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Dança e gênero: subversão da heteronormatividade na prática do Tango

Queer
Autora: Sofia Gonçalves Repolês (UFMG)
Orientadora: Profa. Dra. Érica Renata de Souza (UFMG)
Resumo:
O tango tradicional atuou como um agente impositor de normas tais como o binarismo de gênero e a heteronormatividade na Argentina, de acordo
com Mercedes Liska (2009). Ao analisar a organização desta modalidade de dança, nota-se uma série de regras que refletem tais valores e que, através
da mesma, reforçaram-se e se reafirmaram, também inscrevendo-se nos corpos dos bailarinos. Este trabalho pretende localizar e compreender
algumas das práticas desenvolvidas na modalidade do Tango Queer que transgridem as normas de gênero, as quais, por sua vez, normatizam tanto a
prática do tango como todo o contexto milongueiro. Os ambientes considerados foram aulas, práticas e milongas queer/gay durante trabalho de
campo realizado na cidade de Buenos Aires (Argentina) durante o segundo semestre de 2012. A metodologia consistiu-se também de entrevistas
semi-estruturadas com fundadores, professores, bailarinos e frequentadores destes espaços. Para tanto, utilizamo-nos de conceitos fundamentais
como o binarismo de gênero, performatividade, paródia, heteronormatividade e o habitus bourdiesiano.

O tango queer busca transgredir muitas das imposições sociais


incorporadas pelo tango tradicional tais como a obrigatoriedade de uma
dupla ser constituída por um homem e uma mulher e a determinação dos
papéis assumidos por cada umx delxs de acordo com seu gênero. Assim
sendo, sua prática se constitui como um dispositivo que interpela e
problematiza a heteronormatividade e associação compulsória de sexo,
gênero, e desejo sexual. Os corpos sexuados têm, na prática do tango
queer, a possibilidade de desempenhar performances diferentes daquelas
que lhes foram normativamente atribuídas, o que reforça o aspecto
performativo presente tanto na prática desta modalidade de dança como
nas condutas e experiências que fazem parte das rotinas dos dançarinos.
Sendo assim, tal prática constitui-se também como uma possibilidade de
rompimento da reprodução do habitus incorporado pelos bailarinos do
tango tradicional.

Figura 2: Cambio de roles.

O tango queer também repensa o desempenho dxs membrxs de uma


dupla de acordo com os papéis de condutorx e conduzidx, e busca
desconstruir a disposição hierárquica entre estes, conforme relatou
Mariano Garces, folclorista, bailarino e professor de tango queer em
uma entrevista: “Já não só um conduz, os dois membros da dupla tem
a possibilidade conduzir a dança, de decidir sobre essa improvisação
coreográfica que se produz no tango”. O sexo, gênero e orientação
sexual dxs dançarinxs não se configuram como fatores
hierarquizantes, e tampouco como barreiras que limitam ou
Figura 1: VI Festival Internacional de Tango Queer. Buenos impedem o acesso de pessoas ao tango, visto que nessa modalidade
Aires 2012
as mais diversas possibilidades de formação de duplas ou de formas
O cambio de roles (Figura 2), é uma das práticas centrais desta de dançar são legítimas. E além disso, as mulheres passam a
modalidade de tango e consiste na troca de papéis - condutor(x) e participar, conhecer e atuar na dança de forma mais autônoma e
conduzid(x) – entre xs bailarinxs. O que pode proporcionar o ativa. Tanto no que se refere às regras e normas do tango como
rompimento tanto com uma ordem social da matriz sexo/gênero/desejo também no acesso ao conhecimento técnico da dança. Devido a estes
como com as regras tradicionais da dança que são claros reflexos de pontos de ruptura ou reelaboração é que identificamos no tango
valores e normas socialmente impostos e que através da prática são queer práticas transgressoras da heteronormatividade que permeou
introjetadas nos corpos conformando um habitus baseado na divisão a criação e desenvolvimento do tango portenho tradicional que
binária de performances de gênero. O tango queer proporciona a incorporou uma série de valores e normas de gênero que se elaboram
experimentação dos papéis do outro por meio de atos performativos e legitimam enquanto naturais embora se tratem de construções
durante a dança, o que confere aos bailarinos a possibilidade de sociais.
romperem com habitus que incorporaram de acordo com seu gênero
(Bourdieu, 1995). Bibliografia:
. BOURDIEU, Pierre. 1995. A dominação masculina. Educação &
De acordo com Hanna (1999, p.13-14), a dança, por ser um agente que
faz parte do sistema comunicativo humano, faz com que a transgressão Realidade, v.20, n.2, p.133-184.
dos papéis de gênero em cena estimulem não só os dançarinos mas BUTLER, Judith. 2010. Problemas de Gênero – Feminismo e
também o público a vivenciar outras formas de organização destes, visto subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
que “[a]s danças são atos sociais que constribuem para o contínuo HANNA, Judith Lynne. 1999. Dança, sexo e gênero: signos de
surgimento da cultura” (p.14). Alguns dxs informantes que já haviam identidade, dominação, desafio e desejo. Rio de Janeiro: Rocco.
passado pela experiência de dançar com um parceirx do mesmo LISKA, María Mercedes. 2009.“El tango como disciplinador de
sexo/gênero, ou em uma dupla formada por homem e mulher porém com cuerpos ilegítimos-legitimados.” In: Revista Transcultural de Música -
inversão de papéis, em uma milonga tradicional relataram casos em que, TRANS 13 http://www.sibetrans.com/trans/a53/el-tango-como-
após o término da dança, pessoas desconhecidas que se encontravam na disciplinador-de-cuerpos-ilegitimos-legitimados
mesma milonga se aproximaram para elogiar e até mesmo convidar para
dançar algumas músicas com troca de papéis.