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O problema do conhecimento nas

ciências sociais

Todas as ciências têm como objetivo o conhecimento da


realidade. Este é também o objetivo das ciências sociais.

O conhecimento é uma apropriação do real → todo o


conhecimento é produzido, é uma interpretação
socialmente elaborada, uma leitura da realidade.
E existem VÁRIAS leituras da
realidade….
Banhista Sentada , Renoir (1883)
“O dever do pintor era pintar a beleza”
estilo renascentista, quase inspirado na
mitologia clássica
Como conhecer cientificamente a realidade social?

A produção e a aceitação de conhecimentos científicos nas ciências


socias defronta-se com obstáculos e resistências específicas, que até
certo ponto decorrem da especificidade da própria realidade social:

1º- A realidade social parece-nos “familiar”, “evidente”


A realidade social apresenta-se-nos na experiência vulgar como
suscetível de ser imediatamente apreendida e compreendida
precisamente porque vivendo e participando nela quotidianamente
nos sentimos com ela familiarizados e julgamos portanto conhecê-la.
Qualquer pessoa se mostra capaz de falar sobre a sociedade e o que
nela se passa, reproduzindo explicações “naturais”, espontâneas sobre
o social… que parecem evidentes!!
PROBLEMA DAS “EVIDÊNCIAS”….
 A produção de conhecimento científico sobre a sociedade,
acerca da realidade social pressupõe rompimento com essas
“evidências”.
 O papel da sociologia é questionar o “óbvio”, procurando o
conhecimento e a evidência sobre as situações reais.

2º) O uso do mesmo vocabulário

3º) As interpretações do senso comum


- O que é o senso comum? O que o distingue do conhecimento
cientifico?
As conceções do senso comum dão, na prática,
não um conhecimento mas um
“reconhecimento” do mundo a que se pertence.
Legitimam a nossa maneira de ver o mundo…
funcionam como ideologia
→ descrição e interpretação do social em
termos não sociais, impedem o acesso à
“explicação do social pelo social” (E. Durkheim)
As interpretações do senso comum (dê exemplos!)

● Interpretações de tipo naturalista


- afirmação do carácter “natural”= absoluto dos fenómenos
- factos indiscutíveis (legítimos), não relativizados

● Interpretações de tipo individualista


- tudo se cinge ao sujeito individual (descontextualizado)

● Interpretações de tipo etnocêntrico


- “explica-se” o outro pela nossa própria maneira de ver o
mundo
- duas atitudes:
Interpretações de tipo etnocêntrico
Duas atitudes:
1. a sobrevalorização do grupo e da cultura, local, regional,
nacional ou transnacional, a que pertencem os sujeitos, com
a correlativa depreciação do grupo e da cultura do outro;
2. a universalização dos valores próprios do grupo e da cultura
de presença.

(Dê exemplos! Afinal o etnocentrismo pode ser encontrado em


todos os grupos ….)
Interpretações de tipo individualista

Ideologia individualista – a predominância do individualismo


dá origem a que algumas coisas de que os sociólogos falam se
apresentem como um desafio à maneira de pensar vigente. (ex:
o sucesso é definido em termos de êxito individual quando se
sabe que o contexto é determinante)

- Nunca podemos fazer previsões acerca dos


comportamentos das pessoas?
Se as pessoas, apesar de serem indivíduos diferentes,
não se comportassem como outras pessoas preveem que
o façam (ie, de forma padronizada), a vida social seria
totalmente impossível.
Não existe incompatibilidade entre o facto de as coisas
(pessoas, situações) serem singulares e compartilharem
características.

Omnipresença do social – Imaginação sociológica

Liberdade, decisão/ação individual (escolhas) (INDIVÍDUO)


vs.
Constrangimentos sociais (SOCIEDADE/GRUPO)

(Dê exemplos!!)
Importância das explicações sociológicas para a
compreensão dos comportamentos humanos (particulares)
e dos problemas sociais (gerais).

“IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA” (W. Mills)

formular o tipo adequado de interrogações.


necessidade de estabelecer relações entre
destinos/trajectórias individuais e estruturas sociais.

(ex: divórcio como problema pessoal / problema social. Dê


outros exemplos….)
Biografias pessoais versus história/contexto social
(explo morte em cuidados paliativos)

IMPORTANTE perceber qual a estrutura da sociedade em que


vivemos? Quais os seus valores, instituições, problemas …

IMAGINAÇÃO SOCIOLOGICA – capacidade de pensar o contexto


histórico mais abrangente no seu sentido para as vidas
particulares e trajetórias pessoais de um conjunto de indivíduos
particulares. Pensar como é que os indivíduos , imbuídos nas
suas preocupações e vidas quotidianas detêm geralmente uma
falsa consciência da sua posição social
Problemas pessoais no meio social
vs. Questões públicas da estrutura social

PROBLEMAS- ocorrem ao nível individual da pessoa e nas suas


relações imediatas , experiência pessoal direta. Um problema é um
assunto privado, sentido pelo individuo de acordo com os seus
valores

QUESTÕES SOCIAIS , PROBLEMA SOCIAL – têm a ver com questões


que transcendem os indivíduos particulares e o seu meio mais
direto –assunto público, institucional que molda as vidas de muitos
Ex: desemprego, guerra, casamento, cidade

Nem a vida particular de uma pessoa nem a história de uma


sociedade podem ser compreendidas sem que se percebam
ambas.
A omnipresença das influências sociais
Exemplos …
- As diferenças de comportamento entre os homens e as
mulheres

O facto de existirem reais diferenças fisiológicas e biológicas entre


homens e mulheres não é a justificação para as formas de
comportamento diferenciadas, visíveis nos papéis sociais.
A diferença dos comportamentos não é de origem natural mas
social.
(exemplos da Antropologia)

- O suicídio e as relações sociais (Émile Durkheim,1897 O Suicídio)


(relação com grau de integração social do sujeito: o tipo de vida
familiar, religião, local onde se vive, …)
Porque é que o suicídio (ato individual) foi
estudado por E. Durkheim como um fenômeno
social?

Durkheim trata o suicídio de forma não psicológica, mas de


forma social, procurando os padrões ocorridos em diversas
sociedades, seguindo um método comparativo, RELACIONANDO-
O COM VARIÁVEIS SOCIAIS (religião, integração social..)
Durkheim diferenciou três tipos de suicídio:
Suicídio egoísta; altruísta e anômico.
SOCIOLOGIA/ANTROPOLOGIA versus SENSO COMUM

 Estas ciências sociais questionam o óbvio, e requererem


fundamentação (teórica e empírica) para os argumentos
produzidos

 DEBATES TEÓRICOS

Distinção entre ESTRUTURA e AÇÃO

Estrutura – padrões organizados do comportamento social e


instituições na sociedade (explo família, direito, economia)

Ação- comportamento consciente com um propósito


TEORIAS ESTRUTURALISTAS
Uma abordagem que podemos ter da sociedade
passa pelo conhecimento das suas estruturas.
Estas teorias tendem a pensar a sociedade
como um sistema composto por diferentes
estruturas ou instituições (subsistemas). Estes
sistemas estão interligados e são dependentes
uns dos outros, influenciando-se de uma forma
variada e complexa. (“metáfora do organismo”)
• O focos não é tanto nos indivíduos mas nos sistemas em
que eles se encontram e nos papéis que aí detêm.
Por exemplo, o hospital- uma abordagem estrutural-
funcionalista vai tentar compreender o sistema de poder,
organização e funções dos diferentes corpos profissionais,
verificar quais as funções desempenhadas por cada
sistema e a sua eficácia.

PAPEL- comportamento esperado, expectável dos


possuidores de uma posição particular num dado
(sub)sistema da sociedade (estudante, enfermeiro, policia,
mãe…). Os papéis estão predefinidos e contém um
conjunto de atributos típicos, ie, independentes da
pessoas que os desempenham. (exemplos…)
Existe uma variedade de mecanismos que asseguram
que os indivíduos se comportam de forma expectável
nos diferentes papéis sociais que ocupam. Alguns desses
papéis são muito formais, outros nem tanto…
(exemplos…)
• O conceito de PAPEL permite pensar sobre as
sociedades e as organizações como tendo uma vida
independentemente dos indivíduos que as
constituem, e que se lhe “impõem”…
• As teorias estruturalistas focam-se na forma como
funcionam estas estruturas e como constrangem as
vidas particulares e a vida coletiva
Duas abordagens diferentes nas TEORIAS
ESTRUTURALISTAS: funcionalista e marxista
ABORDAGEM FUNCIONALISTA OU ESTRUTURAL
FUNCIONALISMO

• Émile Durkheim (1858-1917) – embora o termo


sociologia se deva a outro filósofo francês, Auguste
Comte, foi Durkheim quem constitui a sociologia como
uma disciplina académica. Durkheim desenvolveu
também a perspetiva funcionalista
O ponto de partida desta abordagem, e de Durkheim, é a
ideia de que as sociedades são sistemas completas em
que se compõem por partes interligadas que não podem
ser vistas ou entendidas isoladamente – analogia com um
organismo vivo , explo corpo humano.

Há um enfase no que contribui para a integração social,


para a coerência, para o consenso ou ordem.
Talcoot Parsons (1902-1979)

“O sistema médico”; “o papel de doente”


Parsons estuda as grandes organizações da sociedade
moderna (EUA), as profissões e as suas funções sociais…

A Estrutura da Ação Social (1937)


O Sistema Social (1951)
Economia e Sociedade - com N. Smelser (1956)
Estrutura e Processo nas Sociedades Modernas (1960)
Teorias da Sociedade - com Edward Shils, Kaspar D. Naegele e Jesse
R. Pitts (1961)
Sociedades: Perspectivas Evolucionárias e Comparativas (1966)
Teoria Sociológica e Sociedade Moderna (1968)
• Sendo as doenças disruptivas para a
sociedade, através do papel do doente
podemos controlá-las e assim garantir ordem
e normalidade, menorizando a sua ação
disruptiva.
(- Qual a função do sistema médico?)
CRITICAS AO FUNCIONALISMO
• concentram-se sobretudo numa visão positiva
dos sistemas, papéis e instituições sociais
ignorando ou não analisando os aspetos
negativos ou consequências nefasta das mesmas
(por exemplo, como o papel de doente pode ser
negativo para pessoas com deficiência).
• não analisam as consequências das diferentes
posições de poder nos papéis. Vêm os papéis de
modo consensual , porque interdependentes.
• não considera a capacidade de ação e vontade
individual, agência individual, vê os sujeitos como
passivos
ABORDAGENS MARXISTAS – teorias do conflito

Outra abordagem teórica funcionalista é a


abordagem marxista ou as teorias do conflito

Karl Marx (1818-83)


de acordo com Marx o ponto de partida da analise
social deve ser olhar para o conflito inerente .
Nas sociedade modernas, este conflito tem, em
grande medida, uma origem económica, e
consequentemente está presente nas relações das
classes sociais
Para Marx, uma classe social – é um grupo de
pessoas que partilha a mesma posição
económica

Há, essencialmente, duas classes : os que


possuem os meios de produção e os que não os
possuem (dependem apenas da venda da sua
força de trabalho) – burguesia e proletariado
A natureza da relação entre as duas classes assenta na
exploração – esta relação, parte da infraestrutura
económica das sociedades capitalistas, é fundamental
para explicar a natureza das nossas sociedades

Existe uma DESIGUALDADE fundamental que se espelha


em todas as instituições sociais, explo comunicação
social, escola, etc

Quem detém o poder na infraestrutura , poder


económico, vai também deter o poder na superestrutura
– ideologias, valores, etc… - a cultura dominante é
sempre a da classe dominante….
Na área da saúde, autores marxistas chamam a atenção
para a mercadorizações dos produtos de saúde,
desigualdades de acesso e diferenças de classe no que
respeita à doença. O lucro como móbil das grandes
indústrias farmacêuticas…

CRITICAS ÀS ABORDAGENS MARXISTAS:


também não consideram a capacidade dos indivíduos
“fugirem” ao determinismo dos seus lugares de classe.
É necessário considerar outras forças de poder e
conflito para além do poder económico.
TEORIAS DA AÇÃO – teorias compreensivas

Ambas as teorias estruturalistas (funcionalismo e marxismo)


têm em comum a ideia de que as forças sociais exercem sobre
os indivíduos uma enorme influência no seu comportamento,
e tentam explicar estes comportamentos individuais pela
pertença que as pessoas tem na estrutura social.
De certa forma subestimam os indivíduos face a estas forças,
deixando pouca análise ao modo como as pessoas podem
agir, à sua liberdade individual e capacidade de ação- enfase
sobretudo nos determinantes sociais.

Max Weber (1864-1920) – desenvolve uma crítica às teorias


estruturalistas
Max Weber (1864-1920) – desenvolve uma critica às
teorias estruturalistas
Remete para a importância dos comportamentos
individuais e complexidade da ação. Os seres humanos
não agem apenas em resposta a forças sociais.
- Como é que os indivíduos desenvolvem as suas
próprias ações?

Para compreendermos como é que as pessoas agem é


necessário compreender o mundo do seu ponto de vista,
segundo os significados que lhe atribuem
Exemplo: Análise de weber sobre a origem do capitalismo
(1958)
INTERACIONISMO SIMBÓLICO
Universidade de Chicago – George Herbert Mead (1863-
1931)
• necessidade de compreender os comportamentos
individuais como imbuídos de sentido
• as nossas ações dependem dos significados/sentidos que
atribuímos às coisas – da interpretação que fazemos das
coisas
• atribuição de sentidos como eminentemente humana
• os sentidos mudam consoante as circunstâncias, os
lugares, a cultura.
• os indivíduos são atores ativos nesta atribuição de
sentido.
• compreender como as pessoas interpretam as
situações e como estas interpretações influenciam as
suas condutas.
• para os interacionistas as condutas humanas são
consideradas como bastantes imprevisíveis, lugar à
criatividade.

A sociologia e antropologia são


multiparadigmáticas
METODOS DE PESQUISA
As abordagens teóricas e os objetivos de pesquisa conduzem à escolha de
diferentes métodos de pesquisa

PESQUISA QUANTITATIVA – dados quantitativos, medições, dados


governamentais, taxas, nºs de ocorrências, registos.
(exemplos, medição de comportamentos, consumos… )

PESQUISA QUALITATIVA (teorias interpretativas) – dados qualitativos


O objetivo não é a medição ou a quantificação mas a compreensão do
ponto de vista do ator social. Estudo das interações.
(explo: análise das interações enfermeira/o – doente. Instrumentos:
entrevistas (com mais ou menos estruturação - semiestruturada),
observação, observação participante).
Análise documental, filmes, fotografia, etc…

PLURALISMO METODOLÓGICO: podem ser utilizadas vairas técnicas e


ferramentas de recolha de dados