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Ética e poder na sociedade da informação

Espaço Aberto

Ética e poder na sociedade da informação;


revendo o mito do progresso*

Gilberto Dupas
Universidade de São Paulo, Grupo de Conjuntura Internacional

Apesar de ter sido um período de excepcionais considerações de natureza ética, social ou de políticas
conquistas da ciência, o século XX não terminou bem. públicas. As conseqüências foram, dentre outras, o
Muitas são as razões para esse estranho paradoxo. O aumento da concentração de renda e da exclusão so-
vazio e a crise pairam no ar. Sente-se um mundo frag- cial, o perigo de destruição do habitat humano por
mentado, seu sentido se perdendo nessas fraturas, com contaminação e a manipulação genética ameaçando o
múltiplos significados e contradições. Juntas, ciência patrimônio comum da humanidade.
e técnica não param de surpreender e revolucionar. Fernand Braudel desafiou-nos a deixar por um mo-
Mas, esta ciência vencedora é simultaneamente mento a transparente economia de mercado e acompa-
hegemônica e precária. O capitalismo global apossou- nhar o capital até o andar de cima, no qual ele se en-
se por completo dos destinos da tecnologia, libertan- contra com o poder político. Lá, acreditava que
do-a de amarras metafísicas e orientando-a única e descobriríamos o segredo da obtenção dos grandes e
exclusivamente para a criação de valor econômico. sistemáticos lucros que permitiram ao capitalismo pros-
Transformados em fator fundamental na disputa dos perar e expandir-se continuamente durante mais de qui-
mercados e na acumulação capitalista global, os vetores nhentos anos. Hoje a questão tornou-se mais comple-
tecnológicos autonomizaram-se definitivamente de xa. O andar de cima potencializa a acumulação pela
revolução da tecnologia da informação e pela possibi-
lidade de fragmentação das cadeias produtivas globais.
* Texto-síntese do livro Ética e poder na sociedade da in- Parte significativa dos cientistas nos laboratórios de
formação; de como a autonomia das novas tecnologias obriga a pesquisa internacionais atualmente se dedica ao de-
rever o mito do progresso, publicado pela Ed. Unesp, referência senvolvimento de tecnologia para as grandes
para a exposição do autor no GT Sociologia da Educação, durante corporações globais, que, se de um lado respondem a
a 24ª Reunião Anual da ANPEd, realizada em Caxambu-MG, de 7 demandas do mercado, de outro têm a obrigação de
a 11 de outubro de 2001.
eleger a taxa de retorno do investimento dos seus acio-

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nistas como critério central na definição de seus obje- Com a tecnologia da informação, nunca a tirania
tivos. Se a conseqüência desse desenvolvimento for, das imagens e a submissão ao império das mídias fo-
por exemplo, um maciço aumento do desemprego por ram tão fortes. A vida nas sociedades contemporâneas
conta da radical automação, este ônus passa a ser trans- apresenta-se como uma imensa acumulação de espe-
ferido para a sociedade, tenha ela ou não estrutura para táculos. Guy Debord afirmava que a dominação da eco-
lidar com a questão. nomia sobre a vida social acarretou uma degradação
As redes globais constituem a nova morfologia do “ser” para o “ter” . Em seguida, operou-se um des-
social na era da informação, controlando o estoque de lizamento generalizado do “ter” para o “parecer-ter” .
experiência e poder. Diferentes tipos de redes, soma- Às grandes massas excluídas da sociedade global só
dos à vanguarda da internet, garantem a vinculação resta o identificar-se por meio do espetáculo global,
entre a produção da ciência e os espaços de seu uso. instantâneo e virtual. Programas de auditório substi-
São redes os fluxos financeiros globais; a teia de rela- tuem os tribunais, propiciando julgamentos e proces-
ções políticas e institucionais que governa a União sos públicos de conciliação; e garantem, como na lote-
Européia; o tráfico de drogas que comanda pedaços de ria, a esperança do resgate da exclusão através da
economias e sociedades no mundo inteiro; a rede glo- visualização do prêmio do outro, ou o sonho do seu
bal das novas mídias, que define a essência da expres- fugaz minuto de glória.
são cultural e da opinião pública. As novas tecnologias geram produtos de consu-
A atual posição hegemônica dos EUA é alimen- mo radicalmente novos. O telefone celular e a internet,
tada pela superioridade tecnológica e pela capacidade símbolos da interconectividade, passam a ser condi-
para irradiá-la e impô-la ao resto do mundo. É essa a ção de felicidade. O homem volta a ser rei exibindo a
principal diferença deste longo ciclo virtuoso em rela- sua intimidade com a mercadoria ou identificando-se
ção a muitos outros lá ocorridos desde o final da Se- com os novos ícones, os heróis da mídia eletrônica
gunda Guerra Mundial. No início deste novo século, transformados eles mesmos em mercadoria ou identi-
com emergência extremamente rápida da Internet e do ficados com marcas globais.
comércio eletrônico, os norte-americanos vêm expe- Em meio às turbulências pelas quais passam as
rimentando ainda maior aceleração das inovações em sociedades contemporâneas, duas esperanças parecem
direção ao aumento da produtividade e da taxa de acu- acalentar os sonhos dos homens. A primeira, é que a
mulação de suas grandes corporações. sobrevivência da humanidade como espécie esteja ga-
Na pós-modernidade, a utopia dos mercados li- rantida. No entanto, a existência humana dependerá
vres e da globalização torna-se a referência. Ciência e de sermos capazes de estabelecer contratos de longo
técnica juntas não param de surpreender e revolucio- prazo com nosso futuro. Se destruirmos frágeis equilí-
nar. Mas esta ciência vencedora é simultaneamente brios em nome do que chamamos progresso, nem nós
hegemônica e precária. A instituição religiosa se enfra- sobraremos. A segunda, é que em algum momento do
quece, os deuses distanciam-se e apagam-se, o indiví- futuro uma parte razoável dos seres humanos possa
duo encontra-se mais livre para negociar suas crenças. atingir uma qualidade de vida semelhante ao atual pa-
O paradoxo está em toda a parte. A capacidade drão do cidadão médio norte-americano ou europeu.
de produzir mais e melhor não cessa de crescer. Pa- Isso hoje já exigiria os recursos naturais de mais dois
ciência que tal progresso traga consigo piora na distri- planetas iguais ao nosso. Cada avanço tecnológico é
buição de renda e trabalho precário. As tecnologias da uma espécie de prótese artificial, dependente de avan-
informação encolhem o espaço. O mundo da perfor- çado know-how e intensa administração, introduzindo
mance cultua o otimismo. Por outro lado, cresce o sen- riscos no longo prazo. Somos uma família que dissipa
timento de impotência diante dos impasses, da insta- irrefletidamente seu parco patrimônio e que depende
bilidade, da precariedade das conquistas. Encantamento cada vez mais de novos conhecimentos para se manter
e desilusão alternam-se. viva. De fato, se hipoteticamente retiramos a eletrici-

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dade de uma tribo de aborígenes australianos, quase jeto partiam da certeza de que qualquer uso militar da
nada acontecerá. Se o fizermos aos moradores da bomba seria precedido de ampla consulta democráti-
Califórnia, milhões morrerão. ca. No entanto, essa foi tomada por um único homem,
Perseverança, domínio de si, curiosidade, flexi- Truman, considerado por muitos como um político de
bilidade e improvisação, valores que os antigos ensi- tradição humanista.
navam às crianças pelos ritos, são hoje substituídos Os custos sociais acarretados pela mudança nos
por velocidade, lógica e razão. Abre-se uma brecha padrões tecnológicos aparecem como inevitáveis.
entre as gerações. Para os mais jovens, participam da Embora abra novos domínios ao poder criador e à ati-
natureza das coisas o efêmero, o novo e as modas, a vidade dos homens, a técnica a serviço do capital é
mudança e a precariedade, a rapidez e a intensidade, a uma devoradora de trabalho: ajuda a suprimir empre-
descontinuidade e o imediato. A urgência destrói a gos, em vez de criá-los. Tudo se passa como se a téc-
capacidade de construir e esperar. Bombardeado pela nica se tornasse uma potência longínqua que designa
mídia eletrônica que associa a felicidade ao consumo os “sacrificados” nas sociedades da pós-modernida-
de marcas globais, o jovem excluído – receptor exata- de. Agora a ciência é o centro; e o cientista, o sumo-
mente da mesma mensagem que o incluído – tem como sacerdote. A filosofia foi expulsa para a periferia. “Sa-
alternativas conseguir a qualquer preço o novo objeto ber fazer” afastou o “por que fazer” . O cientista atual
de desejo ou recalcar uma aspiração manipulada pelo tem olhos para a realidade, enquanto o filósofo atual
interesse comercial. só tem olhos para o cientista e tende a sucumbir toma-
As grandes redes da mídia eletrônica, através da do de inferioridade diante do sucesso da ciência. O
difusão contínua dos acontecimentos do mundo, intro- técnico aspira tornar-se um deus cibernético. Tecnolo-
duzem uma seqüência ininterrupta de imagens e men- gias da informação e automação estão hoje presentes
sagens em que o tempo se dissolve, o sentido que as em todos os lugares. Compõem as cenas da vida coti-
liga desaparece e sobra apenas um encadeamento de diana, instaladas em nossa intimidade. São filhas do
caráter espetacular. É o reinado do flash, do spot, do desejo, parceiras ambíguas e desconcertantes. Operam
clip, que concentra o tempo, converte a brevidade em com autonomia e podem se perverter, tornar-se nefas-
intensidade, faz do instante emocional um momento tas e agredir o próprio homem.
central. A tradição filosófica há muito questiona a
As novas tecnologias têm sido legitimadas pelos inevitabilidade da transformação dos avanços da ciên-
impressionantes resultados de alguns dos seus êxitos, cia em técnica e a própria lógica da investigação cien-
fazendo-as adquirir uma auréola mágica e determinista tífica. Os deterministas atribuem a Martin Heidegger
e colocando-as acima da razão e da moral. A razão achar ser preciso levar a técnica até seu ponto máxi-
técnica teria sua lógica própria e um poder sem limi- mo, porque “lá onde está o perigo, também viceja o
tes. Uma vez que matamos os deuses, por que não acre- que salva” . No entanto, para a ética de Aristóteles, o
ditar nos magos da ciência que nos prometem a felici- que constitui o sentido da existência humana não é o
dade e a vida eterna? Posições de cautela com relação domínio, mas o conhecimento. A moral seria o con-
a alimentos transgênicos, objeções éticas quanto aos junto de ações pelas quais o homem prudente, impreg-
imensos riscos da manipulação genética e reações con- nado de razão, dá forma a sua existência. Somente esse
tra o desemprego gerado pela automação radical, tudo comportamento ofereceria a garantia de que o homem
é encarado como posição reacionária de quem não quer não destruísse a si mesmo. Já para Karl Jasper “é da
o progresso. No entanto, o primeiro teste nuclear no responsabilidade das nossas decisões e dos atos hu-
deserto do Novo México incluía o risco de uma reação manos que o futuro depende” . E, para Jürgen
em cadeia que poderia gerar um incêndio incontrolável Habermas, o saber não pode, enquanto tal, ser isolado
em toda a atmosfera; por seu lado, os cientistas do pro- de suas conseqüências.

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As novas tecnologias na área do átomo, da infor- dividual, ou pô-la em perigo, mas não a da humanida-
mação e da genética causaram um crescimento brutal de futura, transformada em norma e ponto de referên-
dos poderes do homem, num estado de “vazio ético” cia; devemos nos encarregar da humanidade futura que,
no qual as referências tradicionais desaparecem e os no entanto, não poderá fazer nada a nosso favor. Há
fundamentos ontológicos, metafísicos e religiosos da uma não-reciprocidade no imperativo de Jonas que se
ética se perderam. Quais os critérios atuais para defi- constitui em seu elemento característico, como na res-
nir se uma lei é justa? No momento em que as ações ponsabilidade relativa ao filho; ou na responsabilida-
do homem se revelam grávidas de perigos e riscos di- de do homem de Estado que, mesmo movido pelo gos-
versos, estamos precisamente mergulhados nesse to do poder, deveria objetivar o futuro da humanidade.
niilismo que, se de um lado origina a crise atual da Os filósofos pragmatistas fornecem-nos uma al-
ética, ao mesmo tempo gesta os novos valores da pós- ternativa radical a essa visão impregnada da ética e da
modernidade. moral de Kant e Platão. É a perspectiva, e não o ponto
Em que medida o prolongamento da vida, por final, que lhes importa. Os pragmatistas não acredi-
exemplo, é desejável? Quem deve se beneficiar dele? tam que haja um modo como as coisas realmente são.
A espécie tem algo a ganhar com isso? Para Por isso, querem distinguir o propriamente moral do
Kierkegaard, a morte, levada a sério, é uma fonte de meramente prudente. Como distinguir moralidade de
energia sem igual, estimula a ação e dá sentido à vida. prudência? Platão ensinou ao Ocidente a distinção en-
Já o controle do comportamento pelas drogas, as inter- tre razão e paixão como sendo análoga à distinção en-
venções no cérebro, a terapia comportamental progra- tre universal e individual ou entre ações altruístas e
mando a ação humana e as manipulações genéticas ações egoístas. Os pragmatistas preferem rejeitar esse
envolvem profundos perigos que afetam a identidade dilema maniqueísta.
pessoal. Para estas questões vitais a ética tradicional Não há nenhuma razão para se pensar que as cren-
não tem qualquer resposta. ças que justificamos com maior facilidade sejam as
Hans Jonas, aluno de Husserl e de Heidegger, lem- que têm maior probabilidade de serem verdadeiras. Nós
bra-nos que, pela primeira vez na história da humani- não precisamos de um objetivo chamado verdade para
dade, as ações do homem parecem irreversíveis. E nos nos auxiliar nisso. Seria necessário ter o que Putnam
remete ao “princípio da responsabilidade” , já enun- chamou de uma “perspectiva do olho de Deus”. Se tal
ciado por Platão, que governa a ética e a moral, tor- tribunal não tivesse esse poder, sempre restaria a pos-
nando cada um responsável por seu destino. Instigado sibilidade de que fosse tão falível quanto o que julgou
pelo potencial destruidor das novas tecnologias, Jonas Galileu.
introduziu a idéia de uma humanidade “frágil” e “pe- Filósofos como William James, Friedrich
recível” , perpetuamente ameaçada pelos poderes de Nietzsche, Donald Davidson, Jacques Derrida, Hilary
um homem que se tornou perigoso para si mesmo, cons- Putnam, John Dewey e Michel Foucault esforçaram-se
tituindo-se agora em seu próprio risco absoluto. Seu por livrar-se dos dualismos metafísicos que a tradição
novo princípio da responsabilidade corresponde a um filosófica ocidental herdou dos gregos: as distinções
minimalismo ético, um esforço de conciliação entre os entre essência e acidente, substância e propriedade,
valores e interesses. A ética de Jonas rediscute os ideais aparência e realidade. Os pragmatistas tentam resol-
de progresso e explora as facetas de um futuro longín- ver essa questão afirmando que a utilidade é a meta da
quo, pelo qual somos responsáveis, e cria um novo investigação, não a verdade.
imperativo: “aja de modo que os efeitos de tua ação Para Dewey a única coisa especificamente humana
sejam compatíveis com a permanência de uma vida é a linguagem. Mas a história de como passamos dos
autenticamente humana sobre a terra” . grunhidos e cutucões dos neandertais aos tratados fi-
Temos o direito de arriscar nossa própria vida in- losóficos alemães não é mais descontínua que a histó-

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ria de como passamos das amebas aos antropóides; e de sua cultura, informado por seus valores e éticas.
desenvolve-se num contínuo a partir da evolução bio- O vetor tecnológico pode ter o rumo que a sociedade
lógica. Numa perspectiva evolucionista, não haveria humana desejar, se for capaz de organizar-se em fun-
diferença entre aqueles grunhidos e os tratados filosó- ção dos interesses da maioria de seus cidadãos.
ficos, salvo uma diferença de complexidade. Em sua O problema maior em recuperar o controle sobre
visão, os filósofos que fizeram distinções incisivas en- a ciência – a partir de novos referenciais éticos – é que
tre razão, e experiência, ou entre moralidade e pru- o Estado nas sociedades pós-modernas continua em
dência, procuraram transformar uma importante dife- fase de desmonte. Seus antigos papéis já não são mais
rença de grau numa diferença de tipo metafísico. possíveis, seus novos papéis ainda não estão claros.
Será que esses conceitos dos filósofos pragmatis- Os partidos políticos e lideranças mundiais estão en-
tas podem nos fazer prescindir da idéia de que desen- volvidos em clara crise de legitimidade, seja pela
volvimentos científicos ou políticos requerem “funda- dissonância crescente entre discurso e práxis, seja pela
mentações filosóficas” para evitar que se tornem crescente influência do poder econômico nos proces-
perversos? E que devemos suspender o juízo a respei- sos democráticos, tornada pública pelas amplas denún-
to da legitimidade de inovações culturais até que os cias de corrupção. Como conseqüência, os Estados-
filósofos as tenham reconhecido como autenticamente nacionais e seus partidos políticos enfraquecem sua
racionais? O vanguardismo filosófico comum a Marx, condição de legítimos representantes das sociedades
Nietzsche e Heidegger – a ansiedade de renovar tudo civis, o que nos remete à questão da representativida-
de uma só vez e insistir que nada pode mudar a não ser de das democracias nas sociedades pós-modernas.
que tudo mude – deve ser uma das tendências filosófi- É preciso, pois, aprofundar a discussão a respeito
cas contemporâneas a serem desencorajadas? E que do papel indutor e regulador do Estado, isto é, se cabe
dizer da insistência de que nada pode mudar a não ser a ele – ou à sociedade civil através dele – definir pa-
que nossas crenças filosóficas mudem? drões éticos que condicionem a aplicação das técnicas
Pragmatistas como Rorty pensam no progresso e o exercício de hegemonias delas decorrentes. A bus-
moral mais como o processo de costurar uma imensa, ca de uma nova hegemonia da sociedade civil sobre a
policromática e elaborada colcha de retalhos do que qual seja possível reconstruir um Estado apto a lidar
como alcançar uma visão mais clara de algo verdadei- com os desafios da sociedade pós-moderna pressupõe
ro e profundo. Gostariam de substituir as metáforas rever a idéia de progresso, sem abrir mão de que os
tradicionais de profundidade e elevação por metáforas povos devam ter direito aos benefícios da ciência e
de alargamento e extensão; ir minimizando uma dife- das técnicas.
rença de cada vez: a diferença entre cristãos e muçul- O saber é o fator mais importante na competição
manos em certo vilarejo na Bósnia, a diferença entre mundial pelo poder. No entanto, o direito de decidir
negros e brancos em uma certa cidadezinha do sobre o que é verdadeiro não é independente do direito
Alabama, a diferença entre gays e heterossexuais em de decidir sobre o que é justo. Por outro lado, os parti-
uma certa congregação religiosa em Quebec. dos, as instituições e as tradições históricas estão per-
Voltando à questão da técnica, os partidários da dendo sua força. A finalidade da vida é deixada a cada
sua autonomia argumentam com sua neutralidade, um cidadão, cada qual entregue a si mesmo, mesmo sa-
atributo básico de inocência que a tornaria imune a bendo que este “si mesmo” é muito pouco.
critérios maniqueístas de “bom” ou “ruim” . No en- Quem decide, afinal, o que é verdadeiro em ciên-
tanto, a aliança dos espaços sociais com as técnicas se cia? Quem tem o direito de decidir pela sociedade? No
negocia continuamente, requer cidadãos esclarecidos, mundo pós-moderno, as técnicas obedecem ao princí-
vigilantes e críticos, não consumidores fascinados. A pio de otimização das performances: aumento do
tecnologia é uma produção do livre-arbítrio do homem output; diminuição do input. O objetivo não é o ver-

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dadeiro, ou o justo, ou o belo, mas simplesmente o mais Talvez o caminho seja, como queria Gramsci, in-
eficiente. O que está em questão não é a verdade, mas duzir uma reforma intelectual e moral que legitime as
o desempenho, ou seja, a melhor relação input/output. direções do progresso; ou, quem sabe, reabilitar o prin-
O Estado ou a empresa abandona a legitimação social cípio platônico da responsabilidade, pelo qual Jonas
pelo único discurso aceito pelos financiadores do mun- pretende garantir a sobrevivência da humanidade; ou,
do pós-moderno: a busca do lucro. Não se investe em ainda, como imaginam os pragmatistas, ir tecendo pou-
cientistas, técnicos e equipamentos para saber a ver- co a pouco uma trama na esperança de produzir um
dade, mas para aumentar o poder cuja eficiência legi- futuro que clareie as idéias dos homens em relação
tima a ciência e o direito. aos conflitos que impedem uma verdadeira democra-
Habermas acha que Marx, Kierkegaard e o prag- cia de massas. De qualquer forma, seja por moral, res-
matismo americano foram as respostas à questão de ponsabilidade ou prudência, é preciso buscar condições
Hegel: “Como podemos transformar o presente num para que uma nova hegemonia mundial, que inclua, mas
futuro mais fecundo?” . Rorty vê os filósofos como não se constranja ao capital, possa construir um mundo
intelectuais típicos da mudança. Seu papel seria prin- melhor, utilizando-se dos avanços da ciência em bene-
cipalmente mediar e propiciar processos de transição. fício da grande maioria de seus cidadãos.
Em vez de ver a filosofia auxiliando no conhecimento,
ele quer vê-la auxiliando-nos nessa transformação. É GILBERTO DUPAS é coordenador geral do Grupo de Con-
o que ele acha que os apaixonados advogados da uni- juntura Internacional da Universidade de São Paulo (Gacint/USP)
ficação européia estão buscando na possibilidade de e professor da Fundação Dom Cabral, junto ao European Institute
uma grande república federal tolerante e pluralista para of Business Administration - Insead (França) e à Northwestern
com seus cidadãos, na esperança de que seus netos University - Kellogg (EUA). Foi coordenador da área de Assuntos
pensarão em si mesmos em primeiro lugar como euro- Internacionais do IEA/USP e membro de seu Conselho Deliberativo.
peus, e só depois como alemães ou franceses. Seria a Conduz estudos, pesquisas e seminários sobre questões políticas,
emergência de uma democracia de massas. No entan- econômicas e sociais afetas à globalização. Publicou, entre outros

to, para os pragmáticos, o caminho que leva a essa livros: Economia global e exclusão social (Paz e Terra, 3ª ed. em
2001); Ética e poder na sociedade da informação (Unesp, 2000);
democracia é a progressiva tarefa de persuadir homens
Hegemonia, estado e governabilidade (Senac, 2002) e o roman-
e mulheres a serem livres. Esse seria o derradeiro pa-
ce Retalhos de Jonas (Paz e Terra, 2ª ed. em 2001). E-mail:
pel do filósofo.
gdupas@uol.com.br

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