, vários pontos
desmoronados, olha para os policiais, os rapazes olhavam para ele
de longe, e um tanque vem do fundo e isola a rua.
Se antes alguém conseguia chegar ao laboratório de carro,
agora, somente a pé, Eduardo não entendia o que aconteceu mas
ouviu um rapaz da policia chegar a ele.
— Esta pegando fogo neste sentido e no sentido da rua do
fundo.
Eduardo sabia que a galeria que usaram passava por ali,
então deveria ter vazado gasolina para todo lado depois da
explosão, agora esta resolve pegar fogo, quando ela aquece a
tubulação de agua, esta explode, apaga o fogo dali, mas abre
buracos a toda a rua.
Elza levanta-se e olha os soldados, sabia que ninguém estava
entendendo, mas ali as coisas ainda estavam acontecendo, ela
caminha até o laboratório, olha um rapaz fazendo um teste e
pergunta.
— Pelo jeito não dormiu.
— Tenho de entender, o seu sangue ficou normal com a
vacina, temos o resultado, temos sangue de duas fases de
vacinação, você tomou a primeira, mas nenhuma delas parece
439
ajudar em nada, elas parecem subir a pressão, para que as veias não
entupam, mas quando em seu sangue não tem o que entupir, mas
estou ainda sem saber o que gera a coagulação do sangue.
— Algum coagulante no sangue? – Eduardo.
— Não, isto que não combina, é uma reação química, direta,
controlada de fora, mas que não consigo encontrar o causador.
— Tem de descansar rapaz, as coisas se revelam aos poucos,
posso dar uma olhada. – Eduardo.
— Sim, não sei se entende disto?
Eduardo olha para a célula, olha para a reação dos glóbulos
Brancos e pergunta.
— Tem certeza de ser uma célula de sangue?
— Sim, porque não seria?
— Os glóbulos brancos, estão quase azuis, como se tivessem
afetados por algo.
O rapaz empurrou Eduardo e olha para o que ele falara, olha
para os resultados e fala.
— Não pode ser algo tão simples.
O rapaz foi ao computador e olha para o doutor Carlos, que
regia a parte dos laboratórios de analises clinicas da UFPR, e fala.
— Não pode ser algo tão simples.
— O que está imaginando? – Carlos.
— Um acaso perigoso.
— Acasos não matam tanto. – Carlos.
— Estou pensando professor, mas algo alterou os glóbulos
brancos das 10 amostras de sangue que temos.
— Algo?
O rapaz olha para Eduardo e pergunta.
— Porque olhou para os glóbulos brancos?
— Eles são a defesa da corrente sanguínea, eles são o que nos
faz viver e nos mata.
O rapaz olha para o professor e fala.
— Os exames mostram hormônios do crescimento.
— Mas porque então o Chile apresentaria casos também? –
Eduardo.

440
— Os hormônios provenientes do milho, se usa alimentar
peixes com isto, assim como aves, mas os bois são uma grande
gama dos comedores disto nos 100 dias de engorda.
— Mas o que desconfia? – Doutor professor Carlos.
— Este infectar dos glóbulos brancos, nos dá uma condição
de analisar quem foi infectado senhor, um exame para isolar os
infectados, a vacina infectou o sangue da moça, mas quando na
reação de desobstrução, o glóbulo branco gera não a diluição, mas o
secar do Glutamato, ele seco, absorve líquidos em reação, para
procurar estabilidade física, gerando o entupir das artérias, quando
a primeira entope, como todas os glóbulos brancos estão
adulterados, mudam a consistência do sangue em si, em todo
corpo, não só no coração e o mesmo para, a dor deve ser imensa,
mas ainda não sei o que pode retirar o hormônio dos glóbulos
brancos.
O doutor chega ao microscópio e olha o glóbulo branco e fala.
— Como não percebemos isto antes?
— Estávamos preocupados com patogênicos, algo que fosse
incutido na corrente sanguínea, esta reação, em pássaros, deve
matar a todos, esta reação em ratos, depende da dieta deles, mas é
uma adulteração gerada por um hormônio, que em cada animal vai
gerar uma reação, acredito que alguns nem vão sentir nada
professor, mas que pode gerar mortes a nível mundial.
— Identificou o hormônio?
— Está na analise, já saberemos qual a empresa que a
desenvolveu, pois cada uma segue uma linha de adulteração.
— Consegue isto, mas então é uma reação natural do corpo?
— Não, é uma reação do corpo, gerada pela soma de
químicas e adulterações que varias empresas fazem em paralelo.
Eduardo sai e olha para o comandante.
— Novidades?
— Sim, difícil de assimilar, mas não existe inimigo
comandante.
— Como não?
— Uma soma de químicas usadas em alimentos, gerou isto,
eles querem descobrir qual exatamente, mas vem de um hormônio
que produzimos por consumo de milho adulterado, isto em
441
conjunto com o Glutamato gera o entupir de tudo, não apenas o
parar do coração, e sim a morte geral do corpo.
— Eles tem uma cura?
— Eles ainda não sabem exatamente qual o produto, mas
milho de uma marca pode estar em produtos do mundo inteiro, eles
compram nosso milho, para alimentar o gado deles, para as farinhas
deles, para as bolachas deles.
O comandante foi falar com o general ao fundo e meia hora
depois ele estava pedindo para falar com o ministério da saúde, e
do ministério de defesa, nada do que eles fizeram resolvia.
Uma hora após, os alertas começavam a pingar nas telas do
pais, advertindo para não comer uma serie de produtos, as
empresas mundiais tentaram jogar no país o uso indevido, tirando
delas a culpa, mas um alerta a Organização Mundial de Saúde
gerava o alerta de que não se deveria usar uma mistura de 18
produtos em mesma formula, evitar uso continuo, mas a pressão
das empresas produtoras, fez com que fosse apenas um alerta
interno, as empresas de comunicação não deram tanta importância
assim.
As mortes começam a surgir nas TVs com alertas de não
consumir certos alimentos, inicialmente dizendo que eles estavam
contaminados.

442
A noite começa a chegar, Elza
se levanta, olha em volta, Eduardo
olha para Elza se afastando, não falou
nada, não perguntou se ele iria com
ela, mas como falara quando sentaram ali voltando do laboratório,
eles ainda não tinham nada para ela ainda, olha os policiais
passando mensagens, olha para o colégio, logo eles responderiam
pela morte, estranho este tipo de justiça, onde policiais poderiam
matar, eles não, mas a logica de manter apenas um no comando
sempre foi não ter um matando o outro, e o povo ficar sem
segurança.
Ele aperta o passo e chega ao lado de Elza.
— Fugindo já?
— Eduardo, eu não tomei a vacina porque queria, e sim, pois
todos a volta naquela praça precisavam saber se era seguro, eu
encenei, mas não consegui ainda a resposta que queria.
— E quando vai conseguir?
— Não sei, talvez nunca, talvez em meses, mas pelo menos
pararam de nos prender por estar a rua.
Eduardo olha as pessoas saindo das casas, mesmo a noite,
talvez o medo estivesse diminuindo, ainda existiam mortes, mas
agora eles saberiam como identificar os de maior risco.
Elza para a praça em frente a rodoferroviária, olha as pessoas
e olha o senhor que estava ali parado, com Camila.
— Podem voltar para casa, eles já entenderam o problema,
melhor todos – Ela olha em volta – ouvirem as indicações antes de
continuarem a comendo algumas coisas.
Elza senta-se naquele banco circular ao meio da praça, olha
Eduardo ao seu lado e pergunta.
— Vai ficar por perto?
— Não sei ainda o que está acontecendo.
— Saiba que estou acostumada a todos irem embora depois,
estou acostumada a não entender a palavra amor, para mim,

443
apenas uma palavra ainda, daquelas que não sei o significado, mas
ouço muitos falarem.
Eduardo a abraça e fala.
— Sei que nem todos sabem o que significa, mas se deixar eu
vou me encostando e ficando.
Os dois veem a praça se esvaziar, as pessoas saindo da área
de Elza, ela sorri disto, ela parecia ainda agitada.
— Espero que um dia eu pare para dormir novamente, adoro
dormir.
Os dois gargalham.

Fim.

444
445
446
447
Autor: J. J. Gremmelmaier
Edição do Autor
Ano 2012
Nome da Obra: Rastros das Sombras
ISBN
CIP – Brasil – Catalogado na Fonte

Gremmelmaier, João Jose

Rastros das Sombras, Romance de Ficção, 57 pg./ J. J.


Gremmelmaier / Curitiba, PR. / Bookess / 2012

7. Literatura Brasileira – Romance – I - Titulo

85 – 0000 CDD – 978.000

448
Rastros das
Sombras
J. J. Gremmelmaier

449
450
Uma moça de nome Sueli vai dormir
normalmente, como toda noite dormia
como uma pedra, sempre dizia as amigas
que o mundo acabaria e ela não acordaria,
estava em meio a um sonho estranho,
estava sobre uma grande queda d’água, olhando o rio, não sabia
onde era aquela grande queda, olha para baixo e sente medo, sente
como se algo a empurrasse e sente o corpo caindo, sente como se
fosse real quando a pedra lateral na queda bate em sua mão, por
mais que ela tentasse acordar, parecia que aquele sonho não
acabaria, sua dor parecia real, os músculos latejando, sente quando
entra em uma agua, o amortecer da queda, o gelo da água, o
apagar, mesmo com dor, por segundos que podem ter durado
horas, elas fica inerte, até sentir aquela dor na mão, acorda com a
dor, e olha para a mão, assusta-se olhando a mão sangrando.
Ela acende a luz e com a mão doendo vai ao banheiro, pegar a
caixa de curativo, mas a dor estava muito grande, mal consegue
encostar na mão.
Sueli tenta dormir novamente e não consegue, estava
amanhecendo aquele sábado quando ela olha para fora e liga para
um taxi e vai ao hospital das Clinicas, espera na recepção, quando
os médicos lhe perguntam como fez aquilo, fala inocentemente.
— Bati ela enquanto dormia!
O médico olhou serio, pensou que ela não queria falar.
451
Coloca no relatório, que infelizmente nunca tinha sequencia,
pois deveria ser acompanhado pela policia, que existia sinais de
agressão física.
O senhor colocou a radiografia e mostrava os ossos no meio
da mão quebrados, esmagados por uma batida muito forte.
Olhou-a como se perguntasse o que fez aquilo, Sueli não
sabia o que falar, sentira a dor, ela lhe trouxera a realidade, mas via
na radiografia que fora serio.
— Temos de operar senhorita, urgente!
Sueli vendo a radiografia estava assustada, entendia agora
tamanha dor.
Duas horas de operação, a colocação de uma prótese,
religação de nervos, para refazer o centro da mão atingida.
Sueli chega a CTI olhando em volta, estava assustada, mas
agora não sentia mais a dor, mas seus pensamentos não saiam da
imagem de sua mão despedaçada.
Após o medicamento, olha em volta e dorme.

452
Carlos era médico do HC a mais de 3
anos, fora estudante e residente naquele
local, mas na sua cabeça uma coisa não
parecia certa;
— O que esta lhe perturbando Carlos? – Paulo, o medico
assistente daquele dia.
— Sabe quando você vê uma mão para operar, e tem a
sensação de a ter feito antes?
— São todas iguais! – Paulo;
— Não Paulo, a fratura, parece que foi causada pelo mesmo
objeto, a prótese de platina, ficou apenas 2 milímetros diferente da
que fiz pela manha!
— Acha que tem alguém fazendo isto?
— 6 pessoas, a mesma marca na mão, a mesma desculpa,
estava sonhando e acordei com a mão assim!
— Alucinação coletiva?
— Todos estavam sóbrios, pequeno vestígios de drogas,
cocaína, a ultima parecia olhar para a mão como se estivesse
incrédula que aquela radiografia fosse dela!
Paulo olha a radiografia a parede e pergunta;
— Mas o que poderia fazer algo assim?
— Não sei, algo que começasse com a ponta de uma picareta
e depois fosse como uma marreta, mas batido com uma força
suficiente de esmagar os ossos centrais!
— 6 casos até agora?
453
— Sim!
Paulo vê que Carlos estava preocupado, imaginou que ele
estava falando do caso que vira, mas 6 casos já não é coincidência.
— Relatou a policia?
— Cada um dos casos!
— E eles?
— Este país é triste, quando alguém aparecer morto, dai eles
vão se mexer!
— Quer dizer, quando um famoso aparecer morto?
— Verdade, se for um pobre de bairro, eles nem vão dar bola!
O médico estava cansado, em seu fim de plantão, mas obvio,
aquelas mãos não saiam de sua cabeça.

454
Na região central de Curitiba, no
Bairro do Batel, em um prédio espaçoso,
680 metros quadrados, onde existia
apenas um apartamento por andar, na
própria avenida Batel, a policia chega
chamada ao local pela portaria, um cheiro forte vinha do
apartamento do apartamento 20, vigésimo andar, e a policia
arromba a porta, sente o calor passar por ele, abre as janelas e liga
para a policia técnica, estava muito quente ali.
Os policiais ao verem o senhor deitado a cama, chamam a
policia Civil, empresário de renome na cidade, sabiam que teriam de
dar uma resposta a morte.
Os investigadores chegam ao local e isolam o quarto e
chamam o síndico, que mostra os registros de entrada e saída.
Os policiais encaminham o corpo ao IML, e um especialista chega
ao local e o Medico da Necropsia olha para o policial e pergunta;
— Ninguém notou a ausência dele?
— Por que pergunta?
— O corpo esta em decomposição de mais de 3 dias, ninguém
não notou a ausência dele!
— Esta é a parte estranha doutor!
— Por que?
— Pensei nisto quando cheguei e senti o cheiro, mas o
porteiro afirmou que o viu ontem pela tarde!
— O porteiro tem passagem na policia?
455
— Não, dai fui investigar, e o senhor a sua mesa, estava em
uma festa ontem a noite no Clube Concordia, vi as imagens Doutor,
é ele!
O medico olha para o corpo sem entender, uma coisa não
estava certa, pois o que via a mesa era um corpo inchado,
deteriorado pelo inchaço pós morte, e o cheiro reduziu após terem
o lavado e congelado.
O medico fez a necropsia e estranhou as batidas que tinha na
mão, e a grande pancada na altura das costelas, se não estivesse a
cama, diria que ele caiu de um prédio de 30 andares, numa pedra
arredondada, mas como estava a uma cama, parecendo mais
deteriorado do que deveria estar, pede para fazerem o DNA dele
para confirmar se era o empresário.

456
Sergio era um rapaz dedicado a sua
empresa de lanches no centro, naquele
sábado, havia bebido um pouco demais, e
resolve ir a pé para casa, morava num
apartamento ali no começo da Avenida Manuel Ribas, então
andando de sua lanchonete no Largo da Ordem ali, não dava 6
quadras.
Sergio já estava com seus 40 anos, e chega em casa, se bate
um pouco para abrir a porta, tropeça na soleira da porta, se apoia,
volta a porta com dificuldade xingando a soleira, senta-se no sofá da
sala, pois olhou para a escada que daria a seu quarto, desanimado
sentou-se e dormiu.
Sergio depois de um tempo, olha em volta, estava em um
sonho, pois somente em sonhos as moças olhavam para ele, não
que fosse feio, mas já tinha passado sua época, olha para um
caminho se abrindo a frente, e começa a andar, sentia as pernas
doendo, como se estivesse cansado, para andar tanto, Sergio vê que
o caminho lhe levou a uma estrada que conhecia, lembra de quando
a um ano, estavam ele, Debora, Sueli, Paulo Souza, os irmãos Silva,
Rogerio, e Milton, tinham mais pessoas, mas ele só conhecia estes,
lembra quando resolveram caminhar por aquela trilha para procurar
uma cachoeira, uma cachoeira que nunca chegaram, lembra de
quando tiraram o corpo de Milton 3 dias depois deles saírem de lá,
havia caído de um desfiladeiro, ele por si não se culpava, pois
ninguém ali estava sóbrio naquele dia, sabia que Milton era um
amigo meio irresponsável, estava ele pensando e parou em uma
457
trilha, não sabia o que acontecera, mas sentiu-se como se não
tivesse no caminho certo, começou a caminhar, olhou em volta,
todos sumiram. Sentia o calor, como se estivesse em meio a mata
em um dia quente.
O senhor começa a andar daquela mata fechada da serra do
mar, ouve os barulhos, com certeza a voz era de Sueli, lembra
daquela gargalhada e caminha no sentido que estava a gargalhada,
dá dois passos a mais e sente o corpo cair.
Sergio olha para o riacho onde escorreu o corpo, sente o
corpo acelerar, ouvia ao longe as gargalhadas quando vê o corpo
tender para frente e uma grande queda, olha para a mata ao fundo,
a agua bem lá embaixo, e pensa em acordar, sente a mão bater,
olha para ela, sente da dor, mas alcoolizado que estava, sente o
corpo mole, e sente as dores do cair sobre uma pedra na parte
baixa do corpo, põem a mão sobre a boca, a dor era imensa, vê o
sangue, tenta se mexer, não consegue.

458
O Medico do Instituto Medico Legal
olha o segundo corpo em menos de dois
dias, com a mesma aparência, e olha para
o investigador;
— Vai dizer que este também não estava sumido?
O investigador apenas sacode a cabeça afirmativamente.
— O que esta acontecendo na cidade Investigador?
— Nem ideia, mas o secretario de segurança quer uma
resposta para a morte do empresário, e agora aparece outro, morto
aparentemente da mesma forma.
Um senhor entrou pela porta e o medico legista gritou;
— O que faz aqui Rodrigo?
Rodrigo, ex legista do local, a 9 meses com problemas, foi
afastado, estava alcoolizado e olhou para o legista e falou;
— Onde mais consigo álcool puro!
— Some daqui!
O investigador sorriu vendo o antigo Legista naquele estado,
pois a maioria achava que estes seres não sentiam nada, mas
Rodrigo foi ficando paranoico com uma perseguição, nunca
entendeu direito ela.
Rodrigo chega ao corpo, estava bêbado, mas algo lhe chamou
atenção no corpo e fala;
— Outro, ainda bem que não tô no seu lugar Tiago!

459
Tiago, o legista não entendeu, o que Rodrigo estava falando,
olhou para ele e perguntou;
— O que sabe do caso?
— Nada, mas olha o corpo, alguém que deve ter ficado 3 dias
a espera de socorro, morreu por hemorragia interna, sem socorro,
uma queda violenta, — O senhor deu um momento pensando —
deixa para lá, não quero mais fantasmas me assombrando.
Rodrigo sai da sala e Tiago foi ao trabalho, confirma o que
parecia, mas não entendeu, saiu dali, tinha dois casos que batiam
com a descrição do ex legista, mas a diferença é que os corpos não
tinham morrido a 3 dias.

460
Um policial da Civil chega a Tiago,
que estava querendo falar com Rodrigo e
pergunta;
— Doutor Tiago, alguma coisa para
nós?
— Não, algo que possa ajudar Investigador Pinheiros!
— Uma coincidência que não sei se liga os casos!
— Coincidência?
— Sim, a um ano, eu estava na policia de Morretes, parece
uma vida! – O senhor apontou para uma lanchonete – Podemos
conversar com calma?
Tiago estranhou, mas não poderia dizer não naquela hora,
estava com fome, nada tirava sua fome, andaram pouco mais de
meia quadra.
Sentaram-se em uma lanchonete quase na esquina da Av.
Visconde de Guarapuava com a Barão do Rio Branco, já na Barão.
Sentam-se e o doutor pede um sanduiche e olha para o
investigador;
— Doutor, eu nem sou responsável pelo caso, vim aqui
apenas por que não consegui dormir pensando nisto!
— O que quer falar, já que não esta no caso?
— Há um ano, um rapaz foi tirado morto da serra do mar,
região de Morretes, ele estava em um grupo e se perdeu, o nome
dele, Milton Boaventura, ele se perdeu do grupo e o corpo foi
achado 3 dias depois, dizem que por um dia ele esteve vivo, com

461
hemorragia, mas como não conseguia se mexer, morreu ali
esperando ajuda!
— Mas o que tem haver com o caso? – O medico já
mastigando o sanduiche que pedira.
— Entre as pessoas que estavam no grupo de Milton, estava
Sergio Gutter, e o empresário, amigo pessoal de Milton, Camargo
Silva. – O medico olhou para o rapaz, uma coisa era falar que uma
morte há um ano tinha haver com aquilo, mas duas realmente já
estava estranho.
— Mas sabe que não é conclusivo! – Medico.
— Não vejo ligação nenhuma, mas dai fui olhar os demais do
grupo, e 6 deles, dos 14 que se embrenharam no mato, naquele fim
de semana, tiveram passagem em hospitais locais, com fraturas,
daquelas que os médicos relatam por desconfiança de agressão!
— Isto tenho de verificar, mas por que esta me falando, e não
a policia local?
— Por que nunca me ouvirão, pois há um ano, quando
afastaram o Legista, Rodrigo, eu era o responsável por levantar as
provas de que o rapaz foi abandonado lá, mas dai teve influencia
politica para fechar o caso!
— Esta dizendo que alguém pode estar por traz disto?
— Só trocando uma ideia doutor, pois como disse, não vão
me por no caso!
— Vou pensar no caso, mas estranho o estado de
decomposição dos corpos!
O senhor olhou para o Medico sem entender;
— Por quê?
— Parecem ter morrido a mais do que uma noite, mas todos
foram vistos na noite anterior a morte!
— Estranho mesmo!

462
Tiago volta ao IML e vê um senhor a
porta;
— Doutor Tiago?
O doutor olhou para o senhor em
seu terno impecável e perguntou;
— Sim, quem é o senhor?
— Paulo Camargo Silva!
— Algo que possa ajudar?
— Precisamos da liberação do corpo de meu pai, e parece
que ainda não terminou o trabalho!
O Doutor olhou para o rapaz, isto era normal no Brasil, a ideia
de enterrar o mais rápido os parentes, nunca se tinha os corpos por
tempo suficiente para os analisar.
— Já assinei a liberação do corpo do senhor Camargo Silva
rapaz, algo mais que possa ajudar!
O medico vê o rapaz por um maço de dinheiro no bolso dele,
e falar lhe olhando aos olhos;
— Só uma ajuda, para que o atestado de óbito saia com uma
causa morte natural!
Tiago viu o senhor dar as costas e sair, olhou para o auxiliar e
perguntou;
— O que ele fazia aqui?
O auxiliar sorriu e falou;

463
— Apenas pediu um atestado rápido para terem um
andamento rápido da divisão de bens!
Tiago entra em sua sala e tira o envelope do bolso, 20 mil
reais, para dar um laudo falso. O rapaz sentou-se, e sorriu.
Pega o papel e olha para o assistente a porta;
— Este pessoal é terrível, parece que já acertaram com a
direção para dizer que tudo que foi falado ontem, foi engano, o
secretario de segurança vai pedir desculpas pelas declarações de
pessoas sem conhecimento!
Tiago guarda o dinheiro e pensa no que faria;
O atestado ficou sobre a mesa sem a assinatura, não sabia se
assinaria o que o assistente redigira, era ele que seria
responsabilizado, por aquele atestado, e 20 mil não era um dinheiro
suficiente para ele se vender.

464
Rodrigo estava sentado ao calçadão
da XV de Novembro e olha em volta e vê
Tiago chegar a ele e perguntar direto;
— Podemos conversar?
— Pelo jeito vão por outro para
correr!
— Pode ser?
Rodrigo levantou-se olhando as moças passando ao calçadão
e falou;
— O que precisa saber?
— O que aconteceu?
— Me entregaram um corpo, fiz meu trabalho, depois
pediram para eu assinar um atestado que não assinaria, mas minha
vida virou um inferno por causa disto!
— E o que não assinou?
Os dois chegam ao café da Confeitaria das Famílias e sentam-
se bem ao fundo e Rodrigo pergunta;
— O que pediram para você assinar?
— Um causa morte do empresário, como morte natural!
— Bem mais complicado que meu caso!
— Por que?
— O rapaz estava dopado, estava com alto índice de cocaína
nas veias, ele se manteve vivo pois o corpo não sentia dor!
— Mas por que não queriam que soubessem disto?

465
— Algo sobre o grande empresário, agora defunto, ter
brigado com o amigo, por cocaína, os dois saírem num sentido, e
somente o empresário voltar, ninguém voltou lá, eles saíram apenas
12 horas após a queda na mata, e mesmo assim, o cadáver deveria
estar vivo ainda, mas eles não deram parte do sumiço!
— Então a família que avisou do sumiço?
— Sim, e muito das empresas dos Camargo Silva, se
apropriaram de instalações e bens de Milton Boaventura!
— Acha que brigaram por dinheiro?
— Pode ter sido por drogas, mas tenho quase certeza, que foi
por algum outro motivo!
— Qual?
— Existe uma segunda pessoa que sumiu naquele dia, a
namorada de Milton, mas como não encontraram o corpo, é apenas
uma desaparecida no quadro da policia.
— Acha que brigaram por ela?
— Não sei, mas pense, ninguém ficou procurando a moça,
ninguém ressalta que além do morto deveria existir outro corpo lá e
param de procurar!
— E pagam todos para ficarem quietos!
— Sim!
Tiago entendeu que era serio e liga para um amigo no HC, ele
precisava da posição que vira nos registros da policia, sem
procedência era a frase quando não queriam investigar.
— O que precisa Tiago?
— Esta no HC!
— Sim!
Tiago passou no IML, olhou a folha sobre a mesa, pôs no
bolso, pegou o exame da mão dos dois mortos, pegou seu carro e

466
foi no sentido do HC, deixando um recado que o Atestado de Óbito
sairia no dia seguinte.
Thiago chega a sala de Fabricio que foi com ele a sala de
Carlos que vendo o rapaz do IML ali perguntou;
— Vai me dizer que um famoso morreu?
Tiago não queria discutir, sabia bem que não gostavam da sua
função, mas pegou os dois exames e pôs a mão de Carlos e
perguntou;
— Doutor Carlos, preciso saber se tem algo parecido com
estas fraturas, me indicaram o senhor por ser o especialista em
próteses de recuperação!
Carlos olha as duas radiografias das mãos e fala;
— Tenho 6 casos senhor, mas qual a urgência?
— Dois cadáveres senhor, esta é a urgência!
— Então a policia ouviu os meus alertas?
— Não doutor, e o que estou fazendo aqui, é estra oficial!
— Não entendi!
— Acabam de tentar me subornar para dar um laudo de
morte natural, em alguém que tinha esta fratura a mão, precisava
ver os demais relatos!
— Então tem alguém tentando se proteger?
— Tentando que não se levante os dados, mas poderia ver os
casos!
Tiago vê os casos e olha para o doutor e agradece, sai dali,
senta-se ao centro pensando o que faria, não estava certo, estava
quase querendo voltar a sua vida, mas sua vida era identificar
causas morte.
Liga para um repórter da Gazeta do Povo, Ronaldo era da
redação da parte esportiva, mas teria de falar com alguém e o

467
mesmo que sempre vira Tiago em festas, olha a cara de poucos
amigos dele a mesa;
— O que aconteceu?
Tiago explica para o amigo que no fim fala;
— Eu não compro este tipo de briga Tiago!
— Nem eu!
Tiago paga as cervejas e sai no sentido de sua casa, mas por
algum motivo, não foi para ela, parou a casa de uma moça que
conhecera a duas semanas, subiu, conversou, dormiu no sofá, mas
parecia não querer ir para casa naquele dia.

468
Tiago acorda dolorido, no sofá, olha
para Rita e fala;
— Desculpa se atrapalhei!
— Pensei que apareceria no quarto
a noite!
— Tem de entender Rita, que se quiser, diga, você disse que
não queria, não vou forçar algo para depois não ser legal!
Rita olha para Tiago que foi ao banheiro, se olhou, barba por
fazer, cara de poucos amigos, sorriu, pegou o carro e foi a seu
apartamento, viu quando o porteiro o cercou no estacionamento;
— Algum problema Zé!
— Tem três rapazes na sua porta!
— Que horas chegaram?
— Era madrugada!
— Policiais?
— Pelo menos se identificaram como!
Tiago sobe com calma e se depara com três rapazes da
investigação a sua porta e o Delegado Saldanha olha para ele e
pergunta;
— Não dorme mais em casa?
— Vamos entrar, tenho de tomar um banho mesmo!
Tiago pôs um café para fazer e pergunta ao delegado;
— O que o traz aqui Delegado? – Era o delegado da primeira
delegacia da capital, a responsável pela investigação.

469
— Soube hoje cedo referente a um laudo que não posso
aceitar!
— Que laudo?
— Um que o senhor assinou com causa morte natural do
Camargo Silva.
— Desculpa Delegado, mas não assinei nenhum laudo ontem!
— Como não, o secretario de segurança me exigiu explicações
referente ao que estava acontecendo que sai difundindo estórias
irreais.
Tiago pega o envelope e põem na mesa e fala;
— Delegado, eu ia falar com o senhor hoje, antes de talvez
entregar minha carta de afastamento, mas se quer saber, assim fica
mais fácil.
— Que dinheiro é este?
— Um rapaz que disse se chamar Paulo Camargo Silva, me
pagou isto para assinar um atestado que não vou assinar, ia relatar
isto na delegacia hoje cedo, pois não vou afirmar que os dois corpos
morreram de causa natural!
— E por que eles querem que pareça natural?
— Não sei, mas eu ficaria de olho nos bens do presunto
Sergio, pois da primeira vez, a 1 ano, foi por bens, agora pode ser
também!
— Do que esta falando!
Tiago contou tudo que veio a seu ouvido, e que não sabia e
nem era investigador para saber se era real ou não, mas tinha os
outros 6 casos com a mesma marca na mão.
O Delegado olha para os investigadores e fala;
— Me levantem isto, na surdina, pois se for isto, tem dinheiro
até na conta do secretario de segurança!
O delegado olhou para Tiago e falou;
470
— Mas vai mesmo nos abandonar?
— Não sei ainda, se for para assinar aquele atestado de óbito,
com certeza vou, pois ganho mais continuando ser medico do que
processado por 20 mil!
O Delegado sorriu, alguém que pensava em futuro, não
naquele segundo.
O delegado pegou um papel e passou para Tiago e falou;
— Chega na portaria e diz para protocolarem este papel!
— Esta em branco!
— Pede para protocolarem e lhe darem o recibo, é função
deles!
— Mas...
— Depois, pega os dois atestados de óbito, protocola e não
entrega, retêm os corpos, outra coisa, faz teste de droga nos dois,
pode ser que ambos estivessem com vestígios de drogas!
Tiago ouve, vai ao banho e vai ao IML, fez o que o delegado
pediu e quando o senhor Paulo entrou com o advogado ao IML, o
auxiliar estranhou;
— Doutor, estamos aqui para retirar o corpo!
— Desculpe, mas o corpo ainda esta em analise e exames do
IML!
— Não podem reter o corpo! – Paulo.
— Temos uma determinação do juiz da 6ª Vara para a
liberação do corpo, hoje! – Advogado.
Tiago olha o despacho e fala;
— Quando tivermos um atestado de óbito, talvez o juiz possa
determinar a liberação – Tiago lê parte – “por não existir motivos
contrários, sendo a causa da morte a natural, determino que seja
cumprida a determinação” – olha para os dois – Mas como não
temos, e não foi morte natural, não será liberada!
471
— Mas você me garantiu ontem!
— Senhor Paulo, aconselho conseguir um advogado criminal,
pois suborno de funcionário publico é crime, e dei parte do senhor,
o delegado já notificou as seguradoras de seu pai de seu ato, então
melhor se apresentar a delegacia do primeiro, e não a minha frente,
pois temos um crime exatamente igual a de seu pai, e isto
transforma em um caso maior.
O advogado olhou desconfiado e perguntou;
— Como pode alguém morrer com aquela morte?
— Bom saber que sabe exatamente como ele morreu,
cuidado advogado, estamos ainda investigando, e temos dois crimes
a resolver – Tiago olha para Paulo e fala – e se continuar
pressionando o Secretario de Segurança, cai ele e você junto!
— Acha que está falando com quem?
— Não sei, não se identificou, apenas disse ser, mas avisa seu
advogado que não terá o corpo hoje!
O assistente a porta estava assustado, pensou que estariam
fazendo um dinheiro;
Os dois saíram e ele olhou para o assistente e falou;
— Não se preocupe, eles vão negar ter pago alguma coisa! E
provavelmente me afastam antes do fim do processo!
Tiago foi para seu trabalho, deveria ter pelo menos outros 20
corpos para ele fazer pela manha.

472
O advogado do senhor Paulo
Camargo Silva pede uma copia da Petição
do que o Doutor Tiago havia protocolado,
a afirmativa que tinham 36 horas para lhe
fornecer o conteúdo, fez o advogado olhar
para dentro, se a morosidade ajudava os advogados, agora parecia
que ajudaria o doutor também.
— O que esta fazendo? – Paulo.
— Vi que ele havia protocolado algo, peguei o numero, sobre
a mesa enquanto vocês discutiam, mas esqueço que temos a
morosidade dos protocolos da policia civil.
Paulo sorri e fala;
— Isto eu peço para que alguém de uma olhada para nós!
O advogado sorriu e saíram no sentido da casa do senhor.

Na delegacia do primeiro distrito, o secretario de segurança


chega a sala do delegado com dois assessores;
— Temos de conversar Delegado Saldanha!
— Sente-se! – O delegado olha para a secretaria e fala – Vê
um cafezinho!
— Por que estão barrando o corpo do empresário Camargo
Silva?
— Por que não foi morte natural senhor, e temos um crime
no dia seguinte à morte dele nas mesmas condições!

473
— Que absurdo, não pode abrir uma exceção, ele é dos
grandes apoiadores do Governador, sabe que pode estar colocando
um problema no seu sapato!
O delegado sorriu e falou;
— Quer que deixe a bomba estourar então, Secretario, estou
puxando para mim a responsabilidade, me chama publicamente de
inconsequente, enquanto tenho um caso que pode pelo que
levantei, ter no mínimo 3 mortes, mais uma no passado, e quer que
deixe a imprensa fazer disto uma festa?
O sorriso nos lábios do Delegado fizeram o Secretario pensar,
ele não sabia o que havia acontecido, mas a pressão estava grande;
— Mas não tem como aliviar Delegado?
— Estou me baseando no delegado de um ano atrás, ele
aliviou, afastou todos do caso, e quando esfriaram o mandaram
para a delegacia de Mandaguari, nada contra a cidade, mas bem a
cara, eu aliviando ou não, sei que vai pedir meu afastamento
Secretario, mas desta vez, não vou aliviar!
— Esta levando para o pessoal!
— Não, para o institucional, e amanha quando eu falar que
você não sabia do que estava falando, e anunciar a causa morte,
não leve para o pessoal Secretario, é apenas meu trabalho!
— Esta mexendo em um vespeiro!
— Sim, em ano de eleição, podem me tirar daqui Secretario,
mas meu cargo requer grau superior e ser concursado, o seu, puxa-
saquismo de empresários como este seu amigo, Paulo Camargo
Silva, que esta sendo indiciado por tentativa de suborno, então
melhor mandar ele manter o dinheiro na carteira, talvez precise
muito dele!

474
Os rapazes recebem uma ligação de
um apartamento no centro, e se
direcionam para lá, acham uma moça
morta poucas horas, Sueli Meireles,
acionam o IML, ligam para o Delegado que
se apresenta no local.
— O que temos investigador?
— Viemos para conversar com a moça, esta na lista das que
tiveram a mão reconstruída estes dias, ninguém respondia,
arrombamos a porta e nos deparamos com o corpo, ainda quente,
deve ter morrido a poucas horas!
— Este caso vai feder, mas pelo jeito tem muita sujeira ai!
Estavam olhando o corpo quando Tiago chega ao local e olha
para a moça, mesma posição, já poderia adivinhar todas as fraturas,
olhou para o delegado que veio a ele;
— Os rapazes vieram verificar o que estava acontecendo,
estou mandando gente a todos os demais que relatou!
— Levanta quem estava naquela excursão, são todos alvo!
— Mas não temos o motivo!
— Não, mas mostra que pode ser bem o ponto a investigar!
Tiago chega perto e vê que esta fora morta a pouco tempo, e
olha para os rapazes, sente o calor do local;
— Recolham o corpo, e vamos ver o que temos!
Tiago verifica tudo, mas novamente, não havia nada além de
um apartamento de classe media no centro de Curitiba, nada

475
apontava para um assassinato, mas não poderia se dizer que
alguém conseguiria se fazer tais fraturas e machucados.
Tiago fica ao apartamento, vê o rapaz da Criminalística
chegar, quantas pistas e via o rapaz despreparado a passar por
tudo, como se nada importasse, era apenas mais uma morte.
Tiago estava quase saindo pela porta, resolve a fechar, e olha
para o corredor e grita;
— Chama o delegado!
O mesmo estava a frente do prédio, quando soube que Tiago
o chamou, sobe rapidamente;
— O que achou!
— Primeiro tira aquele rapaz da criminalística daqui, ele já
deve ter acabado com qualquer outra pista!
O rapaz olha atravessado para o legista, mas para ele, não
estava preocupado, era concursado, ninguém tiraria ele daquela
salario.
Tiago vê o rapaz sair e fecha a porta, o Delegado vê a marca
de duas mãos a parede, aparentemente feitas em sangue, parecia
fresco, olha para o corpo e pergunta;
— Da vitima?
— Não, as mãos são maiores do que a da vitima, mas não
temos sangue suficiente no apartamento para fazer isto também!
— Vou mandar documentarem e me avisa de tiver algo!
O legista, com uma espátula, já estava de luvas, pega uma
amostra do que parecia sangue a porta, põem em um recipiente
circular plástico, neste instante ele teve a sensação de ver alguém a
olhar para ele, na janela, fixa os olhos, e não vê nada, se aproxima
da janela, e pensa;
“Estou impressionado, pois estamos no 14° andar!”

476
O Delegado Saldanha chama 5
pessoas a depor, olha para o Investigador
e pergunta.
— Como se resolve um crime que
parece ter sido planejado muito tempo
antes?
— Descobre o plano, ou o motivo, o resto são meadas a
pensar!
O escrivão entra na sala e o Delegado vê o primeiro
depoente, nome? Romário Dias, profissão? empresário da noite
curitibana. O que lembra de 15 de julho do ano anterior, nada, algo
aconteceu de diferente, nada, sabe que pode ser vitima de algo
referente aquele dia? Não acredito nisto! O senhor sai pela porta e
o investigador fala.
— Podem ser todos assim!
— Vamos tentar, pode ser que nada aconteça, mas estamos
fazendo nosso papel!
Segundo depoente, Paulo Camargo, Empresário, não lembra
nada, saiu de lá antes de todos, não lembra de nada relevante,
também não acredita que possa ser vitima.
Terceira, Rosa Valverde, segurança diurna de um shopping
em Curitiba, não lembra de nada, não viu nada, não falou nada.
Quarta depoente, Silvia Silva, desempregada, moradora do
Batel, muito bem vestida, arrumada e cheirosa para não ter renda,
não sabia de nada e não viu nada.

477
O delegado tinha a quinta depoente a tarde, pensou um
pouco e saiu almoçar, começando achar que a ideia fora ruim.

478
O delegado volta do almoço e a
entrevistada era Rita Ramalho, o delegado
pergunta o nome, profissão, estava cheio
daquilo, quando pergunta;
— Rita, o que lembra daquele dia?
— Aquele dia foi muito louco Delegado, não sei se posso falar
sobre isto sem me comprometer!
— Não entendi?
— Meu advogado disse que não posso gerar provas contra
mim mesmo, e confessar uma contravenção é gerar provas contra
mim!
— Não se preocupe Rita, contravenção tem de ser pego no
ato, assim como alguns crimes prescrevem, a contravenção a
pessoa tem de ser presa em flagrante!
— Então o que consumi de drogas naquele dia não é crime
mais?
— Se não consome mais, não!
— Pensei que era, o ... – a moça parou a frase pensando e
falou. — Naquele dia todos alucinaram geral, nem sei direito o que
aconteceu no fim daqueles dias, mas o clima estava bem tenebroso!
— Como tenebroso? – O delegado.
— Patrícia estava contando estórias sobre espíritos, a cocaína
estava passando livre, quando Milton pegou uma seringa, dai as
coisas ficaram malucas, teve gente gritando que estavam vendo
seres da floresta, mas Patrícia dava aquelas gargalhadas
aterradoras, o Camargo começou a discutir com ela, mas ele
479
também estava alterado, todos estavam muito malucos, mas
lembro só dos 3 se afastando, acho que mesmo que Camargo tenha
matado Patrícia aquele dia, não existe mais crime, pois os 3 estão
mortos mesmo!
— Acha que ele a matou?
— Não sei, mas ele disse que Milton e ela estavam
acampando mais para cima, desculpa mas éramos todos puxa sacos
de Camargo, ele era sócio de quase todos ali, obvio, Rosa e Silvia
estavam apenas acompanhando o pessoal, mas a maioria tinha
negócios com Camargo.
O depoimentos foi para detalhes de quem estava lá, do pouco
que a moça ainda lembrava que tinha alguma importância,
O Investigador levanta os dados, os nomes, o que cada um
fazia, não tinha um caminho para ir, mas sabia que aquela mão ele
havia visto em algum lugar.

480
O Delegado chama o investigador e
Tiago para conversar, coloca os dados na
mesa, e se deparam com tantos furos, que
não existia caso, mas Tiago chega com o
laudo que os 3 tinham restos de cocaína na
veia, todos estavam viajando quando morreram.
— Todos consumiam cocaína frequentemente Tiago, já estou
levantando os fornecedores, mas todos se dopavam muito a noite!
— Para esquecer alguma coisa? – Tiago.
— Talvez, ou por vicio mesmo!
— Vou levantar o tipo de cocaína, para sabermos quais os
fornecedores!
O delegado assente com a cabeça.

481
No bairro do Agua Verde, um rapaz
se depara com o apartamento aberto,
recebera a notificação da policia pela
manha, mas esta ele joga no canto da
escrivaninha, olha para seu apartamento,
tenta acender a luz e não acende, olha
para o corredor, acesso, entra e olha para uma grande sombra
parada atrás da porta, que lhe faz arrepiar, mede aquele ser vestido
de negro, imenso, ia falar algo, mas sente o corpo ser seguro por
algumas mãos, tenta olhar para o que lhe segurava, pareciam mãos
negras, não, pareciam reais, eram geladas, o rapaz sente o corpo ser
sentado, sente algo a veia, tenta não viajar, mas sente as veias
dilatarem.
Estava viajando quando sente uma imensa dor na mão, mas a
dor parecia distante, cada momento mais distante.
A ultima sensação que o rapaz teve foi de cair, por alguns
segundos sentiu prazer na queda, depois um impacto, e tudo
pareceu sumir da mente.

482
Os policiais batem a porta de
Romário Dias, ele não comparecera a
convocação que lhe entregaram no dia
anterior, estranham vendo a porta aberta
e veem o corpo na mesma posição, não entraram, chamaram o
IML.
Tiago chega, estava enfiado nesta história, ele olha para o
apartamento, olha para as luzes acesas e fala algumas coisas, mais
uma morte, mais um que não conseguiram salvar, mas desta vez
entraram no quarto apenas Tiago e o investigador, isolaram o local,
Tiago estava pensando em pé e olha para o apartamento e fala;
— Me confirma uma coisa se lembra dos outros casos,
alguma seringa no local?
— Não, por que?
— Todos com doses de Cocaína na veia, mas se eles não se
aplicaram, - aponta a marca da agulha no braço – alguém o fez!
— Finalmente temos indicio de crime!
— Sim!
O alerta de crime espalha para os demais, alguém estava os
matando, mas não sabiam quem.

483
Os jornais levam ao publico a
existência de um criminoso que estava
desafiando a policia local, diziam que pelo
menos 3 crimes eram atribuídos a este ser.
O Quebra Ossos, nome dado ao assassino, pelos jornais,
começava a ser assunto em todas as rodas de conversa da cidade.
Os jornais sensacionalistas adoram coisas assim, e muitos
começam a faze teorias, tentar achar culpados, tentar entender a
psicopatia do ser que fazia aquilo.
Os jornais estavam querendo ganhar dinheiro com o
problema, e parecia que aquele assunto, renderia muitos dias.

484
Tiago olha para o investigador e
pede para falar com as duas pessoas que
acharam os primeiros corpos.
Tiago se depara com a informação
de que o ambiente onde encontraram os
dois corpos, estava com o ar condicionado a 66 graus centigrados,
então estava muito quente. O investigador não entende e Tiago
explica que ambientes Cálidos, aceleram a decomposição, 12 horas
para acharem o corpo, valeram por muito mais, pois os corpos,
primeiro perdiam calor, mas em ambientes cálidos, existia a
decomposição da pele mais acelerada, o inchar do corpo, os gases
provocados por esta decomposição faz o corpo inchar totalmente
dando a sensação de que eles estavam mortos a mais tempo.
Saber disto não fazia sentido a Tiago, pois os mortos foram
vistos no dia anterior, o que eles queriam disfarçar com isto.
Tiago faz o exame de determinação de cocaína, e vê que nos
casos de corpos em decomposição maior, era difícil exatificar
quanto fora consumido.

485
Tiago queria algo que pudesse pegar
uma ponta para puxar, faz exame nos
tecidos do braço das 4 vitimas e faz o
relato para o Delegado, sobre a pureza da
cocaína, e fala para ficar de olho nos fornecedores vindos do
Paraguai, pois a extração do benzoilmetilecgonina, foi feito o
querosene como solvente, método mais usado pelos
contrabandistas da fronteira com o Paraguai, já que a cocaína que
vinha naquela temporada de São Paulo estava vindo com vestígios
de acido sulfúrico como solvente, era mais mortal, menos puro.

486
O delegado manda prender 4
traficantes na região central, queria saber
se tinha um comprador diferente, algo que
não fosse normal, mas ninguém entregava
os compradores. O delegado os manda
trancafiar.
O delegado manda amostras das cocaínas para Tiago que tem
uma péssima informação:
O delegado liga para Tiago e pergunta:
— O que esta acontecendo?
— A cocaína não foi comprada aqui, nenhuma das amostras
confere com a usada nos corpos!
— Ainda achamos uma meada a puxar, talvez estejamos
olhando para o lado errado! – Delegado.
—Talvez.

487
Rosa era uma moça que trabalhava
no shopping Mueller, no Centro Cívico,
ombros fortes de segurança, corpo forte,
saiu do shopping no sentido de sua casa
no prédio da João Gualberto em frente ao
Colégio Estadual do Paraná.
Rosa estranha o silencio do prédio, sempre tão barulhento,
olha para a porta de seu apartamento, não entra, disca para o
policial que havia falado a pouco, ela estava na lista dos prováveis
mortos, estava tentando sair, sem chamar a atenção, quando o
elevador abre, o susto de se deparar com um ser vestido todo de
negro, ela tenta ver o rosto, mas parecia protegido por uma
mascara negra.
Sente alguém a puxar para dentro.
O policial alerta os investigadores que chegam ao local, e a
moça não estava, estava tudo quieto, avisam os policiais para
ficarem de olho, quando o policial passa a porta do apartamento
pela manha, vê que estava aberto, e novamente Tiago é chamado.

488
Tiago analisa as diferenças das
mortes, começa a analisar o que haveria
de acontecer, como faziam aquelas
mortes, estava começando a achar que era
algo feito, no começo duvidou, mas pediu
para falar com o investigador e com o delegado.
O investigador fala algo apenas para Thiago, e saem para um
dia sem muitas explicações para a policia.
Thiago em pleno trabalho, vê quando um senhor vestido de
negro chega a sua frente, olha em volta, nada de segurança, nada
de auxiliar, sente quando algo é lhe injetado a veia.
Toda aquela gente para o pegar, quantos estavam
envolvidos?
Estavam o segurando forte quando sente lhe marretarem a
mão. As vezes ele queria entender o porque, mas era obvio para ele
que o marcaram para morrer, talvez a única coisa que não o
deixasse pensar mais no problema de morrer era a dor de tão
grande que estava, após um tempo pareceu anestesiado, a droga
fazendo efeito, depois de um tempo e adormeceu.
Tiago acorda em meio ao seu estomago revirado, a mão
latejava de dor, olha para os lados, não tinha noção de onde
estavam, as mãos estavam amarradas a algo.
Tiago sente quando suas mãos parecem se soltar, e segundos
depois, começa sentir o corpo cair puxa o lenço de seus olhos, vê
que estava caindo, mesmo no escuro via, era uma pedreira, a
cabeça estava maluca, queria sobreviver, mas parecia que os

489
segundos que faltavam de vida, não seriam suficiente para a mente
achar uma saída.
Tiago pensa nas mortes, encolhe o corpo e como um corpo
recolhido, agarrado as pernas, bate no chão, sente a dor e o estalar
da perna, olha em volta, haviam seres lá, a dor insuportável fez ele
soltar um berro que ouviu o eco na pedreira.
Ele estava sentindo dor em um instante, no seguinte, sentiu
algo ao braço, uma pequena picada, e sentiu a dor sumir, a cabeça
rodar, a consciência se perder.

490
O investigador Plinio foi verificar por
que Tiago não havia aparecido e se depara
com a porta aberta, chama o especialista,
e uma duvida lhe veio a mente, vendo o
corpo, morto a sala.
O Delegado chega perto e pergunta, vendo o corpo morto a
sala, na mesma posição, o ar do local parecia viciado por um ar
muito quente.
— Quem é este desgraçado, como pegamos este desgraçado!
– Ralha com raiva o Delegado.
O investigador não falou, olhou em volta e falou;
— Precisamos de um legista novo!
— Algo a mais?
— Ele deveria estar muito perto Delegado, não tinham por
que o matar, se não tivesse muito perto!
— Mas ele sumiu quando?
O Investigador olha em volta e fala:
— Falamos na sua sala Delegado!
O Delegado olhou em volta e perguntou;
— Quer fazer algo a mais?
— Vou falar com dois amigos, e manda o corpo para o HC,
não para o IML, quero um laudo imparcial! – Investigador.
O delegado olhou as feições do que estavam ali, não
entendeu, mas algo estava muito errado.

491
O investigador chega ao delegado e
pergunta;
— Só uma pergunta Delegado, quer
mesmo resolver isto?
O Delegado estranhou a pergunta e apenas olhou para o
escrivão;
— Nos deixe a sós!
— O que esta acontecendo?
O investigador pega seu computador e põem a mesa do
Delegado, e começa um vídeo, onde as 16 hs do dia anterior, se vê
mais de 20 pessoas saindo do IML, e logo após, um carro sem placa,
parar e seres todos escondidos por roupas escuras, entram, se vê o
rapaz saindo inconsciente no momento seguinte.
— Esta dizendo que o pegaram no IML?
— Não, as câmeras de segurança da Câmera dos Vereadores
esta, não eu!
O Delegado olha para o Investigador sem saber o que falar;
— O que mais?
— Não sei o que esta acontecendo Delegado, mas odeio ver
dos nossos morrerem por estar fazendo seu trabalho, e os demais o
entregarem a morte, uma coisa é assassinato, outra coisa é isto!
O delegado começa a pensar e pergunta;
— Algum destes estava na operação de ontem?
— Não sei, que saiba não fazem este tipo de trabalho a
policia!
492
— E o corpo nos deu alguma coisa?
— Muitas!
— Como muitas?
— Ele não usava cocaína, então a reação dele foi
estritamente diferente, ele pelo jeito acordou na queda, ele mudou
de posição, temos indicio que ele sofreu a queda duas vezes,
Delegado!
— E o que muda com isto?
— Que ele deixa claro pela queda, que tem de ser de uma
altura livre de 22 metros a 24,50 não mais, que isto!
O delegado olha para o Investigador e pergunta;
— Mas isto ajuda em que?
— Senhor, pedra, 22 metros ou mais, nos dão 6 locais na
cidade, dois com mais de 30, então os rapazes estão olhando os 4
locais neste momento!
— E as prováveis vitimas!
— Não sei ainda, mas consegui esta imagem do prédio em
frente ao apartamento de Tiago!
O delegado olha e fala;
— Quer dizer que estavam lá a muito tempo?
— Quer dizer que ele era alvo mesmo antes das ultimas
descoberta, muito antes do senhor ter comprado a briga!
O delegado olha para a imagem e fala;
— E faremos o que?
— Preciso um favor senhor!
O delegado sorri e os dois combinam as ações daquele dia.

493
Guilherme estava voltando para
casa, vê um carro parar ao seu lado, estava
distraído e sente quando um rapaz lhe
empurra no carro, o corpo desaba para
dentro da porta que se abriu, sente o corpo ser seguro, sente algo
lhe ser aplicado na veia.
Os rapazes preparam o corpo, o amarrando em uma corda, e
começam a esticar a mesma para cima, erguendo por um motor o
corpo prendido em uma corda, como um saco, com a perna e os
braços amarrados para cima.
4 pessoas estavam ali, e um olha para o outro;
— Acha que aquele doutorzinho vai nos complicar chefe?
— Aquele já morreu, vamos dar um jeito de parar esta
investigação!
Estavam erguendo o rapaz, quando viram as luzes acenderem
a toda volta e um alto-falante gritar;
— Todos deitados, agora!
Um dos rapazes disparou no sentido do holofote e foi uma
chuva de tiros de volta, com 4 corpos caindo, obvio que o
Investigador não gostou daquilo.
Os corpos ao chão, se monitorava os movimentos, mas a
noite foi tranquila, após isto.
O investigador olha os corpos, 4 policiais militares fazendo
serviço sujo, nada de alguém diretamente na lista.
494
Paulo Camargo Silva chega ao clube
Concordia, era passado das 20 horas. Se
direciona a uma mesa onde um senhor,
cabelos grisalhos finos com pequenas
entradas, o esperava:
— Já resolveu isto?
— Estou quase com todos os pontos cobertos!
— Acha que eles vão engolir a estória?
— Muitos não tem intenção de perder apoio, o secretario
esta comendo em nossas mãos!
— E os policiais!
— Estão tentando entender, que com a estrutura que tem,
não vão chegar a conclusão nenhuma!
— Não esquece, temos de transferir até o fim da semana que
vem, os prazos estão todos vencendo!
— Será feito senhor!
— Parece ter algum problema a mais?
— Rita andou falando demais senhor!
— E o que esta esperando?
— Ela é ...
— Não quero saber, já era para terem se livrado dela, aquele
rapaz por perto fez vocês recuarem, preciso repetir as prioridades
do Grupo Paulo?

495
Paulo concorda com a cabeça e sai, deixando o senhor ali
jantando.

496
O delegado olha para o Investigador
Plinio e fala;
— Não tenho como segurar a
informação tanto tempo assim!
— Senhor, eu não sei como fazer algo assim, mas com
certeza, teremos muitos presos!
— Quem eram os rapazes!
— Policiais Militares, isto vai só acentuar a guerra entre nós,
pois eles no fim não vão admitir que eles estavam matando, mortos
viram vitimas! – Se referindo a eterna guerra existente no Brasil
entre as policias, a velha rixa referente a estrutura falha da policia
Brasileira.
— Então temos o que até agora Investigador!
— Se der certo, temos tudo, se errado, nada!
O delegado estranhou, mas sabia que parecia que parte dos
funcionários estavam envolvidos.

497
O advogado de Paulo Camargo Silva
chega a sala;
— O que tem para mim?
— O que o rapaz tinha protocolado,
alguém substituiu por uma folha em
branco!
— Alguém de dentro com certeza?
— Alguém que pagamos e quer mais, com certeza!
— Por que ainda não encerraram o caso!
— Por que tudo que indicava para um lado, agora com os
policiais mortos, esta mudando de alvo!
— Sempre digo que a policia sempre nos dá o caminho a
tocar!
O telefone tocou e Paulo olha para o advogado;
— Ainda não da para sorrir muito!
— Por que?
— Por que alguém parece ter ligado a história!
O advogado vê o senhor pegar o telefone e falar;
— Me consegue uma vitima a mais, talvez a ultima!
— Quem?
— Rita.

498
Rita estava saindo de casa, na região
central, vê quando é cercada, e um senhor
para a sua frente.
— Os Sombras, já estão mortos
Paulo, seu priminho Camargo Silva, não vai
conseguir desta vez!
O ser todo aparamentado de preto, não entendeu como ela
sabia quem estava sobre a mascara, mas apenas faz sinal para
jogarem no carro, quando o fizeram, dois carros fecharam o deles e
o senhor aparamentado de negro, como todos os a volta, foram
sendo jogados no chão.
— Tem o direito de ficar bem quietinho senhor.
Rita olha para o Investigador e pergunta;
— Não iriam esperar mais um pouco?
— Não adianta esconder de você Rita, mas Thiago morreu a
dois dias!
A moça olha incrédula, olha para o senhor ao chão e o chuta.
Uma lagrima corre ao seu rosto.
— Mas ninguém falou nada!
O investigador não sabia o que falar.
Plinio a acompanhou ao hospital.

499
O advogado de Paulo, estava
dirigindo pela Av. Padre Agostinho, na
altura da praça da Ucrânia, quando um
Chevet velho, verde, fechou ele e se
posicionou a frente dele lentamente, caminhou uns 100 metros e
quase parou para entrar em um estacionamento, como o advogado
xingando em seu carro novo, importado.
O advogado, assim que o outro parou, estacionou sobre a
calçada e saiu furioso, viu um senhor baixo sair do carro, aparência
calma, ficou mais valente ainda.
— O que o senhor pensa que é para me fechar daquela
forma?
O senhor, de idade, sem saber o que responder, já não
enxergava direito, estava procurando um endereço onde havia de
fazer um concerto de calha, vias rápidas sempre são complicadas de
procurar endereço, o GPS velho, não quis funcionar naquele dia.
— Desculpe senhor, não quis atrapalhar!
O advogado avançou no sentido do senhor, que olha
assustado para o carro onde o senhor estava, talvez o olhar de susto
fez o rapaz olhar para o carro.
A poeira da rua parecia se erguer, e parecia um vulto vindo no
sentido deles, a razão tenta achar uma explicação logica, mas o
jovem advogado foi atravessado por aquela nuvem clara de pó da
rua.

500
O senhor viu o jovem que gritava desabar a rua, e um vulto
parar a sua frente e fala;
— Desculpe o rapaz, ele não sabia o que estava falando!
O senhor assustado, olha para a poeira se desmanchar no
chão, a informação da morte do advogado corre e todos falavam,
sobre o assunto do dia, esta morte estranha.

501
Investigador Plínio vê o liberar do
corpo de Thiago do HC, olha para Rita e
pergunta:
— O que tem haver com o grupo?
Rita não confiava no investigador:
— Sabe que não vou falar!
— Depois que morrer não poderei ajudar Rita!
— Mas no que pode ajudar?
— Nada agora, não temos o suficiente para manter Paulo
preso, sabe disto, com o que temos, ele sai fácil!
— E ainda quer que eu fale?
— A escolha é tua, não minha!
O silencio de Rita não ajudava, e o ver do doutor Carlos abrir
o congelador do HC e mostrar Thiago lá dentro, terminou de cerrar
a boca da moça, que tinha medo de falar mais do que já havia
falado.
As vezes o medo prende e determina quem vai ganhar, e
mesmo para Plinio, ver Thiago morto, era um indicio que criminosos
sairiam impunes, a sensação foi de derrota, ele parecia querer algo
diferente, mas parecia que não teria um fim diferente.

502
A imprensa é informada da morte
do legista.
A imagem que vinha a imprensa era
da prisão de 20 pessoas do IML de
Curitiba, as imagens deixavam claro, todos
saindo da instalação, e logo após um carro parando e tirando Thiago
a força de lá. As imagens mostravam os sorriso nos rostos dos
funcionários voltando ao trabalho 30 minutos depois, conversando
alto, como se nada tivesse acontecido.
A repórter afirma que este caso estava ligado as mortes do
suposto grupo de extermínio, e que o delegado estava agora
investigando dentro do seu quadro, todo investigador, servidor ou
cumplice que traíra um deles.
As palavras foram fortes, a noticia foi destaque nacional,
policial prendendo policial, era algo que sempre dava noticia.

503
Os laudos das demais pessoas, são
postos como causados pelo grupo de
extermínio, que parte fora preso, e parte
morto na noite anterior, colocando os
nomes dos mortos por este grupo, e
abrindo investigação para determinar os mandantes, quem ganharia
com estas mortes.
Eram tantos nomes que o delegado via juízes dando habeas
corpus para pessoas que tiveram participação direta, como se
fossem apenas coadjuvantes.
A justiça brasileira mostrando seu maior problema,
corporativismo, gente que teria de ser julgada sendo colocado para
fora como se não fossem culpadas, gerando a provável continuação
do problema.

504
A imprensa vê Paulo Camargo Silva,
sendo levado para prestar
esclarecimentos, pois tentara chantagear
o legista morto, por um laudo de causa
morte natural.
O delegado pede para falar com o Investigador, não haviam
provas suficiente.
O delegado ouve Rita novamente, mas a moça mantem o
silencio, estava com medo, todos ali sabiam que Paulo seria solto
antes do fim do dia, e nada que fizessem mudaria aquilo.
Como previsto, um Juiz de Direito, assina a libertação
condicional de Paulo em pleno Sábado a tarde.
Rita é deixada em casa pelo investigador, ela entra em casa e
vai a um banho, estava saindo do banho, se enxugando, quando
ouve um ruído no sofá, a calma se transforma em susto, olhou
assustada em volta, ela temia por sua vida, mas viu um vulto, juraria
por uma vida que aquele vulto estava ali, levantar o pescoço como
Thiago fazia, e olhar para ela, do sofá da sala.
Rita recua, balança a cabeça e o sofá volta ao normal.
— Devo estar impressionada!
A moça se encolheu em seu quarto lembrando de Thiago.

505
Silvia Silva estava em um canto do
Clube Curitibano, em mais uma festa de
sábado, com musica ao vivo, estava em
um canto parada quando vê a porta
policiais, ela tentou sair rápido, mas se deparou com Plinio que
falou:
— Com pressa de sair?
A moça olhou desconfiada:
— Quer uma parte para me deixar livre?
— Não, está presa por trafico de drogas, e pode nos
acompanhar sem escândalos, ou pode ser com todo escândalo, você
que escolhe!
A moça olha em volta, os clientes se afastaram, sabia que
nesta hora ela cairia sozinha.
Presa, fichada, uma amostra do produto foi mandando a um
laboratório e indicou, batia com a cocaína encontrada nos corpos
mortos.
A moça foi pressionada, ela não queria falar quando Plinio
virou-se para o Delegado e foi cínico.
— Não se preocupe Delegado, se ela não falar para gente,
Paulo paga alguém para a matar!
— Vocês tem de me proteger dele!
O delegado olha serio para a moça e pergunta:
— Como, se ninguém de seu grupo colabora, vão todos
morrer quietos!
506
Silvia começa a contar detalhes de distribuição, de venda,
onde ela pegava a droga, como ela pagava para Paulo, embora
nunca nas mãos dele, todos sabiam que era ele, por trás do
advogado.
A moça foi para a cela, ainda estava presa, mas colocaram em
uma cela isolada;
— O que acha disto?
— O rapaz morreu ontem, todos sabem que Paulo vai ter de
mudar o esquema, mas todos acham que podem ser escolhidos, por
isto a maioria esta quieto!
— Eles vão morrer em silencio, este cara deve por mais medo
que a gente!
— Sabe o que matou o advogado?
— Aquele medico, Carlos, do HC, afirmou ataque cardíaco, o
rapaz não tinha vestígios de drogas, então ele podia fazer parte do
esquema, mas não era consumidor!
— O que mas temos Delegado? – Plinio.
— Muito pouco, as vezes temos de olhar melhor os dados,
vou revirar os dados, tem de ter algo.

507
O Delegado pela manha de segunda
recebe os dados de transferência de bens,
de Camargo Silva para o filho, haviam
outras transferências, pede para convocar
um cartorário do centro da cidade, para depor:
No fim do dia, o delegado estava quase pedindo a prisão
novamente de Paulo, mas sabia que se alguém mais morresse seria
mais fácil, não teria como um Juiz dar liberdade ao senhor com risco
de que apagasse as testemunhas.
Os levantamentos apontaram para a transferência de muitos
dos bens de Camargo Silva para o filho, lavagem de dinheiro e
trafico de drogas puras, na alta sociedade, fornecidos pelo próprio
Paulo Camargo Silva.

508
Rita estava saindo de casa, quando
se vê um carro da policia chegando na
frente da casa dela, rápida entra
novamente, o rapaz da recepção
estranhou.
Rita vai ao estacionamento do prédio, tentando sair pela
entrada do fundo, sai lentamente e vê outro carro da policia militar
parando ali, se esgueira entre o muro e a rua, primeiro encoberta
pelas arvores, depois caminha calmamente até ouvir alguém gritar.
Rita dispara pela rua no sentido do centro, queria se misturar
com as pessoas, estava correndo olhando para traz quando bate em
alguém, quando foi se desculpar, se deparou com Paulo que a olha
serio, segurando suas mãos.
As pessoas a volta não ligaram para os gritos dela, muito
menos quando viram a policia militar parando a frente e conduzindo
a moça.
A conduzem a um barracão na saída da BR 116, um barracão
lotado de pneus, entradas de luz pelo teto, vindas de telhas
transparentes.
Sentaram-na no centro da mesma, Rita viu que Paulo pegou
uma luva, e as esbofeteou.
— Achou que ia sair assim!
— Você esta louco, esta matando todos!
— Nem sabe o que esta acontecendo e faz um conluio com
aquele policialzinho que matei!

509
— Ele era meu namorado, não era um conluio!
— Rita apaixonada, isto eu não esperava!
— O que quer Paulo?
— Você morre hoje, aqueles policiais vamos começar a
afastar aos poucos, em 6 meses ninguém nem lembra das mortes!
Rita não sabia o que falar, estava cercada, em um barracão
imenso, nitidamente ninguém viria a salvar, Paulo saiu dali, a
deixando, os demais pareciam rir ao fundo, o pânico e o não ter
dividido o que sabia com o policial, deixava ela agora sem saber
para onde correr. Estava pedindo que fosse rápido, pois se os outros
não escaparam, ela não escaparia, esta certeza corrói a alma da
moça por longos minutos.

510
Rita pendeu o corpo para frente,
mas estava muito bem amarrada na
cadeira, quando viu um senhor vir a frente
dela, estava vestido normalmente, mas as
botinas da PM entregavam que era um policial.
— Vamos a dopar, Paulo quer que não sobre nem cinzas!
Rita olha nos olhos do senhor, não parecia estar tratando com
um ser humano, parecia frio, e a olhou como um cadáver a mais,
não como gente.
Rita sente o rapaz que estava com o senhor aplicar algo em
sua veia, sentiu as coisas ficarem mais vivas, morreria dopada,
talvez nem sentisse muito a dor, mas sabia que nem tudo seria
rosas.
— O que fazemos com ela até a hora?
— O que quiserem!
Os olhares para Rita foram de desejo, ela estava pensando
em algo rápido, mas pelo jeito a doparam para que ela não reagisse,
sentiu o corpo mole, amortecido, as cores, as palavras estavam
vivas, podia jurar que via até os sons tomarem forma quando saiam
das bocas.
Paulo entra e olha Rita, olha para o rapaz e fala:
— Podem até se divertir, mas quando acabar, joguem no
incinerador, não quero nem sobras, entenderam?
O rapaz sorriu, sacudindo a cabeça afirmativamente;
Paulo da as costas, sem olhar nos olhos de Rita.
511
Rita estava começando alucinar quando sente aquela
presença, como se tivesse mais alguém ali, olha em volta, as cores
vivas pareciam destacar um ponto naquele barracão, o rapaz que
estava a olhar para ela como carne, olha para onde ela olhava e fala;
— Ela vai alucinar!
Os rapazes olham para o local onde ela olhava.
Rita olha para aquele ponto, viu a feição de Thiago surgir, e
depois o corpo inteiro, era translucido.
— Você morreu!
O ser põem a mão um dedo na boca como de dissesse
“silêncio”, os dois rapazes que estavam olhando, prestes a tirar
sarro, veem aquela luz surgir, tomar a forma de um ser e andar
calmamente até onde a moça estava.
Quando Rita viu o espectro de Thiago chegar a ela, ouviu um
som algo, sentiu o cheiro e o toque de Thiago as suas mãos, e viu
tudo muito claro a toda volta.

512
Paulo estava chegando no carro
quando ouve o grande estralo, olha para
dentro e vê o galpão que havia saído,
desabar totalmente.
O fogo tomar tudo, estava chegando no carro e sentiu seu
corpo, que virara-se assustado para o barulho ser arremessado no
sentido do carro.
Ele sente as costas, olha em volta, viu alguns carros que
estavam dentro do barracão pegando fogo, e tudo ao chão, tudo
incinerado.
Alguns rapazes saíram com as roupas queimando e os que
estavam do lado de fora, pegaram os extintores dos veículos e
foram ajudar.
Paulo olha em volta e muitos correm para ver o que
aconteceu, alguns ajudando, o cheiro forte de gás tomou o local e
uma segunda explosão se viu na parte dos fundos, nas caldeiras,
que processavam aqueles materiais.
O fogo toma o local, pessoas sendo carbonizadas, o barracão
internamente jogando fogo para todos os lados, um estoque de
pneus no fundo começa a pegar fogo, os carros com o fogo
constante, tem seus tanques dilatados e explodem também.
Uma cena de guerra, ou de destruição se espalha pela região,
os vizinhos começam a umedecer suas casas, pois o fogo
esquentava as paredes das casas a mais de mil metros dali.

513
Rita abre os olhos, ainda alucinada,
e vê que o barracão havia desabado a toda
volta, ela estava ali, sem um aranhão.
Olha para suas mãos, e vê que um
espectro de luz ainda a segurava, olha para sua frente e vê surgir o
rosto de Thiago, ele não falou nada, mas uma lagrima correu em seu
rosto.
Rita olha mais atenta e vê os corpos carbonizados dos dois
rapazes próximos, olha para todos os lados, fogo, sabia que logo ali,
do lado de fora existiam muitas pessoas que ainda queriam a pegar,
ela viu Thiago erguer o corpo e tentou levantar-se, viu a cadeira se
desfazer em pó.
Estranho estar vendo a destruição e não sentir o calor, olha a
mão de Thiago, sorri para aquele espectro de luz, que pareceu serio,
como se não estivesse feliz, ela não conseguia entender a tristeza
dele.
Thiago a acompanhou até a porta dos fundos, onde ele
apenas apontou uma estrada ao longe, por uma trilha.
Rita começa a caminhar naquele sentido, olha para traz por
uma ultima vez e vê o vulto de Thiago a olhando, um amor que não
acontecera, uma estória que poderia ter sido bonita, mas que fora
atravessada pela historia dela.

514
Paulo olha para dentro do barracão
e tem a impressão de ver um vulto se
levantar, atravessando os escombros,
olhando para ele, aquela forma de olhar
fez ele dar um passo para trás.
Thiago olha para os restos do barracão, uma porção de
pessoas saindo dos escombros, olham para ele, deveriam estar
pensando o que ele seria.
Paulo somente via um, os demais, eram almas, ainda sem
saber de seu estado. Mas aquele ser olhava para ele, os policiais
olham aquele ser em luz sair, e começam a recuar.
Thiago olha para os carros dos policiais, e um a um foi
estourando, o ultimo foi o de Paulo que olhava assustado.
— Você morreu, nós o matamos!
Thiago não conseguia falar, sabia que eles não poderiam ouvi-
lo, mas chega perto de Paulo e o toca, o mesmo sente as pernas
perderem a força e desaba no chão, os demais assustados correm
no sentido da rodovia.
— Não me mate, deve ter algo que você quer!
Thiago olha para o barracão e para Paulo, ele viera ajudar um
amor, mas não tinha nada mais que ele pudesse fazer.
Paulo sente aquela luz o tocar, o arremessando contra os
restos do carro as costas e perde a consciência se estatelando ao
chão.

515
Paulo acorda assustado, demora
para perceber que estava em uma
ambulância, tenta mexer as pernas, não
consegue, o medico chega ao lado dele e
fala:
— Calma senhor, estamos indo ao hospital!
— Mas não sinto as pernas!
— Assim que chegarmos no hospital vamos fazer os exames
corretos e verificamos o porque, pode ser apenas reflexo da batida
que parece ter sofrido nas costas, na altura do pescoço.
— Mas e os outros?
— Os bombeiros estão verificando quem sobrou senhor!
Paulo não entendeu, mas sabia que os policiais sairiam de lá
antes dos demais chegarem, não iriam querer responder por mortes
em outro lugar.
Ele começa a pensar em desculpas, em estratagemas, mas as
vezes sentia a mão fraca, como se não conseguisse sentir as coisas
direito.
O olhar dele para fora era pensando no que viveu ali, ele
queria a morte de Rita, ela morrera, então ela não falaria mais,
todos que estavam para dentro morreram, ele vencera.
Os pensamentos de vitória dele, diante daquela ambulância,
pareciam o fazer sorrir.

516
Plinio estava em seu almoço,
quando soube do sumiço de Rita, estava
esperando algo, quando vem a noticia que
um senhor fora morto em um prédio no
bairro do Batel, se direciona para lá, e algumas coisas ele estranha.
O senhor morreu, como se algo tirasse suas forças, o corpo,
encontrado por que alguém deixou o gás ligado e o sindico primeiro
bateu, depois com uma chave mestra abriu a porta e se deparou
com o senhor, morto.
— Quem é o morador? – Plinio para o Sindico.
— Não sei senhor!
— Como não sabe?
— Este apartamento esta em nome de Paulo Camargo Silva,
ele não vem muito, mas o apartamento é dele, como as vezes ele
deixa uma garota ou outra morando por aqui, pensei que uma delas
havia deixado o gás ligado e entrei apenas para desligar!
Plinio liga para o delegado:
— Consegue achar Paulo Silva Delegado?
— Por quê?
— Surgiu um morto num apartamento dele no Batel!
— Sabe quem?
Plinio com jeito olha os documentos, entra no apartamento e
vê que o senhor estava morando ali, não era apenas um visitante, e
com o celular na mão fala;
— Ricardo Camargo Silva!
517
— Mas quem é Ricardo Camargo Silva? – Delegado.
— O neto do Camargo Silva, encontrado a poucos dias morto
no apartamento!
— Mas então temos mais um da família morto?
— Temos, mas se não estou enganado Delegado, levanta o
fato, se não me engano, este corpo a minha frente, foi dado como
morto a um ano, pouco depois do incidente na serra do mar!
— Esta dizendo que tem um cadáver novo, que já era tido
como morto?
— Sim, e escondido num apartamento de Paulo Silva!
— Pensei que estávamos elucidando o caso! – Delegado que
vê entrar pela porta outro investigador que coloca um papel em sua
mesa.
— Espera um pouco Plinio! – Fala o Delegado olhando o papel
e o investigador a porta – Isto é serio?
— Sim, acabou de chegar o relato, estou mandando o pessoal
para lá!
O delegado volta ao telefone e fala:
— Plinio, acabam de tirar Paulo Camargo Silva, de um
barracão que explodiu na 116, já em Quatro Barras, pelo relato ele
esta momentaneamente sem movimento das pernas, e parece que
encontraram mais 12 corpos carbonizados, e 14 policiais militares a
paisana nas mesmas condições do empresário!
— Algum sinal de Rita?
— Não, mas se estava no barracão já era!
— Vou terminar aqui e dou uma passada por lá!
Plinio chega ao barracão e vê a destruição, olha em volta,
sabia que não era normal algo assim acontecer, não em um
barracão aberto como aquele, caminha em meio a fumaça e a agua
dos bombeiros que tentava terminar os rescaldos nas pilhas de
518
pneu velho que somaram por horas no fogo, mas agora parecia que
estava controlado.
Houve até um momento que tiveram de parar o transito na
rodovia, pois a nuvem negra dos pneus atravessava a pista, tirando
toda a visibilidade dos motoristas.
Plinio chega ao chefe dos bombeiros e pergunta:
— Como começou?
— Não sabemos, todos a volta ouviram apenas a explosão, as
doze pessoas que estavam na parte mais interna do barracão foram
carbonizadas, não sabia que eles tinham tanto estoque de gás aos
fundos, a segunda explosão terminou de alimentar o fogo, a
primeira foi no barracão, a segunda no tanque de gás usado na
parte de trás do barracão.
Plinio olha os carros estourados e pergunta:
— Mas a que temperatura chegou isto para os carros
explodirem?
— Não sabemos Investigador, mas tiramos 6 corpos que
estavam carbonizados.
— É seguro dar uma olhada?
— Agora é!
Plinio caminha no sentido do barracão, vê as marcas bem no
centro, olha para o chão, pega um plástico as costas, e pega a parte
metálica de uma seringa ao chão, a única coisa que sobrara, olha
para o chão e havia sinal de que algo pegara fogo bem no centro.
O bombeiro ao longe fala:
— Tiramos dois corpos dai, esta marcado os pontos!
— E onde havia esta sobra de madeira queimada, tinha
alguém?
— Não!

519
Plinio caminha no sentido oposto da entrada e vê a porta
para fora e a trilha, olha bem ao fundo, volta apressando o passo ao
lado do carro e dá a volta, pegando a antiga estrada da Graciosa, e
olha em uma lanchonete a frente alguém assustada, sentada, sem
comer ou beber nada.
O investigador sai do carro e faz sinal para ela que levanta-se,
agradece a agua e chega ao carro.
— Pelo jeito é verdade que temos bons investigadores em
Curitiba!
— Pelo jeito levou sorte de não estar lá!
— Nem sei o que aconteceu ainda!
— Acabamos de encontrar Ricardo Camargo Silva morto em
um apartamento de Paulo!
— Mas...
— Ainda é sua opção contar!
Rita olha em volta e fala;
— Vamos sair daqui antes!
Plinio concorda, se direcionando a delegacia.

520
O investigador Plínio chega a
delegacia com Rita, e senta-se com o
delegado, ela estava assustada.
— Achou ela!
— Sim, mas ela disse que queria conversar antes de um
depoimento formal!
O delegado olha para ela e pergunta;
— Por que?
— Por que sempre sobra para quem estava lá, éramos um grupo,
amigos, de repente um morre, as terras começam a mudar de
nome, mas tudo isto não explicaria o acontecido, de repente a 3
meses apareceu novamente Ricardo, para mim ele havia morrido a
um ano, ele começa a pressionar todos, que nós teríamos de pagar
pela proteção, que os Sombras, voltaram a agir e que se alguém
quisesse cair fora, estaria morto!
— Acha que este foi o motivo das mortes? – Delegado.
— Ninguém aparentemente caiu fora, mas as pessoas
começaram a morrer!
— Desconfia por quê?
— Sim, vingança!
— Vingança? – Plinio.
— Ricardo era apaixonado por Patrícia!
— Acha que ele esta se vingando disto?
— Acho que se ele morreu, não é ele por trás de tudo!

521
— E quem estaria por traz disto?
A conversa se desenrolou, e no fim daquele dia, uma batida em
um apartamento do Bairro Bacacheri, encontram armas, drogas, e
uma moça sumida a mais de um ano.
Patrícia não morrera, e parecia disposta a se vingar de todos os
demais.
O sair dela algemada da casa, no fim daquele dia, foi a foto de
todos os jornais sensacionalistas da cidade, muitos estavam
querendo uma foto, um motivo, e veio um bem menos nobre,
mesmo o delegado ficou feliz com um fim, esperava que as mortes
de pois desta prisão parassem, mas temia bem no fundo, que algo
sobrenatural estivesse acontecendo.
As coisas foram voltando ao normal, e com calma, a vida dos
sobreviventes, volta ao prumo.
Paulo sai em uma cadeira de rodas do hospital, ele não mexia
mais nada abaixo da cintura, tinha problemas respiratórios, teria
uma vida entre a cadeira, e a cama, quando arremessado para traz,
4 vertebras de desfizeram com o choque, garantindo uma vida bem
dura para ele, mesmo que a policia não conseguisse provas de que
ele era culpado.

522
Thiago caminha ao centro, vê uma
luz branca, branda, apenas a atravessa, a
cidade era a mesma, mas agora a sentia,
viveria nela, diante de seres iluminados.
Olha como se encantado para as casas feitas de luz, o prédio
de luz, parecia o mesmo lugar, mas ao mesmo tempo, era outro, as
pessoas pareciam conversar a rua, trocar experiências.
Caminha no sentido de sua casa, estranho mundo aquele,
igual e diferente, iluminado, mas ele sentia a falta de alguém, não
sabia se teria de a esperar muito, mas agora precisava descansar.
Estranha sentir cansaço, pensou que uma vez luz, tudo se
alterasse, os dias seguintes ao que descansou, foram de
aprendizado, ele agora estava diante de um mundo diferente, a
ausência de alguém ali com ele, parecia o que mais lhe perturbava,
então senta-se em um prédio de luz ao centro, em seu topo, e fica a
olhar aquele mundo diferente aos olhos, mas completo de seres,
esperando o dia que chamavam ali de passagem, sempre pensou
em um julgamento, mas ali estava uma nova ciência, e Thiago
olhava tudo ainda com ar de aprendiz.

Fim.

523
524
525
Autor; J. J. Gremmelmaier
Edição do Autor
Primeira Edição
2016
Bem Vindo
------------------------------------------
CIP – Brasil – Catalogado na Fonte
------------------------------------------
Gremmelmaier, João Jose
Bem Vindo, Romance de Ficção, 73 pg./ João Jose Gremmelmaier /
Curitiba, PR. / Edição do Autor / 2016
1 - Literatura Brasileira – Romance – I – Titulo
-----------------------------------------
85 – 62418 CDD – 978.426

526
Bem Vindo
J.J.Gremmelmaier

Nem sempre por trás de um


rosto bonito, está um espirito feliz,
nem sempre por trás de uma
historia, existe felicidade,
simplicidade, entendimento fácil.

527
528
Olho a porta fechando, na certeza que o nome que o senhor
falou era mentira, mas o que posso fazer, meu nome também não é
Raiska, por sinal, nunca conheci uma Raiska, devem existir, pois este
planeta é imenso, mas não conheci nenhuma.
Conto o dinheiro a mão e olho para fora, sol, quarta feira, me
arrasto ao banho, tiro a peruca, me olho no espelho, e entro no
chuveiro, lembro das primeiras vezes, que tentava me limpar como
se algo estivesse impregnado em mim, hoje já não ligo, e nem
fazem 24 meses que comecei nesta vida.
Meu nome, isto com o tempo falo, agora é hora de me vestir
e ir ao trabalho.
Sinto o cheiro da fiação do chuveiro, minha mãe sempre dizia
que ter um bom homem em casa, era apenas para isto, talvez ela
tenha me afastado mais dos homens do que imagina.
Olho o celular e as noticias, vinham por ali as boas novas, as
ruins, as que me faziam querer voltar a cama.
Hoje em dia minha mãe me pergunta se não vou casar, sei
que ainda existem malucas que casam, mas não pretendo ser uma
delas, mas apenas penso isto, um ditado antigo da minha mãe

529
sempre me cala nesta hora, quase ouço as palavras dela em sua voz
a mente. “Não quer algo, não fala isto alto, nunca!”.
Me arrumo e coloco a camiseta da loja que trabalho, serviço
de oito horas que me gerava ao mês o que ganho por noite, mas sei
que um dia ficarei velha, e lembro de uma amiga, falecida o ano
passado, a 5 meses, ano passado parece longe, ela vivia somente da
noite, uma noite, amanheceu morta, ninguém deu falta, dizem que
ela morreu asfixiada, até hoje não engulo o papo de suicídio, mas se
tivessem dado falta, ela teria sobrevivido, encontraram ela 48 horas
depois.
Dizem que gosto de tragédia, mas não, elas entram e saem de
minha vida. Eu vivo das tragédias, pois elas fazem parte da minha
alma, da minha cultura, da minha fé, mas poucos entendem isto.
Olho a chave do carro, olho para o sol, quarta, centro,
“esquece Ketlen, o transito vai estar uma merda.”
Paro ao ponto de ônibus, para ir ao centro, olho em volta, a
senhora da casa em frente me cumprimenta, será que me
cumprimentaria se soubesse o que faço?
Quem sabe, neste país maluco, ainda era capaz de pedir
dinheiro emprestado, as vezes duvido que as coisas serão como
planejo, mas sempre me esforço para manter o caminho.
O chegar a loja me faz bater o ponto, olhar para Rose, uma
moça que está lá a mais tempo que eu, o trabalho era sempre o
mesmo, monótono, sem futuro diria eu, mas era o que ainda me
mantinha ligado ao dia, aos seres que se um dia eu faltasse, talvez,
um talvez bem distante, dessem falta.
Ela sempre me adiantava as tragédias, tem gente que sempre
está ligado as mortes, esta era uma moça que sim, ela chega e fala.
— Tem de ver estas imagens.
Aquilo que para mim já era passado, para muitos era o hoje, o
passar de tragédias via aplicativos pessoais, sem perceber estava
vendo a morte de um casal no centro, mortos e abandonados a
meia quadra da casa deles.
— A cidade está violenta, as vezes tenho medo de sair a rua.

530
Como poderia falar para Rose que se ela não ficasse olhando
aquilo, ela nem ficaria sabendo daquelas mortes, talvez ela até
acreditasse como uns amigos meus que a violência diminuiu na
cidade.
— Não vai palpitar?
Acho que por insistência olhei a foto atenta, olho aquele
rapaz, conhecia aquele rosto, tento lembrar de onde e falo.
— Tem o nome do rapaz ai?
— Paulo Camargo, conhecia?
— Deve ser alguém parecido, pois conheço um Silvio, mas
estas fotos não ajudam pelo ângulo.
— Certo, mas acha normal matarem gente assim?
— Não sei, como posso saber, eu estudo até tarde, as vezes
nem ligo a TV, desligo o celular para conseguir estudar.
— Acha que o estudo vai lhe levar a algum lugar, nunca ouviu
que não é o estudo que lhe dá posição social e sim estar no lugar
certo na hora certa.
— Ainda prefiro estar em casa, do que estes dois ai, que
estavam almejando posição social.
Meus pensamentos foram ao rapaz, era ele, mas obvio, eles
nunca usavam o nome correto, nunca entendi isto, nós geralmente
usamos nomes que nos facilitem, mas os clientes, frescura.
Olho a moça ao lado, olho como se não querendo ver, olho
para Rose e falo.
— Sempre queremos um mundo melhor, mas ele nunca foi
bom, está melhorando, mas as vezes temo estas coisas de vida e
morte, nos torna mortais.
Rose sorri e fala.
— Algo põem medo em Ketlen Silva, as vezes esqueço que até
você é mortal.
Sorri, ela estava falando que somente eu não adoecia,
somente eu não usava de artifícios como usar atestado falso.

531
Como todo fim de tarde, ligo para Katherine, ela era uma
agenciadora de clientes, ela sempre dizia que garotas como eu eram
raras, pois a maioria pegava o telefone dos clientes e fazia
programas por fora, mas acredito que toda facilidade, gerada no
passar sobre os demais, gerava acomodar, e não evolução.
Soube que a noite seria com um rapaz que já era cliente da
agencia, ele sempre marcava em um hotel no centro, próximo do
local onde o casal morreu, mas um lugar calmo e sempre as mesmas
pessoas a rua.
Programa até agradável, as vezes eram velhos babões e
grosseiros, alguns pareciam nem saber o que fazer com uma mulher
a cama, mas Roberto sempre fora agradável.
Saio do hotel e caminho no sentido da praça a frente,
atravessando o calçadão entre a Praça Osorio e Rui Barbosa, vejo os
rapazes olhando para mim, as vezes fico pensando se eu morresse
produzida, com aquela peruca e vestido rente ao corpo, salto alto, e
Rose olhasse a foto, me reconheceria?
Macabra esta ideia, mas caminho, pego o ônibus, paro em
casa, abro o livro que minha mãe sempre disse, estuda para ser
alguém, lembro de Rose falando que estudando não se chega a
nada.
532
Sorrio, livro de capa de couro duro, com presilhas de metal
que atravessavam as folhas grossas.
Fecho e abro ele como fazia todo dia e olho para a imagem e
para a carta em anexo.

Olho os dois lados da carta de Pemba, as vezes vejo como as


pessoas duvidam de seus deuses, e como se apegam a coisas que
para mim sempre foram parte do caminho, parte do destino.
Pemba sempre esteve em minha vida, mesmo nas partes
trágicas, mesmo nas partes gostosas, tudo em sequencias
intermináveis de acontecimentos, mas cada Demons tinha seus
valores e suas fraquezas, minha mãe sempre falava que a parte de
crenças dos Demons, era nova e baseada em uma crença Africana,
ela falava que os Demons, eram derivados dos Exu, que nas crenças
Africanas, eram as Entidades Presentes, os seres que abriam nossos
caminhos contra problemas, mas quando se apoderamos disto,
descobrimos que toda vez que se prende a uma origem, você mata
uma entidade.
Pego a carta dele a mão, olho em volta e vejo o vulto de
minha mãe surgir a minha frente.

533
— Sempre se dedicando a este Demons que vai acabar com
sua vida.
— Como estão os campos da Energia?
— Eles sempre me mandam se afastar dos demais, eles não
gostam de mim lá, eles parecem querer que escolha um para me
dedicar, não quero escolher um, eles tem de entender que tenho
minhas vontades.
— Vai acabar virando um Demons assim mãe.
— Pelo jeito ainda nesta coisa de ganhar dinheiro fácil.
— Quem manda morrer mãe, antes da hora, eu tinha de me
virar, eu tinha de sobreviver, e não ficaria na casa daquele seu
companheiro, aquilo sim seria o fim de minha vida.
— Aquele um dia terá seu caminho atravessado pelo mal que
me fez, lhe fez, é bom não estar por perto mesmo filha, mas o que
olhava nas cartas?
— As definições, não me falam como são as terras iniciais, as
terras de Energia.
— Eu não posso a revelar isto, isto anteciparia sua ida para lá,
mas porque gostaria de saber?
— Curiosidades, pois sei que cada Demons tem um poder
implícito, mas para cada um deles, uma falha, acha que a idolatria
de Pemba é mesmo uma falha mãe?
— Sim, é onde quem se dedica a Pemba se perde, começa
pedindo por corpos e amores diferentes, no fim, acaba tendo de
idolatrar a si próprio, pois o tempo passa e somente nós
conseguimos nos ver por baixo das rugas depois de um tempo.
— Faz falta mãe.
— Tem coisas que ninguém planejou, se cuida. – Fala a
senhora sumindo da frente de Ketlen.
Os estudos de Pemba, eram em sua grande maioria de
prevenções, de cuidados, de recados, sempre tinha um que eu lia e
me preocupava.

534
“Se um dia pedir uma aventura amorosa a Pemba, tenha
certeza que não o amara, pois este amor lhe levará a loucura e a
solidão.”
Os custos da vida, por isto ainda prefiro que Katherine
agende os clientes, isto não me permite selecionar ou escolher, é
dinheiro apenas.
Nestas horas, temo meus pensamentos, mas sei que tenho de
diferenciar sexo por dinheiro, de amor, as vezes o corpo pede mais,
mas não consigo me envolver com ninguém, as vezes alguém me
convida para sair, mas me perde tão rápido, perco a atração, que
raramente chego a uma cama que não seja por dinheiro.
Olho as inscrições no livro, olho para fora, olho para o
armário dos livros, coloco ele ali, parece que em meio a tantos livros
antigos, ninguém nem olha este, dizem que não se usa mais fazer
livros, que isto é coisa do passado, que tudo está na rede, nas
nuvens, mas pode tentar achar isto nelas, não vai achar.
Hoje se difere muito mais grupos fechados e secretos que
antigamente, pois antigamente os grupos por mais abertos que
fossem, nunca imaginaram que seus segredos mudassem de mãos
pois um novo integrante quis mostrar ao mundo que existiam.
Estranho hoje ter de provar mais aos outros suas crenças que
a você mesmo, deve estranhar eu falar com minha mãe, sim, ela já
morreu, ela a oito meses foi aos campos de Energia, sei que ela não
pode me contar nem se é bom lá, mas ela ter se mantido por perto,
mostra que no mínimo é monótono, ela adora uma agito.
Outra coisa que estranho, as pessoas pararam em suas
religiões e suas crenças, como se tudo já tivesse sido revelado no
passado, que nada mais é importante, acho que esta parte é a que
mais estranho, crenças cegas.
Olho o relógio, o tocar do celular naquela hora me fazia as
vezes querer dispensar, mas era a hora de ganhar um trocado a
mais.

535
Acordo na Quinta, tanta coisa para fazer, olho o relógio, pulo
da cama, sem disposição, as vezes até eu me acabo a noite, sorrio,
um banho rápido e rua.
Chego ao serviço como quase todo dia, talvez a cara de
cansada, mas mais dois dias teria meu dia de folga, e Domingo eu
sempre folgava.
Rose me olha de dentro, estranhei, sempre ela vinha a mim,
mas tinha um senhor fazendo perguntas lá, e a administradora me
aponta o dedo, e chego lá, as vezes deveria correr, mas nunca fui de
fugir do problema, olho para o senhor e para a administradora.
— Esta que é Ketlen Silva.
Eu estranho quando alguém me chama pelo meu nome
completo, as vezes acho que este nome não me cabe, talvez eu seja
mais Raiska, mas ali sabia que era assim.
— Podemos conversar moça?
— Sim, algum problema senhor?
Rose olha como se tivesse medo de mim, estranho, a moça
que falava em morte o dia inteiro ter medo de mim, isto era sinal de
desemprego, mas ainda não havia entendido o problema.

536
O rapaz se identifica como policial civil, algo estava errado, o
desviar dos olhares nesta hora, é o que mais me irrita, os amigos
viram as costas.
— Posso ir senhora? – Pergunto a administradora.
O rapaz segurou meu braço com força e fala.
— Não entendeu, vai a delegacia comigo.
Se tem uma coisa que sei é empacar, olho para a senhora que
fala, vendo que o senhor foi bem mais ríspido.
— Eles querem lhe indagar sobre um assassinato.
Meu olhar para o senhor foi bem firme, e olhei para o outro
na porta e falo.
— Esta é sua valentia com os bandidos ou só com moças
rapaz? – Olhei ele o para o outro e falo. – E esta arma quase
empunhada é medo de uma atendente de loja?
— Tem de nos acompanhar.
— Não me neguei a isto, sabe disto.
Um rapaz ao fundo pergunta o que estava acontecendo e o
policial tenta o afastar e o mesmo apenas fala algo que não
esperava, as vezes pessoas reagindo assim me encanta e me
assusta. O rapaz puxa a carteira da OAB e fala.
— O advogado dela, ou acham que estão onde.
Vi que a administradora da loja também se surpreendeu, pois
os policiais pareceram se perder na afirmativa e pergunta.
— Onde esta a ordem de Condução Coercitiva rapaz?
— Viemos apenas conversar.
— Este aperto no braço da moça parece mais do que
conversa, o que está acontecendo, vamos a delegacia e me explica
porque está agredindo alguém, depois vou verificar o que inventou
para a dona da loja, e se tiver falado algo que não sabe, vai
responder por qualquer prejuízo que minha cliente sofrer
investigador.
— Acha que esta falando com quem rapaz.
— Um servidor publico, contratado para nos servir, e não nos
agredir, vai me ameaçar agora, com todos vendo rapaz?
537
A firmeza do rapaz me deixa perdida no meio do tumultuo,
mas fomos a delegacia, e lá fui sentada em uma cadeira, o delegado
queria respostas sobre um senhor, nome Carlos Teixeira,
encontrado morto naquela madrugada.
Tem algumas coisas que as pessoas estranham, mas nomes
não são para ser usados, eu estava quieta, não sabia do que
estavam falando.
— Pode se manter quieta, mas Katherine Guedes, nos indicou
você como a ultima pessoa que o viu.
Começo a entender.
— Ela estava a minha porta para ter afirmado isto, ou o
senhor escreveu isto senhor? – Olhei para ele firme.
— Ela indicou ele como seu cliente, vai negar?
— Não, pagamentos por cartão de credito diriam que ele saiu
lá de casa por volta das 21 horas, mas afirmar que fui a ultima
pessoa que ele viu, é dedução senhor.
— Sabe que prostituição é crime social neste país.
— Então porque existem boates senhor, porque existem
locais permitidos, quer dizer que me prostituir onde vocês podem
me apontar e falar, olha a prostituta, é permitido, em casa, sobre a
proteção do anonimato não posso?
— Podemos a deter por isto, temos indícios que matou um
senhor e pediremos sua prisão menina, vamos ver se estará mais
calma em dias.
— Pode até me prender senhor, mas sabe que está querendo
justificar sua incompetência - Ela olha para o escrivão – e pode
escrever que falei isto, que o delegado Sanches, para não apurar
uma morte na cidade manda prender uma inocente, que se for
agredida na cadeia, e depois de provada a sua inocência, vai o
indiciar por cumplicidade nos crimes ao centro.
— Esta me ameaçando menina.
O advogado estava quieto, viu que a moça não iria se calar,
mas olha para o delegado e fala.
— Não, ela esta afirmando o que o senhor está fazendo,
lavando as mãos de um crime, inventando um culpado sem provas.
538
— Soube que o senhor ameaçou meu investigador.
— Vai por este caminho senhor, que pedimos uma
corregedoria nesta delegacia, pois vejo que deve ter comprado sua
carteira da OAB delegado, a cassamos e lhe tiramos daqui.
Sei que no fim daquela discussão fui fichada, e me colocaram
em uma cela que não cabia 12, e que tinha umas 50 detentos.
As vezes é difícil acalmar, imaginei eles chegando a meu
apartamento e se deparando com quem eu era, embora eles não
teriam com tirar isto de mim.
O advogado no fim do dia pediu para falar comigo.
— Meu nome é Carlos Silvio, não sei se quer que seja seu
advogado, só não gosto deste tipo de justiça no Brasil.
— Não sei o que eles vão acusar, mas se eles invadirem o
meu apartamento com imprensa, vão me acusar de Bruxaria, todos
dizem que temos direito a culto, mas quando não somos cristãos,
viramos todos Bruxas e Demônios.
— O delegado rasgou seu depoimento, ele não iria deixar lá o
que você falou, mas tem de manter a calma.
— Sei que para quem fazia de tudo para manter isto no
anonimato, isto vai ser escancarado por ai, quem nos dizia que
tínhamos privacidade, que nunca nem dei meu nome completo para
ela, deve ter dito onde eu trabalhava, pois para mim, Katherine nem
era o nome da senhora, ele só me conhecida por Raiska.
— E porque não fizeram a abordagem em sua casa.
— Acho que deveria ter olhado para o apartamento ao lado,
eu não recebo pessoas em minha casa senhor, e sim num
apartamento ao lado.
— Tem dois apartamentos?
— Um apartamento dividido em duas portas, posso receber
as pessoas pelo social, que é isolado do outro, mas não lembro de
ter ouvido barulho, então a minha agenciadora deve ter falado com
alguns clientes, pois ela sabia que não era uma casa e sim um local
para receber as pessoas, algo que fica evidente aos clientes.
— Sabe que pode ter entrado em uma encrenca grande.

539
— Só sei que o senhor saiu vivo de lá, não pergunto nada dos
clientes, para mim ele nunca foi Carlos, quanto menos informação
melhor.
— E teria alguém para afirmar que estava em casa.
— Logico que não, eu moro sozinha, vejo que todos dizem
que temos direito a privacidade, mas ela é usada contra nós quando
os delegados e investigadores querem.
— Acha que eles acham o culpado, para lhe livrar?
— Não sei, apenas tenta achar algo que não combine e me
tira daqui, o resto respondo.
— Tem como pagar um advogado?
— Tenho uma pequena reserva, mas talvez fique uns dias
aqui.
Fico ali sentada a olhar o andar das coisas.

540
O advogado chega a região dos inquéritos e pede uma copia
do que tinham, nada.
Carlos Silvio olha para fora e pensa em como tirar a moça,
sorri, pois ele nunca diria que Ketlen, uma moça que admirava do
escritório a duas lojas da que ela trabalhava faria programas sexuais
para viver.
O advogado foi acompanhar o entrar na casa da moça e olha
como o policial chamou a imprensa e registrou isto de longe, a moça
tinha razão na discrepância das noticias, ele entra com um mandato
de segurança intervindo na Delegacia e no Jornal, ambos tinham de
respeitar o direito de credo.
Carlos foi para a loja onde ficava um escritório de Advocacia
e viu a moça que trabalhava lá falar.
— Viu que prenderam a vendedora ai da frente por ritual
satânico, onde mataram um senhor respeitado da cidade.
Carlos sorriu e falou.
— Não, vi prenderem uma vendedora, e o delegado inventar
todo resto, e toda a sociedade que diz que as pessoas podem ter
um culto afro, a taxarem em horas em todas as redes sociais.
— Mas o senhor era um pai de família respeitado.

541
— Silvia, a moça ali na frente, fazia programas sexuais, este
senhor, era cliente, se isto é um pai de família respeitado, o que é
para você um pai sem respeito.
— Sabia disto?
— Eu adoro casos difíceis, os fáceis qualquer um pega, mas ai
temos alguns problemas, a prenderam, o delegado não tem até a
entrada na casa dela, um relato do caso, nem o do IML, temos um
senhor encontrado sentado ao carro, com cortes superficiais,
morto, pode ter sido asfixiado, mas ou o delegado afirma quem
ajudou a moça, ou vai ter de entrar em contradição.
— Por quê?
— Porque para não voltar atrás que prendeu uma inocente,
ele chama a imprensa, todos a volta sabiam do culto da moça a uma
seita que pode parecer satânica aos cristãos, mas é uma derivação
dos Exus. Mas se ela fez um ritual, ele vai ter de dar o nome dos
demais, ou a historia não fecha, estou pedindo uma analise
especializada da peça que eles invadiram, e fotografaram, eles vão
ter de me achar restos de sangue, de pelos da vitima, já que é para
os complicar, vamos os complicar muito.
— Vai defender uma prostituta?
— Ela tem para pagar a defesa.
— Mas ela trabalha ai na frente, como?
— Pelo que levantei, ganha por programa o que lhe pagavam
ai por mês, tem um apartamento no Cabral, de 300 metros
quadrados, um carro do ano, uma poupança e mais 2 apartamentos
alugados.
— Vou pedir aumento. – A moça olhando o rapaz.
— Eu não ganho o que ela tira por mês Silvia, ela chega a
ganhar 44 salários por mês, obvio que corre os riscos de uma vida
assim, e pode vir a ter de responder por assassinato por isto.
— E acha que ela não o matou?
— Ela veio trabalhar como se tivesse vindo a um dia normal,
assassinos não fazem isto, a não ser que ela seja uma serial Killer.
— Defenderia uma Serial Killer.

542
— Todos tem direito a defesa.
A moça olha para Carlos e fala.
— Ela lhe encantou, mesmo sabendo o que ela faz?
— Não é o que ela faz que encanta Silvia, é a forma que ela
enfrenta um delegado, que acaba rasgando o depoimento dela para
não ficar lá que ela o chamou de incompetente, pois se ela for
inocente, ela usaria aquilo contra ele.
— E vai cobrar dela?
— Eu tenho de comprar as rosas, sem dinheiro não dá.
— E o que veio fazer no fim do dia de hoje?
— O Rodrigo quer falar comigo, ele pelo jeito não gostou de
algo, se não estiver aqui amanha, ajuda ele a tentar manter este
escritório em dia.
— Ele é bem sistemático, sabe disto.
Carlos não discutiria o sistemático de Rodrigo, que chega e
olha para ele serio e faz sinal para irem a sala de reunião.
— O que pensa estar fazendo Carlos?
— Fazendo?
— Se envolvendo no caso de um funcionaria ai da loja da
frente, temos processos sérios a tocar.
— Deixei algum sem acompanhamento Rogerio.
— Não, mas não defendemos pobres, quando o coloquei
como meu parceiro aqui, era por sua competência, mas não quero o
meu escritório envolvido em defesa de bruxas.
— Sem problemas Rogerio.
— Pensei que iria espernear de soltar o caso da moça, todos
dizem que fez um processo contra a delegacia e contra 3 jornais,
não gosto de ver meu nome envolvido nisto.
— Não fiz através de seu escritório, se colocarem seu nome lá
pode os processar Rogerio.
— Mas você está aqui dentro, eles vão falar.
— Rogerio, defender pessoas não é ficar jogando cartas numa
quinta e vir me encher o saco por ter comprometido o seu nome,
então não se preocupe, estou me afastando de seu escritório.
543
— Vai me largar por isto?
— Não quero o prejudicar, pensei que éramos uma equipe,
você me puxou para dentro como parte da equipe, defendi seus
clientes mais sujos com a cabeça erguida, gente que deve ao
escritório, ou você perdeu nas cartas um processo, você não abre
isto comigo, mas que não pagaram, não pagaram, se na primeira
vez que fiz algo fora dos seus amiguinhos, vai me mandar largar, eu
largo, mas não o processo, e sim, quem não quero prejudicar.
— Tudo por uma bruxa?
— Sabe que ai é onde nós ganharíamos dinheiro, mas se não
quer, faço a parte, não se preocupe.
Rogerio olha para Carlos, ele não iria ceder, mas não queria
se dizer errado, e fala.
— Esfria a cabeça Carlos, nossa parceria é boa, vai para casa e
pensa, você está pelo jeito agitado, amanha nos falamos.
Carlos olha para o rapaz, ele queria uns dias para por outro
no seu lugar, então olha para ele e fala.
— Lhe ligo.
Carlos sai pela porta e olha para Silvia.
— Cuida dele direito.
Silvia entendeu, Rogerio veio o por para fora, ou o afastar do
caso, ela sabia que os processos dali ela passava tudo para Carlos,
então Rogerio teria de correr atrás de um novo parceiro, o Escritório
Rogerio SS de Advocacia era conhecido em toda a região.

544
O delegado chega para trabalhar na sexta e está com uma
representação do Ministério Publico a porta.
— Problema Sergio? – O delegado para o representante do
ministério publico.
— Sim, como resolvemos o problema de ontem, onde fez
seus investigados invadirem uma casa, fotografarem alguém de
outra religião, e a acusaram de bruxaria, quando o senhor morreu
ao carro, do coração?
— Está falando serio? – O delegado pegando um café.
— Sim, plantar provas é crime, discriminação de outras
religiões, crime, acusar um inocente e o prender, revelando suas
intimidades a toda sociedade para justificar a prisão, crime, como
resolvemos isto Delegado?
— Tem de ver que a acusação fazia sentido.
— A defesa pediu o isolar do apartamento, e a analise se
havia algum sangue, algum pelo da vitima, algo que ligasse o senhor
ao local, sinal que alguém está mais rápido que o senhor em
estabelecer os fatos reais.
— Aquele advogado a Rogerio SS vai cair matando pelo jeito.

545
— Ele foi mandado embora por defender uma inocente, ele é
competente, mas pelo jeito o patrão dele não queria seu nome
envolvido nisto, desta se livrou, embora sem Carlos Silvio, aquele
escritório vai para o buraco, ele ergue dados dentro da lei, e a
prisão da moça foi toda irregular senhor, tenho de concordar que a
prisão dela, foi para a armação da tarde.
— Não pode concordar com isto.
— A secretaria de segurança está nomeando um novo
delegado para esta delegacia, vai para a de cargas roubadas.
— Não podem fazer isto comigo. – Grita o delegado.
— O senhor e os 4 investigadores, vão responder por isto
delegado, lei é para todos.
O senhor olha em volta, tudo que ele aprontara ali não
poderia ficar a disposição dos demais, a forma que o senhor olha
para os arquivos e para as pessoas faz Sergio falar.
— O senhor está dispensado Delegado, a delegacia está sobre
interdição.
— Não pode fazer isto comigo. – O delegado segurando o
rapaz do ministério publico pelo colarinho.
— Vai me ameaçar Delegado, se o fizer não sai daqui para
casa, e sim para a prisão, se está acostumado a fazer isto com os
demais, comigo não – Sergio o empurra soltando-se – tem de
acalmar delegado, mas deveria ter pensado antes, não se cria crime
para agradar a imprensa.
— Tudo por uma putinha?
— Não, ela dormiu em sua delegacia, tendo endereço fixo,
vocês não a pegaram em casa, pegaram em seu emprego, para fazer
a noticia, invadem com a imprensa o local, se tiver lá mais restos de
repórteres do que do senhor, você em si a inocentou, então quem
fez de tudo para a inocentar foi o senhor.
— Mas como o senhor pode ter morrido do coração?
— Morrendo, alguém vendo o senhor parado ali, tentou um
assalto, quebrou o vidro, os demais viram o rapaz correndo com
pertences, está nos relatos da policia militar que atendeu ao caso, e
manda prender a moça, me explique delegado.
546
— Teria de rever o processo.
— Isto que fez o advogado da moça pedir a soltura dela,
quando ele pediu uma copia do processo até então, primeiro eles
tentam achar, depois afirmam que está sobre sigilo, mas alguém
daqui vazou o que soubemos a pouco, não está no processo, pois
não tem uma folha lá, somente a ficha de prisão da moça, nada
além disto.
— Temos nossos prazos.
— Não tem nada lá, como pode prender alguém se não tem
nem o relato da policia que diz que viram um assalto ao carro?
O delegado entendeu que não era a moça, mas todo o
processo que estava atravessado, e ouve.
— Mantem a calma delegado, não é pessoal, mas não pode
fazer as coisas assim, dá a impressão a quem olha de fora, que
todos os processos são assim, vai para casa, pensa no que fez e vê
se não nos força a intervir na outra delegacia.
O delegado e os 4 investigadores são dispensados, para se
apresentarem a corregedoria em 15 dias, afastados com
vencimentos até a data.
O ministério começa a olhar os processos ali, e teve de
mandar para casa 12 pessoas presas, pois não tinha nem a acusação
na folha, os internos tiveram de ser interrogados para saber qual o
motivo de suas prisões, seria cômico se não fosse uma delegacia
especializada em Latrocínio. Sergio não gostou de mandar para casa
prováveis culpados, mas não havia acusação para os manter ali, os
investigadores não estavam fazendo o básico, teve de determinar
uma reunião local e passar os problemas determinados, e que
precisavam por as coisas em dia, para que a delegacia não
mandasse pessoas a mais, culpadas, para a rua.
Carlos chega a delegacia, para acompanhar a soltura de
Ketlhen que olha para ele.
— Foi tão fácil assim?
— As vezes a incompetência é tão grande, que nosso trabalho
fica facilitado, embora aparentemente perdi o emprego por lhe
defender, mas acho algo melhor.
547
— Não precisava se prejudicar por mim. – Ketlen.
— Quer uma carona até em casa, embora a imprensa esteja
na porta e tenha de saber o que vão perguntar.
— Eu sei o que eles vão perguntar Carlos, você nunca
entenderia uma pessoa como eu, mas desculpa por lhe prejudicar,
aceito a carona, assim me fala quanto lhe devo.
Os dois saem pela porta e a imprensa estava lá, já que a moça
foi escrachada na imprensa local, por 4 jornais, e agora sabia-se que
não tinha culpa em nada.
Ketlen sai a frente e um repórter pergunta.
— Poderia nos dizer o que tem a falar sobre a morte de Carlos
Teixeira, porque a acusaram.
Ketlen respira fundo e fala.
— Queria deixar uma coisa clara, vou apoiar a família de
Teixeira, vocês difamam um senhor que não pode se defender, eu
posso me defender e dizer que não éramos nada além de
conhecidos, mas transformarem-me em uma prostituta, para
difamar alguém como Carlos Teixeira, eu acho um absurdo, e apoio
a família em processar toda a imprensa que o difamou.
— O que ele foi fazer em sua casa?
— Ele está vendendo um terreno no Boqueirão, estávamos
tratando sobre como poderia pagar o mesmo, se estava com os
documentos em dia. – Conversar com os clientes, sempre lhe dá
detalhes, mesmo que não soubesse muito sobre o assunto.
— Lhe acusaram de bruxaria, o que tem a falar sobre isto?
— Tenho formação em Historia, estou estudando para fazer
uma pôs em religiões adulteradas, espero que ninguém tenha me
roubada alguns livros, ou os destruído, pois eles são raros.
Carlos ao fundo viu que a moça não era inocente, ela
respondeu cada uma das perguntas e pede educadamente para
passar, estava cansada, precisando de um chuveiro e teria de ver se
perdera o emprego ou não.
O delegado do outro lado da rua olha para o investigador e
pergunta.

548
— Como ela tem a cara de pau de falar isto?
— Ela parece saber até que o senhor rasgou o depoimento
dela, mas o senhor realmente tem terrenos a venda, e as
reportagens para falar mal da moça, esquecem que estavam
afirmando que o senhor a contratou, ela sabe que ele fez um
deposito na conta dela, e não o contrario, mas estes dados os
repórteres não tem.
— E com certeza ela vai gerar uma defesa disto também, mas
o advogado perdeu o emprego, este vai se dar mal em Curitiba.
O investigador não pareceu concordar com o delegado, mas
não teria como saber sobre isto, a cidade era um mistério, alguns
que apostaram que se dariam bem, faliram, alguns que todos
apostaram contra, eram destaque em mais de um ramo.

549
O rapaz estaciona para dentro, na vaga extra do
apartamento, prédio simples no bairro do Cabral, predo baixo de 5
andares, não mais de 2 apartamentos por andar, todos olham para
a moça, todos se perguntavam na vizinhança quem eram aqueles
senhores de idade que iam ao apartamento.
Chegam a porta, ela estava aberta e um grupo da pericia olha
para o apartamento e um rapaz olha a moça.
— O apartamento está interditado.
Ketlen entra poucos metros e fala.
— E quem fez toda esta bagunça?
— Encontramos assim. – O rapaz olhando o advogado ao
fundo, mas estão atrapalhando.
— Como proprietária, vou acompanhar para que não desviem
mais nada, pois pelo jeito fizeram uma festa aqui enquanto eu
curtia uma noite na carceragem.
O rapaz olha para o mais a dentro, com um equipamento de
identificação de sangue ou restos de pelos.
— Muito cabelo, de mesmo DNA, nada de sinal de sangue, o
quarto está limpo, apenas uma espécie de pelos, toda a região da
sala tem mais de 40 digitais, e mais de 40 DNAs de pessoas.
550
— Uma verdadeira festa. – O rapaz olhando a moça.
— Sim, uma festa feita por policiais incompetentes que se
tivesse matado alguém dentro desta sala, não conseguiriam me
acusar, uma senhora festa. – Ketlen não parecia nunca na defensiva,
sempre no ataque, Carlos a olha e pergunta.
— Vai ficar nesta bagunça?
— Acompanhar se eles vão fazer direito, pelo jeito já estão
acabando mesmo.
— Teremos de manter isolada a área. – O investigador.
— Me dê um motivo plausível para isto, já que vocês mesmo
trouxeram a imprensa e contaminaram toda região de investigação?
O rapaz olha outro e fala.
— Me alertaram que você não baixava a cabeça, mas precisa
de algo?
— Fora uma roupa, meus documentos, a chave do carro,
nada.
— Acompanha a moça Pedro?
Ele olha como se perguntando-se se não era muita frescura
aquilo, a moça foi ao quarto, pegou um conjunto e um calçado
baixo, uma bolsa, pegou os documentos, a chave do carro e jogou
ao rapaz a porta.
— Pelo menos fechem a porta quando saírem.
— Acha-se engraçada? – O rapaz.
— Passa uma noite na sua delegacia, na parte prisional e
quero ver você animado como eu.
Carlos viu que ela saiu dali, ela olha para a outra porta, não
iria para aquele sentido, olha para o rapaz e fala.
— Consegue me seguir de Carro?
— Se não correr muito.
Ketlen entra no carro, dá ré, aciona o portão, o mesmo se
abre, os dois carros saem no sentido do sul da cidade, ela entra em
um terreno plano, algumas frutíferas, olha para a casa ao fundo,
onde os carros param.
Carlos olha a moça entrar e lhe falar.
551
— Vou tomar um banho, se puder esperar conversamos,
senão passo em seu escritório.
— Espero.
Carlos olha a casa, térrea, em um terreno de mais de dois mil
metros quadrados, em meio a uma quadra simples na região
metropolitana, dava para as duas ruas, olha para o gramado bem
cuidado, para os muros altos de todos os lados.
Carlos sente seus pelos se arrepiarem e olha em volta.
— Calma Carlos, está impressionado com o lugar.
Carlos olha em volta, tenta achar algo que o impressionasse,
algo que tivesse falado, não tinha nada, parecia uma voz rouca, ele
olha para a casa e vê um ser translucido sair pela porta.
— Agradeço por minha filha.
— Quem é você, ou melhor, o que é você?
— Fui a mãe de Ketlen, hoje, um espirito de luz, um espectro
de vida, na física, um espirito de Luz nos campos da Energia.
— Ela parece triste, porque ela não sorri?
— Ela nasceu num mundo que não a entende, um mundo que
talvez as pessoas tivessem que sentir as coisas como ela sente, para
lhe ajudar.
— Sentir como ela sente?
— Ela quando entrou na delegacia, sabia que seria presa,
quando ela saiu, ela sabia que nem tudo seria fácil de explicar, mas
é que ela criou sobre o que ensinei para ela, uma cultura e religião
própria, quando morri a 8 meses, ela pareceu se perder mais.
— E parece para todos os amigos dela?
— Ela não tem amigos, ela raramente traz alguém a esta casa,
a casa que os vizinhos nem sabem quem mora nela, mas que os
rapazes da jardinagem mantem bonita, a diarista deixa limpo.
— E ela vem aqui raramente pelo jeito.
— Ela trabalha 8 horas, dorme 8 horas, 2 horas entre ir e vir
dos lugares, uma faculdade que tem faltado muito, ela não vive.
— Pensei que ela...

552
— Ela faz isto também, mas esta parte é rápida, estranho ela
ficar de pé 8 horas para vender roupas e ganhar um salario no mês,
ela dispender não mais de 2 horas com outra atividade, e ganhar
dois salários, por dia.
— E acha certo isto?
— Não, ela se desgasta muito com isto, ela perde
sensibilidade, ela se isola dos homens, as vezes sentindo nojo disto,
mas ela parece quer algo diferente.
— O que?
A senhora aponta uma peça, Carlos entra lá, existiam
esculturas, ele olha para uma, era a dele, tamanho real, ele gira na
estatua, olha para seu sapato, olha para a estatua, não era uma
estatua dele, era a estatua dele naquele momento.
Ele olha em volta, olha para as estatuas a frente e as costas
dele, mais de 50 estatuas, não tinha uma relacionada a outra, mas
tinha uma de uma senhora e 4 moças, com um senhor as costas,
aquele era Carlos Teixeira, ela sabia que algo aconteceria, sentir as
coisas, pois ali estava a criação da família de alguém, mas olhou
para a porta, pensando em ver o espirito, e viu a moça olhando-o.
— Como faz isto?
Ela olha a estatua, olha para Carlos e fala.
— Saber que vão cruzar com nossas vidas, é fácil, difícil é
saber quando, a ordem das coisas, mas não vejo o que vai
acontecer.
— E o que faz com isto?
— Presenteio pessoas.
— Presenteia?
Carlos viu ela chegar a estatua, passou por ela, pega um
carrinho de transporte de lojas, coloca ali a estatua dele, e a leva
para a parte interna, ela termina de dar detalhas, dai ele viu ela
mergulhar aquela resina que parecia usar para fazer as estatuas, em
uma espécie de gesso, se viu o objeto mergulhar ali deitado, depois
a maquina ficar vibrando, como se estivesse tirando as bolhas, dai
começa a endurecer, a moça olha para ele, não estava acostumada
a pedir ajuda, então iria deixar ele apenas olhando.
553
— Carlos, tem de ver que ninguém acredita no que faço, as
pessoas podem me tratar mal no emprego a partir de amanha, na
faculdade, estou em uma curva de vida de dois anos, uma curva que
tive uma declaração de renda que posso não ter nos próximos anos,
mas que pode me garantir o começo de uma vida.
— Vai sair disto?
— Eu não faria ponto na rua, quem deu meu endereço de
trabalho, foi quem me agenciava, e agenciar é crime no Brasil, e não
se prostituir, sei das leis, mas com certeza ela vai me afastar dos
clientes, eles raramente pedem para sair com alguém com
problemas com a policia, mas ela que me entregou, então deixo de
confiar nela.
— Tem uma estatua dela?
— Esta na frente da casa dela, no Jardim Social.
— Mas vai apenas sair?
— Pretendia ficar mais um ano, mas se fui tirada disto, vou
ter de me virar.
A moça pareceu jogar aquele bloco que vibrava em um forno,
e olhou para Carlos.
— Qual o custo de um processo, pois pelo jeito se nomeou
meu advogado, e processos assim, não sei como se cobra.
— Tenho de avaliar os custos, mas me afastei do meu
escritório, não pensei que a confusão fosse tão grande quando vi os
policiais.
— Seu patrão não quis que me defendesse?
— Ele não falou com estas palavras, mas mais ou menos isto,
não queria seu nome ligado a bruxaria.
— Sei que ele é cliente da agencia, mas a dona diz que ele é
pão duro, então não o conheço pessoalmente.
— Acha que sua agenciadora pediu para ele não interferir?
— Tem coisa que não entendi ainda, mas como nem sempre
as coisas acabam bem, não sei.
O forno apitou, ela puxou o bloco para fora, o sistema de
rolamentos dentro do forno facilitava muito isto.

554
Ela faz um furo em uma marca que ela deixara, vira o bloco e
Carlos olha um liquido sair de lá, ela olha para ele e fala.
— Deve estranhar alguém que conversa fazendo coisas
assim?
— Sim.
— Esta vai ser um presente, assim como a em frente, com a
família, mas dá para tirar uns 25 mil por estatua.
O rapaz viu ela puxar aquele bloco pela sala, bem no fundo,
parecia ter um forno ligado, e ela fala.
— O problema de manter este Hobby é os custos dele, um
forno destes se eu desligar ele racha todo.
Ela foi ao canto, ele viu ela pegar uma pá, e jogar em um
recipiente com a pá, uma quantia de um metal, ele não sabia que
era chumbo, dai ela pegou duas pás de níquel, uma de ferro e jogou
para dentro do forno aquela mistura.
Quando ela sentou-se ele ficou olhando para ela.
— Você pelo jeito faz força com os braços para pensar.
— Sim, ouvi falando com alguém, vai dizer que minha mãe
gostou de você?
— Me explique isto, nunca vi um espirito.
— E se falar que viu, vira maluco, e advogados malucos não
servem para nada.
Carlos sorriu e falou.
— Pelo jeito você tem mais de uma identidade, pois nas
poucas horas que ouvi falarem, me definiram com a moça calma
que atendia com presteza os clientes, a proprietária que não
interferia no que faziam sobre o térreo alugado, apenas uma
contratada, uma estudante aplicada que nunca ficava muito por
perto, e ninguém falou de uma artista plástica.
O visor do forno deu que havia derretido, Carlos a olha
levantar-se, coloca o bloco de gesso numa câmara a frente, olha
para uma espécie de vazo, parecia um material que aguentava altas
temperaturas, e se deposita através do buraco no bloco de gesso, a

555
moça põem uma espécie de espuma no buraco, e Carlos viu o
sistema começar a girar.
— Não deu seu preço ainda.
— Não sei, estou desempregado, o sistema fazia os preços,
acho que uma coisa é defender um culpado, tem seu preço, mas um
inocente não deveria pagar advogados.
— Inocentes ficariam lá, sabe disto Carlos.
Ela se levanta e vão a cozinha da casa, a moça coloca uma
agua para ferver e pergunta.
— Não tem clientes mesmo?
— Rogerio mandou-me para casa para esfriar a cabeça, não
esfriei a cabeça o suficiente para pedir desculpas por minhas ações
de ontem, talvez por não as achar erradas.
— Não existe o certo e o errado Carlos, uma interpretação
momentânea de vingança, onde a maioria das pessoa naquele
momento acham justo a vingança, geram a maioria das mortes,
outras acham que se andar a 90 quilômetros por hora em seu carro
dentro de uma cidade, nunca vai lhe acontecer algo, até um dia que
mata alguém ou se mata, eles sabem dos riscos, e por segundos de
vida, eles jogam a vida pela janela, um serial killer deve ser sempre
melhor estudado, eles tem algo no passado que despertou isto, a
maioria deles é a impunidade, gerando uma sensação de estar
acima da lei, eles não fazem para os demais verem, eles fazem para
sentirem-se acima dos demais.
— Daqui a pouco vai dizer que matou o senhor.
— Eu não mataria alguém que precisa pagar para fazer sexo,
as vezes a vida continua, o respeito por esposa, os fazem ainda
sentir vontade.
— Os tenta entender?
— Na maioria são homens carentes, mas tem os estúpidos,
que se não estão sozinhos, devem ficar sozinhos, mas quando se
seleciona por volume de dinheiro, poucos estúpidos ficam, eles não
tem dinheiro para jogar em suas estupides.
— Sabe que terá problemas com o cartão de credito, não sei
como vai resolver?
556
— Preciso apenas do endereço do senhor, que resolvo isto
Carlos, entregando algo que foi encomendado.
Carlos lembra da estatua e pergunta.
— Vai dar um estatua para se livrar do problema?
— Lá vai estar o valor total da mesma, se vão pagar o resto, é
problema de honestidade, não mais meu.
— E referente a moça que diz que lhe indicou?
— Ela tinha meu telefone, um endereço aproximado, nem
meu nome ela sabia, eles foram a loja para descobrir meu nome.
— Certo, mas se ela lhe contradizer.
— Como disse Carlos, vender meu corpo não é crime pela lei,
agenciar isto que é, acha que ela vai confessar oficialmente um
crime, agora que sabe que o senhor morreu do coração?
— A logica diz que não, e o que lhe preocupa?
— O porque está por perto ainda Carlos, isto que me
preocupa, não me leve a mal, mas foi apenas um serviço.
— Me mandando embora?
— Ainda não, mas daqui a pouco.
Carlos não entendeu, mas ela colocou um café para fazer,
olha para a porta e fala.
— Tem coisa que não tenho como falar Carlos, eu sei que
terei outro problema, mas não precisa estar por perto.
— Como sabe?
— Quando falei em me afastar, foi porque algo está
acontecendo, sei que mesmo Katherine querendo me afastar, tenho
meus clientes fieis, mas vou ter de não atender, mas coisas
estranhas aconteceram na ultima semana, e ainda não tenho a
imagem de quem foi.
— Como não tem?
— As vezes me vem imagens como o do rapaz no escritório
quase em frente, mas as vezes vem uma carta como resposta, e
tenho de entender como um iniciado.
— Uma carta?

557
Ketlen se levanta e pega uma quantidade de cartas estranhas
ao armário, e estiva todas elas sobre a mesa e fala.
— Quando pergunto quem está por trás dos acontecimentos
que acho estranho, sempre sai a mesma carta.
— Mas isto é impossível.
— Quer embaralhar?
Carlos olha as cartas e pergunta.
— Que cartas são estas?
— A representação dos 23 Demons.
Carlos as embaralha e estica para ela que pega uma sem
olhar, pela cor saberia, puxa a primeira e joga a mesa sem olhar e
fala.

558
— Demons Encruzilhada, tem prazer em ensinar e doutrinar,
por isto sempre está tirando dúvidas a todo aquele que lhe faça
perguntas, desde as perguntas mais insólitas como "porque há
estrelas..." até as mais comuns como "quero saber se meu marido
me engana..." Prefere beber uísque de boa qualidade e fumar
charutos grossos. Sua voz é rouca, grave e forte. Quando está
manifestado em algum médium, gosta também de azeitonas. Seu
olhar é insustentável e quando se fixa em alguém, parece que o
atravessa e sabe seus segredos mais íntimos. As pessoas que o
conhecem sentem certa autoridade nele e o respeitam. Apresenta-
se como um homem de idade avançada com chifres, ponta ao
corpo, de pele metade escura, metade cor de bronze, olhos
vermelhos, cor de brasa. Traz a metade do seu corpo (o lado
esquerdo) queimado, sendo que sua perna esquerda não funciona
bem, por isto é muito comum que se apoie em um bastão.
Representado por alguém que quando entra em sua vida, atrapalha,
é considerado um Demons quiumba ele não sabe distinguir o bem
do mal e trabalha para quem pagar mais. Não é confiável, pois se
for apanhado, é castigado pelas falanges do bem e volta-se contra
quem o mandou. Mas eles se ocultam em amigos, parentes, em
conhecidos e desconhecidos, lhe fazem mal e não distinguimos
quem é antes de sentir sua autoridade sobre nós.
Carlos olha no fundo da carta parte da definição que ela havia
falado e pergunta.
— E o que este ser é, porque ele está em sua historia?
— Não tenho a resposta, eu não tento fazer mal para alguém
mas sou alguém ligada ao Demons Pemba, das traições amorosas,
este Demons desperta possessão, as vezes temos de cuidar com o
que fazemos, mas pode ser que eu tenha despertado em alguém,
ou em alguém traída, esta posição, pode nem ser da minha cultura
religiosa, mas pode agir através de seres que tem nomes diferentes
em outras culturas, mas fazem a mesma coisas.
— Fala desses Demons como se fossem coisas do bem e do
mal, sempre vi esta palavra ligada ao mal.
— Quando vocês leem seus testos impõem um Deus bom,
mas esta noção é nossa, eles são o que precisam ser, esta coisas de
559
bom ou mal, é cultural, e não faz parte das entidades, nós querendo
transformar uma religião em coisa melhor que cultos antigos, que
dissemos o nosso é bom, mesmo quando deixa matarem milhares
de Judeus em campos de concentração, mesmo quando condena
uma cidade, pela ação de alguns, tudo é pelo bem, mata crianças
como sendo ratos e sou o Deus bom, vocês que as protegem, os
ruins, subjuga e mata todos os verdadeiros adoradores da Amaná, a
deusa local, a ponto de quase extinguir estes relatos, mas somos o
bom, não felizes em ganhar o dinheiro dos brancos, criam igrejas
para os negros, para recolher deles parte de seus vencimentos.
— Mas está dizendo que um Demons pode estar por trás de
problemas pessoais, e isto é bom?
— Carlos, alguém me invejar, não me faz mal, mas alguém
querer imperar sobre mim, sim, as vezes gostaria de não entender
as pessoas, mas como disse, o que a pessoa acha por certo é
cultural, esta pessoa pode achar correto se impor sobre uma
mulher, tem gente que acha certo.
— Mas não falava das pessoas.
— Entidades, como as entendo, pois Deus está bem distante
de tudo que tocamos ou somos, enquanto carne, refletem as
vontades do povo que lhe cerca, alguns os invocam sem sentir,
alguns os varrem para fora de suas vidas, e depois reclamam que as
coisas não vão nem a frente e nem para traz, mas as entidades,
refletem o povo, se ele é bom, bons, se eles são ruins, ruins, mas
como humanos, somos hora bons, hora ruins, e as entidades
refletem isto, elas não são nem boa e nem ruins, apenas estão por
ai como entidades, refletindo o que somos.
— E se identifica apenas com este Demons Pemba. – Carlos
estava com a carta a mão.
— Logico que não, somos sempre seres em mudança, e quem
não muda, fica louco.
Eles são interrompidos por um som ao fundo, a moça levanta-
se e olha para o bloco de gesso, olha para o rapaz e fala.
— As vezes eu crio coisas para não pensar no que o mundo é,
no que sei existir, as vezes apenas crio por não estar pronta para

560
falar de coisas mais intimas, meus nojos são coisas minhas, e não
pretendo dividir eles antes de estar pronta para isto.
— As vezes temos de conversar sobre o que sentimos, vi que
sabe o que quer, construiu algo para fazer o que gosta, e mesmo
assim, parece triste.
— Não sou triste, apenas aprendi a sorrir quando não preciso
sorrir, odeio quando me definem como uma moça feliz a cama, que
parece gostar do que faz, pois somente eu sei quanto as vezes é
nojento e estou ali.
Carlos viu ela pegar o mesmo carrinho de transporte, e
levantar a armação ao fundo, que girava junto com o bloco, pareceu
fazer mais força agora, e empurra em uma câmera que somente
quando entrou viu que haviam outras ali, ela deixa esta girando e
tira outra, Carlos ajudou ela a tirar, era bem pesada, ele estranha,
pois ela colocou ao centro da peça, e bateu no gesso e este se
desfez, em muitos pedaços, ela tirou os detalhes entre os braços e
olha para a escultura que sabia existir uma na sala ao lado, esta as
pessoas ainda estavam sorrindo, na outra, olhando pela porta se via
que o senhor estava mais triste, mais morto, mas a senhora que
nesta a frente estava triste, parecia mais alegre na que estava lá
fora.
— Vai sentindo as diferenças?
— Sim.
A moça corta um tubo que se formou num sentido, entendeu
que por ali que colocara o metal liquido, aquilo estava a uma
semana na câmera, ela sabia que iria precisar, isto que Carlos não
entendeu, e ela com uma lixadeira elétrica desprende da escultura
aquele tubo, ela olha para o buraco, pega um pedaço de metal do
mesmo tubo e solda ali, depois alisa o material.
Carlos viu ela passar um produto em toda a escultura, com
uma luva, e depois a lavou, aquilo deixou mais liso e limpo, dai ela
pegou um sistema de polimento e começa a polir toda a peça, uma
camada de verniz após fez a escultura brilhar e Carlos sorriu, a moça
sabia fazer algo que ele ignorava por onde começar.
— E vai entregar onde?

561
— Vamos.
Carlos estranhou, mas a moça foi a parte do fundo, pegou
uma armação de madeira, colocou no chão, ergueu a estatua até lá,
enrola a estatua com um plástico e coloca as laterais da madeira,
fechado uma caixa.
O rapaz viu ela ir a parte do fundo, puxar uma caretinha de
carro, prende no fundo do carro e depois levar a estatua para lá.
A moça mandou para a impressora uma nota de compra, ele
olha o valor, deveria ter feito alguns programas com o mesmo
senhor, pois era algo para não terem nem como indagar o preço.
Ela olha serio para Carlos e pergunta.
— Se vai ficar por ai, entra no carro que vamos com um
apenas agora.
— Se você improvisou, está me deixando assustado.
— Ainda não lhe fiz nada para ficar assustado Carlos.
Os dois saem de carro e param em um condomínio fechado
na região de Pinhais, o rapaz olha a caixa e não sabia o que era, mas
a nota estava ali, e foram a porta da senhora.
Ketlen olha a moça vir a porta, uma das filhas, ela gritou para
dentro.
— A moça está aqui mãe.
A senhora veio como se não acreditasse e falou.
— Veio se desculpar, ele morreu, sua galinha.
Carlos a viu sorrir e falar apenas.
— Vim apenas entregar o que ele encomendou, pena ele não
estar aqui para receber, mas ele pagou em 6 parcelas, a sétima
ainda iria pagar, mas como não vou cobrar um morto, apenas vim
entregar a encomenda.
A senhora olha para ela e fala.
— Não quero nada de você.
— Me ajuda aqui Carlos, ela pode não querer, mas o marido
dela encomendou isto.
Os dois com dificuldade escorrem para o chão a escultura,
Ketlen tira as duas laterais, a parte do alto e depois desenrola, a
562
moça a porta olha para a mãe, ela estava agressiva, mas aquilo não
era uma peça para se fazer do dia para a noite, a moça olha para
suas vestes, olha para Ketlen e pergunta.
— Ele iria por isto onde?
— Não sei, é uma escultura de 25 mil reais, dos quais quase
tudo está pago, não sou de não entregar moça, mas acho que todos
entenderam errado o que aconteceu.
A senhora se olha na escultura, os olhos dela estavam nos
dela, depois foram na do marido, ali estava a antiga realidade, não a
atual.
— Não vai explicar? – A senhora.
— Não sei para que era a estatua, ele falou em um grande
evento, mas não conheço seu marido tão a fundo, apenas as
imagens que ele me passou para fazer a estatua. – Ketlen esticou a
pasta com os prospectos e com a nota fiscal de compra.
— Mas uns senhores amigos de meu marido afirmam que a
senhora que agencia garotas de programa que apresentou vocês.
— Tenho uma estatua da senhora, a frente da casa dela no
Jardim Social, deve ter sido o que gerou o telefonema dele, mas se
olhar em seus cartões de credito, ele vem pagando isto aos poucos
a mais de 6 meses.
A senhora tinha olhado, ela estava jurando que a moça era
uma amante do senhor, mas se tinha com outras, não era culpa
dela.
— Agora temos de ir senhora, como falei na Delegacia, se
fosse a senhora processava os jornais por terem desmerecido seu
marido, ele estava comprando algo para eternizar a família, e
parece que a imprensa usou para outra coisa.
A moça coloca as laterais da caixa que abrira na caretinha,
fecha ela e faz sinal para Carlos entrar, os dois saem dali, deixando a
senhora a olhar a estatua.
Uma das filhas saiu somente nesta hora e fala.
— Que agito foi este mãe?
Ela para na estatua, olha as irmãs, olha para as vestes e olha
para a mãe.
563
— Quem fez esta estatua, não estou tão gorda assim.
A senhora olha as filhas e fala.
— Chama o motorista, pede para ele e o Ruy colocarem na
sala para a gente, vou ter de pensar filha.
— Mas...
A senhora pega a nota, em nome da moça, ali não dizia ser
uma