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Introdução às Teorias

do Discurso

Wilton James Bernardo dos Santos

São Cristóvão/SE
2009
Introdução às Teorias do Discurso
Elaboração de Conteúdo
Wilton James Bernardo dos Santos

Projeto Gráfico e Capa


Hermeson Alves de Menezes

Diagramação
Neverton Correia da Silva

Ilustração
Gerri Sherlock Araújo

Reimpressão

Copyright © 2009, Universidade Federal de Sergipe / CESAD.


Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e grava-
da por qualquer meio eletrônico, mecânico, por fotocópia e outros, sem a
prévia autorização por escrito da UFS.

FICHA CATALOGRÁFICA PRODUZIDA PELA BIBLIOTECA CENTRAL


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

Santos, Wilton James Bernardo dos


S237i Introdução às Teorias do Discurso / Wilton James
Bernardo dos Santos -- São Cristóvão: Universidade Federal
de Sergipe, CESAD, 2009.

1. Teoria do discurso . I. Título.

CDU 808.5
3UHVLGHQWHGD5HS~EOLFD Chefe de Gabinete
/XL],QiFLR/XODGD6LOYD Ednalva Freire Caetano

0LQLVWURGD(GXFDomR Coordenador Geral da UAB/UFS


Fernando Haddad Diretor do CESAD
$QW{QLR3RQFLDQR%H]HUUD
6HFUHWiULRGH(GXFDomRD'LVWkQFLD
Carlos Eduardo Bielschowsky Vice-coordenador da UAB/UFS
Vice-diretor do CESAD
Reitor )iELR$OYHVGRV6DQWRV
-RVXp0RGHVWRGRV3DVVRV6XEULQKR

Vice-Reitor
Angelo Roberto Antoniolli

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1~FOHRGH6HUYLoRV*Ui¿FRVH$XGLRYLVXDLV
Diretoria Administrativa e Financeira Giselda Barros
(GpO]LR$OYHV&RVWD-~QLRU (Diretor)
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0DUFHOGD&RQFHLomR6RX]D
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Djalma Andrade (Coordenadora) $VVHVVRULDGH&RPXQLFDomR
Guilherme Borba Gouy
1~FOHRGH)RUPDomR&RQWLQXDGD
Rosemeire Marcedo Costa (Coordenadora)

Coordenadores de Curso Coordenadores de Tutoria


Denis Menezes (/HWUDV3RUWXJXrV (GYDQGRV6DQWRV6RXVD )tVLFD
(GXDUGR)DULDV $GPLQLVWUDomR *HUDOGR)HUUHLUD6RX]D-~QLRU 0DWHPiWLFD
+DUROGR'RUHD 4XtPLFD -DQDtQD&RXYR70GH$JXLDU $GPLQLVWUDomR
+DVVDQ6KHUDIDW 0DWHPiWLFD 3ULVFLOODGD6LOYD*yHV +LVWyULD
+pOLR0DULR$UD~MR *HRJUD¿D 5DIDHOGH-HVXV6DQWDQD 4XtPLFD
/RXULYDO6DQWDQD +LVWyULD 5RQLOVH3HUHLUDGH$TXLQR7RUUHV *HRJUD¿D
0DUFHOR0DFHGR )tVLFD 7UtFLD&3GH6DQW¶DQD &LrQFLDV%LROyJLFDV
6LOPDUD3DQWDOHmR &LrQFLDV%LROyJLFDV 9DQHVVD6DQWRV*yHV /HWUDV3RUWXJXrV

1Ò&/(2'(0$7(5,$/','È7,&2

Hermeson Menezes (Coordenador) Lucas Barros Oliveira


Edvar Freire Caetano Neverton Correia da Silva
Isabela Pinheiro Ewerton Nycolas Menezes Melo

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE


&LGDGH8QLYHUVLWiULD3URI³-RVp$ORtVLRGH&DPSRV´
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&(36mR&ULVWyYmR6(
Fone(79) 2105 - 6600 - Fax(79) 2105- 6474
Sumário
AULA 1
Discurso e Língua Estruturalismo I Estação Ferdinand de Saussure......9

AULA 2
Discurso e comunicação Estruturalismo II Estação Roman Jakobson....15

AULA 3
Discurso e Pragmática I, O sentido e o mundo, Referência e
situação de comunicação, Estação Benveniste / Ducrot / Frege ........25

AULA 4
Discurso e Pragmática II Intenção reconhecível e manobras
estilísticas Estação Grice / Oswald Ducrot........................................35

AULA 5
Gêneros do Discurso atividade humana e dialogismo na
interação verbal Estação Mikhail Bakhtin.........................................43

AULA 6
Condições históricas estrutura ou acontecimento Estação
Althusser - Foucault - Pêcheux........................................................53

AULA 7
Ideologia......... ..................................................................................... 61

AULA 8
A análise de discurso à francesa: interdiscurso e
formação discursivaestação Michel Pêcheux...................................69

AULA 9
Discurso E História: o sujeito Estação Análises...............................81

AULA 10
Discurso e Texto..........................................................................93
APRESENTAÇÃO

Caro (a) aluno (a), o curso que agora iniciamos é para estu-
darmos questões teóricas relacionadas ao discurso como prática
social. Para tanto, será necessário reconhecermos diferentes con-
cepções de língua e de linguagem, mas, sobretudo, de sentido. Sen-
do assim, nada mais adequado do que buscarmos na história dos
estudos da linguagem a construção de diferentes modos de tra-
tar os sentidos. Tomar esse ponto de partida histórico não quer di-
zer ir a um tempo remoto, distante de nosso dia-a-dia, principal-
mente, se pensarmos o cotidiano escolar. Devemos recorrer a dici-
onários gerais e especializados, recorrer a livros de introdução ao
assunto com as seguintes perguntas: o que é discurso? Como, por-
que e para que se estuda?
Por exemplo, quando no ensino fundamental, ao final de uma
leitura, a professora de língua portuguesa solicita que os alunos cir-
culem os dígrafos, os hiatos, etc. estamos diante de certo modo de
estudar a língua, portanto de conceber a língua, bastante arraigado
entre nós. E, se em seguida, ela pergunta: “o que o texto quis di-
zer?” e os alunos apresentam suas respostas redizendo o que o au-
tor disse, estamos diante de uma concepção histórica de sentido.
Mas, felizmente, há outros modos de estabelecermos relações com
a língua e com os sentidos.
É bem verdade que em um curso introdutório como esse, ire-
mos minimamente à história dos estudos da linguagem para dela
trazer o que fundamentalmente precisamos compreender: diferen-
tes bases teóricas para explicar e descrever um objeto específico:
o discurso. E, portanto, a relação entre teoria e objeto de estudos é
decisiva. Sendo assim, cara (o) aluna (o), faço o convite para que
pensemos essa relação de modo bem objetivo. Estudemos as teori-
as como instrumentos capazes de nos fazer ver, ou melhor, com-
preender o discurso implicado nas práticas sociais. Tal como um
microscópio torna possível a um químico observar moléculas e cé-
lulas, sem exagerar na comparação, as teorias nos ajudam a com-
preender nesse nosso percurso as noções de sujeito, ideologia e
formação discursiva.
Disse para não exagerar na comparação porque, na verdade, os
discursos não são abstratos, microscópicos como células, ou invisí-
veis. Ao contrário, eles são concretos, materiais. O problema é que
quando vamos estudar algo com a finalidade de compreender esse
algo, o distanciamento é condição indispensável. Isto é, deve haver
uma separação entre o estudioso e aquilo que ele estuda. E é esse
distanciamento que torna possível a análise de discurso. Então,
apesar de o discurso ser algo material, ele está tão profundamente
em nós, enquanto indivíduos e sujeitos sociais, que encontrar for-
mas para nos colocarmos na posição de estudiosos dessa matéria,
muitas vezes acaba sendo um problema. Salvo engano histórico,
basta lembrar que não somos capazes de compreender a nós própri-
os, precisamos de psicólogos, psicanalistas, ou seja, precisamos ser
objeto de analistas.
Como vemos, nosso percurso inclui história dos estudos da
linguagem, bases teóricas e análise de discurso. Para tanto, dividi-
mos as dez aulas em duas unidades. A Primeira Unidade explora as
relações entre estruturalismo e discurso (aulas 1 e 2); as bases teó-
ricas da abordagem pragmática do discurso (aulas 3 e 4) e a aula 5
que apresenta a noção de gêneros do discurso introduzida por Mikhail
Bakhtin. Recuperando a concepção social e histórica do sujeito, a
Segunda Unidade traz as noções de condições de produção do dis-
curso e ideologia (aulas 6 e 7) fundamentais para vasta região de
trabalhos. A aula 8 é dedicada a apresentar um esboço da Análise
de Discurso à francesa (AD) através das noções de interdiscurso e
formação discursiva. Por fim, procuramos especificar o trabalho
teórico para a compreensão do sujeito na relação discurso-história
através da análise de enunciados (aula 9) e a relação discurso-texto
na aula 10.

Ao trabalho!

Prof. Dr. Wilton James Bernardo-Santos


CESAD/DLE/UFS
Aula
DISCURSO E LÍNGUA
ESTRUTURALISMO I
ESTAÇÃO FERDINAND DE
SAUSSURE

META
Apresentar as exclusões saussurianas, na dicotomia língua/fala, que motivaram
as principais críticas à Linguística, acusada pelos estudiosos do discurso de
mutilar seu objeto (a Língua), ao deixar de fora dos seus trabalhos a
subjetividade constituída pelas relações sociais e a história.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
compreender o que essas exclusões de Saussure representaram para o
desenvolvimento dos estudos do discurso, mais precisamente o movimento
fundador da Análise do Discurso Francesa.

PRÉ-REQUISITOS
Conhecimento de
conceitos básicos da
Linguística saussuriana.

Fragmentos de Première conférences à l’Université (1891), um dos manuscritos de


Ferdinand de Saussure que se encontram na Biblioteca Pública de Genève. Segun-
do Eliane Silveira (Doutora em lingüística pela Unicamp), no manuscrito de 1891
está patente a preocupação de Saussure em separar o objeto da lingüística dos
acontecimentos da vida humana. O genebrino reconhece que a língua está mistu-
rada à vida das pessoas, mas que, por outro lado, há a vida da própria linguagem. A
história é considerada uma das “exclusões saussureanas” ao objeto da Lingüística.
(Fonte: http://www.gel.org.br/estudoslinguisticos/edicoesanteriores/4publica-
estudos-2004/4publica-estudos2004-pdfs-comunics/revisitando_chamadas.pdf)
Introdução às Teorias do Discurso

INTRODUÇÃO

Cara (o) aluna (o) que percorre agora os trilhos iniciais das teorias do
Discurso seja bem-vinda (o)! Uma questão que se impõe a quem se pro-
põe a estudar um problema é a definição dos limites da coisa a ser estuda-
da. Por exemplo, se há uma uma preocupação com o funcionamento do
transporte público coletivo em uma dada cidade, tem-se no transporte a
unidade objeto de estudos. Apesar de uma aparente unidade (que distin-
gue esse objeto de outros como moradia, educação, por exemplo), para
estudar o transporte é preciso se dedicar a muitas questões nele envolvi-
das: diferentes tipos como ônibus, trem, metrô, embarcações, diferentes
malhas rodo-ferro-hidroviárias etc. Um estudioso do transporte urbano
precisa voltar sua atenção para questões econômicas, para o estilo de
vida da população, para as rotinas sociais: os horários das atividades dos
cidadãos, as distâncias percorridas etc. Precisa con-
siderar como era, como é e como será a vida na
cidade. Assim, o transporte é uma só coisa, mas
envolve muitas variáveis.
Apesar disso, o estudioso deve limitar o tra-
balho em cada variável indo até a fronteira onde
ela perde contato com a unidade em questão. Por
exemplo, em que medida a beleza de um ônibus
deve ser considerada, quando o objeto que inte-
ressa é o transporte? E suas cores, suas inscrições
em palavras e números como parte de um sistema
de identificacões? Ele deve ser discreto, sóbrio ou
chamativo e despojado? Como se vê, não é fácil,
por isso é preciso dedicação, esforço.
Em resumo, para estudar um problema, é fun-
damental contar com o acúmulo de estudos pro-
duzidos ao longo dos anos. Essas contribuições
Edição brasileira do Curso de lingüística geral
vão tornando possíveis compreensões mais deta-
(à esq.) e Ferdinand Saussure (à dir.). lhadas sobre a unidade a ser estudada. É com essa
(Fonte: 1-http://www.ciadoslivros.com.br/ mentalidade que faremos um percurso a partir dos
capas/029/8531601029.jpg;
2 - w w w. j o r w i k i . u s p . b r / g d m a t 0 8 / trabalhos desenvolvidos pela AD naquilo que in-
i n d e x . p h p / teressa para a compreensão do nosso problema: o
Ling%C3%BC%C3%ADstica_estrutural.) discurso.

10
Discurso e Língua Estruturalismo I Estação Ferdinand de Saussure
Aula

A FORMAÇÃO DA ÁREA: O CORTE SAUSSUREANO 1


Para compreender teorias do discurso é preciso considerar, antes, que
elas surgiram, como todas as outras, a partir de embates, combates, no-
vos olhares, enfim, de críticas a caminhos já trilhados por outros. Desse
modo, a Análise de Discurso (AD), por exemplo, que estudaremos mais
adiante, fundada por Michel Pêcheux, se mostrou bastante crítica do es-
truturalismo, sobretudo, o trabalho de F. Saussure (ver referências), que
você já deve conhecer.
Ao problematizar a semântica (responsável pelo estudo linguístico
da produção de sentidos), Pêcheux (1998) expõe as contradições de uma
ciência que, afetada pela filosofia da linguagem e pela lógica, se mostrava
incapaz de dar conta dos processos discursivos, mais especificamente,
dos efeitos das lutas de classes sociais na produção dos sentidos. É preci-
so explicar aqui que o primeiro objeto de análise da AD foi o discurso
político, o que implicava, para seu fundador, uma necessidade de refletir
não somente sobre a língua, a ciência, mas também sobre política, ideolo-
gia, Estado, condições de produção. A AD “acusou” a linguística de fa-
bricar um objeto do conhecimento (a Língua enquanto sistema linguístico)
para a ciência em prejuízo de um objeto real (a fala): estamos falando a
respeito do chamado “corte saussuriano”. Isto é, ao eleger a língua en-
quanto código verbal para seus estudos, Saussure exclui de seu objeto de
interesse o sujeito, o mundo e a história.

RECONHECENDO UMA ABORDAGEM


ESTRUTURALISTA

Imagine que, ao sentar-se para trabalhar, o mestre genebrino pôs


diante de si o sistema de signos linguísticos, desconsiderando toda e
qualquer exterioridade. Para ele, interessa a relação entre signos. Cada
signo linguístico é um valor na medida em que pode ser substituído por
outro com o acordo de todos nós falantes pertencentes a uma comunida-
de linguística.

Um exemplo

Para que possamos reconhecer essa abordagem estruturalista, veja-


mos dois efeitos do gesto saussuriano em um exemplo comum nos nos-
sos exercícios escolares:

“Dê o significado da palavra grifada na frase abaixo:


- O suspeito embarcou no voo das 9:00.”

11
Introdução às Teorias do Discurso

SISTEMA LINGUÍSTICO E COMUNIDADE


DE FALANTES

Ora, um primeiro efeito vem do fato de o exercício direcionar os


sentidos e com eles as atenções dos leitores (professores e alunos) para o
sistema lingüístico. O exercício que pensemos a respeito da possibilidade
de substituição da “palavra grifada”. Quer que pensemos em “viajou”,
“fugiu”, “foi embora”, etc., ou seja, o significado é aquilo que “pode ser
dado” (dê o significado) porque está depositado como produto social ho-
mogêneo na mente de cada falante como regras gerais da língua. Por esse
motivo a comunidade não aceita por exemplo que eu diga: “O suspeito
flores no voo das 9:00”.

Observando a clássica dicotomia: língua/fala, constatamos que a bar-


ra, o símbolo (/), entre os nomes significa justamente a separação entre o
objeto de estudos, a língua enquanto sistema lingüístico e o que ele deixou
de fora de seu interesse, a fala. É claro que a existência desse seu objeto de
trabalho, o código verbal, só é possível porque as línguas existem nos falan-
tes, vivendo em sociedade e fazendo história. F. Saussure, no entanto, limi-
ta essa existência à condição geral de coletividade, quer dizer, o falante é
excluído, sua presença só é permitida na abstrata categoria de Homem.
Assim, o indivíduo, as pessoas, os falantes, bem como as coisas, as
circunstâncias e as situações não entraram na bancada de trabalho de
Saussure. Também foram barradas a sociedade e a história.

UMA META-LÍNGUA PARA A LÍNGUA

Um segundo efeito que muito nos ajuda a compreender uma aborda-


gem estruturalista é o modo de tratar a língua nos limites de uma
metalinguagem. Se na sequência do exercício escolar visto acima, temos,
por exemplo:

“Classifique morfologicamente a palavra grifada”

O exercício direciona as atenções de professores e alunos para fazer


um percurso previamente estabelecido pelo instrumento metalingüístico
por excelência: a gramática. O exercício quer que pensemos em verbo,
adjetivo, advérbio etc. Nesse caso, não estamos pensando a respeito da
língua propriamente dita, mas a respeito de uma língua sobre a língua, ou
seja, uma meta-língua. A metalinguagem é instrumento de trabalho da-
queles que se dedicam ao estudo das relações entre língua, linguagem e
discurso. Mas se o trabalho se mantém nos limites dessa outra língua,
como em grande parte tem se mantido o ensino da língua portuguesa, não

12
Discurso e Língua Estruturalismo I Estação Ferdinand de Saussure
Aula

há avanço. O “embarcou”, a língua em estudo, é apenas colocado em um


lugar da meta-língua, a “gaveta” dos verbos. Se o estudo é mantido nesse
1
limite, convenhamos, não estamos estudando a língua. O trabalho é resu-
mido a um treinamento de identificação das classes gramaticais.

Outro exemplo

A discussão histórica a respeito do que devemos levar ao Ensino


Básico na aula de língua portuguesa colocou o ensino da língua através da
gramática da frase em confronto com o ensino através de textos. Mas,
veja bem, a questão não é apenas de troca de objeto, tirar a frase e colocar
o texto, a questão é mesmo teórica e interessa muito ao estudioso do
discurso. De nada vale, mudar o objeto e manter a abordagem estrutura-
lista. Se em uma dada situação de ensino, um texto é apresentado e pede-
se que nele sejam grifados os dígrafos, os substantivos abstratos ou os
tipos de predicado, convenhamos, o texto está sendo usado como um
pretexto para irmos às classificações gramaticais, ou seja, nos mantemos
nos limites da meta-língua, no treinamento de identificação.

CONCLUSÃO

Para aquele que vai estudar o discurso, ou o funcionamento de suas


teorias, é fundamental compreender que o código verbal não é o limite do
trabalho e que classificar a língua acaba por impedir o estudo efetivo do
discurso enquanto prática social específica.

RESUMO

Procuramos mostrar que o debate e a oposição a certos princípios


estruturalistas (o corte saussureano) levaram a formação de áreas de es-
tudo interessadas nas relações humanas, sociais e históricas na língua e
nas representações, a linguagem. Procuramos apresentar clássicas abor-
dagens não discursivas: a) se o estudo se restringe ao que é permitido
pelas relações do código verbal, não há avanço, pois são excluídas as
relações humanas efetivas; b) se o estudo se restringe a identificar tipos e
categorias gramaticais, não estamos estudando a língua, mas uma meta-
língua; c) se o estudo muda aparentemente: de objeto, da frase para o
texto, por exemplo, mas não muda a concepção teórica, ou seja, a aborda-
gem, no fundo não há mudança.

13
Introdução às Teorias do Discurso

ATIVIDADES

Procure observar como essa abordagem estruturalista, ainda que de


forma não declarada, e muitas vezes inconsciente, de diferentes modos,
aparece nos livros didáticos, sobretudo, os do ensino médio, mesmo os
que já operam a partir dos gêneros discursivos (ver, por exemplo,
SARMENTO, L. L, Oficina de redação, São Paulo, 2006) onde o discurso
aparece como “atividade comunicativa entre interlocutores que apresen-
ta sentido e está inserida em determinado contexto”, mas o modo de
Subjetividade. Do- tratar essa atividade leva alunos e professores à clássica tipologia: o dis-
mínio do que é curso direto, o indireto e o indireto livre. Observe os livros didáticos com
subjetivo, ou seja,
relativo a sujeito,
os quais você mesmo estudou.
existente no sujei-
to, individual, par-
ticular. REFERÊNCIAS

DUCROT & TODOROV, T. Dicionário enciclopédico das ciências


da linguagem. São Paulo, SP, Editora Perspectiva, 1998.
SAUSSURE, F. Curso de lingüística geral. São Paulo, SP, Cultrix, s/d.
ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 2.
ed. Campinas: Pontes, 2000.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do ób-
vio. Trad. Eni P. Orlandi et all. Campinas: Editora da UNICAMP, (Cole-
ção Repertórios) 1998.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ferdinand_de_Saussure

14
Aula
DISCURSO E COMUNICAÇÃO
ESTRUTURALISMO II
ESTAÇÃO ROMAN JAKOBSON

META
Apresentar o modelo comunicativista, que inclui, além do código verbal centro
do estruturalismo saussuriano, visto na aula anterior, os chamados fatores de
comunicação: emissor, receptor, mensagem, referente, canal.

OBJETIVOS
Ao final da aula, o aluno deverá:
compreender a abordagem comunicativista dos estudos linguísticos que,
diferentemente dos estudos do discurso, tem o sentido como transparente/
informacional.

PRÉ-REQUISITOS
Conhecimentos básicos, adquiridos
ainda no ensino médio, sobre as
relações entre elementos da
comunicação e as funções da
linguagem.

A abordagem comunicativo-funcionalista entendia a comunicação


(linguagem??) quase como um “circuito fechado perfeito”,
desconsiderando a influência das relações sociais.
(Fonte: http://3.bp.blogspot.com)
Introdução às Teorias do Discurso

INTRODUÇÃO

Cara (o) Aluna (o), na aula passada, falamos sobre o código verbal, a
língua, como a escolha do modelo saussuriano. Os trabalhos orientados
pelo modelo comunicativista incluem outros elementos além do código
verbal, os chamados fatores da comunicação: o emissor, a mensagem e o
receptor. Incluem também o referente (o contexto, a situação de comunica-
ção), o canal de comunicação (a voz, a escrita em livro, em revista, jornal
ou manuscrito etc), o código: verbal ou não-verbal. Como vimos, em rela-
ção a Saussure, há uma considerável ampliação do objeto de estudos, mas
junto a esse modelo vem um modo funcionalista para tratá-lo.
Do comunicativismo é importante compreender dois pontos teóricos tra-
zidos a todos nós, escolarizados, como instrumentos de trabalho, mas que se
transformam em duas limitações para a análise. Detalhemos esses limites.

Vários livros didáticos adotam a perspectiva comunicativista


na análise da comunicação humana. A imagem acima foi
extraída do livro Português: linguagens – literatura, gramática e
redação, de William Roberto Cereja e Thereza Analia Cochar
Magalhães (Editora Atual, 1994).

16
Discurso e comunicação Estruturalismo II Estação Roman Jakobson Aula

RECONHECENDO UMA ABORDAGEM


COMUNICATIVO-FUNCIONALISTA
2
OS EXERCÍCIOS DE IDENTIFICAÇÃO

Um primeiro limite para a análise é definido pelos exercícios de iden-


tificação de “tipos”. Isto é, apresenta-se um texto e a questão é saber:
qual a função da linguagem nele preponderante?
É Jakobson (1971) que constrói um quadro de relações entre as fun-
ções da linguagem e cada um dos fatores da comunicação. Para ele, é a
ênfase em um fator específico que determina a função da linguagem:

Fator da comunicação Funções da linguagem

Referente———————— referencial
(contexto)
A função referencial da linguagem é centrada no referente, ou seja, a
linguagem remete a uma realidade, um contexto, uma situação de co-
municação, mas também, ao próprio texto.

Emissor ———————— emotiva


A função emotiva ou expressiva é centrada em quem emite a mensa-
gem, isto é, no próprio emissor.

Receptor ———————— conativa


A função conativa está centrada no receptor. Quer dizer a preocu-
pação da mensagem se volta fortemente para aquele que recebe a
mensagem.

Canal ———————— fática


A função fática está centrada no contato comunicativo. O estudo dessa
função é dedicado aos dados e fatos que mantêm ou rompem a comu-
nicação; o estudo dessa função revela nossa necessidade de comuni-
car. Por exemplo, falar por falar em um elevador: - Será que chove?!-
É ... Tá quente! Não se pretende perguntar ou responder, mas manter
ou romper a comunicação. A comunicação ou impedimento dela é
que dirige a relação para o canal.

17
Introdução às Teorias do Discurso

Mensagem ———————— poética


A função poética é centrada na mensagem. É o trabalho com a mensa-
gem, seus signos, sua forma, sua estrutura que constituem seu (s) sen-
tido (s). Basicamente, entram em jogo os significados e os significantes.

Código ———————— metalingüística


A função metalingüística é centrada no código. São os elementos que
servem para explicar o código. É linguagem voltada para a própria
linguagem. Nesse caso, os instrumentos lingüísticos, gramática e dici-
onário, são metalingüísticos por excelência.

É claro que todas essas relações, quando tratadas de modo específi-


co, são extremamente relevantes, mas o fato de o percurso da abordagem
se limitar aos tipos de função, ou seja, a uma atividade de reconhecimen-
to, de identificação, isso acaba por transformar o estudo em treinamento.
Ou seja, reencontramos o problema da metalíngua. Inseparável desse pro-
blema, um outro se verifica já na apresentação do esquema. O modelo
considera que o que se diz coincide, ou deve coincidir, com aquilo que se
quer dizer e o que ouvimos está sempre nessa mesma ordem de relação
transparente. Dessa forma, o modo funcionalista de compreender esse
modelo, como um circuito fechado perfeito, minimiza e exclui a comple-
xidade das relações humanas. O problema “é o de pressupor que a lingua-
gem humana possui a estrutura de um código e que há sempre mensagens
preestabelecidas a codificar de modo perfeitamente definido a priori”
(AUROUX, 1998, p. 41).

Além desse seu Filosofia da linguagem, particularmente, em que a crítica


ao modelo comunicativista aparece no Cap. 1, A linguagem Humana,
o filósofo Sylvain Auroux tem importantes trabalhos nessa área de
interesse. Seu livro fundamental para diversos estudos é A Revolução
tecnológica da gramatização, 1992. O autor coloca em destaque o
aparecimento da escrita como condição para a reflexão sobre a
linguagem. Os instrumentos linguísticos – gramática e dicionário –
são bases empíricas para a dominação do Ocidente em relação a
outras culturas.

ATIVIDADES

Selecione livros didáticos em que aparece o esquema da comunica-


ção (tradicionalmente nos manuais da 8ª série e, principalmente, nos do
1º ano do Ensino Médio), observe como ele é apresentado, sua finalida-
de, utilidade etc. (ver, por exemplo, NICOLA, 1999).

18
Discurso e comunicação Estruturalismo II Estação Roman Jakobson Aula

NOTINHA HISTÓRICA 2
Lembremos que o modelo passou a ocupar muito espaço no ensino
da língua portuguesa. E isso se deu em sentido tão forte que chegamos à
substituição do nome da disciplina nos livros didáticos: Língua Portugue-
sa por Comunicação e Expressão. Até o início desta década, o ensino (de
leitura e de produção de textos) incorporou ao lado do esquema a discus-
são sobre novas tecnologias e comunicação. É importante notar que a
abordagem comunicativista nos materiais didáticos leva a discussão para
o “papel” dos meios, tendo em vista o aparecimento da microeletrônica,
da informática e da Internet, do computador e da telefonia celular em
nossas vidas.
Não é difícil observar que livros didáticos, provas de vestibulares
etc. trazem uma crítica às “novas tecnologias”, uma crítica ao artificialismo
nas relações humanas causado pela presença desses novos meios entre
nós. Mas essa direção parece fortalecer a função dos meios em detrimen-
to das relações específicas entre língua e linguagem. Ou seja, a apropria-
ção que o ensino faz do modelo acaba limitando o trabalho teórico neces-
sário para a compreensão do discurso. Mais recentemente, as propostas
dos PCN (1997) ganharam terreno nos materiais de ensino, de tal modo
que estamos vivendo o reinado das teorias bakhtinianas. Vejamos outro
problema do modelo comunicativista.

O “RUÍDO” E O CIRCUITO FECHADO

Um segundo limite é definido pelas práticas que identificam a pre-


sença de “ruídos” no processo de comunicação, ou seja, a identificação
daquilo que “atrapalha” o funcionamento do circuito que é entendido
como fechado.
É óbvio que o ensino, digamos assim, se apropria de apenas uma
parte dos estudos, isto é, seu esboço geral. Vejamos o conhecido quadro.

Canal
Código
Emissor – mensagem – receptor
Referente
(contexto)

Como vemos, em relação ao modelo saussuriano, há realmente uma


considerável ampliação do objeto de estudos. Mas há um modo bastante
utilizado de aplicar o modelo que busca estudar a eficácia do esquema no

19
Introdução às Teorias do Discurso

processo de relações de transmissão da informação. Esse modo de aplicar


a teoria acaba por limitar a análise à estrutura do objeto.
A questão que aqui mais importa é o fato de que a vulgarização do
modelo levou a uma limitação da análise. A comunicação humana é en-
tendida como um circuito e a linguagem (ordem das representações) é
tomada como elemento que está a serviço do funcionamento eficaz desse
circuito. A língua aparece como um instrumento e o par emissor/receptor
tem um papel pré-definido.

Um exemplo

Não são poucos os estudos dedicados aos chamados “ruídos na co-


municação” que são interferências internas e externas ao processo. Esses
trabalhos visam à eliminação daquilo que impede a eficácia no funciona-
mento do esquema. Nessa direção, um “mal entendido”, uma falha, um
chiste (ver glossário), um desvio da norma padrão são trabalhados no
sentido de que se evite uma nova ocorrência, porque ele interrompe o
circuito da comunicação. Mas um erro pode abrir caminho para a compre-
ensão de um saber que não sabemos que sabemos: o inconsciente. De
diferentes modos, isso interessa ao estudioso do discurso (Box: os traba-
lhos de Jaques Lacan são referência para muitos trabalhos da Análise de
Discurso (à francesa) ver o problema em, por exemplo, O inconsciente é um
saber de Jorge, M. A. C. In: http://www.estadosgerais.org/encontro/
o_inconsciente_e_um_saber.shtml.) Sabemos que em grande parte, a busca
por eficácia, por eliminação de erros e de mal entendidos, é parte da his-
tória do ensino, mas simplesmente apagá-los significa apagar parte rele-
vante de nossas relações que interessa ao estudioso do discurso.

Exemplo nosso

No início dessa aula, a evocação de nosso contato vem da seguinte


forma: “Cara (o) Aluna (o)”. É certo que essa ordem provoca estranheza
porque contraria o que está estabelecido: primeiro o homem, depois a
mulher. É uma luta política por espaço significada na própria dimensão
gráfica da escrita. Esse fato do ponto de vista interessado pelo discurso
se mostra relevante, não para que evitemos o ocorrido, mas para que com-
preendamos seus efeitos de sentido. Ou seja, qual é o efeito que isso
provoca em nós leitores? O chamado discurso politicamente correto vai
justamente nessa direção em que são apagadas as contradições.

Os trabalhos funcionalistas têm avançado, mas a vulgarização do


modelo de Jakobson levou a uma concentração do interesse na mensa-

20
Discurso e comunicação Estruturalismo II Estação Roman Jakobson Aula

gem, ou melhor, na informação. E é daí que vem uma segunda importân-


cia desse modelo comunicativista para quem precisa compreender teorias
2
do discurso. As relações entre a produção do conhecimento (as ciências)
e as práticas sociais.

O COMUNICATIVISMO A SERVIÇO
DO GRANDE CAPITAL

Desde cedo, estudar a “língua do outro” fez parte de estratégias


colonialistas, basta lembrar o empenho dos jesuítas na aprendizagem do
“grego da terra”, o tupi, na formação do Brasil. Não é difícil reconhecer,
desde já, que não há isenção por parte da ciência no que diz respeito à
reprodução das relações sociais, das práticas sociais. As ciências não agem
com neutralidade, elas são parte de relações de toda sorte: políticas, reli-
giosas, sexuais, beligerantes, mas sobretudo, capitalistas.
Na sociedade capitalista contemporânea, a infor mação foi
discursivamente transformada em “gênero de primeira necessidade” sem
o qual não se pode passar e o conhecimento produzido em universidades
é parte fundamental nesse processo. Essa indústria da comunicação é
discursivamente construída como um poder institucional. Assim como o
poder executivo, o judiciário e o legislativo, a “imprensa é um quarto
poder”, o direito à informação é um Direito Constitucional. Em grande
parte, o que torna essa transformação possível é o discurso. Basta obser-
var em uma rápida pesquisa na Internet como esses enunciados: “A infor-
mação é gênero de primeira necessidade” e “A imprensa é um quarto po-
der” aparecem e são repetidos em larga escala. Pois bem, finalizemos esse
ponto com a seguinte reflexão: a produção do conhecimento, no caso, a
respeito da comunicação, não tem sido arrastada por interesses outros,
muitas vezes, escusos?
CONCLUSÃO

Estudar a comunicação humana, as relações entre fatores da comuni-


cação e funções da linguagem, não deve ser um ato de identificação de
funções pré-estabelecidas. Nossas relações são bem mais complexas. Apa-
gar os erros, as contradições, para promover a eficácia do sistema, isso
sim é que constitui um erro.

21
Introdução às Teorias do Discurso

RESUMO

Fundamentalmente, vimos que a abordagem comunicativista amplia


o objeto de análise em relação ao corte saussuriano. Mas, se a abordagem
se mantém na identificação de funções, nada se ganha em conhecimento.
Vimos também que muitos trabalhos estão a serviço da eficácia da comu-
nicação, da eliminação de erros e mal entendidos. Isso não é objetivo do
estudioso do discurso. Ao contrário, é fundamental, para ele, compreen-
der as contradições.

ATIVIDADES

Vejamos algumas definições para a palavra discurso que aparecem no


dicionário Aurélio (1999).
Discurso.

1. Peça oratória proferida em público ou escrita como se tivesse de o ser.


2. Exposição metódica sobre certo assunto; arrazoado.
3. E. Ling. Qualquer manifestação concreta da língua. [sin., nesta acepção.:
fala e (fr.) parole]
4. E. Ling. Unidade lingüística maior do que a frase; enunciado, fala.
5. Ant. Raciocínio, discernimento.
6. Fam. Palavreado vão, e/ou ostentoso: “nada de discurso, vá direto ao
assunto”.
8. Fam. Fala longa e fastidiosa, de natureza moralizante: “toda vez que
chega tarde o pai faz-lhe um discurso”.
9. Liter. Qualquer manifestação por meio da linguagem em que há pre-
domínio da função poética: “o estatuto americano dos textos borgianos
não invalida o fato de ele pertencer ao discurso do sistema cultural uni-
versal” (p. 690).

Tendo em vista essas possibilidades, entre outras, faça uma peque-


na pesquisa a partir de buscadores da internet (Google, UOL) recortan-
do e colando realizações da palavra discurso em diferentes contextos.
Chiste. Piada, pi- Por exemplo, contextos políticos, acadêmicos, religiosos etc. Para isso,
lhéria, gracejo.
claro, é preciso cercar a palavra de outras (discurso, senado brasileiro;
discurso, ciência, conhecimento). Em seguida, faça comentários por es-
crito procurando informar os sentidos de realizações da palavra discur-
so. Por exemplo, no texto O discurso do papa (disponível na platafor-
ma), a palavra discurso.

22
Discurso e comunicação Estruturalismo II Estação Roman Jakobson Aula

REFERÊNCIAS 2
AUROUX, Sylvain. A filosofia da linguagem. Trad. José Horta Nunes.
São Paulo: Editora da UNICAMP, 1998.
FERREIRA, A. B. de H. Novo Aurélio: o dicionário da língua portugue-
sa (sec. XXI). Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999.
FERREIRA, A. C. F
LACAN, J., Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, In;
Escritos, p. 276.
LACAN, J., A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud,
In; Escritos, p. 526.
NICOLA, J. Língua, literatura e redação. 12 ed. v. 1/2º grau, Editora
Scipione, 1999.

Sites
h t t p : / / w w w. e s t a d o s g e r a i s . o r g / e n c o n t r o /
o_inconsciente_e_um_saber.shtml

23
Aula
DISCURSO E PRAGMÁTICA I
O SENTIDO E O MUNDO,
REFERÊNCIA E SITUAÇÃO DE
COMUNICAÇÃO,
ESTAÇÃO BENVENISTE /
DUCROT / FREGE

META
Apresentar um modo pragmático de compreender os sentidos da
linguagem considerando relações que incluem o mundo: as coisas,
estados de coisas e situações de comunicação.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
tornar compreensível um quadro de conceitos fregeanos e dele destacar
as noções de identidade e pressuposição;
tornar compreensível a introdução da noção de situação de comunicação
pela abordagem pragmática do discurso.

Émile Benveniste Oswald Ducrot


(Fonte: www.unc.edu/~melcher t/ (Fonte:http://www.leseditionsdeminuit.com/
benveniste2.jpg) f/index.php?sp=livAut&auteur_id=1529)
Introdução às Teorias do Discurso

INTRODUÇÂO

Nessa aula, faremos uma introdução ao modo pragmático de com-


preender discursivamente a linguagem em suas relações com o mundo.
Para tanto,

Friedrich Ludwig Gottlob Frege


(Fonte: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/
opombo/seminario/fregerussel/
biografia_frege.htm)

26
Discurso e Pragmática I, O sentido e o mundo... Aula

FILIAÇÃO HISTÓRICA 3
Os trabalhos das ciências da linguagem desenvolvidos ao longo do
século XX que trazem para o objeto de análise os excluídos saussurianos
têm uma linha de filiação com a filosofia da linguagem. Vem da filosofia
a discussão sobre as condições de verdade de uma oração (TARSKI, 1944).
Essas condições são pensadas tendo em vista relações de acordo /corres-
pondência da oração com a realidade, ou seja, a relação da língua com o
mundo.
Por exemplo, a oração “o homem não morre” é verdadeira se, e so-
mente se, o homem não morre. Bem, o que temos aí é um desacordo entre
a oração e a realidade. O esforço das ciências, que têm a língua como
“ferramenta” e as coisas do mundo como objeto de estudos, é evitar essa
possibilidade de desacordo, de não-correspondência entre a língua e o
real. Tais ciências querem a língua como instrumento de domínio e con-
quista do saber a respeito do mundo. É por isso que essas ciências, ou
melhor, cada uma delas “tem linguagem própria”: a da economia, da me-
dicina, do direito, da linguagem etc.
Para elas, os sentidos precisam ser regulados nas formas daquilo que
é dito a respeito do mundo. Em busca da verdade, essas ciências preci-
sam de uma representação formal que exclua a possibilidade de não-cor-
respondência entre a língua e o mundo.
Mas, vamos pensar juntos! Na oração “o homem não morre”, mesmo,
em um certo sentido, não havendo correspondência com o real, já que o
homem morre, a oração tem uma existência entre nós: é a existência da
não verdade, da mentira. Sendo assim, com essa forma de existência, tal
oração se constitui em um verdadeiro objeto de estudo.
Nessa direção, já em fins do século XIX, vão os trabalhos de Gottlob
Frege (1848-1925).

Friedrich Ludwig Gottlob Frege

“Principal criador da lógica matemática moderna, sendo considerado,


ao lado de Aristóteles, o maior lógico de todos os tempos... O grande
contributo de Frege para a lógica matemática foi a criação de um
sistema de representação simbólica (Begriffsschrift, conceitografia ou
ideografia) para representar formalmente a estrutura dos enunciados
lógicos e suas relações, e a contribuição para a implementação do
cálculo dos predicados. Esse parte da decomposição funcional da
estrutura interna das frases (em parte substituindo a velha dicotomia
sujeito-predicado, herdada da tradição lógica Aristotélica, pela
oposição matemática função-argumento) e da articulação do conceito
de quantificação (implícito na lógica clássica da generalidade),

27
Introdução às Teorias do Discurso

tornado assim possível a sua manipulação em regras de dedução formal


(As expressões “para todo o x”, “existe um x”, que denotam operações
de quantificação sobre variáveis têm na obra de Frege uma de suas
origens”. In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Gottlob_Frege ).

Trazem categorizações que interessam ao estudioso do discurso. A seguir


resumimos tudo em quatro pontos. Vejamos:
Sinal: qualquer que seja o nome, combinação de palavras ou letra.
Referência: aquilo que pelo sinal é designado, a coisa do mundo.
Sentido do sinal: o modo de apresentação do objeto.
Representação de um objeto: ordem subjetiva, psicológica, pessoal.
Desse quadro fregeano duas questões emergem como fundamentais:
identidade e pressuposição.

IDENTIDADE

Ao colocar em discussão, em uma ordem objetiva, a questão do sen-


tido pela diferença no modo de apresentar uma coisa do mundo (a refe-
rência), Frege se depara com o problema das igualdades. Vejamos:

a=a a=b

Aracaju = Aracaju Aracaju = capital de Sergipe

Se o objeto denominado é percebido como um mesmo, uma igualda-


de, ou seja, uma cidade em particular, e existe a possibilidade de diferen-
ça entre os sinais (Aracaju e capital de Sergipe) para referir a mesma coisa
do mundo, Frege nos ensina, então, que é preciso considerar as diferenças
entre as relações de identidade. Em resumo, o filosofo nos ensina que é
preciso tratar o sentido na diferença entre sinais.

Sendo assim, podemos tirar proveito dessa lição e pensar um pouco


sobre a designação, sobre o sentido como modo de apresentar, por exem-
plo, a “beleza da mulher”. Vejamos:

A beleza da mulher = A beleza da mulher =


a beleza de Carolina Dickmann a beleza negra de Taís Araújo

28
Discurso e Pragmática I, O sentido e o mundo... Aula

Convenhamos, é proveitoso compreender as diferenças na identida-


de através do modo de apresentação do objeto, ou seja, do sentido.
3
PRESSUPOSIÇÃO

Uma segunda questão fregeana de nosso interesse e também desen-


volvida a partir das relações entre sentido e referência passa pela noção
de pressuposto. Diante de sentenças como:

(1) “Aquela cantora brasileira que ficou famosa pelas frutas que
adornavam sua cabeça morreu estafada pela superexposição à mídia
americana.”
O filosofo nos diz da falta de sentido e de referência da oração
subordinada “que ficou famosa pelas frutas que adornavam sua
cabeça”. Observe a demonstração:
(1’) “Aquela cantora brasileira que ficou famosa pelas frutas que
adornavam sua cabeça não morreu estafada pela superexposição à
mídia americana.”
(1’’) “Aquela cantora brasileira que ficou famosa pelas frutas que
adornavam sua cabeça morreu estafada pela superexposição à mídia
americana?”

Como vemos em (1), (1’) e (1’’), afirmando, negando e/ou interro-


gando, a seqüência continua dizendo que alguém “ficou famosa...” ou
seja, a oração principal é alterada, mas a subordinada não. Ela não é afe-
tada pelas incidências de negação ou interrogação. Para Frege, ela não
tem sentido porque não é independente e sua referência não é um valor
de verdade: é Carmem Miranda. (ver O. Ducrot em seu Princípios de se-
mântica Lingüística, 1972).

SITUAÇÃO DE COMUNICAÇÃO

Para as áreas de estudos pragmáticos do discurso, as relações do


lingüístico com o mundo são trabalhadas a partir da noção de situação de
comunicação. Os estudos pragmáticos procuram compreender os atos de
linguagem, buscando nas relações com os objetos representados na lin-
guagem “um complemento” para explicar a linguagem como instrumento
de ação social. Ou seja essa concepção de discurso inclui um excluído
por Saussure: o mundo.

Austin. How to do things with words (1962) “na base da teoria austiniana
está a descoberta da existência de um tipo particular de enunciados,

29
Introdução às Teorias do Discurso

os enunciados performativos que têm a propriedade de poder e, em


certas condições, realizar o ato que eles denotam, isto é, ‘fazer’
qualquer coisa pelo simples fato do ‘dizer’: enunciar ‘Eu te prometo
que venho’, é, ipso facto, realizar um ato, o de prometer” (Charaudeau
& Maingueneau. Dicionário de Análise do Discurso [doravante DAD], p.
72); Searle, Speech Acts (1969) e Expression and Meaning (1979) )
“insiste na necessidade de distinguir os atos ilocutórios (que
correspondem às diferentes ações que se podem realizar por meios
linguageiros: prometer, ordenar, agradecer, criticar etc. p. 73.

Por exemplo, diante do enunciado:

“Ela disse que amanhã não haverá aula”

Como sabemos, para uma abordagem estruturalista do tipo saussuriana


o sentido de “ela” é restrito ao seu valor na relação com os outros valores
que aparecem na cadeia lingüística. Já para certas pragmáticas o pronome
“ela” precisa ser compreendido enquanto representação de algo, uma pes-
soa, uma exterioridade lingüística. Ou seja, se o pronome “ela” represen-
ta uma aluna, a compreensão do ato será uma, se o “ela” representa a
professora, os sentidos serão bem diferentes. Por outro lado, se na situa-
ção de comunicação, o “ela” é aluna que está em aula e não no shopping,
isso é parte do ato de linguagem e deve ser levado em consideração. Se o
“ela” é professora e está com seus colegas em reunião do conselho de
classe, os sentidos serão diferentes, por exemplo, de se estiver no super-
mercado. Em resumo, para essas pragmáticas os atos de linguagem de-
vem ser compreendidos pela inclusão de sentidos extralinguísticos pró-
prios da situação.

UM EXERCÍCIO COM OS DÊITICOS

Para demonstrar a relevância da inclusão do mundo, do referente,


do contexto, em fim, da situação de comunicação para os estudos prag-
máticos, vamos estudar uma categoria fundamental para essa área de
trabalho: a dêixis (Benveniste (1966), Parte V. “O homem na língua”,
246-315). Estudar uma situação a partir da dêixis significa pensar a
respeito da localização e da identificação das coisas, dos sujeitos, dos
processos e acontecimentos. Façamos um exercício estudando um fato
de linguagem.

30
Discurso e Pragmática I, O sentido e o mundo... Aula

UM “LÁ” PARA APAGAR 3


No início de 2008, o noticiário brasileiro foi tomado pelo chamado
caso “Isabela Nardoni”. Uma criança de classe média foi assassinada em
São Paulo. Em meio às coberturas jornalísticas um tanto quanto noveles-
cas, um fato chamou atenção sobre o assunto na fala de um conhecido
“âncora” (ver glossário) do telejornalismo brasileiro.

O fato veio na fala do apresentador Boris Casoy no “Jornal da Noite,


Bandeirantes”.

Os trabalhos dos legistas da Usp e da promotoria paulista na pessoa


de Francisco Cembranelli levavam a incriminação dos pais da criança. Os
advogados de defesa Marco Polo Levorin e Ricardo Martins contrataram
George Sanguinetti legista alagoano reconhecido pela participação em
outros casos notórios.
Pois bem, certa noite, o tal apresentador, ao comentar a participação
de Sanguinetti no caso, nos traz uma questão dêitica fundamental. Veja-
mos alguns elementos da situação de comunicação:

ACONTECIMENTO: UM “LÁ”
NO CASO ISABELA NARDONI

Partes envolvidas
Promotoria - Francisco Cembranelli (legistas de São Paulo)
Acusados - Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá
Defesa - Marco Polo Levorin e Ricardo Martins (legista George
Sanguinetti)

Espaço/tempo
Onde: Jornal da Noite (Bandeirantes - abrangência nacional)
Quando: 26/05/2008

Locutores
Regiões do Brasil
L2 - N
L2 - NE
L1 (apresentador em SP) .................. L2 - (telespectador) L2 - S
L2 - C
L2 - SL

31
Introdução às Teorias do Discurso

Em um momento específico, na estrutura do programa, L1, falando dire-


tamente dos estúdios da televisão em SP, faz um comentário opinativo parti-
cular voltado para uma câmera exclusiva em close. Vejamos a seqüência:

L1 “- Olha, o fato é o seguinte: os legistas de São Paulo são os melhores


da América Latina ... O professor Sanguinetti, contratado pela defesa,
que ficou famoso com o caso PC Farias, dá aulas lá no nordeste ...”

Obser vemos, no enunciado, sentidos produzidos por dois


localizadores:

a) “América latina” significa “legistas de São Paulo” em uma dimensão


hierárquica positiva superior.

Mas, examinemos, sobretudo:

b) O efeito de sentido produzido junto a L2 pelo localizador “lá no nordeste”.

Vejamos a seguir quatro considerações do ponto de vista centrado no


discurso. Lá no nordeste: ideologia

1. O “lá”, obviamente, é uma oposição ao “aqui” de L1 e seu (s) interlocutor


(s) L2 das diferentes regiões do país. Mas para os telespectadores do nor-
deste, a posição L2/NE, o que se produz é uma não-coincidência espacial.
Quer dizer, o “lá” de L1 e demais L2 é “aqui” para L2/NE. Nesse fato, para
L2/NE, o “lá” não é mero localizador espacial.
2. Do ponto de vista de uma certa pragmática, essa não-coincidência apa-
rece como um dado, uma falha contextual na determinação do uso
lingüístico, um “ruído” no processo de comunicação a ser corrigido pela
redação do telejornal.
3. Por outro lado, uma visada semântica enunciativa compreenderia essa não-
coincidência entre o “lá” de L1 e o “aqui” de L2/NE não como um dado, mas
como um fato que diz de um apagamento significado no sujeito. Quer dizer,
4. É que nesse caso, o “lá” funciona significando uma exclusão já que produz
uma contradição entre o espaço-distância por ele descrito referencialmente e
a posição de L2/NE então desterritorializada pela linguagem. Em resumo o
“lá” é uma contradição que por apagamento do espaço exclui L2/NE das
relações objetivas. Centramos o estudo no “lá”, mas obviamente a análise se
estende ao fato do estado de Alagoas ser apagado por nordeste.

ATIVIDADES

Para finalizarmos esse exercício proponho ao caro (a) aluno (a) dar
sequência ao estudo do fato.

32
Discurso e Pragmática I, O sentido e o mundo... Aula

1. Nossa atividade analítica ficou centrada no “lá”, mas, obviamente, a


análise se estende ao fato de, no mesmo enunciado, o “estado de Alagoas”
3
ser apagado por “nordeste”.
Que tal uma reflexão sobre os sentidos do nome “nordeste” no Brasil?
Sugiro duas observações.
1.1. Observemos que o nome “nordeste” resume o referente, o mundo.
Ou seja, o sentido desse sinal apaga muitas diferenças entre os estados da
região: diferenças sociais, culturais, lingüísticas, étnicas etc. Bem, caro
(a) aluno (a), estamos diante da diferença na igualdade, um problema de
identidade, mas, sobretudo, estamos diante do preconceito. E o princípio
do problema é a criação do estereótipo, da homogeneização que define e
dá visibilidade àquele que é o Outro.
Essa operação que se dá na e pela linguagem é sem dúvida de ordem
ideológica (sobre esse tema ler a Invenção do nordeste, tese Unicamp/
IFCH). Cabe perguntar. Por que, no Brasil, não dizemos “os sudestinos
são...”? (aliás, a forma sudestinos é sublinhada em vermelho pelo progra-
ma Word, nordestinos não! Nordestino aparece no Aurélio, sudestino não).
1.2. Na mesma reportagem em que apareceu o “lá no nordeste”, o promo-
tor Francisco Cembranelli referiu-se ao legista e professor da Universida-
de Federal de Alagoas, George Sanguinetti pelo seguinte enunciado:

“Não vai ser qualquer pessoa que aparece do nada que vai abalar
isso [o trabalho dos paulistas]”

Que tal?
CONCLUSÃO

Dentre as teorias do discurso, há uma determinada região que inclui


um excluído saussuriano: o mundo. Essa região que podemos chamar de
pragmática contribui bastante para os estudos do discurso na medida em
que o sujeito não é apenas o da frase, ou seja, não é um valor no código
linguístico tão somente por se opor a outro elemento da cadeia lingüística.
O sujeito para essa pragmática tem relação de representação direta com as
coisas do mundo o que nos leva ao problema da identidade e, mais, a ele-
mentos indiretos na representação: o problema da pressuposição, aquilo
que é dito, mas não diretamente. Esses dois problemas estão em jogo quan-
do o objeto de estudos do discurso é a situação de comunicação. Nela, é
fundamental que o sujeito seja examinado nas relações espaço/tempo o
que abre caminho para estudarmos uma categoria decisiva para os estudos
do discurso: a enunciação (ler na plataforma uma breve coletânea de defini-
ções de enunciação; ficam também desde já recomendadas as leituras de
Da enunciação ao acontecimento discursivo em Análise de Discurso de Jacques
Guilhaumou e Denise Maldidier e Enunciação e História de Eduardo Guima-
rães, ambos em História e sentido na linguagem, 1989).

33
Introdução às Teorias do Discurso

RESUMO

Nessa aula, vimos que:


a) A tradição das ciências trata as condições de verdade de uma oração
através das relações de acordo/correspondência da oração com a realida-
de. Como a língua e as representações, a linguagem não são ferramentas
perfeitas, nas relações com o mundo sensível, a realidade, há sempre con-
tradições que interessam ao estudioso do discurso: problemas de identi-
dade e pressuposição.
b) O estudo do sujeito do discurso avança bastante ao passar a
compreendê-lo não apenas no domínio da frase, mas como parte de uma
dimensão mais ampla: a situação de comunicação.
c) Nesses estudos, são importantes as categorias espaço/tempo e eu/
tu, fundamentais para a noção de enunciação que, como veremos a
partir da aula 5, será redimensionada para compreensão do sujeito
social e histórico.

REFERÊNCIAS

BENVENISTE, E. (1966) Problemas de Lingüística Geral I. Campi-


nas, SP, Pontes, 1995.
______. (1974) Problemas de Lingüística Geral II. Campinas, SP, Pon-
tes, 1989.
DUCROT, O. Princípios de semântica Lingüística. São Paulo, SP,
Cultrix, 1972.
FREGE, G. (1892) Sobre o sentido e a referência. Lógica e filosofia
da linguagem. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1978.
GUIMARÃES, E. História e sentido na linguagem. Campinas, SP, Pon-
tes, 1989.
______. Os limites do sentido: um estudo histórico e enunciativo da
linguagem. Campinas, SP, Pontes, 1995.

34
Aula
DISCURSO E PRAGMÁTICA II
INTENÇÃO RECONHECÍVEL E
MANOBRAS ESTILÍSTICAS
ESTAÇÃO GRICE / OSWALD
DUCROT

META
Apresentar um modo pragmático de compreender os sentidos da
linguagem considerando relações que incluem o mundo e as intenções
do sujeito na linguagem.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
tornar compreensível as noções de sentido natural e sentido não-natural;
apresentar o princípio (griceano) da cooperação e as máximas
conversacionais;
apresentar um conceito de enunciação;
apresentar uma abordagem pragmática
do discurso.

PRÉ-REQUISITOS
Aulas anteriores.

Herbert Paul Grice


(Fonte: http://philosophersapp.com/images/Grice.jpg)
Introdução às Teorias do Discurso

INTRODUÇÃO

Até o momento, nesse nosso percurso, temos as dimensões do código


verbal (aula 1), os estudos da comunicação como circuito fechado, inte-
ressados pela eficácia na transmissão da informação (aula 2) e os estudos
pragmáticos voltados para a situação de comunicação (aula 3). Precisa-
mos agora ter conhecimento a respeito de outra região dos estudos prag-
máticos interessados pela intenção de quem fala. Estudar a intenção é
incluir como objeto da análise outro elemento excluído por Saussure: o
sujeito psicológico. Vejamos!

A partir de Grice (1957), é possível pensar a função do signo, algo


que está por outra coisa, em duas dimensões.

O SENTIDO NATURAL

O sentido natural vem pela intuição, pela atenção às experiências


vividas, atenção a algo que significa outra coisa sem a intenção, inclusive
pela ausência de interlocutor, por exemplo:

Fumaça – significa a presença de fogo


Pegadas – significa a presença de alguém

Esse sentido natural pode aparecer em situações de comunicação revelan-


do, por exemplo, sentimentos localizados fora do consciente daquele que fala.
Os sentidos aparecem indicados na expressão da face ou do corpo de quem fala
sem que o indivíduo tenha muitas vezes a intenção de expressar tais sentidos.
Por exemplo, “os olhos arregalados” diante de uma notícia trágica.

Entre outras, uma leitura introdutória a respeito do signo temos em


Epstein (1991). Os estudos interessados por essas relações indiciárias
têm tradição. É importante ver, por exemplo, o debate sobre interpreta-
ção que vem dos anos de 1960 (SONTAG, 1961), passando pelos traba-
lhos de Umberto Eco (1993).

Por outro lado, há sentidos programados para que façam efeito. Esses
sentidos aparecem em signos que têm a função de fazer reconhecer deter-
minada intenção. São os sentidos não-naturais.

O SENTIDO NÃO-NATURAL

O sentido não-natural vem pelo reconhecimento da lógica da lingua-


gem. Estamos falando do sentido como intenção do locutor. Por exem-

36
Discurso e pragmática II, Intenção reconhecível e manobras estilísticas... Aula

plo, um cartaz anuncia greve de trabalhadores. Ele apresenta uma figura


humana e o foco da figura são os braços cruzados. Ora, os braços signifi-
4
cam a força de trabalho, basta lembrar os enunciados “X é o braço direito
de Y” ou “o mundo em crise e você aí de braços cruzados!”, ou ainda
“mãos à obra”. Os braços cruzados no anúncio significam e vem acom-
panhado de do enunciado “trabalhadores parados”. Observemos que há
uma tênue linha entre a relação com o mundo e a intenção de quem fala.
Para H. P. Grice, em seu “Meaning” (1957), há um sentido não natural
que depende da intenção. Por exemplo, se alguém diz:

“O céu está cheio de nuvens carregadas!”

O sentido dependerá daquilo que se quer fazer crer em face da


situação dada:

“É risco de apanhar alguma doença?”


“É alegria em decorrência do que se plantou?”

É claro que o sentido do enunciado é uma relação do linguístico com


o referente, as coisas do mundo na situação. É por isso que temos as
possibilidades tão diferentes como nos enunciados acima. Essas possibi-
lidades estendem as relações aos limites do possível, por exemplo, em
piadas. Elas só existem por que há espaço no domínio psicológico. O que
dimensiona esse espaço do possível é um acordo feito entre os locutores.
A partir dessa concepção, desse acordo entre locutores, H. P. Grice ela-
borou um quadro geral da conversação. Esse quadro orienta uma larga
margem de trabalhos. Vejamos.

PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO

“Faça sua contribuição conversacional tal como é requerida, no


momento em que ocorre, pelo propósito ou direção do intercâmbio
conversacional em que você está engajado” (GRICE, 1967, p. 86.
Apud. GUIMARÃES, E. Op. cit., 1995, p. 32).

No interior desse princípio, Grice sistematizou regras máximas.

37
Introdução às Teorias do Discurso

MÁXIMAS CONVERSACIONAIS

Faça com que sua contribuição seja tão


Quantidade: informativa quanto requerida (para o pro-
pósito corrente da conversação).
Não faça sua contribuição mais informa-
tiva do que requerido.’

Não diga o que você acredita ser falso.


Qualidade: Não diga senão aquilo para o que você
possa fornecer evidência adequada.’

Relação: Seja relevante

Seja claro. Dada como supermáxima a que


se submetem as máximas que seguem: Evi-
Modo te obscuridade de expressão. Evite ambi-
güidades. Seja breve (evite prolixidade des-
necessária). Seja ordenado.

Um exemplo

Os estudos orientados por essa concepção pragmática estão interes-


sados pelo que os locutores intencionalmente buscam como o sentido.
Por exemplo, em

“- Pai, tá na mesa!”

Pelo respeito ao princípio de cooperação e às máximas conversacionais,


os locutores (pai e filha) sabem que essa informação tem outro sentido
que passa pela situação e sobretudo pela intenção de quem fala e de quem
ouve. No enunciado, a situação é a seguinte: os locutores estão em casa e
é hora de uma refeição: o almoço, por exemplo. Nesse caso, a intenção
não é informar que o almoço está na mesa, o aviso é, pelo acordo entre
locutores, um convite, um chamamento:

“- Vamos almoçar?”

Ou apenas,

“- Venha [almoçar]!”

38
Discurso e pragmática II, Intenção reconhecível e manobras estilísticas... Aula

O conceito de enunciação 4
Note-se que nos enunciados acima, não foi preciso que aparecessem
na cadeia lingüística todos os elementos comunicados. Bem, cara (o) alu-
na (o), temos então uma série de elementos colocados em jogo em uma
situação de discurso, mas suas relações se dão no plano psicológico. Nes-
se ponto, precisamos encaminhar essa aula retomando um conceito de
enunciação que procura conjugar os problemas de identidade e pressupo-
sição, vistos na aula 3, para irmos concluindo com o próximo capítulo,
essa primeira unidade apresentando uma abordagem pragmática do dis-
curso. Vejamos então uma definição básica de enunciação. Leia atento!

“A produção linguística pode ser considerada: seja como uma


sequência de frases, identificada sem referência a determinado apareci-
mento particular dessas frases (elas podem ser ditas, ou transcritas com
escritas diferentes, ou impressas etc.); seja como um ato no decorrer do
qual essas frases se atualizam, assumidas por um locutor particular, em
circunstâncias espaciais ou temporais precisas. Tal é a oposição entre o
ENUNCIADO e a situação do discurso, algumas vezes chamada de
enunciação. Entretanto, quando se fala, em Linguística, de
ENUNCIAÇÃO, toma-se esse termo num sentido mais restrito: não se
visa nem o fenômeno físico de emissão ou de recepção da fala, que de-
pende da psicolinguística ou de uma das suas subdivisões, nem as modi-
ficações introduzidas no sentido global do enunciado pela situação, mas
os elementos pertencentes ao código da língua e cujo sentido no entanto
depende de fatores que variam de uma enunciação para a outra; por exem-
plo, eu, tu, aqui, agora etc. Em outras palavras, o que a Lingüística retém
é a marca do processo de enunciação no enunciado.” DUCROT, O e
TODOROV, T. (1972) Dicionário Enciclopédico das Ciências da Linguagem,
Perspectiva, 1998, p. 289-292.

Consideremos então as marcas do processo no tocante àquilo que


estamos estudando: o discurso nas relações com o mundo e nas relações
de intencionalidade.

Uma abordagem pragmática do discurso

Para tanto, lancemos mão de um enunciado que nos permitirá apre-


sentar uma boa região dos estudos do discurso. O enunciado nos permiti-
rá falar a respeito da Abordagem pragmática do discurso. Vejamos!

“Sorria: você está sendo filmado”

39
Introdução às Teorias do Discurso

UM NÃO RECONHECIMENTO DO LITERAL

Do ponto de vista de uma pragmática elementar, do enunciado deve-


mos considerar os usos linguísticos relativos à situação em que ele apare-
ce. Mas devemos incluir um modo de tratar o sentido em que os enunci-
ados têm um sentido literal, regido pelo princípio da cooperação regulado por
máximas conversacionais (GRICE, 1967). Nesse caso, o cooperativo, o ver-
dadeiro, o relevante é a intenção reconhecível relativa a uma dada situa-
ção. No enunciado em questão, o princípio e as máximas passam longe do
sentido literal, ou seja, o leitor/locutor não vai sorrir. Quer dizer, nossa
intenção não vai reconhecer o literal. Esse é um fato importante do ponto
de vista da intencionalidade.

UMA MANOBRA ESTILÍSTICA

O “sorria” exerce a função de manobrar estilisticamente (DUCROT,


1972, p. 22-23) a relação com o interlocutor, ou seja, há uma intenção
por parte do “sorria”. O “sorria” funciona mais ou menos como quando o
deputado da oposição diz: “não tenho nada contra a pessoa do prefeito,
mas ele está fazendo uma administração pífia”. A intenção é “beijar uma
face, para ter direito a bater firme na outra”. A intenção é equilibrar os
pesos. Basta observar que sem o “sorria”, o “você está sendo filmado”
não sobrevive. Sozinho ele é uma ameaça, sobretudo se considerarmos o
tempo observamos que a relação é presente em andamento, por isso, o
sujeito dela não escapa. O sujeito não é prevenido de que “será filmado”.
Ele já é! Quer dizer, o “sorria” evita a discórdia.

O “sorria” recobre o sentido do risco, da insegurança, posto que sig-


nifique tranquilidade e garantia dos direitos e deveres, já que o enunciado
aparece em situações financeiras: lojas, bancos, conveniências etc. Segu-
ramente, o “sorria” é ai colocado para “suavizar” e parece mesmo produ-
zir esse efeito. Mas é importante que lembremos: não pensamos a esse
respeito. Esse fato nos informa que as relações entre enunciados produ-
zem sentidos que não se aplicam a indivíduos, mas a sujeitos sociais (mais
adiante, aula 8, essa questão do “não pensar a respeito” será observada
do ponto de vista histórico).

40
Discurso e pragmática II, Intenção reconhecível e manobras estilísticas... Aula

CONCLUSÃO 4
Os estudos das intenções do falante, dentre as teorias do discurso, é
também uma região que inclui outro excluído saussuriano: o sujeito psi-
cológico, quer dizer, extrapola os domínios do linguístico. Nessa região,
que também podemos chamar de pragmática, o sujeito está em uma rela-
ção de representação que passa pelo princípio da cooperação e por máximas
conversacionais. Tudo isso está em jogo quando o objeto de estudos é o
discurso enquanto comunicação. Nesse caso, é fundamental que o sujeito
seja examinado nas relações de intencionalidade categoria que vem se
juntar aos elementos dêiticos, as coisas do mundo para o estudo da
enunciação. Mas é preciso reconhecer que a pragmática aqui apresentada
precisa avançar na direção que olha os sentidos, a enunciação, para além
da situação de comunicação.

RESUMO

Nessa aula 4, estudamos as noções de sentido natural e sentido não-


natural, os trabalhos orientados por essa concepção, sem dúvida, vão em
direção ao domínio do sujeito. Mas ao tomar essa direção, observamos
que a pragmática trata da questão do sujeito nos limites do psicológico
em um acordo prévio pela cooperação conversacional. Esse acordo, assu-
mido por certo conceito de enunciação, abre caminho para que tenhamos
os princípios básicos de uma abordagem pragmática. Com a análise, apren-
demos que o estudo das relações entre enunciados pode nos colocar dian-
te de sentidos que não se aplicam a indivíduos, mas a sujeitos sociais.

ATIVIDADES

Procure observar enunciados que circulam na sociedade. Considere


os sentidos literais. Examine os acordos e as máximas conversacionais, as
categorias dêiticas (espaço/tempo; eu/tu), a situação de comunicação,
os limites do psicológico, das circunstâncias e a dimensão do sujeito soci-
al. Por exemplo,

“Esta biblioteca é equipada com dispositivo antirroubo.”

41
Introdução às Teorias do Discurso

REFERÊNCIAS

DUCROT, O. O dizer e o dito. Campinas, SP, Pontes, 1987.


___________. Princípio de semântica lingüística. Cultrix, São Paulo,
SP, 1972.
___________. Estruturalismo e lingüística. São Paulo, SP, Cultrix,
1970.
___________. TODOROV, T. Dicionário enciclopédico das ciências
da linguagem. São Paulo, SP, Editora Perspectiva, 1998.
CITELLI, A. Linguagem e persuasão. São Paulo, SP, Ática, 2000.
ECO, U. Interpretação e superinterpretação. São Paulo, SP, Martins
Fontes, 1993.
FREGE, G. (1892) Sobre o sentido e a referência. Lógica e filosofia
da linguagem. São Paulo, Cultrix/Edusp, 1978.
GRICE, H. P. Meaning. 1957. In: STAINBERG, E.; JAKOBOVITS, L.
A. Semantics. Cambridge University Press, 1974.
___________. Lógica e conversação. In: DASCAL, M. (org) Fundamen-
tos metodológicos da lingüística, vol. IV – Pragmática. Campinas: Edi-
tora do Autor. 1975, p. 81 – 103.
GUIMARÃES, E. História e sentido na linguagem. Campinas, SP, Pon-
tes, 1989.
______. Os limites do sentido: um estudo histórico e enunciativo da
linguagem. Campinas, SP, Pontes, 1995.
SONTAG, S. Contra a interpretação. Porto Alegre, RS, Editora L&PM, 1987.

42
Aula
GÊNEROS DO DISCURSO
ATIVIDADE HUMANA E
DIALOGISMO NA INTERAÇÃO
VERBAL
ESTAÇÃO MIKHAIL BAKHTIN

META
Apresentar as características centrais da noção de Gêneros do discurso trazida
por Mikhail Bakhtin

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
especificar os principais pontos da formulação bakhtiniana;
demonstrar a relação entre a língua (gem) e as práticas sociais;
demonstrar a aplicação das bases para o estudo do enunciado.

PRÉ-REQUISITOS
Os fundamentos da pragmática. O conceito de enunciação

Mikhail Bakhtin
(Fonte: http://persweb.wabash.edu/facstaff/morillos/Images/Paintings/
2007.Morillo.S.a.jpg)
Introdução às Teorias do Discurso

INTRODUÇÃO
Imagine caro (a) aluno (a), se em certa aula o professor finalizasse os
trabalhos com o seguinte enunciado:

“OLHA TURMA, PARA AS PRÓXIMAS AULAS,


QUERO RECEITAR TRÊS TEXTOS.”

Bem, como vivemos na mesma sociedade e falamos a língua portu-


guesa do Brasil, penso que estamos de acordo em dois pontos. Primeiro, o
professor sabe o que quer e os alunos entendem esse querer: a leitura dos
textos. Mas, concordemos também com o fato de existir algo estranho na
utilização da língua. A palavra “receitar” parece vinda de um outro lugar,
não é mesmo?! E vem! Como sabemos, ela aparece com frequência em
atividades farmacêuticas e médicas, significando a ação de “indicar por
escrito” os remédios e procedimentos do paciente para o alcance de de-
terminados resultados. Ela aparece ainda em atividades culinárias signifi-
cando diferentemente, mas de modo semelhante, a indicação da quanti-
dade de ingredientes e a maneira de preparar um prato.
Um texto a ser lido não é dipirona a ser tomada ou, muito menos, um
pernil a ser assado! Mas guardadas as diferenças, os três (texto, dipirona e
pernil) podem ser indicados como parte de um percurso para o alcance de
determinadas finalidades. Por exemplo:

RECEITAR

Princípio meio fim

Comprar o remédio Seguir as instruções do Aliviar a dor de cabeça


na farmácia médico

Comprar ingredientes Seguir as instruções do Comer, alimentar-se,


no mercado mestre cozinheiro degustar, paladar

Retirar os livros na bi- Seguir as orientações Compreender inten-


blioteca do professor ções, relações, articula-
ções, contradições etc.

As três interpretações de “receitar” têm em comum o percurso para o


alcance de determinadas finalidades. Mas, é claro, pertencem a lugares
sociais bem diferentes. Pense, por exemplo, em “Prontuário de redação”,
“Pronto-socorro da língua portuguesa”, “Oficina de redação, “Ateliê de
redação”.

44
Gêneros do Discurso, Atividade humana e dialogismo na interação verbal... Aula

ATIVIDADES 5
Faça uma pequena pesquisa a respeito dos conceitos de homonímia,
sinonímia e polissemia. São fundamentais para o estudo do discurso. Use
dicionários gerais e especializados.

GÊNEROS DO DISCURSO

Como vemos, no quadro, há semelhanças entre os percursos e é por


reconhecermos essas semelhanças que é possível o professor dizer: “que-
ro receitar três textos”. Por outro lado, apesar da nossa compreensão, “re-
ceitar textos” é uma coisa estranha. É ou não é?! Pois é justamente o jogo
entre semelhanças e estranhezas entre o que dizemos e o que fazemos
que nos leva ao centro dos estudos dos Gêneros do Discurso particular-
mente introduzido por Mikhail Bakhtin.

Mikhail Mikhailovich Bakhtin

(linguista Russo, 1895 - 1975). “Seu trabalho é considerado influente na


área de teoria literária, crítica literária, sociolingüística, análise do discurso
e semiótica. Bakhtin é na verdade um filósofo da linguagem e sua lingüística
é considerada uma “trans-lingüística” porque ela ultrapassa a visão de
língua como sistema. Isso porque, para Bakhtin, não se pode entender a
língua isoladamente, mas qualquer análise lingüística deve incluir fatores
extra-lingüisticos como contexto de fala, a relação do falante com o ouvinte,
momento histórico, etc. A pretensão exprimida por ele em Marxismo e
Filosofia da Linguagem é dotar a teoria marxista de uma formulação
coerente em relação à ideologia e à psicologia, superando em simultâneo o
objetivismo abstrato ou positivista e o subjetivismo idealista. Para tal,
descobre no signo lingüístico um signo social e ideológico, que põe em
relação a consciência individual com a interacção social. O pensamento
individual não cria ideologia, é a ideologia que cria pensamento individual.
Literalmente, afirma que “Uma das tarefas mais essenciais e urgentes do
marxismo é constituir uma psicologia verdadeiramente objetiva. No
entanto, seus fundamentos não devem ser nem fisiológicos nem biológicos,
mas sociológicos.Apesar de ter sido escrita no fim da década de 20, a obra
mantém uma actualidade espantosa e faz parte dos fundamentos da mais
atual teoria textual e semiótica. De caráter interdisciplinar, abre portas
para uma nova interpretação do signo, da linguagem, da comunicação e da
ideologia, de base social e material mas não mecânica nem positivista.
Aplica o materialismo dialético ao campo da lingüística de maneira fértil e
original ... Para ele ‘a palavra é o signo ideológico por excelência’ e também
‘uma ponte entre mim e o outro’” (http://pt.wikipedia.org/wiki/
Mikhail_Bakhtin).

45
Introdução às Teorias do Discurso

Em seu Estética da Criação verbal (1997), o autor traz a seguinte defini-


ção de gêneros do discurso:
“Todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que sejam,
estão sempre relacionadas com a utilização da língua. Não é de surpreen-
der que o caráter e os modos dessa utilização sejam tão variados como as
próprias esferas da atividade humana, o que não contradiz a unidade na-
cional de uma língua. A utilização da língua efetua-se em formas de enun-
ciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes
duma ou doutra esfera da atividade humana. O enunciado reflete as con-
dições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por
seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção ope-
rada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramati-
cais -, mas também, e, sobretudo, por sua construção composicional. Estes
três elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional)
fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são mar-
cados pela especificidade de uma esfera da comunicação. Qualquer enun-
ciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de
utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enuncia-
dos, sendo isso que denominamos gêneros do discurso.” BAKHTIN, M.
Estética da Criação verbal. São Paulo, SP, Martins Fontes, 1997, p. 279.

Como vemos, Bakhtin propõe que o estudioso do discurso preste


atenção a dois pontos:

ATIVIDADES HUMANAS

1. A relação:
Esferas da comunicação
______________________

Conteúdo temático
2. O enunciado: Estilo verbal
Construção composicional

Em resumo, tudo o que falamos tem a ver com o que fazemos, com
nossas práticas sociais. É por isso que se um professor falar em “receitar
textos”, podemos estranhar justamente porque “receitar” está marcado
por especificidades de outras atividades humanas, pertence a outras esfe-
ras da comunicação. Esse “receitar textos” não está fora do lugar sozinho.
Pelo mesmo motivo, também podemos estranhar se o tal professor faz à
classe uma pergunta sobre o texto lido e como ninguém responde, ele diz “dou-
lhe uma, dou-lhe duas...”. Estranhamos porque o enunciado vem de outra ati-
vidade humana: o leilão. É como se o enunciado estivesse fora de lugar.

46
Gêneros do Discurso, Atividade humana e dialogismo na interação verbal... Aula

Como são variadas as nossas atividades, variadas são também as es-


feras da comunicação. Mas, veja que é possível identificar os lugares dos
5
enunciados. Isso acontece porque eles constituem, como diz Bakhtin, “ti-
pos relativamente estáveis de enunciados”. Por outro lado, também ajuda
ao estudioso do discurso um terceiro ponto ao qual se deve prestar bas-
tante atenção. Para Bakhtin, há dois grandes gêneros do discurso:

Primário (simples – comunicação espontânea, vida cotidiana)

3. Gêneros:

Secundário (complexo – cultura mais evoluída, principalmente, escrita)

Parece que o trabalho não é fácil! Mas não é Bakhtin quem dificulta.
Nós humanos somos mesmo muito complicados, mas interessantes!
Se vamos estudar um gênero do discurso ou, ao menos, queremos
delineá-lo, precisamos pensar a respeito do par atividade humana/ esfera
da comunicação a partir de um enunciado, ou um conjunto deles. Um pri-
meiro passo é interrogar as suas partes constitutivas com perguntas
empíricas: o quê? Quem? Onde? Quando? Vejamos o seguinte enunciado:

“É velho, mas está pago!”

A ESFERA DA COMUNICAÇÃO

Pensemos um pouco a respeito das atividades humanas que produ-


zem dizeres para desconhecidos, para o público em geral, em lugares es-
pecíficos. São dizeres em camisetas, faixas e em adesivos afixados em
vidros de automóveis, caminhões, etc., como é o caso desse “É velho,
mas está pago”. Estamos então em uma esfera da comunicação onde o
enunciado aparece.

O CONTEÚDO

O conteúdo temático do enunciado aparece em duas oposições:

a) O velho e o novo: a sociedade de consumo, a circulação de mercadori-


as: compramos mercadorias novas, descartamos as velhas.
b) O pago e o não pago: o capitalismo financeiro, a diferença na condição
de posse de uma mercadoria.

47
Introdução às Teorias do Discurso

O ESTILO

Sobre o estilo verbal, a seleção dos recursos da língua - recursos


lexicais, fraseológicos e gramaticais - nos mostra que apesar de escrito em
um adesivo, ele guarda marcas de uma oralidade da vida cotidiana: “é
velho, mas [es]tá pago!”. É preciso, portanto, reconhecer que o enunciado
pertence ao gênero primário. É uma comunicação simples, espontânea,
popular, oral, apesar de vir escrita.

ATIVIDADES

Procure fazer uma pequena pesquisa sobre as diferenças entre a es-


crita e a oralidade. Há vasta bibliografia sobre o assunto, artigos
especializados disponíveis na Internet. Faça também um pequeno levan-
tamento de como essas noções são caracterizadas em livros didáticos.
Algumas oposições ajudam bastante a especificar a interface oralidade/
escrita: as relações com o contexto não-verbal, etc. No Brasil, com uma
orientação teórica cognitivista em que pesa a intenção comunicativa te-
mos, por exemplo, os trabalhos de Marcuschi (2001) Olson (1997),
Sampsom (1996) e Catach (1996). Do ponto de vista histórico, traduzi-
dos no Brasil, temos Roland Barthes (1953) temos os trabalhos de
Havelock (1996) e Auroux (1992; 1998).

A CONSTRUÇÃO

A construção composicional do “É velho, mas tá pago” traz ao me-


nos duas questões importantes:

a) O enunciado conta com o fato de referir a uma coisa do mundo, no


caso, o carro velho. Quer dizer, quando lemos o escrito no adesivo sabe-
mos que é a respeito do carro que se fala. Mas como vemos muito esse
enunciado por aí, mesmo fora da situação de comunicação, lembramos
que é a respeito de automóveis que ele está falando.
b) O enunciado é resposta a uma afirmação de outro locutor que não
aparece. Nesse caso é então, em parte, uma confirmação de algo dito
anteriormente, por exemplo: “Que carro velho, hein?” e, claro, a resposta
é “É velho, mas tá pago!”.

O conteúdo, o estilo e a construção estão intimamente relacionados.


Essa construção adversativa, digamos, argumenta a posição do sujeito
(aquele que possui carro velho) e aponta para a divisão social pelo consu-
mo. Por outro lado esse conteúdo sério, próprio de tratados das ciências

48
Gêneros do Discurso, Atividade humana e dialogismo na interação verbal... Aula

sócio-econômicas é inseparável de seu estilo despojado, brincalhão e bem


humorado, muito próprio das relações sociais em que vive o brasileiro.
5
Zombar da própria desgraça também argumenta a posição do sujeito, mas
de outro modo. Há um implícito psicológico do enunciado, uma estraté-
gia que antecipa o dizer do outro: “eu mesmo me ridicularizo, antes que o
outro o faça”. Uma espécie de “eu sei que estou errado, mas veja que
você também está”; “o meu carro é velho, mas é meu, o seu é novo, mas
[ainda] não é seu!”.
Afinal, quem está falando tudo isso? Onde, quando e quem está fa-
lando? Quem é o locutor/autor do enunciado? O que Bakhtin nos diz é
que estamos diante do sujeito construído na interação verbal, o chamado
dialogismo: relações que todo enunciado mantém com outros produzidos
anteriormente e outros ainda que serão produzidos no futuro.

LINGUAGEM, SOCIEDADE E SUJEITO

Bakhtin prefere compreender a linguagem para além do instante


empírico da circunstância em que o leitor passa o olhar sobre as letras no
adesivo. Para ele, é preciso considerar a linguagem no tempo histórico, e
a sociedade como o lugar presente nos enunciados. Por isso, a noção de
enunciação em Bakhtin extrapola as dimensões da situação de comunica-
ção, da abordagem pragmática em sentido mais estrito.
Então devemos pensar o “É velho, mas tá pago” a partir de dimen-
sões mais amplas. Devemos pensar sobre os locutores no enunciado, so-
bre o autor do enunciado. O autor é o dono do carro que afixou o adesi-
vo? Ou é o dono da oficina que dá adesivos de brinde para agradar aos
seus clientes? Ou, ainda, é o fabricante desses brindes? A quem está sen-
do dada a resposta: “É velho, mas tá pago?”. É claro que estamos diante
de uma “autoria partilhada” e, nesse caso, devemos pensar não apenas
sobre esse tipo de enunciado, mas a linguagem como um todo em uma
dimensão mais ampla, a dimensão dialógico-social. Finalizamos então esse
nosso percurso com as palavras dos mestres, Bakhtin e Volochinov, sobre
esse ponto: “o diálogo – a troca de palavras – é a forma mais natural da
linguagem. Mais ainda: os enunciados longamente desenvolvidos, ainda
que eles emanem de um interlocutor único - por exemplo, o discurso de
um orador, o curso de um professor, o monólogo de um ator, as reflexões
em voz alta de um homem só – são monológicos somente em sua forma
exterior, mas, em sua estrutura interna, semântica e estilística, eles são,
com efeito, essencialmente dialógicos” (VOLOCHINOV, 1981, p. 292).
Assim compreendida, “a orientação dialógica é, bem entendido, um fenô-
meno característico de todo discurso [...]. Em todos os caminhos que
levam a seu objeto, o discurso encontra o discurso de outrem e estabelece
com ele interação viva e intensa. Somente o Adão mítico abordando com

49
Introdução às Teorias do Discurso

o primeiro discurso um mundo virgem e ainda não dito, o solitário Adão


poderia verdadeiramente evitar absolutamente essa reorientação mútua
em relação ao discurso do outrem, que se produz no percurso do objeto”
(Bakhtin, em Todorov, 1981: 98, apud. Dicionário de Análise do Discur-
so - CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2004).
“dialogismo – conceito emprestado, pela análise de discurso, ao Cir-
culo de Bakhtin e que se refere às relações que todo enunciado mantém
com os enunciados produzidos anteriormente, bem como os enunciados
futuros que poderão os destinatários produzirem. Mas o termo é “carre-
gado de uma pluralidade de sentidos muitas vezes embaraçantes”, não
somente – conforme afirma Todorov (1981: 95) – nos escritos do círculo
de Bakhtin. Mas, igualmente, devido às diferentes maneiras como ele foi
compreendido e retrabalhado por outros pesquisadores”. (DAD, p. 160).

CONCLUSÃO

O percurso proposto por Bakhtin nos leva a questões bastante inte-


ressantes sobre linguagem, sobre sociedade. As teorias bakhtinianas têm
larga aplicação nos estudos da linguagem, sejam linguísticos, sejam lite-
rários etc. Elas têm grande aceitação junto aos estudos da linguagem.
Basta observar sua entrada em programas de pós-graduação, congressos
etc. e toda a vasta produção de trabalhos daí decorrentes. Mas interessa
particularmente o fato de que tais teorias fundamentam referências para
o ensino (as propostas dos PCN, 1997). O que temos visto é a noção de
“Gêneros do discurso” avançar como referência no ensino, ou seja, a no-
ção é aplicada ao ensino. A proposta é que os textos sejam lidos e escritos
a partir do princípio da prática social.

RESUMO

Vimos nessa aula 5 que acepção bakhtiniana nos diz que a língua tem
uma relação direta com as esferas da comunicação onde aparecem. Para
estudar o enunciado devemos considerar o grande gênero (primário ou
secundário) onde esse enunciado aparece, devemos observar seu conteú-
do, sua construção e seu estilo que são inseparáveis. Todo esse percurso
pode nos dizer muito da dimensão social e histórica em que vivemos.
Vimos que as palavras circulam entre diferentes esferas da comunicação.
Elas podem frequentar assiduamente determinado lugar, mas têm a liber-
dade de ir a outros. Elas podem pertencer historicamente a uma determi-
nada esfera da comunicação e, aos poucos, irem ocupando espaço em
outros lugares e em um dado momento, elas já pertencem àquela esfera.
Os trabalhos orientados por essa concepção, sem dúvida, vão em direção
ao domínio do sujeito para além dos domínios do psicologismo da abor-

50
Gêneros do Discurso, Atividade humana e dialogismo na interação verbal... Aula

dagem pragmática que vimos na aula anterior. A abordagem bakhtiniana


toca o sujeito em sua dimensão social e histórica. Isso é o que basicamen-
5
te a diferencia das demais pragmáticas. Seu conceito de enunciação
extrapola os limites do individual e passa a operar fortemente com o con-
ceito de ideologia para o qual reservamos a aula na próxima unidade. Se
na aula 4, aprendemos que o estudo das relações entre enunciados pode
nos colocar diante de sentidos que não se aplicam a indivíduos, mas a
sujeitos sociais, agora sabemos que esse sujeito é sempre construído
dialogicamente na interação verbal.

ATIVIDADES

Lembro-me muito bem quando eu era uma criança, um dia desses, na


primeira metade dos anos de 1970. Um vizinho esnobe comprou dois
carros, fuscas recém lançados (ficou apelidado de “Fafá de Belém”, por
conta de suas avantajadas lanternas lembrarem os seios da cantora
paraense, mas isso não vem ao caso). O homem afixou um adesivo em
cada um dos carros com o seguinte enunciado:

“A inveja é a arma dos incompetentes”

Esboce uma análise desse enunciado procurando relacioná-lo ao nosso


“É velho, mas tá pago!”. Talvez você se sinta estimulada(o) a ler traba-
lhos disponíveis na internet sobre esses enunciados. Talvez você mesma(o)
possa fazer um artigo sobre o assunto. Que tal!?

REFERÊNCIAS

AUROUX, S. A revolução tecnológica da gramatização. Trad. Eni


Orlandi. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1992.
______. Filosofia da linguagem. Trad. José Horta Nunes. Campinas,
SP: Editora da Unicamp, 1998.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo, SP; Martins Fon-
tes, 1997.
______. Marxismo e filosofia da linguagem. 8. ed. São Paulo: Hucitec, 1997.
BRAIT, B. Bakhtin: dialogismo e construção do sentido. Campinas, SP;
Ed. da Unicamp, 1997.
HAVELOCK, E. A. A revolução da escrita na Grécia e suas conse-
qüências culturais. São Paulo, Unesp; Rio de janeiro: Paz e Terra, 1996.

51
Aula
CONDIÇÕES HISTÓRICAS
ESTRUTURA OU
ACONTECIMENTO
ESTAÇÃO ALTHUSSER -
FOUCAULT - PÊCHEUX

META
Apresentar e discutir três pontos relativos às condições históricas de produção
do discurso: as transformações próprias do materialismo histórico; repetição e
memória discursiva; acontecimento histórico, espaço e entrecruzamento
discursivo.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
compreender relações elementares entre o discurso e as condições materiais
de sua produção;
compreender as noções de sujeito histórico-social e memória discursiva.
compreender relações entre acontecimentos discursivos e entrecruzamentos
discursivos;
observar questões fundamentais, na língua, sobre o sujeito das práticas
discursivas e sobre o funcionamento léxico-sintático.

PRÉ-REQUISITOS
Princípios básicos das aulas das aulas anteriores.

Louis Althusser Michel Foucault


( F o n t e : w w w. m a r x i s t s . o r g / (Fonte: www.michel-foucault.com/
portugues/althusser/althusser.jpg) gallery/pictures/foucault08.jpg)
Introdução às Teorias do Discurso

INTRODUÇÃO

Precisamos reconhecer que não somos a origem do que dizemos. Essa


consideração pode assustar um pouco! Mas convenhamos. Quando al-
guém diz ao celular:

“Estou chegando”

Mesmo sabendo que está muito distante da pessoa com quem fala e,
claro, de realmente não estar chegando, quem fala não fala porque quer,
fala porque todos falam. Todo mundo fala “estou chegando” ao celular.
Quer dizer, há uma contradição entre o que a pessoa pensa/sabe e o que
fala. Essa contradição é própria não da pessoa, não do indivíduo, essas
instâncias pouco estão implicadas por dizerem “estou chegando”. Mes-
mo que uma pessoa minta para outra e haja demora, e ela chegue atrasada
e depois apareçam comentários a respeito da mentira, e até discussão,
isso pouco importa: as pessoas falam “estou chegando” independente-
mente de estarem chegando.
Ninguém precisa nem ao menos pensar sobre esse “estou chegando”.
Essa voz impensada é de um locutor enquanto sujeito social coletivo. No
indivíduo, o “estou chegando” é meio inconsciente!
O celular tornou possível essa mentira “não intencional”. É verdade
que muitas vezes é mentira mesmo e, claro, bem consciente. Nesse caso,
o enunciado é um instrumento argumentativo na relação. O “estou che-
gando!” (um presente em andamento) antecipa a chegada porque abre um
intervalo semântico, ou seja, um tempo discursivamente construído ao
suspender os limites definidos por “cheguei” e “chegarei”. O tempo pre-
sente em movimento realiza esse sentido de instrumento de defesa da-
quele que fala, quer dizer, antes de chegar, o indivíduo “já está chegan-
do” na relação. Nesse caso, as noções dêiticas (espaço/tempo – eu/tu),
fundamentais na enunciação, precisam ser redefinidas tendo em vista a
interferência dos meios de comunicação enquanto materialidade históri-
ca. Observemos que incessantemente perguntamos onde está o interlocutor
(Tá onde agora?!).
De qualquer forma, consciente ou não, mentindo ou dizendo a ver-
dade, todos os enunciados só são possíveis porque há condições históri-
cas materiais de produção. O telefone celular tornou possíveis as condi-
ções para essas práticas discursivas. Não são poucos os que falam sozi-
nhos ao telefone para negar a solidão ou para evitar uma conversa
indesejada com um pedinte que se aproxima. Isso porque temos uma rela-
ção histórica com os meios de comunicação. Esse fato nos permite gene-
ralizar as relações entre o discurso e suas condições mais amplas de pro-
dução: as condições históricas. Vejamos!

54
Condições históricas estrutura ou Acontecimento estação Althusser... Aula

REPETIÇÃO E MEMÓRIA DISCURSIVA 6


As condições históricas de produção são, pois, decisivas para com-
preendermos o discurso. A questão central é que o enunciado “estou che-
gando!” raramente fora realizado antes do advento da telefonia móvel
celular. Para nós, apesar de ser fundamental, não é a chegada do aparelho
celular em nossas relações sociais que interessa. Mais importante é a re-
petição do enunciado como parte do acontecimento histórico. É por con-
ta da repetição que são produzidos efeitos de sentido entre locutores.
Falamos “estou chegando!” sem que pensemos e/ou lembremos o por-
quê. Essa falta de lembrança, essa ignorância das causas que nos deter-
minam está na base de nossa existência: é uma base discursiva.
A repetição é parte dos elementos estruturais das condições de pro-
dução do discurso sobre os quais nos fala a chamada escola francesa de
Análise do Discurso. (Entre outras publicações, ver Revista Langages (11,
13, 23, 24, 37, 41, 52, 55, 62...) e Matérialités Discoursive, PUL, LILLE,
1981. Em resumo, do modo como está sendo praticado, o “estou chegan-
do” só é possível por conta das condições históricas de produção.

LUGAR SOCIAL E FORMAÇÕES IMAGINÁRIAS

A noção de condições de produção é tratada por Michel Pêcheux


(1969; trad. bras. 1997, p.79-87) que reformula o esquema da comunica-
ção de Jakobson e enuncia elementos estruturais das condições de produ-
ção: “os locutores designam algo diferente da presença física de organis-
mos humanos individuais... Designam lugares determinados na estrutura
de uma formação social... Assim, por exemplo, no interior da esfera da
produção econômica, os lugares do ‘patrão’, do ‘funcionário de reparti-
ção’, do contramestre, do ‘operário’ são marcados por propriedades dife-
renciais determináveis” (1969, p. 82). Nesse caso, cada indivíduo é múl-
tiplo. Um mesmo indivíduo, quando está em família fala o pai, no traba-
lho fala o profissional, na igreja, o religioso, no hospital, o paciente etc.
Para Pêcheux, esses lugares estão representados nos processos
discursivos e o que funciona nesses processos “é uma série de formações
imaginárias que A e B se atribuem cada um a si e ao outro a imagem que
eles se fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro.” (p. 82). Ou seja, o
lugar social, a posição social ocupada pelo sujeito significa na fala, mas
também entram nessa fala os sentidos do lugar social daquele para quem se
fala (como vimos quando estudamos situação de comunicação na Aula 3).
Assim, a própria linguagem constitui condições históricas de produção
na medida em que as relações, ou seja, a movimentação de sentidos entre
locutores é afetada por representações imaginárias. É também por isso que
o “estou chegando” é dito insistentemente por aquele que está ao telefone.

55
Introdução às Teorias do Discurso

Outro exemplo: um desdobramento histórico

Um ganhador da loteria, iniciante no mundo dos milionários, disse


ano passado na televisão:

“Ainda não caiu a ficha!”

Esse enunciado tem uma relação com uma materialidade empírica


com a qual não mais convivemos. Ou seja, não existe mais o uso de ficha
em telefones públicos. Mas como sabemos, há diversas situações em que
dizemos “ainda não caiu a ficha!”. O fato é que sentidos derivados de
outras condições “que deixaram de funcionar, mas que deram nascimen-
to a ‘tomadas de posição’ implícitas que asseguram a possibilidade do
processo discursivo” (PÊCHEUX, op.cit. p. 85). Por isso, o “ainda não
caiu a ficha” deslizou para outras situações. Podemos dizer que houve um
desdobramento histórico.
O enunciado descreve um fato físico que significava contato com o
interlocutor, a queda da ficha significava que a ligação tinha sido comple-
tada. Desse sentido de contato, houve um deslizamento, e o “ainda não
caiu a ficha” passou a significar um indivíduo surpreso, atônito etc. E,
para Pêcheux, esse desdobramento histórico não está ao alcance do indi-
víduo, ele é da ordem de um sujeito geral, coletivo, dependente da estru-
tura das formações sociais.

ACONTECIMENTO E ESPAÇOS DISCURSIVOS

Em seu O discurso: estrutura ou acontecimento (trad. Bras. 1997), Pêcheux


analisa um enunciado que “pegou” e atravessou a França, quando da elei-
ção do presidente François Mitterand em 10 de maio de 1981: o enunci-
ado é “On a gagné” [“Ganhamos”]. Fundamentalmente, o analista nos
ensina como a materialidade discursiva, o ritmo, a melodia “constitui a
retomada direta, no espaço do acontecimento político, do grito coletivo
dos torcedores de uma partida esportiva cuja equipe acaba de ganhar” (p.
21). Quer dizer, houve um deslizamento contraditório de sentidos do es-
portivo para o político. Contraditório porque é claro que não é coerente
pensar a política como se fosse esporte. E, para nós, é decisivo compre-
ender que o fato desse deslizamento se dá totalmente fora do controle
dos indivíduos. Na verdade, são as condições históricas de produção do
discurso político na França que tornaram essa realidade possível. O ana-
lista nos faz compreender essa contradição problematizando duas ques-
tões que partem da própria língua:

a) Sobre o sujeito do enunciado: quem ganhou?

56
Condições históricas estrutura ou Acontecimento estação Althusser... Aula

Diz-nos Pêcheux, 6
“A sintaxe da língua francesa permite através do on indefinido, deixar
em suspenso enunciativo a designação da identidade de quem ganhou:
trata-se do “nós” dos militantes dos partidos de esquerda? Ou do ‘povo
da França’? ou daqueles que sempre apoiaram a perspectiva de um Pro-
grama Comum? Ou daquele que não mais se reconhecendo na
categorização parlamentar direita/esquerda, se sentem, no entanto, libe-
rados subitamente pela partida de Giscard d’Estaing e de tudo o que ele
representa? Ou daqueles que, ‘nunca tendo feito política’, estão surpre-
sos e entusiasmados com a idéia de que enfim ‘vai mudar’? ...” (p. 24).

Se no espaço logicamente estabilizado do esporte, responder a per-


gunta “quem ganhou o jogo?” restringe-se a uma alternativa entre duas
possibilidades (X ou Y), no espaço político, como vemos, as relações não
são estáveis, não são definitivas. Nesse caso, temos a contradição. Veja-
mos segunda questão:

b) Sobre o complemento do enunciado: ganhou o quê, como, por quê?

A descrição feita pelo autor, passados dois anos do acontecimento,


aponta para a indefinição dos possíveis complementos de “Ganhamos” já
que diferentemente do espaço do esporte, onde quem ganha é o melhor,
ou teve mais sorte, no espaço político, aquilo que se ganha será ou não
obtido posteriormente em um processo de equívocos.

É fundamental compreendermos a análise como um questionamento


teórico a respeito do entrecruzamento de diferentes espaços discursivos
e das contradições daí decorrentes. Ou seja, esse entrecruzamento é re-
sultado do processo histórico que contraditoriamente levou os franceses
a considerar a política de modo semelhante ao esporte, e o que é mais
importante, sem que tenham pensado a esse respeito. A conclusão decisi-
va é que as condições de produção estão na base de produção dos discur-
sos, na base de constituição do sujeito, de nossa existência enquanto se-
res sociais e históricos. Vejamos então o que nos diz, a respeito do tema,
o DAD:

“As condições de produção desempenham um papel essencial na


construção dos corpora, que comportam necessariamente vários textos
reunidos em função das hipóteses do analista sobre suas condições de
produção consideradas estáveis. A correlação muito mecanicista entre
o discurso e as classes sociais foi criticada pelos especialistas da
microssociologia das interações que insistem nas margens de manobra

57
Introdução às Teorias do Discurso

dos sujeitos (sob o risco de considerar sujeitos sem contexto e sem


memória). Em uma perspectiva que deve muito a Foucault, ela cedeu a
vez a uma visão mais complexa das instituições discursivas e da relação
entre o interior e o exterior do discurso”. MAINGUENEAU, 1991; ou
GUILHAUMOU, 1998b, a propósito do papel dos mediadores).

“Além do seu emprego na linha dos trabalhos de Pêcheux e de sua


redefinição por Courtine (1981, p. 19-25), essa noção [condições de
produção] terminou por adquirir um sentido geral, assimilando-se
algumas vezes a contexto, termo também ambíguo, entendido como
o conjunto dos dados não-linguisticos que organizam um ato de
enunciação. Evidentemente, isso representa um problema, pois nesse
conjunto de dados há os que decorrem apenas da situação de
comunicação e outros, de um saber pré-construído que circula no
interdiscurso e sobredetermina o sujeito falante. Dito de outra forma,
algumas dessas condições são de ordem situacional e outras de ordem
do conteúdo discursivo. É certo que um sujeito falante é sempre
parcialmente sobredeterminado pelos saberes, crenças e valores que
circulam no grupo social ao qual pertence ou ao qual se refere, mas
ele é igualmente sobredeterminado pelos dispositivos de comunicação
nos quais se insere para falar e que lhe impõem certos lugares, certos
papéis e comportamentos.”. (Dicionário de Análise do Discurso -
CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2004.)

CONCLUSÃO

Ao longo dessa aula, estudamos alguns enunciados: “estou chegan-


do!”, “tá onde agora?”, “ainda não caiu a ficha!” e “Ganhamos!”. Obser-
vemos que em todos eles, procuramos descrever seus traços lingüísticos e
fatos de linguagem sempre articulados a dimensões sociais e sobretudo
históricas. Em nenhum momento foi preciso avançar muito em
categorizações metalingüísticas, isto é, não foi preciso fazer um estudo
gramatical para desenvolver as análises. Isso acontece porque o discurso
não obedece a categorizações e, assim, não há fórmulas para estudá-lo.
As descrições buscam sobretudo os efeitos de sentido entre locutores
produzidos pelos enunciados na constituição do sujeito.
Os efeitos de sentido vêm em uma infinidade de formas e pelas mais
diversas interferências: vimos o caso do celular, mas tanto oralidade como a
própria escrita interferem produzindo efeitos de sentido (ver, por exemplo, o
já citato O Grau zero da escritura, Barthes) vimos também que a própria língua
interfere porque ela significa uma memória discursiva; por fim, vimos que há
interferências de um discurso no outro, ou seja, porque um discurso não nun-
ca fechado em si mesmo: o outro sempre irrompe no discurso

58
Condições históricas estrutura ou Acontecimento estação Althusser... Aula

RESUMO 6
Os estudos da linguagem de um ponto de vista discursivo devem
reconhecer que as condições históricas materiais de produção são funda-
mentais já que elas interferem nos sentidos daquilo que falamos. Quer
dizer, há relações muito específicas entre o que dizemos e o materialismo
histórico, os processos de transformação das coisas com as quais nos re-
lacionamos. Por outro lado, por conta da repetição de diferentes formas, a
própria linguagem constitui condições materiais de produção de efeitos
de sentido entre locutores, ou seja, de discurso. São os processos históri-
cos que tornam possível a repetição de formas, de sentidos daquilo que
não mais lembramos. Os processos históricos constituem uma memória
discursiva. Eles nos fazem esquecer as causas que nos determinam e cons-
tituem o sujeito fora do domínio consciente do indivíduo. É por isso que
dizemos “ainda não caiu a ficha”, sem pensar a respeito dos antigos siste-
mas analógicos de telefonia e suas “fichas caindo!”. Um terceiro ponto
que especifica as relações entre discurso e condições de produção diz
respeito ao entrecruzamento de espaços discursivos. Quando falamos,
falamos a partir de um lugar social regidos por determinadas condições
estruturais. A fala de uma torcida de futebol obedece a determinadas
condições, outras condições determinam o que diz o político. Mas isso
não impede que os sentidos de um lugar social compareçam em outro. Na
verdade, esse comparecimento, essa relação com o outro é indispensável.
No discurso, a presença do outro é inseparável, é constitutiva, é condição
histórica de produção.

ATIVIDADES

Leia o texto Amor sem pudor de Jonathan Franzen, publicado no Cader-


no Mais! do Jornal Folha de São Paulo, em 16.11.2008 (disponível na plata-
forma). Observe como o autor relaciona o discurso às suas condições de
produção relativamente ao momento histórico. É um belo texto!

59
Introdução às Teorias do Discurso

REFERÊNCIAS

CHARAUDEAU & MAINGUENEAU. Dicionário de Análise do Dis-


curso -, 2004.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do ób-
vio. Trad. Eni P. Orlandi et all. Campinas: Editora da UNICAMP, 1998.
(Coleção Repertórios).
______. Matérialités discoursive, Pul, Lille, 1981.
______. FUCHS (1975). A propósito da análise automática do discurso:
atualização e perspectivas In: GADET; HAK. Por uma análise auto-
mática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campi-
nas, SP, editora da Unicamp, 1997.
______. A análise de discurso: três épocas (1983). In: GADET, F. et
HAK, T. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à
obra de Michel Pêcheux. Campinas: Edunicamp, 1990.
______. Análise automática do discurso (1969). In: GADET; HAK. Por
uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel
Pêcheux. Campinas, SP, editora da Unicamp, 1997.
Langages (11, 13, 23, 24, 37, 41, 525562...).

60
Aula
IDEOLOGIA

META
Examinar as principais noções/conceitos de Ideologia, segundo os
autores que influenciaram fortemente o surgimento das teorias do
discurso.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
identificar diferentes modos de compreender a noção de ideologia.

PRÉ-REQUISITOS
Aulas anteriores.

Ideologia pode ser entendida como um conjunto de idéias, conceitos e visões de mundo
de um indivíduo ou grupo, que encobre as contradições existentes na sociedade.
(Fonte: www.hugocristo.com.br/old/imagebank/thumb255_dvi866018hccv.jpg)
Introdução às Teorias do Discurso

INTRODUÇÃO

“Meus heróis morreram de overdose,


meus inimigos estão no poder.
Ideologia, eu quero uma pra viver”
(Cazuza, 1983).

“Não é a vida como está e sim as coisas


como são” (Renato Russo).

O termo ideologia é comumente utilizado com o sentido de conjunto


de ideias sobre sociedade e sobre política. Para Karl Marx, a ideologia é o
que aliena o homem, o que faz com que ele não compreenda sua própria
realidade. A ideologia está a serviço da dominação, nas relaçoes entre
classes sociais, por imposição (MARX, & ENGELS, 1846/2002). É, no
entanto, a partir de Althusser que a noção de ideologia é tratada de modo
sistemático como resultante das práticas das instituições sociais. No seu
livro Aparelhos Ideológicos de Estado (1985), Althusser propõe que estude-
mos a ideologia. Esses “aparelhos” podem ser a escola, a religião, a famí-
lia, o sistema jurídico, o sistema político, a cultura, a informação etc. São
meios para reprodução das relações de produção/exploração capitalista.

Capa de edição brasileira de Aparelhos


ideológicos de Estado, de Louis Althusser.
(Fonte: http://i.s8.com.br/images/
books/cover/img4/6124_4.jpg)

62
Ideologia Aula

DESENVOLVIMENTO 7
SUJEITOS (IDEOLÓGICOS) SEM SABER

Para os estudiosos do discurso, sobretudo, a análise do discurso fran-


cesa (doravante AD) dos anos 60 e 70, a ideologia, ou “o funcionamento
da instância ideológica” consiste naquilo que se convencionou chamar
interpelação. Isto é, sob a “evidência” do que realmente somos há um pro-
cesso de assujeitamento do sujeito. Assim, cada um é conduzido, sem per-
ceber, mas tem “a impressão de estar exercendo sua livre vontade, a ocu-
par o seu lugar em uma ou outra das duas classes antagonistas do modo
de produção.” (PÊCHEUX & FUCHS, 1975, p. 165-166).

Um exemplo

Sem que pensemos a respeito, fora da nossa consciência, a escola nos


ensina a respeitar hierarquias: a foto do presidente na sala do diretor, o
diretor, o coordenador, o professor e o aluno. A escola nos ensina a res-
peitar o tempo: através da sirene temos os horários da aula, do recreio
etc. A escola nos ensina que temos um espaço: na sala de aula temos
cadeira, temos nome e número no diário de classe. A escola nos ensina a
termos conosco a inseparável mochila contendo instrumentos de traba-
lho: cadernos, livros, lápis etc. E, claro, nenhuma criança vai perguntar o
porquê de tudo isso no sentido mais forte: o social, o histórico etc. Esses
ensinamentos da escola são fundamentais no processo de inserção do
indivíduo (ser de carne e osso) nas relações de produção capitalistas. Ou
seja, deixamos de ser muitos indivíduos para sermos um sujeito na socie-
dade. Vejamos, nesse processo, dois detalhes que interessam muito de
perto a quem estuda o discurso.

O INCONSCIENTE E O SIGNO (LINGUÍSTICO)

Dois detalhes inseparáveis são decisivos para compreendermos as


relações entre teorias do discurso e das ideologias:

a) O primeiro é o fato de que os Aparelhos ideológicos de estado (AIE),


como vimos no exemplo da escola, nos ensinam coisas sem que pense-
mos a respeito. Quer dizer, é um saber inconsciente.
b) O segundo detalhe é justamente o papel do signo (lingüístico) nesses
ensinamentos inconscientes.

A questão central é que os signos aparecem para nós como “transpa-


rentes”. Quando ligamos uma palavra a uma coisa, fazemos um percurso

63
Introdução às Teorias do Discurso

“sem problemas” porque as palavras têm “significados evidentes”. Mas


acontece que ao movimentarmos os signos, ou seja, quando a linguagem
está em funcionamento, os diferentes modos de dispor o signo e as dife-
rentes situações de uso acabam por produzir efeitos que muitas vezes não
consiguimos controlar e o percurso entre as palavras e as coisas torna-se
problemático. Para o estudioso do discurso, o signo linguistico, a lingua-
gem em funcionamento, nunca é transparente, os significados não são
evidentes, e sempre apontam em diferentes direções.

É por isso que para Bakhtin “um produto ideológico faz parte de uma
realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de pro-
dução ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também re-
flete e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo que é ideoló-
gico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em
outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe
ideologia.” (1979, p. 17).

Outro exemplo

Vejamos uma situação.

Em um congresso, a palestrante projeta o mapa-múndi no telão.


Alguém avisa:
- Está de cabeça pra baixo!
A palestrante retruca:
- Por que o mapa está de cabeça pra baixo?!

Querendo fustigar os sentidos da convenção da cartografia mundial


que dispõem em destaque na parte superior do mapa a Europa e os EUA,
países historicamente dominantes, a estratégia da palestrante é realmente
mexer com a questão da ideologia que nos leva a pensar a partir de uma
certa hierarquia (“primeiro mundo na parte de cima, o segundo embaixo).
Observemos que é a partir do signo em funcionamento, ou seja, da dispo-
sição do mapa no telão, que a linguagem pode aparecer como não eviden-
te. Vejamos dois pontos importantes para a análise:
a) A realização do enunciado “está de cabeça pra baixo!” significa um
estranhamento e ao mesmo tempo um percurso não realizado pelo ouvin-
te da palestra. Ou seja, ao relacionar o signo (o mapa) com a coisa (o
globo terrestre), e ver nessa relação “um problema”, uma “não evidên-
cia”, o falante nos revela a dimensão ideológica que nos afeta, a relação
imaginária que temos com nossa existência.

64
Ideologia Aula

b) Todo esse processo fica marcado na língua reproduzindo e transfor-


mando relações de dominação. Observemos que o enunciado projeta uma
7
relação entre a disposição corpórea humana (a cabeça, o mais importan-
te, na parte superior) e o o mapa no telão” Estamos diante da ideologia
materializada. Estamos diante do discurso. Uma discussão histórica que
interessa vem no site da wikipedia. Vejamos:

“Um mapa-múndi, também conhecido como planisfério, é um mapa


que representa todo globo terrestre, tendo os dois hemisférios
projetados lado a lado... A projeção do nosso globo mais utilizada
até hoje foi a “Projeção de Mercator”, feita por Gerardus Mercator
em 1569. Essa projeção, porém, é alvo de críticas, tanto por ser
eurocentrista - a Europa é o centro do mapa - quanto porque o mapa
é bastante distorcido nos extremos norte e sul do globo; por exemplo,
a ilha da Groenlândia está duas vezes maior do que a América do
Sul, quando na verdade é a América do Sul que é oito vezes mais
extensa que a Groenlândia. A Projeção de Mercantor foi sendo
substituída por outras projeções, como a Projeção de Mollweide, a
Projeção de Robinson e a Projeção de Winkel Tripel. Essas projeções
deformam menos o mapa, e por isso vêm sendo mais adotadas.Todas
as formas de projeção adotadas até hoje são denominadas
anamórficas, já que transferem uma macro-geometria esférica e rugosa
(topografia) para um plano, a partir de um ponto de referência. Essas
variações históricas dos mapas em distorções nas proporções dos
continentes podem sugerir relações simbólico-políticas, já que
astronomicamente, não há início ou fim, nem parte superior ou inferior
do globo. A despeito dos “centrismos”, a referência costuma ser o
norte geográfico e magético, e o eixo de rotação da Terra, exceto
para mapas não-globais” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Mapa-mundi)

ATIVIDADES

Gostaria de propor a todos uma pequena pesquisa (recortando e co-


lando) expressões em enunciados que de diferentes modos estabelecem
relações que hierarquizam os sujeitos sociais. Por exemplo, no enunciado
(ver letra de música de Jorge Ben Jor):

“Ela mora muito longe”

Os signos apontam para relações que no dia-a-dia nos parecem bas-


tante evidentes, transparentes. Mas, pensando bem, esse “morar longe”
significa não apenas a distância física. Na verdade, a distância que aí se

65
Introdução às Teorias do Discurso

estabelece é ideológica: o sujeito é que está sendo predicado nessa dis-


tância que é então discursiva. Por oposição, pensemos um pouco sobre
um outro enunciado muito comum em propagandas de empreendimentos
imobiliários:

“Venha morar perto de tudo”

Selecione enunciados com outras expressões que hierarquizam as


relações:

Expressões numéricas: o primeiro, o terceiro mundo etc.;


Expressões temporais: o velho e o novo mundo;
Expressões espaciais: “Brasil profundo”.

Karl Heinrich Marx (1818-1883) foi um intelectual e revolucionário


alemão, fundador da doutrina comunista moderna, que atuou como
economista, filósofo, historiador, teórico político e jornalista. http:/
/pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx , foto do pensador.

“Louis Althusser (1918-1990) filósofo francês de origem Argelina.


Althusser era, portanto, um pied-noir, termo que significa literalmente
“pé-negro” e é usado em francês para descrever a população francesa
que vivia na Argélia e que se repatriou na França depois de 1962,
ano em que a Argélia se tornou independente, naquilo que foi um
longo conflito sangrento. No seu uso corrente em francês, pied-noir
é quase um sinônimo de repatriado”. (http://pt.wikipedia.org/wiki/
Althusser)

CONCLUSÃO

Os estudos sobre ideologia e os que usam o conceito para produção


de análise têm largo alcance na produção acadêmica. Sua extensão é his-
toricamente tão ampla que nos últimos anos se fortaleceram posições
contrárias a sua hegemonia.

66
Ideologia Aula

RESUMO 7
Nesta aula, apresentamos o conceito clássico de ideologia construído
pelo chamado materialismo histórico e reformulado pela AD. O conceito
tem papel decisivo na compreensão do sujeito por parte de diversas teo-
rias do discurso. Desde certas pragmáticas, passando pelo dialogismo
bakhtiniano, até alcançar a chamada “Análise do Discurso francesa”. Para
a AD, o conceito é decisivo porque dá sustentação a noção de sujeito
assujeitado.

ATIVIDADES

Faça uma pequena pesquisa a partir de buscadores da internet (Google,


UOL) recortando e colando ocorrências da palavra ideologia em diferen-
tes contextos. Por exemplo, contextos políticos, acadêmicos, entre outros
de sua escolha. Para isso, claro, é preciso cercar a palavra de outras (ide-
ologia, senado brasileiro; ideologia, ciência, conhecimento). Em segui-
da, faça comentários por escrito procurando informar os sentidos da rea-
lização da palavra ideologia em função do que temos estudado.

Um exemplo

Em texto publicado no Jornal do Senado – Internet em 15/01/2003,


vem a seqüência:

“Edmar Bacha registra que a tese, intitulada Inflação (Ideologia e


Realidade), considera a teoria geral de Keynes como a ideologia da infla-
ção moderna: ‘a inflação é vista como uma técnica de elevação de juros e
rebaixamento salarial que garante ao mundo capitalista almejar o pleno
emprego’”. http://www.senado.gov.br/senamidia/parla/noticiadosenado
Bem, como se vê, a palavra ideologia é realizada significando algo
que antecede o funcionamento da inflação para o alcance de determina-
do objetivo. É uma estratégia para manipulação da realidade.

Boa pesquisa!

67
Introdução às Teorias do Discurso

REFERÊNCIAS

CHARAUDEAU, P. ; MAINGUENEAU, D. Dicionário de Análise do


Discurso. São Paulo, Editora contexto, 2008.
PÊCHEUX; FUCHS. A propósito da análise automática do discurso: atu-
alização e perspectivas In: GADET; HAK. Por uma análise automáti-
ca do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campinas,
SP; Editora da Unicamp, 1997.

68
Aula
A ANÁLISE DE DISCURSO À
FRANCESA: INTERDISCURSO E
FORMAÇÃO DISCURSIVA ESTAÇÃO MICHEL
PÊCHEUX

META
Esboçar um quadro teórico da Análise do Discurso em relação à constituição do
sujeito através das noções de interdiscurso e formação discursiva.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
tornar possível a compreensão do funcionamento do interdiscurso como sentidos
exteriores e anteriores que aparecem no dizer e trazem uma memória discursiva
para a constituição do sujeito;
apresentar a noção de formação discursiva com posições ideológicas,
antagônicas e contraditórias nelas próprias, como parte de uma complexa rede
de representações sócio-históricas onde o sujeito está dividido.

PRÉ-REQUISITOS
As aulas anteriores.

A proposta de um novo objeto chamado discurso surgiu com Michel Pêcheux, na França, em
sua tese Analyse Automatique du Discours, em 1969. Ele trabalhava em um Laboratório de
Psicologia Social e sua idéia era a de produzir um espaço de reflexão que colocasse em questão
a prática elitizada e isolada das Ciências Humanas da época. Para tanto, sugeriu que as ciências
se confrontassem, particularmente a história, a psicanálise e a linguística. Chamou de “entre-
meio” este espaço de discussão e compreensão e de “discurso” o objeto aí estudado.
(Fonte: www.labeurb.unicamp.br/portal/UserFiles/Image/Michel1.JPG)
Introdução às Teorias do Discurso

INTRODUÇÃO

“Meu nome veio antes de sete gerações de homens com o mesmo


nome, cada um dando ao seu primeiro filho o mesmo nome do pai e então
as mães apelidando os filhos para não confundi-los com os pais quando
ouviam seus nomes serem chamados ao ar livre, enquanto trabalhavam
lado a lado no trigo alto até a cintura.
Os filhos acreditavam que seus nomes eram os apelidos que ouviam
flutuando através desses campos e respondiam a eles, imaginando quem
eram pelo som das palavras, sem jamais sonhar que seu nome real e legal
os estava esperando, escrito em algum papel em Chicago, e que aquele
nome seria o que precederiam com ‘Sr.’ E que aquele seria o nome com o
qual morreriam.”

Sam Shepard
Homestead Valley, California.
02.05.2009

Repare, cara (o) aluna (o), que o texto faz pensar a respeito de ante-
rioridades. E assim como os personagens do conto/crônica, quando fala-
mos, estamos afetados por interpretações construídas anteriormente. Por
exemplo, se estou em aula presencial e alguém mal vestido e “tropeçando
no português” pede para falar com a turma, tenho ímpetos de negar, mes-
mo sem saber da relevância do que ela tem a dizer. Se outro dia a mesma
pessoa retorna bem vestida e caprichando no fraseado, nossa vontade é
pedir que ela entre e fale antes mesmo que tenha pedido.
É por isso que é possível falar que já existem interpretações histori-
camente construídas. Essa existência pode até parecer maligna, mas é por
conta dela que entendemos o que entendemos. Se não fosse esse entendi-
mento prévio, um simples “Bom dia!” seria um problema. Sem esse en-
tendimento a língua estaria paralisada. De modo que essa existência não é
tão maligna assim. É por que tudo já foi dito antes que podemos lembrar,
sem fazer esforço para tanto. Pois bem, é o interdiscurso que nos faz in-
terpretar sem que saibamos que o fazemos (ver Maingueneau, 2005, Cap.
1. “Primado do Interdiscurso”, p. 33-48).
Além dessa anterioridade, falamos sempre ocupando uma posição.
Falamos como médico, ou como professor, como pai, mãe, membro do
partido, diretor, presidente etc. Somos indivíduos, mas ocupamos essas
posições que falam em nós e essas posições institucionalizadas são
construídas historicamente na complexa rede de formações ideológico-
discursivas. Como essas formações acabam desrespeitando os limites umas
das outras, o sujeito estará sempre dividido.

70
A Análise de Discurso À Francesa: Interdiscurso e Formação Discursiva ... Aula

Voltando um pouco ao conto de Shepard, observemos que ele nos


faz pensar a respeito de anterioridade enquanto instituição, sobretudo a
8
família, mas também sobre a lei, a instituição jurídica [como o real] e,
nela, algo decisivo: a escrita – nesse ponto, o aprofundamento dos estu-
dos não deve ter um outro princípio senão com Roland Barthes, em seu
ensaio “O grau zero da escritura”, 1953.

LUGARES DO DISCURSO

Partindo desses princípios, nossa análise das materialidades discursivas


procura observar os sentidos das construções em função das posições
ocupadas pelos Sujeitos cujos discursos são atravessados por discursos
“Outros”, advindos de outras formações discursivas representadas na lin-
guagem fazendo referência às formações ideológicas em que tais posi-
ções são inscritas. Eis o espaço em que um discurso irrompe no outro;
lugar em que um discurso se constitui pelo exterior específico de uma
formação discursiva: o interdiscurso. Dessa forma:
“O sujeito do discurso continua sendo concebido como puro efeito de
assujeitamento à maquinaria da Formação Discursiva com a qual ele se
identifica. A questão do “sujeito da enunciação” não pode ser posta senão
em termos da ilusão do “ego-eu” [“moi-je”] como resultado do
assujeitamento (cf. a problemática althusseriana dos Aparelhos Ideológicos
de Estado) frequentado pelo tema spinozista da ilusão subjetiva produzida
pela ‘ignorância das causas que nos determinam’”.(PÊCHEUX, 1997).

O sujeito objeto de estudo da análise do discurso não é senhor daquilo


que diz, não é a origem do que diz por uma razão dupla: ele é um
sujeito constituído fora do consciente do indivíduo. Essa constituição
é sempre efeito de uma anterioridade, de uma memória que nossa
lembrança não alcança. Uma memória fala em nós pelo inconsciente,
por isso o sujeito é assujeitado. Ele é constituído pela memória
discursiva (nessa direção o debate da AD com a psicanálise lacaniana
é bastante produtivo, por exemplo, para estudos mais avançados,
ver como a discussão aparece com Henry, 1992, cap. II “O sujeito e
o significante”, p. 155-192, em seu A Ferramenta imperfeita).

Por mais singular que seja, cada uma de nossas histórias está subme-
tida às relações língua/linguagem na sociedade e pela história. Cada uma
de nossas histórias foi e é alcançada por determinadas regiões da comple-
xa rede de formações ideológico-discursivas. Quando falamos, o fazemos
sempre de uma posição sócio-histórica. Para estudar esse sujeito algumas
condições são fundamentais: a AD propõe uma série de procedimentos,

71
Introdução às Teorias do Discurso

disponibiliza um debate teórico e noções para proceder as análises. Den-


tre essas noções vamos apresentar duas delas: interdiscurso e forma-
ção discursiva.

Em seu “Discurso: fatos, dados e exterioridade” Orlandi, (1996) faz


uma síntese de questões centrais sobre procedimentos do analista frente
ao objeto: o discurso. A autora nos fala a respeito de um deslocamento
capaz de nos colocar diante do acontecimento lingüístico e do funciona-
mento discursivo em práticas sociais. Para fazer esse deslocamento é pre-
ciso dispor de instrumentos, de categorias de análise. São elas: interdiscurso
e formação discursiva. Para apresentar esse percurso e essas categorias
vamos trazer três analises de enunciados. Vejamos!

O interdiscurso significando no sujeito: “não assisto novela, apenas


‘um pedaço’”

Certa vez, o professor que aqui fala, estava em uma fila para o caixa
de um supermercado em São Paulo e, sem querer, ouvia a conversa de
um jovem casal. A bela distraidamente comentava uma dessas revistas
colocadas à disposição para suavizar (ou agonizar) aqueles momentos em
que estamos no corredor da morte! De repente, observando as fotos, ela
abriu um comentário:

“Olha, amor, é aquele ator do filme, eu tava assistindo a novela...”.

No momento em que enunciou a palavra “novela”, a mocinha olhou


ao redor e se deparou com o meu olhar. Imediatamente, entrou em sua
fala um outro comentário. A sequência ficou mais ou menos assim:

“Olha, amor, é aquele ator do filme, eu tava assistindo a novela, um


pedaço, e ele tá fazendo um papel ridículo”.

Ora, o que esse “um pedaço” está fazendo aí?! Se ela disse aquilo
porque eu estava ouvindo e ela se preocupa com o fato de ser reconheci-
da como alguém que assiste novela, cabe perguntar quem é esse “eu” que
a ouvia. Se ela não me conhece, estávamos na gigantesca cidade de São
Paulo, para que essa preocupação? Esse “um pedaço” é uma espécie de
resposta a uma pergunta não realizada. É como se alguém estivesse em
seu encalço dizendo:

“Menina, você que se quer tão inteligente, assistindo a novelas?!”

72
A Análise de Discurso À Francesa: Interdiscurso e Formação Discursiva ... Aula

Esse “um pedaço” não é parte da conversa com o namorado e tam-


bém não era nada comigo, claro. É uma conversa exterior ao domínio dos
8
indivíduos. Essa conversa é da ordem de constituição do sujeito. Veja, o
“um pedaço” significa um limite de sentido no sujeito. E não é porque a
palavra remete a divisão. É o sujeito que está dividido nessa contradição
entre assistir a novela e ao mesmo tempo rejeitá-la. Isso acontece porque
novela significa “coisa de povão, coisa fútil; assistir novela é perda de
tempo, é coisa de mulher à moda antiga” etc., etc., etc. A palavra “nove-
la” traz toda essa memória discursiva para fio linguístico. Em síntese, o
“um pedaço” dá visibilidade a algo que aparece como externo, mas é pró-
prio da linguagem. Esse fato leva o nome de interdiscurso (Orlandi, 2000,
P. 23-55). Dito assim, a noção pode até parecer simples, mas ela tem um
alcance bastante elevado no debate das teorias do discurso.

A definição de interdiscurso no DAD: “Interdiscurso. Todo discurso


é atravessado pela interdiscursividade, tem a propriedade de estar
em relação multiforme com outros discursos, de entrar no
interdiscurso. Esse último está para o discurso como o intertexto
está para o texto”.

Em um sentido restritivo, o ‘interdiscurso’ é também um espaço


discursivo, um conjunto de discursos (de um mesmo campo discursivo ou
de campos distintos) que mantêm relações de delimitação recíproca uns
com os outros. Assim para Courtine (1981: 54), o interdiscurso é ‘uma
articulação contraditória de formações discursivas que se referem a for-
mações ideológicas antagônicas’.
“Mais amplamente, chama-se também de ‘interdiscurso’ o conjunto
das unidades discursivas (que pertencem a discursos anteriores do mes-
mo gênero, de discursos contemporâneos de outros gêneros etc.) com os
quais um discurso particular entra em relação implícita ou explícita. Esse
interdiscurso pode dizer respeito a unidades discursivas de dimensões
muito variáveis: uma definição de dicionário, uma estrofe de um poema,
um romance...” (286).
“Pode-se explorar a distinção entre intertexto e interdiscurso. Assim, Adam
(1999: 85) fala de ‘intertexto’ para ‘os ecos de um (ou de vários) texto (s)
em outro texto’, independentemente de gênero, e de ‘interdiscurso’ para o
conjunto dos gêneros que interagem em uma conjuntura dada. Por sua
vez, Charaudeau (1993d) vê no ‘interdiscurso’ um jogo de reenvios entre
discursos que tiveram um suporte textual, mas de cuja configuração não
se tem memória; por exemplo, no slogan ‘Danoninho vale por um bifinho’,
é o interdiscurso que permite as inferências do tipo ‘os bifes de carne têm
um alto valor protéico, portanto devem ser consumidos’. Por sua vez o
‘intertexto seria um jogo de retomadas de textos configurados e ligeira-
mente transformados, como na paródia” (286)).

73
Introdução às Teorias do Discurso

Paráfrase A Formação Discursiva do baixo calão: “o ‘se fu’ de Lula”

É o fato do redizer no Com a chegada da crise econômica americana ao Brasil, em dezem-


esforço de manter
bro do ano passado, o presidente Lula, várias vezes, apareceu na mídia
algo do que já foi dito,
ou seja, é outra for- defendendo a solidez da economia brasileira. Em certo pronunciamento,
mulação do mesmo Lula comparou a crise a uma “diarreia braba”. Ele fez toda uma compara-
dizer. Ex. “A crise eco- ção com um atendimento em que o médico avalia o quadro do paciente e
nômica chegou ao conclui: “Meu, se fu...”. É claro que a expressão provocou os mais varia-
Brasil” / “O país ex- dos efeitos de sentido: da plateia veio uma gargalhada geral; um secretá-
perimenta os primei-
rio sentado bem próximo ao púlpito levou a cabeça junto ao joelho balan-
ros efeitos da crise”.
Quando no ensino, çando-a negativamente e balbuciando, certamente, uma desaprovação!
pede-se um resumo, William Bonner, âncora do Jornal Nacional da Rede Globo, descreveu o
faz-se uma paráfrase. fato como uma “extravagância”. Todos esses efeitos de sentido entre lo-
Uma tentativa de não cutores de diferentes modos negam o fato, mas dois outros efeitos traba-
alterar o que disse o lham para o apagamento dos sentidos.
autor.
Entre as muitas matérias, comentários e artigos jornalísticos que fo-
Polissemia: enquanto
a paráfrase trabalha ram postados na internet a respeito do fato, em um deles, lá pelo meio do
em favor da manuten- texto, o comentarista faz uma paráfrase. Ele diz como lula deveria ter
ção dos sentidos, a dito:
polissemia é o fato da
presença do novo no “A expressão, dita por um presidente da República Federativa Brasi-
mesmo. Ex. Diferentes
leira, significa: ‘Caríssimo, agora não tem mais jeito, a situação é grave’.”
significações a partir
de uma mesma pala-
vra e/ou enunciados: Ou seja, o que está significando no sujeito é esse sentido de manu-
“os primeiros efeitos tenção, de estabilidade, o que temos é uma tentativa de não alterar o que
da crise” / “a crise se deve dizer na posição em questão, a de presidente da república. Esse
econômica chegou”. funcionamento é explicitado, os sentidos apontam o que deveria ser, isto
No primeiro, o senti-
é, os sentidos trabalham para o apagamento do que o presidente é.
do é o da própria cri-
se em sua totalidade;
no segundo, as dife- “Esta seria a forma de um presidente da república usar uma metáfora
renças são muitas: o para explicar uma situação. Mas não! Ele preferiu a forma mais chula que
sentido não é o da cri- existe.”
se propriamente dita,
mas são seus efeitos
Nesse fato, ou seja, a paráfrase, as duas realizações (Posição X, a de
e apenas os primei-
ros, o sentido da cri- Lula e a posição Y, a do blogueiro), o fundamental é que o dizer de Lula é
se em sua parcialida- o novo, é polissêmico, isto é, o dizer de Lula difere muito do que está
de. É no movimento estabelecido para a posição Presidente. O dizer de Lula é polissêmico. O
entre esses dois fatos dizer de Lula rompe com o princípio paráfrastico, ele estabelece conflito
(paráfrase e polissemia) com o que historicamente se espera da fala de um Presidente da Repúbli-
que temos o funciona-
ca. Se X vem para estabelecer o novo, Y está trabalhando para apagar X,
mento da linguagem
(ORLANDI, 2000, p. 36- para negar algo que é específico no sujeito, na posição ocupada por Lula.
39. O que temos então é um confronto de posições antagônicas, um confron-
to de formações discursivas.

74
A Análise de Discurso À Francesa: Interdiscurso e Formação Discursiva ... Aula

O interessante dessa noção é que seus sentidos não selecionam a


posição pelo indivíduo, o antagonismo. Por exemplo, os sentidos do apa-
8
gamento aparecem na própria posição da presidência. O site oficial da
presidência não publicou o “se fu”, disseram que “não ficou audível”.
Aliás, esse apagamento, já começa no próprio dizer do presidente: a síla-
ba “deu” é apagada. Mas, como diz o ditado, para bom entendedor...

NOTINHA FINAL

Na verdade, cada um de nós pode experimentar os efeitos de sentido


desse apagamento. O professor que aqui fala hesitou um pouco antes de
trazer o “se fu” do presidente para esse material didático. Na aula presencial
o apagamento é visível, temos dificuldade em dizer “palavras chulas”. As
pessoas ficam consternadas.

Vejamos a definição de formação discursiva, introduzida por Foucault


e reformulada por Michel Pêcheux:

“Dada uma formação social em um momento determinado de sua his-


tória, ela se caracteriza, através do modo de produção que a domina, por
um estado determinado da relação entre as classes que a compõem; essas
relações expressam-se por meio da hierarquia das práticas que esse modo
de produção necessita, levados em conta os aparelhos através dos quais se
realizam essas práticas; a essas relações correspondem posições políticas e
ideológicas, que não são o feitio de indivíduos, mas que se organizam em
formações que têm entre elas relações de antagonismo, de aliança ou de
dominação. (...) cada formação ideológica constitui, assim, um conjunto
complexo de atitudes e de representações que não são nem individuais nem
universais, mas que se relacionam, mais ou menos a posições de classes em
conflito umas em relação às outras(..) as formações ideológicas assim defi-
nidas comportam necessariamente, como um de seus componentes, uma
ou várias formações discursivas interligadas, que determinam aquilo que
pode e deve ser dito ( articulado sob a forma de uma harenga, de um ser-
mão, de um panfleto, de uma exposição, de um programa etc.) a partir de
uma posição dada em uma determinada conjuntura.” (Haroche, C. Henry,
P & Pêcheux, M. 1971, p. 102. Apud. Serrani, S. M., 1993, p. 25).

Também o DAD traz, claro, uma apresentação da noção. Vejamos.

“a noção de formação discursiva foi introduzida por Foucault e


reformulada por Pêcheux no quadro da análise do discurso. Em
função dessa dupla origem, conservou uma grande instabilidade”
(DAD, p. 240).

75
Introdução às Teorias do Discurso

“Michel Foucault [ver http://pt.wikipedia.org/wiki/


Michel_Foucault] falando, em arqueologia do saber, de ‘formação
discursiva’, procurava contornar as unidades tradicionais como ‘teoria’,
‘ideologia’, ‘ciência’, para designar conjuntos de enunciados que podem
ser associados a um mesmo sistema de regras, historicamente determina-
das: ‘Chamaremos discurso um conjunto de enunciados na medida em
que revelam a mesma formação discursiva’ (1969b: p. 153). Caracteriza a
formação discursiva, ao mesmo tempo, em termos de dispersão, de rari-
dade, de unidade dividida...e em termos de sistema de regras. Além do
mais sua concepção da formação discursiva “deixa em aberto a
textualização final’ (1969b: 99): estamos longe, aqui, de um procedimen-
to da análise do discurso que não poderia dissociar formação discursiva e
estudos das marcas lingüísticas e da organização social” (DAD, p. 241).

CONCLUSÃO

A questão central para a AD, o assujeitamento do sujeito que é social e


histórico, passa pela discussão que estabelece as noções de interdiscurso e for-
mação discursiva para esse estudo. É bem verdade que o debate disponível é
bastante complexo, mas é frutífero e acaba envolvendo as duas noções. Veja-
mos os comentários do DAD:
“A análise do discurso francófono fez freqüentemente do primado do
interdiscurso sobre o discurso uma de suas teses principais. Na ‘Escola France-
sa, especialmente em Pêcheux, a formação discursiva não pode produzir o
‘assujeitamento’ ideológico do sujeito do discurso a não ser na medida em que
cada formação discursiva está de fato dominada pelo interdiscurso – o conjun-
to estruturado das formações discursivas - em que se constituem os objetos e
as relações entre esses objetos que o sujeito assume no fio do discurso. É o que
o analista do discurso deve por em evidência contra as ilusões do sujeitos: ‘O
próprio de cada formação discursiva é dissimular, na transparência do sentido
que aí se forma, [...] o fato de que ‘isto fala’ antes, alhures, ou independente-
mente’ (Pêcheux, 1975, p. 147)” (287).
“A afirmação do primado do interdiscurso exclui que se coloque em con-
traste formações discursivas independentemente umas das outras. A identida-
de de um discurso é indissociável de sua emergência e (de) sua manutenção
através do interdiscurso. ‘A enunciação não se desenvolve sobre a linha de uma
intenção fechada; ela é de parte a parte atravessada pelas múltiplas formas de
retomadas de falas, já ocorridas ou virtuais, pela ameaça de escorregar naquilo
que não se dever jamais dizer’ (MAINGUENEAU, 1997, p. 26)” (287).

Vejamos também na plataforma ou em http://www.uems.br/padadi/


sirio.html o texto do Professor Sírio Possenti “Observações sobre o
interdiscurso”.

76
A Análise de Discurso À Francesa: Interdiscurso e Formação Discursiva ... Aula

RESUMO 8
Nessa aula vimos que o sujeito, objeto de estudos da AD, é constitu-
ído fora do alcance do indivíduo. Ele é social e, sobretudo, histórico. Para
o estudo desse sujeito são fundamentais as noções de interdiscurso e for-
mação discursiva. O interdiscurso é a anterioridade que faz a relação lín-
gua/linguagem funcionar no momento em que falamos. Se há posições
diferentes e antagônicas historicamente construídas na sociedade, ou seja,
se há diferentes formações discursivas, é o interdiscurso que as faz atra-
vessarem e invadirem os espaços de umas nas outras, de modo que elas
são contraditórias nelas mesmas. É por isso que vimos a nossa mocinha
do supermercado estava afetada pela contradição de assistir novelas e ao
mesmo tempo não. Pela mesma razão, o presidente diz o palavrão pela
metade, ou seja, ele diz, mas não diz. Como vemos, as marcas visíveis do
interdiscurso vêm sempre em uma contradição que encontra lugar na
materialidade da linguagem.

ATIVIDADES

Esboce uma análise do enunciado:

“Não se apequene presidente, cumpra seu papel histórico.”

Esse dizer aparece no último recado de Sérgio Mota, o já falecido ex-


ministro, para seu chefe, o ex-presidente FHC (membro fundador do
PSDB). As condições de produção para os efeitos de sentido produzidos
são sempre muito relevantes. O fato de o Serjão ser falador, sempre dizer
o que pensava, ser meio independente; o fato de o enunciado vir no
último recado e o ministro ter morrido pouco depois, tudo isso, claro,
interferiu na repercussão. Mas, quero chamar a atenção para dois desdo-
bramentos do enunciado realizados por campanhas publicitárias do Parti-
do dos Trabalhadores e do Partido Social Democrata Brasileiro:

Desdobramento 1. “Não se apequene Presidente” (Agência do PT)


Desdobramento 2. “Cumpra seu papel histórico” (Agência do PSDB)

Bem, caro (a) aluno (a), a análise deve ser sua, mas fundamentalmen-
te perceba o antagonismo nos recortes feitos por cada agência. Como eles
significam o ex-presidente? Vá adiante, escreva aí duas páginas sobre os
efeitos de sentido entre locutores. Pense a partir de formação discursiva,
de interdiscurso, de exterioridade...

77
Introdução às Teorias do Discurso

ATIVIDADES

Penso que nesse momento, podemos retornar ao “Sorria: você está


sendo filmado!” (da aula 4) para colocar em discussão alguns pontos:

1. O enunciado recorta diferentes memórias discursivas. Sendo assim o


“sorria” não é simplesmente parte de uma situação de comunicação. O
que o “sorria” está significando no sujeito? E o “você está sendo filma-
do”? Parece que eles trazem memórias diferentes: filmagens, fotografias:
“diga giz”, “é nóis na fita”, ou seja, com o “sorria” vem uma memória que
significa o sujeito nessa formação discursiva. E se não tivéssemos aí o
“sorria”?
2. Vimos que o “sorria” recobre o sentido do risco, da insegurança, por-
que significa tranquilidade, descontração e por isso, garantia dos direitos
e deveres, já que o enunciado aparece em situações financeiras: lojas,
bancos, conveniências etc.
3. Mas recobre também os sentidos de “quebra da privacidade”, de ame-
aça implicado em relações dessa ordem: a apropriação da imagem [do
outro]; sobretudo se considerarmos a irreversibilidade da condição do
interlocutor em “você está sendo filmado”: a ação já em andamento.
4. Se considerarmos uma possível não coincidência entre o dizer e o mun-
do, ou seja, se a situação “não está sendo filmada” (o equipamento de
filmagem pode até não estar ali, pode estar desligado etc.). Nesse caso, o
enunciado é ele próprio um dispositivo de segurança (dizer é realmente
fazer!, mas é um fazer histórico)

Vá adiante, escreva aí mais quatro páginas sobre esses pontos, sobre


os efeitos de sentido entre locutores. Pense a partir de formação discursiva,
de interdiscurso, de exterioridade...

Bom trabalho!

78
A Análise de Discurso À Francesa: Interdiscurso e Formação Discursiva ... Aula

REFERÊNCIAS 8
CHARAUDEAU, P.; MAINGUENEAU, D. Dicionário de Análise do
Discurso. São Paulo, Editora Contexto, 2008.
BARTHES, R (1953). Outros ensaios e o Grau zero da escritura. São
Paulo, 1993.
FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense, 2004.
______. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
______. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências huma-
nas. São Paulo: Martins fontes, 2002.
HENRY, P. A Ferramenta imperfeita: língua, sujeito e discurso. Cam-
pinas, SP, Editora da Unicamp, 1992.
MAINGUENEUAU, D. Gênese dos discursos. Curitiba, PR: Criar, 2005.
ORLANDI, E. Discurso: fato, dado, exterioridade. In: CASTRO, M. F. P.
O método e o dado no estudo da linguagem. Campinas, SP, 1996, p.
209-217.
______. Princípios e procedimentos. Campinas, SP, Pontes, 2000.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio.
Trad. Eni P. Orlandi et all. Campinas: Editora da UNICAMP, 1998.
______.; FUCHS (1975). A propósito da análise automática do discurso:
atualização e perspectivas In: GADET; HAK. Por uma análise auto-
mática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campi-
nas, SP: Editora da Unicamp, 1997.
______. A análise de discurso: três épocas (1983). In: GADET, F; HAK,
T. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de
Michel Pêcheux. Campinas: Edunicamp, 1990.
______. Análise automática do discurso (1969). In: GADET; HAK. Por
uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel
Pêcheux. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1997.
______. Discurso: estrutura ou acontecimento. Trad. E. P. Orlandi. Cam-
pinas, SP: Pontes, 1997.
SERRANI, S. M. A Linguagem na pesquisa sócio-cultural. Campi-
nas, SP: Editora da Unicamp, 1993.
SHEPARD, S. Crônicas de motel. Trad. Bettina Becker; Porto Alegre:
LP&M, 1984.
AMARAL, R. Palavras do Presidente: se fu...! . Disponivel em<
http://odonodotempo.blogspot.com/2008/12/palavras-do-presidente-
se-fu.html.>
POSSENTI, S. Observações sobre o interdiscurso. http://
www.uems.br/padadi/sirio.html, s/d.

79
Aula
DISCURSO E HISTÓRIA:
O SUJEITO ESTAÇÃO ANÁLISES

META
Apresentar análise de enunciados especificando o trabalho teórico da Análise
de discurso.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
tornar possível a compreensão do funcionamento analítico a partir da repetição
no discurso;
demonstrar como a presença insistente, ou seja, a repetição pode significar
uma ausência, significando no sujeito uma direção ou outra;
demonstrar como o deslizamento de sentido constitui o sujeito no confronto
entre formações discursivas;
apresentar especificações básicas da análise: a língua, a linguagem, isto é, as
representações sócio-históricas; as formações discursivas e o interdiscurso.

PRÉ-REQUISITOS
Aulas anteriores.

Marco Antônio: discurso fúnebre de César. Marco Antônio pronunciou, nas escadarias
do Senado, um contundente discurso que resgatou a imagem de Cézar como bondoso
para a população romana, logo após ter sido assassinado pela conspiração de Brutus
e Cassius. Para a Análise do Discurso, o discurso é uma prática, uma ação do sujeito
sobre o mundo e, por isso, sua aparição precisa ser contextualizada como um acon-
tecimento histórico.
(Fonte: www.fflch.usp.br/dh/heros/traductiones/tucidides/cleonte.html)
Introdução às Teorias do Discurso

INTRODUÇÃO

Trazemos nessa aula, especificidades teóricas da concepção discursiva


que aborda o sujeito constituído historicamente. Análises de diferentes
enunciados nos levam a uma posição privilegiada para compreendermos
o discurso a partir dos seguintes fatos da linguagem: repetição, ressonân-
cia e paráfrase.

as
a t em palmeir
er r
Minha t ta o sabiá,
an m
Onde c ue aqui gorjeia
q
As aves iam como lá. )
rje do exílio
Não go s Dias, Canção
l ve
(Gonça

ch am saudosos
se fe o Exílio
’.
o s b r asileiros nç ão d
lh a
Meus o ca procura a ‘C o do Exílio’?
b o çã
Minha m e s m o a ‘Can a terra…
ra h
Como e uecido de min
e sq as
Eu tão ue tem palmeir anç a e Bahia)
q Fr
Ai terra ta o sabiá! d r ade, Eur
opa,
ca n d de A n
Onde r ummon
lo s D
(Car

82
Discurso e História: o sujeito Estação análises
Aula

REPETIÇÃO, RESSONÂNCIA E PARÁFRASE 9


Um exemplo

Como temos visto, nossa relação com a língua não é nada objetiva.
Por exemplo, por que a expressão “linda e maravilhosa” tem circulado tão
intensamente? Não espanta observar os resultados de uma breve pesqui-
sa na Internet (aproximadamente 64.900 para “linda e maravilhosa” no
Brasil ver bibliografia/arquivo/site http://www.google.com.br). Uma
cozinha é “linda e maravilhosa”, uma televisão de tela plana é “linda e
maravilhosa”, uma viagem foi “linda e maravilhosa” e, claro, as mulheres
são “lindas e maravilhosas”.
O enunciado não respeita referências. Há algo descontrolando as
relações de sentido. Um dia desses na saída do cabeleireiro um rapaz
reclamou com a mulher: “Pô! Bem, qualquer coisa pra você é “linda e
maravilhosa!”. O problema não é a situação dada, o namorado que se
chateou com tanta repetição, “com a falta de vocabulário da moça”, a
questão não é essa.
A questão é que o enunciado “linda e maravilhosa” é um impensado
dando mostras da condição do sujeito, ou melhor, do assujeitamento do
sujeito, inscrevendo-o em uma região de sentidos, em uma formação
discursiva. Essa inscrição é sempre realizada em formas específicas, mas
não lingüisticamente pré-determinadas, as formas sígnicas deslizam en-
tre formações discursivas.
Observando a insistência do “linda e maravilhosa”, vemos que a repe-
tição aponta para a dimensão do quanto falamos o que os outros falam.
Nesse caso, somos os outros também. Ou seja, um sujeito social e histórico
constituído em condições materiais específicas de produção do discurso.

A pesquisadora Silvana Serrani-Infante se dedica a questões


discursivas no ensino de línguas. A categoria ressonância
interdiscursiva, por ela introduzida, é um importante instru-
mento de trabalho para o analista. As seqüências linguístico-
discursivas são estudadas a partir da atenção concentrada nos
lugares em que fica marcado o percurso da repetição na lin-
guagem; nessa direção, os estudos sobre meta-enunciação
realizados por Jacqueline Authier-Revus em seu Palavras
Incertas (1998) também são importantes.

a) Itens lexicais presentes no discurso como equivalentes ou sinônimos,


ou ainda, construções lingüísticas parafrásticas;
b) Estratégias discursivas, recorrentes modos de dizer para a representa-
ção de referências no discurso, modos de dizer recorrentes no discurso.

83
Introdução às Teorias do Discurso

Outros exemplos

A AFIRMAÇÃO MARCANDO A AUSÊNCIA

Sobretudo entre jovens, em diferentes realizações lingüísticas, o discurso


da seriedade se desdobra nas formas “É sério!” / “Sério?!” / “Ah! Fala sé-
rio!”. Do ponto de vista do analista do discurso, a questão não é discutir para
saber se o jovem é sério ou não. O analista deve considerar o fato de que o
sujeito é significado pelos sentidos da seriedade. É o discurso que se mostra
pressionando, reclamando seu lugar. A seriedade (ou ausência de) reclama
seu lugar. Nesse caso, sem pensar, o sujeito é significado pela seriedade.
O indivíduo não pensa por que fala tantas vezes a palavra “tipo”: “é tipo
assim!”, “tipo isso”, “tipo aquilo”. Claro, não há nada de errado em dizer
“tipo”, mas a presença insistente da palavra nos diz que de diferentes modos
o sujeito é significado pelos sentidos de “classe”, “modelo” etc. Ele é signifi-
cado como aquele que funciona através da exemplificação. A realidade é
insistentemente entendida através da substituição, ou seja, são dominantes
no sujeito as relações paradigmáticas e não sintagmáticas.
Esses sentidos marcam o sujeito como aquele que opera por tipificação.
O sujeito é tomado pela repetição de processos de identificação constantes,
insistentes, incessantes, remetendo sempre a uma exterioridade do fluxo
lingüístico-discursivo. Nessa direção, vale à pena seguir a orientação de Foucault
em seu Arqueologia do Saber (2004, p. 125).
“Se queremos descrever um enunciado é preciso levar em consideração
“uma ausência, que, ao invés de ser interior, seria correlativa a esse campo e
teria um papel de determinação de sua própria existência. Pode haver – e,
sem dúvida, sempre há -, nas condições de emergência dos enunciados, ex-
clusões, limites ou lacunas que delineiam seu referencial, validam uma única
série de modalidades, cercam e englobam grupos de coexistência, impedem
certas formas de utilização”. Estamos diante da questão das regularidades.

POSIÇÃO DE SUJEITO E DESLIZAMENTO


DE SENTIDO

Mais um exemplo

No texto de um jornalista o enunciado “produtos falsificados” pode


ser retomado por “materiais piratas”. Por outro lado, no texto oral de um
comerciante ilegal esses enunciados têm sua circulação impedida. Nin-
guém vai sair por aí gritando “olha o pirata! Produtos falsificados! Quem
vai querer?! O texto dele recorta uma outra formação discursiva. O enun-
ciado é “genéricos!”. Isto nos diz que a relação língua/sujeito é uma ins-
crição pré-construída na história. Analisando as predicações:

84
Discurso e História: o sujeito Estação análises
Aula

Produtos falsificados - os sentidos do “verdadeiro”, da posse primeira da


marca, de sua origem, o sentido legal daquilo é patenteado.
9
Mercadorias piratas - os sentidos de roubo, assalto, crimes etc.
Medicamentos genéricos - sentidos da “não-marca”, legal.

Vemos que o deslizamento de sentidos dá visibilidade pela lingua-


gem a diferentes formações discursivas, materialmente trabalhando na
relação com a língua. Por outro lado, o deslizamento de sentidos dá visi-
bilidade a específicas condições de produção: a intervenção estatal atra-
vés do Ministério da Saúde no mercado remédios reconstituindo o sujei-
to, o “remédio de marca”, o “similar” e o “genérico”. Vejamos tais rela-
ções na figura abaixo.

Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ  
ž    
Original - Falsificado - pirata Ÿ    
(verdadeiro) ž    
ž ž    
ž (genérico)    
ž   ž  
ž ( )  similar, remédios “de marca”
ž calças “de marca”
ž relógios “de marca”
ž ......... “de marca”
ž ž
Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ Ÿ

PRÉ-REQUISITOS DO ANALISTA

A preocupação central do teórico-analista do discurso é tornar visí-


veis as articulações materiais entre língua, linguagem e as formações ide-
ológico-discursivas. Essas articulações é que inscrevem o sujeito histori-
camente e o constitui em uma contradição. Somos todos indivíduos livres
para dizer o que queremos, mas ao mesmo tempo estamos submetidos à
língua diretamente relacionada a posições sociais, à ideologia, à história.
É por isso que o discurso e a história são inseparáveis. O sujeito do dis-

85
Introdução às Teorias do Discurso

curso é efeito do assujeitamento à formação discursiva com a qual ele se


identifica. Aquele que fala é resultado do assujeitamento porque ignora
as causas que o determinam (PÊCHEUX, M. 1997, p. 314).
O trabalho do analista é estudar a representação do sujeito determi-
nado por formações ideológicas específicas, e esta representação é da
ordem do inconsciente, da ideologia fundamental que escapa ao domínio
dos falantes, justamente porque são constituídos pela evidência do “eu-
autônomo-consciente”. É preciso então abordar as bases lingüísticas para
examinar o caráter material do sentido.
Nesse caso, importa perceber que “uma palavra, uma expressão ou
uma proposição não tem um sentido que lhe seria ‘próprio’, vinculado a
sua literalidade (...) seu sentido se constitui em cada formação discursiva,
nas relações que tais palavras, expressões ou proposições mantêm com
outras palavras, expressões ou proposições da mesma formação
discursiva” (PÊCHEUX, M., 1997, p. 161). Em síntese, precisamos de
um conjunto de noções básicas para colocar a análise em funcionamento.

Pêcheux em seu Semântica e discurso: uma crítica a afirmação


do óbvio, trata desse pertencimento dos sentidos das palavras à
formações discursivas no último capítulo da III Parte do livro -
Discursos e ideologia (s), p. 159-180; - o autor, como é de seu
feitio, entrecruzando possibilidades, define a noção de forma-
sujeito do discurso, em que a ideologia não possui um exterior.

O discurso sob a mira da análise

Noções básicas

a) A língua, ou seja, as palavras e seus significados nas relações com ou-


tras palavras, ou seja, o léxico, a sintaxe e as relações sintáticas.
b) A linguagem, isto é, as representações sócio-históricas na língua ou
pela língua.
c) As Formações discursivas e o interdiscurso

O problema da alteridade

Último exemplo

“Unibanco: nem parece banco”: a constituição do sujeito pela descri-


ção, ou seja, a predicação e o problema da alteridade: o outro sempre
constitutivo do eu.

86
Discurso e História: o sujeito Estação análises
Aula

Como parte da discursividade, descrever o outro constitui o sujeito


do discurso porque coloca em jogo os limites daquilo que pode e deve ser
9
dito tendo em vista a posição do sujeito do discurso. Quando predicamos
uma coisa, ou um estado de coisas (um processo eleitoral, por exemplo),
a língua nos coloca na condições de falha. O enunciado “Unibanco: nem
parece banco”, no esforço de predicar positivamente o sujeito, joga com
os limites de sentidos (positivos e negativos) da semelhança. A descrição
acaba por incluir na constituição do sujeito todo um conjunto de
predicações negativas da instituição bancaria: os juros altos, os baixos
salários dos bancários, sua ganância por lucratividade, os péssimos servi-
ços prestados etc. Ou seja, o fato de alguém falar a respeito de outro dá
existência a um sujeito historicamente constituído. E essa existência vem
em formas nas relações língua/discurso/história.

Outro exemplo

O sentido do bronzeado

Depois de sacramentada a vitória do presidente Barack Obama, um


comentário do premiê italiano ganhou destaque na imprensa internacio-
nal. Ele disse:

“Ele é jovem, ele é bonito e ele é bronzeado”


http://comunidademocambicana.blogspot.com

“Berlusconi diz que Obama é ‘jovem, bonito e bronzeado’”


(Folha on line 06/11/2008 - 19h09 http://www1.folha.uol.com.br/
folha/mundo/ult94u465010.shtml)

A sintaxe: finalização por encaixe

Com a repercussão daquilo que enunciou Berlusconi, nessa manche-


te vemos que a descrição do recém eleito presidente americano tem uma
fórmula semelhante a do slogan (REBOUL, O. 1986): a contenção, a sín-
tese etc. Nessa fórmula, interessa mais especificamente a disposição das
palavras na frase, ou seja, a sintaxe, sobretudo esse acabamento, essa
finalização por encaixe: o “e bronzeado”.
Qual é o sentido desse “e bronzeado” que aparece por último na fra-
se, na cadeia linguístico-discursiva? Ele traz o efeito daquilo que “não era
para ser dito”, mas está ali adicionado. É preciso então estudar as condi-
ções para a realização do enunciado.

87
Introdução às Teorias do Discurso

A POSIÇÃO DO SUJEITO: O ESTADISTA QUE


FALA O QUE NÃO FALA UM ESTADISTA

A posição construída do sujeito está na base das condições para a


realização do enunciado. No caso em questão, a condição vem do fato
de que “todos sabem que o premiê fala bobagem”. Por exemplo, a im-
prensa diz que “não se trata de uma piada de mau gosto, gafe, frase
inoportuna ou brincadeira ...mas de uma política orquestrada pela ex-
trema-direita”. Em resumo, o sujeito é construído na posição daquele
que repentinamente “solta das suas”. É um estadista que fala o que não
pode/deve falar um estadista.
Por conta disso, a mídia espera atenta “a próxima do Berlusconi!”. O
momento em que ele extrapola está “sempre por vir”, a qualquer momen-
to “ele diz”. Nesse caso, há sempre um efeito específico entre locutores,
isto é, ele diz porque todos esperam/todos esperam porque ele diz. A
finalização, ou seja, o “e bronzeado” é justamente esse efeito específico
esperado. É o limite extrapolado próprio da posição do sujeito. É o mo-
mento do “chute no balde”, da “areia no ventilador”.

Berlusconi se irrita com jornalista que questiona ‘Obama bronzeado’


JB on line 07/11/2008 http://jbonline.terra.com.br/extra/2008/11/
07/e071120925.html

Observemos nessa outra manchete que na reescritura do enunciado,


ou seja, no trabalho de textualização, a sintaxe é refeita, já que os adjeti-
vos “jovem” e “bonito” são excluídos e também é apagado o conectivo
“e” estabelecendo uma outra relação sintagmática que funciona por uma
elipse contraditória. Quer dizer, há uma mudança, uma mexida nas posi-
ções dos nomes já que o “bronzeado” passa a ocupar um primeiro plano.
Observando as duas realizações lado a lado, vemos que o movimento que
recorta a predicação em “bronzeado”

A enunciação recorta sentidos “Berlusconi se irrita com o jornalista


que questiona (o fato do premiê ter dito que o presidente) Obama (é) bron-
zeado”. Convenhamos, não é esquisito esse “questiona ‘Obama Bronzea-
do’”. Pois é, o que torna essa sintaxe possível é o discurso. É claro que aqui
temos condições de produção tornado o enunciado possível. Trata-se de
uma manchete e, por isso, nos deparamos com esses funcionamentos elípticos
específicos. Mas mesmo assim, ou justamente por isso, eles nos mostram
que o sujeito está inscrito em uma formação sócio-histórica dada em que
pesam os sentidos da raça, da aparência, da cor! A questão não é a ambigüi-
dade como disse certo deputado, único negro do parlamento italiano. É a
metáfora da impossibilidade do negro ter chegado ao cargo de presidente

88
Discurso e História: o sujeito Estação análises
Aula

dos EUA. É o estabelecimento de uma fronteira sem o outro. O enunciado,


ele próprio, é material de apagamento do outro, de determinação da
9
inexistência do negro na presidência. Nesse ponto nos parece que os senti-
dos rompem os limites da nossa memória. Já não alcançamos a razão.

OS LIMITES DOS SENTIDOS: NEGRO


NÃO, BRONZEADO

Os sentidos de “bronzeado” nos leva a pensar em limites. Bronzeado


é algo incerto, traz sentido de momentâneo, de ligeiramente “alguma coi-
sa”. Por outro lado, o “bronzeado” opera como “manobra estilística”
(DUCROT, 1972). “Qual é o problema em ser bronzeado”. Por exemplo,
na operação primeiramente realiza-se algum elogio para em seguida, des-
truir sua reputação ou tirar seu prestígio etc.: “-Não tenho nada contra
fulano, mas sua administração é uma desgraça”.

ALGUMAS PRECAUÇÕES

Como vimos na aula 03, o que e como são as relações entre língua e
linguagem nas práticas das ciências, incluindo aí as ciências da linguagem são
questões fundamentais para as teorias do discurso. “E o motivo fica claro:
língua e linguagem desfazem as distâncias entre o objeto e a teoria porque são
parte das práticas das ciências. Isto é, para explicar a linguagem a ciência
“usa” a língua e o sujeito funciona afetado pela linguagem, pelo interdiscurso.
Mas essa é uma história que precisaremos em análise na próxima aula.

CONCLUSÃO

Como vemos, não há um modelo de análise. Não existe uma previ-


são regulada do que vai acontecer no processo analítico. É sempre um
diálogo entre as reflexões teóricas e a relação com o objeto para produzir
a compreensão do processo histórico de constituição do sujeito. Os pro-
cessos de análise não podem ser repetidos, mesmo porque os objetos, os
fatos de linguagem que nos levam a dimensão discursiva demandam dife-
rentes regiões teóricas de um mesmo locus epstêmico, de uma mesma área
de produção do conhecimento. Essa não existência de um modelo analí-
tico certamente provoca muita insegurança por parte do teórico-analista
principiante. Isso porque os processos de escolarização e disciplinarização,
pelos quais todos nós passamos, trabalham no sentido de que estejamos
sempre em uma posição estável, em que já há uma direção a seguir (vide
o clássico enunciado do ensino da língua portuguesa: ‘siga o modelo’).
Apesar de todas essas forças contrárias,

89
Introdução às Teorias do Discurso

RESUMO

Observemos que nessa aula percorremos diversas análises. Todas elas


têm em comum o fato de trazerem especificidades da concepção da AD.
Cada análise dos diferentes enunciados nos leva a uma posição relevante
para compreendermos o discurso a partir dos seguintes fatos da linguagem.
Vimos a repetição: analisando “linda e maravilhosa”, vimos que a repetição
aponta para a dimensão do quanto falamos o que os outros falam. Nesse
caso, somos os outros também. Ou seja, um sujeito histórico constituído
em condições materiais específicas de produção do discurso. Vimos o
deslizamento de sentidos: analisando as predicações “produtos falsifica-
dos”, (os sentidos do “verdadeiro” ligado ao da posse primeira da marca, de
sua origem, o sentido legal daquilo é patenteado), “mercadorias piratas” (os
sentidos de roubo, assalto, crimes etc) e “os genéricos” (sentidos da “não-
marca”, legal), vimos que o deslizamento de sentidos dá visibilidade pela
linguagem a diferentes formações discursivas, materialmente trabalhando
na relação com a língua. Por outro lado, o deslizamento de sentidos dá
visibilidade a específicas condições de produção: a intervenção estatal atra-
vés do Ministério da Saúde no mercado de remédios reconstituindo o sujei-
to, o “remédio de marca”, o “similar” e o “genérico”.

ATIVIDADES

Sugiro a releitura de todo o material procurando constatar a coerên-


cia entre as unidades. A primeira unidade onde vimos a entrada de certos
excluídos saussurianos nos estudos da linguagem: o estruturalismo (aulas
1 e 2) e a pragmática (aulas 3, 4 e, no limiar, a 5). A segunda parte toca a
dimensão do sujeito social, mas sobretudo histórica.

REFERÊNCIAS

AUTHIER-REVUZ, J. Palavras incertas: as não coincidências do di-


zer. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1998.
DUCROT, O. Princípios de semântica lingüística: dizer e não dizer.
São Paulo: Cultrix, 1972.
PÊCHEUX, M. A análise de discurso: três épocas” (1983). In: GADET,
F. et HAK, T. Por uma análise automática do discurso: uma introdu-
ção à obra de Michel Pêcheux. Campinas: Edunicamp, 1990.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do ób-
vio. Campinas: Ed. da Unicamp, 1997

90
Discurso e História: o sujeito Estação análises
Aula

FEBVRE, Lucien. Deux philosophies opportunistes de l’histoire: de


Spengler à Toybee. In: Combats pour l’histore. Paris: Armand Colin,
9
1953. p. 119-43. Trad. Bras. Maria Elisa Mascarenhas; vol. 2 org. Carlos
Guilherme Mota. Coleção Grandes Cientistas Sociais, coord. Florestan
Fernandes. São Paulo: Ática, 1992.
FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. 7 ed. Rio de Janeiro: Univer-
sitária, 2004.
Sites
http://comunidademocambicana.blogspot.com/2008/11/obama-jovem-
bonito-e-bronzeado.html
SERRANI, S. M. A Linguagem na pesquisa sócio-cultural. Campi-
nas, SP: Editora da Unicamp, 1993.
h t t p : / / w w w. f i l o l o g i a . o r g. b r / s o l e t r a s / 1 5 /
a_parafrase_no_comentario_jornalistico.pdf

91
Aula
DISCURSO E TEXTO

META
Apresentar relações entre discurso e texto.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
mostrar como um texto recorta diferentes regiões de sentido e constituem
o sujeito afetado pelo interdiscurso em diferentes formações discursivas.

PRÉ-REQUISITOS
As aulas anteriores e noções elementares sobre texto.

(Fonte: http://osaprendizes.files.wordpress.com/2008/05/escrita22.jpg)
Introdução às Teorias do Discurso

INTRODUÇÃO

É preciso considerar que um texto não é definido por sua extensão,


mas por seu caráter significante. Por exemplo, o nome “Aracaju” no mapa
do estado de Sergipe é uma unidade de sentido que recorta relações espe-
cificas com as demais unidades daquele contexto: remete nossa memória a
demarcações geográficas, políticas, históricas. A mesma unidade “Aracaju”,
estampada em uma camiseta, recorta outras memórias pela própria inscri-
ção em outras relações: turísticas, por exemplo. O princípio básico que
nos coloca diante da noção de texto é o fato de que ele é uma unidade que
produz efeito de sentido entre locutores (ORLANDI, 2000, p. 68-73).
Mas é preciso considerar a existência do efeito texto produzido por
regularidades de organização e encadeamento mais longo entre partes: a
frase, o período, o parágrafo, as seções, os capítulos etc., estabelecendo
“um sentido configuracional e a determinação de um propósito
argumentativo” (DAD, 467). Quando lemos, estamos sob o efeito dessas
regularidades. Estamos em busca do que o autor quer, não é mesmo?!.
Por isso, pragmaticamente, sempre nos perguntamos “o que o autor quis
dizer?”. Mas, para a AD, é preciso considerar não apenas a dimensão
pragmática das intenções reconhecíveis. É preciso compreender o
interdiscurso, ou seja, a “razão de ser” daquelas seqüências lingüístico-
discursivas que constituem o sujeito.

Mapa de Sergipe, destacando Aracaju


(Fonte: www.telefone.inf.br) Aracaju
(Fonte: www.drikabio.com/wp-content/uploads/2008/
01/564px-monumento_aracaju.jpg)

94
Discurso e Texto Aula

DISCURSO E TEXTO: ARTICULAÇÃO ENTRE


PROCESSOS DE SIGNIFICAÇÃO
10
Para estudarmos um texto do ponto de vista discursivo é preciso:

a) Voltarmos nossa atenção não apenas para o estudo das relações entre
dados lingüísticos, mas para o fato de que o texto sempre reinscreve a
relação língua/história;
b) O interesse pelo discurso deve ser concentrado na articulação entre os
diferentes processos de significação que acontecem no e pelo texto signi-
ficando o sujeito em práticas. Esses processos, para além da situação de
comunicação, inscrevem o sujeito na complexa rede de formações
discursivas. E isso implica considerarmos diferenças.

Por exemplo, o suporte é oral, é escrito (manuscrito, livro etc)? O


texto é acadêmico, é religioso, sindical, ou é jornalístico etc!? Os textos
trazem regularidades específicas dessas instituições. Por exemplo, certos
textos acadêmicos trazem apresentação, resumo, sumário, introdução, ci-
tações centralizadas, notas de rodapé etc. Um manifesto sindicalista traz
outras regularidades.

Todas essas especificidades, entre outras, precisam ser consideradas.


É por isso que o estudioso do discurso precisa analisar formas materiais.

Um exemplo

Para estudar o texto abaixo, importa considerar o fato de tratar-se de


um produto jornalístico trazendo regularidades próprias das textualizações
jornalísticas. Basta pensar sobre as regularidades no texto tendo em vista
as técnicas de composição de uma manchete, ou o fato de o texto vir
situado (categorizado) no “caderno cotidiano”. Ou ainda, o princípio
discursivo de certos textos jornalístico “ouvirem os dois lados”, as partes
envolvidas no fato, e trazer essas vozes entre aspas etc. Essas práticas
estão materialmente em jogo.
Vejamos o texto “publicado no jornal Folha de São Paulo em agosto
do ano passado. O caro aluno pode ler primeiro o texto/objeto e em se-
guida os comentários que faço a respeito. Destaque para três formações
discursivas.

95
Introdução às Teorias do Discurso

O DISCURSO DO NAMORO E DO POPULAR

Do 1º parágrafo, interessam os processos de significação que filiam o


sujeito à formação discursiva do popular: “sacola de supermercado”, “lan-
che da tarde”, “copeira”, “servente”; os nomes próprios: Maria, Santos
etc. que filiam o sujeito do consumo a determinadas regiões de sentido,
formações discursivas estabelecendo fronteiras discursivas. Mas nos pa-
rece, caro aluno, que essa dimensão é mais ou menos controlada pelo
autor, as predicações do sujeito do consumo estão por toda parte no texto
(faça um quadro de predicações).
O discurso do namoro vem especificado na relação entre casais pelo
enunciado “de mãos dadas com ela” (1º parágrafo). A textualização em
seu fator fundamental, a anáfora (DAD, 36) faz os sentidos deslizarem
pela relação entre indivíduos no 2º parágrafo, onde os sentidos do namo-
ro reaparecem com “o casal não teve resposta” e vai ao 4º parágrafo com
“o casal Derly e Maria tomou...”.
Mas desse processo de significação, ou seja, da relação entre indiví-
duos, os sentidos são reescriturados, já no 3º parágrafo, em outra dimen-
são. A palavra “namoro” resignifica os parágrafos anteriores. O namoro
reaparece significando relações entre classes sociais e o shopping: “o na-
moro das classes D e E... com o Cidade Jardim”. Para o estudioso da
relação texto/discurso essa mudança de dimensão é decisiva.
A questão é que uma vez nessa dimensão, o discurso do namoro ope-
ra em processos de significação que constituem fronteiras no sujeito. O
discurso do namoro significa no sujeito os sentidos daquele que “quer
conquistar”, quer expandir sua fronteira.
Nessa direção, no 6º parágrafo, com o enunciado “X atiçou a curio-
sidade de Y” vêm os sentidos de excitação, estímulo, desejo de alcan-
çar, de conquistar no sentido mesmo do domínio do outro. Lembrando
que “atiçou” significa também um efeito de sentido do inesperado, do
impensado, significa “ter que arcar com as conseqüências”. O fato é a
reescrituração de significações restritivas, ou seja, significações que es-
tabelecem limites no sujeito.
Digamos que esse processo que está no quadro de predicações do
sujeito do consumo, até certo ponto vem pela dimensão pragmática das
intenções reconhecíveis, quer dizer, o autor Vinícius Queiroz Galvão tem
o propósito argumentativo de apresentar as diferenças no sujeito do con-
sumo. Mas a análise precisa mirar na direção do interdiscurso que afeta o
sujeito enunciativo a revelia de suas vontades conscientes. O estabeleci-
mento de fronteiras discursivas no sujeito, filiado a diferentes formações
discursivas, é o fundamento do texto.
O deslocamento de sentidos do namoro entre indivíduos para o “na-
moro social” significa no sujeito a conquista, a posse, o domínio. Como é

96
Discurso e Texto Aula

possível verificar, esse deslocamento se dá através de repetições e resso-


nâncias discursivas (Serrani, 1993; Authier-Revus, 1998).
10
(ver Box: A pesquisadora Silvana Serrani-Infante se dedica a ques-
tões discursivas no ensino de línguas. A categoria ressonância
interdiscursiva, por ela introduzida, é um importante instrumento de tra-
balho para o analista. As seqüências linguístico-discursivas são estudadas
a partir da atenção concentrada nos lugares em que fica marcado o per-
curso da repetição na linguagem; nessa direção, os estudos sobre meta-
enunciação realizados por Jacqueline Authier-Revus em seu Palavras In-
certas (1998) também são importantes)
a) Itens lexicais presentes no discurso como equivalentes ou sinônimos,
ou ainda, construções lingüísticas parafrásticas;
b) Estratégias discursivas, recorrentes modos de dizer para a representa-
ção de referências no discurso, modos de dizer recorrentes no discurso.

O DISCURSO DO (DES) CONHECIMENTO

No texto em estudo, o discurso do (des) conhecimento atravessa a


textualidade inscrevendo o sujeito em uma formação discursiva que o
limita: o sujeito “pergunta”, “intriga-se” (1º parágrafo), “não tem respos-
ta” (2º parágrafo), “sem entender muito bem” (6º parágrafo), “só para
conhecer” (7º parágrafo, nesse caso os sentidos deslizam para um sujeito
do consumo, não-consumidor: “para passear pela primeira vez” no 2º pa-
rágrafo, e “olhos na vitrine” 1º parágrafo). Vejam que nesses dois últimos
os sentidos do conhecimento aparecem na verdade como reconhecimen-
to do território do outro, ou do outro como estando no território do eu.
São sentidos que ressoam à textualidade.

Diferentes modos de dizer constituem o sujeito no desconhecimento.


O conhecimento o identifica, o desconhecimento o exclui. Nesse
interdiscurso, o discurso da língua é histórico. Saber ou não os nomes
estrangeiros das lojas constitui o sujeito, significa o sujeito nessa divisão
entre os que sabem e os que não sabem a (s) língua(s). Nesse sentido, o
estrangeiro, ou seja, o estranho é mesmo o casal, as classes D e E. Saber
“a língua do outro” esses sentidos que têm uma longa história constituem
uma fronteira no sujeito, uma formação discursiva pela fórmula disjuntiva:
conhecimento/ não-conhecimento (Pêcheux, 1997). Saber ou não saber
eis o interdiscurso.

97
Introdução às Teorias do Discurso

O DISCURSO EXPLICATIVO (O COMO E O


PORQUÊ DO OUTRO)

Também nessa direção que divide o sujeito vêm os parágrafos 3º e 4º


significando um “monitoramento detalhado/explicativo do sujeito”. Os pa-
rágrafos explicam como os indivíduos das classes D e E chegaram até o
shopping. O que temos nesses parágrafos é um passo a passo na “transposi-
ção da fronteira” para chegar ao shopping Cidade Jardim, fronteira entre o eu
e o outro. Os parágrafos explicam como aquelas pessoas chegaram até ali. De
modo que o sujeito do consumo é constituído como afetado pelos “percalços
de uma saga”, como aquele que enfrenta dificuldades de uma origem impen-
sada: “começou com a criação de um ponto de ônibus” (3º parágrafo), a
origem é um erro: “foi um tiro no pé” (8º parágrafo) e, diante de tantas dificul-
dades, o desfecho vem com um prêmio: chegar a “um dos empreendimentos
mais comentados dos últimos tempos em São Paulo” (4º parágrafo).
Esses processos de significação são fundamentais, por isso precisamos
detalhá-los. Observemos que há uma contradição, uma falha própria da or-
dem discursiva (as relações contraditórias entre espaços públicos e privados,
entre as posições do sujeito trabalhador/ consumidor). A ruptura é exposta
na materialidade da linguagem: um ponto de ônibus “para atender funcioná-
rios”, não consumidores. Note-se que os dêiticos operam de modo bastante
particular essa divisão entre o espaço público e o espaço privado limitados
pelos “param por ali” (3º parágrafo)/ e “descer por lá” (4º parágrafo).
Note-se que tendo em vista esse ali/lá, todos os enunciados do texto
significam um “aqui” e, nisso, é importante observar que uma posição
construída para aquele que está falando no texto, situa o sujeito enunciativo
no espaço privado (o jornalista teria feito a matéria no Shopping?!). Temos aí
uma divisão contraditória do sujeito afetando o indivíduo: de um lado o fun-
cionário, de outro o consumidor.
Em fim, qual é a “razão de ser” desses sentidos? Por que contar essa
história do como os indivíduos chegaram ao shopping? Por que a textualidade
abre espaço para esses sentidos que vão da origem à conclusão? Eles são
explicativos. Vide o último enunciado. “E assim [as classes D e E] chegaram
a um dos empreendimentos...”.

Sem entrada de pedestres, shopping para classe A vira atração para


classe D

98
Discurso e Texto Aula

VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO 10


1

Com uma sacola de supermercado que trazia o lanche da tarde na


mão e os olhos na vitrine da joalheria Tiffany & Co, a copeira Maria Bar-
bosa pergunta: “Essa loja é de quê?” De mãos dadas com ela, o servente
Derly Santos também se intriga, desta vez com a bombonière Chocolat
du Jour. “Como se pronuncia o nome dessa loja?”

O casal não teve resposta, mas isso pouco importa. Eles estavam lá,
num sábado de folga, para passear pela primeira vez entre as lojas do
shopping Cidade Jardim. Projetado sem praça de alimentação e sem en-
trada de pedestres para se restringir ao público A, o complexo de R$ 1,5
bilhão virou atração para a baixa renda.

O namoro das classes D e E, pessoas com renda familiar média de R$


580, com o Cidade Jardim começou com a criação de um ponto de ônibus
na marginal, em frente ao shopping, para atender os funcionários. Linhas
como Jardim Ângela e Terminal Santo Amaro param por ali.

Foi uma dessas que o casal Derly e Maria tomou para descer por lá.
Como não podiam atravessar a marginal do rio Pinheiros, tiveram de fa-
zer uma baldeação na avenida 9 de Julho pagando só uma passagem com
um bilhete único. E assim chegaram a um dos empreendimentos mais
comentados dos últimos tempos em São Paulo.

Aquele que se anuncia “o mais luxuoso do país”, o Cidade Jardim


tem lojas de grifes como Chanel, Armani e Rolex, algumas inéditas.

E foi justamente essa exclusividade e sofisticação que atiçou a curio-


sidade das pessoas que não são o público-alvo do shopping, por assim
dizer, e passeiam por ali sem entender muito bem os preços altos de Hermès
e Louis Vuitton. Ou ainda a sinalização bilíngüe, em inglês.

99
Introdução às Teorias do Discurso

“Só tem loja estrangeira, queria que tivesse uma Marisa. A gente que
é da periferia vem só para conhecer. No shopping Ibirapuera não discri-
minam tanto quanto aqui”, diz Maria. “Pela maneira que me olham já
percebo que é diferente”, afirma Derly.

“Foi um tiro no pé”, reclama a designer e socialite Andréia


Albuquerque Magalhães sobre a diversidade do público do shopping, o
que tem deixado ela e as amigas danadas da vida.

“Olha a Daslu, está toda revirada, parece uma dessas lojas mais po-
pulares. Na Vila Nova Conceição não era assim”, diz a produtora Patrícia
Aguiar sobre a butique multimarca -âncora do shopping.

10

“Nossa intenção sempre foi fazer um shopping bacana para cidade.


Fico feliz mesmo de ver todo tipo de gente. Acho o máximo”, afirma
Sharon Beting, diretora do shopping. “Isto é inédito”, é o slogan do Cida-
de Jardim.

Texto publicado no jornal Folha de São Paulo, caderno Cotidiano, em


03/08/2008; disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/
cotidian/ff0308200824.htm

Com perspectivas teóricas distintas das que vimos, muitos traba-


lhos são dedicados a questões sociais, os preconceitos, as injustiças
etc, vejamos.

LINGUAGEM E QUESTÕES SOCIAIS

A Análise Crítica do Discurso (ACD) tem uma linha de filiação histó-


rica com a chamada lingüística crítica do final dos anos de 1970 para
quem as “as relações sociais influenciam o comportamento lingüístico e
não-lingüístico dos sujeitos, incluindo a sua atividade cognitiva”
(GOUVEIA, C. A. M. s/d).
Para a ACD “a sintaxe, por exemplo, pode codificar uma visão do
mundo particular, sem qualquer escolha consciente por parte dos falan-
tes; ao mesmo tempo, sendo derivada da relação que os falantes têm com

100
Discurso e Texto Aula

as instituições e a estrutura sócio-económica das sociedades de que fa-


zem parte, tal visão é-lhes disponibilizada e confirmada pelo cunho ideo-
10
lógico dessas mesmas sociedades (Fowler & Kress, 1979: 185).”
Nesse caso, a ACD traz para o centro de seus interesses os significa-
dos sócio- ideológicos e as suas realizações textuais e a linguagem é me-
canismo de reprodução e auto-regulação social.
Dentre os trabalhos da década de 1990 temos estudos voltados para
as formas de poder entre as culturas, os sexos, as raças, as classes sociais
Van Dijk, 1993; Wodak, 1996, 1997; anti-semitismo Sarfati, 1999.

CONCLUSÃO

Estudar discursivamente um texto requer uma análise das relações


entre diferentes regiões de sentido. É preciso verificar como, para além
dos propósitos argumentativos do autor do texto, sentidos vão constitu-
indo o sujeito a partir das práticas sócio-históricas. O texto em questão
significa uma divisão do sujeito do consumo. Os processos discursivos
funcionam significando o sujeito social em diferenças, em práticas sócio-
históricas. Temos o shopping, a classe A e as classes D e E significados de
modos distintos e específicos. Como vemos, os processos de significação
trazem e constituem diferenças conflituosas históricas: os antagonismos
entre classes sócio-financeiras, ou seja, os processos de significação que
nas relações língua(gem) e discurso constituem o sujeito em “tipificações
de classes de consumo”. É uma formação discursiva mais ampla, univer-
sal: estamos diante do interdiscurso.

RESUMO

Vimos que para a AD, quando lemos, além dos propósitos


argumentativos do autor de um texto, estamos expostos a efeitos de sen-
tido próprios das regularidades do texto. Um e-mail não tem as mesmas
regularidades de um editorial jornalístico. Vimos que o texto sempre reins-
creve a relação língua/história afetando o sujeito a partir de diferentes
processos de significação articulados à complexa rede de formações
discursivas. No texto estudado, vimos como diferentes regiões de sentido
(o namoro, o popular, o conhecimento e a explicação) estão articulados
na constituição do sujeito. Vimos que textualmente, essa articulação se
dá entre pontos de diferentes dimensões (por exemplo, do namoro entre
indivíduos os sentidos deslizam para o namoro com o shopping; ou do
tempo presente dos dois primeiros parágrafos os sentidos deslizam para
um passado) E para que tais articulações ocorram, as repetições e resso-
nâncias são fundamentais.

101
Introdução às Teorias do Discurso

ATIVIDADES

Como é possível verificar, o estudo que fizemos do texto não é


conclusivo. Há regiões de sentido pouco exploradas, por exemplo, os
últimos três parágrafos. Procure avançar nas análises tendo em vista o
que fizemos.

REFERÊNCIAS

AUTHIER-REVUZ, J. Palavras incertas: as não coincidências do dizer.


Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1998.
FAIRCLOUGH, N. Languague and power. London: Longman, 1992.
_______________. Discurso e mudança social. Brasília: UNB Edito-
ra, 2001.
GOUVEIA, C. A. M.. Análise crítica do discurso: enquadramento histó-
rico. In: Disponivel em: <http://www.fl.ul.pt/pessoais/cgouveia/artigos/
HCC.pdf>
ORLANDI, E. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Cam-
pinas, Pontes, 2000.
REBOUL, O. O slogan. São Paulo: Ed. Cultrix, 1986.
SERRANI, S. M. A Linguagem na pesquisa sócio-cultural. Campi-
nas, SP: Editora da Unicamp, 1993.
SILVA, D. E. G. Motivações cognitivas e interacionais em competição: a
força das palavras em contexto.
VAN DIJK, T.A. O poder da mídia jornalística. Palavra 4:167-187, 1997.
Sites
h t t p : / / w w w. s c i e l o . b r / s c i e l o . p h p ? p i d = S 0 1 0 2 -
44502005000300007&script=sci_arttext&tlng=pt.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0308200824.htm

102
Aula
DISCURSO E TEXTO

META
Apresentar relações entre discurso e texto.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
mostrar como um texto recorta diferentes regiões de sentido e constituem
o sujeito afetado pelo interdiscurso em diferentes formações discursivas.

PRÉ-REQUISITOS
As aulas anteriores e noções elementares sobre texto.

(Fonte: http://osaprendizes.files.wordpress.com/2008/05/escrita22.jpg)
Introdução às Teorias do Discurso

INTRODUÇÃO

É preciso considerar que um texto não é definido por sua extensão,


mas por seu caráter significante. Por exemplo, o nome “Aracaju” no mapa
do estado de Sergipe é uma unidade de sentido que recorta relações espe-
cificas com as demais unidades daquele contexto: remete nossa memória a
demarcações geográficas, políticas, históricas. A mesma unidade “Aracaju”,
estampada em uma camiseta, recorta outras memórias pela própria inscri-
ção em outras relações: turísticas, por exemplo. O princípio básico que
nos coloca diante da noção de texto é o fato de que ele é uma unidade que
produz efeito de sentido entre locutores (ORLANDI, 2000, p. 68-73).
Mas é preciso considerar a existência do efeito texto produzido por
regularidades de organização e encadeamento mais longo entre partes: a
frase, o período, o parágrafo, as seções, os capítulos etc., estabelecendo
“um sentido configuracional e a determinação de um propósito
argumentativo” (DAD, 467). Quando lemos, estamos sob o efeito dessas
regularidades. Estamos em busca do que o autor quer, não é mesmo?!.
Por isso, pragmaticamente, sempre nos perguntamos “o que o autor quis
dizer?”. Mas, para a AD, é preciso considerar não apenas a dimensão
pragmática das intenções reconhecíveis. É preciso compreender o
interdiscurso, ou seja, a “razão de ser” daquelas seqüências lingüístico-
discursivas que constituem o sujeito.

Mapa de Sergipe, destacando Aracaju


(Fonte: www.telefone.inf.br) Aracaju
(Fonte: www.drikabio.com/wp-content/uploads/2008/
01/564px-monumento_aracaju.jpg)

94
Discurso e Texto Aula

DISCURSO E TEXTO: ARTICULAÇÃO ENTRE


PROCESSOS DE SIGNIFICAÇÃO
10
Para estudarmos um texto do ponto de vista discursivo é preciso:

a) Voltarmos nossa atenção não apenas para o estudo das relações entre
dados lingüísticos, mas para o fato de que o texto sempre reinscreve a
relação língua/história;
b) O interesse pelo discurso deve ser concentrado na articulação entre os
diferentes processos de significação que acontecem no e pelo texto signi-
ficando o sujeito em práticas. Esses processos, para além da situação de
comunicação, inscrevem o sujeito na complexa rede de formações
discursivas. E isso implica considerarmos diferenças.

Por exemplo, o suporte é oral, é escrito (manuscrito, livro etc)? O


texto é acadêmico, é religioso, sindical, ou é jornalístico etc!? Os textos
trazem regularidades específicas dessas instituições. Por exemplo, certos
textos acadêmicos trazem apresentação, resumo, sumário, introdução, ci-
tações centralizadas, notas de rodapé etc. Um manifesto sindicalista traz
outras regularidades.

Todas essas especificidades, entre outras, precisam ser consideradas.


É por isso que o estudioso do discurso precisa analisar formas materiais.

Um exemplo

Para estudar o texto abaixo, importa considerar o fato de tratar-se de


um produto jornalístico trazendo regularidades próprias das textualizações
jornalísticas. Basta pensar sobre as regularidades no texto tendo em vista
as técnicas de composição de uma manchete, ou o fato de o texto vir
situado (categorizado) no “caderno cotidiano”. Ou ainda, o princípio
discursivo de certos textos jornalístico “ouvirem os dois lados”, as partes
envolvidas no fato, e trazer essas vozes entre aspas etc. Essas práticas
estão materialmente em jogo.
Vejamos o texto “publicado no jornal Folha de São Paulo em agosto
do ano passado. O caro aluno pode ler primeiro o texto/objeto e em se-
guida os comentários que faço a respeito. Destaque para três formações
discursivas.

95
Introdução às Teorias do Discurso

O DISCURSO DO NAMORO E DO POPULAR

Do 1º parágrafo, interessam os processos de significação que filiam o


sujeito à formação discursiva do popular: “sacola de supermercado”, “lan-
che da tarde”, “copeira”, “servente”; os nomes próprios: Maria, Santos
etc. que filiam o sujeito do consumo a determinadas regiões de sentido,
formações discursivas estabelecendo fronteiras discursivas. Mas nos pa-
rece, caro aluno, que essa dimensão é mais ou menos controlada pelo
autor, as predicações do sujeito do consumo estão por toda parte no texto
(faça um quadro de predicações).
O discurso do namoro vem especificado na relação entre casais pelo
enunciado “de mãos dadas com ela” (1º parágrafo). A textualização em
seu fator fundamental, a anáfora (DAD, 36) faz os sentidos deslizarem
pela relação entre indivíduos no 2º parágrafo, onde os sentidos do namo-
ro reaparecem com “o casal não teve resposta” e vai ao 4º parágrafo com
“o casal Derly e Maria tomou...”.
Mas desse processo de significação, ou seja, da relação entre indiví-
duos, os sentidos são reescriturados, já no 3º parágrafo, em outra dimen-
são. A palavra “namoro” resignifica os parágrafos anteriores. O namoro
reaparece significando relações entre classes sociais e o shopping: “o na-
moro das classes D e E... com o Cidade Jardim”. Para o estudioso da
relação texto/discurso essa mudança de dimensão é decisiva.
A questão é que uma vez nessa dimensão, o discurso do namoro ope-
ra em processos de significação que constituem fronteiras no sujeito. O
discurso do namoro significa no sujeito os sentidos daquele que “quer
conquistar”, quer expandir sua fronteira.
Nessa direção, no 6º parágrafo, com o enunciado “X atiçou a curio-
sidade de Y” vêm os sentidos de excitação, estímulo, desejo de alcan-
çar, de conquistar no sentido mesmo do domínio do outro. Lembrando
que “atiçou” significa também um efeito de sentido do inesperado, do
impensado, significa “ter que arcar com as conseqüências”. O fato é a
reescrituração de significações restritivas, ou seja, significações que es-
tabelecem limites no sujeito.
Digamos que esse processo que está no quadro de predicações do
sujeito do consumo, até certo ponto vem pela dimensão pragmática das
intenções reconhecíveis, quer dizer, o autor Vinícius Queiroz Galvão tem
o propósito argumentativo de apresentar as diferenças no sujeito do con-
sumo. Mas a análise precisa mirar na direção do interdiscurso que afeta o
sujeito enunciativo a revelia de suas vontades conscientes. O estabeleci-
mento de fronteiras discursivas no sujeito, filiado a diferentes formações
discursivas, é o fundamento do texto.
O deslocamento de sentidos do namoro entre indivíduos para o “na-
moro social” significa no sujeito a conquista, a posse, o domínio. Como é

96
Discurso e Texto Aula

possível verificar, esse deslocamento se dá através de repetições e resso-


nâncias discursivas (Serrani, 1993; Authier-Revus, 1998).
10
(ver Box: A pesquisadora Silvana Serrani-Infante se dedica a ques-
tões discursivas no ensino de línguas. A categoria ressonância
interdiscursiva, por ela introduzida, é um importante instrumento de tra-
balho para o analista. As seqüências linguístico-discursivas são estudadas
a partir da atenção concentrada nos lugares em que fica marcado o per-
curso da repetição na linguagem; nessa direção, os estudos sobre meta-
enunciação realizados por Jacqueline Authier-Revus em seu Palavras In-
certas (1998) também são importantes)
a) Itens lexicais presentes no discurso como equivalentes ou sinônimos,
ou ainda, construções lingüísticas parafrásticas;
b) Estratégias discursivas, recorrentes modos de dizer para a representa-
ção de referências no discurso, modos de dizer recorrentes no discurso.

O DISCURSO DO (DES) CONHECIMENTO

No texto em estudo, o discurso do (des) conhecimento atravessa a


textualidade inscrevendo o sujeito em uma formação discursiva que o
limita: o sujeito “pergunta”, “intriga-se” (1º parágrafo), “não tem respos-
ta” (2º parágrafo), “sem entender muito bem” (6º parágrafo), “só para
conhecer” (7º parágrafo, nesse caso os sentidos deslizam para um sujeito
do consumo, não-consumidor: “para passear pela primeira vez” no 2º pa-
rágrafo, e “olhos na vitrine” 1º parágrafo). Vejam que nesses dois últimos
os sentidos do conhecimento aparecem na verdade como reconhecimen-
to do território do outro, ou do outro como estando no território do eu.
São sentidos que ressoam à textualidade.

Diferentes modos de dizer constituem o sujeito no desconhecimento.


O conhecimento o identifica, o desconhecimento o exclui. Nesse
interdiscurso, o discurso da língua é histórico. Saber ou não os nomes
estrangeiros das lojas constitui o sujeito, significa o sujeito nessa divisão
entre os que sabem e os que não sabem a (s) língua(s). Nesse sentido, o
estrangeiro, ou seja, o estranho é mesmo o casal, as classes D e E. Saber
“a língua do outro” esses sentidos que têm uma longa história constituem
uma fronteira no sujeito, uma formação discursiva pela fórmula disjuntiva:
conhecimento/ não-conhecimento (Pêcheux, 1997). Saber ou não saber
eis o interdiscurso.

97
Introdução às Teorias do Discurso

O DISCURSO EXPLICATIVO (O COMO E O


PORQUÊ DO OUTRO)

Também nessa direção que divide o sujeito vêm os parágrafos 3º e 4º


significando um “monitoramento detalhado/explicativo do sujeito”. Os pa-
rágrafos explicam como os indivíduos das classes D e E chegaram até o
shopping. O que temos nesses parágrafos é um passo a passo na “transposi-
ção da fronteira” para chegar ao shopping Cidade Jardim, fronteira entre o eu
e o outro. Os parágrafos explicam como aquelas pessoas chegaram até ali. De
modo que o sujeito do consumo é constituído como afetado pelos “percalços
de uma saga”, como aquele que enfrenta dificuldades de uma origem impen-
sada: “começou com a criação de um ponto de ônibus” (3º parágrafo), a
origem é um erro: “foi um tiro no pé” (8º parágrafo) e, diante de tantas dificul-
dades, o desfecho vem com um prêmio: chegar a “um dos empreendimentos
mais comentados dos últimos tempos em São Paulo” (4º parágrafo).
Esses processos de significação são fundamentais, por isso precisamos
detalhá-los. Observemos que há uma contradição, uma falha própria da or-
dem discursiva (as relações contraditórias entre espaços públicos e privados,
entre as posições do sujeito trabalhador/ consumidor). A ruptura é exposta
na materialidade da linguagem: um ponto de ônibus “para atender funcioná-
rios”, não consumidores. Note-se que os dêiticos operam de modo bastante
particular essa divisão entre o espaço público e o espaço privado limitados
pelos “param por ali” (3º parágrafo)/ e “descer por lá” (4º parágrafo).
Note-se que tendo em vista esse ali/lá, todos os enunciados do texto
significam um “aqui” e, nisso, é importante observar que uma posição
construída para aquele que está falando no texto, situa o sujeito enunciativo
no espaço privado (o jornalista teria feito a matéria no Shopping?!). Temos aí
uma divisão contraditória do sujeito afetando o indivíduo: de um lado o fun-
cionário, de outro o consumidor.
Em fim, qual é a “razão de ser” desses sentidos? Por que contar essa
história do como os indivíduos chegaram ao shopping? Por que a textualidade
abre espaço para esses sentidos que vão da origem à conclusão? Eles são
explicativos. Vide o último enunciado. “E assim [as classes D e E] chegaram
a um dos empreendimentos...”.

Sem entrada de pedestres, shopping para classe A vira atração para


classe D

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Discurso e Texto Aula

VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO 10


1

Com uma sacola de supermercado que trazia o lanche da tarde na


mão e os olhos na vitrine da joalheria Tiffany & Co, a copeira Maria Bar-
bosa pergunta: “Essa loja é de quê?” De mãos dadas com ela, o servente
Derly Santos também se intriga, desta vez com a bombonière Chocolat
du Jour. “Como se pronuncia o nome dessa loja?”

O casal não teve resposta, mas isso pouco importa. Eles estavam lá,
num sábado de folga, para passear pela primeira vez entre as lojas do
shopping Cidade Jardim. Projetado sem praça de alimentação e sem en-
trada de pedestres para se restringir ao público A, o complexo de R$ 1,5
bilhão virou atração para a baixa renda.

O namoro das classes D e E, pessoas com renda familiar média de R$


580, com o Cidade Jardim começou com a criação de um ponto de ônibus
na marginal, em frente ao shopping, para atender os funcionários. Linhas
como Jardim Ângela e Terminal Santo Amaro param por ali.

Foi uma dessas que o casal Derly e Maria tomou para descer por lá.
Como não podiam atravessar a marginal do rio Pinheiros, tiveram de fa-
zer uma baldeação na avenida 9 de Julho pagando só uma passagem com
um bilhete único. E assim chegaram a um dos empreendimentos mais
comentados dos últimos tempos em São Paulo.

Aquele que se anuncia “o mais luxuoso do país”, o Cidade Jardim


tem lojas de grifes como Chanel, Armani e Rolex, algumas inéditas.

E foi justamente essa exclusividade e sofisticação que atiçou a curio-


sidade das pessoas que não são o público-alvo do shopping, por assim
dizer, e passeiam por ali sem entender muito bem os preços altos de Hermès
e Louis Vuitton. Ou ainda a sinalização bilíngüe, em inglês.

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Introdução às Teorias do Discurso

“Só tem loja estrangeira, queria que tivesse uma Marisa. A gente que
é da periferia vem só para conhecer. No shopping Ibirapuera não discri-
minam tanto quanto aqui”, diz Maria. “Pela maneira que me olham já
percebo que é diferente”, afirma Derly.

“Foi um tiro no pé”, reclama a designer e socialite Andréia


Albuquerque Magalhães sobre a diversidade do público do shopping, o
que tem deixado ela e as amigas danadas da vida.

“Olha a Daslu, está toda revirada, parece uma dessas lojas mais po-
pulares. Na Vila Nova Conceição não era assim”, diz a produtora Patrícia
Aguiar sobre a butique multimarca -âncora do shopping.

10

“Nossa intenção sempre foi fazer um shopping bacana para cidade.


Fico feliz mesmo de ver todo tipo de gente. Acho o máximo”, afirma
Sharon Beting, diretora do shopping. “Isto é inédito”, é o slogan do Cida-
de Jardim.

Texto publicado no jornal Folha de São Paulo, caderno Cotidiano, em


03/08/2008; disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/
cotidian/ff0308200824.htm

Com perspectivas teóricas distintas das que vimos, muitos traba-


lhos são dedicados a questões sociais, os preconceitos, as injustiças
etc, vejamos.

LINGUAGEM E QUESTÕES SOCIAIS

A Análise Crítica do Discurso (ACD) tem uma linha de filiação histó-


rica com a chamada lingüística crítica do final dos anos de 1970 para
quem as “as relações sociais influenciam o comportamento lingüístico e
não-lingüístico dos sujeitos, incluindo a sua atividade cognitiva”
(GOUVEIA, C. A. M. s/d).
Para a ACD “a sintaxe, por exemplo, pode codificar uma visão do
mundo particular, sem qualquer escolha consciente por parte dos falan-
tes; ao mesmo tempo, sendo derivada da relação que os falantes têm com

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Discurso e Texto Aula

as instituições e a estrutura sócio-económica das sociedades de que fa-


zem parte, tal visão é-lhes disponibilizada e confirmada pelo cunho ideo-
10
lógico dessas mesmas sociedades (Fowler & Kress, 1979: 185).”
Nesse caso, a ACD traz para o centro de seus interesses os significa-
dos sócio- ideológicos e as suas realizações textuais e a linguagem é me-
canismo de reprodução e auto-regulação social.
Dentre os trabalhos da década de 1990 temos estudos voltados para
as formas de poder entre as culturas, os sexos, as raças, as classes sociais
Van Dijk, 1993; Wodak, 1996, 1997; anti-semitismo Sarfati, 1999.

CONCLUSÃO

Estudar discursivamente um texto requer uma análise das relações


entre diferentes regiões de sentido. É preciso verificar como, para além
dos propósitos argumentativos do autor do texto, sentidos vão constitu-
indo o sujeito a partir das práticas sócio-históricas. O texto em questão
significa uma divisão do sujeito do consumo. Os processos discursivos
funcionam significando o sujeito social em diferenças, em práticas sócio-
históricas. Temos o shopping, a classe A e as classes D e E significados de
modos distintos e específicos. Como vemos, os processos de significação
trazem e constituem diferenças conflituosas históricas: os antagonismos
entre classes sócio-financeiras, ou seja, os processos de significação que
nas relações língua(gem) e discurso constituem o sujeito em “tipificações
de classes de consumo”. É uma formação discursiva mais ampla, univer-
sal: estamos diante do interdiscurso.

RESUMO

Vimos que para a AD, quando lemos, além dos propósitos


argumentativos do autor de um texto, estamos expostos a efeitos de sen-
tido próprios das regularidades do texto. Um e-mail não tem as mesmas
regularidades de um editorial jornalístico. Vimos que o texto sempre reins-
creve a relação língua/história afetando o sujeito a partir de diferentes
processos de significação articulados à complexa rede de formações
discursivas. No texto estudado, vimos como diferentes regiões de sentido
(o namoro, o popular, o conhecimento e a explicação) estão articulados
na constituição do sujeito. Vimos que textualmente, essa articulação se
dá entre pontos de diferentes dimensões (por exemplo, do namoro entre
indivíduos os sentidos deslizam para o namoro com o shopping; ou do
tempo presente dos dois primeiros parágrafos os sentidos deslizam para
um passado) E para que tais articulações ocorram, as repetições e resso-
nâncias são fundamentais.

101
Introdução às Teorias do Discurso

ATIVIDADES

Como é possível verificar, o estudo que fizemos do texto não é


conclusivo. Há regiões de sentido pouco exploradas, por exemplo, os
últimos três parágrafos. Procure avançar nas análises tendo em vista o
que fizemos.

REFERÊNCIAS

AUTHIER-REVUZ, J. Palavras incertas: as não coincidências do dizer.


Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1998.
FAIRCLOUGH, N. Languague and power. London: Longman, 1992.
_______________. Discurso e mudança social. Brasília: UNB Edito-
ra, 2001.
GOUVEIA, C. A. M.. Análise crítica do discurso: enquadramento histó-
rico. In: Disponivel em: <http://www.fl.ul.pt/pessoais/cgouveia/artigos/
HCC.pdf>
ORLANDI, E. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Cam-
pinas, Pontes, 2000.
REBOUL, O. O slogan. São Paulo: Ed. Cultrix, 1986.
SERRANI, S. M. A Linguagem na pesquisa sócio-cultural. Campi-
nas, SP: Editora da Unicamp, 1993.
SILVA, D. E. G. Motivações cognitivas e interacionais em competição: a
força das palavras em contexto.
VAN DIJK, T.A. O poder da mídia jornalística. Palavra 4:167-187, 1997.
Sites
h t t p : / / w w w. s c i e l o . b r / s c i e l o . p h p ? p i d = S 0 1 0 2 -
44502005000300007&script=sci_arttext&tlng=pt.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0308200824.htm

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