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ÉTICA DE ENFERMAGEM

Compilação dos
apontamentos das aulas com
a documentação fornecida
pela equipa docente

Realizado por:

Inês Correia

Ano letivo

2019-2020
Universidade Católica – Mestrado em Enfermagem Médico-Cirúrgica: A pessoa em situação crítica

ÍNDICE

1. A ÉTICA COMO MODO DE O SER HUMANO SE CUMPRIR NO AGIR


PESSOAL ......................................................................................................................... 3
2. O PROCESSO DE DECISÃO CONSIDERANDO A BONDADE DOS FINS
PRETENDIDOS E A JUSTIFIAÇÃO DOS MEIOS ESCOLHIDOS ........................... 11
2.1 Abordagem às questões éticas atuais e resolução de problemas éticos de
enfermagem ................................................................................................................ 14

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1. A ÉTICA COMO MODO DE O SER HUMANO SE CUMPRIR NO


AGIR PESSOAL

A Enfermagem
tem um corpo de Agir Próprio Ética Própria
atuação próprio

Ética de Enfermagem – reflete o agir ético do enfermeiro e quais os seus princípios

ÉTICA

Não é obrigatória
contrariamente ao direito,
Parte/dimensão componente Não se interessa sobre o que
deontologia e moral, pois
da filosofia que reflete o agir eu pensei/senti, ocupa-se
estes têm uma dimensão
humano sobre o que eu faço
sócio-cultural. A Ética é mais
restrita e tem mais regras

"Utilizo a Ética para refletir o


meu agir. Se quiser analisar o
Dá-nos valores e princípios
agir ético processo valores e
para analisarmos as ações
princípios para orientar o meu
agir"

Agir – conjunto de ações; é o que eu faço

Ação – aquilo que o ser humano faz após tomar uma decisão

Ato – ações que o ser humano faz porque decidiu, trata-se de um comportamento
reflexivo

Fato – aquilo que acontece sem eu decidir

A Ética não se ocupa de fatos, mas sim ações ou atos


"Daquilo que eu faço porque decido fazer"

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Princípio – é uma verdade que tomo como minha e oriento as minhas ações com base
na mesma. É aquilo que rege a minha conduta, é o gerador da norma

Valor – conceito filosófico trazido para a Ética e o qual se baseia em princípios. Está
num nível mais subjetivo. Dá indicação concreta para a realização da ação. Os valores
da pessoa são seus quando esta “os chama a si”, ou seja, são pessoais. No entanto,
podemos usar valores comuns a diversas pessoas, são universais. Os valores que estão
relacionados com a profissão são obrigatórios, porque constam na Deontologia

Moral – conjunto de princípios e valores próprios de uma cultura. É a minha conduta

Deontologia – tem como objeto do seu discurso o “a fazer”, aquilo que, por dever, se
nos impõe como tarefa indeclinável. Estudo ou tratado dos deveres próprios de uma
determinada situação social

ÉTICA DE ENFERMAGEM

ÉTICA EM ENFERMAGEM

A Enfermagem tem uma ética própria. A ética de enfermagem tem princípios e


valores que estão referenciados na literatura e que constam na Deontologia. Os
enfermeiros têm um agir próprio e agem de acordo com as necessidades do doente, ou
seja, respeitar o princípio da Beneficência → é o privilegiado no que diz respeito ao
Princípio da Ética de Enfermagem.

ÉTICA DE ENFERMAGEM

BIOÉTICA

Bioética – é a ética da vida, ou seja, é o agir humano sobre a vida. Aplica-se na


enfermagem porque também somos uma ciência da vida

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Respeito pela autonomia Beneficiência

Princípios da
Bioética

Não-Maleficiência Princípio da Justiça

Deontologia Profissional de Enfermagem

É o conjunto de normas jurídicas, cuja maioria tem conteúdo ético e que regulam
o exercício de uma profissão. Trata de garantir o bom exercício da profissão aliando-se
aos princípios éticos e à sua própria regulamentação. Visa disciplinar uma atividade
profissional e estabelece regras para a sua vivência.

Princípios gerais do artigo 99º

1. As intervenções de enfermagem são realizadas com a preocupação da


defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana e do enfermeiro

 As intervenções de enfermagem têm como base a defesa da liberdade, ou


seja, do poder de o ser humano decidir, que coexiste com a liberdade dos
outros. Em enfermagem a minha liberdade é uma liberdade dentro do agir
profissional. O enfermeiro tem o dever de respeitar os outros e
simultaneamente o direito a ser respeitado

 A liberdade do enfermeiro é agir tendo em conta o que é melhor para a


pessoa desde que não ultrapasse os limites da sua consciência

 O enfermeiro tem o direito de não fazer aquilo que a pessoa quer porque está
no direito da sua liberdade – Objeção de Consciência. Contudo, a minha
própria liberdade pode estar condicionada exatamente porque coexiste com
outras liberdade, como por exemplo em situações de urgência, que me
obrigam a agir independente da minha consciência

Respeito pela dignidade humana – valor autónomo e específico inerente ao ser


humano, em virtude da sua personalidade. Sendo um princípio da ética é assumido
como um princípio moral e está consagrado na Constituição Portuguesa

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Dignidade humana

 Princípio que fundamenta todos os direitos do ser humano


 Está presente inequivocamente em todas as decisões e intervenções
 Respeitamos a dignidade do ser humano na medida em que respeitamos os seus
direitos. Os direitos atribuem-se e retiram-se por lei, ao contrário da dignidade
que não se retira ou atribui, é inerente ao ser humano
 O exercício da responsabilidade profissional deverá ter em conta reconhecer e
respeitar o caráter único e a dignidade de cada pessoa envolvida
 O que carateriza a pessoa e a dota de dignidade é exatamente ser um fim em si
mesmo e nunca um meio ou instrumento de vontade
 O ser humano, enquanto sujeito moral possui dignidade absoluta

3. Implica o
reconhecimento de
2. Reconhecimento
que cada um deve ser
1. Implica a da autonomia de cada
socialmente tratado 4. Implica a
invisibilidade de cada um para traçar os
de acordo com a sua exigência de
pessoa, o próprios planos de
conduta e não solidariedade para
reconhecimento de vida e as próprias
segundo fatores com a infelicidade e
que não pode ser normas de excelência
aleatórios que não o sofrimento dos
utilizada ou "a minha liberdade
são essenciais à outros seres humanos
sacrificada por outros termina onde começa
humanidade (raça,
a do outro"
etnia, sexo, classe
social)

 A pessoa carateriza-se pela sua consciência racional – racionalidade – e pela


livre vontade – liberdade
 Os princípios liberdade e dignidade humana prendem-se com a autonomia
enquanto faculdade da pessoa para se reger por leis próprias – fazer escolhas
sobre o que afeta a sua vida

2. São valores universais a observar na relação profissional:

a) Igualdade
b) Liberdade Responsável com a capacidade de escolha, tendo em atenção o bem
comum
c) Verdade e Justiça

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d) Altruísmo e Solidariedade
e) Competência e Aperfeiçoamento Profissional

Os valores são critérios segundo os quais valorizamos ou desvalorizamos as


coisas e expressam-se nas razões que justificam ou motivam as nossas ações, tornando-
as preferíveis a outras. Reportam-se a ações e justificam-nas, sendo conceitos que
traduzem as nossas preferências. A palavra valor pode ser aplicado com sentido positivo
ou negativo, uma vez que não atribuímos a todos os valores a mesma importância.

São valores universais porque se aplicam a todos os enfermeiros


independentemente do contexto onde trabalham

a) Igualdade
 Não discriminar negativamente
 É tratar de forma igual dentro das necessidades/especificidades
 Todo o ser humano nasce igual em direitos e dignidade

b) Liberdade Responsável
 Articula duas noções que se correlacionam – responsabilidade e liberdade –
uma vez que só se pode ser responsável pelas ações que se escolheu
voluntariamente realizar
 É-se responsável pelas decisões (de agir ou não), pelos atos (no sentido da
ação ou omissão) e pelas consequências (responsabilidade)
 A liberdade responsável, com capacidade de escolha (ligada ao livre arbítrio)
tem como finalidade o bem comum

Bem Pessoal Bem Comum

• Interesses em que o titular é a • Interesses da comunidade no


pessoa seu todo, ou seja, é o bem em
que todas as pessoas da
comunidade participam

 A liberdade responsável, como valor em Enfermagem, impele um agir que


pondere as vontades do enfermeiro e da pessoa a seu cuidado e os limites
que impõem essas vontades

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c) Verdade e Justiça

→ Verdade

 Diz respeito à verdade positiva dos fatos mas também à capacidade de


assimilação do outro
 Dizer a verdade não é simplesmente comunicar uma mensagem objetivo,
corresponde à realidade tal como ela é vivida pelo ser humano e manifesta-se
na unicidade do pensar, agir e ser
 Ser verdadeiro comporta ser congruente e comunicar com verdade, agir na
veracidade
 É um valor relevante na comunicação que tem de ser verdadeira pelo que a
mentira é anti-ética porque destrói a confiança

→ Justiça

 Trata-se de dar a cada um o que lhe é devido na conformidade com o direito


(legalidade) e a proporção (igualdade)
 É a igualdade dos direitos, quer sejam juridicamente estabelecidos ou
moralmente exigidos
 Não pode ser confundido com “dar o mesmo a todos” mas sim “dar a cada
um o que lhe é devido”, de acordo com as circunstâncias
 No campo dos cuidados de saúde a justiça pode referir-se à distribuição de
recursos – justiça distributiva – intimamente relacionada com a alocação dos
recursos humanos e materiais bem como a respetiva distribuição e
rentabilização

d) Altruísmo e Solidariedade

→ Altruísmo

 Resulta da ação realizada em função do interesse do outro e surge como


valor do benefício dos outros em vez de si mesmos
 É eu fazer pelo outro, independentemente do benefício

→ Solidariedade

 Ser solidário é um estado de espírito que resulta de um interdependência


mútua
 Enquanto comunhão de interesses, este é um valor de pertença a um conjunto
que implica respeito pelo outro, bem como partilha de conhecimentos e
saberes, a promoção de deveres e a intenção na busca de melhores cuidados

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 É eu fazer algo pelo outro, contudo recebo algo em troca

e) Competência e Aperfeiçoamento Profissional

→ Competência Profissional

 Carateriza-se como um juízo e ação sensata em situações complexas, únicas


e incertas, com valores em conflito
 Requer conhecimento reflexivo para lidar com áreas que não se prestam a
soluções comuns

→ Aperfeiçoamento Profissional

 É o caminho para a construção de competências


 A auto-formação, a formação contínua e o processo de avaliação de
desempenho, constituem formas de operacionalizar e promover o
desenvolvimento pessoal e profissional

3. São princípios orientadores da prática:

a) A responsabilidade inerente ao papel assumido perante a sociedade

 Capacidade e obrigação de responder ou prestar contas pelos próprios atos e


seus efeitos, aceitando as consequências
 Enquanto enfermeiros, com a missão de cuidar, assumimos a
responsabilidade de agir de determinado modo tendo em conta a
preocupação da defesa da dignidade e liberdade da pessoa de quem cuida
 Somos igualmente responsáveis pelo que decidimos não fazer

b) O respeito pelos direitos humanos na relação com os doentes

Direitos humanos

Concretos Abstratos
Constam na Declaração Universal dos São todos os direitos consagrados à
Direitos Humanos pessoa humana

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 Associado à premissa do outro enquanto ser digno sujeito de direitos e deveres


 A Declaração Universal dos Direitos Humanos corresponde à tentativa de
institucionalizar os elementos constituintes da dignidade humana como algo
irredutível a que se ligam a autonomia e a individualidade
 Quanto ao exercício profissional, uma ampla gama de deveres situa-se na
promoção, defesa e garantia dos direitos daqueles a quem se prestam cuidados
porque “nada que seja desumano ou participe no desprezo pelos outros pode ser
aceite pelos profissionais de cuidados”

c) Excelência do exercício na profissão, em geral e na relação com os outros


profissionais
 Meta de qualidade no cuidado prestado numa perspetiva holística da pessoa
 É necessário que os cuidados sejam um associação de competências técnicas,
científicas e morais com vista à prestação de um cuidado de qualidade nas
esferas físicas, emocionais, espirituais, intelectuais e sociais
 É procurar fazer mais, tentar ir mais além do que a qualidade
 É o patamar de perfeição para onde caminho
 É tentar ser melhor na minha relação de cuidado

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2. O PROCESSO DE DECISÃO CONSIDERANDO A BONDADE


DOS FINS PRETENDIDOS E A JUSTIFIAÇÃO DOS MEIOS
ESCOLHIDOS

Problema ético de enfermagem

Constitui um problema ético de enfermagem, a existência de incerteza face à


decisão para agir, quando está em causa o desrespeito pela dignidade da pessoa, pelos
seus direitos, da sua vontade ou está em risco a sua saúde ou bem-estar, suscitando
dúvidas ou conflitos sobre os direitos, valores, os princípios ou as normas a adotar como
fundamentação para a escolha das intervenções de enfermagem, perante uma decisão de
cuidado concreto.

Problema Ético

Incerteza Dúvida

Face à decisão para agir quando estão em causa valores ou dignidade

É quando o enfermeiro não sabe o que fazer

O que é decidir? É escolher

Requer deliberação, é procurar a alternativa. A decisão ética de enfermagem


resolve problemas éticos de enfermagem, pelo que é primordial que o enfermeiro os
consiga identificar e interrogar-se sobre a sua conduta. Por exemplo a decisão de não
ventilar á uma decisão ética.

Deliberar – na perspetiva aristotélica é ponderar as diversas alternativas que tenho na


decisão

A decisão ética exige no mínimo a ponderação


de 3 alternativas para que a decisão seja boa.

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EXEMPLO: Fazer um tratamento a agressivo a um ser humano, tendo condições de o


fazer sem sofrimento é indigno.

Situação resposta: realização de procedimento médico sem sedação quando existem


outras alternativas

Identificação do problema ético: devo ou não participar num ato que o médico acha
que precisa de sedação, mas que acho que é indigno? O problema ético principal é o não
consenso de tratamento na equipa multidisciplinar. A ética não se faz por consenso, faz-
se pelo que é melhor para o doente.

Hipótese 1 – não participa no exame sem sedação

 O enfermeiro está a respeitar o seu dever de cuidado


 O enfermeiro tem o dever de prestar cuidados, mas também tem o dever de
respeitar a pessoa – o respeito pela pessoa humana tem “maior peso” pelo que
não deve fazer o exame
 A melhor solução é argumentar que “por A mais B tenho razão”

Hipótese 2 – o enfermeiro não participa na realização do exame

 O enfermeiro não respeita o seu dever de prestar cuidados nem o respeito pelo
princípio da dignidade humana
 O fundamento para o enfermeiro não participar no exame é a não-maleficência,
porque decide não ir. Como não pode abandonar o doente está a violar o
princípio da dignidade humana

A função do enfermeiro é prestar


O que a decisão ética procura são
cuidados. Logo, por princípio, toda a
alternativas
decisão de não prestar cuidados é má

Hipótese 3 – o enfermeiro participa e realiza o procedimento, mesmo sabendo que


o poderia fazer sem sofrimento

 É uma má decisão porque viola o respeito pela dignidade humana

Hipótese 4 – o enfermeiro pede o Consentimento Informado

 Qualquer cuidado carece de consentimento e se não obtiver o mesmo pode ter


uma pena de prisão até 3 anos

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Se os familiares derem o consentimento para que o procedimento seja feito sem


sedação, existe outra hipótese:
 O enfermeiro encaminha o doente para outro profissional mais competente –
dever do encaminhamento

EXEMPLO: um bebé com 3 meses com hemorragia ativa precisa de sangue. Tem
prescrita 1U CE. Eu sou responsável pela administração do sangue. Peço consentimento
aos pais que recusam por serem testemunhas de Jeová.

Hipótese 1 – não administrar o sangue

 Respeito pelo consentimento dos pais


 Violo o dever de cuidar e o valor da vida

Hipótese 2 – administrar o sangue

 Respeito o valor vida


 Violo o consentimento dos pais. É uma boa escolha? Não, porque “violar algo” é
sempre má escolha

Hipótese 3 – capacitar os pais para aderir ao tratamento

 Porque o que os pais querem para o filho não é o melhor


 Se eu não for capaz de o fazer, encaminho para outro colega mais competente
que eu para esta tarefa

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2.1 Abordagem às questões éticas atuais e resolução de problemas éticos


de enfermagem

Qual o método para decidir em Enfermagem? Processo clínico

PROBLEMA
ÉTICO

DECISÃO ÉTICA

A decisão ética provoca um corte no desenrolar deste processo metodológico,


não sendo possível a sua concretização com a execução do cuidado que seria esperado.
Foi a decisão clínica relativa a uma pessoa em resposta aos seus problemas de
enfermagem que deu origem ao surgimento de problema ético e consequentemente
decisão ética.


Decisão clínica ≠ Decisão ética
Estabelecida através das intervenções
Desenvolve-se com a utilização no de enfermagem
processo de enfermagem
Está interligada com a decisão clínica

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Fases da decisão ética de enfermagem

1. Identificação do problema

 Onde nasce o problema? É quando eu planeio as intervenções e não sei o que


fazer
 A valoração pelo enfermeiro de algo que pode afetar a pessoa, atingindo a
sua dignidade ou os seus direitos
 Corresponde ao confronto com um acontecimento inesperado, valorado pelo
enfermeiro como integrante da sua esfera profissional, em resultado de um
exercício autónomo
 A dimensão ética resulta do reconhecimento pelo enfermeiro da existência
de um problema ético. Este reconhecimento consiste essencialmente na
verificação de que a pessoa a seu cuidado fica colocado numa situação de
risco face à proteção que lhe é devida

2. Envolvimento da pessoa/família

 Na decisão sobre os cuidados que a pessoa quer ou não, o que conta é a


decisão do próprio (sempre que apresente capacidade mental) admitindo o
respeito pela vontade da pessoa
 A abertura à pessoa e aos seus familiares destina-se a uma procura de
conhecimento pela sua vontade

3. Construção da decisão em equipa

 É necessário tomar a melhor decisão com base na proteção da pessoa e na


defesa da sua dignidade, perante uma situação específica que ocorre
 Consiste na chamada à participação de outros profissionais na construção de
uma decisão que se apresenta difícil, procurando contributos externos. Esta
procura novas perspetivas e modos diferentes de pensar. O problema
enriquece a tomada de decisão, mas não substitui a decisão individual do
enfermeiro
 Ao envolver os restantes elementos da equipa de enfermagem e da equipa
multidisciplinar promove a discussão, confronto de ideias e consenso,
levando os mesmo a interrogar-se das próprias perspetivas

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4. Ponderação dos fundamentos

 Os fundamentos são a base que justifica a minha decisão, valores, deveres,


leis e princípios
 A escolha dos fundamentos para a decisão de cuidado pode ser problemática.
O problema resulta do conflito entre os fundamentos diferentes que se
colocam na equação perante uma situação concreta
 Nas ponderações dos fundamentos para decidir o enfermeiro confronta-se
com o conflito entre os princípios éticos e científicos, conflitos sobre
normas, valores e direitos

Respeito pela dignidade - Fundamentos

• Responsabilidade profissional (que seja o melhor para a pessoa)


• Princípio da beneficência (o que é melhor para a pessoa)
• Princípios (liberdade e o respeito pela liberdade)
• Valores (liberdade responsável)

 Para uma decisão final sobre o cuidado a prestar há que ponderar os


fundamentos que a suportam do ponto de vista ético essa decisão. Esta fase
corresponde ao período de reflexão acerca da justificação para a decisão
encontrada
 O enfermeiro ao escolher determinado fundamento antevê qual/quais as
intervenções correspondentes e antecipa mentalmente quais os seus efeitos
(implicação do ato)
 A dignidade humana, a liberdade e a vida são fundamentos claramente
afirmados na prática profissional de enfermagem. É o confronto entre o
exercício autónomo da pessoa e o exercício da sua liberdade que obriga que seja
feita a ponderação entre os diferentes fundamentos com que o enfermeiro se
depara

5. Decisão conforme os fundamentos

 A decisão torna-se final quando termina o juízo acerca dos diversos


fundamentos e se opta por aquele(s) que se consideram eticamente
adequadas para aquela situação
 Uma decisão assume-se como ética porque visa a prestação de um cuidado
que tem como finalidade a proteção do outro e do seu bem-estar

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6. Prestar o cuidado decidido (agir conforme a decisão é importante


justificar/registar)

 Realizar a ação surge assim como a fase que finaliza a construção da decisão
ética em enfermagem. É a autonomia profissional planear problemas
próprios e tomar uma decisão
 A intervenção, sendo um ato ou uma omissão decidida e portanto
intencional, dirige-se à pessoa pretendida, provocando os efeitos
considerados

7. Avaliar o impacto da decisão

 Permite voltar a considerar se os diferentes fundamentos tidos em conta se


demonstram capazes de originar uma ação que promoveu de fato a dignidade
da pessoa em causa e garantiu a efetivação dos seus direitos
 Permite validar a escolha que resultou da ponderação dos fundamentos e
verificar se os princípios, valores, direitos e deveres tidos em conta serviram
de facto para a legitimação ética da resolução do problema
 É um enorme contributo para o agir futuro, sendo considerado pelo
enfermeiro como um fator de segurança na construção da decisão ética

Fundamentos da decisão ética de enfermagem

 A decisão ética propriamente dita parte de alguns fundamentos que a suportam e


origina a decisão de enfermagem dirigida à pessoa (família ou comunidade)
 São estes fundamentos que legitimarão a escolha da intervenção a realizar, ou
seja, do agir concreto do enfermeiro perante um problema ético

1. Fundamentos éticos

 São princípios e valores

Respeito pela pessoa e dignidade humana – é o fundamento essencial para justificar a


decisão ética em enfermagem. Constituindo-se como um fundamento para agir, esta
premissa, impele o enfermeiro a decidir pela manutenção da humanidade da vida,
levando-o a prestar cuidados que garantam essa humanidade, quer em situação que
tenham fim terapêutico, quer em fim de vida

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Respeito pela vontade do próprio – constitui um elemento a ter em conta, mas nem
sempre é o determinante exclusivo da decisão. O respeito pela pessoa e pela dignidade
humana leva a que o enfermeiro concilie essa vontade com as restantes dimensões da
dignidade da pessoa. Do respeito pela vontade incluída numa esfera mais ampla de
proteção da pessoa revestida da sua dignidade intrínseca, resulta uma decisão
fundamentada numa autonomia não absoluta, em que o pretendido por cada pessoa não
ultrapassa a dignidade da vida. Respeitar a autonomia do outro pressupõe que a pessoa
se encontre com capacidade plena de decidir sobre a sua vida

Respeito pelos princípios e valores das pessoas - o enfermeiro perante a resolução de


um problema ético confronta-se com as certezas e inquietações do outro e procura
fundamentar as suas decisões no quadro valorativo real da pessoa. Implica sobretudo
uma adaptação de cuidado, muitas vezes normalizado e baseado em regras gerais e
abstratas a uma pessoa que mantém uma identidade pessoal integra. Sempre que estes
princípios e valores encontrarem um conflito com os do enfermeiro ou deveres
profissionais é necessário realizar um esforço de procura de harmonia que leve a que
seja encontrada uma decisão que, não se afastando do respeito pela pessoa, não coloque
em risco a ética e deontologia profissionais

O bem para a pessoa – é a proteção da pessoa através de efeitos produzidos pelas


ações escolhidas que mostram ser os melhores para garantir essa proteção. O bem
traduz-se na garantia da vida, do bem-estar e alívio do sofrimento, dos seus direitos
pessoais e no respeito pela dignidade da pessoa

Princípio da não-maleficência – a proteção da pessoa tendo em conta a sua especial


vulnerabilidade e as suas necessidades reais exige do enfermeiro um planeamento de
intervenções que não sejam danosas. Não provocar dano, pode ser assim o principal
fundamento utilizado para a decisão ética em enfermagem. Incluem-se neste conceito o
evitar-se um conjunto de efeitos que afetariam a pessoa e a sua dignidade. Pode ser
causador de dano a violência da vontade assim como a ausência de envolvimento da
pessoa na construção da decisão. Também pode originar dano o não respeito pelos
direitos e ou pelos legítimos interesses da pessoa

Respeito pela vida e qualidade de vida – a ação de enfermagem tem a proteção da


vida como horizonte, independentemente das intervenções concretas que são realizadas.
Quer na promoção de saúde quer na prevenção da doença, no cuidado terapêutico ou na
reabilitação, a enfermagem promove a proteção da vida humana. Decidir em
enfermagem implica assim a procura de maior qualidade possível pra a pessoa que
precisa de cuidados de enfermagem

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Promoção do bem-estar e alívio do sofrimento – o bem-estar é alcançado através da


eliminação ou do alívio do sofrimento que afeta negativamente a pessoa

Proteção da saúde – consiste na prevenção do dano, é realizar intervenções de


enfermagem que evitem riscos para a saúde. Surge associada à vida humana como
dimensão essencial

Princípio da justiça – agir com justiça é atender ao que a pessoa precisa, na medida em
que ela precisa, no tempo em que ela precisa. Utilizando como fundamento a verdade
em ligação com a justiça, o enfermeiro adapta à transmissão da informação com que ela
consegue lidar naquele momento

Confiança – cumprir o prometido através de uma intervenção de enfermagem adequada


constitui uma forma de manter a confiança

2. Fundamentos Deontológicos

 Os deveres do enfermeiro estão na deontologia. Na procura da melhor


decisão quanto ao cuidado a prestar, o enfermeiro encontra nos seus deveres
deontológicos, princípios e valores, uma base para justificar a ação. Os
deveres deontológicos existem pela necessidade de manter protegida a
pessoa, os seus direitos e a sua dignidade em todo o ato de cuidado

3. Fundamentos Jurídicos (o que diz a lei)

 Respeitar as normas jurídicas constitui um dever de cidadania e naturalmente


do enfermeiro. Contudo, na resolução de um problema ético o enfermeiro
pode ver-se confrontado com a interrogação quanto a cumprir ou não o
disposto na lei ou em alguma norma institucional, sobretudo se o
cumprimento da norma não responde às necessidades que a pessoa ou os
seus familiares apresentam no momento. Nestes casos, o não cumprimento
da norma pode ser a solução para o problema, havendo necessidade de apelar
aos princípios que determinam a lei e a sua ratios legis para adaptá-la à
situação em concreto. O respeito pelos direitos das pessoas constitui também
um fundamento de natureza jurídica que se insere no agir ético de
enfermagem

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4. Fundamentos Profissionais
 Há razões profissionais para eu decidir as competências do ato. Como
fundamento de natureza profissional encontra-se a autonomia da profissão,
na qual se baseiam algumas decisões. Esta corresponde ao poder que cada
enfermeiro tem para tomar decisões que digam respeito ao exercício
profissional na sua área de intervenção e tem também consagração jurídica
 Emerge também a competência profissional para a prática de uma
determinada intervenção. A decisão decorre do facto de o enfermeiro
considerar que é o profissional competente para realizar a ação que se julga
adequada para resolver o problema ético identificado. Considerando-se
competente, sente-se em condições de agir em segurança, no respeito pelas
regras profissionais de boas práticas e decide realizar o cuidado necessário

5. Fundamentos Científicos

Elementos que integram o conhecimento científico de enfermagem e que, em


alguns casos, constituem a principal razão para eu decidir

 A necessidade de determinado cuidado indispensável


 A inutilidade dos cuidados
 Benefícios terapêuticos de algumas intervenções
 Existência de dúvidas diagnósticas por esclarecer ou necessidade de
confirmação de algum diagnóstico de enfermagem

6. Fundamentos Sócio-Culturais

Crenças das pessoas, que são de origem cultural e incluem elementos de


natureza social ligados à vida familiar e comunitária da pessoa e fatores de origem
cultural em resposta ao meio externo ou do ambiente social em que vive

 Respeito pelas crenças da pessoa em ligação às suas raízes culturais e que


determinam alguns costumes
 Consideração de obrigações familiares por cumprir quando a doença obriga a
internamento prolongado, com grande perda das capacidades e sobretudo em
fim de vida
 A existência de uma família de suporte à pessoa numa situação de doença
grave

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