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SACRÁRIO

Encontros com Jesus

MARIA STELLA SALVADOR

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Imprimatur

† D. Serafim Ferreira Sousa e Silva


Bispo Emérito de Fátima
Paginação e Capa:
Departamento Gráfico PAULUS

Impressão e Acabamento:
Publidisa

Depósito Legal n.º 251 899/06

ISBN: 978-972-30-1222-4
2.ª edição: Novembro de 2010
3.ª edição: Março de 2011
© PAULUS Editora, 2007
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A Oração Mais Querida

Contra-capa:
A Ave-Maria é, depois do Pai-nosso, a oração mais conhecida e mais
querida dos católicos da Igreja do Ocidente. Dizer uma Ave-Maria é, para
nós, o modo mais simples para nos determos um pouco em recolhimento
silencioso na presença do Senhor, para derramarmos no coração de Deus as
nossas preocupações ou a nossa angústia, valendo-nos do auxílio poderoso e
materno da Virgem Maria. As páginas deste livro, na sua profundidade e
proximidade, com a citação frequente da Palavra de Deus e as numerosas
referências teológicas, ajudar-nos-ão a recitar a Ave-Maria com maior
confiança e conhecimento.
O Padre Cesare Falletti, depois de alguns anos passados em Turim, como
vice-director do Seminário, ingressou na Ordem Cisterciense em 1971 no
mosteiro de Lérins (França). Desde 1995 é Prior do mosteiro Dominus
Tecum de Pra’d Mill em Bagnolo (Cúneo), Itália.
Do mesmo autor:
Eucaristia

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Dedicatória
Virgem, Mãe de Jesus e minha Mãe, a Ti dedico este livro, confiando-o à
tua protecção.
Tu, que foste o primeiro Sacrário que existiu, és quem melhor nos pode
ensinar a viver perto de cada Sacrário, onde se esconde o teu bem-Amado
Filho, à espera da nossa adoração.
Tu, que foste Aquela que primeiro adorou o Verbo encarnado no teu seio,
e depois do seu Nascimento, ensina-nos agora a entender as lições que saem
do Sacrário de cada uma das nossas igrejas e capelas. Ensina-nos a adorar
e amar Aquele que ali habita, no meio do nosso esquecimento e das nossas
ingratidões.
Torna-nos almas adoradoras, fiéis àquilo que Jesus quer de cada um de
nós.
Concede a todos os que lerem este livro as tuas bênçãos de Mãe, e as
graças de que necessitam para cada dia avançarem mais no caminho da
união com Jesus.
Maria Stella Salvador

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PREFÁCIO
Ao longo dos séculos, a Igreja e, de um modo particular, muitos santos e
místicos, centraram no Sacrário a sua atenção amorosa, a sua adoração, o seu
diálogo, pois sempre acreditaram que aí está Jesus.
O Papa João Paulo II, na Carta Apostólica “Fica connosco, Senhor” (Mane
nobiscum Domine), afirma o seguinte:
“A presença de Jesus no sacrário deve constituir como que um pólo de
atracção para um número cada vez maior de almas enamoradas d’Ele,
capazes de permanecer longamente a escutar a sua voz e, de certo modo, a
sentir o palpitar do coração: ‘Saboreai e vede como o Senhor é bom (Sal
34,9)’… Que esta adoração fora da Missa se torne, durante este ano, um
compromisso especial para cada uma das comunidades paroquiais e
religiosas. Permaneçamos longamente prostrados diante de Jesus presente
na Eucaristia, reparando com a nossa fé e o nosso amor as negligências,
esquecimentos e até ultrajes com que o nosso Salvador está sujeito em tantas
partes do mundo” (nº 18).
Este livro, que o leitor tem na mão, é um modo excelente de ajudar a
dialogar com Jesus Eucaristia. A autora, já bem conhecida por muitos,
através dos seus outros livros, brinda-nos agora com este, em forma de
diálogo entre Jesus no Sacrário e a pessoa que reza, ajudando-nos a escutar
Jesus e a conversar com Ele.
O título do livro, “Sacrário”, já nos indica que é d’Ele, de Jesus, Deus e
Homem verdadeiro, que se trata, pois a nossa fé continua a dizer-nos que é
Ele que está em cada sacrário do mundo.
Falar em sacrário é falar em Jesus, o Amigo, o Salvador, o Redentor, o
Bom Pastor, o Bom Samaritano, o Médico Divino, Aquele que é repouso e
refúgio, fonte de paz e de santidade.
Em trinta e um capítulos, que nos centram sempre no sacrário, ou melhor,
em Jesus presente no sacrário, a autora faz--nos contemplar o sacrário como
trono, como refúgio, como abismo, como silêncio, como oração, como luz,
como remédio, como doçura, como fonte, como contemplação, etc. De
capítulo em capítulo, somos conduzidos ao diálogo orante com Jesus,
primeiro escutando-O, depois formulando oração, prece, adoração,
contemplação, etc.
Dum modo simples e acessível, muito espiritual, a autora tem a arte de nos
ajudar a rezar e a entrar em comunhão orante com Jesus Eucaristia.
Se o primeiro sacrário da história, como afirmou o Papa João Paulo II, foi
o seio virginal de Maria, se a primeira procissão do Corpo de Deus foi a

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viagem de Belém a Judá, quando Maria foi visitar sua parenta Isabel, a
Senhora, a Mulher eucarística é o modelo das nossas comunhões e das
nossas adorações. Com Ela poderemos sempre, mais e melhor, adorar,
reparar, contemplar Jesus Eucaristia, o fruto bendito do seu ventre sagrado.
Que a Mãe da Eucaristia, a Senhora do SS. Sacramento, a Mãe do Pão do
Céu, nos ajude a estar diante do Sacrário para, ao jeito d’Ela, contemplarmos
seu Filho Jesus Cristo.
Desejo muito que estas belas páginas ajudem muitos cristãos a entrar em
diálogo com Jesus Eucaristia. Dou os parabéns à autora, Maria Stella
Salvador, por mais este livro, com um cariz tão eucarístico, próprio do Ano
da Eucaristia que celebramos. Mas como a Eucaristia é o centro e o cume da
vida da Igreja, este livro será sempre actual, pois nos centra em Jesus
Eucaristia, presente em milhões de sacrários da terra, esperando a nossa
companhia, com sede da nossa presença, da nossa oração, da nossa amizade,
do nosso tempo, do nosso coração.
Pe. Dário Pedroso, S.J.
1 de Julho de 2005

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SACRÁRIO – TRONO
Querida alma, tu já viste muitos sacrários. Já viste sacrários grandes e
pequenos, simples e elaborados, alguns até riquíssimos. Já viste sacrários que
te tocaram a piedade, outros que te deixaram triste pelo seu aspecto frio e
duro. Tens visto até muitos pelas montras das casas que vendem artigos de
liturgia.
Será por isso que o sacrário é muitas vezes para ti apenas visto como um
ornamento da igreja? Será uma espécie de móvel decorativo, uma caixa mais
ou menos decorada, em frente da qual alguns fazem umas vénias
atrapalhadas, porque é costume?
E porque é que se estabeleceu esse costume, alguma vez o perguntaste ao
menos a ti própria? Tiveste alguma vez curiosidade de o saber? Tu própria
algumas vezes fazes ou fizeste essas vénias?
Ser costume não é resposta conveniente e tu não deves deixar nunca que
um costume te obrigue a fazer alguma coisa que não sabes para que serve.
Deves sempre saber o que fazes e porque o fazes. Só nessa altura, sim,
assumirás desassombradamente a tua posição.
Olha para o Sacrário. Que vês? Uma porta normalmente fechada, algumas
flores e uma luz.
Os olhos cegos de uma alma sem fé não vêem mais.
E tu? Tens fé? Que espécie de alma tu és?
Podes ser uma alma que vem à igreja em certas festas, casamentos,
baptizados, às vezes sem ser por festa, em algum funeral ou missa por alma
de alguém tão chegado que não consegues fugir a essa obrigação.
Provavelmente dizes que és católico não praticante.
Mas poderás ser talvez daquelas almas que vão à missa ao domingo porque
é costume, mas nada levam de lá, porque nelas há muito esmoreceu a fé,
embora digam que acreditam em Deus, mas não têm gosto para coisas
religiosas.
Nada mais vêem senão um costume que as faz bocejar, e que mantêm, a
maior parte das vezes, para contentar a família, mas de que não fazem
vivência alguma, nem se acercam do Sacrário em adoração, porque não se
lembram sequer da minha presença…
Serás tu ainda daquela espécie de almas que dizem ter fé, que frequentam a
igreja, mas que passam por Mim como se Eu não existisse ou como se o
Sacrário estivesse vazio… Poderás até ter cargos na tua paróquia. Poderás
frequentar grupos ou ter responsabilidade de obras, mas se procedes diante
do Sacrário como diante de qualquer móvel de uma casa, não tens realmente

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fé.
Alma minha filha, queres saber realmente o que é um Sacrário? Talvez
digas que já sabes, mas tens vontade de aprender mais? Tens sede de saber
como Me agradar?
Pois fica a saber que não Me agradam essas formas de proceder diante do
Sacrário onde habito e que mais parecem formas de comportamento numa
sala de reuniões enquanto se espera que a reunião comece, ou de uma sala de
espectáculo antes do início da peça, ou até às vezes uma praça, onde tudo se
trata menos de oração.
O Sacrário, meu filho, minha filha, é um trono e o trono é próprio de um
Rei.
Bem sei que actualmente há poucos reis, mas os que há são tratados com
respeito, por aqueles que vão à sua presença. Terei Eu menos direitos a ser
respeitado neste trono, que qualquer rei da terra?
Olha para as tuas igrejas e vê se o Sacrário te parece aquilo que realmente
é: o Trono do Rei do Céu e da Terra.
Repara como sou tratado, até e principalmente por aqueles que se dizem
meus amigos. Vê como entram e saem e nem em Mim reparam,
principalmente naquelas igrejas em que estou colocado num canto onde só
alguns, muito poucos, vêm rezar. Os outros passam e nem para aqui olham,
como se este Sacrário estivesse vazio ou como se fosse apenas uma caixa
usada como decoração.
És tu desse número? Também entras e sais indiferente à Minha presença?
Também chegas e sentas-te, à espera que tudo comece, sem te lembrares de
que estou aqui, sem Me saudares, sem Me dizeres uma única palavra?
E nestas circunstâncias atreves-te a dizer que crês, que tens fé? Em que é que
crês, afinal?
Se assim procedes, pobre alma, estás a enganar-te a ti própria, porque a
Mim não Me enganas. Vejo o fundo do teu coração, toda a secura que ele
encerra, todos os teus pensamentos e maus desejos, toda a tua falta de fé.
Também não estás a enganar os que te rodeiam, porque eles não se
importam nada com a tua forma de proceder, que afinal até serve de
desculpa, para as suas próprias incorrecções neste lugar santo.
O teu mau exemplo é estímulo e ensino de todas as más tendências e de
toda a ignorância daqueles que vêm à igreja, mas pouco ou nada sabem e
aprendem com o que vêem fazer.
Também não estimula nada a conversão dos duvidosos nem a permanência
dos jovens, que nada vêem aqui que lhes desperte o interesse espiritual, entre
tantas pessoas sentadas ou de pé, que não se mostram convencidas daquilo
que vêem, fazem ou dizem.

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Acredita-Me que há muito poucas conversões, porque os católicos não
mostram pelos seus actos acreditar naquilo que dizem crer.
De que adianta, junto de incrédulos falar na Eucaristia, se não mostrais
acreditar realmente que estou nestas pequenas partículas, dentro deste
Sacrário? Eles pensam que é apenas como que um teatro vosso, mas para
eles é um aborrecimento, pois conhecem teatros mais divertidos.
E de que serve dizer que credes, se não mostrais a crença pelo vosso
comportamento junto de Mim?
O Sacrário é o meu Trono, mas neste Trono sou um Rei desprezado,
reduzido a um mero espectador daquilo que entre vós conversais, mostrando
a maior falta de respeito, de fé ou de conhecimento da minha presença.
Vê, querida alma, a maneira como estás diante de Mim, diante deste Rei
que te recebe e que te ama como nunca ninguém te amou ou amará.
Pensa um pouco no Amor sem limites que te tenho e que Me levou a
morrer por ti e vê lá se não mereço que Me trates um pouco melhor, se não
mereço mais amor da tua parte.
Medita e vê aquilo que deves reformar na tua vida e na tua maneira de
estar na minha presença, para que Eu possa dar-
-te cada vez mais as minhas graças.
E tu, alma que realmente crês, tu que desejarias com o olhos varar estas
pequenas paredes e até estas espécies que Me ocultam, para assim Me
adorares, olhos nos meus olhos, vem, aproxima-te e confrange-te com o
espectáculo que te mostro. Será que mais alguém ainda acredita em Mim?
Deixa que te comunique a minha mágoa pela falta de fé do meu povo.
Quem não acredita em Mim poderá amar-Me?
Vê como este Trono é solitário, rodeado de indiferença!...
Sabes quanto custa a um coração humano, quando sente que não o amam,
o desprezam, o ignoram!
Eu também tenho um Coração humano e sinto muito mais que tu ou que
alguma outra pessoa, o acerbo abandono e desprezo destes filhos a quem
tanto dei e que agora nem sequer Me dirigem a palavra e vivem como se Eu
não existisse!
Paisagem desoladora a do mundo! Paisagem desoladora esta à roda do
meu Sacrário em igrejas vazias ou cheias de indiferentes, que ensinam as
crianças a serem indiferentes também!
Paisagem desoladora esta no coração dos meus filhos!
E como é a paisagem do teu coração? É verdejante de fé, coberta de flores
de piedade, de altas montanhas de ânsia de estar comigo, de férteis vales, por
onde correm os rios da minha graça?
Sim, também há zonas rochosas, zonas áridas e zonas de cardos e silvas.

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São justamente esses lugares que deixas o mundo contaminar em ti, esses
lugares que não cultivas de oração e que deixas ao abandono, para neles se
acoitarem animais bravios de más tendências que não combates!
Acerca-te do meu Trono, porque aqui encontrarás graça para teres força
para desbravares esses matos inóspitos para Mim.
Vem pedir-Me tudo o que precisas, meu filho, para que a tua alma se
transforme num jardim que fará as minhas delícias e onde gostarei de
permanecer.
Vem também, e principalmente, aqui junto do meu Trono para Me
adorares, para Me prestares a vassalagem e honra que Me deves. Junto da
minha grandeza, até prostrado no chão, já devias considerar que estavas em
posição de grande honra, tu que não és mais que lama e pó.
Medita um pouco naquilo que Eu sou e naquilo que tu és, e vê se tens
coragem de te colocares em qualquer atitude menos respeitosa. Vê se tens
coragem de Me ignorares, pondo-te a conversar com as pessoas que te ficam
perto…
Forma uma resolução firme de mostrares a tua fé pelo respeito junto do
meu Sacrário. Forma a resolução de não colaborares em conversas aqui, e, se
alguém quiser falar contigo, propõe-lhe sairdes para te dizer aquilo que quer,
do lado de fora da porta.
Será assim que mostrarás a tua fé na minha Presença Eucarística. E
poderás ter a certeza de que Me agradarás muito.
Alma
Meu Senhor, que estás nesse trono que é o Teu Sacrário, quero agradecer-
Te tudo aquilo que Te dignaste ensinar-me, sem me afastares da tua
presença, por causa do meu comportamento, que nem sempre tem sido tão
respeitoso como deveria ser, esquecendo-me, tantas vezes, da tua grandeza e
do teu Amor, esse infinito Amor que derramas sobre mim, apesar de toda a
minha ingratidão.
De todos esses meus comportamentos distraídos, eu Te peço perdão, e
peço-Te também perdão por todas as faltas de respeito que outros meus
irmãos fazem, por motivos que eu não quero julgar, mas que Tu sabes quais
são.
Junto do teu trono, quero ficar como alma pobre, que Te quer servir e ser
mais fiel do que foi até aqui.
És o Senhor do Senhores, o Rei supremo, o grande Deus Altíssimo. Quero
adorar-Te, curvada na minha miséria, mas reconheço que nem sequer sei
adorar. Por isso Te ofereço as adorações dos teus santos Anjos e de todas as
almas santas que existem na Terra e as que já estão no Céu. Uno-me também

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às adorações de Maria Santíssima, a Mãe que Tu próprio me deste.
Acompanho-os a todos nas suas adorações e nos seus louvores, enquanto
Te vou dizendo, com as minhas pobres palavras, que Te adoro e louvo,
porque só Tu és digno de toda a adoração e de todo o louvor.
Ensina-me a amar-Te e a adorar-Te aqui no teu Sacrário. Aumenta a minha
fé em Ti e na tua presença aí nesse Trono, para que dê sempre testemunho da
minha fé perante todos os meus irmãos.

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Sacrário – Vida
Meu filho, olha para Mim, aqui dentro do Sacrário. Mesmo que leias estas
páginas em tua casa ou noutro lugar, projecta o teu coração para o Sacrário
da tua igreja, ou outro qualquer a teu gosto. Para isso é muito útil a
imaginação que te dei e que deves ter controlada para te obedecer e ir só
onde tu a mandes, presumindo que só a mandes a bons lugares e para fins
úteis à tua oração. Tudo o resto só serve para que ela se indiscipline e te faça
perder o tempo e o recolhimento que te é tão necessário.
Olha para o meu Sacrário. Que vês? É um lugar mais ou menos belo que
existe nas vossas igrejas e capelas, e sobre o qual a maior parte dos
habitantes do mundo nada sabe. Mas se pudessem ver, se realmente os seus
olhos pudessem varar estas paredes e esta porta, e lhes fosse dado ver quem
aqui habita, que assombro, que pasmo seria para todos! E não porque nunca
tivessem ouvido dizer, mas porque não prestam atenção e porque afinal não
crêem.
Meu filho, dentro do Sacrário está a Vida, porque Eu estou aqui e Eu sou a
Vida, Aquele que é… eternamente! Sem Mim não há vida, porque Eu sou o
Autor da Vida!
Por toda a eternidade, nada viveu, sem que Eu lhe tivesse dado vida, sem
que Eu tivesse criado essa vida no ser que surge.
A todo o momento surgem novas vidas na Terra. Todas elas são criadas
por Mim, o Verbo Eterno do Pai.
Crio a Vida e sustento-a poderosamente, sem deixar que desapareça no
nada a qualquer momento.
Toda a vida sai de Mim, na minha Omnipotência criadora, Palavra que
tudo pode, que tudo faz, que tudo dá aos filhos criados com tanto Amor.
Por isso, é uma ofensa muito grande, gravíssima, mas que recebo com
muita frequência, quando alguém destrói essa vida que Eu quero criar, Me
atira com ela à cara, dizendo-Me arrogantemente: “Não a quero”!
E de várias formas o fazem! Tanto a fazem pelo homicídio, em que matam
o seu próximo em terríveis vinganças, abomináveis invejas, execrandos
ciúmes ou por outros motivos, nenhum deles válido, como pelo suicídio, esse
terrível desespero em que caem tantos que se dizem cansados de sofrer, sem
se lembrarem de procurar alívio junto de Mim!
Ainda outra forma de Me atirar uma vida ao rosto é pelo crime abominável
do aborto, homicídio cometido contra quem não se pode defender, nem
gritar, mas que sofre dolorosamente, queimado ou esquartejado, por vontade
daqueles que mais o deviam amar!

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Mas quanta tristeza, quanto desespero está no interior de muitas daquelas
que cedem a fazê-lo, justamente porque há muito pouca ajuda para as
mulheres nessas situações, muito pouca informação sobre o respeito pela
vida e sobre o seu desenvolvimento nas primeiras semanas.
A maior parte delas não sabe que desde o primeiro instante transporta em
si uma vida, vida que Eu próprio formo, e pensa que o que está em si ainda
não é nada! Muita propaganda fomenta esta ideia falsa! Vida é sempre vida,
seja qual for o seu estado de desenvolvimento.
Este Sacrário, qualquer Sacrário onde Eu esteja, irradia vida, força, poder,
de tal forma que tenho que velar a minha presença, debaixo de humildes
espécies sacramentais, para não encher de pasmo ou de susto os filhos que
quero que se aproximem de Mim com amor e confiança.
Alma, crê que nem um Anjo tu poderias ver como ele é, sem caíres de
susto. Muito menos poderias ver o teu Deus na força da sua glória, na
magnificência do seu poder vivificante.
A vida que do Sacrário irradia em torrentes de luz, tu não podes vê-la, pois
a tua natureza fraca não o suportaria, mas é preciso que acredites, de
contrário que fé será a tua?
Uma fé anémica, que não informa a vida, que não faz a alma viver daquilo
que crê, não te serve para seres feliz.
Se não acreditas que dentro das pequenas paredes do Sacrário mora a
própria Vida, Aquele que é o único Senhor da Vida, Aquele que realmente
vive sem ser criado e que sempre viverá em eterno esplendor, em que é que
acreditas então?
Não, meu filho, não sou um símbolo, não sou uma recordação, uma
memória daquilo que aconteceu na minha última Ceia. Enganam-se todos os
que dizem isso!
Será possível que Eu, que explicava tudo aos meus discípulos (Mc 4,34),
não lhes tivesse dito realmente o que é que se passava neste mistério?
Repara que na Última Ceia Eu não disse: “Isto significa… isto é como se
fosse… isto é um símbolo…” Não! Eu disse textualmente: “Isto é o meu
Corpo” (Mc 14,22), “Isto é o meu Sangue…” (Mc 14,24)
Já anteriormente tinha escandalizado alguns, dizendo-lhes que lhes daria a
minha Carne e o meu Sangue a comer e a beber ( Jo 6, 50-58).
Se tal não fosse exactamente verdade, Eu teria desfeito esses enganos.
Nunca permitiria que alguém se afastasse por motivo de ter entendido mal as
minhas palavras. As próprias parábolas, explicava-as depois àqueles que
privavam mais de perto comigo, para que não se enganassem por má
interpretação.
Eles entenderam muito bem o que Eu queria dizer; por isso, alguns deles

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se afastaram escandalizados, porque não acreditavam no meu poder, nem
queriam aceitar-Me como Filho de Deus. Eu apenas lhes interessava pelo pão
material e para restaurar Israel.
Queriam que fizesse algum milagre, mas não ficasse por aí. Queriam
principalmente que fizesse o milagre de libertar a nação do jugo dos
romanos.
Ainda hoje, a maior parte dos meus filhos apenas Me procura para Me
pedir coisas materiais ou aquilo que de alguma forma necessitam, mas que
são sempre coisas temporais...
Pedem-Me saúde, êxito no trabalho ou nos estudos, o bom resultado de
algum negócio, um novo emprego, a cura de alguém, o regresso de quem se
afastou, a felicidade no casamento, o afastamento ou resolução de algum
problema… mas poucos se lembram de pedir pelo negócio que é de entre
todos o mais importante: o da Salvação Eterna.
Os meus filhos parecem sempre crianças que não se lembram que não têm
aqui morada permanente, mas que são viajantes, sempre em vias de chegar à
Pátria. E não se importam com o estado em que viajam, sujos ou
desalinhados, cobertos de feridas, de imundícies ou de asquerosos insectos.
Podes ter a certeza de que ninguém pode entrar na Casa do Pai
apresentando-se dessa maneira, sem se purificar primeiro.
Actualmente há a tendência de minimizar até fazer desaparecer esta
questão. Dizem que é para não assustar as pessoas. Mas ninguém se importa
com todas as imagens, não só de imoralidade, mas de susto e de terror, que
deixam entrar nas suas casas e às quais habituam até as crianças mais
pequenas.
Erros e mais erros espalham-se em atitudes tão contraditórias, com grave
perigo para quem caminha completamente descuidado da sua salvação eterna
e é apanhado pela morte totalmente desprevenido!
Meu filho, vem ao meu Sacrário, porque Eu acolho-te sempre com Amor e
não quero assustar ninguém com os meus avisos a respeito do cuidado que
todos devem ter a preparar a sua eternidade, mas lembrando sempre que esta
terra é para todos vós apenas uma passagem que deve ser bem aproveitada,
pois não tendes outra, embora esteja cada vez mais difundida entre vós a
falsa teoria da reencarnação.
Nunca acredites nisso, porque tens só uma vida para viver. Uma vez ela
acabada, não voltas cá, disso podes ter a certeza.
Não consintas que te embalem com teorias falsas, que só servem para que
as pessoas fiquem cada vez mais distraídas e despreocupadas com a sua
Salvação Eterna. É um laço que armam aos pés de quem passa… e muitos lá
caem.

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Não deixes que te iludam, porque se a tua vida é um bem precioso, a tua
salvação é mais preciosa ainda, pois durará para sempre. Pela salvação é
necessário entregar tudo, mesmo quando é preciso dar a vida, como os
mártires.
Dei-te a vida que tu tens e tenho a Vida Eterna para te dar. Queres aceitá-
la?
Acerca-te então da Fonte da Vida. Acerca-te do meu Sacrário, porque ele
irradia a Vida, a Vida que contém, a Vida que se quer dar, se estiveres
disposto a aceitar.
Acerca-te com respeito. Lembra-te sempre que não estás diante duma
caixa mais ou menos artística, mais ou menos rica. Por muito rico que seja o
Sacrário, ainda que estivesse guarnecido de pedras preciosas, seria sempre a
humilde habitação do Autor da Vida.
Sou Eu que te dou a vida e ta conservo. Só Eu tenho todo o poder no Céu e
na Terra. Eu próprio disse: “Todo o poder Me foi dado no Céu e na Terra”
(Mt 28,18).
Por isso, crê sempre que estás diante do Todo-Poderoso, d’Aquele que
irradia Vida, que criou mundos e conserva as estrelas no seu lugar.
Não temas, porque apesar da minha Omnipotência, curvo-Me para ti e
escuto o que tens para Me dizer. Há tanto Amor no meu Coração para te dar,
como nunca pai algum teve para com o mais querido dos seus filhos.
Tenho Força, Poder, Luz, Vida e Amor para te acolher. Escuto as tuas
preces, mas só te poderei atender se o que Me pedes for realmente para teu
bem e não apenas aquilo que te parece ser o melhor. Reconhece que por
vezes te enganas, mas Eu não Me engano e vejo no futuro os resultados
daquilo que Me pedes neste momento.
Talvez demore a atender-te, para te ver muitas vezes a meus pés em
oração, porque na maior parte das vezes, pedido concedido é graça
esquecida.
Sim, meu filho, quantos, a maior parte de vós, só se lembra de Mim, só se
lembra de rezar quando quer pedir alguma coisa. Para o ligar mais à oração,
muitas vezes demoro a atender os seus pedidos.
Volta a meus pés, sempre com perseverança. Não desanimes por veres que
não te atendo tão rapidamente como tu querias. E procura que, muitas das
vezes que rezes, isso não seja para pedir só coisas temporais.
Pede, sim, todos os dias, para te tornares melhor, mais paciente, mais
humilde, mais caridoso para com o próximo e, principalmente, para Me
amares mais cada dia.
Encontrarás sempre em Mim a Fonte da Vida, a Fonte da Luz, a Fonte do
Amor, que tem para te dar o maior dos tesouros a que possas aspirar: a Vida

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Eterna.
Alma
Senhor Jesus, sou uma pobre alma que, prostrada a teus pés, quer adorar-
Te.
Não vejo o esplendor da tua glória, mas creio na tua presença neste
Sacrário. Creio que estás aí, que me vês e que me amas.
Eu também quero amar-Te, mas sei que o faço muito mal, e que muitas
vezes me subtraio ao teu Amor, atraída pelos amores das coisas e das
pessoas, que me dispersam entre futilidades, ambições, ressentimentos e
respeitos humanos. E tudo isso me acontece porque sei tão pouco a teu
respeito, a respeito daquilo que Tu és e daquilo que Tu fazes!
Por isso Te peço, ensina-me! Faz de mim uma discípula atenta e fiel.
Tu, que me deste a vida, esta vida que eu não tenho sabido estimar, és o
primeiro que devo amar, és o único por quem devo dar tudo, até a vida que
me deste, se isso for preciso alguma vez.
Por agora, contentar-me-ei em dar-Te a minha vida em cada instante, em
cada dever, em cada abnegação que tiver de fazer por teu Amor.
Aceito o teu Amor em cada momento, em tudo o que me quiseres que eu
faça.
Aceitarei, como prenda tua, cada dever e mesmo aquelas coisas
inesperadas, que por vezes surgem e das quais tantas vezes reclamo.
Aceitarei, lembrando-me que as tuas prendas são sempre ricas, mesmo que
agora venham dentro de espinhos. Lembrar-me-ei que é preciso quebrar
esses espinhos e ferir as minhas mãos, porque lá dentro estão escondidos
diamantes de graças e de méritos.
Perdoa-me as vezes que tenho recusado as tuas “prendas de Amor”, para
seguir a minha vontade, a minha comodidade e meu egoísmo, caindo muitas
vezes em pecado, nas ilusões do meu amor-próprio e da minha soberba.
Perdoa-me não ter sabido aceitar a cruz daqueles problemas que me
envolvem. Digna-Te Tu, Senhor, resolvê-los, porque eu nada sou e nada
posso.
Perdoa-me os meus ressentimentos, todas as vezes que julgo o meu
próximo e que não procuro ajudá-lo ou o abandono atraída por outros
interesses.
Perdoa-me cada vez que oiço criticar os meus irmãos, sem os tentar
defender e aceito acreditar nos defeitos que alguém apregoa neles.
Perdoa-me as vezes que fui eu própria a falar nas coisas que alguém me
fez ou naquilo que ouvi dizer a terceiros, sem me lembrar que estou a falar
dos filhos que Tu tanto amas e me mandas amar.

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Perdoa-me por não saber perdoar como Tu queres, por me deixar enredar
nas teias da falta de perdão.
Tu, que és a Vida, sê de hoje em diante a única luz que me guia, o Senhor
de toda a minha vida. Sê o meu Libertador de todas as teias de pecado em
que me deixo enlear.
Agradeço-Te todos os cuidados que tens tido comigo, a paciência infinita
com que tens tolerado a minha presença descuidada e os meus pecados.
Concede-me a graça de vir muitas vezes, aqui a teus pés, para Te adorar e
louvar, para me arrepender e para que me ensines a viver segundo a tua
vontade, purificada e fortificada no teu Amor e na tua luz de Vida Eterna.

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Sacrário – Fé
Alma, minha filha, para te acercares do Sacrário é preciso ter fé. Senão, o
que é que vens aqui fazer? Sim, que vens aqui fazer se não acreditas que Eu
estou aqui? Vens porque é costume, por um hábito que não sabes bem para
que serve?
Talvez aqui tenhas de estar por teres algum cargo. Talvez costumes tratar
da limpeza da igreja, compor as jarras das flores, arranjar os altares, talvez
até pertenças a algum grupo coral e tenhas de ensaiar, talvez sejas acólito,
leitor, catequista…
Todos esses cargos são bons e agradam-Me, quando são feitos com amor,
diligência e cuidado, mas não te convenças de que por estares neles já sabes
muito e que nada te tenho a apontar, porque trabalhas, sofres e te cansas
nesses cargos que exerces na paróquia.
No entanto pergunto-te: porque estás neles? Apenas porque gostas, porque
tens boa voz para o canto ou para a leitura? Porque isso agrada a alguém a
quem tu também queres agradar? Para te evidenciares? Porque gostas de ter
um cargo? Porque não tens mais que fazer e é uma forma de passar o tempo
e encontrar amigos?
Nenhum desses motivos é válido a meus olhos, porque nenhum deles
aponta para Mim, mas apenas para ti, para a tua vaidade, ambição ou
futilidade.
Lembra-te de que qualquer que seja o cargo que tenhas na tua paróquia,
deves cumprir esses deveres apenas por Mim
e para ajudares a caminhar para Mim também os teus irmãos. Isto é que
realmente é importante a meus olhos.
Repara que alguns deles, talvez até muitos deles, podem ter sido atraídos
para aqui por esses ou outros motivos. Talvez tenha sido uma forma que
encontrei para os trazer à igreja, mas compete-te a ti mostrar-lhes em que é
que acreditam os cristãos. De contrário, que diferença fará estar aqui ou
noutro credo religioso?
Mas tu acreditas realmente que estou aqui presente como estou no Céu? Se
acreditas, não te envergonhas de certas atitudes que tens na minha presença,
como se Eu aqui não estivesse, como se a igreja fosse apenas uma sala de
espera de qualquer coisa?
Não te envergonhas das atitudes desrespeitosas, de entrares, andares de um
lado para o outro e sentares-te, sem Me cumprimentares sequer?
Não te envergonhas, perante os meus Santos Anjos, que te olham
contristados, de cumprimentares quem está, antes de Me cumprimentares a

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Mim?
Não te envergonhas de ficares a conversar com os vizinhos de banco, não
Me prestando atenção, reduzindo a minha igreja a sala de reuniões, contando
coisas, perguntando outras, olhando para o que as pessoas vestem, por vezes
bisbilhotando na vida alheia e até, ocasionalmente, dizendo mal do próximo?
Alma, minha filha, Eu pergunto-te: como te atreves a fazer pecados na
minha presença?
Vê que não quero magoar-te, mas mostrar-te que a fé não é aquilo que
muitas vezes pensas, pois não adianta pensares e dizeres que crês, se depois
procedes como aqueles que não crêem.
Pensa: quantas vezes passas diante de Mim sem fazer a devida genuflexão,
como se aqui neste Sacrário não estivesse ninguém!
E quantas vezes suspiras de aborrecimento, quando acompanhas alguém
que se demora mais uns minutos a rezar ou quando o sacerdote se demora
um pouco mais! E porquê? Por estares desejosa de sair, de ir para a rua,
como se receasses que a rua se fosse embora!
Quantas vezes também permaneces de pé na minha presença, recusando-te
a ajoelhar, como se tivesses alguma doença nos joelhos que te impedisse de o
fazer! E atreves-te a dizer que acreditas, que tens fé? Pelos teus actos mostras
o contrário!...
Fraca fé, que não demonstras em atitudes respeitosas!
Pode ser que acredites em muitas coisas, que frequentes muito igrejas e
capelas, mas não acreditas realmente na minha presença dentro do Sacrário.
Apenas te iludes e procuras iludir quem te ouve, dizendo que acreditas, mas
o teu coração está muito longe da fé que devias ter em Mim.
Como fica então a tua responsabilidade perante aqueles que esperam pelo
testemunho de fé que tu lhes darás para acreditarem?
Sim, para encarares o meu Sacrário é preciso teres fé, senão ele apenas
será para ti uma caixa, mais ou menos bonita, mas que te é completamente
indiferente.
Não digas também que acreditas que estou aqui, mas que a atitude não
conta, porque Deus perdoa tudo, porque é a casa do Pai, porque o que
interessa é o que o coração sente… e outras desculpas próprias de quem, na
realidade, não tem senão um simulacro de fé, e se engana a si próprio
Alma, minha filha, essas atitudes desagradam-Me muito, porque Me
mostram o teu coração seco, completamente vazio da fé viva; um coração
que não vê que está perante o Senhor do Céu e da terra, perante o qual se
prostram os Anjos; um coração que não acredita e, por isso, não respeita e
não ama; um coração que não acredita que Eu estou nesse Sacrário, desejoso
de te conceder graças, essas graças que tu, na tua pressa e a tua

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inconsciência, não pedes.
Se já pediste alguma coisa, foi com tanta falta de fé que nada pudeste
receber, pois, se “tudo é possível a quem crê” (Mc 9,23), quem não crê fica
sem possibilidades de receber o que pede.
Mas repara também naquelas graças que recebeste! Como é que as
agradeceste? Talvez cumprindo alguma promessa e esquecendo tudo em
seguida…
Meu filho, minha filha, isso não é gratidão, não é o amor que espero de ti,
em troca do imenso Amor que Eu tenho por ti.
Olha para o Sacrário e, em primeiro lugar, com humildade, pede fé, uma fé
tão forte e verdadeira, que torne para ti estas paredes transparentes e te façam
“ver” quem é que aqui mora.
O espírito de fé vê além das paredes. Para o espírito de fé tudo é simples e
tudo é claro.
Se tiveres fé, certamente irás mostrá-la pelas tuas atitudes, que serão o
melhor testemunho, a melhor pregação, diante de crentes e descrentes.
Pede fé, para que os teus olhos vejam mais, para que alcancem o interior
do meu Sacrário, para que olhem para Mim e não vejam apenas uma Hóstia
branca, mas alcancem mais longe, até à substância e percebam que aqui,
nestas Partículas, está o teu Deus.
Então verás que as tuas atitudes mudam e se tornarão mais respeitosas e
cheias de amor para com Aquele que é o primeiro a amar-te, que te amou
ainda antes de existires, que te ama deste a eternidade.
Verás como vais gostar de permanecer aqui. Verás como o aborrecimento
desaparece e o teu olhar ficará maravilhado, fitando esta alvura.
Não terás então muita vontade de te ires embora e será preciso que Eu te
faça recordar os teus deveres, para te retirares.
Sim, a igreja onde entras é um Templo santo, é um lugar de fé. É preciso
que entres com fé ou, no mínimo, com vontade de ter fé.
Implora a fé. Pede-Ma e Eu hei-de dar-ta em grande profusão, porque Me
agradam as almas de fé.
Alma
Senhor, sou uma alma pobrezinha, que pensava que sa-
bia muito, mas que reconhece a teus pés que não sabe nada.
Senhor, eu nem sequer sei ter fé! Reconheço que a minha fé é fraquinha,
cheia de imperfeições, de ideias feitas de comodidades, de facilidades e de
pouco empenho nas tuas coisas.
Reconheço que muitas vezes Te procuro só para Te pedir alguma coisa,
mas mesmo assim, com muitos receios de não ser atendida. E mesmo depois

22
de atendida, não sei ser grata, não sei dar-Te o amor que Te devo.
Confesso que ainda não sei comportar-me como devia na tua santa
presença, porque, frequentemente, penso mais em mim própria, nas minhas
coisas, nos meus problemas e até nas pessoas que me rodeiam, do que penso
em Ti.
Suplico-Te, Senhor, aumenta a minha fé, de tal modo que eu possa adorar-
Te com todo o meu ser, e não olhar indiferente para as paredes do teu
Sacrário.
Só Tu podes, Senhor, fazer em mim maravilhas. A Ti me confio, em Ti
espero.
Vem, Senhor, e modela-me à tua vontade.
Ensina-me a adorar-Te, a louvar-Te e a ser-Te fiel. Ensina--me a estar
aqui, na tua santa presença e a ser-Te agradável. Concede-me que me ocupe
de Ti e não daquilo que se passa à minha volta.
Faz, Senhor, com que a minha atitude na tua santa presença seja
testemunho de fé para todos quantos para mim olhem.
Agradeço-Te todas as graças que me concedes. Ensina-me a estar junto de
Ti em adoração e acção de graças. Que eu nunca me canse de estar contigo,
mas procure cada dia as tuas lições, as lições que Tu dás àqueles que Te
visitam neste lugar onde nos esperas com tanto Amor, neste Sacrário e em
todos os Sacrários do mundo.
Entrego-Te, meu Senhor, tudo aquilo que faço na minha paróquia, o cargo
que exerço, e que não tenho sabido oferecer-Te como devia. De hoje em
diante procurarei fazê-lo o melhor possível, mas apenas por Ti, sem duplas
intenções.
Concede-me a graça de Te ser fiel e de conseguir transmitir ao meu
próximo a fé em Ti, o respeito na tua santa presença e o amor sem limites
com que Te quero amar.

23
Sacrário – Casa
Fixa o meu Sacrário e pensa, reflecte um pouco sobre o que ele é.
Já aprendeste e crês que Eu estou aqui, que moro dentro dele, dentro de
cada Sacrário, enquanto aqui se conservarem Hóstias consagradas. Portanto,
reconhece também que o Sacrário é a minha Casa.
Moro aqui, como tu moras na tua casa. Então, cada vez que vens à igreja
ou a uma capela, vens visitar-Me a casa, e Eu recebo-te como a visita de um
filho muito amado e muito esperado.
Espero-te todos os dias, mas tu nem todos os dias vens. Porquê? Não tens
tempo, dizes muitas vezes.
Reconhece, meu filho, que essa é a desculpa mais frequente daqueles que
amam pouco, porque os que amam muito sempre arranjam forma de se
encontrarem.
Pergunta aos namorados se não conseguem sempre arranjar uma maneira
de estarem juntos, por muito trabalho que tenham, e, se realmente por algum
motivo estão a grande distância, pelo menos telefonam todos os dias e até
várias vezes ao dia.
Porque é que não vens visitar-Me mais vezes? Estou sempre aqui, na
minha casa, à tua espera.
Se realmente moras a uma grande distância, sabes usar esse telefone da
oração frequente, para contactares comigo, como um namorado que a nada
mais aspira senão falar com a pessoa a quem ama?
Eu sou realmente Aquele por quem te encantas? Amas-
-Me como uma pessoa verdadeiramente enamorada?
Entendeis todos bem a linguagem de amor, mas como são fugidios os
vossos amores! Estão sempre submetidos aos jogos dos vossos interesses!
Quem deixa de vos ser útil deixa a maior parte das vezes de ser amado,
justamente porque falais de amor e de amizade, mas não o sentis
verdadeiramente. Sentis apenas sensações, gostos e interesses do vosso
amor-próprio, ávido dessas mesmas sensações e de outros proveitos.
Quando tendes de sacrificar algum gosto, quando não vos apetece aquilo a
que vos convidam, aquilo que vos pedem, já não vos lembrais da amizade e
deixais o vosso próximo com o gosto amargo da desilusão que a vossa recusa
provoca.
Lembra-te de que a amizade muitas vezes encerra algumas renúncias,
algum sacrifício, para contentar a pessoa de quem se é amigo. Se não
souberes fazê-lo é porque não és um amigo verdadeiro.
Alguma vez reparaste que te parece amar mais aquelas pessoas que, quer

24
sejam de família quer amigas, te fazem mais favores, te são mais simpáticas?
Que aconteceria se deixassem de te fazer favores, se parecessem esquecer-
se de ti? Facilmente também te esquecerias delas e provavelmente nem
sofrerias com isso, ou custar-te-ia, mas só na medida em que essas pessoas te
são úteis. Eis o sinal de que não se trata de amor nem de verdadeira amizade.
Mas se a amizade da tua parte é verdadeira, certamente sentirias desilusão
com essas atitudes. Algumas vezes já sentiste esse travo amargo, de sentires
que se afasta de ti alguém a quem muito estimas, alguém que trai a tua
amizade e a troca por outras amizades, alguém que apenas quis servir-se de
ti, daquilo que tu podes, fazes ou sabes, mas que, na hora da escolha, te
abandonou sem explicações ou com explicações fúteis, por vezes eivadas de
mentiras… talvez alguém que tenha acreditado em mentiras de terceiros
despeitados com alguma atitude tua… talvez alguém movido pela inveja,
pela ambição, pelo espírito de intriga, pela vingança… há tantos “talvez”!...
Não percas tempo nem serenidade a imaginar porquê. Não vale a pena!
Isso só serviria para te fazer sofrer ainda mais.
Sim, a desilusão da verdadeira amizade, do verdadeiro amor é algo muito
doloroso. Eu compreendo-te, pois também tive essa experiência, durante a
minha vida na Terra.
Ainda hoje continua a repetir-se, com as múltiplas traições daqueles que se
dizem meus amigos, mas que Me abandonam na hora das decisões entre
aquilo que lhes peço e os seus prazeres pessoais.
E tu? Alguma vez pensaste dedicar-Me algum amor? Sabes que o amor,
além de ser uma graça, também se cimenta com a convivência. Por isso,
quanto mais conviveres comigo, mais se cimentará esse pequeno amor que
Me tens. Esse é um dos principais motivos que te devem mover a visitar-Me.
Vir aqui porque Me amas, levar-te-á a vir para procurares amar mais. E
quanto mais Me amares, mais crescerá em ti esse desejo de crescer em amor,
levando-te a vir cá tantas vezes quantas conseguires. E levar-te-á a vir
também em pensamento e oração, quando verdadeiramente não puderes vir,
por motivos válidos.
Repara, nesta casa estou sozinho a maior parte das vezes, sem visitas, em
igrejas fechadas… e mesmo em igrejas abertas vê quão poucas pessoas Me
vêm visitar!
Estou sozinho como um velho “avô” paralítico em quem ninguém pensa,
entre todos os que passam à sua porta, atarefados nas suas vidas.
Estou aqui na minha casa, silencioso, e vejo-vos passar. Uns vão para os
seus negócios, para o seu trabalho, outros para as compras ou para as
diversões.
De todos os que passam na rua, em frente da porta da igreja, quem é que

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Me ama? Quem é que pensa em Mim?
E tu? Ao menos tu amas-Me um pouco? Amas-Me a ponto de vires visitar-
Me algumas vezes e, nesses momentos pro-curares consolar-Me por aqueles
que passam na rua apressadamente e sem Me dirigirem um pensamento?
Querido filho, vem para junto de Mim, porque tenho muito para te dizer.
Quero que Me contes a tua vida, aquilo que se passa contigo, as tuas
alegrias e as tuas tristezas, os teus trabalhos e preocupações, aquelas
resoluções que precisas tomar, mas que receias e, por isso te acobardas e
adias, desculpando-te como podes.
Quero que Me contes também as tuas misérias, as tuas faltas, as tuas
traições para comigo. É verdade que já as conheço, mas quero que Me fales
delas, que olhes para elas à minha frente, sem receio, pois Eu amo-te apesar
de todas as tuas quedas, apesar de todas as tuas dificuldades.
Tenho desejo de solucionar tudo isso, mas é preciso que tu queiras aceitar
as minhas soluções, que nem sempre passam por aquilo que mais te apetece.
Quero dar-te força, mas é preciso que tu a queiras receber.
Vem ter comigo com palavras de amor, palavras que só se dizem à pessoa
a quem mais se ama. E Eu quero ser justamente essa pessoa, porque Eu sou
quem mais te ama a ti, porque Eu sou Aquele em quem realmente podes
confiar, porque sou o único que é verdadeiramente teu Amigo.
Fica comigo. Ofereço-te a minha casa para viveres comigo durante todo o
dia e toda a noite. Desejo que este ar fresco que respiras junto de Mim, alma
minha amiga, te acompanhe todo o dia e não te deixe respirar o ar
contaminado e empestado do mundo onde vives. Mas é preciso que tu
também o desejes.
Procura ser alma de grandes desejos, porque não há impossíveis para
aquele que deseja o mesmo que Eu, para aquele que deseja estar comigo e
ser-Me fiel.
Se procurares frequentar a minha casa, o perfume do meu Sacrário
acompanhar-te-á e há-de trazer-te para junto de Mim muitas vezes ao dia,
pelo menos em pensamento. E assim te tor-
narás, cada vez mais, uma alma verdadeiramente eucarística.
Ofereço-te a minha casa, para viveres junto de Mim. E tu também Me
ofereces a tua para Eu viver contigo e fazer dela a minha casa? Se a minha
casa for a tua, a tua será certamente minha e, como tal, lá reinarei também e
hei-de fazer-te ver tudo aquilo que na tua própria casa não está bem.
Hei-de mostrar-te tudo o que está mal e quebra a beleza da tua casa a meus
olhos, para que compreendas como tens errado, a limpes e embelezes.
Mostrar-te-ei tudo o que está mal e ofende os meus olhos, tudo aquilo que
não passa de lixo e sujidade espiritual.

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Junto de Mim aprenderás finalmente a viver, a ser feliz e a ter paz, porque
deixarás de querer o que não deves e de perder tempo com o que só te
perturba e te enfraquece o espírito, preparando-te para tristezas que não
parecem acabar senão em novos problemas e novas tristezas.
Ofereço-te na minha casa uma vida feliz, uma vida de paz, uma vida de
alegria, mesmo que a dor te visite, porque, na minha companhia, encararás
todos os problemas por um novo prisma e Eu saberei consolar-te e dar-te
forças em todas as dificuldades.
Nada te faltará na minha casa e espero que nada Me falte na tua: o amor, o
respeito, a companhia, e as atenções que Me deves.
Se ficares assim comigo, Eu ficarei sempre contigo e serei o teu
Companheiro em todos os lugares e situações em que te encontrares.
Alma
Jesus, Amigo e companheiro que queres viver a meu lado, como posso eu
negar-me a esta graça que me concedes, ao admitires-me na tua casa, para
ficar contigo?
Sim, que hoje e sempre seja esta tua habitação a minha habitação, o lugar
do meu verdadeiro repouso e de todos os meus enlevos.
Quero vir aqui muitas vezes, todas as vezes que puder. Prometo-Te não
passar por uma igreja sem entrar ao menos alguns minutos, se não puder ser
mais, para falar um pouco contigo. Mas quando puder, sim, quero ficar aqui
largo tempo, nesta nossa conversa, em que tanto Me ensinas.
Quando não puder aqui vir, ó Jesus, mandar-te-ei o meu coração, em
pensamentos e doces desejos eucarísticos.
A minha casa é tua também. Vem viver nela comigo e com todos os que lá
habitam. Retira dela tudo aquilo que não Te agrada, e faz com que a tua
presença seja uma bênção que nos acompanhe a todos, e também a todos os
amigos e familiares que nos visitem.
Acompanha as nossas vidas, as nossas conversas, as nossas orações, os
nossos problemas, o nosso trabalho, o nosso descanso, e faz com que Te
acompanhemos sempre com o nosso amor e com a nossa fidelidade.
Faz com que nos lembremos sempre da tua presença na nossa casa e não
digamos nem façamos nada que Te desa-grade.
Concede-me a graça de saber estar contigo, de viver contigo, falar-Te,
pedir-Te conselho em tudo o que tiver para resolver. Será também junto de
Ti que desabafarei as minhas mágoas e consolarei as tuas, como fazem os
verdadeiros
amigos.
Ensina-me, Senhor a ser uma alma verdadeiramente amiga de todos os que

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comigo convivem, daqueles que em mim confiam e se dizem meus amigos.
Faz com que eu nunca atraiçoe a amizade, mesmo que tenha de fazer
sacrifícios para atender a quem me pede auxílio ou companhia.
Ensina-me a proceder fraternalmente com todos os meus irmãos, com
aqueles com quem trabalho, com os conhecidos e até com os desconhecidos,
por teu amor.
Coloco a teus pés todas as desilusões que me foram causadas por aqueles
que eu pensava serem meus amigos, mas depois demonstraram o contrário.
Talvez, sem pensar, tenha sido eu afinal a causadora dessa mudança de
atitude, que até agora me tenho atrevido a julgar!
Ajuda-me a não julgar mais o meu próximo e a não tomar atitudes
ressentidas, mas a aceitar os irmãos como eles são e como Tu próprio os
aceitas e me aceitas.
Liberta-me de todos os ressentimentos, para que eu viva na tua santa paz.
Coloco a teus pés as minhas dificuldades… tudo isto que tanto me custa
fazer, quer nas virtudes que devo praticar, quer no meu dever de todos os
dias…
Abro-Te o meu coração e mostro-Te todos os meus pecados, todas as
faltas com que diariamente Te costumo magoar, todas as omissões que a
preguiça, a dissipação ou o respeito humano me fazem cometer.
Sei que me amas e que me queres curar de tudo isto. Por isso Te peço que
tenhas compaixão de mim e me tornes mais fiel.
Entrego-me à tua acção poderosa, ao teu Amor e à tua graça, porque
confio em Ti.
Ensina-me a adorar-Te, ensina-me as palavras de amor que gostas de ouvir
àquelas almas que muito Te amam. Poderei eu vir a ser uma delas?
Aqui estou, Senhor, como uma criança pequena, disposta a aprender tudo
aquilo que me quiseres ensinar, de coração aberto ao teu Amor, uma pequena
alma que só deseja pertencer-Te.

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Sacrário – Cofre
Meu filho, fixa em Mim os teus olhos. Sou o teu Tesouro dentro de um
cofre. Este cofre é o Sacrário. Mas porque será preciso esconder-Me? Sim,
por causa dos ladrões. É sempre necessário esconder os tesouros por causa
daqueles que os querem roubar, porque sabem que o seu valor é muito alto.
Também é preciso esconder este Tesouro dentro de um cofre, porque
também há muitos que Me procuram roubar. Sim, esses sabem que não tem
preço o Tesouro que este cofre guarda!...
Poderá parecer que quem tem tão grande fé deverá ser meu amigo, mas é
exactamente o contrário, porque eles crêem mas não amam.
A fé é importante, mas muito mais importante é o amor. Fácil vos é dizer
que credes, mas sabeis mostrar a fé com obras de amor?
Nos Evangelhos digo-vos que não é “todo aquele que diz Senhor, Senhor,
que entra no Reino dos Céus, mas o que faz a Vontade do Pai” ( Mt 7,21).
Para fazer a Vontade do Pai é preciso amar. E quão poucos amam!...
Mesmo daqueles que circulam de igreja em igreja, de oração em oração,
quantos não Me amam!...
Sim, é com o Coração dolorido que te confidencio que tais almas fazem
todas essas orações, não por amor de Mim, mas por rotina, por tendência
natural, para parecerem bem ou por qualquer outro motivo que deviam levar
à confissão, mas não levam!...
São almas que Me entristecem, que vêm muitas vezes diante de Mim, mas
não Me amam!
São almas que procuram ver tudo e todos os que entram ou fazem seja o
que for; almas que à saída poderão fazer um relatório completo sobre quem
ali esteve e o que fez; almas que se entretêm a conversar com quem está ao
lado ou com algum conhecido que entra; almas que, ao sair, criticam quem já
saiu e quem ainda ficou; almas que em seguida irão realizar actos maus,
levados pela vingança ou pela inveja!...
Quantos motivos levam as almas às minhas igrejas! Quantos motivos
escondidos, desde a busca do prazer espiritual e a rotina, ao respeito humano,
ao desejo de agradar a alguém ou receio de parecer mal a outras pessoas;
desde a ambição de algum cargo honroso em algum grupo, ao desejo de
encontrar alguém que é objecto dos seus agrados, até ao desejo de pedir
alguma graça, por estarem em aflições ou problemas, e até por desejo de
descansar uns minutos ou até por superstição, mandados por curandeiros…
Mas quão poucos procuram a igreja com o desejo único de ficar uns
minutos comigo!

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Tu… qual é o motivo que te traz aqui hoje? Olha bem para o teu coração e,
se lá divisares algum desejo estranho ao meu Amor, expulsa-o para bem
longe, de contrário dar-Me-ás mais tristeza que satisfação com a tua
presença.
Até mesmo o desejo de receber indulgências deve ficar num plano muito
inferior e não ser o real motivo que aqui te conduz, porque, embora seja um
desejo bom, acaba por ser um certo interesse que não é verdadeiro e puro
amor, não é um amor parecido com o meu, que te dei tudo, sem tu Me dares
nada.
A indulgência é uma prenda que te é dada, mas é de mau gosto visitar
alguém só à espera de receber a prenda.
O amor é assim mesmo. É desejo de estar com quem se ama, sem pensar
em recompensa alguma. É também assim que tu Me amas? Já vês que tens
muito que aprender a respeito desta matéria, mas continua a vir aqui, que Eu
te irei ensinando cada vez mais.
Meu filho, sou um Tesouro cobiçado, mais pelos inimigos que pelos
amigos! Parece-te um exagero, mas não é. Repara como são poucos os
amigos verdadeiros que Me procuram, e quantos que parecem amigos, só Eu
vejo nos seus corações as serpentes que lá se aninham…
Sim, são muito poucos os meus amigos… mas os meus inimigos são
muitos, tanto os visíveis, como os invisíveis. São estes que procuram adeptos
para Me roubar, e muitas vezes conseguem, porque Eu não tiro a ninguém a
liberdade de escolher entre o bem e o mal, entre a virtude e o pecado, o amor
e o ódio, a salvação ou a perdição.
Vê como alguns Me conseguem levar e Me vendem por altos preços! E
então para onde vou? Mãos asquerosas levam--Me para esses lugares onde
decorrem cerimónias sacrílegas, onde sou ultrajado com mil insultos, onde
fazem sobre Mim as piores sevícias, os pecados mais nojentos, que é melhor
não te contar, e Me cobrem das piores imundícies.
Ali sou pisado, cuspido e escarnecido, ultrajado das formas mais vis, num
simulacro de sacrifício às trevas…
Enquanto isso, tu distrais-te e nem pensas que talvez perto de ti estejam a
decorrer essas sacrílegas cenas.
O teu coração não se comove, não procuras desagravar--Me, não te
retalhas de dor pela má opção que fazem essas almas vendidas a Satanás! E
quantas delas estão bem perto da morte e da desgraça eterna!
Sim, sou o maior Tesouro que está sobre a terra! Alguma vez pensaste
nisto? Sou o Tesouro que Se te dá sempre que O quiseres, mas tu interessas-
te tão pouco!...
Vê a ansiedade que terias, a tua alegria se estivesses para receber um alto

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prémio de lotaria. Como os teus pensamentos iriam girar à volta daquilo que
poderias fazer com tal riqueza, até em favor do próximo! Mas neste Tesouro
sem preço, quão pouco pensas durante o dia!
Esta ansiedade, este amor não te tiram o sono!... E, no entanto, quanto
poderias tu fazer pelo teu próximo e até por toda a Igreja, se O soubesses
utilizar bem, se não malbaratasses estas enormes graças!
Quando Me vens receber, vens como ovelha que segue um rebanho, ou
trazes o coração ansioso e fervente, no desejo de te apossares do Tesouro que
ali Se te oferece?
Meu filho, cada vez que olhares para este cofre, pensa sempre no Tesouro
que aqui Se encerra, o Tesouro incalculável do Deus infinito, de majestade e
poder infinitos, tão real como no Céu!
Se assim pensares, verás que a tua atitude se tornará cada vez mais ardente
e também cada vez mais respeitosa. Acabarão todos esses olhares em redor,
essas conversas com a pessoa do lado, e acabará também esse desejo de que
tudo termine depressa para saíres.
Tu também és um cofre e tens um tesouro para Mim, um tesouro que Eu
cobiço. É esse teu coração aquilo de que desejo apossar-Me inteiramente e
que tu teimas em partilhar com as criaturas.
Olha muito para o Sacrário e dele toma o exemplo de como deves tu
também ser um cofre, cioso do seu tesouro, que apenas deves dar Àquele que
to merece, mais que a qualquer pessoa que te ame.
Guarda no cofre também os segredos que Eu te vou sussurrando baixinho,
tão baixinho que só o teu coração pode ouvir. Coloca-o à escuta. Afasta-o
daquilo que dissipa e te tira a atenção para as minhas palavras, mas
aproxima-o do meu, não só nestes momentos junto do Sacrário, mas também
durante o dia, em todas as circunstâncias.
Traz para aqui muitas vezes o teu pensamento, quando não puderes
realmente vir para junto de Mim. Pela intenção poderás estar perto do teu
Tesouro, sempre que quiseres.
Desejo a tua companhia, porque estou sempre muito só e procuro almas
que Me amem de verdade e Me acompanhem, procurando com o seu amor
compensar-Me de tantos ultrajes e sacrilégios, que se cometem em todo o
mundo, e que também procurem reparar e interceder por aqueles transviados
que tanto Me ofendem e por aqueles que são aliciados a segui-los por esses
caminhos.
Alma, minha filha, há tanto que dizer e que pedir aqui junto de Mim!
Como poderás pensar alguma vez que não sabes o que Me dizer? Como
poderás sentir-te aborrecida junto do meu Sacrário?
Se tal te acontecer, por provação ou tentação, cobre logo esse

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aborrecimento com actos de amor incessantes, e estarás a fazer a melhor
oração.
Fica comigo o tempo que puderes, silenciosamente, deixando agora tu
transbordar o teu coração para o Meu.
Alma
Sim, neste Sacrário bendito está realmente o meu Tesouro. É aqui que está
Aquele que eu amo. Não posso ir vê-l’O ao Céu, mas sei que está aqui com
todo o seu poder, com toda a sua beleza…
Por este Tesouro estou disposta a dar tudo o que tenho e tudo o que sou, a
entregar-me inteiramente, sem atender aos meus gostos pessoais e tantas
vezes egoístas, às minhas comodidades ou receios.
Tu, Jesus, és o Tesouro que ambiciono, que está desejoso de Se me
entregar. Então que espécie de alma sou eu, que estou sempre a adiar a
minha entrega? Sou assim, esta miséria que aqui está a teus pés, mas que Tu
amas, mesmo com estes defeitos todos.
O meu pobre coração, o meu corpo, esta alma cheia de misérias, todos os
meus gostos, tudo aquilo de que me rodeio, tudo o que tenho e tudo o que
sou, quero entregar-Te neste momento, para corresponder a tanto Amor que
Tu me dás.
Prometo vir aqui muitas vezes e, quando não puder, mandar-Te-ei o meu
pobre pensamento, que costuma estar sempre tão ocupado com coisas
mesquinhas, com ressentimentos, recordações do passado ou projectos vãos
de futuro, arquitectando mil coisas, dando rédea solta à imaginação que me
costuma levar por caminhos cheios de pedras e espinhos ou de pântanos e
precipícios.
De tudo isso Te suplico que me libertes e purifiques, com a tua doce
presença, com o teu Amor e com teu poder sem limites.
Eu prometo ficar junto de Ti, desejando ansiosamente receber o Tesouro
infinito que és Tu, e pedir-Te perdão por todos aqueles que Te não amam,
que Te ofendem de tantas maneiras, algumas que ultrapassam a minha
capacidade de imaginação.
Por todos eles, aqui me tens, disposta a dar-Te tanto amor, que Te faça
esquecer os abandonos, as faltas de amor, os esquecimentos e injúrias dos
teus filhos ingratos e também as minhas próprias ingratidões diárias.
Bem sei que é pouco o que te dou, é quase nada, é uma presença cheia de
imperfeições, aquilo que te ofereço, mas é o que tenho, na minha pobreza,
que como pequenina flor, se abre para receber o Tesouro que purifica e
enriquece; que faz tudo, nesta pobre alma, que de si nada tem, mas se dá, que
Te adora e que deseja que tudo faças nela, conforme a tua Santíssima

32
Vontade…

33
Sacrário – Refúgio
Querida alma, que estás junto de Mim, quanta alegria Me dás com a tua
presença! Tanto pensei em ti! Desejei tanto a tua companhia!
Tu também costumas desejar a minha? Lembras-te, ao menos de Mim,
algumas vezes durante o dia?
Bem sei que para ti as horas são curtas para tanto que tens que fazer, para
todas as coisas em que te agitas, umas vezes porque é de tua obrigação,
outras vezes sem necessidade, só porque gostas da agitação e de parecer
pessoa muito ocupada, dedicas-te a demasiados trabalhos, só porque a
agitação te distrai e age em ti como um vinho que alegra e depois embriaga.
Olho para o teu coração e vejo mil preocupações e desgostos, dores,
futilidades que escondes a todos, até a ti própria, porque não gostas de ver as
coisas inúteis e até mundanas que ele abriga.
Pensas que não abrigas em ti coisas mundanas? Meu filho, não sabes
quanto de mundano se oculta até em coisas ditas espirituais! Não sabes
quanto de mundano se oculta nas pregas e refolhos das almas que parecem
muito piedosas!
Tem atenção, porque quando recusas aceitar as faltas que envergonham e
que censuras nos outros, estás em perigo de cair em farisaísmo!
Sei o que fazes e porque o fazes. Sei tudo aquilo que os teus irmãos não
sabem, tudo o que escondes tão bem, que muitas vezes até a ti te custa a ver
e a entender a malícia.
Eu vejo tudo isso, sei o que te desgosta e o que te desanima, o que te faz
sofrer e aquilo em que perdes tempo, sei do que gostas e do que não gostas, o
que secretamente te humilha e o que disfarçadamente te satisfaz a vaidade,
mesmo a vaidade espiritual, que é um tipo de vaidade de que se fala muito
pouco, mas que existe e que, como um verme oculto, vai roendo o interior de
muitas almas que se dizem minhas.
Fica aqui junto de Mim, porque o meu Sacrário, que é a minha habitação,
pode ser para ti o refúgio de todas as tuas dores e alegrias, de todas as tuas
preocupações, problemas e misérias.
Tudo podes colocar aqui, que ficará bem guardado nas minhas mãos, para
que Eu remedeie e oriente tudo na tua vida, porque, apesar de tudo o que
fazes de menos bom, Eu continuo a amar-te, como mais ninguém te ama.
Sim, o Sacrário é o meu refúgio e pode ser também o teu, se deixares ficar
comigo o teu coração enquanto aqui estás, sem te distraíres com as pessoas
que entram ou saem, sem te deteres a conversar com ninguém senão comigo,
sem deixares vaguear o pensamento pelas preocupações ou imaginações.

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E depois, quando saíres, podes também deixar o teu coração comigo, no
refúgio deste Sacrário, onde Eu próprio Me
refugio.
O Sacrário é refúgio para Mim, porque aqui estou mais ou menos a salvo
de profanações.
Enquanto estou aqui dentro, estou adorado pelos Anjos, que tu não vês,
mas que não deixam de Me prestar culto, culto esse que muitas vezes é o
único que Me é prestado em muitas igrejas, onde as pessoas entram e saem
sem um único pensamento para Mim, alguns porque querem apenas observar
a arquitectura e belezas das igrejas; outros porque estão habituados a andar
por aqui a fazer obras, limpezas ou ornamentações de altares, e só pensam no
próprio trabalho; ainda outros, porque estão à espera que comece alguma
cerimónia, à qual vieram para nela tomar parte…
Sim, estou aqui no Sacrário rodeado de Anjos que Me adoram e louvam.
Deveria bastar-Me, poderás pensar… Mas não basta, porque Me faltam as
adorações e os louvores dos filhos a quem tanto amo, que se agitam por todo
o lado, e a quem não sobra um minuto para Mim.
Sim, o Sacrário é o meu refúgio, mas é um refúgio muito frio, enquanto tu
não o aqueceres com o teu amor.
Refugia-te aqui comigo, e este Sacrário será também o teu refúgio, para
onde, sempre que quiseres, poderás fugir dos perigos que encontras a cada
passo, das dificuldades, dúvidas e problemas que precisas de resolver, das
dores e sofrimentos que te atingem a cada passo e, principalmente, quando
menos esperas.
Sofres? Vem para junto de Mim. O Sacrário é pequeno, mas se Eu que sou
o Deus infinito aqui moro, o teu coração também há-de caber comigo, dentro
destas pequenas pa-
redes.
Conta-Me o teu sofrimento, as tuas dificuldades, as tuas misérias e faltas,
as dores que te torturam, as dúvidas, as preocupações, todas aquelas coisas
que não sabes como fazer, as situações que não sabes como resolver…
Não andes a contar por todos os lados, a perguntar a toda a gente, a
derramar em todos os ouvidos aquilo que sofres, muitas vezes aumentado,
acabando por te torturares ainda mais com esses relatos.
Bem sei que muitas vezes desejas desabafar, deitar para fora tudo aquilo
que te faz sofrer. Vem então para junto de Mim, vem aqui ao meu refúgio e
faz dele também o teu refúgio, o lugar onde te refugias com as tuas cruzes, o
lugar onde escondes as tuas dores junto de Mim, que sou o único que
verdadeiramente te sei compreender e consolar, pois só Eu sou o teu
verdadeiro Amigo e só Eu conheço bem o coração humano. É obra das

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minhas mãos! Por isso conheço-o muito melhor que qualquer um de vós.
Vem guardar aqui os teus projectos, as tuas dúvidas, os medos que por
vezes te assolam e te perturbam como inimigos que te perseguem.
Vem refugiar-te neste abrigo seguro, porque junto de Mim, no meu
refúgio, nada te pode tocar. E se, quando saíres daqui, encontrares à porta da
igreja, pelas ruas de volta à tua casa, de novo os problemas à tua espera,
lembra-te de que o meu refúgio está sempre aberto para ti e podes refugiar-te
aqui comigo, mesmo à distância, quantas vezes tu quiseres.
Mas repara, meu filho, que não basta dizeres que sim, que queres ficar
comigo, entregar-Me tudo, esconder tudo aqui, se continuares a remoer as
preocupações na tua cabeça, porque assim estarás a guardar tudo em ti,
mesmo dizendo que guardas comigo.
É preciso que te refugies junto de Mim com toda a confiança e entrega à
minha Vontade e Providência, tanta confiança e tanta entrega, que tudo
descarregues e fiques livre e em paz, para tudo o que Eu permitir que te
aconteça.
Seja o que for que venha depois a acontecer-te, doenças, cansaços,
distanciamentos, abandonos, enganos, críticas, calúnias, solidão, trabalhos,
morte de alguém ou até o martírio, encontrar-te-á sempre em paz, mesmo
que essas dores te façam jorrar lágrimas.
Serão lágrimas derramadas com doçura, com entrega, lágrimas de quem
sabe que está seguro num abrigo, onde se refugia das intempéries, das feras e
de todo e qualquer perigo.
Eu sou Aquele que te protege. Sou Aquele que também aqui Se refugia e
gosta da tua companhia, pobre alma!
Que será de ti no meio desse mundo carregado de imundícies, onde te é
difícil andar, sem escorregares em tanta lama?
Que será de ti no meio de tantos inimigos dissimulados com sorrisos e
frases educadas, que afinal só se querem aproveitar de alguma coisa tua, que
possam usar em seu favor?
Será o teu trabalho, a tua habilidade para qualquer coisa, o teu dinheiro, os
teus conhecimentos, o teu prestígio, o teu nome, o teu hábito de não dizer
que não, o teu jeito de falar, ou qualquer outra coisa boa que tu possas ter…
Tudo serve para quem se quer servir, e tu vês-te muitas vezes utilizado em
proveito alheio, e posto à margem, quando já não és preciso, quando alguém
se lembra de te caluniar, ou quando as tuas capacidades diminuem, por
motivos de saúde ou do avançar da idade.
Ocorrem-te então à mente muitas perguntas. Interrogas-te sobre as pessoas
em quem confiavas, e que afinal se mostram muito pouco dignas de
confiança, pela forma como de ti se serviram e o abandono a que te votaram,

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ou porque traíram os teus segredos e te atraiçoaram com outras amizades.
Perguntas a ti próprio que amigos são esses, que familiares são esses, que
falam nas tuas costas, urdem intrigas, te escondem até coisas simples,
quando tu os distinguiste tanto, com a tua amizade sincera que nunca traíste.
Amargamente, revês o passado, o que fizeste, o que disseste, para ver se
notas ter feito alguma coisa que ofendesse… e não encontras nada que
justifique o abandono em que te sentes, as más palavras, as faltas de respeito,
as traições, os segredos, os silêncios, aquelas coisas que te chegam aos
ouvidos…
Apetece-te chamar essas pessoas e perguntar: “O que foi que eu fiz?
Porque é que me tratam com tanta injustiça? Porque é que são urdidas tantas
intrigas nas minhas costas? Porque é que sou passado para trás, eu que tanto
trabalhei e que tantas provas dei de colaboração, de eficiência, de respeito,
de amizade?”
Mas calas-te, olhas e engoles as lágrimas. Todos se calam à tua volta, com
ar duvidoso, ou, se falam, é para te dizerem coisas que ouviram a terceiros
ou para te darem conselhos que te magoam ainda mais.
Pobre alma! Que seria de ti no meio disso tudo, se não Me tivesses a Mim,
se não viesses refugiar-te comigo no meu Sacrário?
Vêm depois as doenças que te deixam sem forças, sem entusiasmo, sem
vontade de trabalhar, mas tu tens de continuar, assim que melhoras um
pouco. Vais inventando forças cada dia e às vezes quase te arrastas…
Pobre alma! Pobre alma fatigada, arrastando um corpo cansado, doente, ou
ainda fraco e convalescente!
Vem tomar algum repouso junto de mim, que Eu te darei novas forças e
nova doçura, para encarares todas as dores, trabalhos, desilusões, abandonos,
com nova coragem, com coragem de mártir, mas mártir verdadeiro e não
com a representação de um ar piegas, à procura de consolo nas criaturas.
Vêm ainda as doenças dos familiares, que por fim ainda são as que mais te
doem. Quantas vezes desejarias estar tu doente e não esse familiar que tanto
amas! Mas não é assim, e tens de aceitar essa doença que tanto te preocupa,
que te cansa e te faz passar por muitos trabalhos, talvez noites em claro, essa
doença que talvez não tenha cura e que, por isso, te dói ainda mais no
coração do que no corpo cansado.
Pobre alma! Pobre e querida alma! Como é que tu podes com isso tudo?
Vem junto de Mim diariamente descarregar tantos fardos. Quero aliviar-te e
guardar as tuas dores junto das minhas, os teus cansaços e desilusões, os teus
sofrimentos e tudo o que te preocupa, tudo o que te dói.
Vem para junto de Mim, mesmo que não possas sair de casa, mesmo que
estejas presa à cama ou a cuidar de alguém.

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Vem refugiar-te junto de Mim. Fica aqui no meu Sacrário, aqui onde Me
refugio e onde tu também deves procurar refugiar-te.
Só aqui haurirás forças para suportar essa cruz que tanto
te pesa, porque aqui dentro estou Eu, que sou o único Amigo que nunca
atraiçoa, que nunca falta, o único que te ama verdadeiramente e que
verdadeiramente te pode ajudar.
Aqui, junto de Mim, terás a paz e saberás finalmente o que é ser amada.
Alma
Ó Jesus, único Amigo, único Amor em quem posso confiar, é junto de Ti,
nesse pequeno Sacrário, que me quero esconder.
O mundo com os seus encantos enganadores já me mostrou o erro de quem
nele confia. Os amigos, aqueles que eu pensava que eram amigos, mostraram
a face que ocultavam há tanto tempo!
Quantas desilusões eu tenho sofrido! Sinto verdadeiramente que ninguém
me compreende, de quantos me rodeiam, mesmo aqueles que me são mais
chegados. Há sempre no meu íntimo coisas que não lhes sei explicar,
sentimentos que lhes oculto, com receio que eles se afastem ainda mais.
O mundo é realmente um deserto onde caminhamos muitos, mas onde a
colaboração é pouca e sempre mais ou menos motivada por alguns interesses
pessoais.
Sinto-me só neste deserto! Não encontro companhia nem amor verdadeiro!
São desilusões atrás de desilusões em cada dia!
Sou uma alma esfarrapada que se Te dirige, uma alma que dissipou todas
as riquezas com que a cobriste no dia do baptismo; uma alma que preferiu as
companhias humanas, os gozos profanos; uma alma que até nas coisas
espirituais Te atraiçoou muitas vezes, que se deixou encher de vaidade, de
soberba e de muitos ressentimentos; uma alma que em vez de Te procurar
puramente, procurou muitas vezes apenas as consolações espirituais!
É esta alma tão pobre que está aqui junto de Ti, desiludida com tudo aquilo
com que se entreteve até agora. Bendito sejas por permitires tais desilusões,
que serviram para me aproximar mais de Ti, vendo bem que Tu és o único
que me compreende e que nunca me falta.
É junto de Ti que me quero refugiar, com todas as minhas dores, o meu
trabalho, a minha doença, a doença de quem me é querido, com as minhas
preocupações, os meus receios, as minhas desilusões, com tudo o que me
aflige.
É neste Sacrário que quero fazer para sempre a minha habitação. Só aqui
encontro paz e felicidade, porque a tua presença é a alegria de todos os
Santos. É bem verdade que quem Te tem a Ti, de nada mais precisa.

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Eu também de nada mais preciso, senão de Ti!
Permite-me que Te adore, ó Rei do Céu e da Terra, Jesus Filho Eterno de
Deus Pai!
Permite-me que Te adore, Tu que na Terra foste o mais humilde dos
homens, e que continuas a ser humilhado e tão ofendido por nós neste
Sacramento admirável!
Permite-me que Te adore, ó Filho da Virgem Maria, Deus connosco!
Permite-me que Te adore…
Sim, aceito o Teu convite. Fica comigo e permite-me que fique contigo,
aqui, sempre, em adoração, todos os dias da minha vida.

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Sacrário – Palácio
Alma que estás junto de Mim, repara bem onde estás. Não estás na rua,
não estás na tua casa, nem na casa de qualquer pessoa que conheças. Estás
diante de Mim que sou o teu Deus e o teu Rei.
Reconhece a subida honra que te concedo por te admitir aqui na minha
presença. Para tal não precisaste de marcar entrevista, nem de passar por
secretários e adjuntos. Não precisaste de meter empenhos, de pedir favores a
alguém para seres aqui admitida. Simplesmente, quiseste vir e encontras--te-
Me disponível para te escutar, para te falar, para te ajudar e para te conceder
as graças de que tanto precisas e que mais ninguém no mundo te pode dar.
Sim, tu hoje quiseste vir! Mas quantas vezes não queres! Quantas vezes
passas apressada para resolver outros assuntos, para encontrar alguém que te
interessa, para comprar qualquer coisa ou até para ires para casa… e não
entras, não vens uns minutos para junto de Mim!
Nessas alturas os meus olhos seguem-te longamente, com tristeza… uma
tristeza que tu não sentes, porque não tens um pensamento para Mim, porque
vais distraída com as tuas coisas, com alegrias que não Me agradeces, com
trabalhos para os quais não Me pedes ajuda, com problemas e desilusões que
não Me contas, com dúvidas que não Me expões, com cansaços de que não
vens repousar junto de Mim.
Não sentes os meus olhos que te seguem, porque o mundo te distrai e
porque te viras demasiado para ti própria, porque a tua imaginação corre
desenfreada à frente de todos os problemas, e só tens olhos para ela.
Se olhasses mais para Mim, sentirias a tristeza com que te olho, quando
por aqui passas sem entrar!...
Repara, sou o teu Rei e convido-te para o meu palácio.
Este pequeno Sacrário é realmente o meu palácio. Parece-te um palácio
com pouco conforto, pequena alma? Muito mais desconfortável é o teu
coração e nunca Me recuso a lá entrar!
O teu coração é desconfortável, porque é uma casa sempre pouco
arrumada e bastante suja. Há por todo o lado teias de aranhas, onde te
enredas e ficas colada, em apegos que te agarram, como as teias agarram os
insectos.
Vê como te apegas a tantas coisas que te recusas a largar. São os teus
pontos de honra de que não abdicas, aquilo que achas que deve ser e que
obrigas a seguir todos os que te rodeiam, mesmo que eles não concordem
com isso e mesmo que não sejam coisas de superior importância.
É essa tua maneira de ser e de tratar o próximo, essa dureza de vistas, que

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não muda nem quer mudar, porque te convences que sabes tudo melhor que
os outros, essa dureza que não aceita conselhos ou, se finge que aceita, não
os cumpre.
É uma dureza que nem os meus conselhos cumpre, apesar de tantas vezes,
através da oração, de pregações, de palavras de alguma pessoa amiga ou de
alguma leitura, reconheceres e pensares que há coisas em que devias mudar!
É esse prazer que sentes em falar, em mostrar conhecimentos, em ouvir o
que tu própria dizes, pobre alma, e que te parece tão acertado ou tão sábio!
Nem pensas que, muitas vezes, quando falas muito, quando mostras os teus
conhecimentos de tantas coisas, o próximo, que tu pensas deslumbrado com
a tua sabedoria, está desejoso que te cales, porque está cansado de tanta
verbosidade que às vezes nem entende bem.
Também acontece que essas pessoas para quem falas, ao fim de algum
tempo, desligam a atenção e já nem sequer te ouvem!
No meio dessas teias, existe como que uma cadeira alta, onde te sentas,
satisfeita da tua sabedoria, daquilo que fazes, daquilo que dizes, deixando-te
contaminar pelo vírus da vaidade espiritual de quem gosta de se ouvir a si
próprio, que tem prazer em catequizar toda a gente, mesmo aqueles que não
querem ser catequizados ou vêem as coisas de outra forma e se sentem
cansados e fartos das tuas pregações, mas por educação não o dizem.
Estes apegos às tuas próprias ideias são teias de aranha muito difíceis de
tirar, porque a aranha, que é o teu mau fundo, sempre constrói outra e
continua a manter-te agarrada.
Esta teia tende também a agarrar o teu próximo, pessoas frágeis ou
incultas, que procuras vincular às tuas ideias… Por isso, a casa que tu és e à
qual, apesar de tudo, se vão agarrando algumas pessoas, torna-se muito
desagradável para Mim, porque a teia do orgulho espiritual é asquerosa!
Tens também outras pequenas teias. São aquelas coisas e coisinhas de que
recusas separar-te. Por vezes nem sequer te fazem falta, mas agarras-te a elas
por vaidade ou por consolo espiritual!
É sujidade da qual Eu tenho muitas vezes de te lavar, permitindo que
muitas dessas coisas se estraguem, se percam ou que até sejam roubadas.
Nestas coisas estão também incluídas amizades a que por vezes te apegas e
que Eu tiro do teu caminho, deixando-te cheia de dor e de interrogações, sem
saberes o que fizeste, que originou tal pessoa afastar-se de ti.
Encontro ainda em ti lixo pelo chão. São os teus pecados, maiores ou
menores. É sempre lixo que encontro no teu interior, lixos que não tens na
casa onde moras, principalmente se esperas visitas.
Vejo vidros sujos, cheios de dedadas. São essas maneiras de olhar o teu
próximo, os juízos mentais que fazes dele, sem caridade, sem atender àquilo

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que motivou a sua maneira de proceder. São os teus gostos não mortificados,
com que te consolas, são essas conversas imoderadas, onde entra a vida do
próximo.
Tudo isso te dificulta a real visão daquilo que te rodeia e leva-te a tratar o
próximo com dureza, a falar-lhe de maneira agreste, ou com palavras de
simulada educação, mas que trazem agressão profunda para quem escuta.
Encontro também móveis e mais móveis atravancando todo o espaço. São
as tuas dissipações, tudo o que te ocupa desnecessariamente. São também
algumas boas obras que fazes para seres vista, para seres bem considerada,
ou porque gostas de andar de um lado para o outro em canseiras que te
impedem de rezar e te fazem permanecer depois, caída na preguiça
espiritual.
Vejo roupa suja por todo o lado. É aquele tempo que tu gastas a ver livros,
revistas, filmes e programas mundanos, que não são edificantes, embora às
vezes sejam rotulados de engraçados, e que só fomentam as más tendências e
os baixos instintos de cada um de vós.
São coisas em que mergulhas os olhos e os ouvidos, e que sempre te
sujam, porque sempre te transmitem mensagens de pecado, acabando por o
tornar tão costumeiro, que todos se vão habituando, tu também, a conviver
com ele sem reclamar.
Olha bem para ti e vê a imundície do teu interior, esse interior onde tantas
vezes Me recebes.
Olha agora para o meu Sacrário e vê aquilo que é realmente o meu palácio.
Não importa que seja pequeno, porque aqui multidões de Anjos Me servem e
Me adoram, em substituição de tantos filhos que deviam fazê-lo e não o
fazem, em substituição daqueles que vêm, mas é como se não viessem, pois
passam o tempo a ver quem sai e quem fica, ou em conversas com o vizinho
do lado, sem pensarem na presença de quem estão, impedindo quem fica
próximo de se concentrar em Mim e na oração.
Pensa que é uma honra para ti seres convidada por este Rei, seres
convidada para este palácio!...
Procura então portar-te condignamente, vires bem vestida com as roupas
da graça, cada dia mais resplandecentes de pureza.
É preciso também que o teu corpo venha vestido decentemente, pois a
desculpa do calor não serve junto de Mim, para te justificar de roupas que te
desnudam.
Tem muito cuidado com este pormenor que é de grande importância, pois
vejo nas minhas igrejas e santuários muitas pessoas vestidas de forma
insultuosa para Mim, dizendo com essa forma de vestir transparente,
decotada, curta ou cingida, que não respeitam o lugar sagrado onde entram,

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que não respeitam a minha presença, que não crêem sequer que Eu ali estou.
Como podem estas almas esperar ser atendidas nos seus pedidos? Se tal é
o teu caso, é tempo de te emendares.
Pobre de ti, querida alma, que nem sequer sabes como conservar as tuas
vestes puras, no meio do lamaçal em que vives, esse lamaçal em que o
mundo se tornou!...
Vê, Eu próprio te quero purificar e embelezar. Eu próprio quero ser a tua
pureza, se aceitares que Eu faça em ti esse trabalho, se colaborares comigo,
procurando afastar-te de tudo o que te pode sujar, desviar de Mim ou até
perder o precioso tempo que te dei para te santificares.
Alma querida, permanece comigo, aqui no meu palácio, longamente, em
doces conversas. Ou não terás tu nada para Me dizer?
O teu coração é tão duro e tão seco que não encontra nada de agradável, de
doce, para Me comunicar? Só tens desgostos para te queixares, dores para te
lastimares, pedidos de graças para fazeres?
Não te importas com os meus interesses, com tanto que sou ofendido, para
Me consolares disso tudo? Não te preo-
cupas com tantos irmãos teus que erram por esses caminhos de pecado, sem
o menor interesse em mudar de vida, tantos que estão em vias de perdição?
Alma, minha filha, lembra-te de que a educação, a delicadeza, te devem
levar a falar-Me dos meus assuntos antes de Me falares dos teus, a
preocupares-te com os meus desgostos antes de te lastimares daquilo que
sofres, a pedir-Me perdão por quem Me ofende, e por ti também, antes de te
queixares das ofensas que alguém te fez.
Aquilo que tu sofres é sempre muito menor que aquilo que Eu sofri por ti.
As ofensas que te fazem são infinitamente menores que aquelas que os meus
filhos Me fazem a Mim, porque as ofensas também se medem pela dignidade
da pessoa ofendida.
As ingratidões que tu sofres não têm comparação com as ingratidões que
tu e os teus irmãos têm para comigo.
Se acontece que se esqueçam de ti e não te agradeçam o bem que fazes,
lembra-te de quantos benefícios te tenho concedido sem que tu os agradeças.
E lembra-te também que, como tu, os teus irmãos, sim, a grande maioria
deles, também não Me são agradecidos.
Se não querem saber de ti e te deixam na solidão, vê como a Mim Me
fazem o mesmo e Me deixam aqui sozinho, neste palácio, do qual se recusam
a aproximar. E, quando vêm, a maior parte das vezes nem comigo falam, não
Me adoram, não Me reverenciam!
Ai, minha filha! Tanto tens para falar comigo antes de Me falares das tuas
coisas, dos teus problemas, dos teus sofrimentos e desilusões.

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Vê também quantas vezes Me tens desiludido e pede-Me perdão, em
primeiro lugar. Depois conta-me então as tuas dores, as tuas dúvidas, as tuas
aflições. Mas não te esqueças de também pedir pelas aflições dos teus
irmãos, mesmo por aquelas que te são ocultas.
Vem aqui muitas vezes. Eu estou sempre disponível para ti e desejoso da
tua visita, da tua companhia, mesmo à distância, quando não te puderes
deslocar junto do meu Sacrário.
Quantos gostam de visitar palácios, deliciando-se com as suas decorações,
obras de arte e outras riquezas! No entanto, tudo isso é vão e passageiro!
Neste palácio tenho delícias e riquezas para quem, com o coração aberto
em amor, Me vem visitar. Só tens que aproximar-te e as minhas riquezas
escorrerão sobre ti.
Vem até Mim e fica aqui comigo o tempo que puderes, contemplando,
adorando, falando-Me com amor. Eu ficarei contigo e farei do teu coração o
meu palácio.
Alma
Ó Jesus, pedes-me que Te diga palavras de amor, mas que sei eu de amor
para dizer-Te? Tudo aquilo que digo numa hora atraiçoo na outra, porque, e
já o sei reconhecer, eu não sei amar. Estou demasiado acostumada ao amor-
próprio e aos amores do mundo, esses amores tão fúteis, tão falsos e por
vezes tão pecaminosos!
Aqui a teus pés, nada mais posso senão humilhar-me na minha grande
miséria. Sou indigna de estar aqui, junto do Rei dos reis, do Senhor dos
senhores. Sou indigna de estar na tua presença, porque faço parte daqueles
que muito Te têm ofendido.
Como Tu és bom por ainda me chamares para junto de Ti, por me
convidares para o teu palácio, quando eu merecia que mandasses os teus
Santos Anjos afastarem-me!
Como Tu és bom por quereres vir a esta casa pobrezinha e suja que sou eu,
alma pecadora, que tantas vezes quer parecer melhor do que é!
Como Tu és bom por quereres purificar-me, de tantas sujidades, que eu
não tenho o cuidado de limpar e que, até a maior parte das vezes nem evito!
Louvo-Te agora, na tua Misericórdia sem limites, que se debruça para a
sua insignificante criatura pecadora, para a erguer até ao abraço do seu
Amor.
Adoro-Te neste louvor, eu que não sei adorar como os anjos, na sua
pureza. Só sei curvar-me até ao chão e repetir com eles: “Santo, Santo,
Santo…” (Is 6,1-3).
Perdoa-me, que eu nada mais sei dizer. As frases belas fogem-me dos

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lábios. Só desejo contemplar-Te, não tirar de Ti os meus olhos e curvar-me
na tua presença, pedindo-Te sem cessar perdão pelos meus inumeráveis
pecados.
O que Te queria pedir, já não sei. Só sei que quero ficar contigo, para
sempre, ser eternamente tua, nada mais ver na minha vida senão a luz dos
teus olhos e, nessa luz viver, trabalhar, rezar e sofrer tudo aquilo que de
doloroso vier a passar--se na minha vida.
Tu, só Tu és o Senhor! Tu, só Tu és o Altíssimo! Eu nada sou. Sou um
pobre vermezinho da terra, aniquilado a teus pés, que pede a graça sem preço
de Te amar.

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Sacrário – Céu
Chegaste ao pé de Mim. Que vês? Um pequeno Sacrário, uma porta
pequena… Mas os teus olhos vêem mais além e ultrapassam estas finas
paredes. Que é que está por detrás delas? O Céu!...
Alma, minha filha, o Sacrário é um Céu, porque é a minha habitação, e
onde Eu habito transforma-se em Céu, porque Eu próprio sou o Céu, a
felicidade absoluta e total de todas as almas.
Deixa que os teus olhos penetrem aqui pela fé. Cá dentro vês uma Hóstia
muito branca, que sou Eu.
A minha habitação é o Céu e também te transformo em Céu quando Me
recebes.
É uma graça tão grande, que tu nem a entendes, mas fica a saber que, com
toda a minha Omnipotência, não posso conceder outra maior. Por isso deves
desejar, mais que tudo, receber-Me, para receberes a graça de ser o meu Céu,
o pequeno lugar em que habito uns minutos em presença real e onde depois
permaneço pela graça e, pela mesma graça, te faço permanecer em Mim (Jo
6, 56), tornando-te então um Céu espiritual.
O Sacrário é um Céu de que te deves aproximar sempre que puderes; e
deves aprender a cultivar em ti o desejo desta proximidade, de modo a
viveres sempre saudosa e desejosa que tal te seja possível.
Qual o sítio que mais deverás desejar, o lugar que seja objecto de todos os
teus suspiros, para onde se dirija constantemente o teu pensamento? O meu
Sacrário. Sim, o meu Sacrário, porque Eu habito aqui.
Quando te diriges para o Sacrário bem podes dizer que vais ao Céu, porque
aqui é o Céu, é a minha morada na Terra.
Que mais podes desejar de felicidade, que vir para junto de Mim, para este
Céu, enquanto na Terra aguardas o fim do caminho, que te levará ao Céu da
eternidade?
Mas para que os teus pensamentos, os teus desejos, os teus suspiros se
dirijam para aqui, não só quando estás na igreja, mas também fora dela, é
preciso que tu realmente Me ames. Mas tu amas-Me? Amas-Me, realmente,
de modo a preferires-Me a tudo, a desejar-Me incessantemente, com
verdadeiro amor apaixonado?
Estou a ver no teu coração essas zonas escuras, carregadas de pensamentos
do próprio “eu”, de pensamentos de vaidade, de orgulho, de vanglória, de
conveniências, pensamentos de exclusão do próximo, de satisfações, de
dissipações, de invejas, de mundanidades, e de tantos maus pensamentos!
Como podes realmente desejar ter em Mim o teu pensamento, ter em Mim

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o teu Céu e deixar que Eu faça em ti o meu Céu, quando albergas no teu
interior tantos pensamentos escuros, que são outras tantas zonas que tens
vedadas para Mim?
São todas as zonas escuras, essas zonas onde habitam pensamentos que
não são os meus pensamentos, pensamentos que sabes que Eu não aprovo,
pensamentos que sabes que minha Mãe não teria, são zonas que Me fechas e
que abres ao amor-próprio e às tentações, albergando aquilo que Me
desagrada.
Quero fazer de ti o meu Céu, um Sacrário para Mim, um Sacrário onde Me
adores continuamente, como fazem os Anjos no Paraíso e neste Céu, que é o
Sacrário onde moro.
Mas como podes ser o meu Sacrário vivo, se não Me pertence a totalidade
do teu ser, se guardas para o teu gozo pessoal tantas zonas onde cultuas a
vaidade, o amor-próprio, o orgulho, a ambição, as comodidades, os motivos
múltiplos, a inveja, as curiosidades, os ressentimentos, as dissipações, as
coisas do mundo, a sensualidade, as conversas inúteis, que descambam em
prejuízo do próximo, os apegos, tantas outras coisas que Eu detesto e tantas
omissões, irregularidades e preguiças no cumprimento de teu dever?
Enquanto não Me deres todo o teu interior, esforçando-te por te emendares
dos teus defeitos, à medida que tos faço ver, não poderás ser um céu para
Mim, mas sê-lo-ás quando reconheceres a tua miséria e procurares dar-Me
tudo aquilo que sabes que Me agrada, e quando evitares tudo o que sabes que
Eu não gosto.
Ninguém gosta de morar numa casa suja, muito menos Eu! Ficarias
horrorizada se visses o meu Sacrário cheio de lixo e teias de aranha… Mas é
assim que encontro, a maior parte das vezes, o teu interior.
Apesar de tudo, continuo a querer fazer de ti o meu Céu e purifico-te com
o meu contacto sempre que a ti desço, para que te tornes cada vez mais
agradável a meus olhos, para que possa olhar para ti cada vez com maior
satisfação, pois não há nada que maior prazer Me dê, do que uma alma pura.
Por isso, deves procurar muitas vezes o meu contacto. Deves procurar este
contacto purificador, que te embeleza e enriquece, que te transforma num
Céu como este Sacrário, onde estou por teu amor.
Aproxima-te daqui muitas vezes. Nunca poderás estar em lugar algum tão
honroso como este. Estás diante do teu Rei, do teu Deus, diante dos Anjos,
diante do Céu.
É aqui o lugar onde melhor poderás pedir graças e interceder pelos teus
pobres irmãos, alguns tão desgraçados que não vêem sequer o mau caminho
que trilham, caindo a cada passo no meio das imundícies que abundam pelo
mundo.

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E mostram-se muito satisfeitos nesta triste situação, dando a entender que
assim é que as coisas estão bem, procurando até arrastar outros para as
mesmas quedas, pondo em grande perigo as almas dos jovens!
Estas pessoas, que tantas vezes manifestam as suas opi-
niões perante os órgãos de comunicação social, fazem uma espécie de
lavagem ao cérebro de quem as ouve ou vê. Espalham a contaminação da
imoralidade, de forma tão natural, sorridente e simpática que, aos poucos, a
maior parte das pessoas já nem acha mal, porque se vai habituando a pensar
da mesma maneira, conforme o que lhe entra pelos olhos e pelos ouvidos
diariamente.
É teu dever rezar por tantos infelizes que estão em grave risco de perdição
eterna, que cairão na pior desgraça em que é possível cair, se continuarem no
seu erro, porque é uma desgraça da qual, por opção própria não sairão, uma
desgraça eterna.
Repara como actualmente quase todos têm medo de chocar opiniões e não
falam deste assunto, embora os que pensam de maneira contrária o façam
muitas vezes. Esta omissão é muito grave, porque instala as pessoas na
moleza, na ideia de que nada está mal, se a pessoa se sente bem na sua vida,
se faz aquilo que quer, de que gosta e para o qual se sente preparado.
Muitos dizem que Deus perdoa tudo. É verdade, sim, Deus perdoa tudo,
mas é preciso para tal, haver desejo de perdão da parte do pecador, isto é, é
preciso haver arrependimento. Mas como podem as pessoas arrepender-se se
não querem sequer pensar no mal que fazem? Como podem arrepen-
der-se se pensam que nada está mal?
Dizer que nada está mal é um grave desvio, porque há uma moral que é
inerente à natureza humana e que qualquer um que não esteja contaminado
pela onda de imoralidade, forçosamente sentirá.
Reza para que se arrependam dos seus erros todos aqueles que erram longe
dos meus caminhos, para que Eu possa perdoá-los, porque é isso que o meu
Coração deseja ardentemente.
Aprende que Eu não condeno esses pobres filhos transviados, mas mando-
lhes, até à hora derradeira mil graças de salvação. São eles próprios que se
condenam, que Me rejeitam, tanto durante a vida que levam, como
muitíssimas vezes, na hora final, porque o hábito da aceitação ou da rejeição
se adquire durante a vida.
A oração é muito importante para a conversão de tantas almas em perigo,
porque a oração faz descer do Céu muitas graças, que são pedidas pelo amor
de cada irmão.
Sim, eles não pedem as graças, podem até ignorá-las ou rejeitá-las, mas tu
nunca pedirás de mais por aqueles irmãos, conhecidos ou desconhecidos, que

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delas tanto precisam, já mesmo neste mundo, que é onde cada um prepara a
sua eternidade.
Larga todas as dissipações e sê uma alma atenta à minha voz e àquilo de
que os teus pobres irmãos precisam, não apenas para os seus corpos, mas
principalmente para as suas almas.
Vem aqui e reza por eles, esses irmãos que vivem de forma tão
descuidada. Muitos deles são apanhados pela morte subitamente, em grave
perigo de não estarem preparados para Me dizerem “sim”, na opção final.
Conto contigo, com a tua presença e com a tua oração, com o teu amor
vigilante.
Alma
Ó Jesus, neste momento em que Te quero adorar, com todos os teus Anjos,
e com eles louvar-Te e glorificar-Te, neste pequeno Céu, que é o Sacrário
onde habitas, prostro-me a teus pés, e abro-Te o meu pobre coração pecador,
para que o purifiques das suas misérias e o tornes o teu Céu, um Céu que Te
dê alegria e onde Te sintas bem.
Para isso, prometo cortar com todos os afectos desregrados,
principalmente os afectos ao meu “eu”, à minha vontade própria, aos
quereres e gostos pessoais. Renuncio a todas as minhas tendências pecadoras
e a tudo o que tenho feito e que sei que não Te agrada.
Abandono todo o meu passado à tua Misericórdia, porque sei que me amas
e não rejeitas uma alma que Te quer amar.
Abandono o meu futuro à tua Vontade, para que realizes em mim o que
mais Te glorificar, sem que eu me preocupe se, com a realização dos teus
desígnios, vier a ter alguma coisa a sofrer. Sei que me amas, e isso chega-me
para viver feliz e abandonada a Ti, na certeza de que tudo o que fizeres será
sempre o melhor para mim.
Abandono o meu presente ao teu Amor, para que tudo o que eu faça, tudo
o que diga, tudo o que pense, seja impulsionado por esse mesmo Amor que
me retira de mim mesma e me lança no amor do próximo.
Aceita, Jesus, as pobres orações desta alma que a teus pés implora
misericórdia.
Peço misericórdia, primeiro para mim, para que, mais purificada dos
muitos pecados com que Te magoo todos os dias, possa implorá-la para os
meus irmãos que, ignorantes do teu Amor, não sabem amar-Te e Te recusam,
rejeitando as graças que todos os dias derramas sobre eles.
Todos os dias Te quero implorar por eles, aquelas almas que Tu sabes…
pelas quais me interesso… e por todas aquelas que desconheço, mas que Tu
pelo teu divino querer, ligaste à minha oração.

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Derrama sobre elas, diariamente, uma chuva de graças eficazes, que
rompam a dura couraça de descrença e de pecado com que se envolvem, para
que, na hora da morte, não venham a rejeitar-Te eternamente.
Sei que a minha oração é fraca, mas quero agora uni-la às orações daqueles
que sabem rezar muito bem, essas almas santas que nos mosteiros ou no
mundo só vivem para Ti. Quero também uni-la à oração de toda a Igreja, de
todos os Santos e Anjos do Céu, à oração que por nós faz incessantemente o
Coração de Maria e à tua própria oração na Cruz.
Agora sim, sei que a minha oração Te é agradável e que irá beneficiar os
meus pobres irmãos.
Aceita também, Senhor, os meus pobres méritos, que uno aos teus, com
Maria, sobre o Calvário, para que na união do teu Corpo Místico, todos nós
permaneçamos contigo, eter-
namente, no Céu, na felicidade e no infinito do teu Amor eterno.

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Sacrário – Véu
Querida alma, olha em frente, olha para Mim. Não Me vês, mas Eu vejo-
te. Olho para ti e sorrio-te, porque Me agrada muito a tua presença.
Quantas horas aqui passo sozinho, desejando a hora em que chegarás…
mas há dias em que não chegas a vir, nem em pensamento…
Olha para o meu Sacrário, porque este, sim, podes vê-
-lo. Mas repara que o Sacrário não é mais que um véu que Me oculta aos teus
olhos.
Se este véu desaparecesse, assim como se desaparecesse o véu das
Sagradas Partículas, ficarias abismada num mar de luz, a luz da minha
presença que se tornaria visível para ti. Então avaliarias as tuas faltas de
cuidado, de amor e até de respeito, de toda a tua vida junto do Sacrário.
Cairias prostrada de confusão, de humilhação na tua miséria, pelas tuas
distracções, os teus esquecimentos, as tuas faltas de manifestação interna e
externa por aquilo que é mais sagrado.
Se Eu fizesse desaparecer este véu, verias a minha majestade e verias
quanto erras na minha presença. Os teus olhos abrir-se-iam para veres quanta
falta de consideração e até de respeito por vezes tens para comigo.
Vê como Me tratas ao entrar numa igreja, se fazes a genuflexão bem feita,
se apenas a simulas num trejeito que nada representa, ou se apenas curvas a
cabeça, que é o primeiro passo para deixares dentro de algum tempo de fazer
qualquer menção à minha presença.
Curvar a cabeça é um sinal de respeito e aceito-o para quem não pode, por
motivos de saúde, curvar o joelho. Mas repara se os teus motivos não serão
apenas de soberba, que acha que dobrar o joelho é uma atitude antiquada e
muito humilhante para o homem.
Vê como procedes quando estás aqui junto do Sacrário. Como os teus
olhos circulam por toda a parte, como até muitas vezes, a tua própria cabeça
se vira para um lado e para o outro, para ver quem está, quem sai e quem
entra… para veres o que é que se passa mais além, o que se passa lá atrás,
quem foi que falou, quem fez aquele ruído, qual foi o telefone que tocou,
quem é que não pára de tossir… e tudo o mais que vai acontecendo.
Vê como suspiras, como olhas para o relógio, desejosa de que o exercício
acabe, que o padre pare de pregar ou de fazer avisos, que o coro chegue ao
fim do cântico, para te retirares, e ires para a rua distrair-te com mil coisas.
Entretanto, vais deixando o pensamento voar em recordações, planos de
coisas que queres fazer, conversas que vais construindo entre dezenas de
imaginações, como

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se estivesses numa reunião aborrecida, onde te obrigassem a ir, mas onde o
anfitrião fosse, além de maçador, desconhecido e também de uma categoria
social muito baixa.
Repara! Que aconteceria se, nesses momentos, este Sacrário e estes véus
que Me ocultam desaparecessem!... Quão grande seria a tua confusão ao
veres-te em atitude tão distraí-
da e tão desrespeitosa perante o Senhor da Glória, que os Anjos adoram
prostrados!...
Se manténs conversas com as pessoas que estão ao lado, o teu proceder é
igualmente incorrecto, acrescentando-lhe a responsabilidade de distrair de
Mim o teu próximo e de destruir o ambiente de recolhimento, que outros
irmãos desejam e não conseguem, se ficam à tua frente ou suficientemente
perto para te ouvirem.
Não te iludas, porque de tudo isso terás de prestar contas. Disse-te no
Evangelho que terás de prestar contas de toda a palavra vã que saia da tua
boca (Mt 12,36).
Tudo isso são manchas e mais manchas com que te vais sujando, pobre
alma! E Eu, que de tudo te desejo purificar, não o posso fazer, porque tu não
deixas, porque te recusas a colocares-te junto de Mim com o respeito e o
amor que Me deves.
Não terás tristeza, por causa do teu procedimento, que enche de
consternação os próprios Anjos, que escandaliza o próximo e o impede de
rezar como desejaria?
Afinal, que vens aqui fazer? Como alguns, vieste esperar por uma Missa,
um terço, ou outro exercício que te aborrece, como quem espera por um
espectáculo a que não pode es-
cusar-se por um motivo qualquer?
Vieste aqui porque quiseste, porque gostas de vir rezar? Então cuida bem
da tua atitude, para com ela dares só bom exemplo aos teus irmãos. Com o
bom exemplo podes fazer muito bom apostolado.
Repara que não estás numa praça, numa loja, numa rua, no vestíbulo de
um teatro, no cinema à espera do filme, nem sequer numa casa particular,
aonde poderias ter ido fazer uma visita.
Neste caso, certamente cumprimentarias com afecto a pessoa visitada,
falarias com ela todo o tempo que pudesses, sem a abandonar a um canto
para te entreteres com aqueles que vieram contigo; portar-te-ias de acordo
com aquilo que sabes que agrada à pessoa que visitavas e não irias para lá
com faltas de respeito. Mas aqui, na minha própria casa, diante de Mim,
muitos fazem aquilo que não fariam numa visita a alguém de respeito e boa
colocação social.

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É de tudo isto que hoje te queria falar, embora já tenha tratado deste
assunto mais atrás, pois nunca é de mais falar daqueles erros que tanto se
fazem actualmente, para te mostrar como profundamente Me desagradam.
Agora já podes pensar, porque já te abri os olhos para a forma como sou
tratado pela maior parte dos filhos e por ti também, algumas vezes. Já podes
examinar a tua consciência e prestar mais atenção à forma como Me tratas.
Já podes envergonhar-te pela maneira como te portas na minha presença,
pela falta de cuidado e de respeito… e também pela falta de amor e adoração
que Me deves.
Como podes tu aborrecer-te junto de Mim e desejar que tudo acabe
depressa, para te ires embora? Sou assim uma pessoa tão aborrecida, que não
consigas estar algum tempo a falar comigo, enquanto esperas? Gostas assim
tão pouco de estar comigo?
E podes então dizer que Me amas realmente? Não achas que não concorda
muito o que tu dizes com aquilo que fazes quando estás aqui?
E diz-Me: qual é o teu desejo de estar mais vezes comigo? Esse desejo é
grande?
Como seria grande esse desejo se este véu, este Sacrário que Me oculta
desaparecesse! Se visses a minha grandeza, a minha beleza, então como seria
grande o teu entusiasmo em vir aqui mais vezes, como desejarias aqui ficar
muito mais tempo! Como seria rápida a passagem do tempo para ti!
Não terias vontade alguma de falar com mais ninguém, mas só desejarias
ajoelhar-te diante de Mim, só desejarias ouvir-Me e falar-Me.
E quando não pudesses vir, certamente o teu pensamento voaria para cá!...
Ficarias permanentemente comigo, ou em presença ou em pensamento.
Vê o que aconteceria se Eu fizesse desaparecer este véu que Me oculta aos
teus olhos! Tudo te seria tão fácil, dizes tu, mas como é que mostrarias a tua
fé e o teu amor?
Minha filha, é preciso que estes véus continuem, porque eles fazem parte
daquilo que Eu escolhi para vós, para Me mostrardes o amor e a fé que dizeis
ter.
É com actos que os mostrais. Como mostras tu que Me amas e que
acreditas na minha presença Eucarística?
Que testemunho dás tu perante as crianças e perante aqueles que não têm
fé? Olha que o testemunho das tuas atitudes é muito importante e já se têm
convertido almas por causa dos bons exemplos de fé e amor que vêem em
alguns cristãos.
Infelizmente o contrário também é verdadeiro e já têm deixado de se
converter alguns por causa dos maus exemplos que observam nos que se
dizem cristãos, mas não o mostram pelos seus actos. Repara que grande

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responsabilidade!
Olha para este Sacrário com verdadeira fé e deixa que o amor venha à tona
e se mostre pela tua atitude de recolhimento. Não precisas de pregar com
mais que com o bom exemplo e já farás uma boa obra, que Eu saberei
premiar.
Olha para Mim e fala-Me em segredo, porque assunto não te deve faltar.
Se notas que tens alguma dificuldade nestas conversas que quero que
tenhas comigo, se achas que não tens assunto e não sabes o que dizer, é
muito simples, começa justamente por aí, começa por Me dizer que não
sabes de que falar-Me, que não encontras assunto fácil de conversa. Verás
que logo te virão à ideia outras coisas para as quais tens alguma dificuldade.
Estou pronto a escutar-te e a dar-te Amor sem limites em troca.
Continua a procurar-Me e, aos poucos, irás aprendendo a estar comigo,
ganharás gosto nas nossas conversas, que acabarás por preferir às conversas
com as criaturas.
Alma
Prostro-me a teus pés, Jesus, profundamente envergonhada pelas minhas
atitudes incorrectas na tua santa presença, atitudes tanto interiores, e que só
Tu viste, como exteriores, com que dei tantos maus exemplos.
Imploro-Te que ninguém tenha perdido a fé ou deixado de se converter por
minha causa, mas se tal aconteceu, eis-me aqui pronta a reparar essas tão
graves culpas.
Manifesta, Senhor, a tua Vontade a meu respeito. Tudo tomarei numa
atitude reparadora, sem me queixar, porque a meu respeito tens Tu razões de
queixa de sobra.
É verdade, Senhor, que às vezes me parece estar sem assunto algum para
tratar contigo, preocupada com aquilo que me acontece lá fora, seca e árida
por causa de me entreter com as coisas do mundo, que só produzem secura e
esterilidade; por causa das minhas ambições mundanas, por dissipação e até
por causa de algumas ambições espirituais, que tantas vezes procuro
esconder de mim própria e, se pudesse, até de Ti.
Mostra-me, Jesus, os pontos em que Te desagrado, na minha vida de todos
os dias…
É verdade que tenho dificuldades de toda a ordem. Não tenho só
dificuldades em estar contigo sem me distrair, como tenho dificuldades em
aceitar as diferenças de opiniões e de estar na vida, daqueles com quem
tenho de contactar.
Assim como me distraio junto de Ti, também me distraio junto dos irmãos,
a quem não dou a devida atenção, a quem não procuro compreender, de

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quem não me aproximo com a caridade delicada, filha do teu verdadeiro
Amor.
É verdade que ambiciono muitas vezes coisas que não são do teu agrado,
coisas inúteis, que não são mais que um desenvolvimento do desejo de
possuir.
É verdade que aí residem também muitas vezes coisas espirituais, que
gosto de acumular e que me levam para longe do pequeno grupo de almas
pobres, que gostas de ter junto de Ti.
É verdade, sim… é verdade, tudo aquilo que me mostras neste momento.
Aquela amizade perigosa, mantida por superficialidade… Aquelas faltas ao
dever… As faltas de oração… Aquelas roupas de que não gostas…
O pouco cuidado com as conversas… A crítica…
Tantas, tantas são as minhas faltas, porque não tenho o costume de vir
todos os dias aprender contigo aquilo que tão bem sabes ensinar.
Suplico-Te que me ensines a ficar junto de Ti de uma forma que Te
agrade, para Te adorar, para que me ensines a amar-Te e a amar todos os
meus irmãos como Tu queres.
De hoje em diante quero manifestar publicamente a minha fé e o meu
amor, pela minha atitude respeitosa nos teus santos templos, pela oração
recolhida e pela atitude de atenta adoração.
Quero neste momento unir-me a todos os santos Anjos do Sacrário e com
eles adorar-Te, mais dignamente do que tenho feito até aqui.
Aceita, Jesus, todo o meu ser que se prostra, Te adora e Te louva, que quer
adorar-Te e louvar-Te eternamente no Céu e que Te implora perdão e
Misericórdia para os meus pecados e para os pecados de todos os meus
irmãos.

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Sacrário – Esperança
Querida alma que te aproximas do meu Sacrário, olha para Mim. Vejo nos
teus olhos e, mais ainda, no teu coração, aquelas mágoas que em ti
transportas, esses cansaços provenientes do teu trabalho, das actividades
sempre iguais todos os dias e, a maior parte das vezes, desinteressantes.
Vejo as preocupações que transportas em ti, aquele familiar doente ou
desempregado, aquele outro que se afastou de ti, que te magoou, a tua
própria doença, o cansaço, a insónia, a solidão, esses remédios que tomas
porque te sentes nervosa ou deprimida…
Vejo aquelas mentiras que foram ditas nas tuas costas, as intrigas de
pessoas que julgavas amigas, aquelas que se aproveitaram de ti, do teu
trabalho, capacidades ou amizade ingénua, mas depois te abandonaram
quando mais precisavas da sua companhia ou conforto…
Vejo o teu noivado desfeito, a traição do teu cônjuge, o seu mau génio, as
suas manias e desleixos, a falta de tempo para tudo o que gostavas de fazer, a
incompreensão dos patrões…
Vejo as tuas dificuldades financeiras, aquele assunto que não sabes como
resolver, o filho desobediente que anda com companhias duvidosas, que não
mostra respeitar-te nem amar-te, aquela pessoa que te preocupa tanto, porque
recusa converter-se…
Vejo também as dificuldades que tens em Me ser fiel, no ambiente em que
vives, as tuas misérias, de que não te tens conseguido libertar…
É um nunca acabar de problemas que te preocupam e muitas vezes te
fazem sofrer. E tu não consegues desabafar essas mágoas, porque não tens
com quem ou porque reparas que não és compreendida.
Olha de frente para o Sacrário, por entre o nublado das tuas lágrimas. Se
aqui vens é porque crês que Eu estou aqui. Anima então a tua esperança,
porque estás diante d’Aquele que te ama e que tudo pode, que quer remediar
os problemas que te afligem, que está disposto a escutar-te e sempre desejoso
da tua companhia.
Alma, minha filha, não tenhas receio de te aproximar, porque as tuas
lágrimas tocam o meu Coração, que já deu tantas provas de como é
compassivo.
Fala-Me daquilo que te perturba, daquilo que te faz sofrer e podes ter a
certeza de que te compreenderei e que algum bálsamo deitarei nessas tuas
feridas tão dolorosas.
Mas é preciso também que continues a ter confiança em Mim. Muitas
vezes não te atendo à primeira, para que voltes junto de Mim e mostres que a

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tua confiança no meu Amor é maior que o tempo que te faço esperar.
É muito importante teres confiança em Mim. Por isso muitas vezes te tiro
os apoios com que contavas, a fim de que cresças na confiança em Mim,
porque quero ser o teu único apoio.
Às vezes também acontece que não és atendida porque pedes aquilo que
Eu, nos meus desígnios eternos, vejo que não é o melhor para ti ou para a
pessoa por quem pedes.
Se visses pelos meus olhos, se confiasses mais em Mim, reconhecerias
que, no futuro, aquilo que agora tanto desejas, talvez se venha a mostrar uma
má opção, por motivos que ignoras.
Confia, confia sempre, mesmo no meio do sofrimento.
Mantém a tua esperança, porque em Mim nunca ninguém esperou em vão,
e porque se não receberes o que agora queres, é porque Eu pretendo dar-te
alguma coisa ainda melhor.
Confia em Mim. Eu sou o Rei da Esperança. Se te sentes a desanimar,
pede-Me que encha de esperança o teu coração e verás que a graça não te
será negada. E acredita que este tempo de espera também é uma graça que te
dou e com ela revelo-te que te desejo mais próxima de Mim, através da
confiança inabalável.
Por vezes, também os teus sofrimentos são devidos a feridas interiores,
mal curadas no passado. Mas vê, alma minha filha, o passado é irremediável.
Por mais que te aflijas, não podes mudar aquilo que fizeste ou que te fizeram.
Não podes trocar os pais que te couberam, o lugar onde nasceste, a família
que tens, o ano do teu nascimento, nem qualquer outra coisa que já tenha
acontecido.
Não podes chamar à vida quem já morreu, por muito que a saudade te faça
sofrer, nem podes modificar as circunstâncias que rodearam esse
acontecimento, mesmo que reconheças que não fizeste tudo o que devias,
que não tiveste nem demonstraste tanto carinho, como talvez devesse ser tua
obrigação. Agora nada remedeias em torturar-te, porque passou o tempo
desses deveres.
Também não podes voltar atrás e modificar alguma má acção que tenhas
praticado. Se pecaste muito, mesmo que tenhas feito graves injustiças, graves
faltas a algum dever, graves faltas a algum mandamento, não podes agora
anulá-lo, por muito que penses nesse assunto e te atormentes por esse
motivo.
Se te arrependeste, e te confessaste, porquê voltar a pensar no assunto que
não podes alterar?
Eu asseguro-te que nunca mais penso nos teus pecados, por muito graves
que tenham sido, depois de os confessares com arrependimento e propósito

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de emenda. Porque é que te queres mostrar mais preocupada que Eu? Peço-
-te que não o faças, porque isso te faz muito mal, em nada te ajuda e muito
Me desagrada.
Se te esqueceste de alguma coisa, que sabes ser grave, não te preocupes,
confessas isso na próxima vez, porque de esquecer não és culpada. Se não é
coisa grave, nem penses mais nisso, porque o sacramento que recebeste
apagou todos os pecados veniais, e nem precisas de os dizer todos.
Se tens consciência de teres omitido voluntariamente alguma coisa grave,
arrepende-te verdadeiramente e procura confessá-lo o mais depressa
possível, mas não te tortures, porque essa forma de tortura só te faz mal, não
te aproxima mais de Mim, mas serve para te afastar da esperança e,
consequentemente, de Mim também.
Sofres por causa de alguma doença que tens ou que tem algum teu
familiar? Olha de frente para o Sacrário. Eu estou aqui dentro e escuto-te. Se
vir que a cura é o melhor para ti ou para essa pessoa, farei o que Me pedes,
mas presta atenção, que às vezes a cura não é o melhor, embora pareça que
essa pessoa ainda poderá fazer muito na Terra.
Só Eu sei o que é melhor para cada um. Por isso, submete sempre tudo à
minha Vontade Santíssima.
Convence-te de que Eu sei mais que tu, em todas as coisas e em todas as
situações e quero sempre o melhor para todos, mesmo quando esse melhor
está oculto aos vossos olhos.
É aqui que se enraíza a esperança, que te faz pedir com humildade, com
confiança, com perseverança.
Sim, minha filha, pede aquilo que te parece ser bom. Pede e volta a pedir,
muitas vezes, mesmo que não te vejas atendida, pede sem perderes a
esperança, mas entrega sempre à minha Vontade a resolução dos teus
assuntos.
Tens problemas no teu emprego, na tua família, com excesso de trabalho
ou com pessoas de temperamento irascível, maçador, preguiçoso,
desconfiado, invejoso, conflituoso ou intriguista, alguém que faz atrasar o
serviço, originando problemas de que tens responsabilidade de resolver?
É isso que te faz sofrer? Nunca Me peças que aconteça mal a essas pessoas
ou a quaisquer outras, porque Eu não te concedo a realização de maus
desejos, e, se neles consentes, tornam-se uma ofensa que Me fazes.
Afasta de ti o desejo de vingança e pede-Me que te torne forte para
suportar aquilo que não podes mudar, caritativa e simpática para todos, mas
também inteligente para evitares dar motivo a que essas pessoas provoquem
conflitos.
Pede-Me que solucione essas questões, mas submete ao meu querer todas

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as situações em que o dever te coloca em posição de não poder mudar nada.
Se podes mudar alguma coisa, pede-Me que te ilumine para o fazeres, sem
ferires a caridade nem a justiça.
É importante que trabalhes em paz, mas se te surge alguma cruz que te
pesa muito, não a sacudas para cima dos outros, mas mete ombros a ela com
coragem, pedindo-Me todos os dias auxílio para a levar.
Sentes-te pressionada por alguém que te quer convencer a alguma coisa
menos boa ou até nitidamente má? Pede-Me força e coragem para resistir, e
procura afastar-te dessa pessoa, mesmo que tenhas de mudar de trabalho,
porque não há nada que te possa obrigar a pecar, se tu não quiseres. Se
podes, pede auxílio a alguém de confiança. E reza muito, mais ainda, quanto
maior for a pressão e a dificuldade de te afastares.
Sim, certos afastamentos são muito difíceis, mas por vezes são a única via
possível para quem se vê assediado para o mal. É preciso então ter muita
coragem, coragem de mártir. É então que se vê bem o que pode fazer a
minha graça numa frágil criatura. É então que se vê a força da esperança.
Sim, é com esperança que te deves firmar em Mim, para pores em prática
as opções que sabes que deves tomar.
Mas também há certos casos, certos deveres que te colocam em situações
em que não te deves afastar de sofrimentos que te vêm de pessoas de carácter
difícil. É também firme na esperança, que deves continuar a levar essa cruz,
com coragem de mártir, procurando junto de Mim a força e o consolo que Eu
achar por bem dar-te.
Afligem-te problemas de falta de dinheiro, talvez de falta de emprego?
Vem junto de Mim com esperança, para que Eu solucione essa situação
aflitiva. Mas é preciso também que te submetas ao trabalho que Eu te
apresentar e não ambiciones apenas cargos a teu gosto, com desprezo dos
empregos menores que por vezes pretendo dar-te, para te manter na
humildade.
Sentes-te só? Arrastas em solidão os teus dias, sem companhia ou rodeada
de pessoas que não te compreendem, que têm outra maneira de pensar e de
viver?
Oh, querida alma! Aqui tens a companhia, o Amigo que te entende, que te
ama e que deseja o teu amor. Aqui, junto de Mim, encontrarás tudo aquilo
que o teu sensível coração deseja, todo o amor pelo qual aspiras.
Sentes-te talvez triste por não conseguires avançar na vida espiritual. Vês
avançar os anos e sentes menos entusiasmo que aquele que sentias nos dias
em que Me procuravas com a juventude de uma conversão fresca e saborosa.
Reconheces que nada consegues e parece-te que desperdiças a vida e as
graças.

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Pobre alma, filho ou filha, tu não Me conheces ainda? Depois deste tempo
todo, não sabes que quanto mais miserável és, maior é o meu cuidado por ti?
Não sabes que a tua miséria te torna apta para as graças da minha
Misericórdia? Não sabes que quanto mais doente é uma alma, mais Me curvo
para ela com Amor?
Se reconheces que és pobre e pecadora, se vês com pena as tuas
infidelidades e pecados, é sinal de que estás no bom caminho. Só precisas de
te entregar a Mim, assim pobre como és, com confiança, sem receios, porque
Eu próprio farei em ti tudo aquilo de que não fores capaz.
Não desejes ver as tuas virtudes ou a santidade a que chegaste, porque,
para te manter na humildade, nunca te mostrarei tais coisas. Aceita ser
sempre uma alma pequena e pobre, uma serva inútil, porque as almas
humildes, que não se firmam em si mesmas, naquilo que fazem e naquilo que
parecem ser, são as que Me dão mais alegria.
Se queres ser alma de esperança, tens de ser também alma humilde, pois os
orgulhosos não esperam nada, além daquilo que eles pensam que conseguem
fazer por si próprios. Como pouco conseguem, ficam sentados sobre as suas
repetidas desilusões, que os humilham, e que eles repudiam. Tor-
nam-se então almas azedas, amargas para toda a gente, pensando só no seu
próprio progresso, e afastam-se de Mim cada vez mais.
Alma, minha filha, seja qual for o teu problema, a esperança mantém-te
unida a Mim. A esperança é a tua cura interior, embora por vezes o arrastar
dos problemas torne a esperança mais difícil e a faça ir até à heroicidade.
Mas repara que a heroicidade da esperança é a melhor prova de amor que Me
podes dar, porque te pode levar a combates diários e a um martírio
prolongado do teu “eu” soberbo.
Sei apreciar os teus combates, aquilo que lutas para manter a esperança,
quando parece que não há esperança alguma, quando parece que não te
escuto nem Me ocupo de ti. É nessas alturas que estou mais perto, mais
atento ao que fazes e sentes.
Crê que este estado é uma graça de santificação que te envio, mas só junto
de Mim saberás apreciá-la. Só aqui aprenderás a lidar com estes assuntos
difíceis, pois só Eu sou o Senhor da graça, só Eu te posso dar a graça de tudo
aceitar com amor, só Eu te posso ensinar esta ciência que o mundo não
entende.
Vem para junto de Mim, olha-Me com esperança e não a percas nunca,
seja o que for que te aconteça. Vem, olha para Mim e aprende a amar.
Alma
Senhor estou junto de ti com o coração cheio de amargura. Tu sabes bem

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aquilo que me atormenta, as amarguras que são o meu pão de cada dia,
nestes sofrimentos que só Tu entendes.
Não consigo encontrar apoio nem compreensão nas criaturas. Uns dizem
que a culpa é minha, outros dão-me conselhos que não sou capaz de seguir,
porque não se adaptam à minha maneira de ser ou àquilo que está por detrás
da dor visível.
Só Tu entendes, só Tu sabes ir à raiz de cada problema. Só Tu sabes
mostrar o caminho, dar a esperança e dar a força de que necessito. E eu
preciso tanto de força, meu Senhor!...
Peço-Te perdão por todas as vezes em que desanimei, por todas as vezes
em que aceitei que a tristeza e a angústia me invadissem, por todas as vezes
que reclamei daquilo que me mandavas e que eu não sabia entender, por não
ver aí senão dor ou trabalho.
A minha vida parece esboroar-se. Nada faz sentido e parece que os
problemas são maiores que eu. Parece que já nem tempo tenho para rezar, ou
que não tenho mais jeito para o fazer, cega de tantas lágrimas.
Pareço uma alma envelhecida, que já não sente os entusiasmos da
juventude. Um vento forte tem levado os meus desejos, como se fossem
ilusões!...
Só Tu, meu Senhor, me dás esperança, só Tu adoças esta pobre alma aflita!
Só Tu me compreendes bem! Só Tu podes de novo rejuvenescer-me, dar-me
de novo o entusiasmo do amor jovem e confiante.
Sim, contigo posso desabafar, pois o teu conselho é seguro e o teu Amor é
infinito.
Aqui me tens. Prometo fazer como me ensinas, seguir todos os teus
conselhos e apelar a Ti em todas as provações que surjam em cada dia.
Em Ti espero, só em Ti, porque só Tu és poderoso, só Tu és forte, só Tu és
o Senhor do céu e da terra.
Eu creio no teu Amor, sim, eu creio! Espero em Ti, só em Ti, em Ti
unicamente, e confio-Te a resolução de tudo o que me aflige.
Aceito desde já aquilo que achares por bem fazer na minha vida e na vida
de todos os que me são queridos. Sei que o que fizeres será sempre o melhor
para todos nós, mesmo que não vejamos agora a utilidade das nossas
provações.
Em Ti, Senhor, ponho toda a minha esperança, a minha confiança, o meu
amor e a minha vida.
Tudo Te entrego, pelas mãos de Maria, e tudo espero da tua Misericórdia.

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Sacrário – Amor
Querida alma que te aproximas de Mim, é com muita alegria que te vejo
aproximar. Aproxima-te mais, não fiques atrás para veres quem entra e quem
sai, nem para ficares mais perto da saída e ires mais depressa lá para fora.
Os que pensam dessa forma, porque vieram? Talvez nem saibam bem.
Talvez o hábito… alguém a acompanhar… algum pedido a fazer… talvez
tenham receio, por estarem há muito tempo afastados… e por isso ficam de
longe, ao pé da porta.
Mas, mesmo assim, Eu os chamo aqui uma vez e outra, dando-lhes mais e
mais oportunidades de se encontrarem comigo, de tomarem contacto com o
meu Amor.
Provavelmente nem acreditam muito na minha presença neste Sacrário.
Talvez nunca lhes tivesse sido muito bem ensinado… ou não tivessem estado
com atenção na catequese. Talvez apenas o ouvissem vagamente, há muito
tempo, e para eles tanto lhes faz entrar numa igreja com um sacrário como
numa sem ele. E tu, alguma vez te sentiste assim?
Só o completo desconhecimento da minha presença aqui, poderá justificar
certos actos de dissipação e de falta de respeito que se fazem e que tantas
vezes vês. Talvez tu também… algumas vezes…
Mas não penses nisso agora, não julgues nem critiques ninguém, sejam
quais forem as atitudes que presencies. Tu não sabes nada daquilo que se
passa no íntimo de cada um. Só Eu sei os motivos pelos quais cada pessoa
faz o que faz.
Olha para o Sacrário, querida alma. Reaviva a tua fé, aquela fé que te
ensinaram quando te disseram na catequese que Eu estava aqui. Olha que
não te enganaram!
Sim, tu sabes! Estás realmente na minha presença, na presença do Rei dos
Céus e da terra, o Autor de tudo quanto existe, Aquele que te ama mais que
qualquer pessoa que muito te queira, Aquele que suporta milhões de ofensas
em todo o mundo, porque ama estes ingratos filhos que criou, que remiu e
que quer reunir, um dia, no seu Reino.
Repara que o Sacrário encerra uma Fonte de Amor inesgotável, infinita,
porque Aquele que o habita é Ele próprio o Amor.
Aproxima-te de Mim. Fixa o Sacrário e deixa que Eu te abençoe com
graças de Amor infinito, que hão-de sarar as dolorosas feridas que as
desilusões do amor das criaturas provocaram em ti.
Quero, com o meu Amor, adoçar os teus sofrimentos, dar--te a provar as
consolações que não consegues encontrar lá fora, no meio dos encantos e

62
desencantos do mundo, fortalecendo-te ao mesmo tempo, para que continues
a cumprir os teus deveres de estado e profissionais.
Quero ensinar-te a caminhar pelo meu caminho que, embora apertado e
exigente, é o único que leva ao Céu.
Todos os caminhos de facilidades levam a becos sem saída, cada vez mais
longe de Mim, embora alguns propagandistas te digam o contrário e te
acenem com felicidades e alegrias fáceis.
Tudo isso são ideias falsas e falsas promessas!
Lembra-te de que Eu disse que “quem quiser vir comigo, renuncie a si
mesmo, pegue na sua cruz e siga-Me” (Mt 16, 24). Esta é a minha Palavra.
Não é palavra fácil, mas é o meu ensino e o meu caminho. Todos os ensinos
de facilidades são falsos e não Me pertencem, mas sim àquele que vos quer
fazer enganar no caminho do Céu.
Por isso, dá-te por feliz no meio da dor, nos momentos em que tens alguma
coisa a sofrer, pois esse sofrimento une-te a Mim e, se o souberes oferecer
unido ao meu, fará imenso bem, atraindo graças, para os teus pobres irmãos
tão necessitados.
Vem para junto do meu Sacrário receber o meu Amor e dar amor, esse teu
amor pobrezinho, mas que Eu tanto desejo.
No Sacrário mora a Fonte ininterrupta do Amor. É aqui que encontrarás
todo o Amor que desejas, que tanto tens buscado nas criaturas, sem
encontrares mais que desilusões, Amor que pode saciar plenamente o teu
coração sedento.
Não é verdade que sempre desejaste amor e que o tens muitas vezes
procurado nas criaturas, mas que sais sempre de junto delas com uma certa
frustração, pois o seu amor nunca é completo, nunca é total, nunca é de
forma a satisfazer completamente as tuas ânsias?
Ouve, pequena alma! O amor das criaturas é sempre pequeno e imperfeito,
porque elas são limitadas, mas a alma humana foi feita de modo a desejar o
infinito, e isso nunca poderás encontrar nas criaturas. Mesmo as melhores,
sempre ficarão aquém dos teus desejos de amor. Haverá sempre um “senão”,
algumas falhas, provenientes dos seus próprios defeitos naturais.
Tem ao menos pena de ti própria e não queiras aumentar os teus
sofrimentos fixando-te na estima das criaturas, que são tão fracas, em todos
os sentidos, mas levanta os olhos, fixa-os no Sacrário, pois aqui mora o único
Amigo que te ama de verdade, que nunca falta, que nunca desilude e que
plenamente sacia esses teus desejos de plenitude e de infinito.
Muitas vezes permito que as criaturas te abandonem, justamente para te
desprender delas, para que nelas não te apoies, mas apenas em Mim, que sou
o único apoio seguro, qualquer que seja o peso que tu carregues.

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É sempre perigoso agarrares-te às criaturas. Por isso permito
frequentemente cruéis desapegos que te fazem sofrer.
Faço-o não só como um médico que tem de operar, para salvar a vida do
doente, mas como Alguém que muito te ama, que te quer trazer para mais
próximo, e que não te quer ver dispersar com as criaturas os tesouros de
ternura do teu coração, tesouros esses que Me deves dar a Mim.
Sabes conhecer um apego à criatura? Não é simplesmente amar o irmão,
porque isso é um dever. Não é amares a tua família, porque tal é um dever
também. Não é teres uma simples amizade com uma pessoa com quem te
entendes bem, falarem algumas vezes, ajudarem-se mutuamente, até, por
vezes aconselharem-se.
Apego é pensares muito na pessoa em questão, viveres dependente daquilo
que te diz, daquilo que faz, desejares a sua presença, passares horas na sua
companhia, em dependência por qualquer motivo, é procurares apoio nessa
pessoa, apenas por ela, pelo que ela é, pelo que ela sabe, pelo que ela faz ou
pelo que ela tem.
Apego é estares sempre à espera que te telefone, ou telefonares-lhe tu
vezes sem conta, não poderes ir a lado nenhum sem lhe dizer, ou esperares
que essa pessoa o faça, criando uma espécie de ciúme, se mostra outras
preferências, ou se esquece de te relatar o que faz.
Não é preciso teres todos estes sintomas, para reconheceres que tens um
apego. Basta um só deles para ser um sinal de alarme, para te mostrar que
alguma coisa está errada entre vós e que estás a apoiar-te em quem não
deves, ou a deixar que alguém se apoie em ti mais do que deve.
Sim, podes não sentir nada disto, mas se notas que a outra pessoa o
demonstra, reconhece que podes estar no seu caminho a ser mais um escolho
que uma ajuda, pois procura apoiar-se em ti e não em Mim. É então teu
dever travar isso, com muito tacto, procurando não ferir mais que o neces-
sário.
Não te esqueças, no entanto, que algumas vezes também Me sirvo de
certas pessoas para te ajudar, outras vezes, deves ser tu a ajudar quem Eu
coloco no teu caminho e que precisa de auxílio. Tal amizade é benéfica, mas
deve sempre ser referida a Mim, e nunca a deixares tresmalhar para
extremos.
E a ti própria, não estarás apegada? Acredita que é a ti própria que tens um
maior apego. É em ti própria que encontras o maior perigo de fugires de
Mim, para te quereres agarrar ao que pensas, ao que sabes, ao que fazes,
àquilo de que gostas. É por isso que muitas vezes te deixo cair em faltas, te
tiro seguranças, para que vejas que realmente nada és e nada podes sem
Mim.

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O desapego de ti própria é muito difícil e é preciso praticá--lo durante toda
a vida. É um trabalho que faço em ti e que muitas vezes te humilha
profundamente, mas, se Me amas, confia e deixa-Me trabalhar.
Seja o que for que te aconteça, confia, confia sempre. Vem para junto de
Mim, conta-Me as tuas preocupações, as tuas dores, as tuas desilusões e
cansaços, mas traz contigo a disposição de aceitar aquilo que Eu te peço ou
que permito que te façam.
Traz contigo a vontade de renunciar a tudo aquilo que sabes que Me
desagrada, de fugir a todo o pecado e a toda a ocasião de pecado, e de fazeres
os teus deveres com mais perfeição, para Me agradares.
Se achas que mesmo estas resoluções são em ti muito frouxas, pede-Me
que as aumente, que te dê forças e que, principalmente te incendeie com o
meu Amor, este Amor que aqui jorra como de uma fonte, um oceano de fogo
que anseia precipitar-se nos vossos corações.
Mas onde estão esses corações? Olho à minha volta e vejo só corações
frios, indiferentes, almas distraídas, pensando em tudo menos em Mim,
muitas vezes mergulhadas em negros pecados que não confessam, em
invejas, vinganças, ódios, soberba, luxúria, adultério, aborto, bruxaria,
quiromancia e tantas outras coisas repugnantes…
Vejo almas tíbias, que não sabem dar amor e que não se deixam amar por
Mim, mergulhadas num torvelinho de obras, de ideias próprias, de opiniões,
de intrigas, de difamações, de mundaneidade.
Vejo almas muito cheias de si próprias, das suas ideias, do seu saber, do
seu orgulho, dos seus quereres, de que não abdicam, de pequenas invejas que
sabem esconder, de cobiça de coisas, de cargos, de amizades, almas que a
coberto do bem e do apostolado se servem de outras pessoas, as dominam,
para fazerem o que querem e serem bem cotadas socialmente…
Vejo almas avaras, que não dão de si, que não dão uns minutos do seu
tempo para estar comigo, que não dão a sua comodidade, os seus gostos, que
não fazem um sacrifício por um irmão, mas gastam rios de dinheiro em
futilidades.
Vejo almas egoístas, que abandonam os seus deveres, que não dão amor
aos seus familiares, não cuidam do seu bem-
-estar, que não abdicam dos seus gostos para os acompanhar, mas que os
abandonam aos maus hábitos e às más companhias, às vezes invocando o
meu nome, dizendo que não têm tempo para cuidar da família, porque estão
a trabalhar para Mim…
Vejo almas irritadiças, que querem tudo a seu modo, que se arreliam por
qualquer coisa e que se indispõem com o próximo e até com elas próprias,
por coisas de nada… almas que vivem debruçadas sobre si próprias,

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pensando apenas nas suas coisas, no seu passado, no que fizeram, no que
sofreram, e cheias de receio pelo futuro, exigindo que o próximo lhes dê toda
a atenção e não as contrarie em nada, de contrário caem em queixas, más
palavras, em gritos, em silêncios antipáticos…
Vejo almas que não são capazes de mortificar desejo algum, que procuram
toda a espécie de consolações para o corpo e para a alma, que só rezam
quando se sentem consoladas e caem na tristeza e no abandono da oração
quando vêm os sofrimentos ou as securas espirituais.
Também vejo aquelas que querem aparentar uma grande santidade,
rezando orações atrás de orações, suspirando constantemente por causa dos
seus muitos sofrimentos, cujo extenso rol vão contando às pessoas amigas,
entre jaculatórias e outras frases religiosas; que se mostram escandalizadas
com alguma pequena brincadeira, e que secretamente espiam tudo aquilo que
os seus irmãos fazem e os criticam, sentindo-se felizes por não serem como
eles.
Como posso fazer entrar o meu Amor em corações tão fechados, tão
mergulhados em si, nas suas ideias e nos seus prazeres? E não são só
prazeres mundanos, porque há muitas almas que dizem que Me amam, que
procuram viver com pureza, mas vivem fechadas nas suas ideias e
mergulhadas nos seus prazeres espirituais.
E há uma grande diferença entre o meu Amor e os prazeres espirituais.
Embora muitas almas o confundam, acredita que muitas vezes nem sequer
estão próximos.
Identificas-te com alguma destas espécies de almas? Ou tens um pouco de
cada uma delas?
Repara que não te faço notar isto, para que pesquises quem, entre os teus
conhecidos, procede assim. Falo para ti, só para ti, e é em ti que deves
procurar estes defeitos, para te emendares deles, se os tiveres.
Percorro o mundo com os olhos, e encontro poucas almas dispostas a sair
do seu egoísmo e a caminhar comigo no meu caminho estreito e pobre.
Vejo muito poucas almas interessadas no imenso Amor que tenho para
lhes dar e que muitas vezes não traz consolação, mas sobriedade e luta.
E tu, queres aceitar o meu Amor? Aceitas deixar-te amar por Mim?
Aceitas que o meu Amor te inunde, te abrase e te mostre aquilo em que tens
de mudar? Aceitas dar-Me um coração liberto de apegos às criaturas, ao
mundo e a ti própria? Queres ser essa pequena alma que levarei pela mão?
Olha para Mim com sinceridade, com olhos de criança que nada pode, que
nada sabe, mas que quer ser ensinada e guiada, na simplicidade da sua
pobreza. Sim, porque tu, querida alma, és pobre. Nada podes, nada és, nada
sabes. Só Eu sou o Senhor, só Eu posso e só Eu sei tudo.

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Aceitas esta situação? Aceitas que Eu te ensine, mesmo em matérias onde
julgavas saber muito?
Aceitas que te mostre a tua incapacidade para o bem, para a oração, para a
humildade, e até para muitas outras virtudes que te tenho emprestado, com
que já tens vencido muitas lutas, mas que não são tuas?
Sabias isto? Sabias que não há virtude alguma que te pertença, que seja
tua, mas que todo o bem que possas fazer, toda a virtude que possas praticar
te é por Mim emprestada?
Sabes que, se te convences de que consegues praticar alguma virtude, Eu
ta posso retirar e deixar-te na tua miséria natural, na vergonha de quedas,
semelhantes àquelas que costumas criticar no teu próximo?
Sim, aprende que nada podes fazer se não for Eu a fazê-lo em ti, a guiar-te
com o meu Amor.
Aceitas que o Amor te guie e te peça que modifiques certas coisas na tua
vida?
Aceitas que tens de renunciar a algumas comodidades, a alguns gostos, a
alguns quereres, para Me dares gosto a Mim e ao teu próximo?
Sei que para ti não é fácil, mas crê que o meu Amor tudo superará e que
serás mais feliz que nunca. Crê que não ficarás frustrada na confiança e que
este salto será para os meus braços.
Todo o Amor que desejo derramar sobre o mundo, e não posso, porque só
encontro corações fechados, será derramado sobre ti, e, através de ti, passará
para muitos irmãos teus, através da tua oração, do teu sacrifício, da tua
palavra e do teu bom exemplo.
Fala comigo. Deixa que o teu coração se derrame em Mim. Deixa que ele
derrame todas as palavras de amor que há muito deseja dizer a alguém que
muito ame. Deixa que o teu coração se apaixone por Mim, como o meu está
apaixonado por ti, desde a eternidade, desde antes da criação do mundo.
Tenho para ti o Céu, para ficares junto de Mim eternamente. Para isso vim
ao mundo, para te trazer esta boa nova do Amor do teu Deus pela sua pobre
criaturinha.
Conquistei o Céu para ti, pelo Sangue que derramei até morrer, da morte
mais dolorosa.
Fiquei na terra, sujeito a todos os abusos e profanações, apenas para ficar
contigo, para te ter aqui pertinho e ser o teu Alimento, o Alimento que te
fortalece, a fim de que não desfaleças neste caminho árduo, e possas chegar
em segurança à Casa do Pai, onde te espero.
Assim te provei o meu Amor. E tu, como é que Me provas o teu amor?
Alma

67
Ó Jesus, que posso eu dizer-Te do meu amor? Sou uma pobre alma que
apenas Te tem sabido provar a sua infidelidade!
Muitas vezes Te tenho prometido ser fiel, mas sempre falto, porque as
atracções do meu amor-próprio e o amor das criaturas têm prevalecido outras
tantas vezes!
Mas apesar de tudo, não quero desistir. Quero firmar-me, não na minha
própria força, mas na tua, porque sei que Me amas e que tudo farás para me
ajudares nesta caminhada difícil.
Sim, eu sei que, quando faço alguma coisa bem, quando sou paciente,
quando suporto uma humilhação sem o dar a entender, quando faço o meu
dever com mais perfeição, quando me sacrifico com um sorriso, quando
abdico do que me apetece, em favor do próximo, quando sou recolhida,
mortificada, quando procuro fazer tudo por teu Amor, é muito fácil
convencer-me de que estou a progredir, de que já consigo fazer aquilo que
Te agrada.
Mais logo, porém, Tu pela tua Misericórdia, pelo cuidado que tens para
comigo, me vens mostrar que isso não é verdade, que continuo a não passar
de uma pobre alma imperfeita, a querer apossar-se das riquezas que são tuas.
Só Tu és rico! Todas as riquezas de virtudes são tuas!
Nada de bom que eu faça é realmente meu, mas és Tu que me emprestas
esse bem, para que o use.
Sim, com a tua ajuda, estou disposta a fazer novos esforços, cada dia, a
levantar-me depois de cada queda, e tudo porque Te quero dar um coração
cada vez mais liberto de tudo o que Te desagrada.
Não quero deixar cair os braços, no desânimo das minhas quedas, mas
humilhar-me no meu nada, e dizer-Te entre lágrimas de arrependimento, que
apesar de toda a minha fraqueza Te amo e quero emendar-me, mesmo que
isso faça sangrar o meu “eu” e todas as más tendências que sabes que eu
tenho.
Continua a ensinar-me. Prometo seguir as tuas lições, aceitar aquilo que
me indicas e não achar de mais nenhum dos teus pedidos, porque se para o
teu Amor nada foi de mais, de tudo o que sofreste por mim, para o meu
também não será.
Manda sobre mim o teu Amor, inunda-me com Ele, faz com que toda a
minha vida seja uma expressão desse Amor e se derrame sobre o próximo.
Entrego-Te a minha vida. Faz de mim uma alma, segundo o teu Coração,
uma alma eucarística, que, cada vez mais deseje estar aqui contigo.
Ensina-me a adorar-Te, ensina-me, porque eu sou uma pobre alma e não
sei adorar.
Ensina-me como gostas de ser adorado, aqui, na companhia dos teus

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Santos Anjos… em união com eles, para que eles supram todas as minhas
falhas.

69
Sacrário – Encontro
Que feliz Me sinto, querida alma, por estares aqui! Olho para ti e sorrio-te.
Esperei-te tantas horas, e finalmente vieste ao local do nosso encontro.
Sim, o Sacrário é o lugar onde Me encontras. É realmente o lugar do meu
encontro com cada alma. Aqui podes encontrar-Me, com tanta certeza, como
se te fosse dado subir ao Céu. Não tens que invejar os bem-aventurados que
já estão comigo, embora o desejo do Céu seja sempre bom para ti, porque é a
tua Pátria, o lugar para onde caminhas, a Casa do Pai, o lugar da eterna feli-
cidade.
O desejo do Céu levar-te-á a não te prenderes demasiado às coisas
terrenas, por isso é um bom desejo.
Não estás no Céu, mas podes encontrar-Me aqui, tão realmente, como se lá
estivesses. Não Me vês, é verdade, mas, se Me amas verdadeiramente,
correrás para junto de Mim, sedenta da minha companhia.
Sabes onde estou, sabes onde podes encontrar-Me. Como alma apaixonada
corres ao local do encontro, onde poderás encontrar o teu Amado, ainda que
velado por alguns véus.
O Amor e a Fé farão quase tombar todos os véus e tu, alma sedenta do
meu Amor, ficarás diante de Mim em adoração, parecendo-te que todos os
teus problemas se retiram, perante a alegria do nosso encontro.
Sim, se quiseres, serás uma alma que cumularei de bens espirituais, de
graças de amor, de dons do Espírito Santo. Mas, mais que tudo, encher-te-ei
de santa humildade, que é a virtude, de entre todas, a mais rica a meus olhos.
Deixa-te adornar com as minhas virtudes, embora não o sintas, pois a santa
humildade far-te-á viver na verdade da tua condição de pecadora. Será então,
vivendo nessa verdade, que Me agradarás mais.
Aproxima-te sempre de Mim na tua pobreza, na miséria de um coração
contrito pelos seus pecados, que procura combater dia a dia, e Eu te encherei
da minha pureza e de todas as ricas virtudes que anseio dar-te, como noivo
que adorna aquela que é a sua prometida, para a ter mais bela no dia do
eterno enlace.
O Céu será o lugar das nossas núpcias eternas, lugar da felicidade sem fim.
Lá não há ocasião para alguém estar aborrecido ou para desejar seja o que
for, porque a felicidade será total.
Lá, estarás junto de todos os que amas, com os Santos que admiraste e
veneraste. Poderás vê-los, falar-lhes, ver, compreender a realidade do seu
amor por Mim. Entrarás nessa magnífica comunhão de amor, que não tem
termo de comparação aqui na terra.

70
Lá, estarás sempre comigo, em felicidade que não esmorece, nem se cansa.
Não precisarás de procurar nem de esperar por Mim, porque verás
continuamente o meu rosto.
Estarás também com a minha e tua Mãe. Poderás ficar a seu lado, falar-lhe,
ver o seu rosto encantador, experimentar as carícias das suas meigas mãos,
ouvir a sua voz…
Mas, enquanto esperas, esse eterno encontro, tens aqui na terra o lugar do
encontro diário, no Sacrário.
No Sacrário encontras-Me a Mim, verdadeiramente vivo, e poderás
encontrar todos aqueles que vivem unidos a Mim. Podes pensar neles aqui,
pedir graças para eles e até aproveitar dos seus méritos, tanto dos que já
partiram, como dos que ainda vivem, porque Eu congrego a Mim todos os
meus filhos.
É realmente aqui o lugar do encontro, o lugar onde te espero, mas aonde
muitas vezes não vens, deixando-Me esperar em vão, enquanto os meus
olhos seguem, longamente, o correr do teu dia, o teu trabalho, as tuas
distracções, o teu descanso e, tantas vezes, os teus erros, infidelidades e
pecados.
Do meu Sacrário, tenho os olhos postos em ti e espero-
-te. Espero que venhas para junto de Mim, dizer-Me alguma palavra
agradável, por conta de tantas palavras desagradáveis que se dizem e
escrevem contra Mim, contra minha Mãe e contra a minha Igreja, pelo
mundo fora.
Espero que venhas dizer-Me alguma palavra de amor verdadeiro, em
reparação de tantas palavras de ódio, blasfémias e calúnias que muitos dizem
e escrevem contra Mim e até propagam em filmes, e também em reparação
dos ódios que separam os cristãos, que se dizem meus filhos e seguidores,
mas se degladiam sem dó.
Espero que venhas dizer-Me alguma palavra de confiança e de abandono à
minha Vontade, em reparação das desconfianças e revoltas de tantas almas,
algumas até que já Me prometeram amor, em tempos passados… talvez
também tu, que prometes amor, mas que, quando surgem as dificuldades, te
rebelas de muitas formas…
Espero que venhas ao meu encontro dizer-Me palavras de fidelidade, em
reparação de tantas infidelidades que tenho que suportar nas almas
consagradas e também na tua.
Espero que venhas dizer-Me palavras de adoração, para reparares a
idolatria que cresce por todo o mundo, com o moderno renascer dos cultos
pagãos, que são aceites como coisa certa, até pelos meios de comunicação.
Espero que venhas dizer-Me a tua fidelidade à Igreja e ao Papa, para

71
reparares a debandada de tantos cristãos, que se dizem católicos não
praticantes, daqueles que mudam de religião e até daqueles que são
praticantes, mas não poupam críticas às normas da Igreja que Eu fundei
sobre Pedro, que continua até hoje e que continuará, conforme Eu prometi
(Mt 16,18).
Espero que venhas dizer-Me umas palavras de louvor, em reparação de
tantos que Me insultam e que insultam a minha Mãe, inventando tantas
calúnias sobre nós e propagando-as como certezas!
Espero que venhas dizer-Me palavras de gratidão, para reparar tanta
ingratidão dos filhos que criei, remi, cumulei de graças e que agora, além de
não Me agradecerem, ainda Me abandonam e insultam, que duvidam do meu
poder e do meu Amor, quando surge alguma dificuldade do caminho.
Procedem como se Eu os desiludisse, como se Eu não os amasse e os
tivesse abandonado. Mostram-se tristonhos, reclamam do que permito que
lhes aconteça. Tu não?... Pensa bem na tua forma de agir perante as
dificuldades, nos sofrimentos e outras provações.
Espero que venhas dizer-Me aquilo de que precisas, aquilo que te
preocupa, aquilo que sofres, para mostrares que crês que Eu te escuto e te
quero ajudar, e assim reparares por aqueles teus irmãos que não crêem na
minha Presença Eucarística nem no meu Amor.
Vem prometer-Me que amarás os teus irmãos, ainda mais, daqui para a
frente, que não deixarás que a tua boca se abra contra eles, seja o que for que
te façam ou que vejas fazer de mal, a não ser que isso encerre alguma espécie
de perigo contra alguém que, com caridade, deves avisar.
Isso reparará tantos pecados de difamação que se estendem pelo mundo,
partindo de muitas bocas de cristãos de Missa diária… talvez também da tua
algumas vezes…
Sê fiel a vir aqui frequentemente, porque aqui está Aquele que te ama e te
espera, e que está muito sozinho, sem ter quem Lhe faça companhia.
Se não puderes vir aqui muitas vezes, projecta para cá o teu espírito e fica
comigo algum tempo, mesmo no meio do teu trabalho, porque Eu aceito essa
tua presença espiritual e todo o amor que nela Me quiseres dar…
Lembra-te sempre de que aqui é o lugar do nosso encontro e então não
demores a vir ter comigo.
Alma
Ó Jesus, adorado Senhor, quanto Te tenho feito esperar! Quantas vezes Te
prometo vir e não venho, submetida aos encantos da minha fantasia, daquilo
que mais me apetece fazer, em cada momento, presa pela atracção do
trabalho, de fazer boa figura perante a opinião pública… E não me lembro de

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que só a tua opinião devia contar para mim!
É por isso que tantas vezes deixo o meu trabalho imperfeito, apesar de
nunca o dizer, apesar de tanto proclamar o muito que tenho para fazer e a
perfeição com que o executo! São tudo palavras para fazer boa figura junto
dos meus irmãos! Só Tu vês as imperfeições de tudo o que eu faço…
Se mais vezes viesse para junto de Ti, aprenderia a trabalhar de maneira
muito mais calma e eficiente, aprenderia a trabalhar segundo os teus gostos
e, mais conscientemente, debaixo dos teus olhares.
Quantas vezes também poderia vir para junto de Ti em pensamento, mas
não o faço, por andar distraída com as coisas do mundo, com aquilo que me
acontece, com preocupações e com mil imaginações, que não submeto à tua
autoridade e ao teu conselho!
Aqui a teus pés peço-Te perdão por tantas e tantas omissões destes
pequenos actos de amor, que podem ser talvez os mais importantes da minha
vida, pois posso não ter ocasião de Te dar outros maiores.
Peço-Te a graça de não voltar a deixá-los perder, de fazer da minha vida
uma sucessão de minutos de adoração e louvor, de Te acompanhar
continuamente, de Te agradecer estas graças tão grandes que colocas à minha
disposição e que tanto tenho desperdiçado.
Quantas graças desperdicei na vida! Por todas elas Te quero agradecer,
mesmo aquelas graças mais amargas, aquelas em que me mostras a minha
miséria e aquelas em que me dás a oportunidade de oferecer alguma coisa
unida à tua Cruz.
Faz de mim, Senhor, uma alma confiante, que nunca desconfie do teu
Amor, que não se deixe cegar pelas dificuldades, mas que caminhe sempre
com os olhos postos em Ti, na tua claridade, mesmo no meio de qualquer
espécie de provações.
Faz, Senhor, que eu suba para Ti, sem cessar, através de tudo o que me
deres para fazer e, assim, na tua companhia viva já na Terra, em amor, em
adoração e em reparação por tanto tempo que tenho perdido, por todo o amor
e graças que tenho desperdiçado, por tudo o que Te tenho negado, e por
todos aqueles que Te não amam e que desperdiçam as graças imensas que
nos dás em cada momento.
Prometo ser-Te fiel, sim, prometo mais uma vez. Quero prometer todos os
dias, para que me lembre com mais frequência de o cumprir.
Concede-me a graça de Te ser fiel hoje, neste pequeno dia que tenho para
viver.
Entrego-Te todos os meus trabalhos e dificuldades, tudo o que me custa e
também tudo aquilo de que gosto e que me alegra, para que purifiques tudo
isso e não venha a agarrar-me a gostos e prazeres.

73
Entrego-Te a minha vida o meu coração, todo o amor de que for capaz de
Te dar.
Peço-Te, Senhor, dilata-me, para que consiga dar-me cada vez mais,
albergar cada vez mais amor para Ti e passá-lo sempre através do próximo.
Fico aqui contigo em adoração, apesar de todas as minhas incapacidades,
apesar de não saber adorar. Ensina-me!
Neste lugar sagrado, neste lugar de Amor, do teu Amor e do meu amor tão
pobrezinho, quero ficar, hoje e todos os dias, presa por Ti, presa do teu
ensino, da tua companhia, do teu Amor, sem saber mais nada senão
mergulhar em Ti, cada vez mais fundo, até me perder na tua infinitude…

74
Sacrário – Colóquio
Aproximas-te de Mim, mas muitas vezes vens distraída.
Espero-te tantas horas, por vezes tantos dias, e, quando aqui chegas, não
encontras nada para Me dizer?
Não sabes expressar a tua saudade, o desejo que te fez dirigir para aqui os
teus passos?
Como é que te apresentas aqui, pensando em tudo menos em Mim? Serei
assim tão desprovido de interesse para ti?
Querida alma, se tu soubesses como Me és querida! Também gostava que
Me dissesses que sou querido por ti, que sou desejado por ti, pequena alma,
que o teu desejo seria estares aqui mais vezes e mais tempo e que só não o
fazes porque os teus deveres te chamam lá fora de forma inadiável, mas que,
mesmo assim, pensas em Mim continuamente, porque estás, como a esposa
dos Cânticos “doente de amor” (Ct 5,8).
São estes os colóquios daqueles que verdadeiramente se amam. Como eles
sofrem quando não podem estar juntos! Mas estão em maior união de
pensamentos, quanto mais são impedidos de se encontrarem.
É também isso que sentes a meu respeito, quando não podes vir aqui?
Tenho tantas coisas para te dizer, tantas para te contar! E tu, que tens para
Me dizer a Mim? Que tens para Me contar?
O meu Sacrário é o local dos colóquios que tenho com as almas. Quantos
segredos passam por aqui!
Quantos actos de amor apaixonado tenho ouvido de algumas almas, umas
que já estão no Céu, outras que ainda permanecem na Terra, como tu!
Quanto tenho também Eu falado às almas, quando elas estão junto de
Mim! Tenho-as ensinado, de modo a que vivam de uma maneira mais
perfeita. Tenho-as cumulado de mimos, graças e carícias.
Aqui, junto de Mim, as almas gozam delícias que não conseguem
descrever, porque são inenarráveis, de tal forma que quem não as sentir
nunca as conseguirá entender, mas quem as experimenta não mais as poderá
esquecer, mesmo aqueles que mais tarde Me abandonam.
Aqui, as almas reparadoras procuram com o seu amor fazer-Me esquecer
as ingratidões de tantas que Me são infiéis, que não mais se lembram daquilo
que um dia Me prometeram com sinceridade, mas que agora não cumprem,
por estarem amolecidas na tibieza.
Procuram também reparar as ofensas que Me dirigem todos os que
escrevem contra Mim, que falam de forma a confundir as almas fracas e
levá-las a afundar no pecado, na descrença, a quererem modificar as minhas

75
Leis sagradas… e aqui cabem todos os pecados que se cometem contra os
Mandamentos e as regulamentações da minha Igreja, todas as loucuras que
se proclamam e se exigem por todo o mundo!
Estas almas reparam também pelos pecados imensos que se praticam
contra a humanidade com tantas guerras onde os mais inocentes são os
primeiros a sofrer… e todos os pecados particulares, ocultos na consciência
de cada um.
Tanto que têm a reparar estas almas durante o tempo que passam comigo!
Mas, mais que tudo, elas reparam oferecendo-Me todo o amor de que são
capazes, para reparar os pecados que se fazem contra a minha Presença
Eucarística, de formas tão variadas, que seria muito longo enumerar-tas, mas
que tu, quanto mais Me amares mais notarás, mais desperta estarás para
sentires uma dor profunda por tudo isso, dor que te levará sempre, não à
crítica, mas a uma atitude reparadora, nascida desse mesmo amor.
É aqui também que escuto o que Me vêm contar de preocupações, aflições
e muitas espécies de sofrimentos, que Eu consolo, na medida em que estas
almas se abrem para receber as minhas consolações, mesmo que não sejam
logo despachados os seus pedidos, mesmo que Eu não lhes tire a cruz,
porque a cruz é necessária para a educação de cada alma e para que cada
uma cumpra o seu dever dentro do meu Corpo Místico, no que se refere à
minha Paixão redentora.
Quanto tenho aqui conversado com os meus amigos, com aqueles que
realmente são meus amigos, porque muitos vêm aqui, mas não são meus
amigos verdadeiros. Vêm por diversos motivos, motivos sociais, de
conveniência ou outros!
O meu Sacrário é realmente o lugar do colóquio. Quem quiser conversar
comigo, é melhor peocurar-Me aqui, porque aqui Eu estou tão real como no
Céu, e porque aqui é um lugar sempre mais recolhido, onde há menos
possibilidades de distracções.
Quero também conversar contigo aqui. Por isso te espero todos os dias,
mas nem sempre vens, nem sequer em pensamento. E porquê? Porque
trabalhas muito e entras em grande cansaço?
Olha que o mais importante para Mim não é que trabalhes muito, mas que
ames muito. Tudo aquilo que fazes fora dos teus
deveres profissionais e familiares, se te impede de estar comigo, o mais
provável é não ser da minha Vontade, mas da tua.
Mesmo os trabalhos de apostolado, se te impedem de rezar, não te são
mandados por Mim, porque o apostolado sem verdadeira oração não frutifica
senão aparentemente. Por isso, não te deixes enganar por falsos frutos, frutos
artificiais, brilhantes, vistosos, com as quais o teu inimigo muito

76
frequentemente vos engana.
Lembra-te de que não é por muito trabalhares ou andares de um lado para
o outro que Me agradas mais, mas por Me dares, em ti, na tua vida e no teu
tempo, um lugar de destaque. Por isso, é preciso que nunca Me ponhas atrás
das obras, por muito boas que essas obras sejam ou pareçam ser.
Não terás tu tempo para fazes as coisas de que gostas? Não arranjas tempo
para mil coisas e coisinhas durante o dia, por entre o teu trabalho? Não
gastas tempo a conversar, a descansar, no café, ao telefone, a ver televisão, a
folhear revistas?
Sim, para tudo aquilo de que gostas tens tempo. E para Mim?
Se não arranjas tempo para estar comigo, poderás dizer que Me amas?
Como poderás dizê-lo? Se o dizes estás a mentir, porque aquele que ama,
sempre arranja tempo para estar com a pessoa amada, nem que tenha de
abdicar seja daquilo que for.
Por ti, Eu abdiquei, durante trinta e três anos, da felicidade e glória que
gozava no Céu, junto do Pai. E tu, de que é que estás disposta a abdicar por
Mim, para mostrares que Me amas, se é que realmente Me tens amor?
Nunca encontrarás ninguém que tanto te ame. Por Mim, vale a pena deixar
seja o que for, deixar tudo, se tal for preciso, porque só Eu sou digno do teu
amor todo inteiro.
Se Me deres inteiramente o teu amor, poderás amar com mais verdade
todos aqueles de quem gostas, os teus familiares e todos os que te mando
amar.
É aqui, junto de Mim, conversando comigo, que aprenderás a amar, como
só os meus filhos sabem fazer, aprenderás a amar com o meu Coração,
aprenderás a unir-te comigo, a levar a cruz e a seguir o caminho estreito que
leva ao Céu.
Dá-Me o teu tempo. Vem conversar comigo e depois saberás conversar
melhor com os teus irmãos. Saberás ter para eles atitudes de mansidão, de
bondade, de compreensão, de ajuda, sem falsidade, atitudes verdadeiramente
cristãs, que mostram verdadeira união comigo.
Alma, minha filha, não tenhas dúvidas de que só unida comigo
conseguirás ser uma alma de oração, humilde, paciente, caridosa e praticante
de muitas outras virtudes, que então serei Eu a praticar em ti, porque tu,
verdadeiramente, nada possuis de verdadeira virtude, mas tens muito de
pecado e principalmente de pecado de orgulho, que se convence de poder
fazer muitos actos bons.
Convence-te, querida alma de que não podes, por ti só, fazer actos bons.
Nenhum acto bom poderás fazer sozinha, porque aquilo que faças sem Mim,
ainda que aos olhos do mundo seja bom, aos meus olhos é manchado da

77
auto-sufi-
ciência da tua soberba camuflada.
O meu Sacrário é o lugar do colóquio e a escola do Amor. É aqui que
aprenderás verdadeiramente como se ama. Expor--Me-ás as dificuldades que
encontras no exercício do amor, e que são muitas, sei isso muito melhor que
tu.
Eu esclarecer-te-ei e dar-te-ei novas forças.
Vem todos os dias ter comigo e encontrar-Me-ás sempre disposto a ouvir o
que tens para Me dizer e a ensinar-te a caminhar melhor sobre todas as dores,
problemas e dificuldades que vais encontrando.
Alma
É verdade, Senhor, é verdade tudo aquilo que me dizes, os defeitos que me
apontas. É verdade que tenho desperdiçado muito tempo com coisas sem
importância e que tenho posto em relevo o trabalho com que me ocupo, pelo
prazer de fazer muitas coisas, coisas que me agradam, ou por outros motivos
que agora confesso aqui a teus pés.
É verdade que muitas vezes me convenço de que sei fazer oração, de que
sei fazer caridade, apostolado...
É verdade que me convenço de que sou paciente, porque me ajudaste a
aceitar a vencer determinadas provas.
É verdade que me convenço de que sou humilde, porque algumas vezes
me calei, não reclamei, baixei os olhos, deixei que me fizessem determinadas
coisas…
É verdade que me convenço que sou mortificada, porque faço jejuns ou
outros sacrifícios…
É verdade tudo isso, mas é também verdade que me tornei abominável
com a satisfação soberba dessas virtudes de que lancei mão e que procurei
fazer minhas.
Reconheço agora que nenhuma dessas virtudes é minha, mas são todas
tuas, e és Tu quem mas empresta quando delas preciso, e na medida em que
me uno contigo nesses momentos.
Vejo quanto Te desagradam as boas obras feitas na soberba da auto-
confiança!
Perdoa a minha soberba, feita de ignorância a respeito da minha miséria.
Continua a ensinar-me e a deixar-me servir da tuas santas virtudes, para que
consiga seguir contigo neste caminho onde me guias.
É verdade também que Te tenho colocado, muitas vezes, em segundo
plano, mergulhando nas actividades, nas distracções e nas futilidades, que
me conduzem ao charco da tibieza. É então que caio em fraquezas sem

78
conta.
Sou uma alma pobre, que se tem contentado com uma vida miserável de
pecado, cobrindo-se com uns andrajosos farrapos de falsa piedade, da qual só
Tu sabes ver bem a profundidade de miséria.
Quantas vezes já nem sei rezar e acabo por me resignar numa modorra que
já nem procura encontrar-Te a todo o custo, que já nem luta para isso!
Quantas vezes, vou à igreja porque tenho que ir, mas o meu pensamento
vagueia muito longe de Ti e do amor que devo dar-Te!
Tenho-Te deixado só, mesmo quando estou junto de Ti… Tenho-Te
deixado a olhar para mim com um Amor não correspondido!
Como tudo isto é tristemente verdadeiro!
Agradeço-Te por me mostrares como tenho procedido mal contigo e com
todos aqueles a quem Me mandas amar como Tu os amas.
A partir de hoje quero que a minha vida mude. Imploro o teu auxílio, pois
eu sou capaz de esquecer em breve tudo o que agora Te prometo, quando for
solicitada pelos interesses do meu amor-próprio e das futilidades do mundo.
A tua companhia no Sacrário será o lugar que procurarei de hoje em
diante. Será aqui que virei expor as minhas dúvidas, pedir conselho, escolher
que opção tomar, quando tiver de resolver alguma coisa. Será também aqui
que virei contar aquilo que se passa durante o dia e não mais o despejarei nos
ouvidos dos meus irmãos.
Aceita também que venha aqui adorar-Te com os teus Santos Anjos e
admite-me no grupo daquelas tuas queridas almas que reparam as ofensas
dos teus outros filhos e Te consolam pelos que Te não amam.
Nada sou, meu Senhor, senão pó e pecado, mas tudo espero de Ti, porque
sei que me amas. A Ti me confio. Entrego-
-Te estas resoluções e peço-Te graça para as cumprir, para Te agradar mais
em cada dia.
Concede-me que Te preste adoração e louvor, misturada no meio de todos
os Santos Anjos que aqui estão a adorar comigo, e aos quais rogo que me
ensinem a adorar com eles.

79
Sacrário – Fidelidade
É com grande alegria que te vejo aproximar do meu Sacrário, este lugar
onde te espero há largas horas… há muito tempo, pois para Mim é sempre
muito o tempo que espero por ti, mesmo que aqui tivesses estado ontem, ou
até já hoje.
É sempre muito o tempo que o verdadeiro coração amante espera pelo
objecto dos seus pensamentos e dos seus anelos.
Que outra coisa pode desejar alguém que ama, senão estar com a pessoa
amada? Os minutos parecem horas, as horas parecem dias, os dias parecem
anos. E os anos? Parecem uma eternidade, em que se deseja e se suspira em
vão.
Não te acontece o mesmo? Se amas alguém com verdadeiro amor
apaixonado, é isso que acontece. Lembra-te da ânsia com que pesquisas ao
longe quando esperas para ver se surge quem te faz esperar, principalmente
se é uma pessoa muito amada, e quanto mais amada, tanto maior se torna a
ânsia da pesquisa do teu olhar.
Assim também o meu olhar te seguiu por todo o lado, antes de vires para
junto de Mim. Mas agora que estás aqui, dás-Me uma alegria imensa, e olho
para ti, desejando que também olhes para Mim, esperando ver no teu olhar o
amor que o teu coração Me tem.
Quanta desilusão para Mim, se te vejo distraída, a olhar para os lados, a
conversar com alguém ou a pensar em tudo menos em Mim! Porque é que
fazes isso na minha pre-
sença?
Porque é que, por vezes, prestas atenção a tudo e a todos, e não Me prestas
atenção a Mim?
Por que é que estás distraída no teu encontro comigo, como alguém que
atraiçoa o seu amor com qualquer pessoa que passe por perto?
Qual o noivo que não se encheria de tristeza e de indignação, ao ver a
noiva conversar com todos os que passam, dirigir olhares a todos e não lhe
prestar atenção, deixando-o de parte no tempo em que estão juntos?
E mesmo que não seja com todos, mesmo que seja com uma só pessoa, é
traição igual, e a tristeza da pessoa traída não é menor.
Nunca poderás dizer que Me amas, se não desejas mais que tudo, estar
comigo, se preferes a Mim seja o que for, se na minha presença Me esqueces
para te distraíres com pessoas ou com coisas ou até com imaginações
consentidas!
Reconheces agora que o teu amor é bem menor que aquilo que tu

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pensavas… ou será que nunca pensaste nisso? Quem sou Eu para ti afinal?
Só Aquele a quem por vezes queres pedir alguma coisa?
Alma, minha filha, reconhece que o teu amor é bem pobrezinho, pelas suas
manifestações externas, porque estas são muito importantes para se perceber
o amor.
Eu não Me limitei a dizer que te amava, lá do alto dos Céus, mas
manifestei-o externamente na Terra, em trabalhos, incómodos e dores sem
conta nem medida, justamente porque o Amor verdadeiro não põe conta nem
medida nas suas manifestações, mas transborda sobre tudo o que possa
acontecer, e é preciso fazer muito esforço para, por vezes, conter os seus
ímpetos e não o dar a saber, quando tal não é prudente.
Gostaria que o teu amor fosse de tal forma grande, que Eu tivesse de te
aconselhar moderação, mas vejo-te, a maior parte das vezes, a navegar em
águas mornas, sem motor e sem remos, sem esforço algum para manter a
fidelidade, que é a mais importante prova de amor.
Se não Me amas com amor fiel, de que te adianta dizeres-
-Me palavras de amor?
Se elas te levarem à contrição das tuas infidelidades, sim, adiantam muito,
mas se apenas são um adormecimento na tibieza, para continuares a ocupar-
te de tudo menos de Mim, então são apenas mentira.
Repara que, mesmo que digas que não tens tempo para Mim, porque te
ocupas com obras minhas, Eu digo-te que, ainda assim, o teu amor não é
verdadeiro, porque o verdadeiro amor encontra sempre tempo, mesmo no
meio das obras, antes delas ou depois.
E, se essas obras te absorvem a tal ponto que não te é possível fazer
intervalo, para estar comigo, se não podes antes ou depois, então digo-te que
tais obras são mais fruto do teu amor--próprio que do teu amor por Mim, por
muito que te canses nelas e por muito úteis que elas pareçam.
No meio de todo esse trabalho e esse cansaço, encontras algum prazer que
te satisfaz mais que Eu e, por isso, não o queres largar. Algum outro motivo
tens, e esse motivo não sou Eu.
Sabes que as obras dão uma certa satisfação ao amor próprio, que dá muito
jeito à soberba para se alimentar?
Procura ter cuidado e usa as obras de apostolado que fazes, como um
serviço de serva humilde, não como um trono onde exibes o bem que fazes e
onde gozas de companhias agradáveis ou de certos benefícios e proveitos
próprios.
Fazes das obras deuses, a quem te sacrificas, dizendo que é por Mim? Eu
digo-te: “larga isso que te absorve. Outros o farão por ti, pois, se morresses,
alguém teria de o fazer. Tu dedica-te, em primeiro lugar a ficar comigo, a

81
mostrar que Eu sou Aquele que tu preferes a tudo, que amas sobre todas as
coisas e de quem só deixas a presença real, para cumprir os deveres de que
tens obrigação de estado ou obrigação profissional”.
O amor, o amor verdadeiro, é fiel e não procura desculpas para omissões,
justamente porque não encontra espaço para omissões, uma vez que o amor
ocupa todo o espaço do coração que o sente.
O amor verdadeiro não atraiçoa, mas vive fielmente, com o pensamento na
pessoa amada.
Vive com o teu pensamento em Mim, como Eu vivo com o pensamento
em ti, e viverás fielmente unida a Mim, mesmo no meio dos outros deveres,
mesmo nas provações.
E como o conseguirás, uma vez que te queixas justamente de tantos
esquecimentos? Através da fidelidade, primeiro à oração, que não deixarás
de fazer à hora que vês te seja mais propícia.
Poderão vir mil pensamentos tentar ocupar-te, mil ideias de coisas para
fazer, que tu não a deixarás para depois. A oração, meu filho, só se altera por
um motivo de caridade urgente ou por doença que te impeça de a fazer.
Depois terás que ser fiel aos teus deveres, esses deveres que sabes fazerem
parte do teu dever de estado e do teu dever profissional. E aqui a fidelidade
há-de fazer-te compreender o muito que te é exigido em perfeição, porque, se
queres ser fiel, terás que cumprir os teus deveres o melhor possível e não
pouco mais ou menos, uma vez que os fazes por meu amor.
Terás também que ser fiel aos Mandamentos e a tudo o que sabes que Eu
aconselho nos Evangelhos.
A fidelidade irá levar-te cada dia mais longe, cada dia para mais perto de
Mim.
Sê fiel também ao nosso encontro. Espero-te em cada dia, assim como
espero o teu amor em cada instante.
Alma
Prostrada a teus pés, meu Jesus, eu me arrependo de todas as minhas
infidelidades, de todos os pecados da minha vida, de tudo o que fiz e que Tu
não querias que fizesse, e de tudo o que omiti, quando sabia que era mais
perfeito fazer, que te daria com isso maior honra, maior contentamento.
De tudo isso me envergonho e vejo bem claramente que foram essas
infidelidades que me fizeram entrar por este caminho de preguiça, de pouco
mais ou menos, de distracção, de tantos esquecimentos da tua divina
presença, tantas faltas de recolhimento, que nunca saberei enumerar.
Prostrada na minha miséria, quero adorar-Te, prestando-
-Te a homenagem de todo o meu ser humilhado na tua santa presença, junto

82
dos teus Santos Anjos, que tantas vezes entristeci com os meus actos tíbios,
que eles procuraram reparar, inspirando fervor a algumas almas piedosas,
que rezaram no meu lugar.
Aqui estou eu hoje, apresentando-Te o meu arrependimento, disposta à
reparação de tantas faltas de fidelidade da minha vida, a recomeçar com
santo fervor, para, pela fidelidade, Te mostrar quanto Te amo, e através do
amor Te agradecer tantas graças com que me tens cumulado, quando eu
merecia que me lançasses em eterno esquecimento.
Meu Senhor, estou desejosa de Te mostrar a minha gratidão e, para tanto,
se o quiseres de mim, desejo também reparar pelas almas que, como eu, não
Te têm sido fiéis.
Inunda-me mais com o teu Amor, para que consiga cumprir tudo o que Te
prometo, pois só através do Amor a fidelidade se torna mais fácil.
Nada posso e não confio em mim nem nas minhas promessas, tantas vezes
esquecidas e traídas, mas confio em Ti plenamente, e sei que não faltarás
com a tua graça, para fazeres de mim e em mim aquilo que Te agrada.
Fico junto de Ti, em adoração e acção de graças, na companhia dos teus
Santos Anjos, a quem peço que me ensinem a adorar cada vez melhor.
Com eles louvo-Te e adoro-Te, Senhor Omnipotente, Rei dos Céus e de
tudo quanto existe!
Permite que o meu coração Te adore sempre e fique contigo, eternamente!
SACRÁRIO – ENTREGA
Alma que Me procuras, vem, aproxima-te e entrega-te inteiramente às
efusões do meu Amor, pois tenho tanto Amor represado no Coração, tanto
Amor que Me é rejeitado, até por aqueles que Me estão mais próximos, que
anseio derramá-lo sobre as almas que se aproximam, com desejo de mais se
prenderem a Mim, por laços de amor.
Queixas-te, por vezes de que não consegues fazer mais. Mas quem é que te
pede que faças mais que aquilo que podes? Se Me és fiel, não tens que fazer
mais, senão continuar em fidelidade, humildemente, aceitando as próprias
incapacidades e impotências.
Não podes fazer mais para crescer em amor, mas podes deixar-Me fazer
por ti aquilo que é preciso, para te transformares numa alma de fogo.
É bom que sintas que nada podes, porque quando queres fazer muitas
coisas, normalmente fazes tudo mal feito, erras de muitas maneiras, porque
não sabes como é que se desenvolve a verdadeira vida divina nas almas.
Muitas vezes fazes projectos, organizas muitas resoluções, planeias formas
de realizar cada coisa, sobrecarregas-te com mortificações, jejuns e orações
diversas. Depois vais falhando, enfraquecendo, esquecendo e acabas por ter

83
grandes lacunas no mais importante.
Outras vezes, quando consegues fazer aquilo que determinaste, e quando
tudo te sai bem, imaginas que o fizeste porque já és fiel, porque estás muito
próxima de Mim, porque consegues praticar a virtude… E quantos outros
pensamentos de soberba!...
Enganas-te se pensas que Eu estou encantado com a tua beleza, com a tua
sabedoria ou com as tuas virtudes. Se te visses com os meus olhos, verias
que diante de Mim não tens beleza alguma, virtude alguma, nem aquelas que
tens tido alguma facilidade em praticar, porque essa facilidade não é tua, mas
minha, e sou Eu quem te empresta essas graças.
Já te disse há dias que posso retirá-las quando quiser e então verás como
tudo se torna custoso. Mas como é difícil para ti entender estas coisas!
Quando te retiro as graças de que te queres apossar pensando que são
virtudes tuas, dizes que não sabes o que se passa, que já não sabes rezar, que
te impacientas e irritas, que te distrais, que te atraem as coisas do mundo…
enfim, que te sentes muito pior que nos primeiros tempos em que iniciaste o
meu caminho.
Não estás pior, sou Eu que te estou a mostrar a tua miséria, para te
defender do perigo da soberba com que querias fazer teu aquilo que é
unicamente meu.
Na verdade, só Me encantas na medida em que reconheceres a tua miséria,
o teu nada, os teus pecados… e te apresentares assim pobre diante de Mim.
Abandona-te, entrega-te, que Eu farei em ti tudo o que é preciso fazer,
tudo o que tu não podes, tudo o que tu não sabes.
Nunca te convenças de que podes ou que sabes, mesmo que tenhas muita
cultura e Eu te tenha dado facilidade de te exprimires.
Nunca penses que tens força, mesmo que há bastante tempo
venhas a dominar de maneira firme as tuas más tendências.
Nunca penses que és virtuosa, mesmo que tenhas vindo a praticar
ultimamente muitos actos de virtude.
Nunca penses que és fiel, mesmo que não vejas em ti infidelidades
notórias, mesmo que cumpras todos os teus deveres com toda a perfeição e
os teus superiores e outras pessoas estejam muito contentes contigo.
Convence-te, sim, de que nada disso é teu e de que Eu o posso retirar
quando quiser, deixando-te em situação bem humilhante.
Entrega-te à minha acção, com humildade, dispondo-te ao que Eu
disponho, quer seja fácil, quer seja difícil, mesmo que tenhas de arrostar com
incompreensões, ou de receber louvores.
No Sacrário também Eu Me entrego… e como Me entrego! No Sacrário
aceito estar completamente entregue nas mãos que Me querem pegar, mãos

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virtuosas ou mãos pecadoras, mãos de ministros santos e de ministros
indignos, mãos daqueles que Me amam e daqueles que Me profanam!...
O Sacrário é uma entrega por vezes muito dolorosa para Mim, mas é lá
que Me entrego, para Me levarem para onde querem.
Muitas vezes caio nas mãos de inimigos, que Me fazem mil ultrajes.
Outras vezes sou entregue a almas em pecado mortal, que Me recebem no
meio da sua podridão interior. Apesar disso, não as fulmino, mas aceito,
porque a minha entrega não existiu só no Calvário, mas repete-se
continuamente, enquanto o mundo existir.
Sou a Vítima abandonada e vilipendiada, que Se entrega a quem a
maltrata, no intuito de ainda conseguir tocar esses corações. Não há
repugnância que Me faça recuar, fugir, deixar o Sacrário que agora está
fechado e mais logo será aberto por mãos que talvez sejam santas ou talvez
sejam indignas.
E tu? Como é que te entregas? Vê como fazes aos problemas, às dores, a
tudo o que te incomoda… e como fazes quando tudo se torna mais fácil e as
criaturas te louvam ou adulam.
Ao aproximares-te do Sacrário, lembra-te de que aqui é o lugar onde Eu
Me entrego milhões de vezes, e nem sempre essa entrega é agradável.
Lembra-te da Minha entrega em mãos de profanadores, tíbios, almas em
pecado mortal ou de almas indiferentes, que nem Me agradecem por vir a
elas.
Lembra-te de que sou muitas vezes levado, vendido, pisado e ultrajado de
muitas formas, em cerimónias indignas, para onde Me levam, sabendo
perfeitamente o que fazem.
Lembra-te de tudo isto nas alturas em que é preciso que te entregues em
união comigo, em união com a minha própria entrega. São momentos em que
te são pedidas coisas desagradáveis, algumas em que te repugnam certos
trabalhos ou certas pessoas.
São também momentos em que é preciso que entregues aquilo que te
parece teres de bom, mas que na realidade são coisas minhas.
Nesses momentos Eu te peço uma entrega como a minha, silenciosa,
generosa, uma entrega que é feita com um sorriso, porque sabes que é a Mim
que te entregas, como Eu Me entrego a ti.
Mas nem todas as entregas são desagradáveis. Para Mim também há almas
com quem Me é grato ficar, almas belas, resplandecentes de pureza, de
humildade e de amor. Essas almas agradam-Me muito.
Assim, também para ti o trabalho e as pessoas por vezes são agradáveis. É
por isso que deves fazer, sempre e continuamente, a entrega de tudo o que
fazes, de todas as tuas actividades, daquelas que são desagradáveis, mas

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também das agradáveis, para as tornares meritórias, em união com a minha
entrega eucarística às almas.
Essa entrega total transforma-te numa permanente vítima de amor comigo,
no Calvário e na Eucaristia, que é um prolongamento do Calvário, pelos
séculos fora.
Ai, minha filha, se tu soubesses! Se tu soubesses, alma fiel, as coisas que
se passam no campo espiritual!... Mas os teus olhos não vêem mais que
aquilo que se passa à tua volta.
Não te permito ver o que se passa nas almas, para tua própria protecção,
porque não estás preparada para isso e afligir--te-ia tanto o horror daquilo
que verias em muitas das almas que Me recebem, que correrias o perigo de
adoecer ou de te julgarem louca, porque te seria extremamente difícil não
manifestares a repugnância que sentirias.
Fazes parte do meu Corpo Místico. Então, une-te a Mim diariamente, direi
mesmo, a todo o momento, nesta entrega feita de um amor tão grande que
não faz contas ao que dá, nem se põe a reflectir se é fácil ou difícil, doce ou
amargo, muito ou pouco, porque o amor, quando é grande, dá tudo a
qualquer momento.
Faz da minha entrega no Sacrário o modelo da tua própria entrega, e vive
assim, todos os dias, em união comigo, em tudo o que fizeres durante o dia e
durante a noite, em tudo o que te acontecer de agradável ou de penoso,
suplicando e esperando que Eu faça em ti tudo o que te mando fazer.
É assim que Eu quero que tu vivas já na Terra, em preparação daquela
união que teremos um dia no Céu e que se prolongará por toda a eternidade.
Alma
Adoro-Te, meu Senhor, aqui no teu Sacrário, neste lugar onde permaneces
por amor e de onde sais cada dia para Te entregares a cada um de nós, nesse
momento, o mais belo entre todos os momentos que passamos nas nossas
horas diárias, e que por vezes aproveitamos tão mal, de forma tão distraída!
Adoro-Te, com os Santos Anjos que rodeiam este Sacrário, procurando
suprir em amor as nossas negligências. Com eles também quero suprir todas
as negligências da minha vida e as dos meus irmãos, e dar-Te mais amor em
cada momento, principalmente nesses momentos sagrados da acção de
graças da Santa Comunhão.
Louvo e glorifico a tua infinita grandeza, que assim se baixa para os seres
que tanto amas e que tão pouco te têm sabido amar.
Meu Senhor, como é infinita a tua Misericórdia, que assim procura este
pobre ser tão pequeno e tão pecador para o distinguir com as graças que me
concedes durante esta minha visita ao teu Sacrário!

86
Reconheço, aqui a teus pés, que muitas vezes me tenho deixado dominar
por pensamentos de posse das tuas santas graças, como se a facilidade que
algumas vezes me deste para alguma coisa fosse coisa minha!
Como me tenho enganado a meu próprio respeito! Como me tenho
enganado, pensando muitas vezes ser mais agraciada, mais amada por Ti que
os meus pobres irmãos que vejo com mais dificuldades sob qualquer
aspecto!
Assim me fixei em mim, em vez de aproveitar essas graças para os ajudar
a encontrar o teu caminho e o teu Amor. Assim enterrei em mim os teus
tesouros, em vez de os pôr a render para lucro do teu Reino!
Perdoa-me! Sou uma alma cega, que pensava que via, mas que afinal
precisa tanto da tua luz!
Sou uma alma distraída que se esquece facilmente das tuas lições!
Também estou confundida de dor pelo que me contas sobre as almas que
Te recebem em pecado! Que posso dizer-Te sobre isso? Nada, a não ser
chorar a teus pés pelas nossas ingratidões e rogar-Te para que tais sacrilégios
não mais aconteçam.
Agradeço-Te o teu convite para uma vida de união com a tua entrega na
Santa Eucaristia. Saberei eu pô-lo em prática? Já me mostraste que não e, no
entanto fizeste-me esse pedido. Por isso Te peço eu agora que o faças Tu em
mim, para que eu possa ser fiel ao que me pedes.
Realiza em mim, Senhor, em cada dia, uma Santa Missa, onde renoves o
mistério de Amor, transformando-me em hóstia pura entregue em união
contigo, transformada em Ti, para glorificação do Pai e reparação pelo
mundo pecador.
Cada dia renova em mim esta entrega unida à tua entrega, para que eu viva
contigo, dentro do teu Sacrário, enquanto não vou viver unida a Ti lá no Céu.
Prostrada no meu nada, no pó que sou, na lama de tudo o que de vão
desejei, Te suplico que me purifiques da podridão dos meus pecados, para Te
poder louvar na companhia dos teus Santos Anjos.
Com eles eu Te adoro e Te entrego tudo em mim, para que Te pertença
com mais verdade, em cada instante.

87
Sacrário – Abismo
Alma que Me procuras, por que vieste? Vieste porque tens saudades
minhas? Vieste para pedires alguma coisa? Vieste porque é costume vires e
não pensaste em mais nada? Vieste para desabafares alguma tristeza?
Seja qual for o motivo que aqui te trouxe, quero que saibas que estimo
muito a tua presença e que te agradeço teres
vindo.
Quero que saibas que ainda não pensavas em vir e já Eu desejava a tua
presença, desejava ter-te junto de Mim, a fazer--Me um pouco de companhia.
Mesmo que não tenhas vindo inteiramente por amor, aproxima o teu
coração do meu e pede-Me para purificar os motivos que te trouxeram aqui.
Mergulha o teu olhar no meu Sacrário. Penetra aqui em espírito e verás
que em lugar de uma caixa fechada encontrarás um abismo. Sim, um abismo
de Amor e de Misericórdia.
Sejam quais forem as razões que te trouxeram à minha presença, vem
mergulhá-las neste abismo, sem receio desse mergulho, porque neste abismo
encontrarás sempre a doçura dos meus braços.
Alguma vez olhaste para o fundo de um abismo? Na maior parte deles é
muito difícil, senão impossível fazê-lo, visto que são de enormes
profundidades. Também neste abismo não poderás encontrar o fundo, nem
limite algum, porque é infinito, como é infinito o meu Amor.
O meu Sacrário é um abismo sem limites, porque encerra em si Aquele
que é o próprio infinito, mas que, com uma humildade sem igual, se faz tão
pequeno, para vir a ti e ficar sempre contigo.
É para este abismo que te convido. É para aqui que Eu quero que te lances.
Seja qual for a altura em que o faças, podes ter a certeza de que te
encontrarás nos meus braços, de que não te lançarás para o vazio, nem para
um precipício que te despedace.
Muitas vezes, vós lançais-vos para abismos de mudanças de vida de que
não conheceis a profundidade. Lançais-vos loucamente em queda livre ou
com pobres pára-quedas que não abrem. E assim dais desastrosos tombos,
com consequências por vezes mortais para a vossa felicidade e para a vossa
paz..
Outras vezes também o abismo parece bonito e parece seguro, pois
apresenta-se com água, talvez água que parece espelhar o céu, coisas lindas,
coisas santas. Mas não sabeis a profundidade dessa água, nem a estrutura do
fundo, que pode apresentar perigosas rochas.
Isto quer dizer que não sabeis a profundidade dessa espiritualidade, se é

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realmente o que parece ou se não passa de falsidades bem camufladas.
Tudo isto são imagens das más opções que fazeis, levados por alguma
ideia que parece linda, às vezes até religiosa, mas que esconde uma cilada.
Alma, minha filha, aprende a raciocinar e a não resolveres a tua vida sem
pensares muito bem e sem pedires conselho a quem sabe mais que tu. Depois
aprende a obedecer, porque se não obedeces não te valerá a pena pedires
conselhos.
Mas vê também a quem pedes conselhos. Vai a quem tem graça de estado
e não a qualquer pessoa bem falante, por culta que seja.
Aprende a não querer fazer aquilo que os outros fazem, só porque te
parece bonito, pois o que é bom para eles pode não ser bom para ti, por
circunstâncias da maneira de ser de cada um, ou outras que desconheces.
Pode acontecer também que tal coisa, apesar de parecer tão bela, não seja
afinal boa para ninguém, mas só muito mais tarde o virás a descobrir, talvez
depois de teres dado alguma queda muito dolorosa, caindo em alguma cilada
bem urdida.
Há muitos abismos que te podem encantar, porque lá
estão outras pessoas, que te fazem sinais para te lançares, em opção de vida,
que não sabes muito bem como será.
E quantos talvez já estejam arrependidos, mas não sabem como voltar,
porque há certas opções que são como abismos: fáceis de descer, porque
desces em queda, mas impossíveis de subir.
Lembra-te de que há muita propaganda mostrando como muito bom e
muito belo aquilo que na realidade não é. Cada vez é mais fácil enganar
incautos, pois há verdadeiros especialistas desses enganos! E esses
especialistas são aqueles que parecem mais sinceros e mais honestos.
Se outros estão no abismo para onde te pretendes lançar, não sabes como é
que para lá foram, se também deram algum salto louco que não querem
confessar, ou se têm uma forma diferente da tua de encarar as dificuldades.
Não te lances sem saberes sequer como poderás voltar para cima, se vires
depois que esse abismo não é afinal o que te parecia ao longe.
Se não fizeres assim, estarás exposta a grandes e perigosas quedas, das
quais te virás a arrepender amargamente, muitas vezes sem remédio.
Só o meu Sacrário é abismo seguro, porque Eu estou aqui e disso tu tens a
certeza absoluta, porque te fias na minha Palavra que é superior a qualquer
palavra humana, por melhor que seja, ou pareça ser, a pessoa que te anuncia
qualquer outra coisa.
Lançares-te neste abismo é acreditares e confiares plenamente naquilo que
te ensino, sem lugares para dúvidas, para apreensões e temores. É lançares-te
na paz e na felicidade.

89
Quando te digo: “Não receies, mas crê”, não quero dizer para mudares de
casa, de emprego, de terra ou de país. Para essas opções recomendo-te
sempre muitíssima prudência, pois tudo isso faz parte dos tais abismos, para
os quais é preciso conhecer muito bem o caminho de ida e de volta, na
medida do possível, uma vez que há certas opções que não têm volta.
É por isso que nunca é de mais a prudência e o conselho que possas tomar,
junto de alguém prudente e sem interesses ligados ao assunto.
“Não receies, mas crê” quer dizer que te lances para Mim confiadamente,
sem ficares a recordar o que passou, os pecados que fizeste, aquilo que deste
a sofrer a alguém, muito menos o que sofreste ou o que alguém te fez de
desagradável.
Também não deves preocupar-te com situações irremediáveis, como seja a
morte de alguém. Reza por essa pessoa, mas não gastes o teu tempo e a tua
paz imaginando o lugar onde está agora, mesmo que te pareça ter morrido
sem conversão. Não sabes o que é que pode ter acontecido no seu coração na
hora da morte.
Não sabes que Eu sou o abismo da Misericórdia e que a riqueza infinita
das minhas graças pode salvar qualquer pecador que se deixe tocar por Mim?
Não deves sequer procurar pessoas que te parece saberem alguma coisa a
respeito daquilo que se passa depois da
morte.
A maior parte das vezes essas revelações são falsas, e mesmo que a pessoa
acerte, só te diz aquilo que sabe que gostarias de ouvir, ou que te dará
impacto nervoso, um certo choque de admiração, ou aquilo que serve para
qualquer pessoa, pois há certas palavras, inteligentemente ditas, que servem
para qualquer um se identificar com elas.
Isso é muito fácil de fazer, pelo que tu manifestas de ti, a tua maneira de
falar e até as perguntas que fazes. Revelas muito da tua maneira de ser pela
forma como falas, como ages, como vestes, até pela tua estatura e pelo teu
peso.
Por vezes escapam-te da boca algumas palavras que servem muito bem
para depois te serem “reveladas” certas coisas que parecem adivinhadas. Não
te deixes iludir!
Se a alguns Eu revelo segredos, não lhes dou autorização para os
divulgarem. Por isso, não procures saber nada junto de pessoas que dizem
saber coisas, porque normalmente não passam de grandes embusteiros, que
têm artes de agradar, convencer e enganar, com o fim de ganhar alguns
proventos, disfarçadamente ou às claras.
Segue o meu conselho e afasta-te desses caminhos e dessas pessoas!
Se vives com preocupações, não estás a viver no abismo as minhas

90
grandezas e afastas o veículo da confiança que, generosamente, coloco no
teu caminho. Lembra-te de que a desconfiança é, de todos os teus pecados,
aquele que mais Me desagrada.
Pelo contrário, ver-te confiar em Mim, principalmente quando as nuvens
negras se encastelam em teu redor e parece que já nada há a esperar, porque
tudo se mostra adverso, é a maior alegria que Me podes dar, pois mergulhas
com um salto confiante no oceano infinito das minhas ternuras, que te abrem
as portas dos tesouros eternos.
Alma, minha filha, tu que te aproximas do meu Sacrário, procura
ultrapassar estas paredes. Mergulha os teus olhos nestas profundidades, que
encerram as minhas infinitas riquezas. Eu sou rico, então que podes temer?
Junto de Mim a graça não te faltará.
Receias que não te socorra? Sou Pai e Esposo! Onde encontrarás maior
amor?
Cada uma das tuas desconfianças é uma indelicadeza que Me diriges e que
Me magoa mais que os pecados daqueles que não Me amam porque não Me
conhecem senão como personagem histórica.
Tu tiveste o sublime dom de receber ensino religioso e mais ainda, esse
ensino não esterilizou em ti, como em tantas outras almas. O tempo em que
pecaste, o tempo em que te afastaste passou. Agora estás aqui e deves
reconhecer a graça insigne que te faço, cuidando para que a plantinha da Fé
que te dei cresça e dê flores e frutos.
Recorda que, mesmo com trabalhos, dores e muitos problemas que te
possam ter acontecido, recebeste a grande graça de Me conheceres e de Me
quereres amar. Não te sentes grata?
Não sentes vontade de exultar em acções de graças, em vez de andares de
cara triste, sempre a pensar no passado que já não podes mudar, ou a cogitar
no futuro, que não podes prever?
Mergulha neste abismo que tens a felicidade de conhecer. Lembra-te dos
milhões de almas que não o conhecem! Alegra-te pela graça que recebeste.
Agradece e abandona de vez as inquietações, as más recordações e tudo o
que te tem perturbado.
É neste abismo de amor que te vais encontrar comigo e encontrar a
felicidade que só sentem, realmente, as almas que se Me entregam em
confiança.
Quero que sejas feliz, não só no Céu, mas desde já. Essa felicidade só
podes encontrá-la nos meus braços, estes braços que te estendo para te
abraçar, se não fugires para te refugiares nos lugares escuros, sombrios e
malcheirosos das dúvidas, das preocupações e das desconfianças.
Mostra que Me amas e que confias no meu Amor. Compõe o teu rosto e

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sorri, mesmo que transportes contigo algum sofrimento.
Se Eu não te retiro essa dor, é porque de alguma forma ela é útil para ti ou
para o teu próximo, mesmo que seja de uma forma tão escondida e
misteriosa que tu não consigas ver nem compreender.
É então que entra em campo a confiança que quero que tenhas em Mim.
Mesmo que não compreendas nada, confia.
Mesmo parecendo que não te escuto, que não faço o que Me pedes, confia.
Mesmo que não te tire a cruz, confia, confia sempre, que Me darás com
isso mais alegria que o meus Anjos com os seus cânticos.
Digo-te mesmo que, quanto maior for a tua confiança em circunstâncias
difíceis, mais alegria Me darás.
Quero mostrar-te o meu amor. Mostra-Me então a tua confiança, pois a
confiança que se tem no ser amado é prova de amor.
E Eu, posso confiar em ti, no teu trabalho, na tua fidelidade aos deveres
que tens para comigo e para com o teu próximo, a quem te mando amar,
apesar de tudo o que te faça?
Posso confiar que permanecerás fiel, mesmo debaixo da cruz?
Posso confiar no teu recolhimento, na tua oração, no teu silêncio sobre o
próximo?
Posso confiar no teu desejo de perfeição, que te leve a fazer tudo o melhor
que fores capaz, mesmo aquelas tarefas que menos te agradam?
Posso confiar que abandones as buscas próprias, os contentamentos do
“eu”, o desejo de possuir coisas, a ambição de honras, de prazeres, de
dinheiro, a ambição dos luxos, das estimas e das vaidades?
Posso confiar na tua abnegação, na tua paciência, com a qual Me ajudes a
salvar almas pelo mundo fora? Mas tu tens paciência e abnegação?... Só tens
quando Eu tas dou!
Posso confiar no teu sorriso, na tua alegria, com que disponhas bem o teu
próximo e que te disponha também melhor para o meu serviço?
Vê quanto tens falhado e reconhece que não és uma alma digna de
confiança. Mesmo assim, continuo a dar-te as minhas graças, e quero mais
uma vez confiar em ti, porque o meu Amor por ti é muito superior à tua
fraqueza.
Tu própria não confies em ti, nem no teu saber, nem na tua experiência, na
tua força, naquilo que és capaz de fazer no meu serviço, mesmo que já te
tenhas saído muito bem em certas coisas.
Põe a tua confiança unicamente em Mim, porque, trabalhando em união
comigo, hás-de vencer as tuas más tendências, os teus maus hábitos, as
tentações e as manifestações do teu temperamento e do teu carácter.
Vem muitas vezes ao meu Sacrário, este abismo de Misericórdia e de

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Amor, em profundidades infinitas. Aqui encontrarás todas as virtudes e todas
as minhas graças, como num mar de infinita profundidade.
Confia em Mim, mergulha profundamente neste abismo, que Eu farei em ti
tudo o que tu não podes, tudo o que tu não sabes.
Alma
Meu Senhor, abismo de graças e de Misericórdia, abismo de Amor
infinito, venho a teus pés, em adoração, entregar toda a minha vida,
prometendo conformá-la com os teus divinos ensinamentos.
Prometo não me deixar mais preocupar com o passado, com o futuro, nem
sequer com o presente que, por vezes me custa tanto a viver, com os seus
múltiplos problemas, que não sei resolver.
Quantas vezes me afligem mil coisas, que parecem fazer-
-me viver numa vida de dores!
É verdade, Jesus, estou muitas vezes quase a cair num abismo de dúvidas,
em escarpas de indecisões às quais me agarro, sem saber como fazer para
seguir em frente, e prestes a cair nos abismos de alguma resolução
imprudente, alguma má opção, alguma mudança de vida que me parece boa,
mas pode não o ser.
Quantos problemas de solidão tenho na minha pobre vida! Quantos desejos
de companhia, de agradar às criaturas, para que elas não me abandonem,
como se elas fossem o mais importante para mim!
É por isso que estou muitas vezes indecisa e confusa, temerosa do que me
possa acontecer, do que me dirão, dos problemas maiores que possam advir
da minha escolha.
E quantas vezes a minha imprudência lança-me em opções menos boas,
que me fazem cair em abismos de dor e de maior confusão!
Mas nada disto sucederia, se vivesse mais contigo, se pusesse unicamente
em Ti a minha esperança e a minha confiança, se fosses para mim o único
Tudo e não tentasse firmar-
-me nas criaturas, que afinal são tão fracas e falíveis como eu!
Prometo-Te agora não resolver mais nada, sem antes pensar bem, rezar
bastante, e, se for importante, pedir conselho a quem sabe mais que eu.
Prometo-Te preferir viver mais contigo que com as criaturas e não mais
me afligir com o abandono a que elas me votem.
É no abismo do teu Sacrário que me quero lançar, na confiança absoluta de
que cairei nos teus braços, que não me deixarão magoar, porque sei que Tu
me amas.
É aqui, neste abismo, neste lugar onde se esconde o Amor infinito, que
quero viver, junto de Ti, numa união de amor que, pela tua graça, me levará

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a fazer tudo o que sei que Tu queres, tudo o que sei que Te dará satisfação,
em fidelidade absoluta ao teu querer.
Sim, eu reconheço, pela minha grande miséria, pelas minhas numerosas
quedas, depois de outras tantas promessas de fidelidade, que não mereço a
tua confiança, mas é em Ti que me apoio, é de Ti que espero a força para
cumprir tudo o que neste momento Te prometo.
Concede-me a graça de ser fiel, a graça de vir aqui ao teu Sacrário muitas
vezes, todas as vezes que me for possível, a graça de não trocar o teu
Sacrário por coisa alguma com que o mundo me queira aliciar.
Agradeço-Te tudo o que me dás, todas as graças com que ao longo da vida
me cumulaste.
Em amor e adoração quero ficar a teus pés, junto dos teus Santos Anjos,
derramando confiadamente o meu coração no teu.

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Sacrário – Maravilha
Alma que te aproximas do meu Sacrário, olha para Mim, quer estejas num
templo muito iluminado ou na semi-obscuridade de certas igrejas antigas.
Olha para Mim e deixa-te fascinar pelas maravilhas que quero desdobrar
diante dos teus olhos de criança.
Queres ser criança junto de Mim? Queres ser a minha criança, a criança
que conduzo pela mão, que afasto dos perigos, porque não sabe andar
sozinha, não conhece o caminho e é facilmente enganada, na sua
inexperiência e ingenuidade, quando se afasta da minha mão poderosa?
Queres ser a criança confiante que, quanto maior é o perigo, mais se chega
para o seu pai?
Serás também a criança a quem desvendo maravilhas que não mostro aos
auto-suficientes, aqueles que sabem muito, que são naturalmente
desconfiados e se querem bastar a si próprios, confiados no seu saber, nas
suas virtudes, na sua inteligência e até na sua força, amizades, contactos
sociais e maquinações pré-concebidas.
Mas tu que és criança, e criança que prudentemente se chega para Mim,
que sou o único que é sábio, forte e rico, partilharás da minha sabedoria,
fortaleza e riqueza, que não têm limites, nem se circunscrevem só a algumas
áreas e situações.
Tu que és fraca, mas que tens boa vontade em Me seguir, que não
questionas aquilo que te ensino e que te mando, tu que queres permanecer
com a tua mão na minha, para que te guie, és afortunada, porque passarás por
todos os perigos sem perecer, embora às vezes com alguns arranhões, como
acontece vulgarmente às crianças que tropeçam e caem.
Mas podes ter a certeza de que, quanto mais te chegares para Mim, menos
cairás, porque Eu te segurarei nos braços, na medida em que tu deixares.
É preciso que saibas que nem sempre Me deixas transportar-te incólume
porque, frequentemente, largas a minha mão, para dar pequenas corridas à
minha frente, procurando adiantar-te, porque o meu passo talvez te pareça
muito vagaroso, ou porque vês, mais além, algum objecto brilhante.
Verificas, depois de teres tropeçado em algumas pedras, que esse objecto
era uma lata ou um vidro partido, que te golpeia as mãos.
Regressas a chorar com essa dor. Às vezes não regressas, mas ficas a
chorar sozinha, apertando a tua ferida, dobrada sobre ti própria, e é preciso
Eu ir ter contigo, para te con-solar.
Criança pequena, aprende que nada podes sem Mim, nem fora de Mim.
Aprende que fora de Mim só perdes tempo e te enredas em situações difíceis.

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Aprende que junto de Mim estás defendida, podes passar obstáculos e
perigos, porque Eu próprio te guio e defendo, te comunico inteligência e
discernimento, mesmo no meio de tempestades e de noites longas.
Aprende a dormir nos meus braços, confiadamente, durante a noite dos
teus problemas ou sofrimentos, sem esbracejar, sem gritar de medo, ou com
dúvidas e aflições.
Junto de Mim nenhum mal te pode acontecer, mesmo que te cerquem
inimigos por todos os lados, mesmo que te ameacem, insultem e digam todo
o mal contra ti.
São situações dolorosas, são tempestades difíceis, mas por tudo isso terás
necessariamente de passar, porque a tua si-
tuação humana a isso está sujeita. Mas se confiares em Mim, lembrar-te-ás
sempre das minhas palavras: “Não temas aquele que só pode matar o
corpo…” (Mt 10,28), e entregar-te-
-ás ainda mais à minha Vontade, expressa no dever, aceitarás aquilo que não
podes mudar, e pedir-Me-ás humildemente que mude o que for susceptível
de mudança, se isso for para maior glória minha e para o teu bem.
É preciso que reconheças que muitas vezes não mudo certas coisas e
deixo-te permanecer debaixo da cruz, porque essa cruz é um benefício para
ti, embora tu não percebas como.
A tua cruz é benefício para o próximo, umas vezes imediatamente,
conforme os serviços que lhe prestas, outras vezes futuramente, com vista ao
apostolado de sofrimento que nela e por ela floresce.
A tua cruz dá-Me glória pela tua aceitação e confiança que, por vezes,
poderão atingir o heroísmo, e vai aumentar igualmente o grau de glória que
no futuro te espera no Céu.
Isto são maravilhas de esperança, que quero agora colocar ante os teus
olhos que fitam o meu Sacrário. Não acredites em maravilhas fáceis, em
pessoas maravilhosas, que fazem coisas que te parecem milagrosas.
Em primeiro lugar, é preciso que aprendas que Eu não espalho milagres de
facilidades, para pagamento disto ou daquilo.
Mesmo na minha vida na Terra, recusei fazer milagres desnecessários,
provocados pela curiosidade daqueles que Me rodeavam e Me pediam sinais
do Céu para acreditar em Mim. Só fiz milagres movido de compaixão pelas
pessoas que sofriam.
Agora proliferam pseudomilagres e pessoas que fazem pseudomaravilhas,
alguns até cobertos com o meu nome ou com o nome de minha Mãe ou de
algum Santo.
A maior parte das vezes, tudo isso é exploração das pessoas ingénuas.
Acautela-te com os seus ensinamentos, principalmente se são

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ensinamentos diferentes daquilo que a Igreja ensina, coisas estranhas que só
eles vêem, mas que não vem autorizado pela Igreja.
Acautela-te, muito especialmente, quando eles te pedem alguma coisa em
troca, o dito “para ajuda de…”
Tem muito cuidado com essas coisas. No Evangelho bem te aviso contra
os falsos cristos e falsos profetas. Nunca os procures. Para que precisas
deles? Não Me tens a Mim? Não tens minha Mãe sempre pronta a ajudar-te?
Não tens o teu Santo Anjo, que se desvela em cuidados contigo?
Não aceites maravilhas fáceis, nem tenhas curiosidade em vê-las. Acredita
que só Eu faço maravilhas, porque só Eu sou o Senhor.
Se é verdade que posso dar a quem quiser algum poder milagroso, também
é verdade que, para tal terá de se tratar de uma pessoa que viva em grande
união comigo.
E essas pessoas não abundam tanto, como abundam aqueles que se dizem
videntes e até milagreiros, nas mãos dos quais parecem acontecer
maravilhas.
São truques bem construídos como fazem os artistas, outras vezes é usada
a magia e até artes diabólicas.
Por isso te aviso que te afastes das coisas espectaculares, das maravilhas
apregoadas, dos milagres facilitados, pois o meu verdadeiro discípulo
procura esconder os prodígios que faço pelas suas mãos e sofre quando se vê
descoberto. Para ele isso representa cruz, que só aceita para me ser
agradável.
O meu verdadeiro discípulo é humilde e não faz propaganda, não dá nas
vistas, não anda a contar por aí os favores que lhe dou nem as graças que lhe
concedo.
É assim que deves aprender a conhecer os meus discípulos, para poderes
discernir o verdadeiro do falso e não vires a cair em embustes bem
preparados.
Se queres ver maravilhas, olha para o meu Sacrário e verás a maior
maravilha que te será dado ver, a maravilha de um Deus que Se fez Homem
por teu amor e que, por esse mesmo motivo, quis ficar na Terra até ao fim do
mundo, encerrado numa caixa, sujeito a tudo o que Lhe quiserem fazer; que
realizou o maior dos milagres, a maior maravilha possível, ao colocar nas
mãos dos homens o poder de O fazer descer à Terra e de transformar o pão e
o vinho no seu Corpo e Sangue.
Isto, sim, é a maior das maravilhas, a maravilha do Amor do teu Deus,
milhões de vezes traído por ateus, por incrédulos, por cristãos, até por
aqueles que Lhe são mais chegados, mas que apesar disso, não volta atrás e
continua a descer todos os dias aos altares, a dar-Se em alimento a um sem-

97
número de almas, muitas vezes indignas, e a permanecer no Sacrário, à
espera da sua visita que não aparece, e da tua adoração tão frouxa.
Esta é a maravilha em que te deves abismar, na contemplação do meu
Sacrário, maravilha sem fim, constantemente repetida, em todo o mundo e no
decorrer de todos os séculos, desde que instituí a Eucaristia, na Quinta-feira
em que iniciei a minha Paixão.
Continua a vir aqui, alma fiel, continua pela minha mão, e, cada dia, novas
maravilhas descerrarei perante os teus olhos de criança confiante e atenta.
Alma
É frouxa a minha adoração, dizes bem, Senhor! Mas de agora em diante
quero que seja uma adoração cada vez mais fervorosa. Suplico-Te que faças
de mim uma alma que incendeias e que cada vez mergulha mais no fogo do
teu Amor.
Estou confundida com tantas maravilhas que me mostras no teu Sacrário,
tão confundida que, na minha miséria, só sei prostrar-me em adoração.
Que Te direi, Senhor? Sou uma alma tão pobre, que nem palavras encontro
para Te dizer. Mas tudo é teu, ó Deus infinito! Eu também Te pertenço,
assim como todas as minhas palavras, tudo aquilo que digo, tudo o que deixo
sair da minha boca.
Esta boca que não sabe dizer-Te bonitas palavras de adoração, sabe muitas
vezes dizer coisas inúteis e até coisas prejudiciais para o meu próximo.
Esta boca, Senhor, precisa de ser purificada, queimada com a brasa ardente
do teu Serafim (Is 6,6-7).
Suplico-Te que me purifiques. Entrego-Te a minha boca, todos os meus
sentidos, todos os meus membros e todo o meu corpo, em sacrifício de
adoração. Ajuda-me a nunca retirar nada deste sacrifício que ponho sobre o
teu altar, para que tudo em mim seja teu.
Que, enquanto viver, sempre use tudo o que te ofereço, apenas para Te
servir, apenas para tua honra e glória.
Jesus, concede-me que me lembre sempre disto quando for tentada a usar
qualquer parte do meu corpo para meu gozo pessoal, a fim de que só olhe
para onde Te agrada, só diga o que for necessário e edificante, só oiça o que
não Te desagrade, só vá aonde Tu quiseres.
Concede-me que esta boca que Te consagro só a use para Te adorar, para
Te louvar, para ser agradável para o meu próximo e nunca para dizer algo
que vá colocar alguém abaixo das estimas dos homens, mesmo que tal
pessoa seja de todos desconhecida.
Que estas mãos que Te consagro só as use para o dever e para a caridade e
nunca para a violência.

98
Senhor, permite que eu nunca caia na ilusão de procurar pessoas que se diz
serem maravilhosas ou fazerem maravilhas em teu nome; pessoas que dizem
adivinhar coisas, ver o interior das almas ou comunicar com espíritos.
Defende-me de tudo isso, porque sou a tua criança pequenina, que nada mais
sabe senão agarrar a tua mão.
É a tua mão que me defende. É a ela que me agarro e nela me quero apoiar
e não nas criaturas, sempre falíveis e tantas vezes enganadoras!
Seja o que for que me aflija, só a Tua mão quero procurar. Seja o que for
que seja anunciado, nada mais quero seguir senão a tua voz, o teu Evangelho
e a tua Igreja. Só quero seguir e acreditar naquilo que a tua Igreja confirma.
Senhor, a Ti me confio, como uma criança se confia a seu pai, e a Ti me
entrego, prostrada em adoração, aqui diante do teu Sacrário, na companhia
dos teus Santos Anjos que incessantemente Te louvam e Te adoram...

99
Sacrário – Paz
Minha filha, como está hoje o teu coração? Tu que te aproximas de Mim,
diz-Me qual é o verdadeiro estado interior em que te encontras. Sentes paz,
ou trazes contigo feixes de nervos, remoendo interiormente problemas,
frustrações, ressentimentos e talvez até sentimentos vingativos?...
Aproxima-te, porque, se o teu interior não está em paz, Eu quero dar-ta,
quero estabelecer-te na minha paz, esta paz que Eu dou e que o mundo não
compreende nem pode dar.
É aqui, precisamente, onde a podes encontrar e adquirir, porque o meu
Sacrário é o lugar da paz.
Se o teu interior já aqui entrou pacificado, aproxima-te igualmente, entra
nesta atmosfera onde te sentes bem e de onde sairás com novas forças,
sempre centradas na paz que Eu dou e que se afasta de toda a precipitação,
enervamento e balbúrdia mundanas.
Olha para Mim e deixa-te invadir cada vez mais pela minha paz.
Todos os dias tens trabalho e, quantas vezes esse trabalho é duro e até
desgastante. Por vezes até o teu tempo de descanso é afectado por alguma
súbita responsabilidade suplementar ou por alguma doença que te ataca ou
que ataca algum familiar que tenhas a teu cuidado.
Recomendo-te que te afastes, quanto possas, dos excessos de trabalho, que
te fatigam demasiado e que não sejam da tua estrita responsabilidade, de
apresentar em tempo certo.
Foge de aceitar trabalho e mais trabalho, pelo desejo de fazer coisas,
porque o acumular de trabalho não te faz bem, mesmo que seja trabalho para
Mim.
É verdade que deves ajudar os teus irmãos, mas repara que a caridade não
deve entrar pelos caminhos da imprudência, que te coloquem em situações
de tão grande cansaço, que já nem o trabalho normal consigues fazer bem,
sem grande esforço e alguns enganos.
Em tudo deves ter prudência, porque a prudência é uma grande aliada para
ti, que te livrará de muitos problemas, de esgotamentos, de nervos, de falta
de tempo para os teus familiares e para a parte mais importante do seu
acompanhamento.
No fim, se não fores prudente, tudo acabará em brigas, discussões,
recriminações, ofensas, problemas familiares e falta de paz.
Nunca penses que ninguém te pode censurar porque trabalhas, porque te
esforças, te desgastas e dás tudo, para ganhar dinheiro para a família ou para
fazer apostolado gratuito. Nunca penses que não te podem exigir mais.

100
Podem, sim, podem exigir e têm esse direito. Podem exigir a tua paciência,
a tua companhia, a tua boa palavra, que são efectivamente as provas do teu
amor e não apenas aquilo que fazes profissional ou apostolicamente
Lembra-te de que muitas famílias têm sido destruídas por esse motivo,
muitas vidas têm sido desfeitas, muitos caminhos têm sido truncados, muitas
profissões estragadas…
Faças o que fizeres, lembra-te de que é da maior importância que
mantenhas a paz e que a tua atitude mantenha a paz à tua volta.
O teu exemplo é muito importante para que a paz reine no ambiente. Se
fores uma pessoa calma, se não te deixares dominar pelos nervos, tudo à tua
volta se pacificará, porque quem grita e reclama acaba por ficar sem
palavras, perante a tua atitude pacífica e tranquila.
Dizes não poder por teres um temperamento colérico? É importante que,
todos os dias, Me peças forças para te dominares. Se te esforçares,
conseguirás com a minha ajuda. Não te esqueças de que grandes Santos
tiveram um temperamento como o teu e foram citados como exemplos de
mansidão e humildade.
És uma pessoa nervosa, dizes tu? E não estarás a fazer aumentar esses
nervos, com tudo o que pensas e remóis, como alguém que vai lançando
lenha numa fogueira? Sabes que os nervos também podem ser dominados,
assim como podem aumentar, se te fixas neles?
Aprende a sorrir. O sorriso é a melhor terapia para os
nervos.
Aprende a confiar em Mim, a ter esperança naquilo que Eu posso e quero
fazer por ti.
Rodeiam-te muitos problemas? Tem cuidado, não estejas tu a provocá-los
e a alimentá-los!
Há problemas que afectam os teus familiares, e que te parecem insolúveis?
Mas, se não têm solução, queres remediá-los à força de nervos, de lágrimas,
de lamentos, de recriminações e alvoroços?
De que serve chorares e gritares? Mais vale entregares-Me isso tudo e
permaneceres em paz, no santo abandono à minha Providência, tanto maior
quanto menos pareça atender-
-te, quanto mais se avolumarem os problemas e as dores.
Se o assunto tem solução, pede-Me que o resolva, e espera em paz o
momento em que Eu o queira resolver.
És uma pessoa naturalmente calma? Muito bem, procura então que a tua
calma não se transforme em moleza, mas que seja sempre informada e
fortalecida pela caridade e pela contemplação do meu Sacrário.
Vê, aqui é o lugar da paz. A paz sai do meu Sacrário, porque Eu sou o

101
Senhor da paz.
É aqui que deves vir sempre que te sentires perturbada com alguma coisa,
quando tenhas que tomar alguma resolução, quando tiveres algum
sofrimento, algum problema…
Vem ter comigo, vem aqui à mansão da paz, para que a minha paz em ti
reine e Me possas servir como serva fiel, sorridente, de espírito tranquilo,
seja o que for que se passe em redor de ti ou em ti.
Reza com amor, entrega-te a Mim em aceitação amorosa, sem desejares
senão que Eu seja glorificado em ti e por ti.
Sorri para Mim e diz-Me que aceitas tudo, porque o que queres é servir-
Me e amar-Me.
Eu sorrirei para ti e cobrir-te-ei com a minha paz.
Alma
Ó meu Senhor! Como é bom estar aqui, neste ambiente de paz que
transcende tudo o que sobre paz se possa dizer!
Eis que cheguei carregada com os meus problemas, que tenho sempre a
tendência para avolumar, para tornar maiores do que eles são realmente,
através da autocompaixão. Agora a tua paz invade-me e compreendo como
tudo o que é transitório, tudo o que é deste mundo é vão, mesquinho e só
serve para me perturbar.
Compreendo que me tenho preocupado com coisas que não valem a pena,
com coisas de nada, passageiras, que só fazem perder tempo, que me tenho
preocupado inutilmente, desperdiçando tantas energias que podia empregar
melhor se o fizesse no teu serviço.
Preocupante, sim, meu Jesus, é a salvação das almas, preocupante é o
estado de descrença e de descuido a que o mundo chegou, em que os
próprios cristãos já não se preocupam nem crêem no pecado; preocupante é o
esquecimento e o desrespeito a que estás votado neste admirável
Sacramento.
Sim, isso é preocupante, e não as minhas pequenas coisas, os meus gostos,
os meus aborrecimentos, a minha solidão, aquilo que oiço dizer, os meus
trabalhos ou dores porque, tudo isso, Tu me entregas em cruz participante da
tua própria Cruz, como alma cristã, membro do teu Corpo Místico.
Afinal tudo isso é passageiro, são apenas pequenas coisas, que agora talvez
custem, mas que um dia passarão.
Cabe-me apenas aceitar em paz, oferecer-Te, com amor, tudo o que faço e
que experimento na vida diária, e ficar em paz junto de Ti, que tudo resolves
na altura que Te parece melhor para todos.
Sim, meu Senhor, quero servir-Te e amar-Te. Quem poderia eu encontrar

102
que fosse semelhante a Ti, para entregar o meu amor e todo o meu ser?
Só Tu me pacificas. Junto de Ti passa toda a perturbação, nesta entrega à
paz que Tu transmites, a paz que é tua e que é santa.
Sim, estou aqui e entrego-me a todas as operações da tua graça. Continua a
inundar-me com a tua paz e concede-me que a saiba transmitir a todos
aqueles que com quem tenha algum contacto, todos os dias da minha vida.
Agradeço-te estas coisas que me ensinas, a graça da tua paz e da tua santa
companhia.
Permite-me que venha aqui muitas vezes, todos os dias, se tal for da tua
Vontade. Tudo farei para a secundar e ser fiel a esta graça, a fim de vir aqui
adorar-Te, como faço neste momento.
Recebe toda a minha vida em adoração, todas as minhas faculdades e
potências. É tudo para Ti. Tudo Te entrego. Só Te peço para mim o teu
Amor e a tua Paz.

103
Sacrário – Oração
Querida alma, vem ter comigo, onde quer que estejas. Vem ter coMigo
pessoalmente, ou, se não puderes, ao menos pelo teu coração.
Vem para junto de Mim, vem falar comigo, como um amigo fala com
outro amigo, como um filho fala a seu pai, como os esposos falam um com o
outro acerca das coisas que se passam na sua casa, sobre a melhor forma de a
dirigir e de educar os seus filhos.
Aqui, junto de Mim, apenas deves falar comigo. Eu também falarei
contigo. Tenho tantas coisas para te dizer! Não Me escutas, porque não sabes
estar atenta, porque te ocupas e preocupas com mil coisas, porque te distrais
na minha presença, pensando em coisas que bem poderias dizer-Me a Mim,
em vez de as remoeres sozinha.
Quantas vezes erras em resoluções que tomas, em atitudes, em mudanças
de vida ou de posição? E tudo porque não conversaste primeiro comigo a
esse respeito, não Me pediste opinião, não Me perguntaste se essa opção será
a melhor, não Me pediste que te sugerisse aquilo que devias fazer, quando
não vês solução para os problemas.
Por isso erraste, justamente porque tomaste o caminho que te parecia
melhor, mas que a médio ou a longo prazo se verificou não ser assim tão
bom, quando não nitidamente mau. E as consequências seguiram-se.
É o que acontece quando resolves sozinha, quando não conversas comigo
sobre os teus assuntos, as tuas dúvidas, as resoluções a tomar, as escolhas a
fazer. Acabas por escolher o pior, só porque te parece mais florido.
Minha filha, aprende a vir para junto de Mim mais vezes. Aprende a falar
mais comigo que com as pessoas que te rodeiam, a pedir mais a minha
opinião que a delas. Acaso não sabes que estou sempre ao pé de ti?
Aqui, junto de Mim, onde tudo respira paz e tranquilidade, é o lugar da
oração, embora tu possas e devas orar em todos os lugares onde estiveres,
lembrada da minha presença em ti. Mas aqui é o lugar sereno, onde melhor
podes aprender a rezar e a estar comigo, para depois transformares em
oração o teu dia, por todos os lugares por onde tiveres de andar.
Este é o lugar silencioso. E se por vezes não o é, em virtude das pessoas
que conversam, deveria sê-lo, senão por amor de Mim, pelo menos pelo
respeito pela minha presença, esse respeito que Eu deveria inspirar àqueles
que crêem em Mim, ou que dizem que crêem, mas que não o mostram, pelas
suas atitudes barulhentas e desrespeitosas.
O meu Sacrário é o lugar da oração. É aqui que Eu oro em todo o tempo,
de dia e de noite.

104
Incessantemente, sobem do meu Sacrário ao Pai as orações do meu
Coração amante. É aqui que, aqueles que Me amam colaboram comigo e
comigo se unem em oração.
Quem vem para conversar, devia antes retirar-se, ir conversar lá fora, pois
Eu olho com desagrado para as conversas feitas aqui. Além de perturbarem
os irmãos que rezam comigo, mostram a maior falta de respeito pela
ininterrupta oração que Eu dirijo ao Pai.
Como fumo de incenso, sobem as orações do meu Sacrário e recebo as
orações daqueles que rezam na companhia dos Anjos que Me rodeiam e que
procuram, com as suas inflamadas orações suprir as omissões e desrespeitos
daqueles que não rezam.
Vem tu também. Reúne-te a esta celeste companhia. É uma honra que te
faço e que muitos desprezam, não vindo aqui, ou vindo e não rezando,
pondo-se à parte, distraindo-se dentro dos seus pensamentos, conversando
entre si, deixando passar este tempo precioso, não aproveitando deste lugar
privile-
giado e desta altíssima companhia.
Entendes agora porque te deves sempre manter em oração numa igreja ou
numa capela? Estarás fazendo o mesmo que fazem os Anjos e o mesmo que
Eu faço.
Até quando Me falares dos teus assuntos, estarás em oração, mas podes
falar-Me de muito mais coisas e tornar a tua oração muito proveitosa para ti a
e para o mundo.
Também poderás sempre fazer paragens nos teus assuntos, para Me
adorares mais uma vez e para Me louvares vezes sem conta.
Poderás pedir-Me perdão pelos teus pecados e pelos pecados dos teus
irmãos, das pessoas que conheces e das que desconheces, em todo o mundo.
A este respeito terás longo motivo de conversa, porque o pecado prolifera
em todo o lado, mais que a erva dos campos. São tantos, tão variados, em
todas as idades, em todos os estados civis, em todas as profissões e em todos
os países! Poderás percorrê-los na tua oração, que não chegarás ao fim.
Poderás ainda agradecer-Me tantas graças, tantos benefícios, tanto amor
que te tenho dado. Lembra-te das graças que tens recebido e arranjarás muito
que Me dizer. Desde que existes, a tua própria existência, tudo te tenho dado
e tudo Me deves agradecer.
Se percorresses a tua vida em pensamento, verificarias que, para Me
agradecer, irias precisar de passar em acção de graças o tempo que ainda te
resta para viver… e talvez não chegasse.
Vê então quanto tens para Me dizer e quanto erram aqueles que dizem que
não sabem como rezar; quanto erram aqueles que perdem, em distracções e

105
conversas dentro da igreja, o tempo precioso que lhes dou e do qual hão-de
um dia prestar contas.
Não te digo isto para que critiques os teus irmãos, mas para que não
colabores nessas coisas, e mostres sempre, pela tua atitude, que onde está o
meu Sacrário é um lugar de oração, porque é o lugar onde Eu estou, e
também, porque aqueles que Me amam sentem sempre necessidade de estar
comigo, de falar comigo.
Fala-Me! Reza calmamente, sem andares à procura de orações feitas por
outras pessoas. Tens necessidade de algum livro para falares com uma
pessoa que amas?
Alma, minha filha, comigo é a mesma coisa. Se Me amas fala comigo,
como se os teus olhos Me estivessem vendo. Não Me vês, é verdade, mas
tens fé. Se acreditas, faz da tua fé os olhos da alma e vê-Me na fé.
Vê-Me, estou aqui! Deixa os teus olhos ultrapassarem estas paredes. Os
olhos da fé podem fazê-lo. Pede-Me e Eu te darei olhos de fé cada vez mais
fortes, olhos que Me vejam, olhos que vejam dentro do meu Sacrário.
Pede-Me incessantemente mais fé, por motivos de amor.
Para Me amares mais, pede-Me fé.
Para rezares mais e melhor, pede-Me mais amor e mais fé.
Para levares melhor a tua cruz, pede-Me mais amor, mais fé e mais
esperança.
Quanto tens para Me dizer! Não consegues acabar! As palavras de fé e
amor sobem-te agora em borbotões, como sangue de uma ferida aberta.
Acabas por já não conseguir dizer nada, pois tanto tens para dizer que tudo
queres dizer ao mesmo tempo!
Quiseras agora ter todos os corações do mundo para Me amar, ter todos os
olhos do mundo para Me ver, ter todas as bocas do mundo para Me dizer o
teu amor. Mas como não podes, acabas por ficar em silêncio, numa
contemplação muda, num sentimento de impotência, de quem quer dizer
tudo, mas não pode… não é capaz!
É a minha vez de te falar. Podes agora escutar-Me, não com os teus
ouvidos corporais, mas com os ouvidos da fé.
É então que esclareço as tuas dúvidas, que te dou certezas, ilumino o teu
entendimento, fortaleço a tua vontade, toco mais profundamente o teu
coração.
Meu filho, minha filha, estes momentos são preciosos, aproveita-os bem.
Aproveita sempre bem o tempo que estás comigo. É um tempo muito
importante e nunca sabes se voltarás a ter outro neste mundo.
É o tempo do nosso encontro, tempo que deves desejar ansiosamente,
como jovem enamorada deseja o encontro com aquele a quem ama.

106
Sou Eu Aquele que amas? Deseja-Me! Deseja-Me muito e Eu far-Me-ei
presente para ti, não só aqui, mas ao longo do dia, no teu trabalho, na tua
casa, no teu descanso, até nos transportes que tiveres de tomar.
É tudo uma questão de amor, do teu amor que Me chame muitas vezes
para junto de ti, para saciar esses desejos que agora, durante a oração, semeio
em ti mais uma vez.
Alma
Ó Jesus, como é bom saber que estás aí, dentro desse Sacrário! Como é
bom saber-Te aqui presente! Nada tenho a invejar àqueles que privavam
contigo, na tua vida na Terra. Eles viam-Te é verdade! Mas quantos Te viam
e não acreditavam em Ti! Se eu lá tivesse estado, talvez fosse um deles!...
Aceito a graça que me deste de viver agora, porque viste que esta é a época
melhor para mim, aquela em que terei mais facilidade em me santificar. Para
isso, para eu nada ter a invejar àqueles que contigo conviveram, aceitaste
ficar aqui, durante estes séculos todos. Ficaste à minha espera. E quanto eu
tenho tardado!
Ficaste aqui, sujeito a tudo o que durante séculos Te têm querido fazer,
porque esperavas por mim… Como tenho sido ingrata contigo!
Agora compreendo a felicidade de Te pertencer, a felicidade de ser por Ti
ensinada, enquanto tantos pobres irmãos meus vegetam entre a incredulidade
e o indiferentismo, entre a superstição e o materialismo, entre a ignorância
religiosa e a mundanidade… É uma felicidade que não mereço, que não
tenho sabido agradecer nem aproveitar.
Não me considero melhor que eles, não, não sou, de maneira nenhuma,
porque, com tantas graças que tenho recebido, tinha obrigação de Te ser mais
fiel, de me dedicar inteiramente a Ti através de todos os deveres. Mas não
tem sido assim a minha vida.
Perdoa-me tanto tempo que tenho perdido, tanta oração e tantas graças
desperdiçadas!...
Ensina-me agora a rezar, porque eu confesso aos teus pés que não o sei
fazer, e se alguma vez pensei que sabia, apenas me enganei.
Só Tu és o meu Mestre, Aquele em quem quero ter unicamente os meus
olhos, Aquele que me ensina todo o bem.
Deixa-me ficar contigo mais tempo, deixa-me ficar para sempre contigo,
em adoração, sem querer mais nada senão adorar-Te e louvar-Te…
Sei que não é possível. Mais logo tenho que sair daqui, mas permite que
Te leve comigo, para viver na tua companhia e contigo trabalhar e fazer tudo
o que for preciso.
Só a tua companhia conta. A minha felicidade és Tu, e a minha alegria é

107
pensar que um dia ficarei conTigo para sempre no Céu, sem necessidade de
me ir embora, nem fazer mais nada senão adorar-Te! …

108
Sacrário – Silêncio
Convido-te hoje para vires contemplar a minha vida de silêncio no
Sacrário.
Passo em silêncio os dias e as noites, meses, anos e séculos. Mas este é um
silêncio feito de oração. Não é um silêncio de embirração, de quem está
zangado, mas um silêncio de quem espera por alguém muito querido, para
com ele falar.
Quando uma alma aparece, disposta a falar comigo, é ainda no silêncio que
lhe falo também.
É no silêncio que Eu falo às almas. Alma que não seja silenciosa não Me
escuta, porque está ocupada com os seus próprios barulhos e com todos os
barulhos que a rodeiam. É por isso que é tão importante seres alma de
silêncio, não deixares que os ruídos te invadam, que o mundo te dissipe, que
mil conversas fúteis te distraiam.
Com certeza que os barulhos chegarão aos teus ouvidos. Com certeza que
os teus olhos verão o que se passa à tua volta. Com certeza também as
pessoas falarão contigo e tu terás de falar com elas. Mas não excedes tu,
nisso tudo, os justos limites necessários?
Não te entregas com deleite aos barulhos dissipantes da balbúrdia do
mundo?
Não se espraiam os teus olhos sobre todas as coisas, sobre todas as
pessoas, sobre as montras, sobre tudo o que se move, com curiosidade e
prazer, para ver o que há, quem é que está, quem entra, quem sai, quem faz
qualquer ruído?
E não falarás tu mais que o que é preciso?
Não te acontece fazeres perguntas sobre coisas que não fazem parte
daquilo que precisas realmente de perguntar por motivos profissionais,
familiares, sociais ou de caridade? E porque o fazes? Por curiosidade em
saber coisas que não te dizem respeito.
Presta atenção, porque a linha que separa os actos de falar e de ouvir,
porque tal é necessário, daquilo que não é mais que curiosidade e dissipação,
é muito ténue e facilmente ultrapassável. Muitas vezes, quando reparas, já a
ultrapassaste há muito, e estás mergulhada em conversas fúteis e de
curiosidades que podem até gerar maus pensamentos ou palavras de
maledicência.
Lembra-te de que, quanto menos ouvires a respeito do teu próximo, mais
puro andará o teu pensamento sobre ele, porque, de modo geral, do próximo
costumais dizer preferivelmente aquilo que é menos bom, originando o

109
envenenamento da caridade interior.
Por isso, quando dizes algo menos bom a respeito de qualquer pessoa,
estás com isso a conspurcar o pensamento do teu próximo e a envenená-lo
contra essa mesma pessoa. Isto é uma grande responsabilidade para ti.
Lembra-te de que se nada disseste, mas ouviste sem te retirares ou sem
procurares defender a pessoa atingida, já colaboraste com a maledicência e já
deixaste que o veneno en-
trasse no teu coração. Verás que ele se manifestará na primeira oportunidade.
Com tudo isso, o teu interior acaba por ser um torvelinho de barulhos, que
se cruzam em imaginações, juízos e faltas de caridade mental, até muitas
vezes em faltas de caridade oral.
Isso desterra para muito longe o recolhimento e a união comigo. Dizes
então que querias lembrar-te de Mim, mas que esqueces!... Como queres
lembrar-te se estás tão ocupada com tudo o que dissipa e que não faz parte
das tuas obrigações?
Vem aqui ao meu Sacrário aprender o que é o silêncio de recolhimento, o
silêncio que ora e vela por todos, o silêncio que chama as almas e lhes fala
no seu íntimo.
É esse silêncio que quero que tenhas em ti, não um silêncio virado para ti
própria, que acabará por ser um silêncio de conversas com o próprio “eu”.
Quero para ti um silêncio atento ao que o teu próximo precisa. E quero que
tenhas um silêncio atento e abnegado, virado para o meu rosto, e pronto a
encontrar-Me entre os teus irmãos.
Não é fácil ver-Me entre os irmãos. Isso só é possível a uma alma que vive
habitualmente comigo, uma alma que faz do meu silêncio a sua respiração,
uma alma que vive para Mim.
Perguntas-Me, pobre alma, na tua ignorância das coisas santas, como é que
se pratica este santo silêncio.
Sim, Eu sei que para ti é difícil, que por vezes tentas, mas logo descarrilas.
Por isso te aceito assim, pobre e pecadora, porque sei que tens boa vontade.
Por isso te quero ensinar e, melhor ainda, fazer em ti tudo aquilo que te peço.
Mas para isso é sempre necessário que tu queiras, que tu deixes.
Por isso te peço: deixa que Eu faça silêncio em ti!
Quando te afasto do mundo, não o procures. Quando afasto as pessoas com
quem gostas de te dares, deixa-as ir e não corras atrás delas.
Se, por vezes, se tornarem dolorosos estes afastamentos, aceita-os como
uma operação da minha graça.
Não te admires, não te surpreendas, nem te escandalizes por seres tratada
dessa forma por alguém a quem estimavas e que de um momento para o
outro se afasta com algum pretexto fútil que nem de longe te convence e te

110
deixa com mil interrogações sobre o que é que fizeste que originou tal
mudança de atitude.
Apetece-te procurar essa pessoa, sacudi-la e perguntar: “O que é que se
passa? O que é que eu te fiz”?
Se sentes que fizeste alguma coisa que possa ter magoado, deves
simplesmente pedir desculpa e depois ficar em paz, aceitando a forma como
tal pessoa te tratar daí para a frente.
O pedido de desculpas é muito importante, para as coisas se clarificarem,
haver perdão, e não ficarem em relações sociais emboloradas, em que as
pessoas se falam, mas têm sempre uma reserva mental, um ressentimento,
por causa de feridas que ficaram para trás e não foram tratadas, porque não
se falou nisso, porque quem fez o mal preferiu fechar-se a humilhar-se.
Se não encontras nada que lhe tenhas feito, não te canses a pensar nesse
assunto, embora tal possa ser doloroso para ti, conforme as circunstâncias em
que se mantinha tal amizade e a necessidade que dela sentias.
Não recrimines quem assim te abandona. Não te envenenes com maus
pensamentos a seu respeito. Não queiras saber o “porquê”, a não ser que a
culpa tenha sido tua.
Evita também, quanto possível, falar desse assunto com outras pessoas,
porque tais conversas não são benéficas para ninguém e a caridade pode sair
bastante lesada.
Simplesmente guarda silêncio. Pensa que sou Eu que te quero num silêncio
maior. É por isso que te digo: deixa que Eu faça silêncio em ti!
Deixa que seja Eu a organizar a tua atmosfera de silêncio, afastando de ti
quem prefiro que esteja mais longe e aproximando quem Me parece que
precisa de ti ou que tenha possibilidades de te ajudar de alguma forma.
Não te demores a conversar mais do que o que manda a boa educação e a
caridade. Mas ainda aqui tem atenção, porque boa educação e caridade não
querem dizer excesso. E é muito fácil para todos vós ultrapassar as medidas
certas…
Não faças perguntas desnecessárias. Não perguntes coisas sobre as outras
pessoas, a não ser que estejam doentes ou que haja algum motivo que a
caridade mande, ou para não ferir susceptibilidades, parecendo mostrar
desinteresse com o teu silêncio, porque é sempre bom evitar que o teu
próximo cometa faltas por tua causa, embora sem te deixares entrar pelos
caminhos dos respeitos humanos.
Fala sempre com brevidade. Expõe o que tens a dizer, sem voltares a
repetir e repisar o assunto exposto, a não ser que te peçam que expliques
melhor.
Se te fazem perguntas, responde com a clareza necessária, desde que isso

111
seja algo importante e não coisas de simples curiosidade e muito menos
sobre o próximo.
Sobre o próximo fala sempre muito pouco. As muitas palavras sempre
resvalam para algum defeito que vem à baila. Sobre o próximo deves sempre
ou dizer bem ou responder que não sabes muito desse assunto, o que é
sempre verdade porque, por muito que saibas, nunca sabes completamente o
que é que ele pensa e quais foram os motivos íntimos que o levaram a fazer
determinadas coisas, se é que as fez, se é que tudo isso não faz parte de
maledicências e calúnias.
Como não sabes bem o que se passou, recusa-te a falar sobre tais coisas.
Mesmo que tivesses sofrido alguma coisa da parte de alguém, evita sempre
desabafos, a não ser que precises de pedir conselho ou avisar alguém de
algum perigo.
Nestes casos, deves sempre falar pouco, porque é muito fácil deixares
resvalar uma palavra atrás de outra e, quando dás por ti, o teu silêncio
interior foi afectado, porque lá dentro já reina a rebelião das razões que tens
e dos agravos que te fizeram.
O teu interlocutor também é afectado com o rebuliço do teu assunto, que
lhe entra pela mente dentro, e fica a fazer raciocínios e juízos. No meio disso
tudo, muito frequentemente, a caridade sofre bastante..
Depois dizes que isso te saiu da boca sem pensares, mas não vais à raiz da
questão e não vês donde veio essa conversa. Não vês que tudo começou
porque falaste muito, porque não evitaste o assunto, porque não soubeste
fugir-lhe quando tal te foi apresentado?
Toma agora resoluções fortes sobre isto. Resolve estar atenta para não te
deixares enredar nas malhas da conversa, para fugires a perguntas
desnecessárias ou curiosas. Mas, antes de mais, tens de vigiar bem os teus
olhos e os teus ouvidos, pois se os deixares andar por todo o lado, facilmente
entrará em ti a dissipação.
Uma vez a dissipação instalada, só muito dificilmente conseguirás passar
incólume os escolhos das palavras, porque se estás dissipada não estás atenta
e falarás facilmente daquilo que queres e daquilo que não queres.
Queixas-te depois amargamente e falas da tua fraqueza, pobre alma!
Mas a fraqueza não reside só aí. Ela vem detrás, muito detrás, vem das
horas em que dissipas os olhos, os ouvidos, a imaginação e o pensamento,
permitindo-lhes correrem, em cavalgada louca, sobre tudo o que te rodeia.
As tuas dificuldades vêm também e muito, daquele tempo que passas a
pensar em ti própria, na tua solidão, nos teus desgostos, nas tuas razões, nas
tuas doenças, no que te fizeram, em tudo aquilo que te vai acontecendo e te
faz sofrer.

112
Aprende a dominar o teu pensamento e a dirigi-lo para Mim, em vez de ser
só para os teus assuntos, que te fazem entrar em autocompaixão e em
enervamentos, de que depois tens grandes dificuldades em te libertar.
É isso que enfraquece o teu silêncio e te faz falar, falar muito, primeiro
interiormente, depois com quem tem paciência para te ouvir, tornando-te
uma alma dissipada e sem união comigo, procurando muitas vezes
consolações onde não deve.
Querida filha, vem aqui para o silêncio, para o recolhimento do meu
Sacrário e vem aprender a ser silenciosa. Vem aqui muitas vezes pois, cada
vez que aqui entras e aqui ficas algum tempo, levas contigo provisões de
silêncio. Trata de não as deitar fora logo à saída da igreja, mergulhando no
mundo, como se fora numa piscina.
Tens de andar perto dessa piscina barulhenta, onde tanta gente se agita,
mas não mergulhes lá. Não te esqueças que estás no mundo, mas não és do
mundo (Jo 15,19) porque Eu te escolhi para que Me pertenças.
Vem aqui muitas vezes aprender comigo, e Eu irei desprendendo o teu
coração dos encantos que o mundo ainda exerce sobre ele.
Não digas que o mundo não tem encantos para ti. Isso, além de não ser
verdade, é uma subtil soberba de quem se tem na qualidade de muito puro e
muito espiritual.
O mundo sempre te procurará assediar até ao fim da vida, seja de que
maneira for, porque é nele que vives.
Pode assediar-te através das pessoas mais ou menos belas, simpáticas,
cultas ou ricas com quem gostas de te dar e até através de outras que
conheces mal ou até nem conheces, a quem ouves expor ideias ou de quem
vês manifestações de vida, tão repetidas, que acabam por já não chocar
ninguém.
Assedia-te através das belezas que expõe por todo o lado nas formas de
venda mais diversas, quer de roupas, quer de outros artigos, de casa ou de
lazer, através dos espectáculos, dos livros, da televisão, da rádio, do cinema.
Assedia-te através do dinheiro, que sempre achas pouco.
Assedia-te, por vezes através de estudos ou trabalhos desnecessários e de
muitas outras formas, que saberás perceber, se estiveres atenta, mas só o
conseguirás se fores alma silenciosa, se viveres e te moveres no meu
silêncio, que sabe falar sem dissipação.
É preciso que vivas no mundo e é preciso que convivas sãmente com os
teus irmãos, mesmo com aqueles que têm outra forma de pensar. É preciso
que convivas de forma a não dares nas vistas com as tuas atitudes, mas
também que não consintas que o mundo te prenda nas suas malhas.
Só no contacto diário comigo, em amor, no silêncio do meu Sacrário,

113
aprenderás o segredo de viver no mundo sem lhe pertencer, sem te deixares
enredar, mas permanecendo firme na união comigo.
Fica agora comigo em silêncio, contemplando-Me e deixando-te
impregnar pelo meu silêncio, a fim de o levares contigo e te alimentares dele
durante o resto do dia, em tudo o que tiveres para fazer.
Alma
Quero adorar-Te, Jesus, aqui neste silêncio em que vives, rodeado de
Santos Anjos.
Sou uma alma fraca e pecadora, mas que tem vontade de Te amar mais que
a tudo no mundo. Sei que me amas! Oh, como o sei! Tantas e tantas provas
já me deste do teu Amor! Por isso me aproximo de Ti e Te peço que me
faças crescer no teu Amor, cada dia mais; que me permitas aprender, nesta
santa companhia, como é que deves ser adorado.
Como gosto de estar aqui, junto de Ti, ó Jesus! O silêncio do teu Sacrário
ensina-me como deve ser silencioso todo o meu interior.
Quantas vezes, eu própria estrago este silêncio com palavras
desnecessárias ou com pensamentos, que me levam para todos os lados,
dissipando-me e fazendo-me esquecer de Ti, da tua presença e do teu Amor.
Ensina-me a ser silenciosa, para estar sempre contigo e não fazer nada que
Te desagrade, para me manter no santo recolhimento em que Tu me queres.
Aqui, junto do teu Sacrário, nesta atmosfera tão propícia, ensina-me e
mostra-me o que desejas que eu faça em cada dia. Que eu aprenda a imitar o
teu silêncio neste Sacramento maravilhoso, que é tão pouco amado, o
silêncio com que Tu Te dás às almas e o silêncio com que sofres tudo aquilo
que muitos Te fazem com a maior indiferença.
Torna, ó Jesus, o meu coração sensível a essas coisas, não para criticar,
mas para não imitar e para reparar por mim e pelos meus irmãos.
Permite-me que venha muitas vezes para junto de Ti, aprender o teu
silêncio, e quando o teu próprio silêncio para mim for penoso, quando não
Te sentir e tudo me for seco e difícil, concede-me que me saiba manter
também num silêncio respeitoso da tua vontade, num silêncio que saiba
dizer-
-Te, em cada palpitação do meu coração, o amor que Te
tenho.
Concede-me que saiba dar-me em silêncio, como Tu, sem reclamar
daquilo que naturalmente me desagrada. Que ninguém consiga perceber
aquilo de que eu gosto ou de que não gosto.
Faz com que o meu silêncio seja simpático, sorridente, sempre pronto a
atender a todos os meus irmãos; que não me debruce para mim mesma, mas

114
me dê, por teu Amor, a Ti em todos.
No silêncio desta pobre alma que Te procura, fala Jesus, sempre que
quiseres, para me ensinares e para me contares aquilo que Te fazem em
tantos Sacrários, por todo o mundo. Dá-me então a graça de Te saber
consolar e de me tornar para Ti uma alma reparadora, uma alma que não
desiste, apesar das quedas, e vem todos os dias junto de Ti para Te adorar,
para mergulhar no oceano infinito do teu Amor.

115
Sacrário – Abandono
Alma que te sentes, por vezes, tão abandonada de tudo e de todos, nas tuas
cruzes, anda para junto do meu Sacrário e vem ver o que é o verdadeiro
abandono. É aqui que encontrarás quem está realmente abandonado por
todos os que O deviam amar.
Vem acompanhar-Me na minha soledade, no meu abandono, ou também tu
Me abandonas? Não, tu que estás aqui, não Me abandonas. Sei que Me amas,
por isso vieste.
Sei que Me amas, mas o teu amor é pobre e fraco, e frequentemente,
mostras amar algumas coisas, incluindo tu própria, mais que a Mim.
Sei que Me amas, apesar daquelas coisas em que ainda cais com
frequência, apesar de não quereres. Sei que Me amas, mas o teu amor deve
ser fortalecido. O meu Amor fortalecerá e aumentará o teu, todos os dias,
principalmente quando aqui vieres consolar-Me na minha solidão.
Aqui há abandono verdadeiro, há solidão, porque há profunda indiferença
nos corações da maior parte daqueles que aqui vêm, muitas vezes por outros
motivos que não são o de estar comigo.
Vem consolar junto de Mim o abandono em que te sentes, como um amigo
com outro amigo, e Eu te ensinarei que esse abandono não é o mais
importante, nem terá valor, se não for encarado de alma abandonada à
Vontade de Deus.
Toda a minha vida na Terra foi vivida em abandono àquilo que estava no
plano do Pai. Por isso, abandonei-Me aos cuidados de minha Mãe e de José,
amei-os e honrei-os, como pais.
Abandonei-Me no trabalho de todos os dias, na vida de operário de
Nazaré, na pobreza e em tudo o que fazia o viver diário daquele povo,
naquela aldeia pobre.
Depois de sair de junto de minha Mãe em Nazaré, a minha vida foi vivida
abandonado pelas criaturas, porque além dos meus discípulos, os doze que
andavam comigo, quase todos os outros que Me acompanhavam, iam e
vinham, conforme os seus gostos, excepto uns poucos mais fiéis.
Os meus próprios Doze abandonaram-Me nas minhas horas da Paixão,
excepto João, que ficou até ao fim.
Este abandono das criaturas era sempre acompanhado pelo meu abandono
à Vontade do Pai, que tal permitia, pois Deus nunca tira a liberdade de cada
criatura que criou.
Também agora no Sacrário o meu Coração Eucarístico está abandonado
dos homens, mas abandonado ao Pai e, por isso, mergulhado n’Ele

116
plenamente.
É este abandono total que quero ensinar-te, pois, só com ele, terá valor
tudo o que fazes e tudo o que sofres. Só este abandono te dará a verdadeira
paz. Só este abandono te fará mergulhar em Deus cada vez mais, na medida
em que esse teu abandono a Ele aumentar.
Imita o meu abandono ao Pai e estarás no caminho da perfeição, porque o
abandono aperfeiçoa todas as virtudes até ao mais alto grau e é em si próprio
a maior prova de amor.
Por mais obras boas que faças, por mais orações que rezes, nunca Me
mostrarás tanto amor como pelo abandono à minha Vontade e a tudo o que
permito que te aconteça, o que quer dizer, abandono total a Mim.
Quanto mais abandonada a Mim estiveres, mais crescerás na união
comigo. Pensa então a que altos graus de união podes chegar! Tão altos quão
profundo for o teu abandono!...
Abandonares-te não é fácil! Palavras, sentimentos e desejos não chegam. É
preciso que submetas a tua vontade à Vontade de Deus e a tudo o que Deus
permite para ti. Isto todos os dias, em todos os lugares, em todos os
acontecimentos e disposições, tanto físicas como morais e espirituais.
É caminhada de uma vida. É caminhada de perfeição e de pureza de amor.
Por ele chegarás à santidade.
Muitas vezes sofrerás, até sem culpa, mas o abandono deve levar-te à
confiança total em tudo o que Deus permite para te purificar do amor-próprio
e da vontade própria, sempre defeituosa.
Por vezes, como és muito fraca, não serás capaz, e terás algumas quedas,
mas não desanimes. Nunca penses que não é caminho para ti, porque Eu
digo-te que é caminho para todos, e dou a todos o auxílio para o
conseguirem. Mas alguns não o querem seguir… E tu?
Enquanto deixares que o amor-próprio te guie, sempre te enredarás em
problemas, em questiúnculas, em que o teu “eu” se empertiga, como criança
teimosa. Enquanto lhe fizeres a vontade, não poderás alcançar a perfeição do
amor e da união comigo.
Não tens só de te desapegar das coisas, mas principalmente de ti própria, o
que custa muito mais, porque mesmo que desses tudo o que tens e te
escondesses numa gruta do deserto, sempre te levavas a ti, e o teu “eu” é
sempre terreno propício para todas as tentações.
Eu não exijo que largues tudo, que não tenhas nada, mas exijo que te
largues a ti própria, se quiseres viver e progredir na união comigo. Isso é que
é realmente o mais importante e, muitas vezes, alguns confundem-se e
enganam-se, porque fazem justamente o contrário.
Por isso é necessário que te abandones inteiramente ao querer de Deus,

117
mesmo quando contraria o teu querer, quando não sabes para que serve, ou
quando te parecia haver um rumo melhor a dar às coisas.
Se te é possível, sabes que podes modificá-las. Para o discernir te dei
inteligência, mas quando não é possível, ou quando tal encerra faltas à justiça
ou à caridade, é preciso que te abandones, simplesmente.
Vê como é belo o abandono! Quando te abandonas, desapegas-te e
purificas-te. Ficas apta a receber as graças, deixas de ocupar o teu
pensamento com mil coisas do passado, do presente e do futuro e, por isso,
por estares livre de impedimentos, mais facilmente te unes a Mim.
Foi por a minha Alma ser puríssima e perfeitíssima, que vivi sempre
abandonado à Vontade do Pai, pois estava indissoluvelmente unido a Ele, de
tal forma que a sua Vontade e a minha sempre foram uma.
No Sacrário, a minha vida segue na continuação do santo abandono, que te
quero ver imitar.
Percebes agora porque é que do teu grau de abandono à Vontade de Deus
depende o teu grau de perfeição?
Sim, minha filha, quanto mais Me imitares mais perfeita serás e mais
liberta estarás dos mil laços em que te enredas e que te impedem de Me
amares com pureza e de te unires a Mim, cada vez com mais perfeição.
Neste Santo abandono não estarás sujeita a ilusões, que tantas vezes vos
enganam, mas adquires a paz de espírito, esta paz que só Eu dou, mas que só
sabem receber aqueles que totalmente se abandonam, imolando a sua própria
vontade ao meu querer e às dificuldades e dores que surgem, por minha
permissão.
Sim, muitas vezes é doloroso. Muitas vezes não percebes porque é que Eu
permito tais coisas, perseguições, injustiças, calúnias, traições,
incapacidades, doenças ou mortes. Não percebes mas, se te abandonas sem
revolta, sem protestos, com amor de filho, imolas-te e avanças na perfeição.
Vale muito mais esta imolação da tua vontade, que se agisse naturalmente
preferiria outra coisa, do que muitas penitências que pensasses fazer, ou
muitas obras em que te agitasses.
Este abandono atinge tudo na tua vida, começando pelos teus deveres de
estado e deveres profissionais, que deves cumprir como se Eu próprio tos
distribuísse em cada dia, e mesmo quando são coisas que não gostas de fazer.
Estende-se ainda a tudo o que ocorre diariamente, às coisas agradáveis e às
desagradáveis, às pessoas com quem convives e às que surgem sem
esperares, às situações, às notícias, à saúde, a tudo o que surge e à própria
oração que deves fazer, passando pelo tempo que faz e pelas horas em que às
vezes é preciso fazer qualquer coisa que vais protelando para mais tarde.
Estende-se à forma como Eu próprio te quiser tratar e àquilo que permitirei

118
que tu sintas em cada dia. Por vezes sentirás pouco ou nenhum fervor, mas,
apesar disso deves continuar a rezar como se o sentisses.
Por vezes procurar-Me-ás e ser-te-á muito difícil encontrar-Me, porque Eu
gosto de ser procurado. É por essa busca que Me mostras o teu amor.
O santo abandono atinge tudo nos teus dias e nas tuas noites, atinge até o
teu descanso, que às vezes mutilas para fazeres actividades mais a teu gosto,
ou que não podes ter durante as outras horas, porque algum dever se
interpôs.
Sim, chega a ser muito difícil, por vezes heróico, mas é por ele que melhor
Me imitarás e chegarás à perfeição.
O teu amor por Mim mede-se pelo teu abandono, em cada instante. Por
isso, procura o mais que puderes, abandonar-
-te inteiramente, como Eu no Sacrário estou tão abandonado, que aceito tudo
o que Me querem fazer, como na Terra sempre vivi abandonado e
inteiramente unido ao Pai.
Quando olhares para o Sacrário, pensa no meu abandono de tudo e em
tudo. Procura não te queixares de abandonos ou traições de amigos, porque
Eu no Sacrário sofro isso tudo antes de ti.
Repara que falo no presente, porque diariamente sofro o abandono a que
Me votam as almas, mesmo aquelas que distingui com maiores favores.
Trata de te abandonares em tudo como Eu, para conseguires amar-Me
quanto desejas, e ainda mais, porque o santo abandono irá ultrapassar até os
teus mais ousados desejos.
Não receies aquilo que poderás ter de sofrer nem desanimes. Sofrerias o
mesmo ou até mais se não te abandonasses, porque sofrerias com
aborrecimento, protestos e até com desespero.
Sabes que a Vontade de Deus é perfeita, por isso sabes que tudo o que te
acontece tende para a tua perfeição, mesmo que te venha através de pessoas
muito imperfeitas, que tenham para contigo grandes injustiças.
Lembra-te também do abandono total de minha Mãe, que não entrou em
temores sobre o perigo que lhe traria uma gravidez, se José não assumisse
papel de pai. Pelas leis judaicas, tal acontecimento representava grande
traição conjugal e era condenado com o apedrejamento até à morte.
Pelo seu abandono, o Espírito Santo pôde realizar n’Ela “grandes coisas”
(Lc 1, 49).
Também em ti Ele realizará grandes coisas em amor e união comigo, se a
Ele te abandonares, se aceitares plenamente a sua acção, seja o que for que
isso te traga de desagradável.
À medida que te aperfeiçoares, encararás o abandono diá-
rio cada vez com mais alegria, independentemente daquilo que cada coisa te

119
possa desagradar ou até fazer sofrer, pois é ele que te une a Mim em amor e
perfeição.
Alma
Amar-Te mais em cada dia, quanto eu o desejo, Senhor! Viver unida a Ti,
Tu me tens feito ansiar, com a contemplação dos teus divinos atractivos!
Muitas vezes perguntei como poderia isso cumprir-se numa alma tão pobre.
Como o Santo Arcanjo a Maria, vens Tu dizer-me hoje, que tudo se fará
por virtude do Espírito Santo, se eu me abandonar por completo à sua acção,
através de todos os acontecimentos de cada dia, durante toda a minha vida.
Mas Tu sabes que eu não sou Maria, que não tenho a sua fidelidade. Sabes
que agora prometo, mas nas dificuldades não chego a cumprir, reclamo
contra o que me parece injusto e facilmente procuro o que mais me apetece e
fujo àquilo a que me deveria submeter.
Permite-me que venha aqui, ao teu Sacrário, aprender diariamente como é
o santo abandono, nestas lições que Tu me dás quando Te contemplo, aqui
tão só, sem amigos, e muitas vezes tratado como se o Sacrário não contivesse
ninguém.
Permite-me que aceite também com amor todos os desprezos e abandonos
que tiver de sofrer, assim como todas as formas de tratamento que vieres a
permitir que o meu próximo tenha para comigo. Que eu veja a forma como
Tu és tratado, em qualquer forma como me tratem a mim.
Ensina-me também a aceitar em abandono a forma como Tu próprio me
quiseres tratar, e que não Te abandone, quando me parecer que tenho menos
fervor, quando me parecer que não Te encontro.
Aceita-me com a minha miséria, com todas as minhas dificuldades, que eu
prometo ir também diariamente aos pés de Maria, a Mãe que é tua e que me
deste, para aprender o abandono através das contas do seu Rosário.
Jesus, faz desta pobre alma uma aluna atenta, humilde e cumpridora,
completamente abandonada a Ti, uma alma que Tu possas encher com mais
amor todos os dias.
Concede-me que não desanime nunca, que me firme cada vez mais na
certeza do teu Amor por mim, que é o único Amor que pode preencher os
desejos do meu coração, e que supre plenamente a todos os abandonos do
mundo.
Tu és a minha companhia. É aqui junto de Ti que me sinto bem.
Permite que eu seja também a tua companhia, que não Te abandone,
mesmo quando tiver de sair daqui, para cumprir os meus deveres, mas
permaneça contigo, sempre com o coração ligado ao teu.
Quero ficar agora a adorar-Te, ó Deus infinito, e a louvar-

120
-Te, com todos os teus Anjos, preparando aquilo que farei no Céu, por toda a
eternidade.
Recebe, meu Senhor, a homenagem desta pobre criatura pobrezinha e
pecadora, que se inclina diante de Ti e com todos os teus Santos Anjos Te
proclama:
Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do Universo…

121
Sacrário – Solidão
Estou tão só, sempre tão só!
Na maior parte das igrejas, fora da hora da Missa diária, estou só, pois a
porta fecha-se, por falta de crentes que Me adorem e pela abundância de
profanadores, que todos temem que venham a roubar imagens ou objectos
que servem para o culto.
E em muitas igrejas já nem Missa diária há, por falta de sacerdotes!
Algumas até já nem têm Missa todos os domingos, pois os poucos sacerdotes
que há nessas regiões não chegam para todas as igrejas da sua zona…
Não te enches de espanto, de tristeza e de temor quando ouves estas
notícias? De espanto por ter chegado tão longe a falta de fiéis e de
sacerdotes; de tristeza porque este estado de coisas cada vez coloca os meus
filhos a maior distância do amor e fidelidade que Me deviam dar; de temor,
pelo receio que tudo isto aumente a ignorância religiosa já tão grande,
absorva ainda mais as populações e as mergulhe nas trevas do paganismo e
da superstição.
Minha filha, o mundo está cheio de pessoas ávidas daquilo que é espiritual.
O materialismo que tempos atrás parecia dominar o mundo, cansa as
pessoas, e elas agora procuram caminhos, trilhos e veredas que trazem algum
letreiro de espiritual. Por isso a superstição grassa por todo o lado e o
paganismo avança a passos largos, com pessoas que acreditam em
divindades de nomes de que há séculos não se ouvia falar, a não ser em
mitologia, que era aproveitada por poetas ou pintores, apenas por motivos de
arte.
Aquilo que há décadas nem era considerado, mas tratado com sorrisos
cépticos ou até trocistas, é agora aceite como coisa certa…
E quantos caminhos destes há! Todos apontam maravilhas, vidas cheias de
felicidade e de paz… até prometem riquezas e saúde…
Quanta superstição baseada em contos infantis! São adultos que assumem
mentalidade infantil, por acreditarem em tudo o que outros inventam para os
convencer e fazer dar aquilo que têm, o seu tempo, a sua atenção, a sua
inteligência e, muitas vezes, até o seu dinheiro e outros bens!
Enquanto isso, Eu continuo sozinho, na solidão do meu Sacrário!
Vens visitar-Me? Sim, de vez em quando vens. E nos outros dias? E
durante a noite? Solidão, apenas solidão, da parte dos homens, a quem amei
desde a eternidade, por quem dei o meu Sangue, e que agora Me ignoram,
Me tratam com a maior indiferença ou o maior desprezo, quando não lançam
a propaganda de inúmeras mentiras a meu respeito.

122
Vivo em solidão, solidão que os Santos Anjos e algumas
almas fiéis, almas profundamente eucarísticas, procuram amenizar com a sua
companhia, os seus louvores, os seus cânticos…
São bem poucas, estas almas eucarísticas. Foram sempre poucas em todos
os séculos, mas agora são cada vez menos!
As minhas igrejas estão fechadas, por falta de almas adoradoras. Eu
continuo sozinho, à espera das almas que não vêm nem em pensamento,
porque estão muito ocupadas com as suas coisas, com as suas ninharias, com
as coisas do mundo e até com pretensas boas obras, para as quais não vão
junto de Mim buscar a bênção, o discernimento e a protecção.
Porque é que isto acontece? Porque é que há falta de sacerdotes e de outros
consagrados nos conventos ou no mundo? Porque é que há falta de almas
eucarísticas, adoradoras, e porque é que até há falta de boas famílias cristãs,
onde não se ponha o problema da aceitação dos filhos que aparecem, nem a
possibilidade de divórcio?
Será porque Eu já não dou vocações para cada estado de vida na minha
Igreja? Não! Continuo a dar vocações, porque o meu plano para cada um dos
filhos que nascem no mundo é imutável deste a eternidade!
O que acontece é que as almas não estão atentas aos meus chamamentos,
estão distraídas com o mundo, com os seus prazeres e com os seus pecados.
Não ouvem o chamamento e, quando ouvem recusam, porque isso iria
colocá-los em situações em que teriam de se sacrificar por Mim, de alguma
forma.
O pecado em que mergulham não os deixa ver a beleza do meu
chamamento, não os deixa saborear as minhas graças, e por isso, passam ao
largo, sem prestar atenção.
E assim, continuo sozinho, dia após dia, noite após
noite!...
Como é que te atreves a queixar-te de solidão, quando tens tantas pessoas a
rodear-te? Mesmo que mores sozinho numa casa, basta-te sair à rua e logo
encontras gente. Mas lembra-
-te que Eu não posso sair do meu Sacrário, se alguém não Me vier buscar.
Bem sei que essas pessoas com quem vives ou que encontras não te
preenchem, porque só Eu sei compreender, pacificar e aquietar o coração
humano. Só Eu o posso encher de alegria e felicidade. Mas se te encontras
em solidão e as pessoas não chegam para te darem aquilo que o teu inquieto
coração procura, porque é que não Me buscas a Mim, em vez de procurares
no meio das criaturas, amor e companhia?
Os amigos atraiçoam-te e abandonam-te. E a Mim, que foi que Me fizerem
e continuam a fazer?

123
Estás só, dizes tu. E Eu, como estou, sozinho, fechado dias e noites
seguidas, procurando com os olhos os filhos que não vêm aqui, procurando
por ti que também não vens muitas vezes, que preferes procurar satisfações
noutros lugares, junto das criaturas fracas, falíveis e ingratas?!
Alma, minha filha, a tua solidão só pode consolar-se junto da minha
solidão.
Sei que, muitas vezes, mesmo rodeada por pessoas ou até no meio da
família que muito te estima, te sentes só, porque aqueles que te rodeiam não
te compreendem nem se guiam pelos mesmos ideais que tu.
O mesmo Me acontece a Mim, muitas vezes, quando mesmo no meio de
igrejas cheias, Me sinto só, por não ter quem fale comigo, vendo à minha
volta filhos indiferentes, que conversam entre si ou que estão aborrecidos à
espera que comece o acto litúrgico, para o qual vieram.
Vem consolar a tua solidão e aprender o que fazer dessa solidão que tanto
te assusta.
Vem ver o que Eu faço, em que Me ocupo estas horas, estes dias e estas
noites.
Vem para junto de Mim, e o facto de estares só deixará de assustar-te,
porque não mais estarás só, mas viverás com o único Amigo que sabe
compreender-te.
Sabes que, muitas vezes, permito que não te compreendam, que os amigos
te esqueçam e se afastem, justamente para que Me procures mais, para que
fiques ainda mais a meu lado, para que aprendas a viver apenas para Mim.
Reconhece então que isso que tanto te faz sofrer, é uma graça de
predilecção que deves agradecer-Me.
Vem ver o que Eu faço e acompanha-Me. Faz-Me sentir menos só, através
da tua presença. Acompanha a minha oração solitária, rezando comigo, por
conta daqueles que nunca rezam e que desperdiçam a vida loucamente.
Aprende a estar só comigo, que sou Aquele que está sempre só.
Não te assustes com a solidão, porque podes acompanhar--Me e verás que
as nossas duas solidões se fundem em doces colóquios de amizade
verdadeira.
Se ficares comigo, nunca mais estarás sozinha, querida alma, porque Me
terás a Mim, e Eu sou o melhor companheiro que poderás encontrar.
Que as horas do teu dia sejam passadas num contínuo desejo de vir aqui,
num suspirar por estares comigo, neste lugar onde encontras a minha
presença real, tão real como no Céu.
Aqui é o lugar das tuas delícias, o lugar onde te espero para te falar ao
coração, te cumular de graças e de bênçãos, o lugar onde desabafas as tuas
mágoas e escutas as minhas.

124
Nesta solidão vais aprender a rezar comigo, e vais aprender a não te ligar
muito às criaturas, que faltam justamente quando precisas delas. Vais
aprender a desapegar-te de tudo o que é terreno e transitório. Vais aprender a
ligar-te só a Mim, a contar só comigo, a precisar só de Mim, a viver só para
Mim.
A minha solidão é a tua escola de vida, porque é aqui que se aprende a
viver, porque é aqui que se encontra a verdadeira solidão, filha da ingratidão
dos homens.
Ao pé de Mim, toda a solidão que possas sentir nada é, senão apego às
criaturas. E reconhecerás que te querias agarrar a apoios muito frágeis, que
racham e se partem quando te apoias neles.
Verás então como é ilusório todo o desejo de que as criaturas te amem e
compreendam, te procurem, te falem e acompanhem. Simplesmente, elas não
são capazes, não têm força para que te segures, para que te apoies. Elas não
são más, como muitas vezes dizes, são frágeis de mais para te segurar.
Só Eu posso servir-te de apoio, seguramente, porque só Eu sou forte e
poderoso. Só Eu sou rico de todas as virtudes. Só Eu tenho Amor infinito.
Sorri para Mim. Tens aqui o teu maior Amigo, o teu único Amigo, que
nunca te faltará, com quem podes contar sempre, que está sempre pronto a
escutar-te, a aconselhar-te, e que está sempre desejoso da tua companhia.
Alma
Ó bom Jesus, estou aqui junto de Ti, para Te acompanhar nas tuas horas de
difícil solidão. Sei que estás sozinho nas maioria das nossas igrejas, por isso
venho acompanhar-Te, juntar a minha solidão à tua, não para me consolar,
mas para Te consolar a Ti.
Conheces bem as minhas horas amargas, quando parece que todos se
afastam de mim e que permaneço sozinha no mundo, como uma espécie de
animal raro que nem pela sua raridade tem valor. É assim a minha amarga
solidão!... Mas que posso dizer, de que posso queixar-me, quando Te vejo
tão só, não apenas umas horas ou uns dias, como eu, não só uns meses nem
uns anos, mas séculos e milénios!
Só Tu, Deus de bondade e de Misericórdia, poderias ser capaz de tal
heroísmo, por amor destas pobres criaturas, que nada Te agradecem, mas
ainda Te abandonam, insultam e esquecem!
E, quantas vezes, não me tenho eu também esquecido de Ti, deixando-Te
sozinho a rezar por todos nós!
Quantas vezes tenho procurado apoio e consolação nas criaturas, tão
pobres, falíveis e frágeis, tão cheias de problemas, tão desejosas como eu de
consolações!

125
Que posso esperar delas? É tão fácil elas se enganarem a meu respeito,
pensando de mim o que não é verdade, como eu me tenho enganado sobre
elas, pensando contra a caridade, e verificando depois os meus erros!...
Sim, reconheço agora a que frágeis apoios me tenho tentado agarrar! Por
isso tenho caído repetidamente! Por isso acumulo desilusões umas a seguir
às outras, como criança que não há forma de aprender a lição que lhe é
ensinada!
Sei que me perdoas, porque vês o meu coração arrependido de tantas faltas
e que mais logo voltará a cair em erros semelhantes. Mas voltarás a perdoar-
me porque me amas!
Sim, sei que me perdoas e me amas. É esse teu inigualável Amor que me
encanta, que me seduz, como outrora seduziu o teu profeta (Jer 20, 7).
Deixa-me ficar aqui contigo, Senhor, juntando a minha solidão à tua
solidão, e formando assim uma união de amor, em que o meu pobre e
pequenino amor desaparecerá no teu que é infinito, tornando-me eu toda,
uma pequena gota de água no teu cálice, absorvida pelo teu Sangue.
Nada sou, Senhor, Tu és tudo, o meu Tudo, para sempre, Aquele que amo
e adoro, prostrada no meu nada, Aquele a quem quero amar e adorar
eternamente!
Senhor, eu não sei adorar. Peço-Te que me ensines, que unas o meu
coração ao teu, para que participe nas adorações com que o teu Coração sem
cessar glorifica o Pai, a partir de cada Sacrário.
Só Tu podes fazer com que eu nunca desista de rezar, pela sensação da
minha incapacidade, nem me apresente diante de Ti com a soberba de quem
pensa que o sabe fazer melhor que os outros.
Purifica o meu coração de toda a soberba espiritual, pela tua grande
Misericórdia, e faz com esta criatura pobrezinha uma união de Amor, que a
faça participante da tua própria oração e das tuas adorações de valor infinito!

126
Sacrário – Prisão
Querida alma, filho ou filha que hoje Me visitas, és a alma que vem para
junto de Mim e Me dá alegria, porque aqui no Sacrário, onde estou por
Amor, não só não sou amado, mas estou abandonado, esquecido, sempre
solitário, e não posso fazer o que vós fazeis quando vos sentis aborrecidos
em algum lado: não posso ir-Me embora, porque prometi que ficaria
convosco até à consumação dos séculos (Mt 28,20).
O Sacrário retém-Me aqui, apesar de esperar em vão pela maior parte das
almas. Sou um Prisioneiro que espera dia e noite as vossas visitas, mas
espera em vão.
Sou um Prisioneiro que tristemente segue com os olhos aqueles que
passam sem um pensamento para Mim.
O Sacrário é a minha prisão, mas as prisões fizeram-se para os criminosos!
Que crime fiz Eu, para estar há tantos séculos em cada Sacrário?
Não, o Sacrário é uma prisão que não foi feita pelos mesmos motivos que
as outras! Esta prisão foi feita para acolher o Amor infinito e prendê-lo junto
de vós, a fim de que a Misericórdia se derrame e salve o mundo pecador.
O Sacrário foi feito para o Prisioneiro do Amor, este Prisioneiro que não
sabe amar sem dar-Se, porque o amor sem doação não é amor, mas um
simulacro, com o qual muitos o querem imitar, para melhor conseguirem os
seus fins, os resultados favoráveis aos seus prazeres pessoais.
É assim que tu fazes, quando dizes que amas, mas não te dás, não dás o teu
tempo, não dás a tua atenção, a tua disponibilidade, quando não estás
disposta a sacrificar-te pelas pessoas que amas, mas apenas queres conseguir
delas alguma coisa que de uma ou outra forma te satisfaça.
Sentes-te bem com o amor assim obtido, mas ainda nessa altura isso não é
amor, mas prazer. É o prazer de seres servido, o prazer da companhia, o
prazer do conforto e muitos outros. Em todos os campos podes encontrar esta
forma de encarar o amor que o transforma apenas em prazer, para contentar o
próprio “eu”.
É isso que acontece também na vida espiritual. Muitas vezes sentes-te bem
nos exercícios de piedade, porque eles contentam a tua sensibilidade.
Por isso, procuras ocasiões, livros, reuniões de piedade, acercas-te de
pessoas que te parecem possuir dons, sempre no desejo insaciável do prazer
espiritual, mas nada disso é feito por verdadeiro amor por Mim, porque não é
feito com o propósito de aprender a amar-Me mais, a glorificar-Me com uma
mudança de vida que te leve à mortificação dos pensamentos, das palavras e
das obras que não Me agradam.

127
Nada disso é feito com o pensamento na melhor forma de largares as
omissões do teu comodismo pecador, dos maus sentimentos do teu coração,
sempre pronto a ver defeitos nos teus irmãos, da tua falta de reparação por
tantas faltas que cometes e que diariamente te vão sujando.
Nada disso é feito com a ideia de aprenderes a aproximar-
-te mais de Mim, a fim de aprenderes a olhar para tudo como Eu olho, de
aprenderes a olhar pelos meus olhos e amar com o meu Coração.
Alma, minha filha, este Prisioneiro que encerrais nos vossos Sacrários, vê
os rios de lama que nascem por todo o lado e que engrossam cada dia. Tu
também muitas vezes dizes que os vês, mas são sempre as lamas do teu
próximo, para onde o teu dedo aponta. Nunca reparas nas tuas próprias
lamas.
Esse teu pobre coração cego sente-se sempre tão puro, que se atreve a
criticar os pecados dos seus irmãos, e, por vezes, a criticar de forma dura,
mas não olha para si próprio, não quer ver no seu interior quanta lama e
quanto lixo o enchem!
Esse coração insensato anima-se e consola-se em si próprio, quando
deveria humilhar-se das suas infidelidades e pecados!
Pensas que, porque praticas alguns exercícios de piedade, porque vais a
umas tantas reuniões, retiros, peregrinações, até Missa diária, se rezas muitos
terços, promoves encontros, dás catequese, fazes peditórios e outras obras,
Me agradas mais que outras pessoas? Que engano o teu!
É certo que te amo muito e te perdoo tudo aquilo de que te arrependes. É
porque te amo muito que te quero aperfeiçoar, por isso te coloco neste
caminho de perfeição, a fim de te fazer santa. Mas não és melhor que aqueles
que apontas a dedo, porque os teus pecados são tão desagradáveis para Mim,
que é por eles te repreendo, para que deles te possas purificar pelo
arrependimento e pela minha graça.
Aprende, alma minha filha, que quanto mais perto estiveres de Mim, mais
Me desagradam e magoam as tuas infidelidades e mais deves, portanto,
purificar-te.
Lembra-te de que as infidelidades e os pecados, mesmo muito pequenos,
daqueles que estão perto, que se dizem meus amigos, Me magoam muito
mais que os grandes pecados daqueles que estão longe, que não crêem em
Mim, não Me falam, não Me procuram..
Por isso, quando te sentes muito chegada a Mim, pelas tuas orações,
exercícios de piedade, boas acções, mortificações ou apostolado, procura
chegar-te ainda mais pela compunção do coração, para que as tuas obras
boas não se tornem numa forma velada de vanglória, pecado muito vulgar
entre aqueles que Me servem e pensam estar muito perto.

128
Essa vanglória, que é filha do orgulho, cobre de impureza a própria oração,
de quem a faz com esses sentimentos.
Sou um Prisioneiro que não foge da sua prisão e tem de suportar toda a
espécie de visitas, mesmo aquelas que aqui vêm para Me maltratar ou
daquelas almas que aqui chegam cheias das suas pretensas virtudes, daquilo
que fazem, que rezam e que sofrem. São visitas desagradáveis, de quem vem
mais para que Eu os console, que para Me consolarem a Mim, na minha
prisão solitária.
É verdade que Eu, porque tanto vos amo, também gosto de vos consolar e
muitas vezes o faço, embora em algumas ocasiões permaneça silencioso,
como se não ouvisse a pobre alma, que vem junto de Mim desfiar as suas
dores, como se fosse um terço.
Faço isso quando vejo que para tal alma é um bem maior que permaneça
desconsolada, porque justamente espero mais do seu amor, e quero elevá-la a
maior perfeição. Mas quantas vezes as almas não compreendem isso e
retiram-se amuadas, muitas vezes questionando-Me porque é que as trato
assim, quando elas tanto fazem por Mim, tanto rezam, tanto trabalham!
Há almas que chegam a sentir ciúmes de certas graças que ouvem dizer
que Eu concedo a algumas outras!
Nunca procedas tu assim. Isso pode chegar a ser um pecado contra o
Espírito Santo!
Nunca te ocupes a pensar que alguém é mais agraciado do que tu. Nunca
perguntes porquê, nem ponhas em dúvida o Amor que te tenho, seja qual for
a forma como tenha por bem tratar-te em cada ocasião. Quer te console, quer
não, o meu Amor por ti é sempre real, é sempre único e infinito.
Sim, Eu consolo muitas vezes as almas. A Mim quem Me consola, no meu
triste cativeiro, onde sou ignorado?
Aqueles que vêm aqui, vêm por outros motivos e não Me dão importância,
entretendo-se com tudo, menos comigo.
Sou esquecido por aqueles que não vêm cá, que passam nas ruas,
indiferentes!
Sou insultado por aqueles que abusam deste Sacramento, de tantas
maneiras!... Quantos Me recebem em pecado mortal!... Ai, quantos,
quantos!... E os que Me levam para Me venderem lá fora!... E os que Me
compram para Me levarem para os mais vis sacrilégios!...
Quantas igrejas profanadas em todo o mundo! Quantas assaltadas! Quantas
usadas para reuniões de seitas inimigas e até para cultos demoníacos, cuja
perversidade horrível não te conto! Tudo isto se faz no segredo das noites,
mas às vezes também às claras, conforme os países e a permissividade das
suas leis.

129
Apesar de tudo isso, Eu não fujo desta prisão. Continuo a ser o Prisioneiro
obediente, sempre à espera que Me venham visitar os meus verdadeiros
amigos, as almas que realmente Me amam, embora pecadoras, mas que
trazem para aqui um coração contrito e um grande desejo de amor.
Meu filho, teme muito não sentires contrito o teu coração pelas tuas faltas.
Não é preciso teres grandes pecados para teres contrição, porque, se Me
amas, verás sempre o pó das tuas faltas, daquilo que fazes e sabes que Eu
não gosto e daquilo que omites, mas sabes que deverias fazer ou que deverias
fazer melhor.
Mesmo que sejam pequenas faltas, quanto mais Me amares, maiores te
parecerão, e mais te arrependerás delas em cada dia, pois não te parecerá
pequeno seja o que for que saibas que Me desagrada. Não te parecerá
pequena qualquer falta de delicadeza para comigo, justamente porque amor e
indelicadeza nunca podem ficar juntos.
Por isso, toma o teu arrependimento ou a falta dele, a respeito das tuas
faltas, das tuas indelicadezas para comigo, como o termómetro do teu amor,
e nunca o maior ou menor fervor que sentires em cada ocasião, porque o
fervor sensível pode variar, e muitas vezes não depende de ti.
A tua vontade de mostrar amor apesar de tudo o que possas ou não sentir,
isso sim, depende de ti, e mostra bem o que há no interior do teu coração.
Teme, também, pensares que Eu te devo alguma coisa, por muito que
tenhas feito no meu serviço. Esse é um engano em que muitos se enredam,
pensando que, porque fizeram tal sacrifício, porque se cansaram em tal obra,
Eu não tenho direito de ficar magoado com os seus pecados leves ou com as
suas omissões.
É um erro que leva não poucos a atrasarem-se muito no caminho que
devem seguir, ficando muitas vezes parados, brincando com as suas obras e
com as suas penitências, como as crianças brincam com os seus bonecos.
Aqui, do Sacrário, este Prisioneiro, que afinal é o teu Prisioneiro, mantém-
se à tua espera. Espero não só a tua visita, mas também os teus actos de amor
e de desejo de te aprisionares comigo, de ficares para sempre na minha
companhia, mesmo durante as ocupações diárias.
Alma, minha filha, já há muito tempo que te espero! E quanto ainda te
espero durante as tuas inumeráveis distracções, durante o tempo em que estás
aqui!
Fica comigo. Esta prisão é pequena, mas o teu coração ainda cabe junto do
meu.
Bem sei que estar numa prisão não agrada a ninguém, mas esta é uma
prisão voluntária, em que cada um, à minha imitação, se encerra por amor e,
em que, ainda por amor, se sujeita a todas as limitações e a todas as doações

130
de cada dia.
Esta prisão não te tira a liberdade pessoal de aqui permaneceres, mas leva-
te a um trabalho de combate contra as tendências que te querem levar para
tudo aquilo que o mundo promete lá fora.
Lá fora, estão os prazeres inúteis ou até pecaminosos, as distracções que te
afastam de Mim, os amores que procuram conquistar parcelas do teu
coração, em apegos que subtraem aquilo que em ti Me deve pertencer.
Aqui, está o recolhimento e a proximidade d’Aquele que te ama e que te
dá a felicidade.
Quanto maior quiseres esta proximidade, mais necessidade tens de um
trabalho de recolhimento que te levará cada vez mais longe, sem no entanto
te tirar do trabalho profissional ou doméstico que executas todos os dias.
Que dizes? Agrada-te ser comigo prisioneira do Sacrário? Agrada-te a
minha companhia e queres ficar a acompanhar--Me, mesmo durante o
trabalho que tens para fazer durante todo o dia?
Então fica aqui sem receio. Não, não receies que seja graça a mais para a
tua condição de alma fraca e pecadora.
Nunca há graça a mais, prenda a mais para um filho, e muito menos para
um filho pequeno. Para um filho pequeno nunca é de mais estar chegado ao
pai.
Só os filhos crescidos têm receio de ficar muito oprimidos permanecendo
muito perto do pai. Os filhos pequenos aproximam-se quanto podem, pois só
assim se sentem em segurança. Por isso, se te chamo, vem.
Aceita o meu convite, pois ele é feito por Amor, e este Amor infinito não
se importa com a tua fraqueza, mas sim com o teu amor, o teu propósito de
emenda e desejo de progresso.
Alma amada, espero todos os dias a resposta que tens a dar aos meus
convites. Agora também espero a tua resposta e os teus actos de amor.
Alma
Ó Jesus, prisioneiro por amor de mim há tantos séculos, eu Te adoro!
Como hei-de agradecer-Te tanto que Te devo? Como hei-de agradecer-Te
tanto Amor, que se curva para a pobre criatura que tens a teus pés?
Só posso agradecer-Te dando-Te amor e mais amor todos os dias.
Sim, Jesus, desejo crescer no teu Amor e em humildade, em conhecimento
da minha fraqueza, para Te saber acompanhar, fielmente, todos os dias, para
fazer tudo o que me ensinas e para ter sempre a contrição verdadeira das
minhas faltas e de todas as indelicadezas que tantas vezes me escapam.
O teu Sacrário, Senhor, a tua prisão é o Céu para mim, porque é o lugar
onde Tu estás, e Tu és o meu Céu!

131
Quanto me agrada esta doce prisão de amor! É a prisão do teu Amor e será
desde agora, também para mim, a prisão do meu amor, a prisão onde quero
estar contigo, docemente reclusa.
Deixa-me habitar contigo neste lugar, onde o Amor é sem limites, apesar
de tudo o que suporta. Ensina-me a imitar-Te e a também tudo suportar como
Tu e por Ti, a fim de me tornar uma companhia que Te agrade.
Também tenho um sacrário para Te oferecer e suplico-Te que Te dignes
aceitá-lo e fazer nele morada permanente. É o meu próprio coração pecador,
tão fraco que precisa do teu incessante auxílio, para permanecer no teu
caminho e não se deixar seduzir pelas tentações que de todo o lado o
assediam.
Peço-Te que o purifiques e faças nele a tua morada permanente, vivendo
nele como vives no teu Sacrário-prisão, e eu assim Te transporte para todo o
lado e me transforme num céu para Ti.
Aceita os meus pobres louvores, as adorações com que, como de flores de
amor, Te quero cercar, acompanhando o amor e as adorações com que Te
cercam os teus Santos
Anjos.

132
Sacrário-calvário
Alma que estás junto de Mim, olha bem para o meu Sacrário. O teu Jesus
glorioso está aqui dentro. Sim, tens o Senhor da glória junto de ti, bem à tua
frente, esperando as tuas adorações.
Só não farás aquilo que os Santos Anjos fazem, se não quiseres, se
preferires distrair-te. E não é isso que tu muitas vezes fazes?
Não é verdade que Me fazes muito pouca companhia, mesmo quando
parece que rezas, porque o teu pensamento vagueia, sem que tu cuides de o
segurar?
Olha e vê! Sobre o Sacrário está um crucifixo. Ele mostra--te bem que o
Calvário está aqui. Aquele que no Calvário foi crucificado, desceu ao
Sacrário e aí ficou na Cruz, no decorrer dos séculos, porque as almas que Me
rodeiam teimam em misticamente Me crucificar, em vez de Me glorificarem.
Como Me hão-de glorificar, se a maior parte dos filhos não se acerca de
Mim, fica comodamente nas suas casas, distraidamente nas suas diversões,
afanosamente nos seus trabalhos, molemente no seu descanso e não Me vem
visitar?
Passam pelas minhas igrejas e nem pensam em Mim. Não pensam
n’Aquele que tanto pensa neles dia e noite.
Vejo passar tanta gente, apressadamente, nas suas compras ou nos seus
negócios!... Todos têm pressa de chegar a qualquer lado! Ninguém tem
pressa de chegar aqui!... Todos se encontram uns com os outros, mas
ninguém procura encontrar-se comigo.
Só poucos, muito poucos, Me procuram e, desses poucos, só uma pequena
parte o faz por verdadeiro amor.
Vê como as minhas Igrejas estão vazias durante a semana, tão vazias que
muitas delas permanecem fechadas… Só nas localidades maiores aparecem
algumas pessoas à Missa semanal, mas, mesmo essas, quantas intenções
defeituosas trazem bem escondidas e quão poucas trazem amor verdadeiro!
Vê, aos domingos, igrejas cheias, mas poucos corações atentos e, ainda
menos, corações ardentes!
E, durante o dia, quantas pessoas aparecem para adorar--Me? Tu és uma
delas e dás-Me com isso muita satisfação, aqui neste triste Calvário, em que
o meu Sacrário se tornou, por tantos filhos que vêm aqui, transportando tanta
raiva nos seus corações, que até desejam mal a alguns irmãos e, muito
interiormente urdem planos para os prejudicarem!... Como podem esperar
estas almas que as atenda nos seus rogos?
No Calvário estava pregado. Aqui, estou fechado. Não posso sair, assim

133
como no Calvário não podia descer da Cruz.
No Calvário fui insultado, vilipendiado, ofendido e humilhado de mil
maneiras. Aqui, sou recebido por muitas almas em pecado mortal, o que para
a minha pureza infinita se torna mais difícil do que para ti seria entrar e
mergulhar num esgoto.
No Calvário estava exposto aos olhos de todos e ouvia as suas troças, as
troças sobre as minhas palavras, os meus milagres, a minha missão, sobre o
meu título de Messias e de Filho de Deus. Quantos sorriam com indiferença
trocista, e passavam além! Quantos meneavam a cabeça, nas suas dúvidas e
na sua descrença!
Aqui também bastantes Me olham com indiferença, muitos com desprezo,
com troça, muitos com dúvidas da minha presença real e alguns com ódio.
Sou insultado com aquilo que dizem de Mim os descrentes que Me medem
pelas suas próprias medidas, que Me julgam incapaz de fazer este milagre e
que gostariam de ver prodígios para poderem acreditar. Mas se Eu realizasse
algum prodígio tratariam de procurar explicar de uma maneira natural,
porque as almas que estão fechadas, em nada acreditam e “não se
converteriam mesmo que ressuscitasse algum morto” (Lc 16,31).
Meu filho, o Sacrário é o meu Calvário de Amor, através dos séculos. Aqui
como lá, também os soldados riem, jogam e conversam!
Aqui como lá muitos olham cépticos e vêm até Mim apenas porque, como
lá, são arrastados pela multidão, a multidão das conveniências sociais, dos
hábitos e até por outros motivos.
Aqui como lá, embora agora misticamente, a minha dor é infinita. Na Cruz
o meu sofrimento foi maior, ao ver tantos e tantos que não aproveitariam
dele, que o recusariam, pelos séculos fora, assim como recusariam acreditar
na minha Presença eucarística, o que se verificou pelos séculos fora e
continua a verificar-se, cada vez mais intensamente.
Sim, agora como então, muitos não aproveitam, muitos recusam acreditar
e receber em si a doação. E posso dizer-te que são muitos mais os que Me
ofendem, do que aqueles que Me amam e Me honram!
Lá, no Calvário, só um pequeno grupo observava de longe, com medo do
que lhes pudesse acontecer ao aproximarem-
-se. Agora também os meus amigos são apenas pequenos grupos, pessoas
isoladas, que parecem temer proclamar a sua fé, cheias de receios e de
respeitos humanos, ou baralhadas com as vozes enganadoras do mundo, que
age sobre elas como vinho forte.
No Calvário, mais para o fim, a minha Mãe e os meus amigos puderam
aproximar-se. Agora também alguns aproximam-se, e é com eles que
desabafo o meu próprio Coração, neste Calvário onde estou em cada

134
Sacrário.
Sim, há algumas almas consoladoras, almas nas quais posso derramar as
minhas graças mais preciosas, almas escondidas, de quem o mundo sabe
muito pouco ou mesmo nada, porque Eu não tenho interesse em que sejam
olhadas de maneira diferente por aqueles que as conhecem, nem que as
persigam com perguntas ou pedidos, e muito menos que as ponham em
perigo de dissipação ou de vaidade.
Se as minhas almas consoladoras são poucas, são ainda menos aquelas que
Eu revelo ao mundo, por alguma missão especial que lhes dei.
Queres ser tu, uma das minhas almas consoladoras, em missão escondida,
realizada junto dos meus Sacrários?
Não precisas de querer saber o porquê da minha escolha pela tua alma,
porque só Eu sei ver em ti. Sei que és criatura fraca, mas deves ter confiança,
porque comigo tudo podes conseguir, até a graça de seres mais fiel do que
tens sido até aqui.
Sempre saberás que tudo quanto conseguires em fidelidade não é obra tua,
porque tens diante dos teus olhos a miséria de que és feita e todas as
infidelidades da tua vida, mas saberás que sou Eu que em ti faço tudo,
esperando só pela tua boa vontade e o teu desejo de Me amar.
Também não terás vaidade. Não te transformarás numa dessas almas que
se sentem muito importantes pensando terem sido escolhidas por Mim para
alguma coisa grande, e olham sobranceiramente para aqueles que lhes
passam ao lado, como irmãos menores, menos privilegiados que elas.
Essas almas desagradam-Me muito e deixo de lhes conceder as graças que
lhes tinha preparado. Caem assim, miseravelmente, em muitos pecados,
começando pela vaidade, caminhando pela soberba, e vão depois avançando
sobre a lama de perigosos caminhos, por vezes de revelações que elas
próprias inventam.
Tu serás sempre humilde. Aceitarás o que te quiser dar, sempre em
silêncio e obediência, submetendo o que te parecer mais importante à opinião
abalizada de um confessor, a quem obedecerás, mesmo que ele não concorde
com o que propões fazer.
A humildade é sempre obediente e nunca julga ser detentora de mais
virtude ou mais conhecimento que os seus irmãos. Quantos há que tu não
conheces e que têm muito mais virtudes que tu, muito mais conhecimento e
mais dons!
Nunca presumas de ti. Nunca imagines poder fazer isto ou aquilo. Melhor
ainda, nunca penses em ti própria, não percas tempo a ocupar-te contigo,
com desejos de coisas ou de bem parecer aos olhos das criaturas.
Que importa como te julguem? Preocupa-te apenas com aquilo que Eu

135
penso de ti, com o que em ti Me pode agradar ou desagradar.
Em silêncio, com humildade, aceita o caminho que te indico e sê fiel.
Alma
Senhor, encontro-me confundida com a tua magnanimidade, pois me
escolhes e me pedes para ser tua alma consoladora, mesmo sabendo que sou
uma criatura tão pobre, que constantemente falta àquilo que Te promete.
Senhor, só Tu vês realmente como eu sou. Vês melhor que eu aquilo de
que sou capaz para o bem e para o mal. Sabes a razão dos teus pedidos e das
tuas escolhas. A mim só me resta aceitar e não me escudar com falsas
humildades.
De que me presta chamar nomes a mim própria? Só Tu sabes realmente o
que eu sou e para que valho. Se me queres, então eu também quero.
Quero tudo o que Tu quiseres e estou disposta a empregar todos os
esforços para fazer o que me pedes, em silêncio e recolhimento.
Não permitas, Senhor, que alguma vez me envaideça desta tua escolha.
Não permitas que me sinta mais alguma coisa que os meus irmãos.
Não permitas que Te desagrade com a impureza de um coração que se
julga com alguma importância, com alguma missão superior, mas mostra-me
sempre a minha miséria e o nada que sou, para que, apoiada a Ti possa
realmente fazer o que me pedes.
Serei alma consoladora todos os dias, procurando fazer-
-Te esquecer aquelas ofensas que recebes de mais almas, que aquelas que na
terra Te honram.
Quero adorar-Te em nome de todas elas, fazer mil actos de adoração e de
fé na tua santa presença aqui no Sacrário.
Em nome de todos os que transformam o teu Sacrário em Calvário, Te
peço perdão. Por todos eles quero reparar, mas não sei como o fazer!...
Ensina-me! Sou alma discípula, à escuta da tua palavra. Quero ser
obediente, pronta a transformar todo o meu modo de proceder, de forma a
tornar a minha vida inteira um acto de reparação por todos nós.
Aqui me tens, em adoração e entrega total à tua Santa Vontade!

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Sacrário – Coração
Amada alma que Me procuras, quanta satisfação Me dás com a tua
presença junto de Mim! Há tão poucas almas que aqui venham
exclusivamente por amor!...
Quantas horas passo, solitário, desejando um coração com quem falar e a
quem encher com o meu santo Amor!...
O meu Sacrário, muito mais que um lugar onde guardam a Santa
Eucaristia, é um depósito de Amor, porque a Eucaristia sou Eu, tão vivo
como no Céu, tão vivo como quando vivi na Terra, porque Eu sou o Senhor
do Amor infinito.
O Sacrário é como um coração que pulsa de Amor pelos homens, Amor
que eles ignoram, porque ninguém lhes fala nisso, Amor que eles recusam,
porque é um Amor exigente, Amor de exclusividade, que só aceita em troca
corações inteiros.
Quem só Me dá um pouco de amor e Me recusa certas zonas do seu
coração, dizendo que não é preciso fazer mais, dar mais de si, é como se não
tivesse dado nada, porque Eu não aceito na minha intimidade corações
divididos.
Aqueles que se dão a Mim só a meias, vegetam na tibieza e nada adiantam
no meu Amor que, como já te disse é um Amor de exclusividade.
É por isso que certas almas não adiantam. Não se querem dar, recusam
aquilo que custa, escondem-se debaixo do escudo da sua comodidade,
dizendo que de coisas exigentes não querem saber.
Por isso, afastam-se de tudo o que lhes fale das minhas exigências, como
se fosse algum exagero darem-se Àquele que tudo deu por elas!
E repara que neste número também estão muitos que se afadigam em obras
apostólicas, mas acham que essas canseiras já são suficientes e que outras
exigências mais íntimas não lhes devem ser pedidas, porque já dão muito.
Tu também és assim? Também pensas que o meu Amor é muito exigente,
e preferes desviar os olhos, tapar os ouvidos quando te recomendo mais
cuidado, mais atenção, mais mortificação, mais oração, mais silêncio, mais
perfeição naquilo que fazes? Tens vontade, inclusivamente de fechar este
livro que te aponta defeitos e te indica caminhos mais apertados?
Alma, minha filha, quando ponho no teu caminho uma indicação de
exigência, isso é uma graça que tenho para ti, é como uma sinalização no teu
caminho, que te indica: “Por aqui”. Recusá-lo é recusar ir pelo caminho
indicado e meter por outro que não leva onde Eu quero que tu vás.
Tal não deixa também de ser um perigo, pois te metes por caminhos que

137
não sabes aonde levam. É também uma indelicadeza e uma ingratidão para
comigo.
Espero que nunca o faças, que sigas sempre segundo as minhas indicações,
mesmo que isso te custe muito, porque as minhas exigências são sempre um
bem para ti.
Minha filha, se Eu não tivesse muito cuidado contigo, deixava-te sempre
viver em águas mornas, mas porque te quero santificar, aqueço o teu
coração, por vezes até escaldar, embora isso possa, por vezes incomodar-te.
Sim, Eu quero pôr o teu coração a ferver de amor, mas nunca o
conseguirei, se tu não deixares que te queime com o meu fogo.
Muitas vezes tu desejas o fogo do meu Amor, mas parece que desconheces
que o amor sempre queima e que as queimaduras, sejam elas quais forem,
são dolorosas.
No fogo do Amor as queimaduras são igualmente dolorosas e traduzem-se
em actos de perfeição, de renúncia, de abnegação e outros de que tu não
gostas.
O meu Sacrário é um coração cheio de Amor. Vem aqui muitas vezes e
deixa que este Amor, o Amor que daqui transborda, venha sobre ti e te
inunde, sem reflectires nas consequências desse mesmo Amor em ti.
Faz mais! Torna-te tão pequena que caibas no meu Sacrário e vem para
dentro deste Coração, em generosidades e mais generosidades, que Eu nunca
deixarei de retribuir, dando-te muito mais que o que tu Me dás a Mim.
Minha filha, sempre que olhares para o Sacrário, vê-o como um coração,
um coração cheio de Amor por ti, que mais nada deseja senão deixar-te
entrar para esta união de Amor que quero ter contigo.
Bendita sejas, minha filha, que assim te aproximas de Mim, que assim
penetras no interior do meu Sacrário, levada pelo desejo do meu Amor, pelo
desejo de Me pertencer, de cada vez mais te unires comigo, porque assim
consolas o meu Coração de tantos abandonos, ingratidões e traições, que Me
fazem muitos outros teus irmãos, a quem chamo à união comigo, mas que
não querem vir, que Me rejeitam, Me trocam pelos seus prazeres, pela sua
comodidade e futilidade.
Sabes que, por muito que Me ofendam os grandes crimes, as imoralidades,
as faltas aos meus Mandamentos e até os sacrilégios feitos por pessoas
ignorantes ou mal formadas em religião, isso magoa-Me muito menos que as
traições daqueles que Eu queria ter mais perto, que chamei mais
intimamente, mas que fogem e recusam aquilo que lhes peço, que
abandonam o caminho iniciado e Me trocam pelo pecado?
Isso sim, é o que mais Me magoa, porque o grau da desilusão corresponde
ao grau da amizade que se tem a alguém e à proximidade em que esse amigo

138
está ou deveria estar.
Tu sabes que Eu Me dou inteiramente às almas e muito mais àquelas a
quem peço uma doação maior. Como pensas que ficará o meu Coração
perante as traições feitas por aqueles que tratei por amigos íntimos, que
acarinhei, como só se acarinha um ser muito amado? Mesmo em termos
humanos, este tipo de traições são muito graves e muito dolorosas.
A tua presença aqui consola o Meu Coração dessas desilusões, dessas
mágoas, pois ao dizeres-Me o teu amor, fazes-
-Me esquecer os desamores com que todos os dias sou presen-
teado.
Aceito a tua presença e agradeço-ta. Sinto-Me feliz por te ter aqui e desejo
que mais vezes Me faças esta visita.
Traz sempre para Mim um coração livre de impedimentos, de apegos, de
desejos vãos, e Eu cada vez mais te enriquecerei com as graças de que sou o
Senhor.
Não quero com isto dizer que te tire o sofrimento pelo qual tiveres de
passar, porque a Cruz é muito importante para ti, uma vez que será apoiada
nela que entrarás no Céu. Eu próprio disse que “Quem quer vir comigo,
renuncie a si mesmo, tome a sua Cruz e siga-Me” (Mt 16,24).
Entrarás no Céu se estiveres comigo, mas para estar comigo é preciso
sempre pegar na Cruz. Lembra-te disso, quando tiveres vontade de te
queixares e de reclamares da tua, quando a vida não seguir da forma como
desejarias.
Não importa de que é que a cruz é feita, nem por quem. Eu nunca
perguntei quem foi que cortou a árvore de que foi feita a minha Cruz e, os
próprios soldados eram homens pagãos que nada tinham contra Mim.
Simplesmente serviram de instrumento.
O mesmo te acontece agora. Também há criaturas que te fabricam a cruz e
outros que ta apresentam. Há ainda aqueles que te pregam nela, mas não
importa nada quem é que interfere em tudo isto. São os instrumentos da tua
cruz.
Por isso não reclames contra quem faz o que faz. Não te enchas de
azedume contra quem te faz alguma coisa que te desagrada, ou ainda contra
quem te faz sofrer. Não proclames a todos os ventos aquilo que te fazem.
Pensa antes que fui Eu que permiti tal coisa para te dar mais uma
oportunidade de purificar o teu amor, mais uma oportunidade de te portares
como uma criança, agarrando-
-te à minha mão com mais força. Lembra-te de que pro-
meti dar o Reino dos Céus exclusivamente às crianças (Mc 10,14-15).
Parece-te dura, difícil de entender esta minha palavra? Será possível que

139
tantos que fazem gala da sua superioridade tenham que se rebaixar à
categoria de crianças para entrar no Céu? Sim, é possível, porque no Céu não
entram senão os humildes e os humildes são sempre crianças junto de Mim, e
procedem como tal.
Não desperdices tão preciosa oportunidade de ser criança, como a que te
ofereço quando alguém te magoa. É então altura de te chegares mais para
Mim, te abraçares comigo, sem te quereres pôr a olhar com olhos zangados
para quem te fez tal ou tal coisa!
Se Eu não lhes desse ocasião e poder para isso, não o fariam. Se fazem o
mal contra ti, por sua própria vontade, se na sombra armam ciladas e
embustes para te prejudicarem, isso são contas que terão que Me dar a Mim.
Tu fica em paz e aprende a respeitar a cruz como se de um sacramento se
tratasse.
Cala a tua boca, ergue os teus olhos, põe o coração em Mim e verás que a
seu tempo tudo será sanado. Entretanto, acompanha-Me, unindo a tua cruz à
minha, e terás grande mérito, porque participarás dos meus próprios méritos,
que são infinitos.
Dentro deste Coração coloca tudo isso, tudo o que fazes, para que Eu o
aperfeiçoe; tudo o que pensas, para que Eu o pacifique; tudo o que dizes,
para que Eu o regre; a tua própria cruz, para que Eu a glorifique.
Fica aqui comigo, na minha paz.
Alma
Ó Jesus, como Tu és bom! Aqui, junto do teu Sacrário, vejo bem a
relatividade de tudo quanto passa!... Realmente, eu dou sempre tanta
importância, importância demasiada ao que acontece e não sei ver a tua mão
santificadora em tudo que me dás, não porque gostes que eu sofra, mas para
que esteja contigo na Cruz, na tua Cruz, onde Tu me admites com a minha,
para que a minha desapareça no clarão de glória da tua Cruz salvadora, que é
a chave do Céu..
É para mim uma alegria poder consolar o teu Coração com a minha pobre
presença junto de Ti. Mas que faço eu para isso? Só com a minha presença,
Senhor, já Te dou alegria? Sim, entendo que a minha presença aqui Te
alegra, mas não é tudo. É preciso que eu queira continuar a ser fiel, a dar-me
e a fazer tudo aquilo que me ensinas.
Sim, meu Senhor, eu quero ser assim. Quero seguir os teus ensinamentos.
Quero dar-me a Ti com generosidade. Quero aceitar a cruz que surge em
cada dia, sem me pôr a reflectir nos porquês dela ou sobre quem a construiu.
Quero unir-me a Ti, como criança que em nada mais pensa senão na
segurança que tem nos braços do pai.

140
Aqui, dentro deste Coração de Amor que é o teu Sacrário, quero guardar a
cruz que neste dia me coube, para que Tu a abençoes e me abençoes, a fim
de que eu a leve com amor e paz, em união com tudo o que Tu tiveste de
sofrer com a tua.
Aqui me tens, Senhor, faz-me pequena, tão pequena que caiba aí, contigo
nesse Sacrário, que é um Coração cheio de Amor, onde quero deixar o meu
coração para sempre.
É aí dentro que Te quero hoje adorar, com os Santos Anjos, aí dentro, mais
perto, ainda mais perto de Ti, numa união tão íntima, que nenhuma coisa no
mundo nos possa separar.

141
Sacrário – Reparação
Querida alma, já te falei várias vezes do meu amor atrai-
çoado, por tantas almas a quem muito amei, a quem muito dei, e que
acabaram por Me abandonar e tudo Me negar.
Algumas nem quiseram tomar conhecimento das minhas graças e
preferiram atolar-se nas lamas do mundo, aceitando todo o veneno que o
mundo oferece e tomando até, por vezes, partido contra Mim.
Outras avançaram um pouco, mas recuaram quando viram que o caminho
se tornava mais estreito e se dirigia para a cruz. Recuaram quando comecei a
pedir-lhes um pouco mais, para que se aperfeiçoassem. Procuraram esquecer
o que lhes pedia, aturdindo-se com obras que dizem ser de caridade, mas que
têm mais de activismo do que de caridade verdadeira.
Outras ainda, recolheram-se à mediania das suas vidas, das suas profissões
e abandonaram todo o meu ensino, contentando-se com algumas orações que
pouco têm a ver com a verdadeira oração, e caindo por vezes em superstições
variadas. E tudo isto por medo de que Eu lhes pedisse mais que aquilo que
estavam dispostas a dar.
Há ainda aquelas que saltitam de igreja em igreja, de grupo em grupo, de
reunião em reunião, procurando sempre encontrar novas pessoas, mas não
tomando a sério uma verdadeira emenda e vida, gravitam sempre em torno
da futilidade, mesmo tomando uma atitude religiosa.
Não chegam a aprender nada de bom com os bons ensinamentos que às
vezes encontram, e deixam-se contaminar, nesse corre-corre, por alguns que
também encontram e que lhes ensinam doutrinas contaminadas com ideias
que não deixei na minha Igreja, nem nas Sagradas Escrituras, nem na
Tradição que ela guarda com amor.
Outras há que pensam saber muito e passam por todo o lado essa
mensagem, tentando aparentar uma santidade que não possuem.
Também saltitam por muitas igrejas, por muitos grupos e reuniões,
procurando consolações ou no intuito de subir nas opiniões e serem tomados
por almas muito santas e muito sábias.
Dão opiniões e conselhos a quem não os pede, metem-se na vida de toda a
gente, semeiam a confusão e o cansaço por todo o lado, com as suas
pregações, que são movidas pela ambição da superioridade sobre as outras
pessoas.
Outras parecem um monumento de sofrimento contando por todo o lado o
que sofrem e as penitências que fazem, aquilo que rezam e a vida de
santidade que levam, repreendendo toda a inocente brincadeira, que nunca

142
ninguém pode ter junto delas, como se a vida de união comigo fosse afinal
um aborrecimento. Nunca há nelas um sorriso, nem uma palavra alegre, mas
a crítica sobre os irmãos faz negras flores e amargos frutos brotar dos seus
lábios.
Tais almas só servem para afastar os jovens e outras pes-
soas ingénuas do caminho da minha Igreja, pelo temor de terem de levar uma
vida como esta que se lhes apresenta.
Há enfim muitas espécies de almas, mas quero agora falar-te daquelas a
quem dei vocação de consagração e que Me recusaram a doação de si
próprias, dando-Me com isso muita da dor que senti no Calvário.
A alguns dou a vocação de consagração em conventos, a outros no mundo
e a outros ainda, a vocação sublime do sacerdócio.
O sacerdócio é, meu filho, a vocação mais sublime que posso conceder a
uma alma. Por isso mesmo, não a concedo a todos e é preciso que cada um
aprenda a discerni-la em si próprio, sem se confiar a opiniões de terceiros,
que não sabem o que é que outra alma experimenta em si, de santos desejos
íntimos.
A vocação ao sacerdócio é por Mim colocada como uma flor no coração
de um jovem. Só ele a pode sentir e mais ninguém, porque não é sinal de
vocação ao sacerdócio a bondade natural, a inteligência, o apostolado, a
piedade, o dom da palavra, ou qualquer outro dom. Também o desejo de
perfeição e o trabalho de seguir pelo bom caminho não é indicação segura.
É grande erro induzir alguém a segui-la, só porque é uma alma virtuosa ou
por outro motivo, sem que essa alma sinta no seu íntimo, com alegria, o meu
chamamento específico, porque se não o sente, não tem as graças necessárias
para seguir esse caminho com êxito.
Por causa disso muito têm sofrido alguns a quem Eu quero no matrimónio,
mas que vivem confundidos com as vozes de quem os deseja encaminhar
para outro lado.
Ninguém deve fazer tal coisa. Ninguém deve procurar levar uma pessoa
por um caminho de opção de vida que lhe parece melhor, porque isso será
querer colocar-se na minha posição e querer escolher por Mim os meus
servidores.
Só Eu o faço. Só Eu distribuo as vocações, e não é por alguém ser piedoso,
falar bem ou ter qualquer outra boa qualidade, que deve ser empurrado para
uma vocação que não é a sua. Isso é muito perigoso e já têm aparecido
muitos maus frutos de tais procedimentos, porque as forças e outros
requisitos necessários a cada estado de vida sou Eu quem os dá, conforme a
vocação que dou a cada um.
A indicação está no desejo íntimo que Eu dou a cada alma, para aquilo em

143
que o quero, e que encerra uma felicidade que é independente dos trabalhos
ou sofrimentos pelos quais tenha de passar para atingir a realização desse
desejo.
Mas assim como é errado e não dá certo alguém ser atirado para uma
vocação que não é a sua, também é errado fugir àquela que Eu concedo.
As almas a quem dou vocação para o sacerdócio sentem-na em si, mas
muitas delas fogem com receio das dificuldades, ou recusam-se a ouvir o seu
próprio íntimo, aturdindo-se no mundo e nos trabalhos que têm para fazer.
O mesmo acontece àqueles a quem dou vocação de consagração nos
conventos ou no mundo. Também muitos recusam a voz íntima que sentem e
preferem aquilo que o mundo lhes mostra e o que as companhias que
frequentam lhes dizem.
Sobre o que tais almas sofrerão noutro tipo de vida, para a qual não as
talhei e a quem, portanto, não dei dotes naturais para ela, seria muito longo
falar-te agora, mas fica com a ideia geral de que nunca se sentirão
plenamente realizadas. Vingam-se disso muitas vezes, afastando-se da Igreja
e despejando sobre ela todo o fel que lhes sobra interiormente.
Outras, mais moderadas, arrastam o seu sofrimento por uma vida sem
alegria, ou procurando aturdir-se no mundo e nas suas distracções. Sentem
dificuldades em tudo o que fazem, como uma peça de máquina deslocada do
seu lugar. Muito frequentemente perdem a fé, porque não têm forças para
resistir ao mau clima do mundo, porque não rezam e se deixam levar por
aquilo de que se rodeiam.
Há finalmente as almas consagradas e os sacerdotes, que num dado
momento das suas vidas, levados pela tentação a que não quiseram resistir,
da qual não se afastaram a tempo, e que os levou a entrarem em confusão, a
duvidarem da sua vocação e a renunciar a ela, Me abandonaram pelas
futilidades do mundo, pelas suas próprias comodidades e quereres, ou por
uma pessoa que conheceram, à qual se apegaram e a quem passaram a amar
mais do que a Mim.
Pesou-lhes a minha pobreza, ante as riquezas falsas do mundo as suas
futilidades e vaidades; pesou-lhes a obediência que Eu lhes pedia, por causa
do seu espírito soberbo que queria saber mais que aquilo que Eu lhes dizia e
pedia, através dos superiores; pesou-lhes a castidade, porque não souberam
consagrar-Me inteiramente o seu corpo, com todas as renúncias que isso
implica.
Também lhes pesou o meu silêncio, o silêncio com que Eu envolvo os
meus consagrados, e passaram a reclamar daquilo que lhes acontecia e a
desabafar com pessoas que não sabiam aconselhar devidamente. Aqui o meu
silêncio tornou--se maior, porque onde muitos falam, Eu calo-Me, e a pobre

144
alma, em confusão total, optou por escolher para si a pior parte: parte que o
mundo oferece.
Quero também falar-te daqueles a quem dei vocação para pais e mães de
família. Esta vocação normalmente é pouco considerada pelos cristãos, como
uma vocação menor, mas não é assim. A vocação ao matrimónio é muito
importante, porque os esposos são os directos colaboradores na Criação. É a
vocação mais vulgar, mas não é a menos importante, antes pelo contrário.
Sobre os ombros dos pais repousa o importante encargo de, além de dar
filhos ao mundo, os orientar, ensinar e guiar nas suas próprias vocações, que
dificilmente entenderão bem, se os pais não lhes proporcionarem um sólido
ensino moral e religioso.
A vocação ao matrimónio não é fácil, porque estes cristãos, que vivem em
pleno mundo e com ele têm de lidar de perto, estão muito sujeitos às suas
influências, às suas solicitações, horários, problemas múltiplos e barafunda.
Para serem fiéis, precisam de oração, muita oração, e precisam de habituar
os seus filhos a rezar.
Muitas vezes, no meio da confusão em que vivem, se não rezam,
facilmente se desentendem, devido ao temperamento de cada um e ao
cansaço em que o mundo os deixa e que lhes tira a paciência para fazer
cedências.
Sem ceder uns aos outros, irritando-se e desejando vida mais a seu gosto,
caem em tentações de falta de aceitação dos filhos, de irritação, de desânimo,
de adultério, de falta de perdão e de separação.
Por isso se vêem tantos casais separados, tantas famílias desfeitas, tantos
filhos por maus caminhos.
O caminho do matrimónio é um caminho difícil e requer sempre oração e
ensino religioso, de contrário jamais se entenderão uns com os outros, e os
filhos, mal ensinados, irão por sua vez dar origem a outros lares desavindos,
continuando a aumentar cada vez mais a chaga dolorosa do divórcio e a
propagar-se o crime terrível do aborto.
São estes os casos que ponho hoje à tua meditação e à tua reparação,
porque é preciso com urgência almas reparadoras, que reparem realmente
todas as brechas que os abandonos, os actos de vontade própria defeituosa,
fazem no meu Corpo Místico.
O meu Sacrário é o lugar da reparação, porque Eu próprio aqui ofereço a
melhor de todas as reparações, ofereço uma reparação infinita, sem a qual,
toda e qualquer reparação de nada serviria, por ser sem valor.
Então para que te peço reparação se a minha é a única que realmente vale?
Porque fazes parte do meu Corpo Místico e no corpo não é só a cabeça que
trabalha. Todos os membros devem trabalhar.

145
Só unida à minha reparação a tua tem valor. E quanto mais a unires a Mim,
mais valor terá, será mais purificada e participará dos meus méritos que são
infinitos.
Há muitas formas de fazer reparação, mas a muitos que as fazem de pouco
aproveita, porque, se não for unida à minha, não atinge os fins em vista.
Assim, não te servirá de nada fazeres muita penitência, desgastares-te com
jejuns, vigílias e muitas orações, se fizeres tudo isso pensando que és melhor
que os teus irmãos que comem bem, que dormem sossegadamente e rezam
pouco.
Lembra-te de que perde todo o valor aquilo que fazes, seja o que for, se o
fizeres com espírito de soberba. Já te tenho recomendado este ponto, mas
nunca é de mais voltar a ele, porque este espírito é como um gás que penetra
por qualquer fenda ou fissura e vai, muito subtilmente, envenenar todo
aquele que o respira.
Repara que não importa aquilo que fazes, não importa fazeres muitas
coisas, importa aquilo que Eu quero que tu faças e como o fazes,
principalmente se o fazes com espírito de humildade, porque sem humildade
tudo quanto puderes fazer perde o valor.
Há no mundo muita penitência e muita oração soberba, que em tudo se
assemelham à oração do fariseu que Eu reprovei no Evangelho (Lc 18,9-14).
Nada disso tem realmente valor a meus olhos, se leva as almas à vaidade
espiritual, e torna-se completamente inútil, tanto para quem a pratica, como
para a reparação que tenho em vista.
Vem para junto de Mim em silêncio, que também em silêncio Eu te direi
como quero que repares. A uns peço umas coisas, a outros, outras. Nunca te
detenhas a reparar naquilo que os teus irmãos fazem. Isso não te diz respeito
e, com tais pensamentos, corres um grande risco de lesar a caridade ou a
humildade.
Fica atenta, querida alma, ao que te peço a ti, pessoalmente, e não queiras
imitar ninguém, nem fazer algo por respeito humano.
Também não dês a saber aquilo que fazes. Já te tenho recomendado que
essas coisas devem ficar só entre nós, porque quando dás a saber essas coisas
íntimas, corres o risco de cair na vaidade, mesmo que te pareça que não,
porque tudo isto acontece com tanta subtileza que nem do próprio mal se dá
conta.
Não penses que isso não te acontece a ti, porque… há imensas desculpas
que sabes arranjar. Não, meu filho, toda a alma é susceptível de vaidade e,
por vezes está tão entranhada, dentro de tantos refolhos, que é muito difícil
para a pobre alma, não só vê-la, mas também livrar-se dela.
É aqui junto de Mim, com as tuas doces palavras que farás muito da tua

146
tarefa reparadora. É aqui adorando, participando na reparação que Eu próprio
dirijo ao Pai, que te unirás ao merecimento infinito da minha reparação.
Fica aqui, une-te comigo e repara por ti e pelos teus irmãos, porque há
muito para reparar, por tanto pecado e tanta ingratidão que há por todo o
mundo.
Alma
Ó bom Jesus, aqui me tens, pronta a reparar por tantas culpas que são
minhas e pelas culpas dos meus irmãos. Somos todos tão pecadores, que
nunca saberia dizer quem é mais pecador que o outro. Nunca me atreverei a
julgar qualquer irmão, por muito graves e muito públicas que tenham sido as
suas faltas.
Sim, meu Jesus, é em primeiro lugar pelas minhas faltas, tantas e tão
repetidas que quero reparar, porque estraguei o edifício de perfeição da tua
Igreja, beleza que queres apresentar ao Pai.
A este edifício perfeito, eu vou repetidamente tirando pedras e mais
pedras, cada vez que falto às minhas obrigações, cada vez que Te sou infiel e
falto aos teus Mandamentos, mesmo que seja em faltas leves. Serão pedras
mais pequenas, mas ainda assim, o edifício fica danificado.
Imploro o teu perdão, nesta hora em que entendo o que tenho feito de mal
à Igreja, com aquelas pequenas faltas que parecem sem importância. E que
direi das maiores?
Confundida de vergonha, a teus pés, prometo reparar pela oração, pela
aceitação dos meus deveres que farei com toda a perfeição possível, pela
aceitação da cruz sem reclamar, pelo trabalho de vencimento pessoal das
minhas más tendências e fuga ao que me é sugerido pela tentação. Repararei
também de alguma outra forma que Te dignes indicar-me.
Tudo isto ofereço como reparação pelas minhas faltas e por todas as faltas
dos meus irmãos, pelos casais que não rezam, que não cumprem as suas
obrigações para com os filhos, que se desentendem, que se separam, que não
se perdoam mutuamente, que não aceitam os filhos que lhes queres dar.
Ofereço também por aquelas almas que não Te dizem “sim” à vocação que
lhes deste, e principalmente pelos consagrados e sacerdotes pouco generosos
que falham nas suas obrigações, que abandonam a sua consagração.
Uno-me à tua reparação infinita e à dor de Maria no Calvário, para aqui,
no teu Sacrário, entregar todos os actos de reparação de toda a minha vida.
Entrego também toda a reparação de todas as outras almas reparadoras que
existem no mundo ou nos conventos.
Digna-Te, Jesus, aceitar esta nossa pobre reparação e uni-la à Tua, para
alcançar o valor de uma reparação verdadeira, que a todos nos dê amor e

147
força, e nos coloque em cada dia no caminho em que Tu nos queres.
Ensina-nos a ser almas generosas, à imitação da tua própria generosidade,
que se dá a nós. Assim também nos queremos dar a Ti, inteiramente, todos
os dias, em fidelidade.
Nesta visita que Te faço hoje, desejo fazer adoração reparadora por todos
estes motivos e por tudo o mais com que Te temos magoado, em ingratidões,
infidelidades e abandonos.
Adoro-Te em nome de todos os que não Te vêm adorar, pelos que nunca
vêm ao teu Sacrário, pelos que Te insultam, Te abandonam, Te tratam sem
respeito e amor.
Adoro-Te pelos que não querem adorar-Te, pelos que nunca pensam em
Ti, pelos que Te trocam pelos seus prazeres pessoais.
Adoro-Te em nome de todas as criaturas da Terra e de todo o universo.
Adoro-Te em união com todas as almas que Te adoram, com os teus
Santos Anjos e tua Santa Mãe.
Nesta adoração, prostro todo o meu ser, este pó que eu sou, e que a Ti se
entrega, porque só Tu és o meu Senhor.

148
Sacrário – Luz
Alma, minha filha, tu que estás aqui a meus pés, levanta o teu rosto e fita o
meu Sacrário, porque dele parte a luz com que te quero iluminar.
O meu Sacrário está cheio de luz e irradia-a como um foco.
Se queres ter luz, aproxima-te e Eu te iluminarei, para que sempre vejas
claro no teu caminho. A minha luz irá acompanhar-te e mostrar-te o que
deves fazer, em vez de ficares em dúvidas, para não caíres em erros que
venham a trazer-te amargura.
Lembras-te daquelas vezes que fizeste opções, que tomaste resoluções de
que depois te arrependeste, porque viste que erraste? Porque é que isso
aconteceu? Sim, foi porque não Me consultaste primeiro, porque não Me
pediste opinião, porque não contaste comigo em primeiro lugar, mas com os
teus raciocínios, porque não te colocaste sob a minha luz e, por isso, não te
deixaste guiar por ela.
E porque é que fizeste tal coisa? Simplesmente, porque foste apanhada em
momentos de dissipação, ou porque pensaste que sabias o suficiente para
poderes resolver sozinha e procedeste como se tudo dependesse apenas de ti.
No mínimo são atitudes ingénuas, mas repara que podem tornar-se atitudes
filhas da soberba natural do homem, que gosta de ser dono da sua vida e dos
seus próprios planos, como se eles se viessem a realizar com toda a certeza.
É aquela velha tentação que diz: “Sereis como deuses” (Gn 3,5).
Se viveres à sombra do meu Sacrário, aprenderás a contar só comigo, a
raciocinar segundo os meus planos e a minha Vontade, que aos poucos te irei
mostrando, viverás sempre na luz, na luz que ajuda a discernir, na luz que
não engana nem deixa que te enganes.
Alma, minha filha, o Sacrário é fonte de luz, porque Eu sou a Luz eterna, e
estou aqui dentro, à espera que te aproximes, para irradiar sobre ti. Aceitas-
me? Aceitas a Luz que te quer inundar?
Repara que para receber a minha luz terás de ser uma alma
verdadeiramente humilde, porque a minha luz foge aos mundanos, aos que
vivem na imoralidade, aos soberbos, àqueles que querem dar nas vistas e aos
ambiciosos, que usam duplas intenções para fazer as coisas. Esses, enquanto
persistirem nos seus erros, permanecerão cegos e guiar-se-ão pelas falsas
luzes do anjo das trevas.
As luzes falsas circulam pelo mundo em estranhos efeitos, que iludem
muitos. O mundo está obscurecido, como numa contínua noite, apenas
sulcada por essas falsas luzes, que muitos seguem, na loucura da sua
cegueira progressiva.

149
A minha luz nasce docemente e irradia do meu Sacrário, para guiar
aqueles que verdadeiramente se querem deixar guiar por ela.
Às vezes mando um clarão mais forte, procurando convencer algumas
pobres almas a segui-lo, mas poucas o fazem, seduzidas pelas cores fortes
das luzes enganadoras do meu inimigo.
Tu aproxima-te da luz que Eu te forneço. Se não puderes vir ao meu
Sacrário todos os dias, vem pelo menos em pensamento, que Eu mandar-te-ei
a minha luz e ela irá ter contigo onde quer que estejas, e acompanhar-te-á em
todos os teus trabalhos, em tudo o que tiveres para resolver.
O caminho da luz é sempre um caminho recto. Por ele seguirás em
segurança, sem perigo de caíres em algum buraco, oculto na escuridão que
envolve tudo o que se passa nos vossos negócios, nos vossos trabalhos, em
todos os vossos relacionamentos.
Quantas vezes tal pessoa te parece boa e depois, mais tarde, descobres que
te enganaste, porque apenas se quis servir de ti, te enganou, traiu ou
caluniou? Tudo isso por causa da escuridão que ultrapassa até as mentes dos
homens e os faz armar ciladas e traições uns aos outros.
Não sabes o que está nas mentes dos que te rodeiam, mas podes procurar a
minha luz que te faça ver e discernir em cada coisa.
Por isso te recomendo que não tomes nunca resoluções precipitadas. Não
sabes o plano que Eu tenho para cada coisa, e aquilo que planeias fazer, pode
nem vir a ter ocasião de se realizar.
Não resolvas nada sem primeiro falares comigo e te colocares na minha
luz, sem Me perguntares o que é que Eu quero fazer a esse respeito.
Podes e deves também, quando se trata de coisas importantes, aconselhar-
te com quem sabe mais que tu da matéria que estiveres a tratar, e Eu próprio
iluminarei essa pessoa para que te dê um conselho adequado. Mas sobre a
pessoa que procuras para te aconselhar, também deves pedir-Me opinião,
para não caíres nas mãos de algum mau conselheiro.
Para tudo isso é preciso tempo e oração. Por isso te digo que nunca te
precipites a tomar resoluções. Se fores prudente não será fácil caíres em
ilusões e enganos, que por vezes são postos à tua frente enfeitados de flores e
de frutos ilusórios.
Quantas vezes te tentarão enganar apontando para frutos que parecem
verdadeiros, mas não são, frutos que parecem consequência de um bom
trabalho, mas são consequência de muitos enganos, frutos que parecem ser
meus, mas são frutos do meu inimigo. E muitos os comem!
Muitos até se sacrificam bastante, na ilusão de se chegarem a esses frutos
brilhantes. Quanta ilusão, em quem se deixa embalar com promessas de
coisas enganadoras!

150
Vem, aproxima-te de Mim. Deixa que encante os teus olhos com a
suavidade da minha luz, que não fere, não encandeia, mas docemente mostra
onde está o Amor a que te deves entregar.
Caminha na minha luz e encaminhar-te-ás sempre para o Sacrário. Verás
que é daqui que irradia toda a luz, pelas frestas da sua porta fechada, porque
cá dentro está o verdadeiro foco de luz, que não deixa que te enganes no
caminho.
Cá dentro está Aquele que é Luz soberana que veio ao mundo, ao que era
seu, mas os seus não O receberam (Jo 1,11).
Mas receberam e ainda recebem outros que os enganam com luzes falsas.
São aqueles de quem Eu disse, que se viessem em seu próprio nome, haviam
de ser recebidos (Jo 5,43).
Sim, vêm em seu próprio nome e não em meu nome, embora consigam
enganar muitos incautos. levando-os a fazerem coisas estranhas, diferentes,
muitas despesas, imensas canseiras e muitas vezes apoderando-se dos seus
haveres, tudo isso bem tapado com palavras de piedade.
Aprende sempre a discernir. Vê que Eu nunca peço coisas fora do normal,
nunca peço disparates. Não te deixes seduzir por luzes que apontem para
coisas diferentes daquelas que a Igreja aprova, mesmo que te contem
histórias bonitas de frutos muito bons.
Não queiras sequer provar esses frutos, porque muitas vezes têm em si um
certo narcótico que inebria e entontece quem os experimenta, levando-os a
continuar por esse caminho enganador, sem perceberem em que é que se
enredam.
Conforme os casos e os enganos em que caem, alguns abandonam-Me
depois e abandonam a minha Igreja, para seguirem outros caminhos.
Outras almas continuam comigo, continuam a frequentar a Igreja e os
Sacramentos, mas estão muito cegas pelas falsas luzes que deixam misturar
na sua piedade. Por isso, arranjam bastantes problemas nas suas vidas,
embora nada vejam daquilo que está realmente errado e sejam capazes de
defender firmemente as luzes encadeadoras em que vivem.
Sim, Eu sou a Luz que veio ao mundo. Quem recebe esta Luz? É uma Luz
tão suave, que muitos mal reparam nela. É por isso que se deixam enganar
por luzes mais vibrantes.
A minha Luz chega para preencher a tua capacidade? Ou precisas de mais
coisas?
Não, tu não precisas de mais nada. Só precisas de Mim!
Queres receber-Me e ficar comigo? Abençoo-te e chamo-
-te minha filha, porque “a todos aqueles que Me recebem e que crêem no
meu nome, dou-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12).

151
Sim, tu recebes-Me, aceitas-Me, aceitas o meu Amor, a minha Vontade,
crês em Mim, na minha Presença eucarística. És realmente minha filha,
porque nada disto aceitarias se não Me amasses.
O meu Amor já está a florir em ti. Em breve dará frutos que alimentarão
muitos irmãos teus. Não te aflijas se, para se produzirem esses frutos, a tua
cruz se tornar um pouco mais pesada. É assim que Me ajudarás nesta tarefa
da conversão das almas.
Não tenhas medo, que junto de Mim, na luz do meu Sacrário não errarás,
mas seguirás afoita pelo caminho que Eu te indicar, mesmo que venham
alguns gritar ao teu lado, dizendo que não é só por aqui que devias ir e te
pedirem para os acompanhares a outros lados.
Responde-lhes que não precisas senão de Mim, que não precisas de mais
luzes senão da minha, que é a Luz que sempre guiou a minha Mãe, a mais
santa de todas as criaturas que já existiram ou hão-de existir no mundo.
Aprende que mesmo Ela só se move na minha suave Luz e não em luzes
diferentes e entontecedoras. Ela é a Mãe suave, que nunca é demasiado
exigente com os seus filhos, que na sua bondade procura salvar a todos.
Na Luz do Sacrário também seguramente a encontras, pois Ela está sempre
comigo e não é preciso ir muito longe para a encontrar.
Não te afastes do meu Sacrário. É aqui que encontras tudo aquilo de que
precisas. Se seguires a minha luz, irás sempre por caminho seguro.
Um dia, esta porta abrir-se-á para ti e mergulharás no Ocea-
no de Luz que te espera e onde ficarás por toda a eternidade.
Alma
Jesus, Luz da minha vida, só a teu lado me sinto segura. Só junto de Ti
vejo o caminho e sigo em segurança.
Fora de Ti, tudo são trevas e enganos, mas aqui, nesta luz que sai do teu
Sacrário e irradia como uma estrela, vejo os enganos em que caí pela minha
inexperiência, pela ingenuidade que tive em me embrenhar por caminhos que
eu pensava claros, mas não eram!
Eram luzes que procurava nos meus raciocínios, naquilo que pensava
poder fazer e resolver sozinha ou com ajudas de alguém que, criatura como
eu, também nada pode senão enganar ou enganar-se. Essas luzes eram todas
falsas! Não eram a tua puríssima luz!
Não quero mais caminhar entre trevas de enganos e falsidades. Não os sei
ver nesta escuridão em que tantos caem e em que eu também já tenho caído.
Hoje, com as pernas esfoladas de tantas quedas inúteis e até prejudiciais
para mim, venho junto de Ti e prometo não me afastar mais da tua doce luz,
fazer dela o farol que me guia, e olhar mais para ela, quanto mais me

152
parecerem aliciantes as outras luzes, as luzes enganadoras.
Quero ficar junto de Ti, mesmo quando tiver de me afastar fisicamente do
teu Sacrário. O meu coração sempre aqui ficará e de Ti não se retirará,
porque está preso pelos teus encantos.
Aceita-me aqui, junto de Ti em adoração e louvor, com os Santos Anjos,
em acção de graças, por tantos benefícios que me tens concedido, e perdoa-
me tudo o que tenho feito que Te desagrada. Perdoa quando deixo de Te
olhar, atraída por outros brilhos.
Peço-Te que, quando isso voltar a acontecer, chames o meu coração à
ordem, o repreendas e carregues o meu bom Anjo de graças de compunção
para mim, a fim de que cada dia, me torne mais fiel e mais presente à luz do
teu Sacrário.
Nesta luz fico agora em adoração a Ti, Senhor Jesus, Deus Altíssimo,
Senhor “que és a verdadeira Luz que vindo ao mundo ilumina todo o
homem” (Jo 1,9).
Aceita a minha pobre adoração, em união com todos os teus Santos Anjos
em roda deste Sacrário.

153
Sacrário – Remédio
Alma dolorida que te aproximas de Mim, diz-Me quais são as tuas dores,
aquilo de que te queixas, porque Eu quero curar-te das tuas feridas, de tudo o
que te faz sofrer.
O meu Sacrário encerra o remédio eficaz para todos os teus males, pobre
alma! Digo-te mais, o meu Sacrário encerra o único remédio que podes
tomar para te curares dessas feridas de que tão frequentemente te queixas e
de outras que ainda desconheces, porque Eu não te deixo ver todas as tuas
mazelas, para não caíres em desânimo.
Meu filho, minha filha, Eu sou o teu Remédio! Vem a Mim porque quero
curar-te, pobre alma doente, a quem afligem dores e feridas múltiplas. Vem a
Mim com confiança! Sou o teu Senhor, Aquele único que tem poder e te
ama, como ninguém alguma vez te amou.
Queixas-te dos teus pecados? É para ti muito difícil livrares-te deles, pois
constituem já uma doença crónica? Vem, Eu curo-te, com a minha presença
e com o meu Amor pode-
roso.
Nunca deixei de acolher seja quem for que tivesse recorrido a Mim para se
curar de tão grandes males. Mas é preciso que tenhas fé e que tu própria
queiras curar-te.
Às vezes não queres. Às vezes gostas desses males, às vezes sentes-te bem
com determinados pecados. Já sabes que os costumas fazer e sentes-te bem
com eles. Por vezes, nem os confessas!
Alma, minha filha, há pecados e pecados. Não vou falar-
-te muito agora do pecado mortal, esse mal de morte em que vivem tantos
pobres infelizes.
À partida tu serás uma alma que o detesta e lhe foge através da oração e da
guarda dos sentidos. Sabes que é mal que quebra a ligação comigo e que
origina a perdição eterna das almas que não se arrependem e assim morrem.
Se te acontecer alguma vez nele caíres, arrepende-te imediatamente e
confessa-te o mais breve possível, pois esse é o meu remédio de cura para ti,
nessas circunstâncias. Mas, mesmo nessa situação não fujas de Mim, porque
o meu Amor é imutável. Eu amo-te, mesmo pecadora, e só espero que Me
aceites, que dês sinais de arrependimento, para Te perdoar tudo.
Nunca desanimes, seja o que for que te aconteça, seja qual for o pecado em
que venhas a cair, mas regressa sempre a Mim, que sempre encontrarás o
mesmo Amor transbordando do meu peito.
Nunca penses que não és capaz de te emendar disso. É verdade que sem a

154
minha ajuda não és capaz, mas, se Me pedires com fé e amor, Eu te ajudarei
a vencer.
Quero agora falar-te principalmente do pecado venial, que está tão
esquecido entre vós.
Para a maior parte dos cristãos, o pecado venial não tem importância
alguma e são considerados exagerados e demasiado puristas aqueles que se
preocupam com isso.
É essa doença que, como pequenas chagas desfeiam as pessoas que os
cometem. Imagina uma pessoa com o rosto e o corpo cobertos de pequeninas
feridas que dissesse que isso não tem importância!
Pecado venial é tudo o fazes contra a minha Lei, em matéria leve. É como
dizeres-Me que sabes que isso é contrário à minha Vontade, mas que não te
importas nada que Me desagrade, porque não é grave e te agrada a ti.
É uma falta de respeito para com o teu Deus e não tens direito de o fazer
por motivo algum, porque o teu Deus é digno de toda a honra e toda a glória.
Lembra-te, nas alturas em que tiveres que optar, que não há motivo algum
no mundo, nem a coisa mais importante, que justifique um pecado venial.
Destes pecados Eu te purifico logo que te arrependes verdadeiramente, e
também quando a ti desço na Comunhão. Mas não se justifica que os
cometas, pensando que não faz mal, porque logo te arrependerás. Tal
pensamento seria um abuso da tua parte à minha Misericórdia, e poderia
deixar-te cair a breve prazo em pecados graves.
Por isso te digo que sou o teu Remédio, mas é importante que queiras
curar-te, porque se não queres, se não te arrependes sinceramente e se não
procuras emendar-te, como que Me atas as mãos e nada poderei fazer por ti,
porque nunca tiro a vontade livre de cada um. Só curo as tuas chagas se tu
quiseres, se tu deixares.
Uma chaga que faz sofrer atrozmente os meus filhos é a falta de perdão,
que provém da doença do ressentimento. Mas há outras. Entre elas, a tristeza,
a soberba, a ambição, a vaidade, a inveja, o egoísmo, a futilidade e a
imoralidade são as mais frequentes, e delas derivam imensos pecados.
Consegues ver as tuas próprias chagas? Então chega-te para junto de Mim
e deixa que te fale delas.
Se tens falta de perdão, vives no ressentimento e isso faz com que penses
repetidamente naquilo que alguém te fez, de tal forma que cada vez
avolumas mais o assunto. Não és feliz, porque vives com esse espinho que te
vai dilacerando cada dia. Acabas por deixar vir à tona o desejo de vingança,
mesmo que seja só uma vingança pequena. Por isso, começas a desejar mal
ao teu próximo de quem tens queixas e talvez até a falar mal dele, o que pode
ser bastante grave, mesmo que tenhas razão.

155
Que mal te fazem esses pensamentos! De tal forma te prejudicam, que
poderás arranjar alguma doença física.
Se é disto que sofres, fica junto de Mim e deixa que te cure. Diz-Me tudo o
que te fizeram. Sim, a Mim podes dizê-lo, que Eu saberei consolar-te, mas
depois vou dizer-te que perdoes e que deixes de pensar nisso. Se não estás
disposta a fazê-lo, não poderei curar-te e ficarás para sempre a sofrer desse
mal, que te pode levar muito longe no pecado.
Às vezes acontece que se trata de alguém com quem convives, com quem
trabalhas ou que continua a contactar contigo, sem tu quereres e te faz sofrer,
com palavras ou com actos.
Nestes casos, terás de continuar a perdoar dia a dia, a aceitar isso como
uma cruz, embora possas muito legitimamente, se for possível, procurar fugir
da pessoa que assim te mortifica.
O caminho é procurares junto de Mim remédio diariamente, pois as
situações podem ser muito difíceis de controlares sozinha. Podes também
tomar conselho junto de quem te souber aconselhar. Mas o mais importante
de tudo é o perdão que terás de dar continuamente, porque se não perdoas,
nada mais adianta, e não curas essa tua chaga tão dolorosa.
Sofres da doença da soberba? Quantos canais tem o grande rio da soberba!
Este rio é como um delta enorme que desagua no mar fétido do pecado,
porque a soberba leva a muitíssimos pecados.
Se sofres de soberba, pensas que és a melhor pessoa do mundo e tens
muita dificuldade em te arrependeres dos teus pecados, justamente porque te
recusas a vê-los, pensando teres sempre razão para tudo quanto fazes.
Não te importas de trabalhar, tens até prazer na falta de tempo, porque te
promove, mas queres que reconheçam o teu trabalho como muito bom,
talvez melhor que o dos outros, gostas de falar, de seres ouvido e de te
ouvires a ti próprio, tens uma opinião muito boa sobre tudo o que fazes.
Consideras-te uma pessoa com conhecimentos, com inteligência, com
virtudes, com muitas coisas que os outros não têm, e ai de quem diga o
contrário, de quem te contrarie seja no que for, pois tu não o suportarás e
essa pessoa entrará no teu desagrado contínuo.
É por isso que as pessoas soberbas são também pessoas ressentidas e com
muita falta de perdão.
Se sofres de soberba, também cais frequentemente na ira, quando te
contrariam, e moves céus e terra para fazeres a tua vontade, combater quem
te contraria, conseguindo até, por vezes, incomodar bastante o teu próximo e
prejudicá-lo, com grandes lesões da justiça e da caridade.
Lembra-te de que se pensas no que fazes e premeditadamente prejudicas o
próximo, seja de que forma for, estás a adquirir uma pesada dívida junto de

156
Mim.
Se este é o teu mal, tens muito de que te humilhar, porque os soberbos são
repugnantes aos meus olhos. Lembra-te de que a soberba foi o pecado que
precipitou o anjo da luz no inferno.
Sim, Eu sei que tu não te importas de servir, até gostas de fazê-lo, porque
esse serviço que fazes é gratificante e te eleva aos olhos dos teus irmãos.
Mas que dirias se te fosse distri-
buído um serviço onde não pudesses brilhar, onde ninguém te conhecesse e
não te dessem importância? Vê quanta soberba se pode meter no serviço que
cada um faz, até dizendo que o faz por Mim!
Examina a fundo o teu coração e vê, se podes, em quantas pregas ocultas
esses vermes da soberba, que tanto Me desagradam!
Não, não consegues encontrá-los todos! Há em ti certas zonas muito
ocultas onde eles se aninham e proliferam. Mas aos poucos, se tiveres boa
vontade, se aceitares, Eu próprio te irei pondo a descoberto esses lugares
feridos de soberba oculta.
O teu remédio será procurado todos os dias junto de Mim, falando-Me
dessa tua chaga atroz, sem a procurares minimizar, porque Eu vejo-a muito
melhor que tu e garanto-te que ela é bem maior, muito mais ramificada do
que te parece.
Eu te aconselharei que te humilhes naquilo que fazes, que nunca dês
demasiada importância ao teu trabalho, senão na medida de o fazeres o
melhor possível.
E depois terás de procurar habituar-te a aceitar reparos e diferenças de
opinião, sem te zangares, aceitando também modificar aquilo que fazes, se
tal for de maior contento para o teu próximo. Terás de aprender a calar-te, a
não querer ensinar toda a gente e a aceitar que, por vezes, não te dêem a
atenção que gostarias.
Terás de aceitar que os outros não queiram aquilo que tu queres ou não o
queiram da mesma maneira e não gostem das mesmas coisas.
Terás de aceitar que os outros podem ver as coisas melhor que tu, ser mais
inteligentes ou não poderem fazer como tu queres.
Terás de aprender a ver as diferenças de caracteres e a respeitá-los, a ver as
limitações de cada um, a sua maneira de ser e a forma como vivem.
Terás de aprender a ver as tuas falhas, os teus pecados ocultos, e a aceitar
não seres tão bom como querias, não seres tão estimado como gostarias.
Terás de aprender a ver afastarem-se certas pessoas com quem contavas, e
terás também de aprender a pedir des-
culpa.
Terás em suma de reaprender a viver, porque a vida de um soberbo cai

157
pela base.
O teu mal é a ambição? Tem cuidado porque a ambição esconde-se atrás
até das coisas religiosas e pode avançar até à inveja.
Se és uma alma ambiciosa desejas possuir, desejas muitas coisas e com
intensidade.
Será muito mau se desejas cargos importantes, fortuna, honras, ser
conhecido, requisitado, porque essa ambição pode ser filha da soberba e
levar a ela.
Pode levar-te à inveja e a arquitectar planos menos bons para conseguires
o que queres, a faltar à justiça e, pela inveja a desejar mal ao teu próximo.
Repara que a inveja não é muito confessada, porque é um pecado que cai
muito mal aos olhos do mundo. É o pecado de que o mundo menos gosta e
mais critica. Por isso, quem dele sofre procura ocultá-lo até a seus próprios
olhos, para não se sentir diminuído com chaga tão feia.
Há grandes e pequenas invejas, há até invejas dentro de pessoas ditas
religiosas e piedosas, que invejam a forma de rezar dos outros, a sua voz no
canto, a sua facilidade em dar catequese ou fazer qualquer outra coisa, o seu
recolhimento, o tempo de que dispõem para rezar, aquilo que fazem, as
pessoas que conhecem, as suas medalhas, os seus terços, as suas estampas, os
seus livros… é um não acabar de invejas, mas todas elas são chagas de
aspecto muito feio.
Voltando à ambição, se ela diz respeito a coisas religiosas que gostarias de
possuir, não é tão má, mas com a tua permanência junto de Mim, irás
aprender a desejar cada vez menos coisas, a limitar as tuas compras,
praticando assim a Santa Pobreza, que é aconselhada a todos e não só a
membros de ordens religiosas.
Se tu soubesses, alma, minha filha, como é bom não desejar nada senão
que a minha Santa Vontade se cumpra, saberias também o que é a felicidade
na Terra, a felicidade que é ter tudo em Mim.
Sabes o que é que a minha Vontade deseja para ti? Apenas a tua
santificação. Ao desejares que a minha Vontade se cumpra, estarás a desejar
a santidade, com santa ambição, e trabalharás para ela com amor.
É este o remédio que te dou para qualquer chaga de ambição ou de inveja
que ocultes em ti: a minha Vontade Santíssima. Nada mais deves desejar e
quando outros desejos vierem para te perturbar, procura-Me e pede-Me
socorro, firmemente resolvida a cortar com esses maus sentimentos e
desejos.
A tua doença será o egoísmo? Se tal acontece és uma alma que pensa em si
em primeiro lugar, nas suas comodidades, nos seus desejos, naquilo de que
gosta, que lhe apetece ou não apetece, que não faz sacrifícios pelos outros e

158
deseja que todos a sirvam.
Mesmo aos olhos do mundo tal pessoa torna-se profundamente antipática,
porque o mundo, apesar de todos os seus defeitos também sabe apreciar o
altruísmo e a ajuda mútua.
É do egoísmo que nasce a maior parte dos desentendimentos e
principalmente dos desentendimentos dos casais. É por causa do egoísmo
que há tantos divórcios, porque um não quer entender o outro nem sacrificar
os seus gostos para lhe agradar.
É por causa do egoísmo que se pratica o aborto, porque as mães que o
fazem não querem abdicar das suas comodidades, nem fazer sacrifícios em
favor da nova vida que apareceu.
É verdade que há casos muito difíceis, muito problemáticos, mas não há
nenhum que não tenha solução, e até já há diversas obras de acção social
para ajuda a mães em dificuldades, que sofrem pressões familiares para
abortar.
É o egoísmo das famílias que muitas vezes não querem ajudar uma mulher
nessas situações, que leva algumas, por medo, por desorientação e até por
desespero, a fazer esse execrando crime.
Vê como o egoísmo pode levar até ao crime! É realmente uma chaga que,
se dela sofres, deves procurar curar-te o mais rápido possível, meditando
junto de Mim nas situações em que te vês tentada a não ajudar ou a não te
sacrificares pelos outros.
Poderás dizer que ninguém se sacrifica por ti… Mas vê que cada um tem
os seus problemas e não é imitando o egoísmo dos outros que curas o teu. Se
te queres curar, não podes pensar naquilo que as outras pessoas fazem,
porque é só perante Mim que elas responderão.
Sofres por acaso de futilidade? Se és fútil, vives para a bagatela e a nada
dás o verdadeiro valor.
Se és fútil, deixas-te dominar pelo mais fácil, pelo mais colorido e foges
aos teus deveres, podendo vir a tornares-te preguiçosa, se continuas por esse
caminho.
Se és fútil, segues os ditames do mundo e vives para as vaidades.
Se és fútil, não és dedicada a nada, vives num vazio de coisas vãs, não te
preocupas se fazes o mal ou o bem, porque tudo te parece sem importância, e
quando alguém diz o contrário, achas que são esquisitices.
Talvez até faças uma ou outra boa obra, porque tens facilidade para isso e
porque te dá prazer, talvez até porque
pessoas tuas amigas também o fazem e gostas de as encontrar.
É assim que se vêem obras de solidariedade pelo mundo, promovidas por
pessoas completamente desprovidas de valores espirituais. É apenas

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solidariedade mundana, às vezes promovida por pessoas naturalmente
bondosas, outras vezes, apenas para ser uma forma de actividade social,
cujos frutos se dispersam, e poucos chegam àqueles que precisam deles.
Se és fútil, gostas das modas e não te importas de vestir seja o que for
desde que se use, mesmo que te fique mal ou que ofenda os padrões da
decência que Eu aprovo.
Se és fútil, gostas de revistas onde se fala de gente fútil como tu, mas mais
rica, mais conhecida ou mais escandalosa.
Se és fútil, gostas de televisão e gastas com ela o tempo que devias
dedicar-Me, deixando-Me para o último lugar.
Não te esqueças de que existe também futilidade religiosa, quando a alma
saltita de devoção em devoção, sem se prender a nenhuma, ou quando
procura coisas fora do comum e que não estão aprovadas pela Igreja, sem
procurar discernimentos válidos, acreditando em tudo o que lhe contam.
Alma, minha filha, a futilidade conduz à vaidade que pode levar a grandes
problemas na tua vida, levando-te a gastos muito grandes, talvez a dívidas e
a desentendimentos familiares.
Mas pode levar-te também tanto à vaidade religiosa, como a dizer que não
tens tempo para rezar, sim, para rezar, para estares intimamente comigo,
porque gastas o tempo que te dou, nesse saltitar de coisas, de obras
exteriores, de curiosidades, tanto mundanas como espirituais.
Sabes que também existe curiosidade espiritual? Sim, porque procurar
saber muitas coisas, ir a muitos lados, ouvir e ver tudo, não passa a maior
parte das vezes, de curiosidade inútil, da qual não aproveitas e que esqueces
ao fim de algum tempo.
Corres ainda o risco de, no meio de tantas coisas que vês e ouves, caíres
em lugares onde te enganem e te levem a acreditar em coisas ilusórias.
Lembra-te de que tu não precisas de ver muito, de ouvir muito, de saber
muito, a não ser dentro daquilo que faz parte do teu dever. Precisas, sim, de
estar muito comigo, de rezar muito, no teu coração, porque aí Eu próprio te
irei instruindo e te ensinarei tudo o que quero que aprendas.
Se queres continuar comigo, deves curar-te antes de tudo da futilidade,
porque com ela não avançarás um passo, não conseguirás fazer nada neste
meu caminho, impedida por essa paralisia que se chama futilidade.
Deves começar a rezar, a ficar comigo e a procurar ver os valores
importantes, aquilo de que Eu gosto ou não gosto e a orientar-te por eles.
Já comecei a falar-te da vaidade dentro da futilidade, mas agora quero
falar-te de outra espécie de vaidade muito pior ou muito mais difícil de curar.
É a vaidade religiosa.
A vaidade religiosa, meu filho, minha filha, é uma doença muito má, é a

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peste que ataca muitos daqueles que se dizem meus.
Na sua certeza de Me pertencerem, olham sobranceiramente para os que
lhes parecem longe dos meus caminhos.
Querem parecer melhores e mais virtuosos que os seus irmãos e, para isso,
inventam penitências e orações que vão murmurando e com as quais
atormentam os ouvidos de quem fica perto. São um terror para as pessoas
com quem convivem e muitos amigos fogem da sua companhia.
A vaidade religiosa critica tudo o que lhe parece des-
viar-se um milímetro dos seus padrões, não aceita brincadeiras, e permanece
com uma sisudez que assusta.
Gosta de dar nas vistas, rezando muitas orações em voz alta, fazendo
leituras, mesmo que haja mais quem as possa fazer e cantando coisas
religiosas sempre que pode, sem ceder a vez a outras pessoas, sem querer
entender quem pode estar cansado de tanto ouvir, e a precisar de algum
tempo de silêncio.
Algumas destas almas metem-se na vida de toda a gente e procuram regê-
la com os seus conselhos, que ninguém lhes pede, nem pensa seguir, mas,
mesmo assim, chegam a provocar graves confusões em almas mais fracas.
Outras almas infectadas por este mal de vaidade espiritual, não falam
muito, senão nas suas coisas, nos seus sofrimentos, nas suas orações e na sua
penitência, mas procuram saber coisas sobre o próximo e mantêm-se sempre
bem informadas a respeito das vidas dos outros. Não costumam respeitar as
coisas que sabem, mas passam-nas com facilidade para o domínio público.
Tu és assim? Vê que, se assim te reconheces, é preciso que te habitues a
calar-te e a ficar na obscuridade, sem te meteres no que não te diz respeito,
sem quereres governar os outros, nem dar nas vistas, sem dares a saber o que
fazes, o que sofres ou o que rezas, sem quereres que te vejam como muito
sábia, muito boa ou muito santa.
Pensa sempre que quando alguém repara em ti, nas coisas boas que fazes,
ou nas qualidades espirituais que possas ter, te coloca em perigo de
dissipação ou de vaidade, por muito pouco que te consideres susceptível a
esse mal.
Por isso procura não dar nas vistas, embora não seja necessário
esconderes-te e fingires-te ignorante. Sê alegre sem cansar ninguém. Presta
ajuda sempre que for necessário. Sê simpática, sem ser intrometida, nem
faladora e todos gostarão mais da tua companhia.
Examina a tua consciência com atenção, junto de Mim, para poderes achar
o remédio que te convém, conforme a
doença de que padeças.
Ainda falta falar-te da tristeza. O mundo está repleto de pessoas tristes,

161
embora a maioria não o confesse. A tristeza vem de sonhos vãos, de
desilusões, de ambições desfeitas, do egoísmo, mais ainda que dos desgostos
e sofrimentos.
As pessoas são tristes porque querem impossíveis, porque querem coisas
que Eu não talhei para elas. Por isso, metem--se por caminhos que não
conhecem e dão grandes quedas, no desejo de felicidade, a felicidade que só
podem sentir no cumprimento integral da minha vontade a seu respeito.
A tristeza pode levar a todas as espécies de pecado, inclusivamente à gula
e à imoralidade, como a uma forma de compensação para outras coisas que
não podem ter.
A tristeza leva a deixar de rezar, às vezes até a deixar de trabalhar, ou a
fazer mal feita a sua obrigação, a deixar de implorar a minha ajuda e a
desesperar, caindo em depressões de que não se curam porque não querem
curar a tristeza, nem procurar remédio para ela junto de Mim.
A tristeza envenena a alma de tal maneira que até pode levar ao suicídio,
que é o maior e último mal que pode acontecer ao homem neste mundo.
Vem também para junto de Mim curar a tristeza, porque não deves, de
modo algum, deixá-la criar raízes em ti, mas arrancá-la, logo que se
manifeste.
A melhor forma de a arrancares, não é mergulhar nas distracções, a
procurar esquecer, mas vir a Mim, falar comigo, expor-Me o problema,
talvez até chorar um pouco, se tal te for necessário, mas tudo isso junto de
Mim. Eu saberei mostrar-te o melhor caminho a seguir, nisso que te aflige,
embora esse caminho muitas vezes não passe nem perto daquilo que tu
gostarias de fazer.
Se então Me obedeces, verás como vais encarar tudo com outros olhos e
nova serenidade.
A serenidade é muito importante em todas as circunstâncias, sejam quais
forem as tuas tendências e os teus pecados. É com serenidade que deves
encarar tudo e evitarás muitos erros, que poderás cometer com atitudes
precipitadas.
Alma, minha filha, mostrei-te as principais doenças que te podem atingir e
que, parecendo por vezes leves, podem evoluir, dar origem a outras e tornar-
se mortais. Procura curar-te delas, aqui, junto do meu Sacrário que contém o
Remédio, doce ao paladar, que tomarás com facilidade, se tu quiseres.
Dou-Me a ti sempre que Me procuras. E tu, como é que te dás a Mim?
Alma
Meu Senhor, sou uma alma miserável, que não sei como podes suportar a
teus pés, Tu, que és a Pureza infinita. Junto de Ti nada há que seja puro,

162
excepto a criatura tão santa que criaste muito especialmente para Te
recreares na sua pureza: a tua Mãe!
Os próprios Anjos que estão junto de Ti não são tão belos como ela é!
E eu? Sou uma pobre criatura pecadora, cheia de manchas, de mazelas, de
doenças que não procuro curar, de más tendências que não combato. Quantas
terei eu de ainda ir curar ao Purgatório, porque não há forma de me resolver
a curar-
-me delas cá na Terra, enquanto tenho tempo!...
Ó Senhor, que posso dizer de mim? Que posso dizer em meu favor? Não
há desculpa para esta pobre criatura, que tanto Te ofende, apesar de tantas
graças com que me cumulas, há tantos anos!
Vejo bem em mim muitas das faltas que me mostras.
É verdade que sou uma pobre alma doente, a precisar continuamente dos teus
remédios, pois só eles me poderão curar de tão perigosas doenças.
Concede-me que sempre deseje a cura destes males, que sempre procure
junte do teu Sacrário a luz para os ver, a humildade para os reconhecer em
mim e o desejo de emenda, para Te agradar.
Coloco-me diante de Ti, tal como sou, sem procurar esconder nada, e
peço-Te que me vás revelando cada dia, sempre mais, tudo aquilo que em
mim Te desagrada.
Prometo fazer muito caso, tomar muita atenção à importância dos pecados
veniais na tua presença puríssima!
Sim, quantas vezes os tenho cometido, sem me importar com os estragos
que faço no teu Corpo místico, com o mal que faço a mim própria e,
principalmente, com a honra e a obediência que Te nego cada vez que os
pratico.
Aqui, junto de Ti, prometo fugir com todas as forças até ao menor pecado
e à sua própria sugestão, quando ela surge.
Suplico-Te que me enchas com o teu Amor e com a tua força, para que
cumpra o que Te prometo, pois a minha fraqueza é tanta, que me deixo
enredar e acabo por, muitas vezes não cumprir o prometido.
Nada sou junto de Ti, da tua infinita grandeza, mas é justamente isso que
me dá a confiança de um filho de rei, que não receia nada, porque sabe que o
seu pai tudo provê e remedeia.
Eu também sou filha de Rei. Tu és o meu Rei, e tenho confiança absoluta
que cobrirás com a tua protecção esta tua filha tão doente e tão pobre. Sim,
Tu podes, só Tu podes e sei que farás de mim a alma que desejas ter um dia
no Céu, porque sei que me amas.
Adoro-Te aqui presente, ó Rei absoluto de todas as coisas, Senhor
omnipotente, que tudo domina. Entrego-me com a minha fraqueza à tua

163
protecção, não já como vassalo dedicado, mas como filho querido, muito
amado.
Já quis muito ser teu vassalo, uma alma a teus pés, apenas para Te servir.
Mas como posso recusar ser aquilo que Tu queres que eu seja? Como posso
recusar a alegria de ser uma alma de filho querido para seu amado Pai?
Por isso Te digo que já não como vassalo que fica de longe à espera de
ordens, mas como filho querido, como filho pequeno que fica no colo, eu me
quero entregar a Ti, na confiança de que, quanto mais perto me chegar,
melhor Te ouvirei, melhor desfrutarei do teu Amor e mais farás por mim,
aquilo que eu não sei fazer.
Este nada, quer desaparecer entre os louvores dos teus Anjos e louvar-Te
com eles, de um modo que Te seja muito agradável, e agradecer-Te com
Maria, a tua Mãe, a Mãe que me deste, da mesma forma que ela Te agradece
as maravilhas que nela realizaste!
“A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu
Salvador…” (Lc 1,46-55)

164
Sacrário – Doçura
Satisfaz-Me muito ver-te hoje, aqui, a meus pés, procurando a minha
companhia. Gostas de estar junto de Mim? Eu também gosto muito que Me
procures, gosto muito que estejas aqui, principalmente nestas horas em que
estou mais só.
Sei que também muitas vezes te sentes só, mesmo que vivas rodeado de
gente, porque não há só solidão física. A solidão espiritual acaba por ser a
mais dolorosa para ti, porque, que é que adianta veres muita gente, se
ninguém te faz realmente companhia, pois não te entende, não entende a tua
maneira de pensar, os teus ideais, as tuas opções, os teus desejos, se as suas
conversas e as suas ideias não te preenchem, se não podes muitas vezes dizer
em voz alta aquilo que o teu coração deseja?
Eu também estou só, porque as almas que Me deviam acompanhar andam
distraídas com as suas coisas e deixam-
-Me em último plano. Também não posso conversar com elas, porque não
Me entendem, não posso dizer-lhes os meus desejos, nem desafogar com elas
o meu Coração.
Mas tu, vem consolar a tua solidão junto da minha solidão, que as nossas
duas solidões hão-de compreender-se e, mu-
tuamente, consolar-se.
Meu filho, aprende comigo o que é a solidão. Aprende aqui junto do
Sacrário, tantas vezes abandonado, mas onde está o único que te acompanha
realmente e cuja doçura ultrapassa a do favo de mel.
Sim, o meu Sacrário é fonte de doçura para as almas, e é com a minha
doçura que consigo conquistar muitas delas, a tua também…
As almas são como as crianças atraídas ao doce, e recreiam--se comigo
muito mais que se mergulhassem em diversões e consolações do mundo. Por
muito que sofram, quando Eu as consolo, todo o sofrimento passa, e só
permanece a minha doçura…
Como elas então se sentem felizes, como crianças, que guardassem com
cuidado o frasco do doce, com receio de que alguém lho tire, e que entretanto
correm felizes, por terem um segredo que as outras não possuem!
Crianças generosas procuram dar a provar do seu doce escondido a outras
crianças, mas muitas vezes arrependem-se disso, por causa das
consequências de incompreensões e gulodice, que o mesmo origina.
Assim são as almas! Quando descobrem que alguém atingiu a minha
doçura procuram-na, querem prendê-la, quase a sufocam, procurando tirar o
mel dos seus lábios e não do favo que ela aponta. É um erro muito frequente.

165
Nunca deixes de apontar para Mim, para a minha doçura, porque há muitas
almas famintas, que não sabem onde procurar algo que as alimente
espiritualmente e nada sabem sequer da doçura espiritual com que Eu
acompanho aquelas que se aproximam.
Sejam quais forem os problemas, as incompreensões, as ambições das
almas que te rodeiam, sujeita-te a alguma amargura e, como criança
generosa, procura continuar mostrando a todos onde está a verdadeira vida
que deve ser vivida, a verdadeira doçura que acompanha todas as solidões.
Lembra-te de que, se sabes onde está a doçura, não deves guardar esse
segredo só para ti, porque Eu quero dar a todos a doçura infinita do meu
Amor, curar todas as solidões, todas as dores, todos os problemas que
afligem os meus filhos.
Eu saberei ter em conta tudo o que tiveres de sofrer por causa disso, e
saberei ser para ti a fonte da doçura de que te alimentas, esse maná
escondido, que te guardo e que te dou, até quando te esqueces de o pedir,
mas nunca penses que a consolação é sinónimo de santidade, porque então
estarias muito enganada, minha filha.
Lembra-te apenas de que é uma graça que te dou, porque és fraca… mas
nada disso é teu.
Querida alma, tenho agora outra coisa para te dizer, e a que deves dar
muita atenção. As almas, como os corpos, não podem alimentar-se só de
doces. Eles são bons se forem tomados na medida certa, porque a gulodice
pode provocar até doenças muito graves.
Por esses motivos, não posso dar-te, nem a nenhum de vós,
permanentemente, grandes doçuras espirituais. Isso seria muito mau para o
vosso crescimento e tornar-vos-ia almas pouco generosas, interesseiras, que
só fariam o bem e só Me procurariam para experimentar consolações. Almas
assim tratadas deixariam até de Me amar, para se amarem a si próprias e
àquilo que gostavam de sentir.
Já vês que é muito necessário que durante alguns períodos de tempo te vá
deixando sem doces, para que procures consolar-Me a Mim e não seres por
Mim consolada. É como uma dieta em que te coloco, e que te faz muito bem,
além de mostrar aquilo que tens dentro do coração.
Se no coração tens amor, não deixarás de o ter e de o manifestar, por muito
que esse coração sangre. Se não tens, logo o notarás, porque deixarás de
querer vir aqui, dizendo que não sentes nada e que estás a perder tempo.
Muito medo têm as almas de perder tempo! Vê se aprendes de uma vez
para sempre que uma alma nunca perde tempo junto de Mim, mesmo que
esteja tão árida que não seja capaz de Me dizer nada. Ganha, sim, muito
tempo, pois mostra-Me o seu amor e paga muito da dívida que tem para

166
comigo pelas suas faltas.
De modo geral, a menos que estejas a ser submetida a alguma prova
especial, rara será a vez em que te retiras de junto de Mim sem a consolação
da serenidade readquirida, de ânimo fortalecido ou com algum problema
solucionado, se realmente te esforçares por Me mostrar amor.
Mas não penses nunca que não voltarás a sentir-Me, porque, tempos
depois, a minha doçura voltará a consolar-te um pouco mais.
Não tenhas curiosidade em saber o que se passa nestes caminhos em que te
coloco, o que virá a seguir, em que altura vais do caminho, nem se te trato
melhor ou pior que outras almas, mas entrega-te à minha Vontade que
sempre sabe o que é melhor para ti.
Também não te deixes desanimar. Não deixes que o pensamento de não
ser capaz ganhe raízes em ti, porque tal pode levar-te ao abandono e até ao
desespero.
Em situações de desconsolo, de desolação espiritual, o melhor é não
pensares nada, mas apenas continuar a rezar.
Não caias na tentação de pensares, nessas alturas, que és melhor ou mais
adiantada na virtude que outras almas que vês mais consoladas, de pensares
que te sujeito a tais provas por seres santa.
Não, não és santa, e tenho muitas outras almas, que tu não sabes, muito
mais adiantadas que tu, mas trato cada uma conforme aquilo que vejo que ela
precisa e que lhe faz melhor.
Também nunca penses que isso se deve a Eu já não te amar, por causa dos
teus pecados, porque te amo sempre da mesma maneira e com a mesma
intensidade, tanto quando te consolo, como quando não o faço.
É importante que acredites e confies sempre no meu Amor, seja o que for
que se passe contigo, e que nunca deixes de rezar, mesmo que não te apeteça
fazê-lo.
Nenhum dos pensamentos que te vêm à cabeça tentando explicar a
situação é verdadeiro, a não ser aquele que te diga que se trata de uma prova
do meu Amor, para tu Me mostrares o teu.
Olha para Mim, sorri e entrega-te. Habitua-te a entregar--te com um
sorriso e não com uma cara fechada, porque o sorriso ajuda-te muito a
caminhar e torna-te mais agradável. Lembra-te de que deves ser fiel, mais
fiel ainda, quando te deixar sem consolações, porque então é a altura de Me
mostrares o teu amor.
Continua a vir aqui, muitas vezes, acompanhar a minha solidão, alimentar-
te da minha doce presença, pois, mesmo que não a sintas, ela não deixa por
isso de ser doce e de te alimentar em segredo.
Eu serei sempre para ti o Companheiro que te compreende, Aquele que

167
anima a tua solidão, como tu deves animar a minha.
Conheço todas as ocasiões em que te sentes mais só. E tu conheces quais
são as horas em que Me sinto também mais só? Sabes quais são as horas de
maior solidão para Mim?
São justamente as horas em que dormes. São as horas em que dormem
aqueles que ainda Me fazem alguma companhia durante o dia.
Sim, os meus amigos dormem, mas aqueles que Me ofendem de tantas
maneiras não dormem senão muito tarde, o que quer dizer que as horas da
noite são aquelas em que o pecado abunda, com muito pouca oração a travá-
lo, a repará-lo.
Se não fosse a minha oração contínua no Sacrário, se não fosse o meu
perpétuo Sacrifício nos altares em toda a Terra, onde é que já estaria o
mundo, que se tornou na louca devassidão que os meus olhos vêem?
Alma, minha filha, lembra-te de Me dar alguma reparação, alguns actos de
amor durante alguns minutos nas horas da noite, sempre que acordares, ou
reservando mesmo para isso algum tempo, conforme as tuas possibilidades
de saúde e deveres familiares e profissionais, que tens de cumprir,
restabelecida por um necessário repouso nocturno.
Não te peço exageros. Não te peço que não durmas o suficiente, mas que te
lembres de Mim um pouco durante a noite, lembrando-te de que é a ocasião
de maiores pecados, que muitos irmãos teus estarão em grave perigo de se
perder.
São filhos pelos quais Eu rezo sozinho à noite nos meus Sacrários, sem
que tu te lembres de Me acompanhar. Por eles rezei e sofri no Horto na noite
de Quinta-feira Santa, também em solidão, porque os meus amigos dormiam.
Agora continuam a dormir e esta vigília é sempre dolorosa para Mim,
porque é sempre solitária e porque vejo o que tantos e tantos fazem pelo
mundo, enquanto Eu rezo, sem quererem aproveitar do perdão e da bênção
que estou disposto a dar-lhes, sem quererem aproveitar do meu Amor,
desperdiçando a vida que lhes dei para viver.
Quantos deles estão muito perto do fim da vida e de não estar preparados
para optar por Mim, talvez dentro de minutos.
Lembra-te disto de noite e reza um pouco. Projecta-te em pensamento para
junto de Mim e fala-Me desses filhos, procurando consolar-Me por tanta
ingratidão, procurando reparar e conseguir para esses infelizes a graça de
eles optarem pela salvação.
Ama estes irmãos, ama todos os irmãos, como Eu. Vem procurar no meu
Coração Eucarístico o segredo do Amor, que vos é tão difícil de pôr em
prática. Vem unir-te ao meu Coração e amar comigo. Vem amar como Eu
amo.

168
Alma
Ó Jesus, o teu Sacrário derrama doçura, essa Doçura que és Tu!
É junto de Ti que me sinto bem, como criança junto do Pai muito querido,
como esposa junto do Esposo muito amado.
A tua doçura não pode ser comparada a qualquer outra e quem a sente
nunca mais a poderá esquecer, porque Tu és o mel que se derrama sobre as
nossas almas que, como crianças, estão ansiosas de experimentar a doçura de
um Amor absolutamente perfeito.
Ó Jesus, ensina-me, para que eu nunca procure mais as tuas consolações
que a Ti próprio, que eu nunca recuse acompanhar-Te por não Te sentir.
Ensina-me a ser generosa e a mostrar aos meus irmãos, pelos meios que me
concederes, as doçuras do teu Amor Santíssimo.
Concede-me a graça de vir todos os dias a teus pés em adoração, como
para uma escola de Amor e Perfeição, sem pensar em mim, mas em Ti e nos
meus irmãos, pelos quais queres que reze.
Concede-me que me lembre de Te fazer alguma companhia nocturna, em
vez de Te deixar sozinho a rezar por todos nós.
Enche o meu coração de compaixão por todos os que Te ofendem de tantas
maneiras, durante a noite, a compaixão que sai em rios caudalosos do teu
Coração, sem haver quem queira recebê-la.
Eu quero receber esse teu Amor de Misericórdia, essa infinita Compaixão
que Te faz debruçar sobre cada um de nós e amar-nos apesar dos nossos
pecados, e tratar-nos da mesma forma que nos tratavas antes de termos
pecado.
Faz do meu coração depositário dessa tua Misericórdia compassiva.
Enche-o até transbordar sobre todos os meus irmãos, sobre todo o mundo,
acompanhando-Te no Amor sem reservas que Tu nos tens.
Sem reservas! Será que eu entendo o que é que isto quer dizer? Será que
eu entendo como é que tenho de amar, para amar como Tu amas?
Será que entendo que tenho de amar como me amas a mim, até à doação
total, ao perdão total, até à Cruz?
Sem reservas!... O teu Amor é sem reservas! Ó Jesus, faz--me entender
estas palavras!... Não as entenderei nunca, se não me chegar mais para Ti,
para o teu Coração, até que não ame senão através dele.
Ó Jesus, concede-me que eu ame assim, através do teu Coração. Só assim
poderei amar todos como Tu queres, como Tu mandas e como Tu amas (Jo
15,12).
Adoro-Te, Jesus, só Tu és o Senhor! Eu nada sou, menos que uma
formiguinha a teus pés. Mas permite que aqui esteja, aqui permaneça em

169
adoração e louvor, com os teus Santos Anjos, em acção de graças e
reparação pelas nossas faltas.
Fico contigo, Jesus, hoje e todos os dias da minha vida. Prometo-Te
fidelidade, e suplico-Te a graça de sempre Te procurar e de cumprir com
amor diariamente aquilo que Te prometo.

170
Sacrário – Fonte
Querida filha, dás-Me uma grande alegria vindo aqui! Permanece algum
tempo, porque o tempo que gastas comigo agora, é sempre tempo ganho para
a tua eternidade, que embora não tenha tempo, embora seja fora do tempo
que conheces, poderá iniciar-se no Céu mais rapidamente, quanto menos
impurezas trouxeres para o lado de cá.
Junto de Mim bebes pureza, porque Eu sou a própria Pureza que, como
Água viva, corre sobre ti, te inunda e purifica.
O meu Sacrário é a fonte donde corre esta Água viva que te
dessedenta, é a fonte de todo o Amor, de toda a consolação, de toda a alegria,
de todas as graças que Eu derramo sobre vós.
Aproxima-te desta fonte e bebe sem cessar, bebe incansavelmente, que
nunca beberás de mais.
Tu precisas de beber aqui, para te fortificares para os combates que terás
de travar durante toda a vida, para Me seres fiel em cada momento que
passes na Terra. São combates difíceis, dos quais muitas vezes sais
derrotada, principalmente quando és atacada sem contares. Isso acontece-te
porque nem sempre andas atenta à minha voz, e confias na tua inteligência e
nas tuas capacidades humanas, capacidades de compreensão e de decisão.
Quantas vezes te tenho mostrado esse engano. É justamente quando te
parece que estás mais segura em termos humanos, que cais mais depressa,
em ciladas que te são armadas por aquele que não te ama e te quer perder.
Lamentas-te então, e Eu tenho que remediar aquilo que tu fizeste sem
pensar, julgando que tudo é simples e que todos são bons e teus amigos.
Ingenuidade! Bem te aviso no Evangelho: “Sede prudentes como as
serpentes, mas simples como as pombas” (Mt 10,16).
Nunca te mando ser tonta, alma minha filha, mas sempre simples e
prudente.
Não te fies nas criaturas, por melhores que elas te pareçam, por muito
credenciadas de santidade que estejam perante o mundo. Lembra-te de que
só Eu vejo o que há nos corações e só Eu sei as ciladas que te podem armar
aqueles que te parecem melhores e mais amigos.
Todos são susceptíveis de errar, todos são susceptíveis de cair. Não há
ninguém que não possa fazer contra ti algo que te prejudique, porque o
coração humano é fraco, as tentações são muitas e o pecado é partilha do
homem.
Por isso nunca deixes de vir beber a esta fonte, principalmente quando
tiveres de tomar alguma resolução. Não confies nos homens que te mostram

171
poder fazer grandes e belas coisas, porque podes enganar-te. Para tomar
resoluções, vem sempre pedir conselho e discernimento junto de Mim.
Poderás também aconselhar-te com quem sabe pela sua profissão, do
assunto que tens a tratar. Nunca deves é resolver nada com pressa, porque a
pressa nunca é boa conselheira para ninguém.
Bebendo na minha Fonte aprenderás que a precipitação é má condutora e
que deves sempre pensar maduramente naquilo que queres e naquilo que
fazes.
Aprenderás a amar e a renunciar a muitos gostos próprios, a favor do teu
próximo, a quem amarás em meu nome, e assim mostrarás que Me amas a
Mim, acima de tudo o que te acontece ou possa vir a acontecer.
Aprende a vir aqui, como um sedento vai a uma fonte, com grande desejo
de matares essa sede que tens de felicidade, e que o mundo não pode de
forma alguma saciar; com o desejo de amor, que não consegues satisfazer em
amor algum senão no meu; com desejo de conhecimento, que não
conseguirás ilustrar tanto em qualquer outro lado; com desejo da piedade, da
qual não conseguirás aprender tanto, nem no melhor livro.
O meu Sacrário é fonte donde jorram as graças, sem cessar, sobre todos
aqueles que aqui vêm. Mas muitos, mesmo aqui, deixam escapar essas
graças, porque não as pedem, nem estão atentos para as receber. Vêm secos e
desinteressados, e assim saem no fim, sem de nada aproveitarem.
São como viajantes que descansam ao pé de uma fonte, mas se recusam a
beber essa água pura, preferindo ir depois beber a poças enlameadas, lá mais
longe.
Nunca sejas tu assim. Nunca entres numa igreja por curiosidade, para
admirares a arquitectura ou as pinturas, sem primeiro Me admirares a Mim,
que sou a maior beleza que a igreja encerra.
Mesmo que estejas em viagem de férias, ao entrares numa igreja, presta-
Me sempre adoração e procura sempre beber desta Fonte, mesmo que seja só
pouco, por não te poderes demorar, nem abandonar o grupo com o qual
vieste. Eu sei compreender essas coisas.
Eu sei sempre compreender todas as coisas e sei muito bem o que vai no
coração de cada um, mesmo aquilo que ocultais bem fundo.
Quero também recomendar-te que prestes muita atenção para não beberes
em fontes enganadoras, pois, além das fontes envenenadas que o mundo
oferece, há também fontes espirituais enganadoras, nas quais muitos se
enganam e bebem. Tem cuidado e não te deixes iludir com qualquer fonte,
das muitas que vos são oferecidas, por vezes até com letreiros onde se lê o
meu nome!
Só a fonte que mana do meu Sacrário te dessedenta verdadeiramente. Toda

172
a fonte que não te leve ao Sacrário é falsa. Por isso, aonde quer que vás, por
muito bem que oiças falar, se tal não inclui o Sacrário, com a Santa Missa e a
Sagra-
da Comunhão, e te tira a possibilidade de as teres durante o dia, podes ter a
certeza que estás no engano de uma falsa fonte.
Mas, muitas vezes também Eu tenho sede e peço-te, como fiz à
Samaritana, que Me dês de beber. Tenho sede do teu amor e tenho sede das
almas que Me fogem, e que Me são tão queridas. Muitas delas espero que tu
mas dês, que alcances a sua conversão, através da tua oração ou do teu
sacrifício.
Não te esqueças de que tens responsabilidade pela conversão de diversas
almas que liguei à tua. Não é preciso que as conheças. Muitas delas até
podem estar noutros países. É importante que rezes sempre por elas, mesmo
sem saberes quem são.
Para fazeres esse trabalho de apostolado que quero de ti, precisas de vir
muitas vezes ter comigo e beber nesta fonte de Amor e de Misericórdia, até
que tu própria te transformes numa fonte, donde possam correr as minhas
águas.
Vem, vem aqui muitas vezes, permanece em adoração, e aprende como é
que Eu amo, para assim amares também todos aqueles que de ti se
aproximem.
Acerca-te de Mim, do meu Coração, todos os dias. Aprende a amar com o
meu Coração, a olhar com os meus olhos, a falar com os meus lábios. Como
isto te pode levar longe em amor!
Nesta Fonte beberás o meu ensino. Aprenderás tudo o que em vão tens
tentado aprender noutros lugares, porque aqui, na união comigo, tu própria te
transformarás em fonte agradável para Mim, pois Eu te comunicarei a minha
Água Viva.
Pede-Me muitas vezes que te dê de beber, e Eu saciar-te-ei, até criar em ti
uma fonte de água, que jorrará até à vida eterna (Jo 4,14).
Alma
Venho à tua Fonte, ó Jesus, para beber em Ti.
Sabes bem quão sequiosa estou, e sabes como tenho procurado beber em
fontes que não me dão a água que procuro, a única que mata realmente a
sede.
É tão grande a minha sede de amor e de felicidade! É esta sede que mais
me faz sofrer, pois não encontra alívio em parte alguma, em qualquer outra
água, dos muitos charcos que o mundo me apresenta todos os dias, e que às
vezes têm ilusórias parecenças com água verdadeira.

173
Também já me enganei com fontes falsas, que parecendo aproximar-me de
Ti, apenas me afastavam, porque me afastavam da tua Presença Eucarística,
na Santa Comunhão, em perdas de tempo ou em vãos temores, como se fosse
encontrar mais longe aquilo que Tu me dás tão perto! São tudo miragens e
ilusões!
Dá-Me, Jesus, da tua água, pois só ela me dessedenta, essa água de Vida
Eterna, que me traz o conhecimento e a verdadeira piedade, a felicidade e o
amor sem limites, esse Amor que é o único que me pode saciar.
Dá-me a tua água, a jorros, de tal forma que eu possa dá-la a quem de mim
se acerque e até àqueles que não conheço, mas pelos quais tenho
responsabilidade junto de Ti, que são como filhos que te darei.
Só a tua água é fecunda e faz nascer as belas plantas no jardim da alma.
Aqui tens esta alma de terreno pobre, para Tu cuidares, esta alma que vale
tão pouco, mas que vale tanto para Ti, a ponto de teres morrido por ela.
Cultiva-me e faz de mim um belo jardim, onde floresçam todas as virtudes,
para alegrar os teus olhos.
Adoro-Te aqui, Jesus, Água que me fortalece e que jorra desta Fonte que é
o teu Sacrário.
Adoro o Sangue que derramaste por mim na tua Cruz e me tornou tão
preciosa para Ti.
Cobre-me com ele e purifica-me de todos os meus pecados, enquanto eu
permaneço aqui, junto de Ti, louvando-Te e bendizendo-Te, na companhia
de todos os Santos Anjos que rodeiam este Sacrário.

174
Sacrário – Contemplação
Aproxima-te, alma querida, e vem aqui contemplar as belezas que se
encontram ocultas neste Sacrário. Alguma vez pensaste ver mais que aquilo
que está patente diante dos teus olhos?
Meu filho, minha filha, não é preciso seres vidente, não é preciso teres
dons especiais para poderes contemplar as minhas maravilhas, porque há
muitas que Eu quero mostrar aos meus filhos, mas eles não as querem ver.
Preferem olhar para as futilidades do mundo e fogem da contemplação, como
se isso fosse algo muito estranho, só reservado a pessoas muito especiais.
É essa falsa ideia que faz com que muitas almas não progridam e não
cheguem nunca a levar a oração verdadeiramente a sério. Assim confundem-
se indo de uma igreja a outra, de grupo em grupo, de peregrinação em
peregrinação, de santuário em santuário, sem nunca encontrarem a
verdadeira oração, sem nunca contemplarem a verdadeira beleza que é a
minha e que não precisa de ser procurada longe, porque estou muito perto,
no interior de cada um de vós.
Enquanto Me procuras longe, Eu estou tão perto, nesse cantinho da tua
casa, do teu próprio interior… e tu não Me olhas, não Me procuras, não dás
por Mim… e continuas a procurar o teu tesouro entre as palhas do mundo.
Olha para Mim agora. Não faças mais nada, não procures sequer rezar.
Deixa-te estar assim. Suspende tudo. Refreia a tua imaginação, os teus
pensamentos, os teus desejos e fica assim, a contemplar-Me em silêncio,
recolhidamente. É tão fácil!
Não tenhas medo de não saber o que fazer nem o que dizer, porque
justamente Eu não quero que digas nem faças nada. Olha apenas para o meu
Sacrário, que é uma escola de contemplação.
Os meus filhos têm sempre o desejo de fazer coisas e um grande medo de
se aborrecerem na inactividade. É por isso que muitos nunca chegam ao
verdadeiro conhecimento daquilo que lhes quero mostrar, nem sequer
chegam a conhecer-Me, fazendo de Mim ideias à sua maneira e conforme a
sua forma de pensar.
Se permaneceres em contemplação, Eu te mostrarei muitas coisas, na
medida em que souberes ficar comigo, sem misturares imaginações e formas
de passar o tempo, sem pensares nas tuas coisas, nem nos teus problemas.
Nada receies, porque mesmo que saísses daqui sem nada teres
experimentado, se fizeres como te digo, terás feito a melhor oração, terás
contemplado na obscuridade e terás recebido graças que te oculto por
motivos que só Eu sei.

175
Mas tornarás a ser fiel, continuarás a tentar amanhã e depois de amanhã, e
sempre. Verás como a contemplação se irá tornando para ti cada vez mais
simples, mais fácil e mais saborosa.
Sim, a contemplação é saborosa, mas tem um sabor que só os
contemplativos conhecem. Não o podem comunicar nem explicar, pois cada
um tem de o experimentar por si.
Digo-te mesmo, para que não estranhes que a princípio, a não ser por
alguma graça especial, não é muito fácil a contemplação, porque a alma,
acostumada ao barulho, às cavalgadas da imaginação, a dizer e a raciocinar,
sente-se perdida no escuro, sem poder fazer nada disso, parecendo-lhe que
não faz nada, que perde o tempo inutilmente e que talvez fosse melhor ler ou
recitar de cor algumas orações. Mas não é assim e, se for fiel e perseverante
em se deixar ficar simplesmente junto de Mim, sem fazer nada, senão olhar
para Mim, um dia contemplará maravilhas.
Aceita gastar este tempo comigo, que nunca será tempo perdido, mesmo
que te pareça que não estás a fazer nada. É um tempo precioso e empregue
da melhor maneira, aprendendo a contemplar-Me.
Assim, habituar-te-ás a contemplar-Me em ti, mesmo quando não estás
junto do Sacrário, porque tu sabes que é verdade que estou em ti, e terás
comigo uma intimidade mais profunda e mais rica.
Mas presta atenção, porque para isto é preciso que te disponhas bem, que
não te deixes dispersar durante o dia por muitas coisas, e, principalmente que
Me dispenses o teu tempo, pois para contemplares precisas de tempo.
Já te tenho dito que nunca perdes tempo comigo, por isso, procura não
arranjar demasiadas coisas para fazer, de tal maneira que não tenhas tempo
para rezar, acabando por dispensar-Me cinco ou dez minutos a correr à hora
de deitar. Quem isto faz não consegue progredir na vida espiritual e estraga o
plano bonito que fiz para a sua alma.
É preferível dedicares-te a menos obras, mas dispor de tempo para estar
comigo, para rezar e contemplar.
Repara que Eu insisto muito na contemplação, porque é durante ela que te
ensino mais e te faço ver as maravilhosas claridades em que te quero
mergulhar.
Não sejas mesquinha, não Me regateies o teu tempo, porque afinal tu não
possuis tempo nenhum. O tempo que vives, sou Eu quem to dá e posso tirá-
lo quando quiser.
Aproveita bem o tempo que tens de vida, para seguir os meus conselhos,
que Eu sei muito melhor que tu aquilo que é bom para ti. E o melhor do teu
tempo é aquele que passas comigo. Tudo o resto são apenas acessórios,
pequenas flores que vais semeando no teu caminho, enquanto passas pela

176
vida.
Presta atenção, porque a contemplação exige que a pessoa que a pratica
seja alma recolhida. Almas fúteis, dispersas, curiosas e faladoras, inutilmente
procurarão fazê-la, porque a contemplação necessita de disciplina de vida,
que habitue a alma a estar quieta, na minha presença.
Aprende a aquietar-te a aceitar as operações que o Espírito Santo quiser
fazer em ti, sem sequer Lhe perguntares porquê.
Deixa-te conquistar, encantar comigo. Deixa que Eu te ame, sem te pedir
que faças nada em troca, senão estares aqui, silenciosa a olhar para Mim.
Será muito? Será muito difícil este meu pedido?
E porque é que te peço isto?
Talvez certos convites que te faço sejam devido a tu seres uma alma muito
pobre, muito desprovida de mérito, que não pode nunca pensar ser mérito seu
o que lhe acontece, nem que já atingiu a santidade.
É um erro alguém pensar que a contemplação só é própria dos Santos.
Não, minha filha, a contemplação é própria dos pobres, daqueles que nada
têm e que ficam silenciosos, mudos de espanto, sem palavras, diante das
riquezas que lhes patenteio, se tiverem a delicadeza de querer estar comigo.
A contemplação também é própria das crianças, que ficam paradas, de
olhos fixos a um objecto brilhante ou diante de um belo brinquedo, a que não
podem deitar a mão.
Ainda não viste um esfomeado a olhar para uma montra de uma pastelaria?
Ainda não viste uma criança olhar para uma montra cheia de brinquedos e
luzes? Ela ficará ali a olhar quanto tempo lhe permitirem e é com relutância
que aceitará afastar-se.
Não, a contemplação não é privilégio dos Santos! É privilégio dos simples,
dos pobres e das crianças!
É simples, pobre e criança que te quero a contemplar, porque tu não sabes
nada, nem tens mais nada. És uma alma pobre e pecadora.
Sabes bem que não és santa. E que bem tu sabes isso! É para te mostrar
como és, para que nunca te esqueças da tua miséria, que te deixo cair tantas
vezes, a fim de que não percas a tua condição de pobre e de criança.
Procuro almas muito pobres para as enriquecer. Aquelas que já se
consideram ricas, deixo-as ficar com as suas riquezas e a sua sabedoria, que
afinal não passa de sabedoria humana, adquirida em estudos aqui e ali, mas
pouco ou nada conta a meus olhos.
A verdadeira sabedoria é aquela que Eu ensino, quando ensino uma alma a
contemplar a minha beleza e aquilo que tenho para lhe dar. Só faço isso às
almas pobres, que nada podem atribuir a si próprias, à sua sabedoria, nem
aos seus méritos.

177
Procura aumentar em ti, sempre mais e mais, o desejo de alcançar e
permanecer na minha intimidade, para que esse desejo te dê forças para
abandonares o bulício do mundo e te entregares à contemplação, mesmo
vivendo no mundo, porque a contemplação é oferecida a todos os meus
filhos que têm boa vontade de a alcançarem, isto é, todos aqueles que se
consideram pobres e crianças junto de Mim.
É ela também que irá fertilizar e fazer frutificar depois o teu trabalho. Dela
sairás mais purificada e mais forte, para resistir àquilo que te possa querer
levar para longe da minha companhia.
Põe em Mim o teu coração e recolhe-te. Deixa lá fora tudo o que é mundo
e os teus próprios problemas. Esta hora é para ficares sozinha comigo e,
podes ter a certeza de que esta é a oração que mais Me agrada.
Se a princípio, por não estares habituada, te for difícil, tem confiança em
Mim, arma-te da virtude da esperança e não desanimes, não voltes para trás,
porque irias estragar o meu trabalho.
Como poderei falar-te se não estás calada, se teimas em fazer coisas, ler
livros ou até recitar orações vocais? Fazer coisas agora é que seria
certamente uma perda de tempo para ti, neste tempo precioso em que quero
que aqui fiques, simplesmente, deixando a minha graça trabalhar em ti, na
obscuridade da Fé.
Fica junto de Mim com generosidade, com amor, sem procurar outros
caminhos.
Fica com simplicidade, sem pensares em mais nada, sem sequer meditares,
procurando desapegar-te das criaturas e unir--te somente a Mim, sem nunca
procurares métodos de oração de outras religiões, pensando encontrar mais
facilidade.
O meu caminho não é caminho de facilidades, mas de muito amor. É só
amor que te peço aqui, para permaneceres em simplicidade, em pobreza, à
espera da acção da minha graça, dando-te inteiramente, como Eu Me dou a
ti, sem Me pedires nada em troca, nem te admirares se nada sentires.
Fica aqui como uma criança pequenina, que ao colo do pai em nada mais
pensa senão em aconchegar-se ao seu peito. Ela não faz nada. Não sabe nem
pode fazer nada, porque é pequena. Mesmo que soubesse fazer alguma coisa,
nada queria fazer neste momento. Para ela estar com o pai chega-lhe; não
precisa de sentir mais nada.
Será na contemplação que aprenderás a ser humilde.
Se nada sentires, verás melhor esse teu nada, que é totalmente incapaz de
sentir por si, ou até de ver a Luz, se Eu próprio não a mostrar.
Mas, se Eu te der a contemplar algumas das minhas grandezas, sentir-te-ás
menos que um grão de pó, perante tais maravilhas.

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Por isso te digo que, se queres ser humilde, contempla-Me e verás melhor
o nada que és.
Aprende que para seres humilde, não é tão preciso que te humilhes muito,
mas que contemples muito, porque o verdadeiro contemplativo não consegue
atribuir nada a si próprio.
Quanto mais contempla tanto mais se sente ardente de amor e gratidão,
como servo que é filho; tanto mais se sente inútil aos pés do seu Senhor que
lhe dá tudo o que ele não pode por si alcançar.
Se Me contemplas, se vives com os olhos presos a Mim, acabarás por
adquirir parecenças comigo, acabarás por Me imitar, como a criança
pequenina que tanto olha para o pai, que acaba por imitar todos os seus
gestos. Aprenderás assim a ser mansa e humilde.
É este pequeno nada que chamo à contemplação, porque a contemplação
não é privilégio de ninguém, embora, como já te disse, haja certas almas que,
por não quererem largar as futilidades, conversas e outros barulhos, não a
poderão alcançar, mas isso será exclusivamente por opção própria.
Queres aprender a amar-Me? Contempla-Me, e amar-Me-ás
e ser-Me-ás fiel, porque a contemplação dá forças para avançar na fidelidade,
porque a contemplação faz avançar no amor.
Olha para o Sacrário e diz-Me o que queres fazer neste sentido. Depois
fica em silêncio, muito simplesmente, apenas comigo, como uma criança,
sem fazer nada, sem receio da escuridão, porque contemplar é permanecer
nos meus braços.
Alma
Meu Senhor, como posso eu agradecer-Te tanto Amor, que assim me
convida para avançar mais intimamente na união contigo, que assim me
mostra que posso chegar mais perto, absorver-me em Ti, contemplar-Te na
Fé?
Senhor, que nada mais me ocupe nestes momentos, nem problemas, nem
sofrimentos, nem desejo algum das coisas que deixei lá fora. O meu único
desejo és Tu. Amar-Te e unir--me a Ti é todo o meu anseio.
É só de Ti que me quero ocupar agora, ficando a contemplar-Te, em
silêncio, conforme me ensinaste, largando qualquer outra forma de oração e
qualquer livro.
Só Tu és o meu livro, só Tu és a minha oração, só Tu podes fazer em mim
a oração de que eu não sou capaz.
Só Tu me ensinas, só Tu me mostras as tuas riquezas, na medida do teu
desejo e não do meu.
E se ao sair daqui me parecer que nada contemplei, que gastei o tempo

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aridamente, dolorosamente, prometo não ceder à tentação de deixar esta
forma de oração. Prometo voltar amanhã e muitas vezes, mesmo que seja em
pensamento, até que Tu queiras mostrar-me a tua Luz.
A minha vida é tua, o meu tempo é teu, tudo em mim é teu. Tudo Te
entrego e nada quero reaver.
Se por fraqueza me distrair, chama-me de novo à contemplação, puxa-me
de novo para o teu Sacrário, para junto de Ti, para as tuas profundidades
infinitas, onde me quero perder para nunca mais sair do teu mistério de luz
purificadora, na infinitude das tuas grandezas.

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Table of Contents
Sacrário – Trono
Sacrário – Vida
Sacrário – Fé
Sacrário – Casa
Sacrário – Cofre
Sacrário – Refúgio
Sacrário – Palácio
Sacrário – Céu
Sacrário – Véu
Sacrário – Esperança
Sacrário – Amor
Sacrário – Encontro
Sacrário – Colóquio
Sacrário – Fidelidade
Sacrário – Abismo
Sacrário – Maravilha
Sacrário – Paz
Sacrário – Oração
Sacrário – Silêncio
Sacrário – Abandono
Sacrário – Solidão
Sacrário – Prisão
Sacrário-calvário
Sacrário – Coração
Sacrário – Reparação
Sacrário – Luz
Sacrário – Remédio
Sacrário – Doçura
Sacrário – Fonte
Sacrário – Contemplação

181
Índice
Sacrário – Trono 9
Sacrário – Vida 14
Sacrário – Fé 20
Sacrário – Casa 24
Sacrário – Cofre 29
Sacrário – Refúgio 34
Sacrário – Palácio 40
Sacrário – Céu 46
Sacrário – Véu 51
Sacrário – Esperança 56
Sacrário – Amor 62
Sacrário – Encontro 70
Sacrário – Colóquio 75
Sacrário – Fidelidade 80
Sacrário – Abismo 88
Sacrário – Maravilha 95
Sacrário – Paz 100
Sacrário – Oração 104
Sacrário – Silêncio 109
Sacrário – Abandono 116
Sacrário – Solidão 122
Sacrário – Prisão 127
Sacrário-calvário 133
Sacrário – Coração 137
Sacrário – Reparação 142
Sacrário – Luz 149
Sacrário – Remédio 154
Sacrário – Doçura 165
Sacrário – Fonte 171
Sacrário – Contemplação 175

182

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