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Organizadores:

Ana Paula Freitas Guljor


João Mendes de Lima Júnior
Leonardo Penafiel Pinho
Ana Maria Fernandes Pitta
Sônia Barros
Paulo Amarante
Rafael Wolski de Oliveira
Rossana Carla Rameh de Albuquerque

Anais do 7º Congresso da ABRASME

1ª edição

Santo André-SP
Dezembro de 2020
Ficha técnica

Arte Final: Leonardo J. D. Campos


Produção editorial:
COOPACESSO
Cooperativa de Trabalho Acesso Cultural Educacional Sustentável Solidária
Avenida Queirós Filho, 2.690 - Sala 1 - Vila Guaraciaba,
Santo André-SP / 09121-587
(11) 9.9732-4278
www.coopacesso.org // coopacesso@coopacesso.org

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autorais (lei 9.610/98).
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Sumário

Resumo ......................................................................................................... 7
Apresentação ................................................................................................ 9
Atividades Pré-Congresso ............................................................................ 18
Ilê Ará - Saúde Mental e religiões afro-brasileiras .................................... 24
Movimento Internacional de Ouvidores de Vozes: um outro modo de tecer
cuidado em saúde mental ...................................................................... 26
Mulheres e Drogas: Reflexões para o cuidado feminino em CAPS AD ........ 28
Quando o trabalho adoece: conceitos, vivências e estratégias de
enfrentamento ao sofrimento mental no trabalho ................................... 30
Terapia Comunitária Integrativa - Espaço de escuta, palavra e vínculo ...... 32
Cooperativismo Social, Saúde Mental e Economia Solidária...................... 34
Reforma Psiquiátrica no Brasil: história e desafios contemporâneos ......... 35
Garantias de direitos e saúde mental: as práticas dos CAPS ...................... 37
Saúde Mental da pessoa idosa no isolamento social da Pandemia... ....... 38
A Luta Antimanicomial é também uma Luta Antirracista .......................... 40
A construção psicológica sob perspectiva sócio-histórica e a
interseccionalidade como estratégia para promoção de saúde mental ..... 42
A Redução de Danos (RD) como proposta para o cuidado de usuários de
droga: reflexões sobre inclusão social ..................................................... 44
Cuidados multidisciplinares e Saúde Mental do Trabalhador .................... 46
Expressão, corpo e debate - desafios da práxis a partir do teatro do
oprimido ............................................................................................... 48
Oficina de Articulação do Observatório Internacional de Práticas de Gestão
Autônoma da Medicação ....................................................................... 50

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

População em situação de rua: a invisibilidade como forma de negligência e


desrespeito aos direitos humanos e a dignidade como pacto civilizatório . 52
Práticas integrativas e complementares, expressões artísticas e
espiritualidade no mental”. Uma vivência pedagógica em torno do
conteúdo “lutas”, com ênfase na modalidade do judô ............................. 54
Processo criativo no período da pandemia: como transformar nosso tempo
ocioso em arte para poder preservar nossa saúde mental? ...................... 56
Protagonismo de usuários e familiares no campo da saúde mental e luta
antimanicomial...................................................................................... 58
Corpo Negro nos espaços: um direito corrompido? ................................. 59
Entre Telas e Aflições: a experiência das pessoas com a pandemia da
COVID-19 .............................................................................................. 61
Mesas Redondas ......................................................................................... 63
TÍTULO: Direito e advocacia em defesa dos vulneráveis ........................... 63
TÍTULO: A Política de Saúde Mental de Norte a Sul .................................. 68
TÍTULO: Cuidado a pessoas que usam drogas: conceitos e práticas ........... 75
TÍTULO: Práticas Emancipatórias: Economia Solidária .............................. 79
TÍTULO: Perspectivas do cuidado: a cannabis medicinal em foco .............. 84
TÍTULO: A Maternidade como questão .................................................... 90
TÍTULO: A Casa e a Rua: perspectivas no cuidado às pessoas ... ................ 95
TÍTULO: Uso de drogas e rupturas de paradigmas na democracia ............. 99
TÍTULO: Patologização da infância e da adolescência ............................. 105
TÍTULO: O Conselho Federal de Psicologia na pandemia de Covid-19:
atuação em rede e junto à categoria na atenção à saúde mental ............ 109
TÍTULO: Intersexualidade e população LGBTQI+..................................... 110
TÍTULO: Loucura em conflito com a lei: desafios para a Reforma... ......... 116
TÍTULO: Políticas antirracistas e resistência antimanicomial ................... 121
TÍTULO: Práticas Emancipatórias: Arte-cultura ....................................... 129
TÍTULO: Cuidado em Saúde Mental da criança e do adolescente ............ 134
Roda de Conversa – Relato de Experiência ............................................... 138
Eixo Temático 02. Entrelaçamento da clínica, da gestão, da formação e da
política na organização do cuidado psicossocial. .................................... 138

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Eixo Temático 07. Práticas integrativas e complementares, expressões


artísticas e espiritualidade no cuidado em saúde mental. ....................... 140
Projeto Eu Sou: raça, gênero, identidade e pertencimento. Relato de
experiência de M.J.F. no CAPS Casa dos Artistas – Ouro Preto, MG. ........ 141
03. Resistências antimanicomiais e antiproibicionistas... ...................... 1288
04. Saúde Mental e interseccionalidade: classe, gênero, raça e etnia .... 1354
05. Expressões do sofrimento humano na atual realidade sócio-política
brasileira.................................................................................................. 1474

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Resumo
O 7° Congresso Brasileiro de Saúde Mental realizou seu Pré-Congresso
no dia 08 de dezembro de 2021 no formato on-line e com transmissão
pública. Neste reuniu de 09 as 12h o Encontro Nacional de
Acompanhamento Terapêutico e de 14h as 18h o encontro de Redes e
Movimentos da América Latina e do Caribe. De 10h as 12h aconteceu o
lançamento da Campanha Nacional de Direitos Humanos do Sistema
Conselhos de Psicologia: “Racismo é coisa da minha cabeça ou da sua?”.
Durante a manhã do dia 09 de dezembro, ainda como atividade de Pré-
Congresso, entre 09 e 12h aconteceram as 09 oficinas e 10 minicursos. O
início do Congresso com a mesa de abertura ocorreu no dia 09 de
dezembro as 16h. Durantes os três dias de Congresso aconteceram 4
sessões de rodas de conversas divididas em 82 rodas com 12
apresentações por sessão; 3 sessões de mesas redondas sendo em cada
uma das sessões 05 mesas com média de 4 expositores (as) e 02h de
duração. Os grandes debates ocorreram nos dias 09 de dezembro de 17
as 19h e nos dias 10 e 11 de dezembro no horário de 16:10 às 18:10.
Estiveram presentes mais de 3.200 congressistas de 27 estados do país e
37 do exterior. Foram aprovados 923 trabalhos dos 1.065 submetidos.
Na modalidade rodas de conversa 486 eram relatos de experiências e
391 relatos de pesquisa. Foram 31 submissões aprovadas para mesas
redondas, 08 para oficinas e 10 para minicursos. Na composição das
inscrições, segmentando por sexo, 79% se declararam do sexo feminino.
As inscrições ainda contemplaram uma diversidade de perfis composta
por estudantes, profissionais, usuários/familiares. Além da repercussão
em âmbito nacional, o evento mobilizou protagonistas das políticas de
saúde mental de vários países latino-americanos e caribenhos que

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

estiveram presentes no ‘Encontro das Redes e Movimentos Sociais em


Saúde Mental da América Latina e Caribe’, fortalecendo a
internacionalização das agendas comuns do campo da saúde mental.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Apresentação
A Associação Brasileira de Saúde Mental – ABRASME - realizou
nos dias 09, 10 e 11 de dezembro de 2020 o 7º Congresso Brasileiro de
Saúde Mental com o tema “Desorganizando posso me organizar:
Afetos, lutas e resistências antimanicomiais”. A ABRASME, entidade
pautada pela Reforma Psiquiátrica, foi fundada em 2008 tendo como
eixos norteadores a defesa dos Direitos Humanos e a Justiça Social,
pressupostos inalienáveis ao cuidado em saúde mental. Neste sentido,
para além de uma reorganização de serviços, a Reforma Psiquiátrica
brasileira se insere no marco de um processo civilizatório. Sendo assim,
se configura como parte de um processo permanente de mobilização e
participação social, com protagonismo de seus usuários, familiares e
trabalhadores.
A inclusão social, o enfrentamento aos racismos e a homofobia,
as questões de gênero, a patologização da vida cotidiana, redução de
danos e políticas sobre drogas, a economia solidária, a defesa das pautas
das populações mais vulnerabilizadas e o cuidado em liberdade
compõem uma ampla temática de debates os quais a ABRASME, ao
longo dos anos, tem se proposto a realizar em seus encontros.
O atual 7º Congresso foi organizado, de forma distinta de anos
anteriores. A condição da pandemia de COVID-19 e a quarentena com o
distanciamento social, impôs o cancelamento de um congresso que seria
em Recife - PE, na forma presencial. Reafirmando a bandeira de
resistência manteve-se a concepção inicial, pautada na força do
movimento Manguebeat. Já no primeiro momento quando se preparava
um Congresso para Julho de 2020, buscava-se através deste movimento-
experiência cultural traduzir a beleza, a alegria e a criatividade também

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

encontradas nos movimentos antimanicomiais, antiproibicionistas e na


luta pela democracia. Caranguejos (Rodas de Conversas), Raízes
(Oficinas e minicursos), Guaiamuns (Mesas Redondas) são os nomes das
atividades que também resgataram a proposta original de valorização da
terra nordestina onde este se daria. Viva Recife, Viva o Nordeste!
Diante do exposto, o 7º Congresso Brasileiro de Saúde Mental
foi organizado com o espírito de luta de sua comissão organizadora e
das redes compostas por movimentos, entidades, usuários, familiares,
trabalhadores, estudantes que estiveram presentes através da
participação durante o evento e/ou da organização de sua estrutura.
Neste Congresso a tradicional figura de ‘presidência do congresso’ se
apresentou através de seu coletivo de diretores (as) e parceiros (as) da
ABRASME demonstrando, com o exercício da construção coletiva, a
importância da luta antimanicomial, principalmente porque foi possível
retratar em cada uma de suas atividades que nestas últimas quatro
décadas de Reforma Psiquiátrica: avançamos, capilarizamos a lógica do
cuidado em liberdade de norte a sul do país e nos multiplicamos.
Foram mais de três mil participantes inscritos e um número
superior a 1.000 trabalhos submetidos para rodas de conversas,
minicursos, oficinas e mesas redondas. A partir da amplitude de seus
eixos o 7º Congresso apresentou a diversidade do campo da saúde
mental. Os eixos centrais que balizaram as rodas de conversas, a saber:
1. Direitos humanos e dignidade humana como pacto civilizatório: povos
em encarceramento, povos tradicionais, população em situação de rua,
imigrantes e refugiados; 2. Entrelaçamento da clínica, da gestão, da
formação e da política na organização do cuidado psicossocial; 3.
Resistências antimanicomiais e antiproibicionistas tecendo o cuidado; 4.
Saúde Mental e interseccionalidade: classe, gênero, raça e etnia; 5.
Expressões do sofrimento humano na atual realidade sócio-política
brasileira; 6. Alternativas diagnósticas e terapêuticas à patologização e
medicalização da vida; 7. Práticas integrativas e complementares,
expressões artísticas e espiritualidade no cuidado em saúde mental; 8.
Laços familiares e comunitários no cuidado em saúde mental; 9.

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Protagonismo, organização política e geração de renda de usuários/as e


familiares no cuidado; 10. Processos de trabalho e práticas de cuidado
em saúde mental trouxeram luz as dimensões envolvidas neste processo
e foram impulsionadores das trocas dialógicas entre os muitos atores de
todas as regiões do país, com suas conquistas e suas batalhas. Através
dos relatos de pesquisa, relatos de experiências e grandes debates
agregaram-se pesquisadores, profissionais de saúde, gestores públicos,
estudantes, parlamentares, ativistas dos direitos humanos, militantes da
redução de danos, movimentos sociais entre outros que constroem no
cotidiano esta caminhada pela transformação da sociedade.
O 7º Congresso Brasileiro de Saúde Mental foi permeado por
atividades diversificadas de participação social em tempos de
organização virtual. No Pré-Congresso ocorreu o lançamento da
Campanha Nacional de Direitos Humanos do Sistema Conselhos de
Psicologia: “Racismo é coisa da minha cabeça ou da sua?”, a Passeata
Virtual e o Ato em Defesa da Democracia e do Cuidado em Liberdade.
Foram momentos importantes de manifestação coletiva de protestos e
denúncias de violações de direitos vivenciados cotidianamente na
realidade do Brasil de hoje. Como compromisso de continuidade foi
lançado o site do 5º Fórum de Direitos Humanos e Saúde Mental, evento
bianual da ABRASME, que será realizado em setembro de 2021 em Ouro
Preto-MG, com abertura de suas inscrições. O Pré-Congresso,
transmitido em modo aberto pelas redes sociais, aconteceu no dia 08 de
dezembro com o Encontro Nacional de Acompanhantes Terapêuticos e
o Encontro de Redes e Movimentos em Saúde Mental da América Latina
e do Caribe.
Para além de uma política pública, o 7º Congresso Brasileiro de
Saúde Mental da ABRASME debateu uma lógica, um modo de andar a
vida. E assim, empunhamos nossas bandeiras, nos reinventamos na
forma on line, para garantir a propagação das diretrizes da Reforma
Psiquiátrica, imagens-objetivo, traduzidas nas milhares de práticas e
experiências retratadas nestes anais. Assim, resistiremos e faremos
desta sociedade um lugar onde a solidariedade, a justiça social garanta o

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direito de uma existência digna e cidadã à todas as raças, etnias, credos,


gêneros e classes.

Leonardo Penafiel Pinho


Presidente da ABRASME

Ana Paula Guljor


Vice presidente da ABRASME
Coordenadora da Comissão Científica do 7° Congresso Brasileiro de
Saúde Mental

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Diretorias da ABRASME
Gestão 2018 – 2020

Diretoria Coordenações Regionais

Ana Maria Fernandes Pitta Norte:


Presidente - Marilda Couto (PA)
- Gibson dos Santos (AM)
Leonardo Penafiel Pinho
Vice-Presidente Nordeste:
- Mônica de O. Nunes de Torrenté (BA)
Ana Paula Freitas Guljor
- Melissa Leite Azevedo (PE)
1ª Secretária
Centro-oeste:
Marcelo Kimati
- Ana Lúcia Rodrigues [Nena] (BSB)
2º Secretário
- Vanessa Camargo (MT)
João Mendes de Lima Júnior
Sudeste:
1º Tesoureiro
- Claudia Penido (MG)
José Setemberg - Luciana Surjus (SP)
2º Tesoureiro
Sul:
- Tânia Grigolo (SC)
- Dipaula Minotto da Silva (SC)
- Simone Paulon (RS)
- Rafael Wolski de Oliveira (RS)

Paulo Amarante
Presidente de Honra

CONSELHO FISCAL
Fabrício Menegon - SC
Sônia Barros - BA
Anna Luiza Castro Gomes – PB

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Gestão 2020 – 2022


Diretoria Diretorias Regionais
Leonardo Penafiel Pinho Norte:
Presidente - Marilda Couto (PA)
- Gibson dos Santos (AM)
Ana Paula Freitas Guljor
Vice-Presidente Nordeste:
- Janete Valois Ferreira Serra (MA)
Rogério Giannini
- Rossana Carla Rameh de
1ª Secretária
Albuquerque (PE)
Daniel Oliveira de Souza
Centro-oeste:
2º Secretário
- Francisco Cordeiro (BSB)
João Mendes de Lima Júnior - Ana Lourdes de Castro Schiavinato
1º Tesoureiro (GO)
Rosângela Maria Soares dos Sudeste:
Santos - Aisllan Assis (MG)
2º Tesoureiro - Nicéia Maria Malheiros Castelo
Branco (ES)
Sul:
- Dipaula Minotto da Silva (SC)
- Rafael Wolski de Oliveira (RS)

Paulo Amarante
Presidente de Honra
Ana Maria Fernandes Pitta
Diretora Emérita
CONSELHO FISCAL
Ricardo de Albuquerque Lins - BSB
Sônia Barros - BA
Marcelo Antônio Parintins Masô Lopes – RJ

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Comissão Organizadora do 7º CBSM


1ª Fase

Comissão Organizadora Geral


Alda Roberta
Andrea Graupen
Carla Pinheiro Maciel
Carlos Romário Bezerra de França Santos
Carlos Silvan
Chaiane dos Santos
Elaine Camêlo Carneiro
Ingrid Farias
Itamar Lages
Jailson José dos Santos
João Mendes de Lima Júnior
Jorge Luiz Silva
José Nilton Monteiro da Silva Júnior
Márcio Muniz Carvalho de Andrade
Márcio Soares
Maria Jucineide Lopes Borges
Maria Bernadete de Cerqueira Antunes
Melissa Azevedo
Mirian Senghi Soares
Naíde Teodósio Valois Santos
Paco Sobral
Priscila Gadelha Moreira
Rafael Silva West
Ricardo Albuquerque Lins
Riva Karla Vieira da Silva
Sérgio de Souza Cruz
Suely Emília de Barros Santos
Telma Melo

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Thays Maria do Nascimento


Wedna Cristina Marinho Galindo
Veruska Tavares Moreira

Comissão Científica
Ana Maria Fernandes Pitta
Carla Pinheiro Maciel
Marcela Adriana da Silva Lucena
Maria Bernadete de Cerqueira Antunes
Neide Teodósio
Paulo Amarante
Rossana Carla Rameh de Albuquerque
Wedna Cristina Marinho Galindo
Sônia Barros

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2ª Fase

Comissão Organizadora Geral


Aisllan Assis
Ana Paula Freitas Guljor
Ana Lourdes de Castro Schiavinato
Daniel Oliveira de Souza
Dipaula Minotto da Silva
Chaiane dos Santos
Janete Valois Ferreira Serra
João Mendes de Lima Júnior
Francisco Cordeiro
Gibson Alves dos Santos
Leonardo Penafiel Pinho
Letícia Paladino Resende
Marilda Nazaré Nascimento Barbedo Couto
Mirian Senghi Soares
Nicéia Maria Malheiros Castelo Branco
Rogério Giannini
Rosangela Maria Soares dos Santos
Rossana Carla Rameh de Albuquerque
Rafael Wolski de Oliveira

Comissão Científica
Ana Maria Fernandes Pitta
Ana Paula Freitas Guljor
João Mendes de Lima Júnior
Paulo Amarante
Rafael Wolski de Oliveira
Rossana Carla Rameh de Albuquerque
Sônia Barros

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Atividades Pré-Congresso
08 de dezembro de 2020

Atividade
Encontro Nacional de Acompanhamento Terapêutico

Objetivo da atividade
O Acompanhamento Terapêutico (AT) tem se configurado como
prática/ferramenta clínica no campo da saúde mental coletiva e
instrumento fundamental em processos de desinstitucionalização dos
hospitais psiquiátricos e das práticas manicomiais na Rede de Atenção
Psicossocial (RAPS). A proposta deste encontro durante o Pré-congresso
Brasileiro de Saúde Mental tem a finalidade de proporcionar um espaço
de trocas e debates sobre esta prática no Brasil a partir de grupos e
entidades que promovem espaços de experiências e produção de
conhecimento sobre o AT em diferentes regiões do país, tendo como
balizador da discussão a questão do racismo estrutural na sociedade
brasileira e suas implicações no ato de acompanhar.

Instituições participantes/responsáveis:
ATNARDE/UFRGS
AT: clínica e criação na cidade/UFSC, Giramundo/PUCSP
AT na UISM/HCUFU (Unidade de Internação de Saúde Mental do
Hospital de Clínicas da UFU)
Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental – UNISINOS,
AT URI Santiago - Programa de acompanhamento terapêutico na rede
comunitária de Santiago – RS

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Acompanhamento Terapêutico em um CAPS-ad (Fortaleza CE)


Itinerâncias da Clínica Psicossocial - Rede de ats - FISMA (Santa Maria –
RS)
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
FACOS

______________________________
Atividade
Lançamento da Campanha Nacional de Direitos Humanos do Sistema
Conselhos de Psicologia: "Racismo é coisa da minha cabeça ou da
sua?"

Objetivo da Atividade
Apresentou os marcos conceituais que fundamentam a Campanha
Nacional de Direitos Humanos do Sistema Conselhos de Psicologia
(2020-2022), situando a Psicologia Brasileira em prol de um projeto de
sociedade antirracista e, somente assim, verdadeiramente democrática.
Com o slogan “Racismo é coisa da minha cabeça ou da sua?”, esperava-
se que psicólogas(os), estudantes de Psicologia e demais profissionais e
pesquisadoras(es) da saúde mental, bem como a sociedade em geral,
fossem envolvidos pela campanha e que colaborem com o
delineamento de uma Psicologia Antirracista e Decolonial. As lutas
antimanicomial e antirracista são convergentes, pois voltam-se para a
defesa da vida, saúde, justiça e liberdade. Apresentou-se, de forma
panorâmica, as atividades previstas para os dois anos de duração da
campanha e que serão realizadas por todo o país, numa parceria entre
as Comissões de Direitos Humanos do Conselho Federal e dos 24
Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs). Destaque-se que a campanha
trará à baila o racismo contra a população negra tanto quanto dará
ênfase ao racismo contra os povos indígenas, produzindo ações
discursivas e práticas que colaborem com processos formativos e
informativos sobre racismo, branquitude e práticas antirracistas,

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considerados como temas interdependentes. A atual Campanha


promoverá ainda o resgate e o mapeamento do histórico dos debates
sobre o racismo no âmbito do Sistema Conselhos, celebrando os 20 anos
da Resolução CFP Nº 18/2002, que “Estabelece normas de atuação para
os psicólogos em relação a preconceito e discriminação racial”. Tal
resolução foi publicada após a realização da Campanha Nacional de
Direitos Humanos de 2002, que trouxe como tema “O preconceito racial
humilha e a humilhação social faz sofrer”, sendo também fruto das
reflexões promovidas em seu âmbito.

Instituições participantes/responsáveis
Comissões de Direitos Humanos do Sistema Conselhos de Psicologia

__________________________________
Atividade
Lançamento da Comunidade de Práticas em Saúde Mental e Atenção
Psicossocial IdeiaSUS/FIOCRUZ da curadoria de saúde mental do
IdeiaSUS.

Curador: Paulo Amarante

Objetivo da atividade
O objetivo do lançamento da Comunidade de Práticas em Saúde
Mental e Atenção Psicossocial do IdeiaSUS, plataforma virtual da
FIOCRUZ (http://www.ideiasus.fiocruz.br/portal/), foi inaugurar a
curadoria em saúde mental deste dispositivo que reúne diversos campos
da saúde coletiva através do registro de mais de 2000 práticas em
saúde. A ideia de criar essa comunidade é a de dar organicidade, um
espaço de interlocução, compartilhamento, conhecimento e
reconhecimento das experiências e multiplicação dessas práticas com
um recorte das experiências em saúde mental. A Comunidade é acima
de tudo uma estratégia permanente de trocas, de reflexão, cooperação

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

e retroalimentação. A comunidade de práticas em saúde mental e


atenção psicossocial caracteriza-se por se constituir através da adesão
de experiências que se auto identifiquem com os princípios da Reforma
Psiquiátrica. O evento foi um convite a todas estas experiências
iniciarem com a curadoria de saúde mental um movimento de
colaboração e participação, que é mais que a soma de iniciativas
isoladas. Ao considerar que o fundamental de uma Comunidade de
Práticas é o espírito coletivo este evento inaugurou um processo de
articulação centrípeta. Buscou informar as formas de adesão a este
movimento de retroalimentação e publicizar este espaço de interação.

Instituições participantes/responsáveis
IdeiaSUS/FIOCRUZ/Presidência
LAPS ENSP/FIOCRUZ
ABRASME.

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Minicursos

Grupo Temático de Saúde Mental de Crianças e Adolescentes da


Abrasme

Luciana Togni de Lima e Silva Surjus


Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP

Maria Aparecida Affonso Moysés


Cecília Azevedo Lima Collares
Maria de Lurdes Zanolli
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP

Maria Cristina Ventura Couto


Bárbara Costa Andrada
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

Ilana Katz
Carla Biancha Angelucci
Universidade de São Paulo – USP

Ricardo Arantes Lugon


Universidade Feevale

Claudia Mascarenhas
Instituto Viva Infância

Contextualização: A preocupação com a saúde mental de crianças e


adolescentes tem sido postergada no âmbito das políticas públicas,
compondo um cenário de imenso distanciamento do que foi proposto
enquanto prioridade nas agendas de um Estado Democrático de Direito.
Malgrado esforços expressos em articulações locais e pouquíssimos
documentos governamentais, parece paradoxalmente emergir nas

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

aspirações de controle autoritário da liberdade, evidentes nos processos


de medicalização, criminalização e privação de liberdade.
No 4º Fórum Brasileiro de Direitos Humanos e Saúde Mental, ocorrido
no período de 20 a 22 de junho de 2019 na cidade de Salvador, a
Abrasme efetivou o lançamento do Grupo Temático de Saúde Mental de
Crianças e Adolescentes que pretende articular atores protagonistas no
campo da saúde mental infantojuvenil, para organizar as lutas que
perpassam para a sustentação teórico-prática e clínico-política de uma
atenção psicossocial engajada com a necessária crítica e promotora de
agenciamentos capazes de produzir novos possíveis e novas
subjetividades.
Justificativa: No ano em que comemoramos os 30 anos da Convenção
dos Direitos das Crianças, do qual o Brasil é signatário, recebemos em
nossas casas, pela grande mídia, e em nossos serviços, em famílias
desesperadas, as histórias e corpos sobreviventes, enquanto executivo e
legislativo avançam com o projeto de desmantelo das políticas públicas
por meio de legislações e normativas que restringem os direitos à saúde,
educação, assistência e asfixiam possibilidades de controle social, no
caso da infância, atingindo diretamente o Conselho Nacional dos
Direitos das Crianças e Adolescentes (Conanda). Atônitos, nos
desmobilizamos. Mas também ressignificamos e reorganizamos nossos
esforços e juntamos nossas lutas.
Este minicurso pretende promover encontro presencial do GT para
avaliar avanços e desafios frente ao planejamento realizado em janeiro
de 2020, bem como propiciar trocas entre profissionais, pesquisadores,
usuários e familiares, além de estruturar a agenda de ações e produções
para o próximo semestre.
Metodologia: roda de apresentação das ações do GT, compartilhamento
de experiências e articulação de agenda das ações.

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Ilê Ará - Saúde Mental e religiões afro-brasileiras

Elisabete Vieira
Universidade Federal da Paraíba - UFPB

Contextualização: O Candomblé se apresenta como uma manifestação


religiosa proveniente das múltiplas etnias africanas que, a partir do
século XVI, foram trazidas para o Brasil, no contexto da escravidão. E,
somente, no século XVIII que esta designação foi institucionalizada e
espacialmente localizados, com o surgimento dos primeir os terreiros
de Candomblé em Salvador, na Bahia (Carneiro, 1977).
Mas, é no processo de redemocratização do país que a religião ganhou
visibilidade, através de maior conhecimento por parte da população do
Brasil dessa religiosidade, aumentando o número de adeptos, bem
como, os indivíduos que até então vivenciavam esta religiosidade
assumissem estes espaços publicamente, como é caso de várias figuras
públicas do cenário nacional como artistas, esportistas e políticos
(Prandi, 2004).
Os terreiros de Candomblé puderam mostrar que são locais de
resistência e manutenção da identidade negra, através das rezas,
cantigas, culinária e ritualística. É nesse contexto que os adeptos passam
entender que o corpo físico é instrumento para materialização do
sagrado.
Justificativa: O tema da saúde perpassa o cotidiano dos terreiros de
Candomblé e de seus adeptos. Isso porque, historicamente, os terreiros
de Candomblé se revelam como espaços de acolhimento, apoio e
conforto nos momentos em que os sujeitos se encontram enfermos.
Mandarino (2012) afirma que os terreiros desenvolvem diversas
atividades voltadas para a atenção à saúde, mesmo existindo uma gama
de problemas físicos e mentais, os adeptos recorrem a esses espaços em
momentos distintos do trato das doenças.
A saúde dentro do espaço do terreiro aparece em todos os rituais
desenvolvidos e determinados pelo Axé. Na cosmovisão africana, o Axé

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

é o que preconiza e move todas as atividades desenvolvidas dentro do


terreiro de Candomblé, desse modo ter saúde física e mental é ter Axé.
Para Santos (2008, p. 39), o Axé “é a força que assegura a existência
dinâmica, que permite o acontecer e o devir.” Assim, os terreiros de
Candomblé e seus adeptos são portadores desse princípio dinâmico,
Axé, entendendo-se que na sociedade de santo e a ausência desse
princípio é o causador dos males físicos, mentais e espirituais que
acometem os seres humanos.
Objetivos: Conhecer o processo de cuidado em saúde em saúde mental,
apreendendo o trajeto realizado na busca pelo cuidado em saúde nos
terreiros.
Compreender que a experiência histórica de adeptos das religiões afro-
brasileiras no Brasil é também a experiência de inúmeros traumas.
Trabalhar com uma concepção de saúde que é pensada e produzida na
relação entre o simbólico e o concreto.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Movimento Internacional de Ouvidores de Vozes: um outro


modo de tecer cuidado em saúde mental

Roberta Antunes Machado


Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul
IFRS

Luciane Prado Kantorski


Liamara Denise Ubessi
Ivon Fernandes Lopes
Isadora Oliveira Neutzling
Universidade Federal de Pelotas – UFPel

Contextualização: O Movimento Internacional de Ouvidores de Vozes


(MIOV) nasce na Holanda no final da década de 1980. Defende que ouvir
vozes que outras pessoas não ouvem não é um problema, mas sim como
cada pessoa lida com essa experiência. Desenvolve em diversos países
do mundo o trabalho com grupos de ouvidores de vozes, com a
finalidade de oferecer as pessoas que passam por essa experiência uma
oportunidade de compartilhá-las de modo a construir estratégias de
enfrentamento para lidar com esse evento. As experiências
compartilhadas produzem uma forma de cuidado e de saber alternativo
ao psiquiátrico acerca desse fenômeno. Objetivo: Discutir a experiência
da audição de vozes a partir do trabalho desenvolvido pela Coletiva de
Mulheres que Ouvem Vozes (CMOV), Associação de Usuários dos
Serviços de Saúde Mental de Pelotas (AUSSMPE) e do Grupo de Pesquisa
em Enfermagem em Saúde Mental e Coletiva(UFPel) na cidade de
Pelotas e região Sul como forma de cuidado e de resistência
antimanicomial em saúde mental. Metodologia: O minicurso começará
com uma rodada de apresentação dos participantes. Em seguida,
abriremos o diálogo para uma roda de conversa sobre o que os/as
participantes conhecem sobre o MIOV, após apresentaremos o MIOV
por meio de artigos publicados pelo do Grupo de Pesquisa em

26
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Enfermagem em Saúde Mental(UFPel) e dos trabalhos desenvolvidos


pela CMOV e AUSSMPE na comunidade e em alguns serviços de saúde
mental na cidade de Pelotas e região, recorrendo a exposição de fotos e
vídeos, com exposição em Power Point, em seguida iremos trabalhar
com narrativas de pessoas ouvidora de vozes, publicadas em um
periódico científico organizado pelo grupo de pesquisa com participação
da CMOV, AUSSMPE, pesquisadoras e pesquisadores de outras
instituições de ensino nacional e internacional. Após, abriremos outra
roda de conversa para debater sobre o modelo de cuidado em saúde
mental na perspectiva do MIOV e da psiquiatria tradicional. Para realizar
este minicurso necessitaremos de Power Point e computador com
acesso à internet. A avaliação será mediante a expressão escrita, verbal
ou artística de cada participante sobre a experiência da audição de
vozes como forma de cuidado e de resistência ao modelo hegemônico
em saúde mental.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Mulheres e Drogas: Reflexões para o cuidado feminino em


CAPS AD

Catharina Cavalcanti de Melo


Evelly Nathália Lira de Araújo
Universidade de Pernambuco - UPE

Luciana Ferreira Gomes Espíndola


CAPS AD CPTRA e Hospital das Clínicas

Wanessa da Silva Pontes


CAPS AD Prof.º José Lucena
A defesa da luta antimanicomial requer mediações acerca das
diversas estruturas de opressões que moldam o sistema patriarcal-
capitalista-racista e mobilizam aspectos objetivos e subjetivos do
sofrimento mental. Isto posto, é primordial pensar a questão de gênero
e os estigmas que circundam o uso abusivo de álcool e outras drogas por
mulheres, para compreender seus desdobramentos no processo de
cuidado em saúde mental, interno e externo aos serviços substitutivos.
Desde já, algumas problemáticas são manifestadas no próprio cotidiano
desses serviços. Um levantamento institucional organizado no CAPS AD
Prof.º José Lucena, na cidade do Recife, elucidou que menos de ¼ dos/as
usuários/as do serviço eram do sexo feminino, um dado expressivo e
comparável a outros serviços, que pode ser mensurado também pela
recorrente não adesão ou abandono do acompanhamento. Segundo
Pinheiro et al. (2002) as mulheres, em comparação aos homens,
apresentam uma maior predisposição na procura e acesso aos serviços
de saúde no geral, contudo, quando se trata da busca por dispositivos
de atenção à saúde no tratamento de uso/abuso de álcool e outras
drogas, a situação se inverte. Essa realidade pode ser compreendida se
considerarmos que essas mulheres são duplamente estigmatizadas, por
não cumprirem os papéis sociais femininos, e por fazerem o uso da
droga. Elas são expostas a inúmeras formas de adoecimento, sem os

28
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

cuidados e assistência necessária, e possuem uma tendência a


continuarem anônimas, adiando a procura pelo tratamento ou
abandonando-o muito cedo (PINHEIRO et al. 2002). Isso quando
possibilitado o acesso. Diante disso, é possível constatar que há a
necessidade de aperfeiçoar ofertas de cuidado, tendo em vista a
ampliação de recursos que dialoguem e contemplem as especificidades
fisiológicas, psicológicas e sociais dessas mulheres, baseadas em
proposições e estratégias de Redução de Danos. É importante elucidar
ainda, as diferenças nos papéis de gênero entre os diferentes setores
sociais brasileiros, como urbano/rural, burguesia/classe trabalhadora, e
também a questão étnico-racial, visto que existem divergências
historicamente marcantes nos espaços socialmente ocupados pelas
mulheres. O objetivo deste minicurso é fortalecer o debate sobre as
questões de gênero que perpassam a oferta de cuidado e adesão de
mulheres em uso abusivo de álcool e outras drogas, nos Centros de
Atenção Psicossocial para Álcool e outras Drogas (CAPS AD). Para isso,
serão utilizadas metodologias participativas, priorizando o
conhecimento prévio dos/as inscritos/as, a fim de ilustrar inquietações e
iniciar o debate. O espaço contará com três momentos, que se inicia
com a sensibilização a respeito das categorias centrais – mulheres,
drogas e Clínica Ampliada – utilizando recursos audiovisuais e
compartilhando experiências, vivências e percepções sobre o tema.
Posteriormente será facilitado o debate teórico, com apresentação de
dados epidemiológicos e sociodemográficos coletados em CAPS AD da
cidade do Recife, assim como o aprofundamento das problemáticas e
possibilidades no contexto de cuidado nesses serviços, a partir de eixos
estratégicos como, PTS, território e família, apoio matricial, RD e
controle social. Por fim, será construído coletivamente um mapa
conceitual que propunha estratégias de atravessamento da clínica
ampliada na questão de gênero, considerando o fluxo operacional dos
serviços.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Quando o trabalho adoece: conceitos, vivências e estratégias


de enfrentamento ao sofrimento mental no trabalho

Tatiana dos Anjos Magalhães


Universidade Federal Fluminense - UFF

Sônia Regina da Cunha Barreto Gertner


Lucia Rotenberg
Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ

No contexto atual de contrarreforma da saúde no Brasil e de desmonte


da rede de atenção psicossocial, é de suma importância discutir o tema
da saúde mental e trabalho. Os profissionais que atuam na área são
afetados diretamente por essas medidas, que fragilizam ainda mais a
sua saúde mental. Camargo (2014) estima que os transtornos mentais
relacionados ao trabalho são os principais causadores de incapacidades,
sendo identificados como importantes problemas de saúde pública.
Entre os servidores públicos, os transtornos mentais configuram entre
as principais causas de afastamento no trabalho (SCHLINDWEIN;
MORAES, 2018). Algumas correntes teóricas discorrem sobre o tema da
saúde mental e trabalho, dentre elas, o Desgaste Mental trazida por
Seligmann- Silva (2004; 2011), que entende o desgaste mental como a
perda da capacidade laborativa durante o processo de trabalho. Nesta
teoria o processo de trabalho é visto como determinante principal da
relação entre saúde-doença das coletividades (LAURELL, 1993). Outra
corrente teórica é a Psicodinâmica do Trabalho, do médico psicanalista
Christophe Dejours, que analisa a saúde mental e trabalho a partir da
dinâmica entre o prazer e o sofrimento no trabalho. Objetivo: (1)
apresentar os conceitos da teoria do desgaste mental e da
psicodinâmica do trabalho, (2) discutir alguns textos que tratam da
saúde mental dos trabalhadores da Rede de Atenção Psicossocial, (3)
partilhar as vivências relacionadas à saúde mental e trabalho dos
participantes do minicurso, (4) identificar possíveis estratégias de

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

enfrentamento do sofrimento no trabalho. Metodologia: o encontro


consistirá numa apresentação dialogada dos principais conceitos das
duas correntes teóricas propostas, discussão sobre textos que analisam
especificamente a saúde mental dos trabalhadores da RAPS e uma parte
final de partilha de vivências e identificação de estratégias de
enfrentamento do sofrimento no trabalho. Materiais necessários: uma
sala ampla que comporte 30 pessoas, data show para apresentação e
microfone. Avaliação: conforme formulário de inscrição.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Terapia Comunitária Integrativa - Espaço de escuta, palavra e


vínculo

Anamélia Lins e Silva Franco


Universidade Federal da Bahia - UFBA

Josefa Emília Ruiz


Universidade Estadual Paulista - UNESP

Maria Lúcia de Andrade Reis


Associação Brasileira de Terapia Comunitária Integrativa – ABRATECOM

O presente minicurso consiste em uma breve apresentação dos


pressupostos teórico-metodológicos da Terapia Comunitária Integrativa
(TCI), uma das 29 PICS dentro da Política Nacional de Práticas
Integrativas e Complementares em Saúde. A TCI é uma PIC originária do
Ceará (Brasil) numa experiência de extensão universitária na qual o
desafio do combate a medicalização possibilitou as bases desta prática.
Os fundamentos teórico-conceituais da TCI são: Teoria de Paulo Freire, a
Antropologia Cultural, a Psicologia Sistêmica, a Teoria da Pragmática da
Comunicação e o conceito de resiliência com o propósito de formação
de redes sociais. Essas bases possibilitam a vivência de uma prática
social/terapêutica que preserva o direito de os participantes serem
escutados, falarem em primeira pessoa, partilharem experiências,
articulem o saber popular das músicas, dos ditados, dos provérbios e das
piadas com a experiência explicitada na roda. A TCI é ofertada como
uma estratégia de promoção da saúde mental na atenção primária em
todo o Brasil, na América Latina e países da Europa e da África. A
formação em Terapia Comunitária possibilita que pessoas das
comunidades, agentes comunitários de saúde e profissionais em geral. A
versatilidade dessa prática e a sua origem brasileira são motivos para
ampliar cada vez mais sua oferta. Nessa oportunidade pretende-se
fortalecer os vínculos da TCI com profissionais da área de saúde mental.

32
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Objetivos: apresentar o cenário atual desta prática, a produção científica


na área, bem como o impacto junto à saúde comunitária. Metodologia:
a metodologia proposta para esta atividade prevê uma exposição
dialogada, apresentando seus alicerces teóricos, as aprendizagens e
desafios que esta prática genuinamente nacional tem construído ao
longo de mais de três décadas, desde a sua criação no final dos anos 80
no nordeste do Brasil. Após a apresentação, vivenciaremos na prática
uma roda de TCI conduzida pelas autoras da proposta e ao final será
aberto um espaço para uma conversa apreciativa da atividade.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Cooperativismo Social, Saúde Mental e Economia Solidária

Ana Luisa Aranha


Pedro Montaldi Gava
Felipe Teixeira Genta Maragni
Caroline Ballan
Íris Smaniotto Roschel Rotger
Anna Luiza Monteiro de Barros

Este Curso concebe cada participante como sujeito do processo


multiplicador de saberes e rejeita identificá-lo como mero receptor de
um modelo pronto, assim, constituir-se-á como: o encontro grupal, um
espaço vivo de debates, para pensar e repensar a prática; um ambiente
para criar e recriar conhecimentos, ver e rever pressupostos; uma
experiência para descobrir e socializar desafios e perspectivas do
trabalho voltado para visão integradora do ser humano como ser social.
Como todo processo de formação é resultado de condições históricas e
depende de um longo processo de reflexão sobre a própria prática, o
coletivo de construção do conhecimento implica em discussão, troca de
experiências e estudo teórico, com clareza e explicitação da
fundamentação teórica, que servirá de guia para a ação educativa.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Reforma Psiquiátrica no Brasil: história e desafios


contemporâneos

Paulo Amarante
Ana Paula Guljor
Eduardo Torre
Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção
psicossocial - FIOCRUZ

O processo de Reforma Psiquiátrica brasileiro inicia-se em fins da


década de 70 e durante as últimas quatro décadas se constituiu como
uma das transformações do modelo de cuidado em saúde mental mais
exitosas do mundo, além de um amplo processo de mudanças de
relações sociais para com a loucura e o sofrimento mental. O diferencial
do processo brasileiro caracterizou-se pelo protagonismo de usuários e
familiares e uma construção coletiva de políticas públicas através de 4
conferências nacionais de saúde mental. O marco legal de garantia de
direitos das pessoas em sofrimento psíquico foi promulgado em 2001,
sendo uma das legislações pioneiras na América Latina. Apesar de seu
reconhecimento como política de Estado e grandes avanços no que se
refere as práticas de cuidado em liberdade ainda se depara com grandes
desafios. Para além da necessidade de ampliação dos dispositivos
territoriais e fechamento dos hospitais psiquiátricos, a
desinstitucionalização, conceito orientador do modelo de atenção
psicossocial, pressupõe a desconstrução de estigmas e uma
transformação do lugar social da loucura. No Brasil de hoje, atravessado
por questões estruturais como o racismo e a violência, e pelo
acirramento dos princípios neoliberais na economia, o debate impõe
uma agenda ampla que exige a análise da conjuntura política nacional
onde o projeto de nação universalista e equânime está em disputa com
um campo conservador orientado por um estado mínimo e em uma
lógica privatista mercantil. Este minicurso propõe um resgate histórico

35
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

deste processo de RP dialogando com os desafios atuais em um


contexto clínico, político e cultural.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Garantias de direitos e saúde mental: as práticas dos CAPS

Fernanda Nicácio
Marcia Aparecida Ferreira de Oliveira
Claudia Braga
Universidade de São Paulo - USP

A complexidade de concretização da garantia de direitos das pessoas


que vivem experiências de sofrimento psíquico - uma das diretrizes
fundamentais da reforma psiquiátrica - no cotidiano das redes
territoriais de atenção psicossocial do SUS e intersetoriais requer a
análise e o debate coletivo, em particular no atual contexto social e
político. Objetivos: (i) possibilitar o conhecimento inicial sobre:
Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e o
QualityRights tool kit - tradução oficial para o português "Direito é
Qualidade"; (ii) propiciar a reflexão sobre os desafios das práticas
desenvolvidas nos centros de atenção psicossocial - CAPS, CAPSad e
CAPSij- tendo como referência essas proposições, a Lei 10216, e em
diálogo com algumas das contribuições dos principais autores da
perspectiva ética-teórica-técnica da desinstitucionalização e da
reabilitação como cidadania.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Saúde Mental da pessoa idosa no isolamento social da


Pandemia Covid-19

Ana Pitta
Ana Brandino
Universidade Católica de Salvador - UCSAL

Joana América Oliveira


Médica Geriatra

Palavras-Chave: Saúde Mental, Envelhecimento, Isolamento social,


Intergeracionalidade, COVID-19.
Em resposta à pandemia da COVID-19, foram instituídas pela OMS
medidas de distanciamento social, isolamento social e quarentena.
Dentre os grupos mais vulneráveis à COVID-19, encontram-se os idosos,
que além do estigma de pertencerem a um grupo de risco, podem, ao
serem submetidos ao isolamento social, com alterações na dinâmica
familiar, nas relações intergeracionais e interpessoais, desencadear
sentimentos diversos, de solidão, sofrimento emocional, medo e
angústia que aumentam o impacto do isolamento na saúde mental, o
que justifica a busca de conhecimento e pesquisas sobre este tema. Este
minicurso contará com a presença de três professoras doutoras do
NUPE-UCSAL, que desenvolvem juntas estudos e pesquisas no campo da
Velhice, Gerontologia e Saúde Mental: Ana Pitta: Saúde Mental no
envelhecimento; Joana América Oliveira: Epidemiologia, velhice e
desenho de investigação; Ana Brandino, Resultados e conhecimentos
preliminares. Trata-se de estudo com abordagem quantitativa e
qualitativa, que tem por objetivo analisar o impacto do isolamento
social nas relações intergeracionais entre idosos brasileiros e
portugueses, com foco nos determinantes biopsicossociais e os
diferentes contextos socioambientais em que vivem. Foram investigados
indivíduos a partir de 60 anos de idade, em uma amostra por
conveniência. A coleta de dados foi realizada através de questionário

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

digital, com quatro grupos de questões: socioeconômicas e


demográficas; ambiente familiar e relações intergeracionais, indicadores
de saúde e saúde mental. A equipe de pesquisa presente estará
disponibilizando suas experiências e a discussão com os (as)
participantes deverá possibilitar reflexões e observações sobre as
relações, dinâmicas e reflexos que envolvem o isolamento social,
aprofundando a compreensão sobre este grupo de indivíduos, de modo
a propor ações interventivas, com respostas às necessidades desta
população e de suas famílias, que promovam a saúde mental e o bem-
estar em tempos de pandemia.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Luta Antimanicomial é também uma Luta Antirracista

Eliane Silvia Costa


Jeane Saskya Campos Tavares
Emiliano Camargo David
Conselho Federal de Psicologia – CFP

INTRODUÇÃO: A terrível história de escravização de negros, indígenas e


o racismo científico que embasou a posterior política de
embranquecimento da população brasileira se relacionam diretamente
com a constituição do campo da saúde mental no início do século XX.
Longe de se constituírem como formas de cuidar, as intervenções
psiquiátricas, os manicômios e as prisões foram uma atualização dos
métodos de tortura colonial sustentados teoricamente pelo higienismo
e Darwinismo social. Apesar de séculos de luta do povo negro, nos anos
1970-80, tanto o Movimento da Reforma Sanitária (MRS), voltado para
reestruturar as políticas de saúde de modo geral, quanto no Movimento
da Reforma Psiquiátrica Brasileira (MRP), destinado mais
especificamente ao campo da saúde mental, convergiram na defesa dos
direitos humanos, mas prescindiram da discussão da desigualdade racial
e priorizaram a luta de classes. Na mesma época, o Movimento Negro
Unificado (MNU) defendia a democracia, a reformulação das políticas
trabalhistas, educacionais, de segurança pública (contra a violência
policial), dentre outros, entendendo a indissociabilidade entre estas
questões e o racismo.
OBJETIVO: para ampliar e atualizar esta discussão, neste minicurso
discutimos que a defesa de uma sociedade sem manicômios passa pela
compreensão interseccional de que nos estruturamos como sociedade a
partir do racismo, do classismo (desigualdade de classe social) e o
sexismo (desigualdade de sexo, gênero e orientação sexual) e do
capacitismo.
METODOLOGIA: nessa direção, apresentaremos escritos
contemporâneos e ações recentes realizadas pelo Conselho Federal de

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Psicologia lastreadas por esse olhar interseccionado e antimanicomial,


portanto, contra qualquer modalidade de dominação, é o caso do
Boletim da Comissão de Direitos Humanos, uma publicação bimensal do
CFP.
RESULTADOS: esperamos que se evidencie que as lutas antimanicomial
e antirracista não são campos distintos de militância, são movimentos
em defesa da vida, saúde, justiça e liberdade que se entrelaçam
historicamente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: num momento histórico em que assistimos ao
retorno da defesa pública da tortura e do uso político de discursos de
ódio, da disseminação de informações falsas e do racismo como
justificativa aceitável para intensificação do genocídio da população
indígena e negra consideramos ser urgente este debate.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Oficinas

A construção psicológica sob perspectiva sócio-histórica e a


interseccionalidade como estratégia para promoção de saúde
mental

Esther Rocha da Silva Correia


Melissa Gava Payer
Universidade do Grande Rio - UNIGRANRIO

O presente trabalho nasceu a partir da necessidade de discutir e pensar


interseccionalidade, sobretudo em uma sociedade que foi construída
através do genocídio e marcada pela escravidão, pelo sexismo e pela
desigualdade social. Essa palavra – interseccionalidade – para alguns
banalizada e para outros desconhecida, se torna cada vez mais
indispensável para a promoção de saúde mental. Proferida pela primeira
vez pela jurista afro-americana Kimberlé Crenshaw (1989) e como Silma
Birge (2009) define muito bem, a interseccionalidade é uma teoria e um
recurso metodológico que visa compreender a complexidade das
identidades e desigualdades sociais de maneira integrada e não parcial.
Desde o período colonial, quando a Psicologia se tratava do desejo de
compreender o ser humano e catequizá-lo, os interesses atendidos são
os das elites e dos mais privilegiados. Contudo, diante da pluralidade de
existências, é urgente considerar múltiplos recortes e se comprometer
com os que, frente à normatividade, sempre foram vistos como “o
outro”. Após compreender isso, o objetivo aqui inserido é de despertar
debates acerca do ser humano dentro de uma sociedade. Conforme Ana
Bock (2008) aponta, é preciso que os sujeitos sejam pensados por uma
perspectiva que tenha a historicidade como uma de suas características
principais. Portanto, este trabalho tem como intuito estimular a
perspectiva sócio-histórica e desenvolver, de forma interativa e
embasada, o olhar contextualizado e inclusivo para a multiplicidade de

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

culturas e vivências de uma sociedade desigual, machista, racializada e


ferida pelo apagamento e massacre de determinadas etnias. Na
metodologia deste trabalho, além das pesquisas bibliográficas, reunimos
relatos enviados por voluntários que compartilharam suas histórias e
vivências dentro de cada recorte possível da interseccionalidade.
Durante a oficina, inicialmente será realizada com os participantes a
Caminhada dos Privilégios – adaptada pelas autoras. Em seguida, serão
sorteadas e lidas pelos participantes da oficina as histórias recebidas,
para encorajar a reflexão e a troca de experiências acadêmicas e
pessoais. Em conseguinte, dialogaremos juntos sobre a construção de
um coletivo para acolhimento, conversas e eventos que abracem e
lidem com as diversidades, com o objetivo de promover saúde mental
por uma perspectiva interseccional. Os membros da oficina poderão
escolher se desejarem participar desse coletivo, que realizará reuniões
virtuais e possíveis reuniões presenciais com coordenadores de vários
lugares do país. Os recursos são adaptáveis e o espaço será utilizado da
melhor maneira possível. Para a Caminhada, a sala é o suficiente. A caixa
com os relatos será preparada pelas próprias autoras e os debates
surgirão espontaneamente. Com o embasamento acadêmico levado por
nós e a troca de conhecimento e bagagem pessoal durante a oficina,
levaremos nossas histórias – e de tantos outros – para a Psicologia,
contribuindo para o enriquecimento dela e priorizando a promoção de
saúde mental e prevenção do adoecimento, respeitando a diversidade
de saberes e vivências – reconhecendo os grupos que, depois de tanto
descaso histórico, precisam especialmente do nosso olhar.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Redução de Danos (RD) como proposta para o cuidado de


usuários de droga: reflexões sobre inclusão social

Tassiana Gonçalves Constantino dos Santos


Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

Laís Ramos Sanches


Centro Universitário Unifaminas

Contextualização: A Reforma Psiquiátrica é construída e reconstruída ao


longo dos anos, dia após dia, reunindo dispositivos importantes como a
redução de danos (RD). A RD constitui-se em uma forma de cuidado
para usuários de álcool e outras drogas priorizando a autonomia,
cuidado em liberdade e tecnologias leves (escuta, acolhimento e
vínculo) e tendo como foco a garantia dos direitos da população usuária
e a inclusão destes nos espaços sociais. No entanto, os pressupostos
desta prática têm se tornado alvo de propostas conservadoras e
fundamentalistas que impactam na sua execução, que podem reforçar
os processos de exclusão, segregação e marginalização social, uma vez
que intensificam os estigmas associados aos usuários. Portanto, pensar
a RD enquanto proposta de inclusão social é essencial para a efetivação
das políticas públicas nos dispositivos da rede de atenção psicossocial. O
desafio dessa efetivação da inclusão está na construção histórica de
uma sociedade que tem incluído de forma indigna e perversa,
determinados grupos sociais, como os usuários de drogas. Essa falácia
da inclusão se pauta na exclusão histórica, que foi reforçada pelos
processos históricos de opressão, marginalização, estigmas e
reprodução de uma ordem social vigente. Assim, a RD assume um
importante espaço de luta em prol da inclusão efetiva, que se constrói
na medida em que se reflete sobre tal dialética. Justificativa: A RD se
pauta em práticas de inclusão social, no entanto, torna-se necessário a
reflexão sobre essa relação, de modo que a RD, por meio da liberdade,
autonomia e informação, proporcione ao usuário um cuidado tendo em

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

vista a promoção da participação dos sujeitos nos âmbitos sociais,


familiares, comunitários, políticos e trabalhistas. No entanto, a
efetivação da inclusão social, conforme prevista em lei, tornou-se um
impasse diante dos históricos processos de exclusão e segregação.
Torna-se necessário, então, intensificar o debate e reflexão crítica, tanto
no âmbito acadêmico quanto junto aos profissionais da saúde e saúde
mental, de modo a tecer críticas quanto às práticas que reforçam este
processo de exclusão. Objetivos: Proporcionar reflexão crítica acerca da
Redução de Danos e das concepções acerca da inclusão social nas
políticas de drogas, perpassando temas transversais como minorias,
estigmas e exclusão social, fundamentais para a proposta da RD.
Metodologia: Serão utilizados recursos interativos como construção de
painéis de concepções, com foco da discussão sobre a RD enquanto
política pública que resiste em tempos de retrocessos. Logo em seguida,
será realizada uma exposição teórica sobre a RD e sobre os desafios da
inclusão social, pautada em autores e autoras que fazem uma reflexão
crítica acerca da realidade social. Por fim, uma vivência e reflexão sobre
estereótipos e estigmas encerrará a oficina. Recursos materiais: Será
necessário uma sala com cadeiras que possam ser realocadas, papel
pardo, pincéis, canetinhas, lápis de cor e data show. Avaliação: espera-
se que por meio da oficina, seja possível instigar uma reflexão sobre as
práticas de cuidado que os profissionais disponibilizam aos usuários,
buscando o questionamento: a redução de danos tem promovido a
inclusão ou tem reforçado a exclusão social?

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Cuidados multidisciplinares e Saúde Mental do Trabalhador

Simone Deodato Lima


Clarice da Paz Bezerra
Joice Silva de Almeida Sousa
Antônia Maria de Sousa Paz Lima
Prefeitura Municipal de Icapuí

Beatriz Alcântara Damasceno


Escola de Saúde Pública do Ceará

Contextualização: A implementação de cuidados em saúde mental para


quem cuida, nos faz aceder uma ação transformadora nos nossos
processos de trabalho. Para assumir o cuidado, é preciso encontrar
respostas satisfatórias construídas no coletivo. Cuidador é aquele que
cuida de alguém. Quem se cuida, pode cuidar melhor do outro. Nesse
sentido, a partir de vivências terapêuticas, a oficina proporcionará ações
de cuidado priorizando reflexões para promoção da saúde e prevenção
do adoecimento de profissionais de saúde. Justificativa: A necessidade
de nos sentirmos cuidadas para podermos cuidar do outro, viabilizou a
construção de novas formas de trabalho. A oficina aqui tratada surge
como primeira atividade de cuidado em nosso município (ICAPUÍ-CE), a
tratar do tema “cuidando do cuidador”. Trata-se de um projeto
desenvolvido pelos profissionais do Centro de Atenção Psicossocial,
realizado no ano de 2019 voltado para profissionais das oito (8)
Unidades de Atenção Primária do referido município, onde os mesmos
tiveram a oportunidade de se reunir para cuidar-se, olhar para si, refletir
sobre seus sentimentos e atitudes no ambiente de trabalho e na vida
pessoal. A partir dos momentos de cuidados propostos, puderam pensar
de que forma eles estavam se preparando para acolher o outro.
Acreditamos que o pioneirismo possa incentivar futuros profissionais a
terem esse olhar dinâmico da nossa prática e para reflexos pessoais que
possam incidir na nossa vida profissional. A principal motivação para

46
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

apresentarmos a oficina ao congresso, reside na importância que o tema


possui para os trabalhadores da saúde mental. Podemos afirmar que
estudar a influência mútua entre os profissionais e os usuários,
aprofundam a compreensão de novas estruturas sociais e de saúde. Em
tempos turbulentos em termos políticos e econômicos como os atuais,
inserir o cuidado da nossa prática, funciona como um catalisador para
mudanças nos processos de trabalho. Objetivos: Propor vivências e
intervenções terapêuticas propiciando aos trabalhadores de saúde
mental momentos presenciais de cuidado, autoconhecimento; voltados
para os aspectos emocionais, psicológicos e relacionais; construir no
coletivo, propostas de cuidado, para que os profissionais possam atuar
como sujeitos críticos e reflexivos em relação ao próprio processo de
trabalho. Metodologia: A oficina será realizada na modalidade
presencial, a partir de exposição dialógica, utilizando-se de discussões e
debates que trazem para o campo importantes contribuições. A oficina
ainda oferecerá um espaço mais dinâmico de trocas de experiências, a
partir de atividades práticas vivenciais voltadas para a temática que
favoreçam e estimulem um pensar crítico no âmbito da saúde pública e,
sobretudo da saúde mental. Serão ofertados momentos de cuidado dos
quais destacamos: Roda da Vida, dança circular, círculo do cuidado,
biodança, mural dos sentimentos, dentre outras.
Recursos materiais: mini projetor - data show.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Expressão, corpo e debate - desafios da práxis a partir do


teatro do oprimido

Fabricio Gobetti Leonardi


Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP

Apresentação justificativa e metodologia: O Teatro do Oprimido é um


método estético que reúne exercícios, jogos e técnicas teatrais que
objetivam a desmecanização física e intelectual de seus praticantes e a
democratização do teatro, estabelecendo condições práticas para que o
oprimido se aproprie dos meios de produzir teatro e amplie suas
possibilidades de expressão, estabelecendo uma comunicação direta,
ativa e propositiva entre espectadores e atores. Tem como seu
idealizador o teatrólogo brasileiro Augusto Boal.
Entre as técnicas do Teatro do Oprimido, a mais praticada em todo o
mundo é o Teatro-Fórum, um espetáculo baseado em fatos reais, no
qual personagens oprimidos e opressores entram em conflito de forma
clara e objetiva, na defesa de seus desejos e interesses. Neste
confronto, o oprimido fracassa e o público é convidado pelo curinga (o
facilitador do Teatro do Oprimido), a entrar em cena, substituir o
protagonista (oprimido) e buscar alternativas para o problema
encenado.
O Teatro do Oprimido é uma metodologia criada para ser apropriada
por qualquer pessoa, já que se baseia no princípio que todo ser humano
é teatro e por isso é capaz de fazer teatro. Por isso, os candidatos para o
programa de capacitação não precisam ter nenhuma experiência teatral
e/ou formação específica.
Esta proposta aposta no Teatro do Oprimido como de vivência da práxis,
em que trabalhadores, usuários, familiares e gestores da saúde mental
da rede atenção psicossocial possam vivenciar espaços de trocas e ações
concretas.
A metodologia do Teatro do Oprimido a partir da experiência de vida
das pessoas é uma alternativa lúdica, dinâmica e eficaz para o

48
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

estabelecimento de um ambiente propício para a discussão de temas


como: integração do usuário na comunidade, sua inserção familiar e
social, preconceito no mercado de trabalho, sexualidade, entre outros,
os quais dificilmente são verbalizados, mas são reveladas através do
teatro.
Além da identificação e compreensão de problemas, o Teatro do
Oprimido estimula a busca de alternativas concretas para a resolução
dos mesmos, incentivando a construção coletiva de soluções diversas,
democráticas e criativas. Essa metodologia foi utilizada como oficina
naquela que pode ser considerado a primeira ideia de CAPS (Centro de
Atenção Psicossocial) no mundo: a Casa das Palmeiras (Dra. Nise da
Silveira) e fortalecia o vínculo de tratamento e o afeto entre
funcionários, usuários e familiares.
Objetivos: Realizar uma formação introdutória sobre teatro do oprimido
e linguagem corporal com vistas à democratização dos meios de
produção cultural e cênica.
Difusão do Teatro do Oprimido, ativação e fortalecimento da cidadania,
através da implementação de ações socioculturais que estimulem a
participação protagônica das camadas menos privilegiadas da
sociedade, e visem à transformação da realidade através da abertura de
espaços de diálogos.
Recursos: O único recurso que precisamos é um espaço adequado (sem
cadeiras fixas, por exemplo). Pode ser utilizado um espaço aberto, um
palco, uma sala de aula.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Oficina de Articulação do Observatório Internacional de


Práticas de Gestão Autônoma da Medicação

Marilia Silveira
Universidade Federal de Alagoas - UFAL

Luciana Togni de Lima e Silva Surjus


Beatriz Cesar Lauria
Erika Marinheiro Pereira
Douglas Martins Nunes
Angelo Galdino da Silva
Otaviano Lopes dos Santos
Helena Aparecida Ferreira
Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP

Contextualização: A Gestão Autônoma da Medicação é uma proposta


desenvolvida no Quebec – Canadá, na década de 1990. Surgiu da
problematização realizada pelos movimentos sociais sobre o uso de
medicamentos psicotrópicos, sendo uma estratégia de mudança nas
relações de poder para garantir aos usuários uma participação efetiva
nas decisões sobre seu tratamento e pressupõe como fundamental o
diálogo e o intercâmbio entre os atores envolvidos nos tratamentos em
saúde mental.
A GAM tem sido utilizada em diferentes experiências no Brasil, tomada
como um dispositivo de co-gestão em uma tentativa de superar o
binarismo de autogestão / heterogestão. Os grupos GAM
desenvolveram-se a partir de dispositivos heterogêneos em diferentes
serviços, compostos por trabalhadores, familiares e usuários de
diferentes idades e com diferentes diagnósticos, para que as diferenças
possam lado a lado, enfatizar a importância do diálogo.
Da experiência, que atualmente completa de 10 anos, da utilização da
estratégia GAM no Brasil, surgiu a proposta da estruturação do
Observatório Internacional de Práticas GAM, cujos objetivos são:

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

sistematizar, acompanhar e dar visibilidade às experiências que vêm


sendo produzidas no Brasil, Espanha e Canadá, com vistas a produzir
subsídios para sustentação e expansão de tecnologias de cuidado que
promovam autonomia junto a usuários, famílias e profissionais em
relação ao tratamento farmacológico amplo e acrítico em saúde mental,
em especial frente ao cenário de retrocessos na política nacional de
saúde mental.
Justificativa: O Observatório vem sendo gestado há dois anos, e em
setembro de 2019 teve o Acordo Internacional de Cooperação
Multilateral publicado no Diário Oficial da União, sendo lançado
oficialmente no último dia 30/10/2019, em evento acadêmico realizado
na PUC São Paulo, com representantes do Brasil e Espanha. O
Observatório conta com um sítio eletrônico (observatoriogam.org) a
partir do qual podem ser acessadas as principais produções científicas e
notícias da mobilização das práticas no Brasil.
Objetivos: Promover o encontro entre as diferentes experiências em
curso, fomentar trocas e sistematização dos resultados de modo a
produzir subsídios para a sustentação científica das práticas
emancipatórias em saúde mental.
Metodologia: Oficina de compartilhamento de experiências e
elaboração de agenda de ações e produções técnico-científicas.
Recursos materiais: Necessários dispositivos de audiovisual.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

População em situação de rua: a invisibilidade como forma de


negligência e desrespeito aos direitos humanos e a dignidade
como pacto civilizatório

Melissa Gava Payer


Esther Rocha da Silva Correia
Universidade do Grande Rio - UNIGRAMRIO

Este trabalho surgiu a partir do desejo de compreender um pouco sobre


a população em situação de rua para além de todos os seus rótulos e
invisibilidades sociais, pois trata-se de um assunto fundamental na
atualidade. Entendendo que é preciso desenvolver trabalhos com essa
população, que necessita de ações sérias, embasadas e políticas, é que
este projeto busca desenvolver contribuições a esse respeito. Nesse
sentido, é válido citar que de acordo com Rosa, Cavicchioli e Brêtas
(2005), “as políticas públicas voltadas a essa população são basicamente
compensatórias, assistencialistas, raras vezes visam um projeto de
inclusão social.” Existem muitos estereótipos sobre a população em
situação de rua, assim como diversas intervenções falhas para com ela,
além da baixa quantidade de dados estatísticos a esse respeito no Brasil
– não sendo inclusive realizadas pesquisas nem mesmo pelo IBGE
(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). E ao mesmo tempo que
ela é apagada estatisticamente, é observada de forma pejorativa nas
ruas. Sobre isso Rosa, Cavicchioli e Brêtas (2005), resumem que “Se, por
um lado, são tidos como incômodos ocupantes das vias públicas, por
outro, sentem-se incomodados pelos olhares que lhes são
direcionados." Diante disso, por entender que o povo de rua é potente,
e tem direito a ações que atendam suas particularidades e verdadeira
inclusão social, este projeto considera importante e coerente a
realização da proposta aqui apresentada. Por metodologia foram
realizadas pesquisas bibliográficas para elaboração embasada de uma
oficina interativa geradora de reflexões e provocações para maior
visibilidade da população em situação de rua. Propõe-se, inicialmente, a
52
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

apresentação dos resultados de um formulário de pesquisa


disponibilizado online para pessoas das cidades de Duque de Caxias,
Magé e Rio de Janeiro, todas do estado do Rio, que buscava coletar
opiniões sobre como essas pessoas veem e se relacionam com a
população de rua, para gerar discussões críticas acerca dessa realidade
em uma roda de conversa. Em seguida, acontecerá a realização de
leituras de relatos verídicos e fictícios sobre algumas das vivências dessa
população, que serão sorteados pelos participantes, a partir de uma
caixa preparada pelas próprias autoras previamente, para criar um
ambiente favorável a sensibilização e problematização sobre os
desrespeitos aos direitos humanos que essas pessoas enfrentam,
gerando estímulo para continuidade do debate. Por possuir caráter
interativo, os recursos materiais necessários são poucos, visto que uma
sala com cadeiras disponíveis para acomodação de um determinado
grupo em roda e com um projetor para explanar os resultados do
formulário, mostra-se suficiente. Sendo assim, a proposta apresentada
compreende essa realidade e faz-se necessária como espaço de
importantes discussões na área, assim como busca apresentar que a
população em situação de rua é formada por indivíduos potentes, que
não precisam pura e simplesmente de boas almas, mas sim de
oportunidades equânimes e de ações governamentais urgentes.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Práticas integrativas e complementares, expressões artísticas


e espiritualidade no mental”. Uma vivência pedagógica em
torno do conteúdo “lutas”, com ênfase na modalidade do judô

Clara Borges Leal


Federação Baiana de Judô - FEBAJU

Cláudia Miranda
Universidade Federal da Bahia – UFBA

A proposta de oficina se vincula ao eixo “Práticas integrativas e


complementares, expressões artísticas e espiritualidade no cuidado em
saúde mental”. Seu intuito é possibilitar uma vivência pedagógica em
torno do conteúdo “lutas”, com ênfase na modalidade do judô,
buscando refletir e compreender como essas práticas corporais
milenares, artístico-culturais e esportivas, podem colaborar no processo
de inclusão, democratização, sociabilidade e cuidado em saúde mental
na infância e adolescência. Embora as práticas corporais de movimento
e jogos recreativos estejam sendo ofertados pelas equipes de saúde
mental, nem sempre essas práticas incluem conteúdos das lutas e
algumas vezes as intervenções não se articulam às diretrizes de uma
clínica mais ampliada e integrada. A metodologia proposta se baseia
numa perspectiva pedagógica sociointeracionista vygostckyniana e
numa percepção de saúde com foco na vulnerabilidade social. A partir
dessas bases teórico-conceituais e metodológicas, buscaremos refletir
de que modo as lutas, carregadas de sentidos culturais, têm e podem se
constituir em ferramentas e estratégias de cuidado em saúde mental,
tendo como interseccionalidade as expressões de violência e exclusão
social que predominam no mundo em que esses sujeitos, crianças e
adolescentes, estão imergidos na atualidade. A aproximação com essa
prática corporal na oficina se dará a partir dos seguintes passos: 1)
aproximação geral e troca de experiências e de percepções acerca dos

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

sentidos das “lutas” diante dos atuais desafios sociopolíticos e de


cuidado em saúde na infância e adolescência; 2) experimentos lúdicos
em torno de alguns procedimentos técnicos do judô, com ênfase na
ideia de que a luta só acontece por trocas e interações entre os
diferentes sujeitos envolvidos; 3) reflexões acerca das possibilidades e
limites das práticas corporais, a partir do conteúdo lutas, dentro do
contexto do cuidado em saúde mental de crianças e adolescentes, em
diferentes espaços sociais, como na rede de atenção psicossocial e
escolas. Precisamos de placas de EVA (tatames que podem ser
substituídos por colchonetes ou tapetes) como recursos físicos e
materiais para desenvolver a oficina.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Processo criativo no período da pandemia: como transformar


nosso tempo ocioso em arte para poder preservar nossa saúde
mental?

Edenice Santos da Silva


Universidade Federal da Bahia - UFBA

Em meio ao cenário de pandemia em que estamos vivendo e, diante da


necessidade de respeitarmos o isolamento social observa-se um
emaranhado de pessoas sofrendo de transtornos mentais e,
consequentemente, experienciando variações de humor, estágios
depressivos, consequências físicas e interpessoais, enfim, situações
psicossomáticas. Diante do exposto, observa-se a relevância social da
oficina de processos criativos para transformação do tempo ocioso em
arte, preservando, assim, a saúde mental dos participantes. Uma vez
que a arte tem a capacidade de transformar o indivíduo,
proporcionando-lhe a libertação interior e o alívio da mente. O objetivo
desta oficina é estimular a criatividade do indivíduo a partir da
construção coletiva, para que ao final da atividade os participantes
possam apresentar suas angústias poeticamente, ou seja, expressar-se
através da arte. Metodologicamente esta atividade será desenvolvida
através de grupos e subgrupos, conforme a preferência da turma e, ao
término, haverá uma apresentação final de todos os resultados obtidos,
ou seja, de todos os trabalhos gerados em conjunto. Para que haja
melhor fluidez, estima-se um número máximo de participantes, 40
pessoas. Para esta oficina será necessário, apenas, canetas e papéis para
o processo prático e equipamentos de projeção (notebook, projetor e
caixa de som) para que possam acompanhar algumas das minhas
criações. É interessante que a atividade seja desenvolvida em um espaço
amplo e com boa iluminação para que não haja desconforto, visto que
os participantes desenvolverão a escrita criativa. Para este processo
tudo será válido, ou seja, aqueles que desejarem transformar seus
poemas em canções, poderão desenvolver seus batuques. Portanto, é
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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

aconselhável que o espaço esteja em um ponto estratégico, para que


não interfira nas demais atividades do Congresso. Ao final da atividade,
espera-se que todos os participantes se sintam relaxados e aptos a
prosseguirem com suas produções individuais ou coletivas, servindo de
multiplicadores, incentivadores ou, simplesmente, escritores, poetas,
compositores, enfim, o que desejarem ser. Mesmo que alguns não
desejem prosseguir, esta oficina, ainda assim, proporcionará bons
fluidos, pois a escrita poética surge de dentro para fora e, uma vez
externalizadas as problemáticas internas tendem a passar por
processos, principalmente quando compartilhadas em equipe.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Protagonismo de usuários e familiares no campo da saúde


mental e luta antimanicomial

Eduardo Mourão Vasconcelos


Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

Visão panorâmica das diferentes experiências de participação,


empoderamento e protagonismo dos usuários e familiares nos serviços,
na rede e na política de saúde mental e seus principais conceitos chaves,
na experiência internacional e particularmente brasileira mais recente, e
seus inúmeros desafios, incluindo depoimentos de lideranças de
diferentes estados do país e debate entre todos participantes da oficina.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Corpo Negro nos espaços: um direito corrompido?

Cinthia Cristina da Rosa Vilas Boas


Célia Zenaide da Silva
Conselho Federal de Psicologia – CFP

Contextualização: A subjetividade representa um amplo conceito


orientando à compreensão da psique como processo e organização de
estratégia, que necessita de escuta, processo criativo e olhar para as
questões sociais. Este amplo conceito representa realidades que
aparecem de múltiplas formas e em num nível histórico-cultural, no qual
as funções psíquicas são entendidas como processos permanentes de
significação e sentidos, por tanto de vivências diferentes. A valorização
dessas vivências, nos leva a pensar a educação social, de forma mais
empática, como linha de estratégia e possível ferramenta para a
psicologia. Explicar, explorar o mundo em que se vive, é falar de
histórias vividas, vista e contada. Essa maneira de entender o mundo é
considerada um jeito de se colocar no mundo e obter sentidos e
sentimentos. Contar ou ouvir essas histórias é fazer ciência e produzir
saúde mental.
Justificativa: As dimensões sociais estão diretamente ligadas aos
registros simbólicos nas formas em que as pessoas estão e se
relacionam com o mundo. Com isso temos os sentidos e os significados
a serem vividos individualmente e coletivamente, padronizados ou não
esses sentidos nos levam a viver a vida muitas vezes de uma forma
violenta. Estar de frente com questões de violência pode ser pensar em
relações de gênero, preconceito, relações raciais, negritude,
branquitude, direitos humanos é no mínimo enfrentar algumas questões
que podem te colocar a margem do que é chamado de normal, e
corromper os direitos humanos de ir, vir, ser ou estar. Na atual
conjuntura política de interrupções de direito, esse sentido a
possibilidade de expressões, de falas e sentimentos, favorece para que o

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

corpo não adoeça e quando a psicologia acolhe os afetos e as produções


de subjetividade, frente ao sofrimento, produz saúde mental.
Objetivos
Vivenciar formas de colaboração para a reorganização dos afetos, da
luta cotidiana e da resistência movimentada no corpo.
Recursos Materiais: Uma Sala Virtual.
Metodologia: Será utilizada a metodologia de participação dentro da
educação social. A produção do saber científico não provoca a verdade
sobre as coisas, pois está sempre em progresso, e sempre é construída
com atribuições de sentido. Valorizar a troca de experiências e pensar
estratégias, que podemos chamar de sobrevivência, é valorizar a
educação social. A oficina conta com interações de poesias, seguimos
para os desenhos e diálogos, depois as canções e movimentações
corporais, finalizamos com uma vivência, colocando assim cada pessoa
participante frente as situações diversas, ampliando o repertório
subjetivo com as questões cotidianas, desorganizando as normas
padronizadas de ser, viver ou existir.
Avaliação: Analisar cenários onde cada situação acontece e estar atentas
a cada intervenção possível, e pensar estratégias de enfrentamento,
também faz parte da oficina e favorece a troca de experiências. A oficina
inteira é pensada para os olhares sobre os comportamentos do corpo
nos espaços por onde percorremos na sociedade. No período final da
oficina haverá um tempo reservado para pensar o processo avaliativo e
dialogar sobre as percepções corporais no período de desenvolvimento
da oficina especificamente.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Entre Telas e Aflições: a experiência das pessoas com a


pandemia da COVID-19

Tahiná Khan Lima Vianey


Jade de Castro Azevedo
Isabella Guimarães Freitas
Natália Mendes dos Santos
Saulo Wilson de Sá Roriz
Conselho Federal de Psicologia - CFP

Contextualização: A pandemia do novo Coronavírus desencadeou a


necessidade do distanciamento físico/isolamento social. Esta nova
conjuntura afeta a saúde mental das pessoas em geral, mas em especial
das populações mais vulneráveis e também dos profissionais da saúde.
Para que este impacto não fique invisibilizado e para que este momento
histórico possa ficar registrado, está sendo produzido um documentário
interativo, no qual diversas pessoas tiveram e estão tendo espaço para
contar as suas experiências psicológicas e sociais com a Covid-19. Este
projeto está sendo desenvolvido com estagiárias e demais estudantes
da área da Saúde do curso de Psicologia da PUC-Goiás. Os estudantes
das disciplinas estão realizando e gravando entrevistas com pessoas de
diferentes perfis (gênero, escolaridade, idade, raça, profissão) focando
em suas vivências de distanciamento físico da Covid-19. O objetivo é
roteirizar as entrevistas para contar suas histórias a partir de uma
perspectiva audiovisual.
Justificativa: Os impactos da pandemia na saúde mental de profissionais
da saúde e de populações mais vulnerabilizadas precisam ser
visibilizados, acolhidos e analisados. Além disso, precisa-se desenvolver
ações que tenham incidência na formação e na atuação de profissionais
da psicologia.
Objetivos: Tanto a realização desta oficina quanto a produção do
documentário interativo em questão buscam propiciar às pessoas a
possibilidade de entrar em contato com outras subjetividades, com

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

experiências diversas na pandemia da Covid-19, bem como aprender


sobre a importância do cuidado em saúde mental. Buscamos também
partilhar aspectos dessa experiência adotada na formação de
estudantes de graduação em psicologia.
Metodologia: As e os participantes da oficina serão apresentadas a
trechos breves das entrevistas que expressam como as pessoas
entrevistadas pelo projeto vivenciam o isolamento social no momento
de pandemia, além de trechos que expressem como profissionais da
área da saúde têm atuado e se sentido diante da atual realidade. Nos
aproximaremos das experiências dos seguintes sujeitos: uma enfermeira
da família, uma médica da família (ambas atuando no serviço público),
psicóloga de um hospital de campanha, uma mulher que recebeu
diagnóstico da Covid-19, uma psicóloga pós-doutora em saúde e um
usuário de um CAPS do município de Goiânia. Além dessas, chamaremos
a atenção para outras experiências que precisam ser compreendidas e
que também serão incorporadas ao documentário em breve: uma
pessoa que tenha atuado na periferia no momento da pandemia, bem
como pessoas que tragam aspectos interseccionais de classe, raça,
gênero e orientação sexual. A dinâmica de trabalho será dialogal e
aberta à escuta das sensações, inquietações e perspectivas de todas e
todos os participantes.
Recursos Materiais: A atividade será totalmente on-line com a utilização
de projeção de tela. Recomenda-se que as e os participantes utilizem
fone de ouvido com microfone e tenham à mão material para que
possam anotar suas impressões ao longo da atividade.
Avaliação: O processo será finalizado com uma autoavaliação, por meio
da qual almejamos apreender se nos aproximamos do objetivo de
sensibilizar as pessoas para a importância da promoção da saúde mental
e prevenção de adoecimentos, em especial de populações
vulnerabilizadas e de profissionais da saúde.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Mesas Redondas

TÍTULO: Direito e advocacia em defesa dos vulneráveis

Coordenação: Sônia Barros


Universidade de São Paulo - USP; ABRASME

Convidada: Itana Santos Araújo Viana


Ordem dos Advogados do Brasil - Bahia

Ministério Público e a Educação Popular em Saúde Mental

Carlos Rubens de Freitas Oliveira Filho


Ministério Público

Este trabalho une dois projetos realizados no âmbito do Ministério


Público do Estado do Mato Grosso, na comarca de Ribeirão Cascalheira,
localizada há 880km de Cuiabá, no Vale do Araguaia. O primeiro projeto
foi chamado de Educação Popular em Saúde Mental e o segundo
Direitos Humanos em Debate. Apesar de aprioristicamente separados,
nota-se que o segundo é uma parte necessária para a consecução do
primeiro. Em um período de retrocessos nas políticas de saúde pública
no Brasil, onde defender a democracia se tornou pauta estranha ao
Governo Federal, nota-se a necessidade de criar espaços de resistência e
debate na sociedade. Resistências Antimanicomiais! Trabalhar com a
marginalidade, com as pessoas em situação de rua e em sofrimento
psíquico, ajuda a compreender o país em que vivemos.
Respeitar as escolhas pessoais, necessidades íntimas, contextos
geográficos, territórios e realidades, buscando proteger suas histórias,

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

buscando significantes, talvez seja a única forma de as normas de


Direitos Humanos e Direitos Fundamentais.
Buscou-se descobrir como a sociedade vem se organizado e lidando com
problemas decorrentes do uso ou abuso de álcool e drogas em uma
cidade de pequeno porte no Estado do Mato Grosso, em uma região
sem a presença de Centros de Apoio Psicossocial (CAPS), sem
Ambulatórios de Saúde Mental, com uma fortíssima presença do
contexto neopentecostal, com elementos proibicionistas, machistas e
reacionários. Para isso, realizou-se inúmeras rodas de conversa, debates
abertos ao público, cine-debates, programas de rádio, reuniões e
“escutas na praça”, para entender o que vem ocorrendo na cidade que
faz com que a população em situação de rua cresça exponencialmente.
Dentre as metodologias utilizadas, preconizou-se a utilização de técnicas
de Redução de Danos como política pública, bem como Educação
Popular, como um processo coletivo e planejado, partindo da realidade
local e de situações concretas de opressão, trazendo a visão de mundo
dos educandos como ponto de partida para articular e unir o saber
popular e o científico.
Entendeu-se a educação popular como uma alternativa solidária para
integrar pessoas com lutas mais amplas, com espaços de formação,
gerando práticas inovadoras e emancipatórias, reconhecendo saberes
comunitários gerando autonomia coletiva, articulando, formando e
organizando a sociedade.
Com o auxílio de profissionais, promoveu-se capacitações que
auxiliaram e incentivaram as discussões entre os pares.
Entre os resultados, houve uma efetiva melhora do serviço prestado
pela rede de saúde e assistência, com o engajamento do empresariado
local e a entrada em cena de um novo ator do terceiro setor, tendo o
Ministério Público como protagonista de tais ações, sem a necessidade
de provocar o Poder Judiciário.
Nos tempos mais sombrios, os abraços mais apertados! Em tempos de
discursos de ódio sendo relativizados, nada mais insurgente que
promover afeto e atenção. Assim, a escuta da população é realmente

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

algo importante, no intuito de auxiliar na formatação do conhecimento


que já existe na sociedade. Ademais, criar espaços de diálogos e debates
faz com que o conhecimento seja construído e repassado, gerando
autonomia às pessoas. “A Liberdade é terapêutica”!

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Saúde Mental e povos vulneráveis pelo olhar da advocacia mineira

Luciana Chamone Garcia


Ordem dos Advogados do Brasil - OAB/MG

Segundo a Constituição Federal, o advogado é indispensável à


administração da justiça, e o Conselho Federal da Ordem dos Advogados
do Brasil possui um papel importante perante os poderes Legislativo e
Judiciário. A OAB e suas seccionais mantém-se como instituição atuante
na defesa da Constituição, da ordem jurídica e dos direitos humanos,
pugnando sempre pela justiça social, eficaz aplicação das leis e rápida
administração da Justiça.
A Seccional de Minas Gerais foi pioneira, e no ano de 2019 criou a
primeira Comissão de Direito à Saúde Mental do Brasil, que tem como
um de seus objetivos o diálogo com profissionais da área da saúde para
a interlocução de saberes, reconhecendo que os problemas relacionados
à saúde mental no Brasil carecem de um olhar multi e intersetorial.
Uma abordagem sobre o tema “Direitos humanos e dignidade humana
como pacto civilizatório: povos em encarceramento, povos tradicionais,
população em situação de rua, imigrantes e refugiados” pelo olhar da
advocacia tem como objetivo a apresentação de vieses jurídicos
necessários para a compreensão de casos concretos.
Para tanto, a proposta deste trabalho é a demonstração sintética do
cenário da saúde mental em cada um desses grupos e a explicação de
conceitos jurídicos fundamentais para elucidação de cada problema, tais
como o princípio da ressocialização do apenado; o relativismo cultural
no contexto dos direitos humanos; o direito à moradia e o direito à
liberdade e o problema das políticas públicas; a diferença jurídica entre
imigrante e refugiado e seus reflexos no Direito Internacional, Civil e do
Trabalho, dentre outros.
É importante ressaltar que um olhar jurídico para cada um desses povos
poderia ser objeto individual deste trabalho e analisado de forma mais
aprofundada, mas a opção de uma abordagem geral se deu pela

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

igualdade de importância de cada grupo, e pela necessidade de abertura


de um debate com os profissionais da área de saúde, ainda que inicial,
neste tão valoroso evento.
Estes povos já apresentam grande sofrimento pelos estigmas,
dificuldades de diagnóstico e principalmente pela sua invisibilidade, e
acabam se aprisionando em celas sociais de desrespeito e falta de
solidariedade.
Ciente do seu papel na construção de uma sociedade mais justa, a
Comissão de Direito à Saúde Mental da OAB de Minas Gerais apresenta
a presente proposta como uma provocação de mudanças institucionais
e sociais, atuando para proteger, acolher e anular as diferenças entre os
sujeitos.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

TÍTULO: A Política de Saúde Mental de Norte a Sul

Coordenação: Rafael Wolski


Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS; ABRASME

Convidado: Sandra Fagundes


Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS; Fórum Gaúcho de
Saúde Mental

Desinstitucionalização sob ataques: uma análise acerca da Política


Nacional de Saúde Mental e nas Diretrizes da Política Nacional sobre
Drogas

Maycon Leandro da Conceição


Universidade Federal de São Carlos – UFSCAR

Apresentação: Os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) no Brasil são


considerados fundamentais no processo de desinstitucionalização de
usuários egressos de internações psiquiátricas. No entanto, muitos são
os desafios que este serviço evidencia no contexto atual do campo da
saúde mental brasileira e no processo de ressocialização. Objetivo:
adaptar um olhar crítico para os direitos em saúde mental e cidadania
sob a perspectiva da realidade dos atores sociais que são afetados
diretamente pelos desdobramentos da Política Nacional de Saúde
Mental (PNSM). A Reforma Psiquiátrica que vem ocorrendo no Brasil
desde a Lei n °10.216 de 2001, marca a transformação da assistência
psiquiátrica, propondo que o atendimento seja feito em serviços
substitutivos ao invés do modelo asilar. A atual PNSM é resultado da
atuação de diversos atores sociais, como usuários, trabalhadores de
saúde e familiares, especialmente do Movimento Social da Luta
Antimanicomial, mas tais conquistas dos movimentos sociais se veem
ameaçadas no atual cenário político brasileiro, a partir da Nota Técnica

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

nº 11/2019 do Ministério da Saúde e aprovação da Lei nº 13.840 de


2019 que aborda o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas.
Metodologia: A partir da abordagem qualitativa e descritiva realizada na
unidade do (SRT) sob a responsabilidade do Serviço de Saúde Dr.
Cândido Ferreira, em Campinas-SP. Para realização da coleta de dados
foram utilizadas as técnicas de entrevistas semiestruturadas com os
funcionários e observação participante de caráter etnográfico com os
usuários do (SRT). A análise dos dados foi baseada na técnica de análise
de conteúdo e buscamos a partir de uma análise regional, possibilidades
de reflexões sobre as transformações da Reforma Psiquiátrica em
âmbito nacional. Resultados: Os dados através das narrativas dos
funcionários e observação participante com os usuários indicam três
categorias de análise: 1. Percepção do cuidado e desinstitucionalização
no SRT na perspectiva dos funcionários, que revelou uma alta
conscientização de conhecimento acerca das lutas antimanicomiais; 2.
Impasses por parte dos usuários na reinserção social, nessa categoria
mostrou as dificuldades na integração e expansão da sociabilidade,
educação, impasses no usufruto dos serviços da Rede de Atenção
Psicossocial, estigmatização para o acesso ao mercado de trabalho,
justiça social e, de um modo geral, consciência e garantia dos direitos de
cidadania; 3. Preocupações com as diretrizes atuais da Reforma
Psiquiátrica, especial da facilitação da indústria privada de leitos de
internação, internação involuntária, aumento do financiamento e
flexibilização das Comunidades Terapêuticas. Conclusões: Através dos
processos de desinstitucionalização, foco central da reforma
psiquiátrica, foi possível perceber tanto os diferentes sentidos dados a
ela quanto aos múltiplos planos que afeta o (SRT). A pesquisa mostrou o
processo de desinstitucionalização e cidadania como um exercício
diário, atrelados as resistências antimanicomiais, ou seja, os caminhos
para formação do campo da saúde mental são distintos, nem sempre
seguindo uma sequência linear, uniforme, comportando nesses trajetos
inumeráveis desvios, retrocessos e distinções intrinsecamente
relacionados aos acontecimentos que moldam a história específica de

69
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

cada país. Por fim, a pesquisa objetiva-se contribuir de alguma forma


para o debate acerca das políticas públicas de saúde mental brasileira.

70
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

O neoliberalismo psicossocial: a experiência carioca

Alexander Garcia de Araujo Ramalho


Universidade Estácio de Sá; Instituto Municipal Juliano Moreira

Introdução: A Cidade do Rio de Janeiro foi um dos berços da discussão


teórica da Reforma Psiquiátrica Brasileira nas décadas de 70 e 80, e
impulsionou várias mudanças para a construção da política nacional que
resultou na Lei 10.216. Atualmente a Cidade com cerca de 6.700 mil
habitantes (IBGE), conta com 34 CAPS, 2 UAA, 3 Centros de Convivência,
ESF, ambulatórios, 8 Consultórios na Rua, 53 leitos de saúde mental em
Hospitais Gerais, 92 Residências Terapêuticas, 5 Hospitais Psiquiátricos
públicos.
O contexto político na Cidade durante as décadas de 90, 2000 e 2010,
não foram favoráveis para a implantação e manutenção de ações de
inclusão social e preocupadas com a vulnerabilidades da população,
assim como o fortalecimento do campo público. Prefeitos neoliberais
como César Maia, Luis Paulo Conde, Eduardo Paes e Marcelo Crivella,
implementaram seguidamente políticas de fortalecimento da lógica
privada, com alterações nas relações de trabalho através da inclusão de
cooperativas, ONGs e OSs, além de protocolos e metas burocratizantes.
No campo da saúde mental, 1995 marca o início de uma mudança de
paradigma na assistência com o primeiro censo dos hospitais e a
proposta clara de mudança na rede, 1996 é inaugurado o CAPS Rubens
Correa, primeiro serviço de atenção psicossocial carioca. A rede do Rio
de Janeiro nasce, em uma política neoliberal de resultados e otimização
de recursos públicos.
Objetivo: apresentar discussão sobre a influência das políticas
neoliberais na construção da Rede Municipal de Atenção Psicossocial do
Rio de Janeiro em 25 anos.
metodologia: levantamento bibliográfico sobre as políticas públicas e de
saúde mental na cidade do Rio de Janeiro.
Relato de experiência na gestão municipal.

71
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Discussão: A RAPS Carioca resiste, contudo pontos precisam ser


apresentados, pois o fato da cidade possuir nas políticas de gestão dos
governos pouca ou nenhuma ação de suporte as políticas de saúde
mental, fizeram com que as coordenações tivessem que conviver em um
meio inóspito para a realização de ações públicas de atenção
psicossocial.
A resistência ao modelo neoliberal ocorreu, como nos fóruns regionais
de saúde mental, com discussões políticas e clínicas nos anos 2000.
Porém acabaram sendo esvaziados por discussões sobre metas,
organização de trabalho e burocracias institucionais.
O trabalho nas RTs se burocratizou, assim como nos CAPS, e as
discussões coletivas foram perdendo sua potência fazendo com que o
trabalho de atenção psicossocial fosse reduzido por vezes a indicadores.
Considerações Finais: O que quero propor aqui não é uma relativização
da situação, mas sim apontar que devido as várias concessões realizadas
ao longo desses 25 anos, necessárias ou não, a saúde mental do Rio
passou a ter em seus diversos serviços práticas e ações neoliberais em
nome de uma política de atenção psicossocial, este efeito vou nominar
de "neoliberalismo psicossocial". A entrada de OSs e vínculos
empregatícios frágeis fizeram com que muitas práticas se perdessem em
nome de efetividade de gestão e resultados.

72
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Reflexões sobre as alterações da política de saúde mental no Brasil de


norte a sul

Rafael Wolski de Oliveira


Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS

Marilda Nazaré Nascimento Barbedo Couto


ABRASME

Karol Veiga Kabral


Márcio Mariath Belloc
Universidade Federal do Pará – UFPA

Sandra Maria Sales Fagundes


Fórum Gaúcho de Saúde Mental

O campo da política de saúde mental em nosso país percorreu o


caminho seguido pela maioria dos países e utilizou durante um longo
período o modelo manicomial, centrado na clínica médica psiquiátrica,
apostando na segregação das pessoas acometidas por ditos transtornos
mentais como forma de tratamento. A disciplina, o reconhecimento do
adoecimento, a posição de paciente e a separação do entorno social
seguiram sendo a premissa deste modelo de tratamento. O sujeito em
sofrimento mental era alguém que precisava ser tutelado. Sua palavra
era invalidada, assim como seus direitos sociais. Uma vez egresso da
internação jamais deixa de ser paciente psiquiátrico. Estigma e
preconceito marcam corpos acometidos pela pior das pestes: a loucura.
Em um dado momento histórico, trabalhadores, familiares e usuários
denunciam os horrores vividos diariamente pelas pessoas internadas
nessas instituições totais e as violações de direitos humanos cometidas
nestes espaços longe do olhar social e a eficácia do tratamento. Surge
nos 80 no Brasil, na esteira do processo de abertura política e da
reforma sanitária um movimento de contestação deste modelo

73
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

chamado reforma psiquiátrica. Desde então, sempre esteve em disputa


em nosso país um modelo de tratamento defendido pela corrente da
luta antimanicomial e um grupo que apostando na manutenção de um
modelo hospitalocêntrico.
Durante os últimos 30 anos vimos a implementação gradual do SUS no
Brasil, promulgada na constituição de 1988, a formação de grupos do
movimento social de luta antimanicomial, fortalecimento da pauta da
saúde mental nas instâncias de controle social, a aprovação da lei da
reforma psiquiátrica a nível nacional em 2001, a constituição de uma
rede de serviços substitutivos, a incorporação da redução de danos
como diretriz ética de cuidado, a implantação da Rede de Atenção
Psicossocial (RAPS) em 2011, entre outros avanços. Entretanto,
simultaneamente a toda expansão e vitórias vimos crescer outras
formas de segregação e isolamento como a implantação de
comunidades terapêuticas financiadas com dinheiro público em todo o
território nacional. Mas os movimentos de disputa ainda tendiam para a
implantação da reforma, uma vez que respirávamos ares democráticos.
No ano de 2016, com o golpe político, econômico, midiático e jurídico
vimos nossa democracia ruir como castelo de cartas e o estado de
direito colocado em suspensão. Na saúde mental as mudanças iniciaram
ainda em 2017. A substituição de portarias que alteram o modelo de
cuidado retomando o modelo manicomial asilar, como a revogação da
Portaria nº 3.088/11, a retirada da redução de danos da política de
drogas, a internação involuntária e a abstinência sendo preconizadas, o
aumento de investimentos e parcerias com as comunidades
terapêuticas.
Nos interessa debater o cenário que se apresenta e as formas de resistir
ao desmonte imposto pela atual conjuntura de forças em nosso país.
Qual sociedade queremos forjar? Que diretrizes permanecem em nossos
corpos cotidianos já subjetivados por uma lógica de abertura à vida, à
liberdade de escolhas, à construção de projetos terapêuticos que
comportam as redes vivas e a subjetividade das usuárias (os)?

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

TÍTULO: Cuidado a pessoas que usam drogas: conceitos e


práticas

Coordenação: Ana Pitta


Universidade Católica do Salvador - UCSAL; ABRASME

Convidado: Maristela Moraes


Universidade Federal de Campina Grande - UFCG

A Rede de Atenção Psicossocial no Centro Histórico, do município de


Salvador-Ba: um olhar sobre a Política de atenção aos usuários de álcool
e outras drogas

Flavia Suzanne Goiabeira Nery


Prefeitura

Ana Maria Fernandes Pitta


Universidade Católica do Salvador - UCSAL; ABRASME

Estuda-se a Política de Atenção aos usuários de álcool e outras drogas


na Rede de Atenção Psicossocial- RAPS, do Centro Histórico de Salvador
– BA, através do desenho de pesquisa etno-epidemiológico, com o olhar
para o processo e organização dos serviços, natureza do atendimento ao
usuário e articulações em rede, baseada na portaria da RAPS 3088 de
2011. O objetivo geral desta pesquisa é analisar a política do Ministério
da Saúde para a atenção aos usuários de álcool e outras drogas, por
meio da identificação de sua aplicabilidade na Rede de Atenção
Psicossocial disponível, sendo os objetivos específicos: 1. Descrever e
analisar as articulações na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
disponíveis na atenção aos usuários de álcool e outras drogas; 2.
Identificar as ações que a equipe técnica do Centro de Atenção
Psicossocial para usuários de álcool e outras drogas - CAPS AD realiza

75
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

para a articulação em rede. O método quali-quantitativo utilizou


questionários estruturados, observações diretas e diário de campo. À
análise de conteúdo da pesquisa qualitativa utilizou-se Bardin (2011).
Como resultados destacam-se a alta percepção de problemas de álcool e
drogas pelos profissionais no território, o encaminhamento para serviço
especializado como o procedimento previsto para acompanhamento de
usuários de álcool e outras drogas e ausência de matriciamento na
maioria das unidades envolvidas. As principais considerações apontam
para a lógica do encaminhamento e da desresponsabilização, a divisão
por especialidades e serviços se apresentam estabelecida no dia a dia
das unidades, demonstrando uma fragilidade na tessitura desta rede
tornando a atenção fragmentada, frágil, pouco resolutiva para seus
usuários, para isto deverá existir uma reformulação na estrutura
organizacional e no processo de trabalho tradicional com a organização
de equipes assegurando retaguarda assistencial e suporte técnico
pedagógico especializado. Desta forma as equipes de saúde se
corresponsabilizam pelos casos e compartilham a elaboração e execução
dos projetos terapêuticos.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Políticas públicas e práticas de cuidado dirigidas a pessoas que usam


drogas: uma análise desde a perspectiva da Interseccionalidade

Ana Lucia Marinho Marques


Universidade de São Paulo - USP

Objetivo: Refletir criticamente sobre o processo de formulação e gestão


de políticas públicas e proposição de práticas de cuidado dirigidas a
pessoas que usam drogas, desde a perspectiva teórico-metodológica da
Interseccionalidade. Discussão: Internacionalmente, tem-se
recomendado maior foco na saúde e nos direitos humanos de todos os
usuários de substâncias psicoativas, especialmente daqueles em
situações de vulnerabilidade. Essa ênfase é importante pois o viés
proibicionista e de guerra às drogas adotado pela Política de Drogas no
Brasil, operacionalizado por um sistema jurídico-criminal que se
caracteriza pela grande seletividade e aplicação desigual da lei, tem
provocado o encarceramento em massa e a criminalização de territórios
empobrecidos e contribuído para naturalizar um sistema de opressões
que produzirá cotidianamente marginalização e humilhação social de
grupos e categoriais sociais que já se encontram em situações de
desvantagem e vulnerabilidade. Objetivando conhecer quem seriam os
usuários de crack, foi realizada e divulgada pela Fiocruz uma grande
pesquisa nacional, em 2013, em cenas de uso dessa substância e, dentre
os marcadores aferidos, pode ser destacada a baixa escolaridade e
inserção precária no mundo do trabalho, bem como a cor da pele
autorreferida como parda ou negra, sendo observada uma
sobrerrepresentação de marcadores de diferença, desigualdade e
exclusão social, quando em comparação com os dados da população
brasileira geral. A discussão sobre esses resultados nos parece
fundamental e a reflexão crítica que pretendemos apresentar busca
analisar a formulação de políticas sobre drogas, com ênfase no campo
do Cuidado, desde a perspectiva da Interseccionalidade, buscando
compreender os resultados das interações, em termos de poder, entre

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

categorias e marcadores da diferença nas práticas sociais, identidades e


subjetividades, arranjos institucionais e ideologias culturais e, com isso,
contribuir com a discussão dos efeitos da (re)produção de desigualdades
e iniquidades sociais nesse campo, promovendo a reflexão sobre a
necessidade de complexificar discursos e produzir práticas mais
alinhadas com a compreensão de Saúde que não visa a cura, o
tratamento ou o controle de determinados grupos sociais, mas sim a
garantia dos Direitos Humanos e da Cidadania.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

TÍTULO: Práticas Emancipatórias: Economia Solidária

Coordenação: DiPaula Minotto


Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC; ABRASME

Convidado: Ana Luisa Aranha e Silva


Universidade de São Paulo - USP; Associação Vida em Ação

Despatologização da vida: Emprego Apoiado

Nathasha Picanço Brito


Instituto Esperança de Ensino Superior - IESPES

Eloísa Amorim de Barros


Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA

O termo 'deficiência' possui várias classificações, independente do


ângulo científico que o analisa. Uma conotação em comum é a
insuficiência, seja de um órgão ou qualquer outro funcionamento
imerso no organismo. Assim, a sociedade enxerga as pessoas deficientes
como limitadas diante as demandas sociais, como, por exemplo, o
trabalho, acreditando que esses indivíduos se encontram
impossibilitados de atender as exigências do emprego formal. Esse fato
tem estimulado um olhar despatologizante por meio de um modelo
reabilitador social, o emprego apoiado. Desse modo, questiona-se: a
despatologização é um mecanismo efetivo ou utópico? O trabalho faz
parte da identidade do indivíduo e a deficiência não pode ser
considerada um bloqueio para a inserção neste meio. Assim, este
trabalho apresentou como objetivo compreender o caminho para a
despatologização por meio do emprego apoiado, reconhecendo sua
efetividade ou não. Utilizou-se como metodologia a pesquisa
bibliográfica apoiada em publicações encontradas na Revista Polis e
Psique, Conselho Regional de Psicologia SP. Em tempos remotos, a

79
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

deficiência era sinônimo de marginalização social, pois estava atrelada à


diferença como castigo, de acordo com as crenças da época,
consequentemente, as pessoas deficientes não mereciam viver qualquer
prestígio social. Alavanques contemporâneos não são suficientes para
extinguir esta ideologia do seio da sociedade atual. Por isso que hoje se
fala em inclusão, pois ainda há exclusão. Tal perspectiva é corroborada
quando pesquisas voltadas para o ângulo trabalhista esboçam um
número baixíssimo de pessoas com deficiência no quadro de
empregados, mesmo com a pressão da lei de cotas. Implicitamente,
observa-se que a legislação da inclusão, caracterizada pela lei de cotas,
acaba por obrigar as empresas a contratarem pessoas deficientes,
responsabilizando o indivíduo por sua adaptação ao cargo oferecido e o
culpabiliza, caso não tenha êxito nisso. O mecanismo de inclusão acaba,
na maioria dos casos, como um causador de frustrações. É diante desse
paradigma que surge o emprego apoiado, propondo o treinamento das
habilidades no próprio espaço de trabalho, dependente de quatro
práticas que caracterizam sua essência: descoberta do perfil do
indivíduo, reconhecendo seus planos de vida e habilidades; avaliação da
condição da pessoa e do que ela precisa; busca do emprego;
acompanhamento pós-colocação para ver se está sendo efetivo. Ou
seja, a inclusão no trabalho também é questão de adaptação do
ambiente. Ao invés das empresas buscarem a pessoa, a própria pessoa
vai em busca do emprego com a ajuda do consultor. A inclusão efetiva
visa a superação da diferença como marginalização e incapacidade
social, entendendo o processo como uma possibilidade de participação
no trabalho formal. Conclui-se que o emprego apoiado quebra a lógica
vigente na sociedade, pois aposta que todas as pessoas são aptas para
exercer uma função empregatícia, porém é preciso entender seus
interesses e habilidades para, em seguida, buscar o emprego que seja
compatível com as demandas pessoais e, em seguida, com as da
empresa. Corrobora-se que a despatologização pode ser efetiva, não
unicamente pelo trabalho, mas sim com seu atrelamento ao emprego
apoiado.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Do Sonho à Ação, da Reabilitação à Autonomia Psicossocial: Uma


análise teórico-metodológica a luz de Paulo Freire

Shirley Alves dos Santos


Secretaria Estadual de Saúde

Juliana Figueiredo Sobel


Paulette Cavalcanti de Albuquerque
Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ

Márcio Muniz C. de Andrade


Jetro Leite Correia Júnior
Jailson José dos Santos
Núcleo da Luta Antimanicomial Libertando Subjetividades

Maria José da Silva


Universidade Federal de Pernambuco - UFPE

A reabilitação psicossocial se apresenta como referencial que vem


orientando as políticas e práticas no campo da saúde mental, a partir
das dimensões teóricas, práticas e éticas da desinstitucionalização e do
cuidado antimanicomial. A literatura brasileira encontra nos escritos de
Benedetto Saraceno, psiquiatra italiano, referência para compreensão
do campo da reabilitação psicossocial. Estudos desenvolvidos por
diversas autoras apontam a amplitude do campo de atuação e as
diversas instâncias nas quais a reabilitação psicossocial precisa intervir e
se consolidar. Também revelam que existem muitos conceitos em torno
da reabilitação psicossocial, inclusive pelo caráter polissêmico da palavra
reabilitação (HIRDES, KANTORSKI, 2004; BABINSK, HIRDES, 2004;
GUERRA, 2004; ANÁSTACIO, FURTADO, 2012; LUCENA, 2015; RIBEIRO,
BEZERRA, 2015; AMORIM, OTINI 2015; HIRDES, 2009; PINTO, FERREIRA,
2010). Diante disso, tivemos como objetivo compreender a reabilitação

81
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

psicossocial como um processo que precisa se pautar no investimento


de sujeitos coletivos e ativos que resistam aos processos de anulação de
suas identidades. Encontramos em Paulo Freire e em seu arcabouço
teórico e metodológico caminhos para o cuidado na saúde mental
(CARNEIRO, et al, 2010; GUIMARÃES, VERAS, CARLI, 2018; SOBEL, 2017;
VIANA, SOBEL, SANTOS, 2018). Partindo das reflexões levantadas acima
de pensar as aproximações, os distanciamentos e as contribuições de
Paulo Freire para os processos de reabilitação psicossocial, essa
pesquisa parte da formação de um grupo, que se autonomeou
"Sonhação", formado por usuárias/os e trabalhadoras da Rede de
Atenção Psicossocial (RAPS) de Pernambuco, o qual se propôs a estudar
os processos de reabilitação psicossocial e a pedagogia Paulo Freire. A
partir de um processo de investigação temática proposto por Freire
(2005) e sistematizado por Pinto (2015). Encontramos que os princípios
da pedagogia Paulo Freire estão em congruência com os da reabilitação
psicossocial, no campo da reforma psiquiátrica antimanicomial, visto
que ambos: favorecem a produção de subjetividade, propiciam a
humanização, contribuem para o potencial criativo, acreditam na
interdisciplinaridade, aceitam os sujeitos com todas as suas pluralidades
e diferenças, afirmam valores como a cidadania, a solidariedade, o
respeito, a tolerância e a equidade, se pautam pelo diálogo horizontal e
na amorosidade para construção das relações baseadas no afeto. Além
de lutarem pela igualdade social, pela emancipação e protagonismo dos
sujeitos e pelo enfrentamento aos determinantes sociais da saúde.
Ambos acreditam em um projeto de sociedade democrático e popular. A
reabilitação psicossocial e a pedagogia de Paulo Freire pautam-se na
dimensão relacional, de que somos seres da relação uns com os outros e
com o mundo, com potencial de transformar a realidade, ambas tem
como horizonte a autonomia dos sujeitos em seus processos de vida,
libertados das opressões que vivenciam (SARACENO, 2001; FREIRE,
2005; 2019). O sonhação considerou os pressupostos levantados acima
quanto ao campo da reabilitação psicossocial, incluindo as críticas ao
nome Reabilitação, realizamos nossas análises em torno da reabilitação

82
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

psicossocial a partir do referencial da Pedagogia de Paulo Freire e


encontramos como sonho e ação: a construção da autonomia
psicossocial.

83
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

TÍTULO: Perspectivas do cuidado: a cannabis medicinal em


foco

Coordenação: Aisllan Assis


Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP; ABRASME

Convidado: Luciane Raupp


Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas -
ABRAMD e Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC

O uso medicinal da Cannabis e a luta antiproibicionista no cuidado aos


pacientes

Matheus Eduardo Bernardo


Instituto Federal Fluminense - IFF

Introdução: As raízes proibicionistas no Brasil tem estreita relação com o


pensamento da psiquiatria lombrosiana. O “fumo da Angola” foi
considerado pelo psiquiatra Rodrigues Dória como uma espécie de
vingança dos “selvagens” (negros) contra os “civilizados” (brancos).
Portanto, a criminalização do uso da erva sempre esteve conectada com
a criminalização do negro, sendo um discurso estimulado para servir
como uma forma de controle social.
Hoje, é possível entender que a luta antiproibicionista e a luta
antimanicomial tem uma óbvia conexão na luta antirracista dentro da
academia, nos becos e coletivos. Logo, a legalização da maconha deve
ser compreendida como uma forma de reparação histórica de todo o
mal que a proibição vem causando nas camadas de grande
vulnerabilidade social.
Não obstante, com o avanço na luta pelo uso terapêutico da maconha, o
maconheiro ganha a responsabilidade de orientar os pacientes no uso
da erva no tratamento e informar da importância de lutar pela
legalização da maconha pelos seus aspectos medicinais tanto quanto

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

pelos sociais, raciais e políticos. Neste trabalho, iremos explanar como o


coletivo de pacientes e ativistas Cabruncannabis tem trabalhado.
Metodologia: Nosso trabalho tem como objetivo apresentar a união
estabelecida entre ativistas, médico prescritor e pacientes
acompanhados de suas famílias. Ao passo em que essa união se
estabeleceu conseguimos criar uma equipe de atendimento que oferece
consultas médicas gratuitas, apoio jurídico e acompanhamento/auxílio
para o acesso legal e uso do óleo de cannabis.
Cada encontro proporciona uma imensidão de experiência para a equipe
organizativa que estabelece relação com os pacientes orientando-os e
fazendo escuta solidária de forma coletiva e/ou individual. Nosso grande
objetivo tem sido desmedicalizar junto ao uso do óleo de cannabis em
diversas patologias.
O conhecimento sobre as raízes históricas da proibição é de grande
surpresa para os pacientes que não conhecem. Sendo assim, o Coletivo
Cabruncannabis estabelece não apenas uma relação de tratamento com
os pacientes, também estabelece um importante canal de comunicação
para fortalecimento na luta antiproibicionista.
Resultados/discussões: Está sendo muito produtivo o diálogo produzido
a partir de nossos trabalhos. Conquistamos a presença no contexto
acadêmico dentro do IFF/Fluminense; UFF e UENF para compartilhar e
incentivar pesquisas sobre a cannabis.
A mídia impressa, online e rádio abriram as portas para a pauta. Sendo
assim, tivemos a oportunidade de destacar e registrar as atividades do
movimento antiproibicionista criando horizontes para debates
populares menos preconceituosos.
Estabelecemos articulação com instituições de saúde pública e
associações afins para contribuir com apoio a pessoas que estão se
beneficiando com o uso da planta para suas enfermidades.
Considerações finais: As experiências do Coletivo Cabruncannabis com a
luta antiproibicionista local têm demonstrado como a organização ao
entorno da mesma pauta pode gerar fortalecimento da luta pelo direito
a saúde/vida para todos.

85
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Acreditamos que a luta antiproibicionista e o cuidado com os pacientes


demonstra o caráter cuidadoso do maconheiro que de antemão era
visto como um vagabundo.
Por fim, é importante destacar que os paradigmas devem ser superados
para que a legalização da maconha cumpra uma função reparatória
diante de tanta perseguição.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Cuidado, desmedicalização e cannabis no processo terapêutico em


saúde mental

Carolina de Cassia Ribeiro de Abreu


PMC

Tania Lucia Viana da Cruz Terra


Vania Maria Alves Pereira
Clarice Alves Pereira Rivera Viso
Danielle Henrique Correa
Scheila Chagas da Silva
Universidade Federal Fluminense - UFF

Ana Carolina da Silva Ramos Luiz Coutinho


Alice Mothe
Ellen Souza e Silva
Instituto Federal Fluminense - IFF

Fernanda Abreu Santana


Universidade Estadual do Norte Fluminense - UENF

Nathan Kamliot
Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ

Este trabalho tem por objetivo sistematizar as práticas complementares


dos “Cuidadores do Coletivo Cabruncannabis” tais como:
Cuidado/Acompanhamento/Encaminhamento dos usuários que estão
interessados e/ou fazendo uso da cannabis, no processo terapêutico em
saúde mental.
O coletivo utiliza a metodologia participativa junto com os usuários e
familiares através de Rodas de conversa, consultas médicas conviviais,
cine debate, orientação sobre o processo de desmedicalização e
estímulo de estratégias de qualidade de vida no processo terapêutico

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

com uso de cannabis, quando prescrito pelo médico e autorizado pela


ANVISA.
O Coletivo Cabruncannabis, formado por ativistas antiproibicionistas,
pacientes, familiares e profissionais de saúde nasceu em 2019, no
município de Campos dos Goytacazes/RJ. Dos 70 pacientes que
participaram das rodas de conversa e consulta convivial até 06/02/2020,
80% apresentam alguma queixa/diagnóstico permeado por problemas
de saúde mental. O Coletivo oferece gratuitamente consulta médica,
prescrição de cannabis para indicação de uso compassivo. Proporciona a
prática do cuidado e acompanhamento dos usuários que realizaram a
pré consulta estimulando hábitos de vida saudáveis, auto cuidado e o
desmame de psicotrópicos, além do acompanhamento jurídico que
possibilite garantia do tratamento pela política pública de saúde.
Esse processo - que ocorre durante as Rodas de Conversa através de
orientações, esclarecimentos e trocas, bem como utilização de
telefonemas e mensagens dos Cuidadores - tem como resultado,
evidenciado em depoimentos e consultas de revisão: o
autoconhecimento, a autonomia dos sujeitos e melhoria da saúde física
e mental.
Empiricamente observamos que, à medida que os pacientes e familiares
compreendem os efeitos dos psicotrópicos e observam como a ação da
maconha contribui na diminuição da ansiedade, insônia, medos,
agitações e até em situações de autoagressão e agressividade –
especialmente em casos de crianças e adolescentes com espectro
autista - cresce a autonomia no processo terapêutico (cada um encontra
sua dosagem), fomentando a construção de práticas alternativas e
complementares como: exercícios físicos, mudança na alimentação e
opção por novos hábitos de vida.
A política pública de saúde no Brasil tem sido sucateada através da
precariedade e falta dos serviços. O Cuidado que deveria ser uma regra
de estratégia tem se tornado cada vez mais raro e os pacientes
acompanhados se surpreendem e sentem-se agradecidos quando
recebem o retorno dos cuidadores no acompanhamento de seu

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

processo terapêutico. A empatia se apresenta e faz nascer outra


estratégia: pacientes cuidando de pacientes. Nas rodas de conversa tem
sido estimulado pelo Coletivo que pacientes que se sintam à vontade e
queiram trocar contatos entre si o façam, reconhecendo o Outro como
sujeito. Apesar do êxito da aproximação do Coletivo com o CAPS I ainda
estamos longe de que o SUS assuma esse tipo de trabalho e garanta o
processo terapêutico através da cannabis, já reconhecido e validado
cientificamente, como verificado em pesquisas como: RIBEIRO, Sidarta,
2007; MECHOULAM, Raphael, (1985); LUCAS, Philippe & WALSH, Zach
(2017). Nessa conjuntura o desafio é democratizar o acesso ao uso
terapêutico da cannabis no SUS, retomando o Cuidado como ação
fundamental para concretizar uma política pública de saúde universal,
integral e equânime.

89
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

TÍTULO: A Maternidade como questão

Coordenação: Daniel de Souza Oliveira


Consultório na Rua; ABRASME

Convidada: Ludmila Cerqueira


Universidade Federal da Paraíba - UFPB

Assistência as mulheres com transtornos mentais e usuárias de drogas


nas maternidades: caminhos para o cuidado psicossocial.

Cleide Maria Batista Rodrigues


CAPS AD CPTRA

Ana Wylma Pinto Saraiva


Benita Spinelli
Carla Vanusa Alves Maciel
Robson Kleber de Souza Matos
Vanessa Vieira França
Universidade de Pernambuco – UPE

Introdução: O Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros,


conhecida como Maternidade da Encruzilhada integra a Universidade de
Pernambuco e compõe o sistema estadual de referência hospitalar à
gravidez de alto risco, presta assistência a mulheres advindas de outros
estados. É referência na assistência à mulher e adolescente em situação
de violência sexual e doméstica, incluindo o aborto legal. A Portaria n.º
3.088/2011 define as Redes de Atenção Psicossocial – RAPS- como redes
articuladas constituídas por pontos de atenção objetivando promover a
prevenção, o tratamento, a urgência, emergência e cuidado nos leitos
integrais. Nessa lógica e considerando a complexidade da assistência as
mulheres com transtornos mentais e usuárias de drogas nas
maternidades, antes, durante e pós parto é que precisamos ampliar o

90
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

diálogo com gestores, profissionais e a Rede de Saúde e Assistência no


sentido de instituir um processo de cuidado livre de preconceitos com
um olhar integral, intersetorial e interdisciplinar. Objetivo: apresentar o
protocolo de atendimento as mulheres com transtornos mentais e
usuárias de drogas na maternidade do CISAM, na perspectiva de suscitar
a reflexão sobre a necessidade de discutir e consolidar políticas de
atenção a essas mulheres considerando não apenas as questões clínicas,
mas todo o universo psicossocial que envolve o cotidiano dessas
mulheres, muitas delas em situação de vulnerabilidade social e de rua.
Metodologia: envolve reuniões periódicas para construção do protocolo
interno referente a medicação, manejo do cuidado/assistência,
capacitação dos profissionais para atenção à crise na maternidade e
reunião com a Rede de Atenção Psicossocial do Recife: CAPS, referências
distritais e coordenação de saúde mental do Município e Estado,
pesquisa documental em prontuário para construção do perfil sócio
demográfico dessas mulheres. Resultado e discussão: as maternidades
não dispõem de protocolo medicamentoso para atenção a crise, falta
habilidade no acolhimento e por vezes o preconceito impossibilita uma
escuta qualificada da necessidade dessas mulheres. O profissional
generalista deve reconhecer as pessoas com transtornos mentais, como
as que apresentam problemas pelo uso abusivo de drogas, de forma a
acolher e promover o seu cuidado (OMS, 2001). HOLZTRATTNER;
WESSHEIMER, 2010; SOUZA, 2012 referem que “a internação do usuário
em um serviço de saúde é um momento importante para a formação do
vínculo de confiança e oferta de tratamento. A problemática aumenta
quando ocorre com mulheres parturientes. As usuárias nessas
condições, em grande parte, são moradoras de rua. Já adentram a
instituição em período expulsivo do trabalho de parto...” Essa realidade
é cotidiana nas maternidades somada ao preconceito, estigma, evasão
sem concluir o cuidado pós parto pela fissura do uso e abandono do
recém-nascido. Considerações finais: as maternidades públicas precisam
investir em ações que possibilitem um cuidado integral, que se articulem
de forma intersetorial com os serviços da rede de saúde e assistência

91
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

para potencializar estratégias de cuidado que atendam singularmente as


usuárias de transtorno e ou álcool e outras drogas. Essa discussão
precisa ser ampliada nos espaços de gestão da política pública para
melhorar a qualidade do atendimento a essa população nas
maternidades de modo geral.

92
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Direito à maternidade pra todas? Desafios na promoção do direito à


maternidade das mulheres em situação de rua: um relato de
experiências

Alessandra Coelho Cerqueira Correia


Cecília de Santana Mota
Programa Corra pro Abraço

Este resumo pretende anunciar os limites, possibilidades e


desafios do acompanhamento de mulheres em situação de rua e/ou em
extrema vulnerabilidade social e que, ao ficarem grávidas, lutam pelo
direito de exercer a maternidade. Neste sentido, pretende-se discutir na
mesa redonda reflexões, críticas e enlaçamentos teóricos advindos da
prática de uma educadora jurídica e de uma psicóloga no cuidado
ofertado às mulheres, mães e seus filhos assistidas pelo Programa Corra
pro Abraço. Este programa é uma iniciativa da Secretaria de Justiça,
Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS) do Estado da
Bahia e busca promover cidadania, cuidado e garantia de direitos de
usuários de drogas em contextos de vulnerabilidade social. Durante a
atuação da equipe nos territórios do Centro Histórico de Salvador, foi
constatado um aumento considerável de mulheres em situação de rua,
gestantes e, com isso, a necessidade de um maior investimento no
cuidado voltado a estas, devido à maior vulnerabilidade. O
acompanhamento destas mulheres acontece nos campos em que a
equipe atua e segue durante o período gestacional, na articulação e
fortalecimento dos vínculos familiares e da rede materno-infantil. Além
disso, se amplia até as maternidades, no momento em que estas dão
luz, visando atuar como uma rede de suporte e referência, para que
estas mulheres consigam sair com suas crianças, caso desejem. Esta
prática de cuidado e promoção de direitos (voltados às mães e seus
filhos) surge a partir do momento em que inúmeros relatos de mulheres
em situação de rua destacam que os suas crianças foram retirados delas,
após o parto, quando o Conselho Tutelar e/ou a Vara de Infância foram

93
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

acionados pelas equipes das maternidades. Com isso, as técnicas


passaram a tomar ciência de diversos casos, muitos deles denunciados,
inclusive na Defensoria Pública. Tal situação, que envolve julgamentos
morais, direcionados ao uso de drogas e a situação de rua, faz com que a
rede de justiça a associe a situações de risco para as crianças e à
incapacidade destas mulheres de serem mães (desconsiderando que
este mesmo Estado deveria ser garantidor de direitos fundamentais e
humanos destas mulheres, e tem falhado). Por isso, e pensando no
cuidado, criou-se um Grupo de Trabalho pelas equipes de rua na cidade
de Salvador-Ba juntamente com os serviços da rede e as maternidades,
no sentido de discutir e adaptar o fluxo do acompanhamento,
encaminhamento e cuidados das mulheres e seus filhos, nos períodos de
gestação, parto e puerpério. Destarte, a criação deste grupo possibilitou
o fortalecimento da rede de assistência, saúde e justiça envolvidas neste
cuidado, bem como passou a garantir que mais mulheres em situação de
rua tivessem o direito de exercer a maternidade. Ainda assim, a violação
deste direito é bastante recorrente, o que tem impulsionado a equipe
do Corra a ressignificar, com elas, o sentido de maternar.

94
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

TÍTULO: A Casa e a Rua: perspectivas no cuidado às pessoas


em situação de rua

Coordenação: Francisco Cordeiro


Conselho Regional de Psicologia; ABRASME; WAPR-BRASIL
Convidado: Genivaldo Francisco
Coordenador do Consultório de Rua; ONG Fábrica Fazendo Arte

Acompanhar, escutar, intensificar: Sobre reinvenções e apostas do


cuidado em saúde mental na rua

Paula Sousa Caldas


Cecília de Santana Mota
Iago Lôbo Siqueira Rodrigues
Programa Corra Pro Abraço

Este relato de experiência objetiva compartilhar, discutir e refletir sobre


a aposta do cuidado em saúde mental na rua realizado por psicólogas
(o) do Programa Corra pro Abraço. Este programa, que faz parte da
Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social
(SJDHDS), consiste em uma estratégia de atendimento às pessoas que
vivem em situação de rua e/ou que estão em situação de extrema
vulnerabilidade social e que fazem uso abusivo de substância psicoativa
na capital baiana. O programa com sede própria e núcleos com frentes
de trabalho diferentes fomenta e convoca o psicólogo a reinventar
constantemente o seu fazer em um diálogo constante com profissionais
de outros campos de saber e que gera, dentre outras questões,
condições de possibilidade para a seguinte pergunta: que prática é
possível que o psicólogo desenvolva neste programa no cuidado de
sujeitos em sofrimento psíquico e que estão em situação de rua?
Doravante, a intrigante tarefa de escutar a subjetividade humana em
meio a um contexto sobejamente vulnerável, de exclusão e marcado por
uma profunda desigualdade social impõe-se a difícil empreitada de

95
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

compreender como pensar a potência singular de cada sujeito em dar


um destino ao seu sofrimento em meio a tantas contingências que
incidem, principalmente, sobre a sobrevivência. Por conseguinte,
intenta-se promover um debate com base nas reflexões, críticas e
enlaçamentos teóricos oriundos da prática de psicólogos que apostam
que a loucura também pode habitar a rua, contudo, acredita-se, a partir
de uma conduta ética, política e clínica que os sujeitos que nesta
condição se encontram precisam ter garantido o cuidado na rede de
atenção psicossocial (BRASIL, 2008). Com efeito, o trabalho com estes
sujeitos pauta-se pela via do cuidado compartilhado com as equipes de
saúde, sejam do NASF, CAPS, USF, bem como com a articulação da rede
intersetorial, pautado nas estratégias de Redução de Danos (BRASIL,
2003) e sobretudo guiado pelos princípios da Reforma Psiquiátrica
brasileira, cuja Lei 10.2016 convoca, portanto, os trabalhadores da
saúde mental a pensar um novo modelo de atenção aos sujeitos que
vivenciam um intenso sofrimento psíquico. Desse modo, cabe ainda
salientar que, tal como afirma Foucault (2008), a loucura foi forjada
como um estado de desrazão através de saberes e discursos que
legitimam práticas e instituem relações de poder, relações que
multideterminam causas de exploração e exclusão. Contudo, é possível
afirmar que a aposta em intervenções cotidianas pautadas através da
perspectiva ética e política da Reforma Psiquiátrica, promovem não
apenas um rechaço contra esta forma de construção da loucura descrita
por Foucault, mas, sobretudo, a permanente luta, pela via do trabalho
tomado como prática de resistência a toda forma de exclusão, violência
e desigualdade que tão bem se coadunam com a perspectiva de uma
Sociedade sem Manicômios!

96
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

É possível implantar o modelo Housing First/Moradia Primeiro no


Brasil? Discutindo o aprendizado de experiências piloto de moradia
assistida para pessoas em situação de rua desenvolvidas no contexto
da política de drogas brasileira.

Adriana Pinheiro Carvalho


Juarez Furtado
Wagner Oda
Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP

Nos últimos anos, iniciativas de moradia assistida para pessoas


em situação de rua vem sendo desenvolvidas no Brasil, no âmbito da
política de drogas brasileira, tendo como inspiração o Housing First/HF-
modelo de intervenção residencial, baseado nos princípios da
Reabilitação Psicossocial e da Redução de Danos, concebido no norte da
América para superar a situação de rua entre pessoas com problemas
decorrentes de transtorno mental e do uso de drogas. Nesse contexto, é
relevante compreender como características locais influenciam a
implantação dessa modalidade de intervenção no cenário nacional,
buscando contribuir para sua eventual expansão e produzir
conhecimentos acerca de um objeto ainda pouco estudado no Brasil.
Para tal, realizamos revisão da literatura nacional sobre a moradia
assistida para identificar o atual debate científico e político sobre o
tema. Para formular um entendimento sobre o HF, analisamos os
manuais e outros documentos técnicos que orientam a implantação da
intervenção no Canadá e Europa, bem como a escala desenvolvida por
seus formuladores para avaliar a fidelidade ao modelo em situações de
implantação em diferentes contextos. Posteriormente, conduzimos um
estudo de caso avaliativo para analisar a implantação de um projeto
piloto, desenvolvido em Brasília/DF (2017/208) e inspirado no HF, que
teve como objetivo a inserção social de usuários de crack e outras
drogas em situação de rua, por meio da oferta de ações articuladas de

97
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

moradia, saúde, assistência social e integração comunitária. Analisamos


a implantação da intervenção local em três etapas: modelização da
intervenção; mensuração do seu grau de implantação, com base nos
critérios do modelo inspirador HF; e análise dos componentes
estratégico, lógico e de implantação. A partir do material produzido na
revisão de literatura e no estudo empírico, em diálogo com a
experiência de acompanhar o desenvolvimento do tema HF no Brasil,
nos últimos anos, em eventos acadêmicos e políticos, propomos esta
mesa para debater os seguintes resultados e apontamentos. Resultados:
constamos que a discussão acadêmica sobre a moradia assistida no
Brasil está restrita aos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) e a
egressos de hospitais psiquiátricos e que há uma estagnação no debate
sobre a ampliação desse tipo de serviço para outros públicos como
pessoas em situação de rua com transtorno mental. Na literatura
cinzenta, identifica-se o surgimento de duas experiências locais de
moradia assistida para população em situação de rua, que se adequam a
princípios do HF, a partir de 2011; a adoção do conceito Moradia
Primeiro como uma estratégia de redução dos danos sociais
relacionados ao uso de drogas, pelo Governo Federal, no período de
2014/2016, e a incorporação dessa agenda na atual gestão federal, em
contraste com as medidas adotadas pelo mesmo governo de retração de
ações de redução de danos. O estudo de caso identificou que a
intervenção estudada se adequou ao princípio fundamental de colocar a
moradia em primeiro lugar, utilizando para isso soluções e adaptações
locais, que demonstram a potencialidade de implantação do HF no
Brasil. Aspectos lógicos da intervenção necessitam ser aprimorados
frente a complexidade da transposição do componente de integração
comunitária e social que constituiu a proposta.

98
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

TÍTULO: Uso de drogas e rupturas de paradigmas na


democracia

Coordenação: Rossana Rameh


Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia -IFPE; Faculdade
Pernambucana de Saúde - FPS; ABRASME

Convidado: Antônio Nery Filho


Universidade Federal da Bahia – UFBA

Atenção à saúde no território como prática democrática: ações em


cenas de uso de drogas como analisadores da democracia brasileira

Cristiane Moreira da Silva


Universidade Católica de Petrópolis
Rafael Coelho Rodrigues
Universidade Federal do Recôncavo Baiano – UFRB

Desde a luta pelas reformas sanitária e psiquiátrica, no bojo por uma


sociedade mais justa e democrática o país vem buscando consolidar um
modelo de saúde pública que produz um paradigma civilizatório possível
com o Sistema Único de Saúde (SUS) e com a Constituição. Sendo assim,
a democracia brasileira nos últimos anos do século XX foi produzida
tendo o SUS e tudo que o envolvia como um de seus alicerces. A
transformação do modelo sanitário, de orientação hospitalocêntrica,
para a proposta de promoção de saúde a partir dos territórios de vida da
população, encarnou a capilarização vital desse outro paradigma
civilizatório. As práticas de cuidado, neste sentido, transformam-se,
assim como as práticas da gestão em saúde pública, a partir dos
territórios em que se alicerçam. Ao acessar as populações mais
vulneráveis e garantir a equidade e universalidade do serviço, o SUS
também percebe suas próprias vulnerabilidades e vai se construindo
num processo constante de criação de novos serviços com estratégias

99
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

inclusivas que fortaleçam e ampliem o processo democrático e a


consolidação da função social do Estado. Porém, tal processo está em
disputa constante e, em especial, neste momento enfrenta um período
de recrudescimento vertiginoso das referidas conquistas sociais. Nosso
objetivo, portanto, é sinalizar como o acolhimento, como uma das
diretrizes da HumanizaSUS, e a atenção as pessoas que fazem uso
prejudicial de substâncias psicoativas, especificamente, o crack, podem
fortalecer e ampliar o escopo democrático brasileiro. Temos
presenciado dois modos dispares de lidar com a problemática social que
envolve esta população. De um lado, programas de governo que
apontam para a efetivação do processo de ampliação do cuidado nos
territórios de vida, em consonância com a lei 10216/01 e com a luta do
movimento antimanicomial. De outro, projetos que pautam suas ações
na direção clínica da abstinência como único mote terapêutico e em
propostas de internação para esta população, inclusive com
possibilidades de internações involuntárias e compulsórias. Buscamos
apontar que políticas de governo que pautam suas ações pela
abstinência e internação dos usuários classificados como dependentes
químicos, estão numa linha de sinergia com o proibicionismo e com a
guerra às drogas. Neste sentido, entendemos que há uma linha
programática que vem no bojo das políticas neoliberais e sua forma de
realizar a gestão das cidades e das populações tornadas indesejadas.

100
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Desafios para superar o paradigma moral no processo de cuidado dos


CAPS AD

Leon de Souza Lobo Garcia


Centro de Atenção Psicossocial – CAPS

Esta mesa-redonda convida à reflexão sobre práticas do cuidado em


Centros de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (CAPS AD). Esta
reflexão busca analisar momentos em que trabalhadores de CAPS AD
são chamados a decidir sobre o acesso de usuários a processos de
cuidado como o acolhimento integral nos CAPS e nas Unidades de
Acolhimento. Também serão relatados momentos de discussão sobre o
acesso de usuários a serviços cujo status terapêutico é questionado ou
parece ter valor relativo no funcionamento dos CAPS AD, como o acesso
a banho e alimentação. Combinando exemplos de situações do
cotidiano dos CAPS AD com a discussão sobre conceitos como redução
de danos, atenção psicossocial e proibicionismo, busca-se compreender
como os trabalhadores de CAPS vem construindo e justificando suas
práticas de cuidado. O que são consideradas práticas de cuidado em um
CAPS AD? Existem critérios para definir como diferentes usuários
acessam essas práticas de cuidado? Como se constrói a
discricionariedade dos trabalhadores de CAPS AD na regulação do
acesso aos serviços que esse oferece? A partir dessa análise das práticas,
investigaremos como as principais linhas aceitas como orientadoras do
cuidado nos CAPS AD, a redução de danos e atenção psicossocial,
dialogam com as questões que emergem da prática do cuidado. Elas são
suficientes para orientar o que é terapêutico em um CAPS AD? A partir
dos exemplos práticos trazidos, buscaremos também avaliar se o
paradigma moral sobre o uso de substâncias psicoativas tem influência
sobre as decisões relativas aos processos de cuidado em CAPS AD. As
hipóteses levantadas são que não existe clareza sobre critérios que
definem o acesso a recursos terapêuticos nos CAPS AD, nem mesmo
sobre quais são esses recursos. Há grande discricionariedade dos

101
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

trabalhadores na definição do acesso aos serviços dos CAPS AD, assim


como uma forte influência do paradigma moral sobre o uso de
substâncias psicoativas nas decisões sobre o acesso aos serviços dos
CAPS.

102
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Limites da Correria: Redução de danos para pessoas que usam


estimulantes (experiências de 07 países)

José Arturo Costa Escobar


Faculdade de Ciências Humanas ESUDA

Rafael West Silva


Ingrid Farias
Escola Livre de Redução de Danos

Introdução: Devido à sua natureza pouco conhecida, este estudo é


direcionado exclusivamente à redução de danos para aqueles que usam
drogas estimulantes ilícitas de forma não injetável. Isto inclui engolir,
cheirar, fumar e a administração retal (booty-bumping) de substâncias.
Quanto aos estimulantes, são considerados especificamente:
estimulantes do tipo anfetamina (ETA), cocaína e catinonas. As
intervenções que atendem aos danos associados com o uso de
estimulantes incluem as terapias de substituição; os serviços de kits de
testes de drogas; suporte psicossocial; distribuição de preservativos,
lubrificantes e instrumentos para o uso de drogas; serviços de
prevenção a infecções sexualmente transmissíveis; suporte para a
geração de renda e empregabilidade; habitação, bem como a ampliação
de serviços para pessoas que usam estimulantes injetáveis. Objetivo: O
presente estudo fornece uma revisão de literatura global das atividades
de redução de danos para as Pessoas Que Usam Estimulantes - PQUE;
Documenta, descreve e analisa sete exemplos de boas práticas de
redução de danos para as PQUE em diferentes regiões do mundo (Brasil,
Uruguai, Canadá, Espanha, Holanda, África do Sul e Indonésia).
Metodologia: Este estudo consiste em duas partes: uma revisão de
literatura sobre a evidência da eficácia das estratégias de RD para as
drogas estimulantes, e uma apresentação de sete exemplos de boas
práticas de programas de redução de danos para PQUE em diferentes
regiões do mundo. Compreendendo que as intervenções globais de

103
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

redução de danos são múltiplas, e que programas semelhantes são


executados em diferentes organizações ao redor do mundo, é que os
setes casos que descrevemos constituem-se de bons exemplos sobre
como colocar em prática intervenções sólidas de RD (para estimulantes).
O relatório apresenta a primeira visão geral abrangente e comparativa
de evidência e práticas sobre a redução de danos para pessoas que
usam estimulantes. Ele combina uma rigorosa revisão de literatura
sobre diferentes estimulantes e rotas de administração com a descrição
aprofundada de exemplos da vida real sobre boas práticas de redução
de danos para pessoas que usam estimulantes pelo mundo.
Resultados/discussões e considerações finais: Em grande medida, a
redução de danos aos estimulantes segue os mesmos princípios
fundamentais que a redução de danos para outras drogas. Os bons
serviços de redução de danos começam fornecendo serviços de baixa
exigência, atendendo as pessoas onde elas estão, fornecendo
informações e materiais com base nas necessidades das pessoas,
oferecendo serviços móveis e de proximidade àquelas que não querem
ou não podem visitar locais fixos, envolvendo pares como funcionários e
garantindo que as pessoas tenham acesso a outros serviços relevantes.

104
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

TÍTULO: Patologização da infância e da adolescência

Coordenação: Gibson Alves


Secretaria de Justiça E Direitos Humanos; ABRASME

Convidado: Maria Aparecida Moysés


Universidade Estadual de Campinas -UNICAMP

A escola disciplinadora e a produção diagnóstica de TOD

Mayara Pinheiro Mandarino


Psicóloga

Cristiane Moreira da Silva


Letícia Nascimento Mello
Universidade Católica de Petrópolis

O chamado Transtorno Desafiador Opositor (TOD), de acordo com a


Classificação Internacional de Doenças (CID-10), é um transtorno de
conduta, com comportamentos caracterizados por provocação,
desobediência ou perturbação. Segundo o Manual de Diagnóstico
Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), trata-se de um padrão de
humor raivoso, com comportamento questionador/desafiante, ou ainda,
índole vingativa, que possui duração de ao menos 6 meses. Percebe-se,
portanto, que crianças com comportamentos que outrora eram
encarados como questões educacionais passam a ser tratadas como
portadoras de um transtorno mental. Professores são os principais
responsáveis por encaminhamentos para avaliação psicológica e,
frequentemente, já indicam um diagnóstico sendo os mais frequentes o
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) seguido do
TOD (SILVA; MELLO e RODRIGUES, 2018). Desta forma, as diferenças e
comportamentos considerados desadaptados são enquadrados como
patologias. Diante de tal quadro, o objetivo da presente pesquisa é a

105
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

investigação acerca do papel das escolas, uma vez que estas possuem
grande peso no encaminhamento de crianças e adolescentes para
diagnósticos, reproduzindo uma lógica medicalizante e atribuindo
patologia à comportamentos cotidianos, negligenciando fatores
socioeconômicos, culturais e familiares, que interferem de forma
impactante no comportamento dos sujeitos. Há importantes referências
acerca da medicalização infantojuvenil, que defendem a ideia de que as
questões sociais e culturais são reduzidas à uma lógica médica,
rotulando assim, características consideradas inadequadas dentro das
normas sociais como patologia de cunho orgânico (FRIAS e COSTA,
2013). Alguns autores geram reflexões acerca da ideia de que crianças e
adolescentes estão mais suscetíveis à diagnósticos e medicalização pois
costumam ser mais questionadores e agitados, e que os estigmas acerca
dos transtornos seriam formas de exclusão e controle (FRIAS e COSTA,
2013). Portanto, o objetivo da presente pesquisa busca promover
reflexões acerca da possível banalização de diagnóstico e medicalização.
Afinal, se os sintomas característicos do TOD, são comumente
encontrados na sociedade, como sensação de raiva, desconforto e
resistência à frustração e ordens, não seria a sua transformação em
patologia uma forma de robotizar o crescimento dos sujeitos,
alcançando assim, maior controle sobre estes, e ainda o aumento de
lucro e parceria entre médicos e a indústria farmacêutica? Ainda, cabe
refletir sobre o peso do diagnóstico na retirada da responsabilidade da
instituição, do sistema educacional, do funcionamento da sociedade
contemporânea e questões familiares. Além disso, cabe ressaltar a
importância de se atribuir à escola, enquanto instituição educacional, o
papel de desenvolver e produzir pensamento crítico com intuito de
estimular sujeitos autônomos. No entanto, ao invés disso, tem-se
percebido a educação em um lugar de repressão e controle dos sujeitos
para adaptação.

106
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

A medicalização da queixa escolar e o uso de psicotrópicos na infância

Letícia Nascimento Mello


Cristiane Moreira da Silva
Universidade Católica de Petrópolis - UCP

Rafael Coelho Rodrigues


Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB

Este resumo apresenta os resultados de uma pesquisa


documental realizada nos arquivos da Assessoria de Psicologia Escolar
da Secretaria de Educação do Município de Petrópolis, cujo principal
objetivo foi analisar se as instituições escolares vêm se apropriando de
discursos e práticas medicalizantes a fim de justificar dificuldades de
aprendizagem e comportamentos classificados como inadequados
durante o processo de escolarização. A partir da análise dos
encaminhamentos das escolas municipais no período entre 2013 a 2015,
contemplando do 1° ao 3° ano do Ensino Fundamental. Dentre os
encaminhamentos foram analisados os que mencionam sintomas e
diagnósticos ou solicitam avaliação médica e psicológica. Levando em
conta a descrição dos dados, conforme foram registrados. Foi possível
verificar, que a medicalização se faz presente no dia a dia das crianças,
como também a queixa escolar é desenhada por meio de questões
atreladas ao mau comportamento ou agressividade sendo tratadas
como transtornos e patologias. Além disso, do total de crianças
atendidas, um percentual elevado fazia uso de psicofármacos como
resposta aos comportamentos considerados problemáticos pelas
escolas. Ao total 254 crianças foram encaminhadas a Assessoria, destas
180 direcionadas para avaliação psicológica, tendo identificado 237
queixas referentes a questões comportamentais. No que diz respeito ao
uso de medicamentos, 64 faziam uso de algum tipo de medicação e 180
crianças foram encaminhadas para tal finalidade. Por fim, o principal
desafio na realização desta pesquisa vem da complexidade e amplitude

107
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

do tema discutido. Por meio dos dados obtidos nos encaminhamentos


de queixa escolar, é possível perceber o aumento do processo de
medicalização da educação. O controle social é gerido a partir daqueles
que ocupam lugares onde é possível inferir sobre sujeitos e analisá-los. A
escola tem buscado romper as correntes que a prendem em um passado
normatizador, a legislação cumpre seu papel ao provocar discussões
sobre educar para diversidade, inclusão e acessibilidade no contexto
escolar. No entanto, caminha-se a passos curtos e com isso o discurso
que rotula, segrega e estigmatiza continua a transitar por corredores e
salas de aula do nosso país.

108
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

TÍTULO: O Conselho Federal de Psicologia na pandemia de


Covid-19: atuação em rede e junto à categoria na atenção à
saúde mental

Coordenação: Fernando Zasso Pigatto (Presidente do CNS)

Ana Sandra Fernandes


Marisa Helena Alves
Tahiná Khan Lima Vianey
Conselho Federal de Psicologia - CFP

O Conselho Federal de Psicologia (CFP), autarquia federal com as


atribuições de orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de
Psicólogo, além de servir de órgão consultivo em matéria de Psicologia,
apresenta as ações desenvolvidas, em rede com os Conselhos Regionais
de Psicologia (CRPs) e em articulação com outras entidades, para
promover o cuidado à saúde mental da população brasileira no contexto
de enfrentamento à pandemia de Covid-19.

109
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

TÍTULO: Intersexualidade e população LGBTQI+

Coordenação: Nicéia Malheiros


ABRASME

Convidado: Marco Duarte


Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF

Intersexualidade, Reposição Hormonal Masculina e Transtornos Mentais


Comuns: um diálogo sobre a construção de categorias diagnósticas e o
processo de patologização da vida em três cenários de pesquisa

Alessandra Aniceto Ferreira de Figueirêdo


Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ

Anacely Guimarães Costa


Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF

Cristiane da Costa Thiago


Universidade do Estado de Rio de Janeiro - UERJ

Apresentamos três cenários de pesquisa diferentes que apontam o risco


do discurso biomédico na produção de patologização da vida, com o
objetivo de refletir sobre alternativas diagnósticas e terapêuticas nestes
contextos. O primeiro trabalho discorre sobre como boa parte dos
tratamentos médicos, impostos à intersexualidade, podem acarretar em
problemas relacionados à saúde mental das pessoas intersexo. Ao não
cumprirem seus propósitos de ajustar as corporalidades intersexo às
normas binárias, as intervenções médicas produzem sofrimentos
diversos, angústias e anseios nestas pessoas. No segundo cenário, é
analisado o processo de promoção, divulgação de medicamentos e
categorias diagnósticas pela indústria farmacêutica e a classe médica,
sendo utilizado como estudo de caso a terapia de reposição hormonal

110
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

masculina, tomada como instrumento para combate ao


envelhecimento. A terceira pesquisa debruçou-se sobre os Transtornos
Mentais Comuns, um conjunto amorfo de sintomas não-psicóticos,
observado na atenção primária, que não era categorizado como doença,
portanto ausente da Classificação Internacional de Doenças e Problemas
Relacionados com a Saúde (CID) e do Manual de Diagnóstico e
Estatística de Transtornos Mentais (DSM). Contudo, desde o final do
século passado, esses casos denominados “subclínicos” passaram a ser
visibilizados pela literatura médico-científica, sendo desenvolvidos
estudos a nível mundial, financiados pela Organização Mundial de Saúde
e pelo Banco Mundial, para constituição de categorias diagnósticas que
serão inseridas na versão para atenção primária da CID-11. Esses três
estudos analisam personagens diferentes que são afetados por
enunciados e práticas biomédicas, as quais, comumente, patologizam
seus corpos, suas formas de portar-se, constituem suas vidas e seus
modos de lidar com elas. A partir dessas análises, são realizados
questionamentos e reflexões sobre o processo de medicalização da
sociedade, sendo indispensável pensar formas de resistência a esse
processo e a construção de terapêuticas que acolham o sofrimento dos
sujeitos em questão, respeitando-os em seus modos de ser no mundo.

111
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Saúde Mental da população LGBTQI+ da CasAmor de Aracaju/SE

Matheus Andrade de Moraes


Vânia Carvalho Santos
Silmere Alves Santos
Universidade Federal de Sergipe - UFS

No cenário da formação sócio-histórica do Brasil, o preconceito e as


violências praticados contra as pessoas que saem dos padrões de gênero
e sexualidade, são gatilhos para afetar a saúde mental através de crises
de ansiedade, de pânico, depressão, entre outros. O interesse pelo tema
ocorreu a partir das observações do pesquisador que atuou como
voluntário da CasAmor LGBTQI+, Organização não-governamental
(ONG), que presta serviços de acolhimento e encaminhamentos diversos
a essa população. O objetivo precípuo da pesquisa foi analisar as
relações entre os preconceitos LGBTQIfóbicos e a saúde mental dos
usuários da referida instituição, com vistas a identificar as demandas
apresentadas e as influências da heterocisnormatividade no seu
cotidiano. A pesquisa foi descritiva composta por revisão bibliográfica,
documental e análise de 20 fichas cadastrais dos/das/des usuário/as/es
as quais foram liberadas pela ONG para consulta desde que fossem
resguardadas a identificações destes usuários. A análise dos dados foi
qualitativa e baseada no materialismo histórico-dialético. Os resultados
da pesquisa constaram que 75% das pessoas atendidas são mulheres
(sejam cis, trans ou travestis), 55% consideram-se heterossexuais,
desmistificando que os gêneros não estão atrelados as orientações
sexuais. Quanto ao fator racial constatou-se a presença de pardos (45%)
e negras (35%). Com relação a escolaridade: concluíram o ensino médio
(45%), esses dados reafirmam que fatores de classe social, gênero,
sexualidade e raça, contribuem para a exclusão social dessa população.
As violências mais expressivas foram: psicológica, verbal e patrimonial,
bem como preconceito familiar e dificuldades nos relacionamentos
conjugais e familiares. Os sintomas mencionados foram: tristeza

112
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

profunda (28%), ideação suicida (18%), depressão (17%), automutilação


(15%), tentativas de suicídio (11%) e isolamento social (11%).
Evidenciam-se as correlações entre preconceitos e o sofrimento
psíquico, bem como a relação entre a população e as suas vivências.
Além desses dados, outros apontamentos foram destacados, são eles:
escassez de empregabilidade, necessidades básicas de moradia e
alimentação, e a utilização da arte enquanto resistência. Desse modo, a
adoção de políticas públicas com vistas a inserção dessa população na
área de educação, emprego e renda e saúde coletiva proporcionarão
uma melhor qualidade de vida, sobretudo em relação ao sofrimento
psíquico.

113
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Sexualidades, Drogas e Religião: práticas atualizadas da “Cura Gay” no


Brasil

Isabela Saraiva de Queiroz


Universidade Federal de São João Del Rei

Marco Aurélio Máximo Prado


Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG

Introdução: As estratégias biomédicas (psiquiátricas e psicológicas) da


“cura gay” têm sido largamente utilizadas no Brasil desde o início do
século XX, com registros de seu desenvolvimento em terapias de
conversão/reversão das homossexualidades que se caracterizavam
como práticas de tortura em diferentes hospitais psiquiátricos da época.
Essas práticas ditas terapêuticas ganharam terreno ao se desenvolverem
sempre aliadas a elementos e contextos religiosos e instituições de
saúde mental. Embora durante o século XX muito se tenha avançado
com a reforma psiquiátrica, a desclassificação psicopatológica das
homossexualidades e a proibição de práticas profissionais de
conversão/reversão por parte das autarquias profissionais, novos
contextos têm recriado formas de “terapias” conhecidas como “cura
gay”, especialmente em ambientes religiosos. Um dispositivo em
especial, as comunidades terapêuticas voltadas para o “tratamento da
drogadição”, marca essa recriação no contemporâneo. Encapsuladas
pelo manto secreto de comunidades religiosas, as práticas de terapias
de conversão/reversão das homossexualidades seguem sendo um nó
fundamental para compreender o campo dos direitos humanos de
minorias no Brasil e as articulações entre sexualidades, política de
drogas e religião. Em nome de uma “heterossexualidade terapêutica”, as
práticas de “cura gay” se disseminam, multiplicam, atualizam e se
associam a várias intervenções e contextos.
Objetivo e Metodologia: Neste ensaio teórico-bibliográfico objetivamos
abordar em uma perspectiva histórica essas práticas de

114
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

conversão/reversão e sua afirmação e sobrevivência em forma de


políticas públicas, como representado pelas comunidades terapêuticas,
explicitando suas ações biomédicas de tortura e produção de sofrimento
de minorias sexuais, sob a justificativa de uma forma de cuidado à saúde
e bem-estar físico e mental.
Resultados/Discussões: Para muitas dessas instituições, tanto desejos
homoeróticos quanto o “vício” em drogas são percebidos como
manifestação de possessão demoníaca. Sendo assim, tanto a abstinência
de drogas quanto a “conversão sexual” de pessoas LGBTQI+ tornam-se
meta a ser alcançada por grupos religiosos que atribuem a si mesmos a
missão de livrar a vida secular de influências malignas. Esta lógica pode
explicar – ainda que não justifique, nem autorize – o propósito de
algumas comunidades terapêuticas, vinculadas a certos grupos
religiosos, de buscar, num mesmo empreendimento, “curar” pessoas do
vício em drogas e da homossexualidade. A noção de salvação se
apresenta como uma forma de cuidado à saúde e bem-estar, tal como
indicou Foucault quando evidenciou a reatualização do poder pastoral
no Estado moderno.
Considerações finais: Muitas práticas ditas de “acolhimento” para gays e
lésbicas nas igrejas evangélicas se constituem, portanto, como
estratégias de conversão das sexualidades, por meio de iniciativas nas
quais é consenso a percepção dos perigos encarnados na ‘ameaça
homossexual’, sendo utilizadas formas mais ou menos explícitas de
repúdio à homossexualidade. Reconhece-se, assim, uma tensão com o
cenário cultural contemporâneo, em que os direitos sexuais vêm sendo
progressivamente reconhecidos como direitos humanos.
Palavras-chave: Comunidades terapêuticas, Cura gay, Uso de drogas.

115
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

TÍTULO: Loucura em conflito com a lei: desafios para a


Reforma Psiquiátrica

Coordenação: Janete Valois


Coordenação de Saúde Mental do Estado Maranhão; ABRASME

Convidado: Patricia Magno


Defensoria Pública RJ

A atuação da equipe psicossocial na Audiência de Custódia do Espírito


Santo perante as pessoas com transtorno mental autuadas em flagrante
delito: construindo caminhos antimanicomiais

Bruno da Silva Campos


Faculdade Pitágoras de Guarapari

Kallen Dettmann Wandekoken


Universidade Federal do Espírito Santo - UFES

A mesa proposta é parte de uma pesquisa de doutorado em


andamento, no programa de pós graduação em Saúde Coletiva - PPGSC,
da Universidade Federal do Espírito Santo, cuja investigação perpassa
por temas como saúde mental, justiça criminal e avaliação psicossocial
de pessoas em sofrimento psíquico que foram presas. Nesse sentido,
temos o objetivo de apresentar e discutir sobre um instrumento
(cartilha) desenvolvido neste trabalho, bem como promover o debate
acerca da atuação do sistema de justiça criminal frente as pessoas em
sofrimento psíquico. O direcionamento metodológico deste projeto tem
por base a pesquisa qualitativa e para sua elaboração seguimos as
seguintes etapas: Análise documental, observação participante e após a
elaboração do material, fizemos uma consulta e revisão por pares. Como
resultado foi elaborado uma cartilha de diretrizes e procedimentos para

116
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

a atuação da equipe psicossocial, psicólogos e assistentes sociais, no


encontro com as pessoas em sofrimento psíquico que são atendidas ao
ingressar no sistema de justiça criminal, através da Audiência de
Custódia. Essas audiências consistem na condição de que toda pessoa
que é presa em flagrante tem o direito de ser apresentada a uma
autoridade judicial em um prazo de pelo menos 24 horas do ato
ocorrido. A equipe psicossocial, dentro da mesma, auxilia na
identificação de pessoas com indícios de transtornos psíquicos, onde é
realizada tentativa de contato telefônico com os familiares e, em caso
negativo, é possível acionar a rede de atendimento em saúde mental
para verificar se existem mais dados sobre o autuado, seus familiares e
seu histórico no tratamento mental, para que estas informações sejam
levadas ao conhecimento do juiz antes da realização da audiência
através de um relatório. Em nossa prática nesse campo, percebemos
que a falta de maiores informações ou a falta de apontamento ou
desconhecimento da possibilidade de encaminhamentos para a Rede,
pode fazer com que o magistrado acabe optando pelo encarceramento
dessas pessoas, simplesmente pelo fato desses autuados estarem
desorientados ou incapacitados naquele momento de responder a
quesitos simples sobre sua vida, habitação ou motivo da prisão.
Atualmente as Audiências de Custódia ocorrem em todos os estados do
país, mas ainda as equipes não possuem uma diretriz de trabalho que
auxilie em encaminhamentos à serviços básicos de saúde, educação e
assistência social, enfatizando que essa equipe deve estar atenta e
atuante na luta antimanicomial e na prevenção da tortura e no
tratamento desumano e degradante. O ES é pioneiro por ter uma equipe
psicossocial no mesmo prédio onde ocorrem as audiências e realizando
atendimento antes das mesmas, nos outros estados esses profissionais
são acionados somente em ocasiões eventuais, caso o juiz perceba a
necessidade de encaminhamento após a realização da audiência.
Esperamos que este material sirva como um respaldo ao trabalho desses
profissionais neste local específico no atendimento as pessoas em
sofrimento psíquico que se encontram ainda mais vulneráveis mediante

117
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

à justiça criminal. A cartilha também tem o intuito de proporcionar


maior autonomia aos profissionais na hora de dialogar com os
magistrados e propor caminhos antimanicomiais.

118
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Um relato de experiência sobre o cuidado de sujeitos em situação de


encarceramento: Possibilidades, Limites e Desafios.

Cecília de Santana Mota


Alessandra Coelho Cerqueira
Programa Corra pro Abraço

O objetivo deste resumo se destina a relatar a experiência do


acompanhamento de sujeitos encarcerados em unidades prisionais de
Salvador. Estas pessoas viviam em situação de rua e, quando presas,
continuam sendo acompanhadas pela equipe do Programa Corra pro
Abraço. Este programa é uma iniciativa da Secretaria de Justiça, Direitos
Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS) do Estado da Bahia e
busca promover cidadania, cuidado e garantia de direitos de usuários de
drogas em contextos de vulnerabilidade social. O acompanhamento é
realizado, quinzenalmente, no Conjunto Penal Feminino (às segundas-
feiras) e nas unidades masculinas (sextas-feiras). Nestes encontros, uma
Educadora Jurídica (Advogada) e uma Psicóloga do Programa se dirigem
até o Complexo Penitenciário a fim de conversarem com estas pessoas
presas (principalmente as mulheres), com as quais já se tinha um vínculo
na rua. Ao longo do acompanhamento, estas profissionais, ambas
técnicas de referência, trazem informações sobre o processo, sobre
agendamento com os defensores públicos das mesmas tentam garantir,
via relatórios psicossociais, a confirmação do acompanhamento
realizado pelo Programa. Neste contexto, através da realização das
escutas, é possível também estabelecer um espaço no qual mulheres e
homens presos falam sobre a experiência de estarem encarcerados,
suas questões familiares, falam ainda sobre si e sobre possibilidades de
reinvenção da própria vida. Ao longo do tempo, percebemos a
importância de manter estas visitas (que se configuram como uma
estratégia de redução de danos) e o lugar também terapêutico que este
espaço se caracteriza. Doravante, a equipe do Programa Corra Pro

119
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Abraço, pautada em uma prática política, ética e, sobretudo, de


resistência compreende que as formas de punição no Brasil encontram
no encarceramento uma solução importante para a exclusão de sujeitos
“indesejados”, com perfis forjados no campo social através da insígnia
da periculosidade e irrecuperabilidade (ROSA, 2010). Doravante, é
preciso pontuar que as prisões, tal como pensada por Foucault (2009), é
o ponto de ancoragem onde o poder disciplinar mais nitidamente se faz
perceber nas práticas carcerárias que incidem sobre os corpos.
Entrementes, a prisão, no trabalho empreendido no âmbito do
Programa Corra pro Abraço, se configura como uma extensão da prática,
cujo acompanhamento se faz imperativo, pois se destina a, de dentro do
cárcere, tentar promover e garantir direitos constantemente violados,
onde vidas de sujeitos estão quase nuas e em um estado de quase
exceção (AGAMBEN, 2002/2004).

120
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

TÍTULO: Políticas antirracistas e resistência antimanicomial

Coordenação: Rosângela Santos


ABRASME

Convidado: Emiliano Camargo David


Instituto AMMA Psique e Negritude; Instituto SEDES Sapientiae

Clínica Psicológica Antirracista: uma nova episteme para uma psicologia


brasileira decolonial nascida da fala das mulheres negras

Maria Conceição Costa


Articulação Nacional de Psicólogas/os Negras/os e Pesquisadoras/es -
Anpsinep

Maria Conceição Costa


Ana Lucia Francisco
Universidade Católica De Pernambuco - Unicap

O trabalho, ora apresentado, é o resultado da proposta do


Projeto de Tese desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em
Psicologia Clínica - Doutorado, da Universidade Católica de Pernambuco.
A reflexão aqui levantada nos leva a pensar que, sendo um trabalho em
construção, significa um projeto não acabado, mas tão somente uma
Projeto caminhante, precisando passar pela análise crítica de pesquisa.
A pesquisa qualitativa, aqui sugerida, mostra-se portanto, rica em
possibilidades do cuidado com a apuração dos fatos e que o desenvolver
das ideias requerem mais cuidados e compromissos éticos com caminho
“cientifico” por nós adotado.
A partir dessa perspectiva, pensamos na possibilidade de rever a postura
da atuação da psicologia podendo construir uma clínica pensada como
aquela que se voltará às questões sociais, reponde num espaço de

121
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

atuação para além do setting da relação individuo-individuo, queixa


intra psíquica ou questões emocionais surgidas do sujeito na condição
de ser. Doravante pensamos e passamos a nominá-la de uma outra
clínica, mais do cuidado, psicológica antirracista, nos molde psicossocial,
vertente da clínica ampliada, da clínica de rua, do plantão psicológico
etc., que promova o compreensão do enfrentamento às questões raciais
entendendo-as como questões sociais, constituídas e construídas
também relações sociais e, sobretudo, por elas definidas. Assim,
escolhemos aqui pensar uma clínica no problema da pesquisa em
questão como aquela que problematizará o racismo incidindo na
desconstrução de uma subjetividade racista, classista e patriarcal,
passando a ser a busca de entender, para desconstruir o racismo
estrutural brasileiro. Sugere-se então, uma compreensão interseccional,
dado que este racismo aparece como uma vertente de discriminação
que causa a apartação da sociedade brasileira colocando as pessoas
negras na condição de subalternas e pessoas brancas na condição de
privilegiadas. Isso estimula uma construção da subjetividade racializada
da população negra e racista da população branca, o que define o lugar
e o não lugar dos sujeitos. O racismo atravessa, portanto, todas as
instituições brasileiras nas lógicas reais e simbólicas, naturalizando,
desse modo, relações profundamente desiguais instituídas como
racismo institucional. Considerando, obviamente, nesse sentido, que
para a pessoa negra o não lugar significará sempre ocupar os piores
lugares sociais no Brasil, com rebatimento na sua subjetividade e no seu
psiquismo.

122
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Luta antimanicomial e lógica decolonial:


encruzilhadas de saberes e práticas

Rafael Casali Ribeiro


Universidade de São Paulo – USP

INTRODUÇÃO, OBJETIVO E METODOLOGIA: Procuramos traçar


algumas reflexões sobre cuidado em saúde desde uma perspectiva
decolonial, partindo dos princípios que regem a luta antimanicomial
brasileira, passando pelas Práticas Integrativas e Complementares em
Saúde (PICS) em diálogo com a Educação Popular em Saúde (EPS).
Apontamos possíveis exemplos de como o diálogo com saberes e
práticas populares, ancorados em cosmovisões distintas do saber
biomédico hegemônico, enseja potências emancipadoras e que podem
contribuir com a concretização dos princípios da luta antimanicomial. A
metodologia utilizada foi de ensaio reflexivo.
DISCUSSÕES: Discutimos como a prática radical dos princípios da luta
antimanicomial e da reforma psiquiátrica nos exige a produção de
subjetividades livres da lógica colonial, e para isso não basta adotar
referenciais teóricos mais “humanizados” e “emancipadores” se presos
a modos de sentir-pensar-agir etnocêntricos. É importante reconhecer e
incorporar saberes e práticas presentes na cultura popular cujas base
são extraocidentais, ou seja, adotar uma tarefa de desconstrução da
matriz colonial. Apontamos o não reconhecimento das medicinas
tradicionais indígenas e as medicinas de origem afro-brasileira nas e
pelas políticas públicas voltadas às PICS, marginalizando assim modos de
socialização e cuidado que operam mais radicalmente fora da lógica da
dominação colonial, mercantil e objetificadora e que têm grande força
de produção de subjetividade coletiva.
Apontamos a Educação Popular em Saúde (EPS), cujos compromissos
emancipadores convergem com a luta antimanicomial, como campo de
maior abertura à outras epistemologias, cosmovisões e práticas
presentes nas classes populares. A valorização da diversidade de saberes

123
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

que norteia a EPS faz com que se acolha as PICS em seu campo de
diálogo. O destaque à ancestralidade na Política Nacional de Educação
Popular e Saúde no SUS (PNEP-SUS) denota a importância de uma noção
fundamental para cosmovisões de grande parte das populações de
origem negro-africanas e ameríndia. Das sabedorias assentes nestas
cosmovisões populares, reconhecemos a especial potência num de seus
elementos mais estigmatizados: o signo Exu. Associado pelo branco ao
diabo, Exu é orixá que versa sobre a potência, a imprevisibilidade, o ato
criativo, a fecundidade, as trocas, a mobilidade e a transformação. É
poder que organiza o caos, o dínamo do universo e princípio de
inacabamento. Mensageiro entre mundos, senhor dos caminhos e das
encruzilhadas, lugar da incerteza e da alteridade. Diante do ímpeto
colonial, logocêntrico e epistemicida, Exu joga com o erro, desestabiliza
modos de ser e abre possibilidades de reinvenção. Em meio a uma
polifonia dialógica de saberes que visa produção individual e coletiva de
conhecimento e saúde, o saber advindo de Exu é uma dentre as várias
potências de emancipação a operar a desconstrução da matriz colonial
e, junto com ela, a lógica manicomial.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Buscamos aqui explorar articulações potentes
entre o que move a luta antimanicomial e saberes e práticas
extraocidentais, não em busca de resposta, mas sim na intenção de
sustentar uma abertura à não-repetição de pensares, sentires, e agires
aprisionados, na aposta de que a invenção de uma sociedade sem
manicômios passe pelo encontro plural e dialógico com sociedades que
nunca deles lançaram mão.

124
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Resistência antimanicomial: Protagonismo e formação política

Marcella Matos Souza de Jesus


Universidade Federal de Pernambuco - UFPE

Natália Vasconcelos de Freitas


Universidade de Pernambuco - UPE

José Nilton Monteiro da Silva Junior


Jailson José dos Santos

Nivaldo VasconcelosJetro Leite Correia Junior


Márcio Muniz C. de Andrade

A radical transformação da relação entre sociedade e loucura e a


efetivação de uma nova rede de cuidados exigem sujeitos organizados
politicamente para participação ativa, protagonizando mudanças
históricas e estruturais, dessa maneira, compreendemos como
necessidade impulsionar a organização e o protagonismo dos usuários
nas lutas travadas por direitos. O Núcleo Estadual da Luta
Antimanicomial de Pernambuco Libertando Subjetividades, a partir de
continuidades e rupturas de resistências antimanicomiais, organiza-se
em torno de atividades que propõem a construção coletiva de projetos
que, ao ultrapassar o espaço institucional, estimulam construções de
afetos e organização política entre usuários(as) da RAPS. Nesse sentido,
o objetivo deste projeto é apresentar a experiência da Escola de
Formação Antimanicomial para usuários e familiares como estímulo a
iniciativas de promoção da autonomia das(os) envolvidas(os) na atenção
à Saúde, como fundamental para a construção de um modelo de
cuidado em Saúde Mental genuinamente antimanicomial. A partir de
provocações despertadas na IV Semana da Luta Antimanicomial em
maio de 2016, e das assembleias de usuários realizadas posteriormente
nos CAPS, que a I Escola de Formação de Usuários- RMR é realizada em

125
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

2017, e seus frutos abriram portas para mais duas edições do projeto,
nos anos de 2018 e 2019. As atividades aconteceram em encontros
quinzenais para facilitar a articulação com redes de serviços e parceiros
políticos. Os encontros foram realizados em espaços de organizações
parceiras, como sindicatos, Armazém do Campo (MST) e Museu da
Abolição do Estado. Corroborando com o princípio da autonomia, o
projeto da III Escola foi pensado com base na pedagogia Freireana, e das
noções de saberes enquanto dispositivos políticos e ferramentas de
emancipação política. É a partir do fundamento da dialogicidade como
essencial a participação genuína em espaços de aprendizado, que a III
Escola se organiza em torno do universo temático dos participantes, os
chamados temas geradores. O primeiro encontro consistiu na
explanação da metodologia e investigação conjunta desse universo por
parte dos grupos de participantes, resultando em uma organização
programática para os demais encontros, com a nomeação de
facilitadores e responsáveis pela discussão a partir da proximidade com
o tema ou interesse em desenvolvê-lo. Na avaliação do processo como
estimulador da participação social e reconhecedor de direitos, foram
encaminhados indicativos para fortalecimento da Associação de
Usuários e realização de futuros encontros. Tais elementos deixam claro
a importância e o desafio da continuação desse processo formativo. Por
fim, consideramos que todo movimento político deve exigir um
processo formativo, para que a realidade e a história sejam seriamente
consideradas, construindo estratégias que sejam pensadas de forma
coletiva e organizada, em prol de transformações societárias radicais.
Assim, entendemos a importância de compartilhar a experiência desse
projeto e suas possibilidades de (re)pensar formas de enfrentamento ao
sucateamento da Política de Saúde Mental, rumo à construção de uma
sociedade sem nenhuma forma de manicômios.
Palavras-Chave: Saúde Mental, Participação Popular, Formação
Antimanicomial.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Racismo é coisa da minha cabeça ou da sua?

Maria de Jesus Moura


Eliane Silvia Costa
Thaynara Sousa Silva
Conselho Federal de Psicologia - CFP

INTRODUÇÃO: Em 2002, por meio da campanha “O preconceito racial


humilha e a humilhação social faz sofrer”, o Conselho Federal de
Psicologia propôs pela primeira vez um debate nacional sobre o racismo
no âmbito do Sistema Conselhos. Como resultado dessa reflexão, o CFP
publicou a Resolução nº18/2002, que estabelece normas de atuação
para as(os) psicólogas(os) em relação ao preconceito e à discriminação
racial e destaca que as(os) profissionais de Psicologia não podem
exercer qualquer ação que favoreça a discriminação ou o preconceito
étnico-racial, o que também significa dizer que não poderão ser
omissas(os) em relação ao racismo, nem mesmo utilizar técnicas ou
instrumentos que criam ou reforçam a discriminação racial. Nesses 18
anos, o debate sobre dominação e relações étnico-raciais ampliou do
ponto de vista teórico-técnico e político. O CFP tem sido um dos atores
nesse processo de criar condições para que a Psicologia, como ciência e
profissão, decifre e enfrente essa modalidade de dominação. Inclusive,
como não há racismo estrutural, institucional ou relacional sem sujeitos,
esse tema é crucial para a Psicologia em suas diferentes áreas de
atuação e linhas teóricas. É por essa razão que, mais uma vez, o CFP
criará espaços de reflexão sobre o racismo, sendo que, no dia 20 de
novembro de 2020, lançará sua segunda campanha contra o racismo.
OBJETIVO: esta mesa tem como objetivo apresentar a referida
campanha. MÉTODO: Detalhes da campanha serão apresentados, tais
como o fato de que ocorrerá ao longo do triênio de 2020 a 2022 e que
envolverá todo o Sistema Conselhos de Psicologia. Além disso, será
destacado o fato de que a campanha trará à baila o racismo contra a
população negra tanto quanto dará ênfase ao racismo contra os povos

127
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

indígenas. Ela terá como centralidade produzir ações discursivas e


práticas que colaborem com processos formativos e informativos sobre
racismo, branquitude e práticas antirracistas, pois, para o CFP, esses são
temas interdependentes. Em outras palavras, branquitude é racismo e
desmantelá-la requer a criação cotidiana de atos concretos contra o
privilégio branco e a favor da equidade racial. Ao longo da campanha, o
CFP contribuirá com a promoção do letramento sobre práticas
psicológicas não racistas e com o compartilhar de ferramentas teóricas e
metodológicas que possibilitem que psicólogas(os) façam uma leitura
crítica do racismo no Brasil. RESULTADOS: O slogan da campanha é:
“Racismo é coisa da minha cabeça ou da sua?”, espera-se que, com este
chamamento, psicólogas(os), estudantes de Psicologia e demais
profissionais e pesquisadoras(es) da saúde mental participem desta
mesa e da campanha e que colaborem com o delineamento de uma
Psicologia Antirracista e Decolonial. Esperamos também que se
evidencie que as lutas antimanicomial e antirracista são convergentes,
pois voltam-se para a defesa da vida, saúde, justiça e liberdade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Vale lembrar que o que está em questão é o
posicionamento ético-político da(o) profissional de Psicologia e das
demais áreas do campo da saúde mental.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

TÍTULO: Práticas Emancipatórias: Arte-cultura

Coordenação: Marilda Couto


Escola Superior da Amazônia - ESAMAZ; ABRASME

Convidado: Eduardo Torre


CAPS Espaço Aberto ao Tempo; Laboratório de Estudos e Pesquisas em
Saúde Mental e Atenção Psicossocial - ENSP/FIOCRUZ

O Centro de Convivência e Cultura como experiência antimanicomial de


cuidado em saúde mental em uma cidade da Amazônia

Amanda Schoenmaker
Sandra Ortiz Rodrigues
Fabiano Guimarães de Carvalho
Centro de Convivência e Cultura/Sec. Est. de Saúde do Acre

Diana Rodrigues Goulart


Secretaria de Estado de Educação do Acre

O presente trabalho tem por objetivo abordar a trajetória de


cuidado em saúde mental do CECO Arte de Ser, em Rio Branco/Acre. O
Arte de Ser surgiu como oficina de expressão livre artística, por iniciativa
de Fabiano Carvalho, então psicólogo do Hospital de Saúde Mental do
Acre. Inspirado em Nise da Silveira, realizava oficinas em espaços
próximos ao hospital, possibilitando a saída do isolamento de pacientes
e residentes. Com o envolvimento de outros profissionais, apoio da
Divisão de Saúde Mental do Estado e realização, em 2008, do I
Seminário de Saúde Mental do Acre, articulado pela Associação de
Pacientes e Amigos da Saúde Mental, surge a proposta de criar o Centro
de Convivência e Cultura. Alguns anos depois, o CECO passou a
funcionar no único seringal urbano do mundo, o Parque Capitão Ciríaco,

129
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

graças à parceria com a Fundação Municipal de Cultura. Em 2018, foi


formalizado como Centro de Convivência e Cultura, serviço que tem,
entre suas diretrizes nacionais, a de oferecer às pessoas com
transtornos mentais espaços de sociabilidade, produção e intervenção
na cidade (Portaria 396/2005/SAS). Um dos elementos essenciais de sua
metodologia é o fato de suas oficinas e eventos culturais (shows,
exposições, etc.) serem abertos, propondo a convivência entre as
diferenças: pessoas com e sem transtorno mental ou sofrimento
psíquico intenso, diferentes idades, gêneros, níveis socioeconômicos,
etnias, etc., tendo a arte como mediadora deste processo de contato
consigo e com o outro. Recentemente, iniciou-se a realização de
assembleias, projeto de economia solidária e oficinas voltadas
exclusivamente para mulheres e homens, para reflexão sobre o impacto
do patriarcado na saúde mental. Observa-se que a participação no Arte
de Ser tem contribuído para a redução das internações e do uso de
medicação; aumento da autonomia dos sujeitos, sempre estimulados a
fazer o que desejam; criação de laços afetivos entre os participantes,
que transbordam o tempo/espaço do serviço; e desconstrução dos
estigmas associados à loucura, provocando uma reflexão sobre estas
questões no contexto amazônico, inclusive na equipe, pois nos
compreendemos participantes deste processo de descolonização de
nossas expressões, afetos e pensamentos sobre nós e o outro. Por sua
atuação, o Arte de Ser foi premiado pelo Ministério Público do Acre no
Prêmio MP Atitude, na categoria Inovação. Nossa Rede de Atenção
Psicossocial é incipiente e conta ainda com um hospital psiquiátrico.
Assim, dentre nossos maiores desafios está a superação do modelo
hospitalocêntrico e excludente, referência no cuidado em saúde mental
para grande parte da população e da gestão pública. O Arte de Ser, em
conjunto com os demais serviços da RAPS, apresenta outra possibilidade
de cuidado: no lugar do isolamento, o convívio entre as pessoas na sua
diversidade, exercício ainda mais fundamental no contexto sociopolítico
que atravessamos. Ao invés de grades, janelas e portas abertas em um
parque público repleto de seringueiras, que convidam à memória e

130
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

valorização dos saberes deste lugar da Amazônia e não ao seu


esquecimento. Ao invés da medicação, a arte. Se ainda não pudemos
fechar o manicômio, vamos esvaziá-lo através de outras redes de afeto.

131
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

O Protagonismo da Ciranda

Gleni Bardales Ribeiro


CRC

Yara Bardales Mesquita


Andre Luiz de Almeida Rocha
Adelaide de Lima Neri
Vaz da Silva Junior
Francisco Lisboa da Silva
Nilzete Alves Moura
Cooperativa Ciranda Samauma

O presente trabalho tem como objetivo apresentar a


Cooperativa Social de Saúde Mental Ciranda Samaúma, como
experiência de protagonismo, organização política e geração de renda
de usuários e familiares no cuidado em saúde mental. A Cooperativa
surgiu dentro do CAPS Samaúma, serviço da RAPS de Rio Branco/Acre,
por iniciativa dos próprios usuários e familiares. Este nosso coletivo,
formado por adolescentes, adultos e idosos, é protagonista desse
empreendimento, bem como deste texto. Trabalhando juntos,
construímos uma identidade individual e coletiva, buscamos um bem
comum, satisfazemos desejos pessoais, elevamos nossa autoestima,
potencializamos e expomos de maneira livre nossa expressão artística,
contando nossas histórias de vida. Desde o início, associamos a
organização da Cooperativa à Luta Antimanicomial, pois acreditamos
que ela é um caminho de fortalecimento de nossa autonomia e
integração social, reduzindo a necessidade de internação e uso de
medicamentos. Contando também com o apoio das equipes do CAPS
Samaúma, do Centro de Convivência e Cultura Arte de Ser (este através
de projeto com a UNISOL Brasil), Ministério Público do Acre e outros
parceiros, há menos de um ano estamos descobrindo os desafios de
sermos um grupo formado por pessoas muito diferentes entre si,

132
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

buscando caminhos para produzir produtos vendáveis, mas que sejam


fruto de um trabalho terapêutico e criativo, que leve em conta nossas
especificidades e potências. Acreditamos que isto seria o ideal para todo
ser humano, para que o trabalho não seja fonte de adoecimento mental.
Somos pessoas que, sozinhas, muitas vezes não conseguíamos enxergar
uma chama acesa em nossas vidas ou o nosso lugar na sociedade, mas,
trabalhando em grupo, desenvolvemos nossos talentos, criatividade,
bem-estar, o respeito ao tempo de cada um, vivenciando um convívio
social saudável. Assim, as oficinas de produção, onde são fabricados
produtos artesanais manuais, tem como finalidade gerar trabalho e
renda já que, em nossa maioria, não temos condições de desenvolver
uma atividade laboral remunerada, devido aos quadros clínicos e a
discriminação sofrida. O intuito é o de custear o transporte para a ida
aos tratamentos, gerar renda para si e para a família num espaço de
acolhimento onde temos voz e lugar, onde aprendemos a dialogar e
decidir conjuntamente. A experiência da venda dos produtos, até o
momento em feiras e eventos culturais, também tem sido fonte de
aprendizados. Percebemos o quanto contribui para a construção de uma
imagem positiva sobre nós, tanto por nós mesmos quanto pelas outras
pessoas. Essa experiência de coletivo acaba por refletir, também, em
nossa organização política. Sentimos a necessidade de construir
condições para que esta e outras experiências se consolidem, para que
possam atender com mais efetividade as necessidades de nós usuários,
por meio de políticas públicas eficazes, quando somos ouvidos e
participamos ativamente do processo de construção das políticas
sociais, pois não há dialogo sem escuta, percebemos a necessidade de
nos inserir no mercado de trabalho de forma democrática, nos tornando
capazes de tomar nossas próprias decisões, levamos essa experiência
para nosso cotidiano, criamos nosso lugar na sociedade e o direito a
uma vida digna.

133
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

TÍTULO: Cuidado em Saúde Mental da criança e do adolescente

Coordenação: Ana Schiavinato


Conselho Regional de Psicologia- CRP 09; ABRASME

Convidado: Biancha Angelucci


Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

A Escola como Espaço de Cuidado em Saúde Mental para Adolescentes:


a experiência do "Sobre Nós"

Vladia Jamile dos Santos Juca


Universidade Federal do Ceará - UFC

Os profissionais de educação lidam em seu cotidiano com o


sofrimento psíquico de adolescentes, manifestado através dos quadros
identificados com depressão, ansiedade, pânico, tentativas de suicídio,
abuso de substâncias psicoativas e práticas de automutilação. O contato
com o mal-estar dos adolescentes têm forte impacto nos profissionais
de educação que respondem diante de tais situações com o
encaminhamento para os equipamentos de saúde. No entanto, diante
das especificidades dos CAPSi, da quase ausência de ações na atenção
básica voltadas para esses adolescentes, além da falta de vagas nos
ambulatórios e distância geográfica dos mesmos, poucos conseguem
atendimento e, dentre os que conseguem, muitos entram no circuito da
medicalização. Desse modo, entendemos ser urgente investirmos em
dispositivos comunitários através dos quais o sofrimento desses jovens
possa ser acolhido. Visamos, no presente trabalho, apresentar uma
experiência em curso em Fortaleza-CE, na qual estamos realizando
grupos de conversação no contexto escolar sobre saúde mental com
adolescentes que tenham interesse em participar. Os objetivos do
projeto em questão são: criar um espaço de escuta e de acolhimento
para as questões concernentes ao sofrimento psíquico das adolescentes

134
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

na escola; refletir acerca dos elementos presentes na produção do


sofrimento e nas estratégias utilizadas para contorna-lo; promover uma
discussão sobre o lugar da escola como produtora ou agudizadora do
sofrimento, mas também como espaço de cuidado; fomentar redes de
solidariedade entre as adolescentes. A metodologia utilizada é das
conversações, perspectiva de base psicanalítica e utilizada em contexto
escolar para grupos com jovens. A adesão é voluntária e os encontros
semanais. Além dos grupos com adolescentes, outras ações pontuais a
pedido dos jovens ou da própria escola estão sendo realizadas. O espaço
no qual é possível expressar o mal-estar, associar os elementos que
confluem para sua produção, pensar coletivamente em estratégias de
cuidado tem se mostrado de grande potência, com destaque para as
relações de solidariedade produzidas entre os jovens. No final do grupo,
caso haja necessidade de algum encaminhamento, realizamos, mas a
própria realização do mesmo provoca a diluição de demandas de
tratamento especializado. A experiência na escola tem gerado outras
demandas como a realização de grupos com os professores e a
implementação de um espaço de escuta qualificada em um Centro
Cultural do bairro.

135
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Internações de crianças e adolescentes em instituições de acolhimento


para pessoas com deficiência

Flávia Blikstein
Alberto Olavo Advincula Reis
Universidade de São Paulo – USP

Patricia Santos de Souza Delfini


Universidade Presbiteriana Mackenzie

Introdução: No contexto brasileiro, a atenção em saúde mental


para crianças e adolescentes foi, durante décadas, exercida pelo campo
da filantropia em instituições asilares especializadas. A Política Nacional
de Saúde Mental, entretanto, redireciona as diretrizes de assistência e
preconiza a substituição do modelo asilar pelo modelo psicossocial de
atenção. Diante disso, o estudo investiga as práticas de cuidado que
operam, na atualidade, no campo da saúde mental infantojuvenil.
Especificamente, a pesquisa examina a internação de longa
permanência de crianças e adolescentes em instituições de acolhimento
para pessoas com deficiência, a fim de avaliar a situação presente e
subsidiar ações de desinstitucionalização e inclusão social. Objetivo:
Identificar e descrever o perfil das instituições que prestam atendimento
em regime de acolhimento institucional a pessoas com deficiência no
Estado de São Paulo e aquilatar a amplitude e a importância atuais
dessas entidades no campo da saúde mental infantojuvenil.
Metodologia: O estudo - de abordagem qualitativa, caráter descritivo e
corte transversal - foi executado em três etapas distintas.
Primeiramente, realizamos um mapeamento e caracterização das
instituições de acolhimento para pessoas com deficiência no Estado de
São Paulo. A segunda etapa constituiu-se de um levantamento de perfil
de usuários em uma instituição específica. Na última etapa, os dados
foram categorizados e analisados, a fim de dimensionar as internações

136
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

de crianças e adolescentes e avaliar o papel exercidos pelas instituições


de acolhimento para pessoas com deficiência no campo da saúde
mental. Resultados e Discussão: A partir da realização da pesquisa, foi
possível constatar que a internação de longa permanência de crianças e
adolescentes é uma prática recorrente nestas instituições. Além disso, o
estudo revela a ausência de tipificação e regulamentação específica
destes serviços que atuam desarticuladamente com a rede intersetorial
e territorial e não promovem práticas de desinstitucionalização. Assim,
as instituições e o Estado, numa relação de distanciamento e, ao mesmo
tempo, complementariedade, promovem continuamente
institucionalização de crianças e adolescentes. Considerações finais: O
estudo conclui ser urgente e fundamental que a internação em
instituições de acolhimento para pessoas com deficiência seja foco de
novos estudos e ações em saúde pública. O levantamento de
informações que possibilitem reconhecer demandas específicas é
fundamental para garantir a efetividade e consolidação da Rede de
Atenção Psicossocial, bem como para assegurar, para este grupo
populacional, os direitos determinados pelo Estatuto da Criança e do
Adolescente.

137
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Roda de Conversa – Relato de


Experiência

Eixo Temático 02. Entrelaçamento da clínica, da gestão, da


formação e da política na organização do cuidado psicossocial.

Visita a um Centro de Atenção Psicossocial: relato de experiência.

Paula Renata da Cunha


Dulcian Medeiros de Azevedo
Alexsandra Meira de AraújoAna Beatriz Silva dos Santos
Danielly Kaliana Andrade dos Santos
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN

INTRODUÇÃO: A reforma psiquiátrica representa um marco para a


assistência psiquiátrica mundial, sendo vivenciada no Brasil a partir do
fim da década de 1970, tirando-se a centralidade da doença, passando-
se a enxergar um sujeito (“louco”) com direitos e cidadania. Junto aos
ideais da reforma, surge o modelo psicossocial, visando um cuidado
humanizado. Com a reorganização dos serviços de saúde mental, surge
o Centro de Atenção Psicossocial como dispositivo especializado de
assistência territorial, e entre suas modalidades (porte populacional e
clientela assistida), destaca-se o CAPS III único com atendimento 24
horas e leito para internamento à crise. Objetivou-se descrever um
relato de experiência de uma visita de acadêmicos de enfermagem a um
CAPS III. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: Vivência de discentes do Curso de

138
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Graduação em Enfermagem, Campus Caicó, Universidade Estadual do


Rio Grande do Norte (UERN), como atividade da disciplina “Políticas
Públicas de Saúde Mental”, semestre letivo de 2018.2, na cidade de
Caicó/RN, a partir de uma captação da realidade. O serviço desenvolve
assistência 24 horas, com presença média de 15 usuários dia, tendo 10
leitos de internamento. Possui cerca 45 trabalhadores atuantes, entre
médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes
sociais, psicólogos, técnicos de enfermagem, vigilantes, cozinheiros,
oficineiros, entre outros. Foram visitadas a sala de atendimento
psiquiátrico, quatro enfermarias, sala de atendimento psicológico, sala
de terapia coletiva, refeitório e sala de atividades terapêuticas
individuais (manuais, teatro, música, teatro e cultura). Apesar disso,
diante da abrangência do serviço e sua importância para a região de
saúde que deve cobrir (290 mil habitantes), percebeu-se dificuldades
relacionadas à oferta regular e variada de atividades terapêuticas, além
da ausência de participação familiar no tratamento. Também foi
percebido pelos acadêmicos de enfermagem traços do modelo
manicomial, seja através da infraestrutura insuficiente e circulação dos
usuários por todos os espaços, usuários “ociosos” sem um plano
terapêutico definido e profissionais organizados em silos, onde cada
realiza sua “tarefa”. REPERCUSSÕES: Notaram-se dificuldades para o
serviço consolidar a sua proposta psicossocial, não somente intramuros,
mas também um trabalho comunitário com os usuários, para que o
CAPS e a residência não se tornem os únicos espaços de (re)socialização.
Importante destacar as limitações no tocante à articulação ensino
serviço neste cenário, onde a contribuição dos centros de formação e
sociedade civil devidamente representadas se torna indispensável.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: A visita teve um impacto muito positivo para
os estudantes, possibilitando o confronto entre teoria e prática,
facilitando o processo ensino aprendizagem a partir do confronto com a
realidade (prática) e o ensinado (teoria). Por outro lado, entende-se que
somente uma visita é insuficiente para perceber todo dinamismo do

139
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

serviço, suas fragilidades/potencialidades e possibilidades de auxílio por


entes externos.

Eixo Temático 07. Práticas integrativas e complementares,


expressões artísticas e espiritualidade no cuidado em saúde
mental.

VIVARTE: A arte enquanto promoção do bem-estar psicossocial

Ádna Caroline dos Santos Almeida

O projeto de extensão Vivarte, promovido pelo CCS (Centro de


Ciências da Saúde) da UFRB, consiste na realização de oficinas de arte
como ferramenta terapêutica e psicoeducativa para crianças de 6 a 13
anos participantes do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil
(PETI). O PETI além de atuar no combate do trabalho infantil, garante
uma quantidade de renda para a família da criança. Realizado em Santo
Antônio de Jesus – BA, no período de 30 de abril a 01 de setembro de
2018, o trabalho foi desenvolvido em seis bairros, territórios em
situação de vulnerabilidade social, violências e de maioria negra. Foram
realizados 10 encontros, quinzenais, com duração de 4 horas. Em cada
encontro, as atividades artísticas eram associadas à discussão de um
tema de relevância e significado no cotidiano, escolhido pelo grupo.
Temáticas como criatividade, união, empatia e racismo foram
abordadas. Supervisões periódicas foram feitas para o planejamento e
acompanhamento das atividades e a avaliação de cada encontro foi feita
pela equipe e pelos participantes, assim como, a revisão bibliográfica,
que em sua maioria foi direcionada aos estudos do psicólogo Lev
Vygotsky. Os resultados se apresentaram de modo processual,
considerando o intervalo de tempo entre os encontros e o fato do
vínculo se dar por meio de uma contínua construção. As crianças
abraçaram as experiências, com intensa troca e afeto. As atividades
geraram um espaço para a revisão de situações vividas, o fortalecimento
140
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

coletivo, a discussão de problemas comuns enfrentados no cotidiano, a


expressão da criatividade, da espontaneidade e de emoções, permitindo
o suporte emocional e social. O projeto fortaleceu o vínculo da
universidade com a comunidade, oferecendo atividades artísticas que
possibilitassem a ressignificação e a partilha de ideias, comprometidas
com a realidade social. A extensão se mostrou como uma grande
oportunidade de ampliar os horizontes acadêmicos articulando teoria e
prática.

Projeto Eu Sou: raça, gênero, identidade e pertencimento.


Relato de experiência de M.J.F. no CAPS Casa dos Artistas –
Ouro Preto, MG.

Suzana de Almeida Gontijo

O CAPS “Casa dos Artistas”, situa-se em Ouro Preto, Minas Gerais,


segunda cidade brasileira cuja população mais se autodenomina negra e
parda. A experiência relatada refere-se ao Projeto “Eu Sou”, inspirado
por uma usuária do serviço. Mulher negra, mãe, doméstica, responsável
pelo sustento da casa, M.J.F. em seu sofrimento psíquico, experimenta
momentos em que se coloca para equipe de maneira muito hostil e
imperativa, se dizendo proprietária do serviço e repetindo “eu mando
aqui”, “sou branca, tenho olho azul”. Assim como outras usuárias,
frequentemente externa seu descontentamento para com seu corpo. O
racismo, relação de poder estruturante das relações sociais brasileiras,
atravessa a vida do sujeito negro, que sabendo reconhecê-lo ou não, lida
diariamente com os efeitos de viver em uma sociedade racista.
Indicadores sociais demonstram o quanto o racismo é responsável por
diferentes formas de desvantagens. Violência, exclusão, humilhações,
exposição contínua a situações de perigo, falta de referências
identitárias, construção de uma autoimagem negativa, evidenciam seu
caráter de produção de subjetividade e o consequente potencial de
produção de sofrimento psíquico. Apesar disso, observa-se que a
141
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

maioria dos serviços de saúde não só ignoram tais questões como


também são produtores de racismo. E é a partir daí que cresce uma
inquietação: “como eu olho para a dimensão racial? Como eu as integro
no cotidiano, nos projetos terapêuticos singulares?” Nasce o “Projeto Eu
Sou”! Com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento de uma
identidade racial positiva, através da fotografia, bordado e colagem. Ao
receber o convite para o projeto, MJF relatou situações em que sofreu
racismo e seus descontentamentos em relação ao corpo “me acho feia,
meu cabelo é muito duro, meus dentes estão estragados, nem gosto de
sorrir”, “ as pessoas me olham estranho”, “as vezes gosto da minha cor,
as vezes não”. Apesar de repetir “ensaio? eu? Sou bonita não”, aceitou o
convite. O ensaio fotográfico teve como tema elementos da cultura
negra. Ao final, ao olhar as lentes da fotógrafa, sorria sem
constrangimento e repetia “essa não sou eu não... não é possível,
pareço rainha”. As fotos foram reveladas em tamanho 30x40cm,
30x45cm, 15x25cm, e as intervenções tiveram como inspiração a
cultura, ancestralidade e identidade negra. O bordado veio como
representação do fio da vida, suas possibilidades de reparação e
remendo de feridas. Já a colagem veio como representação da
coletividade, de um corpo negro que se faz em relação com seu povo.
Como conclusão do projeto foi realizada exposição no CAPS. Os
resultados foram diversos e amplos. Observa-se que a equipe
demonstra mais atenção as questões étnicos-raciais (reuniões e
discussões clínicas), além de demandar continuidade do projeto. A
exposição será realizada em outros espaços. Sobre os impactos em MJF,
cito um momento de crise em que ao andar errante pelas ruas de Ouro
Preto, a usuária afirmou carregar em sua bolsa “só as coisas
importantes”.

142
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

(Des)Construindo um fazer em Saúde Mental: relato de experiência de


um grupo na Atenção Primaria.

Camila Ayub Teixeira


Vitor Costa Ramos
Guilherme Correa Barbosa
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP

O grupo terapêutico “Oficina do Fazer”, realizado no Centro de


Saúde-Escola - Unidade Auxiliar da Faculdade de Medicina de Botucatu
(FMB), possui aproximadamente 13 anos de existência, com início após
a entrada de psicólogos na unidade e sua atuação específica no âmbito
da Saúde Mental. Originalmente, o grupo teve outras denominações e,
durante todo o seu período de existência, houve remodelações e novas
propostas de dinâmica do grupo, assim como a alteração dos
participantes e suas demandas. Alguns usuários migraram para outros
tipos de intervenções, outros receberam alta dos cuidados e os demais
continuam frequentando o grupo. O público-alvo da intervenção são
usuários de longa data no serviço, os quais possuem histórico de
adoecimento psíquico grave, com funcionamento de nível psicótico,
histórico de perdas e institucionalização em hospital psiquiátrico,
apresentando dependência parcial nas atividades instrumentais da vida
diária. Em geral, fazem uso de psicotrópicos combinados e possuem
doenças crônicas, sendo a diabetes e a hipertensão as mais frequentes,
seguida de perda auditiva e problemas gastrointestinais. A experiência
de intervenção ocorreu em uma unidade de referência da atenção
primária, durante o segundo semestre de 2019, com encontros grupais
semanais e acolhimentos interprofissionais individuais, quando se
entendia a necessidade. A coordenação do grupo era composta por
diferentes núcleos profissionais (enfermagem, serviço social, terapia
ocupacional e psicologia), que buscavam realizar intervenções pautadas
na interdisciplinaridade. Para tanto, reuniões frequentes aconteciam
com todos os coordenadores a fim de discutir os casos e pensar nos

143
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

caminhos terapêuticos que seriam seguidos. O grupo tinha como


objetivo principal instigar os usuários na produção de autonomia
individual e coletiva e auxiliá-los a manter um cotidiano significativo e
autônomo, construindo juntos estratégias para tal. Cada encontro era
construído visando identificação e momentos de troca entre os usuários,
favorecendo um espaço para trazerem seus aprendizados e dificuldades.
Algumas temáticas foram recorrentes no grupo, como a organização
para o uso correto de medicação, participação de eventos que não
pertenciam a rotina, organização com as consultas regulares, exames,
pagamentos de contas, dentre outras demandas frequentes. Percebeu-
se, com a experiencia de grupo, momentos de maior integração entre os
participantes, os quais puderam trocar estratégias de enfrentamento e
se identificar com a vivência do outro, percebendo que suas questões
podem ser comuns a outras pessoas. Além disso, também houve
desafios e dificuldades relacionadas ao manejo do grupo, tendo em vista
situações de desorganização psíquica dos usuários e necessidade de
uma postura mais diretiva e concreta dos coordenadores. Percebemos
dificuldades de planejamento do grupo em alguns momentos, com
diversos fatores relacionados, como por exemplo, expectativas
institucionais em relação ao grupo, questionamentos acerca da
modalidade e intervenções realizadas e, também, situações em que o
conteúdo psíquico desorganizado dos usuários despertava nos
profissionais funcionamento desorganizado e fragmentado. O grupo
“Oficina do Fazer” tem um direcionamento pautado na perspectiva da
reabilitação psicossocial, estimulando um fazer que amplie
possibilidades e nos aproxima, enquanto profissional de saúde, do
cotidiano desses usuários em sofrimento, compreendendo seus limites e
potencialidades.

144
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

(Re)Configurando o Plantão psicológico no Serviço de Psicologia


Aplicada da UFPE: acolhimento e compromisso institucional às
urgências subjetivas

Edelvio Leonardo Leandro


Dayse Carla Rodrigues de Macedo Mattos
Kédma Midiam Silvestre de Lima Silva
Universidade Federal de Pernambuco - UFPE

O plantão psicológico no Serviço de Psicologia Aplicada da


Universidade Federal de Pernambuco vem sendo ofertado
ininterruptamente desde o início de 2018; voltado ao público intra e
extra acadêmico, sem recorte socioeconômico, de gênero ou faixa
etária, encaminhado da rede pública de saúde ou de livre demanda. Essa
prática em saúde mental surgiu da necessidade de lidar de forma
alternativa ao modelo de psicoterapia individual, já ofertado no serviço,
ante à crescente demanda de pessoas que o procuravam com intenso
sofrimento psíquico. Nesse dispositivo, eram atuantes três correntes
teórico-clínicas presentes na instituição, a saber, Abordagem Centrada
na Pessoa, Clínica Psicossocial e Psicanálise. Sob a ótica desta última, na
prática, o plantão psicológico caracterizou-se como acolhimento ao
sujeito, em até três encontros, a fim de atender sua urgência subjetiva
explicitada na configuração de uma crise. Esta é tomada como a vivência
por alguém de uma ruptura temporal – um antes e depois – e uma
irrupção de algo nomeado como traumático, o que dificulta a
manutenção das defesas pessoais para lidar com o novo. Assim,
elencou-se enquanto proposta de trabalho não a resolução de
problemáticas pelo sujeito, mas a possibilidade de o outro ter um
espaço de escuta do seu sofrimento, considerando-o a partir de sua
singularidade e de sua realidade social e histórica. Tal (re)configuração
ao plantão tem demonstrado que, já no primeiro encontro, à angústia
gerada pela vivência subjetiva de descontinuidade pode ser dado algum
tipo de contorno a ponto de haver deslizamento criativo pelo sujeito

145
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

para encaminhar suas demandas para além da estagnação provocada


pela crise. Na medida em que a demanda endereçada ao terapeuta
retorna ao sujeito demandante, é possível neste uma tomada de
consciência mais ampla de si e de seu contexto e uma mudança de
posição subjetiva. Assim, é possível obter, nesse formato de
intervenção, tanto efeitos terapêuticos rápidos, quanto vazão às
demandas afluentes à instituição nomeadas pelo significante urgência.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

A arte como diferencial do cuidado em um CAPS

Adriana Jales Lacerda Feitosa


Magda Ferreira Mendes
CAPS Geral CORES IV

Sarah Rabelo Cavalcante


Raimundo Cirilo de Sousa Neto
Caio Lucas do Carmo Prado
Mariana Tavares Cavalcanti Liberato
Universidade Federal do Ceará – UFC

O Programa de Extensão PASÁRGADA: Promoção de Arte, Saúde e


Garantia de Direitos, e o Programa de Educação Tutorial (PET)
Psicologia, ambos vinculados ao Departamento de Psicologia da
Universidade Federal do Ceará (UFC), campus Fortaleza, em parceria
com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Geral gerido pela
Coordenadoria Regional de Saúde IV (CORES IV) de Fortaleza,
começaram a realizar, em 2019, atividades de extensão destinadas a
construir intervenções e reflexões que ampliem as possibilidades de
cuidado do serviço, tendo a arte com dispositivo principal. As estratégias
desenvolvidas em conjunto com o equipamento buscam fortalecer os
princípios da reforma psiquiátrica brasileira, visto que se fundamenta no
caráter substitutivo de atenção especializada no atendimento às
pessoas com sofrimento psíquico ou transtornos mentais graves e
persistentes. Ou seja, busca fugir da lógica manicomial que por muitos
anos operou de forma hegemônica no tratamento da saúde mental.
Orientando-se por isso, as atuações do projeto são voltadas para os
usuários, familiares e comunidade que frequentam o equipamento e se
operacionalizam a partir das ações descritas a seguir, algumas semanais
e outras mensais. A inserção nesse campo começa com o Grupo de Arte
e Terapia, cujo foco é produzir cuidado através da experimentação da
arte em suas mais diversas linguagens. A ação Palco Aberto, consiste na

147
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

criação de um espaço no pátio do CAPS para expressão livre,


possibilitando, dentre outras coisas, a produção de um ambiente
propício a trocas afetivas. O Acolhimento com Arte, em consonância
com a Política de Humanização, é um resgate renovado de uma ação
realizada em todos os CAPS da cidade no período de 2006 a 2012, que
objetiva o acolhimento humanizado dos usuários do serviço e seus
familiares que estiverem à espera de seus atendimentos, utilizando a
arte como forma de aproximação e criação de vínculos. As intervenções
acontecem em três eixos, a saber: mostras artísticas de usuários e
convidados; oficinas das mais diversas expressões artísticas com
destaque à experiência de criação e recriação de obras, métodos e dos
próprios participantes e intervenções no ambiente da sala de espera do
serviço. Enquanto o Cine CAPS/família objetiva criar um espaço de lazer
e diálogo a partir da exibição de filmes, o Grupo de Estudos Saúde
Mental em Ação (GESMA) busca proporcionar um espaço de trocas de
conhecimento e experiência sobre o cuidado em saúde mental,
direcionando as discussões a partir da importância da luta
antimanicomial e da reforma psiquiátrica, através de rodas de conversa
e, também, de exibição de filmes e documentários que tratem sobre a
temática. Cada uma das ações é composta por até dois estudantes
extensionistas com supervisão acadêmica e no território. Entende-se a
arte, não como instrumento terapêutico apenas, mas também como
capaz de mobilizar afetos e sensações em direção a novas formas de
subjetivar-se e socializar a partir de agenciamentos outros. Desta forma,
as atividades têm a intenção de constituir espaços de livre expressão e
vivência da arte, num convite insistente à experimentação de novas
modalidades e significações para obras, movimentos, espaços e
experiências.

148
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

A arte como um caminho para ampliar o debate sobre a Saúde Mental


com a população

Jéssica Pereira Manelli


Projeto Sambavida

Larissa Beatriz dos Santos Soares


Universidade Estadual Paulista - UNESP

INTRODUÇÃO: O Sambavida trata-se de um projeto sociocultural


localizado em bairro periférico de um município do interior do Estado de
São Paulo. Tem como objetivo a democratização do acesso as
manifestações artísticas e culturais, atendendo crianças e adolescentes
na oferta de oficinas como: música, canto, teatro, dança e capoeira, com
ênfase na formação artística. Conta com atividades que buscam a
formação cidadã, assim, possibilitando o debate sobre temas cotidianos
com a finalidade de favorecer um espaço de acolhimento, escuta
qualificada e construção de um posicionamento crítico sobre questões
que atravessam a vida desses sujeitos sociais. Dentre essas atividades,
encontra-se o “grupo de convivência” que é realizado com crianças e
com adolescentes. Assim posto, esse trabalho visa expor a experiência
vivenciada e construída no grupo de convivência com adolescentes
mulheres(confirmar). A EXPERIÊNCIA: A ideia de falar sobre saúde
mental neste grupo, surge a partir de demandas apresentadas pelas
próprias integrantes, que traziam situações vinculadas ao sofrimento
psíquico, além de críticas a respeito de como o assunto era pouco
dialogado, carregado de estereótipos e preconceitos. A partir disso,
foram organizados encontros que possibilitaram a expressão de
sentimentos/emoções individuais, despertando no grupo sentimentos
que se enquadram no contexto social de quando se fala sobre saúde
mental, problematizando a importância do falar e de cuidar desta,
compreendendo os recursos existentes, serviços de apoio e entendendo
a rede de atenção psicossocial do município. As intervenções executadas

149
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

pelo grupo enfocaram três eixos: a expressão de sentimentos; o diálogo


sobre cuidados em saúde mental e a divulgação de serviços de saúde.
REPERCUSSÕES: Visando ampliar o conhecimento e o acesso da
população sobre o tema e serviços, as adolescentes compartilharam a
experiência, disseminando informações sobre saúde mental em uma
Mostra Cultural realizada pela instituição. O grupo construiu ações
educativas envolvendo linguagens artísticas como teatro, poesia,
contação de história e dinâmicas grupais, deixando o conteúdo acessível
a todas as faixas etárias, visto que a população da mostra cultural era de
escolas de ensino fundamental I e II, Médio e adultos. CONSIDERAÇÕES
FINAIS: Considera-se a arte como importante mecanismo para
ampliação do conhecimento sobre saúde mental, ressignificando
estigmas e preconceitos.

150
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

A arte e cultura como promoção de cuidado para a vivência LGBTQIA+


em tempos de distanciamento social.

Ana Luisa de Moraes Sombini


Bruno Rodrigues Gonsales
Bruna Gonçalves da Silva
Carla Cristina Pianca
Cecília Peixoto Gomes Pedroza
Maria Fernanda Souza Lôbo
Maia Caos
Sabrina Helena Ferigato
Universidade Federal de São Carlos - UFSCAR

Este projeto foi viabilizado através do Programa Institucional de


Acolhimento e Incentivo à Permanência Estudantil (PIAPE), e objetiva a
promoção de saúde mental a partir dos recortes de dissidência em
sexualidade e gênero na comunidade acadêmica da Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar). Tal população sobrevive,
historicamente, a processos de exclusão e marginalização que refletem
na qualidade de seu projeto de vida e, consequentemente, na sua
presença nos espaços formais de educação e formação acadêmica.
Grupos em vulnerabilidade formam redes para promover o
autocuidado, compartilhar experiências e construir outras possibilidades
de vida. Inseridos no contexto de pandemia, essas redes se tornam cada
vez mais rarefeitas e distantes, criando uma demanda maior de espaços
de acolhimento, que agora assumem novos modelos e configurações,
encontrando na internet uma nova possibilidade de conexão.
A equipe de trabalho (estudantes da universidade e artistas locais)
implicaram-se no processo de cuidado, estando dentro do recorte
populacional proposto, ao compartilhar experiências e realizar as
produções artísticas junto dos participantes, estabelecendo uma relação
horizontal nas ações de acolhimento. O projeto foi dividido em três
eixos temáticos (Retomada, Ancestralidade e Cotidiano), nos quais

151
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

foram utilizados disparadores audiovisuais que de alguma forma se


relacionavam com o recorte populacional, suscitando debates, trocas de
experiências e de relatos pessoais entre os participantes. Em cada um
dos eixos, foi proposta uma atividade como ideia central (Autorretrato,
Mapa Corporal e Documentação), que poderia ser realizada de forma
ampla, permitindo que os participantes tivessem acesso e possibilidade
de produção em diversas situações em que se encontrassem,
considerando o distanciamento social e a possível impossibilidade de
acesso a outros tipos de materiais. Foram apresentadas obras nos mais
diversos formatos, entre vídeos, desenhos, pinturas, colagens, artes
digitais e bordado. Para além das produções e conteúdos audiovisuais,
os encontros tiveram o objetivo de oferecer um espaço de acolhimento
e escuta, onde as angústias e receios podiam ser compartilhados de
forma aberta e segura. As discussões realizadas em grupo e as
produções oriundas destas apontaram para perda de espaço durante o
contexto pandêmico. Anteriormente, este espaço era comumente
caracterizado pelo período noturno, na rua e grupal, configurando-se
como lugar de lazer, expressividade e afetividade. Ainda sobre o espaço,
a universidade aparece, em certa medida, como proporcionadora destes
lugares, ao realizar agendas culturais em parceria com discentes, ainda
assim, o ambiente acadêmico é colocado como promotor de sofrimento
e exclusão.
A pluralidade de corpos e vivências e o estar em grupo possibilita
contato com outras realidades pertencentes à comunidade, podendo
gerar novas formas interseccionais de compreender a si mesmo, para
além da heterocisnorma, reverberando na subjetividade, no corpo, no
fazer humano e no cotidiano. A arte revelou-se como ponto de encontro
e dispositivo para produção criativa e de cuidado. Em alguns casos foi
possível identificar uma linha estética de expressão pessoal, uma
espécie de fortalecimento da singularidade do indivíduo através da
realização e compartilhamento em grupo.

152
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

A Assistência de Enfermagem em um Serviço Residencial Terapêutico a


luz da Teoria das Relações Interpessoais de Hildegard Peplau

Patricia Rodrigues Braz


Patricia Rodrigues Braz
Marcelo da Silva Alves
Tatiane Ribeiro da Silva
Fábio da Costa Carbogim
Geovana Brandão Santana Almeida
Christina Otaviano Pinto Larivoir
Ricardo Bezerra Cavalcante
Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF

Os Serviços Residenciais Terapêuticos, regulamentados pela


portaria nº 106/2000, consistem em moradias localizadas no espaço
urbano e têm como função atender às necessidades de habitação de
pessoas portadoras de sofrimento mental. Estes serviços estão em
contínuo processo de estruturação e avaliação para implementação de
futuras melhorias, assim, persistem alguns desafios a serem alcançados,
a fim de se evitar a cronificação dos moradores nesses aparatos e a
institucionalização destes espaços. O trabalho teve como objetivo
enunciar a experiência acerca das intervenções implementadas por
acadêmicos da disciplina “Enfermagem em Saúde Mental”, ministrada
no sétimo período do curso de graduação em Enfermagem da
Universidade Federal de Juiz de Fora, em um Serviço Residencial
Terapêutico masculino do tipo II, de um Município da Zona da Mata
Mineira. A disciplina objetivava primordialmente a promoção de ações
de saúde e reabilitação psicossocial no cotidiano dos moradores e o
ensino e aprendizagem do cuidado no acompanhamento dos diversos
quadros clínicos associados ao sofrimento mental por um viés
humanizado e compreensível. Trata-se de um estudo descritivo, do tipo
relato de experiência. Realizou-se a observação participante
assistemática durante as aulas práticas da disciplina, que ocorreram

153
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

uma vez por semana, durante dois semestres, totalizando oito meses. A
Sistematização da Assistência de Enfermagem no campo teve como base
os pressupostos da “Teoria das Relações Interpessoais” de Hildegard
Peplau, que preceitua a Enfermagem como um processo interpessoal,
terapêutico, significativo e educativo, capaz de ajudar na promoção do
desenvolvimento da personalidade, rumo a uma vida criativa,
construtiva, produtiva, pessoal e comunitária, cabendo ao enfermeiro
evoluir junto ao seu cliente. Nesta perspectiva, um importante
instrumento utilizado no cuidado em enfermagem em saúde mental é o
relacionamento interpessoal, uma vez que está presente em todas as
ações realizadas com o cliente, seja para orientar, informar, apoiar,
confortar ou atender suas necessidades básicas. No primeiro momento
os discentes conheceram o ambiente residencial, os moradores e suas
rotinas, a fim de criar vínculo de confiança para que os moradores se
sentissem à vontade com a presença deles e pudessem expressar sobre
seus sentimentos e necessidades. Como estratégias de cuidado foram
planejadas intervenções contemplando ações cotidianas e
implementadas através de passeios culturais, atividades visando
aproximação dos moradores com a comunidade, incentivo ao
autocuidado e cuidado do ambiente, rodas de conversa com foco na
educação em saúde, objetivando a promoção a saúde, prevenção de
agravos e o resgate da qualidade de vida e bem-estar. Essas
implementações esquadrinharam o processo de cuidar, sob um novo
olhar acerca da assistência psicossocial, buscando resgatar a noção do
cotidiano e incentivar o processo de reabilitação psicossocial frente às
fragilidades desveladas pela cronificação do portador de sofrimento
mental. O uso da Teoria de Enfermagem no processo de ensino,
aprendizagem e cuidado na disciplina, permitiu a aproximação dos
discentes com o cenário e com os residentes, confluiu para criação do
vínculo terapêutico empático e conduziu as ações de enfermagem para
a descentralização e relativização do modelo biomédico, fator
conflitante e desafiante na atuação e prática em saúde mental.

154
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

A atuação Psicossocial no acolhimento a demandas de Saúde Mental


em Urgência e Emergência

Julianna Sampaio de Araújo


Secretaria de Saúde do Estado do Piau

Adriana Lima Barros


Dhonatan Machado Mota
Maria das Graças Aguiar de Albuquerque
Sabrina Kely Magalhães de Araújo
Maria Gercina da Silva Filha
Luna de Sousa Araujo
Hospital Estadual Dirceu Arcoverde

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que a partir de 2020 os


transtornos mentais serão a segunda maior causa de adoecimento.
Assim, é importante que os serviços que prestam assistência à saúde
estejam preparados para o acolhimento de demandas de Saúde Mental
de forma a garantir um atendimento integral, humanizado,
multidisciplinar e em rede. Esta proposta de trabalho tem como objetivo
sinalizar como a Psicologia e o Serviço Social de um hospital geral da
planície litorânea do Piauí tem se organizado para prestar assistência à
Saúde Mental orientando e estabelecendo protocolos de acolhimento e
encaminhamento para as demandas recebidas. Trata-se de um estudo
qualitativo cuja estratégia metodológica consiste na pesquisa do tipo
descritiva por relato de experiência. Utilizou-se como recursos: 1) O
Cadastro de Atendimento Psicossocial (CADASP) instrumental criado
pelo Serviço Social do hospital para mapear casos de saúde mental que
dão entrada na unidade; 2) as Fichas do Sistema de Informação de
Agravos de Notificação, preenchidas no hospital nos casos atendidos por
Violência Autoprovocada e Intoxicação Exógena; 3) o Fluxograma de
atendimento para os casos de Saúde Mental criado para orientar o
cuidado com o paciente dentro do hospital; 4) a Articulação com os

155
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Serviços de Psicologia disponíveis no município. No período de 2017 a


2019 foram mapeadas 258 pessoas no Cadastro de Atendimento
Psicossocial do hospital, sendo a tentativa de suicídio a maior causa que
demandou atendimento de Saúde Mental. Quanto às fichas de
notificação preenchidas no hospital por Violência Autoprovocada e
Intoxicação Exógena, no período do estudo, foram identificados 591
casos de Tentativa de Suicídio sendo: 122 em 2017, 270 em 2018 e 199
em 2019. O comportamento suicida se revelou uma importante questão
de Saúde Pública no município o que orientou os profissionais
psicossociais dessa unidade de saúde a criar um protocolo e um
fluxograma de atendimento à essa demanda. O protocolo consiste em
garantir à pessoa que tentou suicídio e a seus familiares não só o
atendimento e estabilização de saúde física como também acolhimento,
orientação e encaminhamento psicossocial no sentido de promover a
integralidade e a continuidade do cuidado. Ao dar entrada no hospital,
os serviços de Psicologia e Serviço social são acionados para que após a
estabilização, o fluxo dos casos de Saúde Mental, em especial os de
comportamento suicida, seja o atendimento psicossocial. Os desafios
perpassam a lógica rígida do hospital e das equipes de saúde, que
muitas vezes não compreende esse lugar como um local de cuidado em
saúde Mental, a dificuldade articulação com o Centro de Atenção
Psicossocial e a Estratégia de Saúde da Família do município e a escassez
de serviços de Psicologia que atendam ambulatorialmente e de forma
gratuita. Os resultados sinalizam que cuidado com as demandas de
saúde mental no município ainda é processo em construção. O hospital
tem se organizado para acolher e orientar as demandas que chegam,
mas ainda é processo em construção a articulação com a rede de
serviços que possam garantir o cuidado integral.

156
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

A caminhada terapêutica como estratégia de cuidado em Saúde


Mental

Constantino Duarte Passos Neto


Escola de Saúde Pública do Ceará - ESP/CE

Luísa Marianna Vieira da Cruz


Autarquia Educacional de Serra Talhada – AESET

Jamille Kassia da Silva Cardoso


Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE

José Victor Lima Braga


Faculdade São Francisco da Paraíba – FASP

Victor Hugo Ribeiro de Sousa


Escola de Saúde Pública Visconde de Sabóia – ESPVS

Daiana da Silva Carvalho


Daniele Veloso De Menezes
Faculdade de Integração do Sertão – FIS

Jessica Lima de Oliveira


Antonio Germane Alves Pinto
Álissan Karine Lima Martins
Universidade Regional do Cariri – URCA

INTRODUÇÃO: O movimento da Reforma Psiquiátrica trouxe ao Brasil


novas perspectivas de cuidado na Atenção Psicossocial. Apesar dos
avanços obtidos ao longo dos anos, o campo da Saúde Mental ainda
sofre com diversos problemas, como o subfinanciamento de ações,
resistência de profissionais, estigma social, etc. A Rede de Atenção
Psicossocial é composta por diversos pontos de atenção, dentre eles a

157
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Atenção Básica e os Centros de Atenção Psicossocial que devem


permanecer em constante comunicação para garantir um cuidado
integral à população. Uma das estratégias desenvolvidas por estes
serviços é o Matriciamento em Saúde Mental, em que as equipes
compartilham as ações de maneira colaborativa através da interação
dialógica culminando na produção de cuidado. No Matriciamento são
realizados Estudos de casos, Projetos Terapêuticos Singulares (PTS),
visitas domiciliares conjuntas, interconsultas, teleatendimento, dentre
outros. Este trabalho tem como objetivo relatar a experiência do uso da
caminhada terapêutica como forma de cuidado em Saúde Mental.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: As atividades foram realizadas por
profissionais residentes em Saúde Mental em um Município cearense
durante a realização do Matriciamento em Saúde Mental. Em contato
com a equipe da Atenção Básica os residentes tiveram conhecimento do
caso de uma usuária diagnosticada com esquizofrenia que permanecia
há anos em isolamento, também deficiente visual. Após visita domiciliar
conjunta foi realizado estudo de caso e elaborado o PTS envolvendo a
equipe de Saúde da Família, família e usuária. A caminhada terapêutica
foi uma das atividades elencadas como essenciais para o cuidado, tendo
em vista o isolamento e a dificuldade de locomoção por conta da
cegueira. A atividade foi realizada por um período de seis meses.
REPERCUSSÕES: nos primeiros dias de atividades a usuária mostrava-se
introspectiva, com algumas oscilações de humor que iam do depressivo
ao maníaco, sendo necessária uma maior vigilância, isso pode ser
justificado pelo fato de que a usuária passara muito tempo em
isolamento e atividades como estas eram estranhas a sua realidade. O
vínculo com os residentes não estava, inicialmente, totalmente posto,
com o passar do tempo a relação de confiança se estabeleceu e estas
situações foram superadas. No decorrer das caminhadas eram
realizados alongamentos, atividades físicas leves, de acordo com seu
condicionamento. Foram desenvolvidas atividades lúdicas pela usuária
com auxílio dos profissionais como a criação de desenhos utilizando
papel e lápis, após a mesma relatar ser uma memória de sua infância

158
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

muito presente. Durante o processo eram realizadas conversas para


instigar a memória e a fala, tendo em vista que também apresentava
dificuldades em se comunicar. Todas as ações foram realizadas em praça
pública CONSIDERAÇÕES FINAIS: a estratégia foi de grande importância
para o tratamento da usuária, tendo em vista a evolução do quadro de
saúde, sobretudo, sua reinserção social. Ao passar do tempo percebeu-
se que o estado mental sofreu melhora significante, com importante
diminuição da instabilidade do humor e estabilidade das crises
psicóticas. A usuária voltou as suas atividades motoras, sem necessitar
de suporte para caminhar, com exceção em ambientes com obstáculos
como degraus e rampas, bem como melhora nas habilidades da fala.

159
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A compreensão da dependência química na formação dos estudantes


do curso de medicina: um relato de experiência

Vivianne Ferreira Bezerra


Matias Carvalho Aguiar Melo
Lourrany Borges Costa
Amanda Santiago Nogueira
Letícia Maria Mota Braga Cavalcante
Ana Beatriz de Sousa Lima
Joyce Teixeira Noronha Martins Cavalcante
Hinara Siebra Cavalcante
Universidade de Fortaleza – UNIFOR

Introdução: O consumo de substâncias psicoativas é atualmente um


grave problema de saúde pública. Dessa forma, a dependência química
deve ser entendida como uma doença biopsicossocial, não se
restringindo apenas à relação entre o indivíduo e o uso de substâncias
psicoativas, mas devendo ser compreendida numa perspectiva
interdisciplinar, considerando elementos biológicos, psicológicos e
sociais. Assim, o objetivo deste trabalho é compreender a importância
da avaliação de pacientes com transtorno por uso de substâncias
psicoativas na formação acadêmica do estudante de medicina. Descrição
da Experiência: Trata-se de um estudo descritivo, tipo relato de
experiência, elaborado no contexto da disciplina Ações Integradas de
Saúde VII ministrada no sétimo semestre do curso de Graduação em
Medicina da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Três discentes,
durante o estágio no Centro de Atenção Psicossocial: Álcool e Drogas
(CAPS AD) da Regional VI em Fortaleza - CE em setembro de 2019,
realizaram o acompanhamento de um paciente por meio de uma
consulta formal com revisão de prontuário, buscando compreender sua
história de vida e o papel dos profissionais de saúde na sua recuperação.
Repercussões: No papel de estudantes de medicina, percebemos a
importância de práticas e atitudes para o desenvolvimento dos eixos

160
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

humanístico profissional e comunitário-assistencial presentes em nossa


base curricular, a fim de compreender a ideia de que o paciente, muito
além das técnicas e tecnologias médicas, necessita de um acolhimento
baseado na relação de confiança médico-paciente. É perceptível a
transformação que esta experiência trouxe para nossa vida acadêmica e
pessoal, pois nos permitiu olhar para um sujeito dotado de
potencialidades, além da sua dependência química. Poder acompanhá-
lo, conhecendo sua história, nos ressaltou a necessidade da contínua
ampliação das práticas voltadas para o cuidado da pessoa e não só para
a doença, propiciando a reflexão sobre a constante busca da efetivação
do novo modelo de assistência, o qual é voltado para a saúde e a
reabilitação psicossocial, além de ter contribuído no rompimento dos
nossos estigmas em relação ao paciente com dependência química.
Portanto, os serviços de atenção à saúde mental são espaços de
reconstrução da cidadania, devolvendo a vida a tantas pessoas que se
encontravam esquecidas não só pelos familiares e pela sociedade, mas
de si mesmas. Considerações finais: Por fim, foi reconhecido que as
famílias e a sociedade ainda estão pouco preparadas para acolher o
dependente químico, persistindo uma lacuna entre o cuidado que se
tem e o cuidado que se almeja. Desse modo, existe a necessidade da
ampliação de discussões sobre as repercussões na vida do dependente
químico e a importância da rede de apoio como uma das principais
ferramentas no acompanhamento desses pacientes.

161
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A construção de um Projeto Terapêutico Singular


em um Centro de Atenção Psicossocial:
um relato de experiência de residentes em saúde mental

Marcos André dos Santos


(Ministério da Saúde - Universidade de Pernambuco)

Debora Victor Aragão Alves


(Universidade de Pernambuco - UPE)

Diana Lúcia de Paiva Oliveira


(Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho e FAFIRE)

Maria Jucineide Lopes Borges


(Universidade de Pernambuco - UPE)

Introdução: Um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) é um serviço de


saúde mental aberto e comunitário, pertencente Sistema Único de
Saúde (SUS). Lugar de referência para tratamento de pessoas que
sofrem com transtornos mentais graves e persistentes, o objetivo do
CAPS é oferecer cuidado à saúde de forma integral, realizando o
acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários (BRASIL,
2013). O acompanhamento no CAPS é atravessado pela construção do
Projeto Terapêutico Singular (PTS) junto ao usuário e seus familiares. A
construção de um PTS resolutivo requer um olhar ampliado,
interdisciplinar e comprometido (NASCIMENTO, 2015). O PTS subdivide-
se em quatro momentos: (1) diagnóstico: que deverá conter uma
avaliação orgânica, psicológica e social, que possibilite respeito dos
riscos e da vulnerabilidade do usuário; (2) definição de metas: propostas
de curto, médio e longo prazo, que serão negociadas com o usuário pelo
membro da equipe que tiver um melhor vínculo; (3) divisão de
responsabilidades: é importante definir as tarefas de cada um com
clareza; (4) reavaliação: momento em que se discutirá a evolução e se

162
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

farão as correções de rumo (BRASIL, 2007). Descrição da experiência: O


trabalho tem como finalidade relatar a experiência da construção de um
PTS para um usuário com história de recusa ao tratamento e sua família,
acompanhados por um CAPS da Região Metropolitana do Recife – PE,
residindo em uma área geograficamente de difícil acesso. A construção
do PTS se deu a partir de visitas domiciliares ao usuário em crise, pela
equipe de um CAPS II em que dois residentes em Saúde Mental estavam
inseridos. Na ocasião, o usuário aceitou acompanhar a equipe até o
serviço, passando por uma avaliação psiquiátrica, iniciando-se a
administração da medicação prescrita. Paralelamente, vindo a ser
acompanhado através de visitas domiciliares, no intuito de estimular o
processo de vinculação. Repercussões: Percebeu-se a superação da
situação de crise, melhora na autonomia, realização das atividades da
vida diária, prejudicadas pelo quadro. Nas idas ao CAPS, a equipe
investiu no vínculo com o usuário e seu acolhimento humanizado no
serviço. O usuário passou a demonstrar interesse em se relacionar
chegando a expressar potencialidades como desejo de voltar a estudar.
A melhoria da autoestima e da qualidade de vida do usuário se deu a
partir do resgate da sua cidadania. Considerações finais: A abordagem
desenvolvida evidenciou a importância do PTS e do cuidado de base
comunitária e territorial, bem como revelou o lugar do CAPS como
importante dispositivo da Rede de Atenção Psicossocial no que tange à
atenção a situações de crise. A equipe do CAPS sentiu-se implicada no
desenvolvimento dos meios necessários para a reinvenção e a conquista
da cidadania no campo da saúde mental.

163
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A contribuição da Contação de Histórias num Hospital do Recife:


Relato de experiência

Bianca Dantas dos Santos Ramos


Alayde Parisina Dutra Cabral de Carvalho
Maria Cecília Barbosa de Oliveira
Mônica de Oliveira Osório
Eliane Nóbrega Albuquerque
Renata Teti Tibúrcio Maia
Cybelle Cavalcanti Accioly
Faculdade Pernambucana de Saúde

Introdução: Quando uma pessoa adoece, várias alterações acontecem


em sua rotina, independentemente de sua vontade. Acontecem idas e
vindas ao hospital, e até internamento, que podem gerar ansiedade e
medo intensos. Ações que visem amenizar o impacto das hospitalizações
podem ser de grande valia. A contação de histórias, por exemplo, pode
favorecer o bem estar físico e mental, estimular a imaginação e permitir
reflexões sobre experiências vivenciadas pelos pacientes. Sendo assim,
este trabalho objetiva apresentar a experiência do Projeto de Extensão
“Contação de Histórias: o lúdico no Contexto Hospitalar”, enfocando na
sua contribuição para os pacientes no ambiente hospitalar. Descrição da
experiência: Este projeto acontece em um hospital de referência do
Recife. Ele propõe a contação de histórias para pacientes do SUS,
visando amenizar as repercussões da hospitalização e levar uma
atividade de lazer e cultura para pessoas impedidas de usufruí-las.
Estudantes dos cursos de medicina, psicologia, farmácia, fisioterapia
participam como contadores de histórias. Estes acadêmicos são
capacitados a partir de atividades teóricas e vivenciais. Durante a
contação de histórias, as pessoas são transportadas para um contexto
da fantasia, o que pode minimizar a dor e o sofrimento
momentaneamente. Surgem muitos sorrisos nas enfermarias e nas salas
de espera de ambulatórios. Repercussões: Não há contraindicação, nem

164
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

efeitos colaterais na contação de histórias. Mas, para isso, tem-se o


cuidado na seleção de histórias, acolhimento, empatia, respeito e ética
na abordagem ao paciente. O contar histórias permite troca de
experiências, catarse, envolve todas as idades, tornando mais
humanizado o contexto hospitalar. Considerações finais: Este projeto de
extensão possibilitou as acadêmicas perceberem a riqueza do trabalho
de contar histórias e sua importância para desenvolver competência
empática, sendo um recurso simples, de baixo custo e fácil acesso, capaz
de promover a saúde mental ao paciente e humanizar o ambiente
hospitalar, bem como, o acesso à cultura através das histórias contadas.

165
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Defensoria Pública do Estado de São Paulo nadando contra a maré:


desafios na garantia da efetivação das leis 10216/01 e 13840/19 no
estado de São Paulo

Daniela Barbom Sorpilli


Bruna Paschoalini
Defensoria Pública

A Defensoria Pública do Estado de São Paulo - DPESP é uma instituição


permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, prevista desde a
Constituição Federal de 1988 que se dedica a prestar assistência jurídica
integral e gratuita, individual e coletiva, judicial e extrajudicial, à
população comprovadamente hipossuficiente nos termos da Lei
988/2006. Os pedidos de internações, para tratamento de pessoas em
sofrimento mental e/ou com necessidades decorrentes do uso de álcool
e outras drogas, é uma das maiores demandas da DPESP. Essa procura
por judicialização dessa problemática reflete a insuficiência das redes de
atenção psicossocial no estado, a despeito das normativas existentes
para a organização e implementação da RAPS – Rede de Atenção
Psicossocial. A DPESP trabalha no sentido de evitar que internações
aconteçam sem a devida indicação de excepcionalidade no tratamento
e, que seja garantido, conforme a lei 10.216/2001e a recente lei
13.840/2019, que as pessoas tenham o atendimento extra-hospitalar
necessário para que se esgotem todas as possibilidades de tratamento
antes da indicação de internação. Em municípios onde não há unidade
própria da DPESP, o atendimento é realizado por meio de convênios
com instituições diversas, sendo o da Ordem dos Advogados do Brasil –
OAB o maior deles. Nas subseções da OAB espalhadas pelo estado,
familiares, via de regra, procuram o benefício da justiça gratuita para
ingressarem com ações de internação involuntária e compulsória, o que
muitas vezes não significa que as alternativas extra-hospitalares tenham
sido esgotadas. Notamos que as subseções da OAB e mesmo os serviços

166
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

de saúde muitas vezes ainda atuam na lógica manicomial, propondo


reiteradas ações judiciais de internação sem o esgotamento das
possibilidades de cuidado possíveis. A Assessoria de Convênios – AC, em
conjunto com o Grupo de Apoio Interdisciplinar – GAI, passou a analisar
tais pedidos de internação, promovendo a discussão dos casos com os
serviços dos municípios e propondo novas formas de atendimento,
replicando assim o entendimento da DPESP acerca da não judicialização
de pedidos de internação compulsória e fortalecimento da RAPS nos
municípios do estado de São Paulo. Alcançamos, entre julho de 2018 e
dezembro de 2019, 123 pacientes e seus familiares. É possível beneficiar
municípios inteiros a partir da reorganização dos serviços da rede e da
reformulação de práticas de cuidado em saúde. Além disso, essa prática
tem possibilitado a realização de mapeamento das peculiaridades e
desafios no funcionamento das redes de saúde e assistência de cada
município; em alguns municípios, as subseções da OAB passaram a se
articular com as redes locais para afinar fluxos de atendimento, evitando
o encarceramento de pessoas com necessidades advindas de
transtornos mentais ou uso de substâncias psicoativas. Atuação inédita
na instituição, proporciona o aumento da capilaridade da atuação da
Defensoria; possibilita que as redes locais se articulem para trabalhar de
forma mais alinhada às diretrizes da luta antimanicomial e das
normativas atuais sobre o tratamento de pessoas com transtornos
mentais e/ou que fazem uso de substâncias psicoativas. Ainda, permite
mapear locais onde ocorram violações de direitos dessa população,
direcionando-os aos Núcleos Especializados da DPESP.

167
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A dependência química e novos modelos de tratamento:


recomeço e evolução

João Henrique Medeiros Priston


Secretaria de Saúde de Abreu e Lima
Fabricio Alessandro Selbmann
Nayara Nagly Sales do Nascimento
Grupo Recanto

Introdução: O Grupo Recanto nasceu em 2008 em Pernambuco para


atender a uma lacuna existente na região, a busca crescente no
tratamento de dependência química. No ano de 2007 em um curso na
Fundação Getúlio Vargas, constatou que a região nordeste poderia
comportar uma clínica de tratamento de dependentes químicos, através
de estudo e pesquisas, com estrutura diferenciada das demais instaladas
na região. Em 2013 o Grupo Recanto inaugurou a Unidade Hospitalar de
Desintoxicação e Crise, um setor de importância vital no tratamento,
com estrutura adaptada e assistência médica 24h. Em 2018 incorporou
um novo modelo de tratamento usado com eficácia nas clínicas de
recuperação dos EUA, Modelo Minnesota, considerado por especialistas
como uma abordagem interdisciplinar no tratamento da adicção. Esse
modelo foi adaptado ao tratamento já existente na clínica e reforça o
aspecto biopsicossocial de cada paciente, ou seja, suas características
biológicas, psicológicas, sociais, culturais e espirituais. Dessa forma o
paciente é tratado com respeito nas suas individualidades e
subjetividades. Descrição da experiência: O Grupo Recanto oferece um
tratamento moderno, humanizado e especializado, resgatando a
singularidade do paciente através de sua reabilitação, a fim de
proporcionar o bem-estar e qualidade de vida, respeitando suas
limitações. Com uma estrutura completa, equipe interdisciplinar e um
tratamento integrado o Grupo Recanto tem como objetivo: Promover
um ambiente de bem-estar; Prestar assistência médica e terapêutica de
forma integral; Estabelecer uma abordagem interdisciplinar através de

168
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

um plano terapêutico individual; Ampliar o tratamento para além da


remissão dos sintomas manifestos; Conscientizar o paciente a
desenvolver a capacidade crítica de seu diagnóstico e a importância do
tratamento; Garantir o cumprimento do tempo necessário para o
tratamento, através do diagnóstico e conduta estabelecidos no projeto
terapêutico individual do paciente.
Repercussões: A maior missão do Grupo Recanto é oferecer aos
pacientes e as suas famílias, a segurança de um tratamento
personalizado, que vai permitir avanços significativos na sua
recuperação e na qualidade de vida. Foram realizadas 3 pesquisas com
mais de 500 pessoas tratadas no Grupo recanto, onde pode contar que:
50% permaneceram abstêmios do SPA, 15% recaídos em uso de SPA,
15% reinternados em instituições, 10% ou desenvolveram algum
transtorno mental, ou presos, ou mortos.
Considerações finais: A pesquisa evidencia a eficácia do programa
terapêutico, considerando que o tratamento para dependência química
necessita não apenas do empenho e conhecimento científico da equipe
interdisciplinar, mas também da colaboração do empírico, através de
outro adicto em recuperação, além do envolvimento da família neste
processo, onde uma rede de apoio é estabelecida para funcionar em
benefício da recuperação do sujeito, de forma que este possa
ressignificar os valores de sua existência e resgatar ou reconstruir a sua
saúde mental, biológica e social.

169
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A depressão através da educação popular em saúde à luz de Paulo


Freire: Roda de Conversa.

Kelly Cristina do Nascimento


UNIMED

Jose Manoel Angelo


Centro Universitário Maurício de Nassau – Uninassau

Maria Socorro Alécio Barbosa


Universidade Federal de Alagoas – UFAL

Eliane Maria Ribeiro de Vasconcelos


Wallacy Araujo
Universidade Federal de Pernambuco – UFPE

Introdução: Foi no seio das organizações populares, que a Educação


Popular nasceu, fora da escola, mas seus princípios e sua metodologia,
com bases emancipatórias, tiveram uma repercussão tão grande na
sociedade que acabaram cruzando fronteiras e os muros das escolas,
(PEREIRA, 2010). A Educação Popular em Saúde se constitui como um
movimento libertário, trazendo uma perspectiva teórico-prática
ancorada em princípios éticos potencializadores das relações humanas
forjadas no ato de educar, mediadas pela solidariedade e pelo
comprometimento com as classes populares (BRASIL, 2012). Falar em
roda de conversa é lembrar do círculo, automaticamente pensamos em
mandalas. Ceccim e Ferla (2009) corroboraram ao considerar que em
uma mandala há rede, fluxo, desenho, dobra e movimento, de maneira
a não existir a necessidade de formas duras, fixas, verticalizadas e
pesadas. Com isso, infere-se a relevância da dialogicidade no cotidiano
do projeto VER-SUS. Descrição da Experiência: Roda de conversa
realizada com 25 pessoas “vivendo”, sobre depressão na Ong Conviver
HIV AIDS, em Maceió. Foi utilizado como recurso metodológico a

170
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Mandala dos Saberes da Educação Popular em Saúde. Assim, a mandala


de saberes possibilita o encontro entre o ancestral, o presente, o
intuitivo, o espiritual, o cultural, o histórico, o humano e o popular
(PERTUSSATTI, 2012). Repercussões: Ao ser aplicado os 8 elementos, o
ancestral, o presente, o intuitivo, o espiritual, o cultural, o histórico, o
humano e o popular, foi observado o empoderamento e a força na fala
de cada vivendo, desvestindo no grupo a necessidade de expor seus
sentimentos, abrir suas feridas relacionadas a depressão, quantos
tiveram, como se curaram, quantos estão e como estão levando a vida
com ela. Considerações Finais: Conclui-se que a mandala dos saberes
por ser uma ferramenta metodológica de ensino prática, acessível de
fácil entendimento, se tornou um instrumento viável para a abordagem
proposta. Após o fechamento da roda foi observado que alguns se
sentiram aliviados, outros relataram estarem mais esclarecidos e
tranquilos por saber que a depressão é comum, muita gente tem
independente de ser “vivendo” ou não. E que há tratamento.

171
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A escuta de familiares de pessoas presas no estado de São Paulo


iniciada com a pandemia da COVID-19

Heloisa de Souza Dantas


pSI

Heloisa de Souza Dantas


Depto. Saúde Coletiva – FCMSCSP

Marcella M. de Souza e Silva


Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP

Sílvia Lopes de Menezes


Instituto Sedes Sapientiae

Isabel Cristina Lopes


Marisa Feffermann
Instituto de Saúde da Secretaria Estadual da Saúde

Introdução: O Brasil conta hoje com 726.712 pessoas presas


(BRASIL, 2017), possuindo a terceira maior população carcerária do
mundo em números absolutos (INSTITUTE FOR CRIMINAL POLICY
RESEARCH, 2018). O estado de São Paulo por sua vez contabiliza cerca
de 30% de toda população prisional do país, totalizando
aproximadamente 230.000 presos (BRASIL, 2017). Pesquisas de caráter
qualitativo têm demonstrado o impacto do encarceramento sobre a
dinâmica da vida familiar nos bairros populares do Estado (SINHORETTO,
SILVESTRE & LINS DE MELO, 2013). A prisão gera profundo sofrimento
mental aos familiares, sendo o direito à visita, realizada
predominantemente pelas mães e esposas, uma das formas de atenuar
tal condição (MENDONÇA SILVA & BARSAGLINI, 2020). Após a pandemia
da COVID 19, foi proibido o encontro presencial nos presídios do Estado,
agudizando ainda mais a situação de desamparo das famílias. Descrição

172
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

da experiência: A partir de uma iniciativa da Associação de Amigos e


Familiares de Presos/as (AMPARAR), em abril de 2020 criamos uma rede
de atendimento psicológico, ao lado do apoio jurídico e de assistência
social aos familiares dos presos e presas, o Coletivo Escuta Liberta. O
projeto, composto por 45 psicólogos, psicanalistas e psiquiatras já
atendeu, desde abril, mais de 80 pessoas. Nosso objetivo é o de
legitimar e fortalecer as famílias para o enfrentamento do sofrimento
decorrente da situação de isolamento provocada pela pandemia, como
também pelas marcas produzidas pelo cárcere. Os interessados são
encaminhados pela AMPARAR e os atendimentos acontecem
semanalmente por chamada de WhatsApp ou vídeo, sendo registrados
posteriormente em um documento disponível a todos os terapeutas
envolvidos na iniciativa. A supervisão coletiva ocorre semanalmente e
reuniões de formação com diferentes acadêmicos e especialistas
acontecem bimestralmente. Recebemos no decorrer desses meses,
Miriam Debieux, Lia Pitliuk (psicologia social e psicanálise clínica) e Vera
Batista Malaguti (cientista social especialista em criminologia crítica).
Repercussões e considerações finais: A partir da experiência clínica e da
supervisão, evidenciou-se a necessidade de refletirmos sobre as
especificidades deste acompanhamento psicológico, tendo como fio
condutor a reflexão sobre a particularidade de uma clínica voltada para
mulheres, familiares de presos e presas, empobrecidas por uma
sociedade desigual, moradoras de território vulnerabilizados e na sua
maioria negra. Questões relativas à vergonha, desamparo, estigma,
violência, racismo, aprisionamento das famílias devido à condição do
familiar preso e, sobretudo, potência para resistir, têm surgido como
aspectos importantes desta escuta. É importante ressaltar que este é
um trabalho interdisciplinar, inserido em uma rede de cuidados, que
pensa a saúde mental no paradigma da possibilidade de uma vida digna,
incluindo, portanto, os aspectos sociais, econômicos e políticos.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A escuta sensível realizada por meio da arte em tempos de pandemia


da COVID-19: cuidado transpessoal na enfermagem psiquiátrica por
meio de oficinas em projeto voluntário

Paula Isabella Marujo Nunes da Fonseca


Virgínia Faria Damásio Dutra
Luciana Silvério Alleluia Higino da Silva
Leiliana Maria Rodrigues dos Santos
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

A pandemia da COVID-19 no Brasil trouxe desafios nos diversos


campos, sobretudo nas dimensões do cuidado em saúde mental. Dessa
forma, houve a necessidade de se repensar e construir novos caminhos
para o cuidado biopsicossocial, dada a falta de referências clínicas no
contexto da atual pandemia. Dentre as consequências deste cenário,
está a redução do número de profissionais de saúde, seja pelo
adoecimento ou por serem grupo de risco, acarretando importante
redução, principalmente nas equipes de Enfermagem. A partir deste
aspecto, somado a fatores como o cessar de visitas a pessoas
internadas, por questões de biossegurança e redução de equipe
multiprofissional, num hospital psiquiátrico, foram realizados alguns
questionamentos a saber: Como garantir a continuidade do cuidado que
passe pela escuta sensível e coletiva das pessoas internadas? Como
garantir um cuidado singular, ampliado e ético? Que práxis a
Enfermagem psiquiátrica pode adotar para o enfrentamento da
pandemia que vai além das intervenções da clínica biomédica? Frente a
estas perguntas, iniciou-se atividade de voluntariado por docente da
área de Enfermagem Saúde Mental, estudante da graduação de
Enfermagem, ambas da Universidade ao qual pertence o hospital, que
contou com o apoio da Chefia de Enfermagem da instituição e
participação de duas enfermeiras psiquiátricas locais. Objetivo: Relatar
experiência vivenciada no voluntariado pela Enfermagem e usuários de
um hospital psiquiátrico em oficinas de acolhimento e escuta sensível

174
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

realizadas por meio da arte durante a pandemia da COVID-19. Descrição


da experiência: Abordagem qualitativa de natureza descritiva de oficinas
realizadas por meio de ação de voluntariado em um hospital psiquiátrico
universitário localizado no Rio de Janeiro/Brasil, durante os meses de
abril a julho de 2020. Neste período foram realizadas seis oficinas que
contaram com a participação média de 15 pessoas internadas por
oficina e com duração de duas horas cada encontro. A atividade em sua
totalidade encontrou na Teoria do Cuidado Transpessoal, proposta por
Jean Watson, profunda afinidade ao identificar a troca intensa de
energias entre clientela e a enfermeiras. Repercussões: As oficinas, para
além da educação em saúde, buscaram essencialmente representar
meio pelo qual as pessoas internadas pudessem falar de suas dúvidas e
ideias, ansiedade e angústias relacionadas às mudanças acontecidas na
instituição e fora dela, principalmente por conta das ações de
biossegurança relacionadas à COVID-19. Portanto, a partir do desejo dos
participantes foram abordados assuntos como: lavagem das mãos, uso
da máscara facial, festa junina, criação e natureza, a arte que mora em
cada um, autocuidado e beleza. A vivência nas oficinas possibilitou aos
participantes e facilitadores o estabelecimento de “relacionamento
intersubjetivo ser-humano-para-ser-humano, no qual a enfermeira afeta
e é afetado pelo outro”, como diz Watson (2009) no conceito de cuidado
transpessoal, o que possibilitou a emersão libertária de desejos e
produção de uma clínica mais sensível que inclui outras narrativas e que
não podem ser silenciados por medicações, ou relegados a espaços
fechados. Considerações finais: O cuidado transpessoal que passa pela
escuta sensível, priorizada na ação do voluntariado, renova as investidas
na condução do trabalho em enfermagem psiquiátrica a partir das
demandas dos usuários.

175
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Estratégia do Atendimento Virtual Utilizada com Crianças com TEA-


Transtorno do Espectro Autista Acompanhadas por um CAPSiA de
Salvador- BA Um Relato de Experiência

Fabíola Mendes de Andrade


Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública – EBMSP

Gabriela Barreto Santana


Fabíola Mendes de Andrade
CAPSiA Liberdade

É bonito imaginar que presença não é sobre corpos. A gente


descobre que o virtual é uma potência latente, quando usado com
cautela, a dose certinha para caber nesse buraco que o abraço deixou. É
bonito imaginar que vai passar, mas até lá, como SUStentar? Como
resistir na oferta de assistência? Como zelar pelos vínculos e afetos, essa
força motriz da saúde? A aventura do cuidado longínquo, de nome
remoto, remonta os padrões, provoca os caminhos. E, às vezes, é
preciso afastar para a amplitude do que se pode ver. O trabalho em um
CAPSia e a experiência com os atendimentos virtuais tem sido
admirável. Inicialmente, houve a projeção de um pacote de limitações
invisíveis e, no desenrolar, se foi percebendo que poderia ser muito
mais rico do que foi idealizado. Aliás, isso de idealizar, às vezes, bloqueia
no pedacinho mais especial da percepção. Aquele que é preciso
desnudar os olhos para enxergar. E assim foi acontecendo, a câmara
ligava, os olhares se encontravam e a primeira expressão era o sorriso.
Eles falavam da saudade, da carência e do alívio por estarem saudáveis.
De repente, nas horas da manhã, ali na tela, atentas e presentes, TO e
Oficineira com as mães e suas crianças com TEA de 6 a 9 anos de idade.
As mães falavam sobre reinvento e mostravam como resistiram a
suspensão das terapias presenciais e como se tornaram protagonistas
das intervenções terapêuticas de seus filhos com TEA e se descobriram
excelentes coterapeutas. Elas ofertam os estímulos necessários para o

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

desenvolvimento motor, cognitivo e social dos seus filhos. Os pequenos


reconheciam as “tias do CAPS”, se reconheciam, sorriam e pulavam de
um lado para o outro. Expressavam a energia contida e a derramavam
como chuva repentina de pingos fortes. Um deles, certo dia de
atendimento, segurava um papel escrito “saudade amigos”. Assim fluía
os encontros virtuais, dentro e fora dos lares, às vezes barulho, às vezes
silêncio aglutinado pelo querer. Porque presença é intenção. Nessa linda
aventura, houve, a mudança de uma das mães que conseguiu sair de um
relacionamento abusivo e, no encontro marcado, ela apareceu como um
sol radiante do outro lado da tela. Seu olhar transbordava liberdade. As
mães se reinventaram como mulheres e como cuidadoras e as crianças
continuaram crescendo, brincando e se desenvolvendo juntos, só que
de dentro das suas casas. Fazendo brinquedos com sucatas, cabanas,
cama de gato com cadeiras, bolos, cookies, mosaico... reunindo mães,
pais, irmãos, avós primos e terapeutas dentro da tela do atendimento
virtual.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A ética e a técnica do Acompanhamento Terapêutico como


orientadoras das práticas na Atenção Psicossocial

Tahamy Louise Duarte Pereira


Amanda Giron Galindo
Caroline Teixeira Zanchi
Equipe Trajetos

Nas andanças pelos CAPS onde já trabalhamos, e também nas


muitas conversas e trocas com colegas trabalhadores da atenção
psicossocial de distintos lugares pelo Brasil, algo chama atenção: dentro
das multiplicidades e singularidades dessas instituições, cada um
existindo a seu modo dentro do território que ocupa e com suas
composições de equipes possíveis, parece haver algo que volta e meia
se repete, de novo e de novo nas vivências e histórias ouvidas: algo da
ordem de uma constante tensão (maior ou menor a cada momento e
local) entre as lógicas de cuidado e algumas disputas sobre como operá-
las. Colocadas nas palavras do dia-a-dia, vão aparecendo afirmações e
perguntas: “no CAPS todo mundo faz tudo”, “eu não me sinto apta a
fazer essa avaliação/atendimento”, “do que é que a gente trata/cuida,
mesmo?”, “vamos atender juntas?”, “eu só posso atuar dentro da minha
área profissional”, “não dá pra todo mundo fazer tudo, existem
diferenças nas formações, isso é bom, podemos nos complementar”,
“qual resultado esperamos obter quando propomos esta atividade?”,
“meu papel é bem específico, não posso fazer outra coisa”, “vamos
aproximar e ver como as coisas caminham”. Essas diferentes
perspectivas de onde partimos para operar o trabalho na atenção
psicossocial costumam trazer conflitos para o cotidiano dos serviços.
Parece haver nestas tensões perguntas sobre a ética e a técnica da
atenção psicossocial: Do que é mesmo que nos ocupamos no CAPS? E
como vamos fazer isso acontecer? Para buscar responder a essas
perguntas, consideramos que: o CAPS não se ocupa da doença mental,

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

mas sim de projetos de vida. A atenção psicossocial pode, portanto,


incluir em suas práticas tudo que tenha a ver com a vida, a construção
de projetos, o apoio de sua execução. Para esta tarefa complexa,
nenhum saber profissional é suficiente, já que se trata de acompanhar
um processo aberto e sem ponto de chegada prévio, porque se constrói,
destrói e reconstrói ao longo do percurso. Entendemos que esse fazer
comum pode ser exercitado pelo trabalho do Acompanhamento
Terapêutico e que ele já se dá quando profissionais de formações
diversas se colocam em movimento junto aos usuários e familiares para:
ir a uma loja negociar uma dívida; limpar ou organizar a casa juntos;
estudar; estar ao lado em uma consulta médica; ir ao fórum conversar
com o juiz quando um usuário foi preso; acompanhar uma internação
após um infarto; procurar emprego; participar de visitas a um filho
abrigado; buscar juntos uma doação de casaco quando fazia frio;
conhecer a Gibiteca da cidade com uma adolescente que ama mangás.
As possibilidades são múltiplas, como é a vida. Apostamos que relatar
experiências de Acompanhamento Terapêutico no campo da saúde
mental pode propiciar um debate sobre a ética e técnica que
possibilitem um fazer comum na atenção psicossocial.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A experiência da Comissão de Moradia no CAPS AD II


Ermelino Matarazzo

Amanda de Souza Nunes


CAPS AD

Marcelo dos Santos de Jesus


Serviço Residencial Terapêutico II

INTRODUÇÃO: Dentre os usuários que são assistidos pelo Centro


de Atenção Psicossocial (CAPS) Álcool e Drogas II Ermelino Matarazzo
encontram-se aqueles que vivenciam diferentes vulnerabilidades sociais,
dentre as quais está há ausência de moradia. Atualmente o serviço
oferece cuidados em saúde mental para pessoas com necessidades
decorrentes do consumo de substâncias psicoativas que permanecem
acolhidas nos Centros Acolhimento (CA) e na Unidade de Acolhimento
Adulto (UAA), em ambos os equipamentos a questão do habitar é
considerada como eixo de reflexão e intervenção dos profissionais. Em
consonância, no cotidiano de trabalho do CAPS, a equipe tem
compreendido que a experiência de sofrimento psíquico pode vir a ser
intensificada pelas condições materiais de vida, entre elas a falta e/ou
negação do direito social de moradia digna. A partir dessa conjuntura, os
profissionais identificaram a necessidade de trabalhar questões relativas
aos determinantes sociais em saúde nos processos de reabilitação
psicossocial, especialmente no cenário de vida que envolve o habitar e
as trocas sociais. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: No espaço de supervisão
institucional os profissionais mapearam as possibilidades existentes para
viabilizar o acesso ao direito de habitar/morar. A partir deste
disparador, os usuários foram convidados no decorrer das assembleias
semanais para a construção de uma proposta institucional que
englobasse as demandas e necessidades referentes à moradia no
território, bem como o levantamento de sugestões com o intuito de

180
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

instaurar um espaço para o compartilhamento de experiências acerca


dessa temática, possuindo como objetivo principal o fomento do
protagonismo dos usuários. A partir de então, instituiu-se a comissão de
moradia, atividade semanal que conta com a participação de diferentes
atores (profissionais, usuários, equipamentos do território e
movimentos sociais). Atualmente a comissão de moradia adota dois
eixos principais para as discussões e reflexões, os quais correspondem à
articulação política acerca do direito à moradia digna e a aproximação
com movimentos sociais que trabalham com essa temática.
REPERCUSSÕES: A comissão de moradia foi uma iniciativa que passou a
compor as atividades do serviço, sendo adotada como recurso para a
viabilização de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS). A partir dessa
experiência é possível afirmar que a equipe vem realizando uma
discussão mais qualificada sobre as necessidades relativas ao habitar
nos processos de reabilitação psicossocial, além de estimular a
apropriação simbólica e material dos espaços habitados pelos usuários.
Ademais, destaca-se o fomento ao protagonismo dos sujeitos que
apresentam nesse espaço as suas vivências na luta pela moradia em
ocupações, movimentos sociais e acesso a direitos. CONSIDERAÇÕES
FINAIS: A experiência descrita parte do imperativo ético de propor o
cuidado em saúde mental condizente com as necessidades dos usuários,
entretanto encontra-se em estágio inicial fato que demanda
investimentos constantes, sendo imprescindível a reavaliação da
proposta junto aos atores envolvidos. Ademais, espera-se que essa
iniciativa seja disparadora de novas intervenções direcionadas a
construção de cidadania.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A experiência da transdisciplinaridade através das práticas integrativas


complementares: um relato da construção de saber na universidade

Mayara Aguiar Silva


Prefeitura M. de Espera Feliz-MG

Introdução: Para além da relação objetal com o mundo nossa existência


precisa “ser com o mundo” (Merleau-Ponty, 1999) se quisermos, como
poderia nos fazer supor Rogers (1974), tornar-nos pessoa! O que se
pode dizer que estes autores trazem em comum e que aqui torna-se
elemento de nosso interesse, é a sua visão da existência criativa e do
potencial da experiência humana, sobretudo na relação consigo mesmo
e com o mundo. Olhar que muito se aproxima do que é a essência das
próprias práticas integrativas: a potencialidade que homem e universo
trazem em si naturalmente: o corpo que vibra, a mente que cria, a
natureza que cura e que, podem e devem conversar entre si para
facilitar e proporcionar uma compreensão da vida que ultrapasse a mera
soma de saberes para alcançar uma troca efetiva entre eles e, a partir
disso, uma nova construção; uma transdisciplinaridade, uma holística,
enfim. Descrição da Experiência: A experiência aqui relatada foi a
vivência de uma disciplina ofertada pelo mestrado acadêmico do
Programa de Pós Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal
do Espírito Santo entre 18 e 30 do mês de agosto do ano de 2019. Trata-
se da disciplina “Tópicos Especiais em Planejamento e Gestão em Saúde
I e II – Transdisciplinaridade: Um Encontro de Ideias e Sentidos”, que
rompeu os muros rígidos da relação ensino-aprendizagem e tornou
corpóreo um saber que se construiu na relação vivencial da proposta
teórica. Ministrado por um professor titular e docentes convidados, e
com uma turma restrita a 10 participantes, as aulas se dividiram em dois
blocos. No primeiro deles coube a introdução teórica e conceitual que
sustentou as discussões seguintes. No segundo, numa estrutura lógica
de exposições orais, debate e vivências dirigidas por facilitadores

182
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

capacitados, foram apresentadas práticas como a de Biodanza,


Arteterapia, Musicoterapia, Lian Gong, Homeopatia, Meditação e Reiki,
algumas delas oferecidas fora dos muros da Universidade.
Repercussões: Trazer as PICS para além da teoria proporcionou não
apenas um conhecimento metodológico sobre elas, mas uma percepção
de que toda projeção que fazemos, toda construção objetal são
movidas, como diz Merleau-Ponty (1999), pelo nosso próprio corpo
mediado pela intencionalidade presente neste movimento, o que em si
presentifica a síntese de corpo e alma: antes que o fazer seja um fato
objetivo é uma possibilidade da própria consciência, e portanto, do
psiquismo. Experienciar as técnicas apresentadas provou e fez-se provar
o que a teoria afirma a respeito de seus efeitos terapêuticos: o sabor da
potência que trazemos em nós mesmos e no universo com o qual somos
um todo maior.
Considerações Finais: Em outras palavras, o que esta sequência ofertada
pela disciplina permitiu foi o questionamento das estruturas formais de
educação e saúde tal como se apresentam na sociedade ocidental e a
falta do reconhecimento holístico necessário à compreensão do homem
como indivíduo não divisível em partes a serem tratadas, compreensão
essa corroborada pela definição de saúde que a própria ciência hoje
assume, mas que, em tese, parece negar: a compreensão biopsicossocial
e, espiritual do sujeito.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A experiência de discutir abertamente sobre a prevenção e posvenção


do suicídio na comunidade

Camille Francine Modena


Alice Milani Nespollo
Evelyn Kelly das Neves Abreu
Fernanda Freire Mendonça
Frantielen Castor dos Santos Nascimento
Hugo Gedeon Barros dos Santos
Jesiele Spindler Faria
Moisés Kogien
Vanessa Ferraz Leite
Samira Reschetti Marcon
Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT

INTRODUÇÃO: O suicídio constitui um grave problema social e de


saúde pública, de caráter complexo e universal com significativos
impactos para a sociedade em geral. No estado do Mato Grosso, a taxa
de mortalidade por suicídio é de 6,8 mortes por 100.000 habitantes,
valor superior à taxa média nacional. Considerado um fenômeno
evitável, órgãos mundiais têm se esforçado para sensibilizar gestores,
profissionais e a população quanto ao reconhecimento da relevância e
efetividade das ações de prevenção do suicídio. Outra preocupação tem
sido a posvenção, ou seja, desenvolvimento de ações de suporte
adequado para amenizar os danos aos sobreviventes, reconhecendo que
a angústia daqueles que convivem com essa lembrança deve ser vista
com atenção por representar um significante fator de risco para o
suicídio. Falar abertamente, fomentar a discussão, a reflexão e o debate
são estratégias necessárias para trazer a visibilidade ao problema. Este
trabalho tem como objetivo relatar a experiência de membros de um
grupo de pesquisa na construção de um evento, no formato de
seminário, voltado para a discussão sobre prevenção e posvenção do
suicídio. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: O Seminário foi realizado dia 17

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

de setembro de 2019, nos períodos vespertino e noturno, no Teatro


Zulmira Canavarros em Cuiabá, organizado pelos membros do Núcleo de
Estudos em Saúde Mental – NESM, como uma das atividades alusivas à
campanha nacional Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção do
suicídio. Contou com a presença de 297 participantes, público composto
por estudantes, profissionais, trabalhadores, gestores e comunidade em
geral provindos de vários municípios do estado. Em relação à
programação, o evento foi dividido em quatro momentos: palestra
introdutória sobre suicídio, ressaltando aspectos da prevenção e
posvenção; apresentação de resultados de estudos científicos
produzidos sobre a temática em distintas populações; capacitação em
prevenção e posvenção do suicídio baseada no programa APOIAR e roda
de conversa multidisciplinar, tipo talk show, com profissionais atuantes
na área de Saúde Mental. REPERCUSSÕES: O evento proporcionou
visibilidade às produções científicas, bem como a sua importância na
medida em que foram apresentados estudos realizados por discentes da
graduação e pós-graduação; promoveu a integração entre os diferentes
membros da Universidade e também com profissionais externos;
efetivou o papel social do grupo de pesquisa à partir de ações com a
comunidade externa; contou com a participação dos diferentes setores
(educação, saúde, segurança pública, entre outros) na discussão aberta
sobre uma temática tão presente na sociedade. É reconhecido que este
evento foi positivo para os membros organizadores e também para os
participantes, haja vista que na avaliação pós-evento os mesmos
avaliaram o seminário e os temas abordados positivamente
(respectivamente 97,3% e 97,6% como excelente ou bom), bem como
sugeriram a necessidade de maior carga horária para o evento, por se
tratar de assunto complexo. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A experiência foi
produtiva visto que o suicídio é um tema rodeado por tabus e estigmas,
desta forma entende-se que discutir abertamente o tema e
proporcionar que a pessoas conheçam os sinais deste agravo contribui
para a ampliação das redes de atenção, meios de prevenção e
posvenção.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Eu - Ansiedade e Depressão: Medicalização

Stephane Ramos Araújo

2019 foi o pior ano da minha vida, não entendia a tristeza profunda que
sentia, a falta de vontade de fazer coisas simples como por exemplo:
escovar os dentes e tomar banho, eu precisava de ajuda e sabia disso,
tentei ficar apenas na psicoterapia, mas eu sabia que necessitava de
mais assistência. Em agosto de 2019 fui diagnosticada com ansiedade e
depressão, gastos com consultas medicas, terapia e remédios eram
constantes, gastava em torno de 700 reais mensalmente, é custoso
cuidar da saúde mental no Brasil e nem todos têm esse acesso, em meio
a esse processo, reconheço o meu privilegio. Em relação aos remédios,
comecei tomando o rivotril de 0,5mg no período da noite por causa da
insônia, o sublingual de 0,25mg para as minhas crises de pânico e o
maxapran toda manhã, porém o vazio, as crises, insônia, o sentimento
constante de culpa e incapacidade não passavam e a quantidade de
remédios só aumentavam, o rivotril passou a ser de 2mg. Devido a
minha forte crise de pânico, a minha psiquiatra passou um afastamento
de 40 dias da universidade, tive que passar por todo esse processo
durante o meu primeiro ano de mestrado. Precisei mudar de psiquiatra,
ela foi morar no interior de Pernambuco e o meu psiquiatra atual
concordou com o laudo médico da minha antiga psiquiatra, contudo
retirou o maxapran e acrescentou o zodel de 50mg e insit de 50mg,
como tive muitos efeitos colaterais, o zodel saiu da minha lista de
medicamentos e passei a tomar o lamitor de 50mg, mesmo tomando
tanto remédio ainda sentia o vazio constante, a inquietude, a tristeza
profunda e o que aconteceu? Mais remédios, o insit passou a ser de
75mg e tive mais um remédio na lista o tolrest de 50mg. Me sinto
dopada de remédios que não fazem efeitos no meu corpo e toda
consulta que vou sinto medo, pois eu sei que vai aumentar a dosagem
ou acrescentar algum remédio, dito e feito, na minha última consulta, o

186
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

meu psiquiatra acrescentou o menelat de 30 mg. Tenho apenas 22 anos


e atualmente tomo o tolrest de manhã; lamitor a tarde; rivotril, insit,
menelat pela parte da noite e o rivotril de 0,25mg quando tenho crises
de pânico. Como não consigo ser feliz? Como não consigo me sentir
bem? Como ainda sinto crises? A dor que eu sinto é tão devastadora
que já tentei suicídio duas vezes, me sinto cansada disso tudo. Sou
antropóloga e aqui utilizo o método autoetnografico das minhas
experiências com a depressão e ansiedade a partir da minha busca por
uma possível cura dessas patologias. Meus “amigos” não aguentaram
lidar comigo e a bagagem de instabilidade emocional que carrego, tive
que aprender a ser sozinha. Me sinto em Admirável Mundo Novo (2015)
a diferença é que a minha soma (droga utilizada pelos personagens para
que eles sintam bem-estar) não está funcionando comigo. Do que
adianta fazer terapia, academia, acupuntura e tomar todos os remédios
se o vazio que eu sinto ainda continua?

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A experiência de estudantes na construção de um protocolo de Hatha


Yoga: promoção em saúde à comunidade

Vanessa Ferraz Leite


Samira Reschetti Marcon
Larissa de Almeira Rezio
Camille Francine Modena
Moisés Kogien
Kleici Kleslly Brito de Oliveira
Reinaldo Gaspar da Mota
Jhon Helbert Soterio Pires
Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT

INTRODUÇÃO: O Hatha Yoga é um caminho sistemático


historicamente desenvolvido para fins não médicos, composto por
técnicas psicofísicas baseadas na integração do corpo, mente e espírito,
com intuito de cessação das inquietações da mente e
autotransformação. Atualmente, os estudos científicos concentram-se
principalmente em investigar os seus potenciais benefícios terapêuticos
para a saúde física e mental em diferentes grupos e ambientes. Nesse
sentido, especificamente em pesquisas de delineamento experimental,
há o desafio da construção cuidadosa de protocolos, haja vista que esses
contribuem para a organização, mensuração e testagem dos efeitos
provenientes das práticas permitindo sua replicação. Objetivo: Relatar a
experiência de graduandos e pós-graduandos na construção de um
protocolo de Hatha Yoga desenvolvido com a comunidade interna e
externa em uma universidade pública. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: o
protocolo construído é uma ferramenta sistematizada, que integra
teoria e prática e compõe a metodologia do estudo de doutoramento de
uma instrutora de Hatha Yoga. Sua formulação foi planejada de maneira
progressiva e simultânea às leituras nacionais e internacionais,
empíricas e científicas de Yoga, além da consulta junto a

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

profissionais/professores da área. Foi aplicado no campus da


universidade, no período de julho a dezembro de 2019, com encontros
semanais de 80 minutos cada. O protocolo foi continuamente avaliado
após cada aula aplicada. A estrutura das práticas foi construída nas
seguintes etapas: momento de acolhimento, por meio de um mantra;
relaxamento; alongamento e aquecimento; posturas corporais; técnicas
de respiração; técnicas meditativas; relaxamento final e o encerramento
com um mantra. Os praticantes foram estudantes, professores (ativos e
aposentados) e comunidade externa, em sua maioria mulheres, idades
entre 20 e 64 anos, com pouca ou nenhuma experiência em Yoga.
REPERCUSSÕES: Conforme observado pela instrutora e verbalizações
dos praticantes, quatro categorias foram avaliadas e remetem à
positividade da aplicação do protocolo: a) aspectos físicos: sensação de
bem-estar físico, consciência corporal, aumento da flexibilidade
muscular e relaxamento de tensões; b) aspectos mentais: melhora do
bem estar mental, elevação da autoestima, auto amor, aumento da
resiliência e sensação de paz interior; c) aspectos educacionais:
aprendizado de técnicas simples para redução da ansiedade, do estresse
físico e emocional; d) aspectos sociais: acolhimento e sentimento de
pertencimento ao grupo. A construção do protocolo e a sua aplicação
nas aulas proporcionou a visibilidade das Práticas Integrativas e
Complementares em Saúde (PICS); contribuíram para ampliação de
produções científicas sobre a Yoga na promoção da saúde mental e
física; viabilizou a realização de um teste piloto originando o protocolo
final da tese e efetivou o papel social do grupo de pesquisa na medida
em que possibilitou integrar a pesquisa científica com atividade
extensionista. CONSIDERAÇÕES FINAIS: o protocolo foi construído
seguindo um diálogo entre conhecimento empírico e científico sobre
Hatha Yoga vinculado à saúde mental e com as PICS, possibilitando o
fortalecimento da articulação entre pesquisa, ensino e extensão dentro
da universidade, além de ser uma maneira de envolver múltiplos atores
de diversas áreas de conhecimento.

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Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Experiência do Palhaço Cuidador como Agente de Subversão Do


Manicômio

Iago Freitas Dantas de Sousa


Prefeitura Municipal de Mossoró

Aldenildo Araújo de Moraes Fernandes Costeira


Janine Azevedo do Nascimento
Universidade Federal da Paraíba

Desde 2010, existe na Universidade Federal da Paraíba o projeto


de extensão “PalhaSUS”, que objetiva promover cuidado em espaços de
saúde através da educação popular e da palhaçaria. Os extensionistas do
projeto passam por um processo formativo até desenvolver o papel de
“Palhaço Cuidador”, a fim de utilizar a ludicidade e o humor como
instrumento de humanização e empoderamento dos usuários e
profissionais dos espaços em que atuam. O trabalho de palhaços em
instituições de atenção à saúde vem crescendo no Brasil, mas não são
muitas as experiências de palhaços em ambientes ligados à saúde
mental, ao compararmos, por exemplo, com os grupos de palhaços que
atuam em hospitais gerais. O autor deste trabalho atuou semanalmente
como Palhaço Cuidador no Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, da
cidade de João Pessoa durante o ano de 2017. Este Complexo consiste
em um antigo manicômio em processo de reformulação de sua
estrutura; entretanto, como é recorrente em outros contextos similares,
as práticas e a lógica manicomial permanecem fortes, evidenciando-se
nas pequenas violências do cotidiano e nas práticas institucionais. As
visitas dos Palhaços Cuidadores tinham duração de aproximadamente
cinco horas, e circulava-se por todas as alas da instituição, incluindo, por
vezes, recepção e setor administrativo, a palhaçaria era exercida junto a
todos que compunham aquele espaço, utilizando instrumentos como a
música e o teatro popular. Neste cenário, o Palhaço Cuidador surge

190
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

como um agente subversivo, por não se enquadrar na lógica tecnicista


que impõe uma barreira intransponível entre profissionais e usuários do
serviço. Conforme o vivido e observado pelos próprios extensionistas,
afirmamos que o palhaço, por não ser especialista em nada, permite-se
brincar com as representações sociais da loucura, fazendo do próprio
corpo um instrumento de questionamento do que seria ou não
“normal”. Através do afeto e do riso, é possível inclusive questionar
injustiças e provocar reflexão sobre as opressões a que os sujeitos estão
submetidos, num papel análogo à figura arquetípica do “bobo da corte”.
Ressaltamos, contudo, que em uma instituição de caráter manicomial,
há limites intransponíveis, e mesmo estratégias de subversão tendem a
ser incorporadas à instituição em seu caráter totalizante; tais limites
foram decisivos para a decisão coletiva dos extensionistas de deixar
aquele cenário de atuação. Diante das ameaças recentes cada vez
maiores à reforma psiquiátrica e à Rede de Atenção Psicossocial,
acreditamos que palhaçaria e afeto podem ser instrumentos potentes
de resistência, denúncia e fortalecimento dos serviços substitutivos em
saúde mental.

191
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A experiência do projeto “eu quero entrar na rede”: reflexões sobre


cidadania

Bruna Vanessa Dantas Ribeiro


André de Faria Pereira Neto
Ana Paula Freitas Guljor
Paulo Duarte de Carvalho Amarante
Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ

INTRODUÇÃO: Este trabalho é um relato de experiência sobre


projeto “Eu quero entrar na rede: um blogue sobre saúde mental
construído por pessoas em sofrimento psíquico” que foi aprovado no
Edital para Projetos de Divulgação Científica da Vice-presidência de
Educação, Informação e Comunicação da Fundação Oswaldo Cruz
(VPEIC/FIOCRUZ). Realizado na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o
projeto é fruto da parceria entre o Laboratório Internet, Saúde e
Sociedade (Laiss), o Centro de Atenção Psicossocial II Carlos Augusto da
Silva Magal (CAPS-Magal) e o Laboratório de Estudos e Pesquisas em
Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS) e teve a coordenação do
professor Paulo Amarante. O projeto teve como objetivo a
desconstrução de estigmas e a inclusão digital/social de usuários do
Centro de Atenção Psicossocial Carlos Augusto da Silva Magal (CAPS-
Magal), localizado no bairro de Manguinhos, na cidade do Rio de
Janeiro, e utilizou as Novas Tecnologias da Informação e Comunicação
(TICs), especificamente o Blogue, como ferramenta digital de articulação
e espaço de fala para pessoas em sofrimento mental. Temos como
objetivo refletir sobre a experiência do projeto, tendo como foco as
experiências diretamente relacionadas com a cidadania dos
participantes do projeto.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: A atividade de inclusão digital contou com
a participação de 10 usuários do CAPS Magal e teve a duração de 12
meses, de outubro de 2018 e setembro de 2019. Foram realizados 40

192
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

encontros semanais no LaISS com a mediação de uma profissional do


laboratório e o acompanhamento de um profissional do CAPS. Cada
encontro teve a duração de 2 horas. Os participantes formam
selecionados pela equipe do CAPS Magal e receberam uma bolsa auxílio
mensal de 100 reais. O trabalho foi desenvolvido a partir da abordagem
teóricas da translação do conhecimento. A realização desta experiência
seguiu os parâmetros da metodologia qualitativa da translação do
conhecimento.
REPERCUSSÕES: Durante as atividades os participantes foram
incentivados a trabalharem e a circularem de forma autônoma e
acompanhados dos colegas. Para além da comunicação isso trouxe para
o projeto outras questões: 1) Portar de documentos – eles mostraram
dificuldades em portar documentos de identificação. Crachás
permitiram a circulação deles no espaço da Fiocruz. A autorização para
circular e a mobilidade proporcionadas pelo crachá foram cruciais para a
promoção da autonomia dos usuários. 2) Produção de Laços – o trânsito
pelo território e o trabalho colaborativo se mostrou produtivo para
gerar laços entre os participantes fora do espaço do CAPS e do LaISS. 3)
Violência - constante na região, a temática foi inserida nas
problemáticas dos encontros gerando reflexões dos participantes sobre
o tema, inclusive questões que eram normalizadas por eles.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Os pontos analisados mostram diferentes
facetas de como a temática da saúde mental é perpassada pela
cidadania. Para os três casos as TICS se mostraram como alternativas
para a inclusão social, não só facilitando o acesso à informação e
construindo novos espaços de fala como gerando possibilidades de
criação de laços, lançando novo olhar sobre temas importantes para os
usuários e incentivando a autonomia.

193
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A experiência em rodas de conversa online sobre saúde e sexualidade:


a perspectiva do gênero na clínica ampliada

Pedro Nunes de Araujo Liesegang


Caroline Luiza Coelho
Giulia Cândido Bruno
Edna Severino Peters Kahhale
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC

O projeto do Camisa no Diminutivo surgiu de um conjunto de


iniciações científicas, com apoio da FAPESP, de graduandos de psicologia
da PUC-SP (Caroline Coelho, Giulia Bruno e Pedro Liesegang) e
integrantes do Lessex (Laboratório de Estudos da Sexualidade), sob
orientação da Profa. Dra. Edna Kahhale. Inicialmente seriam realizadas
rodas de conversa em ambulatórios voltados para o tratamento de
infecções sexualmente transmissíveis, com o objetivo de promover a
reflexão e a troca de experiências a partir da perspectiva da clínica
ampliada. No entanto, o projeto precisou ser alterado para atender às
demandas da pandemia de Covid-19. Assim foram estabelecidas rodas
de conversa online semanais sobre saúde e sexualidade, que seriam
divulgadas por meio da página do Instagram "Camisa no Diminutivo".
As rodas são abertas e gratuitas para qualquer pessoa maior de 18 anos,
desde que inscrita previamente. Contam sempre com três a quatro
coordenadores, uma estagiária e um número variado de participantes,
com o teto máximo de 25 pessoas. Os principais norteadores do
trabalho são a psicologia sócio-histórica e a compreensão da
sexualidade enquanto processo simbólico e histórico, que envolve, para
além do ato sexual genital, desejos, identidades, saúde e expressão. A
noção de saúde também não se limita à ausência de doença, sendo
entendida como processo que envolve tanto fatores biológicos, quanto
comportamentais e configurações sociais. Sendo assim, se procura
construir um espaço para trocas horizontais, que não tem formato de

194
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

aula, mas sim de conversa, em que grande parte dos conteúdos parte
dos participantes, após estabelecido um tema central. Alguns dos temas
já abordados foram pornografia, educação sexual, hipersexualização de
pessoas negras, o estigma relacionado a infecções sexualmente
transmissíveis e masturbação, entre outros. Dentro do escopo dessas
rodas, este subprojeto tem como foco explorar como as relações de
gênero aparecem nas discussões, tanto no texto das falas quanto nas
dinâmicas concretas. Foi constatado que a discussão do gênero está
inexoravelmente ligada à da sexualidade e que uma não pode ser
explorada de forma compreensiva sem ser abordada a outra. Nas falas,
o gênero aparece como instrumento importante de construção e
regulação do comportamento e da sexualidade, sendo um determinante
fundamental na forma em que se aprende a viver sexualmente, a
desejar e a lidar com parceiros. Isso teve configurações próprias em
cada uma das discussões, mas alguns pontos que se colocaram como
"refrões" foram: o incentivo à passividade para mulheres e à
assertividade para homens, as diferenças entre as posições sujeito-
objeto que são entendidas como socialmente incentivadas e aquelas
que são vistas como promotoras de saúde e as amarras que a
heteronormatividade coloca tanto em pessoas LGBT quanto cisgênero e
heterossexuais. Também foi possível observar diferenças significativas
nas posições ocupadas por homens e mulheres dentro das próprias
conversas. Apesar de uma quantidade maior de participantes mulheres,
o número de falas de homens variou entre igual às de mulheres e maior,
além de ser muito mais frequente o formato de colocação assertiva, em
contraposição a indagações e questionamentos por parte de mulheres.

195
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A experiência em um serviço de plantão psicológico na pandemia do


COVID-19: contribuições para a formação e atuação de residentes
multiprofissionais em saúde mental.

Rosana dos Santos Silva


Universidade Federal da Bahia – UFBA

Tainara Ferreira Inocencio


Patricia Mascarenhas Passos
Walter Lisboa Oliveira
Universidade Federal de Sergipe – UFS

A pandemia do Covid-19 exigiu que os serviços de saúde


reorganizassem seus modelos de atuação, de forma a prestar assistência
com segurança para usuários e trabalhadores. Os métodos mais efetivos
para prevenir a proliferação do vírus, o isolamento e o distanciamento
social, são medidas que impõem novos modos de relacionamento e
provocam repercussões psíquicas que necessitam ser amparadas. Nesse
contexto, a Prefeitura Municipal de Aracaju elaborou um programa de
apoio psicológico remoto para atender as demandas de saúde mental da
população disparadas ou intensificadas no contexto pandêmico.
Funcionando em formato de plantão psicológico, as psicólogas que
compõem o programa de residência em saúde mental da Universidade
Federal de Sergipe foram convidadas a atuar no serviço. Os
atendimentos são realizados pelo telefone, onde as profissionais se
disponibilizam nos horários previamente pactuados para atender as
demandas espontâneas da população que acessa o programa através de
ligação. O início de tal experiência se apresentou como um desafio para
as psicólogas residentes, visto que se tratava de atendimentos na
modalidade remota, uma vivência inédita para as profissionais. Durante
a escuta nos plantões, foi possível observar que o público que acessava

196
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

o serviço era predominantemente feminino e que se identificavam


enquanto portadoras de algum diagnóstico de transtorno mental, com
acompanhamentos psicológico e/ou psiquiátrico prévios. Os sujeitos
acolhidos se encontravam em estado de intensa angústia, apresentando
discursos de sintomas que atravessavam o corpo e que revelavam a
urgência de respostas que o real da pandemia exigia. A experiência de
escuta em um serviço de plantão psicológico desvelou o sujeito em suas
urgências subjetivas, onde este teve que lidar com a ausência de
recursos discursivos que pudessem dar sustentação para sua existência.
A oferta de um espaço de acolhimento e escuta proporcionou para essas
pessoas a revelação de questões que estavam encobertas e a escansão
do tempo para a construção de outras narrativas e saídas diante do que
estava sendo imposto. O trabalho em rede apresentou-se de
fundamental importância, sendo necessário o constante diálogo com a
gestão do programa para articular encaminhamentos e a continuidade
do cuidado nos casos que apresentavam maiores riscos. No
entrelaçamento da clínica com a formação em saúde mental, as
residentes se organizaram para discutir casos periodicamente, bem
como utilizar o espaço da tutoria de núcleo para consolidação de
embasamento teórico para a prática clínica. A supervisão clínica
também foi um dos recursos utilizados pelas profissionais. Diante do
relato apresentado, é possível considerar que o dispositivo do plantão
psicológico se mostrou enquanto potente programa na organização do
cuidado em saúde mental na pandemia, fortalecendo o que é apontado
como tripé do SUS: o direito que todo cidadão tenha acesso aos serviços
de saúde; a garantia de ações e serviços em todos os níveis de
complexidade e a integralidade do cuidado. Para além disso, a
experiência contribuiu para a formação das residentes, sendo possível
discutir os atravessamentos desse acontecimento nas subjetividades e
pensar a complexidade do cuidado, a articulação com a gestão e a
ampliação da clínica através da inclusão dos dispositivos da rede.

197
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Extensão Universitária como Complemento da Formação em Saúde


Mental, sob a Perspectiva do Cuidado em Liberdade

Larissa Moreira Santos


Teresa Cristina da Silva Kurimoto
Emiliane Pereira de Souza
Alice Moreira Pauferro
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG

Um dos grandes desafios no campo saúde mental é a formação de


profissionais comprometidos com a mudança e consolidação do modelo
biopsicossocial. A extensão universitária configura-se como espaço de
aprendizado contínuo, em que as estudantes assumem protagonismo no
processo de ensino em um contexto de articulação entre universidade e
sociedade, por meio de um processo interdisciplinar, educativo, cultural,
científico e político. Assim, a partir de uma experiência de extensão
universitária, propomos refletir sobre a formação em saúde mental.
O projeto Oficina de Cuidados, da Universidade Federal de Minas Gerais,
tem como base o modo psicossocial. Este preza pela
desinstitucionalização e pela lógica do cuidado em liberdade e
territorializado. Tal princípio é praticado por meio de oficinas
terapêuticas, com temas centrados no cuidado de si, considerando
protagonismo e subjetividade do participante como norteadores. Os
integrantes são usuários de um Centro de Atenção Psicossocial, em Belo
Horizonte, alunas de diferentes cursos da saúde e coordenadora do
projeto de extensão. Esse relato de experiência foi realizado via diálogo
virtual entre as alunas e a coordenadora, ressaltando benefícios,
desafios e possíveis avanços, num contexto de mudança na atuação
devido à pandemia.
A experiência de participação no Oficina de Cuidados proporcionou
reflexões: 1. A formação de graduação e a perspectiva do cuidado em
liberdade. As estudantes da equipe, graduandas de Enfermagem,
Medicina, Psicologia, identificaram a importância de conhecer e

198
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

construir concepções em torno da lógica antimanicomial. As práticas e


saberes requeridos para uma atenção psicossocial nem sempre são
abordados, enfatizados ou valorizados. O contato com profissionais de
serviços da Rede de Atenção Psicossocial torna-se oportunidade
fundamental para essa construção de saberes, em uma perspectiva
dialógica, interdisciplinar e intersetorial. 2. Extensão universitária:
indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão. Apesar de os cursos da
área da saúde terem parte importante de seu ensino realizado em
cenários de prática, as estudantes puderam perceber, em sua
experiência, a potência de uma práxis de um conhecimento acadêmico
que se desenvolve mutuamente: o diálogo com a sociedade e com os
usuários e profissionais do serviço, contribui para o encontro com
diferentes saberes e propicia uma formação mais comprometida com os
dilemas, problemas e questões do cotidiano da sociedade. No campo da
saúde mental, essa indissociabilidade possibilita a compreensão desse
cuidado cuja tecnologia exigida é essencialmente humana. Com os
desafios impostos pela pandemia, foi preciso buscar no diálogo com o
serviço de saúde mental formas não presenciais de continuidade do
projeto. No atual contexto, em que o distanciamento se faz exigência,
estamos ensaiando formas de falar sobre o cuidado de si a partir de
Foucault - materiais informativos, diálogos com a equipe, reflexões
teóricas, por exemplo.
Por fim, a extensão universitária, no campo de saúde mental, propicia
diálogos que vão além das grades curriculares, expondo a realidade que
permeia o cotidiano da sociedade. Ademais, o projeto tem se
desenvolvido na construção de cuidados na pandemia e via contatos
virtuais entre os integrantes, de áreas distintas da saúde, que fomentam
criatividade e novas perspectivas sobre a teoria dos respectivos cursos.

199
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Face Oculta da Dependência Química: Relato de Caso

Luis Eduardo Sousa Costa


Celeste Rayane Rodrigues Silveira
Luis Eduardo Sousa CostaHelena Pereira de Sousa
Rafaela Cristina Amorin Lima
Centro Universitário Estácio

Introdução: A dependência química inicia-se quando o organismo faz a


utilização constante e desmedida de substâncias psicoativas acionando
o sistema recompensa, tornando-se cada vez mais interessado pela
sensação de prazer, mantendo o indivíduo dependente. Segundo o IBGE,
238.1 mil jovens já tiveram contato com drogas e 600 mil brasileiros são
usuários de cocaína, crack e heroína. A dependência química trata-se de
uma doença primária, porém pode ter seu ponto de ignição ligado a
outras causas, como menciona Boruchovitch (2000), segundo ela há
uma inter-relação entre os problemas psicopatológicos e o uso de
drogas. Objetivos: Relatar experiência de acadêmicos de Enfermagem
durante anamnese com usuário do CAPSAD. Metodologia: Trata-se de
um estudo de caso, que ocorreu nas práticas da disciplina de Ensino
Clínico em Saúde Mental, no mês de abril de 2019, no Centro de
Atenção Psicossocial de Álcool e Outras Drogas. Resultados: R.A.J.C, 28
anos, possui ensino superior e é paciente do CAPS AD há mais ou menos
2 meses. Durante a anamnese apresentou-se eutímico, vigio, receptivo,
sem alterações comportamentais e psicopatológicas. Atualmente o seu
tratamento é baseado em psicofármacos (ansiolítico, anticonvulsivante,
antidepressivo e antipsicótico) e atividades terapêuticas. Relatou que
aos 12 anos entrou em contato com substâncias psicoativas(cocaína),
devido ao trauma de infância descoberto durante uma terapia de
regressão, "hipnose". Aos 25 anos teve overdose que desencadeou um
aneurisma e entrou em coma por 8 meses. Atualmente o seu
tratamento é baseado em psicofármacos (ansiolítico, anticonvulsivante,

200
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

antidepressivo e antipsicótico) e atividades terapêuticas como a roda de


conversa. Conclusão: Portanto, diante do relato do paciente, podemos
observar que o trauma sofrido na infância favoreceu inconscientemente
seu ingresso no mundo das drogas e sua permanência durante anos.
Sendo assim, comprova-se que traumas de infância têm relações
estreitas com sequelas emocionais na faze adulta, que se manifesta de
várias formas, como por exemplo, a dependência química.

201
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A fala da maturidade: roda de conversa com idosos universitários,


relato de experiência

Pedro Henrique Reis Divino


Universidade Federal de Sergipe – UFS

O Brasil passa nos últimos tempos por um processo de transição


demográfica em que se observa um baixo nível de fecundidade e de
mortalidade, na medida em que se expressa um aumento significativo
do número de pessoas com mais de sessenta anos de idade. Diante
desta realidade, novos desafios são postos para a sociedade, que deve
garantir não apenas um prolongamento da vida, mas também a
elaboração de dispositivos que promovam ações relacionadas a saúde
física, mental e social da população idosa do país. Tendo em vista este
compromisso social, surgem então, ainda nas décadas passadas, os
programas de educação permanente voltados para os idosos em
instituições de ensino superior (IES), que buscam proporcionar espaços
educacionais para idosos geralmente por meio de programas e projetos
de extensão. Diante disso, esse relato de experiência é fruto da vivência
como estagiário extracurricular de Psicologia no Núcleo de Pesquisas e
Ações da Terceira Idade (NUPATI), vinculado ao Departamento de
Serviço Social (DSS) da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em que se
conduziu durante um semestre letivo rodas de conversa de cuidados
com a saúde mental com alunos da terceira idade vinculados a este
núcleo. Este material tem como objetivo relatar e refletir sobre as
vivências observadas no grupo e do impacto da atividade no processo de
aprendizagem do estagiário. O referido grupo composto por dez idosos
e idosas, na faixa etária de 62 a 73 anos, majoritariamente do sexo
feminino, se reunia uma vez por semana, durante três horas, nas
dependências da universidade. A proposta foi proporcionar um espaço
aberto ao diálogo, onde os participantes pudessem discutir acerca de

202
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

temas de interesse coletivo. Buscou-se assegurar que os integrantes


participassem de todo o processo, na escolha do tema, exposição,
discussão e reflexão, procurando garantir que os membros fossem os
principais protagonistas. Foi observado que, na medida em que as
temáticas eram discutidas faziam emergir relatos de vivências dos
participantes que se sentiam em alguma medida atravessados pelas
questões postas. Portanto, para além de um lugar em que os
participantes possuíam voz e autonomia, também se observou a
constituição de um espaço de escuta, contribuindo para a promoção de
saúde mental dos sujeitos. Ademais, a experiência como mediador desta
atividade, dentre outras contribuições, gerou uma reflexão acerca dos
espaços físicos e sociais que este grupo ocupa hoje na nossa sociedade,
sendo frequentemente, observado estes sendo colocados à margem da
sociedade por serem considerados improdutivos, fato repetidamente
sinalizado nas discussões do grupo. Além disso, o grupo provocou no
estagiário uma ampliação das suas perspectivas acadêmicas, o
incentivando a pesquisar e apostar em ações voltadas para este campo.

203
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A formação em saúde mental e a interseccionalidade:


relato de experiência sobre o aprendizado do cuidado democrático
em um serviço de referência estadual de atenção à população LGBT+

Rosana dos Santos Silva


Universidade Federal da Bahia – UBFA

Leonardo Ribeiro da Cruz de Oliveira


Portal D&T

Gabriel Leal Ribeiro


Sarah Almeida da Silva
Pedro Rafael Santos Costa
Carla Danielle Viana de Souza
Laíse Helena Teixeira de Jesus
Emily Oliveira da Silva
Déborah de Jesus
Faculdade Ruy Barbosa

A formação em saúde mental alinhada a discussão sobre


interseccionalidade, em tempos de desmontes das políticas públicas e
do avanço da necropolítica, apresenta-se como um dos desafios postos
à educação de profissionais deste campo no Brasil. O objetivo geral
deste trabalho é discutir a formação em saúde mental a partir da
experiência dos extensionistas do Núcleo de Estudos e Formação em
Saúde (NEFES) em um serviço de referência estadual de atenção à
população LGBT+, que tem como eixos fundamentais de atuação a
promoção da saúde e a garantia dos direitos sociais. A articulação entre
o NEFES e o serviço supracitado se deu a partir de uma colaboração
técnico-pedagógica, visando ampliar o efeito das ações desenvolvidas
neste serviço: assistência psicológica, social e jurídica aos usuários;

204
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

articulação às redes socioassistenciais; fomento das políticas LGBTs e


monitoramento de denúncias de lgbtfobia. Desta parceria foi
estruturado um plano de intervenção que incluiu: 1- observação
participante; 2- diagnóstico situacional; 3-práticas de cuidado em saúde
mental a partir do acolhimento dos trabalhadores; 4-mapeamento da
rede de saúde e assistencial social; e 5- reuniões para construção do
Projeto Terapêutico Singular. No período de 1 ano, entre janeiro de
2019 até janeiro de 2020, foram realizadas as 3 primeiras etapas do
plano de intervenção. A imersão dos extensionistas no serviço
possibilitou a compreensão dos determinantes sociais que influenciam
diretamente a saúde da população LGBT+; a identificação das
iniquidades e a repercussões deste cenário de desigualdades na saúde
mental dos trabalhadores; os desafios para tornar a política integral de
atenção a população LGBT+ uma prática viva e contra-hegemônica; a
importância de incluir o debate sobre interseccionalidade no processo
de trabalho; e o aprendizado de novas formas de luta que conjugam
existir e resistir, uma vez que a afirmação da vida de pessoas LGBT+ é
uma frente de resistência em um estado (Bahia) com o mais alto índice
de homicídio desta população. A experiência de formação a partir das
práticas neste serviço fez ganhar corpo um projeto pedagógico de
formação em saúde mental que extrapola a educação para o domínio
técnico-científico, colocando também em análise o ordenamento da
realidade. Este arranjo ampliou a capacidade dos extensionistas de
pensarem o contexto social e construírem alternativas. Uma convocação
pedagógica para desenhar um cuidado democrático que não se constrói
sem luta social, sem manter viva a aposta na construção de outro
projeto de sociedade.

205
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A formação marcada pela loucura: uma experiência de estágio

Luana Carvalho Trindade


Rafael Leite Mendonça
Mércia Moreira de Oliveira
Jorge Luís Gonçalves dos Santos
Universidade Federal do Espírito Santo – UFES

Este trabalho provém de uma experiência de estágio realizada


no curso de psicologia da UFES em um CAPS II da região metropolitana
da Grande Vitória/ES e visa analisar as implicações das práticas
construídas pelos usuários e profissionais, a partir da política nacional de
saúde mental, para a formação do estudante de psicologia. Trata-se de
testemunhar a relação que há entre a subversão do modelo psiquiátrico
tradicional e a valorização da singularidade, demonstrando como
sujeitos que foram historicamente enclausurados podem ser inseridos
em seu território.
Através da experiência desse estágio, notou-se a importância da equipe
multiprofissional para a construção de espaços, vínculos e atividades
que incluam o usuário nas relações sociais. Partilhar a rotina de
funcionamento do serviço através de oficinas de música, bingos,
aniversários, hortas e visitas domiciliares permitiram pôr em questão a
composição das histórias de vida dos usuários e a atuação das
instituições nas construções subjetivas.
Em que pese a possibilidade de socialização desses sujeitos, o serviço
também se fez palco de momentos de crise. Em um dos dias, por
exemplo, desencadeou-se uma agressão física por ofensas raciais: um
usuário negro foi chamado de “macaco” e partiu para agressão física, o
que resultou em uma desorganização do CAPS. Em meio ao caos, a
equipe se reuniu para traçar estratégias e reestruturar o ambiente.
Dentre elas, o usuário negro foi retirado do espaço e o usuário branco
foi mantido dentro do serviço. Por mais que isso possa ter organizado a

206
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

situação, não podemos deixar de demarcar a estrutura do racismo na


instituição.
Para além disso, ainda como medida de “reorganização”, foi feita uma
roda de conversa onde todos os usuários puderam se expressar e
colocar suas experiências e seu modo particular de entender o episódio.
Com efeito, os usuários se organizaram e, ao mesmo tempo, se
mostraram indignados com a presença da polícia militar e a violência
racial ocorrida.
Portanto, enquanto estagiários de psicologia, tratar desse tema nos
conduz a analisar os processos direcionados pela equipe multidisciplinar
aos usuários do CAPS. Acompanhar essa atitude indica a dimensão da
palavra como disparadora da desordem e ferramenta da reorganização,
além de escancarar toda a incerteza presente no dia a dia desse serviço.
A experiência em estágio no CAPS foi fundamental para compreender e
priorizar a perspectiva multiprofissional. Nessa direção, faz-se
fundamental tanto para aqueles que estão em tratamento, quanto para
os profissionais, a busca por fortalecer as relações sociais, o testemunho
das histórias de vida e, sobretudo, as questões endereçadas por cada
sujeito.
O encontro com a loucura durante o curso de graduação não só
transformou nossas visões de mundo, como evidenciou a singularidade
do sujeito mediante às complexidades das relações sociais,
possibilitando repensar os estigmas surgidos no contexto da loucura e a
produção de novas apostas. Por fim, conclui-se que o estágio produziu
em nós uma outra forma de lidar com a loucura: ao invés de tomá-la
como obstáculo à construção de processos subjetivos, a maneira
singular de um sujeito se constituir na palavra.

207
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A formação política dxs psicologxs e os impactos na atuação de base


antimanicomial

Giulia Natália Santos Mendonça


UNB - Universidade de Brasília

Vivianni de Matos Gama


Movimento Pró-Saúde Mental DF

Introdução: Trata-se de um relato de experiência que se


consolida a partir da reflexão e implicação de duas psicólogas clínicas,
que se formaram em instituições privadas no Distrito Federal e
militantes de um Movimento Social de Saúde Mental que se pretende
antimanicomial. A experiência se dá a partir de um espaço de discussão
e formação construído neste coletivo. A constituição deste para ambas
se inicia a partir do questionamento do próprio lugar de saber e de
como esse se dá, ainda na formação acadêmica. Descrição da
experiência: Discute-se as bases políticas do curso de psicologia e/ou a
ausência delas, bem como as contradições existentes na concepção de
saúde mental, que se torna em alguns vieses uma técnica de controle de
transtornos mentais ou comportamentos ditos “desviantes”, uma
psicologia que tropeça ao entender a saúde mental concebida
interdisciplinarmente, e pela fragilidade de contextualização, por vezes
usa a técnica para atuar em função da doença, no controle de corpos e
subjetividades, perspectiva que não corrobora com a promoção de
saúde, circunscritas neste campo de atuação. O processo de
desinstitucionalização perpassa também pela ideia de repensar os
saberes “psi”. A atuação antimanicomial não se trata portanto, de uma
prática clínica ou uma intervenção, mas de um projeto de sociedade
comprometido politicamente, com a liberdade de existências, a garantia
dos direitos humanos e o diálogo com o corpo social. Entendendo que
garantia de direitos humanos e expressão de subjetividade implicam em

208
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

discutir modelos de sociedade e também dialogar sobre pautas que se


configuram como discriminatórias, tais como racismo, feminismo,
homofobia, entre outras transversais. Repercussões: Tal espaço de
significação coletiva, composto por outros membros do mesmo
movimento social vem permitindo dimensionar a importância de
espaços de formação que se consolidam para além dos muros da
universidade, que estão nos movimentos sociais, nas trocas com os
territórios, com a historicidade, com as políticas públicas, com a
seguridade social, com os atravessamentos políticos (neste caso,
também os partidários), às dimensões da vida e do viver. Considerações
finais: Desta forma, ao compartilhar tais percursos, busca-se ampliar o
paradigma da psicologia enquanto - ciência que responde sobre a
mente-, e ainda, refletir sobre a dicotomia corpo-mente-social, partindo
de um entendimento biopsicossocial, para também pensar os impactos
desta cisão nas produções teóricas e práticas da atuação da psicologia,
enquanto instrumento de produção de saúde. Além de ampliar o debate
para o conceito de que práticas antimanicomiais não são somente as
realizadas dentro de ambientes de desinstitucionalização, mas algo que
vai além e implica na atuação profissional.

209
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A função do Grupo de Referências na clínica em Álcool e Drogas:


considerações iniciais da experiência de Niterói/RJ

Maycon Rodrigo da Silveira Torres


Hospital Psiquiátrico de Jurujuba

Introdução: A inclusão da atenção aos usuários de álcool e


outras drogas nas políticas públicas em Saúde Mental e a estruturação
da Política de Redução de Danos efetuou mudança de paradigma na
compreensão do sofrimento psíquico associado ao uso de substâncias
psicoativas. A implementação dos Centros de Atenção Psicossocial para
usuários de Álcool e Drogas (CAPSad) e a formalização da Rede de
Atenção Psicossocial (RAPS) com a inclusão de estratégias de cuidado a
esta população priorizou Atenção Básica e ações no território. Ainda
permanece dificuldade das equipe e serviços em produzir cuidado para
as pessoas com sofrimento associado ao uso abusivo de drogas, com
redução de acessibilidade e aumento de encaminhamentos de baixa
resolutividade.
Objetivo: Visa-se fazer considerações iniciais de um relato de
experiência do município de Niterói/RJ com o “Grupo de Referências
AD”, com destaque para os analisadores de sua criação e sua função de
construção da rede.
Descrição: O Grupo foi criado pelo CAPSad como forma de exercer seu
mandato clínico-político institucional e trabalhar a organização da RAPS
junto dos demais dispositivos. As figuras dos profissionais “Referência
AD” são psicólogos dos CAPS, ambulatórios de saúde mental e da
enfermaria de internação psiquiátrica atuam como catalisadores das
demandas de cada serviço e a construção da rede a partir da discussão
das situações clínicas. Os encontros são mensais e incluem pautas pré-
agendadas, situações emergenciais e informes.
Repercussões: Destaca-se período em que os CAPS II do município
iniciaram movimento de encaminhamento para CAPSad de grande

210
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

número de casos de usuários com outros transtornos mentais sob a


justifica de haver a necessidade de tratamento específico para o uso de
drogas independente de outros diagnósticos. Este fato serviu como
analisador para discutir a permanência da lógica diagnóstica psiquiátrica
em detrimento à atenção psicossocial, que propõe cuidado integral
centrado na singularidade. O grupo se articula como espaço de manejo
da suposição de saber especializado ao construir coletivamente
propostas de ações para os projetos terapêuticos singulares. A lógica de
matriciamento, inicialmente associado à atenção básica, mostra-se
eficaz juntos aos próprios dispositivos de saúde mental. Nota-se
dificuldade das equipes de todos os dispositivos em manejar situações
associadas ao uso de drogas, seja por compreensão de que o uso de
drogas influencia nos transtornos mentais, seja pela crescente violência
social. Isto produz sobrecarga nos profissionais que ocupam o lugar de
referência.
Considerações finais: A compreensão do uso de drogas como um
transtorno mental autônomo se mantém operante na prática cotidiana
em saúde mental e a criação da categoria de especialistas tende a
reforçar a lógica de tratamento a partir de diagnósticos e não da
subjetividade. O compartilhamento de responsabilidade entre as
Referências AD auxilia o trabalho intra e inter equipes. Levantam-se
hipóteses para maiores reflexões da formação dos profissionais atuantes
na RAPS.

211
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A importância da escuta e do acolhimento para qualidade de vida de


estudantes universitários: relato de experiência de um grupo de
extensão de graduandos de psicologia

Kátia Cordeiro Antas


UNIVASF - Fundação Universidade Federal do Vale do São Francisco

Silvana Carneiro Maciel


Matheus Henrique Cardoso da Silva
Kátia Cordeiro Antas
Universidade Federal da Paraíba

A partir das mudanças naturais do processo de desenvolvimento,


seguida da inserção nos mais variados contextos que fazem parte do
cotidiano, a exemplo do contexto acadêmico, é possível observar que as
dificuldades enfrentadas pelo estudante podem afetar sua qualidade de
vida e, consequentemente, sua saúde mental. Diante disso, o projeto de
extensão do qual trata este relato de experiência, teve como objetivo
oferecer serviços que promovessem apoio aos estudantes, além de
debates referentes à Saúde Mental dos seus discentes. Assim, surgiu o
plantão de acolhimento, um tipo de intervenção psicológica, executado
pelo o Grupo de acolhimento Psicológico ao Estudante (GRAPE) que
oferecia acolhimento aos estudantes universitários do campus I da UFPB
que se encontravam em sofrimento psíquico e buscavam este serviço.
Teve duração de abril a dezembro do ano de 2019. Além dessas
atividades, o GRAPE desenvolveu três Fóruns de Discussão sobre Saúde
Mental Estudantil, realizou um mapeamento da rede de serviços à saúde
mental em João Pessoa, participou, a convite, de eventos realizados por
outros campus da UFPB, bem como outros da mesma natureza. E ainda
desenvolveu uma conta no Instagram como forma de registrar e divulgar
as atividades desenvolvidas no e pelo projeto, além de promover
reflexões no que se refere à Saúde Mental no contexto universitário. O
presente projeto obteve resultados satisfatórios ao propor diversas

212
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

atividades referentes à prevenção e promoção da saúde, suscitando


debates e rodas de conversas acerca de temas comuns à comunidade
acadêmica como forma de contribuir para a rede de assistência à saúde
estudantil no âmbito da UFPB. Importante destacar também a
contribuição deste projeto no processo de formação dos discentes
colaboradores através de atividades específicas voltadas para os
mesmos, a exemplo do role play e da tenda do conto. Essas atividades
foram voltadas ao seu refletir como profissional de psicologia em
formação, e suscitaram em testemunhos dos ganhos obtidos durante
esta vivência.

213
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A importância de dispositivos complementares para familiares de


dependentes como rede de apoio no co-gerenciamento e no auto-
fortalecimento de suas vivências: um relato de experiência no CADEQ
em Vitória, ES.

Nicole Costa Lopes


Silvany Barbosa Agostinho Rodrigues
Nielson Ernobis Vicentini

Como realidade crescente e acentuado consumo e recaída do


dependente químico devido o atual cenário do COVID-19, desperta-se,
consequentemente, a necessidade de reflexões sobre a implicação ao
familiar afetivamente envolvido. Uma vez que dentro do contexto
político-social brasileiro, em específico, o capixaba, onde consta-se
apenas com a ESF (Estratégia de Saúde a Família) e com os CAPS’s
(Centros de Atenção Psicossocial) como promoção do cuidado a saúde
mental também do familiar de dependentes, evidencia-se a emergência
de estratégias complementares no que tange a saúde pública. Dada a
lacuna na disponibilidade de dispositivos político-sociais, outras
instituições – como as religiosas, as ONG’s e os AA’s – por consequência,
surgem como portas de acesso ao cuidado em saúde mental de
familiares dos dependentes supracitados. De forma efetiva e
significativa, alguns destes dispositivos alcançam estas famílias – e
permitem a interação entre estas – com práticas integrativas e
complementares, utilizando a arte como recurso de expressão, bem-
estar e espiritualidade, bem como com a participação voluntária
multiprofissional. Dentre os dispositivos supracitados, na cidade de
Vitória, no Espírito Santo, conta-se, em parceria com a Primeira Igreja
Batista de Jardim Camburi, com o projeto CADEQ (Centro de Apoio a
Dependentes Químicos). Existente desde 2001, o projeto CADEQ possui
uma equipe com enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas
e conselheiros espirituais, contando, também com acadêmicos
estagiários das áreas acima citadas – sinalizando, aqui, o início da nossa

214
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

experiência com o campo. O projeto dispõe, dentre outras, de


atividades em grupo e/ou individual aos dependentes químicos, bem
como dispõe de atividades voltadas ao apoio e orientação aos familiares
envolvidos. Como programa de estágio, participamos de um projeto
nomeado “As Poderosas”, antes realizado presencialmente e sendo
atualmente por meio do aplicativo WhatsApp (dada a necessidade de
reorganização devido ao atual contexto do COVID-19), todas as terças-
feiras, às 15h. Nesse encontro, mães e demais familiares (em suma,
mulheres) que vivenciam a experiência da dependência (ainda que
indiretamente afetadas) se reúnem, sob mediação do profissional
assistente social e demais estagiários, a fim de compartilharem suas
experiências e discutirem a respeito de temas levantados acerca do
lugar do codependente. Através da coparticipação e cooperação, as
atividades são organizadas objetivando psicoeducação, diálogo e escuta
terapêutica, uma vez que o acolhimento mútuo se configura, dentro da
ciência psicológica, como técnica suprema. Em participação a este
grupo, foi possível identificar relatos de aprendizado, bem-estar e
autoconhecimento, como: “não dá pra lidar com esta doença
isoladamente”; “realmente é gratificante beber dessa fonte”; “essa
troca de experiências e conhecimento, é simplesmente fantástica!”;
“saímos para enfrentar as nossas batalhas com mais serenidade”, etc.
Em nossa percepção, os impactos positivos do grupo terapêutico são
promovidos por sua funcionalidade nas trocas de estratégias de
enfrentamentos, principalmente, por meio do compartilhamento de
informações entre os familiares, os quais possuem experiências de
vivências semelhantes. Concluímos assim, nosso relato de experiência,
denotando a importância desses dispositivos como rede de apoio no co-
gerenciamento (onde cada um dos participantes desenvolve-se como
gestores de suas próprias vivências) e no auto fortalecimento de tais
familiares.

215
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Importância Do Coletivo Abrasme No Maranhão Em Tempos de


Resistência

Luara Christina Silva Matos


Talita Raquel Rodrigues Ataíde

INTRODUÇÃO: Historicamente, o Maranhão viveu durante anos refém


de governos oligárquicos, o que contribuiu para um grande atraso
político, econômico e social no estado. Assim, diversos setores de
atenção em saúde mental se constituíram de forma fragilizada, o que
implica na necessidade de iniciativas que busquem promover discussões
e intervenções acerca destes setores, visando a constituição de um
cuidado humanizado, antimanicomial e promotor de dignidade humana.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: Em agosto do ano de 2019, foi oficializado
o coletivo maranhense da ABRASME, que promoveu no estado a
realização do primeiro seminário internacional de saúde mental e
direitos humanos, assim, como outros eventos e participações em
campanhas e iniciativas de outras instituições, coma finalidade de
promover debates e intervenções voltadas para a preservação dos
direitos humanos, das políticas públicas e da luta antimanicomial. O
movimento de resistência antimanicomial promovido pelo coletivo
consiste em promover diálogos de conscientização com as instituições
legais e com os cidadãos, através da elaboração do discurso de que os
portadores de transtornos mentais não representam ameaça ou risco ao
convívio social. Ao contrário disso, o meio social seria um grande
componente para sua recuperação. Dessa forma, se faz necessária,
também, a promoção de uma reeducação no modo de compreender os
transtornos mentais, vendo-os não como um estigma, mas como um
modo alternativo de ver, estar e vivenciar o mundo. REPERCUSSÕES: São
diversos os impactos e, resultados, promovidos pelas iniciativas do
coletivo na busca pela promoção de saúde mental. Dentre estes, a
abertura de espaços para reacender discussões e resistências
antimanicomiais, acerca de temáticas pouco abordadas e preteridas no

216
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

estado, mas que são de suma importância para a formação e atuação


dos profissionais da saúde mental, dos usuários dos serviços e dos
cidadãos de um modo geral. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Tendo em vista
estes aspectos e a atual situação sócio política brasileira, observa-se que
a experiência das atividades promovidas pelo coletivo Abrasme têm sido
de grande importância para a busca da garantia de direitos, da
promoção de cidadania e de resistência antimanicomial. E, também,
para a frequência de abordagem das temáticas propostas pelo coletivo.

217
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A importância do empoderamento dos usuários do CAPS ad do


município de Abreu e Lima

Eroneide Maria de Moraes


Elma de Carvalho Malta Diniz
João Henrique Medeiros Priston
Ariana Elite dos Santos
Secretaria Municipal de Saúde de Abreu e Lima - PE

Introdução: O Centro de Atenção Psicossocial para álcool e outras


drogas (CAPS ad) atende indivíduos com transtornos mentais
relacionados ao uso abusivo de álcool e outras drogas através da
articulação entre o cuidado clínico com os programas de reabilitação
psicossocial, e como serviço de reintegração social que planeja metas é
um caminho importante para este processo grupos que estimulem a
autonomia. Neste serviço são oferecidas várias atividades/grupos
terapêuticos, um deles é o Grupo Projeto de Vida.
Descrição da experiência: Este relato de experiência foi desenvolvido
observando e analisando as atividades realizadas no grupo Projeto de
Vida. Este grupo tem como objetivo estimular, fortalecer e compreender
a importância de sua própria identidade envolvendo uma escuta
qualificada que mostra a transformação do usuário a partir da
construção de uma concepção compartilhada da história de cada
usuário. No grupo os relatos dos usuários são compartilhados e vão
além de um projeto, mostrando um novo sentido de viver. O CAPS ad
atende a população acima de 14 anos de ambos os sexos que fazem uso
abusivo de álcool e outras drogas, funciona de segunda a sexta das 8h às
17h e atende por demanda espontânea ou encaminhada de outros
serviços. O Grupo é realizado semanalmente no CAPS ad do município
de Abreu e Lima – PE, no turno da manhã e no turno da tarde, com
duração de 50 min., por psicólogos, assistentes sociais ou enfermeiros,
onde os usuários participam e planejam seu projeto de vida, praticando
as atividades abordadas durante o grupo fora do espaço CAPS

218
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

contribuindo assim para mudança de estilo de vida e reinserção social. O


objetivo deste relato é analisar a influência do grupo Projeto de Vida nos
usuários do CAPS ad na reinserção social e observar a reformulação de
valores e hábitos contribuindo para mudanças no estilo de vida.
Repercussão: Percebemos que antes do grupo os usuários
demonstravam-se desmotivados, sem perspectiva de vida, sem hábitos
saudáveis, e que durante a participação no Grupo Projeto de Vida foi
observado que os usuários passaram a planejar, organizar, praticar
novos hábitos e reforçar os laços afetivos com seus familiares. Foram
identificados vários pontos positivos como adesão ao tratamento no
CAPS, autoestima, fortalecimento dos vínculos familiares, inclusão
social, mudança do estilo de vida, onde a maioria atingiu os objetivos
propostos e demostraram o interesse em retornar as atividades
colaborativas.
Consideração finais: Observou-se que o Grupo Projeto de Vida colabora
para a mudança de hábito e estilo de vida, estimulando o usuário a criar
novos hábitos saudáveis, novos vínculos e metas, longe do uso de ad
reinserindo o indivíduo na sociedade e no seio familiar.

219
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A importância do vínculo no combate e na prevenção do suicídio


em duas escolas estaduais de Fortaleza:
um relato de experiência de campo

Iana Maria Alves Abreu, Iana Maria Alves Abreu


Sabrina Jéssyca da Mata Uchôa
Universidade Estadual do Ceará

O Núcleo Interdisciplinar de Intervenções e Pesquisa Sobre a Saúde da


Criança e do Adolescente (NUSCA) do Curso de Psicologia da
Universidade Estadual do Ceará, iniciou no final do ano de 2018
intervenções cujo o foco foi o combate e a prevenção do suicídio em 15
escolas estaduais no município de Fortaleza, com duração de seis meses.
Essa intervenção aconteceu pela parceria com a Secretaria de Educação
do Estado do Ceará (SEDUC) devido o número crescente de casos entre
os adolescentes. As demandas eram diversas, logo, antes da realização
da intervenção foi realizado uma reunião com os gestores das 15
escolas, passando assim, ater conhecimento breve da realidade que
esses passam. Vale salientar que o público atendido e as escolas onde
esses estudam são localizadas em bairros periféricos, logo os
adolescentes enfrentam as questões de vulnerabilidade social, sendo
essa uma das demandas apontadas pelos gestores da escola. Além disso,
foi apontado a automutilação, uso de álcool e outras drogas, falta de
esperança, o forte sentimento de solidão, baixa autoestima, ansiedade,
depressão e outros. Os encontros eram semanais, e se faziam presente
como mediadores três alunos de diferentes semestres. Foi ao longo dos
encontros que podemos perceber a importância da construção de
vínculos para a manutenção e permanência do grupo terapêutico. Vale
ressaltar que os encontros eram trabalhados temas relacionados a
demanda apresentadas como citado acima, na forma de dinâmica e logo
após uma roda de conversa, onde eram livres. Os adolescentes ali
presentes eram de diferentes idades e serie, logo, os dois grupos eram
bem misto. Tendo em vista a diversidade dos grupos foi necessário

220
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

reforçar o respeito, já que muitos ali já tiveram ou teve alguma


divergência. O vínculo se tornou importante em diversos aspectos nos
grupos, e foi construído através de um novo olhar daqueles
adolescentes ao acolher a dor do outro, ter empatia pelo o sofrimento
do colega, o forte sentimento de tentar ajudar, de poder amenizar o
sofrimento do outro. Ao longo dos encontros o grupo se abria mais, pois
se sentiam confiança, e assim o vínculo foi se construindo e eles
começaram a se ajudar. Todo esse vínculo foi importante para que o
grupo terapêutico se torna cada vez mais uma potência, foi detectado
novas demandas. Existiam jovens no grupo que não tinham nem um
amigo na escola, nem mesmo fora do ambiente escolar, e ao longo dos
encontros foi se identificando com os presentes e formando novos
laços, os mesmos relatam que a falta de um ombro amigo para
conversar os levavam a tomar outras medidas para amenizar o
sofrimento, como, o uso de álcool e a automutilação. Assim, o vínculo se
tornou uma das maiores potências nos grupos para a prevenção do
suicídio, ter amigos que te escutam, que vão te escutar, poder ajudar a
enfrentar os problemas que os afligem. E o mais importante saber que
eles não estavam sozinhos, que existe um outro capaz de entender o
que estava passando, e está ali com eles confortando.

221
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A influência do Grupo Família na adesão ao tratamento no CAPS ad no


município de Abreu e Lima

Elma de Carvalho Malta Diniz


Eroneide Maria de Moraes
Ariana Elite dos Santos
João Henrique Medeiros Priston
Secretaria de Saúde do Município de Abreu e Lima

Introdução: Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) fazem parte da


Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e são constituídos por equipe
multidisciplinar que prestam serviços de saúde de caráter aberto e
comunitário às pessoas com sofrimento ou transtorno mental, incluindo
aquelas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas,
seja em situações de crise ou nos processos de reabilitação psicossocial.
A família é a base de formação para qualquer indivíduo, é a primeira
sociedade que convivemos, sendo fundamental no tratamento de
dependência química.
Descrição da experiência: Este relato de experiência foi desenvolvido
através de observação e análise das atividades realizadas no Grupo
Família e das evoluções em Livro de Registro num período de 01 ano
(2019), com o objetivo de analisar a influência do Grupo Família na
adesão dos usuários do tratamento. Foi realizado no CAPS ad do
município de Abreu e Lima - PE, onde atende um público específico de
usuários de ambos os sexos, a partir dos 14 anos, que fazem uso abusivo
de álcool e outras drogas. O serviço funciona de segunda à sexta-feira
das 8h às 17h na modalidade dia e atende por demanda espontânea ou
encaminhada de outros serviços. No CAPS ad são oferecidas atividades
individuais e grupos terapêuticos, um destes é o Grupo Família. A
proposta do Grupo Família é acolher o familiar e suas demandas com a
finalidade de reduzir as angústias decorrentes da dependência química
no ambiente doméstico. Os principais objetivos são estimular o vínculo e
o afeto entre os membros da família e o usuário, orientar quanto às

222
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

características da dependência química, conhecer a percepção do


familiar em relação ao usuário, aumentar a adesão e atender demandas
gerais e dúvidas que possam contribuir para o tratamento no serviço e
aumentar a adesão ao tratamento. Este grupo é realizado
semanalmente, com duração de 60 minutos, por 1 psicólogo ou 1
enfermeiro, tendo como público os familiares dos usuários do serviço.
São realizadas estratégias de escuta de demandas espontâneas e
atividades direcionadas.
Repercussões: Observou-se que nos primeiros encontros, os familiares
não tinham conhecimento prévio dos transtornos causados pela
dependência química e expressavam sentimentos de vergonha, culpa e
baixa autoestima. Com o espaço de acolhimento, os participantes
demonstraram mudanças consideráveis, expressando esperança e
fortalecimento dos vínculos familiares, o que colaborou efetivamente
para a adesão ao tratamento.
Considerações finais: A família exerce um papel importante no
tratamento do dependente químico, sendo apoio e sustentação. A
participação da família no grupo Família é fundamental para a
efetivação do tratamento, sendo importante estratégia de cuidado aos
familiares de dependentes químicos, apresentando-se como ferramenta
a ser utilizada na promoção do cuidado prestado, na prevenção,
promoção e recuperação da saúde de indivíduos e grupos sociais. É uma
ferramenta de atenção em saúde colaborando para a assistência
acolhedora e humanizada.

223
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A inseparável relação entre cuidado psicossocial e cidadania: relato de


um encontro necessário

Marcelo Souza Oliveira


Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão
Pernambucano - IF Sertão

Irlis de Sá Teles
Prefeitura Municipal de Itaberaba

Os dispositivos que fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS),


enquanto serviços substitutivos, e inseridos no Sistema Único de Saúde,
devem ser resolutivos e possibilitar um cuidado integral e qualificado.
Nessa perspectiva, os ambulatórios de saúde mental precisam se
adequar às demandas da população atendida, possibilitando a
efetivação de ações coletivas, que favoreça o desenvolvimento da
cidadania, buscando a autonomia do usuário enquanto protagonista do
seu processo de cuidado. O presente trabalho refere-se a um relato de
experiência, abordamos a implantação de um processo terapêutico
grupal, que teve como objetivo maior a criação de um espaço com foco
no desenvolvimento da cidadania e do cuidado psicossocial, tendo como
alvo pessoas em situação de vulnerabilidade social. Essa experiência
ocorreu em município do interior do Estado da Bahia, em um
ambulatório psicossocial. Como princípio metodológico para o
planejamento e desenvolvimento dos grupos utilizou-se a Educação
Popular em Saúde. O público-alvo do grupo foram homens adultos, em
situação de vulnerabilidade social, desemprego, e sofrimento psíquico.
O referido público foi escolhido após a observação da equipe técnica do
serviço da existência de perfis identitários nos atendimentos individuais,
sendo este um dos destaques. Entre as repercussões observadas, cabe
citar: (i) o desenvolvimento de estratégias de cuidado e autocuidado; (ii)
a ressignificação de experiências traumáticas e elaboração de
estratégicas de enfrentamento; (iii) a reflexão e materialização de

224
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

conceitos relacionados às dimensões de cidadania, identidade, raça e


classe social; (iv) melhoria em diferentes aspectos no processo saúde-
doença dos participantes do grupo. Considera-se então que as práticas
de cuidado em saúde mental precisam estar amparadas na
compreensão da cidadania e do acesso a direitos básicos como
condicionantes essenciais do processo de saúde da população atendida.
Espera-se em breve ampliar a ação grupal aqui relatada, com a
participação de outros atores da rede de atenção psicossocial, bem
como a multiplicação de atividades em outros espaços, com atenção
especial aos diferentes territórios do município e suas especificidades.

225
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A inserção do pedagogo na saúde mental: educação terapêutica

Maria de Nazare Pereira Alves

As práticas educativas, junto a clientela em sofrimento psíquico trouxe


inúmeros resultados positivos como: alta melhorada, aprovação em
vestibular e concurso público dos usuários que foi comprovado
cientificamente no desenvolvimento de um trabalho de pesquisa
dissertativa de mestrado com o tema: "A inserção do pedagogo na
saúde, a partir da educação terapêutica lúdica, método pedagógica com
a pedagogia do projeto pautada na interdisciplinaridade, a partir de
referenciais teóricos: freiriano, vygostiano e foucaultiano. Objetivando
resgatar ao autoestima, os laços familiares e a inserção social da pessoa
em sofrimento psíquico, a partir de práticas pedagógicas, terapêuticas,
envolvendo temas centrais como: autoestima, autocuidado, cidadania,
ética, amor, respeito, equilíbrio, enfim, inúmeras questões cruciais a
convivência social consciente de seus direitos e deveres de cidadania. A
educação faz partir do desenvolvimento humano e os instrumentos
terapêuticos como metodologias educativas. A dissertação cujo tema a
inserção do pedagogo e das práticas interdisciplinares no tratamento de
pessoas em sofrimento psíquico: estudo de caso no Centro de Atenção
Psicossocial (CAPS) II CREMAÇAO / III GRÃO - PARÁ, a partir da inclusão
do pedagogo na equipe de multiprofissionais. Sabe-se que o profissional
da educação até pouco tempo só atuava no contexto escolar ou em
instituições de Secretarias de Educação, o organizações filantrópicas de
caráter sociais ou educativos, nunca no âmbito da saúde, menos ainda
na saúde mental, que só a partir de implementação de políticas públicas
em consonância com a Constituição Federal (CF) de 1988, Leis e
Decretos que regem tanto a educação como a saúde, mas
especificamente a saúde mental democratizam novas práticas de educar
e cuidar trabalhando o sujeito como um todo institucionaliza práticas de
várias saberes e conhecimentos possibilitando práticas interdisciplinares
e novas experiências, é que este profissional pode compõe esta equipe

226
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

de multiprofissionais. A educação é um processo de construção humana


e formação de sujeitos está imbricada na produção de conhecimentos
científicos, tecnológicos, sociais e culturais, ou seja, a educação imbrica
na saúde e na saúde mental e em todas as esferas que envolve a
complexidade humana. Socializar no relato de experiência para outros
profissionais da mesma área, ou de outras áreas afins, contribuindo com
a troca de experiência na área da saúde mental.

227
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A interface entre a Síndrome de Ulisses e a perturbação de


ajustamento com reação depressiva em imigrantes brasileiros na
Flórida, EUA.

Samara Almeida de Freitas


Universidade de Taubaté - UNITAU

O objetivo do trabalho foi verificar por meio de instrumento de


avaliação de qualidade de vida proposto pela Organização Mundial da
Saúde a ocorrência da Síndrome de Ulisses ou Síndrome do Imigrante
com Estresse Crônico e Múltiplo em imigrantes brasileiros residentes na
Flórida, EUA.
A metodologia seguiu o esquema de entrevista pessoal a 20 imigrantes
brasileiros residentes no estado da Flórida, Estados Unidos, que
responderam as 26 questões que constam no instrumento de avaliação
de qualidade de vida da Organização Mundial da Saúde (WHOQOL-100).
Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE). As respostas das 26 questões foram tabuladas e para
cada uma foram obtidas as seguintes medidas de posição: média
aritmética, moda e mediana.
A maioria das respostas em todas as 26 questões demonstram que os
entrevistados estão satisfeitos com a saúde, com o atendimento na área
da saúde e com o seu desempenho no trabalho. No entanto, 60%
afirmam que possuem sensações negativas advindas do processo de
migração. Com relação à sua qualidade de vida, 85% responderam que é
considerada boa. Os resultados demonstram que os imigrantes
entrevistados não apresentam estresse emocional relacionado às
dificuldades advindas do processo de adaptação ao novo, mas é
importante destacar que a Síndrome de Ulisses apresenta estado
depressivo leve e transitório com duração que não excede a 1 mês
decorrentes do período de adaptação a uma mudança existencial
importante e varia de acordo com a capacidade adaptativa. Quanto mais
adaptado a pessoa torna-se as mudanças, melhor sua qualidade de vida

228
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

e há uma melhora significativa do seu humor. Vale salientar também a


importância da resiliência desses imigrantes advinda também da rede de
apoio que eles encontraram na comunidade brasileira no exterior, e não
o apoio por profissionais de saúde mental brasileiros.
A atenção ao imigrante brasileiro por parte do seu país de origem é de
fundamental importância, uma vez que esse imigrante é exposto a um
grande impacto cultural, linguístico e econômico. Esses impactos podem
desencadear abalos emocionais muito grandes que, se não tratados e
abordados por profissionais que deem suporte, amparo e acolhimento
pode trazer abalos na saúde mental do imigrante brasileiro. Por fim,
conclui-se que muitos imigrantes são resilientes aos impactos advindos
da migração, mas há uma necessidade muito grande de profissionais de
saúde mental preparados para dar suporte a esses cidadãos que
padecem por descaso e abandono em outro país.

229
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A intersetorialidade entre o Centro de Atenção Psicossocial Jorge Luis


Camargo – CAPS I e a secretaria de esportes

Maria José da Silva


Vanicléia do Carmo
Maria José da Silva
Centro de Atenção Psicossocial Jorge Luis Camargo - CAPS I

Os Centros de Atenção Psicossocial - CAPS constituem os principais


pontos de atenção da Rede de Atenção Psicossocial – RAPS e são uma
estratégia da reforma psiquiátrica brasileira, iniciada na segunda metade
da década de 70, que propõe a substituição do cuidado
hospitalocêntrico para o tratamento em liberdade. Neste sentido, a
reabilitação psicossocial tem seu setting na comunidade e no meio
familiar. A experiência a ser relatada é composta pelo “Grupo de
Caminhada Terapêutica” e “Grupo de Futebol” que ocorreram entre
2015 e meados de 2019 no CAPS Mairiporã em intersetorialidade com a
Secretaria Municipal de Saúde e a Secretaria Municipal de Esportes,
Cultura e Lazer. A faixa etária dos participantes era de 18 a 60 anos de
idade, com diagnósticos distintos. A terapeuta ocupacional
acompanhava o “Grupo de Futebol” e a psicóloga o “Grupo de
Caminhada”, em conjunto com um outro técnico ou estagiário e um
educador físico, este responsável pelo alongamento e treino de futebol.
A frequência das atividades era semanal, com duração de duas horas e
participavam de 10 a 15 usuários. Atualmente os profissionais de
enfermagem assumiram os dois grupos. No “Grupo de Futebol”
destacaram-se o protagonismo dos participantes, mudança de lugar de
pessoa com sofrimento psíquico para lugar de jogador, habilidade em
lidar com conflitos e frustrações, melhora das funções cognitivas,
compreensão de regras, influência positiva na autoestima, envolvimento
na organização dos torneios de futebol, e em banco reserva, incentivo a
acompanhar o jogo visando aprendizagem e treino. O “Grupo de
Caminhada” era uma atividade aberta à comunidade e contava com a

230
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

participação de familiares. A caminhada é uma modalidade de atividade


física com poucas restrições, aumenta a disposição e a sensação de bem
estar percebido no retorno ao serviço, propiciando a interação verbal
entre usuário e profissional durante o percurso facilitando a expressão
de conteúdo que talvez não seria exposto em outro tipo de
atendimento. Ambas as atividades, por serem realizadas no território
favoreceram a apropriação do espaço, maior interação interpessoal,
adesão ao tratamento e comprometimento, sentimentos de
“pertinência” e “pertencência”, organização da rotina e de atividades de
vida diária, redução de danos voltada ao tabaco, autonomia e
independência, prática corporal, envolvimento da família
(principalmente nos torneios), promoção de saúde, diminuição do
estigma, fortalecimento do protagonismo e a prática da micropolítica
nas ações de cuidado no território. Estas atividades físicas foram
positivas tanto nos aspectos supracitados quanto em relação a
intersetorialidade com a Secretaria de Esportes. Tendo em vista que a
saúde mental deve ser construída a partir do território e com a
participação de outros agentes que oportunizem este cuidado, a
aproximação dos profissionais das duas secretarias foi positiva e pôde
trazer inserção dos usuários em outros espaços comunitários. Os
torneios de futebol externos promoviam a representatividade do
município pelos usuários. Existem poucos relatos na literatura de
experiências relacionados ao tema da intersetorialidade entre saúde
mental e o esporte, porém sendo a prática de atividade física uma
importante ferramenta de cuidado em saúde, esta não pode estar
ausente nas atividades de reabilitação psicossocial.

231
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A ludicidade como estratégia de saúde mental de professores e alunos

Kelly Lene Lopes Calderaro Euclides


Prefeitura

Francilene Sodré da Silva


SEMED BENEVIDES PA

Naiza Nayla Bandeira De Sá


Universidade Federal do Pará

Introdução: A ludicidade é elemento fundante na constituição do Eu, e a


experimentação lúdica, quando direciona a determinados objetivos, e se
constitui em um dos aspectos mais importantes, não só no
desenvolvimento da criança como também no progresso da ciência. O
objetivo foi proporcionar uma vivência lúdica aos professores e alunos
da Educação Infantil da Rede Municipal de Educação de Benevides, Pará,
Brasil com apreciação de espetáculo circense foi a proposta da
Secretaria de Educação de Benevides. Descrição da experiência: A
atividade foi realizada em dezembro de 2019, na cidade de Benevides,
Pará, especificamente, com professores e alunos da Educação Infantil.
Professores, professoras, alunas e alunos foram ao espetáculo de circo,
para desenvolver de forma lúdica o processo de aprendizagem, assim
como, cuidar de forma salutar da saúde mental de ambos os participes
desse processo. O projeto foi voltado para favorecer o enfoque que o
trabalho, em educação, não seja só uma prática técnica, com
conhecimentos estruturados, mas como prática de relações, um
trabalho que vai se construindo num processo dinâmico, de interação
entre pessoas e as condições do meio em que se inserem, configurando
uma realidade cheia de dores e sofrimentos, alegrias, sonhos e desejos,
encontros e desencontros, instituições, tecnologias, saberes e crenças.
Resultados: Foi um momento que ficou eternizado para professoras,
professores, alunos e alunas. Renovou o caminhar do processo

232
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

educativo da Rede, assim como trouxe depoimento de professores que


relataram ser fundamental a ludicidade na vida da escola, do docente e
discentes. Trata-se de tornar salutar a saúde mental deste público.
Considerações finais: Atualmente, 95% dos professores possuem
distúrbios neurológicos, alterações de saúde física e mental. Acredita-se
que a promoção da saúde do professor necessita acontecer na própria
escola, entre seus pares, e passa necessariamente por novos modelos de
organização, sendo uma estratégia coletiva de cuidado em saúde
mental. É uma questão que não pode ser analisada apenas no nível da
individualidade a qual, não exime a responsabilidade das políticas
públicas em viabilizar tal atividade.

233
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A mandala de saberes e a sexualidade da mulher idosa

Jose Manoel Angelo


Centro de Atenção Psicossocial AD

Maria Socorro Alécio Barbosa


Universidade Federal de Alagoas - UFAL

Kelly Cristina do Nascimento


Wallacy Araújo
Eliane Maria Ribeiro de Vasconcelos
Universidade Federal de Pernambuco - UFPE

Introdução: O envelhecimento populacional é um fenômeno observado


mundialmente, refletindo em alguns indicadores de saúde como o da
fecundidade e da mortalidade.
Descrição de experiência: Trata-se de um relato de experiência em
forma de roda de conversa, com 24 mulheres idosas, entre 60 a 80 anos,
de uma associação de melhor idade em Maceió. A Mandala dos Saberes
trabalha os oito pilares: ancestral, presente, intuitivo, espiritual, cultural,
histórico, humano e popular.
Repercussão: Os ligantes da liga acadêmica de saúde da mulher e de
gerontologia da UNINASSAU, após apresentação ao grupo das idosas,
organizaram o ambiente em forma de círculo, colocando a mandala dos
saberes (tecido) no chão, ao centro da roda usando os 8 pilares:
ancestral, presente, intuitivo, espiritual, cultural, histórico, humano e
popular. No meio da mandala foram dispostos objetos e imagens
retiradas da internet sobre sexualidade: idosos abraçados, caminhando
juntos, beijando na boca, de roupa íntima, dançando, dançando sozinha,
passando hidratante na perna, com a família, rezando e estudando.
Depois de explicado ao grupo a funcionalidade, cada mulher poderia ir
levantando a mão e falar sobre cada pilar discutido por vez. Cada mulher
expôs suas dificuldades, alegrias, em momentos onde algumas

234
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

demonstraram suas emoções com diversos sinais significativos e


expressivos próprios de um ser humano que ama, que chora, que sofre a
procura de ser feliz, desde risadas, gargalhadas, outras um pouco
tristonhas e saudosas pela perda de seus companheiros como óbito,
divórcios. Como o grupo nunca havia trabalhado por meio de mandala
de saberes, relataram sentirem-se livres e com voz para expressarem
sua sexualidade por meio desta ferramenta educativa.
Considerações Finais: A Mandala dos Saberes no grupo, dar vez e voz as
idosas sobre a sexualidade, considerando seus princípios voltados a
Educação Popular em Saúde. Relataram seus medos, tabus, crenças e
cultura. O tabu da sexualidade parece descender de raízes mais
profundas como as crenças e os mitos, que exerceram significativa
influência em suas práticas sexuais, vivendo uma sexualidade baseada
em convicções errôneas, ideias falsas, prevalecendo o machismo dos
companheiros desencadeando consequências irreversíveis, como a
gravidez precoce favorecendo o risco para contrair DST.

235
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Ocupação "IBGE"/Mangueira e os desafios do cuidado territorial em


Saúde Mental

Brenda Sabaine Rodrigues


CAPS UERJ

Durante mais de dez anos, um prédio desativado do IBGE, no bairro da


Mangueira - RJ, foi ocupado espontaneamente por centenas de famílias
em condições de vulnerabilidade social e econômica que buscavam
moradia. Convivendo com toda a complexidade apresentada pelos
problemas estruturais apresentados pelo prédio, ao longo deste período
desenvolveram-se sistemas coletivos de funcionamento e importantes
laços entre as pessoas que ali conviviam. Em 2018, dando certa
continuidade às políticas massivas de desocupação efetuadas pelo ex-
prefeito Eduardo Paes na época dos grandes eventos esportivos, o
prefeito Marcelo Crivella visitou o prédio e anunciou a reintegração de
posse a ser efetuada pela Prefeitura, com posterior construção de um
conjunto habitacional Minha Casa Minha Vida no mesmo local, onde as
famílias seriam reassentadas após 1 ano, recebendo aluguel social
durante este período. A construção foi implodida em Maio do mesmo
ano e as famílias retiradas do local através de ação policial, porém até
hoje ainda não há nem mesmo previsão para o início das obras do
conjunto habitacional. Os serviços de saúde do território avaliam grande
impacto subjetivo provocado pelo processo de desterritorialização em
curso. A partir de minha inserção no CAPS UERJ enquanto residente em
Saúde Mental deparo-me com o caso de um jovem que vive seus efeitos
e busca a reconstrução de sua própria história.
A experiência da (des)ocupação da Mangueira aponta para a
imprescindibilidade de um planejamento do cuidado em Saúde Mental
que abarque as singularidades do território onde será implementada; a
necessária transversalidade entre atuação em serviços de saúde mental
e luta pela garantia de direitos humanos fundamentais, como políticas
de habitação democráticas e não higienizantes; além da importância de

236
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

estratégias de promoção de Saúde que visem a afirmação de territórios


subjetivos que sofrem constantes tentativas de apagamento (neste
caso, inclusive a partir de uma demolição concreta) pelas políticas de
Estado.

237
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Pós-Graduação e os impactos à saúde mental em tempos de


pandemia: um relato de experiência

Luã Lincoln Menezes de Figueiredo


Rachel Coelho Ripardo Teixeira
Universidade Federal do Pará - UFPA

O adoecimento emocional ao longo da Pós-Graduação tem sido uma


realidade em diversos contextos e instituições. Fatores como
competitividade, excesso de exigências pessoais e/ ou do orientador,
dificuldade no manejo de tempo e tarefas e, ainda, ausência de cuidado
da saúde emocional, podem contribuir para que ocorram prejuízos à
saúde. O presente relato de experiência constrói-se com base na
atenção à saúde emocional dos acadêmicos da Pós-Graduação da
Universidade Federal do Pará (UFPA). O projeto de extensão intitulado
“Pós-Graduação: um ambiente saudável possível?”, conhecido como
Projeto Acolher, está em ação há dois anos e é vinculado ao Núcleo de
Teoria e Pesquisa do Comportamento (NTPC), localizado na UFPA. As
atividades do projeto consistem a) na realização Rodas de Conversa para
Pós-Graduandos; b) na participação em mesas redondas e demais
espaços; c) na organização de eventos e oficinas; d) na escuta clínica
individualizada quando solicitada; e e) na produção de conteúdo para
redes sociais, que abordam questões referentes à Saúde Emocional e
temáticas transversais à vivência acadêmica. O objetivo do projeto é a
criação de espaços seguros de escuta e acolhimento, compartilhamento
de vivências entre pares, e empoderamento de seus participantes,
assegurando sigilo e estando disponível para as demandas que surgem.
Aliado a isso, o projeto propõe-se a contribuir com o desenvolvimento
de habilidades necessárias para a solução de conflitos e melhor
aproveitamento do ambiente da Pós-Graduação. Ressalta-se que, em
função do cenário de pandemia da Covid-19, vivenciado no ano vigente,
foi preciso suspender as atividades presenciais enquanto durarem as
restrições sanitárias e recomendações dos órgãos de saúde a fim de não

238
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

promover risco à integridade das pessoas. Com o intuito de dar


continuidade às ações, o projeto tem desenvolvido atividades que sejam
viáveis a serem realizadas em meios virtuais. Desse modo, a exemplo, as
Rodas de Conversa passaram a ocorrer virtualmente e, destaca-se,
ainda, a notória receptividade das ações por meio das interações nos
perfis e feedback positivo dos participantes dos encontros. Por fim, com
o caminho trilhado até o presente momento e a validação pelo público-
alvo alcançado, o projeto defende a criação e manutenção de espaços
de acolhimento e socialização entre pares voltados à Pós-Graduação.

239
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A prática da palhaçoterapia como ferramenta no processo de


humanização profissional: um relato de experiência sobre o impacto
do Projeto Riso na formação em cursos da área da saúde

Rebeca Paiva Bezerra


Universidade Federal do Ceará - UFC

A prática da palhaçoterapia consiste numa intervenção artística em


meio hospitalar que assume como principal objetivo amenizar os
impactos causados pelo processo do tratamento das enfermidades,
além de firmar a proposta de uma atuação que funcione como um meio
auxiliar nos cuidados com o paciente em estado de hospitalização. É
através desta perspectiva que o Projeto Riso, atividade de extensão
vinculada aos cursos de Medicina, Odontologia e Psicologia da
Universidade Federal do Ceará, campus Sobral, se compromete na
execução de um trabalho voltado para a atenuação dos efeitos da
internação médica. O projeto atualmente efetiva suas ações nos
principais hospitais da cidade de Sobral, promovendo uma série de
atividades lúdicas que facilitam uma relação entre o enfermo e o doutor
palhaço, permitindo, dessa maneira, a experiência de um vínculo único
com o paciente. O Projeto Riso atualmente conta com a participação
ativa de 22 membros que baseiam seus futuros profissionais no
processo de humanização que a extensão proporciona através da arte,
onde estes passam por uma série de treinamentos antes de atuarem
diretamente nas instituições hospitalares, simplificando, desse modo, a
vinculação de trocas de afeto e preparando os estudantes para lidarem
com situações difíceis que possam surgir no ambiente hospitalar. Tendo
isto como base, é viável compreender que o processo de humanização
profissional pode ser percebido como um aspecto que se consolida de
modo mais eficaz quando trabalhado desde o período da graduação, e é
neste ponto que o projeto investe nas práticas e vivências humanizadas
aos estudantes, permitindo tanto o contato interprofissional dos cursos
da área da saúde da instituição, como trabalhando na promoção de um

240
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

vínculo precoce entre o futuro profissional e o paciente de um modo


alternativo, onde o doutor palhaço consolida uma ligação com a pessoa
enferma valorizando sua autonomia, com foco no humano que ela
representa e não na enfermidade que a acomete.

241
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Resignificação do ser e do fazer do Enfermeiro como gestor do


cuidado: Rede de Atenção Psicossocial

Graziela Rosa Da Silva


Magali Eliane Basseti do Amaral

Introdução: As políticas de saúde mental direcionam para um novo


modelo de assistência com o portador de doença mental e com o
transtorno mental. Surgem os novos dispositivos de atenção em saúde
mental, formação de redes de serviços territorializadas e redes de apoio,
tendo como ponto central os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Para a enfermagem, esse cenário se torna mais abrangente e
diferenciado do modelo asilar, assistencial, visto que no CAPS o
enfermeiro obrigatoriamente deve compor a equipe mínima e precisa
pensar a prevenção como medidas de cuidados. Nesse novo panorama,
entra em cena o modo de atenção psicossocial, que defende ações
teórico-práticas, político-ideológicas e éticas que orientam a
substituição do modelo asilar e do paradigma psiquiátrico. No modelo
de atenção psicossocial a enfermagem trabalha em equipe
multiprofissional, onde o indivíduo é visto como uma pessoa em
sofrimento psíquico, e que precisa ter um tratamento que vise a
participação social. Ou seja, atualmente o enfoque não está centrado na
doença, mas no sofrimento da pessoa e na convivência com o social.
Tais mudanças no cuidado em saúde mental pressupõe que o trabalho
da enfermagem carece considerar a conjuntura social do sujeito, com
vistas à reinserção social. (CAMATTA; SCHNEIDER, 2009).
Objetivo: Ressignificar o ser e o fazer do enfermeiro na saúde mental e
proporcionar a
reflexão da gestão do cuidado no cotidiano do profissional de
enfermagem.
Método: A partir de relatos das experiências de duas enfermeiras
vinculadas a um programa de residência multiprofissional em Saúde
Mental. Inseridas no cenário da gestão do cuidado em saúde mental, a

242
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Rede de Atenção Psicossocial, (RAPS). Versando assim, sobre o papel


que o enfermeiro desempenha na assistência e no cuidado direto para
com os sujeitos que possuem transtornos psiquiátricos (psicoses e
neuroses) e/ou dependentes químicos. Relacionando a enfermagem e o
perfil profissional da gestão do cuidado constituído pelas Diretrizes
Curriculares Nacionais (DCNs), as competências, as habilidades e os
conhecimentos para atuar no SUS.
Conclusão: Conclui-se que ao correlacionar o vivenciado nos campos
pelas residentes, em suas ações de gestão do cuidado, as competências
gerenciais da enfermagem (atenção à saúde, tomada de decisão,
liderança, educação permanente, comunicação, administração e
gerenciamento) observou-se que são parcialmente aplicadas no ser e no
fazer diário. E é importante que o enfermeiro usufrua das suas
competências e seja conhecedor das políticas públicas, para que tenha
consciência e trabalhe em equipe, de maneira a fomentar e assegurar
uma gestão humanizada do cuidado e integral do usuário. Por fim, é
importante ressaltar que essa atitude seja revista e aplicada em todas as
RAPS, potencializando e aprimorando assim o modo de cuidar em saúde
mental e enfermagem. Que seja realizado mais estudos a respeito do ser
e do fazer da enfermagem na gestão do cuidado.
Palavras-Chave: Saúde, Gestão, Enfermagem, Cuidado.

243
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Sala de Espera como ferramenta de Educação em Saúde no Centro


de Atenção Psicossocial Infantil

Luzianne Feijó Alexandre Paiva Guimarães


Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional – Ceará

Antonia Kaliny Oliveira de Araújo


Ana Paula Brandão Souto
Centro de Atenção Psicossocial Infantil Maria Ileuda Verçosa

INTRODUÇÃO: O presente Relato de Experiência traz a utilização da sala


de espera como uma das possibilidades de tornar acessível às
informações necessárias ao desenvolvimento da corresponsabilidade no
cuidado à saúde dentre outras funções observadas ao longo da
execução da proposta. Necessidade esta surgida diante da grande
demanda a ser atendida por nosso serviço e da infindável lista de espera
somada a infraestrutura que apesar de adequada, arejada possui limite
físico de salas para atendimentos individuais e grupais; e na busca de
potencializar nossa assistência na otimização e qualificação do tempo de
espera da clientela e seus familiares. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: A
utilização da sala de espera tem se dado cotidianamente de forma a
abranger nosso público-alvo, crianças e adolescentes de 4 a 17 anos
bem como, atenção aos familiares, cuidadores e responsáveis pelos
mesmos. Tendo como objetivos a serem alcançados, próprios a cada
grupo: Familiares e Cuidadores – por meio da disseminação de
informações e treinamento de habilidades necessárias ao progresso das
condutas terapêuticas de forma acessível, lúdica e envolvente. Crianças -
com intuito de propiciar um momento de estímulo ao adequado
desenvolvimento neuropsicomotor. Utilizando-se de atividades lúdicas,
expressivas, artísticas e culturais; circuitos psicomotores, brincadeiras
estruturadas, contação de histórias, entre outras. Pré-adolescentes e
Adolescentes - com objetivo de proporcionar um espaço para a
expressão dos sentimentos, retiradas de dúvidas, que promova a

244
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

interação com ouros adolescentes que perpassam por problemas


semelhantes realizadas por meio de atividades lúdicas, expressivas,
artísticas e culturais de forma a disseminar informações necessárias ao
progresso das condutas terapêuticas de forma acessível, lúdica e
envolvente. REPERCUSSÕES: A utilização da sala de espera vem
proporcionando além do desenvolvimento da corresponsabilidade no
cuidado à saúde, identifica-se uma versatilidade de objetivos dessa
ferramenta, como: busca ativa, suporte ao tratamento e atenção
disponibilizados no serviço, bem como, é perceptível também que em
serviços que a ofertam provoca nos usuários/pacientes um ambiente
humanizado, harmônico e mais produtivo, evitando possíveis conflitos,
reivindicações em proporções desmedidas. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A
educação em saúde realizada na sala de espera do Centro de Atenção
Psicossocial Infantil Maria Ileuda Verçosa, tem sido muito produtiva,
pois desenvolve ações planejadas e estruturadas de forma a subsidiar
informações necessárias aos cuidados em saúde e educação, para pais e
familiares, proporcionando espaços saudáveis para a expressão dos
sentimentos e estímulos adequados ao desenvolvimento
neuropsicomotor, emocional e relacional das crianças e adolescentes. A
apropriação da ferramenta pelos profissionais torna possível a
concretização da educação em saúde além dos demais fins identificados
a partir da incorporação como prática cotidiana tomando como base as
metodologias ativas, sedimentando os princípios do Sistema Único de
Saúde.
PALAVRAS - CHAVE: Saúde Mental, Educação em saúde, Práticas
Interdisciplinares.

245
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A Universidade como resistência antimanicomial: a experiência do


PET-Saúde interprofissionalidade no campo da saúde mental

Willian Tito Maia Santos


Helena Cortez
Karoline Oliveira Souza
Luana Maria Gabriel Barreto
Aline Santos Carqueija
Phaloma Rodrigues Araújo
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB

Introdução: A universidade é uma instituição potencializadora de


propostas emancipadoras que tem como papel formar discentes críticos
e empoderados. Assim, com seu arsenal metodológico diferenciado
(conhecimento-emancipação) torna-se via de diálogo com a
comunidade, permitindo troca de saberes que refletem sobre as práticas
e suas experiências. O Programa de Educação pelo Trabalho para a
Saúde (PET-Saúde)/Interprofissionalidade, um dos programas da
universidade, desencadeia a inserção de discentes nos serviços do
Sistema Único de Saúde, tendo o Grupo de Aprendizagem Tutorial (GAT)
em saúde mental a iniciação deles nos serviços psicossociais
contribuindo com a luta e resistência antimanicomial. Descrição da
experiência: As vivências ocorrem desde 2019 no Centro de Atenção
Psicossocial II (CAPS II), no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e
Drogas (CAPS-ad) e em uma Unidade de Saúde da Família (USF) em um
município do Recôncavo da Bahia, onde os discentes acompanham a
dinâmica do serviço com a supervisão de um profissional do serviço
(preceptor), tornando-se protagonista de uma nova forma de cuidado
em saúde mental juntamente com os usuários, familiares e
trabalhadores, além de causar questionamentos da realidade social e
também tensionando mobilizações. Repercussões: Por estarem
inseridos nos serviços de saúde mental, os discentes trocam
conhecimentos com os profissionais de saúde, (re)descobrindo juntos a

246
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

história do movimento da luta antimanicomial, conhecendo os atores e


protagonistas deste processo em curso, desencadeando um
empoderamento sobre a luta. Além disso, permite a formação de
profissionais em saúde comprometidos com a antimanicomialidade,
mesmo não tendo passado pelo processo histórico de luta política e
ideológica envolvida no movimento. Considerações finais: A experiência
relatada constitui-se como um espaço de integração entre estudantes,
tutores e profissionais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) para
pensar estratégias no que tange ao fortalecimento da luta
antimanicomial, o que evidencia o papel social atribuído à Universidade.
Ademais, tensiona nos estudantes um foco na perspectiva da promoção
do cuidado integral aos usuários, principalmente com o viés da
Interprofissionalidade, uma vez que esta é o objetivo principal desta
edição do PET-Saúde. Logo, esta experiência tem proporcionado
mobilizações, tanto no processo formativo de futuros profissionais da
RAPS, quanto da Rede Municipal, para o enfrentamento de práticas
manicomiais e para a busca de estabelecer cuidados pautados na
Interprofissionalidade.

247
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A urgência subjetiva da mulher na pandemia e o plantão psicológico


como dispositivo de acolhimento: um relato de experiência.

Patricia Mascarenhas Passos


Tainara Ferreira Inocêncio
Walter Lisboa Oliveira
Universidade Federal de Sergipe - UFS

Rosana dos Santos Silva


Rafael Sousa de Brito
Universidade Federal da Bahia - UFBA

A pandemia da COVID-19 provocou repercussões sanitárias,


socioeconômicas e na saúde mental da população. A necessidade aguda
de reorganização social, decorrente da adoção do distanciamento social
como medida mais efetiva de contenção do vírus, impôs novos modos
de vida, de relacionamento e de trabalho. Apesar da possibilidade de
infecção pelo vírus não ser delimitada por critérios de raça, gênero ou
classe social, essas variáveis não deixaram de estar presentes no modo
como a pandemia afetou os mais vulneráveis. As mulheres, diante de
seus diversos papéis sociais, precisaram retornar ao lar, adaptar-se ao
trabalho remoto e voltar-se mais intensamente aos cuidados dos filhos,
sem o suporte fundamental de escolas e creches. Nas classes de maior
vulnerabilidade socioeconômica, o público feminino, que em sua
maioria exerce o trabalho informal, teve que lidar com a ausência de
recursos econômicos e a dificuldade de executar as medidas preventivas
diante das condições precárias de moradia, sanitárias e de alimentação.
Diante disso, este relato utilizou-se do recorte de gênero para desvelar
as repercussões psíquicas do contexto pandêmico na vida de mulheres a
partir do atendimento em um serviço público de plantão psicológico em
uma capital nordestina. O plantão psicológico surgiu enquanto um
dispositivo temporário de acolhimento às demandas de saúde mental
provenientes da pandemia ou intensificadas por esse contexto.

248
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Funcionando na modalidade remota, o serviço tem como objetivo


atender o sujeito no momento mais próximo de sua urgência subjetiva,
ofertando os encaminhamentos necessários a partir da demanda
apresentada. Durante a experiência, foi possível observar que o serviço
foi acessado predominantemente por mulheres, na faixa etária de 18 a
65 anos, que buscaram acolhimento diante de suas demandas de
sofrimento psíquico. O real da pandemia destituiu esses sujeitos de
lugares que antes os constituíam e os recursos discursivos se
desestabilizaram. Essas mulheres se apresentavam imersas em angústia,
endereçando à psicóloga do plantão aquilo que era da ordem do
insuportável, em uma temporalidade que demandava pressa em
encontrar respostas. A escuta ofertada proporcionou a escansão desse
tempo, com questionamentos que buscaram favorecer a localização da
questão que promoveu as rupturas de discurso para o sujeito. Foram
convidadas a falar sobre seus sintomas, a localização temporal de seu
aparecimento e o que estes poderiam comunicar. A escuta evidenciou
que para essas mulheres suas questões se circunscreviam em sua
relação com o Outro, descortinada pelo contexto da pandemia. Vieram à
tona incertezas e o desamparo no que tange ao seu lugar no desejo do
outro, bem como as diversas violências que atravessavam, produzindo
uma posição de assujeitamento e de fragilização do autocuidado. Algo
que apareceu com frequência nas narrativas destas mulheres foi o
rompimento de alguns laços sociais que as sustentavam na direção dos
seus desejos e da construção da autonomia: a universidade, o ambiente
de trabalho fora do lar e suas produções laborais. O plantão apresentou-
se enquanto um recurso importante para o cuidado em saúde mental de
mulheres, através da construção de novos discursos e busca de saídas
para o ser mulher contemporâneo em uma pandemia.

249
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

A utilização terapêutica da música como ferramenta em processos


cognitivos e estímulo de memórias socioafetivas: Relato de experiência

Rayssa da Silva Sousa


Universidade do Estado do Pará - UEPA

Matheus Ribeiro de Medeiros


Lucas Carrera Ramos
Camile Carvalho de Castro
Universidade da Amazonia – UNAMA

A utilização terapêutica da música exerce significativa influência sobre o


indivíduo, de maneira ampla e diversificada. No desenvolvimento
humano, a música é parte intrínseca da constituição, estimulando o
afeto, a socialização e o movimento corporal como expressões de
processos saudáveis de vida. Favorece o desenvolvimento criativo,
emocional e afetivo e, fisicamente, ativa sentidos e processos
fisiológicos como o tato e a audição, a respiração, a circulação e os
reflexos. Também colabora na ampliação do conhecimento e
abordagens interdisciplinares, propiciando relaxamento, prazer no
convívio social e o diálogo entre os indivíduos (BRASIL, 2017)
Perceber a música é um complexo processo cognitivo, que envolve
vários estímulos neuronais. As funções da linguagem e da música são
controladas por distintas regiões cerebrais, caracterizando o estímulo
musical como um caminho alternativo para os indivíduos que possuem
um défice nos canais normais de comunicação. Ao intervir na memória,
a música desempenha um importante papel terapêutico, auxiliando
também nas ligações familiares e círculos de amizade (FIGUEIREDO,
2019).
Sabe-se que a música pode estimular diferentes fatores cognitivos
afetados por transtornos psiquiátricos e demências, especialmente a
memória, além de minimizar os danos e a progressão dos quadros.
Sendo a música uma expressão artística, cultural e social, além de

250
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

estimular determinadas áreas do cérebro como emoção, linguagem,


movimento e memória referindo-se a este estímulo como o principal
método de prevenção do desenvolvimento da doença (Rosa et al.,
2019).
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: A abordagem foi realizada por acadêmicos
e residentes de terapia ocupacional e enfermagem, em um hospital
geral na clínica psiquiátrica/Belém-PA no período de julho a setembro,
às sextas-feiras, turno vespertino, com pacientes conscientes e
orientados autopsiquicamente e alopsiquicamente, entre 20 a 60 anos.
Utilizando o violão, no ambiente externo. Teve como objetivo propiciar
relaxamento e integração do conteúdo lúdico ao raciocínio lógico
vivenciado na trajetória de vida. Formava-se um grupo com os
pacientes, que tiravam palavras da “caixa misteriosa” (amor, paz,
felicidade, etc.), incentivando-os a lembrar de uma música que
remetesse a esta palavra.
REPERCUSSÕES: Durante o desenvolvimento da atividade, foi observado
que pacientes com curso do pensamento desorganizado e função
psíquica memória afetados, passavam a apresentar uma linha de
raciocínio mais estável, com organização do pensamento através do
estímulo da memória para recorda a letra e a melodia das canções.
Também foi possível identificar a sensibilidade dos pacientes que,
através da percepção da música puderam trazer à tona memórias
socioafetivas de experiências marcantes em suas vidas, além de
expressivas e positivas modificações nas expressões verbais e não
verbais e interação com o meio e demais integrantes do grupo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Consideramos que a utilização terapêutica da
música proporcionou respostas expressivas nas funções cognitivas e no
estímulo da memória de pacientes que apresentavam alterações
psíquicas ou dificuldades advindas do processo de adoecimento metal.
Além de benefícios nas relações interpessoais propiciadas pela
descontração da atividade musical e interatividade do grupo.

251
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Abolicionismo penal e reforma psiquiátrica: olhares e desafios a partir


da masmorra do século XXI

Maynar Patricia Vorga Leite


Secretaria da Administração Penitenciária

Uma ala de internação psiquiátrica cercada, com o piso abaixo do nível


do solo, janelas pequenas, gradeadas, muito acima da altura da cabeça,
sem vidros; celas com portas de metal, fechadas com cadeado; portas
com visor gradeado, também fechado com cadeado; algemas para ir até
a sala de atendimento; camas de concreto, colchão sem lençol. Essa é
uma unidade num HCTP destinada a receber pessoas em crise
psiquiátrica ou em perícia para verificação de responsabilidade penal.
Quais seriam papéis/lugares possíveis para uma psicologia
antimanicomial e abolicionista nesse lugar? Entre 2013 e 2015 realizei
um levantamento/intervenção para identificar estabelecimentos que
mais encaminhavam pessoas a esse lugar, relações e dificuldades de
cada estabelecimento prisional e de cada região com o SUS, diferentes
compreensões sobre saúde mental e sobre aprisionamento. As
intervenções visaram propiciar condições de fluxo para atendimento e
oportunidades de matriciamento pela RAPS local para os profissionais
de saúde nos estabelecimentos prisionais, inclusão desses profissionais
nos cursos ofertados pelo SUS, e visibilização das estratégias locais de
redução de danos e de atendimento libertário. Também organizei um
protocolo de (não) encaminhamento contendo perguntas sobre
tentativas de atendimento local, o qual acabou subsidiando uma
interdição parcial dessa ala por parte da VEPMA. Atualmente realizo
atendimento psicológico emergencial às pessoas em crise que, após
todas essas intervenções, ainda são encaminhadas a essa ala, incluindo
busca ativa e acolhimento aos familiares e discussão de caso com outros
profissionais (incluindo agentes penitenciários). Às pessoas
encaminhadas para perícia ofereço atendimento pontual de acordo com
as suas necessidades do momento. A existência aparentemente

252
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

anacrônica dessa masmorra no século XXI pode ser explicada a partir


das lógicas manicomiais e punitivistas, servindo como analisador das
relações entre o abolicionismo penal e a reforma psiquiátrica. Com
frequência percebe-se que militantes antimanicomiais preservam
perspectivas punitivistas em relação a pessoas acusadas por delitos,
independentemente da condição de atendimento em saúde mental pela
RAPS que elas tenham ou não recebido. Igualmente, abolicionistas
penais nem sempre compreendem o cuidado em liberdade para pessoas
diagnosticadas com transtornos mentais. O sistema punitivo seleciona
preferentemente homens negros, pobres, com baixa escolaridade,
usuários de álcool e outras drogas e em sofrimento psíquico. O
aprisionamento é agravante para este sofrimento, assim como o para o
uso de drogas, e também dificulta o atendimento pela RAPS. Quando,
por precariedades da RAPS e dificuldades do usuário ele não consegue
aderir ao atendimento, um dos destinos prováveis é que a outra política
pública a o alcançar seja a polícia, para prendê-lo. E alguns juízes
determinam que a pessoa seja aprisionada para que receba tratamento.
Pouquíssimos estabelecimentos têm Equipes de Atenção Básica Prisional
com componentes de saúde mental, e o Ministério da Saúde pretende
acabar com as poucas que existem. Enquanto não for efetivamente
garantido o atendimento em saúde mental a todas as pessoas que
necessitam dele, estejam ou não em liberdade, essa masmorra
continuará existindo. Igualmente, enquanto o sistema punitivo
continuar capturando pessoas com necessidade de atendimento em
saúde mental, e inclusive compreendendo o aprisionamento como
alguma forma de tratamento, essa masmorra persistirá.

253
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Abordagem noturna à população de rua de Resende: processos e


práticas de cuidado de atenção psicossocial

Lílian Magalhães Costa Lima


CAPS Nossa Casa Barra do Piraí-RJ

Viviane Ferreira de Souza


Katielly Melo da Silva
Glaucia Helena de Paula Santiago
CAPS AD Resende

O CAPS AD Resende tem realizado ações in loco de modo a oferecer a


atenção psicossocial estratégica no território para a população em
situação de rua, com foco nas questões relacionadas ao uso de álcool e
outras drogas.
A experiência descrita aqui vem ocorrendo desde abril de 2018, duas
vezes por semana, em locais de permanência da população em situação
de rua para atendimento psicossocial e da oferta de atividades lúdicas
ou oficinas como estratégia para construção de vínculo e captação das
demandas psicossociais. O objetivo deste trabalho é oferecer
atendimento psicossocial à população de rua do município e viabilizar o
acesso ao CAPS Ad, sempre que houver demanda e interesse por parte
do usuário. Através deste trabalho o CAPS Ad Resende vem oferecendo
atendimento psicossocial à população de rua do município de Resende,
construindo vínculo com os usuários e ofertando saúde com foco nas
questões psicossociais. Deste modo, alguns usuários procuram o CAPS
Ad para atendimento e outros optam por serem acompanhados pela
equipe através da abordagem noturna.
As abordagens têm ocorrido, principalmente, nos seguintes territórios
de Resende: Rampa (Centro), rodoviária, Casarão (Surubi), Coreto
(Lavapés), Alegria Velha, Liberdade, Paraíso. A partir da abordagem,
alguns usuários passaram a freqüentar o CAPS Ad, passaram pelo leito
de saúde mental e por outros serviços da RAPS e rede socioassistencial.

254
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Também se iniciou a experiência de café na praça no território do


Paraíso, onde a os profissionais da rede ofereciam um momento lúdico e
de café da tarde com os usuários para falar sobre possíveis intervenções
com eles.
Entende-se que a abordagem noturna tem sido uma ferramenta
importante do trabalho do CAPS Ad em que a população de rua é
atendida independente de procurar o serviço, de modo que a equipe
oferece orientações, escuta em locais específicos do território onde há
população em situação de rua. Dessa maneira, o CAPS Ad cria vínculo
com o território e promove o acesso dessa população ao serviço. Em
alguns momentos foi ofertado lanche/marmitex durante a abordagem,
como ferramenta de redução de danos, visto que por esta população
estar em uso de álcool e drogas, a rotina com a alimentação costuma
estar precária.
Além disso, o CAPS Ad consegue ocupar o território da cidade,
realizando ações extramuros e promovendo atenção psicossocial a
população, através de um cuidado integral em saúde que só é possível
indo até o usuário, em seu espaço comunitário. É uma maneira possível
do CAPS Ad ocupar a cidade, se fazendo presente à população em
situação de rua.

255
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Abraçando o Autismo: relato de experiência de atividades remotas no


período de pandemia.

Mateus Ribeiro de Moraes


Estefânea Élida da Silva Gusmão
Felipe José Lima Paiva
Mattheus Alves Ramos Souza da Silva
Yolanda Moura Vital
Juliana Nóbrega Ribeiro
Vitória do Carmo de Sousa
Universidade Federal do Ceará - UFC

O ano de 2020 trouxe diversos desafios oriundos da pandemia de


COVID-19, fato que alterou de modo abrupto os mais variados espaços
em que havia interação física entre sujeitos. As necessárias medidas
sanitárias de distanciamento social impossibilitaram aglomerações e, em
vista disso, as atividades que envolviam presença física tiveram de ser
sanadas ou repensadas para um modo responsável de atuação. Nesse
contexto, as atividades da extensão Abraçando o Autismo (UFC), do
Núcleo de Avaliação Psicológica em Saúde (NAPSIS), que outrora eram
feitas em instituições que trabalhavam com a temática do autismo,
tiveram que ser modificadas para o contexto virtual. Nas atividades
presenciais aconteciam momentos semanais em que havia
psicoeducação sobre as temáticas relacionadas ao espectro, bem como
a formação de redes de contato para a ampliação das atividades da
extensão. No entanto, no decorrer do ano, as atividades passaram a ser
feitas na rede social Instagram (@abracandooautismo) em que,
semanalmente, eram produzidos materiais informativos sobre o
espectro autista. As publicações nesse espaço abarcaram temas
relativos ao TEA (transtorno do espectro autista), recomendações para
apoiar o bem-estar emocional das crianças autistas durante a pandemia,
estratégias para melhorar o sono das crianças com TEA,
neurodiversidade, inclusão no mundo do trabalho, espaço escolar e

256
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

contexto universitário, bullying e autismo, competência social e a


importância da relação entre pares, mitos e verdades disseminadas no
cotidiano sobre o autismo, divulgação de filmes que suscitavam
discussões sobre a temática e também foi realizada uma live para tratar
sobre a temática da nova política nacional de inclusão escolar e seus
impactos na vida das pessoas com deficiência. As publicações foram
feitas de forma conjunta entre os membros e com base na literatura
científica. Notou-se que as temáticas tratadas tiveram uma boa
repercussão no que se refere à reflexão sobre temáticas que não são
tratadas cotidianamente a respeito do autismo. O retorno por parte das
pessoas que acompanhavam as publicações também se mostrou
positivo, assim como foi gratificante para os membros articularem essas
informações para divulgação. De modo geral, embora o acesso às
informações fosse feito em um espaço virtual em que não há um
número grande de seguidores, é possível notar que houve o intuito de
fornecer informações qualificadas, críticas e adequadas ao contexto em
que estamos, englobando tanto aspectos teóricos sobre o autismo,
como também possibilitando reflexões que influenciam na prática
psicológica.

257
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

ABRACE Em Casa: Grupo de Acolhimento Virtual da UFOP

Érika Danielle Pereira dos Santos


Luana Coutinho Dias de Oliveira
Mylla Vaz
Nayara Christini Alselmo
Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP

O Programa de Incentivo à Diversidade e Convivência (PIDIC) constitui-


se como parte da Política de Assistência Estudantil da Universidade
Federal de Ouro Preto (UFOP). Integrado a este programa, em 2019,
criou-se o ABRACE, grupo de cuidado e acolhimento aos estudantes da
UFOP. Ao final deste mesmo ano, houve a extensão do projeto para o
Instituto de Ciências Exatas e Aplicadas (ICEA), Campus João Monlevade.
Diante do contexto atual da pandemia da COVID-19 e o consequente
isolamento social, foi necessária a reconstrução do projeto para o
formato virtual. Criou-se, assim, o “ABRACE em casa”, grupo de
acolhimento virtual da UFOP, cujo objetivo é promover um espaço
virtual de acolhimento e cuidado aos estudantes e comunidade
universitária. As sessões são semanais, às Segundas- Feiras, exceto em
feriados, no horário das 15h, com até 12 participantes, por de aplicativo
disponibilizado pela Universidade. O link fixo é divulgado pela equipe
ABRACE, assim como na agenda de atividades do site da Universidade. O
grupo é articulado por meio de técnicas grupais voltadas para a escuta e
a fala humanizadas. Durante as sessões, os participantes são
estimulados a desenvolver vínculos ao compartilhar sentimentos e
experiências. Assim, quando problemas são levantados, as soluções
emergem do coletivo, proporcionando o alívio do sofrimento psíquico.
Em casos complexos, realiza-se o contato individual através de ligação
telefônica feita por membros da equipe ABRACE, previamente
instruídos, que incentivam o apoio de pessoas das redes comunitárias
pessoais (familiares, amigos próximos, companheiros de
repúblicas/moradia estudantil) e a possibilidade de mobilizar, o Serviço

258
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), em emergências.


Consolidando desta forma um amparo, mesmo que de forma remota.
Entre Junho a Setembro de 2020, foram realizadas dezessete sessões,
com a participação média de aproximadamente 10 pessoas por sessão.
Abrangeram-se treze cursos de graduação, dois programas de pós-
graduação, técnicos e docentes de onze departamentos, além de
trabalhadores da Pró-Reitoria de graduação. Os temas com maior
recorrência foram ansiedade; solidão; sentimento de improdutividade;
incertezas e medo em relação ao futuro; autoconhecimento e
desavenças familiares. A partir dos retornos positivos feitos pelos
participantes do grupo, considera-se que o ABRACE em casa, se
consolida como um espaço terapêutico virtual de referência para a
comunidade universitária. Além de ser uma ferramenta primordial para
o enfrentamento da pandemia, utilizando de meios tecnológicos para
redução do sofrimento psíquico. Assim, houve a criação de vínculos, a
elaboração de sugestões e aconselhamentos, baseados em experiências
anteriores. Tais práticas validam o cuidado e acolhimento como
ferramentas primordiais para a promoção da saúde mental.

259
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

ACALENTO: grupo de acolhimento virtual dos profissionais de saúde de


Ouro Preto, Minas Gerais.

Débora Lourdes Martins Vaz


Aisllan Diego de Assis
Tamires Assunção Fernandes
Izabella Helena Domingos Torres
Matheus dos Anjos Evangelista
Lucas de Lazaré Rodrigues
Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP

Christine Algarves Viana


Paula de Oliveira Alves de Brito
RAPS - Rede de Atenção Psicossocial - Ouro Preto

O objetivo deste depoimento é narrar a construção do ACALENTO,


projeto integrante do programa de extensão “A grande roda da saúde
coletiva: cuidado, acolhimento e saúde mental” da Escola de Medicina
da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em parceria com a Rede
de Atenção Psicossocial (RAPS) do município de Ouro Preto- MG. O
grupo de acolhimento do CAPS II Casa dos artistas de Ouro Preto
realizou em 2019 atendimento presencial à população ouro-pretana
durante oito meses. Contudo, com a deflagração da quarentena, devido
a pandemia da COVID-19, houve uma reformulação do grupo para que
fosse reconstruído em formato virtual, devido as medidas adotadas para
proteção e prevenção da COVID. Os projetos, outrora pensados para se
concretizar de forma presencial, passaram a ser reelaborados na
tentativa de concretizá-los à distância ou por meio de recursos
tecnológicos de comunicação, porém grandes barreiras foram
percebidas neste processo, como precariedade de recursos de
telecomunicações das pessoas e equipes nos distritos. Foi então nesse
momento tão delicado que ampliou-se o pensamento do coletivo. Neste

260
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

contexto, a rede de pessoas, práticas e instituições que se encontraram


em 2019 para construção do programa de extensão deu início a uma
nova ação como forma de apoiar aqueles que estão frente ao combate à
COVID-19, os profissionais de saúde. O ACALENTO é um local de espaço,
escuta e apoio psicossocial as pessoas que atuam no enfrentamento da
pandemia em especial no município de Ouro Preto. O grupo segue
princípios de humanização das práticas de saúde e do sistema único de
saúde (SUS). É coordenado por um professor da área de saúde mental e
coletiva da Escola de Medicina da UFOP, duas profissionais de saúde
mental coordenadoras da RAPS e CAPS da cidade e cinco estudantes de
graduação da Universidade, compondo a estrutura do grupo,
coordenando; relatando e apoiando. A sessão é iniciada com boas-
vindas, apresentação e informações referentes do grupo. Os
participantes são convidados a se apresentarem, expor suas emoções;
sentimentos e conhecimentos. Usa-se palavras coloquiais de
compreensão e cuidado. Evita-se termos que possam gerar qualquer
tipo de constrangimento; indicações de medicamentos ou qualquer
procedimento médico. Isso pode gerar a medicalização do grupo, sendo
prejudicial para a expressão dos participantes. Durante as reuniões
ocorre troca de experiência e falas circuladas. O encerramento se dá por
meio da técnica grupal capaz de motivá-los e sustentar vínculos “O
abraço virtual”, consiste num auto abraço, acompanhados de palavras
de acalento aos demais participantes. As sessões são quinzenais, nas
sextas-feiras às 19 horas, com duração máxima de até 2 horas. Iniciou-se
em junho, com precisão de ser realizado até dezembro, totalizando 14
sessões com até 15 participantes. Já foram realizadas 7 sessões. Os
relatos dos participantes remontam significativa melhora de
sentimentos, é notório no decorrer das sessões que são muitas as
conquistas, e a experiência é indescritível. O Acalento pode ser exemplo
para a criação de outros grupos de acolhimento virtual em outras
cidades, promovendo a saúde mental, o cuidado e o acolhimento dos
profissionais de saúde.

261
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Ação coletiva de atenção e cuidados a adolescentes em sofrimento


psíquico numa escola da rede pública de Natal/RN

Erick Matheus Sousa de Medeiros


Maurício Roberto Campelo de Macedo
Isa Maria Hetzel de Macedo
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

Introdução: O aumento da prevalência de crianças e adolescentes com


ideias suicidas, autoagressões e depressão infantil têm chamado a
atenção de familiares, professores e profissionais do campo da Saúde
Mental. Problemas sociais e familiares, bullying nas escolas (entre
outros casos de abuso), um contexto social de incertezas, mudanças
culturais rápidas, grandes desigualdades sociais e aumento expressivo
de violência urbana, sobretudo nos bairros periféricos, são apontados
como alguns dos seus determinantes. Desamparo, vazio existencial e
outras manifestações de intenso sofrimento psíquico também se
exprimem no corpo através dos cortes e lesões autoinflingidas. Diante
de relatos da coordenação de uma escola da rede pública municipal de
Natal-RN sobre a alta prevalência de adolescentes com sintomas
depressivos, que apresentavam comportamentos autolesivos, em alguns
casos com tentativas de suicídio dentro da escola, foi elaborado um
projeto de intervenção, que vamos apresentar como relato de
experiência. Este projeto tinha como objetivo prestar atenção e
cuidados a adolescentes de 10 a 16 anos com problemas de sofrimento
psíquico, que eram alunos do 6° ao 9° anos do ensino fundamental desta
escola. Esta se situava no território da USF de Panatis, um bairro
periférico da cidade de Natal-RN. Descrição da experiência: Em 2019,
foram realizadas duas intervenções. Inicialmente, a diretoria do colégio
selecionou turmas do 9° ano, com cerca de 60 alunos, que necessitavam
maior atenção. Em rodas de conversa eram apresentadas, em linguagem
adequada aos jovens, informações sobre sofrimento psíquico na
adolescência e estabeleceu-se um espaço de diálogo, expressão e apoio

262
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

conjunto. Os alunos responderam a questões sobre a temática do


projeto e participaram ativamente, dividindo seus sentimentos e
vivências reprimidas. A dinâmica final culminou num abraço coletivo dos
adolescentes que aconteceu de forma espontânea; eles partilharam
mensagens positivas, neste primeiro diálogo aberto na escola. O sucesso
da primeira intervenção resultou numa demanda da escola e dos
estudantes para o retorno dessas atividades. Então, foi desenvolvida
uma ação mais ampla, que mobilizou toda a instituição, impactando
mais de 300 alunos com atividades diversas que incluíam: discussões
sobre bullying e depressão na adolescência; PICS voltadas para a
expressão pela música; produção de uma “caixa de desabafos
anônimos” e “cartas apoiadoras”; reunião com os pais e profissionais;
rodas de conversa com as turmas (semelhantes à primeira intervenção).
Repercussões: Ficou evidente a maior aproximação dos alunos desta
escola com o nosso projeto, permitindo maior integração entre todos os
envolvidos. Relatos posteriores da escola mostram uma maior abertura
dos alunos e professores para tratar de temas que até então eram
tabus, um maior interesse dos alunos nas atividades estudantis e uma
melhor integração entre as turmas. O projeto também ganhou
visibilidade, sendo indicado como referência na cidade enquanto
intervenção sobre este problema, que contribuiu para a elaboração de
projetos mais amplos, coordenados pelo município. Considerações
finais: Com a deflagração da pandemia, a continuidade das atividades foi
cancelada em 2020. Entretanto, essa experiência serviu de base para a
elaboração de um projeto de pesquisa sobre este tema que será
desenvolvido pelo Observatório de Saúde Mental da UFRN.

263
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Ação extensionista sobre saúde mental infantil: relato de experiência

Isabela Souza Cruvinel Borges


Ádria Silva Guimarães
Andreia Sousa de Jesus
Luísa Pessoni de Carvalho Garcia
Maria Cecília Inácio
Milena Vieira Dias dos Santos
Natália Barreira Silva
Universidade Federal de Uberlândia

Introdução: Em meio a altas taxas de automutilação e autoextermínio


registradas entre adolescentes e adultos no mundo, notou-se, em uma
escola pública de Educação Básica em Uberlândia-MG, um desenho
inesperado: crianças de 8 a 11 anos apresentavam esse comportamento
autodestrutivo. Nesse viés, um grupo de estudantes de Medicina da
Universidade Federal de Uberlândia (UFU) decidiu investigar as causas
dessas atitudes, bem como buscar alternativas para promover a saúde
mental na infância. Descrição da Experiência: No segundo semestre de
2019, a 92° turma de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia
visitou escolas públicas com o objetivo de realizar vivências de práticas
de promoção de saúde, ação que faz parte da grade curricular do
terceiro período. Nesse sentido, surgiu o tema de bem-estar mental, na
Escola Estadual Professor Eurico Silva, onde ocorreu a ação de 12 alunos
do curso superior. Para sistematizar a ação extensionista, utilizou-se do
Arco de Maguerez, o qual possibilitou concluir que obstáculos
relacionados à escola, à família e à autoimagem fazem parte do
cotidiano das crianças da instituição. Essas adversidades trouxeram,
como consequência, diversos casos de automutilação, principalmente
entre os alunos de 4° e 5° anos. Diante da delicadeza e da complexidade
do assunto, os discentes da UFU, em parceria com a escola, planejaram
a ação focalizando instigar a autoestima, o autocuidado e a busca de
ajuda para resolução de dificuldades possivelmente enfrentadas. Foram

264
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

realizadas duas dinâmicas, estas baseadas nos conceitos de


“Apresentação à Mineira” e “Teatro do Oprimido”, do dramaturgo
contemporâneo Augusto Boal. A primeira tinha como objetivo não
somente criar um momento de acolhimento (ao exteriorizar
características positivas de cada um), mas também ajudar na criação de
vínculo entre as crianças e os acadêmicos. Em seguida, de acordo com a
demanda local, foram encenadas situações de problemáticas
enfrentadas na infância, as quais foram discutidas posteriormente em
uma roda de conversa. O objetivo foi extrair as percepções dos infantes
com relação aos paradigmas apresentados, bem como instigá-los a
pensar nas possíveis redes de apoio. REPERCUSSÕES: No início da
primeira dinâmica algumas crianças apresentaram timidez e resistência
em participar da atividade. A fim de incentivar a inserção de todos, os
outros alunos e os estudantes de Medicina davam sugestões de
adjetivos positivos, rompendo, assim, a dificuldade inicial de
estabelecimento de vínculo. Durante a execução do Teatro do Oprimido
e da Roda de Conversa, as crianças evidenciaram uma participação ativa.
Os alunos assistiram atentamente às cenas e, ao serem instigados com
perguntas sobre o tema, deram respostas que mostraram compreensão
de seus contextos sociais e reflexões sobre as dificuldades de lidar com
problemas psicológicos. Considerações Finais: Essa ação mostrou-se
extremamente relevante para a formação dos graduandos, que
perceberam a importância de uma abordagem adequada para infantes
na promoção de saúde dos mesmos. Vale ressaltar que o sentimento de
despreparo por parte dos estudantes de Medicina, diante da
complexidade desse assunto, evidencia a fragilidade dos currículos das
faculdades, uma vez que essa temática é pouco abordada durante toda
a graduação.

265
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Acesso e promoção de uso racional de medicamentos aos por unidade


básica fluvial aos usuários de serviços de Saúde Mental em
comunidades ribeirinhas de Manaus, margem rio negro.

Leoncio Oliveira Torres


Semsa

Um importante desafio para o Sistema Único de Saúde (SUS) é


promoção das ações de saúde ao alcance das populações mais
vulneráveis, dentre elas, as comunidades ribeirinhas, especialmente no
que concerne ao acesso à integralidade dos serviços em saúde mental.
Há aproximadamente 30 anos, o atendimento em saúde utilizado nas
comunidades ribeirinhas do município de Manaus, com acesso único por
vias fluviais, utilizava-se de modelo ambulatorial, sendo este
individualista, verticalizado, curativista e medicamentoso; Neste
contexto, unidade fluvial itinerante, com apenas elenco básico de
medicamentos, não havia disponibilidade psicotrópicos, onde os
usuários, com suas prescrições, teriam que se deslocar, através de
embarcações, arcando financeiramente a cidade de Manaus, para
aquisição dos medicamentos nas unidades de farmácia publicas ou
privadas, causando queixas e agravos aos usuários do transtorno mental
e psiquiátrico.
A partir de janeiro de 2015 com proposta baseada no conceito ampliado
de saúde com perspectiva da prevenção e diminuição dos agravos,
especialmente aos usuários de saúde mental, fora implantada nas
unidades básicas de saúde fluviais (UBSF), e a inserção dos seguintes
serviços farmacêuticos: Padronização de todos os psicofármacos
integrantes a relação municipal de medicamentos essenciais (REMUME),
promoção de atenção farmacêutica e acompanhamento
farmacoterapêutico aos usuários.
Em 11 meses, entre novembro 2018 a setembro 2019, a UBSF Ney
Lacerda, em seus 10 dias de atendimento mensal, com atuação em 13
comunidades ribeirinhas da margem do Rio Negro, e suas adjacências,

266
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

foram realizadas 479 dispensações de psicofármacos, sendo,


antidepressivos: 226 (47%), Anticonvulsivantes: 165 (34%), ansiolíticos:
54 (11%), antipsicóticos: 28 (6%) e transtorno humor bipolar: 6 (1%).
Com o advento de estratégias utilizadas, com a inserção dos serviços em
saúde mental nas comunidades ribeirinhas através das UBSF, e
especificamente com acesso integral dos medicamentos psicofármacos
padronizados na RENAME, e ainda com acompanhamento do uso
efetivo e racional destes, verificou-se a grande evolução no processo
saúde-doença.

267
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Ações de saúde mental voltadas aos moradores de rua em tempos de


pandemia por Covid-19: Um enfoque multiprofissional

Ana Thalita Felicio Ferreira da Silva


Sabrina Camila de Medeiros Dantas
Aline Andressa Coelho de Souto
Escola de Saúde Pública ESP-CE

A População em Situação de Rua se encontra historicamente como um


grupo às margens da sociedade, conhecidos pela vulnerabilidade e
heterogeneidade, estes tem recebido ultimamente mais visibilidade e
intervenções específicas, além de discussões em políticas públicas que
atendam às suas necessidades. A importância da priorização de ações
voltadas a esse grupo se dá pelas condições precárias de vida e saúde ao
qual são expostos que os tornam mais suscetíveis aos fatores de risco e
violências, a ausência de acesso a fontes de renda, direitos humanos e
sociais e uma constante discriminação em relação ao acesso aos serviços
de saúde. Com isso, essa população tende a apresentar uma saúde física
e mental mais vulnerável se comparada a população em geral (WIJK;
MÂNGIA, 2019). A partir do surgimento da Pandemia ocasionada pelo
novo Coronavírus (COVID-19), as necessidades de saúde dessa parcela
se tornaram mais exacerbadas e difíceis de gerenciar, uma vez que que
dentre as medidas de contenção estavam o isolamento social, uso de
máscaras e uso de álcool, e todas estas pareciam inviáveis a estes
sujeitos. No município de Aracati-CE, da união de forças dos
profissionais da Residência Multiprofissional em Saúde da ESP-CE, junto
aos profissionais da saúde do município e voluntários buscou-se ofertar
suporte a essa parcela da população em situação de vulnerabilidade e
fragilidade dos vínculos familiares e sociais por meio de duas reuniões
semanais contando com profissionais de medicina, enfermagem,
psicologia, dentista, profissional de educação física, assistente social,
nutricionista, fisioterapeuta, além dos cozinheiros voluntários e
colaboradores de comunidades cristãs. Os encontros duravam em média

268
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

50 minutos, com escala de 6 profissionais por tarde, onde eram


desempenhadas ações de educação em saúde sobre a propagação da
doença, formas de prevenção, cuidados pessoais, orientações em
higiene bucal e atendimentos individuais de enfermagem. O grande
desafio se constituiu em abordar temas de prevenção em Saúde Mental
uma vez que foram percebidas a falta de oportunidades recebidas e
recursos mentais e pessoais destes no enfrentamento dos agravos
provocados pela pandemia em contraste com o manejo de nossa
própria saúde mental. As ações aplicadas visaram diminuir a intensidade
do impacto sentido: Aconselhamento psicológico com técnicas de
relaxamento e respiração, orientações em higiene do sono, exercícios
físicos, orientações gerais sobre prevenção de contágio pelo Covid-19,
orientações gerais sobre redução de danos e de promoção de saúde a
doenças relacionadas ao uso e compartilhamento de objetos para o
consumo de drogas. Ademais, rastreamento de casos suspeitos,
levantamento das maiores vulnerabilidades como sujeitos com
comorbidade, maiores de 60 anos, imunodeprimidos e gestantes, foram
feitas ações de encaminhamento a alguns serviços de caráter mais
específicos e emergenciais, além de esforços junto a gestão para
confecção de máscaras caseiras e doação de roupas foram medidas
tomadas que tiveram efeito sob a saúde geral dos sujeitos acolhidos
além de maior engajamento no autocuidado, visibilidade e
empoderamento dos envolvidos.

269
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Acolhimento dos trabalhadores afastados do trabalho por


adoecimento mental

Roxane Pimenta Mourão


Cristiane de Toledo Braga Corradi
Vale

Introdução: As principais causas de afastamento dos empregados na


Vale Brasil seguem uma tendência nacional e global com forte influência
de transtornos mentais que correspondem aproximadamente 30% dos
afastamentos nos últimos 3 anos (2017-2019). Estes problemas de
saúde, muitas vezes, não estão diretamente relacionados ao trabalho,
mas geram afastamentos prolongados, com barreiras no retorno e na
permanência do trabalhador na vida produtiva.
Para a Vale, a vida em primeiro lugar e valorizar quem faz a nossa
empresa são os nossos principais valores, em quanto “cuidar das
pessoas” é um de nossos pilares estratégicos. Portanto, constantemente
prezamos ter empregados saudáveis desempenhando suas tarefas em
um ambiente de trabalho seguro e saudável.
As organizações são responsáveis por identificar a repetitividade de
tarefas, a desmotivação, as condições desfavoráveis de ambiente e de
trabalho, a integração entre empregados e a organização, dentre outros
aspectos, visando sempre uma política prevencionista e humanista.
Descrição da experiência: O absenteísmo possui impactos significativos.
Verificou-se que as nosologias psiquiátricas contribuem diretamente na
caracterização do evento e/ou doença ocupacional que geralmente é
um fenômeno reincidente.
Assim, o elevado índice de absenteísmo médico por adoecimento
mental foi o ponto de partida para composição de um Grupo Técnico
multidisciplinar, cujo objetivo é estudar as causas fundamentais do
absenteísmo e propor ações para a sua redução. A partir da observação

270
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

do aumento constante deste absenteísmo, percebeu-se que para reduzi-


lo tornaria necessária a gestão pontual.
A abordagem multidisciplinar favorece o amplo entendimento dos
diversos determinantes da incapacidade para o trabalho. Dessa forma, o
foco do trabalho é prevenir o prolongamento prejudicial do afastamento
por adoecimento mental, favorecer o retorno do trabalhador ao
trabalho de acordo com suas capacidades, evitando perdas maiores.
Sob esse aspecto e devido à necessidade de aprimorar a gestão de
absenteísmo foram utilizadas as seguintes ferramentas: PowerBI - Dados
estatísticos referentes à saúde ocupacional na empresa. Checklist -
Identificação precoce do potencial de risco de adoecimento mental.
Avaliação Biopsicossocial – Avaliação multidisciplinar das possibilidades
físicas, fatores socioambientais, aspectos psicológicos e pessoais dos
trabalhadores. Comitês de Saúde - Equipe multidisciplinar que identifica
e prioriza soluções, propondo melhoria no ambiente e processo de
trabalho.
Repercussões e considerações finais: A experiência da implantação das
ações para gestão do absenteísmo por adoecimento mental trouxe
ganhos importantes na qualidade da assistência prestada ao
trabalhador. Além disso, permitiu maior conhecimento e gestão do
absenteísmo pela liderança e aproximação da equipe de saúde com as
áreas operacionais. As ações para gestão do absenteísmo tem sido uma
valiosa ferramenta de abordagem proativa, pois permite a adoção de
medidas preventivas colocadas em prática de forma ampla na
empresa,contribuindo para a saúde integral dos profissionais inseridos
neste contexto.

271
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Acolhimento psicológico online: contribuições do NASF no


enfrentamento ao COVID-19

Kézia de Oliveira Nascimento Souza


Carolina de Souza
Marina Brito Lemos
Vitória Virginia Sousa dos Santos
Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ

O contexto pandêmico modificou o modo de vida habitual das


comunidades e também transformou o processo de produção do
cuidado em saúde. O panorama de isolamento social trouxe diversas
adversidades, como: dificuldades financeiras, a restrição do contato
físico, a sobrecarga com o trabalho remoto, o doméstico e com
familiares e crianças em casa (ou o tédio experimentado pelo tempo
ocioso), a ameaça do adoecimento ou morte como uma possibilidade
mais próxima, luto pela perda de entes queridos, além do aumento de
conflitos intrafamiliares e mesmo da violência doméstica. Estes fatores
além de possíveis geradores de sofrimento psíquico significativo,
também potencializaram e/ou agravaram os quadros preexistentes.
Tendo em vista este cenário, no qual inicialmente houve a
impossibilidade dos atendimentos presenciais e a necessidade de
adaptar a oferta do cuidado para as/os usuárias/os, nós, psicólogas
residentes em saúde da família pelo Programa de Residência
Multiprofissional em Saúde da Família da FESF-SUS/Fiocruz, atuantes
nas três diferentes equipes do Núcleo Ampliado de Saúde da Família
(NASF), no município de Camaçari - BA, disponibilizamos acolhimento
psicológico online, por meio de ligações e vídeo-chamadas. O público-
alvo foram as pessoas que apresentavam crise aguda de ansiedade,
quadro depressivo, ideação suicida e automutilação, bem como
realizamos o acompanhamento e monitoramento de usuários que já
haviam sido atendidos pelas equipes outrora, e que apresentaram

272
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

intensificação de sintomas no período inicial da pandemia. A ação teve


por finalidade garantir um momento de escuta e elaboração do
sofrimento.
A partir desta iniciativa foi possível realizar o acolhimento dos usuários
num momento em que outros pontos da rede no município, como os
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e ambulatórios, estavam com
atendimentos restritos ou paralisados. Ainda, conseguimos articular e
compartilhar casos mais delicados com estes pontos da rede com o
intuito de estabelecer estratégias de cuidado mais efetivas durante o
período de isolamento. Nesta oferta de atendimento lidamos com
limitações, como: a falta de prontuário eletrônico para acessar o
histórico do usuário; crescente demanda de usuários que buscaram
atendimento nas USF em decorrência da interrupção dos serviços em
outros pontos da rede; limitações de acesso às tecnologias de
informação ou falta de espaço privado em muitas residências e
dificuldades de adesão ao modelo do teleatendimento. Apesar dos
entraves, reconhecemos a importância do aprimoramento do uso das
tecnologias da informação e comunicação na saúde pública como forma
de expansão das ferramentas possíveis de cuidado na clínica ampliada. A
oferta do acolhimento psicológico online não substitui os espaços de
produção de cuidado presenciais, porém contribui para a garantia do
acompanhamento integral e longitudinal a que a Atenção Primária à
Saúde se propõe, além de promover maior acesso à escuta qualificada.

273
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Acompanhamento de Usuário no Território: Experiência do Trabalho


Intersetorial

Oziane Guimarães Braga


Francine Ramos de Oliveira Moura
Fundação Municipal de Saúde de Niterói - UFF

Introdução: Este trabalho tem por finalidade apresentar relato de


experiência do acompanhamento intersetorial e multiprofissional de um
usuário em situação de rua com sofrimento psíquico. Importante
salientar que o nome adotado é meramente fictício.
Descrição da Experiência: Uma moradora do território compareceu à
Unidade de Saúde da Família no município de Niterói-RJ solicitando
avaliação de um homem que estava “em surto” numa praça perto da
clínica, desde a noite anterior. Foram até o local uma enfermeira, uma
dentista, duas estagiárias de odontologia e uma de psicologia. Na praça,
avistamos um homem negro, segurando uma mochila e uma sacola.
Observamos em documentos e receitas que ele carregava que possuía
47 anos, era solteiro, morador de Jacarepaguá e relatou ter parado de
tomar seus remédios há pouco tempo. Em uma das receitas continha o
local que poderia ser a referência de José, tentamos contato sem êxito.
José repetia a frase: “vocês têm que me acolher”, pedia que lhe
arrumasse um lugar para dormir, já que ele “morava em Los Angeles”.
Com o propósito de ganhar a sua confiança e entender um pouco sua
estória doamos livros que havia na estante da biblioteca comunitária da
clínica, depois de comentar que queria “estudar para ser doutor”, e
“arrumar uma namorada” pois “sua família não ligava para ele”. A
moradora, que informou sobre José, contou que havia ligado para a
Guarda Civil do município. Nesse momento, José nos pediu que não o
deixássemos sozinho, dissemos que estaríamos com ele e o
acompanhamos até um Hospital Municipal, local em que a moradora
combinou de encontrar a Guarda. Contudo, chegando ao local, fomos
informadas que por ser o caso de uma pessoa “em surto” não poderia

274
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

ajudar. Então ligamos para a SAMU que, no município, faz o primeiro


atendimento e transporta o paciente ao Hospital Psiquiátrico, se
necessário. Enquanto aguardávamos, José pegou caderno e lápis e
começou a escrever o que possivelmente era sua estória de vida. Seu
personagem era homem e tinha irmãos que foram abandonados pelos
pais em “Los Angeles”, e desde então passou a frequentar hospitais
psiquiátricos. Por um momento José mostrou-se consciente, falou sobre
uma irmã que mora em Jacarepaguá, nos deu um número de telefone,
porém não conseguimos contato. Durante a espera o paciente
adormeceu. A ambulância da SAMU chegou e ao ouvir o barulho da
sirene, José, imediatamente, pulou do banco e começou a agradecer e
despedir-se de nós e foi ao encontro da enfermeira perguntando se
aquele era o “avião” que o levaria para “Los Angeles”, entrando
prontamente na ambulância.
Repercussões: Diante da situação, as profissionais e estagiárias
presentes compreenderam a situação, acolheram e acompanharam o
paciente, mas, inicialmente, encontraram dificuldade em detectar os
trâmites e fluxos para cuidado desse caso.
Considerações finais: A vivência proporcionou acolhimento ao paciente
por meio de uma rede intersetorial de apoio. No entanto, foram
identificadas barreiras como dificuldade em lidar com demandas de
Saúde Mental e de conhecimento de fluxos específicos para esses casos,
o que poderia comprometer a integralidade do cuidado ao usuário.

275
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Acompanhamento em Saúde Mental a Adolescentes e Jovens Privados


de Liberdade a partir de Grupos Terapêuticos

Doralice Sisnande dos Santos


Eliana Silva
Ana Maria Caetano
Danyelly Kelly
Maria Lucia Freitas
Carlos Yuri
Kátia Soares Velloso
DEGASE

Este trabalho tem como objeto a experiência de acompanhamento pela


Saúde Mental do Centro de Atendimento Intensivo - CAI Belford Roxo,
Unidade do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE), no
Rio de Janeiro, a adolescentes e jovens do sexo masculino em
cumprimento de medida socioeducativa de privação de liberdade a
partir da formação de grupos terapêuticos. A iniciativa realizada em
cenário socioeducativo composto por uma ocupação média da unidade
de 40 adolescentes sendo tais adolescentes oriundos de 22 municípios
diferentes e respondendo por atos infracionais análogos a assalto (42%),
tráfico de drogas (36%), estupro (12%) e homicídios (10%) entre outros,
atos estes praticados em larga escala em função da associação a facções
criminosas e suas ideologias, constituindo um ambiente de elevada
hostilidade e agressividade entre os grupos, devido à rivalidade
alimentada entre tais segmentos. Assistidos a partir da inserção em uma
rotina com horários rígidos para escolarização, participação em oficinas
e cursos capacitivos, além dos momentos previamente definidos para
alimentação e visitas de familiares, os adolescentes e jovens com maior
vinculação ao uso de substâncias psicoativas, pessoas em sofrimento
psíquico e/ou transtorno mental e envolvidos em atos infracionais mais
severos são, paralelamente a esta programação, atendidos pela Saúde
Mental da Unidade. Composto, por uma médica psiquiátrica, três

276
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

terapeutas ocupacionais, uma psicóloga e um agente socioeducativo,


elegeu como metodologia para tal acompanhamento, os atendimentos
em grupos de 3 a 10 participantes, organizados com base na
disponibilidade de seus horários e desconsiderando a vinculação à
facção criminosa. Realizada por meio de encontros semanais, com
duração média de uma hora, a proposta pautada na utilização de
técnicas de dinâmicas de grupo. Esta tem como intuito fornecer
informações sobre direitos humanos, sexualidade e doenças
sexualmente transmissíveis, efeitos das drogas sobre o organismo e, de
forma mais abrangente, visou promover reflexões acerca das
motivações para o uso de substâncias psicoativas, bem como sobre as
repercussões deste consumo sobre os vários âmbitos da vida pessoal, a
respeito do impacto sobre os relacionamentos afetivos e familiares, e,
ainda, facilitar o entendimento sobre a necessidade de avaliar as
consequências das ações praticadas e fomentar a construção de
projetos de vida. A despeito dos limites impostos ao trabalho, tais como
espaço adequado para a realização das atividades, a escassez de
recursos materiais disponíveis, insuficiência na assistência da rede
territorial, e a instabilidade do clima institucional gerada pela constante
contestação de regras pelos adolescentes. As intervenções com jovens
em idade entre 15 e 18 anos. Apresenta como resultados a melhoria da
capacidade reflexiva e diminuição dos comportamentos impulsivos e
violentos entre os envolvidos no acompanhamento em saúde mental,
no âmbito coletivo, pela possibilidade de estimular a convivência
respeitosa e pacífica entre membros de grupos tidos como rivais.

277
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Acompanhamento Multiprofissional Pós Alta de Um Paciente


Psiquiátrico: Um Relato de Experiência

Ana Claudia Pithan Faleiro


Evelym Cristina da Silva Coelho
Marcos Paulo Costa Lima
UEPA - Universidade do Estado do Pará

Lígia Gizely dos Santos Chaves Melo


Mário Antônio Moraes Vieira
Dalva Bastos e Silva Coutinho
Elizabeth das Dores Silva
João Bosco Monteiro
Selma Carvalho Frota Duarte
Marly Lobato Maciel
Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna

Introdução: A Alta Assistida e o Acompanhamento Terapêutico,


inserem-se na atenção à saúde mental em concordância com a proposta
da Reforma Psiquiátrica de promover a reinserção social do paciente
portador de transtorno mental. Na história da saúde mental, os sujeitos
têm sido marginalizados e excluídos do convívio na sociedade por
apresentarem um diferente modo de ser/estar no mundo. O trabalho
teve como objetivo acompanhar um paciente psiquiátrico em seu
processo de alta hospitalar na tentativa de assegurar a continuidade do
tratamento na RAPS e evitar a reinternação. Descrição da Experiência:
Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa, do tipo
relato de experiência, realizado por profissionais residentes enfermeiras,
psicólogas e educadores físicos, do Programa da Atenção à Saúde
Mental – FHCGV. Durante o período de práticas no setor de emergência
psiquiátrica, cuja paciente N. F. C., 55 anos de idade, foi admitida, em
primeira internação em 27/05/2019, com avaliação médica de recusa de
alimentação, insônia, mutismo, humor deprimido, comportamento

278
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

negativista, perda da funcionalidade motora e força manual, atenção e


orientação comprometidos, e hipótese diagnóstica de Transtorno
Afetivo Bipolar. Realizou-se o atendimento multiprofissional da paciente
durante seu período de internação. A mesma recebeu alta hospitalar no
dia 13/06/2019. Após sua saída, foi realizado contato telefônico para
agendar o primeiro atendimento, e elaborou-se junto a paciente um
cronograma de posteriores encontros multiprofissionais, onde tais
atendimentos ocorreram em consultórios disponibilizados no
ambulatório da instituição, além de visita domiciliar. Foram realizados 4
atendimentos após a alta da paciente, no primeiro contato foi realizado
o exame mental da mesma, averiguada alteração no seu
comportamento motor (tremores em MMSS e MMII), e demonstrou
eventos de amnesias parciais, com juízo crítico preservado. Quanto ao
autocuidado, sono e repouso estavam satisfatórios. Relatou fazer o uso
corretamente das medicações e motivação para continuidade do
tratamento. Foram identificados como principais diagnósticos de
Enfermagem: Estilo de vida sedentário; disposição para o controle da
saúde melhorado; mobilidade física prejudicada; memória prejudicada.
A fim de melhorar o quadro clínico da paciente, foram realizadas
algumas intervenções, tais como: orientação detalhada acerca de seu
tratamento, seu diagnóstico e sobre a ação dos fármacos em seu
organismo; ressaltou-se a importância das atividades físicas, além da
demonstração de quais exercícios a mesma deveria realizar diariamente
em sua residência; incentivou-se a manutenção de sua autoestima e
autocuidado; reforçou-se a significância da família no processo de
recuperação e a relevância de seu tratamento continuado na RAPS.
Repercussões: Após cada atendimento, foi identificada melhora
progressiva da paciente em relação à mobilidade física, memória,
disposição para realização de suas atividades diárias e atividades físicas
recomendadas, continuação do engajamento ao tratamento e
compreensão das situações que podem desencadear uma crise psicótica
e a provável reinternação. Considerações Finais: O acompanhamento
terapêutico pós alta da paciente é fundamental para os usuários de

279
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

modo geral, pois diminui as chances de uma reinternação, atua no


restabelecimento de ligações sociais, na manutenção do cotidiano dos
pacientes e proporciona o cenário ideal para a continuidade do
tratamento na rede de atenção psicossocial.

280
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Acompanhamento terapêutico:
uma clínica versátil e antimanicomial

Isabel Cristina Carniel


Universidade Paulista; FAPSI

Historicamente situado no contexto da Reforma Psiquiátrica e tendo sua


origem reportada à psicologia social argentina, a prática do
Acompanhamento Terapêutico pode ser realizada por diferentes
profissionais, com ou sem ter concluído alguma graduação universitária.
No entanto, a experiência relatada aqui, passa pelo campo da psicologia
e, mais especificamente, do olhar existencial-fenomenológico. Neste
sentido, orientado pelas posições iniciadas pela antipsiquiatria inglesa e
reforma psiquiátrica italiana. Também são retomados os primórdios do
Acompanhamento Terapêutico na América Latina e sua evolução para as
práticas atuais no Brasil. A experiência aqui descrita e analisada é fruto
de cerca de trinta anos de reflexão de uma prática antimanicomial,
acompanhando pacientes internos de extintos hospitais psiquiátricos,
bem como de egressos destas instituições. Inicialmente são descritas
experiências de AT realizados pela autora e, aos poucos, são inseridas
práticas realizadas por alunos de graduação e profissionais de psicologia
orientados pela autora. Compõem estas experiências, atendimentos
realizados em diferentes contextos, com as mais diversas demandas,
desde a preparação para a saída do hospital, passando pela iniciação em
experiências de cidadania e a mudança do status de interno/a para a
condição de morador/a, com suas peculiaridades. Ora acompanhados
individualmente, ora em grupos, muitos foram os beneficiados pela
prática do AT, pois, neste modo de fazer clínica psicológica, enquanto
cuidamos de atividades do cotidiano, podemos também realizar
intervenções importantes no sentido de favorecer ao acompanhado a
apropriação de sua existência de modo singular. Por se caracterizar pela
ampliação das possibilidades de intervenção clínicas, o
Acompanhamento Terapêutico pode ser descrito como uma prática

281
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

versátil, permitindo alcançar pessoas que nem sempre se beneficiam da


clínica psicológica tradicional ou que, além desta, precisa de um cuidado
que vai além do contexto do consultório psicológico. Neste sentido, o
Acompanhamento Terapêutico pode compor o trabalho em equipe
interdisciplinar e manter-se como um importante recurso
antimanicomial, promovendo a vivência de cidadania, por vezes
prejudicada pelos tratamentos institucionalizantes.

282
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Adoecer Psíquico e Vulnerabilidade Humana:


da síndrome do pânico à resiliência

Renata Oliveira da Silva Lima


Faculdade da Região Sisaleira - FARESI

Renata Oliveira da Silva Lima


Sinara de Lima Souza
Universidade Estadual de Feira de Santana

Introdução: a atividade laboral, pode provocar ou suscitar ‘’medos’’ que


interferem na psicodinâmica do trabalho e na vida fora do mesmo,
podendo desencadear um adoecimento psíquico. Descrição da
experiência: Desde a infância desenvolvi medo de pessoas rotuladas
como ‘’doidas’’ e, sofri ameaças por parte de adultos referente a
“chamar o doido’’, caso não me comportasse adequadamente. Na
formação profissional, fiz visita técnica e desenvolvi atividades práticas.
Durante esse período, me esforcei para esconder meus medos e tentei
fazer o melhor possível. Contudo, sofria calada. Por ter sido um período
curto, suportei. Porém, após dois anos que de formada, fui atuar como
enfermeira coordenadora de um CAPS. Assim que recebi a notícia, fiquei
preocupada, mas enxerguei aquela oportunidade como possibilidade de
superação. Contudo, após quatro meses de atuação entrei em um
processo de ‘’síndrome do pânico’ que representou um divisor de águas
na minha vida. Agora, estava do outro lado da situação: de cuidadora,
passei a ser usuária: me descobri vulnerável, passei a entender o peso
do estigma, percebi o porquê da dificuldade de adesão à terapêutica
medicamentosa e sofri preconceito por parte de colegas que não
compreendiam a minha necessidade de relocação para outro serviço.
Em doze meses de tratamento, recebi alta. Repercussões: a inserção no
mercado de trabalho pode proporcionar satisfação pessoal e
profissional; porém, também pode se tornar um agente desencadeador
de traumas e angústias, ao ponto de provocar sofrimento psíquico,

283
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

quando a atividade é realizada com sentimentos negativos ou ainda com


experiências anteriores pessoais. Conclusão: Fazendo um balanço das
perdas e ganhos oriundos dos acontecimentos, vejo que fisicamente tive
que lidar com dezesseis quilos acima do peso normal, potencialização
das enxaquecas decorrentes da medicação no início da terapêutica e um
pouco de lentidão. Contudo, hoje me sinto mais humana e mais sensível
à dor do outro. Ao invés do medo dos indivíduos em sofrimento
psíquico, desenvolvi compaixão e empatia. No campo profissional, onde
estiver atuando, desejo manter meu olhar sensível a dor dos usuários,
para além da dor física. Na condição de humana, me descobri tão
vulnerável quanto qualquer pessoa, e aprendi que cuidadores também
necessitam de cuidado. Pois, não há saúde sem saúde mental e eu só
posso, ‘’dar’’, aquilo que ‘’possuo”. E, principalmente, descobri que
precisamos desenvolver e promover resiliência.

284
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Adolescentes privadas de liberdade:


diálogo sobre saúde mental e gênero.

Sarah Valentina Cruz da Silva


Gisele de Oliveira Mourão Holanda
Hosana Lourenço da Silva
Sandra Lucia Arantes
Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN

Introdução: A partir da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente


em 1990, a vida dos adolescentes que cometem atos infracionais
mudou. Hoje ao cometer infrações graves eles são encaminhados para
as instituições socioeducativas onde recebem um atendimento voltado
ao desenvolvimento biopsicossocial. Descrição da Experiência: No Rio
Grande do Norte, existem oito CASE (Centros de Atendimento
Socioeducativo), este relato tem como objetivo relatar duas rodas de
conversas ocorridas no Centro de Atendimento Socioeducativo
Feminino Padre João Maria - CASEF, situado em Natal/RN, durante o
mês de Dezembro/2019. As rodas de conversa foram compostas por
estudantes de Enfermagem do 7° período e sua professora com seis
adolescentes em tratamento socioeducativo. As intervenções trataram
sobre o corpo feminino, a saúde sexual, os impactos que a privação de
liberdade tem nas suas autoestimas, no afastamento de
relacionamentos e família. Para isso, dinâmicas específicas foram
realizadas na formação do vínculo. No primeiro encontro, para trabalhar
a autoestima, utilizou-se uma dinâmica em que, numa caixa com um
espelho dentro, todos os membros pudessem observar o seu conteúdo.
Expressava o que via e sentia, um olhar para seu eu e quais expectativas
tinham com o futuro. Com essas reflexões, criou-se a árvore dos sonhos,
a partir da confecção de cartões pelas internas de planos para a vida
após a saída do CASEF. O encontro foi finalizado com mensagens de
apoio e motivação para enfrentar a fase vivida. No segundo, o corpo e a
saúde sexual e reprodutiva foram trabalhados através de envelopes com

285
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

imagens do corpo nos diferentes ciclos de vida, dos órgãos reprodutivos


e de métodos contraceptivos. Cada envelope aberto era debatido. No
final da reunião, conversamos sobre a solidão e o afastamento da
família no período das festividades do Natal, e para expressar melhor a
vivência delas, foram elaborados cartões de Natal para as famílias.
Repercussões: As ações realizadas focaram na temática da saúde mental
e física, com as dinâmicas criou-se um vínculo. A partir deste laço,
construiu-se um espaço terapêutico, onde ocorreu o desabafo sobre a
vivência delas e questões de saúde foram retiradas. Nas suas falas elas
expressaram sentimentos relacionados à privação de liberdade; impacto
na autoimagem, nos relacionamentos, sonhos, o desejo de melhorar e
retornar ao convívio social. Considerações Finais: A privação de
liberdade em adolescentes no tratamento socioeducativo causa
impactos na sua saúde mental, física e moral. Por isso, o atendimento
prestado a elas deve focar e agir nessas áreas, promovendo um cuidado
biopsicossocial e integral. Cabe aos profissionais de saúde prestar esses
cuidados de forma livre de julgamentos. Para estudantes de
Enfermagem, a oportunidade de vivenciar esse cuidado, ainda na
formação conscientiza o futuro profissional às demandas desta
população. Para além, acredita-se que a intervenção tenha alcançado
esses cuidados.

286
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Afeto nas Redes: Desenvolvimento de Produtos Audiovisuais para


Promoção de Saúde Mental de Idosos em Condições de Isolamento
Social na Pandemia por Covid-19

Gabriel Matias Queiroz


Everaldo Nascimento do Rosário Júnior
Vanessa Rastelli Cruz Silva
Rafaela Silva Oliveira
João Batista de Brito Braga Alves
Marcus Vinicius Borges Oliveira
Silvana Lima Guimarães França
Universidade do Estado da Bahia - UNEB

Introdução: Mediante o surgimento do primeiro caso de COVID-19 em


fevereiro de 2020, o Brasil se inseriu no rol de países afetados pela
pandemia, exigindo que uma série de medidas fossem adotadas pelos
estados e municípios de acordo com as recomendações da OMS.
Determinações, tais como a necessidade de isolamento social, alteraram
significativamente o modo de vida dos brasileiros, sobretudo dos idosos,
já que integram o grupo de risco dessa doença. Diante desse contexto e
da necessidade de reforçar o papel da universidade frente à
comunidade, a Universidade do Estado da Bahia criou o Projeto de
Extensão UNEB Contra o Coronavírus, dividido em cinco eixos, a fim de
se articular com duas USFs do Distrito Sanitário Cabula/Beirú, na cidade
de Salvador, e estabelecer mecanismos de promoção da saúde, focando
na população idosa em situação de vulnerabilidade social. O presente
relato objetiva descrever a experiência da frente “Afeto nas Redes”,
parte integrante do subeixo de Saúde Mental desse projeto e
responsável pelo desenvolvimento de produtos audiovisuais como
estratégia de reduzir os impactos psicológicos causados pelo cenário
atual nesse recorte populacional. Descrição da Experiência: A relação
estabelecida com os idosos se deu por intermédio de vídeos e podcasts
semanais, tendo como fundamento algumas demandas trazidas por

287
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

outra frente do projeto, as “Ligações Afetivas”. Utilizando-se de uma


linguagem acessível e afetuosa, em diálogos, e de recursos artísticos –
desenhos, música, cordel – foram trazidas sugestões de manejo das
emoções frente a situação atual, notícias positivas a fim de resgatar um
olhar mais otimista e propostas de práticas voltadas ao autocuidado,
além de temas como comensalidade e autoestima. Para a construção
desses conteúdos, vários instrumentos tecnológicos foram mobilizados,
a exemplo do WhatsApp, Instagram e editores de áudio e vídeo. As
etapas de criação compreendiam desde a definição conjunta dos temas
nas reuniões; redação dos roteiros, com base em materiais de referência
e sob a orientação dos professores; troca de informações; gravação de
voz, seguida posteriormente da montagem e da edição; até chegar nos
envios. O momento de compartilhamento servia de espaço para dialogar
com os idosos acompanhados e buscar suas impressões acerca dos
envios. Repercussões: Ao longo de oito semanas, foram confeccionados
cinco vídeos e três podcasts, possibilitando trocas com vinte e quatro
idosos por meio dos envios e das conversas subsequentes ao
compartilhamento. Esse vínculo permitiu aos idosos o acesso a
informações importantes sobre Saúde Mental, assim como colaborou
com o presente grupo na consolidação de uma visão integral acerca do
isolamento social e de seus desdobramentos psicossociais.
Considerações Finais: A pandemia nos obrigou a encontrar novas formas
de cuidado e a frente “Afeto nas Redes” assumiu seu papel na promoção
de saúde, colocando a arte, a ludicidade e as novas tecnologias como
potencializadoras desse processo. Ao mesmo tempo, notou-se como
dificuldades de acesso à internet e a dispositivos tecnológicos podem
ser obstáculos para educação em saúde dentro de tal contexto,
reforçando desigualdades sociais. Reconhecendo-se essas limitações,
faz-se necessário o uso da criatividade e o investimento concomitante
em outras formas de acolhimento.

288
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Agentes promotores da Saúde da População de Rua:


protagonismo para o cuidado

Iasmin Oliveira Carneiro


GHC

Maria Gabriela Curubeto Godoy


Roberto Henrique Amorim de Medeiros
Jesse Rodriguez Cardoso
Gabrielle de Souza Netto
Marina Dal Magro Medeiros
Théo Storchi da Rocha
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS

Anderson dos Santos


Paloma Cristina da Rosa
PSR

Esta experiência formou pessoas em situação de rua como Agentes


Promotores de Saúde da População em Situação de Rua (PSR), de
fevereiro a julho de 2019, em Porto Alegre/RS. O protagonismo da PSR
em processos educativos e de cuidado possibilitou a sua visibilização
pela potência, estabelecendo relações dialógicas mais simétricas e
reduzindo estigmas, possibilitando novas formas de sensibilização dos
trabalhadores de saúde para o cuidado de populações vulneráveis. A
formação dos agentes ocorreu em 10 encontros quinzenais alternados
com ações realizadas em diferentes territórios saídas por equipes mistas
compostas por 20 pessoas da PSR e por acadêmicos de graduação e pós-
graduação, todos colegas no curso de formação dos agentes. O processo
formativo inspirou-se nos círculos de cultura de Paulo Freire, na
Educação Popular em Saúde, na educação entre pares, e na ruaologia, o
saber que provém da experiência da PSR. O curso abordou diversas
temáticas, como: o cuidado de si e do outro, os serviços e direitos da

289
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

PSR, tuberculose, HIV/AIDS, uso de drogas e Redução de Danos, cuidado


da mulher e a gestante na rua, dentre outros. Após cada aula, composta
por círculo de exposição e conversa e atividade grupal da equipe,
ocorriam as ações no território, a partir de combinações realizadas com
os serviços de referência da saúde e assistência social que tinham
encaminhado candidatos a agentes. Ao longo dos meses as equipes
realizaram diversas ações, como: visitas e articulação com serviços de
saúde, assistência social e outros, bem como atividades de abordagem,
acompanhamento, encaminhamento e busca ativa da PSR com
tuberculose e outros agravos. Entre os desafios encontrados, destacam-
se os obstáculos burocráticos institucionais que atrasaram a inclusão
dos agentes da PSR como bolsistas, e a impossibilidade de continuidade
do projeto após seu término, o que denota as limitações de ações
transitórias com a PSR, cujas necessidades precisam ser atendidas por
políticas de maior duração e alcance. Por outro lado, a experiência de
articulação de diferentes atores - trabalhadores, PSR e acadêmicos,
possibilitou a experimentação de novos tipos de produção de cuidado e
sociabilidade; o fortalecimento do protagonismo de sujeitos e de
coletivos organizados com a visibilização da PSR pela sua potência; a
participação da população-alvo na elaboração e execução das ações com
a valorização dos saberes da rua (ruaologia); e a constituição de espaços
inter/transdisciplinares com orientação emancipatória e decolonização
epistêmica possibilitando novas formas de ocupação da universidade e
da cidade por segmentos historicamente excluídos, como a PSR.

290
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Algumas reflexões sobre a importância do serviço substitutivo diante


da subjetividade: um relato de experiência a partir de inserção no
CAPS

Bianca de Araújo Silva

Introdução: A reforma psiquiátrica no Brasil surge em prol de uma


mudança diante do contexto de atenção e gestão nas práticas de saúde,
visando a defesa da saúde coletiva, equidade na oferta de serviço,
protagonismo da equipe e das usuárias e usuários e diante de uma
tentativa de quebra do modelo asilar e hospitalocêntrico na assistência
às pessoas com transtornos mentais, compreendido como
desinstitucionalização. Para além da quebra de um modelo manicomial,
a desinstitucionalização visa a autonomia do sujeito diante de seus
processos e tratamento. Diante disso, a rede substitutiva de saúde
mental visa responder a complexidade do sujeito em sofrimento, sendo
o Centro de Atenção Psicossocial - CAPS, um dos instrumentos dessa
rede. O CAPS surge como instrumento estratégico para a Reforma
Psiquiátrica Brasileira. É o surgimento destes serviços que passa a
demonstrar a possibilidade de organização de uma rede substitutiva ao
Hospital Psiquiátrico no país e tem como uma das funções promover a
inserção social das pessoas com transtornos mentais através de ações
intersetoriais, levando em consideração a subjetividade de cada sujeito.
Descrição da experiência: O presente relato busca apresentar
experiências vivenciadas a partir da atuação em CAPS tomando como
recorte a observação de relatórios produzidos por um Hospital
psiquiátrico. A partir disso, verificou-se uma série de problemáticas:
uma delas foi a existência de poucos dados sobre os/as usuários,
considerando que a construção documental dos prontuários possuem
vários vazios que, basicamente, restringiam-se aos medicamentos
utilizados. Repercussões: Houve o atravessamento de uma série de
questões, principalmente diante do pouco tempo de inserção efetiva no
serviço. Nesse sentido, foi possível deparar-se com a falta de

291
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

informações sobre os sujeitos e a forma como o relatório evidencia,


mais sobre a institucionalização do funcionamento do Hospital
Psiquiátrico, do que informações pertinentes as/os pacientes. Nesse
sentido, é importante reafirmar a urgência de compreender os serviços
substitutivos como fundamental enquanto instrumento que considera o
sujeito e o território e tal compreensão incide diretamente diante de
seu tratamento e nos processos de subjetivação. Considerações finais: A
reforma psiquiátrica no Brasil é fruto de um processo político e social
complexo, composto de atores, instituições e forças de diferentes
origens, e que incide em territórios diversos, nas universidades, no
mercado dos serviços de saúde, nos conselhos profissionais, nas pessoas
com transtornos mentais e de seus familiares, nos movimentos sociais, e
nos territórios do imaginário social e da opinião pública. A problemática
apresentada sobre a construção de prontuários é também, uma forma
de construção de discursos e mecanismos de linguagem que
compactuam com uma lógica manicomial e estritamente biomédica, e
em muito distorcem o processo político de luta antimanicomial. Sendo
assim, articular o CAPS enquanto um dispositivo protagonista no
cuidado à saúde mental é, sobretudo, uma forma de alinhamento com a
compreensão de que cada sujeito possui sua subjetividade e que esta
incidirá diretamente diante de seu tratamento e nos processos de cada
um.

292
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Algumas reflexões sobre ato infracional e a institucionalização da


violência a partir da experiência de estágio com adolescentes em
conflito com a lei

Nathalia Bezerra de Siqueira


Universidade Federal de Alagoas - UFAL

Introdução: O ato infracional personifica a irrupção de um


acontecimento que escapa à lei, por meio da operacionalização de um
estatuto jurídico específico que foge à tentativa de dar conta do que se
rompe no ato. Nesse contexto, a sistematização de um corpo
institucional, fragmentado e instrumentalizado por mecanismos de
poder evidencia a violência que extrapola os espaços, invade os
territórios, marca os corpos e demarca formas de existência. Diante do
contexto político brasileiro, a violência se entrelaça com modos de
funcionamento institucionais que recaem sobre o adolescente e o ato
infracional, principalmente diante dos diferentes operadores que
legitimam a violência como uma forma de fazer valer a lei e o
ordenamento jurídico. Descrição da experiência: A partir de
inquietações advindas das vivências de estágio com adolescentes em
conflito com a lei, bem como da aposta na psicanálise para pensar
questões políticas, culturais, sociais e institucionais, o presente relato
emerge como forma de elaborar algumas reflexões sobre ato infracional
e a institucionalização da violência, sem a intenção de esgotá-las ou
tampouco de tomá-las como definitivas, mas sobretudo como uma
forma de demarcar alguns pontos sobre as fraturas políticas
entrelaçadas nos territórios e nas instituições. Repercussões: As
narrativas que transpassam as vivências possuem, em si, uma dimensão
que escapa da possibilidade de previsão e que, exatamente por esse
motivo, nos coloca em uma posição de não somente dedicar-se ao ato
infracional enquanto ato, mas também enquanto a irrupção de algo que
existe mergulhado em contexto histórico, social, político, econômico e
racial. O âmbito de uma posição que convoca, sobretudo, para criar

293
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

passagens pelas quais a fala pode escorregar, deslizar: como pensar a


operacionalização desses dispositivos dentro das instituições? Para além
disso, a emergência da violência nos territórios, nos corpos e nas
instituições atravessam uma lógica cuja tentativa de capturar a
experiência do adolescente em conflito com a lei é, sobretudo, forjada
por discursos estigmatizantes. Assim, é importante demarcar que há
algo na aposta do tensionamento das relações, dos limites e, mais ainda:
uma aposta no indecifrável e no equívoco que vacila a linguagem e o
inconsciente que demarca uma fratura. Considerações finais: Não se
trata somente de questionar esses lugares de fala, de escuta e de
discursividade. São também lugares de linguagem e deslocamentos
possíveis nas relações com e entre os sujeitos. Tal proposta de
deslocamento passa também por um estranhamento: pois a
possibilidade de tensionar os espaços e a estrutura atravessa por
questionamentos e inquietações múltiplas, principalmente diante da
urgência em mobilizar algo que falha em tais relações institucionais,
sociais e políticas. Sendo assim, o processo de estar diante da vivência
em um campo de estágio cuja emergência de situações sociais críticas
demandam uma escuta atenta não somente ao sujeito, mas também
para as violências cotidianas, cujos mecanismos de institucionalização
marcam fraturas no corpo e no ato.

294
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Ampliação do olhar em saúde mental: por um cuidado ao cuidador

Geny Alexandre dos Santos


Faculdade Uninassau

Introdução: A construção desta intervenção nasce pela observação das


dificuldades que cuidadores de pessoas em condição de transtorno
mental grave enfrentam em lidar com este indivíduo após o diagnóstico.
Sem saber o que fazer, são pessoas que ficam à deriva em uma situação
inesperada do contexto familiar. A partir dessa realidade pensamos em
uma intervenção que pudesse atenuar as angústias sentidas por tantas
famílias no cuidado aos seus parentes. Desse modo, construiu-se a
proposta de oficinas terapêuticas cujo objetivo estava para além da
escuta, mas também, a promoção de um espaço de aprendizagem, um
ambiente para partilha de experiências, a fim de que os cuidadores
construíssem uma história em torno do seu sofrimento, e assim,
mobilizassem atitudes de ressignificação para um contexto
emocionalmente difícil. Estes cuidadores foram contatados a partir de
uma ficha ambulatorial na policlínica de uma cidade do interior de
Pernambuco, onde são atendidos seus parentes e consta o nome e o
endereço de quem levou o paciente para o atendimento, neste caso
mães, esposa e irmãos. Relato da experiência: As oficinas contaram com
a participação de 5 cuidadores, em 3 encontros, com duração de 1 hora
cada. Trataram respectivamente dos temas “o que é a esquizofrenia?”,
“Entre a crise e o diagnóstico”, “Tratamento e Autonomia”, cada um
destes temas partiram das noções que os cuidadores traziam e como
vivenciavam esta realidade de modo singular. Inicialmente ficou
marcadamente evidente a frustração pelo “não saber mais o que fazer”
e o desgaste emocional pelo enfrentamento de situações com forte
mobilidade de afetos, as filhas que ateavam fogo na casa, o irmão que
gritava toda a noite não deixando os vizinhos dormirem, o marido que
andava nu pela cidade. Observou-se nestas oficinas que os cuidadores
estavam envoltos em muitos estigmas e ainda veem a internação como

295
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

o único meio de contenção em crise dos seus familiares, o que ratifica a


necessidade de apoio para estes cuidadores, em diferentes aspectos.
Repercussões: a participação dos cuidadores foi significativa, a
expressão das angústias e a partilha das experiências foram feitas com
maior intimidade a cada encontro. A medida em que os afetos eram
expressos, mais ideias também se construíam sobre o que fazer frente
às dificuldades diárias, inclusive pensar corresponsabilidades no cuidar e
a construção da autonomia do sujeito em adoecimento, a fim de
minimizar a solicitude do cuidado integral por um terceiro. Assim,
percebeu-se um espaço em que os cuidadores teceram relações de
sentido entre o adoecimento e o sujeito adoecido, reduzindo as tensões
do cotidiano. Considerações: acredita-se que o ambiente do grupo
terapêutico para cuidadores de pessoas em adoecimento mental grave
pode ser um lugar de ressignificação de afetos, partilha de experiências
e tomada de novas posturas do cuidador, além de um espaço
fundamental para reconstrução de vínculos e sensação de amparo.
Desse modo, considera-se que os grupos terapêuticos em diferentes
modalidades são fundamentais à estabilidade afetivo-emocional do
cuidador e favorecimento de múltiplas aprendizagens.

296
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Análise Psicodinâmica do trabalho dos Auxiliares de Serviços Gerais


que atuam em uma Universidade Pública Federal

Wítano de Oliveira Santos


Katerine S. Soares de Sousa
Lazaro P. da Silva Junior
Mírian Carvalho Lopes
Raimara Pereira Lourenço Duarte
Eduardo Breno Nascimento Bezerra
Fundação Universidade Federal do Tocantins - UFT

Com o passar do tempo o trabalho passou a ser compreendido como


algo importante para o desenvolvimento da humanidade, o qual é
complexo e implica muitos fatores na vida do sujeito. O crescimento da
indústria e a evidência da divisão entre concepção e execução do
trabalho produziu muitos prejuízos à saúde dos trabalhadores por causa
das horas estendidas de jornadas de trabalho, aumento da intensidade
da produção etc. A partir daí houve espaço para trabalhos precarizados
e invisibilizados. Um destes é o trabalho com limpeza e diante disso se
criou a proposta de intervenção com trabalhadoras deste setor em uma
Universidade Pública no interior do estado do Tocantins como pré-
requisito de aprovação na disciplina de Estágio Básico em Gestão e
Trabalho, ofertada no oitavo semestre do curso de Psicologia da
Universidade Federal do Tocantins. As atividades interventivas foram
conduzidas a partir do que é proposto pela Psicodinâmica do Trabalho,
que considera a relação da tríade: sujeito, trabalho e o outro. Foram
realizados seis encontros grupais no Centro de Estudos e Práticas em
Psicologia- CEPSI da Universidade Federal do Tocantins e um
acompanhamento individual durante o turno de trabalho dos
participantes. Ao todo, participaram oito Auxiliares de Serviços Gerais -
ASG’s, tendo a participação de apenas um homem em um dos
encontros, todas as outras eram mulheres. Durante os encontros o

297
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

grupo de estagiários propôs algumas dinâmicas a fim de que os


participantes repensassem sobre alguns aspectos do trabalho como a
vivência de prazer e sofrimento, relação deste trabalho com a vida
pessoal entre outros. Além disso ocorreu a escuta clínica ao passo que
os estagiários assumiram uma postura continental, a fim de acolher
todas as angústias suscitadas em relação ao trabalho e com a intenção
de promover um desenvolvimento saudável para as participantes.
Entendeu-se que há por parte delas uma demanda de se sentirem em
casa, mesmo estando no trabalho, outro aspecto importante da vivência
está atrelado ao apoio das colegas de profissão que tem sido importante
para poder continuar trabalhando e se distraírem neste ambiente o que
se configura como prazer para elas. Além disso colocam o quão positivo
é a relação com a comunidade acadêmica, tanto de professores e
técnicos como também de alunos da universidade que diariamente as
cumprimentam e as motivam. Além disso percebeu-se que elas sentem
a necessidade de cumprir suas tarefas mesmo com dores ou quando
têm os movimentos corporais reduzidos causadas por lesões
decorrentes do próprio trabalho, e somente param as atividades quando
o acometimento tenha atingido uma gravidade tal que impeça a
continuidade seja da atividade laboral, buscando assim, algum tipo de
intervenção médica. Foi possível perceber que a para os profissionais foi
importante serem reconhecidas pelo corpo técnico administrativo da
instituição, pelos estudantes como também pela chefia. Ademais,
também houve o reconhecimento entre os pares, que possibilitou maior
ascensão ao senso de coletividade, conteúdo esse que apareceu em
todos os encontros e que é utilizado como principal estratégia de
defesa, considerada por eles um fator motivacional para permanecerem
no trabalho.

298
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Andarilhando e resistindo: o Acompanhamento Terapêutico como


dispositivo de fortalecimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira

Cristian Da Cruz Chiabotto


CAPS I Saber Viver

Igor Sastro Nunes


Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul

Durante o percurso da reforma psiquiátrica brasileira, foram se criando


uma diversidade de ferramentas e dispositivos que pudessem dar conta
de implementar modos de cuidar que abarcassem a complexidade do
fazer em saúde mental e das práticas de desinstitucionalização. Dentre
tais dispositivos, o acompanhamento terapêutico (A.T) insurge como
modo de cuidar e conceber uma outra clínica, apontada por Lancetti
(2016, p.19) como prática peripatética, que se faz caminhando,
inventando percursos pela cidade que sejam capazes de pôr em
evidência a loucura e todos os modos de subjetivação que a clínica
tradicional com seus dispositivos não dão conta. Durante os anos que se
sucederam na árduo trabalho ético-político de desconstrução dos
aparatos manicomiais, o principal desafio se tece no campo da cultura e
da quebra dos paradigmas hegemônicos de tratamento da loucura, a
concebendo como um processo histórico, social, econômico e que
atravessa diversos campos de saber-fazer. Nisto, o A.T surge mostrando
através de diversos lugares, campos, regiões e casos, a sua eficácia em
costurar os processos complexos do sofrimento psíquico e de todos os
seus determinantes sociais, levando o usuário à rua e colocando em
questão não só a quebra dos aparelhos ideológicos do manicômio, mas
também a alteridade de um outro que ocupa o espaço público na sua
diferença, no delírio, na alucinação e que faz da rua o setting onde o
inusitado se torna terapêutico. Diante então deste processo complexo
de trabalho em saúde mental, utilizando-se do A.T, a reforma
psiquiátrica brasileira conseguiu avançar no campo das lutas

299
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

micropolíticas – ali no dia a dia do fazer onde os manicômios mentais


ainda assombram as práticas e os modos de gerir e cuidar – se
constituindo como importante ferramenta de desinstitucionalização da
loucura e de proliferação de outros modos polifônicos de subjetivação,
no entrecruzamento entre a rua, o urbano, o tempo, o andarilhar e o
sofrimento psíquico, tecendo assim um novo sentido de composição da
vida na cidade e no laço social. É diante destes entrecruzamentos que o
dispositivo do A.T, se mostra como um modo de resistência face aos
retrocessos que ocorrem nas políticas de saúde mental no Brasil desde o
golpe da elite burguesa e neoliberal em 2016, compondo e colocando
em questão no ato que é possível ativar a criação de campos que se
oponham ao modelo médico-hegemônico do cuidado no sofrimento
psíquico que historicamente se mostra encarcerador e excludente. O
acompanhamento terapêutico neste sentido, é capaz de compor uma
prática ético-política para o fortalecimento da reforma psiquiátrica
brasileira, evidenciando que é preciso investir em práticas extra-muros e
afirmando que a liberdade sempre será nosso principal dispositivo
terapêutico diante das ofensivas manicomiais do sistema neoliberal
brasileiro que insiste em desmontar os avanços e conquistas da luta
Antimanicomial.

300
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Aplicação do “Jogo dos Estereótipos” em um processo seletivo para


ingresso no Grupo de Trabalho de Redução de Danos UNIFACS

Nágila Conceição Santos


Amanda dos Santos Lima
Diele Santos da Paixão
UNIFACS - Universidade Salvador)

Introdução: O “Jogo dos Estereótipos” é uma ferramenta de associação


sobre o uso e usuáries de substâncias psicoativas. Entende-se
estereótipos como ideias preconcebidas a respeito de algo ou alguém,
com viés preconceituoso derivado de padrão estabelecido pelo senso
comum. Deste modo, o jogo tem por objetivo provocar uma reflexão
crítica acerca dos estigmas e preconceitos que perpassam a sociedade
relacionados ao consumo e às/aos usuáries de substâncias psicoativas,
procurando correlacionar com a prática da redução de danos e
promover uma quebra de paradigmas, utilizando da ludicidade como
veículo para o debate de temas que ainda hoje são tabus em nossa
sociedade. A jogabilidade se dá com a distribuição de palavras que
caracterizam: vestimenta (bermuda, camisas e terno), comportamento
(agressividade, extroversão, inibição), aparência física (magre, gorde,
negre e não negre), na qual os participantes devem montar um perfil
das/dos usuáries de cada substâncias (maconha, álcool, crack, cafeína,
medicamentos). Descrição da experiência: O processo seletivo do grupo
acontece semestralmente e comumente é composto por três etapas que
são entrevistas, dinâmica e discussão de casos com temáticas sobre
atualidades. No processo de 2019.1 a dinâmica escolhida foi o “Jogo do
Estereótipos”. Tal ferramenta foi escolhida com intuito de realizar
mapeamento da produção de conhecimento, aprendizagem e reflexão
dos possíveis futuros integrantes e de como os conceitos estereotipados
preestabelecidos socialmente contribuem para a visão excludente
mesmo dentro da academia, direcionada para determinados grupos.

301
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Repercussão: Diante do processo foi expressado pelos participantes a


relevância e a contribuição da ferramenta para o seu desenvolvimento e
a construção de uma visão crítica e política respeito das temáticas que
são abordadas. Para além disto, fica evidenciado como este processo de
conhecimento, aprendizagem e reflexão, permite o entendimento de
que o uso de substâncias está inserido em diversos contextos da
sociedade e suas/seus usuáries não se resumem a grupos específicos.
Considerações Finais: A experiência afirma sua efetividade, uma vez que
o resultado da aplicação foi a construção coletiva de novos olhares e
fazeres desde a graduação no cuidado em saúde de usuáries de
substância. Possibilitando às/aos futures profissionais uma atuação
pautada no princípio da integralidade e no respeito, o qual tem como
prioridade a pessoa e não possíveis estereótipos sociais.

302
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Apoio matricial em prevenção do suicídio: coletivizando o cuidado em


saúde mental na Atenção Básica

Izabela Gomes Veiga de Sousa


Miriam Maróstica
Isabel Campos Mustafa Figueiredo
Marta Ferreira Menezes de Almeida
Fundação Estatal Saúde da Família-FIOCRUZ

Introdução: Compreendemos a Atenção Básica como um nível de


atenção estratégico para o cuidado em saúde mental, pautado nos
princípios da Reforma Psiquiátrica. A Estratégia Saúde da Família (ESF), a
partir de seus princípios, diretrizes e tecnologias possíveis, favorece a
orientação para este cuidado. No contexto nacional de enfraquecimento
da ESF, há um grande desafio para organizar e desenvolver processos de
trabalho que coletivizem a responsabilidade pela saúde mental na
Atenção Básica. Este trabalho visa a relatar a experiência de uma ação
desenvolvida para a superação deste desafio por residentes de
psicologia em primeiro período, do Programa de Residência
Multiprofissional em Saúde da Família, da Fundação Estatal Saúde da
Família (FESF-SUS) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Campo Salvador,
Bahia.
Ao iniciarmos a formação em serviço na Unidade de Saúde da Família,
chamou-nos à atenção, a alta frequência de solicitações pelos
profissionais das equipes mínimas para atender usuários em risco de
suicídio e as limitações das ações de manejo e prevenção, que
centravam-se em prescrição de psicotrópicos, intensificação de
consultas na unidade ou encaminhamento para o pronto-atendimento
psiquiátrico. De acordo com dados do SINAN, da série histórica 2010-
2020, o distrito sanitário do qual a USF faz parte está entre aqueles que
apresentaram maiores número e taxa de notificações por lesões
autoprovocadas por 10.000 habitantes, no município de Salvador.

303
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Descrição da experiência: Realizamos, assim, a sequência de três oficinas


pedagógicas, com o tema “Prevenção de Suicídio na Atenção Básica”,
abordando compreensões sobre o suicídio, o suicídio ao longo da
história e na saúde pública, classificação de risco, manejo e prevenção
por meio da ESF. A primeira delas, facilitada pelas residentes de
psicologia, objetivou prestar apoio matricial à equipe de residentes
multiprofissionais. As oficinas subsequentes foram facilitadas por todos
os residentes multiprofissionais, tendo como público os residentes da
Residência em Medicina de Família e Comunidade (FESF-SUS) que
realizam formação na USF e profissionais de vínculos diversos que
compõem o quadro da unidade.
Repercussões: Após a realização das três oficinas, recebemos o retorno
dos residentes multiprofissionais sobre estarem mais bem preparados
para acolher usuárias(os) em risco de suicídio, compreendendo o papel
da escuta e do vínculo neste trabalho. Nas oficinas que contaram com a
presença de profissionais das equipes mínimas da USF, os participantes,
reconhecendo a importância da educação permanente sobre o tema,
iniciaram o planejamento de ações como ciclos de formação, discussões
de casos analisadores e rodas de campo para capacitação sobre
notificação por lesões autoprovocadas.
Considerações Finais: Como consequência do diálogo com preceptora e
apoiadora de núcleo, baseando-nos em princípios e diretrizes do
Sistema Único de Saúde, apostamos em uma experiência de apoio
matricial, com o objetivo de fazer circular a discussão sobre a prevenção
do suicídio. Isto possibilitou que identificássemos, juntos às equipes,
quais sentidos atribuídos ao suicídio e sua prevenção orientavam suas
práticas até o momento. Assim, qualificamos o planejamento de
estratégias a fim de ampliar a clínica e as possibilidades de abordagem
pelas equipes, destacando as potencialidades e desafios da Estratégia
Saúde da Família para este trabalho.

304
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Apoio psicossocial online aos profissionais residentes como estratégia


de saúde mental em tempos de pandemia.

Camila da Soledade Urquiza Lins


Gyovanna Hyamonna Gomes de França
Sthefany Severo Souza
Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz

Introdução: Diante do cenário da pandemia do coronavírus, a


experiência da residência se dá de forma diferente ao que era esperado.
Sendo assim, o formato online se insere de forma bastante contundente
neste primeiro ano da residência. Também diante do contexto da
pandemia, se notou o aumento do adoecimento mental dos
profissionais de saúde. Portanto, uma das frentes propostas pela equipe
gestora da residência em saúde mental, álcool e outras drogas da
Fiocruz Brasília foi o atendimento de residentes de outros programas da
instituição, ofertando escuta e acolhimento de forma online.
Descrição da Experiência: 1º momento: adaptação de ambas as partes
(período para se adaptar com as novas ferramentas de
trabalho/atendimento). No primeiro momento, foi ofertado o
atendimento a residentes do estado da Bahia, que passaram por um
primeiro acolhimento com um membro da equipe docente do
programa. Os casos acolhidos então foram repassados às equipes
multiprofissionais de residentes que consistem em profissionais do
serviço social, da enfermagem e da psicologia. A equipe então fez
contato com os residentes através do aplicativo de mensagens
WhatsApp. Ofertou-se a possibilidade do acolhimento por meio de
mensagens, áudio ou chamada de vídeo, a ser escolhida pelo residente
usuário. Ambos os usuários atendidos optaram por chamada de vídeo
como meio de atendimento. As dificuldades neste processo estiveram
relacionadas aos horários para a realização dos encontros, uma vez que
a residência é um programa com carga horária de 60 horas semanais,
como também a adaptação à nova forma de atendimento não

305
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

presencial, o que exige diferentes estratégias para alcançar um


atendimento qualificado. 2º momento: escuta como processo de
acolhimento e transformação. Assim, se buscou ao longo do processo
oferecer um espaço de escuta para aqueles que solicitaram
atendimento. O fato de serem residentes atendendo às suas demandas,
facilitou o processo de acolhimento e identificação, pois determinadas
queixas tinham relação com as vivências comuns que ocorrem nos
programas de residência. Durante os atendimentos, a promoção do
espaço de escuta, trouxe para os residentes usuários reflexões sobre
como lidar com suas primeiras demandas e cuidar de si diante da
situação vivenciada. Ainda foi possível perceber novas demandas que
não aquelas levantadas no primeiro momento, as quais puderam
também ser expostas e trabalhadas. 3º momento: resultados/conclusão.
Como conseguimos perceber os resultados dos atendimentos? Os
usuários residentes explanaram que o espaço de escuta ofertado
durante o período de um mês e meio, significou momentos de
autocuidado, de poder olhar para as questões que estavam lhe afligindo
e ao fazê-lo elaborar para que as mudanças fossem colocadas em
prática. Estar trabalhando diretamente com processos associados a
pandemia, com uma extensa carga horária de trabalho, exige
minimamente que espaços de escuta como esse sejam mais
disseminados, visto que a forma como se organizam programas de
residência tendem a ser propulsor de adoecimento físico e mental, e
diante da atual conjuntura a situação se intensifica.

306
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Aprendizagem no Trabalho: a articulação do enfermeiro residente e


preceptor na saúde mental

Jaksiana Batista da Silva


Darla Tormen
Marcelo da Silva Alves
Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF

A residência multiprofissional em saúde é um modelo de ensino de


especialização lato sensu, voltada para a formação em serviço criada em
2005 pela lei 11.129 e segue os princípios e diretrizes do SUS. Trata-se
de uma formação caracterizada pelo trabalho multidisciplinar,
intersetorial, que possibilita ao profissional residente adquirir
qualificação através da articulação com o seu preceptor, profissional de
sua categoria, que atuante no cotidiano do serviço poderá partilhar
experiências e saberes. Dentro da experiência do cotidiano no CAPS, o
enfermeiro e o residente fazem o trabalho que interliga gestão,
assistência e educação, sendo condizentes com a resolução COFEN 599
de 2018, que traz as atribuições do enfermeiro na saúde mental.
Percebemos então, que ocorreu uma mudança no perfil do trabalho do
enfermeiro antes executado nos hospitais psiquiátricos e agora no novo
modelo de assistência pós-reforma psiquiátrica desempenhado nos
CAPS, em que o relacionamento terapêutico permite ações como escuta
qualificada e atendimentos individualizados mais resolutivos e
contribuidor da assistência interdisciplinar. Por demonstrar a
importância da articulação preceptoria e residente na formação
profissional e na assistência e fomentar novos olhares para a
enfermagem como agente terapêutico na saúde mental este relato de
experiência é relevante e objetiva descrever as possibilidades de
atividades de enfermagem enquanto em articulação preceptoria e
residente nos CAPS. Assim, entre as ações desempenhadas pelo
preceptor e o enfermeiro residente dentro de um CAPS, estão as
gerenciais, em que os mesmos tornam- se responsáveis pela elaboração

307
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

de escalas e protocolos, articulam fluxos de atendimento com a equipe,


supervisionam e direcionam o serviço e os insumos necessários. Na
assistência, o preceptor e o residente de enfermagem, realizam ações
procedimentais que são específicas da profissão, mas há um olhar
especial sobre a construção do relacionamento terapêutico, em que
holisticamente há o acolhimento, a escuta, a formação de vínculos e
tornam-se referências técnicas dos usuários. Aqui se mostram hábeis
também nas conduções de grupos realizados como oficinas terapêuticas
e nos cuidados individualizados ora em visitas domiciliares, serviços
residências terapêuticos, ora em consultas de enfermagem em que
estabelecem direcionamentos para o tratamento e contribuem com a
equipe multiprofissional na construção de projetos terapêuticos
singulares. Articulado à atenção primária e ao cuidado territorial,
realizam o matriciamento que se expressa como uma atividade
assistencial e ao mesmo tempo educacional, intersetorial e
interdisciplinar, ampliando o aprendizado para o residente em contato
com seu preceptor. As ações educacionais não se desvinculam nem do
processo assistencial e nem do gerencial, pois estas atividades
contribuem para o cuidado institucional, individual, em grupo e na
relação preceptor e residente. Podemos dizer então que a articulação
preceptor e residente se constrói dentro de um processo educacional e
sendo atividades cotidianas do trabalho, se demonstram como
assistencial e gerencial para um cuidado integral na sustentação de uma
clínica ampliada. Conclui-se que o enfermeiro residente articulado ao
seu preceptor entrelaça a teoria com a prática cumprindo o papel da
enfermagem em toda sua complexidade e consolida a práxis deste
profissional na saúde mental e como agente terapeuta.
Descritores: Aprendizagem. Enfermagem. Saúde Mental. Trabalho.

308
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Aprisionamento de Si e Constituição Subjetiva do Carcereiro: um relato


de experiência sobre impactos do trabalho na saúde mental em
agentes penitenciários

Ariana de Oliveira

Jéssica Barbosa da Silva Laia


Centro Universitário Estácio de Santa Catarina

João Fillipe Horr


Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI

O presente relato de experiência tem enfoque no processo de


acompanhamento das atividades de agentes penitenciários, durante
três semestres de estágio supervisionado em Psicologia, entre 2018 e
2019, em uma unidade de regime fechado e outra de semiaberto. Pode-
se pensar no agente penitenciário como um servidor que habita no
imaginário popular na dualidade do bem e do mal, da manutenção da
ordem e da punição.
No contexto prisional, é reconhecido o papel dos agentes penitenciários
em invalidar, questionar ou até mesmo impedir o acesso de sujeitos
privados de liberdade a atenção psicossocial preconizada pela Política
Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade
no Sistema Prisional. Portanto, priorizou-se intervir junto aos agentes
penitenciários, por uma demanda de trabalho advinda do setor de
Psicologia e de Segurança do próprio contexto.
Descrição das experiências: Para a construção das intervenções, foram
realizadas observações participantes, entrevistas informais, utilização de
diário de campo e acompanhamento das rotinas de processo de
trabalho. A partir da construção do vínculo, foi possível realizar
acolhimentos e escuta qualificada de acordo com as demandas dos
agentes. A entrada no campo, foi permeada pelo preconceito a respeito
da psicologia. Os agentes, colocados diante de um serviço que antes era

309
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

inexistente, sentiram certa desconfiança. Esse sentimento veio à tona


nas discussões iniciais, onde os APs traziam no discurso o receio de
contar sobre as vivências ou sobre a vida pessoal. Apesar disso, o vínculo
foi estabelecido, possibilitando o desenvolvimento de diversos debates,
e encaminhamento para a rede de apoio e para a Clínica Escola.
A presença ativa junto as rotinas vivenciadas por eles foram de extrema
importância, a compreensão da subjetividade, da identidade
profissional, dos fatores que atravessam a rotina de trabalho, foram
norteadoras para a compreensão dos processos de sofrimento ou
adoecimento psicossocial. A masculinidade foi muitas vezes claramente
defendida e reafirmada pelos agentes prisionais, ao longo do tempo de
estágio. O campo em si é predominantemente masculino, e os APs
encontravam diversas formas de se relacionar que mostrassem o lugar
de força e virilidade que é esperado da categoria. Dentre as demandas
acolhidas pela escuta qualificada, foram percebidos o abuso de
substâncias psicoativas, a agressividade no contexto familiar, o estado
de hiper vigilância dentro e fora do contexto prisional e as dificuldades
de busca de legitimação desses processos de sofrimento por parte dos
APs. No terceiro e último semestre, os atendimentos na clínica- escola
continuaram, e foi iniciado o processo de uma pesquisa a fim de
compreender os riscos psicossociais e estratégias de enfrentamento da
categoria profissional. Após o levantamento, os dados serão cruzados e
comparados nas duas unidades onde os estágios foram realizados.
Considerações Finais: Levantar e compreender os principais indicadores
de sofrimento decorrentes da prisionização, bem como conhecer os
principais procedimentos que desencadeiam estes sentimentos e
pensamentos, poderiam funcionar como potencial conteúdo, com a
finalidade de fazer emergir procedimentos que respaldem não somente
a integridade física, mas também a integridade de saúde mental do
agente penitenciário, refletindo diretamente nas melhorias para a
população carcerária.

310
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Arte e cultura como estratégias de cuidado e expressão


comunicacional no contexto da pandemia:
a experiência do Festival CultivAR-TE

Alice Fernandes de Andrade


Helena Zoneti Rodrigues
Raquel Martins Loureiro
Leticia Gomes Fonseca
Larissa Campagna Martini
Universidade Federal de São Carlos - UFSCAR

Fernanda de Cássia Ribeiro


Universidade de Araraquara - UNIARA

Introdução: A pandemia do novo coronavírus trouxe diversos desafios,


desde a necessidade enfrentamento para minimizar a contaminação em
massa e os prejuízos em saúde, os efeitos e usos políticos e econômicos
implicados, além da evidente necessidade de cuidado em saúde mental.
Sob essas demandas, a comunicação se tornou elemento chave, diante
da demanda de difusão intensa de informações científicas a respeito de
orientações de novas condutas e modos de vida que precisaram ser
adotados. Considerando, ainda, a disputa de sentidos sobre a
comunicação, a infodemia, as informações falsas e manipuladas,
somadas a velocidade de difusão e novas práticas remotas que ditaram
os cotidianos da sociedade. Descrição da Experiência: Um grupo de
docentes, técnicos, estudantes e outros parceiros de uma universidade
pública do interior paulista constituiu uma plataforma de informações,
voltada para profissionais, público em geral e grupos específicos - o
InformaSUS. Neste contexto, uma série de ações foram desenvolvidas.
Assim, apresentamos a experiência do Festival Cultural “CultivAR-TE”,
um projeto de extensão que pautou-se na premissa da comunicação
como espaço para produção de subjetividade, diálogo e entendimento
mútuo. Relatamos como as artes e a cultura na interface com a saúde

311
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

mental foi gestada como forma de cuidado e expressão comunicacional.


Trata-se de uma galeria virtual de obras produzidas em oito diferentes
expressões artísticas, em quatros formatos distintos (vídeo, imagem,
texto e GIF), sobre o contexto pandêmico. Neste processo, promovemos
a expressão de pessoas e grupos, usualmente receptoras de informação,
como agentes dessa produção. As equipes de organização, curadoria e
coordenação que compuseram o projeto, foram compostas por 35
contribuidores, entre eles: estudantes de terapia ocupacional, docentes,
profissionais, artistas independentes, entre outros. As obras foram
inscritas via formulário eletrônico e passaram pelo processo de
curadoria para serem postadas na galeria virtual
(https://www.informasus.ufscar.br/festival-cultura-cultivar-te/galeria-
virtual/) e divulgadas em redes sociais dos projetos. A equipe do portal
realizou a revisão linguística e design. Repercussões: Foram inscritas 293
obras nos eixos previstos pelo edital: Retratos do isolamento social;
Resiliência em tempos de pandemia; O cuidado de si e do outro e
Permanências e transformações da cultura. A página do festival e suas
obras foram acessadas 9.107 vezes e visualizadas por 6.389 pessoas,
atingindo diversos estados do país e fora dele. A comunicação entre
equipe e participantes pautou-se na solidariedade e na compreensão do
momento partilhado, considerando as perdas e lutos, transformações e
outros sentimentos vivenciados neste processo. Considerações finais: As
obras permearam as relações concretas inscritas nos cotidianos, que
expressadas artisticamente exploraram diferentes desafios impostos
pela pandemia. Deste modo, ao estabelecer práticas de comunicação
afetiva, solidária e empática embasadas no cuidado, inclusão e
acolhimento entre todos os envolvidos no processo, viabilizou um
espaço virtual de resistência frente às problemáticas informacionais, sob
a transparência e respeito, que fomentou processos de cuidado,
também em saúde mental, diversidade cultural, processos muito
especiais para o período.

312
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Arte e Saúde Mental: (novas) tecnologias.

Jeferson Diogo de Oliveira Santos


Prefeitura Municipal de Rio Pardo

A arte acompanha o desenvolvimento do ser humano, desde os


primórdios de nossa existência até os dias atuais. O fazer expressivo e
artístico é inerente em cada ser, como um fazer de muitos caminhos e
possibilidades. A arte como instrumento do psicólogo no campo da
saúde mental é necessária nestes tempos de (des)sensibilização das
subjetividades. Quebrando a preconcepção de arte como ferramenta
diagnóstica, a chamada arteterapia possibilita que os sujeitos deem
forma aos seus conteúdos inconscientes, ressignificando sua forma de
ser e estar no mundo. A partir de grupos terapêuticos, utilizando-se da
arteterapia como práxis de trabalho, foi desenvolvido entre junho de
2019 a janeiro de 2020, o projeto Arteterapia e Saúde Mental. Com a
proposta de oportunizar espaços de expressão e vivências, o projeto
atendeu cinquenta e quatro profissionais da saúde (agentes
comunitárias de saúde), muitas em processo de adoecimento mental e
fazendo uso de medicação antidepressiva. Durante os encontros
quinzenais, diversas temáticas foram sendo desenhadas e emolduradas
na vida de cada participante, que descobriram o mais precioso remédio
para a saúde mental: a arte e o contato com si mesmo. Da estranheza de
utilizar materiais artísticos do primeiro encontro até a mostra realizada
com imagens produzidas pelas participantes, se construiu um caminho
de prevenção, promoção e – arrisco afirmar – intervenção em saúde
mental. Assim como Nise da Silveira, importante figura no cenário da
psiquiatria e psicologia, derrubou muros e ergueu pontes com arte, a
presente experiência (re)afirmou a importância de novas tecnologias no
fazer em saúde mental. Como repercussão e resultados, foi significativa
a melhora apresentada no bem estar das participantes, inclusive na
diminuição do uso de ansiolíticos e antidepressivos, além de uma maior
capacidade de expressar e atribuir significado às suas emoções. Além

313
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

disso, uma importante porta foi aberta no pequeno município de Rio


Pardo, no Rio Grande do Sul, para se pensar saúde mental para além de
internações psiquiátricas e tratamentos farmacológicos. Afinal, como
nos coloca Shaun Mcniff: “A arte é capaz de curar as feridas pessoais, da
sociedade e da alma”.

314
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Arte no Caos: expressividade e promoção da saúde mental em tempos


de pandemia de COVID-19

Esther D' Almeida Brito, Beatriz Prado Pereira


Rafaela Porcari Molena Acuio
Beatriz Rocha Monteiro
Carla Aparecida Alves da Silva
Rafael Pereira de Araújo
Universidade Federal da Paraíba - UFPB

Tendo em vista o cenário de distanciamento social e pandemia de


COVID-19, a extensão universitária precisou adaptar e reinventar suas
abordagens e articulações, a fim de dar continuidade à difusão e
democratização do conhecimento e contribuir com a sociedade neste
momento de instabilidade sócio-político-sanitária. Este trabalho tem
como objetivo apresentar e discutir as ações de extensão realizadas pelo
projeto “CircuiTO Arte no Caos”, desenvolvido por nove extensionistas,
entre docentes e discentes do curso de Terapia Ocupacional da
Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no período de 8 de junho a 14
de agosto de 2020. Foram desenvolvidas dez atividades expressivas
online síncronas e assíncronas, por meio de plataformas como
Instagram, Whatsapp e Google Meet, em que diferentes expressividades
plásticas, lúdicas e imagéticas foram utilizadas como forma de refletir e
ressignificar a vivência da pandemia e do distanciamento social e
contribuir para a saúde mental de seus participantes. As propostas
foram dedicadas ao coletivo universitário da UFPB, profissionais e
público em geral, e contou com a participação de cerca de cem pessoas
de diversos estados brasileiros. Foram realizadas dez ações, dessas,
cinco foram concretizadas de forma assíncrona, sendo elas: duas
exposições fotográficas sobre a vivência de estar e perceber-se durante
o distanciamento; exposição literária sobre relacionar-se durante a
pandemia; mostra de expressão musical, representando a vivência de
isolamento; e exposição de artes visuais a partir de poesia disparadora.

315
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

As outras cinco atividades se deram de forma síncrona, sendo elas:


debate acerca do filme “Que horas ela volta?”, oficinas de autorretrato e
de mandalas; roda de conversa sobre atividades significativas e
motivação durante a pandemia e a realização de um sarau para
celebração das atividades, reencontro dos participantes e finalização do
projeto. No Instagram, administrado pela equipe executora, foram
realizadas publicações sobre as ações, bem como inúmeras interações
por meio de stories, comentários e mensagens. Após dois meses de
projeto, o Instagram contou com 641 seguidores e 93 publicações. Pelo
ambiente virtual, os participantes puderam trocar experiências,
ressignificar atividades do cotidiano, e sentiram liberdade para falar
sobre sentimentos, dilemas e o que lhes era significativo neste
momento de pandemia. O direct do Instagram era o principal meio de
comunicação, que alcançou proporções não esperadas, com relação à
expressão dos participantes, que buscaram apoio, motivação e
compreensão através do projeto. Sendo assim, o distanciamento social,
saturado pelo estresse, ansiedade e angústia, foi ocupado pelas ações e
movimentações artísticas, e através da arte foi possível sentir,
experimentar e expressar sentimentos e emoções. A criação e expressão
artística foi um mecanismo para se lidar com a realidade, por vezes
severa, e enxergar beleza no caos. A arte tornou-se um instrumento
potente para atenuar os impactos e ressignificar o isolamento social,
uma vez que, a singularidade e a subjetividade dos processos artísticos
promoveram novas produções, diferentes possibilidades de vivenciar a
quarentena e produzir múltiplos sentidos para as artes. Assim, esses
recursos permitiram, a partir do ambiente virtual, a criação de vínculos,
o contato entre pessoas de diversas localidades do país e o
compartilhamento de emoções e afeto.

316
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Articulação em rede e corresponsabilização do caso: população em


situação de rua e Saúde Mental na Defensoria Pública do Estado de
São Paulo

Isabella Castello Berchielli Nunes


PUC - SP

Trata-se de um caso de um usuário atendido durante a experiência de


estágio em Psicologia, desenvolvida no Centro de Atendimento
Multidisciplinar (CAM) da Divisão de Atendimento Inicial Especializado
ao Público da Defensoria Pública do Estado de São Paulo (DPE) no
atendimento para população em situação de rua. Claudio (nome fictício)
chega à DPE afirmando estar em situação de rua na cidade de São Paulo,
com pernoites em Centro de Acolhimento na região norte de cidade.
Apresenta a queixa de que há lentes computadorizadas em seus olhos,
onde tem instalado um chip, através do qual é monitorado por pessoas
que o perseguem e o ameaçam. Seu pedido endereçado à instituição
jurídica é para que seja realizada uma liminar para a realização de
cirurgia emergencial em seus olhos. No atendimento jurídico, foram
esclarecidas as possibilidades e impossibilidade de encaminhamentos.
No atendimento do CAM, a escuta se ampliou para além das
impossibilidades de judicialização. Claudio retorna outras vezes à DPE,
solicitando atendimento com a mesma estagiária da Psicologia. Com
efeito, passa a trazer fragmentos de sua história: sua origem é de uma
favela de Niterói, Rio de Janeiro, onde mora sua família; se afasta dela
após situação em que descobre que sua mãe e sua filha mais nova
haviam morrido; afirma que as lentes em seus olhos foram colocadas
por pessoas perigosas do tráfico de drogas do território, e vem para São
Paulo com objetivo de proteger sua família das perseguições que
acredita sofrer. Durante os atendimentos, Claudio fala mais de uma vez
sobre a vontade de rever sua família, mas vacila, preocupado com a
segurança dela. Realizamos a articulação com a rede de serviços por
meio de contatos telefônicos; suporte para pleiteio de vaga fixa em

317
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

centro de colhimento; reunião de rede com UBS, Centro de Acolhimento


e CAPS do território para discussão do caso. Claudio passa a se
aproximar dos cuidados de saúde da UBS, do CAPS e se reorganiza em
relação ao seu autocuidado. Após meses de atendimento, retorna pela
última vez, procura pela estagiária e conta que pretende voltar para sua
família. Diante do sujeito em sofrimento psíquico, a escuta oferecida se
ampliou para além do pedido jurídico, a fim de identificar as demandas
passíveis de serem cuidadas dentro da articulação dos serviços da rede.
Os retornos de Claudio à Defensoria procurando a mesma estagiária
evidenciou algo da inscrição de um vínculo transferencial, este que
permitiu a sustentação da escuta do relato delirante, sem equivocá-lo e
sem ignorá-lo, a fim de dar espaço para que o sujeito construísse outras
formas de narrativas de si. A articulação com a rede ampliada permitiu a
construção do caso a partir da singularidade do sujeito, que deu notícias
dos caminhos de cuidado a serem traçados junto com ele. O cuidado em
rede contribuiu para que Claudio se comprometesse com seu desejo de
retornar à família.

318
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

As Implicações Profissionais para Atuação na Política de Saúde Mental:


potencialidades e dificuldades persistentes na atenção à saúde no
município de Natal/RN

Maria Márcia de Oliveira Freire


João de Deus de Araújo Filho
Maria Clara Guimarães de Azevedo
Emilly Bezerra Fernandes do Nascimento
Maria Yohana Matias Silveira
Beatriz Holanda Macena
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

O trabalho que segue tem por escopo apresentar as potencialidades e as


dificuldades enfrentadas por profissionais de saúde na Política de Saúde
Mental. Têm como lócus de estudo os estabelecimentos de saúde no
município de Natal/RN. É fruto da experiência acadêmica-profissional
vivenciada por residentes do Programa de Residência Integrada
Multiprofissional em Saúde do Hospital Universitário Onofre Lopes, na
área de concentração em Atenção Psicossocial. O estudo tem como
recorte temporal, o período de março de 2019 a março de 2020, período
que corresponde a inserção desses/as profissionais nas instituições
prestadoras dos serviços de saúde mental. Ao final desse estudo,
pretende-se apontar as dificuldades enfrentadas, bem como apresentar
as ações potencializadoras, que mesmo diante das limitações, têm sido
desenvolvidas. Nessa perspectiva, tem-se que a partir da vivência nos
estabelecimentos de saúde do município de Natal/RN, a saber: Hospital
Geral (Ambulatório Multiprofissional e Enfermaria), Unidade Básicas de
Saúde – Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica e Centro
de Atenção Psicossocial foi possível perceber que as maiores
dificuldades tratam-se de aspectos relacionados ao déficit de
profissionais, dificuldade no abastecimento de recursos materiais
(insumos, equipamentos, limpeza, etc.), alimentação (usuários/as e
equipe técnica), vazios assistenciais e/ou fragilidades nos demais pontos

319
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

da rede de serviços, ausência de qualificação profissional, entre outras


coisas que diminui o potencial resolutivo dos serviços anteriormente
descritos. Todavia, apesar das limitações apresentadas, percebe-se que
tais serviços têm desempenhado um papel primordial na efetivação da
Política de Saúde Mental nesse município, desenvolvendo ações e
serviços em consonância com a Luta Antimanicomial, por meio da
realização de Grupos de Psicoeducação, Operativos e Terapêuticos,
Ações Socioeducativas, espaços para o desenvolvimento do potencial
artístico por meio da música, leitura, pintura, confecção de objetos com
materiais recicláveis, etc. Com o desenvolvimento dessas ações, as
equipes objetivam fazer com que o/a usuário/a adquira autonomia para
o desenvolvimento das atividades diárias e, posteriormente possam usar
suas habilidades para a realização de ações geradoras de renda. Diante
do exposto, compreende-se que as potencialidades presentes nos
serviços se configuram como elementos que necessitam de incentivo,
disponibilização de recursos para sua realização, pois muitas vezes os
materiais são custeados pelos/as profissionais que facilitam a atividade.
Outro fator importante refere-se a necessidade de convocação de
profissionais para evitar a sobrecarga de trabalho e também, nesse
processo, é fundamental o incentivo para os profissionais participarem
de capacitações com temáticas relacionadas ao trabalho na Saúde
Mental, sobre a Política Nacional de Promoção da Saúde, Vigilância em
Saúde, Processos de Trabalho na Saúde, entre outros temas e,
sobretudo, maior empenho da gestão municipal no intuito de promover
condições adequadas para a execução das ações e serviços de saúde.
Nesse sentido, evidencia-se que os serviços de saúde disponíveis no
município de Natal/RN apresentam algumas fragilidades que dificultam
a operacionalização da Política de Saúde Mental. No entanto, mesmo
diante das limitações, ações em consonância com a Luta Antimanicomial
têm sido realizadas e, tem auxiliado de forma sistemática a população
em processo de adoecimento mental e viabilizado uma atenção à saúde
na perspectiva da integralidade.

320
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

As Marias e Helenas: relato de uma extensionista sobre mulheres do


Povoado Carrilho, Itabaiana/SE.

Paula Helen Santiago Soares


Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública - EBMSP

O presente trabalho foi formado a partir de um relato de experiência de


uma extensionista que realizou durante nove meses um projeto de
extensão em localidade chamada Povoado Carrilho, localizado na cidade
de Itabaiana, Sergipe. O beneficiamento da castanha de caju é a
principal fonte de renda. No decorrer da extensão foi realizado um
levantamento bibliográfico sobre a vida das mulheres ao longo do
contexto histórico, mostrando também as vivências das mulheres rurais.
Percebendo-se que contextos evidenciados principalmente das
mulheres rurais, também são os vivenciados pelas mulheres do Carrilho.
A experiência da extensão, com o contato com a comunidade através de
visitas ao território, sessões de cinema na associação de moradores com
a exibição de filmes temáticos, leituras sobre o assunto, além de uma
pesquisa previa, possibilitou ter um contato maior com a realização de
um encontro, onde foi conversado sobre as vidas delas. O encontro foi
estruturado da seguinte forma: no primeiro momento ouviu-se das
mulheres quais eram os desafios que elas tinham relacionados a
interação, seja com família, com vizinhos, com a comunidade e outras
pessoas. Elas disseram seus principais desafios em seguida, foram
apresentados os conceitos de habilidades sociais, os termos
assertividade, agressividade e passividade. Para compreenderem melhor
os conceitos foram realizados duas apresentações “teatrais” trazendo os
contextos relatados por elas ao longo da trajetória do trabalho na
comunidade. Depois das “dramatizações” as cenas foram refeitas pelas
presentes de forma que enfatizassem os conceitos apresentados
anteriormente e discutindo sobre as cenas e a realidade vivida no
povoado. Percebeu-se a passividade nas mulheres, afeta
consideravelmente. suas relações: consigo e com os outros,

321
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

reverberando na saúde mental. Assim, ao decorrer da extensão, foram


feitos diários de campo, que a partir deles e de trabalhos que traziam
relatos das mulheres, contribuíram para organizar relatos em três
categorias: lazer, trabalho e família. Temáticas que pontuam algumas
dificuldades vividas pelas mulheres, que em contextos assertivos
gerariam novas possibilidades. Conclui-se que os relatos contribuíram
para apresentar um pouco das vivências das moradoras do Povoado
Carrilho, Itabaiana, Sergipe, como também o trabalho feito em toda
comunidade e principalmente com elas. Mostrando que ao longo da
história não há muitas diferenças entre o que as mulheres de
antigamente viviam, percebendo que ideias são enraizadas até os dias
de hoje, mas mostrar que são pessoas de direito e que pode exigi-los,
além de aprender muito mais sobre si e, segura disso, mostrar quem
são.

322
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Assistência de Enfermagem no Atendimento ao Paciente com Risco de


suicídio:Relato de Experiência

Cristiane Rocca Pozzebon


Aline Maria de Mello
Maria Junges
Marli Scwambach de Vega
Marli Elisabete Machado
Hospital de Clínicas de Porto Alegre - HCPA

Introdução: O suicídio é uma das principais causas de morte no mundo e


está entre as três principais causas de morte de pessoas com faixa etária
entre 15 e 44 anos, com tendência de crescimento nas próximas
décadas, tornando-se um importante problema de Saúde Pública.
Segundo registros da Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio é
responsável anualmente por um milhão de óbitos (o que corresponde a
1,4% do total de mortes). O comportamento suicida varia desde o
pensar em se matar até a elaboração de um plano e a obtenção dos
meios para a consumação do ato. Do ponto de vista econômico, a
realização do ato em si e suas tentativas representam enorme custo
para a sociedade, em virtude dos investimentos necessários para a
formação do indivíduo, dos anos potenciais de vida perdidos devido à
morte precoce, e dos custos com atendimentos hospitalares. OBJETIVO:
Este trabalho visa relatar a importância da assistência de enfermagem
no atendimento ao paciente com risco de suicídio. MÉTODO: Trata-se de
um relato de experiência, através de vivências e práticas com pacientes
psiquiátricos em uma unidade de internação adulta de um hospital
universitário no sul do Brasil. RESULTADO: A equipe de Enfermagem,
preparada para atender esses pacientes e suas famílias através de uma
abordagem de escuta ativa e do desenvolvimento de anamnese e exame
físico, priorizou o acolhimento do binômio paciente-família, realizando
escuta terapêutica de qualidade, proporcionando um ambiente calmo,
seguro e confortável, extraindo informações sobre sua história, ideias,

323
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

pensamentos relacionados ao suicídio e outros problemas de saúde,


sem invadir ou ultrapassar a abertura concedida pelo paciente.
Adicionalmente, como método educacional em saúde, o enfermeiro
orienta paciente e familiar sobre a necessidade do seguimento das
rotinas da unidade de internação para a organização do núcleo de
cuidado e ressalta a importância do protagonismo de ambos no
tratamento, assumindo um comportamento ativo e de auto
responsabilidade. Nessa perspectiva, é possível trabalhar as emoções
que afligem esse paciente e desenvolver um relacionamento de
confiança mútua. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Por ser um tema complexo e
que acarreta uma série de consequências críticas não só para aqueles
que vivenciam de perto, mas também a nível sócio econômico, o suicídio
precisa ser olhado de forma cuidadosa e sensível. Assim, a equipe de
Enfermagem, com sua assistência mais próxima do paciente e cuidado
acolhedor possui as ferramentas para escutar e dar voz ao sentimento
do paciente, possibilitando intervenções de enfermagem fundamentais
nesse processo, produzindo conhecimentos e criando novas
possibilidades de cuidado. É papel dos profissionais da saúde a
identificação precoce de sinais de risco de suicídio, o encaminhamento e
intervenção terapêutica nos contextos comunitários e hospitalares. O
atendimento prestado aos indivíduos que tentam suicídio demanda uma
equipe ética e preparada, pois é um momento de grande conturbação
tanto para o acidentado quanto para sua família. É necessário que haja
um entendimento maior deste fenômeno por parte dos profissionais de
saúde, para que assim haja maior comprometimento com a saúde
mental.

324
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Assistência e saúde mental para pais de crianças diagnosticadas com


transtorno espectro autista.

Loraine Maria da Rocha Cavalcante


Ana Iêdon
Dafne Lages
Universidade Federal do Piauí, UFPI

Introdução: O presente resumo aborda um relato de pesquisa acerca da


questão do amparo aos pais de pessoas diagnosticadas com TEA
(Transtorno do Espectro Autista), onde nota-se a necessidade do
indagação acerca desta temática, seja interno ou externo ao grupo em
questão, uma vez que é um assunto ainda pouco evidenciado na
sociedade.
Utilizando como objeto de estudo os pais inscritos na Associação dos
Amigos Autistas do Piauí (AMA) e em todas as situações envolventes dos
pais na sociedade piauiense, busca-se como fim último a melhora da
condição de vida de todos os envolvidos. Será apresentado neste
resumo como anda a saúde mental dos pais envolvidos e como foi
realizada parte da pesquisa, olhando até mesmo os funcionários; tratar-
se-á de expor também os dados das pesquisas, sempre levando o sigilo
do termo de consentimento dos entrevistados, trazendo os relatos de
ações vivenciadas pelos mesmos. Foi exteriorizado aqui sobre os mitos e
realidades experienciadas no cotidiano dos pais de crianças autistas,
além de quais políticas assistenciais existem e são necessárias para
fortalecer a luta de integração dos familiares e das crianças para com a
sociedade.
Descrição da Experiência: Tangeu-se um estudo exploratório, por
permitir a observação dos fatos em ocorrência espontânea e, assim, a
familiarizar-se com um assunto ainda pouco sondado. Através de uma
fonte de pesquisa primária, foi utilizado como instrumento de coleta de
dados um questionário apresentando dezoito questões, aplicado na

325
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

entrevista com 30 pais -ou responsáveis- dos indivíduos usuários da


AMA-Teresina com TEA. Na elaboração das perguntas, procuramos
investigar como essas pessoas levavam a vida diariamente e como os
responsáveis se sentiam frente à sociedade e no seu círculo familiar;
como separavam seu tempo com cuidados pessoais, nas tarefas diárias e
sobre as dificuldades enfrentadas no dia a dia; como se sentiam em
diversas circunstâncias; sua visão de futuro e como o indivíduo se sentia
como parte da instituição (AMA), o significado da mesma na sua vida e
sobre o que ela propiciava à eles.
Repercussões e Considerações Finais: Em relatos feitos durante as
entrevistas, muitos responsáveis afirmaram gostar da AMA por terem
um momento de interação social, tanto eles como as crianças, pois além
de compartilharem da mesma realidade, é um local no qual possui
caráter de livre preconceito porque todos estão passando pela mesma
situação. Foi notado como o tratamento dos autistas e de seus
responsáveis é imprescindível para uma convivência harmônica na
família e locais públicos. Porém, implica-se um estudo que contribua
para as peculiaridades do transtorno do autismo e o seu reflexo no seio
familiar, proporcionando uma reflexão nas formas de enfrentamento
das principais dificuldades vividas no cotidiano dessas famílias,
aperfeiçoando intervenções frente às demandas dos familiares, pois
ainda não existe políticas Estamentais que viabilizem a interação dos
pais com o resto da sociedade, que no final das contas são também
afetados mentalmente.

326
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Assistência psicossocial ao público infanto-juvenil em contexto de


drogadição: um relato de experiência

Angélica Vanessa de Andrade Araújo Lira


Nilza Alessandra Cardoso Pereira
Universidade Estadual da Paraíba - UEPA

Introdução: O uso abusivo de substâncias psicoativas entre crianças e


adolescentes tem se mostrado como um dos maiores desafios de saúde
pública do século XXI. Uma das alternativas viáveis para o tratamento da
dependência química nesse público são os Centros de Atenção
Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD). Trata-se de serviços assistenciais
fundamentados na reabilitação psicossocial, cuja prática clínica alberga
um conjunto de elementos de natureza biológica, psicológica e social,
com o intuito de promover assistência integral e adequada à população.
Na prática interventiva, utiliza-se, principalmente, de ferramentas
psicoterápicas baseadas em oficinas terapêuticas, capazes de criar um
espaço fecundo para expressão da subjetividade, contribuindo para o
protagonismo do sujeito, fortalecimento do relacionamento
interpessoal e promoção de bem-estar e qualidade de vida. Descrição da
experiência: Trata-se de um relato de experiência de intervenções
terapêuticas desenvolvidas no CAPS AD voltadas ao atendimento
especializado para crianças e adolescentes em contexto de drogadição,
na cidade de Campina Grande, estado da Paraíba. As intervenções foram
realizadas duas vezes na semana, no período de agosto de 2019 a março
de 2020, mediante oficinas terapêuticas no formato de dinâmica grupal,
com total de 30 assistidos. Utilizou-se de metodologia ativa do tipo
problematização, pautada no arco de Charles Maguerez, com o intuito
de construir estratégias capazes de proporcionar o protagonismo do
sujeito no processo terapêutico e promover saúde mental. Nesse
sentido, as intervenções se pautaram no acolhimento às demandas
humanas, delineamento de espaço amplo para a expressão da
subjetividade por meio de uma escuta empática e atenciosa, assistência

327
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

psicossocial e instrumentalização do sujeito para enfrentamento das


dificuldades presentes durante o processo de tratamento. Os temas de
cada oficina foram escolhidos com base nas demandas específicas dos
assistidos. Repercussões: As oficinas terapêuticas tornaram-se uma
fonte valiosa para a expressão da singularidade humana e
ressignificação subjetiva das experiências existenciais. Alicerçado por
uma escuta atenciosa e empática, a prática terapêutica em grupo
contribuiu para o rastreamento das demandas e a possibilidade de
construir um plano terapêutico singular, baseado no desenvolvimento
estratégico que vai além da condição psicopatológica, atravessando a
existência humana em sua integralidade. Embasadas numa escuta
coletiva, as intervenções em grupo criaram um espaço favorável para a
socialização das experiências existenciais e a identificação do lugar
simbólico que as substâncias psicoativas ocuparam na vida dos usuários.
Esse cenário favoreceu o fortalecimento da rede de apoio psicossocial
entre os participantes, fundamentado pelo amparo intersubjetivo e o
reconhecimento de que não estão sozinhos no processo de reabilitação
psicossocial. Considerações Finais: As oficinas terapêuticas contribuíram
na promoção de saúde por via do estímulo à subjetividade e promoção
do autoconhecimento entre os usuários. Essas intervenções permitiram
a construção de espaço amplo de expressão da singularidade,
socialização, interação, (re)abilitação, (re)construção e (re)inserção
social. Foram detectadas questões que nos mostram a importância da
família como suporte psicossocial. Percebeu-se que os problemas
enfrentados pelos usuários vão além da dimensão puramente biológica,
compreendendo-se que o meio externo (relações familiares, ciclos de
amizade, condições socioeconômicas, entre outros.) influência direta ou
indiretamente no processo de adoecimento, tratamento e reinserção
social.

328
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Atenção às pessoas em situação de rua com sofrimento mental


durante a pandemia de COVID-19: articulando a rede

Marjory Ellen Lima Costa


Fernanda de Jesus Almeida
Jeferson Pereira da Silva
Magno Conceição das Mercês
Universidade do Estado da Bahia - UNEB

Juliana Passos de Oliveira Vieira


Secretaria Municipal de Saúde de Salvador

INTRODUÇÃO: A população em situação de rua (PSR) é dotada de


especificidades que a configuram como um desafio para as equipes dos
serviços de saúde e assistência social, considerando que a presença de
um transtorno mental grave (TMG) nesses indivíduos os tornam
duplamente invisibilizados. A pandemia de COVID-19 acentuou diversas
vulnerabilidades, e a exposição dessa população tornou-se
extremamente preocupante para o contexto comunitário –
evidenciando a necessidade de ações efetivas a serem realizadas.
Portanto, este relato apresenta a atuação dos residentes do Núcleo de
Saúde Mental do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da
UNEB, no acompanhamento de casos de PSR com TMG no cenário
pandêmico do novo Coronavírus. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: Durante
a atuação em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) II do município
de Salvador, os residentes levaram para a equipe do serviço a
necessidade de oferta de suporte às PSR com TMG, e a partir disto,
selecionou-se três casos (A, B e C) sob cobertura da unidade. Foram
direcionados um caso por dupla de residentes, tendo o suporte de dois
técnicos de referência do CAPS para acompanhamento e
encaminhamentos possíveis dentro do contexto vivenciado. A atividade
ocorreu no período de abril a setembro de 2020, e a aproximação com
os usuários se deu através de visitas aos locais ocupados e

329
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

teleatendimento aos seus familiares. REPERCUSSÕES: A experiência foi


permeada por tensionamentos, medo e incertezas associados à
pandemia, com dificuldades em encaminhamentos ocasionados pela
reorganização dos pontos da rede em decorrência das medidas
sanitárias vigentes. No entanto, questionamentos acerca da importância
da integralidade se tornaram propulsores para os desdobramentos,
possibilitando a articulação com outros serviços e se configurando com
um espaço de potência para discussões e assistência direta a esses
usuários que precisam do amparo da Rede de Atenção Psicossocial. No
caso A, os residentes acionaram o Serviço de Abordagem Social (SEAS),
para, em uma estratégia conjunta, conhecer a realidade do sujeito e
elaborar um plano de cuidados. No segundo caso (B), foi realizada uma
articulação com o Consultório na Rua e o SEAS, com posterior
construção de um plano de ação abrangendo visitas e avaliações
biopsicossociais periódicas – devido ao estado crítico do usuário. Com o
caso C, foi mantido um contato próximo à família do indivíduo, e
atendendo as demandas específicas houve articulação com a Secretaria
de Justiça, Unidade de Saúde da Família e a equipe de Saúde da Família
do distrito. Os manejos foram realizados contemplando o prazo de
permanência dos residentes no campo, e com frequentes discussões nas
reuniões técnicas – pensando na continuidade da oferta de cuidado a
esses usuários. CONSIDERAÇÕES FINAIS: É imprescindível que os
serviços de saúde estejam atentos as PSR e tendo em vista a demanda
psicossocial que é intrínseca a muitos desses usuários, faz-se necessário
a sensibilização e capacitação das equipes profissionais e dos serviços
em relação a esta população, de modo que seja possível redescobrir o
fazer saúde para estes sujeitos com TMG, valorizando seus discursos e a
individualidade, enfrentando a lacuna da desassistência e evitando as
práticas institucionalizantes dos serviços.

330
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Atenção Básica também é lugar de Saúde Mental: Grupo de Escuta


Terapêutica em uma Unidade de Saúde da Família (USF)

Maísa Estevam Vasconcelos Feitoza


Dhiego Henrique Bezerra de Miranda
Secretaria Municipal de Saúde de Jaboatão dos Guararapes/PE

Introdução: Atenção Básica (AB), que é a ordenadora da Rede de


Atenção à Saúde (RAS) e coordenadora do cuidado, juntamente com a
Atenção Especializada em Saúde Mental são consideradas portas
abertas aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) e devem realizar
o Acolhimento a todo e qualquer usuário que necessite dos dispositivos
da RAS. Sendo assim, a AB, dentre suas características, também tem por
competência ofertar a linha de cuidado em saúde mental visto que o
sujeito encontra em seu Território as instituições da AB que devem estar
atentas às demandas específicas de cada comunitário. Descrição da
Experiência: O grupo de Escuta Terapêutica é realizado pelos
profissionais: Profissional de Educação Física (PEF) e Terapeuta
Ocupacional (TO). O Programa de Residência Multiprofissional em
Atenção Básica e Saúde da Família (PRMABSF) do Município de Jaboatão
dos Guararapes possibilitou a Territorialização e identificação desta
demanda em uma das USF que a equipe NASF-AB (Núcleo Ampliado de
Saúde da Família – Atenção Básica) deste Programa de Residência atua.
Os encontros são semanais desde junho de 2019, realizados todas as
quartas-feiras à tarde presencialmente, com temáticas e dinâmicas
grupais variadas em consenso com o público-alvo contando com a
participação de pelo menos uma ACS (Agente Comunitária de Saúde) da
Equipe de Atenção Básica (EAB). Diante da Pandemia COVID-19, houve
pausa na sua realização e desde junho de 2020 está ocorrendo através
do grupo de aplicativo de comunicação virtual WhatsApp, pois outros
aplicativos de chamada de vídeo não foram adaptáveis às necessidades
dos usuários deste grupo. E, o Acolhimento em Saúde Mental são
realizados aos usuários deste grupo por atendimentos individuais

331
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

presenciais na USF. Repercussões: Os usuários ao longo do tempo,


especialmente as mulheres de meia-idade, mostraram-se com
consciência cidadã, coletiva, refletida e autonomia com melhor
elaboração psíquica favorecendo o insight e participação ativamente
neste grupo. Percebe-se que ainda há preconceito em relação ao público
com sofrimento psíquico, assim, faz-se necessário o Matriciamento em
Saúde Mental constantemente na AB. Considera-se também que a EAB é
sobrecarregada com as funções na USF implicando no déficit de
participação da mesma no grupo para acompanhamento mais integral
aos/dos seus usuários. E que a organização e execução deste grupo são
aprimoradas junto a atuação do NASF-AB ou do PRMABSF.
Considerações Finais: A atuação em Saúde Mental no contexto da Saúde
da Família ocasiona novos paradigmas em relação ao contexto
sociopolítico atual e consequentemente estimula à prática
antimanicomial na postura, no falar, no atendimento e no Acolhimento
dos profissionais que não lidam frequentemente, em específico, com
usuários em crise psíquica visto que a identificação dos mesmos, sejam
crianças, adolescentes, usuários de álcool e outras drogas e com
transtornos mentais e/ou sofrimento psíquico. A Educação Física e a
Terapia Ocupacional são profissões que têm muitos objetivos em
comum diante do estímulo à melhoria da qualidade de vida do sujeito
visto que a Saúde Mental perpassa por todas as outras áreas, assim, é
necessário que o indivíduo seja acolhido de modo holístico e tenha suas
demandas contempladas e seu desempenho ocupacional seja
satisfatório.

332
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Atenção em saúde mental através da escuta terapêutica

Vanda Silva de Araújo


Amanda Luíza de Oliveira Silva
Kyra Kadma Silva Fernandes de Medeiros
Mariana Souza Batista
Carlos Eduardo Fabricio Teonácio Bezerra
Lara Bernardino da Silva
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN

Introdução: A atenção primária tem como foco a promoção de saúde


através de uma perspectiva complexa, na qual são desenvolvidas
estratégias que possibilitem, além da prevenção e tratamento de
doenças, o desenvolvimento de ações sociais para a comunidade. Neste
sentido, conhecer quem são os usuários de saúde, o contexto em que
eles vivem e as problemáticas sociais que perpassam a existência destes,
é imprescindível para um melhor atendimento à população. Nessa visão
holística do ser humano, é importante também valorizarmos os aspectos
referentes à saúde mental dos usuários, tendo em vista que estes são
imprescindíveis para o desenvolvimento do bem-estar como um todo.
Descrição da experiência: Desse modo, com o objetivo de instigar o
cuidado em saúde mental e norteados pela metodologia da construção
de um usuário-guia, através da disciplina: “fundamentos da psicologia
da saúde em diversos contextos”, realizamos quatro visitas domiciliares
no período de um mês a uma usuária da unidade básica de saúde em
um município no interior do Rio Grande do Norte. Essas visitas tiveram o
propósito de conhecer a história de vida dessa pessoa, e não de sua
doença, a partir do que fosse apresentado. Com isso, dona Maria (nome
fictício), é uma senhora de 72 anos, diagnosticada com diabetes há dez
anos. Desde a primeira visita, proporcionamos um espaço para ouvi-la,
possibilitando que dona Maria sentisse confiança em expor suas
dificuldades perante a diabetes, como a amputação de seu pé e as
consequências acarretadas em virtude desse acontecimento. No

333
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

entanto, a partir da segunda visita, já havia sido criado um forte vínculo


terapêutico, permitindo que a usuária compartilhasse histórias, as quais
ela admitiu nunca ter confidenciado para ninguém, como as agressões
físicas, psicológicas e ameaças de morte oriundas do seu ex-marido.
Além disso, também foram relatados episódios de depressão,
ansiedade, insônia e forte dependência de ansiolíticos. Através das
visitas pudemos perceber também que há uma certa negligência dos
serviços de saúde em relação à saúde mental, uma vez que a usuária
afirma nunca ter tido acompanhamento psicológico e continua
utilizando psicotrópicos mediante uma simples renovação de receita
médica. Ademais, ao final das visitas, dona Maria demonstrou o quão
importante foi ser ouvida, mencionando a falta que sente de conversar
rotineiramente e expressando sua satisfação em ter sua história de vida
valorizada e compreendida.
Repercussões e considerações finais: A partir dessa experiência
constatamos a importância e o efeito terapêutico da escuta empática
como meio de compreensão do sofrimento psíquico dos sujeitos e o
poder da ressignificação das dores, permitindo que a pessoa se expresse
na totalidade do seu ser. Não obstante, as visitas também possibilitaram
a compreensão do funcionamento da rede de atenção primária em
saúde do munícipio, apontando as desarticulações dos serviços de saúde
mental com a UBS. Nesse sentido, é importante citarmos a necessidade
de melhorias na comunicação profissional, a fim de que seja oferecido,
de fato, uma atenção ampla em saúde a partir dos aspectos
biopsicossociais.

334
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Atendimento Psicológico à População LGBTI+: uma experiência em um


serviço-escola

Flávio Alves da Silva


Giovanni Galati Ruggeri
Universidade de Mogi das Cruzes - UMC

O preconceito e as discriminações contra a população LGBT+, em suas


diversas manifestações e formas, produz um conjunto de iniquidades
em saúde que impedem que pessoas desta população, em especial o
segmento transgênero, tenham amplo acesso a serviços de saúde, na
medida em que têm suas demandas ignoradas e suas identidades
invisibilizadas ou questionadas. Este trabalho é um relato de experiência
de um programa de atendimento psicológico voltado para a população
LGBTI+, como prioridade para as pessoas trans, realizado no Serviço-
Escola de uma universidade da Grande São Paulo, por estudantes do
décimo semestre. Por se tratar de uma iniciativa piloto, os atendimentos
se desenharam a partir de gestões junto aos movimentos sociais, onde
foram identificadas as principais dificuldades de acesso, levantadas as
demandas em relação aos serviços ofertados. Neste período, na
instituição, realizamos discussões técnicas sobre a emissão de
documentos, nos apropriamos das orientações do sistema de conselhos,
que apontavam para a despatologização das identidades trans e das
orientações sexuais. Além disso, nos preparamos para o
estabelecimento de um bom rapport, fortalecimento do vínculo entre o
profissional e o atendido, assim como colocamos a escuta qualificada
como elemento central do trabalho a ser desenvolvido. As vagas foram
ofertadas 15 vagas dirigidas à população LGBTI+, com prioridade o
segmento T. Todas as vagas foram preenchidas, e, mesmo no contexto
da pandemia, os usuários mantiveram o contato com o Serviço. A
população atendida é composta por homens trans (9), mulheres trans
(3) gays (2) e lésbicas (1). A demanda por laudos que indicassem o
processo transexualizador como tratamento surgiu no início dos

335
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

atendimentos como principal objetivo dos usuários, porém, na medida


em que os atendimentos avançavam, abriu-se espaço para que a
trajetória de vida dos usuários pudesse ser ouvida e se tornassem o
centro do trabalho, assim, temas como discriminações e preconceitos,
rupturas e fragilidades dos laços familiares, solidão, desejos, sonhos,
metas de vida entre outras temáticas pudessem ser trabalhadas e
ressignificadas. No trabalho com os usuários foi necessário orientar
sobre cuidados básicos com a saúde, na medida em que alguns dos
usuários hormonizavam sem acompanhamento médico, além do que,
muitos não faziam, ou nunca haviam feito consultas e exames tidos
como de rotina para a população cis, como acompanhamento
ginecológico, por exemplo. Orientou-se também quanto às legislações
que protegem a população LGBTI+ de situações de discriminações e
quais os caminhos para busca de amparo legal em situações de
violência. Na supervisão, o trabalho com os estudantes era no sentido
de sanar dúvidas quanto à abordagem das identidades de gênero e
orientações sexuais no trabalho do psicólogo, além de dar suporte,
orientar, acolher e dar continência para possíveis anseios, angústias,
fantasias, identificações, frustrações. A abertura de uma porta exclusiva
para LGBTI+ permitiu que as pessoas acessassem ao serviço e, na
medida em que se percebiam acolhidas e respeitadas no espaço,
aderissem aos atendimento, pois percebiam que suas demandas, no que
fosse possível, seriam atendida ou, ao mínimo, ouvidas. Neste sentido,
hoje, já se planeja a ampliação das vagas e dos serviços ofertados.

336
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Atendimentos no CRAS: expressões do sofrimento psíquico na


pandemia de Covid-19

Daniele Ferreira Silva


Centro de Referência de Assistência Social

O Brasil, assim como vários outros países do mundo, está vivenciando a


pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-
Cov-2) que possui alto índice de letalidade e contágio. Essa pandemia
tem provocado impactos nas mais diversas esferas sociais, afetando a
saúde mental dos sujeitos. Nesse contexto, o presente relato de
experiência possui como objetivo discorrer e refletir acerca da
experiência como psicóloga atuando no Centro de Referência de
Assistência Social (CRAS) no interior da Bahia, no período de abril a
outubro de 2020, considerando as demandas psicológicas advindas com
a pandemia de Covid-19. O recorte feito refere-se à experiência de
acolher, realizar ações particulares e visitas domiciliares a usuários, que
relataram algum sofrimento psíquico atrelado a situação atual de
pandemia. Tomou-se como base os discursos trazidos pelos usuários do
CRAS atendidos pela psicóloga, e que relacionavam seu sofrimento
psíquico tendo início ou intensificação com a pandemia. As principais
queixas trazidas foram referentes a conflitos familiares; medo da morte
e de contrair a doença; solidão, depressão, ansiedade, insônia e
estresse. Além disso, na fala dos usuários, os sofrimentos expressos
estavam ligados a questões como desemprego, isolamento social, entre
outros. Foi observado durante os atendimentos, que pessoas que já
tinham algum diagnóstico de transtorno mental, tiveram intensificação
do seu quadro. Durante atendimentos a pessoas que foram curados da
Covid-19, foi expresso o quão traumático a situação vivida foi. Percebeu-
se que a demanda para psicólogo aumentou significativamente nos
meses de setembro e outubro na instituição. Cabe destacar, que o
psicólogo no CRAS não realiza psicoterapia, e o atendimento deve ser
psicossocial, trabalhando sobretudo, com famílias, e ações grupais. No

337
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

entanto, nesse período as ações grupais do Programa de Atenção


Integral à Família (PAIF) foram suspensas. Dito isso, nos atendimentos
realizados, a psicóloga estabeleceu vínculo com o usuário ou família
atendida, para a partir disso implicá-los em seu processo de mudança.
Foi oferecida escuta qualificada, sendo construídas estratégias visando o
fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, bem como o
despertar de sujeitos autônomos, considerando os objetivos do PAIF. Os
usuários também foram orientados acerca de práticas que podem
contribuir para lidar melhor com a pandemia. Ao final das intervenções
os usuários em sua maioria relatavam sentir-se aliviados e empoderados
a engajar-se em processos de mudança. Deste modo, percebe-se a
importância e a efetividade dos atendimentos realizados no CRAS,
visando prevenir agravos e violações de direitos, e que funcionam como
um fator de proteção à saúde mental, pois, compreende-se que
fortalecer vínculos familiares e assegurar os mínimos sociais básicos é
também uma das formas de potencializar a saúde mental. Assim, cabe
destacar que discutir saúde mental é também, falar de estratégias que
assegurem direitos para o exercício da cidadania, sendo necessário um
trabalho intersetorial. Diante do exposto, aponta-se a importância de
mais estudos sobre o impacto psicológico do Covid-19, uma vez que o
número de pessoas com a saúde mental afetada pela pandemia, tende a
ser maior do que a quantidade de pessoas que tiveram a Covid-19.

338
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Atuação da Rede de Atenção Psicossocial na cidade de Itaúba-MT,


construção e consolidação de uma saúde mental democrática.

Henrique de Oliveira
Secretaria Municipal de Saúde - Itaúba-MT

Seguindo movimento democrático que consolidou o Sistema Único de


Saúde (SUS), a lei nº 10.2016/01, conhecida como a lei da reforma
psiquiátrica, redireciona o modelo assistencial em saúde mental,
privilegiando tratamentos de base comunitário e territorial. Com a
portaria 3088/2011, é instituída a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
que amplia e articula a atenção à saúde para pessoas com sofrimento ou
transtorno mental. A RAPS constitui um serviço de base municipal e
territorial, oferecendo cuidado integral e assistência multiprofissional,
sob a lógica interdisciplinar, tornando-se um serviço substitutivo ao
hospital psiquiátrico. Assim como a maioria dos Municípios do Estado de
Mato Grosso, Itaúba não possui suporte populacional para receber um
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), o fluxo de demanda em saúde
mental é atendido nas unidades de saúde e assistência social do
município. A rede de atenção psicossocial é composta por, Estratégia
Saúde da Família (Atenção Básica), Centro de Reabilitação (Atenção
Especializada) e Fundação Hospitalar Municipal (Urgência e
Emergência), na Assistência Social há o Centro de Referência em
Assistência Social (CRAS), que, mesmo não sendo da Secretaria de
Saúde, exerce um papel importante na rede. A porta de entrada do
usuário que necessita de atenção em saúde mental ocorre por diversos
dispositivos, sendo os principais: qualquer um dos componentes da
Rede de Atenção Psicossocial, Escolas Municipais ou Estaduais de
Ensino, Conselho Tutelar, Ministério Público e demanda espontânea,
com isso, a pessoa é encaminhada para passar pelo psicólogo da
Secretaria Municipal de Saúde. As demandas se apresentam das formas
mais variadas possíveis, necessitando um entendimento da
problemática de uma forma ampla, compreendendo a saúde mental

339
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

como um fenômeno biopsicossocial, é necessário articular uma atuação


que seja interdisciplinar, multiprofissional e intersetorial, para buscar
intervir nas situações da maneira mais abrangente possível. Dessa
forma, os usuários são acolhidos na rede e são acompanhados,
juntamente com as famílias, pela equipe de saúde e, quando necessário,
encaminhados para a assistência social do município. Cada caso é
estudado e trabalhado conforme suas singularidades e necessidades,
por isso, deve-se traçar um planejamento de tratamento que envolva as
diversas áreas e setores para tentar intervir da maneira mais completa
possível para cada situação. Os principais desafios apresentados na
atuação dizem respeito, principalmente, a concepções de saúde mental
pautadas no modelo de assistência hospitalocêntrica, baseada no
isolamento, segregação e confinamento; falta de compreensão da
atuação do psicólogo e uma definição de saúde mental compreendida
de forma restringida, acreditando que o bem estar psicológico não está
relacionado com as condições de vida, de uma maneira geral. Apesar
dos desafios, muitas coisas estão mudando para a construção e
consolidação de uma saúde mental democrática, os principais pontos
dizem respeito ao estreitamento das relações profissionais que ocorrem
principalmente nas discussões, estudos e planejamento dos casos, na
construção de uma compreensão de saúde mental no modelo
biopsicossocial e na participação do usuário, sendo protagonista em seu
próprio tratamento.

340
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Atuação do Psicólogo no Centro de Atenção Psicossocial I frente a


casos de Suicídio

Daniele Veloso de Menezes


Renata Guaraná de Sousa Lorena
Daiana da Silva Carvalho
Chiara Mayara da Cruz Figueiredo Melo
Faculdade de Integração do Sertão – FIS

Constantino Duarte Passos Neto


Escola de Saúde Pública do Ceará – ESP/CE

Luciana de Matos Andrade


Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE

Alessandro Teixeira Rezende


Universidade Federal da Paraíba – UFPB

Luísa Marianna Vieira da Cruz


Autarquia Educacional de Serra Talhada – AESET

Victor Hugo Ribeiro de Sousa


Escola de Saúde Pública Visconde de Sabóia – ESPVS

José Victor Lima Braga


Faculdade São Francisco da Paraíba – FASP

INTRODUÇÃO: O suicídio é considerado um complexo fenômeno


multifacetado, que abrange questões de níveis socioculturais, históricas,
psicossociais, como também ambientais, considerado um problema de
saúde pública mundial, que pode ser prevenido. Se apresenta como uma
demanda frequente nas instituições de saúde mental, sendo perceptível
a complexidade que envolve esse fazer saúde das equipes dos Centros

341
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

de Atenção Psicossociais (CAPS), bem como os desafios que enfrentam


enquanto profissionais da Saúde Mental. O presente trabalho busca
relatar sobre a atuação do Psicólogo residente em um CAPS I, frente aos
casos de pessoas com histórico de ideações e/ou tentativas de suicídio.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: Trata-se de um relato de experiência cuja
metodologia foi a sistematização de experiências proposta por Holliday,
organizada com apresentação dos aspectos iniciais referentes à
trajetória que culminou na execução das atividades no CAPS I enquanto
cenário de prática; considerações acerca do suicídio enquanto problema
de Saúde pública. Por seguinte, é dada ênfase nas possibilidades de
ações para além da prevenção ao comportamento suicida, ressaltando a
importância do suporte psicológico como terapêutica de cuidado, e por
fim, os desafios encontrados para a efetivação dessas práticas.
REPERCUSSÕES: Foi possível perceber a potencialidade do
acompanhamento psicológico frente a comportamentos suicidas, visto
que oferece um espaço de fala e de acolhimento para a ressignificação
dos sentimentos que podem contribuir para o fenômeno. O fazer
profissional dos psicólogos referente à prevenção ao suicídio deve estar
pautado para além das atividades individuais. Percebeu-se o quanto tal
premissa ainda é um desafio, uma vez que a maioria das ações destes
profissionais frente ao suicídio fica restrita ao atendimento individual,
pouco contextualizada com as condições de vida além dos consultórios.
Nos atendimentos, pôde-se observar que os discursos dos jovens com
histórico de ideações e/ou tentativas de suicídio estavam fortemente
carregados de sentimentos de frustação, de não aceitação do fracasso e
da negação de seus anseios. Alguns obstáculos foram encontrados
desde os primeiros contatos, pois, a clínica do suicídio traz algumas
especificidades próprias. Um desses desafios é a busca pelo
acompanhamento, que na maioria das vezes não é uma busca pessoal,
mas sim, o usuário é conduzido por outrem, numa situação terapêutica
às avessas, que pede manejo maior ainda com a situação. A sociedade
falha no sentido de acolher, e muitas vezes seus discursos infundados só
potencializa as vulnerabilidades já existentes frente à tantos fatores de

342
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

risco aos quais os sujeitos já estão expostos. A maioria das pessoas eram
sujeitos que destoavam daquilo que era imposto pelas condições de vida
que estavam inseridos, e que diante de um suposto fracasso social se
veem em situação de adoecimento profundo e de desesperança frente
as situações adversas. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Infere-se que são
inúmeros desafios presentes na clínica psicológica com essa demanda,
uma vez que traz especificidades inerentes que provocam um processo
de reavaliação por parte dos profissionais de suas bases teóricas e
práticas, sendo necessário a busca por qualificação para abordagens de
forma contextualizada e ampliada.

343
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Atuação dos residentes em saúde mental no contexto de pandemia da


Covid-19 em um Centro de Atenção Psicossocial II na cidade de
Salvador: relato de experiência

Daiana Ferreira Menezes


Carla Maria Rodrigues Alves
Jeferson Pereira da Silva
Universidade do Estado da Bahia - UNEB

Magno Conceição das Mercês


Universidade Federal da Bahia - UFBA

Introdução: A Residência Multiprofissional em Saúde (RMS) é


reconhecida como uma estratégia eficiente e eficaz de aperfeiçoamento
de profissionais com base nos princípios e diretrizes de integralidade do
Sistema Único de Saúde (SUS). O presente relato traz a experiência da
atuação dos profissionais residentes do Programa de RMS da
Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em um Centro de Atenção
Psicossocial II (CAPS II) em Salvador, Bahia, no contexto de pandemia do
novo coronavírus (SARS-CoV-2). Após instruções e determinações das
autoridades sanitárias nacional e local, quanto às medidas profiláticas e
de distanciamento social para não-propagação do vírus, a atuação do
CAPS II restringiu-se a consultas, acolhimentos a novos usuários,
atenção à crise, dispensação de medicamentos, reuniões técnicas e
monitoria dos usuários por teleatendimento. Descrição da experiência:
A experiência ocorreu um CAPS II, entre março e agosto de 2020. A
conjuntura pandêmica convocou os residentes a adaptarem suas
ações/projetos à prevenção e enfrentamento da Covid-19, com foco na
assistência à saúde mental dos trabalhadores do CAPS, uma vez que,
notadamente, esta também foi uma categoria altamente afetada pelo
novo contexto, tanto pelo risco de contaminação quanto pelo esforço
em adaptar o fluxo de trabalho às mudanças. As ações planejadas
seguiram dois eixos: (1) prevenção e orientação sobre a COVID-19 aos

344
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

usuários e funcionários (elaboração de folder informativo sobre a


COVID-19; educação em saúde aos profissionais e usuários do Serviço
Residencial Terapêutico vinculado ao CAPS; e elaboração de guia de
triagem dos sintomas da COVID-19) e (2) suporte à saúde mental dos
trabalhadores (programa de meditação e automassagem; rodas de
conversas sobre Práticas Integrativas Complementares e sobre temas
concernentes à pandemia). Foram acompanhados, ainda, alguns casos
de usuários em situação de rua que demandavam intensificação de
cuidado, além de orientações pontuais a usuários que visitavam o
serviço. Repercussões: As intervenções contribuíram com a qualidade de
vida e saúde mental principalmente dos profissionais nesse momento
crítico, além de facilitar trocas de experiências, escuta ativa,
ressignificação de pensamentos e atitudes, tanto no contexto
psicossocial quanto nos atendimentos do serviço. Os residentes
puderam explorar novas temáticas e formas de trabalho, diferentes das
experimentadas e planejadas no início da residência. Considerações
finais: Por conta da pandemia, os residentes não puderam acompanhar
de forma efetiva as atividades e oficinas ofertadas pelo CAPS em outros
momentos, além de encontrarem dificuldades com a articulação e
acesso a serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no
acompanhamento de casos. Em relação aos usuários e familiares, devido
às restrições do serviço e ao isolamento social, percebeu-se um
aumento da ansiedade e situações de crise, uma vez que o serviço era
um suporte de atenção e apoio ao enfrentamento de suas dificuldades.
Nesse sentido, as ações projetadas especificamente para esse contexto
beneficiaram tanto os profissionais, quanto usuários e residentes.

345
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Audiências de Custódia: (Des)estruturas e torturas institucionais.

Ana Cristina Nascimento Freire


Tribunal de Justiça de Pernambuco

O projeto de audiências de custódia teve seus regramentos instituídos


pela Resolução nº213/2015, do Conselho Nacional de Justiça-CNJ, e visa
a proteção de direitos humanos, através do cumprimento de preceitos
normativos nacionais e internacionais, dentre eles, cuidados relativos à
saúde mental de pessoas presas em flagrante. Possuindo dentre as
principais inovações, a previsão de absenteísmo dos/das magistrados/as
de formularem perguntas com finalidade de produzir prova para a
investigação ou ação penal, essas audiências, dentre outras tutelas,
teoricamente objetivam a identificação de irregularidades durante a
efetivação das prisões, como tortura e maus tratos. Porém, nos moldes
em que seguem (des)estruturadas, em vez de garantias de direitos, tem-
se violações praticamente institucionalizadas, como precária estrutura
física das sedes, longos períodos se, fornecimento de água e
alimentação e assistência médica inexistente ou precária. Assim, através
da análise de dados de audiências de custódia, pretende-se demonstrar
que dentre as consequências da “guerra às drogas” está o alto índice de
encarceramento, que comina em um sistema prisional considerado um
dos mais violentos do mundo e que não tem como prioridade aspectos
relacionados a saúde mental, ou seja variáveis que resultam em
ineficácia dos fundamentos formais de existência do juízo garantista. A
proposta do artigo é verter reflexões acerca das relações entre
neoliberalismo, cárcere, seletividade penal e criminalização da pobreza,
identificando nos dados das audiências de custódia, as conexões entre
crime, meio social e métodos de punição, com fulcro em Zaffaroni,
LoicWacquant, Di Giorgi, Rusche e Kirchheimer. Observando-se, no que
tange ao conceito de “guerra as drogas”, as teorizações de Rosa Del
Olmo, que ao historicizar a criminologia na América Latina, considerou
as influências acadêmicas e políticas das nações colonizadoras.

346
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Subsidiam os aspectos metodológicos da proposta, a análise de dados


estatísticos publicizados pelo CNJ, bem como dados de audiências
realizadas na abrangência das cidades de Jaboatão dos Guararapes,
Ipojuca, Cabo de Santo Agostinho, Moreno, Camaragibe e São Lourenço
da Mata, entre agosto de 2016 e maio de 2017, restringindo-se aos
decorrentes de prisões em flagrante cujas tipificações possuíram a
incidência da Lei nº 11.343/2006.

347
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Aula de inglês para trabalhadores da economia solidária e saúde


mental: ferramentas de autonomia e cidadania

Laís dos Santos, Laís dos Santos


Luciane Régio Martins
Julia Ataide
Victória Olenk Parra Silva
FCMSCSP

Introdução: Em 2011, com a Portaria nº 3.088, instituiu-se a Rede de


Atenção Psicossocial (RAPS), com sete eixos, sendo o sétimo, sobre
Reabilitação Psicossocial, assim descrito: “O componente Reabilitação
Psicossocial da Rede de Atenção Psicossocial é composto por iniciativas
de geração de trabalho e renda/empreendimentos
solidários/cooperativas sociais”. Em 2018, durante uma visita da Liga de
Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiátrica da FCMSCSP, um dos
trabalhadores do Ponto Benedito Calixto expressou a vontade de
aprender inglês para atender os estrangeiros que visitam a loja aos
sábados. Objetivo: Ensinar língua inglesa aos trabalhadores do Ponto
Benedito Calixto como modo de emancipação, autonomia e cidadania
de direitos. Método: Aulas ministradas em português e inglês, por
acadêmicas de Enfermagem. Cenário - Ponto Benedito Calixto de
Economia Solidária localizado em São Paulo. Após a aprovação dos
trabalhadores na Assembleia local, foram estabelecidas aulas
quinzenais, ministradas por acadêmicas de Enfermagem. A metodologia
aplicada foi roda de conversa, por ser afetivo-lúdica, utilizando como
dispositivo de conversa “realias”, ou seja, os produtos a serem vendidos.
Esses produtos faziam parte do “pano de fundo” das conversações, que
possibilitavam desde explicar que lugar é o Ponto Benedito Calixto, bem
como conversar em inglês. Resultados/Discussão: Os trabalhadores
trouxeram expectativas em relação às aulas, partindo do desejo e
necessidade dos mesmos. Duas trabalhadoras tinham conhecimento
prévio, e desejavam expandir o vocabulário, diferente dos demais, que

348
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

não “falavam em inglês” e que inicialmente, pareciam tímidos. Nas aulas


subsequentes, os diálogos voltavam-se para estruturas de frases,
numerais para falar preços, e interações afetivo-políticas como
ferramentas de cidadania. Como as aulas expositivas não eram
eficientes, elaborou-se jogos de memória com vocabulários com os itens
vendidos na loja em inglês. Foram feitos também cards com vocabulário
do jogo de memória para induzir um jogo de associações, sendo
solicitado aos trabalhadores que distribuíssem os cartões sobre os itens
correspondentes da loja. Essa técnica ajudou a memorização e o
aprender-lúdico. Na avaliação final ao longo de dois semestres, os
trabalhadores relataram que as aulas com jogos foram as mais
divertidas e favoráveis para o aprendizado e que esse momento servia
para a interação desses trabalhadores. Considerações finais: As aulas de
inglês fortaleceram laços de afeto entre os trabalhadores e as
acadêmicas de Enfermagem, favorecendo a troca de modos de vida,
fomentando autonomia, além de oportunizar um olhar singular das
acadêmicas de enfermagem sobre o fenômeno da loucura e sua
reprodução social pela sociedade. Esses momentos além do vínculo de
confiança, cria possibilidades de reescrever histórias de vida/projetos de
vida, contribuindo para o aumento do poder contratual dos
trabalhadores junto aos clientes estrangeiros. Sem dúvida, ampliou-se o
escopo reflexivo, teórico-prático das alunas, bem como deflagra-se um
ganho imaterial por meio desse trabalho, o qual produz formação
voltada para uma Enfermagem Antimanicomial.

349
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Aurículoterapia: um cuidado não medicamentoso em saúde mental na


Atenção Primária à Saúde

Larissa de Almeida Rezio


Margani Cadore Weis Maia
Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT

Linikhennia Silveira de Araújo Blank


Secretaria Municipal de Saúde

Introdução: A Auriculoterapia é um tratamento vinculado a Medicina


Tradicional Chinesa (MTC), também denominada de auriculoacupuntura
ou acupuntura auricular, por ter seus fundamentos na acupuntura,
considerando os microssistemas e a acupressão. Para a MTC, distúrbios
em órgãos, sistemas, ou em aspectos emocionais são manifestados no
pavilhão auricular, por meio de sensibilidade ou descoloração, por
exemplo. Assim, patologias, dores, ou sofrimentos podem ser
amenizados ou curados pela estimulação da orelha, em pontos
condutores ou reflexos, com benefícios analgésico, estimulante ou
relaxante, sem a necessidade de prescrição medicamentosa. Dentre as
indicações de auriculoterapia, a redução de sintomas depressivos e de
ansiedade é uma delas, e tem sido muito eficiente em tratamento no
contexto da Atenção Primária à Saúde. Descrição da experiência: Este
trabalho tem como objetivo relatar as repercussões positivas na vida de
usuários acompanhados por meio de auriculoterapia na APS. O
atendimento de com a auriculoterapia foi implantado em junho de 2019
em uma Unidade de Saúde da Família (USF) do município de Cuiabá,
Mato Grosso, após a realização da formação da enfermeira da unidade.
Inicialmente, a enfermeira da unidade iniciou o atendimento com os
profissionais do serviço e, a partir de outubro de 2019, para todos os
moradores da área de abrangência da unidade interessados nesse
cuidado não medicamentoso. Atualmente, por meio de parceria entre a
Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso e a

350
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

USF, via Programa de Educação pelo Trabalho para Saúde (PET- Saúde)
Interprofissionalidade e saúde mental, atendemos 20 pacientes em que
a maioria está entre a quarta e última sessão. Repercussões: Os
primeiros agendamentos foram referentes à lombalgia, ansiedade,
distúrbios do sono e enxaqueca. A partir da primeira sessão, os próprios
usuários verbalizaram melhora significativa no quadro de sintomas
apresentados, sendo necessário ampliar o atendimento para dois
períodos por semana, pela procura da comunidade, ampliando
atendimento para sinusite, sintomas depressivos e sintomas de
abstinência ou uso de substâncias psicoativas, principalmente álcool e
tabaco. As principais repercussões foram referentes aos quadros de
ansiedade, distúrbios do sono e sintomas depressivos, em que os
pacientes referiram melhora logo na primeira sessão/ atendimento.
Considerações finais: A auriculoterapia pode ser um importante
tratamento adjuvante para os quadros apresentados, por ser segura, e
ter como efeito adverso, apenas possibilidade de mínima irritação no
local estimulado. Além disso, dos 20 casos acompanhados atualmente,
apenas dois estão em uso de medicamento, o que demonstra a eficácia
da auriculoterapia como cuidado não medicamentoso. Dessa forma,
considerando o risco de efeitos como tolerância e dependência,
causados por ansiolíticos, assim como, outros efeitos prejudiciais da
maioria dos fármacos, entendemos que a MTC e, neste estudo
especificamente, a auriculoterapia, pode propiciar tratamento de
inúmeras demandas, físicas ou psicoemocionais, com baixo custo e sem
uso substâncias química (como princípio ativo do medicamento), mesmo
que esta tenha efeito terapêutico.

351
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Avaliação com acolhimento: início de uma reabilitação

Sâmea Franceschini

Pensar a Avaliação Neuropsicológica apenas como um meio para uma


futura reabilitação pode reduzi-la a um simples instrumento, sem
considerar a sua importância já como processo de intervenção. A
experiência na Clínica remete ao efeito restaurador da Avaliação
Neuropsicológica que, através de seus métodos de investigação das
funções cognitivas e do comportamento e suas relações com o sistema
nervoso central, já produz mudanças no paciente que, ávido por
respostas, estabelece uma relação transferencial com o seu avaliador.
Destaca-se, ainda, o momento da entrevista devolutiva como uma
importante sessão de reabilitação, com efeitos que podem contribuir
para o sucesso de futuras intervenções e mudanças comportamentais
do paciente. Relato da minha experiência como estagiária no Curso de
Neuropsicologia da Faculdade Esuda, em Recife, ao atender um paciente
de 41 anos que veio com o diagnóstico de esquizofrenia e realizou uma
avaliação neuropsicológica. Assim como na teoria psicanalítica de Freud,
pensa-se que a relação transferencial fica estabelecida entre o avaliando
e o seu avaliador, no processo da Avaliação Neuropsicológica, e isso fica
muito marcante nas orientações dadas pelo avaliador para a realização
das atividades neuropsicológicas e o desejo de acertar do avaliando.
Muitas vezes, esse desejo tem o caráter de agradar e não decepcionar o
avaliador. Outro momento em que esse registro fica muito marcante é o
momento da entrevista devolutiva. Viu-se, anteriormente, que em uma
das partes do laudo neuropsicológico há as orientações e
recomendações. Ao finalizar o processo avaliativo, o neuropsicólogo
realiza a entrevista devolutiva, quando apresenta, além dos resultados
observados, orientações e recomendações que deverão ser seguidas
pelo avaliando. Nesse momento, a relação transferencial fica evidente e
é de grande importância para que a fase seguinte, a da reabilitação,
aconteça da melhor forma. Mais do que um documento formal,

352
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

elaborado a partir de teorias, de testes padronizados e não


padronizados, da observação clínica, de atividades neuropsicológicas, a
Avaliação Neuropsicológica pode ser considerada como o verdadeiro e
principal início da reabilitação neuropsicológica e de motivação à
mudança necessária e possível por parte do paciente. Assim, ressalta-se
a importância da relação transferencial entre o paciente e o
neuropsicólogo avaliador. Relação que irá proporcionar o desejo e a
confiança no trabalho de reabilitação que seguirá, se necessário. Para
isso, o neuropsicólogo necessita apresentar uma conduta de
acolhimento, de segurança e de sensibilidade frente às necessidades do
paciente, expressas durante as sessões de avaliação. Conclui-se este
trabalho com as palavras do paciente de 42 anos que, ao receber o
Laudo Neuropsicológico, olhou para a sua mãe e, chorando, disse: “Eu
não disse, mãe, que você ainda teria muito orgulho de mim?”. Sim, por
mais dificuldades que ele venha a enfrentar no processo de reabilitação
em busca de uma melhor qualidade de vida, naquele momento, ele
ouviu o seu avaliador dizer que acreditava nele e ele também acreditou.

353
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Baile de Gentileza - Na música é que a gente se encontra

Thiago Ferreira Sobral


CAPS Profeta Gentileza

Luisa Motta Corrêa


Instituto de Medicina Social da UERJ

Introdução: O presente trabalho é resultado da experiência profissional


de um assistente social e uma psicóloga como facilitadores da oficina de
música do CAPS II Profeta Gentileza na zona oeste da cidade do Rio de
Janeiro/RJ. Partimos do entendimento de que os Centros de Atenção
Psicossocial são dispositivos que oferecem cuidado a pessoas com
sofrimento mental grave e persistente buscando estimular a construção
de enlaces sociais, tão fragilizados nestes casos. Se o objetivo da
reforma psiquiátrica é a “reprodução social das pessoas” (ROTELLI, 2001,
p. 91) e não mais a cura, a ação terapêutica deve ter como foco a
relação e não o indivíduo isoladamente. É no encontro com o outro e
nas expressões singulares produzidas por esta troca que se torna
possível “colocar a doença entre parênteses” (Ibidem) e dar voz às
emoções e desejos do sujeito concreto na relação com a sociedade. A
seguir, veremos como a música é um importante vetor neste processo.
Descrição da experiência: A oficina de música é antiga no CAPS,
passando por várias reconfigurações. Há aproximadamente dois anos
encontramos uma forma de fazer que tem sido agregadora e potente. A
proposta surgiu de unir a oficina de dança realizada pelo assistente
social com a oficina de música realizada pela psicóloga. Assim, às sextas-
feiras, pela manhã, nos reunimos na varanda do CAPS, que funciona em
uma casa no estilo colonial em um sítio na área periférica da cidade.
Como acontecia anteriormente, colocamos os instrumentos e microfone
disponíveis para aqueles que desejam tocar e acrescentamos o recurso
do smartphone conectado ao Youtube ligado a uma caixa de som. Esse
recurso permitiu a ampliação do repertório musical da oficina e facilitou

354
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

o convite à dança, possibilitando inserir músicas com batidas eletrônicas


como Funk e Hip Hop. Disponibilizamos o microfone aberto, que
funciona como uma espécie de karaokê, com acompanhamento da
música de fundo do smartphone ou com suporte de um violeiro local
que participa voluntariamente nas oficinas.
Repercussões e considerações finais: Em nossa experiência no espaço da
oficina, as letras das músicas funcionam como disparadoras de
memórias afetivas que auxiliam os sujeitos a narrarem e
compartilharem a sua própria história. Pelo microfone, usuários que
pouco se manifestavam verbalmente, colocam emoções e experiências
em palavras através das canções que escolhem. Além disso, a dança em
conjunto permite um espaço de expressão e trocas por meio do corpo,
capaz de unir pacientes que não interagiam de outras formas. Em alguns
momentos, passos e coreografias se constroem em grupo. Como
exemplo, podemos citar uma usuária que era extremamente sensível ao
contato corporal e passou a dançar junto na oficina, com passos
ensaiados, ao som da canção “Spring Love”, deflagradora de memórias
sobre os tempos em que frequentava bailes, antes do primeiro surto.
Assim, a música mostra-se como forma privilegiada de propiciar
encontros, condição primeira para a formação de laços sociais. Tanto
através do que as letras despertam, quanto do movimento corporal que
os sons evocam, esta oficina revela-se um espaço pulsante de interação
entre os usuários.

355
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

BAZAR: atividade laborativa como produção de autonomia

Êlizandra Regina dos Santos Gomes


Breno Lincoln Pereira de Souza Diniz
Lilian Gabriela Barreto Cordeiro
Universidade de Pernambuco – UPE

Maria José da Silva


Universidade Federal de Pernambuco - UFPE

Luanna Maria Ferreira da Cruz


Hospital Ulysses Pernambucano

Os profissionais integrantes dos programas de residência


multiprofissional em saúde mental da Universidade de Pernambuco em
conjunto com a residência uniprofissional em psicologia do Hospital
Ulysses Pernambucano, construíram com os usuários do Centro de
Atenção Psicossocial III Álcool e Outras Drogas (CAPS AD) do município
de Recife, PE, a proposta de montagem de um bazar, inicialmente com o
objetivo de arrecadar fundos para realização de passeios
terapêuticos/culturais pela cidade. O período de realização se deu de
outubro a dezembro de 2019, mas, com anseios que mesmo após a
saída da residência, esse trabalho continuasse a ser desenvolvido se
assim fosse o desejo dos usuários e dos profissionais do serviço. Tendo
como espaço para realização dessa atividade as dependências externas
do CAPS AD. As peças utilizadas foram roupas, acessórios e calçados
vindos de doações externas, tanto por profissionais do serviço como de
ONGs, bem como materiais confeccionados pelos próprios usuários. Foi
percebido que essa ocupação despertava o interesse nos usuários de
manter o bazar de forma sistemática e como atividade integrante do
serviço, uma vez que contribuía para a produção de autonomia, assim
como iniciativa para independência laboral dos mesmos. Por muitas
vezes relatada pelos usuários como uma atividade com ganhos bastante

356
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

positivos, pois, era uma forma de aproximação dos mesmos com a


comunidade, quebrando um pouco das barreiras de segregação,
impostas pelo estigma sofrido pelos indivíduos em acompanhamento
terapêutico em decorrência de vícios. Esse processo transcendeu o
objetivo inicial e perpassou pelo processo de desinstitucionalização e
autossuficiência dos usuários proposta pela reforma psiquiátrica.
Despertando nos mesmos o senso de corresponsabilização pelo seu
cuidado e novas possibilidades de recursos terapêuticos, sendo o
trabalho uma delas. Mobilizando-os a se reconhecer enquanto
protagonistas de seu tratamento, fortalecendo seu Projeto Terapêutico
Singular, e para além disso, como protagonistas de suas vidas.
Palavras-chave: Autonomia; Protagonismo; Reabilitação psicossocial

357
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Bicho do Mato: natureza como promoção à saúde mental

Zaqueu Rodrigues Gonçalves


Carla Cristina Godinho
Glauco André dos Santos
Nayara Fantinatti Medina
CAPS AD III PENHA

Introdução: O projeto Bicho do Mato foi idealizado a partir de um desejo


antigo de alguns usuários e trabalhadores do CAPS AD (Centro de
Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) III Penha e da experiência de maio
de 2019, onde foi realizada, com um grupo da instituição, a trilha do Pai
Zé e do Mirante do Pico do Jaraguá localizado em São Paulo/SP.
Descrição da experiência: Caracterizado como um grupo semiaberto,
com atividades internas e externas, executado e coordenado por equipe
multiprofissional, tem como público alvo usuários que não participam
de outras atividades e/ou casos graves que não se reconhecem nos
grupos verbais. Para um serviço de saúde como o CAPS, de caráter
aberto e comunitário, constituído por equipe multiprofissional que
realiza atendimento às pessoas com sofrimento mental e/ou uso
prejudicial de álcool e outras drogas, em situação de crise ou no
processo de reabilitação psicossocial, torna-se de suma relevância um
projeto que a partir de uma ótica interdisciplinar proporciona aos seus
participantes a remissão de sintomas, viabilizando a prática de trilhas
como promoção de bem-estar coletivo (social), físico e mental, na qual o
sujeito sai do setting tradicional de cuidado e de uma posição passiva,
valendo-se da junção entre lazer, atividade física, conhecimento,
responsabilização e meio ambiente, afetando diretamente o sujeito no
seu funcionamento biopsicossocial.
Repercussões: Temos observado que a atividade tem contribuído para
redução de danos: responsabilização do cuidado, vínculo com a atenção
básica, busca por melhor condicionamento físico, cuidado com outro,
coletivo e com meio ambiente, construção de uma consciência crítica e

358
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

do que são cuidados em saúde, que estes não se restringem apenas a


medicação, humanização do cuidado.
Considerações finais: Entendendo os grandes centros urbanos como
fonte de adoecimento, o Bicho do Mato assim como outros grupos, visa
problematizar a relação que as pessoas estabelecem com a cidade,
reconhecendo que esta também dispõe de recursos que contribuem
para promoção de saúde, além das práticas tradicionais de cuidado, não
se limitando a medicação, a um espaço físico e promovendo o
protagonismo do usuário.

359
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Caminhos Possíveis do Cuidado em um CAPS Infanto-Juvenil em


Tempos de Pandemia

Vitor Hugo Gil Santana


Rosana Teresa Onocko-Campos
Bruno Ferrari Emerich
Giovana Pellatti D. Lopes
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP

Marcos Vinicius Lourenço Nunes


Prefeitura Municipal de Campinas

A pandemia decorrente do surgimento do novo coronavírus tem


ocasionado mudanças de hábitos de vida e impactos importantes na
saúde mental de grande parte da população. Na perspectiva da infância
e adolescência, embora todas estas mudanças e impactos pareçam
pequenos em um primeiro olhar (ao se considerar a taxa de mortalidade
por COVID-19 nesta faixa etária em comparação às outras), muitos
sentimentos diferentes (como os de perda e luto) e transformações
significativas (como o distanciamento de amigos, parentes e a perda da
rotina da escola e de outras atividades) vêm sendo experimentadas por
crianças e adolescentes em seus cotidianos de vida e desenvolvimento,
já tão marcados por transformações durante estas fases. Dentre as
reações emocionais e comportamentais mais comuns vivenciadas por
elas, se destacam queixas de dificuldades de concentração,
irritabilidade, inquietação, agitação, sensações de medo, tristeza,
solidão e alterações no padrão de sono e alimentação (FIOCRUZ, 2020).
Em se tratando mais especificamente de crianças e adolescentes com
transtornos mentais ou algum tipo de sofrimento psíquico, que
usualmente já lidam com algumas dessas questões, a situação de
sofrimento pode ser intensificada e agravada, passando de reações
esperadas a ocasiões de crise. Neste sentido, o presente trabalho,
realizado em um CAPS infantojuvenil tipo II de uma grande cidade do

360
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

interior do estado de São Paulo, busca evidenciar, através de um relato


de experiência, as estratégias adotadas pela equipe do referido serviço
de saúde mental com o objetivo de promover a atenção e o cuidado à
saúde de crianças, adolescentes e seus familiares já inseridos no CAPS
ou que chegaram até ele na atual conjuntura pandêmica. Para isso,
recursos e ferramentas considerados importantes como acolhimentos,
monitoramentos telefônicos, atendimentos online individuais e em
grupo, visitas domiciliares, reuniões de matriciamento e reuniões intra e
intersetoriais (para discussão dos casos em redes) foram pensados
visando fomentar a ampliação das práticas de cuidado, ao mesmo
tempo em que processos de trabalho e fluxos de atendimentos foram
revistos e reorganizados. Apesar de ainda não haver resultados
sistematizados dos efeitos de cada uma destas intervenções (tendo em
vista o desenrolar dos fatos e das atividades no momento), pode-se
considerar que tais estratégias implementadas têm repercutido de
forma positiva por parte de muitos usuários e familiares, apontando
para novos e possíveis caminhos do cuidado em um CAPS infantojuvenil
não só em tempos de pandemia, mas também em tempos futuros.

361
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Canal de Escuta Terapêutica Online

Luiza Hences dos Santos


Ariane da Cruz Guedes
Luciane Prado Kantorski
Universidade Federal de Pelotas

Introdução: A rápida disseminação de infecções causadas pelo novo


coronavírus, fez com que a Organização Mundial da Saúde declarasse,
em março de 2020, a pandemia de COVID-19. Mediante restrições,
distanciamento social e demais ações, foram feitas propostas para
mitigar ou prevenir as possíveis consequências da pandemia à saúde da
população mundial, inclusive à saúde mental.
Durante a pandemia, o medo de adoecer e morrer, o estresse, a
ansiedade mediante as incertezas do futuro, os sintomas decorrentes do
isolamento social, da perda de emprego, entre outras situações, afetam
pessoas saudáveis e podem potencializar os sintomas daquelas com
transtornos mentais pré-existentes.
O crescente número de pessoas que necessitam de atendimento em
saúde mental, em caráter transitório ou regular, requer uma
readaptação das práticas de saúde mental no contexto pandêmico.
Portanto, o presente relato objetiva apresentar a experiência de escuta
terapêutica online desenvolvida por um grupo de profissionais da
atenção psicossocial.
Descrição da experiência: Em abril de 2020, o Grupo de Pesquisa em
enfermagem, saúde mental e saúde coletiva, lotado na Faculdade de
Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), iniciou uma
proposta de cuidado em saúde mental adaptada ao contexto da
pandemia de COVID-19, viabilizada através de um projeto de extensão.
Primeiramente, criou-se o website do grupo
(www.gruposaudemental.com/chat), no qual encontram-se informações
sobre saúde mental, COVID-19, oferta de práticas de cuidado em saúde
mental a distância e um chat de escuta terapêutica, no qual 23

362
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

profissionais de saúde, entre eles professores universitários, pós-


graduandos e trabalhadores da rede de atenção psicossocial, realizam
atendimento de escuta terapêutica, de segunda à sexta-feira, das 13 às
21 horas. O chat é aberto para o público geral e para acessá-lo o usuário
precisa aceitar o Termo de consentimento de consulta do paciente,
previsto na Resolução COFEN n° 0634/2020, confirmando ter mais que
18 anos e aceitando o registro da consulta em prontuário eletrônico,
cujo acesso é restrito aos operadores do chat. Além disso, são
respeitados os preceitos éticos, através do cumprimento das resoluções
dos respectivos órgãos profissionais referentes a autorização de
teleconsulta. Nos três primeiros o Chat já registrava 258 acessos e 159
atendimentos.
Repercussões: O atendimento de escuta terapêutica obteve repercussão
local e nacional, foi divulgado à comunidade acadêmica através de e-
mail institucional da UFPel, nas mídias sociais, rádio comunitária e numa
matéria para um telejornal do estado do Rio Grande do Sul. Ademais, foi
realizada uma parceria do Grupo de Pesquisa com a Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia, com a oferta de rodas de terapia
comunitária e atendimentos individuais a população em geral.
Considerações finais: Por fim, entendemos que o estado de emergência
humanitária, instalado pela pandemia da COVID-19, traz sérias
consequências a saúde mental da população mundial, portanto,
iniciativas como a desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa, são
fundamentais para atender as demandas de saúde dos indivíduos com
sofrimento mental agravado ou iniciado pelo longo período de
isolamento social.

363
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

CAPS IJ Híbrido – Transformações e possibilidades a partir da


experiência de cuidado 24 horas

Alexandre Moreno Sandri


Janaína Carvalho Sant’anna Ermani
Prefeitura Municipal de Jundiaí

Introdução: Por que, em pleno século 21, ainda se internam crianças e


adolescentes em hospitais psiquiátricos e outros dispositivos de caráter
asilar? O Relatório de Inspeção Nacional de Hospitais Psiquiátricos
(2018) aponta que, dos 40 hospitais psiquiátricos inspecionados, 16
afirmam receber crianças e adolescentes em contexto de internação. À
época da inspeção, havia, pelo menos, 104 crianças e adolescentes
internados país afora. O documento revela, ainda, uma série de
violações de direitos neste contexto, tais como: afastamento das
atividades escolares, internações prolongadas, ausência de ala específica
e proibição de contato com familiares. Em Jundiaí, até o ano de 2015,
muitas das situações de crise psíquica de maior gravidade, no campo da
infância e juventude, acabavam sendo direcionadas para internações
psiquiátricas, ou em comunidades terapêuticas da região. Entre 2010 e
2015, houve uma média de 10 internações desta natureza por ano,
resultando na ruptura dos vínculos familiares e violações de direitos
diversas. No segundo semestre de 2015, inicia-se o processo de
implementação e reorganização das práticas de cuidado em saúde
mental, seguindo, de forma radical, o suposto de que o cuidado às
pessoas em intenso sofrimento psíquico deve se dar, prioritariamente,
nos equipamentos comunitários. Neste contexto, os CAPS do município
passam a operar com “portas abertas”, garantindo o acolhimento às
situações de crise nestes pontos de atenção.
Descrição da experiência: Em 2016, a equipe do CAPS IJ se propôs a
acolher em hospitalidade integral, um adolescente de 17 anos. Ao invés
de encaminhá-lo para a solidão do manicômio, optou-se por cuidar de
Henrique num local conhecido, por uma equipe com quem já tinha

364
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

vínculos estabelecidos, próximo à sua casa e sua família. Ele apresentava


queixa de agressividade, irritação, embotamento afetivo e
persecutoriedade, e permanecia trancado dentro de sua casa, há mais
de uma semana. Para garantir a oferta de cuidado 24h, a equipe do
serviço organizou-se em escala de trabalho, contando com
trabalhadores do próprio serviço e de outras unidades da rede de saúde.
Algumas adequações na organização do processo de trabalho foram
necessárias, tais como a sistematização da rotina de trabalho, a
ampliação do diálogo com a rede intersetorial, além de adequação na
estrutura física. Após esta experiência fundante, sempre que
identificada a necessidade de intensificação de cuidados, o CAPS IJ se
organiza para o cuidado diuturno, caracterizando o que poderíamos
denominar um serviço híbrido, uma vez que não se trata de um CAPS IJ
III.
Repercussões: Desde o início desta experiência, já foram realizadas 36
ações de hospitalidade integral, totalizando 311 dias de sustentação e
cuidado às situações de crise no CAPS IJ. Nas ações de hospitalidade
realizadas, a média de permanência foi de 11 dias. A partir da
implantação deste dispositivo, o número de internações de crianças e
adolescentes em hospitais psiquiátricos e/ou comunidades terapêuticas
foi reduzido a zero.
Considerações Finais: Os resultados evidenciam a potência do modelo
de atenção psicossocial como substitutivo ao modelo hospitalocêntrico,
resultando em impacto evidente à vida das crianças e adolescentes
acompanhados, evitando internações em instituições de caráter.

365
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Capsi, Segurança Pública e Juventude Preta e Periférica: Recortes e


Reflexões Sobre a Atenção Psicossocial a partir da Narrativa
Socioeducativa

Tainara Cardoso Nascimento


CAPSi Alcântara

Este trabalho tem por objetivo descrever ações realizadas por


profissionais da Rede de Saúde Mental do município de São Gonçalo,
região metropolitana do Estado do Rio durante o ano de 2019, sendo
especificamente os dispositivos denominados como CAPS AD III – Dr.
Daniel Gomes da Silva (CAPS AD III Alcântara) e CAPSi Dr. Joaquim dos
Reis Pereira (CAPSi Alcântara) os condutores e principais responsáveis
pelo trabalho lido como pioneiro no território.
Os CAPS supracitados foram convocados a dar seguimento a um
trabalho que fora anteriormente realizado tentativas por outros CAPS,
porém, por alguns motivos pontuais, como grande rotatividade de
funcionários e significativos desmontes e desinvestimentos relacionados
ao trabalho, por exemplo, não foi possível a continuidade do mesmo,
que se configurava de outros modos e sob outras perspectivas.
O trabalho hoje consiste, primordialmente, em reconhecer a escuta
como principal e mais avançada ferramenta para exercer o cuidado,
compreendendo que a mesma é uma produção e, portanto, caracteriza-
se como um exercício, uma prática contínua. Todas as ações são
realizadas dentro do Centro de Recursos Integrados de Atendimento ao
Adolescente (CRIAAD) do município, onde jovens com perfis
historicamente moldados em gênero, raça, sexualidade e territórios
específicos habitam o espaço, a fim de cumprir as medidas
socioeducativas a partir da lógica de semiliberdade.
As intervenções têm como principal proposta trabalhar o protagonismo
desses meninos, quase que em sua totalidade, pretos, pobres e com
grandes reproduções históricas de violência, carregando em seus corpos
as destituições de direito e de humanidade secularmente negadas aos

366
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

mesmos e aos seus semelhantes e familiares. Outro ponto muito


importante é proporcionar uma condução de cuidado, que os faz refletir
sobre as necessidades e urgências em si de praticarem os próprios
cuidados, possibilitando aos mesmos compreenderem-se como sujeitos
e peças ativas de suas próprias histórias, que são passíveis também de
receberam atenção e cuidado.
No grupo “Sem neurose”, denominado pelos adolescentes, são tecidas
rodas de conversa quinzenalmente e em turno matutino com temas e
dinâmicas variadas, que vão desde à redução de danos a ouvir as
histórias e memórias de suas famílias, por exemplo. O trabalho,
inicialmente, tinha como pretensão acolher, após diálogos com
responsáveis do CRIAAD, em média, dez adolescentes por encontro. No
entanto, a partir dos pedidos dos próprios adolescentes, o número
precisou ser ampliado, a fim de poder receber essas demandas e
dissipar o trabalho entre eles, que em dado momento precisou acirrar
uma disputa de ocupação de território com propostas determinadas por
uma igreja neopentecostal, que realiza o trabalho assiduamente no
dispositivo, disparando em nós inúmeras interrogações sobre as
possíveis lacunas e demais dificuldades em nossa atuação que se
apresenta como resistência em meio aos inúmeros desmontes,
destituição de Garantias de Direitos e desinvestimentos relacionados,
sobretudo a esses meninos, que são as principais vítimas de violências
letais do Estado.

367
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Caracterização Sociodemográfica e Tendência Temporal das Tentativas


de Suicídio e Suicídio no Município de Olinda, Pernambuco, entre 2009
a 2018

Yasmim Talita de Moraes Ramos


Louisiana Regadas de Macedo Quinino
Larissa Cavalcanti do Amaral Almeida
Julio Cesar Pereira da Silva Junior
Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ

Flavia Helena Manhães Vasconcelos


Amanda Priscila de Santana Cabral Silva
UFPE

Introdução: O Brasil é o 8º país com maior número de suicídios no


mundo, registrando em 2012 quase doze mil óbitos. Apesar dos
números alarmantes, os estudos que abordam essa temática no país
ainda são escassos. Objetivo: Traçar o perfil Sociodemográfico das
tentativas de suicídio em Olinda, bem como analisar a tendência dos
coeficientes de incidência, mortalidade e letalidade desses eventos
entre 2009 a 2018. Metodologia: Estudo ecológico e descritivo.
Incluíram-se no estudo as tentativas de suicídio contidas no Sistema de
Informação de Agravos de Notificação, cuja entrada se deu através das
fichas de notificação de violência interpessoal e autoprovocada e de
investigação de intoxicação exógena. Os óbitos foram coletados no
Sistema de Informação sobre Mortalidade, tendo como causa básica os
códigos X60 a X84 e Y87 do capítulo XX da Classificação Estatística
Internacional de Doenças- CID 10, que correspondem às mortes
decorrentes de suicídio. Considerou-se apenas os casos e óbitos de
residentes de Olinda ocorridos entre janeiro de 2009 a dezembro de
2018. Os bancos de dados foram extraídos de base DBF e exportados
para o programa Microsoft Excel versão 2018, onde se procedeu o
cálculo das frequências relativas das variáveis do perfil

368
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Sociodemográfico e a confecção dos gráficos de tendências dos


coeficientes propostos. Realizou-se a qualificação dos bancos a fim de
excluir duplos registros e obter o quantitativo exato de casos de
tentativas e óbitos por suicídio. Após isso, encontrou-se 1290 tentativas
e 112 suicídios no período de estudo. Resultados: A taxas de variação de
2009 a 2018 mostrou aumento das notificações de tentativas de
suicídio, 136%. As mulheres tentaram mais suicídio que os homens
(n=909; 70,4%), contudo, eles foram maioria no desfecho do óbito
(n=80; 71,4%). Houve predominância dos indivíduos na faixa etária de
20 a 39 anos (n= 627; 48,6%) e pardos (n=848; 65,7%) tanto nas
tentativas quanto nos óbitos por suicídio (n=49; 43,7%; n= 74; 66%,
respectivamente). A análise de tendência indicou crescimento das taxas
de incidência (R2 0,7657), enquanto a mortalidade tendeu ao
estacionamento (R2 0,0032) e a letalidade caiu (R2 0,5491) durante o
período de estudo. Discussão: A feminização apontada nesse estudo é
concernente com os dados dos últimos boletins epidemiológicos do
Ministério da Saúde. Apesar das tentativas de suicídio serem mais
incidentes em mulheres, os homens representaram maior parcela nos
óbitos por suicídio. Essa dicotomia é refletida no fato das mulheres
terem maior chance de ideação suicida, porém tenderem a utilizar
métodos menos efetivos de findar a própria vida, enquanto os homens
utilizam armas e instrumentos mais letais para seu intento. Apesar da
taxa letalidade ter apresentado queda e a de mortalidade ter se
apresentado estacionária, em Olinda, o mesmo não foi percebido na
região nordestina. No período de 2000 a 2012, as taxas de mortalidade
por suicídio aumentaram 72,4% no Nordeste, passando de 3,0 em 2000
para 5,2 por 100 mil habitantes, em 2012. Conclusão: Este estudo
fornece informações importantes para o planejamento local, pois com o
desenho do perfil epidemiológico fornecemos ferramentas de
diagnósticos situacionais de saúde.

369
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Centro de convivência: Existindo na Resistência

Janaina Barros Fernandes


Prefeitura do Rio de Janeiro

Introdução: Sabemos que a reforma da assistência psiquiátrica avança à


medida que se entranha no tecido social e nos diversos dispositivos que
compõe esse tecido, criando modos de se relacionar com a loucura,
desmistificando o que se estabeleceu no imaginário social durante anos.
Os Centros de Convivência, esse dispositivo híbrido que atua pela saúde
mental, mas também se articula de forma intersetorial fora do espaço
estritamente de saúde, são fundamentais para a construção do debate
para desmistificação da questão da loucura, contribuindo, assim, para o
avanço da Reforma psiquiátrica.
Descrição da experiência: há 6 anos trabalhando na construção de um
centro de convivência na zona oeste do município do RJ pretendo
descrever essa experiência de trabalho.
Amarante (2007) afirma que uma dimensão estratégica para o avanço
da Reforma psiquiátrica é a chamada dimensão sociocultural. Para o
autor essa dimensão seria a mais
criativa para o envolvimento da sociedade na questão da loucura.
Segundo ele toda as transformações e construções anteriores, ou seja, a
desinstitucionalização, a retirada do sujeito do manicômio, a inserção na
comunidade através dos serviços substitutivos e os serviços de moradia
sejam eles assistidos ou não, passam a contribuir para uma nova forma
de construção do imaginário social em torno da loucura. E segundo
Amarante a dimensão que faz esse sujeito aparecer de forma mais
criativa é a dimensão sociocultural. Tomando como base essa discussão,
podemos pensar quanta potencialidade está contida em um serviço que
se propõe intersetorial.
Entendendo que os Centro de convivência são dispositivos de arranjos
muito singulares e diversos onde a intersetorialidade predomina, e não
existindo uma lei nacional que o defina, para afirmar sua existência é

370
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

preciso tomar como base a legislação, afinal a todo o instante esse


serviço é ameaçado por um fantasma da “não existência”, não existe
institucionalmente, quer seja no organograma dos órgãos gestores de
saúde e não existem enquanto estabelecimento, quer seja
conceitualmente enquanto prática definida por profissionais de saúde.
Então nos resta afirmá-lo nas brechas da Lei, nos conceitos de promoção
de saúde e nos autores que afirmam a potência da convivência. abrindo-
se assim um leque para pensar saúde não apenas como ausência de
doença, mas como noção de saúde ligando à vida de uma forma em
geral. Saúde é tudo aquilo que está para além do bem estar físico ou
mental, a saúde é também um bem estar social. Nesse sentido,
podemos afirmar que promover a convivência, garantir a ocupação de
espaços coletivos de cultura, de lazer na cidade é também promover
saúde.
E é sobre essa existência que se afirma na resistência que gostaria de
relatar pois não é simples afirmar um serviço somente pelas brechas da
lei, esse serviço precisa de parâmetros, precisa de documentos
norteadores, precisa de indicadores, precisa de recursos; financeiros,
materiais e humanos, precisa de um mandato que garanta sua existência
enquanto dispositivo de promoção à saúde. Ganhando assim, formato,
corpo que o defina enquanto serviço de atenção psicossocial.

371
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

CineCAPS Diversidade: cinema, afetos e saberes

Claudia Regina de Carvalho Sousa


Aline Almeida da Silva
Rafaela Valenza Diniz Moreira
Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal

Lolla Arcan Soulsa


Lucas Santhyago Brandão Dias
Victor Rafael Herzog Pinto Neves
CAPS II - Taguatinga/DF

O CineCAPS Diversidade é fruto da inquietação de usuáries no que tange


à identidade e orientação de gênero, ao racismo, ao preconceito e à
estigmatização de diversos indivíduos que não se encaixam em padrões
socialmente dominantes. É realizado no Centro de Atenção Psicossocial
II de Taguatinga-DF cuja área de abrangência engloba Águas Claras,
Ceilândia, Vicente Pires e Taguatinga e tem como objetivo criar um
espaço de exibição de filmes como promoção de cidadania e de
acolhimento das situações advindas da diversidade humana, buscando
aprofundar e ampliar visões sobre funcionamento e estruturas sociais e
impactar na atualização das ações de convívio e respeito em sociedade.
A organização e execução do projeto é autogestiva com a contribuição
de usuáries, da equipe técnica da instituição e de residentes do
Programa de Residência Multiprofissional de Saúde Mental do Adulto da
Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde (FEPECS) vinculada
à Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal. A logística de
funcionamento da atividade ocorreu através de reuniões periódicas para
a curadoria dos filmes a partir da sugestão do coletivo de usuáries e
avaliações de cada encontro realizado, visando a melhoria da execução
do projeto. Foram exibidos 6 filmes de julho a dezembro de 2019, com
lanches durante a exibição e rodas de conversa após cada filme. Os
filmes exibidos foram: “Heleno”, “Histórias Cruzadas”, “Duelo de Titãs”,

372
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

“De Gravata e Unha Vermelha”, “Colegas” e “A Forma da Água”. Cada


encontro teve a participação de cerca de 30 pessoas com perfis
etnográficos diversos. As rodas de conversa contaram com participação
de usuáries, técnicos e convidados. Uma breve análise do discurso indica
como palavras/conceitos apresentados nas rodas de conversa:
heteronormatividade, identidade e orientação afetivo-sexual, igualdade
e equidade; violência de gênero; violência étnico-racial; preconceito e
estigmas de etnia/raça, gênero e classe; feminismo; desigualdade social;
deficiência e acessibilidade; direitos humanos; direitos civis; saúde e
doença mental; luta antimanicomial. Este projeto articula-se junto ao
Sistema Único de Saúde e ao Movimento de Reforma Psiquiátrica
Brasileira, que apresentam princípios que: rompem com a patologização
e investem na diversidade; articula-se às políticas públicas culturais
brasileiras; trabalha para (re)inserir pessoas no contexto social por meio
da arte, cultura e protagonismo social. O projeto está em andamento,
sendo possível observá-lo como espaço de acolhimento, construção
coletiva e de discussões potencializadoras. A médio e longo prazo,
pretende-se: promover a colaboração entre agentes públicos e privados
para o desenvolvimento da economia da cultura possibilitando o acesso
a atividades culturais; impactar na promoção de saúde na esfera social
da definição de saúde, influenciando a atual realidade na qual uma
parcela considerável da população não tem acesso a Arte em geral.

373
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Cinelibras como prática terapêutica para pessoas surdas em Santo


Antônio de Jesus, BA.

Ana Karolline Oliveira Caldas


Larissa Nascimento Pinto
Anderson Rafael
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Durante séculos, os conceitos de normalidade e anormalidade foram


estabelecidos como marcadores pelo modelo clínico e biomédico, no
qual aqueles compreendidos como anormais sofreram diversas
violências dentro da sociedade. Nesse contexto, a visão clínica sobre a
surdez induz a sociedade a marcá-los pela deficiência, pela falta, sendo
vistos somente como seres patológicos. Em contraposição à essa
perspectiva, surge a visão socioantropológica sobre o sujeito Surdo, que
enxerga o mesmo como pertencente de uma minoria linguística e
cultural, o qual, concomitantemente tem uma historicidade
compartilhada com outros Surdos. Diante disso, o Farol, Grupo de
Estudos e Pesquisa sobre Surdos da Universidade Federal do Recôncavo
da Bahia (UFRB), em conjunto com a Federação Internacional de
Associações de Estudantes de Medicina (IFMSA), promoveu um
encontro, denominado CineLibras, com as pessoas surdas na cidade
baiana de Santo Antônio de Jesus, no Centro de Ciências da Saúde, onde
foi exibido o filme “A hora da estrela” interpretado em Libras e, em
seguida, foi reservado um momento para o debate sobre a obra. A
atividade se revelou de extrema importância visto que, além de
proporcionar aos Surdos o contato acessível com atividades culturais,
também permitiu-lhes estar em lugares de destaque, tendo em vista
que ela foi pensada e executada com a finalidade de oferecer esse
protagonismo. Para além disso, o CineLibras adquiriu um caráter
terapêutico por ter sido entendido pelos Surdos como um ambiente
seguro para compartilhar alguns processos de adoecimento psicológico,
somado ao fato de que são poucos os espaços que os oferecem uma

374
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

escuta atenciosa e com acessibilidade garantida. Ademais, o ambiente


da Universidade foi escolhido por oferecer a oportunidade dos Surdos
estarem dentro do espaço acadêmico, podendo vislumbrar este como
um local possível e próximo das suas realidades, diferente do que
muitos são levados a crer. Dessa forma, o CineLibras foi um momento de
fundamental importância para troca de afetividades e para o estímulo
de vínculos entre os Surdos e acadêmicos, proporcionando também a
atenção e sensibilidade. Concluímos que é essencial destacar esse
espaço como um potencializador de interações sociais para que, se
desejarem, ampliem seu círculo social para com pessoas que estão
interessadas em conhecer suas demandas, proporcionando uma escuta
sensível, que gera laços de confiança entre ambos, sendo necessária a
mudança do olhar sobre o sujeito Surdo, compreendendo-o como um
indivíduo para além da Surdez, contribuindo para sua
representatividade social e permitindo que estes desenvolvam a
autonomia e ocupem os espaços que desejarem na sociedade.

375
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Clínica comunitaria: El problema de la medicalización de las infancias


en la Escuela Primaria de Uruguay

Andrés Pablo Techera Núñez


Debora Gribov
Universidad de la República

El siguiente resumen da cuenta de una experiencia de docencia


universitaria, realizada en un Programa de Extensión Universitaria de
Uruguay (Apex-UdelaR). Dentro de sus objetivos, se destaca la
formación de estudiantes de grado de diversas disciplinas (psicología,
trabajo social, psicomotricidad, etc.) en el campo de la salud
comunitaria y el desarrollo de estrategias clínicas interdisciplinarias. Los
problemas priorizados por el equipo docente y los estudiantes se
construyen y negocian en conjunto con los actores no universitarios con
los que trabajamos. La formación incluye espacios de discusión teóricos
con énfasis en el estudio de autores latinoamericanos como es el caso
de: Paulo Amarante, María Aparecida Moyses, Paulo Freire, Alejandra
Barcala, Gisela Untoiglich, José Luis Rebellato, Joaquín Rodríguez Nebot,
entre otros y espacios de prácticas pre-profesionales que se desarrollan
en instituciones y organizaciones de la zona de influencia del Programa
APEX. En estos espacios los estudiantes ensayan diversas estrategias de
abordaje (singulares y originales) para los problemas que enfrentan las
infancias, incluyendo estrategias de trabajo, institucional, grupal,
familiar y/o individual. Una de las líneas priorizadas, se vincula a dar
respuesta a los problemas de aprendizaje y/o conducta que presentan
un alto porcentaje de niñas/os en edad escolar. Cifra que aumenta
significativamente en los barrios con mayores índices de pobreza y
marginalidad. Es el caso del territorio donde desarrollamos nuestra
actividad docente (Municipio A de Montevideo). Las problemáticas de
aprendizaje en las infancias, responden a una diversidad de causas y
realidades que limitan las posibilidades de las niñas/os para desarrollar
su potencial. Frecuentemente el sistema educativo y de salud enfrentan

376
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

estas problemáticas, depositando en los niños/as o sus familiares las


causas del no aprendizaje y/o de las conductas desajustadas. Las
respuestas del sistema, ante las situaciones más complejas, en donde los
niños/as no logran adaptarse a las exigencias escolares;
mayoritariamente se basan en medidas disciplinarias o sancionatorias.
Cuando estas estrategias no logran revertir la situación, se recurre a las
consultas externas, principalmente al sistema de salud que aborda la
realidad de los niños/as, diagnosticando y medicando los síntomas como
única fórmula “terapéutica”. El número de niñas/os diagnosticados con
problemas de aprendizaje y/o conductuales alarma a la sociedad en su
conjunto y a la sociedad académica en particular. El porcentaje de
niñas/os que no aprueban los primeros años de enseñanza llega a 4 de
cada 10. Unos de los temas más graves se vincula con la alta tasa de
niñas/os medicados con fármacos psiquiátricos para el abordaje de las
dificultades escolares. El problema de las infancias en las escuelas es un
importante analizador que revela una trama compleja, donde se
evidencian los cambios en nuestras sociedades, los efectos de las
desigualdades sociales y la inequidad, el avance de la medicalización de
la sociedad, la inoperancia de las instituciones educativas para dar
respuesta a las nuevas subjetividades, los problemas en la formación de
recursos humanos y la elitización de la educación.

377
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Clínica do inconsciente e devir-negro no mundo

Mario Santos Morel

O relato a ser exposto na roda de conversa trata-se do cruzamento entre


experiências clínicas no período da pandemia do Novo Coronavírus,
atendendo a população de Niterói pelo Serviço de Psicologia Aplicada da
UFF e as recentes pesquisas empreendidas sobre modos de combate a
colonização; no cruzamento entre a clínica do inconsciente e a
necropolítica (Mbembe, 2018) como modo de governo. A tese de Achille
Mbembe (2018) de que o biopoder (Foucault, 1976) – atual modelo
estatal de gestão da vida e dos fluxos – nasce nas colônias de plantation
do século XV, nos ajuda a pensar os vetores de subjetivação coloniais
presentes ainda hoje nesse território existencial em comum que
chamamos Brasil. Sob essa leitura, a violência contemporânea não se
apresenta como resultado de uma falta ou de uma estrutura
insuficiente, mas é por si mesma estruturante, ou seja, faz parte da
matriz de nossa organização social. O que implica em dizer também, que
a violência não é fruto de uma recente ascensão da direita, mas que ela
é um vetor de subjetivação do Brasil desde sua fundação. Mbembe
(2018) descreve nosso tempo pela quase inexistência dos trabalhadores
propriamente ditos e pela proliferação dos nômades do trabalho. O
capital financeiro chegou num momento no qual a mão de obra se torna
cada vez mais descartável. As relações de trabalho já não são mais
mediadas pela fábrica, ou mesmo pelo capataz do senhor de engenho,
mas pelo celular. Uma demanda de produção infinita disfarçada de
liberdade individual. Em nosso tempo, no qual se opera a transformação
dos seres humanos em coisas animadas, dados numéricos e códigos, o
taylorismo subjetivo é a única garantia do pão e da sobrevivência. A essa
generalização da condição de colonizado, o professor chama devir-negro
do mundo. Os relatos pretendem contribuir para uma cartografia do
presente, a partir do princípio da indissociabilidade entre clínica e
política, que torna indispensável ao exercício clínico uma investigação

378
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

das relações de poder de nosso tempo. O político e o clínico têm em


comum serem ambos lugares psíquicos por excelência. Subjetividade e
política, mexer no arranjo de um é mexer no arranjo doutro,
necessariamente.

379
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Clínica social segundo a perspectiva da Psicologia Feminista


Construcionista Social: um relato de experiência profissional

Natanna Késsia Nunes Gomes


Universidade Anhembi Morumbi - UAM

A Psicologia Feminista é um projeto de igualdade, atento as


diversidades, as diferentes possibilidades, se identificando com o
feminismo, com as mudanças sociais e a interseccionalidade. Por
interseccionalidade dentro da escuta clínica em psicologia, compreende-
se as considerações dos imbricamentos das opressões no
atravessamento da saúde mental do sujeito. Assim, resgatar a
metodologia feminista na atuação psicológica é adotar uma escuta
crítica, que objetiva a mudança social, o resgate da experiência
feminina, o uso de linguagens não sexistas, e o empoderamento das
mulheres. As epistemologias feministas entendem o conhecimento
como sendo situado, criticando a neutralidade e objetividade do
positivismo. Em consonância, o Construcionismo Social, entende o
conhecimento como algo adquirido em conjunto, fruto de construções
históricas, focando nas interações sociais e nas práticas daí resultantes.
Quando aliamos a atuação da Psicologia Clínica, um serviço muitas vezes
autônomo, mas regulamentado por um fazer político, a uma atuação
feminista construcionista social, é impossível que esse fazer não tome
uma dimensão social. Assim, o presente relato parte dessa dimensão. Os
atendimentos são realizados no espaço da Clínica Saúde e Movimento,
em São João Del Rei - MG, na modalidade de psicoterapia individual. O
processo psicoterapêutico é voltado, especialmente, a universitários (as)
de baixa renda e mulheres em contexto de opressão, numa intersecção
entre gênero, raça e classe. As intervenções terapêuticas possuem como
fundamentação teórica a proposta da Psicologia Feminista, como uma
atuação política e parcial – a favor das mulheres- e no Construcionismo
Social, como metodologia de resgate do saber de si, entendendo-o
como localizado na experiência do indivíduo. Dentro dessa atuação,

380
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

pôde ser sentido a necessidade da construção de uma clínica em


psicologia que se torne potência para a libertação das opressões de
gênero, raça e classe, que atravessam e afetam a saúde mental,
fazendo-se necessário não apenas o critério monetário como definidor
de atendimento social, mas um recorte interseccional dentro da saúde
mental. Portanto, é na escuta interseccional que reside a possibilidade
da construção de uma clínica social dentro do contexto da psicoterapia.
Somente através dessa “clínica do resistir” é que surge a potência
criadora para novos espaços, buscando-se, entre outras coisas, a defesa
de que a psicologia é para todEs.

381
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Coleta de Dados em uma Unidade de Atenção Psicossocial: Relato de


Experiência Acadêmica

Alexandra do Nascimento Damasio Flores


Daiana Foggiato de Siqueira
Universidade Federal de Santa Maria

Sidney da Silva Marques


Hospital Universitário de Santa Maria

Introdução: os profissionais de enfermagem, na saúde mental,


trabalham diariamente com pacientes em sofrimento psíquico,
prestando uma assistência baseada em aspectos não somente
cognitivos, mas também processos que beiram a subjetividade do ser
humano (KANTORSKI et al., 2005). Neste cenário, faz-se importante o
desenvolvimento de pesquisas científicas que possibilitem novas
descobertas para auxiliar as práticas profissionais e o cuidado em saúde
mental. Sendo assim, o objetivo do presente estudo é relatar a
experiência acadêmica no processo de coleta de dados de uma pesquisa
realizada com profissionais de uma Unidade de Atenção Psicossocial.
Descrição da experiência: trata-se de um relato de experiência
vivenciado pela acadêmica de enfermagem, integrante do “Grupo de
Pesquisa Cuidado em Saúde Mental e Formação em Saúde” da
Universidade Federal de Santa Maria. A coleta de dados baseou-se na
aplicação de um questionário com profissionais da enfermagem,
auxiliares, técnicos e enfermeiros, totalizando 33 profissionais, de três
turnos, que trabalham em uma Unidade de Atenção Psicossocial de um
Hospital Universitário no Estado do Rio Grande do Sul. As coletas que
constam neste relato compreendem o período entre o mês de janeiro
de 2020 a fevereiro de 2020. Repercussões: para a coleta de dados ter
êxito foi necessário desenvolver a abordagem inicial de diálogo e
empatia, mantendo contato diário com os profissionais da unidade. A
inserção na área da saúde mental, por meio da coleta de dados,

382
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

proporciona ao acadêmico de enfermagem, transformar seu


conhecimento teórico e postura profissional, por meio de uma imersão
no contexto em investigação (CHAER; DINIZ; RIBEIRO, 2012). Notou- se
que profissionais com maior tempo de atuação profissional,
apresentavam maior resistência à aceitação de participar da pesquisa.
Muitos profissionais de enfermagem relataram a falta do retorno das
pesquisas realizadas na unidade, não tendo conhecimento do resultado
do qual participaram. Vale destacar que o retorno dos resultados da
pesquisa a instituição e/ou pessoas participantes é um aspecto ético que
os pesquisadores devem assumir ao realizar pesquisas. Considerações
Finais: a coleta de dados é fundamental para o crescimento profissional
do acadêmico, sendo de alta relevância a imersão na unidade de
atenção psicossocial. Desde o início, favorece ao acadêmico estimular as
relações humanas e métodos de criar novas abordagens em relação aos
profissionais da saúde para ter êxito no âmbito da pesquisa e
profissional. Além disso, a pesquisa na área da saúde mental vem a
contribuir com a divulgação do conhecimento atualizado por meio da
produção científica de qualidade.

383
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Como podemos fechar as lacunas existentes


no tratamento em Rede?

Fernanda de Carvalho Gava


Prefeitura Municipal de Rio Bananal

Trabalho com psicose desde a graduação e minha formação sempre foi


voltada ao social. Durante quase toda a minha faculdade, realizei meus
estágios no Hospital Adauto Botelho, conhecido hoje, ainda, como um
manicômio velho, de equipe insuficiente e métodos de “tratamento”
longe dos ideais. Ter estado dentro desse manicômio por quase três
anos mudou definitivamente minha forma de ver esses locais: para mim,
não seria mais possível aceitar minimamente qualquer justificativa de
ter que colocar um indivíduo em lugares como aquele. Felizmente a
Reforma Psiquiatria foi se consolidando em nosso país é com ela
avanços importantes foram sendo conquistados. O tratamento em
liberdade foi se expandindo e leitos psiquiátricos foram fechados.
Porém, com a crise político-ideológica que assola nosso país, os
investimentos e olhares começaram a se desviar da Rede e se voltaram
ao antigo modelo. Começaram então, os reinvestimentos nos hospitais e
o Modelo Misto onde o manicômio passa a integrar a Rede foi aceito. É
preocupante termos os hospitais dentro da Rede pois, esses lugares não
são para cuidar, mas sim, isolar e tirar dos olhos da sociedade aqueles
que não são produtivos e desejáveis. Diante dessa nova fase, precisamos
enfrentar e resistir, e a única maneira é demonstrado que a Rede e os
CAPS são instrumentos plenamente completos e capazes de suprir todas
as demandas, inclusive as demandas de crises. A maior justifique para
que os manicômios entrem na Rede é a de que existe uma lacuna que
não vem sendo preenchida pelos CAPS que é a do paciente em crise.
Essa lacuna realmente existe e precisa ser preenchida pela Rede, pelo
reinvestimento nela, pela ampliação e criação de novos dispositivos. Se
a Rede volta a crescer, teremos CAPS dia, infantojuvenil, 24 horas, álcool

384
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

e drogas e assim, conseguiremos abraçar a todos os sujeitos que


demandam apoio, tratamento acolhimento, de forma humana, digna e
principalmente, sem ferir os direitos humanos daqueles que sofrem.

385
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Como trabalha um psicanalista diante da terminalidade? reflexões


sobre cuidados paliativos e psicanálise

Helena Cristina de Mesquita Tavares


Secretaria de Saúde

Inaugurada no final do século XX por Sigmund Freud, a psicanálise é uma


teoria que se mantém relevante na atualidade pois não se limita aos
fenômenos clínicos restritos ao consultório, ela vai além. Neste trabalho,
nos propomos retratar o desafio posto ao psicanalista que atua com
cuidados paliativos no ambiente domiciliar, especificadamente
compondo uma equipe multidisciplinar em um serviço de atenção
domiciliar no Sistema Único de Saúde. Através da experiência
profissional, busca-se refletir a partir das lentes da Psicanálise, de Freud
à Lacan, dentro outros psicanalistas contemporâneos, nas
particularidades da clínica psicanalítica diante da terminalidade. O
objetivo do trabalho é refletir sobre a escuta da psicanálise com
pacientes moribundos e tecer coordenadas e estratégias que situem e
orientem essa clínica. Conclui-se que a clínica psicanalítica diante da
terminalidade se mostra desafiadora. Compreendeu-se que os principais
desafios presentes no trabalho do psicanalista diante da terminalidade
do sujeito dizem respeito ao silenciamento inicial do paciente, os
momentos de angústia, urgência subjetiva (finitude/ tempo) e o manejo
transferencial coerente com estas dinâmicas. Percebemos neste
trabalho que a atuação do psicólogo na área do Cuidado Paliativo é uma
abordagem recente e que carece de investigação sobretudo pensada
por uma perspectiva teórica. As estratégias verificadas nesta clínica se
relacionam com os desafios e podem ser identificadas como
acolhimento à angústia e ao silenciamento, investimento na fala do
sujeito, compreendendo com a confrontação com a finitude emergirá
significantes de sua história de vida que precisam ser ouvidos e
validados. Destaca-se também a questão do manejo do tempo, uma vez
que o encurtamento do tempo é uma variável que afeta a subjetividade

386
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

do sujeito e a própria dinâmica da análise. Por fim, as reflexões sobre


terminalidade e psicanálise nos coloca de frente da dimensão da
problemática da contra-transferência e a dimensão ética da psicanálise,
que não se trata de questões morais de nossos tempos, mas a dimensão
ética do desejo e por isso está ao lado do analisando (Kehl, 1996). Em
qualquer contexto de atuação, o compromisso ético do psicanalista está
em se manter na posição de analisando (de fato ou em potencial), visto
que, é na posição de analisando que as manifestações do inconsciente
podem transitar e serem significadas, podendo construir sua narrativa
singular (Kehl, 1996).

387
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Compartilhando Saberes no Controle Social da Saúde Mental: relato de


experiência de uma formação para conselheiros locais de saúde

Antonia Eline
Juscélia Márcia Ferreira Brandão
Escola de Saúde Pública do Ceará - ESP/CE

Introdução: O modelo manicomial produziu a exclusão da “loucura” da


vida social, com a perda do direito à cidade, participação social e o não
reconhecimento da condição de cidadania do “louco” (AMARANTE &
TORRE, 2018). Os autores destacam ainda que as instituições de
tratamento e serviços de saúde, não são mais lugar de “cura” e de
“reabilitação”, pontuam que o espaço para a emancipação e a
autonomia “[...] é a cidade, as relações sociais possíveis no espaço da
cidade, nos espaços de convivência coletiva, nos espaços de participação
social, nos grupos sociais diversos e na busca de cuidado integral e
acesso a políticas públicas” (AMARANTE & TORRE, 2018, 1095). Assim,
essa experiência teve como objetivo: possibilitar a troca de saberes
sobre controle social no Sistema Único de Saúde-SUS e despertar a
importância da atuação do conselheiro local de saúde. Descrição da
Experiência: A proposta surgiu a partir da observação das profissionais-
residentes nas reuniões do conselho local de saúde realizadas no
Centros de Atenção Psicossocial - CAPS geral. O público-alvo da
atividade foram: conselheiros, usuários e familiares de um CAPS geral e
CAPS álcool e outros drogas do município de Fortaleza/Ceará. Os
encontros tiveram por base: a Lei 8.142/90 e a publicação: “Capacitação
dos Conselheiros de Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora,
Núcleo de Assessoria, Treinamento e Estudos em Saúde/Programa de
Capacitação de Gestores da Macrorregião Sudeste de Minas Gerais”
(NATES, 2020). As atividades visavam o protagonismo, o despertar e o
compreender da importância da atribuição do conselheiro local de
saúde. Realizou-se nos dias 17, 19, 20 e 21 de fevereiro de 2020. Os
locais foram uma parte no CAPS geral e no departamento de

388
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Ocorreram quatro


encontros com os temas: Histórico da política de saúde; Direito
universal à saúde; Participação popular; e o Regimento interno do
Conselho Regional de Saúde de uma das secretarias regionais de
Fortaleza. Durante a realização dos encontros observou-se um certo
desconhecimento dos participantes sobre a política de saúde e suas
legislações o que fragiliza as lutas e conquistas para a saúde mental.
Repercussões: Conforme afirma Guimarães et. al (2010, p. 2114) a
participação social tem se mostrado como espaço onde: “evidenciam-se
conflitos e tensões, ainda que se busquem negociações em defesa de
interesses individuais e/ou coletivos”. Essa realidade não se difere
dentro da Política de Saúde Mental. Apesar dos desafios que
participação social hoje enfrenta, faz-se necessário instigar o
fortalecimento dos conselhos de saúde numa perspectiva de construir
um Sistema Único de Saúde (SUS) de qualidade. Considerações Finais: A
experiência da facilitação de uma formação para conselheiros é um ato
de estímulo para a luta por um SUS cada vez melhor e também uma
atividade importante para reflexão da importância da educação
continuada. Fortalecer o controle social é garantir uma participação
consciente e atuante.

389
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Comunicação Não Violenta e Saúde Mental: uma abordagem possível e


potente na produção do cuidado.

Ana Lúcia da Silva Lira


Millena Raianny Xavier da Silva

Este resumo objetiva descrever uma intervenção realizada por


residentes da RAPS no contexto de atuação de um CAPS AD na cidade do
Recife. Especificamente, este CAPS atende uma numerosa população de
pessoas em situação de rua, sendo referência de cuidado e interlocução
com demais serviços da rede para os usuários que o acessam. No
cenário de prática chamou-nos atenção a forma como os (as) usuários
(as) lidavam com os conflitos na convivência diária e o modo com o qual
se reportavam um ao outro (a), quase sempre gerando ruídos de
comunicação. A partir desse dado de realidade começamos a pensar em
alguma forma de contribuir para uma comunicação mais assertiva, que
gerasse resultados práticos tanto no cotidiano do serviço, quanto em
suas vidas.
Nesse sentido, elaboramos uma Oficina de Comunicação Não Violenta,
cuja proposta foi incluir a discussão sobre as formas de comunicação,
possibilitando um espaço onde estes sujeitos pudessem refletir sobre a
importância do diálogo alicerçado numa comunicação mais eficaz,
transparente e respeitosa. Pensamos a Metodologia fincada numa
abordagem dinâmica, dividida em dois encontros. No primeiro encontro,
a temática permeou o sentido do “Ouvir o Outro”. Assim, pedimos que
os (as) usuários (as) se dividissem em duplas, a fim de que
compartilhassem experiências e curiosidades sobre si. Cada qual teria
momento para falar e ouvir. Para facilitar o processo sugerimos alguns
temas como: brincadeiras de infância, medos, sonhos, alegrias, etc. No
momento seguinte, aqueles que se sentiram à vontade compartilharam
com o grupo o produto do diálogo. Suscitamos que refletissem se havia
sido mais fácil falar ou ouvir. Posteriormente, para introduzirmos o
conceito de comunicação não violenta, solicitamos que cada um fizesse

390
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

um esforço para lembrar-se de frases agressivas direcionadas a eles (as)


durante algum momento de suas vidas e o impacto disso em si. Grande
parte dos usuários trouxeram exemplos, os quais foram acolhidos,
escritos num quadro e o exercício foi o de transformar aquela frase, de
modo que transmitisse de uma forma mais assertiva a mensagem não
causando danos ao interlocutor.
No segundo encontro, nos propusemos a trabalhar a linguagem não
verbal como forma de demonstrar outras formas de comunicação, no
intuito de atentarmos às necessidades e códigos de mensagens que
muitas vezes não são acessados por todos. Nesse sentido, foi realizada
dinâmica de mímica sobre coisas do cotidiano. Este momento mais
interativo funcionou como um reforço para a conscientização do papel
do emissor e do receptor da mensagem no diálogo, aproximando-os.
Avaliamos pelo feedback dos usuários que a experiência de aplicação
desta metodologia aliada ao conceito de Comunicação Não Violenta de
Marshall Rosemberg, baseada na habilidade de falar e ouvir, de
despertar a conexão consigo e com os outros, do respeito, atenção e
empatia foram em parte apreendidos pelos sujeitos que participaram da
oficina e teve repercussões tanto no nível do reconhecimento da
importância deste trabalho pelos usuários, quanto pela sensibilização
dos profissionais de que este tipo de intervenção necessita ser acessada
também pela equipe para implicação no processo de trabalho e em suas
relações interpessoais.

391
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Comunidade de Fala (CDF) Ouro Preto - CDF Ouro Preto

Karine Marlleny Neves Corrêa


Paula Brumana Corrêa
César Henrique Pereira
Aisllan Diego de Assis
(UFOP - Universidade Federal de Ouro Preto)

Lilian Regina Campos


Suzana de Almeida Gontijo
Marcela Ferreira Ramos

A comunidade de fala é um projeto anti-estigma criado pelo jornalista


Richard Weingarten que visa o empoderamento dos portadores de
transtorno mental e combate ao estigma ligado à loucura e saúde
mental. Este projeto de extensão objetiva a construção e sustentação da
Comunidade de Fala (CDF) de Ouro Preto em parceria com a Rede de
Atenção Psicossocial (RAPS) de Ouro Preto, Richard Weingarten e Caio
Manço, representante da CDF São Paulo. A construção da CDF Ouro
Preto iniciou com a seleção de estudantes bolsista e voluntários da
Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Em março de 2020, as
atividades presenciais na Universidade foram suspensas devido as
medidas preventivas e protetivas frente a pandemia da COVID-19. Nos
meses de abril e maio, em reuniões por videoconferência, a equipe do
projeto organizou a sustentação das atividades da CDF Ouro Preto, por
meio da reformulação das atividades do projeto na modalidade remota.
Nesse período, foram enviadas cartas convites aos usuários dos serviços
de saúde mental para participação no projeto. Em junho, ocorreu o
processo seletivo dos usuários em duas rodas de conversa e entrevista
com aplicações de questionário. Participaram 6 usuários, 4 estudantes, 4
profissionais, e outros 3 coordenadores. Em julho, iniciou a formação da
CDF com o curso e metodologia: apresentações públicas, 6 vagões do
trem (narrativas). Ocorreram dificuldades devido a conexão da rede,

392
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

equipamentos e comunicação, e as atividades precisaram ser mais uma


vez reformuladas. A continuidade da CDF Ouro Preto se dá então, desde
agosto, por meio de apresentações públicas das CDF de outras cidades
do Brasil, por meio de aplicativo de videoconferência, fortalecendo os
vínculos da comunidade recém construída na cidade. Já ocorreram duas
apresentações com 40 participantes, entre profissionais e usuários de 2
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de Ouro Preto. Construiu-se
material gráfico impresso (Zine da CDF Ouro Preto) para a divulgação e
convite dos usuários e usuárias para apresentações, além da criação das
redes sociais do grupo na internet. A CDF Ouro Preto segue em
construção como espaço de fala, escuta, protagonismo e
empoderamento de seus componentes. Por meio dela tem vencido o
silenciamento e estigma, ligados à loucura e ao transtorno mental. Nas
apresentações da CDF Ouro Preto as pessoas podem se orgulhar de suas
histórias de superação e convivência, podendo expressar de forma
poderosa suas emoções. A CDF Ouro Preto segue se construindo como
espaço de empoderamento, autonomia e construção das histórias das
pessoas em suas próprias vozes.
Palavras – chave: Saúde Mental, Saúde Coletiva, Empoderamento, Anti-
estigma, Grupo, Ouro Preto.

393
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Concepções sobre o adoecimento de pacientes em um grupo


terapêutico no hospital dia de saúde mental: relato de experiência

Márcio Santana da Silva


Andressa Lima de Lucena
Faculdade Nobre de Feira de Santana - FAN

Introdução: A história da Reforma Psiquiátrica Brasileira teve início no


final da década de 70, tanto em função da crítica ao modelo asilar de
saúde mental, como também pela a escassez de tratamento efetivo e
benéfico aos sujeitos com transtornos mentais. Nesse sentido, foram
cruciais os esforços do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental
(MTSM) em reivindicar os direitos dos pacientes institucionalizados,
sendo tal movimento inspirado no modelo italiano de
desinstitucionalização, o qual propunha uma mudança radical nos
paradigmas dos cuidados em saúde mental da época. Os hospitais-dia
em saúde mental são serviços substitutivos dos hospitais psiquiátricos,
avaliados como uma estratégia potente para tratamento em reabilitação
psicossocial e dependência química, tendo como principais atividades os
grupos terapêuticos. Assim, este estudo tem como objetivo
compreender as concepções de adoecimento psíquico dos pacientes em
atividades nos grupos terapêuticos em um hospital-dia cidade de Feira
de Santana, Bahia. Descrição da experiência: Utilizou-se como método a
observação exploratória da realidade de pacientes através da vivência
de um estágio extracurricular em um Hospital Dia da cidade de Feira de
Santana – BA, no grupo terapêutico específico intitulado “Cultivando o
Enfrentamento”. As reuniões ocorriam semanalmente no período
matutino com duração de duas horas no período de dois meses, o grupo
contou com oito integrantes, com faixa etária entre 22-41 anos, sendo
cinco do sexo feminino e três do sexo masculino e todos possuíam mais
de três meses de tratamento na unidade. As atividades desenvolvidas
consistiram nas apresentações pessoais dos participantes desde a sua
trajetória até o momento atual, a atividades vivenciais com expressões

394
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

artísticas, promovendo-se reflexões sobre cada diagnóstico e práticas de


valorização da vida. Repercussões: diante da observação como
facilitadora da oficina, foi verificada uma vivência de incômodo de cada
integrante ao relatar estigmas sofridos socialmente e as suas
compreensões sobre o diagnóstico, principalmente, sobre o processo de
não aceitá-lo por um longo período e por esse motivo ter retardado o
início do tratamento adequado; além disso, o movimento de contar a
própria história contribuiu para o paciente avaliar a sua própria
evolução, pois esse processo fez o usuário realizar uma retrospectiva e
relembrar as mudanças de como ele era antes e como ele se percebe
melhor dentro do processo terapêutico. As atividades com a arte, por
sua vez, contribuíram significativamente como formas de expressões
não verbais e permitiram o a expressão de conteúdos que os usuários
não conseguiam expressar verbalmente. Considerações finais: Em
virtude dos fatos mencionados, os grupos terapêuticos promoveram um
espaço de ajuda mútua entre os integrantes, sendo que as atividades
desenvolvidas em grupo favoreceram a reabilitação psicossocial e
permitiram um lugar de fala e empoderamento do sujeito. Percebeu-se
que o movimento de narrar a própria história e entender o processo de
adoecimento auxiliou os sujeitos em seus processos de evolução, por lhe
dar subsídios e permitir uma nova forma de enxergar o dito
adoecimento, o qual passou a ser considerado mais uma etapa de suas
vidas. Além disso, o processo aqui relatado também contribuiu para
ressignificações da identidade do sujeito.

395
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Confecção de turbantes, ancestralidade negra e estética feminina: um


relato de experiência no programa Atitude/PE

Bárbara de Oliveira Galvão


Patrícia Allgayer Ferreira
Anís de Souza Morais
Élida Barros da Cost
Maria Cecília Fagundes de Melo
Faculdade Frassinetti do Recife - FAFIRE

Marilyn Dione de Sena Leal


Universidade de Pernambuco - UPE

Aline Neiva Ribeiro


Instituto Aggeu Magalhães - FIOCRUZ

O presente relato de experiência trata sobre uma oficina facilitada a


partir do Projeto de Reintegração Social para Usuárias de Drogas do
Programa ATITUDE, em Novembro de 2019, por graduandas de
Psicologia e Saúde Coletiva da Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE) e
Universidade de Pernambuco (UPE), respectivamente. As atividades
aconteceram de acordo com a aprovação do Edital Programa de
Fortalecimento Acadêmico (PFA) Extensão - 01/2019 da Universidade de
Pernambuco (UPE). O Programa de Atenção Integral aos Usuários de
Drogas - ATITUDE, pautado na Política de Redução de Danos, acolhe
pessoas em situação de vulnerabilidade e uso abusivo de drogas. A
atividade em questão teve como objetivo principal compartilhar com os
presentes as diferentes amarrações de turbantes, promovendo, assim,
aumento da autoestima e estímulo ao empoderamento enquanto
pessoas negras (in)conscientes de suas histórias e resgate de suas raízes.
Foi possível, com isso, dialogar sobre a compreensão e os sentidos
produzidos e ressignificados para elas e por elas como consequência do
uso dos turbantes, sendo esse processo importante para a construção e

396
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

reconstrução de suas singularidades a partir de uma nova perspectiva.


Enquanto estudantes, pudemos perceber, durante a oficina, a
importância dos cabelos na construção de uma imagem corporal. Desde
o início da atividade, o ambiente foi tomado por uma atmosfera
contagiante à medida que as usuárias interagiam entre si fazendo
turbantes umas nas outras, em nós, facilitadoras, e nas profissionais da
casa, estabelecendo e fortalecendo vínculos com base no cuidado
consigo e com o outro através do afeto do toque, do cuidado e
interações de forma horizontal e de troca de elogios, além de ter sido
um momento de dividir experiências pessoais entre todas presentes. A
oficina ocorreu de modo que o individual se multiplicava para o coletivo,
ganhando força à medida que os entrelaçados entre os panos coloridos,
os cabelos afro descendentes e o fio da subjetividade de cada uma
possibilitou um novo olhar para a simbologia da confecção de turbantes
para além daquele momento. O encontro inspirou a reflexão sobre o
quanto puderam sentir-se ainda mais vívidas, fortes e poderosas a partir
do enaltecimento de sua estética ancestral. Pudemos perceber,
também, o resgate da autonomia e da autoestima do ser humano, num
movimento de reconhecimento, apropriação e valorização de suas
próprias histórias. No contexto do cotidiano do serviço, o resultado foi
muito positivo e a repercussão foi percebida em encontros posteriores,
onde os comentários acerca da atividade ainda ecoavam pela casa com
a mesma carga afetiva.

397
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Construção coletiva de conhecimentos sobre as forças-valores que


operam no cotidiano das práticas em saúde na rede básica

Ana Alice de Queiroz Ribeiro Barbosa


Universidade Federal Rural de Pernambuco UFRPE

Nemório Rodrigues Alves


UNCISAL

Introdução: A escrita deste relato de experiência surgiu a partir das


afetações geradas após a realização de oficinas de discussões baseadas
em um artigo intitulado “Rede básica, campo de forças e micropolítica:
implicações para a gestão e cuidado em saúde”. Neste ensaio, Merhy
discute sobre as cinco forças-valores que estão sempre em tensão no dia
a dia das práticas de cuidado em saúde. Assim, a ideia foi repensar e
redesenhar o processo de trabalho baseado no aprimoramento da
tecnologia leve no cotidiano do fazer profissional, na equipe do
Consultório na Rua Recife. Descrição da Experiência: Foram realizados
quatro encontros no formato de oficina. Em cada uma delas foi pedido
aos participantes que sintetizassem a leitura através da criação coletiva
de cartazes, fanzines, desenhos e pinturas, seguido de apresentação da
produção e debate relacionando teoria e prática. Na oficina 1
introduzimos a temática e construímos coletivamente como seriam os
próximos encontros; nas demais oficinas trabalhamos as forças-valores
“trabalho”, “território”, “governo de si e do outro”, “clínica-cuidado” e
“trabalho em equipe”. Repercussões: Numa construção coletiva,
apreendeu-se sobre cuidar de todos por igual, baseado no princípio de
equidade do SUS. Cada caso depende de articulação da rede, construção
do projeto terapêutico, das demandas apresentadas e os
desdobramentos que são realizados, acompanhamento, na perspectiva
de integralidade do cuidado. O trabalho que é desenvolvido junto com a
equipe, em articulação na rede, que afeta o outro a partir do
acolhimento, da construção de vínculo, da empatia de se colocar no

398
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

lugar do outro, entender e compreender toda complexidade das


vivências num todo. Aproximar da realidade do outro, compartilhando
do caminhar neste processo do cuidado em saúde e como o trabalho
desenvolvido de corresponsabilização que protagoniza e autonomiza o
sujeito no território. Um olhar mais específico para determinada
situação que esteja vivendo naquele momento, assim afetação sobre o
outro a partir do momento em que se constrói junto as possibilidades de
decisões e mudanças, que a própria pessoa vislumbra como uma saída
e/ou alternativa no seu projeto de vida. Alinhar o olhar e realizando
ajustes a partir do favorecimento da escuta com rodas de diálogos nos
momentos de encontro da equipe como forma de investimento na
gestão do cuidado e mudanças significativas no processo de trabalho,
em que há afeto mútuo, onde trabalhadores afetam e são afetado no
cotidiano do fazer profissional do trabalho no âmbito da equipe.
Considerações finais: O aprendizado coletivo gerou bons frutos sobre o
entendimento de correlações de forças existentes no âmbito do
trabalho, em que não precisam ser anuladas e sim compreendidas e
dialogadas de forma aberta, com compartilhamento e
corresponsabilidade do cuidado, valorização da escuta também entre
pares, a importância do encontro. Que neste haja, respeito e troca de
saberes, sem sobreposições profissional e decisões mais coletivizadas,
em que sejam levadas em consideração as forças-valores que permeiam
a relação.

399
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Construindo estratégias de cuidado em saúde mental na creche: Relato


de experiência de ação extensionista

Lívia Botelho Félix


Jeane Trindade de Brito
Mayra Ribeiro
Universidade Federal da Bahia

Este relato apresenta experiências associadas a um projeto de extensão


que objetiva desenvolver estratégias de cuidado em saúde mental no
âmbito da educação infantil. Através de ações integradas diversas
propostas numa creche localizada no sudoeste baiano, busca-se
construir instrumentais teórico-técnicos que subsidiem intervenções
precoces orientadas por um olhar biopsicossocial sobre o processo
saúde-doença-cuidado, deslocando-se de perspectivas individualizantes
e medicalizantes, ainda predominantes no contexto educacional. Nos
últimos dois anos têm sido propostas intervenções individuais e grupais
dirigidas aos distintos atores-chave que compõem a instituição
(crianças, professores e funcionários e familiares) a exemplo de:
acolhimentos, acompanhamentos, encaminhamentos e articulações em
rede, encontros formativos e oficinas de promoção de saúde mental.
Considerando o impacto significativo da pandemia de COVID-19 sobre as
condições sanitárias, relações socioeconômicas e as dinâmicas
familiares, sobretudo daquelas compostas por crianças pequenas, criou-
se uma modalidade interventiva no intuito de ofertar rede de suporte,
manter e fortalecer os vínculos construídos até então entre a
universidade e a creche. Assim, desenvolveu-se um programa virtual de
acolhimento e partilha de material socioeducativo, por intermédio do
aplicativo WhatsApp, a fim de favorecer o processo de conscientização
dos cuidadores das crianças acerca de temas pertinentes ao período de
pandemia. O conteúdo, veiculado semanalmente em formato
audiovisual, foi produzido com base na literatura científica e fontes
sanitárias oficiais, caracterizando-se pelo compromisso com uma

400
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

postura ética, dialógica e adequada linguisticamente no sentido


sociocultural. Após dois meses, realizou-se uma avaliação parcial junto
aos pais/responsáveis e funcionários da creche, visando à reflexão sobre
os impactos da ação. De modo geral, os participantes a avaliaram
positivamente, indicando anseio por sua continuidade, e se
posicionaram quanto à relevância dos conteúdos abordados e
metodologia proposta. Ainda que de forma modesta, experienciamos a
potência das redes sociais no período da pandemia na oferta de suporte
psicossocial. Assim, este relato visa fornecer evidências que permitem
reconhecer a importância da universidade atravessar seus muros físicos
e simbólicos e se colocar à serviço da sociedade, assim como da
Psicologia, em seus princípios ético-políticos, mediar esse acesso
alicerçada no tripé ensino-pesquisa-extensão. Finalmente, considera-se
que a creche, enquanto contexto de desenvolvimento, pode ocupar um
lócus privilegiado no bojo da atenção psicossocial, haja vista seu
potencial em oportunizar o encontro com a alteridade e produzir saúde
mental, no âmbito da prevenção, promoção e reabilitação, desde a
primeira infância.

401
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Contribuições da Psicologia: A compreensão dos Direitos Humanos no


âmbito do acolhimento institucional

Sarah Stéfani Santos Souza


Luanna Mayara dos Santos Ferreira
Centro Universitário Una

O Estágio Básico de Psicologia e Direitos Humanos teve como o


propósito identificar e reconhecer os diversos campos de atuação da
Psicologia como ciência e profissão nas múltiplas ações de Direitos
Humanos, assim como também um trabalho multi e interdisciplinar de
conhecimentos e intervenção. Evidencia que a atuação do (a)
profissional de psicologia em acolhimentos institucionais de crianças e
adolescentes que se encontra em situação de vulnerabilidade social, e
em situação de risco pessoal e/ou social é de extrema significância, em
conjunto com as equipes multidisciplinares para promover acolhimento
saudável, emancipação de indivíduos frente à violação de direitos e
desenvolvimento sócio afetivo. As atividades analisadas no Estágio de
Psicologia e Direitos Humanos englobaram as áreas de atuação em
Acolhimentos Institucionais, Semiliberdade e Direitos Humanos. Dessa
forma, o objetivo desta pesquisa é a) identificar as possibilidades de
atuação da Psicologia no campo dos Direitos Humanos; b) planejar e
realizar entrevistas com profissionais atuantes em diferentes instituições
promotoras dos Direitos Humanos e c) compreender as relações da
Psicologia com outras áreas de conhecimento. Portanto, o trabalho foi
desenvolvido a partir da realização de visitas técnicas a Instituição Casa
Esperança na cidade de Belo Horizonte com entrevistas
semiestruturadas realizadas com a assistente social, assim como
observação das condições estruturais e realização de intervenções por
meio da metodologia de rodas de conversa, com o intuito identificar
possíveis demandas em relação aos direitos humanos, e identificar as
limitações e potencialidades da instituição. A partir das atividades
desenvolvidas, em ênfase a roda de conversa, foi possível perceber a

402
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

necessidade de trabalhar com as crianças institucionalizadas a temática


de inclusão social por meio de representações lúdicas, exibição de
vídeos e discussões sobre o tema como forma de intervenção com o
intuito de sensibilização, conscientização, diminuição das desigualdades,
exclusões sociais e à violação de direitos básicos previsto na
Constituição Federal Brasileira de 1988. Dessa forma é importante
mencionar a relevância dos Direitos Humanos nessa temática como
fundamentos de proteção de vida e como um elemento essencial para
manter existência de princípios primordiais à dignidade humana, um
caminho da integralidade do cuidado, promoção da cidadania e da
liberdade. Além disso, a necessidade da construção de políticas públicas
que garantam o direito à convivência familiar e comunitária.
Palavras-chave: Direitos Humanos; Inclusão Social; Psicologia.

403
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Corpo e Afeto: um relato de experiência no trabalho em oficinas de


sensibilização corporal com crianças e adolescentes no espectro autista

Letícia Gois Beghini


Ana Claudia Lima Monteiro
Luana Rodrigues Valente
Ágata Zimbrão de Freitas
Gabriely Kruger Dutra
Mariana Bandeira Goulart
Aline Queiroz Rondon
Universidade Federal Fluminense

O presente trabalho visa relatar as primeiras experiências de alunas de


graduação em Psicologia, orientadas pela professora Ana Claudia
Monteiro, no projeto de extensão "Autismos e Autonomia", realizado
em parceria com o Serviço de Psicologia Aplicada na Universidade
Federal Fluminense. O projeto busca construir um campo sensível e
afetivo para grupos de crianças e adolescentes autistas, focando nas
trocas produzidas, entre os jovens neuroatípicos e as alunas envolvidas,
através de oficinas de sensibilização corporal. Desta forma, criamos um
corpo acessível à interação com estas crianças e adolescentes de
maneira a produzir vínculos afetivos que não passem somente pela
linguagem falada ou códigos predeterminados, mas também pelas
relações produzidas entre os atores presentes. Tendo como ponto de
apoio a ideia da diversidade neuronal, levamos em consideração as
diferenças, as potências e as especificidades dos sujeitos envolvidos em
nosso trabalho. Compreendemos a palavra “interesse” por sua origem
etimológica: inter-esse (entre os seres), ou seja, apostamos na criação
desse espaço de relação com as crianças e adolescentes autistas. Esse
espaço leva em conta a produção de um vínculo afetivo no qual
construímos um mundo comum, em que é possível a inserção destes
corpos diversos. Buscamos ainda fazer com que os jovens sintam- se
num espaço de cuidado em que as diferentes formas de estar no mundo

404
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

possam ser acolhidas e respeitadas coletivamente. Durante as oficinas,


as alunas se relacionam com as crianças e adolescentes em uma
perspectiva de interdependência e autonomia, fazendo com que haja a
potencialização de seus afetos para que uma intimidade acessibilizadora
possa ser criada. O encontro com esses sujeitos possibilita também que
haja uma quebra de estereótipos quanto ao autismo, pois o que foi
experienciado entre as alunas e os jovens vão, muitas vezes, no sentido
inverso do que é dito socialmente sobre esta condição neuroatípica.
Concomitante ao trabalho com as crianças e adolescentes, temos
também uma proposta de acolhimento àquelas que as levam para as
oficinas. Em nossa experiência, percebemos que quem se
responsabilizava por esses jovens neuroatípicos eram as mulheres,
sendo as mães ou as avós. Entendemos que isso se deve ao fato de que
o cuidado não é socialmente compartilhado, ou seja, as mulheres são,
em sua maioria, colocadas neste lugar de cuidadoras, quase que
exclusivamente responsáveis por suprir as dificuldades relacionadas ao
cotidiano em uma sociedade estruturalmente capacitista e machista.
Neste espaço também é possível a construção de trocas de experiências,
partilha de angústias, além de ser também um lugar que nos ajuda a
compreender a dinâmica de vida daquelas e daqueles que participam
das oficinas. Além disso, durante os encontros, ao conversar com as
cuidadoras, fica perceptível como cada uma tem os seus limites pessoais
e estruturais. É evidente como as questões de raça, classe e gênero
atravessam essas vivências, interseccionando-se. Dessa forma, com a
prática dos encontros, foi possível criar um corpo sensível em relação à
construção de um espaço de interdependência a partir das trocas com
quem vivencia esse lugar.

405
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Corpos em Movimento: O que meu corpo me diz

Lílian Queiroz Cunha


Marilyn Dione Sena Leal
Universidade de Pernambuco

Aline Neiva Ribeiro Instituto


Aggeu Magalhães - FIOCRUZ

Victor Nazareno Bezerra Fonte


Anis de Souza Morais
Rayssa Aguiar Silvestre França
Faculdade Frassinetti do Recife - FAFIRE

Este trabalho consiste no relato da oficina intitulada “Corpos em


Movimento: O que meu corpo me diz?” realizado no Programa ATITUDE
- Programa de Atenção Integral aos Usuários de Drogas e seus
Familiares, em novembro de 2019. Tem como fonte de informação os
Diários de campo dos estudantes, vinculados à Faculdade Frassinetti do
Recife (FAFIRE) e à Universidade de Pernambuco (UPE), envolvidos no
“Projeto de Reintegração Social para Usuárias de Drogas do Programa
ATITUDE” aprovado pelo edital Programa de Fortalecimento Acadêmico
(PFA) Extensão - 01/2019 da UPE. O ATITUDE revela sua importância ao
passo que potencializa a qualidade de vida de usuários de crack e outras
drogas, proporcionando garantia de seus direitos e proteção social aos
seus familiares, em diversas instâncias. Ao pensar, então, na
problemática relacionada ao corpo da pessoa usuária de drogas ser
sexualmente usado enquanto moeda de troca para o crack, foi
construída uma oficina com a temática corpo-casa, em que um
mergulho neste corpo que é moradia de si seria gradativamente
estimulado, dentro da perspectiva do cuidado. Nesse sentido,
fundamentada em jogos de improvisação em dança-teatro e dança
autêntica, visou-se estimular a percepção corporal dos participantes, de

406
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

modo individual e coletivo, como uma forma de emergir emoções e


sentimentos referentes às suas experiências de vida. Diante da
resistência à adesão ao que fora proposto, desenvolveu-se um momento
de relaxamento, com foco na respiração e no estímulo musical,
pensando na dança, no movimento e na elaboração de possíveis
questões pela via da voz. Nessa linha, músicas de variados universos
selecionadas pelos participantes tomaram conta dos corpos, das vozes e
das narrativas, o que proporcionou um compartilhamento de
experiências e identificações mútuas entre as pessoas presentes.
Sentimentos de traição, recordações de amizades, assim como de
lembranças diversos momentos felizes emergiram naquele momento,
fenômeno que retratou-se não só a partir do relato de suas vivências,
mas também pela melodia e pela letra das músicas. Em entreolhares,
cantorias coletivas cada vez mais altas e engajadas moveram o que
naquele dia era para surgir. Esta oficina, então, foi de grande
importância para nós estudantes, uma vez que, ao aceitar o que, de
fato, foi possível no momento, de acordo com as vontades e
disponibilidades das pessoas usuárias da rede, colocando-as enquanto
autônomas inclusive em relação às atividades da instituição, foi possível
perceber abrirem-se outros tantos caminhos terapêuticos, não
previamente pensados. Como marco, ficou o sorriso e brincadeira como
um caminho de resistência em si desviante dos tão esmiuçados pela
clínica tradicional de psicologia para adultos. Nesse sentido, destacou-se
a importância do uso da música como elemento, além de vinculador
entre estudantes e pessoas usuárias da rede, um meio potente pelo qual
pessoas falam, o tempo inteiro, sobre suas personalidades, seus
pertencimentos e reconhecimentos, suas lembranças e seus anseios. Por
fim, chamou atenção, ainda, o fato de tamanha resistência ao dançar
livre, nos fazendo refletir sobre o reconhecimento ou não de liberdade
dos próprios corpos, tendo em vista os tantos marcadores sociais que
incidem sobre estas subjetividades.

407
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

COVID-19: breve reflexão acerca da experiência na saúde mental em


Guarujá

Fellipe Miranda Leal


Luciana Gonzaga
Prefeitura Municipal de Guarujá

INTRODUÇÃO: Em 2020, em decorrência da pandemia protagonizada


pelo novo coronavírus, os diversos setores de assistência à saúde
necessitaram propor ajustes em como oferecer atendimento em todos
os diferentes níveis. Em Guarujá (SP), a rede de saúde mental possui
quatro Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e, como consequência
das recomendações estaduais, em março de 2020, houve a proposta de
centralizar a assistência em apenas um CAPS. De modo que, nesta
unidade, diferente de antes, haveria todos os dias (incluindo sábados,
domingos e feriados) a presença de médico e, além disso, o número de
leitos para acolhimento integral passaria de 5 para 10.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: Diante de tal proposta, durante um
período de quase 3 meses manteve-se essa configuração. Após esse
período, optou-se por cessar essa centralização, porém manteve-se o
número ampliado de leitos para acolhimento integral. Como forma de
ampliar as possibilidades de reflexão desta experiência, mesmo que se
trate de um curto período, foi realizado um levantamento de dados
gerais referentes ao acolhimento realizado neste contexto
extraordinário (março a junho de 2020) e, para algum efeito de
comparação, do mesmo período em 2019 (março a junho) e dos três
meses subsequentes em 2020 (julho a setembro), ou seja, ainda sob
efeito da pandemia e com mais leitos, porém não mais com a
centralização da assistência.
REPERCUSSÕES: Entre os dados colhidos destaca-se triplicar a média de
ocupação dos leitos do acolhimento integral em 2020 (março a junho)
comparando com os mesmos meses de 2019. Entretanto, nos meses
subsequentes (ainda no contexto da pandemia e com o dobro de leitos,

408
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

mas sem a presença integral dos médicos), a taxa de ocupação retomou


a média de 2019. Nos três momentos analisados não houve diferença
significativa na média da duração do acolhimento (entre 8 a 10 dias).
Outro dado significativo, quando comparado os dois períodos da
pandemia, foi o número extremamente maior de pacientes acolhidos
em mania psicótica (condição aguda de manejo extremamente difícil) no
período em que os médicos estavam mais próximos da supervisão do
acolhimento (sete acolhimentos com médicos presentes e nenhum na
ausência destes).
CONSIDERAÇÕES FINAIS: Nesta breve experiência, mesmo que a partir
de uma análise com muitas limitações, pode-se evidenciar alguns
aspectos provocativos para uma reflexão envolvendo acolhimento
integral. Ser observado mais que triplicar o volume de acolhimentos
neste período em que houve maior oferta de leitos e presença intensiva
de médicos revela uma possível relação entre esses fatores. Ou seja,
essa experiência indica que o papel da presença dos médicos é
propulsor no aumento dos acolhimentos, mais que o aumento da oferta
de leitos. Ainda considerando a presença dos médicos, o número maior
de casos de mania psicótica quando estes presentes revela uma
provável dificuldade no manejo destes casos na ausência do médico. Por
fim, cabe apontar que - diante do contexto de maior vulnerabilidade das
políticas públicas voltadas para sustentação do cuidado em liberdade - é
urgente ampliar reflexões e discussões acerca do formato do
acolhimento integral nos CAPS.

409
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

CUIDA! Práticas de cuidado em saúde com trabalhadoras sexuais

Carolina Pedroza Barros da Silva


Ana Beatriz Bezerra Figueiredo Lima
Dejany Natália Sousa Barros
Inez Kaula Machado Santos
Tárcila Silva de Lima
Ricardo Pimentel Méllo
Universidade Federal do Ceará)

O projeto Cuida! é uma iniciativa de extensão universitária promovida


pelo Núcleo de Estudos sobre Drogas (NUCED) da Universidade Federal
do Ceará (UFC) em parceria com o Centro Urbano de Cultura e Arte
(CUCA) e o Posto de Saúde Lineu Jucá. Tem como objetivo principal
promover cuidado em saúde e acesso a direitos básicos a prostitutas da
Barra do Ceará, bairro periférico de Fortaleza. A fim de concretizar as
políticas públicas que não chegam a essas mulheres, procuramos
articulação com os dispositivos de cultura, arte, assistência e saúde
situados no território. As ações são realizadas semanalmente ao longo
da Avenida José Lima Verde, território movimentado, porém carente de
políticas públicas efetivas e marcado por conflitos territoriais. Durante
as ações, são utilizados alguns instrumentos lúdicos: por meio da
brincadeira “Mete a colher” e do origami “Abre e Fecha”, criados pelos
membros do núcleo, é possível discutir, em aliança com a Redução de
Danos, questões relacionadas à violência, sexualidade, prazer,
dispositivos no território (serviços ofertados e formas de acesso), uso de
drogas, dentre outras temáticas delicadas de serem abordadas
diretamente sem qualquer recurso que facilite a mediação. “Mete a
colher” é uma brincadeira realizada com uma colher de pau e uma
panela dentro da qual são colocados pequenos papéis com situações
relativas aos temas abordados. O participante que quer brincar retira
um dos papéis, lê a situação e nos diz se ele mete ou não mete a colher.
Já o “Abre e Fecha” é um origami que contém, na parte de fora, quatro

410
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

imagens e, na parte de dentro, números relativos a perguntas. O


participante escolhe uma das figuras e um número de 1 a 8, que
representa quantas vezes o mediador vai abrir e fechar o origami.
Verificamos em que posição o origami para e qual o número que está na
posição da imagem escolhida previamente, número esse que define qual
pergunta a ser feita. Sempre é enfatizado que não há resposta certa ou
errada e, a partir da resposta do participante, é possível discutir sobre o
tema da pergunta com ele. Tais ferramentas auxiliam no
estabelecimento de vínculo com os indivíduos do território,
possibilitando a criação e o fortalecimento de uma rede de apoio, além
de permitir a construção de um espaço onde os sujeitos possam ser
escutados e construam juntos alternativas de enfrentamento às
violências que estão submetidos. Dessa forma, o cuidado que buscamos
promover não pode anteceder a escuta das pessoas: estas que vão nos
orientar em direção a um cuidado que faça sentido para elas, garantindo
sempre a ampliação de possibilidades e nunca restringindo-as a um ideal
imposto. Tal prática gerou e continua gerando muitos impactos, os quais
nos atingem de forma difícil de quantificar, mas que se afirmam de
muitas maneiras. Cria-se um espaço potente de cuidado territorializado,
de diálogo, de existência, seja como ela for, em uma busca contínua de
conexão com as demandas e desejos das pessoas do território.

411
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Cuidado a usuários de um Centro de Atenção Psicossocial/álcool e


outras drogas e seus familiares no cenário da pandemia da COVID-19

Larissa De Oliveira Vieira


CAPSAD

Thainan Alves Silva


Pamella Bispo Botelho
Geisa Araújo Galvão
Larissa Campos Meira
UESB

Introdução: O cenário mundial e brasileiro atual reflete o enfrentamento


a uma pandemia, causada pela propagação do vírus SARS-CoV-2,
também chamado de novo coronavírus ou COVID-19. A disseminação da
COVID-19 provocou milhares de mortes no Brasil e no mundo, além de
centenas de milhares de pessoas adoecidas pelo vírus. De acordo este
cenário, foi necessário que as autoridades sanitárias, municipais,
estaduais, federais tomassem medidas a fim de controlar a propagação
do vírus, além de estabelecer ações para o cuidado, prevenção dos
agravos e recuperação da saúde das pessoas adoecidas. Neste sentido,
os serviços da Rede de Atenção Psicossocial, incluindo os Centro de
Atenção Psicossocial/álcool e outras drogas, para atender às demandas
sanitárias necessitaram adequar as ações de cuidado ofertado aos
usuários e seus familiares. Descrição da experiência: A experiência teve
como objetivo relatar a vivência de 1 psicóloga do CAPSad e de 4
enfermeiras, pesquisadoras, da Universidade Estadual do Sudoeste da
Bahia no período de março a outubro a 2020 em um CAPSad em um
município da Bahia. Destaca-se que houve uma readequação das ações
ofertadas pelos profissionais da unidade aos usuários a fim de promover
maior segurança e proteção aos trabalhadores e aos usuários e suas
famílias. Houve a paralisação das atividades em grupos e oficinas
terapêuticas presenciais (mas foram realizados alguns grupos com os

412
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

usuários por meio de chamada de vídeo através do WhatsApp),


necessidade de maior cuidado dos profissionais ao realizarem as visitas
domiciliares, uso de equipamento de proteção individual pelos
profissionais da unidade além da utilização de meios tecnológicos e de
telefonia para intensificar o acompanhamento/assistência aos usuários
e suas famílias. Repercussões: Destaca-se que a pandemia do COVID-19
transformou o cenário socioeconômico do Brasil e do mundo, com
repercussões intensas nos aspectos biopsicossociais das pessoas. Tais
repercussões foram percebidas nos usuários do Centro de Atenção
Psicossocial/álcool e outras drogas, uma vez que muitos se encontravam
em situação de vulnerabilidade, pela condição de hipossuficiência, ou
pelas relações fragilizadas com os familiares, ainda pelo consumo
abusivo da substância psicoativa, ou por estarem no grupo de risco para
o COVID-19, destacando-se também a dificuldade para a manutenção do
autocuidado. Desta maneira, os profissionais intensificaram as ações de
cuidado, por meio de visitas domiciliares, realização de atendimento por
meio telefônico e presencial, além da oferta de grupos online, ainda por
encaminhamentos para os serviços da Rede de Atenção Psicossocial e
Rede Inter setorial, a fim de garantir que o usuário recebesse atenção de
acordo a integralidade em saúde. Considerações finais: Afirma-se que a
intensificação do acompanhamento/assistência aos usuários do CAPSad
e seus familiares no período relatado acima proporcionou a diminuição
dos riscos/agravos, a promoção da saúde e a capacidades deles
estabelecerem práticas de autocuidado e de maior responsabilidade
sobre as suas condições biopsicossociais.

413
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Cuidado de saúde mental a estudantes universitários durante a


pandemia por COVID-19

Anna Luiza Castro Gomes


Érika Simone Guedes de Andrade
Andréa Castro Gomes (UFPB), Sandra Aparecida de Almeida
Jaime Franklin Ribeiro Soares
Universidade Federal da Paraíba - UFPB

Ana Carolina Amorim da Paz


Universidade Federal da Bahia - UFBA

Trata-se de um relato de experiência sobre as atividades


realizadas pelo projeto de extensão intitulado "Atenção
multiprofissional à saúde mental de estudantes universitários" até
setembro de 2020. O projeto está vinculado ao Núcleo Universitário de
Bem estar do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da
Paraíba e sofreu adequações para manter suas atividades durante a
pandemia por COVID-19. Também estabeleceu parcerias com outros
projetos de extensão e protagonizou iniciativas online a exemplo do
teleatendimento individual multiprofissional; realização de plantões de
acolhimento aos ingressantes do período suplementar 2019.4 dos
cursos de Enfermagem e de Biomedicina; Rodas de conversa em
parceria com o projeto "Terapia Comunitária na Universidade: Tecendo
Espaços de Cuidado" da UFPB; realização de encontros terapêuticos
semanais online; criação do blog do projeto; produção de vídeo
animado e entrevistas e meditações curtas no formato podcasts;
elaboração e divulgação de conteúdos sobre saúde mental e indicações
semanais de filmes e livros através das redes sociais do projeto;
realização de lives sobre a temática do projeto. Resultados e discussão:
Foram atendidos individualmente 20 estudantes com sessões semanais;
verificou-se o aumento do sofrimento psíquico decorrente do risco de
morte, infecção, isolamento social e perdas econômicas. As atividades

414
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

desenvolvidas possibilitaram identificar fatores predisponentes para o


adoecimento mental entre os estudantes; acolher demandas de
sofrimento mental; promover bem-estar e prevenir problemas mentais
e também articular o cuidado com a rede extra institucional. Além disso,
propiciou o início de um levantamento diagnóstico sobre a condição de
saúde mental dessa população e o planejamento e articulação de
estratégias para diminuir altos níveis de estresse, ansiedade, crises de
pânico e ideação suicida, situações que impactam o bem-estar e o
desempenho acadêmico dos estudantes. Conclusão: A pandemia do
COVID-19 afetou significativamente a saúde mental de estudantes
universitários. As atividades remotas e o teleatendimento individual são
fundamentais para acolher o sofrimento dessa população e para
articular o cuidado na rede atenção à saúde durante a pandemia.
Sugere-se que a saúde mental dos universitários seja monitorada pela
instituição com o intuito de desenvolver estratégias para enfrentamento
da problemática.

415
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Cuidado em Meio a Pandemia: o projeto "Conte Conosco"

Janete Valois Ferreira Serra


Departamento de Atenção à Saúde Mental

Francisca Maria Vilar dos Reis


EAP IMPERATRIZ - MA

INTRODUÇÃO: Experiências de cuidado ao louco infrator como o PAI PJ e


PAILI representaram as primeiras iniciativas de que é possível cuidar de
pessoas. Seguindo essa trilha existe no Maranhão o Programa de
Atenção Integral as Pessoas com Transtornos Mentais em conflito com a
Lei no Maranhão (PAIMA), fruto do trabalho articulado que se deu a
partir da implantação das 03 Equipes EAP que testemunham várias
experiências que comprovam a possibilidade de cuidado no território
através de uma rede articulada. EXPERIÊNCIA: Processo de
Desinstitucionalização de Sr. José (nome fictício), 57 anos, sem
profissão, analfabeto, recebe auxílio financeiro, casa própria. Pais
falecidos, apoio familiar da irmã. José teve crises convulsivas durante a
infância até os 12 anos. Sempre demonstrou comportamento inquieto,
dificuldade de concentração. Sempre trabalhou com os pais na
agricultura. Vivia em união estável com Joana, com quem teve 01 filha.
José não acessava dispositivos da saúde. Aos 20 anos apresentou
comportamentos estranhos e começou a desconfiar da companheira,
mesmo sem razões. Em decorrência disso assassinou enquanto
amamentava a filha do casal. Foi preso em flagrante, com discurso
desconexo. Foi na unidade prisional que percebeu- se sua
desorganização mental. Na UPR não manifestou ato de
heteroagressividade; ingeria sabão, fezes e água do vaso sanitário;
mastigava as sandálias dos companheiros de cela. Recebeu o primeiro
olhar dos agentes penitenciários, iniciando o processo para receber
Medida de Segurança (MS). A EAP elaborou o Plano Terapêutico para
cumprimento da MS em meio comunitário. Plano foi acatado pelo

416
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

sistema de justiça. Foi acolhido por sua irmã em novo endereço, onde
ninguém conhecia sua história criminal. Recebia visitas regulares da
agente de saúde, somente fez os vínculos necessários para seu
tratamento. Vive em uma casa simples, sozinho, dedicando-se a cuidar
da sua horta, cultivar alimentos para o seu consumo e passeia de
bicicleta pelo bairro. O NASF foi o seu vínculo principal no
fortalecimento de laços na comunidade e entre os outros dispositivos do
território. Ele manifesta uma atenção calorosa por eles durante suas
visitas e orientações. O CRAS se empenhou em construir uma nova casa
para ele, através de um mutirão. Hoje vive confortável em sua casa
construída de tijolos e telhas. Foi acompanhado CAPS III, durante 01
ano. Continua recebendo as visitas periódicas da ESF (médico,
enfermeiro e ACS) o que potencializa o cuidado. O CAPS é acionado
como suporte em caso de crise. Nesses 06 anos no território apresentou
um episódio de surto psicótico e ficou acolhido por 03 dias.
REPERCUSSOES: Um homem que após anos de sofrimento mental e
invisibilidade para a sua comunidade, recuperou sua dignidade e
autonomia, sendo visto e cuidado. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A
importância da EAP é justamente em seu papel articulador e
sensibilizador da rede de saúde e de assistência social para o
acolhimento da pessoa em seu território para viver com dignidade. Além
de conseguir junto ao sistema de justiça a cessação da ideia de
periculosidade e a necessidade de garantir-se o cuidado efetivo para não
haver o conflito com a lei.

417
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Cuidado em saúde mental de mulheres na atenção básica: Leituras


clínicas e institucionais

Cláudia Regina Campos Rodrigues


Rosana Teresa Onocko Campos
Bruno Ferrari Emerich
Giovana Pellatti D´Lopes
Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

A atuação de profissionais da psicologia na atenção básica, seguindo o


modelo de apoio matricial, abrange as dimensões de suporte
assistencial e técnico-pedagógico às equipes de saúde da família. Nesse
ponto da Rede de Atenção Psicossocial, o cuidado oferecido a mulheres
se destaca pela maior presença feminina nos serviços e maior taxa de
transtornos mentais comuns nessa população. O tema da saúde mental
de mulheres é abordado por diversas perspectivas na literatura,
incluindo o impacto da violência e da opressão de gênero na saúde e
subjetividade, críticas à medicalização desse sofrimento e outros
recursos terapêuticos possíveis. Entretanto, ainda parece incipiente a
discussão de como a dinâmica institucional dos serviços de saúde
podem (ou não) contribuir para uma atenção psicossocial que acolha as
diferentes formas de ser mulher. Diante desse cenário, o presente
trabalho objetiva analisar o cuidado em saúde mental a mulheres na
atenção básica, por meio do referencial teórico da psicanálise e
psicologia institucional. Nesse sentido, a questão central se traduz em:
de que modo a forma em que se dá tal cuidado reflete a visão sobre as
mulheres em nossa sociedade? Toma-se como material de análise as
ações realizadas enquanto residente psicóloga em um Centro de Saúde/
Unidade Básica de Saúde, incluindo o contato com usuárias e o trabalho
em equipe na unidade. Com base em cenas do cotidiano do serviço, são
discutidos os seguintes pontos: 1) o encaminhamento de casos opressão
ou violência de gênero para atendimento individual com psicóloga, sem
discussão na reunião equipe ou proposta de Projeto Terapêutico

418
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Singular compartilhado; 2) nas discussões de caso, a alta frequência da


menção a mães e cuidadoras como aquelas que buscam cuidado de
saúde para outros, sendo enfatizado pelas profissionais o sofrimento
gerado pela função materna ou as falhas no cuidado; e 3) possibilidades
de apoio e parceria com as profissionais da equipe. É levantada como
hipótese uma identificação das profissionais com o sofrimento das
mulheres atendidas, bem como com o papel de cuidadora, levando a
uma sobrevalorização de tal papel social feminino. Tomando as ações de
cuidado enquanto um posicionamento paradoxal entre "presença
implicada-reserva" (perspectiva de L. C. Figueiredo), tal identificação
poderia gerar maior tendência a uma sobreimplicação ou, pelo
contrário, ao afastamento dos casos, condicionada a uma maior ou
menor adaptação das usuárias a este papel. Decorrente disso, seriam os
frequentes encaminhamentos para atendimentos individuais com
profissionais da psicologia, em lógica ambulatorial. É proposta como
forma de apoio técnico-pedagógico à equipe a construção de um
"espaço de reserva pessoal", no sentido da ampliação do leque de
ferramentas teórico-práticas, aliada a um "fazer junto" que inclui uma
escuta atenta às profissionais. Almeja-se, assim, contribuir para
ultrapassar uma simples identificação ao papel social atribuído às
mulheres e trabalhadoras de saúde, de modo a qualificar o acolhimento
às usuárias e o trabalho em equipe. Conclui-se que a aposta na escuta e
no vínculo, tanto às usuárias, quanto no apoio às profissionais, favorece
a oferta de cuidado integral e mais abrangente à saúde mental dessa
população.

419
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Cuidado em Saúde Mental e Espiritual: Fomentando Estratégia de


Combate ao Sofrimento Psíquico na Pandemia provocada pelo novo
Coronavírus SARS-CoV-2

Willamis Tenório Ramos


Rafael Aquino dos Santos
Universidade Federal de Sergipe - UFS

Genivan Fonseca Gois Junior


Colégio Estadual Professor Antônio Fontes Freitas

Evellyn Heloá Moraes Oliveira


Colégio Edial

Letícia Reis Vasconcelos


Colégio de Aplicação da UFS

Marilya de Moura Bomfim


Escola Professora Neuzice Barreto De Lima

Gabrielly Gonçalves
Colégio Didático

Maria Aparecida Guilherme Reis


Tony Santos da Silva
Universidade Tiradentes

Introdução: A pandemia provocada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2)


é uma problemática de saúde pública nacional e internacional. Sabe-se
que este período de quarentena e recomendações de vigilância em
saúde promove medos, anseios e novas adaptações na rotina diária das
pessoas, favorecendo a perda da sensação de controle subjetiva de vida,
podendo interferir na saúde mental e espiritual dos sujeitos. Neste

420
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

sentido, fomentar estratégias que estejam voltadas para manutenção da


saúde mental e espiritual das pessoas é uma importante estratégia e
deve ser promovida com diferentes grupos e contextos. Descrição da
experiência: Trata-se de um relato de experiência de membros de um
grupo de Coroinhas, Senhoritinhas e Cerimoniários de uma Paróquia,
localizada no município de Nossa Senhora do Socorro em Sergipe que
desenvolveram uma ação de extensão com o objetivo de promoção de
saúde mental e espiritual com o público de crianças, adolescentes,
adultos e idosos. Foram realizados 10 encontros semanais, em um
período de 01 mês, com duração de no máximo 60 min, por uma
plataforma digital na modalidade online, ao qual eram promovidas
discussões sobre autoconhecimento, busca de si, prevenção à ideação
suicida, comunicação não violenta, bem-estar espiritual, organização da
rotina ocupacional, autocuidado, como dar suporte ao meu filho(a) e
sobre a (falta) de produtividade. Os responsáveis por promover a
discussão eram: 01 estagiário do curso de Fisioterapia, 01 discente do
curso de Terapia Ocupacional, 01 discente do curso de psicologia, 01
padre e 01 psicóloga. Além de uma equipe de apoio composta por 06
membros do grupo de coroinhas, senhoritinhas e cerimoniários da
paróquia que auxiliavam no apoio técnico e suporte. Como resultados
parciais, participaram destes encontros cerca de 30 inscritos, divididos
em dois grupos: (1) crianças e adolescentes e (2) adultos e idosos. Ao
final da ação de extensão foi perguntando quem dos inscritos queria
receber atendimento psicológico de maneira remota e individual, destes
cerca de 14 inscritos solicitaram e foi marcado agendamento com uma
psicóloga. Repercussões e considerações finais: Após finalização desta
atividade de extensão está sendo elaborado um relatório para ser
entregue na Paróquia e Arquidiocese do estado como forma de
sensibilizar os superiores para que coloquem esta estratégia em prática
em outras localidades do município e estado. Por meio de
retroalimentação via mensagens de textos e áudios alguns dos inscritos
estão solicitando continuação dos encontros, isto mostra que de

421
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

maneira subjetiva a ação promoveu algum tipo de cuidado em saúde


mental e espiritual nestes participantes.

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Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Cuidado em Saúde Mental na Atenção Básica a partir da Residência


Multiprofissional em Saúde

Joao Agostinho Neto


Maria do Socorro Sousa
Universidade Federal do Ceará

INTRODUÇÃO - O presente relato tem como objetivo apresentar uma


intervenção de cuidado em saúde mental na atenção básica a partir da
Residência Multiprofissional em Saúde. Trata-se de um relato de
experiência que descreve uma intervenção em um caso de individuo
com transtorno mental que vive em semi-cárcere, a partir do percurso
formativo como residente da ênfase Saúde Mental na Escola de Saúde
Pública do Ceará turma 3, no território de saúde da 19ª Coordenadoria
Regional de Saúde de Brejo Santo no ano de 2017.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA - A experiência aconteceu a partir da
inserção da equipe da residência multiprofissional em Saúde Mental e
da apresentação do caso através do processo de territorialização com o
acompanhamento de uma Agente Comunitária de Saúde. Na experiência
foram observados os seguintes aspectos pela equipe de residentes:
Reconhecimento do caso; Aproximação com o caso durante o
matriciamento; Construção de um Projeto Terapêutico Singular;
Intervenção Multiprofissional. REPERCUSSÕES - Com base na percepção
da equipe multiprofissional, evidencia-se a presença de uma situação de
semi cárcere por parte do indivíduo, além de diagnósticos como baixo
peso, encurtamento das fibras musculares, dificuldades na fala, no
equilíbrio e na coordenação motora, dificuldades de relacionamento
com a família e com a comunidade, além de outros fatores. As principais
atividades intervenção foram a realização de sessões de exercício físico,
alongamentos, caminhadas terapêuticas, e outras atividades comuns a
equipe multiprofissional, como a articulação para encaminhamentos aos
serviços especializados, consultas e exames de rotina, rodas de conversa
e escuta qualificada com a família. CONSIDERAÇÕES FINAIS - Com isso,

423
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

percebe-se a necessidade e importância de equipes multiprofissionais


com olhar para o cuidado em saúde mental na atenção básica. A partir
das reuniões de equipe e dos relatórios, evidenciam-se que ocorreram
melhoras significativas, com relevante papel de intervenção e auxiliar
terapêutico no campo da saúde mental, contribuindo para a inclusão de
pessoas com transtorno mental, e melhoria de suas capacidades física,
psíquica e social. No aspecto social, estabeleceu-se novas interações
com a comunidade e com os profissionais da UBS, diminuindo os
estigmas da saúde mental e do indivíduo com transtorno mental.

424
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Cuidado em saúde mental na rua e em liberdade: um relato de


experiência do consultório na rua Recife

Gisléa Kândida Ferreira da Silva


Ana Alice de Queiroz Ribeiro Barbosa
Emerson Diniz
Ednalva Maria de Moura
Secretaria de Saúde do Recife

A existência de pessoas em situação de rua constitui fenômeno antigo,


complexo e com manifestação a nível mundial. O crescimento dessa
população está atrelado a contextos políticos, sociais e econômicos
situados no início da vida urbana, já nas sociedades pré-industriais. Os
dados oficiais sobre a população em situação de rua no Brasil são
esparsos e nem sempre abordam os aspectos psicossociais desta
população, mas sabe-se que transtornos mentais são relativamente
frequentes. O cuidado a pessoas em situação de rua com transtorno
mental impõe-se como desafio, dada a não busca por serviços de
assistência e saúde por essas pessoas.
Este relato de experiência visa compartilhar as múltiplas estratégias de
cuidado empreendidas a uma usuária em situação de rua, em
sofrimento psíquico, que aqui denominaremos de Barreiros, numa
referência à sua cidade de origem. Pretende-se refletir sobre a
importância da atuação do Consultório na Rua (CnaR) como mediador
de inscrições sociais e psíquicas no cuidado a essa população. Barreiros
tem aproximadamente 60 anos, sexo feminino, acompanhada pelo CnaR
há alguns anos, com histórico de aproximadamente 12 anos de vivência
na rua. Possui uma rede de suporte no território que possibilita acesso à
água, alimentação, roupas.
Barreiros é proveniente do interior, tendo migrado para Recife em busca
de melhores oportunidades de trabalho. Com pouca escolaridade, se
deslocou para Recife, onde relata que trabalhou durante muitos anos
em casas de família, de maneira informal, até parar nas ruas, em função

425
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

de desemprego. Quando perguntada sobre acesso a serviços de saúde,


relata as mediadas pela equipe do CnaR, o que corrobora a invisibilidade
dessa população no acesso ao SUS. A equipe realizou visita conjunta
com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) para aproximações com o
serviço e possível inserção.
O cuidado em saúde mental de pessoas em situação de rua exige aposta
no vínculo, investimento contínuo e consideração ao tempo dos
sujeitos. As sucessivas aproximações permitiram engendrar articulações
em torno da garantia da documentação, acesso a especialistas para
avaliação oftalmológica, além dos cuidados prestados no território. As
investidas permanecem no sentido de construir uma linha de cuidado
em saúde mental, com visitas sistemáticas em conjunto com equipe do
CAPS e outros serviços assistenciais.
A reconstrução da história desses sujeitos se faz essencial para a
compreensão de suas trajetórias e demarcação de desejos e
necessidades. A mediação de equipamentos como o Consultório na Rua
são fundamentais para a garantia do acesso à saúde para essa
população, historicamente invisibilizada pela dupla exclusão da vivência
na rua e do transtorno mental.
Torna-se importante o trabalho articulado com a rede para conseguir
atender à demanda tão complexa em que estes casos se apresentam.
Com base na longitudinalidade e integralidade do cuidado, o
acompanhamento acontece respeitando as singularidades, em liberdade
e compreendendo a importância que o território como referência de
vida representa para pessoa e que compõem elementos de extremo
valor para formação de sua subjetividade.

426
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Cuidado Foto-Afetivo: Tecnologia para inserção do acadêmico de


enfermagem no cenário da psiquiatria

Matheus Marques
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

Cláudia Mara de Melo Tavares


Thainá Oliveira Lima
Marcela Pimenta Guimarães Muniz
Universidade Federal Fluminense - UFF

Emoções são estados psíquicos transitórios que tem múltiplas facetas


(Morelato SG, et al, 2006), incluindo sentimentos, mudanças fisiológicas,
expressões corporais e tendências para agir de uma maneira específica,
positiva ou negativamente (Frijda NH, 2000). Nesse tocante, a inserção
do acadêmico no universo psiquiátrico propicia, por vezes,
atravessamentos emocionais negativos, potencializando crises, desafios
e medos socio estruturais (Damásio, 1995), que podem afetar a
adaptação dos estudantes a aprendizagem tornando o período mais
estressante e menos proveitoso academicamente. Ao percorrer os
ambientes psiquiátricos é observada a necessidade da apropriação, por
parte da equipe, de condutas menos duras no cuidado em saúde ao
paciente em sofrimento psíquico, uma vez que, através da observação
ativa, percebe-se que intervenções duras no cuidado acarretam
desestabilização psíquica do paciente, aumentando seu tempo de
internação. Como medida de cuidado em saúde com a utilização de
tecnologias leves, surge a oficina de foto-afetividade que se apropria da
possibilidade de tornar o que não é verbalizado dentro dos consultórios
em potências manifestas por meio de fotos, que alargam o campo de
percepção, causando mudanças na capacidade de conhecer o mundo
real e imaginário e que também tornam-se interessantes na medida em
que mostram algo concreto, material, dotado de consistência física real
e, ao mesmo tempo, assina a ausência do que um dia esteve presente e

427
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

desapareceu. Assim, a foto pode também ser percebida como


testemunha: a fotografia testemunha necessariamente. A foto certifica,
ratifica, autêntica e ainda, serve como prova de continuidade e, ao
mesmo tempo, como memória da própria identidade e subjetividade do
indivíduo. Objetivo: analisar a relevância da intervenção foto-afetiva no
processo de cuidar. Metodologia: relato de experiência com inspiração
sociopoética. Discussão e Resultados: O relato está baseado nas
experiências, encontros, inquietações e intervenção proposta através da
fotografia no manejo de crises, como também das emoções vivenciadas
ao longo do período de estágio frente a assistência ao paciente em
sofrimento psíquico como possibilidade de reflexões acerca da
assistência prestada nestes espaços de cuidado intensivo. Para isso, ao
longo do relato são tratados os seguintes temas: emoções negativas
experienciadas – principalmente o medo da imersão no universo
psiquiátrico; a construção do vínculo durante o cuidado, após a ruptura
com o medo inicial; tecnologias do cuidado assertivas que se distinguem
das tecnologias duras e engessadas, características da lógica
manicomial; e assistência criativa no cotidiano com foco nas fotografias
e expressões poéticas vivenciadas dentro do hospital psiquiátrico.
Conclusão: Foi demonstrado neste trabalho que a sensibilidade, o estar,
o ouvir e o permitir são válidos no tocante ao cuidado terapêutico de
pacientes psiquiátricos. Por meio da fotografia, foi possível uma
inversão de posições. Aqueles que sempre foram visto, observados e
ouviam opiniões sobre si, a partir da fotografia puderam ver, observar,
refletir, questionar e opinar sobre si, o que auxiliou no retorno da
estima, do autoconhecimento e, principalmente, da sua autonomia
enquanto ser, além de trazer a luz do conhecimento, peculiaridades
sobre seus históricos de vida que não apareciam nas entrevistas ou
reuniões intra-consultoriais.

428
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Cuidado, sociopolítica e COVID-19: a experiência em um serviço


substitutivo de saúde mental durante a pandemia de 2020

Giuliana Mazota
Universidade de São Paulo

Lucas Alan Aveiro


Universidade Estadual de Campinas

Diversos retrocessos vêm ocorrendo no cuidado com populações em


sofrimento psíquico no Brasil desde o golpe jurídico-político de 2016. O
Estado, através da ampliação no financiamento ao setor privado
(Comunidades Terapêuticas) e da promulgação de leis (Lei
13.8490/2019, altera a Política Nacional sobre Drogas), faz ressurgir
formas de institucionalização e segregação, operando uma verdadeira
contrarreforma psiquiátrica. Tais diretrizes esvaziam o poder de
entidades representativas da sociedade civil, propõem o fim de
estratégias cientificamente comprovadas (Redução de Danos) e
acrescentam dimensão religiosa e coercitiva no cuidado. A esse delicado
quadro sociopolítico soma-se a pandemia de COVID-19, evidenciando o
caráter necropolítico das ações de governo.
Nesse contexto, a experiência de cuidado a populações vulnerabilizadas
torna-se um desafio. O fechamento das "portas abertas" nos serviços
substitutivos (CAPS) e a interrupção de atividades criam barreiras de
acesso à saúde, aumentando o sofrimento em usuários e trabalhadores.
A falta de diretrizes, organização e diálogo, explicitam a forma de
exercício do poder, autoritário negligente e mortificador, do Estado
brasileiro.
Este trabalho apresenta a experiência de atuação em um CAPS AD III do
município de Campinas no ano de 2020. Neste contexto, o fechamento
dos Núcleos de Oficinas Terapêuticas (Serviço de Saúde Dr. Cândido
Ferreira) e a interrupção das atividades grupais (CAPS) modificou a
rotina dos usuários. Perdeu-se um espaço de convívio, socialização e

429
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

cuidado. Os atendimentos, somente na modalidade individual, ficam


restritos a usuários que apresentam quadros mais graves. A entrada no
serviço é feita após checagem de sintomas e aferição dos sinais vitais,
barrando a por livre demanda. Além disso, mostramos que, nesse
cenário difícil, os usuários e os profissionais passam a identificar a
internação como uma forma de cuidado. Com isso, retoma-se a antiga
direção ambulatorial e medicalocêntrica, pois os trabalhadores,
desamparados pela falta de planos de ação, tem dificuldade em
promover outras formas de atenção e acolhimento. Tais práticas
repercutem negativamente na saúde dos usuários, aumentando a
exclusão e prejudicando a cidadania. Além disso, afetam a saúde do
trabalhador que, em uma situação extrema, como é o caso da
pandemia, apresenta quadros de burnout, ansiedade, angústia, medo,
irritabilidade e frustração (FIOCRUZ, 2020). O afastamento e o
adoecimento dos profissionais é um problema para o sistema de saúde,
pois a formação leva tempo e os custos são elevados, e sua ausência
reduz a oferta e o acesso. Essa orientação prejudica o vínculo, afasta a
população da construção do SUS e produz mortes que são evitáveis. Por
isso, defendemos que os desafios da pandemia mostram ser preciso
fortalecer a democracia e o SUS. Para que isso aconteça é fundamental
retomar e ampliar o controle social e a cogestão do sistema, para criar
formas de facilitar o acesso e melhorar a oferta de saúde.

430
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Cuidando de quem cuida: o cuidado à saúde mental dos profissionais


de saúde diante da pandemia da Covid-19

Nathalia da Rosa Kauer


Bruna Maria Stoski
Ida Vaz Machado
Mylena Goelzer da Silva
Rodolfo Eggers Portella
Daniella Cristina Aguiar
Andréia Reich
ESPP/SESA-PR

A pandemia do Coronavírus provocou uma situação repentina para a


população, que teve a necessidade de se adaptar à uma nova realidade.
Além das consequências clínicas, a Covid-19 causa uma enorme pressão
psicológica na população. As medidas de prevenção da doença, como
isolamento social e o grande risco de contaminação podem agravar ou
gerar sofrimentos mentais, decorrente do estresse (OMS, 2020). Além
do medo da infecção, a pandemia tem provocado sensações de
insegurança, sob a perspectiva coletiva e individual, modificando as
relações interpessoais. Os profissionais da saúde estão entre os grupos
mais vulneráveis devido à maior exposição ao vírus e ao estresse de
trabalho e desgaste emocional.
Este projeto teve como objetivo oferecer apoio emocional aos
servidores municipais diante da situação da pandemia do novo
coronavírus. Foram realizados pequenos grupos que proporcionam
espaços de escuta qualificada e acolhimento, visando auxiliar os
profissionais a desenvolverem suas próprias estratégias de cuidado. A
intervenção foi realizada com 244 trabalhadores dos equipamentos de
saúde e da assistência social do município de Pinhais-PR. Os grupos
foram coordenados pela equipe multiprofissional de residentes em
saúde mental e sua realização cumpriu as recomendações sanitárias de
distanciamento e utilização de EPIs. A intervenção iniciava com uma

431
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

breve apresentação e descontração, em seguida era realizada a


atividade em que os participantes deveriam escrever em papéis o que
estavam sentindo naquele momento da pandemia, sem sua
identificação. Os papéis foram colocados em uma caixa e lidos para o
grupo para discussão sobre os sentimentos que estavam descritos,
buscando estratégias de enfrentamento.
As discussões foram proveitosas e as equipes de saúde em geral
relataram ansiedade e preocupação decorrente do medo constante de
contaminação e principalmente de contaminação dos familiares levando
a distanciamento familiar, estresse e cansaço pelo trabalho e a
reorganização da rotina familiar. Diversos trabalhadores relataram
hostilização da população em alguns momentos, apontando os
profissionais de saúde como agentes transmissores e a preocupação
com a população que não segue as recomendações sanitárias. Também
destacaram sentimentos positivos tais como aproximação da equipe,
mais tempo com a família e o apego à fé e espiritualidade, bem como a
percepção de solidariedade em grupos específicos da comunidade.
Na assistência social os trabalhadores relataram aumento da demanda
de trabalho devido o auxílio emergencial e da distribuição de cestas
básicas e auxílio funeral. Relataram ainda estar sobrecarregados
emocionalmente, e a distribuição de EPIs não é garantida como é para
os trabalhadores da saúde, sendo que esta categoria segue trabalhando
presencialmente e muitas vezes com os usuários e familiares
contaminados por coronavírus, o que gera um grande medo de
contaminação e angústia com relação às incertezas do fim da pandemia.
Destaca-se a adesão dos participantes, o fortalecimento das equipes e o
desenvolvimento da empatia entre os colegas. O sofrimento causado
pelo distanciamento dos familiares e pelo medo de contaminação foi
destacado por profissionais de ambos os serviços. O projeto alcançou o
objetivo esperado, pois proporcionou um espaço de escuta e
acolhimento aos trabalhadores.

432
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Cuidando de quem cuida: Uma experiência de matriciamento com


grupo terapêutico para familiares cuidadores/as da Saúde Mental na
Atenção Básica

Anna de Cássia Pessôa de Lima


Roberta Soares Nascimento
Carla Pinheiro Maciel
Prefeitura do Recife

INTRODUÇÃO: O cuidado domiciliar com pessoas acometidas por


transtornos mentais costuma ser laborioso e desafiador, muitas vezes
gerando sofrimento ou adoecimento à pessoa que cuida, e assim acaba
comprometendo o processo de cuidado. Dessa forma, se faz
imprescindível o cuidado à família na saúde mental, que costuma
acontecer dentro dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) com o
grupo família. Todavia, muitas famílias apresentam obstáculos na
adesão a esses grupos, seja pela distância ou dificuldade de conciliar
com seus afazeres diários. Buscando solucionar essa questão, dentro do
espaço de matriciamento foi construída a proposta de realização de um
grupo terapêutico para cuidadores que aconteceria numa Unidade de
Saúde da Família (USF) da cidade do Recife, com o objetivo de
potencializar o processo de cuidado em território e melhorar a
qualidade de vida das/os cuidadoras/es e também de usuários da Rede
de Atenção Psicossocial (RAPS). As intervenções do grupo foram guiadas
pelo Manual de Cuidadores Domiciliares e o Guia Prático de Cuidadores,
do Ministério da Saúde.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: O grupo terapêutico foi facilitado pela
psicóloga residente de saúde mental com o auxílio do médico residente
de psiquiatria, acadêmicos de medicina, dos/as Agentes Comunitários
de Saúde (ACS) e da médica de família da USF onde o grupo foi
realizado. As/os participantes do grupo foram cuidadoras/es indicados
pelos ACS como casos mais complexos e/ou que apresentam conflitos
relacionais e nível de sofrimento por parte de quem cuida. O grupo

433
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

possuiu nove participantes fixos além dos profissionais de saúde e


estudantes, sendo a quantidade limitada pelo espaço físico. Foram
quatro encontros ao total, de periodicidade semanal, e acompanharam
a seguinte organização metodológica: 1) apresentações; 2) elaboração
da proposta temática pelas/os participantes; 3) momento de fala livre e
intervenção das/os facilitadoras/es; 4) encerramento com uma prática
integrativa e/ou de autocuidado; 5) lanche e confraternização. Em um
dos encontros foi aplicado o Questionário de Avaliação da Sobrecarga
do Cuidador Informal (QASCI), que ajudou as/os cuidadoras/es a melhor
identificar e refletir sobre as situações da rotina de cuidado que mais
lhes geravam adoecimento.
REPERCURSSÕES: O grupo alcançou boa aderência das/os participantes,
que encontraram nele um espaço de cuidado para si, e ao longo dos
encontros foram relatando melhoras significativas em sua saúde mental
e na relação com as pessoas cuidadas, diminuindo os conflitos
interpessoais, compreendendo e lidando melhor com os momentos de
crise e buscando formas mais saudáveis e eficientes de enfrentar
comportamentos opositores. Ao fim do grupo foi estimulado que as/os
participantes dessem continuidade ao vínculo criado, buscando um
maior suporte comunitário em situações de crise e, caso sintam
necessidade, organizando-se para dar continuidade ao grupo de forma
independente, ou com o auxílio da ESF.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: É possível considerar que a experiência foi
satisfatória, tanto para a comunidade e o impacto em suas realidades
quanto para a ESF, sendo avaliada a importância de iniciativas
semelhantes no futuro com outros recortes populacionais que também
apresentam altas demandas de saúde mental no território, como
adolescentes que praticam automutilação e sujeitos em uso contínuo e
prolongado de benzodiazepínicos.

434
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Cuidar da mente para cuidar da vida: atenção psicossocial junto aos


trabalhadores da saúde no enfrentamento da pandemia da COVID-19
em Juiz de Fora-MG

Maryene Conceição de Paula


Conrado Pável de Oliveira
Francisca Emanuelle Rocha Silveira
Leonice Barbara de Rezende
Prefeitura de Juiz de Fora

Laura Fernandes Martins


UniAcademia

Samantha Lemes Carvalho


Universidade Federal de Juiz de Fora

O Projeto “Cuidar da Mente Para Cuidar da Vida”, foi desenvolvido a


partir de março de 2020 pelo Departamento de Saúde Mental da
Prefeitura de Juiz de Fora, fundamentado no parecer técnico n°
128/2020 do Conselho Nacional de Saúde, com o intuito de ofertar
ações de suporte psicossocial durante a primeira fase da pandemia da
Covid-19 junto aos trabalhadores da saúde em atuação na linha de
frente dos cuidados. Foram realizadas duas frentes de atuação: uma de
caráter grupal e presencial nas unidades de saúde, e outra por meio de
atendimentos individuais remotos, realizadas por profissionais de
psicologia da prefeitura e voluntários. Mereceu destaque, no entanto, as
práticas de pequenos grupos presenciais nas unidades de saúde que
mobilizaram maior participação dos profissionais no projeto,
possibilitando um espaço de cuidado e atenção para a potencialização
da vida, das afetações e ações (PEREIRA; SAWAIA, 2020). A equipe de
coordenação dos grupos foi composta por dois psicólogos, uma
enfermeira, uma psicóloga residente em saúde mental do HU/UFJF e
uma estagiária de psicologia. Foram propostos quatro encontros

435
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

semanais para cada equipe de trabalhadores em três unidades de saúde


pública de urgência e emergência. Para cada encontro foram utilizados
diversos elementos mediadores e disparadores das discussões:
ilustrações do artista iraniano Alireza Pakdel que retratam a realidade
vivida pelos profissionais de saúde na pandemia; músicas populares e,
por fim, técnicas de autocuidado como massagens, respiração
diafragmática e relaxamento muscular progressivo. A partir da escuta,
no primeiro encontro, das experiências e desafios cotidianos vividos no
contexto de trabalho em meio à pandemia, foram levantadas as
principais questões que atravessaram todos os grupos. De maneira
geral, os principais temas abordados foram: as questões sobre o medo,
a ansiedade, estresse e alterações abruptas nos processos de trabalho;
as condições de trabalho e suas repercussões na vida pessoal e
profissional, principalmente seus impactos nos vínculos afetivos,
comunitários e familiares; a questão da contradição entre os
estereótipos de heroísmo e, ao mesmo tempo, a vivência do estigma
atribuído aos profissionais como potenciais transmissores do novo
coronavírus na família e comunidade. Ao longo das reflexões, diversos
temas também emergiram, tais como o congelamento dos gastos
públicos e seu impacto no acesso à saúde e a segurança no trabalho;
interferência das relações interpessoais e da organização institucional
nos processos de trabalho e na saúde do trabalhador etc. No total
participaram 231 trabalhadores de diversas categorias profissionais em
99 encontros. Pode-se perceber que diante da escuta dos profissionais e
das ações realizadas, a pandemia serviu como um pano de fundo para a
emergência de temas que já apresentavam relevância anteriormente e
que acabaram ganhando maior destaque no atual contexto. Os grupos
serviram como um movimento de reflexão no trabalho e um espaço de
promoção da saúde do trabalhador, visto que um dos retornos que
obtivemos foi a necessidade de se ter esse espaço de fala e de escuta
em outros momentos independentemente da pandemia

436
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Cuidar das plantas, dos outros, de si: a experiência do Programa de


Extensão Vida no Campus, 23 anos

Marcella Sales Moreira


Ana Paula Lopes dos Santos
Liorno Antunes Werneck
Dalva Moraes Pinheiro
Bárbara Buarque De Macedo Lira
Luana Rodrigues Valente
Paulo Herdy Filho
Elizabeth Bezerra da Silva
Universidade Federal Fluminense

O Programa Vida no Campus, nasceu como um projeto de extensão há


23 anos, na UFF/Campus Gragoatá (Niterói/RJ), com o objetivo de
desenvolver atividades socioambientais, no campus. Algumas visavam à
promoção da saúde e à qualidade de vida, com articulação entre os
estudos da vegetação, horticultura, paisagismo, e Psicologia Ambiental.
Em 2005, o Vida no Campus expande as atividades de cuidado humano-
ambiental, que passam a ter usuários, encaminhados da Associação
Pestalozzi (Niterói). Essa instituição, já utilizava jardinagem e
horticultura para desenvolver a autonomia e reabilitação humana,
iniciou parceria de seleção e encaminhamentos, para o Vida no Campus.
O contato de estagiários de Psicologia da UFF, no acompanhamento
terapêutico de usuários, do Centro de Atenção Psicossocial (CAPs,
Niterói/RJ), permitiu a execução do projeto intitulado “Treinamento de
Habilidades com Portadores de Necessidades Especiais e Transtornos
Mentais em Espaços Públicos", vencedor do prêmio Josué de Castro
(Semext, 2010). Nele, usuários do CAPs, interessados em jardinagem,
ingressam num processo de ensino-aprendizagem, no campus. As ações
do Programa, em parceria com o CAPs, envolvem a construção de um
espaço acolhedor, para a execução de técnicas de jardinagem. O
objetivo principal é fomentar a autonomia, na execução das tarefas

437
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

diárias (cuidado das plantas, higiene das mãos, reconhecimento das


linhas de ônibus, dos números etc.). Com isso, possibilitar a reinserção
social, pela atividade e pela convivência com as pessoas, equipe, jardins
e plantas.
Questões relacionadas a história de vida dos usuários também são
acolhidas. Relatos de sofrimentos, aparecem durante as atividades.
Alguns deles contaram à equipe dificuldades vividas em frases como:
“você nunca vai conseguir um emprego”, “nunca vai concluir a escola”.
Entretanto, muitos estavam dispostos a esforços para melhorarem suas
condições. Estudavam a noite, frequentavam aulas preparadas para eles
na UFF e buscavam por si mesmos informações e orientações para uma
vida melhor.
No convívio com o ambiente universitário ou com as pessoas da equipe,
nas atividades de jardinagem, nos lanches coletivos e no
desenvolvimento das ações pedagógicas, muitas transformações e
aprendizado. Aprendizado mútuo, da equipe do programa (duas
professoras de Psicologia, três técnico-administrativos, dois
extensionistas e estudantes de Psicologia) e das pessoas encaminhadas
pelo CAPs. A partir de 2019, encaminhadas pelo Serviço de Psicologia
Aplicada (SPA/ IPSI/UFF) e, recentemente, pelo Centro de Valorização da
Vida (CVV).
Essas atividades estimulam o convívio e a sensibilidade, assim como a
destreza dos movimentos, a percepção do tempo, das estações, cores,
formas e texturas. Além de melhorar a orientação nos espaços ao ar
livre, a circulação na cidade e ampliar perspectivas de vida.
Do mesmo modo, entendemos que as atividades de cuidado com as
plantas, jardins e áreas verdes, potencializam a relação do cuidado com
os outros e, principalmente, do cuidado consigo mesmo. O ambiente
com área verde se configura como instrumento valioso para
transformações que ocorrem no campo da saúde, apresentando-se
como um espaço de interação e vivências. Consideramos que a
convivência fortalece as ações e as relações humanas, permitindo a

438
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

articulação dos saberes e afetos com o cotidiano dos atores, por ele
envolvidos.

439
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Dá vida à morte: trabalhando suicídio com a leveza de um girassol

Millena Raianny Xavier da Silva


Ana Lúcia da Silva Lira
IMIP

Este escrito debruça-se sobre a experiência vivida por residentes da


RAPS numa intervenção desenvolvida na semana do Setembro Amarelo
em alusão a Prevenção do Suicídio, dentro de um CAPS tipo II na cidade
do Recife. Em um contexto onde era crescente o número de casos
atendidos no CAPS em virtude de tentativas de suicídio, pensamos em
estratégias para trabalhar com essa temática de modo que mobilizasse
positivamente os usuários e diminuíssem os riscos de iatrogenia diante a
discussão, pois reconhecíamos a real importância de abordar esse tema,
porém também sabíamos que ações mal planejados poderiam
potencializar o desejo de morte. Foi a partir dessas reflexões que
começamos a montar nosso projeto, focando em levar conhecimentos
relevantes para lidar com situações de crise e despertar afeto coletivo
para o cuidado. Iniciamos com a reprodução de uma animação
retratando a experiência existencial de uma pessoa com um quadro
depressivo, expondo os medos, os anseios e desafios no caminho do
cuidado, em seguida ouvimos deles os sentimentos despertados diante
o vídeo e as curiosidades que sabiam sobre o tema Suicídio. Algumas
pessoas trouxeram vivências pessoais diante o sofrimento e outras
exemplificaram histórias de familiares ou amigos, ressaltando o papel de
todos no cuidado a vida e prevenção ao suicídio. Continuamos com o
aprofundamento do assunto a partir de um jogo de Verdade ou Mito,
onde liamos um enunciado sobre a temática e os participantes deviam
julgar a assertiva como correta ou errada e justificarem suas respostas,
frases como por exemplo: “As pessoas que tentam suicídio querem
apenas chamar atenção”, “As pessoas que pensam em suicídio
apresentam um grau de sofrimento intenso”, “Suicídio é um ato de
covardia ou falta de fé”, “As pessoas com risco de suicídio apresentam

440
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

ambivalência entre querer viver e querer morrer”. Nesse sentindo


fomos problematizando e desconstruindo alguns preconceitos que se
tem em torno do assunto e refletindo sobre a postura de cada um
diante a vida. Depois disso pedimos para que pensassem em estratégias
de cuidado que ajudasse na prevenção ao suicídio, pois o usuário mais
que o profissional sabe de sua dor e o que pode ser feito para amenizá-
la. Nesse momento a família foi eixo central das falas, pois muitas das
sugestões se voltavam para o apoio familiar como fundamental.
Finalizamos o momento com a pintura grupal de um Girassol que estava
traçado em preto e branco numa grande cartolina, a proposta era dá
vida a flor, e assim fizemos, todos juntos pintamos a figura em amarelo,
deixando colorido o símbolo de valorização da vida. Acreditamos que a
intervenção tenha repercutido de forma satisfatória, provocando
mudanças de postura e atitude diante o cuidado de um para com o
outro. O que vale considerar é que toda intervenção precisa ser
contextualizada com a realidade onde será executada, por isso o
planejamento tem que levar em consideração o ambiente, o público-
alvo e a real necessidade de fazer a ação.

441
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Dança Circular para a Promoção da Saúde em um Grupo de Idosos

Gláucia Maria Cavalcante Maia


Escola de Saúde Pública do Ceará
Carolina Maria de Lima Carvalho
UNILAB

O envelhecimento da população é uma realidade mundial. É papel do


enfermeiro auxiliar a pessoa para um envelhecimento ativo e uma
melhor qualidade de vida ao envelhecer. As práticas integrativas e
complementares da saúde se apresentam como possibilidades de
cuidado e promoção do bem-estar em idosos, vindo a somar, com os
métodos convencionais. A dança circular, prática milenar presente em
diversas culturas, cujos benefícios advêm de vivências de sinergia e
harmonização intencional de movimentos, simboliza união,
pertencimento e integração. Entre abril e novembro de 2018, no Centro
de Referência em Assistência Social de Redenção, Ceará, foi
implementado um projeto de extensão com grupo operativo de cerca de
50 idosos, para a promoção do bem-estar por meio das práticas
integrativas e complementares. Foram inseridas quatro práticas, das
quais, escolhemos a dança circular, presente em quatro dos sete
encontros realizados, para uma análise mais cuidadosa. No primeiro
encontro, o encerramento ocorreu com uma música de domínio público,
cantando e dançando em círculo. No segundo encontro o grupo
conversou sobre a história da dança circular, a simbologia do círculo e
praticamos a dança circular. Nos terceiro e quarto encontros abrimos
com a dança circular. A dança circular, como processo grupal, envolveu
uma dimensão individual – dançar para si – e uma coletiva – um
movimento feito pelo todo e para o todo. Cada idoso buscou se incluir e
harmonizar seus movimentos com os do grupo, nutrindo um sentimento
de pertencimento, união, cooperação e horizontalidade. Dançar
provocou sorrisos e uma evidente entrega nos participantes. As práticas
de dança circular vivenciadas ao longo do projeto estão em consonância

442
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

com a Portaria nº 849 de 27 de março de 2017, no tocante à ampliação


do bem-estar, da consciência corporal e da harmonização das emoções,
além de oportunizarem o exercício da concentração, da coordenação
motora, do ritmo e da memória.

443
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Dança, corpo e movimento: da disciplina a uma clínica da


(re)existência

Marcella de Moura Vianna


UFF - Universidade Federal Fluminense

Cássia Charrison
CAPS Rubens Corrêa

O presente relato se deu a partir da experiência durante o estágio


integrado em Saúde Mental no Centro de Atenção Psicossocial – CAPS II
Rubens Corrêa, situado em Irajá, no município do Rio de Janeiro, entre
os meses de maio e outubro de 2018. As atividades em grupo são
consideradas como ferramentas importantes em tais serviços, uma vez
que possibilita o convívio entre os usuários e a troca de experiências,
objetivando o fortalecimento da autonomia. Dentre muitas
possibilidades, destaca-se a aula de dança, que a partir do método de
Conscientização do Movimento, se configura como uma estratégia de
resistência ao lugar atribuído historicamente ao corpo na experiência da
loucura, pensando nas relações de poder que o colocam como alvo de
investimentos coercitivos, de disciplina e docilização, uma vez que
corrobora com a construção de novos estados corporais. As aulas são
semanais, com duração aproximada de 60 minutos. A organização do
grupo sempre se dá em roda, para que possamos ter contatos visuais
com todos a todo o momento e darmos as mãos. A seguir, há um
momento de relaxamento. Todos nós, de pé, fechamos os olhos,
descontraímos os braços e pescoço, enquanto a professora toca nossos
ombros com o objetivo de distensionar a carga com que chega esse
corpo. Os olhos fechados nos possibilitam um momento de consciência
corporal, onde ficamos atentos para qualquer movimento que façamos.
Após abrirmos os olhos, o pedido é que olhemos para todos e para os
objetos que nos cercam, isso faz com que reconheçamos o espaço
habitado e as pessoas pertencentes ao grupo. Em um segundo

444
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

momento, nós nos sentamos no chão ou nas cadeiras e começamos a


nos esticar, na medida em que colocamos as mãos nos pés, mãos no
alto, etc. A professora sempre diz: “se a professora pode, todo mundo
também pode fazer”. Essas palavras nos dão um contorno e nos ajudam
a tentar, funcionando como estímulo para que nosso corpo se sinta
pertencente e fazedor neste grupo, havendo o acolhimento pelo grupo
cada movimento individual. Nesse sentido, o coletivo promove certa
identificação, no sentido de reconhecer que o outro também é uma
pessoa, assim como todos nós. A técnica de improvisação também se faz
presente durante as aulas, ficando claro que as aulas de dança em um
serviço como o CAPS, assim como qualquer outra prática de cuidado, se
constituem como uma clínica que tem como base o encontro, o fazer
cotidiano, pois surgem situações diversas e inesperadas. No fim da aula,
cada participante descreve em uma única palavra o que achou da
experiência. Normalmente, aparecem palavras como: relaxante,
conexão, equipe, revigorante, produtiva, demonstrando o benefício do
trabalho corporal ali atingido no sentido de reestruturação no que ele
tem de possibilidades e potências. Entendemos, portanto, que através
da dança, corpo e movimento, um modo de cuidar de si é inaugurado,
resultando em indivíduos mais saudáveis, autônomos, criativos, que
possam usufruir de suas potencialidades e saúde integral, fortalecendo
os princípios previstos no SUS.

445
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Dando Cores ao Céu Cinza: Grupo colorir na saúde mental da


população LGBTQIA+

Aline Andressa Coelho de Souto


Priscilla KarlaARLA
Roseno Martins
Ana Thalita Felicio Ferreira da Silva
Escola de Saúde Pública do Ceará

Um segmento populacional que se apresenta cotidianamente como


demandante de serviços psicossociais com relação ao suicídio são as
pessoas com identidade LGBTQIA+ que, algumas vezes, apresentam
adoecimento psíquico, assim são acometidas por distúrbios do humor,
abuso e/ou dependência de substâncias, rejeição familiar e vitimização,
porém, mesmo após o controlo imediato destes fatores de risco de
forma emergencial os indicies de suicídio e/ou tentativas deste ato
prevalecem elevando-se e, desse modo, há necessidade de se promover
a prevenção e promoção de combate ao suicídio em âmbito nacional,
pois, conforme a Organização Mundial da Saúde (2003) essa é uma
questão de saúde pública. Além disso, ressalta-se que a população
jovem é a principal demandante dos serviços acima descritos, verifica-se
que, muitas vezes, a questão da descoberta da sexualidade diferente da
heteronormatividade também inaugura-se um conflito interno dos
usuários LGBTQIA+ consigo mesmo e/ou conflitos familiares,
compreende-se então que é essencial o trabalho de saúde mental
voltado para empoderamento e autoconhecimento dos jovens para que
a juventude não venha acompanhada de um processo depressivo e ou
de adoecimento psíquico. Pautando-se no cenário supracitado foram
organizadas rodas de conversa e grupo de apoio com usuários do CAPS II
e CAPS AD no município de Aracati-CE que se reconheciam como
população LGBTQIA+ e que já tinham tentando o suicídio, neste são
promovidas ações de saúde voltadas para essa população, por exemplo,
para pessoas transexuais é orientado sobre mudança da documentação

446
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

caso desejem, aborda-se ainda a inclusão no mercado de trabalho assim


promovendo a autonomia pessoal e permitindo seu empoderamento no
atual contexto capitalista, aborda-se a questão da redução de danos
com os que fazem uso abusivo de drogas. Além disso, percebeu-se uma
redução significativa no absenteísmo desses pacientes ao CAPS e uma
maior adesão aos tratamentos lá ofertados, por fim, houve o
fortalecimento de vínculos com a equipe multiprofissional. O trabalho
realizado tem despertado nos jovens LGBTQIA+ da cidade de Aracati/CE
um olhar diferenciado para seus conflitos pessoais e tem permitido que
exista em âmbito local um espaço para que o sofrimento mental seja
trabalhado e reduzido, além disso, a equipe multiprofissional envolvida
promove a promoção e a prevenção de situações que poderiam se
tornar urgências psiquiátricas, acredita-se que o trabalho precoce e de
reflexão junto aos jovens LGBTQIA+ e articulação de rede pode salvar
vidas e amenizar sofrimentos que causam transtornos mentais leves
e/ou graves.

447
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Das Trevas à Luz

Eduardo Augusto Urban


Iabas

Trata-se de um trabalho realizado num serviço de saúde mental, CAPS


AD, no município de São Paulo, partindo da descoberta da
potencialidade do sujeito como protagonista do seu acompanhamento,
tendo como Projeto Terapêutico Singular o eixo da arte, onde o próprio
usuário, através do vínculo construído com sua referência técnica,
reencontrou-se através da arte, o desejo pela vida e da busca pela
autonomia e reinserção social.
Este trabalho justifica-se pela importância e relevância, podendo servir
de modelo para outros profissionais de saúde, a partir da constatação
que o usuário do serviço através do seu próprio potencial, e do olhar de
reconhecimento da referência técnica, conseguiu o resgate de sua
autoestima, autonomia, reinserção social, passando a ser sujeito do seu
próprio desejo.
Através da teoria psicanalítica, reflexões foram geradas no âmbito da
produção do desejo, do olhar do outro como transformador de
autoestima, e da pulsão de morte em pulsão de vida, alcançando com
êxito a reabilitação psicossocial a que se proponha um serviço de saúde
mental, mais especificamente CAPS AD ( centro de atenção psicossocial
de álcool e drogas.
Fazendo parte do projeto terapêutico singular, foram realizados
atendimentos individuais e coletivos, que propiciaram o
Holding/amparo dando sustentação e motivação para P. se enxergar
como potência. Partindo do próprio desejo e talento do usuário, foi
proposto a realização de telas de pintura em papel Canson A3 e tintas
acrílicas, cor preta, que eram confeccionadas no próprio local do CAPS
AD (ambiência), como também, na própria moradia do usuário (centro
de acolhidas), culminando na obra intitulada pelo próprio autor: Das
Trevas à Luz. A partir disso, o trabalho desdobrou-se em três exposições

448
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

de arte em centros culturais do Estado de São Paulo, culminando na


venda de todas as suas obras, gerando renda para si e sua família.
O desenvolvimento do presente trabalho propiciou uma importância
reflexão sobre a importância da figura da referência técnica nos
equipamentos de saúde mental, quando no acompanhamento do seu
referenciado, foi construído vínculo indispensável para o surgimento da
potência do sujeito, e da transformação da pulsão de morte em pulsão
de vida, possibilitando "desejo" como força propulsora da " busca pela
cura", e da produção de autonomia e reinserção social. Ao final, P.
conseguiu trabalho remunerado, casou-se, teve 1(um) filho e alugou
uma casa por sua própria condição financeira, alcançando com êxito os
objetivos propostos. Recebeu alta do serviço, pela equipe técnica.
Considerações Finais: Demonstrou de extrema importância a construção
do vínculo, entre Referência Técnica e usuário do serviço, propiciando
um olhar de potência e estas redescobertas repercutiram no o
aparecimento de desejo de cura, e da simbolização da vida como
recurso transformador e outras significações. Diante disso, o sujeito
pode através da arte, reconstruir pontes simbólicas, passando o uso
problemático das drogas ocupar um outro lugar em sua vida, vindo daí a
não mais necessidade de ser acompanhado pelo serviço especializado,
CAPS AD. A sublimação, e a valorização do olhar do Outro foi de extrema
importância para o resultado alcançado.

449
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

De Endoidecer Mente Sã: reflexões acerca dos determinantes sociais


da saúde e sua relação com o processo do adoecimento mental e seus
agravos.

Emilly Bezerra Fernandes do Nascimento


Maria Márcia de Oliveira Freire
Beatriz Holanda Macena
João de Deus de Araújo Filho
Brenda Rayana da Silva
Maria Clara Guimarães de Azevedo
Rute Peixoto do Nascimento Montenegro
Maria Yohana Matias Silveira
Daniel Morais Azevedo
Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN

Geilson Xavier de Azevedo Júnior


UFCG - Universidade Federal de Campina Grande

Introdução: Os transtornos mentais se configuram como agravos de


saúde com altos índices na sociedade atual. É possível conciliar a atual
conjuntura com a realidade dos usuários que passam pelo processo de
adoecimento psíquico. Essa afirmação pode ser comprovada a partir da
inserção na enfermaria de saúde mental, a qual ocorreu através da
residência em Atenção Psicossocial em um Hospital Geral do Sistema
Único de Saúde (SUS) e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) em
Natal/RN; onde observa-se que elementos como o recorte de gênero e
do trabalho são fatores que provocam o sofrimento psicológico.
Descrição: A percepção desses elementos como carga psíquica ocorreu a
partir dos diálogos estabelecidos em entrevistas sociais, visitas ao leito e
conversas com os/as cuidadores/as dos usuários internados. É comum
identificar nas falas a preocupação com o trabalho (ou a ausência dele),
principalmente, dos usuários do sexo masculino; haja vista que existe
uma construção social de que o homem necessita ser o provedor do lar,

450
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

devendo arcar com as responsabilidades financeiras da família. É notória


a aflição dos sujeitos durante as falas, posto que eles apontam o
trabalho ou sua ausência como um dos fatores que lhes adoece. O
estresse causado pelo trabalho é recorrente durante a conversa, no
entanto, os usuários que não possuem vínculo empregatício formal
demonstram fragilidades ainda maiores, visto que não têm garantias
legais, como o auxílio-doença ou até mesmo a possibilidade de
aposentadoria. Essa inquietação gera ansiedade e, por vezes, condiciona
pensamentos suicidas, prejudicando o tratamento e levando, muitas
vezes, os usuários a buscarem medidas extremas. Repercussões: Nesse
sentido, entra a compreensão de que o trabalho é constituidor do
gênero humano, visto que possui caráter ontológico, sendo ele
elemento transformador do ser social e um desenvolvedor de
potencialidades, além de ser um modo de inserção na sociedade. No
entanto, vale salientar que o modo de produção capitalista e os
processos estruturais se relacionam com as classes sociais e influem no
processo de adoecimento, revelando assim, que há grupos com
necessidades particulares e que tais necessidades (dando ênfase as de
saúde) não podem ser desvinculadas do contexto social em que estão
inseridas. Além disso, é importante destacar que o modo de acumulação
flexível exige que o trabalhador exerça muito mais tarefas, as quais
invadem a esfera doméstica e não permitem descanso, causando
sofrimento. Considerações finais: Diante do atual cenário é impossível
negar o elo existente entre o trabalho, a estrutura de produção e o
adoecimento mental. Os altos índices de desemprego e a permanência
de usuários no chamado exército industrial de reserva coloca os
trabalhadores em uma posição desfavorável, fazendo com se submetam
a condições precárias de trabalho e existência. Dessarte, compreender
que o processo saúde-doença reflete a contradição existente na relação
capital-trabalho é fundamental, ao passo que há o avanço e
aprimoramento do que se entende por saúde mental e seus agravos e
pensando em alternativas para a redução dos danos e efeitos colaterais
resultantes da inserção nesse meio.

451
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Debatendo Raça/Etnia e Saúde

Railane do Carmo da Silva


Secretaria Municipal de Camaragibe

Introdução: O presente resumo apresenta um relato de experiência da


Educação Permanente-EP proposta pela Equipe do Núcleo Ampliado de
Saúde da Família e Atenção Básica-NASF-AB sendo facilitada pela
Assistente Social que a compõe, ocorrida na Unidade Básica de Saúde -
UBS Jardim Teresópolis no município de Camaragibe-PE, com o objetivo
de discutir aspectos das facetas do racismo na saúde e a importância do
termo raça/cor nos registros.
Descrição da experiência: A EP se pauta em uma aprendizagem no
trabalho, buscando a transformação das práticas profissionais, levando
em consideração os conhecimentos e experiências que permeiam o
espaço, propondo aos trabalhadores uma reflexão da prática cotidiana,
de acordo com as necessidades da população. A EP contou com a
presença das categorias profissionais: 4 Agentes Comunitários de Saúde-
ACS, Médico e Enfermeira da Estratégia de Saúde da Família-ESF;
Fisioterapeuta, Psiquiatra, Nutricionista, Assistente Social que compõem
o NASF-AB. Iniciou-se levantando questionamentos de como os
profissionais compreendiam o que é preconceito e racismo. Pautaram-
se aspectos da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e
as implicações do racismo religioso vivenciado pelos usuários
pertencentes as religiões de matrizes africanas.
Todos os trabalhadores que atuam na Seguridade Social,
especificamente a Saúde, lida em sua maioria cotidianamente com as
mais extremas opressões e violações de direitos, que se expressam em
sua maioria atingindo a população negra. Diante disso ressaltou-se a
construção sócio histórica do país, as marcas deixadas pela escravidão e
os mecanismos de dominação/exploração presente no pós-abolição,
como: embranquecimento, miscigenação e mito da democracia racial;
elencando dados atuais do IBGE e PNAD sobre a população negra.

452
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Repercussões: Diante do exposto na EP, o Médico trouxe o exemplo do


racismo institucional vivenciado pela Assistente Social durante seu
primeiro dia de trabalho na presente UBS e uma ACS refletiu sobre os
exemplos de racismo religioso vivenciado por alguns usuários de religião
de matrizes africanas, que em alguns casos não relatam sobre as marcas
em suas peles, que podem ser causadas pelos rituais religiosos, não
necessariamente sendo uma patologia, mas por receio de sofrer alguma
discriminação preferem se silenciar diante do assunto. Acerca dos
exemplos apresentados pautou-se a importância do termo raça/cor nos
registros. Segundo Roseli Rocha (2014) o quesito gera expressões do
racismo no Brasil, pois é silenciado nos registros e muitas vezes
subnotificados. O registro do termo pode apontar elementos para os
usuários na construção da sua identidade, e muitas vezes a
subnotificação desse termo gera escassez de dados que poderiam
contribuir em políticas/programas para a promoção da equidade e
diminuição de práticas discriminatórias.
Conclusão: A estratégia utilizada gerou desdobramentos positivos para a
equipe, passando a refletir o racismo e suas práticas cotidianas diante
dos exemplos que foram relatados. Ressalto a importância de estarmos
munidos com nossa dimensão investigativa aliada a teoria crítica,
compreendendo que os desafios são diversos, mas a leitura da realidade
é o primeiro passo. O conhecimento adquirido reitera para os
profissionais que não é possível a garantia de uma saúde pública aliada
ao princípio da equidade enquanto o racismo vigorar.

453
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Demandas de atendimento psicossocial: relato a partir da experiência


do Serviço Social em uma Estratégia de Saúde da Família na Região
Metropolitana de Belém-PA

Suellen Souza de Moraes


Camila Leite Medeiros Muniz
Cristina Maria Arêda Oshai
Universidade Federal do Pará

Introdução: A Integralidade é um dos princípios doutrinários do Sistema


Único de Saúde (SUS) cuja operacionalização implica, dentre outros, a
compreensão, consideração, planejamento e organização de ações e
serviços que contemplem os aspectos biopsicossociais inerentes aos
humanos. Experiência vivenciada em uma Estratégia Saúde da Família
(ESF) instigou reflexão sobre a importância da atenção em saúde mental
que na Atenção Básica, nem sempre se mostra acessível. Este relato
compartilha a experiência de uma estagiária em Serviço Social na ESF,
enfatizando a percepção sobre demandas de atenção em saúde mental
apresentadas por usuárias do SUS. Descrição da Experiência: A
experiência ocorreu na ESF Terra Firme em Belém do Pará, em região
onde a violência é determinante social importante. A inserção da
estagiária ocorreu em novembro de 2019 através do Programa
Multicampi Saúde que objetiva qualificar a formação de discentes de
Graduação de 10 cursos da área da saúde. Na ESF a estagiária esteve sob
preceptoria de uma enfermeira e supervisão de uma assistente social da
Universidade Federal do Pará. Observou-se grande demanda para
atendimentos psicossociais e a necessidade da presença de profissionais
de Psicologia e Serviço Social na Unidade. Porém tais profissionais são
vinculados ao Núcleo de Apoio a Saúde da Família (NASF), estando
disponíveis para a ESF dois dias na semana. Devido ao espaço
insuficiente da Unidade, os atendimentos eram feitos nas dependências
de uma igreja católica do bairro. Diariamente eram realizadas consultas
da Enfermagem nas quais estagiários do curso de Serviço Social e

454
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

outros, exercitavam a observação e escuta, mas interferiam quando


necessário. Notou-se que muitas mulheres apresentavam insônia,
cansaço físico, hipertensão arterial, cefaleia e quando indagadas a
respeito choravam e narravam que filhos/as estavam envolvidos com
tráfico de drogas; outras sofriam pela perda recente de filhos/as, vítimas
de diversas doenças. Observou-se também o sofrimento das chefas de
família, que precisavam trabalhar para manter a família e deixar seus
filhos sozinhos em casa; e o sofrimento das crianças devido à ausência
das mães, uma delas reiterava a vontade de morrer. Repercussões: A
partir da experiência houve percepção dos malefícios causados não
somente a vida dos usuários, mas da família e comunidade, tendo em
vista o quadro de sofrimento emocional, sendo realizado assim, os
encaminhamentos para atendimento psicossocial com a equipe do
NASF. A experiência possibilitou a percepção da realidade dos usuários,
importância da atuação multiprofissional na prevenção de agravos e da
efetivação da integralidade, considerando a atenção em saúde mental.
Considerações finais: Diante do exposto, constata-se a necessidade da
atenção psicossocial na ESF com regularidade em complemento à
atenção biológica, considerando que a integralidade compreende os
aspectos biopsicossociais. As orientações sobre direitos sociais e ações
para a melhoria da qualidade de vida dos usuários contribuem para a
saúde mental, pois podem promover a inclusão social e minimizar
efeitos dos determinantes sociais. Por fim, é imprescindível a atuação
conjunta da equipe multiprofissional visando à atenção biopsicossocial.

455
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Des(fazendo) nós na rede social: uma experiência de promoção à


saúde mental de adolescentes na pandemia

Maria Fernanda Barboza Cid


Beatriz Bertasi Vitola
Danieli Amanda Gasparini
Luiza Cesar Riani Costa
Marina Speranza
Mayara Soler Ramos Mazak
Maria Julia Felix Huber
Sara Malvez Bienzobás
Thais Thaler Souza
Universidade Federal de São Carlos - UFSCar

Introdução: A pandemia da COVID-19 e as medidas necessárias para sua


contenção têm apresentado inúmeros desafios para as ações de
promoção e cuidado estratégico à saúde mental de adolescentes,
agregando à já complexa dinâmica pela qual se produz o sofrimento
psíquico dessa população, considerando, inclusive, os índices crescentes
relacionados à experiência do sofrimento psíquico intenso por
adolescentes nos últimos anos, situação que, de acordo com alguns
estudos está se agravando ainda mais com a situação de pandemia.
Neste contexto, as redes sociais têm sido uma ferramenta em
exploração nas estratégias de promoção e cuidado em saúde mental
direcionadas às adolescências. Descrição da Experiência: Trata-se de
uma ação de extensão universitária, ainda em curso, desenvolvida na
Universidade Federal de São Carlos, que, por meio da criação de um
perfil na rede social Instagram (@des.fazer.nós), objetiva produzir e
divulgar conteúdos sobre saúde mental para adolescentes, fomentando
um espaço virtual de interação e acolhimento. Formado por 16 pessoas,
dentre elas docentes, estudantes de graduação e pós-graduação e
profissionais de terapia ocupacional e psicologia, o projeto tem se
desenvolvido a partir de pesquisas e elaborações de conteúdos

456
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

audiovisuais. Abordam-se temáticas como ansiedade, estresse, racismo,


conflitos familiares, uso de substâncias psicoativas, organização da
rotina e estudos, o uso das redes sociais, autoestima, autocuidado, arte,
educação sexual, redes de apoio, entre outras. As escolhas dos temas se
dão pelas demandas dos próprios seguidores da página, por meio de
interações disponibilizadas pelo aplicativo (enquetes, caixas de
perguntas e votações). Atualmente, a página conta com 1.115 pessoas
que acompanham o conteúdo. Repercussões: Observa-se que os
conteúdos abordados pela página têm gerado engajamento por parte
dos adolescentes, o que é observado pela participação nas interações
sugeridas, mas principalmente pela troca de mensagens privadas, que
alguns têm usado para pedir ajuda relacionada ao próprio sofrimento
psíquico. Nestes casos, foram realizados acolhimentos, intervenções
informacionais pontuais e direcionamentos para a rede de assistência.
As interações ocorrem tanto com o público adolescente quanto adulto
através das publicações, sendo que profissionais da rede de saúde,
assistência social e educação têm utilizado os conteúdos da página como
apoio no trabalho com essa população. Apontam-se alguns desafios,
como o ritmo rápido e dinâmico de funcionalidade da rede social,
contrabalanceado com as possibilidades de produção da equipe.
Também há o desafio de traduzir os conteúdos provenientes de
produção acadêmica, em uma linguagem acessível e atrativa, que
representem as diferentes realidades que permeiam as adolescências,
além da busca por estratégias que permitam a acessibilidade de pessoas
surdas e com deficiência visual. Considerações finais: Produzir conteúdo
visando a promoção à saúde mental de adolescentes através das redes
sociais virtuais é desafiador, contudo, tem mostrado caminhos
interessantes para a costura de outros nós na rede do cuidado em saúde
mental em tempos de pandemia. Sinaliza-se, assim, que a real
disponibilidade de todos os envolvidos com as adolescências, faz com
que outros territórios sejam explorados, potencializando a criação de
ações que reconheçam as dificuldades, mas que busquem, de fato,
considerar as demandas e potencialidades de adolescentes.

457
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Desenvolvimento de álbum seriado para acolhimento de pacientes


pré-cirúrgicos: Relato de experiência

Mabel Cunha Lopes


Rebecca Holanda Arrais
Unichristus

A Psicologia Hospitalar precisa pensar uma atuação ampla, para além da


escuta à beira do leito. Para isso, pode-se articular materiais e métodos
criativos que estejam em sintonia com as diretrizes do Sistema Único de
Saúde, como integralidade, protagonismo e humanização. Um recurso
possível é o álbum seriado (AS), material que visa acolher o paciente, a
partir do pressuposto de que o entendimento é parte importante do
processo de hospitalização. O desenvolvimento desse recurso em um
Hospital Geral durou 4 meses, feito com equipe de 6 alunas e uma
professora orientadora, com foco em pacientes pré-cirúrgicos.
Inicialmente, houve um reconhecimento do setting e investigação do
perfil de pacientes, com o intuito de direcionar o conteúdo. Depois,
seguimos para entrevistas com a equipe, para entender o que os
pacientes comentavam sobre a hospitalização, também levantamos
exemplos de outros trabalhos relacionados. Logo, entrevistamos os
pacientes. Baseado nisso, esquematizamos que conteúdos iriam compor
o AS e a equipe validou. Com esses conteúdos, fizemos novas
entrevistas com os pacientes para avaliar se estava coerente com a
demanda deles. Em seguida, elaboramos a primeira versão do AS e
imprimimos. Com essa versão temporária, houve nova validação com a
equipe, com os pacientes e com a direção do hospital e realizamos as
adequações finais. Por fim, começamos a utilizar o AS nos acolhimentos,
com os conteúdos finais abordando o jejum, anestesia, percurso até o
centro cirúrgico, equipe na sala cirúrgica, centro cirúrgico, salas pré e
pós operatórias e orientações gerais para alta. O uso desse recurso
proporcionou, baseado em comentários da equipe e relatos dos
pacientes, maior entendimento do processo cirúrgico, redução de

458
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

dúvidas, superação de medos e redução de ansiedade, mitigando


impactos psicossociais relativos. Além disso, possibilitou a ampliação do
alcance do Serviço de Psicologia, com uma intervenção voltada a
pacientes com demandas pontuais de baixa complexidade. Também
permitiu, a partir da fala dos pacientes, que fizéssemos
encaminhamentos para atendimento psicológico, no caso de pessoas
que demonstraram outras questões relacionadas à hospitalização.
Ademais, compreendemos que o AS era só o instrumento de nosso
acolhimento, sendo a nossa postura e empatia, o principal. Por fim,
ficou evidente como o AS ampliou o Serviço de Psicologia e contribuiu
para realização do acolhimento. Indicamos, desta forma, que novos
projetos do tipo ocorram, para ampliar o leque de intervenções da
Psicologia Hospitalar, bem como, que pesquisas investigando o impacto
do uso desse material sejam realizadas.

459
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Desinstitucionalizar: o retorno à vida - Relato de Experiência de um


processo de

Cíntia C Monteiro Mota Ferraz de Araujo


Flavia Roberta e Silva
Eliane Barbosa de Farias
Prefeitura de Olinda

Introdução: Esse relato de experiência visa descrever a vivência das


autoras implicadas na execução de um processo de
desinstitucionalização de 35 pacientes de longa permanência de um
Hospital psiquiátrico conveniado ao SUS no município de Olinda.
Descrição da Experiência: A proposta atual de desinstitucionalização da
Comunidade Terapêutica de Olinda – CTO, teve início em setembro de
2019, através de discussões com a Gerência de Apoio a Saúde Mental -
GASAM/SES-PE e reuniões com representantes do CTO. A partir dessas
reuniões foi elaborado o Plano de desinstitucionalização com proposta
inicial de execução de 6 meses, se iniciando em dezembro de 2019. Foi
realizada a identificação de 55 pacientes no CTO em leitos conveniados
ao SUS, sendo 35 crônicos, 21 identificados como munícipes de Olinda,
14 identificados como de outros municípios e 20 agudos.
Repercussões: Em março de 2020 foi implantada a 5ª Residência
Terapêutica do município e 10 pacientes foram desinstitucionalizados.
Em maio do corrente ano foram desinstitucionalizados 8 pacientes que
foram transferidos para a Residência Terapêutica do município de
Carpina. O processo de desinstitucionalização caracteriza-se por implicar
novos contextos de vida para as pessoas com transtorno mental, bem
como para seus familiares e “pretende mobilizar como atores os sujeitos
sociais envolvidos, modificar as relações de poder entre os usuários e as
instituições e produzir diversas ações de saúde mental substitutivas à
internação no hospital psiquiátrico” (OLIVEIRA; MARTINHAGO; MORAES,
2009, p. 33). O paradigma da atenção psicossocial é o balizador das
mudanças em curso, compreendido como sinônimo de cidadania

460
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

(SARACENO, 1996), tendo três eixos estruturantes: a) o morar, ou seja,


habitar conquistando territórios novos na cidade; b) o trocar identidade,
multiplicando-a, combatendo e desconstruindo estigmas e mitos; e c) o
produzir valores de trocas sociais, o que implica em ampliação de laços
sociais, aumentando a contratualidade, a partir dos valores destacados
pela sociedade, assegurando processos de geração de emprego e renda,
potencializando as capacidades das pessoas com transtorno mental.
Considerações Finais: O processo ainda se encontra em curso, sofreu
reajuste de cronograma devido a pandemia, mas está em fase final.
Prevê ainda a implantação de mais uma RT e readequação de outras
duas. Dessa forma, o processo se encerra com o descredenciamento do
Hospital Psiquiátrico e fortalecimento da RAPS do município de Olinda.

461
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Desorganizando “masculinidades”, nos organizamos para cuidar:


homens que cuidam de criança.

José Marcos da Silva


Universidade Federal de Pernambuco

Na infância, as demandas por atendimento em saúde, surgem através


de mensageiros que vão além do grupo familiar. São instituições que se
tornam interlocutores e performam uma arena de disputas políticas, de
abordagens de diagnose e terapia. No Brasil, as crianças foram,
historicamente, consideradas como carentes, abandonadas, pervertidas,
anormais, excepcionais, em situação de risco pessoal e social. Nessa
perspectiva, confinaram e excluíam crianças do convívio familiar e
predominaram enfoques corretivo-repressivo e assistencialista que se
aproximam da cultura manicomial ou do grande enclausuramento que
refletiu a violação de direitos exclusão, vigilância, punição e
medicalização dos corpos. Em resistência, surge a proposta
antimanicomial, que se orienta pela desconstrução dos muros, da
cultura e do arcabouço conceitual. O Movimento Nacional de Luta
Antimanicomial, favoreceu a construção da atenção à criança e ao
adolescente no campo da saúde mental, por meio de uma política
nacional. O presente resumo apresentar uma experiência de [des]
construção de masculinidade por meio de uma intervenção denominada
“Homens que cuidam de crianças no CAPSi Zaldo Rocha em Recife no
período de 2013 a 2017. Adotou-se a como método a narrativa
etnográfica - observação participante – por causa da inserção do autor
como técnico na Rede de Atenção em Saúde Mental. A ideia surgiu nas
discussões clínicas dos casos com conotações negativas relacionadas ao
papel da masculinidade na vida das crianças. Todos os casos ditos
“fracassados” mantinham forte relação com a “ausência” do pai ou
conflitos relacionados. Culturalmente o cuidado às crianças fora
atribuído às mulheres e isso resultou no esvaziamento da participação
dos homens nesse processo. Admitir um papel próprio para o homem

462
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

nas relações de cuidado, exige a desorganização dos modelos de


cuidado, de masculinidades, das relações sociais, de poder que reforçam
a desqualificação da figura paterna, sobrevalorizam as ações de
masculidades alternativas favoráveis ao cuidado. Um grupo de homens
que cuidam de crianças foi proposto e passou compor o quadro de
atividades e aconteceu mensalmente, no terceiro turno. Utilizou-se a
terapia de base comunitária que proporcionou diálogos sobre
participação, promovendo e incentivando o compartilhamento de
experiências cotidianas inerentes as relações com crianças. O grupo
tornou-se uma oportunidade para os homens refletirem sobre si
mesmos, sobre suas habilidades no cuidado, aumentando a motivação
para dedicar mais tempo. Os temas eram definidos por eles e trataram,
desde situações envolvendo as crianças, até sentimentos, emoções e
sexualidade dos participantes. Emergiram discussões referentes à
educação das crianças, aos preconceitos enfrentados, dúvidas sobre as
medicações, desejo de que a criança se desenvolva, diagnóstico médico,
garantia dos direitos sociais, lazer para as crianças, culpa, religião e
conflitos. Há desejo de cuidar pela busca e maior participação. A equipe
técnica reconhece a relevância do trabalho e os resultados favoráveis
para o projeto terapêutico singular. As mulheres confirmam melhora
nas relações com os homens que participaram dos encontros.
Considera-se que esse modelo de intervenção potente para os CAPS
porque envolve os homens no cuidado como forma de prevenção da
violência, por promover equidade de gênero e fortalecer vínculos.

463
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Despatologização do sofrimento social como principal desafio à


desinstitucionalização na prática atual dos CAPS

Giovana Telles Jafelice


Camila Ávila de Lima
Adriana Carvalho Pinto
Prefeitura do Município de Jundiaí

Introdução: Inserido nas Políticas Públicas do país e na rede de serviços


intersetorial, o CAPS está, de forma inexorável, em diálogo com o
“sofrimento social”, solicitado atualmente na urgência de atender, para
muito além da psicose, a diversos tipos de vulnerabilidades, muitas
vezes encarnadas em transtornos mentais; Descrição da experiência:
Pretende-se pensar, de forma crítica, pela experiência de duas
trabalhadoras e uma gestora de um CAPS III Adulto, a demanda
crescente do CAPS como lugar de acolhida para o “sofrimento social”, a
partir da referência antropológica trabalhada por Pussetti e Brazzabeni
(2011), e a patologização produzida por estes discursos, que se
aproximam da lógica manicomial e institucionalizadora; Repercussões: A
partir da patologização do social, os CAPS, muitas vezes, acabam por
manter a lógica que pretendem combater, se aproximando de discursos
manicomiais e dando respostas sanitárias e normatizadoras a
fenômenos do campo social. Tal situação mantém os interesses
dominantes e o sofrimento localizado no sujeito, que segue sem poder
negociar sua condição de existência/ resistência e em lugar de objeto e
não sujeito das Políticas Públicas, o que pode causar iatrogenia sob a
égide do cuidado em Saúde Mental. Não nos faltam relatos de casos,
seja a mãe em situação de rua que não tem “estrutura emocional” para
cuidar dos filhos, o jovem transgressor que viveu entre abrigos e
adoções malsucedidas sob o paradigma do que “não se adapta” ou a
busca de moradia para aqueles que “ninguém quer”, dentre outras
situações, que, ao fim, evidenciam que, para os “desajustados
socialmente” – ou, ainda, para o sofrimento social - o que cabe,

464
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

comodamente, são intervenções em saúde mental. Atentos, e na defesa


da Reforma Psiquiátrica, observamos que, no lugar em que “tudo cabe”,
reproduz-se nos corpos dos sujeitos e em suas experiências certo lugar
social, isentando-se de reflexões da ausência das políticas de assistência
social, educação, habitação, cultura, trabalho e renda. Neste
movimento, colocam-se nos sujeitos as falhas e faltas, a partir das
violências diagnóstica, medicamentosa e institucional, muitas vezes
ratificadas também pelo sistema judiciário; Considerações finais: A
verdadeira desinstitucionalização hoje, no cotidiano dos CAPS, se dá
contra os muros invisíveis da patologização do social, fazendo-se
fundamental diferenciar o cuidado intensivo em Saúde Mental
necessário nos CAPS do sofrimento social. Os “saberes psi” não podem
ser os principais instrumentos de intervenção e cura nas situações de
pobreza e violência, uma vez que, usados de tal forma, apenas colocam
o sujeito em posição de assujeitamento, dificultando possibilidades
efetivas de reposicionamento e mudanças sociais. Enquanto os CAPS
continuarem dando respostas sanitárias às expressões da questão social
não terão conseguido se afastar da lógica manicomial.

465
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Dialogando Saúde do Trabalhador Junto a Sindicatos: Teoria e Prática

Maria Beatriz Franco de Medeiros


Thaís Augusta Cunha de Oliveira Máximo
Águida Dantas Fernandes de Sousa
Daniely Jéssica Tenório Santana
Maria Beatriz Franco de Medeiros
Vanda Benigna de Oliveira Patrício
Wesley Jordan Pereira da Silva
Universidade Federal da Paraíba

Este trabalho trata de um relato acerca de um projeto de extensão


vinculado à Universidade Federal da Paraíba que objetiva a promoção
de cursos interdisciplinares em saúde do trabalhador e saúde mental e
trabalho, voltados para sindicalistas. Busca-se com ele levar a esses
profissionais conhecimentos que visam desmistificar o que as diversas
áreas compreendem como atuação da psicologia do trabalho dentro da
saúde do trabalhador, favorecendo o reconhecimento e
estabelecimento do nexo entre saúde, trabalho e doença, e
incentivando o desenvolvimento de um papel ativo e auto reflexivo
desses profissionais em seu espaço de atuação, atentando-se ao cuidado
com a saúde mental em seu cotidiano de trabalho. Ancorado nas
proposições da Ergologia, este projeto produz conhecimento a partir da
relação entre os saberes acadêmico-científicos e os saberes complexos
decorrentes da atividade realizada. Organizado a acontecer síncrona e
remotamente em seis módulos mensais com o suporte da plataforma
Google Meet, cada encontro tem sua especificidade de tema (mundo do
trabalho e a situação dos sindicatos na atualidade; processo de
construção em saúde do trabalhador; saúde do trabalhador no SUS;
saúde mental e trabalho; acolhimento, escuta e intervenção; e
construção de um plano de ação). Assim, um ou mais especialistas
foram convidados para a mediação em conjunto com a professora-
coordenadora, promovendo um espaço privilegiado de debate e escuta.

466
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Ademais, com o suporte de outra plataforma, o Google Forms, pôde-se


identificar as diferentes filiações sindicais e ocupações profissionais dos
participantes, bem como o interesse por participar de profissionais de
saúde, gestão de pessoas e universitários não-sindicalistas. Como
reflexo do formato remoto adaptado à pandemia pela covid-19, a
abrangência do projeto expandiu-se para diversas áreas da Paraíba,
atraindo trabalhadores de cidades interioranas, contribuindo para a
formação de, em média, trinta participantes. Como proposta para o
encerramento do curso, os participantes serão incentivados a construir
um plano de ação para um contexto a escolher. Dessa forma, trata-se de
um projeto com característica intervencionista que oportuniza aos
extensionistas a prática de transformação da realidade através da
psicologia, contribuindo para a sua formação. Aos participantes,
possibilita a capacitação para atuar na prevenção, promoção e
intervenção em saúde do trabalhador e saúde mental e trabalho dentro
dos sindicatos e demais espaços de atuação. Para ilustrar os principais
resultados, falas dos formandos e especialistas denotam a relevância de
promover um espaço de formação pautado em diálogos e vivências, a
seguir: “O campo da saúde do trabalhador não é mais de submissão do
trabalhador ao capital, mas sim um campo de resistência, de se
constituir, de se fazer história”, em relação ao campo de saúde do
trabalhador como ferramenta de intervenção; “Quero aproveitar a
oportunidade para enfatizar sobre a importância e necessidade do
CEREST para os trabalhadores, mesmo com todos os limites impostos”,
reforçando a importância do encaminhamento de trabalhadores para os
setores especializados em saúde do trabalhador da rede SUS. O projeto
tem alcançado seus objetivos, promovendo um olhar crítico para as
questões de saúde e trabalho, bem como os valores de uma formação
empática, proativa e cidadã.

467
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Dialogando Sobre Controle Social E Participação Popular Para O


Protagonismo Dos Usuários Do Caps Ad De Caicó/RN

Raquel Sales de Medeiros


CAPS AD

Dulcian Medeiros de Azevedo


Universidade do Estado do Rio Grande do Norte

Maria do Rosário Santos


Vanessa Amâncio da Silva
Faculdade Católica Santa Teresinha

INTRODUÇÃO: A Lei nº 8.142/90 estabelece o direito à participação


social no Sistema Único de Saúde, através dos Conselhos e Conferências
de Saúde. Desta forma, independente da instância governamental, aos
usuários do SUS e toda sociedade é garantida a participação na gestão e
nas decisões relacionadas à política de saúde. No sentido da ampliação
dos direitos, a Reforma Psiquiátrica propôs mudanças nos valores que
norteiam o cuidado em saúde mental, atentando para os direitos dos
usuários, humanização, cidadania, inserção social, entre outros. Apesar
desses avanços, constitui-se um desafio o implemento do cuidado
integral em saúde, que viabilize não apenas o tratamento, mas que
oriente e reforce a autonomia e protagonismo dos usuários da saúde
mental no que se refere aos seus direitos e à participação social no SUS.
Neste sentido, percebeu-se a necessidade de desenvolver ações que
viabilizassem a discussão sobre direitos e deveres dos usuários do SUS,
na perspectiva da participação e do controle social, em um Centro de
Atenção Psicossocial de Álcool e Outras Drogas (CAPS AD) em Caicó/RN,
município que ainda carrega as marcas de um sistema político
assistencialista, onde por vezes a saúde constitui-se moeda de troca
para as eleições. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: Entre os meses de janeiro
e fevereiro de 2020, com o objetivo de iniciar e incentivar a discussão

468
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

sobre esta temática no CAPS AD, em articulação com profissionais da


Residência Multiprofissional em Atenção Básica e alunas estagiárias de
Serviço Social, inicialmente foi exposto numa atividade cotidiana do
serviço chamada “Bom dia, CAPS!”, o significado de controle e
participação social, a fim de discutir e perceber o interesse dos usuários
na discussão. Observado o interesse, com o surgimento de dúvidas e
relatos sobre o assunto, decidiu-se utilizar o momento da atividade que
consistiu em rodas de conversa sobre assuntos diversos, para
concretização das discussões. Foram realizadas cinco rodas de conversa
com a média de 10 a 15 participantes, nas quais se discutiu sobre
“Saúde como direito”; “Sistema Único de Saúde: direitos e deveres
dos/as usuários/as”; “Participação e Controle Social”; “Ferramentas de
participação e controle social”; “Conselhos de Saúde”; todos com auxílio
de vídeos, imagens, produção de cartazes e respostas de palavras
cruzadas. REPERCUSSÕES: Observou-se o interesse dos usuários nas
discussões, uma vez que expressaram a importância de (re)conhecerem
seus direitos e que a saúde não pode ser negociado por estratégias
políticas, bem como o incentivo à participação nas reuniões do Conselho
Municipal de Saúde, expressando a noção de pertencimento e
responsabilidade para com o serviço, as ações e o cuidado em saúde de
uma forma mais ampla. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Ainda que a formação
política seja ausente para alguns usuários, é imprescindível desenvolver
estratégias que, no cotidiano dos serviços de saúde mental, permitam a
desconstrução da ideia do “irracional”, da “passividade”, da
“incompreensão” entre os usuários. Dialogar sobre saúde na perspectiva
do direito é permitir o protagonismo dos usuários não só diante do seu
tratamento e cuidado em saúde, mas da sua participação política e
social.

469
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Diferentes perspectivas de atuação em saúde mental

Jamille Kássia da Silva Cardoso


UFRPE - Universidade Federal Rural de Pernambuco

Luísa Marianna Vieira da Cruz


Autarquia Educacional de Serra Talhada - AESET

Constantino Duarte Passos Neto


Escola de Saúde Pública do Ceará – ESP/CE

Milene Magalhães de Lima


Colégio Único

José Victor Lima Braga


Faculdade São Francisco da Paraíba - FASP

Daniele Veloso de Menezes


Daiana da Silva Carvalho
Faculdade de Integração do Sertão – FIS

Introdução: A Reforma Psiquiátrica prega a desinstitucionalização. Esta


envolve a desconstrução do modelo hospitalocêntrico não calando as
vozes que sofrem e atuando com o intuito da promoção de autonomia e
protagonismo dos envolvidos. Ademais, pontua a necessidade de um
cuidado humanizado, que não “coisifique” o usuário acreditando que
seu corpo é uma “máquina” que necessita de reparos- remédio.
Descrição da experiência: No dia a dia do serviço, as demandas se
voltam aos profissionais da equipe técnica, que é composta por
profissionais de várias áreas. Todos realizam acolhimento em saúde
mental fazendo os encaminhamentos necessários. Essa prática requer
conhecimento da Reforma Psiquiátrica e de seus fundamentos, para que
seja realizada uma prática humanizada que não e repita o modelo

470
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

hospitalocêntrico, perpetuado, ainda, por alguns profissionais de saúde.


O objetivo deste relato é repensar as práticas em Saúde Mental para
considerar a saúde como complexidade, envolvendo aspectos sociais,
econômicos, históricos, culturais evitando reduzi-la ao viés organicista,
onde só o médico pode fazer algo pelo usuário. Repercussões: Os
resultados revelam que ainda existe uma ambiguidade nas práxis, que
oscila entre uma prática de cuidados humanizados, envolvendo o
resgate da condição de cidadania, e o ideal da abstinência. Essa postura
reflete-se no funcionamento do sujeito, que ora mostra-se empoderado
frente a sua vida e ora busca uma posição de dependência, seja da
equipe, da família ou de um outro disponível a essa dinâmica. Por fim,
concluímos que o sujeito deve ser analisado a partir de um viés
multifatorial para que a ação resulte em promoção de saúde e
cidadania. Considerações finais: Ao considerarmos que os princípios da
Reforma Psiquiátrica solicitam uma reavaliação quanto aos princípios e
práticas, novas alternativas ainda podem se transformar em velhas
ações quando não são vividas, mas somente conhecidas. Ao vivenciar a
prática da Saúde Mental, se faz necessário considerar a importância do
usuário ser tratado em liberdade, a reinserção social, uma prática de
cuidados humanizados e o resgate da condição de cidadania.

471
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Direitos Humanos e Imigração Venezuelana: um trabalho voluntário


junto aos venezuelanos em Roraima, Brasil

Talitha Lúcia Macêdo da Silva


Universidade Federal de Roraima - UFRR

Halaine Cristina Pessoa Bento


Universidade Federal do Ceará - UFC

Desde 2015, Roraima - Brasil, por estabelecer fronteira com a


Venezuela, vem, de modo crescente, sendo via de ingresso de
venezuelanos em terras brasileiras. A crise política, econômica e social
que afeta o país bolivariano impulsiona a imigração por sobrevivência.
Sendo assim, o Brasil tem sido um país procurado por imigrantes que
deixam a sua terra natal em busca de melhores condições de vida.
Porém, este não oferece, ainda, estrutura satisfatória e políticas públicas
para receber um alto contingente imigratório de modo adequado. Esta
situação, cria dificuldades que vulnerabilizam, ainda mais, famílias,
crianças, gestantes e idosos. Tais necessidades consistem no acesso à
moradia, alimentação, trabalho, educação e serviços de saúde. Outra
adversidade imposta é a vivência de situações xenofóbicas advindas de
uma parte da população roraimense que não estava preparada para as
mudanças provocadas pela imigração no estado. Diante deste contexto,
construiu-se um projeto intitulado: Voluntariação, com o objetivo
primeiro de possibilitar melhores condições de vida à população
venezuelana residente em Roraima e garantir, assim, o acesso a direitos
que são inerentes a todo ser humano. O desenvolvimento de tal
trabalho, promoveu responsabilidade social junto à comunidade
acadêmica envolvida, formando profissionais que possam atuar no
desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária, que
proporcionasse condições de acesso a direitos como de educação,
trabalho, liberdade de opinião e expressão, acesso à saúde, cultura,
lazer, dentre outros. Assim, o projeto desenvolvido pela Universidade

472
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Federal de Roraima (UFRR) com estudantes do curso de Psicologia,


Medicina e parcerias, em um primeiro momento, fez um levantamento
das necessidades apresentadas. Em outro, realizou avaliação da
situação, planejamento das intervenções e, por fim, mobilização de
instituições para realização das ações. Os trabalhos apresentaram como
foco: promoção de saúde, espaço para expressão artística e cultural.
Criou estratégias socioeducativas/lúdico-pedagógicas para a intervenção
com crianças e jovens, oportunizou o acesso ao trabalho e proporcionou
condições que atuaram na preservação da vida em sua potencialidade e
plenitude. Desse modo, com base na realidade vivida pelos imigrantes
venezuelanos em Roraima, as ações voluntárias auxiliaram na redução
dos agravos sociais, de saúde e psicológicos. Nesse sentido, ao formar
vínculo com os cidadãos venezuelanos, os acadêmicos compreenderam
melhor esta realidade, a partir do contato com as suas experiências nas
ruas, praças e abrigos instalados na capital do estado de Roraima.
Entendendo, assim, as problemáticas sociais, culturais e políticas pelas
quais o imigrante venezuelano passa no Brasil. Por fim, o projeto
proporcionou um contato humanizado com as histórias e singularidades
dos sujeitos, entender suas lutas diárias de sobrevivência ao imigrar da
Venezuela para o Brasil e auxiliar nos mecanismos de adaptação e
resistência nos trabalhos voluntários.

473
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Direitos Humanos, Redução de danos e Cuidado Territorial através do


Consultório na Rua para Juventude Índigena Warao refugiada em
Belém-Pa

Samuel Freire Furtado


HCGV

Dandara Rodrigues Martins


Fundação Papa João XXIII

Ana Cláudia Pithan Faleiro


Rayara Pamela Nunes da Trindade
Universidade Estadual do Pará

Vitor Nina de Lima


Rita do Socorro Sousa Rodrigues
Consultório na Rua

O Consultório na Rua (CnaR) é um dispositivo instituído pela Política


Nacional da Atenção Básica desde 2011. Este serviço visa ampliar o
acesso da população em situação de rua aos serviços de saúde. Através
de atendimentos individuais e em grupo, percebeu-se a potencialidade
de estabelecer ações intra e intersetoriais na perspectiva de promover a
proteção da juventude refugiada no território de abrangência do abrigo.
Diante disso, está em execução o Projeto “A bicicleta é o meu Refúgio”,
a qual tece estratégias na lógica do cuidado territorial por meio de ações
voltadas à inclusão e educação em saúde frente a situação da exclusão
socioespacial em situação de refúgio. Resultado de crises econômicas,
sociais e políticas em países vizinhos, impeliram muitas pessoas a
procurarem novo lar no Brasil, segundo dados da ACNUR, há mais de 4,5
mil refugiados indígenas em território brasileiro. Belém acolheu cerca de
10% deste contingente. Neste contexto, a vulnerabilidade social, o
estigma e o preconceito étnico intensificam problemas relacionados à

474
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

saúde mental, tal como o uso e abuso de substâncias, a violência


doméstica e demais fatores de risco que conferem a complexidade das
demandas que exigem respostas intersetoriais e integradas no âmbito
do Sistema Único de Saúde. No abrigo e redondezas, a juventude utiliza
as bicicletas para atividades diárias que, para as crianças, faz parte do
brincar; e para os jovens e adultos, locomoção e fazeres cotidianos,
além das idas aos serviços públicos, aos locais de compras e passeios.
Como protagonistas dessas ações, reivindicam qualidade de vida no
contexto de refúgio, ao qual incluem as bicicletas na promoção de
cuidado.
Objetivo: Descrever estratégias de cuidados territoriais para jovens
refugiados da etnia Warao na perspectiva da Redução de Danos e dos
Direitos Humanos através do Consultório na Rua no Município de Belém.
Descrição da Experiência: Trata-se de um estudo descritivo do tipo
relato de experiência, vivenciado por equipe multiprofissional de
residentes do programa de atenção à saúde mental durante o período
de Novembro e Dezembro de 2019, em um serviço de saúde, o
Consultório na Rua (Cnar). Tal equipe foi composta por enfermeira,
professor de Educação Física, terapeuta ocupacional, psicóloga,
nutricionista e assistente social. E, dentre as diversas atividades
desenvolvidas pelos profissionais, tem-se a sistematização e assessoria
do projeto, a efetivação de reuniões, as articulações intra e inter
setoriais, com o alcance do Coletivo Pará Ciclo e do Programa
Universidade Popular em Direitos Humanos na UFPA. Ademais, a
realização dos passeios ciclísticos matriciais e de educação em saúde,
com ênfase na Redução de Danos e no Direito à Cidade. Repercussões e
considerações finais: Dessa maneira, a convivência gerada pela bicicleta
articulada a estratégias de Redução de Danos fortalece a possibilidade
de acesso às políticas públicas com base no território, visando à
conquista de inclusão e construção do local de cidadania desta
população. Portanto, ratifica-se a importância da promoção e do
fortalecimento de vínculos e protagonismo frente à exclusão

475
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

socioespacial das vivências e conquistas da juventude indígena Warao


que incorpora o direito à ampliação de cuidados em saúde.

476
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Discussões acerca das desigualdades raciais e de gênero com


usuários/as do CAPS AD Prof.º José Lucena em Recife/PE

Catharina Cavalcanti de Melo


UFPE

Wanessa da Silva Pontes


CAPS AD Prof.º José Lucena

Objetiva-se nesse trabalho compartilhar a experiência do Plano de


Intervenção, aplicado através do estágio curricular obrigatório em
Serviço Social, no CAPS AD Professor José Lucena, pensado e facilitado
pela graduanda em conjunto com a Supervisora de Campo. Trata-se de
um estudo descritivo que relata a experiência de oficinas em grupo
terapêutico. A estratégia de construção das oficinas foi pensada
considerando a iminente necessidade de abordar temáticas
enquadradas nas questões de gênero/raça, relacionadas ao uso de
álcool e outras drogas, visando promover orientação, interação e debate
entre os/as usuários/as. As oficinas contaram com a participação dos/as
usuários/as que compõem o grupo Cidadania e Formação Política,
facilitado pela supervisora de campo, estagiária e convidados/as,
estudiosos/as e militantes de diversos coletivos e movimentos, o que
possibilitou articulações entre o serviço substitutivo e movimentos
sociais. Foram realizadas quatro oficinas diferentes em que foram
abordadas as temáticas: “Gênero e questão étnico-racial”,
“Masculinidades” e “Identidades de gênero”. Cada oficina foi constituída
em três momentos, primeiro, um momento de apresentação das
pessoas presentes e introdução das temáticas a serem abordadas,
através de roda de diálogo, dinâmicas e/ou cine-debate; segundo, a
exposição dialogada e mais aprofundada acerca do tema a ser
trabalhada pelos/as facilitadores/as e usuários/as, elucidando questões
necessárias no debate e sensibilizando os/as participantes a fazerem
reflexões que, dentro do tema proposto, atravessam as suas vidas das

477
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

mais variadas formas. Considerando também as especificidades da


vivência de cada usuário/a e o contexto em que se encontram
inseridos/as, sendo estes resultantes de processos excludentes de
desigualdade social, de raça e gênero adequadas ao modelo capitalista;
e, por último, um momento mais propositivo onde pensava-se
propostas e estímulos para transformação, visando a promoção do
protagonismo, reinserção e construção de autonomia dos/as
usuários/as, contribuindo para o processo de conhecimento sobre si e
sobre o outro no cerne das estruturas de opressão. As temáticas das
oficinas eram planejadas a partir de manifestações de inquietudes das
oficinas anteriores. A priori a intuito era construir e fortalecer a
interação entre as mulheres inseridas no serviço, trazendo
problemáticas que contornam a vida das mulheres usuárias de álcool e
outras drogas, contudo essa intenção mostrou-se inviável diante do
tempo e percalços que envolviam a construção de um grupo apenas de
mulheres no tempo proposto para o Plano de Intervenção do estágio.
Ainda assim, a experiência de um grupo misto trouxe resultados e
reverberações interessantes para os usuários/as que participaram, bem
como, para a ação profissional no serviço. Observou-se que o espaço foi
provocador, tocando em questões subjetivas dos participantes que
problematizaram vivências e experiências próprias circundadas às
problemáticas discutidas como machismo, racismo, violência contra
mulher, paternidade, orientação sexual e preconceitos. Sendo assim, a
experiência foi enriquecedora para todos/as os/as envolvidos/as no
processo.

478
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Discutindo o Uso de Substâncias Psicoativas (SPA’s) na Escola de


Negócios da Universidade Salvador/BA: Práticas Realizas na Disciplina
de Estágio Básico II

Amanda Dos Santos Lima


Diele Santos
Universidade Salvador - UNIFACS

A Redução de Danos (RD) é uma política pública regulamentada na lei


11.343/06, que busca minimizar consequências adversas do consumo de
drogas do ponto de vista da saúde e seus aspectos socioeconômicos,
sem necessariamente diminuir esse consumo. Partindo dessa premissa,
no ano de 2017 foi realizado o estágio básico II, na escola de negócios da
Universidade Salvador (UNIFACS) que teve como base teórica a RD e
objetivou-se em compreender o sujeito biopsicossocial inserido nas
práticas em saúde mental, discutir questões contemporâneas
relacionadas ao consumo e aos consumidores de substâncias psicoativas
(SPA’s) - álcool, tabaco, medicamentos, cannabis, substâncias sintéticas,
disseminar estratégias de prevenção e cuidados na perspectiva da RD.
As atividades práticas do estágio foram ministradas por alunos do curso
de psicologia, com propósito de associar teoria e pratica da redução de
danos, a escolha da escola de negócios como campo de pratica foi
baseada na necessidade de fazer com que a discussão sobre RD
ultrapassasse as fronteiras do campo da saúde, uma vez que, um dos os
ideais da Redução de Danos é promover ações de prevenção e
promoção em saúde para o maior número de pessoas. Buscando o
melhor desenvolvimento do estágio ele foi dividido em duas etapas,
primeiro a capacitação teórica dos alunos que conduziram as atividades
a respeito das temáticas: tecnologias leves, metodologias ativas, saúde
mental, redução de danos e substâncias psicoativas, em seguida a
construção de material físico, dentre eles estavam jogos, oficinas
temáticas e dinâmicas que abordavam, cuidados a saúde mental, a
utilização indiscriminada de medicamentos, uso medicinal da cannabis,

479
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

mitos e verdades a respeito do uso de álcool e outras drogas, entre


outros, esse modelo de condução do estágio viabilizou o diálogo entre
os alunos das distintas áreas que compõem as escolas de negócios e
saúde da UNIFACS. O feedback a respeito das práticas de cuidado que
eram desenvolvidas nas atividades foram quase que imediatos e em sua
maioria positivos, além do evidente entusiasmo, interesse e curiosidade
dos estudantes da escola de negócios pelo modelo lúdico com que eram
conduzidas as práticas, o que consequentemente proporcionou maior
divulgação do projeto e aumento continuo no número de participantes,
evidenciando a formação de vinculo, importância e eficiência da
utilização das metodologias ativas nas práticas de cuidado em saúde. A
experiência proporcionou aos estudantes dos diversos cursos, o
intercâmbio de conhecimentos, demonstrando que nenhum trabalho
realizado sozinho será tão eficiente quanto o trabalhado feito em
conjunto e como estes contribuem para uma formação ampliada,
indicando que, independente da área de atuação, é possível prestar um
serviço de atenção integral e humanizada no que tange a saúde
biológica e mental, evidenciando também a necessidade do diálogo cada
vez mais frequente entre os cursos universitários e profissionalizantes
com intuito de efetivar a multidisciplinaridade da atenção em saúde.

480
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Dispositivo Clínico do Espaço de Expressão: Trilhas Afetivas

Jackson Pereira Cardoso


Uilames Lazaro da Silva
Fernando Rodrigues
Rita de Cássia Maciazeki-Gomes
Universidade Federal do Rio Grande

Este trabalho tem como intenção apresentar as cartografias realizadas


nos dois anos do dispositivo clínico do Espaço de Expressão (EE). O
relato se justifica de modo a produzir novas pistas teórico-práticas sobre
as clínicas coletivas. O EE está vinculado ao curso de Psicologia e ao
Grupo de Estudos em Saúde Coletiva dos Ecossistemas Costeiros e
Marítimos (GESCEM), da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).
Emerge em 2018, a partir do primeiro encontro do evento Saúde Mental
e Direitos Humanos: Produzindo Estratégias de Cuidado em Rede, que
teve como objetivo discutir e fortalecer as políticas públicas de Saúde
Mental, defendendo e demarcando um posicionamento ético-estético-
político do cuidado em liberdade. O EE foi desencadeado por uma
sugestão de um sujeito da vida, neste caso usuário dos serviços de
Saúde Mental do município de Rio Grande/RS, que relatou e convocou a
necessidade da criação de espaços comuns, de circulação e movimento,
para a troca de experiências mediadas pela arte, privilegiando a
multiplicidade dos encontros e dos acontecimentos inusitados.
Agenciados por tal provocação e apostando nos desvios, nas linhas de
fuga e na arte como possibilidade libertadora, estamos fazendo e
criando o EE, que se conduz através do lúdico, da criatividade e das
diversas formas de expressão. Os primeiros encontros aconteceram no
Centro de Convivência da Universidade, um local de circulação e
integração de diferentes pessoas de diferentes cursos, expandindo-se
para o prédio do curso de Psicologia e logo em seguida chegamos aos
locais de manifestações sociais, como o Setembro Amarelo, Novembro
Negro, primeira mateada LGBTQI+ da cidade, passeatas antifascistas e,

481
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

mais adiante, em uma Unidade Básica de Saúde da Família. Embora


ensejemos algumas ideias norteadoras para as ações, nós nunca
sabemos quais pessoas vamos encontrar, quais coisas vão acontecer ou
que linha o dispositivo tomará, entramos em agenciamento com os
fluxos afetivos na imanência do momento. As ações deste dispositivo
produzem o imperativo de se colocar à disposição e se abrir ao encontro
com o outro, com o inusitado na produção de bons encontros. Neste
sentido, o EE se constitui como uma ação de extensão em construção,
aberta e flexível às demandas que emanam de cada encontro, sempre
fecundo, inusitado e rizomático. Agora, nesses tempos em que pululam
as pandemias, o EE tem sido instigado a pensar e produzir
experimentações e estratégias de cuidado coletivos/comunitários nos
meios virtuais, colocando novos problemas e demonstrando outras
possibilidades e potências afetivas. Entre os impactos deste dispositivo
podemos pontuar o efeito na formação de estudantes de Psicologia ao
proporcionar experiências clínicas mais horizontais que extrapolam o
setting tradicional, além de aliar discussões inter relacionadas com
outras áreas do conhecimento, compondo práticas interdisciplinares
com as Artes, Letras, Enfermagem, Educação Física e outras linhas e
traçados. São experiências que permitem repensar, a todo instante, qual
o lugar da Psicologia nos processos de cuidado coletivo, a partir de uma
perspectiva dialógica e agregadora, abrindo mão de protagonismos e
saberes hierarquizantes, auxiliando movimentos profícuos que
perpassam e subvertem os engessados muros acadêmicos em direção às
trilhas viscerais de afeto.

482
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Do direito ao CAPS ao direito a ficar em casa: reflexões a partir da


reorganização de um CAPS III na pandemia

Camila Ávila de Lima


Giovana Teles Jafelice
Adriana Carvalho Pinto
Prefeitura do Município de Jundiaí

Introdução: Diante da pandemia de COVID-19 desde março de 2020 no


Brasil, foram necessárias reorganizações na rotina de atendimento nos
CAPS. Os usuários, antes estimulados a frequentar o serviço a partir de
PTS para cuidado intensivo, foram bruscamente orientados a ficar em
casa, como medida principal de prevenção a COVID-19, o que colocou
diferentes questões sobre novas formas de cuidar em Saúde Mental;
Descrição da experiência: Assim como em diversos equipamentos do
país, foram feitas, dentre outras, mudanças no atendimento no CAPS III,
com a suspensão das oficinas, grupos terapêuticos e ambiência do
serviço, monitoramento telefônico dos atendimentos de referência
técnica quando possível, priorização de atendimentos individuais e
visitas domiciliares. Nesta apresentação, enfoca-se o cuidado dos
usuários que frequentavam o serviço em PTS intensivo, vinculados de
forma cotidiana à ambiência e oficinas e grupos terapêuticos, e a
reorganização possível no período da pandemia, no viés do direito a
ficar em casa. Muitos destes, pessoas cujas famílias também tinham
demandas de que frequentassem o serviço diariamente há anos, por
dificuldades de organização na rotina, além de quadros crônicos e
necessidade de socialização; Repercussões: Diferente do esperado
inicialmente pela equipe, a maioria destes usuários não entrou em crise
durante o período, não demandando suporte de hospitalidade noturna
no CAPS e/ou acompanhamento presencial intensivo. Ao contrário,
passaram por nova experiência de reorganização de sua forma de
existência, de ser e pertencer, não só ao espaço doméstico, mas
também às relações familiares. As famílias, por sua vez, também não

483
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

fizeram movimentos, habituais anteriormente, de solicitação das


atividades e do espaço do CAPS. De forma inédita, se organizaram
diante das limitações, o que nos convidou a pensar na importância do
CAPS como suporte simbólico do cuidado, para além de lugar físico, bem
como na figura da referência técnica como empréstimo do eu e eu
internalizado também à distância. A emergência dos CAPS no Brasil
significou concretamente o cuidado intensivo em saúde mental a quem
viveu anos de suas vidas dentro de instituições totais. Cumprindo sua
primeira função social, os CAPS intermediaram cuidado diário em
conjunto com as famílias. Muito usuários conquistaram o direito de “ir e
vir”, no entanto, em algumas situações, o cotidiano se limitava à
inserção diária prolongada no CAPS e a noite em casa, “para dormir”. A
emergência do COVID e a prescrição “fique em casa!”, permitiu, ainda
que em cenário adverso, que estes sujeitos pudessem habitar suas
moradias e conviver com suas famílias, o que trouxe novas experiências
e configurações, com conflitos, repercussões e vivências possíveis;
Considerações finais: A pandemia ainda não acabou, mas “o direito a
ficar em casa”, já produziu mudanças em muitos usuários e famílias
atendidos no CAPS. Espera-se poder repensar a retomada gradual das
atividades coletivas e a clínica do serviço a partir destes
reposicionamentos inéditos.

484
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Do Isolamento à Cogestão: a Gestão Autônoma da Medicação (GAM)


com Familiares

Letícia Maria Renault de Barros


Universidade de Coimbra

Introdução: Este trabalho trata da experiência do grupo GAM com


familiares de usuários de medicamentos psiquiátricos. A GAM (Gestão
Autônoma da Medicação) é uma abordagem canadense que discute de
forma crítica o uso da medicação psiquiátrica nos tratamentos em saúde
mental, de modo a fomentar a autonomia dos usuários desses
medicamentos. No Brasil, entendemos que, apesar de todos os avanços
da Reforma Psiquiátrica, o uso de medicamentos ainda é pouco
debatido. Frequentemente, os medicamentos ocupam o lugar central no
tratamento ou são até mesmo entendidos como a única forma de
tratamento disponível. Nesse cenário, os usuários têm baixa
participação e poucas possibilidades de escolha quanto ao uso (ou não)
desses medicamentos. Esse contexto configura um “ponto cego” da
Reforma Psiquiátrica. A GAM foi trazida ao Brasil para enfrentar esse
cenário e ser uma ferramenta de cogestão, promovendo a ampliação da
autonomia na relação com os medicamentos psiquiátricos. O “projeto
GAM-BR” realizou a tradução, adaptação e validação do instrumento
utilizado nessa abordagem (o Guia GAM) através de uma pesquisa-
intervenção participativa, realizada por universidades brasileiras em
parceria com Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Inicialmente no
projeto, realizamos grupos de intervenção (grupos GAM) com usuários
dos serviços, trabalhadores e universitários, sendo que todos os
participantes do grupo tinham o estatuto de pesquisadores.
Posteriormente, na fase de validação do Guia na Universidade Federal
Fluminense, passamos a realizar também grupos GAM com
trabalhadores, universitários e familiares de usuários – é essa
experiência, do grupo GAM com familiares, que gostaríamos de discutir
aqui.

485
Anais do 7º Congresso da ABRASME... [Esta é uma versão preliminar]

Descrição da experiência: Durante as primeiras etapas da pesquisa-


intervenção participativa, percebemos que os familiares desempenham
um papel chave na gestão dos medicamentos. Na maioria dos casos com
que lidamos, eles tinham uma participação fundamental nas decisões
ligadas aos medicamentos, cuidando dos horários das medicações,
buscando as prescrições nos serviços de saúde, medicando seus
parentes em momentos de crise… Além disso, os familiares tendiam a
experimentar muita angústia diante da proposta da GAM, por sentirem
que os medicamentos minimizavam a sensação de isolamento e temor
que sofriam diante de possíveis crises e das dificuldades no cuidado de
seus parentes (na maioria das vezes, seus filhos). Portanto, não nos foi
possível pensar (e transformar) a relação entre “autonomia” e “uso de
medicamentos” sem os familiares. Apesar do Guia GAM ser dirigido aos
usuários, decidimos em nossa pesquisa-intervenção trabalhá-lo também
com os familiares, criando um Grupo de Intervenção com os Familiares
(o GIF). No GIF, discutíamos o Guia adotando diferentes pontos de vista,
compartilhando vivências concretas.
Repercussões e considerações finais: Pretendemos discutir nesse
trabalho a experiência com o GIF e as compreensões que ele nos
proporcionou a respeito da ideia de autonomia e da participação dos
familiares na produção de saúde mental. O GIF permitiu que
entendêssemos a autonomia não como independência ou isolamento,
mas como autonomia coletiva e como ampliação das redes de cuidado
mútuo. O fomento à participação e à autonomia envolve também os
familiares, em uma dinâmica de expansão e de contágio criadora de
uma rede onde cuidar e ser cuidado são experiências inseparáveis.

486
Ana Paula Freitas Guljor, João Mendes de Lima Júnior... (Organizadores)

Do trabalho uniprofissional para o trabalho colaborativo:


desorganizado a psiquiatria para (re)organizar a saúde mental

Luciana Silvério Alleluia Higino da Silva


Cintia Moreira de Souza
Fernanda Fortini Macharet
Universidade Federal do Rio de Janeiro

O trabalho colaborativo em saúde surge como proposta para a


construção de um cuidado ampliado, singular e integral. O princípio da
integralidade no âmbito do SUS, presente na Lei 8.080/1990, constitui-
se como um norteador importante para a ampliação do olhar sobre o
complexo binômio saúde-doença. Compreende-se que qualquer
processo de adoecimento é marcado por inúmeras mediações,
individuais e coletivas, que exigem intervenções igualmente múltiplas,
pautadas em diferentes saberes e perspectivas profissionais. No campo
da saúde mental, em particular, tal exigência é ainda mais sensível, uma
vez que, historicamente, o saber psiquiátrico tradicional imprimiu - e, a
despeito das conquistas do Movimento de Reforma Psiquiátrica no
Brasil, segue imprimindo - uma visão hegemônica pautada
exclusivamente na doença, que desconsidera a complexidade d