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ÍNDICE
Pg.
Apresentação

1. O ESPAÇO URBANO ARAÇATUBENSE....................................................................17


1. 1 Araçatuba: uma formação à beira da linha.................................................................17
1. 2 Atores e fases de expansão da malha urbana de Araçatuba........................................25
1.2.1 Atuação dos promotores imobiliários..................................................................25
1.2.2 O Estado e a implantação dos conjuntos
habitacionais nas áreas periféricas.........................................................................32
1.2.2.1 COHABs para a periferia...............................................................................34
1. 3 Em suma.....................................................................................................................41

2. O MUNDO CABE NUM BAIRRO.................................................................................47


2.1 Movimentação populacional nos idos de 1950...........................................................49
2.2 Ao sul, nasce um bairro...............................................................................................53
2.3 O bairro globalizado....................................................................................................58
2.3.1 O bairro e o mundo contemporâneo...................................................................59
2.3.2 O mundo do trabalho na perspectiva geográfica................................................64
2.3.3 O mundo do trabalho na perspectiva do bairro..................................................68
2.3.4 Os dois circuitos da economia no/do bairro......................................................77
2.3.5 Indícios da presença estatal no Alvorada..........................................................89
2.4 Terminando para recomeçar........................................................................................96

3. REVISITANDO A DIALÉTICA SOCIOESPACIAL...................................................99


3.1 Preâmbulos à dialética do concreto: a complexidade do processo............................101
3.1.1 Quando o cotidiano entra em cena......................................................................106
3.2 Prolegómenos a uma geografia do bairro.................................................................111
3.2.1 Acertos e desacertos do processo.................................................................118
3.3 O caráter reivindicatório...........................................................................................130
3.3.1 As principais reivindicações segundo os moradores do Alvorada...............134
3.4 bairro é o território...................................................................................................138

4. O PROCESSO TERRITÓRIO-BAIRRO.....................................................................139
4.1 O bairro é o território.................................................................................................140
4.2 A unidade do Movimento Socioterritorial.................................................................147
4.3 O significado do bairro e suas múltiplas escalas.......................................................153
4.3.1 O indivíduo é o território...............................................................................158
4.4 O território dividido....................................................................................................161

5. À GUISA DE CONCLUSÃO.........................................................................................166

6. BIBLIOGRAFIA.............................................................................................................173
Lista de Quadros, Mapas, Tabelas, Gráficos e Fotos

Quadros

Quadro 01 - Evolução da população urbana de Araçatuba...........................................23


Quadro 02 - Produção da Cohab-Chris em Araçatuba – até 1997................................36
Quadro 03 - Evolução da população de Araçatuba.......................................................51

Mapas

Mapa 01 - Evolução da malha urbana de Araçatuba....................................................28


Mapa 02 - Áreas de atuação das empresas loteadoras de 1940-1960...........................29
Mapa 03 - Distribuição dos conjuntos Habitacionais
Populares em Araçatuba até 1999..............................................................35
Mapa 04 - Ocupações irregulares no bairro Alvorada..................................................75
Mapa 05 - Localização dos estabelecimentos comerciais
e de serviços no bairro Alvorada...............................................................81

Tabelas

Tabela 01 - Situação da ocupação, tipo de construção,


infra-estrutura básica e bens que possuem.....................................................70
Tabela 02 - Variáveis relacionadas à obtenção da renda familiar.................................73
Tabela 03 - Local onde os moradores realizam suas compras......................................86
Tabela 04 - Percentual dos entrevistados que declararam
utilizarem serviços e auxilio social providos pelo estado...........................90

Gráfico

Gráfico 01 - Tempo de moradia por percentual de entrevistados.................................71


Gráfico 02 - Renda por família em salário mínimo......................................................74
Gráfico 03 - Opinião dos moradores a respeito da atuação
dos políticos da cidade..............................................................................114
Gráfico 04 - Foco de recorrência de possíveis reclamações.......................................137
Fotos

Foto 01 –Vista da ocupação irregular ao longo do córrego Alvoradinha......................71


Foto 02 – Rua Alvorada, onde se concentram estabelecimentos
comerciais e de serviços................................................................................83
Foto 03 – Vista da fachada da sede da associação dos
moradores do Alvorada..............................................................................121
Foto 04 – Vista parcial da “Vila Feliz”.......................................................................126
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

1. O ESPAÇO URBANO ARAÇATUBENSE

Neste primeiro capítulo, organizamos um conjunto de informações e dados referentes


ao processo histórico de estruturação da cidade de Araçatuba. Ao ordenar um quadro
instrumental que nos permita compreender melhor como se dá a estruturação do espaço
urbano araçatubense, condicionado por múltiplos determinantes históricos, trataremos de
algumas características da ocupação e uso do solo urbano.

Ao sintetizar diferentes processos e a atuação dos diversos agentes de ação pública e


privada, buscamos esboçar um quadro urbano no qual, o bairro Alvorada, surge como
resultante de um intrincado jogo de processos específicos de um período no qual
determinantes de múltiplas escalas são convergentes.

1. 1 Araçatuba: uma formação à beira da linha

A cidade de Araçatuba1, assim como a maior parte das cidades que formam o que hoje
chamamos Oeste Paulista2, teve sua origem relacionada com a expansão da cafeicultura no
início do século XX. Em 1908, foi inaugurada a estação ferroviária de Araçatuba, da Estrada
de Ferro Noroeste do Brasil. No início, um pequeno vagão era utilizado pena CEFNOB
(Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil) como estação.

A expansão do capitalismo baseado em redefinições na divisão social do trabalho


propiciou o desenvolvimento de um “complexo cafeeiro”3, que ensejou um conjunto de
elementos que atuaram no sentido de reforçar a urbanização do Oeste Paulista, permitindo o
crescimento populacional e a formação de uma rede urbana. Dos elementos4 que constituem
o chamado “complexo cafeeiro”, destacamos, neste trabalho, a implantação das ferrovias.

1
A cidade é sede da 9ª Região Administrativa do Estado de São Paulo. Localiza-se pelas coordenadas: 21°12’ de
latitude sul e 50°26’ de longitude oeste. O município de Araçatuba foi desmembrado do município de Penápolis
em 1921, conforme atesta a Lei 1812 de 08-12-1921.
2
O denominado Oeste Paulista é constituído pelas regiões de Araçatuba, Marília, Presidente Prudente e São José
do Rio Preto. A região de Araçatuba é, tradicionalmente, mencionada como noroeste por causa da sua
associação com a ferrovia Noroeste do Brasil.
3
A respeito do desenvolvimento do “complexo cafeeiro”, ver Silva (1976), Mamigonian (1976) e Cano (1981).
4
Dentre esses elementos, destacam-se: o estímulo à imigração estrangeira, a constituição de um mercado interno,
a implantação de uma rede de ferrovias e de um sistema financeiro.

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Ghirardello (2002), ao estudar a constituição das cidades que foram sendo formadas ao
longo da CEFNOB (Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil), a partir de 1905,
quando esta ferrovia começa a ser construída a partir da cidade de Bauru, denominou-as de
formações à beira da linha. Esta denominação busca ressaltar o importante papel da ferrovia
na constituição do traçado urbano e expansão territorial urbana das cidades neste período.

A intrínseca relação existente entre a construção da Ferrovia Noroeste do Brasil no


início do século XX e a ocupação das áreas no entorno das estações ferroviárias, constitui um
importante passo para esboçar um panorama da evolução urbana da cidade de Araçatuba,
principalmente no que diz respeito ao processo de expansão territorial urbana da cidade que,
nesse período, tinha como elementos impulsionadores o traçado da ferrovia, que serviu como
eixo de ocupação, e a atuação das empresas loteadoras. Ao contrário do que ocorreu em outras
ferrovias como a Sorocabana, a Paulista e a Araraquarense, que seguiam a localização de
núcleos populacionais, a CEFNOB foi construída antes da existência de aglomerados
populacionais na região onde se instalaria.

Ghirardello (2002), denomina as cidades nascidas ao longo da ferrovia Noroeste do


Brasil, como é o caso de Araçatuba, de solos laicos. Isto porque, ao contrário das cidades
surgidas no século XIX, que cresciam ao redor das igrejas que se situavam nos espigões, na
parte central das cidades, ou seja, cresciam do alto para baixo, as cidades de solos laicos
cresciam de baixo para cima, próximas aos cursos d’água, sendo a rua, a praça ou avenida
frontal à estação um importante espaço onde se desenvolveria, a partir dali, setores que
cobririam funções específicas como o comércio e os serviços. Como veremos, este é o caso de
Araçatuba.

Até a década de 1920, Araçatuba foi a última cidade junto à CEFNOB no Estado de
São Paulo. O povoado junto à linha férrea, nesse período, garantia a segurança do patrimônio
edificado da ferrovia, tais como os trilhos, os armazéns, a própria estação; por outro lado, a
formação desses povoados significava a valorização das áreas próximas, viabilizava o
parcelamento rural e, posteriormente, o parcelamento urbano com vistas ao mercado fundiário
e imobiliário.

Uma importante personalidade desse período foi o “Coronel” Manoel Bento da Cruz.
Suas posses eram de aproximadamente 30 mil alqueires. Além de proprietário de terras, esse

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pioneiro foi prefeito da cidade de Bauru no início da década de 1910, atuando também como
advogado de proprietários que se encontravam em situação de litígio com outros proprietários.

Em 1912, Manoel B. da Cruz funda a The San Paulo Land, Lumber & Colonization
Company, com o objetivo de parcelar e comercializar terras na zona noroeste de forma
empresarial, ao contrário do que vinha ocorrendo até então, já que o comércio de terras se
dava de forma improvisada. Após sua constituição, esta empresa adquiriu 60 mil alqueires de
terras entre os rios Tietê e Aguapeí/Feio. Seu objetivo foi vender lotes de pequenas
dimensões, a partir de 10 alqueires, pagos parceladamente e destinados às atividades rurais.
Até 1920, a empresa de Bento da Cruz já havia parcelado 38 mil alqueires e vendidos a mais
de dois mil compradores brasileiros e imigrantes estrangeiros (Ghirardello, 2002 e Pinheiro,
& Bodstein, 1997) 5.

Ghirardello (2002), assegura que havia uma convergência de interesses por parte da
empresa de Manoel B. da Cruz e da CEFNOB. À primeira, interessava a vantagem em
negociar terras rurais com imigrantes e os núcleos urbanos vinham como suporte para as
vendas. À segunda, interessava o transporte de cargas, nesse período, predominantemente o
café, e o transporte de passageiros.

A estação de Araçatuba, no km 281 da CEFNOB, teve seu núcleo urbano sitiado em


terras de um dos clientes de Manoel B. da Cruz, o Sr. Augusto Eliseo de Castro Fonseca. A
planta do povoado foi elaborada pelo engenheiro François Chartier em 1912, por ordem de
Manoel B. da Cruz, o então prefeito de Bauru. Em seu início, núcleos urbanos, tais como o
povoado de Araçatuba que acabava de nascer, tinham importante função comercial e de
prestação de serviços no processo de ocupação das terras rurais. Esses núcleos representavam
verdadeiros nós para o início de caminhos e estradas vicinais em direção aos sítios e chácaras
em formação. Esses caminhos e estradas vicinais vão constituir, ao longo do tempo,
importantes alinhamentos para onde vão convergir os interesses dos investidores imobiliários.

Em Araçatuba, a partir da estação, foram abertas estradas em direção aos loteamentos


agrícolas que, fundamentais para a sobrevivência desses parcelamentos, passavam a garantir a

5
De acordo com Pinheiro & Bodstein (1997), predominou, neste período, a venda de pequenos lotes, de até 10
alqueires, pagos parceladamente e com juros de 10%. Até 1920, a empresa de Manoel B. da Cruz já havia
parcelado 38.434 alqueires, vendidos a mais de 2 mil compradores, brasileiros e imigrantes.

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passagem da colheita e as visitas constantes à cidade nascente. As vicinais, como a estrada


que ligava Araçatuba a Bauru (atualmente, ela é conhecida como avenida Baguaçu e liga o
bairro Alvorada ao restante da cidade por meio de uma ponte sobre o córrego Baguaçu), eram
mantidas pelo poder público, o que significa que a prefeitura municipal subsidiava, em parte,
os loteadores rurais.

Araçatuba teve seu arruamento traçado de forma diferente dos formatos de


arruamentos mais comuns nas cidades da região, a exemplo de Penápolis, Promissão,
Avanhandava, Lins e outras. Nessas cidades, os agrimensores executavam traçados simples
seguindo um padrão ortogonal, com o arruamento e as quadras conformados em forma de
tabuleiro de xadrez. Não havia projetos urbanísticos, já que o crescimento permanente das
cidades fazia com que o estabelecimento de limites urbanos parecesse uma forma de barrar o
desenvolvimento das cidades e a própria execução dos projetos não acompanharia a rapidez
com a qual as cidades passaram a crescer (Ghirardello, 2002).

Questões como o uso do solo, gabaritos de construção, infra-estrutura, setores de lazer,


não eram considerados. A base para o arruamento da cidade ao longo da ferrovia era o traçado
da própria ferrovia e a área da esplanada6. Em Araçatuba, a diferença ficou por conta do fato
de que, a praça central, atualmente denominada de Praça Rui Barbosa, foi construída à frente
da estação, servindo como ponto para onde convergem oito ruas que ordenaram o arruamento
da área que hoje corresponde ao centro da cidade, saindo do padrão ortogonal predominante
nas cidades do Oeste Paulista. O padrão urbanístico aplicado à Araçatuba teve influência da
tradição francesa, como afirma Ghirardello (2002):
... predomina um ponto focal, no caso uma praça pública com oito
vias raiadas em sua direção. Essa tipologia de traçado, cara aos
engenheiros-urbanistas do século XIX, longe de ser nova, esteve presente
anteriormente nos Jardins de Versalhes, no Plan des Artists para Paris
(1793-1797) e especialmente no projeto de reforma de Haussmann para a
capital francesa (p.215).

A particularidade, no caso de Araçatuba, era que a praça não era circular, mas
retangular.

6
Terreno plano e descoberto que se localiza à frente da estação.

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Engels, em seu livro “A Questão da Moradia”, fala de um certo espírito de


Haussmann, que predominou na Europa no final do século XIX. Segundo Engels, esse
espírito consistiu na disseminação de um padrão de preocupação arquitetônico, segundo o
qual, imperava a busca pela conciliação da boa forma estética e da racionalização da forma
espacial. O engenheiro François Chartier, responsável pelo projeto e pela construção da praça
central e de suas oito raias em Araçatuba, lançou mão de uma tipologia de traçado caro aos
engenheiros-urbanistas do século XIX.

Aqueles que chegassem em Araçatuba e saíssem da estação, teriam de imediato, à sua


frente, a praça principal. Contudo, essa configuração trouxe problemas para o arruamento da
cidade, como afirma Pinheiro & Bordstein (1997), pois os sucessivos investimentos
urbanísticos buscaram o traçado em forma de tabuleiro de xadrez, o que tornaria o trânsito no
centro de Araçatuba, durante muito tempo, complicado.

O relevo, constituído por uma sucessão de vales e colinas tabuliformes, influenciou a


implantação e o crescimento da cidade. O núcleo inicial foi estabelecido próximo à margem
direita do córrego Machado de Melo a uma distância tal que permitisse a ocupação posterior
entre a esplanada e o curso d’água. Até a década de 1950, esse córrego possuía um vale
bastante plano e, em períodos de chuvas excessivas, as águas transbordavam e invadiam as
edificações construídas ao longo de sua margem e, conseqüentemente, as plantações ali
existentes. Tal problema foi amenizado com a canalização desse córrego na década de 1960.

A colina tabuliforme que demarca as linhas de drenagem do ribeirão Baguaçu, do


córrego Machado de Melo e do Bela Vista, foi a principal área de ocupação inicial. Após a
colina central, a ocupação se estendeu pelas colinas circunjacentes e até mesmo os fundos de
vales, a exemplo das ruas Marcílio Dias, Marechal Deodoro, Osvaldo Cruz e Av. Luís Pereira
Barreto. Os terrenos que margeavam os vales eram divididos entre os terrenos destinados ao
cultivo agrícola e a área destinada à residência do produtor.

A partir da década de 1950, ultrapassaram-se os limites ocupados da colina central,


sobretudo para a direção norte, além do córrego Machado de Melo. A ocupação da zona sul
(onde está localizado o bairro Alvorada) toma impulso a partir do final da década de 1950. A
construção do Paço Municipal Tancredo Neves e da estação rodoviária, e a instalação do
frigorífico T-Maia, foram importantes para a ocupação dessa área, assim como a instalação do

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loteamento Nova Iorque, que configurou um grande investimento imobiliário, o maior do


estado no período. Esse fato valorizou parte da área, condicionando a ocupação por pessoas
com maior poder aquisitivo.

Em 1944, o empresário Elísio Gomes de Carvalho criou a Construtora Paulista,


comprou glebas e loteou uma grande área, dotando-a de uma grande avenida (a Avenida
Brasília). Seus lotes possuíam alto preço e sua venda foi direcionada para a população de alta
renda. Em junho de 1996, o jornal O Estado de São Paulo publicou um artigo enfatizando que
o empresário Elísio G. de Carvalho era responsável por aproximadamente 40% do
crescimento urbano de Araçatuba, pois o empreendedor loteou cerca de 12 milhões de m²,
distribuídos em 15 loteamentos, com 5.400 terrenos localizados em diversos pontos da cidade.

A década de 1950 é marcada pelo início de uma nova etapa no processo de expansão
da malha urbana da cidade de Araçatuba. Sua principal característica é uma maior
dinamização dos agentes produtores do espaço e maior dinamismo do mercado de terras.
Nesse momento (que vai até o início da década de 1980, quando as empresas loteadoras têm
sua ação limitada, sobretudo após a promulgação da Lei federal 6766/79, que normaliza o uso
e a ocupação do solo urbano), pode-se identificar uma rede de ação7, na qual empresários de
diferentes setores (agrícola, industrial e comercial) organizam-se para dominarem distintas
etapas da realização de empreendimentos imobiliários com o objetivo de lucrar com a
comercialização de parcelas da cidade. A interação desses agentes no mercado imobiliário,
permite a obtenção de ganhos extraordinários com a produção dos loteamentos e a
comercialização de lotes. Um exemplo importante é o caso da Construtora Paulista que
concentra a quase totalidade das etapas do mercado imobiliário, como a propriedade do solo,
a comercialização, o processo de construção da infra-estrutura, tais como guias, ruas,
iluminação etc.

A década de 1950 constitui um período relevante para nossa pesquisa já que nesse
período é implantado o Bairro Alvorada, numa grande gleba que compreende a quase
totalidade da porção sudeste da cidade. Nesse período, a população urbana tem crescimento
acelerado (ver quadro 01 na página 23) por causa das transformações ocorridas na zona rural,
tal como a crescente predominância da atividade pecuária e a implantação de unidades

7
Gottdiener (1993), denomina esta ação conjunta de diferentes atores de redes de crescimento.

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industriais em Araçatuba, vale ressaltar que é nessa década que surge o primeiro distrito
industrial da cidade.

A implantação dos loteamentos no quadrante leste da cidade foi viabilizada com a


construção de duas pontes; na rua dos Fundadores e na Av. Odorindo Perenha, que passam
sobre o ribeirão Baguaçu, possibilitando a ocupação dos bairros Umuarama, J. Pinheiros e
vários conjuntos habitacionais populares. A Rodovia Marechal Rondon constituía uma
barreira à ocupação das áreas a sudoeste (bairros Jussara, Guanabara, Iporã etc.). Após o
rebaixamento do leito da pista e a criação das passagens superiores, inicia-se a implantação de
loteamentos, estendendo a malha urbana da cidade para esta direção a partir de 1980.

QUADRO 01- Evolução da população urbana de Araçatuba.

Décadas População População Índice de


total urbana Urbanização
1940 41.326.000 10.891.000 26,35

1950 51.944.000 18.781.000 36,16

1960 70.191.000 31.956.000 45,52

1970 93.169.000 52.905.000 56,80


1980 119.099.000 82.013.000 68,86
1991 150.400.000 115.7000.000 71,13
2000 169.625.000 150.455.000 75,89
Fonte: Dados censitários do IBGE (org.: Nelson R. Pedon).

Os conjuntos habitacionais populares constituem grandes indutores de ocupação


urbana, sobretudo a partir da década de 1970, após a criação de vários organismos prestadores
de serviços nessa área. A este respeito, Falconi da Hora e Sousa (1995), depois de realizar
estudos sobre a dinâmica habitacional das principais cidades do Oeste Paulista, afirmam que,
a partir da década de 1970, os conjuntos habitacionais e loteamentos populares implantados
com financiamentos públicos são predominantes no processo de expansão espacial das
cidades, com forte tendência a se concentrar em áreas distantes dos centros comerciais e de
serviços. Para as autoras, esse perfil predominará, também, nas décadas seguintes.

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A demanda por moradia em Araçatuba foi acentuada a partir da modificação


substantiva na economia regional no final da década de 1970. A implantação de várias
destilarias de álcool, impulsionadas por programas de incentivo como o Pro-Álcool, fez com
que fosse injetada importante soma de capitais no setor imobiliário para atender à demanda
criada, resultando numa intensificação da verticalização na década de 1980, aumentando,
paralelamente aos grandes edifícios, o número dos edifícios de quatro andares sem elevadores
(Cano, 1988; Pinheiro & Bordstein,1997).

Cabe lembrar que Araçatuba tem seu processo de verticalização iniciado ainda na
década de 1960, concentrado na área central nas imediações da praça Rui Barbosa e nas ruas
Tiradentes, Luís Pereira Barreto e Rodrigues Alves.

A tendência de crescimento da malha urbana é direcionada para as regiões norte,


nordeste, noroeste (na direção do bairro São José e dos distritos industriais) e oeste (ao longo
da rua Aguapeí). Os distritos industriais se instalam ao longo de grandes vias regionais. No
caso de Araçatuba, podemos notar a localização dos distritos industriais ao longo da SP-463
(rodovia estadual Elieser Montenegro Magalhães). Todavia, essa rodovia não é a que conecta
a cidade às regiões economicamente mais desenvolvidas do estado, a rodovia que tem essa
função é a Rodovia Marechal Rondon, que conecta Araçatuba à região metropolitana de São
Paulo.

A área a sudoeste, na direção do leito do novo traçado da ferrovia, próximo ao


loteamento Morada dos Nobres, faz parte da bacia de captação do manancial do Ribeirão
Baguaçu, daí ter sua ocupação restringida por lei. Nas direções leste e sudeste, há o limite do
perímetro urbano que faz divisa com o município de Birigui.

Em 1997, o percentual de áreas já loteadas e ainda não ocupadas era da ordem de 30 a


40%, em média. Nas áreas periféricas, a densidade populacional corresponde a 20 hab/ha e,
na área central, a densidade populacional aumenta para 60 hab/ha em média8. Estes dados
mostram um problema específico gerado pela mercadoria terra, que é a constituição de
espaços vazios no interior das cidades, motivados, como veremos, pela ação da especulação
imobiliária.

8
Segundo o Anexo 1: Diagnóstico do Plano Diretor: Propostas (Prefeitura de Araçatuba/Secretaria do
Planejamento, 1994).

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1.2 Atores e fases de expansão da malha urbana de Araçatuba

A cidade de Araçatuba surge e se estrutura no contexto da expansão da produção


capitalista no Oeste Paulista. Nesse período, há a constituição de um ambiente que serve de
apoio para a formação do complexo cafeeiro. Ressalta-se, neste processo, o papel das
ferrovias que proporcionaram a origem de diversos núcleos populacionais que vão culminar
no surgimento de várias cidades que se estruturam ao redor das estações ferroviárias, tendo,
inclusive, a expansão de suas malhas ordenadas pelo traçado da ferrovia.

Objetiva-se, agora, expor algumas idéias para elucidar as particularidades referentes ao


processo de produção do espaço urbano araçatubense no que diz respeito a dois aspectos
relevantes. Primeiramente, ressalta-se a atuação de agentes privados, mais especificamente a
atuação dos promotores imobiliários, cuja atuação teve maior expressão nas décadas de 1950
e 1960. Posteriormente, evidencia-se a atuação do Estado no nível municipal, nas décadas de
1980 e 1990, como principal responsável pela implantação e/ou escolha da locação de
conjuntos habitacionais e loteamentos populares.

1.2.1 Atuação dos promotores imobiliários

A ação dos agentes sociais responsáveis pela produção do espaço urbano é complexa e
deriva da dinâmica da acumulação de capital, das necessidades de reprodução da vida no
cotidiano dos moradores e dos conflitos entre diferentes classes sociais. Mesmo destacando as
especificidades da dinâmica da produção espacial de uma cidade, tal como Araçatuba,
podemos identificar grupos de agentes sociais que atuam na produção de diferentes cidades.
Nessa perspectiva, Corrêa (1989), destaca os principais agentes de produção do espaço
urbano: o Estado (neste caso, por meio da Prefeitura Municipal); os empresários dos setores
do comércio, de serviços e industrial; os proprietários de terras; os promotores imobiliários,
incluindo os que atuam nas atividades de incorporação, de financiamento, de estudos e
aplicação técnica, de construção e comercialização; e, por último, os grupos sociais excluídos.

Corrêa (1989), mostra que a estruturação das cidades é realizada por meio da
integração de diferentes grupos que, ao longo do tempo, condicionam diferentes usos da terra
justapostos entre si (p.07).

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Em Araçatuba, a partir da década de 19509, a expansão territorial da cidade teve forte


atuação dos promotores imobiliários10. Houve, em particular, a atuação de um promotor em
especial, o Sr. Elisio Gomes de Carvalho e sua empresa, a Imobiliária Paulista, que cumpria
as funções de incorporadora, construtora e comercializadora de lotes e imóveis.

Foi com a Imobiliária Paulista que a produção dos loteamentos passa a ser ordenada,
predominantemente, pelos empresários do setor imobiliário. Esse capital controla o terreno e
sua transformação em mercadoria, na maioria das vezes, já valorizada depois dos
beneficiamentos, tais como a instalação de infra-estrutura básica, arruamento, canalização de
água e iluminação. Em suma, os capitais de incorporação e imobiliários adquirem a terra, de
maneira concentrada ou dispersa, e aumentam o seu valor ao alterar seu uso. Essa mudança de
uso condiciona a distribuição dos grupos sociais no espaço urbano.

Ribeiro (1982), ao tratar da atuação deste agente, de forma específica, define-o a


partir da organização das atividades por ele realizadas. Essas atividades não ocorrem de forma
independente, elas estão articuladas às atividades de outros agentes, constituindo o que o autor
denomina de sistema de incorporação imobiliária. Para esse autor:

A emergência e desenvolvimento de um setor capitalista de


produção de moradias depende, pois, da existência de agentes capazes de
exercer as funções de liberação do terreno e financiamento do consumo,
seja através do aluguel seja através da compra. As formas como são
atendidas essas necessidades determinam em cada sociedade e em cada
momento histórico as características dos processos de produção e circulação
da habitação. Eles constituirão sistemas de produção e circulação
específicos, definidos pelos lugares de dominação e subordinação ocupados
pelo proprietário fundiário, construtor, financiador e usuário (Ribeiro, 1982;
p. 39).

No caso de Araçatuba, no período destacado, nossa pesquisa identificou a constituição


do sistema de incorporação lembrado pelo autor. Neste sistema, segundo Ribeiro (1982), o
incorporador compra a terra, planeja a operação, encontra financiamento para a produção e
comercialização e contrata a empresa construtora (p. 40). Isto ocorre graças à formação de

9
Década em que surge o bairro Alvorada.
10
O mapa 02, na página 29, mostra a espacialização, no período aqui tratado, da atuação das duas incorporadoras
imobiliárias citadas neste item.

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uma demanda estável11, à valorização dos terrenos e ao surgimento de um sistema financeiro


apto a captar pequenas poupanças e colocá-las à disposição do setor imobiliário.

Em Araçatuba destaca-se a atuação, entre 1950 a 1970, da Imobiliária Paulista.


Responsável por 40 % da urbanização da cidade nesse período, a atuação da empresa é
marcada por empreendimentos audaciosos para a época. A partir de 1947, a Imobiliária
Paulista loteou aproximadamente 11.710.489,70 m², a maioria dotados de arruamento, água
encanada, sarjetas e iluminação. Nesse período, Araçatuba contava com pouco mais de 38.000
habitantes, e seu perímetro urbano se limitava ao que hoje constitui o centro da cidade, sendo
que os arredores eram formados por plantações de café (ver mapa da expansão da malha
urbana da cidade de Araçatuba na página 28).

Até então, segundo o depoimento do próprio empresário Elísio Gomes de Carvalho, a


cidade não possuía loteamentos. Na verdade, o que o empresário chama de loteamentos são os
empreendimentos imobiliários de caráter capitalista tal como ele desenvolveu na cidade. Os
loteamentos implantados pela Imobiliária Paulista se concentram, na maioria dos casos, nas
áreas adjacentes à área central, com exceção de algumas pequenas chácaras e do bairro
Industrial, voltado para atender aos grupos mais populares, que se localiza um pouco afastado
da área mais central, na direção noroeste. A partir de 1950, a Imobiliária Paulista cria um
plano de casas populares que eram vendidas em até cem meses, numa época em que ainda não
existia BNH (Banco Nacional de Habitação).

Foram mais de 15 loteamentos, quase todos localizados no sul e sudeste da cidade. Destaca-
se, entre eles, o loteamento Jardim Nova Iorque13, um dos maiores empreendimentos
imobiliários na época, até mesmo para os padrões nacionais. Este loteamento, com 2.606
lotes, abrange uma área de 1.289.780,32 m² e foi inaugurado em 1952 com toda infra-
estrutura e equipamentos urbanos, incluindo água encanada, esgoto, luz, guias, sarjetas,
arborização, asfalto, escola e praças. Era atravessado pela Avenida Brasília, com 50 metros de

11
Demanda provocada, principalmente, pela migração de pessoas do campo para a cidade.
13
O jornal de circulação nacional, Folha de São Paulo, em 16/06/1996, publicou um artigo elogiando a ação do
proprietário da Imobiliária Paulista, ressaltando a grandiosidade do empreendimento, sendo considerado o maior
investimento imobiliária do país em meados dos anos 1950.

27
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

largura, extensão de 1.620m, ocupando uma área de 81.000m², com canteiro central
ajardinado de 5 metros de largura e duas pistas com 12 metros de largura cada.

28
AEROPORTO Áreas de atuação das empresas
loteadoras de
1940-1960

LEGENDA

Área loteada pela Imobiliária


Paulista S/A

Área loteada pela Imobiliária


Mauá S/A

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Rod. Elyeser Montenegro Magalhães

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Localização do bairro

ag
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Alvorada

i rã
be
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MAPA DE LOCALIZAÇÃO

Centro
20°

25°
51° 45°

Título:
Áreas de atuação das
empresas loteadoras de
1940-1960
Escala gráfica:

0 Km 1 Km 2 Km 3 Km
Autor: Orientador:
Nelson Rodrigo Pedon Prof. Dr. Eliseu S. Spósito
Fonte: Desenhista:
Prefeitura Municipal de
Araçatuba-SP/Depto. Nelson Rodrigo Pedon
Ro de Planejamento.
d. Planta de Araçatuba,
Ma Figura: Página:
re 2002.
Ferro
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02 29
voest Ro Fundação financiadora: Instituição:
e nd
on unesp
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

A implantação da rede elétrica só foi possível após uma audiência de Elísio G. de


Carvalho com o então presidente da república, Sr. Getúlio Vargas, que autorizou a ligação de
energia elétrica no loteamento mesmo o país vivendo uma das piores crises energéticas da
história (Folha de São Paulo, em 16/06/1996).

A ocupação da zona sul da cidade de Araçatuba foi marcada, portanto, pela atuação
das incorporadoras imobiliárias que, conforme Ribeiro (1982), possuem grande poder de
controle ao acesso e à transformação do uso do solo e por ser um agente-suporte do capital de
circulação, necessário ao financiamento da produção, da comercialização e da circulação, pois
está em posição de dominação do processo de produção. No caso da Imobiliária Paulista, sua
influência é ampliada pois concentra, também, a função de construtora, que, tradicionalmente,
ocorre sob a encomenda do incorporador que, por sua vez, é quem define todas as
características dos empreendimentos. Nesse caso, a renda da terra é apropriada quase que na
sua totalidade pela incorporadora, isto ocorre porque ela se apropria dos eventuais sobrelucros
que ocorrem no âmbito da construção.

A diversidade pela qual ocorre a formação do espaço urbano de Araçatuba pode ser
verificada quando avaliamos a atuação dos agentes produtores desse espaço. A moradia é
produzida por sistemas que funcionam segundo racionalidades diferenciadas. No caso de
Araçatuba, a partir da década de 1950, verifica-se a atuação dos empreendedores formando
um complexo de atividades de diferentes formas e de diferentes combinações entre os
diversos agentes produtores do espaço urbano.

Diferente da forma pela qual se organizou a Imobiliária Paulista, a implantação do


loteamento que vai resultar na constituição do bairro Alvorada dá-se seguindo outra
racionalidade14 ou, para lembrar um termo já utilizado, na implantação deste loteamento o
sistema de produção será distinto do sistema constituído pela Imobiliária Paulista, porque a
relação incorporador-construtor ocorre de forma diferente.

14
No texto, o termo racionalidade pode ser entendido como sinônimo de lógica de organização e atuação.

30
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

A Imobiliária Mauá15 adquiriu uma grande gleba de terra que formam, atualmente, os
bairros Alvorada, Umuarama e o Panorama, entre os córregos Baguaçu e Três Sete, numa área
que até então compreendia a zona rural, sendo incorporada ao perímetro urbano no extremo
sudeste da cidade. Se a Imobiliária Paulista teve sua ação circunscrita às áreas centrais e ao
sul de Araçatuba, a Imobiliária Mauá foi responsável por grande parte do loteamento das
áreas ao sudeste da cidade. Tanto o Alvorada quanto o Panorama estão localizados próximos
ao limite do perímetro urbano, em divisa com o município de Birigui, daí a impossibilidade
de expansão para além dessa área.

Até a década de 1950, segundo relatos de antigos moradores, toda a área que deu
origem ao bairro Alvorada era constituída por um conjunto de pequenos sítios e algumas
chácaras, onde predominava o cultivo do café e a criação de gado. A Incorporadora Mauá
comprou as terras pouco a pouco, pois alguns pequenos proprietários resistiram por algum
tempo, mas em 1958 a área toda já pertencia à incorporadora.

Beltrão Sposito (1982), ao estudar a expansão territorial de outra cidade média


localizada no oeste do Estado de São Paulo, a cidade de Presidente Prudente, afirma que a
compreensão da implantação de loteamentos passa pelo entendimento da forma pela qual a
terra se torna mercadoria, condicionando a produção e reprodução do capital. Na realidade
estudada pela autora, até a década de 1960, a maior parte dos loteamentos originava-se de
iniciativas individuais, sendo que a partir da década de 1970, a incorporação de áreas rurais ao
espaço urbano ficou a cargo de empresas de capital local e externo à cidade. Em Araçatuba, já
no início da década de 1950, na implantação de loteamentos, predominava a atuação de
capitais externos à cidade, uma vez que tanto a Imobiliária Mauá como a Imobiliária Paulista
tinham como proprietários moradores recém chegados da cidade de São José do Rio Preto. O
capital desses empreendedores tinha como origem antigos empreendimentos em sua cidade de
origem.

Em suma, a expansão do espaço urbano da cidade de Araçatuba para as zonas centro,


sul e sudeste16, ocorreu a partir da segunda metade da década de 1940, num período no qual se
acentua a atuação de empresas imobiliárias. Sobre a atuação desses agentes, Corrêa (1989)

15
De propriedade de Gilberto Trivelato e Franklin Leal.
16
A direção predominante da expansão do espaço urbano araçatubense, nesse período, eram essas direções. Para
melhor visualização das direções, veja-se mapa do crescimento urbano da cidade na página 28.

31
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

diz que a sua função chave é a transformação da terra em mercadoria. Para tanto, os
incorporadores realizam um conjunto de atividades17 que se combinam em formas
diferenciadas, gerando uma diversidade relativamente grande dos agentes em questão e das
suas combinações com outros agentes, tais como os construtores, os proprietários fundiários,
se bem que no caso de Araçatuba as incorporadoras também realizavam o papel de
proprietários fundiários.

Verifica-se, a partir da década de 1970, o predomínio da ação do Estado enquanto


incorporador e promotor imobiliário, numa fase da expansão da malha urbana araçatubense
em que se altera a direção do incremento de áreas rurais ao perímetro urbano.

1.2.2 O Estado e a implantação dos conjuntos habitacionais nas áreas


periféricas

O Estado, por meio de suas diferentes instâncias – municipal, estadual e federal - atua
como agente organizador do espaço urbano. Essa atuação se dá de forma variada e complexa.
No presente caso, vamos ressaltar a implantação de Conjuntos Habitacionais Populares na
cidade de Araçatuba, já que esse processo constitui um dos principais fatores de expansão da
malha urbana araçatubense, sobretudo porque está diretamente relacionado ao aumento da
densidade populacional nas áreas periféricas, principalmente no período que vai da segunda
metade da década de 1970 até o final da década de 199018.

O Estado organiza o espaço urbano por meio da implantação e gestão de serviços


públicos, como os sistemas de esgoto, distribuição de água, coleta de lixo, iluminação,
distritos industriais, entre outros. Atua, também, por meio da elaboração de leis e normas
referentes ao uso do solo, como o zoneamento e o código de obras19. É importante destacar
que essas formas de atuação do Estado não ocorre de forma neutra, já que a combinação da

17
Que já foi apresentado, neste capítulo, de forma sintética.
18
No que diz respeito a atuação do Estado em âmbito federal, as políticas habitacionais devem ser lembradas
desde o estabelecimento da Fundação da Casa Própria em 1946 e do Banco Nacional de Habitação (BNH), em
1964. Segundo Lopes (2000), essas instituições representam as primeiras iniciativas do poder público que
objetivavam tratar da questão da habitação no Brasil.
19
Por meio da alocação diferenciada dos equipamentos de consumo coletivo, o Estado interfere, reforçando ou
minimizando o processo de segregação sócio-espacial (Corrêa, 1989, p.26).

32
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

variada e complexa gama de elementos20 que permite ações como as que foram apontadas,
resulta da forma como se articulam os interesses de diferentes grupos sociais no interior do
Estado, privilegiando os interesses daqueles grupos ou segmentos da classe dominante em
cada momento.
Em Araçatuba, podemos ilustrar esta discussão com a ação da prefeitura que, no início
de 1992, começou a retirada dos trilhos ferroviários da Noroeste do Brasil, que cortava a
cidade no sentido leste-oeste, passando, inclusive, pelo centro histórico, dividindo a cidade
em duas porções, norte e sul, que eram identificados, no nível do senso comum, pelos
tradicionais estereótipos, o lado de lá e o lado de cá da linha.21

Segundo estudos realizados por técnicos da prefeitura, o antigo traçado da ferrovia,


cortando a cidade, agia como elemento que dificultava a abertura de novas passagens. Com
isso, algumas áreas ficavam isoladas (por exemplo, a Rua Aguapeí, atual importante
subcentro comercial, especializado em oficinas mecânicas de automóveis e casas comerciais
do gênero). Trechos como o final da Rua do Fico estavam estagnados, uma vez que o fluxo de
pessoas e automóveis era prejudicado por esse tipo de descontinuidade. Em suma, o principal
objetivo da retirada dos trilhos da antiga Noroeste do Brasil foi o de facilitar o fluxo de
pessoas e principalmente de veículos para o centro comercial tradicional da cidade22.

Sabe-se que ações desse tipo foram bastante “estimuladas” pelos comerciantes da
cidade, sobretudo aqueles que mantêm seus investimentos localizados nas áreas centrais e
adjacentes. A força política do segmento comercial em Araçatuba é relevante. Prova maior
desta afirmação está contida nos estudos de Filardi (2001) e Silva (2004), onde se afirma que,
desde meados da década de 1970, os prefeitos eleitos na cidade são representantes desse
segmento.

A retirada dos trilhos da antiga Noroeste do Brasil implicou no reordenamento da área


central da cidade e da construção de longos eixos de ligação desta área com os bairros

20
Para uma melhor compreensão sobre essas possibilidades, ver Corrêa (1989, p. 25).
21
Esses estereótipos são comuns nas cidades do Oeste Paulista. Isto porque elas têm, em comum, sua malha
urbana marcada pelo traçado das linhas ferroviárias, que divide as cidades em partes que se diferenciam com o
tempo. Não raras vezes, algumas das diferentes porções recebem conotações negativas em favor de outras, mais
valorizadas.
22
Extraído do documento, Diagnóstico da situação de Araçatuba, realizado em 1994 para a formulação do
Plano Diretor da cidade.

33
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

adjacentes, obra que custou muito aos cofres públicos e que merece um estudo mais
específico e mais detalhado de suas justificativas e resultados.

1.2.2.1 COHABs para a periferia

Os conjuntos habitacionais (ver mapa 03 na página 35) constituem grandes indutores


de ocupação urbana, a partir da década de 1970, após a criação de vários organismos que se
encarregaram de construir residências para a população urbana.

Em 1973 a Cooperativa Habitacional Sindical de Araçatuba entregava 185 residências,


construídas com financiamentos do Banco Nacional, em dois núcleos habitacionais de
Araçatuba, o Núcleo Habitacional Dr. Bartolomeu Bueno de Miranda, a poucos metros da
Avenida Brasília, hoje considerado área nobre, e o Núcleo Presidente Garrastazu Médici, no
Jardim Uirapuru. No primeiro conjunto, foram construídas 44 casas tipo 4 (três dormitórios)
e, no segundo, 141 casas, sendo 57 do tipo 4 e 88 do tipo 2 (dois dormitórios)23.

Este é o primeiro registro da implantação de um conjunto Habitacional em Araçatuba.


Contudo, foi com a CRHIS – Companhia Regional de Habitações de Interesse Social, que
Araçatuba entrou na “era” dos conjuntos habitacionais e loteamentos populares, ampliando
ainda mais sua malha urbana, uma vez que vários conjuntos habitacionais foram todos
implantados, sem exceção, dentro dos limites do perímetro urbano.

Criada em 1979 pela lei municipal n. 2.169 e sancionada pelo prefeito da época, Sr.
Oscar Cotrim, a CRHIS constituiu-se numa das maiores COHABs do Brasil, atuando em 80
municípios, funcionando nos moldes de uma empresa de economia mista, associada com 34
outros municípios, que detêm 34% de seu capital.

Até 1997 a COHAB-CRHIS havia instalado 13 conjuntos habitacionais cujas


residências faziam parte do total de 38.314 domicílios em Araçatuba, representando 21%, ou

23
Jornal Folha da Região, 28 de dezembro de 1973.

34
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

seja, cerca de 8.045 unidades (ver Quadro 02 na página 34). A COHAB-Bauru, outra empresa
da mesma natureza, foi responsável pela implantação do conjunto Castelo Branco, em 1970,
com 645 unidades, somando 1,68% do total dos domicílios da cidade em 1997.

35
AEROPORTO

Distribuição dos Conjuntos


Habitacionais Populares em
Araçatuba até 1999
LEGENDA

COHAB Cris Distritos

Rod. Elyeser Montenegro Magualhães


Industriais
COHATUBA

COHAB-Bauru
Localização do
bairro Alvorada

açu
ag u
oB
MAPA DE LOCALIZAÇÃO

eirã
Ri b
20°

Centro 25°
51° 45°

Título:
Distribuição dos Conjuntos Habitacionais
em Araçatuba até1999
Escala gráfica:

0 Km 1 Km 2 Km 3 Km
Autor: Orientador:
Nelson Rodrigo Pedon Prof. Dr. Eliseu S. Spósito
Fonte: Desenhista:
Prefeitura Municipal de Nelson Rodrigo Pedon
Araçatuba-SP/Depto.
de Planejamento.
Planta de Araçatuba, Figura: Página:
2002. 03 35
Fundação financiadora: Instituição:
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_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

No início da década de 1990 é criada a COHATUBA24, empresa de capital privado.


Ela atuou nos programas de desfavelamento instituídos pela Prefeitura por meio da Secretaria
Municipal da Habitação. Como resultado, foram implantados, em 1990, os conjuntos
habitacionais Jardim São José, com 153 unidades e Mão Divina, com 110 unidades.

QUADRO 02 – Produção da COHAB-Chris em Araçatuba – até 1997.

Conjunto Número de Ano do


Habitacional unidades Contrato
Taane Andraus 252 1983
Antônio Vilela 483 1985
João Batista 598 1987
Botelho
Claudionor Cinti 490 1988
Vicente Luís 365 1988
Grosso
Etheocle Turrini 400 1992
Manoel Pires 261 1992
José Saran 266 1994
José Passarelli 444 1994
Hilda Mandarino 1.795 1995
Nova Traitu 444 1992
Ezequiel Barbosa 250 1992
Clóvis Picoloto 490 1989
Fonte: Fernandes (1998).

Grande parte dos novos loteamentos são conjuntos habitacionais construídos por
cooperativas e não por loteadores que comercializavam os lotes, como os negócios realizados
da década de 1940 à primeira metade da década de 1970, período já destacado neste estudo e

24
Além da COHATUBA e da CHRIS, nos últimos anos vem ganhando expressão a atuação da CDHU
(Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), com cerca de 15 conjuntos habitacionais implantados
até 2003. Ocorre que a atuação da CDHU consiste, na maioria dos casos, na ampliação dos conjuntos já
existentes, não alterando a localização dos conjuntos implantados anteriormente pelas outras empresas do setor.

36
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

caracterizado pela atuação das empreendedoras imobiliárias. Alguns técnicos da Prefeitura


que foram entrevistados, atribuem a interrupção de negócios desse tipo por causa da
promulgação da lei federal 6766/79, que objetivava regular a implantação de loteamentos
urbanos. Cabe ressaltar que a Prefeitura buscou implantar os conjuntos habitacionais e
loteamentos populares próximos aos distritos industriais existentes. Este fato deve ser
considerado para explicar a expansão da malha urbana para as direções noroeste e oeste.

O distrito industrial, de localização periférica, é resultado da atuação do Estado que,


por meio da articulação de vários fatores de produção, como terrenos vazios e depois
preparados para a instalação de estabelecimentos industriais, acessibilidade, água, energia e
mão de obra, e de acordo com os interesses de outros agentes sociais, busca criar condições
que formem aquilo que chamamos de economias de aglomeração com o objetivo de
impulsionar as atividades industriais.

Como salientam Villaça (2001) e Corrêa (1989), as zonas industriais se desenvolvem


ao longo das grandes vias regionais. Em Araçatuba podemos notar a localização dos distritos
industriais ao longo da SP-463, a rodovia estadual Elieser Montenegro Magalhães; todavia
essa rodovia não é a que liga a cidade às outras áreas mais desenvolvidas economicamente do
estado, função exercida pela Rodovia Marechal Rondon, cujo traçado se define pelo sentido
leste-oeste, passando por Araçatuba, em direção ao centro do estado e à região metropolitana
de São Paulo.

Esta constatação reforça a idéia de que a malha urbana que, se antes seguia o traçado
da ferrovia, agora busca as rodovias25. No caso de Araçatuba, isso fica mais evidente uma vez
que houve a retirada dos trilhos da área urbana e, atualmente, a linha férrea passa a uma
distância de aproximadamente 20 km da cidade.

Araçatuba conta hoje com dois principais distritos industriais (ver suas localizações no
mapa 03 na página 35), ambos às margens da rodovia Elieser Montenegro Magalhães (SP-
463). O distrito industrial Alexandre Biagi, localizado no bairro Verde Parque, dispõe de 152
lotes, dos quais 144 já foram doados pelo município às empresas industriais. Estão instalados,

25
A perda de importância da ferrovia em favor da rodovia tem raízes amplas e profundas, relacionadas,
inclusive, com toda a reestruturação econômica, decorrida da redefinição da Divisão internacional do Trabalho,
que o país viveu após a política de modernização do presidente Juscelino Kubitschek, a partir da década de 1950.

37
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

ali, 19 estabelecimentos. Já o distrito industrial Maria Isabel de Almeida Prado, localizado na


Chácara Arco Íris, tem 162 lotes, dos quais 81 foram doados. Operam, ali, 21
estabelecimentos industriais. Na gestão 2001-2004, foram doados terrenos para 15 empresas,
segundo a Secretaria do Desenvolvimento Econômico26.

Outros dois distritos industriais, localizados a sudeste e leste da cidade também


tiveram conjuntos habitacionais e loteamentos populares implantados em suas proximidades.
Num deles, o primeiro distrito implantado, serviu para a instalação do Frigorífico T-Maia em
1957, cujas instalações reformadas abriga atualmente uma filial da Universidade Paulista
(UNIP). De propriedade do conhecido empresário e pecuarista Sebastião Ferreira Maia
(conhecido popularmente por Tião Maia), o Frigorífico T-Maia aproveitava a proximidade
com o córrego Baguaçu. Atualmente, esse distrito industrial abriga uma filial da empresa
italiana de alimentos Parmalat (que se constitui na maior planta industrial de Araçatuba e que
também é a maior arrecadadora de impostos da cidade) que, na década de 1990, adquiriu a
Paoletti, empresa que atuava em Araçatuba desde 1974.

Silveira (2002), ao estudar a relação da indústria tabageira com a estruturação da


periferia de Santa Cruz do Sul/RS, afirmou que a abertura de loteamentos e a construção de
casas populares pelo poder público municipal, na maior parte das vezes, em áreas próximas
aos distritos industriais, tem garantido ao capital industrial a possibilidade de contar com um
numeroso contingente de mão-de-obra, concentrado e de fácil mobilização. Tal hipótese
explicaria, no contexto araçatubense, a ação de implantar conjuntos e loteamentos populares
próximos aos distritos industriais por parte do poder público, que interfere, de forma direta, na
produção e reestruturação da cidade27, uma vez que decide os locais onde serão fixados os
recursos aplicados permitindo, assim, a apropriação diferenciada desses recursos.

Ocorre que o adensamento dos conjuntos leva à necessidade de novos investimentos


públicos em obras como o sistema viário e demais componentes da infra-estrutura e
equipamentos urbanos, chamando a atenção da iniciativa privada e estimulando a
incorporação de novas áreas. Assim, a escolha locacional por parte do Poder Público

26
Dois distritos industriais de Araçatuba agora poderão, a partir de 2004, ser utilizadas pelo setor terciário da
economia, como prestadores de serviços, atacadistas e distribuidoras de produtores, o que amplia as chances de
atração de investimentos para o município, segundo alguns técnicos da Prefeitura.
27
Este papel do Poder Público Municipal foi intensificado a partir da Constituição de 1988. Sobre uma
explanação mais ampla do assunto, ver Fernandes in: Beltrão Sposito (2001).

38
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Municipal dos conjuntos habitacionais tem provocado a diferenciação do preço da terra e a


valorização imobiliária, definidos pelo tipo de investimento e pela ocupação daí resultante.
Outra conseqüência da implantação dos conjuntos na periferia é a tendência da
formação de uma cidade de malha urbana “espalhada”, intercalando áreas ocupadas com
grandes vazios voltados à especulação. Ou seja, expandindo seus limites, deixa-se no interior
da cidade uma quantidade de terrenos vazios que, no caso de Araçatuba, é muito grande, fato
que é facilmente comprovado por uma simples observação.

O mecanismo de crescimento urbano vai se tornando uma espécie de franqueador da


especulação imobiliária28 porque a localização periférica dos conjuntos e loteamentos
populares serve como justificativa à instalação de serviços públicos ou, no mínimo, à sua
demanda.

Ao prover tais áreas com infra-estrutura, como água encanada, esgoto, calçamento,
iluminação e asfalto, entre outros, valoriza-se diferencialmente os terrenos intersticiais aos
conjuntos e loteamentos, assegurando a permanência de espaços vazios na mesma proporção
que se impõe um crescimento horizontal mais amplo da superfície urbana.

Em Araçatuba, a ausência de um órgão capaz de exercer o controle do déficit


residencial, por um lado, e a falta de um planejamento urbano mais consciente, de outro,
reconhecida até mesmo em documentos elaborados pela Prefeitura, dificulta ainda mais a
atuação no sentido de amenizar esse problema. Atualmente, a criação da Secretaria de
Habitação e Assistência Social foi uma das medidas da Prefeitura para buscar soluções para o
problema da habitação em Araçatuba.

Essa secretaria instituiu, em 1990, um programa de desfavelamento e de lotes


urbanizados. Os conjuntos habitacionais Jardim São José e Mão Divina, localizados na porção
oeste da cidade, junto à rodovia Elieser Montenegro Magalhães (SP-463), são resultados de
tal esforço. A responsável pela construção destes conjuntos foi a COHATUBA e as casas
foram entregues às famílias cujos rendimentos se situavam na faixa de menos de um até cinco
salários mínimos.

28
Para uma maior explanação desta problemática, ver Oliveira (1978). Nessa obra, autor faz um estudo
detalhado das táticas das empresas imobiliárias com o objetivo de valorizar seu capital por meio da especulação
com os vazios urbanos.

39
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Não foi só em Araçatuba que a atuação estatal na área da habitação ocorreu, resultando
na implantação de conjuntos habitacionais populares e possibilitando a expansão horizontal da
malha urbana na medida em que tais conjuntos são, via de regra, assentados na periferia das
cidades. Estudos realizados em outras cidades29 comprovam o mesmo padrão. Nesses estudos,
conclui-se que o processo de implantação de loteamentos populares proporciona um
distanciamento cada vez maior entre a área central e as periferias, gerando diferentes
espacializações que, na maioria das vezes, agravam ainda mais as desigualdades
socioespaciais no interior da cidade.

Por último, é importante salientar a predominância, em Araçatuba, de um certo tipo de


ocupação, os imóveis próprios30. Falconi da Hora e Sousa (1995), destacam a participação do
Estado como agente financiador da produção de moradias a partir da década de 1960.

Tomando a microrregião de Araçatuba como escopo de observação, segundo o IBGE,


o percentual de imóveis próprios cresce de 39 %, em 1960, para 52,3% em 1980. Atualmente,
dos 57.045 domicílios existentes na cidade, 76,1%, ou 43.411 unidades, são ocupadas pelos
seus proprietários. Apenas 9.868 são locados, ou 17,3% do total. Outros 6% dos imóveis -
3.422 unidades - estão ocupados por cessão (os moradores não são os donos, mas não pagam
aluguel).31

Para Falconi da Hora e Sousa (1995), a predominância de imóveis próprios nas


cidades médias manifesta o grau de estabilidade que este bem proporciona. O inquilino está
sempre sujeito aos ditames dos proprietários e à capacidade de pagamento do aluguel.
Conquanto a propriedade não garanta, necessariamente, o acesso às benfeitorias urbanas,
confere ao proprietário o direito de permanência no lugar. As autoras fazem a ressalva de que
esse direito depende da possibilidade de se pagar o ônus das melhorias urbanas incorporadas
ao valor do imóvel.

29
Alguns estudos consultados foram: Fernandes (2001), Falconi da Hora (2001), Silveira (2002) e Alvarez
(1994). Todos estes autores estudaram a problemática da atuação do Estado e suas conseqüências em diferentes
cidades.
30
O IBGE, a partir do Censo de 1980, apresenta a categoria “imóveis próprios”, que corresponde às habitações
cuja propriedade foi adquirida pelo morador, incluindo duas modalidades, aquelas habitações já quitadas
(totalmente pagas), e as em aquisição, cujo pagamento se encontra em andamento.
31
A pesquisa foi realizada junto a um universo de 10 mil pessoas na cidade e foi publicada na Folha da Região,
em 06/10/2001. Os dados citados são do BDT (Banco de Dados Toledo), que realizou a pesquisa em parceria
com a Fundação SEADE (Sistema Estadual de Análise de Dados).

40
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

1.3 Em suma...

...o objetivo deste primeiro capitulo é fazer uma caracterização do espaço urbano
araçatubense, recompondo, pelo menos em parte, o processo de crescimento da malha urbana
da cidade, oferecendo alguns subsídios para o entendimento da expansão espacial a partir de
dois momentos, bem como buscar alguns elementos que sirvam à explicação da fisionomia
urbana da cidade.

Ressalta-se a ação de dois agentes sociais32 na estruturação do espaço da cidade: as


empresas imobiliárias, num primeiro momento, e o Estado, em sua atuação na escala
municipal, por seu papel na definição da localização e financiamento dos conjuntos
habitacionais e loteamentos populares. Destacamos duas fases distintas da estruturação da
cidade de Araçatuba: uma que se inicia na década de 1940 e vai até meados da década de
1970, e outra que se inicia em 1970 e chega até o final da década de 1990, ressaltando a
predominância na primeira da ação dos empreendedores imobiliários e, na segunda, a
predominância da atuação do Estado.

A ação desses agentes se dá de forma complexa e está relacionada a processos mais


amplos, tais como a dinâmica de acumulação de capital, das demandas mutáveis da
reprodução das relações de produção e dos conflitos de classes. Neste item, privilegiamos a
idéia de que a cidade deve ser pensada como produtora e produto do movimento impetrado
pelo desenvolvimento das relações capitalistas de produção, tendo em seu centro os processos
de acumulação e concentração do capital.

A reorganização espacial engendrada pelos agentes destacados se dá, nos casos


mencionados, por meio da incorporação de novas áreas ao espaço urbano, provocando a
expansão da cidade e a valorização de novas áreas. É importante ressaltar que as táticas e
estratégias dos agentes variam no tempo e no espaço, por isso buscamos, na história de

32
No centro deste estudo está a atuação de um agente produtor do espaço urbano araçatubense, a população
organizada. Este agente é alvo de nossos esforços de interpretação. A explanação da atuação do Estado e dos
empreendedores imobiliários é utilizada como complemento ao nosso objetivo principal. Este primeiro item tem,
como principal objetivo, portanto, oferecer subsídios para que possamos montar um quadro que nos permita
contextualizar nosso propósito.

41
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Araçatuba, as duas fases que se referem à predominância da atuação ora de um agente, ora de
outro, já destacados.
Beltrão Sposito (1995), define o processo de expansão da malha urbana das cidades
médias da seguinte forma:
...a cidade absorve progressivamente o espaço rural. Esta anexação
dá-se através da compra de terras, cujo uso era anteriormente agrário, já
refletindo a condição de mercadoria que assumiu o solo no capitalismo.
Este espaço adquirido enquanto espaço rural será vendido já como urbano,
para atender as exigências da expansão urbana, dada pelo aumento das
atividades produtivas na cidade (indústria, comércio e serviços) e pelo da
demanda de habitações, gerada pela concentração populacional (p. 24).

Em Araçatuba, até a década de 1940, a expansão da malha urbana teve, como principal
eixo ordenador, o traçado a Ferrovia Noroeste do Brasil (a antiga CEFNOB). Os proprietários
doavam pequenas porções de suas propriedades para o arruamento, para a instalação de
prédios públicos e até mesmo para a alocação de casas comerciais nos arredores da estação
ferroviária, cujo objetivo era a consolidação da estrutura urbana e das funções realizadas na
cidade, que serviriam de suporte para as atividades agrárias.

Em 1909, deu-se a primeira derrubada de mata margeando a direita da ferrovia, numa


área de aproximadamente 10 alqueires, onde hoje se localiza o bairro São Joaquim e
imediações. O lado esquerdo à linha começa a ser ocupado com a derrubada de matas iniciada
em 1911, posteriormente, o lado direito à linha passa a ser a direção predominante da
expansão da malha urbana até aproximadamente 1950.

Pela ferrovia, realizava-se o transporte da produção, o que facilitava a ocupação da


área que, desde o início, privilegiava a formação de chácaras e sítios, adquiridos
principalmente por imigrantes europeus, principalmente, portugueses e italianos. Em
Araçatuba, até 1940, período no qual começa a ocorrer profundas mudanças na estrutura
fundiária da região, as propriedades agrícolas de 20 a 50 hectares pertenciam a 688 donos, e
por outro lado, havia somente 26 donos de terras com áreas de 1.000 a 2.500 hectares,
mostrando que os empreendedores que atuavam no mercado de terras parcelavam as glebas
em lotes pequenos e médios.

42
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

As estações e os aglomerados surgidos em suas imediações representavam segurança


para os funcionários da ferrovia assim como para os que embarcavam e desembarcavam. A
implantação das estações era realizada em locais propícios às esplanadas33; no caso da
CEFNOB, buscava-se as meias encostas dos cursos d’agua. Em Araçatuba, o relevo
tabuliforme propiciou um bom sítio para o assentamento do aglomerado populacional porque
a estação foi implantada na meia encosta de uma colina demarcada pelas linhas de drenagem
dos córregos Baguaçu, Machado de Mello, Machadinho e o Bela Vista.

Importante testemunho da relevância do papel da ferrovia na configuração espacial no


início da ocupação urbana foi a instalação de importantes indústrias que aproveitavam a
produção de algodão, tais como a Matarazzo e a Anderson Clayton, ao longo da ferrovia, na
porção leste da cidade, na década de 1930. Assim como estas duas empresas, podemos
observar no mapa 01 (página 28) que a expansão da malha urbana para a zona norte e oeste se
deu acompanhando o trecho original da ferrovia, conhecido como trecho Lussanvira. Os
primeiros bairros implantados nesta área, foram São Vicente, Vila Industrial, Jardim Brasil,
Planalto e Boa Vista, este último onde se localizavam as empresas citadas.

Ocorre que, no momento de sua construção, devido às pretensões do governo


brasileiro em terminar a estrada o mais rápido possível, o traçado da Noroeste foi desviado
para a margem do rio Tietê, em vez de seguir o espigão divisor. O trecho da Noroeste, que
liga Araçatuba a Jupiá mereceu especial atenção dos administradores da estrada na década de
1920, levando à proposta da construção de uma variante, cujas obras alcançaram Guararapes
em 1929, Valparaíso em 1932, Aguapeí em 1933, Mirandópolis em 1936 e Andradina em
1937, alcançando a linha original em Jupiá no mesmo ano (Matos, 1979).

O antigo trecho foi, aos poucos, perdendo importância e toda a ocupação da zona
noroeste continuou a se expandir até atingir a rodovia Elieser Montenegro Magalhães.
Atualmente, o leito do antigo trecho Lussanvira é ocupado por uma grande avenida, a
Waldemar Alves. O trecho construído na década de 1920 ficou conhecido como “variante” e
importantes bairros foram implantados ao longo de seu traçado. Os tradicionais bairros São
João, Vila Carvalho, Jardim América e Guanabara são alguns deles. Após a retirada dos

33
Área plana de pelo menos 200m lineares onde os vagões se movimentavam quando desengatados.

43
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

trilhos, iniciada em 1992 e terminada em 1996, foi construída uma longa e larga via urbana
que, recentemente, recebeu o nome de Av. Mario Covas.

Tanto a Avenida Mario Covas como grande parte das ruas paralelas e perpendiculares
a ela, concentram uma grande variedade de casas comerciais e de serviços. Como exemplo,
citamos a rua Aguapeí, que concentra grande número de oficinas mecânicas automotivas e
lojas de produtos especializados neste segmento.

A ferrovia perde importância na estruturação da malha urbana a partir da década de


1940, com intensificação da atuação das incorporadoras imobiliárias, que buscavam valorizar
seus capitais por meio da venda de lotes urbanos. A Imobiliária Paulista loteou grande porção
das áreas localizadas ao sul e a oeste da porção central, cujos loteamentos seguiam a direção
das rodovias, alguns chegando mesmo a margeá-las. É nesse período que a malha urbana se
espalha para além da colina central, indo se encontrar com os principais vales dos rios
Baguaçu e Machadinho, e dos córregos dos Tropeiros e dos Espanhóis, estes dois últimos ao
norte da cidade, e os dois primeiros ao sul. O assentamento de mais de 15 loteamentos, só por
parte da Imobiliária Paulista, gerou inúmeros bairros34, muitos deles localizados nas
imediações da Avenida Brasília, construída pela mesma empresa e que hoje representa uma
das áreas mias nobres da cidade. A empresa Mauá, por sua vez, foi responsável pelo
loteamento de grande parte das terras localizadas ao sul e leste da cidade, implantando
loteamentos que atendiam à população de baixo poder aquisitivo.

A partir da segunda metade da década de 1970 até final de 1990, os grandes


responsáveis pela expansão da malha urbana serão os conjuntos habitacionais e loteamentos
populares. Há uma expansão de loteamentos populares ao sul, para além da rodovia Marechal
Rondon, possibilitada depois da execução de obras responsáveis pelo rebaixamento do nível
da rodovia, a leste, para além do córrego Baguaçu, para o norte, às margens da rua do Fico, no
sentido do aeroporto, e a oeste, às margens da rodovia Elieser Montenegro Magalhães.

34
No capítulo IV, desenvolveremos de forma mais detalhada o conceito de bairro que utilizamos neste estudo,
por ora, utilizamos este termo para designar cada uma das partes em que se costuma dividir uma cidade, para
mais precisa orientação das pessoas e melhor controle administrativo dos serviços públicos.

44
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

A alocação de empreendimentos imobiliários nas áreas limítrofes ao perímetro urbano


implicou na sua expansão, deixando muitas glebas em condição de espaços vazios ou de
pousio social35.
Um estudo publicado em 1992 pela fundação SEADE revelou, por meio de
informações obtidas via sensoriamento remoto, que a malha urbana de Araçatuba cresceu
cerca de 2,6 vezes entre 1974 e 1989, evoluindo de 2,3 mil para 5,9 mil hectares. Este estudo
ainda revela que, no que diz respeito à densidade na área urbana em 1989, apenas 34,3% do
total correspondia à áreas de densidades média e alta, sendo que o restante era composto por
62,2% com áreas de baixa densidade (Vasconcelos, 1992).

As maiores densidades em áreas periféricas ficam por conta dos loteamentos e conjuntos
habitacionais populares, que se encontram intercalados com áreas vazias e de menor
densidade populacional. É importante mencionar que, na implantação dos loteamentos e
conjuntos habitacionais populares a partir de 1970, com exceção das áreas a sudeste e ao sul,
houve a instalação destes por toda periferia de Araçatuba, não havendo a concentração da
população de mais baixa renda em alguma área específica, como ocorre em São José do Rio
Preto, por exemplo. A população de mais baixa renda de Araçatuba se encontra distribuída
pelos quatro cantos da cidade, desenhando um verdadeiro cordão que envolve a cidade, com a
única exceção da faixa sul e sudeste como já mencionamos (Vasconcelos, 1992).

Discordamos de Vasconcelos (1992), somente quando este afirma que a área sudeste
da cidade constitui uma exceção no que diz respeito à ocupação de população de baixa renda.
Bairros como o Alvorada, foco de nosso estudo, o Umuarama e o Panorama, localizam-se na
faixa sudeste-leste e são ocupados predominantemente por população de baixa renda, sendo
que o Alvorada até há pouco tempo, sofria com a ocorrência de áreas faveladas, constituindo,
também, o bairro com o maior número de residências desprovidas de sanitários e banheiros36.
A diferença é o processo de sua instalação, que ocorreu num momento anterior à implantação
dos loteamentos e conjuntos populares promovidos pelo Estado a partir de 1970.

Cabe ressaltar que, junto à intensificação da ação do Estado no provimento das


habitações populares, houve uma relevante diminuição da implantação de loteamentos por

35
Segundo Beltrão Sposito (1995, p.12), pousio social corresponde a grandes espaços sem quaisquer melhorias
urbanas, sequer arruamento, encontrados aquém dos novos loteamentos de forma a proporcionar a valorização de
áreas ainda não loteadas.

45
_________________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

parte das empresas privadas. Segundo alguns técnicos da Prefeitura e até mesmo a partir de
documentos elaborados pelo Departamento de Planejamento, um fator importante que
concorreu para esta diminuição foi a promulgação da Lei Federal 6766/79, que objetivava
uma normatização mais criteriosa e sistemática da implantação de novos loteamentos.
Nos últimos anos, Araçatuba passa por um processo de reestruturação de seu espaço.
Este processo está relacionado, principalmente, com a implantação dos condomínios fechados
horizontais. Araçatuba, ao contrário de cidades como São José do Rio Preto e Presidente
Prudente, ambas do Oeste Paulista e que já possuem esse padrão de uso e ocupação da terra
urbana desde meados da década de 1970, só recentemente é que começa a conhecer a
realidade destes empreendimentos. Como este processo é recente, apesar de sua relevância na
diferenciação e valorização de áreas no interior da cidade, não vamos nos dedicar a eles, já
que privilegiamos fases mais remotas do processo de estruturação do espaço urbano
araçatubense.

36
Dados obtidos do PNAD/Estatcart-IBGE.

46
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

2. O MUNDO CABE NUM BAIRRO

No capítulo anterior, asseguramos que o surgimento e crescimento de grande parte das


cidades do Oeste Paulista estão associados ao processo de urbanização proporcionado pela
constituição do que alguns autores denominaram de “complexo cafeeiro”, no contexto da
reorganização da Divisão Internacional do Trabalho (DIT), quando o Brasil passa a ser o
maior exportador de café do mundo1. As sucessivas reordenações da DIT em diferentes
períodos geram as mais variadas respostas em âmbito nacional, regional e local.

Este intrincado jogo de escalas2, no qual condicionantes gerados em dimensões


bastante amplas interferem em processos locais de organização do espaço, deve ser
caracterizado de acordo com o período que se quer destacar.

Neste momento, contextualizamos, de forma breve, um período já ressaltado no


primeiro capítulo, o da década de 1940 a 1960, na cidade de Araçatuba. O objetivo é compor
um quadro que nos permita entender a forma como diferentes condicionantes se combinaram
resultando numa organização que, ao longo da história, foi tomando contornos específicos,
uma vez que processos articulados por escalas mais amplas se relacionam de forma dialética
com condicionantes de escalas locais. O fito desse esforço é relacionar o surgimento do bairro
Alvorada com acontecimentos gerados por processos mais amplos.

Em seguida, continuaremos esse exercício de compreensão tendo como contexto o


período atual. Assim, será feita uma caracterização socioeconômica do bairro Alvorada,
inserindo alguns elementos teóricos que demonstrem os primeiros traços do arcabouço
teórico-metodológico adotado neste trabalho.

A perspectiva estruturalista adotada neste capítulo serve como apontamento de que,


por mais que se busque privilegiar a escala da comunidade e sua ação política, deve-se
exercitar o pensamento buscando o entendimento da relação entre as determinantes estruturais
e seus rebatimentos num contexto cheio de vida e, por isso mesmo, com grande

1
Período que se inicia em 1850, quando a produção de café no Brasil começa a tomar vultuosidade comercial
suficiente para competir no mercado internacional e chega até 1929, quando os “anos gloriosos” do café são
abalados pela crise mundial. Ver Silva (1982), entre outros.
2
Para uma explanação mais detalhada e com reflexões teóricas mais agudas a respeito das escalas geográficas
ver: Guimarães (2004); Smith (1989 e 2000); Castro (2001) e Raffestin (1983).

47
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

responsabilidade na constituição da própria realidade. Por isso, destacamos a importância do


pensamento relacional3 assim explicado por Chauí (1995):

...nosso mundo, nossa vida, nossa situação, forma um conjunto de


situações e circunstâncias que não foram escolhidas por nós em cujo interior
nos movemos. No entanto, este campo é temporal: teve um passado, tem um
presente e terá um futuro, cujos vetores e direções já podem ser percebidos
ou mesmo adivinhados como possibilidades objetivas (p.362).

É salutar lembrar que o nosso propósito é manter o caráter dialético da ontologia4


assumida neste trabalho, durante todo o curso da apresentação. Daí, o reflexo do caráter
dialético na formalização de nosso trabalho, como na defrontação de dados e informações
referentes a escalas mais amplas (obtidas por meio de pesquisa em fontes secundárias)
identificadas com dados e informações obtidas na escala do bairro (obtidas, na sua maioria,
por meio da pesquisa de campo).

Desde a década de 1940, constatamos a queda ininterrupta da mortalidade infantil (de


149 mortes para cada mil nascidos vivos em 1940 para 34,6 em 1999), o aumento, também
ininterrupto, da expectativa de vida (de 42,7 anos em 1940 para 68,4 em 1999) e a queda do
número de filhos por mulher em idade fértil (4,4 filhos em 1940 para 2,2 em 2000). O nível
de escolaridade também apresentou desempenho positivo ao longo do período. Esses dados
gerais oferecidos pelo IBGE propiciam uma leitura bastante “positiva” da evolução da
sociedade brasileira no período assinalado, mas contrastam, como veremos, com uma
realidade repleta de contradições facilmente visíveis e sentidas nas paisagens urbanas das
metrópoles e das cidades médias, a exemplo da intensa saída de contingente populacional do
campo, engrossando as periferias nas cidades e modificando a estrutura do trabalho no Brasil.

Uma das conseqüências metodológicas do caminho adotado é a constante


confrontação de dados referentes às dimensões escalares que, de forma complexa, constituem
nosso objeto de estudo.

3
Nos capítulos seguintes retomaremos, mais profundamente, esta questão de cunho teórico. Importante
referencial para desenvolver esta idéia, além de Marilena Chauí (1995), é Elias & Scotson (2000).
4
Utilizamos este termo em seu sentido moderno, o de corresponder a uma visão de mundo, explícita ou implícita
nos discursos, e o de estabelecer o status de existência de um ente, como por exemplo o espaço e/ou a própria
realidade.

48
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

2.1 Movimentação populacional nos idos de 1950

A urbanização do Oeste Paulista, como já foi assegurado, está inserida num contexto
histórico bastante complexo. As intensas transformações ocorridas ao longo da história
definem a distribuição da população no campo e na cidade, de forma a conformar certas
características específicas da relação espaço-tempo num dado momento. O entendimento do
contexto social e econômico no qual se originou o bairro Alvorada ajuda a refletir sobre os
processos de mudança social que caracterizam a constituição da sociedade urbano-industrial
brasileira.

O desenvolvimento industrial brasileiro está relacionado ao crescimento das cidades,


sobretudo aquelas que hoje ocupam um papel de destaque na rede urbana brasileira. Podemos
lembrar alguns exemplos triviais, como a Metrópole Paulistana, Campinas e Santos, para
ficarmos somente nos limites do Estado de São Paulo. Para Milton Santos (1993), a partir da
década de 1940/50, a lógica da industrialização é determinante. Para este autor, o termo
industrialização tem sentido mais amplo na medida em que constitui um processo social que
inclui a formação do mercado nacional, uma rede mais intensa de fixos territoriais, que
permite integrar as regiões do país, e a expansão do consumo. Tudo isso articulado, vai
impulsionar, na escala do país, a dinâmica populacional que sustenta as cidades de médio e
grande porte.

No Oeste Paulista a monopolização das terras rurais e a modernização da produção


agropecuária agem no sentido de reforçar o processo de urbanização. Melazzo e Sposito
(1995), explicam que a subordinação da agropecuária ao capital industrial e financeiro, além
de favorecer o aumento de cidades, reforça os papéis urbanos por meio da deliberação de pelo
menos três dinâmicas, a saber:

O aumento do consumo de produtos industriais colocados pelo


novo padrão de produção no campo, tornou seus produtores consumidores
de máquinas, sementes, fertilizantes ou inseticidas produzidos e
comercializados nas cidades. A expansão de uma produção agrícola voltada
ao beneficiamento industrial também reforçou a produção urbano-industrial,
seja através da expansão da soja, da cana - sustentada pelo Estado, via Pro-
Alcool -, seja através da incorporação da criação cada vez mais industrial de
frangos, bovinos e suínos. Por fim, a intensificação dos papéis urbanos - e
dos problemas que acontecem mais intensamente nas cidades - deu-se pela
imposição - como única opção - do consumo da produção urbano-industrial

49
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

aos trabalhadores e/ou produtores do campo - cada vez mais habitando as


cidades (p.12).

Assim, o processo de esvaziamento populacional do campo foi irremediável. A taxa de


incremento da população rural brasileira na década de 1970 já correspondia a –0,62% a.a.. No
final desta década, a população urbana brasileira já correspondia a 57 % do total de
habitantes. Uma das conseqüências desse processo é o fato de que a população agrícola5 passa
ser maior do que a população rural nesse período, tornando mais complicados os tradicionais
esquemas de relação cidade-campo (Santos, 1993).

Araçatuba teve grande crescimento da sua população urbana a partir de 1950/60, como
podemos visualizar no quadro 03 (página 51). Desta forma, a população urbana de Araçatuba
já superava a população rural na década de 1950. Santos (1993) sintetiza esse processo no
país em sua totalidade da seguinte forma:
Os anos 60 marcam um significativo ponto de inflexão. Tanto no
decênio entre 1940 e 1950, quanto entre 1950 e 1960, o aumento anual da
população urbana era, em números absolutos, menor do que a população
total do País. Nos anos 60-70 os dois números se aproximavam. E na
década 70-80, o crescimento numérico da população urbana já era maior
que o da população total (p.30).

Barbosa (1970), salienta o precoce desenvolvimento da pecuária no município de


Araçatuba logo após a baixa da produção cafeeira nos meados de 1930 e a adoção de técnicas
modernas na agricultura já na década de 1960, fatos que, somados, resultaram numa liberação
da mão de obra no meio rural intensificando o êxodo rural. Como já vimos no capítulo
anterior, a expansão da malha urbana da cidade, resultado da incorporação de terras antes
utilizadas para fim agrícola e pecuário ao perímetro urbano, alterando seus usos, toma ímpeto
a partir de 1940, ocasionado pela atuação dos empreendedores imobiliários, intensificando a
dinâmica do mercado de terras urbanas.

Já na década de 1940, pecuaristas da região de Araçatuba contavam com subsídios


federais para o desenvolvimento da criação de bovinos, em especial os da variedade Nelore,
contando também com um dos primeiros centros de inseminação artificial do país (Silva,
2004).

5
Parcela da população que exerce atividade de caráter rural (agricultura ou pecuária), mas que reside nas
cidades, a exemplo dos bóias-frias.

50
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No âmbito regional, Araçatuba apresenta uma migração populacional para outras


regiões, principalmente para a capital paulistana. De 1940 a 1960 o incremento populacional
regional anual foi de – 3,2. Nesse mesmo período, Araçatuba, cidade sede da região
administrativa, apresentou um salto no número absoluto de sua população de 45.875 para
81.263 habitantes, sendo que a população urbana triplicou.

Neste sentido, Melazzo e Sposito (1995), afirmam que as taxas de crescimento da


região de Araçatuba estavam relacionadas com os acontecimentos do meio rural, a exemplo
das dificuldades impostas pela crise do café e a disponibilidade de terras a preços baixos. Daí
o capital estar voltado para este segmento, ainda que haja um relativo crescimento do
emprego no setor secundário na região6.

Quadro 03: Evolução da população de Araçatuba

Década População População População


Urbana Rural total
1940 17 150 28 725 45 875
1950 32 380 27 072 59 452
1960 53 759 27 504 81 263
1970 86 930 21 728 108 658
1980 116 467 12 900 129 367
Fonte: Bernstein e Pinheiro (1997).

De forma geral, o processo salientado é o da migração. Singer (1983), destaca que a


busca pela compreensão desse fenômeno deve inseri-lo num processo de mudanças mais
amplas. Assim, o movimento populacional, que resulta no crescimento de cidades como
Araçatuba, é considerado conseqüência de um conjunto de processos que ocorrem de maneira
interdependente, a exemplo da urbanização do interior paulista, da industrialização e das
transformações no campo, todos vinculados ao reordenamento da Divisão Internacional do
Trabalho vivido no período.

6
Considerando a rede urbana em formação no Estado de São Paulo, alguns estudos indicam que a concentração
industrial na Grande São Paulo retardou a industrialização do interior paulista - sobretudo o Oeste Paulista -
imprimindo um caráter complementar a esta última, uma vez que a transformação agrícola reforçava e auxiliava
na expansão do setor industrial de bens de consumo não-duráveis.

51
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Outro fator bastante salientado por aqueles que se preocupam com o processo de
urbanização brasileira no período analisado, como Sposito (2001), Davidovich (1993), Faria
(1991) e Santos (1993), entre outros7, é a formação de um mercado consumidor. No que diz
respeito às cidades médias, este fator é de relevância fundamental.

As mudanças na DIT8 foram empreendidas, principalmente, por grandes empresas


que, ao se internacionalizarem, buscavam mão-de-obra mais barata e contribuíam para a
formação de mercados na “periferia” do sistema. A diversificação industrial ampliou a
quantidade de produtos disponíveis no mercado. Constata-se um processo de ampliação da
oferta de bens e serviços e do seu consumo por clientelas que vão cada vez mais se
concentrando em torno dos espaços de maior densidade e sofisticação dos equipamentos
comerciais e de serviços (Sposito, 1993).

Neste contexto, a cidade de Araçatuba passa a ser convidativa aos consumidores de


outras cidades e dos espaços rurais. Daí o seu crescimento desproporcional em relação às
demais cidades da região no período considerado. Outra conseqüência da constituição de um
mercado consumidor às cidades médias é o aumento do setor terciário e da oferta de empregos
nesse setor, fomentando ainda mais a concentração de funções atribuídas a Araçatuba no
âmbito de sua região, denotando sua importância cada vez maior.

Em suma, conclui-se que o movimento populacional intenso do período considerado,


redistribui a população no espaço de acordo com o arranjo espacial das atividades econômicas
no espaço.

7
Na visão destes autores, que partem da funcionalidade das cidades para o desenvolvimento capitalista
(perspectiva marxista por excelência), a cidade aparece como lócus da acumulação do capital. Por isso, analisam
a rede urbana como sistema de drenagem de recursos do campo para as cidades e o papel de difusão de bens,
serviços e valores, principalmente nos países subdesenvolvidos.
8
Francisco de Oliveira (1982) afirma que, a partir de 1950, importantes mudanças na lógica de funcionamento
do Modo Capitalista de Produção, na sua fase monopolista, vão gerar profundas transformações na estrutura de
classes sociais no Brasil. O aumento da classe média, o aumento das tarefas não produtivas e a ampliação do
consumo vão exigir uma atuação mais forte do Estado, inclusive no que diz respeito à dotação do espaço urbano
de infra-estrutura básica para comportar a nova realidade.

52
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2.2 Ao sul, nasce um bairro

A concentração fundiária ocasionada pela expansão da pecuária e pela modernização


do campo, o crescimento dos empregos no setor secundário proporcionado pela
industrialização incipiente do interior, e a formação de um mercado de consumo,
condicionando uma ampla rede de oferta e demanda intensificando o setor terciário, vão
estimular o fluxo migratório para as cidades intermediárias, denominadas hoje de cidades
médias.

A área que serve de sítio para a implantação do bairro Alvorada faz parte de uma
grande porção de terras localizadas no sudeste da cidade, adquiridas pela Imobiliária Mauá, de
propriedade dos empresários rio-pretenses Gilberto Trivelato e Franklin Leal. A atuação desta
empresa privilegiou o quadrante leste da cidade e a camada da população de mais baixa renda,
enquanto a já citada Imobiliária Paulista privilegiou as porções sul, sudoeste e as
proximidades do centro, assim como as camadas da população de maior renda.

A porção sul de Araçatuba só vai receber um maior contingente populacional a partir


da década de 1950. A atuação do poder público teve caráter determinante nesse processo.
Somente depois da construção da ponte de concreto sobre o córrego Baguaçu, por onde
trafegava grande quantidade de pessoas e meios de transporte dos mais variados tipos sobre a
estrada municipal que ligava o município de Araçatuba a Bauru, desde 1914, é que se teve
geradas as condições básicas para a ocupação da área. Atualmente, a Avenida Baguaçu
constitui uma das vias mais movimentadas da cidade e importante via de ligação com o
município de Birigui.

A propósito da ocupação no quadrante sudeste da cidade, o córrego Baguaçu desde


logo constituiu um obstáculo, somente superado com a construção de inúmeras pontes sobre
esse curso d’água. Algumas pontes foram responsáveis pela valorização de grande parte de
loteamentos implementados pelas incorporadoras, aumentando seus lucros. Um importante
fator que agiu no sentido de garantir a expansão da malha urbana ao sul foi a instalação, por
parte do Poder Público Municipal coadunado com o conhecido empresário barretense
Sebastião Maia, do primeiro distrito industrial da cidade em 1957, onde atualmente está
alocada uma das filiais da Universidade Paulista, a UNIP. No mesmo distrito industrial foi

53
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

implantada, na década de 1970, a indústria Paoletti, responsável pela compra da maior parte
da produção de tomate da região. Em 1996, a Paoletti foi incorporada pela multinacional
italiana Parmalat, tornando-se a maior planta industrial da cidade.

A instalação destas duas empresas representa o perfil da industrialização característica


de Araçatuba e de outras cidades do Oeste Paulista. Tanto o frigorífico T-Maia, fundado em
1957, como a Paoletti, fundada em 1972, atuam no segmento alimentício.

A instalação do frigorífico T-Maia teve papel crucial na expansão da malha urbana


araçatubense para as áreas a sudeste em virtude da ampliação dos interesses imobiliários
naquela área. A Imobiliária Mauá adquiriu, aos poucos, glebas de terras que hoje formam os
bairros Alvorada, Umuarama e Panorama, sendo os dois primeiros os mais populosos dessa
porção da cidade, e caracterizada pelo baixo poder aquisitivo dos moradores. Antes da
aquisição por parte da Imobiliária Mauá, esta área da cidade não pertencia ao perímetro
urbano, sendo constituída por um conjunto de pequenas propriedades dedicadas à plantação
de café, pequenos cultivos e pequenas criações para consumo dos proprietários.

A referida área era cortada por um trecho da linha férrea Noroeste do Brasil, depois
que esta teve seu traçado original modificado na década de 1930 (ver mapa 01, página 28).
Contava, também, com uma pequena estação, a Guatambu, que ainda persiste na memória dos
antigos moradores que se recordam de utilizarem o trem que por ali passava para ir fazer
compras na “cidade”. Hoje, as instalações da antiga estação são ocupadas por famílias de
baixa renda.

Toda mobilização por parte de vários segmentos sociais da cidade no intuito de


estimular a instalação do frigorífico T-Maia, representa o perfil predominante da
industrialização do Oeste Paulista. A indústria alimentícia vinculada à produção rural é
predominante nesta porção do espaço paulista no período considerado. Em Araçatuba, o
crescimento cada vez maior da pecuária vai, ao longo do tempo, consumindo a maior parte
das terras agricultáveis não exploradas e aquelas já exploradas, mas cujos proprietários se
encontram pressionados a vendê-las porque não conseguem se adaptar às mudanças sociais e
econômicas do período.

54
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

Segundo Falconi da Hora & Sousa (1995), é na década de 1950 que o modelo urbano-
industrial no Brasil teve seu ritmo acelerado, tomando maior relevância que as atividades
agrárias, impulsionando as mudanças na organização e distribuição da população, tal como
aquelas já mencionadas. No que diz respeito à dinâmica habitacional de Araçatuba, o
crescimento percentual de domicílios ocupados em 1940-50 era de 7.2%, passando para
39.2% em 1950-60. Um número muito grande das pessoas que se deslocam do campo para a
cidade vão encontrar moradia em Araçatuba, ocupando principalmente áreas periféricas, mais
precisamente nos loteamentos populares, tal como o nascente Alvorada.

O quadro descrito acima se deve ao fato de que os municípios que são considerados
sedes regionais, reforçam o papel de pólos catalisadores das atividades responsáveis pelo
crescimento econômico de suas regiões. Falconi da Hora & Sousa (1995) afirmam que é nesse
período que se reforça a tendência de crescimento desses municípios (sedes regionais) em
relação aos demais municípios. O crescimento do número de imóveis não corresponde ao
crescimento populacional, como ressalvam Falconi da Hora & Sousa (1995), isto porque o
aumento da oferta de lotes e imóveis no mercado imobiliário é superior à procura e não é
distribuído eqüitativamente, numa ilustração clara das implicações da especulação imobiliária
reforçada nas cidades9.

No que diz respeito à ocupação do solo rural, em 1960 o município de Araçatuba


apresentava a maior percentagem de áreas destinadas às pastagens de todo o estado, voltada
principalmente para a pecuária de engorda (Kageyama, 1969). Tal vulto tomado pela pecuária
faz com que os pecuaristas da região consolidem uma organização representativa, o SIRAN
(Sindicato Rural da Alta Noroeste), que existe desde 1942, agregando os interesses do setor
agropecuário ao cenário político local (Silva, 2002).

O frigorífico T-Maia representa a consolidação da pecuária na região de Araçatuba. Na


mesma medida que a instalação desse empreendimento fomenta a ocupação dos quadrantes
leste e áreas a sudeste da cidade, que se valorizam e potencializam a atuação dos
empreendedores imobiliários, a exemplo da Imobiliária Mauá, sua atividade reforça um tipo

9
Segundo dados levantados pelas autoras citadas, a diferença entre crescimento populacional e crescimento
habitacional em Araçatuba passa a ser favorável à segunda já em 1950. A diferença corresponde à ordem de
3,0% em 1950, 5,0% em 1960 e 28% em 1970.

55
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

específico de produção econômica no âmbito regional, a pecuária, e um segmento da


indústria, a alimentícia, vinculada à produção rural.

Levando-se em conta as informações levantadas por meio de entrevistas e


questionários (trabalho de campo realizado em 2004), há um pequeno número de moradores
do Alvorada que são remanescentes do período em que a área era constituída por pequenas
propriedades, a exemplo daquela pertencente ao Sr. Lorival Oliveira, cuja família mora na
área há oitenta anos.

Segundo esse morador, a maioria das propriedades da área era de pequeno porte e a
atividade predominante era o cultivo do café e a criação de gado, que era abatido no
matadouro da prefeitura localizado numa área compreendida pelo bairro próximo ao córrego
Baguaçu, onde era despejado todo o sangue e os demais resíduos resultantes dos abates.
Atualmente, nessa área localiza-se o DAEA, Departamento de Água e Esgoto de Araçatuba,
autarquia responsável pelo tratamento e distribuição de água e esgoto da cidade.

Sr. Lourival lembra da construção da ponte de concreto sobre o córrego Baguaçu em


1970. Essa obra é marco importante para a ocupação do bairro uma vez que a antiga ponte de
madeira não proporcionava segurança para os que ali trafegavam, pois ela já havia
desmoronado várias vezes. A ponte de concreto foi construída em 1970, próxima à estação do
DAEA na Av. Baguaçu, na época, principal via de acesso a cidades como Birigui e Bauru. A
melhoria da ponte e da avenida possibilitou uma melhor conexão do bairro com o restante da
cidade, passando a ser a principal via de ligação com o centro comercial.

O projeto inicial da Imobiliária Mauá foi totalmente modificado ao longo dos anos de
ocupação do bairro. A ocupação irregular de áreas verdes foi uma das irregularidades não
previstas pelos empreendedores. No projeto registrado na Prefeitura Municipal, datado de
1950, o número de lotes e das áreas destinadas ao poder público está indefinido.
Posteriormente, as áreas destinadas à prefeitura foram definidas como as áreas às margens dos
córregos Alvoradinha e Baguaçu, assim como uma longa faixa, atualmente compreendida pela
rua Uruguaiana, no extremo leste do bairro, numa faixa paralela ao Perímetro Urbano.

Uma estreita faixa ao longo da linha da Noroeste do Brasil, que corta o bairro na sua
extremidade sul, também foi destinada à prefeitura. Até recentemente nessa área eram

56
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construídos barracos, num incipiente processo de favelização dessa faixa. Em suma, as áreas
destinadas à prefeitura como áreas verdes foram quase totalmente tomadas por ocupações
irregulares (ver mapa 04 na página 75), algumas delas com processos de usucapião tramitando
na justiça.

A ocupação da área que, atualmente constitui o bairro Alvorada, teve início a partir da
década de 1950, como iniciativa da Imobiliária Mauá, empresa que atuou na fase de expansão
da malha urbana de Araçatuba caracterizada pela atuação das incorporadoras privadas, que
compravam extensas áreas destinadas à produção rural, dividia os lotes e implantavam
algumas melhorias.

A conjugação de interesses por parte de vários segmentos sociais importantes fez com
que se instalasse o frigorífico T-Maia, no primeiro distrito industrial da cidade, ao longo da
Av. Baguaçu, logo no início do loteamento. Nesse momento, a região de Araçatuba passava
por profundas mudanças na sua estrutura produtiva; por isso, a instalação do T-Maia é
duplamente emblemática, pois representa uma fase em que a pecuária se consolida como
principal atividade econômica da região e do município, gerando uma incipiente
industrialização vinculada ao campo, a exemplo dos inúmeros curtumes que se instalaram na
cidade a partir desse momento.

Outro processo cuja instalação do T-Maia marca é o impulso dado na ocupação urbana
de uma área da cidade até então ocupada por pequenas propriedades rurais. Este fato se deve à
migração de grande contingente de pessoas antes ocupadas no meio rural e que vêem na
migração para a cidade uma alternativa para a sobrevivência. Parte significativa dos
moradores mais antigos do bairro tem origem rural (aproximadamente 20% dos
entrevistados), e são provenientes da região de Araçatuba ou de regiões próximas.

57
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

2.3 O bairro globalizado

No item anterior, salientamos, de forma concisa, um conjunto de elementos que


permite o entendimento de como diferentes processos se combinaram num período que tem,
como principal corolário, a reorganização e redistribuição da população nas mais diversas
escalas. Sustentamos que processos mais gerais, como a reordenação da Divisão Territorial do
Trabalho, implicam em diferentes formas de organização espacial e de arranjos das diferentes
atividades, sobretudo econômicas, no espaço regional e, por conseqüência, no interior das
cidades. Neste caso, inserimos o surgimento do bairro Alvorada nesse contexto de
mudanças10.

Este item conserva o caráter “estruturalista” de nossa explanação, já que o objetivo é o


de elaborar um quadro explanatório acerca dos rebatimentos no espaço do bairro Alvorada de
processos mais gerais (estruturais), notadamente, processos econômicos, políticos e sociais.
Buscamos, neste momento, fazer uma articulação da realidade apresentada pelo bairro
Alvorada com a realidade diagnosticada no âmbito nacional e global.

Os dois eixos organizadores de nosso pensamento são referentes ao crescente processo


de globalização, denominação dada à atual fase de desenvolvimento do capitalismo e,
resultantes desse mesmo movimento, as transformações ocorridas nos últimos anos no que
denominamos de mundo do trabalho, termo que abriga os complexos processos de ordem
estrutural que metamorfoseiam as relações de trabalho no contexto da globalização.

O sentido dado à idéia de globalização, neste item, pode ser resumida nas palavras de
Giddens (1990):
...ser definida como a intensificação das relações sociais largamente sobre o mundo que ligam
localidades distantes, de tal modo que os acontecimentos locais são formados por eventos que ocorrem
há milhas dali e vice-versa. Esse é um processo dialético... A transformação local é tanto mais parte da
globalização quanto a extensão lateral das conexões sociais atravessarem tempo e espaço (p.64).

2.3.1 O bairro e o mundo contemporâneo

10
Adiantamos que a temática ora apresentada constitui um elemento estruturador do pensamento em processo no
transcurso desta dissertação. A dialética entre processos de dimensões mais amplas e seus rebatimentos em
escalas menores é preocupação deste capítulo e, de forma mais detalhada, do capítulo seguinte, no qual

58
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No Brasil, a pobreza se difunde pelo espaço urbano por meio de diferentes situações:
periferias empobrecidas, favelas, áreas degradadas, ocupações irregulares, violência urbana,
desemprego, entre outras. O bairro Alvorada representa uma realidade concreta onde as
características mais gerais de nossa sociedade são filtradas por meio das especificidades do
espaço. Destarte, o atual padrão de desenvolvimento urbano do país, fundado na dinâmica
capitalista de desenvolvimento desigual e combinado11, terá suas conseqüências na escala do
bairro.

Conceitos como marginalidade, exclusão, inclusão precária, periferia, salvo suas


diferenças de embasamento teórico, todas, sem exceção, referem-se ao caráter desigual do
desenvolvimento de uma sociedade que se organiza num modelo global chamado, muitas
vezes de forma abstrata, de globalização. Muitos dos estudos que traçam um quadro geral das
características sociais, econômicas, políticas e culturais da sociedade contemporânea partem
das transformações ocorridas nas dimensões mais amplas, já que a globalização representa o
atual estágio de desenvolvimento do Capitalismo Financeiro e Monopolista.

Vamos enfatizar os rebatimentos da globalização no que diz respeito às modificações


que este processo vem causando na estrutura do trabalho na sociedade brasileira. Nos
capítulos seguintes, faremos referência à suas implicações a partir de uma perspectiva política
e simbólica. Esta sistematização tem a intenção de tornar nossa explanação mais clara do
ponto de vista formal na apresentação deste trabalho, já que todas essas dimensões da
totalidade da vida social só são compartimentadas no processo de análise.

Segundo Octávio Ianni (1996), o termo globalização pode ser entendido como uma
metáfora. O que está por trás desta metáfora é o processo de desenvolvimento do Modo
Capitalista de Produção. O período destacado por Ianni como germe da atual configuração
tomada pelo capitalismo é o pós-II Guerra Mundial, período que marca a internacionalização
do capital, quando a organização da Divisão Internacional do Trabalho ganha contornos mais
flexíveis graças às tecnologias na eletrônica e na informática. Neste período, instituições

realizaremos uma análise mais profunda do ponto de vista teórico, tendo o conceito de território como elemento
catalisador de nossa argumentação.
11
Para uma explanação mais detalhada, tanto do ponto de vista teórico quanto suas implicações metodológicas
do processo de Desenvolvimento Desigual e Combinado do Modo de produção Capitalista consultar o trabalho
“O Desenvolvimento Desigual: natureza, capital e produção do espaço” de Neil Smith (1988).

59
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mundiais nascidas no “espírito” de Bretton Woods, tais como o extinto GATT, o FMI, o
BIRD, a ONU, a OCDE, e o surgimento do dólar como a moeda padrão, além de gigantescas
ações de investimentos como o Plano Marshall, vão dar forma ao novo modelo de
organização social, econômica e ideológica12.

A gestão do capital global, centralizada nas instituições globais de regulação


financeira, combina-se com a atuação individual de grandes investidores que possuem
capacidade de influenciar políticas estatais e determinar acordos econômicos, a exemplo dos
megainvestidores George Soros e Bill Gates. As ações globalizadas e globalizadoras destes
agentes da Globalização atravessam, transversalmente, o espaço nas diversas escalas,
desregulando e/ou destruindo certas estruturas que podem impedir o funcionamento do
sistema (Oliveira, 2000).

No pós-II Guerra Mundial, a acumulação do capital, enquanto processo global, é


potencializada por meio de uma nova DIT, batizada como Terceira Revolução Industrial.
Fatores como as inovações técnicas no setor de eletrônicos e informática, a generalização da
rede mundial de computadores e a utilização cada vez maior dos satélites, assim como as
novas técnicas geradoras de energia, como, a fissão atômica, as grandes transformações nos
meios de transporte, baseadas principalmente no avanço da logística (entendida como a
racionalização da circulação dos fluxos), somados, vão agir num sentido até então nunca
vivido pela sociedade capitalista.

Muito desses avanços tiveram como força propulsora a Guerra Fria, período em que a
Geopolítica mundial ficou dividida entre duas grandes matrizes ideológicas: o Socialismo,
representado pela União Soviética, e o Capitalismo, representado pelos Estados Unidos. A
disputa entre essas duas grandes potências mundiais teve seu enfraquecimento após a queda
da União Soviética e dos países do leste europeu. Durante a Guerra Fria, a expansão
capitalista encontrava na expansão socialista um limite, com a transição de grande parte dos
países de economia planificada para uma organização na qual predomina a economia de
mercado livre, o capitalismo se expande por todo o mundo.

12
Para uma explanação mais detalhada deste assunto ver BHIR (1999) e SANTOS (2002 e 1997).

60
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A expansão do processo de globalização no século XX apresenta duas etapas: a


primeira inicia-se com o final da II Guerra Mundial, abarcando os países considerados
desenvolvidos e, a segunda, inclui boa parte do Terceiro Mundo e mais recentemente os
países que compunham a União das Repúblicas Socialistas Soviética – URSS (Singer, 2000).

O legado deixado pela Guerra Fria à sociedade mundial no início dos anos 90 teve o
seguinte saldo, apresentado pelo jornal Folha de São Paulo:
... os 20% mais ricos do planeta tiveram a sua renda ampliada de 18
para 30 vezes sobre os pobres. Em 1944 estes 20% mais ricos apropriavam-
se de 86% de todo o que foi produzido no mundo, enquanto, 80%
apropriava-se de 14% do produto mundial (02/08/97).

Autores que se preocupam com a problemática da globalização e de seus efeitos para a


sociedade, indicam a década de 198013 como marco definitivo da consolidação deste novo
padrão de desenvolvimento. As profundas mudanças ocorridas no patamar da reprodução da
vida humana, dependendo do referencial teórico, toma diferentes denominações, como
Terceira Revolução, Período Técnico Científico Informacional, Neoliberalismo,
Mundialização, Globalização, entre dezenas de outras. Nossa escolha pelo termo globalização
se deve ao fato de presumirmos que ele parece ser o que tem maior inserção no vocabulário
popular e científico, principalmente a partir da década de 1980. Temos a real noção de que a
utilização do termo globalização, muitas vezes reveste-se de um certo sentido opaco, uma vez
que veículos de comunicação, a classe empresarial e parte dos governantes valorizam
determinados aspectos do processo com o intuito de defender suas ideologias, tornando outros
aspectos ocultos.

A contradição estrutural da sociedade capitalista capital x trabalho, passa a ser, nos


contornos do processo de globalização, nosso referencial. O esteio de nossa reflexão está
alicerçado na perspectiva das redefinições técnicas, organizativas, econômicas e gerenciais do
processo de acumulação do capital que resultam em profundas mudanças nas relações de
trabalho ou, como preferimos denominar aqui, no mundo do trabalho.

13
Principalmente aqueles que a vinculam às medidas neoliberais incrementadas nos governos de Ronald Reagan
(nos EUA) e Margareth Thatcher (na Inglaterra).

61
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Conforme Singer (2000), a Terceira Revolução Tecnológica possui contornos


específicos porque, além de provocar profundas mudanças nos setores primário e secundário,
traz profundas mudanças no setor de serviços, a exemplo da difusão do auto-serviço, mais
conhecido como processo de automação. No âmbito desse processo está a reorganização da
DIT, acionada, em parte, pelas diferenças de produtividade e de custos de produção entre os
países, gerando as novas estratégias empresariais que buscam assegurar os empregos estáveis
somente a uma parcela de trabalhadores de difícil substituição em função de suas
qualificações.

O que está na origem de toda metamorfose vivida pela sociedade brasileira14, nos
últimos quinze anos, são as mudanças ocorridas na adoção de técnicas e estratégias de gestão
e poupadoras de mão-de-obra, a partir das reestruturações e racionalizações levadas a cabo
depois da rápida abertura comercial e exposição da produção à concorrência externa, junto à
política neoliberal assumida, sobretudo depois do governo Collor de Mello e, posteriormente,
com o governo “privatizador” de Fernando Henrique Cardoso (ambos na década de 1990).

O aumento da terceirização no Brasil, sobretudo a partir da década de 1990, foi


acompanhado por um aumento do grau de informalidade, medido tanto pelos empregados sem
carteira de trabalho assinada quanto pelos trabalhadores por conta própria.

Sobre a informalidade e a terciarização, a primeira foi motivada em grande parte pela


resistência dos empresários em pagar os encargos previstos na legislação trabalhista. Tais
encargos são criticados, atualmente, até mesmo por setores mais esclarecidos da sociedade,
que os considera muito alto (cerca de 102 %), e o segundo é resultante do primeiro, pois
representa a substituição do empregado permanente (formal) por fornecedores de serviços
(autônomos). Paul Singer (2000) afirma que se tratam de tendências mundiais e resultam da
abertura das economias nacionais à competição internacional e da revolução nas formas e
conteúdos do trabalho impulsionados pela informatização.

Maia (1997), desenvolve a idéia de que o aumento do desemprego na última década


revela a convivência de três tipos ou formas diferentes de sua manifestação, que ocorrem ao

14
Singer (2000) afirma que o termo correto para definir todo esse contexto de mudanças na estrutura do trabalho
no Brasil, como o aumento do desemprego, considerado o evento de maior gravidade nos últimos anos, a
terceirização e o aumento da informalidade, é o de precarização do trabalho. Outros termos também são
empregados pelo autor, tal como o de desregulamentação e flexibilização do trabalho.

62
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mesmo tempo e de forma interligada, a saber: 1) o desemprego conjuntural, provocado pela


gestão da política econômica, que age, por sua vez, em função das medidas de restrição ao
consumo e à produção, a exemplo das altas taxas básicas de juros; 2) o desemprego
tecnológico, já evidenciado neste texto, resultante da incorporação de novas tecnologias aos
processos produtivos, de técnicas organizacionais e de racionalização do processo produtivo;
3) e, por último o desemprego de exclusão, decorrente da desqualificação para o trabalho nos
núcleos dinâmicos da economia (Maia, 1997; 13).

Esses três tipos de desemprego apresentados por Maia, são importantes porque
demonstram a complexidade do fenômeno na sociedade atual, pois suas causas estão
relacionadas a processos mais amplos do desenvolvimento capitalista, o que lhe dá conotações
estruturais.

Ao dissertarmos sobre as inovações técnico-organizacionais, não estamos


considerando o progresso técnico como uma espécie de “motor” da história; o que propomos
é apreender as mudanças ocorridas segundo os pressupostos daqueles que buscam entender a
trajetória do capital por um arranjo de forças favoráveis à sua reprodução ampliada e seus
reflexos na estruturação do mundo do trabalho.

Na trilha das mudanças no mundo do trabalho, Singer (2000), Antunes (1998), Bihr
(1998), Gonçalves & Sposito (2001), vão relacionar o processo de precarização do trabalho a
uma certa crise de representatividade por parte dos trabalhadores. A dissolução das
identidades coletivas, a ascensão do individualismo, perda da direção, são algumas das
conseqüências sociais diretamente ligadas ao enfraquecimento do movimento operário. O
aparato institucional que garante proteção ao trabalhador frente aos ditames do mercado e da
espoliação a que são submetidos os trabalhadores encontra-se minado nas bases pelas
transformações que não são restritas aos condicionantes econômicos, mas principalmente na
sua interface com as condicionantes políticas, principalmente no que diz respeito à atuação do
Estado.

63
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2.3.2 O mundo do trabalho na perspectiva geográfica

Reflexo das mudanças estruturais enumeradas no item anterior, o Brasil passou na


última década por grandes mudanças; abertura comercial, integração regional, privatizações,
desregulamentação financeira e estabilização monetária, entre as mais evidentes, do ponto de
vista da política econômica assumida neste período, com vistas a uma melhor inserção na
economia globalizada.

Comim (1999), ao apresentar um quadro da atual situação do mercado de trabalho no


Brasil, ressalta que todas as mudanças reportadas anteriormente vão culminar no incremento
das taxas de desemprego. Segundo o autor, na década de 1990, assistiu-se a três movimentos
do desemprego: 1) um período de ascensão nos primeiros anos, marcados por forte recessão
econômica, quando a taxa de desemprego aberto chega a quase 6%; 2) um segundo momento
quando a taxa de desemprego retrai, que vai de 1993 a 1995; 3) e um terceiro de nova
ascensão da taxa de desemprego, que em 1998 chega a 8%. Especificamente, a indústria é o
setor que apresenta maior incremento da taxa de desemprego, chegando a 9% no período.

O Brasil ocupa a terceira colocação no ranking mundial do desemprego, com


aproximadamente 8,2 milhões de desempregados, sendo superando pela Rússia, com 9,0
milhões e pela Índia, com 39,0 milhões de desempregados. Segundo dados do Dieese/Seade,
em 2003 a taxa de desemprego no Brasil atingiu 19,9%, constituindo-se no maior índice desde
1985. No que diz respeito ao salário da classe trabalhadora, vem ocorrendo um processo de
queda ininterrupta. Segundo o IBGE, em 1998 a renda do trabalhador ocupado encolheu 30%,
e em 2003 caiu 6,4%, em relação aos trabalhadores formais. O trabalho informal cresceu a
ponto de atingir, atualmente, 58,1% dos trabalhadores ocupados no país, ou seja,
aproximadamente 38,1 milhões de pessoas15.

Esse quadro do desemprego no Brasil vem acompanhado de um quadro mais


escorchante ainda, o da desigualdade na distribuição de renda. Segundo a UNICEF, a renda

15
A título de comparação, somente no mês de realização da pesquisa de campo desta dissertação, o nível de
emprego da indústria de Araçatuba e região apresentou desempenho negativo de 0,95%, o que significou o
fechamento de 312 postos de trabalho. Em fevereiro, a empregabilidade na indústria voltou a apresentar variação
negativa, de 0,38%, o que equivale a 125 demissões. Os dados são da FIESP/CIESP (Federação e Centro das
Indústrias do Estado de São Paulo).

64
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anual dos 10% mais ricos é 30 vezes superior a dos 40% mais pobres, sendo que esses 10%
mais ricos possuem 53% da renda nacional e 93% das riquezas do país.

Em 1999, havia no Brasil 53 milhões de pessoas pobres16, sendo que 58 % das


famílias pobres eram chefiadas por trabalhadores autônomos e empregados no setor informal
ou sem remuneração de acordo com estudos da CEPAL (2003). Desse total, 21% vivem nas
metrópoles e 16% vivem em cidades com mais de 100 mil habitantes, tal como Araçatuba; o
restante vive em cidades com população abaixo dessa última cifra e 47% vivem no campo17.

No que diz respeito à ocupação da população pobre no Brasil, 22% estão empregados
no setor informal, 37% são autônomos, 15% inativos, 15% estão ocupados no setor formal
(público e privado) e 5% estão desempregados (CEPAL, 2003).

Uma das implicações desta situação é o aumento do que os economistas chamam de


economia sem produção, que corresponde ao conjunto de transferências públicas para os mais
pobres. Entre os exemplos das transferências, a aposentadoria é o mais relevante para os
cofres públicos. Muitas dessas ações podem ser classificadas como políticas públicas que
visam a transferência direta de renda, é o caso da bolsa alimentação e do auxílio gás, e podem
ter caráter integrador, quando buscam uma atuação mais estrutural, como é o caso da bolsa
escola, do PRONAF (Programam Nacional de Agricultura Familiar) e demais programas
sociais.

Milton Santos, em suas várias obras a respeito do processo de globalização, argumenta


que ele constitui o fastígio do processo de internacionalização do mundo capitalista. Sua
compreensão parte de dois elementos; o estado das técnicas e o estado da política. Seu caráter
perverso reside no fato de que todo o aparato técnico, principalmente as técnicas da
informação, de nossa sociedade é presidido pelo mercado global, mercado que engloba a
dimensão econômica, cultural e, sobretudo, política.

Numa perspectiva geográfica, a sociedade alcançou um novo patamar, que Milton


Santos chama de racionalização do espaço geográfico, quando o processo de racionalização

16
Segundo o Banco Mundial, um indivíduo é pobre se vive num domicílio cuja renda per capita é menor que o
equivalente a 65 reais por mês (custo da cesta básica de alimentos).
17
Carneiro in: CEPAL (2003).

65
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iniciado no século das luzes, no âmbito da Revolução Industrial, ocupa todos os recantos da
vida social, emergindo daí um novo meio, o técnico-científico-informacional. Nesse meio, os
espaços da racionalidade hegemônica são suporte das principais ações globalizadas.

Por outro lado, para Milton Santos o espaço absolutamente globalizado não seria outra
coisa se não pura abstração. Ele afirma que não há um tempo global, mas, apenas, espaços da
globalização, espaços mundializados reunidos por redes (1996, p.268). Nessa atmosfera,
defrontam-se a Lei do Mundo e a Lei do Lugar (Ibid., p.269).

O mundo se apresenta como primeira totalidade, agora de forma empiricizada. Para o


autor, esta é a novidade de nosso tempo, já que a totalidade se concretiza de forma empírica.
O território (enquanto formação socioespacial) é resultado de contratos e de fronteiras, agora,
enfraquecidos pela racionalidade globalizadora. O lugar é o locus onde a racionalidade
globalizadora ganha dimensões únicas e socialmente concretas, graças a um acontecer
solidário, resultado da diversidade onde a surpresa não é excluída.

Tomado como um todo dialético, o mundo se opõe ao território e ao lugar. Segundo


Oliveira (2000), ao interpretar as idéias de Milton Santos já mencionadas:
... podemos inferir a existência de um processo mais geral, onde o
mundo se torna cada vez mais mundo, quer como sistema, como objeto de
compreensão cultural ou como materialidade e ação que articulam através das
redes o universo ao local; e outro de caráter mais específico e
concomitantemente onde o território é o seu ponto de clivagem, com
rebatimentos que se estendem até o lugar. Desse modo, o território se
constitui tanto ao nível do Estado-nação quanto ao nível local, uma mediação
necessária que (re)coloca limites, intersecções e contradições desta com as
ações globalizadas (p.160).

De forma geral, Milton Santos revaloriza a escala do lugar e sua manifestação na


forma de território. O autor confirma suas identidades e privilegia, junto aos processos
pasteurizadores, as ações diferenciadoras. Busca a diferença que vem de baixo18.

A preocupação de Milton Santos com relação aos rebatimentos da globalização nos


países de “terceiro mundo” ou países em desenvolvimento gerou uma teoria pouco utilizada

18
No livro “Por uma outra Globalização” (1999), Milton Santos trabalha a idéia da Globalização que vem de
baixo, numa referência ao processo de resistência à “tirania da globalização associada à tirania do dinheiro”, que
resulta no globalitarismo que se manifesta no pensamento único.

66
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para interpretar a realidade espacial das cidades, mas que, em nossa opinião, mostra-se
bastante eficiente em nosso estudo a respeito da constituição de toda dinâmica social
específica de um bairro, esta é a teoria dos dois circuitos.

A racionalidade capitalista se constitui enquanto resultado de um controle intenso, mas


que joga para fora do processo produtivo do trabalho um grande número de pessoas. A
exclusão e suas formas de trabalho fazem parte do “circuito inferior”, ao contrário do trabalho
vinculado aos grandes processos globais, tais como aqueles atrelados às corporações
internacionais ou às redes de franquias mundiais. Para Milton Santos, o trabalho que é
realizado pelos pobres (marginalizados ou excluídos), é portador de uma grande margem de
liberdade, diferentemente daquele trabalho do “circuito superior” que é portador da
necessidade de enquadramento de cima para baixo.

A problemática da exclusão social é entendida a partir de uma perspectiva que a


considera não como resultado do processo de Globalização e de tudo o que vem ao seu
reboque, como as transformações no mundo do trabalho, mas como a outra face desse
processo de expansão capitalista. Mas ele não pára por aí. Milton Santos enriquece a
discussão ao acrescentar os conceitos básicos da geografia. Para esse autor, o território tanto
quanto o lugar são esquizofrênicos porque acolhem os vetores da globalização, ao mesmo
tempo em que produz a contra-ordem, ou se nos é permitido acrescentar, produz outras
racionalidades diferentes e/ou divergentes da racionalidade que vem “de cima”.

Tudo isso acontece porque há um grande número de indivíduos que não conseguem
sequer se subordinar permanentemente à racionalidade hegemônica. Contudo, para Milton
Santos há um conjunto de coisas irredutíveis à tendência universalista da globalização, nos
dizeres do autor:

O corpo é uma herança e, ao mesmo tempo, o depositário da


esperança, do futuro, ainda que soframos a pressão do presente. E o
território também, porque ele realiza anastomoses, uma palavra da
bioenergia, que significa que ele realiza as combinações próprias dele, que
fazem com que ele mude em função do global e a despeito do global (1999;
37).

Sposito (2000), afirma que para compreendermos o processo de globalização,


devemos nos preocupar com a escala local, pois é no local que se manifestam os efeitos da

67
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

globalização. Um aspecto fundamental aqui é a escala. Isto não sugere que incorramos no erro
de associar o conceito de escala ao conceito de dimensão de um fenômeno, neste caso a
globalização e seus efeitos, tal como a exclusão social, reduzindo assim fenômeno à medida.
A escala não é a medida do fenômeno, mas a dimensão escolhida para observá-lo. A escala
por nós privilegiada é a escala do bairro, num sentido sociológico, o da comunidade.

2.3.3 O mundo do trabalho na perspectiva do bairro

Vamos expor, agora, a caracterização socioeconômica do bairro Alvorada enquanto


exemplo da periferia de Araçatuba.

O bairro Alvorada possui, aproximadamente, 5.600 moradores19 residentes em 1.700


domicílios distribuídos em 75 quadras. Considerado pelo poder público municipal como área
de população predominantemente de baixo poder aquisitivo20, o Alvorada pode ser
classificado como um bairro da “periferia” de Araçatuba.

Roberto Lobato Corrêa (1989) diferencia duas “periferias”, uma com urbanização de
status e outra de urbanização popular. As periferias nobres, valorizadas por amenidades
físicas, ganham infra-estrutura adequada e tornam-se bairros de status, a exemplo dos
condomínios horizontais, que passaram a figurar no espaço araçatubense nos últimos sete
anos, ao contrário de outras cidade de porte médio do Oeste Paulista, como Presidente
Prudente e São José do Rio Preto, cuja existência desse tipo de ocupação do espaço remonta à
década de 1970.

Os bairros são periféricos se considerados do ponto de vista geométrico, ou seja, o


termo “periferia” representa aquelas áreas localizadas fora ou nas imediações de algum

19
Os dados apresentados neste item foram obtidos por meio da aplicação de questionários, cujo modelo pode ser
visto no anexo 1. O universo que corresponde à amostragem é de 10% do total do bairro, garantindo-se, assim, a
representatividade da população. A aplicação dos questionários se deu por meio da amostragem sistemática.
Como pretendíamos contemplar 10% do universo de 1.700 residências (1.700/10% = 170), sorteamos uma
primeira residência e, a partir dela, aplicamos os questionários a cada 17 casas. Outras fontes estatísticas usadas
serão citadas ao longo do texto.
20
Segundo uma classificação encontrada no site da Prefeitura Municipal, que distingue os bairros de Araçatuba
segundo letras que vão de A a E, o Alvorada se encontra numa posição onde há o predomínio de população de
classe E. Os critérios dessa classificação não foram esclarecidos pela Prefeitura.

68
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

centro. Entretanto, nem toda área localizada fora ou nas imediações de algum centro é
considerada periferia, visto que este termo tomou significado sociológico.

O Alvorada representa um bairro de periferia do segundo tipo, segundo a perspectiva


de Roberto Lobato Corrêa, na medida que constitui local de reprodução socioespacial da
população de baixa renda.

Localizado próximo ao centro tradicional da cidade, também está em proximidade


com a área de maior valorização do espaço urbano araçatubense, a zona sul. Isto porque na
zona sul localiza-se um grande conjunto de equipamentos urbanos de infra-estrutura e de
entretenimento, a exemplo do Shopping Center Araçatuba, por ser cortado por duas avenidas,
a Brasília e a Pompeu de Toledo, tradicionais áreas de lazer (passeio e “paquera”) da
população jovem, o que privilegiou essa área com uma grande concentração de serviços tais
como restaurantes e lanchonetes, como a filial da rede mundial de fast food Mc Donalds.
Ilustrando um pouco mais a situação de inclusão social da zona sul de Araçatuba, basta citar
que 85% das pessoas com curso de pós-graduação residentes na cidade moram nesta área, ao
longo de um eixo formado pelas avenidas Brasília e Cussy de Almeida21.

As especificidades que dão ao Alvorada o perfil de um bairro periférico estão


relacionadas com a precariedade de sua configuração socioespacial. Há, em seu interior, uma
miscelânea de parcelas de crescimento espontâneo com parcelas planejadas pelo poder
público, assim como uma grande falta de preocupação com questões relacionadas com a
qualidade dos projetos arquitetônico e urbanista.

Com relação à situação da ocupação dos domicílios, 17% são ocupados de forma
irregular, como podemos visualizar na tabela 02 (página 73). Esses domicílios, na maioria
absoluta, são casas construídas em áreas verdes, com predomínio ao longo do córrego
Alvoradinha (ver foto 01 na página 71), ao longo da rua Uruguaiana, numa faixa limite ao
perímetro urbano, e um conjunto de residências localizadas no extremo sul do bairro, numa
área conhecida como ramal A, antigo trecho da Noroeste do Brasil (ver mapa 04 na página
74). A Prefeitura Municipal não possui cadastro de lotes irregulares, daí esta informação ter
sido obtida no trabalho de campo e na consulta ao Startcart/IBGE.

21
Fonte: Startcart/IBGE (software que apresenta os dados da Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar de
2000, georreferenciadas no espaço urbano de Araçatuba).

69
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

TABELA 01- Variáveis relacionadas à obtenção da renda familiar

Variáveis Percentagem em relação ao


total de questionários
aplicado
Quantidade de pessoas que
possuem renda na família:

1 pessoa 44 %
2 pessoas 38 %
3 pessoas 15 %
4 pessoas 03 %

Número de moradores com


registro em carteira de
trabalho por família:

1 pessoa 35 %
2 pessoas 18 %
3 pessoas 02 %
4 pessoas 01 %
Aposentados e pensionistas 44 %

Escolaridade do chefe da
família:

Nenhuma 23 %
1° grau incompleto 47 %
1° grau completo 21 %
2° grau incompleto 02 %
2° grau completo 06 %
Curso superior incompleto 01%

Fonte: Dados obtidos por meio da aplicação de questionários aos


moradores (trabalho de campo) em dezembro de 2003.

A maior parte das ocupações irregulares são antigas, já que 26% dos moradores são
residentes há mais de 25 anos e 15% há mais de 30 anos. Muitas famílias já estão na terceira
geração. Segundo uma das pessoas entrevistadas:

Cheguei aqui há 25 anos, tinha poucas casas, só uma ou outra perto do


córrego e outras mais pra lá, perto da Uruguaiana. Foi minha família mesmo
que construiu a casa, primeiro era um barraco de lona, né, depois é que, aos
poucos nós fomos construindo com tijolos.

70
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

Foto 01 –Vista da ocupação irregular ao longo do córrego Alvoradinha

A respeito da situação ilegal, a entrevistada fez o seguinte comentário:

A prefeitura, de vez em quando, aparece pegando algumas


informações dizendo que vai regularizar, vai dar a escritura, já falaram até
em mudar a gente de lugar, mas isso não acontece não. A rua que antes não
aparecia nos mapas agora já aparece, tem gente com telefone com o nome
na lista e tudo.

A rua mencionada pela entrevistada, onde se localiza sua residência, é a Travessa


Timbira. Consultando os mapas oficiais, até a última atualização cartográfica realizada pela
prefeitura em 2000, verifica-se que essa rua é inexistente.

O fato da maioria dos residentes serem moradores do bairro já há bastante tempo,


como podemos observar no gráfico 01 (ver página 72), faz com que a maioria das construções
já tenham passado por melhorias, daí a maior percentagem de construções ser de alvenaria.
Outro importante fator é a atuação da Associação de Moradores que age no sentido de provir
as famílias mais pobres de material de construção e organiza mutirões.

71
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

GRÁFICO 01 – Tempo de moradia por percentual de entrevistados

mais de 40 anos
31-40 anos 0-05 anos
6% 06-10 anos
9% 13%
7%

11-15 anos
26-30 anos 8%
25%
16-20 anos
21-25 anos 14%
18%

Fonte: Dados obtidos por meio da aplicação de questionários aos moradores (trabalho de
campo) em 2004.

No que diz respeito à renda familiar, observa-se, por meio do gráfico 02 que 60% das
famílias vivem com até dois salários mínimos, sendo que 37% vivem com até um salário
mínimo.

A renda familiar é uma importante variável no diagnóstico do perfil socioeconômico


dos bairros de periferia, já que é por meio de sua consideração que temos a possibilidade de
avaliar o poder aquisitivo dos moradores. Com o auxílio da tabela 02 (página 73), podemos
cruzar dados referentes à quantidade de pessoas que possui renda na família, o número de
moradores que possui trabalho com registro em carteira por residência e a escolaridade do
chefe da família.

72
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

TABELA 02 - Situação da ocupação, tipo de construção, infra-estrutura básica e


bens que possuem

Variáveis Percentagem em relação ao


total de questionários aplicado

Situação da ocupação:
Proprietário 73 %
Paga aluguel 07 %
Em aquisição 02 %
Cedido 01 %
Ocupação irregular (área 17 %
verde)

Tipo de construção:
Alvenaria 97 %
Madeira 01%
Mista 01%
Barraco 01%

Infra-estrutura básica:
Água encanada 100 %
Luz elétrica 100 %
Esgoto 95 %
Com banheiro 96 %
Com sanitário 98 %

Bens que possuem:


TV 100 %
Ap. de som 66 %
Vídeo cassete 12 %
DVD -
Geladeira 98 %
Fogão 98 %
Telefone particular 68 %

Fonte: Dados obtidos por meio da aplicação de questionários junto aos


moradores (trabalho de campo) em 2004.

Se confrontarmos os dados apresentados pela tabela 02 com os dados referentes à


renda familiar representados no gráfico 02 (ver página 74), observamos que o percentual de
famílias que vivem com até um salário mínimo é menor do que o percentual das famílias que
possuem somente uma pessoa com renda; isso significa que existe uma importante quantidade
de famílias que, apesar de ter dois ou três integrantes com renda, se somadas, não atingem o
salário mínimo, cujo valor no período da pesquisa era de 220 reais.

73
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

GRÁFICO 02 – Renda por família em salário mínimo

mais de 6
5 a 6 salários salários
8% 3% até 1 salário
37%
4 a 5 salários
12%

3 salários
17%

2 salários
23%

Fonte: Dados obtidos por meio da aplicação de questionários aos moradores (trabalho de
campo) em 2004.

O baixo percentual de pessoas com registro em carteira (35% das famílias possuem até
uma pessoa registrada), em relação ao percentual de pessoas com renda por família e ao
número de aposentados e pensionistas, permite deduzir que grande quantidade de famílias tem
suas rendas baseadas na aposentadoria e pensões de baixo valor e em trabalhos não
registrados (setor informal), ou seja, é grande o percentual de famílias cuja renda provém dos
empregos informais e autônomos.

O baixo nível de escolaridade dos chefes de família também denuncia o tipo de


atividade exercida pela maioria da população do bairro. Dos entrevistados que se declararam
autônomos, 23 % do total, a maior parte, têm suas atividades baseadas nos chamados “bicos”
(pequenos serviços esporádicos remunerados de forma diária), com predomínio no segmento
da construção civil, os “peões de obra” (cerca de 10% dos declarados autônomos).

74
OCUPAÇÕES IRREGULARES
NO BAIRRO ALVORADA

LEGENDA
Ocupações irregulares

Áreas verdes
uaçu
Rua Bag
Rua José Roberto

Rua Clóvis Be
Rua Eça de Que

Rua Uruguaiana
Vila Feliz

vilaqua
Pontes
u

iróz
gu
Ba

MAPA DE LOCALIZAÇÃO
ão

Cór. Alvoradinha
eir
Rib

N
Rua Clóvis
Bevilaqua

20°

25°
51° 45°
Rua Urugu

Título:
OCUPAÇÕES IRREGULARES NO BAIRRO ALVORADA
Escala gráfica:
aiana

0m 500 m

Autor: Orientador:

Rua No Nelson Rodrigo Pedon Prof. Dr. Eliseu S. Spósito


roeste Fonte: Desenhista:
Prefeitura Municipal de Nelson Rodrigo Pedon
Araçatuba-SP/Depto.
de Planejamento.
Planta da Cidade 2002 Figura: Página:
04 75
Fundação financiadora: Instituição:
unesp
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

Na pesquisa realizada somente duas pessoas declararam estar desempregadas. Isto se


explica porque o restante dos entrevistados que não possuíam carteira assinada se declararam
autônomos pois realizavam atividades esporádicas (os já citados “bicos”), afirmando que sua
última atividade remunerada havia sido exercida, também, no segmento da construção civil.
Esse segmento se encontrava em crise (2003-2004), desde 2003 houve diminuição de 80%
dos investimentos nesse setor da economia, o que resultou numa queda de 50% nas vendas em
materiais de construção e uma avalanche de demissões de empregos formais. Somente uma
construtora da cidade demitiu 50 empregados nos dois últimos meses do 1° semestre de 2003.

Jéferson é um exemplo de desempregado do setor de construção civil. Desempregado


há três meses (entrevista concedida em julho de 2003), não consegue emprego em nenhum
outro segmento. “E olha que tô numa correria, hein”, exclama nosso colaborador. Com o 1°
grau incompleto, Jéferson acha difícil obter um emprego de boa remuneração.

As afirmações feitas por parte dos desempregados ao falar do pouco nível de


escolaridade que possuem é fruto da sua experiência. É resultado de dias e dias andando pelas
ruas em busca do emprego, “a esperança”, diz Jéferson, “é a última que morre”, ao relatar as
inúmeras vezes que voltou pra casa sem boas notícias.

Segundo o Cadastro de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério de


Trabalho, referente ao 1° semestre de 2003, houve 194 demissões contra 146 admissões, num
saldo negativo acumulado de 5,34% no período. De acordo com Gilberto Batista, presidente
do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Imobiliário de Araçatuba, a
queda do número de empregos pode ser observada com a queda de 70% na arrecadação do
sindicato naquele período. Para o presidente do sindicato, esse número representa não só as
demissões como também o fato de muitos empregados estarem trabalhando sem carteira
assinada, ou seja, no setor informal da economia.

Segundo publicação da CEPAL (2003), sobre a estrutura do mercado de empregos, a


educação é o mais importante fator para explicar a determinação de salários e desigualdade no
Brasil. Sozinha, ela justifica que 48% é o gradiente da desigualdade de salários e cerca de
26% da desigualdade de renda (Barros et al, 2000). Segundo esse autor, 58% das famílias
brasileiras vivendo abaixo da linha de pobreza são chefiadas por trabalhadores autônomos,
empregados no setor informal e com baixa ou nenhuma instrução escolar.

76
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

Como podemos ver na tabela 01 (página 70), dos chefes de família entrevistados no
bairro Alvorada, 23% não possuem nenhum grau de instrução escolar, e 47% possuem o 1°
grau incompleto.

Como resultado desse quadro, podemos inferir duas conseqüências que ocuparão
nossa atenção a partir de agora. Primeiro, há uma proliferação do comércio e serviços
oferecidos, expressando, na escala do bairro, o processo estrutural já detalhado neste capítulo,
o do crescimento do setor informal da economia, assim como o número de autônomos. A
segunda conseqüência é o elevado nível de dependência da populaçãoem relação às políticas
públicas de transferência de renda, de caráter imediato na sua maioria, mas que visa amenizar
as agruras da pobreza. Esta segunda conseqüência é chamada, pelos economistas, por
economia sem produção (Gomes, 2001). Uma primeira ilustração desta constatação é o
elevado número de moradores do bairro que têm como única fonte de renda as pensões e
aposentadorias.

2.3.4 Os dois circuitos da economia do/no bairro

No início deste capítulo apresentamos uma ligeira explanação do desenvolvimento do


modo capitalista de produção, ressaltando seu caráter estruturalmente desigual.

Nosso objetivo, agora, é lembrar que o desenvolvimento do capitalismo não se resume


a uma expansão homogênea e generalizada do trabalho assalariado. Dissonantemente, sua
estrutura produtiva se desenvolve de forma heterogênea, permitindo a existência e/ou
estimulando a recriação de formas de relações de produção consideradas não capitalistas,
como o trabalho autônomo e os “bicos” ou biscates.

Milton Santos (1979), com o desenvolvimento da Teoria dos Dois Circuitos da


Economia Urbana (que passaremos a chamar de TDC, por motivos de praticidade), destaca,
no âmbito da economia urbana, a existência de um circuito inferior, identificado com a
economia urbana da pobreza e que só pode ser compreendido se considerado como um
subsistema do sistema urbano, resultado e condição da lógica e da dinâmica capitalista de
desenvolvimento.

77
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

A CEPAL publicou uma série de estudos em 2003 com o título “Pobreza e mercados
no Brasil: uma análise de iniciativas de políticas públicas”, cujo principal interesse é
apresentar um quadro do mercado de trabalho no país assim como a forma pela qual o Estado
busca interferir nesse setor por meio de políticas públicas. Um desses estudos, apresenta
resultados de diversas pesquisas; numa delas, realizada em 2000, num universo de 18 milhões
de pessoas inseridas na PEA (População Economicamente Ativa), 4,5 milhões, ou 27%,
estavam empregados no setor informal, sendo que em 1990 este número era de 17% (CEPAL,
2003; 136).

Segundo a CEPAL, a economia informal urbana é a mais importante fonte de


informação agregada a respeito dos mercados em que se inserem os pobres. Conclui-se o
seguinte:

Estas famílias dependem de uma imensa multiplicidade de


relações sociais, muitas das quais guardam pouca semelhança com aquilo
que a economia designa, de forma estilizada, como “mercados”; não são
apenas pontos neutros de equilíbrio em cujo jogo de forças se formam os
preços, mas igualmente estruturas sociais, isto é, formas recorrentes e
padronizadas de relações entre atores, mantidas por meio de sanções
(p.244).

Isso significa que muitas das informações a respeito da economia informal não podem
ter, como referência, as estatísticas rigorosas tradicionais das ciências chamadas “aplicadas”,
e é certamente por esta razão que não há muitos trabalhos em economia, sobre o
funcionamento dos mercados em que se inserem os pobres (CEPAL, 2003; 236).

Ora, esta dificuldade metodológica nas ciências econômicas é reflexo daquilo que já
foi exposto por Milton Santos (1979) acerca das causas e reflexos da TDC. A vantagem dessa
teoria é que ela incorpora o componente espacial, completando nossa perspectiva a respeito da
realidade urbana e de seu engajamento social e econômico na estrutura produtiva mais ampla
do desenvolvimento do capitalismo.

Desenvolveremos uma rápida análise da distribuição espacial das atividades terciárias


e suas estruturas sob a ótica da Teoria do Dois Circuitos da Economia Urbana. Observa-se a
lógica de localização dos estabelecimentos, suas relações e influências quando adaptadas a
uma realidade periférica, na qual a maioria da população possui um perfil socioeconômico de

78
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

baixa renda. Questões do tipo: quais formas de espaços o surgimento e a consolidação de


atividades comerciais e de serviços produzem nas áreas de residência da população de baixa
renda? Quais implicações dessas atividades na escala do lugar?

O bairro está intimamente ligado à evolução e à natureza da cidade: ele é uma unidade
morfológica e estrutural, caracterizada pela paisagem urbana, por um certo conteúdo social e
por uma função; o bairro é, também, um fato social baseado na segregação de classe ou de
raça, e nas suas funções econômicas. Essas áreas segregadas tendem a apresentar, segundo
Correa (1997), estruturas sociais que podem ser marcadas pela uniformidade da população em
termos de renda, status ocupacional, instrução, etnia, fase do ciclo da vida e migração.

Os bairros são partes relativamente autônomas do espaço urbano. Possuem seus


centros, modos de vida e monumentos22. Estas áreas que apresentam uma certa uniformidade
no que diz respeito às características socioeconômicas, tal como o bairro Alvorada, são
reflexos diretos da distribuição de renda da população e determinam o tipo e a localização das
residências em termos de acessibilidade e amenidades. A segregação aparece como uma
projeção espacial do processo de estruturação de classes, sua reprodução e a produção de
residências na sociedade capitalista.

Desta forma, o surgimento do comércio e dos serviços determina, no interior dos


bairros, uma hierarquia de centralidade, com a concentração natural de passantes/usuários
nesses locais. Na organização espacial do bairro Alvorada, o que se observa com relação à
localização dos serviços e estabelecimentos comerciais é a sua concentração nas áreas de
maior circulação dos transportes coletivos. As ruas de menor circulação praticamente não
apresentam pontos comerciais ou de serviços, salvo em alguns casos, com serviços e
estabelecimentos comerciais que oferecem artigos de uso imediato.

A economia urbana deve ser estudada como um sistema único, mas composto de dois
subsistemas, não constituindo, como sugere o próprio autor, um todo maciço. O que distingue
um circuito do outro são as diferenças de capital, tecnologia e organização. O circuito
superior apresenta grande investimento de capital, resultando em enorme volume de
mercadoria e alta tecnologia, e sua organização é caracterizada por monopólios, preços fixos e

22
O que de forma alguma, acreditamos, não impede de apontar tendências comuns ao sistema de espaços da
escala do bairro.

79
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

pequena margem de lucro por produto, publicidade, auxilio governamental etc. O circuito
inferior apresenta, na maioria das vezes, capital próprio e de baixo volume, baixa densidade
tecnológica, grande margem de lucro por produto, contato direto com o consumidor e renda
voltada essencialmente para a manutenção familiar etc (Santos, 1979).

As periferias seriam, por excelência, o lugar da instalação e reprodução do circuito


inferior, já que ele está ligado, essencialmente, à população de baixa renda. No que se refere
ao emprego, como já verificamos, grande parte da renda dos moradores do bairro Alvorada é
proveniente do trabalho autônomo e de trabalhos concernentes ao setor informal da economia.
O reflexo desta constatação no espaço do bairro pode ser observado numa simples caminhada
pelas ruas do bairro, haja vista o grande e variado número de pequenos estabelecimentos
comercias e de prestação de serviços.

Santos (1979), afirma, ainda sobre a constituição do circuito inferior, que os pobres
não têm acesso aos produtos modernos e os mais pobres, dentre eles, só podem se
proporcionar consumos correntes por intermédio de um sistema de distribuição particular
freqüentemente completado por um aparelho de produção igualmente específico que é uma
resposta às condições de pobreza das grandes massas.

Simplificando o nosso argumento, o que estamos afirmando é que a população pobre e


desempregada ou empregada mas cuja renda é insuficiente, do bairro Alvorada, vê, como
saída, inserir-se no circuito inferior (como autônomos e/ou como trabalhadores do setor
informal da economia). No mapa 05 (página 81), mostramos a localização dos
estabelecimentos comerciais e de serviços em seu interior.

Serpa (2001), apresenta uma coletânea de estudos a respeito da estrutura espacial


interna dos bairros de uma metrópole baiana, a cidade de Salvador. Sua perspectiva é a da
formação de núcleos de centralidades dentro dos bairros. Segundo o autor:
...o entendimento da dinâmica de formação e consolidação de
centralidades no interior dos bairros pode ser a chave para a formulação de
um novo ideário em políticas de intervenção urbana. Estas centralidades
resultam de um processo lento e cotidiano de “demarcação de território” e se
traduzem em formas espaciais com forte identificação com os habitantes dos
bairros periféricos. O surgimento do comércio e dos serviços determina, por
outro lado, uma hierarquia de centralidades no interior dos bairro, com a
concentração natural de passantes/usuários nestes locais (p. 16-7).

80
Localizaçao dos
estabelecimentos
comerciais e de serviços no
bairro
LEGENDA

Estabelecimentos comerciais
Serviços
u
Rua Baguaç Escola Estadual

Rua Uruguaiana
Posto de saúde (UBS)
Sede da Associação de Moradores

Rua Clóvis Be
Escola Municipal de Ensino Infantil
Rua Eça de

Pontes

vilaqua
Queiró
u

MAPA DE LOCALIZAÇÃO

gu
Ba
ão
eir
Rib

Rua Cló
vis Bevil

20°
a

25°
qua

51° 45°
Rua Urugu

Título:
Localizaçao dos estabelecimentos comerciais
e de serviços no bairro Alvorada
aiana

Escala gráfica:

0m 500 m
Autor: Orientador:
Nelson Rodrigo Pedon Prof. Dr. Eliseu S. Spósito
Rua No Desenhista:
roeste Fonte:
Planta Municipal de Nelson Rodrigo Pedon
Araçatuba: bairro
Alvoara/trabalho de
campo
Figura: Página:
05 81
Fundação financiadora: Instituição:
unesp
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

Não pretendemos entrar numa discussão mais ampla acerca das novas centralidades
urbanas enquanto processo estrutural da urbanização na atualidade23. O que pretendemos é
valorizar o fato de que na busca pela reprodução da vida, a população de baixa renda do
bairro Alvorada tem, no interior do próprio bairro, uma saída. Neste processo, o espaço
do bairro aparece como um conjunto indutor das ações.

A esse respeito, Castells (2000) disserta sobre a criação dos “minicentros” como a
constituição de um nível relativo de perda de relação direta com o centro tradicional. O autor
coloca a questão de se além da função de serviços, os “minicentros” não representariam a
condensação de um novo meio social característico da difusão urbana. Assim, o importante
seria considerar a estrutura social do meio de habitação no qual os “minicentros” se inserem,
sem perder, é claro, a visão de que eles se situam no contexto mais geral das relações urbanas
da cidade e da região.

Na organização espacial do Alvorada, com relação à localização dos estabelecimentos


comerciais e de serviços, observamos que há uma concentração destes nas áreas de maior
circulação dos transportes coletivos. Quatro ruas principais se apresentam como eixos de
concentração intra-bairro, mostrando que existe uma relação entre o padrão centro-periferia.

Observando o mapa 05, vê-se que a rua Baguaçu é a que mais concentra
estabelecimentos comerciais e de serviços. Sua importância remonta ao período de
constituição da cidade, sendo por muito tempo o único meio de ligação da cidade com a
porção central do Estado de São Paulo. Atualmente, a rua Baguaçu é uma importante via de
ligação com a cidade de Birigui, alternativa à rodovia Marechal Rondon e de acesso mais
rápido para quem está na cidade. Serpa (2001) destaca a importância dos eixos de ligação no
interior do espaço urbano porque eles influenciam a formação e consolidação de áreas de
maior ou menor acessibilidade, tanto nas periferias quanto nas áreas centrais.

23
Sobre esta temática, ver os trabalhos de Beltrão Sposito (1991; 1996), cujos títulos são, respectivamente: O
centro e as formas de expressão da centralidade urbana. Revista de Geografia. São Paulo: UNESP. n. 10,
1991, p. 1-18, e Multi(poli)centralidade urbana em Bauru, São José do Rio Preto e Presidente Prudente.
Projeto de Pesquisa Integrada. Presidente Prudente,1996.

82
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

A relação recíproca entre os núcleos comerciais e de serviços com as áreas de maior


acessibilidade é evidente no caso da rua Baguaçu (ver foto número 02), uma vez que esta rua
era, até recentemente, a única via de acesso dos bairros Alvorada e Panorama para o restante
da cidade, cumprindo essa função exclusiva por mais de cinqüenta anos. Os mais variados
tipos de estabelecimentos se alocaram nessa via ao longo do tempo, a exemplo das oficinas
automotivas, borracharias, autoelétricas, padarias, lojas de materiais de construção, posto de
gasolina, bazares, farmácia, salão de cabeleireiro, moto táxi e inúmeros bares.

Foto 02 – Rua Alvorada, onde se concentra estabelecimentos comerciais


e de serviços.

No caso dos estabelecimentos da rua Baguaçu, a acessibilidade é o mais importante


dos fatores de localização, verificada pela sua proximidade à linha de circulação de ônibus,
por exemplo. Os serviços oferecidos neste local não têm por objetivo exclusivo atender os
moradores do bairro, mas procuram prestar atendimento aos passantes dessa via.

Para Serpa (2001), o raio de atração deste tipo de núcleo não segue a lógica da
proximidade, mas da acessibilidade, pois o próximo constitui o que é de mais fácil alcance,
neste caso. Alguns dos núcleos de periferia exercem influência somente sobre os

83
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

consumidores das suas imediações. Essa influência é determinada pelo grau de especialização
de sua estrutura comercial e de serviços, e a especialização é resultado da combinação dos
elementos, acessibilidade e poder de renda dos consumidores. Concluímos que, como os
passantes da rua Baguaçu são mais heterogêneos, os serviços e estabelecimentos comerciais
ali existentes acompanham essa variedade.

As ruas Eça de Queiroz, Clóvis Bevilágua e Uruguaiana atravessam todo o bairro


paralelamente no sentido norte-sul (ver mapa 05 na página 81). A ligação de todo o bairro por
estas três ruas foi possibilitada graças à construção de três pontes sobre o córrego
Alvoradinha, que divide o bairro em duas partes. A facilidade no que diz respeito à
acessibilidade promovida pela construção das pontes e suas disposições em relação ao espaço
interno do bairro fizeram, dessas ruas, vias de acesso ao transporte coletivo.

Serpa (2001), acerca da relação núcleo-acessibilidade, comenta que a maior ou menor


acessibilidade é preponderante para o processo. Essa maior ou menor acessibilidade
influencia, também, nas características qualitativas e quantitativas de cada centralidade. No
caso da rua Baguaçu, os estabelecimentos apresentam maior especialização comparada no
sentido intra-bairro, por causa da maior circulação de pessoas. Um exemplo da especialização
dos estabelecimentos é o número maior de oficinas automotivas instaladas nesta via, oficinas
de algumas marcas de automóveis específicas como a GM, FIAT e importados. A influência
dos estabelecimentos localizados nesta rua vai além do próprio bairro.

Destarte, quanto mais fáceis forem o acesso e a circulação, maior e mais importante
será o núcleo comercial. Já em relação às três ruas citadas anteriormente, a instalação dos
estabelecimentos comerciais está estreitamente relacionada com o maior acesso possibilitado
pela circulação de transporte coletivo, graças aos fatores já citados. Serpa (2001) chama nossa
atenção para o efeito contrário da relação acessibilidade-núcleo comercial, já que a
localização dos núcleos pode influenciar a decisão por onde vão passar os transportes
coletivos. No caso estudado, os estabelecimentos buscam, justamente, as vias de maior
acessibilidade.

Ocorre que não só a acessibilidade constitui fator preponderante para a instalação


desses estabelecimentos em espaços específicos no interior do bairro. Na periferia, a
proximidade é outro fator a ser levado em consideração, podendo prevalecer nos centros

84
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

menos especializados, pois a diferenciação no valor dos produtos oferecidos não é tão
significativa e a quantidade adquirida pelos consumidores é muito pequena. Outro fator
importante é relação de vizinhança estabelecida entre os comerciantes e os consumidores.

O comércio de vizinhança no caso do bairro Alvorada surge não como alternativa de


complementação do orçamento familiar, já que a maioria das vezes o dono não tem outra
atividade, sendo muitos deles desempregados em outros setores da economia. O mais comum,
no comércio de vizinhança, é a compra com pagamento posterior, operação chamada,
popularmente, por “fiado”. Isto ocorre porque a relação entre o prestador de serviço e/ou
comerciante e o consumidor é essencialmente de vizinhança, já que a maior parte dos
consumidores reside nas proximidades do estabelecimento. Esta é uma característica do
circuito inferior, pois o poder de decisão dos estabelecimentos coincide com os locais de
localização, diferentemente do circuito superior, que possui o poder de decisão fora do local
onde estão localizados os estabelecimentos.

Com seu mercadinho localizado na rua Eça de Queiroz há mais de dez anos, Sr. Pedro
afirma que 50% de suas vendas são feitas por meio das cadernetas, onde se anota o nome e o
valor da compra do consumidor, garantindo assim o pagamento posteriormente. Na verdade o
que garante o pagamento posterior não é a caderneta em si, mas o que ela representa, um
conjunto informal de relações que são consolidadas no cotidiano nas relações estabelecidas
entre o dono do mercado e seus clientes. Sr. Pedro é morador do bairro há muitos anos e sua
residência se localiza ao lado do mercado, que é apenas um entre os outros seis localizados no
bairro.

Nesses tipos de estabelecimentos comerciais, o capital é familiar ou individual, não


havendo grandes linhas de crédito. Só recentemente o poder publicou facilitou o acesso a
linhas de crédito mais populares por meio do Banco do Povo, no caso de Araçatuba, esse
banco existe desde 2003. A mão de obra empregada é familiar, pois só raramente se
estabelece o trabalho assalariado que, quando ocorre, se dá informalmente, sem o registro em
carteira.

No que diz respeito ao consumo de alimentos, podemos observar, na tabela 03 (página


86), que 48 % dos entrevistados realizam suas compras no bairro. É importante lembrar que a
primazia das respostas se refere a compra mensal, sendo que no cotidiano é muito comum se

85
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

recorrer aos mercadinhos do bairro, seja na falta do fermento para o bolo, seja para a compra
do gás que acaba no meio do cozimento do feijão etc.

Muitos moradores lembraram, mesmo quando não indagados, que fazem suas compras
no Supermercado Rondon. Este estabelecimento, de capital local, pode ser considerado de
porte médio, e é conhecido na cidade pelos preços baixos que oferta, sendo considerado o
preferido pelas classes populares. A curiosidade é que este estabelecimento se localiza no
bairro Jussara, aproximadamente a 12 km do bairro Alvorada; mesmo assim, muitos
moradores concordam que para a compra grande do mês, compensa o deslocamento.

Com referência às roupas e acessórios, 16 % declararam fazer suas compras no bairro.


Ocorre que parte desta percentagem afirmou fazer a maior parte das compras desses bens nas
duas alternativas apontadas pelo questionário, no interior do bairro e no centro comercial da
cidade. O que constatamos é que o preço do produto não influencia na decisão de se consumir
nos estabelecimentos localizados no interior do bairro; os fatores proximidade e forma de
pagamento são preponderantes, até mesmo porque pela quantidade consumida, compensa
pagar um preço um pouco maior.

TABELA 03 – Local onde os moradores realizam suas compras

Percentual de entrevistados que


declararam fazer compras no
bairro:

Alimentos 48 %
Roupas e acessórios 16 %

Percentual de entrevistados que


declararam fazer compras fora do
bairro:

Alimentos 56 %
Roupas e acessórios 80 %

Fonte: Dados obtidos por meio da aplicação de


questionários aos moradores (trabalho de campo)
em 2004.

86
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

Na rua Xavier de Toledo, que corta toda a porção sul do bairro, vê-se locado um
conjunto de estabelecimentos comerciais, com destaque para um mercado de porte pequeno e
alguns bares instalados nas frentes das residências. Nesses estabelecimentos não há um perfil
definido de produto oferecido, pois no mesmo bar se encontra desde bebidas alcoólicas a
pequenas peças de vestuário.

Entre os serviços oferecidos há de se destacar os salões improvisados de cabeleireiros


e os serviços de moto-táxis. Araçatuba é conhecida pela grande quantidade de motocicletas
circulantes no tráfego urbano.

Este fato favoreceu o desenvolvimento dos serviços de moto-táxis. Muitos dos moto-
taxistas são pessoas, na maioria do sexo masculino, que sofrem com o processo crescente de
desemprego e vêm neste tipo de serviço uma saída pra a obtenção de uma renda que lhes
permita sobreviver. Somente no Bairro Alvorada são quatro os pontos de serviços de moto-
táxi, e cada um deles reúne vários moto-taxistas, sendo que nos quatro pontos os responsáveis
são moradores do bairro. Cabe salientar que, em alguns casos, as motos empregadas são
emprestadas ou até mesmo alugadas, revelando o caráter muitas vezes improvisado pelo qual
as pessoas se inserem nesse tipo de atividade.

Outro tipo de serviço prestado que chama a atenção pelo número é o conjunto de
salões de cabeleireiro. Ao contrário dos moto-taxistas, onde predominam pessoas do sexo
masculino, nos salões de cabeleireiro predominam as mulheres. São sete os pontos que
oferecem este tipo de serviço. Desses, três estão alocados no fundo das residências: o que
aponta a oferta do serviço são placas e faixas fixadas na frente das moradias, sendo que
algumas das placas e faixas são bem mal feitas.

Na cidade de Araçatuba, a expansão do setor terciário não ocorre apenas nas áreas de
maior concentração comercial das cidades, como o calçadão da Rua Princesa Isabel e suas
áreas adjacentes. A expansão difunde-se, também, pelo tecido urbano junto aos bairros mais
populosos e às áreas de concentração da população de maior renda. Já o comércio popular
forma pequenos centros comerciais de bairro, instalados na malha urbana de maneira
diferenciada, atraídos por densidade populacional, por vias de circulação intensa e pelo
potencial de mercado.

87
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

O maior fluxo de transporte coletivo e de seus usuários possibilitou a concentração de


comércio em algumas vias, as quais acabaram perdendo seu aspecto e sua função estritamente
residencial. Houve uma transformação na fachada das residências, nas quais os
estabelecimentos são muitas vezes extensão da casa.

A constituição de núcleos onde se verifica uma concentração maior de


estabelecimentos comerciais e de serviços em bairros periféricos, representa os
desdobramentos do padrão centro-periferia na escala intra-bairro. As implicações desse
processo dão-se na forma de uma diferenciação no uso e ocupação do espaço do bairro, assim
como uma maior valorização de determinadas áreas em detrimento de outras.

A Teoria dos Dois Circuitos de Milton Santos permite compreender a discussão que
estamos realizando, no contexto mais amplo do desenvolvimento econômico da sociedade
capitalista, privilegiando aquela parcela da população afetada pelo processo de exclusão
social e sua decorrência espacial, a segregação socioespacial.

A expansão de núcleos comerciais, como é o caso do bairro Alvorada mostrou estar


associada aos desdobramentos do crescimento do trabalho autônomo e do setor informal da
economia. O bairro, formado por uma rede de relações comunitárias, se apresenta como
espaço da busca pela sobrevivência. Muitas vezes, construir um cômodo na frente da moradia
e colocar alguns produtos à venda, ou utilizar os fundos da residência para cortar o cabelo dos
vizinhos constitui a única saída para obtenção de renda para aqueles que, há muito, não
conseguem emprego no setor formal da economia urbana.

Por último, destacamos um outro efeito do incremento da informalidade lembrado por


Comim (1999), este é rotatividade nos postos de trabalho. Buscamos visualizar tal efeito na
aplicação dos questionários no bairro. Constatamos que 20 % dos chefes de família estão a
menos de um ano na atual ocupação, 19 % estão há até dois anos na ocupação atual, 9 % há
até cinco anos e o restante há mais de cinco anos na mesma ocupação. Cabe salientar que 34
% responderam ocupar o mesmo emprego há mais de oito anos; deste percentual, 50 % são
funcionários públicos, o que explicaria a estabilidade no tempo de trabalho.

88
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2.3.5 Indícios da presença estatal no Alvorada

Em tempos de globalização, quando o discurso da desestruturação do Estado toma


proporções cada vez maiores, o que presenciamos é uma aproximação premente da ação
estatal nas questões relacionadas à pobreza, mesmo que essas ações se mostrem bem longe da
resolução dos problemas. A tabela 04 (página 90), apresenta algumas variáveis acerca da
proporção que toma a assistência social governamental num bairro de população com baixo
poder aquisitivo como o Alvorada.

O fato é que no atual modelo de desenvolvimento capitalista o Estado cumpre o papel


de assegurar um conjunto de elementos essenciais ao processo de reprodução da força de
trabalho, no domínio do consumo coletivo ou como na providência social, no qual o Estado
garante o mínimo de recursos possíveis para a reprodução da vida em condições onde estas
encontram alguns limites.

Sobre este processo, lembra Castells (1977):


...a evolução do capital, das unidades de produção do processo de
circulação, das forças produtivas, das lutas de classe e das exigências
populares, teve efeitos maiores sobre a reprodução da força de trabalho,
aumento consideravelmente o papel do salário indireto (preço e qualidade
dos meios coletivos de consumo e das prestações sociais) em relação ao
trabalho direto distribuído pelo empregador (p.164).

Não pretendemos discutir a natureza24 do Estado na sociedade capitalista, até mesmo


porque ela é uma problemática complexa e uma reflexão neste sentido tomaria muito;
contudo, é importante tecer algumas considerações a esse respeito. Recorremos a Castells
(1977) mais uma vez:
...o capital é incapaz de manter a economia e a sociedade atual sem
uma ampliação das funções do Estado, ou sem uma transformação
substancial do modelo de acumulação por causa das contradições
econômicas estruturais, como a tendência a queda da taxa de lucro (p.165).

Salvo todas as críticas ao caráter estruturalista da abordagem de Manuel Castells e à


defasagem dos dados utilizados pelo autor, consideramos seu trabalho uma importante
referência para pensar a relação Estado-sociedade urbana.

24
A intervenção do Estado não constitui um mecanismo automático de regulação das contradições, pois resulta
de um processo político, expressão das lutas de classe. A ação estatal não é natural, o ponto de partida para sua
compreensão não é o próprio Estado, pois se assim fôssemos argumentar, incorreríamos no erro alertado por
Bhir (2000), o da “fetichização do Estado”, entendendo-o como uma força metafísica. O ponto de partida para a
sua compreensão é o conflito de classes.

89
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TABELA 04 - Percentual dos entrevistados que declararam utilizarem


serviços e auxílio social providos pelo Estado

Auxilio social e serviços Percentual dos


providos pelo Estado entrevistados que
declararam utilizarem
serviços e auxílio social
providos pelo Estado
Auxilio social provindo de ação
estatal:

Bolsa escola 9%
Bolsa alimentação 6%
Medicamento (UBS) 43 %
Não recebem nenhum tipo de auxílio 67 %

Tipos de serviços públicos


existentes no bairro:

Escola estadual 40 %
Posto de saúde (UBS) 70 %
EMEI (Escola Municipal de Ensino
Infantil) 20 %

Fonte: Dados obtidos por meio da aplicação de questionários aos moradores


(trabalho de campo) em 2004.

Recorremos a Castells por um motivo bastante óbvio para aqueles que conhecem a
obra deste autor. Ocorre que, para ele e, em parte, para nós também, o conjunto de problemas
que recebe o status de “urbano” está diretamente relacionado ao campo da reprodução da
força de trabalho, para usar uma terminologia marxista. Assim, as questões que envolvem o
problema do consumo coletivo está, por definição, na “essência”25 de toda questão urbana.

A intervenção estatal é, por razões históricas, gerais e específicas, necessária para a


produção, distribuição e gestão dos meios de consumo coletivo. Esta é a hipótese de trabalho
crucial sugerida por Castells na sua obra modelar “A questão urbana”.
Castells garante que:
Podemos, portanto, retraduzir em termos de reprodução coletiva
(objetivamente socializada) da força de trabalho a maioria das realidades
conotadas pela noção de urbano e analisar as unidades urbanas e os processos

25
Utilizamos o termo essência entre aspas porque reservamos algumas críticas ao essencialismo que vigora no
pensamento científico. A este respeito, ver Popper (1974).

90
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

aí apreendidos enquanto unidades de reprodução coletiva da força de trabalho,


no modo de produção capitalista. (Castells, 2000; 557).

O pensamento de Castells toma o Modo Capitalista de Produção sempre como a


estrutura determinante. Assim, a questão urbana é vista “por cima”, a partir de sua
funcionalidade para o desenvolvimento capitalista. As tendências estruturais do Modo
Capitalista de Produção, a exemplo do crescimento sem precedente da massa de mais-valia, a
luta constante contra a baixa tendencial da taxa de lucros, resultado do aumento acelerado da
composição orgânica do capital, o desenvolvimento desigual das forças produtivas e o
desenvolvimento contraditório das lutas de classes, só para ficar em algumas, determinam um
conjunto complexo de relações que vão culminar naquilo que Castells chama de Capitalismo
Monopolista de Estado.

Suas conseqüências no plano do consumo coletivo são: a) socialização objetiva da


reprodução da força de trabalho e concentração dos meios de consumo em seguida à
concentração e centralização dos meios de produção e de sua gestão; b) intervenção
necessária e permanente do aparelho de Estado para atenuar a rentabilidade diferencial dos
setores de produção dos meios de consumo e assegurar o fundamento de um processo cada
vez mais complexo e interdependente; c) reivindicação das classes dominadas no que se refere
ao “salário indireto”, na metida em que ele toma um lugar maior no seu processo de
reprodução simples e ampliada; e d) tentativa crescente, por parte da ideologia dominante, em
equalizar estas questões de forma a naturalizar todo o processo de desenvolvimento
capitalista.

O que está em jogo aqui é a intervenção estatal no provimento dos meios de


reprodução da força de trabalho, denominada por Castells por meios de consumo coletivo,
inclusive no que diz respeito à busca daquilo que é chamado, pelo autor, de atenuação da
rentabilidade diferencial. Entendemos esta última como uma referência às políticas
denominadas redistributivas.

Conforme a pesquisa realizada no bairro Alvorada, constatamos que 43 % dos


entrevistados declararam receber auxilio social. De acordo com a tabela 06 (página 90), 43%
manifestaram que já receberam medicamentos pelo uma vez da unidade do Unidade Básica de
Saúde (UBS) localizada na rua Uruguaiana.

91
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

Dos 170 questionários aplicados, 44 % foram respondidos por famílias cujo chefe é
aposentado ou pensionista, ou seja, são residências onde a principal renda provém da
previdência social. Desse grupo, 10% alegaram possuir necessidade periódica de
medicamentos cedidos pela UBS do bairro.

Dos 9 % das famílias que fazem parte do programa Bolsa Escola, 2% alegaram que
esta é a única fonte de renda da família. Com relação a este programa, a CEPAL (2003)
afirma que ele constitui um dos programas de políticas públicas que vai além do caráter
imediatista de grande parte dos programas de auxílio social existentes no Brasil. Isto porque
segundo o estudo publicado pela CEPAL (2003), a educação é uma das principais causas da
atual crise de emprego vivida pelo país, já que a população não possui formação suficiente
para exercer o novo perfil de emprego em tempos de globalização. De acordo com Barros
(CEPAL, 2003), a educação é o mais importante fator para explicar a determinação de
salários e a desigualdade no Brasil, assim o programa Bolsa Escola teria um caráter
imediatista, mas, ao garantir a educação básica para a população de baixo poder aquisitivo
estaria ampliando as possibilidades dos contemplados em ascender socialmente.

Podemos observar, na tabela 01 (página 70), que 70 % dos chefes de família não
possuem o 1° grau completo, sendo que 23 % não possuem instrução nenhuma. Das
entrevistas realizadas, somente 1% dos moradores possui curso superior incompleto.

Sobre o exposto, Comim (1999) afirma que:


Embora seja moeda corrente no debate a alegação de que o
desemprego no Brasil está muito relacionado com o baixo perfil
educacional da força de trabalho, os dados da PME revelam claramente o
desacerto deste argumento. É justamente entre os trabalhadores de instrução
média, entre cinco e onze anos de instrução, que as taxas são mais elevadas,
substancialmente maiores do que entre aqueles com até quatro anos de
estudos.

Esping-Andersen (1991), apresenta uma visão interessante da natureza provedora de


serviços que o Estado assume. Para o autor, ao longo do desenvolvimento, o capitalismo
universalizou os mercados e o bem estar, e a própria existência dos indivíduos passou a
depender inteiramente das relações monetárias. Este processo, Esping-Andersen (1991)

92
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

chama de “mercadorização” das pessoas, já que elas estão despojadas das camadas
institucionais que garantam a reprodução social fora do contrato de trabalho. Marx chama este
processo de “fetichização”, quando os indivíduos ganham status de mercadoria e as
mercadorias passam a ser as protagonistas do processo social.

Acontece que, para Esping-Andersen (1991), o Estado provedor tem a função de


romper com esse processo de “mercadorização”, já que a prestação de serviço é vista como
uma questão de direitos, ou seja, a dependência em relação ao mercado é afrouxada, para usar
um termo do autor, ao se inserir numa rede de segurança instituída pelo Estado.

Marilena Chauí (2000) sustenta que as discussões sobre a natureza do Estado


capitalista visam, apenas, a recolocar a questão da relação entre economia e política. A
crescente politização da economia, isto é, o Estado interferindo cada vez mais para manter
acumulação e a reprodução, implica em abrir um abismo entre a esfera da produção e as
esferas exteriores à produção. Para Chauí (2000), a demonstração dessa contradição é que o
Estado se vê forçado a agir como agente integrador social das esferas não-produtoras de valor.

A autora se baseia nos estudos do alemão Claus Offe (in Chauí, 2000), cujo
pensamento central se funda na idéia de que a contradição entre processos controlados pelo
valor e processos controlados pelo poder, resulta num fenômeno de relativa atualidade em
nossa sociedade, o do crescimento do setor de bens de serviços face ao setor de produção de
mercadorias26. Neste contexto, a prestação de serviços e a racionalidade administrativa do
Estado tornam-se ponto chave para a legitimação estatal27, num momento em que o mercado
não tem tanta força, já que com o crescimento do setor de serviços aumenta o contingente de
pessoas cuja vida não está organizada pela produção de mercadorias, constituindo um
elemento de desestabilização social e política.

26
Segundo Furini & Góes (2002), o pensamento desse autor tem como fulcro a crise da sociedade do trabalho.
Claus Offe coloca em questão a centralidade da categoria trabalho para a análise sociológica, por causa do
caráter crescentemente heterogêneo do trabalho social.
O setor de serviços e a informalidade mostram-se como um corpo estranho no capitalismo. Para Furini &
Góes (2002), a grande quantidade de pessoas que não são incorporadas pelo mercado de trabalho capitalista
(formando uma reserva de mão-de-obra), passam a apresentar características particulares quando compreendidas
numa escala local. De acordo com suas palavras, é evidente que com tantos “caindo fora” da formalidade e da
possibilidade de trabalho, o “coro de atingidos“ pelo processo de exclusão social começa a erguer a voz e
buscar “novos ritmos e novos cantos” (p.194).
27
Desta forma, a função do Estado não pode se reduzir à mera regulação do mercado.

93
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

A preocupação dos dois autores citados é a da problemática de se explicar a situação


de parte considerável da população mundial que vive à margem do mercado de trabalho por
meio das categorias tradicionais baseadas no trabalho, como por exemplo, o termo marxista
exército de reserva28. Para uma justa compreensão das verdadeiras intenções desses autores
seria necessário aprofundarmos mais em suas idéias, o que não é possível neste estudo, já que
nossa intenção é a de lançar mão de duas perspectivas que vêm o Estado como uma estrutura
que não é estática, e que nos dias atuais apresenta natureza diferente daquela apresentada em
sua origem, principalmente, no que diz respeito à sua relação com a esfera econômica e/ou,
como optamos tratar aqui, com o mundo do trabalho.

Para Esping-Andersen (1991) a sujeição do indivíduo ao mercado é amenizada com a


atuação estatal, já para Claus Offe (1989), essa sujeição é abalada, drasticamente, com o
crescimento do setor de serviços e a geração de uma camada de indivíduos com relativa
independência em relação às leis do mercado, daí os esforços estatais para atender esse novo
grupo social. Salvo as diferenças, os dois autores apostam na ação estatal como fator crucial
na sociedade capitalista, pois para o primeiro, há uma maior autonomização da esfera política
em relação a esfera econômica, e para o segundo, o Estado aparece como agente integrador
dessas esferas.

Na tabela 04 (página 90), apresentamos os principais serviços providos pelo Estado


lembrados pela população do bairro. Referente à infra-estrutura básica, como água encanada,
luz elétrica, esgoto, sanitário e serviço de coleta de lixo, o bairro é considerado pelos
moradores como bem servido. De fato, a cidade de Araçatuba conseguiu, ao longo dos anos,
provir a quase totalidade da população destes serviços. Segundo dados do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2000, 99,2 % da população araçatubense contava
com água encanada, 99,7 % com energia elétrica e 98,8 % com serviço de coleta de lixo.

Como já observamos, o bairro conta com um grande contingente cuja renda é


proveniente de transferência governamental, seja na forma de pensões e aposentadorias, seja
na forma de filiação a programas de auxílio social. Segundo o IBGE, o percentual da

28
A propósito, este termo é apresentado por autores que se preocupam com a atualização conceitual do
pensamento sociológico, como um termo a ser reinterpretado, já que com as transformações ocorridas no Modo
Capitalista de Produção, o trabalho, em seu sentido lato, apresenta novas conformações diferentes daquela
analisada pela sociologia do século XIX.

94
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

população da cidade cuja renda dependia de transferências governamentais em 1991 era de


8,83%, passando para 15, 02 % em 2000.

O aumento do papel desta fonte de renda na cidade demonstra o incremento da


economia sem produção. Este fator, associado ao incremento do número de indivíduos
vinculados ao setor informal da economia, ou seja, àquele setor que não contribui para os
cofres públicos, pois não pagam os encargos previstos na lei fiscal, subtrai, cada vez mais, a
base de recursos destinados às políticas públicas (previdência social, seguro desemprego,
programas de geração e distribuição de renda, requalificação profissional etc.).

Para terminar este item, lembramos que o mercado de consumo individual, assim
como a oferta de bens e serviços coletivos, acompanhou o desenvolvimento desigual que
resultou na enorme heterogeneidade da estrutura ocupacional no Brasil. A este respeito, Faria
(1991) afirma que a expansão do mercado interno de consumo individual é o fundamento do
processo de crescimento da economia brasileira29. Um de seus efeitos é a disseminação dos
padrões ideais de comportamento típicos da classe média consumidora, principalmente por
meio da expansão dos meios de comunicação, em especial do rádio e da televisão.

A ressalva da referida autora é a de que o crescimento do mercado de bens, resultando


na disseminação de um certo “ethos consumista”, se deu para além dos limites impostos pela
rígida e iníqua distribuição de renda e pelos baixos salários. A tabela 01 (página70), apresenta
um quadro dos bens possuídos pelos moradores do bairro Alvorada, não é de se estranhar,
então, o dado de que 100% das famílias do bairro possuem aparelho de TV em suas casas e 66
% possuem aparelho de rádio. Um número que achamos representativo do baixo poder
aquisitivo da população entrevistada é com relação ao aparelho de DVD, pois nenhum
morador declarou possuir o referido bem. Todos sabemos que esse eletrodoméstico, por
agregar um alto nível tecnológico em sua composição chega, ao consumidor final com um
preço relativamente alto, e uma rápida olhadela pelos planfetos de divulgação das principais
lojas da cidade mostra que o preço desse aparelho é, aproximadamente, de 450 reais. Como se
trata de um bem de necessidade secundária, o preço torna-o inacessível para a população
pobre.

29
Já comentamos, no capítulo anterior, a relação da constituição do mercado de consumo interno e a urbanização
brasileira, sobretudo a importância deste vínculo com o crescimento das cidades médias. Para uma melhor
explanação ver Faria (1991) e Sposito (2001).

95
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

Pari passu ao crescimento da cidade, como não poderia deixar de ser, cresceu a oferta
de bens e serviços por parte do poder público. Ocorre que esta oferta se dá de forma desigual
no espaço urbano, como veremos em capítulos seguintes, pois a mobilização da população
constitui fator importante na escolha do poder público pelo lugar de locação das ofertas.

Finalizando, a precariedade e insuficiências na cobertura dos serviços oferecidos pelo


Estado não deve negligenciar a importância dos diversos esquemas de proteção social
proporcionados pelos programas governamentais, uma vez que, nas periferias onde a
população pobre busca suprir as necessidades da reprodução de suas forças, a parcela da renda
originada das transferências governamentais diretas e o valor tomado pelo salário indireto
revelam a dependência desse segmento da população em relação à atuação estatal. Se ruim
30
com eles, pior sem eles, né não? .

2.4 Terminando para recomeçar

Se é verdade que o real é relacional, pode ser que eu nada


saiba de uma instituição acerca da qual eu julgo saber tudo,
porque ela nada é fora das suas relações com o todo
(Pierre Bourdieu em “O poder do simbólico”)

Iniciamos o desfecho deste capítulo com uma frase de Pierre Bourdieu, pois uma das
importantes questões que esse autor enfrentou e que aparece em muitos de seus trabalhos, é
desvendar os mistérios do que ele chama de modus de análise, ou seja, como se constrói o
objeto nas ciências humanas.

Descrever as propriedades necessárias para caracterizar um objeto nos obriga a por


uma interrogação sobre a presença ou a ausência dessa propriedade em todos os outros
objetos. A problemática em questão é estabelecer um jogo de relações entre a indução e a
dedução a ponto de registrar os equivalentes estruturais que nos permitam compreender a
síntese das múltiplas determinações.

30
Frase proferida por Maria de Jesus, aposentada e moradora do bairro há mais de 30 anos, ao tecer juízo a
respeito da qualidade dos serviços ofertados pelo poder público.

96
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

A difícil articulação entre as escalas de nossa realidade, ou nas palavras de Pierre


Bourdieu, o espaço da interação, é o que buscamos neste capítulo e nos que virão. Nos
parágrafos acima, consideramos o bairro a forma-conteúdo elementar do mundo do trabalho.
O bairro Alvorada constitui a realidade objetiva que permite, por meio da indução, estabelecer
limites ao mundo empírico, e por meio da dedução, realizar a interação entre as determinadas
estruturadas em escalas cuja constituição se dá na interação entre relações que abarcam
dimensões mais amplas. O Alvorada constitui, enfim, nossa manifestação fenomênica.

A mobilidade espacial e social, a homogeneização por meio da mercantilização das


relações sociais, a marcante desigualdade das condições materiais da reprodução da força de
trabalho, a ação estatal no espaço urbano, a multiplicidade tomada pelo mundo do trabalho,
resultando numa gama variada de ocupações distintas, constitui o conjunto problemático que
dá à sociedade urbana brasileira a complexidade cuja experiência na pesquisa permite buscar
(ou pelo menos tentar) uma compreensão mais satisfatória.

Nesse ensejo, conferimos que a situação de pobreza, de exclusão e de informalidade,


constituem produtos do processo de globalização ou, em outras palavras, da vinculação da
vida ao mercado. O resultado é a produção de um espaço social, fruto da contradição entre o
espaço opaco, da racionalidade hegemônica, e os lugares, que vêm alterar as condições de
vínculo da sociedade com os espaços existentes.

Por meio de um olhar criterioso lançado sobre o Alvorada, podemos inferir que as
forças sociais que condicionam as transformações da sociedade brasileira tendem a produzir,
para a porção mais pobre da população urbana, condições de existência que são, ao mesmo
tempo, semelhantes e diversas. A uniformização do consumo decorrente do nível dos salários,
os problemas comuns nas áreas de habitação, educação, saúde e acesso ao mercado de
trabalho, suscitam, em conjunto, o desenvolvimento de tipos de sociabilidade, modos de
consumo e trabalho e formas de percepção, que lhe são próprios.

O bairro Alvorada, como pudemos observar por meio da caracterização


socioeconômica apresentada, somada ao processo de sua formação, está vinculado à
constituição de espaços urbanos voltados principalmente para abrigar as camadas sociais que
ocupam posição alinhada à base da pirâmide hierárquica da divisão social do trabalho,

97
______________________________________________________________________PEDON, Nelson Rodrigo

configura-se um espaço periférico, no sentido socioespacial do termo. O caso do


estabelecimento de pequenos empreendimentos no setor de serviços e comércio como
estratégias para enfrentar o desemprego ou, pelo menos, como forma de complementação da
renda, mostra como a constituição do circuito inferior da economia urbana está associada aos
ditames mais gerais dos processos estruturantes da sociedade capitalista.

Resultante de um jogo intrincado de diferentes processos, a expansão de núcleos


comerciais e de serviços vai se instalando na malha urbana de maneira diferenciada, atraídos
pela densidade populacional, por vias de circulação intensa e pelo potencial de mercado.

Teorias como a TDC de Milton Santos, que buscam fazer uma ponte entre explicações
mais universalizantes, notadamente de ordem econômica, com ordenamentos conceituais
constituídos mediante uma aproximação mais direta com a realidade concreta, permitem
entender, de forma mais satisfatória, a dialética entre o geral e o singular .

O mundo cabe num bairro, mas o bairro, diante desse complicado e intrincado jogo de
escalas, possui status ontológico? O que é o bairro em tempos de globalização e, como nada é
tão ruim que não possa ser piorado, qual a relação de um possível status ontológico do bairro
com as especificidades da cidade média (leia-se Araçatuba), seria, a dimensão política, a
chave para este ignoto? Seria o bairro um território? Ou seria o bairro um lugar?

98
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

3. REVISITANDO A DIALÉTICA SOCIOESPACIAL

Com a aprovação do Estatuto da Cidade, Lei 10.257, em julho de 2001, foi retomada,
no Brasil, a discussão sobre a função social do espaço urbano e da participação popular, que
havia sido iniciada na década de 1980 pelo Movimento da Reforma Urbana, e que agora tem
seu respaldo em lei e na atuação do novo Ministério, o das Cidades, único da América
Latina1. Nessa conjuntura, colocaremos em tela algumas das principais questões que surgem
quando buscamos atravessar o complexo cipoal teórico e metodológico da problemática da
participação popular no Brasil.

A participação popular no espaço urbano constitui uma complexa problemática porque


abarca um campo bastante amplo de debates e problemas que foram tratados nos últimos 30
anos pelas ciências sociais. A História, a Sociologia, a Geografia e a Antropologia, orientaram
variadas discussões a respeito do assunto, tendo por fundamentação diferentes perspectivas
teórico-metodológicas e suas respectivas bases filosóficas. Essa variada gama de trabalhos
que surgiram a partir de 1978, na historiografia brasileira, mostra claramente que não
podemos cair na arapuca positivista de concentrar esforços na busca por conceitos perfeitos e
imutáveis.

Trabalhos importantes surgidos nesse período, como os dos historiadores Edgar


Dedecca e Edward Thompson, de sociólogos como Maria Glória Ghon e Eder Sader, até
mesmo o físico Karl Popper, que, em 1974, publicou sua mais conhecida obra no campo
sociológico, o livro “A sociedade aberta e seus inimigos”. Um pouco mais tarde na Geografia
surgem trabalhos como o de Marcelo Lopes de Souza, Arlete Moysés Rodrigues entre outros
tantos, todos buscando mostrar o quanto a dicotomia estrutura-processo e suas implicações
epistemológicas levava-nos a um modelo estático e determinista de ciência. Todo esse
movimento intelectual reflete o contexto sociopolítico do momento: o final da década de
1970.

A crise do marxismo estampado nesses trabalhos e em muitos outros, acompanha o


turbilhão de acontecimentos que sacudiram o mundo no final dos anos setenta, apontando

1
Criado no governo do presidente brasileiro eleito em 2002, Luís Inácio Lula da Silva.

99
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

para uma nova realidade, próxima daquela promulgada pela física quântica do início do
século XX2, ressuscitando a máxima heraclitiana de que tudo muda, nada permanece.

Apresentamos um conjunto de questões relacionadas com a problemática da


participação popular, delineada nos termos dos movimentos sociais e considerando a forma
pela qual eles aparecem no pensamento social brasileiro, sobretudo na Geografia, tendo como
ponto de partida a crítica feita aos aspectos mais ortodoxos do marxismo. Isso porque foi no
momento em que o marxismo não se apresentava mais como uma ferramenta capaz de
orientar uma leitura coerente das experiências vividas, que temas pouco considerados, ou até
mesmo, como no caso da Geografia, inexistentes, começaram a ganhar voz na pena de alguns
autores.

Baseamos a discussão da participação popular na leitura de obras que focam os


movimentos sociais principalmente aqueles surgidos no final da década de 1970 e durante a
década de 19803. Tais obras representam uma tendência que parte da releitura do marxismo
para compreender as experiências de mobilização e atuação política disseminadas no
cotidiano dos grupos de baixa renda. Outra preocupação, senão a principal, acerca de nossas
investidas no campo de pesquisa que adotamos, a Geografia, diz respeito ao componente
espacial dessa problemática.

A Geografia, desde o final da década de 1970, incorporou ao rol de suas investigações o


problema da mobilização política dos grupos de baixa renda, a exemplo dos trabalhos de
Marcelo Lopes de Souza (1988) e Arlete Moysés Rodrigues (1989), enfocando,
respectivamente, a ação das associações de moradores e a ação política dos favelados nas
metrópoles brasileiras. A questão que gostaríamos de focar e que está relacionada de forma
direta ao problema da releitura da obra marxista, é a de incorporar uma concepção de
materialismo que vai além do economicismo herdado de Marx.

2
O princípio da incerteza afirma que não existe meio de medir com precisão as propriedades mais elementares
do comportamento subatômico. Ou melhor, quanto mais precisamente se mede uma propriedade - digamos, o
movimento de um elétron - menos precisamente se pode conhecer outra - nesse caso, sua posição. Mais certeza
de uma, mais incerteza de outra.
3
A exemplo de Eder Sader, Arlete Moysés Rodrigues, Álvaro Moises, Edgar Dedecca, Paul Singer, Lúcio
Kowarick, Marcelo Lopes de Souza, Maria da Glória Gohn entre outros.

100
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Os elementos do que se denominou “superestrutura” e que seriam reflexo de causas


mais profundas, surgem como um jogo intrincado de relações entre fatores que se associam de
forma dialética e não mais como relação causa-efeito no/do fenômeno estudado. Assim, o
espaço do bairro não é somente o lugar onde a condição de pobreza toma concretude, mas é
também o lugar e território onde os indivíduos se relacionam entre si e com o espaço em sua
volta. No espaço do bairro, compreendido pela escala da comunidade, os moradores reclamam
o desenvolvimento real, crescem e se reproduzem conforme uma lógica que só é entendida de
forma complexa. O espaço do bairro constitui o lugar real para onde observamos processos
delineados em outras escalas. Podemos, sem pecar pelo uso das metáforas, dizer que o mundo
cabe no bairro.

3.1 Preâmbulos à dialética do concreto: a complexidade do processo

François Dosse (1993), em sua obra que trata da história do estruturalismo, assinala que
a Geografia é a convidada de última hora das ciências sociais, isso porque enquanto as outras
ciências estão preocupadas com correções epistemológicas, buscando se atrelar às
atualizações teóricas, a Geografia relutava em incorporar novas formulações e perspectivas,
assim, seu pescoço estaria sempre voltado para trás4.

A afirmação de Dosse (1993) elucida o fato de um tema como o dos movimentos sociais
só passarem a fazer parte dos estudos geográficos a partir de 19785, mais precisamente
quando a Geografia passa a se preocupar com o fato de que o materialismo de cunho marxista
não mais se apresentava como um eficiente meio de análise da realidade social brasileira. É
nesse momento que a Geografia assume a sociedade como objeto central, sendo que sua
objetivação se daria por meio da análise do espaço produzido por essa sociedade, dando forma
ao que se convencionou chamar de Geografia Crítica.

4
Neste mesmo sentido, Rogério Haesbaert (1990) faz uma crítica ao distanciamento que a Geografia conservou
durante um relevante período em relação às bases filosóficas que norteiam o processo de elaboração do
conhecimento. A Geografia Crítica teria contribuído enormemente para reverter este quadro.
5
Este período é lembrado por renomados geógrafos que se preocuparam em elaborar um quadro da evolução do
pensamento geográfico brasileiro. Nesse período é que ocorre uma ruptura com a Geografia de cunho
Neopositivista e se assume o materialismo histórico dialético como aporte teórico e filosófico da produção
geográfica nacional. Para essa discussão ver Sposito, 2002; Moraes, 1989 e Santos, 1979.

101
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Junto a essa nova forma de encarar o espaço geográfico adota-se todo o arsenal
marxista, como por exemplo seus conceitos e sua postura axiológica. É a partir da Geografia
Crítica que o pesquisador se comprometia axiologicamente com seu objeto de estudo e
passava a defender a ação do pesquisador militante, um sujeito comprometido com a
transformação social. Um exemplo é o trabalho de Arlete Moysés Rodrigues (1988), que trata
da ação organizada dos favelados na cidade de Osasco/SP.

Acreditamos que nesse momento os movimentos sociais, enquanto tema a ser


problematizado, chega à Geografia. Contudo, é também nesse período que importantes
críticas ao marxismo chegam às ciências sociais no Brasil. Críticas que vão refletir mudanças
de perspectivas e de posições tomadas frente à ação dos movimentos sociais. As seguintes
questões surgem no menu do dia: estes movimentos podem refletir de forma direta a dinâmica
da estrutura econômica determinada pelo modo capitalista de produção? A ruptura com o
capitalismo deve ser incorporada ao projeto destes movimentos? Questões de ordem teórica a
exemplo da relação entre estrutura e superestrutura, subjetivo-objetivo, indivíduo-estrutura,
são corriqueiras nos estudos desse período.

Na edificação da Geografia Crítica houve uma identificação com o marxismo. Até


mesmo as ressalvas de que Marx não teria a preocupação em teorizar os fenômenos
relacionados ao espaço, feitas por geógrafos conhecidos como por exemplo Yves Lacoste
(1997), não foram suficientes para amenizar essa influência. Esta visão crítica da sociedade se
apresenta como contraponto ao positivismo impregnado na Geografia Tradicional.

As diferentes ontologias do espaço que vão fundamentar os estudos em Geografia


refletem o embate e as diferentes formas de interpretação do marxismo. Não seria pretensioso
de nossa parte afirmar, como faz Edward Thompson em “A miséria da teoria”, que o que há
são marxismos, e não um marxismo. Ora o espaço é concebido como reflexo da sociedade
(sendo uma instância determinada pelas leis de funcionamento do modo capitalista de
produção), ora o espaço possui status de relação, estabelecida por meio de determinações
recíprocas da dialética sociedade-espaço. Nesta última, o espaço é visto como um ente
relacional6 (Diniz Filho, 2001, p.79).

6
Esta visão vai fundar o que se convencionou chamar de Geografia Cultural, que tem Paul Claval como um de seus
principais representantes.

102
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

É importante notar que os elementos marxistas, como o conceito de totalidade, a visão


da dialética enquanto um movimento perpétuo, o modo de produção capitalista visto como
uma entidade metafísica que se incorpora a tudo e a todos, o Estado considerado um
representante da elite burguesa, tal como um cão raivoso pronto para mutilar a classe
trabalhadora ao menor sinal de agitação, todos estes elementos característicos da teoria
marxista estão presentes nas diferentes ontologias geográficas7 desse período.

A obra do geógrafo Milton Santos é uma prova da multiplicidade que tomou o


pensamento marxista na Geografia brasileira. Em 1978 em “Por uma Geografia Nova”, a
influência do estruturalismo de cunho marxista é evidente, por exemplo, na formulação do
conceito formação sócio-espacial. Mais tarde, em “O espaço do cidadão” (1987), categorias
marxistas se tornam importantes às suas formulações, como por exemplo: ideologia, luta de
classes e alienação; em 1994, no livro “A natureza do espaço” notamos a influência de uma
leitura sartreana do marxismo. Nota-se, ao exame dos trabalhos de Milton Santos, que eles
refletem as variadas formas pela qual o marxismo toma corpo na Geografia brasileira8.

Alain Lipietz, em um texto publicado na revista do Cebrap em julho de 1991, afirma


que de crise em crise o marxismo entrou em “coma” adiantado. Esse radicalismo todo do
autor serve para chamar nossa atenção novamente para o fato de que eventos sociais como o
desmoronamento da “Cortina de Ferro” e do “Grande Horror no Leste”, liquidaram de uma
vez por todas a ortodoxia da teoria marxista. Achamos interessante citar este trabalho de
Lipietz uma vez que, em conformidade com outros críticos de Marx, a exemplo de Cornélius
Castoriadis, Edward Thompson e Karl Popper entre outros, este autor faz referência não
somente às fraquezas epistemológicas da teoria marxista, mas como o próprio Lipietz
assinala:

...as crises do marxismo estão ligadas às crises do movimento social,


mas elas não são também crises teóricas.... São crises de conclusões, muito

7
É proveitoso preenchermos nossa análise mostrando o reflexo dessa concepção de Estado unilateral, portador
de uma racionalidade pasteurizadora, no campo da arte, mais precisamente na música. Tal fato nos revela o
quanto esta visão de “Estado monolítico e abstrato” ou “fetichizado” do ponto de vista político, para usar um
termo empregado por de Bihr (2000), está disseminado no imaginário social. Exemplo relevante são as letras de
músicas portadoras de caráter reivindicatório, como o rap. Uma dessas letras, de autoria do grupo Racionais Mc,
vocifera: O robocop do governo é frio, não sente pena, só ódio e ri como a hiena. Aqui o termo governo
representa o Estado, de racionalidade gélida, é comparado a um robô (personagem do cinema norte-americano)
cuja ação é indiferente às necessidades disseminadas no cotidiano das classes oprimidas, ou ainda, a um Estado
que mais parece uma espécie canina carniceira esfomeada pela carcaça proletária.
8
Esta hipótese é apresentada de forma sintética e só ela mereceria a atenção de uma tese.

103
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

mais do que crises de análises.... Não são mais apenas as análises e as


respostas que são postas em questão, mas as próprias questões, ou antes, o
interesse em as colocar: ‘que pensar?’ (Lipietz, 1991, p.101)

O movimento social mencionado pelo autor é o mesmo lembrado por Thompson (1978),
Castoriadis (1975) e Popper (1974). O que une o pensamento dos autores citados é o fato de
que todos partem de uma análise do período histórico que serve de base à suas próprias
experiências com o marxismo. O contexto social e histórico (as duas últimas décadas da
Guerra Fria) constitui o pêndulo de Foucault desses críticos. Repensa-se o projeto socialista
pós Kruschev, tendo como pano de fundo a pobreza instalada no leste europeu e a rigidez do
Estado centralizador do socialismo real, tão mortificante para os grupos trabalhadores quanto
a denúncia da “fetichização” do Estado no ocidente capitalista feita por Bihr (2000).

Lipietz (1991) faz referência ao problema da autonomia das instâncias. Cita a ruptura
com a teoria marxista causada pela Revolução Cultural Chinesa de Mao Tsé Tung na década
de 1950, uma vez que este evento inverte a seqüência histórica pronunciada por Marx na qual
as forças produtivas determinam a consciência, ou melhor, a estrutura (leia-se: economia)
determina a superestrutura (leia-se: campo das idéias e da cultura).

O que as principais críticas ao marxismo fazem, grosso modo, é historicizar as idéias de


Marx. Tal como um exorcismo, esses críticos realizam uma releitura do materialismo
histórico, expulsando o maligno espírito do ortodoxismo que vê na evolução técnica (base
material da produção) o fundamento teleológico da sociedade. Como nos agitos de maio de
1968, o alvo das revoltas não se limita mais a uma base única, a um sujeito central, a um
objetivo unificador. A busca pelo motor da história não se limita mais à incumbência do
sujeito transcendental do superoperário preso ao seu papel histórico de Hércules do ABC.
Agora a história perde seu sentido escatológico e ganha os ares da sociedade aberta.

O socialismo passa ser considerado não como o ponto de chegada, mas como meio.
Assim, Lipietz (1991) lembra o filósofo Ernest Bloch, para quem o socialismo deveria
funcionar como um princípio, o Princípio da Esperança.

A concepção que interpreta o socialismo como um caminho (leia-se: processo) combina


com as idéias de Henri Lefebvre (1993) sobre a utopia, e com as idéias de Boaventura de
Sousa Santos (1997) sobre o socialismo, visto como uma busca e não como uma

104
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conseqüência natural do movimento histórico. O socialismo, para os dois autores, não deve
mais ser entendido como uma descontrolada mutação de estilo darwinista, que abole o estado
concreto das coisas existentes.

Já para Karl Popper (1974), o erro da previsão histórica marxista, herança patológica
do totalitarismo hegeliano9, fez da escatologia marxista uma prisão, inclusive do ponto de
vista epistemológico.

Alguns temas antes ignorados, como o dos movimentos sociais, chegam à Geografia
junto ao marxismo já em crise. Qual seria, então, as implicações destas discussões
(atualizações) no âmbito da pesquisa geográfica? O reflexo deste movimento que conjuga
ação e pensamento vai além das alusões teoréticas e das pretensões acadêmicas10. Na verdade,
esta turbulência é fruto do próprio movimento científico que não está desvinculado da
realidade social na qual está inserido, ele espelha a contradição “ontologia-epistemologia”11.

Ao abordar os movimentos sociais, mais precisamente o ativismo de bairro, a Geografia


toma para si a incumbência de associar questões consideradas objetivas com as questões de
ordem subjetivas. Assim, a Geografia passa a atribuir importância ao componente simbólico,
como por exemplo nas relações de apropriação, afeto ou constrangimento do indivíduo com o
espaço experienciado no cotidiano, ou, como no caso deste estudo, quando o lugar se torna
território, na relação do espaço vivido com o espaço da ação política.

Assim é com o ativismo de bairro e esse é o objetivo de nosso trabalho.

9
Para Karl Popper (1972), o êxito de Hegel marca o começo da “era da desonestidade”, bem como denominou
Schopenhauer. Segundo este último, a força hegeliana já fez mal que basta, pois a teoria de Hegel, a do
movimento da história rumo a idéia absoluta serve de fundamento a todo tipo de totalitarismo (numa direta
inferência a respeito das implicações políticas do hegelianismo).
10
Sobre uma visão sociológica do desenvolvimento da ciência ver, Paul Feyraband, em Contra o método e/ou
Thomas Kuhn, em A estrutura das revoluções científicas.

105
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3.1.1 Quando o cotidiano entra em cena

Que importa esse lugar


se todo lugar
é ponto de ver e não de ser?
(Carlos Drummond de Andrade, “A palavra e a terra”)

Drummond de Andrade com sua inspiração poética, coloca-nos diante de uma questão
de amplitude filosófica e que, por extensão, alcançam aqueles incumbidos de fazer ciência. A
questão é a da relação entre o ser e o saber, ou, como preferimos, a dialética ontologia-
espistemologia (ontus/epistême).

É justamente nestas condições que o campo científico se distingue de outras formas de


saber, o conhecimento científico é consciente de si, ou como ensina Gaston Bachelard12; o
conhecimento que não é apresentado junto com as suas condições de determinação precisa,
não é conhecimento científico.

No âmbito de nosso estudo, a problemática sugerida ganha voz na forma de uma


espécie de “crise dos movimentos sociais”. Esta crise é tão ontológica quanto epistêmica,
podendo agir no sentido de somar ao tradicional algo que surge, deixando a compreensão (o
movimento do pensamento na sua relação com a realidade) mais complexa13.

Sader (1988) em “Quando novos personagens entram em cena”, estuda os movimentos


sociais populares no final da década de 1970 e início de 1980, mostrando uma visão de
conjunto destes movimentos para o período, segundo Marilena Chauí, no prefácio do referido
trabalho, a primeira visão de conjunto para o período.

11
Utilizamos esta idéia para fazer referência à interminável busca dos instrumentos da razão pela compreensão
de uma realidade ontologicamente dialética. O ponto de partida e de chegada é sempre a relação entre ser e
pensar.
12
Sua psicanálise epistêmica pode ser conferida no livro A formação do espírito científico: contribuição para
uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro; contraponto, 1996.
13
Complexo no sentido que Edgar Morin (complexus) dá ao termo. É complexo o que se dá na forma de uma
teia, onde múltiplas determinações se combinam para dar status ontológico ao ente inquirido. É complexo não o
que está inserido num contexto relacional, mas é complexo o que é relacional na sua constituição, enquanto algo
que é.

106
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Sader (1988) se preocupa com uma novidade, um sujeito coletivo e descentralizado


cujas teorias prévias explicativas estão ausentes. Sua preocupação tem lugar específico, seu
lugar é o da cotidianidade. Este sujeito expressa uma coletividade junto a uma identidade na
medida que organiza práticas por meio das quais seus membros pretendem defender e
expressar suas vontades e interesses, emergindo daí novas práticas de resistência. Os
personagens são diferentes por que o cenário também é diferente, deixando de ser a linha de
produção para ser o cotidiano.

As explicações já não estão mais voltadas para as determinantes estruturais, passando


a voltar-se para as experiências populares. Para Sader tudo, ou pelos menos, muita coisa,
muda com esta mudança de foco. A prática é tão importante quanto o fim14.

Ampliando o espaço da sociabilidade e da ação, o autor preconiza uma prática social


desprovida de segurança e previsibilidade, assegura, ainda, que é praticamente impossível
investigar a realidade das mobilizações sociais retornando às velhas teses sobre seus limites e
ineficácias. Os sujeitos são criadores da própria cena por meio de suas ações e não podem ser
considerados atores desempenhando papéis pré-fixados.

A pesquisa passa a dar relevo aos aspectos que iluminam os modos pelos quais os
trabalhadores experimentam sua condição de vida, revelando os padrões de comportamento
presentes no cotidiano de onde os movimentos sociais populares extraem suas energias. A
politização do cotidiano é fundamental. Sader sugere o caminho que deve ser seguido na
reconstituição da dinâmica dos movimentos15. O autor ao examinar as modalidades
particulares de reelaboração da experiência dos trabalhadores e a configuração de novos
padrões de ação coletiva16, problematiza a análise sociológica tradicional, afirmando que ela
reduz a ação social à pesquisa da posição do ator no sistema, em suas palavras: é sempre
possível relacionar os processos sociais concretos a características “estruturais”, só que esse
procedimento não adiciona uma vírgula à compreensão do fenômeno (p.38).

14
No próximo capítulo, veremos mais implicações desse apontamento sobre o título da discussão a cerca do
conceito de movimento sócio-territorial.
15
Sader acompanha a história de quatro movimentos sociais na metrópole paulistana, a sabe; o sindicato
metalúrgico de São Bernardo, a Oposição Metalúrgica de São Paulo, o Clube de Mães da periferia de São Paulo
e a Comissão de Saúde da periferia de São Paulo.
16
No que se refere às implicações técnicas da abordagem sugerida há a utilização da coleta de depoimentos
pessoais, dados estatísticos, reportagens jornalísticas e relatórios de pesquisa, alem da sempre importante
exposição e interpretação de outros pesquisadores. O intuito é o de captar os significados presentes nas
experiências.

107
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Junto aos estudos de Sader surgem no cenário científico brasileiro alguns autores antes
relegados ao ostracismo. Alguns deles como Cornélius Castoriadis, cujas idéias vão encontrar
eco nos trabalhos de geógrafos de peso, como Rogério Haesbaert e Marcelo José L. de Sousa,
este último desenvolvendo estudos importantes na problemática do ativismo de bairro17.
Thompson, Eric Hobsbawn e Alain Touraine, salvo as diferenças muitas vezes abissais entre
eles, vão ajudar a fundamentar novas preocupações, como por exemplo a maneira pela qual se
articulam objetivos práticos a valores que dão sentido à existência dos grupos de ação assim
como a valorização das experiências vividas que são formuladoras de representações.

Acreditamos que a contribuição mais ampla dos autores citados está relacionada com o
papel das determinações sobre o fazer histórico. Tais determinações, apreciadas no cotidiano,
constituem uma dimensão da realização dos novos sujeitos. É na prática cotidiana que a
reelaboração imaginária constitui, por meio das experiências, significados que vão gerar
práticas políticas e/ou ações modificadoras a realidade desses grupos.

No cotidiano emergem identidades já que a experiência dos indivíduos em conjunto na


realidade do espaço em que vivem, propicia a interação necessária para a reelaboração de
representações (a dialética: representação do espaço-espaço da representação) figuradoras de
interesses comuns.

Sader (1998) busca identificar as identidades dos sujeitos meio dos seus discursos:
Quando uso a noção de sujeito coletivo é no sentido de uma
coletividade onde se elabora uma identidade e se organizam práticas através
das quais seus membros pretendem defender seus interesses e expressar
suas vontades, constituindo-se nestas lutas (1988 p.55-6).

Ao introduzir o plano do discurso na pesquisa, ou como entendemos, a problemática da


intencionalidade expressa na linguagem, o autor sugere que o discurso dos sujeitos exprime
algo além da mera busca pela comunicabilidade. O sujeito se inscreve na própria fala.

As implicações desta abordagem não são importantes somente no âmbito teórico, mas
também, no que se refere aos procedimentos científicos nas ciências sociais18. A análise e

17
Como por exemplo, sua dissertação de mestrado, O que pode o ativismo de bairro: reflexões sobre as
limitações e potencialidades do Ativismo de bairro à luz de um pensamento autonomista. Rio de Janeiro: UFRJ,
1988, 241p.
18
Ciências sociais, entendida como o campo do conhecimento científico que abarca tanto a Sociologia como a
História e a Geografia. Na tradição positivista de divisão disciplinar do conhecimento, tais

108
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

interpretação das falas vão constituir uma importante forma de abordagem dos discursos dos
sujeitos coletivos. Os relatos dos sujeitos são analisados não como fontes individuais
representantes de um projeto de vida particular, mas são entendidos como expressões de
relações sociais, pois partem de uma história comum de formação das identidades. Os relatos
individuais (lançaremos mão desse procedimento em nosso estudo) estão vinculados à
realidade social (socioespacial), isto porque as histórias de vida, interpretações e
rememorações, foram forjadas de acordo com as experiências ocorridas na interação entre os
indivíduos e seu contexto.

O cotidiano é o espaço onde se coletivizam experiências. Enquanto espaço público,


possibilita a interação social a partir da qual emerge ações entre sujeitos sociais concorrendo
com o fechamento dos espaços públicos tradicionais, tanto de manifestação política como de
interação social. Estudos sobre a crise desses espaços fechados emergem concomitantemente
aos estudos da manifestação de novos sujeitos19.

Schere-Warren & Krischke (1987) afirmam que os movimentos sociais expressam o


fechamento nas formas tradicionais de fazer política, a exemplo dos partidos e sindicatos,
assim como a crise dos encaminhamentos das esquerdas tradicionais (guerrilhas, por
exemplo). No cotidiano se desenvolvem diversas formas de “micropolíticas”. Para os autores
citados o cotidiano se reveste de potencial transformador20.

É no contexto das transformações políticas e sociais vividas pela sociedade brasileira a


partir do final da década de 1970 que Telles (in: Schere-Warren & Krischke, 1987) insere
suas idéias a respeito da valorização das ações políticas disseminadas na microfísica do poder,
numa referência ao pensamento de Michel Foucault. A importância dessa nova perspectiva é a
busca pela superação da dicotomia entre o mundo do trabalho e o mundo do não-trabalho.

disciplinas/disciplinadoras tomam a sociedade como objeto de estudos, mesmo que pese as diferentes formas
pelas quais realizam esta difícil tarefa.
19
Muitos destes estudos se assentam na visão da crise do mundo do trabalho e as implicações desta na
organização política dos trabalhadores, exemplos interessantes são os trabalhos de Offe (1989); Antunes (1998) e
o próprio Sader (1989), aqui supracitado.
20
Contraditoriamente, o cotidiano não pode ser pensado como um lugar mítico, como sugere Chauí (2000), onde
em sua pureza as classes populares se apresenta livres de toda carga ideológica encetada pelos grupos elitizantes.
Melhor seria, adverte Chauí, vê-lo em sua ambigüidade de conformismo e resistência, visualizados, por exemplo,
na “consciência fragmentada” da “cultura popular”. Voltaremos a este aspecto no próximo item, quando nos
reteremos de forma mais detalhada às falas dos moradores do bairro Alvorada e dos dirigentes da associação de
moradores.

109
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Neste último predomina, segundo a visão tradicional e dicotomizadora a qual apontamos


nossa crítica, a incapacidade de gestação de uma consciência, quando o indivíduo está
indiferença à sua condição de subordinação. A esta concepção se soma aquela que reduz a
chamada esfera da reprodução da força de trabalho à sua funcionalidade para capital.

Para Telles (in: Schere-Warren & Krischke, 1987), a novidade está na nova concepção
do lugar onde se articulam as práticas coletivas dos trabalhadores. Segundo a autora:
Trata-se de um novo critério de inteligibilidade social, de tal forma
que a noção de autonomia...tornou-se possível de ser elaborada na medida
em que se passou a pensar a “classe” -e a construí-la como objeto- enquanto
sujeito (s) constituído (s) a partir de suas práticas na dinâmica mesmo do
conflito social (in: Schere-Warren & Krischke, 1987p.65).

É a forma pela qual o trabalhador se constitui em objeto de reflexão intelectual que


reside sua novidade. Seu reconhecimento não se encaixava na figuração tradicional e
paradigmática da classe operária salvadora. O que o autor coloca em evidência é a seguinte
dúvida: há ou não há algo de novo no plano da realidade concreta aos movimentos sociais?
Ou seja, o que muda, então, é somente o critério de inteligibilidade?

Ora, responder as questões colocadas parece ser o grande desafio daqueles que
propuseram a explicar o complexo liame social da ação política das camadas populares no
final da década de 1970, como por exemplo o trabalho de Sader. Vale ressaltar que esses
estudos surgiram num momento em que o Estado brasileiro deixava de se constituir enquanto
um regime ditatorial concomitantemente a emergência de novos núcleos de resistência que
dilataram ainda mais as brechas no “muro”21 (construído pelos militares juntamente à elite
brasileira e com apoio do governo norte-americano, como a história nos ensina). Esta
contextualização histórica é muito complexa, e só ela demandaria um ou mais trabalhos
aparte, na verdade nem teríamos propriedade para realizá-la, cabendo aos historiadores esta
difícil tarefa.

O que pretendemos, para finalizar este item, é ressaltar que as relações de poder na
nossa sociedade são indissociáveis de sua representação, e a experiência que delas temos é

21
De forma metafórica, “dilatar as brechas no muro” representa aquilo que os historiadores identificam como
período de transformações sócio-políticas, de transição autoritária para prenúncios de um despertar democrático.
Gohn (1983) identifica este período no inicio do ano de 1979.

110
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

constitutiva dos projetos que os grupos se põem a realizar, assim também é na constituição de
suas identidades.

Chauí (2000), nos instrui que o real não é nem o dado empírico nem ideal, não é o
material nem o ideal, mas o trabalho pelo qual uma sociedade se institui, construindo seu
imaginário e simbolizando sua origem sem cessar de repensar essa instituição. Este é o
sentido dado à constituição imaginária da sociedade, também lembrada pelo filósofo grego
Cornélius Castoriadis.

Nosso esforço em compreender a natureza dos movimentos sociais urbanos a partir da


forma como eles são abarcados pela produção científica sociológica brasileira se justifica na
medida que um dos objetivos desse estudo é o de criticar a crença na existência de um sujeito
do conhecimento cujo olhar sobrevoa o real, dominando-o por meio de um sistema de
representações. É necessário indagar sobre a necessidade das idéias ao serem realizadas pela
experiência. Se assim não for, o que teremos será uma ideologia, no que esta tem de mais
ruim.

Perceber que, o que antes não era percebido faz parte da dialética ontologia-
epistemologia, na qual ser e pensar são arrolados num processo que não pára. A propósito,
não é essa a lição poética de Drummond?

3.2 Prolegómenos a uma geografia do bairro

Kowarick (1999) ao buscar entender o processo de produção de experiência assinala:

....não considero possível deduzir as lutas sociais das


determinações macro-estruturais, posto que não há ligação linear entre
precariedade das condições de existência e os embates levados adiantes
pelos contingentes por ela afetados. Isto porque malgrado uma situação
variável mas comum de exclusão econômica, os conflitos manifestam-se de
maneira diversa e, sobretudo, as experiências de lutas sem trajetórias
extremamente díspares, apontando para impasses e saídas para as quais as
condições estruturais objetivas constituem, na melhor das hipóteses, apenas
um pano de fundo. Não se trata de desconsiderá-las, mas de reconhecer que,
em si, a pauperização e a espoliação são apenas matérias primas que
potencialmente alimentam os conflitos sociais: entre as contradições
imperantes e as lutas propriamente ditas há todo um processo de ‘produção

111
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

de experiências’ que não está de antemão, tecido na teia das determinações


estruturais... Se as lutas caminham paralelamente, existem estuários
conjunturais onde elas desembocam, e o entendimento desse encontro
requer um mergulho sobre a diversidade de movimentos que ocorrem tanto
nas fábricas como nos bairros, a fim de captar aquilo que estou
denominando de momentos de fusão dos conflitos e reivindicações
(Kowarick, 1999, p.23).

A longa citação tem por objetivo mostrar o que há de mais atual no que se refere à
produção intelectual preocupada em focar a problemática da mobilização social no espaço
urbano.

As relações de poder inscritas nas condições de vida tomam relevo na constituição da


noção de participação, de ação coletiva, articulando um sentido político aos espaços da
moradia, esses espaços os moradores podem se constituir em força coletiva frente a outros
sujeitos sociais, principalmente, em relação ao Estado. O significado da ação deve ser
desvelado das condições criadas pelos próprios movimentos ao fazerem-se, e não a partir de
uma essência22 ou de uma vocação natural, seja esta democrática, revolucionária,
anticapitalista ou, ironizando, até mesmo messiânica.

É claro que para uma geografia do bairro, não se deve negar a existência das
denominadas determinações gerais, tais como a estrutura econômica, a idéia moderna de crise,
o Estado, as classes sociais, exploração, espoliação e segregação urbana, todos são fenômenos
e processos que por meio de seus conceitos explicativos constituem referências fundamentais.
O que não podemos incorrer é no erro de considerá-los como entidades metafísicas.

Em nossa sociedade, as contradições são vivenciadas concretamente em espaços e


tempos que se tornam condições para existências singulares. As contradições que outrora
foram consideradas como se manifestassem de uma maneira geral, implicam em vivências em
tempos e espaços próprios, criando significados expressos em práticas e linguagem comum. É
indispensável elucidar o tempo, o espaço e os acontecimentos cuja experiência torna possível
a constituição dos sujeitos.

Isso não significa ignorar o fato de que estes sujeitos de experiências vividas em
espaços e tempos singulares se cruzem e interajam na constituição de novas ações. O Fórum

112
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Social Mundial que levou o nome da cidade de Porto Alegre para o conhecimento de “todo” o
mundo é emblemático dessa nossa ressalva.

De forma geral, os movimentos sociais urbanos podem expressar das formas mais
variadas a crise das formas tradicionais de realização da política. Um exemplo é a recusa em
se caracterizar enquanto mobilização de caráter político presente na fala de alguns líderes de
movimentos, como o presidente da Associação dos Moradores do Bairro Alvorada, o
comerciante Manoel dos Santos, que em entrevista concedida fez as seguintes afirmações: A
SABA -Sociedade dos Amigos do Bairro Alvorada- não faz política, somos uma comunidade,
queremos o bem dos moradores e não fazer política. Tal fala se funda numa concepção de
política que se aproxima da política realizada pelos partidos, onde o lob e a demagogia são
entendidos pelos movimentos como algo ruim, intrínseco ao ato de se fazer política.

Está explícita na fala de nosso colaborador a idéia de comunidade. Esta é vista como
algo apolítico pelos membros da associação, o que os deixam estranhos à visão de política
predominante. A proposta da associação não é a politização da cotidianidade, mas sim um
conjunto de ações que se encontram fora do circuito da política porque ela pertence
predominantemente ao campo do Estado.

A descrença na política reflete, de certa forma, uma crítica a um padrão específico de


fazer política, este padrão tradicional aparece como uma atividade estéril, incapaz de
introduzir alguma mudança que realmente venha ao encontro do interesse dos moradores.
Associasse a política à demagogia, isto foi constatado na pesquisa realizada no bairro, quando
perguntávamos aos moradores sua opinião em relação à atuação dos vereadores e da
prefeitura no que diz respeito ao atendimento de seus interesses. No gráfico 03 (ver página
114), representamos as opiniões dos moradores a respeito da atuação dos políticos da cidade,
ocorre que grande número de moradores ao responderem a questão demonstrava sua
desconfiança a respeito do verdadeiro propósito dos vereadores e do prefeito.

Os problemas mais lembrados pelos moradores com relação à descrença nas formas
pelas quais os vereadores e prefeitos conduzem a política foram: a manipulação da confiança
dos eleitores, e a irresponsabilidade frente às promessas realizadas no período da campanha,

22
No próximo capítulo trabalharemos um pouco mais o que chamamos de essencialismo, sobretudo, baseando-
nos no pensamento filosófico do austríaco Karl Popper e do pensamento sociológico relacional de Nobert Elias.

113
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

gerando expectativas junto aos eleitores que eram frustradas em seguida. A imagem do
político interesseiro e carreirista, preocupado em manter seu poder de influência e defender
seus interesses pessoais também foi lembrada na pesquisa.

GRÁFICO 03: Opinião dos moradores a respeito da atuação dos políticos da


cidade

Mencionam
atuação do
vereador Atuam de frma
Claúdio satisfatória
Atuam de
5% 19%
forma pouco
satisfatória
16%

Não atuam
60%

Fonte: Aplicação de questionários em trabalho de campo (2004).

Souza (2002), argumenta que a compreensão deste fenômeno tem raízes históricas.O
desinteresse pela política, pelo menos pela política de feição partidária, é reflexo de uma
sociedade heterônoma e de vida política marcada por intransparência e corrupção, induzindo
ao escapismo e ao declínio do homem público.

Vale destacar o expressivo número de moradores que lembraram do nome do vereador


Cláudio. Ex-morador do bairro, o vereador Cláudio (pertencente ao PNM) foi eleito em 2000
com uma plataforma política baseada na defesa do interesse dos moradores dos bairros
periféricos, sobretudo do Alvorada. Alguns moradores mesmo sem ter um maior conhecimento
a respeito da atuação deste vereador, citava seu nome numa demonstração clara de que em seu
imaginário a associação do nome do vereador ao bairro em que mora, quando o assunto é
política, se dá de forma espontânea.

114
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

O vereador Cláudio possui várias estratégias que fortalecem a associação de seu nome
com o bairro, firma-se, de certa forma, uma “identidade”. Cartões de felicidades nas datas
comemorativas são enviados aos moradores, inclusive nos dias de seus aniversários, há a
distribuição de panfletos apresentando um conjunto de intervenções do poder público no bairro
que teriam sido conseguidas graças a atuação do vereador, outra estratégia de marketing são as
visitas esporádicas do vereador à algumas famílias do bairro.

Em entrevista concedida, o vereador Cláudio se coloca como a mediação dos moradores


com o poder público. Vou falar sobre os feitos do vereador Cláudio para a população do
bairro Alvorada, numa curta referência impessoal (note que o vereador fala em terceira pessoa
do singular) sobre si mesmo. Até mesmo os dirigentes da SABA mencionam o nome do
vereador como uma personalidade que sempre ajudou o bairro, sendo que nem mesmo eles
conseguem identificar suas realizações. Sr. Moringa23 confunde:
Ah, o vereador Cláudio ajuda muito, a cobertura da quadra da
escola por exemplo foi ele, se bem que a prefeitura cobriu as quadras da
maioria das escolas da cidade com dinheiro que veio do governo estadual.
Mas ele faz alguma coisa sim.

No primeiro bimestre de 2003 foram distribuídos panfletos pelo bairro com título “O
que o professor Cláudio já conseguiu para o bairro Alvorada”, o objetivo era mostrar um
conjunto de melhorias realizadas pelo poder público que seria resultado da ação do vereador
no legislativo. O panfleto termina com a seguinte transcrição:
Continue confiando neste vereador que têm vocês no coração q que
ama este bairro onde morou durante 25 anos e constituiu sua história junto
com este povo sofrido, trabalhador e honesto. Deus os abençoe (sic).

Obras iniciadas antes da gestão do vereador, como o asfaltamento de ruas e uma gama
imensa de projetos que estariam garantidos, como a iluminação e asfaltamento das inúmeras
vielas do bairro, mas que até a data da redação deste texto não havia nem sinal do início
destas obras, formam o conteúdo do panfleto. O interessante é que material de propaganda o
vereador ignora a ação da SABA, apresentando declarações de membros da associação
ratificando a importância da ação do vereador. A inserção de pessoas em programas federais

23
Morador do bairro Alvorada a trinta anos, Sr. Moringa foi um dos fundadores da Associação dos Moradores
do Alvorada, que depois veio a constituir a Sociedade dos Amigos do Bairro Alvorada, e que atualmente, por
motivos legais estabelecidos no Código Civil, voltou a receber a denominação de Associação de Moradores. Sr.
Moringa sempre fez parte da cúpula da associação, sendo considerado por muitos moradores o mais atuante do
bairro.

115
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

como o Bolsa Escola, que foram realizadas em todo o município e não de forma exclusiva no
Alvorada são atribuídas à ação do vereador.

O caráter clientelista expresso por meio do vínculo assumido pelos moradores e pela
própria associação com o vereador, o Sr. Cláudio, fica patente na fala de alguns moradores e
nas publicações difundidas de forma planfetária pelo maior interessado em fortalecer este
vínculo, o vereador. Ele aparece como doador de serviços e obras. Alguns moradores
chegaram a afirmar que a Prefeitura não faz nada, mas o Cláudio faz. Um dos feitos mais
lembrados pelos moradores são as cestas básicas (420 em 2001) doadas nos finais de ano às
famílias carentes.

Contradições desse tipo podem fazer parecer que a associação de moradores não teria
legitimidade ou que o espaço político por ela dimensionado é ínfimo frente às estruturas
sociais já consolidadas. As contradições constituem elementos existenciais dos movimentos
sociais já que estes não são puros, tais contradições são recorrentes e faz parte do próprio
processo de constituição do espaço político buscado pela mobilização.

Para nós, a dimensão política desses movimentos reside no fato de se constituírem numa
força que visa transformar a realidade daqueles que compõem esse campo de realizações. A
associação de moradores politiza o espaço na medida que remete à espacialidade de modo
direto e simbólico.

O político, neste estudo, é entendido como o conjunto de ações individuais e coletivas


que visam um fim comum. Toda ação humana que produz algum efeito sobre a organização,
funcionamento e objetivos da sociedade, de forma geral, ou de alguns de seus setores,
constitui uma ação política. Na apresentação deste estudo fizemos menção à clássica obra de
Rousseau, “Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens”, na qual o filósofo
concebe o humano como um animal que não apenas vive, mas convive.

Hannah Arendt (in: Rezende 2001) se insere no rol de pensadores que desafiam as
dificuldades de se compreender a contemporaneidade. Em seu diagnóstico, nosso tempo é
marcado pela identificação das crises que abalam os sustentáculos da civilização ocidental,
entre estas está a crise da autoridade política, para a autora, os regimes totalitários a exemplo
do liderado por Stálin, na União Soviética, anulam a experiência humana já que instaura o

116
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

isolamento entre os homens extirpando tudo o que é público. Fugindo das visões
escatológicas, Arendt sublinha a dimensão inventiva e espontânea contida nos movimentos
revolucionários do século XVII (as revoluções francesa e americana, mais precisamente). A
autora enfatiza o papel dos conselhos, dizendo que eles representam a vontade de participar,
de debater, a vontade de ser ouvidos, em seus dizeres:
...se apenas dez de nós estivermos sentados em volta de uma mesa,
cada um expressando sua opinião, cada um ouvindo a opinião dos outros,
então uma formação racional de opinião pode ter lugar através da troca de
opiniões (Arendt em Crises da república”, citado in: Rezende 2001).

A autora ressalta a questão da liberdade e da troca de informações concebidas no


interior da dimensão política. A valorização dos conselhos mostra a preocupação da autora
pelo plano no qual as ações políticas perduram, este plano, para nós, é o da microparticipação,
por meio do qual a prática participativa e a educação para a participação se desenvolvem.
Outro importante filósofo moderno a refletir sobre a crise política na contemporaneidade é
Habermas, para ele a política não é mais entendida como um conjunto de atividades humanas
relacionadas à vida, a política passa a pertencer cada vez mais ao campo da simples
administração, que por muitas vezes toma aspectos meramente técnicos. Para este autor, o
contraponto a essa “racionalidade instrumental” é a estruturação de um campo interacional.
Salvo as diferenças com o pensamento de Arendt, em Habermas a “racionalidade
comunicativa” tem um caráter crítico intrínseco no qual a conversação argumentativa tem o
poder de gerar consensos a respeito dos meios e fins a serem seguidos (Habermas in Souza,
2001)24.

É por esse motivo que o bairro constitui enquanto espaço da vida, o referencial da ação
política, já que entendemos por ação política toda e qualquer relação social que visa
estabelecer, por meio da mobilização, que inclui a interação, critérios de orientação da vida
social, buscando um equilíbrio entre a vida do grupo ou comunidade em questão, com a
sociedade da qual fazem parte e ajudam a construir. Na mobilização existe a possibilidade de
se abrir espaço para dialogar, inclusive, com os poderes cristalizados.

O bairro constitui uma dimensão espacial concreta da sociedade, é o referencial. No


bairro, a dialética representação do espaço-espaço da representação funda-se como força
aglutinadora da mobilização política.

117
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

3.2.1 Acertos e desacertos do processo

O bairro é o lugar onde os indivíduos experienciam as mais variadas situações que vão
convergir no sentido de formar uma representação desse espaço. Esta representação ajuda a
organizar e impulsionar a ação política, e nos serve de orientação para o entendimento da ação
das associações de moradores.

Esta perspectiva não é nova, inúmeros pesquisadores representantes de diversas


correntes da teoria social contemporânea vêm pensando a participação popular como
fenômenos simultaneamente discursivos e políticos, localizados na fronteira entre os
referenciais da vida pessoal ou comunitária e a política. Alberto Merlucci coloca ênfase na
natureza subjetiva da ação política. Merlucci (1994) apresenta a seguinte idéia:

...eu me interesso pela dimensão pessoal da vida social porque


sou convencido de que as pessoas não são simplesmente moldadas
por condições estruturais. Elas sempre se adaptam e dão um sentido
próprio às condições que determinam sua vida (Merlucci, 1994,
p.153).

O conceito de experiência passa a ser valorizado como essencial para o entendimento da


questão. O embate se dá entre uma visão que privilegia a vida real dos indivíduos e uma visão
de cunho mais estruturalista, como aquela criticada por Thompson em "A miséria da Teoria".

No Brasil, o sociólogo Eder Sader, ganhou notoriedade justamente por abordar novas
formas de organização da ação política, que eram negligenciadas pelas ciências sociais. Sader
nos mostra a trajetória de alguns movimentos populares na metrópole paulistana que fizeram
com que emergissem novos personagens no quadro político brasileiro a partir de 1970. A
prática destes novos personagens contesta formulações teóricas predominantes, isso porque
tratam se de um sujeito coletivo e descentralizado, despojado de um papel histórico pré-
determinado e universalizante.

Confirmado o que foi dito anteriormente, fazemos menção a uma frase proferida pelo
ex-presidente da SABA25, o Sr. Moringa, ao se referir a um dos papéis dessa associação:

24
No capítulo IV realizamos uma nova incursão a este tema, já que a dimensão a politização do espaço é um
elemento que transversa todo este estudo.
25
Sociedade dos Amigos do Bairro Alvorada. De acordo com o novo Código Civil (em vigor desde 2002), estas instituições
devem tomar o caráter de Associações uma vez que configuram agremiações de utilidade pública.

118
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Rapaz, a gente quando vai atender algum morador temos antes que
explicar a forma de se chegar ao poder público -a prefeitura-, às vezes a
pessoa mal entende sua situação, como é o caso, por exemplo, do pessoal
que ocupa as áreas verdes. O trabalho é conscientizar mesmo sabe.
Quando podemos marcamos algumas reuniões com o pessoal da prefeitura
que vem aqui e passa algumas informações pra gente.

No âmbito dessa valorização da experiência do indivíduo no seu cotidiano e da


constituição de espaços de comunicação e interação, pretendemos ressaltar o bairro como
espaço mediador da ação entre dois sujeitos, os moradores e o poder público.

A associação de bairro abre um espaço de convivência e de interação. A fala de Sr.


Moringa explícita a troca de experiências entre os moradores e entre eles e os representantes
do poder público, levando ao conhecimento deste último as condições reais da vida. A
conscientização aparece também como força aglutinadora. Assim as reivindicações articulam-
se a partir da percepção das carências comuns, por exemplo, no caso das dezenas de
moradores cujas residências se localizam em áreas verdes.

Inúmeros autores que tratam do caráter comunicativo dos movimentos sociais buscam a
contribuição de Jürgen Habermas. Souza (2002) afirma que para Habermas, a ação
verdadeiramente comunicativa se funda na crítica de razões que sustentam ou rejeitam
proposições e argumentos específicos, buscando chegar a acordos voluntários em nome da
cooperação. Tal idéia se firma no poder da conversação argumentativa em gerar consenso,
dando caráter “mais” legítimo à ação proposta.

Um problema lembrado pelo Sr. Moringa e que exigiu um grande esforço de


mobilização e conscientização por parte da associação junto aos moradores é referente à
cobrança de um serviço de construção de uma ponte sobre o córrego Baguaçu em no IPTU de
1995. Ocorre que, segundo nosso colaborador, a construção desta ponte significou muito
pouco no que diz respeito da melhoria da qualidade de vida dos moradores, na verdade a
construção da ponte foi realizada sem o menor consentimento prévio da comunidade.

Sr. Moringa lembra das sucessivas reuniões que mobilizaram grande número de
moradores que resultou num abaixo assinado que rapidamente ganhou o engajamento dos
moradores. O resultado foi a revisão por parte da prefeitura da cobrança do serviço em

119
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

questão e a posterior revogação da cobrança. A função pedagógica da associação neste caso é


patente.

O espaço aberto pela associação de moradores é uma condição básica para a ampliação
da vida pública e da emergência de representações sociais vinculadas a esta última
(Jovchelovitch, 2000). As representações sociais irrompem em espaços de realidade
intersubjetiva, são sendo produtos de ações e mentes individuais, ainda que suas expressões
são encontradas nestes. Neste caso, o espaço do bairro é o território do “eu” e do “outro”, e
desse encontro emerge a vontade para a ação política, podendo transcender às fronteiras
sociais institucionalizadas e/ou instituindo novas fronteiras.

Outro exemplo lembrado diz respeito ao asfaltamento de algumas vias. Sr. Moringa
sublinha que o “asfalto”26 é uma reivindicação bastante antiga da associação. O problema
tomou maior proporção quando moradores que ocupam áreas verdes e que por isso não
possuem a legalidade da ocupação do lote, passaram a exigir o asfaltamento das vias cujas
residências estavam (estão) localizadas.

De acordo com Sr. Moringa:


Tivemos um trabalhão danado pra entender e depois fazer a turma
entender que o fato deles não terem os documentos da casa dificultava as
coisas. Inclusive eles não pagam imposto não é? E mais, as ruas deles nem
tão no mapa.

Um exemplo do problema em tela é o das casas localizadas na rua Noroeste, metade das
quadras localizadas nessa rua possuem asfalto na outra metade das quadras as casas são de
ocupação irregular, consideradas áreas verdes, nestas o asfalto inexiste.

26
Decidimos inserir esta nota porque verificamos, não somente no bairro Alvorada, mas na cidade em sua
totalidade um fenômeno que decidimos chamar de “Ideologia do Asfalto”. O asfaltamento das vias aparece
como o problema mais importante, sempre lembrado pelos moradores quando inquiridos a respeito dos
principais problemas de seus respectivos bairros. Analisando o discurso de alguns candidatos a cargos políticos
na cidade, constatamos que a “bandeira do asfalto” constitui elemento importante e sempre lembrado.
No caso do bairro Alvorada, grande parte dos moradores lembram com certo préstimo da “época do
Andorfato”. Domingos Andorfato foi o Prefeito da cidade na gestão 1994-1998 e uma de suas maiores proezas
foi asfaltar 40% das vias do bairro Alvorada. Por fim, cabe salientar que a cidade de Araçatuba antes de se
aconchegar no cognome de “Cidade do Boi”, recebia o título de “Cidade do Asfalto”, já que o fato de possuir
uma jazida basáltica, elemento básico do asfalto, facilitava a ação de asfaltamento das vias da cidade,
constituindo uma das cidades mais asfaltadas do interior do estado de São Paulo já nos idos de 1950.

120
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Uma importante conquista da associação de moradores do bairro Alvorada foi a


construção de sua sede27 (ver abaixo). A notabilidade desta conquista reside no
reconhecimento por parte do poder público da relevante atuação da associação junto a
comunidade, já que o terreno para a construção do prédio da sede foi doada pela prefeitura no
final da década de 1980. Os demais recursos para a construção do prédio, num montante de 20
mil reais, só foram conseguidos no ano de 2001.

Foto 03 – Vista da fachada da sede da associação dos


moradores do Alvorada.

Segundo Sr. Moringa:


A segunda luta foi para levantar o prédio, o que conseguimos a
quatro anos graças a mobilização dos moradores, já que construímos o
prédio através do mutirão. Veio dinheiro da Prefeitura. Também não
pagamos água, somente a luz que é paga com dinheiro dos eventos
organizados pela gente mesmo. Foi uma conquista para a comunidade.

Nesta fala, o termo “conquista” significa que a construção da sede fortalece a


identidade da associação já que passa a contar com um local próprio para os encontros, antes
realizados na casa dos presidentes da associação. A conquista para a comunidade fica por
conta da utilização do prédio para satisfazer a necessidade dos moradores, um exemplo é a

27
Ver sua localização no mapa 05 na página 81.

121
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

utilização do prédio para a realização de dois velórios dois meses antes da realização da
entrevista com o Sr. Moringa (junho de 2003). As famílias não podiam pagar o aluguel
exigido para o velório e também não podendo realizá-lo nas próprias residências puderam
contar com a sede para a realização dos mesmos.

Outra utilização importante é a realização de festas e bailes com o fito de angariar


recursos para as atividades da associação. Nas festas e bailes organizados há uma interação
comunitária que nos remete às concepções sociológicas mais tradicionais do sentido dos
conceitos de encontro e de festa28. Na última festa realizada, quando houve a venda de pizzas
e de um bingo com o objetivo de obter dinheiro para a reconstrução de uma casa do bairro que
havia pegado fogo, um grupo de mulheres, moradoras do bairro, fizeram as pizzas em
mutirão, a música ficou por conta de um grupo de jovens que formaram uma banda musical, a
molecada era meio ruizinha, mas ninguém reclamou não, segundo o Sr. Moringa.

Seja para velar as pessoas que partiram seja para a realização de festas com fins
solidários, o fato é que a construção da sede constituiu um grande feito e legitima a ação da
SABA. Estes exemplos de encontros, interação e comunicação, verificados nas falas dos
moradores e dirigentes, assim como nas ações da associação, têm seu contraponto.
Reconhecemos nas falas e em nossa pesquisa de campo, a presença de paradoxos que, se
vistos de forma isolada e simplista, pode levar a conclusão de que a SABA não tem relevância
(legitimidade) alguma na comunidade.

Dos questionários respondidos pelos moradores do bairro, 40% disseram conhecer a


associação de moradores, o restante alegou não conhecê-la. 22% disseram conhecer algum
membro da associação e somente 17% afirmaram participar de reuniões e eventos realizados
pela SABA, 16% alegaram recorrer à associação quando tem algum problema com relação ao
espaço da vivência. Voltando a atenção às falas, na entrevista concedida, Sr. Moringa declara
lastimar a pouca presença dos moradores.
São sempre os mesmos, o cara quando é bom é bom mesmo, tá em
todas.. .agora, a maioria não se envolve, as vezes a pessoa vem e se filia
depois você nunca mais vê essa pessoa. De cada dez que você chama
aparece meio.

28
Não vamos desdobrar este tema aqui. Para mais detalhes ver: Hobsbawn, E. J. A invenção das tradições. Rio
de Janeiro: Paz e terra, 1984.

122
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Sobre a participação na organização da associação:


A SAB é formada sempre pelas mesmas pessoas, que só muda o cargo.
Numa você é presidente, noutra tesoureiro. Nas reuniões as vezes aparece
menos da metade. As chapas são sempre as mesmas pessoas, até mesmo
porque ninguém vai votar em quem não conhece.

Os últimos cinco presidentes da SABA atualmente ocupam outros cargos na


composição da direção, o que se observa é que estes cargos29, tais como tesoureiro, secretário,
chefes de comissões, muitas vezes só são estabelecidos porque estão previstos no estatuto da
associação. No cotidiano da associação as atividades se misturam, somente o presidente
apresenta uma maior diferenciação já que representa a associação em audiências e nos
encaminhamentos de pedidos às instâncias governamentais.

A permanência das mesmas pessoas na composição da direção da associação de


moradores é indicativo de uma contradição lembrada por outros estudos. Paul Singer (1980),
acerca das associações de moradores afirma que:
Os movimentos sociais da população trabalhadora são iniciadas, em
geral, por grupos limitados de pessoas, ideologicamente motivadas a se
empenhar na defesa ativa dos interesses desta população... constitui um
traço muito comum de muitos destes movimentos a distinção entre os
“organizadores” e os que formam as suas bases. Estas bases provêm do
grupo social cujos interesses não são atendidos pela estrutura sócio-
econômica vigente, o que motiva e dá lugar à contradição que motiva o
movimento.

Singer coloca que os movimentos sociais são sempre resultados de um esforço


deliberado que é formado por pessoas motivadas não apenas pelas contradições específicas,
mas por ideologias. Singer aproveita para fazer uma distinção entre as qualidades dos
organizadores e da base, os primeiros teriam motivações específicas, já as bases são
motivadas pelos sucessos e fracassos, buscam “vitórias” imediatas. Estas propriedades
estariam na base da divisão do trabalho no interior dos movimentos.

Considerando o momento desse estudo de Singer, início da década de 1980, é bem


justificável a irrelevância de certos elementos na abordagem de Singer. Contudo, ao se tratar

29
No que se refere à estrutura organizativa a da Associação de Moradores, o estatuto versa o seguinte:
CAPÍTULO X: Da Diretoria Executiva
Artigo 22 – A Diretoria Executiva é composta de:
a) Presidente; b) Vice-Presidente; c) Secretário; d) Segundo Secretário; e) Tesoureiro e; f) Segundo Tesoureiro.

123
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

de associação de moradores, o componente espacial deve ser destacado, senão pra afirmar
uma possível identidade pelo menos para afirmar que esta não existe.

Nossa hipótese é a de que a existência dos movimentos de bairro se dá justamente na


articulação entre os fenômenos discursivos e políticos localizados na fronteira entre
referências da vida pessoal e política, estando ligados a um conjunto de redefinições na
formação da identidade dos indivíduos. A este respeito, Souza (1988) nos garante que poucos
movimentos sociais30 remetem à espacialidade de modo tão direto e simbólico quanto o de
bairro, já que este exprime a dimensão espacial da sociedade concreta. O autor também
lembra o caráter ambíguo deste tipo de movimento, associado, segundo o autor, à diversidade
das formas pelas quais estes movimentos se constituem.

O fato de existir um grupo de pessoas que assumem a organização da associação de


moradores no Alvorada há mais de vinte anos nos serve de corroboração de nossa hipótese. A
diferenciação sugerida por Paul Singer entre organizadores e base não funda nenhuma
contradição em nossas idéias. Tanto os organizadores quanto a base, para usar o termo de
Singer, têm o mesmo referencial espacial, o do bairro Alvorada.

Importante fato a ser lembrado para corroborar nossas afirmações, foi o consenso entre
os moradores do bairro e a associação com referência a mudança de nome da rua A, que
passou a se chamar rua José Renato. Esta mudança de nome serviu para homenagear, e, nas
palavras do Sr. Moringa, para enraizar no bairro, o nome de um dos fundadores da
associação, e que mais tarde, depois de ter ajudado a fundar outras tantas associação, deu os
primeiros passos para a constituição da CONSAB (Conselho das Sociedades dos Amigos de
Bairro de Araçatuba), que reuniria todas as associações da cidade na tentativa de articular as
ações delas.

No que se refere a estrutura organizacional, há um modelo seguido pelas associações


de moradores, já que os estatutos das associações de bairro obedecem a critérios definidos
pela legislação que regulamenta as condições de seu reconhecimento pelo poder público e
chancelada pelo CONAM (Conselho Nacional das Associação de Moradores).

30
Souza (1988) usa a denominação “ativismo”, contudo achamos que no correr de seu texto, não há uma
diferenciação entre sua denominação e o que estamos chamando de movimento social e/ou movimento de bairro.

124
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Segundo o Código Civil Brasileiro, as associações são pessoas jurídicas e devem


possuir um contrato ou estatuto social registrado no CNPJ. A lei distingue as Sociedades, que
teria um caráter mais empresarial, das Associações, que possuem caráter cultural, moral e
beneficente. Constituindo um sujeito de direito, a associação de moradores pode até mesmo
adquirir bens, como é o caso do imóvel que lhe serve de sede, registrada em nome da
associação do Alvorada.

No estatuto, em seu capítulo I, intitulado Da denominação, sede, duração e finalidade,


alguns princípios relativos à natureza e objetivos da associação são apontados. O artigo 1
versa que toda associação de moradores é uma Associação Civil, sem fins lucrativos e sem
preconceitos de raça, cor, credo, tendência político-partidário, filosófico ou religioso, com
prazo indeterminado de duração. O artigo 3 aponta que a Associação Amigos do Bairro tem
por finalidade; a) defender os interesses dos sócios e da comunidade nos limites de suas
atribuições; b) visar melhoria de todas as posições materiais e culturais da coletividade,
propugnando pela integração da população na administração pública; c) promover estudos das
condições sociais e causas determinantes dos problemas do bairro, encaminhando-os com
soluções aos órgãos e autoridades governamentais; d) preservar as tradições, o patrimônio
moral e material da entidade; e) planejar e promover conferências, palestras, ciclos de estudos
e atividades de caráter cívico, social, cultural, científico, técnico, artístico e desportivo,
visando à complementação, o desenvolvimento e o aprimoramento da formação educacional
do povo; f) manter serviços de assistência aos sócios carentes de recursos; g) concorrer para o
aprimoramento das instituições democráticas; h) administrar próprios municipais, estaduais e
federais, que interessem aos moradores do bairro; i) celebrar convênios com quaisquer
entidades públicas ou privadas, visando a conjugação de meios e recursos para a consecução
de seus objetivos, em benefício da população e: j) colaborar ou solicitar dos órgãos públicos
ou privados, responsáveis pelos serviços de melhoria e reparos, as soluções necessárias ao
aprimoramento da urbanização e infra-estrutura, em benefício da comunidade.

No estatuto, como podemos observar, o bairro é o referencial direto e decisivo, mesmo


que o documento apresente predileção pela denominação comunidade. O bairro define
territorialmente a base social da ação, catalisa e referencia simbólica e politicamente o
defronte de uma problemática com imediata expressão espacial, como as insuficiências dos
equipamentos coletivos, como no caso das reivindicações da SABA com relação à
necessidade do aumento do número de salas no Colégio Arantes Terra (escola estadual),

125
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

assim como no aumento do número de vagas nas duas creches do bairro que, inclusive,
atendem inúmeras famílias não moradoras do Alvorada. Problemas habitacionais como a
legalização de parte das ocupações alocadas de forma irregular em áreas verdes, assim como a
alocação de 30 famílias em um conjunto de casas construídas na forma de mutirão e com a
utilização de materiais cedidos pela prefeitura, pela Igreja e por empresas privadas, em 2001.
Esta última resultou num conjunto de residências que atualmente recebem o nome de “Vila
Feliz”.

Foto 04 – Vista parcial da “Vila Feliz”

No item a do artigo transcrito, o estatuto versa sobre a defesa dos interesses da


comunidade, interesses que podem contrapor-se às intervenções urbanísticas autoritárias, fruto
da centralização da gestão do território, como por exemplo, no caso já citado da imposição
por parte da prefeitura da cobrança de uma taxa pela construção de uma ponte sobre o córrego
Baguaçu, ação esta que não foi objeto de consulta aos moradores do bairro e que não
revelava interesses da comunidade, como bem salienta Sra. Maria de Jesus, em entrevista
concedida:
Esse problema da ponte foi resolvido graças ao pessoal da associação
e das reuniões pra fazer o abaixo-assinado. Essa ponte não serve pra muita
coisa e a Vermínia31 queria cobrar uma taxa, é demais não é?

126
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

A moradora questiona a qualidade da intervenção estatal nesta ação, reforçando o


caráter reivindicativo tomado pela SABA naquele momento. Isto não ocorreu de forma
acidental, houve um esforço de aglutinação intencional que foi sustentada graças aos preceitos
das associações de moradores, um problema que poderia ser considerado meramente
funcional aos olhos dos desatentos, surgiu para a SABA como uma questão a ser “politizada”
no interior da comunidade com respaldo de seu órgão representativo e mediador dos
interesses comunitários diante ao poder público.

A ação política não pode ser vista somente como espontânea, emergindo como
reações naturais às carências que avançam sobre a população, outros elementos entram nesse
intrincado processo. No caso citado, a legitimidade32 da instalação de uma ponte sem o menor
consentimento da comunidade gerou um fortalecimento da legitimidade da SABA que
fortaleceu seu papel de mediadora junto à prefeitura.

Estão contempladas no estatuto as dimensões subjetivas e culturais da realidade da


comunidade não somente no sentido do entretenimento ou lazer, abarcando objetivos mais
amplos, as dimensões moral e cívica, por exemplo, são lembradas nos itens d e e. O estatuto
da associação de moradores representa a gama variada de situações e dimensões abarcadas
por estas organizações já que resultam das contradições contidas no cotidiano diário da
população na sua condição de moradores, trazendo à tona a territorialidade implicada em sua
constituição.

A dialética entre o geral e o singular, cuja articulação se dá pelo particular – ou pelas


particularidades da coisa – chama nossa atenção para os múltiplos aspectos implicados num
evento específico. A alocação de um conjunto de famílias carentes e o surgimento da “Vila
Feliz” possui características tanto assistencialistas quanto um valor mais profundo.

31
Germínia Venturoli foi prefeita da cidade de Araçatuba na gestão 1996-1999.
32
Sobre tal fato, não ouvimos a justificativa dos responsáveis por esta intervenção, contudo, não achamos um
desvio muito grande considerar a fundamentação desta ação centralizadora como expressão de um processo mais
amplo denominado de discurso competente, baseada no trabalho de Marilena Chauí, Ribeiro (1986, p.6) afirma:
...em nossa história, política urbana foi desde muito cedo investido pelo discurso competente: a partir do final
do século passado, com efeito, os higienistas impuseram uma visão sobre as cidades que fundamentou
importantes intervenções do Estado na cidade, em seguida, os médicos sanitaristas dão lugar aos engenheiros
que assumem a tarefa de pensar a cidade física e morfologicamente requerida pela acumulação industrial;
recentemente sobretudo a partir dos anos 60, entra em cena um novo personagem – o planejador urbano – que
passará a construir um complexo aparato governamental que objetivava traduzir na cidade a ideologia do
desenvolvimento.

127
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Em dezembro de 1999, um conjunto de moradias de características precárias


localizadas no extremo sul do bairro (numa área onde há algum tempo passava a linha férrea
da antiga Noroeste do Brasil, atual Novoeste) numa extensão destinada a área verde, foram
consideradas pela prefeitura e pela associação de moradores como de alto risco para as
famílias ocupantes, uma vez que se localizavam em um barranco bastante íngreme. Algumas
famílias saíram do local antes das chuvas do verão de dezembro daquele ano levar algumas
das moradias barranco abaixo.

O desmoronamento ocasionado pelas chuvas fez com que o restante das famílias fosse
colocado de forma improvisada num assentamento distante do bairro. Alocadas num conjunto
de barracas de lonas doadas pela Defesa Civil, algumas famílias, segundo o padre Paulinho
em entrevista concedida, ficaram instaladas nas salas de aulas da escola estadual do bairro e
utilizavam o salão paroquial como cozinha. A SABA atuou na mediação dos interesses das
famílias com o poder público, sobretudo na reivindicação de uma área no interior do bairro
para que estas famílias pudessem construir suas casas de forma segura. A SABA conseguiu
reunir diferentes agentes como a Igreja, o Rotary Clube, que doou recursos utilizados na
construção das moradias, a Defesa Civil e alguns pequenos empresários donos de
estabelecimentos comerciais que doaram alimentos e materiais de construção para as famílias
desabrigadas.

No início de 2000 a prefeitura doou uma área de aproximadamente 1.500 m² ao sul do


bairro, próxima a antiga área de ocupação das famílias para que elas pudessem se alocar. A
construção das moradias foi realizada pelas próprias famílias, a maioria no sistema de
mutirão, algumas de forma individual e/ou somente com o auxilio dos familiares. Para
obtenção dos materiais de construção a Igreja Católica do bairro colaborou numa campanha
de arrecadação junto à comunidade católica do bairro.

Segundo o padre Paulinho, a Igreja Católica conseguiu aumentar sua credibilidade


junto às famílias atingidas com a atuação neste processo. Segundo o entrevistado, no caso da
Vila Feliz, houve uma falta de coordenação e de assistência por parte da Prefeitura. Prova
dessa afirmação de padre Paulinho é a qualidade das moradias construídas. Numa pesquisa in
locu, constatamos que as moradias foram construídas de acordo com as condições de cada
família. Possuem tamanhos diferentes, muitas inacabadas e/ou mistas com madeira.

128
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Atualmente, algumas moradias foram construídas por pessoas que não fazem parte do
grupo que inicialmente foram desalojadas. Isto ocorre porque algumas famílias de habitavam
irregularmente outras áreas da cidade tiveram conhecimento da doação da área pela Prefeitura
e se dirigiram à Vila Feliz no intuito de conseguirem um espaço para viverem.

Rodrigues (1988) nos ajuda a entender que nas cidades capitalistas, a propriedade da
terra não garante o direito à cidade, mas ao menos confere o direito de lutar por ele e a
certeza de não ser expulso pelo aumento de aluguel. A aspiração pela propriedade da moradia,
condição concreta da sobrevivência, constitui um elemento disseminado no modo de viver
urbano, as políticas habitacionais da década de 1960 são reflexos deste processo. As práticas
cotidianas de apropriação e produção do espaço urbano deixam, por meio dos processos
organizativos, como no caso da atuação gerida pela SABA, de ser entendidas apenas como
resultado de um esforço segmentado para assumir sua verdadeira feição de uma luta pela
produção do espaço não segmentado, cuja produção é social (p. 238).

A constituição da Vila Feliz e todo o processo de aglutinação por meio do qual surgiu
uma rede social cuja finalidade era o de proporcionar o direito à cidade a um grupo de
famílias expressa a capacidade dos agentes sociais envolvidos, sobretudo a SABA, na
composição de uma ação forjadora de uma resistência às determinações da sociedade urbana
capitalista.

Junto à Vila Feliz, constituiu-se uma espécie de contra-espaço que nega as ordens
sociais majoritárias. Negou-se a negligência cada vez maior das pessoas com relação aos
problemas daqueles mais carentes.Também houve uma superação do localismo comumente
atribuído às associações de moradores, já que existiu uma integração entre diversos agentes
sociais articulados pela ação da SABA, Igreja, Estado, Agremiações Civis, a exemplo do
Rotary Clube, e empresas privadas.

No caso em tela, a politização do território do bairro fica patente na necessidade da


intensificação do diálogo com o Estado, na figura do poder público municipal. O
fortalecimento dos canais de ligação entre comunidade e Estado ocorre nos momentos de
maior mobilização.

129
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

3.3 O caráter reivindicatório

Partimos do pressuposto de que na relação com o Estado, os movimentos sociais


firmam um processo de criação de sua identidade coletiva, colocada tanto no plano político
como no plano das subjetividades. O caráter reivindicatório muito marcante dos movimentos
sociais é valorizado em grande parte dos estudos que têm estas manifestações sociais como
objeto de investigação.

As reivindicações dos movimentos sociais urbanos, de forma geral, e das associações


de moradores, como expressão específica, se insere na problemática do consumo coletivo e da
articulação e distribuição de mercadorias, tendo como opositor o Estado, já que, por motivos
históricos, este é produtor, controlador e gerenciados dos meios de consumo coletivo, assim
como o principal responsável pela legitimação dos meios legais de intervenção urbana.

Davidovich (1991) nos assegura que no Brasil, o urbano e o Estado sempre se


entrelaçaram, desde os períodos históricos menos recentes. À medida que o Estado passou a
regulamentar as relações entre o capital e o trabalho33, a função do Estado deixa de ser
meramente administrativo para ser político, já que é também responsável pela mediação entre
interesses de diferentes grupos sociais.

Em seu estatuto, no capítulo I, a SABA traça os seguintes objetivos; c) promover


estudos das condições sociais e causas determinantes dos problemas do bairro,
encaminhando-os com soluções aos órgãos e autoridades governamentais e; j) colaborar ou
solicitar dos órgãos públicos ou privados, responsáveis pelos serviços de melhoria e reparos,
as soluções necessárias ao aprimoramento da urbanização e infra-estrutura, em benefício da
comunidade. Seja na forma de órgãos e autoridades governamentais e/ou públicos, ocorre que
já em seus princípios, a associação de moradores do Alvorada prescreve o Estado como
interlocutor e não como um oponente. O que significa dizer que a ação da SABA se dá no
interior do Estado, ou seja, transcender o sistema político estatal não faz parte dos anseios da
associação.

33
Legislação trabalhista, salário, regulação dos custos da força de trabalho, provimento dos meios de consumo
coletivo, entre outros.

130
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Num sentido teórico Estado não constitui uma supra-estrutura fantasmagórica


intocável que preza sempre pelos interesses de uma única e exclusiva classe social, a
burguesia. Nesta visão, muito criticada por aqueles que buscam uma perspectiva menos
ossificante do que a perspectiva marxista, acredita-se que os interesses da classe burguesa se
confundem com os interesses do Estado. Já no campo das ações políticas, assumir um
conceito de Estado como mediador de interesses antagônicos significa abrir um espaço de
manobra maior para a atuação dos movimentos sociais, já que a única finalidade deles não é
mais desmembrar um Estado puramente burguês, mas sim o de ampliar os espaços
democráticos de debate e ação.

Os espaços de atuação que são abertos (ampliação do espaço público) por meio da
ação dos movimentos que agora (a exemplo dos novos personagens que entram em cena a
partir da década de 1980) não têm grandes preocupações revolucionárias como eixo
ordenador da ação e da própria existência, faz da escala municipal a dimensão privilegiada.
Isto se deve ao fato de que na escala municipal existe uma aproximação mais direta com os
responsáveis pela gestão destes espaços.

A Constituição Federal de 1988 reconhece que é no nível local que os processos


decisórios e de busca por estratégias de ampliação de espaços democráticos têm maior
engajamento. Este esforço para reforçar o processo de descentralização expresso na lei maior
cobre duas esferas; a intragovernamental, que se refere ao deslocamento de poder do governo
federal para as esferas subnacionais, e a democratização, cujo deslocamento do poder vai do
Estado para a sociedade.

Toda esta redefinição da estrutura de poder do sistema governamental se realiza por


meio do remanejamento de competências decisórias e executivas, assim como dos recursos
necessários para financiá-los. Podemos visualizar este processo na municipalização de muitos
serviços, muitas vezes esta municipalização de responsabilidades não vem acompanhada da
descentralização dos recursos públicos, o que dificulta a dinâmica contábil dos municípios.

A gestão pública entra num processo crescente de flexibilização diante das demandas
da sociedade, redimensionando a relação Estado-sociedade. O reflexo deste processo é patente

131
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

na Lei Orgânica do Município de Araçatuba, que preza por um maior controle social e pela
busca por possibilidades cada vez maiores de influir nas decisões34.

Outra expressão desse processo é a proliferação dos conselhos setoriais, a exemplos


dos conselhos de saúde, assistência social, da criança e do adolescente, da educação, entre
dezenas de outros. Só na cidade de Araçatuba são 18 conselhos municipais35.

Com relação às teorias que buscam dar conta do complexo vínculo entre Estado e
sociedade, e mais especificamente, entre Estado e espaço urbano, temos em Lefebvre (1999 e
1991) e em Castells (1977 e 2000) duas concepções que, salvo diferenças abissais,
consideram o plano existencial do Estado indissociável das questões urbanas.

Em Lefebvre, o Estado é um agente portador de uma ação que se apóia na racionalidade


opaca ditada pelo capitalismo, fazendo do espaço urbano o lugar onde os processos
homogeneizadores transformam o cotidiano numa fórmula abstrata. O Estado produz espaço
abstrato que nega o espaço social que suporta a vida cotidiana e a reprodução das relações.
Em Castells, o Estado é entendido a partir de seu papel no processo de reprodução da força de
trabalho. Daí este autor privilegiar o campo do consumo coletivo como especificamente
urbano e de responsabilidade do Estado.

Ficamos por ora com Castells, deixaremos Lefebvre para o capítulo IV, onde nos
desdobramos sobre dimensão ontológica do espaço e do território, preocupação que falta a
Castells.

Castells vincula Estado, meios de consumo coletivo e movimentos reivindicatórios.


Neste perambular, o autor coloca que o Estado enquanto relação surge na medida em que os
fundos públicos intervêm nos mecanismos de reprodução da força de trabalho, já havendo aí
uma redefinição do Estado enquanto relação.

34
Vide artigos 39; 76; 136 e 165 da Lei Orgânica do Município de Araçatuba.
35
Da Assistência Social; dos Direitos da Criança e do Adolescente; Tutelar; da Saúde; da Educação; do Idoso;
do Meio Ambiente; do Esporte; do Turismo; do Desenvolvimento Comercial e Industrial; da Segurança
Alimentar e Nutrição; Antidrogas; do Desenvolvimento Rural; da Cultura; da Pessoa Portadora de Deficiência;
da Alimentação Escolar; da Segurança; e do Trânsito.

132
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

É nesse contexto que o Estado se constitui como o interlocutor principal dos


movimentos sociais urbanos. O caráter reivindicatório dos movimentos urbanos politiza a
questão dos meios de consumo coletivo, tirando-os do isolamento atribuído a eles no campo
da economia. O uso coletivo é determinado ao mesmo tempo pela socialização do processo de
consumo, assim como pela socialização da gestão ou pelo aumento do acesso aos mecanismos
decisórios de implantação destes.

O Estado deixa de ser o ponto de partida, este papel é exercido pela relação fixada no
processo de interlocução. A intervenção estatal não é um mero mecanismo de regulação
automático das contradições sociais, já que na interlocução com outros grupos sociais
politiza-se as questões do planejamento e da intervenção. Estas questões não se dão a partir do
aparelho estatal de forma linear, há inflexões históricas consideráveis em função das forças
entre os grupos sociais, suas orientações e alianças.

Sobre este aspecto, o ex-presidente da SABA, Sr. Moringa nos fala:


Essa gestão de agora escuta muito as associações, mas já teve
outros, como o da Germínia Venturoli por exemplo, que não estava nem aí.
Aí nosso trabalho é dobrado né. Além reunir a turma, explicar as coisas,
gente tem que ficar batendo na porta da prefeitura, o Maluly vem até aqui.

Por meio de sua fala, nosso colaborador explicita que em diferentes momentos,
dependendo da forma pela qual são articuladas as relações de poder local, ou dependendo do
perfil apresentado pela gestão de determinado grupo36, a interlocução atinge ou não os
objetivos desejados pela associação. De fato, as decisões políticas procedidas da prefeitura
(expressão política do poder local por excelência) são constituídas pelo entrechoque de uma
gama variada de micro-políticas que transversa o poder político local.

Acreditamos que os casos concretos de relação entre Estado e Sociedade expressam


uma combinação do conjunto de vertentes possíveis, e não um modelo ideal, já que o
resultado do entrechoque que acontece no processo de negociação (interlocução) das diversas
expressões sociais tende a conferir uma orientação para os processos de participação. Esta, ora

36
Numa cidade como Araçatuba, onde tradicionalmente os governantes provêm das elites locais (Gomes, 2003),
tende-se a prevalecer uma postura que reforça as culturas políticas das elites, onde a cuja participação popular
não têm espaços amplos de atuação. O compromisso com as organizações das camadas populares muitas vezes
toma escopo de posturas populistas36, realçando ainda mais os entraves no interior do aparelho administrativo e
legislativo.

133
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

fortalece os vínculos entre os que compõem as organizações sociais (como as associações),


ora os afrouxa.

O caráter reivindicatório dos movimentos sociais se acentua ou se afrouxa de acordo


com a combinação das possibilidades que são instituídas no processo de encontro entre os
diferentes grupos de interesse, que exigem respostas do Estado.

O crescimento desordenado da maioria das cidades brasileiras, e Araçatuba não é


exceção, vêm se realizando a, custos econômicos e sociais. O Estado cumpre a função de
injetar enormes quantias de recursos em infra-estrutura necessária à esfera produtiva que se
instala nas cidades e, concomitantemente, responde às reivindicações e pressões dos grupos
populares advindos da situação de precariedade dos serviços e equipamentos púbicos e dos
diferentes níveis de conscientização e mobilização destes grupos.

3.3.1 As principais reivindicações segundo os moradores do Alvorada

Demo (2001), ao estudar alguns traços gerais do associativismo no Brasil, tendo como
base de dados pesquisas elaboradas pelo IBGE, distingue três categorias desse fenômeno; os
sindicatos, as associações órgão de classe (categorias profissionais) e os órgãos comunitários.
Para este autor, as filiações à órgãos comunitários expressa uma cidadania tipicamente
voluntária e geralmente mais consciente.

Ao frisarmos a formação de uma identidade dos moradores com seu espaço de vivência
não ignoramos o papel que as carências têm nesse processo. O sentido de carência pode ser
definido de várias formas, daí a multiplicidade dos movimentos que define a coletividade
efetiva de cada ação; homossexuais, mulheres, negros, moradores etc.

Apesar das exigências burocráticas do Estado para o reconhecimento da legitimidade


da associação, sua existência não está submetida a uma mera imposição estatal. A SABA é a
primeira associação de moradores constituída na cidade de Araçatuba, sua formação se dá no
final da década de 1970, sobretudo a partir da atuação do Sr. José Renato.

134
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Segundo informações obtidas por meio de entrevistas, o Sr. José Renato possui sua
história na cidade vinculada a ação política. Vindo da metrópole paulistana em meados da
década de 1970, conhecedor das vias legais da formação e legalização de associações e,
posteriormente, militante do Partido dos Trabalhadores, o Sr. Renato colaborou na
mobilização inicial dos moradores do bairro Alvorada e mais tarde colaborou na mobilização
de pelo menos dez associações de moradores em Araçatuba. As informações referentes a este
importante personagem da história política de Araçatuba são escassas, isto se deve ao fato
dele ter falecido há mais de dez anos e de seus familiares não residirem na cidade, mesmo
quando acionados desconhecem sua atuação em Araçatuba.

No início, a criação da SABA estava relacionada com o fato de que o bairro Alvorada,
apesar de já existir há trinta anos no final da década de 1970, carecia de uma série de
elementos de infra-estrutura que implicaria na melhoria na qualidade de vida dos moradores.
A implantação de elementos como água encanada, iluminação pública, asfalto e abertura de
algumas vias que já possuíam residências, somente fora iniciadas neste período.

A colaboradora Maria de Jesus lembra das inúmeras vezes que ia buscar água no
córrego Alvoradinha que corta o bairro para lavar roupa, tomar banho e para beber. Maria
recorda: me lembro das máquinas da prefeitura que vinham abrir as vias e que nunca
passavam na frente de minha casa. E continua: ...me lembro de uma vez que dei duas
garrafas de pinga para o maquinista passar na rua aqui do lado que era um barrancão só.

É claro que a postura isolada de nossa colaboradora não pode ser associada ao
coletivismo ao qual nos referimos linhas acima, mas sua fala nos serve para ilustrar que a falta
de uma atuação mais efetiva da prefeitura na implantação de melhorias para o bairro
contribuiu para a formação de uma força aglutinadora pela qual a formação da SABA se
nutre. Os indivíduos mais diversos tornam-se iguais na medida que sofrem da mesma falta.
Submetidos a carência, todos se tornam portadores de uma identidade no sentido concreto, a
representação de que algo falta ao espaço da vida e que se deve fazer alguma coisa da base à
noção de comunidade.

A passagem do indivíduo, da dimensão privada para a pública, explica um elemento


importante e freqüente em depoimentos dos participantes da associação; o de vivenciarem tal

135
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

experiência como um enriquecimento pessoal, intensificando sua qualidade de sujeito que


serve à comunidade. Como na seguinte fala Sr. Manoel, atual presidente da SABA:
Eu já tô na associação faz tempo, como presidente há um ano, mas
sempre ajudando a população, muita gente consegue as coisas por causa
da gente, isso já ta bom, as vezes a gente não consegue fazer muita coisa
mas pelo menos explicamos a situação pra pessoa, aí ela fica conhecendo a
realidade. Mas acho que estou sendo útil pras (sic) pessoas.

A prática fundada na busca pela satisfação das carências cria uma prática coletiva que
passa a fazer parte da vida social e fundamenta suas representações, amplia e reformula a
vida. O reconhecimento da carência passa para o reconhecimento da identidade e do direito
legal das exigências. Thompson (1981), afirma que para compreendermos a formação da
classe operária na Inglaterra, deve-se realizar uma verdadeira inversão na lógica interpretativa
promulgada por Karl Marx no século XIX. Thompson destaca a formação da classe operária
para depois compreender a formação da indústria moderna, o autor enfatiza o auto-
reconhecimento dos trabalhadores como classe. Em suma, o que o historiador inglês propõe é
entender a formação da classe operária como condição e não mais como um simples resultado
da grande indústria, há uma inversão de perspectivas.

Entendemos que a força mobilizadora reside justamente no processo de constituição


coletiva de representações. Estas permitem realizar a passagem fundamental que consiste em
caracterizar carências específicas, vividas por alguns como manifestação da negação de um
direito de toda comunidade.

Na pesquisa de campo realizada, buscamos constatar quais os principais problemas


que são vivenciados no âmbito do bairro. Pode-se observar no gráfico 04 (página 137) que
problemas como falta de asfaltamento, limpeza pública, falta de policiamento entre outros,
são todos problemas referentes à serviços oferecidos pelo poder público.

136
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

GRÁFICO 04: Principais problemas citados pelos moradores

Não tem
problemas Terrenos
9% baldios
Marginalidade 21%
2%
Falta
policiamento
26%
Falta de
Falta serviços asfalto
2% 23%
Limpeza
Animais
Falta de pública
soltos
iluminação 12%
1%
4%

Fonte: Trabalho de campo, 2004.

Problemas que tradicionalmente entrariam na pauta das reclamações, tais como falta de
escola, creches, posto de saúde, não são lembrados. Isto de deve ao fato de que estes serviços
são atendidos de forma relativamente satisfatória. O aumento do número de salas de aula na
escola estadual Altino Arantes, o aumento do número de vagas nas duas creches localizadas
no bairro, a instalação da Unidade Básica de Saúde em meados de 1990, a implantação de
sinalização nas ruas, segundo relatos de entrevistados, foram problemas que sempre entravam
na pauta das reuniões e reivindicações da SABA. Se muitas das intervenções do poder público
no bairro não estão diretamente vinculadas à ação reivindicatória da SABA, a forma pela qual
estas são implementadas não escapam à observação da associação e crítica da associação.
Como o caso da cobrança da taxa de asfaltamento aos moradores que foi suspensa após a
mobilização dos moradores, havendo inclusive a elaboração de um abaixo-assinado. Nesse
caso a prefeitura deixou de asfaltar parte das ruas, completando a implantação deste serviço
somente no momento que contava com recursos conseguidos juntos ao governo federal.

A busca pela resolução das carências assumidas pela associação de moradores


pressupõe uma identidade comum entre os moradores, demanda um conjunto de

137
______________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

representações que, mesmo de forma incipiente, gera um processo de auto-construção política


e cultural, tanto quanto econômico.

3.4 O bairro é o território

Tidas como ações coletivas de natureza política, que buscam um certo grau de
autonomia de ação, o movimento em pauta mostra um exagerado conteúdo de contradições.
No conjunto das múltiplas determinações do fenômeno, a busca pela identidade exige que
encontremos uma unidade. Esta unidade, reside justamente no campo relacional. É justamente
onde a Geografia, de forma tradicional, mais se debruçou, na relação sociedade-espaço, que a
identidade dos sujeitos (ou personagens, para lembrar Eder Sader) se fundam. Desta relação
origina-se o território.

Sobre o conceito de território, acreditamos ser possível constituir um sistema


conceitual capaz de dar forma ao fenômeno estudado. Território entendido como um conceito
mediador e não como um conceito a priori. Mediador da ação e do pensamento.

Da mesma forma que ser e pensar constituem o processo pelo qual as múltiplas
determinações geram o concreto, o território é a mediação pela qual os moradores do
Alvorada experienciam seu espaço. Daí brota a complexidade geradora da ação política que
está disseminada no cotidiano, não confinada a uma dimensão específica. É esta
complexidade, capaz de causar úlceras aos adeptos da preguiça intelectual, que nos estimula
a entender a forma pela qual o bairro, enquanto lugar da vida, passa a configurar o espaço da
ação política, constituindo, portanto, o território. Este processo é o que marca a especificidade
do que chamaremos de Movimento Socioterritorial.

138
___________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

4. O PROCESSO TERRITÓRIO-BAIRRO

A problemática da participação popular, na forma assumida pela associação de


moradores de bairro, possui sentidos múltiplos. Nossa hipótese é a de que a participação dos
moradores do bairro Alvorada na produção do espaço urbano de Araçatuba, dá-se em todas
dimensões que compõem esse espaço, e não somente no que há de mais político (como no
capítulo III), ou no que há de mais econômico (como no capítulo II). A constituição do espaço
urbano é um campo de relações que vão além da simples reivindicação pela ampliação das
salas de aula da escola do bairro, ou pelo asfaltamento de uma ou mais ruas. A participação
popular não se dá somente no que ela tem de político, porque o processo de constituição desse
caráter político é bem mais complexo e abarca inúmeras outras dimensões da vida dos
moradores.

O bairro irrompe como o espaço da vida, no qual a dimensão política da mobilização


social emerge. É a própria composição e o significado desse espaço da vida que interessa, pois
é ele que gesta a força mobilizadora, nele se entrelaçam, dialeticamente, determinantes que se
originam em escalas outras que não a do bairro, com os processos formadores de uma
identidade comunitária. A identidade é um emaranhado de processos que atravessam todas as
escalas pertinentes ao ser social, seja este ser o bairro, a associação dos moradores ou os
moradores, isto porque todos formam uma unidade. O morador é o bairro em certo sentido,
ele carrega consigo o espaço da vida como veremos adiante.

O fato de vivermos em um espaço já nos identifica socialmente, reconhecendo nele um


espaço vivido. Como afirma Haesbaert, é o sentido de pertencer a uma região e/ou território
(in: Costa, 1988 p. 25). Assim, o bairro é, ao mesmo tempo, espaço e território. É o espaço da
mediação política, por isso é território.

O processo que prende nossa atenção é justamente a formação desta mediação, o


processo pelo qual o espaço da vida se articula com o espaço da ação mobilizadora, que é ao
mesmo tempo o processo da firmação da identidade, do pertencimento ao espaço que forma o
território, e, portanto, de uma prática política diluída no cotidiano dos moradores deste
espaço.

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4.1 O bairro é um território

Na história do pensamento geográfico muito já foi dito a respeito do território, sua


natureza e as implicações de seu uso na sociedade moderna. Essa discussão revela o quão
importante é, para os geógrafos, entender a complexa problemática que envolve as diferentes
formas com as quais a sociedade modela, organiza e se identifica com o espaço no qual se
reproduz. Buscamos, agora, apresentar uma síntese de como esta problemática.

O conceito de território tem tradição não somente no âmbito da Geografia, mas a


Antropologia, a Economia, a Ciência Política, a Psicologia e a Sociologia buscam no território
uma ferramenta conceitual que lhes permita entender a realidade inquirida, de forma a
contemplar os objetivos propostos por suas problemáticas específicas. Souza (2001) propõe-
se a precisar o conceito de território, desde a sua gênese, quando se reforçava o caráter
ecológico do termo1 até sua concepção mais atual. Tanto Souza (2001) quanto Haesbaert
(2002 e 2004), associam o território a uma demarcação espacial realizada a partir das relações
de poder que ali se conflitam. O território seria, portanto, um espaço delimitado
fundamentalmente por e a partir de relações de poder.

Existe um certo consenso entre esses autores que esta concepção de território foi
difundida, sobretudo, a partir de Friederich Ratzel, no século XIX. Naquele contexto, o
território estava diretamente vinculado à preocupação de se estabelecer uma justificativa para
as pretensões imperialistas nos Estados-nações nascentes, principalmente a Alemanha. Assim
sendo, o território estava comprometido com o espaço, mas com o espaço no qual imperava o
poder do Estado, ou como Raffestin (1993) propõe, o Poder com P maiúsculo, do poder
estatal.

O problema da concepção ratzeliana é sintetizado por Souza (2002, p. 86) da seguinte


forma:
A territorialidade do Estado-Nação, tão densa de história, onde
afetividade e identificação (reais ou hiperbolizadas ideologicamente)
possuem enorme dimensão telúrica-paisagem, “regiões de um país”, belezas
e recursos naturais da “pátria”-, é naturalizada por Ratzel, também na
medida em que este não discute o conceito de território, desvinculando de

1
O território era visto como o espaço demarcado pela existência ou predomínio de uma espécie específica, seja
da fauna ou da flora, em um determinado espaço, a exemplo do território demarcado por um leão e seu grupo na
savana africana.

140
___________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

seu enraizamento quase perene nos atributos do solo pátrio.


Sintomaticamente a palavra que Ratzel comumente utiliza não é território
(Territorium), e sim solo (Boden), como se território fosse sempre
sinônimo de território de um Estado, e como se esse território fosse algo
vazio em referencia aos atributos materiais, inclusive ou sobretudo naturais
(dados pelo sitio e pela posição), que de fato são designados de modo mais
direto pela expressão Boden.

Esta concepção ratzeliana já não encontra muitos seguidores no pensamento geográfico


atual. Tal fato se deve, e acreditamos ser esta a chave da nova compreensão, à mudança na
concepção de poder. Mudou a concepção de território porque mudou, também, a concepção
de poder, seus sentidos e natureza. Destarte, como o poder não se circunscreve ao Estado, da
mesma forma o conceito de território deve compreender mais que o espaço do Estado-nação.
A essa mudança na concepção de poder muito se deve aos estudos de autores como Guattari
(1985), Foucault (1979), Castoriadis (1982), Raffestin (1993) e Bourdieu (1989), autores de
outras áreas que foram incorporados aos estudos geográficos.

Nesses autores, há uma ressignificação do sentido do poder em nossa sociedade, uma


concepção que é tomada de forma muito mais complexa e que vai além do poder emanado do
Estado-Nação, como bem queria Ratzel. O poder passa a ser entendido como intrínseco a toda
relação difundida na sociedade: o que existe são redes formadas pelos poderes que se
difundem na sociedade, periféricos ao poder centralizado ou estatal.

A concepção de poder que passa a influenciar o pensamento de muitos autores


brasileiros, e entre eles muitos geógrafos, compreende o poder como algo difuso na medida
em que todos passam a ser envolvidos por relações de poder. O que não sugere que o poder
não possa ser identificado, na verdade, existem locais e situações em que o poder se cristaliza
de forma mais consistente. Tanto as pessoas quanto os grupos conseguem, de uma forma
particular, usar os espaços do poder para agir; o cotidiano, como já enfatizamos no capítulo
anterior, passa a constituir também como espaço de emergência do poder.

Inserido nesta discussão, Souza (2001) afirma que a incorporação de novos referenciais
no trabalho de precisão do conceito de território deve ter o fim de romper com a velha
identificação do território com seu substrato material, o que o autor chama de
“hipostasiamento”. O território não é só substrato, espaço social em si, mas deve ser
considerado como um campo de forças

141
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Assim completa o autor:


Sem sombra de dúvida pode o exercício do poder depender muito
diretamente da organização espacial, das formas espaciais; mas aí falamos
dos trunfos espaciais da defesa do território, e não do conceito de território
em si (p.97).

Direcionando sua crítica a Raffestin, Souza afirma que o autor de “Por uma Geografia
do poder” não atinge o ponto necessário para romper com a visão tradicional de território
enquanto substrato material. Ao que parece, pelo menos para Souza, Raffestin não consegue
atingir a proposta de realizar uma abordagem relacional.

De fato, para Raffestin o processo de delimitação, implícito na noção de limite, é muito


importante. Falar de território é fazer uma referência explícita à noção de limite, que exprime
uma relação de um grupo com um pedaço do espaço; a ação do grupo é geradora do limite, a
saber, a delimitação do poder. Em Raffestin (1993), o território é o substrato material onde se
refletem relações de poder demarcatórias. Esta idéia está presente na formulação de Raffestin
que busca entender o território como trunfo, assim como no seu entendimento a respeito da
territorialidade, uma vez que, para este autor, os limites do vivido fazem parte da
territorialidade, eis porque a territorialidade constitui obstáculo para as divisões2 que nem
sempre são satisfatórias do ponto de vista existencial. Destarte, todo poder escolheria o
sistema que melhor corresponde ao seu projeto.

Vamos agora prestar atenção na leitura mais transigente de Haesbaert (2004) sobre
Raffestin. Para Haesbaert (2004), até mesmo a visão de Raffestin sobre o território, visto
como trunfo, comporta um caráter relacional, nem muito materialista, nem muito idealista. O
espaço é tanto suporte quanto trunfo, trunfo porque abarca uma dimensão política projetada
sobre um aporte que nos serve de recurso. O território é um trunfo particular, recurso e
entrave, continente e conteúdo, tudo ao mesmo tempo. O território é o espaço por excelência,
o campo de ação dos trunfos (Raffestin, 1993, p. 60).

Esta leitura de Haesbaert acerca das formulações de Raffestin está associada a sua
preocupação de inserir novas dimensões na composição do conceito de território. Para

2
Entendemos que as divisões apontadas por Raffestin são aquelas estabelecidas pelo poder institucional nos
parâmetros de uma determinada jurisdição legal. Exemplo ilustrativo deste conflito pode ser buscado no
processo de constituição dos Estados-nações africanos, no qual territorialidades – os limites estabelecidos pelos
diferentes grupos étnicos, na maioria dos casos, não condizia com as fronteiras marcadas pelas potências
imperialistas européias - distintas se chocaram resultando em conflitos de ordem civil e geopolítica.

142
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Haesbaert, o território perde muito quando é entendido como uma mera demarcação espacial
na qual impera o poder de um grupo3. Outras dimensões se articulam, a exemplo do político, o
econômico, o simbólico e o natural, que fazem parte do processo de constituição do território.

Segundo Haesbaert, Raffestin entende o território como trunfo porque o vê como um


campo de disputa, material e imaterial. Esta disputa se acirra quanto mais se distancia o
referente do símbolo. Segundo Haesbaert:
Raffestin considera então como “trunfos” do poder a população, os
recursos e o território. Aqui é melhor, retomando a crítica de Souza, adotar
“materialidade do espaço” ao invés de “território”, já que não há território
sem recurso e, muito menos, sem “população”. As “organizações”, que são
capazes de combinar energia e informação, pois se apropriaram da
“unidade-trabalho”, alienando o trabalhador, acabam por privilegiar a
dimensão simbólica desses trunfos do poder...Na verdade, mais do que
fragilidade, é de “força” que se trata, pois essa “distância” entre referente e
simbólico, que hoje muitas vezes é indiscernível, confundindo-se
completamente “realidade” e representação, transforma a dimensão
“concreta” do poder e o insere num emaranhado de relações simbólicas em
que o próprio território passa a “trabalhar” mais pela imagens que dele
produzimos do que pela realidade material, concreta, que nele construímos
(Haesbaert:, 2004, p.103-4).

O território de Raffestin aparece como uma materialidade mergulhada em sistemas de


significação. O território é o material impregnado de significação.

Existe em Raffestin, e acreditamos que é justamente esta característica que Souza


critica, uma certa oposição entre a dimensão imaterial e a dimensão material. A dicotomia
ontológica materialismo-idealismo4 pode ser identificada na concepção raffestiniana. A crítica
de Souza (2001) fica mais clara para nós ao contrapormos sua concepção de territorialidade à
de Raffestin. Assim como para o geógrafo suíço a territorialidade corresponde ao conjunto de
comportamentos espaço-territorial de um grupo social, para Souza a territorialidade toma

3
Rogério Haesbaert vê três vertentes básicas de leitura a respeito do território: uma política ou jurídica-política,
relativa à relação espaço-poder, institucionalizado ou não; a segunda de caráter cultural ou simbólica-cultural, na
qual o território é visto como produto da apropriação/valorização simbólica em relação ao espaço vivido; e a
terceira vertente, a econômica, muitas vezes economicista, que enfatiza a dimensão espacial das relações
econômicas, o território como fonte de recurso incorporado na relação capital-trabalho, posteriormente o autor
insere uma interpretação naturalista, que se utiliza do território com base nas relações entre sociedade e natureza.
4
Sobre esta problemática, ver Bonaccini (2000). Em seu trabalho, o autor busca apresentar a contraposição
existente entre as perspectivas kantiana e hegeliana acerca do significado da Dialética. Para Bonaccini, o
monismo ontológico tutelado por Hegel funda-se principalmente numa crítica ao dualismo de Kant, para quem a
realidade é exterior ao sujeito. Em Kant, sujeito e objeto possuem status completamente diferentes, daí a
dialética ser encarada por ele como uma penumbra ao conhecimento, o que em Hegel representa o próprio
processo do conhecimento.

143
___________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

contornos mais abstratos. Para este último mais produtivo seria... encarar a territorialidade à
semelhança de outros substantivos como brasilidade, sexualidade e tantos mais.

A territorialidade empregada no singular remeteria a algo totalmente abstrato, àquilo


que faz de um território um território. Empregadas no plural, as territorialidades:
significam os tipos gerais em que podem ser classificados os
territórios conforme suas propriedade, dinâmica etc.: para exemplificar,
territórios contínuos e territórios descontínuos singulares são representantes
de duas territorialidades distintas, contínua e descontínua (p. 99).

O que Souza tem em mente é um certo tipo de interação entre homem e espaço, a qual
é, aliás, sempre uma interação entre seres humanos mediatizada pelo espaço.A idéia de que o
território se constitui na medida que o espaço emerge como elemento que medeia a interação
entre seres humanos é adotada neste estudo. Em Raffestin, esta idéia também aparece.

Enquanto espaço da ação, o território passa a ser a mediação entre dois indivíduos ou
grupos. É uma relação triangular, pois a relação entre os sujeitos sociais é mediada pelo
espaço que, nesse processo toma status de território. O território tem, nestes termos, uma
dimensão política intrínseca, pois tem a dimensão do poder no centro de sua constituição.

Em sua constituição, os fatores culturais e simbólicos se imbricam de tal forma com


fatores políticos que sua disjunção só é possível mediante a prática analítica. Essas relações se
dão por meio de uma sinergia que, no campo da atuação dos sujeitos, o território passa a ser o
elemento de identidade, ou seja, firma as particularidades de um grupo ou indivíduo com seu
espaço de vivência e da ação política.

O território é, nesses casos, uma relação política. Tem em seus limites, seja de um
bairro, de um assentamento rural ou de uma nação, uma relação política com a alteridade. É
uma relação entre grupos sociais mediada pelo espaço. Raffestin cita René Girard, ao afirmar
que a territorialidade, de forma ampla, procede de uma problemática relacional. Aqui o autor
menciona a relação triangular à qual já fizemos referência.

De forma geral, entender o território como espaço da ação implica em buscar valorizar
as especificidades de cada caso, seja a atuação de uma associação de bairro, seja no caso do
movimento dos sem terra, dos atingidos por barragens, dos punks ou dos quilombolas. Desta
forma, devemos compreender a territorialidade como conjunto daquilo que se vive no

144
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cotidiano, as relações de trabalho, familiares, comunitárias, de consumo, de tal modo a não


homogeneizar a sociedade.

O que de fato presenciamos é que, ora Raffestin promulga por uma abordagem
relacional, ora Souza critica Raffestin justamente por não alcançar a desejada abordagem
relacional. Salvo as diferenças entre os autores, concordamos com ambos no sentido de que o
território só se constitui enquanto realidade concreta na medida que nos atentamos ao que este
tem de material e imaterial. O território concreto constitui a soma de múltiplas determinações
que somente a abordagem relacional, do ponto de vista epistemológico, dá conta de uma
aproximação mais coerente com a realidade em movimento constante.

Lançando mão do complexo pensamento hegeliano ao construir sua crítica ao princípio


da identidade de herança aristotélica, o filósofo alemão afirma que, para determinar a
“identidade” de um objeto qualquer é preciso relacioná-lo com o resto dos objetos possíveis, é
aí que reside o devir da realidade em sua conjugação com os esforços de abarcá-la
intelectualmente. O processo de conceitualização deve considerar o devir.

Para Friederich Hegel, o não é nada, e deve vir a ser algo, sendo que o começo não é o
nada puro, mas um nada do qual algo deve surgir. O ser está contido já no início. Em suas
palavras, a verdade é completa apenas na unidade da identidade com a diferença. O
complicado jogo de palavras do filósofo nos serve de base filosófica para assegurar o que
estamos propondo elucidar sobre a forma do juízo, é o território o próprio movimento da
realidade do cotidiano das pessoas que, na sua relação entre si e com o espaço da vida,
dá os contornos de uma identidade que também é movimento.

O território sintetiza em seu interior o intrincado jogo de relações que formam a unidade
da relação sociedade-espaço. A unidade não é a busca pela identidade estática, mas é a busca
pela compreensão do movimento, de uma identidade que está num eterno devir. É por isso
mesmo que discordamos de Raffestin quando sublinha em seu texto o caráter de trunfo do
território. As dificuldades que uma afirmação deste tipo nos impõe para compreender a ação
dos movimentos sociais como a associação de bairro dilatasse de tal forma a impedir qualquer
tentativa de achar uma unidade (movimento) para o conceito de território, assim como para o
conceito pelo qual nos debruçamos a partir de agora; o de Movimento Socioterritorial. Este

145
___________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

último é definido por nós como aquela ação social que tem no território o espaço da mediação
política.

Na Geografia, o reflexo da afirmação de Raffestin se faz presente, principalmente, nos


trabalhos de geógrafos que buscam entender a ação política dos movimentos sociais que
atuam no campo brasileiro, como o Movimento dos Sem Terras, em Fernandes (1999 e 2000)
e Martin (1997 e 2002). Poderia o leitor perguntar, será possível trazer para uma problemática
urbana formulações que têm o rural como “ponto de fuga”? Acreditamos que sim.

Seja no campo, seja na cidade, acreditamos que o fator que dá unidade aos movimentos
sociais chamados de Movimentos Socioterritoriais não está associado aos recursos ou às
características peculiares da população rural ou urbana, daí não concordamos com a
formulação raffestiniana de ver o território como trunfo, onde se assenta um conjunto de
recursos ou uma população específica. O que dá unidade a estes movimentos sociais é o fato
de na sua constituição o espaço apresenta-se como mediador da ação. Sendo o território,
portanto, um elemento que reside no próprio status existencial destes movimentos, como
afirmou Hegel, seu ontus reside já no seu início e não depende exclusivamente de seus fins ou
para onde vai.

Esses movimentos sobrevivem mesmo sem o trunfo, pois sua identidade se firma no
território como resultado da relação e não como mera área onde se disputa a constituição dos
limites. Desta forma, resgatamos, inclusive, a visão do próprio Raffestin, quando ele afirma
que o território pode ser analisado a partir de relações de poder mas também como palco de
ligações afetivas e de identidade entre um grupo social e seu espaço.

A palavra palco também se mostra problemática, pois ao buscar unidade ao conceito de


Movimento Socioterritorial, veremos que o território não é o palco, mas é a própria
identidade, e, sem ela, tais movimentos certamente nem existiriam, ainda que a área foco da
disputa exista.

146
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4.2 A unidade do Movimento Socioterritorial

Fernandes (2000) lança seus esforços à difícil tarefa de entender os movimentos sociais
para além de suas formas de organização. Sua tentativa é a de abarcar os espaços construídos,
ou melhor, o território dominado pelos movimentos. Este autor busca fundamentar os
conceitos de movimento socioespacial e movimento socioterritorial, utilizado para denominar
os movimentos que têm o espaço como trunfo, citando Martin (Fernandes,1997, p.26).

Segundo Fernandes (2000), o conteúdo sociológico do conceito de movimento social


pouco contribui para um estudo geográfico dos processos arrolados pelos movimentos
produtores e construtores de espaços. Esta é a razão que nos leva a pensarmos as dimensões
geográficas das ações e das relações construídas pelos movimentos sociais, no sentido de
reconceitualizá-lo a partir de uma leitura geográfica do processo. O autor ainda afirma que o
espaço é essencial para todos os movimentos sociais, mas lembra que nem todos os
movimentos sociais têm o território como trunfo.

Assim, Fernandes afirma que os movimentos sociais que têm o território como trunfo
são de interesse particular da Geografia, pois organizam suas formas e dimensionam-se a
partir desse referencial. Vale a ressalva de que este autor analisa o caso específico do
Movimento do Sem Terra. O autor ressaltar as particularidades dos movimentos que possuem
o espaço ou território como objeto de disputa política da seguinte forma:

Partimos do pressuposto que movimentos socioterritoriais são todos os


que têm o território como trunfo. Todavia, muitos movimentos não têm esse
objetivo, mas lutam por dimensões, recursos ou estruturas do espaço
geográfico, de modo que é coerente denomina-los de movimentos
socioespaciais. (Fernandes, 1997, p.61)

O autor também afirma que existem movimentos sociais desde uma perspectiva
sociológica e movimentos socioterritoriais ou movimentos socioespaciais numa perspectiva
geográfica, sendo portanto, a diferença entre os movimentos que não carregam a denominação
de socioterritoriais e os movimentos que têm, em seu julgamento, todas as características para
serem denominados como sendo socioterritoriais, uma diferença de perspectiva; isso significa
que o que existe não é uma diferença ontológica, no que se refere aos diferentes movimentos
sociais estudados pela Sociologia e pela Geografia, mas sim que ambas as ciências devem
construir diferentes referenciais para a análise de um mesmo problema. A diferença seria,

147
___________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

então, de abordagem, já que os movimentos socioterritoriais seriam, para a Geografia, o


mesmo que os movimentos sociais para a Sociologia, vistos de outra perspectiva.

Em nosso estudo a respeito da importância do espaço, que se transforma em território na


medida que passa por um processo de (re) significação, realizado pelos que se sentem
pertencentes à esse espaço, somados à leitura a respeito da construção conceitual do sentido
dado ao termo movimento social, no leva a descordar da afirmação de que o que existe é
somente uma diferença de abordagem. Acreditamos que nem todos os movimentos sociais
podem ser denominados socioterritoriais. Independente da abordagem, se geográfica ou se
sociológica, acreditamos que nem todo movimento social tem o espaço como mediação da
ação mobilizadora, e portanto, política.

Nossa afirmativa pode, inclusive, de forma bem simples, ser verificada no nome que é
dado aos movimentos sociais que têm o espaço como mediação, assim é com o Movimento
dos Sem Terra, assim é com as Associações de Bairro. A terra, assim como o bairro, são
referências que identificam estas forças mobilizadoras com um espaço específico, o da vida
cotidiana, o espaço da identidade que forma o território, mesmo que este não seja
juridicamente pertencente aos sujeitos que formam os movimentos Assim não é, por exemplo,
com os movimentos estudantis, com o movimento de apoio aos cegos, com o movimento dos
vales leite e transporte, assim não é também, com o movimento sindical, cuja problemática
maior não tem no território nenhuma referência específica, mas sim as condições de trabalho e
a remuneração.

Isto não significa dizer que achamos que esses problemas não tenham algo de comum,
mas que cada caso é um caso específico e que somente um olhar vertical sobre cada
movimento, suas razões, limites e potencialidades, pode nos dizer algo sobre sua verdadeira
identidade.

O esforço de Fernandes (2000) em definir as particularidades dos movimentos sociais


que têm no espaço o referencial de mobilização, atribuindo ao território o papel de objetivo a
ser alcançado, se mostra eficiente apenas se entendermos o espaço como base física onde
delimitamos uma área de atuação ou onde buscamos fixar objetos ou recursos.

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Deve-se adotar o espaço como mediador de uma ação, sendo ele próprio uma relação,
como objetivamos entender a relação sociedade-espaço no ato da ação política reclamada
pelas associações de moradores.

Isso significa dizer que: o que dá identidade aos Movimentos Socioterritoriais é o fato
de que o componente espacial se apresenta como elemento mediador, sendo o próprio espaço
uma relação. A luta só existe porque o espaço se apresenta, não como base onde se fixam
objetos, ou como uma área ou sítio a ser delimitado, ficando a partir de então sobre a tutela de
um grupo. A mobilização existe porque há uma identidade do grupo com o espaço, é isto que
permite o movimento sobreviver e atuar em espaço alheio, quando o espaço ainda se constitui
como território de outrem. Tal definição também nos ajuda a entender a diferenciação que
Souza (2001) faz entre território e territorialidade já citada anteriormente. A partir da qual o
espaço passa ser entendido como um campo no qual coexistem várias territorialidades
conflitantes.

Nas associações de moradores, o espaço do bairro não é nem trunfo, porque se o bairro
existe significa que ele já constitui um espaço apropriado pelo morador, tendo ou não a
escritura que lhe dá direito sobre a posse do imóvel, nem é um mero receptáculo, onde se
fixam estruturas ou luta-se por recursos. Tal é o caso dos inúmeros moradores do bairro
Alvorada que não possuem escritura da residência.

O bairro é um lugar onde se encerra uma representação que faz dele algo que transcende
seus limites. A identidade firma-se não somente a partir do que falta à base espacial da
vivência dos moradores, como já nos referimos por meio da citação de Kowarick (1979) no
capítulo anterior, mas firma-se a partir de uma dialética objetivo-subjetivo (a dialética espaço
da representação-representação do espaço) que confere concretude à realidade dos moradores.

Assim, a luta política não resulta do que falta ao espaço, mas do que é incorporado
e apropriado a ele. O espaço, na mobilização política dos movimentos tidos como
socioterritoriais não é ideal nem material, mas sim relacional.

É o processo que conta, o processo de constituição da identidade do movimento, o


território já existe na ação, mesmo que o objetivo final não seja alcançado. Isso porque na
ação organizada um espaço de interação é aberto, como afirmou um dos militantes da

149
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associação dos moradores do bairro Alvorada, nosso papel é informar, gerar um tipo de
conhecimento do que as pessoas vivem, e correr atrás.

De certa forma, Fernandes (2000) compartilha de nossa idéia ao afirmar que o critério
para o assentamento das famílias sem terra não é mais o limite territorial, mas sim a forma
pela qual a família ou pessoa participa da luta. A ocupação transformou-se numa luta
contínua pela terra, num refazendo constante.... Ou seja, após a conquista do território a luta
continua. Isso só vem a reforçar o que estamos dizendo, pois há processos que mantém a
identidade das pessoas com o espaço da vida, existe uma identidade.

Martin (1997), ao distinguir o Movimento Socioespacial dos Movimentos


Socioterritoriais, atribui ao segundo um caráter revolucionário que falta ao primeiro. A
questão é que para Martin, o que define um Movimento Socioterritorial é o seu caráter
instalador de novas territorialidades, assim os movimentos de bairro seriam movimentos
reivindicativos que não passariam sobre o crivo de socioterritorial.

Segundo Martin (2002, p.26):


Os movimentos sócio-espaciais (sic) são todas as organizações, como
os partidos políticos e os sindicatos tradicionais, mais ou menos
burocratizados, estruturados segundo os níveis e as escalas das subdivisões
político-administrativas em vigor, sem conseguir nem mesmo buscar
introduzir nenhuma inovação na própria espacialização...por exemplo um
bairro, para uma associação de moradores, como no caso dos movimentos
sociais urbanos (MSU) quando ainda existem, e que lutam num “ativismo
de bairro” somente para melhorar infra-estruturas, como água encanada,
rede de esgoto, asfalto nas ruas, sem, de forma alguma, pretender modificar
essa estruturação espacial.... Um movimento socioterritorial, ao contrário, é
uma organização que tem a vontade e cria as capacidades de introduzir no
espaço, com práticas socioterritoriais novas, verdadeiras mutações
territoriais, mesmo se elas são de inicio, na base, limitadas e estritamente
localizadas.

Fica claro nesta passagem que para Martin o movimento de bairro se configura como
um movimento conservador pelo simples fato de não acrescentar nada de inovador ao espaço,
sendo meramente funcional e espacista, não lhe cabendo a denominação “socioterritorial”.
Segundo o autor, para o movimento de bairro o território não é trunfo, o motivo pelo qual se
luta é a fixação de fixos territoriais como água encanada, esgoto, luz elétrica etc.

150
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Martin assume a visão estruturalista tradicional de que somente a transformação da


estrutura “macrofantasmagórica” que nos atinge determinísticamente pode dar a uma ação um
valor revolucionário.

Neste trabalho, o território está associado ao processo de inter-subjetivação (identidade


em processo de formação constante). No bairro, se forma uma coletividade (comunidade)
capaz de realizar “revoluções moleculares”5. Num processo de diferenciação que se contrapõe
às dinâmicas mais impositivas da forma capitalista de viver. A mobilização coordenada pela
associação de moradores que buscou deslocar as famílias que antes habitavam áreas verdes e
que tiveram suas casas e barracas demolidas pelas chuvas do verão de 1999, resultou na
construção e doação das residências da Vila Feliz à essas famílias, assim como a tramitação
de inúmeros processo de usucapião tramitando na justiça e que visa legitimar do ponto de
vista legal as mais de 100 famílias que moram em áreas verdes e que não têm condição de se
inserirem no circuito capitalista do mercado imobiliário, são somente dois exemplos de ação
que ocorreram no interior do bairro Alvorada e que podem, tranqüilamente, serem tomados
como ações que contrapõem-se à lógica pregada pela cidade-mercadoria na sociedade
capitalista.

Já na constituição da associação de moradores o espaço vivido do bairro é apropriado de


forma a fazer dele o território da comunidade. Esta é formada pelos moradores e pelas
relações deles entre si e com o espaço da vida, sintetizados na forma de um território, o do
bairro Alvorada. Emergindo daí uma ação política que tem na identidade territorial a
legitimação de sua ação.

No caso já citado no capítulo III, quando os moradores se mobilizaram com o objetivo


de fazer com que a prefeitura deixasse de cobrar uma taxa de melhoria pela construção da
ponte sobre o rio Baguaçu, temos um exemplo de resistência contra a ação instrumental
técnica da prefeitura. Neste caso, o bairro pode ser encarado como trunfo, pois no embate
sobre a cobrança da taxa de melhoria os moradores do Alvorada saíram vencedores. Mas o
que motivou a mobilização não foi a cobrança em si, pois muitos moradores nem sabiam que
estavam pagando. A mobilização foi reflexo da ação organizada da associação de bairro que,
em reunião, conscientizou os moradores. Foi por meio da abertura de um espaço de interação

5
Termo cunhado pó Guatari citado por Haesbaert (2002, p.82).

151
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que os moradores se viram usurpadas das decisões que concernem ao ordenamento do espaço
vivido por elas.

Todo movimento social que tem o espaço como mediador da ação política é ao mesmo
tempo um movimento pela autodefinição. Busca-se afirmar uma representação de si mesmo,
como indivíduo ou grupo que se apropria de um espaço. Esta autodefinição constitui-se dentro
de um espaço maior onde as relações de poder estão arranjadas de forma a dar sentido ao
ordenamento no território.

Um exemplo seria a valorização da cultura hip hop por parte dos moradores da periferia
como forma de autodefinir-se como indivíduos que possuem uma série de características
próprias inseridos num ordenamento sócioespacial.

A busca pelo pensamento relacional, defendido, sobretudo, no campo da sociologia nas


figuras de Norbert Elias e Pierre Bourdieu, ou na crítica muitas vezes desairosa de Karl
Popper ao que ele chama de pobreza do essencialismo, deve ser uma constante para aqueles
que têm os movimentos sociais como objeto de preocupação. Ainda mais se os referidos
movimentos tiverem o espaço como mediador da ação política.

O cotidiano daqueles grupos que vão formar os movimentos é ao mesmo tempo abstrato
e concreto, é a partir do vivido, do que é experienciado nesse cotidiano que se institui e se
constitui um sujeito social. O cotidiano também é mediação entre o concebido e o vivido, nele
travam-se combates pela apropriação do espaço, mas isso só ocorre porque o sujeito se
reconhece nesse espaço. Para Odette Seabra (1996):

É preciso refletir com base no vivido, mas sem recusar o concebido


e sem exaltar a espontaneidade do vivido, pois que ele também se
determina; tanto que, analisando-o, é possível ver como a parte cega da
história diminui e como no caráter confuso do vivido está tanto a sua
riqueza quanto também a sua pobreza. Enfim, o discurso sobre o cotidiano
tem de tornar explícito o que está implícito (Seabra, 1996, p. 80).

O fulcro de nosso problema já foi mapeado, o espaço social transcende a classificação


base estrutura-superestrutura e/ou estrutura-sujeito, e diríamos mais, ele transcende a
dicotomia filosófica entre materialismo-idealismo na medida em que se funda numa ontologia
que é relacional.

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No mundo social-histórico todas estas classificações encontram-se entrelaçadas, e


formam uma só coisa, o complexo mundo que se vive. No mundo concreto, as múltiplas
determinações não se encontram sintetizadas, mas em relação. O espaço social, concreto, não
é uma massa de objetos coloridos e sólidos ao tato, isso não é materialismo.

O Movimento Socioterritorial não se define pelo seu objetivo, mas pelo processo de sua
formação, que está na base da constituição de sua própria identidade, mediada pelo território.
Assim é com o Movimento de Bairro. É por isso que não é apenas um movimento social, mas
também socioterritorial, pois luta pelo direito de ser reconhecido por meio da mediação do
espaço da vivência. Como afirma o atual presidente da associação dos moradores do
Alvorada, o Sr. Manoel: ...é pelo bairro que fazemos alguma coisa, pelos moradores, pela
comunidade.

Para Thompson (1981), o objeto real é epistemologicamente inerte, mas isto não
significa que seja inerte de outras maneiras; não precisa, de modo algum, ser
sociologicamente ou ideologicamente inerte. O pensamento e o ser habitam um único espaço
que somos nós mesmos, em suas próprias palavras, a consciência está misturada ao ser.
Assim deve ser o materialismo daqueles que buscam compreender o espaço dos movimentos
sociais na atualidade. A figuração tradicional com seus vícios taxonômicos e sua perversão
em estabelecer dicotomias (como revolucionário-conservador) vela a existência de sujeitos
sociais antes submetidos ao “planetário de erros” denunciado por Thompson.

4.3 O significado do bairro e suas múltiplas escalas

No que diz respeito a nossos esforços em entender o que está implícito e explícito na
ação de uma associação de moradores de uma cidade média, o bairro é o foco central da
análise/síntese. A mobilização que dá contornos à associação de moradores não se separa do
processo de formação da identidade das pessoas que habitam conjuntamente um espaço,
sofrem as agruras e felicidades, e as dividem com seus vizinhos. Buscamos definir o que
entendemos por bairro na medida que apresentamos um conjunto de práticas que se efetuam
numa determinada porção do espaço araçatubense; o bairro Alvorada.

153
___________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

O livro “Parceiros do Rio Bonito” de autoria de Antonio Cândido, publicado na


década de 19606, é um marco na pesquisa em ciências sociais no Brasil, pelo menos no que
diz respeito aos estudos a cerca do significado do bairro. Numa perspectiva atual para a época,
os estudos de Cândido foram realizados na década de 1950, na oportunidade de sua pesquisa
de doutoramento, a antropologia e a sociologia formam os referenciais do autor.

O bairro de Bofete é abordado a partir de uma perspectiva culturalista, na qual os


moradores de uma comunidade que compartilham de um conjunto de hábitos e costumes
específicos são cada vez mais envolvidos pelo processo de expansão do modo de vida
capitalista, no qual predomina uma cultura urbana regida pelas relações capitalistas de
produção. O bairro vai perdendo seus contornos específicos na medida que as relações entre
os moradores e entre estes com o mundo externo aos limites do bairro são cada vez mais
determinados pelo mercado capitalista. O bairro é, aos poucos, engolido pela impetuosidade
capitalista. Neste contexto a figura social que deixa de existir é a do caipira.

O bairro em Cândido (1971), é um bairro com feições rurais. Feições que vão
deixando de existir conforme o Brasil vai se inserindo num contexto no qual os espaços vão
sendo reorganizados e adaptados à nova forma de apropriação, esta apropriação é tomada
tanto num sentido econômico, o da produção, quanto num sentido acerca do modo de vida,
cultural e simbólico. Nos dizeres do autor:
...trata-se de definir um fenômeno da maior importância...que
altera a perspectiva segundo a qual estudamos a vida caipira: a sua
incorporação progressiva à esfera da cultura urbana. A marcha deste
processo culminou na ação já anteriormente exercida por outros fatores,
como o aumento da densidade demográfica, a preponderância da vida
econômica e social das fazendas, a diminuição das terras disponíveis
(Cândido, 1971, p. 173).

A conclusão de Cândido é a de que a cultura das cidades vai absorvendo as variedades


culturais rústicas e desempenhando cada vez mais o papel de cultura dominante, impondo sua
técnicas, padrões e valores.

É evidente que a forma generalizada pela qual tratamos a obra de Cândido, nem de
longe se aproxima de representar a riqueza de sua contribuição. Contudo, nos damos por

6
Utilizamos a 2ª edição publicada em 1971 pela livraria Duas Cidades (São Paulo).

154
___________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

satisfeitos se pelo menos conseguirmos trazer seu pensamento de forma a complementar


nossas idéias. O fato é que o bairro já tem caráter sociológico e cultural desde o início das
preocupações científicas em estudá-lo. Outra característica que observamos é um tipo de
abordagem que associa o bairro a um conjunto de características que vai ao longo do tempo
sucumbindo ao processo de expansão capitalista, e do modo de vida urbano e moderno. Vale a
ressalva de que esta forma de abordagem do autor está relacionada com os acontecimentos
históricos do período e do padrão acadêmico do momento.

O que percebemos em Cândido, é a total “passividade do bairro” diante os processos


“violadores”. Isto porque (aqui vai mais uma hipótese para a relação de hipóteses lançadas
neste trabalho) o caráter de resistência não se faz presente na perspectiva culturalista, talvez
porque no período em que o estudo de Cândido foi realizado, tornava impossível o
desvendamento desse processo, ou porque ele se mostrou irrelevante para os propósitos do
autor. Este caráter de resistência, poderia, por exemplo, vir na forma de uma valorização
maior dos processos de ressignificação dos elementos impostos aos moradores de Bofete.

É no processo analítico/sintético de articulação entre escalas que as ciências sociais, e


entre estas a Geografia, podem ajudar a incorporar à dimensão espacial da vida os processos
de caráter político, econômico e simbólico. Esta abordagem relacional é difícil porque pode
parecer que entra em contradição com nosso propósito de estabelecer uma identidade ao
bairro, contudo, esta herança aristotélica de atribuir propriedade aos entes não significa que
estas propriedades sejam estáticas, pois como já afirmamos, é na relação, no movimento entre
o que há de mais singular com o que há de mais geral que se firma a identidade das coisas.

No mundo da compressão tempo-espaço (Giddens, 1991), questões acerca da


territorialidade, desterritorialidade, limite, segregação, entre centenas de outras que buscam na
relação da sociedade com o espaço um problema, passam a exigir “respostas” que só os
estudos de caso poderão fornecer. Isto não significa afirmar a preponderância do empirismo
no processo do conhecimento, mas sim dizer que, o mundo tal como aparece aos nossos olhos
não pode ser ignorado.

Se em Cândido (1971), o bairro é expressão de um modo de vida, visto numa


perspectiva culturalista, atualmente esta expressão não pode ser separada do que ela possui de
político. Daí a associação de moradores estar no centro da questão, já que para ela converge

155
___________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

um conjunto de proposições que são apresentadas como sendo respostas das vontades dos
moradores em relação ao bairro.

Os limites do bairro (forma espacial do bairro) se dão de forma arbitrária, são lugares
de tensão onde relações entre vizinhos são testadas ofensivamente e defensivamente. A partir
da dinâmica interna de cada pedaço deve-se considerar a estreiteza ou largueza espacial e
também a energia de coesão que mantém o pedaço como unidade e/ou identidade. A
associação de moradores representa a busca por parte dos moradores pela fixação de
conteúdos, integrando o conceber e o pertencer, já que constitui um “ponto” no qual se fixa
interesses e vontades dos membros de um grupo de clara significação social.

Scarlato (1989), realiza um estudo a cerca do bairro do Bixiga na metrópole paulistana


e o entende como uma ideologia. Nas palavras do próprio autor:
O Bexiga é hoje um espaço que se vende através da mídia e das
pessoas que o freqüentam, envolvidos por sua “magia”. A imagem que se
propaga é o Bexiga do lazer e da cultura. A segregação social e a
precariedade das condições habitacionais, quando aparecem são revestidas
de manifestações “folclóricas”...No contexto da produção ideológica,
reforça-se o sentido de italianidade do bairro, como se esta ainda guardasse
a mesma força da época de sua formação, como que esta italianidade
pudesse ser resgatada como nos velhos tempos “embalada” e vendida para
seus consumidores (Scarlato, 1989, p.27).

O discurso sobre o bairro está para o autor, impregnado de ideologia que fetichiza o
espaço. De forma resumida, o que Scarlato propõe é o entendimento de uma contradição
existente entre viver no bairro e viver o bairro. Uma contradição existente entre o discurso
que se funda sobre o bairro e a apropriação do mesmo.

Seabra (2001), numa perspectiva que concorda com Scarlato, afirma que o bairro e o
não-bairro formam uma unidade. Junto às práticas que firmam e aprofundam o sentido de
pertencimento ao lugar arrolam movimentos que negam o próprio bairro. Para a autora, a
difusão das estruturas do mercado capitalista fragmenta e faz com que o bairro seja entendido
somente na sua funcionalidade.

Somando as idéias de Seabra, Scarlato e Cândido, o que vemos é valorização das


contradições que estão fundidas no próprio conceito de bairro. Nos dois primeiros estas

156
___________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

contradições fazem parte do status existencial do bairro, já no segundo, estas contradições


firmam a tendência do desaparecimento do bairro. O importante é que o bairro é tratado como
um conjunto de significados que não se separa da dimensão espacial. É a contradição entre os
significados sobre o espaço e o significado do espaço.

Seabra coloca este problema ao afirmar que é uma prerrogativa da Geografia das
cidades discernir o como se representa a vida, o que vale dizer que, a Geografia ganha muito
ao incorporar ao seu rol de preocupações a fruição dos sentidos por sobre os espaços
concebidos. A autora coloca a problemática sobre as representações que são construídas no
transcurso da apropriação. Volta-se ao problema da relação conceber-apropriar, ou nas
palavras de Seabra, da dialética representação do espaço-espaço da representação.

Seabra coloca esta questão nos seguintes termos:


Os espaços de representação constituídos vão sendo definidos com
e sobre a generalidade do mundo dado. Esse mundo dado é objeto de
pensamento e de ação a tal ponto que se pode pensar nas concepções de
espaço as quais se fundam nas representações do espaço...Conceber o
espaço é elaborar uma representação do espaço como já assinalado (Seabra,
2001, p.93).

Um exemplo que pode ser tratado neste trabalho e que mostra o quanto é complexo a
problemática da definição do bairro, já que sua constituição se dá no “entretanto” da
representação do espaço e do espaço da representação, é a existência de representações
negativas em relação ao bairro Alvorada e que estão, inclusive, na base da formulação da
pauta de discussão da associação de moradores.

O bairro e o não-bairro, para utilizar os termos impregnados de hegelianismo de


Seabra, estão presentes nas representações que “rondam” o imaginário da população da cidade
de Araçatuba no que se refere à forma pela qual se concebe o Alvorada. As representações
espaciais têm suas origens no vivido dos indivíduos, seguidas, também, por discursos que eles
incorporam ao longo e sua trajetória. Com o intuito de desfechar esta discussão, trataremos
de um importante exemplo de como se dá a dialética entre o concebido e a apropriação e de
como neste processo, a instituição imaginária dos moradores conforma uma prática espacial
que deixa vir à tona o sentimento da vergonha.

157
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4.3.1 O indivíduo é o território

Em entrevista concedida, um dos mais antigos participantes da associação de


moradores do bairro Alvorada, o Sr. Moringa, declarou que o bairro Alvorada possuía uma
imagem ruim frente aos moradores dos outros bairros da cidade. Por ser um bairro de gente
pobre, as pessoas associavam o nome do bairro à coisas ruins, como violência, roubos e
tráfego de drogas. O Alvorada durante muito tempo, e segundo podemos constatar no
cotidiano dos moradores, até hoje, de forma menos intensa, sofreu uma
“(dis)crimina(liza)ção”7.

Na aplicação dos questionários, 10% dos entrevistados declararam que a violência é


um dos problemas do bairro que mais aflige a população. Alguns até indicaram que se deveria
incorporar ao o rol de reivindicações da associação de moradores a instalação de um posto
policial no bairro.

Firmando ainda mais a segregação socioespacial, agora no campo das representações,


muito dos moradores quando se encontravam em situações que deveriam indicar o bairro em
que moravam eram tomados por um sentimento estranho, como afirmou um dos nossos
colaboradores, o jovem Rodrigo. Gastaremos agora algumas linhas buscando entender o que
está presente em sua fala.

Na afirmação contida no título deste subitem, a de que o indivíduo é o território,


explicitamos a idéia de que o território do bairro, o mesmo território que serve de mediação da
ação política e que dá a associação de bairro o caráter de um movimento socioterritorial, está
presente na vida dos moradores e vêm à tona nas mais diversas situações, nas quais a
identidade indivíduo-terriório emerge.

É bastante conhecido dos geógrafos, ou daqueles que se interessam pelo que é feito no
campo disciplinar da Geografia, o trabalho de Y-fi Tuan. Nesse trabalho, que recebe a

7
Optamos por este efeito ortográfico no intuito de explorar o duplo sentido no termo. A criminalização do
bairro, configurada na forma de uma discriminação em relação aos moradores do Alvorada, é corrente até hoje.
A representação de um espaço no qual prolifera a violência, o roubo, brigas e o tráfico de drogas, está associada
ao fato de existir durante muito tempo no extremo sul do bairro um conjunto de casas que se configurava como
uma favela. Era muito comum ouvir expressões discriminatórias como; “a favelinha do Alvorada” ou “o
mangue do Alvorada”, esta última, fazendo referência ao sítio no qual se localizava a favela, uma área de várzea
próxima ao córrego Alvoradinha que corta o bairro no sentido leste-oeste.

158
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oportuna denominação de Topofilia. O autor trata da relação espaço-subjetividade, mais


precisamente das diferentes filias relacionadas ao espaço. Sentimentos como a nostalgia,
saudade, medo, e a vergonha correspondem uma parcela dos sentimentos mais subjetivos
relacionados à apropriação do espaço. Para Tuan (1980), o espaço está presente na vida das
pessoas no que há de mais íntimo na relação espaço-indivíduo. No status existencial do
próprio indivíduo está presente o “espaço da vida”.

Nos atentamos às palavras de Tuan:

... “topofilia” é um neologismo, útil quando pode ser definida em


sentido amplo, incluindo todos os laços afetivos dos seres humanos com o
meio ambiente material. Estes diferem profundamente em intensidade,
sutileza e modo de expressão. A resposta ao meio ambiente pode ser
basicamente estética: em seguida, pode variar do efêmero prazer que se tem
de uma vista até a sensação de beleza, igualmente fugaz, mas muito mais
intensa, que é subitamente revelada. A resposta pode ser tátil: o deleite de
sentir o ar, a água, terra. Mais difíceis de expressar, são os sentimentos que
temos para com o lugar, por ser o lar, o lócus de reminiscências e o meio de
se ganhar a vida (Tuan, 1980, p. 107).

Para Tuan (1980; p. 04), Topofilia é o elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou o
conceito. Da mesma forma que existe a relação de empatia, existe a antipatia, expressa nas
formas de medo, desprezo ou vergonha, por exemplo. Ocorre que no caso do Alvorada,
constatamos que este sentimento resulta de uma representação que povoam a mente dos
moradores dos demais bairros da cidade.

O colaborador Rodrigo, morador do bairro há vinte anos, nos relata uma situação de
sua vida que nos ajuda a explicar o que denominamos no título do subitem de: “o individuo é
o território”.

Rodrigo nos relata que quando cursava o ensino primário8 num colégio localizado em
outro bairro, por várias vezes mentia aos amigos de sala onde morava, isso porque o bairro
onde morava constituía um lugar no qual a pobreza e a violência eram imperiosas. Rodrigo
afirma que tinha vergonha de dizer o nome do bairro que morava, o Alvorada, até mesmo há
poucos anos, quando ia preencher alguma ficha no intuito de conseguir emprego, colocava o
endereço de um parente que mora em outro bairro.

8
Hoje denominado por ensino fundamental.

159
___________________________________________________ PEDON, Nelson Rodrigo

Ora, o que temos aqui senão um exemplo de como no processo de formação do


território, conflitam representações, por vezes imagens, com as práticas cotidianas (as práticas
espaciais). Como já foi afirmado anteriormente, a formação do território se dá diante de um
processo complexo de síntese de múltiplas determinações, parafraseando a idéia marxista. A
identidade se firma no movimento do ente com o não-ente, para nós, do território com o não-
território, ou o que nega o território. Quando nosso colaborador nega o lugar onde mora,
reforça a territorialidade a qual faz parte.

A vergonha se constitui baseada no olhar do “outro”, representativamente construído


pela sociedade. O sentimento de vergonha assumido pelo colaborador revela um estado
subjetivo que deseja encobrir uma face da situação objetiva de violência, de pobreza e de
favelização. Não nos cabe aqui discutir o processo no qual emerge a dimensão ética que rege
o preconceito. Tal discussão9 seria muito densa e foge à nossa competência, contudo, este fato
não nos impede de pensarmos de forma coerente sobre o assunto.

O território medeia a relação do nosso colaborador com o mundo social, um mundo


social no qual algumas características possuídas pelo território são encaradas de forma
negativa. O território bairro tem sua identidade firmada diante de sua relação com o não-
território. A unidade do ser com o não ser.

Isto nos mostra como a relação de exclusão-inclusão pertinente na idéia de exclusão


socioespacial afronta até mesmo as dimensões mais íntimas do morador. A desigualdade
revelada por meio do olhar constrangedor do outro constrói-se sobre critérios de
desqualificação, como critérios econômicos, normas sociais, de comportamento, só que no
caso específico aqui tratado, estes critérios são diretamente associados ao território. O bairro é
o espaço da mediação entre o colaborador e o olhar discriminatório do outro, neste instante o
indivíduo se identifica com o território da vida, o individuo é, portanto, o próprio território.

A vergonha, no caso explicitado por nosso colaborador não se caracteriza como um


simples reflexo da força moral que regula o indivíduo, mas permanece como sentimento que
recobre e desvenda uma identidade territorial subalterna que realimenta os processo de
exclusão.

9
Para uma explanação rigorosa sobre o tema ver: “O obscuro sentimento da vergonha” em Maria Faller Vitale
(2000).

160
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Produto e produtor de identidade, o território não é apenas força mediadora de poder


político e econômico.O território compõe, também, o ser do grupo. Haesbaert nos ajuda a
terminar este item, mostrando que o território é ao mesmo tempo prisão e liberdade, lugar e
rede, fronteira e “coração”; o território da identidade pode ser uma prisão que esconde e
oprime ou uma rede que abre e conecta um “coração” que emana poesia e novos
significados (1999, p. 186).

Seguido a estratégia de tecer curtas análises sobre a fala de nossos colaboradores e


moradores do Alvorada, voltamos nossa atenção à fala de dois diretores da associação de
moradores que nos leva a formular a idéia de que, no interior das contradições que existe na
constituição das identidades, o bairro Alvorada aparece como um bairro dividido.

4.4 O território dividido

Num estudo realizado na década de 1940, mas só publicado no Brasil em português


em 2000, Norbert Elias estuda a constituição de Winston Parva, um bairro na periferia de
Londres, e aponta pelo menos um dos modos pelos quais a estrutura da comunidade e do
bairro era capaz de influenciar o desenvolvimento da personalidade dos jovens que ali
cresciam. O trabalho de Elias indicou o caráter processual das configurações, quer
concentrasse a atenção no desenvolvimento dos indivíduos, quer concentrasse a atenção, por
uma perspectiva mais ampla, no desenvolvimento do bairro e da comunidade, ou seja, do
território.

Neste estudo, o autor concluiu que existe uma divisão social bem definida entre os
moradores do bairro, e que esta divisão está alicerçada em um critério, o do tempo de
moradia. Existe para Elias, um preconceito dos moradores mais antigos em relação aos
moradores de instalação mais recente, tal configuração social influi na forma como o espaço é
apropriado. Essa configuração expressa a diferença (relação incluídos-excluídos) que se
mantém pelo fato de que parte da comunidade, os estabelecidos, compartilham a idéia de que
são realmente diferentes, possuindo virtudes e características próprias. O fato interessante
constatado por Elias é que não havia nada que diferenciasse os moradores no sentido étnico,
nacional, ou instrucional, critérios que são levados em consideração nos estudos tradicionais.
Para o autor, o medo por parte dos moradores mais antigos fez com que emergisse um

161
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preconceito em relação aos moradores mais recentes, tal preconceito serve como uma
estratégia social de proteção à coesão social do grupo de moradores mais antigos, já que são
estes que regem as organizações que comportam uma série de atividades representativas do
bairro, como por exemplo a associação de moradores.

Nossa atenção por este trabalho de Norbert Elias reside no fato de acharmos que este
estudo representa um exemplo íntegro de como se realiza uma análise acerca do complexo e
dialético processo de formação da identidade territorial, numa abordagem coerentemente
relacional.

Em duas entrevistas realizadas por nós, uma com o atual presidente da associação de
moradores do Alvorada e outra com um dos fundadores da associação, uma mesma afirmação,
feita pelos dois dirigentes, nos chamou atenção. A de que existe uma certa diferença entre os
moradores do lado de cá do córrego e os moradores do lado de lá.

Como podemos observar no mapa anexado ao segundo capítulo (ver página 75), o
bairro Alvorada é cortado no sentido leste-oeste pelo córrego Alvoradinha. Tal córrego é de
lembrança recorrente na fala (memória) dos antigos moradores, isso porque até meados da
década de 1970, o córrego constituía a única fonte de água do bairro. É ao longo de suas
margens que um número considerável de moradores se assentaram, aumentando o número de
áreas verdes ocupadas.

Vamos primeiramente à descrição das afirmações de nossos colaboradores.


Primeiramente o Sr. Moringa:
Não sei se você já reparou, mas o pessoal do lado de lá é diferente.
Eles têm melhor condição, acho que é por isso que eles não se envolvem
tanto com a associação, agente só tem uma pessoa que mora do lado de lá
que faz parte da direção da associação...Até mesmo porque o pessoal do
lado de lá não tem tanto problema como os de cá né não?

Segundo o Sr. Manoel, atual presidente da associação:


A turma do lado não se envolve não, bem menos. Eles parecem que
tem medo até de vir pra cá. Esquisito né. Nas reuniões o pessoal que
aparece e que mais pede as coisas são moradores do lado dessa área aqui.

162
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Soma-se aos relatos dos colaboradores, o fato de que todos os presidentes eleitos para
presidir a associação, são moradores da vertente esquerda do córrego. Área que, segundo Sr.
Moringa, tem mais problemas como a falta de asfalto e com as moradias em áreas verdes. O
padrão arquitetônico das casas também é revelador de diferenças.

Ocorre que as duas partes do bairro foram sendo ocupadas ao mesmo tempo e na
mesma intensidade. Não havendo a possibilidade de estarmos diante de um problema que,
apesar de semelhante, tenha as mesmas causas como no trabalho de Norbert Elias. De acordo
com os questionários aplicados, o valor dos lotes da vertente esquerda do bairro, teve seus
preços com menor valor, já que estavam mais distantes da rua principal que liga o bairro ao
restante da cidade. Outro problema que fez com que o valor dos lotes desta área do bairro
tivesse uma menor valorização foi o fato de que esta vertente apresenta uma menor
declividade, o que até meados da década 1970, antes do aprofundamento do canal do córrego,
fazia com que houvesse sucessivos alagamentos dos lotes mais próximos ao córrego. Um
terceiro fator de desvalorização dos referidos lotes era a passagem de um ramal da linha férrea
da Noroeste que cortava o extremo sul do bairro, o barulho e os riscos da passagem do trem
nesta área pode ser considerado para justificar o fato de que o valor do preço dos lotes da
referida área era bem menor do que os lotes mais próximos à rua Baguaçu, principal via de
ligação do bairro com o resto da cidade.

A diferença no valor dos lotes condicionou uma diferenciação da ocupação do bairro


com base em critérios econômicos. Estas áreas foram ocupadas por famílias de menor poder
aquisitivo, fator que explica a maior dependência dos moradores desta área em relação à ação
do poder público.

Também na pesquisa de campo verificamos que; dos 40% que afirmaram conhecer a
ação da associação de moradores, 30% são moradores do lado sul.Ou seja, ¾ dos
entrevistados que declararam ter conhecimento de que o bairro possui instância legal de
representação política e cultural são moradores da vertente esquerda do córrego Alvoradinha,
como já afirmamos, área do bairro que possuiu maior carência de recursos em relação ao
restante do bairro.

Esta divisão na mobilização, ou adesão à associação dos moradores, que no início


indicou uma importância maior no ato da mobilização, já que as reivindicações acabaram por

163
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privilegiar benfeitorias relacionadas às carências ocorridas no lado sul do bairro, atualmente


convive com o fato de que, conforme verificamos no trabalho de campo, metade da
composição da diretoria da associação é composta por moradores do lado norte do bairro (à
direita do córrego), havendo uma significativa adesão dos moradores deste setor no processo
de organização da associação.

A citada divisão poderia contradizer nossa perspectiva de que as condições materiais


de vida não se configuram como o único fator determinante no processo de mobilização dos
moradores, já que a precariedade das condições de vida dos moradores do lado sul do bairro
constitui a possível causa duma maior mobilização e compromisso com a associação de
moradores.

Não ignoramos o fator carência, o que propomos é buscar elucidar a complexa trama
de contradições que contém o processo de formação do território-bairro. Ocorre que até
mesmo as condições que são consideradas pelo pensamento científico tradicional como sendo
exclusivamente materiais, não estão totalmente desprovidas de significação.

Uma pequena prova da afirmação contida no parágrafo anterior, é a permanência do


que denominamos no capitulo III por “ideologia do asfalto”. Um simples passeio pelo bairro
deixa evidente que grande parte das ruas do bairro estão asfaltadas, até mesmo nas vias onde
estão fixadas as residências de ocupação irregular, e que não são pagantes de IPTU, podemos
constatar o asfaltamento. Contudo, o asfaltamento continua sendo um dos problemas mais
lembrados pelos moradores, como já apresentamos no capítulo III, 30% dos moradores
entrevistados indicaram a falta de asfalto como um problema.

Ora, como algo que já existe, e que inclusive “passa na porta de casa”, diante aos
olhos, pode se constituir problema. Duas justificativas; a primeira está associada à já
denominada “ideologia do asfalto” que impregna a fala dos moradores. É só nos atentarmos
para a pauta de promessas dos candidatos a cargos políticos locais que verificaremos que o
asfaltamento das vias se apresenta como “compromisso” obrigatório. Na imprensa, o
problema também é tratado de forma estafante, é só abrir o “Caderno Cidades” do jornal de

164
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maior circulação na cidade10 que a questão do asfalto está lá, seja com referência a falta deste
ou a má qualidade do “ouro negro” em algumas das vias da cidade.

A segunda justificativa para a presença recorrente do problema da falta de asfalto nas


falas dos moradores do Alvorada, se refere à sensibilização daqueles que já sofreram com este
problema em relação aos moradores cujas residências estão alocadas em vias sem
asfaltamento. Existe uma identificação entre os vizinhos. Uma de nossas colaboradoras
afirmou na entrevista concedida:
É triste agente ver algumas ruas com asfalto e outras sem. Mas
logo, logo o problema vai ser resolvido, você vai ver. Já tá tudo quase
asfaltado, me lembro quando o asfalto passou aqui na rua Noroeste, até o
pessoal das áreas verdes tiveram asfalto, foi muito bom todo mundo ficou
contente. Aí, a metade da rua que ficou sem asfalto ficaram reclamando,
com razão né, se alguns tem porque outros têm que esperar tanto, eu to
aqui a mais de 25 anos e até hoje não tenho asfalto.

As relações de vizinhança se firmam na eminência do problema. Na perspectiva


tradicional, a tentativa de explicação reside na carência como fator determinante da ação
mobilizadora. Contudo, esta se esgotaria na própria situação de carência. Pois, se assim fosse,
nada nos impediria de ver no território senão um trunfo, como já mencionamos, já que o
território nada seria além uma base física, uma área na qual a ação política está diretamente
associada às exigências de se aparelhar o espaço.

Na busca pela definição do sentido do movimento socioterritorial entendido como toda


mobilização que tem no espaço o elemento mediador da ação, se deve valorizar as práticas
vividas pelos grupos e indivíduos no interior do processo. O que nos obriga a entender a
formação do território em seu movimento, e não como algo já dado ou algo que já existe e o
que falta é a sua conquista. Na verdade, a conquista do território se dá de forma difusa e
inclusive na forma de sua apropriação simbólica e afetiva. Assim é com as relações de
vizinhança que configuram uma rede de relações no qual o pertencimento ao território é uma
pré-condição para a formação do bairro.

10
O jornal “Folha da Região”.

165
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5. À GUISA DE CONCLUSÃO

...uma sociedade justa não é uma sociedade que adotou leis


justas para sempre. Uma sociedade justa é uma sociedade onde a
questão da justiça permanece constantemente aberta, ou seja, onde
existe sempre a possibilidade socialmente efetiva de interrogação
sobre a lei e sobre o fundamento da lei.
(Cornelius Castoriadis)

Problematizar o espaço urbano é prestar atenção na relação do ser humano com seu
espaço de vivência. Deve-se partir de várias contradições que só podem ser entendidas
dialeticamente: inclusão-exclusão, local-global, estrutura-indivíduo, todas sob o jugo da lógica
capitalista de desenvolvimento social. Nosso estudo constitui, de forma modesta, uma reflexão
acerca da importância da organização social que se faz na própria constituição dos sujeitos, num
processo que traz à superfície um complexo conjunto de formas de comportamento e
entendimento do mundo. As cidades, de forma ampla, revelam as contradições próprias do
processo de constituição dos sujeitos, ao mesmo tempo em que cristalizam a forma hegemônica
do modo de produção.

Este estudo se insere no conjunto de esforços que buscam compreender as transformações


das/nas estruturas da vida cotidiana que ocorrem nas denominadas sociedades
“subdesenvolvidas”, e, mais precisamente, nas suas cidades de porte médio. Processos como a
urbanização, a industrialização e o desenvolvimento dos meios de comunicação em massa estão
produzindo, nos últimos anos, transformações que, em outros países ocidentais, demoraram
muitos mais tempo para ocorrer.

A sociedade moderna, que se baseia nos conceitos de igualdade e de liberdade, amplia


cada vez mais a divisão social do trabalho e, por extensão, constitui a divisão territorial do
trabalho, produzindo, assim, um espaço com agudas diferenciações socioespaciais, que, num
segundo estágio, consolida as práticas de segregação. Sabemos, também, que os movimentos
sociais desempenharam e desempenham um papel importante nos processos recentes de
democratização, especialmente nos países sul-americanos. O fato é que, em países como o
Brasil, no qual a vida cotidiana, assim como seu espaço de dinamismo, o espaço urbano, se
transformam constantemente, as pessoas são jogadas num turbilhão de transformações

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pertinentes a vida moderna. E as formas de amenizar esses impactos emergem das mais diversas
maneiras.

Na análise da produção do espaço urbano e da constituição do bairro Alvorada, foi


necessária a mediação de distintas escalas presentes no transcurso do processo. De um ponto de
vista dinâmico, a interpenetração das escalas que formam o espaço da vida, seja relacionado às
grandes transformações na Divisão Internacional do Trabalho ao longo das décadas, como por
exemplo na formação do complexo do cafeeiro, seja pelos processos mais diretos de estruturação
da malha urbana da cidade, atingindo até mesmo o mais íntimo dos sentimentos humanos, tal
como o sentimento de vergonha, tratado no capítulo IV, revelou quão rica podem ser as
investidas acerca do fenômeno denominado espaço urbano. Fenômeno que transcende sua
expressão mais direta e material, a cidade.

No capítulo II, por exemplo, auxiliados por importantes autores da Geografia brasileira,
como Milton Santos, realizamos o exercício de introduzir ao conceito de Globalização a
dimensão tempo-espaço. Destacamos, assim, a interconexão entre eventos de diferentes escalas,
do local ao global, cujas relações não estão mediadas necessariamente pelo Estado, como no
caso da estruturação interna do bairro no qual se destaca a ação dos moradores associados ao
circuito inferior da economia. Desse modo, as transformações globais, tal como a
desregulamentação da economia e a flexibilização do trabalho, tratados no capítulo citado, são
partes do processo de estruturação do bairro, bem como ajudam a explicá-lo no nível global.

Concluímos que os denominados problemas urbanos devem ser apreendidos associados à


dinâmica de acumulação de capital, pois, junto a outros processos mais específicos, a
acumulação capitalista gera a configuração espacial das cidades e os diferentes graus de
inclusão-exclusão. Nesse contexto, deve-se considerar, também, a ação estatal na geração direta
e indireta de bens e serviços que se tornam elementos indispensáveis para a reprodução da força
de trabalho potencializando, inclusive a expansão do capital. Ocorre que um considerável
contingente de pessoas desligadas das engrenagens produtivas da acumulação capitalista,
mediadas pelo cotidiano que se vive, no qual se encontram os conflitos, as frustrações, dores e
alegrias, encontram elementos para a superação das condições dadas, restaurando as
organizações e reivindicações que se articulam nos bairros populares. Isso não só porque o
desemprego e o subemprego rebaixam os níveis de consumo, mas também porque se configura
como um problema de grande visibilidade social, carregando os debates que se desenrolam no

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cotidiano de inúmeros locais onde predominam altos níveis de exclusão. Como afirmou Henri
Lefebvre:
...o cotidiano se define como lugar social do feedback...é o resíduo (de
todas as atividades determinadas e parcelares que podemos considerar e
abstrair da prática social) e o produto do conjunto social. Lugar de equilíbrio, e
também o lugar em que se manifestam os desequilíbrios ameaçadores (1991b,
p. 39).

Ao tratarmos da participação popular na produção do espaço urbano na cidade de


Araçatuba, destacamos apenas uma dimensão da questão urbana, de alguns aspectos da produção
da existência do cotidiano dos moradores de uma cidade média paulista. De forma alguma
negamos a existência das chamadas determinações, tais como a estrutura econômica, o Estado,
as classes sociais; todas são fenômenos que, por meio das categorias que buscam explicá-las,
tornam-se referências fundamentais. O que acreditamos é que as contradições são vivenciadas
em tempos e lugares que se tornam, ao mesmo tempo, condição e resultado de experiências
singulares. O que negamos é a pretensão do pensamento oracular, de determinar o que é
essencial, de descobrir a essência emanada das coisas. Nosso estudo nos revelou isto: o bairro
Alvorada resulta do complexo conjunto de ações sociais que foram se desenvolvendo ao longo
do século XX, desde o avanço da fronteira agrícola para o oeste paulista, o êxodo rural, que fez
com que um contingente grande de pessoas saíssem do campo e migrassem para as cidades, até a
constituição de suas respectivas malhas urbanas cujo processo de configuração abarca uma
conjunção intrincada de agentes sociais, tais como os proprietários de terra, os incorporadores
imobiliários, o Estado e a ação da população organizada, como destacamos nos capítulos
anteriores

Em sua crítica à verborréia, Karl Popper afirma que o essencialismo predominante nas
ciências se apresenta como um verdadeiro obstáculo epistemológico para a compreensão da
realidade. A máxima aristotélica de que todos os corpos buscam seus próprios lugares naturais
não ajuda mais. Em vez de buscar definir o território em sua essência, buscamos elucidar o
complexo jogo de contradições que reside numa unidade que é momentaneamente definida: a
forma-processo-bairro, assim como sua interação com o espaço urbano no qual se insere.

A cidade se apresenta, invariavelmente, como o território do exercício do poder que


resulta da disputa entre classes, grupos, corporações e indivíduos no seu interior, delimitando
territórios nos quais se materializa a luta pelo espaço urbano. O território é, por excelência, a
dimensão na qual as relações entre homens se tornam mais estreitas, defrontando-se com os

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dilemas da desigualdade, na qual o espaço medeia o estabelecimento de regras de convivência,


assim como estimula as trocas e fecunda as idéias.

Conferimos que a participação popular, representada pela mobilização dos moradores na


forma de uma associação de bairro, está tão intrinsecamente vinculada à constituição do
território, ou seja, do próprio bairro, que os dois processos se confundem na configuração da
identidade que permeia a relação dos moradores com o espaço. O caráter político da ação dos
moradores de áreas de periferia está disseminado no cotidiano deles, inclusive no processo de
constituição da própria identidade com o espaço de vivência (o bairro).

Afinal, o que adiantaria constituir uma identificação com o espaço e com aqueles que o
dividem comigo, se isso não se refletir na forma pela qual eu me aproprio deste espaço e o
organizo para melhor vivenciá-lo? O caminho a seguir, cuja direção tortuosa damos o primeiro
passo, é o de entender o sentido que os sujeitos podem sempre produzir por si mesmos na sua
relação com o espaço da vida e na sua convivência com os demais formadores do mesmo espaço
de vivência. A cristalização de estruturas sociais, vistas por muitos como verdadeiras leis
(sobre)naturais, está sempre em andamento, e a participação popular pode representar aquela
parcela da realidade social na qual tais estruturas apresentam brechas.

O problema de se buscar uma essência para nosso objeto principal é o de se admitir que,
de fato, existe um significado para a definição de participação popular, assim como para a
definição de território e, por extensão, para a de movimento socioterritorial. Achamos que o
caminho é justamente o contrário, a definição deve partir do que é definível e nada tem a ver
com o definitivo.

Ao estudar o movimento de bairro (associação de moradores entendida como movimento


socioterritorial), entendemos o território como algo do qual a comunidade se apropria de forma
ampla e onde contradições emergem de todo lado. A unidade dos contrários nos dá, sobre os
termos aqui explorados, a condição de fixar o movimento de nosso estudo na forma de uma
problemática criada analiticamente, e que encontra dificuldades em abarcar uma realidade em
constante movimento. Nosso estudo revela que a vida social não é apenas uma prova de
resistências entre grupos opostos, tal como nos impôs o “marxismo xiita”, mas constitui uma
ação dentro de um conjunto flexível de instituições e tradições. Afora toda ação determinada, e
estas existem, muitas reações imprevistas ocorrem no interior desse conjunto, e muitas se tornam

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incompreensíveis se tomarmos um quadro referencial estático apriorísticamente, como numa


perspectiva essencialista.

A identidade deve ser compreendida considerando o múltiplo, e este é múltiplo porque é


sempre relação que pode se dar em qualquer coisa. Esta é a proposta de muitos autores que
estudam a ação de movimentos sociais, tal como a proposta do projeto autonomista de
participação popular de Cornelius Castoriadis, na qual à população cabe a possibilidade de
cometer erros em suas ações, desde que tais ações sejam genuínas, tal como expomos na epígrafe
que abre este último capítulo.

Assumimos uma postura mais pluralista ao concordarmos com a idéia de Castoriadis, na


qual, no campo da análise/síntese social, inexiste teoria perigosa e completa, mas sim empenho
em buscar sempre de forma imperfeita, já que a prática teórica é também uma prática social, a
elucidação do mundo. Este é o motivo que nos leva a crer que toda prática deve ser sempre
balizada por esforços de reflexão crítica sobre a própria prática.

Quem deve estabelecer o que é bom ou ruim para a vivência de seu espaço são aqueles
que ali vivem e que, de forma interativa, determinam o que pode e o que não pode ser realizado
num determinado momento, dentro dos limites socialmente estabelecidos, já que ninguém é
uma “ilha.” A participação popular não deve ser vista somente como uma questão de “tudo ou
nada”, na qual o trunfo é aquilo que aparece de imediato. O processo de constituição da ação
organizada com todas as suas contradições é muito importante, já que não é o que está no fim
do processo que interessa, mas o “entretanto” deste. É a forma pela qual os indivíduos, vivendo
em conjunto, se relacionam com os mais diversos problemas e a partir daí conseguem gerar
uma força mobilizadora suficiente para estabelecer diálogos entre os diversos sujeitos sociais
que compõem o espaço urbano assim como inserção deste no campo da política.

As diferentes formas de mobilização, mais precisamente aquelas que chamamos de


socioterritoriais, desempenham o papel de preencher de conteúdo político o espaço da vida,
politizando questões cotidianas de forma a “revolucionar” a existência daqueles que dão sustento
a esses movimentos, podendo transformar-se em instituições políticas de expressão em suas
escalas de ação, criando novas culturas, novas linguagem e identidades.

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A certeza é que todo processo de participação popular direciona-se, em diferentes níveis de


eficiência, rumo à descentralização do poder. Por mais que o Estado tenha, em nossa sociedade,
a prerrogativa de planejar, gerir, criar leis, sancioná-las e aplicá-las, garantir a ordem, realizar
intervenções legítimas no espaço público, a participação popular realiza-se como um caminho
que não é só alternativo ao Estado, mas que, muitas vezes, se realiza às costas deste. As
associações de bairro, assim como a associação do bairro Alvorada, com todos os problemas de
legitimação, mobilização e limites de ação, busca qualificar-se com o intuito de melhorar a vida
dos moradores. A consciência dos limites de sua ação, enquanto agentes de produção do espaço
urbano araçatubense, a parca visibilidade de suas ações, o efeito considerado muitas vezes
efêmero de suas realizações, a dificuldade de mobilizar recursos (econômicos, técnicos e
políticos), não podem nos impedir de pensar seus esforços num âmbito teórico mais amplo, tal
como realizamos neste estudo. As microrrevoluções disseminadas no cotidiano nos mostra o
quanto é importante diferenciarmos os níveis de influência dos movimentos sociais sobre
estruturas políticas e institucionais, porque, na maioria dos casos, somente seus efeitos sobre as
estruturas políticas são considerados. Por meio de nossa análise, observamos que esses
movimentos, como o do bairro Alvorada, exigem uma reação de outras estruturas sociais que
pode, em alguns casos, produzir uma resposta mais democrática, conforme o arranjo de poder e
das relações entre as escalas envolvidas.

Nestes termos, a participação popular sugerida pelas associações de bairro, amplia os


limites da política, tendo como efeito a transformação nas formas de participação no interior da
estrutura do Estado, assim como proporciona mudanças nas regras e procedimentos de práticas
políticas consideradas inadequadas ou onerosas para a qualidade de vida dos moradores.

Outro conjunto de transformações se dá no campo simbólico, e acabam influenciando a


adoção de diferentes atitudes em relação aos problemas enfrentados no dia-a-dia. A participação
popular no caso estudado se dá junto do processo de constituição do sentido de pertencimento ao
espaço da vida, configurando o que denominamos de território-bairro. O que existe de comum
entre as pessoas que dão forma à associação de bairro é o fato de se sentirem pertencentes e, por
extensão, responsáveis, pelo bairro. Isto foi constatado durante o trabalho de campo, no qual
foram realizadas inúmeras entrevistas com moradores e dirigentes da associação.
Ao longo da pesquisa, enfrentamos a delicada tarefa teórica de esclarecer a problemática
da participação popular, e, por extensão, de um conjunto de questões que envolve uma relação
direta com o espaço, manifestando-se como território. Tornar mais clara uma questão é separar

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aquilo que, na realidade empírica, aparece como uma única coisa, e sua crítica é sempre um
processo de (re)nomeação.

Pensamos que as ciências sociais devem ser filosóficas. Por isso fizemos uma retomada do
materialismo de cunho marxista e buscamos em seus críticos subsídios para pensar a ação
popular organizada. Temáticas importantes, como a de nossa pesquisa, passam a pertencer ao rol
das pesquisas em Geografia a partir da instituição da chamada Geografia Crítica, fundada no
materialismo histórico dialético. Ocorre que este já chega à Geografia num momento em que sua
vertente mais difundida, o marxismo, se encontra numa verdadeira batalha com outras correntes.
Por isso, os vários autores citados ao longo deste trabalho têm em comum a busca pela superação
dos elementos menos dialéticos da teoria marxista.

Ao interlocutor deste estudo pode parecer que nossa única e exclusiva intenção tenha sido
a de fazer um inventário de problemas, sem a preocupação de nos debruçarmos mais
exaustivamente sobre eles; pode até achá-lo eclético demais. Na verdade, a forma pela qual
resolvemos expor nossas idéias expressa o tamanho dos problemas que temos pela frente. Digo
temos, não somente ficando restrito às dificuldades específicas da pesquisa que desenvolvemos
neste trabalho, mas tendo a preocupação de situar alguns dos obstáculos mais amplos da ciência
social, por extensão da Geografia.

De forma ampla, este estudo ajuda no entendimento sobre o valor e os limites das
pesquisas acerca da formação de territórios na escala do lugar. Não faz sentido algum estudar
fenômenos sociais como se eles ocorressem num vazio temporal e espacial, pois os problemas
que ocorrem nas escalas locais, como no do desenvolvimento de uma comunidade, como o
bairro, e os problemas nas escalas nacional e/ou global, são inseparáveis. Considerar o bairro
como foco de investigação de problemas encontrados numa grande variedade de unidades
sociais, mais amplas e diferenciadas, permite a exploração de particularidades que, em estudos
comparativos, pode ajudar a compreender melhor as características estruturais que eles
compartilham e as razões por que, em diferentes e variadas condições, funcionam e se
desenvolvem diferentemente.

Terminamos este texto com a sensação de ter levantado mais dúvidas do que soluções.
Como alertamos no início, nosso objetivo era mais problematizar do que concluir.

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