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Produção e Recepção

de Texto II
Mary Jane Dias da Silva

São Cristóvão/SE
2009
Produção e Recepção de Textos II
Elaboração de Conteúdo
Mary Jane Dias da Silva

Projeto Gráfico e Capa


Hermeson Alves de Menezes

Diagramação
Neverton Correia da Silva

Copyright © 2009, Universidade Federal de Sergipe / CESAD.


Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e grava-
da por qualquer meio eletrônico, mecânico, por fotocópia e outros, sem a
prévia autorização por escrito da UFS.

FICHA CATALOGRÁFICA PRODUZIDA PELA BIBLIOTECA CENTRAL


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

Silva, Mary Jane Dias da.


S586p Produção e recepção de texto II / Mary Jane Dias da
Silva -- São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe,
CESAD, 2009.

1. Linguística. 2. Produção de texto. I. Título.

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Sumário
AULA 1
Os gêneros textuais.......................................................................07

AULA 2
Tipo textual narrativo......................................................................23

AULA 3
Tipo textual descritivo ....................................................................... 35

AULA 4
Tipo textual expositivo/dissertativo...................................................45

AULA 5
Tipo textual argumentativo..............................................................53

AULA 6
Modo enunciativo .............................................................................. 63

AULA 7
Fichamento ....................................................................................... 71

AULA 8
Resumo...................................................................................... 79

AULA 9
Resenha..................................................................................... 93

AULA 10
Artigo científico................................................................................101
Aula
OS GÊNEROS TEXTUAIS
1
META
Estabelecer distinções entre gênero textual e tipo textual
Identificar componentes da situação de produção dos textos

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
fazer distinções entre tipo e gênero textual e apontar características que
distingam alguns gêneros quanto a sua fucionalidade, para finalmente
compreender o conceito de funcionalidade.

PRÉ-REQUISITOS
Conhecimentos prévios sobre diferentes tipos de textos, quem os
produz, para quem são produzidos, com que finalidade e onde circulam.

Poesia.
(Fonte: http://www.corneliodigital.com).
Produção e Recepção de Texto II

INTRODUÇÃO

A primeira parte do Curso de produção e recepção de textos I pon-


tuou alguns pressupostos teórico-metodológicos para o tratamento da
produção e da recepção de textos, sejam eles falados ou escritos. Vamos
só relembrar alguns deles, porque é muito importante que você tenha
bem claro essas noções.
1. O pressuposto de que sempre que utilizamos a língua , seja lendo ou
escrevendo, falando ou ouvindo, o fazemos com intenções em contextos
sociais específicos;
2. Essas intenções com que utilizamos a língua são materializadas em
textos e, por se tratar de ações conjuntas entre sujeitos, o texto é consi-
derado como um evento e como unidade de comunicação.
Compreendendo que o texto se acha construído na perspectiva da
enunciação, que leva em conta os sujeitos ou interlocutores , suas inten-
ções comunicativas, seus conhecimentos , é necessário chamar atenção
para os processos presentes na produção de sentido.

Marcuschi (2002, p. 21) compreende que

embora os processos enunciativos não sejam simples nem


obedeçam a regras fixas, as atividades comunicativas que realizamos
no dia-a-dia são reconhecidas pela forma que toma e pela função
que tem dentro de uma comunidade.

Como quer Bakhtin (1997), todas as atividades humanas estão rela-


cionadas ao uso da língua, que se efetiva através de enunciados estáveis
falados ou escritos [...]. Ou seja, a comunicação verbal só é possível por
algum gênero textual.

Bakhtin (Fonte : http://raphaeldig-


gory.files.wordpress.com).

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Os gêneros textuais Aula

GÊNERO TEXTUAL 1
Os estudos sobre gênero textual são muito antigos, mas continuam
em voga. Na Poética, Aristóteles se propõe a definir e classificar as for-
mas de discurso a partir de estruturações tipológicas. Outros teóricos
deram continuidade aos estudos de Aristóteles e hoje o gênero textual
passou a ser um dos temas centrais nos estudos da língua, da sua produ-
ção , por diferentes áreas do conhecimento. Entre nós, nomes como
Ingedore Koch, Luis Antonio Marcuschi, Rojane Rojo entre outros, tem
se dedicado ao estudo dos gêneros.

Segundo Marcuschi (2002, p. 23)

a expressão gênero textual é utilizada para referir os textos


materializados que encontramos na vida diária e que apresentam
características sociocomunicativas definidas por composições
funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados
na integração de forças históricas, sociais , institucionais e técnicas.
Em contraposição aos tipos, os gêneros são entidades empíricas
em situações comunicativas e se expressam em designações diversas,
constituindo em principio uma listagem aberta. Alguns exemplos
de gêneros textuais seriam: telefonema, cardápio de restaurante,
bate-papo, piada, outdoor, bula de remédio, reportagem jornalística,
aula expositiva, romance, carta comercial, inquérito policial , poema,
folhetos informativos e assim por diante.

O autor acredita que os gêneros são “modelos correspondentes a


formas sociais de comunicação reconhecíveis nas situações em que ocor-
rem.” Veja, por exemplo, o gênero bate-papo. Quando nos encontramos
com amigos para conversar informalmente, estamos utilizando padrões
sociocomunicativos característicos que definem o bate- papo com suas
especificidades.
Os padrões de comunicação são partilhados na comunidade e, são
reconhecíveis por todos , tanto é que todos se comportam de modo mais
ou menos previsto. Se alguém no grupo passa a usar um tom, um vocabu-
lário ou um comportamento lingüístico não adequado, que seja identifi-
cado pelos participantes, será normalmente chamado atenção para que se
integre à situação que exige outro comportamento. Assim, é possível com-
preender os textos como objetos empíricos, observáveis, que realizam
uma função comunicativa e se inserem em uma prática social.

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Produção e Recepção de Texto II

TEXTO, DISCURSO E GÊNERO

Outro aspecto didático importante é atentar para a distinção entre


os termos texto, discurso e gênero. Marcuschi (2008, p.185)) com-
preende que

a distinção entre texto e discurso não é muito simples, pois em


certos casos os dois são vistos como permutáveis. Uma das
tendências atuais, segundo o autor, é ver o texto no plano das
formas lingüísticas e de sua organização, ao passo que o discurso
seria o plano do funcionamento enunciativo, o plano da enunciação
e efeito de sentido na sua circulação sociointerativa e discursiva.
Acredita-se que é importante observar as relações entre ambos e
considerá-los como aspectos complementares da atividade
enunciativa. O discurso dar-se-ia no plano do dizer (a enunciação)
e o texto no plano da esquematização (a configuração), o gênero
estaria mediando esta relação, pois é aquele que condiciona a
atividade enunciativa.

Essa tentativa de compreender o gênero e abordá-lo do ponto de


vista da enuciação e da sua configuração, visa aproximar o olhar para
estas relações. Para Coutinho (apud. Marcuschi idem), dentro de cada
gêneros, dois aspectos importantes estão presentes na sua configuração:
1. A gestão enunciativa - escolha dos planos de enunciação, modos
discursivos e tipos textuais
2. A composicionalidade ou esquematização - identificação de uni-
dades ou subunidades textuais que dizem respeito à sequenciação e ao
encadeamento e linearização textual.
Tal proposta compreende as perspectivas contextuais (a situação de
comunicalção, as intenções e os papéis dos interlocutores, o intertexto, a
informatividade, etc.) e co-textuais (os diferentes tipos de coesão e a
coerência) já referidas na aula nove do curso Produção e Recepção de
Texto I .
A gestão enunciativa tem a ver com os objetivos da comunicação, as
imagens recíprocas dos interlocutores, a adequação entre os propósitos
comunicativos e o uso da língua, o registro e estilo. Já a composicionalidade
pode ser observada no desenvolvimento do parágrafo, na forma de de-
senvolvimento do tópico, na coesão referencial e seqüencial, nos encade-
amentos entre frases, períodos e parágrafos. Nas atividades propostas
adiante, vamos procurar contemplar estes dois movimentos

10
Os gêneros textuais Aula

GÊNERO E TIPO TEXTUAIS 1


Outra distinção importante e nem sempre bem estabelecida é a que
se faz entre gênero textual e tipo textual. Essa distinção é fundamental
em todo o trabalho com a produção e a compreensão textual . Para
Marcuschi (2008, p. 155) a expressão tipo textual :

designa uma espécie de construção teórica (em geral uma seqüência


subjacente aos textos) definida pela natureza lingüística de sua
composição (aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações
lógicas, estilo) . O tipo caracteriza-se muito mais como sequencias
lingüísticas– sequencias retóricas- do que como textos materializados;
a rigor, são modos textuais. Em geral os tipos textuais abrangem
cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como narração,
exposição, injunção, descrição e argumentação. O conjunto de
categorias para designar tipos textuais é limitado e sem tendências a
aumentar. Quando predomina um modo num dado texto concreto,
dizem que esse é um texto argumentativo ou narrativo.

Há ainda outro termo bastante utilizado nos estudos sobre o gênero é


o termo domínio discursivo que ainda segundo o autor (idem)

constitui muito mais uma esfera da atividade humana” no sentido


bakhtiniano do termo do que um princípio de classificação de textos
e indica instâncias discursivas (discurso jurídico, discurso jornalístico,
discurso religioso etc.) não abrange um gênero particular.

Na esfera do jornalístico teríamos : a notícia , o editorial, o artigo de


opnião; da religião, teríamos : o sermão, a oração, os cânticos de louvor, na
esfera das ciências, os tratados, a dissertação de mestrado, a monografia etc.
Quando planejamos o que vamos dizer, pensamos em como dizer, no
veículo que vamos usar para que a comunicação se efetive, isto especial-
mente quando usamos gêneros escritos. Veja por exemplo quando reali-
zamos o gênero telefonema: trata-se de um gênero que só se realiza na
modalidade falada. Não há telefonemas escritos!
Existem muitas formas de veicular a produção escrita e falada. Com
os meios de comunicação, a linguagem verbal vem acompanhada de ou-
tras linguagens. Além do texto escrito ou falado, imagem e som contribu-
em para imprimir no destinatário as intenções do produtor. As propagan-
das veiculadas na TV, nos panfletos, na internet, em revistas ou outdoors,
mostram que estes veículos são muito eficientes para a mensagem chegar
mais rápido ao destinatário pretendido. Existe uma relação entre a forma
e o conteúdo da comunicação e o veiculo ou o suporte em que esta comu-
nicação será transmitida até chegar ao destinatário.

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Produção e Recepção de Texto II

Veja como nas atividades diárias de uso da língua, para cada uma
delas cabe um discurso característico. Podemos operar com estes concei-
tos no exemplo a seguir. Trata-se do gênero carta pessoal, cujos
interlocutores acham-se explicitados no próprio texto - a mãe que escre-
ve a sua filha. Nele, encontramos diferentes tipos de seqüências lingüís-
ticas típicas : a descritiva indicando circunstâncias – local e data - ; a
expositiva – indicando as impressões sobre o percurso - ; a narrativa – a
sucessão de ações no tempo marcada pelos advérbios ontem, hoje -.
Na visão que vem sendo proposta no curso, denominada
sociointerativa, um dos aspectos centrais no processo interlocutivo é a
relação dos indivíduos entre si e com a situação discursiva. Estes aspec-
tos vão exigir dos falantes e escritores que se preocupem em articular
conjuntamente seus textos ou então que tenham em mente seus
interlocutores quando escrevem.
Essa intenção ou esse discurso inicia com a escolha de um gênero que
por sua vez condiciona uma série de conseqüências formais e funcionais.
Vejamos o exemplo a seguir: a autora da carta – o remetente - ao querer
comunicar-se com a filha para informar onde e como está, recorre a um
discurso característico. Este discurso inicia com a escolha de um gênero:

Gênero textual – carta pessoal tipo textual-seqüências tipológicas

1. Resende, 26 de setembro de 2007 Descritiva


L2. Querida Bia Injuntiva
L3. Saí do Rio de Janeiro ontem cedinho. Narrativa
L4. A viagem até Resende é fantástica! Expositiva
L5. A paisagem é de tirar o fôlego! Descritiva
L6 .Faz um friozinho gostoso, mas o céu Narrativa
convida a gente pra sair.
L7. O encontro começa hoje e dura dois Narrativa
dias.
L8. Acho que fico por aqui mais alguns Narrativa
dias para
L9. conhecer a região. E você esta bem? Injuntiva
L10. Ligo pra saber de você. Injuntiva
L11. Beijo grande.
L12. Sua Mama.

Esta configuração funciona discursivamente para dar ou pedir infor-


mações pessoais – no caso das cartas pessoais, pois há diversos tipos de
carta. Observe que a linguagem e a escolha de um gênero, no caso, uma

12
Os gêneros textuais Aula

carta, que, por sua vez condiciona um esquema textual específico que
segue a decisão do gênero e do seu funcionamento.
1
Como você pode ver, nesta carta predominam as seqüências narrati-
vas, mas outros tipos de seqüências também aparecem, como a injuntiva,
a descritiva. Com isso, você pode concluir que as seqüências tipológicas
(os modo textuais) estão subjacentes à organização interna do gênero. As
expressões tipo textual e gênero textual não se opõem, mas se
complementam e se integram, pois são formas constitutivas do funciona-
mento da língua em situações comunicativas da vida diária.

ATIVIDADES

1. Observe os textos a seguir. Você os conhece? Identifique os textos


indicados quanto ao gênero, utilizando a relação abaixo. Em seguida, atri-
bua-lhes características específicas como : sua finalidade ? Informar, di-
vertir, opinar, impor ? Quem são os seus interlocutores ? O Autor e um
possível leitor ? Quais imagens fazem um do outro ?

1.Resenha crítica de filme ( )


2.Regulamento de concurso ( )
3.Receita ( )
4.oração ( )
5.Folheto informativo ( )
6.Ficha de inscrição ( )
7.Quarta capa (ou contracapa) de livro ( )
8.Carta ao leitor ( )

2. Observe os textos 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7, sua diagramação, linguagem,


quem é o autor, a quem o texto se dirige. Quais propósitos tem os
interlocutores? Quais expectativas e imagens têm um do outro? Qual
função tem o gênero? Qual o veículos que foi utilizado para chegar
até o interlocutor?

13
14
Texto 1 Texto 2 Texto3 Texto 4 Texto 5 Texto 6 Texto 7

Autor Não explicitado

Função social Jornalista especi-


do autor alizado em cinema.
textos 2, 3, 4 , 5, 6, 7 e 8.

Imagem que o Destinatário que


autor tem do costumaver filmes
destinatário estrangeiros

Revista BRAVO.
Local/ espaçoonde Seção : cinema
o texto circulará
Produção e Recepção de Texto II

Objetivo doautor Dar informações


do texto diversas sobre o
filme e convencer o
destinatário a assistir
ao filme.
2. A partir do exemplo texto 1 você deverá preencher os demais quadros
da tabela, identificando as características da situação de produção dos
Os gêneros textuais Aula

Texto 1 Texto 2 1

Revista Bravo nº 27 - 2006

15
Produção e Recepção de Texto II

Texto3 Texto 4

RECEITA DE
CREPE

Ingredientes:

1 xícara de chá de farinha


de trigo
1 xícara (chá) e um quar-
to de leite
1 ovo
10 gotinhas de essência de
baunilha
uma pitadinha de sal

Modo de Preparo:

Misture todos os ingredi-


entes no liquidificador e
bata durante trinta segun-
dos. Numa frigideira (já
aquecida) anti aderente
coloque um pouco de óleo
para a massa se soltar fa-
cilmente, espere uns quin-
ze segundos e vire a mas-
sa e abaixe o fogo. Ainda
no fogo, recheie o crepe
com os ingredientes de
sua preferência.

16
Os gêneros textuais Aula

1
Texto5

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Produção e Recepção de Texto II

Texto 6

18
Os gêneros textuais Aula

1
Texto 7

19
Produção e Recepção de Texto II

CONCLUSÃO

Como você pôde perceber, os gêneros fazem parte das nossas ativi-
dades diárias. Circulam em espaços diferentes, porque servem a propósi-
tos diferentes. Sendo assim, o gênero, enquanto produto cultural, é resul-
tado de uma prática social que envolve a linguagem e outros sistemas
semióticos. Dessa forma, não se pode produzir, nem entender um texto
considerando apenas a linguagem. Com Marcuschi (2002) a interpreta-
ção de um texto só é possível quando relacionamos o texto a um contexto
ou a uma situação concreta que envolve sujeitos, intenções, conheci-
mentos partilhados, objetivos da comunicação , imagens recíprocas dos
interlocutores, etc . O gênero enquanto forma de organização social ma-
terializa em sua forma e função esses diferentes aspectos. O gênero é
uma forma de ação social e é uma categoria cultural, porque seu âmbito
de ação, assim como a língua, é a cultura.

RESUMO

As atividades foram pensadas para você refletir sobre a expressão


gênero e diferenciá-lo da expressão tipo textual. Mas será ao longo do
curso que essas noções deveram tornar-se mais compreensíveis. Aspecto
fundamental é entender o gênero como ação social, como forma de
interação entre sujeitos que estabelecem trocas comunicativas em fun-
ção de diferentes propósitos. É importante lembrar que apesar de termos
priorizado os gêneros escritos , é importante pensar nos gêneros falados
aqui não ilustrados. Procure pesquisar mais sobre gênero textual, há muita
coisa escrita sobre o tema .

PRÓXIMA AULA

Nas próximas aulas trataremos detalhadamente dos modos discursivos


e dos tipos textuais. A primeira aula será dedicada apenas ao tipo narra-
tivo e as seqüências que o caracterizam.

20
Os gêneros textuais Aula

REFERENCIAS COMPLEMENTARES 1
BRONCKART, Jean-Paul. Atividades de linguagem, textos e discur-
sos. São Paulo: Educ, 2003.
DIONISIO, A P; MACHADO, A. R, BEZERRA, M. A. Gêneros textu-
ais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002, p. 19-36.
MACHADO, Anna R M, LOUSADA, Eliane; ABREU-TARDELLI,
Eliane S. Resumo. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
MARCUSCHI, Luiz A Produção textual, análise de gênero e com-
preensão. São Paulo: Editora Parábola, 2008.
______ Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONISIO,
A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. Gêneros textuais e ensi-
no. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002, p. 19-36.
STALLONI, Yves. Os Gêneros literários. Rio de Janeiro: DIFEL , 2001.

21
Aula

TIPO TEXTUAL NARRATIVO 2


META
Caracterizar a narração como modo discursivo
Descrever os tipos de seqüências típicas da narração
Introduzir o ponto de vista como aspecto fundamental nas atividades
discursivas.

OBJETIVOS
Ao final da aula, o aluno deverá:
identificar um texto narrativo a partir do reconhecimento da predominância
do tipo de seqüencia narrativa;
identificar os elementos da narrativa.

PRÉ-REQUISITOS
Conhecimento de diferentes tipos de narrativas: romance, contos, piadas,
fábulas, mitos, charges, relatos, crônicas, cartas (...), conhecimento de
diferentes estratégias de coesão, assim como dos demais fatores da
textualidade.
Produção e Recepção de Texto II

INTRODUÇÃO

Como vimos anteriormente, nos estudos sobre gêneros acredita-se


que não é possível comunicar-se verbalmente se não for por algum gêne-
ro. Isto significa dizer que quando produzimos verbalmente através da
escrita ou da fala ou quando recebemos, ouvindo ou lendo um texto
estamos realizando linguisticamente objetivos específicos em situações
sociais particulares. Conforme Broncardt (1999, apud Marcuschi: 2008,
p.54) “ a apropriação dos gêneros é um mecanismo fundamental de soci-
alização, de inserção prática nas atividades comunicativas humanas.”
Esse conhecimento ou essa apropriação é necessariamente um co-
nhecimento lingüístico que aprendemos desde as nossas primeiras expe-
riências com a linguagem. Além de interiorizarmos a gramática e o léxico,
aprendemos a interagir com os outros organizando e recorrendo a formas
comunicativas já existente, do contrário, seria impossível a comunicação.
Para isso recorremos aos modos ou tipos discursivos (narração, des-
crição, exposição, injunção e argumentação) que são os procedimentos
responsáveis por ordenar as categorias da língua em função das finalida-
des discursivas. Em cada um desses modos se define uma função básica
que expressa a finalidade comunicativa e um princípio de organização
que estrutura o mundo referencial dando lugar a lógicas de construção
desse mundo.
A classificação dos tipos ou modos textuais tem sido motivada por
diferentes aspectos. Aqui, por razões práticas, utilizaremos a tipologia de
J M Adam (1991), posteriormente defendida por Bronckart (2003), que
classifica os textos em função do modo de organização cognitiva dos con-
teúdos baseado na estrutura seqüencial prototípica dos textos. Nesta aula,
trataremos da narração ou do modo ou tipo narrativo e das suas caracte-
rísticas gerais.
O tipo narrativo tem como função testemunhar uma experiência, por
em cena uma sucessão de ações que se influenciam mutuamente e se
transformam em um encadeamento progressivo. A articulação das ações
no tempo e no espaço responde a uma lógica interna cuja coerência é
marcada pela necessidade do desenlace.

24
Tipo textual narrativo Aula

SUPERESTRUTURA NARRATIVA
2

Resumo Situação Complicação Ação ou Resolução Situação Moral


ou inicial Avaliação final ou Coda
Prefácio

Estrutura Narrativa é uma seqüência de proposições interligadas que


progridem para um fim. Para que haja uma narração, seis elementos de-
vem estar presentes: personagem, ação, tempo, espaço, enredo e a con-
clusão. Vejamos como isso funciona na fábula O Homem e a Cobra (versão
de Monteiro Lobato)

Certo homem de bom coração encontrou na estrada uma cobra situação inicial
entanguida de frio.
- Coitadinha! se fica por aqui ao relento, morre gelada.
Tomou-a nas mãos, conchegou-a ao peito e trouxe-a para casa. Lá
a pôs perto do fogão.
- Fica-te por aqui em paz até que eu volte do serviço. À noite, dar-
te-ei então um ratinho para a ceia. E saiu.
De noite, ao regressar, veio pelo caminho imaginando as festas que complicação
lhe faria a cobra.
- Coitadinha! vai agradecer-me tanto....
Agradecer, nada! A cobra, já desentorpecida, recebeu-o de lingüinha
de fora e bote aramado, em atitude tão ameaçadora que o homem
ficou enfurecido e exclamou!
- Ah, é assim? É assim que pagas o beneficio que te fiz? Pois espera avaliação
minha ingrata, que já te curo...
E deu cabo dela com uma paulada. resolução
Moral da história : Fazei o bem, mas olhai a quem. situação final / moral

25
Produção e Recepção de Texto II

No script da narrativa vamos encontrar:


1. um ator constante que garanta a unidade de ação;
2. as transformações de estados;
3. a sucessão de acontecimentos que seja marcada por uma tensão que
faz com que uma narrativa organize-se em função de uma situação final
(conflito/ tempo / espaço);
4. um processo em que se constrói uma intriga com a integração dos fatos
em uma ação única;
5. a ordem das causas : o que vem depois aparece como tendo sido causa-
do por algo anterior;
6. um final que representa uma avaliação explícita ou implícita.

Estes elementos devem responder às questões que guiam as expecta-


tivas do leitor em torno da narrativa: o quê ? como? onde? quando? por
quê? quem?
Um dos aspectos que caracteriza a narrativa é que o objeto da narra-
ção está distante do momento da enunciação. Dizendo de outra maneira,
o mais comum é narrar fatos já ocorridos, num momento anterior ao do
ato de contar a história. Assim, a narração é construída preferencialmen-
te com verbos no pretérito (perfeito, imperfeito, mais-que-perfeito). Isso
não significa que outros tempos verbais apareçam no curso da narrativa.
Um outro aspecto fundamental do modo narrativo é a presença do
narrador, pois é ele quem conta a história, quem descreve as coisa e o
mundo para construir realidades insólitas, para brincar com a imaginação
do leitor. O narrador é quem guia o leitor, fornecendo as pistas para que
ele organize a história. É fundamental que o leitor saiba identificar quem
é o narrador, se é um personagem ou se está apenas narrando de longe a
história; se se envolve com as personagens e mantém com eles uma rela-
ção afetiva ou se é apenas um observador imparcial, limitando-se a dizer
o que sabe, deixando ao leitor a tarefa de construir sua compreensão.
Para melhor observar as características deste modo textual, leia o conto
Felicidade Clandestina de Clarice Lispector e em seguida, respondas as ati-
vidades propostas.

FELICIDADE CLANDESTINA

Clarice Lispector

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelo excessivamente crespos,


meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda
éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da
blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança

26
Tipo textual narrativo Aula

devoradora de histórias gostaria de ter : um pai dono de uma livraria.


Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em
2
vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos
um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do
Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas.
Atrás escrevia com sua letra bordadíssima palavras como “data
natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança,
chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós
que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos
livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha
ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia :
continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre
mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que
possuía as Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro pra se ficar vivendo
com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas
posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte que
ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da
alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me
levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava
num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar.
Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro
a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para busca-lo.
Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava
toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era meu modo
estranho de andar pelas ruas do Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me
a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais
tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei
pulando pelas ruas como sempre e não caí nem uma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso.O plano secreto da filha do dono
de livraria era tranqüilo e diabólico.No dia seguinte lá estava eu à porta
de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta
calma: o livro ainda não estava no seu poder, que eu voltasse no dia
seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama
do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era
tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo
grosso. Eu já começava a adivinhar que ela me escolhera para eu
sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes eu aceito:

27
Produção e Recepção de Texto II

como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente


que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia
sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde,
mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina.
E eu, que era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob meus
olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo
humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar
estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua
casa.. Pediu explicações a nós duas, houve uma confusão silenciosa,
entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada
vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe
boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou:
“Mas este livro nunca saiu aqui de casa e você não quis ler!”
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia.
Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava
em silêncio: a potencia de perversidade de sua filha desconhecida e
a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas do Recife.
Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a
filha: “Você vai emprestar o livro agora mesmo.” E para mim : “ E
você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia
mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o
que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi
o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não
saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava
o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.
Quanto tempo levei até chegar em casa também pouco importa. Meu
peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só
pra depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas
maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei mais
indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o
livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas
dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A
felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já
pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar...havia orgulho e pudor
em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto
no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com
seu amante.

28
Tipo textual narrativo Aula

ATIVIDADES 2
1. Qual é o fato narrado? O lugar onde a ação se desenrola? , a causa que
origina as ações, os acontecimentos? Observe como o narrador se com-
porta quando narra, é mais objetivo ou mais subjetivo? Por quê? Anote as
suas considerações.

2. Observe os quadrinhos (gênero tirinhas) de Hägar, o horrível de Dik


Browne. Pode-se dizer que se trata de uma narrativa? Explique.

3. Leia os excertos abaixo e observe como neles há relatos de aconteci-


mentos em torno de alguma questão – reportagens, relatórios científicos
ou de outras espécies, crônicas também são redigidos com finalidades
narrativas. Destaque sequências narrativas dos textos e relacione às per-
guntas pressupostas na narrativa. O que? quem? onde/ quando? por que?
Identifique o gênero de cada um dos textos e alguns traços que o
difere de outros.

TEXTO 1

Resumo: Lispector, Clarice – Felicidade Clandestina.

A narradora recorda sua infância no Recife. Ela gostava de ler. Sua


situação financeira não era suficiente para comprar livros. Por isso, ela
vivia pedindo-os emprestados a uma colega filha de dono de uma livra-
ria. Essa colega não valorizava a leitura e inconscientemente se sentia
inferior às outras, sobretudo à narradora. Certo dia, a filha do livreiro
informou à narradora que podia emprestar-lhe “As reinações de
Narizinho”, de Monteiro Lobato, mas que fosse buscá-lo em casa. A
menina passou a sonhar com o livro. Mal sabia a ingênua menina que a

29
Produção e Recepção de Texto II

colega queria vinga-se: todos os dias, invariavelmente, ela passava na


casa e o livro não aparecia, sob a alegação de que já fora emprestado.
Esse suplício durou muito tempo. Até que, certo dia, a mãe da colega
cruel interveio na conversa das duas e percebeu a atitude da filha; então,
emprestou o livro à sonhadora por tanto tempo quanto desejasse. Essa
foi a felicidade clandestina da menina. Fazia questão de “esquecer” que
estava com o livro para depois ter a “surpresa” de achá-lo. (http://
www.catar.org.com.br/hg/cultura/literatura/feli.htm).

TEXTO 2

Excerto do relatório das atividades desenvolvidas na expedição


cientifica /Fazenda Santa Emilia/Pousada Araraúna-MS
Esta atividade consistiu na saída a campo para localização de possí-
veis rotas de locomoção de queixadas, porcos monteiros e catetos, para
posterior captura e observação dos mesmos como registro da presença
deles na localidade. [...] foram encontrados vestígios da presença de
pecarídeos nas proximidades da sede da pousada: pegadas, trilhas, resídu-
os fecais e possíveis restos de alimento. Nos locais das trilhas foram pos-
tos milho, sal e frutos para verificar se os mesmos estão sendo utilizados
pelos animais-alvo. Para tanto se colocou em uma das trilhas uma máqui-
na fotográfica com sensor de movimento para registrar a presença dos
animais. Para sua captura foram utilizados gaiolas e chiqueiros, postos
após o registro da presença deles no local. (http:://www.uniderp.br/do-
mino/siteEarth/EARTHWATCH.UNIDERP)exerto.

TEXTO 3

Convocados por João Paulo II, mais de cento e cinqüenta lideres reli-
giosos de todo o mundo participaram, em Assis, Itália , de uma reunião
ecumênica sem nenhum precedente na história da humanidade. Dos feiti-
ceiros dos índios craws americano aos animistas do Togo, passando pelos
tradicionais cristãos, judeus, hindus e mulçumanos, e os mais restritos
xintoístas, zoroastras, bahais e sikhs, praticamente toda a população da
terra esteve lá representada e todos elevaram suas preces em favor da
paz. (Excerto de uma reportagem da revista Veja/2003).

30
Tipo textual narrativo Aula

ORIENTAÇÃO PARA A PRODUÇÃO DE TEXTOS. 2


ORGANIZAÇÃO DO PARÁGRAFO I : TÓPICO FRASAL

O parágrafo é uma unidade de informação construída a partir de uma


idéia núcleo, materializada no tópico frasal, que por sua vez, deve ser
bastante claro e adequadamente desenvolvido. Assim, por exemplo, um
bom parágrafo não pode incluir elementos que não estejam contidos na
idéia-núcleo.
O parágrafo pode ser dividido em três partes: tópico frasal, desenvol-
vimento e conclusão. O tópico frasal é normalmente compreendido como
a proposição que contém a idéia central. Normalmente ele aparece no
início do parágrafo, mas, por razões estilísticas, pode aparecer em outras
posições ou mesmo diluído no parágrafo. Pode aparecer sob a forma de
uma pergunta, uma declaração, uma definição ou conter uma divisão. Na
próxima aula você deverá complementar esta lição, observando as for-
mas de desenvolvimento do tópico frasal. Veja os exemplos de como po-
demos contruir o tópico frasal:

1. Pergunta:
Toda a vida na Terra é a mesma vida? Existem diferenças que, compreen-
sivelmente, nos parecem importantes. Mas, lá no fundo do coração da
vida ,somos todos nós... sequóias e nematóides, vírus e águias, barro e
humanos,quase idênticos.

2. Declaração:
Os regimes autoritários odeiam quem escreve. Ainda hoje, em pleno ter-
ceiro milênio golpeiam com mãos de ferro escritores e jornalistas , man-
tendo sobre suas cabeças a espada da intransigência, como acontecia no
Brasil nos anos da ditadura militar.

3. Definição:
“Os pulsares são estrelas, que dentro de uma fantástica periodicidade
emitem fortes lampejos de energia.” (A conquista do Cosmo. No.231,p.8)

4. Divisão:
A frota de Vasco da Gama era constituída por quatro embarcações: duas
naus, uma caravela e uma naveta de mantimentos. A nau São Gabriel era
comandada por Vasco da Gama. A nau São Rafael estava sob a chefia de
seu irmão, Paulo da Gama. Nicolau Coelho era o capitão da caravela
Bérrio. A navegação de mantimentos foi esvaziada de seu conteúdo e
queimada ao longo da viagem.

31
Produção e Recepção de Texto II

ATIVIDADES

Tome o exemplo dos dois gêneros abaixo para realizar as atividades


propostas:

Site história da Língua Portuguesa

32
Tipo textual narrativo Aula

a. Escreva uma pequena biografia de alguém que você conhece pouco,


mas gostaria de saber mais. Pesquise e organize o texto em três parágra-
fos. Comece cada parágrafo com uma forma diferente de tópico frasal.
b. Assista a um filme de sua preferência e no final, escreva você uma
sinopse. Faça de conta que a sua sinopse vai aparecer no panfleto distri-
buído pela empresa de cinema e portanto você deve seguir o modelo.
Escolha um dos tipos de tópico frasal para iniciar a sua sinopse.

CONCLUSÃO

Quando usamos a língua, usamos muito mais do que um sistema


formal. O texto é compreendido como uma realização lingüística ou um
evento comunicativo e historicamente construído que preenche condi-
ções cognitivas, socioculturais, semióticas e formais. Por se tratar de uma
proposta de sentido, ele só se completa com a participação do seu leitor/
ouvinte. Para ler a tirinha do Hagar, o leitor deve recorrer não apenas ao
script da narrativa , mas a outros conhecimentos como os conhecimento
cognitivo e sócio-pragmáticos. Assim também podemos dizer para a lei-
tura do conto, da fábula, do relatório : utilizamos conhecimentos prévios
que envolvem sobretudo a compreensão de como o gênero funciona e
que significado ele tem em determinados contexto de uso. Essa compe-
tência textual e discursiva, de produzir e ler textos vai sendo ampliada à
medida que interagimos com diferentes gêneros em diferentes situações
no nosso contidiano.

33
Produção e Recepção de Texto II

RESUMO

O tipo narrativo é um dos modos ou tipos discursivos a que recorre-


mos para comunicar. Quando fazemos a escolha por um determinado
tipo discursivo, também escolhemos procedimentos, usos de linguagem
específicos, recursos estilísticos em função das finalidades discursivas que
temos em mente. Na narração, os diferentes tipos de narrador podem
servir para pensar as diferentes funções de diferentes narrativas. Pense
nos mitos, por exemplo. O narrador dos mitos não é igual ao narrador do
romance do século XIX. Ambos testemunham diferentes experiências e
por isso recorrem a diferentes formas para realizar os textos, valendo-se
de esquemas partilhados pela comunidade. A partir desses esquemas são
criados novos gêneros, porque estes são produto de diferentes contextos
históricos, mas que podem ter funções próximas ao gênero que lhe deu
origem. Exemplo é o email que é um gênero derivado do gênero carta.

PRÓXIMA AULA

Daremos continuidade aos tipos discursivo, tratando das especificidades


da descrição. É interessante relacionar sempre os modos discursivos, pois
, como você já pode perceber, os textos são heterogêneos.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, H. Nagamine. Gêneros e o discurso na escola. v. 5. São


Paulo: Cortez Editores, 2000.
BRONCKART, Jean-Paul. Atividades de linguagem, textos e discur-
sos. São Paulo: Educ, 2003.
CARNEIRO, Agostinho D. Redação em construção – a escritura do
texto. São Paulo: Moderna , 1994.
FIORIN, J Luiz & SAVIOLI, F. Platão. Para entender o texto: leitura e
redação. São Paulo: Ática , 1991.
______. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1999.
MELO, J. Roberto D: PAGNAN, C. Leopoldo. Prática de textos: leitura
e redação. São Paulo: W3 Editora, 2001.
VIANA, Antonio C (coord) et al. Roteiro de redação – lendo e argu-
mentando. São Paulo: Scipione, 1998.

34
Aula

TIPO TEXTUAL DESCRITIVO 3


META
Caracterizar a descrição como um modo discursivo;
descrever as sequências típicas da descrição;
aprofundar a caracterização do ponto de vista.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
identificar um texto predominantemente descritivo;
reconhecer os tipos de seqüencias descritivas e os procedimentos de
aspectualização.

PRÉ-REQUISITOS
Conhecimentos de diferentes gêneros textuais; conhecimento de
diferentes estratégias de coesão, assim como dos demais fatores da
textualidade.
Produção e Recepção de Texto II

INTRODUÇÂO

Vamos introduzir esta aula retomando o primeiro parágrafo do conto


Felicidade Clandestina que você leu no módulo 2.
“ Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelo excessivamente cres-
pos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda
éramos achatadas.”
A autora inicia a narrativa, fazendo surgir a personagem através de
duas operações básicas: a identificação e a qualificação. Observe que
embora se trate de uma descrição literária, a autora prefere atribuir qua-
lidades objetivas ao personagem, descrevendo os aspectos que a tornam
real aos nosso olhos, dando-lhe vida, cor e alma, construindo, assim, a
referência que nos guiará , enquanto leitores, ao longo do seu projeto de
dizer, da narrativa.
Podemos então definir o modo descritivo como aquele que se ori-
enta a identificar os seres do mundo, nomeando-os, localizando-os, atri-
buindo-lhes qualidade que os tornam singulares. Isto acontece porque a
organização do mundo é taxonômica e descontínua, isto é, não existem
relações de necessidade entre os seres e suas propriedades. No entanto,
quando nos propomos a comunicar algo para alguém, precisamos fazer
estas relações e normalmente o fazemos imprimindo nelas a nossa forma
de ver e apreender o mundo e as coisas.
Observe que a posição assumida por aquele que narra ou descreve é
muito importante. A descrição revela como este sujeito percebe o mun-
do, o ser e os objetos. A atitude do observador pode ser objetiva ou
subjetiva. Emediato (2006, p.147) conceitua a descrição subjetiva com
aquela que

reflete o estado de espírito do observador diante do que descreve,


suas idiossincrasias, preferências, sua apreciação afetiva e emocional.
Não descreve absolutamente o que vê, mas o que sente a partir do
que vê.

As expressões normalmente utilizadas nesse tipo de descrição são


os adjetivos indicando uma qualidade afetiva ou subjetiva expressando o
modo como o sujeito sente ou percebe o que está vendo, tais como belo,
feio, sensato, imoral, sensacional, incrível, extraordinário.
Já a descrição objetiva segundo o autor (idem) “ se caracteriza por
ser exata , relativa aos sentidos da percepção: cor, cheiro, peso, tama-
nho”. Caracteriza a descrição técnica o uso de adjetivos indicando uma
qualificação objetiva que pertence ao ser ou ao objeto, tais como verme-
lho, azul, branco, sólido, gasoso, quente, frio.

36
Tipo textual descritivo Aula

SUPERESTRUTURA DESCRITIVA 3

A descrição é um processo de enumeração e expansão que mobiliza a


o vocabulário daquele que descreve e obedece aos seguintes procedimen-
tos descritivos:
1. A ancoragem referencial: a seqüência descritiva indica por meio de um
tema-título:
a. entrada (no início) do que vai ser tratado/ em fim de sequencia do que
ou de quem acaba de ser tratado (processo de condensação lexical);
b. procedimento de aspectualização: operações que procuram por em evi-
dência aspectos ou as parte e estes recortes são acrescentados qualidades
ou propriedades que levem em conta o todo (enquanto a ancoragem da
parte de um todo)

Observe como o modo descritivo aparece no gênero verbete a seguir:

Seringueira (Hevea brasiliensis) Tema – título

Também chamada de seringa ou árvore-da-borracha, a seringueira é Ancoragem – amarração


Relações – localização
encontrada na Amazônia em beira de rios e em áreas que podem ser espacial
inundadas.
Ela tem altura que varia de 20 a 30 metros. De 1890 a 1910, no perío- Aspectualização–Pro-
priedades (dimensão )
do conhecido como Ciclo da Borracha, a árvore foi muito explorada. Relações – localização
Isso porque ela tem uma resina abaixo de sua casca, o látex, usado temporal
para fabricar borracha. Basta arranhar o tronco da árvore com a uma Aspectualização–Pro-
faca para que o látex escorra. Por dia, é possível obter até 100 gramas priedades /qualificação
técnica.
de látex de uma seringueira, que pode ser explorada por anos.

37
Produção e Recepção de Texto II

Relações- assimilação : Durante o Ciclo da Borracha, a produção brasileira correspondia a


referência histórica.
dois quintos do total mundial. Mas, a partir de 1910, a produção da
borracha na Amazônia caiu porque os países asiáticos começaram a
extrair látex de seringueira também. Além disso, como hoje há borra-
cha produzida artificialmente, o uso de látex da seringueira diminuiu
muit.( CIÊNCIA HOJE PARA CRIANÇAS 2/9/01)

A descrição pode servir como artifício para a argumentação, especi-


almente nas estratégias de qualificação subjetiva do mundo, dos seres e
dos objetos, pois o sujeito, através deste recurso, pode influenciar o seu
interlocutor orientando a sua maneira de apreciar as coisas ou mesmo
valer-se da descrição para influenciar uma mudança de atitude do
interlocutor.

DESENVOLVIMENTO E ORGANIZAÇÃO
TEXTUAL

Há ainda que observar a presença de outros recursos ligüísticos utili-


zados na descrição. Estes além de estabelecerem relações lógico-semânti-
cas através de diferentes conectivos contribuem para a expansão do texto e
o próprio desenvolvimento temático. As construções com os pronomes
relativos e os demais conectores e sobretudo, com as construções metafó-
rica. Vamos reler um outro parágrafo do conto Felicidade Clandestina:

(...) Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura
vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia
nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias,
altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade
o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações
a que ela me submetia : continuava a implorar-lhe emprestados os
livros que ela não lia.

Relembrando algumas relações que se estabelecem entre os enuncia-


dos. Elas se distinguem em três tipos fundamentais de conexão que se
realizam predominantemente com o conector que, antecedido ou não de
preposição.
Relação de complementação: um enunciado completa o significado
de um termo presente na proposição que lhe antecede.
Ex: A música de que gostas acabou de tocar.
Relação de delimitação: um enunciado restringe o significado de um
termo presente na sentença anterior.

38
Tipo textual descritivo Aula

Ex: o homem que vinha a cavalo parou defronte da igreja.


Bechara (2001) explica que
3
a oração adjetiva, proferida sem pausa e não indicada na escrita
por sinal de pontuação a separá-la do antecedente, demonstra que
na narração havia mais de um homem, mas só o “que vinha a cavalo”
parou defronte da igreja.

Relação de explicação: um enunciado explica um termo ou conjunto


de termos da proposição anterior. Trata-se, algumas vezes, de informa-
ções acessórias. Pede obrigatoriamente o uso de vírgulas.

ATIVIDADES

1. Como já deve ter constatado, os gêneros se caracterizam sobretudo


pela sua heterogeneidade. Isto é, são resultado dos diferentes modos
discursivos, mas em cada um se faz presente um tipo predominante de
discurso. Nos textos 1 e 2, você deverá realizar as seguintes operações:
a) Identificar as seqüências narrativas e descritivas de cada um deles e
distingui-los em função dos interlocutores, objetivos da comunicação;
b) Caracterizar as seqüências predominantes em cada um, segundo o
modelo da superestrutura, indicando os detalhes da sua organização para
um dos textos.
a) Apresentar a tipologia de cada um dos textos, justificando a partir da
predominância do tipo de seqüência (narração, descrição).
b) Explicar como se realiza o ponto de vista em cada um dos textos, se
objetiva ou subjetiva. Justifique sua resposta.

TEXTO 1 - RELATÓRIO DAS ATIVIDADES


DESENVOLVIDAS NA EXPEDIÇÃO
CIENTIFICA /FAZENDA SANTA EMILIA/
POUSADA ARARAÚNA-MS

O projeto dos pecarídeos desenvolvido na Fazenda Santa Emilia/


Pousada Araraúna (PPAN), diferencia-se do que ocorre na Fazenda Rio
Negro quanto à conservação das áreas estudadas, sendo a primeira citada
uma área em recuperação e a segunda uma Reserva Particular do
Patrimônio Natural (RPPN)).
Os principais objetivos do projeto são o estudo da ecologia dos
pecarídeos, assim como o estudo da dieta alimentar e o monitoramento
através de radiotelemetria, com a implantação de microchips para identifi-
cação e registro do individuo capturado.

39
Produção e Recepção de Texto II

Esta atividade consistiu na saída a campo para localização de possí-


veis rotas de locomoção de queixadas, porcos monteiros e catetos, para
posterior captura e observação dos mesmos como registro da presença
deles na localidade. [...] foram encontrados vestígios da presença de
pecarídeos nas proximidades da sede da pousada: pegadas, trilhas, resídu-
os fecais e possíveis restos de alimento. Nos locais das trilhas foram pos-
tos milho, sal e frutos para verificar se os mesmos estão sendo utilizados
pelos animais-alvo. Para tanto se colocou em uma das trilhas uma máqui-
na fotográfica com sensor de movimento para registrar a presença dos
animais. Para sua captura foram utilizados gaiolas e chiqueiros, postos
após o registro da presença deles no local.
Três dias após a montagem da armadilha, vários queixadas foram
capturados no chiqueiro, mas a armadilha não conseguiu manter os ani-
mais presos e eles escaparam. Algum tempo depois foi capturado um quei-
xada fêmea, na armadilha do tipo gaiola, com aproximadamente quarenta
quilos e cerca de um metro e vinte centímetro de comprimento, que rece-
beu posteriormente um registro nominal e um colar contendo o transmis-
sor para utilização da radiotelemetria, que fornecerá a sua localização e
as possíveis rotas do grupo.
Diante das observações no trajeto percorrido pode-se verificar o mosai-
co de ecossistemas que é o Pantanal, e que a ação do homem está sempre em
grande evidência, desde a presença do gado, que é constante, até a abertura
de estradas e o desmatamento de algumas áreas. A utilização desses dados
em sala de aula se torna de grande valia, pois correlaciona conteúdos impor-
tantes, que vão desde a botânica, com a identificação dos frutos e a vegeta-
ção do entorno, à zoologia, mediante a descrição dos espécimes estudados, o
que inclui comportamento e hábitos alimentares, ressaltando ainda noções
de educação ambiental para preservação do meio.[...] (http:://www.uniderp.br/
domino/siteEarth/EARTHWATCH.UNIDERP).

TEXTO 2 - OS BEIJA-FLORES

Os beija-flores, também conhecidos como colibris, são aves da família


dos Trochilidae, que só existem nas Américas. Estão distribuídos por 330 es-
pécies, das quais cerca de 80 vivem espalhadas por todo o Brasil.
Estas pequeninas aves têm como característica mais marcante a capaci-
dade de não só parar no ar, como voar para trás. Além disso, são as aves que
têm o mais alto ritmo cardíaco: mil batimentos por minuto. O da avestruz , a
maior ave existente, por exemplo, bate em torno de 180 vezes por minuto,
mesmo em grande atividade. Isso faz com que o coração do beija-flor seja
comparativamente maior do que o de qualquer outro pássaro.
Por ter essa capacidade única de vôo, todo o metabolismo do beija-flor é
muitas vezes mais veloz. Como ele perde muita energia, precisa repô-la com

40
Tipo textual descritivo Aula

mais freqüência que os outros animais. Sua digestão, por isso é mais acelera-
da, assim como sua respiração e a circulação do sangue por seu corpo pequenino.
3
Toda essa agitação, no entanto, cessa à noite, quando ele praticamente hiber-
na. Seu metabolismo se reduz quase a zero, para que ele possa sobreviver
com as reservas de energia do alimento ingerido durante o dia.
Todos os beija-flores se alimentam de néctar e de pequenos invertebrados
(ácaros, minúsculas aranhas e insetos) que retiram, com seus bicos longos, de
dentro das flores ou de bebedouros especiais, colocados pelo homem e carre-
gados com água e açúcar. Aqui vale um esclarecimento: é preciso trocar to-
dos os dias a água desses bebedouros, além de lavá-los muito bem com água
e uma escovinha, pois os fungos que se concentram na abertura das garrafinhas
podem produzir doenças nos pássaros e até provocar-lhes a morte. (Ciência e
Vida –Jose M. Donatti e Maria T Villian).

ORIENTAÇÃO PARA A PRODUÇÃO DE TEXTOS

ORGANIZAÇÃO DO PARÁGRAFO II : TÓPICO FRASAL

Organização do parágrafo II – Desenvolvimento do tópico frasal.


Daremos continuidade às informações relativas à construção do pa-
rágrafo. Falamos na aula anterior da introdução do tópico frasal. Agora
vamos tratar do seu desenvolvimento que consiste no desdobramento da
idéia núcleo. Nesse desenvolvimento, as sequencias devem estar
logicamente articuladas de modo a garantir a coerência.
Há diferentes modalidades de desenvolvimento do parágrafo, vere-
mos algumas delas nesta aula:

1. Enumeração de pormenores : a idéia central é detalhada por meio de


exemplos ou pormenores que reforçam a idéia a principal.
Ex: Nenhuma comunidade lingüística fala sua língua uniformemente.
Haverá sempre variações lingüísticas concernentes à idade dos falantes, à
região que ocupam dentro da comunidade e às classes sociais que repre-
sentam.
2. Confronto: este desenvolvimento permite que se fale sobre dois refe-
rentes (temas), procurando evidenciar os pontos comuns (semelhanças)
ou divergências entre eles.
Ex: “O sertanejo é antes de tudo um forte. Não tem o raquitismo exaus-
tivo dos mestiços neurastênicos do litoral.”
3. Causa e ou efeito _ é o desenvolvimento usado quando se quer de-
monstrar o que gerou um fato e o que resultou de tal fato.
Ex: Pressões dos líquidos – a pressão exercida sobre um corpo sólido
transmite-se desigualmente nas diversas direções por causa da forte coe-
são que dá ao sólido sua rigidez. Num liquido, a pressão transmite-se em

41
Produção e Recepção de Texto II

todas as direções, devido à fluidez. Um líquido precisa de apoio lateral do


vaso que o contém, porque a pressão do seu peso se exerce em todas as
direções. Se um corpo for mergulhado num liquido, experimentará o efei-
to das pressões recebidas ou exercidas pelo líquido.

CONCLUSÃO

Normalmente não nos damos conta de como nos valemos dos modos
discursivos de um modo geral. Pensar sobre a descrição é refletir sobre as
estratégias de tornar presente o referente, aquilo sobre o que falamos.
Imagine você iniciar uma narrativa sem descrever o ambiente onde as
personagens atuarão! Descrever é aproximar o leitor daquilo que o narrador
ou expositor quer lhe mostrar.

RESUMO

A orientação do modo descritivo é identificar os seres do mundo.


Quando nomeamos ou identificamos suas particularidades, quando os
localizamos no tempo ou no espaço , fazemos a partir da nossa experiên-
cia. A descrição pode ser mais ou menos subjetiva. Os gêneros acadêmi-
cos tendem a ser mais técnicos e por essa razão primam por estratégias
que garantam a ‘objetividade’.

PRÓXIMA AULA

A próxima aula terá como tema o tipo dissertativo ou expositivo.


Você vai observar que tanto o tipo narrativo quanto o tipo descritivo são
utilizados para finalidades específicas no tipo expositivo.

42
Tipo textual descritivo Aula

REFERÊNCIAS 3
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed Rio
de Janeiro: Editora Lucerna, 2001.
BRANDÃO, H. Nagamine. Gêneros do discurso na escola. v. 5. São
Paulo: Cortez Editores, 2000.
BRONCKART, Jean-Paul. Atividades de linguagem, textos e discur-
sos. São Paulo: Educ, 2003.
EMEDIATO, Wander. A fórmula do texto. São Paulo: Geração Editori-
al, 2006.
FIORIN, J. Luiz; SAVIOLI, F. Platão. Para entender o texto: leitura e
redação. São Paulo: Ática , 1991.
______ Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1999.
GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 14 ed Rio de
Janeiro: Editora da FGV, 1988.
MELO, J. Roberto D.; PAGNAN, C. Leopoldo. Prática de textos: leitura
e redação. São Paulo: W3 Editora, 2001.
VIANA, Antonio C. (coord.) et al. Roteiro de redação – lendo e argu-
mentando. São Paulo: Scipione, 1998.

43
Aula
TIPO TEXTUAL EXPOSITIVO/
DISSERTATIVO 4
META
Caracterizar a exposição como modo discursivo;
descrever as sequências expositivas;
mostrar a estrutura expositiva.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
caracterizar o modo expositivo;
identificar tipos de sequência expositiva e utilizar a narração e a descrição
como estratégias do modo expositivo.

PRÉ-REQUISITOS
Distinguir os tipos narração e descrição, dominar diferentes recursos de
coesão.

Discurso.
(Fonte: http://www.annex.com.br).
Produção e Recepção de Texto II

INTRODUÇÃO

De um modo geral, o tipo dissertativo é considerado como um tipo de


texto explicativo ou expositivo, cujo objetivo é explorar um certo assunto.
O texto dissertativo se caracteriza por conter análise, interpretação, expli-
cação e avaliação dos dados da realidade. Ao contrário do texto narrativo,
cuja ordenação é cronológica, ele obedece às relações lógicas: analogia,
pertinência, causalidade, coexistência, correspondência, implicações, etc
A exposição de dados em torno de um determinado tema é também a
exposição em que um autor se posiciona, utilizando-se da seleção de da-
dos como estratégia para discutir um tema proposto. O ponto de vista ou
opinião daquele que expõe deve ser expressa através dos fundamentos,
dos motivos e porquês por ele utilizados, de modo a deixar clara a posi-
ção adotada.
O tema de qualquer discussão está necessariamente vinculado a con-
textos , assim como a nossa posição está integrada em nossa visão – geral
de mundo sem o que nossa posição seria isolada. A escolha dos dados
sobre o tema, o modo de expor esses dados mostram que há nesse modo
textual um pressuposto de há um debate acontecendo, um questionamento
– entre os interlocutores e a possibilidade de haver um acordo ou um
desacordo.
Há dois tipos de argumentação: a argumentação demonstrativa e a
argumentação retórica. Trataremos nesta aula da argumentação demons-
trativa muito presente no discurso científico e por isso, normalmente as-
sociada ao discurso racional.
A argumentação demonstrativa procura explicar os fenômenos se-
guindo lógicas de raciocínio explícitas, com o objetivo de convencer o
outro do caráter verdadeiro ou verossímil de uma explicação. Este proce-
dimento visa provar a verdade de uma conclusão a partir da verdade das
premissas. Ela parte de premissas lógicas e verdadeiras para se chegar a
uma conclusão derivada: argumentos lógicos, tipo de raciocínio lógico,
regras explicativas, fatos e verdades.
O raciocínio ou o modelo argumentativo implica em primeiro lugar
uma tese que é uma afirmação/proposição sobre o mundo. Vejamos a
definição de raciocínio de Aristóteles.
Raciocínio é um argumento em que são estabelecidas certas coisas,
outras coisas diferentes se deduzem necessariamente das primeiras.
Os elementos que compõem o argumento são:

1. Os fundamentos, as justificativas de nossa posição, em termos lógicos,


as premissas.
2. A conclusão, nosso ponto de vista, nossa opinião

46
Tipo textual expositivo/dissertativo Aula

TIPOS DE RACIOCÍNIO 4
Indutivo: tipo de raciocínio que caminha dos fatos (dados ou premissas
particulares) para se chegar a uma conclusão ampliada (generalização) –
toma a conclusão geral como premissa de uma dedução particular.
Dedutivo : tipo de raciocínio que parte de uma verdade estabelecida (pre-
missas gerais) para provar a validade de um fato particular; toma-se a
conclusão particular como premissa de uma indução geral.

Processos de raciocínio dedutivo

1. Argumentação condicional
Exemplo:
Livre-se das mordidas de cães

Se estiver correndo o risco de ser mordido por um cão feroz , fique


calmo, evite olhá-lo diretamente nos olhos e vá se afastando lentamente.
Segundo um treinador, estas preocupações reduzirão os riscos de um
ataque. “Quando alguém se defronta com um cão de má aparência, a
primeira coisa que tem que fazer é se acalmar e parar. Não corra nunca,
mesmo que o cão avance, já que isso despertaria nele o instinto de
caçador”
Evite o contato direto com os olhos, já que no mundo do animal, isso
representa um desafio.
Se você for uma pessoa muito alta, representa uma ameaça para o
animal. É melhor encolher os ombros para que sua figura pareça menor.

2. Demonstração pelo absurdo


Exemplo:
Fábula curta Franz Kafka

“Ai de mim!”, disse o rato, “o mundo vai ficando dia a dia mais
estreito.” “Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri
até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de
ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão
rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do
percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair.” “–Mas o que
tens a fazer é mudar de direção”, disse o gato, devorando-o.

Processos do raciocínio indutivo


1. Argumento de autoridade

Ex: O grande físico inglês Isaac Newton disse: “ A natureza não


faz nada em vão.” E, assim, os rios vão reagindo à ação destruidora
dos homens.

47
Produção e Recepção de Texto II

2. Argumento por enumeração de detalhes.

Ex: O hidrogênio é considerado um combustível quente; de fato,


contem três a quatro vezes mais energia que os outros, em cuja
fórmula, aliás, está presente. O petróleo, por exemplo, é formado
principalmente por hidrocarbonetos. O gasogenio, usado nos
automóveis durante a segunda guerra mundial, é uma mistura de
hidrogênio e monóxido de carbono, cuja fonte é o carvão ,aliás,
também formado de hidrocarbonetos.

A superestrutura do modo expositivo segundo Broncardt (2003) apre-


senta os seguintes elementos:
Constatação inicial – introdução do fenômeno não contestável objeto,
situação, acontecimento, ação etc.
Problematização – questão de ordem do porque ou do como, eventual-
mente associado a um enunciado de contradição aparente.
Resolução ou explicação propriamente dita que introduz informações
suplementares capazes de responder as questões colocadas.
Conclusão ou avaliação formula a conclusão final.
Vamos ver como podemos operar com estes conceitos na compreensão
do texto expositivo.

(...)
Constatação inicial Talvez, pelo próprio conservadorismo social que impunha fórmulas
de tratamento cerimoniosas, a norma culta do português brasileiro
diminuiu paulatinamente a freqüência de emprego do pronome pes-
soal tu em favor do pronome de tratamento você.
Problematização Essa mudança nada tem a ver com o que rotineiramente se chama
um erro gramatical. Trata-se de uma manobra ocorrida dentro do pró-
prio sistema lingüístico da norma culta, que há séculos admite outras
formas de tratamento, além dos pronomes pessoais.
Resolução Na origem, o tratamento Vossa Mercê designava o próprio rei, o mais
respeitável homem da nação. Com o tempo o tratamento foi se es-
tendendo a outras pessoas, e rei passou a ser Vossa Senhoria, Vossa
Excelência, Vossa Majestade, e você passávamos a ser todos nós. A pró-
pria diminuição da palavra atesta essa expansão do uso, pois o com-
primento de um vocábulo tende a ser inversamente proporcional à
sua freqüência (ou seja, vocábulos muito usados tendem a tornar-se
progressivamente menores). No Brasil, esse uso atingiu tal abrangência
que, com exceção de pontos no sul e no norte do país, é você o trata-
mento preferencial entre iguais (ou de superior para subordinado) na
sociedade brasileira.

48
Tipo textual expositivo/dissertativo Aula

As conseqüências dessa mudança de tratamento são mais amplas


do que percebemos à primeira vista. Para observá-las, vamos exer-
4
citar um pouco nosso conhecimento sobre conjugação verbal. Por
exemplo, em forma clássica, o pretérito imperfeito do indicativo do
verbo falar conjuga-se da seguinte forma:

Eu falava nós falávamos Conclusão


Tu falavas vós faláveis
Ele falava eles falavam
Nesse sistema, esse tempo verbal se constrói com cinco formas di-
ferentes para as seis pessoas gramaticais. Se, contudo, a série fosse
conjugada com o tratamento você(s), a diferenciação seria menor:
Eu falava nós falávamos
Você falava vocês falavam
Ele falava eles falavam
Agora, temos três formas diferentes. E esse número poderia ser ain-
da menor. Também tem sido cada vez mais comum o uso de a gente
em lugar de nós. Assim, teríamos:
Eu falava a gente falava
Você falava vocês falavam
Ele falava eles falavam
E pronto: apenas duas formas morfologicamente distintas, o singu-
lar falava e o plural, falavam.

ORGANIZAÇÃO DO PARÁGRAFO
III - PROGRESSÃO TEMÁTICA

Progressão temática linear ou encadeamento

As epopéias são narrativas míticas. Nessas narrativas há sempre um


herói. O herói realiza uma série de peripécias. O êxito dessas
peripécias depende quase sempre do auxílio de alguma divindade.
Tais divindades possuem sentimentos e preferências iguais às dos
humanos.

Progressão temática com tema constante ou retomada da palavra –chave

Marsupiais são animais vertebrados e quadrúpedes. Pertencem à classe


dos mamíferos. Sua característica específica é o fato de possuírem
um órgão em forma de bolsa onde os filhotes permanecem até se
desenvolverem completamente. Esses animais, assim como a maioria
dos mamíferos, não são capazes de identificar todas as variações de
cores que os seres humanos são capazes de enxergar.

49
Produção e Recepção de Texto II

Progressão com temas derivados

As bacias hidrográficas brasileiras são extensas e, em sua maior


parte, navegáveis. A Bacia Amazônica ocupa toda região norte,
estendendo-se por parte da região centro-oeste. A do São Francisco,
o “ Rio da Unidade Nacional” , nasce em Minas, atravessa Minas e
Bahia e separa Bahia de Pernambuco e Alagoas de Sergipe. A bacia
Platina é constituída pelos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, que juntos
formam o estuário do Prata.

ATIVIDADES

1.Identifique no texto O banho, essa novidade de Gabriel Bollafi, a estrutu-


ra do modo expositivo, destaque as principais seqüências que servem para
a exposição pretendida pelo autor.
2. No referido texto, você vai encontrar seqüências narrativas e descriti-
vas. Destaque-as e explique que papel elas desempenham no texto.

O banho, essa novidade Gabriel Bollafi

Hoje aceitamos com naturalidade idéias como tomar banho e lavar nossas
roupas com sabão. Históricamente, entretanto, esse é um costume recente.
Em toda a Idade Média, nem a aristocracia, nem a classe pobre tinha
muita inclinação para o banho. A rainha Isabela (1451-1504) da Espanha
orgulhava-se de ter tomado apenas dois banhos em toda sua vida: um
quando nasceu e outro no dia de seu casamento. Já a rainha Elizabeth I
(1558-1603) da Inglaterra era uma entusiasmada banhista, tomava um
banho a cada três meses.
Até meados do século XIX, o banho de corpo nu foi considerado pecado
pela igreja, tendo em vista que esta era uma prática dos pagãos gregos e
romanos. Além da pressão religiosa, a falta de água aquecida e de sabão
também serviam de desencorajamento para a prática do banho. Ainda
neste século, os membros de certas ordens religiosas continuam a tomar
banho com camisolas para evitar que seus corpos fossem despidos.
O ato de tomar banho com sabão e água aconteceu graças ao
Movimento Sanitário iniciado em Londres como resposta à sujeira
onipresente – aos poucos reconhecida como uma das causas de cólera
e de febre tifóide. Canais de esgotos foram construídos, o lixo foi
transportado para longe dos centros urbanos, bebedouros públicos
foram isolados de locais contaminados e as pessoas foram encorajadas
a tomar banho e a lavar sua roupa. EM 1846, o governo britânico
editou uma lei que permitia a instalação de banheiros públicos e
lavanderias para a classe trabalhadora de Londres. O movimento

50
Tipo textual expositivo/dissertativo Aula

expandiu-se pela Europa e logo seguiu para os Estados Unidos, e é


por essa reviravolta que o banho passou a ser considerada uma prática
4
saudável por milhões de pessoas.
Os colonizadores portugueses recém-chegados ao Brasil incorporaram
o hábito de tomar banho imitando os índios brasileiros.

Super interessante nº 102 -2000

ATIVIDADES

Discuta com seu professor temas para você produzir um texto


expositivo. Uma sugestão é retomar algum tema já visto em outra disci-
plina, pois você terá informações para produzi-lo. Procure organizar os
parágrafos seguindo as sugestões propostas nas aulas anteriores.

RESUMO

O modo expositivo é um tipo muito usado em diferentes gêneros,


especialmente aqueles destinados à divulgação de informação, como o
didático. A explicação é uma das principais características desse modo
discursivo. Este recurso, também utilizado como estratégia argumentativa,
se constrói a partir de outros modos textuais.

CONCLUSÃO

O modo expositivo, diferentemente da narração e da descrição, de-


pende da capacidade de abstração de quem escreve, já que para construí-
lo a autor deverá valer-se de conceitos, idéias, generalizações. A disserta-
ção mantém um vinculo com a argumentação e muito não fazem tal dis-
tinção, já que o texto predominantemente dissertativo não visa apenas
expo ou constatar fatos, mas também pretende a adesão do leitor. Não
focamos este aspecto nesta aula para que você possa entender melhor a
caracterização do modo em si.

PRÓXIMA AULA

Na próxima aula, veremos o modo argumentativo e a argumentação


retórica. Você terá contato com diferentes estratégias argumentativas para
melhor conhecê-las e fazer uso delas também.

51
Produção e Recepção de Texto II

REFERENCIAS

BARBOSA, Severino A.M. Redação: escrever é desvendar o mundo.


Campinas São Paulo: Papirus, 1990.
BRONCKART, Jean-Paul. Atividades de linguagem, textos e discur-
sos. São Paulo: Educ, 2003.
EMEDIATO, Wander. A fórmula do texto. São Paulo: Geração Editori-
al, 2006.
FIORIN, J Luiz & SAVIOLI, F Platão. Para entender o texto: leitura e
redação. São Paulo: Ática, 1991.
______ Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1999.
GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 14. ed. Rio de
Janeiro: Editora da FGV, 1988.
MELO, J. Roberto D; PAGNAN, C. Leopoldo. Prática de textos: leitura
e redação. São Paulo: W3 Editora, 2001.
VIANA, Antonio C. (coord.) et al. Roteiro de redação – lendo e argu-
mentando. São Paulo: Scipione, 1998.

52
Aula
TIPO TEXTUAL
ARGUMENTATIVO
5
META
Caracterizar a argumentação como modo discursivo;
descrever as seqüências argumentativas;
elencar diferentes tipos de argumento retórico;

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
caracterizar o modo argumentativo e utilizar na sua produção recursos
que caracterizem este tipo textual.

PRÉ-REQUISITOS
Conhecer diferentes tipos textuais, dominar os recursos de coesão
seqüencial.

Capa de livro.
(Fonte: http://www3.unisul.br).
Produção e Recepção de Texto II

INTRODUÇÃO

O texto argumentativo tem um caráter oposto ao expositivo , pois é


uma comunicação construída na perspectiva de convencer ou persuadir
um auditório ou leitor da validade de uma tese ou proposição.
Emediato (2006, p. 163) afirma que a relação desses dois tipos textu-
ais é muito sutil, muitas vezes toma-se um pelo outro, ou os dois em um só.
Do ponto de vista didático é preciso fazer algumas apropriações para me-
lhor distingui-los. Em razão da própria relação que estes dois tipos textuais
mantêm, focaremos a explicação como recurso utilizado na argumentação,
porque a explicação ou o modo discursivo expositivo são muitas vezes
usados com a finalidade de persuadir e não apenas de expor.
Vimos na aula anterior, que a forma argumentativa demonstrativa é
utilizada predominantemente no modo expositivo. Nesta aula, tratare-
mos da forma argumentativa retórica, mais utilizada no modo
argumentativo.
De um modo geral, o modo expositivo ou o modo argumentativo
está presente em qualquer gênero de texto , já que sempre estamos argu-
mentando. Mas, segundo Marchuschi (2008, p. 87)

isso não é algo intrínseco aos gêneros, é mais uma tendência. Há


gêneros textuais, que se fundam mais numa lógica de demonstração
ou regras explicativas, nos fatos e nas verdades, como é o caso dos
gêneros científicos ou acadêmicos.

São os “textos técnicos” que procuram sempre uma ‘objetividade’ e


para garanti-la vão se valer da argumentação demonstrativa. Já os textos
publicitários ou de opinião, pelo contrário, se organizam através da argu-
mentação retórica, pois seu objetivo é a persuasão.
A argumentação retórica para Emediato (op. cit p. 167)

vincula-se a uma corrente não necessariamente racional. (...) visa


trazer o interlocutor para dentro de seu universo de discurso, sem
seguir lógicas de raciocínios explicitas, com o objetivo de persuadir
o interlocutor através de estratégias de sedução e de persuasão que
podem ser construídas através do apelo aos valores e as crenças
das pessoas (...) – o objetivo da argumentação retórica não é ,
como na demonstração, provar a verdade da conclusão a partir da
verdade das premissas, mas de transferir sobre as conclusões, a
adesão acordada às premissas.

Daí, a preocupação na argumentação retórica ser maior com o con-


ceito de adesão. O conceito de verdade não é tão importante para a retó-
rica, porque o interesse maior é pela opinião, muito mais do que pela
verdade, por isso se apóia em valores , crenças e lugares comuns.

54
Tipo textual argumentativo Aula

:
Emediato (2006, p. 171-178) lista alguns tipos de argumento retórico 5
1. argumentos empíricos ou factuais são fundados na experiência vivida
dos fatos e nas suas implicações. A partir da experiência que se tem dos
fatos podem-se estabelecer varias relações causais, de comparação, de
exemplificação ou de generalização entre eles. Utilizamos argumentos
empíricos quando oferecemos exemplos, ilustrações, analogias e explica-
ções causais.
2. argumentos causais - A atribuição de causa é muito utilizado na argu-
mentação com intenção explicativa. Escolher uma causa é também esco-
lher a forma de explicar ou convencer. È importante distinguir causas de
pretextos. Muitas vezes as falsas são apresentadas com objetivos de justi-
ficar uma ação ou uma crença.
3. argumentação pragmática. Ao analisa a relação entre a causa e a conse-
qüência, destaca-se a conseqüência.
4. argumentos sobre fatos atestados . As pesquisas de opinião são exem-
plos de recurso utilizado na construção de argumentação.
5. argumentos fundados em uma confrontação;
6. argumento de autoridade. Utiliza-se da referencia a uma determinada
autoridade reconhecida no assunto para encaminhar uma tese.
7. a definição as comparações e as dissociações são considerados argu-
mentos quase lógicos.
A superestrutura argumentativa apresenta-se da seguinte forma:

Tese

Premissas (proposição) conclusão

Cadeia de argumentos (e contra-argumentos)

Esta seria uma estrutura prototípica, mas isso não quer dizer que ela
se comporte sempre desta mesma forma. Quando pensamos na superes-
trutura , estamos procurando representar uma organização das seqüencias
que caracterizam o modo argumentativo. Bronckart (2003, p. 226-227)
esquematiza da seguinte forma:
O protótipo da seqüência argumentativa apresenta-se como uma
sucessão de quatro fases:

A fase de premissas (ou dados ), em que se propõe uma constatação


de partida;

55
Produção e Recepção de Texto II

A fase de apresentação de argumentos, isto é, de elementos que


orientam para uma conclusão provável; podendo ser esses elementos apoi-
ados por lugares comum (topoi),regras gerais , exemplos, etc;-
A fase de representação de contra-argumentos, que operam uma
restrição em relação à orientação argumentativa e que podem ser apoia-
dos ou refutados por lugares comuns, exemplos, etc;
A fase de conclusão (ou de nova tese), que integra os efeitos dos
argumentos e contra-argumentos.

Vamos observar como o modo argumentativo se organiza no artigo


de opnião de Maria Inês Dolci.

1. A opção por um desenvolvimento sustentável, ao contrário do que se


possa imaginar, não está exclusivamente nas mãos dos governantes. Até
porque pesa mais na hora da decisão anunciar empreendimentos que
geram empregos do que restrições ao desmatamento, por exemplo.
2. Quem sofre mais com o desequilíbrio ambiental somos nós, moradores
das grandes e poluídas cidades deste pobre planeta. Enquanto as
motosserras devastam as florestas tropicais, como a amazônica, ciclones
e outras catástrofes se tornam corriqueiros no noticiário mundial.
3. Só há uma maneira de barrar a visão de que os recursos naturais são
infinitamente renováveis: usar o poder de compra de cada um de nós,
consumidores, para dar nítida preferência a produtos e serviços
comprometidos com a preservação da vida, em detrimento daqueles,
talvez mais baratos, mas produzidos pela soma de desrespeitos – ambiental
e trabalhista, principalmente.
4. Ao retirar o cartão de crédito ou de débito da carteira, estamos
exercendo um direito que movimenta o mundo. Quem compra entra,
mesmo sem se dar conta, em uma cadeia de produção que começa nos
chamados insumos, necessários para a fabricação de um produto ou
prestação de um serviço.
5. A geladeira é moderna, com desenho arrojado? Ótimo, mas foi
projetada para consumir menos energia? É necessário trocar o computador
de casa, ou bastaria substituir o processador do micro?
6. A forma como se responde, na prática, a essas perguntas, pesa, e
muito, na luta entre destruidores e preservadores do ambiente.
7. Proprietários de automóveis que não substituem o catalisador (aparelho
que ajuda a reduzir a poluição) estão optando pelo ar sujo. Seus filhos,
parentes e amigos, além deles próprios, vão pagar por isso.
8. Quem se informar sobre as condições em que foram produzidos aqueles
eletroeletrônicos com preços imbatíveis pode evitar a compra de artigos
fabricados por crianças. Ou por trabalhadores a um passo de se tornarem
escravos ou servos. Não somos inocentes espectadores de um programa

56
Tipo textual argumentativo Aula

sórdido que compromete o ar, a terra e as águas. Somos cúmplices.


9. Quando a maioria dos habitantes eleitores de um país apóia,
5
incondicionalmente, políticas governamentais que ameaçam rios e
florestas, os espaços de quem luta pela preservação ambiental são
reduzidos.
10. E a fatura chegará, na forma de doenças broncopulmonares e de
diversas outras que o ar seco e poluído ao menos agrava.
11. É óbvio que os governos detêm as canetas que assinam projetos e
acordos com potencial para proteger ou destruir os recursos naturais.
12. Mas, ao fim e ao cabo, quem desautoriza uma ministra como Marina
Silva não é o governo, incomodado com suas propostas e visão ambiental.
Somos nós, ao consumir produtos e idéias que poluem e destroem o
mundo. Pensemos nisso, antes da próxima compra.

(Maria Inês Dolci, Folha de São Paulo, Caderno Vitrine, 17/5/08, p.3.)

Observe que o modo argumentativo, assim como os demais modos


ou tipos que você vem estudando até aqui pode ser encontrado em qual-
quer gênero. No artigo de opinião – a exemplo do texto de Maria Inês
Dolci – o raciocínio argumentativo se desenvolve nas seqüências
argumentativas. Vejamos então como elas se apresentam no texto:
O texto inicia com a negação de uma tese supostamente admitida a
respeito de desenvolvimento sustentável:
A tese admitida seria a opção por um desenvolvimento sustentável é
de responsabilidade do governo.
A sua negação: A opção por um desenvolvimento sustentável, ao contrário do
que se possa imaginar, não está exclusivamente nas mãos dos governantes (...)
Sobre o pano de fundo dessa tese anterior, são propostos novos da-
dos que orienta para uma conclusão ou nova tese.
A tese, opinião defendida no texto, pode aparecer de diferentes ma-
neiras. No texto em questão a tese está explicitada no terceiro parágrafo:
Só há uma maneira de barrar a visão de que os recursos naturais são infinitamen-
te renováveis: usar o poder de compra de cada um de nós, consumidores, para dar nítida
preferência a produtos e serviços comprometidos com a preservação da vida, (...)
Observe que a tese é objetiva, pois está baseada em fatos, não em
hipóteses.
Os fatos, provas ou dados que se tem para defender uma opinião são
os argumentos. Como você já conhece alguns tipos de argumentos
retóricos, fica mais fácil identificar no texto quais tipos aparecem e assim
observar a função que desempenham no texto.
Causais:
2. Quem sofre mais com o desequilíbrio ambiental somos nós, moradores das grandes
e poluídas cidades deste pobre planeta. Enquanto as motosserras devastam as flores-

57
Produção e Recepção de Texto II

tas tropicais, como a amazônica, ciclones e outras catástrofes se tornam corriqueiros


no noticiário mundial.
De exemplificação:
8. Quem se informar sobre as condições em que foram produzidos aqueles
eletroeletrônicos com preços imbatíveis pode evitar a compra de artigos fabricados por
crianças. Ou por trabalhadores a um passo de se tornarem escravos ou servos. Não
somos inocentes espectadores de um programa sórdido que compromete o ar, a terra e
as águas. Somos cúmplices.
Assim, a autora defende o seu ponto de vista utilizando-se de fatos
que não podemos refutar e dessa forma aceitamos o seu ponto de vista e
passamos a agregá-lo a nossa forma de ver o problema.

ATIVIDADES

1. Identifique, nos excertos a seguir, os tipos de argumentos retóricos.


a) “As cruzadas levaram novo ímpeto ao comércio. Dezenas de milhares
de europeus atravessaram o continente para tomar a Terra prometida dos
mulçumanos. Os cruzados que regressavam ao Ocidente traziam com
eles o gosto pelas comidas e roupas requintadas que tinham visto e expe-
rimentado. (...) Do ponto de vista religioso, pouco deram resultado as
cruzadas, já que os mulçumanos, oportunamente retomaram o Reino de
Jerusalém. Do ponto de vista do comércio, entretanto, os resultados fo-
ram tremendamente importantes. Eles ajudaram a despertar a Europa de
seu sono feudal, espalhando sacerdotes, guerreiros, trabalhadores e uma
crescente classe de comerciantes por todo continente.”( Huberman, Leo.
História da riqueza do homem.)
b) Normalmente os indivíduos que ficam embriagados com freqüência
não admitem a idéia de serem portadores de algum vício. Em geral, se
justificam dizendo que “só bebem nos fins de semana” ou que “só bebem
socialmente” e por isso não são alcoólatras. No caso de seu amigo, que já
deva estar ingerindo uma quantidade muito alta de álcool e se torna
violento, você pode ajudá-lo mostrando que o excesso de bebida está
provocando um comportamento anti-social, além de comprometer a saú-
de. Se ele aceitar isso, é o momento certo para iniciar um tratamento com
psicólogos ou especialistas na área ou a participar de um grupo de Alco-
ólatras anônimos.
c) A diversidade biológica, a variedade de espécies de plantas e animais
com quem dividimos este planeta, proporciona um exemplo interessante.
A maioria das espécies se encontra nos países tropicais. O Brasil sozinho
deve abrigar 30% de todas espécies da Terra. A história dos recursos na-
turais tropicais, no entanto, mostra que a riqueza proporcionada por eles,
muito freqüentemente acaba nos bolsos do Hemisfério Norte. A história
da borracha ilustra em parte essa realidade.

58
Tipo textual argumentativo Aula

2. Apresente a tese e os argumentos do texto A guerra do trânsito de Rosely


Sayão. Esquematize a partir daí o plano geral do texto.
5
A GUERRA DO TRÂNSITO

Quase todo mundo conhece a expressão que diz que “enfrentamos


uma batalha por dia na vida”. Pois bem: hoje, ela deixou de ser simbólica
e passou a ter significado assustadoramente real. Enfrentamos não uma,
mas várias batalhas nessa guerra em que se transformou o trânsito. E isso
diz respeito a todos os que freqüentam as ruas das cidades: motoristas e
pedestres.
Nas últimas semanas, acompanhamos várias notícias de acidentes de
trânsito que mostraram o nível a que chegou essa guerra. É um festival de
incivilidade: transgressões de normas de direção a regra agora. Motorista
que usa celular ao dirigir, ingere álcool antes de usar o carro ou desrespeita
acintosamente a sinalização, direção perigosa e violência descontrolada
são exemplos. É um deus-nos-acuda.
Além disso, as cidades estão cada vez mais congestionadas, não apenas
pelo excesso de veículos, mas também porque o ideal de consumo nos faz
comprar veículos cada vez maiores. Quando vejo um desses modelos com
tração nas quatro rodas, imensos, ou carros possantes, com todo tipo de
recurso, penso que os veículos deixaram de ter sua função original, a de
transportar uma pessoa de um lugar a outro, e passaram a ser objetos de
desejo. E aí não há racionalidade alguma na aquisição.
A União Européia, atenta a essas questões, pretende restringir as
propagandas de carros – quer banir referências à rapidez do veiculo ou ao
“prazer de dirigir” que ele proporciona e propõe a presença de informações
como o consumo de gasolina e o volume de dióxido de carbono produzido.
Essa confusão no trânsito prejudica todos os que usam o espaço público
e, principalmente, os mais novos. Os jovens são diretamente atingidos por
esses conceitos sobre o significado de dirigir. O número de acidentes
provocados e sofridos é assustador. E testemunhamos essas tragédias
regulares com impotência.
Mas as crianças talvez sejam as maiores vítimas desse trânsito caótico.
Segundo dados do Ministério da Saúde, ele é a maior causa de morte de
crianças com até 12 anos, e estudos realizados pela ONG Criança Segura
apontam que grande parte dos acidentes envolvendo crianças ocorre perto
de casa e na volta da escola.
E, por falar em escola, os pais que cometem infrações nos arredores
da escola talvez não percebam o quanto contribuem para a insegurança do
próprio filho. Vale lembrar ainda o transporte escolar: já vi peruas escolares
cometendo irregularidades bem sérias.

59
Produção e Recepção de Texto II

Não é à toa que o Conselho Nacional de Trânsito definiu como


tema da Semana Nacional do Trânsito de 2008 “A criança e o trânsito”.
E nós, adultos que dirigimos, pais e educadores profissionais: que ações
podemos tomar para que o trânsito deixe de ser um espaço de barbárie
e se torne mais seguro para crianças e jovens?
(Rosely Sayão, Folha de S.Paulo, Caderno Equilíbrio, 5/6/2008, p. 12.)

RESUMO

O modo argumentativo tem como finalidade comunicativa a expres-


são de uma convicção e uma explicação que transmite a intenção do lo-
cutor de persuadir o interlocutor e modificar o seu comportamento. Sua
estrutura se inscreve na ordem do racional enquanto desenvolve através
de operações de ordem lógica de um raciocínio destinado a expressar fe-
nômenos históricos vinculados à vida cultural e social.

CONCLUSÃO

Compreender as estratégias argumentativas é essencial para realizar


qualquer tipo de texto, já que sempre estamos argumentando. O modo
argumentativo normalmente se combina com os outros modos, narrativo,
descritivo ou expositivo, porque nas atividades discursivas estes modos
apresentam funções complementares.

PRÓXIMA AULA

você tomará contato com o modo enunciativo que revela o tipo de


relação que aquele que escreve mantém com seu interlocutor.

60
Tipo textual argumentativo Aula

REFERENCIAS 5
BARBOSA, Severino AM. Redação: escrever é desvendar o mundo.
Campinas São Paulo: Papirus, 1990.
BRONCKART, Jean-Paul. Atividades de linguagem, textos e discur-
sos. São Paulo: Educ, 2003.
EMEDIATO, Wander. A fórmula do texto. São Paulo: Geração Editori-
al, 2006.
FIORIN, J. Luiz; SAVIOLI, F Platão. Para entender o texto: leitura e
redação. São Paulo: Ática , 1991.
______ Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1999.
GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 14 ed. Rio de
Janeiro: Editora da FGV, 1988.
MARCUSCHI, Luiz A – Produção textual, análise de gênero e com-
preensão. São Paulo: Editora Parábola, 2008.
MELO, J. Roberto D; PAGNAN, C Leopoldo. Prática de textos: leitura
e redação. São Paulo: W3 Editora, 2001.
VIANA, Antonio C. (coord.) et al. Roteiro de redação – lendo e argu-
mentando. São Paulo: Scipione, 1998.

61
Aula

MODO ENUNCIATIVO 6
META
Relacionar as formas enunciativas com os efeitos que produzem;
mostrar as relações possíveis entre os interlocutores através do
modo enunciativo;

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
distinguir os diferentes modos de organização enunciativa do discurso e os
tipos de relações estabelecidas entre o sujeito enunciador e o seu interlocutor,
entre o enunciador e o que ele diz e entre o enunciador e a realidade.

PRÉ-REQUISITOS
Compreender e distinguir os diferentes tipos textuais.

Enunciador.
(Fonte: http://1.bp.blogspot.com).
Produção e Recepção de Texto II

INTRODUÇÃO

A organização enunciativa ou a forma que é utilizada pelo sujeito


enunciador – aquele que fala ou escreve - contribui para o estabelecimen-
to da coerência pragmática do texto. Nela, aparecem explicitas as diferen-
tes avaliações (julgamentos, opiniões, sentimentos) que podem ser for-
muladas a respeito dos diferentes aspectos do conteúdo e daqueles que
os assumem, feitas pelos que se responsabilizam pela enunciação.
Segundo Emediato (2006, p. 136)

o modo de organização enunciativo do discurso determina e revela


o tipo de relação que o sujeito enunciador manterá com seu
interlocutor, com o que é dito em seu discurso e com a realidade
exterior ( o mundo, os fatos , as pessoas etc.). Em certo sentido a
escolha de um tipo de relação revela também a posição que o
locutor assume em relação ao interlocutor ( uma ordem por
exemplo) uma posição subjetiva em relação ao que diz (uma opinião,
por exemplo); ou assumir uma posição de testemunha de algum
fato ou de algum dizer proferido por uma terceira pessoa ( em um
relato de ocorrência , ou um discurso relatado) (...)

Efeitos dos modos como organizamos enunciativamente um texto:


Quando o texto está na 1ª. pessoa , o efeito imediato é de que existe
uma intimidade entre os interlocutores, ou pelo menos se pretende esta-
belecer uma intimidade. A expressão da subjetividade permite ao sujeito
revelar-se.

Exemplo: Fiquei fora de mim, e não dormi toda a noite: como sei
bem que espécie de homem é meu tio, tratei de arranjar a minha
mala de viagem; porque por fás ou por nefas, estava decidido que
eu partiria na manhã seguinte.” (Joaquim Manoel de Macedo, A
carteira do meu tio. Porto Alegre:; L&PM Editores, 2001)

Quando o texto encontra-se na 2ª.pessoa, se estabelece uma


interlocução definida entre um eu que fala a um tu que está sempre sendo
referido ou solicitado. Esta é uma forma de envolvimento muito utilizada
por diferentes gêneros, sobre tudo a propaganda que ao utilizar-se dessa
forma enunciativa simula uma conversa com o seu destinatário, produ-
zindo o efeito interlocutivo. Veja no poema de Manuel Bandeira como o
efeito da interlocução se realiza.

64
Modo enunciativo Aula

Arte de amar
6
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma,
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus é que ela pode encontrar satisfação,
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira

Já o uso da 3ª pessoa objetiva produzir um efeito de distanciamento


entre o que é dito em relação a quem diz. Esta estratégia coloca em cena
uma terceira pessoa que se confunde com a opinião pública, transfor-
mando-o, de um modo geral, num relato em que atribui a outra pessoa a
responsabilidade pelo que é dito.
Este é o modo mais presente nos textos acadêmicos, pois garante a pre-
sença da objetividade, traço que deve marcar o discurso científico e técnico.
Veja o exemplo a seguir, é um fragmento de um relato de experiência
de laboratório:

Oxidação com permanganato em meio peridínico


Dissolveram-se 0,5g de ciatolina em 500ml de piridina, em ebulição,
e adicionaram-se com pequenos intervalos 2g de permanganato
de potássio. A mistura foi refluxada durante 7 horas e deixada em
repouso por um dia. (...)

Observe que o apagamento do enunciador é marcado pelas formas


verbais chamadas impessoais ( “dissolveram-se” ... “adicionaram-se” ...”a
mistura foi refluxada” ) que dão o efeito de objetividade. Esta forma é
mais apreciada nos textos acadêmicos e científicos.

MODOS DE REPRESENTAÇÃO DE ATOS


LOCUTÓRIOS

Nas nossas atividades de linguagem, muitas vezes fazemos referên-


cia a falas de outras pessoas, de autores etc., buscamos representar o seu
modo locutório, especificando o tipo de atitude locutória assumida pelo
sujeito falante. Realizamos essas ações através da escolha de uma moda-
lidade de verbo (os verbos de elocução).

65
Produção e Recepção de Texto II

Os verbos de elocução ou de ação ilocutória têm como função represen-


tar uma ação locutória do sujeito falante e da sua atitude, ou ato de fala
correspondente: falar, perguntar, indagar, comentar, afirmar e muitos outros.
Veja os exemplos:

1.(...)No século XIX coexistiram os dois pontos de vista, já que


Levy Bruhl classificou de pré-lógica a inteligência do homem
primitivo e de lógica a mentalidade do civilizado,ratificando assim
a superioridade inerente do civilizado sobre o primitivo, enquanto
Eça de Queirós exaltava, no final do século, as virtudes do homem
das Serras sobre os habitantes da cidade[...} Jacques Maritan expõe
em 1939 a idéia dos estados sucessivos (...)
2. “ conceituando e distinguindo resumo de resenha o autor
( Salvatore D’Onofrio – Metodologia do trabalho científico 2ª. ed.
atlas as SP 2000) diz que a palavra de língua inglesa abstrat tornou-
se o termo técnico para designar um tipo de trabalho intelectual de
pequeno porte, expresso em nosso idioma por vários vocábulos:
resumo, recensão, sinopse, fichamento, resenha. Evidentemente não
se trata de sinônimos, pois o nível de profundidade difere de uma
denominação para outra.”

Observe que nos dois exemplos os autores fazem referência às falas


de outros autores (Levy Bhul, Eça de Queiros, Salvatore D’Onofrio);
estas , por sua vez, estão registradas em textos escritos. Atente para o uso
dos verbos de elocução. Veja como são representadas as ações ilocutórias
atribuídas a Salvatore D’Ónofrio (conceituar e distinguir ); estes verbos
também representam a atitude do autor, ou do seu ato de fala.
Quando, por exemplo, um jornalista relata as falas ou declarações de tercei-
ros, muitas vezes ele toma a liberdade de representá-las na forma de atitudes,
ao invés de simplesmente utilizar um verbo locutório como “falar” ou “dizer”.
Compare:

O presidente comentou ontem a decisão do Judiciário.


O presidente atacou ontem a decisão do Judiciário.
A construção do texto, seja de gêneros acadêmicos, ou de qualquer
outro, não é um ato isolado, eminentemente individualizado. Fazemos
com freqüência alusões a opiniões de outras pessoas, de outros estudio-
sos que estão em acordo ou em desacordo com as nossas idéias. A forma
que referimos a ação discursiva do outro revela a nossa leitura do mundo.
Observe por exemplo, que há gêneros como o resumo, em que o au-
tor do texto original aparece como se estivesse realizando vários tipos de
atos, que freqüentemente não estão explicitados no texto original. È o
autor do resumo quem vai interpretar esses atos usando os verbos ade-
quados. Nas atividades a seguir você deverá utilizar estes conhecimentos
e reflexões que serão muito úteis nas próximas aulas.

66
Modo enunciativo Aula

ATIVIDADES 6
1. Observe o exemplo em que destacamos os verbos utilizados para indi-
car diferentes atos do autor do texto resumido. Em seguida, leia os tre-
chos e preencha os espaços do resumo correspondentes com os verbos
mais adequados, dentre os do quadro abaixo.
Apontar- definir – descrever – elencar – dizer - enumerar – classificar
– caracterizar - exemplificar – contrapor – comparar – opor – iniciar -
diferenciar – começar – acreditar - afirmar – negar – questionar – descre-
ver – narrar – relatar – explicar – expor – comprovar – argumentar –
justificar –mostrar- apresentar – esclarecer- sugerir – incitar.
Exemplo:
“O Romantismo foi mais uma nova atitude do espírito diante dos
problemas da vida e do pensamento, o que implicou numa profunda mu-
dança, numa verdadeira revolução histórico-cultural, o que necessaria-
mente envolve a filosofia, as artes, as ciências, as religiões, a moral, a
política, os costumes, as relações sociais e familiares, etc. Por possuir
características tão irregulares, é que se torna difícil qualquer sistematiza-
ção a seu respeito. “ (Moisés, M. 1985, p. 159).

Resumo: O autor caracteriza o Romantismo como uma atitude do


espírito diante das mudanças ocorridas no final do século XIX e acredita
que por essa razão é difícil sistematizar o movimento estético.

a) ”Não é fácil classificar entre as espécies literárias a obra Viagens a minha


terra, pois o texto é uma mistura de relato jornalístico, literatura de viagens,
a divagação em torno de diferentes problemas sociais do tempo e o célebre
idílio amoroso entre Joaninha dos olhos verdes e o seu primo Carlos. A
convite de João Batista Almeida Leitão de Almeida Garrett o leitor é con-
vidado a conhecer Portugal. Através desta estratégia, o então jornalista vai
nos conduzindo à atmosfera portuguesa do século xix. A viagem inicia-se
em Lisboa e vai até Santarém. Ao longo do trajeto Tejo acima, acompa-
nhamos as considerações que Garrett vai tecendo sobre os aspectos mais
variados da cultura portuguesa. Dos diversos traços arquitetônicos que
marcam a história da construção do país até a situação das estradas portu-
guesas de então; a tarefa dos fiscais e o sabor do café; a marcha do progres-
so e as suas conseqüências.” (Sigismundo Spina, 1972).

Resumo: Sigismundo Spina ____________ que não é fácil classificar


a obra Viagens a minha terra, porque a obra é resultado de vários gêneros.
Em seguida o autor _________os primeiros movimentos das crônicas
que introduzem o romance.

67
Produção e Recepção de Texto II

b) O planeta Marte sempre fascinou nós terráqueos. Não é a toa que em


torno dele surgiram muitas crenças. A mais conhecida é o de que “peque-
nos homens verdes” viriam de Marte e não de Vênus ou de Júpiter. No
entanto, parece que os motivos do nosso encantamento estão em alguns
traços físicos do planeta: Marte é o único ponto vermelho do céu visível
a olho nu ( além de Antares, uma estrela também vermelha de primeira
grandeza) e o seu movimento no céu é impressionante. Para os nossos
antepassados, que só tinham olhos para observá-lo, este curioso objeto
celeste efetua o que os especialistas chamam de “movimento retrógra-
do”.
Como todos os planetas, Marte gira em torno do Sol em sentido dire-
to, isto é, ele se desloca através das constelações do zodíaco de leste para
oeste (tomando como referência estrelas fixas); mas durante meses, tor-
na-se mais lento, estaciona e parte em sentido retrógrado para depois pa-
rar novamente e retomar, por fim, o sentido direto. (Francis Rocard . Marte,
Planeta Vermelho: mitos e exploração 2000).
Resumo: Rocard ________ o texto ___________ Marte como um
planeta que exerce um encantamento em nós habitantes da Terra. O
autor _________ os aspectos físicos do planeta, e em seguida
____________ o significado de movimento retrógrado.

CONCLUSÃO

O modo enunciativo, diferentemente dos modos anteriores que se


configuram a partir de seqüências, contribui para o estabelecimento da
coerência pragmática do texto, tornando explicitas as diferentes avalia-
ções dos enunciadores ( julgamentos , opiniões , sentimentos) que po-
dem ser formuladas a respeito de um ou de outro aspecto do conteúdo
tratados no texto.

RESUMO

Nesta aula você teve oportunidade de observar que além das formas
convencionais de referir as falas do autor ( o discurso direto ou o discurso
indireto) , o autor faz referência a falas e aos atos daqueles a quem se
refere, o que significa também interpretar a posição que o autor assume
diante do que diz. Isto quer dizer que aquele que escreve e faz referência
a fala de alguém deve, antes de mais nada, interpretar este ato. Não faz
sentido, por exemplo, dizer que algum autor cita, quando ele apenas co-
menta ou explica.

68
Modo enunciativo Aula

PRÓXIMA AULA 6
A partir da próxima aula, você tomará contato com alguns gêneros
acadêmicos. As aulas desenvolvidas até aqui tiveram como objetivo prin-
cipal oferecer a você atividades para um desempenho satisfatório na pro-
dução destes gêneros.

REFERÊNCIAS

BRONCKART, Jean-Paul. Atividades de linguagem, textos e discur-


sos. São Paulo: Educ, 2003.
EMEDIATO, Wander. A fórmula do texto. São Paulo: Geração Editori-
al, 2006.
FIORIN, J. Luiz; SAVIOLI, F. Platão. Para entender o texto: leitura e
redação. São Paulo: Ática, 1991.
______ Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1999.
GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 14 ed. Rio de
Janeiro: Editora da FGV, 1988.
MELO, J. Roberto D; PAGNAN, C Leopoldo Prática de textos: leitura e
redação. São Paulo: W3 Editora, 2001.
VIANA, Antonio C. (coord.) et al. Roteiro de redação – lendo e argu-
mentando. São Paulo: Scipione , 1998.

69
Aula
FICHAMENTO
7
META
Apresentar o fichamento como atividade de anotação de leitura e
como gênero acadêmico;
Apresentar diferentes modelos de fichamento

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
produzir diferentes formas de fichamento a partir dos modelos
sugeridos.

PRÉ-REQUISITOS
Produzir parágrafos utilizando diferentes recursos de coesão e
modos textuais adequadamente.

Apaixonada por leitura.


(Fonte: http://milulima.files.wordpress.com).
Produção e Recepção de Texto II

INTRODUÇÃO

A partir desta aula, vamos tratar especialmente de alguns gêneros


textuais acadêmicos: o fichamento , o resumo , a resenha e o artigo
científico. Estes gêneros representam basicamente os gêneros que preci-
samos dominar no grau superior, antes de escrever um projeto de
monografia ou TCC , trabalhos, normalmente solicitados no final do cur-
so de graduação. Eles são gêneros que estão associados à atividade de
leitura e à organização das informações que adquirimos no dia-a-dia da
escola, mais intensamente na universidade, de modo que são fundamen-
tais para as atividades de pesquisa.
A prática de anotar a referência de uma leitura em fichas e em segui-
da anotar o nome do autor, o titulo do livro, o ano da publicação, o lugar
onde o livro se encontra na biblioteca, ou se foi consultado na internet,
além de apresentar uma pequena síntese ou transcrições de partes do tex-
to, são procedimentos bem conhecidos de estudantes e pesquisadores.
As múltiplas leituras que realizamos no curso superior, muitas delas,
complexas e volumosas demandam um esforço de atenção concentrada.
O ato de ler , quando auxiliado pela escrita , é revelado pelas nossas
marcas no texto quando destacamos, grifamos , fazemos anotações, su-
blinhamos ou utilizamos diferentes sinais para identificar os conteúdos e
reconstruí-lo posteriormente em um outro texto. Concordamos com Go-
mes e Lose (2008, p. 54) quando afirmam que “A produção de anotações
é uma atividade carregada de singularidades. Cada leitor tem suas práti-
cas e pode construir o seu próprio estilo de anotações e fichamentos,
criando uma codificação mais individualizada. (...) Ainda assim, é impor-
tante considerar quais são os elementos que não podem estar ausentes de
um bom fichamento. O ato de fichar um texto está relacionado à anota-
ção pelo pesquisador da ficha do livro ou a indicação da referência bibli-
ográfica para quando o pesquisador fizer referência a este texto em algum
momento, seja em seu projeto ou em qualquer outro texto, ele deve fazê-
lo seguindo a norma da Associação Brasileira de Norma e Técnicas.
A ABNT elabora e publica as normas utilizadas na produção de tex-
tos científicos e acadêmicos tendo em vista manter um padrão de apre-
sentação de textos nacionalmente. A observação das normas na produ-
ção dos textos acadêmicos, assim como a indicação do referencial teórico
e empírico servirá ao leitor como fonte de pesquisa. A referência (ABNT,
2002a, p.2 apud Gomes e Loser , 2008, p.34) é o “Conjunto padronizado
de elementos descritivos retirados de um documento, que permite sua
identificação individual.”
ECO (1996) dedica dois capítulos do seu trabalho à atividade de
fichar textos como essencial no trabalho da construção de uma tese, por

72
Fichamento Aula

isso, oferece uma classificação de diferentes momentos da atividade de


fichar:
7
Fichas de citação
Fichas de leitura
Fichas temáticas
Fichas por autores
Fichas de trabalho.

As fichas compreendem cabeçalho, referências bibliográficas, corpo


da ficha e local onde se encontra a obra .
As fichas de leitura nos interessam particularmente por serem aque-
las que nos darão suporte para o trabalho com a produção dos textos.
Medeiros (2008. p.105) lista os tipos de fichas de leitura:

Ficha de indicação bibliográfica


Marques, M. H. D.
Iniciação à semântica 6. ed. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor.
Biibliografia
ISBN: 85 – 7110 – 086 – 1
1. Semântica. 1. Titulo. II. Serie

03-1852 CDD -412

Ficha de assunto
Estrutura sintática da frase
GARCIA, Othon. Comunicação em prosa moderna. 14. ed. Rio de
Janeiro: FGV,
1988.

73
Produção e Recepção de Texto II

Fichamento de transcrição

Letramento: como definir, como avaliar, como medir

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Minas Ge-


rais: Autêntica, 1999. (p. 66).
As duas principais dimensões do letramento são : a dimensão indivi-
dual e a dimensão social. Quando o foco é posto na dimensão indivi-
dual, o letramento é visto como atributo pessoal, parecendo referir-
se, como afirma Wagner(1983, p.5), à “simples posse individual das
tecnologias mentais complementares de ler e escrever”. Quando o
foco se desloca para a dimensão social, o letramento é visto como um
fenômeno cultural.

Há ainda outras espécies de fichas que já são denominadas de


fichamentos. Medeiros (2008, p 108 - 111) lista alguns deles, mas são
apenas variações um do outro.
1. Fichamento de transcrição com corte intermediário de algumas
palavras;
2. Fichamento de transcrição com corte de parágrafo intermediário,
3. Fichamentos de resumos,
4. Fichamentos de comentários,
5. Fichamento informatizado,.

Além de servirem para registrar a referência e onde é possível encontrá-


lo, as fichas servem para organizar e estabelecer relações importantes no
nosso projeto de dizer, que pode ser expresso em qualquer dos gêneros
acadêmicos. Aqui , nos importa mais o modelo fichamento de resumo,
por ser aquele mais solicitado nas atividades acadêmicas e sobre tudo por
se tratar de uma estratégia de organizar a leitura e a compreensão de tex-
tos. Nosso propósito não é comentar todos os tipos, mas mostrar algumas
formas de apresentação do gênero para que você possa ter como modelo.
Isso não impede que você aprofunde seu conhecimento, pesquisando em
manuais de metodologia ou mesmo discutindo com o seu professor a for-
ma mais adequada aos propósitos estabelecidos.

74
Fichamento Aula

Exemplo:
Fichamento de resumo: no modelo, vamos mostrar a estrutura do
7
fichamento segundo Gomes e Loser (2008, p. 54-56).

FARIAS, José Nivaldo de. O discurso literário e o discurso científi- Referencia: cabeçalho re-
presentativo indicando o
co. In: O desejo de absoluto: sobre a arrogância do literário. Maceió: assunto central, a fonte lida
EDUFAL, 2007, p. 66-80. com todas as informações
explicitas (titulo da obra,
autor, editora, edição)

O autor parte de considerações feitas por J. Grossmann a respeito Corpo do fichamento


deve constar da síntese
da relação entre discurso literário e discurso científico. Embora es- que o leitor for capaz de
teja marcada pela disputa, a relação entre as duas formas discursivas produzir sobre o conteú-
também guarda vínculos e por essa razão interessa ao autor explicitar do de cada parte ou capí-
tulo do texto lido.
os mecanismos que sustentam tal envolvimento.

No primeiro momento, o autor procura destacar alguns aspectos Observe que o plano geral
que aproximam as duas formas discursivas. do texto foi dividido em
três parte/momentos.

1. É possível constatar nestas duas formas discursivas a coexistên- Corpo do fichamento deve
cia com os traços diferenciais estabelecidos entre elas : a presença constar da síntese que o
leitor for capaz de produ-
da conotatividade , no discurso científico e, a objetividade no dis- zir sobre o conteúdo de
curso literário. cada parte ou capítulo do
texto lido.

2. O discurso literário e o discurso científico objetivam o conheci-


mento. A diferença está no modo de apreender a verdade: o discurso
científico baseia-se na razão e prima pela objetividade e logicidade
na busca pela verdade. O discurso literário baseia-se na relação que
o homem estabelece com a realidade através dos seus sentidos, por-
tanto é construído a partir de da experiência subjetiva.

“O parentesco entre os dois discursos está orientado de um lado Aqui uma transcrição de
quase um parágrafo intei-
pela capacidade conceptual do discurso literário e por outro lado ro. Neste caso ela serve para
pela esteticidade do discurso científico (...) nos leva a crer numa ilustrar o que foi resumido
interação constante entre estas duas formas discursivas em que uma nos itens anteriores.
influencia a outra.”(p. 68)

Na segunda parte do texto, o autor questiona sobre o tipo de Observe que o plano geral
verdade perseguida pelas duas formas discursivas e sobre o modo do texto foi dividido em
três parte/momentos.
como estas verdades são construídas e transmitidas. Conclui que
ambos são resultados da trajetória do homem na sua busca pelo
conhecimento.

75
Produção e Recepção de Texto II

Corpo do fichamento 1. A diferença está no modo como o conhecimento é transmitido:


deve constar da síntese
que o leitor for capaz de na literatura, a verdade encontra-se articulada a seu caráter ficcional
produzir sobre o conteú- e por essa razão não visa à expressão de uma verdade única.
do de cada parte ou capí-
tulo do texto lido.
2. Ambas procuram determinar um domínio sobre a realidade. En-
quanto a literatura não procura oferecer uma resposta imediata so-
bre suas reflexões - por isso não se empenha em verificar e com-
provar os fatos empiricamente -, a ciência, especialmente as natu-
rais, visa ao estabelecimento de generalizações acerca do universo,
tomando como ponto de partida o particular.

Assim a arte literária ao conceber a realidade a partir do subjetivo


e do individual, recupera o procedimento analógico. Tal procedi-
mento se contrapõe à concepção defendida pelo pensamento
racionalizante. Esta tendência fundamentada na razão tornou o
discurso científico a forma incontestável de apreensão e domínio
da realidade. A arte em geral passou a ter um papel de resistência
na cultura racional, pois preserva uma forma de comunicação com
o real que para a ciência é ineficaz.

Observe que o plano ge- No terceiro momento, o autor procura evidenciar que a fronteira
ral do texto foi dividido entre as duas práticas discursivas é entendida como uma guerra,
em três parte/momentos.
pois o discurso literário trava um combate com o discurso científi-
co, procurando vencê-lo e transcendê-lo. Esta noção problematiza
a visão harmônica deixando mais nítida uma relação de disputa
entre as duas formas discursivas.

Corpo do fichamento 1. A literatura na sua busca de restituir a forma analógica de apre-


deve constar da síntese
que o leitor for capaz de ensão da realidade que é recuperada pela linguagem poética, privi-
produzir sobre o conteú- legia atitude emotiva diante do mundo.
do de cada parte ou capí-
tulo do texto lido.
A arte literária não refuta o modo científico de expressar a verda-
de, nem concede a este o privilégio de ser o discurso que melhor
representa o real. Ao contrário, considera a importância da ciência
e procura beneficiar-se dela. Já o discurso científico considera o
modo poético de conceber o mundo como inferior

2. O discurso científico trava uma luta interna procurando elimi-


nar a subjetividade, em busca de uma lógica perfeita. No entan-
to, é recorrente nas ciências modernas o modo estético de abor-
dar o universo. A aproximação do discurso científico da compo-
sição artística demonstra eficácia do método artístico de conce-
ber a realidade.

76
Fichamento Aula

A psicanálise serve de exemplo da colaboração entre estas duas


formas de transmissão do conhecimento. O autor acredita que “ain-
7
Aqui uma transcrição de
quase um parágrafo in-
da que complexas as relações entre ciências e literatura possam ser
teiro. Neste caso ela ser-
compreendidas sob o prisma de uma luta que se instala entre estes ve para ilustrar o que foi
dois saberes, deve-se entretanto, considerar determinados níveis resumido nos itens
anteriores.
de discurso, tal como o freudiano, que, ao ultrapassar os limites
dos sistemas de pensamento racionalizante, oferecem uma alter-
nativa de relacionamento com o discurso literário que se peculiariza
em relação a outras formas de discurso científico.“(p. 80)

Note que o apagamento de informações secundárias, a seleção de


informações são utilizados com vistas a representar o plano geral da obra.
Isto significa dizer que o tipo do fichamento tem a ver com o propósito
daquele que esta fazendo o fichamento ou da situação em que o gênero é
solicitado. Os que pedem um comentário acerca do conteúdo lido, estes
devem apresentar o comentário entre parênteses, pois poderá no futuro,
identificar com maior facilidade quais partes do fichamento representam
as opiniões do autor.

ATIVIDADES

1. Apresente ao seu professor uma ficha de referência de um livro que


você está lendo. Em seguida, você apresentará o fichamento de transcri-
ção do primeiro capítulo.
2. Faça o fichamento de resumo do texto (anexo 2).

CONCLUSÃO

As diferentes atividades de um pesquisador exigem estratégias de


anotações e registro. A leitura quando é registrada é um valioso recurso
de organização de informações. Fichar um texto, além de distingui-lo en-
tre tantos outros, é apreender o seu plano geral através de diferentes
recursos. Para chegar ao plano geral é necessário ler com compreensão e
operar com diferentes estratégias que podem variar desde as sublinhas de
partes do texto ou transcrições, aos esquemas em tópicos ou resumos de
partes do texto ou do texto integral.

77
Produção e Recepção de Texto II

RESUMO

Todo trabalho de fichamento é necessariamente precedido por uma


leitura atenta do texto que será fichado. È necessário valer-se de algumas
estratégias como a seleção de informações , a análise e a organização das
idéias para poder depreender o plano geral da obra. Ou também de sele-
ções específicas, no caso das fichas por citação.

PRÓXIMA AULA

Você conhecerá algumas estratégias de síntese, pois elas são essen-


ciais na produção de resumos.

REFERENCIAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6028:


resumos: apresentação. Rio de Janeiro. 2002.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6028:
resumos: apresentação. Rio de Janeiro. 2003.
ECO, Humberto. Como se faz uma tese. 13 ed. São Paulo: Editora
Perspectiva, 1996.
GOMES, Henriette F; LOSE, Alícia D. Documentos científicos: orien-
tação para elaboração de trabalhos acadêmicos. Salvador: Edições São
Bento, 2007.
MEDEIROS, João Bosco. Redação científica. São Paulo: Editora Atlas,
2008.

78
Aula
RESUMO
8
META
Apresentar o resumo e suas particularidades enquanto gênero textual;
Mostrar procedimentos adequados à elaboração de resumos;
Propor atividades de produção de resumos.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
utilizar alguns procedimentos próprios da produção de resumo na sua produção
de textos.

PRÉ-REQUISITOS
Conhecimento sobre tipos textuais e sequências, domínio de estratégias
de coesão. Conhecimento da norma de referência ABNT.
Produção e Recepção de Texto II

INTRODUÇÃO

O resumo , assim como os demais textos que circulam no ambiente


acadêmico, universidades, congressos, encontros de pesquisadores, tem
sua estrutura e formato regidos pela ABNT. A norma específica do resu-
mo é a norma NBR 6028:2003 que define resumo como “ apresentação
concisa dos pontos relevantes de um documento” (Associação...2003 a,
p.1). Toda comunicação científica tem utilidade clara. O resumo abrevia
o tempo do pesquisador e difunde informações de tal modo que possam
influenciar e estimular a consulta do texto completo.

Resumo de um capítulo do livro Texto e leitor de Angela Kleiman

80
Resumo Aula

Quanto à apresentação gráfica, o resumo acadêmico deve ser antece-


dido pela referência do documento resumido, de acordo com o NBR 6023.
8
Exemplo: WEEDWOOD, Barbara. História concisa da lingüística. São
Paulo : Parábola Editorial, 2002.

Também deve ser seguido de palavra-chave, antecedidas da expres-


são “palavra-chave”, sendo que estas devem ser separadas entre si por
ponto e também finalizada por ponto O mais usual é a indicação de 3 a 6
palavras-chave.
Quando o resumo acompanha o próprio documento não se faz neces-
sária a referência, como é o caso do resumo que acompanha o artigo
científico, também chamado de Abstrat.
Vejamos os aspectos da apresentação gráfica no resumo A mídia e o
discurso sobre a preguiça, publicado pela Revista Humanitas, Campinas, 4(2):
27-40, ago./dez, 2001.

Texto 1

Em sua elaboração devem-se destacar, quanto ao conteúdo do texto


resumido: o assunto central do texto; a categoria do estudo ao qual se
refere o texto (um estudo de caso, um estudo experimental, etc); o objeti-
vo do texto; a articulação das principais idéias; as principais conclusões
do autor do texto; o método empregado na pesquisa; os principais resul-
tados. Observe estas características no resumo que faz parte da disserta-
ção de mestrado em Agrossistemas da UFS cujo título é Programa Fome
Zero: continuidade e mudanças espaço rural sergipano de Raquel Fernandes de
Araújo Rodrigues.

81
Produção e Recepção de Texto II

Estas características são normalmente exigidas para os resumos que


acompanham as dissertações de mestrado ou teses de doutorado. Obser-
ve que o resumo anterior introduz um artigo científico. Veja que este
gênero tem o importante papel de fornecer ao leitor as informações es-
senciais para que ele se situe diante do que pode ser lido.
Para a redação de um bom resumo é necessário assinalar que não se
deve apresentar juízos de valor quanto ao seu conteúdo, nem críticas fa-
voráveis ou desfavoráveis. O resumo deve ser compreensível por si mes-
mo, isto é , dispensar a consulta do texto original. Deve-se atentar ainda
para os seguintes pontos:
Quanto a linguagem a ser utilizada no resumo, alguns autores suge-
rem que as frases devam ser compostas com verbo na voz ativa e na
terceira pessoa do singular. Lembre-se da impessoalidade tão cultivada
nesse tipo de produção. Outra recomendação dos manuais é evitar repe-
tições de frases inteiras do original.
Há, no entanto, um aspecto fundamental na elaboração do resumo
que deve ser aprendida: sumarização. A sumarização é um processo men-

82
Resumo Aula

tal essencial na produção de resumos. Ele envolve procedimentos como


o apagamento de elementos redundantes ou não relevantes ( supressão
8
de adjetivos e advérbios) e a generalização das idéias do texto (registros
e informações de ordem geral), a seleção das idéias principais, a constru-
ção de uma síntese integradora das várias idéias expostas no texto. A
sumarização é um processo que envolve atividades de síntese de análise e recombinação
organizada. Elaborar sínteses, depreender e representar o plano geral do
texto a ser resumido são atividades elementares na sumarização.
Vamos ver primeiro a alguma regras para elaboração de sínteses:
Segundo Serafini (1986, p. 149), as regras de elaboração de sínteses
compreendem estratégias de supressão de informações, de generalização,
de seleção e de construção.
Vejam o exemplo (apagamento):

Os estereótipos tanto podem ser positivos quanto negativos; tanto


podem valorizar quanto depreciar as pessoas. Se um estereótipo é
positivo ou negativo, isto depende da categoria social que o adota.
(NOVA, 1995)

Apagando as informações secundárias temos:

Os estereótipos tanto podem ser positivos quanto negativos,


dependendo da categoria social que os adota.

Observe agora outra estratégia que elimina informações secundárias


e mantém as idéias principais. (seleção):

A leitura é atividade intelectual que exige, para a realização adequada,


alguns procedimentos, como seleção de material, cuidado para que
a unidade delimitada compreenda uma totalidade e não mero
fragmento, contexto, ideologia.

Selecionando alguns elementos temos:

A leitura exige procedimentos como seleção e delimitação de uma


totalidade e [ que não seja feita a partir de um] fragmento [destituído
do contexto].

Finalmente, há a construção de uma nova frase (paráfrase), respei-


tando-se as idéias do texto original. Tomando o texto apresentado, tem-se
como resultado:

A seleção e a delimitação de um texto são procedimentos de leitura


que devem levar em consideração o contexto.

83
Produção e Recepção de Texto II

O PLANO GERAL DA OBRA

O gênero resumo possui um tipo de redação informativo-referencial


que se ocupa de reduzir um texto a suas idéias principais. Muitos autores
caracterizam o gênero como uma paráfrase que engloba duas fases: a
compreensão do texto e a elaboração de um novo. A compreensão impli-
ca análise do texto e checagem das informações colhidas com aquilo que
já se conhece. A compreensão das idéias do texto deriva de dois métodos
distintos: o analítico e o comparativo.

O método analítico recomenda atenção com as estratégias de coesão


e com os marcadores de tópicos (logo, por isso, por conseguinte, em con-
clusão, em primeiro lugar, em segundo lugar, de um lado, de outro) deve
portanto , o leitor ocupar-se da inter-relação das idéias, sobre como elas
se articulam no texto: por oposição (contraste)?, por semelhança? Por
enumeração? por causa e conseqüência? Segundo o mesmo método, o
resumo deve refletir as idéias do texto original.
Já o método comparativo ocupa sua atenção com a estrutura geral do
texto e com as informações que respondem às expectativas que o texto
criou no leitor.

A ABNT categoriza os resumos em três tipos:

Resumo indicativo - indica apenas os pontos principais de um docu-


mento, não dispensa a leitura integral do texto original. Refere-se apenas
às partes mais importantes do texto.

Exemplo: BAGNO, Marcos. Preconceito Lingüístico: o que é e como se faz. São Paulo:
editora Loyola, 2000. O autor mostra que o preconceito lingüístico está presente
no nosso dia-a-dia principalmente na cultura escolar. Bagno se vale dos mitos que
alimentam o preconceito lingüístico para mostrar que a variação é uma característica
essencial das línguas naturais e finalmente mostrar que o preconceito lingüístico é
mantido pelas relações de poder presentes na sociedade que por sua vez se refletem
na produção da linguagem.

Resumo informativo ou analítico – deve apresentar, de modo mais com-


pleto, o objetivo do texto, o método e as técnicas adotados na pesquisa,
os resultados e as principais conclusões de um documento, portanto pode
dispensar a leitura integral e imediata do original para a identificação do
seu conteúdo temático. Evitam-se comentários pessoais e juízos de valor.
Observe que se você for fazer o resumo de um trabalho científico, certa-
mente você deverá indicar o método e as técnicas utilizadas na pesquisa,
como você pôde observar no exemplo anterior do resumo que segue a
dissertação de mestrado. No entanto, se você for fazer um resumo de um

84
Resumo Aula

artigo, você deverá se concentrar no plano geral da obra. É este modelo


que nós vamos apresentar agora.
8
Vejamos como isso acontece no resumo do excerto do texto a seguir:

MÔNICA, Maria Filomena. O dia em que Cesário Verde morreu.


(excerto). In: LOPES, Rita de Sousa. Para uma leitura de Cesário Verde.
Lisboa: Editora Presença, 2000.
[... ] Em 1886, já tinham sido introduzidas em Lisboa algumas das
inovações que facilitavam a vida urbana: em 1848, tinham aparecido os
primeiros candeeiros a gás e,em 1878, haviam sido instalados, no Chiado,
seis candeeiros elétricos. Não se pense, contudo que esses
melhoramentos se propagaram rapidamente. Grande parte das ruas da
cidade era de terra, malcheirosas e escuras. A muitas das suas vielas e
escadinhas, a civilização não chegara. A 18 de Julho, um grupo de
habitantes de Alfazema pedia insistentemente à Câmara de Lisboa que
mandasse regar as ruas do bairro, pois o vento estava a levantar enormes
ondas de poeira, que invadiam casas e lojas.
Nos bairros antigos, a higiene era deplorável. Com traseiras, pátios e
quintais apinhados de galinhas, coelhos e porcos, as casas estavam
infestadas de parasitas. Apesar de a recente captação do rio Alviela ter
permitido instalar uma rede de distribuição de água e domicílio, o benefício
chegava a poucas casas. Nos mercados, as condições sanitárias eram
péssimas, fazendo com que muito dos gêneros consumidos pela classe
popular estivessem estragados. Os fiscais tentavam pôr cobro a situação,
mas não chegavam para as encomendas. No mercado central, a 17 de
julho, tinham sido inutilizadas, como impróprias para consumo, 81
pescadas, 76 peixes-espadas e 1200 carapaus : era uma gota no oceano.
Com os seus pregões e cheiros, gritos e correrias, a vida nestes bairros
era animada. Até certo ponto, o bairro reproduzia a aldeia originária,
com as suas redes de lealdade e rivalidades. Muita gente nascia e morria
ali, sem ter saído dos seus limites estreitos: era ali que se trabalhava,
namorava e se zangava. Como em todos os universos fechados, as brigas
eram freqüentes, assumindo por vezes um caráter violento. A 18 de
julho, um casal da Mouraria fora atacado, na cama, por uma vizinha que
bandido um garfo os feriu de tal forma que tiveram que ser conduzido
ao Hospital São José. Um pouco acima, Antonio Martins socava
barbaramente a sua amante Maria Engrácia; noutro ponto da cidade,
José Dias da Silva era preso por arremessar a amante, Ana de Jesus, uma
bilha que lhe despedaçou a cara. Certas zonas da cidade, depois do sol
posto, Alfama, a Mouraria ou o Bairro Alto, eram particularmente
perigosas. O policiamento era ineficaz. Só os criminosos mais azarentos,
como o Bexiga, acabavam presos.

85
Produção e Recepção de Texto II

O povo de Lisboa era uma amálgama muito particular. Juntava gente


variada, do operário fabril ao descarregador, da criada ao artesão, do
pequeno funcionário ao caixeiro. Formavam a massa dos “pequenos”,
da “ralé”, da “canalha”, que ganhava o pão com o suor do seu rosto. Se
entre o pequeno legista e o operário havia um mundo de diferenças,
estas tendiam a esbater-se quando os poderosos entravam em cena. Era
contra os da “alta” que os “pequenos” se definiam.
Cidade portuária, a zona ribeirinha era uma das mais activas de Lisboa.
Pelas docas de Alcântara, lhe chegava o carvão que consumia nas suas
fábricas; pela de Santos, as mercadorias coloniais; pela do cais de Sodré,
os melões e o vinho de Almerim, o trigo de Alentejo, as melancias de
Setúbal, o peixe que abastecia a cidade. Fragateiros, varinas e
descarregadores povoavam este cenário luminoso e febril. Todos os dias
atracavam grandes navios transatlânticos, despejando e recolhendo
mercadorias. No sábado, o movimento da alfândega fora, como de
costume, intenso: para o Maranhão, seguira no Bragança, um
carregamento de feijão; para Hamburgo, no Davis,171 fardos de cortiça;
para Liverpool, no Ter, 147 caixas de maçãs, 630 caixas de cebola e 17
caixas de tomates; para Bordeaux, no Mokla, 226 caixas de sardinhas.
De Newcastle, a bordo do Catarino Richard, chegara um grande
carregamento de carvão.
Os contrastes entre ricos e pobres eram enormes. É verdade que os
milionários portugueses eram patéticos quando comparado com os seus
parceiros europeus, mas em face da miséria indígena qualquer ser com
um mínimo de sensibilidade se chocaria. Para muitos, os pobres faziam
parte da ordem do Universo, e a injustiça social de que eram vitimas era
tão natural como o fato de um sobreiro não ter nascido um pinheiro,
como mais tarde escreveria Fernando Pessoa. Os miseráveis eram
objectos que Deus colocara no caminho do rico para que estes pudessem
exercer a caridade, nas festas e nos bazares variados, como o que, na
véspera, tivera lugar no passeio da Estrela, durante o qual as senhoras
da Lapa leiloaram entre si os despojos oferecidos.
Mas não havia caridade que bastasse para este caudal imenso de costureiras
pálidas e tísicas, artesãos desempregados de olhar rebelde, vendedeiras
esmagadas pelo peso da carga, velhas abandonadas que falavam sozinhas,
coxos, cegos e manetas. Nesse verão de 1886, os albergues nocturnos
abarrotavam de gente suja e esfarrapada que, aos milhares, ali ia em busca
de uma sopa e de um exerga. Os jornais transmitem os gritos dos que
viviam aflições: a Assunção da Glória, viúva, moradora na Trav. De S.
João de Deus, apelava ao público para que lhe desse qualquer coisinha,
pois não tinha família que lhe valesse; a Amália Vidal, moradora na Rua
da Mouraria, pedia a uma alma caridosa que lhe pagasse o quarto escuro
donde estava em risco de ser despejada. Havia outros recursos, mas eram

86
Resumo Aula

mais arriscados: nesse dia, o marítimo José Maria fora preso, por ter roubado
dois gozares do mercado da 24 de Julho.
8
Os trabalhadores ganhavam salários irrisórios e estavam sempre a beira
do desemprego. Alimentavam-se, ano após ano, a pão, sopa e batatas,
uma ementa insuficiente que ajuda a explicar as altíssimas taxas de
mortalidade de Lisboa e do Porto. As doenças que mais mortes causavam
eram a tuberculose pulmonar e as pneumonias. Havia quem não
agüentasse esperar: Luisa, criada de servir, atirava-se, na tarde de 18 de
julho, de um terceiro andar na Rua do Oiro para a rua após ter sido
despedida; c cozinheiro Candido da Silva lançava-se ao Tejo.
As condições de trabalho eram atrozes: a duração do dia de trabalho era
longuíssima e a segurança nas oficinas inexistentes. Todos os dias se
verificavam acidentes: fiandeiras que ficavam sem dedos, pedreiros que
caiam de andaimes, videiros que arruinavam os pulmões, mineiros que
ficavam soterrados. A 18 de Julho, quando trabalhava na construção de
uma linha de caminho-de-ferro, Sebastião Pereira, de 30 anos, fora
subitamente esmagado por um penedo que se soltara, enquanto Manoel
de Ó caía de uma tábua durante um descarregamento no cais. Perante
este espetáculo, até os mais acérrimos defensores do liberalismo foram
forçados a vergar. A idéia de que o Estado tinha que intervir para proteger
os mais fracos foi-se espalhando.
O nível cultural da população era baixíssimo: oito em cada dez portugueses
não sabia ler nem escrever, situação que na Europa só encontrava paralelo
nos mais remotos cantos do Império Austro-Hungáro. Apesar da retórica,
o regime não tinha sido capaz de melhorar a instrução do povo.
[ ... ] No meio de todas essas desgraças, os ricos gozavam
imperturbavelmente os frutos da terra. Os contratos com o Estado, as
grandes companhias monopolistas, os “negócios” tinham gerado os
famosos “barões” da Regeneração, os “novos ricos” de quem surdamente
toda a gente sentia inveja. Existia também uma camada de burgueses
com tradições, ricos e cultos, muitos deles estrangeirados [ ... ]. [ Havia
ainda] uma velha aristocracia “ caquética e caturra”, como Eça de Queirós
lhe chamava, ciosa de seus pergaminhos, mas minada nos seus
fundamentos pela abolição dos morgadios. Estes aristocratas levavam
geralmente uma vida recatada, apenas entrecortada por bailes
diplomáticos ou recepções no Paço. Viviam em palácios decreptos,
paredes meias com os pobres que, em momentos de magnanimidade,
gostavam de proteger.
A volta do rei, uma pequena corte de amigos e dependentes partilhavam
rotinas e hábitos. No verão, seguiam para Sintra, Cascais, ou Mafra. A
família real passava essa semana de julho em Sintra. Depois de ter ouvido
a missa dominical na capela real , durante a qual se tocara a polka que o
mestre de musica de Caçadores 2 compusera em honra da recém chegada

87
Produção e Recepção de Texto II

noiva do príncipe herdeiro, decidira partir para Mafra: estavam todos


ansiosos pela caçada planeada para o dia seguinte na Real Tapada, durante
a qual a princesa D. Maria Amélia de Orleans se destacaria, ao matar três
dos nove veados nesse dia abatidos.
O centro de todo este mundo era o S. Carlos. Era aqui que os ricos
faziam os seus casamentos, conspiravam, mostravam as toilettes vindas
de Paris. Alem deste convívio familiar, havia o recém fundado clube, O
Turf, onde os homens iam jogar e discutir política. Mas nesse domingo
de verão, ambos estavam desertos: o S. Carlos fechara as suas portas por
alguns meses e os membros do Turf estavam quase todos fora da capital.
No principio de julho começara a debandada dos ricos: ficar em Lisboa
era o cumulo da ignomínia social. Os mais invejados eram os que partiam
para o estrangeiro. A 18 de julho o movimento dos carros de aluguer era
intenso nas estações de caminho-de-ferro, levando e trazendo os que
chegavam de “Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!”. [ ... ] O
interesse por toda essa movimentação estival era tal que nas Novidades
existia mesmo uma coluna, “Praias e Caldas”, onde se forneciam ao
leitor listas nominais de quem chegava e partia.
Os pequenos burgueses ficavam-se por Linda-a-Pastoroa, Belas ou
Canecas, sítios aprazíveis, de belas quintas muradas e aldeias lavadas,
com bons ares, boa luz, bons alimentos. Quem não alugaria a casa que a
18 de julho o Diário Popular anunciava: “Aluga-se fora as portas, mas
próximas de Arroios, sítio saudável, tem água da Campanhia, excelente
escada, 9 compartimentos muito limpos e espaçosos, incluindo despensa
e quarto para criado, passam-lhe à porta de ½ em ½ hora carro Ripert e
outros. Renda até ao final do ano: 50 000$00” ?
Entalados entre os ricos e os pobres, estes pequeno-burgueses dividiam-
se nos seus hábitos, comportamentos políticos e cultura. Os mais
ambiciosos tentavam imitar o estilo de vida aristocrático, enquanto as
camadas inferiores, que não podiam acalentar tais ambições, se
consumiam num ressentimento social que aumentava com a crise
econômica e com a prolongada marginalização. Em 1886, muitos estavam
já descrentes de que o regime monárquico lhes desse o que pretendiam:
consideração social e participação política. Alguns começaram a aderir
ao movimento republicano que exprimia maravilhosamente o seu ódio
aos privilégios sociais.
Os jornais populares espelham a sua visão do mundo. O contraste entre
a vida dos ricos e dos pobres é celebrado até a exaustão: de um lado a
família burguesa, envolta com sedas e arminhos; do outro, a pobre,
tiritando de frio e fome. Centenas de poemas e folhetins pequeno-
burgueses denunciam a miséria, atacam os ricos e troçam dos padres: é o
grande fresco dos humilhados e ofendidos, a retórica lacrimejante tão
apreciada em reuniões populares. Os títulos destes poemas, “Contrastes”,

88
Resumo Aula

“A Miséria”, “A Prostituta”, “O Desgraçado”, são indicativos do conteúdo.


Cesário Verde faz parte desta tradição: o que distingue é o gênio.
8
A influencia da Igreja na sociedade portuguesa era considerável [ ...].
Nesse domingo de julho, os católicos tinham uma escolha variada: na
Igreja S. José, como em tantas outras, havia a primeira comunhão de
meninos, seguida de missa [ ...]. Na Igreja dos Anjos, realizava-se a novena
ao Coração de Jesus e , nas Chagas, ensino de doutrina, ladainha e benção.
Alguns resistiam heroicamente a estas influências: em tribunal, o
caldeireiro de ferro, Paulo Rodrigues do Amaral, recusara-se na
antevéspera, a prestar juramento sobre os evangelhos, alegando que era
ateu. Por seu lado, a “Associação Anti-Jesuìtica” andava muito atarefada
com o seu projecto de criação de um colégio de meninas que lhes
ministrasse os conhecimentos necessários para as colocar “ao abrigo das
tentações e sedução jesuíticas” [ ... ]
Quem, a 19 de julho de 1886, abrisse, de manhã a janela, perceberia que
o dia iria estar quente. No norte trovejara, mas nos arrabaldes da capital,
entre as ribeiras e os montes, o clima estava ameno. Nos pomares,
cantavam os pintarroxos, nos prados as vacas leiteiras pastavam
pachorrentamente e, entre pedregulhos luzidios, as mulheres saloias
preparavam-se para levar as ultimas peças de roupas que, no dia seguinte,
teriam de entregar nas casas ricas da capital. Famílias aperaltadas para a
missa dominical. O silencio era apenas entrecortado palas chocas da
manada e pelos carros de bois que desciam do outeiro. Foi no meio deste
esplendor que, às 5 h. da manhã, com os pulmões destruídos pela
tuberculose, “sem querer, aflito e atônito”, morreu Joaquim Cesário
Verde. Tinha 31 anos e vira chegar o fim “como um medonho mouro”.

Resumo: MÔNICA, Maria Filomena. O dia em que Cesário Verde


morreu. (excerto). In: LOPES, Rita de Sousa. Para uma leitura de Cesário
Verde. Lisboa : Editora Presença, 2000.

A autora toma como referência o dia da morte de Cesário Verde para


traçar um painel da cidade de Lisboa, quando da implantação das inova-
ções tecnológicas do final do século XIX que muito lentamente vão subs-
tituindo as antigas práticas. Lisboa passa então a ser descrita a partir dos
traços dos grupos sociais que ali habitam e das atividades que realizam,
dos hábitos, costumes e atitudes frente às transformações impostas pelo
capitalismo. Para tanto, a autora descreve a precariedade dos serviços de
saneamento, a falta de higiene, de lei, de condições de sobrevivência e
de caridade que atinge a maioria de miseráveis e estabelece um contraste
com a vida dos ricos que, indiferentes a toda injustiça social, acredita-
vam que a situação fazia parte da ordem natural das coisas e acabavam
gozando dos melhores frutos da terra. A autora aponta a instrução da

89
Produção e Recepção de Texto II

população de Portugal como uma das mais baixas da Europa e sugerindo


a cotradição existente entre os princípios liberais e a instrução do povo.

Resumo crítico – é o que todos conhecem como resenha: é redigido por


especialistas e apresenta a análise crítica acerca do conteúdo de um docu-
mento. No caso de se estar produzindo um resumo crítico referente a uma
edição específica de um livro que foi objeto de várias edições, este deverá
ser denominado de recensão. A resenha é um texto muito solicitado nos
cursos de graduação e por essa razão, aquele que escreve tem , normal-
mente como interlocutor o professor, que naturalmente conhece o livro
que deve ser resenhado pelo aluno.

ATIVIDADES
1. Leia o resumo de Livia Suassuna e procure caracterizá-lo nos seus as-
pectos gerais.

90
Resumo Aula

2. Faça o resumo do artigo O Palavrão: formas de abrandamento, de Antonio


José Sandman, que se encontra na aula 10.
8
CONCLUSÃO

O gênero resumo pode aparecer com características específicas, no caso


do gênero acadêmico (especialmente aqueles que acompanham trabalhos
acadêmico ), mas também pode aparecer sem essas características e ain-
da assim ser resumo. A atividade de resumir textos é essencial para aque-
les que precisam organizar informações diversas e representá-las de modo
coerente com a proposta de sentido do autor do texto. Resumir um texto
é uma forma de representar a compreensão do texto lido.

RESUMO

Resumir é antes de tudo uma atividade de retextualização de um gê-


nero escrito para um novo texto no gênero resumo, preservando o signifi-
cado geral do texto que originou o resumo. Para resumir um texto é neces-
sário compreendê-lo na sua totalidade o que exige do leitor uma análise
do seu vocabulário, da estrutura sintática e do conteúdo semântico e da
hierarquização das idéias. As idéias básicas devem ser apresentadas na
mesma ordem do texto a resumir, atentando para a não reprodução das
características estilísticas do autor do texto.

PRÓXIMA AULA

Você poderá utilizar o resumo, não como gênero , mas como estraté-
gia de organização de uma outro gênero : a resenha, que como quer a
ABNT é um resumo crítico.

REFERENCIAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6028:


resumos: apresentação. Rio de Janeiro. 2003a. São Paulo: Geração Edito-
rial, 2006.
GOMES, Henriette F.; LOSE, Alícia D. Documentos científicos: ori-
entação para elaboração de trabalhos acadêmicos. Salvador: Edições São
Bento, 2007.

91
Produção e Recepção de Texto II

MACHADO, Anna R. M.; LOUSADA, Eliane; ABREU-


TARDELLI, Eliane S. Resumo. São Paulo: Parábola Editorial,
2008.
MELO, J. Roberto D; PAGNAN, C Leopoldo – Prática de textos:
leitura e redação. São Paulo: W3 Editora, 2001.
MEDEIROS, João Bosco. Redação científica. São Paulo: Editora
Atlas, 2008.
SERAFINI, Maria Teresa. Como se faz um trabalho escolar: da
escolha de um tema à composição do texto. Lisboa: Presença, 1986.
______. Como escrever textos. Rio de Janeiro: Globo, 1987.
Aula

RESENHA 9
META
Apresentar a resenha e suas particularidades enquanto gênero textual;
Mostrar procedimentos adequados à elaboração da resenha;
Propor atividades de produção de resumos.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
utilizar alguns procedimentos próprios da produção de resenha na sua
produção de textos.

PRÉ-REQUISITOS
Conhecimento sobre tipos textuais e sequências, domínio de estratégias
de coesão. Conhecimento da norma de referência ABNT.

ABNT.
(Fonte: http://3.bp.blogspot.com).
Produção e Recepção de Texto II

INTRODUÇÃO

A atividade de resenhar ou de apresentar de maneira concisa informa-


ções que possam interessar a um público específico funciona não apenas
para se ter conhecimento de uma obra ou pesquisa científica, mas também
para divulgar evento, uma feira de livros ou um lançamento de um CD. A
resenha é um gênero , assim como o resumo, que circula também no espaço
acadêmico e por essa razão há diferentes modelos de resenha.
A resenha é diferente do resumo, porque sua natureza é mais opi-
nativa. Na resenha, além do resumo da obra, outros elementos constitu-
em a sua estrutura: o juízo valorativo, o comentário e a crítica. O resenhista
deve apresentar as súmulas do conteúdo, mas sobre tudo deve tecer
considerações e críticas sobre o trabalho científico ou artístico em foco.
Deve analisar a estrutura do texto, assim como a importância do traba-
lho, mas não deve fugir da responsabilidade de apontar também os defei-
tos, caso haja.
É sempre bom lembrar que ainda na perspectiva da enunciação, os
interlocutores devem ter claro o objetivo da resenha. Distinguir se a rese-
nha é uma tarefa acadêmica, sujeita a avaliação ou se será veiculada em
jornais ou revistas com fins comerciais. Diferentes propósitos acarretam
diferentes apropriações lingüísticas. Assim, a linguagem acadêmica ten-
derá mais a ser formal, do que uma resenha de um filme destinado a
crianças e adolescentes.

Resenha.
(Fonte: http://1.bp.blogspot.com).

94
Resenha Aula

A RESENHA 9
A resenha acadêmica é definida na norma criada pela Associação
Brasileira de Normas Técnicas NRB 6022 como o mesmo que resumo
crítico. Segundo GOMES, F. G.; LOSE, A. D. (2007, p.75)

Ela é produzida por especialistas e apresenta a análise crítica de um


documento. Desta forma , diferentemente dos demais tipos de resumo,
a resenha permite a exposição de comentários e opiniões, por meio
dos quais são acrescidos juízos de valor ao resumo do texto lido.

A resenha deve conter os dados do autor do texto que está sendo rese-
nhado. Quem é ele, em que área atua, sua formação, sua produção literária,
cientifica ou qualquer outra; as referências teóricas utilizadas pelo autor, a
sua produção e sua prática. Deve conter o resumo do conteúdo do livro ou
artigo, além de informações a respeito do que trata o livro, qual a sua pro-
posta central, qual o referencial teórico – em que conhecimentos científi-
cos, históricos ou estatísticos estão fundamentadas as idéias; a linguagem
utilizada – adequação aos propósitos, clareza, objetividade, como está or-
ganizado: introdução, corpo, conclusão, capítulos ou partes etc.
O plano global de uma resenha acadêmica – prototípica - segundo
MACHADO, Anna R. M.; LOUSADA, Eliane; ABREU-TARDELLI
(2004) encontra-se no quadro abaixo:

Livro resenhado
Autor do livro
Contextualização do livro
Tema do livro
Autor da resenha
Área em que se insere o resenhista
Veículo em que ela foi publicada
Livros citados nas refe-rências
bibliogáficas
avaliação
Referências a outros autores ...

Vamos procurar identificar estes aspectos na resenha a seguir:

Resenha : DANTAS, Francisco J.C. Os desvalidos. São Paulo: Com- Livro resenhado/autor
panhia das Letras, p. 221, 1993. do livro

95
Produção e Recepção de Texto II

Comentários e julgamen- Fica difícil falar de um livro depois que a melhor crítica já se mani-
tos do resenhista
festou a seu respeito.

Informações sobre o Francisco Dantas, que em 1992 já obtivera os maiores elogios ao


autor. publicar Coivara da Memória, reaparece em 1993 com Os desvalidos.
Como professor de literatura da Universidade Federal de Sergipe, sem-
pre demonstrou grande rigor analítico em seus estudos e é esse rigor
que encontramos agora em sua prosa.

Contextualização do li- Os desvalidos, em relação a Coivara, apresenta algumas diferenças


vro/caracterização da
obra, do estilo do autor.
fundamentais, como a frase incisiva, curta, de ritmo cadente, além
de uma precisão a toda prova. Cada palavra está ali como se coloca-
da a dedo. Sem os parágrafos longos e a frase sinuosa do seu primei-
ro romance ( o que não constitui defeito mas exigência dos princípi-
os de verossimilhança), este segundo romance pega o leitor pela
palavra cheia de sugestões sonoras, buscada na fala regional a que o
autor dá um tratamento refinado. A recorrência ao discurso indireto
livre é a forma que ele encontra para não perder o controle sobre a
fala das personagens e não cair no regionalismo fácil. Mesmo que o
leitor desconheça as corruptelas do linguajar do interior sergipano
(linforme/uniforme, librininha/neblininha), é atraído pelos detalhes
sensoriais que tais palavras sugerem. O fundo oral sob a vigilância
implacável do narrador é o grande veio onde Francisco Dantas vai
fundar sua narrativa.
Resumo do livro. O romance começa com um grito: “Lampiãããão morreeeeu!...”.
Coriolano, a personagem central, não acredita que chegou a hora de
se libertar do medo que o tomou há alguns anos. Agora ele pode
voltar para o Aribé a fim de cuidar do seu pedacinho de terra, embo-
ra saiba que ali não brotará nada. O grito estremece “em rebate
pegando a boca do peito” de Coriolano, que fica durante alguns
instantes sem acreditar na morte do “zarolho rei enfuriado”. Quan-
do digere a notícia, percebe que é apenas um fracassado. Não foi
bem Lampião que o tangeu para aquele destino de pária social. Mas
prefere acreditar que agora tudo vai ser diferente em sua vida: “Viva
Deus, que enfim posso outra vez enfrentar o meu destino!”
Daí em diante desenrola-se a epopéia ao inverso dos desvalidos. Além
de Coriolano, lá estão o tio Felipe, Maria Melona, Zerramo e o pró-
prio Lampião. Pouco a pouco, vamos nos dando conta de que desva-
lido é todo um povo abandonado. É toda uma região que parece estar
próxima do fim. Um dos resultados do trabalho com a linguagem nes-
te romance é que a gente lê a história passada há seis décadas como se
fosse hoje. Remoendo o passado ( o que o levou a ficar em Rio-das-

96
Resenha Aula

Paridas ) e o projeto futuro (seu retorno ao Aribé), Coriolano quer ter


a cesso às causas da ruína. Não consegue.
9
O trabalho de Francisco Dantas com a personagem vai pouco a Temática – relação com
pouco apagando o tempo histórico e em seu lugar se insinua o tem- temas das tragédias

po mítico das tragédias, ao colocar problemas que até hoje perma-


necem insolúveis. È a tragédia nordestina que surge em sua
contemporaneidade. Coriolano, neste sentido, tem algo de herói trá-
gico porque inocente do peso que se abate sobre si, incapaz de
compreendê-lo. Várias vezes ele se pergunta por que tanta desgraça.
Começa pelo próprio corpo, o aleijão que carrega desde menino,
depois a erisipela que lhe come a perna, e termina com a derrocada
econômica porque não conseguiu acompanhar a mudança dos tem-
pos. “Por que diabo será que esses caprichos afrontosos e tão decla-
rados não pegam em gente mal-procedida, em bodegueiro safado, e
só prejudicam mesmo quem tem algum
engenho por dom, ou vive a cuidar de sua arte? Negocinho invoca-
do!” O que acontece a ele e aos outros foge ao seu entendimento.
Sempre a procura de algo que justifique o demantelo de sua vida,
ele diz mais adiante: “ Bem que naquela ocasião podia ter ficado,
atendendo ao rogo daquele que o gerara. Mas não! Fora descaridoso
com o próprio pai! E partira sim, para se desobrigar dos encargos de
filho de pobre que o velho aqui lhe reservava.”
A culpa se avoluma cada vez mais porque ele não tem as chaves
para vê-la com clareza. As personagens de Os desvalidos vivem
numa eterna mobilidade, tangidas por um destino que é antes cul-
pa de uma estrutura social que algo inerente ao homem. Todos
gostariam de ter vivido de outra forma. Até lampião tem seu mo-
mento reflexivo e acha que “ a vida só presta mesmo quando a
gente tem Fe de arranjar um lugarzinho decente, de ajeitado sosse-
go, e um lote de finas mercadorias para guarnecer de verdade a
mulher que se quer bem!”. Chega um instante em que o cansaço
do tempo vai se apoderando de todos eles.

E o tempo é o grande personagem deste romance. É ele que agra- Comentários e julga-
va a miséria física e financeira do rebotalhos, transformando-os mentos do resenhista
O resenhista é escritor e
em sobras, sobreviventes de uma região que o Brasil parece ter ex-professor de literatu-
definitivamente esquecido. ra da UFS.
Coriolano lembra as palavras do pai: “o tempo é uma esparrela”. O
fracasso de sua vida ele percebe quando, “tendo chocado sem fazer
filho, e já agora um ovo indez, vitalino de potência encruada”. Você
que não tem tempo para fazer mais nada. Virou “um mamoeiro ma-
cho”, “um pé de pau peco, bichado”. Como alma penada, ele se arras-

97
Produção e Recepção de Texto II

ta pela noite de Rio-das-Paridas sem solução para suas indagações


existenciais. A infelicidade que carrega por não ter mão sobre seu
destino nem também as condições para entendê-la se agrava quando
se encontra com o tio Felipe nos momentos finais do romance. Os
dois juntos são duas desgraças ambulantes. “Chegou com tal indigên-
cia, com a cabeça em algodão tão fofa e variada” que ninguém o
reconheceu. Mais uma das peças pregadas pelo tempo. O tio Felipe,
que fora de posses, está ali diante de Coriolano , mais desgraçado do
que nunca. “Destino, minha gente, ninguém governa!” o leitor sabe
que não é bem assim, mas as personagens não. Daí a dimensão trágica
alcançada por Francisco Dantas ao retomar o tema tão difícil do
cangaço, num momento em que a literatura brasileira se bandeou de
vez para o urbano com personagens vazias de densidade psicológica.
Antonio Carlos Viana – resenha publicada na Revista de Literatura
Brasileira no.12/ano 7/ 1994

Para GOMES e LOSER, “a resenha apresenta dois movimentos bá-


sicos: a descrição ou o resumo da obra e os comentários do produtor da
resenha” (idem, p.23). Para realizá-los, autor e leitor recorrem a estraté-
gias discursivas - enunciativas ou modos enunciativos (narração, descri-
ção, exposição...) conhecidos e partilhados. Enquanto leitor, você deve
identificar estes dois movimentos na resenha que você acabou de ler e
preencher o quadro abaixo:

Trechos descritivos/ Trechos de comentários


resumidores da obra

RELAÇÕES INTERTEXTUAIS.

Além do contexto, a leitura deve considerar que um texto pode ser


produto de relações com outros textos. Essa referência e retomada
constante de textos anteriores recebe o nome de intertextualidade. Os
procedimentos intertextuais mais comuns são: paráfrase, paródia e
estilização.

98
Resenha Aula

ATIVIDADES 9
1. Selecione juntamente com seu professor três resenhas de diferentes
autores e preencha o quadro abaixo. Atenção: procure identificar cada
texto como um número ou letra para não confundir as informações.

Resumo do objeto Opinião/avaliação/apreciação do


ou tema autor do texto sobre o objeto.
Texto 1
Texto 2
Texto 3
Texto 4

2. Leia a resenha de João Bosco Medeiros (op. cit) do livro Desvendando os


segredos do texto de Ingedore G. Villaça.

Ingedore G. Villaça Koch oferece a seu publico leitor mais uma obra
que trata de texto e linguagem: Desvendando os segredos do texto, de
168 páginas, publicado em 2002 pela Editora Cortez, de São Paulo. A
obra é composta de duas partes e 11 capítulos, assim distribuídos:
Concepções de língua, sujeito, texto e sentido; Texto e contexto; Aspectos
sociocognitivos do processamento textual; Os segredos do discurso;
Texto e hipertexto; A referenciação; A progressão referencial; a anáfora
indireta;; A concordância associativa; A progressão textual: os articuladores
textuais. Finalmente, em epílogo, apresenta “Lingüística textual: quo vadis?”
Em Desvendando os segredos do texto, a professora Ingedore baseia-
se em pesquisas recentes que desenvolve no Instituto de Estudos da
Linguagem da Unicamp.

O objeto da professora Ingedore é a reflexão sobre a construção tex-


tual dos sentidos. Ela que sempre se ocupou da Lingüística Textual, exa-
mina, neste livro, as atividades de referenciação, as estratégias de pro-
gressão textual, os processos inferenciais envolvidos no processamento
dos diferentes tipos de anáfora, os recursos de progressão e manutenção
temática, de progressão e continuidade tópica e o funcionamento dos
articuladores textuais. Assim, ocupa-se da articulação entre os dois gran-
des movimentos cognitivo-discursivos de retroação e avanço contínuos
que orientam a construção da trama textual. (...) ´
Você acha que falta algo a esta resenha? Dê-lhe continuidade.
1. Leia a resenha a seguir e procure identificar os sé traços caracterís-
ticos. Em que ela se distingue da resenha científica? Procure mais infor-
mações sobre a resenha jornalística e faça um quadro comparativo de
traços que pertencem a uma e a outra.

99
Produção e Recepção de Texto II

CONCLUSÃO

Como a resenha é produto de uma apreciação, a avaliação da obra


deve conter comentários a respeito da contribuição da obra, a quem ela
se destina, sua utilidade, comparação com outras obras com quem esta-
belece um diálogo e um balanço das contribuições críticas.

RESUMO

A resenha é, além de um relato minucioso das propriedades de um


texto, um trabalho que exige conhecimento sobre o assunto que está sen-
do resenhado. Ela combina resumo e julgamento da obra e tem com prin-
cipal objetivo oferecer informações para que o leitor possa decidir quan-
to a consulta ou não do texto original.

PRÓXIMA AULA

Você terá contato com o gênero artigo científico.

REFERENCIAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6028:


resumos: apresentação. Rio de Janeiro. 2003a.
GOMES, Henriette F.; LOSE, Alícia D. Documentos científicos: ori-
entação para elaboração de trabalhos acadêmicos. Salvador: Edições São
Bento, 2007.
MACHADO, Anna R. M, LOUSADA, Eliane; ABREU-TARDELLI,
Eliane S. Resumo. 7 ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
MACHADO, Anna R. M, LOUSADA, Eliane; ABREU-TARDELLI,
Eliane S. Resenha. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.
MEDEIROS, João Bosco. Redação científica. São Paulo: Editora Atlas,
2008.
SERAFINI, Maria Teresa. Como se faz um trabalho escolar: da esco-
lha de um tema à composição do texto. Lisboa: Presença, 1986.
______. Como escrever textos. Rio de Janeiro: Globo, 1987.
VANOY, Francis. Usos de linguagem: problemas e técnicas na produ-
ção oral e escrita. São Paulo: Martins Fontes, 1985.

100
Aula
ARTIGO CIENTÍFICO
10
META
Apresentar o artigo científico como gênero acadêmico;
Descrever suas principais características.

OBJETIVOS
Ao final desta aula, o aluno deverá:
produzir um artigo científico, valendo-se dos conhecimentos construídos
ao longo do curso e de conhecimentos outros.

PRÉ-REQUISITOS
Compreender e distinguir os diferentes modos textuais.

Universitários.
(Fonte: http://www.arilima.com).
Produção e Recepção de Texto II

INTRODUÇÃO

O artigo científico é um gênero realizado por todos que estão envolvidos


com a produção científica. D’Onofrio (apud Salomon, p.17) distingue o artigo
“como o escrito a ser publicado num periódico, seja ele uma revista, um jornal,
um anuário etc”. Como o próprio nome sugere, o artigo é uma pequena parcela
de um saber maior, cuja finalidade, de modo geral é tornar pública parte de um
trabalho de pesquisa que se está realizando. O artigo pode destinar-se a uma
revista miscelânea que aceita qualquer tipo de assunto, especializada em deter-
minada área de conhecimento ou temática que para cada número, escolhe um
assunto a ser desenvolvido por seus colaboradores. Neste ultimo caso o artigo
é feito sob encomenda daí as características. O ensaio do francês essai, embora
possa ser menor do que o artigo, é um estudo concludente.
O artigo científico trata de problemas científicos, embora de exten-
são relativamente pequena. Apresenta o resultado de estudos e pesquisas
e, em geral, é publicado em revistas, jornais ou outro periódico especi-
alizado ( revistas, boletins, jornais científicos, etc. cuja publicação é peri-
ódica) nas quais há exigência quanto ao limite de páginas. Este gênero
permite que as experiências desenvolvidas nas academias sejam divulgadas
como também repetidas. Servem de referência a outros estudos e são
parâmetros dos temas que estão sendo estudados e da forma como os
estudos estão sendo realizados.
Embora suas dimensões sejam reduzidas o texto do artigo científico
deve respeitar os padrões da comunicação científica.
Conforme a norma NBR 6022 da ABNT, os artigos constituem parte
de uma publicação e podem ser divididos em três tipos:
a) científico: texto “[...] com autoria declarada, que apresenta e discute
idéias, métodos, técnicas, processos e resultados nas diversas áreas do
conhecimento.” (Associação..., 2003, p. 2);
b) de revisão: texto que “[...] resume, analisa e discute informações já
publicadas.” (Associação..., 2003, p. 2). è a apresentação e a análise de
documentos sobre o mesmo tema , acompanhado das conclusões a que o
autor do artigo chegou;
c) original: texto “[...] que apresenta temas ou abordagens originais.” (As-
sociação..., 2003, p. 2).
Estruturalmente o artigo é composto de : título e subtítulo (se hou-
ver) do trabalho, nome do(s) autor (es), credenciais do autor, local das
atividades; sinopse (resumo em português e em uma língua estrangeira –
o inglês é o mais utilizado). Estes são comumente chamados de elemen-
tos pré-textuais.
Os elementos textuais representam o artigo propriamente dito ou
seja, é corpo do artigo: introdução, desenvolvimento e conclusão. Além
dos já citados somam-se aos elementos pré-textuais as referências biblio-

102
Artigo científico Aula

gráficas, como notas de rodapé ou de final de capítulo, bibliografia, que é


a lista dos livros consultados ou relativos ao assunto, apêndice, anexos,
10
se existirem, agradecimentos, data.
Quanto ao conteúdo, os artigos científicos apresentam em geral abor-
dagens atuais; às vezes, temas novos. Devem versar sobre um estudo
pessoal, uma descoberta. O conteúdo de um artigo científico pode ser
muito variado, como, por exemplo, discorrer sobre um estudo pessoal,
oferecer soluções para posições controvertidas.
Algumas revistas recomendam o uso de um plano para que não se
repitam idéias, nem se deixe nada de importante de lado. A sua redação
quase sempre leva em conta o público a que se destina.
Vamos tomar como modelo o artigo O Palavrão: formas de
abrandamento de Antonio José Sandmann, publicado em 1992 pela re-
vista Letras –UFPR.

Artigo científico publicado em Letras, Curitiba, n. 41, p. 221-226, 1992- Título do artigo/
93. Editora da UFPR nome do auto/revista
onde foi publicado
O palavrão: formas de abrandamento de Antonio José Sandmann

INTRODUÇÃO
Segundo o Dicionário Aurélio, palavrão é a “palavra obscena ou O autor introduz o
tema de reflexão, situ-
grosseira”, podendo também ser a “palavra grande e difícil de pronun- ando e distinguindo os
ciar”. No presente trabalho interessa-nos, naturalmente o terceiro sen- sentidos que o termo
tido, o lexicalizado ou idiomatizado, isto é, aquele em que o sufixo – apresenta em diferen-
tes dicionários.
ão não empresta a palavra idéia de aumento, mais de impropriedade ou
inoportunidade, de ofensividade aos sentimentos do nosso interlocutor
ou de nós mesmos. Na conceituação acima do Aurélio o adjetivo obs-
ceno refere-se ao que é ofensivo ao sentimento de pudor, com desta-
que ao que se refere irreverentemente a sexo e atos fisiológicos da
defecação e micção e partes do corpo ligadas àqueles conceitos, sendo
que o adjetivo grosseiro significa mais propriamente o que incivil,
impolido, mal-educado. Exemplos de palavras obscenas teríamos em
cornudo, cagão, mijão , e de palavras grosseiras em cretino, vagabundo,
caduco, lazarento!
Como se pode concluir facilmente, o palavrão se inclui num cam- Como é visto o tabu
lingüístico pela lin-
po mais amplo da lingüística , a saber , o do tabu lingüístico, tema güística – referencia a
frequentemente abordado em lingüística com destaque, aqui, a Lyons diferentes autores que
(423s), Ullmann (425-35) e Mansur Guérios. Dizemos que o campo pesquisaram sobre o
tema.
do tabu lingüístico é um campo mais amplo, porque ele compreende
expressões ou fatos que não são palavrões. Assim, por exemplo, temos
tabus médicos: por delicadeza o médico usa eufemismos como m.h.

103
Produção e Recepção de Texto II

por mal de Hansen ou lepra, c.a. de mama por câncer de mama, sendo que os
próprios termos hanseníase e hansenisiano podem ser vistos como eufe-
mismos. Não se há de dizer que mal de Hansen, lepra, leproso são pala-
vrões, sendo que leproso pode sê-lo num xingamento: (seu) leproso!
Comparando tabu com palavrão, diríamos que palavrão é mais a pala-
vra ou expressão usada em xingamentos, contra as pessoas que nos
importunam ou em vista de fatos desagradáveis, sendo que tabu
lingüístico é toda expressão tida como desagradável, porque ofensiva
aos bons costumes e boas maneiras ou porque lembra fatos ou situa-
ções desagradáveis: idade mais avançada.
O significado das for- Quando uma palavra é tabu (morrer, velho) ela pode ser substituída
mas de abrandamento por um eufemismo ou palavra abrandadora (falecer, velhinho) ou, em situ-
e como elas aparecem.
ação inversa, por expressão de deboche, o disfemismo: estrebuchar,
caduco. No caso do palavrão, ele já é expressão de deboche ou desapreço,
sendo muito comum haver formas de abrandamento. Essas formas de
abrandamento, além de aspectos socioculturais, serão enfocadas
precipuamente no presente trabalho.

ASPECTOS SOCIOCULTURAIS
Descrição de como o É interessante observar que os palavrões fazem parte de determina-
palavrão aparece na
língua: formas e rela- dos campos semânticos, em outros termos, seus referentes são objetos,
ções semânticas. entidades de campos específicos do nosso universo biofisicossocial. Im-
portante é, porém, observar que nossa atitude ou relação não é emocional-
mente neutra. Impera um sentimento de sagrado – no caso da religião – ou
de proibido – caso mais freqüente – ou ainda um sentimento qualquer de
desagrado.
Como facilmente sugerem os aspectos acima destacados, deve ser pos-
sível entrever diferenças culturais entre comunidades lingüísticas no que
diz respeito ao uso do palavrão. Não fiz um estudo voltado para essas
diferenças étinico-culturais, mas a observação baseada em minha experiên-
cia de vida me permite afirmar que o alemão xinga muito com palavrões
ligados à falta de higiene ou sujeira: Schwein “porco”, Sal “porca”, Scheisse
“merda”, sendo que falante nativo de alemão me testemunhou que
xingamento forte é chamar alguém de grosses Dreckschwein “ grande porco
sujo”.
No italiano chamam atenção palavrões ligados à religião: porco Dio,
porca Madonna, abrandados, muitas vezes, como veremos na seção se-
guinte, para porco sio e porca madoi. Já no português parecem ganhar des-
taque xingamentos ligados à sexualidade, especialmente os que se cha-
mam os desvios morais da sexualidade: filho da puta, veado e galinha.
Queremos deixar claro, porém, que não fizemos estudo mais dedicado

104
Artigo científico Aula

com o objetivo de levantar estatisticamente diferenças ético-culturais,


o que não deixa de ser um desafio interessante, pois nos permitiria obter
10
possíveis contrastes entre comunidades lingüísticas e culturalmente bas-
tantes diversas, p.ex., o japonês, o coreano, o chinês, os indígenas, os
nativos africanos, europeus do Norte e do Sul.
Focalizando apenas o palavrão tal qual ele é corrente entre nós, podemos
apontar alguns campos semânticos nos quais ele se nutre com destaque. Refe-
rindo-se ao homem, ser humanos do sexo masculino, ganham acento os pala-
vrões que enfocam a sexualidade passiva (bicha, veado) e o ser vítima da infide-
lidade (corno, chifrudo), enquanto a mulher é estigmatizada mais pela prostitui-
ção (puta, galinha, fêmea), sendo de destacar o aspecto cultural de que se
fêmea é negativo para mulher, macho e machão não são para o homem.
Outros campos que se destacam como fontes de palavrões: a religião
( desgraçado, diabo); a idade mais baixa (fedelho, frango) ou mais avançada
(coroa, velharia, caduco); a falta de higiene (porco); a defecção e a micção
(cagão, mijão); a atribuição dos nomes das partes do corpo animal às partes
análogas do ser humano (pata, juba, crina, focinho), bem como dos no-
mes dos animais ao homem (cavalo, porco, elefante). Fatos históricos tam-
bém podem dar origem a palavras de xingamento: judeu, nazista, fascista e
até comunista, merecendo destaque que pode haver preconceito.
Parece-me importante também chamar a atenção para o fato de ha-
ver grau de agressividade e rejeição no palavrão. Assim há um indubitável
crescimento em: Fica brabo, danado, puto, ou Seu medroso, mijão, cagão!
Merece, finalmente, finalmente destaque o uso de sufixos que se
prestam à expressão da pejoratividade: -óide ( fascistòide, comunistóide,
ideologóide); -ão (resmungão, pidão, do popular pidir); -ento (molambento,
caspento) etc. A propósito importa realçar que a idéia negativa que o
sufixo empresta à palavra muitas vezes vem se somar a negatividade da
base ( fascistóide), outras vezes é mais do sufixo (ideologóide), não se de-
vendo esquecer que a negatividade atribuída à base pode ser questão de
atitude pessoal ou até de preconceito (comunistóide).

FORMAS DE ABRANDAMENTO

Mansur Guérios (11), referindo-se às formas de abrandamento do Descrição das formas


de abrandamento e
tabu lingüístico, diz: “O recurso empregado são meios indiretos e meios dos seus sibnificados
diretos dissimulados, isto é, substitutos que valem de qualquer modo o – O palavrão analisa-
ser sagrado-proibido”. Desses meios de dissimulação poderíamos afir- do do ponto de vista
pragmático.
mar que elas são formas de “dizer, não dizendo” ou de “dizer, dizendo”,
eis que, na verdade, o que falante diz de forma velada, mas diz. Quando
o personagem de Dalton Trevissan, em “A Polaquinha” (p. 63, Rio de
Janeiro: Record, 7 .ed.), diz desgracido ou invés de desgraçado, há apenas

105
Produção e Recepção de Texto II

um abrandamento de expressão de fundo religioso que diz alguém está


condenado, sem a graça de Deus.
Damos, a segui, destaque às principais formas de abrandamento com
que deparamos em nossa constante pesquisa lexical, que inclui, sem dúvida,
as formas de velar o que é proibido e rejeitado, por ser obsceno ou por sua
agressividade, formas de abrandamento comumente chamadas eufemismos:

ABREVIAÇÃO

Como formas de abreviação destacam-se a soletração dos fonemas


iniciais: (estar na) eme, pqp (Folha, 29.12, 90, p. a – 2: “Com tanta sigla, não
espanta que a mais usada nas ruas seja uma tal de PQP.”), (estar) pê (da
vida), cê – dê, cê – dê- efe, bê- unda; o uso apenas das sílabas iniciais: sifo, mifo,
paca ou praca (Folha, de 1.10.87, p.A- 50: “Cometo erros praca.”), aspone,
asmene, pô; abreviações diversas: demo, Vá tomá...!, ô seu...!

MODIFICAÇÕES DE FONEMA(S)

Substitui-se fonema, às vezes mais de um, do palavrão: (sempre a)


lesma lerda, poxa, puxa, diacho, desgracido, desgramado, desgramido, do italiano
porco sio por porco Dio, sio can por Dio can.

SUBSTITUIÇÃO DE PALAVRAS

Essas substituições de palavra de frase ou sintagma podem ser de


caráter geral ou não-específico : filho da mãe, estudou pra caralho (da Folha,
5.11.88, E-10: “Fizeram um escândalo do caralho com a NBC”). dar com
os respectivos na trave, vá tomar banho! As substituições de palavras põem ser
de caráter mais específico, envolvendo a pronominalização: mandar para
aquele lugar, tomar naquele lugar, só pensa naquilo, ou a troca por palavra-
ônibis como coisa (Tribuna do Paraná, de 19.07.88, p. 1: “Castrado a denta-
das. Antenor Cordeiro perdeu um pedaço da ‘coisa’ ao brigar com três”).

PARÁFRASE E CIRCUNLÓQUIO

A paráfrase é a expressão de sininímia mais presa à expressão a ser


evitada do que a do circunlóquio. Exemplos de paráfrases: as partes de
baixo, as partes pudendas, fazer o mal a. Exemplos de circunlóquios: tirar
água do joelho, botar o ovo matinal.

106
Artigo científico Aula

ASPECTOS PRAGMÁTICOS 10
No final da seção 2 foi chamada atenção para o fato de nem todos os
palavrões despertarem o mesmo grau de rejeição ou conterem o mesmo grau de
agressividade. Aqui alertamos para o fato de as pessoas não reagirem da mesma
forma ao palavrão e de fazerem uso dele em graus diversos de freqüência,
sendo de destacar diferenças entre os sexos, entre as idades e níveis sociais, p.
ex. Relativamente à idade posso reportar que nos elevadores da Faculdade
tenho ouvido grupos de jovens, formados por pessoas de ambos os sexos, usa-
rem sem cerimônia de palavras ou expressões como fodeu-se, puta merda, porra,
testemunho de mudança de gerações como do relacionamento entre sexos. Um
jovem dizia a sua companheira: “Dá um tempo ne, bem! Puta que pariu!”.
Testemunho de diferenças sociais teríamos no exemplo seguinte, em que uma
servente dizia “as outras faz as cagadas dela, depois fica se batendo”.
O que temos presenciado com freqüência é o que chamaríamos de “jogo-
de-faz-conta”, isto é o palavrão é dito mas não é pra valer, como no seguinte
fato em que um jovem gritou para outro, do noutro lado da rua: “Ô baixinho
filho da puta”, atravessaram a rua e se abraçaram. Aliás, não é raro assistir a
esse jogo de cena em que jovens do sexo masculino se estapeiam, escoiceiam,
e trocam “amabilidades” lingüísticas, chagando às vazes até a procurarem
atingir os órgãos genitais ou lá “onde-as-costas-mudam-de-nome”.

CONCLUSÃO

Independentemente de aspectos de envolvimento ético ou do que diz


respeito às boas maneiras e à civilidade, o palavrão e o campo maior do
tabu lingüístico pelo qual ele é abrangido são causa interessante de cria-
ção lingüística, de recursos responsáveis por todo um jogo de encobrir, de
fazer de conta, de “não dizer dizendo” ou de “dize, não dizendo”. Con-
clusões sobre diferenças culturais e sociais não são difíceis de tirar, sen-
do que corolários sobre diferenças ético-culturais no uso do palavrão exi-
giriam pesquisa baseada em corpus mais amplo e mais especifico.

RESUMO

Abordam-se aqui aspectos lingüísticos e socioculturais do palavrão em seu signi-


ficado de “palavra obscena ou grosseira” (V. Aurélio). Sob o enfoque lingüístico,
ganham destaque as várias formas de abrandamento, os eufemismos.

107
Produção e Recepção de Texto II

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1986 (referido no texto como Aurélio).
LIONS. Introduction to Theoretical Linguistics. Cambridge: University
Press, 1968.
MANSUR GUERIOS, R. F. Tabus lingüísticos. São Paulo: Campanhia
Editora Nacional,1979.
ULLMANN, S. Semântica: uma introdução a ciência do significado.
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1964).

ATIVIDADES

1. Leia os dois textos a seguir e observe o diálogo que o autor estabele-


ce entre eles. Quais justificativas você daria para afirmar que os dois
textos são artigos científicos ?
2. Elabore, com a orientação do seu professor, um pequeno projeto de
artigo científico baseando-se nos modelos que você acabou de ler. Se
quiser, você pode ampliar seu repertório pesquisando.

BRASIL VIA PARIS – I

Luciano Oliveira
Professor da UFPE
E-mail: jlgo@hotlink.com.br

Há vinte anos vivi a aventura do exílio! Um “exílio” com aspas, bancado


por uma bolsa de estudos para fazer um doutorado na França. De lá
voltei com o olhar antropológico que ainda hoje uso para observar
meu país. Não há nenhum mérito nisso, pois todo viajante é um
antropólogo natural. Ao cairmos em ambiente estranho, somos levados
a observar coisas com que não estamos acostumados. Hábitos,
costumes e gestos, que passam despercebidos da população local,
chamam nossa atenção. Um exemplo bem simples. O francês levando
para casa o pão debaixo do braço (a famosa baguette), mesmo não sendo
tão generalizado quanto dá a entender certa imagem caricatural, existe.
Eles não estranham isso % como não estranham assoar o nariz com
barulho, guardando a trouxa do lenço amassado dentro do bolso... E
nós % nós que cuspimos na rua como a coisa mais natural do mundo
% achamos tudo isso um nojo!
Tais são os momentos do olhar antropológico. No primeiro, estranhamos

108
Artigo científico Aula

práticas com que não estamos habituados: a baguette no sovaco, o assoar


escandaloso etc. Em seguida, e mais importante para o nosso
10
enriquecimento pessoal, começamos a estranhar também certas práticas
com que estávamos habituados na cultura de onde viemos. No caso,
cuspir na rua. Mas também jogar na rua toda espécie de porcaria:
guardanapo usado, embalagem de bombom, garrafa plástica etc. É o
que se chama de estranhamento do familiar. Método por excelência dos
antropólogos profissionais, surge espontaneamente no antropólogo
amador, categoria da qual faz parte todo aquele que sai da sua terra e
passa a olhá-la através do viés de um olhar “estrangeiro”.
Foi o que aconteceu comigo. Mas isso não quer dizer que estou
ingenuamente elegendo a França como espelho de virtudes no qual espero
ver o Brasil um dia mirar-se. Cada país tem sua história e nada mais estranho
aos meus propósitos do que um complexo de inferioridade desse tipo. Por
outro lado, não deixa de ser verdade que o fato de ter vivido num país
democrático e moderno caiu bem aos meus propósitos críticos em relação
à sociedade brasileira % a qual, sob vários aspectos, não hesito em
considerar uma sociedade escravagista ainda hoje. Esse julgamento, pelo
menos nesses termos, não o tinha antes dessa experiência, e não há como
negar que a convivência com formas e hábitos de vida mais igualitários
ajudou-me a desenvolvê-la. Um desses hábitos foi o famoso bricolage.
Aportuguesado para “bricolagem”, segundo o Houaiss quer dizer trabalhos
manuais feitos “como distração ou por economia”. Como sempre, o
dicionário não diz tudo. Bricoler, na França, é mais do que executar
pequenos trabalhos: é o hábito que têm todas as pessoas % pelo menos
aquelas situadas ao nível das classes médias % de fazê-lo. Sua presença
assinala a ausência, na França, do horror que as classes médias brasileiras,
de um modo geral, têm pelo trabalho manual. Lavar o carro, ainda vai.
Mas consertar pia, renovar a pintura do quarto, fazer trabalhos de
marcenaria, não! E o que dizer de juntar parentes e amigos nos fins de
semana para renovar uma casa velha? Impensável!
Pois essa é uma prática um tanto comum na pequena classe média francesa:
adquirir a preço baixo uma casa velha e, aos poucos, ir reconstruindo-a
com a ajuda de amigos e parentes. Mesmo quando não se trata de refazer
toda a casa, eles sempre encontram alguma coisa para reparar. Por exemplo,
o papel de parede, que têm a mania de mudar mesmo quando o apartamento
onde vão morar é alugado. Organizam um fim de semana para a sala,
outro para a cozinha e assim por diante. Para isso, são convocados parentes
e amigos, aos quais, depois, a ajuda será retribuída da mesma forma.
Ora, direis: mas isso é mutirão, que também temos no Brasil! Concordo,
mas acrescento: entre nós, mutirão é coisa de pobre, que convoca a
vizinhança para levantar uma laje na favela, acrescentar uma “puxada”
na casa de conjunto da periferia etc. Com isso chego ao ponto que

109
Produção e Recepção de Texto II

gostaria de tocar: a classe média francesa tem hábitos que, no Brasil, são
usos e costumes de pobre. O que, inversamente, equivale a dizer que a
classe média brasileira tem, em termos de conforto material, um nível de
vida em muitos aspectos superior ao de um francês de sua mesma classe!...
Voltarei ao assunto.

TEXTO 2

BRASIL VIA PARIS – III

Luciano Oliveira
Professor da UFPE
E-mail: jlgo@hotlink.com.br

No artigo anterior mencionei o contingente de profissionais de baixa


qualificação que trabalham nos edifícios onde moramos e, de caso
pensado, não mencionei as empregadas domésticas. Não porque não
sejam importantes; ao contrário, porque são demais! Ah… as nossas
empregadas domésticas! Haverá coisa mais brasileira do que isso? Na
minha vida e na vida de todos os meus amigos elas sempre fizeram
parte da paisagem da casa % como os pais, o quarto e a geladeira com
o clássico pingüim, hoje desaparecido. Assim, reservei um artigo só
para esse assunto.
Na verdade estou convencido de que falta na ensaística nacional uma
grande obra sobre essas criaturas % a qual, numa atualização de Casa-
Grande & Senzala de Gilberto Freyre, bem poderia chamar-se Suíte e
Quarto de Empregada. Ainda aqui o estranhamento do familiar mostra-
se fecundo. A primeira vez que ouvi alguém “estranhar” esse fenômeno
foi numa conversa já antiga com o professor Afonso Nascimento, da
Universidade Federal de Sergipe, velho amigo que tinha passado algum
tempo estudando na França e estava de volta ao Brasil. Estávamos
nós dois % velhos esquerdistas do tempo da faculdade % trocando
impressões sobre a vida quando ele, a propósito dos nossos amigos
revolucionários, observou: “Todos têm um discurso de esquerda, mas
estão com a casa cheia de empregadas”. No ato não entendi o que
tinha a ver uma coisa com a outra, e não dei seqüência ao assunto. Só
muito depois, já estando eu mesmo na Europa, foi que comecei a
perceber todas as implicações do que ele havia dito: o Brasil é, ainda
hoje, uma sociedade escravocrata, e o nosso contingente de empregadas
é a melhor prova disso. Muitas vezes pensei nisso enquanto fazia eu
mesmo a dura faxina do apartamento onde morava % sem nenhuma

110
Artigo científico Aula

Zefinha para chamar!


Todos nós conhecemos a dura vida dessas criaturas: baixos salários,
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horários escorchantes, direitos trabalhistas não respeitados etc. O fato
de que a empregada é sempre uma pessoa paupérrima circulando num
ambiente de relativa abundância (comida na geladeira, dinheiro nas
gavetas, jóias nos armários), faz nascer um inevitável % e, é claro, às
vezes fundado % sentimento de suspeita por parte das patroas. É essa
a feição mais anacrônica do trabalho doméstico: não se trata de uma
relação de trabalho como as outras, onde, mesmo se a exploração
econômica existe, o empregado, uma vez findo o expediente, é um
cidadão como os demais, dono do seu tempo e da sua vida como um
ser soberano. As empregadas, além de muitas vezes não terem o seu
tempo livre claramente delimitado, têm também muitas vezes de prestar
contas à patroa das suas horas de folga: o que faz, com quem anda,
com quem está namorando. Ou seja: ela nunca é uma pessoa
inteiramente adulta. Mesmo quando a sua empregadora é aquilo que o
jargão do oficio chama de uma “boa patroa”, trata-se de uma situação
próxima da servidão, análoga à situação do escravo que tinha a sorte
de cair na mão de um “bom senhor”.
Trata-se de uma situação existencial de permanente dilaceramento,
pois mesmo se a patroa a trata bem, a doméstica vive numa casa que
não é a sua, dorme num quarto que não é o seu, convive com uma
família da qual não faz parte e toma conta de filhos que não são seus
% quando é das que não dormem no emprego, muitas vezes deixando
os próprios filhos em casa, sob os cuidados de uma irmã mais velha...
Transcrevo aqui o depoimento de uma doméstica que se casou com
um americano e foi embora para os Estados Unidos, e que depois
escreveu à revista NOVA relatando sua experiência: “Comecei a
trabalhar com 8 anos e nunca pensei que o pesadelo ia terminar. No
meu quartinho cheio de detergentes, vassouras etc., eu sonhava em ter
um dia um trabalho decente e, ao terminá-lo, poder ir para a minha
casa, fazer o jantar do meu preto, e domingo poder ir ao cinema ou a
uma praia, sem precisar sentir vergonha de minha profissão. Poxa, gente,
isso aconteceu e está acontecendo! Hoje sou faxineira nas horas vagas,
estudo e cuido de meu gringo. Deixei de ser o bode expiatório, a hóspede
incômoda e necessária. Sou uma mulher que trabalha para ter um
dinheirinho a mais. Não tenho mais o grito do samba, o batuque e a
glória da avenida, mas também não tenho mais a madame”.
E se assina Regina Martins Pippins. Mais sorte do que ela, só Mary
Poppins, que já nasceu fada..

111
Produção e Recepção de Texto II

CONCLUSÃO

O artigo científico tem um papel muito importante na divulgação de


conhecimentos que estão sendo elaborados ou repensados. Através do
artigo científico conhecemos os temas que estão sendo discutidos, as te-
orias e pesquisadores que estão sendo lidos e discutidos, os métodos que
estão sendo utilizados e até acompanhar como determinadas pesquisas
vem se desenvolvendo.

RESUMO

O artigo científico é um gênero bastante solicitado nas atividades


científicas pois é um gênero que tanto organiza as informações sobre pes-
quisas em andamento como divulga estas informações nos ambientes e
encontros de cientistas.Servem de referência a outros estudos e são
parâmetros dos temas que estão sendo estudados e da forma como os
estudos estão sendo realizados.

REFERENCIAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6022:


informação e documentação: artigo em publicação periódica científica
impressa: apresentação. Rio de Janeiro. 2003.
GOMES, Henriette F.; LOSE, Alícia D. Documentos científicos: ori-
entação para elaboração de trabalhos acadêmicos. Salvador: Edições São
Bento, 2007.
MEDEIROS, João Bosco. Redação científica. São Paulo: Editora Atlas,
2008.
SALOMON, Décio Vieira. Como fazer uma monografia: elementos de
metodologia do trabalho científico. 2 ed. Belo Horizonte: Interlivros, 1977.

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