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© X am õ Editara

ISBN 85-85833-18-1

V e d ç ô o — 1996

i
Edição: Expedito Correia e Carios Afvaez
Capa: Expedito Correia
Revisão: M aria Eta Vieira
índice
Editoração Eletrônica: Xam ã Edtorc

Preâmbulo necessário. 7
Oodos Intemodonois do Catalogação na Publlccção (PPt
Carolina e nós. 11
Câmara Brasfeiro do livro. SP. B ra *
História do projeto
A percepção de um estrangeiro, 13
Jesus. Carolina Ataria de
Meu estranho diário / Carolina /«tarta de Jesus: A percepção de um brasileiro. 20
org. José Carios Sebe Bom Melhy e Robert M . terrino. Diários
— São Pauto: Xamõ. 1996.
N o quarto de despejo, 31
N a casa de alvenaria 117
1. Diários brasileiros iliieraturol I. Mohy. N o sK o . 199
José Carlos Sebe Bom. 1943- d. levlno. Rcbcrt V.
A integridade das frações, 285
ll.Títuío.
Primeira fração ou le m p o s da esaita da miséria', 289
Segunda fração ou *tempo do escrever desilusões', 297
96-2979 CDD-869.9803
Terceira fração ou “tempo de projetar outros espaços', 302
Três utopias de uma certa Carolina, 3 0 9
Indices pora catalogo sistemático:
1. Diários: Lltcrotara broste'ra 869.9003

X a m ã V M Editora e Gráfica lida.


R. Loefgreen, 943 — W a M oriera J.
04040-030 São Paulo — SP
TeL/Fax: (011) 575-2378

impresso no Brasil
agosto/96
"ja estou ficando velha, cansada também
! com esta vida tão agitada"

Z in ire as boas surpresas da vida de pesquisador situa-se o


resultado desta publicação que sc destina a um público amplís­
simo. Antes dc mais nada, cabe considerar o com o e o porque.
depois de decorridos mais de 30 anos, se propõe retomar os fa­
mosos diários de Carolina Maria de Jesus. Na mesma linha, torna-
se preciso dizer que, com a retomada do assunto, pretende-se abrir
novas avenidas para a consideração de sua obra em conjunto.
Publicados cm muitos países do mundo, com uma tiragem
hoje calculada em cerca dc 1 milhão de exemplares, a primeira
parte desses diários, no Brasil intitulado Q uarto de d esp ejo, per­
manece como um dos mais importantes textos da história do livro
em nossa cultura. Isto, aliás, por si só, podería suscitar a relevância
I de sua reavaliação. Bem mais do que isto, contudo, o significado
da retomada dessa publicação e de seu contexto se reveste de im ­
portância também por revelar os bastidores da parcela daquelas
poucas páginas colocadas à público no início dos anos 60. Tanto
os desdobramentos pessoais como os referentes à cultura nacional
também compõem as preocupações que integram a proposta deste
volume.
Seria difícil explicar a pluralidade de alternativas capazes
de serem propostas frente o descobrimento dc inéditos daquela
escritora que balançou os padrões literários brasileiros. São incon­
táveis as possíveis indagações que sc levantam quando sc tem cm
conta a existência de 37 (trinta e setejeadernos, a maioria com
textos originais, conu j^ c m ^ c c r c a de 4.500I q u atrõ~mfl~~2 qíii-
nltei«as)-p4ginas m anuscritasTMaíõrTnfase airüJTdeve~ser colo-
cada neste conjuntó principalmente quando não se perde de vista
que a autora produziu uma obra única — não só no Brasil como

Preâmbulo necessário
3 MEU ESTRANHO DIÁR30 PREÂMBULO NECESSÁRIO 9

tatnbém ng^mui ^ .e n q u a nto semi-analfabeta. favelada, mulher tura nacional, a crítica editorial tanto acadêmica como a da grande
ncgrá. por opgão ^jm gtan tç de M inas Gerais_que imprensa, tornou-se vjlncrávcl à incorporação dc reflexões sobre
viveu ufflrTOome&tó crucial da vida paulistana então marcada pela si mesma. Neste contexto, cabe abrigar a retomada da extensa
modernização da cidade no quarto centenário, transcorrido em obra dc Carolina cm coerência com as circunstâncias, tanto dc
1954. A lém do mais, é de se lembrar que ela tendo se tornado produção como de consumo, daqueles textos. N a mesma medida,
celebridade, dadas as circunstâncias que dinrnsionaram alguns, torna-se fundamental abordar questões ligadas ao esquecimento da
poucos, dc seus escritos e que depois de freqüentar listas de mais autora no Brasil. Mesmo sem se ter colocado a público a imensa
vendidos e rcccbcr significativas homenagens, acabou pobre, sem variedade dc escritos carolinanos, a lógica do abandono da pro-
reconheci mento no Brasil e, o que é pior, sem ter revelada a parte i dução conhecida desafia entendimentos. Foi mesmo só uma forte
mais valiosa de seus escritos. |tempestade? Caso tenha sido, por que seus reflexos estão tão pouco
Sem dúvida, tem-sc que admitir que o sucesso da pequena I percebidos? Sc considerado mais um dos tantos casos dc silêncio,
fatia publicada do Quarto de despejo foi tamanho que d c próprio j como explicá-lo além do mercado de consumo, ou seja, que rastro
empalideceu o progresso possível das demais páginas da autora. I esta experiencia teña gerado nos meios da crítica literária e da
Mesmo os promotores do livro — o descobridor, Audálio Dantas, ^ história? Enfim : culturalmcnte falando, o que explicaria aquela
e. a c.nxa puhlicruiorn>, I.ivraria Editora Francisco Alves — não/ Carolina e por que nâo seus outros textos que. pelo menos hipo­
foram capazes de finalizar outras publicações que, quando ocor-/ ir teticamente, teriam mercado editorial garantido? Será mesmo que
reram, foram pífias, promovidas pelo exterior ou por d a própriaLCt1*7 . \-f. cia tena sido u n r p r ^ t o J a l go fabricado para um _jnomcnto-do
Isto é significativo para que se entenda a força do impacto > , ' mercado? Á je » (-£•
causado pela primeira publicação de Carolina Não se exclui d O ^ ’^ .U Por outÇò lado, a recente emersão de eixos analíticos
contexto daquda época a caracterização de um tipo de Jeitor que renovadores da leitura crítico-literária e historiográfica implica fil­
¡ justificaria, afinal, o papel da mídia e nela de \wn tipo de promotor tros significativos para a convocação dc temas como: “ cultura
:t cultural capaz de fazer notável um valor que podería ter passado popular” , "literatura regra” , “escrita feminina” , e a relevância de
i desconhecido. “ textos menores” . Isoladamente ou em conjunto, estes pontos per­
Continuidade do mesmo raciocínio, é rdevante considerar mitem que se retome aquela produção com destaque tanto para
o tipo de consumidor de cultura daquele tempo, afinal, como um percepção de uma obra específica como pela sonoridade e con-
grupo numericamente tão amplo e variado, de leitores curiosos, não scqílcncias de sua inserção social e projeção histórica. Entre a ca­
exigiu os demais trabalhos da autora negra? Esta reflexão é rele­ duca valorização da literatura como expressão única da “ cultura
vante também para explicar o resultado promovido pela mídia que, de elite” e as novas concepções de texto literário como mani­
aliás, exibiu-se mais apta, cm uma primeira etapa, a divulgar — festação de vontades de registros — inclusive de minorias — ,
quiçá sc esmerar na fabricação de um tipo — , para depois proceder nota-se o relevo proporcionado pela retomada da obra desta
julgamentos que inibiram a compreensão daquela mulher como um autora.
fenômeno complexo, maior inclusive que a a:eitação dela como A constatação dc um lapso, entre o lançamento do livro
“ literata” . Qual uma bebedeira conscqüente, a publicação e o con­ matriz de Carolina e o presente, é importante para que seja ilu­
sumo imediato do Quarto deixa a sensação de forte ressaca. minadosx^GtíàdtxÂo esauecbnento para al ém dojn c r o abandono
Paralelamente ao exame que deve ser feito em relação ao de um livro que sem. pontual. datado_£_de superação inevitável.
tortuoso traieto do O.uarto de despejo, cabe lembrar que, na cul­ Afinal, com o explicar que alguém que tanto se distinguiu. ga-
10 V1EU ESTRANHO DWStO

"quando apareçe alguém que quer o


nhando projeção em iodo mundo, tenha o conjunto de seus tex­
mundo humano, éperseguido e môrto"
tos guardado sem conseguir publicá-los, e, o que é muito pior,
sem despertar o interesse de quantos neste, e em outras países,
trabalham com cultura e literatura popular, com a percepção do
oprimido?
Coerentem ente com o princípio que consagra a história
O enfirentamento dc alguns destes pontos sc coloca como
como um processo e, mais do que isto, que nos insere dentro do
alvo deste volume. Por lógico, sabe-se da extensão dos problemas
movimento social, fizemos a opção dc inserir a obra de Carolina
e a limitação para que possam ser esgotados. Mesmo reconhe­
Maria dc Jesus cm nossas vidas pessoais. Isto, dc um lado, res­
cendo o risco dc não abordá-los na profundidade almejada, assu­
mimos a responsabilidade dc fazer público pelos menos uma ponde a um apelo analítico que se levanta com o atual, de su­

parcela importante dos diárias. Percebemos nesta publicação um peração das massacrantes estruturas e de inscrição do indivíduo
duplo dever: primeiro, de historiadoresLLsegundo. ^ p e s soas preo- na sociedade. Deste modo, pensando em ler a produção da obra
cupadas cm dim inuir lacunas abertas por circunstâncias de um de Carolina M aria de Jesus em nossas vidas, filtramos a experiên­
tempo que julgamos .superado. cia derivada do conhecimento de seus escritos com a de leitores
A estratégia de ordenação deste trabalho, por parte dos impactados pela enigmática figura A lém do mais, o fato de se
organizadores, obedeceu aos seguintes critérios: 1) além desta tratar de dois contextos diferentes, o brasileiro e o norte-ameri­
apresentação, a história do projeto visando a formulação das tra­ cano, pareceu-nos importante para promover o exame de dois dos
jetórias, tanto pessoal quanto conjunta, dos dois responsáveis pela percursos mais importantes do Quarto.
edição em face da obra de Carolina; 21 a publicação de textos Antes desta aventura, aplicamos o mesmo procedimento
completos, sem nenhuma reyisão gramatical-ou^estilística dps de trabalho, em livro anterior feito sobre Carolina Maria de Jesus.
diários, qüê~são trazidos a público com o foram encontrados e 3) Por óbvio, evitamos repetições, buscando revelar nossas experiên­
um breve exame da relação existente entre os três momentos da cias inscritas no quadro das relações diretas com a obra da autora.
vida da escritora Carolina Maria dc Jesus.
A o propor a nossa caracterização como historiadores es­
tamos afirmando que a^prcocupação^ pdroordial-visa-a-Fetomada
dajabja carol inana c o n ^ d o c u n g ñ ta J)ocumexito.de uma-época~c
de uma etapa cultural que depois de usá-la. arquívou seu.comple­
mento mais importante, jjo r óbvio, o resultado deste quadro, pro­
jetado no presente, sugere continuidades. Não se trata pois de um
reviva l ou de uma redescoberta. Não. O que se quer é traçar li­
nhas explicativas apoiadas no estabelecimento documental que Carolina e nós
permita isto. É lógico que estes fatores sc colocam junto com a
necessidade de cobrir espaços de explicação difícil, que mostram
o uso de figuras públicas que, depois dc sc levantarem, são aban­
donadas pela mídia que as produziram.
A percepção de um estrangeiro
Robert M . Levine

Caolín, osUidj ohuía doCcriná*foto *«Já5oOartq»l

Q u a n d o eu tinha 19 anos eslava, como aluno de um pro­


grama de intercâmbio estudantil, na Argentina. Corria então um
tempo agitado, entre 1960 e 61, e eu vivia na cidade de Tucum án
onde passei nove meses entrando cm contato com uma fração da
cultura da América Latina. Era, tanto em nível pessoal quanto para
o contexto, um momento importante, depois da Revolução C u ­
bana, e o continente como um todo mostrava-sc como desafío ab­
erto à nova geração de jovens decidida a enfrentar os problemas
que se colocavam para o futuro norte-americano. Nesse ambiente,
aceitei viver como estudante e experimentar a aventura do entendi­
mento deste outro.
U m dia, na rotna de estudos, ainda cm casa dos hospedei­
ros, li nos jornais da cidade uma notícia interessante, a respeito
de uma jnulherJ)iasileira^negra_e favelada^jque.havia-publicâdo
u m 4 iv ro .d e sucesso, baseado..em am i-diário_e$çrito^o-k>ngo de
alguns-anos...Tratava-se de Carolina Maria de Jesus que chegaria
a Mendoza para autografar seu texto. Conversando com a família,
verifiquei o desdém com que lidavam com o tema, apelando para
o reforço de um velho estereótipo que identificava a cor da pele
com a ignorância e mas de que isto, dava um tratamento pejora­
tivo, referindo-se aos negros brasileiros como m acaquitos. Inde-
pendentemente desses argumentos, por algum motivo, acabei não
"Olhando os paulistas que drcutam pelas rúas indo à sessão de autógrafos c o assunto se perdeu cm minha
com a fisionomia triste. memória.
N ão vi ninguém sorrir. Mais tarde, de volta aos Estados Unidos, já cursando o
Hoje pode denominarse o dia da tristéza". programa dc História da América Latina encontrei na livraria da

História do projeto
WSTCftfA DO PROJETO 15
14 MEU ESTRANHO D Á R »

produtos destinados às doações para a população pobre ficavam


Universidade de Princeton uma tradução, para língua inglesa, do
em mãos inescrupulosas e eram desviados. E u mesmo pude acom­
livro de Carolina com o nome de Child o f lhe dark. Com prei-o e j
panhar, entre 1964 e 65, quando estava fazendo pesquisa, esses
imediatamente passei a sua leitura. Confesso que sequer tinha a
casos, tanto em Recife como em Natal, onde alimentos estavam
lembrança de se tratar do mesmo livro que havia considerado en­
à venda em estabelecimentos comerciais.
quanto ainda na Argentina.
A curiosidade do público norte-americano estava aguçada
D c qualquer forma, C h ild o f lhe dark havia projetado em
em vista da vida cotidiana de pessoas de baixa renda. Foi neste
m im a mesma sensação que na maioria do público leitor norte-
contexto que o liv ro dc Carolina encontrava oportunidade de
americano que teve acesso ao livro através da edição publicada
sucesso. Os norte-americanos estavam ávidos por saber das mi­
por E . P. Dutton. O resultado daquela tirageir. foi a sagração de
norias c desde que Carolina fosse negra, pobre, e de um país
Carolina. coiqol jin usím b o lo da consciência dejjrq_m undo-em er-
“ complicado” , estavan dados os elementos para sua aceitação
gente. Era com o se a palavra de JTa ip li na jcpieseptasscjAQjugrito
imediata. A lé m do mais, aqueles eram tempos de lutas pelos di­
contra a injustiça e_a miséria. O diário vendeu muito c cm várias
reitos civis nos Estados Unidos e isto promovia uma popularidade
ediÇÕèsTtendò sido inclusive selecionado para integrar publicações
ao tema c uma simpatia natural para com o assunto.
de mais de um club de livros que, em edições especiais, remetiam
textos para seus associados. Virtualmcnte, pode-se dizer que a Para as elites acadêmicas norte-americanas, o tema Caro­
maioria das bibliotecas norte-americanas adquiriram o livro e sua lina despertava interesse especial pois servia para contrastar com
leitura se difundiu de maneira notável. as teses já disseminadas pelos primaros brasilianistas c demais
estudantes da América Latina sobre a democracia racial. Os diários
É bom lembrar que aqueles eram dias da Aliança para o
de Carolina mostravam uma versão árida da rida dos negros c
progresso o que, na política de Kennedy, implicava um ataque à
isto era sombra nas luzes projetadas por autores que — como
pobreza na América Latina com o forma de combater o avanço da
Frank Tanncnbaum da Universidade de Columbia — acreditavam
esquerda. Tu do era retraçado por um diálogo defensivo face às
que no Brasil não existia preconceito racial e que ali realizava-se
políticas de Castro e neste horizonte a voz de Carolina fazia muito
a buscada fusão étnica.
sentido, como alerta. Cabe lembrar ainda que o Brasil de então
abrigava movimentos vinculados às ligas camponesas que, na M esm o ausente da cena norte-americana e sem conhe­
medida em que tinham importância nacional, ganhavam também cimento do contexto dos países estrangeiros, Carolina tornou-se
projoção internacional. uma celebridade da noite para o dia. A s grandes revistas, princi­
palmente Tim e c Newsweek, publicaram notícias sobre ela e, na
Os Estados Unidos viam-se atormentados com a possibili­
mesma linha, a Life contratou o fotógrafo afro-americano Gordon
dade de instalações de outros pontos de influência soviética na
Parks para um ensaio imagéúco sobre as favelas do Rio de Ja­
America e, neste sentido, medidas saneadoras eram assumidas no
neiro. Falava-se então até dc um filme sobre Carolina, que, con­
intuito de amenizar impactos contrários à ideologia norte-ameri­
tudo, nunca chegou a ser feito. A o largo disto, o livro de Carolina
cana. Continuidade disto, pela ótica estadunidense, fazia-se viável
continuava a vender muito, tendo sido publicado também em bro­
a presença de adeptos de uma corporação críala para divulgar a
chura na série popular Signet/New American U b ra ry e mesmo
política estadunidease: o Peace Corps, que distribuía medicamen­
quando as edições de capa dura diminuíram sua vendagem, con­
tos, alimentação básica e leite em pó. Certamente esta tentativa
tinuou a circular em publicações mais baratas. Mais tarde, a Signei
cra pueril em face da dimensão dos problemas, mas, emblemou o
foi adquirida pela Penguin USA c o liv ro continuava sendo
que se podería imaginar naquele tempo. A lém do mais, muito dos

i
16 MEU ESTRANHO DfÁRiO HtSTÓSW 0 0 PROJETO 17

vendido como aliás continua até Itoje, depois de 34 anos. Diga-se os alunos responderam a esta tarefa de formas variadas. O
a propósito que o livro continua entre os grandes sucessos de m ovim ento dos D ireito: C iv is estava muito ativo nos Estados U ni­
venda da história editorial norte-americana. dos e os protestos motivavam a exposição de questões interessan­
Não foi apenas nos Estados Unidos que o diário teve tes para os alunos que, basicamente, ficavam impressionados com
repercussão. Nos países dc língua espanhola, como na Argentina o comportamento aparentemente dócil de alguém que sofria tanto
e em Cuba, o livro esgotou rapidamente. No resto da América como ela. N otavam também que Carolina se distinguía j j o l ser
La-tina também o sucesso se dimensionou grandemente. O livro negra, assumir a maternidade dos filhos sendo, solteira e tudo isto
foi distribuído na Grã-Bretanha, Japão, França, Itália, Israel, Ale­ sem ser exatamente submissa.
manha Oriental e Ocidental (dividida na época e com publicadores Juntam ente co m os textos de C a ro lin a , nos meus
diferentes), Holanda, em cada um dos paísei escandinavos e na seminários indicava oatros livros “ clássicos” da historiografia
União Soviética com seus satélites. Tanto sucesso fez com que o brasileira como os de Gilberto Frcyre, Celso Furtado e os livros
livro de Carolina fosse mais lido que qualquer outro livro até en­ de Paulo Freyre que, em conjunto, promoviam um excitante exer­
tão publicado por autor brasileiro. cício de compreensão do Brasil.
M inha história pessoal com este livro pode merecer inte­ Para contextualizar melhor The C h ild o f the dark, compus
resse na medida cm que serve para ilustrar parcela do percurso um jogo de slid es feites de fotografias “ emprestadas” posto que
deste trabalho. Quando chcguci ao Rio dc Janeiro, cm maio dc a maioria provinha de cenas cariocas. Os alunos não conheciam
1964, depois de ter ganhado uma das bolsas de estudos da Ford muito e mesmo cu naquela época não estava ainda habituado a
Foudation, encontrei o livro de Carolina cm muitas livrarias do refletir sobre as sutis diferenças entre favelas do Rio c dc São
R io de Janeiro. Havia também disponível a edição de Casa de Paulo. Mais tarde, sofistiquei um pouco a técnica e ofercci nova
alvenaria c um outro livrinho dc provérbios intitulado P eda ços da versão, combinando, em vídeo, as cenas das favelas com a narra­
fo m e o qual, me lembro, comprei por achar inclusive a capa tiva de trechos do diário.
atraente. Estas minhas leituras faziam ecos a de tantos outros
N o início dos anos 70 mostrei este vídeo, juntamente com
norte-americanos que, como os militantes do P ea ce C orps, tinham outros, em um seminário na Universidade de Columbia e ao fim
já conhecimento do texto através dc cursos feitos cm treinamen­
da sessão, um produtor de televisão m c contatou. Tratava-se da
tos para atuar em favelas e lugares pobres e distantes no solo
emissora W P S B (televisão pública de N e w Y o rk ) e o repre­
brasileiro. sentante mostrava-sc entusiasmado em face da possibilidade de
Aqueles eram, no Brasil, dias atormentados pela im ­ fazer um filme sobre ela para ser apresentado no encontro pro­
posição da ditadura militar iniciada em 31 dc março dc 64. Apesar movido pelas Nações Unidas para o “ ano internacional da mulher” .
da turbulência do momento, contudo, não eram ainda tempos da Depois de oferecer meas préstimos soube que o projeto não teria
repressão que se adensou a partir dc 68. Por certo, para mim, re­ ido a cabo por absoluu falta de ajuda das autoridades brasileiras
tomar o texto de Carolina vinculava um passado de pobreza com competentes.
as propostas da chamada “ revolução” .
Aos olhos de um acadêmico norte-americano tudo corria
Terminada minha pesquisa, defendida minha tese dc dou­ mais ou menos rotineiramente em termos da aceitação de Caro­
toramento, arranjei emprego como brasilianista na State U niversity lina, até que, em 1977, li no Jo rn a l do B ra sil que ela havia
o f N ew York. Logo na estréia como professor indiquei o livro de falecido e que seus filhos não tinham sequer dinheiro suficiente
Carolina como leitura para o curso. O resultado foi curioso pois para entcrrá-la. O obitiário, aliás, cra muito tendencioso e men-
18 MEU ESTRANHO DIÁRIO HISTÓRIA DO PROJETO 19

cionava a incapacidade dela em aproveitar as múltiplas oportuni­ os benefícios e direitos autorais dc nosso livro são revertidos para
dades que lhe foram oferecidas pelo sucesso. Adicionei fração do a família da escritora.
obiniário ao vídeo que continuava sendo mestrado aos alunos e Naturalmente, contatos foram feitos com a família e, den­
abria discussão sobre os fatores que poderiarr. justificar a rejeição tro do necessário, visitas foram efetuadas. Numa delas, foi-nos
de Carolina cm seu próprio país. mostrada, a fim de se fazer cópias, os manuscritos que restavam
Em 1990, em um seminário que m i ris trava na Universi­ de Carolina. De início, Vera Eunicc, filha da escritora, negou-se a
dade de São Paulo juntamente com o professor José Carlos, que fomcccr estes textos para exame. A preocupação em manter o
desde então compartilha de minhas investigações sobre Carolina, valioso acervo, contudo, nos levou à insistência. Foi quando sugeri
sugerimos aos estudantes que formavam o grupo de estudos de para a Library of Congress dos Estados Unidos, que mantém im­
história oral sob a tutela dele, que procurassem os filhos de Caro­ portante convênio com a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro,
lina. Nosso objetivo visava a avaliação dos efeitos da trajetória da que promovesse cópia do material que deveria ser preservado e
escritora projetada no tempo. Por esta altura, as percepções entre colocado a público. A confiança que adquirimos junto aos fa­
o professor Bom M eihy c cu variavam cm função do papel de miliares de Vera ajudava a continuidade deste projeto. N o percurso
Carolina em nossas culturas. Seria aliás prudm ic ressaltar que as dele, a descoberta dc páginas inéditas da obra de Carolina.
diferenças não eram apenas pessoais. Os argumentos centrais das A essa descoberta rendemo-nos a necessidade dc fazer
divergencias recaiam na aceitação dos diários nos círculos respec­ público os textos do diário que compõe a presente publicação.
tivos. Com isto, afirma-se que as leituras dos textos da Carolina Não foi porém sem reflexão que nas propusemos a esta tarefa.
tiveram percurso próprio diferentes tanto no Brasil, nos Estados Muitas questões nos desafiaram e, por fim, resolvemos que de­
Unidas bem como em outros lugares. veriamos apresentar o material e depois reintegrá-los em um con­
As variações da recepção do texto carolinano sugeriram texto atual.

que colocássemos em campo nossos estudantes. Imediatamente


promovemos o levantamento de todo material existente e dis­
ponível — em arquivos jornalísticos — c iniciamos uma pequena
mas pertinente série de entrevistas. Por aqueles dias não tinha
idéia das portas que abríamos. O primeiro resultado concreto de
nossa aventura dizia respeito ao livro que foi publicado no Brasil
com o nome de Cinderela negra, a saga de Carolina M aria de
Jesus e nos Estados Unidos com o título de The Ufe and death o f
Carolina M aria de Jesus. Outros desdobramentos correram por
conta da redação de um trabalho escrito po: Andreia Paula dos
Santos sob o nome de Carolinas de hoje> e imediatamente, por
minha iniciativa, fiz a tradução, para a língua inglesa, da segunda
parle dos diários de Carolina — Casa de alvenaria — até então
alcançável apenas em português. Enquanto isto, o oolcga José Car­
los, no Brasil, preparava a publicação dos poemas de Carolina e
fazia imensa divulgação do nosso livro. Convém dizer que todos
HISTÓRIA D O PROJETO 21

A percepção de um brasileiro Valia também para z direita, em nome de um nacionalismo de­


José Carlos Sebe Bom Meihr/ fensivo, lutar pela piopositura de uma justiça social apoiada em
t
um programa de atualização onde as diferenças pudessem ser es­
I treitadas na base de reformas.
M ie u primeiro contato com o Quarto de despejo, da par­ Entre possíveis revoluções ou reformas tramitavam os hu­
cela publicada dos diários de Carolina Maria de Jesus deu-sc, mores capazes de mobilizar, jovens ou não. O signo do lançamento
com o seria de se esperar, de forma natural para um jovem que do satélite russo Sputlnik determinava o padrão de progresso m ili­
vivia a apreensão dos anos de juventude. Publicado cm agosto de tar pois, percebia-se então, não caberia mais supor um mundo
1960, dado o êxito imediato do texto e a divulgação maciça pelos estruturado em padrões considerados antigos. Na outra ponta do
jornais, comprei-o e fiz a leitura de imediato. Era um tempo im ­ processo, os movimentos sociais que ocorriam cm países como o
portante em termos de definição do ideal de uma geração de Brasil faziam supor que haveria uma revolução popular, caso não
jovens que, como cu, ainda não tinham atingidos os 20 anos e fossem atualizadas as transformações sociais pertinentes tanto no
¡i quer ia participar de alguma forma dos destinos do país. Com o tan- espaço urbano quanto no rural.
. tos, filtrei na leitura das palavras de Carolina a ênfase na denúncia A onda dc golpes militares que assolou a América Latina
l da permanência das velhas estruturas sociais e econômicas. O varria com força o ímpern transformador prometido pela esquerda
i sabor de novidade trazido pelo liv ro funcionava com o uma em diferentes quadrantes do continente. Neste horizonte, as obser­
f espécie de energia para quem fazia questão de provar que algo vações de Carolina, por modestas que fossem mostradas, servia
deveria mudar no Brasil. A voz de Carolina foi identificada com como testemunlto para um ou outro lado.
a crítica social ainda que também nos colocasse no espaço da ad­ Não apenas na esfera política o texto de Carolina era
miração de uma mulher que tinha suas veleidades líricas e até am­ cabível. Lembrando que o movimento cultural, cm sentido amplo,
bição de competir com escritores consagrados. no Brasil foi renovado <lesdc uma série de acontecimentos que,
É importante dizer que naqueles dias agitados os efeitos no ano de 58, marcou mudanças. A partir do surgimento da bossa
das políticas exteriores chegavam aos nossos ouvidos com o nova, da jovem guarda c mais tarde das músicas dc protesto, per­
ameaças. De um lado, vociferava-se em termos do avanço comu­ cebe-se a força de urre» classe média que se levantava, capaz de
nista, então inserido na ação militante de estudantes, trabalhadores consumo e de perceber uma nova problemática social.
e de parcela do clero que propunha uma nova ordem. Na con­ O país que construía Brasília como a capital do futuro
tramão desta via, os Estados Unidos tentavam aplacar a infiltração era o mesmo dos dilemas sociais da camada pobre que contrace­
cubana manifestada cm guerrilhas. Internamente, entre Juscelino nava com a luta para a inserção de elementos nordestinos evadi­
e Jânio, os dias eram movimentados por estranha instabilidade, dos da terrível seca daquele ano, expresso, em termos de drama
emblcmada pela força que adquiria a palavra “ modernização” . coletivo, na música Careará, gravada por Maria Bcthania. O cine­
Sim , a modernização era meta tanto da direita quanto da es­ ma novo despontava como um esforço intelectualizado capaz de
querda. se valer da técnica conto forma dc transmissão da crítica social
Servia para a esquerda propor seu justo programa de enquanto que no campo esportivo, depois da vitória do Brasil na
transformação — baseado na reforma agrária, na melhoria de vida copa do mundo — que trazia a consagração de Pelé no ftitcbol
dos trabalhadores e na ação social planificada a partir do Estado. — , de E d e r Jofre no boxe, de M aria Ester Bueno no tênis,
MEU ESTRANHO DtÁRlO HISTORIA OO PROJETO 23
22

passávamos a nos pensar como país cm busca de uma identidade da capital dos paulistas uma terra de contrates que merecia ser
moderna. ^ vista fora da generalidade nacional. Neste sentido, a lida de
A mídia da época cra inflamada c a polarização entre a Audálio Dantas para exibir este outro ângulo do desenvolvimento,
esquerda e a direita fermentava temas nacionais, como: reforma / em particular porque levava em conta o dia-a-dia dos miseráveis
agrária, ocupação da Amazônia, exploração do rico subsolo, busca e anônim os, ganhara sentido político. F ora ele mesmo que
de justiça trabalhista e reformas sindicais e í dominação capita­ começara a divulgar a voz dos personagens anônimos que traba­
lista e/ou comunista. A intensificação do relacionamento entre a lhavam cm favor daquela que se via como a cida de que m ais
mídia e o público se estreitava com a definição de um novo tipo cresce no inundo. De início, Audálio Dantas mesclava a fala da
de jornalismo que convivia com a crítica política: a crônica ur­ população com reportagens escritas por ele mesmo. E m um dado
bana. Fala-se, portanto, de um gênero que contemplava o cotidi­ momento, não mais bastava supor que a narrativa fracionada de
ano a partir da combinação do projeto de desenvolvimento c de uma autora ou a repertagem feita indiretamente fosse o suficiente.
seus paradoxos cm facc de um contexto como o nosso. Por outro lado, a experiência carioca poderia ser vista como uma
Pode-se dizer que os modelos de vida urbana no Brasil crítica dc viés até ficcional. A paulista não. Era o “ retrato” da
se polarizavam cm duas alternativas. De um lado, Rio de Janeiro vida que interessava.
e de outro, São Paulo. Tecendo a crítica da realidade carioca — Desde 195^ p o d e -s e dizer, uma outra crônica social pas-
capital federal em questão na medida em que Brasília se construía f sava a ser escrita através dá experiência de um personagem 1n-
— v tínhamos um tipo como Nelson Rodrigues que explorava as vi<vfvfi>’ em nossa cultura impressa. Carolina Maria de Jesus, tipo
mazelas psicológicas de uma população que vivia entre a aparên­ l social composto que somava a si vários atributos da “ marginali-
cia derivada dc valores tradicionalistas superados e a necessidade |dadc” , de repente ternava-se uma figura social que falava mais
de sc propor um questionamento renovado frente à modernização diretamente que muitos outros traduiores de uma realidade que
acelerada que ocorria fora dc lá. Outra posição levava em conta cra sempre vista por tabela, filtrada por segundos. Produto da pró­
a problemática de um polo urbano efervescente como São Paulo pria cidade, intelectual às avessas, indepcndentcmcntc de seus
onde, diversamente do Rio de Janeiro, unta sociedade com moti­ dotes pessoais. Carolina M aria de Jesus passava a ser notada
vações economicamente inéditas, enquadrava no seu espaço de de­ gomo resultado elogíente da soma de ambiguidades. Falava por
senvolvimento outros valores. Foi nesse contexto paulista que um si e, por isto, mais no coração dos leitores que, curiosamente,
jovem c dinâmico jornalista, Audálio Dantas, despontava tradu­ mostravam-se curiosos.
zindo um novo papel para o “ cronismo” político urbano c cotidi­ O s diários, colocados a público com o uma novidade,
ano. emocionaram a tantos quanto sc esforçavam por entender o mo­
Tendo algumas revistas e jornais como veículo, estes per­ mento em que vivia o país e o contexto mais amplo que discutia
sonagens renovados a partir da velha tradição dc jornalismo que o progresso como única forma de superar as amarras de um pas­
• percebia a vida com o deveria ser restava-lhes mostrar a vida com o sado injusto socialmente.
! e la é . Um a cidade com o São Paulo, marcada pelo progresso Seria impossível no ambiente dos anos 60 pensar em
econômico c por uma coleção de problemas sociais motivados desprezo à obra dc Carolina. Da mesma forma, exibida como
pelo desenvolvim ento industrial que se abria ao capital es­ denúncia, suas palavras desafiavam os defensores de que a cultura
trangeiro, refletia problemas diversos daqueles projetados em seria apenas a acadêmica, lustrada pela elite. Junto com a necessária
outras metrópoles do país. Afinal, a concentração de riqueza fazia revisão de valores sobre a função do conhecimento, porém, outros
24 MEU ESTRANHO DIÍR10 HISTÓRIA DO PROJETO 25

I problemas se colocavam. Afinal, como classincar aquela autora? Audálio Dantas — se abismaram. Ela se dizendo explorada e ele
i Seus textos seriam páginas de literatura? Reporta-gens? não sc sentindo explorador. Ele se considerando injustiçado pelo
A lé m dos problemas estilísticos, as questões sociais e não reconhecimento do que fizera e ela buscando seu espaço para
políticas suscitadas por Carolina foram enormes. Juntamente com se libertar da forma que se fazia para que continuasse a ser urna
o jornalismo, com a cultura intelectual e acadêmica, nós brasilei­ pessoa de sucesso.
ros ficávamos magnetizados com o impacto daqueles escritos que Contemplando de agora, as alternativas para a explicação
aturdiam o comportado ambiente nacional. Se a mobilização cm do silêncio em tomo da figura de Carolina Maria de Jesus, depois
torno do fenôm eno colocava cm tela de juízo a sociedade em geral, de dois anos do lançamento de seu primeiro livro, poderíam ser
imagine-se, em nível individualizado, o que teria se passado com enriquecidas com outras hipóteses: por que outra editora ou grupo
Carolina c sua família. econômico interessado no potencial sucesso se calou? Será que não
Vendo de hoje, cientes de que a obra da autora é bem resultariam pessoas da academia, entidades ligadas a promoção cul­
mais extensa c variada do que se supunha, se pergunta se sua ab­ tural cm sentido am pb ou mesmo órgãos de representação étnica
sorção poderia ter sido diversa. Será que haveríam elementos ca­ capazes de alguma ação? Com o, por fim, explicar que Carolina
pazes de promover mais do que fora viável à época? A resposta v .continuou lutando sozinha. Será que seu propalado m au gên io seria
a esta questão é importante para se demover a reflexão culposa suficientemente forte para esgotar as possibilidades?
sobre este ou aquele elemento envolvido na promoção pública da t Estes problemas propõem a retomada do ' eixo desta re­
obra carolinana. É verdade que frente a magnífica proficuidade dc flexão. Carolina se coloca cm vista de minha geração sob, pelo
escritos dc Carolina nos perguntamos: mas corno isto permaneceu menos, dois ângulos complementares, ainda que aparentemente
oculto? Sem respostas objetivas, resta-nos apontar alternativas v contraditórios: a sua^emersãQ.fantástica e o rastiQ_qiMLÍsK>_signi-
que, contudo, escapam de responsabilizações. fiçou, c, a queda vertiginosa e pouca reflexão sobre o assunto.
A família de Carolina, aturdida com os efeitos da re- Falando apoiado no discurso historiográfico, fica con­
I pentina fama materna em 1960 c depois com os constantes proble- fortável depois de enquadrá-la como resultado de um contexto,
í mas de adaptação e luta para conviver com altos e baixos, não dos chamados anos dourados, considcrá-la como algo que foi se­
j teria condições para promover a obra da mãe. Os promotores da lecionado como pro doto que serviu a um momento c não mais
¡ primeira publicação vjram-sc envolvidos por problemas outros que teve validade depois. Sim, fica mecânico demais supor que o ad­
moldar o perfil de uma escritora que, afinal, tirha sua própria per­ vento dos anos d e chum bo ou de fe r r o equivaleríam como expli­
sonalidade. C o m isto instalava-se a contradição. De um lado Caro­ cador de descartabilidade de uma obra. Plasmada na cultura
lina, fértil produtora de textos c sem nteios comunicantes cont o nacional pelo impacto causado, seu desaparecimento não poderia
mundo empresarial. Reverso disto, os promotores que a queriam ser tão rápido.
i “ lógica” , dirigida para ser um a mercadoria útil ao consumo De qualquer forma, inegavelmente, o impacto da leitura
i cabível naquela circunstância. Houve, sem reserva de dúvida, um de Carolina, teria que ser aquilatado como fator imperioso, capaz
j momento em que as duas partes se completaram. Passou rápido, de mudar a visão de mundo de um grupo que, naquele instante,
! porént, esse instante. Os desencontros que se sucederam, mar­ f se preparava para assumir posições. Com o tantos outros, eu, es­
caram o resto da experiência de fomta definitiva. tudante, aprendí a ver no texto dos diários dc Carolina mais que
Instalado o desacerto entre autora c os promotores dc seu uma denúncia ou alerta, a perturbação da ordem cultural que se
sucesso editorial, os desencantos — tanto de Carolina como de i movia em torno da consagração do saber como apanágio de uma
26 MEU ESTRANHO DIÁRIO •, H6TÓRIA DO PROJETO 27

burguesia que, no máximo, abria-se para a classe média. Princi­ ou das reformas, o Brasil, pela ótica dos nacionais, cra um labo-
palmente se for considerado o instante cm que a literatura oficial f ratório de mudanças onde tramitavam as propostas de esquerda e
— que se equivalia no Brasil à expressão da conlracultura do de direita. De qualçucr forma, o Brasil projetava-se como um
mundo ocidental — lançava mulheres que assumiam posição. Sem ' espaço p o lític o agitado e isto era contraste perfeito com o
ser cortante, contudo, valería perguntar se este movimento não te­ ' ‘congelamento” proposto pelas visões estrangeiras sobre nós. É
na um alinhamento horizontal, de classe, onde apenas as mulheres fundamental notar que a perfeita repartição das percepções sobre
brancas, da elite intelectual, poderíam sc alçar ao convívio dos o Brasil produziu coasumos — e leituras — diferentes dos textos
escritores, homens, também da mesma categcria social? de Carolina.
Mas, neste cenário, como explicar Carolina? Seria sufi­ ------------------ Pára nós brasileiros, Carolina logo se mostrou uma autora
ciente supor que ela era uma espécie, permitida, de inversão de I contraditória, principalmente quando se lhe era cobrada uma
um classismo que passava por uma crise de valores? Seria ela j posição lógica, militante, de esquerda, de oposição constante c
unta negação? Proposta de um movimento? Afinal, em termos de sistemática. Enquanto a dinâmica desta perspectiva ocorria, no ex­
. cultura,_Q.que_representaria esta-escritora negra, semi-analfabeta. terior, o texto carolinano cumpria um outro trajeto. Muito mais
\eriumja que era da favela paulistana? A s esperadas respostas — temático, o consumo do livro da escritora favelada servia, acima
que até hoje não temos — viriam pela via da sempre adiada de­ dc tudo, com o cxcmplificação. Literatura de negros, escritura
mocratização da cultura brasileira. Pelo menee esta era a expec­ t feminista, prova de opressão social e de negação dos direitos hu­
tativa que avassalava as mentes de quem passava a estudante manos, para o exterior, Carolina era equivalente a um parâmetro
universitário c que depois sc fez profissional do debate sobre a capaz dc significar uma cômoda equiparação de diferenças. N o
cultura neste país. . Brasil, Carolina foi esquecida — ou pelo menos teve scTTreconhe­
A o mesmo tempo em que tudo isto sucedia, por outro cimento relegado a um futuro sempre próximo — enquanto que
lado, uma outra apreensão de Carolina ocorria. N o exterior, le­ no exterior foi sagrada como metáfora dc várias causas que cres­
giões de leitores se exercitavam em suposições do Brasil a partir ciam no espaço da luta contra as injustiças sociais.
da obra de Carolina Maria de Jesus (leia-se aqui, dos fragmentos Para os brasileiros, Carolina significava uma mostra da
publicados dos diários). Isto irritava qualquer crítico, posto que o problemática social e da cultura nacional. Ponto dc estrangulamento,
sucesso feito no exterior, era inversamente proporcional ao que entre um tradicionalismo que leria que ser contraposto com a luta
pensavamos de nós mesmos. O texto de Carolina, como estava pela modernização, seo texto era atestado da necessidade de enfren-
publicado, congelava uma imagem do país, negando, de certa tamentos. Para traz ficava a questão internacional. Isto corrobora
forma, o que mais tínhamos dc positivo: nossa luta pela transfor­ para a formulação de diferentes consumos do texto dos diários.
mação contextual. Rolava nesta paralisação da nossa história até Há dois pontos fundamentais para o sentido da retomada
mesmo o estudo da dinâmica da obra carolinana. dc Carolina: um primeiro diz respeito á dupla consideração do
Curioso notar que Carolina produzia duas faces para lei- valor desses textos que tanto funcionaram como proposta de rup­
turas: a externa, que equivalia à formulação da fantasia das in­ tura da percepção social, como mostra dc que os mecanismos

Í
justiças sociais c, junto, o retrato da intimidade de segmentos
marginalizados. Internamente porém, a imagem produzida pela
C inde rela negra dava conta de uma sociedade que, insatisfeita,
buscava alternativas de transformação. Fosse através da revolução
V

,
dominantes são fortes o suficiente para reagir. Neste sentido, es­
tamos equiparando o ‘ ‘esquecimento” dos diários com o advento
de um tempo que também fez questão dc relegar outras conquis-
tas. Isto no exterior passaria despercebido. Tanto que os diários
HISTÓRIA D O PROJETO 29
28 MEU ESTRANHO DIÁRIO

crição cabível, sugestões sobre as aberturas propostas pela obra


continuaram ser consumidos com o se o Brasil não houvesse
de Carolina e principalmente sobre o seu consumo.
mudado.
O universo proposto pela herança cultural de Carolina
Foi a insatisfação com este estado dc coisas que motivou
passará a ser enfrentado depois da leitura da parte publicada em
o contraste de interpretação entre a minha leitura do texto de
seguida. Antes, porém, cabe esclarecer que o conjuntQ-dos textos
Carolina c a de Levine que, por certo, reflete a interpretação
guardados em cademõssaolragmentados. Os cadernos nãoapre-
norte-americana e estrangeira em geral. Neste trajeto, deu-se um
sentãm rienhuihã~so^iêncíã lógica ê num mesmo võlüme^pode-se
caso interessante para a explicação deste volume, que permitimos
encontrar diferentes gêneros. O estado do material também é bem
revelá-lo a fim de explicar o que se passou até que fizéssemos a
precário, faltando, em alguns casos, páginas. A aüséucia de nu­
descoberta de que muitos dos textos de Carolina permanecem
meração dós cadernos, bem como a existencia de lacunas sugerem
inéditos.
que podem ter “ desaparecidos” alguns de seus textos. De
O meu amigo Robert M . Levine escreveu cm 1993 um qualquer forma, um elemento impressionante é o cuidado que ela
longo artigo sobre as virtudes do texto dos diários então conheci­ manteve cm preservar cópias, inclusive de seu Q uarto d e despejo.
dos de Carolina. Com o de costume enviou-me para leitura. As
Alguns textos estão reproduzidos mais de uma vez e este
perplexidades estabelecidas entre nossas leituras extrapolou os fato é duplamente importante: para a comprovação do tipo de cui­
limites da simples diferença dc leituras e localizou-se nos vínculos dado que ela mantinhu c para seguir a fidelidade da cópia. Poucas
do contexto. Foi quando então procedí a una longa crítica que vezes nota-se alteração no texto e quando isto ocorre, quase sem­
resolvemos apurar. Estudantes envolvidos na solução dos dilemas pre é nas poemas.
colocados levaram-nos a Vera Eunice c dela aos textos inéditos Não há como não se emocionar em face da letra de Caro­
de Carolina. lina. Firm e, grande, corrente, vigor e energia depreendem da
Depois de escrever, em conjunto, o texto sobre a trajetória fluidez com que escrevia. Tanta vitalidade justifica a pergunta que
dc Carolina, continuamos a trabalhar na mesma seara. F ie procedeu certamente todos se fazem, por que ela escrevia c copiava o que
a tradução da Casa d e alvenaria e eu parti para outra aventura: a fazia? Não cabe a alternativa de ser rascunho, posto que os textos
publicação dos poemas inéditos da autora Tanto ele lá quanto eu são os mesmos. H á rcaproveitamento, c cato. Algumas vezes ela
aqui, estávamos propostos a promover outros estudos sobre a autora enxertava fragmentos de que tinha escrito e que aparecem em en­
— inclusive de conseguir cópia para acesso público dos textos dela trevistas. Há também repetições, que mostram que o mesmo
— quando nos caiu às mãos os originais da escritora. critério era usado.
O maciço volume de textos encontrados remetem aos / jt O fato de serem, na maioria das vezes, escritos a tinta,
seguintes gêneros: 1) os diários; 2 ) peças de teatro; 3 ) provérbios; ' demonstra vontade d ; perpetuar o legado. São poucos os textos
4 ) contos, 5 ) romances e 6 ) cartas e bilhetes. | feitos a lápis. A existência de páginas com outras letras e com
Interessou-nos de imediato — além de publicar os poemas matérias diversas (contas) mostra que os cademos eram mesmo
que se constituíram em seleção pessoal dela — , ressaltar os recolhidos no lixo. Há páginas cm que estão escritas com letras
diários. Fizemos um apurado recorte de textos, obedecendo os de criança onde se nota, por exemplo, exercícios escolares dos
seguintes critérios: mostrar integralmente, sem nenhum retoque, a filhos. Curiosamente, são encontrados também receitas dc bolos,
listas de compras de material doméstico. Tu do, porém, se com -
parte encontrada; fazer uma seleção que iluminasse diversos m o­
i põem num conjunto precioso. Único.
mentos da produção de diários da autora; promover, com a dis- v
30 MEU ESTRANHO CMÃRO

Antes de visitar o material dos diários, cabem duas expli­


cações. Optamos por transcrever exatamente como conseguimos
ler os textos. Onde é ilegível assinalamos de maneira a não con­
fundir o leitor. Mantivemos as séries integrais em sua continui­
dade. A escolha de quais segmentos recaiu exatamente na
sequência da seriação. For outro lado, ficamos felizes porque a
seriação instaurada permite verificar momentos definidos na tra­
jetória vivencial da autora e de sua obra publicada. Por fim,
gostaríamos de ressaltar que os cuidados éticos com a finalidade
do texto provocaram esbaiTÕcs — também éticos — que se cons­
tituem enquanto matéria-prima da visão de mundo da autora. Não
tivemos como evitá-los pois, caso contrário, estaríamos incorrendo
nos mesmos deslizes — de produção de texto — que quisemos
evitar.
N O QUARTO 0£ DESPEJO 33

Muitas fugiam ao me ver


pensando que eu não percebia
Outra6 pedían para ler.
O s versos que eu escrevia
Ò J -O — « f ^ J L i-g.
J L ------- C f j L ^ t P -------- Era papel que eu catava
® ¿¿b u ~x - para custear o meu viver.

% -& L u tS U + ^ sE ü l à u Lí í ^ J ), E no lixo eu encontrava


livros para eu lér
->•&• ru^ cO ey --------- [
Q uantas coisas eu quiz fazer
Fui tolhida peb preconceito
^ re tie xtin gu ir quero renascer
-<BfU_^_— Í 2 .___L d Ü L ^ j <Vv-ó^c3-- W¿a ¿A Q r _________' Ñum país que predomina 0 preto.
Ü c_£^ÍL£-w -» — -----^ U -¿ X -o O ^ > ,(Lc5*^0_jD £íL^_Q ^__ I
CfA^-&— ^ G u o yo & L & ~ .fe i Adeus! Adeus, eu vou morrer!
E dêíxo ástes versos ao meu país
se e que temos 0 direito de renascer
)? J íS L r § J ± g «J L ± 4 e ^
Quero um lugar, onde o preto é feliz
£L&¿ í £ J -± - O — ÉXdía-Jí- f^CK^Ct^x -J¿_, -ft.
— ^ -Q -^ o .-*— d -^ - » - o Q - _ .■— .
cfy — C o — <o— & d Z o ^ J b a - J L . ñ. 3 0 de outubro de 195Ô
t l ^ ^ J u i — ,-U -,— ^ - C -u -Ê o -O t a — O l. Oiario
w ~ i a fc . . a ^ j U ^ X -l Qeixel o leito as 5 horas e fui carregar agua. Que suplicio! a minha
/ j ■ o ÍL «L lata esta furada, e eu não eel quando poderei comprar outra.
O CX*-6cu^plo Acendí 0 fogo e puis agua esquentar para os(fílhos| lavar 00
rostos.
í M a^ c . . .--l l o c ~ - a o /tles)nâo gástam de agua fria.
A ^ c C L . - - l l Q y ^ ----- a ^ 2 c u J o _____ _ Fui comprar pão e mantáiga. Estou gastando 3 0 so de manhã.
Os filhos foram a escola e eu sai com a Vera porque não esta
------ 1-
chovendo. A Vera ent'ou no Frigorífico para pidlr a salshícha Eu
notei anormalidade porque a policia esta nas ruas.
Fui conversar com um servidor Municipal. Ele quêixou-se que
pagou 5 de ônibus.
Que desse gâito, não vae. Que foi o dr. Adhemar quem aumentou
as passagens Que âle, não esta contra 0 dr. Adhemar. Que todo6
aumenta que âle não ¿ o único que agora começa os comentarios
MEU ESTRANHO «¿ R IO N O QUARTO D£ DESPEiO 35
34

m aldosos em to rn o do nome do d r. Adhem ar e que ha de — Adhemar rouba!!!


prejudicar-lhe a eua ida para o Catète. 0 povo ha de compreender | — A Camara apoiai?
que o único político bom do 3rasií é o dr. A à\cmar. ? — E o povo paga!!!
Tirou o chapéu olhou para o ceu e disse: Deus ha de ajudar que pensei nestas palavras que o dr. Adhemar disse num comício. Que
êle vá para o Catète. enquanto os salário sobe de escada, os préços Sobe de elevador.
Eu segui. Olhando os paulistas que circulam pelas ruas com a Aproveitei a s palavras s ensatas do dr. Adhem ar e fiz esta
fisionomia triste. quadrinha:
Não vi ninguém sorrir. Que vida sacrificada!
iHoje pode denominar-ec o dia da tristêza. Eu começel fazer as Do pobre, trabalhador
1contas quando levar os filhoe na cidade quanto eu vou ga star de 0 salário sobre de escada
I bonde.
E os preços de elevsdôr.
p filhos e eu, 2 4 ida e volta pensei no arroz a 30 ,0 quilo o pão,
penso: será que o d-. Adhemar esqueçeu o que disse!.. Ou esta
fe outras despêzas.
revoltado? pensando que êie é muito bom e o povo não lhe da
penso: e se a maioria ficar loucos de tanto pensar na vida? Uma
valpcXheguei em casa ha 11 horas esquentei a comida para os
senhora chamou-me para dar-me papéis. Disse-lhe que devido o ¡filhoe,*Depôí& dê it-ri um pouco para descançar. Pep& e levante! e
aumento de conducão a policia estava nas ruas.
fbf-^ídir o carrinho da Rosalina para eu ir na Cruz Azul. vender
Ela ficou triste . Percebí que a noticia de aumento entristece
umas latas.
todos. Ela dlsse-me:
0 João e a Vera foram comigo.
Eles gastam nas elélçães e depois aumentam qualquer coisa.
Que suplicio! Eu não sei lidar com carrinho. Os sacos iam caindo.
0 Auno perdeu, aumentou a carne. 0 Adhema- perdeu, aumentou
Na rua pedro viçente um senhor que estava retirando seus
as passagens.
apetrechos de trabalho deu-me umas latas. Ali a onde é escola
Um pouquinho de cada um, è\e& vão recuperando o que gastaram.
Eu disse-lhe: já vai rido, em compadre? Foi o bastante para êle
Quem paga a s deepézae das elêiçõee é.~ o povo! Eu fui na Dona
me dar as latas
Julita. Vi o seu filho Fausto pela primeira vez. Ele é muito bonito
Ela deu-me café e comida Esquentei e comí lá mêsmo. 0 carro já estava lotado, foi um sacrificio para eu levar as latas.
M as eu levei porque c\yando eu quero fazer uma coisa, eu faço.
Acho que a pior coisa do mundo é tolerar o tal homem. Se os
homens soubessem como éles torram a paciencia das mulheres, Eu tenho pavor dos mineiros por causa do "dáixa pra amanhã! Eu
não haviam de ser tã o pretenciosos. go6to de Ir na Cruz Azul.
Ela deu-me um casaco preto. Teve uns tempes que eu só ganhei S e fô s s e para eu tra b a lh a r lá eu q ueria são e d ucad os,
Roupas Vermelhas. Agora é preta. Cheguei até enjôar de vermélho perguntaram pela Rosalina Quando eu sal da Cruz Azul foi no
Catei muitos ferro6. deposito de papel pegar um saco de ferro. Ruis a Vera e o João
Deixei um pouco no deposito e outro pouco eu trouxe dentro do carrinho.
Q u ando pa&eei na banca de jo rn a e s li éste eslógam dos parei na linha do trem para pegar as latas, porque eu havia
estudantes deixado perto da gurita e pidi ao guarda 0 guarda perguntou-me
— Jusçelino esfola)!! quanto eu ia reçeber pelas latas.
Janio mata!!! Respondí que era 3 0 0 ,0 0 . Que ja estou farta de biscates.
36 MEU ESTRANHO D1&K> N O QUARTO DE DESPEJO 37

Ele disse que antee isso do que nada. Eu digse-lhe que ae latas atual dono da luz havia expancado a Zefa E que ela deu parte
dc oleo eram 70 ,0 aqora esta a boa Elc diese: em vez. de subir ele foi preso.
desçe. Que a vida esta muito cara. Que até as mulheres estão j Perguntei para o Geraldinho se era verdade.
caras Que quando êíe quer dar uma fóda, as mulheres quer tanto Afirmou que sim. Que se ele bater na Pítíta. que ele vae ver Que
dinheiro. que êtc acaba dis&ietindo -. Fingí que não ouvi porque eu a Pitita e a negra mais vagabunda da favela.
não falo pornografia. Que o Orlando Lopes e o Juaquím Paraíba estavam prêsos. Ouvi
Sai sem agradecê-lo. a s m ulheres d iz ê r que quem tem filh os deve t e r o u tr o
Quando cheguei na favela era 5 horas. Fiz café e fui comprar com portam ento. Que na po rta da casa da Zela, faz fila de
açúcar e uma fôlha de papel para embrulhar os cadernos que vae homens. Fiz café e mandei o Jo ão comprar 10 de pão.
para Nova York. Eles foram a escola, e eu sal com a Vera. Os policiaes ainda
Conversei com o 6enhor Eduardo Falei que havia vendido as latas, estão nas ruas. Encontrei com a Nena e sua mãe Dona Dindíta.
perguntei-lhe se entre seus irmãos quem é q le tinha filhos mais A Nena disse-me que o Orlando bateu Zefa para valer. Eu fui
bonitos. catar papel. A Vera passou no Frigorífico para pidir a salchicha.
— 53o os meus! Ganhei 106. A Vera ganhou 6 cruzaros porque ela entrou no bar
Eu ri. E disse-lhe. Ha o proverbio da curuja. Ela sorria para pidir agua e persaram que ela estava pidindo esmola.
Girei pelas ruas. Ganhei 40. ! paguei o sapateiro, o concerto dos sapatos, da Vera. Depôis fui
A Vera achou uns metacs. fazer compras. Fico horrorizada com o arroz a 3 0 , o quilo. Comprei
arroz féijão e sabão e os 100, cruzeiros dessapareçeu Fiquei
Quando cheguei na favela ha 11 horas. Eu fico quase louca Entro
pensando nas palavras do preto que deu os 5 cruzeiros para a Vera.
dentro de casa e não tenho nada para comê'. Eu não aprovo os
Que os paulistanos estão errados que a greve precisa ser geral,
aumentos porque deturpa a vida doa operarios.
combater os preços dos generas que nos oprime. Que não é só
Á n tig a m e n te os políticos agíam com as vontades do povo
a C.M.T.C. que explora o povo, o expoliamento é geral
Atualm ente, eles não consultam o povo. Qiando eu retomava
No ponto do ônibus ouví um homem dizer que era Adhemarista.
para a favela encontrei com a Rosalina que estava com o
Os que estavam na fila não gostaram e comecaram a discusão
carrinho e dãxou eu por a lata de lavagem no carro. A Dona
Começou com 2. Depcls foi surgindo outros. Circula um buato que
A rm an da deu-m e uns bolinhos de verdura. Cheguei em casa
o Dr. Adhemar esta no Rio de Janeiro, penso: que um político
ijCançada e triste porque o poeta não gosta de ver o seu povo
quando impãe algo que agita o povo, não deve ausentar-se Deve
'^oprimido.j Ouve um tempo que o povo trabalhava com limites e
permaneçer no lugar e dar uma explicação ao povo esclareçendo a
wvlam contente. Hoje trabalha demasiadamente e são infaustos
necessidade dos seus ato6 e a causa do aumento Quem faz uma
Assim que eu dáitei ouvi vozes, pensei: é briga! Amanhã hei de
coisa c foge, é malandro. 0 povo esta dizendo que o dr. Adhemar
saber.
elevou-se a passagem para vingar do povo porque lhe preteriram
nas umas Que êle quer rehaver o que gatou. Que político não perde
31 de outubro de 1956 nada. — Quando è\c perde nas urnas transforma a pele do povo
Dêixef o leito as 5 horas e fui carregar agua. Que bom! Não tem em couro — porque do couro, sal as com&as.
fila. Porque esta chovendo. VI as mulheres da favela agitadas e Quando cheguei em casa os filhes já estavam em casa. Esquentei
falando. Perguntei o que havia Disseram que o Orlando Lopes o a comida. Era pouca E eles ficaram com fome. Eu não estou
38 MEU ESTRANHO DIÃRIO t N ° QUARTO OÉ DESPEX)

nervosa porque percebi que nervoso não soluciona nada. Nos verdura Fiquei lidando com o almôço Quando o João chegou
bondes que circulam vae um policiai E nos onlbus também. 0 povo trouxe verduras e legumes.
não sabe revolta r-se. Deviam ir no palacio no Ibirapuera e na f Tem dia que eu gosto do© meu© f¡lho6. E tem dia que se eu
Assembieia e dar uma surra nêstes político© pigmeus política© pudesse queria pica-loô, e repica-los Quem tem filhos. Aliás
aíinhavadas. Que não ©abem administrar o p a ís .fu estou triste quem é pobre precisa m u n ir-s e de co ra g e m para vive r.
porque não tenho nada para cgtfler. Trabalhar, e pidir e6mola o que não é possível e deixá-los com
Não ©ei como havera© de fazer ©e a gente t-abalha passa fome fome. Ensabêei as roupas pretendia ir la va -la s mas estou
se não trabalha passa fome. V'arlas pessôas estão dizendo que indisposta e com frõ.
precisamos m atar o dr. Adhemar Que eíe esta prejudicando o Percebí que o povo contínua achando que devemos revoltar
país. Quem viaja 4 vázes de ônibus contribue com 6 0 0 .0 0 para contra os prêços dos genero© e não atacarm os só a CM TC Quem
a CMTC. Quem toma bonde e oníbus vae gastar 1 0 00,0 0 ©o nas lê o quê o dr. Adhemar disse nos jornaes que foi com dor no
conducães. Dêste gêito, ninguém mais, pode guardar dinheiro coração que assinou o aumento diz:
para o futuro. De manhã, quando eu ia sando o Orlando e o O Adhomar esta enganado.
Juaquim Paraiba vinham voltando da pri6ão. — Ele não tem coração! ,y?v‘
0 coracão dos políticos, sao como os túneis da© Donaídeôj
1 de novembro de 1956 i 5e o custo de ■Ada continuar subindo a t e T 9 6 6 darnos ter: —
Deixei o leito a© 5 e 44. E fui carregar agua Não havia fila. revolução!
Mandei o o João comprar 10 de pão Fiz cafe. 0 João e o José Eu Incentivo o João na lêitura para êle ficar dentro de casa e
Cario© saíram comigo. Fui no Frigorífico Incapre pegar os ossos. não sair para brincar porque êle é multo forte. E quando empurra
Depôíe fui na Pedacha. Não ganhei porque ja havia acabado. um menino êles caem e começam chorar, e vem quêixar-me o João
Depô¡6 fui no deposito de ferro vender unô ferro©. Ganhei 23. d ¡2 que quer ser lutador de box. Esporte saez. Deitei as 7 e meia
Passei na padaria guine a Dona Madalena deu-me bananas, pão porque ja estava careada.
docê 15 paes docê. ?cdaçoo ds queijo presunto, e salame. Fiquei 5 c fò&tc para eu andar a noite crêio que não ia aguentar.
contente Achei um saco de fuba no lixo e trouxe para dar ao Não vou no cinema porque o dinheiro não dá e não tenho
porco.l Eu ja estou tao habituada com as latas de lixo que não disposição Eu estava durmindo quando acordei com o show do
6el passar por elas sem ver o que ha dentre, j Lalau e sua sogra se a favela acabar Lalau e sua família não vão
Hoje eu não fui ca ta r papel porquê sel que não vou encontrar aohar quem lhes alugue casa porque quando êles bebem o calão
nada Tem um velho que circula na minha frentí. Hontem eu II aque entre em cena perçebe-se que nas favelas são os adulto© que
fabula da rã e a vaca deturpam a moral das crianças
Tenho a impressão que sou rã Que queria crescer ate ficar do é para dizer! Pobres crianças das favelas. A Deslinda so sabe
ta m a n h o d a va c a — Eu desêjeí vario© e m pre go s. Não ficar em casa se ti/er pinga para beber. Não tendo, ela ©ae
acêitaram-me por causa da minha linguagem poética, porisso eu qualquer hora para comprar.
não gosto de conversar com ninguém
Hoje eu fui pidir esmola. 2 de Novembro de 1956
Ganheflíngíiíça e outras coisas Cheguei em casa tarde puis fôgo Dêlxel o lêlto e fui lavar as roupas permanecí no rio até a© sete
no fêijão e começei limpar o barro. 0 Joã c foi na feira catar e mêía. A Darça foi lavar roupas e ficamos conversando sobre as

I
40 MEU ESTRANHO DIÁRIO N O QUARTO DE DESPEJO 41

poucavsrqonhas que ocorre aqui na favela. Fsíamos da Zefa. Que Comecei preparar o almôço
apanha de todoe. Falei cias mulheres que nãc trabalham e estão Fui buscar um caldeirão com agua para preparar o almôço.
sempre com dinheiro. Mandei o Jo ã o descascar o alho e catar o arroz.
Falamos do namoro do Lalau com a Dona Ma-la. E a Dona Maria 0 Jo ã o dessapareçsu. Percibí que ele havia ido no cinema 0
diz que êíe navcjoxa é com a Nena. — A Nena é bôba. almôço ficou pronto, e os filhos não 'deram almoçar. Eu almoçei
Levei as roupas de côr e vim fazer café. Pensei que tinha café. um pouquinho porque estou cançada.
Não tinha — Como é horrível te r fome e não te r o que comêr. Peguei um livro para eu ler. Depois senti frio. Fui sentar no sol
Comemos canjica. E o Jo s é Carlos começou a raspar uns ossos Achei o sol muito quente fui sentar na sombra,
Os ossos que ganhamos no frigorífico Incapre. é que lavei muitas roupas. E estou cançada.
Eu fico h o rro riz a d a , e nervosa quando vêjo m eus filhos, Depois fui escrever. C senhor Manoe! apareçeu. Disse-me: que não
procurando o que comer. Êtes abre as latas pareçe cachorros
veto trazer os 2 0 0 ,0 0 porque caiu e machucou-se. Percebí que
quando vasculham a s latas de lixo Espetacub que eu contemplo
ele mentira. Mas fiquei quieta. Eu queria ser como a6 outras
com odio dos políticos que podiam tabelar os preços dos generes
preta6 que sabem exaltar — Eu não exalto. Disse para o senhor
de primeira necessidade. 0 João comeu um pão docê. Eu eomi
Manoel que chinguel-ihe de todos nomes. Disse-me que o día 10
fâiif'o com farinha.
ele ma da dinheiro. Eu cai vagando pela favela porçabo que chegou
Arrumei as camas. A coisa que eu tenho pa/ôr, é de entrar no
varias pessoas aqui na favela.
quartinho onde durmo porque é muito apertado, para eu varrer
J á não ha lugar vago.
o quarto preciso dessgrum ar a cama.
penso se a favela zarpar-se como o que vão fazer para colocar
Eu varro o quartinho de 15 em 15 dias. Puis feijão no fogo e fui
êstes zés-pelados.
terminar as roupas. A Clrçe estava na janela c perguntou-me
'como vou indo de vida. Nós de favela somos os pés sem chinelos. Tem homens aqui que
tem T m & e não trabalha. E come do bom e do mdhor. Estes se
Disse-lhe que vou Indo bem E que os Jornalistas das Folhas Vão
dar-me uma casa môbllhada. a favela acabar já sabem que pode contar com os políticos Falam

Ela disse-me que eu não vou habituar a ressidir Casa deçente que são doentes e pronto. Conversei com um senhor disse-lhe que
para eu dar a casa para ela. Penso: será que a Cirçe pensa que circula um buato que a favela vae acabar porque vão fazer Avenida
sou Idiota? Acabei de lavar as roupas era 11 horas, puis as Marginal. Ele disse: qje não e pra já. Que a Prefeitura esta sem
roupas no varal. Depois fiquei indisposta. Mão podia sentar, me dinheiro. Que o dr. Adhsmar não presta como político. Que entra
deitar Estava tão cançada c com aflição 0 João saiu. Não quiz outro prefãto traballlia. E o dr. Adhemar não faz nada.
varrer o barracão. Eu não tenho agua para fazer almóço. Que ele seria um botn político Mas que éle tem muito cupincha.
0 mal estar duplica-se Que se ále chegar a &er Presidente da Republica que o 5ra6il vira
RessoM deitar um pouco. Pegue: um livro para ler. 0 Joã o e o uma salada mixta Que qualquer sargento vae mandar. Que êle se
José Carlos surgiram. mistura com quem rão presta Eu disse-lhe que eu ia votar ou
— A comida esta pronta? vou votar no dr. Adhsmar se eu viver até la.
Perguntou o João. Dirigindo o seu olhar para o fogão. 0 João chegou do cinema.
Eu não fiz comida porque vocês sairam. Aos Domingos cies não Dei-lhe uma surra e 2le saiu correndo.
param em casa. Esquentei fêijão com farinha des comêram. Eu estou com dôr de cabeça.
42 MEU ESTRANHO DIÁRIO N O QUARTO DE DESPEA 43

Conversei com o Antonio Sapateiro, sobre o suicido do senhor Um senhor bebía cerveja pedi um pouquinho — Ele deu-me cheguei
Esm ad. Ele disse que as pessoas que bebem (...) na favela esquentei comida, e dei para os filhos. Antes cheirei e
proveí para ver se r i o estava azeda.
3 de Novembro de 1956 Reli alguns versos para por os acáteo s. Depóte fiz o embrulho.
Déixei o leito as 5 horas. Acendi o fôgo e fui comprar pão e Eu e o João, começamos cantar. Mandei o Jo sé Garios ir comprar
um c arretei de linha para eu c u s tu ra r o s cadernos porque
manteiga 0 senhor Eduardo estava nervoso porque o leiteiro
enfinilhei num pano.
esqueçeu de dêixar o tôite. Ele mandou-me ir perguntar a dona
0 carretei custou 6 cruzeiros pensei daqui uns dias êlc da um
Maria se tinha tôlte para envia-Io.
pulo para os 10,
Voltei ao empório e disse ao senhor Eduardo que não tinha
Dei banho nos filhos. E(e6 foram dêítar-se. E eu fui lavar as
Ele pesou os meus cadernos. Deu 7 quilos e 70 0 , Amanhã eu vou
louças, escovar os dentes
despachados para os Estados Unidos. Comprei 10 de café 6 de
e tomei banho. Depois fui escrever — senti cançeira e 6ono. Comí
pão e 10 de Claybon. Fiz cafe troquei os filhos eles foram a escola um pedaço de pão com mantéiga e fui deitar. Matei umas pulgas
e eu fui catar papel com a Vera. que estava circulando na cama e d&tei. E não ví mais nada
Fui na Dona Julita. Ela estava na missa. Quando ela chegou Dormi umas trêie horas seguida. Despertei com a voz do Juaquim
deu-me café, comida e pápete. paraíba, que estava redamando que arranjou uma namorada Mas
0 senhor João Pire6 estava gemendo. Fiquei nervosa porque não que não quer namorar no escuro. 6o lhe namora durante o dia,
suporto o exterior. E eu, não posso bani-lo. Sai da casa de Dona e a ttôite perto da luz.
Julita era 9 horas. Eu vou limpar a casa para ela perguntei ao Penso: êie não esta com boas intenções com a namorada.
senhor João se quer que eu engordo um porco para ele. Que ele Quem bom se todas môças ressolvessem namorar no claro.
pode mandar vir de Jau . Hoje eu não estou nervosa.
Disse-me que é muito trabalho. Respondí que não acho nada [Encontrei um homem conhecido. Um loiro que vendia ferro no
difícil. Ganhei papel na Rua Eduardo Chaves Naquela casa que palvadôr Disse que eu sou nervosa
conçerta vitrolas (Respondí que estou cançada de ta n to trabalhar. Dia. e noite.
perguntei a dona da casa por onde anda o seu espóso?
Respondeu-me: 4 de Novembro de 1956

— Ele é muito bom. J a faz dias que saiu. e não me disse onde Dêixei o leito a s 5 horas e fui carregar agua. 0 Adalberto passou
cambaleando e falando sósinho. pensei: bebe ta n to que nem
ia. Eu não vou atraz. Não estou com saudades. Se ¿le não voltar
dormindo o efeito do alcol dissipa. Depôis fui comprar pão fiz café
é um favôr que me faz.
e fornos c a ta r papeI.
Dei uma risada pensando no dilema das esposas,
0 Jornal dizia que não ia te r aula poriseo não enviei os filhos,
perguntou-me se sou casada
passei na Cruz Azul para reçeber. Recibí 325.
— Não sou casada. E não tenho inveja de quem casou-se
E ganhei 6 5 . Fui na D. Ju lita Ela estava em 5a nto Andre 0
para arranjar dinheiro e despachar, os cadernos. Ajuntei 3 6 0 Idvardo deu 5 .0 para o Jo s é Carlos. Uma senhora que esta
latas de oleo e 6 0 , de cêra com tampa. tomando conta de una fabrica na Avenida do Estado deu-me
— Ele disse: ótimo. papéis. Comprei sanduiche para os filhos. Quando cheguei em
N O QUARTO DE DESPEJO 45
MEU ESTRANHO DtÁRiO
44

ca&a era 11 horas. Ví o ônibus que Ievavam as crianças na Coca na cama. Ela ficou quieta porque já havia apanhado. Dormi das
Cela. Os meus não iam por não te r sapatos. 4 as 6 . 0 José Ca rios entrou, mandei êle por fogo no fêijlo, só
Cheguel em ca9a apressad a. Comprei alface a rro z e queijo porque eu lhe chlnguei de ordinario e vagabundo, êle não acendeu
preparei-me para ir despachar o livro — Fui Cheguei no Corrêlo o fogo. Acho os meus filhos intoleráveis porque s3o preguiçosos.
tive que desfazer o embrulho porque o correio não condus carga Era 6 e meia quando o João apareçeu. Mandei êie açender o fogo.
embrulhada, 0 vendedor dc sêlo ensinou-me como é que se faz Depois dei-lhe uma surra com uma vara e uma corrêla. E ra6guei-lhe
um embrulho. Os cadernos tem que ficar visitei. os gibi6 desgraçados, tipo dc lêitura que eu detesto

Eu fuí numa livraria desfazer o embrulho, comprei 1 fôlha de papel I F iz a J a n ta e d e M h e . Q u a n d o eu fico z a n g a d a êles não
com pauta para escrever o endereço Foi no corrêlo o dinheiro não : respondem-me. J a percebí que cort6igo ser obdecida so com
deu para despachar o livro, falta 100,00. Fuí no juizado para ver '•pressão. 0 José Carlos entrou e perguntou-me ss êle ia apanhar.
se o pae da Vera havia levado o dinheiro. Não levou. Fiquel Hoje não. Amanhã cedo. Agora eu estou muito cançada.
nervêsa. Hoje circulou um buato que a Ligth vae c o rta r a luz. e vão cortar
Quando eu voltava parei numa banca de Jorfiae6. VI um homem a agua para acabar com a favela.
chingando os poiidaes de burros. Que êles prsvaleçem. A s mulheres da favela são falastronas.
No clichê, um policial expancava um velho. 0 Jornal dizia que era
uni policial do Pop o. 5 de Novembro de 1S6Ô
Ressolvi tom ar o bonde e vir para casa. psguei so o retêrno, Dêixei o lêito a s 5 horas e fui carregar agua. Fiz café e fui
porque quando eu ful para a cidade um senhor multo agradavel comprar pão. puis agua esquentar para d a r um banho geral nos
pagou a viagem para mim. No ônibus ia a sogra do senhor filhos. Eu não sei como é que êles conseguem por te rra na
Eduardo, pensei, sentar-m e perto dela porque ela é agradavel. cabeça. Eles foram a escola. E eu sai sosinha. Não levei a Vera
Depêle ressofd sentar perto do homem. Fomos falando do dr. porque ela esta resfriada.
A dhem ar. Unico nome que esta em evidência por causa do Sai depressa passei no emporio e di6se para o Senhor Eduardo:
aumento das conduçães. — A sua sogra disse-me que o senhor é um santo. Então faça
0 homem disse-me que os nossos políticos são carnavalescos. um milagre, para eu arranjar os cem cruzeiros.
Eu acho que o dr. Adhem ar e6ta revoltado. E ressolveu ser Ele disse-me para eu pensar so nêle que eu ia conseguir. Circulei
enérgico com o povo para demostrar que ele tem força para nos varias ruas Fui na Dona Julita para saber se o senhor João Pires
castigar. Os Espíritos superiores, não vingam. 0 rei d as políticas, estava mdhor. Tomei cafe e a Dona Julita disse-me que tinha
foi o dr. Aleram Lurcasil Caucáría um pleito com serenidade se comida pedi para ela guardar, que eu ia na cidade despachar o
perdia, não revoltava. S e ganhava não procurava jatanciar-se, livro para os Estados Unidos e na volta, eu passava por Ia para
para não provocar inveja. Falei com o homem que ia escrever uma trazer a comida.
carta para o dr. Adhemar. Que as minhas cartas lhe acalma os Passei no Satape. Tinha muito papelão. Levei para o deposito
nervos. pesaram e o Julio pa$ou-me. Deu-me o dinheiro e eu contei 105.
Chegue! em casa campada e com dôr no corpo. Encontrei a Vera Fiquei contente e voltei pra casa. Cheguei em casa as 11 horas,
na rua. 0 bendito João. o meu filho manequim» não presta pra nada. preparei uma salada de to m a te e agrião que o senhor Luiz
0 barraco estava aberto, e os sapatos espalhados pelo assoalho. deu-me. E^aueatei a comida Estava com t a nta fome, mas eu não
Ele não pôis fogo no fáijão. Acendí o fêgo e fui dâitar. puis a Vera comi para deixar para os filho6. Que suplicio. E s ta r comTõme ver;
46 M£U ESTRANHO DIÁRIO ; N O QUARTO DE DESPEJO 47

a^coaúda-e-aão-poder ccrafir^.rrXbin^yei.cf. p tiliç ií^ , A gente já Convite raro porque a maioria foge de mim, ou ocultam-se orando
passa canta fome, a éles ainda quer aumentar os prâços dos „•> me vê!
poneros, troqueí para sair. (3uando eu ia saíido trve aviso que a Quando uma pessoa foge de mim, eu passo a tra tá -la s com
Vera ia cortar o pé para eu calçar-lhe. pensei: eu estou com friêsa. Vinha pelas ruas cata n d o os pedaços de ferro que
pressa e volto já . Depois eu calço-lhe a s sandalias. Peguel os encontrava. Passei na Dona Julíta c pedi comida. Ela esquentou
cadernos e um litro, e sai passei no emporio e vendí o litro para comida para mim t a sua filha Dona Theresinha estava Ia. Ela é
o senhor Eduardo por 3 cru para pagar o oníbus. muito agradavel disse-me que esta triste porque o seu pai esta
Quando chegueí no ponto do ônibus encontrei com o Toninho da doente
Dona Adelaide Ele trabalha na Livraria saraiva. Disse-lhe pdis é E que o seu pai é muito bom.
Toninho: os editores do Brasil não imprime o que escrevo porque Contei-lhe que o senhor João Pires quando me vê catando papel
sou pobre e não tenho dinheiro para lhes pagar porisso eu vou vem falar comigo.
enviar o meu livro para os Estados Unidos.
E se esta de carro, para o carro para cumprimentar-me.
Ele deu-me varios-endereços das Editoras que eu devia procurar.
Que eu quando via o senhor João, ocultava. PepSls que percebí
— Ele pagou o ônibus para mím. Fiquei contente! E pedi a Deus
que ále não evitava-me passei a ir procura-lo para saudar-lhe.
que ajudasse o Toninho a ser feliz.
A D<?rtõ> Julrto deu me sepa, café, c pão p&ra a » crianças. Eu
Cheguei no Corrêio pesaram os cadernos. 40 6. pensei: Nem aqui,
comí Ia na D. Julíta.
não há tabela. Hontem era\M 2 . pensei na Ordem e progresso que
Era tréis horas. Fiquei indispôs 06 moveis giravam ao meu redor
ostenta a nossa Bandeira mas-que não predomina.
É que o meu organismo não esta habituado oom as comida
Recebí os selos. Colei no papel que embrulhava os cadernos Foi
reconfortantes Quando eu passar perto do Frigorífico Incapre
ta n to s sê los que os cadernos ficaram fantasiados. Fui no
Uma senhora chamou-me, e deu me uns papéis de cimento,
guíchet. Registradas aereas Quem atendeu-me foi A . Gambinl.
passei no emporio e comprei 1 pão. Quando cheguei na favela a
Ficha 44 .2 9 0 , o numero do despacho Ô37.936.
Vera havia cortado o pé.
Fiquei pensando na coincidência do 9 3 6 na ninha vida. Porque o
meu registro geral ér. 6 4 5 .9 3 6 . 0 senhor Gambinl, disse-me para 0 João assim que viu-me foi dando-me a noticia Respondí que já
eu apareçer no correio. sabia. Que eu havia recebido o aviso.

Dísse-lhe: que assim que eu reçeber cartas dos Estados Unidos Ela estava dormindo. Olhei o corte. Era enorme. Ressolvi ir na

dizendo-me se reçeberam o livro que irei avfeá-loe. Ele disse-me farmacia. O farmacéutico não quiz fazer o curativo.
volta antes Fiquei contente: Disee-toe que ia enviar cs originaos para Levei ela, na Central.
•'•s: is ts d o s - Unidos, porque os editores do Brasil não auxilia os Fizeram o curativo e deu-lhe ingeção contra o teto.
v esorv^^p?>b re s. Que a Cultura dos editores do Brasil esta no Fiquei na Central 1 hora e meia.
ersbdãç/íTvfeis um embrião que não dessinvoive-se. Um embrião A enfermeira de 2 cruzeiros para a Vera. Na Central estava um
atrofiado." preto que começou queixar-se da esposa. Que ia eeparar-se por
Ele sorriu. Dei a reportagem do Audalio para êle ler. incompatibilidade. Perguntel-lhe se quando eram norvos se iam de
Despedi, e sai do correio para não ga sta r dhheiro na condução, acordo. Respondeu-me que sim.
vfm a pé p e n s a n d o na a m a b ilid a d e dc s e n h o r G am b in i Ele quáíxou-se que o que ele ganha não da para ele viver, pensei:
convidar.do-me para Voltar! Um operário, mal remunerado não acha prazer na vida. Fica
N O QUARTO DE DESPEX) 49
48 MEU ESTRANHO OTÁRIO

neurótico e dissofve o lar. 0 cueto de vida e um concorrente para macarrão 20. hoje, paguei 24 daqui uns dias ále da um pulo para
os 30.
dessolver os lares.
0 meu lar não deôôob/e porque eu não tenho homem. Os preços atualmente estão dando saltos tripliçe, Comprei 12 de
carne moida, não enenía uma xícara. Quando cheguei em casa o
Perguntei aó Preto se ele tinha filho.
senhor Manoel ja havia partido.
— N3o.
Não jáêixou umçentavp para mim que vale que eu nãó espero pelo
'" ^ f c l a trabalha?
horncnu-Não tolero o homem gue quer agassalhar-sc ná sombra
— Trabalha.
da muIfTeñ^preparéi'ír'Sápa para os filhosTfcles durmirãm- antes
pensei: áles não tem filhos. E ainda quáixam-se. Ele c indolente. da s6pa cosinhar.
E frágil. Baqueiou-se no inicio da 'Ada. Pene faz bem, não dar
Quando ficou pronta despertei-lhes para comêr. Ja n ta m o s e
filhos para os homens preguiçosos.
dormímos. Eu sonhei com a Dona Julita. Que ela havia dito-me
Os enfermaros da Central perguntaram-me ee ainda escrevo. para eu ir trabalhar para ela que ela pagava-me 4 mil cruzeiros
Respondí que sim. por mês, para eu 6âír e fazer as compras que o senhor João
0 enfermálro disse-me que me conheçe. E que eu não sou Pires não queria que ela pegasse no dinheiro e fizesse comida
priguiçosa — gostei do elogia, pensei: estou fora da moda porque para ále. — Disse-lhe, que eu ia internar os filho6. E levava so a
a© ma lin gu a l dizem, que o poeta é proguiçôao. Vera. — Despertei.
Um enfermêíro que estava com a r perguntou-me seu eu sabia Não adormecí mais.
benzer. Começei sentir fome. E quem esta com fome, não dorme.
— Respondí que não. Que a Dona Alcelia benze pelo nome. Quando Jesus disse para a6 mulheres de Jeruealem:
Ele deu-em o nome dále escrito para eia benzer-lhe: Adonis — Não c h o re s por m im . C ho ree p o r v o s . s u á s p a la v ra s
Assunção da Selva profetteava o governo do senhor Juecelino — período Jr. agfurss
Quando o medico examinou a ingeção que a Vera tom ou e para o povo brasileiro Periodo que o pobre ha de -comêr -ó *qúé~
disse-me que eu podia vir para casa fiquei contente. encontra no lixo ou então dormir com fome. Jesus, profetÍ6ava
A Vera despediu-se do médico e fomos para o Largo S ão Bento esse governo fraco raquítico. Esta luz sem combustível que seu
tom ar o ônibus. Quando cheguei na favela era 6 horas. fim será extinguír-se.
Encontrei o Jose Carlos no ponto do bonde. Disse-lhe para ir-se — Você ja viu um cão, quando quer segurar a cauda com a bôca
embora para casa. Ele viu-me no ônibus e saiu correndo. Cheguei e fica rodando sem conseguir pega-la?
em casa o João velo dizer-m e que o senhor Manoel estava — E igual o governo co Juscellno.
esperando-mc.
Começou interrogar-me. Quer saber se eu vou vender o livro se 6 de Novembro de 19£<9
vou comprar casa. Deixei o leito as 4 horas para escrever. Quando aurora surgiu eu
porque e que os jornalistas não dá a casa — Nôjo que eu tenho fui carregar agua. Fiz cafe e fui comprar pao. O emporio estava
dos purtuguás porque são Interesselros. São como os gatos que fechado. O Julio estava Ia com a pirua e os pães para entregar
ao senhor Eduardo.
gostam de almofadas de viludo perguntei ao João quanto deu os
metaes que ele foi vender 4 0 . peguei o dinheiro e fui comprar Aseim que ále abriu a porta penetrei. Comprei 12 de pão e vlm
macarrão para sopa. Não faz 15 dias, eu pague! por 1 quilo de trocar os filhos para Ir a escola.
MEU ESTRANHO DIÁRIO NO QUARTO DE DESFIJO 51
50

Lavei as panelas varrí o barraco e saí com a Vera. Fui trabalhar i Quando eu frequentava escola as professoras e os diretores
na Pona Julita. Fui catando as latas e ferros que ia encontran¿lo. eram tolerantes. Mão suspendia os atunos Plscipllnava os alunos
passei no matadouro avícola para encomendar 2 quilos de penas por sugestões
para eu fazer uma fantasia sensacional. 0 José Carlos, fica tr¡6te o dia que perde aula porque ¿le quer
Quando cheguei na Pona Julíta era ô 1/2. Ela ¿leu-me cafe. a p re n d e r. J a a p re s e n to a lg u n s p ro g e to s . Plz que quer
Os tapetes Ja estavam no sol. •diplomar-se. Quer saber tudo que relaciona com a cultura.

 Vera foi conversar com o senhor Joã o Pires. E eu comecei


limpar a casa. A Vera começou dizer que gostava de reseidir 7 de Novembro
numa casa igual a de Dona Julita Não dormi: A Vera comecou tu ss lr eu levantei e fui pidir um
Ela fez o almoço. E eu almoçeí melhorai para a Dona Maria preta.
A Vera comia e dizia: Ela deu-m e 1 Cibalena. Fíquei com medo de d a r para a Vera
~~ Que comida gostoeal Porque ela tomou ingeçio na Central O senhor J o i o Pires
disse-me que nestes 2 ano© ela não pode machucar-se porque
A comida da dona Julita me deixa tonta. Fico indisposta. Ela e
neste período a ingeçio é inapricavel. ¿iquel pensando na ví¿ia
agradavel. Pe cinco em cinco minuto mandava cu comêr. Fez
^horrorosa dojpovo d o ftrasil, E eujtam bem estôü no mdõ~d5gEõ~
mingau com lêite, maizena e ovos para o senhor João e deu-me
um pouco.
Peixei o l¿¡to e fui ca-regar agua era 5 1/2. Acendi o fôgo e não
Findo o cerviço ela deu-me comida, sabão, e cutras coisas queijo,
fui comprar pão porque não tinha dinheiro. Fiz mingau de fubá e
gordura e arroz.
pedi aos filhos 6e faziam o favôr de comer. Concordaram A Vera
Aquele arroz agulha. O arroz das pessóas de posse.
não quiz. Eu fui pidir o carrinho da Rosa lina emprestado para eu
Quando chegue! em casa os filhos não estavam. Mão comeram a
levar uns ferros no ¿tepesito. Ela disse que havia emprestado o
comida que eu Páixei para ¿les. Era sopa. Fervi a sopa não estava
carrinho. Que quando o homem retornasse do mercado eu podia
azáda deí para os filhos.
usa-lo. Prepare i o Joso para ir na escola e fui buscar o carrinho.
0 José Carlos chegou. Entregou-me uma carta do diretor. Esperei o homem dessocupa-to. Fui vender os ferros. Levei a Vera,
— Eis os termos da carta: e o José Carlos.
São paulo, 6 de Novembro de 195Ô. Quando eu ia chegandc perto da padaria Guine, tinha uma mulher
Pona Carolina lavando a calçada e chingando o dr. Adhemar.
Cumunico-lhe que o seu filho José Carlos apesar do aviso por mim — Quem devia morar nesta rua chêia de pó, é o Prefèito.
feito a senhora datado do dia 15 de Setembro, pouca melhora A única coisa que ¿le quer, c o nosso dinheiro. Ele podia mandar
tem apresentado. Pesta feita se insurgiu contra a profeeeôra em molhar a rua. Eu canso de limpar o pó, e a casa esta sempre
classe numa demo&tração clara de indisciplina. Assim sendo fica suja — pensei no Circulo Vicioso se chove, e tem lama, o prefeito
êie suspenso ¿las aulas nos dias 7, ò , e 9 do corrente não presta porque n2o calça a s ruas. 5e faz sol e tem pó, o
Esperando que nada se repita de anormal e ciente da bôa Prefeito não presta porque não molha as ruas. Quando será que
orientação que a senhora dará o povo vae compreender que quando chove tem lama. E orando
— Fico-lhe agradecido. Ciente tem sol tem pó. A carreira política é espinhosa 0 senhor Manoel
Arlindo Caetano Filho. pesou os ferros ganhri 70. Comprei pao, e média para os filhos.
52 MEU ESTRANHO D3ÁRSO N O QUARTO DE DESPEJO 53

Dôiô sabcíes 9 cruzeiros cada um. Fiquei horrorieada! 1 sabão 9 Agóra eu revoltei:
cruzeiros — Desse gáíto o povo já e candidato a andar sujo Foi E ¿iessocupa o que é meu!
so o Adhem ar pláitear aumento, tu d o autrentou-ee se o dr. Todas propriedades municipaes esta sendo dessooupada.
Adhemar conseguir vençer o povo e o aumento das conduções 0 povo da favela esta com a pulga atrás da orâlha.
vigorar, aí é que a s coisas vae piorar para o nosso lado.
Eu fui vender uns papéis de cimento. Levei o Jo ã o para ele
0 dr. Adhemar não é atingido porque não usa coletivo. aprender onde é o deposito ganhei 21. Quando cheguei em casa
— Usa coletivo só para inaugara. sentei para descançar 0 barracão esta em dessordem 0 6enhor
E na injustiça aumentar a única condução dc pobre. Manoel chegou.
0 povo enaltecia t a n to , a s qualidades filantrópicas do dr. Conversei com ále sobre a vida que pretendo levar que é trabalhar
Adhemar e dizia: — o dr. Adhemar... — é um santo. A té a minha o menos possível
filha Vera Euníçe dizia: que ále é santo. Ouvi varias peseôas dizer Mandei o João comprar cafe e Claybon Varrí o quarto e arrumei
que o dr. Adhemar ia ou vae para o céu de corpo e alma as camas. Lavei a s louças e fui buscar uma lata com agua Falei
— •Atualmente ouço o povo dizer que ále vae para o inferno. Que com um nortista que é meu visinho que o dr. Adhem ar esta
ále é o secretario do diabo. — 0 povo diz: que o dr. Adhemar não mandando dessocupar todas propriedades municipaes. Que estou
presta. pensando se ále vae acabar com a favela Ele disse-me que ouviu
— Que a dono Loonor ó bâa. dizer que nós ¡amos á para o rremembé.
E n tã o vamos a d o ta r o velho proverbio: po‘ causa do santo — Respondí que o po/o de lá não nos quer — Creio que podemos
báija-se as pedras. cantar:
Eu ful a traz do Jo s é Carlos que estava demorando. Eu mandei — A favela do Canlndé
ále comprar carne. Quando eu passava perto do emporio vi os Vae lá para o Tremembé
camlnhães Municipaes que estavam fazendo as mudanças das Mas o povo de la
propriedades Municipaes. Estão chingando o dr. Adhemar — mas, Não nos quer
já faz 4 anos que É e s não pagam aluguel.
Hoje eu não sai para ca ta r papel Estou muito car f illK
Eram para dizer: Obrigado Frefêrtura. dia por aqui. A Dona Francisca Ríes disse: que eetoü~engórdanfâ'.
«y Mas, na6çe mais, malagradecido do que queir sabe agradeçer Fiquei horrorisada otvindo isto Comendo tã o mal. Como é que
m A s hervas daninhas, são muítipiicavels. 0 dono da fabrica de estou engordando, será que a r também engorda?
docês Neusa olhava as mulheres brigando com as fiscaes, e Do gáito que os práços estão aumentando, temos que ir, nos
sorria habituando alimentar-nos com as brisas Um homem que veio
Eu disse-lhe: agora com o Adhemar, entra vigôri ressWir na favela váio quáixar-me que o José Carlos havia jogado
— Dessocupa o que é meul pedra no seu barracão, e que a sua esposa esta de dieta e que
0 Jo s é Carlos demorou porque foi a té a escola. Ele esta tão poderá recair-se.
triste porque o diretor suspendeu-ihe ástes treis dias: percibí que — Disse-lhe que parto não é doença grave. Que as ciganas tem
ále tem am ôr a escola. Eis aqui uma quadrinha para o d r. j filhas e máia hora depois vão esquiar-se
Adhemar fazer na batucada: — isto é a s ciganas. Respondeu-me
— Candidatei: — Não! Não é s o as ciganas que tem filhos e arrastam a cavalo...
E o povo não me elegeu. eu tive a Vera num dia, e levantei no outro, porque preciso

e
54 MEU ESTRANHO DIÃRJO N O QUARTO DE DESPETO 55

trabalhar. A s norte-americanas logo dep&s do parto trabalham Quando eu estava na Avenida Cruzeiro do 5ul parei para catar
porque a vida lá, é dura! Mae a tua mulher ê muito preguiçosa uns papelões que haviam jogado perto da linha do com boy.
Ha de começar gerei para o senhor embalar-he Surgiu um guarda da prefêitura e com ecam os falar do dr.
— Ele começou a rir. A d h e m a r Ele disse -m e que o d r. A d h e m a r e s ta adindo
Ele é quem carrega água. Acende o fõgo e faz o café. e põe o açertadamente mandando dcseocupar as propiedades municipaes.
fáijão no fogo. Agora que nasceu o filho ¿le e que terá que lavar Que os inquilinos sãoantiguissimos, e pagam multo pouco e ainda
as roupas da criança se quizer ver o filho limpo se sua mulher sobre-aluga e que a êi do inquilinato proibe isto. Que a s rendas
soubesse como é horrível ficar dizendo a todos instantes, eu... das propiedades muricipaee não beneficia a prefeitura em nada.
D isse-m e que adim rou-m ef porque eu trabalho. E que aos
se é doente deve tra ta r-se. sacados êle vê as mulheres da favela na porta do Frigorífico e
. é 'ftiüftp mais; bonito ver uma mulher disposta do que ver uma nunca me viu lá.
letárgica igual a ta rta ru g a . — Eu n‘á o gosto d a s mulheres Que filhos, elas podem ter, e arranjam tempo para arranjar os
preguiçosas. filhos: — M as tra b a lh a r... não podem. Ele acha que deve
Hoje 2 4 de julho, estou, reiniciando a escrever o meu Diário, créío extingulr-se a s favelas. Que a favela e o ninho dos malandros.
que, não poderei viver sem escrever porque c s dramas, continuam Falou-me que tem dôs filhos e~ ^ Je 'e s ta c õ h í^ te lzn m ls i espora
acontecer enquanto vivemos e não existe (...) Fui até o deposito Recibí 15. subi a Avenida Tiradentes e achei
100, pensei: em vez de d ois zeros, devia ser 3 . M as fiqueí
ô de novembro de 195Ô contente. Fui na Dona Juiita pegar o papel. Ela estava fazendo
Deixei o láito as 4 e mêia e fui carregar agua porque preciso sair tricot, perguntei ao senhor João se eie estava melhor.
mais cêdo para r¡tirar as papéis das casas. Hontem eu não sai — Disse que sim. E que e s ta dormindo. Falei-lhe que o dr.
porque estava cançada. Adhemar esta desapropiando a s propiedades municipaes. Que
Fiz café e mandei o o Joã o com prar 3 de pão. Ele comeu tudo ha o s que prevalecem sobre-alugando uma parte. Que tem
sosinho. Não despertei o José Carlos. Ele ficou na rua a te as pessôas que ressidem a 2 0 anos nas propiedades municipaes, e
10 horas. Eu ja estava dormindo quando ele começou bater que faz 5 anos que rão pagam aluguel.
batucada no barraco. Que os Ingratos estão chingando o dr. Adhemar. Que era para
Eu não gosto que níngucm4sspert&-jrie. Eu faço o primeiro sono, eles agradecer a prefeitura e ao prefeito o tempo que ressidiram
se desperto-me começc(jpensar poesias Levantei abri a porta. Ele sem pagar.
não quíz entrar dizendo que eúJa 1?ãter-lhe para eu bater no Jose Mas que o mundo tsm mais mal-agradecido do que quem sabe
Carlos e a coisa mais difícil que há. ag radcçcr:
Quando eu pego a correia è\e começa chorar, eu fico sem ação. — Ele concordou c dsee: que nem Cristo foi agradecido.
hontem eu não levei em consideração suas lagrimas e dei-lhe & Disse para a Dona Juiita que havia achado 10 0 , cruzeiros.
correadas. Isto foi hontem a nôite — Ela disse-me: Voei trabalhaou para mim. Eu vou d a r-ts 100,
.Eu sei que as mães arrepende-se quando expanca o filho. Mas... Da-m e éste 100, e leva 2 0 0 ,0 0
}é preciso. 0 João foi na escola e eu sai com a Vera. Ela passou — Não açoitei. Di&se-the que hoje e o dia que eu ganho mais
' rio Frigorífico Incapre para ptdl a salchicha. Eu fui catando papel. dinheiro que o dia que eu precisar pedia-lhe
56 VIEU ESTRANHO DIARIO N O QUARTO OE DESPEJO 57

Ela concordou-oc. Eu não vou receber dinheiro da I?. Juíita porque Mas, compreendo que o pebre não pode descançar. W a mulher
o senhor Joã o cata doente. E á!es tem me favorecido muito. Ela d o Policarpo. A faladeira. A língua que tem a s ondas arte¿ana6.
f-
deu-me com ida, café e pape¡6. passei no senhor Rodolfo falei-lhe Ela b a te u-m e a porta no ro s to eu comecei chingar-lhe de
que havia despachado o livro para os Estados Unidos e que prlguiçosa. Que ela prefere passar fome do que trabalhar. E
estava aguardando a resposta. Que ále está engordando. 0 papel horrível discutir com o lêigo. Eu sal com o carrinho. Chingando a
era muito levei de 2 vázes Depois fui na sapata ria conversei com fáiura do policarpo. Que disse-m e que os filhos dela &Ào do
o senhor Sebastião sobre os aumentos e o cu6to de vida Ele mesmo pae — E mentiral
disse-me que esta doente Com a pressão 7 devido trabalhar em — A dois anos, atras. Quando ela veio ressidlr na favela ela
exesso. Que pensa muito e dorme pouco. disse-me que eo a menina e que é filha do Policarpo.
com reçcio porque eu também penso muito& e — Ela deve te r esquecido o que disse-me. 0 primeiro filho dela,
; j-d u rm ? pouco- / se vê que é filho de franco a menina é fêla igual o tal policarpo
l'c ^ É ^ £ i| H è iL â h d a do pouco atinge o Brasil — come pouco dorme que tem nariz gaodez nariz de negro. Nariz de nada.
I pouco — Dupla que nos condos a sepultura. Levei o João, e o Joee Carlos . A Vera ficou porque o sol esta
Uma ôenhora que resside perto da casa do senhor Rodolfo deu muito quente.
um guarda-roupa e umas garrafas e uma geladeira para eu Qu ando cheguei para pegar o guarda-roupa uma jovem que
vender no ferro-velho. resside !a, auxiliou-me a descer o guarda-roupa e deu-m e 1
0 guarda-roupa é para retira-lo hoje, e a gelaoeíra e as garrafas colchão. E eu di66e-lhe:
e para retira-las amanhã. Deus que te dê saude e felicidade, porque bonito, o senhor ja é.
Depêis fui no satope. A Vera começou chorar. Pi6se-me que — Ele sorriu, percebi que devia dizer-lhe iôtol
estava cançada. Mandei ela sentar-se na porta da quitanda e Ele não conseguia trazar o guarda roupa no carrinho. 0 João ja
dei-lhe uma fatia de melancia que comprei para ela. Ela ficou estava começando a ficar nervoso — Di6se: maldita hora que eu
sentada e fui fazer compras no japonás. Comprei 1 quilo e meio vim buscar este guarda-roupa!
de feijão 2 de arroz 1 1/2 de açúcar 1 sabão. Mandei somar 100, 0 dono da loja de sapatos auxiliou-me a por o guarda-roupa no
cruzeiros o açúcar aumentou. carrinho. Caiu porque o carrinho deslísou-se.
A palavra da moda, agora, ¿ aumentoul Aumentoul Tinha uns homens ds Llght trabalhando, surgiu um deu-me 1
l6to me fa z relembrar esta quadrinha que o Roque fez e deu-me: c o rd a . Começei am arrar. Depois peguei o aram e. M as não
para eu Incluir no meu repertório poético e dizer que é minha, conseguia. 0 paulista para para ver tudo Começou afluir pessoas
Político, quando candidato para ver-me.
promete que da aumento 0 João fica nervoso com os olhares. Eu olhava os empregados
E o povo vê que de fato da Lig h t e pensava: no Brasil não tem homens! Se tivesse,
"Aumenta11 o seu sofrimento! agáitava isto aqui para mim Eu devia te r nascido
Fui no deposito pesar os papéis ganhei 40. fiquei com 100. Eu pu¡6 o colchão dentro do guarda-roupa, piorou!
Comprei guarapa para a Vera. Quartdo cheguei em casa era 1 Ligth olhava a minha luta. E eu pensava: para olharlêlésj;
hora. preparei a comida para os filhos e fui p’dir o carrinho da pensei: eu não vim ao mundo para esperar auxílio de quem quer |
Rcsallna emprestado para eu ir buscar o guarda-roupa. Estou que sája. Eu tenho vencido ta n ta s coisas 606inha hei de ve n ç e ry,
cançada. isto aqui! ''
58 MEU ESTRANHO DIÃRIO N O QUARTO OE DESPEJO 59

hei de ageltar este quarda roupa. Não csCava pensando nos gosto dos homens que pregam pregos conçertam algo em casa.
homens da Light. — Eu estava 6uando e sentia o odor do suor Mas, quando eu esto» deitada com êle, acho que êíe me s e r v q j ^
Assustei quando ouvi uma voz masculina ao meu ouvido Ele dísse-me que vae me da r mais dinheiro! Quem sabe se vou
— Dêixa! Que eu agêito para a 6enhora! pense!: te r sorte com êle. Pode ser que a felicidade fez a s pazes comigo.
— Agora... vae! Olhei o homem e achei á!e bonito! Ele retirou o Eu estava cançada. Dei banho nos filhos. Fiz arroz dock, e puis
colchão de dentro do guarda roupa e pô¡s no carrinho agua esquentar para eu tom ar banho, pensei nas palavras da
Depêis pois o guarda-roupa por cima para não escorregar pegou mulher do Foíicarpo oye disse que quando passa perto de mim
a corda e amarrou. 0 João ficou contente e disse: G raças ao que eu estou fedendo bacalhau.
homemi Agora o guarda-roupa — vae! — Disse-lhe: que eu trabalho muito, que havia carregado mais de j i1
Findo o trabalho lhe agradecí e toquei o caminho. E menos de 1 cem quilos de papel e esta'fazendo calor. E o corpo humano não 11
hora eu cheguei na favela. presta. Que quem trabalha como eu tem que feder gambá, l-.
Fui fazer comprae. Comprei meio litro de oleo, carne sêca. pão e jarototaca e bacalhau porque transpiro.
banha somou: 10 0 ,0 0 . pensei: hoje é o dia do 100,00. Disse para Se eu passasse o dia andando nas filaõ eu não transpirava Ela
o senhor Eduardo que terça -feira hei de paga-lo o 170 que ¿ branca,-g ninguém lhe quer Tomei banho e dêitei.
devo-lhe. Cheguei em casa preparei a refêição para os filhos.
Eu comprei 4 ovos. fritei 2. Cosinhei 1 para o José Carlos porque y de Novembro de 1S5&
, êle não pode comer ovos fritos. Deixei o leito as 4 horas e fui carregar agua para lavar a s roupas.
// Eu estava chingando o senhor Manoel quando êle chegou. Não comprei pão. Fiz café. Ensaboei as roupas. Os filhos comeram
" — Deu-me bôa nêite! arroz-dock. Pedi o carrinho da Rosaíina emprestado e fui na
Disse-lhe: eu e6tava te chingando o senhor ouviu? Avenida Tiradentes bjacar a geladeira e as garrafas que uma
senhora nortista deu-me. Levei o Jo6é Carlos e a Vera. Eu não
Izendo aos meus filhos que eu dosecava ser preta, queria levar a Vera porque não encontrava a sua sandália e ela
o é preta? queria caiçada com tamanco e ela não sobe andar com tamanco
— Eu sou! Quando cheguei na Rja Pedro Vicente fui na quitanda comprar
Mas eu queria ser de stas negras cecandáceae para bater e alfaçc. 2 pesinhos peouenos. 4 cada um. J a não fico horrorisada
rasgar tuas roupas. com a calamidade que implantou-se no Brasil.
Mas, quando vou praticar um a to assim, surge o senso. Cheguei na ca6a da nortista. E aquela que resside perto do
0 senso surge porque eu não bebo. porque quem bebe não pensa senhor Rodolfo. Toqusi a campanhinha duas vêzes. Ela surgiu e
com darêsa. m andou-m e e n tra r. 5ubi os degraus d e p re s s a s O s filhos
Contei-lhe o que fiz durante o dia. Ele não fala. Mas aprecia que acompanhou-me. Ela ajudou-me a carregar a geladeira. Disse-me
gosta de falar. que não podia fazer força porque tem o braço quebrado.
Perguntei-lhe se tinha filhos.
Quando êle passa uns dias sem vir aqui, eu fico-lhe chingando.
Falo quando êle chegar eu quero expancar-llse e lhe jogar agua. — 2. Um morreu. E o outro casou-se.
Quando ele chega eu fico sem ação — De que morreu o outro?
Ele disse — que quer casar-se comigo. Olho, « penso: este homem — Suicidou-se
não serve para mim. pareçe um ator que vae entrar em cena. Eu — Oh! Então a senhora ja esta morta.
N O QUARTO D6 DESPEJO 61
60 MEU ESTRANHO DIÁRIO

— Faz o másmo efáito. Admirei a ordem da casa. Ela disse-me


I — se estoul Vivo, por viver! Mas ou ja pasee cada uma!
I A vida resservou para mim, so as coisas amargas. que sofreu muito quando trabalhou como doméstica. Que não
•1 tem saudades das tae& patroas.
|— porque foi que o teu filho suicidou-6s?
— Eu também digo o másmo! prefiro catar papel do que ser
— Mulher!
doméstica porque nunca os patrãos estão contentes.
Mas ále foi louco! Quando uma mulher não quer um homem e!e
A mulher faz sabão em casa. ela perguntou-me se eu queria
consegue outra. Depois, ele devia pensar na senhora. M as 06
comprar um fogão a querosene.
filhos quando pensam em praticar um a to desses, não pensam
no sofrimento que vae proporcionar as mães. - Quem s ou cuj
i E a mulher casou-se com outro? E encerrei o assunto.
— Não. Ela é minha prima. Carregue! as garrafas e puis no carrinho. Desepedi dela
É da Bahia. E s ta solteira, tendo filho de um, e de outro. Eu disse para o José Carlos que ela é nortista.
Eu sofri com o meu e6pôso e com a minha sogra. J a faz 2 4 anos — âle olhou-a tongamente e disse:
que o meu esposo dessapareçeu. Eu estava grávido do filho mais — Ela, é mansinha!
novo. Nem eu, e nem ele sabíamos que eu estava gravida. Ela sorriu. Travei a gdadeira e vim para casa. 0 senhor Rodolfo
0 juiz obrigou-lhe a dêtxar-me porque ele expancava-me demais comprimentou-me:
— Com quantos anos a senhora casou-se? Fiqueí contente. Isto prova que ále não esta mal comigo.
— Com 13. Ele deixou-me com 19 anos. Naquále tempo eu era Chegueí na favela canjada.
idiota se eu fôsse sabida como sou hoje!... Ele ia ver! Fiz a salada e a sopa para os filhos. Depois fui desmontar a
As autoridades interferiram porque eu era menor. geladeira pretendia lavar as roupas mas fiiquei cançada. passei a
>— Quantos anos tinha o seu filho que suicidou-se? tarde escrevendo. — Ninguém aborreçeu-me.
jj — 22. E eu fiz o mais novo casar-se com a más ma idade. Quando eu fui buscar a geladeira a encontrei la o Aldo. E a Vera
— Fez bem. Eu também vou fazer o meus filhos casar-se com convidou-lhe para vir aqui no nosso barracão. — Êle prometeu vir
[P e6ta idade porque quando tiver 4 0 anos já esta com os filhos e pobre, não go sta de receber visitas de ricos. Ele prometeu
' criados e não cançam muito. tra ze r um bôlo.
' — E a sua nora é bôa?
— E muito geniosa 10 de Novembro de 1953
— Chegou um senhor e começou conversar com ela. 0 jovem que Dáíxei o láito as 5 heras e fui carregar agua. Fiz café. Fiz uma
ajudou-me por o guarda roupa no caminho au>i!iou-me carregar a farofa de carne para os filhos porque o dinheiro não vae dar para
geladeira. comprar pão. Mandei o João comprar 4 de pão para ele levar de
Ela deu cafe com leite para os filhos. Encheu um vidro de leite e lanche. Os filhos foram a escola e eu sai com a Vera porque vou
deu-me. Deu pão para eu trazer. E eu respondí com o meu muito leva-la para fazer o cjrativo no pe e ver 6C ela pode tom ar uma
obrigado agudo. ingeção para cortar c resfriado.
0 senhor que chegou pidkHhe leite de magnesia para beber. Ela ■-<- Ela passou no Frigorífico Incapre e pidíu uma salchicha. Ganhou
disse que não tinha remédios para dôr de barriga perguntei-lhe 2 ficou contente. Eu fui catando papel. Fui na Dona Julita. Ela
se tinha erva-doçe? estava na fáira. 0 senhor João esta melhor Ela chegou da fêlra
— Tenho. e deu-me comida para eu trazer, passei na farmacia Nova Era e
62 MEU B IR A N H O DIÁRIO N O QUARTO DE DESPEJO 63

pidi ao senhor Imdotfo para fazer o curativo no pé da Vera. Ele faz 3 ano6 o^ue o 6eu esp&so diz que esta doente J a foi no
fez e deu umas capsulas para ela tom ar. Ela começou chorar com hospital, tirou chapa do estomago. A radiografia não revelou
rvêdo de tom ar ingeção. enfermieiade. O s médicos examinou-lhe, não achou enfermidade.
Ela começou a brigar com o senhor Lindclfo. Ele ¿leu-lhe 2 — Mas, ¿le diz que esta doente
cruzeiros. Ele disse-me para eu ir na sua casa. Na rua Maria E quando ástes homens dizem que estão doentes, n
Candida. Que a sua esposa e muito boazinha. Que ele tem 2 filhos eles restabeleccr-ees
pas6ei na papelaria C ity e conversei com a balconista. Ela Mas todos anos a esposa tem um filho. E tem que andar de um
disse-me que é ela e o seu irmão que sustentam a casa, e não lado para outro pidindo trabalhando e chorando. I
déixa faltar nada para os velhos. Que é o seu irmão que paga o
aluguel da casa. 11 de Novembro de \95ò
Que ále é muito bom. E muito bonito, prometeu-me apresenta-lo. Déixei o lêito a s 4 horas e começei escrever. A s 5 eu fui carregar
A Vera começou quêixar-se que estava cançaela. Eu vim para agua. Depois eu fui comprar pão açúcar, e mantéiga.
casa. Tive aviso para não sair.
Estava disposta preparei a refeição para os filhos e fui lavar Ressolvi fica r em casa. Ensaboei a s roupas brancas e fui
roupas Quem estava no rio era a Dorça e uma nortista que dizia escrever. Depois fui conversar com o senhor Luiz. Disse-lhe' que
que a sua nora estava cm trabalhos de parto. A tréis dias. E tive aviso para não sair de casa que eu não ia sair.
que não conseguía hospital. Que chamara a Radio patrulha para — ■ Ele disse-me que eu sou médio intuitiva. Que devo obedeçer
interna-la e ainda nao havia dado solução. A Velha dizia: São os avisos que reçêbo, Estou indisposta Quando cu fui carregar
Paulo não presta, se fôsse no Norte era so chamar uma mulher, agua perguntei a Dona Maria preta se a mulher que vae ter filho
e pronto. ainda estava na favela?
— M as a senhora não esta no Norte, precisa providenciar — Disse-me que ela foi para o hospital hontem a noite.
hospital para a mulher. A senhora esta em São paulo.
Que um soldado véío ver se ja tinha arranjado hospital para a
— 0 marido vende na fáíra mulher e o espôso disse que não. Que o soldado disse-lhe:
M as não quer ga star com a esposa porque quer Ir para o Norte — se a tua esposa morrer o Senhor vae preso.
e esta ajuntando dinheiro. — 0 n o r t is t a ficou com m édo e foi a r r a n ja r h o s p ita l e
Que homem nogento. Ver a esposa sofrendo e não condoer-se. assistência Quem sabe se e\e quer ficar viuvo e aproveitar a
A velha andava de um lado para outro. Disse: que a sua filha opurtunldade para dexa-la morrer.
voltou para o Norte que não gosta de São Pauto. E que não come Comprei peixe e fiz almoço, peixe ensopado arroz e fâjão e verdura.
as carnes daqui porque são congeladas e sem sabâr Eu vl um Comprei 5 de tomate. Almoçei. Deu-me sono fui deitar. Dormi das
nortista que estava bem aqui em São Paulo voltou para o Norte 12 até as 3 e meia. Depois levantei-me fui lavar as roupas.
gastou todo dinheiro e voltou novamente para São paulo. No rio encontrei con a Dona Celestina. Queixei-lhe que estou
Eu ajuele» a nortista lavar as roupas. E ela foi-se embora. cançada porque carrego muito pêso. Que ja faz duas semanas
A Dora veio lavar as roupas e a Darça perguntou-lhe se conhecia ■! que não lavo roupas Ela disse-me que enquanto os meninos não
parteira. trabalhar em a minha vida vae ser assim Ela deu 7 cruzeiros para
Di6se que não. E que o nortista quer tudo de graça. A Darça a Vera. Eu disse-lhe ^ue ia guardar para comprar p3o. A Dora
saiu, ficou a Dora. Olhei o seu ventre volumoso — pobre Dora! J a surgiu com roupas pára lavar. Começou quêixar-se que trabalha
64 MEU ESTRANHO DIÁRIO N O QUARTO DE DESPE» 65

e não reçebe. Ela lavando roupas e o seu esposo por não ter o E y .t e n h o j impressão que.a.vida.do brssile.irç,.¿.como_.uma_rçupa
que fazer estava pescando. que rompe-se, que n lo tom mais conserto, e a gente precisa dota.
0 esposo da Pona Pora tom o apelido de Coca-Cola. porque N a l i g S ã êu~ encontrei com a n o rtis ta que é cunhada da
trabalhou na fabrica. Theresinha que ia 6er mãe, e estava som recurso Disse-me que
Mão gosto de olhar o rosto daquele homem. Será que ele não vê a Thereea não queria ír para o hospital com mêdo de morrer. M as
os preços dos generos de primeira necessidade? a dor, domina. E as deminadas, não lutam, percebí que ela quer
Não compreende que seus & filhos precisa caçar, comèr envestir? proteger o espôso da Thereza que não quer gostar.
Esta s miniaturas de homens, não deviam casar-se. A Dora é bòa Deixei as camisas de escola quarar e vim preparar o atmôço. Hoje
caprichosa e honesta. Merecia um espése que gostasse do tem pouco pão. Eu >a vender uns ferros no senhor Manoel. A Pona
batente. Luiza pidiu-me para vender-lhe umas latas para eia tampar umas
goteiras Vendí por 20 , comprei 1 sabão c guardei o resto para
12 de Novembro de 1955 comprar pão amanhã. Lavei a s cadeiras. A Vera fica contente
Dêixei o lêito as 5 horas e fui carregar agua. Que fila! quando eu limpo o barracão. Eu tenho d<5 da minha filha que Ja
E so uma torneira. Depois fui comprar pão, e café tem pretensões. Quer ressidir numa alvenaria.
preparei os filhos para ir na escola. Eu ia sair mas estou tão A Peolinda contou para as mulheres da favela que o Lalau cagou
dessaninada! na cama. 0 Lalau é seu espôso. Que êle bebeu demaes. penso:
Lavei a s louças. V a rrí o barraco. A rru m e a s cam as, flquei que uma bòa esposa não divulga o que se passa com o esposo.
horrorisada com ta n ta s pulgas. Mas a Peolinda não rejebeu iducação. sua mestra foi a garrafa
Quando eu fui pegar agua contei para a Pona Angelina que eu de pinga. Os filhos retomaram-se e almoçaram. A Pona juana
havia sonhado que tinha comprado um terreno muito bonito. Mas sogra do Lalau passou correndo e êíe lhe perseguindo. Dizendo:
eu não queria ir ressidír íá porque era litoral. E eu tinha mêdo que o ano passado pagou 2 mil cruzeiros para o advogado. Que
>dos filhos cair no mar. Ela disse-me que so mesmo no sonho que éste ano ele vae para a grade. Vae para a penitenciaria, porque

)podemos co m p ra r te rre n o s. No sonho eu via os problemas


indinándose para o mar. Que quadro bonitol
A coisa mais linda é o sonho de poeta. Achei graça nas palavras
pretende enviar a Velha para a Vila formosa.
Ela gritava que queria fazer o almôço e não podia porque o Lalau
estava encavalado na Ccolinda. Ela atrapalhou o momento sexual
do Lalau. porisso é que êle estava Irado — E a família mais
de Pona Angelina que disse uma verdade. 0 xt/o brasileiro so ê
feliz quando esta durmindo. porque quando esta acordado pensa: escandalosa da favela.
Constantem ente, no pão de cada dia, que esta 6endo mais Eu soubre que o Franqusten da favela, o Vítor, custuma dar tiros
'pesado do que a cruz que Jesus Cristo carregou para o Calva río. para o a r pensei se apareçer alguém ferido êle vae sofrer.
Não puis fêijão no fôgo porque vamos comer o que sobrou de passei ã tarde remendando Fiz so fêijão e arroz. A Vera não quiz
hontem. Eu compra o arroz de 2 5 e cs filhes estão contentes comêr.
por estar comendo um arroz bom. Pêltei cedo porque estava com sono. Despertei porque a Vera
Atualmente na6 horas de refêiçcfes temos qus fazer continencia .despertou-se. Começel escrever. PepÔis fui catar pulgas. 0 sono
para a comida e tra ta -la de Magestade! Vossa senhoria, e vossa reapareçeu dormi até as 4 horas. Ouvi a s mulheres dizendo que
Exelência. Fui lavar roupas, pareçe que estou mais disposta: 0 o nortista não Socorria a mulher que ia dar a luz porque não
meu m al-estar é cansaço E eu penso dernace. queria a criança.
1

66 MEU ESTRANHO DIÁRIO í NO GÍJARTO D€ DESPEJO 67

13 de Novembro de 195Ô preparei a refeição para os filhos. Arrumei o barraco depois fui
Dâixel o \ê\to as 4 horas. Aeendi o fôgo, puis agua esquentar para dêitar Começou chove' levantei para recolher a s roupas. Qu ando
lavar os filhos. Fui carreja r agua. Não tinha linguem na torneira. percorro as ruas se convesso com alguém, o custo de vida á o
Fiz café e mandei o João comprar 7 de pãc. citado.
Eles fôram para a escola. Eu Ia dáixar a Vera. Depois reseolvi Todos queixam que o que ganham não da. Noto que o povo esta
leva-la. Levei as camisas do mecânico que passei. Levei a lata fica n d o com um nervoso em ocional, p e ss ô a s a s s im , não
para catar comida para o porco. engordam, não dormem, e não tem disposição para
Consegui um saco de papel. i Aqui na favela esta pegando a moda, dos es
ganhei 3 0 . catei mais um pouco ganhei 15. catei mais um pouco j esposas que s g_arranicm.
ganhei 10. A Vera ganhou 3 cruzeiros e uns doces. Eu fui na 0. Hontem vi um homem comentando esta epidimia de esp
Julita. Ela estava m uito t ris te porque a sua empregada lhe d o e n te s q u e não tra b a lh a m , e a rra n ja m din h eiro para
aborreçeu. Eu levei um vaso para ela plantar ftôres. Ela deu-me embriagar-se e tem disposição para arranjar 1 filho por ano.
comida, café e papete, e carne, pensei na Dona Maria Amelia. Que \ Nástes lares, predomina a incompatibilidade porque o ebrio age
já c velha e as atitudes das velhas devem ser sensatas Ela não I como os animaes.
tem ninguém a não ser a Dona Julrta. Depôs deve penso que o
Alguns pratica a incestuosidade. Os incestuosos da favela é a
senhor João Pires esta doente, fc so a doença do senhor João *
mãe e o filho. A Nena e seu filho Dinidito. O s meus filhos
ja deita a Dona Julita triste.
continuam levados Hoe eu dei no João porque eu achei uns lapis
M as a Dona Maria Amelia não tem ente queridos. Não ama
de còres e dôis começaram dispertar e brigar.
ninguém. ,
E meu! E meu! pronto! Entrei em ação.
Tem pessôas que são inferiores ao animaes. Porque os animaes
amam. Quem me dera se no tempo que eu empregava como
14 de Novembro de 1S6Ô
doméstica, encontrasse uma patrôa igual a Dona Julita! Havia
D&xei o lôito as 5 heras e fui pegar agua. Era so homens que
de transform ar o meu coração numa pa66adeira para ela pizar.
se eu fosse rica e dôixas6ô testam ento havia de incluir a Dona estavam na torneira. Ninguém falava. Enchia as vasilhas e saiam,
pensei: se fôsse mulheres... tinha alguma coisa para falar. Fiz
Julita como herdeira. M as eu sou pobre a única coisa que posso
lega-la é a minha amisade sinçera. Hoje eu estou triste! cafe. Mandei o Jo ão comprar 10 de pão. Eles foram para a escola

Quando eu passava na Avenida Tiradentes parei na Tinturaría e eu sai, com a Vera


para conversar com um nordestino que resside Ia. Ela entrou no Frigorífico para pidi a salchicha, ganho 2 ficou
— Perguntou-me; quando e que vae sair o meu Irvro? sorrindo. Quem é que não sorri quando consegue o que deséja?

Disse-lhe que eles não avisa: ( Iafvez séja pprisso que o jjo e ta não sabe sprrii\ porque não

Que faz surprésa. Ele aconselhou-me a trabalhar. Que todos 1 consegue o que deséja.

precisa tra b a lh a r. D isse-lhe que ja envie um livro para os 5ai tardei O s IixeFõè ja havia passado e eu não consegui papel,
E s ta d o s Unidos para s e r subm etido a apreciação do The 1 Fiquei girando ali por perto da 5ela Vista.
Readers Digest Quando será que eu vou ver o livro na praça? Começei falar com as mulheres que estendiam roupas.
Varias pessoas interroga-me. Catei uns tom ates. Chegue! na — Perguntei-lhes, se elas também ia mudar-se?
favela as 14 horas e puis as camisas no varal. ¡ — Vamoel

I
I

- J/, MEU ESTRANHO DtóRIO N O QUARTO DE DESPEJO 69

Foi o vamos mais tris te que ja ouvi ate hojd Tinha a impressão Eu perguntei ao Sebastião da sapataria se recordava aquele
que ouvia a voz de alem túmulo. Ouvindo esta voz tirei minhas tempo, que os operarios podiam ir em santos?
deduções. — Ele ficou meditando uns segundos. Peu um suspiro longo e
— Os brasileiros já estão mortos porque o casto de vida... Céifou afirmou:
| a alegria do brasileiro.
— Aquele tempo... não volta mais!
Á mulher contínuõu~3teer(do que foi pidir ac Or. Adhemar para
esperar os exames, porque se mudassem ia ser um ano perdido.
15 de Novembro
Que ele concordou'Se.
0 dia surgiu claro por todos os lados que dirigo o olhar vejo tudo
A mulher deu um longo suspiro e disse: editado de quem é pobre!
nítido, porque hoje não tem fumaça das fabricas para dêixar o
Eu segui ate ao deposito. Ganhei 14. Depois fui no senhor Rodolfo.
céu cinzento. 0 povo que circula vae meditando. Andam como se
La trabalha um moço por nome João que a Vera diz: que e seu
namorado. Ele havia lhe prometido um presente. Ela começou estivesse fazendo a via-sacra. Eu déixei o léito e fui carregar
pidir-lhe. agua. Pepõis fui lavar chiqueiro e t ra ta r o porco. Separei as
Hoje ále deu-lhe 13 cruzeiros. roupas para lavar. Fui fazer compras.
Ela ficou discontente porque era muitas notas. Quando vou lá Arroz, açúcar, pão e mantêlga gastei 5 0 . E podia conduzir as
gosto de conversar com os operarios. Eles t-abalham contentes
/ " • " i ™ * d£ntr0 <*> W s a
porque são bem remunerados. Acho tã o bonito os operarlos f olhei para uma fabrica e vi a bandeira brasileira e as suas palavras
trabalhando. Com seu6 macacães sujos, e suas mãos rusticas ' simbólicas — Ordem e progre66o! Pensei: quem nos dera se a ordem
chéias de calos. [ predçtpinasse no paÍ6l Puis as roupas de cama no sol. Depáis déitel.
Não gosto dos indolentes. Os improdutivos — Fui na rua Alfredo E comecei a ler. Os filhos comiam pão com mantéiga. O José Carlos
Maia na sapataria pegar os papelões. 0 sapateiro Sebastião que e a Vera foram na feira. Ressolvi arrumar as camas. O Ramiro veio
conversa comigo esteve doente. E esta maqro. Não sentia dôr na favela e eu começei conversas com ele.
mas, ficou com a pressão baixa,
Ele vinha comprar um violão.
perguntei-lhe o que ouve?
Eu fui na feira — Fiquei horrorlsada com os preços. Ouvias os
— Disse que trabalha em exesso e o que garha não dá. E ffensa
homens queixando-se que os preços esta um absurdo.
demasiadamente no custo de vida que lhe escravísa.
Depõis que o Juscellno entrou... salve-se, quem puder.
0 que eu sei, é que todos habitante do Brasil acha que sofre,
Ouvia as mulheres pebres dizendo
sai do deposito as 10 e máia. para chegar em casa antes dos
filhos. — 0 que vae ser de rés meu Deus sempre ouví dizer que o mundo

Cheguel cançada preparei a refeição para os filho6. Pepôis dáitei, um dia vae acabar».
e flquei lendo. Levantei para fazer o jantar. Os filhos não apreciou porque não acaba hoje meu Deus. A s mulheres que vão na fõira
a comida porque o arroz á quirela. ficam quase loucas.
Mandaram-me cosinhar para o porco. — Estou satisfeita porque Eu levei 4 0 cruzeiros. Exibia o dinheiro nas mãos. M as eu estava
o povo da favela não mais aborrece-me. — E eu não mai6 estou era catando o que ia encontrando pelo chão. Comprei figado e
nervosa. Creio que dêvo agradecer ao senhor Audalio Pantas. um marnão, e aumenta.
0 povo esta contente porque vae ficar dois dias sem trabalhar. Cheguei na favela preparei a refeição para cs filhos.
MEU ESTRANHO (XÁRiO NO QUARTO 0£ DESPEJO

- cies gostaram. Quando eu ia buscar agua para layar o chiqueiro, Eu vou tom ar banho c vou dêitar. Não estou com sono porc\ue eu
vl as crianças oferendo assaltar um menino que vinha com um tenho sono durante o dia.-E_a_no ite tenho poesia, eu fui no
¡cesto de frutas na cabâça. senhor Eduardo comprar 1/2 de oleo, e um tinteiro. Uma senhora
•A s mães viam e instigava o filho para tirar a melancia. Pensei: que resside perto do emporio deu-me. 1 bacia e uns ferros para
I mãe relapsal eu vender.
] Que presencia os a to s nocivos elo filho, e não repreende. Quando A mulher que deu-me a bacia e a Dona Diva.
a mãe não tem cultura tem intuição para corrigir o filho. Quando
i a mãe acata os erros doe filhos esta contribuindo para a sua 16 de Novembro de 195Ô.
( degradação. Dêixeí o lêíto as 5 ho'as e fui carregar agua. Fiz café. puis feijão
De manhã~~éu encontrei com o Sergio. Um preto cem por cento, no fôgo. Hoje é que eu vou estrêiar o feijão que ganhei na rua
que re ssid e aqui na favela, pergun te i-lhe porque saiu do Eduardo Chaves. Lavei as louças e fui pondo a agua que eu
Rodoviário Estrela do Norte? enxaguava a s louças dentro da bacia que eu ganhei porque é
— Disse-me, que quando completou dêis anos de casa, o senhor grande e não e s ta furada aproveitar a agua para lavar o
Morgado fez um acordo e mandou êle Ir-se embora. Que deu-lhe assoalho. Lavei o assoalho.
13.000,00. Que agora os patrões não permite aos empregados Dei café aos filhos, e fui lavar as roupas. — Que ir.fierno-qperfcis
ir completando anos, e anos de casa. minha vida atualmente! I* )y % w * iC Í& C
Que queriam que êle continuasse como novato. — Tem pessoas quardo vem perguntar-me quando
— Ele recusou-se: reçeber o dinheiro do Irvro? E se posso lhes emprestar 50.000,1
para com prar um bar — * pobre de miml 5 e eu tivesse e s ta '
— Eu disse-lhe: que no tem po do Getulio, não havia estas
quantia eu ía comprar terras para plantar arroz e fêijão. A gente i
marmelada.
so é feliz quando plarta para comer. A única quadla que eu tive
— Ele concordou que o Getulio, já esta fazendo falta para o
fartura foi quando cultivava a terra Se estou escrevendo, e ,
operário, penso: porque é que os operarios não reuniram, e
porque tenho pretensões — quero comprar uma casW najiar.ai.os- \
expancasse o Laçerda para êle não dessorientar o saudoso meus filhos — Quando eu vêjo a s peesôas que ficam me j
presidente?
aborrecendo por causa de dinheiro, eu desvio déles. ^
S e eu fosse o Getulio, eu queria da uma surra no Laçerda com Fui na Dona Adelaide. Ela é tã o compreensível. Ela esta sempre
chinelos, é no gen to. Quem te m a língua, m aior d o que o animada com a vida. pareçe que foi discípula de Socrate&. Eu fiz
pensamento. o almoço para os filhos. Arroz e feijão, porque aos Domingos os
Eu ja ouvi varias pessoas dizer que o Getulio e*ta fazendo falta. filhos vão para o cinema. Comem por Ia.
Hoje esta fazendo calôr. Dei banho nos filhos. E eles foram Hoje èu estou com tanto sono. passei o resto do dia dormindo
dêitar-se. Quando eu fui na feira conversei com o irmão de Dona puis brazas no ferro vara passar a6 camisas dos filhos, passei
Carmcm que tem a loja na rua Carlos de Campos é agência de mal porque estou com sono. Era sêis e mêía quando os filhos.
Corrêio. chegaram do cinema. Velo um homem quêlxar-se que o J o s é j1
Falamos de sua genealogia. Carios havia jogado pedras no seu barracão e que êíe ia leva-lo [
Que todos atingem a diuturnidade Como é sublime conversas com para o Juiz de menores. Que o meu filho é multo mal iducado. J .
as pessoas cultas. Que não têm mêdo de mim.
MEU ESTRANHO DIÁRIO N O QUARTO DE DESPEJO 73

Eu estava com eono e a voz caçcte daquále homem mc aborecia. Eu fui. — Ela deu-m ; doçes e sanduíches que sobrou da festa.
Eu disse-lhe que já estou na favela a 12 anos. E nunca fui na — Esquecí de dizer que: de manhã o Paulo foi chamar a Radio
porta de ninguém fazer reclamações que eu tolero crianças. Patrulha porque a Pona Jua na e o laíau e um tai de Alicio
^ única coisa que eu faço é. não dou confiança a6 pessoas de roubou-lhe 1 pato. E as pena6 estavam espalhadas no quintal.
favela. — A Deolinda disse que não comeu. 0 Lalau diz que não comeu.
perguntei aq J o s e Ca rlos o que ouve? j o r que eu não vou E a Dona Juana disse que estava durmindo.
expancando os meus filhos sem saber o que passou. Que tipos de pessoa© despressiveis. Bebe ta n to que não sabem
0 José Carfos d¡ese-me que o filho do homem que veio quêixar-ss o que fazem. Como é horrive! despertar com os homens da lei na
deu-lhe um tapa no rosto. Que ele jogou-lhe pedras. no&ea porta.
^ M o ia m d a d e -n ã o -p i^ s t a ^ .Nínquem diz: j?jmu_filho-jQão-pr^staí A Dona Juana foi con o guarda Eu disse para o senhor Antonio
Só sabem falar dos filhos dos outros. 0 sono dominou-me. Eu fui Venancio que agora todos favelados vão comer pato e depòis vão
dormir enquanto eles brincavam porque estava fazendo calôr eu dizer, que — foi o Lalau. 0 Lalau agora vae ser o tatú. — porque
esperava a brisa perparsar. nas costas do ta tú , o tamanduá, esquenta sol. Quando eu fui
c a t a r papel fui con/ersando com a Ju a n a do Binidlto que
Começou ventar. E o vento chia forte, expantou as nuvens de
disse-m e que não mais suporta a Deolinda e o seu eepóso.
pemilongoe que preparavam-se para penetrar nos barracos.
Quando bebem, o Calão entra cena.
Despertei com a voz da mãe da Thercsinha que estava discutindo
Que ela já esta cançada de ressidir na favela. Mas o que ha de
com a C larise porque conversa com o set filho a te a 1 da
fazer! se não tem pa-a onde Ir. Fui com a Juana até ao ponto
madrugada.
do bonde. Eu encontrei com a Rosalina que disse-me que a Dona
Eu tenho dó da Ciarisse porque foi o seu pac que deturpou a sua
Maria espanhola vae Internar a sua filha Maria José porque esta
vida. Entre éíes, ha a incestuoeidade.
sempre com mancha no pulmão.
Sei que brigaram porque ouvi vozes ofensivas. Eu não levantei
Falam que o esposo da Sebastiana ficou varios meses sem
porque hoje o sono dominou-me. Fiz cafe para os filhos. Quando trabalhar pobre Sebastiana!
0 cafó ficou pronto eles já estava dormindo. Li uns contos. Depóis
— Eu tenh o ta n ta dó d e s ta s mulheres com seus espósos
fui deitar. dilemas!
A Ida c a Ciarisse estão começando a prostitui-se com os jovens
17 de Novembro de 1956 de 16 anos. E uma fulia. Mais de 2 0 atras delas. Tem um mocinho
Deixei o leito as 5 horas e fui carregar agua. Dsi comida ao porco que resslde na rua co posto, é amarelo e magro, pareçe um
e fui comprar pão, cafe, e sabão. Eu tenho dinheiro porque vendí esqueleto ambulante.
1 camiea e uma calça para o Adalberto. Fiz cafe. Dei banho nos A mãe lhe obriga a ficar so na cama porque ele é doente e cança
filhos Eles foram a escola. E eu sai com s Vera. Ela foi no atoa.
Frigorífico pidir a salchicha. Ganhou: ôalu ccntente. Eu fui na Ele sai com a mãe so para pidir esmola porque o seu aspecto
Dona J u lita . Ela deu-m e comida café e papéis. Eia estava comove. — Aquele filho amarelo, é o seu ganha pão.
contente. Que mulher nobre] Não sabe odiar nnguem. Eu estava — A té ále anda atras da Ida e da Ciarisse.
com ta n to sono. Queixei para ela. Apareceu tanta6 jovers de 15 a 16 anos aqui na favela que vou
Ela disse-me para eu ir na Dona Juana que ela quer dar-m e algo. da r parte as autoridades para expanta-los dac\yi.
MEU ESTRANHO D1ÁRJ0 NO QUARTO 0€ DESPEJO 75

— porque aqui tem m ultas crianças. Hoje eu ganhei eo 4 0 reçebem intimação pa'a ir na delegacia, elas levam os filhos para
cruzeiros porque fiquei com sono. servir de es codo.
0 tempo esta mudando. Será que a mudança atmosférica tem i Eles começaram a lucar com as crianças no colo da mãe que
influência no nosso organismo? / estava alcoolisada e não podia ficar de pé. Na luta os filhos
Não fiz almoço. Esquentei a comida da Dona Julita. Depáís deitei j caíram e eu peguei os 2 garotos. Os coracoes dos garotos
para durmir j _estavam acelerados pareeja uns tamborim no-citmo Carnavalesco.
ÍM as~ñÍo ha quem possa durmir na favela. Quando eu retornei eu — pensei: Deus não devia dar filhos para estas mulheres tipo
:dà fabrica de doçes Neusa tã o Ihipinhas. pensei: — cobras._De almas selvagens. Os filhos devem ser sempre as jólas
podem ¿Üzer: somos sempre limpas. E eu... crèio que dê/o da <^ron eíia^
' 'T flif a n ñ r é Ó ü 'e e mpre suja! A Ciarisse e a Ida podiam trabalhar. A Pítita saiu correndo e o seu esposo atras. A& crianças olham
¡Ainda nã o te m - T5> anos são as infelizes, que iniciam a vida no C6tas cenas com deleite
lodo — A Ida é muito indolente. Não sabe ler porque não quiz ir A p itíta estava sem i-nua E a s p a rte s que a mulher deve
a escola. Ela tem outro irmão de 10 anos que não quer ir a ocultar-se estava visível
escola. Aqui na favela tem varias crianças (jue não quer Ir na Ela correu parou e pegou uma pedra. Jogou no Juaquim . êie
escola e a s mães não obriga O 2 io que as mãr.s deve observar os de&Aou-ee e a pedrs peqou na pared», por cima da cabeça da
filhos ver suas tendências. Com os rebeldes energias. Theresinha. pensei: esta nasceu de novo.
Eu achei 1 bola no lixo e dei aos filhos para trincar A Francisca KJss começou dizer que o Juaquim não prestava. Que
Os homens vagabundos querem arrebatar a bola das crianças. é homem so para fazer filhos.
Os meninos jogam pedras nos marmanjos. E eles querem bater Falei para a Dona Francisca que o Juaquim da dinheiro para a
nas crianças. Quando m evB quietam .gorque ninguém quer fjçar pítita ela gasta na pinga
Incluido no meu Estranho Diario. Ela ouviu e quiz brigar comigo. Eu disse-lhe que ia lhe arranjar
Hoje eu~èstou triste! Deus devia dar uma alma alegre, para o um lugar no Juquerí Mas se ela agridisse-me eu ia dar-lhe uns
poeta. Eu estava folgada na cama. Quando queria café os filhos tapas.
davam-me pedi o pente o Jo s é Carlos deu-me tinha a impressão Mas, ela esta tã o fraca
que eu era uma deputada. Ela não vae durar muito. 0 Juaquim Ja é um candidato a viuvez.
0 José Carlos perguntou-me: Ela não tem fêrças para brigar. A sua potencia esta na língua.
— a senhora esta doente? porque não esta habituado me ver na Fala so o calão. Eu tenho pena de ver estes espetáculos. 0 medo
cama. A Vera começou chorar levantei para ver o que havia. que eu tin h a era das pedrad as. A p itlta e e s tú p id a não
Brigava com outra menina. Eu fui ver se o porco havia comido as compreende que a coisa mais fácil é m atar uma pessôa. A Lêila
bananas, e vi o Juaquim brigando com a sua esposa. Que pode gritou que a pítita estava brigando com o Juaquim por que ele
ser dessignada de ”madame inútil". esta durmlndo com a Iracema
Ele dizia que lhe expancava. Ela dizia que nãc queria a s 2 filhas A Iracema esta sendo disputada na favela. Ela abandonou o
com o seu pae. Que ele e quem devia cuidar das crianças. Ela esposo. Ela não esta habituada a trabalhar porque o seu espôeo
segurava os filhos nos braços. Ha certas mulheres aqui na favela não deixava.
que pegam os filhos no colo quando vão presas. Ou quando Eia pensou que pertencendo aos homens era mais feliz.
, N O QUARTO DE DESPEJO 77
76 MEU ESTR6NH0 OIÁRIO t

0 tenente mandou eles telefonar para a Radio patrulha. M as a


Que erro comete uma mulher que abandona o hornem, para ser
Radio patrulha não atendia. A Iracema ja estava Ia dando a
doe homens.
queixa. Eu vim embota. Flquei na rua esperando a Radio patrulha
Quando a Iracema estava com o seu espôso era gorda.
surgir. Enquanto isto a mãe marca fulia continuaria arrebatando
Agora que ceta prostituindo-se, esta definhando.
o filho do braços da Juana do Slnidito. Começou chover. Eu disse
A Leila dizia: esta mulher precisa apanha ri
para a Darça reclub-se porque ela estava com a criança. Ela
A Lêila numa briga e como a gasolina no fogo — Ela instiga e
disse-me: que estava procurando o seu filho. Quando ha briga
substitue a aranha com a sua têía
aqui na favela não fica ninguém dentro de casa perpassei o olhar
Eu ví o baiano que fica conversando pornografia com a Ida fui
naquela multidão que olhava a briga, pareçe que na favela tem
falar-lhe para ele deixar o& meus filhos em paz.
mais de 2 .0 0 0 ,0 0 pceeôae. Eu queria a Radio patrulha para pidir
Ele começou a ñnqar-me. aos guardas que desse uma lição no nortista insolente — 0
E o nortista tipo cangaçêiro perguntei-lhe onde morava Cangaçêiro mirim Ele disse-me: Vae chamar seu marido. Quero ver
— Rua B Nro 13. se ele é ma is homem do que eu
Voltei pra dentro de casa. Acendí o fôgo e ptiis agua esquentar. Mas, pela a sua côr palida côr de cêra. Fcrçebe-se que éle já
Dei lavagem ao porco e fui chamar a policia. Tentei telefonar mas passou muita fome s não tem força para uma luta corporaljé.
a linha cotava ocupada. Encontrei com um carrinho do gabinete. * um tip o que precisa s e r re cu p e ra d o p o r in t erm édio
Falei com o m otorista se podia vir na favela so para intimidar o gTímervfaçao sadia — hoje. alimentação sadia, á progeto. È
povo. Que eu estava com mêdo déles jogar pedras c atingir as Chimcral — É ' sonho ¡.rrealisavel!
crianças Quando ha uma briga aqui na favela to d o s brigam. A te as
— 0 motorista disse-me que estavam fazendo uma Investigação crianças. A pitita nasçeu bôa depôis que casou-se degenerou-se.
e não podiam interferlr-6e nas ocorrências que pertence ao Ela e filha de alcootr Creio é tara. Formação Orqônica mesclada
distrito. Quando a pitita estava brigando eu vi um nortista que com o álcool. Da para perceber que o filho do alcoolíco é mais
apareçeu por aqui faz poucos dias. moroso para aprender. A sua mentalidade é letárgica. — Vou
Ele e a ida ficam fazendo escândalos perto das crianças E &e falar da Bahia. A primeira capital do Brasil. Q ue ja completou
quando vê meus filhos Jogando bola arrebatam a bola das 4 5 3 anos. E no entretanto e o Estado que não dessirtvolveu na,j
..crianças, Depôis que expancou as crianças. Falei para ele não Cultura. Afgum ou o jtro se destacam-se. Os baianos que vem ’
aborreçer cs meus filhos. para São paulo a maioria são saêjss e semi analfabetos. São i
: — Ele disse que meus filhes não prestam. Que são uns colinas irrisiveis e agitadores. Tem dia que eu tenho saudades da nossa
sem iducação. M as os meus filhos ja tem mais valor do que ele favela de 19 50 — 'inham os so 2 familias do norte. E muito

Íporque ia são alfabetizados Vou concluir o que eu estava citando:


— Depôis voltarei a falar sobre o que penso da Bahia
0 telefone não atendia.
¡ducados.
— Agora) A favela superlotou-se de no rtista —
paulistas eles são um povo diferente,
^
E para os

Ressolvi ir na 12 delegacia Cheguei Ia falei com os soldado r Voltamos a pitita.


receberam a queixa com apôdo, e displicência Quando a pitita briga todos saem para ver. é um espetáculo
VI o soldado Cardoso. Pedi para ê!e vir. Olhou o relogio. Disse que pornográfico — Ela disse:
vinha, se o tenente lhe mandasse. •i — dirigindo ao esporo:
75*78^0^ *AEJ ESTRANHO O Ã KO $ N O QUARTO DE DESPEJO ¿C $ 4 ?

— •Efe ... é um chupador1


. ? brancas — A s vezes eu penso: — O branco diz com arrogancia
— E o Ouca perguntou-lhe: jque ¿le. é que é, o supeHntelectual — De onde vem esta super
— O que é que ¿le chupa? /intelectualidade?
— Ela mostrou e disse: Quem é intelectual, é sabio. E o sabio não tem orgulho. E o
¿le ... chupa a minha buçêta. — O s homens sorriram . E as prcconçêito é a manifestação do orgulho se os brancos f&ssem
crianças ficaram repitindo. E sorrindo, e dizenco que haviam visto sabios não comerclalisavam os pretos. Deixa o passado! Eu
a buçêta da pitita, e que estava cháia de cab¿lcs. graças a Deus, não fui escrava. Não conheço o sabôr da Chibata.
E a s crianças ficam comentando. — • porque será que a buçêta A única coisa que ms eecravisa e o custo de vida.
das mulheres tem cabelos?
E as meninas comentam: 16 de Novembro de 1956
— A minha ainda não tem! Dêlxei o l¿ito a s 4 horas e começei escrever. Quando aurora
A s crianças começaram falar que pitita havia erguido o vistido. surgiu fui carregar agua — Que fíla! Eu não gosto de ficar na
Eu vim para dentro de casa. Eu ja estava deitada e ouvia a voz torneira quando o Penteado esta pegando agua. — Ele fala! E a
cavernosa da pitita. voz dêle ms da dôr de cabôça
A tarde na favela foíde amarga. E assim as crianças da favela Quando a sua esposa estava n¿ste mundo eu lhe perguntava
ficaram sabendo que os homens chupam as mulheres. — Como é que a senhora tolera o seu esposo?
■Estas coisa eles não mais duvida. Tenho dó destas crianças que — Ela respondia com voz chorosa.
¡vivem num quarto de despâjo mais imundo que ha no mundo e — Ahl .. Dona Caro\ha! Eu Já enjoei delel Mas eu não posso lhe
•tem uns professores incultos pessóas que praticando ê s te sa to s
deixar porque os meus parentes vão falar de mim. Mae ¿le fala
¡imundos concorrem, para a ma formação daejxiagçap. Analia. E
tanto e me da dôr oe cabeça.
la^prõmissora a substituir a Pítíta.
— porque a senhora casou-se com êle?
O aluno seguindo o professar.
— Quando ¿le era meu namorado, êle não era assim. Era um
Eu fíquei alegre: Vieram dizer-m e que a mulher do pollcarpo
negro direito! Eu já referi isto. O que eu sei e que a Mulher do
mudou-se.
Penteado morreu com dôr de cabeça. O penteado disse: que um
— Não d¿ixou saudade.
dia ia passando e vie varias casas de tabuas. Perguntou
O poWcarpo fez trêis barrações aqui na favela e vendeu-os. ele é
— Aquilo lá‘ é galinheiro?
um forrasteiro que não estaciona em lugar nenhum. Quem não
— Lhe responderam que nao. Que era a favela. E que morava
gosta de trabalhar não encontra lugar que presta, êíe andou
dizendo que la para a Brasilia. gente. Que ¿le ficou horrorisado. E agora ê b também mora no

.— Eu ouvi dizer que na Brasília não vae entrar negro. galinheiro.


A Dona Angelina Preta estava dizendo que o Orlando Lopes o
iTempo chegará que os brancos vão quéimar os negros quando
! morrer para ¿les não te r direito de ser sepultado, percebí que a atual encarrcoado da agua quer 3 .0 0 0 ,0 0 dos favelados para
í única coisa que o branco não despresa é o voto do preto. So nas rep¿r a to rn e ira na rua A . — percebi que ¿le é malandro.
¡ épocas slêitoraes é que o preto, c cidadão. Eu penso que o preto Arrancou os canos. visando extorquir dinheiro dos favelados.
i do B rasil devia e deve s e r t r a t a d o e con siderado como — Eu Ia sair. M as começou chover. Eu estou com pouco dinheiro
( pre-historico. Porque ¿le relembra um passado de inculturas so 16 cruzeiros. Fui vender uns sacos de cimentos na rua da
80 MEU ESTRANHO DIÃRJO NO QUARTO OEDESPEX) 81

Corda. Ganhei 2 0 . Comprei 10 de verdura, Fiz almoço. Arroz» feijão — Engordo. 5o engordando porco é que os meus filhos vae
c salada. conheçer e comer um lombo de porco.
Fiquei escreverdo. Vendo pifa janela a chuva cair sem ruídos. — Eg gosto dc ver a senhora andar, pareçe que é tocada a
Antes eu ficava nervosa «ruando chovia com medo do s meus filhos eletricidade. A senhora tem energia no falar e no andar. Agradecí
ficar sem comêr. Açora... pareçe que estou familiarizando com a a irmã do senhor João e segui. Com o meu andar rápido.
misseria As crianças ainda estão comentando o espetáculo da Fui no deposito puis a muamba dentro do samburá e vím pra
pitita casa. Cheguei antes dos filho6 prepareí o almoço. Depois fui
A artista. Digna de repressentar para o dlaw. preparar os metaes e seleciona los. — não estava indisposta fui
Quando vejo os escândalos da pítíta perçebo que éla é tara lavar as roupas.
Arvores mas, da maus frutos Quando eu ia para o rio com a bacia na cabeça encontrei com o
— 0 Senhor Manoel veio aqui Disse-me para eu não escrever a Coca-Cola que estava semí-nu. sentado na sombra. — pensei:
pornografia que tira o donaire do livro. Será que éste homem não tem dó da sua esposa?
— Ela é sosínha para trabalhar E esta prestes a ser mãe. Tem
homem que quando s mulher ressolve trabalhar para auxiliá-lo,
19 de Novembro de 1950
éle se entrega. Quaneo um homem tem uma esposa esforçoada
Deixei o !Â't/> a z F5 horafij e ftií carregar agua. Não havia ninguém
deve aproveita-la porque os dois trabalhando e não disipan do
na torneira — Quando é assim fico contente. Fiz cafe puis fêijão
tém mais fartura no ar. C tík & tO 4
no fogo e mandei o João comprar 1 pão e de lapis para ele.
Eu penso que isto é sabedoria de certos homens. Que casa para
Eu não queria sair. Estava com priguiça. Teve aviso que devia sair.
te r quem lhes sustentam. Mulher que trabalha para m anter 06
Ressolvi obedeçer. Na rua pedro Viçente encontrei com a Dona
filhos, e o esposo é uma escrava.
Armanda ela deu-me jornaes. Vendí ganhei 40. Girei pela Avenida
Uma mulher assim vive m artirizada. 5e respeita o espéso é
Tiradentes ganhei mais 20, passei na rua Eduardo Chaves. Uma
porque não quer dar eisgosto a familia. Não quer ver o seu nome
senhora chamou-me para dar-me umas revistas e ca ta r tudo que
circulando.
estava num quartinho. Catei muito metacs e 2 quilos de cobre.
Q u a n d o eu vl a q u a n tid a d e de m e ta e s fiquei c o n te n te e E sta classe de homens são os homens que eu tenho nôjo.

reanimada. A indisposição sumiu ganhei Ô5. Eu estava nervosa — Fui lavar roupas. No rio encontrei com a Analta.
porque havia deixado a Vera e na favela, visinho não olha filho de Quando ela falava eu tinha a impressão que estava numa fabrica
ninguém. Eu ia ritirar o papel da oficina do senhor Aldo. Olhei o de fumo.
relogio era 11 horas ressolvl vir para casa para preparar a refeição Ela perguntou-me, se eu ia fantasiar-m e éste ano que vem.
doe filhos, passei na rua Guaporé uma senhcra perguntou-me se — Não.
eu queria umas fatas. Quando eu não tenho simpatia por uma pessoa eu não tenho
Que ela havia guardado para o Virgilio. E ele, não. foi buscar Ias. assunto para falar-lhe.
— Enquanto ela preparava as latas eu fui no emporio do senhor Eu perdí a simpatia pela Analia porque ela não obdcçe. Dei graças
José M artins e tomei um copo de agua Mineral a Deus quando ela disse — : vou-me em\>ora\ A Dona Celestina
— Ela deu-me 16 latas. chegou. &empre amavd com disposição para o trabalho.
— Ressolvi, v o lt a r para a c a s a . Ela perguntou-m e se eu Chegou varias mulheres lavavam e saiam. Eu estava esperando a
engordava porco? roupa q u a ra r. E ra 5 h o ra s quando a Dona Rosa chegou.
32 MEU ESTRANHO DIÁRIO N O QUARTO DE DESPEX) 83

Começamos falar. A dona Rosa disse que na favela tem cada Veio um pedacinho. Fiquel pôr conta quando vi o tamanho do pão.
mulher tão gorda que se fo&6e dividi-las. daram trêis. Pel comida para êles.
— Mas, para trabalhar... não presta. A Pona Celestina disse-me Eles trocaram e eu sai com a Vera. — Ela passou no Frigorífico
que a Rosalina bate muito na filha. Incapre para pidir uma salchicha tinha muito papel nas ruas porque
Fiqueí revoltada porque a filha da Rosa lina é boba E ficou bôba o lixeiro ainda não hawa passado. Catei comida para o porco. E a
de ta n to apanhar Eu disse: que os meus filhos são levados mas única rua ende eu encontro mais comida a rua Araguaia.
eu tenho paciência A dona Irene que ressíde na rua Pedro Vicente 514 deu-me
E a Pona Celestina disse: Que é preciso ter paciencia com as jornaes e disse-me para eu abôtóar o meu vistido que eu estava
Crianças . — gostei desta palestra porque a Pona Rosa é muito igual palhaço.
severa com 06 filhos j — Disse-lhe que eu havia achado o vistido no lixo e não me servia,
Ela não tomou parte na conversa pensei: isto lhe serve de luvas! j— Você não tem mêdo de doença? (jM \C O i. fj
A Pona Rosa é igual ao macaco que sobe ^ue tem rabo e não — Se morre, já morro tarde ¿¿âtyÇ bçj,
fica no mêio da estrada I Ela disse-me que Jesus disse: — livra-te dos ares, que lrvro-te
Findei a s roupas e vím embora pensando no que eu havia dito a I dos males.
Dona Celestina que a Rosalina é teçêlã de eêda I Eu disse-lhe: que os Mendigos pedem comida de porta em porta
— A Pona Celestina acha que ela reiachou-se, porque era teçêlã e não sabem se a s pessôas que lhes da algo é doente
de seda, agora c ata papel. Estendi as roupas e preparei o jantar — 0 pobre, não tem escrúpulo!
para os filhos. Quando eu estava acendendo o fêgo, o Jo s é Carlos 0 pobre tem estomago de avestruz Atualmente so quem é rico
surgiu correndo — Era um valentão que corria a trá s dele — Um é que pode te r recêic.
n o rtis ta . Eles me chlngam . Eu chingo tam bém se m o s tra r — Você não é tã o po?re como diz: J a vi varias pessêas dizer que
fraquêsa para os nortistas., êles, prevaleçem.. penso: será que os eu estou fantasiada de pobre. Se eu tivesse recurso, mandaria
governos do Norte, são governos marca merda, que não interessa I i imprimir o meu livro.
/ pela cultura des nortistas? { /porque o idea|_tambem faz_parte d a jà d a -— — ............ _ _
| O nortista quando tem cultura é passavel. Quando é inculto, é Contei-lhe que quando eu estava com 15 anos eu peguel um
' Intolerável. — Eu tive aviso que (a aborreçer-me — Vamos ve marfético e puis dentro do esquife. E que o prefeito deu-me
5 0 0 ,0 0 . Como gratifcação
20 de Novembro de 1955 é que a dona Irene iqnora o meu estado d’alma.
Dêixel o leito as 5 horas e fui carregar agua. — Que filai Aquilo /ty^JXuando eu percibí que era poetisa fiquei ta o tris te?
é a fila do inferno! Falei com a dona Marte sobre a mulher do 0 dia que o "senhor VDi Aureli diesc-me: Carolina, voçê é poetisa,
Policarpo. Que ela é muito faladcira, e ainda encontra adeptos, naquêlc dia eu sepultei alegria que acompanhava-me igual a minha
indireta para o Paulo. Porque ele também proficulou o meu filho. sombra A té aqueia data o meu coração trajava-se com as cores i
— Pi6&e¿lhe, que a s mães conheçem.os .tem peram entos-dos alegres. Depois passou a usar a côr rôxa. — E agora... usa af
filhosTÊi^Tniõn câideirão e vi fazer o almoço — Hoje eu não tinha preta. Acho que sou preta interiormente e exteriormsnte.
""cafeTe nem açúcar. Cheguei no deposito pensando nas palavras de Dona Irene. Qu<
Tinha béfe e fêijão; que sobrou de hontem. Fiz arroz e mandei o disse-me: 5e voçê morrer, teus filhos vae sofrer. Com você eles'\
João comprar 7 de pão. sofrem mas tem carnho. ganhei 5D . s '
MEU ESTRANHO DIÁRIO N O QUARTO DE DESPEJO 85

Fiquei alegre c reanimei. semi-astro porque eu acho que um artista precisa ter; cultura- E
Fui na Perna Julíta — Ela estava na fêira. Esquentei comida que v sãfser lidar com o .povo para te r publicei Ü m ^áiíteia-que-Xem
& empregada deu-me. í \ . 0 publico da lucro ao empresário. Que eu prefiro conversar com um
Conversei com o senhor João sobre os originaes que enviei para ! ÍJ operário. do-.que,.conversar com um artista do Brasil operario
os Estados Unidos agrada q uando fa b e a r t is t a são imponentes._Q yerem ~ser
Ele perguntou-me se ja obtive resposta. Que eu devia enviar os * OfS.Pi bajulados, pelo P0V0 ._Q.ug_.su_ acho o a r t ista do Brasil murto
cadernos pelo cotrêio marítimo. Que ficava mais barato. ' afetado.-Que eu sou pbservadora quando olho uma. peeeâaJ o m o
A Dona Maria Amélia deu-me cafe — Não esperei a D. Juiita puis ' Jogo a minha opinião. No t r a t o coletivo o operarlo... -¿ -m a ie
a sêpa na marmita c zarpei. — A Vera ficou atroz. Um homem pois
1 agradayej Eu passei na fabrica pèíxol para ca ta r tom ates: o
V
a mão na sua cabeça ela começou chorar. Ela correu para gerente agora é agredavel.
alcançar-me e um cachorro quiz mordê-la. pronto. Chorou o dábro. Não quer que eu cato os tom ates que esta no solo Me dá os
Quando eu estava perto da ponte pequena encontrei com uma ' ’ )f das caixas que estãc limpos. 5 e tem algum motoristas japonêzes
purtuguêsa que di6se-me para eu ir na Praça dos Esportes 70. ..... mc da tomates, percibí que a gente encontra fraternidade vida
pegar uns pápele que estavam — Ia. deixa de ser um fardo. Vim para ca6a pensando nas palavras da
purtuguêsa da praça dos esportes 70.
As 10 1/2 eu fui.
Eu disse-lhe que a noite eu não tenho sono. Que tenho sono
A portuguesa que deu-me os papéis disse-nve que me conheçe
durante o d Ia
faz muitos anos. Disse-me que todos poetas ficam loucos.
Ela dlsse-me que o seu espôso também e assim. Que dorme durante
Eú disse-lhe: que quando percibí que eu sou poetisa que fíquei
o dia, e a nôite não tem sono. Que esta na cama ja faz 7 anos.
t ris te porque o exeesso de imaginação era demasiado. Que
examinei o cerebro no Hospital das Clinica Que o exame deu que Ele, pode dormir durante o dia e eu, não posso.
sou calma. Que eu iduquei imensamente o meu cerébro. Que não — E... você precisa trabalhar
deixei a s idéias dominar-me. Que fiquei triste do deeprêeo do pCNO Eu disse-lhe: a 6enbor é bba. Ela disee-me que ninguém e bom
pelo poeta. M as agora eu estou na maturidade e não impreciono como deve — ser.
com a s fílancias de quem quer que seja Eu não tolero palavras enigmáticas. Falamos de Dona Angelina
Que aos que me agrada, eu agrado. Os que aborrece-me. passa que foi sua empregada.
um mau bocado comigo. Eu disse-lhe que os brancos do Brasil A purtuguêsa disse-me que ela não tem Juizo.
ainda continuam escravieando os pretos.JJtouescravidão. Moral Respondí que ha muitas pessôa assim. Que envelheçem sem
— Intimidando o preto com prisão. Sobretudo quando o preto \ dem ostrar senso. Q je Angelina fez um barracão aqui na favela
érra e perde a fôrça Moral. Que eu procuro não errar para não para guardar seus moveis e não mais apareçeu por aqui. Que
ser dominada pelos brancos. Que faço 06 brancoe ajoelhar-se aos devia deixar o lugar para um pobre.
meus pés. Que percebí, que trabalhando eu não tinha ide!a6 • A Vera esta andando mais dcpreôôa — Que menina bôa que é a
poéticas porisso é que eu ressolvi trabaihar. M as eu não posso minha fílhal Ela é têo sensata, que da gosto ouvi-la Ela não da
ficar sentada. Que eu experimentei varies cerviços. resposta rude a ninguém. Cheguei na favela os filhos ja estavam
E dei-me bem catando papel porque e6tou sempre andando. Que em casa preparei a refeição para eles Depois guardei as latas e
eu quiz incluir-me no núcleo a rtís tico brasleiro M as que não os metae6 e fui dêitar consegui dormir um pouco. 0 Joã o limpou
suportei a ja tan cia dos s e m i-a stro s do Brasil. Que eu digo k o fogão fez uma faxina em casa.
MEU ESTRANHO DIÁRIO N O QUAPrO 0€ OSSPEJO 87
• '/M .
fez café — Fiquei deslumbrada porque c a primeira vez que è\e classe que Deus pôis no mundo — Eles com suas manias de
interessa pela ordem do barraco. — Ele quelxai-se que esta com valentia desclassifica-se no conçêito publico.
dSr na perna direita Olhei o céu. parece que vamos ter chuva, Eu ouvi a Fernanda dizendo que ia chamar a Radio patrulha. Os
levantei, tomei café e fui varrer o barraco e c quintal e queimar nortistas quando vem para 5ão Paulo esqueçeu de incluir na sua
o lixo Vi as mulheres olhando na direção do rio. — Fui ver o que bagagem, um pouco ce iducação, seja o nortista culto ou inculto,
era Eu estava com umas cebolas que a Juana do Biniditi deu-me eu procuro manter-me a distancia.
porque eu deí-lhe uns tom ates Vou falar do José Carlos. — Ele comprou o iodo e disse-me que
Mandei a Vera guardar 06 tom ates e fui perguntar as mulheres o homem disse-lhe qse não vendia 4 cruzeiro de lodo. Vendeu 6.
o que havia no rio? que os prêços sobe — sobem — sobem
— E uma criança que não pode sair do rio — Fui ver. Ate as crlança& observa a s trapaças do comercio.
pengând&j&e _for criança eiLvou atravessar_p_Ttetá-paca-ritira-lo Tempo chegara que c povo vae perguntar
e se for preciso nadar eu entro na aaua. — 0 que é tabela?
Corrí gara ver q_que jí & l . .... j Começei pensar. Que não é o meu filho que é^péfnéstíqp. Eu é que
Era um jacá de quêljo que flutuava com a onda. Voltei e fui / não tenho paciencia de esperar, passei o iod¿T no “João. A Vera
escrever. 0 João surgiu dizendo-me que estava com dor na perna / pidiu-me para não bater no João que êle esta doente.
e chorava (...) eu pedi o senhor Luiz para ir vê-lo porque êle é percibí' a sua nobrêsa de alma. E o mundo precisa de almas
enfermeiro dhou, e dis6e-me que não era apenes, para eu passar
iodo — Mandei o José Carlos comprar, puts agua esquentar para
da r um banho no João porque se precisasse leva-lo ao hospital
estava em ordem. Achei que o Jose Carlos estava demorando
¡ nobres.

0 João dormiu. E o José Carlos foi fazer a lição — Disse-me que


quer estuda r, para ganhar emprágo porque quer andar bem
peguel a sombrinha e fui atra& dele lhe chingando de pernóstico vestido. E que quer casar-se com uma mulher igual a Dona diva
que ele não prestava. Que eu ia dar-lhe uma surra a te peguei sua professora Que a sua professêra não é relachada. Que não
uma vara que encontrei. tem priguiça. Que ela sabe aproveitar o tempo. Que êle não quer
Com eçei pen sa r no te m p o que eu era cria n ç a . O nde me casar-se, com uma mulher igual a Dona AÜçe do Seu Chico,
mandariam eu ia depressa. Fui a té a farmacia Bandeirantes porque é muito preguçosa que a Dona Alice é igual o porco. Que
Encontrei com a Pona Maria do Carioca e fji quêixando-lhe já come, e dorm e. Comecei lêr um jo rn a l e ví os anuncios de
estava enjôada do^.meu6_filhos.-Que- êies. rrêo prestavam para precisa-se de Desenhista Mecânico. M ostrei para êle. Que o
jia d a d e se nh e ista mecânico en co n tra m uito cerviço. — 0 Joã o
— ^Ela confirmou que as crianças atuaes não prestam. Que ela começou chorar. Fui ver o que era.
trabalhava para os sirios e ganhava 5 cruzeiros para ariar as — Ele estava com os olhos vermêlhos. Ressolvi dar-lhe um
panelas. Olhei na farmacia o José Carlos não estava melhorai e sai para compra-lo. Quando eu ia no emporio encontrei
Voltei nervosa. Ele estava sorrindo na porta. Disse-me que ja com as cigarras noturnas da favela A Lêila, pitita, Analia e
fazia tempo que estava em casa que foi correndo. outros — Que nôjo que eu tenho de quem anda sem motivo Fui
no emporio, o senhor Eduardo vendeu-me Veranon. Falei.com o
Eu pensei que ele havia parado para ver a briga do nortista
senhor Luiz ele mandou dar-lhe solofeno. Lí a s indicaçães no
ordinario que expancou uma velha seml-paralitica. A mãe da
Veramon e achei que era produçente dei-lhe. Os filhos durmlram
Fernanda — Ela é doente. Mas o nortista é um animal e a pior
e eu fui escrever.
88 WEU ESTRANHO DIARSC N O QUARTO OE DESPEJO 89

Quando o sono surgiu ou fui deitar. Apalpei o rosto do João êle — De que foi que merreu a menina?
estava transpirando, troquei-lhe. Vesti-lhe um vestido, e fui deitar — Não seil
Estava cançada. Custei adormecer fíquei pensando no que havia perguntei a Lêila o que ouve com a menina
lido de manhã, que o dr. Adhemar havia permitido as emprêsas — Eu levei eia na Santa Casa e no dr. Zoôpe.
particulares aum entar suas tarifa s. Que o dr. Adhem ar é o — percibí que a Lêila ssta mintindo. Vi os olhos da Lêila molhado,
gerente da carestía. pensei: sera lagrimas ou foi eia que pôis agua no rôsto. — Fique!
i Adormecí e sonhei. Que eu ressidia num palaçête de ouro e pensando na maldade da Lêila com esta criança que tem apenas
prata. Mae o meu rosto estava to d o enrrugado e as pessoas 5 mêses Eu Ja referi que a Lêila um dia pegou a menina de trêis
que me via exclamava Credoí Um a casa ta o bonita, e uma mêse6 e jogou no solo. E que foi o Adalberto que pegou a criança.
mulher tã o fêia. O utro dia d a brigou com o amigo e queria Jogar a criança dentro
do rio Tietê.
21 de Novembro de 195Ô — Adiante de Deus ninguém passa Não sei que alma tem esta
Despertei a s 3 da manha para escrever porgue pretendia ír nas tal Lêiia. Quando dirige o seu olhar para um filho e uni olhar frio
Folhas falar com o reporte Audalio. Eecrevi ate as 5. Depois fui sem o calêr maternal — pareçe bruxa. Outra coisa: qusm_jtcr
carregar agua filhos precisa trabalhar: porque criança precisa comêr.
A gaiola que o dr. Adhemar p8is aqui para as crianças brincar
E a Lêila não trabalha e o dinheiro que arranja, compra cervêja.
esta quebrada porque a nâite os pinguço arrasta por todos os
Eu nunca vi a filha da Lêila comendo pão; com manteiga
lados A noite é uma fulla que dá a te nôjo. Eu fiz cafe e puis fêijão
Não vêjo a menina com uma fruta ou bolacha.
no fôgo. Fui comprar pão e manteiga. Hoje ¿ só o José Carlos
A Lêila ja teve 6 filhos. 3 foi Dona Domingas quem olhou —
que vae na aula Ò João vae repousar
hiaram. O s 3 que ficou aos seu6 cuidados morreram - r E ju já
Eu sai com a Vera. Ela entrou no Frigorífico Incapre e pidíu a
disse qua-filhos destas mulheres não_creaçem — Vão regridindo.
salsicha, ganhou duas Encontrei com uma purtuguesa que
deu-me umas tahuas para eu ír busca-la depêls são os infelizes que não_encontcam a[[mentaçffes~'ãdquadãg' e
qem-carlnho,,e nem^ cuidados 0 erro do juiz fõ T d ã fô S tâ criança
Hoje eu estou sem sorte. Catei ta n to papel e não ganhei nada.
0 senhor Luiz começou falar que eu não levei a sua camisa. — para a madrinha. È ¿' madrinha entregou para a Lêila. Ouvi dizer
E um mecânico que tem oficina na Avenida Tiradentes E que eu que a menina estava com sarampo.
não tive dinheiro para comprar sabão. E o sarampo recolheu.
êle não sabe que a vida de pobre corre paralelamente girei por 5erá que a Leila queja teve 6 filhos ainda não aprendeu cuidar
ali e fui no senhor Rodolfo pegar o papel de criança?
Depois vim para casa. — Criança com sarampo não pode molhar-se e nem tom ar muito
Estava com tanto sono que não podia parar de pé vento. -------_ -------- -— -— — — — *--------------- ------------.—
Deitei. 0 Jo ã o recolheu as latas e os ferros. Adormecí Depois Hontem quando sai a nêite para comprar remédio para o João
levantei e fiz macarrão Com feijão para os filhos.
Vi varias pessôas no barraco d a Lella. Ful ver o que havia
perguntei para a Dona Camila o que ouve?
Í eu encontrei com a Lêila que ja ia para a fulla.

Quando uma mulher tem amisade ao filho fica proejada no ieito


— * É a menina que morreu J noite a pos noite para velar-lhe: ate ve-lo restabelecido,
f A s mães que não tem am êr aos-filhos. são as mães bruxas^..---'
90 MEU ESÍRANHO DIÁRIO NO QUARTO DE OESPEJO 91

— Eu fui no deposito do ferro vender um pouco de estôpa. ganhei tão bonito mesclando-se com estes Joãos ninguens da favela. Na
5 6 — Entrei na padaria guine e -tomei 1 copo de leite Cheguei em torneira tode s quêixa/am que o Velorio da filha da Leila foi de
c a ta comprei 1 litro de leite para os filhes. Mandei o Jo ã o amargar. Que andaram a noite têda e não dêixaram ninguém
comprar 1 litro de querosene. dormir. 0 Julião brincava com uma mulher que eu desconhecia.
Dei ja nta aos filhos e dei umas chineladas na Vera porque ela Quando me viram pararam. Vagabundo não vê meus dentes Eu fiz
não gosta de pentear os católos. café e mandei o João comprar pão e sabão.
O 6ono surgiu, eu deitei. Despertei com um bate-fundo perto da Ensaboei a camisa do senhor Luiz. Troquei os filhos e ê(es fôram
minha janela. a escola. E eu, sai com a Vera. Ela entrou no Figorifico e ptdiu a
Era a Ida e a Ánalia. salsicha: ganhou 2 saiu contente.
A dupla escandalosa da favela. A briga começou Ia na lêila Fui na dona Julita. Ela deu-me cafe comida para eu comer e
— Elas não respeitam nem a extinta. 0 Juaquim intervio pidíndo trazer para os filhos.
para respeitar o corpo Deu bife e peixe.
Elas foram brigar na rua Não demonstram nenhuma qualidade 0 que bom! Hoje eu estou com pouco dinheiro e esta comida
Moral, esta geração daqui da favela. A maioria é semi-analfabeto. chegou na hora H.
— Não quizeram ir na escola. E as mães não obrigava Hoje de
— A dona Julita quiz dar-me 10 0 , cruzeiros eu não quíz
manha eu disse para o senhor Juaquim purtuguês que a filha de
— Disse-lhe que era sabado e que eu ia arranjar dinheiro Ela
Dona Mariquinha não sabia ler.
deu-me umas latas para eu vender.
— : Ele disse: Foder elas aprende E aprende sem professêr.
Disse-lhe que voltava depois para condueir a s latas.
Eu dei uma risada e disse:
0 Senhor Joã o Pires tinha ido comprar pêlxe e estava reanimado
— purtuguês... não prestai
— Disse-me que quer viver. Achei a Dona Julita muito triste. Ela
Da minha janela eu vejo a filha da Lêila no seu esquife. 0 diabo
não quiz dizer-me o que lhe aflige.
é que não ha respeito no Velorio — pareçe até uma festa. Neste
12 anos que estou na favela, já vi morrer 2 filia da Lêila. 0 Luar Fui na rua Alfrêdo Maia na sapata ria do senhor Jacob retirar 06
esta maravilhoso. A nôite tépida, por isso o favelado esta papéis. 0 pae do Najar deu-me papeldes.
agitado Consegui levar os d ô s sacos de papelSes. ganhei 9 5 . Doxei a
Uns tocam sanfona. Radios O utros cantam J á ressaram um Vera sentada na quitanda porque estava fazendo calôr. Fui na
terço para a filha Lêila Dona Julita outra vez para pegar as latas.
Eu disse para a Lêila: Ela disse-me para eu Ir na Rússia
— Esforça para cria r a sua filha para você não envelheçer — A visinha "que ela tem umas coisas para dar-me — Fale? se
sosinha. 0 esquife é branco podia ir buscar amanhã que é domingo. Ela disse-me: para eu ir
— Eu vou dêitar. 0 barulho e multo mais eu vou dêitar segunda Fêira. Que amanhã ela quer descançar. Quando eu estava
Aqui tudo é motivo para farra. sentada na rua pedn Vçente para descançar encontro com o
>• senhor Aldo.
22 de Novembro 185Ô .Quando eu passava verto da Dela Vista parei para pegar um
Deixei o lêito as 5 horas e fui carregar agua. Olhei o barraco da tam bêr de ferro e uns ferros para vender. Quando cheguei na
Leila. vi o Jo sc do pinho no mêio dos vagabundos pensei: Um mâço favela era 12 horas, preparei a refeição dos filhos e fui ensaboar
y N O QUARTO D€ DESPEJO 93
MEU ESTRANHO DIÁRIO

roupa* e arrum ar o barracão. Chegou o carro para levar a filha JuizaAo Ae menores QuanAo olho a Lâíla penso: que ^Im a tem

da Leila. esta mulheiff Alma de cobra. pqrgue_humana. não é possível


— Ela começou chorar, percibí que era um treiler. pra representa Se é que o diako predomina na Natureza a Láiia é Ao seu clã. Quando
o papel A t mãe. Eu fiquei com nojo ¿Io espetáculo que ela eu retomava com o tambór de ferro na cabeça vi uns prófugos —
representava pensei: Ah! meu Deus! a não basta os que tem na favela?
Eu fui buscar o tam bor ¿le ferro. As visinhas dizia que eram ciganos — Que povo fêiol
]A Jomaleira disse-me que a Leila e os vagabundos do seu clã Encardidos. Menina de 6 ano usando colar e nua. Era 60 o que
'pediram auxilio para sepultar a filha. — Fiquei horrorizada porque faltava na favela.
a madrinha da extinta fez todas despesas. Assim que a criança Se temos ciganos ns favela temos que agradecer ao policarpo
saiu a Leila foi beber. O que eu fico admirada é Aos ebrios da prófugo que faz barracão aqui na faveia so para vender — Vendeu
favela Que bebe pontue eetam alegre. E bebem porque estão o barraco por 7 mil c-uzeíros.
triste — A bebida aqui é o paliativo nas ¿potas funestas e na6 0 cigano velho anda com um revolver e disse que quem lhe
alegrias. aborrecer ele atira.
A Máiri a pitita e outras fóram na VIIa Maria e adgeçêncías pidir Correu a tra s do Claudio com o revolver na mão. 0 Claudio tem
auxilio. E pidiram aqui na favela. — So não pidiu para mim. Mas 12 anos. — 0 diabo e que os ciganos tem um menino pardo E
o tal Arnaldo pae da criança diz que é empregado porque não aquále menino não é cigano Será que eles tem o registro do
pidiu dinheiro para o patrão? E ále se fÔ66e homem havia de menino — ouvi dizer que os ciganos roubam crianças,
pagar com prazer porque é a ultima despeza que Ia te r com a por teso, ha pánico na favela
filha. Quando elas rctornaram-ee Ao enterro embriagaram tanto
e começaram a brigar na caes As Zefa. Outra vagabunda que foi 23 de Novembro Ae 1950
em Minas levar o filho para a sua mãe criar. Esse6 tipos Ac
Deixei o láito as 4 ho-as e fui carregar agua. Fiz cafe. Mandei o
mulheres querem ficar livres para dedicar-se a orgía. A Leila esta José Carlos comprar cão.
dizendo que quer a filha. Ela é mãe Ae 6 filhos naturas. Os 3 que
Falei com o Adalbertc se queria um par Ae sapatos para ête.
a dominga cuidou estão vivos. Os que ficaram aos cuidados dela
Não serviu. Ele queria leva-los para vender e arranjar gaita para
partiram para o alem. Quando ela estava gestante a Dominga
beber pinga.
saiu de casa dizendo que ja estava cançaAa Ae criar o& filhos
Lavei a s louças. E con a agua que enxaguei as louças eu lavei o
da Lêlla
barracão. A Leila e seu6 companheiros de bangolé foram fazer
A Leila dáita os filhos e sae para a rua. Quando retoma esta
pic-nic em Santos
embriagada e vae Aêitar Não olha se a criança esta molhada..
— Que m iel eeputa o filho num dia no outro vae passear Não
Dorme ate as 11 Ao dia. Levanta e vae cuidar dos filhos — As
e6perou nem 2 4 horas.
crianças passam varias horas sem alimentações. A Lilla e seus
0 povo da favela esta horrorisado. E que eles pidiram esmola
amigos são natarízes. So que brigam hoje, e fazem as pazes
¡ para sepultar a criança e gastaram na farra.
amanhã. A Leila ja apanhou varias vázes aqui na favela.
Fui lavar a s roupas
Como vê a Lêila ja esta velha porque uma mulher que ja teve 6
filhos.. Já não é criança Agora quando ela tiver filhos e melhor a Não fiz almôço porqte os filhos aos domingos não param em
policia retirar a criança. Esta que morreu esta registrada no « casa. Fiquel cançada. Deitei um pouco. Esquentei comiAa para a
V.EU ESTRANHO DIÃRX) NO QUARTO DE DESPEJO 95
94

Vera N8o dormi porque estava agitada pensando. Que precisava Telefonei para as folhas para mandar uns reportes na favela para
fazer comida e não tinha gurdura. expulsar os ciganos gue estão acampados agui na favela — Eles
Eu cosinhei carne seca no féijão, e ressolvl fazer uma sopa. — 0 jogam excrementos na rua. O batraco onde êles estão acampados
Kubistchk disse gue vae congelar os preços, pareçe a m atriz das moscas Eles não permite gue a s críançae
da favela brincar ccm os filhos dèles porgue não gostam de
precisa congelar, e diminuir os preços porgue assim como as coisas
misturar. E passam o dia amedrontando as crianças.
esta não é possível mais viverl Tudo gue pesa cança. E a vida já
esta nos cançando. 0 João, e o José Carlos chegaram do cinema — A s pessoas gue ressidem perto dos ciganos estão gueixando
gue éies falam a noite toda. E não deixam ninguém dormir —
Dei-lhes a sopa e banho e puis agua esguentar para eu tom ar
Eles são violentos Os favelado tem médo déles ja lhes previni gue
banho — Pensei: enguanto agua esguenta eu vou ler. Dêitei com
comigo a sopa é mais grossa.
uma revista na mão. Adormecí. Despertei as 4 horas e comecei
pensar no nortista gue disse-me: gue atmosfera de são paulo, Eles gostam de intimidar os outros. go6tam de ser temidos Eles
não presta. Que chove todos os dias. pensei: êles dêlxam no são tã o sujos. A s roupas e os dentee — Não tem nojo da6
Norte porgue não chove. E aborrece de são paulo porgue chove môscas. Dêixam os doçes expostos as môscas e depôis comem.
todos os dias. — círculo vicioso. Devido as mocinhas ficar nuas os vagabundos ficam sentados
perto do barracão. Observando-as — O diabo é gue se alguém
agredi-las os ciganos revoltam Mas a nudês delas excita, pareçe
24 de Novembro 195Ô.
gue já estou vendo um bate-fundo de ciganos com o profugés da
Deixei o leito a s 4 horas e fui carregar agua Que fila! 0 tal de
favela.
O tiand o Lopes d e tu rp o u a favela. Tín ha m os 2 to rn e ira s .
MII vêzes os nossos vagabundos do gue os ciganos.
Atualmente uma sé. E não da para o povo. Fiz café. procurei o
Devido êles ser reiachados eles não tem classe.
dinheiro, so 5 . tinha 9
Eu comprei 12 de carne moida
Mas 5 era do João e ele pegou — porgue o gue é déle é déle!
Comprei so 5 de pão Eles foram para a escoa. Fiz cam c moida com batatas e arroz. 0 senhor MgnoeLvéio agui eu
toguei êSe porgue ele atrapalha e eu não combino com analfabefco.-
A policia velo buscar o Lalau por causa do pato. Era 6 Horas.
Eles pensa gue a gente não falando com eles, é porgue ( I )
Que azar para o Lalau gue gosta de levantar as dez horas se a
policia fésse severa sempre — havia de acabar o roubos. Eu
go6to de ver os gue roubam passando apuro, 25 de Novembro de 195S-

se criassem vergonha! Deixei o lêlto a s 5 toras. Fiz café fui carregar agua. A Nena
gueixava gue ja esta cançada de ta n to apanhar de seu filho o
Eu ful na Dona J u lita . Ela deu-m e um radio. E eu mandei
concerta-lo. 1.5O O .O O , o conçcrto 0 radio é flllipis. pensei nas Dito. A Deolinda esta nervosa porgue o Orlando lhe cortou a Luz
— Favelado e herva daninha. Favelado é pior do gue a lepra —
diferenças de cara te r da humanidade — 0 Sheriff roubou o
Ele não considera o seu colega de inftjtunio.
meu radio. 0 ta l ôebastíao Pereira o malandro gue dlsse-me
gue guando se vé em apuro t roca o noms. Que a policia é E s t e t a l O rla n d o ap a re ce u a g u i não f a z um a n o . E
otaría, cie roubou — e a Dona Ju lita deu-me um. ganhei 4 0 . semi-analfabeto. Mas prevaleçe do gue sabe e guer ser o taL
Cheguei na favela era 12 horas preparei o s fe rro s para Ir ■E le é branflftrJLam aaiado com uma preta gue pode ser sua avo^
vende-los no senhor Manoel dono do deposito de ferro velho. — E um branco rampelro. A Deolinda foi da r parte déle. Ele
Dei dua6 vlagenõ. Ganhei 17Ô. cortou a luz porgue da esta lhe devendo um més.
MEU ESTRAMHO DIÁRIO N O QUARTO OÉ DESPEJO 97
96

Eu revolto com eetaa arbitrariedade. A Deolinda é atrablílona e 26 de Novembro de 1S5Ô


já dessacatou-lhe. Deixei o lêito as 5 horas e fui pegar agua. Olhei o local onde os
Eu fiz cafe e mandei o João compra pão. pui$ fêijão no fêgo. 5ai ciganos estavam acampados. Eles ficaram só 3 dias. Mas, foi o
e não levei Vera porque esta com gêrto de chuva. Não tive sorte bastante para nos aborrecer. Ele6 são missiveis indomesticaveis
pouco papéis. Não encontrei comida para o pôreo. Entregue! a e mugientos. 0 local onde onde âle6 acamparam esta tão sujo e
camisa do senhor Luiz. exala mau cheiro. Um odor desconhecido Fiz cafe e mandei o João
Dêixei a can êta na papelaria C it y para o senhor Frediríco comprar açúcar. Fritei uns bolinhos de fuba para os filhos. Eles
concertar porque é do João ele esta sendo esaminado. Ganhei comeram c levaram de lanche. Eu dêixei a Vera. A Pona Irene da
40. rua Pedro Vicente 114 deu-me duas roupas para os filhos.
Cheguei em casa era 11 horas. Quando não levo a Vera ando mais T E u estou ta o triste. Estou com tanto nojo do mundo! porque a
depressa, preparei a refeição para os filhos e esperei eles chegar * vida esta insípida — Pa quí uns dias nos não vamos poder comer
d a escola — começou chover, preparei os meíaes e fui vender na j mais. — Eu já não tenho fé com o juscelino. E não gosto dele
rua João Poemer — ganhe 413. I porque dêixa o meu povo sofrer. Ele não tem amisade ao povo.
passei na padaria e comprei 15 de bôlo. Cheguei em casa mandei mas, «u tenho. Quando eu passo perto dos operarios eu fico
o Jo ã o comprar oleo e arroz nervosa pensando que êles podiam comer melhor, porque são
Dêltei um pouco — Estou com dor nos rins. Levantei e fiz o jovens, porque tem saude. Eu fui na Dona Julita. Ela deu-me café
ja n ta r. Ja n ta m o s e deitamos. Adormeceram Quando despertei comida e carne s
levantei e fui fechar a porta. Lavei a Vera e preparei para Fiquei cõnténte. Deus que ajude a Dona Julita. Eu disse-lhe que
dêitar. mandei concertar o raoio que o homem cobrou 1 5 0 0 .
Fiquei pensando nas ocorrências diurnas. Recordei a s palavras Ela achou caro. Não acho caro porque se eu fosse comprar um
caçêtes da mulher da Rua Guajaré. r— eu pedi uma .muda de lirio novo. Ganhei 50. Comprei 1 quilo de fêijão, um pedaço de melancia
vermâlho para eu dar para a Pona Julita. e mêio quilo de arroz t o dinheiro zarpou-se. Cheguei em casa
perguntei-lhe: cançada e fui dêitar. Estou com dôr no cêrpo.
— Como foi de Viagem?
— £5em. Tudo para mim correu bem. porque o Carvalho pinto 27 de Novembro de 1955. .
ganhou. — O Adhcmar é um ladrão Dêixei o lêito as 5 horas. Fui carregar agua. Lavei a s louças
— Eu já estou farta de ouvir a dicadade q je fere o Adhemar. Mandei o João comprar pão e mantêiga. Troquei os filhos eles
Respondí. 0 povo é que crismou o dr. Adhemar de ladrão. foram a escola. Eu não levei a Vera. Quando 6alo de ca6a e
— Qual o quê. E le ja foi batisado como ladrão. Sai sem despedir, dêrxo-a fico preocupada porque aqui na favela tem m uitos
penso: — na incultura dos que falam que o Adhemar e Iadrão espíritos sujos. Circulei a s ruas com rapides. A Dona Irene
será inveja porque êle é rico A té já fiz esta quadrinha: disse-me para eu não deixa-la eosinha que as pessôas malvadas
Ouço varias pessôas dizer: duplica-se. E os bons v io diminuindo-se
o Adhemar tem muito dinheiro! ^Agradeço os bons conselhos. A Dona Irene disse-me que arranjou
— Não tem direito de enriqueçer . [uma empregada e e manda ela estudar. Que ela esta estudando
Quem é Nacional. Quem é brasileiro I comércio Que o seu espêso o tenente da aulas para a empregada
Adormecí j Fiquei contente porque eu não gosto de analfabeto...^

í
98 M E U ESTR AN HO DIÁRIO N O QUARTO DE DESPEJO 99
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Eles são como as aguas paradas. Se todos patrões dessem Contemplei a paisagem. Yí as flôres roxas que adornava o Vergei
\f aulas aos criados extinguiríam o analfabetismo no País. a.çâr madrasta a_côr_da agrura,que esta.adornando, os-caracoes
g '1 — 0 analfabeto não adimite observações •— não tolera a critica dos brasileiros famintos. ’$ $ $ ■
Nff — ¿ u esuou c o n te n te com o s meus fl hos a lfa betisad os Chegue! na favela preparei a refeição dos filhos.
Co m preendem.tudo, A Vera estava chorando Disse-me estar com fome
— .0 José Carlo s d isse-me: que vae ser um homem djetijv&Lc. que — A palavra fome atualmente _e o.. ditetjnt^_d£LÍ^sjleiro_
eu .vou .tra ta-Io de: Eu catei metal Ia na Avenida S antos Dumond e conversei com
— Seu José. J á tem pretensões Querem ressídir cm alvenaria as empregadas da empressária Brasileira

Eu fui no sotape rrtirar os papelões, ganhei 5 5 . Quando eu Achei êles muito tristes.

re to rn a va para a favela e n contrei com uma senho ra que M as atualmente não se encontra uma pessôa alegre no Brasil
— Eu estou com tanta priguiça. Mas sai para catar esterco
queixava-áe porque foi despejada pela prefeitura. Que pagava
para levar para a Dona Franca.
2QO, agora esta pagando 1.500. Que a comida e o aluguel são
passei no emporio e comprei mêio quilo de arroz e querosene e
como os pratos na balança — Que a comida castiga o povo e o
fiz a jan ta para as filias escreví um pouco.
aluguel acompanha.
preparei os filhos que foram para o lêito.
Como e horrivel ouvir um_pofete_ Comentán d o s e, porque a voz de i
.Wn..|^b¿e, j í | o ^ ^ ^ 6 t 3 0j¡í3o tem madxigaes.
2 ô de Novembro de 195Ô
para reanima-la eu disse-lhe que havia lide, .na BiHta_gus Oeus
Deixei o lêito a s 5 horas e fui carregar agua. Que boml
disse que vae concertar ojn u n d o _____ _
Não tinha ninguém na torneira so eu e a filha do Tiburcto a mulher
Ela flcoíTilcgre e perguntou-me 1 que fica gravida e ninguém sabe quem è o pae de seus fiihcs. —
/— Quando vae ser isto Pona Carolina? Ela diz que os seus filhos são filhos do seu pae — Incestuosldade.
I Que bom! E eu que já queria suicidar! 0 Tiburcio já vendeu 10 barracões aqui na favela. Comprou o
I
Otese-lhe para ela te r paciência e esperar que Jesus Cristo vem ao barracão do Adalberto por 1000, e revendeu por 1 .0 0 0 , Agora o
mundo para julgar os bons e os maus. Que os que tiver paciência Adalberto dorme na rua. Ele expolia os incautos. Crêio que ja disse
vão ser feliz Que vae ser o espetáculo mais Indo deste mundo. isto. Fui no emporio comprar cafe, pão, açúcar e mantêiga. 0
— Ah! Então eu vou esperar. Ela sorriu emporio ainda estava rechado. So abriu quando o Julio chegou.

é que a s pessoas de Espirites fortes, precisa encorajar os Fiquei horrorizada verdo um nortista comprar 15 de queijo e 5
,de açúcar
isdessiludidoa Disse-me que com isto âle passa o dia.
Ela tinha medo de atravessar o camxj^uJI»e^itEavessefpegueI-1he
Fiz café trequei os filho». 0 João disse-me que o filho da Dona Maria
a mão e disse lhe que precisamos iducar nossos reçcloe.J
do pinho anda querendo agredir a Vera para imoralidade. Que áls é
Ela olhou-me e disse-me
que não dêxa corri atras do menino e dei-lhe uns tapas e puchei-lhe
— Como a senhora é animada na vida. — Eu ja estou com nojo I as orélhas. E prometl-lhe m atar causo êle aborreça a menina
do mundo. E com odio desses bonecos politices. Mandei ele contar para a suâ~mã?Tqúe ei71hê~èxpahqué<~— ~Qs
Despedi da mulher que já estava mais animada filhos foram a escola e eu sai com a Vera.
parel para conçertar o eacco que deslieava na cabeça. Ela entrou no frigorifeo e pidiu uma salchicha.
t
N O QUARTO DE DESPEJO 101
tf ^ A} ' íj MEU KTRANH0 DlÁRi0

Fui na Avenida Tiradentes e ganhei papelões. Fui na Dona Julita 2 9 de Novembro de I26Õ
porche eu encontrei com ela e ela disse-me que tinha comida. Deixei o leito a6 5 horas e fui carregar agua. Acendí o fôgo e fui
Almoçamos o que a Pona Julita nos dou e não gastei um tuetão. no empório. E stava fechado. Fiquci parada esperando abrir.
ganhei 150. Que suplicio para carregar os papelões — Varias Fóram cheqando outros freguêses Enganei-me. hoje eu não fui no
pessoas perguntam-me se ainda estou escrevendo. empório porque tem pão amanhecido e mantêiga
Respondo que não tenho tempo. Quando cheguei na favela era Despertei o João e a Vera.
‘hora. O batraco esta horrível preparei a refeição para o Jo ã o e Eles aleluiram -se e tom aram cafe, saímos. Eu levei o Jo ã o
a Vera. Depois fui no senhor Manoel vender as estõpas e uns porque hoje não tem aula. Dêixei o J o s é C a rlo s durm ln do
ferros. Entrei na padaria guine, para comprar pão e tom ar 1 copo porque ele dê itou -se a s 11 da nóíte. — Eles passaram no
de agua Mineral Esperei ela fazer cafe Frigorífico e pídiram salsicha Eu fuí catando papel c comida
Disse-lhe que estava com pressa — que eu ia fazer o Diario. para o porco. Fui no senhor Rodolfo, e percorrí varias ruas. Fui
— Oral Ora! Voçê so vive fazendo D i a g o l -^ na sapataria.
~ É que os jornalistas das Fólha^m andarfl fazer 0 Jo ã o fica horrorizado vendo a quantidade de papéis que
— M as eles não te da nadai c a rre g o . — Ele foi para ver o rad io . 0 homem que e s ta
concertando disse-me que esta difícil. Eu disse-lhe que se não
E stão te explorando!
¿ tivesse conçêrto eu la comprar um novo.
— Eles dizem que vão dar-me uma casa.
Ele d is s e -m e que o radio ia f ic a r bom. A g o ra vem com
— Espera sentada. Que de pé Você cança 0 que eles podem
argumentos. Coisa que eu tenho pavór. Eu sou correta para
d a r-te , é 6 m etros na Vila Formosa. E não é para séculos e
pagar. J a dei-lhe 6 0 0 ,0 0 falta 10 00,0 0. Depois que eu ver o
secloria. é só 5 anos
radio funcionando eu dou o resto — Não estou contra ele. E que
Jornalistas quando prometem cumprem.
o radio é muito antigo. E a Vera quer radio,
A nossa conversa se desfez porque o senhor Manoel chegou e
ganhei 115. Um verdureiro jogou uns pimentões fora eu peguei
pidiu cafe. Eu tomei um cafe e fui cm\>ora. peguei os pães que
enchí um samburá.
com prei — Fui co m p ra r fios para ligar a luz no barracão
o sol esta calido. Quando cheguei no ponto do bonde encontrei
porque dia 7 eu vou tra ze r o radio — Cheguei na favela o Jose
com o homem que vende guaraña.
Carlos vêio quéixar-me que os filhos da Silvia havia brigado com
êles. Ele deu um copo para a Vera e eu comprei 2 copos para o João
e o Jose Carlos. Quando eu cheguei na favela era 1, e mêia.
E que a D ona Ch iq u in h a C u s t u r e ir a a n o r tis t a t o rn o u
prometer-lhe que ainda vae-lhe jogar agua fervendo com soda Contemplei o ba rrado. Quer interno quer externo esta horrível
Ela já jogou-lhe agua fria um dia. E eu nunca mais falei com ela. E eu estou cançada. Vou deitar um pouco. Dêitei 15 minutos
Essas mulheres precisa ccnheçer cadeia para am ansar-se um Depois levantei comecei fazer o almoço. Depóls fui fazer compras.
pouco. Tomei 1 copo de agua Mineral Compre» 2 0 de carne seca 1 quilo de
Eu ja estou cançada de ouvir. Quando é que seu livro vae sair? arroz. Meio de açúcar, 2 sabões e fimêtas. Mas a fu meta não
Tem día que eu penso: antes eu tivesse aprendido a beber pinga. presta- Não mata as móscas. Mata a fome do fabricante relapso
Agora tenho que continuar com a minha vida pautada até ao fim. que fabrica esta drega para extorquir dinheiro do povo. — Tem
i M as eu tenho muita saude. E o aleo deturpa o organismo, fabricante que no inicio faz os produtos bem feito depois relachám.

i Hoje... eu estou alegrei \ Eu queimei os papéis de fumátas e foi contraprodvçerrte.


i

102 MEU ESTRANHO DIÁRIO NO QUARTO 0€ DESPEJO 103

Chlnguei o fabricante de fumáta conheço — Ela, tem um filho que em 1S52 estava práeo e ela,
Creio que o povo devia criticar os produtos ove não prestam — cada vez que encontrava-me supllcava-me:
Eu fiquei reanimada — Dona Carolina, quero que a senhora dls-me se o meu filho vae
Lavei as louças. Dei banho no6 filhos. Troquel as camas e fui na ficar práso muito tempo ou se vae sair logo
torneira pegar agua para eu tom ar banho. Era 11 horas guando — A senhora advinha?
fui deitar. Ouvi vozes alteradas Levantei para ver o que era. Eram — A senhora é vidente?
2 mulheres brigando. Ouvi a voz do Lalau. E que ále ja saiu da — Quando a senhora olha para o céu o que é que a senhora vá!
cadáia. J á faz 3 dias que ále estava prèso por causa do pato — A senhora ja viu Deus?
do paulo Acho que o Lalau nunca mais ha de querer comêr pato — Que gêíto ^ é áfe?
das vlsinhas. — dizem que a senhora e profeta? ^ M i
Eu percibías confusão de profeta com poeta y ¡á ¿ / c v -
3 0 de Novembro de 1955 Ú nesta^occa sjdjgLj\ue-eu. acrependu-me de te r divulgado a
Dáixei o lêito as 5 horas e fui carregar agua — Que fila! rainha capacidade
Quando a gente sai da cadáia a gente fica contente. Quando eu E eu para por um fim nas pe rguntas incomodas da preta
consigo «n c h «r a minha lata de agua, fico contente. Quando saio respondí-lhe que:
da torneira tenho a impressão que estou s a rd o do inferno. — o seu filho ia sair no primeiro julgamento.
Vi um menino mechendo no pe. Fui ver o que havia. A preta sumiu. Um ¿*a encontramos na Avenida tiradentes ela
— Era um espinho. Ritlrei 1 alfinete do vlstido e tirei o espinho disse-me
do pe do menino — Dona Carolina! A senhora açertou! 0 meu filho saiu no primeiro
A s mulheres ficaram comentando. A Maria tiãe da Amalia que julgamento.
se In tro m e te em tu d o foi bu scar agua. Okesigenada para M as eu dlsse_por .dizar_.para alegrar a velha-porque-asL raãesr.ão
dessinfetar o pe do menino. E ele foi mostrar o espinho para o .go stam de ver os fjhos nas m asm orras, se acertei foi por
causualidade. — E hoje a preta veio procurar-me para saber se
seu pae. 0 menino olhou-me. Que olhar. — pensei: arranjei mais
a sua neta vae casar.
um amiguinho.
— Disse-lhe que casa
Carregue! agua para ensaboar as roupas. Varrí o barracão e
Eu aprendi com as oganas a dizer so as coisas bonitas e que
limpei a s camas
agradam o Espirito. Levei a preta na D. Cicilia
Lavei a cabáça da Vera.
Eia convidou-me para eu ir na sua casa prometí que vou. Mas,
Fiz almoço. Mandei os filhos comprar pão. Não foram. Hoje não
não 6ei quando
tivemos pão porque os filhos são preguiçosos e não quizeram Ir
Fdl lavar as roupas pensando na vida triste que leva a D. Luiza
no ponto do bonde Quando eu estava na torreira vi as notivagas
com o seu companhero o senhor José peixeiro. — Que homeml
chegar — Fico olhando a mocidade dissipando a saude^_$ão
Aquele homem da do, é caro sabe ler admiravelmente bem compra
jovens de 15 a 16 anos. E as mães não ihes repreendem. Nãojhes
4 jom a es por dia e esta ao par de tudo que occorre no globo
interroga não sabem o que elas praticaram, oor.onde.andaranv
pareçe um diplomata — quando não bebe pareçe um professár
Eu estava deitada. Quando a Vera introdusio uma preta queválo no falar — Qu ando esta embriagado suplanta a pítita na
procurar-me E que esta preta — ja faz muitos anos que eu lhe pornografia.
104 MÉU ESTRANHO IXÁRO N O QUARTO OE DESPEJO 105

Esta noite ele falou das 12 a té as 6 — ninguém dormiu Ele foi reseervam para a ressaca — Bebem sabado e Domingo. Quem
jogar um copo no rosto da Do na Lulza pegou no rosto da filha brigou foi o Gorge e o Zirllo. 0 Gorqe diz que tudo que ele põe
que foi chamar a policia Quando a policia chegou o senhor Jose fora do barraco o Zrico rouba para vender t beber pinga. Que
ja havia evaporado. póis brazas no ferro e pôis o ferro esquentar, quando procurou
A s visinhas vão pidir ao fiscal para rltirar o pêixeiro da favela — o ferro o Zirllo ja havia roubado — Radio patrulha entrou em
É obceno ação. J á faz 12 anes que eu presencio estes espetáculos, para
0 Cario Capela da igréja do pari veio aqui na favela celebrar mim. isto é carne de vaca. penso no Zirilo que ja esta com 3 0
missa. 0 padre^disse: eu aosto de esta no meio destá c e n te bòa ,'anos, e era para demonstrar senso, ja esta maduro. Que nôjo
Quando ele. disse gente bôa 06 favelados assus ta ram, não estão j que eu tenho quando vejo estes homens sentados vagabundando.
habituados a ser tra ta do s com frases de gazes passei a ta rde ¡ I Quando for para eles pagar alugueis — vão revoltar-se E muitos
conversando com o senhor Luiz que falou sobre agricultura — ,v vão abandonar as famílias. — são tipos que não querem te r
Que os nossos políticos nâo interessa pela lavoura. Que faltando , responsabilidade.
a lavoura»- agricultura o Pais atrofia.
— 2 de Dezembro de 1955
1 de Dezembro de 1966 Dâixei o lâito as 5 horas e fui para o purgatorio — A fila de agua
Dâixel o leito a s 5 horas e fui fazer a pinitâicia: carregar agua estava enorme. Eu ando com dó dc6 favelados. Que levantam as
Fiz cafe, puis as roupas brancas no varal. E fii fazer as compras. 3 horas para pegar agua para os Nortistas isto é comum. Mas,
Comprei pao, açúcar e um sabão. Os filhos tomaram café e foram para os paulistanos isto c um calvario. Duas tornéíras já eram
a escola — Eu sai e levei a Vera. Tive sorte. Achei muitos metaes. poucas, ainda ritiraram a outra. Dei graças a Deus quando enchi
Fui na Dona Julita. Ela estava na fêira — A Dona Maria Amelia a s vasilhas.
deu-me comida e cafe. E a Dona Tranca deu-me carne. A russia Fiz cafe e fui lavar as loucas 0 João abiluiu-se e foi comprar o
a visinha deu-me carne, pensei: hoje é o dia òa carne, ganhe 6 0 pão. Eu ia sair mas estava tã o dessanlmada que ressolvl ficar
Cheguei na favela a s 11,1/2. em casa para descançar. Arrumei as camas. Varri o barracão c
preparei a refeição para os filhos, que chegaram junto comigo. fui no deposito de ferro velho vender uns ferres e um pouco de
Mandei o Jo ã o recolher a s roupas — Depôis fui separar os estopa.
metaes. Deitei um-pouco para descançar. Levei a Vera. ganhei 16. Fiquei nervosa quando recebi os 16. Entrei
Dormi uns 2 0 minutos. na padaria guine e comprei meia duzia de bananas porque a V'era
Estava fazendo calôr. Depois eu fui vender os metaes. queria e pidia com insistencia. Eu del-lhe uns tapas
0 David pesou tudo e pagou-me 2,25. guardei o dinheiro para Ela começou chorar e um senhor que estava na padaria começou
pagar o radio. agradar-lhe, e comprou dcçês. e deu-lhe. Ela ficou contente. E eu
Cheguei em casa preparei a refeição para os filhos. 0 Jose Carlos fiquei preocupada co n a voz calma daquele homem. Sai para fora
hoje esta insuportável. Dei-lhe uma surra. Ele saiu e foi brincar. enquanto ele comprava os doçês que a V'era Indicava nos vidros.
— -iHoje_eu estou nervosa. Penso que Peue_não devia dar-me Eu lhe agradecí e disse-lhe que Vera quando pede algo é com
filhos Mãè7já"qüy~deu-mêrpreciso te r paciencia com êles. Mas- tenacidade. Que eu ^uero ver se quando ela começar trabalhar
o j e s é Carlos e Inssuportave! Hoje teve briga na favela. A pior vae ser com tenacidade. A V'era começou falar dizendo-me que
coisa iía' fãvelá é já*segunda-fáira — Dia que os plnguços foi bom eu ter lhe puchado as orelhas e ela te r chorado porovue
106 V1EU ESTRANHO DIÁRIO '
N O Q U A R TO D€ DESPEJO | /w£.' W
p ã -b / t ic / o J j:
Não sei porque e que o purtuguêô vive pensando só no dinheiro
o homem lhe vendo chorar ¿leu-lhe doces Eu vim estando esterco
para levar para a Pona Franca. Chega até irritar-me
A Vera e o José Carlos com eçaram ^ brigar — coisa pior do
Chegue! cm casa mandei a Vera comprar meio quilo de arroz e fiz
a rro z , pim então e carne. Q uando os filhe© chegaram eles mundo é criar filhos, quandoláles não obedeço. Èu saí correndo
almoçaram e nos fomos na Cruz Azul levar as lata© para vender a tra z dela para ver se ela parava de chorar. Entrei e começei
escrever. Escreví so uma palavra e fiquel Inquieta parei de
Depôis que sal da Cruz Azul fui na Dona Franca levar 06 estercos.
escrever e sai gritando
Ela nos deu café, pão e bananas e 15 cruzeiros 5 para cada filho
— Vera! Vera! Vera! E ela não respondia começei percorrer a
Eu passei na rua Alfrêdo Mala 511 para pegar umas latas que
favela lhe chamando.
uma senhora deu-me. Ela disse-me ser da associação Amigos da
A s crianças estavam brigando na rua A. penetrei na turba e
ponte pequena e que vae da r cartão de Natal para eu passar
chamava, e perguntava pela a Vera. — Ela não estava entre as
por lá para pega-lo que a distribuição dos presentes vae ser dia
21. crianças, começei pensar no tal de Cristiano. Eu chamava a Vera
e o José Carlos chawava.
Eu levei os meninos para ver o Radio. J a esta pronto. Mas falta
Eu ia procura-la no a te rro quando lhe encontrei com o ta l
1000. para pagar o conçerto.
Cristiano. — Ela disse-me sabe mamael E eu perguntei-lhe
Eu ganhei uno papeleo. No retoirio eu puis a Vera dentro do
— Onde você estava?
carrinho e vim catando lenha, parei perto do Frigorífico Incapre
— Ela vinha andando depressa vendo o Cristiano perguntel-lhe
para ca ta r carvões. Cheguei na favela ví os despreocupados
— Ela estava com c senhor?
sentados na sombra. Olhei com nõjo para o tal Cristiano. Um tipo
— Comigo não.
que veio ressidir aqui na favela. Nunca conversei com aquêle
homem. Não aprecio a sua amisade com a Ve-a. A sua resposta rapida semilaconica me fez compreender que a
mesma estava com ele
Eu guardei as muambas que estava dentro do carrinho. Ela
Ela disse-me:
estava contente. 0 Jo ã o dizia que a Casa da Dona Franca é
muito bunita. E que ele ainda ha de m orar numa casa assim. Mamãe, o homem me pegou e ia me levando lá para o atérro.

Cheguei na favela e fui conversar com o senhor Antonio. Eu — Vocé não deve acompanhar vagabundo! Ele te fez alguma
estava preocupada com a Vera que vinha dize-m e que o homem coisa?

havia dado maçã para ela. todos instantes eu ia olhar por onde — Não. Ele disse — que ia ms dar uma boncea que fala papae
ela andava. e mamãe.

peguei o caderno para escrever, escrevia e conversava com o — Tem boneca que fala mamãe? Ele vae me dar no dia de NataL

Antonio. Quando eu vi o senhor Manoel que vinna chegando. Falei: Isto não fica assim. Eu vou d a r parte, para trabalhar éste
nós estamos de mal o que e que ále vem fazer aqui. Levantei e vagabundo não presta!

entrei dentro do meu barracão, sentei para escrever. 0 João vei — Ele ouviu a menina relatar a sua ação tarada
dizer-me que eu estava de mal com o Senhor Manoel e que éle Entrei em casa. Contei para o senhor Manoel que o vagabundo ia
estava com 1000 levando a Vera para o escuro e que eu ia cham ar a Radio
Não acreditei. 0 senhor Manoel entrou e começou perguntar-me patrulha, pedi dinheiro éle deu-me 10, peguei a Vera e sai. Fui
se ja havia recebido o dinheiro do livro. t telefonar no Chico. Custaram atender.
30f) W£U ESTRANHO DIÁRIO v N O QUARTO D£ DESREJO 109

Telefonei para a sala de imprensa para ver se encontrava o Audalio Lá, êíes ressolve tudo num minuto. ^ ^ O J ^ - 'V c k c iíL
Queria pedir-lhe para rítlrar o vagabundo da favela — 0 Audalio , O C ardôso ficou herrorissado. Disse: que a mulher começa
não estava Telefonei para o dr. A dhemar. a IM a estava ocupada. interessar pelo homem dos 12 em diante. A Radio Patrulha
Telefonei para a Sadio Patrulha atenderam-me e mandaram eu estava demorando, o sargento me mandou vir dêitar a Vera.
esperar a Viatura no ponto do bonde — Fui esperar. — Que sargento! Um homem e tanto. Modesto e demonstrou
A Radio patrulha demorou muito. Contei para o Juequim paraíba m uita C u ltu ra — Eu dis se -lh e que vou d a r uma s u rra no
o a to hediondo do vagabundo. Depois de explicar quem era ela Cristiano.
disse-me que o vagabundo tem apelido de Minelrinho. — ..Que na minha terra o meu apelido é — C&rolinajio diabo. e
— Mineiro... pensei: so mesmo em Minas, que da estes tipos de que quando,eu sai da minha terna, su nãõ <^ixei_Sâ.udades. Que
homens, que não gostam de trabalhar — Eu sou de Ia conheço o cia. "o Cristiano, tem umà mãc açucarada, que quiz criar o filho cõm
o paraíba disse-me que eu devia telefonar outra vez. pedi 2, 'palavras, penso, que a mãe deve criar um filho com palavras
cruzeiros emprestado guando êle. c indutil. Quando ele ê dut!lr-couro_ n ele.
— Ele emprestou-me e diese-me que se ele visse que dava no 'Õ Cristiano é um fer-o que pfécesa fogo e bigorna... p&s eu hei
Cristiano. Que tem uma moça que lhe quer que lhe persegue e êle de ser-lhe uma bigorna na sua vida E a s minhas promessas
afasta da moça. Disse imagina so que cabeca vazia do Minelrlnho. cresçem dilatam — igual o mar.
Eu Ja havia ido falar com a sua máe. Dona Francisca que ■ Eu voltei para a favela, passei no bar c devolví os 2 cruzeiros do
disse-me que ele não estava — Contei-lhe que ia dar parte ao Juaquim paraiba.
fiscal Eu estava tã o nervosa com vontad e de picar e rep icar o
— Ela ja conheçe as proêzas do 6eu filho não as6ustou-se. ; Cristiano. Cheguel na favela o buato ja havia espalhado e ja havia
— Não defendeu-lhe como acontece nestes casos as mães dizem ultrapassado o rio ia médiando ia para a Vila Guilherme. A língua
que seu filhos são uns santos humana c o rei das informaçães.
— pelo seu silêncio dedusi que o seu fi!hor não é a rtigo de suplanta o radio porque, onde não tem radio, ela também vae —
primeira qualidade porisso eu não sei se devemos dizer: bendita sêja a lingua. ou
Do ponto do bonde fui para a delegacia e relatei o caso ao maldita sêja a lingua ■
— Acendi o fôgo e esquentei comida para
sargento. Ele telefonou para a Radio patrulha e mandou-me os filhos.
esperar disse no telefone que era o segundo telefonema e que a A Vera chegou e dormiu. Depêls que eu expliquei-lhe o que é que
menina esta com 5 anos. Começamos falar sobre estes tipos de os tarados fazem com as crianças ela ficou horrorisada Ma6,
homens. Ele disse-m e que atualm ente ha processo para os criança nesta idade vê a s coisas como se estivessem dormindo,
ta r a d o s Cançei de e s p e ra r. 0 sold ad o Cardôso chegou e êies agem como os sonambulos. 0 homem que aproveita de uma
perguntou-me criança supera o Leão. B e ê que fica sendo o rêi dos anímaes
— Quem te bateu na favela? — Eü estava tão nervosa que 6entia frio. dôls minutos depôis,
— Relatei que um tarado ia Iovando a Vera para o m ato sentia calor.
— E você conheçe ele? 0 que eu 6ei dizer e que r.ós permanecemos um periodo apenas
Conheço. Ele não trabalha. Q ue m jh e suste n ta J-a -m ã e neste planêta. ou mundo.
^qyjS_depois-qwe creeçe e continua v.ivendo_a custa. da.tnãer-=>=-nãs- — M as que periodo amargo, surge ta n ta s coisas para nos
prestal-A Vera queria ir para a Central. Dizia: /amos na Centra!. { preocupar que acabamos odiando o mundo
N O QUARTO 0€ DESPEJO 111
110 IVBJ ESTRANHO DJÁ550

porgué é que o homem em vez de porproóonar tristesa ao outro pensando. E se eu bebiese com certeza ia dormir e não sentia
não porpociona alearía? ausencia da Vera.
Mae uma. ve% compreendí que quem tem filho, não p<?dem beber.
E alegria devirça, com as bôas açães. A s almas finas, a s almas
¿Je crietaes c quem compreende o que acabo de relatar. — Filhos, é como o leme que não pode ficar sosinho: /

A alma ¿lo Cristiano foi férta com barro podre. 0 barro <\ve fede " --------- -------- ----------- ------
enxofre. 3 de Dezembro de 1950 - . i •- -
"Falei para o senhor Manoel que não tinha radio patrulha Debcel o lêrto as 5 hera6 e -ful no Inferno, pegar agua. — Que luta!
A agua com o Orlardo e horrível peguei um pouco de agua e vim
0 José Carlos começou fazer a licao era 10 ¿la noite
fazer café e deixei a Lata na fila Eu não sei com que finalidade o
Bateram na janela. Fui ver. Era a policia — Fui Indica-los Onde
Orlando coortou a agua aqui na favela. Fiz cafe e fui buscar agua.
é o barraco do Cachorro. Mas o cachorro t em muito mais valôr
Varias pessOas aguardando a sua vez — O paulo estava sentado
do que aquêle nojento. Bateram palma. O s cães começaram
orando surgiu o preto Laiau. 0 preto que anda gingando pareçe que
ladrar, eu quebrei uma ripa da cérea o soldado repreendeu-me. O
esta ensaiando para o carnaval — gosta de exibir Foi dizendo para
senhor Sebastião abriu a Janela. E a Dona Francisca tambem. Os
o paulo que ele havia lhe ¿lado um tapa na cara. porque êle estava
soldados perguntaram pelo o seu filho
bêbado. E ja foi agredindo o paulo. Os do¡6 atracaram-ae e caíram.
— Ela nos disse que ále havia, vistido o paíetd c saido.
Na queda o paulo bateu o rosto no s ok> e o nariz começou sangrar.
— Nos vamos revistar ai dentro Ele me paga! Eu quero ensina-lo
Eu separei os ¿tôis. D paulo pegou uma pedra.
a desrespeitar os inocentes
E eu disse: não joga a pedra porque se ele jogasse a
— Ò soldado marxdou-me calar a boca — porque nos chamou
m atar o Laiau. ;
O senhor Sebastíao abriu o portão. E os cães faziam suas
Ç Laiau é preto. E dizla ç u sou homem! Eu_tenr<o
sinfonias. Entram os. E a Dona Francisca nos mandou entrar
tipos que dizem: eu sou hom^ml Eles não apresentam^ÇuItura,
percibí que ela ja esta habituada com as visitas da fà.
riem_ bondade, nç^.cualidades. m oraesjjtil,
Ela nos relatou que o seu filho não tem Juízo. Qje ja sofreu tanto
J j ã o são perseverantes no__no^traba.lho,..3ão._pessIm o_s. .paes
com aquêle filho que não vê a hora de morrer.
péssimos esposos C LalãíTbate até na sggra..
0 soldado perguntou o nome de seu filho. 0 que crtèíTsâo os írujr¡díeñte^que faz do homem, um verdadeiro
— Cristiano Ranieri homem. M as o Laiau é escandaloso, é pi.nguço e diz: eu sou
— Pensei: negro com sobre-nome de italiano. homem!
— Que idade tem? Creio que há poucos homens no mundo, que podem dizer: eu sou
— 20, anos. .homem!
Eu perguntei-lhe: p~homsm tipo Laiau é igual um bolo que começa fazer depois falta
— Aquele Velho tem 2 0 anoa? alguns ¡ngridientes e a gente ressolve assar assim mesmo e não
— E a bebida quem lhe dêixa assim. da um bolo que presta. — Da qualquer coisa — e o Laiau é
E eu pensava que êle tinha 40. Os pcliclaes dissem-me para eu Jquatquer coisa — Agora sobre o paulo êle tem cultura. Não
ir dar parte déle na 12-. (nasçeu para favela. Não é violento.

— Mas eu não vou. porque o dia que ele aparecer, eu entro em — -E iLâ im L _E _,q u ^ sei viver na faveJa.: Quando é preciso ser
ação — com a mão de pilão. Dêitei. E não consegui dormir. Fiquei sensata eu sou. Quando é preciso ser louca eu sou/ -

;
f
MEU ESTRANHO OlÁJaO N O QUARTO DE DESPEJO 113
112

preparai os filhos que foram a tacóla c eu sai com a 'Vera. Pevido — Ela ficou horrori&ada e disse-me para eu te r cuidado com a
ela te r dâltado muito ta rd e e o susto que levou «Ia estava Vera Ela contou-me algumas sordidez dos tarados. Cheguei na
indisposta favela e troqu«i-m e para ir na Cidade, reçeber o dinheiro da Vera.
Ela dizia: eu hoje podia e s ta r m orta! Não fui na dona Ju lita Levei o José Caries e a Vera
porque estava com sono Mesmo assim trabahei até arranjar 100 — Que èrro\ 0 José Carlos é o diabo! Me aborreço ta n to nas
cruzeiros. ruas que eu fico quase louca — Pel-lhe uns ta p a 6. perto do
Contei para as mulheres d o deposito que o tarado ia levando a correio, e puchei lhe as orelhas da Vera. praquêl...
Vera. Cheguel em casa com sono. M as precisava fazer comida Uma senhora que vinha ao meu lado. Disse-me:
para os filhos. — A comida saiu horrível <\ue fui obrigada a dar — Isto não se faz! Na minha terra não se faz isto. 0 povo lá, é
para os porcos. Peitei para descançar mais um pouco Iducado
M as não dormia com medo da Vera sair Ressolvi levantar e fui — Onde é a terra ds senhora?
conversar com as meninas E elas começaram a faiar que o — Sulssa!
Cristiano lhes olha com um olhar que lhes apavora. E que esta — Se eu fôsse branca eu podra dizer que-havia ficado vermêlha.
sempre sorrindo para elas. Ele 6umiu da favela.
— Oh! Eu ouvi dizer que os suissos são os mais iducados do
Ele gosta de estar só perto das crianças. Ele não é alto pode globo Que voces não prejudicam uns aos o u tros. Que lá a
te r 1 e 4 0 . Não e gordo é um tipo candidato a tuberculose. A
solidariedade impera
Kosalina vêio pedir-me 6 0 , cruzeiros emprestado, emprestei.
Ela começou falar e eu ouvia com prazer. porque ela não falava
Pepôís fui deitar: senti dôr de cabeça e deu-me hemorragia
banalidade. Pisse-me que puchando as orelhas das crianças
— Foi o susto do tarado.
podem prejudicar-lhe e a s crianças podem ficar surdas. Que
0 povo da favela estão horrorisado.
da-se o castigo suavel para a criança. Nós falamos das rellgiães
do globo Eu disse-lhe que o s ^taü£os_£sm jn a is possibilidade&-na
4 de Pezembro de 195Ô
.vida do_qu.e_Q preto.j - ^ O n e o preto é sempre posto de lado,
Deixei o leito a s 5 horas e fui carregar acua. Como e horrível
Ela disse-me que é falsa convicçãp_Que i ^a.e m p fõga da é preta
permaneçer naquela fila.
e^qiíê_^ ^ é ^ J a t e ó t e .c'dfrTe^..Ela deu 5 cruzeiros ao Jose
Fiz cafe e fui fazer a s com pras Comprei pão, e margarina e
Cãrfõs~para dividir com a Vera. '~tô& kc£(y \ ó {
açúcar. Troquei os filhos, dei-lhes a refêição matinal eles foram
Tomei o bonde. 0 José Caries e a Vera ficaram contente porque
a escola e eu sal com a Vera. Hoje ela esta mais animada. Esta
eu comprei pasteis.
andando mais depressa. E s ta cantando.
Descemos a rua São Caetano e fomos buscar o radio na rua
Eu estou intranquila com a cena do vagabundo. Fui na D. Juíita
Eduardo Chaves. Que conçertou o radio foi o senhor Vicente de
passei na casa de Dona Angelina ela deu-me doçes. porque o seu
Paula pedrosa. sua re&sidância é na (...) Avenida do E stado 1.227.
filho fez anos. Ela disse-me que go&ta da vida porque o seu
gostei de fazer negocio com è\e Ele é igual o chumbo que onde
espó&o é muito bom.
pãe fica. é iducado. Recuperou o radio. Eu mostrei o radio para
A Pona Julita deu-me comida café, e papéis. Eu diese-lhe que ia
voltar la a tarde porque ia tira r o radio do conçerto e levar para a Pona <5uiomar da dnturia Tlradentes — Pisse-lhe que havia
ela ver. — Contei-lhe que havia arrebatado a Vera dos braços de falado com o seu esposo que eia havia dito-m c que ele é muito
um tarado. bom e porque foi que éles haviam separado?
114 MEU ESTRANHO IXARIO N O QUARTO DE DESPEJO ' )\S

— Ele disse-me que a Dona Guiornar não lhe permitia poetar de


Ela começou falar do seu infausto consórcio — ouvindo-a percibí
outras mulheres
que a união de dô*s entes as vezes, acarreta mil e um sofrimento
— Eu disse-lhe que o homem deve gostar únicamente de uma para ambos.
mulher
Ela pidiu-me para eu dar conselhos aos seus filhos. E eu gosto
— Ele disse-me: que o seu coracao e coletivo. Que é igual o ta n to dos seus filhos que hei de pidir a Deus que eles séjam
Edificio America. Que tem espaço só para a i mulheres. preciosos.
Dizem que não devemos dizer que não gostamos de uma pessoa, A Vera começou correr, caiu e começou chorar. Um senhor que
porque podemos vir a precisar desta pessôa porlsso eu fico estava parado perto do Cruz Azul começou agradá-la para ela
indecisa sem saber se gosto do espôso da Dona Guio mar, ou não! não chorar. Foi o Jose Ca rios quem fez ela cair.
Ela d iS 6 e -m e que 6o freu t a n t o co m êls que a t ó o am ôr Machucou o joêlho e o nariz Quando eu cheguei no ponto do bonde
dissipou-se igual o sai na agua. •entrei no bar para tomar agua 0 povo me olha quando eu pas6o
Contei-lhe que um repórter foi entrevistar uma senhora que nas ruas e falam que eu sou corajosa, porque enfrentei o tarado
festejava a s sua6 bôdas de prata. Disse-lhe: e salvei a minha filha — Cheguei a conclusão que quem resside
Ma6 a 6enhora ja viveu 2 5 anos com o seu espôso! nêstes núcleos sórdidos pouco a pouco vae se transformando.
A senhora deve t e r recordaçães agradáveis. Pode nos relatar Quando eu vim reseidr aqui na favela, eu era suavel. gostava só
alguma emoção de sua vida conjugal? [d e agradar.
Ela pensou e disse: o que eu posso dizer é. que nâstes 25 anos Atualmente sou pior do que a soda. pior do que a Ortiga. Cheguei
de casada, eu chorei, 2 5 litros de lagrimas. na favela fui m ostrar o radio para a Dona Nena. Liguei na casa
Os tinturemos sorriram, e ligaram ligaram o meu radio para ver dela. Esquecí de dizer que entrei no emporio e comprei 1 quilo de
se estava funcionando açúcar e (...)
Um tlntureiro disse-me que tinha um radio e ia leva-lo para o
homem otue conçertou o meu — Dei o endereço do senhor Vicente E ste meu Diário eu escreví Há dez anos atrás mas não tinha a
de paula pedrosa. intenção de popularizar-me pretendia revelara minha situação c
Eu fui levar o radio para a Dona Jullta ver. : a situação dos meus filhos é a situação de vida dos favelados.
Ela gostou do som do radio e elogiou o cerviço do senhor VIçente ¡Carolina Maria de Jesus. __
e pidiu-me o seu endereço, para conçertar um radio que não esta I/Carolina
funcionando. 0 senhor Jo ã o pire6 disse-ms que vae chegar o com o coração meio angustiado, porcausa dos desabores diaro
Carna va l e que eu te n h o radio para ouvir a s novidades e Será que Deus vai voltar para nos punir e nos repreender por
homenagem ao rei Momo. causa dos nossos erros, ou vai no& perdoar com a sua bond (._)
Eu disse para a Dona Julita que varias pessôas quer comprar o
radio — Ela sorriu
Eu vim para a rua Eduardo Chaves e disse ao senhor Viçente de
paula que êle devia Ir na Dona Julita para ver um radio para
conçertar Ele anotou o endereço da Dona Julita — Eu vim para
a favela Quando cheguei no Cruz Azul parei para conversar com
a mãe do Luiz Gonzaga para com ela
Corolroccoi in'exemptarda'OtwtOdedetpíV)'’. *»yjvoAuíàloDa<«íl

"Hoje 24 de julho, estou, reiniciando a escrevei o meu Diário, crêio


que, não poderei viver sem escrever porque os dramas, continuam
acontecer enquanto vivemos...

Diários
na casa de alvenaria
NA CASA D€ ALVENARIA

tro co , foram procurar um par de chinelos- para mim, fiqueí


esperando. Estava impaciente porque precisava ir na RCA Vitor
Quando recebí o chinelos ©ai pensando no paulo Dantas, que
estava aturando so aborrecimentos com o Waldemar 6ernardino
chegamos no RCA Vítor fui falar com o senhor Roque, pegando-lhe
no braço e disse-lhe:
PA ^. O
qualquer dia eu vou roubar êste relogio ..........
«O /lAO^U^^iLrt=s-álíO. _¿*
— N2o sai Carolina!
.Ê O Ô - ¿xfci-XD— __■ Q A a iw Q A iC l. ■V^-Q &
Eu corto 0 teu braço e o relógio vem.
L¿-^g_o _ A i ng t t - ^ - a-XX. <Vv O hO r, .p. o t c u
— Quem deu-te foi t&rmradc
o l j Q x ^ -.y ^ o ^ b L e x 3 p .. ^ A L o o — Quem sou eu? comprei o relógio é de ouro pedi, para arranjar
b ~ os discos para segunda fêlra telefonei ao senhor Pyitagoras
f ld U b s .l/~> , g— <v>A ¿ f c jx J jQ ^ — __________ dizendo-lhe que vamos arranjar os discos.
C u > v x o a A < iíia . .rv i/ s ^ o . jj.íY~Fia .0 jo Eu quiz pagar a dona Mercedes, ela não quiz receber, dizendo que
-a^v_s_Cj>_ recebe segunda-fáira
ÇfX jl¿* 0 ^ > - j ^ » & l z : L o -O -
ÍM - Olue mulher amavel. E s ta escrevendo um livro, gosto de quem
-o L ü . JU í -a L o -f ô .
escreve, o Paulo Partas, deu-me o 6eu livro para eu ir lendo na
KvjO í ÍX J i ^Ors. íV a ^ O r O ,
viagem.
------UL '*>/.. J? C---
Vou pedir ao d r Luciano Sahovoler, para traduzir os Bvros de Paulo
-n* JLo __ £ ^ o ^.s l , ^ú: .»_> Dantas. Ele é elegante para escrever. E educado. Eu queria te r a
educação do paulo Dantas. Ele nasçeu mais refinado do que eu.
E li,s o u um tipo que saiu do lixo do quarto de despejo. Fui
marginal! soüUrti-tipí recuperado Eu estava impaciente pensando.
I
^ onde estaria os papds da casa que o Audáiiòiquer pãra passar
a escritura. Na minha ca6a tem tantos papéis.
,'Uma casa que eu acho exquisito é dizer, minha casal pareçe que
/ainda estou no barracão. Na cama, no lixo.
somos da RCA Vitor, e despedimos, ful tom ar o ônibus. Quando
cheguei em casa soube que Aparecida, a empregada de Dona Elza
Réis. havia expancado o Joec Carlos, pensei: nos favelados que
expancava os meus filhos quando eu não estou em casa o Luiz
vè\o a noite.

2£> de outubro de 1961


Levantei as 6 horas o João, foi a aula eu dei-lhe um bilháte para
a professora dispensa-lo depois da aula e dei outro bilhête para
120 MEU ESTRANHO DfÃRÍO NA CASA DE ALVENARIA 121

êle levar para o dr. Lei ¡o de Castro Andrade, envfar-me cinco mil pedi ao Ely para auxilar-me a colocar pena no meu vestido porque
cruzeiros. eu vou leva-lo na Argentina De manhã quando fu< comprar carne,
Fiquei aguard and o a sua volta: — Uma senhora que quer conversei com um senhor que disse s e r fazendeiro em são
cincoenta mil cruzeiros emprestado vêio vistar-m e com a sua juaquim da Barra, que os colonos preferem viver na cidade do que
filha, que vae casar-se e quer alugar a minha casa quando eu trabalhar na lavoura Que êle da terras e caea& para quem quer
mudar para a cidade. Ela quêixou a vida dizendo que esta insípida plantar e não encontra ninguém Eu dl&se-lhe q u e ja trabalhei na
pensei nas palavras de Cristo quando disse: vos sôis o sal da lavoura Desgostamos das fazendas porque os fazendeiros não
terra. 0 sal orando é de mais, a comida fica intragável. E o que nos deixavanos plartar. Antigam ente os fazendeiros deixava
e s ta in tra g a n te a tu a lm e n te , são os prêços d o s generos plantar, atualmente èies dão uma ordem para o colono comprar
alimentícios. Quêixa que o seu filho esta doerte e o instituto de E recitei, os versos que eu fiz <\uando deixei a vida de fazenda.
aposentadoria não lhe da assistência condigna. Fico pensando, Ele ouviu e disse que os versos estão certo
se o saudoso getulio Vargas, estivesse vivo será que o Brasil, Eu disse-lhe que não estou contra a reforma agrária, mas queria
estava assim confuso. Queixou-se que come mal. que o fazendeiro que não utilizasse as terras dar permissão para
— Mas, a senhora precisa comêr carne! quem quizer plantar Quando o dono reclamasse a terra seria
I— Quem sou eu para comprar carne! 0 meu futuro genro come devovrda — pergunte ao fazendeiro de são juaquim da Barra, se
na minha casa e ê uma luta para dar-ihe o que comer r ha fazendas no interor para vender?
Convidei a mulher para sair comigo, e comprei 1 quilo de carne e — por iá há.
um 'pedaço de toucinho e dei-lhe. — o senhor não quer vender a tua fazenda?
Ela ficou contente paguei o que devia ao açougueiro, o João — Não.
trouxe o dinheiro.
Despedi do açougueiro e voltei para casa fui preparar o almêço
Fui comprar algo na fêira. 0 6 prêços desanima. A época esta
A mulher que quer os clncoenta mil cruzeiros vêio visítar-me com
insípida. Não ha po^ siNlidade.-de-viver com-pojcadinheiro — Que
sua filha de 14 anos.
povo triste. Os que anda.m pela fêira. Olhando os preços como se
perguntei ee a mocinha esta empregada?
fôsse um.fenómeno, passei o resto do dia escrevendo — comprei
frutas para os filhos que ficam me olhando como èe estivesse — Não esta. Ela estava trabalhando numa fabrica mas saiu por
vindo de outro planeta ser de menor idade. Ela quer estudar o corte e custura.
— porque, eu não pude pagar-ihe os estudo s comprei uma
maquina com sacrifico e estou pagando.
21 de outubro de 1961
Levantei as sete hora6. Fui lavar as roupas arrumar a casinha. — se a senhora quizsr eu ajudo pagar o corte para a sua filha,
Os filhos eõtão azucrinando-me que querem ir ao cinema. Fu| oferecí
fazer a6 compras matínaes. Vou fazer macarronada. pedi ao João E.. eu não pude comprar os materiaes. Quem podia auxiliar-me é
para^ vamsr a casa. o meu sobrinho que foi prefeito de 5anto André.
senhora me pagar — A senhora refere-se ao Osvealdo Gimen es?
í-— peguel o chinelos e dei-lhe uma surra para mim, a pior coisa — E ele mesmo. A qu é um canalha. E a ovelha negra da nossa
■e expancar alguém Mas infelizmente, as mães precisam expancar familia. Uma vez êle pôis uma ioja e lesou os parentes, porque
■ os filhos Eu não nascí para ser carrasca, gosto mais de agradar. pedia dinheiro emprestado a um, e outro

I
Cv'r. ia?-<M'tíinA,Q
122 M E U ESTRANHO DlÁRJO <t N A CASA DE ALVENARIA 123

Um dia eu fo¡ (á falar com Bie e os soldados não me deixaram educadas do mundo são a s françêsas. Que ela no fim do ano vae
entrar para os Estados UnWos. Que os brasileiros são desorganisadoe.
Mae Deus e grande. Ele perdeu o mandato. E aquele ncgento Ela e h arm enia. E p ro fe s s o ra form ad a no Líbano pensei
queria ser presidente do Brasil. — pensei: que família, que uns professora sabe que a6 crianças não nasçem sensatas. Quando
d ifa m a os o u tr o s , Numa fam ilia de am b icio s o s, a s cjue voltamos da cidade, encontramos o senhor José, um catador de
enrriqueçem passam a ser odiado pelos os que -ficaram pobres papel. Ficou contente conversamos relembrando os bons tempos
passei a te r pavor da humanidade. que pa ssaram . Falam os do finado Estefam . que tin h a um
Enquanto a mulher ia falando eu ia enxaguando as roupas. Ela deposito de papel. A esposa abandonou-lhe, ele começou beber.
dizia credo. Como a senhora trabalha! Fico pensando na perversidade d a s mulheres. E eles eram
casados e tinham filhos Eu condeno as amisades que não criam
Ela despediu-se, eu foi concluir os preparativos para a viagem. —
raizes pague! o transportes para êles. Quando cheguei em casa,
A noite uma senhora que vende na feira vêio pedir-me para leva-la
estava exausta. Queria escrever mas o sono domínou-me. Fiquei
na bar do senhor cariovaldo, que a dona M arlzette lhe deve
pensando no Luiz. Um homem inteligentíssim o, de h ábitos
quatro mil cruzeiros. Quando chegamos na cidade eu indiqueMhe
aristocráticos
o bar e fiquei aguardando o seu retérno. Achei interesante uma
pretinha fumando charuto. Quando a mulher voltou disse-me g.uc
o senhor Cariovaldo deu-lhe o endereço de sua casa para ela ir 3 0 de outubro de 1961
cobrar a sua esposa, que o senhor Cariovaldo ficou desapontado. Levantei a s 6 horas
A pior coisa que eu acho e uma Pessoa esperar lhe cobrar para
Não vou varrer a casa
pagar. Isto é malandragem Umas pretinhas perguntou E a senhor
Vou escrever. Hoje eu estou confusa.
que e a Carolina Maria de Jesus?
Tive aviso que vou ter um aborrecimento
— sou. porque?
Não vou comprar pão sobrou pães. Esquento no forno. Não vou
E que no dia 2 9 dêste vae te r um baile promovido pelo 2 2 0 e
fazer almoço, sobrou macar roñada Fiquei relembrando os meus
outros clubes. Nos vamos numa romaria na Aparecida do Norte
dia6 na favela. A s segundas-feiras eu ia nas casas ricas ver se
Eu não gosto de baile! gosto de fésta com alusão as datas e havia sobrado maca~ronada. Q uando.cto/e,fico pensando-nos,
discursos Eu disse aos pretinhos que estou em são paulo, o dia çatadôres de papéis.
desenove e se puder vou ao baile.
O s depósitos não açèrtam papéis molhados.
Não posso ser indelicada
Eu estava escrevendo quando chegou o senhor Bertini, funcionário
Despedimos dos pretinhos e fomos procurar um restaurante para d a E d ito ra Abraxas. Vêio convidar-m e para sa ir com êle e
Comprar pizza para a filha da feirante que quer ser artista. arranjar os meus documentos para a viagem. Fui trocar-m e e
■'/Eu aconselhei-a para não dêtxar a mocinha ser artista. Ela deve parei de escrever dizendo-lhe., se eu pudesse eu escrevia dia e
|aprender um oficio e casar-se. E ser uma mulher deçsnte. 0 mundo noite, A única coisa que eu gosto e de livres. Mostreí-lhe os meus
¡¡precisa de mulher que sabem cuidar de criança por falar em 'f livros. Ele pediu-me para tocar o meu disco Toque e mostrei-lhe
br lança..sabado v ^p uma professora queixar-se que o José Carlos, as fotografias que vou levar na Argentina
havia quebrado um pe de f ó r do seu quintal. Que os brasileiros Ele corrijiu uma inserção que eu fiz na fotografia Dizendo que ia
são mal educados porque estudam pouco. Q j c a9 enancas mais * prejudicar-me. E que eu escrevi na fotografia, Os pobres do Brasil,
- - 1£4 ; j 8 M B j B MEU ESTRANHO D1ÃRS0 * NA CASA DE ALVENARIA 125

anda descosos.Êie disse que o que interessa. £ .dizer que cu era — Eu não disse istd
favelada _e gostava de jivros- , — Eu não sou de confusão!
A g ra d e c i os g e s t o s s e n s a t o s . 0 J o ã o , re to rn o u e eu Eu dei abrigo para aquele branco andarilho, indolente porque êle,
re c o m e n d e i-lh e que p r e p a r a d le a Vera pa ra ir a aula e foi pedir-me. Eu fiquei com dó da criança e de sua esposa que
esquentasse a comida se eu tiver tempo chega a té ao Cartório esta gestante. 0 homem quando é homem, faz um barracão para
para tirar uma copia do teu registro. Ele estragou o registro
a familia mas, não fica andando com a mala na6 costas. S e ele
porque levava-o a o cinema para pagar meia e n tra d a E s ta fêsse na casa de um branco pedir auxilio não ia conseguir, porque
precisando do registro para preparar o diploma — Tomamos Um 06 vrancos não são tôlos. Ele disse que estava em casa de sua
taxi. Fomos ao Consulado Argentino tia. e ela expulsou. Ele fez isto para incompatlblllsar-me com a
perguntel-lhe se a s bailarinas argentinas foram para Buenos RCA Vítor e a revista 0 Cruzeiro, por inveja, e maldade, pensando
Aires? que eu estou ganhando muito dinheiro com vocês jurei não maís
Foram . Eles nos disse que foi a senhora que em prestou-lhe auxiliar ninguém. 0 senhor Bertini foi falar dos discos para
dinheiro. Fiquei satisfêlta, ouvindo isto. É o comprovante que os arranjar o dia 6 sem faita
argentinos que procurou-me não são malandros. v Eu dei o contrato da RCA Vítor para o Audáiio iêr, e guardar
— E bonito ver um homem pobre, e honrado. para mim.
A s fotografias não servem para o visto de viagem. Fomos tirar Sai da RCA Vítor furiosa com o Lauro por te r intrigado-me com
outras fotografias cinco por cinco o fotografo e de origem alemã. a s pessoas que eu t-abalho.
Rodolfo 5tein 0 Audáilo é culto, compreendeu que o Lauro é um cafagestc. Não
Eu diS6e-lhe que os Inventores de fotografia foram dôís irmãos ‘ aprendeu um oficio porque foi menino vadio. Quando cheguei em
francêses. Niepçe e Luiz Jaques Mande — Falamos da guerra. 0 casa estava molhada porque estava chovendo.
fo to g ra fo disse que na época da guerra êles prendem os Tinha comida, fiz uns bife9 e jantei. Hoje eu estou tris te os filhos
scientistas e obrigam -oa revelar a s suas descobertas químicas ficaram rèinando A dez horas o Luiz, Chegou. Usando uma capa
pra U6a-las na guerra. ¡Na minha opinião, o homem é tolo se a ordinária Eu estava preparando para d êitar. O s meus filhos
; própria natureza destroe o homem porque ó que o homem deve ficaram alegres quando lhe viu ficaram sorrindo. 0 Jo sé Carlos
I destruir-se — Fomo6 ao pôsto de vacina. Qiem atendeu-me foi foi contar uma anedota para êle. Ele sorriu. Um sorrisso forçado,
"~crdr; Antonio Prado na rua anhanguera. Eu disse-lhe que vou para
pedi a o s meus filhos que ritira e e e m do q u a rto , os filhos
a Argentina
obedeçeu-me de má vontade.
Quando saimos do posto dirigimos para a RCA Vítor Dirigí com
Ficamos so. Eu fechei a porta, e déi-ihe um ampies e um 06culo,
o senhor Bertini, para o escritório e fomos falar com o senhor
como se ê!e fêsse meu. Ele pediu: Você quer fazer as minhas
Roque, uns dos diretores. Assim que o Fred Jorge, me viu, foi
“ unhas?
dizendo 5 a be Carolina, eu gostava muito de você e agora não
gosto mais? Desci os degraus e fui aqueçer agua para corta-lhe a6 cutículas.

— porque Fred? •f êle estava raspando as unhas com a tesoura.


— E que voce foi falar para aquele môco que veio pedir emprego — Oh Luiz! Você ê loico! assim, você estraga-as. E eu tive tanto
aqui, que eu te pedi vinte e oito mil cruzeiros emprestado e não trabalho para dêlxar tuas unhasbonitas.
paguei E para o Audalio. você emprestou trinta mil. í Você é um burro!
126 MEU ESTRANHO DIÁRIO
NACASADEAIYENAR1A 127
Enfurreci e disse-lhe: Eu não preciso de homem posso viver sem
— Eu reconheço dona Carolina sorri t disse-lhe, então, eu vou
você sou uma mulher aítiva Tenho muita opinião. Tenho fôrça do
d a r -t e um par de fe rra d u ra s de ouro. M uito obrigado pelo
v o t £S2GTZ.
presente. Depois que esmaltei-lhe as unhas pedi: tira o teu palitol
para mim, era uma vez um homem cham adoJ.uiz _Ficamoe em
para eu custurar o forro. Ele despiu-se e indicou os lugares onde
silêncio.
estavam descuturados — custurei com linha preta, percibí que
ê!e queria dizer-me algo fiquei aguardando impaciente, perguntei-lhe se queria usar o relogio do Ety, na viagem que vai
empreender no Norte.
perguntou:
— Que dia o galvão esteve aqui? — Não quero, porque eu não gosto de usar nada dos outros:
Arm a de fogo e relogio, tem que ser meu.
— N I o &eL Eu puis no Diario e ja entreguei ao Audalio
— Você pois no Diario? Dei a calça para ele vestir, e pegue! o chaveiro e disse-lhe, me da
— puis, mas citei que você é bom, educado e auxiliou-me muito a s minhas chaves.

— Em que foi que te auxiliei? Ele ficou olhando eu ritira r-las do chaveiro Ha m uita6 especie
— Você afastou o » vadios que vinham aborrecer-me. Os vadios de canalhiçe no mundo. Da a impressão que você premeditou
que queriam conduzir os meus filhos para o crime intimidaram tu d o E disse-lhe outras palavras duras que não vou inclui-la6
com a tua presença. no Diário.
— Você deve ficar com os jornalistas — V a e a b r ir a p o r t a p a r a m im Carolina!

— E eu estou com os jornalistas. Tenho muitos contratos com Ele deeçeu os degraus na minha frente. Eu ia seguindo-lhe
editores estrangeiros xingando o mentalmente.
— porque e que voce acha que eu devo ficar com os jornalistas? Eu havia deixado a s chaves no meu quarto, pedi ao Ely, para
— porque eu não mais vou voltar aqui. d a r-m e a chave e peguei a calça procurando-a nos bôlsos.
Q ue odio que eu senti pelo Luiz! a extensão do am or foi a Encontrei-a abri a porta. Ele foi despedir-se do Ely. Quando êle
extensão do odio extendeu-me a mão para despedir-se eu dei-lhe um empurrão, de
pensei: se eu pudesse pica este homem em pedacinhos! S e eu saiu porta-a-fora e disse puchal
pu d e sse tra n s fo r m a -lo num a e s t a t u a . Fiquei xin gan do -o Fechei a porta rapidamente e fui sentar no sofa.
mentalmente 0 Ely, assustou-se e perguntou:
Cachorro. Ordinario, ingrato, estúpido. Ele ha de trepidar na vfda, — 0 que foi isto Carolina?
a te cair num habtemo Nos brigamos! E nossas brigas criam raizes.
perguntou:
Que dia você vae para Argentina? Não pensas que vou voltar aos teus braços novamente
— Não respondí / 0 meu odio vae módrar
— 0 Audalio vae com você? 1 Criar raizes, e dar sementes.
— Não respondí
Ele sabe, quando eu deixo de go sta r de alguen n lo lhe falo mais
0 Ely que e stava com sono reanim ou-se com a cena que
Tirou a calça para eu c u s tu ra -la e disse-m e você tem que
presenciou perguntava
arranjar um lugar para nós encontrar-m os. Aqui eu não volto
— 0 que ouve?
mais.

. . . . '!
i
>28 MEU ESTRANHO DíÁRtO N A C A S A O E ALVENARIA 129

A" senhora g osta tanto dêle fala néete homem o dia todo As .galgando-se. Não comércialiso o meu çôrpo Quando aceito um
palavras de minha mãe voltaram no meu cerebro -Nunca te iludas homem i_ porque gosto dele. E eu gostava do Luiz. Desçemos do
corn os h<?mens que vocé .será feliz^yivendc d o je u trabalho. ônibus e dirigim os para o escritorio da Bali — Cola. Onde
Fiquel sentada no sofá xingando o Luiz. funciona a firma. Fiquei sabendo que a Bali-cola pertençe ao meu
E perceblque não odeio éste homem. Eu não. gueto outro homem, editor Argentino. 0 senhor Sahanvaller.
porque é difícil um homem, com a educação do Luiz.
0 senhor Bertini estava esperando-me e disse que eu cheguel
Mae eu não vou entristecer quero ler, e escrever. atrasada expliquei-lhe que precisava preparar a Vera para Ir a
E a vida continua.

—--------- aula e preparar o altróço. 0 senhor Phitagoras disse-me que a
6ua esposa convida-me para eu ir visita-ia Quando eu voltar da
31 de outubro de 1961 Argentina prometí ir ve-la. Estava chovendo o senhor Bertini
Levantei a s 6 horas. 0 João foi a aula prepara a refeição as disse que ficou pensando em mim que andava na chuva que ia
pressas, e stava tro ca nd o -m e guando o Frederico penteado adoeçer Eu já trabalhei na lavoura. A agua da chuva e datilada
chegou. não faz mal.
Vêlo perguntar-me se estou em são paulo c dia 12 de novembro, Fomos pegar as fotografías e leva-las ao consulado, que ia
para comparecer ao baile no palacio Maua. Quando oihei pefa preparar o passaporte. 0 senhor consulo não estava para por o
janela vi a dona Merçedes, e dis6e-lhe: ví&to no porte nos saímos, fomos na Manchete pedir uma
a senhora chegou na hora H. pode subir. reportagem ao Silva Netto. Ele ia saindo do elevador bradei:
Ela entrou e galgou o s degraus entrou no meu q uarto, eu
Oh S ilva N e tto ! ap reee ntel-lh e o senhor B e rtin i, com o o
apresentei-a ao penteado, dizendo-lhe Este senhor, e o diretor
representante da editora da Argentina que esta providenciando
do 720. Um club de pretos de escaol.
a minha ida para o lançamento d<? livro. — 0 Silva Netto, deu o
Ele ó que deu-me o titulo de cidadã paulistana.
endereço do representante da Manchette, que trabalha na- Radio
Eu ja ouvi falar no senhor mas não conhecia 0 penteado disse-me
El Mundo, para enviar uma reportagem de lá pra cá. Fomos tomar
que mandou fazer a s fotografias que estou com o presidente da
cafó. 0 senhor Bertini anotou o endereço do correspondente na
Republica, e vão ficar prontas dia 3. pedi ema para levar para
Argentina. Dei um almoço no Silva Netto, que nos apresentou
Argentina Disse que custa setecentos cruzeiros cada fotografia
uma mocinha que ofereceu-lhe um liquido para adoçar o cafe. Ele
são quatro, vou pagar dôte mil e quatrocentos cruzeiros. Achei
esta fazendo regime. Citei-lhe que o saudoso Chico sá, do jornal
caro fpae-eu-agpra sou a dona do dinheiro!
"0 dia, resolveu fazer regime e adoeçcu e morreu não devemos
Troquei e 6a irnos.
interferir no organismo.
Fomos de ônibus.
Despedimos e fomos para as Fôlhas de São paulo, Fomos de
0 penteado, pagou as despâsas e desçeu p¿rto da Ultima-Hora
auto. A telefonista nos recebeu amavelmente e telefonou para a
Eu disse-lhe que o Luiz, foi-se embora para não mais voltar.
redação pedindo permissão para nós
— Ele volta, disse a dona Mercedes.
fEu não o quero mais! Fomos falar com o senhor Fred. Apresentei o senhor Bertini, que
/ Ele me syp|icava-paFa-a$títarfo,.«j não queria porque um homem pediu uma reportagem anunciando a minha viagem na Argentina
j sendo inferior não suporta a minha ~êuper\õndaâê~— Eu- vou dia 6 . 0 repórter que nos atendeu fo o senhor Carlos pizarro.
j pensando e agindo, sou íguai a ostra s que despontam e vao saimos das Fôlhas.
)

130 MEU ESTRANHO DifoSO

fomos para a Ultima Hora. eu ¡a pensando no Gil passareli, que


abandonar a vida literária. Da muita confusão, Quando eu era da
tom uma fotografia minha com o senhor A ltiro Arantes, eu queria
, favela era despresada pelo povo. porque ninguém quer ami6ade
a fotografia para leva-la na Argentina
com favelado. Dizem que são ladrôes. Mas o que falta para o
0 Gil, não esta em São paulo, foi para Tam?aú.
pobre ê comida c carinho. Agora, tem tanta gente que bajula-me
Na Ultima Hora falamos com Alik testaki. oedindo uma divulga e aborfeçe-me
na Ultima-Hora, anunciando que eu vou na Argentina. 0 pretinho disse que os brancos querem dominar os pretos
Quando saímos da Ultima Hora, o senhor Bertini perguntou-me.
Eu disse-lhe que não adimito que um branco domina-me não dêixo
Quem é esta jornalista? ñ7njüem~me por fiem,freio. Quero, ser livre igual o sol. 0 meu
— E a dona Alik Kostaki a s tro predileto, jggrqus aqueçe .e eu sinto tanto frio. porisso eu
— A h! Se eu sôubesse que era ela. te -la t r a ta d o -a com sou filha adotiva jáojçoj. Tem dia que eu penso se fêsse parãeu
deferência especial Ela é um coléese! ela esta bem na vida. Esta escolher um astro p a r ã j^ r o mêú espeso eu queria o sol. Eu não
rica. Ela e estrangeira. Ela nasçeu para ser jornalista. g o s to d o vento. E mal educado. Espalha tu d o . 0 pretinho
E assim , chegamos ao restaurante. 0 senhor Bertrini pediu continuou dizendo que é cazado com branca e ela é contra a raça
macarrão com frango, e sobremêsa de chaitíly. pagamos 70 0, negra. Quando saiu àquela reportagem no 0 Cruzeiro, as nove
cruzeiros. Flquei horrorisada. Estam os na época que uns comem musas negras estames suplantando os brancos pensei: é que os
e outros olham. Quantas pessoas devem olhar as comidas como brancos da atualidade são bons e auxilia os negros no6 tratando
coisas abstratas. com carinho 0 pretinfo que me ouvia disse que, eu residindo na
0 6enhor Bertini, reclamava por eu te r levado a dona Merçêdes. roça podia escrever a vida dos camponeses.
Fiquei nervosa porque eu não quero com fusão com os editores — Eu já e6crevi em verso6 e ricitei o colono e o fazendeiro,
internacional. Eu ia quêixando que estava com saudades do Lurz estava ricitando quando o Frêitas, entrou.
— Ele voltará. Levantei, caminhando na 6ua direção e disse.
Você vae ver. Dizia a dona Mercedes. Se voltar não o quero mais. Bôa-tarde senhor Fretinhas e dei-lhe um abraço.
Eu não gosto das pessôas enigmáticas. Noe brigamos. E disse ao Taroks, se êle soubesse! E pedi os 5 0 0 , cruzeiros
— A 6 brigas reforçam as amisades emprestado. Ele me deu 10 00.0 0,
Comigo a s brigas atrofiam a amisade. 5aimos do restaurante O Audalio te paga depois. Expiiquei ao Frêitas, porque é que eu
fomos na Livraria Francisco Alves, ver o dr. Lêlio de Ca 6tro estava sem dinheiro e sai da redação. Entramos no bar, fui tom ar
A ndrad e, êle não estava. Não podíamos esperar fomos ao uma guaraná.
consulado. Concluir o passaporte, e despedi eo senhor Bertini, eie A senhor não quer canja dona Carolina?
queria que eu voltasse de carro para a minha casa M as eu
ofereçeu-me o garçon.
estava com pouco dinheiro, fui na redação d'0 Cruzeiro e escreví
— Hoje não.
um bilhête ao Taraks.
A canja esta gostosíl
Taraks, me empresta 5 0 0 , cruzeiros, depois cu te pago e puis na
Sorri, e comentei: tudo que é fêrto aqui, é gostoso!
frente dos seus olhos para êle !êr
Saimos do bar, pedi a dona Merçêdes para acompanhar-me até
— Não tenho, eo quando receber o pagamento. Espera o Frêitas
a RCA Vttor Queria perguntar qual ê o dia que vou reçeber o
êle te da. Sentei, e fiquei conversando com um pretinho que tem
pagam ento do meu Disco. Quando o senhor Basilio me viu,
cavanhaque, DjsseHhe que o meu sonho _ey]yerna minha terrp, <»
perguntou se havia cartas para mím.
NA CASA DE ALVENARIA 133
132 MEU ESTRANHO DIÁRIO

Eu estava escrevendo Um senhor advertiu o empreñado do pôsto


— Não tem cartas.
de gasolina
Varios a rtis ta s estavam presentes — com suas fisionomias
— Você vae ficar no Diário da Carolina ela esta te olhando, o
tris te s pareçe que falta qualquer coisas para êlee? pedi ao
empregado do posto ficou amarelo,. pensei;, eu estou impondo
Pasillo, para arranjar un6 discos para eu levar prometeu-me
' r^ ^ 'it o lm u tiio . *
a r r a n ja r . Q u a n d o ch ega m o s na p o rta d o e d ificio fíquei
conversando com o Charutinho — o nosso querido Adoniram A fila começou anda' não entrei no primeiro ônibus entrei no
Barbosa. Queixou-me foi pedir ao Julio Nagib, para gravar para o segundo. Quando ohaguei em casa encontrei a dona Alba Borges,
Carnaval uma composição de sua autoria e o Julio Nagib, recusou. que vae to m a r conta de minha casa enquanto eu estiver na
E continuou falando da RCA Vítor.— A rgentina. Encontrei um bilhete do Jo rg e Barbosa Elias, do
paraná que me convidava para ir ao Cruzeiro falar-lhe amanhã as
Eu fíquei horrorisada com a s considerações do Charutinho que
duas da tarde.
não é o primeiro a queixar-se da RCA Vítor,
Jantei e fíquei girando pela casa. Fui arranjar uma cama para a
perguntou-me qual e a minha opinião sobre a organização da RCA
Alba, alelui, e fui dâítar. pensando no Lute, que vae viajar a uma
Vítor Eu tenho uma pratica de desviar os assuntos incomodes
da manhã. Vae de avião
alterei a voz dizendo;
— Charutinho. 06 meus filho© gostam do teu programa.
1 de novembro de 1861
Vae visitar-me um dia. e dei-lhe o meu endereço. Eu vou para
Argentina dia 6 . Vou ver se faço um filme por lá, se houver Levantei as 6 horas. Fui lavar as roupas. A Alba, e Ely foi raspar
possibilidade de incluir artis ta s brasileiros o senhor vae? Vou com o assoalho da 6ala ee jantar hoje eu estou nervosa. Fui fazer
a condição de ser o artista principal. compras na feira. Fíquei horrorisada com o práço do quilo de
feijão. Cincoenta e cinco cruzeiros. Dôís quilos cento e dez. Eu
Estou fazendo o escript. Um preto que esta/a com o Charutinho
e s ta v a lava nd o a s roup as quan do uma s enh o ra tocou a
disse-me que vae dar-m e uns discos para eu levar. Convidei o
campainha — Eu não queria atender. — Ela disse ser um recado
Charutinho, para vir na minha casa. Recusou — perguntei-lhe e
que reçebeu pelo telefone.
o Oswaldo Malíes, é bom para o senhor?
Fui atende-la.
— É o meu pae. Você sabe que o jornalista é bom. Coração de
jornalista, é aveludado. Não tem espinho. A dona Mercedes, deu-me — é da panair do Brasil, que telefonou para a minha casa
Dizendo que a senhera tem que ir m arcar a passagem para
um pedaço de plástico para eu por na ca?eça, porque estava
Argentina
chovendo. Recusei. Eu olhava as aguas que avjlumava-se no solo, e
pensava na favela quando ha enchentes Despedi do Charutinho, e pedi desculpa a mulher e disse-lhe que estou atarefada com
convidei a dona Mercedes, para vir dormir na minha casa. ta n ta s coisas para fazer. Ela despedlu-se eu fui preparar para
— Eu não posso! Ir na cidade atender a panair passei na redação para perguntar
onde era agáncia da panair — 0 Flavío pôrto, o novo diretor do
Ou a senhor tem algum Luiz que dorme com a senhora
Bareau do Cruzeiro quando me viu disse:
— Ninguém me quer. Eu não sou Carolina Maria de Jesus. Fui
como você esta bonita! Não quer me levar na Argentina?
tom ar o ônibus perto da Ultima Hora. A fila estava longa. E o
povo caimo aguardando a sua vez para entrar no coletivo. Um S orri. Deí um abraço no Freitas Ele explicou-me o local, sai
senhor xingou o motorista que lhe pedia para por mais gasolina sorrindo. Entrei no elevador e dei um abraço no acensorieta e
no carro pensei: o homem vae pagar e esta sendo maltratado. disse-lhe. Voce esta engordando multo, é porque fica sentado. Eu
m MEU ESTRANHO ttÁ H O NA CASA DE ALVENARIA 135

vou to pôr na enxada. Sai do elevador, enccrtrct o filho do senhor Tem pessôas que me dz: a senhora não.de/e preocupa,com.s
Antonio, secretario do O Aseis Chatoubriand. perguntei pela que passa fome. Que deve pensar nisto, são os governos. Os governos
Dona Tereza Poker. pensam em bctnbas atómicas para distruir o poto. Da a impressão
Eia. vae aos Estados Unidos visitar o dr. Assis. que um governo não nesta de um. pobre. Hcntem encontrei a Ruth
Dirigí a panalr passei na agência da Folha de são paulo. Conversei de Souza E!a me viu ia passando altiva percibí que não queria me
uns minutos com o caixa dizendo-lhe: oomprimentar. abôrdê-a e disse-lhe que vou a Argentina
quem descobriu-me foi o senhor Aurell, foi êle quem disse-me por hoje... Tenho dito.
Carolina. você-é-poetisa-E eureyoitdpor£>¡ue não queria ser poetisa.
Chorei_ tont^,-.pQo^ug^i..liorrÁ'GLter idcias, no-C¿cehro.que epyez.de
2 de novembro de 1931
regridlr duplica, sou grata ao Audalio,. que auxilia-me.
jDespertei a s duas horas para escrever. Eu estou atrasada no Diário.
Qúantõ rendeu o quarto de despejo
Não somamos. A go ra é que estam os ganhando dinheiro da
IHoje é o día dos mortos. Fico observando a ipocrosia dos vivos levando
•ftôres aos mortos. Quando uma pessôa esta viva, é maltratada, e
Europa
X des presada. A tal sociedade, que em vez de chamar sociedade, devia
— E divide com o Audálio?
cham ar podridão moral exclui, e seleciona as pessôas ferindo
Eu pedi a diversos jornalistas para auxiliar-me, que os lucros
/ eensíbilidades nobres. Pepâio que morrem choram o anoiteçam.
©eram divididos \
J3uanta s pessôas m oTcm por falta de recursos.
— Quaes foram os Jornalistas que a senhora pediu auxilio?
1— M atos pacheco, José Tavares, 0 finado Castrinho O finado A minha casa tem o fundo para o cemiterlo. Fico olhando os vivos
Chico sá, e ao Mario de Oliveira. Tive sorte com o Audalio Dantas. visitando os mortos adornando os campos com flôros e velas.
>
Hoje eu vou ficar em casa escrevendo. A Vera vae brincar com as
— voce já comprou casa?
meninas brancas, que reçebe-a com displicência açêitando-a por
— ja . Quero ver se compro uma casa para o Audálio. Com o
formalidade. Como se os vfvo6 selecionando dividindo a s classes.
dinheiro que vier da Europa. Tem pessôas que me falam ta n ta s
coisas do Audalio, será verdade? 1 S e um menino branco e n tra na minha casa, a s mães vem
Cheguei na panaer,, e acertei a passagem. Dêixel o cartão do / correndo ritirar os seus filhos como 6e contagiassem ao nosso
senhor Dertini para ir concluir a passagem, êle tem que levar os j lado. Tem hora que eu tenho vontade de mandiar a humanidade
documentos. Conversei com a s pessôas presentes, dizendo-lhes / a puta que.... M as hoje é dia de finado, jü g m e u s filhos estão
que gosto dos livros. Quando eu-m orrer quero o meu t umulft.no xingando-me dizendo que eu vivo abraçando e bêjjando os homens
form ato de um ilvro sai da agência voltei para casa Cheguei com se eles soubsss^ ~ g ü e '~ g ü Tã ? 5 ~ í6tõ ^õrque~~tertho pena dos
sono fui dêitar pensando na mãe da Maria do Carmo, que quer brasileiros que lut a t ri^ ^ -C L C U s ^ è r c vTdãT
um livro para dar de presente a frêlra.^Eu não sou fanática para A s pessôas que passam do campo santo quêíxam o custo das
iarêja sou fanática para os livros, e as crianças^juê^g ^gga m flôres.
fome_aa-favela,-eu- via -as,criánças brincardo com os bracinhos
passei o dia em casa.
de_MPigC-a.4ue-encontravam. no. feÔlg_cibgcmh ag-gem-ft"çgrpo.
j Cheguei a conclusão, que se um pobre fica rico, a alma continua
3 de novembro de 1931.
* \ pobre. E se um rico fic a r pobre a alm a c o n tinu a rica . E
; transformou em dilema mentaes. Levantei a s 3 horas. Hoje o João, não vae a aula.
136 MEU ESIRANHO OiÁíSO MACASA DE AIVENARIA 137
/
I A dona Alba, a jovem que ceta trabalhando para mim disse-me: ao senhor lõertini, .se eu não tiver dinherio para comprar comida
I quando eu estava cm Uberaba, o meu sonho era morar com a para os meus fj.lh(>s ey não yo.u a A rg entina Êle ouviu-me
< senhora. desinteressado, pensei: êle ainda não me conheçe. Não sabe que
i pago-a séís mil cruzeiros por mêses para cuidar doe meue filhos eu eõu desçendente da bomba atômica.
i e da casa. Ela... porinquanto é iducada. 1Quando chegamos no escritorio 0 senhor Dertrini, deu-me as
fotografias que tiramos para o passaporte. E que eu vou mandar
I Com relações ae pessêas ha muita poesibilidade de enganarmos.
reproduzidas porque a fotografia ficou bonita. Ele deu-me os
I Estou tomando nôjo da humanidade que brilha igua la ouro.líias
trezentos cruzeiros que emprestei-lhe. 5ai, fui na Livraria Francisco
[_é metal laminaáor^ H õ i e êu “estou- ri^õ sg rtto n i^m ^ca iu uma
Afves. o dr. Léiio, nãc estava Fiquei esperando-o. Antigamente era
faisca eletrica perto de minha casa. podia atinjir-m e podia
ele quem me esperava. Agora sou eu. Mas eu não bajulo procuro
penetrar na minha casa c m atar-me com os meus filhos. pareçe
cumprir os meus deveres apenas isto. Quando uma pessoa começa
que o poeta não tem Deus, para proteger-ihe. Tomei so café de
ficar confusa eu mando para o inferno, sou laboriosa e esforço para
manhã e fui na cidade. Fui na panair acertar a passagem, pedi
as pessoas que negociam comigo ter vantagem.
ao funcionário da panaer para telefonar ao eenhor Dertinl.
0 Darbosa Lesea, entrou me viu. E claro, porgue eu estava
avisando-o que eu estava esperando-o no escritorio da agência,
usando um vestido espalhafatoso
sentei, aguardando-o M as, eu estou supemervosa para f¡car
sentada, sai, e fui ao escritorio da Daü-cola encontrei o senhor Entrou direto sem me olhar
Dertrini que estava de saida para a panair. Comprimentei-o e Eu disse-lhe: esta rico! Não comprimenta os pobres. Ele voltou-se
saímos, Fomos na panair Concluir o passaporte. Depois fomos no c comprimentou-me e abraçou-me falei das ultimas composições
Diario ver se o filme que fizeram comigo esta pronto, prometeu que gravei na Formata e cantei umas composições para êle ouvir
o filme para a — tarde. 0 encarregado não trabalhou hontem Olhando-o perguntei:
por s e r feriado. Salm os do Diário e diríjirtios para a Livraria Qua! e a razão dos teus cabelos abandonar-te e a desilusão de
Francisco Alves, o senhor Dertini, quer conheçer o dr. Lelio de te r entrado neste meio?
Castro Andrade. Ele, olhou-me e disse: quem entra nêste núcleo ou perde os
M as o d r Lélio, não estava Os funcionários diz que êle esta cabelos ou perde a dgnidade.
doente, pareçe que o dr. Lelio, não gosta de receber-me. M as eu Dei um suspiro comeitando E eu... perdi a ilusão
^ju re i Isto é que é piori
Vou abandonar a .literatura. Com as confusões que enfrento Ele seguia, Ia falar can 0 d r Lelio, Fiquei congeturando. para mim
com o qiJartOjde despejo. fui perdendtTõ amor~pêFa literatura. ~b o dr. Lelio, não esta. E para outros estão. M as eu nãc preciso
que o senhor Dertini, o representante da Editora Abraxas, queria déles. R e s t o u perdendo o interesse pela literatura. Êstava
uma fotografia minha com o dr. Lélio. Saimos da Livraria eu fui pensando nãs~pâíãvrãs do senhor Dertinj que disse-me que eu
queixando que vou dêlxar a literatura de lado. Vou arranjar um d.evo levar ¿irriHéTrò sé quèer t e r despesas extras. 0 Editor é
emprego. Não .m e-adapto-a_ser telégulada. Com o dinheiro que quem devia me arranjar dinheiro adiantado. Fiquei ner/osa, um
recebi da Europa eu queria d a r entrada~nõütra casa e alugar a senhor que trabalha na Livraria.disse-me que eu devia te r calma
que estou morando. Com o aluguel eu Ia pagando as prestações c paciência, pensei: mesmo eu sendo explosiva êles querem .me
da casa. M as o dr. Lélio e o Audálio, interferiram — querem embrulhar imagina só se eu fosse calma. Começei escrever
pagar a casa de uma vez e atrapalha os meus progetos. Avisei Humanidade

i
MEU ESTRANHO DIÁRIO * NA CASA DE ALVENARIA 139
138

j ■*- r fc<■ . v' *


Depôis de conhecer a humanidade ; — 5ão os tolos qie não observam os dramas da vidai C .-* :-
| teve ventura e desventura. A felicidade e a ¡f.fc.ícidsdc. ¿3o
suas perversidades
- visinha6, vis a vis
suas ambições
O homem despediu-se. eu cansei de ficar na Livraria sai. Fui no
Eu fui cnveiheçendo
bar tom ar um café s disse ao empregado da Livraria: se eu não
E perdendo
tiver dinheiro para comprar comida para os meus filhos eu não
a s ilusões
vou a Argentina e aai furiosa. Varias pessôas convidou-me para
o que predomina é a
morar na Argentina eu estava cansada mas o meu desejo era
maldade
de andar, andar a te cansar. ResoM ir no juizado ver se o pae da
porque a bondade: Vera deixou dinheiro.
Ninguém pratica
Encontrei as mulheres xingando os esposos Quéixando perde-se
Humanidade ambiciosa um tempão aqui, « são encontra dinheiro
E gananciosa
0 diabo podia carregar o meu marido — outra comentou o diabo
Ove quer ficar rica!
podia carregar todos os homens, são tão nogentos que êstes
Quando eu morrer... diabos não vão pare o céu — A outra comentou. Eu queria ser
Não quero renasçer secretaria do diabo, para instiga-lo a m altratar estes homens
É horrivd, suportar a humanidade nogentos que fazem as mulheres sofrer. Outra que ouvia disse: e
Que tem aparência nobre morre tantos homens na guerra ainda ficam homens para judiar de
Que encobre nos — A fiia ia andando As que encontravam dinheiro ficavam
A s pésimas qualidades contente sorrindo. As que não encontravam saiam resmungando.
Eu não encontrei. As mulheres ficavam olhando-mc com curiosidade
Notei que o ente humano Falando dos advogaeos Uma quêixava que a dona Olga Maria, esta
É pervesso, é tirano a-favôr do seu espôso e contra ela Outra elogiava a Dra Zenêida,
Egoísta interessei ros que é muito bôa e obñgou o seu espõso resolver seus problemas em
tr& s dias Ela, e contra os homens que abandonam os fiihos Eis o
Mas tra ta com ccrtêzia
que me disse a Dona Maria Arlínda Silva dos Santos. Estava
Mas tudo é ipocresia
contente dizendo que é feliz — Trabalha por dia e ganha dôze mil
São rudes, e trapaçêiroc
cruzeiros por mês e tem so um filho perguntam-me se 60u feliz?
— ■Não. sou desgraçada.
Um senhor aproximou-se Como vac Carolina? esta vendendo
muitos livros? / Eu penso a vida de um géito e ela corre de outro. Agora é que
eu estou conheçendo os homens. Has os que tem barbas e
Ah! Respondí bruscamente. Eu ja enjoei de6ta confusão, e li o que
vestem calças, mas, são cafajestes. Deus devia seléeionar os
' acabava de escrever. A humanidade. Ele ouvit e perguntou Esta
homens. Os homens honestos nasçer com barbas e os vadios sem
; é a tua conclusão a respeito da humanidade. E que eu estou
barbas. Os homens deviam honrar a sua condiçSo de homem, s e r .
desiludida neste ambiente. Tem hora que eu tenho vontade de
I. honesto andar de cabeça erguida.
' catar papel.
0 homem ouviu-me e disse. Tem pessoas que te inveja - 0 que e que a senhora faz?

:1
140 A\EU ESTRANHO D1Á5SO NA CASA DE ALVENARIA 141

— Já fui lavrado ra, doméstica, catadeira dc papel, e agora sou Sabe Carolina, eu tenho chorado ta n to . Eu não sabia que o
escritora. M as o quadro melhor de minha vida foi quando eu era mundo era pervesso a&6im...
tavradora. M oravam os na roça. havia solidariedade entre os
E tu a mão onde esta?
colonos. Aos sábados, nos fazíamos mutirão e a noite havia baile
— E sta trabalhando em Guarulhos na fabrica de uns parentes,.
tinha um viuvo que queria casar-se comigo. M as eu não quiz A minha mãe tem trabalhado ta n to l pensei na Dona Ju lita
porque não tinha confiança em mim Não tenho paciência com as quando dizia... a Veva precisa criar juízo.
díscusães que os casaco ençêtam. E bonito u n lar, onde rêina a
Despedi e fui ver a Sandra. Ela esta bonita! reçebeu-me sorrindo
paz e alegria. Eu queria andar initerruptamente
sua mãe, não estava em casa. Despedi e fui ver uma senhora que
Resolví ir visitar 06 recantos onde eu catava papel. tem pensão. Fui ao instituto Bernardo, ver a Mariene Ela estava
Fui almoçar na casa de Pona Angelina, na rua Frei Antonio auxiliando a sua mãe. Sorriram quando me viu. perguntaram como
S an ta na Galvão 15. Relembrei 06 tem pos passados. O meu vae de vida?
cerebro era povôado de ílusães pensava... eu vou escrever! Eu vou — Mais ou menos.
editar um livrol Eu vou comprar um sitio e plantar flores, criar — E sta feliz?
aves como c bonito o cantar dos galos. 0 cazarejar dos patos
Mais ou menos.
A s angolas oom suas penas preta e branca. Revi o numero 17.
Começaram a falar q je me viu na televisão, com o J . Silvestre, e
Onde residia a dona Julita.
outros programas.
0 senhor Angelo dizia:
A Marlene disse-me que eu olhei a Sua mãe e disse-lhe que ela
Você fícou rica. E nos déixou vae casar com um homem rico.
é falta de tempo. Respondí Circulando o meu olhar pela casinha Ela respondeu-m e, se eu c a s a r com um homem rico vou te
perguntei: — 0 que vam os comêr hoje? A s meninas ficaram auxiliar. E o resto pareçe que e a Carolina que vae auxiliar-me
alegres quando me viu. Esquentaram sopa, e arroz, e fritaram um Despedi da Mariene dizendo-lhe que havia visto o seu pae
ovo para mim.
pae no juizado. Entrei na sapataria para ver o Eduardinho, c o
Almoçei, conversei um pouco e fui visitar a Veva. seu pae que é sapa te iro e me dava papel. Hoje eu e s to u '
Ela, tem uma filhinha. E sta cotn nove mêses. super-triste Queria fbar num lugar dlzerto, sem ruídos. Como é ’■
A menina chama Maria Luiza. E bonitinha — Fiquei com dó da horrível a vida com a falta de tranquilidade interior /
Veva. E s t a ha ba tid a e t ris te , porque reçebeu a v is ita da Eu tenho a impressão que estou entre milhares d.e Juda6 — eu
desventura. Falamos de Dona Julita. do Glímot, irmão da Veva. não gosto de ser contrariada. Quando eu era menina, eu pensava
Ele esta contente com a menina. sera que eu viver corro desejo? Comprar vestidos bonitos, residir
— Esta. numa casa vermâlha, a minha cêr predileta — Agora que com prei'
— Não alude a tua condição confusa? a casa não me foi possível pinta-Ia de vermêlho porque os padres
haviam de dizer: a Carolina é cumunista gostaria de te r um
— Não fala nada.
túm ulo vermêlho mas os padres não vão permitir porque eles \
Mas, deve sofrer interiormente. A Veva, era clarinha, agora esta
querem mandar no povo. 0 mundo para ser bom tinha que ser {
escura, e quêixava a vida para mím. Eu tenho chora do tanto
dirigido por Je6us Cristo, que é um espirito superior e não tem ' i
Carolina!
am bição. Me con ta ra m que a igrêja tem uma o rg a n iza ç ã o ^
Carolina, me ajuda a ser feliz! Tem dó de mim! •* denominada Metropolitano e aplica as esmolae que a igrája
NA CASA DE ALVENARIA 143
142 «IEU ESTRANHO DfÁRlO

Tira d e n te s, relembrando eu 6uja com o sa co nas c o s ta s ,


arrecada nas construções de prédios para alujar apartamentos
debruçada nas latas do lixo. Ficava alegre, quando encontrava
porgue não utílisa o que arrecada com os pobres?
metal alumínio para vender no ferro velho, parava para escrever
Guando aparcçc alguém defendendo o pobre, a igreja amaldiçoa-o
nas ruas. — pensava... se eu pudesse viver sempre escrevendo...
— Já excumungaram o Fidel Castro. E cu per escrever ¡sto, já
se eu pudesse viver lendo! parei na sapataria para conversar com
eov candidata a uma excomungação — Tivenoe padrea nobres
o s a pa te iro relem b-ando quando o seu Rodolfo Shenaufer,
que interessava na cultura d o povo querendo ensinar a té os
comprava sapatos para a Vera E ela dizia: o seu Rodolfo vae pro
indios ceu. saia correndo, m ostrar os sapatos ao empregados. Quando
Minha cabeça estava pezada de ideias — pensei: hoje... eu vou abri a porta para entear o Senhor Rodolfo, vinha saindo. Sorrimos
enlouqueçeri Como é horrível t e r o pencamente poético. E porisso e abraçamos
que os poetas querem morrer. Ha 06 que suicidam supondo que
; A "Senhora sumiu! Esta rica Rica! palavra que eu tenho nójo de
v2o encontrar tranquilidade no tumulo — Entrei no emporio do
senhor Antonio, na esquina da rua Alfredo Ma ia e perguntei-lhe
se ja venderam a casa da esquina —
perguntou-me:
Ainda não. Uma senhora
1 ouvirl Quando eu vêjo um pedaço de doce devorado pelas formiga
• penco, éste pedaço ds docê coincide comigo, depôis que publique:'
' o quarto de despejo.
Como vae a vida?
— A senhora cabe quanto eia quer pela r.aan?
! — Eu estou no inferno!
— sêi. Doze mllhães. Fiquei pencando: a muher que quer doze
Mão saiu nada como deséjel. E eu não gosto de ser teleguiada.
milhães pela casa, esta com oitenta e cinco anos. 6uas carnes
Eles e quem adlministra o que arrecado, eu queria alugar a casa
ausentaram-se. É so pele e ossos. Ela não vas viver para gastar
que estou morando c comprar outra ao meu gêsto. Com o aluguel
estes dôze milhSes.
da casa eu pagava as prestaçães. Mas, tenho que obedecer se
Jbão os espíritos apegados ao mundo.
eu tivesse diploma superior seria respeitada M as tenho só dois
•(Tenho a alma angustiada anos de grupo. Sou semi analfabeta Queixei minhas maguas para
E um desgôsto profundo o senhor Rodolfo Sheraufer. Dlsse-me: bem que eu- te dizia: qi
• De viver nesta salada você seria feliz 6e continuasse catando papel.
Que se chama mundo. Voce esta no mêio dos reos.... quem não sabe fingir alr.-hão'vènçer.
v 0 senhor Antonio continuou cantando a historia da Carolina. Uma — Fiquei refletindo mentalmente — fingir.
p re ta que a n d a va pe las ru a s , com uma m enina lhe 0 senh o r R odolfo, deu-m e uma g a rra fa de vinho dizendo
acompanhando, e catan do papel. Eu sai, fui ver a dona da dessafoga a tua decepção nê&te vinho.
tinturaría Tiradentes. Sorri, e fui girar para rever os recantos da oficina onde eu
Disse-lhe que sinto saudades deles, mas não posso ir vê-los. percorria quando catava papel e conversava com os empregados
Recordei: quando ela me dava sabão, pães, e macarrão, fêijão é do senhor Rodolfo Sheraufer.
sapatos para a Vera. Ah... agora é que eu recordei o nome da
Olhando aquêles homem, com su a s roupas sujas e graxa eu
dona da tinturaría. É dona Gulomar. Eu preciso amar aquêle povo. pensava. Estes é que são homens limpos. Viver com os produtos
Que me auxiliava perguntou-me: a senhora vae o seu Rodolfo? do seu trabalho.
— Vou. Estou com saudades dêle. Tinha dia que êle estava Não sao cafagestss. Nao são homens de duplas personalidades.
nervoso e eu pensava: quem é rico, não precisa ficar nervôso. E
5ão 06 operarios os ntais honestos do mundo.
cnq.adí!: â vida do rico, é um inferno Fu seguindo Avenida f
,
144 MEU ESTRANHO DiÁRSO NA CASA OE ALVENARIA 145

pedi licença ao senhor Rofolfo para telefonar. Entrei e plantei uma muda de flôr gue a dona Juana deu-me. A
Conçedeu-me. dama da nôlte 0 João abriu a porta para mim, — Fui tom ar
banho, sai do banho com dôr de cabeça, pensei: gue turtura sofre
Telefonei para o Cruzeiro dizendo ao jornalista Carlos de Frêitas,
o côrpo humano.
gue nao vou a Argentina, porque não te n h o p inheiro para comprar
com id a para os meus filhos Eu térfa gue fazer uma dcspêeaextra se n te fome, sente frio, s ente d ô r, sente saudades, sente j
e o meu dinheiro não dá ✓ inquietação interior, sente sede, tem ambição, esta sombra negra:
0 Freitas, aconsôlhou-me para não ir. gue vou g a sta r muito. gue deturpa o homem. 0 homem ê falso. E mesgulnho. E eu fjguei \ .
Desligue? o telefone e perguntei pelo dr. Souza, com vontade de morrer. \

Esta doente, foi o que me disse o senhor Rodolfo, pretendo ir M as a morte não vem guando desôjamos. M as um'dia é á -h a de
visita-lo. Eu gueria voltar pra oasa mas estava chovendo. Olhei o vir... 0 João estava com radio ligado pedi, desliga o radio. Não.
Senhor Rodolfo e disse-lhe. 0 senhor esta engordando, precisa Eu e o Ely gueremos ouvir o charutinho.
emagrecer um pouco. 0 6enhor deve trabalhar mas — Ele sorriu
E seis horas. 0 programa do Charutinho é as dez horas.
dizendo, dona Carolina, a senhora não é ninha amiga, eu j i
trabalho tanto , perguntei. 0 João, disse. Credo mamãe! A senhora tem um geniol Levantei
nervosa peguei o radie, joguel o no assoalho e guebrei-o porgue o
E a tua filha já formou-a.
Joã o não me respeita Não me obdeçe Quem instiga-o contra mim
— 5e tudo correr bçm ela formara éste ana
e o Ely da Cruz. Eu dei hospitalidade ao Eiy, na minha casa, mas
parou de chover despedi Quando eu estava aguardando o ônibus arrependí — Figuei com dó de ter guebrado o meu radio. Mas
rêiniciou a chuva novamente. Um jovem ofereçeu-m e o seu tem pessôas gue para nos respéitar e preciso sermos violentos.
guarda-chuva figuel com ôle. E os pretos são pésimos filhos
Quando surgiu o ônibus Vila guilherme de embarcou a maioria dos
eu estou com falta de ar. 0 Jo ão me olhou com o seu olhar duro.
operários estavam debaixo dos arvoredos. Eu figuei na chuva
Quem me olha com siavldade é s o o José Carlos. Mande? o João
relembrando guando eu trabalhava na lavoura a s vêzes não
comprar uma folha de papei e escreví uma reportagem para a
tínhamos tempo de chegar no rancho e molhavamos: todo.
Ultima Hora. 0 Jo ão foi levar. Dei-lhe cinccenta cruzeiros para
Dom tempo. Eu não conhecia o mundo gue é habitado pelos pagar a condução, o desgosto gueeu_j£Bho-á^gue por eu ter
vermes humanos m o ra d o jv ^ fa v ela pensam gue sou vagabunda. E e u 'n ã o sou.
Hoje eu estou triste. E gue eu não vivo comp desôjel Eu gueria
comprar outra casa c sair do bairo gue estou morando Quando
o ônibus chegou eu estava molhada. Mae eu não tenho môdo de (-> v
\
chuva. A chuva é natural E o gue é natural nao prejudica. A agua Levantei as 6 horas. Fui escrever1; pensando. Eu não vou na
!. da chuva é dlstilada. Argentina porgue não tenho dinherió para comprar comida para
Quando vae para o alto a s impurezas ficam aguí na terra. E nos os meus filhos. A mirha situação esta péssima. Tem uma fleira
^também devemos ser assim. Os nosso© defêitos ficam no túmulo. gue esta pedindo um livro. A mãe da Maria do Carmo, é quem
Um preto, gueria me dar o seu lugar. Recusei. 0 meu vestido vem pedir o livro. Os com ponentes da Igrêja estão sempre
estava pesado com a chuva. pedindo. Quem guer eompra. eu não fanatica por igreja^ O meu
Quando cheguei cm casa pensei: vou descansar. fanatismo c pelas crlancas_que passam fome.
NA CASA DE ALVENARIA 147
146 MEU ESTRANHO DIÁRIO

0 João, nao foi a aula. foi ao banco ritirar dôis mil cruzeiros. para Não vê o povo redamando que tem fome.
as despêzas da feira. Enquanto aguardava a chegada do João, o pior gigante da atualidade.
fiquei escrevendo. 0 senhor Pytagoras dizia, a senhora vae na Argentina, a senhora
o João checou e deu-me dinheiro. Fui na fêlra fazer compras. Os não me disse que precisava de dinheiro para com prar o que
preços e s tã o ga lga nd o-se. Já e s tã o difícil para os pobres comêr.
alcança-los. Quando vou nas fêlras fico tris te pensando na Eu disse para o sennor fortinl.
hum anidade que esta condonada a morrer de fome. Fiz a s — Mas o fo rtín i não é o chefe do escritorio,
compras c brinque! com os vendedores e voltei para casa pensei: em que condições chegou a minha vidaJíu precisojngcrer.
A dona A lb a , preparou o alm o ço Depois que alm ocei fui A senhora vae falar comigo no escritorio, segunda ou terça-feira,
escrever. A s quatro horas o d r Jo s é Roberto pena, repórter da tem dia que a senhora esta positiva, hoje esta negativa. E êie
A Ultima Hora, vêio fazer uma reportaqem. Quebícblhe. a-vida.- e Sorria Começel sentir frio. percebí que a minha pressão estava
I disse-lhe que não mais vou a A rg entina porque nã o jt^n h o abaixando. Eu preciso s air dêete mundo.
' dinheiro para cPrtfprar _ç.o.mida.^para.os m g Td filiíc ^ r A minha 0 senhor pytagoras disse que precisava ver a sua esposa que
I vjdgLesta confusa. Eu estava desfazendo as malas. Mostrei-lhe e s ta v a fora de essa to d o o dia. que tra b a lh a ra m m uito.
los livros que comprei e os que estou escrevendo. Ele olhou a Acompanhei o senhor pytagoras, ate o portão olhando a pirua
'‘c asa dizenda que esta escrita Beli-cola.
f
Quem me dera, ter uma casa assim. Ele estava alegre, sorrindo penser. que contraste na minha vida.
P ^ u jitc i-lh e quando vae casar-se. Disse que a vida não esta Ele alegre, e eu triste. Recordòi a minha poesia, a velhice e a
¡-ív-ra pensar no casamento. mocidade. — Ele saiu eu avisei-lhe que escreví um artigo na
À o sonijor Phytagoras, chegou vêio avisar-me que eu não ultima-Hora avisando o povo porque não ia na Argentina Fico
,Vou ná''Af0èhtina por causa da greve geral que eclodiu no país. horrodeada com a minha vida atual, Entrei e sentei refletindo Eu
já estou cansada desta confusão
iExpliquet-ihe que não vou porque não tenho nada para dêíxar aos
sentamos e ficamos conversando — A dona Alba, contou que
li meus filhos para comêr. A minha vida esta tão confusa A minha
uns jovens de Uberaba resolveram fazer uma s e ren ata no
¡vida ficou insípida Ha os que querem casar-se e vem pedir-me
'dinheiro. cimiterio e não sabiam que os coveiros estavam trabalhando
a-nôite
DeusTne livre. Quem escreve precisa sossêgo e eu não tenho. Eu
Cantaram . Depôls que cantaram , os coveiros aplaudiram. Os
disse ao Audálio que não queria ir na Argentina
cantores que saíram correndo dêixando ca ir os instrumentos e
•— Tem que ir... O rd e n o u -m e . Tem hora que eu fico sem i
quebrando-os.
inconciente, vivendo a época da infancia, quando eu comia goiaba
Ful.dêitar. Não adormecí
verde. Manga verde, a manga quando é verde é azêda. Vêjo a
minha mãe lavando ro u p a s Ia no sobrado do senhor Jo s é
Saturnino. E eu brincando com o Ellantho. Com um estilingue na (...) de novembro de 1961
mão. Foi com o estilingue que o David, matou o golias, Hoje é domingo. Eu estou cansad a e triste pensando na minha
yVitigamente havia so um gigante e a gente podia mata-lo. Hoje v; ^vld a-q ue-e ôta - íõ n f js ã jg u a L c a rta enigmática, passei o dia em
cas&LíS dona Alba, fez o almoço .Eu. estou to n ta fui dêítar. Ja
rè £ tempos são outros. Temos os atacadistas, que não tem dó 3i
de ninguém. estou enjoada da vjda.JJei dinheiro ao J o e J Carlos, piara ir ao
148 MEU ESTRANHO DIÁRIO
NA CASAOS ALVENARIA 149

cinema. Eu e e t ava dê ita da lendo guando os repor tere© da so!, esta calido. Fiqje[^¡ensando na minha vida que ¿ igual um
Ultima-Hora, que vieram fotografar-me. para a Manchete Hoje eu edificio que construimos e depôis desaba. Quando eu era menina
estou preocupada com a minha, vid a .d g :o r-re _ jo e m o .d e s jje L perguntei a minha mãe se o mundo era postoso?
pensamos a 'dd.a^e^gm v^êlto^g gla-SPrre de outro./ôuâixei aos —r- Ela, nao respondeu-me. Eu olhava o céu com suas nuvens
jornajistaa c^ue não nasci, para_ser. teleguiada. Fui buscar a Vera girando ¡ndolentimcnte no espaço. Eu não passava fome e
para deitarmos......
pensava: o mundo e bonito. Um día, eu perguntei a minha rçãe.
— ,fv1amãe. eu sou gente ou. bicho? _____
6 de novembro de 1861 - i- Ela não respondeu. E sorriu / tf
passei mal a nôite sonhando que estava circulando dentro de um Minha mãe falava, pouquíssimo. Coisa rára, nas mulheres. Com o
cimrterio procurando um lugar para sepultar-me. 0 meu esquife decorrer dos tempos eu fui observando o mundo, e os eus atos
era de vidro. Eu via o meu corpo através do vidro adornado com confusos. 0 que ho-rorizou me, foi ver um soldado m atar um
flôres de vidro coloridas Olhava os campos e não gostava de homem.
nenhuma. Despertei com as vozes das crianças que iam para 0 soldado sorria satisfeito, dizendo: eu tenho uma pontaria a
aula- Levantei as pressas para preparar o João, que esta no minha mão, não tremeu.
quarto ano. &uplico-o para estudar e diplomar-se que êle vae Fui perguntar a minha mãe se o homem tem o direito de m atar
entrar no Liçeu de artes e ofício para aprender um Oficio Quer o homem?
ser desenhista mecánico. Hoje eu devia ir a Argentina. Não vou — Ela, não respondeu.
por causa da preve. M as gostaria de ir por causa da greve.
percibí que cabia a mim mesma de observar o mundo, Urrj_dia, vi
Q ueria, e s c re v e r a s a g ru ra s d o s a rg e n tin o s . A ca u s a do
uaianpülh¿rJcEorandp,_e fiquei hõrrorisadãT Eu pensava que era
de scon tentam en to do povo. Será o custo de vida? S erá a
60 as crianças que choravam, o SenhoFhSdõffo sheraufer, deu-me
pressão política? Qual será a causa do descontentamento das
uma garrafa de vinho. Estou bebendo, para reanimar-me. porque
classes Na minha opinião é que se as terras fossem livres Os
estou com frio. passei o dia em casa
homens reanimariam.
Trabalhando por conta propia poderíam c o is tru ir ;casinhas e
Nada mais pra mim, existe
casar-se. Atualmente um homem não pode casar-se. porque tem
Em nada encontro bslêza
que viver com o salário que não beneficia ninguém. Vou passar o
Não há coisa mai6 triste
dia em ca s a porque estou doente com falta de ar. Fui na
Do que a trlstêza.
.-farmacia comprar remédio
j Disisti por causa do preço
passei o dia em casa.
/ Tem hora que eu quero morrer! Pepôie fico pensando nos filhos
Uma6 senhoras vieram visitar-me, não as recebi. porque estou
. ‘.que ainda não tem idade para trabalhar Um filho fica caríssimo
com dôr de cabeça, ja enjoei de viver. Fico pensando na Delinda
. -para ó s pae$ü Quando cresçem e são bons Elementos os paes
\ Lee, que não gostava da vida. Tentou o suicido c morreu num
'• 'item. recompensa.
desastre.
Os jornãlfetas da Ultima-Hora vieram saber se eu ia a Argentina.
Qual seria a sua magua interior? para os infelizes a vida é longa
Não vou por causa da greve Eles fotografaram-me e sairam. Eu
demaes
estava com frio fui sentar no jardim, para aqueçer-me porque o
Eu fui catar papel, para ser fotografada e tropeçei.
NACASADEALVENASfA \$\
ISO MEU ESTRAW O DIÁRIO V

E as obras que ela produs


0 repórter disse: você esta distrenada.
Deixou a humanidade habismada
No inicio eu fiquel confusa,
Na cas,a de um poeta, a felicidade passa. Mas não estaciona.
pareçe que estava cciusa

Dêitei durante o dia e sonhei que um homem estava correndo Num estojo de marfim.
a t r a z de mim com um a faca Eu corria e pulei um a cerca Eu era solicitada
procurando um lugar para esconder e despertei transpirando e Era bajulada.
contei ao José Carlos, que sonhei com um hoMem correndo atrás Como um querubim.
de mfm com uma faca.
— 0 Jose Carlos disse: me dá o enderáço deis que eu vou brigar Depois começaram a me invejar.
com ele. Diziam: você, deve dar
Quando eu fico triste, os meus filhos co ntan anedotas para eu os teus bens, para um assilo
sorrir. 0 6 que assim me feiava
\é que eles ignoram que ha tristezas, que s2c oe cançer da alma. Não pensava.
jS ã o incuráveis. Quando a ilusão feneçe, o encanto pela vida Nos meus filhos.
Ide&apareçe.
i Quarto de despejo. A s damas da alta sociedade.
\ Quando infiltrei na literatura Dizia: praticae a cañoadade.
‘ sonhava s o com a ventura Doando aos pobres agasalhos.
I Minhabna estava cheia de hlantc Mas o dinheiro da alta sociedade
Eu não previa o pranto. Não é destinado a caridade
Ao publicar o quarto de despejo
é para os prados, e os baralhos
Concretisava assim o meu desejo.
Que vida. Que alegria..
E assim, eu fui desiludindo
| E agora... Casa de Alvenaria.
0 meu ideal foi regridindo
} Outro livro que vae circular
igual um corpo envdheçendo.
A s tristêsas vão duplicar.
Fui enrrugando, enrrugando.,
Os que pedem para eu auxiliar
pétalas de rosa, murchando, murchando
. A concretisar cs teu6 desejos
E..., estou morrendo!
I penso: eu devia publicar...
/ — so o ’quarto de despejo*.
Na campa silente e fria
t Hei de repousar um dia.»
No Inicio vêio adímiração
Não levo nenhuma iusão
0 meu nome circulou a Nação.
porque a escritora favelada
Surgiu uma escritora favelada.
* Foi ro6a despetalada.
Chama: Carolina Maria de Jesus.
152 MEU ESTRANHO DIÁSiO NA CASA OE ALVENARIA 153

Quantos espinhos no meu coração. porque não fui a Argentina. A greve, a falta A t dinheiro para os
filhos Os filhos,.é s sombra das mães. Filho é hospede predileto
Dizem que sou ambiciosa do pensamento materno, passei o dia lendo, e relendo ó" qúe
Que não sou caridosa, escrevi vou finalisar o meu romançe Mulher diabólica.
incluiram-me entre os usurarios se eu pudesse vive so escrevendo.... mas a minha vida é derrivada..
porque não critica os in d u strie s Tem hora que eu fico pensando que sou igual ao relogio andando
Que tra ta m como animaos. sempre! se o relogio para, o homem faz éle andar
— Os opéranos.... Tem hora que eu penso: porque é que eu não fiquei Ia no mato
plantando lavoura?
7 de noi/embro .de 1961 M as as terras são dos fazendeiros. E tem que plantar so o que
/Hoje eu estou triste. A tristeza veio passar o fim de ano comigo. eles querem.
1Eu pensei que ela havia olvidado-me. Dizem que eia persegue os M as assim é a vida da que passam por éste mundo o dinheiro
I postas é pouco. ga6to cincoenta cruzeiros de pão por dia — os filhos
A A tristeza é malvada, queriam pão. fiz um bolo de fubá e a dona Alba fez uma sopa de
j Alegria não gosta dela. lentilha — Eu estava na cosinha quando tocaram a campanhia.
U hty, foi atender voltou dizendo que era uma jornalista e mandou
í são inimigas inrreconciliaveís
entrar. Ela foi ate a cosinha e disse-me:
Alegria é jovem. E bonita
A senhora não me conheçe. M as eu a conheço. Eu sou do jornal
gosta só das crianças c a© crianças vivem sorrindo
do Brasil, e vim aqui para conversar com a senhora.
A tristesa e velha enrrugada
— Conversar o que?
Entra nos lares sem convite. Hoje eu estou com frio. Frio interno,
— perguntei apreensiva
^ e externo. Eu estava sentada ao sol escrevendo e supüquel, oh
\ raeu-Pcosf-preciso d e v p z l j — Sobre a reportagen que a senhora fez hoje na Ultima Hora
— E verdade tudo que a senhora publicou? !
0 Joec Carlos que estava na janela do pavimento superior disse;
eu estou aquí dona Carolina! Olhei para a janela eu dei uma I
risada. Quando fico tris te êle agrada-m e e diz canta mamãe! | Respondo com a voz cansada como seu eu estivesse a cem anos |
Ca nta a Valsa que a senhora fez. Vam os can ta r... ajudo a I no mundo para mim o mundo é iguaí uma prisão, e m e u .estou
senhoral jlouça para sair e .nSajta possibilidade devido a s grades que são !
0 que eu sei dizer; é que as mulheres que tem filhos pequenos I os .meus filhos.

nesta época não sabem sorrir, porque os prêços dos genéros — Foí a senhora que escreveu aquela carta para a Ultima-Hora? I
alimenticios nos faz chorar. — se as terra s f$ssem livres havia — Foi.
fartura os homens que imigrou para a cidade plantavam lavouras — Eles não te obrigam escrevé-la?
e casavam. Quando os homens compreenderem que a s terra s tem — Não.
que ser livres, ai. havera o nôvo Jardim do Edem. Eu fui fazer as — Qual foi o motivo que a levou a escrever uma c arta tã o
comprae matinaes, um motorista deu-me a Ultima Hora e eu li \ confusa assim?
a minha reportagem. Li varias vézes procurando compreender o ¿ è à r - sete coisas.
que eu escrevi. Crêio que devia da r uma satisfação ao povo, 1 Tristezas

i
154 MEU ESTRANHO DlÂRiO NA CASA DE ALVENARIA 155

2 Desilusão Esqueço as pessóas com muita rapides. Na carta que enviei a


3 Enjoei da vida e quero morrer j Ultima Hora» eu não mencionei ò anión Mencionei que~o meu
4 Decepção. pareçe que estou entre os bichos ferozes. Mas o dinheiro acabou-se, e vou voltar ao lixo novamente. 0 que me
bicho mais feroz é o verme. punge a senhora teu na reportagem.
5 — Não nascí para ser teleguiada a pior cóisa que ha, é a gente — Respondeu-me que não leu a reportagem porque não gosta de
e n c h e rg a r, e a n d a r puch a da num c a b ré s to com o se não escrever conheçendo a o dilema.
enchergasse, ou como se eu fôsse (_.) M as a senhora sendo uma mulher inteligente, como é que foi
6 Eu queria alugar esta casa e mudar dí aqui. escrever aquela carta e procurar logo o Ultimai Um jornal que é
7 — 0 que aborreçe-me são os pedidos de empréstimos. E eu desacreditado por todos., porque e que você escolheu a Ultima
não po66o emprestar. Hora?
Ela ouviu-me em silencio e o fotografo, ia fotografando-me. — porque, êles é quem me visita quando e6tou doente 0
— A senhora não tem caso amoroso? fotografo disse-m e: E s ta e a Silvia Donato premio Esso de
— Não. reportagem
— A senhora acredita na ingratidão do amêr? — Ah! é a senhora?
— Po homem para a mulher sim. Pá mulher para o homem não. A senhora foi multo comentada aqui em são paulo!
A mulher á mais fiel do que o homem. i 0 fotografo confirmou o que eu disse.
— porque é que a senhora fala assim? têve experiência amoroea O lhando-a m inuciosamente disse-lhe eu estou voltan do ao
Não. M as li nos livros e lêio os fatos amorosos que os jornaes primitivismo Voltamos a sôpa e ao báto de fubá.
publicam. ¡ Ela cortou uma f a t a do bôlo e comeu, dizendo que estava
— Ela sorriu comentando. gostoso e o fotografo tambcm comeu e perguntou:
Ninguém define uma te s e sem conheçer profundam ente o — Quem fez foi a Carolina?
assunto, ou viver o drama. A dona Alba disse: foi 0 fotografo deu-me o endereço da sucursal
— Não. Não creo, porque? aqui em São pauto, R ia sete de Abril e o telefone do Rio
— porque o jornal "0 dia, do Rio publicou uma reportagem que a Convídela para ver a minha casa. Ela achou a casa bonita e
senhora é macumbeira. perguntou-me:
Não sorri, e não achei graça na reportagem que "0 dia" fez. Eles porque e que a tu a casa ainda não esta tâda mobilhada?
podiam publicar uns trechos do meu livro Quarto de despejo para — E que eu não tenho vaidade
relembrar os políticos que o pôvo não aguenta o custo de vida, Fomos no pavimento superior Ela achou-a confortável perguntou.
e as crianças precisam de bêa alimentação e as terras precisam Quanto você ganhou com a peça do teatro?
ser livres para o povo plantar e te r fartura. — Ainda não recebí
Eu disse-lhe .que não crêlo em macumba. Que tenho dó dos Ah! Você gravou um disco
macumbeiros. porque o que êles gastam com macumbas podiam — gravei. A 6enhora quer vê-lo?
comprar carne para alimentar-se. Ela Insistia para eu dizer se r Cotoquel o disco na vtrola Ela ouviu e perguntou:
í tive algum caso amorô&o. — J a recebeu as percentagens?
— Eu não amo ninguém, posso go star de uma pessôa mas eu — Não senhora.
! não deixo o amor dominar-me. V — Quem cuida dos teus negócios?
N A CASA DE ALVENARIA 157
156 MEU ESTRANHO DIÁRIO

0 que você vae dar a 51Ma pediu o fotografo. Uma lembrança.


— Deixo ao critério deles.
Dêi ordem ao Ely, para ir buscar dôis livros encadernados e
— E ss êles t c enganar?
autografei entregande-os o fotografo disse: Um escritor não dá
— Nãojjá jycrigo. Eles ja sabem<^ue..eu.spuexp\Q6Íva,fulvac[nada
um livro dêste a ninguém, temos que comprar, élle autografou
com.a-bomba atómica.-
— Estes livros, eu reservei para os jornalistas, porque são vocês
Quer dizer que o livro, quarto de despejo, deu uma peça e um
que impele um escritor
disco?
0 seu olhar circulava pelo quarto. Eu observando-a disse-lhe. a Eles despediram-se. Acompanhei-lhes até o portão. A dona Silvia
deu-me um beijo. Olhe a pirua de côr branca escrita aos lados
senhora não quer morar comigo? A senhora é faladeira e eu
jornal do Brasil.
também 60u. podemos fazer uma dupla.
Ela ficou seria olhando-me Olhou o relógio dizendo que ia tomar 0 motorista estava no carro
o avia das vinte e tréis horas para o Rio. êles entraram no car-o e partiram. Entrei para dentro de casa
— 0 teu livro, Casa de Alvenaría. 0 que é? peneando que a minha carta não há nada para transforma-la em
— é o diario. A minha vida na cidade seoeacionaHemo. Eu estava confusa. Tinha a impressão que a minha
A senhora poderla falar de amor. mas, não cuer... cabêça ia creeçendo, crescendo e dcpôis ia diminuindo — parece que
I Eu nunca amei. 5e convivo com um homem tra to -o bem. mas, não_ os meus miolos estão girando dentro do cerebro Olhei para o alto.
*. procurando o céu, mas vf o estuque da sala de visita e compreendí
o am o, sc v im . com _ah^ue.m ^^.âãteTalguêm me a b a ndona, " -
que o céu esta tã o distante... e o homem com vida, não vae ao céu.
| esqueço-o logo. A minha preocupação são os meus filhos. Filho"e~~ ~
E as que ja morrêram, não voltaram para nes dizer se estão no céu.
| uma .coisa muito..delicada. o fotogro, rítlrou dizendo:
, 0 Jose Ç a rb s disse: asenhoradevia dizer que amou o Luiz!
Fica você e a Silvia. E conte tudo para ela. Voces mulheres
Eu esquecí, meu filh o T '
entendem.
— podem ficar, porque eu nada tenho a dizer. Minha amisade
com o homem é platônica ô de novembro de 1961
— Como é que a senhora arranjou estes filhos. São teus não é? Hoje e dia de fêira na minha rua. Desperta com as vozes dos
— São. Arranjei-os por intermédio das aventuras. Infelizmente fêirantes. por falar em fêira os prêço6 nas feiras estavam tão
todos aprendem a refletir na maturidade. alto que da a impressão que os generas vieram de esputinikl do
— A senhora não tem amor? espaço Fiquei horrorisada 0 preço da batata 6 0 cruzeiros. 0
Da a impressão que há um caso smoráso na tu a vida. João foi a aula, dei um bilhete para êle entregar a profeseora que
— Eu não amo ninguém. devia dêixar êle sair gs 10 horas e levou um bilhête para o dr.
o fotografo olhou-me e disse: Com esta simpatia toda. Não créio. Lelio de Castro Andrade, pedindo-lhe dez mil cruzeiros Cltei-fhe
— Muito obrigada pela gentileza que avisei ao gerente da Editora Abraxas: se eu não conseguir
dinheiro para comprar comida eu não vou a Argentina Eles são
A dona Silvia, pensou e perguntou-me:
muito económicos Fiquei circulando pela fêira e fui comprar um
Carolina, e o teu problema sexual? Com ta n to s jorna listas
i quilo de arroz. Não compro nada na minha fêira^-porque eu sou
assediando-te...
a Carolina Maria de Jesus — Dizem que fiquei rica Eu ful compra r
Finji não compreender a pergunta e disse-lhe. pôis é nos voltamos
dôis sacas.de..farinha_para.fazer pjnos de pratos.
ao primitivismo A sôpa de fuba, bcüo de fubá Considero êste lapso
— Quanto custa cada um?
que vivi numa casa de Alvenaria como um senho...
MEU ESTRANHO CXÁRSO NA CASA 06 ALVENARIA 159

Custa quarenta e cinco Eu estava pensando. Meu deus se o dr. lelio, não m andar
Olhou-me no rêsto e abriu os olhos. dinheiro, eu vou catar o& restos da fêira e faço uma sopa.
— A senhora é a d ona Carolina? 0 José Carlos, entrou com um saquinho de papel e disse: Um
— 6ou! caminhão Ia passando, e o saco de açúcar furou e caiu um pouco
— E autora do Quarto de despejo? de açúcar eu catei e trouxe para a senhora,

— sou. posso continuar catando o que encontrar no lixo


— Ah... então o saco custa noventa. Vamos voltar a comèr o que encontramos no lixo outra vez?
— Quantos sacos a senhora vae levar? Não 6ei meu filho?
Olhei o dono daTiãrraca e não disse nada. sai furiosa pensando
A nossa vida e Igual um balão que sobe sobe e depois quêima £
na morte. Crêio que é eo com a morte que vou te r tranquilidade
tudo se acaba.
de espirito
O José Carlos, olhou-me e disse: acho que eu vou levar a senhora
Depois penso. Não. Eu devo viver. 0 escritor deve conheçer as
no médico, para êle tirar um chapa da cabêça da senhora para
qualidades e os defeitos da humanidade.
ver se esta funcionando bem.
0 meu p<ãisãmênto eclodia dentro dõ~ceré?ro pareciam ondas
— CA senhora vae_ficar louça.
encontrando-ao. Volto o ponsor no paseado. Quando eu não tinha
I dinheiro ganhava esmola, os que me olhavam, olhavam por piedade ,£le saiu e voltou pedindo. Compra uma cinta para mim.
: E hoje os que me olham M as a cinta que êle esta usando, ainda esta bêa Ele saiu
l Olham com inveja e rancôr comentando. Eis ficou rica! tenho a dizendo: eu vou ver ee encontro o João. se ele não trouxer
impressão que a minha vida tem duas façes. Uma de cobre — dinheiro eu vou ca ta r ferros — A dona Alba fez o almdço eu
% q U Ç r & ^ q^ro. estava almoçando. C Ely, chegou dizendo que tem greve na
Ou então eu era um Carvalho frondôso e agera... as fêlhas estão cidade. 0 João, chegou com o dinheiro e dÍ6se-me que o dr. Lelio,
amarelando-ôe e despreendendo-sc ate reduzir ao pó. E horrive! disse que eu dêvo ir li. M as eu estou tão desiludida...
¡sa ir na rua e ouvir o povo dizer: Olha a Carolinal e ficam preciso reab asteçer a minha alma de alegria. Fui pagar o
fom entando como se eu fêsse de outro planeta. M as eu não açougue, e a padaria. 0 açougueiro fica alegre quando me vê
Jpoãso xingar... se eu pudesse voltar ao paseado queria reformar Fico contente porque atualmente sou recebida com olhares rudes.
¡o físico como reforma-se um vestido. Eu que*ia reformar-me. Tem Eu almocei e fui comprar 6apatos para o João. 0 sapateiro
hora que eu penso: eu queria ser bêba. Sendo inteligente angariei
embrulhou dêls pares, eu devolví o outro dizendo-lhe que se eu
Jinimisades porque não deixo ninguém me fazer de boba Mas se roubar qualquer coisa, não consigo dormir
eu fosse bôba, idiota não percebia nada Mas...
Tenho o car ate r bem formado.
Ele pegou os sapatos t agradeceu-me. Conversamos. Eu disse-lhe
Deus! tenha de mim clemência,
que gosto do serviço que êle faz. é bem fêito. Ele disse ser
protejei a infausta poetisa
gaucho. Esta em são paulo faz trêze anos. Falamos do prâço que
Deste-me, tanta inteligência..
fica um filho.^E^a_prêco de um torno..., quem cria um filho
Oue... me ma rtirisa! a tu a lm e n te è um herói. Dêixei os s a p a to s do J o ã o .p a r a
> ' concerta; tos"e voltei “¿“(favela) para a minha casa.

j
1
I
MEU ESTRANHO DIÁRSO NA CASA DE ALVENARIA
160

Com a noticia de que estou pobre, ninguém me aborreçeu — palacio lá no ceu Que o ceu é dividido em salas. E cada sala é
passei o resto do dia cm caza. A noite fui na cidade ver o que de uma cõr. A s paredes e os moveis de cor única. E eu fico na
havia nos jomaes. fomos de ônibus, o chaufer perguntou-me? 6ala vermêlha. E o Luiz fica numa 6ala azul cada sala tem uma
pessoa usando a sua côr predileta.
E a senhora a autora do livro?
Hontem eu conversei com um guarda-cMI. Ele tem um olhar que
— sou.
deixa uma mulher confusa. Um olhar amorõso. Disse-me que láu
O senhor já leu o livro?
no meu livro: A biblia manda cresçer e multiplicar mas, não manda
— Ainda não. Mae vou lér prometí dar-lhe im livro e desçemos. c a s a r. Eu não li na biblia a obrigatoriedade do homem no
Fomos na Ultima Hora. Eu queria saber se havia saído no jornal casamento.
do Brasil.
pensei: quem esta segu-ando os ditos da Bíblia são os animaes. Um
Não saiu. Saiu na Manchete. E a reportagem que eu fiz E o homem para adiquirir uma mulher precisa paga-la. O s animaes não.
jornalista Guimarães deu-me para eu ler. Agradecí, e saímos da porisso eu acho que a na vida dos animais há mais perfâfção.
redação. Eu e6tou tris te saí de casa, para ver se encontrava
Eu queria ser animal inracionai Não precisava pen&ar na comida.
alegria giramos pelas ruas. Eu queria assistir o filme Jeca Tatú,
Ah! eu estava falaneo do guarda-civil. Ele queixou que esta
com o Mazzaropi. Não encontramos o filme. Entram os num bar
lutando para comprar um apartamento. Que é caeado paga dez
para tom ar refresco. M as eu queria refrescar a minh’alma.. P
rrlil oiueeir ut> pt/r iriés p a ia ir dirriiriuindu a s p re sta ç í/e s . Quando
Audalio diz; Voce não tem que se queixar da vida, Você tem_dg era solteiro morava nas pensões e as donas de pensões exploram
^ ¡d õ T Ã q ^ j^ V õ c â - fícin nã~m in Raimen t e ^
os solteiros perguntou 6e não vou a Argentina?
fE os outros? Os operarios que tem varios filhos.-, e não pode
— - Não. Eu desisti. Não tenho cultura para mesclar com os
dar-lhes uma alimentação condigna. Tenho a Impressão que sou
estudantes de outros paizes
uma e s ta tu a de mil m etro s, Obeservaneo o sofrim ento da
pediu-me um livro para a biblioteca da guarda-cMl, e outro para o
g g P Brasil vae ser um pais bom quando a s terra s fÕr
diretor da guarda senhor Osmar Galvão. Autografei 06 livros para
reform a agraria era a esperança do povo. Ficou o
éle. âle agradeceu sorrindo. E bonito ver uma pessõa sorrindo.
o povo precisa e da realidade — Voltamos para
Despediu-se. Eu entrei e deitei no sofá. Sonhei que eu era menina
casa.
e estava brincando com outros meninos. Os meninos eram o
paulo Dantas, o Camarinha, o senhor Aseupção, e outros que eu
9 de novembro de 1961 não conhecia pegavamos nas mãos, e cantavamos.
Hoje estou semi alegre pensando no editor da Argentina. 0 dr. A dona igrája anda dizendo que nós somos cumunistas Ela não
Lucian Sohavaler. Sera que ále vae desistir de levar-me. Eu não quer que extingue o raio dos capitalistas
gosto de viajar porque não tenho estudo para enfrentar os votes
Depõis saiamos correifdo dois-a dôis. 0 que corria atroz queria
que hão de afluir para me ver. porisso e que eu quero desistir da
pegar o que Ia na frente. Depois sonhei que estava comendo,
imprensa. Não deixo de escrever porque ^ e a c rcver pa ra mim é
farroz, fêíjão e carne. E gostõso sonhar que estamos comendo.
tã o eecençiaLdcvido-a fusão de Jdeias que promonam_no meu
M as eu despertei com a voz do José Carlos dizendo. Come mais
cerebro. Quando eu vêjo uma cachoeira despréendendo ^D ã~em
mamãe! é a ultima coherada. A senhora precisa comér.
"abundancia e o ceu supe dotado de estrá las penso t u d o jjue da
Sorri. Achando graça 100 cuidados do meu filho, passei o dia em
n a tu rá z a ^ em ^profusão^assim são os versos que povoa o meu
casa.
cerebro. Tem hora que eu tenho a impressão que estou num
I

162 MEU ESTRANHO DIARIO NA CASA DE ALVENARIA 163

A nâite parou um carro na minha porta. Era o Miller, que vè\o Mostrei-lhe o msu vestido de pena. Ele deu-me um recorte de
dizer-me que eu devo ir a Argentina no dia 11 ou 14. uma reportagem que satu na Argentina anunciando a minha ida
Q u a n d o e s to u n a s r u a s se e n c o n tre a igum con he cid o n’aquela cidade.
pergunta-me: 0 Miller, despediu-se dizendo que Ia ja n ta r no dub dos artis ta s
— Ja foi na Argentina? Não gosto daquele club por ser frequentado por eemiincultos
— Não. Eles estão adiando sempre. E eles contam jocosamente: endinheirados. Eu Ia prendendo o Miller com os meus lamentos.
— Vae, ou não vae? Vae, vae vae, vae, má&mo! Mostrei a casa Não mencionou a s reportagens que eu fiz. Eu disse-lhe que
ao Miller que disse-me. que o Audálio, esta /ajando, foi fazer uma pretendo comprar um sitio
reportagem. Flquei pensando c disse ao Miller que o Audálio 0 Miller disse-m e que faço bem. M as tenho que auxiliar na
dáixou de /ir na minha casa. divulgação do livro pa-a angariar dinheiro para comprar o sitio
— E porque vocá magoou o, disse o Miller prendendo o cachimbo Disse-me que o dr. Léio disse-lhe que já faz dez dias, que eu não
entre os dentes. apareço na Livraria.
Respondi-lhe que o Audálio, deixou de /ir na minha casa depois é que quando eu vou na Livraria, o dr. Lélio recusa reçeber-me.
que passei a gostar do Luiz. Isto faz eu perder a fôrça-morai perante os empregados. Quíz
— y’eve ser ciume dar-lhe uma lição para emanclpa-lo. Se o dr. Lélio, é criança que
va brincar com estilingue.
Comentou o Miller sorrindo com malicia e prosseguia Vocá devia
Quando os meus filhos entram na Livraria, os empregados falam:
sentir-se orgulhosa com o ciúmes do Audálb!
já vieram buscar dinheiro.
Flquei nervosa e comentei que a nossa amieade, e platônica.
S e surjir outra polemica eu dessisto de literatura
Nunca pensei em te r os momentos sexuais com o Audálio — Ele
Fui eneinar ao Miller, como o local onde se toma o ônibus. Ele foi
não é o meu t ip o ^ É u m idiota com as mulheres. Quando uma
de carro, entramos nc carro, ále deixou-me em casa tratando-m e
mulher lhe dá opurtunidadel^e repeli
com am abllldade. percebí que o Miller e um tip o que sabe
e a mulher perde a simpatia por ále pensei.
conquistar uma mulher. Mas» as que são Incientes. Entrei em
0 Audálio anula todos desájos que eu manifesto se eu não reajlr, casa pensando nas palavras do Miller. repetindo o que o d r Lélio
ele me pSe fráio. disse-lhe.
Mas... eu sêi d a r côlçe 0 Miller achou a casa multo grande., — Ela, gastou cem mil cruzeiros Com o decorrer dos tempos
mostrel-lhe as reformas que eu fiz e mostre-lhe o convite que pretendo dáixar a literatura. Estou cansando do núcleo E um
recebí do jornal do Brasil para ir na exposição de fotografias núcleo que as peesôas precieam e devem ser afônica A esposa
amanhã no chopp center de são paulo. do Linconl, ficou difamada com gastadeira
Escreví um bilhete e dei ao Miller, para entregar ao D r LelíO Ela não ganhava para g a sta r. E eu ganho. A Livraria ganhou
pedindo 3 0 mil c ru ze iro s para g a s t a r na viajem que vou m uito dinheiro com meu livro, fiquei contente, porque estou
empreender na Argentina. 0 Miller disse-me, que o d r. Lélio, auxiliando os brasileiros. Quer dizer que êles podem g a sta r o que
disse-lhe, que eu estou devendo com mil cruzeiros na livraria e que ganham. E eu, nãol a66im não esta certo!
gastei isto num más! Eu não pedi cem míl cuzeircs de uma vez. o dr. Lélio e advogade! Dáitei e adormecí pensando na Livraria e
E porlsso que eu gostava de c a ta r papel, porque não tinha sonhei que estava brigando com o dr. Lélio. Dei uns tapas no
detetive na minha vida. Eu não gosto de ser fiscalisada. João, que estava domingo comigo e reclamou.

\
164 MEU ESTRANHO D liR O NA CASA OE ALVENARIA 165
i

— 0 que é isto mamãe! interferencia — perdei, esta reportagem é paga. 0 autor da


Eu perigei que estava expancando o dr. Lélk? _p£ccibLque_ê!e_nSo exposição convidou-me para ser fotografada contemplando os
-gosta dc jprç£p. quadros o fotografo que promoveu a exposição e o senhor Wlson
,'È a minha amisade com êle.... Vae sofrer um corte. E eu pensei Santos. Estava presente o diretor do jornal do Brasil Conversei
ÇVque os brancos estavam ficando bons Escre/i uma ca rta para o com um senhor que estava rep re se ntan do o senhor J o s é
/'P r. Lionel Brizóla. Bonifacio.. pergunteHhe, se o senhor José Bonifácio, vae levar a
reform a agraria avante? Que o povo ficou contente m as o
10-11-1961 progeto do senhor Jo s é Bonifacio, e s ta congelando-se. Ele
disse-me que o senhpr José Bonifacio, esta aplicando a reforma
0 Joã o. foi a aula, eu fiquei escrevendo e lavando roupas. Estes
agraria, e varias cidades, Josilandia, Valente Gentil, Arahaquara,
dias a s coisas para mím estão amargas. Não tenho sossêgo com
Marilia, fazenda Santa Helerta Campinas e Capivari.
os versos que duplicam na minha cabeça.
É que eu estou anotando as criticas do povo contra o senhor José
A tarde recebí a visita de Dona Mana M a rc h íte que ela reside na
Bonifacio. Citando, o de o falso Messias da atualidade, que o senhor
rua Alfredo Maia — disse-me que tem duas casas aqui no ¡mirim
Jo6é Bonifacio, lançou a reforma agraria como um trampolim para
aconselhou-me para economiear senão você vdta ao passado.
atrair voto na eleição E quem engana o povo não triunfa,
Quem nasçe na pobrésa não tem mêdo da pobrâsa. Ninguém tem
mêdo do que ja conheçe. Fiquci borroneada. Ouvlndo-a di2er que ■; Olhando o homem que falava comigo disse-lhe que a sua bõca é
eu tomava café na sua casa e comia bôlo. Não é verdade. pequena demaes para o rõsto. Ele sorriu, percibí que ele e um
homem triste, demostrando que ja esta descontente com a vida
pçdem ler no meu Diário que não encontram o nome de Dona
Maria Marchetti Hoje e que fiquei sabendo o seu nome. Ela ficou — Ninguém esta contente com a vida. Forque será que o ente
humano é incontentsvel
admirada olhando a minha casa. Dizendo que vale dôis milhões.
Eu estava preparando ae roupas na mala para ir a Argentina. Quem é pobre lamenta Quem é rico lamenta

Toquei o meu disco pará ela ouvir. Depois que ouviu o disco disse 0 Milier queria entregar-m e os trin ta míl cruzeiros 0 Jo s e
que gostou da Valsa. T a v a r e s d e M ira nd a, ch ego u, o lh o u -m e no r ô s t o e
Quem assim me ver cantando, Despediu-se dizendo Carolina, vae comprimentou-me e perpassou o olhar no meu vestido.
na minha casa. M as e casa de pobre. Eu fui comprar Um par de F o t o g r a f a ra m -m e com o M ilie r. 0 A u d a lio não q u iz s e r
meias de nylon porque é quente. E na Argentina faz frio. fotografado comigo, *ensei êle esta resentido comigo. Eu estava
Troca m o s e saím o s. Eu e a Alba. Fom os de ônibus a te a conversando com o diretor do Jornal do Brasil, quando o d r Lelio,
Ultima-Hora, e tomamos um taxi. aproximou-se e eu dfese-lhe:
Quando chegamos no C e n tro M etropolitano de com pras, ja Oh dr. eu não vi o senhorl E eu também não ti vi.
haviam inaugurado a exposição. pensei, eu e o d r Lelio, devíamos formar uma dupla. — Os finjidos
Quando cheguei vi os reportes, o d r Lello, o Milier, Audalio, e Não olhei o rosto do d r Lelio, aquêíe afeto que eu sentia por êle
outros mas fui direto aos jornae6 que estavam expostos < arrefe çe u Tu d o na vida é a s s im inicia com . c a lo r e finda
fiquei Iendo-ce quase vi a reportagem de 6¡Vía Donato — Dizia esfrlando-ee, esfriando, até fenecer. E o que feneçe não resurje.
que eu menti, dizendo que estou pobre. 0 Müler, disse-me. você anda dizendo que "nósJ te teleguiamos
Fiquei furiosa, porque eu não minto, pensei a reportagem foi paga. voce (...) tinha dinheiro — daqui por diante é que nos vamos
Eu avisei ao dr. Lelio que ia sa ir no jornal percebí a sua adlministrar 06 teus haveres. Aquêle "nós que o Milier, proferiu
166 MEU ESTRANHO DtóaO , NA CASA DE ALVENARIA ]67

ficou eclodindo no meu cerebro, igual um ciclo na água. — Juro, Não aprovaram quando eu disse que as mulheres são mais fieis
que não estou contente com a inclusão Ao Miller no nosso do que os homens.
neqocio Fomos ao cinema assistir Rocco, e seus irmãos
Ele devfa de cuidar so das traduções e não dar palpites. Ele quer Quando saímos do cinema (...) fui procurar um m otorista de
orientar o Audalio. 0 melhor de to d o s e p paulo Dantas. E queria que eu pagasse a ida e a volta que não ganhou nada hoje.
afonico. 0 Ronaldo de Moraes o Tarafc, o Fr&tas, 0 Camarinha, e Fomos de ônibus para casa. Eu incitei o colono e o fazendeiro
outros. M as o Miller, quer ser o Conselheiro., o advogado, o
para o representante do senhor Jo6e Bonifacio, que deu-me umas
orientador. Eu não gosto do Miller.
explicações de agricultura
Q uando eu cheguei, os gu a rd a s-c lv ll que estavam to cand o
saudaram-me e um dlsse-me: sabe Carolina, et entregue! o livro ao
11 de novembro de 1S61
senhor Osmar OaW&o, e contou para outros que eu dei um livro para
a biblioteca dos músicos. 0 Audalio, d¡6se que alguém pergunta: passei o sabado fazendo as compras para dêlxar aos filhos,
comprei os géneros alimenticios no emporio porque os preços na
— 0 que e que voce fez com o dinheiro da Carolina?
féira não estão ao alcançe do povo. Estou preparando a mala.
— Ela é quem sabe.
Devo seguir viajem d a 13.
E a mim, perguntam.
— é verdade que o seu dinheiro acabou?
12 de novembro de 1961
O Miller, recomendou a dona Alba, para olhar bem, a minha casa
Hoje é domingo. Receai convite para ir ao baile dos 220, mas, não
—r Fiquei pensando. E fãlmos sem despedir-se contemplando o
é possível, eu estou exausta preciso ler uns livros e escrever uns
solo e pensando. Créio que vou te r paz quando for recluida nas
artigos para publicar na Argentina. Eu não gosto de baile — prefiro
entranhas da terra. Não despedí de ninguém. Fu» na casa de
passar uma nôite lendo. 0 livro-, me facma Eu fui criada no mundo.
modas La bela Italia Comprar mêlas de Nyon não tinha. Elas
. Sem orientação materna. M as os livros auiou os meus passos.
ficaram olhando o meu vestido perguntando:
— Onde comprou este vestido? Evitando-os que encontramos na vida.
— No Rio. ^endita..as.horas que passei lendo. Cheguei a conclusão que_é_p
— Quanto pagou? pobre quem deve, ler.—

Dessôíto mil cruzeiros " porque o livro, é a btssola que. ha de orientar o homemjio.. poryjr

A s balconistas mostrou-me a s ultimas criações passei a parte matinal escrevendo.

Disse-the que tenho muita6 roupas. E vou a Argentina saímos e A dona Alba, fez o almôço Eu fui comprar uma galinha não
fícamos glgando o meu desejo era a ndar andar atá encontrar o encontrei.

fim do m undo. Comecei pensar - - cu queria. eer_ca!ma. Não aprecio Hoje eu estou sentinco frio. Não tem sol visível fui escrever na cama
o meu genjo explosivo — mas, eu não ten’ro umhomem_jpara dêito debaixo dos cobertores ate aqueçer-me dep6ís sento na cama,
defender-me. se e u T o r caTmáTIiao' d e ~mê~por'cabresto. E... eu e escrevo. Á dona Alba foi visitar sua irmã. Eu lavei roupa e fui
devo continuar assim/ éè eu fôsse casada t-ansformava o meu dêitar. 0 senhor Pytagos voo dizer-me que recebeu telegrama da
genio violento, seria mai6 aveludado. Eu disse ao Miller que a Argentina dizendo, que eu dêvo viajar dia quinze, quarta-feira
Silvia donato, não publicou o que eu disse eu nunca menti na Falam os d a reportagem que eu fiz. Ju re i não m ais fa ze r
minha vida, e li o nosso dialogo para ele ouvir. ^ reportagens sensacionalista porque eu não tenho sossego.
168 MEU ESTRANHO DIÁRIO N A CASA DE ALVENARIA 169

0 senhor Pytagoras, disse que eu devo ser teleguiada porque sendo 0 senhor Pytagoras citou os nomes dos seus irmãos. Tem Platao
escritora não pcsso andar a procura de editor que eu dô/o óbdecer pericias.
o Audálio. Que eu devo tudo a êle. pensei se o Audálio ouvir íste vae } Os nomes dos filosofes paseado. Ele despediu-se dei-lhe um livro.
ç\ inchar igual a rã que queria ficar do tamanho de um bôi I Esquecí de dizer o que êle ensinou -me: Que eu dêvo dizer aos
\ M a s eu nã o te n h o ge nio para s e r te le g u ia d a . 0 meu J favelados argentinos que todo pobre deve ler e aprender uma
temperam ento, é de ser livre igual a brisa profissão am ar o trabaiho ser correto e não mentitLOuem sabe
li a poesia que fiz para o seu Pytagoras, ouvir. ' ler prospera em qualquer luaar
Misterio A Vera foi ao cinema com o Jo sé Carlos. Ela estava alegre dizendo
Quantas vêzes dedica-6e amísade assim: eu queria te r comida, casa, e roupas E Deus me deu tudo
A um tipo reles, sem qualidade isto 0 dia que eu encontrar com Deu6, vou dizer-lhe, muito
Destituído de vaiôr obrigado porque, êle é melhora para mim, do que o meu pac. Que
Que nos faz chorar, e sofrer. devia me d a r tudo Isto era êle Eu não acho graça em falar...
Mas, quem pode compreender. papae! prefiro falar Audálio, mamãe paulo Dantas. Ronaldo Taraks
0 mistério do amor. senhor Francisco, senador e dona Luiza. — Eu disse ao senhor
P y ta g o ra s , que o s meus filhos me xingavam : quando nos
A s vêzes um homem correto moravamos na favela, saia para ca ta r papel. Quando voltava
encontrava os meus filhos falando de mim. Eu ficava cuvlndo-os
Não é o nosso predileto
Não lhe tem os simpatia Deus me livre de ter uma mãe a ssim: eu^qüeriã~ fôrljma7?riãe
t^áñciT'porque os brancos moram nas alvenarias Os negros nos
E amamos um cafajeste ^
barracões. J'legro não-deve te r filho, porquê nao podem dar-lhe
Que não honra a calça que veste.
nejj!_o_que comer. Quando ela chega vae fazer polenta.
Uma porcaria
E eu não go 6to de polenta. 5 c os filhos 'xingassem os paes
êle acho>j bonita e pediu a copia. Dei-lhe. Ele disse que é assim
inúteis, eles havia de lutar, e trabalhar
mêsmo. Que são os tipos opêstos que une-as.
Mostrei os meus livros ao senhor Pytagoras e disse-lhe, eu lêlo
Eu d¡66e-lhe que gosto de um guarda-civil, super educado, mais
todos os dias A noite a dona ro6a Esfaciotti vâio visitar-me e
educado do que eu, e os jornalistas e até mesmo ao senhor.
convidar para Irmos ao cinema. Ela esta alegre porque saiu na
Ele impôs respêite na minha casa afugentou os vadios e citei as
Manchetti. Quer saber 6e o seu livro vae ser publicado.
vantagens que tive com o Luiz. Êle aconselhou-me a escrever ao
Vamos ver. Vêio egradeçer o meu estímulo
Luiz, para voltar M as o meu afeto pelo Luiz, já esta feneçendo.
Tenho minhas razões para olvida-lo. Eu penso no Luiz, o dia todo E a época do livro.
habituei com êle. E6tou nervosa porque êle não mais quer voltar-.. Fico contente vendo o Brasil abraçando a cultura. Toquei o meu
Ele sabe viver comigo. Com êle eu era amavel. Engraxava-lhe os disco para cia ouvir Ela gostou da valsa.
sapatos para êle não sujar as mãos. Lavava-lhe os temos, para LI a poesia para ela ouvir — 0 misterio. Ouviu e disse: que a
êle não pagar tintureiro. Eu cheguei a conclusão que os homens y poesia é real.
são mais ingratos do que as mulheres, o Audálio disse: que são Eu não queria sair mas... falou-me de suas primas. Uma teve um
nÓ6 mulheres, será que foi indireta para mim? filho, mas, não gosta de trabalhar. E quem tem filho precisa
0 dia que eu encontrar o Audálio vamos esclareçer isto a. trabalhar.
170 MEU ESTRANHO DIÁRIO NA CASA DE ALVENARIA 171

Eu disse-íhe que o luiz foi-se embora. E falarros de sua educação para o programa, nada alem de dôís minutos para eu esclarecer
è\evada. Troquei e fomos na cidade passamos na Ultima-Hora. A o que que há com os meus editores e falar da reportagem que
Dona Rosa, queria agradecer o Magalhães a reportagem que fez eu fiz
na Manchettl. Ela estava ta o elegante. Que dava gôeto olhar-lhe. C ite i-lh e que não posso ir por causa d a viajem que vou
Cítel ao Reno Panjella que viajo dia 15 e mostrei-lhe a reportagem empreender dia 15. Dei-lhe o telefone do senhor Pytágoras, para
do Jornal do Drasil e li o meu dialogo com a Silvia Donato, guando confirmar se vou, ou não.
ela refere-se que a Ultima Hora á desacreditado 0 Reno ouviu-me passei 0 resto do dia lendo e escrevendo.
e disse
— Voces fazem as confusões e depôis, dizem que somos nós que A s vâzes um homem é gentil
não prestamos. Achei sensata a resposta. Tem nobrêsa, e tem valor
Ele pediu, o telegrama da Argentina, promet dar-lhe amanha Mas a mulher, é imbecil
perguntei ao Reno: guando é que você vae diodir engordar? sorriu Ama: 0 que é inferior
dizendo que não quer engordar.
Saímos do Ultima-Hora e fomos ao Cinema paisandú. 14 de nevembro de 1S61
A s onze horas deixamos o cinema. Levantei a s 6 horas e fui fazer compras. 0 João, foi a aula. Não
Cheguei em casa com sono } tem agua. A dona Aída, preparou o almôço. Dormi durante o dia.
Despertei com a voz d a visinha japonêsa repreendendo as
15 de novembro de 1961 crianças fui ver se oe meus estavam no núcleo.
Levantei as 6 horas. , Estavam -
— 0 que há?
Despertei o João, para ir a aula. Fui comprar fosforos, sal e leite.
Tem pão que sobrou de hontem. 0 João foi comprar coalhada A japonêsa disse:
para mim. A dona Alba chegou as sete horas dizendo que eu sou e que êles tocam a campaninha e depois corem criança e diabo
bêa para ela, ela não go sta de prevaleçer. Recibí a visita do são iguaes.
jornalista Alexandre Germano, da Ultima Hora que veio saber se — A senhora conheçe o diabo?
eu vou a Argentina dia 15. — ■- Non. Respondeu rindo mas a gente ouve fará que o diabo é
Eu escreví um artigo para a Ultima-Hora e um blihête para o ruim. pensei: se a humanidade pensasse para falar não falavam
senhor Pytágoras e dei ao Ely, para levar e telefonar para o asneiras.
senhor Pytágoras. M as entreguei tudo ao Alexandre e disse-lhe Quando os meus filhos me viu, dirijíram-se para casa. Fiquei
que nos temos que esforçar para elevar a cultura. Temos que habismada. E o primero gesto elegante que êles praticam.
imitar o Sócrates Ele sorriu e despediu-se 0 Ety. foi com êles atá A agua chegou fui lavar roupas. E fui na farmacia com prar
a Ultima hora. Dei dinheiro ao E(y, para pagar a luz. Eu fui dêitar perfumes.
um pouco. Estou pensando na minha viagem na Argentina. Estava 0 Ely, levou 0 radio para concerta-io, e voltou dizendo que ja
escrevendo quando a Vera, foi atender a campanhinha e galgou r estava pronto paguei 4 0 0 ,.
os degraus avisando-m e que um senhor do Canal 5 queria A noite o senhor P^tagoras, vêio dizer-me que temos que sair as
falar-m e. Manda subir. Eu reeêbo visitas ro meu q uarto fíco cinco da manhã pegou a mala para ver se há exesso de pêso
sentada escrevendo Era o senhor Lombardi que vêlo convidar-me 4 pediu, para ritirar algo Ela saiu. Tomei banho e fui dêitar.
172 M 8 J ESTRANHO D1ÃRJO NA CASA DE ALVENARIA 173
15 de novembro de 1961 já estava na rua. Colocamos a bagagem no ônibus, e fomos
Despertei as 3 da manhã Abri a janela. 0 céu estava escuro. procurar uma banca de jornal.
E sta chovendo, fui agêitar as cobertas para aqueçer a minha Comprei a Ultima Hera.
filha, percibí que a s pulgas havia picado-a matei algumas. Liguei F iq u e l h o rro ris a d a qua n d o li que 0 B a b y p ig n a ta rl, vae
o radio, na radio Bandeirante para ouvir as horas. Fui olhar o divorciar-se.
relogio, era trêis e quinze. Resolví escrever um pouco, e lâr uns Sera que estes casles não sabem amar-se?
t r j? .c h o iL -^ " r o w a n ^ e j^ u e e s to u ce6fcvev:ào ; ~0~á~eêtou Será que não sentem saudade um do outro?
fínalisand.orOr-parece que escedjnasr c ^ a ^ ' amõ?06a s:‘A s quãtro Ou êles, não tem coração?
horas fui trocar-m e e aguardar a chegada êosenfror pytágoras Como é bonito os casaes que comemoram as bedas de prata.
para levar-me a campinas. 0 guarda noturno passou e viu a Cercado pelos netos 0 ônibus ia sair as onze horas.
janela aberta, parou na rua e assobiou. Abri a janela e disse-lhe
0 senhor pytagoras, noa deixou e despediu-se
que vou viajar.
no ônibus estava um japones, que falava com 60taque inglez —
A casa vae ficar vazia? perguntei-lhe se fala/a 0 inglez.
Não, mas é bom olhar Disse que 6im.
Então, axé a volta. — Onde estudou?
Eu estava concluindo os apetrechos. Despertei o Ely, para fazer — No japão.
o café. — Fala o português?
Dei mil cruzeiros ao Eíy, para comprar frutas para os filhos. Os — Falo. já faz trêls anos que estou no Brasil
fâírante6 estavam chegando. Fui c o m p rin e n ta -lo s eram cs \ — O séu nome?
japonêeee, sorriam e perguntou-me: Takashi Ebizuka.
— A senhora go6ta de levantar cedo? pagamos as passagens mas o motorista nos disse que no«s ¡amos
Eu vou a Argentina. sair a s onze. 0 senhor G u a lte r De Luiz, foi avisar o senhor
pytagoras, que o ônibus ia atrasar. Fíquei esperando-o e sai fui
— Que bom. Se eu pudesse viajar... então até a volta!
comprar um sanduíche e conversei com o dono do bar, que disse
e um japones deu-me um abraço dizendo:
que gosta de lêr. mas, não tem tempo, percibí que cie queria
— é gostôso não é?
agradar-me.
Ful ver se o senhor pytágoras, estava chegando, ü n tre i esen te k porque, quando gostamos de algo, arranjamos tempo paguei o
penêâjjda-tíos-fifhos-que-vao ficar fiosinhos^-poraue os filhos sem sanduíche e sai as priesas circulando o olho nos flores que adornava
^a-preaoiça da mãe esta sa~ü Joao despertou-se com o radio o jardim da praça da Republica. Fiquei pensando que o mundo é belo.
que estava Iigado."nó"programa de tangos — 0 senhor Pytigoras Quando será que o homem vae compreender que o mundo é um
chegou com o senhor Gualter De Luiz recanto para adorarse e venerarse, No céu há as estréias, o sol e a
Assim que avistei a pirua bradei — bom-dia! lua. Nos jardms há as flores com suas tonalidades variadas. E nos
0 Jo ã o e o Ely, j i estavam carregando as malas. Recebí os * iares, há as crianças. E as crianças precisam de pão. Os adultos tem
discos que o senhor Pytágoras, trou>ce e coloquei-o na matéta e o d&er de pensar nas crianças. Quando chegud ao escritorio da panaer
zarpamos. Eu ia pensando nos filhos. Hoje e feriado pouquíssimas 0 senhor Gualter De Luiz ainda estswa ausente. Entrei e sentei. 0
peõõôa6 nas ruas Chegamos com facilidade na cidade. 0 ônibus ¿ gerente dhou-mc e serriu. Um sorrisso de contentamento, pareçc que
NA CASA DE ALVENARIA 175
174 MEU ESTRANHO OtáflO

o homem desconheçe a trisecas. Começamos a falar da situação de sp e d ira m -s e dizendo: a t é a ta rd e em S ue ños A ires O s
do pais. Criticando o nosso dinheiro que esta fraqui6simo. Eíe passageiros iam zarpando-se, e outros aglomerando-se ao meu
e*pôs o seu programa se fôsse político não daxava o homem ffcar redor 6urjiram. Urnas professoras comprimentaram e disseram
supsr-rico. O homem que enrriqueçe iniimrtadanente fica ego¡6ta. que ensinam os ruralistas. Uma é professora em Campinas Maria
D is ta n c ia s e do povo já quer ser político quer escravisar o do Camo Ensina economia
homem, eu impunha uma lêl não dêixándo o povo g a s ta r o — Que economia a senhora acha que o colono pode fazer se o
deenessesario. Tudo que fõsse im portado tinha que ser que êle ganha ja e tão pouco.
racionado, pensei: o homem que agir aesirr; sacrifica o povo. — Ela disse-me que ha varios modos de economisar.
perguntei-Sie o nome disse que chama Ronaldo Continuou dizendo A senhora esta contente nêste núcleo que esta incluida?
que feria uma refenna no governo. dmlnando oe maus políticos.
— Não.
0 senhor Gualter De Luiz, chegou e nos saímos na plrua. dirigindo
— porque?
para Cam pinas 0 dia e s ta tépido a viagem decorreu sem
anormalidades Eu ia contemplando a6 paisagens maravilhosas, — Não noto sinceridade no núcleo que estou mesclada
co m s e u s a rv o ré d o s a d o rn a d o s d e flô re s. E a s t e r r a s — porque?
abandonadas sem cultivos Fico pensando ros gen ¿ros que o Ag ora que o negocio prosperou e criou raizes pareçe que eles tem
hernarn podio tor, co ¿tma&e-c a térra plantando. Pepóls da m%e, dó de pagar o que arrecada com o livro porieso eu estou ficando
é a terra, a maior amiga do homem que nos da o pao de cada descontente sou observadora percebí que se eu vou reclamar não
día. j- vou ser apendida. A única coisa que vou angariar é inimisade
Eu ia conversando com o senhor Gualter, que disse-me que o
. A professora disse-me que todos escritores reclamam sendo
senhor pytagoras é um homem deçente, correto e humano. Que
assim vou renunciar a literatura com pesar porque eu gosto da
esta contente na firma. Que adlmira-o muito e ainda não conheçe
, literatura.
o dr. Luciano Sahonvaler. • g g s - -;v
E a vida! E a vida e a vida. Com os seus declives, •RicrÇeiró colono
Quando chegamos ao aéreoporto o soí estava oculto, é bonito o
e o fazendeiro para as professoras. Ouviu e disse-lhe que nos os
local onde esta localizado o aereoporto. Fui o alvo dos olhares.
favelados somos cs colonos que cansamos de ser expdlandos e
E varia6 pessoas pediam autógrafos.
deixamos as terra s e os seus donos, percibí que o fazendeiro
Concedí de boa v o n ta d e porque hoje eu estou alegre Fui indiretamente contribuiu, para implantar as favelas nas grandes
comprimentada por uns argentinos que perguntaram se eu vou cidades. Elas despeàram se. 0 senhor Gualter, convidou-me para
levar o vestido de pena?
a lm ô ça r. Eu pedí ris o to , porque os o u tr o s p r a to s eram
Respondí que sim. Um jovem deu-me o seu endereço para eu ir complicados, conversamos no decorrer do almoço criticando a
procura-Io em buenos Aires, ou telefonar-lhe Ul'ses Pruno Capello. mulher que ca s tro u o esposo. Que perversidade. Ela podia
Outro senhor disse-me que os argentinos esta/am aguardando a desquitar-se. Falamos da infidelidade da mulher. Eu não aprovo. 0
minha chegada de 6 deste. Senti ausentar-mc do país e te r que f homem não c um obgeto que escameçe-se c atira-se ao leo. —
déixar-te. ] Depois do almôço fui percorrer o campo da aviação. Tem arvores
E graças a Deus, vou te r o prazer de ver-te ro meu país. frutíferas e framboian, com suas flores vermâlha. a minha côr
Eles levavam dois violões e diziam: são mais baratos aqui, e predileta — 0 Silva N e tto, chegou, disse que foi receber um
exibiam . 0 avião o a v iã o que eles iam e m b a rc a r êles | político.
r

176 MEU ESTRANHO OiÁRlO NA CASA DE ALVENARIA 177

Estava acompanhado com o seu irmão e uma senhora disse que — Não. Apenas amiga porque?
pretendia ir comigo a Argentina mas não foi possível. 0 avião — porque o povo fala que ele é multo bom para a senhora. E os
chegou, eu embargue com dificuldade porque alguns queriam homens quando são bons para uma mulher é por interesse
autógrafos. Achei graça ouvindo um senhor falando em alemão
Quando chegamos ao aeroporto através do vidro eu ia fitando o
Vamos te r a hónra de ter jjm a negrita no avião. Os alemães que
fabuloso Rio la plata. 0 río é navegavel pensei 0 rio que eu lia na
ouviu-me^lhõü-me. Respondí os olhares. Com o meu olhar duro e
geografia e agora estou vendo-o. Eu lembro, quando eu era
frio. O s jornalistas entrevistou-me e fotografou-me. O senhor
menina eu disse a minha mãe, 0 livro diz que o mundo e grande.
Guafter acompanhou-me até ao avião conseguindo um lugar para
Eu pensava que o mindo era so o sacramento. A minha terra.
mim.
Ou então a té o onde a nossa vista alcansava. Reconhecí a dona
Ele estava alegre porque eu escreví uns versos' para o dr.
Beatriz Braide de Sohavaler a esposa do editor Dr. (del Luciano
Adhemar, e dei para ele levar a sua esposa, que é Adhemarísta
S a h a va le r. Fiquel alegre. Não e s ta v a caneada. E n q u a n to
— No avião fui saudada pelas aeromôças que bradaram
aguardavam os ordetr para sair do avião eu Ia fitando o ceu
— Sêja bem vinda dona Carolinal
argentino. Estava azul adorando com nuvens brancas. Não vi
Eu dei o numero do telefone do Audálio, para o senhor <3ualter,
passa ros avôando. com os ruidos estentóreos dos aviões as aves
telefonar-lhe amanhã. — Meus companheiros no mesmo banco distanciam vão para o campo. E fiquel pensando nas andorinhas
fôram d oís senhoree.
que a b an do nara m Cam pinas. A t é a s aves tem h o rro r do
A rm ando pagano, e Eduardo Espinosa. Agradáveis e cultos, progresso, as andorlrhas fujiram dos avlcfes, e o homem daqui
lames ouvindo valsas vienenses. Eu queria tango pensei em pedir uns tempos ha de fiijir da bomba atômica Os jogadores que
para to c a r tango. mas.... fiquel com vergonha. 0 avião não estavam no avião falavam do pelé. Ele esta rico. Vendeu a historia
trepidava. Eu tinha a impressão que estava numa sala de visita de su vida por vinte milhões. Comentavam o pele, nasçeu com
eu estava sentada ao lado do presidente da federação esportiva estrela de ouro. Teve sorte nasçeu no Brasil. E os brasileiros não
da Bolívia que retornava de uma excursão pela Europa Senhor são egoístas. Ele6 amam-se mutuamente e dão valor aos seus
Eduardo Espindosa jogador. 0 presidente e o senhor Armando com patriotas Ele6 quando gostam 6ão sinceros. Brasileiros não
pagano, que ha um livro no seu idioma, dtese-me que eu dèvo olham côr.
continuar escrevendo. — Escrever a verdade escíareçer o povo.
0 pelé deve dizer graças a Deus! Eu nasci no Brasil. Eles gostavam
Existe algo que non se puede escrebir. Tienes caso que es preciso do Janio. 0 Janto não compreendeu que nasceu num pais humano,
per donaic.
foi ingrato Quando recebemos ordem de deixar o avião os jogadores
Ele ouviu-m e. pensei, ále vae c ritic a r o meu espanhol, mal fôram os primeiros a descer Mesclei entre eles e desci com a bolsa,
pronunciado e o meu casaco vermelho. Os fotografes estavam espsrando*me e
— Los erros conscientes tienes que legar aos ouvidos do pueblo. fôram fotografando-me. A dona Beatriz, estava com êle. O s
A s jovens que estavam no avião tratava m-rne com amabilidade. Jogadores de foot boi, pararam para fitar-me e um disse:
As aeromoças gentilisslmas. perguntando pelo Audallo, se ele e \ Non es o que los digo? Quíem nasçe en el Brasil nasçe marcado
velho .! com lá felicida. Non ves e s ta mujer, fôram ritira -ia de los
Respondí que não. basurales.
Ele e um homem que pareçe menino. E miudinho. Comprimentei a dona beatriz e perguntei pelo dr. Luciano Sahcvaler
— é verdade que a senhora é am ante do Audalio? Ele não poude entrar. Eu rltírei para o lado em frente ao avião para
178 MEU ESTRANHO OfÁWO NA CASA DE ALVENARIA 179

da r entrevista aos jornalistas, e oe funcionarios do aeroporto Oe jornalistas nos acomfanhava noutro carro.
pediu para os Jornalistas fotografar-me com êles. Oe fotógrafos 0 aeroporto e distante da cidade. Os fotógrafos fotografou-me
recusaram. riquei com do doe funcionários do aeroporto que me lendo d e n tro do carro Eu ia fitando a s arvores, verdes da
honravam sendo fotografada com êlee perqué e lindo, ver um Argentina E um verde brilhante pareçe que a terra contem iodo.
fiomem trabalhando. 0 tra ba lh o e o com provante de uma a cidade e plaina, não tem picos e um vale onde a vista não
integridade reta. Não quiz insistir c o m b e fotograbe Não estou eleva-se. Estava tépido. 0 traneito é mais lento do que o Brasil
no meu pais e quero dêixar bôa6 impressães, para agradar o não ee vè ninguém correndo para atravessar a s ruas. que são
AudáÜo.. Tem hora que fico pensando: será que o Audálio gosta amplas. Chegamos ac Hotel.
de mim? Lion Hotel. Confortável no interior. Eu fui para o quarto andar
pu go6to dele, e de sua esposa, e do filho. 407. Que apartamento...
Desejando-lhes felicidade. E aqui na Argentina que eu 6enti o magnifico. Com espelhos prateleiras e estantes para livros. Duas
[valor do Audallo. Sorrí quando ouvi um jornalista argentino dizer salas amplas com cadeiras forradas com talagarça coloridas. E
Vio Brasil existe um Deus, chamado Audalio Dantas para mim o preciso ver o apartamento para aprecia.io — eu tenho a impressão
•homem que faz um bem é um Deus. Quem tra duzia minhas que era Uma rainha — Recebí a visita de um jornalista de La prensa
palavras era o jornalista Haydêe jofre Barroso. Oscar henrique Villa roes e o fotografo Jorge Miller depois fomos
Tiquei alegr e quando um jornalista rrrobtrou rrie u meu livro. Dei .1 Jantar no rcotauranto 9 do Julho — O Don Queíxota ou Avenida
uma risada peguel o livro e exclamei Que belêza para mim todo | Carlos pelegrine. tem 140 metros de largura. 0 carro do senhor
livro e bel<^ Dávo adorar o livro porque o livro c o elo que abre a Sohovaler, enguiçou
(inteligencia libertando-a. Q j g e u .sonho era^jver cem anos para Que suplicio para rormalisa-lo.
‘ ien-todos os livros que ha no mundo. — Ã capa do livro é bonita Fiquei horrorizada c o v a quantidade de pessoas que Jantam no
Vamos voltar a jornalista Haydêe Jofre Ba-roso restaurante não e a classe rica
— porque é que a senhora e Barroso? E a classe média
— Eu sou descendente do Almirante Barrcso.
4 Eu era o alvo dos oihares. 0 que achei interessante e a nôite
Nasci no Brasil Moramos em Copacadana Veu ao Brasil todo ano. surjir as nove horas. Tínhamos Um programa de televisão que foi
— No car nava? adiado — comi carne Uma carne gostosa..

perguntei. E pensei no povo que precjga..de carne.


Voltamos ao Lion Hotel fui deitar, pensando nos filhos.
— É lindo. Respondeu-me com sua voz indolente.
À dona Beatriz olhou os meus vestidos
Tem uma ponte e c aereoporto e por baixo da ponte. 0 povo que
estava na grade da ponte agitava os lenços para mim. Olhei em
têdas a s díreçães procurando um preto e não vi passamos pela 16 de novembro de 1961
alfandega para exam inar a s m alas e cs fotog ra fes fôram Despertei as 3 horas, olhei ao lado esquerdo procurando a Vera
fotografando-me através dos vidros, o sen-ior Sohavaier estava não encontrei e recordei que eu estou em Buenos Aires. Tão
entre o povo do lado de fora. Quando salmos fui comprimenta-lo distante de meus filhos, pensei no João e disse: João, desperta
Que homem notável, tem um aspecto sereno, pareço que êle e para ir a aula! E empreguei a minha fôrça telepática Queria
calmo interiormente. E eu invejo os calmos. Entram os no auto acender a luz para escrever mas o regulamento do Lion Hotel
do dr. Bohavaler, proibe. Fique! no lâito aguardando o despontar daróra. Não ouvi
MEU ESTRANHO DIÂRKD j NA CASA DE ALVENARIA m

o cantar ¿as calandras. Levantei, abiui e fui escrever. As sete R Qual e a sua opinan
horas pedi o café, e continuei escrebendo. A s dez horas recibí
Com a renuncia de Janio?
um te le fo n e m a de um jo r n a lis t a a v is a n d o -m e que vinha
R ■— Eu previa que cT'senlior Janio Quadros, não ía concluir o
entrevistar-me. Telefonei ao P r Luciano e êlc disse-me que volvia
m a n d a to . Ele é a to r. N ãò\e p a trió tic o . Ele, e um homem
¿entro ¿ c ¿ez minutos.
metamorfoseados. Quer fícar na historia.
A ¿ona Beatriz foi falar com os jornalistas eu fiquei escrevendo.
Ela levou a copia ¿0 livro para êles ler. Q uando ¿ esci fui P — Qual e o melhcr político do brasil?
íntrodusida numa sala ampla com uma mêsa ampla no centro e R Pr. Adhemar de Barros. M as o povo não compreendeu o valor
varias cadeiras ao redor. Indicavam-me uma cadeira na cabeceira do dr. Adhem ar de Barros. M as o povo já esta desiludido e
da mêsa ao lado de um cronista que lia uns trechos do meu livro. espera um Messias. Precisa vir um Messias para el mundo
/¡Pi Senhor Bernardo Ezequlol Korgmbltt. descreveu 0 livro dizendo que Carolina. Respondeu um senhor que ouvia-me.
|Oia~grros~dê ortografía. Mas ha fidelidade ?u estar relatando e A sala de recepção estava completa homen6 e mulheres Quem
1 abordando um problema que aflije o continente — o custo de vida traduzia era a escritora brasileira Pona Carmen Silva. Que disse
que aflije a classe prdetaria. Que são os homens poderosos das humuristicamente.
naçãee, 0 causador da desorqanisaçáo. Eles são so donos das — Sabe Carolina, e i escrevo ma6 sou obscura, vou aproveitar o
Industrias O s a tacad ista* gananciocoe que na aua ambicien teu carta z para ap¿ieçw.
desmedida não volve seu olhar a Ias criaturas humildes que Um periodista pergtntou a dona Carmen Silva o que sintetiza
necessitam del pan de cada dia Que Ia himanida evoluiu en Ia usté em Carolina.
cultura m as ficaram deshumanos. Enafteçeu a inteligência do
R Sintetísa urna granada explodindo contra a fome.
Audalio Par.tas em perceber nas minhas paavras quando visitou
são paulo q ue eu sou uma intelectual que estava aguardando P Carolina qual e a sua opinião contra o mundo?

u.ma_c^irt;un¡dáde_par^_xevsla£rss^ A o sencr Audalio Pantas, o R — J>eshumamdade. E os_atos. indecorosos^doajnaus-politícos


nosso irm ão, rñinhas consideración por su a to de nobrlsa i ^Contdéuia_para-corrhallr as_ be jas-ja entaU d ad ea^o sJovens do
demonstrando que es u peiodieta que se mescla com los pobres. nosso te mpo. Um político tem que dar bons exemplos, moraes
Findo apresentacíon, fui sentar ao lado eos jornalistas, para administrativa, para ser imitado.
responder las interrogación P — Há preconcéito no Brasil?
Eram ta n to s periodistas que não me foi possível an otar sus y. |R. — Não. O s pretos do Brasil não sabem que são pretos porque
nonbres perguntaram-me: ¡ os brancos não merclonam a nossa côr. Os brancos do Brasil
0 que vão fazer os brasileiros para extinguir as favelas? ¡ s l o m u ito bons e da o p u rtu n id a d e a o s p re to 6 para
— A extinção das favelas tem ser por intermedio da reforma ' desinvotver-se.
a g ra ria , porque nos os fa ve la d o s som os o s colonos qiíe P — Tem homens de colór na política?
Ml trabalhavamos na lavoura. Quando o fazendeiro não mas deixou R. — Temos. 0 preto brasileiro tem livre arbitrio pode escolher o
( plantar nós os colonos emigramos para a cidade. 0 fazendeiro que quer. Nada Ihe eera vedado
' inconscientemente, implantou a favela nas grandes cidade P. Você lê muitos livros?
P — 0 que preteode-iazee de sua vida? R, — Leio. £ li 0 honem Medíocre de Josó Inginieiros.
R — jí£CFever-Ç-educar 06 filhos; Píssem que &e escreveu a sua biografia.
182 MEU ESTRANHO OSÁfiSO MA CASA DE ALVENARIA 183

Defendí o notável e s c rito r portenho, porque adim iro a sua — Aqui há prcconc&tos
inteligencia na observação d as classes soòaes do glábo soube R. — Não há preconçáito Mas aqui faz muito frio no Inverno, e
definir as pessóas e su as qualidades. os pretos não gostam de frio. Eies ¡migraram para Cuba, e
Como eu gostaria de conheçer o Jo sé Inginieiro. 0 que pretendem Montevideo. Finda a apresentação a imprensa saímos. Voltei ao
ser os tcus filhos? meu magnifico apartamento e fui escrever. 0 meu retrato sae
0 João José, o primeiro filho, quer ser desenhista mecánico. 0 todos os dias nos jernaes. Eu estou alegre.
Jo sé Carlos, quer 6er medico. A Vera Euniçe. quer ser pianista e Recibí a v is ita do reporte da Revista para — t l M aria de
professora. Amentrano Jachson e o seu espáso Eliazar Jachson.
P. Ela escreve? D is s e -m e que é m usico, e ja viajou m u ito . S u a e s po sa
R. Quer escrever. E elegante para escrever. Outro ¿lia d a escreveu acompanhou-lhe visitava as Vilas misseria e queria escrever o
que a mulher ¿leve tro car de roupas e não ce marido. drama social. No Brasil — Favela Na Republica Argentina É Vila
A dona Carmem 3ilva, traduziu, e eles deram gargalhadas Misseria
P. Se voce tivesse que renasçer, quería levar esta vida que levou? Alguns jornalistas continuaram perguntando.
jR. — Queria, e te r a sorte de encontrar outro AudaBo Dantas Qual e a causa da eegradação morai?
•'porque sem ále, não existía nada disto — Efe e a chave de tudo
y R. — 0 analfabetismo e a ruina social. Um alfsbctiesdo aprimora
fleto. %
,1 a sua conduta social
ganhei fl#re6 Um banquáte de chravos e um ramo de flor' da
P. — Q uantos anos estudou?
embaixada do Brasil, onde é funcionaria a dona Carmen Silva.
R. — Dôis anos. Mas quando percibí que sabia
P. — 0 que achas você de Fidel Castro?
dos livros Leio todos os dias. E pedi aos jornalistas -i r.s ir ires
R. — Não láio nada, sobre o senhor Fidel Castro.
Quero o meu tumulc no formato de um livro. E jjos nomes d:;s
Apenas ouço as mulheres dizer: que, ále c muito bonito!
y meus livros no meu tjm ulo e a data de sua publicação — jassim...
R. — E de Frandizi?
¡Q uarto de despejo publicado em 19 60 — Casa de Alvenaria
R. — Ouço dizer que ele é um um homem extraordinario. Que a
I publicado em 1961.
sua inteligência é ampia igual o es pago.
0 senhor Eliazar, sorriu
A dona Carmen Silva sorriu comentando: você e experta enhe
0 fotografo fotografou-me Quando eles ritiraram -se pediu uma
Carolina! Ninguem te faz de boba pensei: Eu não posso criticar
fotografia d o s meus filhos para publicar no p a ra -tl. Fiquei
os políticos do meu país porque s 2o errados o que eu notei nos
pensando na tragetoría de minha vida. Quando eu era menina e
argentinos são o gosto pela arte.. A s mulheres são caprichosas
e assiadas. Não tem mau hálitos. Não vi críancas vadiando ñas lia a Revista para-ti

rúas. A s casas são confortável no interior acornadas com gosto Não pensava de sair nesta revista. E tudo isto... porque existe
a rtís tic o s . O s ta c o s são bem unidos e de dois palm os de um homem, que se chama Audalio Dantas.
comprimento. Esta quente. Usam roupas ievss tecidos de linho. 0 Audáüo, já é candidato numa praça publica. 0 seu busto em
Não vi um homem embriagado nas ruas. bronze.
Não vi pretos Eu e dona Beatriz, fafamos do Audalio. Eu disse que áie é casado.
perguntei ao senhor No seu lar ále é enérgico e a sua esposa tem mèdo déle. E eu
P Sahovaler, aqui na Argentina, não tem preto? s também.
184 MEU ESTRANHO W ÁKO NA CASA D£ ALVENARIA 185
\

A esposa do Audalio é caprichosa. Eu gos&aria que o Audalio R Compreendeu. E esta contribuindo cooperando Os favelados
passeasse com cia. Levando-a nas festas ela é triste, parece que encontra a solidariedade com os cultos do pais que dêíxaram de
esta lhe faltando algo na vida. Um homem precisa dar carrinho ser ipoerrtas.
a esposa. Mas tem homem que pena que a mulher não deve ser P. — 0 okue acha usté, do pueblo argentino?
apenas lavadeira. Deve ser o ideal do homem. R São buenos, belos a limpios o serSor es belo.
Nos saimos e fomos almoçar, num restaurante popular Mas que Ele sorriu agradeçeneo.
comida gostosa. A carne argentina é barata e boa. Depóis de P. — Você sabe que h& favelas que tem televisão, e voce acha
cada refêíção, tenho sono, o que adimiro aqui é o pão fêlto de que o favelado deve ter âetes artigos de lucho?
puro trigo. A sopa estava bôa. Quando sainos do restaurante R. — Acho que sim. porque a televisão e um veiculo de cultura e
fomos ao Hotel. Deu-me sono fui deitar. Não fiquei no lêito por
distração se c favelado pode comprar coisas utels para âle deve
causa do
comprar.
para mim o mundo ó um salao de baile, toca-se uma musica P — 0 que sugere você para extinguir as favelas?
chamada "vida".
R. — Nós o s favelados d o D ra sil, eram os os colonos os
Eu danço. Danço. E não açerto o passo fazendeiros não nos dêixava plantar. Nós dava um vale, e o vale
telefonemas tocando a todos In stante» e a campanhlnha. Recibí 3
n o noe favorecia.
uma c a rta da Ferm ata. e a nôite fomos a televisão. Quem fom os aborreçendo da vida no cam po e abandonam os as
entrevistou-me foi: Horacio Ignacio Carballsl. Interrogou-me os fazendas.
problemas da favela: se o meu livro, solucionou o que abordei? Finda a reportagem despedim os e voltam os ao Hotel o dr
Os estudantes estão solucionando. Sohavaier dizia Carolina.. Você comportou-6e a d imirayelment e .
bem pensei dêvo demostrar educação pãrãTêles n ã d jj izer que o
P — E os políticos o que fizeram
negro não^vaie nada. _
R. O s políticos sabem que a6 faveias existem, mas, dâixam os
progetos nas gavetas. Reconheco eficiência em alguns profctsmas que
(...) de novembro de 1961
são erros dos governos passados, não interessando em educar os
Levantei a s quatro da manhã e pensei nos filhos. Será que o João
filhos dos operarios que transformaram em problema social para o
pais esta compareçendo as aulas? Ele esta ficando sensato percibí
que êle esta desínvoNendo a mentalidade.
Quem recebia educação eram os filhos do6 ricos E foi a ruina do
Ele olha-me e diz:
pais porque o homem analfabeto é um Inútil e um ferdo para o pais
eu não crêío ser a senhora a minha mãe. A senhora era Imunda,
P E os governos estão pensando em duplicar as escolas no repugnante e agora veste-se bem sabe lavar roupas coslnhar, e
pais? /
fazer doces
R. — O s propios políticos reconheçeram a dificuldade que tem Respondo-lhe: não ha nada de exepcional na minha vida fui lendo
com o homem inculto. E resolveu construir escolas. M as o povo que adlquiri conhecimentos. Se houve transformação na minha
c desnutrido e Não tem animo em si. Temos que nutri-los para vida. dêvo agradeçer aos livro6.
educa-los. Eles, são anêmicos
a s s e te h o ra s pedi cafó e telefonei para o dr. Sohavale
P — A sociedade compreende o problema? avisando-lhe que estava ao dispor da jornalista Srasileira Haydêe
186 MEU ESTRANHO DIÁRIO NA CASA DE ALVENARIA 187

Jofre barroso. A s nove horas ela chegou, disse-lhe que ia levar — Tambiem. Respondo. .
café para os habitantes da Vila Miseria, Ele sorriu dizendo:
para presentear o mais agradavd fomos de carro um fotografo Onde tem periodistas os pobres não sofrem,
nos acompanhou eu Ia observando o povo. nas ruas são limpos e o senhor Ramón Vicente Cabrera disse que já esteve no Brasil e
elegantes e educados nas ruas. Os m otoretas são prudentes
pediu-me um livro. Disse-lhe que fósse procura-lo no Hotel. As
para guiar, é a marcha escola.
mulheres pediam-me para escrever o seus nomes no meu Diario
Dizem de vagar e sempre. Quem esta dentro do carro, não tem Jo sou / Elza Duarte./
recèio de atropelamento. Quando chegamos na Vila miseria os
sorriam quando liam o seu nome que eu acabava de escrever e
habitantes vieram saudar-m e gentilmente com os jornaes que
perguntava com voz triste.
estava divulgando-m e. e m ostravam o jornal para eu ver e
— Os pobres do mundo passam o que estam os passando aqui?
sorriam Eu olhava 06 dentes fortes dos pobre6 da Argentina
— passam.
percibí que a maioria dos habitantes são bolivianos Crélo que
tenho que dizer — Os miseravei6. porque são habitantes da Vila — sera que Peu6 vas te r dó dos pobres?
Miseria. — Vae. porque Deus e bom.
A o escrever a palavra "Miserável- fiquei smôcionada. E uma — Sera que aquele Jesus vae voltar?
palavra pungente. No Brasil, e favelado são as denominações de — Vae.
igualdade. Tem hora que eu fico triste e quero 6alr correndo a te cansar e
As crianças eram numerosas Unico lugar que eu vi crianças. Na morrer
Vila misséria. tem mais crianças do que adultos. A s crianças pensei, estes são os mortos vivos porque não tem ideal. 0 ideal
queriam ser fotografadas ao meu lado. e diziam vamos sahír con ja morreu.
la señora no jornal. Ela nos (...) en el periódico, e nos vamos ganar 06 homens são portuarios que trabalham
una casa del material Um dia sim, e outro não Quando não ha barcos para descarregar
pensei, o sonho das crianças e residir numa de alvenaria. E pensei sofrem. Olhando os barracães construidos pensei na época do
na Vera quando chorava dizendo: eu quero sair da favela — frio. E quem sofre são a s crianças. 0 problema da Argentina não
I percibí que a© crianças tem horror de viver na vila miseria. As e comida. E moradia e lamentam o custo de vida. Não podem
h mulheres queixavam da agua que é pouca. Os casebres primitivos pagar aluguel. No Brasil a solução para a extinção das favelas e
; iguaes os barracões das favelas do Brasil. A s mulhere6 são favoravel por causa dos terrenos que se vendem a prestação e
; triste s e não sorri Quem sorri na vila miseria são a s crianças com a reforma agraria ©e for avante.
1que ignoram seus dramas, são cultos e agradaveis. são mulatos A minoria da© criança© que vão a escola.
' mesclados, disse o senhor jorge Aria. E a escola é necessária a pessòa sabendo ler já é alfabetisado
— Mesclados com quem? perguntei. 7 e podem deeinvolver-se
— Is t o é co m v o c e s m u lh e re s. Respondeu s o rr in d o E Eu sou o exemplo.
agradeçeu-me dizendo. Fico grata da ôenhorvir nos visitar, quem A Vila miseria é ¡mensa o barro é liguento. A lama grudava nos
nos visita 6ão os periodistas A policia não nos m ata porque tem 6apatos. Eu percorria a Vila miseria. Tinha a impressão de estar
mádo dos periodistas tem corazon de ouro. Os de lã são buenos çom os personagens do Vít-or Hugo. 0 primeiro escritor que
e os de aja? escreveu ã tãvôr dos pobres. Á s crianças acompanharam-me com
r

NA CASA DE ALVENARIA 189


188 MEU ESTRANHO DIÁRIO J

entusiasmo e educação e solidariedade c o que eu notei noa conversando com o Juan Manoel Ruiz Quando a dona Beatriz
miseráveis da Argentina eles sao unidos. chegou entram os no elevador. Fui tro car e fomos almoçar no
restaurante parriíha. Quando voltamos ao Hotel, concedí uma
6ão resignados. M as não são felizes
entrevista a Revista Claudia Estou escrevendo Um conto para a
A Vila miseria tem 4 pias para trêis mil e quienhentas pessêas
revista “o japonef
la va r lo u ç a s e seis mil e n o v e ç e n ta s c ria n ç a s . Notei a s
Quando o jornalista saiu fomos dar autógrafos na Livraria do
degradações moraes e as cenas indecorosas na presença das
Colegio, fui aplaudida quan do en tre i e tra ta ra m -m e com
crianças A senhora Elza de Nicoise lamentava. 0 despreso que
a inabilidade — os fotografo© iam fotografando-me.
cs ricos tem dos pobres nos olham com nôjc. dizendo que somos
autografei duzentos e onze livros, ganhei flôres e livros. Depois
intrusos no mundo. Esta s palavras é como o cançer na nossa
fui dar entrevista a um jornalista que eu não sei de que jornal
alma.
é. Citei-lhe que estou horrorisada com o descaso que os poderes
Um brasileiro, que e um d o s m iseráveis a rg e n tin o s queria
públicos tem com a população. E preciso da r escola aos filhos
conhecer-me era o único que estava cheirando álcool. Um senhor
d o s operarios êlce sendo a lfab etizad os hão de lu ta r para
convidou-me para ver o seu barraco que foi distruido pelo fôgo e
e x tin gu ir á s vila s m iserias c ite i que a c h o o com ercio da
não tinha recursos para construir outro. Estão morando num Argentina mais calmo do que no Brasil 0 que notei desfavorável
barco. A o reiento. Quando chove o barco enche de agua. Eu dei na Argentina é a topografia.
o eafé para uma velhinha Uao corrugada o seu rôsto parecia o
é bonita porque e plaina mas devia ter inclinações nos rios para
geni papo. Cheauei a conclusão_que a favela t ia uai em táda parte
gerar luz eletrica. Uma senhora que estava conôsco disse: que
no inverno sofrem com o frio no verão sofrem com o calêr Um
tem uns pobres residindo no cem iterlo são M artím Fiquei
tra to r estava õspãlhãndí^Tlixõ. — Despedimos a dona Haydêe,
horrorisada. A deficiencia de residencia na Argentina cimpresionante
tirou diversas fotografias Quando voltavames para o Lyon Hotel,
E a primeira "vez qüfeT'líistóriá "relata q u ê ^ pcbre^vae^residif nc^-:
a dona Haydêe Jofre Barcso pediu-me para esclarecer o enrredo
címiterio O tigmçm ’ <fíTatualidade v.iênrJa, it ^ s não
dos livros que estou escrevendo
educou o povo. E_o povo Çj.Qj&ndo-educado não-há-e>/olução^_
Mufher diabólica, o Escravo, e Maria Luiza gostou da discrição Ao
E u'fiquéTTiá'Tlvraria autografando livros. O s Jornalistas dizem que
chegar no Lyon Hotel Encontrei o Juan Manoel Ruiz. Um dos
eu agitei Argentina «citando o povo ler. Um dia Você ha de ser,
argentinos que esta comigo numa fotografia que tiram os na
cidadã Argentina. Vcce gostando de ler dá exemplo ao povo.
Praça da Republica em São paulo. Veio dizer-me que não podem
Nos os periodistas te queremos muito,
pagar-me o dinheiro que lhe emprestei no Brasil, que a mãe do
sorri. Hoje eu estou alegre.
Vítor, adoeçeu e não ha possibilidade de fa z ír o filme que haviam
combinado. so que estou com saudades dos filhos. 0 João tem os olhos
grandes. Fomos jantar no restaurante Pipo. Que sopa gostosa.
Ficamos conversando. Ele quer voltar ao Brasil, disse lá., tem
A norte, fui escrever o conto para a revista fui d a r entrevista no
muitas mulheres na rua Aurora. Aqui não tem. A policia não deixa.
radio
Eu estava esperando o dr. Sohavaler. 0 juan Manoel Ruiz, olhava
a s salas do Hotel dizendo: quanto lucho! Carolina, você precisa
conhcçer a minha namorada. Citei-lhe que o homem para casar-se 1£ de novembro de 1961.
precisa arranjar emprego. 0 dr. Sohavaier chegou, apresentei o Deixei o lêlto as trêis horas e escreví ate a s nove. tomei café e
Juan Manoel Ruiz. 0 d r foi para o seu apartamento. Eu fiquei fui a u to g ra fa r livros na Livraria Florida A u to g ra fa v a com
MEU ESTRANHO OlARO NACASADEAIVENAHA 191

dificuldade minhas mãos tremiam, pedi a dona Beatriz Sohovaler p ro m e te u v o lt a r cm m e rc u ie s, que pa ra 0 p o rtu g u ê s c
para comprar um melhorai para mim. A minha letra oscilava — quarta-feira para d a -m e o quadro.
Expüquei a s pessoas presentes que estava escrevendo desde Deu-m e uma lição de hespanhol. Os dias da sem ana Lune,
trêis da manhã — Tomei o melhorai fui acalmando. Eu estava marcus, mercuies, e rueves, viernes, e sabado, e domingo, Ele
escrevendo quando chegou um repórter da Mancheti Ncy Biachi, despediu-se telefonei para o dr. Luciano Sohavaler, perguntando
e Ja d e r Neves com um representante da embaixada do Brasil se havia algo a fazer.
eobresaltei quando ouvi a voz do Audálio. e levantei para ver se
Desçeu com uns livros pa ra eu a u to g ra fa r. Ele é amavel
era ele., procurava-o no meio do povo ále estava conversando com au to grafei os livros e pedi para não ofereçer-m e bebidas
a dona B e a triz Salovaler, Dei-lhe um almaço e um bêijo e
alcoólicas porque as vezes apareçe um livro para autografar e os
apresentei-o ao povo dizendo este e o Dantas. Oh! Esclamaram
nomes s ã o difiçeis preciso e s ta r consciente. Ele concordou
e fo ra m c o m p rim e n ta -lo . A L iv ra ria ia fe c h a r. Eu fiquei
convidou-me para visitar sua mãe. Fui. Ele é meu editor devo
autografando os livros que os fregueses dêixaram e brincava com obedecer-lhe. A resdância da mãe do d r Sohavaler, e bonita
os balconistas. Vocês querem solir. Hoje e sabado vão a bailar.
Moveis antigos solidos varios quadros ornamentado a s paredes.
Eles sorriam . l lm senhor apresentou-m e a sua esposa e eu Seu nome e dona Beth. Uma mêsa estava ao nosso dispor. Com
disse-lhe: ela e bonita tra ta a bem. doçes e licêres finíssimos. Eu tinha impressão de e s ta r nos
Ela sorriu. Saímos da Livraria florida e fomos almoçar eu estava castelos, das mil e uma noite Os sobnnhoe do Dr. Sohavaler, são
peneando nos filhos quando corria, e pensei os filhos são sombras robustos e as fazes rubicundas. Eu disse que o dr. Luciano
que estão nos seguindo. A mãe tem uma re^Vnsã^liêfãd e ltrmto Sohavaler, e culto e bueno, ela ficou alegre, e queria que eu
g r a n d c -O Àudaiio, almoçou ~conooco. Voltamos p a ra 'o Hotel, o comêsse todo bêlo. pensei na vaidade da mulher que gosta que
Audalio ia fotografar o Feoia. elegia os seus filhos. 0 irmão do dr. Sohavaler, chegou, senhor
David.
Quando chegueí no Hotel fui dâ ita r. M as o telefone tocava,
levantei p a ra atender o te le fone tocou novamente. Era um pintor É casado, sua esposa estava presente. Falamos da favela do
que queria conheçer-me &e podia subir. Dei ordem p a ra subir. Era Brasil e da Vila Miseria da Argentina.
um velho italiano diS6e : que leu o meu livro e g o s to u . Venho*dar-te percibí que o meu livro obriga os ricos a pens a c -ü c ^ p obres. E fico
o s p a r a b é n s a d im iro a tua corajem. cònttrrteTlXcapcclirnos em olíam o s. 0 dr. Luciano Sohavaler,

E preciso! 0 povo estão ficando egoísta as c lasses estão levou-me de auto nos lugares pitorescos da Argentina — Quero
dividindo-se a classe rica tem o que comer, e a classe pobre come conhecer o parque Palermo. eu não vi construções de prédios
no lixo. Devido a idade êle anda com dificuldades. E percibí que a Dizem que o material é caro. No Brasil é caro. Ma6 o Brasileiro
visita era eincera. Diése-me que é pintor e vae ofereçer-me um faz parabéns brasileiros!
quadro para eu levar para o Brasil — Deu-me o seu cartão Voltam os ao Hotel Lyon e salmos para visitar o dr. Ignacio
Viacardo Sordí — pediu-me voce é jovem. Auxilia o povo emprega Winizky.
o teu saber em prol da humanidade — Voce conhcçe a fome. Ele jantam os eu o Audalio e o dr. Sohavaler e sua esposa fomos
Ja viajou e |a fez exposição em vários paizes disse-me que muito encontrar o Audálio, no Hotel onde esta hospedado Nas ruas o
difícil editar um livro. Um escritor rico encontra dificuldades c povo fitava-me o dr. Ignacio Wnizfcy nos reçebeu adimiravelmente
você que era da (...) foi editada. Uma escritora que catava livros bem. Estava presentes varios pessoas da elite. Todas educadas
no lixo para ler! E... sendo assim... voce gosta de livros. Ele com dó dos habitantes de Vila miseria, mas, não pedem solucionar
192 MEU ESTRANHO DiÁRIO N A CASA DE ALVENARIA 193

o problema percebí que lia mais facilidade no brasil por canea verso. Todos gostaram . 0 Audalio dêixou o seu autografo, e
das escolas que estão ac alcançe de todos, e o horario noturno despedimos — Eu não consegui
para o estudante Tinha um gravador que gravava as vozes dos
convidados designaram-me uma cadeira perto do gravador. — A_ 19 de novembro de 1S61
u n io a -c o isa-q u e .. fa \e \Jo i„d o & políticos que d eixam o povo passei amanhã no hotel. A nove horas, saímos com o Audalio, e
abandonados _e dão maye exemplos aos Jovens. E horroroso ver fomos visitar o Feola. Foi a primeira vez que vi o nosso famoso
um político, nos bancos dos reus. Comentamos ¿ T renuncia de footibolistas.
Janio.. Estava presente pedro Luiz, Aymore Bibas da G azeta esportiva,
Eu previa o seu fracasso para mim não foi surpresa. Ele é ator. e Femando Jaques e Carios Nascimento. 0 Feola, e agradavel.
Mão é político, político são dòis P r Leonel Brizóla, e o d r Adhemar Calmo, disse-me que esta residindo na Argentina a um ano. Era
de barros. M as o povo não compreendeu o ¿ir. Adhemar. A mesa técnico do Boca Junor. Fiqueí conhecendo, sua esposa c seus
e s ta v a cheia de doces, e iicôres.. A s mulheres elefan tes e filh os, e a neta. 0 A udá lio, foi fo to g ra fa r-m e . E o C a rlo s
cortêzee eu pensava: é a reprise da historia os fidalgos e os Nascimento, fotografou-me com 0 Feola'para a gazeta Esportiva
miseráveis de V itor Hugo. pediram para declamar um poema. e a sua esposa e a reta
Declarei o colono e o fazendeiro — a pedido do Audálio, E Ela nos ofereçeu um cafe, o d r Sahavaler, e dona Beatriz estava
disee-lheo qú<? foram p s fazendeiros quem im plantou a s favelas conosco, salmos e fomos para 0 hotel, pensando nas palavras do
nas grandes c id a d e s JA condição de um miserável que reside

Í
Feola. Cuidado Carolina, quando falar... No Hotel encontramos os
perto de um rico, e que o rico esta sempre pensando que o pobre fotografo© da Revista Claudia e o canal 7, que ia filmar uma cena
vae roubar-lhe algoJFiquei horcorisada ouvindo uma muiher dizer na Vila miseria conversei com os repórter da televisão, e 0
que os pobres são filhos de Caim. E os ricos são filhos de Abel. fotografo da Revista Claudia, fotografa ao fado de Julio Zicava
j Mas o Abel, não dêixou Varão, pediram-me para cantar, cantei a — aguardavamos a chegada do Feola para irmos na Vila Miseria
Valsa Rio Grande do Sul Eu havia dito ao Feola, que êle e quem deve dirijir o Campeonato
Fui ver o netinho do dr. Ignacio Winlzfcy. Estava dormindo. A casa Mundial.
é suntuosa percibí que o dr. Ignacio WTnizky, c amigo da Cultura.
Q uantos livros Ele aprecia os escritores ? os pintores Estava
Na casa do Feola perguntaram qual era o meu time São paulo,
presente o pintor argentino senhor Manuel Kanfar. que compos
Eram os visinhos na favela e quando jogadores, nos dava esmola
um livro de pintura com paisagens brasileras — Bahia — E o
ganha mais do que o
titulo do Irvro ofereçeu-me um exemplar. calamos do Brasil. A
pobrása do norte e do nordeste. A miseria, e termo literario o
na casa do Feola ouviam o jogo do Brasil na voz de Geraldo Jose
brasileiro come pouco. Mão bebe vinho, não usa o Olio de Oliva que
de Almeida, por uns momentos trve a impressão de estar no
afina o sangue. Não toma leite A falta de escola no norte Pa a
Brasil O s jornalistas que iam acompanhar-me estavam chegando
im p re ss ã o que o b ra sile iro é a p á tic o . M a s é im p ressão.
Comentamos o nosso governo parlamentarista — teleguiado. Eu — A quem espera Carolina?
não açêitava um governo teleguiado. Queris se a dona dos meus o Audálio Dantas e o Feola. Os argentinos comentavam 0 Feola,
atos. Fico horrorisada. Um homem entra pobre no poder e saem esta gêrdo — - é a nos6a carne: E davam risadas — 0 Audálio
ricos comprar palacios em londres. o dr. Ignacio Vinizki pediu-me e s t a v a d e m o ra n d o . A d o n a B e a t r iz foi p ro c u r a -la
para deixar o meu autografo na mêsa de bufaio — Eècrevl um desincontraram-se. 0 dr. Sohavaler pediu-me para ir buscar um
194 MIUESTRAWODlÁRiO NA CASA DE ALVENARIA 195

livro para levar na Vila miseria pedi licença e subi ¿le elevador <? — os homens que estão embriagados. A s mulheres não sorri
troque o vestido de lã que estava quente quando ri o riso e de Gioconda
Quando desci, eles gostaram do meu vestido estampado. pediram. Escreve para nós..
E bom que o mundo saiba que estamos abandonados.
A dona Beatriz, estava chegando e avistou o seu irmão que esta
estudando engenharia Entram os no carro e partimos para a Vila Chegou um bolivíano~¿£no ¿ 'nõsexpulsou. Piziam saem cumunista!
Saem cum unista. A mulher que tom a c on ta da Vita miseria
m iseria 0 a u to d a te le vis ã o ia nos guiando E ra m q u a tro
xingava-o. Uns uruguaios que estavam com urnas gu ita rra s
automóveis. Eu ¡a observando os predios suntuos e os jardins
tocavam e tocavam para a televisão filmar, a canção foi em
abertos. Com suas flôres. O auto da televisão nos deixou, nos
minha homenagem. Alazamba.
iamos perguntando o roteiro
Uma menina pediu-ms:
Quando chegamos na Vila miseria, era a copia fiel das favelas do
Usté escribí, que jo tendo gana d& vivir en la vivenda dei material.
Brasil. E ampla. E s ta superlotada de habitantes que deixam o
J o no quero cá quero la. indicava com o dedo os predios de
interior e arribam para a s grandes cidades que e um excrimio que
alvenarias. 0 desejo desta menina e o desejo de todos que vivem
tem lugar so para os ricos e os pobres não..
na Vila miseria, perguntei ao irmão de dona Beatriz se conhecia
nos receberam com sim p a tia dizendo que esperava-m e. os favela Pos livros — Foi a primeira vez que visitou a favela 0 dr.
m eninos d iziam êies vem fa z e r una película O s m iseráveis -i Idel Luciano Bohavolo" o meu editor argentino não conhecia favela
.m esclaram -se conosco c queixavam a falta de luz e a falta — ficou horrorizado.
dagua. Não podemos pagar alugue, o que ganhamos e so para a Quando ha briga na VTIa miseria chamam a A G — Era embaraçosa
,comida, a vita miseria esta no Centro e os edificios ao redor, da a nossa visita. Ninguém falava ate que suijiu o diretor da Vila
! a impressão que são gigantes aproximando-se das favelas — o Ü miseria Vítor poncerino e nos disse que fazem um barracão, e a
i barro é intolerável porque o sok> e plaino e a agua da chuva não policia vem e derrubam com o fuzil — fui filmada com os cantores
/ cem curso — Fui falar com unta senhora que tem 12 filhos. e eôtao construlndc um paredo para os pobres não construir
I Queixou com voz amargurada, nos as mulhere6 pobres, sofremos (casas) barracos Urra mulher queixou-se que não ha escolas, asi,
\ o despreso dos rico6 que nos chamam de intrusos. Não nos ccnei crianças estão crescendo analfabetos Os governos não interessai
i senhora, porque somos pobres Aquí e so os ricos que tem valor. por nós. os animaos &ão mais felizes do que nos. Nos já temosj
! Nos soubemos que existia a senhora no Brasil que a senhora nao intimações para dêixar a cidade Onde e que vão morar os pobres?]
; tem m ido dos políticos. M as aquí nos temos a 4 G — que prende — Na praca de Maio
os nossos filhos e m altratam os nossos esposos. Nas eleicães — Quem são voces?

I
os politices aparecem, pedem para votar, que vão nos proteger. — somos os descamisados. No ha problema de fome. Muito
promessas apenas. Um mocinho que usava bonó, e urna camisa )
pouco Ha o de moradia Calculo que ha 9 Q 0 .0 0 0 crianças na
preta cantava: chau, chau cha Carolina! havia musica na Vita Republica Argentina — Um governo deve construir escolas. A
(miscria com radio de pilha. inquietude é angustiosa Eles não tem dispensarlo médico. Quando
Eles são resignados mas não são feliz. Da a impressão que o adoeçem não tem onde ir. Querem uma policlínica. No verão os
od io d e le s e s tá fe m e n ta n d o no in te rio r. O s fo t ó g ra f o s nossos filhos morrem com desidratação
fotografava-me com as crianças que sao numerosas, davam para Eu seguia com os jornalistas e os periodistas da Revista Claudia.
encher dôie grupo& escotar do Brasil Quem sorri, são a s crianças Mostrava o meu livre, e o meu disco, tinha uma radiola tocando
196 MEU ESTRANHO DIÁRIO N A CASA DE ALVENARIA 197

dei o meu disco para eles tocar. Fiquei emocionada ouando vi uma pais. E há de s e r jm bom elemento no pais, e no seio da
muiher chorando. Quando os nossos olhares encontraram-se ela sociedade ha de te r uma boa acolhida e será feliz porque c a bôa
sorriu. cultura que valorisa um povo. E 0 homem culto é dinâmico,
E foi assim que eu vi lagrimas e sorriesos mesclados, o sorrisso tem possibilidade de evoluir na vida. E a cultura o combustivel da
slmbolisando alegria e as lagrimas tristásas. alma humana. E 0 psis tem vantagem com o seu povo ilustrado.
Quando cheguei em Buenos Aries, máteí a cobra no comercio. E assim extinguirá o problema social no nosso pais.
Agora e que notei que os preços estão ao alcançe do povo. Esta Conversar.
mais barato no Brasil.
|f Quando voltam os para a cidade eu estava confusa Com os / 0 homem que se enriquece com trapaça, e6tá construindo um
j pensamentos bailando no meu cerebro, uns tao ricos outros tão } edificio sem alicerçe.
I pobres. Os ricos confiam no dinheiro os pobres em Deus! E pedi a
| Deus para proteger as pessoas que vivem nes quartos de despejo. 0 hom em que c o n d u z a sua vida na r e tid ã o pode viver
*" E a s palavras bíblicas que o s bíblicos vivem pregando não estão despreocupado
praticando ama.vos, uns aos outros. Quando cheguei ao hotel, fui
sentar — Tinha a impressão que fui no inferno. Sentei pensando. A s pessôas prudentes não tropeçam na vida
Um jornalista lia uns trechos que os jornaeô haviam publicado,
as Vila© miserias da Argentina e a6 esta;lscas dos habitantes A equidade e 0 farol do homem
o Audálio ia anotando
Recibí a visita do escritor que escreveu VHa Miseria também es Os cultos presa o sabio (...) os tolos os que tem furtuna embora
America. sendo pouco
E um romançe visto de fora. Estilo conservador Deu-m e um
exemplar Teria valor s e fo s e e extraído de dentro paradora. Com Não devemos dizer amem acs atos indecorosos
OS nffrfr<?$"do6 Viáh ita n te s de V ija Miseria havia rela ção.d ss
homens que residem n&sY U a s Miserias « c pais voltava atenção 0 homem que procura ínstrur-se (...)
aos sub mundo onde. ficam .os cordeiro© de Deus que são os
favelados — que não podem m esclar-se com os c e z a r da
atualidade
0 dr. 5ahovoler tradusio o que faíavamos para o au to r de Vila
Miseria Também e America.
Foi por intermédio do seu livro que a s ^avelas d a A rgentina
ficaram conhecidas por Vila Miseria.
| Li uns poemas para êle que estava adimiraeo. Diz que sou simples
J para escrever para educar o' povo tem es que escrever para
' ¡ educar o povo c necessário sermos cultos e tratarm os o© nossos
j semêlhantes com carinho, e amabilidade. E estimular-lhes ser
deçentes e honestos porque o homem honesto e utilissimo ao
Diários
no sítio
N O SÍTIO

(...) aperfeiçoando-se. Faz dois anos que deixei de ser lixeira para
ser escritora. Eu me considero exótica. Tem pessoas que saem
1 4 4 -4 4 * W 1 ¿as Universidades pra ser escritora. E eu sai da favela. Sai do
lixo. Sai do quarto de despejo. E 0 meu nome corre mundo. Com
_ n ~ C ^ U o L » - .... A^ü----- O - a s traduções do meu livro Fui favorecida por uma classe de
— Ú È L d s u . y\-v^a_t_bCx.oc. brancos nobres e bons. E fui prejudicada por uma classe de
£U>— C o o o w .../2 brancos Incultos, mediocres e opurtunistas. Que pensaram que
LjO_£xXvvjg^<ÍLz> Carolina Maria de Jesus, é uma idiota
Í i 4 U

Cxa . ^ M n .^ u L -. M a s - eu dei uma lição de honestidade nestes crápulas. Eu levo


Qx<ãX>. A g.-. «còvVotÃjn.- ., ,^1 a ^ ^ o 4 \ um minuto para esquentar e levo cem para esfriar
\ Tem pessõas que me diz Carolina, voce não é uma mulher qualquer
-----f^A A a-JLcL^ O^ ÍL^vlA ¿S uÓ lb
\o teu nome é internacional — Respondo: sou uma mulher igual
4 4 4 4 4 * 1 >T O

-$4>Àzi^£jUí<&a^o — g— ^ -C tXjiôcu^/y- jas outras. Não quero ficar sofisticada. 0 que tenho pavõr e de
u d L -ÍA & ^ lfc c k - (residir na rua Bento Pereira.
Se uma criança entra na minha casa a6 mães correm e ritiram
----- i¿ «-ÍU _ J tA Í3 J L os filhos dizendoi-lhea, Vocês n3o devem brincar com os filhos da
^ v s t-D -iX A ^ a -.,— ¿OvA-^f^i. fcá , _£- S í JLa-í j ^. Carolina!
JUL&— csU. E eu c heguei a conclusão que tu d o que &<iste_ n.o.jjiu n d o ,-c
|l 1<*E—.i^n' Pm . fi Pi Imposto pêlos"brãncõ37 Eles á quem cultivam o preconçêitG.
n^> &<0>fc. 0-■■.>- ,fty ., flaa f Tem branco~que diz que eu sou orgulhosa.
Eu não sou orgulhosa o que eu não g o s to é de pessõas
mentirosas, inferiores Dia 19 eu fui na festa da escritora Clariçe
<£-«•■— -ÊfctíL*— ^
Lespector que ganhou o premio de melhor escritora do ano com
— .— £v^..teusici^ y^sxu.
0 seu Romance "Maça no escuro" A recepção foi na residência de
,...— , a* . . v u C o Dona Carmem Dolores Barbosa. Tive a impressão que a Dona
Carmem nao apreciou a minha presença. E eu fiquei sem ação.
—fcx_jl Sentei numa poltrona e fiquei.
cb— t As m a d a m e s d a a lta s o c ie d a d e iam ch e g a n d o . E em
- Q ^> _ _ _____________________ ____ comprimentavam. A Ruthe de Souza quando chegou não me
J - £ _ Cl Í X uo Í aLc ¿X3.o U _ % yv¿£- comprimentou. Coisa que foi notado por todos
Há os que dizem que a Ruth não gosta de pretos.
E ridículo, um preto não apreciar 6eu6 Irmãos na cor. Eu aosto
~d Psõr~pretar: Tenhc_orgultíõ.' E gosto.de. Deus. porque me fez
preta¡ Deixamos a Ruth em paz. Cada cabêça pen6a de um gérto.
Com 0 decorrer do6 tempos ela ha de transform ar-se porque ela
esta cursando uma Universidade, chamada — Mundo. E nesta
I
202 MEU ESTRANHO DIÁRIO N O SlTIO 203

universidade o que aprendemos, é o sofrimento, que amolda os Á esposa do Deputado Jo ão Batista Ramos estava presente 0
carater. Ha os homens que aprendem lár e ficam vaidosas e Helio Silveira graças a Deus não fui fotografada. J a estou saindo
orgulhosas e não se educam. dos noticiarios
0 paulo Dantas e a sua esposa Dona Zufoa Não comparecí na sala onde a Clariçe Lespector estava
Eu disse de Dona Zuiba que adoro o paule Dantas ele é incapas Não a vi. Não lhe comprimento. Serviram refrescos e comestíveis
de um geeto indelicado com quem quer que seja. Eu digo: Paulo, a s 2 3 horas
quando você morrer deixa outro paulo Dantas no teu lugar. 0 retornei para casa pensando no dinheiro que gastei pintando
mundo necessita sempre de um Paulo P a rta s unhas e pagando conduções. Pinheiro que poderia guardar para
{Ela gjggju eagradeçeu-me. 0 Audalio não compareçeu. Eu previa comprar pão e fáijão para os meus filhos
j isto onde «u estou o Aud M ò nSolápãrecé. (ÍÓs nSo c o m ía m o s .
[ Ele n ã o g õ sté ' jfc'rnim.'Téu não gosto dêle. U2o somos fingidos 21 de Setembro — 1902
o paulo Dantas disse-me que o Áudálio nao compareçeu porque
Pespertei as 6 horas para preparar os filhos que vão a escola.
não gosta da turba.
A Vera esta estudando matemática. Diz .que vae lecionar Hoje eu
Mas. ele é repórter. estou indisposta Vou fazer uma sopa.
E o reportor c igual o peixe na água. tem que penetrar. Mas E uma sôpa fica caríssima
estava o paulo Pantas. E ále preenche. Na festa estava o J anio. A ca6a esta suja. Eu não posso pagar empregada.
Olhando-o da a Impressão que ále é paranóco. Que e uma criança
Quando a Vera retornou-se da aula foí na quitanda comprar
que deve ser conduzida pela mão. Quando c Janio foi escrever um
repálho e carne.
autografo no livro que a Pona Polores co'eciona os autógrafos
0 senhor Verde váio visitar-me. e dizer que eu vou almoçar com
das celebridades eu aproximei para ver a caligrafia do Janio.
o Janio, terça-feira. A Vera foi buscar uma menina da visinha e
Nada entendo de grafologia mas da a impressão que ele é
dava com ida para ela. a menina é raq uítica. A m a d ra s ta
instável.
m altrata-a demasiamente. E os meus filhos alcunharam a menina
0 Senhor Raul Cintra Leite estava sentado ao meu lado e eu de "A gata Borralheira. Eu disse ao senhor Verdi que a lei devia
disse-lhe: interferir-se e retirar a menina — Como sofre a s filhas das
— Eis o homem, que arruinou o pais! ebrias. 0 S-enhor Verdi disse-me que no Norte ha mais sofrimento:
0 Senhor Raul Cintra Láite olhava o Jante lamentando: E... eu... Que o governo é deshumano,
votei... r.áste homem! E que o Brasil é imenso para mim a humanidade aínda esta no
embrião por pensar que o governo é o responsável por todas
Eu não sei como c, que, que ále tem coragem de ser candidato
desorganisaçoes do pais
a. /
‘‘É necessário que todos cooperam no progesso do pais. 0 senhor
que não tenho nada com as desorganisaçães do
Verde almoçou a mirha sopa e despediu-se. Eu lhe acompanhei
«s, quem predomina no pais sao 06 brancos. E os
ate a esquina os filho6 preparam-se para ir a aula Recebí a vierta
pretos são predominados
da mulher que vende na fáira váio visitar-mc. Eu estou lhe devendo
M a s o s b ra n co s pre cisam s e r m ais c u lto s uns tira n d o a 1 4 .0 0 0 ,0 0 comprei roupas para os filhos A s crianças gastam
força-moral dos outros. muitas roupas. Um fiiho fica num preço extraordinario para um
x
204 MEU ESTRANHO OiÁRíO NO SÍTIO 205

pae. Então é neceasaiio.que o filho q uando adulto sêja um homem Eu mesclava no núcleo pensando — 0 que é ser ladrão? Mas o
dsccijtgjpara os paes. te r recompensa doL s o u s e s f õ r ç ^ castigo moral da atualidade e cem vêzes pior — A imprensa que
publica o retra to do ladrão.
Os filhos não..devem tranevíar-se. Enqianfc?-aomog_£Dan£as
Mas por muito mal que se vê por ai o Brasil ainda é o mais
ternos que ser orientados. pelos pa£&. £ a única época que os
superior.
pasetem tranquilidade- de Espiritar- ‘
Jem os abrigos de menores não somos deshumanos
0 que eu observo é que Os homens depois de adultos desviam-se
Em Buenos-Arles, o rico não gosta do pobre.
das regras scciaes. Ha os que vão roubar. E o homem que é
No Chile, o rico é predominante. Não v¡ abrigo de menores em
conhecido como ladrão e repudiado pelo publico. Dia 17 eu fui no
Banthiago.
gabinete. Estou tirando outra ficha de identidade e conversei com
E horrível ver aquelas crianças pedindo esmola pelas ruas. pico
o delegado Amorôao Netto
pensando na confusão da atualidade.
E que eu fui consultar a Interpol se ha possibilidade de transferir O s homens exterminándose. A revulução na Argentina.
para o Brasil um jovem chileno com a sua mãe para trabaihar
Eu notei o odio interior entre êles. Enfim_é o branco o dono do
nas minhas terra6
mundo. ’
Ele diz que o Brasil ha de ser a sua segunda patria A Cleide pediu o caderno a Vera para copiar a lição, porque a
0 senhor Amorôso N etto disse que não impecilho. E falamos da Vera escreve com mais rapides. A Vera não queria emprestar-lhe
delinquência no Brasil Um pais onde ha um v a s to campo de porque a mãe da Cleide lhe proibiu de entrar na minha casa. A
exploração. Quantas pessoas que tem sitie e quer um casal para Vera disse-lhe para pedir o caderno as meninas brancas E a Vera
cuidar das terras e não consegue não mais ha de entrar na casa da Cleide. É toliçe o orgulho na
humanidade. Todos morrem QuandgJ? g js d ja e c : Amaivos uns aos
é que o homem da atualidade quer ficar na cidade desfrutando
outros, ja previa a s segregações raciaes. O s filhos foram a escola
os fa ls o s p ra ze re s que a cid ad e ofe-eçe. É horrível viver
eu fui guiar.'Estou áprendendo a dirigir.
congestionado. É necessário descongestionar a cidade estabilisar
Quero ver se compro um carro. Quero residir lá cm parelheiros.
o homem nas periferias. Ninguém quer residir onde não haja luz
Estou na A u to Escda Bantana.
elétrica.
I Ja estou gostando de dirigir. J á conheço varios bairros. Quem
Outra coisa que eu noto Os russos, os sirios que vem para o I escreve necessita ter um auto. Estou conheçendo a cidade. Os
Brasil não vão trabalhar na lavoura. j pretos ficam habismado quando me vê guiando. Exclamam:
Quer o comércio. ôão tipos Incultos que pensam que tendo o Olha a negra que vae comprar carro. Se o negro no Brasil ainda
dinheiro já é a solução. Se eu fora homem preferia viver no campo não desinvolveu-se é porque tem muito complexo. E os que
plantar. Mas o homem da atualidade não sei se é fraco ou ?e é ganham muito dinheiro não sabe organisar-se. Eu não tenho
indolente, no gabinete falamos do c a s tg o moral do passado. complexo. 0 meu inscrutor e o senhor Gabriel.
Quando um homem roubava a policia percorria as ruas com o Êle não bebe alcod e não fuma. Eu gosto de ficar Ia na auto
ladrão e as crianças iam vaiando: Escola. Os alunos s ao deçentes e agradaveis. Ge võit^ ã :é ^ h e v é f : :.
Ladrão de coberta. Ladrão de galinha! E as crianças iam batendo o meu Diário e ^ e ^ j p o ^ e s t ^ ^ p e d i n d o ^ ^ m a ^ ^ ^ X estava
latas e pandeiros. Verdadeira festa para as crianças que não ít ^ 5 L f r$ 9 t 3 0 u í3 ^ n d ã Ia J e g L ^ _ Q u e r o ser bem o ^h teS ãa pfctí
conhecia o drama que tomavam parte mandei fazer exame de urina. Dizem que" estou com nefííte no
206 MÊU ESTRANHO OlÃRtO N O SÍTIO 207

corpo humano há carias confusões. Um orço quc enfraqueço. A Vera esta com toase cumprida, passei mal a noite. Com dâr
Receb¡ carta da Eva Vastan no rim. Que suplicio quando vou na fêira. O s feirantes dizem que
estou rica. E eu fico nervosa, é horrível viver nesta ¿poca em que
22 de setembro de 1962 o povo penaa &o no dinheiro.
Hoje eu estou disposta Cheguei a conclusão que o Brasil não é país para nascer poeta.
A Vera fôi na aula de matemática. Eu limpei a casa. Vou receber A turtura .mental que q povo .m eíiff lirffi¿Té~horrui osarTeflhzrque
a visita da Eva Vastan', preparei o almoço. Arroz feijão e carne cKírüáar as pessoas-que.me_falam em dinheiro
seca e 6alada. 0 João foi ritirar 5 .0 0 0 0 ,0 no banco, pagou a luz e comprou um
Vou comprar carne so uma vez por semana. A te guando! o custo vidro de remedio para mim. Estou começando a ficar doente.
de vida — Os filhos foram a escola. 0 João vae sair as trêis horas Não posso comêr sal
para ir na Livraria Francisco Alves levar uma carta ao Pr. Lelio. Eu
fui guiar E voltei a minha casa no auto eeeola. Fui na Farmacia o
23 de setembro de 1962
Vili farmacêutico esta horrosisado por eu não ter consultado um
médico, se m orrer morreu. Ninguém é eterno Hoje eu estou Hoje é domingo. Eu não gosto de sair de casa aos domingos. Vou
contente ficar em casa para lavar as roupas e passar. E sta chovendo e
A s vlsínhas e s tã o adím iradas por eu e s ta r guiando E uma «se filha© gáecam m uitas roupa©. Comprei uma galinha por
4 5 0 ,0 0 0 ,0 0 Que abeurdo. Hoje eu estou alegre. O s filhos estão
responsabilidade tremenda. Não pode descuidar. É... a vida atual
não é sôpa. E será que vae ficar pior? mais calmos. E stão com medo de ficar orfãos. E um orfo no
Brasil sofre porque a^ui é cada um pra-sí.
Na Argentina há revulução Que toliçe destruir o proprio pais. E
eles são civiiísado À nôite, o senhor Verde e a esposa vieram visitar-me. Que homem
Esta chovendo em 5ão paulo culto. Ele me visita duas vézes por semana. Os visinhos dizem
Eu estou mais calma. que êle é mais atencioso comigo do que o Audálio.

Estou deixando de eer tola A esposa do senhor Verdi, fez um bôlo. E passamos a tarde
Um preto veio vender desodorante. Que preto Inteligente! pode agradavel. Que bom seria o mundo, ee todos fôssem cultos. Os
ser escritor. Disse-me que é místico. filhos fôram ao cinema.
Eu não sei o que é isto A Vera deixou de brincar com a Cleide porque a mãe da Cleide
Ele disse-me que Cristo foi místico. Vou lér no Dicionário o que e proibiu-a de entrar na minha casa. 0 pior visinho é o burgués
ser místico. 0 preto ficou contente quando eu lhe disse que sou enriquecido. Infelizmente os nossos burgueses não se ilustram. Os
a Carolina Maria de Jesus. que compram uma casinha e uma televisão ficam jatanciosos e
petulante. Fiquei esperando o escritor que me foi apresentado
— Então é a senhora! Eu vou dizer a minha esposa que tqmei
pelo paulo Dantas, que vae escrever um livro, Carolina e seus
café na ca s a de Carolina M aria de Je s u s . Vendeu-m è um
amõres. Ele vem me entrevistar para iniciar o livro.
d e s in f e t a n t e p a ra o g u a rd a ro u p a po r 4 0 c ru z e iro s e
despediu-se. I Os homens que eu amei não me suportaram aiudindo que eu sou
A s visinhas que me viu guiando o carro estão habismada e J superior.
comentando, para elas eu sou um fenómeno. Hoje não recebi \ Eles erraram — Eu não sou superior — eu não tenho preguiça
visita. Vou deitar a s 6 horas da tarde. para trabalhar.
f
208 MEU ESTRANHO EXARO N O SfTtO 209

E enfrento qualquer especie ¿le trabalho. Eu fico observando as Albamiclna (5 U. Dei 4 0 0 ,0 0 0 , êle voltou dizendo que o remédio
divergências dos homens da atualidade. Brigam por elevação de custa 1.150,000,00
salário. E que todos querem ficar na cidade. Eu não tinha o dinhero. A Vera foi pedir 2 .0 0 0 ,0 0 a Dona Elza
I Desfrutando os falsos prazeres 0 que observo nas cidades são Rêls. Ela emprestou-me.
io s d c e c a s o s h um an o s uns m a ta os o u tro s p a ra roubar. 0 João foi comprar o remédio, voltou xingando o farmacéutico
J Eequeçendo áles que o homem que m ata o seu eemêfhante, é réu Ladrão, desgraçadoI Coçou a cabeça comentando: como ha de
'A d e juiz. Tem que enfrentar o juiz terrestre e o juiz celestial 0 sofrer os que são pobres!
homem que quer viver matando para conseguir o seu sustento é Eu tomei o remédio e deitei.
um louco Não adorm ecí com a d or nos rins. Eu disse ao médico que
t um homem vivo. Mesmo sendo marginal tem m uito valor. amanhã Vou almoçar com o Janio. êle esta purificado da culpa
Quando estam os doentes é que dam os valor ao ser humano. de renuncia, porque senhor Brochado da Rocha defendeu-lhe.
Quando sai a tarde para ir na aula de transito senti dôr no rlm sendo assim o Janio não é culpado É uma vitima
e fui ao consultorio do Dr. Furlan, Na Rua Voluntarios da patria Os filhos estão com trtèdo.
havia várias pessoas aguardando a chegada do médico, que é o Comentando. E se a mamãe morre. 0 Jo ã o foi na cidade falar
mecânico do côrpo humano. Chegou uma senhora contorcendo-ee. com o (...)
Cu era a segunda a ser examinada cedí a Minha vez para s mu&ier
que e s ta v a gem endo . D epô ls de exam inada a m ulher foi 2 4 de setembro de 1962
diretamente para o hospital, ia ser operada as desenove horas. Ao
Despertei os filhos as 6 horas para preparar o quarto. A jornalista
sair ela agradeçeu-me. Quando fui examinsr o dr. Furian disse-me
Filandêsa Eva Vastari, vae chegar do Rio Eu a convidei para
que estou com pyelítc. Que devo repousar 6 dias. Eu disse-lhe que
passar uns dias na minha ca s a Ela vae tradusir o meu livro para
fiz o exame de urina e vou enviar-lhe o resultado, que esta com o
o Filandês O.s filhos estão atarefados correndo de um lado para
senhor Verdi que Ia arranjar médico para mim. paguei mil cruzeiros
outro. A s 5 horas a Eva chegou. Eu estava dêitada com dor no
pela consulta, e dêI duzentos de gorgeta a enfermeira.
rim direito Conversavamos. A s nove horas chegou o eenhor Verdi
Na sala de espera as mulheres comentavam o estúpido crime de dos Santos e sua espesa. Eu dlsse-ihe que não podia acompanha-lo
Campinas 0 jovem foi assasinado por um mascarado será que o ate ao Comité do Senhor Janio Quadros 0 Dr Furlan disse-me que
homem que m ata para roubar tem certáza que é um homem? dêvo repousar. 0 ôenher Verdi disse que já estava comiÂnado e núo
E homem so na fama. era possível adiar a entrevista. Levantei pensando nos espinhos
homem infantil, homem que cresçe e não amadureçe. Deus disse que a gloria nos reserva. Levantei, troquei e sai com o senhor Verdi
ao homem para se alim entar com o suor do seu rôsto! A s pedi a esposa do serhor Verdi para fazer o almoço e matar a
mulheres não matam para roubar. galinha. 5al com o senhor Verdi Fui na farmacia do senhor Villi e
porque a mulher sabe o trabalho que dá para criar um ser tomei uma ingeçlo. Ele perguntou-me: onde vae?
humano. — Vou almoçar com o Janio Quem Ia almoçar era eu o Janio, o
Despedi das mulheres pensando: se eu merrer Ninguém compra a Busola e o ex-m inistro Brochado da Rocha. M a s o senhor
vida eterna, passei na farmacia e comprei as ingeçães e tomei Brochado da Rocha, adoeçeu.
uma. 140, cada ampola. Comprei 6 paguei 0 4 0 0 ,0 0 . Tomei um Dirigimos ao comitê da praça da Bé. 0 senhor João Rocha ia nos
taxi e voltei pra casa. 0 João foi comprar os comprimidos de acompanhar, âle não estava comprei uma revista Varias pessoas
210 « E U ESTRANHO DIARIO N O SÍTIO 211

ap roxim ava para c o m p rim e n ta r-m e e p e rg u n ta r se estou 0 senhor Janio surgiu. Que homem bonito! Estava bem vestido e
escrevendo. E qual e o meu proximo livro alegre. Varias pessfas queriam ser fotografadas com ele. Ele
Respondo: que tenho varios livros escritos e não sei qual é o que disse: espera Carolina depôis e tiro fotografia com voce. Fiquei
vae ser publicado. Isto é com o Paulo Dantas. assombrada e perguntei-lhe:
0 senhor Verde não quiz esperar o senhor Jo ã o Rocha, nós — E com toda confusão e o senhor ainda engordou?
seguimos — Engordei Carolina!

Eu estava horrorisada com a campanha elêítoral da atualidade pensei quem protege o Janio e o Espirito de seu pae.
Aproximei-me do Janio para ser fotografada. Ele abraçou-me.
M ulta musica — M uitas propagandas. A s ¿pocas que tenho
Com o contato do Janio eu senti um bem estar interior. E pensei:
pavôr do Brasil Más de Junho, por causa das bombas e fuguetes
eu estou nos braços de um Homem.
e cs baldes. 0 más do earnavaI com suss cançdes e exotismos.
Eu ia conversando com o senhor Verdi. E dicidi — vo tar no Janio. Ele disse: Obrigado Carolina! Eu
despedi e sai. E a voz do Janio ficou eclodindo no meu cerebro
galgamos Avenida Brigadeiro Luiz Antonio. Eu ia olhando as
igual um éco — Obrigado Carolina!
mulheres pobres que dirigia a sede do serviço social para pedir
Quando o Janio pronunciou o meu nome, eu tive uma impressão
auxilio ao governo.
que ále assinava um compromisso comigo. E pensei: o Janio, é o
Noo outroe paisee eSo oe assistentes saetees que vdo procurar
Línconl do B rasil. Eu e o senhor Verdi fom os na e s ta ç ã o
os pobres. Umas mulheres tristes, desnutridas fc uma vergonha,
Rodoviária ritfrar as malas da Eva Va6tari. Tomamos um carro.
num pais tã o rico, um povo desajustado E que se um homem não
Varias pessoas me o’havam como seu eu fSsse de outro planeta
estuda não sabe viver e nem organiza a sua vida. A s pessáas
param os na Auto-Escola eu avisei ao senhor Andre que não
desajustadas tem exeeso de imaginação Tem dia que eu penso:
posso frequentar as aulas êstes dia6.
/não adianta nada eu escrever o desajuste social se ninguém
Eu vou fica r de repouso 6 dias. J a fui falar com o Jánlo, e
I conscrta^ojnundo^_Q_.pa¿o ainda e&ta-nc-plaao - 5.
amanha eu estou no jornal A Hora.
Quando chegamos no comité do ex-presidente Janio Quadros,
Entrei no auto e dirigí a minha casa. A esposa do senhor Verdi
fiquei habismada com afluencia de pessoas uns escrevendo,
ja havia preparado o almáço.
outros pedindo esmolas. O utros passea'ido. Ouvi um murmurio,
Mas que almoço!
Olha a Carolina! Eu fui galgando a s escadas, uma senhora me
acompanhava ia falando do meu livro Q u a rto de despejo. A Eu fui dáitar pensando: ja estou ficando velha cansada também
secretaria do Janio recebeu-me. O s fotógrafos circulavam. Resolví com esta vida tã o agitada! E convite para eu ir ao ceu, convite
escrever Um texto para o Ja n io — o que comoveu-me foi o para eu ir ao inferne. Eles pensam que eu sou tocada a motor
manifesto do senhor brochado da Rocha, dizer que o senhor paguei o taxi. Ritiramos as malas da eva Va6tarl e assim foi o

Janio Quadros renunciou para continuar honesto, ¿endo assim, dia 2 4 de 9 .1 9 6 2 . Não adormecí com dôr no rim.

devemos reelegá-lo novamente porque a patria necessita de


homens honestos por áete gesto elegante dou os meus parabéns 25 de setembro de 1962
ao senhor Janio Quadros. E peço que continue honesto porque A s 6 horas despertei os filhos. 0 João foi na cidade. Hontem eu
honestidade eleva o carater de um homem. E nos necessitamos dáixei um bilhete para o Or. Ldio pedindo 1 0 0 0 0 ,0 0 adiantado
de um homem honesto e de carater no governo de São Paulo E o João foi ver se o Audálk) ja ritlrou o dinheiro da lugoslavia. 0
não um homem-mirim que faz molecagens. Audalio disse que vae demorar 15 dias. Enviou-me áste bilhête
212 MEU ESTRANHO OlÁKO no sin o 213

C a ro lina: c o n tín u a a confusão para receber o dinheiro da c fui tom a ingeçoes. Os fêirantes estão comentando que Me viu
Chequislovaquia que precisa vír ordem do Rio e demora ainda uns no jornal com o Jânio
15 dias. No momento não disponho de nada. Seria o caso de vocè A Dona Eva V astan saiu. Disse que ia arranjar artigos para
recorrer ao Lelio Qualquer novidade avisarei a vocè. Um abraço! escrever. Eu estou passando a frutas. Á noite o senhor Verdi vêio
Audalio visitar-me c me pediu a maquina emprestada para escrever um

0 Dr. Lelio deu o dinheiro Eu paguei os 2 .COO,0 0 que a Dona artigo contra o Davd Nasser por e s ta r escrevendo contra o
Elza Reis emprestou-me senhor Janio Quadros. Disse que a Hora vae publicar. A Eva
Vastari datilografou o artigo.
0 Jose Carlos foi comprar o jornal.. A reportagem com Jânio saiu.
E o senhor Verdi saiu furioso com o David Nasçer. A Eva disse
Eu passei o dia deitado. A Eva Vasta ri 6aiu. Foi falar com o Dantas
que o senhor Verde vae perder. Que quando entramos numa iuta
6e há possibilidade de fazer a tradução do Quarto de despejo.
devemos en tra r com a convicção que vamos vençer.
A tarde a Eva voltou dizendo que não vae traduzir o livro que
Eu estou comendo tanto Estou fazendo regime alimentar. E a
não véio pedido da Filandia.
vida queja esta chegando ao fim. preparei o ja n ta r para os filhes.
Estou paseando mal. A casa esta suja!
A Eva trouxe um jornal anunciando que o e<-minfetro Brochado da
Rocha raleçeu. Que tu rtu ra manta! qye lhe influíram no Mínlctério.
27 de setembro de 1962
para governar um pais é necessário a bôs-vontade de todos. Da
Hoje eu estou indisposta Não consegui dormir...
a Impressão que os nossos homens poütcos são piratas. Quem
deve ser deputado num pais. deve ser os homens ricos que Levantei e fique! girando. Estou achando o dia triste A Visinha
possam trabalhar umas horas para o pais e não receber soldo. 0 vêio visitar-m e comentando a m orte do senhor Brochado da
que me dêixa horrorisada e que os filhos de sírios os filhos dos Rocha.
judeus todos querem ser deputados E a única raça que visa Incluir Eu fui tom ar Ingeção.
so onde possa enrriqueçer-se num minuto. Fico pensando, porque J á estou com os braços perfurados e doloridos
é que o homem tem uma ambição gigantesca assim? Fui conversas com a Dona Elza e mostrei-lhe a reportagem com
para mim o homem so tem valôr quando é criança Nascem tão o Janio. Ela gostou.
pyjtps. Ê vão c r e s í ^ n d o ¿ ¿ f á t e r . b” mundo esta Com prei o Jornal para lêr a reportagem do senhor Verdi a
necessitando de m oraj firme. Q senhor Ve*di dissê"que se Desús reportagem não saiu.
voltar para julgar os homen6. A té o papa sera julgado! Õ6 filhos fâram na eecola.
0 João foi levar uma carta ao Dr. Lelio. Ele e o José Carlos
26 de setembro de 1962 brigaram e quebram o vidro da janela. Meu Deus! Como os filhos
dão prejuízos aos paes. Lavei a s escadas e o banheiro
passei o dia na cama. Estou com dor nos rins. Não posso andar. Os
jomaes estão anunciando a morte do senho- Brochado da Rocha. E
os buatos gera confusão. Dizendo que não vae te r auta6. Hoje e dia 2 6 de setembro de 1962
de Feira. Eu não vou sair o João esta fazendo as compras. Hoje eu le/antei as € horas. Eequeçemos a torneira aberta e a
A muiher que vende na feira, eu estou lhe devendo vêio visitar-me. agua invadiu a sala. Que correría. Os filhos reuniram para ritirar
A tarde levantei e escreví uma carta para o Professor Mendonza a agua Balde, vasouras e rodo entrou em ação.

I
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214 MEU ESTRANHO OlÁRtO
NO SÍTIO 215

A Dona Eva Vastan ficou borroneada pensando que eu estava


físico tem possibilidade para triunfar. M as é necessário ser
lavando a casa. Conclusão passamos o dia 0 em água.
arrojado. Eu gosto das pessôas que trabalham depressa...
Hoje eu estou contente preparei almoço para 00 filhos. A Vera foi
0 João trabaftia depressa.
a aula e voltou dizendo que vae ser reprovada porque não sabe
0 Jose Carlos é mais lento e me irrita. Quando eu peco ao Josá
matemática
Carlos para tra b a lh a r acabo brigando com êle. E hoje nos
A Pona Eva Y a s ta ri lhe ensina. 0 Eduardo de Oliveira veio
brigamos. Levantei e sal correndo atra s dele que saiu para a rua.
Convidar-me para ir na festa a promulgação da leí do Ventre livre.
A Yera, estava lavardo. fui examinar não estava do meu gosto
Em nome do 1 Congresso Mundial da cultura negra. No amplo
ritirei as que estavam mal lavadas e dêixei algumas para não ferir
'• auditorium gentilmente cedido pelas Folhas de São paulo. Sendo
a sensibilidade de minha filha. Eu ia lavando, e ensinando-lhe que
assim crêro que dêvo agrad ece r o s ilustres jorna listas das
devemos repassar as roupas na água varias vezes. Eu digo para
¡ Folhas, pois nos ceder 0 seu finíssimo auditorium
a Vera que a mulher que não sabe trabalhar num lar_^erá_uma
¡Estou doente. Mas... irel. gosto de estar no meio dos negros. E madame inutiJ__Depêls de lavar a s roupas fui na fêira fazer
áspero que os negros no porvir sêjam cultos. E que todos tenham comprasTOÕmprei frutas e pâixes
pultura.
Eu estou alegre.
A Eva Vastari, foi na cidade falar com o& seus patricios Fílandêz
2 9 de setembro de T9fc>2 para fazer reportagens.
Não consegui adormeçer com dor nos rins Não podia mover. Dôr Na fêira os fêirantes e 0 povo estavam contente.
e dôr. Tem prioridade no corpo humano Ela nos a ta c a . Eu pensei: já resignaram com os prêços graças a Deus já esta
pretendia ficar na cama. 0 João foi ao Banco de Credito Real de diminuindo 00 suicidios no Brasil
M inas geraes. rftirar 5 .0 0 0 ,0 0 . E s ta semana ga stei m uito Melhores dias vem para todos. Circulei pela fêira o Jo ã o fot
comprando remédio e frutas. E eles vendem as frutas por um procurar-me e entrcgowmc os remédio Fiquel contente. Ele disse
preço astronómico, paga-se por um mamão cem cruzeiros que os prêços na cidade é mais barato. Que a ingecão custou
Eu estava dêitada. Mas como e horrível ficar na cama inativa e 9 0 0 .0 0 0 ,0 0
a casa suja. Os filhos ficam preocupados com mêdo do ecrviço. Ele carregou a sacola para mim. Fui na farmacia Ver se 0 Vilii
Quando eu estou com saude, eu faço tudo num Instante. E a conseguiu as ingeçães para mim. Disse que vinha a-tarde. Voltei
Vera fica me olhando, outro dia ela disse: para casa pensando. Não quero morrer e dêlxar os meus filhos
Num momento aqui nêste bairo.
Minha mãe arroma a casa ! Quando voltei estava contente e fui preparar o almôço. quando
Será que minha mãe é vento o senhor Araújo entrou com a maquina de custura que eu pedí
será que minha mãe tem aza para êle. Ele compra as peças e prepara a maquina E um nortista
culto. Um homem deçente e correto. Eu disse-lhe que estou
Eu dei uma ri6ada porque percibí que ela havia formado uma
doente e não eôtou indo na cidade. M as segunda-fêira hei de lhe
quadrinha para mim Os braço e 0 pensamento são a s a za s do
arranjar o dinheiro. 0 preço da maquina 2 2 .0 0 0 ,0 0 a dinheiro.
homem. E preciso trabalhar. E eu sempre fui trabalhadeira. Eu
Ele comeu frutas Todas que vem na minha casa tem permissão
sempre cultivei pensamentos elevados gosto de conseguir tudo
para cômer. Não sou avarenta. Quem come tem saude preparei
com 0 meu esférço. Eu penso que a peesôa que é perfêito no
o almôço os filhos almoçaram. A Vera foi a aula. Eu fui dêltar e

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216 MEU ESTRANHO DIÁSKO N O sino 217

liguei o radio para ouvir o drama da Record. Era a peça Maria — É mentira, porque o levi trabalha na cidade e sai de casa as
Cachucha Bateram na porta. Olhei e vi uma mocinha feia loira do sete da manhã
nariz chato. Um tipo que podia ser utilizado para um espantalho. E eu exaltava no falar não por exibicionismo E porque tenho a voz
Devido eu te r Iavado muitas roupas o meu rim estava doendo. E ostentorea. Agora que d&xei de passar fome.
eu queria um pouco de paz. Eu xingava o levi
0 João dizia: vae atender mamãe! Branquelo! Macarrão sem molho.
pensei: são burguêeinhas que vem aborreçer-me. Abri a janela e 0 Levi pederasta me dirigia um olhar meigo! Eu tenho pavôr de
a fêiosa começou falar, me falaram que a senhora roubou o meu homens afeminados. Eu gosto de homens homem. E horrível,
cachorro. quando os homens afeminados imprica com a6 mulheres êles não
Fechei a janela e fui dêltar novamente prestando atenção no nos dão socêgo. E eles não tem vergonha gostam que a s pessoas
drama. saibam que êles são pederastas.
A Eva V a s ta ri chegou dizendo que gastou som as fabulosas Os curiosos fôram surgindo. A Eva Vastari dizia: aqui não tem
comprando filmes, para fotografar a industria filandêea. E que cachorro. Qaando eu chegue! a Dona Carolina estava dormindo e
não poude comprar nada para os meus filhos Bateram na porta. os meninos não estão em casa.
Eu d(S 6e-lhe que nSo é necessário pre ocupar-se Eu estou M a s 0 Levi p ed ciasta afít m ava iyjc v oachc/iro e etava nu minha
pensando no dinheiro que devo conseguir para pagar a maquina. casa. 0 policial dizia para eu ser gentil nas respostas Eu ful ver
M as eu sei que Jesus me protege Eu sou, a sua filha adotiva. se havia cachorro não encontrei nada
Antes de fazer um negócio eu penso: e supico-o para auxiliar-me. A dor nos rins havia voltado. A Eva pegou a maquina e fingiu que
Continuaram batendo na porta a Eva Vastari foi abrir a janela tirava uma fotografia A mocinha felosa branca de nariz chato
para ver o que era. E disse-me Vem ver Dona Carolina? virou a s costas. E os vadios saíram correndo.
Fui ver. A mocinha fêia com falta de dentes estava com um Eu fiquei nervosa fuí ia farmacia comprar um calmante.
policial que exigia que eu lhe entregasse o cachorro. E pedia E o Edgar e o pedro visinho de polemica foram telefonar para a
permissão para entrar e ver se o cachorro estava no meu quintal. radiopatrulha. Queixei para o Villi, farmacêutico que tenho pavôr
Eu disse-lhes que a minha palavra tem o valor de um selo. Se dêste bairo. comprei 06 calmantes e melhorei. Comprei papel com
qulzesem ver a minha casa eo com ordem judicial porque se vocês a pretensão de relatar este incidente no Diário da nôite. Eu disse
não encontrar o cachorro, eu posso abrir inquérito e cobrar Injuria aos policiaes que eles me odêia porque eu cobrei os trin ta mil
porque eu nunca roubei nada Quem rouba 6ão a s pessoas de cruzeiros que o fabio me devia. E êles não gostam de pagar
Espirito fraco e eu, sou forte. ninguém. E s ta comprovado que quando uma pessôa não cumpre
0 que diz e espera ccbrar-lhe e o comprovante que é caloteiro. 0
0 meu Vlsinho Ordinário 0 Levi irmão do Fa?io paulino. Um homem
Levi foi chamar o seu irmão que é marcineiro. E o nogento do
que não go sta de mulher, foi dizer aos guardas que oviu um
Fabio apareçeu. Dispostos a espancar-me. E assim que o Fabío
cachorro chorando no meu quintal
me paga o favor que eu lhe fiz? sou a fiadora de sua casa. 0
— A que horas o senhor ouviu?
Fabio é branco! Há um velho proverbio que o negro quando quando
perguntou o guarda. não caga na entrada, caga na saída.
— A s nove horas. 'E o Fabio é branco e esta cagando nos favôres que lhe prestei
Afirmou o Levi peder}»*ta \jnW«» um artigo contando os fatos Mae eu estava com presea
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218 MEU ESTRANHO DIÁRK)
j NO SÍTIO 219
to m a r p a rte na mesa julgadora. Um jo rn a lista d a s Fôlhas
Pevo ir na festa do Ventre livre. Fui preparar-me. 0 Jo 2o foi ao
compareçeu representando a s Folhas. Eu fui incluida a tom ar
cinema e o José carlos ficou com a Vera No ônibus eu encontrei
parte na mesa de honra 0 Coral do departamento de Educação
com um jornalista doe Diarios e fomos falando do paulo Dantas.
cantou o hino Nacional. A s palavras de Bôae-Vinda6 nos foi
Que é mansinho no falar. Mas sabe dominar, pensei quer dizer
dirigida pela senhorita Ana Florencio de jesús. Uma palestra
que o paulo é garoa. E eu 60u trovoada Contei-lhe que aqui no
sobre o Ventre-livre pelo Dr. Francisco Lucrecio — Disse: que um
bairo tudo que ocorre ¿les acusa os meus filhos Quando apareçe
ser humano que não tem a mentalidade esclarecida, não tem
um vidro quebrado Ia no inferno ¿les dizem que foi os meus filhos
possibilidade de vive com conforto. Que a escravidão chegou em
que quebrou.
época impropia para o preto. Que devemos lutar para ritirar o
M as a lingua humana é um verme que o homem carrega consigo. elemento negro do ensinasmento Incentivando-o na cultura.
0 nosso poeta Fagundes Varela escreveu as armas. E menciona Transform ar o negro num ser dinâmico e deçente. Que foi o
como a s arm as a lingua humana. movimento dos poetas que contribui para a liberdade do negro
— será que o pobre poeta era vitima da lingua humana!.. Depois da libertação o negro não teve o direito de vfver como
Eu apresentei a Eva Vastar! como jornalista Filandêsa perguntei cidadão. Não iducaram os negros Diziam: negro não precisa
ao jornalista dos Diários se tinha filho? aprender a l¿J. E que o Brasil era predominado pelos purtugu¿ses
— Oito e os purtugu&SftS que vinham ao Brasil eram na degredados Os
Ele estava com a esposa. Uma mulher simples Não usava pintura. piratas. E os purtugu¿scs ricos enviavam seus filhos para
E ao chegarmos na praça do corréio ¿le pagou a conducão. estudar em Coimbra. Be tivessem educado os pretos a classe
Aqui vae o meu agradecimento negra estava mais adiantada. Mais evoluída.
— Fico pensando: quando eu era favelada e necessitava Ir na Falou o comendador _uiz Hugo Levigoi. Israelita Que o© homens
cidade, eu ia-á-pé por não t e r dinheiro para pagar a condução. E poderosos não deve ser egoísta. Que devemos seguir o exemplo
agora que posso pagar, encontro quem paga para mim. de Jesus Cristo — Flquei adimirada Ouvindo um judeu citar o
Eu e a Eva V astan procuravamos um carro, encontramos um nome de Cristo como um pastor da humanidade 0 Coral cantava
perto do Cine Bandeirante e fomos a te as folhas. Quando entro a s composições do senhor Aricó Junior. Um bom maestro. 0
nas Folhas brinco com 06 jornalistas. poeta Eduardo de Oliveira compôs um hino 13 de maio. E o
, — Bôa-vidal sentado. Levando vida de Lordes. Tem pessáas que Eduardo quer grava-k) para o congresso.
jornalistas. M as para mim o jornalista é um A Ben h orita A n a Flcr¿ncia de J e s u s citou que os pre tos
os outros. 0 Eduardo de Oliveria recebeu-me e necessitam de Cultura — Fci aplaudida — A cultura é o bordão
ite com a tua presença. da humanidade.
É claro que eu dêvo apareçer nas festas dos pretos. Luiz gama,
A festa foi um incentivo
{ não despresava os pretos.
É bonito ver os no6So? pretos despertándoseI Findo a fésta nos
\Henrique Oras
despedimos — Um jornalista das Fôlhas nos conduslu no seu
José do patrocino
c a rro a t é a m inha c a s a . D is s e -n o s que é m édico. E
o Ataúlfo Alves.
aconselhou-me a repousar. Que a doença pielite transforma em
Quando o preto e intelectual procura proteger a classe.
Nefllte. A Eva disse-he que eu trabaiho muito. 0 médico disse
Quando Iniciou o programa Fez a s apresentações a senhorita
que uma Dona de casa não repousa.
Ana Florencia ds Je su s Que ia convidando as pessôas para

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220 MEU ESTRANHO 0'Á KO NO sino 221

3 0 de setembro de 1962 Dizendo a s respectivas mães que iam para o colégio sairam
Hoje c domingo, passei o dia lavando a s roupas compramos levando nas bolsas, ao invés de livros e cadernos uma muda de
jornaee. A s Fôlhas c o Estado de são paulo A s Fôlhas anunciam roupas. Bilhétes ameaçadores exigem um resgate em dinheiro
a reunião dos pretos que estão dando cobertura do 1 Congresso para a devulução das mocinhas pânico em duas familias e arduo
¿la Cultura negra. trabalho da policia.
A s Folhas, menciona a minha presença. O s filhos fôram ao Vamos ao fato.
cinema. Eu e a Eva Vastar! permanecemos em casa. 0 jornal tra s a fotografia da menor Maria Auxiliadora. Ela é
preparei o almoço. Fiz risoto e bife-milanos. Lavei ta n ta s roupas minha visinha Reside na rua Francisco Diríba 4 6 6 .1 5 anos. Epoca
e pâ6eel que fiquei com dôr nos braços. da transição. E poca dos êrros dos adolesçentes demostrar suas
0 Dr. Furlan, disse-me que eu devia repousar tendências. A Maria Auxiliadora pereira. E stava estudando
datilografia no Centre de Cultura Imlrlm. Com o meu filho João.
E foi a semana que eu mais lutei e andei, e cansei e a doença
0 João meu filho, disse-me que ela falhava muito. E não era
— J i ee foi.
aplicada aos estudos.
Hoje eu estou contente.
Ela, é uma preta com pace ricos. Ela andava bem vestida tem
Oepòis eu vou explicar minhas polemicas com o Fabio
empregada, é negrinha Fidalga. O pae é deçente. A mãe é uma
preta reajustada — As vezes eia vinha escrever carta s na minha
1 de outubro de 1962 maquina. E eu dizia-he: — sêja desçente para você conseguir
Levantei a s 2 horas para escrever, porque eu estava sem sono. casar-se.
Despertei os filhos para Ir escola A Vera e s ta estudando Eia sorria. Um eorrieso gioconda. Faiava pouco. Não passava
matemática com a Srita Dorotéia. É que a professora da Vera fome. Não havia motivos para deixar o lar. E sta s jovens deixaram
começou a ensinaHhe o dividir nos últimos meses. E comenta na uma Universidade e entraram noutra que é o mundo. Se elas
classe, que ela não vae passar de ano. Dêixa a mefiina com ficarem grávidas e ter vergonha de procurar os paes o fim é a
complexo. A Eva Vastan prometeu-lhe: se vocé passar de ano dou-te deiiquéncia, a s favelas e as malocas. E o erro c uma cicatriz que
uma boneca. E a Vera comenta. Cada professora me ensina de um deixa o seu efeito na opinião publica.
gêito 0 que me horrorisa é a ma formação morai do homem que sabe
E uma confusão na minha cabeça mamãe! iludir uma jovem, e depôis d&xa-la sofrendo no mundo.
Eu digo-lhe: para tranquilísa-la: Voce não tem culpa de não saber — Quando será que o homem vae dêixar de ser perverso? A te
dividir — a culpada é a professora. E a Vera comenta: A Cleide quando?
vae me criticar mamãe! o homem vae superlotar o mundo de meretrlzes?
— Não se preocupe com as criticas minha filha. E a função da — A té quando?
língua humana criticar e ferir e desiludir. O homem inculto é que pratica estes a to s insociaes. E quem
Lavei as roupas E passei-O João foi a aula de datilografe. Eu espalha a desgraça no universo.
estava lavando a s roupas, quando ouvi um jornalero passou A s mulheres comentavam que a Maria Auxiliadora pereira, ja sabe
apregoando: Duas colegiaes sumiram de casa de forma estranha o que faz porque ja esta estudando Curso superior. Jfes nos
e Inesperada. i E s t a d o s U n id o s , as co le g ia e s d e sa p a re çe m ... E "são
Sal correndo asustada estranguladas. Hoje é a Maria Auxiliadora pereira que esta sendo
MEU ESTRANHO OtÀHO
T N O SÍTIO
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comentada para mim a cidade grande é um teatro, e ceta e uma o homem é pingoso. Não sei se esta palestra do guarda civil foi
de suas cenas. Cenas dramáticas Roubos oto. E por falar em oportuna.
roubo, todos os dias o jornal publica que al$uem roubou. -•que a criança ficará pensando que o homem é um monstro.
Quando e que êstes cafagestes vão criar vergonha? 'Oeve esclarece r que a criança não deve t e r mêdo J õ J iomem.
— Com ta nto serviço no brasil ninguém precisa roubar. O s que jüando o homem ¿_aeu_pae. tio, e o professor. Há quem .comenta
roubam mereçem castigo-moral. que os colegiase frigiram com namoradoa uuaridcTp&tttamoa uma
árvore, aguardamos os seus frutps. E as colegiaes iniciaram a
Deviam organisar uma passeata com o Isdrães pelas ruas e
vida errando e os erres são as previsães. parsuo_.fi/turo. A Eva
faixas escritas dizendo: este homem é um Iadrão. 0 homem que
Vastan chegou. Èu estava lavando as roupas e as louças. Estava
rouba é um homem fraco.
cansada com vontade de deitar um.pouco, trouxe papéis da
Vadio Etc. Escrever tudo que é humilhante para ver se extinguía fabrica. Ela foi fazer reportagem de uma fabrica Filandesa.
um pouco os ladrães no pais Da a impressSes que os homens Quando, eu estava nt favela não sabia que existia éste país
estão perdendo a vergonha. Eles já não teir mêdo das criticas. chamado Filandla. Eu ouvía eia falar da belêsa da fabrica.
O utra coisa que eu reparo: Os homens que casam e depóls Ela foi tro ca r-se e eaü para fazer compras, foi comprar frutas
abandonam as esposas — Dá a Impressão que o homem e e pães e sorvetes
infantil porque as crianças ¿ que vâ uma bonica na vitrina o acho
Eu estou na coluna da Alikl Kostaki. Devo comparecer na noite
bonita
de autografes. E a jornalista Afekl Kostaki quer organlsa as
Quando adiqulri-a brinca com a boneca uns dias, depôis vae tardes de autografo®. 0 João foi na cidade, falar com o Audálio.
aborreçendo-se — por fim despresa a bonáca. E o pior em tudo Eles vão ao banco ritlrar o dinheiro que vê!o da Chequesícvaqula
isto ó que o homem dêixa a mulher com os filhos para criar Eu agora quero e m p o a r bem o meu dinheiro.
porisso é que eu não me casei, porque ¿ horrivel a mulher ser
Quero construir uma casa em parelhelros e piantar lavouras. E
superior e te r que obedeçer um tipo Inferior Eu tenho pavor dos
necessário que nós as mulheres devemos voltar para a lavoura,
homens que ficam progetando: eu vou fazer isto! Eu vou fazer
porque o homem da atualidade quer viver so na cidade.
aquilo e não faz coisa alguma são homens que enchem o tempo
com palavras. Nós as mulheres estamos ficando superiores...

0 homem é o dono do mundol lhe deve encher o tempo e com Tempo chegará que as mulheres não se casará se os homens
ação. Arrojo. E com demodo que conseguimos o progresso e continuar fútele — A Eva voítou com compras... Tomamos os
damos exemplos aos vindouros. sorvetes, eu ful preparar para sair. 0 João voltou dizendo que eu
devo estar na festa de Dona Alikl as sete e mêia
0 hom em não pode s e r in rre s p o n a a ve l. O s m eus filh os
comentavam o desaparecimento dos colegiaes: Vamos falar dos | Fico pensando: que fui eu quem chamou atenção dos povos para
educadores. i o livro Crélo que devo dizer:

A Professora necessita esclareaçer a mente do aluno explicou [ — parabéns Carolina. Quando eu gosto de uma coisa quero que
que to d o s a t o s que p ra tic a m o s tem consequências e os \ todo mundo goste,
comentarios desorrôsoe i E eu adoro o s livros
No grupo darão Homem de Mello, compareçeu um guarda-civil e ^E quero que todos adora-os para mim, o livro é
explicou: aos alunos que não devem acompaihar os homens. Que mundo.
MEU ESTRANHO DlÃfóO N O SÍTIO 225
224

— Qual é o prêço?
0 Jo ã o veio com o endereço do local da noite de autografo. Eu
catou doente m ais eu vou. 0 meu com parecí m ento e uma — Cem cruzeiros cada uma
homenagem aos livros Eu não tinha mêios fui comprar um par. 0 Audálio protestou aiidindo que o preço e elevado.
Comprei fiado para pagar depois A s mulheres comentavam o E o menino dizia que os cravos estão caríssimos
desaparecimento das mocinhas. Eu disse-lhes que ia numa festa M as o Audálio estava alegre. E comprou dôis cravos. Eu agradecí'.
e sai correndo. Em dôis minutos cheguel em casa 0 Audálio pagou a minha refêição. E falamos do Miller que
A Pona Eva V astad ficou horrorisada com a minha rápidos para colaborou na divulgação do quarto de despejo. E quem cuida dos
trocar-me. contratos com a Europa 0 Audalio disse que não sabe negociar
Fui na farmacia comprar acetona para limpar as hunhas. 0 Jose e explicou que êíe recebe uma certa importancia quando chega
Caries estava na rua. dinheiro do estrangeire.
Obriguei-lhe a entrar Eu sou enérgica com os meus filhos. Quando Não sou ambiciosa E o Miller é eficiente
eu digo ê á. E á! Quando eu digo. É - D. E D. Eu estava anciosa para ir autografar. Despedi do Audálio. e
E eles me obdeçem... vendo o Miller que estava ja n ta n d o fui com prím enta-io. —
Tudo comigo é pra valer Hoje eu estou alegre com vontade de perguntou-me se ia na festa da Aliki Fostaki porque o teu ñome
cantar Mão canto porque estou cansada. A s seis hora6 eu sal esta nosjornaes.
com a Eva Vastad. Ela. é uma mulher finíssima. 0 Audalio pergunteu-me se sarei
Não cansa a paciência Eu pensei que ela era madame inútil, — já estou recuperada.
mas não é. Ela sabe trabalhar, sabe cosinhar lavar passar. E Despedimos. Ouvi a banda da guarda-civil tocar e dirigimos ao
passa roupas melhor do que eu. lames conversando no ônibus. A local.
Eva levava a maquina de fotografía
Quando fomos aproximando ouvi vozes. — Olha a Carolina! Ela é
Cenando chegamos na cidade fomos ao correio E falamos do
janistal 0 meu olhar circulava rápido como relámpago. Acenei a
Editor Argentino. Ele queria que eu visitasse o México eu recusei
mão aos guarda cMI e entramos.
porpue e s ta v a c a n s a d a . A espo sa d o e d ito r a rge ntino é
Aliki fsostaki estava na porta reçebendo ós convidados. Deu-me
advogada, saímos do correio e dirigimos para a rua 7 de abril.
um abraço Apresentei-lhe a Eva Vastan' e fiquei olhando o seu
Flquei indisposta e fomos num restaurante em frente aos Diários
vestido. Que belêza.
Eu pedi uma canja. A Eva pediu frutas. Quando estavamos
Quem fez o vestido fo o Denner. E êle prometeu que me dar um
finalis an d o o ja n t a r o A u d a lio surgiu na nossa mês a.
vestido.
Comprimentou-me primeiro. E eu lhe apertei as mãos. Ele sorriu,
Circulei pelo recinto com prim entando os escritores Eu não
comentando. Você, hoje pegou na minha mão! — Eu pensei. Eu não
encontrava o meu estándar fiquei circulando E fui fotografada
devfa pegar nestas mãos Devia bêija-las porque foi estas mãos .que
com os escritores. Um deles foi o Marco Kêy. Eu tenho do dele.
trabalhou para mim. Tudo que sou dêvo ao Audálio Os meus filhos
Ele queixou-se com vez amargurada que foi despedido do jornal
tem o seu pão de cada dia, tem um teto para abrigar-se. Eu não
a Ultima-Hora.
me casei. Mas tive a sorte de encontrar êete homem que suplantou
homens que cruzaram na minha vida. Eu não sou ingrata 0 Marcos Rey é cultc e não escreve banalidade. E um homem

H i menino aproximou-se vendendo cravos. E ofereceu ao Audálio


Compra flores para as damas.
reajustado. Deu-me o seu novo livro.
— Entre sem bater.
226 MEU ESTRANHO OÁRIO N O SÍTIO 227

Folheando o tiw? percibí que é bom. Foi editado por Edições Autores vi o Pr. Jose Tavares de Miranda. Mão vi o Arápuan. Não vi o Cid
Reunidos. J a foi publicado em capítulos no jornal Ultima-Hora. E a Franco. Não vi o Dorian M atos pacheco não estava presente
quarta edição. Marcos Rey é autor de café ia cama. 0 lr.ro que Maurício Loureiro Garra Silva Netto.
competiu com o meu quarto de despejo. Eu estava circulando a A Ruth de Souza foi no meu estándar. Eu disse-lhe que vou ver
dona ABki Kostaki indicou-me o meu estándar Fui ficar visinha com o seu filme Assalto ac trem paqador A critica esta favoravel. Eu
o Jorge Amado f d o que disse a Pena Eva Vasta ri. esforçava para ser agradaveí. 0 meu sonho era conhecer o poeta
Eu estava procurando o Jorge quando fui envolvida num abraço. Oliveira Ribeiro Neto E eie era meu visinho consegui comprar um
E ra ále. E percibí a nobrása do seu carater. Ele não guarda livro dêle.
raneôr. E que eu j a tiv e um mal entendido com o Jo rg e . — Os Pen6 de Deus!
Injustamente. Eu disse-lhe que gosto dos seus versos. Que os poetas são os
E que eu era da favela. E o favelado não procura averiguar os ministros dos anjos. 0 Livro tem 201 paginas,
fatos e apela pela violência. Quando eu fui autografar o meu livro foi impresso na Livraria Martins. Eis uma poesia do Livro O s bens
no R*o, autografei so 5 0 livros. Eu pensei qie foi o Jorge Amado de Deus de Oliveira Ribeiro Neto.
quem autorizou a quota. Os bens de Deus.
Quando eu estava nos braços do Jorge Amado eu pensei: se eu Todo aquilo é de Deus e não meu
pudesse ficar eeculcs e séculos nos braços deste homem!... E quando mal emprege os bens que me tocaram
Ele é limpinho. Mão cheira cigarro, tem o perfume dos reccm Estou usando o alhêic que o senhor me deu
nascidos, purása. Eu adoro os homens asseiados. Que tem para um fim. E se os anjos maus me aconsêlharam
cuidado com o corpo. Os fotógrafos nos reodeou. E fui para o Mudando o caminho e o uso do tesouro.
meu Estándar. Eu pensava no George, o homem que tem 3 0 anes Que não é meu repito, mas pertençe a Deus.
de literatura. Mereçe ganhar uma rua com o seu nome.
Vou marcando em minha alma. Em letras de aço e ouro
Rua George Amado. agôeto destes bens qje eu tenho e não são meus
As ruas são pautas. No balanço final do destino bastardo
E o George Amado é Um homem pautado. tende pena de mim, meu Deus, eu vos suplico.
0 meu padrinho foi o senhor Jonhn Herbert. E Uma jovem multo pois são fracos dem a;s meus hombros para o fardo
bonita dem Vestida. Estava usando uma blusa preta com flores E pago em dobro a dor do fruto que que pratico
pretas. Os vestidos belíssimos foram confeccionados pelo Pener Circulava pelo salão uma escola de sambas. E os guardas com
— perguntei o prêço 5 0 .0 0 0 ,0 0 . pensei: 0 Dener quer virar trage6 de gala andava no salão.
tubarão. 0 Audalio, o Milier, Tarak Carlos de Freitas, do o Cruzeiro não
Quer comprar um foguete para ir na lua. comparcçcram José pnto, Ronaldo de Moraes e outros.
Eu percebi que a Pona Eva V astan não apreciou o meu padrinho. Findo os autogras fomos ritirando. Uma preta que e janista foi
Tratou-o fria Fiquei preocupada. Ela que é sempre ta o gentil. me dar os parabéns por eu te r escrito a reportagem para o Janio
Consegui vender alguns livros 0 P r Lélio aproximou-se. Com a sua Uma senhora filandssa com pareceu na minha e s tá n d a r, e
esposa. E eu lhe apresentei como o meu editor. E eu disse-lhe comprou um livro. Eu convideí-a para vir na minha casa que uma
que já ganhei muito dinheiro com ále — E fui bem recompensada jornalista filandesa esta escrevendo um livro e vae publica-lo na
no Quarto de despejo. O paulo D antas estw a com a esposa. Mão Filandia. 0 Edu ardo de Oliveira estava presente Disse que
228 MEU ESTRANHO DIÂRO NO sifto 229

autografou Ô O livros. E nos acompanhou até ao bar da rua 1 dc — Viu querida, como voce tem fama de brava?
abril 0 Dr. Lelio e sua esposa estava presente. E o dr. Lélio quiz ( Eles despediram, checou un6 chilenos e perguntaram
pagar o café para mim. Eu achei 5 cruzeiros e paguei o café Aliki — Como vae o professor Mendonza.
Kasloki perguntou-m e se eu estava contente com a minha — Vae indo bem. Ele é muito educado. Eu não sabia e não
madrinha. pensava que a imprensa fôsse imiscuir na Nossa amisade.
Ela e culta. Recem-casada Eu lhe supfiquei para não separar-se — Ele é jornalista e compreende o povo da imprensa. Eu gosto
do espãso que eles devem fazer a bodas de prata a de ouro. E déle 0 Audaüo perguntou-me
ter muitos filho6 e netos. Eles são ricos ccm a ¿poca dura que — Como vae a tua amisade com o Jorge?
atravessamos eo os ricos é que podem te r filhos, porque é so os — Vae indo bem.
ricos e quem podem c o m p a r o que comêr. E o Audálio disse: eu tenho a impressão que o Jorge é bom
0 Pr. Lelio convidou-me para Ir na sua casa Disse-lhe que não sugáito.
posso porque eu vou alm oçar com o Janío. E m ostrei-lhe o Não gosto de ipocresia Quando o Jórge esteve em São paulo o
convite: Ha os que dizem que o Janío tem a mania da Renuncia Audálio não qulz reçebá-lo, não apareçeu na minha casa para
que ¿le tinha o Drasll ao seu dispor. comprimenta-io.
E o Getulio? tinha o poder na mão. E perdeu a vida 0 Senhor — Quem gosta do George sou eu.
Tancredo Neves não conseguio formar o seu ministerio, renunciou * Eu disse para a esposa do Jorge Amado que o Chileno é Culto
0 Auro de Maura Andrade, recusou ser o primeiro ministro. E o educado e honesto.
saudoso brochado da Rocha, que perdeu a vida por caneado E que me envia dinheiro.
mental. A Zelia Amado quéliou que eu fui Injusta com o Jorge. Que ¿le
Na hora de morrer pela patria, quem morre e os gauchos. Ouvi auxilia os escritores hiciantes Ele e o patriarca da literatura. Eu
d ize r que a ta c a ra m mais do S en h or 3 'o c h a d o e ¿le ficou chorei tanto.
resentido Citei-lhe que eu era rer/oea porque passei muita fome. guando o
Isto é obra dos côrvos A té quando, vamos te r côrvos negros na meu organismo começou reçeber as proteínas rebelou-se. Eu não
política Eu estava girando pelo bar quando entrou o fabuloso comia mantéiga, não comia feijão ainda estou em tratam ento
poeta Paulo Bomfin. Acompanhados com umas jovens e deu-me to d o s 06 orgos e6tao fra c o s E stou comendo fru ta s para
um abraço. conseguir um pouco de vitamina. Quem pas&a fome é neurótico
Supliquei-lhe. Quando Jesus orou medindo. Não nos dábceí faltar o pão nosso
paulo! pa ulo - Não me abraça pelo am ôr d t Deus) Eu ouvi dizer de cada dia, estava profetisando esta época. Despedimos do
que a tu a espesa è ciumenta que lhe proibe de falar com as Eduardo de Oliveira e dirigimos para a nossa casa paeeamoe num
mulheres / -;fl bar. Depois saímos c tomamos um taxi.
Que o senhor tem mêdo dela. Q uando chegavam cs em c a s a chovia. E a s ru a s e s ta em
A esposa do paulo estava presente e disse: imagina só e u - ter conserto. 0 auto não poude nos deixar na porta pretendíamos
ciúmes do paulo. Ele anda por a í Quem foi que disse isto? galgar a rua Bento pereira mas o carro não tinha fôrea e podia
— Vou lêr no meu Diario. queimar o pneu.
A s jovens que estava com o paulo sorriam Andamos a-pé. E chegamos em casa. Jantei e fui dêitar adormecí
E o paulo dizia a esposa logo.
MEU ESTRANHO DWÍ30 j NO SÍTIO 231
230

Esqueçeu o Adhemar?
Quando chegue! em casa cs filhos disse-me que o cenegrafteta
paulo Ferreira estove na minha casa. prometei voltar amanhã Ele Eu não comentei Olhava a s noticias que estavam na porta da
filmou-me no mês julho. 0 filme ainda não esta em exibição. Livraria
A Clarice Líspector que foi premiada com o seu livro Maçã no
Escuro. A dona Adelia disse-me que os comentarios na livraria
2 de outubro de 1962
fêram sensacionaes.
Levantei as 6 horas. Escrevi um pouco e ii uns versos. Depôls
O paulo D antas chegou e comprimentou-me
vesti a Vera para Ir a aula de matemática. F ii comprar sardinha
— Bom-dia janista.
1 quilo e mêio 100 cruzeiros, será que os pobres tem dinheiro para
Os comentarios estãc forte o Audálio disse-me que pela primeira
comprar peixe?
vez vae votar no Dr. Adhemar
se não podem comprar carne o que é que o pobre vae comer?
Eu disse-lhe que devo obrigação ao Janio.
A s 10 hora6 o Paulo Ferreira chegou. Disse qte necessita alterar
Em 1952, â e pagou o dr. José torreo Neto para opera-me
algumas cenas do filme..
perguntei pela esposa se vae mudar e se já encontrou casa? E tom ar conta do meus filhos se ainda estou viva devo agradecer
o janio. Em 1952 êle era prefêíto.
A inda esta procurando e se não encontrar quer Ir ao Rio
O paulo chegou e combinamos que eu não vou apareçer nas cenas
nova mente.
da livraria com a exibção do quarto de despejo.
Combinamos um encontro um encontro na Li/raría as 2 e meia.
Convidou o povo para ser fotografado como se fôsse o dia do
Eu preparei o almôço. os filhos para a aula. A Vera não mais vae
lançamento do livro Fique! conversando com a Dona Adelia citando
aó grupo Darão homem de Mello, porque a professora disse que
as belas qualidades da filha do paulo que ela é muito bonitinha.
ela não tem media para passar de ano. Que ela não sabe divisão.
Talvez será mies Dra6il Que a casa do paulo é a legre porque a6
E a s meninas ficam comentando.
crianças são faguêiras. E a Dona Ellene é otima dona de casa.
A Vera não sabe divisão e dêixa a menina com complexo. Escrevi
sabe co&ínhar muito bem E é multo caprichosa, gosta de serviço
um bilhete ao senhor Jaym e Damião da Costa o diretor do Centro
do lar. Não á madame inútil. Despedi e dirigí a minha casa.
de Cultura Imirim se adlmitia a minha filha na sua escola porque
ela e fraca em matemática no grupo. Ele açêtou-a Eu fiquel mais Quando cheguei em casa A dona Eva Vastan estava vestida para
ca lm a , poraue e d u ro ver um ve r um filho repro vado . A s sair. M as desstetiu perqué estava chovendo. Ela e6tava tã o bem
professoras devem e s tu d a r a s capacidades d a s crianças, e vestida psreçendo a Maria Antoniêta. 5 o que ela não tem um
Luiz XV
avisar as mães em tempo de a s preparar-lhe para vencer cs
exames. 6o agora que a professora notou que a Vera e fraca. passei a tarde escrevendo
Mão á Ela sabe formar a conta de dividir mas a professora não Hoje eu estou alegre.
açêita o estiio Ninguém aborreçeu-me
Eu fui na cidade. Quando cheguel perguntei se o paulo Ferreira ja
havia chegado. 3 de outubro
M as 06 empregados diziam Levantei a seis horas. Eu desepertei a 1 hora e fiquei escrevendo
— Virou janlsta em? preparei o almôço e lavei as roupas. A Dona Eva V astan diz que
eu devia trabalhar numa lavanderia. Que eu lavo as roupas com
Virou Janlsta em?
prazer, por eu lavar-lhe as roupas ela diz: a mulher mais famosa
E sorriam comentando
232 MR» ESTRANHO DIÁRIO no sino 233
\

do mundo, lavou as minhas roupas. O s filhos fóram a aula. A Vera amavelmente E mostreu-me o jornal A Uftima-Hora o meu retrato
e s t a c o n te n te e da um sorri&so am pio. Dizendo que e s ta esta na coluna da Alkl kostaki.
contente no CCI Centro de Cultura Imirím que vae pasear de ano Ela escreve: Carolina Haría de Jesus, fez questão de comprar o
e já aprendeu dividir Diz: Como ¿ bom te r mãe inteligente, "ABC de bôas maneiras’* de mestre mestre Marcelino. Na foto
se a senhora não me tirasse do grupo eu ¡a repetir de ano. E com Aiiçe Farah e o jorna lista Laureano Fernandes. Eliana
seria desagradavel. Respondo-lhe: Cocrahane era a madrinha de Carolina M aria de Jesus. E o
É que eu percebi que você sabe dividir. Eu observo se os filhos padrinho foi o senhor Jonh Herbert.
estão desinv'oh/endo-se. 0 que prcjudlcou-te foi a Cleide. Ela pedia Agradeço a s amabilidades da Allki Kastaki. E o prazer que
o caderno da Vera emprestado e alterava as contas dizendo que porpocionou-me É sabido que onde tem Irvro cu apareço. O rato
estava errada. E a professora dizia na clas6c que ela nao sabia procura queijo, e eu procuro livros.
dividir déixando-a com complexo. Agradeço a s atenções finíssima do senhor Jonh Herbert. Ele e
A Eva Vastar! ficou horrorizada dizendo; Credo, na minha terra bonito.
nao se tro ca de escola mas a Carolina é a Carolina! E tudo tem A dona Eva Vastan pensa que ále e destes brasileiros que por
que ser, como a Carolina quer. fazer filme procura um nome americano. Ela acha que a s pessóas
Trocamos e fomos a cidade A Eva foi mandar revelar os filmes. devem procurar vençer com o seu propio nome.
E entregar a maquina de fotografia ao AudaKo. Eu fiquei no bar e ¿ Interessante. Nestes últimos dias, os brasileiros estáo'preslã n d o ‘ ■
telefonei ao Audalio perguntando se é!e ia eair corneo para ritirar atenção nos Estados unidos. A polemica da uñt&réidade^àè^ ::
o dinheiro que vão da Chequilovaqula. Ele disse que o dinheiro voltou O x fo rd . E h o rro s e o im p ed ir que um homem e s tu d e . Q ue
ao Rio novamente. Não acreditei porque ee o dinheiro véio no meu pervesidade destruir c ideal do estudante negro.
nome. E o meu local de residir é são paub. 0 que e que o dinheiro E h o rro ro s o que num país com o o s E s t a d o s U nidos haja
vas fazer no Rio. 0 dinheiro não é turista. Ele diese que se eu preconcélto racial. Sendo assim os Estad os unidos a tira os
precisasse de dinheiro ele me dava uma quantia, pedi 5 .0 0 0 ,0 0 outros pa¡6es nos braço6 da Rússia. Os russos são humanos. O
cruzeiros. Ele entregou a Eva. Eu já disse ao Andalo guando chegar paulo D antas entregou o meu livro Keminicêndas para a Eva
dinheiro. Be ritira a sua parte e m e dá a minha. Eu não sei porque Vastari lér, e dar a sua opinião. Que éste livro é o mais bonito
é que ele tem esta maldita mania de cansar a minha paciência. Com de minha vida literaria que eu vou ficar famosa. Falamos das
estas pequenas colsinha6 a minha simpatia pdo senhor Dantas vae políticas E o paulo D antas perguntou-m e Carolina, se o dr.
congelándole. A te aqui o livro já foi tradusi-jo em 17 países mas Adhem ar ganhar como ¿ que você fica?
eu vivo é com o dinheiro da Livraria Francisco Alves. O Dr. Lelio de — Bem porojjc acho o dr. Adhemar muito orgulhoso. Ele agora
Castro Andrade me empresta dinheiro. esta sendo apoiado pdo partido Democrata Cristão Eu mostrei
Eu estava no bar t ornando l&ranjada. escrevia quando uns jovens a reportagem da Aliki Kostaki para o dr. lelio. Ele sorriu. Estava
aproximou-se pedindo autografo e perguntando quando é que vae com um funcionarlo da filial do Rio. O Carlos Felipe Moyses estava
sair o outro livro? presente E sta alto, se que é triste! Também com o custo de vida
E qual é o livro. j os sonhos dos jovens vão fenéçendo-se. E a vida.
Quando avistei a Dona Eva fui ao seu encontro e dirigimos até Despedimos do paulo Dantas Ele autografou um llvro para a Eva
a livraria perguntei se o paulo Ferreira já havia chegado Não Vastari O llvro Daniel Voltamos para casa. Compramos doces e
chegou. Fom os falar com o paulo d a ntas que nos reçebeu . pão de centêio. Quando chegamos em casa o paulo Ferreira
r 234 MEU ESTRANHO DIÁRIO
\

NO SÍTIO 235

estava nos esperando, para concluir filme. Psse que chegou as Hoje cu nao vou sair de casa. Eu estava girando pela rúa ful falar
3 horas. Fiquei norrorisada com o cueto de um filme. com um pedreiro que esta trabalhando em frente a minha casa.
0 paulo entregou-me 2 0 .0 0 0 , pelos gastos que cooperei com ále pretendo contrata-lo para pintar a minha ca6a quando eu me
pagando Viagens de taxi para ir-mos filmar ras favelas. A Pona mudar para parefndrot porque eu pretendo alugar a minha casa
Eliana trouxe um bálo para mim. &ô\o de fubá. Estava gostoso que ja enjoei de residir na rua Sento pereira, para mim esta rúa
Obrigada Pona Eliena. não é o jardim das Olr/dras e o tápo do Calvario. Tudo que aconteçe
Eu estava caneada e apresentei a Eva Vastan para ¿les e já por aquí áles dizem que foi os meus filhos — O pedreiro disse:
partimos o bolo. 5abe Pona Carolina. Eu, é porque não gosto de falar. Mas aquále
O motorista foi ao bar tom ar café quando voltou recusou o bolo teu filho grande. O Litro dia estava envergando um ferro daquela
dizendo que á diabético O paulo estava preparando o cenário. casa — a casa numero 6 2 0 . E eu não gosto de falar mal de
Pisse: vou criar uma favela aqui dentro de tua casa. E o paulo é ninguem. Respondí veces adultos observam so os atos ingenuo que
fabuloso como homem. E inteligente — só que quer voltar para as crianças praticam . E os atos das crianças que devemos
o Rio. E eu peço para ficar. Estou pedindo a Peus para ále não respeitar porque e!es ceta o desenvdvendo-se ainda não conjreçe as
arranjar casa no Rio. Queixei para áte as confusões de minha vida. regras sodaes. E a s faltas do6 adultos são mais fatàes. E jeg^.
Eu estava conversando com a dona Eliene. úue mulher sensata. matam para s ^ t ^ -e ã o .a e t v c ip eoe. Como e horrível para o preto
Pá para vtver bem com ela. Eu sentel pata ser filmada. E a U a u u g — AtCLquandol Tern WariccTque'mc
filhinha do paulo a Láila brincava com a Vera. A Leila é loira e inycja por gu-gab e r_e s ¿^e L -¿ _q u ^_e u ^gc»to dê~flcar tranquila
bonita Pa a impressão que é urna bonéca andando dentro de eeçrewendgr"~
c a s a . O m o to ris ta auxiliava o paulo, que e s ta sem o seu Tem dia que eu tenho vontade de virar animal e viyerna selva.
asistente o Noé que foi operado da hernia. Eu penso que quem Mas se fosse animal rão ia te r socego. porque o desgraçado do
gosta de escrever deveria aprender, eecre/er. para não ficar homem havería de apareçer na selva e pe rturb ar a minha
indeciso. A Pona eva Vatari fez café para o (...) paulo Ferreira. tranquilidade.
E a casa fica alegre com a presença do paulo. Se fÔ6se peixe ia ser a mesma coisa, para mim a criação mais
A s 10 horas áles despediram. imperfêita que Peus criou, foi a raça humana. Eu estava no tòpo
Eu fui dáitar. Estava exausta Agradeço as amabilidades do paulo quando bateram na po-ta Olhei da janela, um senhor queria saber
Ferreira. se o Josá Carlos havia ritirado a6 chaves da casa numero 6 2 0 .
Hoje a Eva V astan fotografou-m e na fáira. fazendo compras, Eu disse-lhe que tudo que ocorre aqui áles culpam os meus filhos.
passamos na Ultima-Hora Vou votar no Itamarati. çQue já eetou^am~nojo~de^rnorar perto doe brancos xinquei o
homem e di6se-lhe que arrependTd^cõm prafeêtã^caea..M ae eu
4 de Outubro de 1902 vou mudar para parelheiros e vou construir uma casa nos fundo9
Pespertel as 4 horas e fiquei eecre>/endo ate o despontar da e por uma placa no pertão "proibido a entrada Desde que nasci
aurora. Fico pensando quando eu estiver em pareIhelrós e que estou procurando um encontro com a tranquilidade.
despertar ouvindo os gorgáios dos passares. E*«6udíflâJ3S_de^ i
0 homem disse-me que foi encontrar a chave noutra rua. que vá
íguaes porque eu já estou canea nd<L.da.humanidade entender-se com o ex-riquilino da casa A Eva dizia: pois e Pona
são^ervessasuj.nvejosos e crueie. 5erá que deu§._a«ependeu-se Carolina, a senhora não tem tranquilidade. Cheguei a conclusão
de. te r nos criados? que o teu diário é real. Eu lia para eia algum as cenas que
236 MEU ESTRANHO DL&RtO NO sino
*37

ocorreram aqui comigo. Ela ouvia. 0 João chegou apressado — Como c que a senhora pode acusar?
batendo na porta fui atender rapidamente pensando que ele Eu fiquei a g itad a interiormente e jurei nunca mais a c e ita r
estava sendo perseguido por alguém Eu de&cia na frente a Eva ninguém na minha casa E que nós fomos favelados e não 6omos
Yastari atrás. Eu eetava reformando uma saia. dignos de confiança. A Eva falava falava e eu pensava: todos os
0 seu Enoki Araújo que veio receber o dinheiro da maquina. dias tenho que ter um aborrecimento .
Escreví uma c a rta para ê\e levar na livraria pedindo o Dr. Lelio A Eva queria que eu obrigasse o José Carlos confessar. Eu não
para pagar a maquina 22.0 0 0 ,0 0 . Eu ganhei uma maquina na provoco turtura mental nos meus filhos, ela pegou a mala dizendo
televisão mas não sei custurar com ela que ia guardar suas jóias e as roupas finas na casa dos seus
A Eva Vastan saiu. Foi ao correio ver se suas carta s foram retidas. patricios filandêses.
E voltou de carro. Hoje eu f c so arroz e f&jüo. Quando entramos Eu disse-lhe: Quando eu disse ao Audallo:
num ajougue saímos limpos. Os acougues agem como se fôssem — A Eva e bôazinha.. ele respondeu-me:
piratas, pedi aos filhos para não deixar comida nos pratos. são pessoas bôas que te fazem sofrer no fim. para eu ficar livre
Amigamente os escritores escreviam falando das estrelas, as avês, das criticas da Eva Vastan fui falar com a Dona Elza: queixei
os amores. Hoje o assunto é comida. E o povo da atualidade dizem, que eu era uma arvore frondosa e estão me deçepando o s meus
que são cr/ilisados. A espesa do senhor Verdi vi6¡tou-me e a Beatriz sonhos ate ficar « o o tronco. Eu di<z<m para a dono Elza que
quase caiu da janela. Oá a impressão que a menina é elétrica quero morrer, já estou com nojo da vida. Enquanto eu estava na
E assim, acabou-se mais um dia. E um dia, ha de ser o meu Dona Elza Ráis a Eva pegou o Jo ã o e sacudiu-lhe: impondo:
ultimo dia. confessa ou eu te porfío no Jornal.
A nôlte eu II uns trechos do meu livro Reminiscencias para a Eva Eu chorei e disse para a Dona Elza que c¡di o quarto de meus
Vastan' filhos para a Eva A Dona Elza ficou horrorisada dizendo: se ela
fôr pagar um hotel! Ela vae vêr
5 de setembro de 1962 Voltei para a minha casa a Eva estava dizendo que o carteiro
Levantei a s 6 horas Não despertei a Vera para ir na aula de havia trazido carta do seu marido e os meus filhos deviam te r
matemática porque estava chovendo. Quando vôjo a chuva sei víolado-a para ver se tinha dinheiro.
que não ha de faltar o pão de cada-día no mundo. Fiz cafe c Ela ja disse-me que foi roubada em 70, mil cruzeiros. 0 Jo ã o saiu
preparei a Vera para ir a aula a s 3 horas. E ful ao açougue. O s e foi procurar o José Carlos que apareçeu revoltado, pensei será
preços da carne! deixa as pesabas desiludidas de viver. que a Eva esta querendo mc extorquir dinheiro!
Eu vou fazer o almôço carne ensopada e puré de batatas. Eu Eu fui rcabasteçer de calma na Dona Elza que e uma mulher
escava iavando a s roupas quando a senhora Eva V a s ta n me íducada de dentro pra fora
chamou dizendo que havia lhe roubado 7 contos em dolar e,se A Eva foi ver o que eu estava fazendo. A Dona Elza disse-lhe que
não era os meus filhos? os meus filhos entram na sua casa e nunca roubaram nada
0 Jo ã o ficou asustado Cr3io que não e meus filhos. Eles não Eu disse para a Eva que os meus filhos vão odia-la. que d e s são
precisam roubar! "Eu dou dinheiro para êlea a segunda edição da Carolina Maria de Jesus Que a situação na
— Eu estive observando Dona Carolina. minha casa ia ficar desagradavel.
— E a senhora viu os meus filhos abrir a tua bolsa? Eu vou-me embora!
Não vi! — pode irl

i
MEU ESTRANHO IXÁRtO NO SÍTIO
238 239

— E aparência. Ela e nervosa


Exclamou, o
Pepois falam que e a Carolina que é neurótica. Bem mas eu tenho
0 que eu fui fazer meu Deus!
filhos na idade de transição E êles não me obdeçem..
0 mal que Deus fez foi dar a linga a mulher! so se for a tua
percibí que a Eva 6 o 'ruto de apos-guerra. 0 José Carlos diz que
porque foi você que vêio contar para a Dona Elza.
ela é desviada. Vou lhes proibir a entrar no quarto onde esta a
Eu sai a Eva ficou conversando com a Dona Elza que disse-lhe
Eva. No barracão da favela eu tinha aborrecimentos
que a Pona Olga me defende
Na casa de Alvenaria tenho aborrecimentos. Crêlo que vou te r
Que se eu tom ar atitude enérgica que a Eva ia sofrer comigo que
tranquilidade no camyo..
eu chorei Que ha muita distancia de urna mjlher que é mãe e de
Eu dizia para a Eva que ia escrever tudo isto.
outra que não é 0 que eu sei dizer é que a carne que eu paguei
— pode escrever Carolina pode escrever. A Eva recomenda: não
3 0 0 , cruzeiros o quilo, quéimou.
deixa ninguém entrar no meu quarto! Que petulancia. Tem hora
A Pona Elza pediu me para te r d é da Eva. Respondí Eu dévo ter
que eu me arrependo de te r entrado no meio deste povo
dó dos favelados que são analfabetos. Mas a Eva passou pela
Quem nasçe para ser rã não deve pensar em ser pavão
universidade.
A tarde fui queixar para a Pona Elza. A s atrlbuiçães diárias —
Comecei xingar a Eva mentalmente
Th/e aviso que vou receber dinheiro
Agota que conheço os> pescóos que passamm pela universidade.
Elas tem aparência de bêas. Mas, no égo, é só maldade.
6 de outubro de 1962
A Eva trocou-se e saiu. foi ritirar a s fotografias Os filhos foram
a escola. Eu fiquei pensando e tocando violão, so o professor Hoje e sabado. Tem fêira na rua Francisco Uurilio O s auto6
chegam as 5 horas Eu levantei as sete porque deitei a uma hora
chileno é que foi amavel com os meus filhos.
ficamos datilografando e ritirei a s roupas do6 filhos do quarto
Ele ainda não saiu de minha casa. Ele ainda e s ta presente.
da Eva Va6tari para evitar complicaçães Peu& me livre de criar
Quando a Eva voltou-se trouxe carne. E um bôlo. O s filhos não
filho homem.
comeu.
0 homem e a desgraça dos paes e do mondo.
A dona Elza perguntou a Eva se ela anota o que gosta?
Dei uns tapa s no José Carlos, que quiz reagir e prometí se eu
Pisse que sim. Percibí que ela estava nervosa porque o seu
descobrir que voce é desonesto dou-te veneno!
esposo ainda não lhe escreveu. Uma coisa eu digo: quando vamos
Eu não sou brincadeira!
viver nas casas alheias é necessário dar ferias a má educação,
0 João e o Jo6e Carios sairam dizendo que iam vender gibi
e incluir na sua bagagem so a polides. O s filhos não deu atenção
— Que socêgo em casa
a Eva. Ela exibia dolar para a Dona Eva ver e dizia que não
necessita de mim para nada Que me deu roupas Eu não preciso Fui na feira fazer compras. 0 quilo dos legumes 100, cruzeiros.
pobre dos pobres!
das roupas da Eva. 0 Audálio acertou tem hora que ele é/um
eemi-proféta. Continuei conversando normalmente com a Eva. 0 senhor Verdi chegou com um jo rn a l que publicou a sua
Mas se ela Ir-se embora eu não vou senti- saudades. reportagem classica

A noite ela iniciou a datilografar o meu livro Reminiscencia Eu Ele escreveu um artigo para ále. Eu li a reportagem e não vl
disse para a Pona Elza: m en sag em . Q ue escreve para o povo deve e s c re ve r com
simplicidade Ele pedij a Eva V astan para datilografar outra
— 6©rá que a Eva ficcu com inveja?
c arta que vae ser publicada na Folha de 9ão paulo. Uma carta
A dons» Ffea diria que a Eva e fina.
240
MEU ESTRANHO DIÁRIO NO SÍTIO
241

para o senhor Josá Bonifacio Eu sai com a Vera. Fui comprar Entrei e liguei o radio para ouvir a dose das dôze. Um programa
papeI para a Eva Vastaría datilografar 0 meu livro Reminiscencia da Record e ouvir o teatro do Manoel Duraes.
Ela vae fazer o prefacio. Que 6uplício no oníbue que estava B ateram na porta. Fui atender. Era o senhor Ju a n Ju tgla r,
superlotado gerente da Editorial Agara da Espanha.
Da a impressão que estamos enlatados Vêio propor-me ee quero assinar um contrato com uma Editora
Fiz a s compras numa papelaria. E falamos das políticas. Uns quer para o idioma Catalão. Editorial Fontanelle Eu assinei o contrato
que o Janio seja o vençedor outros prefere o Adhemar percebo e vou reçeber 75 dólares em concepto de antecipo e pretendo
que o povo ainda respeita o Janio. pagar ao Dr. Lelio o que lhe devo.
0 que e horrível em tudo isto é anotar o numero do candidato a 0 editor Argentino não me paga diz que não vende o meu livro
deputado. Entram os na casa paschoal eu a comprar um balde por causa das greves. Mas êle envia o livro para diversos países.
de plástico. Eu estava adimirando umas latas para guardar Dizem que o livro foi vendido em varios patees e a minha vida
géneros alimentícios e perguntava o práço pretendo comprar o continua desorganisada Eu mostrei ao Juan Jutglan o meu livro
meu sonho é te r uma casa bem organfeada Uma senhora me que a Eva esta datilografando. E fiz êle sair do q uarto as
atendia com delicadeza perguntei-lhe se é a mulher do dono da pressas. Ela tem a supertição que vão lhe roubar. Ah! É assim?
lojf» F l« rf»pondeu-me: a mir.ha mulher esta em casa. M as se ela comentou o senhor Juan Jutglan Eu disse-lhe estou apurada e
quizer ser minha mulher eu açálto com todo prazer. Eu dei uma não posso dar-lhe atenção porque amanha os negros vae almoçar
risada. com o Jan io E o s negros estão agitados
A mulher não sorriu, pensei âste homem não é o seu predileto — A Eva Vastari chegou, eu pedi silêncio. Ela não deve saber que eu
comprei o balde plástico e despedí e sai. Depois voltei e entrei na asinei contrato com o senhor. Ela pode contar ao Audálio. Eu
loja novamente pedindo um cartao para inclui-lo no meu Diário e disse para a dona Eva Vastan' que ále é editor 0 Jo ã o disse-me
disse-lhes que eu sou a Carolina Maria de J e s u s , que trabalha e nao tem tempo de vir na minha casa. Vae vir daqui
E le s me a b ra ç a ra m e de u -m e o c a rta o de endereço Rua ha tráis semanas.
Voluntarios da Patria 179B. Salomón Blaser. Uma pretinha váio visitar-me e trouxe beterrabas para mim. A
Entram os no ônibus voltando para casa. 0 senhor Verdi ja havia Eva Vastari disse que nós precisavamos escrever. A pretinha
partido. Quando eu disse-lhe que deve ser claro quando escrever. despediu-se e saiu A Eva é altiva, gosta de dar ordem e quer ser
É horrível te r que consultar um dicionário para decifrar um artigo obedecida A mulher intelectual é antepoetíca. Dáixa de ser feminina
A Eva Vastari estava contente Reçsbeu a carta do seu esp&so. Fomos escrever ató a6 cinco Os filhos .não apareçeram. Estão
pensei que ela ia pedir-me desculpas porque ela disse que os resentidos com a Eva. Filho é semente banana. M as que semente!
meus filhos deviam te r violado a sua carta para ver se tirtha Eu disse para a Eva que o Dr. Lelio estudou. E a educação que
dinheiro. êle reçebeu, ele usa comigo. A tarde a Eva foi na cidade procurar
Chegueí a conclusão que a Eva Vastari tem exceso de imaginação. maotu\na fotográfica emprestada. A Vera saiu com a María do
M as uma imaginação perigosa. Carmo. Foí fazer penteado. Voltou sorrindo vaidosa. Dizendo que
Ela saiu foi ao Corrêio. Os filhos dáixou de gostar dela ela que quando cresçer vae ser M.M. ou miss Brasil.
estava adiantando no plano a — b c. Voltou para o plano a. A Maria do Carmo vae arranjar uma mulher para fazer limpáza
Eu fui brincar com um japones que vende na fftra e disse-lhe que na minha casa. Quando a Eva Vastari chegou eu estava dêítada
japones e homem dinâmico, faz qualquer serviço. — G raças a Deus. hoje ninguém aborreçeu-me
MEU ESTRANHO DIARIO no sino 243
242

A Eva d¡sse-mc que tem a impressão que eu gosto do senhor Eu estava pensando será que o Janio vae ganhar o paulo Dantas
disse-me que êle perdeu a liderança se eu não me integrasse no
Jo ã o Jutglar.
Fale-a impressão. Eu gosto e do professôr Chileno. É um homem movfmento dos pretos êles iam ficar resentidos Chegamos na
residência do senhor 3enedito Marques de Sousa. 0 senhor Janio
bem reajustado.
Quadros já estava sentado de gravata e calçado com chinelos
A s dez e m&a os filhos chegaram. Dormiram no sofá na sala.
sem meia. Fui comprimenta-lo pensando: será que este homem
Eetão de mal com a Eva Va6tari.
vençeu! êle e jovem e podia fazer muita coisa pelo pais
para viver é necessário te r paciência, paciência!
Ele e quem devia « p il c a r a sua renuncia para desfazer o
resentimento do povo. Eu acho que êle devia ser era deputado
7 de outubro de 1962
Eu estava pensando nas palavras do meu filho João, quando me
Despertei as 6 horas e fui preparar para sair. Hoje, eu vou votar
disse Mamãe, mamãe, a gloria do Janio acabou-se.
Hoje é dia de elêlção para governador.
0 almêço já estava p-onto E os pretos usando os trajes de gala.
Vou votar no Janio Quadros
Ficaram contentes com a minha presença. A mesas estava
7 -1 0 6 2 -
posta. Foi a mãsa mais longa que eu ja vi a té hoje. A toalha era
Ve&t¡ a Vera, e convidei os filhos se quer acompanhar-me. Fui
fa ze r café e preparar a galinha que a Puna Eva comprou e branca Foi servido o almâço. 0 cime que sentou-se foi o Janio na
sua frente havia urra coroa de frutas Melancia e abacaxi —
despertei-lhe para tro ca r que íamos sair.
bananas e mamão, ha frutas brasileiras Varias pessêas pediam
A s 10 horas 6aimos. Que suplicio para conseguir conduções,
autógrafos. Eu estava com dó do Janio. Não sei porque. Se eu
pegamos um carro ate o Angabaú eu fui na Ultima-hora procurar
fôsse ele não me metia na política A nossa política e muito suja.
o num ero do senh o r Ita m a ra tl M a rtin s para v o ta r. Ele é
é uma política de Vozê disse que eu disse que êle disse. Eu pedi
candidato a deputado, pcguei a cédula e seguimos, tomamos o
ao senhor Janio para escrever o seu nome no meu Diario que eu
ônibus Canindé. E eu fui votar no Colegio Santo Antonio do pari.
ia votar nêle. Ele escreveu. Iniciamos o almoço — Que comida
A dona Eya Vastari fotografou-me na fila com a s pesabas que
gostosa! Virado a paulista com feijão Jalo, arroz linguiça carne
iam votar.
de porco c carne picadinha. Uma comida bem brasileira. Findo o
Eu ful votar na 4 0 a . Votei no senhor Janic Quadros. Laudo Natel
almoço que foi fotegrafado o professor Eduardo de Oliveria
M a ria Peni, M e n o te d e l P ic ch ia . A d o n a E v a V a s t a r i
saudou o senhor Ja n o Quadros. Um discurso clássico. Mencionou
fotografou-me Colocando o meu voto na urna. Eu disse ao juiz
o meu livro que eu denunciou a desigualdade social que isto não
que o Ja n io ia alm o ça r com os pretos e eu era uma d a s
e mais possível no Brasil Que necessitamos de melhorar a vida
convidadas — o senhor não é preto não, vae! do nosso povo.
Ele sorriu. Uns jovens me pediam autógrafos concedí e saimos.
o segundo Orador foi o pelegrino. Citou que o Janio Quadros estava
Tomamos um ônibus e fomos para a Vila pompóa. Encontramos
falando os interesses dos latifundiários. Enfim um governo brasileiro,
um auto e a Dona Eva Vastari pensou que era o Janio. Mas não
não podo governar com as opiniães do senado e a camara doa
era. Era um homem de oculos e comprimentou-me Hoje é o único
deputados, so se for um governo atrabibário. Um homem trifão.
dia que e proibido vender álcool se votei no senhor Janio Quadres
foi a pedido dos pretos em retribuição ao seu gesto com o 0 terçeiro a falar fiel o jornalista Durval de Moraes o quarto a
Raim undo de Sousa Dantas. Que é preto e é embaixador em falar foi o ex-presldente Janio Quadros pensei se êste homem
gana. Quando eneramos no ônibus João Kamalho não vi pretos. tivesse uma mulher arrojada, atilada êle não renunciava
2 44 MEU ESTRANHO DIÁRIO t NO SlHO 245

0 Janio disse: seleto e gostoso. Chegou os jornalistas das Fôlhas. Eu dizia


porque é que o senhor não vêio almêçar? tinha fêijão. 0 Oito é
Que conheçe o preto Benedito Marques de Sousa, ha 2 0 anos. .
rico. pode comprar fêijão. 0 Janio saiu e o povo aglomerou-se ao
Que êle não tem preconcêito racial. Que êle Cem prazer de dizer
seu redor Eie entrou no carro e foi pra Vila Maria
meus irmãos negros Que o Oito ja lhe deu tuco. E nunca lhe pediu
nada. Eu ©ubi cheguel a presidência da Republica. 0 Oito ficou Eu dei v a r ¡06 a u tó g ra fo s nos r e t r a t o s de J a n io Eu fui
aqui na piantaforma fotografada com êle e a dona Eva Vastar! 0 senhor João Rocha
nos condusiu no seo carro ate a cidade e nos convidou para
Quando eu sai da presidência o Dito amparou-me nos seus braços
ir-mos na sua casa. Rua são Martins 144.
eu sou um hornem que faço quêstão de honrar as amisades. Senti
E um preto e a ca6a é bonita e confêrtavel. Ele disse que a casa
não pouder honrar as amisades das pessóas que me deram o seu
custou 6 0 mil cruzeiros há vinte anos. A casa tem 3 dormitorios
voto. Eu faço auto-critica. Reconheco que iniciei errando Começei
telefone
trabalhar com mas ferramenta. Sei que os habitante© do Brasil
Ele nos deu licôres e dôces. Falamos do meu livro. Que a critica
este Oito mil quilômetros quadrados ainda vive em condições
não queria acêita-lo aludindo a minha condição de favelada. Que
p re c a ria . É n e cessá rio ir-m o s pre paran do m oralm en te e
o Audalio quiz me utilisar para o cumunismo
culturalmente para vençer as ideologias superadas, sei que nos
ainda não estam os preparado para adotar o regime da Rússia. 0 A dona Eva Vastan' dizia que o Audálio não e homem de grandes
bolchevismos Eu não adoto o sistema da Rússia Um homem que [ ideologias. Que o Cruzeiro não acêita êstes homens, perguntaram
governa um pa is deve d a r opurtu nida de a seu povo para se recâbo 06 direitos autoraee direltinho.
educar-se. Temos que lutar para extinguir as cond içães precarias Respondí que não porque o Audálio ainda não prestou conta
da nossa gente. E necessário que o Judeu o Negro em fim todas comigo. Eu não tenho um recibo com os editores estrangeiros
a s raças Unam em pas sem descriminacões. se eu elêito for A Eva estava encantada com as amabilidades dos pretos se eu
pretendo lutar de mãos dadas com o povo porque eu sou um for escrever tudo que faiaram levaria um ano. A filha do senhor
cristão que posso entrar em qualquer igreja ouvindo o Janio pensei Rocha que reside no Rio estava presente. Oisse que vêio votar
êste homem é uma ameaça para a© ciasses conservadora. E dicidi em são paulo porque ela é paulista
descobrir quem foi que obrigou o senhor Ja iio renunciar. Se eu Falamos do preconceito racial. Que a6 lojas de são paulo não
fora secretaria do Janio cie ainda estaria no pouder. 0 Janio emprega balconistas de côr. O s judeus não tem preconçêito racial
mencionava que eu estava com o iapi© em atMdade o senhor Janio Mas os judeus emprega
finalisou o seu discurso. E dava autógrafos. Olhando-o pensava. Contei ao Pelegrino qje ful expulsa do Hifl-HI-fi de S an to s por ser
E s te homem é um grande a to r. Ele devia fazer filmes. Da a preta
impressão que êle esta representando. E educado e amavel. sabe Quando fui reçeber o Anselmo Duarte
angariar amisade foi fotografado varias vêzes e o povo gritava j i Despedimos c ©airnos com o Pelegrino que alugou um taxi para
ganhou já ganhou. Viva o governador elêito ds são paulo. Mas eu nos condusir até ao angabau
sabia que o Janio não ia vençer. Falamos que esperam o grito da
Ele comprou flôres para nós e deu-me um bouquet de rosas
libertação com a posse do Janio.
dizendo que ficou contente com a minha presença. Que eu não
— Que libertação precisa o povo brasileiro? despreso os negros. Aô 1ô horas chegamos em casa. Jantam os
para mim o nosso povo ainda são preguiçosos letárgicos. A casa e fomos escrever. 0 Janio assinou o seu nome no meu Diário.
do Oito estava superlotada. Uns pretos educados. Que núcleo Meus agradecimentos
246 MEU ESTRANHO DIÁRIO NO SÍTIO 247

ò de 10 — 1962 A Maria Ao Carmo vèio com uma mocinha gue vito pedir trabalho.
levantei ao 6 horas. A casa esta suja por causa do esgoto gue Contratei-a para vir terça-feira.
cios estrío pondo na minha rua. Na época dae eleiçães o governo Ela disse gue a minha casa esta m uito suja. Eu gostei da
estadual tra ba lh a. Uguei o radío para ver se ja Iniciou as frangulsa E tão boríto ouvir a verdade. Os filhos fôram a escola.
apurações, a voz do espigue e rouca e não esclaresçe nada. Fui Hoje teve fllra na trinha rua. Eu não sai Uma mulher gue eu lhe
com prar jornal 0 Ja n io estava vençendo. Conversei com os devo guiz entrar para ver o gue eu estava fazendo
homens gue estavam trabalhando no esgoto gue eu gosto de Disse-lhe gue d ’agul uns dias eu pago o gue dlvo-lh e Lavei
pegar as mãos calosa6. Que eu güero gue a minha filha casa com roupas preciso c u s tjra r e não tenho tempo. A dona Eva Vastar;
homens simples. foi na cidade Fíguei Iimpando a cosínha A tarde fui ao sapateiro
E os seus filhos dizem gue vae casar na Bahia levar sapatos para concertar e rítlrar um par gue mandei por
Os nortistas sorriram e comentaram. 0 Janio vençe mas foge. — meia sola. E fui ro põsto-policial reçeber 06 orto-mil cruzeiros
Ele fez bem em fugir. Não devia continuar no poder e morrer como gue o Fabio me deve. Jurei nunca mais. emprestar dinheiro güero
Getulio. Eu despedi. E lendo o Diario de São paulo, Resolví voltar socego.
na banca de jornaes comprar as Folhas. Qiatido folheava Vi o 0 sargento Acrisio não estava. Quando cheguel em casa. 0 Edgar
meu retrato: chamou-me Dona Carolina a senhora prepara o recibo gue eu vou
Carolina e Jorge Amado, abracam-se 14o CSche estava a Dona Zelia. te pagar.
0 senhor Jonhon Herbert. E a dona Elíana Cocraine Mostrei o meu 0 gue imprecionou-itie foi — O Dona Carolina! pensei: a coisa
re tra to para as pessôas gue estavam comprando jornaes. E mudou Fui preparar o recibo e o João foi foi entregar-lhe. Ele me
despedi Mostrei a reportagem aos funcionários e dirigi para a minha pagou o s oito mil cruzeiros re s ta n te s doo 3 0 . 0 0 0 ,0 0 gue
casa. Mostrei o jornal a Eva. E recortei para despachar ao Jorge emprestei ao Fabio paulino, comprando os moveis para lie.
Mendonza. Eu estou com saudades dêle. passei o dia em casa. A Carmem esposa do Fabio não gostou dos moveis. Usou dois
anos e depóis guerls me entregar, se Isto chegar aos ouvidos do
9 de 10 — 1962 senhor D antas, servira de pretexto para êle criticar-m e. E a
passei o dia em casa. A tarde o senhor Verdi dos Santos veio critica do Audállo inrrita-me Fui pagar as contas paguel farmacia
v ls itâ r-m e e com entou a d e rro ta do Jan io — Eu esperava o empório, a padaria e o sapateiro. Fiz compra a c reservei
porisso. A dona Eva V astan foi na cidade. Eu encerei o guarto dinheiro para pagar o gaz. 5 e os prêços continuar tão elevado
gue ela esta usando-o e limpei o banheiro Fui interrompida nos assim não Sei como é gue os pobres vão se arranjar.
meus afazeres para conversar com o senhor Verdi. Quando a Eva A Eva V astan chegcu com ae fotografias do Janio ao nosso lado
chegou trouxe pão preto Manteiga e guêijo. pareçe gue a estréia protetora do Janio despresou-lhe.
E assim, vamos vivendo. Paitamos tarde porgue a Eva Vasta/-! Uma coisa eu noto. tem pessôas gue estão descontente com a
esta datilografando o meu livro. Vitoria do Dr. Adhemar E preferível o Ádhemar do gue o José
Bonifacio O s filhos jantaram. Eu c a Eva Vastari fomos escrever.
10 de 10 — de 1962 Ela estava contente dizendo gue o Audalio lhe tra to u-a bem. Que
Esta chovendo. M as eu lavo roupas todos os dias. As gue vão êle é o diretor do Cruzeiro. Que tem secretaria Quando eu fui no
enxugando eu vou passando passei a manhã na ccsinha fiz bôlo cruzeiro, gueria apresenta-ío ao Audállo, ele não guiz reçebé-!o. E
e pãesinhos. eu jurei não mais recebâ-lo na minha casa e não mais voltar no
248 MEU ESTRANHO D1ÁBO N O SÍTIO 249

Cruzeiro Escrevemos até as 3 ¿lã manhã. Dé*o acrescentar que pensando que o tipo humano, foi vacinado com o sangue de cárvo
sempre adimírel o senhor Edg ar paulino. Como homem. Ele é Deus. sempre me auxilia porisso eu sel que vou sarar. S* não
sensato correto. E agradeço por te r pago este dinheiro. «jencionoj? nome do senhor Audálio no meu Diário, é porque êlç
Vpa a Cezar o que é de Cezar. 0 Audálio emprestou uma maquina dêixou de vir ná rhinh'ã~0áèa7 Dizendo que"eu sou neurítica
'para a Eva fotografar. Ele não é mesquinho, rão e avarento, tem Ele nu i^^W fV eu '-co m igO 'n ó m Z a horis. ~
fdia que eu gosto do Audálio, tem dia que se eu pudesse lhe Os filhes fôram a aula. Eu fui ao grupo Escolar Barão Homem de
¿cava em mil pedacinhos. Melo. ritira r os materiaes do Vera. Ela passou a estudar no
Centro de Cultura Imirlm A professora do grupo era a Dona
11 de outubro de 1962 Amiris Danato de Âssupção. Nos máses anteriores ela dava bôas
notas para a Vera 70, 95, 6 5 , No mês de outubro começou dar
Despertei as 6 horas... e fui escrever, ate as 9.
as notas, 20, 10 e Q. E disse-me que a Vera não tinha media
A Eva V a s ta r» le va n to u -s e dizen do que quando saí sente
para passar de ano.
saudades de mim. Que eu sou carinhosa. E bôa. Eu procuro
Tirei a Vera ela fo» estudar no Centro de Cultura Imirim. Notei
tra ta r bem a s pessôas que estão ao meu lado. Fui fazer compras
que era penvesidade da professora. Eu sei que elas me ode iam
pensando: Sc vou viver a té criar os meus filhos. Estou ficando
dizendo que eu ganho mvito dinheiro.
doente. E o pior em tudo isto é que não tenho dinheiro no banco
para fazer o tratamento. E m altratam os meus filhos Mas, eu perçebo tudo. Eu disse para
a Dona Amiri6, que a Cleide, pedia o caderno da Vera emprestado,
E tenho dinheiro para receber na Argentina 0 senhor Verdi váio
c alterava a s contas. Eu ensinava certo ela dizia que estava
pedir a Eva V astad para lhe escrever uma carta que êle quer
errado Ela queria dominar a minha filha.
enviar ao Renedy. E nos convidou para visitar o professor Rodhen.
E horrorôso a adimíração do senhor Verdi peb professor Rhoden. A Vera é tímida. Nem pareçe que é minha filha porque eu sou
Ele não fala na esposa. Fala unicamente no professor Rhoden. A expiesão Esperei a dona lucilia, chegar para me entregar o material.
Dona Eva V astan recusou o convite. E não escreveu a carta para Ela é a secretaria Quando me viu baixou os olhos não me
o Renedy porque o papel era inferior. 0 senhor Verdi quer comprimentou. A auxiliar a dona Hena Hallier, foi a mais gentil.
agradeçé-lo na Aliança para o progresso. Ainda é cêdo para Ofereçeu-me uma caddra. Falamos das eleições de Domingo. Ela
bajular o Rencdy. Aliança para o progresso ainda não esta esta trites porque votou no José bonifacio e ále perdeu.

produzindo os fêitos desta aliança. Eu disse que votei no Janio preferindo que os vitoriosos fássem
0 ôenhor Verde despediu-se. É um homem amável! Eu fui fazer os o Janio, Cid Franco e o D r Adhemar.
afazeres todos os dias tenho roupa6 para lavar. Eu fico na cosinha 0 JoS s Bonifácio não conheçe a vereança. Não conheçe a camara
na parto da manhã. Lavo as roupas, preparo o almoço e passo as dos Vereadores, ia fazer um governo atrabalhôado. A Dona Hena
roupas. 0 João e a Vera arrumou a casa Não posso pagar criadp dizia: que apreciou o governo do senhor Carvalho pinto Respondí
0 pior nos empregados é que elas interessam, unicamente, em abrir que o senhor Carvalho pinto tem mais cultura do que o senhor
as gavátas e os guardas roupas E a casa fica mais suja. Eu estou José Bonifacio.
doente mas trabalho Não posso pagar médico Estou tomando chá Ela estava lamentando percibi que ¡numeras pessáas ficaram
Não vou procurar dinheiro na cidade, porque o senhor Dantas fala contentes com a Vitoria do dr. Adhemar, Ate eu!
que eu gasto muito. Como o senhor Dantas, pretende ser o meu E o u tr o s fic a ra m d e s c o n te n te s A Dona Hena H a llie r, e
herdeiro, dásde já já esta fazendo economia Tem hora que fico desçendente de francês.. Mas, não fala o francês.. Mas, não fala
250 « Í U ESTRANHO OtÁRiO NO SÍTIO 251

o francês. Ela entregou-me os materiais Eu oeixei o grupo. Estava 0 dia esta confuso Não sabemos se vae chover ou não, se não
usando a belíssima sombrinha de Dona Eva Vastan — conversei chover a Eva quer ir ao Butantan.
com um as pe ssôa s que ia encontran do no meu regresso, 0 maior Ofidiário do mundo Eu ia na fáira: quando ia passando
perguntavam se estou escrevendo outro livro. perto da casa de Doía Lídia chamava os filhos para entrar —
Quando cheguei em casa fui escrever com a Dona Eva V a s ta ri A Vendo-me disse para os filhos:
nôite a Eva saiu, foi numa reunião de filandêses. Eu fui deitar.
\ Vocás estão pareçendo favelados. Exaltei Isto é comigo Dona
Quando estava dormindo fui despertada pelo senhor Verdi que
Lídia? S e existe favelas é por obra doe ricos que a s favelas
veio visita r-m e. Ele vem visita r-m e du as vázes por semana
duplicam-se. Os pobres não podem pagar um aluguel de 2 0 mil
Homens assim e que sabem prender os coracãee femininos.
c cruzeiros, porque gaiham um saláno de 14 m lí se pagar um
Cmando o senhor Verdi saiu, eu deitei nova mente Mas levantei
aluguel elevado não podem comár. Quáixel para os pretos que
depois para abrir a porta para o Josá Carlos que estava na rua.
estão trabalhando nos esgâtos que desde que eu vim residir aqui
Não vi a Eva chegar. nunca mais tive eocêço. Que as vislnhas mediocres insulta-me. É
i horrível conviver com os burguásas enriquecidos. Uma mulher por
12 de 10 — 1962 i t e r uma carinha bonita casa com um homem rico e podem
Despertei a s 3 horas fiquei escrevendo. Depois levantei e fui \comprar tudo que quer, ficar jactanciosos e deshumanos.
preparar o almoço e lavar as roupas.
^cgu i para a fáira nervosa prometendo que vou por o nome de
Os filhes brigaram des-lhe» umas chineladas. Eles brigaram por causa /Dona Lidia no JornaL A unlca mulher que me tra ta com frases
de gibi — Leitura que desvia a juventude. Hojs eu não vou sair. Os de arminho é a dona Elza Rái6 Brandão.
filhos foram a aula — A Vera vae indo bem já esta aprendendo
É uma mulher que a Cultura dela, vem de dentro pra fora. Na
as contas — A Eva Vastan foi na cidade. Eu fíquei sá. Como é bom
fáira eu comprei so tomate e pimentões. Queria comprar qüiabo.
o silencio tenho a impressão que estou no cutro mundo.
M as o quilo custava 160 — Fiquei horrorizada pensando: será
Eu fiz um bolo de fubá e custurei. Comprei umas agulhas e linhas
que áste quiabo vem da lua?
para levar ao parelheiros pretendo mudar daqui se Deus quizer.
0 senhor Verdi nos visitou vêio nos dizer que a carta que ále Pelo gáito que vájo o homem não quer que o homem comer eu
voltei da fáira e fiii quáixar para a Dona elza as ironias de Dona
escreveu ao K-enedy vae na mala diplomática
Lidia. E o espôso de Dona Lidia estava em casa. 0 que eu sei
Ele insistiu com a Dona Eva para ¡r visitar o professor Rhoden
dizer é que uma mulher casada, não deve provocar ninguém. Não
Ela recusou-se aludindo seus afazeres.
deve arranjar briga para o seu marido.
Ela trabalha muito
Mas, eu vou mudar daqui. A dona Lidia disse que seus filhos
Ele comprou uma revista 0 Cruzeiro internacional onde apareçe
pareçem favelados. Mas Deus é grande. Os teus filhos hão de ser
a Eva Vastari e pediu-lhe para autografa-la
favelados Deus, sabe punir os orgulhosos.
0 sol surgiu nos saimes para o Butantan.
13 de 10 — 1962
Levantei as & horas A casa esta suja porque estão abrindo as Recomendei ao João para recolher as roupa6.
ruas para por esgotos. Hoje ¿ día de fáira. é sabado o povo Não preparei o almôçc. Nos foi difícil localisar o ponto do Ônibus.
circulam, já estão mais resignadas com a vida cara. Fiz cafe os Quando chegamos ao Butantan era 13 horas Que vista magnífica!
filhos fôram vender gibi para arranjar dinhero para ir ao cinema. Quantos arvoredos Arvâres centenárias
252 MR1 ESTRANHO DIÁRJO j N O Sino 253

Fomoe almoçar no restaurante. M as que restaurante sujo, devia ocupado. Entreguei-lhí a conta do Dr. Sahovoler. que o dinheiro
moderr.iear aquilo, por musica sincronizada, pagamos pelo almôço vem no nome do Dantas. Ele agora quer ser importante
3 0 0 . cruzeiros A Dona Eva V a s ta n foi fotografar as coaras. eo agora é que compreendí que êle utilisou-me para angariar fama
Flquei horrorisada vendo a Eva Vastar!, pegar uma cobra. Eu, so internacional. Ele dfess-me que para uns êle é o diabo para outros
¿le ver uma cobra asusto-me giramos pelo parque fomos até ao êle é um santo Ele diz i6to porque eu lhe pedi as copias dos
museu. Ver a s aranhas. Vi a aranha denominada ¿le aranha negra. c o n tra to s pela imprensa. Eu lhe pedi varias vezes êle ficou
Tão pequena. E é fatal. Conversam os. Com a s pessôas que mastigando. Di2 que íu fiz confusão Creio que êle ¿leve fazer uma
visitavam o S u ta n ta n . Eram to¿los estrangeiros pensei, os auto critica e reajustar suas maneiras. Eu e dona Eva Vastari
brasileiros interessam so pelo foot-bol fom os na rua Jo ã o Adolfo Ela ia falar com um negociante
filandês.

14 ¿le outubro ¿le 1962 Eu e a Vera ficamos num bar. Comemos virado a paulista. Ela
Hoje e domingo. Não chove, o ¿lia esta cor de ouro. o sol esta não encontrou o comerciante voltamos para casa. Ela comprou
calido ritirando a humidade d o solo. Eu estou passando roupas fita s para a maquira pa ssam os na C a sa fotográfica para
ritirar-m os a fotografias. Eu conversava com um empregado da
c preparando o almêço.
A Dona Evo o3ta escrevendo passai t a n t a » roupas que não me loja. O cu6to de vida Que esta deixando a vida insipWa Falamos
d o meu livro e da repercusão que teve. Que suplício para
foi posstvd dormir a noite.
tom ar-m os o ônibus.
E assim, foi mais um dia
15 de outubro de 1962
Levantei a s 3 horas para escrever. 0 /^^[ia-JiS6e^me__g^e eu
16 de outubro
jaerco tompo escrevendo 'Diário M a s â e não me compra prepare
o almôço. Hoje os filhos T ilo fôram a aula. A tarde sai com a Hoje eu não vou sair de casa. contratei uma mocinha para vir
Dona Eva V a sta n . Fomo6 na Livraria Francisco Alves. A Eva trabalhar. Ela vae limpar as portas e a cosinha. Eu gostaria de
adimira o Paulo Dantas E um homem ajustado. ter uma casa guando era jovem. Era experta para trabalhar. E
Fiquei h o rro ris a d a com o s c a n d id a to s que pretendem ser ga nh ava 5 mil ré s por dia A tua lm en te paga-se 5 0 0 , 0 0 A
escritor. Que carreira espinhosa — Os espirhos são as inveja — mocinha que vêio trabalhar para mim, cham a-se Elisabeth É
a nos perseguir. Dôis Jovens fêram levar os originaes — Eu doente. Ataque cardiaco. Eu não Tenho dinheiro para paga-ta.
disse-lhes que a época esta apropriada para escrever desajuste Escreví um bilhete e o José Carlos foi leva-lo na padaria pedindo
ao senhor Rodrigues 1 0 00,0 0 emprestado para pagar o gas e a
social
mocinha
0 homem disse que o seu livro denomina: A Educação de um povo.
0 paulo Dantas dlS6e-me que o povo não esta comprando livros que Ela achou que o serviço era dem asiado. Decidi auxilia ela
reanimou-se.
o livro "galo de ouro do Eder Jofre não esta vendendo — Ele não.
colabora Não compareçeu na noite de autografo. Eu sou Pelé esta' Eu percebí que ela ia desmaiar-se. ¿lei-lhe um pouco de remédio
encalhado. 0 pelé não apareçe na livraria para estar em contato e cafe com pão lâite e manteiga ela reanlmou-se Ela é polida Da
com o povo. Eu colaboro com o editor. Estou vivendo com a renda a impressão que é um cadáver andando A dona Eva Vastari foi
¿Io livro. A dona Eva falou do meu livro. Disse que o paulo que ainda na cidade. Esperei o gás e não vêio. A tarde pague» a Elisabeth
**t\a l*ndo-o Fu queria falar com o Dr. Lélio, m as êle estava Fui conversar com a Dona Eiza Reis. A Eva voltou c foi escrever
!

254 MEU ESTRANHO 01ÂRÍ0 j no sino 255

c voltou a-p é a te o corrêio. Hoje eu es teu caneada. Estou Eu fui falar cem o dr. lcI o e recebí 37 mil cruzeiros e o dr. Lefio ficou
envelheçendo o côrpo porque o espirito, é sempre jovem, com 13 e 5 para pagar a prestação do terreno. E recomendou-me
percebí que de i duas cédulas de 5 0 0 , a mocinha que fez a para não gastar sem refletir. Todos querem me dar ordem.
limpêsa. Ela não devolveu paciência. 0 mundo esta chêio de De manha eu havia falado com Wilson que lhe comprava mais um
pessoas deshonestas. Este s serão os tipos que não hão de lote de terra s ia dar-lhe 31 mil cruzeiros para pagar a primeira
triunfar na vida. prestação e o contrato.
0 Dr. Lálio disse que não que êle fez o contrato para dar 13 por
17 de outubro de 1062 mês Eu não qui6 relata-lo que havia comprado outro Jote. E que
Os filhos fôra a escola, preparei o almôço e lavei as roupas — eu quero formar uma chacara lá em parelheirce.
se eu pudesse ia comprar uma maquina. • 6al com a Eva. Fomos na casa parva comprar cobertores, comprei
A ta rd e sai com a dona Eva V a s ta rl. Ela foi falar com o 2 por 7 mil e 5 0 0 , cruzeiros e voltamos de ônibus para casa. Eu
comerciante filande6 eu fui falar com o dr. Lêlio. estava pensando: 0 Dr. Lélio disse-me que pagou o Miller — no
Dei-lhe umas fotografias, da tarde de autoçfafo, deste ano. Ele contrato da Argentina o Miller não tem direito de receber, porque
disse-me que o Audalio estava no banco ia voltar a tarde. Eu quem fez o contrato fbi eu e o Audalio.
não queria encontra-lo resolví sair Fui no estudio do senhor Jean Creio que o Audalio devia da r ao Miller uma importancia X por
Manzon ver quando é que vae passar o filme. j cada contrato que ¿le solucionasse e não era necessário paga-lo
Ainda não esta concluído Vão por a fala no fllme. Eu estava com quando eu reçebo dinheiro do exterior perguntei ao Dr. Lêllo se
ó quarto de despejo em ingles e mostrava aos funcionários. Quem havia descontado o dinheiro que emprestou-me. Disse que vae
tradusiu o livro foi o Darli 5 t Clalr. E fez o prefacio. desconta-lo quando lançar a 9 edição do quarto de despejo.
0 gerênte da firma mandou passar o films para eu ve-lo. Eu E que eu estava devendo ao Audalio 3 ediçõee que ja vêio dinheiro
escreví um bilhete e deixei para o paulo Ferreira. da Argentina.
Eu estava olhando o filme quando o paulo chegou. 0 filme comove.
Como á horrível a pobrêsa. A 6 cenas da favela são comoventes. 16 de Outubro de 1962
0 senhor Jean Manzon estava presente. Levantei a s 6 horas. E sta chovendo. Eu não vou sair. Estou tão
O paulo apreeentou-me. Dei-lhe um abraço dizendo-lhe; caneada. A Casa esta suja chêía de lama por causa do esgoto
0 senhor foi jornalista (XO Cruzeiro. Eu lia suas reportagens. que estão fazendo na rua.

Ele e o correspondente da revista paris Math. foi êle quem a A Eva foi na cidade os filhos foram na escola.
reportagem que fizeram para mim e queria um Irvro. Eu disse-lhe Eu fui pagar a s dividas paguel a farmacia.
que ia ver se conseguia um na Livraria Francisco Alves. 0 empório, e a padaria 0 Joee Carloe disse-me que quer estudar
Despedi. E o paulo acompanhou-me, ate a livraria, não tinha livro violão. Eu não queria pagar a aula mas êle Insistia dizendo que
francês, êle disse-me que vinha na minha casa. Eu disse ao paulo quer estudar Fui ver o Instituto Muricot do Imlrim pague! pela
D antas que havia visto o meu filme. E que fiquei pareçendo matricula 2 .5 0 0 e dêbcei o José carlos estudando e paguei a
macaco 5e você for vê-lo, leve uma e6pinga'da. fotografia mêia duzls 2 5 0 ,0 0 cruzeiros e voltei pra casa.
A Eva V astan chegou e nóe ficamos conversando. A Eva pedia A tarde o Paulo Ferreira veio visitar-me e trouxe o livro para eu
opinião ao paulo Ferreira porque quer comprar uma maquina autografa-lo — Eu dei duas fotos para o Jean Manzon e fui
fotográfica. acompanhar o Paulo ate o ponto do ônibus. Estava chovendo. Eu
256 MEU E5TRANH0 DfÁBO no sirio 257

usei a sombrinha da Eva Vastar! Quando ou ¡a saindo com o paulo S e vou procurar trabalho Ouço: voeê é ricaí
a Vera dlsse-me: Mão vae tom ar o paulo da Dona Ellana. Ha os que me invejam O que eu sei dizer é que eu tenho inveja
Eu sugeri ao paulo pra filmar, a Universidade do Makenze e a Chacana dos favelados. Que pcdem procurar o que oornér no Itxo
do Marengo em còree. passei o resto do dia em casa lavando roupas. — E eu?
A tarde a Eva Chegou estava furiosa, porque ela queria descer na — Que pavór me inspira a palavra — Escritora
parte de tra s e não consentiram. Jantamos e fomos escrever. f S o agora compreendo que fui m uito mals feliz quando fui
i favelada. Eu voltaria fitando o solo e pensando: onde conseguir
19 de Outubro dinheiro para comprar pão? Sera que eu vim ao. mundo destinada
1 a passar fome? Que vida a minha!
passei o dia em ca6a.
Queria cueturar e não consegui sentindo nal estar, graças a \ Quando criança passava fomel Fui cresçendo e passando fome.
Deus ninguém esta aborreçendo-me por causa da Eva Vastan que \Fui favelada passava fome. Os meus filhos estavam furiosos
esta hospedada na mlnha casa. Eu quería ir em parefheiro mas jdentro de casa Preparei a galinha para cosinhar. Eu tenho
não posso ir porque quero escrever jgalinha6 Lá em parelheiros. pensei: onde arranjar pão?
J á estou devendo muito na padaria. Resolví ir pedir 2 0 0 cruzeiros
a esposa do Audalio Dantas.
2 0 de Outubro de 1962
Hoje e sabado. Fui na féira na rúa Francisco Biriba para ver se Ou entáo um pedaço cc pão. Eu ia catando ferros para cs filhos
conseguia açúcar. Ninguém tem. Fiquei nervosa porque eu sou da vender pensando. Se eu não conseguir dinheiro com a esposa do
época da fartura. Onde ja se viu reter o produto e não vender . Dantas, vou pedir ao senhor Rodolfo. Vi o carro da fiscalização
circulando, pensei: porque será que o homem não procura viver
para o povo.
em paz? Se não trabalha vae preso como vadio.
S e jia M b a -jg ^ e rs e g u ido pda prefêitu^._Olbanda.e^anailzando a
9 de dezembro de 1962.
ra ç a jiu m m a j^n fo rQ u e -yô fc ã n a que Deus criou. Encontrei uma
Hoje eu estou triste. Não tenho dinheiro para comprar pão para
loja aberta pedi ao p rã pfét3r^^ira ^ecfía-la . Que os fiscaes da
os filhos. Fui pedir 100 a Elizabeth. O seu eepóso di6se-me que
prefeitura estavam circulando. E comentei:
a Elizabeth, viajou para S an to s. Tem pesôôas que crítica as
0 senhor se puder vender aos domingos vende, e manda os
viagen6 da Elizabeth. Mas eu não. A Elizabeth, e preta. Mas é
fiscaes a puta que pariu.
feliz porque tem iluzão gosta de passear. O s pobres tem a iluzão
— 3 Vézes!
que os ricos são felizes porque podem passear. E q uando o pobre
passeia pensa que é impórtente Respondeu o negociante

— Eu tambem já fui assim Lamentando que a viea esta muito cara. E agradeçeu-me Eu

Quando estava na favela e vivia de esmola seguia pensando nos políticos. Entra o diabo, e sae o demônio, e
o povo .continua sofrendo.
Depois que deixei a favela que vida desgraçada! Todos dizem que
Estava confusa.
fiquei rica, porque o livro fo¡ editado em 21 país — A te na Russia
E o pior c que passo mais fome do que na -favela. perguntei, onde é a rua piraçema. Ensinaram-me. Na rua piracema
procurei a casa do Audalio.
Na favela eu era mendiga, pedia e ganhava. Mas, agora se vou
Toquei a campainha A 6ogra do Dantas aparcçsu perguntei:
pedir esmola: ouço
— Vocé é rica! — A dona Iracy está?
258 MEU ESTRANHO OiÁRIO NOsino 259

— Eia saiu. d e m o n stra r exempb de dignidade. Da a impressão que as


Foi a resposta da s 03ra do Pautas, que não apreciou a minha massas homens puHiccs são piratas visando atingir o tesouro
presença. A sogra do D a n ta s , galgou as escadas e voltou Hacional 0 povo cm geral não compreendem como é que os
dizendo-me que 0 Audalio ia desçer. Eu nãc suporto a presença nossos políticos podsm enriqueçer-se na política mas comentam
do Dantas pedi: --íL que são desonestos. E os nossos jovens vão lendo e ouvindo tudo
— Eu vim aqui pedir a senhora um pedaço de pão para os meus isto.
filhos, e um pedaço de sabão? 0 que ouvimos são cs progetos e mais progetes. M as não vemos
— A sogra do Dantas, disse tudo aqui ó ccm a Iracy. A senhora a s con cretisa çõ es. A s ruas de são paulo e s tã o cháias de
tem 200 cruzeiros para buracos. A nossas piacas publicas os bancos são péssimos é um
constraste horrorosos uns edificios maravilhosos e uns bancos
Eu não tenho.
favelados. Da a Impressão que são pau\o não tem prefeito. E
— Então eu pedi para a visinha ao lado. Eu estava chorando. A
qualquer homem deveria sentir-se orgulho de ser 0 prefeito de
visinha do Dantas deu-me um pedaço de pão, comentando
são paulo.
— E assim a tua vida?
E necessário que 06 eolíticos empoesados procure aplicar a vérba
ÍVr/o pior do que na favela Sai nervosa pensando. Que 0 meu livro
do Estado na conservação da cidade. O s nossos prefeitos tem.
tf I foi traduzido em 21 países e eu não reçábo quase nada. E toliçe
possibilidade;? para auganar verba*# ria oidade. podia constiui* um
I trabalhar háste pais. Míl vêzes sem problema social. Ainda mais
restaurante e bar dançante no &utantan. No museu do ipirangai
í quando se ó negro?
Construir bar no jardim da luz instalar (...) para o povo devertir
Voltei pa ra c a 6a c a ta n d o fe rro s . Encontrei uma pretinha
e a renda seria do município. Para isto e necessário a coopsraçãc
emprestou-me 100 cruzeiros para compra- o pão. A tarde fui
d a s edis com 0 prefáito. uma cooperação decente isenta d<
falar com a Dona Elza que fui pedir esmola a visinha do Dantas.
maguas e resentimentos.
A Dona Elza ficou horrorizada. Fui falar com 0 senhor Luiz, que
E necessário que 0 nosso governo Estadual procure elevar a í
pediu-me para comprar
co n stru çõ es de escolas nas bairos periféricos e Incentivar
Nós os brasileiros necessitamos de uma transform ação radical
c o n stru çã o de fabricas para 0 estacionam ento do povo. E
nos n o sso s a t o s d á a im p re ssão que som os im a tu ro s e
necessário Construir residencias para a s professoras nos locaes
d e s o r g a n ís a d o s . Q u a n d o d e v e ria m o s s e r o povo m ais
0 que eu acho injusto e que as nossas professoras não tem utr
o rg a n is a d o d o m undo po r ca u s a da inscricão da nossa
adicionai nos vencimentos e com o proprio salário tem que víver\
D andeira — O rd em e progresso, é necesario que o s que
e pagar as conduções.
ocupam o s c a rg o s êlevados. dá exemplo de honestidade e
Devido a s nossos egiárioa não vigorar Não competir com o cueto
retidão. 0 jornal do dia ô de novembro. 0 prefeito Prestes Mala
de vida 0 nosso povo é neurótico. É uma desumanidade dáixar as
citava 0 desvio de Verbas da alimentação escolar que tepa
nosso povo horas e horas na filas de açúcar. Seria melhor que|
sido cometido pelo Vereador Silva Azevedo ao qual áie tra ta
áles encontrassem cs produtos nos armazéns.
de senhor X que a Verba foi aplicada em compras ilicíta.
A tó aquela da ta o povo desconhecia a existencia do senhor Silva
Azevedo. Foi uma cala m id ad e o senho- p re ste s M aia no 6 Dia 2 0 de 12 — 1962
apresentar 0 6enhor Silva Azevedo como um mau elemento na 0 senhor Audalio dantas váio na minha casa com o senhor Audra.
cdilidade. porque sendo ále um representante do povo tem que Diretor de Maristela para eu assinar co ntrato com ále para
260 AMiU ESTRANHO K Â R O n o s ít io 261

filmar o quarto A t despejo. Eu não deixei o senhor Audalio entrar. Não é assim. 0 superior tem que preocupar-se com o Inferior,
Ele es ta pensando que é ~o mei> ¿joño. Q ü F pó3ê^nê^õcíar-me... porisso é que nasçem os intelectuaes
te ta engando-.- A desorganisação do Brasil é criada peloe purtuguêses que
Ele ficou de mal comido. Deixou de vir aqui educavam seus filhos em Coimbra t não educava o filho do
Então que não venha nunca mais! Eu tenho opinião seu diferente eôeravo.
d¿>s brancos Os brancos brigam e continuam conversando Os No balanço da Independência do Brasil com purtugal o saldo que
negros são rancorosos purtugal nos legou foi uma manada de homens analfabetos. E
agora e que o Brasil esta se preocupando com a cultura.
Quando os homens dc Brasil forem categorisadoe. E que o Brasil
31 de 12 — 1962
vae ser... Brasil E este país que vae ser a propulsão do mundo
O senhor Audra váio para eu assinar o contrato. Assinei, d e
0 senhor Audra é um homem calmo e superior com ¿le a coisa
deu-me um cheque de 7 0 0 .0 0 0 ,0 0 E vae da r jm de 3 0 0 0 0 0 ,0 0
vae. pediu-me para escrever argumentos para filmes. Vou escrever
para o Dantas.
argumentos para cinerama.
Ele disse-me que o Audállo gosta de mim.
G raças a Deusl 5cndo assim... Vou realisar o meu sonho Ao Deus
— Não cráío! Quando o Audalio olha-me o seu olhar é um olhar
que me protege o meu agradecimento néste ano de 1962.
de odio. Ou com o ódio ou sem o ódio do serhor Dantas, eu vou
vivendo.
ô de janeiro de 1963
A té ,a -m o rte retirar-me do mundo.
Ainda estou entoxlcada. Tomei um purgante de oleo de ricino. Fui
O senhor Audra diS6e-me que vae ser difícil encontrar uma mulher
na cidade Dutra combinar com o senhor Virgilio a construção de
para substituir-m e por causa dos meus olhos. Que eu tenho olhar'
minha casa. 0 senhor J o s é que vendeu-me o terre no e s ta
de Espírita. Não creio no espiritismo. Crêlo e n Deu6l Deve existir
auxiliando-me.
um ser superior Mostrei-lhe tüdo que eu eu tenho casa. Ele ficou
pediu ao senhor Virgilio para fazer um contrato de pagamento.
horrorisado com a deficiencia que eu vívo. Aconselhou-me para
Quando regressei a cidade fui ao escritorio do senhor Romiglio
comprar movei6 Citei-lhe que eles dizem que eu sou de favela e
Gíacampd. receber dnheiro da Alemanha.
sei vtver.com pouco dinheiro. E o dinheiro que reçêbo guardo para
comprar comida para os filhes. Citei-lhe que não gosto de falar Fiquei sabendo que o senhor Audalio Dantas havia recebido 2 0 0
com o Audalio. Ele critica-me multo. Reclama o favor que me fez! marcos de adiantamento.
Fala que eu gasto muito dinheiro. Mas o senhor Audalio Dantas não dividiu comigo,

Quando os meus filhos entram na Livraria =rancisco Alves, os porisso c que êle recusa fazer uma prestação de conta. Recebi
empre^adoe dizem: Vêlo buscar dinheiro! E os meus filhos não dos Direitos de tradjçães 64.129 cruzeiros primeiro pagamento
gostam de ir na Livraria 0 pior em tudo isto são as visinhas que da Alemanha.
xingam meus filhes. Favelados. Eu digo-lhes que não tenho culpa pouco, pela quantidade de livros que vendeu.
de existir favela no Brasil. 0 culpado são os brancos que não são
categorisados para educar o povo. 9 de dezembro de 1263

Í
Os nossos brancos são comodos. 5o se preocupam com eles. êles
c quem predominam no país. M as áíes estudam e cuidam de suas
vidas, êies sendo realisado o povo que se dènem.
passei a noite peneando que não tenho nada para os filhos comêr
e eles dormiram com fome. 5e Deu6 tivesse advertldo-me que eu
ia ser mais infausta eu não deixaria a favela.
T
262 MEU ESTRANHO DIARIO no sino 263

Na favela tu pedia esmola. E pensava que era infeliz. Enganei. Mas Agora que e6tou pastando fome novamente, é que compreendo as
o engano é propio da humanidade. Recordo guando eu estava advertências A s advertências são as sementes que planta-se
preparando para déixar a favela eu diese: numa época para coher mais tarde. Nao me foi possível dormir
graças a Deus vou viver com os homens da alta categoria! pensando que não tenho sabão para lavar roupas. E não tenho
E o Adalberto disse-me com a sua voz ebria. dinheiro para compra- pão Um barbeiro da cidade Dutra disse-me
— você vae viver com os homens da alta catinguria que eu devia estar reçebendo 2 0 0 mil cruzeiros por mês Mas os
E aqui estou eu realizando o rrteu grande 6onho que era ser reportes da Rússia dizem que nos países capitalistas, Os pobres
escritora Oh Scnho! Que a maior vitima são os meus filhos Contei trabalham para sustentar os burgueses, tipos que saem da
ao João, o que disse o senhor Luiz. classe média.
Que a Vera chorou o ano passado por não ganhar brinquêdo., é a vida. E a classe mais deshumana para se viver com ela, é a
Amanhã vou vender a maquina de escrever para comprar comida
para os meus filhos. 0 José Carlos, não tem sapato. Eles dizem que
eu 60U idiota. Que deixo o Audáiio, explorar-me. Não sou idiota.
/ ôou correta. E não gosto de pofemtca. Quando conhecí o Dantas,
tc la s s e h u m an a que com o d e c o rre r d o s te m p o s vae
degenerando-se.

E agora esta na moda.


M atar e não ser punido.
I e ele insistiu comigo para escrever o quarto de despejo,
pedi: M ataram a Pana de Tefé para aprovarem do seu dinheiro. E o
Eu: escrevo, o livro e o senhor retira-me da favela Mas, não quero pior em tudo Isto e que o acusado de te r matado a Dona é um
'—afíírat¡y,'J^

ficar na cidaejc. Quero viver num sitio, porque lá para o ano de advogado. 0 homem que estudou para defender a classe humana
1970, vae serjdificil para o pobre viver aqui centro de são paulo são tip o s sem i-intelectuaes. que passam nos exames por
r o ano d e ^O /O , OS pobres do Brasil ja morreram de fome. Mas proteção. Não estuda para ser honestos. Estudam para aprender
o Audáiio. não retirou-me da favela. roubar E poriseo que eu vivo com a classe humana, mas, não
Retirou apenas o livro porque o livro ia dar-lhe dinheiro, lançaram mesclo muito com a classe por ser uma classe perigosa
o livro dia 19 de agosto e eu continuei na fa/ela E dia 2 2 de novembro 1963 mataram o presidente dos Estados
apanhando d o s favelados enfurecidos. Eu era inciente Quem Unidos. É o quarto presidente d o s E s ta d o s Unidos que é
retirou da favela foi o senhor Antonio 5oeiro Cabral e os judeus. assassinado.
E o senhor Antonio Loeiro Cabral meneava a cabeça dizendo: Reincidência nogentê dos norteamericanos. 0 mundo adorou o
pobre Carolina! Renedy porque foi bom. Não foi um tipo humano quadrupe.
Mas eu estava muito empôlgada para compreender tudo aquilo.
Não era estúpido selecionando as classes. 0 pior é que todas
Era a realização do meu sonho. Comida e casa de alvenaria.
Que confusão na minha mente com as advertencias.
0 primeiro a advertir-me foi o Renato da Gazeta.
Ele dizia que eu estava sendo espoliada. Que eu ia cansar —
Ímaldades partem dos brancos que dê6de os tempo© remoto©
pensam que são os donos do mundo.
E quantas infelizes sofrem no mundo dos brancos Jesus Cristo,
i foi cruxificado. Soc*ates morreu envenenado Kenedy, morreu
pensei:
i assassinado. Jo ão Batista, decapitado. Joana Darc foi quêimada
Ele d iz is to é porque e s tá com inveja. A Ju rem a Finanur
E eu? Como será que vou morrer? penso que vou morrer matada
advertiu-me.
0 Barboza Lessa e outros
I porque os trapaçeiros que lidam com os meus livro© não são
i corretos comigo. E ej os despreso porque não tenho muito amor
264 MEU ESTRANHO D1ÁRK) N O SÍTIO 26S

aos bens materiaes. 5ou preta E 0 preto te n ambição limitada. /Ouvia sem comentar porque, eu não sabia.
Eu dêixei 0 iêito as 5 horas horario de verão. ! A única coisa que eu sei, é que eu gostava muito de livros e
Ouço 06 pa^zos das mulheres felizes que vão comprar pão Não ífqueria escrever. 0 livro era o meu ¡dolo.
as invejo, porgue o meu dia há de chegar! | Mas eu não estou triste. E sabido, que a ciasse burguesa, espolia
S e Deus quizer! Eu an do a procura da felicidade. E hei de os pobres. So os pobres os favelados é que não espolia ninguen.
encontra-la Espolia a s latas de Ibo.
Eu reeolhi uma cachorrínha que passou a noite chorando Será Mostrei ao negociante a revista rus6a Ogoniok que tra z uma
frio. ou fome? reportagem minha, e dtei-lhe que 0 Irvro esta sendo traduzido em
0 que horrorizou-me foi saber que a minha filha lamenta nas russo, e eu vou ser convidada para autografa-lo na russla, que
casas dos visinhos que nós passamos fome. Não me envergonho os russos quer conhecer-me.
porque eu trabalho para os Prancos. 5o uma coisa eu digo: depôis Que 0 repórter russo sabe que estou passando fome. Mas eu não

Íque sai da favela fiquei rascista preto e braico não açertam 0


passo, dançando esta musica que se chama vida.
5 e o D r Lélio, e o A u d á lio , fo s s e m In te le ctu a e s , £les
vou porque, já estou desiludida da literatura.
,{ Não vâjo uma recompones justa.
ilEle disse-me que eu tenho razão e ficou pensando. As pessôas
. .. anxihar&nrmfí, a construir a casa da parelhriros Mas e que o I que entraram vendo-me vender a maquina, ficavam horrorizada.
bfãncoquáhdó tem dinheiro, gostam de 6er bajulados / Encontrei com um conhecido da favela que ficou contente quando
goti-pogtjsa. não vou bajular ninguém. me viu dizendo:
¡•Más e que 0 Brasil ó um pais aportuguesado, e o português Carolina, veeè esta nc céu\
i gosta de ser bajulado. E o povo atual, mais intelectualizado quer Citei-lhe que não. Que 0 editor é um tipo quer obrigar o escritor
¿diráitos e não esmolas ajoeíhar-se aos seus pes
*í Eu passei a manhã escrevendo para não pensar nas dificuldades — E eu, so apêlko aos pés de Cristo porque de Cristo eu gosto.
; que me ó difícil transpor Mas, eu sou forte. E os fortes não 6e E o vislnho da favela citava que construía uma casa. J a percebí
I habatem. que a vaidade do hornem que reside em são paulo c te r uma casa
Mas, será que eu consigo lu ta r com o custo de vida? Fico Ele estava acompanhado com o seu filho de criação Um menino
horrorizada ouvindo o Pr. Lólio de Castro A ncrade dizer. que Ia ser atirado ao rio Tietê pela propia mãe, ele saiu correndo
Ninguem viv§_de direitos,autoraes. Que supício. é levantar de vestido apenas com uma cueca e arrebatou a criança dos braços
manhã e não ter nada pará- comêr. E a reprise da favela. 5 o que da mãe desnaturada 5 disse que ia cria-lo
agora não mais existe a dona Julita Liguei 0 radio para ouvir o E a mãe malvada respondeu-lhe com Ironia:
noticioso, na bandeirantes a s oito e mêia, sai com a maquina de pode c ria r e s ta porcaria. Um a mulher d e stitq rd a dp^am òr
escrever para vende-ía para comprar comida para os meus filhos.'1 matemp, è um tip o jn i\u m a n o .^ ü ê c s p è ro ~ e"qüc o"ffíeninofeêfa
Vendí para o propio negociante onde eu comprei, que ficou Om poní Cremento para 0 seu bem-feitõr ter recompensa.
horrorizado, quando eu disse-lhe que não tinha nada em casa 0 vizinho da favela despediu-se andando com o um homem já
para os filhos comêr. realizado na vida.
/¡Ele é húngaro, comentou que os «escritores são espoliados pelos Fiquei conversando ccm o dono da loja que maldizia a maldita
I editores que o escritor morre na miseria. Que a classe de homen6 mania dos homens, que fazem guerras. Que a guerra arruinou a
I mais inferior são os editores. Hungria. O empreñado foi arranjar dinheiro para mim.
MEU ESTRANHO KÁWO NO sino

Varias pessôas entravam na loja o ficavam conjeturando. Mas M as eu já estou mutlado c triste, lutei e não consegui o que tanto
desejei que e ter uma casa no sitio porque eu gosto do campo..
eu sou imunizada. J á habituei com as revoltas da vida.
Aprecio os arvoredos gosto de estar em contato com a terra.
0 empregado surgiu com o dinheiro, e deu-me 10 mil cruzeiros. Eu
S u r g ió um a jovem la m e n ta n d o que o seu s a p a to havia
sai as pressas e fui retirar uma lição no Don õôeco para o João.
descosturado. Eu disse-lhe que ia procurar um sapateiro para
E exibi uma reportagem que esta na revista russa. Que o meu
conserta-lo. E sai.
livro Q uarto de despejo vae ser traduzido na Rússia e eu, vou dar
0 que é desagradavel é te r que desçer pelas escadas porque o
uma tarde de autografo r»o pais do Estalin.
elevador não funcione, procurei a sapatarla Rapida e entregue! os
A s mocinhas olhavam as figuras dizendo que a revista Ogoniok, 6a p a to s . E o sapa 'eiro ia entregando o s s apa to s para as
não tem publicidade de artigos. E que lá é um pais socialista. brancas eu protestei
Eu circulava pela sala e o meu olhar dirigiu-se para a sala dos pois è. 0 senhor lhe entrega o sapato em primeiro lugar porque,
professares e o meu olhar cruzou-se com o olhar de um professor, âles são brancos e eu sou preta.
que dirigiu-se para a sala da secretaria e 6entou-se eu estava M as o homem não sorriam pensei; os homens da ¿poca do João
falando do custo de vida que esta oprimindo o pevo e os paes Goulart, não 6âbem sorrir. Com o custo de vida Continuei dizendo
da patria, ainda querem ganhar 100 milhes por ano. que antigamente era assim, se um negro entrava num bar p^rjs
i Sendo assim, não vae sobrar dinheiro para ccr.struir escolas para tom ar média ou beber pinga ficavam furiosos se serviam o branco
o povo. 5 e rá que o povo do bra sil ha de s e r eternam ente em primeiro lugar, por mais que eu falava ninguém me dava

Í analfabeto? Que a inscrição que esta na nossa Bandeira não


esta predominando no pais, que o Brasil esta necessitando de
um Salazar. Apezar do ¿alazar não ms apreciar eu gosto da sua
política porque ¿le é um político austero. 0\j á dizer que lá tudo
atenção. Eu disse-lhes que no fim do ano que vem, que eu vou na
Rússia.
Que eles estão traduzindo o meu livro. 5 exibi a revista Russa
Oganiok. Então todos passaram a conversar comigo ao másmo
tempo.
ê tabelado
0 professor que me ouvia disse; Que suplicio para responder a todos ao mêsmo tempo. Mas, eu
flquei contente porc^oe via os brasileiros sorrindo. Quando um
Então c a senhora a famosa Carolina Maria de Jesus?
senhor que era o mais claro saiu eu dei-lhe um tapinha nas
— 0 que esta escrevendo agora? costas, dizendo-lhe que êle pareçe russo.
f — Eu já estou desiludindo da literatura. Cansa-se muito. E é Um senhor disse-me que já me viu na televisão
iitanta confusão que o meu ideal já esta atrofiando-se. 5e eu Recebi o sapato e perguntei o preço.
jtivesse marido capacitado para tom ar conta dos meus livros, eu — Não é moda.
iescrevía mas escrever com outros não dá certo. Eu olhava os Oh! M as a madame esta esperando? Insisti
Itragee do professor de português, muito bem passado. Como se — Não é nada já diôôe!
fosse um a to r que ia representar, perguntou-me Agradecí e sai a s pressas.
— porque é que o Balazar não gosta da senhora? Entrei no prédio onde esta localizada a escola e entrei no
— Ele não consentiu que o meu livro fosse publicado em portugal. elevador M as o elevador não para nos andares. Bobe e desçe.
Tive que subir-a-pé e entreguei o sapato para a môcinha
— E o professor disse-me que eu devia escrever para o Salazar
para desfazer esta confusão. — Quanto a senhora pagou?
268 MEU ESTRANHO DIÁRIO ■) no sino 269

— Nada! Que homem limpinho. Não tem mau habito, pensei: se eu pudesse
E eu, recordei o que esta eecrito na biblia. ficar sempre sentada ao lado dêste homem! Notei ser êle um
Pae de graça o ojje de graça recebêste. porfíe Deu©, não aprecia homem magnifico. D»26e-me ainda que não tem orgulho, e que é
o© ambicióse©. nortista da paraíba. Apresentei para êle a reportagem na revista
Russa.
peruei a lição do João, e ©ai desçendo a© «©cada© e pensando
Ele disse-me que ja lej o meu livro e ©e eu ganhei muito dinheiro?
jjque devia chegar em caza o mai© depre©ôa pcssfrel para comprar
llpão para o João Como é horrível ver um filho com fome. E a hora Respondí que se o Irvro deu muito dinheiro, não fui eu quem ficou
taue uma mulher tem desgosto de ©er mulher. rica que sofro muito mais depois que sai da favela na favela
t o d o s sabiam que eu era pobre e me dava esm ola. M a s
Quando cheguei no ponto de ônibus fiquei contente vendo o ônibus
atualmente, com o lançamento do livro, o povo dizem que fiquei
Brlnquêi com o cobrador dizendo-lhe:
rica.
— Doa vida! 0 senhor esta rico! ;>Ele olhou-me condoído dizendo: Aqui neste pais trabalho o fêio
Ele sorriu paguei e fui ©entar-me na frente. :jpara os bonito© comêr.
Eu estava sentada ao iado de um homem bonto que estava lendo iFalamoe do custo de vida que esta oprimindo o povo a luta pela
um jom al Olhando vi que era a Folha de 52o paulo, e citava que 'vida, iniciou-se na faveia, e esta atingindo a classe média. La para
o Almirante 5ilvio Rech ia ficar prêso 3 0 dias por te r criticado o ano de 1975, a classe pobre já desapareçeu cedendo o seu lugar
o presidente Jo ã o G o u la rt Dizendo que o Brasil não tem (p ara a classe média. Que lugar desgraçado. Um lugar do
preeidente. ■sofrimento. Um lugar onde se sofre a pior turtura da atualidade
E sta é a impressão da maioria. 0 Jovem que estava lendo a Folha • que é a fome.
de 5ão paulo estava de acordo com o Almirante percebí que o Ele disse: Temos que tom ar uma resolução. Quando cheguei no
jovem queria falar-m e. Citei-lhe que o meu livro, e s ta ©endo ¡mirim descí, e o nortista seguio Não o convidei para vir na minha
aguardado na Rússia. E mo6trel-lhe a revista. casa porque eu sou mulher. E êle e bonito agradavel. E um homem
Ele comentava o crime de Osasco. 0 estrangulamento da jcvem que perturba uma muher. Ele disse-me que é pae de 3 filhos.
Maria Edina, 21 ano© que foi morta por um desconhecido. Enfim, 5ai do ônibus correndo pensando: nos filhos que devia estar com
nas grande© cidade©, é um d e p ó s ito dos m aus, e bons. fome. Quando entrei em casa, ví que o João havia varrido a casa,
Infelizmente vemos a© pessoa©, mas, não vemos a consciência. lavou a cozinha. Notei que o© meus filhos estão emagrcçendo. E
Crêio que se o povo tivesse um sen6o humano e social talvez o a fome! ôerá que eu vim ao mundo predestinada a morrer de
mundo fosse mais hospitaleiro para nós. fome! Fiz café e dei dinheiro para a Vera ir comprar pão. 0 João
0 jovem que estava sentado ao meu lado. Queixava-se da esposa perguntou:
que lhe dizia: — A senhora vendeu a maquina?
Deus permite que: quando você estiver viajando de avião, o avião — Vendi. Depois eu compro outra.
ha de cair Fiquei horrorizada porque em geral, as mulheres não Quando a Vera entrou com o pão pareçe que a casa ficou mais
quer, que o seu esposo deixa ê©te mundo. Ma© existe as mulheres bonita porque, no prêço que e s ta os géneros de primeira
que se aborrecem dos esposos depois que ee casam. necessidade, os géneros tem a semelhança de flôree e da© jóias,
A© mulheres que proçedem assim , são as de mentalidade© peguei a 6acola e fui fazer compras, no empório Tem-Tem.
mediocres. gastei 3 2 0 0 ,0 0 e não comprei o escensial
T

MEU ESTRANHO DIÁRIO no sino 271


270

Que horror. Um quilo de arroz custar 3 0 0 , cruzeiros? Mas eu digo 0 nortista falava de sua futa para conseguir hospital. E êle paga
o IAPI.
que o cansador da desorganização no Brasil, são os ¿ionos das
terra s que se o colono ia trabalhar expoliava-o e o colono foi Fiquel pensando nas lêis trabalhistas que o saudoso getulio
desiludindo-se. Vargas criou. Não sei se esta lêi benéficiou o pais porque eu
De uma coisa eu estou certa. Se os fazendeiros do Brasil são nunca fui opéraria 0 que horrorizou-me é o nortista pagar o IAPI,

Íríeos e porque os seus antepassados espoiavam os escravos e


finda a escravidão em 1ÔÔÔ os fazendeiros admitiam os colonos
estrangeiros e as6im. iniciou-se a imigração para o Brasil. 0 que
e fol operado no Hospital das Clinicas como indigente.
Que pais desorganizado. E na nossa bandeira esta escrito, ordem
e progresso. 0 n e rts ta disse-me que o seu estomago ficou do
tamanho de uma laranja
os fazendeiros, queriam é que alguém trabalhasse para eles e o
pior em tu d o isto, é que eles não selecbnava 06 tip os que Como é pungente ser nortista no Brasil. Fico pensando: Quem
entravam no pais. Os filhos reanimaram-se quando viram o arroz predomina no Brasil é o branco porque é que o nortista branco,
e sua exetència o fêjão. preparei o almôço. não luta para melhorar a vida dos seus conterrâneos? Mandei
Arroz e bacalhau com abobrinha. Quando comí senti tonturas, fui c o m p ra r laranjas t fiz uma laranjada para o n o rtis ta Ele
dêítar Bateram na porta, o João, foi atender. Era um nortista despediu-se prometendo voltar, dizendo que quer ir comigo para
que ligou.ó esgòto na minha casa parelheiros. Que gosta de trabalhar na enxada Fui falar com a
Dona Elza. Um pobre passava pedindo esmola. A Dona Elza
jDisse-me que foi operado de Ulcera. Que perdeu a metade do
deu-lhe macarrão, cenouras e batatas faz ò dias que a mulher
estomago. Pensei A tó quando ha de ser o n o tls ta um desgraçado
teve filhos. Onde andará a tal assistência social?
reste pedaço do mundo que foi batisado com o nome de Brasil?
¡¡Um pais com tantas terras e um povo infeliz. É que ainda nos Fico pensando: Dêsde que o mundo, é mondo, os brancos querem
yfaltam, saude, porque a classe pobre cone muito mal, e são ser o seu dono. 0 seu dirigente. Quando apareçe alguém que quer
/desnutridos. E os desnutridos são apáticos, c morosos no trabalho um mundo humano, i perseguido e mêrto. Mas o que eii-seTdizo.r.vk
!,Edocação para o povo sanear escolas no pais. M as é que a s escolas f é que o predomínio do branco, não porpociona felicld sri*"sç povo".
' item que ser construidas com as arrecadações doe impostos. Mas Que vivem descontentes. A té quando, ha de p e * ^ ^ £ t s
\pe impostos que são arrecadados transforma-se em subsidios para Adimirei o gesto da Dona Elza. a esmola que deu a pobre. (Suando
'bs deputados, e os senadores. Fico pensando que o homem da a mulher obre reçebeu a esmola, dirigiu lhe um olhar mêigo e um
atualidade é um homem debfl, e de mentalidade atrofiada sorriso de gioconda para a Dona Elza Brandão Rêis. Eu brincava
com a 5 o raya de Fatima. A ultima filha de Dona Elza. E uma
Nas épocas eleitoraes é uma vergonha To do s querem ser
menina que não chora, passou um senhor vendendo bilhêtes de
políticos para mim o Brasil é uma vaca que todos querem mamar
loteria, eu comprei um. 5e Deus me ajudar que eu ganho vou
no Brasil. É o povo pagando impasto com a finalidade que o
comprar comida para as crianças que estão internadas no abrigo
governo vae aplicar o seu dinheiro melhorando as preriferias e o
Andre Luiz.
as cidades do interior, mas o dinheiro, e gasto nas corridas de
cavalo, nas praias — J u ro que go sto ds ver um candidato, Voltei pra casa e fui dáítar. quando chegou um pretinho. Luiz Carlos
reprovado nas umas. porque Ja é convicção generalizada, que o Rocha que foi ferido rum acidente onde trabalharia, na queda feriu
político quer ganhar com pouco esforço. Eu queria dormir mas o nêrvo do braço dirêrto. E não foi indenizado. Contou-me que o povo
uma coisa eu digo: não se dorme na minha rua com o barulho fala que o Audálio Da-itas, ficou rico com o / heu livro. E^eu^já gstou
das crianças que estão em férias, e os c a ro s que transitam. •enojada-de ouvif,jo ío . Falamos da dificuldade que o pobre encontra
272 MEU ESTRANHO DIÂRiO N O SÍTIO 273

para viver. Ele convidou-me para ir numa festa de domingo com que o Jorge apareça, para me auxiliar me livrar dêstes tipos
proxímo. Saimps eu ía telefonar para a Livraria Francisco Alves imaturos, que não sabem compreender a s coisas simples da vida.
v;.não encontrei mais ninguém. Contei-lhe a s dificuldades que
Eu não pedi ao Dantas para me comprar esta casa Queria sitio.
deparo para viver.íFoi o pior serviço que já fiz a té hoje foi

¡
Retirar os' meus filhes da favela e residir no campo. Num lugar
escrever. Quando eu estava na favela, podia pedir esmola. simples. "Mas o muneo ha de ser sempre negro, para o negro/^*
0 Dr. Lelio, respondei-me que eu dâvo arranjar trabalho interno.
Entramos no emporio do Tem-Tem para comprar linguiça. 7 0 0 ,0 0 Devo custurar etc.
o quilo. Deus me livre, para consertar isto, so Cristo. Espero que Depois que êles me cansaram e que o dr. Lelio quer que eu seja
êh volte enérgico para reprimir a predomina dos ambiciosos. Eu costureira
não comprei a linguiça. E o Luiz, queria com prar para mim. Citei ao Dr. Lelio que fui pedir esmola na casa do Dantas, e fui
Recusei porque não sou oportunista. mai recebida. Então su pedi a s vizinhas. Na favela eu estava no
inferno. Aqui na casa de tijolos, estou no Inferno.
10 de dezembro de 1963 — Onde será o meu céu?
passei o dia em casa. cortando as roupas dos filhos e escrevendo 0 que me apavora ê sair nas ruas, e ouvir o povo dizer: vocè esta
o meu Diário. Enquanto escrevo vou olvidando que não tenho o rica! Voe# esta rica.
que comer. E estou vrvendo de esmola. Se fôsse so eu?
Eu cotava na Janela quando uma mulher e uma menina pararam M as existe os filhos!
no portão. Ela sorriu. Mas, não Sc perçebem se d a esta sorrindo
Escreví uma carta pera enviar ao Jorge, mas não tenho dinheiro
porque, ela não tem dentes. Que aspeto horrível. É so pele e
para despachada. Quando alguém diz: É a senhora a escritora?
ossos. Mandei entrar. Disse-me que esta passando muita fome
— Não me emociono com a descriminação.
e quer morrer. E que o seu filho vae ser soldado porque êle como
porque, para conseguir dinheiro com éste povo que e s tã o
soídado, ha de te r o que comêr.
fantasiados de editores porque quando um escritor do livro aí
Que os políticos vão criar uma lêi que o homem pobre não tem o
um editor, o escritor deve ser considerado,
direito de te r filhos apenas um, ou dois.
0 que achei interessante foi ouvir a baiana dizer..
11 de dezembro de 1963
Dona Carolina, pede ao Je su s Cristo, para voltar, mas voltar
-passei a noite pensando no c u s to de vida. Q ue e s ta noè/
enérgico igual ao Lampião porque o povo atualmente pensa so no
( í oprimindo, igual um rõlo compressor. lí
dinheiro. Eu dei-lhe 2 0 0 . cruzeiros e um pouco dc fêijão.
I Hoje foi dia de fêíra na minha rua. Não fui na fêira por não ter|
E a menina sorriu comentando: Fêíjão pretol Fico pensando que
// dinheiro E eu não vou suplicar aos meus senhores. i
o povo atual esta com o coração endurecido.
’•] Eu não tenho espinhe de borracha — J a estou cansada de s e n
A tarde fui telefonar para o Dr. Léiio saber ss tem umas fotos
I espoliada. >j
do lançamento do livro para enviar a um repórter da Coréia. E
disse ao Dr. Léiio que estais procurando emprego. Fui pedir Comprei 160 cruzeiro» de pão. porque o pão já foi aumentado 2
trabalho não consegui. Eles aludem que sou rica. Fui pedir j vêzes nêste mês Como é horrível ouvir os lamentos das crianças 1
esmolas não ganhei fui vender bllhête de loteria não me foi | que passam fome. Q ie não podem comprar frutas. 0 que venho '
possível áles dizem que estou rica. Que vida hedionda. Depois notando é que a s crianças estão cresçendo e odiando o Brasil!
que dêíxei a favela porisso viria suplicando a Deus para fazer

S
274 MEU ESTRANHO CHÁRK) NO ano 275

E que a s crianças são incientes e deviam odiar os dirigentes Que luta para arranjar papei, e tinta. Eu catava as fitas das
morosos. maquinas de escrever, e fendia para escrever. Mas aquêie tempo
já passou.
Fique olhando e invejando as muiheres que passavam com as
sacolas rechêiadas Como escrito ra tenho que g a s ta r com Quando eu era inciense eu tinha a impressão que deveria andar
racionamento Quando ofmeu sinho Dantas/ me da dinheiro fez a trá s da felicidade. Mae ela ha de vir porque, Deus me protege
tantas recomendações para eu não qãSZãroue chega ao extremo muito. J á faz dias que não compro carne por não ter dinheiro.
0 diabo é que o dinheiro não pode ser transformado em massa Escreví o Q uarto de despejo, para te r dinheiro e não tenho
>,de pasteis Eu não tenho amisade ao dinheiro para não ficar
. avarenta. Flqueí com dó dos meu6 filhos. A té áfes sofrem: porque,
i quando êles eram favelados podiam c a ta r as fru ta s que os
Í
dinheiro.

porque o senhor Dantas deu ordem aos editores internacionaes


fáirantes Jogavam no lixo. Mas, agora tudo é diferente. — Mos '/para não me dar dinheiro.
! fomos pobres. E depois que me transferirei em escritora, me
/porque é que êles não fazem assim com cs escritores brancos?
crismaram de rica. E eu não vou na feira porque o povo insiste
\e porisso que eu estou ficando rascista. E duro para o negro,
[comigo para comprar.. Um dia o Miíler disse para o Audálio que
/viver no mundo dos b-ancos.
•não devia me d a r muito dinheiro porque ela e favelada, está
Habituada a viver de qualquer gáito. E o Miller supos que eu ri5ú
notei esqueçendo eles que quando estou no m&o deste povo os 12 de dezembro de 1S62
meus ouvidos ficam de prontidão. A tarde, recebí a visita do Fui na cidade receber o resto do dinheiro da maquina de escrever que
jovem Luiz Ca rlos Rocha, que caiu de uma escada quando vendi. 0 negociante que comprcu-a disse-me que poderá pagar-me o
trabalhava como pintor e caiu por cima dos pedaços de vidros e resto so no dia 20. Qjer dizer que tenho que esperar 3 dias. E eu
seccionou o nervo do braço direito e èie, ficou com o braço comprei a maquina — a vista. Jurei nunca mais vender nada. Não
deformado. Nao foi indenizado. compensa. Chegueí até a S/raria Francisco Alves. Agora tudo esta
mudado para mim. Eu dêíxei de ser ingenua. Citei para a Dona Adelia
Quer dizer que a lei trabalhista do Brasil esta falhando.
que não me ó possvel finalizar a casa de parcíheiros por falta de
E o que falha, desagrada o seu patrão e o senhor Stefeno Na dinheiro. E é pori&so que odeio o Dantas. Quando eu estava na favela
Rone Chney. Com escritório na praça da 5 e 6 2 — 3 andar 31/34. eu pedi para êle em vez de comprar casa na cidade que deveria
E o Luiz já fez 3 operações o braço esta normalizando-se. Mas comprar um sitio para mim porque tudo na cidade tem que ser
êle é tris te no Inicio de sua vida ja teve um encontro fatal com comprado. E nem sempre se tem dinheirol
a desdita de ficar defeituoso. E a solução para êstes casos <L. São paulo já foi uma cidade bôa. Uma cidade humana para viver.
conforma r-sel Atualmente, 5ão Rauo é uma cidade metalizada
0 Luiz veio convidar-me para eu ir no seu aniversário domingo. Eje Os que tem dinheiro comem Os que não tem morre de fome! Mas
(disse-me que o povo fala que o Audálio, ficou rico com o meu livro o senhor Audálio D aita s, comprou a casa. Quando comprei a
Que espoliou a minha ingenuidade. M as tuco tem o seu dia de casa, a Marizetc Alves não queria me entregar a casa. Aludindo
Jlibertação E agora eu estou livre! M as quem continua recebendo que eu estava ganhardo muito dinheiro, e deveria pagar-lhe mais
to dinheiro dos dlrêitos estrangeiros e o meu Oinhô Dantas, 15 0.00 0, cruzeiros a — mais
nquando quem deveria reçeber sou eu que lutei com dificuldades E eu entrei na casa com os inquilinos da baiana.
ijpara escrever o livro,
Quando eia vendeu a casa disse-nos que a casa estaria vazia. E
não estava Os que nlo fazem as coisas dentro da verdade são
276 M EU ESTRANHO DtARJO NO SÍTIO 277

tra p a ç ê iro s . Com o dinheiro que o senhor Audallo Dantas, Com os 7 0 0 ,0 0 que reçebi do senhor Audra, iniciei a construção
comprou a casa cm 19 6 0 , c o m p ra v a is grandes extensão dc da casa. E o senhor Audra disse-me que ia me da r a copia do
terras c o n tra to que eu assnei A té hoje não entregou-m e Deve te r
[Mas o senhor Audalio Dantas, queria me dominar Não gostei, entregado ao meu Sinkê Dantas, que pediu-me para eu não dizer
[principiei a reagir. Não nascí na época de escravidão. Eu não tinha nada a ninguém que o filme vae apareçer inesperadamente. No
jW ê ito de fazer nada que o senhor Darrtás, obsservava-me. Uma contrato diz a s perçentagens que vou ganhar. Eu Já disse que
■noite, êle chegou na minha casa e criticou-me porque eu coloquel comprei um bilhete dc loteria. E o vendedor de bilhete vêio de
ivarios quadros nas paredes. Obrigou-me a retirar 06 quadros da m anhã dizer que ganhei o mesmo dinheiro e a ta rd e vinha
parede aludindo que a minha casa estava antiquada pareçendo devolver. Fiquei contente. Vou receber 06 2 .5 0 0 , cruzeiros.
¡galeria. Retirei os quadros em silêncio. Mas »n g ando o senhor Comprei outro pedaciriio por 5 0 0 ,0 0 e peço a Dona Elza para
[D a n ta s mentalmente Quando vesti uma saia a japonêza ále coloca-io aos pés de nossa senhora, para ela ajudar que o bilhête
■jcriticou dizendo que eu deveria ser mais simples no vestir tudo eêja premiado para eu comprar comida para os meus filhos que
que eu fazia ále observava. E assim a minha adimiração por eie estão vivendo pior do que na favela. Eu fui m ostrar a reportagem
' ia arrefeçendo. Começou o meu calvario. 0 livro estava sendo bem para o Irmão da Dona Elza Brandão Reis Cítel-lhe que já tomei
vendido E o senhor Audalio Dantas estava convencido que havia nôjo de s e r e s c rito ra porgue, guem recebe o din h eiro do
construido um monumento por eu te r passâde muita fome eu lia estrangeiro é o Dantas, e ále me da o que quer e quando quer.
o livro, sem compreende-io. Com o meu nome nos jornaes e eu para eu retira dinheiro do Dantas tenho que implora-lo.
apareçendo nas televisões, eu era um caso exspcional. Enfim era Eu necessitava ir na edade mas não tinha dinheiro, fui-a-pé Nas
a minha vida que trocou de cenário. Mas, com to d a aquela ruas eu ra encentrando as pessôas que me perguntam se estou
confusão eu pensava: isto é apenas cenas fiticias. Será que já rica.
estou ajustada na vida! Será que estou amarrada numa corrente [Afirmo que não. Que estou desiludida "com o Dantas que retirou-me
no fio de retroz? Como o melhor advogado é o decorrer da vida Ida favela para espoliar a minha inteligência. Infelizmente percebi isto,
fiquei aguardando o que havería de vir posteriormente. M as não j muito tarde. M as também eu com 2 anos de grupo escolar, a única
deixei de preocupar-me com a vida na cidade, ppra mim esta casa [instrução que recebí não pedia ser uma mulher ludda. Bou quase,
na rua Bento pereira, não passava de um estojo de iddro. lautodídata. E o autodidata tem mido da vida
Um dia o senhor Verdl dos S an to s apareceu na minha casa, e eu •Não rouba. Não m ata porque todos os atos que praticamos tem
disse-lhe 0 senhor que é andarilho vê se consegue localizar um 'suas consequências.
terreno para mim. ■'¡A tia da Dona Elza dsee: porque é que eles não fazem assim
¡com a Raquel de Queiroz, Lia Fagundes Teles Dinah Silveira de
E um dia êle apareçeu com um anuncio do jardim primavera. E
i Queiroz Helena Silveira
acompanhou-me ao local, e eu fui com o corretor ver o terreno/ j
j M as estas são brancas.
gostei do terreno porque tinha agua. E comprei o primeiro lote e
o D r Lelio de Castro Andrade pagou o contrato 1ÒO.OO, Foi você quem escreveu o livro, e êle, é quem reçebe. porque é que
êle não foi residir na favela, e conheçer a odisséia de ser catador
Quando assinei contrato com o senhor Audr¿, que vae filmar o
de papel.
quarto de despejo, êle deu-me Um milhão de cruzeiros.
comêr fru ta s do lixo. Não. Isto êle não quiz. Ele é mocinho do
7 0 0 ,0 0 para mim, e 3 0 0 .0 0 para o Dantas. estojo de viiudo. Todos dizem que o Dantas ficou rico com o meu
278 MEU ESTRANHO DÍÁRIO N O SÍTJO 279

livro. E a g o ra que e s to u m ais e s c la r e c í a . E que e s to u q uarto de despejo, porque é o Senhor D a n ta s que reçebe o
compreendendo isto. porque, c^uanío eu iniciei a casa eu escreví dinheiro dos editores internácionae6 E que passo mais privações
para o Dulton, o editor inglez pedindo 5 0 0 , dolar emprestado atualmente, do que ra favela.
para eu concluir a casa, êle respondeu-me q le nao tinha ordem Todos ficaram adim rados porque o livro foi publicado em 21
de me enviar dinheiro. Que choque emôcional guando li a carta. países, dizem os russos. 12 países, diz o Audalio Dantas.
-Xinguet-o~Outtjon. pedindo o diabo para Ir vtsita-lo no meu lugar. Quem sabe se o sénior Audálio Dantas, não sabe matemática,
E então eu compreendí que o mundo ha de ser sempre negro para e apenas trocou os números a seu favor. Quando o repórter
o negro. Eu f^i visitar o Senhor Rodolfo Sherauffer. e queíxel-lhe russo d is se que o livro foi tra d u zid o em 21 países, fique!
que estou deçepcionada com a carreira literaria porque não sou descontente. Quer dizer que não há sinceridade no negócio. Há
eu quem recebe o dinheiro das traduções do livro. Quem recebe é apenas, imaturidade. E todos negocios implica responsabilidade.
o Senhor Dantas Eu e Dona Angelina falamos de Dona Julita E eu fique! sabendo
0 Senhor Rodolfo 5herauffer disse-me: que o Evaristo vae casar-se A dona Angelina ofereçeu-me almôco.
— Eu te avisei Carolina! para continuar catando papel. Eu te Açeitei o pedaço de pão que ela deu-me eu guardei para os filhos,
avisei! pedi o telefone em prestado, queria lo ca liza r uma agência
Fique! pensando: M as a vida na favela era imcralissima. Um lugar noticiosa para pedir uma esmola aos editores internacionaes
impropio para d ar boa formação mental aos meus filhos. porc\ue para comprar algo, para os meu6 filhos comêr.
o homem nasçe inculto e é necessário educa-lo. Telefonei para a s Folhas Informações e não obtive resposta
Fui comprimentar os funcionários, que ficam con tentes quando procurei na lista telefônica procurando as agências.
me vê. Alguns casaram-se. A filha de Dona Angelina localisou-a para mim.
Eu pedi o telefone para telefonar. N3o consegui perguntei ao Resolvi ir na Agencie Reuter que esta localizada na rua Libero
senhor Rodofo ee fez fôlinha éste ano? B a d a ró . 4 Ô Õ . 5 a n d a r. 0 pré d io é a n tig o . Na ag ên cia
— Respondeu que não que tudo esta caro de mais. disseram-me que, são paulo não importa noticia. Apenas recebem
Olhando aquêle recanto: recordei quando a Vera pedia sapatos do Rio para trasmitir. Deu-me o endereço para eu enviar a noticia
ao senhor Rodolfo. E êle comprava. Despeei dos funcionários por c arta para o Rio. 5aI do predio e entrei na Agência do Estado
desejando-lhes feliz 19 64 Mas, com a elevação dos preços dos de 5Ho paulo. Quêixando que não estou contente com a minha
géneros alimenticios ninguém poderá ser feliz em 1964. vida de escritora, porque os Russos dizem que o meu livro foi
O Dr Adhemar de Barros Ja nos disse: que o ano de 1964, será tra d u zid o em 21 países. E o D a n ta s diz-m e que o livro foi
o ano da fome. Se o D r Adhemar soube profetizar a calamidade traduzido em 12 países Crêio que eu, como dona do livro, deveria

do próximo ano, será que esta imitando o José do Egito? Despedi ser participada E queixei a falta de dinheiro. 5e eu quizer vir para
do senhor Rodolfo e perguntei pelo Dr Souza? Disse-me que êle a cidade tem que ser — a — pé.
esta afastado em tratam ento da saude. Eu a olhando a6 latas Despedi, e voltei para casa Fui desêjar feliz 1964 ao senhor Félix,
de üxo6 reconheçendo algumas. Fui visitar a Dona Angelina gerente da Casa Viaia, na rua Florêncio de Abreu. E saber se o
esposa do Senhor Angelo. senhor Verdi dos 5arrtos entregou o livro que lhe enviei -
E stão reformando a casa. E todos perguntam se estou rica. Ele di6se-me que reçebeu e agradeçeu-me. E perguntou-me,
— E s to u m ilionária de desilusão, porque agora sou mais — Como é que você têve coragem de escrever aquêle livro?
esclarecida. Dlsse-lhe que não posso c ita r a renda to ta l do Foi inspirada no sofrimento ganhei uma6 folhinhas.
28 0 MEU ESTRANHO OIÃRJO no sino 281

uma, eu vou enviar ao Chile, para o meu que-ido professor Jorge 6o que não sou uma propietaria rica para cuidar da casa como
Mendoza. que me prometeu voltar sonhei.
Quando eu voltava ia olhando, os pobres que andam girando pete Mas, o sonho de poeta não transforma cm realidade Da nêjc
cidade com as trouxas nas costas como se fossem exilados Os olhar a minha casa. A s paredes estão sujas as portas e o
dentes deturpados. Aspctos de indigentes. Os infaustos, ficam assoaiho. que ha anos que não é incerrado. Eu queria comêr
sentados nos bancos dos jardins. E queixam que os guardas fígado. M as o preço afasta a s pretensões. 6 0 0 D O O ,0 0 , o quilo.
expulsa-os dos jardins. Sei que eles não estão mentindo, porque eu Decidi que e o preto quem vae morar na minha casa. E o prêço
ja estive em condições idênticas, riquei apavorada de ouvir um pobre sera 3 0 mil cruzeiros o aluguel.
dizer que vêio — a — pede portta-poran até São paulo. 0 que achei H i os que acham barato.
interessante, foi um velho que me seguia dizendo: Eu queria ser
M as eu acho caro.
teu marido para mamar em você. E queria me abraçar Eu dizia:
Hoje eu estou cansada.
Cuidado! Eu sou escritora e mostrei-lhe o livro que escreví na
E a vida que vae nos atrofiando.
Argentina. Com muita elegancia e delicadeza, despedi do velho
sem ofendê-lo O s filhos estão contentes, porque há o que comêr.
Ouvi o drama da Record
E dirigí para a minha casa: conversando com um senhor que
comentava o custo de vida M adrasta. 0 titulo da peça.

Cheguei em casa. E flquei triste , porque não tenho nada em casa


para os filhos comêr 15 de dezembro de 1963
Hoje eu estou passando a s roupas, e lavando-as preparei o
13 de dezembro de 1963 almoço para os filhos. Dei 2 0 0 , cruzeiros ao Joã o para Ir ao
cinema.
passei o dia cm casa. Com pouco dinheiro. E com t r á s filhos para
comer hoje é dia de feira, na rua Francisco Bíriba M as eu não E 100, para o José Carlos
posso ir na fêira. Hem para catar, nem para comprar. Que suplicio Eu estava 1avando as louças quando o pretinho Luiz Carlo6
é a minha vida. Agora que estou dependendo do Audálio passei Rocha, chegou, vêio para me levar no baile que vae realizar na Vila
o dia passando roupas, a Vera comprou 2 0 0 , cruzeiros de Matilde. Eu disse-lhe que não me era possível comparecer. Mas,
camarão e 1 quilo de farinha de mandioca per ÍOO cruzeiros. eu já avisei ao povo que a 6cnhora vae.

Fíquei horrorizada! Onde já se viu, 1 quilo de farinha de mandioca — ôendo assim, dêvo ir para você não ficar com vechame perante
custa r 100 cruzeiros. Será que os brancos que governam não vê ao povo. Eu estava irdlspcsta com vontade de deitar.
que isto é um absurdo. M as fui tom ar banho, fechei a porta e entreguei a chave a dona
re p a rtiç ã o vêio d iz e r-m e que aluga a m nha c a s a e ficou Elza Reis, pedindo-a para entregar ao meu filhos José Carlos. Ela
conversando com a professora, que dizia a cada instante que eu adimirou o meu toilete Tomamos o ônibus.
dávo alugar a casa com fiador que ela tem fiador e é propietaria, No anhagabaú, tomamos outro. 3 horas no ônibus Da impressão
para mim aquilo era um trecho de um sonho- Eu que já fui que são paulo é uma cidade iníinda Quando chegamos na Vila
favelada, que dormia nas ruas da capital, que dormia no albergue Matilde, adimirei, o progresso do bairro. 0 bairro seguinte é a Vila
noturno agora sou propietaria. Gafvão.
282 MEU ESTRANHO DIÁRIO NO Sino 283

A casa do Luiz Carlos Rocha é bem cuidada tão diferente da O baile lníclou-se depois que eu declamei a minha poesia — Noivos
minha. Os moveis são bons. E tem ta n ta coisa para comer. E de novo. E eu ia distribuindo autografes. E conversava, com os
eles vestem bem. intelectuaes presentes Eu ganhei delis ramaIhêtes de flores. Não
Na casa do Luiz, existe o que eu gostaria de. ter: alegria dançei. J á estou descontente com o mundo. J á estou no Outono
Eu conversava com a tia elo Luiz, que ê camlsdra. E o seu esposo da vida. Olhando á s jovens dançar ia recordando a minha
que ja pertençeu a fôrça publica e depois foi desligado da juventude tã o distante Quando eu pensava que o mundo era
corporação por intriga sempre côr de rosa. Mas a vida nos ofereçe a cada um uma
fração de sofrim ento, o salão estava adôrnado. com bolas
Depois foi comprovado a sua inocência e solicitavam o seu
retorno. ôe êle volta vae ser indenizado com um milhão. Mas, êle coloridas. Dançavam com discos. A s duas horas finalizou-6e o
não quer voltar. Aprecio as pessoas de opinião baile. Que suplicio para conseguir condução. A noite estava
tépida. 0 baile decorreu sem incidente por fim decidimos vír de
Me ofereceram muitas coisas pra comêr. Frango, e bolos eu tinha
auto nas ruas, os homens brigavam. Quando cheguei em casa era
a impressão de estar revivendo uma cena das mil e uma noites
quatro horas.
Eu bem vestida, uzando colares de a lto preço, falaram dos
políticas, que querem ganhar somas fabulosas. A s 6omas que os Fui madrinha do segurdo aniversario do The Avalon Club.
políticos querem ganhar deveriam ser aplicadas nas co n stru ye s Agradeço as atenções, que dispensaram-me.
de escolas para as crianças dos municipios. Que os políticos Estava com sono.
fingem que gostam dos pobres. Que a filantropia dos políticos é
falsa.
16 de dezembro de 1963
Falaram do meu livro. Que foi o Audállo, quem ficou rico. 53o
Levantei a s ô ho ras com sono. Não posso p a ss a r nôites
congostos, predominando na mente do povo.
aco rd a d a . Tenho que dorm ir para poder dominar a s idéias
Eu estava anciosa para voltar A mãe do Luiz foi tro car-se Ela e
literarias, preparei o afnêço para os filhos e dividi as flores, com
mãe de quatro filhos homens. — Fêram procurar carro para nos
a Dona Elza Reis. passei a tarde preparando a s roupas velhas.
conduzir ao baile. A s sete da noite saímos. Eu paguel o carro
Amanhã vam os a parelheiros. Vou carpir o milho, e regar as
porque ninguém tinha troco. 0 Luiz, disse-nos que eu devia ficar
hortaliças, pretendo ir viver os restos dos meus dias no sitio
aguardando na porta. Ele foi procurar a s pnrcêsas e a rainha.
plantando, porque lá para o ano de 1970, a cidade de são paulo,
Q uando a s jovens chegaram eu seguia na fren te . E fomos
deve estar insuportável, para o pobre viver com o custo de vida.
aplaudidas. Vi mais de 2 mil olhos olhando-me. 5 o que eu dêixei
Estou horrorizada com o Indiçe de mortalidades nêste fim de ano.
de ser aquela Carolina ingenua da favela. Não creio em nada mais.
O s jornaes dizem que é a fome a secretaria da morte.
Dirigim os ao palco. 0 Luiz, nos apresentou. Coream os as
princesas e rainha que fôram
1Ô de
Edith dos S antos
Maria Rosa pereira Deixamos o lêlto as 7 foras preparando para irmos a parelheiros.
Rosa Ignacio. í 0 Jo s é Carlos, não queria ir. Xinguei — Cachorro! você deve
cada uma estaria acompanhada com um cavalheiro Eu coroei a fundar um sindicato dos preguiçosos e você será o diretor. Eu
rainha que foram dançar uma valsa Depôís ej partí o bôlo. Que disse que o João ia acompanhar-me, e a casa ia ficar fechada.
bôlo gigantesco. Então o José Carlos, decidiu acompanhar-me.

1
284 M E U ESTR AN HO DfÃRiO

Levamos roupas para uza-las e cobertores. Em Santo A maro "atou deixando de ser tola"
comprei toucinho, e carne no açougue 1001.
E disse ao propietario que vou residir cm parelheiros. Tivemos
O presente ccnjunto documental está dividido em três blo­
sorte. Aeelm que ¡amos Saindo chagou um ônibus de parelheiros
cos, a saber: o primeiro perfaz o período que vai de 30 de outubro
e nos embarcamos. Quando cheguei no sitio vi os fios ¿le luz
de 1958 a 04 de dezembro do mesmo ano; o segundo de 28 de
pensei: ja ha possibilidade de mudar — mas para a minha casa
outubro de 1961 até 19 de novembro desse mesmo ano; o terceiro
de campo. Seguíamos os 5 0 0 metros. Fico contente guando vêjo
a casa. E sta inacabada. Faltam a s janelas, pedi a enxada a cobre de setembro (dia indefinido) de 1962 a (dia indefinido)
esposa do Senhor Orlando e fui carpir os tomates, temperei a dezembro de 1963. Com certeza, tratam-se dc cópias feitas pela
came. Fritei o toucinho, e ffe uma sòpa de macarrão. própria Carolinà. Cópias absolutamente fiéis às outras, como se
A noite, o José Carlos dormiu no chão. Reclamando que esta pode constatar a partir do cotejamcnto com os demais textos
habituado com colchão de algodão. copiados, também à mão, c guardados nos mesmos cadernos. Co m
Que silencio gostoso. Não ha radio. Apenas o còo*ar d os sapos. isto confirma-se que apenas os poemas foram retocados.
Que sono reconfortante. Não ouço aquelas vozes curiosas. A fim de mostrar o mais aproximadamente possível o tipo
— A Carolina esta rica! de anotação contida nos cadernos optamos por iniciar as trans­
Aquele preto, que> quor alugar & minha casa tem a preferência crições de cada uma das três frações desde o iiu'cio dos registros.
porque foi o primeiro a pedir a casa. E m alguns casos, os gêneros estão mesclados e há registros ante­
Eu disse-lhe que procurasse a Imobiliária que eu só alugo a casa, riores, feitos pela própria Carolina, nas páginas em que foram en­
pór intermédio da imobiliária. S c ále não procurou a imobiliária.
contradas a$ entradas dos diários. N o caso específico do primeiro
oonjunto (de 1958), a anotação se inicia com o fim de um poema.
Decidimos mantê-lo para mostrar a vocação dc fidelidade ao con­
junto que se nos serve de base para esta edição. . - ......
É interessante notar que o tempo decorrido entre as
primeiras entradas, assinaladas cm 1958, e as últimas
conta de um espaço que vai do aparecimento de Carolina como
figura pública, através de seu livro lançado em agosto de 60, até
a fase de caracterização, no Brasil, dc sua “ decadência” como
escritora e personahdadc pública. Tra ta -se, portanto, dc um
período rico para a percepção do fenômeno Carolina enquanto al-

A integridade das frações


286 MEU ESTRANHO DIÁRIO A INTEGRIDADE DAS FRAÇÕES 287

guém que saiu do anonimato, mereceu consagração — em nível revelava possibilidades do entendimento das graves transfor­
nacional e no estrangeiro — e, em termos Iccais, acabou por se mações nacionais. As tensões da política brasileira de então trans­
ver rejeitada. parecem nos diários de forma a exibir o cotidiano das pessoas
N o conjunto dos cadernos compulsados não foi encon­ que, em última escala, padeciam as agruras do sistema. Questões
trado nenhum registro de datas anteriores o que indica que os como o preço da passagem dc ônibus, do pão, da carne, da in­
originais usados por Audálio Dantas teria outras, eventuais, ano­ flação, repontam indicando que o mesmo processo que achatava
tações prévias. Sendo que sc reafirma que duvidamos de qualquer o con sum ido r pobre era usado para prom ove r o progresso
alteração nas transcrições feitas por Carolina, garantimos que seria econômico dirigido por políticos sempre mal vistos. E m particular
fundamental a comprovação disto com os demais cadernos que se é interessante notar que certas passagens, que permanecem apa­
encontram em mãos de Audálio Dantas. É relevante deixar regis­ gadas dos registros oficiais, podem dar conta do impacto causado
trada mensagem dada pela própria Carolina que finaliza este ca­ por alguns fenômenos. Nesta linha, é importante trazer à reflexão
derno com a seguinte nota: sobre a nova capital, Brasília. Reclamando dc um personagem da
favela, Carolina dizia, no dia 18 de novembro de 58, sobre seu
Este meu Diário cu escreví Ha dez anos atrás, mas não tinha a
intenção de popularizar-me pretendia revelar a minha situação e a desafeto que “ quem não gosta de trabalhar não encontra lugar que
situação dos meus filhos t a situação de vida dos raveiados. presta", e continua a anotação registrando que "eu ouvi dizer que
Carolina Maria dc Jesus. na Brasilia não vae entrar negro” .
Independentemente das possibilidades de melhor entendi­ Na intimidade da vida dc uma mulher que experimentou os
mento das implicações pessoais na vida cotidiana da autora, as males da miséria e que depois passou pela fantasia dc uma ascensão
fatias dos diários agora publicados permitem vislumbrar transfor­ social diferenciada, pedemos localizar aspectos complexos de todo
mações e, também, as oersistências culturais ocorridas na visão um processo que se qoestionava nas Unhas da transformação social.
dc mundo da escrito ra/Com isto, garante-se que não foram man­ Isto convida a um acompanhamento do texto dos diários segundo a
ijadas apenas as falhas gramaticais, os defeitos variados do uso da integridade das frações. Antes, sc mostra conveniente justificar este
língua mas igualmente as matrizes analíticas c os critérios dire- título que, aliás, foi bastante discutido desde o seu enunciado.
Itores de sua interpretação da soçiudadc. Por outro lado, decorrên­ Haveria integridade nas frações? E o relacionamento delas estaria
cia natural do sucesso, viagens, aparições públicas e consagração, conjugado? Integridade formal apenas? As respostas são afirmativas
permitiu novos horizontes que, contudo, referenciavam sempre os e nelas residem a riqueza da aventura que nos propusemos. Cada
problemas anteriores: fome, preconceito, inviabilidade de transfor­ fração tem um conteúdo interno e as três partes se integram, per­
mações políticas sem grandes re formas ,_ A través da leitura dos mitindo leituras sobre o percurso daquela fase da vida da escritora.
diários percebe-se que ela jamais deixou de lado sua h ertm ça d é A absoluta fidelidade ao texto afiança o valor da mesma integridade,
miséria, (l^ n i ü i c T ^ g ? ntlc~mãc~soltcira. Mesmo quando e la n ão que empata na forma o teor temático contido nas narrativas.
maís~prccisava. seus referenciais analftiras ragUtravam r» des- j, Cada fatia do conjunto dos diários é colocada sem ne­
perdido e a comparação com os tempos “ passados” . nhuma glosa, limitação, correção ou tratamento. Neste sentido,
Contcxlualmente, desde 1958 — ar.o de consequentes lemos a importância da integridade das fra ções como fator rele­
acontecimentos na vida nacional — , a experiência de Carolina vante para justificar, mais que a “ correção” da proposta anterior,
288 MEU ESTRANHO DIÁRIO

expressa na edição de Quarto de despejo, a possibilidade dc ser "Eu ja estou com nojo do mundo..."
fiel a unia autora.
0 título escolhido para este volume foi retirado dc uma Em antigo cacemo, no começo da página velha, a letra
frase da própria Carolina, que se referia ao seu com o “ estranho segura, caprichada e constante de Carolina. Anterior ao conjunto
diário". “ Estranho diário” até porque seu sentido não se esgotou das entradas, restos dc um poema dão conta de que outras páginas
no momento da publicação. Continuando até hoje, esses diários poderiam existir. De qualquer forma, mesmo sem os supostos an­
mantém o teor dc estranhamento em vista dos segredos que guar­ tecedentes não é errado notar que Carolina inicia esta página do
dam. T e souros capazes de permitir novas abordagens da cultura, seu Diário com uma expressão que lhe era matriz para quase todos
brasileira — e de sua projeção internacional — . se colocam como os dias: “ Deixei o leito as 5 horas” . Na singeleza da expressão
abaturas_aotas para nrooor revisões contextuáis. deixei o leito... fica a indicação dc uma sofisticada lingüística que
se farta de chavões e raídas usuais do tipo: acordei, levantei, des­
pertei. Por certo, este linguajar lhe é característico da escrita, mas
é justamente isto que nos interessa. Interessa até por mostrar o
modo arremedado, segundo uns, autêntico, segundo outros, dc um
tipo de cultura mnemónica em desaparecimento. Sem dúvida,
porém, o culto às “palavras difíceis” revela distinção que aliás lhe
servia como problema pois, como ela mesma anotou no dia 30 dc
outubro: “ E u desêjei varios empregos. Não acêitaram-me por causa
da minha linguagem poética, porisso eu não gosto de conversar
com ninguém.”
O s registros cuolinanos, de um dia-a-dia atroz, caminham
para a repetição dos dramas da sobrevivência. Problemas de fome,
de custo dc vida c dc miséria se misturam com nomes da política
e com pessoas que, fora da favela, a auxiliavam. Curioso notar
como as mulheres, prncipal mente aquelas de fora da favela, são
mostradas com carinho.
O mundo dc Carolina tem nitidamente dois espaços de-
marcados: a favela e a cidade. Entendendo por cidade o ambiente

Primeira fração
ou ''tempos da escrita da miséria"
290 MEU ESTRANHO OIÀRJO A INTEGRIDADE DAS FRAÇÕES 291

de fora da fave la, n o ta -se que há um a confusão entre a lhe pôis é Toninho: os editores do Brasil não im prim e o que
problemática urbana imediata e as questões nacionais em sentido escrevo porque sou pobre e não tenho dinheiro para lhes pagar
amplo. Adhemar de Barros, político paulista é colocado, na fase porisso eu vou enviar o meu livro para os Estados Unidos. Ele
de 58, com o figura nacional dentro da fusão São Paulo/Brasil. deu-me varios endereços das êditoras que eu devia procurai-. —
Aliás, a figura de Adhemar c central para a verificação do pulso
Ele pagou o ônibus pira mim. Fiquei contente! E pedi a Deus que
político de Carolina. Se às vezes o criticava, na maioria das opor­
ajudasse o Toninho a ser feliz.”
tunidades creditava-lhe um juízo crítico favorável. Complemento
A insistência em mandar os cadernos para Nova Y o rk é
do m esmo sujeito po lítico, Carolina mostra J .K . com o uma
repelida com uma freqüência que faz pensar- em quais textos
espécie de responsável pela desarm onizado da economia. A
estariam sendo remetidos. Seriam seus diários que ainda não tinham
noção de povo como população pobre é uma constante, na mesma
a notoriedade que ganharam depois dc Audálio Dantas? Ta lv e z os
ordem em que o horror aos favelados se lhe mostra rotineiro.
romances, ou quem sabe as poesias? Difícil responder. Possível,
Curioso o mundo de Carolina! Suas preocupações políti­
porém, considerando o que assinalou no dia 12 de novembro —
cas são tão aguçadas quanto repetidas e ela não se furta dc apre­
“ queja enviei um livro para os Estados Unidos para scr submetido
sentar soluções com o o congelamento de preços e a reforma
•a apreciação do Th e Reader's Digest” — e concluía exibindo a
agrária. Algumas dc suas afirmativas soavam-lhe como proféticas
crença na realização deste sonho, como se pode ver na pergunta
e que até parecem premonições. É assim, portanto, que devemos
que ela se faz: “ quardo será que eu vou ver o livro na praça?”
registrar sua afirmativa dita no dia primeiro de novembro “ se o
c u s t o da vida c o n tin u a r s u b in d o a té 19 6 6 vam os ter: Mesmo não sendo o diário o livro enviado acxs Estados
revolução” . Vista de hoje, lembrar que em .958 uma miserável vft- Unidos, o texto contendo as anotações diárias perturbava. Seu M a ­
Supôs a viabilidade de uma revoluçã o revela alcance raro. Aliás, noel, pai de um dos filhos de Carolina e, ao mesmo tempo, com ­
a relação entre a miséria e a política é absolutamente fundamental prador de materiais catados por ela, por exemplo, queria saber a
para o bom entendimento da personalidade dc Carolina. Sem isto, todo custo o que ela faria com o resultado do texto. Sobre isto
pode-se dizer que a imagem projetada dessa G n d er d a é a dc uma ela dizia, no dia 5 de novembro, que “ele começou interrogar-me.
miserável conformada, de uma bonequinha vitima da sociedade. Quer saber se eu vcu vender o livro se vou comprar casa” . A
Ç o m isto, garante-se que uma das principais revelações que se relação amorosa de Carolina com o Sr. Manoel mostra-se de
tem da leitura dos textos integrais dessa escritora 6 sua personali­ difícil entendimento para quantos não entendem a situação viven­
dade extremamente preocupada com os acontecimentos. Mais que cia! da escritora. Há. contudo, uma passagem, gravada no dia 8
isto é a submissão de sua análise às condições econômicas ditadas de novembro, que deixa transparecer muito, diz: “ quando êle
pela política. / passa uns dias sem rir aqui, eu fico-lhe chingando. Falo quando
Há outras ponderações registradas nos diários dessa fase que êle chegar eu quero cxpancar-lhe e lhe jogar agua. Quando ele
merecem atenção. A vocação para ser autora, com livros publicados, [ chega eu fico sem ação Ele disse — ■que quer casar-sc comigo.
está presente cm passagens como as anotadas no dia 5 dc novembro Olho, e penso: este homem não serve para mim. parece um atôr
onde dizia: “ Quando cheguci no ponto do ônibus encontrei com o que vae entrar em cena... Mas, quando eu estou deitada com êle,
Toninho da Dona Adelaide Ele trabalha na Livraria saraiva. Disse- í acho que êle me serve” .
MEU ESTRANHO DlàR»0 'A INTEGRIDADE DAS FRAÇCES 293
292

lógico, os acontecimentos da vida pessoal dependiam altamente


Dramas do cotidiano como o cnfrentamento das indisci­
de sua iniciativa. D o relacionamento com os outros decorria sua
plinas do filho José Carlos, que foram acompanhadas dc uma sus­
sobrevivência bem como dc seus filhos. Carolina, vivia lendo os
pensão escolar, deixam transparecer o temperamento crítico c
companheiros de infortúnio na favela e julgando a ação de quem
ajuizado de Carolina que no dia 6 de noveipbro dizia que quando
estava fora dos limites de sua aceitação. N a mesma ordem, per­
“ frequentava escola as professoras e os diretores eram tolerantes.
cebia duas instâncias como responsáveis pela melhoria de vida
Não suspendia os alunos Disciplinava os alunos por sugestões” .
dos pobres: cm nfvcí pessoal, o trabalho\ e coletivamente o go­
Não menos trágicas eram as atitudes que tinha que vivificar no
verno como promotor do progresso.__
dia-a-dia. Entre tantas dificuldades, talvez dis mais espinhosas,
destaca-sc o caso do guarda-roupa com um colchão dentro que Vendo duas jovens faveladas, de 16 anos, que se ini­
cia ganhou e depois tinha que transportar para a favela, em um ciavam na prostituição, Carolina registra que “ a Clarisse e a Ida
carrinho de m ão. Meditando sobre este evento, no dia 8 de podiam trabalhar. Ainda não tem 18 anos são as infelizes, que
novembro ela escreveu que não unha vindo “ao mundo para es­ iniciam a vida no lôdo — A Ida é muito indolente. Não sabe ler
perar auxilio de quem quer que sêja. Eu tenho vencido tantas porque não quiz ir a escola” . E m relação ao governo, no dia 15
coisas sosinha hei de vencer isto aqui!” de novembro, deixo* gravado um diálogo que manteve com um
companheiro onde a figura de Getúlio Vargas era recuperada dc
Lenitivo para sua sobrevivência era a certeza de que man- :j
form a sintomática. A época praticava-se a dispensa de fun­
tinha ligações com o além. Carolina sustenten sempre convicção
cionários em vista cos reajustes salariais e o que se propunha é
de que os espíritos se comunicavam com ela. Saliente é a história
que os mesmos desistissem dos benefícios acumulados e, medi­
marcada no dia 5 de novembro: “ quando eu ia saindo tive aviso
que a Vera ia cortar o pé para eu calçar-lhe. pensei: eu estou com ante um acordo, recomeçassem. E m vista disto, num encontro com
Sergio, ela afirmou que "no tempo do Getúlio, não havia mar­
pressa c volto já. Depois eu calço-lhe as sandalias.” Na continui­
dade da história a escritora diz que ao chegar e ver o filho mais melada” . Esta passagem é fundamental para se perceber que em

velho aflito para contar o que havia ocorrida ela tçria declarado Carolina havia a introdução d a ideologia do trabalhisino var.-

que "já sabia. Que haría recebido o aviso” . N o dia 11 dc novem­ guista. O padrão do operário cumpridor dos deveres, não alcooli­

bro ela confirmava com o Sr. L u iz “ que sou médio intuitiva. Que zado, exemplar chefe dc família era uma espécie dc orientação

devo obedeçer os avisos que rcçêbo” . para os ajustados. À desorientação promovida pelo governo era
registrada de maneira severa como se vê na passagem do mesmo
É significativo perceber que as mensagens não eram ape­
dia ao se referir aa governo: “ dcpôis que o Jucelino entrou...
nas preventivas e que atuavam também no sentido da promoção
salve-se, quem puder” .
de melhoria imediata. Nesta linha, o impulsa recebido dia 19 de
novembro é singular pois Carolina “ não queria sair. Eslava com É fundamental que seja sublinhado o caráter político de

preguiça. T iv e aviso que devia sair” . O resultado foi altamente Carolina. Sem boa compreensão da organização do universo pre­

positivo pois ela havia conseguido uma quantidade razoável de ceptivo da escritora, seria fácil percebê-la como uma pessoa contra­

dinheiro em curto espaço de tempo. ditória ou, quem sabe, volúvel. A continuidade do diálogo com o
companheiro Sergio, sobre Vargas, dá mostras de seu temperamento:
Considerando que esta fase da rí da da escritora corres­
“ penso: porque c que os operarios não reuniram, e expancasse o
pondia ainda a sua pré-iniciação como personagem pública, por
ÍVEU ESTRANHO DIÁRIO A INTEGRIDADE DAS FRAÇÓES 295
294

destacam-sc. O s baiaix» que vem para São paulo a maioria são


l^açcrda para êles não desorientar o saudoso presidente? Se eu
saêjes e semi analfabetos. São irrisiveis e agitadores... Agora! A
fôsse o Getulio, eu queria da uma surra no Laçerda com chinelos.
favela supcrlotou-se cfc nortista — E para os paulistas êles são
6 nogento. Quem tem lingua, maior do que o pensamento.”
um povo diferente” . Há muitas outras referências ao norte e a
Os elogios ao traballK) são constantes c a repetição indica
identificação deles com o governo sem cultura é dara como se
que ela pertencia ao quadro dos que não eram preguiçosos,
nota no registro feito no dia 19 de novembro: “ será que os gover­
bêbados e prostituídos. Aliás, 6 nesta ordem que Carolina exibe
nos do Norte, são governos marca merda, que não interessa pela
seu lado moral c ético. Sem ser moralista, ela é. sem dtivida, bas^_
cultura dos nortistas? O nortista quando tem cultura c passavel.
tante rígida em face dos valores condizentes tom os bons cos­
Quando é inculto, é intolerável". N o dia seguinte ela reforça sua
tumes. P rincipalm ente a prostituição lhe era notada e com
percepção do nordestino dizendo que “ 6 um animal e a pior classe
gravidade assinalava o incesto como desgraça que, muitas vezes,
que Deus pôis no mundo. Eles como suas manias de valentia des-
concorria para a condenação da vida desregrada. N o dia 16 de
clasiifica-sc no conçêito publico” . Referindo aos ciganos declara,
novembro, d a referia-se a Clarisse c seu pai dizendo que ele
no dia 23 de novembro, que “eles são tão sujos. Dêixam os doçes
"deturpou sua vida. Entre èles, ha a ineestualidade” .
expostos as moscas e depois comem. Devido as mocinhas ficar
A noção dc seu papel na sociedade é ama constante de­
nuas os vagabundos fioam sentados perto do barracan Ohser-
terminada pela própria consciência de que era diferenciada.
vando-as — O diabo é que se alguém agredi-las os ciganos revol­
Sentindo-se poetisa. Carolina assumia a noção de que v oe (a seria
tam Mas a nudês delas excita” . Carolina conclui sua observação
sinônimo de ser triste e a este respeito sintetizou, no dia 20 de
dizendo que “ m il vezes os nossos vagabundos do que os ci­
novembro, o que sempre repetira: “ que quando oerccFi que eu era
ganos” .
poeta fiquei triste porque o excesso de imaginação era demasiado.
A visão de Carolina sobre os pretos, nesta fase, é reden­
Q ue examinei o cerebro no Hospital das Clinica Que o exame deu
tora. Ela faz várias referências que examinadas de forma ligeira
que sou calma. Que iduquei imensamente o met; cerébro. Q ue não
ou em fragmentos sugerem alienação, mas, a retomada contextua-
Mííéiàs dominar-mc. Q ue fiquei triste do despreso do
lizada de sua visão de mundo desmente isto. A referência que faz
V a o v ó A noção de ser poeta seria um aval para a res-
•no dia 20 de novembro, por éxcmplo, mostra “que os brancos do
escrever e de publicar pois seria sempre um ser
Brasil ainda continuam escravisando os pretos. U m a escravidão
amargurado devido sua capacidade crítica.
Moral — Intimidando o preto com prisão. Sobretudo quando o
N o ordenamento social de Carolina haria hierarquias. Os
preto érra e perde a fôrça Moral. Que eu procuro não errar para
¿ducados sempre seriam os alfabetizados que, afinal, teriam cul­
nào ser dominada pelos brancos. Que faço os brancos ajoelhar-se
tura c esta era a chave para o bem viver. N o final de sua hierar­
aos meus pés” .
quia estariam os nortistas, em particular os baianos, que se não
- De qualquer forma, a escritora sabia como lidar com o
alfabetizados só ficariam atrás dos ciganos. Abrindo espaço para
/ contexto que a cercava e como diz no dia 3 de dezembro, “ eu
falar especifica mente da Bahia, Carolina procede a uma análise
f sim! É que sei viver na favela. Quando é preciso ser sensata cu
que sc fundamenta na história estabelecendo q ie foi "a primeira
sou. Q uando c preciso ser louca eu sou". Prova disto é que
capital do Brasil. Q ue ja completou 458 anos. E no entretanto e
quando precisava dc socorro ia atrás da policia. Caso fosse ne-
o Estado que não dessinvolveu na Cultura. Algum ou outro se
296 MÉU ESTRANHO OlÁRO

ccssário chamava a imprensa, e até o governador, com o se nota "não nascípara ser te/eguiactí’
pelo registro feito no dia 30 dc novembro quando diz, em vista
da suspeita dc atentado ao pudor contra sua filha Vera, que ligou Com liv ro publicado, fama que lhe garantia reconhe­
para vários lugares e “ que o Audalio não estava Telefonei para o cimento nas ruas c possibilidade de emprestar dinheiro e de ter
dr. Adhemar. a linha estava ocupada. Telefonei para a Radio Pa­ crédito, a Carolina suipreendida nos tempos que cobrem dos fins
trulha atenderam-mc c mandaram eu esperar a Viatura no ponto de outubro até 19 dc novembro de 1961 é uma mulher dc fron­
do bonde” . teiras. Fronteiras psicológicas sobretudo. É a mcsina autora que
Os últimos dias desta fração do diário estão repletos de tem um disco gravado pela R C A Víctor, outro, em prova, pela
acontecimentos que culminaram no atentado sexual contra a filha. Fermata; que aparece no Programa J. Silvestre, na televisão; que
Isto rnostra o nível de preocupação que Carolina mantinha com a tem uma peça de teatro escrita sobre sua vida, viagem programada
família. Exibe também os mecanismos que desenvolveu para sua para a Argentina, empregada doméstica em casa e que, contudo,
sobrevivência. Não menos significativa é a forma com que cia acumula desilusões.
deixa registrada sua análise da circunstância que lhe foi dada para Os primeiros registros dessa época são eufóricos, com al­
viver e de como sendo inconformada — poeta — ela se esforça gumas falas cheias dc picardia, onde percebe-se alguém ora visi­
para mostrar ao mundo, através do Livro, seu sofrimento c ex­ tando, encantada, um mundo que não é o seu, ora maldizendo o
periência. Difíceis estes “ tempos da escrita da miséria” . sonhado sucesso. A c in a de tudo, ela se localiza em um espaço
que não a quer e que d a também rejeita.
As primeiras mudanças — importantes e até mesmo ca­
pazes de provocar perplexidades — remetem a duas alterações
que lhes eram marcas na fase anterior: o sistemático registro dos
dias em que escrevia t o abandono da repetida expressão deixei
o leito... C o m o se perdesse a orientação, cm alguns dias, Carolina
anunciava uma trova entrada sem clareza de datas. Não menos
curioso é notar que iniciava sua redação com novas palavras como
levantei, despertei, hoje é domingo, passei mal a noite, hoje estou
triste, hoje é dia de fêira em minha rua...
Teria mesmo Carolina mudado? Esta pergunta natural em
face das transformações visíveis, clama por respostas importantes
/

Segunda fração
ou "tempo de escrever desilusões"
298 MEU ESTRANHO DIÁRIO j A INTEGRIDADE DAS FRAÇÕES 2 99

para o entendimento tanto da autora como do contexto que a cer­ pos, eram os do passado. .Claramente a escritora — agora famosa
cava. Pode-se garantir a príori que Carolina nao mudou. O des­ — formula u rna utopia de tempo passado e nele coloca sua ter-
locamento físico da favela para a casa de alvenaria, colocou-a em nura. Num jogo simples, ela materializa o pressuposto de que o
outro cenário. Passava a ser uma personagem que se transferiu pretérito lhe era mais conveniente, pois nele o campo, a pureza
materialmente, mas, com a mesma visão de mundo. Aliás, nem dos pobres que viviam na agricultura e sobretudo a ausência dc
poderia ser de outra forma para uma pessoa que se valia da letra ganância, que marcaria o espaço urbano c seus habitantes, eram
escrita para gravar suas agruras. São dela própria, no dia 1 de condições de uma felicidade que nãó mais voltaria. Ncste sentido
novembro dc 61, as seguintes palavras: “ cheguei a conclusão, que é que na entrada do dia 3 de novembro ela diz, na chuva, “que
sc um pobre fica rico, a alma continua pobre. E $e um rico ficar quando eu traballiava na lavoura as vêzes não tínhamos tempo de
pobre a alma continua rica” . Este delcnniniimo, complexo por chegar no rancho c molhavamos todo. Bom tempo. E u nao conhe­
certo, a aturdia pois, mesmo sabendo-se poeta, como dizia, os si­ cia o mundo que é habitado pelos vermes humanos Hojc cu cstou
nais da pobreza material não se apagaram, nem se apagariam. triste. E que não vivo como desêjei” . É nesta perspectiva que
U m fator agressivo neste caminho c a ênfase dada às Carolina escolhe seus passeios voltando às ruas onde catava papel,
tristezas. Grande parte de sua escrita, nesta fase, destila mágoa e indo à favela ou visitando seus amigos antigos.
desencantamemo. A questão do amor tamben reponía, tanto le­ A maior prova do desajuste de Carolina com seu novo
vantado por ela com o por alguns repórteres, cm particular por mundo decorre do amer que declara ter por Luiz. Ele, alguém do
tupa do Jornal do Brasil, Silvia Donato, que insiste, em entrevista, "m undo de cá” , não se ajusta às condições que ela queria. Caro­
cm saber dc sua vida pessoal, afetiva. Grande parte dcslc frag­ lina, contudo, como sempre, coloca a público o seu sentimento e
mento é dedicado às peripécias da viagem que faz a Argentina. até os filhos participam desta aventura que acaba evaporando com
A consideração que tem de Audálio Dantas também vacila entre o desaparecimento do próprio amado. As marcas do mau gênio
a admiração c agradecimento e um descontenramento cresccntc e da ex-favelada revelara-se no tratamento que dispensa ao rapaz
amargo. que não a quer. N o dia 28 de outubro cia mesma confessa que é
A noção de tránsito social transparece com ênfase nesta bruta quando se vê contrariada e de tal forma deve ter sido vio­
fase. Com o ficava evidente, Carolina havia mudado de status so­ lento o rom pim ento dos dois que escreve: "disse-lhe outras
cial, de aparências, e isto lhc valia reflexões importantes como as palavras duras que nâc vou inclui-las no Diario” .
marcadas em citações como “ eu sou um tipo que saiu do lixo do Sua presença no mundo dos ricos significava participação
quarto de despejo". Esta consciência fica destilada na prática da no universo dos brancos. Faces antagônicas da mesma moeda,
definição de períodos e etapas da vida, como se percebe em 3 de para Carolina havia um fascínio e um ódio nesse empreendimento.
novem bro quando ela declara: “já fui lavadora, do m é stica Se por um lado, gozava o prazer de poder dispor de alto-nativas,
catadeira dc papel, c agora sou escritora” . Imeressa notar que os pea: outro, a cada desilusão recriava o idílico momento do sonho
elementos definidores de sua trajetória são equivalentes a estágios passado. Vezes havia em que criava ilusões que multiplicava com
p ro - fissionais. os demais. O caso do convite feito a Adoniran Barbosa para par­
A par das mudanças operadas em vista dos ganhos bem ticipar dc um filme que faria na Argentina ilumina este traço da
maiores, nota-se que para Carolina, o mundo melhor, os bons tem- personalidade dela. As constantes recusas, sempre feitas como
300 MEU ESTRANHO DIÃBO A INTEGHDADE DAS FRAÇÕES 301

ameaças, de que não iria mais para a Argentina caso não lhe fosse teleguiada. É exatamente aí que se situa o limite de Carolina. A
dada uma quantia para comprar alimentos para os filhos, servia expressão material deste desajuste decorre da falta dc controle so­
de válvula de escape para um medo que ela mesma acabou por bre o dinheiro que entrava. Muitos dos problemas de incompati­
confessar, no dia 9 de novembro, a um interlocutor que encontra bilidade com os companheiros de jornada eram desdobramento da
na rua. Dizendo que não ia mais para a Argentina justificava-se forma de administração do resultado financeiro, que afetava a to­
com a seguinte saída: “ eu desisiti. Não tenho cultura para mesclar dos. Acostumados com o trato de dinheiro, os “ brancos” sabiam
com os estudantes de outros paizes” . como atuar. Ela, pelo seu lado, padecia as alterações de espaço e
N a realidade seu grande sonho era esta viagem c foi nela. tempo c. mais que isto, o descontrole do capital.
pode-se dizer, que se deu o momento de glória de uma Cinderela Por não aceitir scr mandada, por lutar desbragadamente*
que, por fim, acabava por conferir que seu livro serviu de referen­ para scr quem achava que era, a escritora se indispôs com o
cial para que os próprios argentinos entendessem que também ti­ mundo. Jamais compreendeu que seus promotores tinham um
nham suas favelas. N o lo ngo relato que faz no dia 19 de modelo de escritora e ela mesma refutava as alternativas dc trans­
novembro, depois de se glorificar pelo sucesso de seu livro, de­ formação dc seu temperamento.
clara, através da palavra de um de seus anfitriões, que foi por O posiciona trento político dc Car din a sc manteve Con­
intermédio dc seu texto **quc as favelas da Argentina ficãiauí co­ tinuava admirando AdJiemar de Barros c apenas acrescenta um novo
nhecidas por V ila Miseria” . Antes, com euforia, registrara que a nome cm sua lista: L b n el Brizpla. N o mais, se mostrava contra a
mesma pessoa garantia “ que V ila Miseria Também e America” . Igreja conservadora, sentia-se aproximada dos comunistas e man-
Vaidosa, decepcionada com os pares que a promoveram \ tinha-se defensora dos negros como- se-vê na entrevista dada na
e com a imprensa, seu maior drama material transparece neste Argentina c registrada no dia 19: “ os pretos do Brasil não sabem
período. Incerta emocionalmcntc, sem bem compreender as regras que são pretos porque os brancos não mencionam a nossa côr” . É
do sucesso imediato, Carolina foi vítima dupla: de si mesma e, claro que ao falar no exterior, Carolina não se furta de deixar uma
principalmente, da imprensa. Ela julgava-se — e vivia como tal imagem positiva do país. Nesta mesma fala ela diz que não há
— _scnhora dc missão sagrada, de ser uma intelectual que pensava preconceito racial no Brasil c “que os brancos do Brasil são muito
o mundo. Esta tarefa lhe exigiría tormentos que a levavam a acei­ bons c da oportunidade aos pretos para desinvolvcr-sc” .
tar a infelicidade como regra. A o mesmo tempo lhe conferia vir­ Finalmente, considerando esta fase, podc-sc perceber que
tudes exageradas de inteligência. A beleza também lhe seria os desajustes causados pela fama e p>elo sucesso agravaram e
atributo e todos se veríam fascinados pelos seus dotes.
r Na lista dos aspectos que perduram, para Carolina, fica
claro que os velhos estereótipos do tipo “ os políticos são maus é
I muito os problemas pessoais dc Carolina Maria de Jesus. Mas, ao
mesmo tempo, revelaram que seu sucesso, no Brasil, seria cir­
cunstancial e portanto a colocaria em questão. Esta conclusão
culpados” , “ os livros sào bons educadores” , “ os homens são serve para se pensar no contexto jornalístico c no tecido cultural
volúveis” , resistem e mantém-se como referenciais dc sua visão que amparava um caso como este. Mais: vale também para que
de mundo. A materialização de sonhos — como o da casa própria, pensemos no sentido da retomada hoje desse momento que, para
de alvenaria — , lhe soa como um preço que tem que pagai- para Carolina, foi um “tenpo de escrever desilusões” .
viver mais dignamente. Isto, porém, tem um custo fatal: ser
A INTEGRIDADE OAS FRAÇÔEÍ 303

" Levantei pensando nos espinhos que a gloria nos reservd’ As reclamações quanto ao abusivo custcuídc vida são a
constante maior dos registros dos diários. NO dia^áí de setembro
ela assinalava: “ eu não posso pagar empregada” . Por esses dias,
escrita cíe Carolina neste tcrcciro período é nervosa e
Carolina estava doente e devia dinheiro para várias pessoas, in­
por dentáis tensa. $eus registros cuidam, nesta fase que vai de 21
clusive para uma feirar.te que foi visitá-la. Tratava-se de um total
de setembro de 1962 a 18 de dezembro de 1963, de dar mostras de 14.000,00 que havif. contraído na aquisição de roupas para os
de saniração da aventura de escritora. Período conturbado este era
filhos. Replica deste procedimento é o registro de 9 dc dezembro
que a vida de Ca rolina e de seus filhos é atormentada por
de 62 onde dizia: “ hoje estou triste. Não tenho dinheiro para com­
mudanças sociais. cf mais do que .d a s , pcla .-aoção das .io.viabili