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Identidade profissional do enfermeiro

Inicialmente, a fim de entendermos todos os assuntos concernentes ao tema


proposto, precisamos, lexicamente, definir o que é a identidade profissional, ou seja,
responder à pergunta: o que é identidade profissional do enfermeiro? Para
BELLAGUARDA et al. (2011), identidade diz respeito ao resultado a um só tempo
estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e objetivo, biográfico e estrutural,
dos diversos processos de socialização que, conjuntamente, constroem os indivíduos
e definem as instituições. Ou seja, a identidade é algo daquele tempo considerado,
naquele contexto social, construído historicamente e dotado de características de
como o indivíduo se enxerga dentro desse contexto e de como o ambiente e/ou a
coletividade de pessoas que o cerca o define (autoimagem e heteroimagem,
respectivamente). Uma característica memorável da identidade é sua complacência ou
mutabilidade quando consideramos o contexto social e o tempo, ou seja, a visão que o
indivíduo e a coletividade possuem é provisória. Esse conceito pode ser atrelado
também ao indivíduo na incumbência de determinada atividade profissional.
Denomina-se identidade profissional. Identidade profissional, segundo
BELLAGUARDA et al. (2011):
[...] reveste o meio individual de atributos e
características que delineiam coletivamente, a
partir do reconhecimento social que lhe que lhe é
atribuído, do domínio de conhecimentos
específicos que lhe é particular e do
credencialismo de sua atividade, capacitando-o
para autonomia profissional
Munidos dessas informações podemos analisar concretamente o que perpassa
a identidade profissional do enfermeiro. Uma análise feita em 2004 de 22 artigos
brasileiros ressalta que a constituição dessas identidades relacionadas à Enfermagem
e ao enfermeiro estão bem próximas, significando em uniformidade dessas (PORTO,
2004). Ou seja, podemos categorizar a identidade profissional do enfermeiro sempre
de maneira uniforme, quase cristalizando o que significa Enfermagem e ser
enfermeiro. Segundo BECK et al. (2009), a Enfermagem se caracteriza
predominantemente por mulheres, onde elas e o ambiente definem o que é enfermeiro
como sendo útil e necessário, resolutivo, cuidador, ser referência na unidade, visão
inespecífica do enfermeiro, pouco reconhecimento por outros profissionais, falta de
condições para realizar um bom trabalho e reconhecimento da comunidade. Contudo,
essa uniformidade se apresenta quase como uma realidade imutável, cristalizada,
consoante à fala de PORTO, que inclusive propõe como medida enxergarmos uma
realidade utópica a fim de percebemos a Enfermagem e as pessoas que o exercem da
maneira como deveria ser, pois, tomando a definição de identidade profissional de
BELLAGUARDA, o enfermeiro não teria identidade profissional alguma, pois não
possui autonomia profissional, o reconhecimento social por vezes é dificultado, pois
enfermeiros realizam atividades que estão ou podem estar aquém da sua realidade
como enfermeiro, atividades que podem ser de outros profissionais etc. Além disso,
esquecemos de importantes identidades que estão atreladas ao enfermeiro, como o
papel de educador em saúde, fundamental à atenção básica no Sistema Único de
Saúde. Isso pode ser explicado pelo que diz MORAES (2004):
[...] a atuação de um profissional
Enfermeiro não parece convergir a aspectos
educativos; aparenta estar ligado exclusivamente
aos processos de assistência e gerenciamento em
saúde.
Ou seja, o enfermeiro e a coletividade veem a Enfermagem e o enfermeiro
somente atrelados ao meio clínico ou assistencial e não como um educador. Além
disso, como bem aponta BELLAGUARDA, a metodologia de diversos estudos não é
apresentada, comprometendo a qualidade do estudo, além de alguns textos
implementarem uma visão interdisciplinar com diversos profissionais não enfermeiros.
Todavia, nenhum dos estudos apresentaram profissionais psicólogos, o que seria de
grande soma dentro da compreensão dessa complexidade que se é a identidade
profissional de enfermagem.
Sendo assim, nossa realidade é desconexa daquela que desejamos como
enfermeiros e não somos capazes de delimitar exatamente o que é ser enfermeiro,
tampouco a coletividade. Precisamos tracejar nosso caminho frente a uma realidade
utópica, aquela que desejamos, nunca na esperança de alcançá-la, mas sempre,
analogicamente como Sócrates dizia a respeito da busca à verdade, na esperança de
chegarmos cada vez mais perto.

REFERÊNCIAS
MORAES, Carlos Alberto Martinez de et al. Enfermeiro educador, enfermeiro professor:
formação e práticas educativas. 2004.

DE SOUZA, Padilha Maria Itayra Coelho et al. Imagem e identidade profissional na construção
do conhecimento em enfermagem. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 10, n. 4, p.
586-595, 2002.

PORTO, Isaura Setenta. Identidade da enfermagem e identidade profissional da enfermeira:


tendências encontradas em produções científicas desenvolvidas no Brasil. Escola Anna Nery
Revista de Enfermagem, v. 8, n. 1, p. 92-100, 2004.

DOS REIS BELLAGUARDA, Maria Lígia et al. Identidade da profissional enfermeira


caracterizada numa revisão integrativa. Enfermagem em Foco, v. 2, n. 3, p. 180-183, 2011.

RESENDE, Rui et al. Identidade profissional docente: Influência do conhecimento profissional.


Formação inicial de professores: reflexão e investigação da prática profissional. Porto,
Portugal: Editora FADEUP, p. 145-164, 2014.

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